Você está na página 1de 151

MARIA CECÍLIA DE SOUZA MINAYO

O DESAFIO DO CONHECIMENTO
PESQUISA QUALITATIVA EM SAÚDE

OITAVA EDIÇÃO

EDITORA HUCITEC
São Paulo, 2004
SUMÁRIO

Introdução O DESAFIO DO CONHECIMENTO ..................................................... 9

Capítulo 1 INTRODUÇÃO À METODOLOGIA DE PESQUISA SOCIAL ......... 19


PRIMEIRA PARTE - CONCEITOS BÁSICOS ...................................................... 19
A ESPECIFICIDADE DA METODOLOGIA DA PESQUISA SOCIAL .................... 20
O CONCEITO DE METODOLOGIA .......................................................................... 22
QUANTITATIVO VERSUS QUALITATIVO, SUBJETIVO VERSUS OBJETIVO ... 23
O CONCEITO DE PESQUISA SOCIAL ..................................................................... 28

SEGUNDA PARTE - LINHAS DE PENSAMENTO ............................................... 37


O POSITIVISMO SOCIOLÓGICO .............................................................................. 39
O funcionalismo .............................................................................................. 46
A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA ........................................................................... 50
O MARXISMO ............................................................................................................. 64
CONCLUSÕES ............................................................................................................. 86

Capítulo 2 FASE EXPLORATÓRIA DA PESQUISA ........................................... 89

CONCEITOS FUNDAMENTAIS NA OPERACIONALIZAÇÃO DA PESQUISA .. 91


A DEFINIÇÃO DO OBJETO ....................................................................................... 96
CONSTRUÇÃO DOS INSTRUMENTOS DE PESQUISA ......................................... 99
EXPLORAÇÃO DO CAMPO .................................................................................... 101

Capítulo 3 FASE DE ANÁLISE OU TRATAMENTO DO MATERIAL ............ 105


A ENTREVISTA ......................................................................................................... 107
a) A palavra como símbolo de comunicação por excelência ....................................... 109
b) A interação entre o pesquisador e os atores sociais no campo ................................ 113
c) A Entrevista Não-Estruturada .................................................................................. 120
c.1 – Introdução do entrevistador no campo ................................................. 124
A História de Vida ........................................................................... 126
Discussão de Grupo ........................................................................ 129
c.2 – O conteúdo e a situação de entrevista ................................................... 130
c.3 – Sobre o uso das entrevistas não-estruturadas ........................................
132

A OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE ......................................................................... 134


a) O Debate Teórico em torno da Observação Participante ...................................... 136
b) Saúde/Doença como Tema de Observação ............................................................. 156

CONCEITO DE REPRESENTAÇÕE SOCIAIS ........................................................ 158


Conclusões ................................................................................................................... 173

REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE SAÚDE/DOENÇA ........................................... 175


a) Saúde/Doença como Expressão Social e Individual ............................................... 175
b) Saúde/Doença como Expressão de Contradições Sociais ...................................... 179
c) As Representações da SAÚDE como campo de luta política................................... 191
CONCLUSÕES ........................................................................................................... 193
Capítulo 4 FASE DE TRABALHO DE CAMPO ................................................. 197

ANÁLISE DE CONTEÚDO ....................................................................................... 199


Técnicas de Análise de Conteúdo .................................................................. 204
I – Análise da Expressão ................................................................. 204
II – Análise das Relações ................................................................ 204
III – Análise de Avaliação ou Representacional ............................. 205
IV – Análise da Enunciação ............................................................ 206
V – Análise Temática ...................................................................... 209
ANÁLISE DO DISCURSO ......................................................................................... 211
A HERMENÊUTICA-DIALÉTICA ........................................................................... 218
CONCLUSÕES: UMA PROPOSTA DE INTERPRETAÇÃO .................................. 228
ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE A QUESTÃO DA VALIDADE E DA
VERIFICAÇÃO .......................................................................................................... 238

Conclusão .................................................................................................................... 249

Bibliografia .................................................................................................................. 255

Referência Bibliografia (ABNT):

MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa


em saúde. 8. ed. São Paulo: HUCITEC, 2004.

Realização C2A1P
9
INTRODUÇÃO
O DESAFIO DO CONHECIMENTO
“A última coisa que se encontra ao fazer uma obra é o que se deve colocar em
primeiro lugar” (Pascal, Pensée, frase n.° 19) pois “sendo então todas as coisas
causadas e causadoras, ajudadas e ajudantes, mediata e imediatamente, e todas
se relacionando por um vínculo natural e insensível que liga as mais afastadas e
mais diferentes, creio ser tão impossível conhecer o todo, sem conhecer
particularmente as partes” (Pascal, Pensée, frase n.° 73).

É DENTRO da dialética tão bem expressa por Pascal e citada em epígrafe que se
introduz o presente trabalho, uma proposta teórico-metodológica para abordagem
qualitativa das relações sociais que informam o campo da Saúde. Embora pouco a
pouco a problemática vá se desdobrando, este estudo se organiza dentro de alguns
pontos fundamentais que perpassam o conjunto das questões tratadas, quais sejam, a
natureza do social; as relações entre indivíduo e sociedade; entre ação, estrutura e
significados; entre sujeito e objeto; entre fato e valor; entre realidade e ideologia e a
possibilidade do conhecimento, visto sob o prisma de algumas correntes sociológicas.
Por constituir um trabalho de metodologia, é sob esse ângulo que a problemática
citada toma corpo e se explicita nos diferentes níveis de abordagem da realidade,
atingindo a discussão dos métodos e técnicas de pesquisa. A partir desse ponto de vista
tenta-se introduzir alguns eixos de reflexão, explicitando o caminho seguido pelo
presente estudo. Toda a problemática aqui abordada tem como espaço privilegiado de
interrogação a prática da pesquisa, que se busca
10
referenciar como atividade fundamental na produção do conhecimento.
Na verdade este estudo se constitui numa problematização de conceitos
usualmente empregados para a construção do conhecimento e numa teorização sobre a
prática de pesquisa, entendendo-se que nem a teoria e nem a prática são isentas de
interesse, de preconceitos e de incursões subjetivas. Conforme adverte Bourdieu, “a
teoria da prática que aparece como condição de uma ciência rigorosa das práticas, não é
menos teórica” (1972, 157); o privilégio presente em toda atividade teórica supõe um
corte epistemológico e um corte social e ambos governam sutilmente essa realidade
(1972, 158), portanto, qualquer investigador deve colocar em questão os pressupostos
inerentes a sua qualidade de observador externo que tende a importar para o objeto os
princípios de sua relação com a realidade, incluindo-se aí suas relevâncias (1972, 160).
Dentro desse espírito, tenta-se trabalhar o conceito de Metodologia, fugindo de um lado,
daquelas abordagens apenas teóricas que não chegam a enfrentar a prática de pesquisa;
de outro, daquelas concepções que consideram o labor da investigação como uma
tecnologia neutra, isenta, a ser dominada e aplicada indistintamente e independente dos
pressupostos teóricos que a sustentam.
O objeto principal de discussão são as Metodologias de Pesquisa Qualitativa
entendidas como aquelas capazes de incorporar a questão do SIGNIFICADO e da
INTENCIONALIDADE como inerentes aos atos, às relações e às estruturas sociais,
sendo essas últimas tomadas tanto no seu advento quanto na sua transformação, como
construções humanas significativas.
A introdução dessa definição insere conseqüências teóricas e práticas na
abordagem social. A primeira delas é uma interrogação sobre a possibilidade de se
considerar científico ou não um trabalho de investigação, que ao levar em conta os
níveis mais profundos das relações sociais, não pode operacionalizá-los em números e
variáveis, critérios usualmente aceitos para emitir juízo de verdade no campo
intelectual. Ora, essa questão remete às próprias entranhas do positivismo sociológico
que apenas reconhece como ciência a atividade “objetiva”, capaz de traçar as leis que
regem os fenômenos, menosprezando os aspectos chamados “subjetivos”, impossíveis
de serem
11
sintetizados em dados estatísticos. No entanto, o próprio positivismo tenta trabalhar a
“qualidade do social” seja buscando substantivá-lo em variáveis, seja, através do
estrutural-funcionalismo, focalizando os produtos da interação social como
componentes funcionais da realidade, e tratando-os como entidades passíveis de estudo,
independentemente de sua constituição pelos indivíduos.
Em oposição ao Positivismo, a pergunta sobre o qualitativo é respondida de
forma diferente pela Sociologia Compreensiva, que, como o próprio nome indica,
coloca como tarefa das Ciências Sociais a compreensão da realidade humana vivida
socialmente e totalmente diversa do mundo das ciências naturais. Em suas diferentes
manifestações como a Fenomenologia, a Etnometodologia, o Interacionismo Simbólico,
o SIGNIFICADO é o conceito central para a análise sociológica. Numa oposição frontal
ao positivismo, a sociologia compreensiva propõe a subjetividade como fundante do
sentido e defende-a como constitutiva do social e inerente ao entendimento objetivo.
Essa corrente não se preocupa em quantificar, mas de lograr explicar os meandros da
atividade humana criadora, afetiva e racional, que pode ser apreendida através do
cotidiano, da vivência, e da explicação do senso comum. Os problemas da corrente
compreensiva se encontram na atomização da realidade na análise dos grupos sociais
como uma totalidade nela mesma, e na ausência quase total de discussões referentes a
problemas estruturais. Sua concentração nos significados é absoluta, levando-as a
menosprezar a base material do universo simbólico.
Fazendo uma questão qualitativa, superior ao positivismo e às abordagens
compreensivistas, a dialética marxista abarca não somente o sistema de relações que
constrói o modo de conhecimento exterior ao sujeito, mas também as representações
sociais que constituem a vivência das relações objetivas pelos atores sociais, que lhe
atribuem significados. Frente à problemática da quantidade e da qualidade a dialética
assume que a qualidade dos fatos e das relações sociais são suas propriedades inerentes,
e que quantidade e qualidade são inseparáveis e interdependentes, ensejando-se assim a
dissolução das dicotomias quantitativo/qualitativo, macro/micro, interioridade e
exterioridade com que se debatem as
12
diversas correntes sociológicas. Com relação aos significados, a análise dialética os
considera como parte integrante da totalidade que deve ser estudada tanto ao nível das
representações sociais como das determinações essenciais. Sob esse enfoque, não se
compreende a ação humana independente do significado que lhe é atribuído pelo autor,
mas também não se identifica essa ação com a interpretação que o ator social lhe atribui.
Portanto, em relação à abordagem qualitativa, o método dialético, como diz Sartre,
“recusa-se a reduzir. Ele ultrapassa conservando” (1978, 177). Demonstra sua
superioridade precisamente pela capacidade de incorporar as “verdades parciais” das
outras correntes, criticando e negando suas limitações. Percebe a relação inseparável
entre mundo natural e social; entre pensamento e base material; entre objeto e suas
questões; entre a ação do homem como sujeito histórico e as determinações que a
condicionam. Os princípios de especificidade histórica e da totalidade lhe conferem
potencialidade, para, do ponto de vista metodológico, apreender e analisar os
acontecimentos, as relações e cada momento como etapa de um processo, como parte de
um todo. Os critérios de complexidade e de diferenciação lhe permitem trabalhar o
caráter de antagonismo, de conflito e de colaboração entre grupos sociais, e, no interior
de cada um deles, e pensar suas relações como múltiplos em seus próprios ângulos,
intercondicionadas em seu movimento e desenvolvimento interior e interagindo com
outros fenômenos ou grupos de fenômenos.
A abordagem dialética porém está pouco desenvolvida, particularmente no que
concerne ao ponto de partida das representações sociais. Isso leva a que os estudos
substantivos realizados a partir dessa perspectiva sejam um desafio que enfrenta o
pesquisador, pois exige dele uma superação dos instrumentos de pesquisa usualmente
empregados pela correntes compreensivistas ou funcionalistas, e a inclusão dos
SIGNIFICADOS na totalidade histórico-estrutural.
A discussão crítica do conceito de “Metodologias Qualitativas” nos induz a
pensá-las não como uma alternativa ideológica às abordagens quantitativas, mas a
aprofundar o caráter do social e as dificuldades de construção do conhecimento que o
apreendem de forma parcial e inacabada. As diferentes teorias que abrangem (cada uma
delas) aspectos particulares e relegam outros, nos revelam o
13
inevitável imbricamento entre conhecimento e o interesse, entre condições históricas e
avanço das ciências, entre identidade do pesquisador e seu objeto, e a necessidade
indiscutível da crítica interna e externa na objetivação do saber. O próprio termo
“Metodologias Qualitativas” consagra uma imprecisão, uma dificuldade histórica das
teorias de se posicionar frente à especificidade do social. Ele supõe uma afirmação da
qualidade contra a quantidade, refletindo uma luta teórica entre o positivismo e as
correntes compreensivistas em relação à apreensão dos significados. Se entendermos a
interdependência e a inseparabilidade entre os aspectos quantificáveis e a vivência
significativa da realidade objetiva no cotidiano, veremos a referida dominação como
redundante e mesmo parcial. A noção de Metodologia de Pesquisa Social – não fossem
as conotações historicamente mediadas do primeiro termo – seria suficiente para
qualificar o campo de abordagem das relações sociais, abrangente de seus aspectos
estruturais e da visão que os atores sociais projetam dessas relações.
Trazendo o debate do “qualitativo” para o campo da Saúde, presencia-se o
eclodir de questões semelhantes às do âmbito maior das Ciências Sociais. Isso se deve
ao fato, em primeiro lugar, de que a saúde não insitui nem uma disciplina nem um
campo separado das outras instâncias da realidade social. Por isso, tanto no que
concerne à problemática teórica quanto à metodológica ela está submetida às mesmas
vicissitudes, avanços, recuos, interrogações e perspectivas da totalidade sociológica da
qual faz parte (Apezechea: 1985, 461-472). A sua especificidade é dada pelas suas
inflexões sócio-econômicas, políticas e ideológicas relacionadas ao saber teórico e
prático sobre saúde e doença, sobre a instituicionalização, a organização, administração
e avaliação dos serviços e clientelas dos sistemas de Saúde. Dentro desse caráter
peculiar está sua abrangência multidisciplinar e estratégica. Isto é, o reconhecimento de
que o campo da Saúde se refere a uma realidade complexa que demanda conhecimentos
distintos integrados e que coloca de forma imediata o problema da intervenção. Nesse
sentido, ele requer como essencial uma abordagem dialética que compreende para
transformar e cuja teoria, desafiada pela prática, a repense permanentemente.
O reconhecimento da especificidade do setor saúde não retira
14
porém, sua cumplicidade com a problemática social mais ampla, seja no campo da
realidade empírica (pois a questão da saúde envolve o conjunto das relações sociais
vivenciadas nas áreas da produção e das condições de produção), seja no âmbito
conceitual, onde o específico está atravessando por distintas posições face às
possibilidade de organização da vida social. Teoricamente isso significa dificuldades de
aproximação do objeto, de vencer dicotomias analíticas, de se mover no terreno da
totalidade das dimensões que o fenômenos saúde/doença revela e oculta. Creio que a
cristalização dessa limitações está na própria conceituação de termos como “Saúde
Pública” ou “Saúde Coletiva”. O primeiro, consagra uma dimensão reducionista de
direção e de intervenção do Estado numa área social mais ampla e complexa do que a
definida pelas práticas sanitárias oficiais. O segundo termo é também ambíguo e
inespecífico. Donnangelo (1983, 19-24) e Merhy (1985, 21) detectam a imprecisão do
adjetivo “coletivo” para conceituar o campo da saúde, por causa da ampla conotação
que comporta e pela relação de exterioridade que estabelece frente ao objeto.
Essa ambigüidade se torna muito presente em Teixeira (1985, 87-109) quando a
autora considera “Saúde Coletiva” como um conceito operacional próprio de aplicação
das Ciências Sociais à Saúde para analisar os “corpos sociais” (classes, grupos e
relações) em suas relações histórico-estruturais. Sem entrar no mérito do reducionismo
que aí se processa em relação à abrangência do social e em relação à delimitação do
espaço da saúde/doença no “corpo” ainda que “corpo social”, tenta-se realizar, neste
estudo, uma ampliação do conceito sociológico de saúde que abranja a totalidade das
relações que contêm e se expressam no cultural, lembrando com Boltanski que:
Os determinismos sociais não informam jamais o corpo de maneira imediata,
através de uma ação que se exercia diretamente sobre a ordem biológica sem a
mediação do cultural que os retraduz e os transforma em regras, em obrigações,
em proibições, em repulsas ou desejos, em gostos e aversões (1979, 119).
15
Tal como é pensado neste trabalho, o conceito sociológico de Saúde retém ao
mesmo tempo suas dimensões estruturais e políticas e contém os aspectos histórico-
culturais de sua realização. Como qualquer tema abrangente do cultural, a saúde só pode
ser entendida dentro de uma sociologia de classe. Porém dentro de uma sociologia de
classe que: (a) possua instrumentos para perceber o caráter de abrangência das visões
dominantes (pois as classes se encontram entre si, no seio de uma soicedade em relação
e com problemas de aculturação recíproca); (b) perceba também a especificidade dos
sistemas culturais e de subculturas dominadas em suas relações contraditórias com a
dominação; (c) defina a origem e a historicidade das classes na estrutura do modo de
produção; (d) conceba sua realização tanto nos espaços formais da economia e da
política como nas matrizes essenciais da cultura como a família, a vizinhança, os grupos
etários, os grupos de lazer etc., considerando como espaços inclusivos de conflitos,
contradições, subordinação e resistência tanto as unidades de trabalho como o bairro, o
sindicato como a casa, a consciência como o sexo, a política como a religião.
Introduzindo a cultura na definição do conceito de Saúde demarca-se um espaçamento
radical: ela amplia e contém as articulações da realidade social. Pensada assim, cultura
não é um lugar subjetivo, ela abrange uma objetividade com a espessura que tem a vida,
por onde passa o lócus onde se articulam os conflitos e as concessões, as tradições e as
mudanças e onde tudo ganha sentido, ou sentidos, uma vez que nunca há apenas um
significado.
A saúde enquanto questão humana e existencial é uma problemática
compartilhada indistintamente por todos os segmentos sociais. Porém as condições de
vida e de trabalho qualificam de forma diferenciada a maneira pela qual as classes e
seus segmentos pensam, sentem e agem a respeito dela. Isso implica que, para todos os
grupos, ainda que de forma específica e peculiar, a saúde e a doença envolvem uma
complexa interação entre os aspectos físicos, psicológicos, sociais e ambientais da
condição humana e de atribuição de significados. Pois a saúde e doença exprimem agora
e sempre uma relação que perpassa o corpo individual e social, confrontando com as
turbulências do ser humano enquanto ser total. Saúde e doença são fenômenos
16
clínicos e sociológicos vividos culturalmente, porque as formas como a sociedade os
experimenta, cristalizam e simbolizam as maneiras pelas quais ela enfrenta seu medo da
morte e exorciza seus fantasmas. Neste sentido saúde/doença importam tanto por seus
efeitos nos corpo como pelas suas repercussões no imaginário: ambos são reais em suas
conseqüências. Portanto, incluindo os dados operacionalizáveis e junto com o
conhecimento técnico, qualquer ação de tratamento, de prevenção ou de planejamento
deveria estar atenta aos valores, atitudes e crenças dos grupos a quem a ação se dirige. É
preciso entender que, ao ampliar suas bases conceituais, as ciências sociais da saúde não
se tornam menos “científicas”, pelo contrário, elas se aproximam com maior
luminosidade dos contornos reais dos fenômenos que abarcam.
De qualquer forma, a abordagem social da saúde, do ponto de vista cultural e
qualitativo, não constitui uma ideologia e não institui uma posição unívoca.
Historicamente ela é perpassada também pelo debate teórico das ciências sociais como
já se repetiu. O estrutural-funcionalismo tem marcado a linha de conhecimento dos
grupos étnicos e sociais a partir da antropologia, sobretudo vinculado à “medicina
tropical” e como subsídios às “ciências da conduta (Nunes: 1985, 31-33; Estrella: 1985,
164-169; Agudelo: 1985, 203-233). Seu arraigamento no campo da saúde, evidencia,
entre outros problemas, o fato de que as próprias bases do funcionalismo se espelham
no modelo biológico como metáfora da sociedade. Processa-se aí um efeito circular em
que a biologia oferece seu referencial à sociologia que por sua vez lhe proporciona
subsídios à compreensão dos aspectos culturais da saúde/doença. É difícil a travessia do
espelho!
Das abordagens qualitativas, a fenomenologia é a que tem tido maior relevância
na área da saúde. As análises fundamentadas em seus pressupostos têm desvendado as
concepções de saúde/doença como culturalmente específica, a arbitrariedade do Estado
na imposição de padrões culturais, a relatividade da verdade da medicina, o caráter
reprodutor das instituições médicas, a dominação da ética médica, advogando uma nova
filosofia da medicina. Proposições da política de atenção primária, de autocuidadeo,
revalorização da medicina tradicional, de participação comunitária, e de certos grupos
de
17
investigação/ação e de pesquisa participante convergem influências fenomenológicas
(Nunes: 1985, 31-70; Garcia: 1983, 119-131).
As aproximações dialéticas que partem do ponto de vista dos sujeitos sociais
sobre o processo saúde/doença e abrangem as relações que perpassam sua política e
institucionalização, são muito poucas. Trata-se hoje de uma exigência criativa que
contemple ou ultrapasse as análises macroeconômicas e histórico-estruturais do setor.
É dentro desse esforço de ampliar o debate teórico/metodológico no campo da
saúde, sob o enfoque dialético, que coloco este trabalho. Em nenhum momento ele se
pretende acabado ou magistral. Almeja ser apenas uma centelha a mais no caminho de
buscas de investigação e de integração, num setor tão complexo e essencialmente
multidisciplinar.
O presente estudo desdobra-se num conjunto de quatro capítulos, onde,
abordando questões metodológicas específicas, tenta-se refletir sobre o caráter
aproximativo das Ciências Sociais, a lógica interna peculiar da Pesquisa Social e
mormente das abordagens qualitativas, e os aspectos mediadores da tecnologia em
relação às teorias e às práticas. Considera-se o Ciclo da Pesquisa como um processo de
trabalho que dialeticamente termina num produto provisório e recomeça nas
interrogações lançadas pela análise final. As páginas seguintes são a explicitação desse
esforço através da reflexão e da crítica de conceitos, e da proposta de um caminho de
pensamento.
No primeiro capítulo são apresentados pressupostos e especificidades próprias
ao campo metodológico, ou seja, os conceitos de Metodologia, de Pesquisa Social, de
Pesquisa Estratégica, de Qualitativo e de Quantitativo. Em seguida há um resumo dos
traços gerais das principais linhas de pensamento sociológico e suas implicações no
campo da saúde. Trata-se de um temário introdutório ao trabalho de investigação.
No segundo capítulo processa-se uma reflexão sobre a Frase Exploratória da
Pesquisa cuja importância fundamental é exorcizar o empirismo das abordagens sociais.
Estão aí discutidos os conceitos básicos de um marco teórico, a problemática de
definição do objeto, a construção dos instrumentos de abordagem empírica, a
amostragem na investigação qualitativa e a aproximação do campo.
18
Em seguida, no terceiro capítulo, aborda-se o momento do Trabalho de Campo,
ou seja, a técnica e a problematização dos conceitos de Observação Participante, de
Entrevista, de Representação Social e de Representação social de Saúde e Doença.
Por fim, no quarto capítulo estão expostas as modalidades mais freqüentes de
Tratamento do Material Qualitativo, isto é, os conceitos de Análise do Conteúdo, de
Análise do Discurso e de Análise Hermenêutica-Dialética. Termina-se com uma
proposta prática de análise, buscando-se sintetizar e ultrapassar as modalidades usuais
de abordagem.
O Ciclo completo projeta a investigação como um processo com etapas e
atividades específicas em cada fase, que podem ser delimitadas em cronograma; e ao
mesmo tempo como um movimento permanente de integração das partes no todo e de
sucessivo recomeçar. Ele veicula a idéia de um trabalho que tem dinâmica própria em
busca da objetivação do conhecimento, mas também uma busca inacabada que se
reinicia cada vez que apresenta um produto “provisório”, integrando a historicidade do
processo social e da construção teórica.
Esse senso de relatividade e de utopia é o que une este trabalho a todos os
esforços daqueles que buscam uma “ciência mais científica” no campo da saúde: a
partilha da idéia de que o conhecimento é um processo infinito e não há condição de
fechá-lo numa fase final, assim como não se pode prever o final do processo histórico;
embora o projetemos como politicamente democrático e socialmente igualitário para ser
ecologicamente saudável.
19
CAPÍTULO 1
INTRODUÇÃO À METODOLOGIA DE PESQUISA SOCIAL
PRIMEIRA PARTE
CONCEITOS BÁSICOS

Este capítulo tem um objetivo introdutório. Visa a conceituar alguns termos que
constituem o objetivo a ser perseguido durante todo o trabalho. Pretende também
problematizar a abordagem da pesquisa social.
Divide-se em duas partes que se complementam e que serão tratadas
progressivamente no decorrer deste estudo.
Na primeira etapa tratamos da especificidade da metodologia das ciências
sociais, definimos o conceito de metodologia, de pesquisa e também introduzimos a
polêmica que se instaura no meio científico entre o método quantitativo e o método
qualitativo.
O esforço inicial de conceituação, dentro da dinâmica que estabelecemos durante
todo o processo de estudo, é ao mesmo tempo uma problematização que reflete as várias
correntes de pensamento no interior das ciências sociais. Refere-se às múltiplas
possibilidades de abordagem metodológica e seus pressupostos. As correntes de
pensamento têm sua história, veiculam uma visão de mundo e têm a ver com a realidade
social complexa onde foram geradas e que elas tentam expressar.
No campo da saúde, considerada esta como um fenômeno social de alta
significação, o positivismo, a fenomenologia e a dialética marxista são as principais
tendências de interpretação.
Elas representam não apenas diferentes possibilidades de análise, mas uma luta
20
Ideológica que, por sua vez, tem a ver com a luta política mais ampla na sociedade.

A ESPECIFICIDADE DA METODOLOGIA DA PESQUISA SOCIAL

Entrar no campo da Metodologia da Pesquisa Social é penetrar num mundo


polêmico onde há questões não resolvidas e onde o debate tem sido perene e não
conclusivo.
O primeiro tema mais problemático e o da diferença ou não entre os métodos
específicos das ciências sociais e das ciências físico-naturais e biológicas. Temos que
começar enfrentando a questão, ainda que não tenhamos respostas definitivas. E o
fazemos salientando alguns pontos que distinguem as Ciências Sociais e as tornam
específicas, já assinalados por Demo (1981).
O primeiro deles é o fato inconteste de que o objeto das Ciências Sociais é
histórico. Significa que as sociedades humanas existem num determinando espaço, num
determinado tempo, que os grupos sociais que as constituem são mutáveis e que tudo,
instituições, leis, visões de mundo são provisórios, passageiros, estão em constante
dinamismo e potencialmente tudo está para ser transformado.
Como conseqüência do primeiro princípio, podemos dizer que nosso objeto
possui consciência histórica. Goldmann (1980, 17-104) nos introduz ao conceito de
consciência possível e de consciência real, conceitos que podem nos ajudar a entender a
especificidade das ciências sociais. De acordo com o desenvolvimento das forças
produtivas, com a organização particular da sociedade e de sua dinâmica interna,
desenvolvem-se visões de mundo determinadas que nem os grupos sociais e nem os
filósofos e pensadores conseguem superar. Alguns grupos sociais e alguns pensadores
logram sair do nível de “senso comum” dado pela ideologia dominante, mas, mesmo
assim, seu conhecimento é relativo e nunca ultrapassa os limites das relações sociais de
produção concretas que existem na sua sociedade. O pensamento e a consciência são
fruto da necessidade, eles não são um ato ou entidade, são um processo que tem como
base o próprio processo histórico.
Desta forma as Ciências Sociais, enquanto consciência possível, estão
submetidas às grandes questões de nossa época e têm seus
21
limites dados pela realidade do desenvolvimento social. Portanto, tanto os indivíduos
como os grupos e também os pesquisadores são dialeticamente autores e frutos de seu
tempo histórico.
Uma terceira característica das Ciências Sociais é a identidade entre o sujeito e o
objeto da investigação. Elas investigam seres humanos que, embora sejam muito
diferentes por razões culturais, de classe, de faixa etária ou por qualquer outro motivo,
têm um substrato comum que os tornam solidariamente imbricados e comprometidos.
Outro aspecto distintivo das Ciências Sociais é o fato de que ela é intrínseca e
extrinsecamente ideológica. Ninguém hoje ousaria negar as evidências de que toda
ciência é comprometida. Ela veicula interesses e visões de mundo historicamente
construídas e se submete e resiste aos limites dados pelos esquemas de dominação
vigentes. Mas as ciências físicas e biológicas participam de forma diferente do
comprometimento social, pois existe um distanciamento de natureza entre o físico e o
biológico em relação a seu objeto, embora as descobertas da chamada “nova física”
revelem o imbricamento relacional entre o pesquisador e a natureza: “o real é a
realidade que ele conhece”. Na investigação social, porém, essa relação é muito mais
crucial. A visão de mundo do pesquisador e dos atores sociais estão implicadas em todo
o processo de conhecimento, desde a concepção do objeto até o resultado do trabalho. É
uma condição da pesquisa, que uma vez conhecida e assumida pode ter como fruto a
tentativa de objetivação do conhecimento. Isto é, usando-se todo o instrumental teórico
metodológico que ajuda uma aproximação mais cabal da realidade, mantém-se crítica
não só sobre as condições de compreensão do objeto como do próprio pesquisador.
Conforme nos adverte Lévy Strauss: “Numa ciência onde o observador é da mesma
natureza que o objeto, o observador é, ele mesmo, uma parte da observação” (1975,
215).
Por fim, e isso tem uma profunda importância para este trabalho o objeto das
Ciências Sociais é essencialmente qualitativo. A realidade social, que só se apreende por
aproximação é, conforme Lênin (1955, 215), mais rica do que qualquer teoria, qualquer
pensamento que possamos ter sobre ela. Pois o pensamento tende a dividir, a separar, a
fazer distinção sobre momentos e objetos que nos apresentam. Se falamos de Saúde ou
Doença essas categorias trazem uma carga
22
histórica, cultural, política e ideológica que não pode ser contida apenas numa fórmula
numérica ou num dado estatístico. Gurvitch (1955), nos diz que a realidade tem
camadas e a grande tarefa do pesquisador é de apreender além do visível, do
“morfológico, e do ecológico” – que podem ser entendidos quantitativamente – os
outros níveis que interagem e tornam o social tão complexo. Neste sentido, é
questionável porque redundante a denominação “Pesquisa Qualitativa” usada neste
trabalho. É uma terminologia imprópria que só tem sentido por oposição a “Pesquisa
Quantitativa”. A rigor qualquer investigação social deveria contemplar uma
característica básica de seu objeto: o aspecto qualitativo. Isso implica considerar sujeito
de estudo: gente, em determinada condição social, pertencente a determinado grupo
social ou classe com suas crenças, valores e significados. Implica também considerar
que o objeto das Ciências Sociais é complexo, contraditório, inacabado, e em
permanente transformação.

O CONCEITO DE METODOLOGIA
A compreensão da especificidade do método das ciências sociais nos conduz à
pergunta específica sobre o conceito de Metodologia.
Entendemos por metodologia o caminho e o instrumental próprios de abordagem
da realidade. Neste sentido, a metodologia ocupa lugar central no interior das teorias
sociais, pois ela faz parte intrínseca da visão social de mundo veiculada na teoria. Em
face da dialética, por exemplo, o método é o próprio processo de desenvolvimento das
coisas. Lênin nos ensina que o método não é a forma exterior, é a própria alma do
conteúdo porque ele faz relação entre o pensamento e a existência e vice-versa (1955,
148).
Há autores porém que consideram a metodologia como tendo um papel
secundário dentro das ciências. A razão de ser dessa atitude é o fato de que a
compreendam como um conjunto de técnicas a serem usadas para se abordar o social.
Da forma como a tratamos neste trabalho, a metodologia inclui as concepções
teóricas de abordagem, o conjunto de técnicas que possibilitam a apreensão da realidade
e também o potencial criativo do pesquisador.
Enquanto abrangência de concepções teóricas de abordagem, a
23
ciência e a metodologia caminham juntas, intrincavelmente engajadas. Por sua vez, o
conjunto de técnicas constitui um instrumental secundário em relação à teoria, mas
importante enquanto cuidado metódico de trabalho. Elas caminham para a práticas as
questões formuladas abstratamente. Seu endeusamento e reificação conduzem ao
empirismo tão freqüente ainda nas ciências sociais. Mas o contrário, isto é, a excessiva
teorização e a pouca disposição de instrumentos para abordar a realidade, provenientes
de uma perspectiva pouco heurística, conduzem a divagações abstratas ou pouco
precisas em relação ao objeto de estudo.
Se a teoria, se as técnicas são indispensáveis para a investigação social, a
capacidade criadora e a experiência do pesquisador jogam também um papel
importante. Elas podem relativizar o instrumental técnico e superá-lo pela arte. Esta
qualidade pessoal do trabalho científico, verdadeiro artesanato intelectual que traz a
marca do autor, nenhuma técnica ou teoria pode realmente suprir. É em parte o que
Wright Mills denomina “Imaginação Sociológica” e consiste na capacidade pessoal do
pesquisador de fazer, das preocupações sociais, questões públicas e indagações
perscrutadoras da realidade. E em parte é a capacidade de perceber através das questões
específicas levantadas, as correlações multilaterais e sempre mutáveis que cercam a
realidade objetiva, dentro dos limites da “consciência possível”. Trata-se de um
imbricamento entre a habilidade do produtor, sua experiência e seu rigor científico.

O CONCEITO DE PESQUISA SOCIAL


Entendemos por Pesquisa a atividade básica das Ciências na sua indagação e
descoberta da realidade. É uma atitude e uma prática teórica de constante busca que
define um processo intrinsecamente inacabado e permanente. É uma atividade de
aproximação sucessiva da realidade que nunca se esgota, fazendo uma combinação
particular entre teoria e dados.
O termo Pesquisa Social tem uma carga histórica e, assim como as teorias
sociais, reflete posições frente à realidade, momentos do desenvolvimento e da
dinâmica social, preocupações e interesses de classes e de grupos determinados.
Enquanto prática intelectual
24
reflete também dificuldades e problemas próprios das Ciências Sociais e a sua relativa
juventude para delimitar métodos e leis específicas.
Do ponto de vista antropológico pode-se dizer que sempre existiu a preocupação
do “homo sapiens” com o conhecimento da realidade. As tribos primitivas, através de
mitos, já tentavam explicar os fenômenos que cercam a vida e a morte, o lugar dos
indivíduos na organização social com seus mecanismos de poder, controle, convivência
e reprodução do conjunto da existência social. Dentro das dimensões de espaço e tempo,
a religião tem sido um dos relevantes fenômenos de explicações às indagações dos seres
humanos sobre os fenômenos de existência individual e grupal. Hoje, as perguntas
humanas buscam soluções ainda concomitantemente nos mitos modernos, nas mais
diferentes formas religiosas, em sistemas filosóficos e particularmente nas Ciências. As
Ciências nas sociedades industrializadas constituem os esquemas de explicações
dominantes considerados plausíveis e intelectualmente aceitos.
Não nos cabe aqui uma discussão dessa prioridade, mas apenas advertir para o
fato de que, se a ciência constitui uma forma de abordagem dominante, nem por isso se
torna exclusiva e conclusiva. Os problemas dos seres humanos e da organização social
atuais trazem questões frente às quais a ciência continua sem respostas e sem
formulações.
Do ponto de vista histórico, no que aqui nos concerne peculiarmente, a Pesquisa
Social vem carregada de ênfases e interesses mais amplos do que seu campo específico.
Alguns autores como Schrader nos advertem que essa atividade intelectual no mundo
moderno tem origem nos grupos contestadores das desigualdades da sociedade
industrial. Muitos pesquisadores renomados como Lazarsfeld, Jahoda e Gunnar Myrdal
iniciaram suas carreiras de investigadores na busca de solução para os problemas sociais
causados pela Segunda Guerra Mundial (Schrader: 1978, 818). Nos Estados Unidos,
Schrader comenta que a pesquisa social nasceu na Yellow Press, isto é, em jornais de
crítica social.
Sabemos, ao contrário, que na Inglaterra, os antropólogos avançaram muito na
compreensão de sociedades primitivas financiados por interesses colonialistas. Porém,
as investigações antropológicas levantaram questões que contrariavam os interesses da
metrópole e
25
dos financiadores como o relativismo cultural, o pensamento lógico dos primitivos e a
auto-suficiência de sua organização social.
A conclusão inicial é de que a pesquisa enquanto atividade intelectual sofre as
limitações e contradições mais amplas do campo científico, dos interesses específicos da
sociedade e das “questões consagradas” de cada época histórica.
A partir da Segunda Grande Guerra, com a ampliação do poder dos Estados sob
o signo da industrialização, o avanço da pesquisa social tem crescido junto com o
interesse para se entender, organizar, regular e controlar a população. Particularmente
isso se reflete em campos como a economia, a demografia e a sociologia.
Hoje o termo Pesquisa em Políticas Sociais, a começar pela Inglaterra e pelos
Estados Unidos, passou a significar um campo de interesse científico que tem
implicações imediatas do ponto de vista de dominação e controle do Estado. A
proliferação de centros de pesquisa sociais tanto nos países industrializados como nos
subdesenvolvidos tem a ver com o interesse do poder público de conhecer, regular e
controlar a sociedade civil. É óbvio, trata-se de um interesse contraditório e conflitivo
frente ao qual a sociedade civil, enquanto aparato de construção de consenso social, faz
as suas mediações e também expressa sua autoria e resistência.
Do ponto de vista teórico e formal existe uma classificação tradicional que
divide a Pesquisa em “pura” e “aplicada”. O metodólogo e pesquisador Bulmer (1978,
8-35) refuta essa denominação. Comenta que “pura ou básica” e “aplicada” referem-se a
uma divisão falsa na medida em que pesquisas teóricas podem ter importantes
conseqüências práticas e pesquisas aplicadas certamente têm implicações e
contribuições teóricas. Essa dicotomia se baseia no modelo de tecnologia em que o
cliente que paga explicita o que quer. Tal exigência se torna inadequada às ciências
sociais que não estão em posição de, mecânica e simplismente, responder aos desejos
dos clientes.
Bulmer propõe uma classificação alternativa de Pesquisa Social, substituindo a
divisão tradicional. As cinco modalidades, referida abaixo, constituem, segundo o autor,
“tipos” dentro de um continuum, sem exclusão dos diferentes termos. Como o “tipo
ideal” em Weber, elas seriam uma construção teórica para a compreensão do
26
campo de análise, sem pretenderem reproduzir a realidade ou torná-la estanque: (1)
Pesquisa básica: preocupa-se com o avanço do conhecimento através da construção de
teorias, o teste das mesmas, ou para satisfação da curiosidade científica. Ela não tem
uma finalidade prática, embora as descobertas da pesquisa básica possam influenciar e
subsidiar tanto políticas públicas, decisões dos homens de negócios e o avanço do
movimento social; (2) Pesquisa estratégica: baseia-se nas teorias das ciências sociais,
mas orienta-se para problemas que surgem na sociedade, ainda que não preveja soluções
práticas para esses problemas. Ela tem a finalidade de lançar luz sobre determinados
aspectos da realidade. Seus instrumentos são os da pesquisa básica tanto em termos
teóricos como metodológicos, mas sua finalidade é a ação. Essa modalidade seria a
amais apropriada para o conhecimento e a avaliação de Políticas, e segundo nosso ponto
de vista, particularmente adequada para as investigações sobre Saúde; (3) Pesquisa
orientada para um problema específico: é em geral aquela realizada dentro das
instituições governamentais ou para elas. Os resultados da investigação são previstos
para ajudar a lidar com problemas práticos e operacionais; (4) Pesquisa-Ação: consiste
numa investigação pari passu ao desenvolvimento de programas governamentais para
medir o seu impacto. Esse conceito de Bulmer difere do conceito de pesquisa-ação
apresentado por Thiollent (1986). Para esse autor:
A pesquisa-ação é um tipo de investigação social com base empírica que é
concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução
de um problema coletivo no qual os pesquisadores e os participantes
representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo
cooperativo ou participativo.
A diferença básica de conceituação reside no fato que, no primeiro caso, a investigação
acompanha a ação dos programas, mas é externa a elas. No segundo, o envolvimento do
pesquisador na ação é parte integrante da pesquisa; (5) Pesquisa de Inteligência: são os
grandes levantamentos de dados demográficos, econômicos, estatísticos, realizados por
especialistas ou por instituições, a fim de ajudar a
27
formulação de políticas. No nosso caso, os Censos e as Pesquisas do IBGE seriam
exemplos clássicos de pesquisas de inteligência. De alguma forma simplificada, as
Pesquisas de Opinião Pública preencheriam também essa função sociológica (Bulmer:
1978, 8-9).
Bulmer comenta, referindo-se ao campo de Investigações Estratégicas, que a
“Pesquisa Básica” tem tido, como sua marca permanente, uma forte orientação
unidisciplinar, dificultando sua relevância possível para as políticas públicas. Na ponta
oposta, os estudos interdisciplinares têm desapontado muito pela sua pouca consistência
teórico-metodológica. Segundo ele, os “surveys” se tornaram o reino do senso comum.
Isto é, frequentemente estão orientados: (a) pelo “empirismo” e pelo “positivismo” onde
se parte do princípio de que os fatos falam por si mesmo e que nada existe além dos
dados; (b) pelos interesses políticos dos cientistas e/ou políticos que encomendam seu
trabalho. O pressuposto desses estudos é de que os governantes e políticos precisam
conhecer os fatos para poderem optar. Nesse sentido, volta-se ao “empirismo”,
minimizam-se os problemas teóricos, diminui-se o papel do pesquisador que se torna
um técnico-subalterno provedor de informações. A interpretação passa a ser conduzida
por outros e com viés político dado fora do âmbito das ciências sociais.
Para finalizar, podemos dizer que a Pesquisa Social não pode ser definida de
forma estática ou estanque. Ela só pode ser conceituada historicamente e entendendo-se
todas as contradições e conflitos que permeiam seu caminho. Além disso, ela é mais
abrangente do que o âmbito específico de uma disciplina. Pois a realidade se apresenta
como uma totalidade que envolve as mais diferentes áreas de conhecimento e também
ultrapassa os limites da ciência.
E assim, a pesquisa e os pesquisadores vivem sob o signo das contingências
históricas de sua atividade. De um lado estão as dificuldades de financiamento que
cerceiam ou restringem as possibilidades tanto da investigação como do
encaminhamento de conclusões. Do outro, há as grandes questões éticas e cientificas do
pesquisador sobre a realidade e sobre o produto artesanal que realiza: como vai ser
empregado e interpretado?
É na corda bamba tanto da ausência de consenso sobre o conceito que
trabalhamos e sua cientificidade, quanto dos objetivos sociais de
28
nossa produção, que podemos refletir sobre Pesquisa e sobre Metodologia de Pesquisa
social como o faremos neste trabalho.

QUANTITATIVO VERSUS QUALITATIVO, SUBJETIVO VERSUS OBJETIVO


Frequentemente, de acordo com nosso ponto de vista, a discussão relativa aos
métodos quantitativos e qualitativos na abordagem do social tem se desenvolvido de
forma inadequada. A dicotomia que se estabelece na prática, de um lado, deixa à
margem relevâncias e dados que não podem ser contidos em números, e de outro lado,
às vezes contempla apenas os significados subjetivos, omitindo a realidade estruturada.
Diversas vezes voltaremos a esse tema no presente trabalho, repetindo autores
que trabalham exaustivamente com a questão. Gurvitch, por exemplo, denomina a
região mais visível dos fenômenos sociais de “morfológica, ecológica, área concreta”
(1955, 140ss). E comenta que esse nível admite uma expressão adequada através de
equações, médias, gráficos e estatísticas. O mesmo autor, porém, chama atenção para o
fato de que, a partir daí torna-se difícil trabalhar com número, uma vez que caminhamos
para o universo de significações, motivos, aspirações, atitudes, crenças e valores. Esse
conjunto de dados considerados “qualitativos” necessita de um referencial de coleta e de
interpretação de outra natureza. No entanto, o próprio Gurvitch nos adverte que essas
camadas são interdependentes, interagem e não podem ser pensadas de forma
dicotômica.
Ao se desenvolver uma proposta de investigação ou até mesmo no desenrolar
das etapas de uma pesquisa, vamos reconhecendo a conveniência e a utilidade dos
métodos disponíveis, face ao tipo de informações necessárias para se cumprirem os
objetivos do trabalho. Certamente, qualquer pesquisa social que pretenda um
aprofundamento maior da realidade não pode ficar restrita ao referencial apenas
quantitativo.
Segundo Parga Nina, coordenador do último ENDEF (Estudo Nacional de
Despesas Familiares – 1974), é plenamente reconhecido em sociologia que a
operacionalização das variáveis sociais, para construção de indicadores que permitam a
análise quantitativa, tem levado até bons cientistas sociais a elaborarem sobre algo
muito frágil,
29
ao “medirem” variáveis cuja operacionalização em indicadores numéricos está além das
possibilidades das ciências sociais (1983, 63).
Este autor, enquanto parte da presidência do IBGE e responsável pelo
Departamento de Indicadores sociais, propôs a constituição de um grupo de estudo
“qualitativo” que tentasse aprofundar aspectos da realidade brasileira que os indicadores
numéricos apontassem como cruciais. Seu argumento é de que a aglomeração dos dados
apenas oculta e falseia a existência de fenômenos de extrema relevância para a
compreensão da situação do país. Em conseqüência, isso tem influência nas proposições
de políticas sociais.1
Nos comentários sobre o trabalho, Parga Nina reconhece que pesquisas
qualitativas podem ser de qualidade muito superior às que fazer análises quantitativas e
chama atenção para o fato de que não existe um continuum entre qualitativo-
quantitativo em que a superioridade estaria no segundo termo. Cita Cicourel, de quem
retira argumentos para seu trabalho no ENDEF:
Estes comentários (feitos por Forgensen e Coombs) indicam o problema do
sociólogo: (1) se seus conceitos teóricos estão suficientemente precisos para
orientá-los quanto às formas de sistemas de mensuração que são adequadas à
mensuração de seus dados, então há grande possibilidade de que venha a iludir a
si próprio, impondo métodos que forçam a introdução, na sua teoria e nos seus
dados, de relações incongruentes e interpretações falsas e (2) os próprios
instrumentos de mensuração disponíveis são inapropriados, pela natureza de sua
construção, e levam assim, à mensuração por ‘fiat’ e não à mensuração literal
(Parga Nina, 1976, parte I, 50, apud Cicourel: 1969, 131).
30
A grande questão em relação à quantificação na análise sociológica é a sua
possibilidade de esgotar o fenômeno social. Corre-se o risco de que um estudo de alto
gabarito do ponto de vista matemático ou estatístico, em que toda a atenção se concentre
na manipulação sofisticada dos instrumentos de análise – portanto, competente do ponto
de vista estatístico – despreze aspectos essenciais da realidade. E assim muitas vezes
teremos uma “resposta exata” para “perguntas erradas ou imprecisas”.
Essa discussão do “quantitativo” versus “qualitativo” tem sua origem nas
diferentes formas de perceber a realidade social. Hughes nos avisa que a principal
influência do positivismo nas ciências sociais foi a utilização dos termos de tipo
matemático para a compreensão da realidade e a linguagem de variáveis para especificar
atributos e qualidades do objeto de investigação (1983). Os fundamentos da pesquisa
quantitativa nas ciências sociais são os próprios princípios positivistas clássicos
segundo os quais: (a) o mundo social opera de acordo com leis causais; (b) o alicerce da
ciência é a observação sensorial; (c) a realidade consiste em estruturas e instituições
identificáveis enquanto dados brutos por um lado, crenças e valores por outro. Estas
duas ordens são correlacionadas para fornecer generalizações e regularidades; (d) o que
é real são os dados brutos considerados dados objetivos; valores e crenças são
realidades subjetivas que só podem ser compreendidas através dos dados brutos
(Hughes: 1983, 42-63).
A questão do quantitativo traz a reboque o tema da objetividade. Isso é, os dados
relativos à realidade social seriam objetivos se produzidos por instrumentos
padronizados, visando a eliminar fontes de propensões de todos os tipos e a apresentar
uma linguagem observacional neutra. A linguagem das variáveis forneceria a
possibilidade de expressar generalizações com precisão e objetividade.
A restrição que os contestadores do quantitativismo sociológico lhe colocam não
está relacionada com a técnica. Isto é, não está em jogo a desvalorização da análise
1
Ao mesmo tempo que ocorria o levantamento de dados sobre condições de vida de 52.000 pessoas (1974) o coordenador do
ENDEF promoveu uma espécie de estudo “qualitativo” recolhendo impressões dos pesquisadores de campo sobre a realidade
encontrada. Esse conjunto de informações está compilado em quatro volumes, dois publicados em 1976 e dois outros em 1978
denominados Estudos das Informações não-estruturas do ENDER e sua integração com os dados quantificados. Segundo opinião
de vários estudiosos da realidade do país, a pesquisa não-estruturada transmite impressões tão fortes que constituem um acervo
altamente significativo junto com os dados quantitativos.
multivariada, a análise contextual ou de correlações. São poderosos e reconhecidos
instrumentos, supondo-se a necessidade de dados aglomerados ou indicadores sobre
coletividades. A crítica está no fato de se restringir a realidade social ao que pode ser
observado e quantificado apenas. Adorno chega a
31
dizer que o método positivista empírico ameaça fetichizar seus assuntos e tornar-se a si
mesmo um fetiche, na medida em que reduz a objetividade ao método e não atinge o
conteúdo (Adorno: 1979, 214-215)
Essas críticas vistas a partir de vários autores e teorias podem se resumir assim:
(a) As abordagens quantitativas sacrificam os significados no altar do rigor matemáticos
(Harrison: 1947, 10-21; Dilthey: 1956; Weber: 1949; Schutz: 1963). (b) Existe uma
crença ingênua de que as distorções podem ser evitadas pela codificação; Harrison
comenta que a preferência do sociólogo pelo questionário reflete seu desprezo pela vida
do homem comum; e a crítica aos elementos subjetivos da observação indica a
inabilidade de considerar seu trabalho objetivamente (Harrison: 1947). (c) À evidência
de que os métodos quantitativos simplificam a vida social limitando-se aos fenômenos
que podem ser enumerados (Park & Burgess: 1921, V-VII). (d) E o fato de que quando
fazem inferências para além dos dados, os sociólogos trabalham apriorística e
preconceituosamente, tomando como familiar os fenômenos que acontecem, porque eles
pertencem à mesma sociedade que estão estudando (Harrison: 1947; Schutz: 1963).
Uma das formas de realização do positivismo, o funcionalismo na antropologia
de certa forma ultrapassa os limites da teoria geradora. Dentro de uma lógica própria,
Malinowski adverte-nos em toda a sua obra par a necessidade de compreender: (a) tudo
o que pode ser documentado estatisticamente “mediante evidência concreta”, isto é, o
“arcabouço da sociedade”; (b) mas complementado pela “maneira como determinado
costume é observado, o comportamento dos nativos, as regras exatamente formuladas
pelo etnógrafo, ou as próprias exceções que, quase sempre, ocorrem nos fenômenos
sociológicos”; “o corpo e o sangue da vida real que compõem o esqueleto das
construções abstratas”; “os imponderáveis da vida real”; (c) o ponto de vista, as
opiniões e as expressões dos nativos, isto é, as maneiras típicas do pensar e sentir que
correspondem às instituições e à cultura de uma comunidade (1975, 55-60). Contudo
são ainda regularidades, as leis gerais em seu funcionamento e em sua estrutura, isto é, a
sociedade enquanto precedendo aos indivíduos que o funcionalismo procuro, mesmo
quando atinge a subjetividade.
32
O positivismo sociológico clássico (Durkheim: 1978) atribui à imaturidade das
ciências sociais o fato de ela não ser capaz de prever e de determinar a ação humana. As
outras teorias que incorporam no seu âmbito a intersubjetividade, afirmam que a vida
humana é essencialmente diferente e que essa diferença fundamental em relação às
ciências físicas e biológicas requer um tratamento teórico diverso.
Podemos dizer que hoje, ao mesmo tempo em que acontece a informatização de
todos os setores da organização social, existe uma revalorização do qualitativo nas
ciências sociais. Há um movimento em torno daquele aspecto para o qual Granger
chama atenção: “o vivido”, isto é, “a experiência que é captada não como predicado de
um objeto, mas como fluxo de cuja essência temos consciência em forma de
relembranças atitudes, motivações, valores e significados subjetivos” (Granger: 1967,
107).
Trata-se não só de uma revalorização teórica, mas da própria antropologia
enquanto questão social. Schaff nos adverte que se trata de um “sinal dos tempos”:
O domínio da problemática antropológica na filosofia moderna resulta da
necessidade de uma resposta à pergunta sobre a existência humana, numa época
em que a mesma existência está ameaçada e os sistemas de valores fixados por
tradição estão abalados (Schaff: 1967, 10).
No mesmo sentido, em seu livro O problema do Homem, Buber distingue épocas
de ascensão e queda do pensamento antropológico, conforme o sentimento de solidão
do ser humano. O autor ressalta que essa questão só alcança maturidade em nossa
época, por dois motivos. O primeiro é a degeneração de formas tradicionais da
convivência humana com a família, a comunidade rural, a vida urbana. O segundo, é o
próprio sentimento de perda de domínio pelo homem do mundo por ele criado:
O homem deve-se ultrapassar por suas próprias obras (...) O homem se encontra
então diante de um fato terrível: criou demônios e não sabe dominá-los. (...)
Qual era, no caso, o sentido do
33
poder transformado em impotência? O problema se reduzir a pergunta sobre a
natureza do homem, que ganhou um novo significado, sobretudo prático (1962,
19-63).
Hoje, a questão do homem enquanto ator social ganho corpo e faz emergirem,
com toda a sua força, as ciências sociais que se preocupam com os significados. Trata-
se de uma ênfase própria de nosso tempo em que se fortifica a introspecção do homem,
a observação de si mesmo e se ressaltam questões antes passadas desapercebidas. Isso
não nos leva a menosprezar o método quantiativo, mas a colocá-lo como um dos
elementos da compreensão no todo. Conduz-nos também a enfatizar as correntes de
pensamento que assumem como a essência da sociedade o fato do homem ser o ator de
sua própria existência. Essa atoria e autoria em condições dadas é o material básico
com o qual trabalhamos na pesquisa social, e que pode ser traduzida em números,
gráficos e esquemas, mas não se limita e não se resume aí.
Mannheim, considerado o fundados da sociologia do conhecimento, opõe-se ao
positivismo que tenta tornar mensuráveis e discerníveis sem ambigüidade todos os fatos
sociais. Comenta que há certos termos tão carregados de valores que só um participante
do sistema social estudado pode compreendê-lo. Chama atenção para a participação do
sociólogo como observador da realidade que pesquisa e diz-nos que isso pode significar
o sacrifício do que às vezes se considera como necessária “neutralidade e objetividade
científica”. Mas, acrescenta que o intento de obter objetividade, neste sentido, é um
positivo obstáculo aos conhecimentos sociológicos:
Está claro que uma situação humana só é caracterizável quando se tomam em
consideração as concepções que os participantes têm dela, a maneira como
experimentam suas tensões nesta situação e como reagem a essas tensões assim
concebidas (1968, 70)
Completa afirmando que:
Para se trabalhar em ciências sociais é necessário participar do processo social.
Mas essa participação no inconsciente coletivo
34
não significa, de modo algum, que se falsifiquem os fatos ou que eles sejam
vistos incorretamente. Pelo contrário, a participação no contexto vivo da vida
social é uma pressuposição de compreensão da natureza interna de seu conteúdo.
O desprezo pelos elementos qualitativos e a completa restrição da vontade não
constitui objetividade e sim negação da qualidade essencial do objeto (grifo
nosso) (1968, 73).
As palavras de Mannheim expressam o pensamento de várias correntes teóricas
das ciências sociais, mas ao mesmo tempo uma luta no campo intelectual em relação ao
positivismo clássico ou ao psicologismo. O funcionalismo destaca a importância do
sentido social da conduta humana, em oposição às atribuições individuais dos motivos
das condutas. Isto é, substitui as explicações subjetivistas das condutas pelos
determinantes dos sistemas sociais e busca o sentido da inter-relação entre as atividades.
A sociologia compreensiva de Weber nos diz que o caráter definidor da ação social é o
seu sentido. “Na ação está contida toda a conduta humana, na medida em que o ator lhe
atribui um sentido subjetivo” (1969, 10). A fenomenologia, defende a idéia de que as
realidades sociais são construídas nos significados e através deles, e só podem ser
identificados na medida em que se mergulha na linguagem significativa da interação
social. A linguagem, as práticas e as coisas são inseparáveis na abordagem
fenomenológica. Ela enfatiza os significados gerados na interação social. No seu quadro
de referência, o mundo se apresenta ao indivíduo na forma de um sistema objetivado de
designações compartilhadas de formas expressivas. O marxismo interpreta a realidade
como uma totalidade onde tanto os fatores visíveis como as representações sociais
integram e configuram um modo de vida condicionado pelo modo de produção
específico. Nessa abordagem sublinha-se a base material como determinante da
produção da consciência, mas assume-se a importância das representações sociais como
condicionantes tanto na reprodução da consciência como na construção da realidade
mais ampla.
Ao invés de reconhecer na subjetividade a impossibilidade de construção
científica, essas abordagens acima referidas (cada uma com suas peculiaridade)
consideram-na como parte integrante da singularidade do fenômeno social. Na medida
em que se acreditam
35
que a realidade vai mais além dos fenômenos percebidos pelos nossos sentidos,
trabalham com dados qualitativos que trazem para o interior da análise, o subjetivo e o
objetivo, os atores sociais e o próprio sistema de valores do cientista, os fatos e seus
significados, a ordem e os conflitos. Evidentemente, cada teoria tem seu modo próprio
de lidar com os dados de acordo com a visão de mundo que as sustenta.
A questão da objetividade é então colocada em outro nível. Dada a
especificidade das ciências sociais, a objetividade não é realizável. Mas é possível a
objetivação que inclui o rigor no uso de instrumental teórico e técnico adequado, num
processo interminável e necessário de atingir a realidade. O que se pode ter dos
fenômenos sociais, é menos um retrato e mais uma pintura conforme a imagem usada
por Demo (1985, 73). Isto é, seria impossível se descrever com tal fidedignidade a
realidade que ela se tornasse transparente. Um retrato fixa a imagem e o momento, mas
não é dinâmico.
A metáfora da pintura nos inspira a idéia de uma projeção em que a realidade é
captada com cores e matizes particulares, onde os objetos e as pessoas são
reinterpretados e criados num processo de produção artística. Ninguém diz que uma
pintura é o retrato da realidade. É uma dentre muitas possíveis imagens onde o autor
introduz métodos e técnicas, mas onde predomina sua visão sobre o real e sobre o
impacto que lhe causa. Nessa obra entra tanto o que é visível como as emoções e tudo se
une para projetar a visão da realidade.
Certamente há diferenças em relação à obra de arte e a ciência social. A ciência
tem cânones mais rígidos e seus limites são também maiores em relação à percepção do
real. Mas não se pode desconhecer que qualquer produção científica na área das ciências
sociais é uma criação e carrega a marca de seu autor. Portanto, a objetivação, isto é, o
processo de construção que reconhece a complexidade do objeto das ciências sociais,
seus parâmetros e sua especificidade é o critério interno mais importante de
cientificidade. É preciso aceitar que o sujeito das ciências sociais não é neutro ou então
se elimina o sujeito no processo de conhecimento. Da mesma forma, o “objeto” dentro
dessas ciências é também sujeito e interage permanentemente com o investigador.
A “objetivação” nos leva a repudiar o discurso ingênuo ou malicioso
36
da neutralidade, mas nos diz que é necessário buscar formas de reduzir a incursão
excessiva dos juízos de valor na pesquisa. Os métodos e técnicas de preparação do
objeto de estudo, de coleta e tratamento dos dados ajudam o pesquisador, de um lado a
ter uma visão crítica de seu trabalho e, de outro, de agir com instrumentos que lhe
indicam elaborações mais objetivadas. Conforme adverte Demo, no labor da
investigação, a prática não substitui a teoria e vice-versa (1985, 75).
As críticas em relação à abordagem qualitativa na verdade são constatações das
falhas e das dificuldades na construção do conhecimento. Mas as “ciências sociais não
podem deixar de estar permanente engajadas num discurso com seu próprio objeto de
estudo: um discurso, no qual tanto o investigador quanto o assunto compartilham dos
mesmos recursos” (Giddens: 1978, 234).
Cremos que a polêmica quantitativo versus qualitativo, objetivo versus subjetivo
não pode ser assumida simplistamente como uma opção pessoal do cientista ao abordar
a realidade. A questão, a nosso ver, aponta para o problema fundamental que é o próprio
caráter específico do objeto do conhecimento: o ser humano e a sociedade. Esse objeto
que é sujeito se recusa peremptoriamente a se revelar apenas nos números ou se igualar
com sua própria aparência. Desta forma coloca ao estudioso o dilema de contar-se com
a problematização do produto humano objetivado ou de ir em busca, também, dos
significados da ação humana que constrói a história. É um desafio na busca de
caminhos.
37
SEGUNDA PARTE
LINHAS DE PENSAMENTO

“Envolver uma teoria com o manto da verdade é atribui-lhe uma característica


não realizável historicamente. Nada mais prejudicial ao processo científico que
o apego a enunciados evidentes, não discutíveis. Somente na teoria se pode
dizer que a ciência é a interpretação verdadeira da realidade, porque na prática,
toda interpelação realiza apenas uma versão historicamente possível” (Demo:
1981, 25).
Antes de nos introduzir ao campo específico da Metodologia da Pesquisa Social,
vamos fazer algumas considerações preliminares que julgamos fundamentais para a
prática da investigação.
A primeira delas é de que nenhuma pesquisa é neutra seja ela qualitativa ou
quantitativa. Pelo contrário, qualquer estudo da realidade, por mais objetivo que possa
parecer, por mais “ingênuo” ou “simples” nas pretensões, tem a norteá-lo um arcabouço
teórico que informa a escolha do objeto, todos os passos e resultados teóricos e práticos.
Em conseqüência, podemos classificar as elaborações sobre o social, grosso
modo, dentro de alguma corrente de pensamento filosófica ou sociológica, mesmo que
essa filiação, para seus autores seja algo inconsciente.
Por outro lado, podemos dizer que nenhuma das linhas de pensamento sobre o
social tem o monopólio de compreensão total e completa sobre a realidade. A ela nos
acedemos sempre por aproximação e usando uma frase de Lênin, citada por Lukács,
afirmamos que “a marcha do real é filosoficamente mais verdadeira e mais profunda do
que nossos pensamentos mais profundos” (1976, 235).
Tendo em vista que nosso campo específico é o das Ciências Sociais em Saúde,
desenvolveremos algumas idéias dominantes nessa área, que vários autores identificam
com o positivismo sociológico, a fenomenologia sociológica e com o materialismo
histórico. Tomamos como referência as análises sobre o tema, realizadas por Everardo
Nunes (1983, 1985), Juan César García (1983) e Donnangelo (1983).
Em Ciências Sociais e Saúde na América Latina, Nunes toma 1663 referências
de produção teórica na área entre os anos de 1950 e 1979, classifica o material e o
analisa dentro de um marco referencial
38
histórico-estrutural, em termos de: (a) Medicina Tradicional; (b) Serviços de Saúde; (c)
Processo Saúde/Doença; (d) Formação de Recursos Humanos.
No estudo do material referido, Nunes aprofunda várias questões que não
constituem objeto de nossa preocupação neste trabalho, mas enfatiza também um
enfoque que nos toca particularmente: as correntes de pensamento da produção
intelectual no período recortado, articulando-se com as preocupações mais amplas da
sociedade nos vários momentos históricos e com a base material de sua emergência.
Sem querer marcar etapas estanques, Nunes mostra que na década de 50 as
pesquisas estiveram marcadas pelas teorias funcionalistas e culturais, servindo à
implementação de desenvolvimento e organização da comunidade.
Na década de 60 e 70, as abordagens fenomenológicas estarão efetivamente
presentes no campo do pensamento sobre saúde. Elas questionarão a onipotência e
onipresença do Estado sobre os indivíduos e sobre os grupos de referência imediata dos
indivíduos e a arbitrariedade impositiva das classes dominantes através do sistema de
saúde. É uma reação de negatividade dos princípios positivistas e funcionalistas, em
favor de uma afirmação de direitos individuais, do princípio de autonomia das pessoas e
grupos mediadores frente ao Estado e às grandes instituições médicas. É uma reflexão
sobre os significados subjetivos e uma condenação teórica do anonimato, das leis gerais
e das invariâncias próprias do positivismo sociológico.
Segundo Nunes, a partir dos anos 70, há um grande incremento da produção
intelectual na área da saúde, dentro do enfoque marxista. Chama atenção para o fato de
ela ter no seu bojo uma crítica histórico-estrutural da fragilidade e fragmentação das
análises e propostas práticas da fenomenologia e positivismo.
Essas três correntes de pensamentos continuam presentes, atuantes e em luta
entre si, nas análises referentes à relação Saúde/Sociedade. Fazem parte da própria luta
ideológica da sociedade atual, onde as visões sociais de mundo estão comprometidas
com posturas concretas na prática teórica e política.
García (1983) nos adverte que nenhuma delas, hoje, desconhece a vinculação da
medicina com a estrutura social. A questão básica de cada uma reside no como se dá
essa vinculação e em que grau de
39
autonomia ou dependência situa o fenômeno saúde-doença enquanto manifestação
biológico-social. O debate interno das diferentes correntes sociológicas reflete a
dificuldade do pensamento de apreender o objeto em toda a sua complexidade e
articulações.
Neste trabalho tentaremos refletir os dilemas, as contradições e as perspectivas
dessas linhas de pensamento, enquanto possibilidades de construção teórica do
conhecimento sociológico no campo da saúde e sua articulação com as bases sociais em
que são engrendradas.

