Você está na página 1de 13

ACHILLE PICCHI

A QUESTÃO CARLOS GOMES


ACHILLE PICCHI
Instituto de Artes da UNESP
achillepicchi@hotmail.com

RESENHA – RODRIGUES, Lutero. Carlos Gomes: um tema em


questão. A ótica modernista e a visão de Mário de Andrade. São
Paulo: UNESP, 2012. 326 pp.

242 | revista música | v. 13 | no 1, p. 242-254, ago. 2012


a QUestÃO CARLOSGOMES

INTRODUÇÃO

S
ó nos últimos tempos Antonio de séria musicologia sobre o compo-
Carlos Gomes tem sido visto e sitor acaba de ser lançada. É o livro
estudado na proporção de sua Carlos Gomes: um tema em questão,
estatura de época. Quer isto dizer de Lutero Rodrigues, afinal um tex-
que, como compositor da mais im- to honesto, bem urdido e pesquisa-
portante manifestação de massa do do entre ainda poucos sobre o autor
século XIX, a ópera, sempre sofreu, campineiro.
durante sua vida e após sua morte, do É Lutero Rodrigues nome consa-
estigma da funcionalidade artística. grado, de ilibada reputação e intensa
Ou bem era o gênio, êmulo da nação e reconhecida atuação como músico,
emergente como afirmação indivi- máxime no que diz respeito à músi-
dual no concerto internacional das ca brasileira. Um músico, experiente,
nações, ou bem era o atraso e a deca- escrevendo sobre a música de Carlos
dência de um nacionalismo efêmero Gomes, potencializando, igualmente,
e equivocado, como apregoado pela relevantes reflexões sobre o homem,
vanguarda dos inícios do século XX. o compositor, os textos musicais e sua
A isenção vem com o passar do repercussão geral na história musical
tempo; visto à distância e com mais do país.
propriedade, tanto em sua época O trabalho minucioso empreen-
como para os pósteros, o compositor dido neste livro compreende, basi-
muito mais recentemente vem sen- camente, o que representou Carlos
do tratado segundo sua importância Gomes para a música nacional no
para a música nacional. E uma prova século XIX, mormente para o segun-

revista música | v. 13 | no 1, p. 242-254, ago. 2012 | 243


ACHILLE PICCHI

do reinado e como o modernismo, um trabalho cuja seriedade se mede


especialmente seu maior expoente ao mesmo tempo por clareza como
musical, Mário de Andrade, o rece- por sutileza e impecabilidade. A su-
beu na virada do século XX – como tileza mostra-se com quase evidência
já consignado no subtítulo. no tratamento dado aos textos, isto é,
Divide-se o trabalho em três gran- os comentários e ilações são obvia-
des partes, cujo sumário já põe em mente precavidos, elegantes e cuida-
destaque o caminho empreendido: dos quanto à sua importância ou não.
1 – Carlos Gomes antes da Semana Aliás, remetem-se, sempre que pos-
de Arte Moderna, sua bibliografia e sível, ao melhor do que se lhes pode
imagem; 2 – Carlos Gomes, um tema sacar internamente, de interesse para
em questão; e 3 – Carlos Gomes e o o assunto colocado (biografia, dados
Modernismo, o legado cultural. biobibliográficos, opinião, crítica, o
que seja) para uso e argumentação
de ideias. O respeito a qualquer texto
CARLOS GOMES de qualquer natureza sobre o assunto
ANTES DA SEMANA Carlos Gomes é, nesse ponto, notável
e digno de ser aqui relevado,
O próprio autor já coloca que o pri- E, nesse aspecto, quero chamar a
meiro capítulo é uma “revisão biblio- atenção para um fato sabido e pouco
gráfica, mais ampla possível, das pu- estudado com cuidado. Há, em torno
blicações relacionadas ao compositor de Carlos Gomes, um estranho fenô-
Antonio Carlos Gomes existentes até meno que chamaremos de curiosolo-
1922” (RODRIGUES, 2011, p.1). gia musical que, com quase certeza,
É preciso que se diga, aqui, que deve-se mais aos afetos e desafetos do
“ampla” contempla, efetivamente, o gênio de Campinas e menos ao estu-
esforço realizado. São 28 textos, en- do sistemático. Essa curiosologia, em
tre livros, livretes, folhetins, artigos, se tratando de Carlos Gomes, é efe-
discursos, além de entradas em po- tivamente abundante: sobre a vida, a
liantéias, minuciosamente revistos e produção (não tanto às obras), encô-
articulados entre si. Neste particular mios vários, eulogias inefetivas, crí-
insta dizer que Rodrigues produziu ticas literárias, opiniões leigas exa-

