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Sou ex-professor

Resumo
O presente trabalho apresenta vivências e experimentações a partir de um Projeto de
Extensão denominado Brevidades, orientado na disciplina Estágio Supervisionado I, do
Curso de Licenciatura em Artes Visuais, da Universidade Federal do Amapá. A aula
entendida nesse formato como acontecimento, ocorreu no dia 25 de fevereiro de 2019, no
Centro da Cidade de Macapá/AP. As reflexões contidas no artigo no primeiro momento
trazem os relato de como ocorreram essas experiências reverberando em três pontos
mais relevantes percebido e apreendidos para refletir acerca da educação, docência e
ensino de arte em tempos de transformações legislativos e políticos e que estão gerando
desconfortos e conflitos na educação brasileira, especialmente nas licenciaturas em artes
visuais e no ensino de arte. Os destaques são: Primeiro a desvalorização do professor.
Segundo a Desvalorização da disciplina de arte e a terceira questão: Pensar o que a
disciplina arte, tem a contribuir para a vida educacional dos alunos. Concluo com mais
perguntas do que soluções. E sigo na minha formação com o pensamento de que a noção
de performance igualmente sirva para me inspirar a vida docente como ato
insubordinado, que não limita à docência ao ato de ensinar, mas também de aprender
em fluxos plurais e diversificados de se fazer/saber professora de artes visuais.
Palavras-chave, ensino de arte, artes visuais, cidade e formação de professores.
Abstract
The present work presents experiences and experiments from an Extension Project
called Brevidades, oriented in the discipline Supervised Internship I, of the Degree in
Visual Arts, from the Federal University of Amapá. The class understood in this format
as an event, took place on February 25, 2019, in the City Center of Macapá / AP. The
reflections contained in the article in the first moment bring reports of how these
experiences occurred, reverberating in three more relevant points, perceived and
apprehended to reflect on education, teaching and art teaching in times of legislative and
political transformations that are generating discomfort and conflicts in Brazilian
education, especially in degrees in visual arts and in art teaching. The highlights are:
First the devaluation of the teacher. According to the Devaluation of the art discipline
and the third question: Think what the art discipline has to contribute to the educational
life of students. I conclude with more questions than solutions. And I continue in my
education with the thought that the notion of performance also serves to inspire teaching
life as an insubordinate act, which does not limit teaching to the act of teaching, but also
of learning in plural and diverse flows of doing / knowing visual arts teacher.
Keywords, art teaching, visual arts, city and teacher training.
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Nota Inicial

A partir da disciplina Estágio Supervisionado I, ministrada pela Professora Doutora


Sílvia Carla Marques, fomos instigados a participar de um projeto de extensão nomeado
Brevidades. A atividade consistia em caminhar pela cidade de Macapá, com placas nas mãos
escritas, “SOU EX PROFESSOR”, nos possibilitando à uma experimentação diferente da qual
estamos habituados, nos levando a uma observação, um sentir e um refletir através da prática.

Posso considerar que a ação é uma dimensão qualitativa e que o acesso pela
Performance amplia a compreensão de atos ordinários com o cotidiano. Assim, essa ação
performática desencadeou a observação mais cautelosa e focada no cotidiano, nas ruas da
cidade para ouvirmos e prestarmos atenção aos que os citadinos têm a dizer ou pensam acerca
da educação brasileira bem como eles sinalizam como veem o ofício docente em nosso País.

A ação performativa, embora venha progressivamente ganhando espaço tanto no


ambiente artísticos quanto no acadêmico, ainda têm ressentido de pesquisas mais focadas no
currículo e projetos pedagógicos. O que temos em vista é que tais eventos que usam a
performance como uma experiência vem despontando e desenvolvendo mudanças tanto na
mediação quanto na aprendizagem no ambiente educacional. Nessa assertiva afirma Santana
(2014):

“Ainda assim, o conhecimento teórico, crítico e metodológico não é


muito explorado e nem difundido na atualidade, mesmo nos espaços
educativos, apesar das facilidades midiáticas quanto à disponibilização
desses estudos, práticas e pesquisas. Por outro lado, é importante
ressaltar que a presença da performance e das práticas performativas
nas políticas públicas e, concretamente, nos espaços educativos e
culturais (...) é um demonstrativo de que há uma rede profissional
bastante produtiva, constituída de professores, artistas e pesquisadores
que atuam na educação formal e/ou não-formal, em todos os níveis da
escolaridade, tanto no estrangeiro quanto no Brasil” (SANTANA,
2014, p. 46-47).