O POSITIVISMO SOCIOLÓGICO
O positivismo constitui a corrente filosófica que ainda atualmente mantém o
domínio intelectual das Ciências Sociais e também da relação entre Ciências Sociais,
Medicina e Saúde. As teses básicas do positivismo podem ser assim resumidas: (1) A
realidade se constitui essencialmente naquilo que nossos sentidos podem perceber; (2)
As Ciências Sociais e as Ciências Naturais compartilham de um mesmo fundamento
lógico e metodológico, elas se distinguem apenas no objeto de estudo; (3) Existe uma
distinção fundamental entre fato e valor: a ciências se ocupa do fato e deve buscar se
livrar do valor.
A hipótese central do positivismo sociológico é de que a sociedade humana é
regulada por leis naturais que atingem o funcionamento da vida social, econômica,
política e cultural entre seus membros. Portanto, as ciências sociais, para analisar
determinado grupo ou comunidade, têm que descobrir as leis invariáveis e
independentes de seu funcionamento.
Daí decorre que os métodos e técnicas para se conhecer uma sociedade ou
determinado segmento dela são da mesma natureza que os empregados nas ciências
naturais. E ainda mais, da mesma forma que as ciências naturais propugnam um
conhecimento objetivo, neutro, livre de juízo de valor, de implicações político-sociais (o
que se pode colocar também em questão no debate aberto a respeito dessas ciências)
também as ciências sociais devem buscar, para sua cientificidade, este “conhecimento
objetivo”. Noutras palavras, o cientista social deve se comportar frente a seu objeto de
estudo –
40
a sociedade, qualquer segmento ou setor dela – livre de juízo de valor, tentado
neutralizar, para conseguir objetividade, nas sua própria visão de mundo.
Na prática, a postura positivista advoga uma ciência social desvinculada da
posição de classe, dos valores morais e das posições políticas dos cientistas, e acredita
nisso. Denomina “pré-juízos”, “pré-conceitos”, “pré-noções” ao conjunto de valores e
opções político-ideológicas do pesquisador, limites a serem transpostos para que ele
faça ciência (Durkheim: 1978, 46).
Lowy nos aponta alguns dados históricos esclarecedores sobre o positivismo
(1968, 33-50). Diz-nos que a ciência positiva tem suas raízes na filosofia das luzes do
século XVIII.
Para Lowy o pai do positivismo é Condorcet, um enciclopedista (Lowy: 1986,
33-50). Condorcet formulou de uma forma clara e precisa a idéia de que a ciência da
sociedade deveria ser uma Matemática Social, formulada como estudo numérico e
rigoroso dentro das teorias probabilísticas. Considerava que, da mesma forma que nas
ciências físicas e matemáticas, os interesses e as paixões não pertubava, assim deveria
acontecer com as ciências sociais (Condorcet, in Mora: 1984, 5801, 4ª ed.).
O autor atribuía as dificuldades no progresso do conhecimento da realidade
social, ao fato de que o social era, no seu tempo, objetos de interesses religiosos e
políticos. Daí que a meta das ciências sociais seria conseguir uma elaboração “livre de
preconceitos”.
Ainda que possa parecer estranho, comenta Lowy, o pensamento de Condorcet,
para sua época, era crítico e, até certo ponto, revolucionário. Dirigia-se contra as classes
poderosas dominantes da época: a Igreja, o poder feudal e o Estado oligárquico, que se
atribuíam o controle de todo o conhecimento científico. Condorcet indicava a
necessidade de romper com esse monopólio do saber, livrando as ciências da sociedade,
dos interesses e paixões das classes feudais, das doutrinas teológicas, dos argumentos de
autoridade da Igreja e de todos os “dogmas fossilizados”.
Lowy inclui entre os discípulos de Condorcet e defensor de suas idéias, o
socialista utópico Saint-Simon (Lowy: 1986, 50-60). Este autor chamava a ciência da
sociedade de “fisiologia social”. Considerava que há dois tipos de época histórica: as
épocas críticas, necessárias
41
para eliminar as fossilizações sociais, e as épocas orgânicas que são momentos
históricos de estabilidade e de funcionamento normal. Em seu tempo, segundo ele,
havia algumas classes parasitas do organismo social (o clero e a aristocracia) que
deviam dar lugar a uma nova forma de organização para que o corpo social funcionasse
regularmente. Saint-Simon tinha um projeto de nova sociedade, baseado não na
igualdade, mas numa pirâmide de classes que elevaria a capacidade produtiva dos
homens ao grau máximo de desenvolvimento. Segundo ele, a moral e as idéias têm que
ser distintas para as distintas classes fundamentais, a fim de que a sociedade seja livre e
dedicada à produção. A igreja deveria ser substituída pela fábrica (Saint Simon, in
Mora: 1984, 2915s).
Da mesma forma que a “matemática social” de Condorcet, a “fisiologia social”
de Saint-Simon trazia no seu interior uma crítica ao sistema social de seu tempo, às
classes dominantes e apelava para mudanças condizentes com a nova sociedade
industrial que se instalava.
Lowy comenta que o positivismo, até o início do século XIX aparece como uma
visão social-utópica-crítica do mundo. O autor usa o termo utópica no mesmo sentido
de Karl Mannhein em Ideologia e Utopia (1968, 31-134). Mannheim distingue os
conceitos de ideologia e utopia. A primeira seria constituída por concepções, idéias,
representações e teorias que orientam para a estabilização, legitimação e reprodução da
ordem vigente. Ideologias seriam o conjunto das doutrinas e teorias de caráter
conservador, isto é, servem para a manutenção do sistema social de forma geral. Pelo
contrário, as Utopias seriam as representações, idéias e teorias que têm em vista uma
realidade ainda inexistente. Trazem no seu bojo uma dimensão crítica, de negação,
ruptura e possibilidade de superação do status quo. É neste sentido que podemos falar
dos elementos “utópicos” no positivismo de Condorcet e Saint-Simon.
O mesmo não se poderia dizer das teorias de Augusto Comte, embora este autor
se considerasse herdeiro dos dois primeiros. Para Comte o pensamento teria que ser
totalmente positivo. Isto é, eliminado todo o conteúdo crítico de sua análise, os
cientistas descobririam as leis da sociologia. E como conseqüência, a partir de seu
método positivo, o cientista deveria se consagrar teórica e praticamente
42
à defesa da ordem social. O positivismo de comte em seus sucessores tem uma
conotação política conservadora, contrária ao que consideravam “negativismo” perigoso
das doutrinas críticas, destrutivas, subversivas e revolucionárias da Revolução Francesa
e do Socialismo (Comte: 1978, 44-115; Durkheim: 1978, 132-161)
Comte formulou uma teoria social, a que, num primeiro momento, denominou
Física Social. Afirma ele: “A Física Social é uma ciência que tem por objetivo o estudo
dos fenômenos sociais, considerados no mesmo espírito que os fenômenos
astronômicos, físicos, químicos e fisiológicos” (1978, 13). Explica que, da mesma
forma que existe na natureza, há uma ordem interna que rege a sociedade, que
encaminha para a harmonia, o desenvolvimento e a prosperidade. Ao cientista social
caberia descobrir essa ordem e explicitá-la aos leitores para que, a partir de sua
compreensão, a estabilidade social fosse mantida.
Comte considera importante que os sociólogos expliquem aos proletários a lei
que rege a distribuição de riquezas, concentração de poder econômico e seu lugar na
sociedade. Esses elementos seriam resultantes da própria natureza da organização
social, que tem suas leis invariantes. Segundo ele, graças ao positivismo, os
trabalhadores reconheceriam as vantagens da submissão e de sua “irresponsabilidade”
no governo da sociedade. Desta forma, o positivismo como “ciência livre de juízo de
valor e neutra” contraditoriamente se proporia a não amaldiçoar os fatos políticos mas
aceitá-los e legitimá-los (Comte: 1978, 82-87). Vejamos as próprias palavras do autor:
O positivismo tedne poderosamente, pela sua própria natureza, a consolidar a
ordem pública, pelo desenvolvimento de uma sábia resignação. Porque não pode
existir uma verdadeira resignação, isto é, uma disposição permanente a suportar
com constância e sem nenhuma esperança de mudança, os males inevitáveis que
regem todos os fenômenos naturais, senão através do profundo sentimento
dessas leis inevitáveis. A filosofia positiva que cria essa disposição se aplica a
todos os campos, inclusive aos males políticos (1978, 70).
43
Assim, segundo Comte, os distintivos do espírito positivista seriam o senso de
realidade, a utilidade, a certeza, a aptidão orgânica e o bom senso prático (1978, 68s).
Não se pode admirar, a partir das idéias referidas, que o positivismo combinasse e
fundamentasse todo o conservadorismo político e legitimador de situações vigentes.
Vale lembrar que o lema de nossa bandeira nacional republicada, o “Ordem e
Progresso” tem no papa do positivismo sua inspiração, e em sua filosofia social, a
República tem a base de concepção da prática política.
No campo da sociologia propriamente dita, foi Émile Durkheim quem primeiro
fundamentou as possibilidades teórico-metodológicas do positivismo para compreensão
da sociedade. Reconhecendo-se como discípulo de Comte, Durkheim se aplicou a
pensar a especificidade do objeto da sociologia, relacioná-la com as outras ciências e
lançar os fundamentos de um método para pesquisa social. Para ele, o escopo da
sociologia é estudar fatos que obedeçam a leis invariáveis, de forma objetiva e neutra.
Os “pré-juízos” e as “pré-noções” provenientes da ideologia e da visão de mundo do
sociólogo têm que ser combatidos e eliminados do trabalho através de regras do método
científico: “a sociologia não é nem individualista e nem socialista”, dizia ele (1978, 27).
Portanto, se um cientista social tem suas preferências políticas, se simpatiza com
os operários ou com os patrões, se é liberal ou se é socialista, tem por obrigação, como
cientista, calar as paixões e só nesse silêncio iniciar seu estudo objetivo e neutro (1978,
160).
Durkheim insiste, com todo rigor, que a sociedade é um fenômeno moral, na
medida em que os modos coletivos de pensar, perceber, sentir e agir incluem elementos
de coerção e obrigação, constituindo assim uma consciência coletiva que se expressa na
religião, na divisão do trabalho e nas instituições.
Sua preocupação foi, considerada a sociedade como “coisa”, criar um método
que pudesse descrever os fatos sociais, classificá-los com precisão e de forma
independente das idéias do cientista sobre a realidade social.
44
Daí que, para ele, a tarefa do cientista é: (a) descrever as características dos fatos
sociais; (b) demonstrar como ele vêm a existir; (c) relacioná-los entre si; (d) encontrar
sua organicidade; (e) tentar separar as “representações” dos fatos dadas pelas idéias que
fazemos deles, da “coisa-real” (1978, 70-160).
Durkheim distingue as categorias do “senso comum” como sendo os conceitos
usados pelos membros da sociedade para explicar e descrever o mundo em que vivem; e
os “conceitos científicos” que descrevem, classificam, explicam, organizam e
correlacionam os “fatos sociais” de forma “objetiva”. Insiste que as causas dos fatos
sociais devem ser buscados em outros fatos sociais e não na teologia ou nos indivíduos
(1978, 73-161).
Uma das principais influências do positivismo nas ciências sociais foi marcada
pelo lugar de destaque concedido à pesquisa empírica na produção do conhecimento.
Metodologicamente isso significou descobrir as características das regularidades e
invariâncias dos fatos sociais e descrevê-las. E por “fato social”, Durkheim entende
“toda maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma
coerção exterior” ou ainda “o que é geral no conjunto de uma dada sociedade tendo, ao
mesmo tempo, uma existência própria independente das manifestações individuais
(1978, 192s). Para descobrir as regularidades, Durkheim e os positivistas em geral
invocam a imagem do organismo humano, enfatizando os termos “estrutura” e
“função”, “morfologia” e “fisiologia” que diferenciam maneiras de fazer e de ser
cristalizadas, onde apenas a diferença de grau distingue essa ordem de fatos observáveis
interligados (1978, 90-93).
O positivismo sociológico domina ainda hoje as Ciências Sociais. Porém é alvo
de muitas críticas. O primeiro problema que surge a partir da concepção positivista é a
constatação de que os seres humanos não são simples formas, tamanho e movimentos:
possuem uma vida interior que escapa à observação primária. Daí a dificuldades na
prática de pesquisa da “neutralidade” e da “objetividade”. Seria necessário desconhecer,
ignorar, considerar irrelevantes nos estados mentais tanto do observador como dos
atores sociais. A resposta de Durkheim é de que esses fenômenos poderiam ser
45
observados através de manifestações comportamentais exteriores, como índices dos
primeiros.
A história do positivismo tem revelado que a concepção que se julga
independente dos juízos de valor se encaminhou na prática para a utilização dos termos
de tipo matemático e um deles é a linguagem das variáveis. A conseqüência imediata foi
desenvolvimento extremamente rápido de métodos de pesquisa de base estatística, tais
como amostragem, escala, métodos de análise de dados (como a regressão, a correlação
e técnicas multivariadas).
Desenvolveu-se uma tendência a usar instrumentos de análise como se eles
falassem por si mesmos, na ilusão de nada há além deles, segundo os ensinamentos de
Durkheim no Prefácio à primeira edição das Regras do Método Sociológico:
Não podemos cair na tentação de ultrapassar os fatos, quer para explicá-los quer
para explicar o seu curso (...) Se eles são inteiramente inteligíveis, então bastam
tanto à ciência, porque, neste caso, não há motivo para procurar fora deles
próprios a sua razão de ser; e à prática, porque o seu valor útil é uma das razões
(1978, 74).
Dessa forma os dados são considerados objetivos se são produzidos por
instrumentos padronizados, visando a eliminar fontes de propensão de todos os tipos e
apresentar uma linguagem observacional neutra. A linguagem das variações
representaria a possibilidade de expressar generalizações com objetividade e precisão.
As questões a serem levantadas ultrapassam os limites do debate sobre técnicas
de pesquisa. Certamente a análise multivariada, a análise contextual, a correlação são
instrumentos poderosos para a compreensão de dados aglomerados, supondo-se a
realidade de grandes coletividades. São importantes para a construção de indicadores,
para as chamadas “pesquisas de inteligência” como censos e outras modalidades de
construções quantitativas. O problema é o da autorização, em primeiro lugar e em
termos quase absolutos, desta forma de interpretação do social, em que a realidade se
restringiria ao observável e ao quantificável.
46
O funcionalismo
Uma das variantes do positivismo sociológico é o FUNCIONALISMO, cujos
representantes são, na antropologia inglesa, Malinowski e Radcliffe-Brown e, na
sociologia americana, Merton e Parsons. Certamente que o positivismo não se constitui
simplesmente como uma ciência normativa com um conjunto de regras uniformes. Cada
autor tem peculiaridades em sua forma teórica de concepção e análise da realidade. Mas
há um substrato básico, uma postura frente ao objeto de estudo que pode nos levar a
colocar lado a lado Merton, Parsons, Radcliffe-Brown e Malinowski. O funcionalismo
tem sido a corrente de pensamento (dentro do positivismo) mais expressa na área da
saúde. Os funcionalistas se diferenciam de Comte e Durkheim na medida em que negam
as leis gerais que regem o funcionamento da sociedade como um todo. Também não
reduzem a ciência do social à descrição de acontecimentos ou fatos observáveis.
Desenvolvem um tipo de teoria especialmente aplicável à compreensão da estrutura
social e da diversidade cultural que pode ser resumida nos princípios que se seguem 2:
(a) As sociedades são totalidades que se constituem como organismos vivos. São
compostas por elementos que interagem, inter-relacionam-se e são interdependentes.
São sistemas onde cada parte se integra no todo como um subsistema, produzindo

2
Para melhor compreensão do Funcionalismo recomendamos a leitura de Malinowski, Uma teoria científica da cultura, RJ, Zahar
Ed. 1975; Os argonautas do pacífico, RJ, Vozes, 1973; Robert Merton, Sociologia: Teoria e estrutura; SC Ed. Mestre Jou, 1970;
Talccott Parsons, The social system, Glencoe, Illinois, The Free Press, 1951.
equilíbrio, estabilidade, e sendo passível de ajustes e reajustes. (b) Por isso mesmo casa
sociedade tem seus mecanismos de controle para regular as influências eventuais de
elementos externos ou internos que ameacem seu equilíbrio. “Desvios” e “disfunções”
fazem parte da concepção do sistema que através dos mecanismos próprios de controle
tendem a ser absorvidos, produzindo a integração. Esta é a tendência viva do sistema.
(c) A integração se consegue pelo consenso através de crenças, valores e normas
compartilhados socialmente pelos subsistemas que interagem constantemente e se
reforçam mutuamente. (d) A conceituação de progresso, de desenvolvimento
47
e de mudanças é adaptativa. O sistema social tem em si a tendência à conservação e à
reprodução, por isso as inovações, invenções e tensões se direcionam para a
revitalização do sistema e são absorvidas no seu interior. Como num organismo vivo
cuja estrutura permanece e ser revigora no movimento funcional, as mudanças sociais
não atingem as estruturas, não são revolucionárias. Passam-se ao nível de superestrutura
que tem a função de adaptação de manutenção do “status quo” (Hughes: 1983, 42-63;
Timasheff: 1965, 287-298).
Os conceitos centrais do funcionalismo (sistema, subsistema, estrutura, função,
adaptação, integração, desvio, consenso etc.) são coerentes com o positivismo
sociológico, para quem as leis que regem os fenômenos sociais são intemporais,
invariáveis e tendentes à estabilidade e à coesão. A implicação metodológica de ambos
(positivismo sociológico e o funcionalismo como uma de suas variantes) de orientação
empiricista, sejam repetidas dentro de condições empíricas de produção dos fenômenos.
Sua empresa principal é reproduzir as condições globais da existência social de qualquer
grupo, descrevendo-as em sua complexidade, diversidade e movimento integrativo, de
tal forma que possam ser comparadas.
Dentre os funcionalistas, Parsons tem para nós uma relevância fundamental
porque este cientista americano aplica a teoria funcionalista à explicação da medicina e
das relações médico/paciente em seu país. Em sua obra The Social System (1951), o
tema central é o funcionamento das estruturas das instituições, consideradas, estas,
como o nódulo da Sociologia. As instituições constituem, para ele, o mecanismo
integrativo fundamental dos sistemas sociais, definidos ora como uma pluralidade de
agentes individuais interagindo, ora como uma rede de relações entre agentes.
Nesta obra o conceito de saúde/doença explicitado pelo autor é coerente com a
sua visão funcionalista:
É um estado de perturbação no funcionamento normal do indivíduo humano
total, compreendendo-se o estado do organismo como o sistema biológico e o
estado de seus ajustamentos pessoal e social (1951, 48).
48
Uma análise lingüística destacaria, na definição, o jargão funcionalista: estado,
funcionamento, normal, organismo, sistema, ajustamento. No conceito, o biológico se
vincula ao social através da noção de equilíbrio ou desequilíbrio individual frente às
pressões sociais. A doença é, para Parsons, “uma conduta desviada” e o doente é um
personagem social que se reconhece na forma como a sociedade institucionaliza o
desvio e assim o assimila e o integra.
Daí que os papéis e funções de médico e paciente são complementares. A prática
médica é um mecanismo do sistema social para reconduzir o doente à normalidade, mas
que também reconhece seu desvio e o institucionaliza. Ela tem por finalidade o controle
dos desvios individuais. Juan César Garcia, em seu estudo sobre as correntes de
pensamento na medicina, faz uma crítica contundente ao funcionalismo de Parsons
quando analisa o sistema médico. Ao definir a prática da medicina, diz ele, pela
finalidade de curar e prevenir doenças, Parsons se limita a descrever como ela funciona
e aparece em forma de fenômeno observável, desconhecendo as condições de sua
produção e reprodução. Reduz a concepção de doença à noção de “desvio” colocando-a
no âmbito exclusivo do paciente e do médico. Enfatiza seus respectivos papéis como
atores sociais no conjunto da sociedade considerada harmônica e equilibrada. Como
conclusão, coloca na maior ou menos suscetibilidade individual às tensões sociais, a
responsabilidade da doença. Desconhece os conflitos existentes na sociedade, os
interesses que perpassam a medicina como uma produção social e as determinações
sociais da saúde/doença (García: 1983, 104-108).
Concluímos dizendo que o positivismo e sua forma particular denominada
funcionalismo sociológico têm sido correntes de pensamento com maiôs influência e
vigor na produção intelectual referente à questão das Ciências Sociais e a Saúde. Tal
fato não nos pode estranhar, na medida em que são estas teorias que melhor se prestam
para conservar e justificar a prática médica hegemônica e os enfoques práticos no
tratamento dos doentes e das doenças. A referência mais atual que possuímos para esta
constatação é a análise intensa e minuciosa realizada por Everardo Nunes (1985), onde a
autor tece inúmeras considerações e constata os caminhos seguidos pela produção
intelectual em Ciências Sociais e Saúde na América Latina.
49
Embora pretenda examinar apenas esse lado do continente, Everardo e os autores da
coletânea fazer referências permanentes aos estudos realizado em todo o mundo
ocidental, trabalhando uma abordagem histórico-estrutural (1985, 29-83; 87-461).
Nunes coloca o positivismo como a corrente de pensamento dominante nos anos
50 e nas análises da saúde particularmente através das correntes funcionalistas e
culturalistas. Mas hoje elas ainda continuam vivas e presentes tanto na produção
científica como na prática. Podem ser identificadas por alguns sintomas que indicamos a
seguir, a partir da leitura de vários autores da coletânea Ciências Sociais e Saúde na
América Latina (1983): (a) Pouca valorização conceitual do processo saúde/doença e
seus determinantes; (b) Enfoque pragmático e funcionalista da medicina como se ela
fosse uma ciência universal, atemporal e isenta de valores; (c) Valorização das ciências
sociais como acessório ou complemento na prática e na teoria médicas, considerando-as
como ciências normativas e com finalidade adaptativa e funcional; (d) Na
epidemiologia, valorização excessiva da concreção estatística tomada como
objetividade e confusão do fenômeno com a própria realidade.
Na prática médica e suas relações com a sociedade o positivismo se manifesta:
(1) Na concepção da saúde/doença como fenômeno apenas biológico individual em que
o social entra, compreendido como modo de vida e apenas como variável, ou é
desconhecido e omitido; (2) Na valorização excessiva da tecnologia e da capacidade
absoluta da medicina de erradicar as doenças; (3) Na dominação corporativa dos
médicos em relação aos outros campos do conhecimento, adotando-os de forma
pragmática (a sociologia e a antropologia consideradas importantes apenas para fazer
questionários, produzir informes culturais, ensinar alguns conceitos básicos); no
tratamento subalterno dado aos outros profissionais da área (enfermeiros, assistentes
sociais, nutricionistas, atendentes etc...); em relação ao senso comum da população,
numa tentativa nunca totalmente vitoriosa, de desqualificá-lo e absorvê-lo.
50
A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA
Uma segunda visão do mundo que tem tido profunda influência na construção
do conhecimento da realidade, inclusive na interpretação das relações entre medicina e
sociedade, é a chamada Sociologia Compreensiva. Ela privilegia a compreensão e a
inteligibilidade como propriedades específicas dos fenômenos sociais, mostrando que o
SIGNIFICADO e a INTENCIONALIDADE os separam dos fenômenos naturais.
Na Introdução às Ciências dos Espíritos, Dilthey polemiza com o positivismo,
afirmando que os fatos humanos não são suscetíveis de quantificação e de objetivação
porque cada um deles tem sentido próprio e identidade particular, exigindo uma
compreensão específica e concreta. Daí, deduz ele, são falsas as teorias sociológicas e a
filosofia da história que vêem na descrição do singular uma simples matéria-prima para
posteriores abstrações: “não há última palavra da história que contenha o verdadeiro
sentido” (Dilthey: 1956, 25).
Na sociologia de Max Weber quem estabeleceu as bases teórico-metodológicas
da Ciência Compreensiva. Contra os princípios do positivismo, ele diz que: “A
sociologia exige um ponto de vista específico já que os fatos de que se ocupa implicam
um gênero de causação desconhecido das ciências da natureza” (1964, 33).
Sua definição de Sociologia passou a ser um marco para essa corrente, dentro
das Ciências Sociais:
É uma ciência que se preocupa com a compreensão interpretativa da ação social,
para chegar à explicação causal de seu curso e de seus efeitos. Em ‘ação’ está
incluído todo o comportamento humano quando e até onde a ação individual lhe
atribui um significado subjetivo. A ‘ação’ neste sentido pode ser tanto aberta
quanto subjetiva. (...) A ‘ação’ é social quando, em virtude do significado
subjetivo atribuído a ela pelos indivíduos, leva em conta o comportamento dos
outros e é orientada por ele na sua realização (Weber, 1964, 33).
51
Weber retoma aqui o tema central das Ciências Sociais, isto é, a relação entre
indivíduo e sociedade, afirmando que os sociólogos necessariamente têm que tratar dos
significados subjetivos do ato social. Weber não faz psicologia, ele quer dizer que a
sociedade é fruto de uma inter-relação de atores sociais, onde as ações de uns soa
reciprocamente orientadas em direção às ações dos outros.
Segundo Weber, a sociologia requer uma abordagem diferente das ciências da
natureza, e isso se consegue através de: (a) pesquisa empírica a fim de fornecer dados
que dêem conta das formulações teóricas: (b) tais dados derivam de algum modo da
vida dos atores sociais; (c) os atores sociais dão significados a seus ambiente sociais de
forma extremamente variada; (d) eles podem descrever, explicar e justificar suas ações
que são sempre motivadas por causas tradicionais, sentimentos afetivos ou são
racionais.
A sociologia compreensiva, em Weber, nos diz que as realidade sociais são
construídas nos significados e através deles e só podem ser identificadas na linguagem
significativa da interação social. Por isso, a linguagem, as práticas, as coisas e os
acontecimentos são inseparáveis.
Weber propõe, para conseguir compreender a realidade social, dois princípios
metodológicos: (a) a neutralidade de valor e (b) a construção do tipo-ideal.
Partindo do princípio de que a história humana se constitui de “constelações
singulares”, do “caso concreto”, o autor propõe a teoria dos tipos-ideais como
instrumento racional e teórico de aproximação da realidade. Os “tipos-ideais” não
existem empiricamente, são artifícios criados pelo cientista para ordenar os fenômenos,
para indicar suas articulações e seu sentido. Sintetizam e evidenciam os traços típicos,
originais de determinado fenômeno tornando-o inteligível. Weber constrói vários tipos-
ideais sendo os mais conhecidos a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, a
Burocracia e as Formas de Dominação (1974, 15-79). Sua intenção ao propor esse
instrumento metodológico de compreensão da realidade é tornar as Ciências Sociais
rigorosas e fidedignas, mas de uma perspectiva diferente da abordagem positivista. Ele
próprio comenta:
Não existe uma análise da cultura absolutamente objetiva dos
52
fenômenos sociais, independente dos pontos de vista especiais e parciais,
segundo os quais, de forma explícita ou tática, consciente ou subconsciente,
aqueles são selecionados e organizados para propósitos expositivos. Todo
conhecimento da realidade cultural, como pode ser visto, é sempre
conhecimento a partir de pontos de vista específicos (Weber: 1959, 72).
Na luta teórica contra o positivismo, Weber reconhece que os valores têm um
papel destacado na seleção do objeto de investigação, na escolha da problemática e nas
questões que o pesquisador se coloca. Porém, através da sua tentativa de “objetividade”
que se concretiza na construção dos tipos-ideais e na crença de isenção de valores
durante o processo de pesquisa, Weber reencontra-se com Durkheim. Cai nas malhas do
idealismo que prevê a verificação e a validade a partir dos métodos e técnicas e os crê
isentos de ingerência dos valores tanto históricos, provenientes de seu processo de
produção, quanto pessoais, referentes à ideologia do investigador.
Weber é considerado um clássico da sociologia e sua influência se estende por
várias abordagens teóricas. Com relação ao campo qualitativo, em duas correntes de
pensamento encontramos o peso de sua contribuição, embora em cada uma delas
conserve seu esquema conceitual peculiar: a fenomenologia sociológica e a
etnometodologia. O reconhecimento da presença de Weber nessas abordagens não é
explícita, mas ao analisá-las percebemos a presença fundamental do conceito central
weberiano: o SIGNIFICADO da ação social. Relativamente ao campo da saúde, o peso
da influência maior está na fenomenologia. É por isso que falaremos dela com
prioridade e apenas sintetizaremos os princípios da etnometodologia.
Etnometodologia compreende o conjunto de reflexões que se abrigam sob seu
próprio nome, além do internacionalismo simbólico, da história de vida e da história
oral. Seu berço foi a Universidade de Chicago e seu principal arquiteto Robert Park, que
nas décadas de 20 e 30 preconizava a experiência direta com os atores sociais para a
compreensão de sua realidade. Ao mesmo tempo dava um lugar de destaque às Histórias
de Vida como um material de excelência para a sociologia (1921). As idéias de Park
foram teoricamente desenvolvidas por Harold Garfinkel na década de 30, que
estabeleceu o quadro
53
conceitual e as bases metodológicas da etnometodologia, cujos princípios resumiremos
a seguir (Garfinkel: 1967).
Garfinkel defende a sua teoria como uma forma de compreender a prática
artesanal da vida cotidiana, interpretada já, numa primeira instância, pelos atores
sociais. Segundo ele, as características do mundo social são inseparáveis dos processos
interpretativos pelos quais o mundo é constituído, realizado e explicado. A sociedade é
entendida como uma constituição de estrutura com regras e conhecimentos
compartilhados e tácitos que tornam a interação social possível e aceita. Portanto, faz
parte da constituição do mundo, a forma pela qual os homens chegam a um sentido da
realidade objetiva: o senso comum. E já que o ser humano tem como característica
fundamental a reflexibilidade sobre seus atos, o papel dos etnometodólogos é, ao
estudar a cotidianidade, descobrir os modelos de racionalidade subjacentes à ação dos
indivíduos e dos grupos (Payme et alli, 1981, 108-138; Smart, 1978, 19-141). Harrison
& Madge são dois representantes da etnometodologia na Inglaterra. Desde 1937 eles
têm tentado explicar os procedimentos dessa abordagem para compreender o dia-a-dia
do homem comum na sociedade complexa. Suas idéias, desenvolvidas na teoria da
“Observação de Massa” contêm críticas e propostas. Harrison questiona o fato de que as
grandes leis sobre o comportamento humano tenham sido produzidas sem observação
do que acontece na realidade e de que “as abordagens quantitativas sacrificam o
SIGNIFICADO no altar do rigor matemático” (Harrison: 1942, 10-21). Por isso, através
da organização de observadores voluntário, passou a colecionar atitudes, palavras e
reações dos ingleses no seu dia-a-dia, visando a compreender o comum, o mágico, os
hábitos, os rituais e tabus de uma cultura pretensamente conhecida. Harrison publicou
vários livros antes e depois da Segunda Guerra Mundial. Desmascarou vários mitos do
período da guerra e colocou à luz a cultura popular inglesa sob vários aspectos,
deixando a marca de sua contribuição tanto para o cinema, as artes, como para as
técnicas de pesquisa de mercado e de opinião pública. Seu arquivo classifica como Arte,
Assuntos Financeiros, Anti-Semitismo, Sonhos, Comportamento Sexual. Apesar de seu
espírito inovador, Harrison é criticado dentro e fora do âmbito científico pela sua falta
de rigor metodológico.
54
As observações externas sobre o trabalho de Harrison de certa forma refletem
um questionamento interno da sociologia em relação à etnometodologia, proveniente
tanto dos positivistas como dos marxistas: (a) crítica à consideração de que os
significados subjetivos criam a realidade do mundo; (b) crítica à redução da estrutura
social a procedimentos interpretativos; (c) crítica ao desconhecimento dos fatores que
determinam ou condicionam a visão das pessoas sobre sua situação social; (d) crítica à
separação entre pensamento e ação (Smart: 1978, 133s).
O Interacionismo Simbólico, enquanto teoria e método, pode ser compreendido
como uma vertente da etnometodologia. Sua origem, também da década de 20, reúne
estudos importantes como os de Thomas (1927); Herbert Mead (1946) e Cooley (1922).
Hebert Blumer é quem, em 1937, atribui à sua abordagem teórico-metodológica o termo
“Interacionismo Simbólico”. Diz Blumer em sua obra:
Nós podemos e eu penso que posso, olhar a vida humana, acima de tudo como
um vasto processo de interpretação, no qual o povo, individual e coletivamente
guia a si mesmo para definir objetivos, acontecimentos e situações que
encontram... Nenhum esquema designado para analisar a vida dos grupos
humanos em seus caracteres gerais se adequa a esse processo de interpretação
(1956, 686).
A concepção interacionista das relações sociais se fundamenta no princípio de
que o comportamento humano é autodirigido e observável em dois sentidos: o
simbólico e o interacional. Isso permite a qualquer ser humano planejar e dirigir suas
ações em relação aos outros e conferir significado aos objetos que utiliza para realizar
seus planos. Além disso, a concepção interacionista concebe a vida social como um
consenso estabelecido na inter-relação, por isso, o sentido atribuído às ações é
manipulado, redefinido e modificado através de um processo interpretativo consensual
ao grupo. Do ponto de vista metodológico, os principais interacionistas enfatizam que
símbolos e interação devem ser os principais elementos a se apreender na investigação.
Em segundo lugar, partindo-se da idéia de que símbolos, significados e definições são
forjados pelos atores sociais é
55
necessário apreender a natureza reflexiva dos sujeitos pesquisados. Isto é, o investigador
deve tentar fugir da falácia do objetivismo, substituindo sua própria perspectiva pela dos
grupos que ela está estudando (Payne: 1981, 116; Haguette: 1987, 31s; Denzin, 1973, 5-
9).
Os movimentos etnometodológicos decaíram nos Estados Unidos, e na
Inglaterra sua influência foi pequena. Porém, a partir da década de 50, a tradição
etnometodológica tem sido retomada com vigor. Ninguém pode negar hoje a influência
dos trabalhos de Goffman para a sociologia. Inclusive na área da saúde, a análise das
“instituições totais” teve e tem seu impacto. O renascer de estudos sociológicos de
pequenos grupos dentro de abordagens etnometodológicas vem ocupando o espaço
deixado pelo descrédito do positivismo e pelo escasso desenvolvimento heurístico das
correntes marxistas, mais preocupadas com abordagens filosóficas e macros-sociais.
Assim como a Etnometodologia, a Fenomenologia é considerada dentro das
Ciências Sociais, a Sociologia da Vida Cotidiana. Embora na elaboração se percebam as
influências weberianas é na filosofia de Husserl que ela busca seu nome e
fundamentação metodológica. O argumento de Husserl é o mesmo de Dilthey e Weber,
isto é, os atos sociais envolvem uma propriedade que não está presente nos outros
setores do universo abarcados pelas ciências naturais: o SIGNIFICADO (Husserl: 1980,
4-181).
Nas Ciências Sociais, Schutz é o representante mais significativo do pensamento
fenomenológico. Ele consegue dar consistência sociológica aos princípios filosóficos de
Husserl e fazer deles, não apenas uma atitude, mas uma teoria e método na abordagem
da realidade social, inspirando-se ao mesmo tempo distinguindo-se de Weber. A
fenomenologia sociológica apresenta: (a) uma crítica radical ao objetivismo da ciência,
na medida em que propõe a subjetividade como fundante do sentido; (b) uma
demonstração da subjetividade como sendo constitutiva do ser social e inerente ao
âmbito da autocompreensão objetiva; (c) a proposta da descrição fenomenológica como
tarefa principal da sociologia.
Schutz traz para o campo de preocupações da Fenomenologia social o mundo da
vida cotidiana onde o homem se situa com suas angústias e preocupações em
intersubjetividade em seu semelhantes
56
(companheiros, predecessores, sucessores, contemporâneo). O espaço-tempo
privilegiado nessa teoria é a vida presente e a relação face a face.
Do ponto de vista do conhecimento, Schutz o divide em três categorias: (a) a do
vivido e experimentado no cotidiano; (b) o da epistemologia que investiga esse mundo
vivido; (c) o do método sociológico para investigação.
No primeiro nível, o mundo social apresenta-se aos indivíduos na forma de um
sistema objetivado de designações compartilhadas e de formas expressivas. É o mundo
da cotidianidade, tal como é experimentado pelo homem em “atitude natural” e aceito
como tal. Dentro da “atitude natural” o homem não questiona a estrutura significativa
do mundo, mas age e vive nela.
O mundo cotidiano se apresenta através de tipificações construídas pelos
próprios atores sociais, de acordo com suas relevâncias. Essas tipificações incluem o
universal e o estável, o específico e o mutável. Aqui se observa uma das diferenças de
Schutz em relação a Weber. Enquanto para este, o tipo-ideal é uma construção analítica
criada pelo cientista, para Schutz o ator social, não apenas o cientista, tipifica o mundo
para compreendê-lo e comunicar-se com seus semelhantes.
Schutz afirma que o objeto das ciências sociais quando é estudado já se encontra
de certa forma estruturado e interpretado, pois a realidade social já possui sentido para
os homens que vivem nela. Desta forma, diz ele, “os objetos das ciências sociais são
construtos em segunda potência” (1962: 300-311). Portanto, o ponto de partida para a
fenomenologia sociológica são os “construtos de primeira ordem” usados pelos
membros de uma sociedade; isto é, o senso comum, ainda que contenha idéias vagas,
imbuídas de emoção, fragmentadas e ambíguas. Schtuz não questiona se o
conhecimento do senso comum é superior ou inferior à construção científica. Segundo
ele, o comum é superior ou inferior à construção científica. Segundo ele, o propósito do
cientista social é revelar os significados subjetivos implícitos que penetram no universo
dos atores sociais. O cientista social cria um saber diferente a partir do conhecimento de
“primeira ordem”, através da elaboração de modelos do ator social, de “tipos ideais”
para explicitar os significados da realidade social e para descrever os procedimentos dos
significados. Esses modelos construídos
57
pelo cientista a partir do mundo da vida cotidiana se distinguem do senso comum,
segundo Schutz: (a) pela consistência lógica, isto é, pela possibilidade de descrever o
vivido, buscando trazê-lo para a ordem das significações; (b) pela possibilidade de
interpretação; (c) e pela sua adequação à realidade.
O modelo científico para compreensão do mundo social, Schutz o descreve a
partir dos seguintes princípios: (a) a intersubjetividade: estamos sempre em relação uns
com os outros; (b) a compreensão: para atingir o mundo do vivido, a ciência tem que
apreender as coisas sociais como significativas; (c) a racionalidade e a
internacionalidade: o mundo social é constituído sempre por ações e interações que
obedecem a usos, costumes e regras ou que conhecem meios, fins e resultados.
Para a compreensão empírica da realidade, Schutz elabora alguns conceitos que
nos remetem ao ato social. O primeiro deles é o de situação: significa o lugar que
alguém ocupa na sociedade, o papel que desempenha e suas posições ético-religiosas,
intelectuais e políticas. Schutz diz que o homem está situado biograficamente no mundo
da vida sobre o qual e no qual deve agir. Distingue experiência biografia de
conhecimento. Esse último consiste na sedimentação das experiências e situações
vivenciadas. O estoque de conhecimento do ator social funciona como um marco de
referência, através do qual interpreta o mundo e pauta sua ação. Schutz usa também os
termos relevância e estrutura de relevâncias referindo-se à importância que os objetos e
os contextos possuem para o sujeito, o que se relaciona, por sua vez, com sua bagagem
de conhecimento e com a situação biográfica.
Esses conceitos desenvolvidos na sociologia fenomenológica por Schutz têm
extrema importância na base empírica da pesquisa. Eles passam do contexto individual
para o contexto grupal e comunitário através do que o autor considera reciprocidade de
perspectiva, de comunicação, de comunidade de objetivos e de interpretação
intersubjetiva. Recebemos, segundo o autor, a maior parte de nossos conhecimentos
através de nossos pais, professores e predecessores. Recebemos uma visão de mundo,
maneiras de classificar e tipificar que criam o nosso universo, e um conhecimento que
vai do “familiar” ao “anônimo” e nos coloca a partir da situação “face a face”, isto é, no
nível da vida prática, em relação com o mundo (1961: 116-150).
58
Para Schutz a intersubjetividade é a categoria central na análise fenomenológica porque
ele é um dado fundamental da existência humana no mundo. Ele a resume nos seguintes
termos:
Aqui onde estou – lá onde meu semelhante está: jamais podemos estar no
mesmo lugar, estar na mesma posição, estar os dois aqui ou não (1961: 147).
Essa interubjetividade é vivida em situação de familiaridade sobre a forma do
nós e permite a captação do outro como único em sua individualidade. Ou em situação
de anonimato que afasta a unicidade e individualidade do outro e produz as situação de
generalização. O grau máximo de anonimato é a consideração do outro como número ou
função (1961: 140-150).
Como se pode concluir, na fenomenologia há um curioso desconhecimento dos
fenômenos estruturais e uma ausência de discussão sobre as questões do poder, da
dominação, da força, da estratificação social. Sua abordagem otimiza a realidade como
se cada fato ou grupo constituísse um mundo social independente.
Para os fenomenólogos, são os pequenos grupos como a família, as entidades
religiosas, as associações voluntárias, os responsáveis pela identidade dos indivíduos,
pela sua estabilidade e por seu sistema de significados, na medida que integram uma
visão de mundo compartilhada.
Contrapões-se ao positivismo nos mais diferentes aspectos: (a) à ambição dessa
teoria de construir explicações totalizantes e invariáveis como nas ciências naturais, a
fenomenologia afirma que a vida humana é essencialmente diferente e só pode ser
compreendida através do mergulho na linguagem significativa da interação social; (b) à
separação entre fatos sociais e valores no positivismo, a fenomenologia diz que a
linguagem, práticas, coisas e acontecimentos são inseparáveis. E a linguagem é
essencial ara que a realidade seja do jeito que é, isto é, a realidade é a própria vida
cotidiana nos indivíduos onde eles se comunicam, concordam, discordam, justificam-se,
negam ou criam; (c) à pretensão de construir conhecimentos objetivos e neutros, a
fenomenologia diz que só há conhecimento subjetivo, pois é o homem que imprime leis
ao real, e o ato de conhecimento
59
o observador e o observado, ambos possuidores de significados atribuídos pelo próprio
homem; (d) à coerção da sociedade sobre o indivíduo, a fenomenologia proclama a
liberdade do ator social que através de sua história bibliográfica e em inter-relação; (e)
desta forma a fenomenologia proclama e absolutiza o componente ético na relação da
ciência com a sociedade. Diz que o conhecimento deve estar sempre submetido a
exigências morais, pois ele é uma forma dentre as possíveis de confirmação da
realidade. E ao contrário do positivismo que confere primazia ao reinado da ciência, a
fenomenologia advoga sua submissão aos princípios da ética e da moral de determinada
sociedade.3
Em seu texto: As Correntes de Pensamento no Campo da Saúde (1983: 97-131),
Juan César García nos fala sobre a forma específica do desenvolvimento da
fenomenologia nas análises sociológicas e no debate político sobre as relações da
Medicina com a Sociedade. Na década de 60 e com maior força nos anos 70 a
fenomenologia junto com o marxismo propuseram uma crítica radical das relações de
produção e dos esquemas de dominação que acompanharam o enorme crescimento das
forças produtivas ocorrido nos países capitalistas a partir da Segunda Guerra Mundial. A
onda desenvolvimentista cujos rumos do progresso não significaram a socialização do
bem-estar; a constatação do aprofundamento das desigualdades entre ricos e pobres,
entre países centrais e países periféricos; o caos ecológico e social dos grandes centros
urbanos, a corrida armamentista, tudo isso fez crescer um movimento oposicionista na
sociedade civil e um questionamento profundo da ciência como verdade incontestável.
A concepção positivista da ciência universal, atemporal e isenta de valores conduzindo
os rumos da humanidade, na área da saúde foi sendo problematizada por um debate
teórico e ideológico que engajou questões tanto de cientificidade de postulados vigentes
como da ética de investigação científica.
Juan César García comenta que no início a fenomenologia e o
60
marxismo estiveram juntos numa crítica radical. Porém, a partir da metade da década de
70, pouco a pouco foi se delineando uma diferença também no campo teórico,
ideológico e de propostas relativas aos rumos da mudança, entre as duas correntes. Ele
diz que a “fenomenologia” passou de radical a reacionária (1983; 121). Porém
reconhece sua contribuição.
A contestação intelectual da fenomenologia ao positivismo desenvolveu-se em
vários aspectos como crítica contundente à instituição médica, à prática médica, à ética
médica, ao sistema público de saúde e à concepção biomédica de saúde/doença. Uma
crítica destruidora sobre o caráter reprodutor e coercitivo da instituição médica, sobre os
efeitos negativos da medicalização foi realizada por Ivan Illich em A Expropriação da
Saúde (1975). O seu “parti pris” contra o caráter dominador e totalizante da instituição
médica chegou a um nível quase fóbico. Mas se o seu exagero deixa hoje desacreditada
cientificamente sua obra, assim mesmo ela aponta uma série de elementos que outros
intelectuais tentam demonstrar. Sua tese é de que a hipertrofia das grandes instituições
voltadas para a assistência social tornou-se o maior obstáculo à realização de seus
próprios objetivos. Ele fala do “crescimento mórbido da medicina” que conduz: (a) à
ineficácia global do sistema; (b) à perda da capacidade da população de se adaptar ao
meio social, de aceitar a dor e o sofrimento, por causa da medicalização da vida; (c) ao

3
Além de Schutz é importante citar como nomes relevantes da Sociologia Fenomenológicas, Peter Breger e Luckmann, A
construção social da realidade, RJ, Vozes, 1973, Cicourel, A. Method and Measuremente Sociology, N. York, The Free Press, 1969.
mito de a medicina acabar com a dor, o sofrimento e a doença, mito que compromete a
capacidade cultural dos homens de lidar com a vida e a morte.
O livro de Illich se insere num debate fundamental da sociologia que é assunto
tanto pela fenomenologia, como pelo marxismo. É a relação do indivíduo com a
sociedade e suas possibilidades frente aos esquemas coercitivos. Esse debate chega a
algumas afirmações que já se constituem axiomas, através de vários estudos. Primeiro
que a atenção médica não tem significado necessariamente a melhoria de qualidade de
saúde da população (McKeown, 1984). Segundo, que o caráter dominador da medicina
tem induzido a prática médica a ampliar cada vez mais seu controle sobre o corpo, os
eventos da vida humana, os ciclos biológicos e a vida social (Boltanski, 1979). E por
fim, que o profissionalismo médico tem redundado principalmente na defesa de
privilégios corporativos e servido mais para atender a
61
interesses econômicos do que para responder às necessidades de saúde da população
(Boltanski, 1979; Arouca, 1975; Loyola, 1984).
A esses questionamentos julgados fundamentais, juntaram-se outros sobre a ética
médica e sobre uma concepção social mais abrangente de saúde/doença. São pontos
particularmente defendidos por fenomenólogos para quem as relações morais e culturais
desempenham papel fundamental.
Junto com a crítica da descaracterização cultural, por parte da instituição médica,
dos fenômenos da vida e da morte e da medicalização da vida, os fenomenológos
propõem a necessidade de desenvolver uma filosofia da medicina que leva em conta os
problemas éticos dos experimentos e serviços referentes à vida humana e que se
restabeleça na concepção de saúde/doença (para fins médicos) a relevância
antropológica entre religião e medicina (Pelegrino: 1976).
García comenta que a partir de 1968 a literatura e congressos sobre ética médica
cresceram aceleradamente, influenciando movimentos da sociedade civil no sentido de
criar uma consciência dos direitos dos usuários do sistema de saúde e de repúdio ao
domínio controlador do saber e do fazer médicos. A partir dos anos 70, no mundo
inteiro foram criadas comissões de ética, fundamentais no reconhecimento de que as
pessoas têm o direito de ser informadas participar do processo de reflexão sobre o que
acontece nos laboratórios, nos hospitais e nas clínicas.
Os fenomenólogos consideram que a cura se baseia em valores, símbolos e
sistemas de significados compartilhados nos seus grupos de referência. São esses grupos
que protegem os indivíduos contra as grandes estruturas impessoais e anônimas onde,
comenta Schutz, eles se tornam um número. Advogam portanto uma reforma do sistema
de saúde que leve em conta os valores culturais dos grupos, seus mediadores (os
pequenos grupos) e seus ecossistemas (Manning e Fábrega: 1973; Douglas: 1971).
A partir das mesmas idéias vai se desenvolvendo também uma linha holística na
concepção saúde/doença que se unifica nos seguintes pontos: (a) a saúde tem que ser
pensada como um bem-estar integral: físico, mental, social e espiritual; (b) os
indivíduos devem assumir sua responsabilidade inalienável frente às questões de sua
saúde; (c) as práticas da medicina holística devem ajudar as pessoas
62
a desenvolver atitudes, disposições, hábitos e prática que promovem seu bem-estar
integral; (d) o sistema de saúde deve ser reorientado para tratar das causas ambientais,
comportamentais e sociais que provocam a doença; (e) as pessoas devem se voltar para
a harmonia com a natureza, utilizar práticas e meios naturais de tratamento (García:
1983, 128-130).
Os resultados práticos das concepções fenomenológicas sobre o setor Saúde têm
sido: (a) um questionamento sobre o papel do Estado e das grandes instituições
médicas; (b) incremento dos pequenos grupos privados e voluntários referentes à
questão da saúde; (c) reconhecimento de modalidades alternativas de expressão e de
tratamento de saúde; (d) aparecimento de novas formas institucionalizadas de saúde
pública combinadas com associações voluntárias; atenção primária; autocuidado; uso da
medicina tradicional; participação comunitária; educação e saúde vinculadas à pesquisa-
ação.
A crítica à abordagem fenomenológica no campo da saúde veio particularmente
dos marxistas, companheiros de caminhada dos primeiros momentos. Segundo eles, as
propostas dos fenomenológos abriram o flanco para uma reacomodação e posterior
assimilação e uso pelo Estado capitalista, das alternativas em questão. Assim, em lugar
de radicalizarem as mudanças, tornaram-se conservadores.
Com relação ao arcabouço teórico, a principal crítica marxista é de que a
estrutura social é captada de forma unilateral pela fenomenologia. Ao enfatizar a
autonomia dos indivíduos, dos pequenos grupos, dos sistemas de crença e valores, os
fenomenólogos desconhecem as bases sociais dos valores e crenças e o caráter de
totalidade, historicamente construído, das relações de dominação econômico-política e
também ideológica do sistema capitalista.
Com relação à questão ética, a fenomenologia assume como absoluto o
componente ético da relação ciência-moral. O marxismo afirma que a ética e a ciência
são duas formas de consciência em relação dialética com as condições materiais de sua
produção. Desta forma submete à crítica tanto uma como outra.
Juan César García chama atenção para o fato de que as proposições
fenomenológicas têm sido tomadas nos países capitalistas tanto centrais como
periféricos para uma reorganização do sistema de saúde (e de outros setores sociais):
63
No terreno da prática médica surgem programas alternativos de autocuidado de
saúde, atenção primária por pessoal não profisional, revitalização da medicina
tradicional, etc. A maioria destas experiências e os princípios sobre os quais se
sustentam foram apropriados pelo Estado na maioria dos países da América
Latina na década de 70, ao mesmo tempo em que se reduziam, de forma relativa,
os orçamentos estatais para a área social (1983, 121).
García argumenta que isso acontece pari passu com a crise fiscal do Estado e
com a crise econômica capitalista, cuja resposta às crescentes necessidades da
população é a adoção de alternativas baratas que oneram mais uma vez os usuários das
políticas sociais:
É uma tentativa de converter o consumidor da assistência médica em provedor
desta, através do auto-cuidado e da sua participação nas estruturas
intermediárias. (...) O desenvolvimento econômico social é entendido – dentro
deste corpo teórico reacionário – como determinado pelo investimento privado
gerador de riqueza e pela ajuda voluntária, contribuinte do bem-estar social
(García: 1983, 130).
Concluindo, cremos que os questionamentos da teoria fenomenológica no campo
da saúde têm sido fundamentais e podem ser recuperados dialeticamente na medida em
que se articulem suas análises às bases sociais de produção dos sistemas econômicas,
políticos e ideológicos. Porém sua visão unilateral que absolutiza os valores e crenças
dos grupos e a autonomia do indivíduo sobre a sociedade acaba por gerar o que nega
desde o início: a assimilação interessada do Estado de suas propostas éticas e morais.
Além disso, essa corrente de pensamento enquanto campo de influência
ideológico-política pode ter importância transformadora se estiver articulada com
categorias mais gerais que reflitam mudanças no mundo material, isto é, com as
transformações econômicas que acontecem no sistema capitalista atual. As abordagens
alternativas na área da Saúde, propiciadas pela fenomenologia, são hoje de
64
Tal importância que se tornou impossível desconhecê-la enquanto fenômenos de
questionamento dos paradigmas dominantes. Seu eclodir não se dá em vão, faz parte de
um movimento geral teórico e prático de busca de saídas para a crise em que se
mergulhou o mundo pragmático. É cedo ainda para avaliar a contribuição positiva ou
negativa dos resultados da fenomenologia na Saúde. Ela deixou de ser apenas linha de
pensamento: trasnformou-se em movimentos sociais “alternativos” que estão aí, existem
e se multiplicam. Mostram acima de tudo que nenhuma corrente de pensamento existe e
se desenvolve independente das questões práticas que lhe coloca a realidade social.

