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ISSN 1518-3394

Mneme
Revista de Humanidades
Mneme – Revista de Humanidades
ISSN 1518‐3394

Mneme, n. 22

Mneme – Revista de Humanidades está disponível em formato eletrônico e pode ser


acessada pela URL: http://www.seol.com.br/mneme
Mneme – Revista de Humanidades – Publicação do Curso de História da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ensino Superior do Seridó, Campus de Caicó.
Caicó, vol. 8, nº 22, jun./jul 2006.
Bimestral
ISSN 1518‐3394
Capa: A Rendeira, de Johannes Vermeer (1632‐1675), pintor holandês

CORRESPONDÊNCIA:
Mneme – Revista de Humanidades
A/C Prof. Muirakytan Kennedy de Macêdo e/ou Helder Alexandre Medeiros de Macedo
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Centro de Ensino Superior do Seridó, Campus de Caicó
Rua Joaquim Gregório, sn, Penedo , Caicó‐RN – CEP 59300‐000
E‐mail: revistamneme@katatudo.com.br
MNEME – REVISTA DE HUMANIDADES Nº 22
Fundador: Prof. Muirakytan Kennedy de Macêdo

EDITORES
Prof. Muirakytan Kennedy de Macêdo
Prof. Helder Alexandre Medeiros de Macedo

CONSELHO EDITORIAL
Camilo Rosa da Silva – UFRN
Durval Muniz de Albuquerque Junior – UFRN
Eugênia Maria Dantas – UFRN
Frederico de Castro Neves – UFC
Iranilson Buriti de Oliveira – UFCG
Julie Antoinette Cavignac – UFRN
Kalina Vanderlei Silva – UPE
Maria das Dores Medeiros – UFRN
Marta Maria de Araújo – UFRN
Pedro Paulo Abreu Funari – UNICAMP
Sandra Jatahy Pesavento ‐ UFRGS
Sandra Nogueira ‐ Portugal

PROGRAMAÇÃO VISUAL
Muirakytan Kennedy de Macêdo
Gilton Batista de Araújo Filho

PARCERIA
Seridó On‐Line
http://www.seol.com.br

ESTAGIÁRIO
Rosenilson da Silva Santos
SUMÁRIO

Editorial 5

Cartas Oficiais do Século XVIII na Paraíba: um estudo sobre


a (orto)grafia do Português Brasileiro 6
Camilo Rosa Silva

Jogo de damas: reflexões sobre o fazer etnográfico e a constituição


do campo da raça e gênero no Brasil (Elizabeth Agassiz e Ruth Landes) 25
Fabiane Vinente dos Santos

Ideia ou Ideias de Europa? 39


Isabel Maria Freitas Valente

E o corpo passa a ser tecido: uma análise da construção do corpo feminino e das relações
de gênero no Jornal das Moças e nos processos‐crime de
defloramento em Caicó / RN (1900‐1945) 57
Edivalma Cristina da Silva

A fotografia como escrita do urbano: um olhar sobre Jardim do Seridó 81


Evaneide Maria de Mélo

História Brasileira nos Estados Unidos: perspectivas teóricas e historiográficas 127


Stanley E. Blake

Normas de Publicação 147


EDITORIAL

A edição 22 desta revista traz dois nomes internacionais com importantes artigos para a
compreensão das relações entre o Velho e o Novo Mundo no nível da historiografia. Num deles o professor
Stanley Blake, da Ohio University State, abordando os trabalhos historiográficos sobre o Brasil produzidos
nos Estados Unidos, por influência da Nova História Cultural. Noutro, a doutoranda Isabel Valente, da
Universidade de Coimbra, discute a gênese e evolução da idéia de Europa, ao longo do tempo, tendo como
mote a problemática da União Européia na contemporaneidade.
Artigos escritos por mulheres, que também integram esta edição, abordam questões ligadas às
relações de gênero. O primeiro, da doutoranda Fabiane Santos, elabora um estudo comparativo entre os
escritos de Elizabeth Agassiz e Ruth Landes, centrado nos enfoques dados por essas autoras às categorias
de raça e gênero. O segundo, de autoria da historiadora Edivalma Silva, analisa como o corpo feminino – e
as relações de gênero que o envolvem – foi construído no periódico Jornal das Moças e nos processos‐crime
de defloramento da Comarca de Caicó, na primeira metade do século XX.
Os textos de Evaneide Mélo e Camilo Rosa, oriundos, respectivamente, das áreas da Geografia e da
Lingüística, exploram temáticas a partir do trato metodológico – e da sua explicitação no artigo – de fontes
de natureza distinta. A primeira, partindo de fotografias de José Modesto de Azevêdo – Zé Boinho –, busca
promover a compreensão da paisagem da cidade de Jardim do Seridó por meio da leitura das imagens
produzidas no período de 1950 a 1980. O segundo, tendo como base cartas oficiais do século XVIII, oriundas
da antiga Capitania da Paraíba, busca explicações para o fato da escrita dessas cartas apresentar
recorrentes junções de palavras, fenômeno que poderia ser compreendido tendo em vista a hipótese de
uma influência da oralização sobre o registro escrito. Integra a revista, ainda, um artigo de Cristiano
Christillino que trata do fenômeno da grilagem e da apropriação territorial no Rio Grande do Sul no decurso
do século XIX.
Boa leitura!

Helder Alexandre Medeiros de Macedo


Muirakytan Kennedy de Macedo
Editores de Mneme – Revista de Humanidades
Cartas Oficiais do Século XVIII na Paraíba: um estudo sobre a
(orto)grafia do Português Brasileiro

Camilo Rosa Silva


Professor do Programa de Pós‐Graduação em Estudos da Linguagem – PPGEL‐UFRN e do
Departamento de Estudos Sociais e Educacionais – CERES‐UFRN

Resumo
Examino, neste trabalho, dez cartas oficiais do século XVIII, conservadas no Arquivo
Histórico da Paraíba, em João Pessoa. A intenção é buscar explicações para o fato de a
escrita das cartas apresentar recorrentes junções de palavras. Defendo a hipótese de que
tal fenômeno se deve à influência da oralização sobre a escrita, sendo estimulado pelo
avizinhamento de itens gramaticais contíguos ou destes a itens lexicais. A análise
contempla, também, uma breve exposição de algumas impressões particulares sobre
esse tipo de estudo.

Palavras‐chave
Ortografia, oralidade, cartas oficiais

6
1 Considerações Iniciais1
A linguagem escrita não está passível das mesmas variações que se verificam na
modalidade oral. Seu caráter conservador debita‐se às convenções sociais que a
estatizam, determinando sua forma mais conservadora, que se preserva ao longo dos
tempos. Isso não significa que não possa haver flutuações de usos, impostas pelas
condições de produção dos enunciados e pela influência contextual que determina a
tensão ou distensão afeita às situações interativas diversas. O fato, portanto, é que
também a escrita evolui, altera‐se, modifica‐se.
Muito provavelmente, os erros gráficos cometidos pelos usuários da modalidade
escrita podem ser sistematizados, visto apontarem para situações recorrentes, causadas
pelas incoerências do sistema, que não se baseia em referências biunívocas para
estabelecer a correlação entre fonemas e letras.
Um fator determinante nesse tipo de acidente pode ser localizado na influência
que a oralidade exerce sobre a escrita. A ausência de lógica entre a representação gráfica
e a emissão fonética, produtora de desvios gráficos referentes à troca de letras, não é o
único problema identificável em tal área. Ele é acompanhado, em numerosas situações,
pela aglutinação ou justaposição de vocábulos. Na fluidez da oralidade, não se pode, com
exatidão, delimitar as fronteiras entre vocábulos átonos e sílabas iniciais ou finais de itens
lexicais seqüentes.
Se, atualmente, problemas deste tipo ocorrem com freqüência, mesmo
considerando‐se a abrangência do letramento e a inevitável exposição dos falantes a
situações de uso de informações gráficas, imagine‐se em tempos remotos, quando o
acesso à informação letrada era exclusividade de grupos privilegiados, sendo a própria
circulação de informações escritas efetivada em níveis de exposição absolutamente
restritos. Alguns desses aspectos serão tratados no presente trabalho.
Selecionei, para análise, dez cartas oficiais do século XVIII, conservadas no Arquivo
Histórico da Paraíba, em João Pessoa. O acervo do referido arquivo dispõe de um rico
conjunto de textos dos períodos colonial e imperial brasileiros, que se somam a textos
oficiais de períodos mais recentes, relacionados ao governo da Paraíba, além de jornais
dos séculos XIX e XX.
1
Uma versão preliminar deste artigo foi apresentada no Encontro Estadual da ANPUH‐RN, em abril de
2006.
6
Busco, neste trabalho, explicações para o fato de a escrita das cartas oficiais
apresentar recorrentes junções de palavras. Defendo a hipótese de que tal fenômeno se
deve à influência da oralização sobre a escrita, sendo estimulado pelo avizinhamento de
itens gramaticais contíguos ou destes a itens lexicais.
A presente análise compõe‐se das seguintes seções: apresentação do corpus,
seguida de identificação, exposição e análise dos dados. Encerro com uma pseudo‐
conclusão, na qual exponho impressões particulares sobre esse tipo de estudo.

2 Apresentando o corpus
As cartas selecionadas para a presente análise foram produzidas por um único
redator, fato que se comprova pelo uso do mesmo padrão caligráfico. Também são todas
de um só remetente e direcionadas a um mesmo destinatário. Nessa fase, entende‐se que
a língua portuguesa atravessava a fase denominada pelos estudiosos de português
moderno, mas se verifica a presença de manifestações típicas de outras fases da língua,
mais exatamente da fase considerada arcaica.
Analisando este tipo de documento, Fonseca (2005) reflete sobre a adequação de
se considerar que as características neles presentes “vão das normas cultas, ou exemplar,
a variantes de menor prestígio”. Assim, não custa assinalar a presença, em certos trechos,
de “variantes fonéticas, morfossintáticas e léxicas que normalmente não se empregam
em textos mais formais.” A autora entende que tal comportamento atesta “desvios da
norma constitutiva da língua escrita culta e considera‐se que muitas dessas marcas,
freqüentes na oralidade, permitiriam vislumbrar parcialmente o português brasileiro que,
a partir destes séculos, passa a ser registrado em textos escritos.”
Parece não haver dúvidas de que o discurso materializado nas cartas apresenta
influência de uma enunciação oral, não se podendo descartar a ação de um escriba que
registrasse on line as informações que lhe eram oralizadas pelo real emissor das
correspondências. Dessa forma, a instantaneidade da transtextualização da oralidade
para a escrita marcava‐se, inevitavelmente, por influências da fala usual, que assumia o
formato escrito. Também essa possibilidade de interveniência de uma modalidade sobre

7
a outra pode ser usada para explicar a presença de elementos típicos de um português
brasileiro, não encontráveis em textos portugueses produzidos na mesma época.
Eis as dez cartas já referidas:

CARTA Nº: (C 1) ‐ Remeto a V. Sa o Mapa incluso2


LOCALIZAÇÃO NO ARQUIVO HISTÓRICO: CX. 01 – Documentos coloniais
REMETENTE: JOSÉ CÉSAR DE MENEZES
DESTINATÁRIO: JERÔNIMO JOSÉ DE MELO E CASTRO, GOVERNADOR DA PARAÍBA

Remeto a Vossa Senhoria o Mapa incluzo


pela formalidade do qual Se faz presizo que Vossa Senhoria man
de, com a possivel brevidade, tirar outro, respectivo do
destricto Penal desta Capitania e,logo que estiver tirado o in
vie Sem perda de tempo à Secretaria deste Governo,
mandando taõbem o que lhe agora vai.

Deus Guarde aVossa Senhoria o Recife 13 de Abril


de 1774.

Joze Cesar de Menezes (rubrica)

Senhor Jeronimo Joze de Mello eCastro


Coronel Governador da Capitania da Paraíba

CARTA Nº: (C ) ‐ (C 2) ‐ Como reconheço a distinta honra


LOCALIZAÇÃO NO ARQUIVO HISTÓRICO: Cx. 01 – Documentos coloniais
REMETENTE: José César de Menezes
DESTINATÁRIO: Jerônimo José de Melo e Castro, governador da Paraíba.

Como reconheço a distinta honra, desve


lo, eeficacia com que Vossa. Senhoria Seemprega no Real Serviço,
epara efeito deste Se faz preciso gente para comple
tar o Regimento desta Praça, e Olinda, por estarem
ambos os ditos Regimentos taõ faltos della, que dos mes‐
mos naõ pude fazer hum só Regimento inteiro para man
dar para onde Sua Majestade foi servido, pois foi com‐a
diminuição de duzentos e oito homens; Ordeno a Vossa
Senhoria que no seu destrito faça tirar, eme remeta com‐a may
or brevidade humalista detodos os nossos Solteiros, desem
baraçados, eidoneos parao Real Serviço, residentes no
mesmo destrito, eque ainda naõ estiverem alistados em
parte alguma; eoutro sim me remeta logo presos
todos os vadios, que houver no mesmo destrito.

Deus Guarde A Vossa Senhoria Recife 30 de Setem


bro de 1774

2
As cartas são aqui reproduzidas a partir da transcrição feita por Fonseca (2005).
8
Joze Cezar de Menezes

Senhor Jeronimo Joze de Melo e Castro


Coronel Govovernador da Capitania da Paraiba

CARTA (C 3) ‐ Atendendo aos requisitos queconcorrem


LOCALIZAÇÃO NO ARQUIVO HISTÓRICO: CX. 01 – Documentos coloniais
REMETENTE: José César de Menezes
DESTINATÁRIO: Jerônimo José de Melo e Castro, governador da Paraíba.

Fl.1
Atendendo a os requisitos que concorrem no
Bacharel Joze Gonçalves deMedeiros, para exercer o Lo
gar de Provedor da Fazenda Real dessa Capitania, com quali
ficador com a eleição, que Vossa Senhoria Mefez, enaõ teve efeito por
passar a servilo, por Portaria deste Governo, ateSegunda
ordem delle, o Bacharel Manoel Pacheco de Paiva,
lhe mandei agora passar a Provisáõ do dito lugar por hũ
anno.
E porque me consta que o mensionado Bacha
rel Manuel Pacheco de Paiva, que actualmente o ocupa,
Se achar em diligencia fora dessa cidade, ordeno a Vossa. Senhoria
que tanto que receber apresente, lhefaça logo saber, onde
estiver, esta minha determinaçáõ para elle asim oficar entendendo.
Deus Guarde a Vossa Senhoria Recife, o primeiro de outubro de 1774.

Joze Cezar de Menezes

Senhor. Jeronimo Joze de Mello e Castro


Coronel Governador da Capitania da Paraiba

CARTA Nº: (C 4) ‐ Tenho recebido de Vossa Senhoria tres cartas, duas de


LOCALIZAÇÃO NO ARQUIVO HISTÓRICO: Cx. 01 – Documentos coloniais
REMETENTE: José César de Menezes
DESTINATÁRIO: Jerônimo José de Melo e Castro, governador da Paraíba.

Fl. 1
Tenho recebido de Vossa Senhoria tres cartas, duas de
data de 16, e huma de 17, todas do corrente mez, a que
não tenho dado resposta por ter havido expediçoens e
outros embaraços que o impediraõ, nem ainda agora a
posso dar aque trata da jurisdiçáõ, que Sua Majestade Confere
a Vossa Senhoria, mas ofarei com amayor brevidade.
O Antigo Provedor da Fazenda; emque Vossa
Senhoria mefala, dizendo naõ desceria dos Sertoens, desceo
com efeito, eaqui se acha, segundo metem constado
ha dozedias, mas brevemente hirá para essa cidade, pois
vendo eu que elle estava demorado, Sem fazer aentrega que
oLogo devia fazer, de tudo o pertencente á Provedoria
9
no dia 20 do corrente lhe ordenei, que dentro de oito di
as me havia de aprezentar certidaõ de ter feito aentre
ga compenadeprizáõ.
Atendendo a necessidade de Bandeira que
Vossa Senhoria me reprezentou haver na Fortaleza de Cabedelo,
mandei logo para ella fazer duas, que em estando aca
badas remeterei sem demora.
Pelo que respeita á Proposta que Vossa Senhoria me
diz fizera de Capitão para acompanhia de Maciel
Tenente Manuel Malheiros, de que lhe consta

F2
sobio aconsulta, pareceme mais acertado esperar a de
cizaõ da Consulta porque naõ suceda acharem‐se dois
Oficiaes ao mesmo tempo providos em‐o mesmo posto.
Deus Guarde A. Vossa Senhoria Recife, 31
de outubro de 1774

Joze Cesar de Menezes

Senhor e Jeronimo Joze de Melo e Castro


Coronel Governador da Capitania da Paraiba

CARTA (C 5) ‐ A esta Praça chegou com efeito Manoel Pacheco


LOCALIZAÇÃO NO ARQUIVO HISTÓRICO: CX. 01 – Documentos coloniais
REMETENTE: José César de Menezes
DESTINATÁRIO: Jerônimo José de Melo e Castro, governador da Paraíba.

Fl. 1
A esta Praça chegou com efeito Manoel Pacheco
de Paiva, oqual Se aprezentou, Segundo me constou, depois depas
sados alguns dias da Sua chegada.
O Soldado Luiz Antonio, em que Vossa Senhoria mefala
tãobem já veyo de Goyana para esta Praça onde ficará com a de
Soldado, visto asim o recomendar Vossa Senhoria aquem Eutanto dese
jo dar gosto.
Faz‐se‐me indespensavel lembrar a Vossa Senhoria
da Remessa das Listas dos Mossos Solteiros para as Reclutas des
tes Regimentos, eem quanto Mas‐se demoraõ, va‐me Vossa Senhoria
mandando todos quantos asua eficaz diligencia poder conseguir
pois tenho ainda muyto pouca gente, edevo com a‐maior brevi
dade completar os referidos Regimentos.

Deus Guarde A Vossa Senhoria Recife 15 de De


zembro de 1774

Joze Cezar de Menezes

10
Senhor Jeronimo Jose de Mello e Castro
Coronel Governador da Capitania da Paraíba

CARTA (C 6) ‐ Ainda ateagora naõ tem sido possivel leresponder


LOCALIZAÇÃO NO ARQUIVO HISTÓRICO: CX. 01 – Documentos coloniais
REMETENTE: José César de Menezes
DESTINATÁRIO: Jerônimo José de Melo e Castro, governador da Paraíba.

Ainda ateagora naõ tem sido possivel leresponder


acarta das Conferencias, que Vossa Senhoria medirigio, mas nestas feri
as heide fazer toda a diligencia, porque fique respondida para
Satisfazer a Vossa Senhoria como em tudo desejo.
NaCarta que Vossa Senhoria me remete nesta ocasiaõ,
vem inclusa acopia de huma ordem Regia de 7 de Agosto
de 1739, que faculta ao Governo dessa Capitania a nomeaçáõ de
Almoxarife dacidade da Paraíba, precedendo proposta da Ca
mara, e Vossa Senhoria mediz, que assim o praticára no primero (corroído)[a]
no do estabelecimento do Erario; mas propondo Eunel
le a reprezentaçaõ de Vossa Senhoria me respondem, que sem emba[rgo]
diss[o] depois da Ley que (______) o Erario, porelle devem ser fei
tas estas e similhantes nomeaçoens.
De Goyanna me escreve o Capitam Mor, di
Zendo, que do lugar da Terra Pura tem fugido actualmen
te todos os facinorosos para o lugar do Paó, destrito dessa
Capitania os quaes estáõ acoitados em terras dehum Capitam cha
mado Bento Carado, que talvez ignora quem saõ os acoi
tados e entre estes meconsta que taóbem Se achaõ dois dezertores
das novas Recrutas.

Dou a Vossa Senhoria esta noticia, paraque com


Fl. 2 v
a mayor cautela eprontidáõ procure a segurança destes [mal]=
feitores ordenando logo ao dito Capitam Bento Carado os fa
ça prender, e conduzir áCadea dessa Praça, auxiliando Vossa Senhoria
esta importante diligencia com todas aquellas providencias
que julgar mais convenientes a conseguir‐se hum fim detan
to enteresse para obem publico, que sempre deve Ser hum dos=
principaes objectos detodos os que tem ahonra de Servir a
Sua Majestade eprincipalmente deVossa Senhoria, que neste emprego Se
tem feito distinto com taõ gloriosos creditos.

DEus GuardE A Vossa Senhoria Recife 21


de Dezembro de 1774

Joze Cezar de Menezes

Senhor Jeronimo Joze de MelloeCastro


Coronel Governador da Capitania daParaíba

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CARTA Nº: (C 7) ‐ Nesta Junta sevio a Carta de V. Sª.
LOCALIZAÇÃO NO ARQUIVO HISTÓRICO: Cx. 01 – Documentos coloniais
REMETENTE: José César de Menezes
DESTINATÁRIO: Jerônimo José de Melo e Castro, governador da Paraíba.

Nesta Junta sevio a Carta de Vossa Senhoria.


dedous do Corrente, Emque prova Comdocumentos aforma que Se
praticava nasnomeaçoes dos Almoxarifes, edarazao' que para isso houve
ra, sobre o que’ seasentou, dever observar‐se o determinado, Fazendo a Cama
ra dessa cidade a proposta dos tres eleitos para Almoxarife, e delles eleger
esta junta o que milhor parecer; Eatendendo aser paçado o tempo que
odevião fazer, Camora que na nomeação haveria, pelo Longetude. Eé esta
Junta servido nomear para servir o dito officio, a Custodio Manoel da
Sylva Guimaraes, por EleConctar dasua capacidade,Zelo, Linpeza demaos
edeter as partes neceçarias para bem oexercer. Vossa Senhoria o obrigará a que
sem perda detempo mande tirar oseu Provimento na Secretaria deste
Governo.

Deus Guarde a Vossa Senhoria Recife de Pernanbuco em Juntade 9 de


janeiro de 1775
Joze Cezar de Menezes
Bernardo S.V de Vasconcelos
Manuel (__________)

Ao Coronel. Governador
da Capitania daParahiba

CARTA Nº: (C 8) ‐ Fico entregue de vinte nove recrutas


LOCALIZAÇÃO NO ARQUIVO HISTÓRICO: CX. 01 – Documentos coloniais
REMETENTE: José César de Menezes
DESTINATÁRIO: Jerônimo José de Melo e Castro, governador da Paraíba.

Fico entregue devintenove recrutas tãobemSei, que amayor parte


destes Povos Se tem retirado para osSertoens, com o horror de não Serem sol
dados, deque metem cauzado o mayor sentimento, por quanto conheço, que a
mayor honra que pode ter hum vassalo he empregar‐se noServiço do
Soberano.

Estou certo dahonra comque Vossa Senhoria Se emprega no Real


Serviço, e na pronta execuçáõ detodas as ordens, de que muyto estimo.

Diogo Velho hade chegar ápresença de Vossa Senhoria a este


mez , por elle mandarei a Resposta da Carta deoutubro.

Deus Guarde. a Vossa Senhoria Recife 21 de Janeiro de


1775
Joze Cezar de Menezes
Senhor Joze Jeronimo de Mello e Castro
12
Coronel Governador da Paraiba

CARTA Nº: (C 9) ‐ Recebo acarta de V. S. de 16 do corrente mez


LOCALIZAÇÃO NO ARQUIVO HISTÓRICO: CX. 01 – Documentos coloniais
REMETENTE: José César de Menezes
DESTINATÁRIO: Jerônimo José de Melo e Castro, governador da Paraíba.

Recebo acarta de Vossa Senhoria de 16 do corrente mez com a Re


messa do Soldado dezertor: Agradeço a Vossa Senhoria a relaçaõ, erecomendo
lhe, que todos os mais, que nessa Praça aparecerem sem Licença minha por
escrito, Vossa Senhoria me remeta prezos; pois depouco, ounada, servirá
recrutar soldados para a Tropa, Se todos naõ cuidarem em reme
ter os Dezertores, como Sua Majestade determina.
Esperoque Vossa Senhoria me remeta com amayor brevida
de outro tanto numero de Recrutas, como memandou, porquan
to conheço a grande honra comque Vossa Senhoria Se distingue no Real
Serviço, oque naõ sucede a mayor parte dos Capitaens Mores
desta Capitania, pois tenho achado muytos sem honra, esem verda
de por me terem remetido muytos mulatos, eNegros de
Carapinha fechada, Só afim de poderem servir osSeus afi
~
lhados, esquecendo‐se do principal objeto de humhome que
tem ahonra de ocupar o posto de capitáõ Mor.
Alem da remessa das Recrutas, que recomen
do a Vossa Senhoria, lhe ordeno tão bem faça tirar no Seu destrito, eme
dirija, com amayor brevidade, huma exacta Relaçaõ dividida
nas Classes seguintes.
Primeiramente: Detodos os Navios eoutras
Embarcaçoens, que navegaõ desse Porto para os da Costa da Mina
eoutras partes deAfrica.
Fl.2
Em Segundo lugar: Detodos os quefazem comer
cio de Porto aPorto, asim nas diferentes partes dessa Capitania, como
nas outras da costa do Brasil.
Em terceiro Lugar: Detodos os Marinhei‐
ros, Grumetes, eMoços, asim Livres, como Escravos, que habítaõ
nesse Porto, e em todos os da sua dependencia; comprehendidos os
que fazem ocomercio de transporte pelos Rios e Ribeiros dessa
Capitania.
Em quarto Lugar: Detodos os Pescadores, que
habitaõ nos referidos Portos.
Deus Guarde A Vossa Senhoria Recife 21 de Feverei
ro de 1775
Joze Cezar de Menezes
Senhor Jeronimo Joze de Melo e Castro
Coronel Gov da Cap da Paraiba

Com esta hade entregar a Vossa Senhoria o Portador ao


prezo Antonio Barbosa de Andrade, para V S o fazer re
colher acadea a ordem do Doutor Ouvidor, para onde veyo re
metido davila de Alagoas. Dia eora ut supra.

13
CARTA Nº: (C 10) ‐ Resebo aestimavel cartade Vossa Senhoria. detres de Março
LOCALIZAÇÃO NO ARQUIVO HISTÓRICO: Cx. 01 – Documentos coloniais
REMETENTE: José César de Menezes
DESTINATÁRIO: Jerônimo José de Melo e Castro, governador da Paraíba

Resebo aestimavel cartade Vossa Senhoria detres de Março on


de as expreçoeñs bem amigas, esincêras deque Vossa .Senhoria seserve
medeyxam seguro doseo afeto. Nem eu devo esperãr
que o Comflito deregalias poSsa algum dia alterar emmim
os ben nasidos respeitos, que comsagro aVossa Senhoria Isto são
couzas annexas aolugar,easpertendo con servar ellezas,
emquanto o Senhor domesmo Lugar naõ manda outra couza.
Edeve Vossa Senhoria per suadirçe que commuita magoa trato estas
questõens, alheas domeu genio,e contrarias emteira
mente as demonstraçõens da ãmizade com que dezejo
sempre porme naprezensa deVossa Senhoria.
Deus Guarde a Vossa Senhoria muitos annos’
Reciffe 23 de Março de 1775
De Vossa Senhoria

Para Jeronimo Joze


de Mello e Castro

Amigo muito Seu Veneroso eobrigado

Joze Cezar de Menezes

3 Analisando os dados
O estudo realizado por Fonseca (2005), já citado anteriormente, lança mão de um
corpus constituído de 203 cartas oficiais, entre as quais se encontram os dez exemplares
que ora analiso. Para a autora, a junção das palavras dá‐se como conseqüência dos
“floreios gráficos”. Minha interpretação para esse fenômeno, entretanto, é divergente.
Vislumbro a hipótese que aponta para uma junção de palavras como conseqüência da
origem oralizada do texto.
Sabe‐se que, na língua falada, não se verifica uma fronteira definida e clara para a
separação das palavras. Aliás, o próprio conceito de palavra, na lingüística, não apresenta
pacificidade entre as posições defendidas pelos diversos estudiosos. O conceito que leva

14
em conta os espaços em branco entre um item e outro só funciona na língua escrita,
modalidade em que tais espaços podem ser materialmente estabelecidos e visualizados.
Segundo afirma Buescu apud Morel Pinto (1988, p. 16), os estudos lingüísticos
dessa época, de caráter essencialmente doutrinário, atribuíam à ortografia uma
necessidade de que se escrevesse a língua “da mesma sorte como se a pronunciam”. Fato
é que a tradição normativista sempre procurou, baseada num discutível empirismo
fonético, simplificar e uniformizar a escrita do português.
Observando os dados aqui identificados, podemos perceber que há uma
coincidência entre o tipo de vocábulo passível de justaposição na construção gráfica dos
textos analisados. É sabido que a lingüística divide os itens em palavras lexicais e palavras
gramaticais. As primeiras identificam referentes do mundo real ou de um mundo possível
qualquer. Contêm uma carga semântica própria, que apenas é atualizada nos usos em
que são alçados. Já os itens gramaticais funcionam na organização textual, sendo não
interpretáveis se fora de contexto, quando se apresentam relativamente esvaziados de
conteúdo semântico. Elementos prepositivos, conjuncionais e operadores discursivos
funcionam como conectores de idéias manejadas na estruturação linear das informações
e somente em tais situações é que assumem um valor conteudístico próprio. São, por
isso, palavras gramaticais.
Geralmente, tais elementos são enunciados com entonação átona, o que, na
velocidade e fluidez da fala, os torna ainda mais agregados aos itens que os sucedem ou
precedem. Dessa forma, se as condições de produção das cartas apontam para um
contexto de oralização que se transtextualizava em registro escrito, é possível que o
escriba se deixasse influenciar pela não observação dos limites fronteiriços entre itens
que eram pronunciados de forma contínua, devido à dificuldade de percepção sonora dos
citados limites.
Assim, o que percebo é que há uma recorrência de categorias de itens, fato que
pode ser observado nos quadros que seguem:

15
Quadro 01: Construções envolvendo substantivos

conjunção + preposição + contração artigo + substantivo preposição + conjunção + numeral +


substantivo substantivo (preposição substantivo + substantivo + verbo +substantivo
+ artigo) + preposição preposição + substantivo
substantivo substantivo

ecastro deregalias naprezensa humalista cartade compenadepriz edarazao dozedias


eprontidáõ comdocument aolugar, aentrega juntade áõ
emoços os nacarta acompanhia
enegros demãos dacidade aconsulta
detempo nasnomeaço ocomercio
es acarta
noserviço acarta
dahonra acopia
davila ácadea
obem
ahonra
aforma
ápresença
acadea
ahonra
04 04 08 15 02 01 01 01

Quadro 02: Construções envolvendo verbos


preposição + advérbio + pronome + conjunção + verbo + conjunção + verbo + verbo +
verbo advérbio + verbo verbo conjunção pronome + pronome preposição
verbo verbo

aser tãobemsei mefez edeve esperoque easpertendo pareceme heide


lhefaça edevo hade
oficar eatendendo hade
ofarei eé
mefala edeter
metem erecomendo
aentrega quefazem
medeyxam
seserve
leresponder
medirigio
meconsta
sevio
seasentou
odevião
eleconctar
oexercer
metem
memandou
mefala
mediz
01 01 21 07 01 01 01 03

16
Quadro 03: Construções envolvendo adjetivos
conjunção + adjetivo artigo + adjetivo preposição +
adjetivo

eobrigado aestimavel depassados


esincêras amayor
eidoneos amayor
amayor
amayor
03 05 01

Quadro 04: Construções envolvendo advérbios


preposição + conjunção + advérbio pronome +
advérbio advérbio

ateagora enaõ ologo


depouco eaqui eutanto
eprincipalmente
eora
02 04 02

Quadro 05: Construções envolvendo pronome


artigo + pronome contração (preposição preposição + conjunção +
+ artigo) + pronome pronome pronome

avossa domeu detodos eme


aquém domesmo emmim ounada
asua doseo porme
asua commuita
oseu
osseus
oqual
oque
08 03 04 02

17
Quadro 06: Construções envolvendo preposições
conjunção + preposição + preposição preposição + preposição + preposição + pronome +
preposição conjunção + artigo numeral numeral pronome preposição +
pronome

epara eme parao detres atesegunda aque eunelle


eem eoutro dehum emque
esem paraque dedous porelle
emque devintenove detodos
deque detodas
comque deoutubro
comque detodos
eoutras
eoutras
detodos
detodos
03 07 01 01 04 11 01

Quadro 07: Construções envolvendo conjunções


conjunção + conjunção
eque

01

Os dados confirmam que são os itens gramaticais que se coadunam aos itens
lexicais. A maior recorrência se verifica na junção de artigos a substantivos, adjetivos e
pronomes. Também é bastante produtiva a adjunção de pronomes oblíquos a verbos,
fato naturalmente compreensível, visto que a própria norma lança mão do recurso
notacional do hífen para justapor tais itens na linearidade textual. Nas dez cartas
analisadas, há 21 pronomes geminados a verbos.
Não há registro, entre os dados, de itens lexicais coligados entre si. Tal
constatação corrobora minha hipótese segundo a qual a explicação para o fenômeno ora
focado compreende o fato de que, para o escriba, os itens gramaticais,
predominantemente átonos, eram sonoramente apreendidos como sílabas pertencentes
aos itens lexicais que os precediam ou sucediam. A recorrência de usos coligados,
provavelmente, indique a cristalização das formas conjugadas na atividade lingüística do
escriba.
Não vou aqui me ater aos padrões de freqüência visualizados nos quadros, mas
não posso deixar de considerar que a utilização de dados numéricos pode fundamentar
conclusões definitivamente coerentes a respeito dos usos da língua. Os números não são,

18
por si mesmos, explicações indiscutíveis e categorizantes, mas deve‐se considerar a
necessidade de compreendê‐los como indícios significativos à elucidação dos fenômenos
lingüísticos mais diversos. Por eles, pode se interpretar as tendências, compreender as
variações e atestar as mudanças.

4 Conclusão quase fora de rota


O aroma revificador do pretérito ‐ testemunhado em falas escrituradas – aguça
meu olhar, que se enamora dos documentos ora estudados, sedimentando a certeza de
que o bolor do tempo somado em séculos é delgada camada superposta sobre as
vísceras dos fatos históricos.
Ver de perto mais de duzentos e trinta anos conservados na sofisticação de
tecnologia tão singela, da qual aflora o estar e o ser de um povo, vivenciando seu
cotidiano de ações e de saberes, traçando as tatuagens com que a história sua e dos seus
se reconhece, é, essencialmente, testemunhar a força da linguagem enquanto
instrumento de permanência e revigoramento de seus quefazeres contemporâneos e
vindouros.
O tempo foi derrotado pela força da escrita. Nada mais apagará o deleite de saber
idiossincrasias do coronel e do governador geral... seus apequenamentos e desmandos,
seu poder absolutizado, seus arroubos caudilhistas... a fineza dos tratamentos delicados,
entre cumprimentos e saudações em roupagem civilizada, se desmiligüindo no exercício
de um poder predador da liberdade dos súditos e de um cumprir a vontade própria
amiudada pelos redutos da realeza.
Imensa a magia da linguagem verbal, que cristaliza a história, sem
superdimensionar ambigüidades ou alimentar falseamentos. O que foi, é! Escasseiam
margens para especulação. Aqui, a historiografia apenas se atualiza, leiturizando‐se,
analisando o dito, interpretando o dado, podendo abrir mão do subentendido e do
pressuposto...
Eu manuseei esses documentos no arquivo público do Espaço Cultural José Lins do
Rego, em João Pessoa. Pus‐me a refletir sobre a evolução dos meios eletrônicos que
volatilizaram a escrita e que virtualizaram a linguagem ao imediatismo supremo do aqui‐
agora. Lembrei‐me dos meus textos perdidos, deletados, irrecuperáveis nos fossos

19
cibernéticos, independentemente de meu arbítrio e cuidado. Senti saudade das cartas
que escrevi na adolescência‐juventude e maldisse o avanço tecnológico que permite o
imediatismo afobado e robustece o descartável.
Eu ambiciono o impresso, o papel cheio de veias e hematomas da escrita. As
curvas todas das letras com seus talhes emblemáticos. Viver tatilmente a impagável
experiência de estar de corpo presente no papel para redesenhar a morfologia da alma e
suas imperscrutáveis anomalias. E estar vivo daqui a duzentos e trinta anos, em um
arquivo público qualquer...

