Você está na página 1de 3

Toshiyuki Fukushima, Nº USP 11251446

POLANYI, Karl. Cap. 4 “Sociedades e Sistemas Econômicos”. In: A Grande Transformação.


As origens da nossa época. 2. ed. Rio de Janeiro: Compus, 2000, pp. 62-75.

Para Polanyi, a economia de mercado, entendida por ele como “uma economia dirigida
pelos preços do mercado e nada além dos preços do mercado” (p. 62) e, nesse sentido, sendo
auto-regulável, seria um fenômeno específico da época moderna [Polanyi diz “nossa época”]
e inexistente em épocas anteriores. Em qualquer período de tempo haveria uma economia de
alguma espécie, mas não uma economia controlada por mercados, sendo o papel da instituição
mercado apenas incidental na vida econômica dos períodos anteriores à época moderna
(Idem). Assim, a hipótese de que o “homem primitivo” teria uma predileção à ocupações
lucrativas, à barganha, à permuta e troca de uma coisa por outra e, logo, que as “sociedade
primitivas” seriam um prelúdio para a história da civilização europeia tal como formulada por
Adam Smith e seus seguidores, seria falsa (p. 63-4)

No entanto, para o autor, isso não implicaria que o estudo das “sociedade primitivas”
seria irrelevante para compreender os problemas da época moderna, sublinhando que “As
diferenças entre os povos ‘civilizados’ e ‘não-civilizados’ foram demasiado exageradas,
principalmente na esfera econômica” (p. 64), o que teria sido defendido primeiramente por
Max Weber e, mais tarde, comprovado pela antropologia social. A partir dessa crítica, se
concluiria que o que haveria de comum e de contínuo entre sociedade “primitivas” e
“civilizadas” seria “a não-modificação do homem como ser social” (p. 65). Nesse sentido,

A descoberta mais importante nas recentes pesquisas históricas e antropológicas é


que a economia do homem, como regra, está submersa em suas relações sociais. Ele
não age desta forma para salvaguardar seu interesse individual na posse de bens
materiais, ele age assim para salvaguardar sua situação social, suas exigências
sociais, seu patrimônio social. Ele valoriza os bens materiais na medida em que eles
servem a seus propósitos. Nem o processo de produção, nem o de distribuição está
ligado a interesses econômicos específicos relativos à posse de bens. Cada passo
desse processo está atrelado a um certo número de interesses sociais, e são estes que
asseguram a necessidade daquele passo. É natural que esses interesses sejam muito
diferentes numa pequena comunidade de caçadores ou pescadores e numa ampla
sociedade despótica, mas tanto numa como noutra o sistema econômico será dirigido
por motivações não-econômicas. (p. 65) [grifos meus]

Assim, haveria uma concordância entre os etnólogos modernos sobre

[...] a ausência da motivação de lucro; a ausência do princípio de trabalhar por uma


remuneração; a ausência do princípio do menor esforço; e, especialmente, a ausência
de qualquer instituição separada e distinta baseada em motivações econômicas. (p.
67)
Assim, com as motivações acima ausentes, Polanyi afirma que a ordem da produção e
da distribuição seriam garantidas por dois princípios de comportamento: o da reciprocidade e
o da redistribuição.

O princípio de comportamento da reciprocidade atuaria “em relação à organização


sexual da sociedade, isto é, família e parentesco” (p. 67), por exemplo, quando a subsistência
familiar da mulher e dos filhos é garantida pelos parentes matrilineares. O parente da mãe que
garante o sustento desta última e de seus filhos terá uma boa reputação, assim sua produção
material, como hortelão por exemplo, lhe daria prestígio ao mesmo tempo que permite a
subsistência familiar (Idem), logo, o princípio da reciprocidade garante tanto a produção
quanto a distribuição. Porém, atos isolados de dar-e-receber não garantiriam por si só o
funcionamento de um “sistema econômico”, desse modo, o padrão institucional da simetria
também seria necessário facilitando o princípio de comportamento da reciprocidade. Assim, a
dualidade encontrada em subdivisões tribais “tendem a criar um pendant em cada subdivisão,
acabam resultando de, e ajudando a executar os atos de reciprocidade sobre os quais o sistema
repousa” (p. 68), tanto nas subdivisões de uma tribo quanto nas relações intertribais (Idem).