O MARXISMO
A obra de Marx é coerente com o princípio básico de sua metodologia de
investigação científica: tem a marca da totalidade. Por isso mesmo, uma das polêmicas
sobre a contribuição de seu trabalho para as Ciências Sociais se deve ao fato da
dificuldade de catalogá-la como Filosofia, História, Economia, Sociologia ou
Antropologia.
Esse caráter de abrangência, que tenta, a partir de uma perspectiva histórica,
cercar o objeto de conhecimento através da compreensão de todas as suas mediações e
correlações, constitui a riqueza, a novidade e a propriedade da dialética marxista para
explicação do social. Goldmann (1980) atribui esse caráter cientificamente totalizante
da obra de Marx às grandes questões que ele se coloca no plano teórico e de como as
vincula à utilidade e às necessidades humanas.
Constitui uma tarefa gigantesca e profunda a aproximação do pensamento de
Marx e dos marxistas que tentaram refletir sobre o homem e a sociedade. Como nosso
escopo científico neste trabalho se refere à compreensão das correntes de pensamento e
metodologias que têm influindo nas análises e nas práticas do setor Saúde, é por esse
veio que analisaremos o marxismo. Daremos ênfase à sua abordagem, que é dialética,
das relações entre o indivíduo e a sociedade, entre as idéias de base material, entre a
realidade e a sua compreensão pela ciência, e às correntes que enfatizam o sujeito
histórico e a luta de classes.
Dentro da perspectiva marxista como sociologia do conhecimento,
65
os princípios fundamentais que explicam o processo de desenvolvimento social, podem
ser resumidos nos termos: materialismo histórico e materialismo dialético.
Enquanto o materialismo histórico representa o caminho teórico que aponta a
dinâmica do real na sociedade, a dialética refere-se ao método de abordagem deste real.
Esforça-se para entender o processo histórico em seu dinamismo, provisoriedade e
transformação. Busca apreender a prática social empírica dos indivíduos em sociedade
(nos grupos e classes sociais), e realizar a crítica das ideologias, isto é, do imbricamento
do sujeito e do objeto, ambos históricos e comprometidos com os interesses e as lutas
sociais de seu tempo. Como se pode perceber, esses dois princípios estão
profundamente vinculados, naquele sentido já advertido (e citado anteriormente) por
Lênin: “O método é a própria alma do conteúdo”.
Lowy prefere usar indistintamente os termos: dialética marxista, materialismo
dialético, materialismo histórico e filosofia da práxis (este último, uma denominação
gramsciana) para se referir ao marxismo (1986, 25). Comenta que julga empobrecedor
limitar a definição do marxismo aos dois conceitos que colocamos no início. Todos os
termos citados, diz ele “apontam para elementos do método marxista”. Sua observação
particular é a de preservarmos o que há de essencial no pensamento marxista, o seu
caráter histórico: “o historicismo é o centro, o elemento motor, a dimensão dialética e
revolucionária do método” (1986, 26).
Com relação à dimensão materialista, Lowy (1986), Goldmann (1980),
Bottomore e Rubel (1964), Adam Schaff (1967) insistem em mostrar que ela não
constitui, em si, a maior novidade do marxismo. O próprio Marx, tomando a histórica
como centro, tem um diálogo com os que ele denomina “materialistas vulgares”, os
contrapõe aos “ideólogos alemães”, e critica a ambos: “para os materialistas vulgares a
produção do real da vida aparece como não-histórica, ao passo que o histórico é
mostrado à vida comum supraterrestre” (1973, 27).
E completa referindo-se aos idealistas:
66
A filosofia hegeliana da histórica é a última conseqüência, levada à sua
expressão mais pura, de toda historiografia alemã que pretende ver não os
interesses reais nem sequer políticos, mas os pensamentos puros que
inevitavelmente aparecem... como uma série de pensamentos que devoram uns
aos outros até serem engolidos pela “autoconsciência” (1984, 5)
Um exame do prefácio Contribuição à Crítica da Economia Política (1973) nos
mostra que a expressão “material” em Marx é usada simplesmente para designar as
condições primárias da vida humana. Suas expressões: “vida material”, “condições
materiais de existência”, “forças materiais de produção”, “transformação das condições
materiais de produção” estão relacionadas com uma historiografia. Visam a promover
uma interpretação científica das transformações sociais que baixam do céu para a terra,
isto é, das idéias como fonte, para o homem-natureza-sociedade como geradore. Neste
sentido sua historiografia é uma “sociologia histórica”, conforme a expressão de
Goldmann (1980).4
Bottomore e Rubel comentam sobre a especificidade do “materialismo” em
Marx:
A ênfase que ele dava à estrutura econômica na sociedade não era novidade. Sua
contribuição pessoal nessa esfera foi o contexto dentro do qual discutiu a
estrutura econômica: o contexto do desenvolvimento histórico do trabalho
humano como relação primária entre homem-natureza e entre os homens e seus
semelhantes. O trabalho de Marx conforme ele mesmo disse, antes de tudo era
uma nova historiografia, e seu interesse dominante era a transformação histórica
(1964, 34)
São dois os conceitos fundamentais que resumem o materialismo dialético,
conceitos que carregam um alto grau de totalidade: Modo de Produção e Formação
Social.
67
Fioravante resume assim o conceito de Modo de Produção: (a) uma estrutura
global formada por estruturas regionais (ou instâncias), ou seja, uma estrutura
econômica, uma estrutura jurídico-política; uma estrutura ideológica, (b) uma estrutura
global na qual existe sempre uma estrutura regional que domina as demais. Esa
dominação de qualquer uma das instância se dá historicamente; (c) uma estrutura global
na qual é sempre o nível econômico que determina as outras instâncias (1978, 33s).
Modo de produção, na verdade, é um conceito abstrato formal que não existe na
realidade, mas pretende ser um modelo teórico de aproximação da realidade. A ele Marx
associa o de Formação Social que se referem às dimensões dinâmicas das relações
sociais concretas numa sociedade dada.
A Formação Social se constitui numa unidade complexa de articulação das
várias instâncias da organização social que pode conter vários modos de produção entre
os quais um é dominante e determina os outros (Fiovarante: 1978, 34). Pode ser
entendida como a realidade que se forma processualmente na história, seja ela mais ou
menos organizada ou institucionalizada, macro ou microssociológica. O estudo de uma
formação social inclui tanto as mudanças e transformações como as permanências e
4
Nossa reflexão aqui assumida sobre o marxismo se coloca numa posição crítica ao marxismo althusseriano que nega a história
enquanto construção humana significativa e o sujeito social a não ser como “efeito ilusório de estruturas ideológicas”.
suas formas estruturais. É dentro do conceito abrangente de Formação Social que
podemos analisar, numa determinada sociedade, o desenvolvimento das forças
produtivas e as relações sociais de produção; as classes sociais básicas e a luta de
classes; a divisão do trabalho; as formas de produção, circulação e consumo de bens; a
população; as migrações; o Estado; o desenvolvimento da Sociedade Civil; as relações
nacionais e internacionais de comércio, de produção e de dominação; as formas de
consciência do real e possível dos diferentes grupos sociais e por fim o “modo de vida”,
conceito que em Marx está vinculado a “modo de produção”.
Como o objetivo principal do trabalho está referido às questões metodológicas,
daremos ênfase à compreensão da dialética, vista sob o prisma de alguns autores
marxistas que privilegiam uma nova historiografia e reconhecem a autoria do sujeito
social.
A hipótese fundamental desse conjunto de autores marxistas é de que nada existe
eterno, fixo e absoluto. Portanto não há nem idéias,
68
nem instituições e nem categorias estáticas. Toda vida humana é social e está sujeita a
mudança, a transformação, é perecível e por isso toda construção social é histórica.
Diferentemente dos positivista que buscavam as leis invariáveis da estrutura
social para conservá-la, a lógica dialética introduz na compreensão da realidade o
princípio do conflito e da contradição como algo permanente e que explica a
transformação.
Nada se constrói fora da história. Ela não é uma unidade vazia ou estática da
realidade mas uma totalidade dinâmica de relações que explicam e soa explicadas pelo
modo de produção concreto. Isto é, os fenômenos econômicos e sociais são produtos da
ação e da interação, da produção e da reprodução da sociedade pelos indivíduos.
Por isso Goldmann, retomando o pensamento de Marx, coloca em pé de
igualdade e de reciprocidade a história e a sociologia. “Todo fato social é um fato
histórico” diz ele (1989: 17). Aconselha, como norma metodológica para as Ciências
Sociais, abandonar toda a sociologia e toda a história abstrata para alcançar uma ciência
dos fatos históricos que não pode ser senão uma sociologia histórica ou uma história
sociológica. O interesse central de tal ciência é o fato de que os seres humanos não são
apenas objeto de investigação, mas pessoas com as quais agimos em comum: são
sujeitos em relação. Diz Goldmann: “A deformação científica não começa quando se
tenta aplicar ao estudo das comunidades, métodos das ciência físico-químicas, mas se
encontra no fato de se considerar essa comunidade como objeto de estudo” (1980, 22).
Para Goldmann, a vida social constitui o único valor comum que reúne os
homens de todos os tempos e de todos os lugares. Insiste em diferenciar a nova
historiografia ou sociologia marxista que tem como objeto, tanto em relação ao passado
como ao presente: (a) a compreensão das atitudes fundamentais dos indivíduos e dos
grupos em face dos valores, da comunidade e do universo; (b) a compreensão das
transformações do sujeito da ação no relacionamento dialético homem/mundo e da
sociedade humana, fazendo a síntese entre o passado e o presente; (c) como
conseqüência, a compreensão das
69
ações humanas de todos os tipos e de todos os lugares que tiveram impacto na
existência e na estrutura de determinado grupo humano, e mais globalmente, na
sociedade humana presente e futura (1980: 20-23).
Goldmann engloba na sua definição de objeto, a história e os fenômenos, a nível
coletivo ou individual. Ultrapassa e faz a síntese entre a historiografia tradicional que dá
ênfase à ação dos governantes, líderes, e aquela que leva em conta as determinações do
modo de produção e o papel da coletividade, do povo, quase sempre deixado de lado na
visão positivista (1980, 24).
Na perspectiva da dialética marxista, tudo o que ultrapassa o indivíduo para
atingir a vida social constitui conhecimento histórico. Lowy comenta que Marx
considerava a história do mundo também do ponto de vista daqueles que a azem sem ter
a possibilidade de prever as chances de seu sucesso (1985, 70).
“O que buscamos na compreensão das formas historicamente diferentes de viver
em comum”, diz Goldmann, “é a ‘significação humana’, impossível de ser
compreendida fora da estrutura social” (1980, 24). Porque na ótica da dialética, a
consciência se conhece, desde a origem, como um produto social da necessidade e da
ação humana no meio sensível, na natureza, em relação aos outros homens, dentro de
determinadas condições de produção.
Goldmann reconhece e recupera dialeticamente o mérito da fenomenologia que
nos lembra a importância, para as Ciências Sociais, dos significados dados pelos atores
sociais a seus atos e aos acontecimentos que consideram relevantes, isto é, às
motivações, aos objetivos perseguidos e aos fins vividos em comunidade.
Mas, a seguir, Goldmann distingue o marxismo da fenomenologia, criticando a
sua postura apenas descritiva e compreensiva dos fenômenos, atitude contrária à
dialética. Para ele, as Ciências Sociais têm que abraner: (a) a compreensão da
consciência dos agentes sociais; (b) também os fatores sociais inevitáveis, sejam quais
forem as intenções dos atores sociais e as significações que ele lhe atribuam. Noutras
palavras, a análise sócio-histórica deve dar conta da coerência e da força criadora dos
indivíduos e da relação entre as consciências individuais e a realidade objetiva.
A segunda tese fundamental da dialética marxista é o caráter total
70
de existência humana e da ligação indissolúvel entre história e fatos econômicos e
sociais e a história das idéias. A partir dessa perspectiva o conceito de totalidade é
utilizado também como um instrumento interpretativo pelo qual ser visa a compreender,
não a identidade ou o padrão de invariância (como no funcionalismo) da realidade
social, mas as diferenças na unidade, tais como são engendradas numa realidade
determinada. Portanto, no processo de pesquisa, busca reter a explicação do particular
no geral e vice-versa. Joja chama nossa atenção, repetindo Lênin, que o particular não
existe senão na medida em que vincula ao geral e o geral só existe no particular e
através dele. Portanto o princípio metodológico da totalidade nos leva a:
Apreender os fenômenos em sua auto-relação e hetero-relação, em suas relações
com a multiplicidade de seus próprios ângulos e de seus asectos
intercondicionados, em seu movimento e desenvolvimento, em sua
multiplicidade e condicionamento recíproco com outros fenômenos ou grupos de
fenômenos (Joja: 1964, 55)
Isso significa metodicamente:
- compreender as diferenças numa unidade ou totalidade parcial;
- buscar a compreensão das conexões orgânicas, isto é, do modo de relacionamento
entre as várias instâncias da realidade e o processo de constituição da totalidade parcial;
- entender, na totalidade parcial em análise, as determinações essenciais e as condições e
efeitos de sua manifestação.
A perspectiva totalizadora é heurística porque reflete relações reais, isto é: (a) ao
mesmo tempo que vê a realidade objetiva como um todo coerente; (b) compreende e
analisa as partes do todo formando correlações concretas de conjuntos e unidades
sempre determinadas. Ela afirma os princípios da complexidade e da diferenciação.
O próprio Marx nos avisa: “é preciso que, em cada caso particular, a observação
empírica coloque necessariamente em relevo – empiricamente e sem qualquer
especulação ou mistificação – a conexão entre estrutura social, política e produção”
(1984, 35).
71
Por outro lado a visão de totalidade nos mostra que não há pontos de partida
absolutamente definitivos. Goldmann, citando Pascal, “a última coisa que se encontra
ao fazer uma obra é a compreensão do que se deve colocar em primeiro lugar” nos diz
que, “nunca se pode chegar a uma totalidade que não seja ela mesma elemento ou parte”
(1967, 11).
Sua posição se deve à própria característica dinâmica do método dialético cuja
fundamentação é o pensamento vivo e o caráter inacabado tanto da histórica com da
ciência em constante devir. Isso faz que o conhecimento da realidade, “seja uma
perpétua oscilação entre o todo e as partes que devem se esclarecer mutuamente” (1967,
4).
É no interior da concepção de totalidade dinâmica e viva que se coloca o
princípio de união dos contrários que contrapõe a dialética a qualquer sistema
maiqueísta ou positivista. Para se referir ao movimento interno da realidade sob o ponto
de vista que nos referíamos, Goldmann recorre ais uma vez a Pascal:
Sendo então todas as coisas causadas e causadoras, ajudadas e ajudantes,
mediata e imediatamente, e todas se relacionando por um vínculo natural e
insensível que liga as mais afastadas e mais diferentes, creio ser tão impossível
conhecer o todo, sem conhecer particularmente as partes (1967, 4)(Pascal,
Pensée, frase 73).
Ora, o princípio de união dos contrários abrange as totalidade parciais e as
totalidades fundamentais. Isso significa perceber que existe uma relação dialética:
(a) entre os fenômenos e a sua essência, entre as leis e o fenômeno. Lukács nos
diz que: “Em relação ao mundo das leis, o mundo dos fenômenos representa o todo, a
totalidade, porque contém a lei e além disso, a própria forma que se move” (1967, 232).
72
E Kosik adverte-nos que a realidade é a unidade dos fenômenos e da essência:
“o fenômeno indica a essência e a esconde; e sem a compreensão do fenômeno em suas
manifestações, a essência seria inatingível” (1969, 12).
(b) entre o singular e o universal, entre o particular e o geral:Lênin nos lembra
que “o particular e o singular não existem a não ser por sua participação no universal
(1955, 215). Mas também que o geral e universal só se realizam nas totalidades parciais;
o concreto aparece como um ponto de chegada e como ponto de partida, não há medição
sem imediato. É nas determinações particulares que o método vai buscar o nexo
explicativo das totalidades concretas. O real como imediato por sua vez, reaparece
mediatizado, pela teoria, na totalidade que o circunscreve.
(c) entre a imaginação e a razão. As concepções teóricas da dialética marxista
sobre o sujeito do conhecimento empenham-se no combate tanto contra as tendências
que exageram a supremacia da razão, como contra o irracionalismo moderno. Lênin
comenta que, ao refletir a realidade, o conhecimento oferece uma imagem mais
grosseira que o real, tanto no plano do pensamento como do sentimento. Mas recupera o
papel da imaginação no pensamento científico, “seria ridículo negar o papel da
imaginação mesmo na ciência mais rigorosa” (1955, 218);
(d) entre a base material e a consciência. Isto é, existe uma correlação entre o
modo de produção, as estruturas de classe e as maneiras de pensar. Mas a dependência
do movimento da consciência social em relação às modificações na base econômico-
social não é unilateral: as modificações na base não significam mudanças mecânicas e
imediatas na superestrutura e há uma influência mútua e entre as instâncias. Do ponto
de vista da pesquisa, esse movimento dialético entre idéias e fatos sócio-econômicos
traz algumas conseqüências para as quais Goldmann nos adverte. Segundo ele, basta
estudar seriamente a realidade humana para sempre encontrar o pensamento, caso se
tenha partido de seu aspecto material; e os fatos sociais econômicos, caso se tenha
começado da história das idéias:
73
Para o pensador dialético, as doutrinas fazem parte integrante do fato social
estudado e não podem ser separadas a não ser por uma abstração provisória: seu
estudo é indispensável para a análise do problema. Da mesma forma a
compreensão da realidade social e histórica constitui um dos elementos mais
importantes quando se visa a compreender a vida espiritual de uma época (1980,
51)
(e) entre teoria e prática: existe uma integração entre esses dois termos. No
marxismo a categoria básica de análise da sociedade é o modo de produção
historicamente determinado. A categoria mediadora das relações sociais é o trabalho, a
atividade prática. O trabalho constitui um aspecto particular da ordem cultural mas tem
valor de determinação dessa ordem: é através do trabalho que o reino da cultura se
sobrepõe ao reino da palavra (Marx: 1984, 15). Por isso a teoria marxista é a teoria da
ação humana que ao mesmo tempo faz história e é determinada por ela: busca as
transformações do sujeito da aça, isto é, as transformações da sociedade humana. Do
ponto de vista do processo de conhecimento, a atividade humana é seu critério decisivo.
Conforme define Lukács:
O conhecimento que está em condições de apreender dialeticamente as astúcias
da evolução só é válido e eficaz quando suas aquisições forem expedientes para
a ação prática cujas experiências virão, por sua vez, enriquecer o conhecimento e
lhe fornecer uma força sempre nova (1967, 237).
É na práxis, na perspectiva dialética, que se dá a emancipação subjetiva e objetiva do
homem e a destruição da opressão enquanto estrutura e transformação da consciência.
Noutras palavras, a transformação de nossas idéias sobre a realidade e a transformação
da realidade caminham juntas.
(f) entre o objetivo e subjetivo. A abordagem dialética considera parte da mesma
totalidade o objeto e o subjeto. Lukács critica a fenomenologia que coloca o subjetivo
quase como absoluto. Comenta que ela mitifica o mundo das sensações como se ele
fosse objetivo e pudesse proclamar a existência independente da consciência. Critica
74
o método fenomenológico que pretende partir dos dados imediatos da experiência
vivida sem analisar sua estrutura e condições (1697, 67-70). Goldmann faz as mesmas
restrições e acrescenta:
O conhecimento em sociologia, se encontra no duplo plano do sujeito que
conhece e do objeto estudado pois até os comportamentos exteriores são
comportamentos de seres conscientes que julgam e escolhem, com maior ou
menor liberdade, sua maneira de agir (1980, 98).
Mas tanto Lukács como Goldmann não compartilham com o racionalismo à moda do
século XVII e XIX (e de sempre) para quem e razão e a única instância de
conhecimento adequado. Sensação, sentimentos, experiência de vida, idéia, imaginação
eram considerados elementos destinados a papéis subordinados senão enganadores na
hierarquia do material da ciência social. As concepções teóricas desses autores (Lukács:
1967, 245; e Goldmann: 1980, 18) empenham-se em combater tanto os exageros da
supremacia da razão como dos subjetivismos, assumindo a relatividade dos fatores
objetivo e subjetivo, material e espiritual e sua unidade dialética. Trata-se da
relatividade intrínseca a todo o processo de conhecimento e não apenas da oposição
entre subjetivo e objetivo. Tem a ver com a própria capacidade humana de apreensão da
realidade, conforme sugere Lênin: “o que dificulta sempre é o pensamento porque ele
separa e mantém em distinção os momentos de um objeto ligados na realidade” (1955,
215).
Lukács nos adverte que nossos conhecimentos são apenas aproximações da
plenitude da realidade e por isso mesmo são sempre relativos. Na medida, porém, em
que representam a aproximação efetiva da realidade objetiva que existe
independentemente de nossa consciência, são sempre absolutos (1967, 233):
O caráter ao mesmo tempo absoluto e relativo da consciência forma unidade
indivisível. (...) Na medida em que as ciências sociais escamoteiam a dialética
do sentido absoluto e relativo do conhecimento, amputando-o de aproximação,
suprime-se a margem de liberdade filosófica da atividade social (1967, 235).
75
(g) entre indução e dedução: Joja chama nossa atenção para o fato de que na
lógica dialética indução-dedução são obrigatoriamente complementares e harmônicas.
Não podemos conhecer uma coisa a não ser decompondo-a, para a seguir recompô-la,
reconstruí-la e reagrupar suas partes. Análise e síntese são inseparáveis, mas para
sintetizar com êxito é preciso analisar. Portanto sempre que a indução parte do essencial
ela se confunde com a dedução, pois a análise dedutiva elimina as circunstâncias e
apresenta o fenômeno em sua simplicidade e essencialidade conceitual (Joja: 1964,
166).
Na verdade, Joja afirma a impropriedade dos termos indutivo, dedutivo, quando
se tenta dar conta da lógica dialética: “Na ordem do conhecimento”, diz ele,
“aprendemos o essencial por meio do geral por ser este mais acessível e manejável. Mas
o geral só se realiza no particular”.
Engels também se refere ao absurdo que é opor indução contra dedução como se
indução não fosse raciocínio e, portanto, igualmente dedução:
Indução e dedução vão necessariamente a par como síntese e análise. Em lugar
de se destacar uma delas como principal é preciso saber utilizá-las onde
couberem e isso só será possível quando se tenha em vista que elas vão a par e se
completam reciprocamente (1952, 230).
Como observação final sobre o princípio da totalidade na lógica dialética,
permitimo-nos reproduzir algumas observações de Sartre, em Question de Méthode,
pela sua plasticidade em descrever o que há de essencial nesse movimento:
O marxismo aborda o processo histórico com esquemas universalizantes e
totalizadores. (...) Mas em nenhum caso, nos trabalhos de Marx, esta perspectiva
pretende impedir ou tornar inútil
76
a apreciação do processo como totalidade singular: ele tenta mostrar os fatos no
pormenor e no conjunto. Se ele subordina os fatos anedóticos à totalidade, é
através daqueles que pretende descobrir esta. (...) Assim o marxismo vivo é
heurístico: com relação à pesquisa concreta, seus princípios e seu saber interior
aparecem como regulares” (1980, 27).
As observações de Sartre têm uma conotação histórica e uma advertência teórica
implícita contra os que tentam fazer do marxismo uma doutrina ou um pensamento
especulativo em relação à realidade. Esse afastamento do empírico tem constituído
prática acadêmica de muitos que se dizem marxistas. A crítica daí decorrente, tanto
dentro do próprio marxismo como a partir de outras correntes de pensamento, é a da
perda do movimento dialético da prática científica. Muitos marxistas, na sua atividade
intelectual, transformaram o processo de conhecimento em mera procura de fatos e
situações empíricas capazes de provar verdades contidas nos esquemas abstratos de
determinações gerais, diz-nos Thiollent (1982, 29). Portanto, ainda que tenhamos
mostrado as características básicas da metodologia dialética, o seu acontecer é uma
prática que não depende apenas de conhecimento técnico, mas de uma postura
intelectual e de uma visão social da realidade.
Quando do ponto de vista marxista, abordamos a questão da saúde/doença assim
como a medicina e as instituições médicas, esses fenômenos são colocados em relação
com a totalidade social e com cada uma de suas instâncias dentro da especificidade
histórica de sua manifestação. Saúde/doença passam a ser tratadas não como categorias
a-históricas mas como um processo fundamentado na base material de produção e com
as características biológicas e culturais com que se manifestam. São vistas como
manifestação tanto nos indivíduos como no coletivo, “de formas particulares de
articulação dos processos biológicos e sociais no processo de reprodução. Assim, o
individual, da mesma forma que o coletivo, são fenômenos biológicos socialmente
determinados” (Castellanos: 1985, 140).
No entanto, como na análise de qualquer outro setor, os estudos marxistas
relativos à saúde e às instituições médicas não tem uma unanimidade de abordagem.
García o divide entre os que enfatizam o
77
desenvolvimento das forças produtivas e os que acentuam a dinâmica histórica das
relações de produção (1983, 107).
No primeiro caso, García cita os estudos de Stern, Sigerist e Milton Therry
(1983, 113). Esses autores, ainda que pioneiros na leitura da saúde sob o enfoque
marxista nos Estados Unidos, não conseguem romper as barreiras do positivismo.
Veiculam uma visão desenvolvimentista da tecnologia própria da medicina oficial e uma
crença na possibilidade de domínio, pelos cientistas do setor, das doenças e da morte. A
falha particular de suas análises reside na visão idealista e tecnológica da medicina. Ao
mesmo tempo têm dificuldade de perceber as relações de desigualdades sociais, de
superexploração, da depredação da forma de trabalho e da pouca eficácia dos atos
médicos em relação às condições gerais da produção capitalista.
Suas obras veiculam também uma legitimação absoluta da medicina em relação
as alternativas mágico-religiosas e tradicionais da população. Desta forma os trabalhos,
particularmente os de Stern refletem uma visão bastante economicista-tecnocrática que
os aproximam do positivismo e das crenças dominantes do papel da medicina em
relação à construção do processo social (García: 1983, 114).
Dentre os autores que acentuam as relações de produção como o elemento
dinâmico e essencial da realidade social em relação ao tema da saúde, García destaca
Polack (1983, 116) na França com sua obra A Medicina do Capital. Esse livro ressalta o
fato de, no capitalismo, a questão da saúde/doença das diferentes classes sociais estar
marcada pela lógica do lucro, da produção e reprodução do sistema. Seu marco de
análise segue de certa forma as “teorias reprodutivistas” que desconhecem as lutas de
classes como centro da dinâmica social e portanto não encontram saída para os
esquemas de dominação. Seu trabalho reflete o ar de contestação da intelectualidade
francesa do movimento de maio de 1968. Embora ataque o economicismo, cai nas
tramas do estruturalismo. Minimiza ou omite as contradições que permitem à classe
trabalhadora encontrar respostas históricas e ser protagonista, mesmo dentro de sua
situação dominada.
Na América Latina, Laurell (1983: 133-159) mostra que a abordagem marxista
nasce junto com um movimento muito mais amplo da sociedade, a partir da década de
60. Trata-se de uma contestação ao sentido de progresso que a industrialização
dependente acarretou
78
nos países periféricos. A modernização capitalista se traduziu na internacionalização
acelerada do capital, industrialização e urbanização também aceleradas, fortes
migrações do campo para as cidade e uma desigualdade abissal entre os mais ricos e os
mais pobres dos países em questão.
Sem negar o papel do avenço e as contribuições da medicina, iniciou-se um
movimento intelectual no interior do setor saúde para buscar explicações mais totais,
mais históricas e mais adequadas para a situação de morbimortalidade das populações
dos países latino-americanos. Nesse esforço, não se pode separar o labor teórico e a luta
política que se desenvolvem pari passu, tanto no setor saúde como no movimento
social, para uma nova leitura e uma nova postura dos profissionais técnicos e
intelectuais da área.
Nunes (1985) se refere ao fato de que é a partir da década de 70 que cresce na
América Latina a recorrência ao materialismo histórico e dialética para explicar o
fenômeno da saúde/doença. Os estudos partem da premissa de que a posição de classe
explica melhor que qualquer fato biológico a distribuição da saúde/doença e os tipos de
patologias dominantes em determinada sociedade.
Essas análises realizam uma crítica radical aos equívocos positivistas e
desenvolvimentistas, mostrando: (a) que o avanço científico e tecnológico da medicina
não tem correspondido à melhoria de saúde das sociedades em seu conjunto; (b) que a
distribuição dos serviços está em razão inversa das necessidades da grande maioria da
população dos países latino-americanos; (c) neste ponto a critica atinge também os
fenomenólogos: que a prática e o saber médico fazem parte da dinâmica das formações
sócio-econômicas e é no interior delas, que podem ser explicados como fenômenos
históricos específicos, mas correlacionados com o processo social global. Os estudos
sob o enfoque do materialismo histórico abrangem as questões de saúde e sociedade
abrangem as questões de saúde e sociedade, políticas publicas, planejamento e
administração, concepções de saúde/doença, análises institucionais, saúde e processo de
trabalho e questões metodológicas. Dentre os autores citamos alguns que são referências
obrigatórias quando se toca na questão: Arouca (1975); Donnangelo (1976); Possas
(1981); Tambellini (1975); Laurell (1978; 1983; 1986; 1987); Breih e Granda (1986);
79
García (1981; 1983); Cordeiro (1980); Oliveira e Teixeira (1985); Nunes (1976; 1983;
1985); Mendes e Gonçalves (1979).
Nunes (1985) assinala que é também na década de 70 que o campo de reflexão
sobre a saúde se abre para as ciências políticas em particular, mas também para outras
áreas de ciências sociais como educação, nutrição, serviço social, junto com a
sociologia e a antropologia – desta vez com outras preocupações que a visão positivista
não abrangeia. Isso se deve a vários fatores: (a) a deterioração das condições de vida de
contingentes imensos da população aglomeradas nas cidades, passou a levantar questões
e a exigir respostas mais amplas que a definição apenas biológica da doença não
consegue expressar; (b) uma crescente consciência social de que a luta pela saúde faz
parte da construção da cidadania; (c) e a certeza, também por parte dos governos
instituídos, de que a saúde é um tema de grande interesse político.
No Brasil e na América Latina o objeto tradicional denominado Saúde Publica
passa a merecer tratamento, denominação e conotação que o traz do inespecífico
“público” referente à política de prevenção proposta pelo Estado, para o coletivo, que
sugere direitos, situação histórica, comprometimento de condições de vida social e uma
crítica ao indivíduo como responsável único por sua saúde/doença.
Teixeira especifica o que ela considera “mudança qualitativa” do enfoque
proposto na medida em que transfere a ênfase dos corpos biológicos para os corpos
sociais: grupos, classes e relações sociais referidos ao processo saúde/doença: “a
possibilidade de constituição de um corpo específico de conhecimento denominado
SAÚDE COLETIVA encontra-se dado precisamente pela adoção do método histórico-
estrutural” (1985, 90).
Cordeiro expressa assim a nova visão que enfatiza o social, o coletivo e o caráter
histórico que marca os modos de adoecer e morrer:
80
A doença em sua expressão normativa da vida, como fenômeno individual e em
sua expressão coletiva, epidemiológica, onde adquire significado no conjunto
das representações sociais e nas reivindicações políticas, está estruturada em
uma totalidade social. Como forma adaptativa da vida, resultante das relações
dos grupos sociais entre si e com a natureza, mediadas pelo processo de trabalho
e doença tem uma historicidade das relações sociais – econômicas, políticas e
ideológicas – que se realizam nas sociedades concretas (1985, 91).
Pelo fato de a área da Saúde ser um campo que necessariamente junta a teoria e
a prática de forma imediata, a posição marxista em relação às outras correntes de
pensamento (positivismo e fenomenologia) toma o caráter de uma luta ideológica e
política que repercute nos movimentos sociais e tem a influência deles em relação às
questões consagradas e emergentes.
Sob o ponto de vista teórico e metodológico a Saúde Coletiva como objeto de
estudo está em construção. Laurell (1983) refere-se à dificuldade do pensamento de
abranger e apreender as relações e correlações do tema com a imagem de “caixa preta”.
Isso indica ao mesmo tempo a necessidade de investimento tanto da delimitação dos
marcos conceituais como nos referenciais de abordagem.
Como objeto de intervenção, o tema Saúde Coletiva faz parte de um movimento
mais amplo que inclui nova definição conceitual de Saúde/Doença e de Estado
Ampliado, compreendendo a busca de mudanças qualitativas para o continente,
incluindo conquistas sociais profundas para a maioria da população. Faz parte também
de um processo de revisão e avaliação de um sistema de saúde totalmente defasado do
diagnóstico das necessidades e aspirações da população.
Como preocupação metodológica, o subsistema que maior ênfase e cuidados tem
merecido dentro da abordagem histórico-estrutural é a Saúde do Trabalhador. Seu eixo
básico é o Processo de Trabalho visto a partir das unidades de produção, sob o ponto de
vista histórico e como determinante para o desgaste e o quadro de morbidade dos
trabalhadores.
O último texto de Laurell, Para el estúdio de la salud em su relación com el
processo de produción (1987)
81
é um dentre uma série de estudos onde a autora tenta avançar, do ponto de vista
específico do processo de trabalho como fonte de doenças e de desgaste, para a
construção de um instrumento de abordagem que leve em conta a especificidade
histórica, indicadores que correlacionam variáveis do processo produtivo e as
experiências, percepções e opiniões dos próprios trabalhadores (1987: 1-34).
As contribuições das Ciências Sociais para a construção do conhecimento da
área da Saúde dentro do referencial histórico-estrutural, porém, enfrentam alguns
problemas. As questões atinentes ao tema, do ponto de vista do saber ou da prática,
compartilham do debate maior sobre a natureza das relações entre sujeito, estrutura e
sociedade humana. A linha considerada por Teixeira como o “próprio método da saúde
coletiva” (1985, 87) concebe a transformação como resultante das contradições entre
forças produtivas e relações de produção. Seu teórico de maior renome, Althusser,
resume assim a visão sobre o sujeito e a estrutura:
A estrutura das relações de produção determina os lugares e as funções que são
assumidas pelos agentes de produção que não são mais do que ocupantes destas
funções. Os verdadeiros ‘sujeitos’ não são seus ocupantes e funcionários (...)
contra toda as evidências do ‘dado’ da antropologia ingênua, não são os
‘indivíduos concretos’, os ‘homens reais’ mas a definição e a distribuição destes
lugares e destas funções. Os verdadeiros ‘sujeitos’ são pois estes definidores e
estes distribuidores: as relações de produção (Althusser: 1966, 157) (grifo do
autor).
A eleição das “relações técnicas” como sujeito traz em conseqüência uma visão
por vezes mecanicista e fetichizada da realidade contra a qual Marx nos previne em seu
texto “O Fetichismo da Mercadoria” (Marx: O capital, Livro I, 1971, 79-83), mostrando
que mesmo as relações técnicas e econômicas são relações sociais. Em Althusser o
sujeito só é considerado como “efeito ilusório das estruturas ideológicas” (Anderson:
1984, 44).
Na área da Saúde os resultados das análises histórico-estruturais se fazem sentir
na escolha das temáticas macrossociais e nas práticas
82
que privilegiam mudanças ao nível dos arcabouços políticos da dominação e da
organização e administração do setor. São pouco presentes os estudos que, a partir dos
sujeitos sociais e de suas representações, avaliam e questionam o sistema, os serviços e
as práticas.
A introdução mais recente do referencial gramsciano no conhecimento do setor
tem feito evoluir uma linha de pensamento que combina melhor a análise das estruturas
com o dinamismo próprio das relações e representações sociais. O conceito de
hegemonia permite analisar as relações entre as classes também fora do terreno da
produção econômica e trabalhar com os aspectos da direção cultural e política. Além
disso, o quadro teórico de Gramsci revaloriza o campo ideológico não apenas como
forma de dominação, mas também de conhecimento, identificando o dinamismo, a
concreção e a historicidade das visões diferenciadas de mundo (Gramsci: 1981).
Na mesma linha de abertura do leque conceitual para o dinamismo da ação dos
sujeitos na transformação das estruturas há outros autores cuja abordagem teórica
permite caminhar em busca do “ponto de Arquimedes” (Anderson: 1984, 123) marxista
na área da saúde, superando-se as dicotomias entre as estruturas objetivas e as relações
subjetivas.
A construção do referencial é o desafio da nova etapa de conhecimento. O
âmbito da totalidade tanto conceitual como de aproximação empírica deveria abranger:
(a) as condições de produção das unidades produtivas, priorizando-se o processo de
trabalho (Laurell: 1983; 1986; 1987); (b) as condições gerais de produção (Marx: O
capital, Livro I, 4ª seção, 1971, 421-458; Lojkine: 1981, 140-143); (c) o papel central
da ação humana na formaçõa das classes e no advento e superação das estruturas
(Thompson: 1978; Anderson, P.: 1984, 80-120); (d) a cultura como lugar de expressão
das definições tanto das relações essenciais como das especificidades dos grupos,
classes e segmentos (Verret: 1972; Gramsci: 1981; Goldmann: 1980).
No que concerne a esse quadro de totalidade é necessário redefinir os conceitos
considerados chaves para o conhecimento da saúde: (a) O processo de trabalho como
locus privilegiado das relações de produção e reprodução dessas relações e visto como
matriz de formação sócio-econômica, política e ideológica e portanto a luta de
83
classe, de dominação e de resistência. Essa definição extrapola aquela que dá ênfase nos
aspectos técnicos e econômicos, e abrange a totalidade das relações antagônicas entre
capital e trabalho no interior do processo produtivo. (b) As condições gerais de
produção na relação imediata entre o processo de produção e a estrutura social e política
onde se dá a organização do espaço, a distribuição da riqueza, dos equipamentos de vida
urbana e social, isto é, as condições de vida e a intervenção do Estado (Marx: 1971,
421-458; Lojkine: 1981, 120-122).
Lojkine nos adverte para o risco que é dividir, como se fossem dois mundos
diferentes, o da produção e o do consumo. Insiste em mostrar a necessidade de unir os
dois termos e recuperar, para a análise, o papel da política estatal na regulação dos
fenômenos sociais. O estudo das determinações deve contemplar o vínculo entre a
política estatal e a socialização contraditória das forças produtivas e das relações de
produção.
Referindo-se ao “urbano” Lojkine comenta que as formas de organização do
espaço fora das unidade produtivas se relacionam com o espaço dessa referidas
unidades, e são, antes de mais nada, formas de divisão social e territorial do trabalho:
“considerar a urbanização como domínio do consumo, do não-trabalho, opor
reprodução da força de trabalho a trabalho vivo, é retomar um dos temas da ideologia
burguesa segunda a qual só é atividade produtiva a atividade de produção da mais valia”
(Lojkine: 1981, 122).
Noutras palavras, a aglomeração da população, as diferenciações dos bairros, a
localização dos meios de consumo coletivo (equipamentos de saúde, educação,
transporte, cultura, lazer etc.) não têm leis diferentes daquelas que regem a acumulação
de capital. A esfera de produção, consumo e troca estão em permanente interação e são
todos espaços históricos de investigação.
Como conseqüência, a configuração histórica do espaço (urbano ou rural) que
congrega a produção e as condições gerais de produção é um locus demonstrativo e
efetivo das lutas de classe. Nele se cristalizam as contradições entre as exigências do
trabalho vivo e as
84
restrições a esse desenvolvimento, que a lógica da acumulação impõe.
Por sua vez, o Estado tem que ser incorporado nas análises, como um
instrumento que reflete as contradições e as próprias lutas de classes geradas pela
segregação social. O Estado é uma forma ampliada de socialização das condições gerais
de produção. Realiza: (a) a regulação social que atenua os efeitos das desigualdades, da
exclusão e da mutilação capitalista em relação às classes trabalhadoras; (b) a seleção, a
dissociação e a segregação dos recursos públicos destinados aos meios de consumo
coletivo (equipamentos e serviços de saúde, educação, transporte, saneamento, lazer etc)
para a reprodução da força de trabalho. (c) O papel da luta de classes na transformação
e no evento de novas estruturas: que significa a consideração da ação humana e o papel
do sujeito histórico no processo de mudanças. A ação tem o caráter não só de
transformar a natureza ao criar a possibilidade de existência mas também sustém e
reproduz o sujeito e modifica a realidade das suas relações sociais:
Não só as condições objetivas se modificam no ato da reprodução (...) mas também os
reprodutores mudam, pois trazem à luz novas qualidade que neles existiam, envolvem-
se com a produção, transformam-se, desenvolvem novos poderes e idéias, novos modos
de intercâmbio, novas necessidades e novas linguagens (Marx: 1973(a), 194)
A significação da ação do sujeito histórico em Marx não ignora o fato de que os
homens não são árbitros totalmente livres de seus atos. Pelo contrário, a leitura de seu
pensamento deixa claro que o produto da atividade prévia (os contextos sociais mesmo
de valores, crenças e atitudes) representa limitações sobre o leque de opções do
presente. No entanto, embora a realidade seja determinada em termos de seus
condicionantes anteriores, a ação presente só não é determinada pela realidade como é
capaz de deixar nela a sua marca transformadora. As considerações anteriores se
conjugam com : (d) A importância da cultura como mediadora entre a objetividade das
relações dadas e o sujeito da cultura como mediadora entre a objetividade das relações
dadas e o sujeito histórico transformador. Certamente o conceito de cultura só pode ser
entendido dentro de uma sociologia de classes que seja suficientemente
85
Abrangente para perceber: (a) o caráter de amplitude das visões dominantes e ao mesmo
tempo a recíproca aculturação que se processa inter e intraclasses, entre e intragrupos,
segmentos e categorias no que se concerne aos fenômenos sociais, incluindo-se a saúde
e a doença; (b) a luta de classes como sendo definida e explicitada nas estruturas e
mecanismos econômico-políticos formais, mais realizada também nas matrizes
essenciais de conformação do modo de vida, como a família, a vizinhança, os espaços
de lazer etc. Por a cultura enquanto produtora de categorias de pensar, sentir, agir e
expressar de determinado grupo, classe ou segmento, articula as concessões, os
conflitos, a subordinação e as resistências e lhes oferece sentido. Ela é um espaço de
expressão da subjetividade, mas é um lugar objetivo com a expessura do cotidiano por
onde passam e ganham cor os processos políticos e econômicos, os sistemas simbólicos
e o imaginário social. Em relação à saúde, a cultura, vista a partir dos sujeitos
individuais e coletivos, expressa a totalidade fundamental do ser humano que se resume
no perene conúbio entre corpo e mente, matéria e espírito, e que Marx tão bem descobre
na seguinte citação: “A visão da totalidade parte do indivíduo real particular, porque a
coletividade contra cuja separação por si, reage o indivíduo, é a verdadeira
coletividade do homem, o ser humano” (1972, 75).
Porém, a posição diferenciada das classes, categorias e/ou segmentos sociais lhe
confere uma forma peculiar de perceber, de reagir e de lutar frente aos fenômenos que
dizem respeito a sua vida e a sua morte. Nesse particular qualquer análise deve enfatizar
as diferenciações e a complexidade das relações entre e intraclasses, e as diferenças e
contradições entre sua prática e concepções (Verret: 1972, 5-12; Gramsci: 1987, 58).
O quadro teórico de aproximação da totalidade dos processos de saúde/doença,
na abordagem marxista “qualitativa” parte das representações sociais em relação
dialética com base material que as informa. Esse ponto de apoio em direção à
compreensão das estruturas se fundamenta na importância do pensamento para a ação e
no caráter contraditório, dinâmico e potencialmente transformador do campo ideológico
(Thompson: 1978; Gramsci: 1981; Verret: 1972).
86
Nesse ponto a reflexão se dirige para a verdade da tradição marxista que através de
Lukács, de Gramsci, de Sartre e de Thompson (para mencionar apenas alguns grandes
nomes) encaminham as questões da consciência de classes e do sujeito histórico, numa
perspectiva teórico-prática. Tal linha se opõe ao estruturalismo de Althusser que corta o
nó da relação entre sujeito e estrutura.

CONCLUSÕES
Quando tomamos diferentes correntes de pensamento para abordar, a partir
delas, questões metodológicas, assumimos a postura, segundo a qual a ciência em geral
não existe. Há práticas científicas diferenciadas, desigualmente desenvolvidas e que têm
como substratos “visões sociais de mundo” teoricamente diversas.
Tentamos nos aproximar, no texto, dos três principais marcos referenciais que
dentro das Ciências Sociais têm influenciado com maior vigor as produções teóricas e a
prática no campo da saúde. Seria reiterado dizer que a forma esquemática como
abordamos as várias possibilidades de apreender a realidade não são nem monolíticas e
nem fechadas. Como o objetivo deste trabalho é a questão metodológica visamos apenas
introduzir a problemática das correntes de pensamento, para, ao mesmo tempo sugerir
as dificuldades, a complexidade, e a especificidade do labor do cientista social no
campo da pesquisa. Isto é, não há normas mágicas institucional e univocamente
consagradas para a apreensão do real.
Gostaríamos de ressaltar mais uma vez que damos ênfase como opção de
abordagem, à metodologia dialética. Essa opção não é apenas uma postura ideológica.
Demo a coloca como a metodologia específica das ciências sociais porque é a mais
fecunda para analisar os fenômenos históricos. Sua opinião se baseia na observação da
realidade social e na adequação a ela do visão dialética que privilegia: (a) a contradição
e o conflito predominado sobre a harmonia e o consenso; (b) o fenômeno da transição,
da mudança, do vir-a-ser sobre a estabilidade; (c) o movimento histórico; (d) a
totalidade e a unidade dos contrários (1985: 86-100).
Goldmann fala com radicalidade:
87
Perguntar se as Ciências Sociais devem ser dialética ou não, é simplesmente
perguntar se elas devem compreender ou deformar a realidade (1980, 70).
Cardoso, em O Método Dialético na Análise Sociológica (1973) recupera a
contribuição do funcionalismo e do estruturalismo para a compreensão das totalidades
sociais, mas mostra que apenas o método dialético consegue apreender: (a) o real
fenomênico numa série de mediações pelas quais as determinações imediatas e simples
alcançam a inteligibilidade ao se circunscreverem em constelações globais; (b) as
representações da realidade dos atores sociais e as conexões específicas (não mecânicas
e irreversíveis) que a realidade empírica mantém com os fatores e efeitos essenciais que
determinam a dinâmica e o sentido do processo social; (c) a transformação da natureza e
da sociedade e, ao mesmo tempo, as regularidades estruturais e os fenômenos que se
repetem, como produto objetivado da atividade social; processo que está em permanente
criação pela ação humana (1973: 1-22).
Cardoso adverte que se pode, metodologicamente, recorrer a explicações
estruturais, funcionais, fenomenológicas etc., sob a condição de submetê-las às
representações fundamentais que o método dialético supõe da realidade (1973, 12). A
questão básica é de que essas outras correntes de pensamento tendem a eliminar as
tensões dialéticas, pois não fazem um questionamento do sentido das ações e das
transformações de sentido.
Neste trabalho, embora explicitando uma opção de método, tentamos abordar e
valorizar as diferentes contribuições de estudiosos quando, do nosso ponto de vista,
significam questionamentos ou reflexões sobre os problemas fundamentais da
metodologia da pesquisa. Durkheim, Weber, Schutz, Cicourel, Gurvitch, para mencionar
apenas alguns clássicos da sociologia, jamais poderiam ser omitidos. A ênfase dada aos
autores que se posicionam pela lógica dialética se deve ao fato de a considerarmos como
a que melhor responde às necessidades metodológicas da pesquisa social, que vinculam
a teoria à prática, mormente no campo da saúde, onde a realidade apela de forma tão
existencial e imediata:
88
Ser radical é tomar as coisas pelas suas raízes. Ora, para o homem, a raiz é o
próprio homem. Isso resulta na crítica (...) que conduza no imperativo categórico
de transformador as condições sociais nas quais o homem é um ser humilhado,
escravizado, abandonado e desprezível (Marx: 1959, 263).
89
CAPÍTULO 2
FASE EXPLORATÓRIA DA PESQUISA
A Fase Exploratória da Pesquisa é tão importante que ela em si pode ser
considerada uma Pesquisa Exploratória. Compreende a etapa de escolha do tópico de
investigação, da delimitação do problema, de definição do objeto e dos objetivos, de
construção do marco teórico conceitual, dos instrumentos de coleta de dados e da
exploração do campo.
A partir da perspectiva dialética que desejamos seguir, gostaríamos de apresentar
as balizas dentro das quais, a nosso ver, se processa o conhecimento. A primeira delas é
o seu caráter aproximado. Isto é, o conhecimento é uma construção que se faz a partir de
outros conhecimentos sobre os quais se exercita a apreensão, a crítica e a dúvida. É um
processo de tentativas que Limoeiro Cardoso esclarece muito bem, usando a imagem do
feixe de luz:
O conhecimento se faz a custo de muitas tentativas e da incidência de muitos
feixes de luz, multiplicando os pontos de vistas diferentes. A incidência de um
único feixe de luz não é suficiente para iluminar um objeto. O resultado dessa
experiência só pode ser incompleto e imperfeito, dependendo da perspectiva em
que a luz é irradiada e da sua intensidade. A incidência a partir de outros pontos
de vista e de outras intensidades luminosas vai dando formas mais definidas ao
objeto, vai construindo um objeto que lhe é próprio. A utilização de outras fontes
luminosas poderá formar um objeto inteiramente diverso, ou indicar dimensão
inteiramente novas ao objeto (Limoeiro Cardoso: 1978, 27s).
90
Esse caráter aproximado do saber intelectual é relevante em toda a teoria
marxista e Lênin comenta que, ao refletir a realidade, o conhecimento oferece sempre
uma imagem mais grosseira que o real, tanto no plano do pensamento como dos
sentimentos (1955, 218).
O segundo ponto diz respeito ao caráter da inacessibilidade do objeto. A
inatingibilidade do objeto se explica pelo fato de que as idéias que fazemos sobre os
fatos são sempre mais imprecisa, mais parciais, mais imperfeitas que ele. Portanto, o
processo de pesquisa consiste na definição e redefinição do objeto. De um lado, porque
seu conhecimento é fruto de um exercício de cooperação onde trabalhamos sobre as
descobertas uns dos outros; depois, porque cada teoria formula o objeto segundo seus
pressupostos. Neste sentido, como afirma Limoeiro Cardoso, ele é sempre uma
“representação” feita sob determinado ponto de vista, tentando, a seu modo, reproduzir
o real (1978, 30).
O terceiro ponto se refere à vinculação entre pensamento e ação. Ou seja, nada
pode ser intelectualmente um problema, se não tiver sido, em primeira instância, um
problema da vida prática. Isto quer dizer que a escolha de um tema não emerge
espontaneamente, da mesma forma que o conhecimento não é espontâneo. Surge de
interesses e circunstâncias socialmente condicionadas, frutos de determinada inserção
no real, nele encontrando suas razões e seus objetivos. Esse é um ponto de vista que
reúne tanto o racionalismo aberto de Bachelard (1968) como a dialética marxista
(Lukács: 1974; Habermas: 1980, 1988) e perspectivismo de Mannheim (1974).
O quarto ponto enfatiza o caráter originariamente interessado do conhecimento
ao mesmo tempo que sua relativa autonomia. O olhar sobre o Objeto está condicionado
historicamente pela posição social do cientista e pelas correntes de pensamento em
conflito na sociedade (Lowy: 1985, 15). Porém existe uma “autonomia relativa” das
ciências sociais, uma certa continuidade no interior dessa ciência (Marx continua, critica
e ultrapassa Ricardo na Teoria do Valor), uma lógica interna da pesquisa científica, uma
especialidade da ciência enquanto prática, visando a descoberta da verdade (Lowy:
1985, 9-16). Mannheim fala da questão reafirmando a estreita relação entre interesses
específicos de classe e teorias, métodos e preocupações sociológicas.
91
No entanto, diz ele, é necessário admitir que após uma classe ter descoberto
algum fato histórico ou sociológico, todos os grupos, qualquer sejam seus interesses,
não só podem levar em consideração as descobertas como as incorporam ao seu sistema
de interpretação do mundo. As correntes intelectuais diversas não se desenvolvem
isoladamente mas se afetam e se enriquecem mutuamente. Embora não se fundam num
sistema comum, consideram a totalidade dos fatos descobertos, partindo de diferentes
axiomas gerais (Mannheim: 1974, 28-30).
É dentro da perspectiva assinalada que passamos a discutir elementos que
compõem a fase exploratória de uma investigação e todas as etapas subseqüentes.
Tomamos em primeiro lugar o cuidado de definir alguns conceitos fundamentais
usados na prática das Ciências Sociais para construir o quadro teórico da pesquisa. Em
seguida discutimos a construção do objeto como um labor teórico e como esforço
prático de informação, crítica e experiência. E propormos depois e finalmente uma
discussão sobre o instrumento de apreensão dos dados empíricos e de entrada
exploratória no campo da investigação. Chamamos atenção para o tema Amostragem
Qualitativa que costuma ser um dos pontos de maior impasse para o investigador.
Nesse movimento aparentemente linear de desenho das etapas da pesquisa
queremos enfatizar, de um lado a necessidade, para fins de análise, de dar atenção a
cada procedimento; e de outro, para a liberdade de reconhecer as diferentes técnicas e
métodos como guias e prescindir deles quando se tornam obstáculos. É nessa interação
que se torna possível realizar um trabalho científico criador.

CONCEITOS FUNDAMENTAIS NA OPERACIONALIZAÇÃO DA PESQUISA


Antes de partirmos para a reflexão sobre o movimento que preside o processo de
definição do objeto, pretendemos definir alguns termos usados na atividade de pesquisa,
presentes em todo o desenvolvimento do trabalho e cruciais na primeira etapa. São eles:
teoria, conceito, noção, categoria, hipótese e pressupostos:
(a) Chamamos TEORIA a um conjunto inter-relacionado de princípios que
servem para dar organização lógica a aspectos
92
selecionados da realidade empírica. Uma teoria reúne um conjunto de pressupostos e
axiomas (uma afirmação cuja verdade é evidente e universalmente aceita em
determinada disciplina), proposições logicamente inter-relacionadas e empiricamente
verificáveis. As proposições de uma teoria são consideradas leis se já foram
suficientemente comprovadas, e hipóteses, se constituem ainda problema de
investigação. Na realidade, tanto leis como hipóteses estão sempre sujeitas à
problematização e à reformulação. A essência de uma teoria consiste na sua
potencialidade de explicar uma gama ampla de fenômenos através de um esquema
conceitual ao mesmo tempo abrangente e sintético.
O marxismo (uma teoria, ele mesmo) insiste no fato de que toda as teorias são
historicamente construídas, expressam interesses de classe porque são “representação do
real” a partir de determinadas escolhas articuladas com a prática social. Elas são
portanto formas de conhecimento e de desconhecimento, na medida em que projetam
luz sobre determinados aspectos da realidade e ocultam outros, num evidenciamento de
limitações lógicas e sociológicas (Lukács: 1967, 233; Lowy: 1985, 15-35).
A relação dialética entre teoria e realidade empírica se expressa no fato de que a
realidade informa a teoria que por sua vez a antecede, permite percebê-la, formulá-la,
dar conta dela, fazendo-a distinta, num processo sem fim de distanciamento e
aproximação. A teoria domina a construção do conhecimento através de conceitos gerais
provenientes do momento anterior. Seu aprofundamento, de forma crítica, permite
desvendar dimensões não pensadas a respeito da realidade que não é evidente e que não
se dá: ela se revela a partir de interrogações elaboradas no processo de construção
teórica;
(b) Toda construção teórica é um sistema cujas vigas mestras são representadas
pelos CONCEITOS. Os conceitos são unidades de significação que definem a forma e o
conteúdo de uma teoria. Podemos considerá-los como operações mentais que refletem
certo ponto de vista a respeito da realidade, pois focalizam determinados aspectos dos
fenômenos, hierarquizando-os. Desta forma eles se tornam um caminho de ordenação
da realidade, de olhar os fatos e as relações, e ao mesmo tempo um caminho de criação.
A teoria marxista torna evidente os aspectos históricos e comprometidos
93
da construção dos conceitos, chamando atenção para a necessidade de apreendê-los,
analisá-los e defini-los como historicamente específicos e socialmente condicionados. A
própria hierarquização dos conceitos, numa determinada teoria, revela a que aspectos da
realidade se dá maior atenção. Não se trata apenas de compreender alguns como sendo
logicamente mais elaborados (e o são), mas também de entender as determinações
sociológicas presentes na sua construção.
Daí ser importante introduzir o termo NOÇÃO. Etimologicamente a palavra
CONCEITO vem de concepção, isto é, está vinculada à subjetividade, ele é concebido.
Por noção entendemos aqueles elementos de uma teoria que não apresentam clareza
suficiente e são usados como “imagens” na explicação do real. Eles expressam também
o caminho do pensamento. Ou seja, expressam a relação intrínseca entre a experiência e
a construção do conhecimento. Ninguém coloca uma pergunta se nada sabe da resposta,
pois então não haveria o que perguntar. Todo saber está baseado em pré-conhecimento,
todo fato e todo dado já são interpretações, são maneiras de construirmos e de
selecionarmos a relevância da realidade: “se não quisermos que as categorias analíticas
que adotamos permaneçam estranhos ao objeto”, diz Demo, “devemos aceitar a
existência de noções prévias” (Demo: 1981, 18).
(c) Aos conceitos mais importantes dentro de uma teoria denominamos
CATEGORIAS. O termo “categoria” possui uma conotação classificatória. Theodorson
& Theodorson, por exemplo, definem as categorias como conceitos usados com
finalidade de classificação. Dentro de uma visão positivista: “as categorias são rubricas
ou classes as quais reúnem um grupo de elementos sob um título genérico, agrupamento
esse efetuado em razão dos caracteres comuns desses elementos” (Bardin: 1879, 117). O
conceito é usado por Bardin de forma instrumental dentro da técnica de análise de
conteúdo.
94
Na “Introdução” à Crítica da Economia Política (1973, 211-241), Marx faz uso
por diversas vezes do termo “categoria” para indicar conceitos relativos à realidade
historicamente relevantes, expressando os aspectos fundamentais dentro de sua
abordagem, das relações dos homens entre si e com a natureza. Para o marxismo as
categorias não são entidades, são construídas através do desenvolvimento do
conhecimento e da prática social. Trabalho, Classe Social, Família, Consciência de
Classe, por exemplo, são categorias que expressam a unidade das relações entre o
histórico e o lógico.
Para a finalidade deste trabalho, distinguimos entre Categorias Analíticas e
Categorias Empíricas. As primeiras são aquelas que retêm historicamente as relações
sociais fundamentais e podem ser consideradas balizas para o conhecimento do objeto
nos seus aspectos gerais. Elas mesmas comportam vários graus de abstração,
generalização e de aproximação. As segundas são aquelas construídas com finalidade
operacional, visando ao trabalho de campo (a fase empírica) ou a partir do trabalho de
campo. Elas têm a propriedade de conseguir apreender as determinações e as
especificidades que se expressam na realidade empírica. Por exemplo, Consciência
Social e Consciência de Classe, Representação Social, se situam como categorias de
análise, num nível elevado de abstração. Concepção de Saúde/Doença é um conceito
operacionalizável a partir das categorias analíticas citadas acima. Por outro lado, se
surge através do trabalho de campo uma expressão como “Doença de Deus” em
oposição a “Doença dos Homens”, a compreensão dessas duas categorias empíricas a
partir do ponto de vista dos atores sociais, possibilita desvendar relações específicas do
grupo em questão. Isto é, permite revelar condições empíricas mistificada, concepções
peculiares do objeto e relações dinâmicas desse segmento no que diz respeito à
sociedade e à natureza. Essa categoria empírica, construída a partir dos elementos
dados pelo grupo social, tem todas as condições de ser colocada no quadro mais amplo
de compreensão teórica da realidade, e de, ao mesmo tempo, expressá-la em sua
especificidade. Permite avançar o conhecimento a partir da categoria analítica
“representações sociais” operacionalizada numa categoria empírica, por sua vez
adquirindo possibilidade analítica;
95
(d) Definimos HIPÓTESES como afirmações provisórias a respeito de
determinado fenômeno em estudo. São afirmações parra serem testadas empiricamente
e depois confirmadas ou rejeitadas. Uma hipótese científica deriva de um sistema
teórico e dos resultados de estudos anteriores e portanto fazem parte ou são deduzidas
das teorias, mas também podem surgir da observação e da experiência nesse jogo
sempre impreciso e inacabado que relaciona teoria e prática.
Goode & Hatt propõem algumas condições para a formulação de hipóteses em
ciências sociais que resumimos a seguir: (a) que sejam conceitualmente claras,
parcimoniosas e com poder explicativo, chegando a definir sua operacionalidade; (b)
que tenham referências empíricas, isto é, que estejam relacionadas com os fenômenos
concretos que se pretende estudar; (c) que sejam relacionadas com as técnicas
disponíveis, isto é, possibilitem a apreensão empírica dos aspectos que se quer
investigar (Goode & Hatt: 1969, 40-47).
Da mesma forma que os termos problematizados anteriormente, as Hipóteses
têm sua história, fazem parte do quadro de preocupações teórico-práticas do
investigador, e das preocupações dominantes numa época. Ou seja, perguntamo-nos por
aspectos da realidade que a ciência – historicamente condicionada – se interessa.
O próprio termo “hipótese” possui uma conotação positivista que crê na
possibilidade do conhecimento objetivo da realidade e nas provas estatístico-
matemáticas como comprovadoras da objetividade. Hoje tanto o marxismo como a
fenomenologia, embora incorporem o conceito de “hipóteses” o reinterpretam e o
problematizam. Na abordagem qualitativa, as hipóteses perdem a sua dinâmica formal
comprobatória para servir de caminho e de baliza no confronto com a realidade
empírica. Costuma-se até a usar o termo PRESSUPOSTOS para falar de alguns
parâmetros básicos que permitem encaminhar a investigação empírica qualitativa,
substituindo-se assim o termo Hipótese com conotações muito formais de abordagem
quantitativa.
Com relação a essa temática se estabelece uma polêmica histórica que a nosso
ver constrói uma falsa dicotomia entre dados quantitativos e dados qualitativos. A
tendência é de se atribuir a pecha de imprecisão aos últimos, no sentido que não
permitem testes “precisos” como a “abordagem científica” exige. Daí que, quando surge
96
a questão da verificação, muitos analistas se voltam para os dados quantificáveis.
É necessário ultrapassar esse viés positivista das ciências sociais e quando for
possível quantificar, quantificamos, mas não coloquemos aí a cientificidade do trabalho.
Os dados “qualitativos” são importantes na construção do conhecimento e, também eles,
podem permitir o início de uma teoria ou a sua reformulação, refocalizar ou clarificar
abordagens já consolidadas, sem que seja necessária a comprovação formal quantitativa.
O princípio geral é de que todos os dados devem ser articulados com a teoria. A
observação científica, seja a partir de hipóteses bem delineadas, seja com pressupostos
mais gerais, é sempre polêmica, confirma ou infirma teses anteriores.
A natureza mais aberta e interativa de um trabalho qualitativo que envolve
observação participante, permite que o investigador combine o afazer de confirmar ou
infirmar hipóteses com as vantagens de uma abordagem não-estruturada. Colocando
interrogações que vão sendo discutidas durante o processo de trabalho de campo, ela
elimina questões irrelevantes, dá ênfase a determinados aspectos que surgem
empiricamente e reformula hipóteses iniciais e provisórias.
Essas observações que têm como ênfase a questão das hipóteses na abordagem
qualitativa fazem-nos voltar para um clássico da antropologia funcionalista,
Malinowski, mas que nesse particular praticava um raciocínio dialético. De acordo com
a sua orientação, o investigador tem que se esmerar na constituição, ampliação e
articulação de seu quadro teórico. É esse referencial que lhe permite estabelecer
perguntas fundamentais para compreensão da realidade empírica. Porém, deve
conservar uma abertura e flexibilidade capazes de, apesar da teoria, descobrir as
particularidades da realidade empírica (Malinowski: 1980, 17-24). Certamente essas
observações o locam o trabalho científico bem acima de uma postura técnica de
comprovação ou infirmação de hipóteses.

A DEFINIÇÃO DO OBJETO
Geralmente quando nos propomos a iniciar uma atividade de pesquisa, nós a
situamos dentro de um quadro de preocupações teórico-práticas. Ou seja, temos uma
Área de Interesse que é um campo de práticas, onde as questões que incitam nossa
curiosidade teórica se concentram, como por exemplo, Saúde do Trabalhador, Políticas
Públicas, Saúde e Cultura, Educação e Saúde etc. No interior dessa Área de Interesse
que antecede e ultrapassa um projeto específico, se situa a questão da definição do
Objeto ou a definição do Problema. Trata-se de um recorte capaz de conter relações
essenciais e expressar especificidade.
Do ponto de vista prático o Objeto é geralmente colocado em forma de pergunta
– é uma questão – e se vincula a descobertas anteriores e a indagações provenientes de
múltiplos interesses (de ordem lógica e sociológica). A clareza e a precisão nesse
primeiro instante decorre de uma relação dialética entre o esforço de estabelecer marcas
conceituais o mais possível amplos e abrangentes e de os articular a prática. Ou seja, de
os vincular aos interesses e problemas que estão mobilizando a escolha do tema. O real
está sempre colocado como premissa, embora operacionalmente partamos da elaboração
do abstrato para o concreto.
Para o delineamento do objeto, a primeira tarefa a que nos propomos é um
trabalho de pesquisa bibliográfica, capaz de projetar luz e permitir uma ordenação ainda
imprecisa da realidade empírica. Esse labor inicial tem algumas condições necessárias:
A primeira delas é de que a bibliografia seja suficientemente ampla para traçar a
moldura dentro da qual o objeto se situa: a busca de vários pontos de vista, dos
diferentes ângulos do problema que permitam estabelecer definições, conexões e
mediações, e demonstrar o “estado da arte”. Vejamos um exemplo. Suponhamos as
Concepções de Saúde-Doença de determinado segmento social como objeto de
investigação. A sua compreensão implica uma pesquisa bibliográfica que inclua: (a)
historicamente o perfil do determinado segmento: sua inserção nas relações sociais de
produção, suas condições de vida e de trabalho, consumo, acesso a bens e serviços e em
especial àqueles que se referem ao conceito de Saúde vigente; (b) o conceito
historicamente construído de Saúde que vamos adotar, incluindo aí as políticas do setor
que o situam do ponto de vista dominante; (c) o conceito de representação social que
torna operacional a investigação e a análise.
Ora, o desenho desse quadro inicial exige o domínio anterior de
97
algumas categorias analíticas fundamentais que constituem pontos de referência gerais
numa análise dialética, como Modo de Produção, Formação Social, Classes,
Consciência Social (de Classe e Sanitária). Porém, essas categorias não necessitam estar
presentes no discurso teórico que organiza o projeto de pesquisa. Dele devem constar as
definições que se fazem necessárias para fazer surgir do “caos inicial” o objeto
específico com seus contornos gerais.
O segundo aspecto a ser observado em relação à bibliografia diz respeito à sua
leitura. É necessário abordá-la como um exercício de crítica teórica e prática. Ou seja,
na pesquisa bibliográfica devemos destacar as categorias centrais, os conceitos e as
noções usadas pelos diferentes autores. Além disso, porém, faz-se mister destacar os
pressupostos teóricos e as razões práticas que subjazem aos trabalhos que consultamos.
Esse exercício hermenêutico é fundamental para o esclarescimento da posição que
vamos adotar.
98
O terceiro ponto relativo ao material de consulta tem um caráter disciplinar e
operacional, também necessário no processo de objetivação. Trata-se da tarefa de
fichamento onde todo o estudo vai sendo cuidadosamente classificado e ordenado: (a)
Fichamento bibliográfico: cada livro, artigo, capítulo de livro, documento, recorte de
jornal, todo o material trabalhado vai recebendo uma ficha própria (dentro das regras de
fichamento oficiais), em ordem alfabética por autor e por assunto, conforme a opção do
investigador; (b) Fichamentos por assunto: onde as matérias lidas são resumidas e
criticadas com anotações do leitor. É importante nesse tipo de fichamento que o
investigador destaque os principais conceitos usados pelo autor no seu trabalho; (c)
Fichamento por temas, que reúne anotações e resumos a respeito de questões
especificamente pertinentes ao contorno do objeto de estudo; (d) Fichamento de citação,
com o devido cuidado de indicar páginas, data de publicação e contexto da citação. Essa
modalidade de fichamento pode ser incluída na classificação por temas ou por assuntos.
No caminho entre as idéias iniciais que induziram à escolha bibliográfica, a
leitura dos textos e as indagações referentes à realidade empírica (que aparece sempre
como premissa), o investigador organiza o discurso teórico da pesquisa que pode se
apresentar da seguinte forma: (a) Definição do Objeto (definição como recorte em todos
os seus aspectos e sempre provisória dentro da abordagem dialética que adotamos); (b)
Justificativa: que descreve os motivos vivenciais e teóricos que impulsionaram a
escolha do objeto. Colocando-se aí as principais indagações do pesquisador; (c) Marco
conceitual teórico-metodológico onde se estabelecem os principais conceitos, categorias
e noções com as quais se vai trabalhar, definem-se as hipóteses ou pressupostos da
investigação e o “caminho de pensamento” que orientará o trabalho.
99
CONSTRUÇÃO DOS INSTRUMENTOS DE PESQUISA
Ao nível da pesquisa qualitativa os instrumentos de trabalho de campo são: o
roteiro de entrevista, os critérios para observação participante e os itens para discussão
de grupos focais.
Nesta altura do trabalho falamos já explicitamente da pesquisa qualitativa
porque estamos num espaço muito próximo à realidade empírica e totalmente ligada aos
marcos conceituais do método.
I – O ROTEIRO DA ENTREVEISTA difere do sentido tradicional do
questionário. Enquanto este último pressupõe hipóteses e questões bastante fechadas,
cujo ponto de partida são as referências do pesquisador, o roteiro tem outras
características. Visando a apreender o ponto de vista dos atores sociais previstos nos
objetivos da pesquisa, o roteiro contém poucas questões. Instrumento para orientar uma
“conversa com finalidade” que é a entrevista, ele deve ser o facilitador de abertura, de
ampliação e de aprofundamento da comunicação. Dele constam apenas alguns itens que
se tornam indispensáveis para o delineamento do objeto, em relação à realidade
empírica e devem responder às seguintes condições: (a) cada questão que se levanta,
faça parte do delineamento do objeto e que todas se encaminhem para lhe dar forma e
conteúdo; (b) permita ampliar e aprofundar a comunicação e não cerceá-la; (c) contribua
para emergir a visão, os juízos e as relevâncias a respeito dos fatos e das relações que
compõem o objeto, do ponto de vista dos interlocutores.
100
Roteiro é sempre um guia, nunca um obstáculo, portanto não pode prever todas
as situações e condições de trabalho de campo. É dentro dessa visão que deve ser
elaborado e usado. No processo de pesquisa pode surgir a necessidade da elaboração de
um questionário fechado para captar os aspectos considerados relevantes para iluminar a
compreensão do objeto, estabelecer relações e generalizações. É importante o uso de
várias técnicas e não há oposição entre elas. O princípio básico para elaboração do
questionário é o mesmo que adotamos em relação ao roteiro: cada questão tenha como
pressuposto o marco teórico desenhado para a construção do objeto.
II – Com relação aos instrumentos para a OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE, é
importante que o investigador tome algumas decisões nesse momento preparatório. Ou
seja, será uma observação livre ou realizada através de roteiro específico? Abrangerá o
conjunto do espaço e do tempo previsto para o trabalho de campo ou se limitará a
instantes e/ou a aspectos da realidade, dando ênfase a determinados elementos na
interação?
De acordo com os objetivos da pesquisa, deve-se estabelecer a forma e o
conteúdo dessa atividade fundamental na abordagem qualitativa, ainda que no processo
da investigação se perceba a necessidade de realizar mudanças. Lembramos que toda a
observação deve ser registrada num instrumento que convencionamos chamar de
DIÁRIO DE CAMPO. Desse caderno constam todas as informações que não sejam o
registro das entrevistas formais. OU seja, observações sobre conversas informais,
comportamentos, cerimoniais, festas, instituições, gestos, expressões que digam respeito
ao tema da pesquisa. Fala, comportamentos, hábitos, usos, costumes, celebrações e
instituições que compõe o quadro de REPRESENTAÇÕES SOCIAIS5.
III – Da mesma forma que os anteriores, os instrumentos para debate dos
GRUPOS FOCAIS (caso a organização do trabalho preveja) necessita aqui ser
delineados. Pode-se, por exemplo, decidir que os temas de discussão e a dinâmica
adequada serão escolhidos depois
101
da realização das entrevistas. Ou pelo contrário, o investigador decide estabelecer de
antemão o conteúdo e as formas de debate para que os grupos focais se processem pari
passu com as outras técnicas de abordagem. É possível também que se tomem as
discussões em grupo como o instrumento principal de abordagem da pesquisa. Daí que
o conteúdo dos grupos de estudo vai diversificar: (a) pode ter um papel complementar,
dando ênfase a alguns aspectos considerados relevantes; (b) pode repetir as questões do
roteiro para se perceber a realização da interação individual e grupal; (c) pode merecer
um aprofundamento sucessivo, em várias sessões, tomando um caráter substantivo na
pesquisa.
A investigação qualitativa requer como atitudes fundamentais a abertura, a
flexibilidade, a capacidade de observação e de interação com o grupo de investigadores
e com os atores sociais envolvidos. Seus instrumentos costumam ser facilmente
corrigidos e readaptados durante o processo de trabalho de campo, visando às finalidade
5
Termos empregados aqui genericamente como entrevista, observação participante, representações sociais, trabalho de campo, estão
conceituados e problematizados no terceiro capítulo deste estudo.
da investigação. Mas não se pode ir para a atividade de campo sem se prever as formas
de realizá-lo. Improvisá-lo significaria correr o risco de romper os vínculos com o
esforço teórico de fundamentação, necessário e presente em cada etapa do processo de
conhecimento.