Referências
FONSECA, Maria Cristina de Assis Pinto. (org.) Cartas oficiais da Paraíba dos séculos XVIII
e XIX. (Produção do Projeto Para a História do Português da Paraíba) João Pessoa: Idéia,
2004.
MOREL PINTO, Rolando. História da Língua Portuguesa (Século XVIII). São Paulo: Ática,
1988.
SILVA, Camilo Rosa; MARTINS, Iara Ferreira Melo. Referência, substituição e elipse em
cartas oficiais do século XVIII na Paraíba. In Camilo Rosa Silva; Maria Elizabeth Affonso
Christiano; Onireves Monteiro de Castro (orgs.). Da Gramática ao texto. João Pessoa:
Idéia, 2003.

20
ANEXOS

21
22
23
24
Jogo de damas: reflexões sobre o fazer etnográfico e a
constituição do campo da raça e gênero no Brasil
(Elizabeth Agassiz e Ruth Landes)

Fabiane Vinente dos Santos


Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia –UFAM
Doutoranda em Antropologia Social – UNICAMP
e‐mail: vinente@gmail.com

Resumo
O artigo elabora uma comparação entre os escritos de Elizabeth Agassiz na passagem da
Expedição Thayer, liderada por seu marido Louis Agassiz, pela Amazônia e o trabalho de
Ruth Landes sobre os cultos iorubá na Bahia dos anos 30, tomando como categorias‐
chave a raça e o gênero. A partir desta comparação é possível visualizar as
transformações nos paradigmas científicos sobre a questão da raça no contexto de cada
trabalho e no papel da mulher brasileira.

Palavras‐chave
Raça e Gênero; Elizabeth Agassiz; Ruth Landes; mulher

25
Lendo o livro A cidade das mulheres, fruto da pesquisa da antropóloga norte‐
americana Ruth Landes sobre o candomblé da Bahia no Brasil nos anos 30, não consegui
deixar de pensar nos paralelos possíveis – e os “não‐possíveis” ‐ entre esta etnografia e
os escritos de uma outra norte‐americana, também sobre o Brasil, elaborado algum
tempo antes: Elizabeth Carry Agassiz em Viagem ao Brasil (1865‐1866); separando as duas,
mais do que um intervalo de 73 anos, concepções científicas e pressupostos teóricos
reflexo da cena científica de cada época. Olhando além das discrepâncias mais óbvias
(nem por isso desprezíveis) dos diferentes contextos sócio‐históricos e locais que
emolduram os escritos das duas mulheres, meu objetivo aqui é utilizar a comparação de
suas formulações para refletir sobre duas questões que marcam a antropologia brasileira:
a primeira diz respeito à produção etnográfica, aos determinantes e condicionantes deste
“fazer” assumidamente permeado pela subjetividade dos sujeitos envolvidos. A segunda
está relacionada à constituição da raça e gênero como objeto de reflexão das relações
sociais no Brasil e um campo privilegiado de estudos das ciências sociais.
O movimento executado a partir das idéias das duas autoras aqui será semelhante
aos das peças de um jogo de damas; diferente do xadrez, onde cada peça tem um valor
fixo estabelecido no âmbito do jogo, nas damas as peças dispõem‐se relacionalmente, e o
valor de cada uma depende de sua posição no tabuleiro no instante da jogada e estão
constantemente mudando ‐ da mesma forma que as teorias e pressupostos científicos se
alternam e são valorizados ou descartados de acordo com o contexto, formulando
teorias novas ou simplesmente reelaborando discussões sobre as mesmas bases –
refazendo percursos intelectuais sobre novos modelos. Os paradigmas científicos
debatidos serão o poligenismo (teoria vigente no século XVIII‐XIX) em sua vinculação com
o criacionismo catastrofista de um lado e o papel da mulher nos cultos ioruba na Bahia
dos anos 30 de outro.
A analogia do jogo de damas também serve para chamar a atenção para a
produção científica sobre a questão da raça e gênero pelos olhos de duas mulheres e para
o modo como esta discussão esteve presente nos debates sobre o êxito ou não do
projeto de nação brasileira a partir da análise da possibilidade de superação de seus
problemas estruturais geográfica, biológica ou historicamente estabelecidos.

26
Convém antes de tudo apresentar as duas personagens em questão e seus
respectivos contextos de passagem pelo Brasil. Elizabeth Carry Cabot Agassiz, nascida em
1822 em Boston, ativa no meio educacional e participante da vida profissional do marido1,
aportou em terras brasileiras em 1865, compondo a expedição Thayer, que percorreu
durante todo aquele ano, e no seguinte, grande extensão do território brasileiro –
partindo do Rio de Janeiro e seguindo ao Amazonas, de onde o grupo de doze pessoas
dividiu‐se: uma parte seguiu viagem para alcançar territórios fora da fronteira brasileira
enquanto a outra metade, dentre os quais Elizabeth e seu marido, chefe da expedição, o
naturalista suíço residente na Inglaterra, Louis Agassiz (Freitas, 2001), empreendia a
viagem de volta.
O Brasil vivia os últimos dias do Império, sob o governo de D. Pedro II, cuja
vocação humanística e científica fora fundamental para a realização da empreitada, uma
vez que o imperador estimulava e apoiava a vinda de cientistas e artistas estrangeiros
para o país. Com Agassiz, eminente catedrático de Cambridge, não fora diferente.
Empenhado numa cruzada pessoal para deslegitimar a tese da evolução das espécies de
Charles Darwin, que ganhava cada vez mais adeptos nos meios científicos, Louis Agassiz
buscava no Brasil a contra‐prova que desse sustentação à teoria catastrofista, uma
releitura do criacionismo2, da qual tornara‐se ardente defensor3.

1
Em 1856 Elizabeth ajudou a fundar a School Agassiz or Girls. Sua biografia inclui também Seaside studies in
natural history, de 1865 – publicada com seu enteado Alexandre Agassiz no mesmo ano da expedição
Thayer e Agassiz, his life and correspondence, publicada após a morte do marido, em 1885. Além da
expedição Thayer, Elizabeth participou mais tarde com o marido da expedição Hassler (1871‐1872) ao
Estreito de Magalhães.
2
Agassiz e Darwin representam os dois pólos opostos da maior controvérsia científica do século XIX: as
teorias sobre a origem das espécies. De um lado estava Darwin, com a tese da seleção natural e da
sobrevivência dos indivíduos mais aptos ao meio e às transformações nele ocorridas; de outro os
representantes das várias teorias criacionistas, como os catastrofistas que, inspirados pela Teologia natural,
pregavam uma releitura da passagem bíblica do Gênesis a partir de evidências científicas, embora negando
o materialismo presente nas teses evolucionistas. Para estes, a criação seguia os rumos determinados por
Deus e cada ser vivo seria uma criação única. As catástrofes ocorridas na terra como dilúvios e formação de
geleiras teriam destruído toda a vida em cada período, não deixando ligação biológicas entre as espécies
(Freitas, 2001, p. 38).
3
Viajando pelos Alpes suíços, Agassiz, que a despeito de ser especialista em ictiologia possuía amplos
conhecimentos em geologia, observara a existência de camadas de solo sem relação com o restante do
terreno local. Estas camadas – chamadas drifts, indicariam que o material da superfície não teria se formado
pela composição dos terrenos onde estavam situados. A explicação para isso era que o material fora
transportado de outras áreas através de grandes acontecimentos naturais como o deslocamento de
grandes massas de gelo durante o Pleistoceno, cuja prova estariam nas ranhuras e marcas deixadas nas
encostas dos vales provocadas pelo movimento do gelo. Agassiz esperava encontrar indícios destes
movimentos nos solos do litoral brasileiro e assim ter condições de confrontar as teorias darwinistas.
27
Embora formada por ictiólogos, geólogos, zoólogos e botânicos, a expedição
Thayer legou um dos documentos mais ricos sobre as formas de vida do povo brasileiro
na época, graças ao esforço de documentação empreendido por Elizabeth Agassiz, que
manteve um diário que, muito mais que um relato da expedição, oferecia uma nova
forma de escrita científica, mesclando suas observações pessoais, seu encantamento ou
reprovação com os hábitos que encontrava à correspondência do marido durante a
viagem, além de observações sobre espécimes de plantas, animais e “tipos raciais”
humanos, geralmente acrescentadas posteriormente por Louis. Apesar desta
participação, a autoria substancial deste trabalho é inegavelmente de Elizabeth, que
imprime ao texto sua perspectiva e transporta os leitores para uma viagem pelo Brasil do
século XIX através dos seus olhos. Os escritos, reunidos e editados em forma de livros um
ano depois do regresso da expedição embora documentem todo o trajeto, alcançam o
auge das formulações na descrição da passagem pela Amazônia (Províncias do Pará e
Amazonas, nos capítulos IV ao XI), ganhando mais cores e significados ‐ especialmente no
que diz respeito ao elemento feminino ‐ constituindo‐se num dos únicos documentos da
época sobre a região neste respeito.
A região ainda não despontara para o ciclo extrativista do látex e suas cidades
principais ainda não haviam sofrido o surto urbanístico que modificou as relações sociais
na região a partir de 1880. O isolamento geográfico agravado pela ausência de estradas
tornava o norte brasileiro um território à parte, excluído das mobilizações políticas e
econômicas do centro do Império, o Rio de Janeiro. Elizabeth, que passava a maior parte
do tempo junto às mulheres das localidades em que paravam, especialmente no interior
das províncias ‐ percebe o elemento feminino tomando a frente dos empreendimentos
locais – sítios e pequenos comércios. A ausência dos homens em função da Guerra do
Paraguai (1864‐1870) obrigara as mulheres a ocupar posições de comando
tradicionalmente determinadas aos homens, proporcionando um sentido de autonomia
impensado em áreas urbanas do resto do Brasil, onde a herança ibérica estabelecia um
alto grau de dependência destas para com seus homens, especialmente nas classes mais
altas 4.

4
Um outro trabalho de pesquisa sobre a situação das mulheres na Amazônia, desta vez enfocando um
intervalo de tempo maior, também aponta para uma maior autonomia destas em relação às mulheres das
áreas mais urbanizadas do território nacional. Ver COSTA, Heloísa Lara Campos. (2000). À medida do
28
Em uma era marcada pelo controle do corpo e da intimidade feminina, as índias e
mestiças do relato de Agassiz aparecem trabalhando nas roças, comercializando,
deslocando‐se de canoa pelos igarapés sem a costumeira supervisão masculina. A mulher
ainda era o elemento subordinado da sociedade local, mas tal subordinação, como
transparece nos relatos, possui nuances diferenciadas. O controle social enfraquece‐se à
medida que a expedição distancia‐se das grandes cidades, e as mulheres falam sobre seus
“filhos da fortuna” (filhos fora do casamento) com a naturalidade de quem não tem que
temer sanções sociais, o que causa constante assombro na cronista, para quem a
moralidade constituía‐se em condição fundamental para o sucesso do projeto colonial na
região.
No que diz respeito à questão racial, Elizabeth, como o marido, era adepta do
poligenismo – o que estava de acordo com a tese catastrofista ‐ segundo o qual “as raças
seriam fenômenos essenciais e ontológicos resultantes de centros de criação diversos”
(Schwarcz, 2003), embora justamente por isso tal tese discordasse da origem única da
humanidade postulada pela Bíblia. O poligenismo foi a teoria responsável pela
estigmatização “científica” do negro, considerada desta forma como raça distante da
branca e, portanto, inevitavelmente degradada. A classificação poligenista ia além do
fenótipo, atribuindo características psicológicas a cada “tipo”. No que diz respeito às
mulheres, para Elizabeth as negras seriam hipersexuadas, produto de uma lascividade
primitiva, enquanto as índias estariam no outro oposto da degenerescência: seriam
indolentes e apáticas, cujos sinais seriam reforçados pelo tipo físico de estatura baixa e
mirrada, cuja prova Elizabeth constatava nos divertimentos como danças, quando as
índias deixavam‐se levar pelos parceiros sem demonstrar alegria ou tristeza.
Para os Agassiz a mistura de raças, ao contrário do que postulava grande parte da
intelectualidade brasileira da época, era nociva, pois diluiria os caracteres positivos de
cada raça, dando origem a espécies estéreis e degeneradas, abundantemente observadas
pela expedição e cuidadosamente classificadas: cafuzo, mameluco, mulato... A Amazônia
apresentava‐se como um grande laboratório da natureza, onde podiam ser observados os
frutos das misturas raciais. A opinião de Elizabeth só parece oscilar quando contratam
uma cafuza como empregada da expedição – Alexandrina, que surpreende os Agassiz

possível: as mulheres e o poder na Amazônia – 1840‐1930. Tese de Doutorado em educação. Campinas:


Unicamp.
29
com sua habilidade e destreza a ponto de Elizabeth comentar “...ela parece reunir a
inteligência do índio à adaptabilidade maior do negro (Agassiz e Agassiz, 2000, p.221)”.
Um acontecimento muda radicalmente o tom da narrativa de Elizabeth, familiarizando‐a
inalmente aos nossos conceitos politicamente corretos do século XXI: em agosto de 1865,
quando a expedição chega à uma determinada localidade (choça da Esperança) na
província paraense, a permanência do grupo, sempre de alguns poucos dias, desta vez é
prolongada por cerca de dois meses, proporcionando uma maior proximidade entre a
dama de Boston e suas anfitriãs mestiças. Tal aproximação revela para a americana uma
realidade diferente: após adquirirem maior intimidade, as mulheres a interrogam sobre
sua vida, mexem em sua bagagem, narram suas angústias e dramas pessoais
proporcionados pelo contexto da guerra, que modificara radicalmente a estrutura social
local, provocando a fuga dos homens ou sua partida.
Passados setenta anos da presença da expedição Thayer no Brasil, o status do
negro nas teorias científicas ainda guardava muitas reminiscências das teorias raciais do
século XIX, embora houvesse um avanço considerável na derrubada dos paradigmas
poligenistas, mas até a década de 30 ainda é perceptível no Brasil, como em outras partes
do mundo, a força, os movimentos eugênicos, encabeçados pela medicina, que
propunham a possibilidade de melhoramento da raça. No caso do Brasil, este chegou a
ser um projeto de grande monta levado a termo pelos médicos sanitaristas, onde ainda
era presente o ranço da idéia de hierarquia racial e sua relação com a nação (Schwarcz,
1993, p. 208).
O Brasil, eterno laboratório racial, com o desenvolvimento das instituições
dedicadas ao ensino e pesquisa das ciências sociais, ganhava outras conotações aos olhos
dos estrangeiros, especialmente dos norte‐americanos, a partir da década de 305. O
crescimento da sociologia e da antropologia no mundo revelaram o Brasil como campo
de investigação privilegiado para observação dos reflexos sociais da convivência de várias
“raças” num mesmo território, reflexos estes concretizados ideologicamente no
chamado “mito da democracia racial”, surgido nos primórdios da década de 30 e que

5
Sobre a vocação magisterial da missão francesa em relação ao Brasil em contraposição à americana, cujos
interesses estavam fundamentalmente ligados à pesquisa empírica ver Peixoto, 2001 e para mais detalhes
sobre a “troca de guarda” entre franceses e americanos, ou seja, a transferência de influências políticas e
metodológicas da escola francesa para os grupos de pesquisadores americanos no período em passagem
pelo Brasil, ver Corrêa, 1988.
30
apesar da referência fácil representada por Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre,
teve outros colaboradores para sua construção como o antropólogo americano Robert
Park e também ativistas e intelectuais negros americanos como Booker T. Washington e
W.E.B. DuBois que, passando pelo Brasil, maravilhavam‐se pelo que consideravam uma
harmonia racial em comparação aos sangrentos conflitos nos Estados unidos envolvendo
brancos e negros (Fry, 2002, p. 28). A idéia de investigar o Brasil e obter uma maior
compreensão dos termos desta propalada igualdade racial foi o principal motivo da vinda
do jovem antropólogo formado em Chicago, Donald Pierson, para a Bahia em 1936 e
também a da nova‐iorquina Ruth Schlossberg Landes, dois anos depois, para o mesmo
lugar, ambos a convite de Robert Park.
A chegada de Ruth Landes ao Brasil foi preparada com alguma antecedência. A
antropóloga, formada em Columbia, havia trabalhado antes durante alguns anos entre os
Ojibwa no Canadá, tendo publicado duas monografias. Como Pierson (Peixoto, 2001),
também ela ficara trabalhando na Universidade de Fisk, uma instituição de negros no sul
dos Estados Unidos para se “habituar aos negros” (Landes, 2002). Ex‐aluna de Boas e
Ruth Benedict, Landes estava disposta a pesquisar os negros “sob seus próprios termos”
e coletou seus dados através de observação participante nos terreiros e festas religiosas
da Bahia, além de desenvolver um profundo envolvimento com os sujeitos de sua
pesquisa. Aparentemente, do que podemos apreender dos relatos sobre as pesquisas de
outros eminentes estudiosos como Nina Rodrigues ou mesmo o contemporâneo de
Landes, Arthur Ramos, técnicas usuais na antropologia como a observação participante
ainda constituía‐se numa grande inovação no que diz respeito à investigação com negros
no Brasil.
Aqui é necessário chamar a atenção para um aspecto interessante do quadro
intelectual local em relação à figura do negro: além da monografia de Pierson publicada
algum tempo antes e dos livros de Gilberto Freyre (Casa Grã & Senzala e Sobrados &
Mucambos), havia uma vasta produção de estudos sobre o negro, quase sempre de
cunho higienista, especialmente na Bahia, onde o médico Nina Rodrigues e seu grupo foi
o pioneiro na transformação do negro em objeto da ciência. Foi esta a linha inicialmente
seguida pelo auto‐proclamado herdeiro intelectual de Rodrigues, o também médico
Arthur Ramos, que com o passar dos anos apropriou‐se da ferramenta da antropologia no

31
desenvolvimento de suas pesquisas. Édison Carneiro, intelectual negro ligado ao grupo
de Nina, embora grande conhecedor do candomblé bahiano, não possuía uma produção
acadêmica no sentido estrito do termo. No cenário internacional, além do já citado
Pierson não havia muito. Melville Herkovitz, renomado africanista que desenvolveu
pesquisa no Brasil em anos posteriores, mas que até então nunca havia pisado no Brasil,
embora mantivesse contato com os pesquisadores locais como Ramos. Em outras
palavras: o negro no Brasil era objeto científico há muito tempo, mas enquanto objeto
antropológico, ainda era uma novidade até ali. Acredito que isso explique a insipiência das
ferramentas de investigação dos estudiosos então atuantes. Na Bahia, os relatos sobre as
pesquisas davam conta de que os estudiosos raramente abandonavam seus escritórios,
onde recebiam os seus entrevistados, e embora vários deles fossem ogãs (título
conferido a certos homens como protetores dos templos de candomblé), nenhum havia
mergulhado tão fundo no universo mágico dos ritos de origem Ioruba na Bahia, nem se
distanciado das explicações de origem africana, as quais recorriam para explicar a religião
e as instituições sociais.
O estudo de Landes em contraposição à idéia de cultura estática e cristalizada,
apresenta a religião do candomblé como o produto de um arranjo sócio‐histórico
específico, para o qual contribuíra, entre outras coisas, tanto a instituição da escravidão
quanto sua abolição. Sem recorrer às então consagradas referências africanistas, o texto
de A Cidade das mulheres apresenta, tal como o texto de sua distante conterrânea
Elizabeth Agassiz, uma proposta inovadora de texto científico, num tom intimista e em
primeira pessoa, o que na época foi um dos motivos para as várias críticas sofridas por
Landes. Seu relato instiga por situar de forma magistral a autora em meio à multivocal
sociedade local e apresentar, numa perspectiva relacional, as diversas “faces” de uma
mulher norte‐americana, judia, branca, solteira e antropóloga frente aos diversos sujeitos
e grupos com que se relacionava na Bahia dos anos 30: os funcionários do consulado
americano, a comunidade estadunidense local, a polícia, os intelectuais da cidade, seu
guia e amante Édson Carneiro, as mães‐de‐santo, suas filhas das tradições ioruba e
caboclo, suas famílias, suas crianças. Mas além da forma, o principal alvo de críticas ao
trabalho de Landes foram suas teses sobre um matriarcado no candomblé baiano em
razão do maior poder exercido pela mulher na sociedade negra e de uma afinidade dos

32
homossexuais como membros de candomblés caboclos, divulgadas num conjunto de três
artigos (Matriarcado cultual e homossexualidade masculina, Culto fetishista no Brasil e
Escravidão negra e status feminino). Tal ordem de temas configura a disposição em focar
o estudo em duas categorias: gênero e raça.
O quadro científico dos estudos sobre cultura nos Estados Unidos vivam um
momento importante: a partir do círculo formado em torno de Franz Boas, firme opositor
do nazismo e responsável entre outras coisas pela substituição do conceito de raça pelo
de cultura, estudiosos como M. Herkovitz, dedicavam‐se à análise da cultura negra em
vários lugares do mundo. O Brasil aparecia como um importante centro de estudos a
partir da sua grande população negra e do seu passado escravista. A Bahia aparecia como
uma cidade ideal para observar como o negro havia de integrado na sociedade nacional,
analisada via de regra sobre o prisma da religião pelos cultos fetichistas.
Como já foi dito, a abordagem da questão fincava‐se na idéia de uma transposição
entre os cultos da África para o Brasil, sem levar em conta o contexto social e as
transformações sofridas pelos negros como segmento social dentro de uma sociedade de
classe. Nesse sentido o trabalho de Landes inovava por revelar que tais transformações
provocaram um movimento novo: um maior prestígio social das mulheres na sociedade
bahiana que lhes proporcionou um papel central nas práticas religiosas do candomblé, a
ponto dos maiores terreiros contarem com lideranças femininas (como o Gantois,
liderado pela célebre Mãe Menininha). Uma outra conseqüência seria a presença cada vez
maior de homossexuais como líderes de terreiros “caboclos” que, um tanto mais
afastados da rigidez purista dos terreiros de tradição ioruba, buscariam no elemento
feminino sua legitimidade mística.
Os ataques ao trabalho de Landes partiram não só do próprio Herkovitz como
também de Arthur Ramos, referência nacional do estudo de negros, que não aceitavam a
idéia de que a liderança feminina nos terreiros era uma tendência social estabelecida,
muito menos a de que os homossexuais lideravam terreiros. O trabalho de Ruth Landes
sofreu sanções não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos, além do
linchamento moral inflingido à sua pessoa, possível responsável pelo seu tardio acesso a
uma posição estável como acadêmica – ela só consegue emprego como professora

33
universitária regular em 1965, portanto 30 anos depois de conseguir seu PhD. (Healey,
1996).
Os detalhes deste caso emblemático das relações acadêmicas do contexto da
época já foram amplamente debatidos em vários trabalhos (Cole, 1995; Healey, 1996; Fry,
2002 e Corrêa, 2002 e 2003). Meu objetivo a partir dos elementos disponíveis até aqui
inicialmente era o de analisar os dissensos entre as duas ordens de trabalho científico
feito por mulheres estrangeiras sobre mulheres, equacionando a questão do gênero e da
raça num texto de formatação inovadora para a época: os capítulos sobre a Amazônia de
Elizabeth Agassiz e os escritos de Ruth Landes (livro e artigos) sobre o candomblé na
Bahia. A despeito da notória discrepância de contextos históricos e de objetos – o de
Agassiz são as índias e mestiças e o de Landes as negras sacerdotizas yoruba,
encontramos alguns pontos interessantes de intersecção entre as duas produções que,
acreditamos, valem uma breve análise.
Entre os consensos, o que primeiro se sobressai é a matriz explicativa de cada uma
das autoras, que revelam o contexto dos debates acadêmicos de suas respectivas épocas:
para Agassiz é a biologia e o determinismo geográfico, pelo qual condenava as raças
inferiores (como o índio e o negro, que era constantemente lembrado no seu texto como
inferior ao índios em vários aspectos – fosse pela sua sensualidade supostamente
exacerbada ou pela sua higiene) e principalmente, condenava a mistura racial através de
proles mestiças (Santos, 2005); Para Landes é a cultura que, apesar das transformações
impostas pelo dinamismo histórico, vive preservada numa suposta “pureza da raça
negra”, emblematizada no movimento de preservação da cultura africana do qual
participavam os terreiros mais tradicionais da Bahia – pelos quais Ruth não esconde sua
franca admiração, em detrimento dos terreiros de tradição mista – caboclos ou angolas.
Healey (1996, p. 167) chama a atenção para o que parece ser, no texto de Landes,
um distanciamento da abordagem culturalista, mas que é, na verdade, uma confirmação
desta. Ao aliar‐se aos intelectuais baianos em defesa da “pureza Iorubá” – intelectuais
estes que aceitavam a herança cultural africana por apostarem em seu iminente
desaparecimento, os terreiros tradicionais encontraram uma forma de escapar da
repressão policial, mas vetavam o acesso dos mestiços – “os que não se enquadravam
neste espaço idealizado da tradição” – à cidadania e a alguns direitos políticos básicos.

34
Como resume Healey: para um segmento da elite a glorificação da África poderia coexistir
com políticas autoritárias. Ao comprar a idéia da presença de um “primitivismo” que
estaria manifesto no matriarcado ritual das mães‐de‐santo, Landes enquadrava seu
estudo no quadro das muitas iniciativas de inspiração boasiana de pesquisa de
populações em processo de “assimilação” pela cultura ocidental ao redor do mundo, ao
mesmo tempo em que buscava conhecer elementos das sociedades “primitivas”,
especialmente os relacionados a gênero e raça, para entender a sociedade branca
ocidental.
Os pontos de convergência entre os textos guardam aspectos ainda mais ricos e
carentes deuma análise mais pormenorizada. Dadas as limitações deste paper, optamos
por explorar três, além da já citada semelhança na forma do texto – de cunho intimista e
na primeira pessoa: a questão da autonomia feminina – presente nos dois relatos – e em
ambos os casos produto de um conjunto de fatores conjunturais: no caso das mulheres
amazônicas a Guerra do Paraguai e no caso das negras, as possibilidades de ascensão
social abertas às mulheres através de possibilidades de emprego e renda própria dentro
do sistema escravista ibérico – em contraposição ao inglês, cuja dureza e intolerância
teriam gerado as relações conflituosas entre negros e brancos no presente. A estes
fatores Landes, como culturalista que era, não deixa de acrescentar que as mulheres,
tradicionalmente, sempre foram os receptáculos “naturais” dos deuses, tendo a
prerrogativa exclusiva de receber o deus e dançar com ele. O outro aspecto do sistema
religioso, isto é, a administração do templo e a direção dos cultos é que mudara – se
anteriormente era papel masculino, com o contexto pós‐abolição também passa a ser
controlado pelas mulheres, dando‐lhes uma força social enorme6.

6
Não posso deixar de chamar a atenção para a interpretação de Pierson (1967, pp. 285) para o fenômeno
da autonomia feminina na religião – que se espraiava por vários setores da vida social, como destacou
Landes. Apesar de seu estudo não estar propriamente em desacordo com as conclusões de Landes, ele
explicava a prerrogativa feminina de liderar os templos de forma totalmente diversa: “For some reason
male members of the seita rarely experience, as the woman members, the ‘manifestation’ of an orixá.
Consequently, very few males even pass through the rigorous period of training which must always follow
the initial ‘appearance’ of a deity (...). Moreover, the men, being more mobile than the women, are
ordinarily brought into more extensive contact with the Europeans and their descendants and
consequently tend to take over more readily the ideas and sentiments of the whites. The women, on the
other hand, ordinarily remain more closely identified with the customs and traditions of their african
ancestors. It is the more proeminent and influential several of the more proeminent and influential
candomblés in Bahia now have women leaders”.
35
A segunda convergência relaciona‐se ao papel do homem nas duas sociedades,
descritos como de menor destaque. Neste sentido o texto de Agassiz é mais incisivo,
criticando asperamente o que considerava uma crônica inatividade masculina em
oposição à vida atarefada das mulheres que passavam o dia ocupadas na manutenção da
casa e na roça, não recebendo nunca a ajuda masculina nem em atividades mais difíceis
como trazer pesados potes de água, recolher lenha ou carregar mantimentos (Agassiz &
Agassiz, 2000, p. 186). No texto de Landes, os homens das classes baixas urbanas da
Bahia são mostrados como verdadeiros parasitas: com limitadas possibilidades de renda
depois da abolição, geralmente tornavam‐se dependentes do ganho de suas mulheres,
que não raramente eram as responsáveis absolutas pela manutenção da família. No
primeiro caso, Agassiz utiliza o papel secundário do homem para confirmar a tese da
degenerescência racial – que reverberaria na desordem social, com a inversão das
atribuições de gênero. Para Landes, contudo, o papel inferiorizado do homem era um
elemento criador, pois constituía‐se em mais um fator que corroborava com a ascensão
social da mulher negra.
A terceira convergência para a qual gostaríamos de chamar a atenção é para a
concepção do Brasil como laboratório racial. Enquanto no século XIX as expedições de
naturalistas percorriam o território para estudar a interação dos tipos humanos dentro da
matriz biologicista, no século XX tal imagem permanece, embora desta vez dentro de um
quadro cultural. O palco do experimento, contudo, é o mesmo. Não é possível esquecer
que neste ponto encontramos um dissenso entre as conclusões: enquanto Landes
percebe a miscigenação como um processo inevitável, porém inconciliável com a
manutenção da tradição cultural – cuja imagem mais forte é a do quarto de objetos
sagrados do babalorixá Martiniano que, após a morte deste, sabida por ela após seu
retorno, interroga‐se sobre o destino dos objetos de cultos africanos “tão preciosos para
os estudiosos” (Landes, 2002, p.336) como quem pergunta sobre as últimas
reminiscências de um tempo que não volta ‐ Agassiz vê a miscigenação como o caminho
mais rápido para a degradação das raças. Num ponto ambas concordam: tanto Agassiz
quanto Landes acreditavam que a manutenção das tradições estava ligada ao
afastamento da vida urbana e das transformações sociais delas decorrentes. No caso do
estudo de Landes, ela admitia ser este um processo irreversível e cumulativo.

36
Um estudo mais aprofundado, com outras referências, poderia fornecer um
quadro mais amplo de análise das categorias raça e gênero no pensamento social sobre o
Brasil. Os estudos analisados brevemente aqui dão uma mostra dos embates profundos
relacionados a estas categorias que persistem desafiadoras para as ciências sociais nos
dias atuais. O olhar sobre a produção de Elizabeth Agassiz e Ruth Landes demonstram
que longe de estar esgotado, o tema ainda provoca muitas questões a serem
equacionadas; resta‐nos refletir sobre o papel das pesquisas empreendidas por mulheres
e suas contribuições que marcadamente oferecem formas criativas e diversificadas de
olhar o problema, provocando novas jogadas no tabuleiro da sociedade brasileira.

Referências
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federal.
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LANDES, Ruth. (2002). A cidade das mulheres. 2 ed. Rio de Janeiro: UFRJ.

37
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field: anthropological experiences. 2 ed. Berkley: University of California Press. pp. 119‐
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SCHWARCZ, Lilia M. (1993). O espetáculo das raças: cientistas, instituições e a questão
racial no Brasil 1870‐1930. São Paulo: Cia. Das Letras.

38
Ideia ou Ideias de Europa?

Isabel Maria Freitas Valente


Doutoranda do Programa de Doutoramento em Altos Estudos Contemporâneos
da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra1
e‐mail: valente.isa@gmail.com

Resumo
Esta reflexão procurará analisar a “génese e evolução da ideia de Europa e os projectos
de unificação europeia ao longo dos séculos até à II Guerra Mundial”. Procurar‐se‐á
através da reflexão retrospectiva compreender alguns dos momentos mais importantes
desse percurso, de modo a permitir a construção da Europa na contemporaneidade. A
metodologia adoptada confere realce a uma atitude de interrogação e de diálogo crítico,
interrogante e problematizador, com vários campos do saber e da investigação
traduzindo‐se numa desejável e importante transdisciplinaridade, num momento em que
se continua a pensar/repensar e a projectar novos caminhos para a Ideia de Europa.

Palavras‐chave
Europa, União Europeia, Política Internacional.

1
Membro do CEIS20 da Universidade de Coimbra; Membro do Team Europe – Portugal; Bolsista da
Fundação para a Ciência e a Tecnologia – FCT.
39
Europa entregou ao Touro sedutor o seu flanco de neve…
Empalideceu com a sua própria coragem chorando o acto vergonhoso
Mas Vénus lhe disse:
‐ Tu és, sem o saber, mulher do invencível Júpiter!
Deixa de soluçar e aprender a fruir uma grande fortuna:
Uma parte do globo receberá o teu nome.
Q. Horatii Flaci
(Carmine, II, 27)

1 Introdução
A problemática da construção europeia justifica hoje, como ontem, uma atenção
muito especial por parte de intelectuais, investigadores, historiadores, politólogos,
juristas e economistas no sentido de compreensão/apreensão da grande dificuldade que
é reflectir acerca da unitas multiplex. No dizer de George Steiner “ser europeu é tentar
negociar, moralmente, intelectualmente e existencialmente, os ideais, afirmações, praxis
rivais da cidade de Sócrates e da cidade de Isaías”.2É neste horizonte que se deve
compreender a importância que Adriano Moreira confere à constante “dialéctica entre os
legados humanistas e maquiavélico, agora enfrentados pelo desafio do globalismo”.3
Neste sentido, a União Europeia não podia estar mais na ordem do dia. A sua
actualidade relaciona‐se, em primeiro lugar, com uma “espécie de crise existencial”
resultante do “não” francês e holandês ao projecto constitucional europeu, em segundo
lugar, com o alargamento a doze novos países vindos maioritariamente do ex‐bloco
soviético, o que lhe confere uma nova dimensão e, em terceiro lugar, fruto do “não”
irlandês ao Tratado de Lisboa.
A este propósito, não deixa de ser oportuno perguntar o que é a Europa? Como
conciliar a diversidade com a unidade europeia? Como falar hoje da Europa aos europeus?
Como compreender e transmitir que a União europeia é um contexto importante, vivo
ainda que institucional, resultante político, ainda que de aparência tecnocrática, inscrito
na história? Qual a nova dimensão histórica da identidade da União?
Estamos em crer que foi a perspectiva precursora da interculturalidade, da análise
e reflexão que privilegia a “pluridisciplinaridade multi‐focal, tentando estabelecer um
diálogo comparativo entre diferentes ângulos (os da História, Filosofia, Geografia,
Cultura, Literatura, Direito, Economia...) a fim de se elaborar o diagnóstico das estruturas
2
George Steiner, A Ideia de Europa, Lisboa, Gradiva, 3ª edição, 2006, p.36.
3
Adriano Moreira, “A Europa da Utopia e a Outra Europa”, in Estudos do Século XX – Europa‐Utopia/Europa‐
realidade, n.º 2, Coimbra, Quarteto, CEIS20, 2002, p.359.
40
das aspirações e das representações, bem como das afinidades existentes na Europa, não
eliminando porém a alteridade. Tal procedimento levou‐nos a reflectir, a estudar e a
aprofundar dos nossos conhecimentos nesta área, deu‐nos a possibilidade de perscrutar
respostas para as interrogações que o nosso passado, presente e futuro colocam aos
europeus acerca da sua identidade, do futuro do seu continente e de toda a complexa e
multíplice teia das questões europeias.
Na verdade, esta pequena reflexão procurará analisar a “génese e evolução da
ideia de Europa e os projectos de unificação europeia ao longo dos séculos até à II Guerra
Mundial”. Procurar‐se‐á através da reflexão retrospectiva compreender alguns dos
momentos mais importantes desse longo e lento percurso, de modo a permitir a
construção da Europa na contemporaneidade.
Com estes objectivos bem presentes, a metodologia adoptada confere realce a
uma atitude de interrogação que convoque sistematicamente o diálogo crítico,
interrogante e problematizador, com vários campos do saber e da investigação
traduzindo‐se numa desejável e importante transdisciplinaridade, num momento em que
se continua a pensar/repensar e a projectar novos caminhos para a Ideia de Europa.

