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DIREITOS CULTURAIS, CIDADANIA e DEMOCRACIA:

INTERRELAÇÕES E NOVOS ATORES1

CULTURAL RIGHTS, CITIZENSHIP AND DEMOCRACY: INTER


RELATIONS AND NEW ACTORS

Ana Lúcia Aragão2

Resumo: O referencial teórico de democracia e cidadania nos permite inferir que ambos os
conceitos estão diretamente relacionados com a conquista de direitos. Os direitos culturais,
como direitos humanos, também são frutos de conquistas históricas, mas também resultado de
discursos hegemônicos. Aqui se busca relacionar democracia, cidadania e direitos culturais,
problematizando-os, a fim de refletir sobre as suas interferências recíprocas, pensando os
direitos culturais como roteiro emancipatório.

Palavras-chave: Democracia. Cidadania. Direitos culturais. Cidadania cultural.

Abstract: The theoretical reference of democracy and citizenship allows us to infer that both
concepts are directly related to the achievement of rights. Cultural rights, as human rights, are
also result of historical achievements, but also the result of hegemonic discourses. Here one
seeks to relate democracy, citizenship and cultural rights, problematizing them, to reflect on
their mutual interference, thinking cultural rights as an emancipatory script.

Keywords: Democracy. Citizenship. Cultural rights. Cultural citizenship.

Introdução
Relacionar democracia, cidadania e direitos culturais é a pretensão deste artigo, a
partir de um breve resgate histórico do conceito de democracia, tendo como base o
pensamento de Hannah Arendt. Das intersecções com a cidadania, para se chegar ao conceito
de cidadania cultural, que se relaciona aos direitos culturais, integrante da categoria dos
direitos humanos.
Diante desse quadro pensar no direito de participação na vida cultural, um dos direitos
culturais previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos e do Pacto Internacional dos
Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, de forma ampliada, a fim de construir um
embasamento teórico para analise do objeto específico da pesquisa de mestrado da autora,
qual seja, o direito de participação na vida cultural do Brasil no período de 2003 a 2010, que,
duma análise prévia, se percebe importantes mudanças de rumo na política cultural, proposta
em termos mais democráticos.

1 Artigo apresentado originalmente no VI Congresso Latino americano de Ciência Política, organizado pela
Associação Latino americana de Ciência Política (ALACIP), ocorrido em Quito, Equador, nos dias 12 a 14 de
junho de 2012. Revisto e parcialmente alterado pela autora.