244 | revista música | v. 13 | no 1, p. 242-254, ago. 2012


a QUestÃO CARLOSGOMES

radas como abalizadoras, situações, sical sobre Carlos Gomes advinha


polêmicas, lendas... Extensivamente de pessoas sem o devido preparo
vêm desde a época contemporânea musical para, digamos, analisar com
à vida do compositor até mesmo os profundidade obras como a Fosca ou
dias atuais. Quando, em poucos ca- Maria Tudor não espanta tanto pela
sos, tenta-se tratar da música, equí- época. E a justificativa, inteligente e
vocos advindos da ignorância, es- perspicaz, vem do próprio Rodri-
pecialmente da prática musical ou gues:
mesmo teórica, são legião. E lamen-
táveis. Muito poucos (e são a exceção [...] Carlos Gomes era considerado o
que ainda perdura) são os musicólo- maior artista brasileiro de seu tempo, o
único que vencera na Europa, tornando-
gos que se debruçaram com métier e
-se nosso grande embaixador cultural.
dedicação paciente sobre a música do É natural que despertasse o interesse de
mestre da Fosca. homens de cultura de todo o país, po-
O próprio Rodrigues, com o gos- rém outros fatores também contribuíram
to e a elegância que pervadem seu para isso. A “especialização científica ou
livro, diz “são literatos, não músicos, disciplinar” ainda não substituíra a aspi-
os autores dos textos [sobre Gomes], ração do “saber universal” que facultava
o direito ao ecletismo e o ensaio literário
com exceção de algum literato com
era a forma de expressão por excelência,
aptidão musical, como Oscar Guana- tratando de assuntos mais díspares, como
barino, ou até mesmo um músico, o a música, por exemplo (RODRIGUES,
pianista Luigi Chiaffarelli, homem de 2011, p.119).
vasta cultura” (RODRIGUES, 2011,
p.118). Pode muito bem ser, situado con-
Em princípio, para defender uma textualmente. Mas parece-nos que o
posição, diria que safa-se, também, problema curiosólogo consistiu na
Guanabarino como músico-literato, persistência do diletantismo como
crítico eminente na época que foi, “musicologia” e, enfaticamente, na
apesar de conservador e polemista, repetição e reiteração de mitos, len-
em função de sua atestada prática das, sensos comuns e comentários
musical. pseudo-críticos, sem maiores con-
O fato de que a curiosologia mu- siderações, ponderações e mesmo