Essas notações iniciais me serviram para compreender como as ações performáticas


vem colaborando para diversificar a produção de conhecimento no campo artístico, mas
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também na ordem de pesquisas acadêmicas, seja pela análise ou produção de dados e a


dinâmica do processo de formação de licenciandos de artes visuais.

Sou Ex-Professor: A Performance

Figura 1 – SOU EX PROFESSOR.

Fonte: https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=1938837056225406&set=pb.100002973905474.-
2207520000.1554754064.&type=3&theater 1.

No dia 25 de fevereiro de 2019, às 15:00hs, chegamos ao ponto de encontro, no


prédio do Mercado Central da cidade de Macapá/AP. Era o início de uma experimentação fora
dos muros da Universidade. Particularmente ainda na universidade quando a professora nos
convidou a realização da performance: Sou ex-professor, já me trouxe questionamentos sobre
a docência. Como podemos ensinar ou aprender a partir de um exercício praticado na rua.
Esta indagação me acompanhou durante a confecção da minha placa com esse dizer: Sou ex-
professora. Cheguei alegre no lugar marcado, já havia vários colegas de turma aguardando,
um barulho frenético dos passantes da rua e dos citadinos que frequentam ou trabalham no
mercado central. Fui logo conversando e pedindo emprestado tintas para confeccionar minha
placa. Ao terminar a frase no cantinho direito fiz um emoji chorando, já com o intuito de
chamar ainda mais a atenção dos espetadores, não só com as palavras, mas também com o
símbolo tão conhecido por todos – eu acreditava nisso – e tão expressivo para mim.
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Acesso em: 08 de abril de 2019.
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Começamos a nos organizar para ocupar a cidade. Com as placas erguidas chamávamos
atenção e de certo modo convidávamos as pessoas que ali estavam a pensar a frase.
Inicialmente eu não sabia o que, e como falar, mas decidi não deixar o medo ser maior que eu
mesma, busquei andar devagar, para que as pessoas pudessem ler e se questionar sobre a
placa. Estava bastante atenta, procurava os olhares, os risos, as falas baixas, a escuta devia ser
sensível. Buscava também o contato visual para que os observadores se sentissem mais
próximos ou mais à vontade para perguntar. Apesar do meu receio, tanto em falar quanto de
me expor o que mais me afligia era estar vulnerável. A rua é algo fora de controle e ali, por
todos cantos tinha uma diversidade de público. E de fato eu não tinha o controle da situação,
nem poderia prever as reações possíveis.

Figura 2 – Produção

Fonte: https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=1945978512177927&set=pb.100002973905474.-
2207520000.1554749964.&type=3&theater 2.

Meus amigos estavam na frente, e eu caminhava só um pouco afastada, eles foram por
trás da parada de ônibus e eu vi quando um rapaz começou a se mover em direção deles, mas
passaram rápido, naquele momento eu sabia que eu teria que falar. Ele me olhou e perguntou:
“Ei! Por que você é ex-professora?”, como um reflexo devolvi a pergunta: “Por que você
acha?”. Ele respondeu: “Seria pelo fato de que os professores são tão malvistos e
desvalorizados profissionalmente?”. Continuei perguntando se ele gostaria de ser professor.

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Disponível em: Acesso em: 08 de abril de 2019.
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Ele me olhou um pouco envergonhado e pude vê-lo se retrair, afirmou que era acadêmico de
licenciatura em matemática na Unifap. Então tomei a liberdade de continuar nossa conversa,
expliquei que infelizmente os cursos de licenciatura são tidos como algo simples e natural.
Algo que todos e qualquer um sem qualquer especialização pode fazer, porém ao
compararmos com outras áreas como saúde ou bacharelados, percebemos a carga de
preconceitos enraizados nos discursos que afirmam que a educação é fácil e ensinar mais
ainda. Como se este fosse papel somente da escola e não a união das vivencias dos alunos em
casa, na rua, etc. e esquecendo que são esses professores que ajudam a formar os futuros
Doutores. Ele então desejou boa sorte para todos e continuamos nossa caminhada.