EXPLORAÇÃO DO CAMPO
A EXPLORAÇÃO DO CAMPO contempla as seguintes atividades: (a) escolha
do espaço da pesquisa; (b) escolha do grupo de pesquisa; (c) estabelecimento dos
critérios de amostragem; (d) estabelecimento de estratégias de entrada em campo.
Pouco temos a dizer sobre os dois primeiros itens, a não ser lembrar a sua
adequação prática ao delineamento do objeto teórico. Sabemos que este momento
envolve interação, conhecimento e contatos anteriores, experiências e lastros de trabalho
e de envolvimento que ultrapassam as preocupações lógicas do investigador.
A questão da amostragem em pesquisa qualitativa merece comentários especiais
de esclarescimento. Ela envolve problemas de escolha do grupo para observação e para
comunicação direta. A quem entrevistar, a quem observar e o que observar, o que
discutir e com quem discutir?
102
Numa abordagem qualitativa, definida a população, busca-se um critério de
representatividade numérica que possibilite a generalização dos conceitos teóricos que
se quer testar. Numa busca qualitativa, preocupamo-nos menos com a generalização e
mais com o aprofundamento e abrangência da compreensão seja de um grupo social, de
uma organização, de uma instituição, de uma política ou de uma representação.
Seu critério portanto não é numérico. Podemos considerar que uma amostra
ideal é aquela capaz de refletir a totalidade nas suas múltiplas dimensões. Portanto
propomos alguns critérios básicos para a amostragem: (a) definir claramente o grupo
social mais relevante para as entrevistas e para a observação; (b) não se esgotar
enquanto não delinear o quadro empírico da pesquisa; (c) embora desenhada
inicialmente como possibilidade, prever um processo de inclusão progressiva
encaminhada pelas descobertas do campo e seu confronto com a teoria; (d) prever uma
triangulação6. Isto é, em lugar de se restringir a apenas uma fonte de dados, multiplicar
as tentativas de abordagem.
Como conseqüência, a amostragem qualitativa: (a) privilegia os sujeitos sociais
que detêm os atributos que o investigador pretende conhecer; (b) considera-os em
número suficiente para permitir uma certa reincidência das informações, porém não
despreza informações ímpares cujo potencial explicativo tem que ser levado em conta;
(c) entende que na sua homogeneidade fundamental relativa aos atributos, o conjunto de
informantes possa ser diversificado para possibilitar a apreensão de semelhança e
diferenças; (d) esforça-se para que a escolha do locus e do grupo de observação e
informação contenham o conjunto de experiências e expressões que se pretende
objetivas com a pesquisa.
Tomemos como exemplo uma pesquisa da Avaliação Qualitativa da Atenção
Primária à Saúde numa favela. A amostragem tem que
103
abranger todos os atores que compõem o programa, com ênfase no grupo social mais
relevante para a investigação, isto é, famílias com crianças cuja faixa etária se inclui
nessa política de saúde. Mas dentro desse grupo seria interessante recobrir mães que
recebem os benefícios do programa e outras que não recebem, permitindo contrastes e
comparações. É necessário, por outro lado, incluir a instituição pública, os profissionais
e agentes de saúde responsáveis pela aplicação da política. E por fim abordar outros
6
Triangulação é um termo usado nas abordagens qualitativas para indicar o uso concomitante de várias técnicas de abordagens e de
várias modalidades de análise, de vários informantes e pontos de vista de observação, visando à verificação e validação da pesquisa.
Falamos mais extensivamente sobre o tema na parte de Validação e Verificação.
sujeitos sociais relacionados com a questão como farmacêuticos, curandeiros, rezadeiras
etc. Muitos atores sociais serão descobertos no decorrer da pesquisa, no efeito da
inclusão progressiva na amostragem. Certamente o número de pessoas é menos
importante do que a teimosia de enxergar a questão sob várias perspectivas, pontos de
vista e de observação.
A questão da validade dessa amostragem está na sua capacidade de objetivar o
objeto empiricamente, em todas as suas dimensões.
A ESTRATÉGIA DE ENTRADA em campo tem que prever os detalhes do
primeiro impacto da pesquisa, ou seja, como apresentá-las, como apresentar-se, a quem
se apresentar, através de quem, com quem estabelecer os primeiros contatos. O processo
de investigação prevê idas ao campo antes do trabalho mais intensivo, o que permite o
fluir da rede de relações e possíveis correções já iniciais dos instrumentos de coleta de
dados. Por fim, terminada essa fase bastante prática mas crucial para o desenvolvimento
da investigação, serão estabelecidos os primeiros contatos e o calendário de viabilidade
e realização da etapa empírica.
A Fase Exploratória termina formalmente com a entrada em campo. Na
realidade, como temos repetido por diversas vezes, as etapas se interpenetram e o
esforço de delinear esse começo de caminho tem sua raiz na teoria e na prática.
Talvez a insistência na disciplina e método de construção teórica e instrumental
possa parecer ênfase demasiada na tecnologia. Porém, da nossa parte, esse aviso de
cuidados vem da experiência da área. São muitos os estudos que encontramos que
desdenham ora as referências teóricas como se o real fosse evidente, ora o trabalho de
campo como se a teoria fosse fruto de especulação e o que pensamos refletisse a
imagem do pensado.
104
A abordagem dialética heurística parte de um quadro conceitual (que tem como
premissa a realidade empírica) para levantar o conjunto de determinações e
especificações do real concreto. Vamos portanto para o Trabalho de Campo!
105
CAPÍTULO 3
FASE DE TRABALHO DE CAMPO
Entendemos por Campo, na pesquisa qualitativa, o recorte espacial que
corresponde à abrangência, em termos empíricos, do recorte teórico correspondente ao
objeto de investigação. Por exemplo, se se trata de entender as concepções de
saúde/doença de determinado grupo social; se se trata de entender a relação pedagógica
entre médico/paciente; se se busca compreender o impacto de determinada política
pública para a população, cada um desses temas corresponde a um campo empírico
determinado. A pesquisa social trabalha com gente, com atores sociais em relação, com
grupos específicos. Esses sujeitos de investigação, primeiramente, são construídos
teoricamente enquanto componentes do objeto de estudo. No campo, fazem parte de
uma relação de intersubjetividade, de interação social com o pesquisador, daí resultando
um produto novo e confrontante tanto com a realidade concreta com as hipóteses e
pressupostos teóricos, num processo mais amplo de construção de conhecimentos.
O trabalho de campo constitui-se numa etapa essencial da pesquisa qualitativa,
que a rigor não poderia ser pensada sem ele. Opõe-se aos “surveys” que trazem os
sujeitos para o laboratório do pesquisador, mantém com eles uma relação estruturada,
segundo Malinowski, “um excelente esqueleto ao qual faltam carne e sangue”. Na
pesquisa qualitativa a interação entre o pesquisador e os sujeitos pesquisados é
essencial. Sua preocupação é de que “todo o corpo e sangue da vida real componham o
esqueleto das construções abstratas”.
106
O trabalho de campo é de tal forma valorizado na pesquisa social qualitativa que
Lévi-Strauss chega a afirmar a seu respeito:
A pesquisa de campo, por onde começa toda a carreira etnológica, é mãe e ama-
de-leite da dúvida, atitude filosófica por excelência. Essa “dúvida antropológica”
não consiste apenas em saber que não se sabe nada, mas em expor resolutamente
o que se acreditava saber e a própria ignorância, aos insultos e aos desmentidos
que infligem a idéias e hábitos muito caros, àqueles que podem contradizê-los no
mais alto grau. Ao contrário do que a aparência sugere, é por seu método mais
estritamente filosófico que a etnologia se distingue da sociologia (1975, 220).
Lévi-Strauss faz a afirmação a partir de uma consideração de Merleau-Ponty
segundo o qual: “cada vez que o cientista social retorna às fontes vivas de seu saber,
àquilo que nele opera como meio de compreender as formações culturais mais afastadas
de si, faz filosofia espontaneamente” (1975, 222).
As operações mentais decorrentes das atitudes e práticas de integração no campo
da pesquisa, segundo Lévi-Strauss, ajudam o investigador a confrontar-se com seu
objeto diretamente, pois faz assim uma: “sociologia de carne e osso que mostra os
homens engajados no seu próprio devir histórico e instalados em seus espaço geográfico
concreto” (1975, 212).
E acrescenta de forma radical a afirmação de Mauss sobre seu objeto de estudo:
“não é prece ou dom que importa entender, o que conta é o melanésio de tal ou tal ilha.
Contra o teórico, o observador deve ter sempre a última palavra; e contra o observador,
o indígena” (1975, 211).
107
São componentes do trabalho de campo duas categorias fundamentais que
tentaremos abordar mais exaustivamente: (a) a Entrevista, nome genérico no qual
incluiremos diferentes abordagens que podem ser decompostas em: entrevista aberta,
entrevista estruturada, entrevista semi-estruturada, entrevistas através de grupos focais e
história de vida. Fazem parte da relação mais formal do trabalho de campo em que
intencionalmente o pesquisador recolhe informações através da FALA dos atores
sociais. Dada a importância desse momento da pesquisa abordaremos as diversas
formas de entrevistas e daremos ênfase ao referencial teórico sobre a FALA e seu
contexto através da categoria Representações Sociais e, em particular, Representações
Sociais de Saúde/Doença. (b) A Observação Participante como o momento que enfatiza
as relações informais do pesquisador no campo. Essa “informalidade aparente” reveste-
se porém de uma série de pressupostos, de cuidados teóricos e práticos que podem fazer
avançar ou também prejudicar o conhecimento da realidade proposta.
Pela sua importância, o trabalho de campo tem que ser pensado a partir de
referenciais teórico e também de aspectos operacionais que envolvem questões
conceituais. Isto é, não se pode pensar num trabalho de campo neutro. A forma de
realizá-lo revela as preocupações científicas dos pesquisadores que selecionam tanto os
fatos a serem coletado como o modo de recolhê-los. Esse cuidado faz-nos lembrar mais
uma vez que o campo social não é transparente e tanto o pesquisador como os atores,
sujeitos-objeto da pesquisa interferem dinamicamente no conhecimento da realidade.

A ENTREVISTA
Ao lado da observação participante, a entrevista – tomada no sentido amplo de
comunicação verbal, e no sentido restrito de colheita de informações sobre determinado
tema científico – é a técnica mais usada no processo de trabalho de campo.
Kahn & Cannell oferecem-nos a seguinte definição para o que denominam
“entrevista de pesquisa”:
108
Conversa a dois, feita por iniciativa do entrevistador, destinada a fornecer
informações pertinentes para um objeto de pesquisa, e entrada (pelo
entrevistador) em temas igualmente pertinentes com vistas a este objetivo (1962,
52).
A referida conceituação poderia ser replicada com pequenas diferença, pelos
diferentes autores que tratam do tema (Thiollent: 1978; Schrader: 1968; Michelat: 1975;
Kandel: 1972; Goode & Hat: 1952; Hyman: 1954).
Mediante a entrevista podem ser obtidos dados de duas naturezas: (a) os que se
referem a fatos que os pesquisadores poderia conseguir através de outras fontes como
censos, estatísticas, registros civis, atestados de óbitos etc. São dados a que Lundberg
chama “objetivos” (1946); Parga Nina denomina “concretos” (1983) e Gurvitch (1955)
os qualifica como pertencentes ao nível “ecológico ou morfológico” da realidade. (b) os
que se referem diretamente ao indivíduo entrevistado, isto é, suas atitudes, valores e
opiniões. São informações ao nível mais profundo da realidade que os cientistas sociais
costumam denominar “subjetivos”. Só podem ser conseguidos com a contribuição dos
atores sociais envolvidos.
Dessa forma a entrevista como fonte de informação fornece dados secundários e
primários, referentes, segundo Jahoda, a “fatos, idéias, crenças, maneiras de pensar;
opiniões, sentimentos, maneiras de sentir; maneiras de atuar; conduta ou
comportamento presente ou futuro; razões conscientes ou inconscientes de determinadas
crenças, sentimentos, maneiras de atuar ou comportamentos” (1951, 152).
Segundo a forma em que se estrutura a entrevista, ela pode ser de vários tipos.
Honningmann oferece a seguinte classificação: (a) sondagem de opinião, elaborada
mediante questionário totalmente estruturado, onde a escolha do informante está
condicionada pela multiplicidade de respostas apresentadas pelo entrevistador; (b)
entrevistas semi-estruturada que combina perguntas fechadas (ou estruturadas) e
abertas, onde o entrevistador tem a possibilidade de discorrer o tema proposto, sem
respostas ou condições prefixadas pelo pesquisador; (c) entrevista aberta, quando o
informante discorre livremente sobre o tema que lhe é proposto; (d) entrevista não-
diretiva “centrada” ou “entrevista focalizada” onde se aprofunda a
109
conversa sobre determinado tema sem prévio roteiro; (e) entrevista projetiva, isto é,
centrada em técnicas visuais (quadros, pinturas, fotos) usadas quase sempre para
aprofundar informações sobre determinado grupo (Honnigmann: 1954).
Podemos dizer que as diferentes formas de entrevistas se resumem em
“estruturada” e “não-estruturada” entre as quais há várias modalidades que se
diferenciam em maior ou menos grau pelo fato de serem mais ou menos dirigidas. A
entrevista focalizada que pode ser feita tanto com um par de interlocutores, como em
grupo, tem suas raízes no não-diretivismo de Carl Rogers e foi introduzida nas ciências
sociais, de forma mais elaborada, por Merton (1956: 541s). Ela pertence à categoria
mais geral de pesquisa aberta ou não-estruturada e visa a colocar as respostas do sujeito
no seu próprio contexto, evitando-se a prevalência comum nos questionários
estruturados, do quadro conceitual preestabelecido pelo pesquisador.
A discussão do campo conceitual da entrevista como técnica de coleta de
informações é amplo e contempla uma série de questões que vão desde a fidedignidade
do informante ao lugar social do pesquisador. Para fins de nosso trabalho centraremos o
tema em dois aspectos que retiram a entrevista do campo supostamente neutro da
“coleta de dados”, para a arena dos conflitos e contradições: (a) Em primeiro lugar,
trataremos de status da palavra, da fala individual como reveladora dos códigos de
sistemas e valores contraditórios. O assunto nos remete à discussão dos critérios de
representatividade da fala, particularmente da representatividade qualitativa na pesquisa
social; (b) Em segundo lugar, abordaremos a discussão do caráter da interação social
que está em jogo na relação pesquisador/pesquisado. Este ponto traz luz sobre as
implicações sócio-políticas, culturais e ideológicas de uma prática social que pretende
ter critérios de objetividade.

a) A palavra como símbolo de comunicação por excelência


O que torna a entrevista instrumento privilegiado de coleta de informações para
as ciências sociais é a possibilidade de a fala ser reveladora de condições estruturais, de
sistemas de valores, normas e símbolos (sendo ela mesma um deles) e ao mesmo tempo
ter a magia
110
de transmitir, através de um porta-voz, as representações de grupos determinados, em
condições históricas, sócio-econômicas e culturais específicas.
Vários estudiosos apontam essa particularidade de a comunicação verbal ser
uma forma privilegiada de interação para a sua densidade enquanto fato social.
Bakhtin considera a palavra como o fenômeno ideológico por excelência: “a
palavra é o modo mais puro e sensível de relação social”. E continua: “existe uma parte
muito importante da comunicação ideológica que não pode ser vinculada a uma esfera
ideológica particular: trata-se da comunicação da vida cotidiana. O material privilegiado
de comunicação na vida cotidiana é a palavra” (1986: 36s).
Esse mesmo autor define o caráter histórico e social da fala como um campo de
expressão das relações e das lutas sociais que ao mesmo tempo sofre os efeitos da luta e
serve de instrumento e de material para sua comunicação. Cada época e cada grupo
social têm seu repertório de formas de discurso na comunicação que é inteiramente
determinada pelas relações de produção e pela estrutura sócio-política (1986, 64), “A
palavra é arena”, diz ele, “onde se confrontam os valores sociais contraditórios” (1986,
14). Através da comunicação verbal – que é inseparável de outras formas de
comunicação – as pessoas “refletem e refratam” conflitos e contradições próprios do
sistema de dominação, onde a resistência está dialeticamente relacionada com a
submissão.
Preocupado com a teoria da prática da pesquisa, Bourdieu contribui com
algumas pistas, em resposta a uma indagação freqüente na pesquisa social,
particularmente nas entrevistas não-estruturadas: Em que sentido a fala de um é
representativa da fala de muitos? Suas reflexões se referem à interação informal na
situação de observação e à relação formal que se dá na entrevista. Segundo o autor, a
identidade de condições de existência, tente a reproduzir sistemas de disposições
semelhantes, através de uma harmonização objetiva de práticas e obras:
111
Todos os membros do mesmo grupo ou da mesma classe são produtos de
condições objetivas idênticas. Daí a possibilidade de se exercer na análise da
prática social, o efeito de universalização e de particularização, na medida em
que eles se homogeneízam, distinguindo-se dos outros (1973, 180).
Teorizando sobra a prática da pesquisa de campo, afirma que as condutas
ordinárias da vida se prestam a uma definição ainda que pareçam automáticas e
impessoais. Elas são significantes, mesmo sem intenção de significar e exprimem uma
realidade objetiva que “exige apenas a reativação da intenção vivida daqueles que as
cumprem” (1973, 181). Insiste Bourdieu: “cada agente, ainda que não saiba ou que não
queira, é produtor e reprodutor do sentido objetivo, porque suas ações são o produto de
um modo de agir do qual ele não é o produtor imediato, nem tem o domínio completo”
(1973, 182).
As idéias de Bourdieu fazem parte do debate sobre a questão da
representatividade na pesquisa qualitativa. Baseiam-se no esquema teórico do que
denomina “habitus”, isto é:
Um sistema de disposições duráveis e transferíveis que integram todas as
experiências passadas e funciona a todo momento como matriz de preocupações,
apreciações e ações. O ‘habitus’ torna possível o cumprimento de tarefas
infinitamente diferenciais, graças às transferências analógicas de esquemas que
permitem resolver os problemas, da mesma forma, graças às correções
incessantes dos resultados obtidos e dialeticamente produzidos por estes
resultados (Bourdieu: 1973, 178s).
O autor compara o “habitus” com o inconsciente: “o inconsciente da história que
a história produz, incorporando as estruturas objetivas que ele produz neste quase
natureza que é o ‘habitus’” (197, 179).
112
Dir-se-ia que ele é como uma lei “imanente” depositada em cada ator social
desde a primeira infância, a partir de seu lugar na estrutura social. São marcas das
posições e situações de classe.
Segundo Bourdieu, o “habitus” é a mediação universalizante que proporciona às
práticas sem razões explícitas e sem intenção significante, de um agente singular, seu
sentido, sua razão e sua organicidade. Portanto:
As relações interpessoais numa pesquisa, nunca são apenas relações de
indivíduos e a verdade da interação não reside inteiramente na interação (...) é a
posição presente e passada na estrutura social que os indivíduos trazem consigo
em forma de ‘habitus’ em todo o tempo e lugar, que marca a relação (1973, 184).
Sapir concorda com Bourdieu quando afirma que “o indivíduo é um portador
passivo de tradições”. E ele mesmo se corrige ao definir em termos mais dinâmicos que
“o indivíduo concretiza sob mil formas possíveis idéias e modos de comportamento
implicitamente inerentes às estruturas ou às tradições de uma sociedade dada” (1967,
89).
Acrescenta referindo-se à entrevista: “se um testemunho individual é gravado ou
comunicado, isto não quer dizer que se considera tal indivíduo precioso em si mesmo.
Essa entidade adulta e singular é tomada como amostra da continuidade” (1967,90).
Essa possibilidade existe, na medida em que o comportamento social e o
individual obedece a modelos culturais interiorizados, ainda que de forma conflitante.
Goldmann nos lembra que a consciência coletiva (de classe) só existe nas consciências
individuais, embora não seja soma delas (1967, 18) e Lukács concorda que nas
consciências individuais se expressa a consciência coletiva, pois o pensamento
individual se integra no conjunto da vida social pela análise da função histórica das
classes sociais (1974, 66).
113
As citadas refelexões que respondem à questão da representatividade qualitativa
do indivíduo em relação à sociedade conduzem a outras perguntas: em que condições
esses indivíduos representam e em que medida o indivíduo fala por si mesmo? Noutras
palavras, os indivíduos são aleatoriamente intercambiáveis?
Sim e não, seria a resposta. Porque ao mesmo tempo em que os modelos
culturais interiorizados são revelados numa entrevista, eles refletem o caráter histórico e
específico das relações sociais. Desta forma os depoimentos têm que ser colocados num
contexto de classe, mas também de pertinência a uma geração , a um sexo, a filiações
diferenciadas etc. E porque cada ator social se caracteriza por sua participação, no seu
tempo histórico, n8um certo número de grupos sociais, informa sobre uma “subcultura”
que lhe é específica e tem relações diferenciadas com a cultura dominante.
Além disso, como afirma Schutz, cada ator social experimenta e conhece o fato
social de forma peculiar. É a constelação das diferentes informações individuais
vivenciadas em comum por um grupo, que permite compor o quadro global das
estruturas e das relações, onde o mais importante não é a soma dos elementos, mas a
compreensão dos modelos culturais e das particularidades das determinações (1954,
266).
Essa compreensão do indivíduo como representativo tem portanto que ser
contemplada com as variáveis próprias tanto da especificação histórica como dos
determinantes das relações sociais. E, também, dentro do próprio grupo ou comunidade
alvo da pesquisa, com uma diversificação que contemple as hipóteses, pressuposto e
variáveis estratégicas previstas para a compreensão do objeto de estudo.

b) A interação entre o pesquisador e os atores sociais no campo


Com relação aos aspectos do intercâmbio pesquisador/pesquisado, as
observações em debate nas Ciências Sociais são de dois níveis, ambas dando relevância
ao caráter problemático da interação. De um lado estão as teorias que enfatizam a
situação de desigualdade em que a entrevista se processa. Suas conclusões tendem a se
fixar em posições “reprodutivistas”. De outro lado estão os que ressaltam, do
114
ponto de vista cultural, a interação como algo intrinsecamente conflitivo. Porém,
confere autoria do processo ao pesquisador e ao pesquisado, reconhecendo a
possibilidade de uns e outros marcarem a qualidade do desenvolvimento social.
A premissa básica, em ambos os casos, é de que entrevista não é simplesmente
um trabalho de coleta de dados, mas sempre uma situação de interação na qual as
informações dadas pelos sujeitos podem ser profundamente afetadas pela natureza de
suas relações com o entrevistador.
Dentro da primeira concepção apontada acima, entendemos a situação de
entrevista: (a) como uma troca desigual entre os atores da relação. Isso acontece sob
vários ângulos: não é o entrevistado que toma iniciativa; os objetivos reais da pesquisa
geralmente lhe são estranhos; sua chance de tomar iniciativa em relação ao tema é
pouca; é o pesquisador que dirige, controla e orienta as digressões e concede a palavra,
mesmo quando tenta deixá-lo à vontade. A atitude simpática e benévola do estudioso
minimiza o impacto, mas não anula a relação institucional entre atores da interação
colocados em posição de desigualdade. Mesmo nas chamadas “pesquisa participante” e
“pesquisa-ação” essas questões se coloca, embora de forma diferente; (b) A pesquisa
fica prisioneira da divisão social do trabalho tradicional na sociedade capitalista onde o
pesquisador, em posição institucional de poder, se atribui o labor do questionamento dos
outros, da sociedade e de si mesmo; o sujeito (o entrevistado) “produz” material que
será ulteriormente “explorado”, conforme sugere Lilliane Kandel: “com quadros de
referências e objetivos que na maioria das vezes são estranhos. A reciprocidade quase
existe (direito de interrogar o interrogador) é outorgada” (1972, 25-46).
Certamente o reconhecimento dos dois condicionantes da situação de pesquisa
desvenda os aspectos da dominação implícitos na prática da investigação social, tal
como é levada nos centros acadêmicos. Essa relação, que tem por vezes resultado em
atitude de imobilismo em relação à prática de pesquisa, para ser coerente, necessita se
colocar ao nível da totalidade das relações no sistema capitalista.
115
Não é apenas a situação da pesquisa que realiza de forma específica uma forma
de dominação, mas ela em si faz parte do conjunto de reprodução das desigualdades que
permeiam a divisão social do trabalho no sistema do qual fazemos parte. Reconhecer
isso não isenta as implicações de ordem sócio-política e ideológica da relação de
entrevista, mas significa colocá-la e interpretá-la conhecendo as suas condições.
Por outro lado, a compreensão das teias da dominação que se emaranham nas
relações sociais nos conduzem a perguntar pelas brechas e pelo poder dos dominados na
interação. Isto é, em que medida as informações dadas, as situações criadas, os lastros
de aliança não refletem também a expressão de seus interesses.
A posição radical da sociologia que vê na pesquisa apenas manifestação e
reprodução do poder é paralisante e cria a imagem do beco sem saída para as relações
de classes. Ela é tão mecânica e tão pouco dialética como o empirismo positivista que
desconhece as condições reais de produção do conhecimento.
Portanto, a dissimetria nas posições do entrevistador/entrevistado tem que ser
compreendida e assumida em todo o processo de construção do saber. O impacto
resultante do pertencimento a outras classe, que se concretiza em experiências
socioculturais e até conflitantes, é um dado condicionante da pesquisa, junto como
todos os outros fatores que acompanham qualquer uma de suas fases.
Há outros autores que, em lugar de analisar a interação pesquisador/pesquisado a
partir dos condicionantes dados pelas relações sociais mais amplas, debruçam-se sobre
os elementos interiores da interação. São, em geral, antropólogos, que a partir de sua
experiência de campo, das dificuldades encontradas tanto na observação como nas
entrevistas, põem em evidência a precariedade do conceito filosófico de “verdade” no
labor da investigação. Mostram as dificuldades de penetração no mundo dos outros e
colocam em discussão a pretensa objetividade na situação de pesquisa. A realidade
social é um lusco-fusco, mundo de sombras e luzes em que os atores revelam e
escondem seus segredos grupais. Em lugar do caráter de “passividade” que as teorias
reprodutivistas e positivistas, sob ponto de vista diferentes, conferem aos entrevistados,
esses autores (interacionistas
116
simbólicos e fenomenologistas) os projetam agindo e reagindo durante todo o processo
de contato com o pesquisador.
Exemplo desses estudiosos, Goffman e Berreman elaboraram de forma plástica e
carregada de detalhes sua reflexão sobre o intercâmbio pesquisador/pesquisado. Usam a
imagem do teatro, para mostrar que ambos são simultaneamente atores e públicos na
montagem de um espetáculo singular: sua inter-relação mediada por códigos culturais
específicos e de interesses diferenciados que ambos tentam preservar e projetar.
Na relação do entrevistador com seus informantes, diz Goffman:
Frequentemente descobrimos uma divisão entre a região interior, onde a
representação de uma rotina é preparada; e região exterior, onde a representação
é apresentada. O acesso a essas regiões é controlado, a fim de impedir que a
platéia veja os bastidores e que estranhos tenham acesso a uma representação
que não se dirige a eles (1954, 238).
Essa reflexão serve de base para a análise de Berreman sobre as suas
dificuldades de acesso a informações numa comunidade himalaia. O título do estudo de
Berreman é muito sugestivo: Por detrás de muitas máscaras (1975, 123-177). Constata
que sua experiência de tentar entender uma comunidade muito fechada segmentada em
castas, com códigos culturais rígidos e totalmente estranhos para ele, guardadas as
peculiaridades, tem condições de ser universalizada e compartilhada com outros
pesquisadores.
A “região interior” pode ser maior ou menos, mas qualquer grupo guarda seus
segredos, seu lado oficial e tem sua estratégia comportamental do dia-a-dia. Ainda que
internamente esses grupos mantenham diferenças e conflitos, sua existência depende de
um certo grau de familiaridade e solidariedade que implica partilha de significados, de
segredos, de zonas e temas proibidos, do que pode ou não ser dito. Goffman afirma que
há muito poucas atividades ou relações cotidianas cujos atores não se envolvam em
práticas ocultas, que são incompatíveis com as impressões promovidas (1959, 64).
A essa tentativa de jogo de cena entre pesquisador e informantes para manter em
sigilo sua “região interior”, Goffman denomina
117
“controle de impressões”, aspecto básico da interação com significado metodológico
substancial para quem entrevista.
Berreman insiste que ambos os atores, numa situação de entrevista, ainda que
breve, julgam os motivos e atributos uns dos outros, definem a situação circundante e a
imagem que lhes convém projetar, ou seja, o que devem revelar e o que desejam ocultar:
“cada um tenta dar ao outro a impressão de que melhor serve a seus interesses, tal como
os vê” (1975, 141).
A avaliação do pesquisador é feita pela sua capacidade de penetrar na “região
interior” dos entrevistados. Ao contrário, entre seus pares, os entrevistados são
avaliados pela sua argúcia de preservar de olhos e ouvidos estranhos, os seus bastidores.
E eles mesmo julgam os pesquisadores pela sua atitude de respeito em relação aos
“segredos” do grupo. Será excusado dizem que nenhum, nem o estudioso nem seus
informantes conseguem sucesso absoluto. A preocupação de manter a definição de
situação de seu desempenho leva a que membros de determinado grupo
superdimensionam alguns fatos e subcomuniquem outros. Diz Goffman: “dada a
fragilidade e a necessária incoerência da realidade que é dramatizada por um
desempenho, existem habitualmente fatos que determinam ou inutilizam a impressão
desse desempenho” (1959, 142).
Daí que um princípio básico das entrevistas é a certeza de que, durante todo o
processo, as informações estão sendo controladas.
Essas reflexões trazem algumas conseqüências práticas para a situação da
entrevista. A primeira é de que quanto mais coeso é um grupo, ainda quando há
situações problemáticas, ele oferece um lugar, um papel e uma fonte de apoio moral a
seus membros, de tal forma que eles se protejam mutuamente nas dúvidas e nas culpas.
Pelo contrário, quando há muitas contradições expostas no grupo, ou quando a
sua coesão está mais ameaçada é mais fácil furar o cerco da “região interior”. Os
momentos de conflito, de transição e de dúvidas são celeiros férteis para informações
sobre determinada coletividade. Da mesma forma que há momentos conjunturais mais
118
propícios à captação de níveis mais profundos da realidade, há, ao nível dos indivíduos,
informantes particularmente “estratégicos” para revelar os segredos do grupo.
Goffman, continuando com a sua imagem do teatro, comenta que:
Um companheiro destituído é sempre passível de tornar-se um renegado e vender à
platéia os segredos da peça que seus irmãos de ontem ainda representam. Cada papel
tem seus sacerdotes destituídos de suas vestes para nos contarem o que acontece no
mosteiro (1959, 164).

Por isso é que geralmente qualquer grupo cuida de exercer uma certa vigilância
sobre os indivíduos e suas informações, particularmente sobre os suspeitos de falarem
demasiado. Quando o tema é proibido, há sempre alguma comunicação conspiratória,
cuidadosamente feita de forma a não levantar suspeitas sobre os infratores. Ou então, as
revelações de bastidores são dadas por pessoas, não-membros do grupo em questão. Há
situações em que o pesquisador é escolhido, ele próprio, como confidente e, desta
forma, passa a compor a região interior também, mas sob condição de não a revelar. Isto
é, passa a ser considerado um do grupo.
Berreman constatou, a partir de sua experiência, que dentro de uma coletividade
há alguns segmentos que correm “o risco do desempenho”: são crianças, os bêbados, as
mulheres e os velhos. São pessoas tratadas como não-pessoas ou como não inteiramente
humanas. Há sempre o perigo de que esses atores revelam os bastidores e sejam levados
a sério pela “platéia”. Barnett ressalta que os membros deslocados ou insatisfeito de
uma sociedade são informantes mais abertos quanto às “regiões interiores” (1953, 378).
Pelo contrário, os informantes mais relutantes em abrir a cortina dos dados são adultos
comprometidos com o desempenho do grupo.
Na experiência de Berreman (1975, 171) foram consistentemente homens de 35
a 55 anos de idade os informantes mais difíceis. Na sociedade pesquisada por ele, esses
atores sociais não só tentavam ficar ao nível da imagem oficial, mas exerciam uma
censura sobre a fala de suas esposas, filhos mais jovens e sobre os mais idosos.
Talvez em contextos diferentes, a categorias mais resistente ao
119
assédio do pesquisador a seu mundo particular, seria outra e não os homens de 35 a 55
anos. Mas o princípio de preservação do “risco do desempenho” seria o mesmo:
“Eu sugeriria ser geralmente verdadeiro”, diz Berreman, “que os informantes mais
relutantes acerca dos assuntos que não sejam da linha oficial, ou do desempenho da
região exterior, são aqueles que têm a maior responsabilidade pela produção do
desempenho, portanto, o maior compromisso com seu sucesso (1975, 172).

John Dean chegou a fazer uma caracterização “estereotipada” de alguns atores


sociais por ele considerados privilegiados para revelar os bastidores da realidade:
- o “intruso”, alguém de fora ou de outro classe que percebe o grupo social em questão
a partir de outro referencial;
- o “recruta” ou novato, que se surpreende com detalhes, estranhando coisas que para
outros seriam considerados banais;
- o “status novo”, que por estar numa etapa de transição de papéis, encontra-se marcado
por tensões e receios da nova experiência;
- o “natural”, que possui uma reflexão bastante elaborada da realidade e consegue
expressá-la com vivacidade. (Vale aqui aquela distinção de Schutz entre quem vivencia
e quem conhece.) O conhecedor seria um “sábio” em relação ao seu contexto;
- o “ingênuo”, que não se policia nem em relação ao que diz sobre sua coletividade e
nem em relação ao pesquisador. Abre as cortinas do bastidor com mais facilidade
porque não percebe as implicações de seus atos;
- o “frustrado” ou “revoltado”, que se sente bloqueado em seus impulsos o desejos pela
sociedade de que é parte;
- os “habitues”, isto é, os que já não têm mais nada a perder quando revelam os
“segredos” do poder ou do grupo;
- o “carente”, que sente necessidade de se colar ao entrevistador e se sente importante
para auxiliá-lo;
120
- o “subordinado”, que por se adaptar sempre aos superiores, conhece os segredos e as
transgressões (Dean: 1954, 222-256).
A forma estereotipada de classificação, naturalmente, tem suas falhas
intrínsecas. Ela é o próprio construto do senso comum do pesquisador a partir de sua
experiência, que não esgota todas as possibilidades de informantes privilegiados. De
qualquer forma a reflexão de Dean ajuda a pesar ainda mais as dificuldades de
conhecimento da realidade social. Sobre a complexidade do tema vale a pena repetir
para sintetizar a observações de Berreman: (a) primeiro, que o controle das impressões
constituem um aspecto inerente a qualquer interação social; (b) qualquer pesquisa social
empírica competente deve levar em conta o desempenho montado para o pesquisador
(união da observação com entrevista formal) e o que resulta daí, isto é, os esforços
empregados na sua produção e as situações de bastidores que oculta; (c) tanto a visão
oficial transmitida (a região exterior) como segredos de bastidores (região interior) são
componentes essenciais da realidade. A relações desses dois mundos, e sua produção de
significados são material imprescindível da pesquisa (1975, 123-174).
A conclusão inicial é de que toda entrevista, como interação social, está sujeita à
mesma dinâmica das relações existentes na nossa sociedade. Quando se trata de uma
sociedade conflitiva como a nossa, cada entrevista expressa de forma diferenciada essa
luz e sombra da realidade, tanto no ato de realizá-la como nas informações que aí são
produzidas. Além disso, pelo fato de captar formalmente informações sobre
determinado tema, a entrevista tem que ser incorporada a seu contexto e vir
acompanhada, complementada ou como parte da observação participante. Desta forma,
além da fala mais ou menos dirigida, captam-se as relações, as práticas, os gestos, e
cumplicidades e a fala informal sobre o cotidiano.

c) A Entrevista Não-Estruturada
A entrevista na pesquisa social, como já vimos na introdução, recobre uma série
de modalidades técnicas de comunicação verbal que podem se reunir em: (a) entrevista
estruturada através de questionários aplicados diretamente pelo pesquisador ou
indiretamente
121
através de roteiros fechados escritos; (b) as entrevistas semi-estruturadas ou não-
estruturadas entre às quais incluímos a história de vida e as discussões de grupo. Ambas
podem ser feitas verbalmente ou por escrito, mas tradicionalmente incluem a presença
ou interação direta entre o pesquisador e os atores sociais e são contempladas por uma
prática de observação participante.
Não caberia neste trabalho, que se limita à pesquisa qualitativa, falar sobre todas
as virtudes da entrevista fechada. Há livros específicos que não só ensinam a elaborar
questionários como todos os cuidados e rigor científico exigidos para sua validade como
instrumento de captação de dados. Mas trata-se de conferir-lhe um lugar de
complementaridade com as técnicas de aprofundamento qualitativo. Compreendemos
sua adequação para determinados fins, tal é o caso das “Pesquisas de Inteligência” ou
“Construção dos Indicadores” como já foi explorado no primeiro capítulo. A Pesquisa
Epidemiológica tradicionalmente se faz através de métodos e técnicas quantitativas.
Apenas atualmente os epidemiologistas começam a se questionar sobre a necessidade de
incorporação da abordagem qualitativa.
Quando se trata de apreender sistemas de valores, de normas, de representações
de determinado grupo social, ou quando se trata de compreender relações, o
questionário se revele insuficiente.
Michelat resume, em seu estudo, as críticas mais comuns ao roteiro fechado,
para as Ciências Sociais: (a) primeiramente a entrevista por questionário estrutura
completamente o campo de investigação do pesquisador, é ele quem formula as
questões, que detém o monopólio da inquirição e da relevância dos dados; (b) desta
forma existe um afastamento entre a significação do pesquisador, as respostas que
propõe aos entrevistados e as significações que as questões têm para os informantes
(Michelat: 1975, 229-247).
A entrevista semi-estruturada e não-estruturada difere apenas em grau, porque na
verdade nenhuma interação, para finalidade de pesquisa, se coloca de forma totalmente
aberta. Ela parte da elaboração de um roteiro, sobre o qual já falamos mais intensamente
no Capítulo 2. Suas qualidades consistem em enumerar de formas mais abrangente
possível as questões que o pesquisador quer abordar no campo, a partir de suas
hipóteses ou pressupostos, advindos, obviamente, da definição do objeto de
investigação. Parga Nina (1983)
122
costuma definir a entrevista não-estruturada ou também chamada “aberta” como
“conversa com finalidade” onde o roteiro serve de orientação, ele baliza para o
pesquisador e não de cerceamento da fala dos entrevistados.
Não se pode desconhecer, em nenhuma circunstância, conflitos e dificuldades
decorrentes da situação ou condição de entrevista já citados. A entrevista aberta não cura
as diferenças e nem diminui as distâncias estruturais. Suas qualidades para estudo da
realidade social se colocam dentro das relações sociais contraditórias e submissas aos
mesmos questionamentos a respeito da divisão social do trabalho e das dissimetrias
socioculturais. Dentro da perspectiva e limitações citadas reconhecemos a sua
importância para a construção do conhecimento sobre o social, incluindo-se aqui a
questão da saúde.
A informação não-estruturada persegue vários objetivos: (a) a descrição do caso
individual; (b) a compreensão das especificidades culturais mais profundas dos grupos;
(c) a comparabilidade de diversos casos.
Procura atingir essas metas, tentando manter a margem de movimentação dos
informantes tão amplas quanto possível, e o tipo de relacionamento livre de amarras,
informal e aberto dentro das limitações já conhecidas. O entrevistador se libera de
formulações prefixadas, para introduzir perguntas ou fazer intervenções que visam a
abrir o campo de explanação do entrevistado ou a aprofundar o nível de informações ou
opiniões.
A ordem dos assuntos abordados não obedece a uma seqüência rígida e, sim, é
determinada frequentemente pelas próprias preocupações e ênfases que os entrevistados
dão aos assuntos em pauta. A quantidade de material produzida tende a ser maior e com
um grau de profundidade incompatível em relação ao questionário, porque a
aproximação qualitativa permite atingir regiões inacessíveis à simples pergunta e
resposta. A abordagem desses diferentes níveis tem sido uma questão fundamental das
Ciências Sociais, aprofundada por alguns autores.
No estudo da realidade social de Gurvitch entende que há vários planos que se
superpõem: a primeira camada, segundo ele, seria:
123
A superfície ecológica e morfológica no sentido lato do termo, os ambiente tanto
naturais como técnicos, os objetivos, os corpos e os comportamentos que
participam da vida social e captáveis pela percepção exterior” em seguida “as
condutas preestabelecidades que são conduzidas, hierarquizadas, centralizadas,
segundo certos modelos refletidos e fixados previamente em esquemas mais ou
menos rígidos”. (...) e por fim “papéis sociais assumidos por indivíduos e por
grupos, as atitudes coletivas, os símbolos sociais” (1955, 104-113).
Gurvitch termina assim suas observações, altamente pertinentes ao pesquisador
de campo:
Parece impossível compreender a realidade social total, se não se admite que
esta superposição de planos submetidos a um determinante mais ou menos
flexível, repousa sobre um solo vulcânico, onde se agita o que há de mais
espontâneo e inesperado na vida coletiva: as condutas criadoras, as idéias e
valores coletivos, os estados mentais e os atos psíquicos coletivos (1954, 113).
Noutras palavras, Gurvitch chama atenção para o fato de que essas “camadas” da
realidade não são estanques. Elas interagem e reagem dinamicamente e é nesse
movimento que podem ser apreendidas.
Segundo Michelat, se consideramos (como já ficou explanado na primeira parte)
que cada indivíduo, apreendido através das informações sintomáticas fornecidas pela
entrevista, é uma aplicação restrita e peculiar de sua cultura e de sua subcultura,
podemos dizer em conseqüência: (a) quanto mais importante é o material produzido na
entrevista, mais ele se enriquece ao atingir níveis mais profundos; (b) a ordem afetiva e
da experiência é mais determinante dos comportamentos do que o lado racional
“intelectualizado”; (c) a entrevista o menos estruturada possível permite surgir e
comunicar esse nível sócio-afetivo-existencial (1975, 230).
A reflexão de Michelat vai contra a “objetividade” vista sob o ângulo positivista
que se traduz no não-envolvimento, no uso cuidadoso da linguagem precisa, no controle
rígido de atitudes corporais, fisionômicas, de gestos, frases e palavras, a pretexto de
“neutralidade” condizente com o “processo científico de conhecimento”.
124
No caso da pesquisa qualitativa, ao contrário, o envolvimento do entrevistado
como entrevistador, em lugar de ser tornado como uma falha ou um risco
comprometedor da objetividade, é pensado como condição de aprofundamento de uma
relação intersubjetiva. Assume-se que a inter-relação no ato da entrevista contempla o
afetivo, o existencial, o contexto do dia-a-dia, as experiências, e a linguagem do senso
comum, e é condição “sine qua non” do êxito da pesquisa qualitativa.
“Sem intropatia é difícil se compreender os aspectos subjetivos da definição da
situação do entrevistado” diz Parga Nina (1983, vol. 1, 28). A quem pensa no perigo de
o entrevistador se perder nessa imersão da realidade, Lévi-Strauss avisa:
É bem um fato objetivo que, o mesmo espírito que se entregou à experiência e se
deixou modelar por ela, se torne o teatro das operações mentais que anulam as
informações da experiência, mas transformam a experiência em modelo,
tornando possíveis outras operações mentais (1975, 217).
Em Éssai sur le Don Marcel Mauss nos conduz a ver, na interseção de duas
subjetividades, a ordem de verdade mais aproximada à qual às ciências do homem
podem pretender, quando enfrentam a totalidade de seu objeto (1975, 212).
As contradições, do que eu chamaria qualidade da entrevista não-estruturada,
nos introduzem agora em questões específicas que necessitam ser aprofundadas e
remetem à prática concreta.

c.1 – A primeira delas é a própria introdução do entrevistador no campo que pode ser
assim desdobrada:
(a) Apresentação: o princípio básico em relação a isso é que uma pessoa de confiança
do entrevistado (líder de coletividade, pessoa conhecida e bem aceita) faça a mediação
entre ele e o pesquisador. Seria muito arriscado entrar sem referências de lealdade, em
qualquer grupo ou
125
comunidade, seja de que grupo ou classe for; (b) Menção de interesse da pesquisa
discorrendo sobre o que pode direta ou indiretamente contribuir com as preocupações
do entrevistado; menção da instituição à qual está vinculada. Prevê-se a conveniência de
apresentação de uma credencial institucional do pesquisador (em geral, quando se trata
de uma pesquisa com segmentos das classes trabalhadoras, onde os laços de lealdade e
solidariedade culturalmente são muitos fortes, a melhor credencial é a apresentação de
alguém de confiança do informante). (c) Explicação dos motivos da pesquisa em
linguagem de senso comum, em respeito aos que não necessariamente dominam os
códigos das ciências sociais; (d) Justificativa da escolha do entrevistado; (e) Garantia de
anomicidade da entrevista e a garantia de sigilo sobre a autoria das respostas que
aparecem no conjunto do trabalho. (f) Conversa Inicial a que alguns pesquisadores
denominam “aquecimento”. Trata-se de quebrar o gelo; de ter resposta do agente social
sobre a sua disponibilidade de dar informações; de criar um clima o mais possível
descontraído e de conversas. No caso de estar combinada com a observação
participante, a construção da identidade do pesquisador pelo grupo vai se forjando nas
várias instâncias de convivência.
Obviamente, os procedimentos enumerados anteriormente não são nem normas
rígidas, nem um preceituário a ser cumprido ininterruptamente pelo pesquisador. São
ações que se cumprem no processo de interação e em possível diálogo com o
interlocutor. Sua introdução no trabalho deve-se antes a uma tentativa de comunicação
de experiência, do que de instituição de regras e normas, a serem seguidas.
Em adendo às questões gerais levantadas sobre a entrevista não-estruturada,
fazemos menção à História de Vida e à Discussão em Grupo como estratégias
importantes em si mesmas de captação de informações qualitativas. Mas chamamos
atenção para o seu caráter complementar no conjunto de uma “bateria” de instrumentos
que podem e devem ser empregados para a compreensão da realidade social.
126
A História de Vida
Segundo Denzin:
A História de Vida apresenta as experiências e as definições vividas por uma pessoa, um
grupo, uma organização, como esta pessoa, esta organização ou este grupo interpretam
sua experiência (1973, 220).
Denzin é um entusiasta da história de vida como estratégia de compreensão da
realidade. Seu texto sobre o tema em The Research Act trata da definição e dos
pressupostos do método, dás várias modalidades da história de vida, da sua relação com
a historiografia clássica, das estratégias analíticas e da relevância dessa técnica para as
Ciências Sociais (1973, 219-159).
Para as finalidade a que se propõe nosso trabalho, limitaremos o campo da
reflexão sobre os pressupostos da técnica de coleta de dados e da interação, as suas
principais modalidades, os detalhes da etapa de trabalho de campo e as vantagens
específicas da história de vida para as Ciências Sociais.
Denzin menciona vários tipos de história de vida: (a) a história de vida completa
que recobre todo o conjunto da experiência vivida por uma pessoa, um grupo ou uma
instituição; (b) a história de vida tópica que dá ênfase a determinada etapa ou setor da
vida pessoal ou de uma organização. Acrescentamos a histórica oral que geralmente
focaliza acontecimentos específicos tal como foram vivenciados por uma pessoa ou
grupo social.
A história de vida pode ser escrita ou verbalizada. Para as finalidades de nosso
trabalho damos ênfase àquela que é realizada como uma entrevista prolongada, na qual
o pesquisador constantemente interage como informante. Aquela que combina
observação, relatos introspectivos de lembranças e relevâncias e roteiros mais ou menos
centrados em algum tema.
Como podemos perceber, os pressupostos teóricos que validam a história de vida
são da mesma natureza dos que fundamentam a entrevista e a observação participante.
Ela é instrumento privilegiado para se interpretar o processo social a partir das pessoas
envolvidas,
127
na medida em que se consideram as experiências subjetivas como dados importantes
que falam além e através delas.
Bourdieu apresenta a história do indivíduo como sendo sempre uma certa
especificação da histórica coletiva de seu grupo e sua classe:
“Podemos ver”, diz ele, “nos sistemas de disposições individuais, variantes
estruturais de habitus de grupo e de classe, sistematicamente organizados nas
diferenças que os separam: o estilo pessoal, isto é, esta marca particular que
trazem todos os produtos de um mesmo habitus, é uma variação em relação ao
estilo de uma época ou de uma classe” (1973, 189).
Vários cientistas sociais que usam a técnica da história de vida a colocam num
papel complementar ao das entrevistas, dos questionários e da observação participante.
Becker amplia o âmbito de sua importância. Sugere que ela sirva como pedra de toque,
através da qual teorias, hipóteses e pressuposições possam ser avaliadas. Na medida em
que acrescenta dados pessoais e visões subjetivas a partir de determinado lugar social,
permite abrir caminhos de investigação em áreas que pareciam resolvidas, tanto no
campo das rotinas institucionais como dos processos e relações sociais. Além disso, tem
o potencial de conseguir dados difíceis e quase inacessíveis através da experimentação
ou “surveys” retrospectivos (Becker: 1966, X-XVIII).
Denzin afirma que a história de vida pode ser o melhor método para se estudar
processos de socialização, emergência de um grupo, estrutura organizacional,
nascimento e declínio de uma relação social e respostas situacionais a contingências
cotidianas (Denzin: 1973, 257).
Fraser, na introdução ao belíssimo trabalho de história oral sobre a Guerra
Espanhola dá-nos elementos que se juntam e acrescentam as perspectivas de Becker e
Denzin.
Comenta que a história de vida (tópica ou mais completa) verbalizada pelos
participantes constitui uma tentativa de revelar o ambiente intangível dos
acontecimentos que fazer parte da experiência de determinado grupo social. Visa a
descobrir o ponto de vista e as motivações dos participantes voluntários ou
involuntários na
128
História, portanto protagonistas dos fatos sociais, mas geralmente descartados na visão
oficial dos setores dominantes.
Diz Frases: “é a história vista pela política interna das classes”. E acrescenta:
“por mais intangível que pareça, o ambiente é abstrato ou distante: é o que a gente sente.
E o sentir constitui a base de seus atos” (1979, 26).
Ele não substitui a historiografia clássica. Complementa-a. Não se trata também
de perguntar se essa história é mais verdadeira que outra: trata-se de um tipo de verdade,
da verdade da “gente comum” como ela deseja projetá-la: “o que as pessoas pensam, e o
que elas pensam que pensam também constituem um fato histórico” (Fraser: 1979, 29).
O material da história de vida, segundo Becker (1966), são os dados não-
convencionais: gravações, documentos escritos, incluindo-se a histórica das agência
sociais e instituições que lançam luz sobre o comportamento dos grupos e indivíduos.
Metodologicamente, as definições e situações recolhidas através da história de
vida devem ser complementadas pela perspectiva de outros atores sociais que se
relacionam com os fatos focalizados. Portanto é importante se juntar outras histórias de
vida contemporâneas com os temas em questão para fins de consistência dos dados.
Da mesma forma, é de fundamental interesse para compreensão da realidade, a
combinação da “História de Vida” com outros métodos de abordagem, para reforço
mútuo.
Allport afirma:
A consistência interna ou confrontação interna conseguida através de múltiplas
abordagens, é quase o único teste que temos
129
para a validade das pesquisas. Portanto, em todos os sentidos, os documentos
pessoais entram no interior de um conjunto abrangente de estratégias de
compreensão da realidade (1942, 121).

Discussão de Grupo
Da mesma forma que a História de Vida, a discussão de grupo deve ser
valorizada como abordagem qualitativa, seja em si mesma, seja como técnica
complementar.
Schrader comenta que no âmbito de determinados grupos sociais atingidos
coletivamente por fatos ou situações específicas, desenvolvem-se opiniões informais
abrangentes, de modo que, sempre que entre membros de tais grupos haja
intercomunicação sobre tais fatos, estes se impõem, influindo normativamente na
consciência e no comportamento dos indivíduos (1978, 98).
O específico do grupo de discussão são as opiniões, relevâncias e valores dos
entrevistados. Difere por isso da observação que focaliza mais o comportamento e as
relações. Tem uma função complementar à observação participante e às entrevistas
individuais.
Do ponto de vista operacional, a discussão de grupo (“grupos focais”) se faz em
reuniões com um pequeno número de informantes (seis a doze). Geralmente tem a
presença de um animador que intervém, tentado focalizar e aprofundar a discussão.
Os participantes são escolhidos a partir de um determinado grupo, cujas idéias e
opiniões são do interesse da pesquisa. A abrangência do tema pode exigir uma ou várias
sessões de discussão.
Essa estratégia de coleta de dados é geralmente usada para: (a) focalizar a
pesquisa e formular questões mais precisas; (b) complementar informações sobre
conhecimentos peculiares a um grupo em relação a crenças, atitudes e percepções; (c)
desenvolver hipóteses de pesquisa para estudos complementares.
O grupo focal consiste numa técnica de inegável importância para se tratar das
questões da saúde sob o ângulo do social, porque se presta ao estudo de representações
e relações dos diferenciados grupos de profissionais da área, dos vários processos de
trabalho e também da população.
A gerência dos grupos de discussão por empregar várias pessoas
130
é uma questão e não apenas técnica. Implica a capacidade do animador de não induzir
consciente ou inconscientemente o grupo através de suas próprias relevâncias. Mas
implica também técnicas que assim Schrimshaw resume: o animador – (a) introduz a
discussão e mantêm acessa; (b) enfatiza para o grupo que não há respostas certas ou
erradas; (c) observa os participantes, encorajando a palavra de cada um; (d) busca as
“deixas” de continuidade da própria discussão e fala dos participantes; (e) constrói
relações com os informantes para aprofundar, individualmente, respostas e comentários
considerados relevantes pelo grupo ou pelo pesquisador; (f) observa as comunicações
não-verbais e o ritmo próprio dos participantes, dentro de um tempo previsto para o
debate. Geralmente o tempo de duração de uma reunião não deve ultrapassar de 1:00 a
1:30 horas (Schrimshaw: 1986, 12).
Além da sua importância pelo aprofundamento qualitativo das questões
socializáveis e pela possibilidade de comparação com grupos semelhantes e distintos,
reforçamos o papel complementar da discussão de grupo. Junto com o uso das histórias
de vida, das entrevistas abertas ou semi-estruturadas e da observação participante, o
pesquisador constrói uma série de possibilidades de informações que lhe indicam se seu
caminho está correto. É a triangulação na coleta de dados.
Vale ressaltar mais uma vez que, como todas as outras formas de abordagem,
também esta está sujeita aos condicionantes da interação social e deve ser usada a partir
da consciência de suas vantagens e seus limites.

c.2 – O conteúdo e a situação de entrevista


A centralidade da entrevista em suas amplas modalidades é dada pelo objeto de
pesquisa com o foco que lhe proporcione o cientista social.
A observação mais importante relacionada ao conteúdo diz respeito às perguntas
ou itens do roteiro. Cada sugestão de tema que se introduz na entrevista, ou cada
questão que se levanta, faz parte de uma interação diferenciada com o entrevistado na
medida em que esses itens são uma teoria em ato e trazem implícitos uma hipótese,
131
um pressuposto ou um conceitos teórico. Portanto, o impacto resultante da abordagem
de determinado assunto no interior da entrevista, deve ser visto como diverso do efeito
da entrevista como um todo.
Da mesma forma, cada situação de entrevista tem o seu impacto social próprio.
Não há duas situações iguais e nem sequer semelhantes; serão sempre diferentes, ainda
que se trate em ocasiões distintas, dos mesmos atores e do mesmo tema, por causa tanto
de disposição dos interlocutores, como pelo contexto da pesquisa, isto é, por fatores
externos ou internos que condicionam a situação.
A interação dos dois parceiros, além do mais, tem um significado subjetivo
próprio para cada um distintamente e ambos levam em conta, ao agir, as respostas ou
reações do interlocutor. Como já vimos exaustivamente no início desse tema, para
Berreman trata-se de uma cena entre dois atores; para Parga Nina são “duas definições
de situação que se confrontam” (1983, v. II, 57). Poderíamos dizer com esses autores
que, tanto o pesquisador quanto o entrevistado interferem dinamicamente no
conhecimento da realidade, e esse encontro de duas subjetividades representantes de
códigos socioculturais quase sempre diferenciados é, ao mesmo tempo, rico,
problemático e conflitivo.
O fato de que nenhuma situação de entrevista se repita nem com a mesma
pessoa, nem com a exploração do mesmo tema, coloca de forma diferente a questão da
prova de fidedignidade para a pesquisa qualitativa em relação à coleta de dados
quantitativos e fatos quantificáveis. “Cada caso é um evento único”, comenta Cicourel
(1964, 80).
A questão do teste de hipóteses e de provas corretas será tratada em detalhes na
quarta parte deste trabalho, sobre análise dos dados.
Resumimos apenas as idéias básicas sobre o tema, a partir da abordagem de
Cicourel: (a) a credibilidade do informante, isto é, suas razões para ocultar ou deturpar
informações; a espontaneidade das respostas e o efeito da presença do observador na
sua obtenção; a equação grupo-observador (observação participante) – informante
(entrevista); (b) a relação da “história natural da pesquisa”, ou diário de campo que
inclui o processo progressivo de conceituação do objeto pelo pesquisador; (c) o
estabelecimento da “teoria do ator” por parte
132
do cientista descobrir suas regras de evidência, seus constructos, seus significados.
Por fim e para os fins em questão vale ressaltar duas observações. Primeiro,
permanece o princípio geral que reconhece a importância indiscutível de cada entrevista
(pela qualidade do ator e pelos dados específicos que dele emergem), mas nos diz que é
do conjunto de delas e a partir do caleidoscópio das informações que o pesquisador
compõe seu quadro. Em segundo lugar, a experiência nos mostra que, como o
pesquisador trabalha com vivências e com as representações correlatas, por mais que
estimule a explicitação de determinados temas, se eles não constituem relevâncias para
os informantes, dificilmente emergirão.

c.3 – Sobre o uso das entrevistas não-estruturadas


Muitos sociólogos consideram importantes os estudos qualitativos apenas para
fins exploratórios, recomendando sempre questionários estruturados para o que definem
como “pesquisa científica”, onde há possibilidade de testes de hipóteses, possibilidades
de repetição pela estandardização das perguntas, testes de validade e portanto certeza
de fidedignidade.
Essa é uma visão positivista que coloca como questão técnica, a resolução de
problemas epidemiológicos profundos, tais como a qualidade das informações
recolhidas. É como se o refinamento de um instrumento para análise de variáveis
solucionasse a questão fundamental do conhecimento da realidade.
A essa argumentação, autores como Cicourel e Bourdieu contestam, mostrando
as vantagens da abordagem qualitativa, feita sob determinadas condições e cuidados
teóricos. E Parga Nina desenvolve algumas observações que merecem respeito, dada a
sua longa vida dedicada à pesquisa social.7
133
Vejamos seu depoimento. Primeiramente o autor cita Granger que comenta os
riscos de “uma redução simplista do qualitativo”. Há uma dualidade no qualitativo que é
fundamental reconhecer: “o observador por ter uma percepção da coisa que é um
predicado contingente e relativo do objeto: a essência da coisa captada é compreendida
através das aparências, numa percepção de modo incompleto, esboçada” (Granger:
1967, 107).
Por outro lado, há outro tipo de percepção qualitativa, que é uma percepção
imediata do vivido, de uma experiência captada como um fluxo de cuja essência temos
consciência em forma de “retenção” em nossa mente, através de relembranças.
Granger distingue assim “qualidade objetiva” e “qualidade do objeto psíquico” e
considera como esforço necessário da epistemologia das ciências humanas atuais,
estabelecer um relacionamento entre “qualidade do objeto psíquico” e uma estrutura
científica (1967, 197). Em outras palavras, trata-se de trabalhar com a percepção do
vivido, com os significados das motivações, atitudes e valores.
É assim meridianamente claro que a utilização de métodos e técnicas não-
quantitativas em uma pesquisa não é questão de escolha de alternativa ou de
preferência pessoal: são procedimentos simplesmente necessários. (...) a
necessidade de usar métodos e técnicas não-quantitativas é conseqüência da
necessidade de captar algo dos aspectos subjetivos da realidade social, e de
reconhecer a “dualidade do qualitativo” fundamental para Granger (1983, 82-
83).
134
Em outro momento Parga Nina critica o adjetivo “qualitativo” ao tipo de
pesquisa social tal como propomos aqui, dizendo que ela é simplesmente pesquisa
social: “a oposição qualitativo/quantitativo aprofunda um problema não totalmente
resolvido nas ciências sociais de querer imitar os modelos quantificáveis das outras
ciências físicas e naturais” (1983, 83).
Sua proposta de realizar o trabalho de campo através de entrevista aberta tem
dois vieses: o primeiro é de complementar através de estudos de caso que se detenham
numa realidade mais ou menos homogênea, as informações muito agregadas que o
IBGE fornece através de grandes projeções estatísticas; o segundo é a certeza de que,
através de entrevistas como informações chamadas “concretas” junto com aquelas
provenientes da experiência e da opinião das informantes sobre suas vivências,
podemos perceber melhor as complexidades da realidade. A convicção de Parga Nina é
fruto de longa experiência com indicadores quantitativos e os limites de suas
possibilidades.
Para ele, para Cicourel, para Lazarsfeld e outros autores com ampla experiência
de ambas, as formas de abordagem, as informações não-quantificáveis além de sua
grande importância, fazem parte da própria natureza das ciências sociais, que se
detiveram nas bordas visíveis da realidade, perdem a sua dinâmica.
Assim a pesquisa qualitativa torna-se importante para: (a) compreender os
valores culturais e as representações de determinado grupo sobre temas específicos; (b)
para compreender as relações que se dão entre atores sociais tanto no âmbito das
instituições como dos movimentos sociais; (c) para avaliação das políticas públicas e

7
Essa digressão é importante para contextualizar suas ponderações: o autor foi o coordenador nacional do ENDEF (Estudo Nacional
de Despesas Familiares), realizado em 1974, que obteve informações sobre 53.000 famílias em todo o Brasil a respeito do
orçamento familiar e, em detalhe, sobre consumo alimentar. Foi o estudo de informações estruturadas mais importantes do país, que
consegui dar informações sobre condições de vida da população (IBGE, 1974). Ao mesmo tempo que dirigia o trabalho quantitativo
em nível nacional, este cientista liderou um estudo de informações não-estruturadas e posteriormente várias pesquisas qualitativas
(de 1975 a 1985) sobre situações de pobreza em vários pontos do país (IBGE, 1975-1983; PUC-Rio, 1983-1985).
sociais tanto do ponto de vista de sua formulação, aplicação técnica, como dos usuários
a que se destina.

A OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE
A Observação Participante pode ser considerada parte essencial do trabalho de
campo na pesquisa qualitativa. Sua importância é de tal
135
ordem que alguns estudiosos a tomam não apenas como uma estratégia no conjunto de
investigação, mas como uma estratégia no conjunto da investigação, mas como um
método em si mesmo, para compreensão da realidade, Schwartz & Schwartz propõe-nos
a seguinte formulação:
Definimos observação participante como um processo pelo qual mantém-se a
presença do observador numa situação social, com a finalidade de realizar uma
investigação científica. O observador este em relação face a face com os
observados e, ao participar da vida deles, no seu cenário cultural, colhe dados.
Assim o observador é parte do contexto sob observação, ao mesmo tempo
modificando e sendo modificado por este contexto (1955, 355).
Essa conceituação aparentemente completa dos referidos autores e que tomamos
como ponto de partida não se pode considerar pacífica no debate das ciências sociais.
As controvérsias existem com relação à própria prática de observação, ao “o que” e ao
“como” observar.
Em primeiro lugar vale dizer que é no seio da antropologia de que se inicia a
reflexão sobre a estratégia de Observação como forma complementar de captação da
realidade empírica. A sociologia de tradição quantitativa é que, em princípio, levanta as
primeiras críticas ao que denomina “empirismo” ou “impressionismo” da prática
antropológica. A etnometodologia e a fenomenologia, correntes que privilegiam estudos
empíricos, retomam para a sociologia o debate sobre a observação. Influenciados pela
antropologia, os etnometodólogos e os fenomenologistas instauraram no interior da
sociologia a polêmica sobre seus métodos, técnicas e critérios de validação do
conhecimento.
O marxismo tem desenvolvido muito pouco na sua reflexão sobre o tema. Existe
uma polêmica entre as várias correntes marxistas, que tende a paralisar a reflexão
metodológica sobre a observação como um momento de apreensão do fenômeno. No
entanto, há algumas elaborações filosóficas sobre a lógica dialética, de grande
importância, que lançam luz sobre a prática do trabalho de campo.
Neste texto, tentaremos entrar no mérito da questão Observação Participante,
abordando as várias linhas confrontantes de pensamento e sua contribuição específica
para a construção de conhecimentos.
136
a) O Debate Teórico em torno da Observação Participante
O texto considerado clássico sobre o Trabalho de Campo dentro da antropologia
foi escrito em 1922 por B. Malinowski, a propósito de sua inserção entre os nativos das
Ilhas Trombiand no Pacífico (1978). Embora levando-se em conta que o estudo reflete
as concepções funcionalistas de seu ator, a rica experiência transmitida e as bases
metodológicas por ele lançadas continuam atuais. Sua legitimidade permanece intocável
até hoje. Fundamenta-se na necessidade: (a) de bagagem científica do estudioso; (b) dos
valores da observação participante; (c) das técnicas de coleta, ordenação e apresentação
do que denomina “evidências”. Chama a atenção para a importância do pesquisador
distinguir os resultados da observação direta em relação aos depoimentos dos nativos e
sua interpretação dos fatos, e as interpretações e inferências do pesquisador.
Seu trabalho ainda que criticado do ponto de vista do seu destino como
servilismo ao colonizador britânico, ao mesmo tempo criou grandes polêmicas na classe
dominante inglesa, porque lançou à luz o tema da relativização da cultura, da
organização complexa da vida dos primitivos e de sua importância social. Malinowski
junto com Radcliffe-Brown, outro antropólogo inglês, revolucionaram a antropologia
nas três primeiras décadas do século XX, sobretudo pelas propostas referentes aos
métodos de trabalho de campo.8
“Toda estrutura de uma sociedade encontra-se incorporada no mais evasivo de
todos os materiais: o ser humano”, diz Malinowski (1975, 40). Complementa
posteriormente seu pensamento a respeito da tarefa do etnógrafo:
Esse material evasivo não tem uma visão integrada resultante do todo, e cabe ao
pesquisador organizá-la a partir de três ponto de vista: (a) o arcabouço da constituição;
(b) os imponderáveis da vida real ou do comportamento típico; (c) o espírito nativo”.
137
Malinowski tem uma crítica fundamental a um tipo de pesquisa social que
apreende apenas um nível da realidade através dos “surveys”: uma ciência que percebe
o esqueleto mas não compreende a vida porque ela se faz longe do lugar onde a vida
acontece:
Há uma série de fenômenos de grande importância que não podem ser
registrados através de perguntas, ou em documentos quantitativos, mas devem
ser observados em sua realidade. Denominemo-los os “imponderáveis da vida
real”. Entre eles se incluem coisas como a rotina de um dia de trabalho, os
detalhes do cuidado com o copo, da maneira de comer e preparar as refeições; o
tom das conversas e da vida social ao redor das casas da aldeia, a existência de
grandes amizades e hostilidade e de simpatias e antipatias passageiras entre
pessoas; a maneira sutil mas inquestionável em que as vaidades e ambições
pessoais se refletem no comportamento dos indivíduos e nas reações emocionais
dos que o rodeiam (1975, 55).
‘ Nesse texto, Malinowski descreve a atitude do pesquisador de campo, atitude
através da qual Boharinan define a antropologia: “ela é como a história ou a ciência,
uma atitude que consiste em desenvolver uma visão estereoscópica das atividades e
idéias humanas através de conceitos inteligíveis a todos” (1975, 256).
A partir dessa reflexão está dando, para Malinoski o material da observação
participante. Primeiro, o conjunto de regras formuladas ou implícitas nas atividades dos
componentes de um grupo social; depois a forma como essas regras são obedecidas ou
transgredidas. Em terceiro lugar, os sentimentos de amizade, de antipatia ou simpatia
que permeiam os membros do grupo. Em outras palavras é preciso observar o aspecto
legal e os aspecto íntimo das relações sociais; ao lado das tradições e costumes, o tom e
a importância que lhe são atribuídos; as idéias, os motivos e os sentimentos do grupo na
138
compreensão da totalidade de sua vida, verbalizados por eles próprios, através de suas
categorias de pensamento.
Embora Malinoski separe, para efeitos de estudo, a realidade social
(vebalizações, comprtamentos, estruturas) em três níveis, sua intenção é a reconstrução
teórica da totalidade funcional, o “arcabouço da constituição” da sociedade analisada,
através das regularidades e do que é típico de um grupo social.
Para conseguir apreender a “totalidade funcional” Malinoski apresenta seu
método, que nos princípios gerais podemos resumir: “(a) ter objetivos realmente
científicos e conhecer os valores e critérios da etnografia moderna”.
Isso significa imergir na realidade mas ao mesmo tempo dominar o instrumental
teórico. Uma atitude de observador científico consiste em colocar-se sob o ponto de
vista do grupo pesquisado, com respeito, empatia e inserção o mais íntimo possível.
Significa abertura para o grupo, sensibilidade para sua lógica e sua cultura, lembrando-
8
Para referência, ver Malinowski, B. Argumento do Pacífico e outros textos na coleção Pensadores. São Paulo, Editora Abril, 1978.
Radcliffe-Brown. Method in Social Antropology. Chicago. The Univ. of Chicago Press, 1958.
se de que a interação social faz parte da condição e da situação de pesquisa: “mas”, diz
Malinoski, “o etnógrafo não tem só que entender suas redes no lugar correto e esperar
pelo que nela cairá. Deve ser um caçador ativo e dirigir para elas a sua presa e segui-las
até as suas trocas mais inacessíveis (1975,45). Portanto tem que ser um perscrutador
insistente, que está sempre entre as balizas dos conhecimentos teóricos e das
informações de campo:
O bom treinamento teórico e a familiaridade com os mais recentes resultados
científicos não são equivalente a estar carregado de ‘idéias preconcebidas’. Se
um indivíduo inicia uma pesquisa com a determinação de provar certas
hipóteses, se não é capaz de mudar constantemente seus pontos de vista e de
rejeitá-los sem relutância, sob a pressão da evidência, é desnecessário dizer que
seu trabalho será inútil” (1975, 45).
139
No entanto a preparação teórica para a ida a campo é também sublimada por
Malinoski:
Mas quanto mais problemas trouxer para o campo, quanto mais estiver
habituado a conformar suas teorias aos fatos e a considerar os fatos na sua
importância para a teoria tanto melhor capacitado estará para o trabalho. As
idéias preconcebidas são perniciosas em qualquer tarefa científica, mas os
problemas antevistos constituem a principal qualidade de um pensador
científico, e esses problemas são revelados, pela primeira vez ao observador, por
seus estudos teóricos (1975, 45).
(b) O segundo ponto do método é colocar-se em boas condições de trabalho e
dispor-se a viver no contexto; aberto à realidade do grupo pesquisado.
Certamente Malinowski estava se referindo a sua experiência concreta entre os
indígenas, onde a língua, os costumes e a organização social o apelavam de um lado a
“imergir” para entender. De outro lado, a comunidade dos “brancos” presentes na
localidade era uma tentação permanente de evasão, de busca do habitual e conhecido.
Se substantivamente a situação de um pesquisador de comunidades primitivas é
diferente, a disposição de integrar-se no contexto de pesquisa permanece como condição
preliminar de uma boa investigação empírica. E neste ponto invocamos a contribuição
da fenomenologia, representada por Schutz nas ciências sociais, para aprofundar o tema
da relação pesquisador-pesquisado considerado por ele como um encontro de
intersubjetividades.
Primeiramente Schutz coloca em destaque a especificidade do “campo de ação”
do cientista social:
Há uma diferença essencial na estrutura dos objetos, dos pensamentos ou
constructos mentais formados pelas ciências sociais e pelas ciências naturais.
(...) O mundo da natureza tal como é explorado pelo cientista natural, não
‘signifcia’ nada para as moléculas, átomos e elétrons que nele existem. O campo
de observação do cientista social, entretanto, quer dizer, a realidade social, tem
um significado específico e uma estrutura de relevância para os seres humanos
que vivem, agem e pensam dentro dessa realidade (1954, 266-267).
140
Para Schutz, preocupado com a cotidianidade do “homem comum” do “homem
da rua” os objetos de pensamento, construídos pelo cientista social, têm que estar
baseados nos objetos de pensamento construídos pelo senso comum dos homens que
vivem cotidianamente dentro dessa realidade.
A fenomenologia pensa a relação pesquisador/pesquisado como uma interação
onde as estruturas de significados de ambos são observadas e traduzidas para os
constructos consistentes de um quadro referencial teórico. Para isso, Schutz propõe
algumas atitudes no trabalho de campo: (a) O observador deve colocar-se no mundo de
seus entrevistados, buscando entender os princípios gerias que os homens seguem na
sua vida cotidiana, para organizar sua experiência, particularmente as de seu mundo
social. Desvendar essa lógica é condição preliminar da pesquisa; (b) Manter uma
perspectiva dinâmica que ao mesmo tempo leve em conta as relevâncias dos atores
sociais e tenha em mente o conjunto de relevâncias de sua abordagem teórica, o que lhe
permite interagir ativamente com o campo; (c) Abandonar, na convivência, uma postura
externa “de cientista”, entrando na cena social dos entrevistados como uma pessoa
comum que partilha do cotidiano. Isto é, sua estrutura de relevâncias teóricas fica
implícita. Sua linguagem no campo é a mesma do senso comum dos atores sociais
(1953, 1-38).
A abordagem de Schutz é também em larga escala aprovada e seguida por
Cicourel nas suas análises sobre o observador participante. Esse autor insiste
particularmente na construção do “modelo do ator” pelo pesquisador:
O observador científico necessita de uma teoria que forneça um modelo do ator,
o qual está orientado para agir num meio de objetos com características
atribuídas ao senso comum. O observador precisa distinguir as racionalidades
científicas que usa para ordenar sua teoria e seus resultados, das racionalidades
do senso comum que atribui aos atores estudados (1975, 110).
141
Frisa Cicourel: “os dois conjuntos de contexto – o científico e do senso comum –
são construções feitas pelo cientista” (1975, 110).
O mesmo item do método sobre a inserção do pesquisador no campo é também
aprofundado por Raymond Gold através da proposta de quatro situações teoricamente
possíveis, que vão do extremo “participante total” a outro extremo “observador total”.
Essa classificação, ainda que esquemática tem o mérito de incluir posturas
intermediárias que contemplam a observação participante em diferentes realidades.
Certamente as noções de “familiar” e “estrangeiro” ficam então relativizadas e podem
se aplicar tanto ao contato com os povos primitivos ou grupos de nossa própria
sociedade que nos são também desconhecidos, sociologicamente falando.
Por Participante-Total entendemos o Status do pesquisador que se propõe a
participar inteiramente, “como nativo”9 em todas as áreas da vida do grupo que pretende
conhecer. Isto significa na prática “representar com sucesso papéis exigidos no
cotidiano” ou ainda, segundo Cicourel, “fingir papéis” “quero sugerir com isso que o
valor crucial, no que diz respeito aos resultados da pesquisa, reside mais na auto-
orientação do participante total do que no seu papel superficial quando inicia o estudo”
(Cicourel; 1975, 91-92).
Esse tipo de participação corresponde mais so pesquisadores que se envolvem no
estudo de sociedades primitivas como o mostra Lévi-Strauss:
Quando assume, sem restrição mental e sem segundas intenções, as formas de
vida de um sociedade estrangeira, o antropólogo pratica a observação integral,
aquela além da qual não há mais nada a não ser a observação definitiva – e é um
risco – do observador pelo objeto de sua observação (1975, 216).
142
Esse risco de imersão total tem sido assumido por muitos pesquisadores que
praticam a Pesquisa Participante ou Pesquisa-Ação como observam certos estudiosos
(Durham: 1986, 17-38; Zaluar: 1986, 107-126).
O Participante-como-Observador é significativamente diferente do status
anterior porque o pesquisador deixa claro para si e para o grupo sua relação como
meramente de campo. A participação, no entanto tende a ser a mais profunda possível
através da observação informal, da vivência juntos de acontecimentos julgados
importantes pelos entrevistados e no acompanhamento das rotinas cotidianas. A
consciência, dos dois lados, de uma relação temporário (enquanto dura o trabalho de
9
“Como nativo”, “tornar-se nativo”, expressões que significam identificação maior possível com o grupo pesquisado.
campo) ajuda a minimizar os problemas de envolvimento que inevitavelmente
acontecem, colocando sempre em questão a suposta “objetividade” nas relações.
O Observador-como-Participante é uma terceira modalidade de observação
participante. É empregada frequentemente como estratégia complementar ao uso das
entrevistas, nas relações com os “atores”. Trata-se de uma observação quase formal, em
curto espaço de tempo e suas limitações advêm desse contato bastante superficial.
Como Observador-Total o pesquisador omite a interação direta com os
informantes, mas não sai da cena do trabalho de campo. Os sujeitos da investigação não
sabem que estão sendo observados e pesquisados. Como técnica de estudo, a
“observação total” é raramente usada de forma pura e, sim, tem um papel complementar
em relação a outras estratégias de apreensão da realidade (Gold: 1958, 217-223).
Esses quatro tipos de papéis estereotipados por Gold, só podem ser assim
entendidos para fins analíticos. Na verdade nenhum deles se realiza puramente a não ser
em condições especiais. Em diferentes fases do trabalho de campo, um procedimento
pode ser privilegiado em relação aos outros, dadas às condições de pesquisa, aos
acontecimentos considerados mais ou menos importantes e à própria finalidade da
investigação, o parâmetro mais objetivo das diferentes estratégias.
Mais do que a definição a priori do tipo de pesquisador que
143
deseja se no campo, é preciso considerar a observação participante como um processo
que é construído duplamente pelo pesquisador e pelos atores sociais envolvidos. Esse
processo possui momentos cruciais que devem ser encarados, tanto operacional como
teoricamente. O primeiro deles é a entrada em campo.
Paul Benjamin, numa reflexão sobre a entrada em campo nos diz que:
É o oportuno e às vezes mesmo essencial fazer os contatos com as pessoas que
controlam a comunidade. Essas pessoas podem ter status na hierarquia de poder
ou posições informais que impõem respeito. O apoio delas ao projeto pode ser
crucial e elas podem ser úteis para se fazer outros contatos (1953, 430).
A experiência confirma e relativiza essas observações do antropólogo
americano. Certamente as pessoas que introduzem o pesquisador no campo são com ele
responsáveis tanto pela sua primeira imagem, como por portas que se abrirão ou se
fecharão. O relato de Bereman sobre sua experiência numa comunidade himalaia é
bastante eloqüente sobre isto (1975, 123-177). O perfil dos informantes, a qualidade dos
dados recolhidos têm a ver com o impacto da entrada e da apresentação do pesquisador.
No entanto, sua “sensibilidade” ao campo pode minimizar os aspectos que dificultam a
coleta de dados, buscando por si próprio outros informantes do que os “oficialmente”
apresentados e criando em torno de sua pessoa e de seu trabalho um lastro de
confiabilidade. Frente à situação particular da pesquisa, está em jogo à capacidade de
empatia, de observação e de aceitação do pesquisador que não pode ser transformadora
em receituário prático.
Um segundo momento da inserção (segundo momento aqui entendido apenas
para fins de análise) é a definição do papel do pesquisador no interior do grupo onde
está se integrando. Paul Benjamin, afirma que:
Em parte o pesquisador de campo define seu próprio papel, em parte seu papel é
definido pela situação e pela perspectiva dos nativos (ou grupos). Sua estratégia
é a de quem participa de um jogo. Ele não pode predizer as jogadas precisas que
o outro lado vai fazer, mas pode antecipá-las da melhor maneira possível e fazer
suas jogadas de acordo (1954, 431).
144
Os papéis substantivos reais que o pesquisador desempenhará, vão variar de
acordo com a situação de pesquisa. Na verdade, em relação aos grupos que elege, o
pesquisador é menos olhado pela base lógica dos seus estudos, e mais pela sua
personalidade e comportamento. Seus contatos no campo querem saber se ele é “uma
boa pessoa” e que não vai “fazer mal ao grupo”, não vai tirar “seus segredos” e suas
estratégias de viver a realidade concreta.
Há situações e situações de pesquisa, mas como norma geral, a figura do
pesquisador é construída num processo que ele pode controlar apenas parcialmente, pois
é marcado pelas próprias referências do grupo e interpretado dentro dos padrões
culturais específicos. Da mesma forma, a visão sobre o grupo é construída
processualmente pelo pesquisador na interação com os atores sociais que o compõem e
as relações que consegue captar. É uma visão entre muitas possíveis, e também depende
do arcabouço teórico que informa o observador.
Essa construção mútua do pesquisador e dos pesquisadores através de sua
interação é particularmente pensada por Berreman através da imagem do teatro.
Berreman afirma, a partir de sua experiência e usando reflexões de Goffman sobre a “A
Construção do Eu na Vida Cotidiana”, que pesquisador e pesquisado são ambos atores
representando papéis, um frente ao outro. Assim como no teatro há bastidores, “região
interior”, e o palco, “região exterior”, assim as pessoas tendem a se comunicar, na
interação, apenas através do palco, isto é, das regras oficiais e legitimadas. A relação
entre pesquisador/pesquisado se dá um jogo de cenas, onde ambos tendem a preservar a
“região interior” de sua identidade como pessoa e grupo. No entanto, com relação à
compreensão da realidade, Berreman enfatiza que tanto o conhecimento das regiões
interiores (os segredos dos bastidores) da vida de um grupo, como o da encenação
exterior, isto é, da visão oficial, são componentes essenciais (1975, 123-174). Neste
ponto Berreman se encontra com Malinowski quando este estipula a necessidade de
investigar tanto o arcabouço estrutural como os “imponderáveis da vida real” e os
aspectos íntimos das
145
relações sociais”. Nenhuma das versões é mais verdadeira ou mais falsa, ambas são
material de trabalho para o pesquisador, expressões de relações que ele tenta
compreender.
Se a entrada em campo tem a ver com os problemas de identificação, obtenção e
sustentação de contatos, a saída é também um momento crucial. As relações
interpessoais que se desenvolvem durante a pesquisa de campo não se desfazem
automaticamente com a conclusão das atividades previstas. Há um “contato” informal
de pena de decepção: trabalhamos com pessoas. Na há receitas para esse momento mas
algumas questões que podem ser diferentemente formuladas ou respondidas pelo
pesquisador. São questões sobre as quais as ciências sociais se têm debruçado pouco:
em que pé ficam as relações posteriores ao trabalho de campo? Qual o compromisso do
pesquisador em relação aos dados recolhidos, seu uso científico e as formas de retorno
aos atores pesquisados? A saída do campo portanto envolve problemas éticos e de
prática teórica. A relação intersubjetiva que se criou, pode ela mesma contribuir para
definir o corte necessário ou a continuidade possível ou desejada.
Concluímos a reflexão sobre o segundo item do método proposto por
Malinowski, que os autores citados acima tentam complexificar. As dificuldades de
inserção do pesquisador não podem ser pensadas apenas, como questão de tempo, em
que a longa permanência do etnógrafo num grupo traria, como conseqüência, a sua
aceitação. Há as dificuldades próprias ao período de entrada de campo, mas outras há,
decorrentes das características do grupo a ser pesquisado ou de sua situação vivida no
momento de pesquisa. Essas dificuldades, fica claro, fazem parte desse conhecimento
enquanto contribuição teórica.
(c) O último item do método de observação participante preconizado por
Malinowski consiste na aplicação de um certo número de métodos particulares
para selecionar, coletar, manipular e estabelecer os dados.
O autor refere-se ao registro da “organização social e da anatomia da cultura”
através do que denomina “o método de documentação
146
estatística concreta”, o registro dos “imponderáveis da vida real” através de uma
observação minuciosa detalhada no diário de campo; uma lista de declarações
etnográficas, narrativas feitas pelos nativos, expressões típicas, formulações mágicas,
lendas e peças de folclore que dariam conta da “mentalidade” do grupo. Malinowski
comenta que o objetivo da observação e do registro é apreender o ponto de vista do
nativo, sua relação com a vida real e sua visão de mundo (1975, 60-61) e assim
apreender o sistema total.
Outros pesquisadores depois de Malinowski têm se preocupado em pensar
procedimentos teoricamente fecundos na observação participante, está mais livre de
prejuízos uma vez que não é, necessariamente, prisioneiro de um instrumento rígido de
coleta de dados ou de hipóteses testadas antes, e não durante o processo de pesquisa. A
fluidez da própria natureza da observação participante concede ao pesquisador a
possibilidade de usufruir ao mesmo tempo de dados que os “surveys” proporcionam e
de uma abordagem não-estruturada. Na medida em que convive com o grupo, o
observador pode retirar de seu roteiro questões que percebe como irrelevantes; consegue
também compreender aspectos que se explicitam aos poucos, e que o pesquisador que
trabalha apenas com questionários certamente desconheceria. A observação participante
ajuda, portanto, a vincular os fatos a suas representações e as contradições entre as leis e
sua prática, através das próprias contradições vivenciadas no cotidiano do grupo
(Denzin: 1973, 216).
Cicourel concorda com Denzin sobre as virtudes da observação participante, mas
coloca-se de forma mais exigente em relação à validade dessa estratégia. Sua
preocupação está voltada para as condições que possibilitam o teste de hipóteses e
resolvam os problemas de inferência e de provas corretas.
Com relação a “objetividade” Cicourel comenta que quanto maior é a
participação do observador, maior o risco de seu envolvimento, mas também maior a
possibilidade de penetrar na chamada “região
147
interior" do grupo. Se a participação mais profunda dificulta o teste de hipóteses, em
contraposição ela pode desvendar os códigos do grupo e seus significados mais íntimos.
Ele postula o controle da objetividade dos dados obtidos através da observação
participante, mediante revisões críticas do trabalho de campo, explicitação dos
procedimentos adotados e dos diferentes papéis representados pelos sujeitos da pesquisa
e pelo próprio pesquisador.
Cicourel critica a visão apenas substantiva dos dados conseguidos visão que
desconhece a situação e as condições do trabalho de campo. Através de uma pretensa
“objetividade” dos dados, estes relatos “pós-facto”, diz ele, “simplesmente acrescentam
observações descritivas de validade duvidosa para o conjunto da ciência social” (1975,
78).
Para conseguir avançar o conhecimento, através da observação participante,
recomenda ao pesquisador que formule o mais claramente possível o que busca
conhecer, ou seja, se quer explorar alguma proposição teórica, se quer testar hipóteses
específicas ou fazer uma investigação exploratória sobre determinado tema ainda
nebuloso.
Chama atenção também para a necessidade, seja qual for o resultado da
pesquisa, de tornar explícitas as fontes de informações sobre o problema a ser
pesquisado, o “campo” no qual a pesquisa se deu e a situação na qual a pesquisa foi
desenvolvida tanto do ponto de vista institucional, de relação entre os pesquisadores, da
especificidade dos informantes, e tudo isso considerado como dados da própria
pesquisa. São informações sobre o processo de trabalho, necessárias para a sua
compreensão como um todo.
Cicourel usa um termo de Becker, “história natural da pesquisa” (1958, 652),
para falar da importância do registro no trabalho de campo, de forma processual: (1) das
intenções implícitas ou explícitas; (2) da teoria e metodologia; (3) das mudanças de
posição no decorrer do trabalho, quando as hipóteses ou pressupostos são
continuamente testados, reformulados e novamente testados: “cada passo produz dados
que odem ser relacionados com os dados a serem obtidos posteriormente, a fim de
melhorar a teoria, a metodologia e clarificar o problema central” (Cicourel: 1975, 118s).
148
Finalmente, conclui que, ainda quando o pesquisador começa seu trabalho com
vagas noções a respeito do tema a ser estudado, ainda assim ele pode chegar a testar
algumas hipóteses específicas, através do detalhamento minucioso de seus
procedimentos metodológicos, e de suas pressuposições teóricas sobre a natureza dos
grupos e da ordem social.
Em resumo, aqui Cicourel concorda com o pensamento de Popper segundo o
qual “a objetividade dos enunciados científicos reside no fato de que eles possam ser
intersubjetivamente submetidos a teste” (1973, 41), ou seja, possam ser julgados pela
comunidade científica. Esta seria a prova de objetivação mais correta.
E ainda dentro do mesmo quadro de preocupações, é importante o comentário de
Bourdieu, segundo o qual não há virtudes mágicas na observação participante,
enaltecida por muitos que julgam equivocadamente que o conhecimento vem a partir da
prática. Para Bourdieu, “a prática que aparece como condição de uma ciência rigorosa
não é menos teórica” (1972, 157), e acrescenta:
É preciso lembrar que o privilégio presente em toda atividade teórica, na medida em que
ela supõe um corte epistemológico, mas também social, governa sutilmente esta
atividade. Isso conduz a uma teoria da prática que é correlativa ao fato de se omitir as
condições sociais na produção da teoria (1972, 158).

Desta forma insiste que, na produção de qualquer teoria, o pesquisador tem que
romper com o senso comum do grupo pesquisado. E, numa segunda ruptura, colocar em
questão os pressupostos inerentes à sua qualidade de observador, isto é, “de estrangeiro
que, preocupado em interpretar as práticas de outro grupo, tende a importar para o
objeto os princípios de suas relações com esse objeto, incluindo-se aqui suas
relevâncias” (1972, 160).
Ao terminar essas reflexões, retomamos as colocações iniciais. Como qualquer
fase de trabalho de pesquisa, também a observação não é neutra. O que é observar?
Como observar? São questões influenciáveis
149
pelos esquemas teóricos, preconceitos e pressupostos do investigador.
Como vimos, a posição funcional positivista tenta perceber a estrutura social e a
totalidade funcional a partir do “caleidoscópio” que é a realidade. A elaboração dos
conceitos de “sistema social” e “função” tal como definidos por Malinowski e por
outros funcionalistas como Radcliffe-Brown constituíram uma ajuda importante na
determinação dos problemas do trabalho de campo. Esses pesquisadores fizeram não só
a antropologia social emergir como uma disciplina distinta mas também elaboraram
uma teoria de observação dos fatos, coerente com seus pressupostos teóricos.
No entanto, as críticas aos autores citados vêm dos seus próprios pressupostos
teóricos que consideram os sistemas sociais como sistemas naturais que podem ser
reduzidos a leis sociológicas, aliados à afirmação de que sua história não tem relevância
científica. Evans-Pritchard se insurge contra os referidos postulados do funcionalismo
com uma frase contundente: “Devo confessar que isso me parece positivismo
doutrinário em sua pior expressão!” (1975, 235).
A teoria fenomenológica dá ênfase à construção do “modelo de ator” formulada
a partir da compreensão de suas estruturas de relevância e da cotidianidade
compartilhada com seus consociados, coloca a importância de delimitação do “campo
de ação” do cientista social como sendo intrinsecamente diferente ao do cientista físico
ou “natural”. Do ponto de vista da sua produção, Schutz define o labor do pesquisador
como uma capacidade de reconstruir, a partir do senso comum dos atores sociais, uma
tipificação da sua realidade capaz de ser compreendida, interpretada e comparada:
Na realidade a pergunta mais séria a que a metodologia das ciências sociais deve
responder é: como é possível formar conceitos objetivos e teorias objetivamente
verificáveis partindo de estruturas dos significados subjetivos? A resposta é dada
pela visão básica de que os conceitos formados pelos cientistas sociais são
‘construtos’ dos ‘construtos’ científicos formados no segundo nível, de acordo
com as regras de procedimento válidas para todas as ciências empíricas. São
construtos do tipo-ideal objetivo, e como tais, diferentes daqueles desenvolvidos
no primeiro nível do pensamento do senso-comum, aos quais eles devem
superar. São sistemas teóricos incorporando hipóteses testáveis (1971, 498).
150
O texto de Schutz revela a preocupação com os dois tipos de construtos (o do
cientista e o do senso comum) e propõe como forma de sua organização o “tipo-ideal”,
como algo que, sem repetir Max Weber, tem seus pontos de encontro na teoria
compreensiva. A grande crítica à fenomenologia que Schutz representa nas Ciências
Sociais é de que ela tem como ponto de partida absoluto os dados imediatos da
experiência vivida, sem analisar suas estruturas e suas condições.
“Ele constrói o mito de um mundo que se percebe objetivo, no qual o pensador
proclama a existência, independente da consciência” (1967, 70), diz Lukács.
A etnometodologia, que no interior da sociologia mais tradicional advoga
procedimentos de trabalho de campo, tampouco desenvolve uma metodologia particular
de observação. Recolhendo as influências da sócio-linguística, da antropologia e da
fenomenologia, ela procede a partir, dessa tradições. Reconhece como importante a
observação contextualizada para o pesquisador perscrutar os fenômenos, descrevê-los e
interpretá-los. É uma abordagem extremamente crítica à observação positivista que vê o
ato em si mesmo sem considerar as pressões sociais que julgam a ação do senso comum
sem racionalidade (Park and Burgens: 1921, V-VI; Playne et alii: 1981, 87-145).
A posição da etnometodologia, particularmente da etnometodologia etnográfica,
coincide com a abordagem tradicional da antropologia, com matrizes teóricos da
fenomenologia, representada por Schutz. Os seus adeptos no entanto tentam diferenciá-
los, criticando a antropologia de ser eminentemente descritiva. Goudenough insiste que
não se pode explicar uma cultura descrevendo seus comportamentos sociais,
econômicos ou eventos cerimoniais e a forma como determinado fenômeno se
apresenta. O desafio, segundo ele, é construir uma teoria dos modelos conceituais os
quais eles representam
151
e dos quais eles são produtos. Portanto teoria e observação devem vir juntos para essa
forma de compreensão (Goudenough: 1964, 85-97).
As crítica relativas à etnometodologia se concentram exatamente na sua
preocupação excessiva com o método e com a interpretação. Nela se processa uma
redução do conhecimento aos significados subjetivos que os sujeitos criam de seu
mundo, e da estrutura social aos procedimentos interpretativos.
A teoria marxista tem desenvolvido pouco sua reflexão sobre o trabalho de
campo. Na verdade, na “Enquete Operária”, Marx propõe que os próprios operários
apliquem os questionários. Desta forma a figura do pesquisador externo ao campo não
existe. A partir dele, as posições múltiplias do marxismo têm variado, em relação ao
trabalho de campo, entre a omissão, a negação como algo burguês, a interpretação da
realidade, ou a tentativa de realizar uma sociologia crítica (Thiollent: 1978, 20). Entre
um extremo e outro, há o reconhecimento de que a sociologia marxista tem contribuído
pouco para a definição de procedimentos da pesquisa social. Comentando sobre o tema,
Thiollent diz que não se pode dizer que no marxismo contemporâneo haja uma posição
única a respeito da investigação em geral e da sociológica em particular. Na
apresentação do livro Existencialismo e Marxismo, de Lukács, o tradutor comenta a
polêmica dos anos 60, na França, em que Sartre acusa os marxistas de esclerose, de
incapacidade de apreender o particular, de perceber as representações como síntese de
todas as mediações do homem na sua vida concreta. Em troca Lukács acusa o
existencialismo como sendo comprometido com uma camada social. Ambos falavam
em nome de Marx (1967). Essa mesma crítica, continuam a fazer os etnometodológos a
respeito da incapacidade do marxismo de apreender a realidade cotidiana. Na medida
em que se contenta com as macroanálises, paralisa-se o progresso da reflexão científica
(Herzlich, anotações 1986). Nas universidades há o privilegiamento das abordagens
históricas, econômicas e filosóficas e mesmo aí o que se costuma considerar como
“análise marxista” consiste numa discussão quase exegética de textos clássicos de Marx,
sem a devida problematização do levantamento e da incorporação dos novos dados
referentes a
152
situações concretas. Esse fato, diz Thiollent, pode ser apontado como origem do
“teoricismo formalista” que consiste em privilegiar a compreensão da estrutura das
obras clássicas (Thiollent: 1978, 24). Na prática de conhecimento, a lógica da
investigação foi separada da lógica de apresentação, perdendo-se dentro de várias
correntes marxistas o sentido do que há de fundamental nas ciências sociais: a pesquisa.
Comenta Thiollent: “sem investigações novas e sem preocupação de elaborar novos
modos de investigação só se pode discutir a forma de apresentação de conhecimentos
antigos, cuja capacidade de dar conta da realidade atual é problemática” (1978, 27).
Raniero Panzieri em “A Concepção Socialista da Enquete Operária” faz a
mesma crítica que Thiollent, e afirma que a posição dogmática de considerar a
sociologia como uma ciência burguesa fez que o marxismo como sociologia, regredisse.
E acrescenta: “parece-me que a sociologia burguesa desenvolveu-se a ponto de
apresentar características de uma análise científica que ultrapassa o marxismo” (1978,
227).
Ao mesmo tempo o autor faz reparos a determinados tipo de sociologia e de
antropologia que recorta a realidade e só olha de forma parcial e fragmentada. E sobre a
Observação, comenta:
O momento de observação sociológica, conduzida segundo critérios sérios e
rigorosos [mas não menciona que critérios seriam esses] está então ligada por
uma continuidade muito precisa à ação política; a pesquisa sociológica é uma
espécie de mediação sem a qual nos arriscamos a fazer uma idéia otimista ou
pessimista, de qualquer modo absolutamente gratuita, do grau de consciência da
classe e da força em oposição atingida por ele. Ora, é claro que essa
consideração influencia os objetivos políticos da investigação e representa
mesmo seu principal objetivo (1978, 228).
Panzieri considera a pesquisa como um instrumento de conhecimento
153
da realidade operária e como contribuição para elevação da consciência de classe.
Thiollent, criticando a atitude que considera alternativa o que chama “questionamento”
dentro da “pesquisa-ação”. Seria o próprio envolvimento do pesquisador na realidade e
estudo particular, pois o envolvimento do pesquisador não exime de “miopia” em
relação à realidade e nem resolve os dilemas do conhecimento. Há já vários estudos
metodológicos que, sem menos prezar, empreendem uma crítica séria aos trabalhos de
Pesquisa-Ação e Pesquisa Participante tais como estão sendo realizadas no Brasil. O
ponto de indagação maior diz respeito ao empirismo que tem dominado os trabalhos e
ao seu caráter mais militante que científico (Durham: 1987, 17-38; Cardoso: 1986, 95-
106; Zaluar: 1986, 107-126).
Alguns filósofos marxistas dão algumas pistas coincidentes com a práxis da
observação participante, mas sem, em nenhum momento, levantar comentários sobre
ela. Joja, na Lógica Dialética afirma:
O singular e o particular manifestam a essência, o geral numa exuberância de atributos
em que é difícil distinguir o essencial daquilo que não o é, tanto que aquilo que não é
essencial é mais visível e pode, por vezes, desempenhar o papel do essencial. (...) No
singular percebemos o geral que aí está incluso e realizado: segundo a expressão
plástica de Filipon, o universal é a comunidade pela qual todos os particulares se
comunicam (1695, 77).
Kosic, preocupado com as manifestações fenomênicas da realidade, numa
primeira abordagem poderia ser confundido com um fenomenológo:
No trato utilitário, prático com as coisas, em que a realidade se revela como
mundo dos meios, fins, instrumentos, exigências e esforços para satisfazer a
estas – o indivíduo ‘em situação’ cria suas próprias representações das coisas e
elabora todo um sistema correlativo de noções que capta e fixa o aspecto
fenomênico da realidade. Essas representações se reproduzem imediatamente na
mente daqueles que realizam uma determinada práxis histórica, como categorias
de pensamento comum (1969, 10).
154
Mas Kosik se separa de Schutz, ao indicar as denominações:
Trata-se de uma práxis fragmentária, baseada na divisão de trabalho, na divisão
da sociedade em classe na hierarquia de posições sociais decorrentes da divisão
em classe. (...) O fenômeno indica a verdade e a esconde. (...) Captar o
fenômeno seria indagar e descrever como a coisa se manifesta naquele fenômeno
e da essência (1969, 12).
Joja comenta os desvios das filosofias do século XVIII e XIX que consideravam
as sensações, os sentimentos, a experiência vivida, idéias e a imaginação como
elementos subordinados à única “instância de conhecimento adequado, a razão”. Opõe a
isso a reflexão de Lênin segundo a qual: “seria ridículo negar o papel da imaginação
mesmo na ciência mais rigorosa” e chama atenção contra as tendências que exageram
tanto a supremacia da razão como os subjetivismos. Diz Lênin: “deveríamos apreender
a explorar todos os seus aspectos, todas as suas correlações e suas mediações para
chegar à realidade objetiva, nos limites de nossas possibilidades históricas” (1965, 215).
Joja completa seu raciocínio ao acrescentar:
O pensamento concreto consiste em considerar e apreender os fenômenos em sua auto-
relação e hetero-relação, em suas relações com a multiplicidade de seus próprios
ângulos e de seus aspectos intercondicionados, em seu movimento e desenvolvimento,
em sua multiplicidade e condicionamento recíproco com outros fenômenos ou grupos
de fenômenos (Joja: 1965, 53).
155
A idéia de que o particular não existe senão na medida em que se liga ao geral e
o geral senão no particular e através dele; a idéia de que a dificuldade de apreensão está
no pensamento e não na realidade, pois é o pensamento que separa e mantém a distinção
de verdadeira e profunda do que nossa capacidade de apreendê-lo; a idéia de que há
uma relatividade entre os fatores objetivos e subjetivos, material e espiritual são alguns
dos princípios básicos da lógica dialética que podem orientar um trabalho de campo
com perspectivas marxistas. Esses princípios têm sua culminância na reflexão de Marx
em A Ideologia Alemã: “A consciência não pode nunca ser outra coisa senão o ser
consciente, o ser dos homens em seu processo de vida real” (1984, 17).
O texto que talvez traga elementos mais próximos de compreensão da
observação é o Método Dialético na Análise Sociológica de Fernando Henrique
Cardoso (1973, 1-23). A partir do estudo do conceito de totalidade, o autor insiste que a
interpretação dialética, para ter foros de instrumento científico de análise, precisa ser
utilizado sem retirar dos dados o valor heurístico que possuem: “sem sólida base
empírica, a análise dialética corre o risco de perder-se em considerações abstratas
destituídas de valor explicativo real” (1973, 2).
Trata-se, segundo o autor, de explicar os processos, as situações e os sistemas,
não do ponto de vista da história já decorrida, quando tudo parece ter caminhado na
direção de finalidades engendradas por condições dadas, mas do ponto de vista da
história como realizadora da atividade humana coletiva. Resume Cardoso: “O marxismo
vivo é heurístico”. Jamais em Marx encontram-se entidades. Por exemplo “a pequena
burguesia” no Dezoito Brumário “fez parte de uma totalidade viva, nos quadros da
pesquisa e não de uma dedução do real a partir de totalidades abstratas definidas a
priori” (Cardoso, 1973, 17 e 23).
As considerações de Cardoso e outras no mesmo sentido feitas por Miriam
Limoeiro em “La Construción de Conocimientos” (1977, 11-135) reafirmam de um lado
a visão dialética da realidade
156
pressupõe a investigação empírica; de outro que os instrumentos mais concretos de
apreensão das “totalidades vivas” não estão suficientemente pensados nem na teoria e
nem na prática e sim ao nível epistemológico.

b) Saúde/Doença como Tema de Observação


Se tomarmos como objeto de estudo e observação o tema Saúde/Doença, seja
tanto em relação às concepções que delas faz a população, seja em relação às políticas
do setor, avaliação de cobertura ou as reivindicações do movimento social, as posturas
funcionalistas, fenomenológicas ou marxista seriam totalmente diferentes.
No primeiro caso as observações e entrevista privilegiariam a compreensão do
sistema, sua organização, seu funcionamento, as idéias que as pessoas têm a seu
respeito, incluindo-se a busca de entendimento e explicações para os “desvios”
funcionais. A população seria observada e inquirida sobre sua aceitação/integração ao
sistema e ao esquema médico. O “normal” e o “típico” seriam o conhecimento oficial.
As conclusões estratégicas de tal pesquisa apontariam a melhor adequação do sistema a
seus clientes, e aos usuários seriam reservados programas de “educação e saúde”
buscando-se corrigir os comportamentos e práticas desviantes. Assim a fórmula
positivista de perceber o “normal” é dada pela ideologia dominante e sua proposta
concreta é a reordenação do sistema e correção de seu estrangulamentos já que os
pressupostos de sua organização não se colocam em questionamento.
O quadro referencial fenomenológico, voltado para compreender as estruturas da
relevância dos grupos observados (grupos em qualquer nível), respeitaria a liberdade do
grupo e de seus componentes como atores sociais e suas formas alternativas de
interpretação do corpo, da saúde/doença, das políticas e dos programas. Sua ênfase nos
indivíduos enquanto agentes sociais torna-a uma teoria que se insurge contra o “oficial”,
o “dominante”, o “Estado”, a “sociedade” e a anomicidade. As propostas daí
decorrentes seriam de respeitar às diferentes alternativas, uma vez que foram
construídas pela experiência dos grupos. É uma postura teórica antagônica ao
positivismo funcionalista que proclama as propostas dominantes como sendo
157
as “normais”. Sua fraqueza está em erigir o “senso comum” como norma de ação,
desconhecendo as implicações estruturais que fundamentam as experiências de vida dos
grupos sociais.
A teoria marxista parte também da observação e do respeito ao senso comum
mas não o erige como “norma” e nem o considera um desvio. Na sua perspectiva, as
práticas e programas de saúde expressam os conflitos e diferenças que existem no setor
e as condições de classe da população. Toda a visão de saúde da população tem a ver
com a situação em que vive e com as contradições mais gerais da sociedade que
também se expressam no setor saúde. Sua perspectiva não é de conservação nem de
reordenação, nem de oposição do indivíduo/sociedade. Sua perspectiva é sempre a
possibilidade de transformação (pelas contradições) das condições que geram e
reproduzem as situações de doença da população. A observação neste caso é observação
das condições de vida, das práticas de classe e das formas de organização que
engendram as situações de saúde/doença, numa busca de aproximação cada vez maior
de totalidade, como tão bem insiste Goldmann: “nunca se pode chegar a uma totalidade
que não seja, ela mesma, elemento ou parte” (1967, 11).
Essas visões teóricas diferenciadas dos observadores participantes certamente
serão responsáveis por respostas às questões: o que observar? Como observar?
No entanto todas elas se reúnem frente a algumas premissas metodológicas de
observação do fenômeno (seja qual ele for) social:
- a necessidade de preparação teórica;
- a relativização das hipóteses frente às evidências do campo;
- a necessidade de integração do pesquisador no campo para a apreensão qualitativa da
realidade;
- o uso de instrumentos adequados para a seleção e apreensão dos dados.
A tentativa de cercar o objeto de todos os ângulos possíveis, são algumas pistas
para o trabalho de campo que nenhuma teoria pode questionar. Desta forma, a noção de
observação não pode ser simplesmente
158
confundida com “empirismo”. Este é apenas uma ideologia particular de observação.
Criticar as ideologias de observação empiristas, positivistas ou psicologistas não
consiste em rejeitar todos os tipos de inserção. Ao empirismo não podemos opor o
teoricismo. Sem investigação da realidade concreta, as ciências sociais seriam apenas
um discurso filosófico ou político. Sem problemática teórica, a sociologia degeneraria
em pesquisa de opinião e entronização do senso comum.
É bom lembrar mais uma vez que no campo assim como durante todas as etapas
da pesquisa tudo merece ser teorizado como fenômeno social e historicamente
condicionado: o objeto investigado, as pessoas concretas implicadas, o pesquisador e
seus sistema de representações teórico-ideológicas, as técnicas de pesquisa, e todo o
conjunto de relações interpessoais e de comunicação simbólica.
As relações entre a experiência de observação e a consciência não são de ordem
acumulativa e a subjetividade não desvenda a essência sem a teoria, entendida como
instrumento para encontrar o geral no particular.
Pela importância que a pesquisa qualitativa tem para a área da saúde, os temas
que se seguem, destinam-se a aprofundar a categoria básica dentro das ciências sociais
que fundamenta o trabalho de campo: Representações Sociais e Representações Sociais
de Saúde/Doença.
Os dois temas complementares, sendo o segundo específico a nossa
preocupações neste trabalho como um todo, serão abordados dentro das várias correntes
de pensamento que perpassam as relações contraditórias entre nossa sociedade e nosso
tempo.
CONCEITO DE REPRESENTAÇÕE SOCIAIS

Representações Sociais é um termo filosófico que significa a reprodução de uma


percepção anterior ou do conteúdo do pensamento. Nas Ciências Sociais são definidas
como categorias de pensamento, de ação e de sentimento que expressam a realidade,
explicam-na, justificando-a ou questionando-a. Enquanto material de estudo, essas
percepções são consideradas consensualmente importantes, atravessando a história e as
mais diferentes correntes de pensamento sobre o social. Neste texto, abordamos o viés
através do que os autores
159
como Durkheim e seus seguidores, Weber e a escola fenomenológica representada por
Schutz, Marx e os marxistas trabalham o mundo das idéias e seu significado no
conjunto das relações sociais.
Do ponto de vista sociológico, Durkheim é o autor que primeiro trabalha
explicitamente o conceito de Representações Sociais. Usando no mesmo sentido que
Representações Coletivas, o termo se refere a categorias de pensamento através das
quais determinada sociedade elabora e expressa sua realidade. Durkheim afirma que
essas categorias não são dadas a priori e não são universais na consciência, mas surgem
ligadas aos fatos sociais, transformando-se, elas próprias, em fatos sociais passíveis de
observação e de interpretação. Isto é, a observação revela, segundo ele, que as
representação sociais são um grupo de fenômenos reais, dotados de propriedades
específicas e que se comportam também de forma específica. Na concepção de
Durkheim é a sociedade que pensa, portanto as representações não são necessariamente
conscientes do ponto de vista individual. Assim, de um lado, elas conservam sempre a
marca da realidade social onde nascem, mas, também, possuem vida independente e
reproduzem-se tendo como causas outras representações e não apenas a estrutura social.
Embora reconheça como base das representações “o substrato social”, Durkheim
advoga sua autonomia relativa. Segundo eles, algumas, mais que outras, exercem sobre
nós uma espécie de coerção para atuar em determinado sentido. Dentre estas se
destacam a religião e a moral, assim como as categorias de espaço, tempo e de
personalidade, consideradas por ele como representações sociais históricas.
Escreve o próprio autor:
As Representações Coletivas traduzem a maneira como o grupo se pensa nas
suas relações com os objetos que o afetam. Para compreender como a sociedade
se representa a si própria e ao mundo que a rodeia, precisamos considerar a
natureza da sociedade e não dos indivíduos. Os símbolos com que ela se pensa
mudam de acordo com a sua natureza (...) Se ela aceita ou condena certos modos
de conduta, é porque entram em choque ou não com alguns dos seus sentimentos
fundamentais, sentimentos estes que pertencem à sua constituição (1978, 79).
160
Portanto, para Durkheim não existem “representações falsas”, todas respondem
de diferentes formas e condições dadas a existência humana. São símbolos coletivos
através dos quais:
É preciso saber atingir a realidade que ele figura e que lhe dá sua verdadeira
significação. Constituem objeto de estudo tanto quanto as estruturas e as
instituições: são todas elas maneiras de agir, pensar e sentir, exteriores ao
indivíduo e dotadas de um poder coercitivo em virtude do qual se lhes impõe
(1978, 88).
Contêm, como as instituições e estruturas as duas características do fato social:
(a) exterioridade em relação às consciências individuais; (b) exercem ação coercitiva
sobre as consciências individuais, ou são suscetíveis de exercer essa coerção.
No seu afã de afirmar a objetividade da sociologia, Durkheim tenta eximir a
análise de qualquer fato social e, portanto, das representações sociais do envolvimento
do pesquisador e dissecar esse “fato” de qualquer comprometimento ideológico. Diz
que o método sociológico: (a) deve ser isento de qualquer filosofia; (b) deve ser
objetivo, isto é, os fatos são coisas e como tal devem ser tratados; (c) os fatos sociais
são exclusivamente sociológicas: a noção de especificidade da realidade social é de tal
modo necessária ao sociólogo que só uma cultura especificamente sociológica pode
compreender os fatos sociais (1978, 159-161).
As idéias de Durkheim sobre Representações Sociais são compartilhadas por
uma série de estudiosos. Bohannan, em breve ensaio sobre a consciência coletiva e a
cultura, nota que os termos “consciência” e “representações coletivas” usados por
Durkheim recobrem o mesmo campo que a noção de cultura para os antropólogos
culturais tais como Sapir, Malinowski e Kroeber. Para Bohannan: “a consciência
coletiva é o idioma cultural da ação social. (...) é a totalidade das representações
coletivas de acordo com suas manifestações nas relações sociais” (1964, 77-96).
161
Também Marcel Mauss, abordadndo o mesmo tema mostra que a sociedade se
exprime simbolicamente em seus costumes e instituições através da linguagem, da arte,
da ciência, da religião, assim como através das regras familiares, das relações
econômicas e políticas. Portanto, para ele, é objeto das ciências sociais tanto a coisa, o
fato, como a sua representação. O autor, no entanto, chama atenção para a diferenciação
entre esses dois níveis, considerando o risco de se reduzir a realidade à concepção que
os homens fazem dela (1979, 8-53).
A visão de objetividade positivista das representações sociais tem sido
duramente criticada por várias correntes no interior das ciências sociais. Para os adeptos
da Sociologia Compreensiva e da abordagem Fenomenológica, o aspecto mais
problemático da teoria se refere ao poder de coerção atribuído à sociedade sobre os
indivíduos, de maneira quase absoluta. Para os marxistas, a visão durkheimiana elimina
o pluralismo fundamental da realidade social, em particular as lutas e antagonismos de
classe.
Vejamos como a Sociologia Compreensiva representada por Max Weber e a
Fenomenologia traduzida por Schutz para o campo das Ciências Sociais abordam o
tema das Representações.
Max Weber elabora suas concepções do campo das Representações Sociais
através de termos como “idéias”, “espírito”, “concepções”, “mentalidade”, usados
muitas vezes como sinônimos e trabalha de forma particular a noção de “visão de
mundo”. Para ele, a vida social – que consiste na conduta cotidiana dos indivíduos – é
carregada de significação cultural. Essa significação é dada tanto pela base material
como pelas idéias, dentro de uma adequação, em que ambas se condicionam
mutuamente.
Segundo Weber, as idéias (ou representações sociais) são juízos de valor que os
indivíduos dotados de vontade possuem. Portanto, as concepções sobre o real têm uma
dinâmica própria e podem apresentar tanta importância quanto a base material. É com
estes dois termos base material e eficácia das idéias em relação de afinidade eletiva
(Weber, 1974, 81) que ele analisa a história do avanço do capitalismo no mundo
ocidental. De um lado, afirma que o capitalismo “educa” e “cria” seus sujeitos para
seleção econômica. De outro, demonstra como as idéias de trabalho como virtude
máxima e vocação do homem, prosperidade como bênção divina, lucro como fator
legítimo das relações
162
econômicas, contribuíram para fazer avançar o capitalismo, tanto quanto ou mais do que
a “acumulação primitiva”:
Com referência à doutrina do mais ingênuo materialismo histórico, de que as
idéias se originam como ‘um reflexo’ ou como ‘superestrutura’ de situações
econômicas, somente podemos opinar mais detalhadamente, neste caso [da ética
protestante em relação ao avanço do capitalismo], que a relação causal é a
inversa da sugerida pelo ponto de vista materialista (Weber: 1985, 35).
A partir da tese da recíproca influência entre os fundamentos materiais, as formas de
organização político-social e o conteúdo das idéias, Weber teoriza sobre certa autonomia
do mundo das representações e a possibilidade concreta de se estudar a eficácia
histórica das idéias. No entanto, ao afirmar essa “certa autonomia”, ele não descarta a
possibilidade empírica de que, em determinados momentos, o econômico seja o fator
dominante e que, em outros, são fatores diferentes os que mais influem na formação
social. Assim, durante a Primeira Grande Guerra, Weber fez a seguinte declaração:
Não são as idéias, mas os interesses materiais e ideais que governam diretamente
a conduta do homem. Muito freqüentemente, porém, as ‘imagens mundiais’ que
foram criadas pelas ‘idéias’ determinaram como manobreiros, as linhas ao longo
das quais a ação foi impulsionada pela dinâmica dos interesses (1974, 83).
Seu pensamento, na verdade, tenta complexificar a teoria – que ele considera a
“mecânica” – da determinação da base material sobre as representações sociais. Alerta
para a necessidade de se conhecer em cada caso, quais os fatores que contribuem para
configurar determinado fato ou ação social, como vem resumido na conclusão de A
Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo:
163
Aqui se tratou do fato e da direção em apenas um, se bem que importante ponto
de seus motivos. Seria importante investigar mais adiante, a maneira pela qual a
ascesse protestante foi por sua vez influenciada em seu desenvolvimento e
caráter pela totalidade das condições sociais, especialmente pelas econômicas.
Isto porque, se bem que o homem moderno seja incapaz de avaliar o significado
de quanto as idéias religiosas influenciaram a cultura e os caracteres nacionais,
não se pode pensar em substituir uma interpretação materialística unilateral por
uma igualmente bitolada interpretação causal da cultura e da história” (Weber:
1985, 132).
Assim Weber chama atenção de um lado para a importância de se pesquisar as
idéias como parte da realidade social, e de outro, para a necessidade de se compreender
a que instâncias do social determinado fato deve sua maior dependência. Porém a base
de seu raciocínio é de que, em qualquer caso, a ação humana é significativa, e assim
deve ser investigada.
Usando o conceito de “Visão de Mundo” o autor desenvolve o raciocínio de que,
cada sociedade para se manter necessita ter “concepções de mundo” abrangentes e
unitárias e que em geral são elaboradas pelos grupos dominantes. Por exemplo, cita ele
que: “o enriquecimento com fim obrigatório do homem para a glória de Deus contradiz
ao sentido ético de épocas históricas inteiras e anteriores à atual” (1985: 72).
Essas concepções abrangentes (o modo de encarar o tempo, o espaço, o trabalho,
a divisão do trabalho, a riqueza, o sexo, os papéis sociais etc.) perpassam todos os
grupos de determinada sociedade.
Em síntese, Weber, junto com Durkheim, nos remete à importância de
compreensão das idéias e de sua eficácia na configuração da sociedade apelando ao
estudo empírico do desenvolvimento histórico. Por outro lado não contradiz à
possibilidade também histórica de conjunturas sócio-econômicas provocarem
concepções e atitudes específicas. Por isso a forma com a qual pensa as idéias é de
relação de adequação com a estrutura sócio-econômica e política.
Sem querer reduzir a sociologia compreensiva à fenomenológica e vice-versa,
podemos considerar que essas duas correntes têm muita semelhança quando trabalham a
questão das Representações Sociais.
164
Enquanto da primeira, o autor clássico seria Max Weber, as idéias da fenomenologia
aplicadas às Ciências Sociais são elaboradas teoricamente, em particular, por Alfred
Schutz. Sua contribuição é bastante significativa, especialmente para a
operacionalização da pesquisa social qualitativa e é deste ponto de vista que o
abordamos (Schutz: 1970, 1971, 19820).
Schutz usa o termo “senso comum” para falar das representações sociais. Para
este autor, tanto o conhecimento científico como o senso comum envolve conjuntos de
abstrações, formalizações e generalizações. Esses conjuntos são construídos, são fatos
interpretados, a partir do mundo do dia-a-dia. Portanto, a existência cotidiana, segundo
Schutz, é dotada de significados e portadora de estruturas de relevância para os grupos
sociais que vivem, pensam e agem em determinado contexto social. Esses significados
que podem ser objeto de estudo dos cientistas sociais são selecionados através de
construções mentais, de “representações” do “senso comum” (Schutz, 1973).
Schutz tem como preocupação teórica o mundo do dia-a-dia. Isto é, ele busca
compreender os pressupostos das estruturas significativas da cotidianidade. Para ele, a
compreensão do mundo se dá a partir de um estoque de experiências pessoais e de
outros, isto é, de companheiros, predecessores, contemporâneos, consociados e
sucessores. O autor separa os termos experiência e conhecimento. A primeira pode ser
comum a um grande número de pessoas ao mesmo tempo. O segundo é individual:
consiste na elaboração interior, subjetiva e intersubjetiva, através do senso comum, da
experiência vivida e que funciona como esquema de referência para o sujeito. Assim o
mundo do dia-a-dia é entendido como um tecido de significados, instituído pelas ações
humanas é passível de ser captado e interpreta. O teorema clássico de W. J. Thomas,
segundo o qual “se os homens definem situações como reais, elas são reais em suas
conseqüências” (1963, 196), resume o pensamento fenomenológico, explicado pelo
próprio autor:
Os homens respondem não apenas aos aspectos físicos de uma situação, mas
também e por vezes, primariamente ao sentido que esta situação tem para eles.
Uma vez que eles atribuem algum sentido à situação, o seu comportamento
subseqüente e algumas das conseqüências deste comportamento são
determinados por este sentido anteriormente atribuído (Thomas: 1963, 197).
165
Na verdade, Thomas confere ao sentido atribuído à ação pelo sujeito, o mesmo
nível de coerção que Durkheim confere às representações sociais que emanam do
coletivo.
O número e a natureza das experiências de qualquer ator social, para Schutz,
dependem de sua história de vida, ou melhor de sua “situação biográfica”. Portanto,
cada ator social tem um conhecimento de sua experiência e atribui relevância a
determinados temas, aspectos ou situações, de acordo com sua própria história anterior.
Daí que, para Schutz, o senso comum é de fundamental importância, porque, através
dele o ator social faz sua própria definição de situação. Isto é, não só age como atribui
significados portadores de relevâncias à sua ação, de acordo com sua história de vida,
seu estoque de conhecimentos dado pela experiência de interação que o cercam. O
estoque de conhecimentos se forma através de tipificações do mundo do senso comum.
Isso permite a identificação de grupos, a estruturação comum de relevâncias e
possibilidade de compreensão de um modo de vida específico de determinado grupo.
Uma terceira corrente na interpretação do papel das representações sociais surge
da dialética marxista. Se na totalidade de seus escritos Marx fala da relação entre as
idéias e a base material, podemos dizer que A Ideologia Alemã é uma explanação
clássica sobre o tema das REPRESENTAÇÕES SOCIAIS. Neste texto o autor discuto,
de acordo com seu ponto de vista, o que chama de “ideologia alemã”. Mostra que os
filósofos de seu tempo consideravam as “quimeras, as idéias, os dogmas, as ilusões”
como produzidos e reproduzidos pela própria cabeça, isto é, pela consciência. Para esses
filósofos, as mudanças da sociedade adviriam da substituição das “falsas
representações” por pensamentos correspondentes à essência do homem.
Insurge-se contra o que ele denomina “fantasias inocentes e pueris da filosofia
alemã neo-hegeliana” e, a partir da crítica, elabora e discute sua teoria sobre as
Representações Sociais. Coloca como princípio
166
básico do “pensamento” e da “consciência”, determinado modo de vida dos indivíduos,
condicionado pelo modo de produção da vida material:
Indivíduos determinados, que, como produtores atuam também de forma
determinada, estabelecem entre si relações sociais e políticas determinadas. (...)
Portanto, a produção das idéias, das representações, da consciência está, de
início, diretamente entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio
material entre os homens, como a linguagem da vida real. O representar, o
pensar, o intercâmbio espiritual dos homens aparece aqui como a emanação
direta de suas representações, de suas idéias etc., mas os homens reais, ativos, tal
como se acham condicionados por um determinado desenvolvimento de suas
forças produtivas e pelo intercâmbio que a ele corresponde (1984, 35-44).
A categoria-chave, em Marx, para tratar do campo das idéias é a
CONSCIÊNCIA. Para ele, as representações, as idéias e os pensamentos são o conteúdo
da consciência que por sua vez é determinada pela base material:
Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência.
(...) A consciência é desde o início um produto social: ela é mera consciência do
meio sensível mais próximo, é a conexão limitada com outras pessoas e coisas
fora do indivíduo. (...) A consciência jamais pode ser outra coisa que o homem
consciente e o ser dos homens é o seu processo de vida real (1984, 43-45).
No entanto, apesar de defender durante todo o tempo a anterioridade da vida
material sobre as idéias, ele vê esses dois elementos numa relação dialética: “as
circunstâncias fazem os homens, mas os homens fazem as circunstâncias” (1984, 45).
Neste sentido, Marx relativiza o determinismo mecânico da base material sobre a
consciência e chama atenção para as contradições existentes entre as forças de
produção, o estado social e as idéias (1984, 73).
167
Para Marx, a manifestação da consciência se faz através da linguagem: “Ela
nasce da carência, da necessidade de intercâmbio com os outros homens: a linguagem é
a consciência real, prática, que existe para os outros homens e existe também para mim
mesmo” (1984, 43).
Faz ele um paralelo entre consciência e linguagem, entre as representações e o
real invertido, e mostra como as idéias estão comprometidas com as condições de
classe:
As idéias de classe dominante são, em cada época, as idéias dominantes; isto é, a classe
que é a força material dominante da nossa sociedade, é ao mesmo tempo sua força
espiritual dominante. Daí que, as idéias daqueles aos quais faltam os meios de produção
material estão subjetivadas às classes dominantes. As idéias dominantes nada mais são
do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, colocadas como idéias
gerias, comuns e universais de todos os membros da sociedade (1984, 47).

A partir de Marx, dois outros autores têm trabalhado mais detidamente o campo
das representações sociais do ponto de vista marxista – Gramsci e Lukács. Gramsci
aborda o tema, de forma muito específica, quando trata do SENSO COMUM e do BOM
SENSO. Em seus escritos o autor está mais preocupado com a questão pedagógica da
construção da hegemonia do que com a pesquisa social. Mas assim mesmo sua
formulação é esclarecedora no campo que nos concerne, porque avança a teoria
marxista sobre o mundo das idéias.
O autor comenta que nos seus “Escritos” Marx se preocupo com o senso comum
e com a solidez das crença das massas, mas não para se referir ao seu valor potencial de
mudança. Pelo contrário, queria chamar atenção para a solidez dessas crenças,
particularmente da religião, enquanto produtoras de normas de conduta e de
conformismo (1981: 63 e 148). A partir dos “Escritos” de Marx sobre as crenças das
massas, Gramsci defende-o de afirmar o “determinismo econômico da base material
sobre as idéias” e desenvolve o conceito
168
de bloco histórico no qual emite sua própria teoria sobre as relações entre a base
material e as idéias:
As forças materiais são o conteúdo e as ideologia são a forma sendo que esta
distinção entre o conteúdo e forma é puramente didática, já que as forças
materiais não seriam historicamente concebíveis sem forma e as ideologias
seriam fantasias individuais sem as forças materiais (1981, 63).
Para o autor, o senso comum enquanto matéria-prima ou como “representação
social” tem um potencial transformador. Mesmo como pensamento fragmentário e
contraditório, o senso comum deve ser recuperado criticamente, uma vez que ele
corresponde espontaneamente às condições reais de vida da população. Por isso
combate o preconceito racionalista contra o senso comum em várias partes de sua obra.
Primeiramente afirma que todos nós somos presa de algum:
Pela própria concepção de mundo pertencemos sempre a um determinado grupo,
precisamente ao de todos os elementos sociais que partilham de um mesmo
modo de pensar e agir. Somos conformistas de algum conformismo, somos
sempre homens-massa ou homens-coletivos (1981, 12).
Dentro de uma preocupação mais voltada para o campo político, a descrição que
Gramsci faz da consciência desse “homem-massa” que todos somos de alguma modo,
põe a nu, de um lado, os elementos de incoerência e conservadorismo que povoam, mas
de outro lado, as possibilidades e sinais de mudanças:
Nossa própria personalidade é composta de uma maneira bizarra: nela se
encontram elementos dos homens da caverna e princípios da ciência mais
moderna e progressista; preconceitos de todas as faces históricas passadas,
grosseiramente localistas e instituições de uma futura filosofia que será própria
do gênero humano mundialmente unificado (1981, 12).
169
Portanto, ao mesmo tempo em que o autor aponta os elementos ilusórios,
valoriza e busca compreender qual a importância do senso comum no trabalho
pedagógico de construção da contra-hegemonia:
O subalterno é apenas simples “paciente”, simples coisa, simples
irresponsabilidade? Não, por certo. Em que reside exatamente o valor do que se
costuma chamar senso comum ou bom senso? Não apenas no fato de que, ainda
que, implicitamente o senso comum empregue o princípio da causalidade, mas
no fato muito mais limitado de que, em uma série de juízos, o senso comum
identifique a causa exata, simples, imediata, não se deixando desviar por
fantasmagorias e obscuridades metafísicas, pseudometafísicas e
pseudoprofundas (1981, 35).
Em resumo, podemos apresentar a contribuição de Gramsci sobre as
Representações Sociais em três aspectos importantes: (a) primeiramente, chama atenção
para o caráter de conformismo de que elas são reveladoras e para o caráter de
abrangência desse conformismo de acordo com os diferentes grupos sociais. Isto é,
retira a idéia de que o “senso comum” seja inerente à ignorância das massas, mostrando
como cada grupo social tem seu próprio tem seu próprio conformismo e ilusão; (b) em
segundo lugar, alerta para os aspectos dinâmicos geradores de mudanças que coexistem
com o conservadorismo no senso comum; (c) em terceiro lugar, analisa a composição
mais abrangente das diferentes concepções de mundo – das representações sociais – de
qualquer grupo social e de determinada época histórica:
A concepção de mundo de uma época não é a filosofia deste ou daquele filósofo,
deste ou daquele grupo de intelectuais, desta ou daquela grande parcela das
massas populares: é uma combinação de todos estes elementos, culminando em
uma determinada direção, na qual sua culminação torna-se norma de ação
coletiva, isto é, torna-se história completa e concreta (1981, 32).
Essa última afirmação de Gramsci nos remete à compreensão das
Representações Sociais, para efeito de análise, como uma combinação específica das
idéias das classes dominantes e das concepções dos
170
grupos subalternos, numa relação de dominação, subordinação e resistência entre os
dois pólos.
Lukács aprofunda o tema das Representações em Marx, através da noção de
“visão de mundo”. Segundo ele, a visão de mundo não é um dado empírico imediato,
mas um instrumento conceitual de trabalho, indispensável para se compreender as
expressões imediatas do pensamento dos indivíduos. Sua importância e realidade
também se manifestam no plano empírico. Ela é o principal aspecto concreto do
fenômeno da “consciência coletiva”. Segundo Lukács a “visão de mundo” é
precisamente esse conjunto de aspirações, de sentimentos e de idéias que reúne os
membros de um grupo (mais frequentemente de uma classe social) e as opõem aos
outros grupos (1974, 60ss)
Referendando o princípio da determinação da base material sobre as idéias,
Lukács nos diz que as classes sociais são ligadas por um fundamento econômico que
tem importância primordial para a vida ideológica dos homens, simplesmente porque os
homens são obrigados a dedicar a maior parte de suas preocupações e de suas atividades
a garantir a existência, e quando se trata das classes dominantes, à conservação de
privilégios e à gerência e aumento de sua fortuna.
Como os diferentes autores citados, Lukács concorda que nas consciências
individuais se expressa a consciência coletiva (de classe) e chama atenção para o fato de
que o fundamento científico do conceito de “visão de mundo” apreendido através do
indivíduo, é a integração desse pensamento individual no conjunto a vida social,
notadamente pela análise da função histórica das classes sociais (1974, 66-85).
Em resumo, a Escola Marxista coloca como denominador comum da ideologia,
das idéias, dos pensamentos, da consciência, portanto das representação sociais, a base
material. Mas introduz na sua análise outro elemento importante que é a condição de
classe: enquanto a classe dominante tem suas idéias elaboradas em sistemas – ideologia,
moral, filosofia, metafísica e religião – as classes dominadas também possuem idéias e
representações que refletem seus interesses, mas numa condição de subordinação. São
idéias marcadas pelas contradições entre seu lugar na produção e sua condição social.
Isto é, enquanto lhe cabe o trabalho, não lhe sobre a fruição dele;
171
enquanto lhe é atribuída a tarefa de produção, lhe é proporcionado um consumo escasso
e precário.
Para Marx as representações estão vinculadas à prática social. Junto com
Durkheim, ele mostra a anterioridade da vida social em relação à representações. Mas
enquanto para Durkheim a sociedade é a “síntese das consciências”, para Marx, a
consciência emana das relações sociais contraditórias entre as classes e pode ser captada
empiricamente como produto da base material, nos “indivíduos determinados, sob
condições determinadas”. O próprio Durkheim faz questão de marcar essa diferença
quando diz a respeito da religião:
É preciso guardar-se de ver na teoria das Representações um simples
rejuvenescimento do materialismo histórico. Não pretendemos dizer, mostrando
na religião uma coisa essencialmente social, que ela se limita a traduzir, em uma
outra linguagem, as formas materiais da sociedade e suas necessidades imediatas
e vitais. A consciência coletiva é outra coisa que um simples epifenômeno da sua
base morfológica. Ela é uma síntese sui generis das consciências particulares.
Esta síntese tem por efeito produzir todo um mundo de sentimentos, de idéias, de
imagens, que uma vez nascidos obedecem às leis que lhe são próprias. Atraem-
se e se repelem, segmentam-se sem que todas estas combinações sejam
diretamente comandadas pelo estado da realidade subjacente (1983, 227).
Em relação a Weber, Marx se aproxima quando diz que:
A nova classe dominante é obrigada para alcançar os fins a que se propõe, a
apresentar seus interesses como sendo interesses comuns de todos os membros
da sociedade. É obrigado a emprestar às suas idéias a forma de universalidade e
apresentá-la como sendo as únicas racionais, as únicas universalmente válidas
(1984, 74).
Weber, como já se viu, fala da necessidade de concepções de mundo abrangentes
para que determinada sociedade se mantenha.
172
Embora seus pensamentos coincidam em termos gerais, eles se separam pelo recorte de
classe proposto por Marx na análise do social, em contraposição ao termo inespecífico
de “sociedade” usado por Weber.
Com relação ao status das Representações Sociais no conjunto das relações,
Durkheim estabelece que a vida social causa as idéias; para Weber existe uma relação
de adequação entre idéias e base material; e Marx coloca a base material em relação de
determinação.
Pensando em termos de construção do conhecimento, todos os três clássicos
concordam com a importância de se compreender as representações sociais.
Para Marx, se estas representações estão colocadas ao real, o estudo e a análise
das representações são um dados sobre o real, isto é, também informam sobre a base
material na qual se move determinado grupo social. Durkheim¸ reafirmando a
importância das representações, diz que o pensamento coletivo deve ser estudado tanto
na sua forma como no seu conteúdo, por si e em si mesmo, na sua especificidade, pois
um representação social, por ser coletiva, já apresenta garantias de objetividade.
Portanto, por mais estranhas que possam parecer, elas contêm verdades que é preciso
descobrir. Para Weber as representações e idéias têm uma dinâmica prórpia e podem ter
tanta importância quanto a base material.
Para o conjunto dos autores é no plano individual que as representações sociais
se expressam. Marx fala na Ideologia Alemã de sujeitos históricos ou de “indivíduos
determinados” como portadores de uma forma determinada de relações sociais, políticas
e econômicas. Durkheim chama atenção para o fato de que as idéias coletivas tendem a
se individualizar nos sujeitos tornando-se para eles uma fonte autônoma de ação. E
Weber nos diz que o indivíduo, enquanto portador de cultura e de valores socialmente
dados, é a “constelação singular” que informa sobre a ação social de seu grupo, tendo-se
em conta que o limite de suas informações é seu próprio valor.
Ao terminar essa reflexão é preciso notar que em muitos pontos esses autores
coincidem, mas as suas divergências são fundamentais, quanto às suas “visões de
mundo”. Enquanto para Durkheim as representações sociais exercem coerção sobre os
indivíduos e a sociedade, para Weber os indivíduos é que são portadores de valores
173
e da cultura que informam a ação social dos grupos. Marx admite com Durkheim que os
valores e crenças exerçam um papel coercitivo sobre “as massas”, mas insiste no caráter
de classe das representações e no papel da luta de classe que se dá no modo de produção
e determina o campo ideológico. Se para Durkheim a coerção das representações admite
o papel liberador da consciência de classe, como motor de mudança no interior das
contradições que atravessam a sociedade capitalista.