revista música | v. 13 | no 1, p. 242-254, ago. 2012 | 245


ACHILLE PICCHI

comprovações. Sílio Boccanera Jr., A Bahia a Carlos


Costuma-se dizer que Carlos Go- Gomes, de 1904 e Um artista brasi-
mes sofreu toda a vida com libretti leiro, de 1913. Como informa Ro-
medíocres; após seu desaparecimen- drigues, o autor dos referidos livros
to (e seu esfumaçamento histórico era baiano, de Salvador, filho do côn-
lastimável e agressivo, como bem sul da Espanha no Estado da Bahia,
mostra Rodrigues), seu legado ainda engenheiro, escritor e teatrólogo. E,
continuou sofrendo com a mediocri- como “grande admirador do compo-
dade crítica, biográfica em maior nú- sitor”, após sua morte “empreendeu
mero e “analítica” em menor. uma cruzada para preservar sua me-
Com o exame particular da biblio- mória” (RODRIGUES, 2011, p.38), o
grafia, reitera-se aqui a competência que, para bom entendedor, já nos dá
e as lições metodológicas de Rodri- a dimensão dos trabalhos em apreço.
gues. Ao elencar um texto, não lhe Quanto ao primeiro livro, de 1904,
refuga informação, mas confronta- Rodrigues comenta que a linguagem
-o, sempre que possível; ao constatar do autor é “verborrágica e grandilo-
num texto que algo é opinião, pessoal quente”, literária até mesmo na su-
ou de outrem, não a despreza mas a gestão do plano da obra. Embora te-
discute; ao relacionar os fatos conti- nha um “tom emocional” e descreva
dos num texto, que são também co- desordenadamente a vida do grande
muns a outros, ou comprova-os ou os compositor campineiro, há informa-
põe de lado por inconclusivos. ções que são importantes, de cunho
Não se está dizendo, aqui, que a re- biográfico, que Rodrigues colige dili-
visão bibliográfica proposta por Ro- gentemente.
drigues seja isenta ou mesmo neutra. No segundo livro, de 1913, anali-
Não poderia se-lo de todo. Entretan- sado, essas informações tomam outro
to, suas posições são tão abertas e ar- vulto visto virem de fontes primárias
ticuladas quanto possível para evitar e sua confrontação torna-se inesti-
os problemas detectados na própria mável e esclarecedora.
bibliografia tratada. Vejamos como Descrevendo outra seção do livro
isso se dá através de um exemplo. de Boccanera Jr., Rodrigues recolhe
Rodrigues analisa dois livros de as opiniões que julga necessárias,

246 | revista música | v. 13 | no 1, p. 242-254, ago. 2012


a QUestÃO CARLOSGOMES

como por exemplo, a ideia daquele do compositor a Salvador, em 1895,


autor de que a Gioconda, ópera de Rodrigues une e comprova os fatos
Amilcare Ponchielli, tenha tido como da apresentação de Lo Schiavo nesta
modelo a segunda e malfadada pro- ocasião.
dução de Carlos Gomes, a Fosca. Esta São amostragens pontuais da mi-
é uma opinião polêmica, muitas ve- núcia metodológica de uma pesquisa
zes retomada no livro e que, sabe-se, em ação, que fundamentam a credi-
muito acirradamente discutida desde bilidade do pesquisador e abrem es-
aquele tempo, haja vista as ligações paço para a credibilidade do assunto
estreitas entre Ponchielli e Gomes, em pauta.
para além do fato de residirem em Enfim, esta primeira parte do li-
casas vizinhas. Assim, Rodrigues não vro tem sobeja importância para
despreza essa opinião, embora com- uma bibliografia em grande parte
plicada pelo partidarismo de Bocca- já inventariada por um Luiz Heitor
nera Jr. (assim como, posteriormen- Corrêa de Azevedo (AZEVEDO,
te, de outros), mas reserva-a para 1952) e um Vicente Salles (SALLES,
discussões. Relaciona que o segundo 1996), fundamentais figuras tanto da
livro de Boccanera Jr. é um repositó- musicologia nacional como daquela
rio de preciosíssimos textos e cartas gomesiana. Obviamente essas fontes
de época sobre o autor do Guarany, são sempre relacionadas e acessadas
e cita, por exemplo, como referência ao correr do texto de Rodrigues, as-
cruzada à discussão do livro anterior, sim como em alguns casos, comple-
um texto, Carlos Gomes em 1878, que mentadas.
teve crucial importância, tanto à épo- Talvez, como um detalhe míni-
ca como posteriormente, para a his- mo e adjutório ao compulsador do
toriografia da Fosca. importante livro de Rodrigues, dirí-
Rodrigues diz que os fatos recolhi- amos que este capítulo pudesse ser
dos por Boccanera Jr., que marcaram detalhado no sumário, para consul-
a visita de Carlos Gomes à Bahia, en- ta mais corrente, muito embora os
cerram a segunda parte do livro de livros já venham discriminados em
1904. Já no de 1913, ampliando essa separado no corpo do texto.
seção e na descrição da quinta visita

revista música | v. 13 | no 1, p. 242-254, ago. 2012 | 247


ACHILLE PICCHI

CARLOS GOMES E registro biográfico, factual ou exaltador


MÁRIO DE ANDRADE de uma obra virtualmente desconhecida
no pais. (COELHO, 1996, p.58)