Já o princípio de comportamento da redistribuição, atuaria em sociedades onde todos


“têm uma chefia em comum e têm, assim, um caráter territorial” (p. 67). Nessas sociedades,

Uma parte substancial de toda a produção da ilha é entregue pelo chefe da aldeia ao
chefe geral, que a armazena. Entretanto, como toda a atividade comunal se
centraliza em festas, danças e outras ocasiões quando os ilhéus entretêm uns aos
outros, assim como aos vizinhos de outras ilhas (ocasião em que são distribuídos os
resultados do comércio em áreas distantes' presentes são entregues e reciprocados,
de acordo com as regras de etiqueta, e o chefe distribui a todos os presentes
habituais), torna-se aparente a extrema importância do sistema de armazenamento.
(p. 67)

Ainda, o princípio de comportamento da redistribuição se ajusta mutuamente ao


padrão institucional da centralidade. Tal padrão apareceria onde a produção da subsistência
teria um caráter irregular e/ou resultado de um esforço coletivo, o que implicaria que não seria
praticável outra forma de distribuição da produção que não o princípio de comportamento da
redistribuição (p. 68-9), “a não ser que o grupo se desfaça após cada expedição” (p. 69), o que
independeria do grupo ser numero ou não (Idem). Também, “Quanto maior for o território e
quanto mais variado o produto, mais a redistribuição resultará numa efetiva divisão do
trabalho, uma vez que ela ajudará a unir grupos de produtores geograficamente
diferenciados.” (Idem). Apesar de tais características abstraírem a possibilidade de exploração
sobre os grupos que produzem e os grupos que apenas recebem, armazenam e distribuem o
produzido, o que o próprio autor reconhece dando exemplos de como isso ocorre entre os
Kwakiutl, ou como teria ocorrido entre os egípcios antigos, na Babilônia, etc, Polanyi diz que
mesmo implicando exploração “ao mesmo tempo, a simbiose beneficia os padrões de ambos
os estratos graças às vantagens de uma divisão do trabalho melhorada” (p. 72). Além disso,
que apesar das diferenças entre sociedades homogêneas e estratificadas,

a organização do sistema econômico ainda pode se basear nos mesmos princípios;


embora acompanhados por traços culturais muito diferentes, de conformidade com
as relações humanas muitos diferentes com as quais o sistema econômico se
entrelaça. (p. 73)

Para as sociedades que se organizam em torno de um desses dois princípios de


comportamento definidos pelo autor, este último conclui que “o sistema econômico é mera
função da organização social” (p. 69). Polanyi também afirma que esses princípios não se
restringiriam para os “produtores primitivos ou pequenas comunidades, e que uma economia
sem lucro e sem mercado deve ser simples, necessariamente” (Idem).

Por último o autor apresenta o princípio [de comportamento] da domesticidade, que


consistiria na produção para uso próprio (p. 73), próprio não num sentido individual, mas de
um grupo fechado, cuja a natureza do grupo institucional é indiferente (Idem). Na visão de
Aristóteles apresentado pelo autor, seria uma “produção para uso, contra a produção visando
lucro” (p. 74), ainda, “um[a] produção acessória para o mercado [...] não precisa destruir a
autosuficiência doméstica [...]. A venda dos excedentes não precisa destruir a base da
domesticidade.” (Idem). Nesse sentido, para Polanyi Aristóteles já apontava para “a separação
de uma motivação econômica isolada das relações sociais nas quais as limitações eram
inerentes” (p. 75).

Resumindo o argumento de todo o capítulo:

De forma mais ampla, essa proposição sustenta que todos os sistemas econômicos
conhecidos por nós, até o fim do feudalismo na Europa Ocidental, foram
organizados segundo os princípios de reciprocidade ou redistribuição, ou
domesticidade, ou alguma combinação dos três. Esses princípios eram
institucionalizados com a ajuda de uma organização social a qual, inter alia [?], fez
uso dos padrões de simetria, centralidade e autarquia. Dentro dessa estrutura, a
produção ordenada e a distribuição dos bens era assegurada através de uma grande
variedade de motivações individuais, disciplinadas por princípios gerais de
comportamento. E entre essas motivações, o lucro não ocupava lugar proeminente.
Os costumes e a lei, a magia e a religião cooperavam para induzir o indivíduo a
cumprir as regras de comportamento, as quais, eventualmente, garantiam o seu
funcionamento no sistema econômico. (p. 75)

Você também pode gostar