Conclusões
A partir dos vários autores colocados acima, podemos dizer que as
Representações Sociais enquanto senso comum, idéias, imagens, concepções e visão de
mundo que os atores sociais possuem sobre a realidade, são um material importante
para a pesquisa no interior das Ciências Sociais.
As Representações Sociais se manifestam em condutas e chegam a ser
institucionalizados, portanto, podem e devem ser analisadas a partir da compreensão das
estruturas e dos comportamentos sociais. Sua medição privilegiada porém é a
linguagem do senso comum, tomada como forma de conhecimento e de interação social.
Mesmo sabendo que ela traduz um pensamento fragmentário e se limita a certos
aspectos da experiência existencial frequentemente contraditória, possui graus diversos
de claridade e de nitidez em relação à realidade. É fruto da vivência das contradições
que permeiam o dia-a-dia das classes sociais e sua expressão marca o entendimento
delas com seus pares, seus contrários e com as instituições. Com o senso comum os
atores sociais se movem, constroem sua vida e explicam-no mediante seu estoque de
conhecimentos. Mas, além disso, as Representações Sociais possuem núcleos positivos
de transformação e de resistência na forma de conceber a realidade. Portanto, devem ser
analisadas criticamente, uma vez que correspondem às situações reais de vida. Neste
sentido, a visão de mundo dos diferentes grupos expressa as contradições e conflitos
presentes nas condições em que foram engendradas. Assim, tanto o “senso comum”
como o “bom senso”, para usar as expressões gramscianas, são sistemas de
representações
174
sociais empíricos e observáveis, capazes de revelar a natureza contraditória da
organização em que os atores sociais estão inseridos.
Algumas Representações Sociais são mais abrangentes em termos da sociedade
como um todo e revelam a visão de mundo de determinada época, são as concepções
das classes dominantes dentro da história de uma sociedade. Mas essas mesmas idéias
abrangentes possuem elementos de passado na sua conformação e projetam o futuro em
termos de reprodução da dominação.
As Representações Sociais não são necessariamente conscientes. Perpassam o
conjunto da sociedade ou de determinado grupo social, como algo anterior e habitual,
que se reproduz e se modifica a partir das estruturas e das relações coletivas e dos
grupos. Por isso, embora essas categorias pareçam elaboradas teoricamente por algum
filósofo, elas são uma mistura das idéias das leites, das grandes massas e também das
filosofias correntes, e expressão das contradições vividas no plano das relações sociais
de produção. Por isso mesmo, nelas estão presentes elementos tanto de dominação
como da resistência tanto das contradições e conflitos como do conformismo.
Ainda que algumas formas de pensar a socieade sejam abrangentes como um
cimento que mantém as suas estruturas de dominação, cada grupo social faz da visão
abrangente uma representação particular, de acordo com a sua posição no conjunto da
sociedade. Essa representação é portadora também dos interesses específicos desses
grupos ou classes sociais e de seu próprio dinamismo.
Por serem ao mesmo tempo ilusórias, contraditórias e “verdadeiras”, as
representações podem ser consideradas matéria-prima para a análise do social e também
para a ação pedagógico-política de transformação, pois retratam a realidade. Porém, é
importante observar que as Representações Sociais não conformam a realidade e seria
outra ilusão tomá-las como verdades científicas, reduzindo a realidade à concepção que
os atores sociais fazem dela.
Para terminar, vale reforçar que a mediação privilegiada para a compreensão das
representações sociais é a linguagem. Segundo Bakhtin, “a palavra é o fenômeno
ideológico por excelência. A palavra é o modo mais puro e sensível de relação social”
(1986, 36). Particularmente quando se trata da comunicação da vida cotidiana a
175
palavra é fundamental. Elas (as palavras) são tecidos a partir de uma multidão de fios
ideológicos e servem de trama para a s relações sociais em todos os domínios. Bakhtin
chama a nossa atenção para o fato de que cada época e cada grupo social têm seu
repertório de estrutura sócio-política. Portanto a palavra é a arena onde confrontam
interesses contraditórios, veiculando e sofrendo os efeitos das lutas das classes, servindo
ao mesmo tempo como instrumento e como material (Bakhtin, 1986, 37). Pela sua
vinculação dialética com a realidade, a compreensão da fala exige ao mesmo tempo a
compreensão das relações sociais que ela expressa.

REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE SAÚDE/DOENÇA

a) Saúde/Doença como Expressão Social e Individual


É indiscutível a existência da Medicina Social como um tema tão antigo quanto
a reflexão sobre o homem e a sociedade (Rosen, 1983). Desde o início deste século,
porém, sociólogos e antropólogos aportaram uma contribuição muito importante ao
demonstrar, através de estudos empíricos, o fato de que a doença, a saúde e a morte não
se reduziam a uma evidência “orgânica”, “natural”, “objetiva”, mas estavam
intimamente relacionadas com as características de cada sociedade. Isto é, revelaram
que a doença é uma realidade construída e que o doente é um personagem social.
Ao introduzir a obra de Marcelo Mauss, por exemplo, Lévi-Strauss fez algumas
considerações que se tornaram clássicas: “O esforço irrealizável, a cor intolerável, o
prazer ou o aborrecimento são menos função das particularidades individuais que de
critérios sancionados pela aprovação ou desaprovação coletivas” (1950, XIII).
E acrescentou: “Em face das concepções racistas que querem ver no homem o
produto de seu corpo, mostra-se, ao contrário, que é o homem sempre e em toda parte
que faz de seu corpo, um produto de suas técnicas e de suas representações” (1950,
XIV).
176
A partir da reflexão sobre o trabalho de Mauss, Lévi-Strauss mostra que uma
representação tal como a de saúde/doença, manifesta de forma específica as concepções
de uma sociedade como o todo. Cada sociedade tem um discurso sobre saúde/doença e
sobre o corpo, que corresponde à coerência ou às contradições de sua visão de mundo e
de sua organização social. Assim que, o tema referido, além de ter seu próprio esquema
de explicação interno e particular, é como uma janela aberta para a compreensão das
relações entre indivíduos/sociedade e vice-versa, das instituições e de seus mecanismos
de direção e controle:
Em todas as condutas em aparência aberrantes, os doentes não fazem senão
transcrever um estado do grupo e tornar manifestas tais circunstâncias. Sua
posição periférica em relação a um sistema local não impede que eles sejam
parte integrante de um sistema total. Pode-se dizer que, para cada sociedade,
condutas normais e condutas especiais são complementares (1950, XXII).
Marcelo Mauss, num belo texto intitulado “L´Idée de Mort” analisa a maneira
como povos nova-zelandeses e australianos encaram as doenças e a morte. A idéia de
morte, demonstra Mauss a partir de vários trabalhos de campo, é construída e cria uma
ligação direta entre o físico, o psicológico e o moral, isto é, diz ele, “o social”. Num
grande número de sociedades, o medo da morte, de origem puramente social, sem
nenhuma mistura de fatores individuais, é capaz de criar tais manifestações mentais e
físicas na consciência e nos corpos dos indivíduos, de tal forma que eles se relacionam
com sua morte, com detalhes, sem lesões aparentes ou conhecidas: “são casos
acontecidos de mortes causadas brutalmente, em numerosos indivíduos, mas
simplesmente pelo fato de que eles souberam ou acreditaram que iam morrer” (1950,
313).
177
Comenta o autor, a partir dos fatos observados nesses povos, que os indivíduos
eram possuídos repentinamente por doenças causadas (segundo eles) por feitiço,
encantamento ou por pecado de comissão ou omissão. A idéia de doença para esses
grupos seria a causa mediadora do raciocínio consciente ou inconsciente da infração a
alguma norma ou a algum tabu. São situações em que o sujeito que adoece ou morre
não se crê ou não se sabe doente a não ser por causas coletivas que em geral
representam pela ruptura com as coisas sagradas que o sustentam.
A seguinte afirmação de Mary Douglas apenas confirma a posição de Lévi-
Strauss e Marcelo Mauss: “o corpo social limita a forma pela qual o corpo físico é
percebido. A experiência física do corpo, sempre modificada pelas categorias sociais
através das quais é conhecida, sustenta uma visão particular da sociedade” (1971, 83).
Portanto, a partir das ciências sociais podemos dizer que há uma ordem
de significações culturais mais abrangente que informa o olha lançado sobre o copo que
adoece e que morre. A linguagem da doença não é, em primeiro lugar, linguagem em
relação ao corpo, mas à sociedade e às relações sociais. Seja qual for a dinâmica efetiva
do “ficar doente”, no plano das representações, o indivíduo julga seu estado, não apenas
por manifestações intrínsecas, mas a partir de seus efeitos: ele busca no médico (ou
correspondente a ele em cada sociedade) a legitimidade da definição de sua situação.
Disso retira atitudes e comportamentos em relação a seu estado e assim se torna doente
para o outro: para a sociedade.
Do ponto de vista causal, a ordem de significações culturais informa e se refere:
(a) à visão do mundo; (b) a atitudes coletivas face à infelicidade dominadora; (c) ao
“pecado” que se personaliza na doença, isto é, ao rompimento do homem com limites
dados pelas regras e normas da sociedade, frequentemente traduzidas em códigos
morais ou religiosos; (d) ao corpo doente como espaço do “horrível” que se mostra,
simbolizando o “infeliz” e “alienante” naquela sociedade, aquilo que para ela não está
resolvido, não é compreensível e revela sua precariedade.
178
Esse nexo causal de origem pode ser resumido em fatores endógenos e exógenos
presentes tanto nas concepções dos povos primitivos como nas dos mais modernos. Do
ponto de vista médico-clínico, os fatores endógenos são pensados através de processos
biológicos. Do ponto de vista do senso comum, o indivíduo é causador de doença
através de questões hereditárias, castigo divido ou pecado individual. As causas
exógenas são pensadas sobretudos a partir da sociedade, isto é, do desequilíbrio entre as
relações sociais de determinado grupo e dele com o seu meio, como bem expressam
Peter Manning e Horácio Fabrega Jr.:
Estudos que comprovam os significados básicos acerca do corpo podem
esclarecer não somente o que é universal e o que é culturalmente variável sobre
a doença, mas também o papel central que essas noções interrelacionadsa
exercem na percepção do homem na sua relação com o ecossistema (1973, 72).
A doença como proveniente do indivíduo, primeiramente é concebida como um
processo que, de imediato, não revela seu vínculo com o social. Isto é, em primeira
instância, independentemente de qualquer explicação que possa ser dada, é o indivíduo
que adoece e enfrenta a morte. No entanto, a atribuição de sentidos das causas
endógenas é também socialmente construída. Quase sempre são interpretações que
revelam desígnio divino, fatalidade ou desordem que remetem à desobediência ou à
quebra de normas e tabus coletivos, ultrapassando assim as razões do corpo individual e
do estado orgânico.
As concepções da origem da doença por causas exógenas estão ligadas à
sociedade, compreendida como agressiva, opressiva e ao modo de viver pouco
saudável. Nas tribos primitivas doenças, como distúrbios mentais, são por vezes
atribuídas a bênçãos, presença ou castigo da divindade, à obra de feiticeiros e mágicos
ou demônios. No mundo moderno as causas são atribuídas particularmente ao modo de
vida, definido por Claudine Herzlich (1984) como sendo o quadro espacial e temporal
no qual o indivíduo vive, e suas características (densidade da população, atmosfera, o
ritmo de vida (horários e estímulos), assim como seus reflexos em certos
comportamentos
179
cotidianos: alimentação, atividades, descanso, sono. Trata-se de uma representação que
revela a relação de exterioridade na forma como o indivíduo se pensa em relação à
sociedade, mas que tem, ao mesmo tempo, significação comum ao grupo. O meio
ambiente e a própria organização social são representados como hostis, e portadores de
doenças e desequilibro. Em tais circunstâncias, a saúde é vista como um atributo do
indivíduo que afronta o mundo malsão e passa a ser vítima dele.

b) Saúde/Doença como Expressão de Contradições Sociais


Se saúde/doença é uma noção que revela a sociedade social na qual é construída,
para compreendermos essa representação dentro de nosso contexto, é preciso examiná-
la a partir dos substratos econômico, político e cultural no qual vivemos.
Numa sociedade capitalista onde as relações sociais se fazem a partir de
diferenciação de classes, da desigualdade na distribuição e atribuição de riquezas, a
concepção de saúde/doença está marcada por essas contradições. Contradições marcam
as representações da classe dominante que informam as concepções mais abrangentes
da sociedade como um todo e são veiculadas de forma especializada através da
corporação médica. Refletem-se também nas representações de classes trabalhadoras
que se subordinam à visão dominante e reinterpretam de forma peculiar, de acordo com
suas condições de existência e seus interesses específicos. São essas expressões de
dominação, de resistência e subordinação que procuramos entender aqui.
Em La Médecine du Capital Pollack afirma: “pode-se dizer, sem paradoxo, que
o capital fixa previamente a duração média da existência, para os diferentes estratos
sociais e distribui taticamente sua sentença de morte” (Pollack: 1972).
As representações mais gerias de SAÚDE/DOENÇA em nossa sociedade, no
entanto, não são expressões de um desvendamento claro das desigualdades e nem
explicitam os efeitos do modo de produção sobre a vida e a morte dos indivíduos. Pelo
contrário, as
180
formulações ideológicas embutidas nas representações tentam escamotear as
contradições da vida real, embora não consigam apresenta uma imagem totalment
coerente da realidade.
Conti, no seu texto “Estrutura Social y Medicina” comenta que:
A análise histórica nos mostra como as necessidades das classes dominantes que
se expressam como se fossem as necessidade da sociedade em seu conjunto,
condicionam o conceito de saúde/doença. Na sociedade capitalista, o conceito de
doença está centrada na biologia individual, fato que tenta escamotear o caráter
social do fenômeno (1972, 288).
As representações dominantes em toda a sociedade são mediadas de forma muito
peculiar pela corporação médica. Intelectual orgânico da classe dominante na
construção da hegemonia que se expressa em torno do setor saúde, o médico é ao
mesmo tempo o principal agente da prática e agente do conhecimento.
Através de relações e de instituições legitimadoras de seus atos e discursos,
dentro de um esquema corporativo, o profissional médico reproduz de forma
contraditória as concepções sobre o corpo, sobre saúde/doença, sobre a vida e a morte.
A profissão conforme Boltanski, situa o médico na confluência de três lógicas
absolutamente contraditórias: (a) lógica do humanitarismo, que se traduz na ideologia
de fazer tudo pelo doente, na medida em que se julga o depositário da vida e da morte;
(b) lógica da racionalidade e do interesse científico, o que torna cada cliente “um caso”
ou possível laboratório de progressão da ciência; (c) lógica da rentabilidade econômica,
“do ganhar dinheiro” que é o grande estímulo de seu status profissional na sociedade
capitalista. O conjunto de conflitos gerados por essas lógicas distintas leva a que os
médicos não possam, como os outros comerciantes de bens e serviços, explicitar como
fim único de seu empreendimento, a maximização de lucros. Mas é essa lógica que
predomina no setor considerado como um todo e que, na verdade, informa a sua relação
com o Estado e a população (1979, 41).
Referindo-se à história da medicina moderna, Boltanski escreve que é ela a:
181
História de uma luta contra os preconceitos médicos do público e mais
especialmente, das ‘classes baixas’, contra as práticas médicas populares, com o
fim de reforçar a autoridade do médico, de lhe conferir o monopólio dos atos
médicos e colocar sob sua jurisdição novos campos abandonados até então ao
arbítrio individual, tais como a criação dos recém-nascidos ou alimentação
(1979, 14).
Esta história de luta é uma história de dominação perenemente contestada na
precariedade do cotidiano.
A barreira mais visível entre o médico e a população, no exercício de sua
profissão, se dá através de um código de linguagem fechado e específico. Esse código,
como afirma Bakhtin “retrata e refrata a realidade”. Primeiramente ele se atém ao
contorno biológico e individual do doente. Desta forma, explica o fenômeno da
saúde/doença como o bom funcionamento dos órgão e como responsabilidade
individual. Separa o sujeito de seu meio, de sua experiência existencial, de sua classe e
dos condicionamentos de sua situação. Em segundo lugar, transforma o conceito de
doença numa especialidade a respeito de determinado órgão, considerado o corpo do
doente principalmente como objeto de saber e espaço da doença. Em terceiro plano, a
práxis médica chega a prescindir da realidade mais imediata e sensível que é o corpo e
seus sintomas, voltando-se para as mensagens infracorporais fornecidas pelos
equipamentos laboratoriais.
Essa forma de dominação centrada sobre a concepção médica da saúde/doença
corresponde à lógica mais global do sistema. Conforme analisa Arouca:
Na medida em que se fica na eficiência do corpo, a medicina moderna,
contribuindo para a produtividade, torna o cuidado médico indiretamente
produtivo, mas de forma desigualmente distribuído: ele possui significados
diferentes diante das diferentes classes sociais (Arocua: 1975, 213).
Para as classes dominantes, cuja leitura sobre o corpo passa pelas expressões de
saúde, vigor, beleza, harmonia e prazer, o conceito
182
restrito ao biomédico complementa-se através de outros cuidados que se ampliam no
lazer, na estética e termina no divã psicanalista. Sua dificuldade em relação aos códigos
da medicina se expressa na dissimetria da linguagem de competência técnica, e se anula
em termo de distância social: “dos doentes supostamente pertencentes à mesma classe
social, ou pelo menos, ao mesmo universo cultural do médico, este espera uma
cooperação para chegar ao diagnóstico, através dos sinais e dos sintomas que percebem”
(Loyola: 1984, 23).
A visão mais ampliada de saúde dos grupos dominantes é mediada pela noção de
“modo de vida moderno” que por sua vez fetichiza e classifica a opressão da sociedade
sobre os indivíduos, como se não coisifica a opressão da sociedade sobre os indivíduos,
como se não fossem eles, através das formas de organização social e das instituições,
atores e autores, desse “modo de vida”. Essa noção construída a partir do senso comum
costuma ser resumida em: ambiente poluído, vida agitada, miséria, violência,
marginalidade, ritmo de vida cansativo e vida social conflitiva. É uma representação que
escamoteia o conceito de relações sociais características do modo de produção
capitalista, que se traduzem em objetivação da vida no lucro, contradição entre os que
produzem as riquezas e os que delas se apropriam, entre a harmonia como a natureza e
seu uso predatório com finalidade econômica imediatista. O próprio bem-estar redunda
efetivamente na noção de bem-estar relativo e conflito porque se choca com as
conseqüências de uma lógica que não se centra nem na harmonia e nem no equilíbrio da
sociedade, mas nas suas contradições permanentes.
O sistema médico oficial, quando focaliza seu quadro de referência no biológico
individual ou nos constrangimentos do modo de vida, reforça a representação do
fenômeno saúde/doença de forma positivista. Na verdade a visão do social quando se
incorpora ao conceito dominante é tratada como um elemento a mais para o diagnóstico
numa relação linear e ilustrativa. A realidade concreta continua obscurecida pelas idéias
de “progresso”, de “avanço”, de “domínio sobre a vida e a morte” de forma
evolucionista e desenvolvimentista, que vê a história da doença como projeção do grau
de domínio do
183
homem sobre a natureza. Essa representação própria do esquema dominante que
justifica os investimentos no investimento técnico, e importante, mas parcial. Ela
desconsidera os condicionantes histórico-sociais que marcam definitivamente os modos
específicos de adoecer e morrer numa sociedade de classe, e desconhece todos os
aspectos sociais envoltos tanto na definição como na prática relativa aos cuidados com a
saúde.
Nada tão poderoso como as “doenças-metáforas” para marcar a concepção
dominante da sociedade na sua forma “oficial” de encarar o fenômeno saúde/doença.
Por “doenças-metáforas” entendemos aqui, repetindo a expressão de Susan Sontag
(1984), enfermidades que ensejam catástrofes e tomam um caráter histórico, dentro de
determinadas épocas, por mobilizarem o conjunto da sociedade. Sontag cita a peste do
século XVI e XVII, a tuberculose e a sífilis no século XIX, o câncer no século XX e a
aids atualmente.
Do ponto de vista da tecnologia médica, essas doenças funcionam como um
desafio à ciência, ao progresso e reafirmam a ideologia desenvolvimentista segundo a
qual o poder da medicina investe para vencer. A partir dos interesses corporativos, eles
são o espaço prisionais, laboratórios, indústrias de equipamentos. Elas medeiam a luta
entre saber e poder econômico organicamente relacionados com a corporação médica e
sua imagem salvadora e filantrópica estão sempre em jogo, numa relação contraditória
entre os avanços conseguidos e o que consideram fracasso, isto é, a impotência frente à
morte.
Do ponto de vista sociológico poderiam ser consideradas (a despeito da
especificidade dos mitos, dos sintomas e de cada um) doenças-sínteses porque criam o
consenso do mal proveniente das “anomalias sociais”, reúnem em si as explicações dos
desequilíbrios individuais (autojulgamento e autopunição) e sociais (modo de vida
opressivo e repressivo) apelam para o transcendente, ligando o material e o espiritual.
Essas doenças desafiam o caráter de classe do modo específico de adoecer e
morrer. São interpretadas como capazes de atingir a todos os grupos sociais
indiscriminadamente e, portanto, fazem parte de
184
um imaginário social mais amplo que explica a desordem, os desvios morais e até a
pretensa “devassidão” do ser humano. São fenômenos privilegiados de questionamento
da precariedade da organização social. Reúnem a ameaça de morte da humanidade,
anuncia sua decadência, perpetuam a permanência simbólica ou real da infelicidade e
chamam atenção para os “comportamentos recrimináveis”, vetores do mal de hoje e
sempre. Em algumas delas, a síndrome de medo da doença reforça a crença
conservadoras da sociedade, como é o caso da sífilis e da aids.
Claudine Herzlich, retomando a expressão de Susan Sontag, fala a respeito das
referidas doenças como metáforas que nos fazem reencontrar a visão arcaica e moderna
do mal, que nos revelam nossa relação com o mundo de hoje e ao mesmo tempo
evidenciam nossa fragilidade permanente de indivíduos (1984: 77-92):
“Somos sempre dominados e mudos frente ao cataclismos de nosso corpo”
(1984, 101).
“Mas”, acrescenta Herzlich, “a medicina também, e não apenas a saúde-doença,
é hoje uma metáfora: em volta dela estão articuladas nossas interrogações mais
essenciais concernentes ao futuro da humanidade” (1984, 105).
Essa última afirmação da autora reforça a visão dominadora da medicina como
resposta a interrogações essenciais. Legitimadora do poder de um grupo dominante,
atribui-lhe vocação salvadora. Essa concepção tem raízes nas teorias
desenvolvimentistas. Ela contrasta com a visão da medicina “popular” (através da qual
se expressa boa parte dos segmentos da classe trabalhadora nos comportamentos a
respeito das doenças) que passa por articulações diferentes, que atribuem a razão e o
futuro da humanidade, em última instância, à sua reconciliação com Deus. Ambas as
concepções podem ser questionadas na sua atribuição de causas e em seus efeitos
morais: de um lado se reafirma o poder de um grupo sobre o mal; de outro, transfere-se
para o transcendente a causa e o cuidado da infelicidade. As doenças metáforas, nos
seus mistérios indicam caminho de volta ou de transformação. Em suas expressões
religiosas ou profana, Sontag as considera com poder conservador:
185
As modernas metáforas da doença especificam um bem-estar da sociedade assemelhado
à saúde física que é tão frequentemente apolítico quanto o é um apelo à nova ordem
política (Sontag: 1984, 96).

Pela sua capacidade desencadeadora de tecnologia, de conflitos de poder e saber


e ao mesmo tempo mobilizados de sentimentos, emoções e medos, eles se sobrepõem,
no imaginário social, ao quadro social mais amplo de morbimortalidade de determinada
sociedade e época. Esse quadro, marcado como um fenômeno coletivo, pelos impactos
dos processos de trabalho específicos do modo de produção e de vida, refletem a divisão
de classe peculiar, no interior da formação social.
Da mesma forma que em relação à construção social das chamadas “doenças”
metáforas” a realidade costuma ser mistificada, a compreensão crítica do processo
saúde/doença não é fácil para as classes trabalhadoras. Elas próprias estão imbuídas de
concepções dominantes, embora criando códigos próprios de reinterpretação que
compõe seu esquema de resistência cultural. Esse jogo de subordinação e afirmação
permanentes e que dão coerência à visão de saúde/doença dos dominados é o que
veremos a seguir.
Em relação à classe trabalhadora, o conceito que está subjacente na definição
social de saúde/doença, veiculado pela visão de mundo dominante é a incapacidade
para trabalhar. Essa noção tem estreita relação com a economia e eventualmente com a
criação de mais-valia e possibilidade de acumulação capitalista. Para a classe
trabalhadora, a representação de “estar doente” como sinônimo de inatividade tem a
marca da experiência existencial. Trata-se de uma equivalência “social” e não “natural”.
As expressões correntes “a saúde é tudo, é a maior riqueza”, “saúde é igual à fortuna, é
o maior tesouro” em oposição a “doença como castigo, infelicidade, miséria” etc. são
representações eloqüentes de uma realidade onde o corpo se tornou, para a maioria, o
único gerador de bens. A miséria, a forme e o desespero que advêm do fato de estar
doente, lhe dizem, na prática, que seu corpo é a sua fonte de subsistência e sua única
fonte de reprodução. O assalariamento enquanto cerne do modo de produção capitalista
faz do corpo “força de trabalho”, criador de excedentes
186
para as classes que detêm os meios de produção e única condição para a vida dos
trabalhadores e suas famílias. “Saúde/riqueza”, “corpo/instrumento de trabalho”
representam uma realidade vivida, fruto das contradições que estão na base material da
sociedade.
Também a medicina, como mediadora que individualiza o mal e a cura, está
presente nas representações dos trabalhadores. Para eles, a doença como
responsabilidade pessoal e portanto como custo financeiro, e a medicalização de um
conjunto de atos de sua vida, são fato real e imposto pelas relações de produção. O
“estar doente” além de significar a espoliação de sua única fonte de subsistência, o
corpo, indica também um “status” fundado em categorias anatômico-fisiológicas,
estruturadas e legitimadas socialmente através do olhar e do veredito médico. “Estar
doente” corresponde então a submeter-se a regras, obedecer a prescrições e a respeitar
consignas. Desta forma, a apreensão essencial do corpo doente, tendo em vista a
expectativa que dele se faz como “motor” e “funcional” – numa sociedade onde nos
definimos e somos valorizados como produtores – leva a que, a incapacidade de fazer,
mas do que alterações no parecer, tomem os trabalhadores apreensivos. O sentimento
de desintegração social e de subordinação à medicina marcam o corpo do doente da
classe trabalhadora.
Seria, no entanto incorreto desconhecer o espaço que constitui o fenômeno
saúde/doença, para expressar, nas representações das classes trabalhadoras, sua visão
particular, sua resistência à dominação e seu projeto de mudança que se forja, de forma
contraditória, ao conjunto das idéias dominantes.
A particularidade cultural pode ser obsercada a partir da linguagem, mediadora
por excelência das concepções de mundo. São os médicos, como já dissemos, que
detêm a linguagem do corpo coordenado. Para as classes trabalhadoras, os sintomas são
colocados no corpo de forma localizada, algum órgão e expressos através de
explicações que os analisam, geralmente ligados a fatos existenciais, intervenções
sobrenaturais e/ou situações vividas no dia-a-dia. Essa forma de atribuição de causas
através de uma concepção ao mesmo tempo localizada e analítica, que contempla o
conjunto das situações infelizes da vida cotidiana, é talvez o primeiro ponto de ruptura
187
com a linguagem médica que é, ao contrário, coordenadora, sintética e específica.
Claudine Herzlich comenta que:
Essa concepção localizadora que tenta fazer corresponder a cada sinal isolado
um órgão, nos aparece como a pobreza de linguagem sobre o corpo: linguagem
que ignora a frase e a sintaxe e que se reduz ao nome. Da mesma forma que a
palavra-frase representa o primeiro estágio da linguagem humana, para o doente
essa denominação elementar é a única de que dispõe (1984, 175).

A referida interpretação da autora, a nosso ver, reflete uma visão preconceituosa


da classe trabalhadora tomada como ignorante e em estágio infantil. Visão que, por
ignorar as condições de produção da linguagem, acaba sendo etnocêntrica. Ao
caracterizar os doentes das classes trabalhadoras por sua ignorância quanto ao corpo e à
melhor forma de cuidá-lo, desqualificam-se suas representações de saúde/doença e dos
seus princípios de higiene. Ao mesmo tempo o código da medicina científica sai por ela
legitimado como o único capaz de decifrar a fala desarticulada e confusa dos doentes,
numa linguagem dos sintomas, e portanto a única verdadeira. É importante perceber
que, ao contrário das concepções da classe dominante que mantêm com a medicina
oficial uma relação apenas dissimétrica em relação ao senso comum e ao saber técnico,
nas classes trabalhadoras, as representações revelam valores, atitudes e interesses em
oposição contraditória. Essa oposição certamente não se assemelha a um corte estático.
Ambas as visões se influenciam mutuamente em relação a submissão e resistência. Na
verdade, vários estudiosos têm demonstrado que tanto o esquema dominante é
incorporado, como os médicos absorvem o senso comum e agem através dele
(Boltanski, 1979; Loyola, 1984; Montero, 1985; Herzlich, 1984, 1984 2ª ed, Friedson,
1961). Mas, em ambas as partes existe uma reinterpretação “interessada” diríamos, que
reflete as posições diferenciadas dos atores sociais.
Para as classes trabalhadoras:
188
A doença (ou saúde) é considerada no quadro global dos problemas de vida e da
morte, como um fenômeno que escapa, em última instância, ao controle do
homem, como algo que, no limite, é produto de forças sobrenaturais ou, mais
comumente, de Deus (Loyola: 1984, 162).
Para esses grupos, a doença ser refere internamente a desequilíbrios que afetam
de uma só vez espírito/alma e corpo/matéria. As doença espirituais causadas por “mau-
olhado”, “trabalho feito”, “espírito encostado”, “castigo divino” – segundo as crenças
dos atores sociais – integram-se no indivíduo, às doenças da matéria causadas pelo meio
ambiente, o trabalho, as condições de vida. De acordo com as circunstâncias, ora o
espírito ora a matéria são mais valorizadas nas explicações. No entanto, em momento
algum, esses mesmos fenômenos são apresentados apenas do ponto de vista biológico
ou espiritual: envolvem a visão integrada de homem (corpo e alma) e sua relação com
as condições de vida tomada no sentido mais amplo. As oposições “corpo/alma”,
“indivíduo/sociedade” que são complementares e mesmo inclusivas nas representações
da classe trabalhadora, justificam, mas do que as dificuldades de linguagem, seu
comportamento em relação à medicina oficial. Para desespero dos profissionais (que
explicam o fato pela ignorância, reafirmando assim seu campo de competências), os
indivíduos recorrem a eles mas não crêem estritamente em suas prescrições.
Relativizam-nas, seja em relação ao uso dos medicamentos, seja na consideração de
suas palavras. Esses grupos têm uma liberdade – liberdade de dominados não
comprometidos com a perenidade do sistema – de reinterpretar os preceitos médicos, de
integrá-los dentro de suas condições existenciais e ao mesmo tempo prescindir deles ou
subestimá-los. Assim, pelo uso, de acordo com seus interesses imediatos, do esquema
dominante, e pela posse estratégica de um instrumental de explicações e aplicações
próprios, constrói-se uma maneira especial de as classes trabalhadoras lidarem com os
serviços e assistência médica. Essa forma particular desconcerta e questiona as
tentativas de racionalizar a partir da lógica do sistema.
O modo próprio de se relacionar com a medicina oficial, particularmente através
da medicina religiosa e tradicional, é um esquema através do qual a classe trabalhadora
resiste à despossessão do
189
sentido de sua vida e de sua morte. Enquanto procura e reivindica um tratamento
adequado e “digno” no sistema oficial, mas ao mesmo tempo, através de outros
sistemas, encontram uma alternativa para a sua representação de corpo e sua relação
com o mundo, os trabalhadores reafirmam sua identidade e um saber específico que se
contrapõem e questionam as interpretações dominantes e legitimadas.
Concluímos que a forma como as classes trabalhadoras representam o corpo não
pode ser taxada de ignorante, mas com um saber específico que tem eficácia real e
conseqüência concreta sobre a vida e a morte de seus membros. Constitui uma
estratégia de resistência à ótica dominante que tenta passar a imagem do corpo apenas
como instrumento de trabalho e para isso o disciplina. O embrutecimento resultante do
“homem-força de trabalho”, “homem-complemento da máquina”, “homem-máquina”
esbarra tanto nas concepções como na experiência existente de uma classe que tanto nas
umidades de trabalho como nos seus locais de moradia gritam simbolicamente pela sua
unidade/globalidade perdida.
O exemplo melhor que confirma esse “grito parado no ar” são as estatísticas de
sintoma do IBGE em relação à situação de saúde da população pobre no Estudo
Nacional de Despesa Familiares (ENDEF) de 1974. Tanto as formulações aí contidas
como outras que surgem nas diferentes configurações de pobreza do país oferecem um
quadro de doenças chamadas pelos entrevistadores como “nervosas” sob o termo
“nervoso” ou “doença dos nervos” e outras palavras temáticas que expressam a mesma
categoria. Usando seu próprio código para interpretá-las, seriam “doenças do espírito”
que se referem ao conjunto das ansiedades e insatisfações pelas “dificuldades da vida”.
O cansaço permanente do sobretrabalho, a alimentação insuficiente, as restrições
compulsórias provocadas pelos baixos salários, o desemprego, a incapacidade de lidar
com os esquemas burocráticos e impessoalizados compõem o campo das “doenças
sentidas” sob denominação de “nervoso”. Elas são talvez o questionamento mais loquaz
e o desafio maior ao modelo biomédico. Ele pode propor a cura de uma enfermidade
localizada, mas não possui um quadro de referência para lidar com as sensações
experimentadas no corpo marcado pela exclusão dos bens necessários à manutenção da
vida individual e social.
190
A título de exemplo, podemos perceber que a curva de mortalidade adulta no
Brasil está marcada prioritariamente por causas agressivas (acidentes de trabalho,
acidentes de trânsito, homicídios). Os indicadores de mortalidade infantil denotam
causas provenientes da miséria, da fome e da falta de saneamento básico, itens
particularmente importantes para atribuição do padrão de saúde coletiva. A distribuição
das doenças e da morte, segundo a epidemiologia social revela sua determinação social
(Tambellini, 1975; Laurell, 1984; Breilh, 1986; Rosário Costa, 1986). Cristiano Possas,
ao terminar seu livro sobre Saúde e Trabalho conclui que: “não existe nenhuma
alternativa de solução dos problemas de saúde da população brasileira que possa ser
buscada apenas no interior do próprio setor SAÚDE”.
Essa reflexão, no entanto, não passa pelo crivo da medicina oficial, porque
aceitá-la significaria colocar em evidência o caráter predatório e destruidor do sistema
dominante. Definir categorias e programas centrados na segurança do trabalho e no
combate a doenças profissionais, questionar as condições gerais de produção, do ponto
de vista dos interesses das classes trabalhadoras, exige afrontar forças econômicas e
políticas dominantes. Desta forma as doenças provocadas pelas condições de vida e de
trabalho são tratados como questão individual ou inespecificamente como “males da
vida moderna”.
Assim, as chamadas “doenças-metáforas”, por atingiram a todos os grupo sociais
e serem ameaças permanentes para os setores dominantes do sistema, canalizam
recursos, pesquisas e novas tecnologias que certamente beneficiam o conjunto da
população. Porém, as doenças relacionadas às precárias condições de existência apenas
de longe são tocadas como tal. São socialmente “desconstruídas”, despidas de seu
caráter social e transformadas em “culpa”, “descuido”, “ignorância popular”. A
compreensão de seu caráter apela para mudanças sociais que se referem ao cojunto das
relações de produção e de reprodução.
191
c) As Representações da SAÚDE como campo de luta política
Do ponto de vista das representações dominantes, a SAÚDE é o campo de ação
do indivíduo. Já Descartes dizia que nada existe que o indivíduo não possa fazer por si
mesmo, melhor que o melhor dos médicos, se ele quiser ter o bom senso de prolongar
sua saúde. Essa afirmação revela uma visão hipocrática, segundo a qual a doença pode
ensinar o homem e a se comportar ouvindo a natureza e percebendo o que é melhor para
ele. Em nossa sociedade atual, a SAÚDE como virtude individual se expressa de várias
formas. A mais simples e generalizada pela visão médico/biológica é a ausência de
doença que se manifesta pelo “silêncio do corpo” ou pela sensação de bem-estar. É
pensada também como um capital de reserva, isto é, como uma espécie de resistência ou
robustez que tem sua origem nos cuidados da primeira infância. Refere-se
particularmente na vida adulta, à idéia do equilíbrio, de sobriedade que permite
“desequilíbrios positivos” graças àquele “capital inicial” conservado cuidadosamente.
Essas representações da saúde como algo essencialmente endógeno e de atribuição
individual são particularmente reveladoras do ponto de vista dominante. Supõem uma
sociedade equilibrada e passível de ser controlada pela vontade pessoal.
Em oposição às concepções mencionadas, a organização política em torno dos
interesses de classes trabalhadoras propõe uma representação da Saúde como uma
questão vital de atribuição individual e coletiva e que ultrapassa os aspectos
biofisiológicos. Berlinguer (1978: 19-26) considera o tema sob a denominação de
“Consciência Sanitária” pensada como um elemento da “consciência social”, essa sim,
contendo a compreensão da relação social em termos mais amplos e globais. Trata-se de
uma representação que atinge um nível de abrangência e de historicidade na sua
expressão. Berlinguer a define da seguinte forma:
Por consciência sanitária entendo a tomada de consciência de que a saúde é um
direito da pessoa e um interesse da comunidade. Mas como esse direito é
sufocado e este interesse descuidado, consciência sanitária é a ação individual e
coletiva para atingir este objetivo (1978, 19).
192
A questão da saúde, no interior da luta das Classes Trabalhadoras, sai do campo
estritamente médico e vai para a arena do conjunto das reivindicações por direitos
sociais, entre os quais se coloca o direito ao serviço e à assistência médica.
A representação da saúde como direito coletivo é uma bandeira de transformação
das condições de vida e de trabalho e que em última instância aponta para
transformações do modo de produção e das relações sociais de produção: melhores
salários, acesso à terra, a empregos, a saneamento básico, a transporte, a moradia, a
educação, a lazer e a condições de trabalho seguras. Mas é também uma bandeira de
redefinição das prioridades do Estado. Desvenda o caráter de classe dos investimentos
públicos, chamando atenção para a forma dominada e marginal com que se definem as
políticas sociais. Portanto o apelo à transformação das condições de vida e de trabalho
como condições de Saúde Coletiva é ao mesmo tempo apelo à luta, no interior do
aparelho do Estado, pelas prioridades sociais que se colocam sempre em relação de
negatividade com os interesses econômicos. Portanto, Saúde Coletiva é um tema da
prática política da classe trabalhadora.
Essa representação da Saúde como Bem Coletivo coincide com o ponto de vista
da Epidemiologia Social (Breilh e Granda, 1986; Laurell, 1983; Tambellini, 1975)
qe]eu, através de uma posição crítica do positivismo na medicina, reforça as propostas
de luta da classe trabalhadora. Sendo ela própria um movimento social no interior das
concepções conservadoras de saúde/doença, a Epidemiologia Social constitui uma
quebra nas representações oficiais. É uma visão por dentro do setor que, ao abrir a
discussão da significância social da SAÚDE comete também uma fenda no sistema e
politiza seu objeto. Sua defasagem em relação à concepção das classes trabalhadoras
está no fato de que seu paradigma contém ainda uma redução da saúde e da doença ao
contorno do corpo, ainda que seja CORPO SOCIAL, como afirma Teixeira (1985, 88).
Este limite que a estrutura impõe, reafirma e reproduz vai pouco a pouco
também sendo colocado em questão. Não dá hoje para reduzir o sentido transformador
do conceito de saúde a sua simples ampliação ao “coletivo” enquanto grupo ou classe
social, pensada como núcleo econômico/político de ação social. A chamada à mudança
193
de paradigma inclui uma redefinição mais totalizante do processo que leve em conta
todos os aspectos que concernem ao corpo, à mente e ao meio ambiente.
A visão social de saúde também vai a encontro das concepções de resistência das
classes trabalhadoras ao nível do senso comum. Porém ele inclui a imagem mais
totalizante do homem-corpo/alma, matéria e espírito, assim como as condições de vida e
trabalho. Sua definição de saúde/doença ganha expressão de resistência cultrual de
classe. Se na cotidianidade, sua representação abrangente da saúde fica anuviada pela
ideologia dominante que as considera “responsáveis por seus males”, “incultas”,
“atrasadas”, “ignorantes” e “mal-educadas”, na luta organizada, parece-lhes claro que
SAÚDE é uma conquista histórica e que sua participação é determinante e decisiva.

CONCLUSÕES
O estudo das representações sociais de SAÚDE/DOENÇA abrange aspectos
universalmente observáveis e outros que são peculiares a cada sociedade. Esses
aspectos, tratados no presente trabalho dizem respeito à relação indivíduo/sociedade e
seu ecossistema.
Saúde/Doença constituem metáforas privilegiadas para explicação da sociedade:
engendram atitudes, comportamentos e revelam concepção de mundo. Através da
experiência desse fenômeno, as pessoas falam de si, do que as rodeia, de suas condições
de vida, do que as oprime, ameaça e amedronta. Expressam também suas opiniões sobre
as instituições e sobre a organização social em seus substratos econômico-político e
cultura. Saúde/Doença são também metáforas de explicação da sociedade sobre ela
mesma: de suas “anomias”, desequilíbrios e preconceitos, servindo como instrumento
coercitivo ou liberador para o poder político se legitimar ou ser execrado. O status de
representação significante privilegiada se deve ao fato de que a noção
SAÚDE/DOENÇA está intimamente vinculada ao tema existencial e
inquestionavelmente significativo da VIDA e da MORTE.
SAÚDE/DOENÇA enquanto fenômeno social tem seu esquema interno de
explicações que parte de um marco referencial de especialistas
194
(doutores, curandeiros, rezadores, mágicos), mas também compõe o quadro de
experiência do dia-a-dia que se expressa através do senso-comum. Ambas as
modalidades de representação do fenômeno se influenciam mutuamente, de forma
dinâmica, embora o saber do especialista seja dominante. Portanto, na construção
histórica da saúde e da doença tanto são atores e autores, os intelectuais e técnicos do
setor como a população.
A atribuição de causas endógenas e exógenas ao fenômeno da
SAÚDE/DOENÇA constitui uma atitude universalmente comprovada. É no indivíduo
que essas concepções se unificam: é ele que sofre os males ou detém a saúde. As causas
de origem, no entanto, se expressam, no plano simbólico, com referência ao social.
DOENÇA é sinônimo de infelicidade individual e coletiva: representa o rompimento do
homem com seus limites estabelecidos pelas normas e regras da sociedade. SAÚDE
significa bem-estar e felicidade: ela própria, explicitamente ou no “silêncio do corpo”, é
a linguagem preferida da harmonia e do equilíbrio entre o indivíduo, a sociedade e seu
ecossistema.
Cada sociedade tem suas doenças que consideramos aqui “metáforas”. São
enfermidades que, a partir do imaginário social, perpetuam na coletividade a idéia de
perenidade do mal e de limites do ser humano frente à ameaça de morte. São doenças
que, por criarem um clima de medo, de catástrofe e de desordem, tendem a ser usadas
ideológica e politicamente como meios de recompor a harmonia social. Essas doenças –
além do seu caráter de sofrimento e infelicidade – são construídas socialmente como
mitos através dos quais os membros dos grupos expressam sua coerção e coesão em
torno da organização social.
Na sociedade capitalista, a representação de SAÚDE/DOENÇA passa pelas
contradições sociais que caracterizam o sistema. Do ponto de vista das classes
dominantes, a saúde é de atribuição individual como um capital de reserva de
propriedade privada que se mantém pelo equilíbrio e pela harmonia. A concepção de
doença é também marcada pela responsabilidade do indivíduo em luta contra o mundo
opressivo. Baseia-se na representação anatômico-fisiológica da pessoa do doente, na
concepção do corpo como produtor e instrumento de trabalho e na idéia
desenvolvimentista do poder da tecnologia
195
contra as enfermidades. As representações dominantes são particularmente elaboradas
pelos profissionais médicos, categorias hegemônica, intelectuais orgânicos na
elaboração tanto do conhecimento como na imposição de normas e atitudes a respeito
do corpo e da definição social do doente e da doença. No entanto suas idéias são
perpassadas dinâmica e perenemente pelo senso comum que “contamina” o chamado
“saber científico”, com suas próprias categorias de interpretação, esse mundo de
significados sobre a vida e a morte.
Em contraposição, apesar de assimilarem as concepções dominantes e agirem
também a partir das regras estabelecidas pelos especialistas do sistema, as classes
trabalhadoras possuem um código de resistência que as caracteriza. Seu esquema está
centrado numa visão mais totalizante do fenômeno, que abrange a concepção do homem
como corpo/alma, matéria/espírito e inclui relações afetivas e condições de vida e de
trabalho (sua situação de classes em si) na definição de uma situação de
SAÚDE/DOENÇA. Apesar de reconhecer o poder médico e subordinar-se à
medicalização, elas possuem uma visão crítica, a partir da experiência, tanto dos
profissionais e sua técnica como do sistema de assistência e serviço de que fazem uso.
Por isso, reinterpretam o esquema racionalizado, usam-no de acordo com seus interesses
imediatos e concepções particulares e não legitimam totalmente o saber médico. Sua
relação com a medicina oficial é sempre precária provisória e conflitiva. Sua
interpretação da vida e da morte está inevitavelmente perpassada, junto com a crítica ao
sistema dominante, pelas crenças e tradições, pela prática da medicina caseira e/ou
religiosa que fazem parte de seu imaginário social vinculado à experiência cotidiana.
Desta forma, a partir do senso comum elas resistem não apenas à linguagem erudita:
contraditoriamente aceitam e recusam o lugar “material” que os donos dos meios de
produção atribuem a sua vida, isto é, o de força ou instrumento de trabalho. No seu
conhecimento e nas suas práticas esses agente sociais se recompõem como
matéria/espírito transcendente, ator e autor social particularmente marcados pelas
relações afetivas e de lealdade, de seu meio.
A epidemiologia social é o espaço no interior do setor dominante que recompõe
(de forma dominada) uma representação abrangente de saúde, ao englobar o social
como determinante e os indivíduos
196
como componente de classes em oposição, na sociedade capitalista. Essa concepção que
politiza o conceito vai ao encontro da visão específica das classes trabalhadoras que se
expressam através da resistência cultural e de forma politicamente organizada. Os
trabalhadores e os profissionais do setor que representam a saúde como direito
individual e coletivo rompem a concepção centrada no biológico, no individual, na
harmonia e equilíbrio sociais. Fazem da saúde uma meta a ser conquistada, como um
bem que se adquire através dos conflitos e da luta de classe.
No entanto, a epidemiologia social encontra seu limite no paradigma que institui
apenas o corpo como o espaço da saúde/doença. Seu desafio atual é encontrar na teoria
e na prática a totalidade fundamental do ser humano.
197

CAPÍTULO 4
FASE DE ANÁLISE OU TRATAMENTO DO MATERIAL
OS PESQUISADORES costumam encontrar três grandes obstáculos quando
partem para a análise dos dados recolhidos no campo (documentos, entrevistas,
bibliografia, resultados de discussão em grupos focais e resultados de observação).
O primeiro deles é o que Bourdieu denomina “ilusão da transparência” isto é, o
perigo da compreensão espontânea como se o real se mostrasse nitidamente ao
observador. Essa “ilusão” é tanto mais perigosa, quanto mais o pesquisador tenha a
impressão de familiaridade com o objeto. Trata-se de uma luta contra a sociologia
ingênua e o empirismo, que acreditam poder apreender as significações dos atores
sociais mas apenas conseguem a projeção de sua própria subjetividade.
O segundo escolho é o que leva o pesquisador a sucumbir à magia dos métodos e
das técnicas, esquecendo-se do essencial, isto é, a fidedignidade às significações
presentes no material e referidas as relações sociais dinâmicas.
O terceiro obstáculo, muito comum na interpretação dos trabalhos empíricos, é a
dificuldade de se juntarem teorias e conceitos muito abstratos com os dados recolhidos
no campo. Isso se refere a trabalhos cuja elaboração teórica fica distanciada das
descrições geralmente marcadas pela “ilusão da transparência”.
Uma análise do material recolhido busca atingir a três objetivos:
- ultrapassagem da incerteza: o que eu percebo na mensagem, estará lá realmente
contido? Minha leitura será válida e generalizável?
- enriquecimento da leitura: como ultrapassar o olhar imediato e
198
espontâneo e já fecundo em si, para atingir a compreensão de significações, a
descoberta de conteúdos e estruturas latentes?
- integração das descobertas que vão além da aparência, num quadro de referência da
totalidade social no qual as mensagens se inserem (Bardin: 1979, 29).
Noutras palavras, a análise do material possui três finalidades complementares
dentro da proposta de investigação social: (a) a primeira é heurística. Isto é, insere-se no
contexto da descoberta das pesquisas. Propõe-se a uma atitude de busca a partir do
próprio material coletado; (b) a segunda é de “administração de provas”. Parte de
hipóteses provisórias, informa-as ou as confirma e levanta outras; (c) a terceira é a de
ampliar a compreensão de contextos culturais com significações que ultrapassam o nível
espontâneo das mensagens.
Os pontos levantados acima são bastante comentados por Bardin (1979; 27-30).
Poderíamos dizer que, com expressões mais ou menos semelhantes, correspondem a um
âmbito de consenso entre investigadores.
As divergências e as dificuldades começam quando se parte para a tarefa
concreta de análise do material coletado. Aí não existe concordância nem quanto a
pressupostos teóricos e nem quanto a métodos e técnicas a serem empregados. Além
disso, nota-se certa repugnância dos pesquisadores em tornar evidente a sua “hesitante
alquimia” para transformar dados brutos em descobertas finais. Tal fato não é de se
desprezar porque frequentemente oculta aquele estado nebuloso, límbico, no trabalho de
pesquisa social, que pode ao mesmo tempo esconder alta criatividade e procedimentos
analíticos pouco confiáveis técnica e cientificamente.
Nossa intenção é discutir essa fase da pesquisa, trazendo à luz os avanços, os
recuos e os debates referentes à análise do material qualitativo.
Aqui se instaura uma polêmica que tem a ver com os próprios limites do
conhecimento e com a luta intelectual para ultrapassá-los. “Análise de Conteúdo”
poderia ser um termo genérico e ser usado para designar o tratamento dos dados. Como
vamos ter oportunidade de refletir, no entanto, trata-se de um conceito historicamente
construído, com implicações teórico-metodológicas e em oposição a
199
outros conceitos. O termo “Análise do Discurso” por exemplo, tomado por Bardin
(1979: 214-220) como uma técnica de Análise do Conteúdo, é concebido por seus
criadores como próprio para designar um campo de conhecimento com teoria e método,
capaz de destruir e substituir a análise de conteúdo tradicional.
Por outro lado, passou a ser importante trazer para o âmbito desse debate a
recente reflexão sobre a análise hermenêutica-dialética. Proposta por Habermas no seu
diálogo com Gadamer (1987) como uma metodologia de abordagem da comunicação, a
hermenêutica-dialética supera o formalismo das análises de conteúdo e do discurso,
indicando “um caminho do pensamento”. No entanto, os recursos técnicos para sua
operacionalização não fazem parte das preocupações de seu autor.
Neste estudo, tentamos discutir as três possibilidades mencionadas,
encaminhando nossa preferência pelas vias apontadas pela hermenêutica-dialética. Essa
escolha se fundamenta na busca de um instrumental que corresponda às dimensões e à
dinâmica das relações que apreendemos numa pesquisa que toma como objetivo a
SAÚDE em suas mais diversas facetas: concepções, política, administração,
configuração institucional entre outras, enquanto representações sociais e análise de
relações.

ANÁLISE DE CONTEÚDO
A expressão mais comumente usada para representar o tratamento dos dados de
uma pesquisa qualitativa é Análise de Conteúdo. No entanto, o termo significa mais do
que um procedimento técnico. Faz parte de uma histórica busca teórica e prática no
campo das investigações sociais.
Segundo Bardin, a Análise de Conteúdo pode ser definida como:
Um conjunto de técnicas de análise de comunicação visando obter, por
procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das
mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de
conhecimentos relativos às condições de produção/recepção destas mensagens
(Bardin: 1979, 42).
200
O fator comum dessas múltiplas técnicas desde o cálculo de freqüências que
fornece dados cifrados, até à extração de estruturas traduzíveis em modelos, é uma
hermenêutica baseada na dedução, a INFERÊNCIA.
A Análise do Conteúdo na sua história mais recente, isto é, enquanto técnica de
tratamento de dados considerada cientificamente, é caudatária das metodologia
quantitativas, buscando sua lógica na interpretação cifrada do material de caráter
qualitativo. Berelson, um dos pais teóricos da análise de conteúdo nos Estados Unidos,
assim a define: “é uma técnica de pesquisa para descrição objetiva, sistemática e
quantitativa do conteúdo manifesto das comunicações e tendo por fim interpretá-los”
(Berelson: 1952, 18).
Os grifos anteriores colocados por nós, têm a intenção de enfatizar os adjetivos
usados por Berelson, lembrando que eles fazem parte do vocabulário da sociologia
positivista, como já temos repetido várias vezes e em diversos momentos do trabalho. A
relevância concedida ao quantitativo e ao conteúdo manifesto das comunicações,
quando se trata de uma análise de material qualitativo, remete-nos à tradicional
discussão sobre a especificidade do material próprio às ciências sociais, particularmente
sobre a questão da SIGNIFICAÇÃO.
Historicamente a Análise de Conteúdo Clássica tem oscilado entre o rigor da
suposta objetividade dos números e a fecundidade da subjetividade. A grande
importância dessa técnica de função heurística tem sido a de impor um corte entre as
intuições e as hipóteses que encaminham para interpretações mais definitivas. Essa
tentativa faz parte de um esforço teórico secular.
A arte de interpretar os textos sagrados, a exegese religiosa, coloca a
hermenêutica, por exemplo, como uma técnica muito antiga. A atividade de
desvendamento de mensagens obscuras, do duplo sentido de um discurso geralmente
simbólico e polissêmico, remonta à Antiguidade. Bardin situa a Retórica e a Lógica
também como práticas milenares de tratamento de discurso, anteriores à atual técnica de
Análise de Conteúdo. A Retórica estuda as modalidades de expressão próprias de uma
fala persuasiva. A lógica analisa os
201
enunciados de um texto, seu encadeamento, e as regras formais que validam o
raciocínio.
O termo “Análise de Conteúdo” é uma expressão atual. Surge nos Estados
Unidos na época da Primeira Guerra Mundial. O campo mais propício para o seus
desenvolvimento foi o jornalismo da Universidade de Colúmbia. Dentre os nomes que
ilustram a história dessas técnicas destaca-se Lasswell que fazia análise do material de
imprensa e de propaganda desde 1915. Sua obra principal Propaganda Tecnique in
theWorld War foi publicada em 1927.
Nessa época, em todos os ramos das ciências crescia o fascínio pela contagem e
pelo rigor matemático. Assim, também na Análise de Conteúdo o rigor científico
invocado é a pretensa objetividade dos números e das medidas.
A partir da década de 40, os Departamentos de Ciências Políticas das
universidades americanas tornaram-se o locus de desenvolvimento da Análise do
Conteúdo, tendo como material privilegiado as comunicações da Segunda Guerra
Mundial. Tratava-se de desmascarar os jornais e periódicos suspeitos de propaganda
considerada subversiva, de caráter nazista. Lasswell continuava seus trabalhos sobre
análise de símbolos. A ele juntaram-se estudiosos das mais diferentes áreas: sociólogos,
psicólogos, cientistas políticos. O marco distintivo dessa época são as análises
estatísticas de valores, fins, normas, objetivos e símbolos. A preocupação da
objetividade e da sistematicidade solidificou-se no rigor quantitativo para se contrapor
ao que os cientistas denominavam “apreensão impressionista”.
Do ponto de vista metodológico, Berelson e Lazarsfeld se projetaram nas
Universidades de Colúmbia (NY) e de Chicago, sistematizando as preocupações
epistemológicas da época. Em The Analysis of Communications Content (1948) os
critérios fundamentais então exigidos para testificar o rigor científico estão assim
resumidos: (a) trabalhar com amostras reunidas de maneira sistemática; (b) interrogar-se
sobre a validade dos procedimentos de coleta e dos resultados; (c) trabalhar com
codificadores que permitam verificação de fidelidade; (d) enfatizar a análise de
freqüência como critério de objetividade e cientificidade; (e) ter possibilidade de medir
a produtividade da análise.
Berelson, Lazarsfeld e Lasswell são verdadeiros marcos criadores
202
de um instrumental de análise. Neles, a obsessão pela objetividade e o rigor se
confundem com os pressupostos do positivismo, excluindo-se outras possibilidades de
exploração de material qualitativo. Seus nomes, seus trabalhos e influências continuam
marcantes e ainda atuais em relação à problemática do tratamento dos dados.
No período posterior à Segunda Guerra a análise do conteúdo sofreu seus anos
de depressão. Os próprios criadores da técnica parecem refluir seus ânimos e se
desencantaram das repercussões de seus trabalhos para o avanço do conhecimento. É de
Berelson a seguinte frase citada por Bardin: “A Análise do Conteúdo como método não
possui qualidades mágicas e raramente se retira mais do que nela se investe e algumas
vezes menos (...) no final das contas nada há que substitua idéias brilhantes” (Bardin:
1979, 20).
A constatação do citado autor demonstra um baixar de armas. Por outro lado, se
a submetermos à análise de seu próprio conteúdo perceberemos que ela contém uma
“brilhante idéia”. Mostra que o rigor matemático pode ser uma meta e vir junto com
outras formas de validação, mas nunca substituir a percepção de conteúdos latentes e
intuições não passíveis de quantificação.
A partir dos anos 50 e sobretudo na década de 60 a questão da análise do
conteúdo ressurge, desta vez dentro de um debate mais aberto e diversificado. A
Antropologia, a Sociologia, a Psicologia juntam-se à Psicanálise, ao Jornalismo, e há
uma retomada de problemáticas anteriormente quase intocáveis. No plano
epistemológico confrontam-se duas concepções de comunicação: (a) o modelo
“instrumental” que defende o seguinte ponto de vista: numa comunicação o mais
importante não é o conteúdo manifesto da mensagem (como defendia Berelson) mas o
que ela expressa graças ao contexto e às circunstâncias em que se dá; (b) o modelo
“representacional” que dá fundamental importância ao conteúdo lexical do discurso.
Isto é, defende a idéia de que através das palavras da mensagem podemos fazer uma boa
análise de conteúdo, sem nos atermos ao contexto e ao processo histórico.
Do ponto de vista metodológico aprofunda-se a polêmica entre a
203
abordagem quantitativa e a qualitativa na análise do material de comunicação. Em
relação ao primeiro ponto de vista predominam as idéias de Berelson, Lazarsfeld e
Lasswell acrescidas de novas formas de procedimento, todas elas buscando “medidas”
para as significações, como critério de cientificidade (Osgood et alii: 1957).
Os adeptos das técnicas qualitativas aprofundam sua argumentação dentro da
seguinte linha: (a) colocam em cheque a minúcia da análise de freqüência como critério
de objetividade e cientificidade; (b) tentam ultrapassar o alcance meramente descritivo
do conteúdo manifesto da mensagem, para atingir, mediante a inferência, uma
interpretação mais profunda.
Atualmente as discussões acima colocadas continuam presentes e vários fatores
tendem a alimentar o debate teórico e técnico. A informática e a semiótica são duas
áreas que hoje influenciam definitivamente, embora de forma diferente, as modalidades
de tratamento dos dados de comunicação. Os “cérebros eletrônicos” atualizam com
maior rigor técnico as tendências quantitativistas na análise do conteúdo. De outro lado,
os estudos referentes à comunicação não-verbal vêm complexizar o campo de trabalho
revelando novo dinamismo na compreensão das SIGNIFICAÇÕES.
O resumo das tendências históricas da análise do conteúdo conduz-nos a uma
certeza. Todo o esforço teórico para desenvolvimento de técnicas, visa – ainda que de
forma diversas e até contraditórias – a ultrapassar o nível do senso comum e do
subjetivismo na interpretação e alcançar uma vigilância crítica frente à comunicação de
documentos, textos literários, biografias, entrevistas ou observação.
Do ponto de vista operacional, a análise de conteúdo parte de um literatura do
primeiro plano para atingir um nível mais aprofundado: aquele que ultrapassa os
significados manifestos. Para isso a análise de conteúdo em termos gerais relaciona
estruturas semânticas (significantes) com estruturas sociológicas (significados) dos
enunciados. Articula a superfície dos textos descrita e analisada com os fatores que
determinam suas características: variáveis psicossociais, contexto cultural e processo de
produção da mensagem.
204
Técnicas de Análise de Conteúdo
Na busca de atingir os Significados manifestos e latentes no material qualitativo
têm sido desenvolvido várias técnicas como Análise de Expressão, Análise das
Relações, Análise Temática e Análise da Enunciação. Estudando as propostas de cada
uma dessas modalidades perceberemos que cada uma enfatiza aspectos a serem
observados nos textos dentro de pressupostos científicos. Passamos a enumerá-los
dando atenção maior à Análise da Enunciação e à Análise Temática por serem formas
que melhor se adequam à investigação qualitativa do material sobre Saúde.

I – Análise da Expressão
Designa um conjunto de técnicas que trabalham indicadores para atingir a
inferência formal. A hipótese aqui implícita é a de que existe uma correspondência entre
o tipo de discurso e as características do locutor e de seu meio. Enfatiza a necessidade
de conhecer os traços pessoais do autor da fala, sua situação social e os dados culturais
que o moldam.
Esse tipo de análise trabalha com indicadores lexicais, com o estilo, o
encadeamento lógico, com o arranjo das seqüências, com a estrutura da narrativa. Sua
aplicação mais comum tem sido na investigação da autenticidade de documentos, para a
psicologia clínica, para a análise de discursos políticos e/ou persuasivos (Bardin: 1979;
Urung: 1974).