Pude perceber que muitas pessoas olhavam, liam e reliam, cochichavam e riam. Notei
um vendedor ambulante, um rapaz negro, alto e magro nos observava, estava com uma
mochila nas costas e nas mãos vários carregadores e fones de ouvido, ele passou entre as
placas e fez questão de gritar perto de várias pessoas: “Só podem ser doidos”. Naquele
momento percebi muitos olhares de reprovação, de pena e tristeza. Fiquei com vergonha e um
pouco receosa de sermos atacados apesar de estarmos em grupo, mas continuei andando, após
alguns passos olhei para trás e as pessoas continuavam nos seguindo com o mesmo olhar.

Mais adiante um senhor com uma garotinha que parecia ser sua neta e estava na
garupa da bicicleta me pararam para perguntar o que a placa significava. Eu novamente
expliquei, disse que infelizmente apesar do professor estar presente na educação de todos, este
é tido como menos importante. Ele concordou e seguiu sua viajem desejando uma boa sorte
para todos.

Por fim, já estava me encaminhando para o ponto final de encontro quando uma
senhora negra, com os cabelos brancos presos, que aparentava ter um 50 e poucos anos,
estava sentada em uma cadeira na beira da rua, imaginei que fosse vendedora, me chamou, e
antes mesmo que eu pudesse dizer algo, afirmou que gostava muito de professores, por que
através deles ela conseguiu concluir o ensino médio. Sua formatura havia sido no fim de
2018. Essas palavras me fizeram refletir o quanto nós podemos ser e fazer a diferença na vida
dos alunos. Nosso ensino e aprendizado podem contribuir para seu desenvolvimento não só
intelectual, mas para novas formas de ver o mundo, nossas possibilidades de existência e
resistência.

O ato performático para mim foi mais uma maneira tanto de aprender quanto de
ensinar, reverberou em um novo olhar, novos pensamentos e sentimentos que expressei e
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foram expressados em relação a mim em um ambiente que inicialmente me gerou desconforto


e posteriormente se tornou mais natural e acolhedor, que foi a cidade.

A partir de todos os fatos e relatos ocorrido na rua e pensados posteriormente


separados e analisados, selecionei três pontos no qual me aprofundarei daqui para frente, que
foram: a desvalorização do professor, o fato da disciplina de arte ser vista com menor
importância dentre as outras e o que esta proporciona na vida dos alunos.

Performance e Pesquisa

A partir de todas essas experiências e experimentações vividas, sentidas e pensadas


na rua e posteriormente, na Universidade e em casa. E a partir do que sugere Flick:

“Os objetos não são reduzidos a simples variáveis, mas sim


representados em sua totalidade, dentro de seus contextos cotidianos.
Portanto, os campos de estudo não são situações artificiais criadas em
laboratório, mas sim práticas e interações dos sujeitos na vida
cotidiana” (FLICK,2009, p.24).

Entendo que o que pude presenciar trouxe à tona pontos de vistas e temas diferentes de
amigos que estiveram comigo, ou seja, mesma experiência, porém discursos diferentes.
Nossas ações levantaram um tema comum para nossa futura profissão como, nossa
desvalorização, nossa disciplina ser tida com menor importância, e o que esta pode
proporcionar na vida dos alunos, no entanto, distante do conhecimento e realidade do resto da
população, que acredita que os professores recebem um salário muito bom e nem precisam
estudar ou se esforçar para exercer sua função. O que é totalmente distante da realidade vivida
pela maioria, se não toda a classe de trabalhadores, que presenciam, o atraso ou o
parcelamento de seus salários, a precária condição das Escolas, tanto em seu prédio físico,
como em sua difícil gestão, a falta de materiais básicos para se desenvolver uma aula simples,
a falta de acompanhamento dos alunos, e professores, a falta de merenda, entre tantos outros
enormes problemas, como o da própria educação em si, que estes professores precisam burlar,
ou tentar amenizar com suas aulas de 50 minutos para 40 alunos diferentes.
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O objetivo da performance também foi levar essa realidade para as ruas, para serem
pensadas e discutidas, mas esta também me trouxe estranhamentos e questionamentos sobre
algumas particularidades como: quais roupas vestiria para aquela ocasião e como me
comportar em relação as pessoas que nunca haviam me visto, estariam curiosas ou
reprovariam todo o conjunto da abordagem. Vejo que a performance foi um meio dinâmico,
para chegar em nossos objetivos, alcançar a população, buscar novas experiências, e também
conhecer nossa própria cidade.