2 Os fundamentos históricos da ideia de Europa


É importante sublinhar que a palavra Europa nasceu com a mitologia. O grego
Hesíodo, no poema Teogonia terá sido o primeiro autor a referir expressamente o nome
Europa. Como se sabe, a Antiguidade Clássica associou o nome da Europa ao mundo da
mitologia. Segundo o Mito, Europa seria uma jovem e formosa princesa fenícia, filha de
Agenon, rei de Tiro e da Fenícia. Raptada por Zeus, que tomou a forma de um grande
touro branco, Europa foi conduzida a Creta e aí se transformou em rainha e mãe da futura
dinastia de Minos.
Assim, para Maria Manuela Tavares Ribeiro, o mito e o próprio vocábulo
manifestam “o sentido de mobilidade, da indeterminação, captam‐se os movimentos

41
económicos e os laços culturais que, desde a época clássica, caracterizaram a evolução do
sentido de Europa, mesmo no campo específico da localização geográfica.”4
Acresce igualmente considerar que a comunidade de cultura e de civilização bem
como a unidade espiritual em que a Europa viria a definir‐se superando a falta de unidade
geográfica e dos povos seria obra de Roma.
Deve pois salientar‐se a adesão de toda a Europa (desde a Lusitânia ao Elba, desde
a Grécia à Britânia) ao modelo romano de cultura e civilização. Neste sentido, a cultura
romana, que incorporou o espólio helénico e o ideário judaico‐cristão, “irradiava no
universo imperial como ‘modelo cultural’ para além de todos os particularismos locais.”5
Interessará ainda lembrar que os imperadores convertidos ao cristianismo (Deoclociano e
Constantino) contribuíram para reforçar essa perspectiva universalista.
No final da Idade Média, assiste‐se à desvalorização do papel político da Igreja. A
transferência dos Papas para Avinhão (1309), o Cisma do Ocidente (1378‐1429) e
sobretudo a reforma Protestante (1517), representam os momentos culminantes da
decadência do prestígio e da autoridade de Roma sobre a Europa Cristã.
Neste período de transição do fim dos tempos medievos para a modernidade, a
“ideia de nacionalidade era ainda muito fluida, o sentimento de pertença a um conjunto
geográfico, histórico, étnico e cultural diferente e mais vasto não era então vivido pela
maioria dos indivíduos”.6
Na verdade, e não obstante o espírito de cristandade que domina as nações da
Europa, vinculando‐as e solidarizando‐as contra os inimigos da fé o que lhes permitia
resistir às ameaças asiáticas e islâmicas, bem como o aparecimento e desenvolvimento
dos itinerários espirituais (São Tiago de Compostela, Roma) e bem assim a mobilidade
universitária e a criação de ligas urbanas, não podemos aferir com rigor o “sentido de
pertença a uma entidade chamada Europa”. É bom lembrar que, se exceptuarmos os
espíritos mais cultos e algumas personalidades políticas, não havia ainda uma consciência
europeia generalizada. Embora aparecesse representada em cartas cartográficas da
época que englobavam também os outros continentes, a Europa é, no entanto,
identificada como cristã por oposição aos “bárbaros”, aos “selvagens” e aos “infiéis”.

4
Maria Manuela Tavares Ribeiro, A Ideia de Europa – Uma perspectiva histórica, Coimbra, Quarteto, 2003, p.
20.
5
Op. Cit, p.22.
6
Ibidem., p.31.
42
Ora, todo este movimento de redes e relações urbanas e transnacionais de que
falámos anteriormente recebe um impulso muito particular com os humanistas dos
séculos XV e XVI, responsáveis por uma mudança de perspectiva em relação ao mundo, a
si próprios e ao “Outro”. Cria‐se assim uma nova mudividência até à segunda metade de
Quatrocentos. Entre muitos outros, Erasmo, o homo viator, é testemunho e autor
privilegiado de uma Europa em gestação.
É ainda importante assinalar as viagens realizadas pelos portugueses (Bartolomeu
Dias, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral) e pelos espanhóis (Cristóvão Colombo)
consignados como descobridores do sinete da interculturalidade, agentes de interacção
entre continentes, povos e culturas, entre “Nós” e os “Outros”.
Neste contexto, a expansão, o conhecimento das outras civilizações, os
progressos científicos (geográficos, astronómicos, cartográficos) terão sido responsáveis
pela progressiva necessidade de os europeus reflectirem sobre a sua cultura, necessidade
essa que é reforçada, no início da Época Moderna, pela Reforma Protestante que provoca
uma ruptura na concepção universalista da sociedade.
Recorde‐se também que a Europa dos séculos XVI e XVII é palco de múltiplas
“guerras religiosas”, que opõem católicos, ortodoxos, protestantes, as comunidades
judaicas, no centro e oriente, e os muçulmanos que dominavam os Balcãs.
Podemos afirmar que as guerras religiosas dão ocasião a prolongadas provas de
força cavando facturas determinantes no espaço europeu, mas marcam também a época
histórica em que se inicia um esforço sistemático na procura de “fórmulas de equilíbrio
das potências territoriais do Estado” e do florescer das teorias sobre direitos naturais das
gentes – “a religião como paradigma daquilo que a religião tinha dividido”.7
Pelo exposto, uma questão se torna pertinente: será que “apesar da diversidade
das culturas religiosas, não se manifestarão traços comuns na consciência europeia?”
Certamente que sim. Apenas um exemplo que nos parece elucidativo para a
história da “ideia de Europa” no século XVII – o papel das Hansas e das ligas Hanseáticas.
Com efeito, estas associações comerciais começam a adquirir uma dimensão europeia
cultural. É ainda neste século que a palavra Europa é incorporada no discurso político.
Data desta época a necessidade sentida pelos Reis e pelos Príncipes de se organizarem

7
Maria Manuela Tavares Ribeiro, Op. Cit., p.31.
43
em exércitos nacionais – a “Revolução Militar” – pois os Estados modernos vivem em
guerra e para a guerra e esta torna‐se a sua justificação “natural”, com a procura das
fronteiras “naturais”.
Importa acentuar a ideia de que a Europa evolui da contestada unidade política da
Respublica Christiana para o período pós‐medievo da pluralidade dos Estados Soberanos.
A unidade religiosa e política da Europa, que o Papado mantivera durante séculos,
perdeu‐se definitivamente com a Reforma, responsável pela divisão religiosa da
cristandade. Contudo, manteve‐se a “nostalgia de unidade” que se reinventa como
imperativo ético e político através da ideia de “equilíbrio” – “balance of power” – pela
noção de “concerto” e de modelos de “paz.”.

3 Projectos precursores da ideia de Europa


É conveniente recordar que os numerosos projectos de União Europeia são fruto
de determinada conjuntura e poderão ser agrupados em três tipos que corresponderão a
três períodos diferentes que não são nem estanques, nem taxativos. A saber:
• A Europa da Cristandade (desde a Idade Média até ao séc. XVII);
• A Europa da Humanidade (séc. XVIII);
• A Europa Região (séc. XIX e XX).
Ao analisarmos esses diferentes planos verificamos que lhes estão subjacentes
Mitos que funcionam como ancoragem simbólica. São eles:
• O Mito do Império Universal, em que se fundam as ideologias de Carlos
Magno e Napoleão I, bem como as Santo Império e ainda as tentativas dos
Habsbourgs, pela força da hegemonia, com as suas promessas de poder,
segurança e glória imperial.
• O Mito da União Pacificadora, com as suas promessas de prosperidade e
progresso defendidas por Sully, Kant, Saint‐Simon, Briand, Jean Monnet,
Robert Schuman.
• O Mito da Comunidade de Valores e da Cultura, norteadores da Respublica
Christiana e também da “República das Letras” dos séculos XVII e XVIII.

44
Não deixa de ser oportuno recordar alguns desses projectos de importância
particular para a génese e evolução da ideia de Europa.
Já no século XIV, Pierre Dubois, na sua obra De recuperatione Terrae Sanctae,
dirigida a Filipe, o Belo, apresenta um projecto de paz extensivo a todos os príncipes e
Dante publica, em 1312, Da monarquia, obra que aparece como teorizadora da doutrina
política do século XIV. Também Antoine Marini (1461) inspirou Jorge Podiebrad, rei da
Boémia, com o seu Tractatus pacis toti christianitati (1664) destinado a assegurar a paz em
toda a cristandade contra a ameaça do Império otomano. São ainda referências
importantes: o duque de Sully e o Grande Desígnio (obra do principio séc. XVII); Willian
Penn e o seu Ensaio para a paz presente e futura (1693); o Abade Saint‐Pierre que publica
em 1716‐1717 o Projecto de tratado para fazer com que a paz seja perpétua entre soberanos
e cristãos; (esta obra será mais tarde retomada e divulgada por Jean‐Jacques Rousseau
através do seu Extrato do projecto de paz do Abade de Saint‐Pierre e juízo sobre a paz
perpétua 1768); Jeremy Bentham que idealizou um Plano para a Paz Universal e Perpétua
(1789); e Emmanuel Kant ao publicar em 1795, Pela Paz Perpétua, onde propõe uma
Federação de Estados livres, de acordo com o modelo de constituição republicana baseada
na separação de poderes e na igualdade perante a lei, está na origem de uma ruptura
epistemológica e filosófica que representa o “fim do universo da Europa medieval e o
começo de uma Europa Moderna”. Trata‐se, obviamente, de um texto fundamental,
tanto pela influência que tem no pensamento de outros autores, como pelo eco que
produz da proposta rousseauniana de uma Confederação de Estados europeus. Sendo a
ideia de Paz Perpétua apenas garantida pela República e, tal como sugerira Rouseau, pelo
o assentimento dos povos, cujas identidades são constituídas pela vontade do povo, na
perspectiva de criação de uma união fundada numa constituição pública insolúvel. A
Europa contemporânea anunciava‐se.
É na Europa do século XVIII que se consolida a filosofia crítica. Neste sentido, o
nosso legado ontológico é, como Heidegger insistiu, o do questionamento. Este século
constitui um marco importante na definição da Europa, enquanto entidade cultural e
geopolítica. Partimos da constatação de que a Revolução Francesa (1789), a Declaração
do Homem e do Cidadão, a secularização das sociedades determinaram a necessidade da
adopção de um diferente paradigma – Estado‐Nação. Neste sentido, “a nação torna‐se

45
fonte de direitos e de direito.”8No entanto, os debates teorizadores da ideia de Nação
apenas ocorrem no século XIX, datando desta altura a consagração de dois princípios
essenciais: o direito dos povos e o princípio das nacionalidades.
Como contraponto à hegemonia francesa, vários movimentos desenvolveram‐se
com particular acuidade sobretudo na Inglaterra (Edmond Burke), na Alemanha (Herder,
Hegel, Fichte), na Rússia (Tolstoï), Itália, Polónia, Espanha e Portugal.
Neste contexto, não é demais sublinhar a importância da chamada Paz de
Vestefália (1648) que inscreve no Direito das Gentes o princípio da plena soberania dos
Estados. Estes actuam nas relações internacionais como titulares exclusivos do poder e
“exercem‐no de modo livre e unilateral” pelo que, se torna imprescindível referir, a
propósito, a política do equilíbrio de forças (“balance of power”) orientada para impedir
a prevalência hegemónica de um ou vários Estados. Esta noção de Concerto Europeu
adquire uma outra dimensão no Congresso de Viena (Outubro de 1814 a Junho de 1815),
com a consagração de uma nova estratégia de coexistência das soberanias nacionais. No
dizer de Metternich, principal artífice do projecto do Concerto Europeu, o objectivo nodal
dos estadistas reunidos em Viena era “restaurar uma Europa do Equilíbrio e do Direito das
Gentes”.
Muito sumariamente, pode‐se afirmar que, o século XIX oferece múltiplos
exemplos de projectos que continuam a associar o ideário pacifista à necessidade de
congregar as nações e os povos europeus.
De entre os múltiplos projectos individuais deste século destacamos apenas os
que nos parecem mais elucidativos. É de todo esclarecedor enunciá‐los:
• Projecto de Saint‐Simon, que, em 1814, preconiza, no estudo, em co‐autoria
com o seu discípulo Augustin Thierry, Da Reorganização da Sociedade
Europeia uma Europa de estrutura federal que deveria girar em torno da
França, Grã‐Bretanha e da futura Alemanha reunificada. Como defendera
Kant, também Saint‐Simon postula o princípio democrático de organização
da futura sociedade europeia.
• Benjamin Constant no texto intitulado Do Espírito da Conquista e da
Usurpação nas relações com a civilização europeia defende um federalismo

8
Maria Manuela Tavares Ribeiro, op. Cit, p. 42. Leia‐se a este propósito Edgar Morin, Penser l’Europe, Paris,
Gallimard, 1987, p.20.
46
assente na União pacífica dos povos europeus e no respeito da liberdade
das nações federadas.
• Ernest Renan advoga em 1870, em plena guerra franco‐prussiana, a
formação da federação europeia como meio de aproximar as duas nações
tradicionalmente antagónicas. Neste sentido, podemos considerar este
projecto como o embrião do que viria a ser, oito décadas depois, a
Declaração de Schuman. Numa carta datada de 1871, Renan identificava a
Europa como uma Confederação de Estados reunidos por uma ideia comum
de civilização. Na realidade, esta abordagem significava que, como na
democracia, importava respeitar a individualidade de cada nação
construída sobre a língua, a raça, a história, a religião. Estas soluções,
porém, suscitavam a questão igualmente urgente de conhecermos a sua
legitimidade. Esta adviria, por um lado, do consentimento dos cidadãos no
seio dos seus Estados e, por outro lado, do consentimento dos Estados, de
todos os Estados, em relação ao actor fundador da Federação.
• O movimento federalista do século XIX alcançou ampla projecção com a
realização de congressos internacionais também designados – Congressos
de Paz.9 No Congresso de Paris, Vítor Hugo preconizava que um “dia virá
em que existirão dois grupos imensos, os Estados Unidos da América e os
Estados Unidos da Europa (…). No século XX haverá uma nação
extraordinária e esta nação terá por capital Paris e não se chamará França,
chamar‐se‐á Europa (…)”.

Deve‐se notar que nos finais do século XIX, os nacionalismos entraram em rota de
colisão. De facto, a partilha dos territórios coloniais de África e da Ásia agudizou os
tradicionais antagonismos entre as potências europeias, tornando‐se um factor
permanente de disputas. Como afirma João Mota de Campos, a “Guerra de 1914‐1918 viria
tragicamente impor uma interrupção brutal e sangrenta nos esforços, até aí bem
sucedidos, no sentido do estreitamento da cooperação europeia.”

9
Em meados de oitocentos realizaram‐se vários Congressos de Paz. A saber: 1848, em Bruxelas; 1849, em
Paris; 1850, em Frankfurt.
47
Neste pano de fundo é de todo útil e importante indagar se se esvaiu ou não a
ideia de Estados Unidos da Europa. Este clima de tensão e conflito obriga a equacionar
uma vez mais, a questão de paz na Europa. Que Europa? Que Estados Unidos da Europa?
Como tem sido sugerido, foi no período entre as duas guerras mundiais, em pleno
século XX, que se assistiu à formação de um clima particularmente favorável à divulgação
do ideal de unidade política europeia.
A este propósito, pode e devem considerar‐se as propostas de Luigi Einaudi que
defendia a “necessidade de congregar os povos europeus que acabavam de sair de uma
luta prolongada e cruel e de os solidarizar na construção de uma Europa unida. (..)”10Na
mesma linha surge a proposta de Coudenhove‐Kalergi na sua obra Paneuropa, de 1923,
inspirada, nitidamente, na constituição dos Estados Unidos da América. Kalergi defendia a
criação da União Paneuropeia que não deveria, contudo, integrar a Rússia e a Grã‐
Bretenha. Defendia ele que só assim se poderia garantir a paz nas relações entre as
nações europeias no tocante à necessidade de assegurar a defesa comum da Europa
contra a política hegemónica da Rússia e o poderia económico dos Estados Unidos.
Devemos ter, ainda, em linha de conta a proposta de Aristide Briand apresentada à
Sociedade das Nações, em 1928, de criação de uma federação chamada União Europeia. A
ideia foi aprofundada e desenvolvida num Memorando do governo francês, em 1930,
onde se preconizava a criação de uma união regional europeia no quadro da Sociedade
das Nações. Esta proposta francesa revestia, contudo, maior realismo quando se referia à
vertente económica da União. Esta deveria promover “a aproximação das economias dos
Estados europeus, realizada sob a responsabilidade política dos governos solidários”.
Em suma, entre a década de trinta e a II Guerra mundial, a ideia da União política
na Europa sucumbiu perante acontecimentos adversos como a crise económica e social e,
em particular, a ascensão ao poder do partido nacional‐socialista na Alemanha e a política
de agressão militar e conquista prosseguida pela Itália, Alemanha e União Soviética.
Vozes favoráveis à federação europeia resistem. Como exemplo para ilustrar claramente
esta questão pode‐se relembrar, entre outros, os nomes de Henri Brugmans, Alexander
Marc Salvador de Madariga, Altiero Spinelli, Ernesto Rossi e Coudenhove‐Kalergi.

10
Cf. João Mota Campos, Direito Comunitário, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, vol.I, 8ª ed., 1997,
p.30.
48
Num contexto de crise económica e social, melhor dizendo em plena guerra, um
projecto concreto de unificação triunfa: ‐ o Tratado da União Aduaneira (1944) entre os
governos no exílio da Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo (BENELUX).
No fim do segundo conflito Mundial, o debate, a retórica europeísta é retomada
no célebre discurso de Winston Churchill de 19 de Setembro de 1946, em Zurique. Perante
uma Europa arruinada, devastada, Churchill advoga a criação de “uma estrutura que
permita [à Europa] viver e crescer em paz, em segurança e em liberdade.” E para tal
dever‐se‐ia criar uma espécie de Estados Unidos da Europa. Nesse sentido, o “primeiro
passo a dar é criar um Conselho da Europa. Se no início nem todos os Estados europeus
quiserem ou puderem aderir `União, cumpre unir, ao menos, os que o desejam ou sejam
capazes de fazê‐lo (…). Para realizar esta missão urgente, França e Alemanha devem
reconciliar‐se”. Neste discurso, Churchill resumia numa frase a posição da Grã‐Bretanha
no desígnio europeu – “we are with them, but we are not of then…”
Em face da necessidade de restabelecimento da paz e reconstrução da Europa e,
perante a certeza que estes objectivos só seriam viáveis mediante uma congregação de
vontades, muitas questões se levantam. Como iniciar o projecto europeu? Que
solidariedade subjaz ao projecto europeu? Deveria a Europa ser uma construção política
com instituições comuns como propunham os teóricos federalistas ou uma Europa com
as suas matrizes culturais comuns, como defendiam os intelectuais? Uma federação sob
uma autoridade supranacional? Ou ainda uma união de Estados como pretendia Churchill?
Ocorre chamar à colação o facto de que a corrente de pensamento federalista não
conseguiu mais que a constituição de um vasto movimento de opinião em defesa das
suas teses, que não lograram concretizar‐se na criação de uma qualquer forma de
organização internacional que antecipasse a Federação Europeia.
Importa, assim, relembrar que os anos de 1947 e 1948 registam um conjunto de
acontecimentos11 que estarão na origem do processo que há‐de culminar, em 1951, na
criação da primeira Comunidade Europeia pelo Tratado de Paris.
Podemos referir, em primeiro lugar, a união que se fará entre os Estados da
Europa Ocidental por iniciativa e apoio dos Estados Unidos – Plano Marshall de 5 de
Junho de 1947. Em segundo lugar, a criação da Organização Europeia de Cooperação

11
As primeiras entidades institucionais que a Europa vai conhecer visam antes responder a preocupações de
defesa.
49
Económica (OCDE12) pela Convenção de Paris de 16 de Abril de 1948. Em terceiro lugar,
figura a criação de uma União militar no quadro da União da Europa Ocidental (UEO), em
1948. Em quarto lugar, a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO),
em 1949, e à qual se associariam também países não europeus como os Estados Unidos e
o Canadá.
Como facilmente se compreende, foram também criadas instituições de interesse
económico como a Organização Europeia de Cooperação Económica (1948), e que, em
1960, recebe como membros os Estados Unidos e o Canadá convertendo‐se, deste modo,
na Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico.
É importante sublinhar que entre 7 e 11 de Abril de 1948, decorreu em Haia o
chamado Congresso da Europa. Neste congresso, os debates foram dominados pela
oposição entre unionistas, corrente formada, na sua maioria, por delegados britânicos, e
federalistas, com forte apoio entre os delegados franceses, italianos, belgas, holandeses
e, no que respeita a categorias sociais, entre os sindicalistas. No Congresso de Haia o
consenso possível permitiu a aprovação de uma moção final que originaria a criação do
Conselho da Europa, em 1949.
Em suma, pode dizer‐se que, na década de quarenta, a ideia europeia e o modelo
federativo foram sendo crescentemente agitados de forma mais adequada para a sua
vertebração institucional e organizatória. (Rui Moura Ramos). Importa reconhecer que
todos os projectos institucionais que se formaram na sequência do Congresso de Haia
passam a defender uma estratégia que confere prioridade à componente económica
sobre a componente política no processo de integração europeia. Abre‐se, deste modo,
caminho para a histórica Declaração de Schuman (1950) que constitui o primeiro passo
conducente à criação da Comunidade Económica do Carvão e do Aço, em 1951.

12
A OECE seria substituída em 1960 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico
(OCDE) que, ultrapassando a sua vocação inicial puramente europeia, acolhe Estados não europeus, como
os EUA, o Canadá, o Japão. A este propósito leia‐se João da Mota Campos, Organizações Internacionais,
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1999, p. 577.
50
4 Portugal e a ideia de Europa
Pela apreciação das reflexões anteriormente produzidas sobre a Ideia de Europa
podemos concluir que a construção da Europa é, e será sempre, um “permanente e
complexo fieri” que tem apaixonado e mobilizado, em diferentes épocas e em diversos
países europeus, pensadores, teólogos, historiadores, economista, enfim intelectuais,
com a sua capacidade crítica e criadora.
Tendo em conta o objectivo para que é convocada aqui e agora esta reflexão,
parece‐nos também importante indagar o que se passa em Portugal. Quais são os olhares
portugueses sobre a construção europeia? Terá Portugal acompanhado as principais
etapas da construção da Ideia de Europa? Sendo assim que lugar ocupa a Europa então,
no imaginário português? Qual o contributo da intelectualidade portuguesa para a
construção identitária europeia? Existiram projectos concretos? Se sim, com que
conteúdo? Com que sentido?
Existe uma certeza, largamente difundida, segundo a qual Portugal terá
acompanhado os principais acontecimentos da génese e evolução da ideia de Europa
interessando‐se, com maior ou menor vivacidade, pelo destino europeu, mas de forma
sempre irregular e desigual conforme os condicionalismos políticos internos e, de acordo
com as circunstâncias e especificidades de cada época.
Ao lermos a história de Portugal verificamos que mantivemos sempre um
constante intercâmbio político‐cultural com a Europa.13Mas foi com a perspectiva da
interculturalidade construída sobre a experiência da alteridade e diversidade situada
entre a singularidade das situações e a universalidade dos valores que, Portugal, na época
dos Descobrimentos, esteve na vanguarda do espírito europeu.
Como bem se sabe, mas nunca será demais relembrar, proporcionou‐se neste
período o encontro de culturas, de mentalidades. No entanto, a gesta dos
Descobrimentos significou também um afastamento de Portugal da Europa. Portugal
volta‐se para os seus interesses ultramarinos.
Pode dizer‐se, sem exagero, que a Europa enquanto tema jamais se desvaneceu
nos textos portugueses dos séculos XVI, XVII, XVIII. Para ilustrar esta tese podemos
convocar, a título de exemplo, a visão europeia de D. João V e dos seus diplomatas
13
Para um aprofundamento desta ideia leia‐se Maria Manuela Tavares Ribeiro, “Portugal e o novo Desafio
Europeu” in Olhares sobre a Europa, Coimbra, Quarteto, 2002.
51
Alexandre de Gusmão e Manuel de Azevedo Fortes, bem como o testamento político do
ministro D. Luís da Cunha. São também de referir, nomes como Luís António Verney –
verdadeiro método de estudar, Ribeiro Sanches – cartas sobre a educação da mocidade;
Manuel Gomes de Lima Bezerra – os estrangeiros no lima e a Marquesa de Alorna. No
entanto, não há registo de um projecto português sobre a união europeia com a
excepção de uma curiosa e original iniciativa, no século XVI, atribuída a D. Manuel I, “no
esforço que empreendeu junto do Papa Leão X, para conseguir a união da Europa numa
época em que esta se transformava ‘num campo de batalha’”.
Uma reflexão sugestiva para o debate destas questões, estimulada pela leitura da
obra de Almeida Garrett – Portugal na Balança da Europa, de 1830, incidirá, por certo,
sobre a situação político‐cultural portuguesa e considera “como primeira a nossa
Europa”.14
Não deixa de ser sintomático que, no século XIX, com os testemunhos em cartas,
em memórias, em relatos de viagem, em romances ou poesias, os exilados liberais
conferiram um novo fulgor ao debate europeu em Portugal. Neste contexto, e como
refere Maria Manuela Tavares Ribeiro, no seu artigo – Portugal e o novo desafio Europeu,
“fala‐se do equilíbrio europeu na obra de Solano Constâncio; idealiza‐se um Congresso
das potências europeias no projecto de José Máximo Pinto da Fonseca Rangel; e Vicente
Ferrer Neto de Paiva (…) define e projecta organicamente a consolidação da paz
universal a partir de uma associação europeia”.
O século XIX português é caracterizado por uma forte e urgente vontade de
assimilar o “espírito moderno” que animava a Europa como nos dá conta a Questão
Coimbrã (1865), as Conferência Democráticas do Casino Lisbonense (1871), entre outras
iniciativas. Neste contexto, ganham acuidade as palavras de Eça de Queirós no In
Memoriam a Antero de Quental – “a ideia de que da Europa vem a aurora, vem a
redenção, vêm as coisas novas…”. É também a esta luz que se devem ler as palavras de
Antero de Quental, em 1871, na sua conferência sobre as Causas da Decadência dos Povos
Peninsulares – “ligar Portugal com o movimento moderno”, insistindo também em
“procurar adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam, na Europa”.

14
Cf. Fernando Augusto Machado, “Portugal na ‘balança da Europa – das representações estrangeiras à
leitura estratégica de Garrett” in Diacrítica, Filosofia e cultura, n.º 17/2, 2003, pp. 141 a 182.
52
Assim, assistimos, em Portugal, desde finais de Oitocentos até às primeiras
décadas do século XX, a um período de grande intervenção no âmbito da polémica sobre
a unidade europeia. Na verdade, a ideia de federalismo europeu é defendida por muitos;
outros, apesar de simpatizantes do conceito, consideram‐no de difícil realização no
quadro da conjuntura da época. Podemos afirmar que, regra geral, a sociedade civil
preocupa‐se e interessa‐se pelo destino do Velho Continente.
Este horizonte permite entender a consciência de que Portugal é um país europeu,
embora não esqueça os seus interesses ultramarinos que se encontram plasmados em
espaços pluricontinentais não concebidos como uma extensão do território
metropolitano, como se defenderá no regime salazarista, mas entendidas, no dizer de
António Martins Silva, “na sua exacta dimensão, como domínios coloniais subordinados à
metrópole de um Portugal que é exclusivamente europeu e não pluricontinental”. Em
suma, existe a convicção de que os destinos europeus não nos são indiferentes e que, por
eles, temos que ajudar a salvaguardar a paz, restabelecer a prosperidade e recuperar a
dignidade europeia abalada pela guerra.
É de todo oportuno perscrutar a posição portuguesa e as suas estratégias a partir
dos anos trinta. Qual é o posicionamento do Estado Novo perante o processo de
construção europeia? O que é a Europa na ideologia salazarista?
A partir desta época verifica‐se um gradual afastamento de Portugal deste
universo europeu. Este facto poderá encontrar‐se em exemplos como a não participação
no Congresso de Haia, em Maio de 1948, ou a não integração de imediato no Conselho da
Europa. Estas acções inscrevem‐se nas reservas que o avanço de uma Europa
comunitária, democrática, suscitava ao regime salazarista e aos seus ideólogos.
Pode afirmar‐se que a principal razão da hostilidade salazarista ao projecto de
união europeia era o perigo que nele via para o regime político português criado pelo
próprio Salazar e com o qual se identificava.
A matriz ultramarina interessou sempre mais a Salazar que a Europa Continental.
Para perceber a extensão e o alcance deste postulado atentemos nas suas próprias
palavras: “Se a federação vier pois a constituir‐se e se, como é provável, continuar a
impor‐se a política dos grandes espaços, pode visionar‐se a possibilidade de se irem
apertando mais e mais os laços de Portugal com o Brasil e a Espanha e da Espanha com as

53
repúblicas do centro e do sul da América, de modo que um grande bloco iber‐americano
seja, ao lado da Comunidade britânica, e mesmo sem atingir o grau da sua estruturação
constitucional, um factor político de grande relevo, pela população, a riqueza potencial
ou existente e a cultura ocidental.”15
Interessa, no entanto, ter em conta que uma certa abertura à Europa, em larga
escala determinada por razões económicas, aconteceu ao tempo de Salazar.16Mas
também é verdade que este estadista repudiava, todavia, o parlamentarismo ou qualquer
solução federalista europeia17. Em termos muito concretos, e como conclui Maria
Manuela Tavares Ribeiro, “no plano estratégico, Salazar era um europeísta, porém
prevaleceu a sua visão atlântica da política externa portuguesa, isto é, sustenta‐se uma
concepção euro‐americana e euro‐africana de um regime, o do Estado Novo, que optou
pelo isolamento e distância em relação à Europa em (re)construção.”18
A viragem ocorria nos primeiros anos da década de setenta, ainda que
paulatinamente. Como refere António Martins da Silva o “debate interno sobre a
aproximação de Portugal à Europa não ultrapassou o quadro de declarações bem
intencionadas mais ou menos europeístas e de uma actuação efectiva de reforço das
nossas relações económicas com o Mercado Comum. A natureza institucional das
comunidades europeias e a problemática do aprofundamento não produziram ecos
audíveis.”19

15
Cf. Circular sobre a Integração Europeia, para as Missões Diplomáticas, do Presidente do Conselho de
Ministros, de 6 de Março de 1953. Leia‐se também Manuel Loff, Salazarismo e Franquismo na Época de Hitler,
Porto, Campo das Letras, 1996, pp. 314‐337.
16
Relembre‐se a integração na Organização Europeia de Cooperação Económica (OECE) criada, em 16 de
Abril de 1948, em resultado do Plano Marshall, adesão, como membro fundador à Organização do Tratado
do Atlântico Norte, em 4 de Abril de 1949, bem como a integração posterior na ONU, em 14 de Dezembro
de 1955.
17
Manifestando‐se claramente tradicionalista, antiliberal, antidemocrático, anticomunista, o regime do
Estado Novo rejeita os intentos de união europeia nos sentidos federativo ou mesmo de confederação.
Essa posição será marcante sobretudo nos discursos de Salazar e na produção dos ideólogos do
salazarismo, nomeadamente do historiador do regime, João Ameal. Salazar afirmará a este respeito que
estas ideias eram “congeminadas nos gabinetes, completamente dissociadas das realidades históricas e
étnicas, motivadas por uma perigosa ingenuidade utópica ou por interesses obscuros” e “artificialmente
decretadas ou impostas” por “super‐Estados hegemónicos com os seus Estados‐vassalos”. A este
propósito leia‐se: António de Oliveira Salazar – Discursos e notas políticas, IV, 1943‐1950 apud Norberto
Ferreira da Cunha – O Salazarismo e a Ideia de Europa in Ernesto Castro Leal (coord.) – O federalismo
europeu: história, política e utopia: actas do Colóquio. Lisboa: Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras,
Instituto de História Contemporânea: 2001, p.153.
18
Maria Manuela Tavares Ribeiro, op. Cit., p.55.
19
António Martins da Silva, “Portugal e a ideia Federal Europeia – Da República ao fim do Estado Novo” in
Portugal e a Construção Europeia, Coimbra, Livraria Almedina, 2002, p. 99.
54
Ora, este desinteresse português pela Ideia de Europa persistirá no período da
revolução de Abril de 1974 e mesmo no período pós‐adesão. O interesse demonstrado
pelo meio académico e cultural, nomeadamente a partir de Maastricht e, muito
particularmente a partir da CIG96, constituirá um inestimável contributo para a
emergência em Portugal de um interesse mais visível pelo destino da Europa e pela sua
arquitectura institucional.

5 Conclusão
A reflexão sobre a Europa continua. Urge uma redefinição de conceitos como o de
universalidade, de particularidade, de nacionalidade e de cidadania.
Estamos em crer que a construção europeia continuar‐se‐á a fazer na “simbiose do
uno e do múltiplo”é precisamente a cultura e a sua expressão em termos de unidade na
diversidade que tornará viável e mais atraente o ideal de união.
Se as funções, hoje, da União Europeia são de tentar uniformizar as normas que
regem as produções, de consolidar e desenvolver a aceitação da moeda única, de regular
as administrações financeiras, de ajudar os países em vias de desenvolvimento, não nos
podemos esquecer que estas funções são complementares e derivadas da ideia básica de
assegurar a paz que estive na origem da sua criação. O sonho continua pois como
afirmava Edgar Morin a Metamorfose está inacabada.20

Referências
CAMPOS, João Mota, Direito Comunitário, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, vol.I, 8ª
ed., 1997.
CAMPOS, João Mota, Organizações Internacionais, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian,
1999.
CARPANTIER, Jean e Lebrun, François, História da Europa, Editorial Estampa, Lisboa, 1993.

20
Edgar Morin, Penser l’Europe, Paris, Gallimard, 1987, p.217.
55
LOURENÇO, Eduardo, A Europa Desencantada para uma mitologia Europeia, Gradiva,
Lisboa, 2001.
MACHADO, Fernando Augusto, “Portugal na balança da Europa – das representações
estrangeiras à leitura estratégica de Garret” in Diacrítica, Filosofia e Cultura, n.º 17/2, 2003,
pp.141 a 182.
MOREIRA, Adriano, “A Europa da Utopia e a outra Europa”in Estudos do Século XX –
Europa‐Utopia/Europa‐Realidade, n.º2, Coimbra, quarteto, CEIS20, 2002, pp.61 a 82.
MOREIRA, Adriano, A Europa em formação (A crise do Atlântico), 4ª ed., Lisboa,
Universidade Técnica de Lisboa, 2004.
MORIN, Edgar, Penser l’Europe, Paris, Gallimard, 1987.
O Federalismo Europeu – História Política e Utopia, coord. Leal, Ernesto Castro, Lisboa,
Instituto História Contemporânea da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa,
Edições Colibri, 2001.
PEREIRA, Miguel Baptista, “Europa e Filosofia” in revista Filosófica de Coimbra, vol.2, n.º4,
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RAMOS, Rui Moura, Das Comunidades à União Europeia, Coimbra, Coimbra Editora, 1994.
RIBEIRO, Maria Manuela Tavares, A Ideia de Europa – Uma perspectiva histórica, Coimbra,
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RIBEIRO, Maria Manuela Tavares, “Portugal e o Novo Desafio Europeu” in Olhares sobre a
Europa, Coimbra, Quarteto, 2002.
SILVA, António Martins da, “Portugal e a ideia Federal Europeia – da República ao fim do
Estado Novo” in Portugal e a construção Europeia, coord. Ribeiro, Maria Manuela Tavares
et al., Coimbra, Livraria Almedina, 2002.
STEINER, George, A Ideia de Europa, Lisboa, Gradiva, 3ª edição, 2006.
VASCONCELOS, Álvaro, Conversas com José Calvet de Magalhães – Europeístas e
isolacionistas na política Externa portuguesa, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2005.