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Mestranda do Programa Multidisciplinar em Cultura e Sociedade da UFBA, Especialista em Direito do Estado
pela Fundação Faculdade de Direito da UFBA.
Democracia e Cidadania: algumas considerações
Os estudos sobre democracia ressurgem com a modernidade, a partir do séc. XVIII,
como uma construção ocidental, fincada na ideia de civilização da era moderna, tendo como
pano de fundo o liberalismo econômico e a ascensão da classe burguesa. Resgata-se a
democracia como modelo político a ser implantado, porque mais condizente com a realidade
política, social e econômica que se apresentava, após as revoluções francesa e industrial
(VITALE, 2007). Porém, enquanto na democracia grega a relação entre os cidadãos na esfera
pública se desenvolvia horizontalmente, tendo maior peso a comunidade, na modernidade, o
indivíduo assume papel central, impondo uma adaptação do ideário democrático grego à essa
nova realidade, especialmente no que se refere à participação direta nas decisões da vida
pública. É Arendt quem vai retomar o ideário de democracia grega, vinculada à cidadania, à
participação direta, à ação política, para ela, única capaz de assegurar a igualdade.
Da Grécia busca o conceito de vita activa, que para os gregos é condição de liberdade,
assim como o discurso é a ideia central da política, o que faz do homem um ser político,
defende Arendt. Esse conceito interessa para pensar cidadania e participação, ainda que
remodelado, considerando que a ideia de ação, para Arendt, diz respeito a uma atividade que
se exerce diretamente entre os homens, condição humana da pluralidade, principio que deve
nortear a vida política. Avritzer (2006), ao traçar o itinerário de Arendt, a partir dos conceitos
de ação (tendo como base os postulados da democracia grega) e fundação (institucionalização
romana), considera haver uma tensão não resolvida na obra de Arendt entre igualdade
(democracia grega) e hierarquia (Senado Romano) e que, somente o caso americano, também
tratado por Arendt, representaria, simultaneamente, um elemento de participação horizontal e
de fundação republicana (relacionada à institucionalização e durabilidade). Para o mesmo
autor, temos dois elementos necessários para a interpretação da relação entre ação e
institucionalização. A ação mantém sua centralidade, mas abre espaços para novos começos e
novos experimentos. Daí a atualidade da obra de Arendt, na medida em que, a partir dos seus
conceitos buscados nas origens grega e romana de democracia, abre espaço para o novo,
especialmente por meio da ação, própria da política, sem descuidar da importância da
institucionalização, no que se refere à estabilidade democrática.
Ao tratar do mundo moderno, Arendt percebe um deslocamento no sentido da
ascensão do social, uma espécie de fusão com o político. A função da vida pública agora é
proteger a vida privada - ação, discurso e pensamento são, fundamentalmente, superestruturas
assentadas no interesse social, o que, para a autora, não foi descoberto por Marx; pelo
contrário, “foi uma das premissas axiomáticas que Marx recebeu, sem discutir, dos
economistas políticos da era moderna.” (ARENDT, 2005, p.42). O que nos propõe Vitale, ao
pensar em democracia na modernidade, e no déficit democrático do instituto da representação,
é a afirmação dos princípios da democracia ateniense - liberdade, igualdade e participação no
poder. “Assim, a ideia de um resgate da vida democrática poderia significar não propriamente
uma oposição entre a democracia dos antigos e a democracia dos modernos, mas uma relação
de aperfeiçoamento e adaptação da primeira à realidade encontrada a partir de fins do século
18.” (GOYARD-FABRE, APUD VITALE, 2007).
Pensada a democracia nos moldes que se apresentam na atualidade, especificamente
no caso brasileiro, uma democracia semi-direta, baseado no instituto da representação, ao
mesmo tempo em que se dispõe de instrumentos de participação direta, constitucionalmente
previstos, percebe-se a importância desses mecanismos, que necessitam ser apropriados e
aprimorados, a fim de que seja aprofundada a democracia, mesmo porque se observa um
distanciamento entre representantes e representados, de fato uma crise no instituto da
representação.

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Bobbio também reconhece a tensão em se manter a democracia, para ele, considerada
uma fadiga, ao mesmo tempo em que considera ser a melhor forma de governo. Nesse
sentido, destaca
Existem dificuldades intrínsecas á própria forma do regime democrático. A
democracia é certamente a mais perfeita das formas de governo, ou pelo menos a
mais perfeita entre as que os homens foram capazes de imaginar e, pelo menos em
parte, de realizar; mas justamente porque é a mais perfeita é também a mais difícil.
Seu mecanismo é o mais complicado; mas, justamente por ser o mais complicado, é
também o mais frágil. Esta é a razão pela qual a democracia é o regime mais
desejável, mas também o mais difícil de fazer funcionar e o mais difícil de se
arruinar: ele se propõe a tarefa de conciliar duas coisas contrastantes, que são a
liberdade e o poder. (...) O método democrático resolve de maneira excelente o
problema da legitimidade do poder. Mas não basta que o poder seja legítimo. É
necessário também que seja eficiente. (BOBBIO, 2010, p. 35).

