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Expresso, 30/04/21

EUGÉNIA GALVÃO TELES


Eu, nazi da gramática, me confesso

No processo de “descolonização” do sistema académico, várias universidades inglesas


identificaram um elemento que continua, teimosamente, a veicular um modelo de
ensino “eurocêntrico, branco, masculino e elitista”: a exigência de correção linguística.
Dicionários e prontuários “obscurecem” a singularidade dos alunos com dificuldades
de expressão. Inconformada, a Universidade de Hull introduziu uma avaliação
“holística”, mais adaptada à diversidade dos percursos e origens dos alunos, com
indicações para a desvalorização dos erros de ortografia, gramática e pontuação. Livres
dos rigores da língua, os alunos vão desenvolver enfim uma “voz académica mais
autêntica”.

Por cá, também persiste um preconceito sistémico em relação aos erros de português
— um dos últimos a poder ser verbalizado sem censura social. Eu, nazi da gramática,
me confesso. Estou, no entanto, disposta a mudar, seguindo o exemplo das figuras
públicas que já deram a cara pela demolição das suas atitudes discriminatórias
inconscientes no contexto do movimento Em Desconstrução. Além de aniquilar a
racista, machista e LGBT+fóbica subsistentes em mim, vou acabar com a minha
insistência em tomar nota, quando não apontar, as falhas alheias na utilização da
língua portuguesa. Inconsciente do meu privilégio, fui absorvendo a gramática
normativa sem perceber o seu carácter excludente. Contribuí assim para o
silenciamento de quem troca o “há” pelo “à”. A partir de hoje, aceitarei sem
pestanejar sequer uma vírgula entre o sujeito e o predicado, o meu primeiro passo
neste caminho de transformação contínua.

Estou preparada para lutar contra a tirania do rigor linguístico, em sinal de respeito por
quem teve menos instrução do que eu. Mas baixar o nível de exigência em relação aos
estudantes com menos sorte na roleta da vida e da educação é o oposto da inclusão.
Diminuir as diferenças no momento da avaliação é mais fácil e barato do que
introduzir apoios efetivos aos alunos que ainda batalham com o português na
faculdade. Quando se pondera, em Portugal, a constituição de quotas no acesso ao
ensino superior para os mais desfavorecidos, alguém que se lembre do quão
prejudiciais são os pontapés no português numa candidatura a um emprego. Não
chega abrir as portas de entrada das universidades para aumentar a mobilidade social;
é preciso também esbater as diferenças no momento da saída. Sem contar com a
possibilidade de, na era dos romances digitais, se inviabilizar assim a descoberta da
alma gémea — uma boa percentagem de pessoas garante não existir fotografia capaz
de salvar uma descrição pejada de erros no Tinder e afins.

Os ditames da ortografia, gramática e pontuação não são um instrumento inventado


pelo omnipresente homem branco europeu para a opressão das minorias e dos mais
pobres. São requisitos essenciais da própria clareza da comunicação e é a sua ausência
que remete para silêncio quem não os domina. Interpelado sobre a qualidade do seu
inglês formal quando interpreta personagens brancas, o humorista Dave Chappelle
retorquiu que todos os negros precisavam de ser bilingues nos Estados Unidos. Quem
conhece o seu trabalho, sabe tratar-se de uma das vozes mais potentes da
comunidade afro-americana. Com um discurso repleto de erros, duvido que tivesse a
mesma força. Isto de andar por aí a garantir a autenticidade e a singularidade das
vozes em nome da inclusão e da diversidade é muito bonito, mas não serve de nada se
ninguém perceber o que dizem.