56
E o corpo passa a ser tecido: uma análise da construção do corpo
feminino e das relações de gênero no Jornal das Moças e nos
processos‐crime de defloramento em Caicó/ RN (1900‐1945)

Edivalma Cristina da Silva


Bacharela e Licenciada em História – UFRN
edivalma@hotmail.com

Resumo
Este artigo tem como objetivo visualizar a construção do corpo feminino tecido pelos
discursos jurídicos e jornalísticos, analisando de que forma as representações do feminino
estão entrelaçadas por poderes e saberes que constroem gêneros e papéis inteligíveis,
corpos “ideais”. Apresentamos uma discussão dialógica sobre corpo, sexualidade e
gênero e análise dos discursos de artigos do Jornal das Moças e processos‐crime de
defloramento, em Caicó/ RN, entre 1900 e 1945 para visualizarmos a construção sócio‐
histórica do corpo, a qual acaba transformando as diferenças em desigualdades de
gênero.

Palavras‐chave
Corpo, Feminino, Sexualidade

57
1922. Emerge mais um crime de defloramento no município de Caicó, no Sítio Boa
Vista. Umbelina, “moça recatada”, “tôla” e “honesta” como assim fazem crer as
testemunhas, deixa‐se seduzir e deflorar‐se por Salustiano Carneiro que com seus
galanteios, afagos e agrados consegue levá‐la ao coito, cedendo a “pobre infeliz”.
Esta menina desde cedo foi ensinada por seus pais que seu corpo constituía‐se em
um altar sagrado em que repousa a flor da pureza, guardada em sua virgindade. Criada a
imagem da Virgem Santíssima Maria, dentro de círculo rígido de condutas,
comportamentos e honra, este corpo não devia transcender o espaço de sua casa,
guardando‐se para um bom casamento, ser boa mãe e dona de casa. No entanto, esta
menina cresce e embora resguardada em seu lar aprende a conhecer os prazeres que a
vida lhe oferece, despertando para os olhares masculinos e suas seduções.
Salustiano Carneiro freqüentava assiduamente a casa de Idelfonso, pai da menor
Umbelina, enquanto um rapaz de confiança “porque era casado com uma sobrinha do
mesmo”1, não lhe dando nada a desconfiar. Salustiano é visto pelas testemunhas
enquanto sedutor e metido a namorador, de forma que elas testemunhas são unânimes
quanto à má conduta do réu, alegando que “o denunciado Salustiano conseguiu deflorar
Umbelina por meio de palavras jocósas, pois ele é dado a empresas desta natureza, tendo
segundo lhe consta, deflorado uma sobrinha della testemunha”2. Esta confiança foi
quebrada através da desonra que agora pairava sobre a casa de Idelfonso, através dos
atos libidinosos e “pecaminosos” de sua filha. Com insistentes galanteios e seduções,
embora a vítima tenha argumentado uma constante resistência física à prática do ato
sexual, cedeu encharcada na esperança rósea, marcando entre eles a noite seguinte para
terem relações sexuais. Como combinado Salustiano Carneiro, com a sede de seu instinto
sexual, jogou bolões de barro no telhado do quarto de Umbelina, a qual reconhecendo a
chegada do mesmo, cedeu e deixou‐se deflorar aos arredores de sua casa.
Idelfonso sentiu sua honra ferida através dos atos de sua filha, por isso procurou a
Justiça para limpá‐la, alegando que só notou o defloramento dela porque sua esposa
“notará a suspensão das regras de sua filha”3, devido a gravidez. As vozes polifônicas
desenham o corpo de Umbelina enquanto “ser” bôbo, ingênuo, ignorante, uma criança

1
Processo‐crime de sedução e defloramento, nº 3777, maço 20, ano de 1932. fl 20
2
Op cit. Fl.26
3
Op cit, Fl 06
58
enganada, o que propiciou a sedução. Assim atesta uma testemunha que “acha que foi
pela ingenuidade, ignorância, matutice que a offendida cedeu a sua honra aos galanteios
sedutores do denunciado”4. A própria promotoria da Justiça recalca sua defesa na
emotividade “natural” do feminino, reforçando a imagem de mulher frágil.
Embora Idelfonso tenha procurado a Justiça para limpar a honra5 familiar e de sua
filha, conseguindo a condenação do réu por sedução e defloramento, ela ainda continuou
manchada, pois não foi possível nem casar a filha, nem prender o réu Salustiano, pois
esse havia fugido para um lugar indeterminado, antes de terminar o processo, não
chegando nem mesmo a defender‐se.
O corpo de Umbelina deixa de pertencê‐la quando publicisado pela Justiça
passando a ser tecido pelos discursos jurídicos e médico‐higienistas. Percebemos, então,
a identidade feminina e a masculina pensada pela Justiça enquanto meios de reafirmação
natural de um corpo sexuado calcado em papéis de gêneros inteligíveis e bem
delimitados, com subjetividades binárias reguladas pelos efeitos “verdade" sobre o sexo
e sobre a sexualidade e dos confrontos sociais e políticos6.
Este corpo passa a receber incidência profunda das novas técnicas e práticas7
corporais ditas “modernas” na busca da ordem, do pudor e da pureza feminina,
emergente a partir da modernidade através dos discursos moralizantes e normatizantes.
Pensamo‐lo dentro de uma esfera mais abrangente: o corpo social. Dessa forma, retirar
do corpo social as mazelas do atraso torna‐se a ordem do dia! Moralizar o indivíduo pelo
trabalho, pois este lhe portava de atributos morais, de forma que “o que se desejava não
era a punição pura e simples do indivíduo, mas sim sua reforma moral”8. Emergem
saberes – baseado nos ideais de Ordem e Progresso – com o objetivo claro de higienizar o
espaço urbano, o corpo social e o corpo feminino.

4
Op cit. Fl.24
5
As entrevistas realizadas mostram que o casamento amenizava o teor simbólico e cultural da “perda” da
honra, de forma que através dele a mulher voltaria a ter uma vida “normal” como antes do defloramento,
podendo ir a bailes, circular normalmente pela sociedade com o esposo. Todavia, percebemos que embora
haja o reconhecimento social do corpo defendido, pesa sobre ele o peso de sua mancha, estigmatizado
pelo defloramento. Antonia nos falou que embora as mulheres desonradas casassem, os atos corporais
continuariam a ser lembrados e relembrados, por terem sido tatuados no corpo social: o corpo marcado.
6
BESSA, Karla. O crime de sedução e as relações de gênero. In: BASSANEZI, Carla (org.). Cadernos Pagu:
Sedução, tradição e transgressão. São Paulo: 1994. P. 175‐196.
7
DEL PRIORE, Mary. Corpo a corpo com a mulher: pequena história das transformações do corpo feminino
no Brasil. São Paulo: Editora Senac, 2000.
8
CHALHOUB, Sidney. Trabalho, Lar e Botequim: O cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da Belle
Époque. São Paulo: Editora unicamp, 2001. P. 71
59
Com a modernidade novas práticas corporais são instituídas através de
tecnologias inovadoras que passam a incidir diretamente sobre o corpo social9. A
modernidade enquanto conceito sócio‐econômico designa mudanças sociais e
tecnológicas, como demonstra Sevcenko (1998), as quais alcançaram grande
desenvolvimento no fim do século XIX: industrialização e urbanização dos complexos
citadinos, o rápido aumento demográfico, os meios de consumos e a implantação das
diversas tecnologias que levaram ao desenvolvimento. Essas tecnologias começam a
partir do final do século XIX a perpassar o cotidiano das pessoas residentes em Caicó,
propiciadas pela divulgação do consumo de mercadorias (xaropes, bebidas, emulsões,
vestimentas, sapatos) que representassem a modernização dos costumes em
consonância com os ditames do progresso, através das idéias da “moda francesa” trazida
pelas várias mercadorias que passaram a circular no espaço citadino caicoense.
As tecnologias da modernidade como os automóveis, os vestidos fumegantes, as
luvas, os chapéus, os bailes, os cinemas, as praças se constituíram enquanto instigadores
de práticas civilizadoras e progressistas que tendiam a instituir “verdades” sobre o corpo
e o sexo, através de práticas reguladoras moralistas e normalistas. Percebemos então
que casos como os de Umbelina se tornavam cada vez mais incidentes, instigando formas
de se corrigir o corpo infligidor da ordem e reforçando através de seus atos, a
moralidade, levando‐nos a indagar que corpos femininos foram tecidos pelos juristas,
médico‐higienistas e jornalísticos, voltando o olhar para a constituição de um regime de
saber/ poder que tece o corpo feminino calcado em uma suposta “natureza” inata para a
maternidade, passividade, submissão e fragilidade, ligada a sua capacidade de reproduzir,
desprovida de desejos e poço de uma emotividade “natural” ao ser feminino. Ao
analisarmos o corpo atentamente percebemos de que forma as relações de poder
produzem “verdades” e discursos “verdadeiros” sobre esse corpo, sobre o sexo e a
sexualidade, imputando‐lhe diferenças que acabam solapando‐as em desigualdades entre
os gêneros, através da produção de um corpo sexuado10.

9
PERROT, Michele. Os silêncios do corpo da mulher. In: MATOS, Maria Izilda S de; SOIHET, Raquel (Orgs.) O
corpo feminino em debate. São Paulo: Editora Unesp, 2003. P. 13‐28;
10
SWAIN, Tânia Navarro. Feminismo, corpo e sexualidade. In: RIAL, Carmem Silvia Moraes; TONELI, Maria
Juracy Filgueiras. Genealogias do Silêncio: Feminismo e Gênero. Florianópolis: Ed mulheres, 2004. P. 183‐
193.
60
Percebemos que a liberalização do corpo feminino, trazida pelos “ares”
modernos, eleva a necessidade de se criar o sexo normativamente aceitável e útil e a
constante análise da conduta sexual do indivíduo como meio de interdição, intervenção e
instauração de saberes sobre o sexo, de forma a controlar sua circulação sobre as esferas
públicas e privadas. A normalidade do sexo será analisada na esfera pública, onde a
Justiça Estatal intervêm em crimes que “mancham” a ordem e a honra da família e do
Estado. Esse processo de “racionalização do sexo” a partir da normalização das condutas
se faz sentir através dos discursos propalados pelo Jornal da Moças e nos processo‐crime
de defloramento, perpassando os discursos polifônicos dos juristas, médicos, réus,
testemunhas, vítimas, promotores públicos, juízes. A “ciência do sexo” circunscreve uma
jurisprudência sexual que tem como objetivo cristalizar as representações do feminino e
do masculino, através de uma matriz heterossexista, monogâmica e falocrática,
construindo e naturalizando papéis sexuais ideais para homens e mulheres. Neste viés, os
dispositivos da sexualidade, o poder e a produção de discursos “verdadeiros” sobre o
sexo e sobre os corpos, deslocam‐se das mãos da Igreja Católica para o âmbito da
medicina, da psiquiatria, da pedagogia, da família e da Justiça, constituindo uma rede
capilar de micropoderes que tem como alvo o corpo. Disciplinar este corpo, docilizá‐lo,
torná‐lo útil, desde criança11, através das “verdades” construídas para o sexo e para a
sexualidade.
Todavia, essa “tecnologia do sexo” perpassa o cotidiano das pessoas através de
redes capilares de micropoderes e saberes. O surgimento da sexualidade enquanto
discurso está atrelado à construção da verdade sobre o sexo e a técnicas de poder.
Segundo Foucault (1997) a sexualidade constitui‐se enquanto um saber e dispositivo
historicamente construído, o qual age através de estratégias periféricas na incitação do
discurso, no reforço do controle do corpo e da intensificação dos prazeres, através de
técnicas polimorfas de saber e poder. Este dispositivo instalado a partir das sociedades
modernas liga‐se a economia do sexo através de minuciosas articulações que tem o corpo
como principal foco, sobre o qual inova, prolifera, reproduz, penetra sutilmente nos
corpos através do detalhes acumulados, de forma a controlar a população e suas formas

11
Sobre o conceito de disciplina, Ver: FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1995.
61
de desejo e prazer. Segundo Foucault (1995: 118) “o corpo está preso no interior de
poderes muito apertados, que lhe impõe limitações, proibições ou obrigações”.
A partir do dispositivo da sexualidade, podemos pensar o corpo feminino
enquanto produzido por discursos e pelo poder12. De acordo com Swain (2004) o
dispositivo da sexualidade, em Foucault, é a explicação da multiplicidade do poder para a
reprodução dos sistemas binários e inteligíveis na construção de corpos sexuados. Os
micropoderes investem, constroem e modelam o corpo, controlando‐o, de forma que
desenha seu perfil na identificação dos corpos e na proliferação das práticas sexuadas,
sem, no entanto, renunciar ao eixo reprodutivo e a hegemonia binária da sexualidade13,
de forma que Foucault (1997: 39) coloca que a explosão discursiva provocou um
movimento centrífugo em direção a uma monogamia heterossexual enquanto regra
silenciosa no campo dos prazeres e da sexualidade, funcionando cada vez mais enquanto
uma norma rígida. Afirmamos que esta matriz heterossexual regula os gêneros como
relações polarizadas e binárias em que as práticas de sexo e desejo acabam por
diferenciar e polarizar os termos “masculino” e “feminino”.
Dessa forma, afirmamos que o corpo sexuado naturalizado é um efeito discursivo.
O poder cria o corpo ao anunciá‐lo enquanto sexuado, ao transformar os “dados”
biológicos enquanto um fator natural onde se agrega significados e papéis inteligíveis ‐
masculinos/ femininos ‐ instituindo identidades polarizadas e binárias a partir da matriz
heterossexual e inteligível do sexo. De acordo com Swain, o que o poder cria é a
importância dada ao fator corporal, um sexo‐significação, de forma que o sexo‐discursos
produz corpos atribuindo um sexo‐significação de formas binárias em torno da
reprodução, em torno do sexo originário, ou seja, o reprodutor.
Segundo Swain torna‐se indissociável a significação corpórea da significação
discursiva atribuídas ao humano, na produção do sexo em experiências do gênero através
de matrizes de inteligibilidade. Dessa forma, pensamos através de Swain que a
diferenciação dos sexos, são construções sócio‐culturais da diferença biológica através
das quais produzem determinadas sexualidades. No caso do feminino, estas construções
culturais tendem a pensá‐la enquanto seu sexo, pela sua esfera reprodutora, uma vez o
corpo mulher constitui‐se enquanto estratégia, objeto e alvo de técnicas e dispositivos,

12
Pensamos a produção do corpo sexuado através das leituras dos discursos jurídicos e jornalísticos.
13
SWAIN, Tânia Navarro. Op Cit. P. 187
62
onde afirmamos que as representações de gênero se cristalizam na própria construção
do corpo sexuado.
Trilhando a desconstrução do gênero, Butler (2003: 38) retoma Foucault para
mostrar que essa “verdade” do sexo é produzida por práticas reguladoras que criam
identidades a partir de uma matriz heterossexual compulsória, instituindo normas de
gênero coerentes e estabelecendo oposições assimétricas entre o masculino e o feminino
expressados nos atributos “macho” e “fêmea”, de forma que se constrói gêneros
inteligíveis, ou seja, que mantêm relações de “coerência” e “continuidade” entre sexo,
gênero, prática sexual e desejo. Normas de inteligibilidade sexualmente instituídas e
mantidas, as quais asseguram a identidade de gênero.
Dessa forma, percebemos através da análise de artigos do Jornal das Moças e de
processos‐crime de defloramento, que a “verdade” do sexo é produzida por práticas
reguladoras que produzem identidades coerentes a partir de normas de gênero
coerentes, instituindo oposições assimétricas entre masculino e feminino e
cartografando‐os enquanto possibilidades de expressão do gênero. Uma vez que o corpo
de Umbelina entra em cena passa a ser tecido pela ciência enquanto descontínuo e
incoerente, enquanto o contra‐ideal, em detrimento de seu defloramento, pois
desestabiliza a coerência dos papéis de gênero e a construção discursiva do “sexo
natural” tecido pela justiça, pois é justamente sobre a concepção do “natural” que a
cultura passa a agir.
Nessa perspectiva é extremamente necessário ressaltar que pensamos o gênero
enquanto culturalmente e historicamente construído, não sendo resultado causal do sexo,
nem aparentemente fixo que nem o sexo14. Dessa forma, a própria unidade do sujeito
passa a ser contestada se olharmos o gênero enquanto significados culturais que são
constituídos pelo corpo sexuado através de discursos “verdadeiros” e práticas
reguladoras que constroem os modelos binários femininos e masculinos para a
sociedade, o que não reduz o gênero ao sexo.

14
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2003. P. 24
63
A própria produção do sexo e do corpo deve ser compreendida enquanto efeito
do aparato que chamamos de gênero, o qual “esconde” os mecanismos de sua produção.
Acrescenta Butler que

quando o status construído do sexo é teorizado como radicalmente independente do


sexo, o próprio gênero se torna um artifício flutuante, com a conseqüência de que
homem e masculino podem, com igual facilidade, significar tanto um corpo feminino
como um masculino e mulher e feminino, tanto um corpo masculino como um
feminino (2003, p. 24‐25)

Butler mostra que assim como o gênero é construído sócio‐histórico e


culturalmente, também o sexo o é, pois se o gênero decorre de significados culturais que
são adquiridos pelo corpo sexuado então não se pode afirmar que ele decorra fixamente,
independente da forma, de um sexo. Não devemos aceitar a concepção jurídica de
gênero enquanto reduzido a uma inscrição cultural significado num sexo dado, uma vez
que entendemos que os gêneros são significados culturais inscritos nos corpos sexuados,
de forma que ele não decorre do sexo, nem sexo decorre na natureza. Assim Butler nos
acrescenta que se o caráter imutável e unívoco do sexo pode ser problematizado e é
contestável é porque o próprio construto “sexo” é tão sócio‐historicamente construído
quanto o gênero, um efeito do que se designa gênero15. A desconstrução do gênero
possibilita a emergência dos sujeitos e suas subjetividades através de corpos
performáticos, desligando‐se do construto cultural corpo sexuado, o que pretendemos
analisar no segundo capitulo deste trabalho dissertativo.
A uniformidade do termo “mulher” passou a ser questionado, pois não é um
termo permanente, nem estável16 uma vez que este estabelece interseções com
modalidades de classe, etnias, raças, sexuais entre outras, de forma que se tornou
impossível pensar o gênero dentro de seu caráter relacional sem perceber os
entrecruzamentos sociais, culturais e políticos que o constituem. Dessa forma, falar em
gênero e em feminino é pensar em estruturas de relações e poder, que estabelecem
discursos e implementam hierarquias na sociedade através de uma pluralidade de

15
BUTLER, Judith. Op cit. P. 26
16
Os estudos feministas a partir da década 1990 mostram a necessidade de desconstruir às formas de se
pensar gênero a partir de uma esfera universal e universalizável, levando‐nos a pensar em mulheres,
femininos, homens, masculinos, sempre no plural, uma vez que trabalhamos com subjetividades,
experiências e com o caráter relacional do gênero.
64
sujeições, sejam elas étnicas, sociais, raciais entre outras. De acordo com Segato (1998)
afirmamos que o gênero não se torna observável nem mesmo em uma ordem empírica,
se o pensarmos enquanto constituído como o registro em que os indivíduos se instalam
ao adentrarem em redes de relações. Os papéis de gênero são resultantes de relações de
poder, os quais são organizados pela estrutura através de símbolos, pelos quais o poder
age minuciosamente.
Percebemos que a emergência discursiva de ideais corpóreos sexuados e
naturalizados são efeitos de práticas reguladoras que “trabalham” silenciosamente,
escondendo suas estratégias de criação e circulação. Estes discursos são marcados por
regularidades discursivas que determinam “o que pode ser dito”, “quem pode dizê‐los” e
“quando se pode dizê‐los” 17, uma ordem dos discursos que estabelece normalidades e
passa a existir através em um complexo de relações não somente negativas, mas
positivas que incidem diretamente sobre o corpo e sobre as sua circulação. Logo,
afirmamos que esses corpos naturalizados correspondem a corpos políticos,
metricamente pensados, disciplinados, “talhados” para corresponder a um corpo útil e
docilizado, de circulação perfeita dentro da ordem discursiva.
Neste viés, ideais corpóreos e identidades de gênero passam a ser difundido
através das revistas femininas18 e pela própria Justiça a cada processo‐crime julgado,
sustentado em uma nova sensibilidade que entra em transformações no século XIX,
refletindo relações perpassadas pelo amor romântico moderno. Esta mudança refletiu‐se
principalmente através da literatura, “a ficção romântica descreve uma atitude de amor
mais próxima a um estado da alma do que da atração física”. (D’incao, 1997: 233). O amor
passa a ser apresentado como um estado da alma, difundido principalmente através da
literatura romântica brasileira.
Duarte (1999) mostra que o sistema de significação que chamamos de cultura
ocidental está perpassado por relações que se entrecruzam em fenômenos ligados à
sensualidade, sexualidade e sensibilidade, categorias de pensamento que são incorporadas
pelos indivíduos inconscientemente. De acordo com Duarte, concomitantemente ao
dispositivo da sexualidade surge o dispositivo da sensibilidade, constituído por uma

17
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Rio de Janeiro: Zahar, 1997;
18
BASSANEZI, Carla. Revistas femininas e o ideal da felicidade conjugal (1945‐1964). In: Cadernos Pagu: De
trajetórias e sentimentos. São Paulo: Unicamp, 1993. P. 111‐143
65
perfectabilidade moderna ‐ a idéia de que o humano pode se aperfeiçoar constantemente
‐ mas que só pode desenvolver‐se através da experiência em relação ao mundo exterior
que vai resultar no fisicalismo, ou seja, na corporalidade em si, implicando em algumas
modificações na forma de se perceber e sentir o corpo, construindo “sentidos” que
possibilitam ao indivíduo estabelecer relações mais amplas com o mundo exterior. Esta
sensibilidade ocidental vai refletir‐se nos romances e que se torna um veículo de incitação
dos sentidos que perpassa até dias atuais implicando em mudanças no comportamento
sexual, em novos estilos de vida sobrepostos ao tradicional, em desenvolvimento de
tecnologias que produzem a longevidade e a qualidade do corpo, entre outros. Dessa
forma, pensamos que este dispositivo da sensibilidade se faz sentir, a partir da
modernidade, em toda uma excitação dos sentidos e de uma preocupação maior com o
corpo: o teatro, o cinema, os dancings, a higiene, as especialidades médicas de saúde –
odontologia, ginecologia, psiquiatria – todos esses instrumentos contribuíram para uma
ampliação da sensibilização do corpo.
Dessa forma, afirmamos que este dispositivo de sensibilidade pode ser sentido
através dos artigos e crônicas veiculados pelo Jornal das Moças retratando novas forma
de visibilidade e sensibilização para o corpo feminino. Ao lado da sexualidade, os
discursos jornalísticos passam a difundir novas sensibilidades, calcado no amor romântico
e centrado na relação conjugal e familiar, como mostra D’incao a partir das análise da
sensibilidade burguesa. O Jornal das Moças passa modelos idealizados de feminilidade,
onde a mulher é constantemente comparada a anjos, por sua candura, simplicidade e
beleza, mas que deve amar, fazendo de tudo (ser submissa, perdoar) para manter a
felicidade conjugal. Segundo o Jornal das Moças, “a moça deve ser como os anjos, que
tendo olhos não vêem senão o que é bom, mas não deve ser como os anjos, que não sabe
o que é amor”19. Um paradoxo! Ser e não ser como os anjos: ser boa como eles, e ao
mesmo tempo não o ser pela necessidade de difundir e vivenciar o amor. Propaga‐se o
amor porque ele é indispensável para a perpetuação do ideal feminino burguês: ser
esposa, mãe e dona de casa. Percebemos através do Jornal das Moças a idealização da
mulher sendo tecida concomitantemente a idealização do casamento e da família como

19
(Sem autoria) Jornal das Moças. Nº 27, Anno I. Caicó: 29 de julho de 1926. Fl. 01. Esta citação, como as
demais que precederão o texto seguem a transcrição gráfica original da fonte.

66
necessário para a construção de relações saudáveis entre conjugues e filhos,
reproduzindo famílias “puras” aos olhos da Igreja e da Justiça. Assim, a construção de um
ideal familiar se faz sentir pelas letras de Dora, escritora do Jornal das Moças, a qual
insiste na sacralização da vida em família, do lar, da reprodução moral que a família
carrega:

A vida em família é essa convivencia doce e affectuosa que gozamos no lar místico, uma
sacrossanta de nosso primeiro vagido, sanctuario augusto de nossa primeira caricia. A vida
em família é muito diferente da vida em sociedade actual, onde encontra mais corrupção
do que regeneração. Reconheço que precisamos da convivencia em sociedade, mas esta
muito longe de assemelhar a que recebemos no regaço amigo dos paes, que são na terra os
nossos únicos e verdadeiros amigos.
Segundo a opinião de uma grande escritora, vida é uma série de combinações e é preciso
estudal as, seguil as, para chegar a se encontrar em boa posição (...)
A vida em familia differe muito da vida em sociedade e o nosso estudo deve se limitar em
fazer nosso lar o sanctuario bendicto da nossa maior dedicação. Só assim encontraremos
a felicidade completa e poderemos recompensar o muito que recebemos de nossos
paes20. (Grifos meus)

A vida em família é retratada por Dora enquanto o caminho para a conquista de


uma boa posição (na sociedade), contrapondo‐a a degeneração da vida em sociedade.
Implicitamente a Dora refere‐se à vida em público, a transcendência do feminino da
esfera doméstica, mostrando o lar enquanto lugar de segurança, de felicidade, a
recompensa dada aos pais pelos seus ensinamentos. Na mesma linha de pensamento,
Flor de Liz escreve sobre O Lar e a Felicidade, reforçando as idéias de Dora:

A felicidade está no lar. Todo o homem que consegue bem organizar o seu lar tem attingido
a felicidade. Porque a felicidade existe. Quem nol‐o afirma é o poeta.
A philosophia dos versos de Vicente de Castro é encantadora. Porem há philosophia de
fundo mais pratico... Há, pelo menos, um ensinamento precioso para que o homem se
torne feliz. É aquelle que nos diz: a felicidade consiste em estar cada um conformado com
a sua sorte.
Questão pois de paciência.
Quando o homem elége sua companheira, e quando a eleita em perfeita communhão de
sentimentos volta se toda para a belleza do seu lar, caminham ambos para a felicidade.
O lar é pois a grande realeza.21 (Grifos meus)

20
DORA, C. Jornal das Moças. Nº 25, Anno I. Caicó, 27 de junho de 1926. Fl. 02.
21
LIZ, Flor de. Jornal das Moças. Nº 31, Anno I. Caicó: 22 de agosto de 1926. Fl. 02.
67
Para a Flor de Liz, o lar e a felicidade são sinônimos. O seu discurso sustenta que
quando o homem escolhe bem sua companheira, seu lar tende a ser feliz, induzindo “por
trás dos panos” que esta felicidade depende da mulher. Tanto o discurso de Dora como o
de Liz reproduz o ideal de felicidade conjugal que Bassanezi (1993) identificou na análise
de duas revistas femininas brasileiras a Cláudia e o Jornal das Moças, no período de 1945 a
196422. Bassanezi percebeu que estas revistas buscam manter as relações de gênero em
seus moldes tradicionais veiculando valores morais conservadores e legitimando e
naturalizando papéis sociais do feminino reduzido ao lar e do masculino ligado à esfera
pública. Os discursos de Flor de Liz e Dora vão de encontro às conclusões de Bassanezi,
ao afirmar que a beleza do lar depende da escolha de sua esposa, legitimando a
disciplinarização do corpo feminino para os afazeres domésticos e para o lar, dedicando‐
se aos filhos e ao esposo, onde o ideal de feminilidade e masculinidade correlacionam‐se
às categorias do feminino enquanto “rainha do lar” e do masculino enquanto “chefe de
família”, cabendo a mulher os afazeres, a economia doméstica, a responsabilidade pela
felicidade do marido e filhos, a manutenção da reputação familiar enquanto honesta e
fiel, dedicando‐se para ser boa mãe e esposa, sendo submissa para o seu próprio bem e
de seus filhos, formando e naturalizando o ideal de mulher burguesa. Em contraposição, a
incidência sobre a liberdade dos homens deve ser enfatizada.
Esta incidência no lar e no doméstico é característica do pensamento burguês que
constrói o corpo feminino a partir de uma pedagogização do corpo para a maternidade,
ser dona de casa e esposa. Segundo Rago (2004:10), a educação burguesa perpassa pela
pedagogização do corpo, contenção das emoções e normatização dos gestos, controle
detalhado dos movimentos corporais, incidência na educação dos sentidos, o que
demonstra uma profunda preocupação com o corpo através de condutas, regimes,
receitas, leituras, dessecação deste corpo. O corpo torna‐se exposto para a incidência
médica sobre o mesmo, delimitando‐o, percorrendo‐o, cartografando‐o, medicalizando‐o.
Logo, podemos considerar a contenção das emoções, o domínio dos gestos, o controle
dos movimentos corporais que compõe a educação burguesa enquanto técnicas do
corpo, legitimadas e naturalizadas.

22
Embora o recorte temporal trabalhado por Bassanezi corresponda a um período posterior ao nosso, as
suas considerações são muito interessantes e ajudam a pensar a conservação dos valores tradicionais na
construção do corpo feminino.
68
Segundo Mauss (2003)23 as técnicas do corpo são formas pelas quais os homens
sabem servir‐se de seu corpo de maneira tradicional, as quais são mutáveis de sociedade
em sociedade e entre grupos sociais e que são dotadas de especificidade. Essa
especificidade é característica da técnica e valem para as mais diversas atitudes do corpo,
já que cada sociedade possui hábitos peculiares a si: há técnicas de se comportar, de se
portar, de andar, de conversar, de conter ou emitir gestos, de dormir, de lavar‐se, de
repousar; técnicas que se diferenciam quanto à idade, ao sexo, as fases humanas –
criança, adolescente, adulta. Toda técnica corporal tem sua forma, a qual é adquirida
socialmente através da educação perpassada principalmente pela oralidade.
A forma da mulher burguesa se portar, a contenção dos gestos e palavras consiste
em técnicas adquiridas, incorporadas pelo individuo a partir da disciplinarização de seu
corpo e não enquanto fatores naturais humanos, as quais perpassam todas as formas de
agir. Os vários movimentos e expressões do corpo, enfim, todos os modos de agir não
são um arranjo puramente psicológico e fruto de mecanismos individuais, mas estão
arrematados por relações e por atos que se constituem em uma “idiossincrasia social”
adquirida através da educação das variadas formas de utilização do corpo, ou seja, das
técnicas corporais.
Afirmamos através de Mauss que as várias técnicas do corpo e a moral estão
sempre em estreitas relações e vão sendo legitimadas através das práticas reguladoras,
incorporadas e naturalizadas pelos indivíduos enquanto atos normais ou anormais. Os
atos e técnicas são apresentados aos indivíduos enquanto naturais, todavia são
construtos sociais e históricos, que perpassam o individuo através de relações de poder,
inserindo‐o em redes de adestramento através de uma educação dos detalhes que visam
à construção e disciplinarização do corpo útil e dócil, como coloca Foucault (1995). Dessa
forma, observamos que em todo o corpo social caicoense são difundidas várias técnicas
corporais: formas de portar‐se diante da sociedade, restrição das palavras, contenção dos
gestos, inexpressividade feminina diante dos corpos masculinos, as quais podem ser
notadas através das entrevistas que nos mostram as técnicas corporais através da
descrição dos namoros e da participação feminina em bailes. Segundo Severina, 90 anos,
“o namoro de antigamente era muito afastado, num era que nem o de hoje não. Pra dá

23
MAUSS, Marcel. As técnicas do corpo. In: _____. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2003.
P. 401‐422.
69
um beijo, há... era muito difícil. (...) Os beijo era só no rosto e na testa”. No mesmo viés,
Maria Araújo, 80 anos, nos fala de sua experiência:

Papai ficava na sala até o rapaz sair, é de castelo, minha filha. Num tinha chance de nada,
hoje em dia é um grude... Até transando tão. A irmã pequena num ficava não, só sendo
irmã grande.
Papai, agente sentava lá e ele ficava perto, num ia nem perto, se fosse pa cá, leva um
carão na cara. O noivo lá acolá e eu aqui, papai acolá, mais mamãe. Ninguém conversava,
era tudo mudo. Tinha umas coisas véia, um radiozinho, eu num dizia nada, num tinha nada
pá conversar. Papai era quem dava conta pa conversar.

As palavras, a circunscrição dos corpos no espaço, a forma de tocar e conversar


com o namorado, de se portar diante dos pais e de seu companheiro, todas essas técnicas
corporais constituem‐se em atos e atitudes construídos sócio‐historicamente e
transmitidos através da educação atribuindo coerência à vida social através da disciplina,
da justiça, das escolas, da igreja, toda uma rede de instituições busca construir os corpos
inteligíveis, úteis e dóceis, o qual pode ser modelado, aperfeiçoado.
O corpo feminino ideal burguês calca‐se na tríade feminina: mãe, esposa, dona de
casa24, inserido em relações de poder de uma cultura falocêntrica, através da matriz
heterossexual. As representações do feminino e do masculino são pensadas dentro de
um projeto normatizador que visava alterar os hábitos e atitudes. Dentro desta ótica de
disciplinarização do corpo feminino foram delineados papéis e “identidades de gêneros”
inteligíveis baseados em uma suposta unidade, e universalidade: a mulher burguesa
deveria ser recatada, do lar, de boa conduta e honesta, e o homem deveria ser
trabalhador, de bom caráter, sem vícios e honesto.

24
Sobre a tríade feminina ver: MOTT, Maria Lúcia; MALUFF, Marina. Recônditos do mundo feminino. In:
SEVCENKO, Nicolau. (Org.) História da vida privada no Brasil (República: da Bélle Époque a era do Rádio).
São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
70
Este corpo recebeu diretamente os discursos médicos que naturalizaram a
maternidade feminina em um “mandando biológico”, delineando‐o a partir da matriz da
heterossexualidade, a qual define o casamento e a pureza como ideais a serem
alcançados. Dhoquois coloca que

naturalmente, tudo se encadeia: a esposa/ mãe cuida da casa e dos filhos, no plano
material e moral, e do marido, que desse modo, pode levar à fábrica a sua força de
trabalho intacta. A mulher passa a ser uma espécie de base sobre a qual se assenta a paz
social (2003, p. 47).