Primeira questão: Desvalorização do professor

Sobre a desvalorização, acredito que está sempre esteve presente, tanto voltada para o
professor de artes, quanto para o seu ensino, desde sua introdução no currículo escolar, com o
ensino do desenho para às camadas populares, no século XIX, assim como afirma Barbosa
(2010). E até mesmo alguns artistas não a tratavam com real importância, assim como afirma
Santana (2014), “... a arte era considerada, por parte de seus criadores, como algo
superficial...”, e isso só enfraqueceu tanto a categoria, quanto o seu ensino.

Partindo para a legislação, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1° e 2° Grau


5.692/71, foi a primeira a garantir a obrigatoriedade do ensino de Arte. Porém, houve uma
tentativa de retirar o teor crítico e reflexivo da disciplina. E ainda mais, não tornou obrigatório
a formação profissional específica, sendo possível a disciplina ser ministrada por profissionais
de outras áreas, ampliando a utilização da arte apenas como recreativa e decorativa. Já nos
anos 90, a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei 9.394/96, não previa a
obrigatoriedade da disciplina. Levando os Arte-Educadores a lutar pela sua permanência, e
conseguiram, no entanto, a lei não especificou as linguagens artísticas. Em 2015, inicia-se o
processo de elaboração da Base Nacional Comum Curricular, todavia na primeira edição do
documento, a área de Arte perde a sua nomenclatura de conhecimento especifico, e torna-se
subordinada a área de Linguagens, ainda segundo Peres (2017) “...verifica-se o foco em
práticas expressivas individualizadas, com ênfase no fazer e no fruir, desconsiderando a
dimensão crítica e conceitual da Arte.” E completa:

“O texto provisório apresentava Arte desconsiderando-a como área de


conhecimento que proporciona meios para o entendimento do
pensamento e das expressões de uma cultura, dando ênfase ás práticas
expressivas pouco contextualizadas, tendo como foco o
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direcionamento do fazer, desprezando a sua dimensão crítica e


conceitual” (PERES, 2017, p. 27).

Esses históricos das leis, e o seu tratamento como inferior acentuam o caráter
dispensável do ensino de Arte, porém o que percebo a partir dessas informações é que, na
verdade o que interessa em torno da disciplina é apenas o “passar informações”, tanto nas
Artes Visuais, na Dança, na Música ou no Teatro, como se estas fossem compostas apenas
pela história e os movimentos artísticos. Sendo assim, o grande interesse não é a retirada do
ensino de Arte, mas a eliminação de todo teor crítico e reflexivo.

Assim como afirma Peres (2017). “Dessa maneira, insurgindo-se como um meio de
expressão maleável, provocadora, anárquica, e educativa...” .Pois a partir do momento que
abandonamos este fundamento na Educação Básica, criamos e desenvolvemos jovens, ou seja,
a futura geração de adultos que compõem e atuam na sociedade, pessoas alienadas e
influenciáveis, que não se questionam o porquê e o para quê das intervenções políticas,
sociais, midiáticas, etc., que ocorrerão ao seu redor, apenas aceitando as consequências das
atitudes tomadas por outras pessoas, que vivem uma realidade completamente diferente da
maioria da população, e que não se importam com a mesma, mas sim com seus interesses
particulares. Segundo Peres (2017): “Ao contrário de se garantir uma melhoria na educação, o
que teremos é um reforço das desigualdades educacionais...”. Afirma ainda que:

“A Arte como componente dentro da Área de Linguagem corre risco


de se tornar apenas uma disciplina acessória que ajudará a
compreender determinado conteúdo de Língua Portuguesa ou de
Literatura, acarretando na negligencia de seus conteúdos próprios que
ajudam na reflexão e na crítica de objetos artísticos-culturais situados
em diversos tempos históricos e em diferentes contextos culturais”
(PERES, 2017, p. 30-31).