Para Young, nas democracias de massa modernas as relações entre representantes e


representados dificilmente se mantém, daí a necessidade da participação direta pelos meios
que são postos a favor dos cidadãos (YOUNG, 2006).
E de qual cidadão estamos tratando?
O conceito de cidadania se apresenta múltiplo, ou pelo menos, os discursos são
díspares, com intuitos distintos.
Marshall (1967) relaciona diretamente cidadania a conquista de direitos, atribuindo à
formação dos direitos civis o séc. XVIII, relacionados com a liberdade; os políticos ao séc.
XIX e os sociais ao séc. XX, esclarecendo, no entanto, que a cidadania estava diretamente
atrelada à questão de classe social, deixando claro também que os direitos políticos, como o
voto, somente se tornam “universal” após sucessivas reformas de leis. Para Marshall,
portanto, ser cidadão é ser portador de direitos civis, políticos e sociais, no contexto ali
descrito. Define a cidadania como um “status concedido aos membros integrais de uma
comunidade” (MARSHALL, 1967, p. 76), relacionando-a às classes sociais e ao próprio
desenvolvimento do capitalismo - um sistema de desigualdades, ao mesmo tempo em que a
cidadania pressupõe igualdade -; eis o paradoxo apontado por Marshall, que admite, por outro
lado, que a cidadania é capaz de alterar o padrão de desigualdade social, mas não extingue a
distinção de classes; afirma que a cidadania exige participação na comunidade, o que
pressupõe elo de natureza diferente, baseado na lealdade entre homens livres.
A cidadania moderna, ao tentar resgatar o ideal da antiguidade, se depara com alguns
problemas - territórios mais vastos e separação do Estado e da sociedade civil; as sociedades
formadas na modernidade convivem com governos monárquicos e aristocráticos; por fim, na
antiguidade se convivia com o escravagismo, sem se pensar em direitos humanos. Essa
incompatibilidade de princípios obrigará os modernos a redefinir cidadania (LISZT, 1998). É
certo, porém, que direitos e cidadania são considerados centrais no processo democrático,
entendimento que perpassa as mais diversas correntes do pensamento. Ou seja, são
instrumentos, e discursos, apropriados pelas mais diversas correntes de pensamento. Diante
disso, podemos afirmar que o conceito de cidadania, assim como a ideia do ser humano
portador de direitos considerados universais se encontra no plano formal. As suas origens, que
remontam o final do século XVIII já demonstram que a cidadania foi pensada e garantida para
alguns. A democracia grega também assim o era. Baseados em distinções, seja de classe,
gênero, etnia. A reunião de cidadãos em espaços públicos era para os poucos detentores de
algum tipo de privilegio.
Dagnino, ao tratar dos novos contornos da cidadania, e sua apropriação pelo
neoliberalismo, a “confluência perversa” por ela denominada, destaca o papel das
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subjetividades no processo de mudança do conceito de cidadania, por ela definida como
cidadania ampliada, afirmando que “a nova cidadania inclui construções culturais, como as
subjacentes ao autoritarismo social como alvos políticos fundamentais da democratização”
(DAGNINO, 2004, p. 103), considerando como elemento constitutivo dessa nova noção de
cidadania a noção mesma de direitos, cujo ponto de partida é a concepção de um direito a ter
direitos. Nesse sentido não somente a igualdade, mas o direito a diferença aprofunda o
conceito de cidadania e de direitos. Também destaca como elementos dessa nova cidadania a
inclusão de atores excluídos e a participação desses não só no sistema dado e estabelecido,
mas no processo de construção do sistema político (p. 104).
Também avança na discussão sobre o conteúdo da cidadania Toby Miller (2011), ao
propor a existência de três tipos de cidadania: uma cidadania política (ligada ao voto),
econômica (garantia de trabalhar e meios de existência) e cultural (direito de se comunicar e
representar sua diferença cultural). Essa ultima, objeto central do presente estudo,
considerando que os direitos culturais e, especificamente, o direito de participação na vida
cultural, estarem intrinsecamente ligados à cidadania.
Os direitos culturais como categoria dos direitos humanos e a cidadania cultural
Pode-se afirmar que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, avança
no conteúdo dos direitos ali previstos, em decorrência do contexto histórico pós-Segunda
Guerra e em resposta às atrocidades ali cometidas. Supera a visão individualista do homem,
fincada na idéia de liberdade e dos direitos civil e políticos (estes quando pensados somente
em relação ao direito ao voto), prevendo direitos relacionados à igualdade e que, portanto,
pressupõe a participação do Estado de forma a garanti-los. Exemplo disso é a incorporação
dos direitos econômicos, sociais e culturais, frutos de conquistas das lutas de trabalhadores e
populações excluídas, herança dos movimentos socialistas. Também as revoluções Francesa,
Inglesa e a Americana inspiraram a Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948.
Representa um marco da internacionalização desses direitos, fruto da ideologia ocidental e de
pretensões universalizantes. Declaração que dispõe, no seu art. 22, que todo ser humano,
como membro da sociedade, deve ter assegurados os direitos culturais, considerados
indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade. Já o art. 27
enfatiza o direito das pessoas de participar e fruir dos benefícios da cultura. Em 1966 foi
concluída a elaboração do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e do Pacto
Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, que correspondem a
desdobramentos da DUDH e que apresentam preâmbulos de igual teor.
Uma primeira questão se apresenta: por que o desdobramento, se o discurso é da
indivisibilidade dos direitos humanos? tratam-se de direitos de naturezas diversas, ou já estava
delineada aí uma escolha de acordo ao grau de importância que lhes foram conferidos?
Comparato explica:
A elaboração de dois tratados e não um só, compreendendo o conjunto dos direitos
humanos segundo o modelo da Declaração Universal de 1948, foi o resultado de um
compromisso diplomático. As potências ocidentais insistiam no reconhecimento,
tão-só, das liberdades individuais clássicas, protetoras da pessoa humana contra os
abusos e interferências dos órgãos estatais na vida privada. Já os países do bloco
comunista e os jovens países africanos preferiram pôr em destaque os direitos
sociais e econômicos, que têm por objeto políticas públicas de apoio aos grupos ou
classes desfavorecidas, deixando na sombra as liberdades individuais. Decidiu-se,
por isso, separar essas duas séries de direitos em tratados distintos, limitando-se a
atuação fiscalizadora do Comitê de Direitos Humanos unicamente aos direitos civis
e políticos e declarando-se que os direitos que têm por objeto programas de ação
estatal seriam realizados progressivamente, ‘até o máximo dos recursos disponíveis’