Logo, podemos afirmar que a opressão feminina origina‐se do fato de sua


capacidade de reprodução (física e moral), onde a mulher passou a ser pensada a partir
do biológico, reduzida ao lar e a relações de dominação.
Percebe‐se que o corpo feminino está perpassado de silêncios, os quais carregam
significações calcadas em uma heterossexualidade compulsória enquanto chave
reguladora das identidades dos gêneros, onde “todas as particularidades dos corpos
singulares devem ser amenizadas até o desaparecimento e à conformidade a um modelo
impessoal”25 . Este silêncio que circunda o corpo feminino, como mostra Perrot (2003)
perpassa a vida pública, íntima e sexual feminina, através das violências, das doenças das
mulheres, sejam doenças do corpo ou do espírito, naturalizando papéis sociais e signos
que tendem a serem pensados enquanto fatos de uma suposta “natureza” feminina em
vez de resultados de práticas sociais. Como coloca Swain (2004: 190) “a
heterossexualidade compulsória aparece, deste modo, como um mecanismo regulador
de práticas e definidor de papéis restritos aos desenhos morfológicos e genitais”. O
órgão reprodutor, visto enquanto veículo discursivo naturalizador do papel feminino, é
obscurecido e cristalizado pela complementaridade dos órgãos genitais masculinos e
femininos, de seus corpos sexuados transformando as diferenças anatômicas em
desigualdades de gênero.
De acordo com Colling (2004), o corpo feminino vêm sendo pensado enquanto
inferior e ligada a esfera reprodutora desde a antiguidade, onde o único sexo existente
era o masculino. O corpo remonta‐nos a filosofia grega onde o feminino era visto

25
PERROT, Michele. Os silêncios do corpo da mulher. In:___.SOIHET, Raquel (org.). O corpo feminino em
debate. São Paulo: Editora Unesp, 2003. P. 13‐28
71
enquanto um homem imperfeito, reencarnado e feminizado (Platão) ou enquanto
maléfico por possuir o útero “enquanto um animal que vive nela”, ressaltando o caráter
“natural” do sexo masculino com características como: verossímil em força, controle
insaciável, apetites furiosos, solapando as diferenças em desigualdades de gênero
(Hipócrates), ou ainda vista enquanto um desvio natural, um corpo débil (Aristóteles).
Colling acrescenta que a moral ocidental é fruto do encontro da filosofia grega e dos
preceitos cristãos, onde a confluência e influência destes discursos acabaram por
incrustar nas instituições polaridades e oposições que não são tão alheias aos conceitos
modernos, se observarmos que a linguagem jurídica vê o corpo através do binário e de
polaridades: quentes/ frios, secos/ úmidos, ativos/ passivos, pois estes discursos são
relacionais e (re)elaborados de acordo com o contexto, com a época, com a cultura.
Para Héritier (1996) o ponto fulcral do pensamento tradicional ou científico recai
sobre a diferença sexuada e o papel dos sexos na reprodução, constituindo conceitos de
oposição entre idêntico e diferente que opõe valores abstratos como quente/ úmido,
ativo/ passivo e alto/ baixo, representações que se imbrica em uma suposta natureza dos
gêneros masculino e feminino. Estas representações se fazem sentir veemente nas
representações filosóficas provenientes do pensamento aristotélico, mas também nos
discursos médicos modernos do século XIX e nos discursos jurídicos acerca dos corpos,
apresentando a mulher enquanto passiva e frágil e o homem enquanto dotado de um
incontrolável instinto sexual e ativo, o que demonstra a permanência destas oposições
categóricas. Salem (2004), observa através de um trabalho sobre as representações da
sexualidade masculinas e femininas entre homens de classe popular, que estas categorias
de oposição – assimétricas – legitimam o papel da submissão feminina a reprodução e ao
marido, onde a mulher aparece no discurso popular enquanto cabeça fria, e controlada
em oposição ao homem, sexo quente e descontrolável. Este descontrole masculino em
oposição ao controle feminino derivam‐se na esfera reprodutiva e sexual26.

26
Ver: SALEM, Tânia. “Homem... já viu, né?”: representações sobre a sexualidade e gênero entre homens de
classe popular. In: HEILBORN, Maria Luiza (Org.) Família e Sexualidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.
P. 15‐61;
72
Este descontrole masculino pode ser sentido nas palavras de Manoel Geraldo, 58
anos, pai de criação da menor Adélia Cardoso, de 14 anos de idade, o qual a deflorou, nas
suas alegações de defesa:

Com grande liberdade entre ele declarante e sua filha de criação, e apoderado de uma
força superior entendeu de catequizar e propor para Adélia Cardoso o desejo de ter
relações sexuais com ela op que não teve recusa de sua proposta. (...) Que após ter
relações sexuais pela ultima vez com Adélia, que fazem isso uns sete meses mais ou
menos, nunca mais teve nenhuma aproximação com a mesma nem sequer fora
conversaram; que de fato confessa seu erro, mais que foi levado por uma força superior e
que se achava bastante arrependido do crime que praticou27.

Em contraposição, no caso de Umbelina é notória a construção social do corpo


feminino enquanto um “ser” emotivo, ingênuo, bôbo, frágil, poço de uma emotividade
natural, naturalizados enquanto signos construídos para um corpo frígido28, construtos
culturais da feminilidade, como analisou Simone de Beauvoir29. Esse silêncio é
proveniente das representações do corpo (religiosas, jurídicas, jornalísticas) inscrito na
construção simbólica da diferenças entre os sexos que vão ser reforçados pela esfera
jurídica e médica, as quais tece discursos dentro de relações de saber/ poder instituindo
“verdades” sobre o “sexo” e sobre a “sexualidade”. Estas “verdades” estão em
constante processo de multiplicação de saberes sobre o corpo.
O próprio prazer feminino, nos processos‐crime de defloramento, é negado e
reprovado, lançado ao silêncio, pensado enquanto “coisa” de prostitutas. O corpo
feminino passa a ser disciplinado desde criança para o não‐prazer, silenciando o sexo e a
si mesma, negando‐se o gozo, o prazer e os desejos sexuais. Estes silêncios a constroem
enquanto frígida, anestesiada para o prazer, negando a si mesma e reafirmando o
masculino, ao ser pensada enquanto o avesso do homem e seu sexo.
Ao corpo feminino sentir prazer torna‐se pecaminoso e patológico30. Em seu corpo
os discursos “verdadeiros” sobre sexualidade e sexo lhe são injetados através de seringas
de verdades e poderes tecidos em cada caso de defloramento. Dos dez processos‐crime

27
Processo‐crime de defloramento, S/N. Ano de 1940. Fl 11.
28
Essa visão de um corpo feminino vitimado, infantilizado, desprovido de razão e de cientificidade se faz
sentir em todos os processos‐crime analisados.
29
Ver: BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
30
ESTEVES, Martha de Abreu. Meninas perdidas: os populares e o cotidiano do amor no Rio de Janeiro as
Belle Époque. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989
73
analisados, em nenhum foi encontrado expressividade do prazer feminino, mas sim a
constante presença de uma matriz heterossexual e um falocentrismo por traz dos
discursos, regendo os corpos através das categorias de oposição, das quais fala Héritier:
corpos que cedem aos instintos sexuais masculinos por que eles são mais fortes, providos
de um desejo incontrolável do instinto sexual enquanto que o delas são mais frágeis,
inocentes e incapazes de reagir aos instintos masculinos31. Uma construção social
histórica que perpassa todas as vozes polifônicas dos processos‐crime e das entrevistas.
Logo, afirmamos que o corpo carrega significados invisíveis da cultura que opera nele
diretamente e indiretamente. Todas as regras, preconceitos e convenções são, pois,
construtos sociais naturalizados e sentidos através da linguagem do senso comum.
O feminino é pensado tanto pelos discursos jurídicos como pelos jornalísticos
através de comparações com o sexo masculino, o que podemos observar através da
poesia Parallelo, segundo Wanderley, o qual diz:

A aspiração do homem é a suprema gloria. A aspiração da mulher é a virtude extrema.


A gloria faz o immortal, a virtude faz o divino.O homem tem a supremacia. A mulher
tem a preferência. A supremacia significa a força, a preferência representa o direito. O
homem é forte pela razão. A mulher é invencível pelas lagrimas. A razão convence, as
lagrimas commove. O homem é capaz de todos os heroismos. A mulher de todos os
martyrios. O heroismo ennobrece, o martyrio sublima. O homem é um código. A
mulher um evangelho. O código corrige, o Evangelho aperfeiçôa. O homem é o templo.
A mulher é o sacrario. Ante o templo descobre se, ante o sacrario ajoelha se; O homem
pensa. A mulher sonha, Pensar é ter no coração uma lava, sonhar é ter na fronte uma
aureola. O homem é o occeano. A mulher é o lago. O oceano tem a perola que adorna.,
o lago tem a poesia que deslumbra. O homem é a aguia que vôa. A mulher é o rouxinol
que canta.
Voar é dominar o espaço, cantar pe consquistar a alma. O homem tem um pharol – a
Consciência. A mulher tem uma estrella – a Esperança. A consciência guia ], a esperança salva.
Enfim: o homem está collocado onde termina a terra. A mulher onde começa o céo32.

Percebemos através destes discursos que o feminino é construído


discursivamente enquanto o oposto do sexo masculino, solapando as diferenças em
desigualdades de gênero. Segundo Wanderley, a aspiração do homem é a suprema glória,
ele tem a supremacia que significa força, é racional e pensa, capaz de heroísmos que o
enobrece, é a águia e o oceano, tem a consciência, é o código que corrige e localiza‐se

31
Essas afirmações são baseadas na análise dos discursos dos réus para justificar suas ações diante do
defloramento e pelos advogados de defesa.
32
WANDERLEY. Jornal das Moças. Nº 34, Anno I. Caicó: 19 de setembro de 1926. Fl. 02
74
onde termina a terra. A mulher, em contraposição, aspira à virtude extrema, tem a
preferência que significa direito, é emotiva e convence pelas lágrimas, é capaz de todos
os martírios que a sublima, ela sonha e tem a esperança, ela é o rouxinol, o lago e o
evangelho que aperfeiçoa e localiza‐se onde começa o céu. Imagens veiculadas que
constroem um masculino enquanto forte, punitivo e racional e o feminino enquanto
frágil, reprodutora de valores e irracional ou sonhadora.
As representações do feminino e do masculino que são veiculadas através dessa
poesia estão ligadas a romantização dos papéis sociais e ao saber médico sobre o corpo,
nos quais se desenha a mulher enquanto sexo oposto ao homem: O homem é pensado
enquanto o sexo forte, que trabalha fora e tem liberdades e a mulher tecida a partir de
comparações com o masculino, reduzindo‐as a virtude, ao lar, ao doméstico e enquanto
reprodutoras de valores e comportamentos morais. Estas, responsáveis pelo corpo
feminino33, tem suas imagens veiculadas enquanto a ponte para o progresso e a ordem
no Brasil. A difusão do ideal feminino de mulheres honestas, dedicadas aos filhos e ao
marido, representante da Pátria, “imagens modeladoras” são contrapostas aos contra
ideais republicanos de mulheres desonestas: a prostituta34, as infanticidas e as que se
envolviam com os abortos35.

33
PEDRO, Joana Maria. As representações do corpo feminino nas práticas contraceptivas abortivas e no
infanticídio – século XX. In: MATOS, Maria Izilda S de; SOIHET, Raquel (Orgs.) O corpo feminino em debate.
São Paulo: Editora Unesp, 2003;
34
RAGO, Margareth Luzia. Imagens da prostituição da Belle Époque paulista. In: Cadernos Pagu: de
trajetórias e sentimentos. São Paulo: Unicamp, 1993. p. 31‐44;
35
Pedro coloca que o corpo feminino era visto enquanto reprodutora de corpos perfeitos, legítimos.
Corpos que deixam de representar apenas o lugar da procriação para representar o lugar de controle da
população. PEDRO, Joana Maria. Op Cit.
75
Percebemos dessa forma, que a subordinação e o assujeitamento feminino estão
perpassadas de significados preexistentes que são construídos historicamente a partir de
relações de dominação, constantemente realimentados através do dispositivo da
sexualidade que tem se ancorado na divisão binária dos sexos, criando corpos definidos
para homem e mulher, ao mesmo tempo em que outras sexualidades múltiplas e
periféricas emergem e reforçam enquanto modelo. Foucault reforça que

a noção de ‘sexo’ permite reagrupar, sendo uma unidade artificial, elementos


anatômicos, funções biológicas, condutas, sensações, prazeres e permitiu funcionar
esta unidade fictícia como princípio causal, sentido onipresente, segredo a ser
descoberto, em toda parte: o sexo assim pode funcionar como significante único e
como significado universal.

O operador “sexo” define e delimita em corpos definidos biologicamente, onde a


biologia transcende seu teor classificatório, mas funciona enquanto um operador
simbólico/ funcional da identificação do indivíduo, de forma que o sexo torna‐se a
identidade do humano em práticas normativas de sexualidades heterossexuais. Estas
representações femininas enquanto submissa, frágil, irracional propensa para a
maternidade levam a construção da mulher em um sexo a partir dos discursos tecidos
pela medicina, calcados na justificativa de higienizar e medicalizar o corpo feminino.
As representações que carregam o corpo feminino são construídas e incorporadas
pelos sujeitos através de efeitos das práticas reguladoras que as instauram enquanto
identidades inteligíveis de gênero. No entanto, através dessa reflexão percebemos que
estas representações são sócio‐historicamente construídas, legitimadas através discursos
verdadeiros sobre sexo, sexualidade e “ser” mulher. Todavia, esses discursos podem ser
desconstruídos trazendo à tona toda uma pluralidade corpórea, pois o corpo possibilita
leituras e releituras onde se pode pensá‐lo enquanto transcendente a essa esfera do
singular e do universal que os discursos jurídicos e jornalísticos o tecem, mas
constituindo‐se em uma multiplicidade que se (re)significa a partir das múltiplas
subjetividades: corpos e femininos. Mas isso se constituirá em uma discussão posterior...

76
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80
A fotografia como escrita do urbano:
um olhar sobre Jardim do Seridó1

Evaneide Maria de Mélo


Mestre em Geografia – UFRN
e‐mail: evita_melo@hotmail.com

Resumo
A imagem fotográfica se instala como campo alternativo para a construção, elaboração,
(re) elaboração e percepção da paisagem. Nesse contexto, objetivou‐se aqui promover a
compreensão da paisagem citadina de Jardim do Seridó/RN por meio da “leitura” do
texto simbólico construído a partir da sua representação fotográfica composta no
período entre 1950‐1980 por José Modesto de Azevedo, fotógrafo jardinense, conhecido
mais comumente pelo codinome de “Zé Boinho”. Desse modo, a narrativa fotográfica do
espaço urbano jardinense construída por Zé Boinho constitui‐se em um elemento
primordial para o entendimento de como a paisagem se constitui enquanto
representação simbólica instituída pela bagagem cultural de quem a significa.

Palavras‐chave
Fotografia, Jardim do Seridó/RN, Imaginário.

1
Esse artigo é apenas um fragmento retirado da dissertação “A paisagem em foco: leituras fotográficas de
Jardim do Seridó/RN”, por isso, as discussões tangenciadas no artigo são reduzidas, e sintetizadas.
81
1 Introdução
A paisagem anunciada pela imagem fotográfica revela formas de entendimento
em uma composição simbólico‐visual a partir do quadro social que a integra. A obtenção
da imagem fotográfica é sempre intencional, sempre dirigida e/ou conduzida por
processos propositais nos quais o fotógrafo expressa uma ação significada nos arranjos
do cotidiano. Dada sua natureza testemunhal e criativa, opera na imagem fotográfica um
binômio indivisível que caracteriza os conteúdos da imagem fotográfica. Ao passo que, a
imagem revelada pela fotografia deriva de uma motivação exterior, como mediação de
códigos e sinais estabelecidos entre o fotógrafo e a vida que o atravessa.
Nesse sentido, este artigo aborda o domínio da imagem fotográfica existente
sobre a paisagem urbana de Jardim do Seridó, uma cidade que teve para as cartografias
espaciais do Rio Grande do Norte, uma forte expressividade socioterritorial e que foi
representada por vários domínios culturais, despontando em crônicas de viajantes, em
versos e prosas, em relatos de poetas e escritores. Acontece que associado ao campo da
documentação escrita da vida social jardinense, desponta um acervo fotográfico singular
deixado por “Zé Boinho”, fotógrafo oficial da cidade ao longo de três décadas do século
XX, que condensa um campo estético e lingüístico visual profundamente pertinente aos
estudos culturais em instâncias diferenciadas como geografia, história, antropologia, e
comunicação visual, por exemplo.
A operação metodológica de constituição do artigo está pautada em três
momentos complementares: I ponto – discussão teórica acerca da imagem fotográfica,
com ênfase na perspectiva de que o domínio fotográfico envolve, e cria o tempo todo,
formas de representação; II ponto – uma abordagem que procura relacionar mecanismos
da linguagem visual; e o III ponto – a leitura da paisagem jardinense é feita como
perspectiva que aciona e envolve os pontos de compreensão anteriores.

2 Imagem fotográfica: representação, e compreensão da cultural


Qualquer que seja o assunto estabelecido pela fotografia, esta documentará a
visão de mundo do fotógrafo. “A fotografia, é pois, um duplo testemunho: por aquilo
que ela nos mostra da cena passada, irreversível, ali congelada fragmentariamente, e por

82
aquilo que nos informa acerca de seu autor” (Kossoy,2001, p. 50). Com isso, tem‐se que a
imagem é um espaço de expectativas, um filtro cultural, uma criação a partir de um visível
fotográfico. Toda fotografia representa o testemunho de uma criação, não deixando de
ser nunca, um testemunho real‐imaginário de quem a elabora.
O conhecimento dado pela fotografia integra uma existência pautada naquilo que
o fotógrafo imaginou, e naquilo que é permitido captar temporal e espacialmente.
Embora, haja outros filtros se sucedendo através de suas possibilidades e seus contrastes.
Kossoy (2001) considera que apesar da aparente neutralidade do olhar fotográfico e de
toda a exatidão iconográfica, a imagem resultante da combustão fotossensível não deixa
de ser uma representação de um quadro social.
Associada à idéia de criação cultural espaço‐temporal que Kossoy (2001)
estabelece sobre a imagem fotográfica, aparece a de Andrade (2002, p. 50 Apud Maresca,
1998, p. 142) que considera o fotógrafo como responsável por fotografar aquilo que ver,
mesmo que, muitas vezes ele não compreenda aquilo que se coloca na “mira da
objetiva”. Os fotógrafos ocupam o papel de observadores participantes que farejam com
seus olhos o “alvo e o objeto de suas lentes e de sua interpretação” (Andrade, 2002, p.
32).
Do envolvimento que se cruza entre as cargas objetivas‐subjetivas que submerge
da fotografia, aparece segundo Kossoy (2001, p. 49), uma orientação entre o fotógrafo e
o tema abordado na narrativa visual, fazendo da imagem fotográfica um dispositivo
permeado por intenções, revelador de fatos, cenários, personagens, enfim, paisagens
orientadas sócio‐culturalmente com múltiplas perspectivas. Com isso, na constituição da
imagem se aplicam, restituem e reconhece linguagens, dimensionadas e/ou
dimensionadoras de uma dada realidade.
Nesse sentido, não há como pensar a atuação do fotógrafo de modo homogênea,
linear e inflexível, pois a força da representação social procede pela articulação dos
fragmentos imaginários que tramam a atuação do fotógrafo. Ao passo que a ação
deliberada pelo fotógrafo, articula‐se a um sistema narrativo‐interpretativo, em que
“capturam e restituem o tempo” (Aumont, 1993, p. 167). A experiência da paisagem
fotográfica recupera um campo discursivo como atribuição de significado aos fenômenos
culturais, como domínio imagético e possibilidade de leitura do tempo‐espaço.

83
Koury (1999, p. 66) ressalta que a base de sustentação da imagem é o discurso
visual capitaneado pela ação do fotógrafo que deposita, alimenta e realinha paisagens
coletivas marcadas simultaneamente por necessidades provisórias. É o fotógrafo que
escolhe os prismas artísticos ou técnicos de integralização da imagem. Associada às
reflexões de Koury (1999), Kossoy (2001, p. 117) diz que o trabalho do fotógrafo
corresponde a uma interação entre sujeitos sociais, intimamente relacionados a conexões
diversificadas, sendo um depositório de informações. Assim, esse último revela:
Têm‐se maiores elementos para compreender a atitude dos personagens estáticos e
mudos e dos cenários parados no tempo, assim como possíveis pistas que esclareçam
quanto à atuação do próprio fotógrafo que registrou seus temas segundo uma
determinada intenção. Conjugando essas informações ao conhecimento do contexto
econômico, político e social, dos costumes, do ideário estético refletido nas
manifestações artísticas, literárias e culturais da época retratada, haverá condições de
recuperar micro‐histórias implícitas nos conteúdos das imagens e, assim, reviver o
assunto registrado no plano do imaginário.
Uma fotografia é a convenção de um olhar; a imagem comunica um contexto, é
ainda mais judicioso considerar que cada imagem contribui para a disseminação de um
imaginário coletivo, e indica formas de relacionamento espacial. O universo imaginário se
integra a múltiplas imagens, de padrões sociais, de lembranças, de sensações, de
conceitos e de pedaços de sentidos. A imagem fotográfica projeta o espetáculo da
imaginação criadora.
Assim, Gombrich Apud Aumont (1993, p. 82) revela que o trabalho do fotógrafo
encerra quadros de reconhecimento, na medida em que trata de reconhecer, apoiado na
memória ou em uma reserva de formas de objetos e de arranjos espaciais memorizados:
“a constância perceptiva é a comparação incessante que fazemos entre o que vemos e o
que já vimos”. (Gombrich Apud Aumont, 1993, p. 82).
Desse modo, o trabalho do fotógrafo2 (ver foto 01), desponta como operação,
como filtro cultural, e a imagem como uma dimensão do real permeada por zonas de
desejos, intenções e subjetividades. A fotografia é uma (re) presentação da vida, cujas

2
Não há como identificar o fotógrafo da foto 01. Todavia, essa imagem é emblemática, não apenas porque
traz o instante em que o fotógrafo decide qual o momento exato de seu click, de seu “corte”, mas
principalmente porque evidencia e contribui com a idéia de que o fotógrafo seleciona, escolhe e fraciona
uma paisagem num instante decisivo.
84
escalas de orientação perpassam as bases culturais de quem as olha. Kossoy (2001, p. 114 ‐
115) diz que a fotografia é um documento visual, fruto do testemunho da atuação do
fotógrafo que é simultaneamente parte e parcela da prática cultural, e assim ele diz que:

Apesar da aparente neutralidade do olho da câmara e de todo o verismo iconográfico, a


fotografia será sempre uma interpretação [...] Apesar do amplo potencial de informação
contido na imagem, ela não substitui a realidade tal como se deu no passado. Ela apenas
traz informações visuais de um fragmento do real, selecionado e organizado estética e
ideologicamente. A fotografia ou um conjunto de fotografias não reconstituem os fatos
passados. A fotografia ou um conjunto de fotografias apenas congelam, nos limites do
plano da imagem, fragmentos desconectados de um instante de vida das pessoas, coisas,
natureza, paisagem urbana e rural. (Grifo meu).

Foto 01: Fotógrafo sob efeito da


escolha.
Fonte: Imagem adaptada por
Evaneide Maria de Melo. A partir do
original Pesquisa‐Revistas‐História
“Anúncio de Fotógrafos”.
Disponível:
www.sergiosakall.com.br/montage
m/fotografos1950. Acessado em 02
de novembro de 2007, às 11h22min.

Na constituição e disseminação da imagem fotográfica, há campos de


intencionalidades diversos, daí constatar que na imagem a paisagem é um fenômeno de
interpretação, derivado de práticas, ações e motivações que a significam. Kossoy (2001)
diz que a fotografia se caracteriza por um duplo sentido, onde atuam o passado

85
irreversível e congelado, ao passo que, emerge possibilidades de (re) criação narrativa, a
partir das problematizações, das indagações lançadas à imagem fotográfica. Num sentido
amplo, é um processo simbólico que emerge de um contexto filosófico, ideológico e
intertextual. A imagem fotográfica é intercambiável, porque opera em cruzamento com
os campos imaginários determinados pelos “contextos sociais, contextos institucionais,
contextos técnicos, e contextos ideológicos” (Aumont, 1993, p. 15).
Nessa dimensão, o trabalho com a fotografia se fundamenta a partir da profunda
relação entre produção, circulação e consumo das imagens fotográficas, em decorrência
de quatro campos imaginários apontados por Barthes (1984, p. 27) quando diz “Diante da
objetiva sou ao mesmo tempo: aquele que eu me julgo, aquele que eu gostaria que me
julgassem, aquele que o fotógrafo me julga e aquele de que ele se serve para exibir sua
arte”, com base nessa reflexão, tem‐se que a fotografia se coloca pari passu entre as
intenções de quem a faz, e a “cartografia visual” que essa integra, propagando simbólica‐
imaginariamente uma paisagem, enquanto testemunho estético‐ideológico.
Aumont (1993), Kossoy (2001) e Bittencourt (1994) contam que a fotografia está
revestida de subjetividade, tanto na sua interpretação, como na sua elaboração. Um
fotógrafo ao apontar sua câmera para o tema escolhido, opera por seleção; há uma
escolha que passa inevitavelmente pela maneira como o fotógrafo interpreta a realidade.
Ao passo que, a fotografia mantém seu compromisso com o real. A imagem fotográfica
se mantém como um valor de evidência, como forma de inteligibilidade da vida social.
O fotógrafo constrói a partir de sua visão, sensibilidade, perspicácia, e
expressividade estética, formas narrativas que manifestam representações extraídas da
vida sob o domínio do código visual. O trabalho do fotógrafo ressalta de forma analógica
uma forma de reflexão sobre o mundo; o campo fotográfico envolve inevitavelmente,
formas de representação objetiva‐subjetiva de uma realidade na qual o fotógrafo
projetou.
O fotógrafo (ver foto 01) é o operador de uma narrativa visual. Seu exercício é
evidenciar a partir dos recursos técnicos que lhes são dispostos, as presentificações dos
referentes projetados na paisagem. Sendo que com a atividade profissional o fotógrafo
cria significados, e estratégias para o olhar, tramando um jogo imaginário da paisagem
que, de certo modo, ultrapassa os vários atores sociais. Sem dúvida o “ato fotográfico”
não existe em normalidade absoluta, nem na inocência do olhar, já que a própria visão é

86
sempre paralela à interpretação imaginária da vida cotidiana. Ronna (2003, p. 190)
observa e ressalta que a narrativa [fotográfica] disponibiliza imaginários coletivos:
Pela narrativa, é possível ainda verificar, a partir dos temas destacados, que todos os
significados convergem para a representação elementar que rege o homem: os opostos
vida e morte. Em nome desses, instauram‐se guerras, desenvolvem‐se conflitos,
celebram‐se vitórias, promovem‐se recomeços. Registrado pelo facho de luz que
perpassa a lente da câmera fotográfica, esses eventos se concretizam na imagem para
representar a evolução cíclica da própria vida e, simultaneamente, introduzir a reflexão
sobre o valor das ações que movem o homem.
O fotógrafo conotativamente é o emissor da mensagem visual, da paisagem
imagética, ele é o sujeito que elabora uma criação visual, uma textualidade imagética. Na
sua labuta fotográfica são encaminhados sistemas de signos que têm respaldo nas
particularidades culturais. A linguagem fotográfica da qual o fotógrafo se vale contribui
para demarcar, representar e comunicar uma paisagem.

3 Fotografia: estética e experiência da linguagem visual


Kristeva (1969) refletindo acerca da importância da linguagem enquanto elemento
privilegiado no entendimento cultural, ressalta que na rede social todos os quadros são
explicados por um sistema (lingüístico) que instaura um circuito de comunicação entre
sujeitos, sentidos e significações. Neste sentido, o fotógrafo se articula a uma cadeia de
relações, posto que ele emprega uma técnica capaz de condensar visualmente “textos
imagéticos” que ganham múltiplos sentidos no encadeamento da troca social.
Assim, acredita‐se que a imagem fotográfica se fundamenta na comunicação de
um sistema sócio‐cultural. Sendo o fotógrafo o transmissor de uma mensagem com o
auxílio de recursos, por um esquema de representação de paisagens variáveis, fundadas
nas manifestações simbólicas e visuais. A comunicação gerenciada pelo fotógrafo para a
transmissão de uma paisagem é operacionalizada pelos signos visuais; posto que, a
imagem “congelada” pela fotografia representa algo para um grupo que está enredado
aos quadros de referência cultural. Dessa maneira, Kristeva (1969, p. 24) expõe que o
signo é tudo aquilo que expressa qualquer coisa para alguém.
O signo dirige‐se a alguém e evoca para ele um objeto ou um facto na ausência
desse objecto e desse facto. Por isso, dizemos que o signo significa << in absentia>>. << In
87
praesentia>>, isto é, em relação ao objeto presente que ele re‐presenta, o signo parece
estabelecer uma relação de convenção ou de contrato entre o objecto material
representado.
O fotógrafo opera uma disposição de enuciados na criação de uma paisagem, pois
a fotografia institui um signo visual a partir da significação de uma mensagem que é
compreendida e/ou codificada culturalmente. É o fotógrafo que marca, interfere,
manipula redes de significados através das quais os sujeitos comunicam em sociedade
promovendo a constituição de realidades. A paisagem revelada e/ou interpretada pelo
trabalho do fotógrafo integra uma configuração em que se incluem paisagens
imaginárias.
O fotógrafo operacionaliza pela fotografia uma pluralidade de significados,
alimentados pelas práticas da vida cotidiana; a paisagem fotográfica instaurada pelo
trabalho do fotógrafo é antes de tudo uma prática, em que se manifesta e se conhece no
seu exercício. A atuação do ser fotógrafo e as formas de olhar elaboradas coletiva e
individualmente fazem da fotografia uma representação cultural. O fotógrafo confere
uma progressão à narrativa imagética, em que são alinhados ritmos de continuidade aos
eventos sócio‐espaciais. Nesta dimensão, Dubois (1993, p. 178) confirma:

Em outras palavras, bem aquém de qualquer intenção ou de qualquer efeito de


composição, em primeiro lugar o fotógrafo sempre recorta, separa, inicia o visível. Cada
objeto, cada tomada é inelutavelmente uma machadada (golpe de machado) que retém
um plano do real e exclui, rejeita, renega a ambiência (o fora‐de‐quadro, o fora‐de‐campo).
Sem sombra de dúvida, toda a violência (e a predação) do ato fotográfico procede
essencialmente desse gesto do cut. Ele é irremediável. É ele e só ele que determina a
imagem, toda a imagem, a imagem como todo. No espaço literalmente talhado de uma
vez e ao vivo pelo ato fotográfico.

A importância do fotógrafo transplanta idéias e técnicas que se expandem no


contexto das heranças culturais dos grupos sociais, coexistindo com outros aspectos das
atividades, preferências e configurações espaço‐temporais. A correspondência que o
fotógrafo faz se inscreve nas teias de uma cartografia constituída por um “fascinante
tecido de inúmeros fatos” (Freund, 1995, p. 12).
O resultado da experiência do fotógrafo tem implicações comunicacionais, posto
que ele é o operador de uma multiplicidade de relações, sendo um facilitador e/ou
propagador de uma pluralidade de projetos correspondentes às especificidades de cada

88
temporalidade. O trabalho do fotógrafo permite criar pedaços de representação acerca
das formas de organização social, alargando as fronteiras da estética.
A atuação do ser fotógrafo é decorrência estético‐ideológica de um processo
histórico e social. Nessa perspectiva, o trabalho do fotógrafo representa sentidos de
realidades, de moralidades, de verossimilhanças, de legibilidades. Corresponde a uma
narrativa por onde convergem múltiplas narrativas que integram o real. Dubois (1993, p.
161) entende que:

Depois da questão da relação da imagem com o real, a questão de sua relação com o
espaço e com o tempo. [...] Como tal, indissociável do ato que a faz ser, a imagem
fotográfica não é apenas uma impressão luminosa, é igualmente uma impressão
trabalhada por um gesto radical que a faz por inteiro de uma só vez, o gesto do corte, do
cut, que faz seus golpes recaírem ao mesmo tempo sobre o fio da duração e sobre o
contínuo da extensão. Temporalmente de fato – repetiram‐nos o suficiente – a imagem‐
ato fotográfica interrompe, detém, fixa, imobiliza, destaca, separa a duração, captando
dela um único instante. Espacialmente, da mesma maneira, fraciona, levanta, isola, capta,
recorta uma porção de extensão. A foto aparece dessa maneira, no sentido forte, como
uma fatia única e singular de espaço‐tempo, literalmente cortada ao vivo. Marca tomada
de empréstimo, subtraída de uma continuidade dupla. Pequeno bloco de estando‐lá,
pequena comoção de aqui‐agora, furtada de um duplo infinito. Pode‐se dizer que o
fotógrafo, no extremo oposto do pintor, trabalha sempre com o cinzel, passando, em cada
enfocamento, em cada tomada, em cada disparo, passando o mundo que o cerca pelo fio
de sua navalha.

Temporalmente e espacialmente a imagem fotográfica cria redes de significação


como operação que se mantém entre o fotógrafo e o resultado que emerge de seu
trabalho. Por isso, o resultado dessa criação é entendimento da paisagem. De maneira
que, a experiência visual disseminada pela imagem é o resultado das práticas que se
refletem em produção de sentidos, de iniciativas, de flexibilidades, de sensibilidades, sem
produzir uma identidade universalizante. A paisagem revelada pela fotografia é o lugar
das relações simbólico‐imaginárias tramadas na argamassa cultural.

4 Jardim do Seridó: paisagem atravessada pelo “olhar”


O trabalho de Zé Boinho, “poeta das luzes” que elaborou uma narrativa visual
acerca da vida social de Jardim do Seridó faz a cidade significar em relação ao público e
privado, às projeções e perspectivas, ao singular e plural durante os anos de 1950 a 1980.
A imagem fotográfica deixada por Zé Boinho é um dispositivo de memória espacial, é um

89
poderoso integrante cultural, que aloja uma multiplicidade de informações, e que
comunica através de simultâneos cortes o tempo e o espaço.
O acervo imagético diz de uma Jardim do Seridó como sendo atravessada por um
campo visual, em que a espacialidade da cidade é o ponto máximo de referência, é o
particular absoluto. De modo que, a espacialidade emerge como obra plástica e estética.
Tal proposta, ganha dimensão a partir do investimento que é dado aos sentidos espaciais
que inscrevem e fazem parte da trama imaginária instituída pela imagem fotográfica. Haja
vista que, ao longo do acervo ela [a paisagem] se situa numa escala de sinuosidades,
retas, aberturas, fechamentos, planos, pontos e perspectivas. Assim, a paisagem se
estabelece numa intensa relação de elementos, cuja criação estética relaciona um campo
que dá a ver a cidade muito mais como poder icônico, do que como flagrante da presença
ou ausência de determinados prédios, sujeitos, aparelhos urbanos e grupos sociais.
Zé Boinho (ver foto 02) demonstrou ao longo de sua produção imagética sobre
Jardim do Seridó, uma preferência pela expressão de urbanidade que a cidade adquiria
em suas transformações conjunturais em suas praças, prédios públicos, avenidas,
canalização de riachos, por exemplo. Ademais, operacionalizou uma narrativa visual da
cidade como reservatório espacial de significação, sobretudo obtendo a partir da
exploração de linhas, de proporções e da disciplinarização da forma um sentido de
expansão.

Foto 02: Zé Boinho.


Fonte: acervo pertencente à família do fotógrafo.
Jardim do Seridó, 1978.