Esta afirmação ressalta a importância da disciplina de arte e compreende que sua união
à outras matérias, tornam ainda mais um passatempo ao invés de ser utilizada para auxiliar na
construção de alunos pensadores e críticos, não alienáveis e cheios de suas próprias ideias.

Esta desvalorização desmotiva, suga toda e qualquer força e possibilidade para ser
criativo e ativo, para recriar, produzir e desenvolver aulas preocupadas com o aluno, com seus
sentimentos, suas fases, seus sonhos, ainda dentro de um local de trabalho, onde se é mal visto
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ou apenas necessário para decoração ou brincadeiras lúdicas para datas comemorativas. Como
então apresentar aulas munidas de teorias e práticas sendo esta a realidade do professor?

Acredito que estas questões podem ser melhoras ou até resolvidas, mas para isso
precisamos lutar, nada será dado de graça, principalmente se nos calarmos e deixarmos que
tais práticas continuem, ninguém vai saber que isto acontece se ficarmos quietos, mas a partir
do momento que mudamos nossas atitudes, que cobramos mais da escola, das políticas
públicas, estamos sendo vistos e ouvidos, mesmo que sejamos taxados como baderneiros e
vagabundos, para melhorar nosso trabalho vale à pena.

Segunda questão: A Disciplina de Arte é necessária?

Prosseguindo, o segundo questionamento que me fiz foi: Por que a disciplina de Arte é
vista com menor importância dentre as outras disciplinas? Através da nossa experiência na
rua, fui capaz de ver por uma nova perspectiva, que desconhecia anteriormente. Tive um
choque de realidade, ao descobrir que o professor só é bem visto se estiver dentro de padrões,
tanto no seu ensino, quanto no modo de falar ou agir. Segundo Peres (2017):

“O contato com a Arte proporciona um pensamento flexível e fluido


em relação às outras áreas do conhecimento, bem como auxilia na
percepção da dimensão social que as manifestações artísticas
proporcionam. Dessa forma, é possível verificar a relevância da Arte
na formação de crianças, jovens e adultos, pois ela propicia aos
sujeitos um autoconhecimento que não pode ser adquirido pela
Ciência.” (PERES, 2017, p. 30).

Percebi como o professor é visto como um ser detentor do conhecimento, porém a


partir do momento que ele busca mais, mais dos seus alunos, mais dos pais, mais da escola e
mais da educação ele é tido como louco. Nossa experiência não foi comum, muito menos
cotidiana, mas quem poderá insinuar que não foi um aprendizado? Ou ainda, qual a melhor
maneira para se ensinar? E quem pode decidi-la? Peres (2017) salienta que Arte não deve ser:

“... uma área de conhecimento comprometida com a ideologia dos


grupos dominantes, que reduz o ensino dessa disciplina à pura
expressão livre, sem a preocupação de proporcionar aos estudantes um
entendimento mais consistente da forma na Arte, ou seja, os conteúdos
constitutivos do processo artístico.” (PERES, 2017, p. 31).
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Nossa disciplina não deve acompanhar discursos, o que buscamos é pensar, refletir e
analisar estes discursos, a partir daí cada um pode escolher dentre suas opções e seguir suas
preferencias, sem alienar alunos ou quem quer que seja a pensar, agir e etc. segundo a escolha
de outro, não sendo utilizada apenas como passatempo, brincadeira ou complementação para
outras disciplinas.