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de cada Estado (Pacto sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, art. 2º, alínea
1). (COMPARATO, 2001, p. 278).
Em 1986 foi elaborada a Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento, que em sua
exposição de motivos anuncia a importância da promoção dos direitos culturais para o
desenvolvimento. A Conferência Geral da UNESCO, em 2001, produziu a Declaração
Universal da Unesco sobre a Diversidade Cultural, tendo como princípios a proteção da
diversidade cultural dos povos e a democratização da produção e do acesso aos bens culturais.
Essas transformações e ampliação do elenco dos direitos humanos é resultado de
historicidade, contemplando não só avanços, mas também recuos, diante das lutas políticas e
sociais, ou seja, das tensões, conflitos e da colisão de direitos, próprias da dialética. Bobbio
destaca nesse sentido
(...) os direitos do homem constituem uma classe variável, como a história destes
últimos séculos demonstra suficientemente. O elenco dos direitos do homem se
modificou, e continua a se modificar, com a mudança das condições históricas, ou
seja, dos carecimentos e dos interesses, das classes no poder, dos meios disponíveis
para a realização dos mesmos, das transformações técnicas etc. (BOBBIO, 1992,
p.18).
Não foi sem críticas que os direitos humanos foram se afirmando. Marx foi um dos
primeiros a se insurgir quanto aos “direitos dos homens”3, crítica diretamente relacionada ao
seu caráter ideológico, diante do contexto de afirmação burguesa, e do discurso de igualdade,
liberdade, segurança e propriedade, na tentativa de homogeneizar e obscurecer as tensões
sociais, próprios do momento burguês liberal. Mas, a despeito disso, não há como negar a sua
importância no sentido da busca da igualdade, especialmente aqueles direitos resultantes de
conquistas das lutas dos trabalhadores e dos excluídos de uma forma geral, como os direitos
considerados de segunda dimensão: econômicos, sociais e culturais, pautados também em
ideais marxistas. Alguns marcos são apontados no reconhecimento desses direitos: em
decorrência das pressões dos sindicatos, o governo de Bismark, na Alemanha, a partir de
1870; a Constituição Mexicana, de 1917 e a Constituição de Weimar, da Alemanha, de 1919,
ao introduzirem direitos de segunda geração em seus textos, especialmente aqueles
relacionados às condições de trabalho. Apesar de serem constituições liberais já se percebe
uma preocupação voltada a categorias, e não só o indivíduo, mas o coletivo, quando preveem,
por exemplo, o direito de associação.
A ideia de direitos humanos de natureza universal, também foi e é alvo de
controvérsias. Para Costa (2003), a crítica se dá a partir da premissa de que a difusão do
catálogo de direitos aos países pobres permitiria o seu desenvolvimento humanitário. O autor
destaca esse risco, trazendo a visão dos que entendem que a pauta dos direitos humanos não
pode ser separada do jogo real e das relações assimétricas de poder na arena internacional. E
essas relações assimétricas têm as mais diversas origens, mas o processo de colonização
protagonizado pelos europeus tem papel de destaque. Isso implica dizer que também os
direitos humanos são uma construção decorrente de um discurso de poder, que não leva em
conta as especificidades locais.
Santos (2003), por sua vez, dirige sua crítica ao modelo neoliberal no qual se insere a
política dos direitos, desde a sua origem burguesa. Acredita nos direitos humanos como
“roteiro emancipatório”. Para ele, enquanto os direitos humanos forem concebidos como