90
Ademais, dada a influência urbana que desponta no acervo, é preciso perceber
algumas temáticas, e levantar questões para melhor operacionalização e sistematização
dos temas. Sendo preciso problematizar de imediato zonas de significação, por meio dos
seguintes pontos: qual o objeto central da narrativa fotográfica sobre Jardim do Seridó?
Como determinados espaços estão instaurados no interior da cidade? Em que campo de
visão a espacialidade urbana foi enfatizada?
As indagações elencadas acima não esgotam a reflexão que se tem, mas
contribuem como referências para a leitura da paisagem. Principalmente, porque se
insiste que a “cartografia visual” integra um poderoso espaço discursivo, envolvendo
valores individuais e coletivos. O circuito alcançado pela visualidade cartográfica se coloca
enquanto orientação e expressão do campo real‐simbólico que figura como espaço
projetado dentro, e para além do olhar. Corroborando com a idéia ressaltada desde o
princípio, de que além do que se “enxerga” visualmente, conservam‐se construções
sociais discursivas potencializadas em estratégias de apropriação do espaço. Essa
concepção, portanto, favorece o diálogo entre campos imaginários e significados
produzidos, sobretudo, na vida cotidiana.
Desse modo, confia‐se que o exercício profissional que Zé Boinho tangencia é
impossível fora de um sistema de significados intertextuais de leitura, interpretação e
escrita visual da/na paisagem. Ele apreende uma cartografia real‐simbólica da cidade
através de formas, dos claro/escuros, sobretudo pela evidência que tem o plano de
claridade, ou seja, o dia ao longo da narrativa. Assim, acredita‐se que o valor do dia opera
em oposição à penumbra da noite3. A apropriação da paisagem durante o dia valoriza a
cidade como experiência do visível (ver fotos 03, 04, 05, 06), como reunião de estéticas
produtoras de espacialidades, como estratégia de significação do diurno.
A cidade é uma presença luminosa inteligível que se dar a ver, permitindo
recuperar uma projeção de dentro para fora da imagem, como um espaço sem mistérios.
Posto que, com a luz do dia tudo é permitido se enxergar: as reentrâncias, as dinâmicas,
os segredos, os equipamentos urbanos e os caminhos percorridos para conhecimento da
urbe. Conforme se observa na seqüência de imagens (ver fotos 03, 04, 05, 06), o que se

3
Foi observado ao longo do acervo que se dispõe – quase trezentas fotografias – a inexistência de imagens
da cidade à noite, ou de qualquer evento noturno. Em contra partida, há uma busca incessante pela cidade
em sua luminosidade, como mecanismo que se inscreve e atravessa o olhar, sobremaneira a claridade como
constante que permite “ver”, olhar, enxergar, ler.
91
inscreve é uma trajetória do olhar, um espaço preferencial de distanciamento em que se
enfatiza o tempo todo, a visualidade como elemento de percepção não encerrado em si
mesmo. As paisagens inscritas pela imagem revelam um esforço de abertura do visual no
sentido de oferecer a cidade como um mecanismo esquartejado por estruturas, ao
mesmo tempo em que não apresenta as coisas como elas são. Essa estratégia permite
criar uma composição artística na medida em que se associam formas de selecionar a
visualidade.

92
93
Fotos 03, 04, 05, 06: Jardim do Seridó: diurnidades da paisagem.
Fonte: Zé Boinho.
Acervo pertencente à família do fotógrafo

94
Zé Boinho em sua experiência urbana transversalisa a paisagem a partir da
imagem, significando‐a estética e simbolicamente. Por intermédio de uma arte‐técnica
operacionalizada pela abertura do diafragma, do obturador na capituração da luz.
Criando um sistema simbólico, cujo conteúdo constitui uma prática, um exercício de
várias motivações. A paisagem imagética, por sua vez, permite acompanhar um percurso
do fotógrafo com seu lugar ao longo do dia. Em sua espacialidade tangível Jardim do
Seridó é uma produção espacial, que se confunde com os ritmos de transformação
imagéticos elaborados pelo fotógrafo, numa constante criação. Pois, é por ela [pela
cidade] que Zé Boinho cria um ritmo potencializador de sentidos, cujos acontecimentos
ora estão no mesmo plano de visão do fotógrafo, ora são espaços que rompem com o
fluxo linear do olhar.
Na caminhada do fotógrafo pela cidade despontam lugares, objetos urbanos que
se anunciam em forma e em conteúdo. Como um referente que se tem e anuncia
enquanto trajetória, como passagem, na medida em que as imagens são fragmentos que
integram o espaço urbano (ver fotos 03, 04, 05, 06). Essas imagens fotográficas são
correspondências possíveis entre outras cidades inscritas na cidade de Jardim do Seridó.
Como intercruzamento de linguagens, entre o vazio e a plenitude, entre formas e forças
enunciativas de uma “realidade” visível. Em que a cidade é sempre uma vista panorâmica
em processo de mudanças, em construção.
As imagens fotográficas (ver fotos 03, 04, 05, 06) despertam um sentimento anti‐
noturno. Já que o exercício fotográfico inscreve a cidade em sua experiência diurna,
fortalecendo visualmente o dia em suas evidências tangíveis. Acredita‐se que o emprego
da luminosidade enfatiza um plano de organização da cidade como escolha do
mensurável. Desse modo, a imagem fotográfica se coloca como apropriação do espaço.
Posto que, o recorte visual que Zé Boinho faz da cidade se organiza enquanto
centralidade do visto, e não necessariamente do modo como os grupos sociais se deixam
afetar na/pela cidade. Com isso, tem‐se uma paisagem urbana significada por uma ordem
de fatores, objetos e fenômenos que foram designados como artefatos urbanos antes
mesmo do fotógrafo tematizá‐los.

95
A narrativa criada fotograficamente sobre Jardim do Seridó dissolve diversos
ritmos da paisagem enquanto instância pública, enquanto diversidade e sentido geral de
espetacularização. O fotógrafo transforma o espaço público em um dispositivo social que
a todos os grupos toca, mas que não há necessidade de particularizá‐lo. Desse modo, a
cidade aparece como um acontecimento, sendo muito mais um campo aberto, um espaço
fragmentado, fragmentador, do que uma cartografia estanque; o visual da paisagem
jardinense se faz pelo acompanhamento e transformação em uma espacialidade como
além das fronteiras geográficas afetando uma auto‐imagem da cidade em sua
singularidade, em sua imensa solidão diurna.
Conhecer a cidade em sua diurnidade implica uma construção imagética situada
em cinco grandes eixos: a rua, as praças, os monumentos arquitetônicos, os rios, e as
vivências. Com isso, a cartografia imagética da cidade se efetua continuamente através
das relações, das práticas, das trocas simbólicas. Na imagem fotográfica a singularidade
do visual forma uma paisagem em sua existencialidade, em uma constante apropriação
do lugar. Pela fotografia é permitido espacializar‐se, localizar‐se em um constante
deslocamento fazendo outra coisa da mesma coisa, em que é possível pensar os limites, e
as fronteiras que cartografam a cidade.
É oportuno enfatizar ainda, que a cidade desponta como uma presença material e
ao mesmo tempo mutante. Posto que, em na tessitura citadina se vê um estado de
transformação (ver fotos 07, 08). Por outro lado, com a imagem fotográfica se tem uma
cidade se descobrindo permanente como um mundo que se desmancha para o
surgimento de outro, como execução plástica. A imagem confere ao processo um valor
de ênfase ao plano inferior, quer como uma preferência (ver fotos 07, 08), quer como
vazão e prolongamento do espaço.
A cidade ganha valor estético na medida em que os espaços são revelados sem
restrições, como investimento plástico; havendo uma perspectiva fotográfica que a
inscreve num plano singular de apropriação. Por isso, as estruturas instituintes da
imagem fotográfica revelam uma cidade como experiência visual tramada em um sistema
lingüístico que se traduz em imagem, e principalmente como significação da paisagem
urbana.

96
Fotos 07, 08: O Jardim de Zé Boinho, uma constante construção.
Fonte: Zé Boinho.
Acervo pertencente à família do fotógrafo.

O campo de visão que se tem com essas imagens explicitam a cidade como
expressão de um estética específica, mesmo que se reconheça as modificações no espaço
estrutural da urbe. Contudo, é preciso enfocar que a cidade fotografada emerge em
função da visualidade que se tem a partir do alcance projetado pelo resultado
compositivo. Há uma preocupação do fotógrafo em evidenciar determinadas linhas de
fulga, criando um eixo de alcance que se projeta como campo de exploração do
horizonte.

97
Os acessos que se tem a cidade pela cartografia visual integram uma composição
espacial da paisagem jardinense, como simetria que se institui em um campo de forças
imaginárias. Traduzindo sentidos de apropriação espacial com os quais se pode acessar a
realidade e enxergá‐la desta ou daquela forma. “Pois o imaginário é esse motor de
significados à realidade, é o elemento responsável pelas criações humanas, resultem elas
em obras exeqüíveis e concretas ou se atenham à esfera do pensamento ou às utopias
que não realizaram, mas que um dia foram concebidas.” (Pesavento, 2007, p.12). Por isso,
o acervo fotográfico de Jardim do Seridó, decorrente do exercício de Zé Boinho, é
sobretudo, resultado de uma sensibilidade imaginativa operacionalizada sobre a
paisagem.
Cada imagem sugere um espaço que se abre a múltiplas formas de entendimento,
de criação, e de significação da paisagem. Por isso, se tem uma paisagem como estética
inacabada e a imagem fotográfica é sempre uma concepção de paisagem, que domina o
homem com uma normatividade despótica; mas é também aquilo que deve ser excluído
ou reduzido ao silêncio (Foucault e Rouanet, 1996, p.13).

5 Considerações Finais
O campo de visão da paisagem que se tem a partir das imagens fotográficas
deixadas por Zé Boinho, sobre a cidade de Jardim do Seridó permite ter acesso a uma
paisagem urbana como conjunto de elementos plásticos que (re) escrevem o espaço
citadino como achado visual simbólico, imaginário, “real”, “ficcional”. O acervo
fotográfico dá conta de um universo profundamente estético, numa composição de
narrativas e dramaturgias criativas sobre determinados espaços da cidade como: a rua, a
igreja, o mercado e o plano arquitetônico.
O fotógrafo manipula e domina com maestria todo um conjunto de técnicas da
narrativa visual. Havendo em todo acervo implicações máximas ligadas ao processo de
significação da paisagem como função, plano e simetria retroalimentada por processos
socioculturais do mundo social. Por exemplo, o sentido da fotografia no domínio da rua
desponta na contramão das evidências, das usualidades, do sentido sociológico de
produção compartilhada; ainda é preciso considerar que o espaço da cidade vale como
existência própria, como ramificação de um dizer que per se basta, na medida em que se
revela como um espaço demarcado por estruturas narrativas da linguagem visual.
98
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99
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SARAIVA, Juracy Assmann (Org.) – Leituras refletidas. São Leopoldo/RS. Editora Unisinos,
2003.p. 173‐191;

100
A colonização e a grilagem no Rio Grande do Sul no século XIX

Cristiano Luís Christillino


Doutorando em História – UFF
e‐mail: christillino@hotmail.com

Resumo
No Rio Grande do Sul as conturbações políticas, motivaram os investimentos da Coroa em
colônias de povoamento. Mas, se por um lado a imigração esteve na base de um projeto
do Governo Central, em criar uma base de apoio alternativa aos milicianos gaúchos, por
outro, a expansão do complexo colonial foi conduzida, e disputada, pela elite local
interessada no comércio de terras. A colonização intensificou a grilagem na Província, à
medida que ela avançava, crescia o número de fraudes em torno da apropriação das
terras públicas. Este processo concentrou um grande patrimônio fundiário nas mãos de
alguns agentes da colonização.

Palavras‐chave
Colonização, elite fundiária e mercado de terras

101
1 Introdução
A Província do Rio Grande do Sul recebeu o maior número de colônias de
povoamento, ao longo do Segundo Reinado, processo que transformou
consideravelmente a paisagem rural sul‐rio‐grandense e sua configuração política e
econômica ao longo desse período. O tema recebeu a atenção da historiografia local, que
analisou a imigração a partir da complexa conjuntura histórica do Império Brasileiro.
Alguns trabalhos mostram que a imigração cumpriu um importante papel no Rio Grande
do Sul, ao criar e expandir uma base de apoio político alternativo a elite regional. A
maioria das despesas, com a introdução de imigrantes e seu estabelecimento nas
colônias, era custeada pela Província, cujos recursos foram aprovados pelos
representantes das forças locais, na Assembléia Provincial. Além disso, 87% das colônias
criadas na Província, ao longo do Segundo Reinado, eram de iniciativa particular. Desta
forma, o projeto político da Coroa foi incorporado e assumido por uma parcela da elite
sul‐rio‐grandense, interessada na colonização.
O processo de expansão da colonização é indissociável da questão da grilagem das
terras públicas. Entendendo‐se aqui como grilagem a apropriação de terras alheias, no
caso públicas, cujo título de propriedade era falsificado. O avanço da área colonial
propiciou uma grande valorização das terras próximas aos primeiros núcleos. Logo, as
Companhias de Colonização, os comerciantes e os fazendeiros iniciaram a
comercialização de terras aos imigrantes. Um negócio lucrativo que incentivou a uma
verdadeira corrida em busca de terras que propiciassem a venda e/ou compra de lotes.
Neste contexto, grande parte das terras públicas, dos municípios nos quais foram criadas
colônias de imigração, passou para as mãos dos colonizadores, sem qualquer tipo de
intervenção dos órgãos públicos. Neste sentido, a propomos discutir os interesses da
elite gaúcha em torno do processo imigratório, e a sua relação com a intensificação da
grilagem na Província.

2 A política imigratória no Brasil


A entrada de imigrantes no Brasil, por iniciativa oficial, remonta a emancipação
política em 1822. Dom Pedro I reforçou os seus batalhões através da introdução de

102
mercenários europeus, especialmente alemães. A Colônia de São Leopoldo recebeu um
grande número destes soldados, que recebiam lotes de terras como pagamento pelos
serviços prestados. Na década de 1820, o Major Von Schaefer embarcou muitos soldados
como colonos nos portos alemães. A Lei do Orçamento de 1831, quando foram
suspendidos os créditos para a imigração estrangeira, acabou, inclusive, com muitos dos
incentivos destinados às colônias existentes. A Lei do Orçamento e as revoltas do período
regencial impediram a continuação da colonização, na década de 1830. Em meados dos
anos 40, quando foi retomado o processo imigratório, a conjuntura política, econômica e
social brasileira havia se transformado, consideravelmente, em relação aos primeiros
anos de existência do Estado brasileiro. Os objetivos em torno da imigração européia
também mudaram. A criação da Guarda Nacional e a resolução das principais revoltas
ocorridas em diversos pontos do país supriram, mesmo que parcialmente, a necessidade
da introdução de um maior contingente de soldados, não sendo, assim, o fulcro da
imigração.
O ponto central da política imigratória no Segundo Reinado era a transição ao
trabalho livre nas lavouras agro‐exportadoras. A chamada “crise de braços” foi
intensificada com a Lei Eusébio de Queiroz. A proibição do tráfico negreiro não permitia
mais as renovações periódicas dos plantéis escravistas. A alternativa encontrada foi a
introdução de colonos europeus, e criar um novo sistema de trabalho: o de parceria. O
seu precursor foi o Senador Vergueiro, que o introduziu em sua Fazenda Ibicaba, no
interior paulista, em 1846. Os relatórios do Ministério da Agricultura, das sociedades
agrícolas do período e dos discursos da Câmara dos Deputados eram constantes a defesa
da introdução da mão‐de‐obra européia como forma de “salvar” a agricultura nacional. A
Lei de Terras determinou que os recursos provenientes das vendas de terras públicas
seriam investidos na imigração. O incentivo a imigração neste período, no entanto, não
pode ser reduzido ao viés explicativo da “crise de braços” das lavouras agro‐
exportadoras. Houve uma conjuntura complexa na qual a imigração seria defendida como
solução aos problemas do Império.
Predominava no discurso acadêmico a questão da eugenia. Termo criado por
Francis Galton (1822‐1911), que assim o definiu: “O estudo dos agentes sob o controle
social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja

103
física ou mentalmente”1. Hipólito da Costa, Domingos Jaguaribe Filho, João Cardoso de
Menezes e Souza, Oliveira Viana, Miguel Couto, entre outros, adeptos de Galton,
defendiam a idéia da supremacia racial, para o melhoramento da “raça” brasileira através
“cruzamentos étnicos”. Conseqüentemente, eram defensores à entrada de imigrantes
europeus, conquanto, não aceitavam nem o negro, nem o índio, assim como, a
introdução de imigrantes asiáticos, pois estes, também, eram considerados “raças”
inferiores. A vinda do europeu era considerada como a única forma de “melhorar a
sociedade brasileira”. Em 1846, o então Conde de Caxias, Presidente da Província do Rio
Grande do Sul ao discutir o processo imigratório, dizia que: “não quereis sem dúvida
povoar com negros”2.
Ao longo do século XIX, a grande tensão em torno das revoltas escravas, e com o
episódio do Haiti em 1840, alerta o continente americano para a possibilidade de
rebeliões cada vez maiores e mais freqüentes, que viessem desestabilizar o poder da
camada dirigente. No Brasil, durante o Período Regencial, pode‐se citar revoltas, como a
da Balaiada no Maranhão, entre 1838 e 1841; a Cabanagem no Pará, entre 1835 e 1840; a
Revolta dos Malês na Bahia em 1835, uma grande rebelião de escravos muçulmanos que
tinham por objetivo fundar uma monarquia muçulmana, mostrou que o episódio do Haiti
poderia ser repetido. Da mesma forma, os estudos sobre a escravidão mostram que este
sistema foi marcado pelos conflitos e insubordinações que levou muitos dirigentes
políticos e intelectuais a aderirem à defesa de uma lenta e gradual abolição da
escravatura. Os jornais da época também expressavam esta situação, revelando o pânico
gerado nas camadas dirigentes em função dos crescentes atos de insubordinação
escrava, o chamado medo branco.
Os trabalhos inspirados em Thompson revelaram outra face do escravismo,
mostrando que a relação entre o senhor e o escravo era marcada pela tensão, o que vai
levar o proprietário a buscar uma mão‐de‐obra alternativa. Nesta mesma direção teórica,
os estudos sobre o campesinato mostram que a relação do homem livre e pobre com os

1
Apud: SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças – cientistas, instituições e questão. racial no Brasil
1870‐1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
2
CAXIAS, Conde de. Relatorio com que abrio a primeira sessão ordinaria da segunda legislatura da provincia de
S. Pedro do Rio Grande do Sul no 1.o de março de 1846, o exm.o sr. conde de Caxias, presidente da mesma
provincia. Porto Alegre, Typ. de I.J. Lopes, 1846, p. 14.
104
grandes fazendeiros não estava restrita à submissão3. A resistência deste grupo, frente à
expropriação da terra e as condições de trabalho, também reforçam a busca pela
imigração. Ao contrário dos que defendem que o imigrante foi preferido ao homem livre
nacional, em função das suas aptidões no trabalho, percebe‐se que, antes disso, a
insubmissão deste último explica esta opção.
A maioria dos estrangeiros entrados no Brasil foi enviada às grandes lavouras
paulistas e fluminenses. Uma pequena parcela foi destinada às lavouras canavieiras do
nordeste. No entanto, uma fração significativa dos imigrantes foi estabelecida em
colônias de povoamento. Essas colônias, num primeiro momento, tiveram a função de
abrigar os soldados estrangeiros, contratados para reforçar os batalhões do Imperador.
Ao longo do Segundo Reinado, além da conjuntura anteriormente descrita, essas colônias
tiveram a função de reforçar o abastecimento de alimentos ao mercado interno. Neste
sentido foram criadas as colônias Dom Pedro II no município mineiro de Juiz de Fora, em
1856 e a Colônia Santa Tereza em 1874, na Província do Espírito Santo. Em relação à
Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, a questão do abastecimento não constituía
um problema capaz de impulsionar o processo imigratório. A escassez de alimentos
aparece nas correspondências das Câmaras Municipais e nos relatórios de presidentes de
Província, resultante das estiagens, especialmente durante as secas de 1865 e de 1877.
Por outro lado, os lucros obtidos pela produção sul‐rio‐grandense não possibilitavam a
introdução de colônias de parceria.
As exportações gaúchas estavam pautadas, principalmente, no charque, nos
rebanhos muares e cavalares e na erva‐mate, comercializada nos países platinos. Em seu
Relatório de 1854, o presidente da Província João Lins Cansanção de Sinimbú, chamava a
atenção ao fato de que a produção gaúcha, cujos lucros eram reduzidos, em relação às
atividades cafeeiras e açucareiras, não suportaria o sistema de parceria, propugnava por
um sistema de pequenas propriedades4. Além do que, a extração de erva‐mate e a
pecuária já contavam com a mão‐de‐obra do homem livre e pobre nacional. O problema
estava nas lavouras das áreas florestais, cujos produtos também não viabilizariam o

3
MOTTA, Márcia Maria Menendes. Nas Fronteiras do poder: conflito e direito à terra no Brasil do século XIX.
Rio de Janeiro: Vício de Leitura / Arquivo do Estado, 1998.
4
SINIMBU, João Lins Vieira Cansansão de. Relatório do Presidente da Provincia de S. Pedro do Rio Grande do
Sul João Lins Vieira Cansansão de Sinimbu, na abertura da Assembléa Legislativa Provincial em 2 de outubro de
1854. Porto Alegre: Typ. do Mercantil, 1854, p. 25.
105
estabelecimento de colônias de parceria. A mão‐de‐obra livre nacional encontrava, nas
terras devolutas, uma alternativa a este trabalho.
Uma parcela da historiografia acredita que a questão da fronteira poderia estar no
centro da política imigratória na Província do Rio Grande do Sul. Esta região foi palco de
grandes conflitos pela demarcação dos limites brasileiros e uruguaios, e pelos choques de
interesses entre a elite gaúcha e parte da sociedade política uruguaia. Mas a colonização,
ao longo do Período Imperial, não foi direcionada a área fronteiriça. A frustração da
fundação da Colônia São João, na fronteira missioneira mostrou a inviabilidade da
colonização em locais distantes dos mercados e as terras da Campanha já estavam
apropriadas pelos pecuaristas milicianos do Rio Grande do Sul. A fundação de uma
colônia implicaria na desapropriação de alguns latifúndios. Esta prática seria
politicamente inviável. As Câmaras Municipais desta região não apoiavam a introdução de
colônias de imigração, isto se observa nas correspondências das Câmaras Municipais de
Alegrete e Santana do Livramento.
Por outro lado é preciso levar em consideração a questão ambiental. Os recursos
naturais da Região da Campanha impunham três obstáculos à fundação de uma colônia
no século XIX. Os campos desta região apresentavam uma baixa fertilidade, acentuadas
pela acidez do solo, não possibilitavam a prática da coivara, a mais utilizada neste
período. A agricultura nestes campos implicaria na adubação da terra, e o volume de
esterco de gado necessário a esta fertilização, não seria obtido através dos pequenos
rebanhos dos colonos. Estas planícies apresentavam sérios problemas quanto a as
reservas de água. Os fazendeiros da Campanha amenizavam este problema deslocando
seus rebanhos aos locais próximos dos cursos de água mais perenes. Esta solução não
seria possível aos colonos que viessem aí se estabelecer. Se os que se fixaram na região
serrana dispunham de uma rica hidrografia, essa sorte não era encontrada na Campanha
Gaúcha, na qual uma parte dos colonos, que aí viessem se estabelecer estaria a
quilômetros de distância do primeiro curso de água. Finalmente, a ausência de outro
elemento fundamental ao desenvolvimento de uma colônia: a madeira, recurso essencial
ao estabelecimento do colono à terra. Era a madeira que garantia a construção de casas,
galpões e cercados. Da mesma forma era utilizada como combustível doméstico e na
confecção dos mais variados utensílios empregados no cotidiano rural. Em 1876, o

106
Presidente da Província José Antonio de Azevedo Castro, expôs o projeto de criação de
uma colônia no Município de Triunfo. O Presidente aconselhava a sua localização nas
margens do rio Taquari, e não nas proximidades da Vila de Triunfo. Segundo o Relatório
de 1876, ficou registrado por este Presidente, que aquele local, além de ser mais fértil, era
abundante em madeiras, algo que não seria encontrado nas cercanias desta Vila, e
poderia comprometer o futuro da colônia proposta. Desta forma as condições políticas e
ambientais não permitiram a introdução de uma colônia na Campanha, logo a questão da
fronteira é secundária na compreensão do processo imigratório nesta Província.
As instabilidades políticas do Rio Grande do Sul fizeram com que o processo
imigratório assumisse outro. As conturbações da estremadura meridional do Império logo
despertaram uma atenção especial por parte da Coroa. O território gaúcho foi palco de
intensos conflitos pela afirmação da fronteira. A elite miliciana estabelecida na pampa
brasileira era fundamental a manutenção das fronteiras. Sua ligação com o Prata, e seus
restritos vínculos com o Império Brasileiro, fazia com que o centro dedicasse uma
atenção especial a esta Província. A resolução da Revolta Farroupilha, originada pela
insatisfação da elite da Campanha contra a Regência, foi a expressão política da Coroa no
Segundo Reinado. A pacificação deste conflito foi tratada de uma maneira diferenciada
em relação as demais revoltas. Além de se tratar de uma revolta comandada
unilateralmente pela elite local, ao contrário de outras revoltas que acabaram nas mãos
das camadas populares, as milícias gaúchas eram imprescindíveis à hegemonia brasileira
no Prata5. Se por um lado era preciso estender um tratamento diferenciado a esta elite,
por outro era necessário neutralizá‐la politicamente. A imigração, neste contexto,
representaria uma base de apoio alternativa aos estancieiros da Campanha.

5
FERTIG, André Atila. Clientelismo político em tempos belicosos: A Guarda Nacional da Província do Rio Grande
do Sul na defesa do Estado imperial centralizado (1850‐1873). Tese de Doutorado em História. Porto Alegre:
UFRGS/IFCH, 2003.
107
Nos relatórios de presidentes de Província, foi expressa a preocupação com as
posições políticas dos imigrantes, especialmente em torno da sua obediência ao regime
monárquico:

O povo está pois educado em um systema de obediencia e direi, admittindo‐se‐me a


expressão, de governabilidade, que o torna ainda mesmo nos paizes de instituições livres
da América, um precioso elemento de ordem e de trabalho no meio de suas populações
ruidosas e desabusadas das ficções governamentaes. Se as circumstancias peculiares do
centro em que vivem as populações germânicas, imprimem‐lhes esta educação social, o
fundo do caracter da nação não a repelle, sujeita‐se e amolda‐se á ella... Se precisamos
mais de braços do que idéias, devemos preferir os povos da raça germanica para a
colonização6.

Neste trecho, o Presidente Francisco Xavier da Cunha mostra a preocupação do


Governo provincial em colonizar o Rio Grande do Sul com imigrantes afeitos ao regime
político existente. O objetivo seria constituir um grupo social que integrasse a base de
apoio do Governo Central e, por extensão, ao Provincial, para evitar as conturbações
políticas. Um grupo neutro às contendas sul‐rio‐grandenses, isolando, progressivamente,
a elite gaúcha. A Colônia de São Leopoldo, durante a Guerra dos Farrapos, permaneceu,
em sua maior parte, indiferente à causa dos revoltosos.
A elite política tradicional do Rio Grande do Sul não tardou a criar barreiras ao
avanço da colonização. Os mais de cinco mil imigrantes que entraram na Província entre
1824 e 1829, mostraram que a continuação deste processo de colonização rapidamente
deslocaria o eixo econômico e político da Província da Campanha à colônia, caso fosse
dada continuidade àquele ritmo da imigração. Contemporâneos do período
caracterizaram esta preocupação como o “perigo alemão”. Segundo Von Hering, “para
os proprietários brasileiros que se consideravam donos da terra, um povoamento maciço
com estrangeiros poderia por em perigo a supremacia política da população nativa
(Perigo Alemão)”7. Pressionado, apesar de ser favorável a imigração, D. Pedro I, se vê
levado a assinar a Lei de 15 de dezembro de 1830, na qual o governo se compromete em
vedar gastos com a emigração e colonização estrangeira

6
CUNHA, Francisco Xavier da. Relatório da inspetoria Geral das Colônias apresentado ao illustrissimo e
excellentissimo senhor Dr. Antonio Augusto Pereira da Cunha Vice‐Presidente da Província pelo Inspetor Geral
das Colônias Francisco Xavier da Cunha. Porto Alegre: Tiphografia do Rio‐Grandense, 1866, p. 16.
7
Apud: AMSTAD, Theodor. Cem anos de germanidade no Rio Grande do Sul‐1824‐1924. Tradução: Arthur Blásio
Rambo. São Leopoldo: Ed. da Unisinos, 1999, p. 80.
108
A conjuntura política provincial do período posterior a Farroupilha mudou
significativamente em relação ao Primeiro Reinado. A elite política tradicional saiu
enfraquecida desta guerra civil. A longa duração do conflito reforçou a retomada do
processo de colonização imigrante. Esta foi a saída encontrada ao restabelecimento do
equilíbrio político na Província8. Mas este projeto não seguiu, necessariamente, um
programa político partidário, mesmo que estivesse na base do ideal liberal, como nos
mostra Fernando Henrique Cardoso9. No Rio Grande do Sul observamos que o Partido
Conservador esteve mais próximo do projeto de colonização. A Região da Campanha era
o reduto Liberal da Província. Seus líderes, especialmente o General Osório, tinham sérias
restrições à imigração, conforme o que está expresso na sua documentação pessoal.
O Jornal “A Reforma”, órgão ligado ao Partido Liberal no Rio Grande do Sul
criticou duramente o projeto de colonização ao longo das décadas de 1870 e 1880. A
Reforma denunciou os riscos que a germanização das regiões colonizadas poderiam
trazer a Província, no contexto de afirmação do Império Alemão e de sua inserção no
colonialismo. Esta posição do Partido liberal gerou um forte impacto sobre a imigração na
Província, com a diminuição das verbas destinadas a colonização. O volume de recursos
aprovados em 1880 era inferior a um terço daquele aprovado em 187010. E este volume de
recursos diminuiu drasticamente ao longo dos anos 80. Mas a presença de imigrantes na
Província já era suficientemente forte para mudar a sua configuração política. Embora a
elite política sul‐rio‐grandense tradicional tivesse maioria das cadeiras do Parlamento e na
Assembléia Provincial, ela teve que negociar o apoio da base colonial para as suas
eleições e atender algumas das suas reivindicações. A Lei Saraiva de 1881, ampliou
consideravelmente o eleitorado das áreas coloniais, ao permitir o voto aos não católicos,
ao mesmo tempo em que restringiu o número dos “eleitores da terra”, na medida em que
vedava o voto aos analfabetos.
O projeto político em torno do processo imigratório do Governo Imperial, para a
Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, permite entender o empenho do mesmo na
fundação e desenvolvimento da Colônia de São Leopoldo e, mais tarde, das quatro

8
CUNHA, Jorge Luís. Os colonos alemães e a fumicultura: Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul 1849‐1881. Santa
Cruz do Sul: Livraria e Editora da FISC, 1991.
9
CARDOSO, Fernando Henrique. Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional: o negro na sociedade
escravocrata do Rio Grande do Sul. 4ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
10
ROCHE, Jean. A Colonização Alemã e o Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Ed. Globo, 1969, vol. 1.
109
colônias de imigração italiana (Caxias, Conde d’Eu, Princesa Isabel e Silveira Martins). Da
mesma forma podemos compreender o esforço dos presidentes de província neste
processo. Mas por outro lado, é preciso levar em conta os interesses da elite sul‐rio‐
grandense, sem os quais, a colonização não teria a mesma expansão. Entre 1850 e 1889
foram criadas 250 colônias de imigração no Brasil11, sendo que 28% delas, foram
estabelecidas em solos gaúchos. Esta cifra mostra que o Rio Grande do Sul foi a Província
na qual houve a maior expansão colonial do Brasil, no século XIX. Entre 1850 e 1880,
foram criadas 69 colônias de imigração na Província, das quais 87% eram de iniciativa
particular. A Coroa deu o primeiro passo, ao fundar a Colônia de São Leopoldo em 1824. A
presidência da Província teve um papel importante na introdução dos 147.943 imigrantes
ao longo do período imperial. Mas era a Assembléia Provincial quem aprovava os
orçamentos, nos quais foram destinados uma importante parcela dos seus recursos a
imigração. As câmaras de vereadores disputavam o estabelecimento de colônias de
imigração nos seus municípios. Neste sentido é preciso investigar os interesses da elite
sul‐rio‐grandense no processo imigratório.

3 Os municípios gaúchos e a imigração


A elite gaúcha não era homogênea, como também não eram coesos os seus
interesses em torno do processo imigratório. Salienta‐se, em primeiro lugar, as diferenças
regionais, para depois então discutir as possíveis vantagens que os diferentes segmentos
deste grupo poderiam obter através da expansão do processo imigratório. Na década de
1850, o Rio Grande do Sul, estava dividido num número reduzido de municípios.
Utilizamos, para esta análise, a seguinte divisão da Província: Campanha, Depressão
Central, Planalto e Serra. A Campanha é o espaço localizado a sudoeste do Rio Grande do
Sul, composta por campos. Esta região foi a última a ser integrada, plenamente, ao
território luso‐brasileiro, e suas terras foram imediatamente concedidas aos milicianos
locais, constituindo, a principio, grandes latifúndios. Nesta região não havia matas
devolutas nas quais o Governo pudesse estabelecer colônias. A elite pecuarista da
Campanha possuía fazendas no Uruguai, uma parcela desta também se dedicava não só
11
GIRON, Loraine Slomp; BERGAMASCHI, Heloísa. Colônia: um conceito controverso. Caxias do Sul: EDUCS,
1996, p. 28.
110
ao comércio de gado como ao de charque. Embora a pecuária estivesse enfrentando
problemas com os preços do gado e do charque, os fazendeiros da Campanha tinham a
opção do contrabando de gado ao vizinho Uruguai. Estes latifundiários articulados em
torno da pecuária e do comércio de rebanhos e de charque não estavam interessados na
fundação de colônias. As atividades econômicas desta região não exigiam dos seus
homens de negócios a busca de novas alternativas. Esta não foi à mesma sorte da elite
dos municípios da região serrana.
Os municípios que compreendiam esta região, especialmente Taquari e Rio Pardo,
tinham suas economias assentadas, principalmente, em torno do comércio e da erva‐
mate. Esta atividade era realizada em meio à floresta nativa, em sua grande maioria
terrenos devolutos. Era utilizada a mão‐de‐obra dos ervateiros, que eram homens livres e
pobres que estavam arranchados nos ervais, onde consorciavam a lavoura de
subsistência com a extração da erva‐mate. Esta foi a base econômica da ocupação das
áreas florestais, cuja atividade empregava um grande número de pessoas. Em 1854, o
Presidente da Província, João Lins Cansanção de Sinimbú, já expunha a crise do setor,
denunciando a falsificação do produto com folhas de outras árvores, o que vinha
provocando a perda de mercado do produto sul‐rio‐grandense junto aos países platinos.
Além do comércio de erva‐mate estar em estagnação, os negociantes do produto, os
“donos” dos ervais, estavam perdendo o controle sobre estas áreas, quando o mato havia
se transformado numa questão social12. Esta atividade estava quebrando todo um ciclo de
poder estabelecido desde a ocupação da região.
A agricultura voltada ao abastecimento de alimentos ao mercado interno da
Província passava por grandes dificuldades. Não havia condições para as grandes
plantações competirem com as pequenas lavouras de mão‐de‐obra familiar, seja ela dos
posseiros nacionais ou da colônia imigrante. Esta última trouxe um forte impacto sobre a
grande lavoura, que em parte estava baseada na mão‐de‐obra escrava. O rendimento da
pequena lavoura era maior, em função da mão‐de‐obra familiar empregada, cujo estímulo
era um diferencial em relação ao trabalho escravo e ao de parceria empregado nas
fazendas. A fronteira agrária aberta nas áreas florestais devolutas e as oportunidades
propiciadas pelo trabalho na extração de erva‐mate afastavam cada vez mais os homens

12
CHRISTILLINO, Cristiano Luís. Estranhos em seu próprio chão: Lei de Terras, imigração e exclusão dos
posseiros no Vale do Taquari. São Leopoldo: OIKOS/ Ed. da UNISINOS, 2008.
111
livres dos roçados de parceria nas fazendas da região. A produção das terras florestais da
região serrana portanto, faziam com que a elite destes municípios buscasse uma fonte
alternativa de renda, capaz de transformar um capital simbólico, a terra, em um capital
monetário. A imigração se encaminhava em direção aos vales férteis dos rios Pardo e
Taquari.
As regiões da Depressão Central e do Planalto apresentavam características
semelhantes em vários aspectos, como econômicas. Na primeira região estavam
assentados os municípios de Cachoeira do Sul e Santa Maria. Sua cobertura vegetal era
caracterizada pela presença de campos e de áreas florestais. A economia desta região
girava em torno do gado e da produção de alimentos, atividade explorada nas pequenas
chácaras próximas as suas respectivas vilas, e também em posses nas áreas serranas
destes dois Municípios. A preocupação da elite local centrava‐se na “segurança de
propriedade”. Estas Câmaras enviaram vários ofícios a Presidência da Província relatando
casos de abigeato e de outros crimes, ocorridos, principalmente, ao longo das estradas. A
Colônia Santo Ângelo, fundada em Cachoeira do Sul em 1856, se localizava próxima ao rio
Jacuí, num dos mais importantes locais de passagem deste rio. Ao longo da década de
1870 foi aberto um novo caminho entre Santa Maria da Boca do Monte e Cruz Alta, a
chamada estrada do Pinhal. Logo após a sua abertura, foram concedidos lotes coloniais
na parte serrana desta estrada, nas quais os “matos devolutos” não permitiam um
trânsito seguro.
O Planalto também enfrentou problemas no que diz respeito ao sossego de suas
estradas. Seu único município era Cruz Alta, que foi o maior município do Rio Grande do
Sul nas décadas 50 e de 70. Sua ocupação, no início do XIX, ocorreu em torno das áreas de
campo. Já no período posterior a Farroupilha, as terras de ervais foram apropriadas
rapidamente pela elite pecuarista. Um grande número de proprietários locais declarou a
posse de terras de campo, obtidas por título, nos registros paroquiais de terras,
juntamente com as posses de matos, nos ervais, contíguos as suas fazendas. Outra parte
significativa das declarações eram posses, estabelecidas também sobre os “matos e
ervaes” de Cruz Alta. A erva‐mate era a principal fonte de lucro deste Município13, e a
rápida apropriação dos ervais (mais de 60% das posses declaradas foram ocupadas entre

13
ZARTH, Paulo Afonso. Do arcaico ao moderno: as transformações do Rio Grande do Sul rural no século XIX.
Ijuí: Ed. da Unijuí, 2002.
112
1848 e 1850), e sua conseqüente grilagem14, mostram a valorização sofrida por estas
áreas. Mas a elite ervateira vinha, progressivamente, perdendo o controle sobre os ervais.
Assim como nos municípios serranos, em Cruz Alta o mato se transformou numa questão
social. Isto, somado aos constantes problemas de insegurança nas estradas do município,
especialmente nas áreas serranas, leva a sua elite a defender a colonização das terras
devolutas.