II – Análise das Relações


Designa técnicas que, ao invés de analisar a simples freqüência de aparição de
elementos no texto, preocupam-se com as relações que os vários elementos mantêm
entre si, dentro de um texto.
São duas as principais modalidades de análise das relações: (a) a de co-
ocorrências e a (b) estrutural.
A análise de co-ocorrência procura extrair de um texto as relações entre as partes
de uma mensagem e assinala a presença simultânea (co-ocorrência) de dois ou mais
elementos na mesma unidade de contexto. Por exemplo, no estudo do discurso de uma
doente mental
205
o analista observa que cada vez que ela define sua situação, a doença aparece vinculada
à situação financeira. No caso existe correlação entre esses elementos.
Osgood (1959, 197) propõe a seguinte seqüência de procedimentos para a
análise de co-ocorrências: (a) escolha da unidade de registro (essa pode ser uma
palavra-chave, p. exemplo) e a categorização por temas; (b) escolha das unidades de
contexto e o recorte de texto em fragmentos (pode ser, por exemplo, parágrafos); (c)
presença ou ausência de cada unidade de registro em cada unidade de contexto; (d)
cálculo de co-ocorrências; (e) representação e interpretação de resultados.
A utilidade maior de análise de co-ocorrência tem sido no esclarecimento das
estruturas da personalidade, na análise das preocupações latentes tanto individuais como
coletivas, para análise de estereótipos e de representações sociais (Bardin: 1979;
Osgood: 1959; Urung: 1974).
A Análise Estrutural passa a ser bastante exercitada a partir da década de 60 e
tem como pressuposto fundamental a crença na existência de estruturas universais
ocultas sob a aparente diversidade dos fenômenos. Os estruturalistas buscam o imutável
e permanente sob a heterogeneidade aparente. Por trás dessa busca está a noção de
sistema. Analisar significará, pois, reencontrar as mesmas engrenagens, quaisquer sejam
as formas de mecanismo. A significação, no caso, fica subordinada à estruturação.
A análise não se aplica ao vocabulário, à semântica ou ao temário da mensagem
em si. Ela se dirige à organização subjacente, ao sistema de relações, às regras de
encadeamento, de associação, de exclusão e de equivalência. Isto é, ela trabalha com
todas as relações que estruturam os elementos (signos e significações) mas de maneira
invariante e independente dos elementos (Bardin: 1979; Lévi-Strauss: 1964; Barthes:
1967).

III – Análise de Avaliação ou Representacional


Elaborada por Osgood (1959) tem por finalidade medir as atitudes do locutor
quanto aos objetos de que fala (pessoas, coisas, acontecimentos). Seu pressuposto é de
que a linguagem representa e reflete
206
quem a utiliza. Portanto podemos nos contentar com os indicadores explícitos na
comunicação para fazer inferências a respeito do emissor.
O conceito básico da Análise Avaliativa é atitude. Uma atitude seria a
predisposição relativamente estável e organizada para reagir sob a forma de opiniões ou
de atos em presença de objetos (pessoas, idéias, coisas, acontecimentos) de maneira
determinada.
Uma atitude seria o núcleo ou matriz que produz e traduz um conjunto de juízos
de valor. A análise avaliativa consistiria em encontrar as bases destas atitudes por trás da
dispersão das manifestações verbais. É semelhante à análise temática enquanto separa o
texto em unidades de significação. Seu objetivo porém é específico: atém-se somente à
carga avaliativa das unidades de significação tomadas em conta, em termos de direção e
de intensidade dos juízos selecionados (Bardin: 1979; Osgood: 1959).

IV – Análise da Enunciação

Apóia-se numa concepção de comunicação como processo e não como um dado


estático, e do discurso como palavra em ato. A análise da enunciação considera que na
produção da palavra elabora-se ao mesmo tempo um sentido e operam-se
transformações. Por isso o discurso não é um produto acabado, mas um momento de
criação de significados com tudo o que isso comporta de contradições, incoerências e
imperfeições. Leva em conta que, nas entrevistas, a produção é ao mesmo tempo
espontânea e constrangida pela situação. Portanto a análise da enunciação trabalha com:
(a) as condições de produção da palavra. Parte do princípio que a estrutura de qualquer
comunicação se dá numa triangulação entre o locutor, seu objeto de discurso e o
interlocutor. Ao se expressar, o locutor projeta seus conflitos básicos através de
palavras, silêncios, lacunas, dentro de processos, na sua maioria, inconscientes; (b) o
continente do discurso e suas modalidades. Essa aproximação se dá através de: (1)
análise sintática e paraligüística: estudo das estruturas gramaticais; (2) análise lógica:
estudo do arranjo do discurso; (3) análise dos elementos formais atípicos: silêncios,
omissões, ilogismos; (4) realce das figuras de retórica.
207
A entrevista aberta é o material privilegiado da análise da enunciação, no sentido
de que se trata de um discurso dinâmico onde espontaneidade e constrangimento são
simultâneos, onde o trabalho de elaboração se configura ao mesmo tempo como
emergência do inconsciente e construção do discurso.
Em termo operacionais a análise da enunciação segue o seguinte roteiro: (a)
Estabelecimento do Corpus: delimitação do número de entrevistas a serem trabalhadas.
A qualidade da análise substitui a quantidade do material. Leva-se em conta a questão
central e objetiva da pesquisa para delinear as dimensões do Corpus; (b) Preparação do
Material: cada texto (entrevista) é uma unidade básica. Começa-se pela transcrição
exaustiva de cada peça, deixando-se uma margem (à direita ou à esquerda) para
anotações. A transcrição conserva tanto o registro da palavra (significantes) como dos
silêncios, risos, repetições, lapsos, sons etc.); (c) As Etapas da Análise: na análise de
enunciação cada entrevista é submetida a tratamento como uma totalidade organizada e
singular. São observados em cada uma os seguintes aspectos: (1) o alinhamento e a
dinâmica do discurso para ser encontrar a lógica que estrutura cada peça; (2) o estilo;
(3) os elementos atípicos e as figuras de retórica.
1. Primeiramente, a partir da observação do encadeamento das proposições 10 faz-
se uma análise lógica. Separam-se por barra ou recopiam-se todas as orações
observando-se as relações que ressaltam a forma de raciocínio.
Em segundo lugar ser realiza a análise seqüencial, que se preocupa com a
maneira de construção do texto, pondo em evidência o ritmo, a progressão e a ruptura
do discurso;
2. O Estilo: dentro da análise de enunciação o estilo é um revelador do locutor,
de seu contexto e de seus interlocutores, no sentido de que a expressão e o pensamento
caminham lado a lado. É importante tê-lo em conta;
3. Os Elementos Atípicos e as Figuras de Retórica: na análise da enunciação
torna-se fundamental observar: (a) as repetições de um mesmo tema ou de uma mesma
palavra dentro de um texto. Essa
208
repetição pode ser indicador da importância do termo, da sua ambivalência, da
denegação enquanto tentativa de convencimento de uma idéia, da presença de uma idéia
recusada; (b) os lapsos podem significar a insistência não-dominável de uma idéia
recusada. Segundo a psicanálise, a erupção irracional num contexto da racionalidade
significa uma quebra de defesa do locutor; (c) os ilogismos, isto é, os emperramentos
nos raciocínios demonstrativos. Costumam ser indicativos de uma necessidade de
justificação, ou de um juízo em contradição com a situação real; (d) os “lugares
comuns”. Têm um papel justificador. Podem apelar para a cumplicidade do interlocutor
(frases feitas, provérbios culturalmente partilhados). Também, por vezes, têm a função
de desviar a atenção do entrevistador e indicar a recusa de aprofundar determinados
assuntos; (e) os jogos de palavras: os chistes podem indicar descontração mas também a
tentativa de distanciamento da questão; (f) as figuras de retórica. Elas jogam com o
sentido das palavras. As mais comuns são: o paradoxo (reunião de duas idéias
aparentemente irreconciliáveis); a hipérbole (o aumento ou a diminuição excessiva das
coisas); a metonímia (uso da parte pelo todo, do abstrato pelo concreto e vice-versa); a
metáfora (designa uma coisa por outra).
Em suma, a proposta de Análise da Enunciação é conseguir através do confronte
entre a análise lógica, a análise seqüencial e a análise de estilo e dos elementos atípicos
de um texto, a compreensão do significado. A conexão entre os temas abordados e seu
processo de produção evidenciariam os conflitos e contradições que permeiam e
estruturam o discurso.

V – Análise Temática
A noção de TEMA está ligada a uma afirmação a respeito de determinado
assunto. Ela comporta um feixe de relações e pode ser graficamente apresentada através
de uma palavra, uma frase, um resumo. Segundo Bardin: “o tema é a unidade de
significação que se liberta naturalmente de um texto analisado segundo critérios
relativos à teoria que serve de guia à leitura” (Bardin: 1979: 105).
209
Para Unrug o tema é: “uma unidade de significação complexa de comprimento
variável, a sua validade não é de ordem lingüística, mas antes de ordem psicológica.
Pode constituir um tema tanto uma afirmação como uma alusão” (Unrug: 1974, 19).
Fazer uma análise temática consiste em descobrir os núcleos de sentido que
compõem uma comunicação cuja presença ou freqüência signifiquem alguma coisa para
o objetivo analítico visado. Ou seja, tradicionalmente, a análise temática se encaminha
para a contagem de freqüências das unidades de significação como definitórias do
10
Por proposição entende-se uma afirmação, declaração, juízo. É uma unidade que basta a si mesma, que pronunciada sozinha tem
sentido.
caráter do discurso. Ou, ao contrário, qualitativamente a presença de determinados
temas denota os valores de referência e os modelos de comportamento presente no
discurso.
Operacionalmente a análise temática desdobra-se em três etapas:
1ª) A Pré-Análise
Consiste na escolha dos documentos a serem analisados; na retomada das
hipóteses e dos objetivos iniciais da pesquisa, reformulando-as frente ao material
coletado; e na elaboração de indicadores que orientem a interpretação final.
Podem ser decomposta nas seguintes tarefas:
Leitura Flutuante: do conjunto de comunicações. Consiste em tomar contato
exaustivo com o material deixando-se impregnar pelo seu conteúdo. A dinâmica entre as
hipóteses iniciais, as hipóteses emergentes, as teorias relacionadas ao tema tornarão a
leitura progressivamente mais sugestiva e capaz de ultrapassar à sensação de caos
inicial.
Organização do Corpus: Organização do material de tal forma que possa
responder a algumas normas de validade: exaustividade (que contempla todos os
aspectos levantados no roteiro); representatividade (que contenha a representação do
universo pretendido); homogeneidade (que obedeça a critérios precisos de escolha em
termos de temas, técnicas e interlocutores); pertinência (os documentos analisados
devem ser adequados ao objetivo do trabalho).
Formulação de Hipóteses e Objetivos. Em relação ao material qualitativo
210
a proposta do primado do quadro de análise sobre as técnicas é controversa. Há autores
como P. Henry e S. Moscovici (1968) e Parga Nina (1983) que privilegiam os
procedimentos exploratórios em lugar de procedimentos fechados preestabelecidos.
Entendemos que há necessidade de se estabelecer hipóteses iniciais pois a realidade não
é evidente: responde a questões que teoricamente lhe são colocadas. Porém esses
pressupostos iniciais têm que ser de tal forma flexíveis que permitem hipóteses
emergentes a partir de procedimentos exploratórios.
Nessa fase pré-analítica determinam-se a unidade de registro (palavra-chave ou
frase), a unidade de contexto (a delimitação do contexto de compreensão da unidade de
registro), os recortes, a forma de categorização, a modalidade de codificação e os
conceitos teóricos mais gerais que orientarão a análise.
2ª) Exploração do Material
A exploração do material consiste essencialmente na operação de codificação.
Segundo Bardin, realiza-se na transformação dos dados brutos visando a alcançar o
núcleo de compreensão do texto.
A análise temática tradicional trabalha essa fase primeiro com o recorte do texto
em unidades de registro que podem ser uma palavra, uma frase, um tema, um
personagem, um acontecimento tal como foi estabelecido na pré-análise.
Em segundo lugar, escolhe as regras de contagem, uma vez que tradicionalmente
ela constrói índices que permitem alguma forma de quantificação.
Em terceiro lugar, ela realiza a classificação e a agregação dos dados,
escolhendo as categorias teóricas ou empíricas que comandarão a especificação dos
temas.
3ª) Tratamento dos Resultados Obtidos e Interpretação
Os resultados brutos são submetidos (tradicionalmente) a operações estatísticas
simples (percentagens) ou complexas (análise fatorial) que permitem colocar em relevo
as informações obtidas. A partir daí o analista propõe inferências e realiza interpretações
previstas no seu quadro teórico ou abre outras pistas em torno de dimensões teóricas
sugeridas pela leitura do material.
211
Como se pode perceber, a análise temática é bastante formal e mantém sua
crença na significação da regularidade. Como técnica ela transpira as raízes positivistas
da análise de conteúdo tradicional. Porém há variantes na abordagem que no tratamento
dos resultados trabalha com significados em lugar de inferências estatísticas. Essas
variantes, de certa forma, reúnem, numa mesma tarefa interpretativa, os temas como
unidades de fala, propostos, como foi exposto anteriormente, pela análise da
enunciação.

ANÁLISE DO DISCURSO
Análise do Discurso é um conceito relativamente jovem no campo de
intersecção entre as Ciências Sociais e a Lingüística. Seu criador é o filósofo francês
Michel Pêcheux que fundou, na década de 60, a “Escola Francesa de Análise do
Discurso” com proposta de substituir a Análise de Conteúdo tradicional.
O quadro epistemológico dessa proposta alternativa de trabalhar a Linguagem,
de acordo com o seu principal pensador, articula três regiões do conhecimento: O
Materialismo Histórico como teoria das formações sociais e suas transformações
estando incluída aí a ideologia; (b) a Lingüística enquanto teoria dos mecanismo
sintáticos e dos processos de enunciação; (c) a Teoria do Discurso como teoria da
determinação histórica dos processos semânticos.
Pêcheux adverte para o fato de que essas três regiões estão perpassadas ainda por
uma Teoria da Subjetividade de natureza psicanalista para explicar o caráter recalcado
na formação do significado.
O objetivo básico da Análise do Discurso é realizar uma reflexão geral sobre as
condições de produção e apreensão da significação de textos produzidos nos mias
diferentes campos: religioso, filosófico, jurídico e sócio-político. Ela visa a
compreender o modo de funcionamento, os princípios de organização e as formas de
produção social do sentido.
Seus pressupostos básicos podem se resumir em dois princípios, segundo
Pêcheux: (1) O sentido de uma palavra, de uma expressão ou de uma proposição não
existe em si mesmo, mas expressa posições ideológicas em jogo no processo sócio-
histórico no qual as palavras,
212
as expressões e proposições são produzidas; (2) Toda formação discursiva dissimula
(pela transparência do sentido que nela se constitui) sua dependência das formações
ideológicas (Pêcheux: 1988, 160-162).
Enquanto procedimento, ela pretende inferir, a partir dos efeitos de superfície (a
linguagem e sua organização, uma estrutura profunda: OS PROCESSOS DE
PRODUÇÃO. Inscreve-se numa sociologia do discurso, tendo como hipótese básica o
fato de que o discurso é determinado por condições de produção e por um sistema
lingüístico.
Orlandi define a Análise do Discurso como uma proposta crítica que busca
problematizar as formas de reflexão estabelecidas. Ela a distingue e a situa enquanto
objeto teórico: (a) pressupõe a lingüística mas se destaca dela: não é nem uma teoria
descritiva, nem uma teoria explicativa. Pretende ser uma teoria crítica que trata da
determinação histórica dos processos de significação; (b) considera como fato
fundamental a relação necessária entre linguagem e o contexto de produção, juntando
para a compreensão do texto as teorias das formações sociais e as teorias da sintaxe e da
enunciação; (c) pela sua especificidade, ela é cisionista em dois sentidos: (1) procura
problematizar as evidências e explicitar seu caráter ideológico, revela que não há
discurso sem sujeito e nem sujeito sem ideologia: (2) denuncia o encobrimento das
formas de dominação política que se manifestam numa razão disciplinar fundamental
(1987: 11-13).
A Análise do Discurso se situa, por exclusão e na busca de especificidade, em
relação à lingüística tradicional e à análise de conteúdo, enquanto prática-teórica
historicamente definida. Orlandi a explica como um PONTO DE VISTA próprio de
olhar a linguagem enquanto lugar do debate e do conflito. Nela o TEXTO é tomado
enquanto unidade significativa e pragmática, ou seja, o TEXTO é portador do contexto
situacional expresso pelo sentido. No entanto, comenta Orlandi, isso não significa que
as palavras, sentenças e períodos deixem de ter um nível lexical, morfológico, sintático
e semântico. O que cria a Análise do Discurso, porém, é o PONTO DE VISTA das
CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO do texto (Orlandi: 1987, 130-145).
Em relação à Análise de Conteúdo, tanto Orlandi como Pêcheux insistem em
marcar uma linha divisória. Sua crítica é de que a Análise do Conteúdo toma o texto
como pretexto e o atravessa só para
213
demonstrar o que já foi definido a priori pela situação. Ou seja, o texto é tomado como
documento a ser compreendido e como ilustração de uma situação. Enquanto isso, a
Análise do Discurso, segundo seus teóricos, pretende fazer o movimento contrário.
Considera o texto como um monumento e sua exterioridade como parte constitutiva da
historicidade inscrita nele. Considera que a situação está atestada no texto. Desta forma,
visa menos a interpretação do discurso do que a compreensão do seus processo
produtivo.
Cremos que a contribuição mais atual da Análise do Discurso é a sua insistência
de incorporar, na compreensão do texto, suas condições de produção. Nesse sentido é
importante apreender alguns conceitos desenvolvidos pelos seus teóricos em função de
uma visão crítica no trato do material. A definição de Texto, a reflexão sobre as
possibilidade da Leitura, os Tipos do Discurso, o sentido do Silêncio, o caráter
recalcado da matriz do Sentido são alguns temas que os pensadores da Análise do
Discurso trazem como enriquecimento ao debate sobre o tratamento do material
qualitativo.
- Texto: Na Análise do Discurso o Texto é tomado como unidade de Análise:
unidade complexa de significações. Um texto pode ser uma simples palavra, um
conjunto de frases ou um documento maior. Texto distingue-se de Discurso. Enquanto
este último é um conceito teórico-metodológico, o primeiro é um conceito analítico. O
Discurso é a linguagem em interação, ou seja, é o efeito de superfície de relações
estabelecidas e do contexto da linguagem. O Texto é o discurso acabado para fins de
análise. É dele que partem possíveis recortes. Enquanto objeto teórico, porém o texto é
infinitamente inacabado: a análise lhe devolve sua incompletude, acenando para um
jogo de múltiplas possibilidades interpretativas.
Do ponto de vista analítico o texto é o espaço mais adequado para se observar o
fenômeno da linguagem: ele contêm a totalidade. Essa totalidade se revela em três
dimensões de argumentação: (a) Relações de Força: lugares sociais e posição relativa do
locutor e do interlocutor; (b) Relação de Sentido: a interligação existente entre este e
vários discursos, o “coro de vozes” que se esconde em seu interior;
214
(c) Relação de Antecipação: a experiência anteprojetada do locutor em relação ao lugar
e à reação de seu ouvinte.
Segundo Orlandi, esse movimento que acontece no interior do discurso é ao
mesmo tempo o processo, o produto e o centro nevrálgico da significação a ser
recuperado na análise do texto. Em suma, todo texto tem sua ideologia e podemos
determinar a relação entre os dois termos pela caracterização de formação discursiva11
11
Entende-se em Pêcheux por Formação Discursiva as marcas de estilo que se produzem na relação da linguagem com suas
condições de produção. A formação discursiva é definida na sua relação com a formação ideológica: o que pode e deve ser dito.
Toda formação discursiva dissimula, pela transparência do sentido que nela se constitui, sua dependência das formações discursiva
(Pêcheux: 1988, 160-162).
da qual ele faz parte. Qualquer discurso é referidor: dialoga com outros discursos; é
também referido: produz-se sempre no interior de instituições e grupos que determinam
quem fala, o que e como fala e em que momento (Orlandi: 1987, 15-239).
- Leitura e Silêncio: Qualquer texto admite múltiplas possibilidades de leitura. O
jogo de relações e de interações sociais permite tanto o nível de leituras parafrásticas
(reconhecimento do sentido dado pelos autores) como o nível polissêmico (atribuição de
múltiplos sentido). Tanto a leitura como a significação são produzidas pelos
interlocutores e leitores. Essa possibilidade de múltiplas interpretações se apóia no fato
de que o processo discursivo não tem um início preciso: ele se apóia em discursos
prévios que, por sua vez, estão baseados na experiência concreta do leitor, do
interlocutor ou do analista.
Acompanhando a reflexão sobre leitura de texto, é importante assinalar as
advertências de Orlandi a propósito do Silêncio. Tanto quanto a palavra, o silêncio
possui suas condições de produção; ele é ambíguo e eloqüente. O silêncio conseguido
pelo opressor é uma forma de exclusão; o silêncio imposto pelo oprimido pode
expressar formas de resistência. Ou seja, o silêncio não é transparente e necessita ser
compreendido através do dito e do não-dito. Pois assim como há silêncios que dizem, há
também falas silenciadoras. A fala autoritária visa a impedir que as pessoas se revelem,
mas também quer coagi-las a dizer o que não pretendem. Portanto, nem a fala nem o
silêncio
215
dizem por si. Ambos estão expressando relações: revelam as pessoas que os empregam
(Orlandi: 1987, 263-376).
- Tipos de Discurso: Segundo Orlandi um tipo de discurso resulta de
determinado funcionamento discursivo. Ou seja, a atividade de dizer é tipificante: todo
locutor, quando fala, estabelece uma configuração que tem embutido em si um estilo e
se realiza na interação. Porém, se o discurso determinado só pode ser compreendido
enquanto processo, seu resultado pode ser classificado dentro de formas ou tipos
discursivos distintos. A autora propõe (creio eu, na linha do tipo-ideal de Max Weber,
isto é, enquanto instrumento de análise) a seguinte subdivisão: o discurso lúdico, o
discurso polêmico e o discurso autoritário. No primeiro a simetria e a reversibilidade
entre os interlocutores é total e a polissemia é máxima. No polêmico, a reversibilidade é
menor e só se dá sob certas condições, comportando certo grau de polissemia. O
discurso autoritário é totalmente assimétrico e contém poucas possibilidades de
interpretação polissêmica. Os “tipos” se subdividem e permitem a construção de
matrizes de interpretação dentro da linha que inspira o modelo teórico, o modelo
estrutural (Orlandi: 1987, 150-160).
- Caráter recalcado da matriz do Sentido: Pêcheux chama atenção para o fato de
que os processos discursivos realizam-se no sujeito mas o transcendem, ainda quando
este tem a ilusão de estar na origem do sentido. Na linha da psicanálise lacaniana,
adverte o autor para o fato de que a fala é marcada por dois níveis de recalcamento: “o
esquecido número um” e o “esquecido número dois”.
O primeiro “designa o que nunca foi sabido e que portanto toca mais de perto o
sujeito que fala, na estranha familiaridade que ele mantém com as causas que o
determinam”. Trata-se de uma zona inconsciente, no sentido em que a ideologia é, por
sua constituição inconsciente. No entanto ela determina uma forma de estrutura
discursiva.
O “esquecimento número dois” é de velamento parcial. Ele pode ser
compreendido, recuperando e reformulando pelo sujeito da enunciação. Quando tenta
aprofundar ou colocar de forma mais adequada seu pensamento em linguagem, o ator
social situa-se numa
216
zona pré-consciente/consciente do sentido de sua fala (Pêcheux: 1988, 175-180).
Como se pode observar, a contribuição do autores da teoria da Análise do
Discurso encaminham-se fundamentalmente para a crítica da linguagem. Essa visão, a
partir do ponto de vista do processo de produção, alerta para o fato de que o emissor e o
receptor do discurso correspondem a lugares determinados na estrutura social
(patrão/operários; padres/fiéis; pai/filhos; etc). A situação dada do locutor assim como a
do destinatário afetam o discurso emitido, pois o sujeito produz e transmite o discurso
num espaço social: o locutor antecipa, no processo discursivo, as representações do
sentido de seu interlocutor, ainda quando esse último seja configurado apenas
hipoteticamente na fala sempre referida do autor.
Enquanto possibilidade técnica a Análise do Discurso consuma o seguinte
objetivo: sendo dados condições de produção determinadas de um discurso em
monólogo; e um conjunto acabado de realizações discursivas (corpus, amostra),
estabelece a estrutura do processo de produção que corresponde a essas condições de
produção. Isto é, o conjunto de domínios semânticos postos em jogo neste discurso e as
relações de dependência entre os domínios (Pêcheux: 1969).
Para conseguir as finalidades, o texto deve ser submetido a várias operações
classificatórias, simultaneamente semânticas, sintáticas e lógicas. De acordo com
Pêcheux, cada frase é decomposta em proposições, o que implica em várias operações
lingüísticas: substituição das anáforas pelos termos que elas representam; o
restabelecimento da ordem corrente na frase; reagrupamento dos termos de ligação e
explicitação de proposições latentes.
Buscam-se as dependências funcionais nas frases e entre as proposições e
reduzem-se as proposições a unidades mínimas. Representam-se as proposições em
gráficos e daí chega-se à classificação das relações binárias obtidas.
Por fim, procede-se à análise automática do material. Isto é, codificados os
enunciados elementares e as relações binárias, os dados são colocados em cartões
perfurados para se proceder à análise automática (Pêcheux: 1969).
Para Pêcheux a possibilidade de análise automática vem do fato de que os
mecanismos de produção do discurso são caracterizados pela
217
repetição do idêntico, através de formas diferenciadas. Tal concepção se apóia na
análise estrutural do mitos de Lévi-Strauss e na própria leitura que faz da concepção
estruturalista do materialismo histórico de Althusser: “busca-se, por trás das variações
de superfície, o princípio gerados que organiza o conjunto”.
A proposta operacional de Orlandi parece-nos mais flexível. Ela trabalha (sem
explicar se faz “análise automatizada”) na seguinte ordem: (1) Análise das palavras do
texto (separação dos termos constituintes, análise dos adjetivos, dos substantivos, dos
verbos, dos advérbios); (2) Análise das construções de frases; (3) Construção de uma
rede semântica, intermediária entre o social e a gramática; (4) Consideração da
produção social do texto como constitutivo do seu sentido (Orlandi: 1987, 157).
Ao terminar essa reflexão sobre a Análise do Discurso enquanto uma prática-
teórica historicamente construída, algumas observações se impõem. A contribuição
reflexiva e técnica já foi anotada. Do ponto de vista crítico é necessário dizer que há
relativamente pouco acúmulo de produção tanto teórica como prática para permitir
dimensionar o lugar da Análise do Discurso no trato do material de ciências sociais. Sua
pretensão de substituir na Análise de Conteúdo é radicalmente questionada por Bardin12:
Por debaixo de uma linguagem abscôndita que por vezes mascara banalidade,
sob um formalismo que por vezes escapa ao leitor, para além das construções
teóricas, que ao nível da prática da análise são improdutivas a curto prazo, existe
uma tentativa totalitária (no sentido em que se procura integrar, no mesmo
12
Bardin é um estudioso da Análise de Conteúdo e obviamente sua discussão com Pêcheux está influenciada por uma visão da
Análise do Discurso que pretende destruir sua pretensa corrente.
procedimento, conhecimentos adquiridos ou avanços até aí dispersos ou de
natureza disciplinar estranha: teoria e prática lingüística, teoria do discurso como
enunciação, teoria da ideologia e automatização dos procedimentos) cuja
ambição é sedutora, mas em que as realizações são anedóticas. O que é
deplorável!” (Bardin: 1979, 220-222)
218
Orlandi, no entanto, avança nas propostas concretas de ação: suas formulações
são menos estruturadas e fechadas que as de Pêcheux. As reflexões da autora sobre o
discurso pedagógico, o discurso político, o discurso religioso, o discurso escolar da
história ampliam o campo da abordagem crítica e desvendam os mecanismos de
dominação que se escondem sob a linguagem (Orlandi: 1987, 15-239).
A Análise do Discurso, pela sua vida ainda curta, não consegue precisar
cabalmente seu objeto nem em termos teóricos nem do ponto de vista técnico.
Caudatária de várias questões do conhecimento, ela dificilmente se objetiva enquanto
proposta autônoma. Seu caráter “amarrado” no estruturalismo” lhe subtrai muito da
flexibilidade necessária para realizar o que ela própria pretende: dar conta do
SENDITO. A redução e relações binárias para conseguir a análise automatizada, a nosso
ver, dificilmente permitirá a apreensão das relações dialéticas constitutivas da realização
social.
As advertências teóricas da Análise do Discurso sobre as CONDIÇÕES DE
PRODUÇÃO da linguagem, contudo, são o lado forte da teoria que pode estar presente
em qualquer análise de conteúdo. Mesmo assim, porém, a análise hermenêutico-
dialética ao pensar a relação de oposição complementar entre interioridade/exterioridade
inclui o texto tanto enquanto documento e como monumento numa relação dinâmica e
permanente, viva e polissêmica.

A HERMENÊUTICA-DIALÉTICA
Fazemos neste trabalho a reflexão sobre a Hermenêutica-Dialética para
completar o quadro do debate sobre o tratamento dos dados da comunicação.
Diferentemente da “Análise de Conteúdo” e da “Análise do Discurso” que se colocam
como uma tecnologia de interpretação de textos, a Hermenêutica-Dialética se apresenta
como um “caminho de pensamento”, como uma via de encontro entre as ciências sociais
e a filosofia.
A partir dos anos 60 vem se desenvolvendo na filosofia um debate entre
Habermas e Gadamer que passou a beneficiar as discussões sobre método nas Ciências
Sociais na medida em que esses autores buscam formas de conseguir objetividade e de
abordar a práxis. Referindo-se ao diálogo e ao confronte entre Gadamer e Habermas
219
sobre a hermenêutica e a dialética, Stein comenta que a filosofia não pode furtar-
se de estabelecer uma comunicação direta entre as ciências sociais que constituem o
próprio chão da filosofia hermenêutica: “sem o diálogo e a ocupação direta com as
ciências humanas, a filosofia torna-se vazia” (Stein: 1987, 131).
Diríamos que o inverso urge se não quisermos que a questão do método nas
ciências sociais se transforme em mera consideração de procedimentos, como chama
atenção Adorno a respeito da sociologia empírica americana:
A investigação social empírica torna equivocadamente epifenômeno, o que o
mundo fez de nós com a realidade mesma. Seu método ameaça tanto fetichizar
seus assuntos, quanto a degenerar-se em fetiche, isto é, a colocar as questões do
método acima das questões de conteúdo (1979, 219).
Trabalhar com a hermenêutica e a dialética, diria Stein: “Constitui-se num
esforço de proteger não apenas o objeto das ciências sociais, mas de salvaguardar os
próprios procedimentos científicos contra a ameaça da selvagem atomização dos
processos tecnocráticos do conhecimento” (1978, 129).
Isso não significa que a hermenêutica e a dialética devam ser
“encurtadas” através de sua redução a simples teoria de tratamento de dados. Mas, pela
sua capacidade de realizar uma reflexão fundamental que ao mesmo tempo não se
separa da práxis, podemos dizer que o casamento dessas duas abordagens deve preceder
e iluminar qualquer trabalho científico de compreensão da comunicação.
Habermas adverte-nos que a Hermenêutica-Dialética não determina técnicas de
tratamento de dados e sim a sua autocompreensão (1980, 307). É nesse espírito que a
tomamos aqui, isto é, como “caminho do pensamento”.
O que é Hermenêutica?
Segundo o dicionário de Filosofia organizado por Ferrater Mora (1984, 1493-1499) a
Hermenêutica consiste na explicação e interpretação de um pensamento. Essa
interpretação pode ser: (a) literal ou de
220
averiguação do sentido das expressões usadas por meio de uma análise lingüística; (b)
ou temática, na qual importa, mais que a expressão verbal, a compreensão simbólica de
uma realidade a ser penetrada. Tradicionalmente a Hermenêutica está referida à exegese
das Sagradas Escrituras e deve seu desenvolvimento ao avanço histórico da gramática,
da retórica humanística e dos estudos bíblicos.
O conceito de Hermenêutica que usamos neste estudo é elaborado por Gadamer
(1987) e clarificado no seu debate acadêmico com Habermas, em diferentes trabalhos
que têm contribuído para o avanço do encontro entre filosofia e ciências sociais, entre a
teoria e a prática transformadora.
Para Gadamer, a Hermenêutica é a busca de compreensão de sentido que dá na
comunicação entre os seres humanos: “ser que pode ser compreendido é linguagem”.
Portanto a linguagem constitui o núcleo central da comunicação: a linguagem ordinária
do homem comum no seu dia-a-dia. Seus pressupostos são que o homem como ser
histórico é finito e se complementa na comunicação. Mas a compreensão dessa
comunicação é também finita: ocupa um ponto no tempo e no espaço. E ainda quando
podemos ampliar os horizontes da comunicação e da compreensão, nunca escapamos da
história, fazemos parte dela e sofremos os preconceitos de nosso tempo.
Segundo Gadamer, em princípio, os meios de uma linguagem natural são
suficientes para esclarecer o sentido de quaisquer contextos simbólicos por mais
estranhos e inacessíveis que possam se apresentar à primeira vista: podemos traduzir de
qualquer língua para outra, podemos compreender a cultura de outras épocas e de
qualquer tempo. No entanto, o contexto sempre passível de compreensão é ao mesmo
tempo questionável e potencialmente incompreensível. A experiência Hermenêutica
balança entre o familiar e o estranho, entre a intersubjetividade do acordo ilimitado e o
rompimento da possibilidade de compreensão. Isso vale tanto para o estudo de
interações de comunidades e grupos socioculturamente heterogêneos em termos de
épocas, culturas, classes, como para as relações no interior de conjuntos homogêneos.
Um segundo ponto realçado por Gadamer é a questão do preconceito.
221
O fato de pertencermos a determinado grupo social, a determinado tempo histórico, de
possuirmos determinada formação, faz que a compreensão hermenêutica seja
inevitavelmente condicionada pelo contexto do analista. Por isso, para Gadamer, a
hermenêutica tem que se relacionar com a retórica e a práxis. A arte da compreensão
vincula-se com a arte do convencimento (retórica) naqueles casos em que a
comunicação é trazida para o terreno das decisões em questões práticas. Desta forma, a
hermenêutica e a mensagem mas para entender a orientação e a modificação da ação.
Dá-se aí o cruzamento entre linguagem e práxis pois ambas se interpretam mutuamente.
Gadamer critica o Iluminismo que pretende a isenção da razão humana, é cego
para os preconceitos, colocando-se fora da história. Para ele, a autoridade e a tradição
são os lugares próprios para se entender a comunicação do outro.
Como a fenomenologia, a Hermenêutica traz para o primeiro plano, o tratamento
dos dados, as condições cotidianas do dia-a-dia. A pesquisa hermenêutica também
analisa os dados da realidade tendo como ponto de partida a manutenção e a extensão da
intersubjetividade de uma intenção possível como núcleo orientador de ação. A
compreensão do sentido orienta-se por um consenso possível entre o sujeito agente e
aquele que busca compreender. Por paradoxal que pareça, no entanto, explica Gadamer
a compreensão só se opera por estranhamento. Apenas o fracasso na tentativa de
entender a transparência do que é dito pode levar alguém a penetrar na opinião do outro,
na busca de sua racionalidade e verdade, dentro de um sistema de intersubjetividade.
Assim, a reflexão hermenêutica produz identidade da oposição, buscando a unidade
perdida. Ela se introduz no tempo presente, na cultura de um grupo determinado para
buscar o sentido que vem do passado ou deuma visão de mundo própria, envolvendo
num único movimento o ser que compreende e aquilo que é compreendido.
No debate com Gadamer, Habermas reconstitui os pressupostos metodológicas
da hermenêutica para as ciências sociais e nós os retomamos aqui como balizar no trato
do material comunicativo: (a)
222
O pesquisador tem que aclarar para si mesmo o contexto de seus entrevistados ou dos
documentos a serem analisados. Isso é importante porque o discurso expressa um saber
compartilhado com outros, do ponto de vista moral, cultural e cognitivo. (b) O estudioso
do texto (o termo texto aqui é considerado no sentido amplo: relato, entrevista, história
de vida, biografia, etc.) deve supor a respeito de todos os documentos, por mais
obscuros que possam à primeira vista, um teor de racionalidade e de responsabilidade
que não lhe permita duvidar. O intérprete toma a sério, como sujeito responsável o ator
social que está diante dele. (c) O pesquisador só pode compreender o conteúdo
significativo de um texto quando está em condições de tornar presentes as razões que o
autor teria para elaborá-lo. (d) Por outro lado, ao mesmo tempo em que o analista busca
entender o texto, tem que julgá-lo e tomar posição em relação a ele. Isto é, qualquer
intérprete deve assumir determinadas questões que o texto lhe apresenta como
problemas não resolvidos. E compenetrar-se do fato de que no labor da interpretação
não existe última palavra. (e) Toda interpretação bem-sucedida é acompanhada pela
expectativa de que o autor poderia compartilhar da explicação elaborada se pudesse
penetrar também no mundo do pesquisador. Tanto o sujeito que comunica como aquele
que o interpreta são marcados pela história, pelo seu tempo, pelo seu grupo. Portanto o
texto reflete essa relação de forma original (Habermas: 1987, 86-97).
A partir dos mencionados pressupostos resumimos o caminho da tarefa
interpretativa: (a) Diferencias a compreensão do contexto da comunicação, da
compreensão do contexto do próprio pesquisador; (b) Para isso, explorar e deduzir as
definições de situação que o texto transmitido permite, a partir do mundo da vida do
autor e de seu grupo social. Esse mundo da cotidianidade é o horizonte, o parâmetro do
processo de entendimento do texto com o qual seus contemporâneos e interlocutores
concordam ou discordam sobre algo, num único mundo objetivo, num mundo social,
num mundo de intersubjetividades; (c) O pesquisador ao analisar pode pressupor que
compartilha com o autor suas referências formais à vida social. A partir daí busca
entender porque o sujeito da fala acredita em determinada situação social, valoriza
determinadas normas e atribui determinadas ações ou responsabilidades a certos atores
sociais. Em resumo,
223
busca entender porque o autor de um texto o apresenta dessa forma e não de outra.
Somente na medida em que descobre as razões que fazem aparecer tal como é,
um depoimento de determinado locutor, o analista pode apreender o que o sujeito quis
dizer, isto é, a significação da fala: “compreender uma manifestação simbólica significa
saber sob que condições sua pretensão de validade poderia ser aceita” (Habermas: 1987,
94).
Uma pretensão de validade contém a afirmação de que algo é digno de ser
reconhecido.
Tentado resumir, podemos afirmar que a hermenêutica busca a compreensão do
texto nele mesmo “entender-se na coisa”. Ela se distingue do saber técnico que quer
fazer da compreensão de um conjunto de regas disciplinadoras do discurso. Distingue-
se também da lingüística, cujo principal objeto é a reconstrução do sistema abstrato de
regras de uma linguagem natural. Com relação à linguagem, a hermenêutica toma como
seu campo as experiências fundamentais de “um falante comunicativamente
competente”.
A hermenêutica distingue-se, na sua proposta, da fenomenologia social e da
etnometodologia. Em ambas, segundo Habermas (1987, 23) a linguagem é tomada
como sujeito da forma de vida e de tradição, pretendendo-se à pressuposição idealista de
que a consciência lingüisticamente articulada determina o ser material da práxis vital.
Pelo contrário, a hermenêutica se apóia na reflexão histórica que concebe o intérprete e
seu objeto como momentos do mesmo contexto. Esse contexto objetivo se apresenta
como tradição, entendida aqui como uma linguagem transmitida na qual vivemos.
O exercício de compreensão proposto pela hermenêutica repudia o objetivismo
que estabelece uma conexão ingênua entre os enunciados teóricos e os dados fatuais,
cujo paradigma é o mundo natural. Mas opõe-se também ao idealismo filosófico ou
teológico que coloca a verdade nalgum lugar fora da práxis.
Qual é a concepção dialética presente na discussão de Habermas no seu debate
com Gadamer? É importante distingui-la e fazer sobre ela uma leitura “hermenêutica”,
no sentido de que o conceito de
224
Dialética é historicamente construído, tomando diversas conotações tal como é usado
dentro de diferentes marcos teóricos e desenvolvido por autores diferentes. Os
elementos ressaltados por Habermas são os seguintes:
(a) A razão humana pode mais do que simplesmente compreender a realidade, na
medida em que as condições de racionalidade são também produto da ação humana
objetivada. Por isso, para Habermas, a razão humana possui uma forma transcendental
que se exerce na crítica e consegue ultrapassar os pré-conceitos. A mesma razão que
compreende, esclarece e reúne, também contesta e dissocia (Habermas: 1987, 20-25).
(b) A estrutura do “significado” presente na linguagem é apenas um fator na
totalidade do mundo real, que para Habermas se compõe de trabalho, poder e
linguagem. Portanto, a tradição cultural que se expressa na linguagem está marcada pelo
caráter ideológico das relações de trabalho e de poder:
Linguagem também é meio de dominação e de poder social. Ela serve à
legitimação das relações de violência organizada. Na medida em que as
legitimações não manifestam a relação de violência, cuja institucionalização
possibilitam, e na medida em que isso apenas se exprime nas legitimações, a
linguagem também é ideológica. A experiência hermenêutica que topa com tal
dependência do contexto simbólico com referência às relações fáticas, passa a
ser crítica da ideologia (Habermas: 1987, 21).
Habermas critica a pretensão idealista da sociologia compreensiva, da
etnometodologia, da fenomenologia e da própria hermenêutica que, nas suas análises,
ignoram a totalidade da vida social em todos os seus momentos. Elas se movem no
espaço da comunicação ordinária como se ela fosse unívoca e totalizante. O argumento
de Habermas se expressa na luminosa frase de Albretch Wellmer:
A ilustração sabia o que a hermenêutica esquece: que o ‘diálogo’ que, segundo
Gadamer, nós somos, também é um contexto de violência e nisto não há diálogo
(...) A pretensão de universalidade do ponto de partida só pode ser sustentada
quando se parte do fato
225
de que o contexto da tradição enquanto o lugar possível da verdade e acordo
fático, é também, ao mesmo tempo, o lugar da inverdade fática e da violência
constante (Habermas: 1987, 127).
Habermas coloca como fundamento da comunicação as relações sociais
historicamente dinâmicas, antagônicas e contraditórias entre classes, grupos e culturas;
Desta forma fica evidente que a linguagem enquanto possibilitadora de comunicação
traduz também a dificuldade de comunicação. Seus significantes aparentemente iguais
carregam conotações e significados expressivo da própria realidade conflitiva (1987,
26-69). Numa sociedade marcada por relações sociais de produção profundamente
desiguais, a comunicação está sistematicamente perturbada. A linguagem é um índice de
alienação que expressa a dominação dos homens sobre seus semelhantes.
(c) Um trabalho crítico busca um método no qual a interpretação seja
transformação e vice-versa, e que afirme a imbricação entre método e coisa. Isso
implica a recusa da totalidade que se faz no processo e que é operada também no labor
teórico. Como se trata de uma concepção de totalidade teórico-prática ela se recompõe
perenemente no trabalho de reflexão e permanece como horizonte regulador das
questões da prática. Isso implica no reconhecimento, por honestidade científica, de um
engajamento em todo trabalho de compreensão (Habermas: 1987, 86-95).
(d) Ressalta o condicionamento histórico do pensamento, da reflexão e os
determinismos materiais da ideologia. Daí que, ao mesmo tempo, Habermas apresenta o
caráter de universalidade da crítica tanto para a base material como para a
superestrutura ideológica da realidade. Mas esse reconhecimento das condições
históricas do pensamento submete o próprio discurso crítico a seus determinismos
histórico-sociais:
Uma transformação dos modos de produção acarreta uma reestruturação da imagem
lingüística do mundo. (...) Não há dúvida de que revoluções nas condições de
reprodução da vida material são, por sua vez, mediadas linguisticamente: mas uma nova
práxis não
226
é posta em ação apenas por uma nova interpretação, e sim antigos modelos de
interpretação vêm a ser também, ‘de baixo para cima’ atingidos por uma nova
práxis e revolucionados (1979, 22).
A crítica da comunicação, para eles, deve fazer em dois níveis: (a) de um lado,
em relação à intransparência dos dados; (2) de outro, das próprias categorias usadas para
análise, no sentido de que não existe nenhuma referência fora da história (Habermas:
1987, 86-95).
Após a caracterização das duas posições metodológicas é importante perceber
seus pontos de encontro e de contraste, uma vez que se reconheça a importância da
hermenêutica-dialética, na reflexão teórica do conhecimento:
“É claro que tanto a dialética como a hermenêutica não perceberam de maneira
explícita o paradigma que elas inauguraram”, defende Stein. “Mas seu modo de
proceder como método, dá-lhes indiscutivelmente uma autoridade epistêmica
capaz de dar conta de seus pressupostos e produzir níveis de racionalidade cuja
legitimação vai-se repondo através do progresso do trabalho teórico” (Stein:
1987, 109).
Habermas reconhece a possibilidade de um encontro fecundo entre a
Hermenêutica e a Dialética, em primeiro lugar no seu ponto de partida: o HOMEM. Em
ambas o objeto de análise é a práxis social e o sentido que buscam é a afirmação ético-
política do pensamento.
Reconhece também a importância da reflexão hermenêutica e do valor da
tradição mas submete-os à crítica.
A reflexão é condenada a chegar depois do fato, mas ao olhar para trás
desenvolve uma força reconstrutiva. Nós só podemos nos voltar para as normas
interiorizadas depois de termos aprendido primeiro cegamente a segui-las sob
um poder que se impôs de fora. À medida porém que a reflexão recorda aquele
caminho da autoridade no qual as gramáticas dos jogos de linguagem foram
exercitadas dogmaticamente como regaras de concepção do mundo e do agir,
pode ser tirada da autoridade aquilo que nela era pura dominação, e ser
dissolvido na coerção sem violência da intelecção e da decisão racional
(Habermas: 1987, 18)
227
O autor, ao mostrar a contribuição e os limites da hermenêutica, chega a uma
proposta de complementaridade com a dialética, complementaridade possível a partir da
própria realidade.
Enquanto a hermenêutica penetra no seu tempo e através da compreensão
procura atingir o sentido do texto, a critica dialética se dirige contra seu tempo. Ela
enfatiza a diferença, o contraste, o dissenso e a ruptura de sentido. A hermenêutica
destaca a mediação, o acordo e a unidade de sentido.
Assim a hermenêutica e a dialética apresentam-se como momentos necessários
na produção da racionalidade. O método dialético opera tendo como pressuposto o
método hermenêutico, embora essas duas concepções tenham sido desenvolvidos
através de momentos filosóficos diferentes. Stein tenta recuperar a complementaridade
dessas abordagens mostrando que: (a) Ambas trazem em seu núcleo a idéia fecunda das
condições históricas de qualquer manifestação simbólica, da linguagem, e de qualquer
trabalho de pensamento; (b) Ambas partem do pressuposto de que não há observador
imparcial nem há ponto de vista fora do homem e fora da história; (c) Ambas
ultrapassam a simples tarefa de serem ferramentas do pensamento. São modos pelos
quais o pensamento produz racionalidade, contrapondo-se aos métodos das ciências
positivistas que se colocam como exteriores e isentos do trabalho da razão; (d) Por isso,
ambas questionam o tecnicismo presente nos métodos das ciências sociais, para
descobrir o fundo filosófico que as diversas técnicas metodológicas tendem a negar.
Destroem, dessa forma, a auto-suficiência objetivista das ciências com base no
positivismo. (e) Ambas estão referidas à práxis e mostram, nos campos das Ciências
Sociais, que seu domínio objetivo está preestruturado pela tradição e pelos percalços da
história (1987, 110).
A união da hermenêutica com a dialética leva a que o intérprete busque entender
o texto, a fala, o depoimento como resultado de um processo social (trabalho e
dominação) e processo de conhecimento (expresso em linguagem) ambos frutos de
múltiplas determinações mas com significado específico. Esse texto é a representação
social de
228
uma realidade que se mostra e se esconde na comunicação, onde o autor e o intérprete
são parte de um mesmo contexto ético-político e onde o acordo subsiste ao mesmo
tempo que as tensões e perturbações sociais.

CONCLUSÕES: UMA PROPOSTA DE INTERPRETAÇÃO


“Nossos conhecimentos são apenas a aproximação da plenitude da realidade, e
por isso mesmo são sempre relativos; na medida, entretanto, em que
representam a aproximação efetiva da realidade objetiva, que existe
independentemente de nossa consciência, são sempre absolutos. O caráter ao
mesmo tempo absoluto e relativo da consciência forma uma unidade dialética
indivisível” (Lukács: 1967, 233).
Ao pensamento de Lukács sobre o conhecimento aproximado, em epígrafe,
podemos acrescentar, podemos acrescentar a reflexão de Bachelard de que: “o ato de
conhecer, no seu primeiro impulso é uma descoberta plena de incerteza e de dúvida. Sua
raiz é o julgamento desconfiado, seu sucesso, um acesso verificado” (1969, 25).
O que as páginas anteriores nos mostram, concordando com os pensadores
citados, é de que no processo de conhecimento não há consenso e não há ponto de
chegada. Há o limite de nossa capacidade de objetivação e a certeza de que a ciência se
faz numa relação dinâmica entre razão e experiência e não admite a redução de um
termo a outro. Se isso é verdade para a totalidade do labor de investigação científica,
aplica-se de forma muito específica à etapa de tratamento dos dados empíricos.
Poirier comenta que num curso ministrado na França por Lazarsfeld (um dos
renomados pesquisadores sociais do nosso século) sobre técnica de análise de conteúdo
aplicadas a história de vida, um dos alunos lhe perguntou sobre a condução de certos
problemas práticos. Sorrindo, o mestre lhe respondeu: “A gente diz e escreve muitas
coisas, mas na verdade a gente faz como pode” (Poirier et alii: 1987, 72).
229
A intervenção de Lazarsfeld é altamente significativa e honesta. Desmistifica a
“caixa preta” dos procedimentos usados por cientistas sociais que certamente teriam
muito a narrar sobre os caminhos e descaminhos através dos quais conseguem os
“assépticos” resultados de suas pesquisas. Por outro lado, a fala de Lazarsfeld revela
não apenas o lado das dificuldades reais, das fraquezas e das falhas de um pesquisador,
mas insinua o fato de que, o que escrevemos ou falamos sobre o trabalho de
investigação, geralmente é uma “lógica reconstruída” que se distancia da “lógica do
uso” no decorrer do trabalho. Marx fala do mesmo tema na “Introdução” à
Contribuição à Crítica da Economia Política distinguindo o método de investigação, do
método de exposição (1973, 240).
As observações acima não nos eximem, porém, de um esforço de reflexão cujo
desafio seria unir à crítica teórica uma proposta prática de análise do material
qualitativo. Esse desafio tem que partir de uma revisão das alternativas até aqui
apresentadas e de uma opção que ao mesmo tempo se torne viável teórica e
praticamente. Estamos alerta para o fato de que a polêmica existente nessa área do
conhecimento é sinal ao mesmo tempo de pouca reflexão (André: 1983, 63), mas
também das dificuldades concretas de ultrapassar o nível dos dados aparentes e alcançar
a compreensão mais profunda dos significados.
A crítica básica a respeito da Análise de Conteúdo tradicional (nas suas mais
diferentes modalidades) é a sua fraca capacidade explicativa. Sua ênfase quase absoluta
na fala como material de análise, transforma a questão da descoberta e da validade, na
habilidade de manipulação de instrumentos técnicos, à moda positivista e caudatária das
abordagens quantitativistas. O material etnográfico é arranjado como um “Corpus”, isto
é, como um conjunto sistematizado e fixo, privilegiando-se tudo o que pode se
constituir em sistema de signos a serem decifrados. Desta forma, não entram em pauta o
processo de tomada de decisões no campo e nem o contexto da ação analisada. As
entrevistas (ou comunicações em geral) costumam ser vistas em blocos, perdem sua
autoria e o jogo do “significados em cadeia” passam a ser o foco da compreensão.
Da mesma forma, a Análise do Discurso que tenta ultrapassar a Análise de
Conteúdo tradicional, como o próprio nome indica, também coloca sua tônica na fala.
Substituindo o critério estatístico-quantitativo
230
para avaliar o rigor da abordagem, pretende compreender as regras próprias do processo
discursivo e atingir as estruturas profundas na raiz da comunicação. No entanto, o rigor
formal de que se reveste costuma sacrificar a riqueza dos detalhes e a
multidimensionalidade da pesquisa empírica – características que constituem a aura e o
mérito da abordagem antropológica.
Os refinamentos técnicos tanto da análise do conteúdo como da análise do
discurso se apóiam na crença de que a “verdade” dos significados se situa nos meandros
profundos da significação dos textos. Ora, a absolutização dessa crença deixa em
segundo plano os aspectos extradiscursivos que constituem o espaço sócio-político-
econômico e cultural onde o discurso circula.
A abordagem antropológica, a partir dos clássicos trabalhos de Malinowski, já há
muito ultrapassou os limites da ênfase na análise do conteúdo explícito da mensagem.
Seu método é cotejar a fala com a observação das condutas e dos costumes e com a
análise das instituições referentes ao tema em estudo. Checar o que é dito com o que é
feito, como o que é celebrado e está cristalizado. Desta forma, uma boa análise
interpreta o conteúdo ou o discurso dentro de um quadro de referências onde a ação e
ação objetivada nas instituições permite ultrapassar a mensagem manifesta e atingir os
significados latentes.
Essa proposta, no entanto, pertence ao clássico quadro do funcionalismo de onde
partiu toda a abordagem antropológica. E hoje o dilema dos que trabalham com análises
qualitativas é de superar os esquemas interpretativos formais (à la Berelson) ou o
funcionalismo (à la Malinowski) em busca de uma teoria dialética capaz de conter os
conteúdos intrinsecamente conflitivos e antagônicos da nossa realidade social. A
abordagem que mais se coaduna à interpretação consistente dos dados é a marxista, na
medida em que ela se propõe a captar o movimento, as contradições e os
condicionamentos históricos. O empreendimento, porém, não é fácil como nos advertem
Durham (1986, 33), Cardoso (1986, 86s), Zaluar (1986, 115), Magnani (1986, 128).
Esses autores, a partir de diferentes temas, mostram que as tentativas de interpretação
qualitativa marxista têm descambado ora para uma imprecisa categorização, por
dificuldades de transposição de conceitos usados em análises macrossociais para
231
realidades microssociais, ora para uma abordagem mais política que de cunho científico,
carente de reflexão sobre os problemas epistemológicos envolvidos.
Apesar das constatações feitas e a partir das dificuldades apresentadas na prática
teórica é o método hermenêutico-dialético que apresentamos aqui como o mais capaz de
dar conta de uma interpretação aproximada da realidade. Ele coloca a fala em seu
contexto para entendê-la a partir do seu interior e no campo da especificidade histórica e
totalizante em que é produzida. Usaremos portanto a reflexão do “caminho do
pensamento” apresentada por Habermas, mas buscaremos apresentá-la também como
uma possibilidade de realização técnica em relação às comunicações referentes à área de
saúde. Sublinhamos a necessidade de unir na análise todo o material escrito, como as
observações, o contexto estruturado e todo o sentido “evasivo”, “dinâmico”,
“complexo” das relações sociais.
Partindo para o nível do concreto, tomemos como exemplo de um material
recolhido sobre Concepção de Saúde-Doença de um determinado segmento social. A
interpretação tem dois níveis que necessitamos abordar.
O primeiro nível é o campo das determinações fundamentais que já deve estar
estabelecido na fase exploratória da investigação. Trata-se do contexto sócio-histórico
desse grupo social e que constitui o marco teórico-fundamental para a análise. Esse
momento pode ser pensado esquematicamente como a compreensão: (a) da Conjuntura
sócio-econômica e política na qual se insere o grupo e sua participação enquanto ator
social; (b) da história do grupo e sua inserção na produção (enquanto classe e segmento
de classe) e suas condições de reprodução (salário, moradia, acesso a bens e serviços e
distribuição geográfica); (c) da política de saúde em geral e em particular no que
concerne ao grupo e da categoria Saúde/Doença enquanto categorias historicamente
construída e vivenciada através do sistema de saúde; (d) das instituições de saúde às
quais tem acesso o grupo em questão.
Ele tem que estar presente durante todo o processo de pesquisa e também no
momento interpretativo. Arouca nos lembra esse quadro de relações essenciais:
232
Em um dado momento histórico, em uma formação social dada, a situação
sanitária representa a dinâmica do fenômeno saúde/doença nas populações,
determinada por um conjunto de relações, com outros setores sociais
(econômicos, políticos, ideológicos) cujas necessidades são enfrentadas por um
campo agregado de instituições que têm disponível um certo saber e uma certa
tecnologia (Arouca: 1988, 11).
O autor se refere à situação e às condições de saúde, mas suas palavras poderiam
se adaptar em relação as representações sociais de saúde/doença.
Esse primeiro nível é o plano da totalidade enquanto realidade objetiva que
significa, segundo Lukács:
Um todo coerente em que cada elemento está, de uma maneira ou de outra, em
relação com cada elemento; e de outro, que essas relações formam na própria
realidade objetiva, correlações concretas, conjuntos, unidades ligadas entre si de
maneiras complementares diversas, mas sempre determinadas (Lukács: 1967,
240).
No momento concreto de interpretação dos dados, o sentido da totalidade se
refere tanto ao nível das determinações como ao do recurso interpretativo pelo qual se
busca descobrir as conexões que a experiência empírica mantém com o plano das
relações essenciais. Nem sempre esse momento pode ser captado apenas através das
representações sociais. A operação intelectual pela qual obtemos a totalidade concreta
implica que o movimento da razão e o movimento da experiência sejam percebidos
através de relações recíproca e dialeticamente integradas.
Do ponto de vista histórico, a postura interpretativa dialética reconhece os
fenômenos sociais sempre como resultados e efeitos da atividade criadora tanto
imediata quanto institucionalizada. Portanto, toma como centro da análise a prática
social, a ação humana e a considera como resultado de condições anteriores, exteriores
mas também como práxis. Isto é, o ato humano que atravessa o meio social conserva as
determinações, mas transforma o mundo sobre as condições dadas. “O homem faz a
história: ele se objetiva nela e nela se aliena” (Sartre: 1978, 150). É a captação desse
movimento contraditório,
233
dinâmico, inacabado e em permanente projeção, a segunda condição do método
dialético em seu quadro de determinações. Tomando o caso de concepções de
Saúde/Doença temos que entendê-las como frutos e manifestações de condicionantes
sócio-históricos que se vinculam a acesso a serviços, tradições culturais, concepções
dominantes veiculadas e a inter-relação de tudo isso. Saúde/Doença são um fenômeno
social não apenas porque elas expressam certo nível de vida ou porque correspondem a
certas profissões e práticas. Mas também porque elas são manifestações da vida
material, das carências, dos limites sociais e do imaginário coletivo.
A interpretação dialética nos faz ver que as Concepções de Saúde/Doença de
determinado segmento são, pois, resultado de condições anteriores e exteriores ao
grupo, mas ao mesmo tempo específicas. Elas são fruto de condições dadas mas são
também produto de sua ação transformadora sobre o meio social.
O segundo momento interpretativo é na verdade o ponto de partida e o ponto de
chegada de qualquer investigação: é o encontro com os fatos empíricos, no caso, com
um conjunto de Concepções de Saúde/Doença. É preciso encontrar nesses “fatos
anedóticos” a totalidade e, a partir deles, descobri-la. Isto é, esses textos têm uma
significação particular e um papel revelador do todo.
É necessário pois, tomar como material concreto as representações sociais de
Saúde/Doença, tais como são manifestadas pelos atores sociais, empiricamente. Isso
implica considerar na análise interna, como parte das representações: (a) as
comunicações individuais (entrevistas, história de vida, resultados da discussões de
grupo etc.) (b) observação de condutas e costumes relativos ao comportamento sobre
SAÚDE/DOENÇA; (c) análise das instituições referidas ao tema como Centro de Saúde
oficial, entidades alternativas de tratamento citadas; (d) observação da cerimônias e ritos
atinentes ao assunto.
A interpretação exige elaboração de Categorias Analíticas capazes de desvendar
as relações essenciais, mas também de Categorias Empíricas e Operacionais capazes de
captar as contradições do nível empírico em questão. A partir dos dados colhidos e
acumulados o investigador se volta para os fundamentos da teoria para uma reflexão
sobre os conceitos iniciais, para colocação em dúvida das
234
idéias evidentes. Assim ele constrói uma nova aproximação do objeto: o pensamento
antigo que é negado mas não excluído, encontra outros limites e se ilumina na
elaboração presente. O novo contém o antigo incluindo-o numa nova perspectiva.
Como operacionalizar esse segundo momento que na verdade constitui o desafio
da análise? É o instante hermenêutico, em que provisoriamente e apenas para fins
analíticos se toma o material de representação social como um conjunto separado, a ser
tecnicamente trabalhado.
Aqui pode se aproveitar todo o progresso técnico seja de determinada forma de
análise de conteúdo ou da análise do discurso, com a condição de se submeter essas
técnicas a uma superação dialética, isso é, ao conjunto das relações envolvidas.
O material escrito necessita ser cuidadosamente analisado: frases, palavras,
adjetivos, concatenação das idéias, sentido geral do texto. Bakhtin nos lembra algumas
regras metodológicas fundamentais: (1) não separar a ideologia da realidade material do
signo; (2) não dissociar o signo das formas concretas de comunicação (entendendo-se
que o signo faz parte de um sistema de comunicação social organizado); (3) não
dissociar a comunicação e suas formas de sua base material (infra-estrutura).
Realizando-se no processo de relação social, todo signo ideológico, portanto
também o signo lingüístico, vê-se marcado pelo horizonte social de uma época e de um
grupo social determinado. Embora as classes sociais diferentes sirvam-se de uma só e
mesma língua, a palavra também se torna a arena onde se desenvolve a luta de classe. A
análise de signos (substantivos, verbos, adjetivos etc.) seja no seu sentido de tema ou
forma deve ser orientada pela certeza das contradições que aí se ocultam (Bakhtin:
1986, 44-47).
Operacionalmente propomos alguns passos:
1.°) Ordenação dos dados: que engloba tanto as entrevistas como o conjunto do material
de observaçãoe nos documentos populares e institucionais, referentes ao tema
Concepções Saúde/Doença.13
235
Essa etapa inclui: (a) transcrição de fitas-cassetes; (b) releitura do material; (c)
organização dos relatos em determinada ordem, o que já supõe um início de
classificação; (d) organização dos dados de observação também em determinada ordem,

13
Não entramos aqui nos detalhes referentes à Ordenação de Dados. Indicamos como bibliografia complementar o trabalho de
Poirier et alii, Les Récits de Vie. Paris, PUF. 1987.
de acordo com a proposta analítica. Essa fase dá ao investigador um mapa horizontal de
suas descobertas no campo.
2.°) Classificação dos dados: já dissemos, não é o campo que traz o dado, na medida em
que o dado não é “dado”, é “construído”. É fruto de uma relação entre as questões
teoricamente elaboradas e dirigidas ao campo e num processo inconcluso de perguntas
suscitadas pelo quadro empírico às referências teóricas do investigador.
Do ponto de vista dialético a classificação é um processo que, tendo presente o
embasamento teórico dos pressupostos e hipóteses do pesquisador, é feito a partir do
material recolhido.
O momento classificatório compõe-se, segundo nossa proposta, nas seguintes
etapas:
(a) Leitura exaustiva e repetida dos textos, prolongando uma relação interrogativa com
eles. Esse exercício, denominado por alguns autores como “leitura flutuante” permite
apreender as estruturas de relevância dos atores sociais, as idéias centrais que tentam
transmitir e os momentos-chaves de sua existência sobre o tema em foco (no caso
concepções de SAÚDE/DOENÇA). Essa atividade ajuda o pesquisador a,
processualmente, estabelecer as categorias empíricas, confrontando-as com as
categorias analíticas teoricamente estabelecidas como balizas de investigação, buscando
as relações dialéticas entre ambas.
Trata-se aqui de lograr um verdadeiro conhecimento compreensivo que encontra
os atores no seu mundo social, seguindo ao mesmo tempo duas práxis. Tomando-se
como exemplo a concepção de Saúde/Doença, é necessário entender a expressão desse
tema também no comportamento do segmento social.
(b) Constituição de um “Corpus” ou de vários “Corpus” de comunicações se o conjunto
das informações não é homogêneo. Por exemplo: entrevistas sobre Saúde/Doença com
os populares, adultos, entrevistas com curandeiros; entrevistas com médicos do Centro
de Saúde; entrevistas com Agentes de Saúde. Cada um desses grupo
236
fornece informações e representações específicas, constituindo conjuntos diferenciados.
Nesse momento fazemos uma “leitura transversal” de cada corpo. Recorta-se
cada entrevista ou documento em termos de “unidade de registro” a serem referenciadas
por tópicos de informação ou por temas. Os critérios de classificação em primeira
instância podem ser tanto variáveis empíricas como variáveis teóricas já construídas
pelo pesquisador. Geralmente a interação de ambos os critérios permite ao analista o
aprofundamento do conteúdo das mensagens.
Em geral a primeira classificação, ainda grosseira, é elaborada como em gavetas,
onde cada assunto, tópico ou tema é cuidadosamente separado e guardado.
Em seguida, faz-se o enxugamento da classificação por temas mais relevantes
que podem surgir tanto para comprovação de hipóteses como material exploratório de
campo. Por exemplo, pode ser expressivo que numa classificação de concepções de
saúde/doenças o “modo de vida” surja como uma categoria empírica relevante. Que a
expressão “doença de Deus” seja um termo a merecer análise minuciosa. Que o
“nervoso” surja como uma explicação reincidente da condição de vida. Assim por
diante.
Pode-se dizer que num processo de aprofundamento da análise, a relevância de
algum tema, uma vez determinado (a partir da elaboração teórica e da evidência dos
dados), permite refazer e refinar o movimento classificatório. As múltiplias gavetas são
reagrupadas em torno de categorias centrais, concatenando-se numa lógica unificadora.
3.°) Análise Final: As duas etapas anteriores – ainda que o marco teórico esteja presente
o tempo todo – fazem uma inflexão sobre o material empírico, que é como dissemos, o
ponto de partida e o ponto de chegada da interpretação. Esse movimento incessante que
se eleva do empírico para o teórico e vice-versa, que dança entre o concreto e o abstrato,
entre o particular e o geral é o verdadeiro movimento dialético visando ao concreto
pensado. Supondo que sejam as Concepções de Saúde/Doença de determinado
segmento que nos importa interpretar temos que partir do caos aparente das informações
recolhidas no campo e fazer delas ao mesmo tempo uma revelação da sua especificidade
de concepção e de participação nas concepções
237
dominantes, e mais que isso, de expressão da visão social de mundo do segmento em
relação à sociedade dominante.
Essa compreensão específica deve nos informar que a fala e o comportamento
dos sujeito relativas à Saúde/Doença trazem consigo uma significação profunda que a
época histórica e sua pertinência a uma classe lhe empresta. Porque cada ser humano,
individualmente, em grupo ou sob a expressão histórica de classe é um ser significante.
Nunca se pode compreender sua palavra ou seu gesto sem superar o presente ou sem
projetá-lo para o futuro. As significações que descobrimos vêm do ser humano e de seu
projeto e se inscrevem por toda parte, na ordem das coisas e nas relações mediadas pelas
estruturas enquanto ação humana objetivada (Sartre: 1978, 179).
O produto final e sempre provisório, resultado de todas as etapas de pesquisa, é
o concreto pensado do qual nos fala Marx. Mas a sua compreensão jamais é
contemplativa. Ela inclui num mesmo projeto o objeto, o sujeito do conhecimento e as
próprias interrogações em movimento totalizador. A interpretação, além de superar a
dicotomia objetividade versus subjetividade, exterioridade versus interioridade, análise
e síntese, revelará que o produto da pesquisa é um momento da práxis do pesquisador.
Sua obra desvenda os segredos de seus próprios condicionamentos.
Desta forma a totalização final que consiste no encontro da especificidade do
objeto pela prova do vivido com as relações essenciais, não é uma atividade fácil e nem
externa ao investigador. Ele se inclui nela enquanto marcado pelo momento histórico,
pelo desenvolvimento científico (também histórico), por sua pertinência (histórica) a
uma classe social e pela capacidade de objetivação. Assim concluímos que a
investigação social enquanto processo de produção e produto é ao mesmo tempo uma
objetivação da realidade e uma objetivação do investigador que se torna também
produto de sua própria produção.
Como observação final, importa relembrar o apelo imediato e indiscutível do
objeto “Saúde” à unidade indissolúvel entre teoria e prática: enquanto condução do
processo de conhecimento e enquanto necessidade de transformação. Portanto
propomos que a análise final de qualquer investigação no setor se dirija para uma
vinculação
238
estratégica com a realidade. Neste sentido, sugerimos que, dentro da idéia de pesquisa
estratégica enfatizada por Bulner para a área de políticas públicas (1978, 11-21), se
chegue à conclusão do trabalho com pistas e indicações que possam servir de
fundamento para propostas de planejamento e avaliação de programas, revisão de
conceitos, transformação de relações, mudanças institucionais, dentre outras
possibilidades.
Certamente não se excluem as contribuições de pesquisas básicas que, realizadas
dentro de uma visão a mais longo prazo, fundamentem trabalhos teóricos, práticos e
estratégicos. Sua importância e de transcendental reconhecimento em qualquer campo e
também para a problemática de saúde.

ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE A QUESTÃO DA VALIDADE E DA


VERIFICAÇÃO
A problemática da VALIDADE e da VERIFICAÇÃO nas Ciências Sociais foi
colocada, em primeiro lugar, pelo positivismo sociológico, mas representa uma
discussão implícita em todas as correntes teóricas sobre a cientificidade da produção
intelectual. A crítica interna constitui a alma da ciência e a coincidência entre a
realidade estudada e o produto da investigação é a “utopia” de qualquer marco teórico
consistente. Até que ponto as concepções de saúde/doença de determinado grupo social
coincidem com as relações que apreendemos em nossa pesquisa? Como podemos
garantir a desejada coincidência entre o pensamento sobre a realidade e a própria
realidade? Tais perguntas são inevitáveis e fundamentais dentro do campo científico,
embora se aceite que a produção intelectual é sempre um ponto de vista a respeito do
objeto.
Os critérios de coerência, consistência, originalidade e objetivação resumem,
segundo Demo, o marco da crítica interna da investigação científica (1987, 16). Esses
critérios sugerem antes de tudo um debate entre as várias correntes sociológicas que não
é simples e não está encerrado. Por coerência se entende a propriedade de um discurso
logicamente construído, tanto no sentido teórico quanto no desdobramento de todas as
etapas de investigação. Trata-se de um critério formal que de certa maneira impede a
pesquisa de se tornar uma atividade especulativa ou empirista. Consistência é a própria
qualidade
239
argumentativa do discurso que lhe permite adquirir um lugar no conjunto da produção
científica. O caráter de originalidade de uma investigação se mede pela sua real
contribuição ao avanço do conhecimento, através da pesquisa e da descoberta. Por
objetivação se compreende a capacidade de empregar uma abordagem teórico-
metodológica e uma tecnologia adequadas à aproximação mais cabal da realidade.
Objetivação define o próprio movimento investigativo que, embora não consiga
reproduzir a realidade, está sempre em busca de uma maior aproximação. Ela significa
de um lado, o reconhecimento de que a idéia de “objetividade” e “verificação” é
construída e dirigida. Como mostra Limoeiro e Cardoso (1978, 35) o próprio campo em
que essas idéias surgem é também o terreno de questionamento daquilo que se verifica.
De outro lado, o princípio de objetivação sugere também a crença na necessidade
permanente de um diálogo crítico entre o investigado e seu objeto, sabendo que ambos
compartilham a mesma condição histórica e os mesmos recursos teóricos.
O positivismo clássico responde à questão de validade e da verificação com a
exigência de rigor colocada no método e nas técnicas de “captação” da realidade. Como
o termo “captação” sugere, o pressuposto básico dessa corrente é de que o objeto se
impõe ao sujeito que deve procurar a melhor forma de retratá-lo. A verificação se realiza
através da observação empírica, que se puder ser repetida e comprovada várias vezes,
independentemente do sujeito, será reconhecida como “objetiva”. A necessidade da
observação controlada permitiu ao positivismo desenvolver inúmeras técnicas de coleta
de dados e instrumentais de interpretação (como controle, codificação, amostragem
representativa, questionário, processamento de dados, análise de conteúdo, até a
realização de banco de dados).
Atualmente, porém, o avanço do debate sobre os critérios de cientificidade tem
abalado a segurança dos instrumentos positivista. Popper – reconhecido como
neopositivista – coloca em questão os critérios tradicionais de validade do
conhecimento, na medida em que, do seu ponto de vista, nenhuma hipótese é
verificável, pois a acumulação de casos afirmativos não pode sustentar uma
generalização teórica. Para esse autor, a comparação lógica entre
240
as conclusões, a comparação entre várias abordagens teórica e, finalmente, o teste
através da aplicação empírica das conclusões são os procedimentos mais importantes
para se provar a validade de uma investigação (1973: 31-44). Popper substitui o critério
de “verificação” por falsificabilidade”. Esse princípio se institui como conseqüência do
seu pressuposto básico de que não se pode fazer uma generalização a partir da
acumulação de casos concretos, mas apenas um caso negativo concreto atesta que a
teoria é falsa, e assim impulsiona o conhecimento. A “objetividade” não se coloca como
questão para Popper, assim como não existe para ele uma teoria ou uma descoberta
evidentes. Qualquer certeza científica é sempre provisória até que seja submetida ao
critério de falsificabilidade. Portanto, ele erige como procedimento fundamental de
julgamento científico a crítica intersubjetiva: “Direi que a objetividade dos enunciados
científicos reside no fato de que eles possam ser intersubjetivamente submetidos a
testes” (1973, 41).
Dentro do racionalismo de Bachelard, também os critérios de validade e de
verificação próprios do positivismo são submetidos para se colocar em seu lugar a “tese
do primeiro erro”. Para esse autor admitir o erro é a própria condição de cientificidade
de uma teoria, pois caso contrário ela seria um conjunto de dogmas. A renovação
científica se processa pela certeza da incerteza daquilo que afirma, da sua colocação em
cheque, através de uma crítica interna irrestrita. Bachelard argumenta que os maiores
obstáculos epistemológicos são as verdades reconhecidas como tal, e propõe o
julgamento intersubjetivo das descobertas: “A verdade só ganha seu pleno sentido ao
fim de uma polêmica. Não poderia haver assim verdade primeira. Não há senão erros
primeiros” (Canguilhem, comentando Bachelard: 1972, 50).
Este critério intersubjetivo da crítica é também assumido por autores marxistas
como Goldmann que insiste no “trabalho científico como um fenômeno social que
supõe a cooperação de numerosos
241
esforços individuais” (1967,23). A diferença entre os marxistas, Popper e Bachelard é
que, para os últimos, a crítica é o critério central do método, enquanto para os primeiros,
a crítica é a alma também da teoria.
A submissão do produto do conhecimento à interface das discussões não
significa que na verdade seja o resultado dos pontos de vista dos vários estudiosos.
Indica, entretanto, que a pluralidade de perspectivas permite lançar diferentes focos de
luz dos desconhecimentos a respeito do objeto em questão. É necessário também
esclarece, como o faz Demo, que aceitar o “primado do erro” dentro da abordagem de
Bacherlard, não significa a permissividade da deformação lógico-formal do trabalho
científico. Há o que ele denomina “erros evitáveis” metodologicamente falando, como
as tentativas de camuflar incursões ideológicas, argumentos truncados, informações
incorretas, colocações apressadas (Demo: 1981, 49). O erro “inevitável” do qual
Bachelard faz o elogio como motor do conhecimento, é o contrário da certeza ingênua e
está colocado como condição do processo e da postura científica que reconhece o
caráter aproximado do conhecimento.
Dentro das abordagens compreensivistas a questão da verificação e da
fidedignidade também é vista de forma diferente do positivismo clássico. Partindo do
princípio de que o ato de compreender está ligado ao universo existencial humano, essas
correntes de pensamento não admitem que sejam fixadas leis univocamente para se
produzir generalização e verdade. A maneira de abrir o conhecimento para o universo, é
permitir a entrada de outras interpretações. Por abranger exatamente o mundo da
cultura, é nele que se pode observar como diz Stein, “um espécie de desvio da
univocidade e da transparência do discurso” (Stein: 1988, 48). Portanto, é através da
comparação que se torna mais universal o saber sobre determinado grupo cultural,
considerada como um recurso fundamental para se garantir mais universalidade ao
conhecimento. Do ponto de vista técnico, os autores que trabalham a metodologia
qualitativa propõem a vigilância interna através da triangulação (Denzin: 1973, 260-
297) como prova eficiente de validação. A “triangulação” consiste na combinação e
cruzamento de múltiplos pontos de vistas através do trabalho conjunto de vários
pesquisadores, de múltiplos informantes
242
e múltiplas técnicas de coleta de dados. A triangulação de certa forma consagra tanto a
crítica intersubjetiva como a comparação, embora os analistas dessa corrente estejam
mais preocupados mostrá-la como atividade interna que acompanha todo o processo
investigativo.
Dentro da perspectiva marxista a questão da validade do conhecimento é tratada
como um problema da prática:
A resolução da antítese teórica só é possível de uma forma prática, em virtude da
energia prática do homem. Sua resolução não é, portanto, apenas um problema
de compreensão, mas um problema real da vida que a filosofia não poderia
resolver, precisamente porque considera tal problema simplesmente teórico
(Marx: 1973, 141-143).
Nas Teses sobre Feuerbach Marx fica as bases da prática como critério de
verdade. Na tese n.° 1, critica os idealistas que tomam a realidade como objeto de
contemplação e não como atividade humana, construção histórica, práxis. Na tese n.° 2,
indica também a prática como critério para se verificar se determinados pensamentos
pertencem ou não à realidade objetiva. A tese n.° 3 é a clássica afirmação sobre o caráter
complexo e interativo da educação: “A doutrina da transformação das circunstâncias e
da educação, esquece que as circunstâncias têm de ser transformadas pelos homens, e
que o próprio educador tem que ser educado” (Marx: 1984, 11-14).
Assim nas Teses sobre Feuerbach a prática aparece como fundamento do
conhecimento na tese n.°1, como critério de verdade na tese n.°2 e como finalidade do
conhecimento da tese n.°3 e n.°11. Ou seja, na tese n.°1 Marx coloca a prática como
condição do conhecimento ao mostrar que a possibilidade de conhecer está ligada à
atividade humana criadora, de modo subjetivo por um lado, e por outro, ao negar o
processo de conhecimento como mera projeção da consciência:
243
Conhecer é conhecer objetos que se integram na relação entre o homem e o
mundo, ou entre o homem e a natureza, relação que se estabelece graças à
atividade prática do homem (Vázquez: 1986, 153).
Portanto, dentro da idéia expressa na tese n.°1, a prática é o fundamento e o
limite do conhecimento e do “objeto humanizado” (porque mediado pelo homem) que
como produto da ação é objeto de conhecimento.
A tese n.°2 propõe a prática como critério de verdade do conhecimento. Trata-se
de uma tese bastante polêmica porque ela não inclui diretamente a explicação do que
Marx considera “prática”. Autores como Vázques interpretam o pensamento da tese n.°
2, dizendo que “é na ação prática sobre as coisas que demonstramos se nossas
conclusões teóricas a respeito delas são verdadeiras”. Porém, o autor adverte que é
preciso evitar interpretar essa relação entre verdade e prática num sentido pragmático
como se a verdade ou a falsidade fossem determinadas pelo êxito ou pelo fracasso. A
concepção da prática como critério de verdade se opõe à concepção idealista de que a
teoria traria em si mesma o critério da verdade, como à concepção positivista que vê na
prática de forma imediata o critério de verdade da teoria (Vázques: 1986, 157).
Na tese n.°3 e na tese n.°11, em que rechaça o papel apenas contemplativo da
teoria, Marx chama atenção para o dinamismo do conhecimento que só tem sentido
como possibilidade de transformação da realidade, portanto nem somente teoria, nem
somente prática, mas união indissolúvel para a fecundidade de ambas.
A questão do conceito de “prática” em Marx é controvertida e, portanto, torna-se
bastante confusa a interpretação desse critério para a crítica interna do conhecimento.
Lênin, sem discutir o significado do termo, afirma que “o ponto de vista da práxis deve
ser o primeiro, o básico do conhecimento”, porém, acrescenta:
O critério da práxis não pode nunca, na verdade, provar ou refutar totalmente
uma representação humana qualquer. Esse critério é bastante impreciso para não
permitir que os conhecimentos do homem se convertam em algo absoluto (citado
em Bottomore et alii: 1988, 294).
244
Bottomore comenta que o termo “práxis” em Marx, ora aparece se referir à
essência livre e criadora da atividade humana e oturas vezes se restringir ao campo
político, econômico e ético, e por vezes sugerir que a própria teoria deve ser vista como
uma das formas da práxis (Bottomore et alii: 1988, 292-296). Althusser emprega o
termo “prática teórica” para falar da “prática específica que exerce sobre um objeto
próprio e leva um produto próprio: o conhecimento”. Apresenta a atividade intelectual
como: “Processo de transformação de uma matéria-prima dada num produto,
transformação que se leva a cabo através de determinado trabalho humano, usando meio
de produção determinados” (1966: 67-75).
Para Althusser, as ciências: “não tem necessidade de verificação por práticas
exteriores para declarar ‘verdadeiros’ ou seja, conhecimentos, os conhecimentos que
elas produzem (...) elas mesmas conferem o critério da validade de seus conhecimentos”
(1966, 75).
Vázquez acredita, diferentemente de Althusser, que o termo “prática” em Marx
não pode ser generalizado e nem usado (no sentido transformador) para se referir à
“prática teórica” porque ela não modifica realmente o mundo. O conceito se refere à
“transformação objetiva e real” do homem e da natureza (Vázquez: 1968, 202-204).
Porém Vázquez defende que uma teoria só pode estar mediando a transformação e
encontrar seu critério de verdade na prática, se permanecer exatamente como teoria,
possuindo um conteúdo cuja riqueza de consistência possa iluminar a prática,
compreendida a relação indissolúvel entre ambas (1968, 207).
Em A Dialética do Concreto, Kosic trabalha o conceito de PRÁXIS dentro de
uma concepção totalmente diferente dos autores marxistas citados. Para ele “a práxis é a
esfera do ser humano, ela é a própria
245
criação humana como realidade objetiva” (1969, 201). Portanto a “prática” não pode ser
pensada como uma atividade externa do homem, como parecem fazê-los os autores
citados. Ele a distingue do conceito de trabalho, porque, comenta, ela compreende além
do momento laborativo, o momento existencial:
Ela se manifesta tanto na atividade objetiva do homem que transforma a
natureza e marca com o sentido humano os materiais naturais, como na
formação da subjetividade humana, na qual os momentos existenciais como a
angústia, a náusea, o medo, a alegria, o riso, a esperança não se apresentam
como experiência passiva, mas como parte da luta pelo reconhecimento, isto é,
do processo de realização da liberdade humana (Kosic: 1969, 204).
O centro da reflexão de Kosic, portanto, em relação à questão do conhecimento é
o ser humano enquanto criador: “o homem só conhece a realidade na medida em que
ele cria”. Mas esse processo de criação e de conhecimento ele o concebe como algo
interior, através da apropriação prático-espiritual do mundo como um todo indivisível
de entidades e de significados (1969: 22-24).
O conhecimento, para Kosic, representa uma das formas de apropriação do
mundo, que contém os dois modos humanos de apropriação, o sentido subjetivo e o
conceito objetivo:
O processo de captação e o descobrimento do sentido da coisa é ao mesmo
tempo criação, no homem, do correspondente sentido da coisa. Esses mesmo
sentidos, por meio dos quais o homem descobre a realidade e o sentido dela, são
um produto histórico-social (Kosic: 1969, 23).
O ponto central da questão da “práxis” como critério de verdade, dentro do
pensamento de Kosic, estaria na capacidade de o conhecimento de abranger o
desenvolvimento e a explicitação dos fenômenos culturais como atividade prática
objetiva do ser humano histórico. A coerência e a crítica interna do trabalho científico é
colocada por ele como um processo indivisível dentro da construção do conhecimento,
cujos momentos são: (a) a destruição da pseudoconcreticidade,
246
isto é, da fetichista e a aparente objetividade do fenômeno, e o conhecimento de sua
autêntica objetividade; (b) compreensão do caráter histórico do fenômeno que manifesta
a dialética entre o individual e o social; (c) o desvendamento do conteúdo objetivo e do
significado do fenômeno, de sua função objetiva e do lugar histórico na totalidade social
(Kosic: 1969, 52).
Kosic conclui sua crítica à validade do produto do conhecimento dizendo que
seria uma “má totalidade” aquela que entendesse a realidade social apenas sob a forma
de objetos, resultados e fatos já dados e não subjetivamente como práxis humana
objetivada (1969, 52). Portanto, para ele, a problemática da prática não é explicável pela
sua oposição à teoria ou à contemplação. Mas, compreendida dentro da realidade
humano-social, ela se opõe a idéia de ser ou seja, compreendido como objeto
externamente verificável ou contemplável. A teoria de “práxis” é uma crítica ao
idealismo imobilista, ao positivismo pragmático e ao estruturalismo que reduz o sujeito
a resultante do mecanismos incontroláveis do modo de produção.
As reflexões sobre o processo de validação do conhecimento nos mostra o
campo aberto de debate não só da produção empírica, como da própria concepção da
realidade a ser estudada e do sujeito que conhece: não dá para separar os elementos
indivizíveis dessa construção “prático-espiritual”.
Dentro da perspectiva dialética da validade da pesquisa, a prática não pode ser
pensada apenas como atividade externa de transformação, mas é importante incluí-la
como compromisso social, e enfatizar a dimensão interior, ontológica do ser humano
enquanto criador, e da realidade sócio-histórica como construção humana objetivada.
Em relação ao saber, é necessário abranger teoria e prática enquanto unidades
complementares, prática teórica enquanto aproximação da realidade, e teoria capaz de
incluir e compreender a transformação social: critérios ao mesmo tempo internos e
externos que provam a lógica e a sociológica do conhecimento.
O aporte marxista no campo da “verificação” do conhecimento não pode
consistir num menosprezo aos instrumentais das outras abordagens, na busca de
objetivação. É porém a sua superação dialética na medida em que coloca no interior da
definição da própria realidade social, a condição sine qua non de seu conhecimento e de
sua
247
prova. Portanto, são importantes de serem valorizadas tanto a crítica intersubjetiva, as
comparações e triangulações, como a consideração de todos os cuidados metódicos e
técnicos que ajudam a exorcizar a especulação e o subjetivismo. Mas sempre levando
em conta o processo dialético entre o lógico e o sociológico, entre o sentido subjetivo
contido na objetividade e o sentido objetivo da criação subjetiva: “A práxis do homem
não é a atividade prática contraposta à teoria: é a determinação da existência humana
como elaboração da realidade” (Kosic: 1969, 202).
249

CONCLUSÃO
Procurei apresentar neste trabalho uma contribuição teórico-instrumental,
trazendo para o campo da metodologia a preocupação com os “caminhos do
pensamento” na construção do saber científico e ao mesmo tempo chegar à prática de
pesquisa no campo da Saúde. Tentei retirar o caráter apenas técnico usualmente
apresentado da metodologia, mas também demonstrar que todo “técnico” tem como
pressuposto uma teoria e que toa teoria e toda técnica estão vinculadas a pressupostos de
uma visão social de mundo que as fundamenta. Isso não é diferente na área da
investigação em saúde porque ela compartilha os mesmos problemas teórico-
metodológicos que absorvem a atenção dos Cientistas Sociais de hoje. Por isso, busquei
mostrar que, do ponto de vista do conhecimento, saúde é um objeto tão inatingível
quanto qualquer objeto social; que dele temos um conhecimento aproximado
proveniente de esquemas teóricos que por seu caráter peculiar projetam luz sobre
determinados aspectos e desconhecem outros; que também a razão que o conhece e não
apenas a realidade social objeto do conhecimento é dinamicamente histórica e que a
ciência da saúde não é “um sistema contido e detido numa ordenação intemporal de
princípios estabelecidos e estabilizados” (Melo e Souza: 1987, 52); que não existe
nenhuma evidência nos fenômenos sociais do campo da saúde: nada é dado, tudo é
construído, inconcluso e superável; que a realidade aí encontrada como todo o social é
infinitamente mais rica, mais dinâmica, mais complexa do que qualquer discurso
científico sobre ele; e que a ciência que a aborda não a captura, ela apenas indica a
direção e a organização
250
intelectual segundo a qual se pode ter maior certeza da aproximação do real.
Tentei revelar também o caráter comprometido entre o sujeito e o objeto da
investigação, nos mais diferentes aspectos, relação que se torna particularmente
evidente no caso da saúde onde as questões tratadas afetam de forma tão essencial a
todos os. O reconhecimento da construção do objeto como tarefa humana, histórica,
solidária, complexa, aproximativa, descontínua e inacabada também diz respeito à
construção do objeto como tarefa humana, histórica, solidária, complexa, aproximativa,
descontínua e inacabada também diz respeito à construção do sujeito. O pesquisador das
questões da saúde não está fora da realidade que investiga. O real que ele conhece é
aquele que ele realiza, e sua objetividade é uma construção que se dialetiza no processo
de objetivação e subjetivação. Não somente o objeto é por ele construído, mas ele
próprio se constrói no labor da pesquisa. Há uma polaridade complementar entre o
cientista e o seu objeto, de tal forma que suas formulações objetivas correspondem a seu
processo e formulação subjetivos. Daí que “toda constatação por mais rigorosa que seja
se passa no interior de sua consciência e se encontra, por isso, sendo um fato subjetivo
ligado a um processo de equilíbrio orientado para um fim” (Goldmann: 1972, 18). As
questões do investigador fazem a mediação entre o objeto e ele próprio de tal forma que
o conhecimento que persegue é ao mesmo tempo retificação de seu saber e de si
mesmo; é o reconhecimento de seus limites e o mobilizador para ultrapassá-los. “A
tomada de consciência que passa do vivido ao pensado não termina o conhecimento, ele
faz parte dele; pois o estabelecimento dos conceitos não anula a dimensão e a incursão
do imaginário” (Canguilhem: 1972, 55). Isso leva a concluir que qualquer discurso
teórico não é a revelação total da realidade, é a realização de um real possível ao sujeito,
sob condições histórico-sociais dadas: o objeto construído anuncia e denuncia o sujeito
que o constrói: ela é a exteriorização de sua interioridade, do seu tempo, do seu meio, de
suas questões, de sua inserção de classe.
O reconhecimento da polaridade complementar entre sujeito e objeto, me levou
também a demonstrar a necessidade do esforço de objetivação, ou seja, a busca de
minimizar as incursões do subjetivismo e do espontaneísmo pelo compromisso interno
de discussão teórico-metodológica e pelo compromisso social de submeter a abordagem
aos critérios da prática. A compreensão teórica das complexas
251
relações e correlações que configuram a Saúde como objeto científico exige a
elaboração de um conjunto de conceitos, de métodos e de técnicas adequados a
ultrapassar o empirismo, a “ilusão da transparência”, as percepções, as intuições e os
preconceitos. Os critérios de validade interna do conhecimento que passam pelos
caminhos do debate teórico e técnico, porém, devem permanentemente ser permeados
pelas questões que a prática social no campo da Saúde suscita. A relação dialética entre
o esforço lógico e os compromissos sociais desde a definição do problema de pesquisa
até o produto provisório gerado no processo do conhecimento e sua adequação às
práticas de Saúde é o parâmetro principal da objetivação. Porém, me nenhum momento
a objetividade exclui o sujeito e sua historicidade, sua formação, seus interesses e suas
questões. Incluí-lo como condição do conhecimento faz parte da visão mais totalizante
do processo científico.
Dentro do quadro geral das abordagens em Ciências Sociais privilegiei neste
trabalho as chamadas “Metodologias Qualitativas” principalmente pela importância que
possuem na construção do conhecimento sobre Saúde, seja enquanto concepções, seja
enquanto políticas, práticas social e/ou institucional. Como em qualquer processo social,
o objeto “Saúde” oferece um nível possível de ser quantificado mas o ultrapassa quando
se trata de compreender dimensões profundas e significativas que não conseguem ser
aprisionadas em variáveis. Na discussão sobre o “qualitativo” tentei desfazer a freqüente
dicotomia entre macro/microfenômenos, entre representação e base material, entre
imaginação e razão, e no caso específico da saúde, entre o corpo e a mente. Busquei
demonstrar que sejam eles macro ou micro, refiram-se ao indivíduo ou a um grupo
social, os fenômenos referentes à Saúde são complexos e o reconhecimento de sua
complexidade dinâmica é requisito indispensável para pensá-lo cientificamente: não
existe nenhuma simplicidade nos microfenômenos, o fato aparentemente mais simples é
um complexo de relações. Qualquer ser humano, qualquer grupo ou classe social é uma
multiplicidade de relações e de relações entre relações.
Com referência à representação social dos indivíduos e grupos ela está abordada
como parte da realidade. No sentido que:
252
Qualquer situação humana só é caracterizável quando se tomam em
consideração as concepções que os participantes têm dela, a maneira como a
experimentam, suas tensões e como reagem a essas tensões assim concebidas.
(...) O desprezo pelos elementos qualitativos e a complexa restrição da vontade
não constitui objetividade e sim negação da qualidade essencial do objeto
(Manheim: 1968, 70, 73).
A representação social dos indivíduos e grupos, porém, está pensada em relação
às bases materiais que a engendram: de um lado temos que o homem é o produto de seu
produto: as estruturas da sociedade criam seu ponto de partida; de outro, temos que esse
homem constrói a história dentro das condições recebidas ultrapassando-as, e inscreve
sua significação por toda parte, em todo o tempo e na ordem das coisas. A compreensão
qualitativa, tal como a proponho, é um movimento totalizador que reúne a condição
original, o movimento significativo do presente e a intencionalidade em direção do
projeto futuro. Ela busca, parafraseando Sartre, “a unidade pluridimensional do ato em
sua ligação com cada um e com todos” (Sartre: 1978, 161), a significação profunda que
cada época empresta à palavra, ao gesto e ao material mais evasivo que é o pensamento
humano. Trabalhando com o material simbólico que exterioriza o ponto de vista dos
atores sociais – especificamente no que se refere aos sistemas de saúde – tentei mostrar
que, seja a partir dos indivíduos, dos grupos, ou das classes, a totalidade fundamental se
expressa no perene conúbio entre mente e corpo, matéria e espírito; que na aparente
simplicidade de uma manifestação sobre saúde, os sujeitos individuais projetam sua
visão da sociedade e da natureza, a historicidade das relações e condições de produção
inscritas no seu corpo, seu espaço hodológico, sua temporalidade social, seus infinitos
culturais, seus fetiches, seus fantasmas e seus anseios de transcendência. Portanto, a
pesquisa qualitativa proposta aqui reconhece o sujeito como autor, sob condições dadas,
capaz de “retratar e refratar” a realidade. Não apenas como um sujeito sujeitado,
esmagado e reprodutor das estruturas e relações que o produzem e nas quais ele produz.
Tentei mostrar que as “Metodologias de Pesquisa Qualitativa” não
253
constituem em si ideologia ou uma corrente de pensamento. Pelo contrário, descrevo-as
como componente das principais linhas teóricas das Ciências Sociais e, em cada uma
delas, submetidas a uma organização e a pressupostos peculiares. Do ponto de vista da
abordagem empírica reconhece-se que o funcionalismo e a fenomenologia
desenvolveram e refinaram mais seu instrumental. Apesar disso, proponho a abordagem
dialética como sendo aquela capaz de reter ao mesmo tempo o valor heurístico dos
dados e conectá-los com as relações essenciais que não são necessariamente
apreendidas através das representações sociais. Quando se trata dos fatos referentes à
saúde, essa forma de abordagem abrange a historicidade dos fenômenos (concepções,
relações sociais e institucionais, políticas etc.), sua localização no modo de produção,
que é a totalidade maior, incorpora a cultura como sendo cultura de classe e as
representações sociais como expressões do lugar e das condições sociais da vida e de
trabalho dos sujeitos em questão. Desta forma, a metodologia dialética compreende o
caráter contraditório, conflitivo e totalizante de qualquer relação social. Do ponto de
vista do conhecimento ela abrange a polaridade complementar entre a razão e a
experiência, entre as categorias analíticas e as categorias empíricas, entre o mundo
natural e o mundo social, entre o pensamento e a existência, entre a multiplicidade e a
unidade, entre a exterioridade e a interioridade, entre a análise e a síntese.
No que tange o instrumental prático para o trabalho empírico mostro que a
abordagem dialética não o tem elaborado. Ela deve então, apropriar-se da experiência
funcionalista e fenomenológica e, ao incorporá-la, ultrapassar-lhe as premissas e
pressupostos. Sua superioridade se mostra também pela capacidade de abranger as
verdades parciais das outras correntes e superá-las. Porém, a construção do
conhecimento a partir desse referencial (em todos os aspectos, e de forma particular no
trabalho com representações sociais) é uma tarefa pouco desenvolvida e pouco
exercitada, é desafio ao pesquisador da área da Saúde.
Por fim, faço ainda uma observação a respeito dos limites deste trabalho.
Propus-me a desenvolver uma reflexão teórico-metodológica, visando uma
possibilidade de abordagem da realidade: as metodologias qualitativas. A recuperação
contextualizada desse
254
referencial parte do pressuposto, fundamentado na prática teórica, de que se trata de
uma contribuição atualmente importante na área de Saúde. Há em todo o mundo
ocidental um renascer de preocupações antropológicas frente aos grandes interrogatnes
que a sociedade moderna coloca a seus membros. Há em todas as áreas das Ciências
Sociais – incluída a administração pública – uma tomada de consciência da importância
de compreender a complexidade das relações sociais que criam, alimentam, reproduzem
e transformam as estruturas, a partir do ponto de vista dos atores sociais envolvidos
nessas relações. Isso é uma tarefa de abordagem qualitativa. O estudo que
provisoriamente termino, porém, não se pretende exaustivo: é antes um começo de uma
conversa. Constitui-se em reflexões básicas para estimular outras reflexões. Cada item
aqui desenvolvido é para ser retomado, testado e aprofundado: “a verdade só ganha
sentido ao fim de uma polêmica. Assim não poderia haver verdade primeira. Só há erros
primeiros. A evidência primeira nunca é uma verdade fundamental” (Canguilhem,
comentando o “primado do erro” em Bachelard: 1972, 50). Nessa busca sem-fim, nesse
processo inacabado, cheio de contradição e solidário, nesse terreno que não tem donos e
nem limites, o SIGNIFICADO e a INTENCIONALIDADE são os mesmo do primeiro à
ultima linha:
O DESAFIO DO CONHECIMENTO!
255
BIBLIOGRAFIA
ADORNO, T. W. & HORKHEIMER, M. Sociologica. Madrid. Ed. Taurus. 1979.
AGUDELO, S. F. “ As Doenças Tropicais: da análise de ‘fatores’ à análise de
‘processos’”. As Ciências em Saúde na América Latina. OPAS. 1985 (293-306).
ALLPORT, G. W. The use of personal documents in Psychological research. New York.
Social Sciences Research Council. 1942.
ALMEIDA FILHO, N. Epidemiologia sem Números. Rio de Janeiro. Ed. Campus.
1988.
ALTHUSSER, L . Pour Marx. Paris. Éd. Maspero. 1965.
______. Análise Crítica da Teoria Marxista. RJ. Zahar Ed. 1967.
ANDERSON, P. Sur le Marxisme Occidental. Paris. Maspero. 1977.
______. A Crise da Crise do Marxismo. São Paulo. Ed. Brasiliense. 1987 (3.ªed.).
ANDRÉ, M. E. D. A. “O uso da Técnica de Análise Documental na Pesquisa e na
Avaliação Educacional”. Tecnologia Educacional. Rio de Janeiro, ano XI (46): maio e
junho, 1982 (40-46).
______. “ Texto, Contexto e Significados: algumas questões na análise de dados
qualitativos”. Cadernos de Pesquisa. São Paulo (45): maio de 1983 (66-71).
APEZECHEA, H. J. “Problemas Metodológicos da Pesquisa na Ciência da Saúde”. As
Ciências Sociais em Saúde na América Latina. OPAS. 1985 (461-474).
AROUCA, A. S. da S. O Dilema Preventivista: Contribuição para a compreensão e
crítica da Medicina Preventiva. Campinas. UNICAMP. 1975 (Tese de Doutoramento),
(mimeo).
256
______. “A Reforma Sanitária Brasileira”. Tema, 11 (Nov. 1988).
BACHELARD, G. O Novo Espírito Científico. RJ. Ed. Tempo Brasileiro. 1968.
______. Éssai sur la Connaissance Approchée. Paris, J. Vrin. 1969 (3ª. ed.).
______. La formación del Espíritu Científico. Buenos Aires. Siglo XXI. 1972.
______. “A Filosofia do Não”. Bachelard. Coleção Pensadores. São Paulo. Ed. Abril.
1978.
BAKHTIN, M. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo. Hucitec. 1986.
BARDIN, L. Análise de Conteúdo. Lisboa. Edições 70. 1979.
BARNETT, H. G. Innovation, the Basis of Social Change. N. York. McGraw-Hill. 1953.
BARTHES, R. “ A Atividade Estruturalista”. O Método Estruturalista. RJ. Zahar Ed.
1967.
BECKER, H. S. “ Problems of inference and proof in Participant Observation” ,
American Sociological Review, 23 (dez. 1958) pág. 652-653.
BENJAMIN, P. “ Interviewing techniques and field relationships” . Anthropology
Today. Chicago. University of Chicago Press. (1953)
BERELSON, B. Content Analysis in Communication Research. N. York. University
Press. 1971.
BERGER, P. & LUCKMANN. A Construção Social da Realidade. RJ. Ed. Vozes. 1973.
BERLINGUER, G. Psiquiatria e Poder. Belo Horizonte. Interlivros Ed. 1976.
______. Medicina e Política. Hucitec. São Paulo. 1978
______. A Saúde nas Fábricas. São Paulo. CEBES-HUCITEC-OBORÉ. 1983.
______. A Doença. SP. Hucitec/CEBES. 1988.
BERREMAN, G. “Por detrás de muitas máscaras”. Desvendando Máscaras Sociais.
Rio de Janeiro . Ed. Livraria Francisco Alves. 1975 (123-177).
BLALOCK , G. Introdução à Pesquisa Social. RJ. Zahar Ed. 1976.
BLUMER, H. Symbolic Interactionism. N. Y. Prentice Hall. 1969.
BOHANNAN , P. J. “Conscience Collective et Culture” in Essays in Sociology and
Philosophy. N. Y. Harper and Row. 1964 (77-96)
______. “ O Progresso da Antropologia” .Desvendando Máscaras Sociais. Rio de
Janeiro. Ed. Livraria Francisco Alves. 1975 (245-259)
257
BOLTANSKI, L. As Classes Sociais e o Corpo. RJ. Geraal Ed. 1979
BOTTOMORE, T. B. & RUBEL, M. Sociologia e Filosofia Social de Karl Marx. Rio
de Janeiro. Zahar Ed. 1988.
BOTTOMORE, T. B. et alii. Dicionário do Pensamento Marxista. Rio de Janeiro. Zahar
Ed. 1988.
BOURDIEU, P. Ésquisse d’une Théorie de La Pratique. Paris. Librairie Droz. 1972.
______. “Condições de Classe e Posição de Classe”. Economia das Trocas Simbólicas.
Ed. Perspectiva. São Paulo. 1974.
______. Sociologia. São Paulo. Ed. Ática. 1983.
BOURDIEU, P. et alii. Le Métier de Sociologue. Livre I. Paris. Mouton Éd. 1968.
BRANDÃO, C. R. Pesquisa Participante, São Paulo. Ed. Brasiliense. 1984. (4ª Ed.).
______. Repensando a Pesquisa Participante. São Paulo. Ed. Brasiliense. 1985.
BREILH. J. & GRANDA, E. Saúde na Sociedade. São Paulo. Instituto de
Saúde/ABRASCO. 1986.
BROWN, R. Estrutura e Função na Sociedade Primitiva. RJ. Ed. Vozes. 1973.
BUBER, M. Le Probléme de I’Homme. Paris. Aubier. 1962.
BULMER, M. Social Policy Research. The Macmillan Press Ltd. Londres. 1978.
CAMARGO, A. A. et alii. “as Histórias e Vida na América Latina”. BIB. Rio de Janeiro.
1983.
CANEVICCI, M Dialética do Indivíduo. S. Paulo. Brasiliense. 1981.
CANGUILHERM, G. “Sobre uma Epistemologia Concordatária”. Epistemologia.
Tempo Brasileiro. 1972. Nº 28 (47-56).
CAPALBO, C. Metodologia das Ciências Sociais. RJ. Antares. 1979.
CARDOSO, F. H. O Método Dialético na Análise Sociológica. Rio de Janeiro.
IBRADES. 1973 (mimeo)
CARDOSO, R. (org.) A Aventura Antropológica. Rio de Janeiro. Ed. Paz e Terra. 1986.
______. “Aventuras de Antropólogos em Campo ou como escapar das armadilhas do
método”. A Aventura Antropológica. Rio de Janeiro. Ed. Paz e Terra. 1986 (95-106).
258
CARTWRIGHT, D. P. “Analysis of Qualitative Material” . Resarch Methods in the
Behavioral Sciences. Ed. Festinger L., and Katz, D. Holt, Rinehart and Winston. N. Y.
USA. 1966.
CASTELLANOS, P. L. “As Ciências Sociais em Saúde na Venezuela”. As Ciências
Sociais em Saúde na América Latina. OPAS. 1985 (137-156).
CASTELLS, M. et alii. “Epistemologia e ciências Sociais”. Porto, Portugal. Ed. Rés,
Ltda. s/d.
CHAUÍ, M. Conformismo e Resistência. SP. Brasiliense. 1987.
CHIOZZA, L. Por que Adoecemos? A história que se oculta no corpo. São Paulo. Ed.
Papirus. 1987.
CICOUREL, A. Method and Measurement in Sociology. New York. The Free Press.
1969 (4ª. ed.).
______. “Theory and Method in Field Research”. Method and Measurement in
Sociology. N. York. The Free Press. 1969. 6ª. ed. (39-72).
COMTE, A. “Discurso sobre o Espírito Positivo”. Pensadores. São Paulo. Ed. Abril
(41-115).
______.”Discurso Preliminar sobre o conjunto do Positivismo”. Pensadores. São
Paulo. Ed. Abril (95-103).
______.”Catecismo Positivista”. Pensadores. São Paulo. Ed. Abril (221-305).
CONTI, A. “Estrutura Social y Medicina” in Medicina y Sociedad. Barcelona. Ed.
Fontanela. 1972 (287-310)
COOLEY, C. H. “The Roots of Social Knowledge”. American Journal of Sociology, 32
(july) (59-79).
CORDEIRO, H. A. As Empresas Médicas. RJ. Graal Ed. 1984.
COSTA, N. do R. Lutas Urbanas e Controle Social. RJ. Ed. Vozes?ABRASCO. 1985
DARTIGUES, A. O que é Fenomenologia. Rio de Janeiro. L. Eldorado. 1973.
DEAN, J. P. “Participant observation and interviewing”. Introduction to social research.
Pensylvania. The Stackpole Co. 1954.
DEJOURS, Christophe. A Loucura do Trabalho: Estudo de Psicopatologia do Trabalho.
São Paulo. Ed. Oboré. 1987.
Demo, P. Metodologia Cientifica em Ciências Sociais. São Paulo. Ed. Atlas. 1981
(3ª.ed.).
______. Introdução á Metodologia da Ciência. São Paulo. Ed. Atlas. 1985.
259
DENZIN, N. K. The Research Act. Chicago. Aldine Publishing Co. 1970.
DILTHEY, W. Introducción a las Ciencias del Espíritu. Madrir. Ed. Revista de
Occidente. 1956.
DONNANGELO, M. C. Medicina e Política. São Paulo. Pioneira. 1975.
______. “ A Pesquisa na Área de Saúde Coletiva no Brasil – A década de 70”. Ensino
de Saúde Pública, Medicina Preventiva e Social no Brasil. ABRASCO. Rio de Janeiro.
2. Abril. 1983 (19-35).
DONNANGELO, M. C. & PEREIRA, L. Saúde e Sociedade. São Paulo. Duas Cidades.
1976.
DOUGLAS, M. Natural Symbols. New York. Pantheon Books. 1971.
DURHAM, E. “ A Pesquisa Antropológica com Populações Urbanas”. A Aventura
Antropológica. Rio de Janeiro. Ed. Paz e Terra. 1986 (17-38).
DURKHEIM, E. “Da Divisão do Trabalho Social”. Pensadores. São Paulo. Ed. Abril.
1978 (1-70).
______.” As Regras do Método Sociológico”.Pensadores. São Paulo. Ed. Abril. 1978
(71-156)
______. “O Suicídio” .Pensadores.São Paulo. Ed. Abril. 1978 (166-202).
______. “As Formas Elementares de Vida Religiosa”. Pensadores. São Paulo. Ed. Abril.
1978 (203-245).
ENGELS. Fr. La Dialectique de La Nature. Paris. Éd. Sociales. 1952.
ESTRELLA, Ed."As Contribuições da antropologia à Pesquisa em Saúde”. As Ciências
Sociais em Saúde na América Latina. OPAS. 1985 (159-174).
EVANS-PRITCHARD, E. E. “Antropologia Social”. Desvendando Máscaras Sociais.
Ed. Livraria Francisco Alves. 1975 (223-245).
FESTINGER, L. & KATZ, D. Research Methods in the Behavioral Sciences. New York.
Holt, Rinehart and Winston. 1966.
FETSCHER, I. “Bernstein e o Desafio à Ortodoxia”. História do Marxismo. Rio de
Janeiro. Ed. Paz e Terra. 1985.
FIORAVANTE, E. et alii. “Modo de Produção, Formação Social e Processo de
Trabalho”. Conceito de Modo de Produção. Rio de Janeiro. Ed. Paz e Terra. 1978 (31-
46).
FRASER, R. Recuérdalo tu y recuérdalo a otros. Historia Oral de la Guerra Civil
Española, I e II. Barcelona. Ed. Crítica. 1979.
260
FREIDSON, E. Profession of medicine: a study of sociology of applied knowledge. N.
York, Dodd, Nead and Co. 1971.
GAJARDO, M. Pesquisa Participante na América Latina. São Paulo. Ed. Brasiliense.
1986.
GARCIA, J. “Medicina e Sociedade: As correntes de pensamento no campo da saúde”.
Medicina Social: aspectos históricos e teóricos. Org. Everardo Duarte Nunes. Global
Ed. 1983.
GARFINKE, H. Studies in Ethnomethodology. N. York. Prentice-Hall. 1967.
GEERTZ, C. “From the native’s point of view: on the nature of the anthropological
understanding”. Meaning in Anthropology. Albuquerque. Univ. of New México. 1968.
______. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro. Zahar Ed. 1979.
GIDDENS, A. Novas Regras do Método Sociológico. Rio de Janeiro. Zahar Ed. 1978.
GLUCKMAN. M. (org.) Closed Systems and Open Minds: the limits of naivety in social
anthropology. Londres. Oliver & Boyd. 1964.
GOFFMAN, E. The presentation of self in everyday life. New York. Doubleday Co.
1959.
______. Asylums. Essays on the Social Situation on Mental Patients and Other Inmates.
The Anchor Books Ed. N. York. 1961.
______. Strategic Interaction: A Fascinating Study of the Espionage Games People
Play. New York. Ballantine Books. 1975.
______. Estigma. Rio de Janeiro. Zahar Ed. 1975.
GOLD, R. “Roles in Sociological field observations”. Social Forces, 36 (março 1958):
217-223.
GOLDMANN, L. Dialética da Cultura. Rio de Janeiro. Ed. Paz e Terra. 1967.
______. A Criação Cultural na Sociedade Moderna. Lisboa. Ed. Presença. 1972.
______. Ciências Humanas e Filosofia. São Paulo. DIFEL. 1980 (8ª. Ed.).
GONÇALVES, R. B. M. Medicina e História: Raízes sociais do trabalho médico. Tese
de Mestrado. SP. USP. 1979 (mimeo)
GOODENOUGH, W. H. “Cultural Anthropology and Linguistics”. Language in Culture
and Society. New York. Harper & Row. 1964.
GOODE, W. & HATT, P. Métodos em Pesquisa Social . São Paulo. Comp. Ed.
Nacional. 1979 (7ª. Ed.).
261
GRAMSCI, A. Concepção Dialética da História. Ed. Civilização Brasileira. 1981
(4ªed).
______. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno. Rio de Janeiro. Ed. Civilização
Brasileira. 1968.
______. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. Rio de Janeiro. Ed. Civilização
Brasileira. 1980.
GRANGER, G. Pensée Formalle et Sciences de L’Homme. Paris. Aubier Montaigne.
1967 (107-113).
GREIMAS, A.J. Semiótica e Ciências Sociais. São Paulo. Ed. Cultrix. 1981.
GREIMAS, A. J. & LANDOWSKI, E. Análise do Discurso em Ciências Sociais. São
Paulo . Global Ed. 1984.
GURVITCH, G. Déterminismes Sociaux el Liberte Humaine. Paris. Presses
Universitaires de France.
HABERMAS, J. “Conhecimento e Interesse”. Pensadores. São Paulo. Ed. Abril. 1980
(301-312).
______. Dialética e Hermenêutica. Porto Alegre. Ed. L.P.M. 1987.
______. Conhecimento e Interesse. Rio de Janeiro. Ed. Guanabara. 1987.
HAGUETTE, T. M. F. Metodologias Qualitativas na Sociologia. Rio de Janeiro. Ed.
Vozes. 1988.
HARRISSON, T. The Future of Sociology. Pilot Papers. Vol. 2, n° 1. London. 1947.
HENRY, P. & MOSCOVICI, S. “Problémes de L’Analyse de Contenu” Langages.
Setembro. 1968, II.
HERZLICH, C. Santé et Maladie. Paris. La Haye. Mouton, 1983 (2ª. Ed.).
______. Les Mots et les Maux. Marxille. Coopérative d’Édition de la Vie Mutualiste.
Nov. 1985 (11).
HERZLICH, C. & JANINE, P. Malades d’Hier, Malades d’Aujourd’hui. Paris. Payot.
1985.
HOGGART, R. Utilizações da Cultura. Ed. Presença. Lisboa. 1973 (I e II v).
HOLSTI, O. R. Content Analysis for the Social Sciences and Humanities.
Massachusetts. Addison Weslley. 1969.
HONIGMANN, J. J. Culture and Personality. New York. Harper. 1954.
HUGHES, J. A Filosofia da Pesquisa Social, Rio de Janeiro, Zahar Ed. 1983.
262
HUSSERL, E. Elementos de uma Elucidação Fenomenológica do Conhecimento. São
Paulo. Ed. Abril. Col. Pensadores. 1980.
HYMAN, H. “The General Problem of Questionaire Design”. Public Opinion and
Propaganda. New York. Daniel Katz et alii. ed. 1954 (665-674).
______. Interviewing in Social Research. Chicago University Chicago Press.1954.
I.B.G.E. Estudo Nacional de Despesas Familiares (ENDEF). IBGE. Rio de Janeiro.
1974.
ILLICH, Ivan. A Expropriação da Saúde. Nêmesis da Medicina. Rio de Janeiro. Ed.
Nova Fronteira. 1975.
JAHODA, M. et alii. Research Methods in Social Relation. New York. Drydem Press.
1951.
JOJA, A. A Lógica Dialética. São Paulo. Ed. Fulgor. 1965.
KAHN, R. L. & CANNELL, C. F. The Dymamics of Interviewing: Theory. Technique
and Cases. N. York. John Wiley. 1962.
KANDEL, L. “Reflexões sobre o uso da entrevista, especialmente a não diretiva, e
sobre as pesquisas de opinião”. Epistémologie Sociologique, n° 13, 1972, 25-46.
KAUFMAN, F. Metodologia das Ciências Sociais. Rio de Janeiro. Livraria Francisco
Alves. 1977.
KOSIC, K. Dialética do Concreto. Rio de Janeiro. Paz e Terra. 1969.
LALLANDE, A. Vocabulaire Tecnique et Critique de la Philosophie. Paris. Presses
Universitaires de France. 1956.
LANGNESS, L. História de Vida na Ciência Antropológica.São Paulo. EPU. 1973.
LASSWELL, H. The Comparative Study of Symbols. Stanford Univ. Press. 1952.
LAURELL, A. C. Saúde e Trabalho: os enfoques teóricos. As Ciências Sociais em
Saúde na América Latina. OPAS. 1985. (255-276).
______.”Proceso de Trabajo y Salud em Sicartsa”. México. UNAM. (set. 1986)
(mimeo).
______. “Para el Estudio de la Salud em su Relación com el Proceso de Producción”.
México. UNAM (abril 1987) (mimeo).
______. A Saúde-Doença como Processo Social. Medicina e Sociedade. São Paulo. Ed.
Global (134-158).
263
LAZARSFELD, P. Qualitative Analysis. Boston. Allyn and Bacon. 1972.
LAZARSFELD, P. & BARTON, A. H. “Qualitative measurement in the social aciences:
classification, typologies and indices. The Policy Sciences. Lerner, D. and Lasswel, H.
D. (ed.). Stanford University Press. 1951 (151-192).
LENIN, W. Cahiers Philosophiques. Paris. Éd. Sociales. 1965.
LEPARGNEUR, H. O Doente, A Doença e a Morte. Campinas. Ed. Papirus. 1987.
LÉVI-STRAUSS, C. Structural Antropology. N. York. Basic Books. 1963.
______. Le Cru et le Cruit. Paris. Plon. 1964.
______. Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro. Ed. Tempo Brasileiro. 1967. IIv.
______. “Aula Inaugural”. Desvendendo Máscaras Socias. Ed. Francisco Alves, Rio de
Janeiro, 1975 (211-244).
LIMOEIRO CARDOSO, M. La Construcción de Conocimientos. México. Ediciones
ERA. 1977.
______. Ideologia de Desenvolvimento. Brasil: JK-JQ. Rio de Janeiro. Ed. Paz e Terra.
1978 (2ª. Ed.u).
LOJKINE, J. O Estado Capitalista e a Questão Urbana. Novas Direções Rio de
Janeiro. Ed. Martins Fontes. 1981.
LOWY, M. Método Dialético e Teoria Política. Rio de Janeiro. Ed. Paz e Terra. 1985
(3ª. Ed.).
______. Ciências Sociais e Ideologias. São Paulo. Ed. Cortez 1986 (2ª. Ed.).
______. As Aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchausen. São Paulo. Ed.
Busca da Vida. 1990 (4ª Ed).
LOYOLA, M. A. Médicos e Curandeiros. São Paulo. DIFEL. 1984.
LUDKE, M. & ANDRÉ, N. E. D. Pesquisa em Educação: Abordagens Qualitativas.
São Paulo. Ed. Pedagógica e Universitária. 1986.
LUKÁCS, G. Existencialismo ou Marxismo? São Paulo . Ed. Senzala. 1967.
______. História e Consciência de Classe. Porto. Publicações Escorpião. 1974.
LUNDBERG, G. A. “Case Work and the Statistical Method”. Social Forces 5. N. York.
1926 (60-63).
______. Social Research. New York. Longmans Green. 1946.
264
______. “Quantitative Methods in Sociology”. Social Forces 39. New York. 1956 (19-
24).
MALINOWSKI, B. Uma Teoria Cientifica da Cultura. São Paulo. Zahar Ed. 1975.
______. “Objeto, Método e Alcance desta Pesquisa”. Desvendando Máscaras Sociais.
Rio de Janeiro. Ed. Livraria Francisco Alves. 1975, 39-63.
MALINOWSKI, B. Os Argonautas do Pacífico. São Paulo. Ed. Abril. Coleção os
Pensadores. 1984.
MANNHEIM, K. Ideologia e Utopia. Rio de Janeiro. Zahar Ed. 1968.
______. “o Problema de uma Sociologia do Conhecimento”. Sociologia do
Conhecimento. Rio de Janeneiro. Zahar Ed. 1974. (13-80).
______. Sociologia da Cultura. São Paulo. Ed. Perspectiva. 1974.
MANNING, P. K. & FÁBREGA Jr. J: “ The Experience of Self and Body”.
Phenomenological Sociology. New York. John Wiley & Sons Ed. 1973.
MARTINS, J. et alii. Temas Fundamentais de Fenomenologia. São Paulo. Ed. Moraes.
1984.
MARX. K. Contribuição para a Crítica da Economia Política. Lisboa. Editorial
Estampa. 1973 (2ª. Ed.).
______. O Capital. Livro I, capítulo VI inédito. São Paulo. Ciências Humanas. 1978.
MARX, K & ENGELS, F. “Critique of Hegel’s Philosophy of Right”. Marx Engels:
Basic Writings on Politics and Philosophy. N. York. Doubleday Anchor Original, 1959.
______.”Economic and Philosophy Manuscripts of 1844”. The Marx-Engels Reader. N.
York. W.W. Norton and Company. 1972 (52-104).
______. Ideologia Alemã. São Paulo. Ed. Hucitec. 1984.
MAUSS, M. Sociologie et Anthropologie. Paris. Presses Universitaires de France. 1950.
______. Sociologia e Antropologia. São Paulo. EPU/EDUSP. 1974. I e II vol.
______. Antropologia. São Paulo. Ed. Ática. 1979.
MCKEOWN, T. y LÖWE, C. R. Introducción a la Medicina Social. México. Siglo XXI.
1984 (2ª. Ed.).
MEAD, G. H. Mind, Self and Society. Chicago. University of Chicago Press. 1934.
265
MEAD, M. “More Comprehensive Field Methods”. Americam Anthropoloist. Vol. 35
(January/March) 1933. Selected Papers Ed. New York.
MELO ESOUZA, R. “Epistemologia e Hermenêutica em Bachelard”. Revista Tempo
Brasileira, 90: (47-94) jul. set. 1987.
MERHY, E. O Capitalismo e a Saúde Pública. São Paulo. Ed. Papirus, 1985.
MERTON, R. K. Sociologia: Teoria e Estrutura. São Paulo. Ed. Mestre Jou. 1970.
______. “The Focused interview”. American Journal of Sociology. May 1956. Vol LXI,
nº 6 (541-2).
MICHELAT, G. “Quelque Contribuitions á la Méthodologie de I’Entretien Non-Directif
d’Enquete”. Paris. Révwe Française de Sociologie, XVII, 1975, 229-247.
MILLS, W. “Conseqüências Metodológicas da Sociedade do Conhecimento”.
Sociologia do Conhecimento. Rio de Janeiro. Zahar Ed. 1974.
______. A Imaginação Sociológica. Rio de Janeiro. Zahar Ed. 1972.
MONTEIRO, P. Da Doença à Desordem. A Magia na Umbanda. Rio De Janeiro. Ed.
Graal. 1985.
MORA, J. F. Diccionario de Filosofia. Vol I e IV. Madrid. Ed. Alianza (580s) e (2915s).
MYRDAL, G. Objectivity in Social Research. Pennsylvania. Pantheon Books. 1969.
NELSON, J. B. Human Medicine. Minneapolis. Argsburg Publishing House. 1973.
NUNES, E. D. (org.) Medicina Social: Aspectos Históricos e Teóricos. São Paulo.
Global Ed. 1983.
______. “Tendências e Perspectivas da Pesquisa em Ciências Sociais em Saúde na
América Latina: uma visão geral” in: As Ciências Sociais em Saúde na América Latina.
OPAS. 1985.
______. As Ciências Sociais em Saúde na América Latina. OPAS. 1985.
OLESEN, V. L. & WHITTACKER, E. W. “Role making in Participant Observation
Processes in the Research-Actor Relationship”. Human Organization 26: 1967 (273-
281).
OLIVEIRA, J. & TEIXEIRA, S. M. F. (Im) Previdência Social. Rio de Janeiro. Ed.
Vozes/ ABRASCO. 1985.
266
ORLANDI, E. P. A Linguagem e seu Funcionamento. As formas do discurso.
Campinas. Ed. Pontes. 1987.
ORTIZ, R. A Consciência Fragmentada. RJ. Paz e Terra. 1980.
OSGOOD, C. E. “The Representational Model and Relevant Research Method”. Trends
in Content Analysis. Urbana. University of Illinois Press. 1959.
PANZIERI, R. La conception socialiste de I’Enquete Ouvrière”. Lutes de Classes em
Italie e Capitalisme d’Aujourd’Hui. Paris. François Maspero. 1968 (109-116).
PARGA NINA, L. et alii . Configuração de Situações de Pobreza. Rio de Janeiro. Ed.
PUC/RIO. 1983-1985. I,II,III,IV vol.
PARK, R. & BURGESS, E. Introduction to the Science of Sociology. Chicago.
University of Chicago Press. 1921.
PARSONS, T. The Social System. Glencoe. Illinois. The Free Press. 1951.
PAYNE, G. et alii. Sociology and Social Research. London. Routledge and K. Paul.
1981.
PÊCHEUX, M. Analyse Automatique du Discours. Paris. Dunod. 1969.
______. Semântica e Discurso. Campinas. Ed. Unicamp. 1988.
PELLEGRINO, E. !Philosophy of Medicine”. The Journal of Medicine end Philosophy.
Vol I, nº 1, março de 1976.
PEREIRA, J. C. “Medicina, Saúde e Sociedade” in Estudos de Saúde Coletiva.
ABRASCO, (4) PEC/ENSP. 1986.
POIRIER, J. et alii. Les Récits de Vie: Théorie et pratique. Paris. Presses Universitaires
de France. 1985.
POLLACK, N. La Médecine Du Capital. Paris. Maspero. 1972.
POPPER, K. La Logique de La Découverte Scientifique. Paris. Ed. Payot. 1973.
POSSAS, C. Saúde e Trabalho: a Crise da Previdência Social. Rio de Janeiro. Ed.
Graal. 1983.
RILEY, M. Sociological Research: a Case Approach. New York. Harcourt, Brace &
World. 1963.
SAPIR, E. Anthropologie. Paris Éd. Minuit. 1967. Tomo I.
SARTRE, J. P. “Questão de Método”. Sartre. Coleção Pensadores. São Paulo. Ed. Abril.
1978.
267
SCHAFF, A. O Marxisno e o Indivíduo. Rio de Jameiro. Ed. Civilização Brasileira.
1967.
SCHAFF, A. et alii. Ideologia e Classes Sociais. São Paulo. Ed. Documentos. 1968.
SCHRADER, A. Introdução á Pesquisa Social Empírica. Porto Alegre. Ed. Globo.
1987.
SCHUTZ, A. “Equality and the social Meaning Structure”. Collected Papers II. Hague.
Martinus Nijhoff. 1964.
______. “Concept and Theory Formation in the Social Sciences”. Sociological
Perspectives. Middlessex. Penguin Books. 1971 (490ss).
______. Fenomenologia e Relações Sociais. Rio de Janeiro. Zahar Ed. 1979.
______. Collected Papers I. “Commonsense and Scientific Interpretations of Humam
Action”. Hague. Martinus Nijhoff. 2ª. Ed. 1982.
SCHUTZ, A. & LUCKMANN. “The Stratifications of the Life-Workd”. The Structures
of Life-World. Evanston. North-Western Univ. Press. 1973.
SCHWARTZ, M. & SCHWARTZ, C. G. “Problems in Participant Observation”.
American Journal of Sociology 60 (January): 343-353. 1955.
SCRIMSHAW, S. Anthropological Approaches for Programme improvement. Los
Angeles. University of California. 1987.
SELTIZ, J. et alii. Métodos de Pesquisa na Relações Sociais. São Paulo. EPU. 1980
(10ª. Ed.).
SMART, B. Sociologia, Fenomenologia e Análise Marxista. Rio de Janeiro. Zahar Ed.
1978.
SONTAG, S. A Doença como Metáfora. Rio de Janeiro. Graal Ed. 1984.
STEIN, E. “Dialética e Hermenêutica: uma controvérsia sobre Método em Filosofia”.
Dialética e Hermenêutica. RGS. LPM. 1987.
______. Racionalidade e Existência. RGS. LPM. 1988.
TAMBELLINI, A. M. Contribuição à Análise Epidemiológica dos Acidentes de
Trânsito. Campinas. Tese de doutoramento. UNICAMP . 1976 (mimeo).
TEIXEIRA, S. M. F. “As Ciências Sociais em Saúde no Brasil”. As Ciências Sociais em
Saúde na América Latina. OPAS. 1985 (87-110).
THEODORSON, G. & THEODORSON, A. Modern Dictionary of Sociology: The
Concepts of Sociology and Related Disciplines. New York. Thomas Y. Crowell Co.
1969.
268
THIOLLENT, M. Crítica Metodológica, Investigação Social e Enquete Operária. São
Paulo, Ed. Polis. 1982 (3ª. Ed.).
______. Metodologia da Pesquisa-Ação. São Paulo. Ed. Cortez. 1987 (2ª. Ed. ).
THOMAS, W. I. “The Definition of the Situation” in Social Theory. New York.
Mcmillan Company. 1970. 3ª. Ed.
THOMAS, W.& ZNANIERCKI, F. “The Polish Peasant in Europe and America”.
Sociological Research. New York . Harcourt, Brrace and World Inc. 1963 (196-211).
THOMPSON, P. The Voice of the Past: Oral History. London. Oxford Univ. Press. 1978.
TRIPODI, T. et alii, Análise d Pesquisa Social. Rio de Janeiro. L. Francisco Alves Ed.
1981. 2ª. Ed.
TRIVIÑOS, A. N. S.Introdução à Pesquisa Social em Ciências Sociais. São Paulo. Ed.
Atlas. 1988.
UNRUG, M. C. Analyse de Contenu et Acte de Parole. Paris. Delarges. Ed.
Universitaires, 1974.
VÁZQUEZ, A. S. Filosofia da Praxis. Rio de Janeiro. Ed. Paz e Terra. 1968.
VELHO, O. G. et alii (org.) Estrutura de Classes e Estratificação Social. Rio de
Janeiro. Zahar Ed. 1974 (5ª. Ed.).
VERRET, M. Sur La Culture Ouvriére. La Pensée, Paris. Nº 163 juin 1972.
WAX, R. H. “Twelve Years Later: na analysis of Field experience” in Human
Organization Research. Homewood. Dorsey Press. 1960 (166-178).
WEBER, Max. The Methodology of the Social Sciences. New York. The Glencoe. Ed.
Edward Shills. 1949.
______. Basic Concepts in Sociology by Max Weber. New York. The Citadel Press.
1964.
______. Essais sur la Théorie de la Science. Paris. L. Pton.. 1965.
______. The Theory of Social and Economic Organization. New York. Free Press
Paperback. 1966 (3ª. Ed. ).
______. La Ética Protestante y el Espíritu del Capitalismo. Ed. Península. Barcelona.
1969.
______. A Objetividade do conhecimento nas Ciências e na Política Social. Lisboa. Ed.
Lisboa Ltda. 1974.
269
______. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro. Zahar Ed 3ª Ed. 1974.
______. Sobre a Teoria das Ciências Sociais. Lisboa. Ed. Presença. 1977.
______. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo. Ed. Pioneira. 1985.
WOLF, K. H. “This is the Time of Radical Antropology”. Reinventing Anthropology.
New York. Randoom House. 1972.
ZALUAR, A. (org.) Desvendando Máscaras Sociais. Rio de Janeiro. Francisco Alves.
Ed. 1975.
______. “Teoria e Prática do Trabalho de Campo”. A Aventura Antropológica. Rio de
Janeiro. Ed. Paz e Terra. 1986 (107-126).
ZOLA, I. K. “Medicina as na Institution os Social Control”. The Culture of Modern
Medicine. New York. Monthly Review Press. 1978.

Você também pode gostar