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A crítica de Marx aos direitos dos homens se apresenta em A Questão Judaica, no qual ele se refere às
Declarações francesas de 1791 e 1793, as Constituições francesas de 1791, 1793 e 1795, e também as
Constituições da Pensilvânia e do New Hampshire.
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direitos humanos universais, tenderão a operar como localismo globalizado4 e, portanto, como
uma forma de globalização hegemônica, uma arma do Ocidente contra o resto do mundo e a
sua abrangência global será obtida à custa de legitimidade local. O que num primeiro
momento parece ser uma pura negação do caráter universal dos direitos humanos, na verdade
é uma crítica aos pressupostos em que se fundaram a ideia de dignidade humana e de
universalidade, todos tipicamente ocidentais, sem se que levassem em consideração as
peculiaridades de cada povo. A Declaração Universal dos Direitos do Homem é ocidental,
com características do mundo liberal ocidental dominante, tendo significado uma imposição
ocidental, de conteúdo liberal, ao resto do mundo. Nesse sentido, Santos destaca
A marca ocidental liberal do discurso dominante dos Direitos Humanos pode ser
facilmente identificada em muitos outros exemplos: na Declaração Universal de
1948, elaborada sem a participação da maioria dos povos do mundo; no
reconhecimento exclusivo de direitos individuais, com a única exceção do direito
coletivo à autodeterminação; na prioridade concedida aos direitos civis e políticos
sobre os direitos econômicos, sociais e culturais; e no reconhecimento do direito de
propriedade como o primeiro e, durante muitos anos, o único direito econômico.
(SANTOS, 2003, p.14)
O discurso dos direitos humanos, não há como negar, também está impregnado do
discurso civilizatório da modernidade, firmado na distinção entre o eu (europeu, branco,
cristão) e o outro (povos colonizados), destacando-se o critério de raça como padrão de poder.
Para Quijano (2005), a divisão do trabalho e raça se reforçam mutuamente e o controle
colonial se deu no campo da subjetividade, da cultura, do conhecimento. O processo de
independência das colônias não significou liberação e descolonização, na medida em que as
relações de poder coloniais se reproduziram internamente.
O processo de independencia dos Estados na América Latina sem a descolonização
da sociedade não pode ser, não foi, um processo em direção ao desenvolvimento dos
Estados-nação modernos, mas uma rearticulação da colonialidade do poder sobre
novas bases institucionais. (...) Não obstante, a estrutura de poder foi e ainda segue
estando organizada sobre e ao redor do eixo colonial (...) A construção da nação e
sobretudo do Estado-nação foram conceitualizadas e trabalhadas contra a maioria da
população, neste caso representada pelos índios, negros e mestiços. A colonialidade
do poder ainda exerce seu domínio, na maior parte da América Latina, contra a
democracia, a cidadania, a nação e o Estado-nação moderno.” (QUIJANO, 2005)
Adentrando na evolução histórica dos direitos culturais, propriamente ditos, Mata-
Machado (2007) traça um panorama do seu reconhecimento, destacando que o primeiro
direito cultural reconhecido internacionalmente é o direito do autor, decorrente de “processos
revolucionários na Inglaterra (1688), Estados Unidos (1776) e França (1789), dos quais
resultaram atos legais reconhecendo a criação intelectual e artística como a mais legítima e a
mais pessoal das propriedades”. Um exame dos documentos legais mais significativos dos
períodos indicados pelo autor permite perceber que na Inglaterra a Carta de Direitos (Bill of
Rights) de 1689, ainda não previa o direito autoral, nem outro direito cultural, porém, os
movimentos dos autores - enfrentando os interesses da Stationers Company de Londres, uma
poderosa corporação da imprensa - favoreceu a edição de um estatuto pela Rainha Ana, na
Grã-Bretanha, em 1710, considerado o primeiro marco de proteção do direito do autor
(ASCENÇÃO, 1997, p. 4). Estatuto que concedia o privilégio ao autor da reprodução das suas
obras, um antecedente do copyright. Portanto, para proteger o autor foi utilizado um direito
considerado sagrado até então, o direito de propriedade. Em 1886, houve uma conferência em
Berna, resultando na “Convenção de Berna para a proteção de Obras Literárias e Artísticas”,