4 A elite gaúcha e o processo colonizador


O Ato Adicional de 1834 transferiu às Províncias a condução do processo de
imigração. As Assembléias Provinciais, ao votarem seus orçamentos, determinariam o
volume de recursos destinados a introdução de colonos e aos investimentos nas colônias
existentes. Entre quatro as principais regiões do Rio Grande do Sul, três delas solicitaram
a instalação de colônias de imigração em seus respectivos municípios. As Câmaras
Municipais, e a Assembléia Provincial, além da influência do ideal de modernização
atribuído ao imigrante, e a eugenia, estavam preocupadas com a insegurança nas suas
estradas. Isto enquanto instituição, pois a elite que ocupava as suas cadeiras tinha outros
interesses mais. Entre estes, destacam‐se aqueles ligados aos comerciantes. Estes
geralmente estavam representados nas Câmaras e mantinham ligações com a Assembléia
Provincial, e geralmente constituíam as maiores fortunas dos seus municípios. Os
comerciantes, no geral, tinham um armazém e ao mesmo tempo negociavam os produtos
dos seus clientes, estabelecendo vínculos com as casas de negócios de Porto Alegre, ou
de outras regiões.
Pedro Müchel, imigrante prussiano naturalizado, se instalou inicialmente em São
Leopoldo, e migrou no início da década de 1860 para a Vila de Taquari, onde estabeleceu
uma casa de comércio, além desta ele atuou em várias outras atividades. Foi um dos

14
As grilagens já vinham ocorrendo em Cruz Alta desde, pelo menos, a década de 1820, quando a Câmara
Municipal denunciou esta prática a Presidência da Província. Já em meados do XIX, os registros paroquiais
de terras de Cruz Alta, nos oferecem indícios das grilagens em torno das terras públicas. A Lei de Terras
validou as posses realizadas até o ano de 1850. A grande maioria das declarações de posse têm os anos de
1849 e 1850 como o marco inicial de suas ocupações. Isto mostra, que para grilar as mesmas áreas, os
declarantes utilizaram o limite temporal para determinar o início de sua suposta ocupação. E mais de 70%
das posses, eram sobre os ervais. Como a atividade extrativa não constituía posse, segundo o Regulamento
de 1854, estas apropriações eram ilegais.
113
primeiros a investir no transporte fluvial realizado por lanchões15, pequenas embarcações,
que permitiam um transporte mais rápido às pequenas cargas. Müchel também investiu
em outra atividade que ainda apresentava boas somas de lucros na década de 1860: o
engenho madeireiro16. Além destes, e do comércio de escravo, do qual participou
intensamente, ele comercializou um grande número de terrenos, chácaras e sítios
próximos a Vila de Taquari. Na década de 1870, no auge da imigração neste município,
Pedro Müchel passou a negociar lotes coloniais, chegando a ser o principal vendedor de
terras em muitos dos livros de Tabelionato pesquisados. A venda de lotes isolados,
aqueles que não estavam localizados unicamente na mesma linha, picada ou colônia,
possibilitaram grandes lucros. Pedro Müchel ocupou durante muitos anos, o cargo
vereador e presidente da Câmara Municipal de Taquari, onde intercedeu pelos incentivos
às colônias existentes no município e a criação de outras mais, defendendo a extensão
dos seus próprios negócios.
Rio Pardo era uma vila que possuía um comércio desenvolvido, em função de sua
posição geográfica, desde, pelo menos, a visita de Auguste Saint‐Hilaire na década de
182017. O porto de Rio Pardo recebia mercadorias de Porto Alegre e Rio Grande para a sua
distribuição no longo dos boliches da Campanha, depressão central e planalto, o que lhe
proporcionava um dos entrepostos comerciais mais lucrativos da Província. Em Rio Pardo
os homens de negócios estavam inseridos no comércio de varejo e, ao mesmo tempo,
nos negócios da produção deste município, especialmente o da erva‐mate. O comércio de
Rio Pardo, no entanto, vinha perdendo espaço. A elevação do Distrito de Cachoeira do Sul
a categoria de município, em 1819, consagrou o ponto comercial desta povoação. Além do
mais, a abertura de um novo caminho ligando Cruz Alta a Santa Maria e Cachoeira,
reduziu consideravelmente o fluxo de comércio deste extenso município com a Vila de
Rio Pardo. Desta forma, os negociantes desta Vila buscavam incrementar suas atividades
através da inclusão de novas rotas de comércio. O que veio a ocorrer a partir de 1847,
com a abertura de um novo caminho que ligaria a Vila ao Planalto. Neste momento a
Câmara de Rio pardo já pleiteava o estabelecimento de uma colônia de imigração nesta
nova rota de comunicação. Em 1849 foi estabelecida a Colônia Santa Cruz nesta estrada.

15
Registros de transmissões do 1º Tabelionato de Taquari. Livro nº 12. Arquivo Público do Estado do Rio
Grande do Sul (APERS).
16
Registros de transmissões do 1º Tabelionato de Taquari. Livro nº 13. APERS.
17
SAINT HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. do Senado, 2002.
114
Cruz Alta, por sua vez, era um município excessivamente extenso e a Câmara
enfrentava problemas em relação ao atendimento das reivindicações de todos os seus
sete distritos. O Distrito do Botucaraí era o mais “sofrido” deles, segundo as atas da
Câmara. Desta forma, foi encaminhado a Presidência da Província, em 1856, a proposta de
criação de uma colônia neste distrito, nas proximidades da povoação de Soledade, como
uma forma de “privilegiar” a população local, “encarecida de progresso e de comércio”.
A proposta não foi aceita, mas o seu interesse em contemplar as aspirações comerciais da
povoação de Soledade, um ponto importante no caminho ao Campos de Cima da Serra,
ficou expressa nesta solicitação.
Porto Alegre cresceu significativamente ao longo do XIX, em função do comércio
estabelecido com as regiões coloniais. Os negociantes de Porto Alegre rapidamente se
transformaram num dos principais núcleos da elite econômica da Província, ao passo que
os negócios em torno do charque vinham declinando. Isto, na medida em que a cidade
era o centro comercial de toda a área colonial. A produção da colônia era vendida em
Porto Alegre, e os produtos de consumo dos colonos também eram ali adquiridos. Muitos
homens de negócios, enriquecidos pelo comércio, passaram a investir nas manufaturas e
nas primeiras indústrias18. O alto escalão da burocracia provincial também se beneficiou
das vantagens econômicas propiciadas pela expansão da área colonial. Muitos burocratas
da época eram também proprietários de terras em locais nos quais foram fundadas
colônias oficias de imigração. Outros receberam concessões de terras gratuitamente nas
proximidades destas colônias para a sua comercialização, quando a Lei de Terras proibia
qualquer forma de acesso à terra que não fosse por meio da compra.
A distribuição de terras pelo Presidente de Província, e pelo juiz de paz durante a
regência, esteve na base do clientelismo provincial. Em Livramento o juiz de paz distribuiu
várias “chácaras” nas proximidades da Vila, nos galhos do arroio Ibicuí. Nos registros
paroquiais de Cruz Alta e Livramento constam doações e “ratificações de posses” do
presidente da Província, o então Conde de Caxias. Mesmo após a promulgação da Lei de
Terras as concessões continuaram a serem feitas. A Colônia Santa Cruz foi fundada em
1849, no município de Rio Pardo. Em 1851 a mesma já havia recebido um considerável
número de colonos, e a Assembléia Provincial determinou que os imigrantes que

18
PESAVENTO, Sandra Jatahy. A burguesia gaúcha: dominação do capital e disciplina do trabalho (RS 1889‐
1930). Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.
115
chegassem ao Rio Grande do Sul seriam nela alocados. Em 1851 o Presidente da Província
Francisco Soares de Andréa, futuro Barão de Caçapava, realizou 21 concessões de terras,
medindo 1.089 hectares cada, na área na qual estava se expandindo a Colônia de Santa
Cruz19. Ou seja, a presidência da Província concedeu, gratuitamente, 22.869 hectares de
terras devolutas em 1851, após a promulgação da Lei de Terras, que proibia este prática.
Se a Província vendesse estas terras diretamente aos colonos, a meio real a braça
quadrada, que era o valor mínimo determinado pela Lei de Terras, obteria uma receita de,
pelo menos, 23:000$000 réis. Um valor alto diante das próprias receitas provinciais
destinadas a imigração, foi repassado a particulares. Pelo menos quatro dos
concessionários eram burocratas ligados a presidência da Província. Francisco Cândido de
Castro Menezes ocupava o cargo de capitão‐tenente da Armada, e foi o encarregado pela
demarcação e pela planta da futura povoação de Santa Cruz no início da década de 1850.
Peter Kleudgen foi agenciador de imigrantes na Alemanha entre 1851 e 1852, para a sua
introdução na Colônia Santa Cruz. Frederico Heydtmann aparece na documentação da
Câmara de Cachoeira como engenheiro, responsável por algumas obras, e também
trabalhou em projetos da presidência da Província20.
Phillip von Normann chegou ao Rio Grande do Sul em 1848, quando iniciou seus
trabalhos como engenheiro, membro influente da comunidade germânica de Porto
Alegre, foi encarregado de obras importantes, como é o caso do Teatro São Pedro. Phillip
von Normann, declarou nos registros paroquiais duas léguas de terras de mato nas
imediações da Colônia Santa Cruz. Além da área concedida do Governo Provincial,
Normann ainda adquiriu outras concessões, no lugar denominado Carijo do João Almeida.
Esta área, já explorada por ervateiros, seria rapidamente apropriada pela elite local,
grileira e interessada no comércio de terras aos imigrantes. Entre os concessionários,
aparecem os nomes de Alvaro Soares Andréa e Francisco Soares Andréa, possivelmente
filhos do Presidente da Província Francisco José de Souza Soares de Andréa. Eles ainda
não haviam recebido títulos, mas seus nomes constam na relação enviada ao Engenheiro
Vasconcelos. No entanto, ao percebermos que alguns dos concessionários adquiriram
títulos de terceiros, e os comercializaram, como foi o caso de Normann. Assim,
provavelmente, os filhos do Presidente da Província comercializaram as suas concessões

19
CUNHA, 1991, op. Cit., 77
20
Ibidem, p. 78.
116
antes mesmo de receberem os seus títulos. Numa conjuntura política estruturada sobre o
clientelismo, o qual seria o principal elo de ligação entre a população e o Estado
Imperial21, a imigração despertou os interesses dos burocratas que possuíam prestígio e
influência junto a presidência da Província, inclusive do próprio Presidente Soares Andréa.
Esta prática não se restringiu apenas a Colônia Santa Cruz.
Rodrigo de Azambuja Villanova foi um burocrata que, mais tarde, também usou
seu prestígio para obter favorecimentos em torno do processo imigratório. Villanova
pertencia a uma abastada família de Taquari, o que lhe permitiu ingressar na Faculdade de
Medicina do Rio de Janeiro. De volta ao Rio Grande do Sul, ele casou com sua prima,
Maria Altina Azambuja, filha do Ten. Cel. Primórdio Centeno de Azambuja, fazendeiro e
negociante de terras em Taquari. Rodrigo logo entrou na carreira burocrática, ocupando,
entre outros, o cargo de chefe da Repartição Especial de Educação. Desta forma em 1867,
ainda com 23 anos, ele recebeu do Presidente Francisco Ignacio Marcondes Homem de
Mello, a concessão de uma légua quadrada de terras em Taquari, nos fundos da Colônia
Nova Berlin. Uma curiosa “doação”, na medida em que o jovem burocrata era membro
do Partido Conservador, enquanto o presidente era Liberal. Este fato mostra a dinâmica
política do período, quando os presidentes liberais precisavam cooptar os opositores
nesta conturbada Província, especialmente um membro de uma família de chefes da
Guarda Nacional. A preservação do patrimônio público era secundária aos presidentes de
Província, enquanto que a cooptação política, base para uma cadeira na Câmara e no
Senado, era a característica predominante no meio político da época. Uma dinâmica
política na qual o jovem Dr. Rodrigo Azambuja Villanova soube conquistar espaços. Na
década de 1870, o mesmo iniciou sua carreira política, elegendo‐se deputado provincial
por várias legislaturas, chegando a ocupar a Presidência da Província entre 1887 e 1888.
Neste período, o Dr. Villanova se empenhou na defesa dos interesses de sua família em
torno da colonização do Alto Taquari22. A elite política sul‐rio‐grandense se beneficiou
deste processo.
Em 1852 o Presidente da Província Luís Alves Leite de Oliveira Bello enviou um
ofício a Câmara Municipal de Taquari, pedindo informações sobre a localização dos
terrenos devolutos apropriados para a fundação de uma colônia de imigração. Em

21
GRAHAM, Richard. Clientelismo e política no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1997.
22
CHRISTILLINO, 2008, op. Cit.
117
resposta, a Câmara apenas indicou as terras devolutas existentes nas margens do rio
Taquari, 14 léguas distantes da Vila, indicando a compra de algumas fazendas por parte da
Província, visando a “prosperidade” da futura colônia. Além das fazendas Lajeado e
Conventos, também foi indicada a Boa Esperança: “...rodeado de recursos, e que deve ser
preferido, e de muita vantagem e comodidade para as colônias é a Fazenda = Boa
Esperança = dos herdeiros do fallecido Freitas Travassos”23. A Fazenda Boa Esperança era
de propriedade da família do presidente da Câmara de Taquari, o vereador Albino Freitas
Travassos. Era uma fazenda abandonada, mas sua venda ao Governo Provincial
certamente renderia uma avultada quantia. A disputa em torno da localização da nova
colônia ultrapassou o âmbito municipal, e chegou a Assembléia Provincial.
Em 1857 houve uma discussão no legislativo sul‐rio‐grandense sobre a destinação
dos imigrantes que chegassem a Província24. Dois deputados travaram um intenso debate
em torno do assunto: o Deputado Manoel Pereira da Silva Ubatuba defendia a destinação
dos imigrantes à área medida e demarcada em Taquari, que estava localizada próximo às
suas terras, que mais tarde seriam loteadas e comercializadas; por outro lado o Deputado
Antonio Joaquim da Silva Mariante defendia que estes imigrantes deveriam ser alocados
na Colônia Santa Cruz, que neste momento, 1857, se expandia em direção as suas terras.
Ubatuba era um influente burocrata e já havia passado por várias repartições publicas da
Província, o que mostra a sua articulação no meio político da época. Desta forma, não foi
difícil ao Dr. Ubatuba encaminhar a fundação da Colônia de Monte Alverne, ocorrida em
1859, lindeira a sua sesmaria. Em 1879, Guilherme da Silva Mariante, filho do seu
oponente, o Deputado Antonio Joaquim da Silva Mariante, assumiu a direção da Colônia
Provincial de Monte Alverne. Guilherme não mediu esforços para a canalização da
produção desta colônia ao porto de sua família no rio Taquari, e o transporte ocorria pelo
interior de sua fazenda, em plena colonização neste momento, que permitiu uma
valorização mais rápida dos lotes coloniais dos Mariante.
As concessões de terras nas proximidades da Colônia Santa Cruz também foram
dirigidas à elite política de Rio Pardo. Embora a área de abrangência deste município

23
Correspondência da Câmara Municipal de Taquari de 1852 n° 37. Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul
(AHRS).
24
PICCOLO, Helga Iracema L. Coletânea de discursos parlamentares da Assembléia Legislativa de São Pedro do
Rio Grande do Sul: 1835/1889. Porto Alegre: Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, 1998, pp.
155‐156.
118
fosse restrita, na sua Vila estavam radicadas muitas famílias proprietárias de campos na
Depressão Central e na Campanha, cuja abrangência política e econômica ia muito além
das divisas rio‐pardenses. Uma elite influente, e radicada num município que possuía um
dos contingentes militares mais tradicionais, e importantes, da Província. Grande parte
dela permaneceu ao lado do Império, durante a Farroupilha. Este, portanto, era um grupo
cuja cooptação era fundamental ao equilíbrio político na Província e também na
afirmação da hegemonia política do Império Brasileiro no Prata. Os anos finais da década
de 1840, quando emergiam novos conflitos na região, impunham ao Governo Imperial, e a
presidência da Província, a necessidade de articulação política com estes milicianos, que
seriam convocados a marchar contra Oribe e Rosas. As concessões de terras vinham
funcionando como um meio de cooptação política da província. Neste mesmo sentido, é
através da grilagem que vão se estreitar os laços entre uma parcela da elite gaúcha e a
administração política do Império.

5 A grilagem na expansão da fronteira colonial


A grilagem é a grande marca da ocupação territorial no Brasil. Na Província de São
Pedro do Rio Grande do Sul, a imigração foi um incentivo a este processo, na medida em
que valorizou consideravelmente as áreas florestais da Província. A fundação da Colônia
de São Leopoldo em 1824 veio desencadear um rush fundiário na Província de São Pedro
do Rio Grande do Sul. Entre 1824 e 1829 esta colônia recebeu mais de 5 mil imigrantes
alemães25. Este é um número considerável, num período em que a população total da
Província era estimada em 100 mil habitantes, e a Campanha, cujos fazendeiros lideraram
a Farroupilha, contava com pouco mais de 20 mil habitantes26. No período de 1830 a 1844,
houve um interregno no processo imigratório na Província, esse ocorreu em função da Lei
do Orçamento de 1830, a qual cancelou os recursos destinados à imigração, e a Revolta
Farroupilha, que durante um período de 10 anos consumiu a maior parte dos recursos da
Província.

25
AMSTAD, 1999, op. Cit. p. 75.
26
GOLIN, Luiz Carlos. A fronteira: governos e movimentos espontâneos na fixação dos limites do Brasil com o
Uruguai e a Argentina. Porto Alegre: L&PM, 2002.
119
Após o Tratado de Ponche Verde (1845), o Rio Grande do Sul recebeu uma nova
onda imigratória. Esta nova leva de imigrantes foi destinada a antiga Colônia de São
Leopoldo, a Colônia Feliz, fundada em 1846 no Vale do Caí, e a Colônia de Santa Cruz
inaugurada em 1849 no Vale do Rio Pardo. Neste mesmo período a Presidência da
Província estudava a criação de uma colônia em Taquari e outra no Município de
Cachoeira do Sul. Mas, se por um lado o Governo Provincial e, mais tarde, o Governo
Imperial, impulsionaram este processo, por outro lado, foi a iniciativa particular que
promoveu a expansão do complexo colonial. Entre 1850 e 1880 foram criadas 52 colônias
de imigração, das quais, 87% eram de iniciativa particular, e sem considerar um grande
número de picadas e linhas coloniais, comercializadas nas adjacências das colônias oficiais
e particulares. Este rush fundiário intensificou a grilagem das terras devolutas na Província
do Rio Grande do Sul. A colonização foi o êxito da grilagem, e a sua própria afirmação.
Para exemplificar este processo, cito exemplos de quatro municípios inseridos no
processo imigratório.
O vale do Sinos, foi a região que recebeu a primeira colônia de imigração alemã. Os
mais de 5 mil imigrantes aí estabelecidos entre 1824 e 1829, logo expandiram a área da
Colônia de São Leopoldo. A nova onda imigratória iniciada após o término da Farroupilha
intensificou o comércio de terras no Vale dos Sinos. Uma das figuras mais interessantes
entre os colonizadores desta região foi o Coronel Francisco Pedro Abreu, o Barão de
Jacuí. A historiografia sul‐rio‐grandense ainda não trabalhou a biografia deste miliciano, o
que contribuiria significativamente à análise da história política da Província. O Barão do
Jacuí comandou um dos batalhões imperiais na repressão aos farroupilhas. Homem de
confiança do Imperador, e agraciado com um título de nobreza, ele rapidamente se
apropriou de um grande número de áreas de terras ao longo dos rios Sinos e Caí, além de
fazendas em outros municípios gaúchos. A principal atividade do Barão foram os
negócios, e negociatas, em torno de áreas de terras. E parte delas utilizando títulos de
concessão de origem duvidosa. Vale dos Sinos também atuou nos negócios de terras
João Pedro Schmidt. Este era um imigrante, que enriqueceu com o comércio, sendo
considerado o homem mais rico de São Leopoldo, ao longo da década de 1840. Schmidt
permaneceu ao lado do Império, durante a Farroupilha, o que lhe propiciou uma série de
vantagens políticas. Entre elas a conivência da Presidência da Província com a grilagem de

120
uma extensa área próxima a Fazenda Padre Eterno, loteada e comercializada por ele
neste período27. A grilagem é um fenômeno que se manifestou com maior intensidade no
Município de Taquari.
Situado no vale mais fértil do Rio Grande do Sul, Taquari era uma fronteira de
expansão aberta às migrações internas e a uma nova onda imigratória. O comércio de
terras despertou a atenção dos homens de negócios e fazendeiros de Taquari. A
colonização particular iniciou antes mesmo da fundação da Colônia Provincial Monte
Alverne em 1859. Ainda em 1853 foram vendidas as primeiras porções de terras nas áreas
nas quais seriam criadas as colônias Mariante, Carneiros e Estrela. Os registros de
transmissões do Primeiro Tabelionato de Taquari mostram a intensidade das vendas de
lotes coloniais neste período. Após a fundação da Colônia da Estrela em 1856, por Vitorino
José Ribeiro, o comércio de terras sofreu uma rápida expansão. Este crescimento
também foi acompanhado pela grilagem das terras florestais da região, rica em erva‐mate
e abrigando um grande número de pequenos posseiros que, pela Lei de Terras, teriam
direito a elas. Os Azambuja, os Ribeiro, Bento Rodrigues da Rosa, Joaquim Alves Xavier,
Luiz Alves de Oliveira Bello, entre outros, grilaram grandes extensões de terras públicas,
nas quais criaram, ou expandiram, suas colônias de imigração28.

27
MAGALHÃES, Dóris Rejane Fernandes. Terras, senhores, homens livres, colonos e escravos na ocupação da
fronteira no Vale do Sinos. Tese de Doutorado em História. São Leopoldo: PPGH/UNISINOS, 2003.
28
CHRISTILLINO, 2008, op. Cit.
121
A própria Câmara de Taquari denunciou a Presidência da Província as apropriações
fraudulentas que vinham ocorrendo na área serrana do Município. Não tardou para sofrer
a represália do grileiros locais, como encontra‐se nesse trecho da correspondência da
Câmara Municipal de Taquari:

Havendo esta camara requerido a repartição das terras publicas com


despacho dessa Presidencia certidão das diversas peças que constão
daquella Repartição para com ella mostrar a usurpação que tem havido
em terras do Governo, isto em princípios de ano findo, não tendo ainda
obtido esse documento, p. que o cheffe da dita Repartição dissera que só
para o anno poderia ser elle extrahido; esta Municipalidade vem rogar a
V. Exª expedir ordem para que semelhante documento seja extrahido e
remettido a ella até princípios de Janeiro fucturo, p. q. delle necessita
para defender‐se de uma acusação que sofreo.29

O documento solicitado pela Câmara, não foi enviado pela Repartição Especial de
Terras Públicas. Este órgão, cuja burocracia era indicada diretamente pelo presidente da
província, não iria se contrapor a política de cooptação empreendida pela presidência. O
executivo provincial neste momento era comandado pelos conservadores, e enfrentando
conturbações políticas com os liberais da Campanha. Era mais fácil vencer a resistência
política gaúcha pelas alianças, do que pelas armas. Desta forma, os interesses dos grileiros
do Alto Taquari não seriam barrados. Um núcleo conservador e, principalmente, de
chefes da Guarda Nacional, com grande poder de arregimentação de soldados durante a
Guerra do Paraguai. Além do mais, o Estado não desalojou os colonos das terras oriundas
de grilagem, os quais seriam os principais atingidos pela punição das fraudes, e não os
seus autores. Assim estava aberto o caminho à ação dos grileiros locais.
Em Rio Pardo o clientelismo consagrou a grilagem. Como vimos anteriormente,
mais de 22 mil hectares foram “concedidos” aos membros da elite local e aos ocupantes
de altos postos da burocracia da Província, exatamente na região na qual estava sendo
expandida a Colônia Santa Cruz. Esta “doação”, legalizou, aos “beneficiários”, um
patrimônio fundiário superior a 23:000$000 réis. A Câmara de Rio Pardo informou, em
1847, a descoberta de um novo caminho para o planalto, em meio aos matos devolutos.
Mas, nos registros paroquiais de terras de Cruz Alta, aparecem várias declarações de

29
Correspondência da Câmara Municipal de Taquari de 1870 n° 16. AHRS:
122
posses, ao longo deste trajeto, as teriam sido ocupadas no início da década de 1840,
alguns anos antes da própria abertura da mesma estrada. Cruz Alta, não foi contemplada
com colônias de imigração durante o Império. No entanto, o projeto da presidência da
província em criar uma colônia na região do planalto e a articulação política da Câmara em
torno da sua fundação, acelerou a apropriação das terras florestais deste município.
A Câmara de Cruz Alta já havia solicitado a criação de uma colônia no Distrito de
Soledade, em 1856. Em 1864 o Presidente da Província, Esperidião Barros Pimentel, expôs
um projeto de criação de uma colônia no vale do Ijuí, próximo da Vila de Cruz Alta, numa
área de uma légua quadrada30. O projeto não foi aprovado pela Assembléia. Já em 1877, a
Câmara de Cruz Alta apresentou uma proposta de colonização do Vale do Ijuí, dispondo
de 115 lotes coloniais para distribuir gratuitamente a imigrantes31. A proposta de criação
de uma colônia no Vale do Ijuí não foi aceita pelo Ministério da Agricultura, em março de
1878, sob a alegação de que a ausência de um mercado consumidor impediria o
desenvolvimento da colônia. O Jornal Riograndense denunciou que, uma vez instalado,
este núcleo traria o inconveniente da introdução do contrabando, em função da sua
proximidade com o rio Uruguai32. Apesar da Colônia Ijuí ter sido criada somente em 1890,
as apropriações em torno das terras devolutas deste vale foram intensificadas ao longo
da década de 1870. O vale do Ijuí aparece em poucos registros paroquiais de terras de
Cruz Alta, mas esteve no centro das disputas que originaram processos de legitimações
de terras. Quando a Câmara sugeriu o estabelecimento de uma colônia de imigração no
Distrito de Soledade, em 1856, as suas terras foram rapidamente declaradas nos registros
paroquiais de terras. Curiosamente, estas “posses”, teriam sido iniciadas em 1849, ou
seja, um ano antes da promulgação da Lei de Terras, que proibia este tipo de apropriação.
Já no caso do Ijuí, cuja disputa foi muito maior, a base legal utilizada para grilar estas
terras foi o processo de legitimação de terras, que tramitava pela Repartição Especial de
Terras Públicas e era julgado pelo presidente da Província.

30
PIMENTEL, Esperidião Eloy de Barros, Relatório apresentado pelo presidente da Provincia de S. Pedro do Rio
Grande do Sul, Dr. Esperidião Eloy de Barros Pimentel, na 1ª sessão da 11ª Legislatura da Assembléa Provincial.
Porto Alegre Typ. do Correio do Sul, 1864, p. 31.
31
Correspondência da Câmara Municipal de Cruz Alta n° 568 maço 116, AHRS.
32
ROCHA, Prudêncio. A história de Cruz Alta. 2.ed. Cruz Alta: Empresa Gráfica Mercúrio, 1980.
123
6 Considerações finais
O processo imigratório transformou, consideravelmente, a estrutura econômica e
política da Província do Rio Grande do Sul. A colonização esteve inserida numa conjuntura
complexa da sociedade brasileira no Período Imperial. Esse processo fazia parte de um
projeto político, cuja meta era a constituição de uma base de apoio alternativa aos
estancieiros da Campanha Gaúcha, que mostraram ao Império os seus planos
separatistas, não deixando de ser esta uma grande ameaça a União. No entanto, foi uma
parcela da elite sul‐rio‐grandense que permitiu a expansão deste processo, ao assegurar
recursos na Assembléia Provincial e nas Câmaras Municipais. Um grupo formado por
burocratas, membros das Companhias de Colonização, comerciantes e, principalmente,
fazendeiros das regiões florestais que enfrentavam a crise da erva‐mate e a concorrência
da produção dos pequenos posseiros e dos colonos imigrantes, cujas lavouras estavam
baseadas na mão‐de‐obra familiar, que alavancou o processo de imigração, o que
proporcionou a formação de grandes fortunas familiares. Sua ação foi fundamental ao
próprio êxito do projeto de imigração do Governo Imperial. O sistema de contrato e a
fundação de colônias particulares de imigração foram mais eficazes na expansão da
colonização, demonstrando, com isso, que eram muito mais eficazes na expansão do
complexo colonial do que a Diretoria de Terras Públicas e Colonização.
A colonização particular gerou lucro e fortuna a elite sul‐rio‐grandense. As terras
dos vales do Sinos, Caí e Taquari rapidamente foram valorizadas. A possibilidade de
venda a preços altos incentivou a grilagem das terras públicas destas localidades. Uma
prática já existente, mas que foi acentuada pela colonização particular. Milhares de
hectares de terras públicas passaram para as mãos dos agentes da colonização através de
fraudes. Uma prática que recebeu a conivência da Presidência da Província e da Diretoria
de Terras Públicas e Colonização. Isto, na medida em que a burocracia provincial estava
atrelada a uma estrutura política baseada no clientelismo, buscando preservar e ampliar
seus espaços neste contexto. O que os ocupantes dos altos postos burocráticos
provinciais buscavam, era uma cadeira na Assembléia. Enquanto que o presidente de
Província, geralmente almejava uma cadeira no Senado. O apoio da elite grileira seria
fundamental para isto. Nenhum grileiro foi punido com o ressarcimento aos cofres
públicos das áreas vendidas a imigrantes. Da mesma forma, os colonos não perderam os

124
seus lotes, quando adquiridos ilegalmente. Enquanto as áreas incorporadas pelos
fazendeiros às suas atividades poderiam ser requeridas em algum momento pela
Província, ou por outro interessado, os lotes negociados com os imigrantes, não trariam
nenhum problema após a sua venda. Dessa forma, a colonização foi o êxito da grilagem.

Referências
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exclusão dos posseiros no Vale do Taquari. São Leopoldo: OIKOS/ Ed. da UNISINOS, 2008.
CUNHA, Jorge Luís. Os colonos alemães e a fumicultura: Santa Cruz do Sul, Rio Grande do
Sul 1849‐1881. Santa Cruz do Sul: Livraria e Editora da FISC, 1991.
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Província do Rio Grande do Sul na defesa do Estado imperial centralizado (1850‐1873). Tese
de Doutorado em História. Porto Alegre: UFRGS/IFCH, 2003.
GIRON, Loraine Slomp; BERGAMASCHI, Heloísa. Colônia: um conceito controverso. Caxias
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do Brasil com o Uruguai e a Argentina. Porto Alegre: L&PM, 2002.
GRAHAM, Richard. Clientelismo e política no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Editora da
UFRJ, 1997.
MAGALHÃES, Dóris Rejane Fernandes. Terras, senhores, homens livres, colonos e escravos
na ocupação da fronteira no Vale do Sinos. Tese de Doutorado em História. São Leopoldo:
PPGH/UNISINOS, 2003.
MOTTA, Márcia Maria Menendes. Nas Fronteiras do poder: conflito e direito à terra no
Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Vício de Leitura / Arquivo do Estado, 1998.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. A burguesia gaúcha: dominação do capital e disciplina do
trabalho (RS 1889‐1930). Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.

125
PICCOLO, Helga Iracema L. Coletânea de discursos parlamentares da Assembléia Legislativa
de São Pedro do Rio Grande do Sul: 1835/1889. Porto Alegre: Assembléia Legislativa do
Estado do Rio Grande do Sul, 1998.
ROCHA, Prudêncio. A história de Cruz Alta. 2.ed. Cruz Alta: Empresa Gráfica Mercúrio,
1980.
ROCHE, Jean. A Colonização Alemã e o Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Ed. Globo, 1969,
vol. 1.
SAINT HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. do Senado, 2002.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças – cientistas, instituições e questão. racial
no Brasil 1870‐1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
ZARTH, Paulo Afonso. Do arcaico ao moderno: as transformações do Rio Grande do Sul rural
no século XIX. Ijuí: Ed. da Unijuí, 2002.

126
História Brasileira nos Estados Unidos:
perspectivas teóricas e historiográficas

Stanley E. Blake
Professor Assistente de História – Ohio State University, Ohio, USA
e‐mail: stanleyblake@sbcglobal.net

Resumo
Desde o início nos anos 1990, os historiadores que trabalham com o Brasil nos Estados
Unidos começaram a produzir estudos sob a influência da Nova História Cultural. Esses
historiadores, influenciados pelas tendências da história, dos estudos literários e das
ciências sociais nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina, adotaram o estudo da
cultura e passaram a questionar as tradicionais abordagens teóricas, metodológicas e
epistemológicas da história. Neste sentido, iremos discutir no presente texto, os recentes
estudos da história brasileira nos séculos XIX e XX, elaborado por pesquisadores nos
Estados Unidos.

Palavras‐chave
Historiografia, Nova Historia Cultural; Brasil; Estados Unidos

127
1 Introdução
Desde o início nos anos 1990, os historiadores que trabalham com o Brasil nos
Estados Unidos começaram a produzir estudos sob a influência da Nova História Cultural.
Esses historiadores, influenciados pelas tendências da história, dos estudos literários e
das ciências sociais nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina, adotaram o
estudo da cultura e passaram a questionar as tradicionais abordagens teóricas,
metodológicas e epistemológicas da história. Neste sentido, iremos discutir no presente
texto os recentes estudos da história brasileira nos séculos XIX e XX, elaborado por
pesquisadores nos Estados Unidos. Começarei com uma discussão sobre os
fundamentos teóricos da história da cultura, tal como ela é praticada pelos historiadores
que trabalham com a América Latina e Brasil nos Estados Unidos, e concluirei com uma
discussão sobre as maneiras pelas quais a história da cultura influenciou as obras recentes
sobre a história do Brasil.