Era o caso de se perguntar porque no


Há, no entanto, a considerar o fator
Brasil, em matéria de música, desde
modernismo musical brasileiro, fe-
sempre fica-se mais nas superfícies,
nômeno que aconteceria, por incrí-
nas confusões em forma de fofocas,
vel que pareça, em ponto pequeno no
na contundência pessoal das discus-
país-nação que é o Brasil, mas teria
sões que só levam a relevar egos?
repercussões imensas na cultura, no
Porque o estudo nunca é o mais aven-
pensamento e na política, bem mais
tado como suporte para as supostas
do que se poderia imaginar.
“opiniões” abalizadas em periódicos,
Nos princípios do século XX, sob
revistas e críticas, de forma que pes-
o influxo europeu, a capital federal,
soas pudessem, minimamente, ter
Rio de Janeiro e, muito especialmen-
um norte para o pensamento? Ou,
te, São Paulo fermentaram uma es-
quiçá, para a apreciação?
pécie de revolução social, política e
Já Rodrigues responde em parte
econômica no bojo da afirmação re-
em seu livro, quando diz que nun-
publicana e trabalhista.
ca são músicos que emitem opinião
Uma ponta de lança mais visí-
sobre a música, no caso de Carlos
vel dessa revolução ficou conhecida
Gomes. Nunca são as pessoas que vi-
como Semana de Arte Moderna e
venciam por dentro a linguagem e a
aconteceria contemporaneamente a
prática musicais (da ópera, em espe-
novas abordagens das artes plásticas,
cial, aí incluída a análise de textos), as
os primórdios do cinema, os avan-
que escrevem e praticam a “crítica”. E
ços da medicina e da saúde pública,
isso perdura, como ressalta Geraldo
a invenção do automóvel, do avião,
M. Coelho:
do telefone, transformações urbanas
[...] a falta de estudos outros sobre a radicais, concentrações industriais
música de Carlos Gomes, na linha, por com suas respectivas regulamenta-
exemplo, seguida por Mário de Andrade, ções trabalhistas, etc., etc. Enfim, o
possibilitou a ocupação dos espaços que progresso.
seriam de reflexão problematizadora pelo Grosso modo, pode-se dizer que

248 | revista música | v. 13 | no 1, p. 242-254, ago. 2012


a QUestÃO CARLOSGOMES

a ópera, nesse contexto, via de regra ao movimento romântico literário,


com ideais do século XIX, sofreu de no segundo império, estava atrela-
envelhecimento natural. E, portanto, da, igualmente, ao imaginário desses
de acirradas e amargas críticas, tan- intelectuais. Sofrendo o movimento
to como acontecimento social como literário e a ópera, igualmente, de
expressão artística. Como tudo, urgia ataques ao seu passadismo, além de
que se modernizasse também. sua imobilidade frente aos avanços
Com todas essas transformações, da nação, sofreria igualmente Carlos
era de se esperar que, como de fato Gomes que, como o mais bem suce-
aconteceu, uma espécie de desloca- dido artista romântico de seu tempo,
mento do eu nacional se efetuasse estaria no centro desses ataques.
em relação à visão geral de nação, por Criteriosamente enumerado e dis-
parte de intelectuais e artistas. Daí posto por Rodrigues, podemos per-
que, como coloca Rodrigues precisa- ceber que a ruína na qual a figura do
mente, nos inícios da década de 1920 herói romântico Carlos Gomes tinha
o grupo modernista de São Paulo já se transformado no século XX de-
estava decidido ao rompimento. veu-se a três frentes de ataque: a mais
Rodrigues, na parte central de seu potente e destruidora, Oswald de An-
livro, que nos parece, também, a mais drade; a maléfica, embora passageira
sumarenta e percuciente, em resumo e mais genérica, Menotti del Picchia;
nos põe ao par da posição de Carlos e menos ruinosa e ácida, embora não
Gomes frente ao movimento. Se, se- menos crítica, Mário de Andrade.
gundo disse numa conferência em Dos três, depreende-se da leitu-
1942 Mário de Andrade, o moder- ra da pesquisa detalhada que dois
nismo tinha “um espírito de guerra”, deles, Oswald e Menotti, se fizeram
esse era eminentemente o rompi- bem mais passageiros e, no momento
mento com o passado. O passado que de batalha, transcendiam, mesmo, à
se evocava era o literário eminente- destruição gomesiana ou do “Il Gua-
mente; estava diretamente atrelado rany”, na figura do índio Pery, mas
aos intelectuais e escritores revolu- atacavam principalmente a ópera
cionários que queriam esse rompi- italiana, antiga e tradicional via do
mento. A ópera, ligada diretamente Brasil imperial. Atacavam o velho, o