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SANTOS entende como localismo globalizado o processo pelo qual determinado fenômeno local é globalizado
com sucesso, a exemplo da atividade mundial das multinacionais, a transformação da língua inglesa em
preponderante, a adoção das leis da propriedade intelectual dos EUA.
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estabelecendo “a participação do autor nos lucros da eventual revenda de sua obra”, “garante
o direito à paternidade da obra e o privilégio de autor de impedir modificações de qualquer
natureza” dentre outras. Documento considerado base para leis de direitos autorais em todo o
mundo, inclusive no Brasil.
Importante citar também a Constituição Mexicana, de 1917, pela influência em
constituições de outros países e que destaca em seu texto a liberdade de expressão dos autores
e da imprensa, no art. 7º: “Es inviolable la libertad de escribir y publicar escritos sobre
cualquier materia. Ninguna ley ni autoridad puede establecer la previa censura, ni exigir
fianza a los autores o impresores, ni coartar la libertad de imprenta, que no tiene más límites
que el respeto a la vida privada, a la moral y a la paz pública. En ningún caso podrá
secuestrarse la imprenta como instrumento del delito.”. Uma ampliação do catálogo de
direitos somente será observado na Declaração Universal Dos Direitos Humanos, de 1948, ao
incluir o direito de participação na vida cultural e de fruir as artes, além dos direitos de autor,
no seu art. 27. E o PIDESC, desdobrando a Declaração prevê, em seu art. 15, o
reconhecimento, pelos Estados Partes, do direito de todos de participar na vida cultural; se
beneficiar do progresso científico e das suas aplicações; se beneficiar da proteção dos
interesses morais e materiais que decorrem de toda a produção científica, literária ou artística
de que cada um é autor. Prevê que as medidas que os estados partes tomarem para assegurar o
pleno exercício destes direitos deverão compreender as que são necessárias para assegurar a
manutenção, o desenvolvimento e a difusão da ciência e da cultura; reforça o compromisso
com o respeito a liberdade indispensável à investigação científica e às atividades criadoras e
ainda o reconhecimento da importância da cooperação internacional no campo da cultura.
Nesse momento da história dos direitos humanos, o Estado é chamado a agir, para garantir e
fomentar o exercício de direitos como os direitos culturais.
Aqui duas frentes se abrem: primeiro, para pensar no próprio papel e significado
desses direitos; segundo, pensar no papel do Estado na garantia do seu exercício, sem olvidar
da premissa de que os direitos estão acompanhados de deveres, como nos adverte Cunha
Filho. É o mesmo autor quem também nos fornece subsídios para entender as diferenças entre
multiculturalismo, culturalismo jurídico e direitos culturais, muitas vezes confundidos como
conceitos sinônimos. Para Cunha Filho “culturalismo jurídico é teoria, multiculturalismo é
ideologia, direitos culturais são práxis” (CUNHA FILHO, 2011)5. Necessário entender essa
distinção porque ao se tratar dos direitos culturais, a partir dos autores invocados, percebe-se a
interligação dos sentidos dos conceitos citados, de modo que muitas vezes as dúvidas
persistirão, demonstrando as interconexões e influências recíprocas, ainda que tentemos
separá-los – especialmente quando o objeto do estudo se relaciona muito mais à dimensão
cidadã da cultura e ao direito de participação na vida cultural, e considerando ainda o papel
das subjetividades para essa categoria de direitos.
Para Nobre (2004) os direitos culturais apontam para um novo modelo de cidadania,
com contornos que ainda não são claros. Do ponto de vista desse novo modelo de cidadania
em formação, é preciso influir na própria lógica da decisão estatal, ampliando mecanismos de
participação e deliberação. O autor entende que para a participação e a deliberação
encontrarem lugar no estado democrático de direito, é necessário aceitar o jogo entre espaços
públicos autônomos e as novas formas de institucionalidade que projetam e as
macroestruturas definidoras do regime, que serão cada vez mais testadas. Souza (2001)