E me questiono o porquê de nossas placas causarem tanto incomodo e pena. O porquê


de o professor ser tomado como um “coitadinho”? Ou seja, o que me pareceu é que este deve
e precisa ensinar de uma forma tradicional e dentro da sala de aula, para ter respeito e
dignidade. E quando se afasta dos ditos padrões construídos pela sociedade se torna um
professor revolucionário. Mas ao pensar no panorama atual tanto do ensino quanto da escola,
no aluno que frequenta uma escola pública, com 40 colegas, e apenas um professor com 50
minutos de aula na semana, com uma infraestrutura precária, como pensar e praticar um
ensino, capaz de suprir as necessidades dos estudantes e auxiliar os professores nas suas
atribuições com dinamismo e qualidade. Loponte (2014) afirma:

“No entanto, continuamos presenciando problemas persistentes nas


práticas que vemos nas escolas: ausência de professores formados na
área, baixa carga horária (o que conseguimos fazer com 45 ou 50
minutos de aula de artes por semana?), carência de formação
continuada ou formação inicial insuficiente, quadro que colabora
direta ou indiretamente para a desvalorização das artes visuais (além
das outras áreas de arte) entre os componentes curriculares escolares”
(LOPONTE, 2014, p. 167).

Pois a grande questão não é só repassar conhecimento, é sobre ensinar e também


auxiliar na construção de indivíduos. Além de que a responsabilidade desta construção não é
única e exclusivamente da escola e muito menos do professor, já que o aluno traz consigo
todos a criação transmita em casa. Apesar deste professor estar inserido no ambiente escolar,
nas vivências e experiências dos demais, ainda sim, é tachado, marginalizado e penalizado.

Suas práticas, são sempre motivos de questionamento e interesse infelizmente de


pessoas que desconhecem sobre a área de licenciatura, e ainda existe o fato de muitos desses
cursos formarem professores carentes e deficientes em vários quesitos, com a única
preocupação de resultados e números finais. Rejeitando a qualidade e engajamento de novos
profissionais, que se frustrarão ao se deparar com a realidade das escolas, do ensino e dos
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alunos. Tornando-se profissionais padronizados, cansados e principalmente frustrados, e


infelizmente fazendo com que seus alunos tenham todas essas características e não consigam
aprender e apreender tanto os fatores históricos e artísticos, quanto seus conceitos e
criticidades. Assim como menciona Opoente quando afirma que: “As escolas nem sempre são
ambientes em que gostamos de estar, não são ambientes em que sentimos vontade de aprender
e ensinar, tanto professores, quanto alunos”. E ainda:

“... enquanto o mundo da arte vibra e recria-se em proposições


artísticas ousadas e instigantes, não é incomum encontrarmos nas
aulas de artes das escolas, atividades ligadas a datas comemorativas
como Páscoa e Dia das Mães mesmo nos anos finais do Ensino
Fundamental ou no Ensino Médio, as quais podem envolver pintar
coraçõezinhos fotocopiados ou desenhar livremente os símbolos da
Páscoa. Considerando o público jovem contemporâneo, cujos
interesses multiplicam-se através das inúmeras pedagogias culturais
disponíveis que vão, no mínimo desde os modos de se vestir e
agregar-se em grupos identitários diversos até aos modos mais
interativos de comunicação e informação” (LOPONTE, 2014, p. 177).

O que a disciplina de Artes pode proporciona na vida dos alunos

O último questionamento é: o que a disciplina de Artes pode proporcionar na vida dos


alunos? Acredito no ensino que transforma, e mais ainda acredito no ensino de Artes que nos
instiga, nos direciona a questionamentos que nunca havíamos feito antes, tanto os alunos da
Educação Básica, quanto acadêmicos. No ensino que tem a capacidade de nos levar a lugares
que antes desconhecemos, para que possamos abrir os olhos para algo que nunca sentimos ou
vivemos.

E ensinar pelo sentir e pensar não é algo fácil ou simples. Pois a realidade dos alunos,
os próprios professores desconhecem, e ser capaz de entrar em uma sala e aprender por esses
meios é no mínimo, complicado, porém, não impossível. Fazer com que esses alunos não
queiram apenas um diploma para entrarem no mercado de trabalho e mais uma vez repetir o
círculo vicioso é uma meta a se alcançar. Loponte (2014) completa:
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“Aqueles de nós que se encontram na linha de frente desses inúmeros


espaços se veem continuamente em torno de argumentos em defesa
das artes na educação. Em uma sociedade marcada por uma lógica
capitalista e competitiva perguntar se arte é necessária ou não, ainda é
uma recorrência” (LOPONTE, 2014, p. 167).