revista música | v. 13 | no 1, p. 242-254, ago. 2012 | 249


ACHILLE PICCHI

passadismo, o obsoleto, mesmo por- esta discussão e para Mário, eviden-


que esta já até se encontrava em de- temente o autor que irá mais refe-
cadência por cada vez mais precárias renciar o compositor campineiro. O
e amadorísticas produções. escrutínio e minúcia com que, então,
Se Oswald proclamou que “Carlos Rodrigues empreende a localização
Gomes é horrível. Todos nós o senti- de Carlos Gomes ao longo da obra e
mos desde pequenininhos” (RODRI- do pensamento de Mário de Andra-
GUES, 2011, p.140), se Menotti dizia de rivaliza com os feitos na primeira
da ópera italiana conter “sapateiros, parte do livro, revisão bibliográfica.
amestrados em Milão, fingindo reis Já enunciando que “a referência ao
e príncipes, espipando, pelo canudo compositor será recorrente em vários
sonoro dos lábios em bico, vozeirões escritos de Mário de Andrade”, diz:
longos como mugidos de touros”
(RODRIGUES, 2011, p.151), Mário [e]mbora reconheça a importância do
de Andrade, no dizer de Rodrigues, compositor, dando-lhe o posto de maior
destaque na história da música brasileira
“oscilou entre o bem e o malquerer”
até aquele momento [década de 1920],
(RODRIGUES, 2011, p.151). não vê em sua música legitimidade para
Em verdade, no momento do coexistir com a ‘sensibilidade moderna’.
combate modernista e em alguma É uma música que representa o passado
parte de seus desdobramentos situa- (RODRIGUES, 2011, p.155).
va-se uma questão muito mais funda,
que só mesmo Mário de Andrade irá Embora tenha assim escrito, Mário
continuamente abordar e trabalhar, de Andrade permanecerá ao longo
vida e obra em fora: o nacionalismo. da vida grande admirador de Carlos
E, por esta razão, e muito bem apon- Gomes, a ponto de estudar-lhe um
tado e pesquisado por Rodrigues, bom número de obras em maior de-
aquele autor manteve-se fiel ao estu- talhe. Entretanto, preocupação pri-
do, ao pensamento e às transforma- meira do modernista, a construção
ções sobre a visão e posição de Carlos do nacional na música brasileira se
Gomes para a música brasileira. impunha. E Mário atrelará, então,
Com vagar, mas com firmeza, Ro- como a alguns compositores brasilei-
drigues neste capítulo caminha para ros anteriores ao modernismo, à ideia

250 | revista música | v. 13 | no 1, p. 242-254, ago. 2012


a QUestÃO CARLOSGOMES

de “precursor” do nacionalismo, por longo da vida de Mário de Andrade.