2 Teoria
Em 1994, logo depois de ter iniciado meus estudos de pós‐graduação, minha
orientadora de tese ministrou um seminário departamental intitulado “Brother, can you
spare a paradigm?” evocando a imagem de um mendigo pedindo esmolas. Naquele
contexto, tratava‐se das mudanças nas abordagens da história do Brasil e da América
Latina que se desenvolveram desde meados dos anos 1980, especificamente o
afastamento da abordagem marxista da história, que deixou muitos historiadores à
procura de uma nova maneira de pensar e de fazer história. Novas abordagens teóricas
varreram as ciências sociais. A influência dos estudos literários e o impacto de um grupo
variado de pensadores – incluindo Pierre Bourdieu, Clifford Geertz, Michel Foucault,
Roland Barthes, Raymond Williams e Jacques Derrida, entre outros – levaram os
historiadores a questionar as abordagens tradicionais da história, inclusive a história
social, a sociologia histórica e especialmente as abordagens materialistas da história. O
novo paradigma (seria esta nova proposta um paradigma, será que ela surge justamente
da crise dos paradigmas?) emergiu desse período de introspecção intelectual e de
intercâmbio, é a história cultural. Lynn Hunt, organizador de uma coleção de ensaios
amplamente lidos sobre história cultural e estudos culturais, é atualmente o presidente

128
da American Historical Association, a mais importante organização profissional de
historiadores nos Estados Unidos. Vale a pena explorar exatamente o que é a nova
história cultural e – o que é mais importante ainda – como ela vem influenciando a
elaboração da história do Brasil produzida nos Estados Unidos.
Os novos historiadores culturais, centraram sua atenção sobre o conceito de
cultura, que é, por si só, difícil de se definir. Lynn Hunt e Victoria Bonnell argumentam que
esses historiadores criaram tópicos de pesquisas que atribuíam maior importância aos
símbolos, aos rituais, ao discurso e às práticas culturais, e não à estrutura social ou às
classes sociais. Os historiadores da cultura foram também influenciados pelas ciências
sociais, sobretudo pela antropologia e pelos estudos literários. A história da cultura
emerge do que tem sido chamado de “virada lingüística” (linguistic turn) da história, que
levou os historiadores a atribuir maior valor à analise da linguagem e da literatura. Isso
fez com que os historiadores se engajassem na análise do discurso, de textos, de gênero
e de estruturas de narrativas. A cultura, em suas diversas manifestações, tornou‐se um
texto a ser lido pelos historiadores. Alguns historiadores da cultura têm sido cautelosos
nesse processo de reduzir todas a experiência humana a um texto que pode ser
desconstruído e preferiram, em lugar disso, definir cultura como uma prática, baseando‐
se no conceito de habitus de Pierre Bourdieu. Os historiadores da cultura empregaram,
além disso, os conceitos de hegemonia e contra‐hegemonia, que usam para analisar
projetos de construção do Estado, bem como as respostas populares a esses mesmos
projetos. Os historiadores da cultura enfatizam também categorias de análise que
“denotam hierarquia”, incluindo raça, gênero e nação.
A análise de gênero foi enriquecida pelo trabalho de uma geração de escritoras
feministas, mais notavelmente Joan Scott, que propôs que uma análise de gênero era
essencial para se compreender o poder e a política nas análises históricas. A idéia de
nações e de identidades nacionais como construções sociais deve muito ao trabalho de
Eric Hobsbawm e Terence Ranger “The Invention of Tradition” (1983) e de Benedict
Anderson “Imagined Communities: reflections on the origins and spread of nacionalism”
(1983), que propôs a nação como uma comunidade imaginada. A raça mostrou ser a
categoria menos teorizada de análise, embora os historiadores estejam começando a ler
trabalhos de antropólogos e sociólogos que exploraram a importação cultural e política

129
de raça como idéia. Entre essas novas categorias de análise, é notável a ausência daquela
de “classe”. Na verdade a análise baseada nas classes tornou‐se até mesmo um tabu
entre os historiadores da cultura, embora haja algumas exceções importantes, como irei
apontar adiante. Em um plano superficial, essas novas categorias de análise não parecem
muito diferentes daquilo com que os historiadores sociais têm se preocupado desde a
década de 1960, o que levanta a questão: será que a nova história cultural é tão diferente
dos paradigmas historiográficos anteriores? Em um curso de pós‐graduação sobre história
da cultura a que assisti, em 1994, o professor Gene Lebovics sugeriu que ela é uma meia‐
vida da história marxista, e a metáfora parece apropriada. Uma análise de classe e, na
verdade, uma crítica das formas de dominação da elite e do Estado são o subtexto no
qual a história da cultura se baseia. Eu diria que a nova geração de historiadores
engajados na história da cultura está apenas distanciando‐se das gerações anteriores de
estudiosos que adotaram mais abertamente uma abordagem marxista da história.
Os historiadores que trabalham com o Brasil nos Estados Unidos, são parte de uma
comunidade de historiadores que estuda a América Latina, e os programas de pós‐
graduação produzem estudiosos versados em história latino‐americana, além de
dedicados às suas próprias especialidades. Esse treinamento enfatiza as continuidades
que ultrapassam as fronteiras nacionais, e os estudantes de pós‐graduação que se
concentram em história brasileira também estudam a história do México, dos países
andinos e do Cone Sul; estando desse modo, familiarizados com as tendências
historiográficas de diversas regiões. O atual interesse dos historiadores em cultura sobre
o Brasil, em grande parte deriva, mais da familiaridade com as tendências recentes no
estudo da história mexicana do que da familiaridade com tendências semelhantes
presentes em trabalhos de historiadores brasileiros. Os historiadores do México, inclusive
Eric Van Young, Ana Maria Alonzo, Mary Kay Vaughn, Marjorie Becker e Gil Joseph, têm
produzido histórias da cultura do século XIX e da Revolução Mexicana que influenciaram
toda uma geração de estudantes de pós‐graduação. O livro organizado por Gil Joseph e
Daniel Nugent, “Everyday Forms of State Formation: Revolution and the Negotiation of Rule
in Modern Mexico” (1994), talvez seja o volume de história da cultura mais citado por
historiadores que trabalham com o Brasil, inclusive muitos dos autores discutidos adiante.
Mais recentemente, Gil Joseph e Stuart Schwartz, os editores da Hispanic American

130
Historical Review, dedicaram um número à nova história cultural do México. O volume
contém artigos sobre a pesquisa original de três historiadores sobre o México, mas o mais
importante é um fórum que contém críticas e respostas à história da cultura.
No entanto, o crescimento da influência da história da cultura não se deu sem
controvérsias. Muitos críticos enfatizam os excessos teóricos da história da cultura,
chamando a atenção para muitos trabalhos que incluem doses pesadas de jargões pós‐
estruturalistas e pós‐modernistas. Uma acusação mais grave é a de que os historiadores
da cultura, ao analisar linguagens, textos e cultura, perderam a objetividade profissional
de cientistas sociais. Na mesa redonda sobre História Brasileira, na reunião anual da
Conferência sobre História Latino‐americana, em 1997, um expositor que discutia as
dimensões políticas da política brasileira para os índios desde o Estado Novo foi criticado
por um interlocutor, por não dar atenção suficiente às dimensões econômicas dessa
política (como o uso da terra), antes de discutir o lugar dos índios na cultura política
brasileira no século XX. Na discussão que se seguiu, ficou claro que o interlocutor estava
aderindo em algum nível ao paradigma da base‐superestrutura usado nas análises
marxistas, enquanto o apresentador estava utilizando‐se das mais novas abordagens. A
discussão fez com que os presentes se conscientizassem das diferentes abordagens
disponíveis para os historiadores – e eu gostaria de pensar que hoje há menos críticas às
abordagens novas do que havia seis anos atrás. No entanto, em uma discussão recente
sobre América Latina, Robert Jackson, da Universidade Estadual de Nova York, em
Oneonta, sugeriu que os editores da Hispanic American Historical Review haviam
censurado suas críticas, na forma de cartas aos editores, sobre a história da cultura e os
artigos que seriam publicados no periódico. Como resposta, os editores da revista
escreveram que as críticas de Jackson não refletiam as opiniões do conselho editorial e
sugeriram que os estudiosos poderiam melhor comentar as deficiências das tendências
atuais submetendo “seus próprios artigos, que passarão pelo processo de revisão
regulamentar”. Mais uma vez, acho que essa diferença de opiniões reflete uma mudança
de posição. Como nos Estados Unidos a história latino‐americana e brasileira se refazem,
haverá aqueles que criticam as novas abordagens. Da mesma forma que se deve levar a
sério essas críticas, acho que elas se refletem mais sobre o status da história da cultura
como um campo de pesquisa relativamente novo, e que, portanto, precisa de um

131
amadurecimento no debate historiográfico. Embora alguns dos trabalhos aqui
examinados tenham problemas que refletem, em parte, algumas dessas críticas como um
todo, a história da cultura aponta novas direções interessantes para os historiadores que
trabalham com o Brasil.

3 Historiografia
Nem todos os autores que irei aqui discutir se sentiriam confortáveis sendo
rotulados como historiadores da cultura. Não estou tentando rotulá‐los; em vez disso,
quero discutir as influências que as novas abordagens da história – e em particular a
história da cultura – têm tido sobre o conhecimento recente a respeito da história do
Brasil produzida pelos mesmos. Desejo especificamente discutir o impacto da história da
cultura sobre os estudos de raça, gênero e identidade nacional.

3.1 Raça
Os estudos históricos sobre raça, no Brasil, sofreram transformações ao longo dos
últimos dez anos. Nos anos 80 e no início dos anos 90, os historiadores brasilianistas nos
Estados Unidos abordaram o problema da raça sob a perspectiva da história social.
Estudos realizados por Warren Dean, Stanley Stein, Mary Karasch e Sandra Lauderdale
Graham examinaram a escravidão e a relação entre as raças no século XIX, tratando de
interesses historiográficos a respeito da posição econômica e social dos escravos dentro
da sociedade brasileira. A década de 90 assistiu a duas mudanças nos estudos sobre raça.
Em primeiro lugar, os historiadores estão levando em consideração as maneiras pelas
quais a raça é uma idéia construída, tanto social como politicamente. Em segundo –
refletindo as tendências da historiografia brasileira – os historiadores sediados nos
Estados Unidos estão estudando a raça na era pós‐emancipação. Essa mudança, para se
levar em consideração a importância da raça no século XX, reflete uma disposição em
usar novos tipos de fontes. Como Sueann Caulfield observou, as elites brasileiras eram
“notavelmente silenciosas no que dizia respeito à raça”, e, por esse motivo, os
historiadores que trabalham com o Brasil nos Estados Unidos têm relutado em examinar
a raça na era pós‐escravatura. É claro que parte do problema reside no fato de que as
elites políticas e econômicas brasileiras não falam muito diretamente a respeito de raça,

132
referindo‐se, em lugar disso, ao problema social das massas, ou, mais simplesmente, “do
povo”. Isso tem dificultado o avanço dos historiadores interessados na questão da raça
durante a República Velha.
Talvez o trabalho mais influente sobre raça no Brasil seja o “Black Into White: Race
and Nationality in Brazilian Thought”, de Thomas Skidmore (1974). Como história
intelectual, o livro é bem‐sucedido, mostrando a importância da raça e das idéias sobre
negritude nos círculos políticos e intelectuais do Brasil, da geração de Silvio Romero até o
final da República Velha. Skidmore mostra claramente o domínio do “ideal de
embranquecimento”, ou branqueamento, entre os intelectuais brasileiros e as lideranças
políticas. O que tornou a obra de Skidmore tão importante foi sua análise da influência de
destacados intelectuais brasileiros e de figuras literárias na construção de uma identidade
nacional e suas descrições da importância política das idéias de raça, especialmente nas
políticas de imigração. Sua obra, a esse respeito, estava bem adiante de seu tempo, e
ainda se passariam mais 15 anos até que os historiadores do Brasil nos Estados Unidos
revisitassem os temas apresentados por Skidmore.
Um livro‐marco para os historiadores nos Estados Unidos é o “Blacks and Whites in
São Paulo, Brazil, 1888‐1988” (1991), de George Reid Andrews. Andrews examina as lutas
dos negros nos locais de trabalho para conquistar voz política no século XX. Assim como
dedica atenção especial aos trabalhadores negros, examinando a importância da raça na
indústria têxtil e outras indústrias, ele também discute os modos pelos quais os negros
lutaram para conciliar o ideal de democracia racial com a realidade social da discriminação
racial. Dain Borges e Jeffrey Needell produziram estudos que examinam a importância da
raça como idéia. Borges focaliza o entendimento intelectual brasileiro de degeneração da
raça e seus usos políticos durante a República Velha e a era Vargas, mostrando as
maneiras pelas quais as elites políticas brasileiras abraçaram idéias racistas. Needell
examina as influências contemporâneas no pensamento de dois dos maiores intelectuais
brasileiros sobre raça, Oliveira Vianna e Gilberto Freyre. Do mesmo modo que está
interessado na origem do pensamento conservador no Brasil, o trabalho de Needell faz
parte de uma corrente acadêmica norte‐americana que questiona as contribuições de
Freyre para o estudo de raça e da relação entre raças no Brasil.
Outro desenvolvimento interessante tem sido o esforço para se estudar a

133
importância da raça em contextos fora do Rio de Janeiro e de São Paulo e para não
concordar com o continuum racial negro‐branco. Judy Bieber examina a importância
política da raça no Vale do São Francisco, em Minas Gerais, no início do século XIX. Ela
está interessada na rivalidade local sobre o que significava ser português e o que
significava ser brasileiro, e mais especificamente “como a raça e os costumes afro‐
brasileiros poderiam ser usados na tentativa de desacreditar aspirantes a políticos em seu
âmbito municipal”. Ela argumenta que a ansiedade da elite em relação a práticas
culturais de figuras locais proeminentes que adotaram a cultura afro‐brasileira produziu
conhecimentos unicamente regionais da raça que eram usados para objetivos políticos
locais específicos.
Talvez a contribuição recente mais interessante para o estudo da raça no Brasil
seja a de Jeffrey Lesser, com dois livros sobre a imigração judaica, asiática e do Oriente
Médio na primeira metade do século XX, “Welcoming the Undesirables: Brazil and the
Jewish Question” (1995) e “Negotiating National Identity: Immigrants, Minorities, and the
Struggle for Ethnicity in Brazil” (1999). Embora esses grupos imigrantes constituíssem
uma minoria no número total de imigrantes no Brasil, eles atraíram uma atenção
significativa de intelectuais e de líderes políticos que, no auge da imigração estrangeira,
se agarraram ao problema de definir a identidade nacional brasileira em termos de raça.
Lesser discute que, apesar do número relativamente pequeno de imigrantes desses
grupos, eles foram essenciais para a definição de quem era e quem não era brasileiro.
Judeus, muçulmanos e asiáticos ocuparam um espaço cultural que não se ajustava
amplamente às idéias aceitas de um continuum racial negro‐branco, e, com isso, sua
presença no Brasil chamava a atenção exatamente para essas hierarquias raciais que
tanto interesse tinha para os líderes políticos brasileiros. A contribuição mais importante
da obra de Lesser é que ela sublinha o fato de que há outros modos pelos quais a raça era
compreendida, e que os estudiosos devem levar em consideração o contexto cultural e
político mais amplo que dava significado à raça em uma sociedade multiétnica. Esses
trabalhos recentes sobre raça expandiram coletivamente os modos pelos quais os
historiadores vinham pensando e escrevendo a respeito desse tema. Enquanto os
estudos anteriores concentravam‐se principalmente na história social das relações entre
escravizador e raça, estudos recentes trataram a raça como uma categoria construída

134
socialmente, acentuando os modos pelos quais as idéias de raça eram centrais para a
criação de uma identidade nacional brasileira.

3.2 Gênero
Uma área de pesquisas relativamente nova para os historiadores que trabalham
com o Brasil nos Estados Unidos é a história do gênero. As contribuições de uma geração
de estudiosos dedicados a escrever a história das mulheres, inclusive June Hahner, que
focalizou as “mulheres da elite, mulheres religiosas e conventos, direitos legais das
mulheres, dotes e outras propriedades e a literatura que determinava o gênero e a
moral”, bem como a história do feminismo e dos movimentos feministas nacionais,
forneceram as bases para trabalhos recentes que focalizam o gênero como uma
categoria de análise. Sueann Caulfield, em um ensaio recente sobre os desenvolvimentos
historiográficos na história do gênero, argumenta que esses trabalhos “focalizam a
interação entre o significado de gênero no dia‐a‐dia e o papel que teve na formação
política, das instituições e nas relações de poder em geral”. Ela acrescenta que essas
obras focalizaram o “desejo uniforme por parte das elites profissionais do século XIX e
inicio do século XX, na América Latina, de ‘modernizar’ e ‘civilizar’ o espaço e as
populações urbanas”, os modos pelos quais o domicílio tornou‐se parte dos projetos de
construção do Estado e de desenvolvimento nacional e a noção de honra sexual como
locus de relações de poder desigual entre os mundos masculino e feminino. Em geral, os
historiadores que atuam nos Estados Unidos seguem as tendências teóricas e
metodológicas do tratamento do gênero na América do Norte, influenciados pela teoria
feminista, o pós‐estruturalismo, o pós‐modernismos e outros estudos singulares sobre o
homossexualismo.
“Restructuring Patriarchy: The Modernization of Gender Inequality in Brazil, 1914‐
1940” (1996), de Susan Besse, examina a transformação dos papéis públicos das mulheres
no Brasil, do final do século XIX até o final do Estado Novo. Ela estuda os modos pelos
quais os educadores brasileiros, os médicos, reformadores e políticos reformularam as
expectativas para as mulheres e criaram novos papéis para elas, de modo a se adequarem
às visões idealizadas do Brasil como uma sociedade modernizadora, que enfatizava o
papel das mulheres no lar. Besse argumenta que, ao mesmo tempo que os papéis das

135
mulheres mudaram, nesse período, um grupo de médicos, juristas, educadores e
reformadores tiveram sucesso na manutenção do patriarcado, com a cuidadosa
manutenção do casamento, da criação e educação dos filhos e do trabalho feminino.
Embora seu estudo concentre‐se principalmente sobre as mulheres de classes média e
alta, e não aborde a questão da raça, ele tem seu valor, pois mostra os modos pelos quais
os interesses das elites sobre os papéis femininos tornaram‐se uma questão política
importante no início do século XX.
O trabalho de Sueann Caulfield, “In Defense of Honor: Sexual Morality, Modernity,
and Nation in Early Twentieth‐Century Brazil” (2000), é outra contribuição de destaque
para o estudo do gênero no Brasil. Caulfield examina a importância da honra e da
moralidade sexual nos esforços de formação do Estado, durante a República Velha e a era
Vargas, baseando‐se em registros policiais e em casos jurídicos de crimes sexuais,
inclusive o defloramento, além da literatura normativa produzida por juristas e
profissionais médicos. Como Besse, Caulfield argumenta que, ao mesmo tempo em que
havia uma transformação nos papéis do gênero no Brasil, os esforços de formação do
Estado nos anos 30 eram pautados na continuação do domínio dos homens sobre as
mulheres. Ela discute que as “políticas sociais intervencionistas” do ‘Estado Novo’
serviram para “aumentar a dependência das mulheres com relação aos homens e para
sustentar as idéias de honra sexual”. Caulfield é mais inovadora em sua discussão sobre
as dimensões raciais da honra sexual, especialmente na concepção popular da
importância da raça na escolha dos parceiros sexuais. Ela argumenta que as noções
prevalecentes de branqueamento racial não determinavam a escolha individual, pelo
contrário, “muitas empregadas domésticas negras ou pardas faziam suas próprias
escolhas quanto à sua sexualidade, geralmente escolhendo homens de sua própria cor e
classe para o relacionamento sexual”. Embora as preferências fossem expressas
individualmente, Caulfield conclui que “o conceito de honra sexual podia ser interpretado
de modo a manter as distinções de cor e de classe ostensivamente ausentes das leis
republicanas. Os juristas interpretavam a honra de modo compatível com as idéias antigas
de divisão apropriada de raça e classe”. A maior contribuição de Caulfield é mostrar os
modos pelos quais as hierarquias de gênero, raça e classe estavam interrelacionadas e os
modos como eram usadas, juntas, para manter as idéias de honra sexual.

136
Por fim, o interesse dos historiadores dos Estados Unidos sobre o gênero produziu
um estudo sobre homossexuais masculinos. “Beyond Carnival: Male Homosexuality in
Twentieth‐Century Brazil” (1999), de James Green, examina a história do
homossexualismo masculino em São Paulo e no Rio de Janeiro desde o final do século
XIX, os conceitos populares do homossexualismo, o desenvolvimento da identidade e
comunidade de homossexuais masculinos e as mudanças na comunidade durante a
ditadura militar. Green admite que esse é um campo novo, e que ele está tentando fazer
“a história social” dos homossexuais masculinos no Brasil. Mas, ao mesmo tempo,
declara que quer abordar questões mais amplas relativas a “noções de masculinidade,
homofobia e dominação de sistemas de gênero heterocêntrico”, que não têm recebido
tanta atenção na história latino‐americana quanto as áreas “tradicionais” do estudo sobre
as mulheres e o gênero. Sua obra é uma tentativa de suprir a lacuna que existe entre os
estudos históricos dos textos médico‐legais e os estudos antropológicos. Ao fazer isso,
ele se propõe analisar os modos pelos quais raça e classe afetam as relações
homossexuais masculinas. Por fim, sugere que seu trabalho irá “lançar uma nova luz”
sobre a concepção da família brasileira. Comparado aos estudos de Besse e Caulfield, o de
Green não consegue atingir o mesmo nível, sobretudo quanto ao tratamento de classe e
raça. A força deste livro reside na habilidade que Green tem de mostrar as mudanças nas
atitudes do Estado oficial no que diz respeito ao homossexualismo masculino no Brasil.
Nesse sentido, ele consegue atingir seu objetivo de examinar “a realidade social e cultural
mais ampla da homossexualidade masculina no Brasil”. No âmbito da história do gênero,
especialmente na América Latina, o homossexualismo masculino e feminino não recebeu
muita atenção. É um campo promissor, no entanto, e promete refinar ainda mais nossos
conhecimentos sobre a centralidade do gênero na história. Embora estudos recentes
sobre o gênero tenham tido seu foco mais definido, já é evidente que nossos
conhecimentos sobre as transformações sociais e políticas no Brasil, no final do século
XIX e no século XX, foram enriquecidos pelo estudo do gênero. E o mais significativo é
que o gênero está começando a ocupar um lugar de maior importância nas obras atuais
sobre a história do Brasil.

137
3.3 Nação e identidades nacionais
Os historiadores que estudam a América Latina nos Estados Unidos também têm
tido um interesse renovado a respeito das identidades de Estado e de nação e, mais
especificamente, o elo entre a construção do Estado e as políticas populares. Estes
inspiram‐se no livro organizado por Joseph e Nugent, “Everyday Forms of State
Formation” (1994), sobre o México, e realmente a maior parte dos trabalhos recentes
sobre a história brasileira aqui citados fazem referência a essa obra. Os ensaios com
orientação teórica, bem como os capítulos históricos, tentam, em conjunto, incluir uma
abordagem mais tradicional, centrada no Estado, das políticas e da construção do Estado,
além de estudos com base antropológica sobre as tradições políticas e culturais locais e
populares. Em síntese, os autores argumentam que o Estado mexicano não é uma
entidade reificada, monolítica, que impôs sua visão hegemônica da modernidade ao povo
mexicano, mas sim que tanto as compreensões de política e de Estado produzidas pelo
Estado quanto as populares influenciam‐se mutuamente. Em suas discussões sobre o
Estado mexicano, Joseph e Nugent empregam a construção de um arco monumental
como metáfora para descrever o processo de formação do Estado que vem acontecendo
desde a Revolução Mexicana. Se o México vem se ocupando com a construção de um
arco desde a Revolução – e podemos visualizar Vincente Fox cavando para um novo arco
ou destruindo as suas fundações com uma britadeira, então o Brasil construiu muitos
arcos, e pelo menos três deles tiveram na parte superior um busto de Getúlio Vargas. É
claro que se pode discutir se esta metáfora se aplica ao Brasil – levando‐se em conta os
longos períodos de poder autoritário. No entanto, os historiadores do Brasil nos Estados
Unidos aplicaram “Everyday Forms of State Formation” às suas pesquisas sobre a história
brasileira e começaram a pensar nos elos entre as visões populares e da elite sobre a
construção do Estado e a formação de identidades nacionais.
“Tropical Versailles: Empire, Monarchy, and the Portuguese Royal Court in Rio de
Janeiro, 1808‐1821” (2001), de Kirsten Schultz, examina as transformações da cultura
política e da monarquia portuguesas produzidas pela transferência da Corte para o Rio de
Janeiro. Schultz sublinha a mudança do absolutismo monárquico para o
constitucionalismo, nesse período, dedicando especial atenção aos modos pelos quais as
discussões públicas a respeito da elevação do Brasil de Colônia a Reinado, o papel

138
continuado da escravidão no Brasil, o mercantilismo e a influência da Inglaterra levaram
os principais intelectuais brasileiros e homens de Estado a repensarem a natureza da
monarquia. A autora não privilegia os discursos centrados no Estado, mas, ao contrário,
“aborda a cultura política do início do século XIX, no Rio de Janeiro, no que diz respeito às
diversas maneiras pelas quais a soberania, a monarquia e o Império eram concebidos, em
uma multiplicidade de lugares”. Ao mesmo tempo que esses debates eram significativos
por “constituírem um fórum no qual [os brasileiros] expressavam suas expectativas e
reivindicavam seus direitos”, ela argumenta que, no fim, a monarquia enfatizava a
continuidade, ao apoiar as hierarquias sociais e econômicas de raça e classe. O estudo de
Schultz mostra com habilidade os modos pelos quais os debates a respeito da natureza
do governo eram adotados por um seguimento mais amplo da sociedade brasileira e
como esses debates influenciaram a transição do absolutismo para a monarquia
constitucional, e da Colônia para o Reinado e daí, para a Nação.
Essa preocupação com as formas populares de expressão política está evidente
também em estudos sobre o século XIX, incluindo “Patronage and Politics in Nineteenth‐
Century Brazil” (1990), de Richard Graham. Graham examina o panorama político no
século XIX, focalizando os políticos locais e as relações entre eles, os partidos nacionais e
o governo centralizado. Ele rejeita a idéia de que os políticos nacionais ou os políticos
partidários dominavam as políticas locais. Em lugar disso, focaliza a ‘patronagem’ como
moeda política, e chega mesmo a argumentar que os partidos eram veículos de
patronagem. Ele declara que seu objetivo é “focalizar os significados [que os atores
políticos] davam aos seus próprios atos, como indivíduos, seja dentro ou fora do governo,
como pessoas íntegras, com compromissos múltiplos, algumas vezes conflitantes,
algumas vezes em dúvida”, e o livro consegue descrever minuciosamente políticas locais
no século XIX. “Heroes on Horseback: A Life and Times of the Last Gaucho Caudillos” (1995),
de John Chasteen, leva essa perspectiva ainda mais adiante. Ele focaliza os irmãos
Gumercindo e Aparício Saraiva e o envolvimento deles na Revolução Federalista de 1893
no Rio Grande do Sul. Chasteen pinta um retrato vívido da vida na fronteira e da cultura
gaúcha. A força do livro reside no exame da cultura política local, inclusive da importância
dos mitos e do simbolismo para os federalistas. Embora Graham e Chasteen examinem
diferentes extremos do espectro político – políticos que tentam obter vantagens das

139
redes de influência locais, estaduais e nacionais e gaúchos que lamentam o fim da
tradição e do Império –, os dois autores mostram como a cultura política local operava
independentemente do controle nacional e, no caso da revolta federalista, como as
figuras políticas locais conseguiam influenciar a política nacional.
Diversos estudos recentes focalizam o desenvolvimento histórico da identidade
nacional brasileira. ““The Hour of Eugenics”: Race, Gender and Nation in Latin América”
(1991), de Nancy Stepan, altamente considerado e amplamente citado, examina o papel
desempenhado pelos proponentes da eugenia na América Latina, ao dar formas aos
debates a respeito das políticas sociais e de imigração nos anos 1920 e 1930. Embora o
livro discuta a eugenia no México, na Argentina e no Brasil, Stepan mostra
habilidosamente como as preocupações a respeito de raça, gênero e políticas de
imigração conformaram os debates a respeito da identidade nacional na América Latina
desse período. Uma segunda contribuição no campo da história social da medicina é
“Race, Place and Medicine: The Idea of the Tropics in Nineteenth‐Century Brazilian Medicine”
(1999), de Julyan Peard, que explora o papel da “Escola Tropicalista Bahiana” do século
XIX – um grupo de médicos associados à Faculdade de Medicina da Bahia – no
desenvolvimento de um conhecimento exclusivamente brasileiro da medicina tropical,
que constituiu uma reação e uma rejeição às idéias européias sobre a inferioridade racial
brasileira. Embora esses médicos não adotassem a herança africana brasileira (e
rejeitassem as investigações de Raymundo Nina Rodrigues sobre raça), eles tentaram
terminar com a idéia de que o clima do Brasil era inóspito para os europeus, lançando,
assim, as bases intelectuais para uma futura imigração européia. Essa preocupação com a
formação de identidades nacionais está também refletida, como foi mencionado acima,
na obra de Thomas Skidmore e de Jeffrey Lesser. Os dois autores exploram as maneiras
pelas quais as idéias de raça refletiam‐se sobre as políticas nacionais de imigração.
Skidmore argumenta que os líderes econômicos e políticos no Brasil adotaram o
branqueamento como ideal de raça depois da abolição da escravatura, quando os
imigrantes europeus forneceram uma solução para a falta de mão‐de‐obra nacional,
enquanto Lesser chama a atenção para as contradições inerentes à adoção, durante o
regime de Vargas, da idéia de democracia racial e das tentativas para se criar uma
identidade nacional inclusiva, da mesma maneira que se excluíam dessa visão grupos

140
específicos de imigrantes.
Finalmente, “Culture Wars in Brazil: The First Vargas Regime, 1930‐1945” (2001), de
Daryle Williams, examina as tentativas dos governos Vargas de projetarem uma imagem
cultural unificada do Brasil, interna e externamente, como uma nação moderna e em
desenvolvimento, por meio de técnicas de gerenciamento cultural, da criação de um
patrimônio nacional e do uso de museus e exposições. Williams discute, também, os
acalorados debates que se seguiram, entre artistas, intelectuais e burocratas, a respeito
do conteúdo exato dessa visão. Apesar dessas discordâncias, Williams argumenta que as
técnicas de gerenciamento cultural do regime Vargas “garantiram que ‘a cultura nacional’
projetada por Vargas tivesse uma especificidade visual geográfica e administrativa com a
qual a sociedade inteira conseguia se identificar”. Ao contrário de outros autores
mencionados aqui, Williams conclui que “a identidade nacional formada sob Vargas não
era necessariamente elaborada pela nação”, o que sublinha algumas das dificuldades
para se aplicar a idéia de que a formação do Estado, no Brasil, é um processo do qual
tanto as elites quanto os subalternos participam. Embora esses estudos não tenham ido
tão longe quanto os trabalhos recentes sobre a revolução mexicana e seus
desenvolvimentos, ao mostrar os elos entre as políticas populares e a formação do
Estado, os historiadores que trabalham com o Brasil nos Estados Unidos conseguiram
mostrar com sucesso que grupos fora dos centros tradicionais de poder e privilégio
contestaram as visões da elite sobre a nação.

4 Conclusões
Para concluir, eu argumentaria que as novas abordagens de gênero, raça e nação,
intrínsecas à “Nova História Cultural”, exerceram uma influência positiva sobre a
elaboração da história brasileira feita nos Estados Unidos. Acredito que o maior potencial
desses trabalhos está nas tentativas dos autores explorarem as ligações entre as políticas
populares e o Estado, embora isso seja feito com menor sucesso do que nos trabalhos
recentes sobre a história mexicana. No entanto, há três áreas que acredito não estarem
presentes nesse novo conhecimento. Em primeiro lugar, os trabalhos examinados aqui
têm seu foco dirigido quase exclusivamente para região Centro‐Sul, especialmente Rio de
Janeiro e São Paulo. Embora isto seja compreensível, dada a estatura política e

141
econômica dessas duas cidades, seria bom os historiadores levarem em consideração o
caráter regional de seus objetos de estudo. Embora alguns historiadores o façam,
inclusive Judy Bieber e John Chasteen, surpreendentemente há muito poucos
conhecimentos produzidos sobre o Nordeste e outras regiões. Em segundo lugar, muitos
dos trabalhos focalizam apenas uma, e não diversas categorias de análise. Com muita
freqüência, há um foco no gênero, às custas da raça, ou na raça, às custas da nação. Isso
posto, alguns historiadores obtêm melhores resultados do que outros, e o trabalho de
Jeffrey Lesser sobre imigração, o de Nancy Stepan sobre eugenia e o de Sueann Caulfield
sobre honra sexual destacam‐se a esse respeito. Por fim, falta a muitos trabalhos aqui
examinados a sofisticação teórica dos conhecimentos recentes produzidos sobre o
México e outras áreas. Os historiadores que estudam o Brasil nos Estados Unidos adotam
freqüentemente teorias e métodos sem fazer uma reflexão crítica sobre se essas
abordagens aplicam‐se à história do Brasil. Por outro lado, acho que há benefícios nessa
abordagem. Os estudos aqui examinados não estão sobrecarregados de jargões, e os
historiadores conseguem obter um equilíbrio entre as novas metodologias e as mais
antigas. Sobre os artigos, em um comentário publicado no número sobre nova história da
cultura no México, na Hispanic American Historical Review, Claudio Lomnitz, professor de
antropologia e história da Universidade de Chicago, identifica duas abordagens na escrita
da história que têm origem nos historiadores profissionais. Ele conta‐nos que a primeira é
“um tipo de sociologia histórica”, usada “para construir idéias mais abstratas com
respeito, por exemplo, a revoluções, sociedades de corte, industrialização e modernidade
cultural”. O segundo, é a “história como crítica imanente”, uma “história profissional e
teórica, mas que interpola implicitamente versões locais da história e utiliza‐as como um
instrumento para a discussão crítica das condições atuais e sua avaliação adequada”.
Lomnitz sugere que os historiadores da cultura que estudam o México nos Estados
Unidos trabalhem com a sociologia histórica, e não com a crítica imanente, e que seus
interesses mantenham‐se profissionais principalmente, dirigidos para a platéia acadêmica
norte americana. Eu acredito que o mesmo valha para os historiadores que estudam o
Brasil nos Estados Unidos. Dada a divisão profissional existente entre os Estados Unidos e
o Brasil, não é de se admirar que os historiadores engajados em escrever a história da
cultura do Brasil se inspirem na profissão de historiador nos Estados Unidos, e não nas

142
forças sociais, políticas e culturais que dão forma ao Brasil de hoje. Se a nova história da
cultura for realmente uma meia‐vida do marxismo, e eu acredito que seja, então os
historiadores que estudam o Brasil nos Estados Unidos deveriam lembrar‐se de que
história da cultura é critica social, e que eles deveriam estar mais dispostos a se
envolverem com as questões sociais e políticas brasileiras da atualidade.

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Normas de publicação

Deve tratar de objetos e abordagens das Humanidades: Memória, História e


Cultura;
Ter no mínimo 15 páginas e no máximo 50; sem formatação de fonte e de
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chave, nesta mesma ordem que se sugere (abstract e key‐words são opcionais);
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