O mundo capitalista e desigual força as pessoas a só pensarem nas necessidades


básicas e é aí que os professores mostram o quanto lutaram e ainda lutarão continuamente
para firmar e reforçar sua necessidade tanto nos espaços escolares como culturais, buscando
um ensino de qualidade e uma vida melhor para todos.

Ao pensar esse ensino como sequencial e constituído de teorias e práticas voltadas


para o estudante. Buscando desenvolve-lo de maneira dinâmica e criativa, pois a realidade
escolar e dos alunos, que apesar de estarem sempre rodeados de tecnologias, como o celular,
não são impulsionados e instigados a fazerem o uso correto nas aulas. Tornando assim a aula
interessante e atrativa aos olhos daqueles que a cada dia procuram novidades para sua vida.
Loponte (2014) afirma:

“... a visualidade nas escolas é primária, infantilizada pouco instigante.


Sim, há algo que vibra na escola, (apesar de encontrarmos olhos
brilhantes e desejos em alunos e professores). Uma escola-fake, como
diz minha aluna aprendiz de professora, uma escola em que
falsamente professores e alunos se ocupam de querer livrar-se logo
das tarefas, em que poucos levam a sério o que acontece por ali.”
(LOPONTE, 2014, p 179).

A escola deveria ser o local mais influenciador para novas experiências e


possibilidades, porém não se utiliza de métodos simples para desenvolver no aluno um querer
conhecer essas novidades. Nosso ambiente está repleto de tantas variações de aulas e
dinâmicas para este objetivo. E por que não usar e se apropriar de boas ideias, criar e recriar
para ensinar. Infelizmente é mais fácil ser um professor que não exige nada do aluno, um
aluno que faz uma atividade e está pronto para avançar para a próxima série. Ser um professor
ou aluno diferente dá trabalho, requer esforço e tempo, para pensar, planejar, executar e
exercitar a mente, não é qualquer um que quer esse tipo de responsabilidade e esforço extra.

Por fim, percebo que as dificuldades existem, são muitas e latentes tanto por parte da
escola, quando do professor, quanto dos próprios alunos, sem esquecer o Estado. As atitudes e
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ações que presenciei através do ato performático como angustias, medo, reprovação, pena,
entre outros estarão sempre em minha memória, assim como são cargas de preconceitos que
atingem os professores continuamente. Vi estes sentimentos em olhares e cochichos na rua.

Concluo ainda buscando respostas e soluções para um melhor ensino de artes, sabendo
que o maior intuito é levantar e pensar nos questionamentos ressaltados, com a certeza que a
mutação pode ocorrer tanto das respostas quanto das perguntas ao longo do tempo e novas
experiências, pois nos mesmos somos seres em eterna transformação, afinal sempre estamos
ensinando e aprendendo inconscientemente, nos aprimorando para quem sabe um dia
chegarmos a ser o professor que queremos, com a esperança de alcançar este objetivo e
perceber que ainda há muito mais para ensinar e aprender.

Figura 3 – Ensinando e aprendendo Arte

Fonte: https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=1938840829558362&set=pb.100002973905474.-
2207520000.1554773837.&type=3&theater 3.

Referências

FLICK, Uwe. Introdução à pesquisa qualitativa. Tradução: Joice Elias Costa – 3. ed. –
Porto Alegre: Artmed, 2009.

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Acesso em: 08 de abril de 2019.
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PERES, José Roberto Pereira. Questões atuais do Ensino de Arte no Brasil: O lugar da
Arte na Base Nacional Comum Curricular.

LOPONTE, Luciana Gruppelli. Ensino de Artes Visuais: entre pesquisas e práticas.


Revista Educação e Cultura Contemporânea. Vol. 11, n. 23. p. 165-180.

SANTANA, Arão de Paranguá. Corpo, Arte, Vida e Educação: contribuições da


performance para as pedagogias culturais. Pedagogias Culturais. Raimundo Martins e
Irene Tourinho (organizadores). – Santa Maria: Ed. da UFSM, 2014. p. 45-71.

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