encontrar laivos de brasilidade popu- Villa-Lobos é, de fato, considerado o
lar, tanto em sua música como na dos nacionalista moderno típico brasilei-
outros. ro, porém não necessariamente do
O livro seminal modernista sobre ponto de vista marioandradino.
o problema nacional na música do Levadas a bom termo, as pesqui-
Brasil, uma cartilha escrita em 1928 sas sobre as relações Mário de An-
e por nós já estudada em grande de- drade e Carlos Gomes neste capítulo,
talhe (PICCHI, 1996), o Ensaio sobre por Rodrigues, acabaram por nos re-
a Música Brasileira, é, como bem res- meter à ideia marioandradina de que
salta Rodrigues, um “divisor de águas o pecado, afinal, do compositor cam-
da musicografia brasileira” (RODRI- pineiro não foi ter escolhido ir á Itália
GUES, 2011, p. 203). Concordamos, (pátria da ópera como expressão, no
igualmente, em parte com a afir- momento, e de formação do compo-
mação de Rodrigues que o Ensaio é sitor) ao invés da Alemanha (pátria
“obra que maior influência exerceu da renovação moderna da música,
– e ainda exerce – sobre músicos e inclusive da ópera): foi simplesmente
compositores brasileiros, simpáticos o fato de ter saído do Brasil e renun-
ao nacionalismo musical” (RODRI- ciado empreender a sua função de
GUES, 2011, p. 212), visto que suas fundador da brasilidade musical na
postulações e normatizações não ópera do país. O musicólogo Flávio
admitiam o passado de suas cons- Silva reitera que essa sugestão de Má-
truções, constituindo, assim, verda- rio de Andrade, apontada no livro de
deira invenção. Invenção essa que, Rodrigues,
como demonstro naquele trabalho
de tese (PICCHI, 1996), nem sempre [...] é uma projeção que Mário fez de sua
convenceu e/ou cooptou criadores própria recusa de conhecer a Europa;
seu mais fiel seguidor, Guerra-Peixe, op-
integralmente para suas fileiras pe-
tou pelo mesmo descaminho. Tal recusa
las razões ali expostas, como foram
tem ligação óbvia com o equívoco fun-
os casos de Mignone e Villa-Lobos, damental dos nacionalismos musicais,
por exemplo, este último mantendo segundo o qual a música clássica origi-
complicadas e espinhosas rusgas ao na-se da popular. (SILVA, 2012, p. 30).

revista música | v. 13 | no 1, p. 242-254, ago. 2012 | 251


ACHILLE PICCHI

Fica claro, ao fim desse esmiuçamen- óperas ‘envelheceram’, porque ‘não têm
to de leituras de Mário de Andrade projeção para fora da música’. Para os que
pensam dessa maneira, o valor musical
percorrido por Rodrigues que, Car-
importa menos que o valor patriótico.
los Gomes não o tenha feito por op-
(RODRIGUES, 2011, p. 294)
ção ideológica, como aconteceria
com Guerra-Peixe (mesmo porque,
A julgar pela posteridade que cunhou
já lera Mário de Andrade...) e sim por
logradouros públicos, escolas, biblio-
falta desta. Contudo, a historiografia
tecas, escolas de música, etc., com
musical brasileira e a inteligentsia
o nome Carlos Gomes, acabou por
cultural do Brasil continuou, poste-
acontecer a transferência de mais um
riormente ao legado do compositor,
nome patriótico lembrado a denomi-
a considerar mais o posicionamento
nar qualquer coisa, esvaziado do co-
político patriótico que o musical da
nhecimento de sua obra e existência.
obra e, assim, a condenar-lhe, de al-
guma forma, o italianismo da lingua-
gem num momento de renovação que
CONCLUSÃO
foi o wagnerianismo. Como exemplo,
Rodrigues menciona um pequeno
Em sua conclusão, Rodrigues coloca
texto, de 1937, biográfico escrito por
o fio distendido desde o modernis-
Renato Almeida, importante histo-
mo nacionalista, via especialmente
riógrafo da música nacional, quase
Mário de Andrade, até quase a atu-
fruto da oficialização do centenário
alidade, como visão construtiva de
de Carlos Gomes, pelo governo fe-
um imaginário da música brasileira
deral, isto é, a intronização oficial do
histórica, incluindo o fato de persisti-
personagem. Diz Rodrigues:
rem fatos e versões, bem como opini-
ões sobre Carlos Gomes que parecem
[t]orna-se preocupante, nesse pequeno
texto, a eleição do Guarani como
não se mover.
única obra meritória do compositor, Por um lado localiza os danos mo-
principalmente por associação patriótica. dernistas, posteriormente ao artigo
O Guarani permanece ‘pouco importa’ de Oswald de Andrade “Carlos Go-
se valor musical – é o que se pode ler mes versus Villa-Lobos”:
nas entrelinhas – enquanto as demais

252 | revista música | v. 13 | no 1, p. 242-254, ago. 2012


a QUestÃO CARLOSGOMES

[...] é a visão modernista que se impõe Gomes, livrando-a dos liames de todos
– nesse caso, a visão pessoal de um dos os prejuízos extramusicais que tanto a en-
modernistas – que é passada adiante, de volveram para o bem ou para o mal. Tudo
forma irresponsável, dando à imagem do aquilo que dificultou a aceitação plena do
compositor forte caráter pejorativo. Toda compositor, tanto pelos modernistas, seus
a distensão verificada nos anos seguintes seguidores, ou por nós mesmos, expos-
nunca chegou a ter o mesmo alcance nem tos à sua herança, deveria ser revisto em
conseguiu refrear os efeitos danosos, já busca de um novo tipo de conhecimento.
em curso, que se tornaram irreparáveis. (RODRIGUES, 2011, p. 304).
(RODRIGUES, 2011, p. 301)
Assim, é possível preconizar, para
Depois, mesmo com as transforma- este Carlos Gomes, um tema em ques-
ções no pensamento do mais influen- tão, de Lutero Rodrigues, longo e
te dos modernistas, Mário de Andra- profícuo caminho de discussões, lei-
de e seus escritos, o derramamento turas e aproveitamentos, tendo em
daquela visão se fará de modo mais vista a profundidade e seriedade com
ou menos intenso, continuando a que foi pesquisado, meditado e reali-
perpetuar a italianidade das óperas zado, finalmente vindo à luz para se
de Carlos Gomes – ou, em outras pa- estabelecer como fonte inescapável
lavras, sua inutilidade nacional -, sua, de consulta e conhecimento.
de certa forma alienação à construção
da brasilidade num momento crítico
da história do país, a transformação
republicana, e outros quejandos apo-
tegmas pretensamente definidores do
gênio campineiro.
E então, Rodrigues nos remete à
ética aristotélica da virtude mediana,
com grande sabedoria e simplicida-
de, e enuncia:

[c]reio que este é o caminho: que se deve


buscar conhecer o “valor estritamente
musical da criação” da obra de Carlos

revista música | v. 13 | no 1, p. 242-254, ago. 2012 | 253


ACHILLE PICCHI

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Data de Recebimento: 23/04/2012


Data de Aprovação: 18/06/2012
AZEVEDO, Luis Heitor Corrêa de.
Bibliografia Musical Brasileira (1820-
1950). Rio de Janeiro: MEC/INL,
1952.

COELHO, Geraldo Mártires. O bri-


lho da supernova: a morte bela de
Carlos Gomes. Rio de Janeiro: Agir,
1995.

PICCHI, Achille Guido. Mário Meta-


professor de Andrade. 92pp. Disserta-
ção de Mestrado. Instituto de Artes/
UNICAMP, Campinas, 1996.

SALLES, Vicente. Bibliografia brasi-


leira de Antonio Carlos Gomes. Be-
lém: FUMBEL, 1996.

SILVA, Flávio. “Carlos Gomes, via


Lutero Rodrigues”. Seção Opinião.
Revista Concerto. São Paulo, abril de
2012, p.30.

RODRIGUES, Lutero. Carlos Gomes,


um tema em questão: a ótica moder-
nista e a visão de Mário de Andrade.
São Paulo: Editora da UNESP, 2011.

254 | revista música | v. 13 | no 1, p. 242-254, ago. 2012