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O autor considera o culturalismo jurídico a teoria que embasa todo o direito, no qual todos os direitos são
considerados culturais; o multiculturalismo, por seu turno, está diretamente relacionado ao direito à diversidade,
é mais genérico e abrangente, tendo caráter de ideologia; os direitos culturais, por seu turno, relaciona-se à
categoria mesmo de direitos relacionados à cultura, a partir de núcleos concretos formadores de sua substância.
(CUNHA FILHO, 2011, p.p. 117/118).
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entende que a importância desses “novos direitos” se dá também em virtude do surgimento de
novos sujeitos na arena política, ampliando o discurso ao trazer a questão da alteridade,
impulsionando a reformulação dos conceitos de democracia e de cidadania. Os direitos
culturais se apresentam como uma categoria de direitos humanos com potencial
emancipatório, como ampliação da cidadania que ultrapasse o sentido de redistribuição. A
atuação do Estado, nesse sentido, não poderá perder de mira a premissa do reconhecimento,
que implica, necessariamente, em descolonizar o conhecimento e a cultura. Significa pensar
no reconhecimento no sentido de pertencimento, de reivindicação de direitos em sentido
substancial, não somente formal, como adverte Rosaldo (1993). Ou seja, o exercício dos
direitos culturais e a participação mais ampla de diferentes atores influi na própria lógica da
política institucional, a partir do reconhecimento em sentido amplo e não só redistributivo,
considerando que esses direitos envolvem subjetividades e identificações.
Aqui se chega a um conceito que está diretamente relacionado à conquista do
reconhecimento dos direitos culturais: o de cidadania cultural, ao que parece apresentado pela
primeira vez por Rosaldo (1993), a partir do princípio da igualdade diante da diversidade.
Note-se que o tratamento aos direitos culturais aqui está relacionado à ideia de
multiculturalismo. Percebe-se uma mudança de paradigma, já que a igualdade aqui não se
limita aos iguais, perpassando critérios de justiça, por exemplo, como defende Fraser (2007)
ao tratar do conceito de reconhecimento. Também Rosaldo (1999) destaca dois eixos de
mudanças, ao tratar de cidadania cultural: um se refere à distribuição, ligada a recursos
econômicos, derivados das lutas de classes; outro relacionado ao reconhecimento e está ligado
a fatores culturais - reconhecimento no sentido de pertencimento e a reivindicação de direitos
no sentido substancial e não somente formal. É o mesmo autor quem adverte, ao se falar em
cidadania cultural, a necessidade de conhecer as aspirações legítimas dos grupos subordinados
e duvidar dos discursos, considerando os locais de fala, portanto, é de participação que o autor
também está tratando. Dagnino (2004) também destaca a importância dos movimentos sociais
do final dos setenta e ao longo dos anos oitenta, inspirados no discurso dos direitos humanos,
para a ampliação do conceito de cidadania, para o projeto de construção democrática, de
transformação social, que impõe um laço constitutivo entre cultura e política.
Os conceitos aqui trazidos tratam de dar suporte teórico para se pensar nos direitos
culturais entendidos como categorias de direitos relacionados à cultura. Apesar de toda a
problematização acerca da ideia universalizante dos direitos humanos, mencionada
anteriormente, não há como negar o papel de destaque dos direitos culturais na consolidação e
aprimoramento da democracia participativa das modernas sociedades abertas tratadas por
Haberle (1997). Nesse sentido, a democracia cultural poderá conduzir também ao
aprimoramento da democracia política, diante do processo de participação ativa, da retomada
do conceito de política como ação, do sentido de participação e pluralidade, demonstrando a
sua atualidade em tempos de afirmação de direitos pautados na diversidade, no sentido de
inclusão de atores excluídos. Também não há como negar que os instrumentos de caráter
formal como a DUDH e o PIDESC podem ser importantes instrumentos de coerção política
dos países signatários, de modo que devem ser apropriados no sentido de garantia desses
direitos, a partir da atuação dos atores envolvidos.
Diante desse quadro, no qual se invoca conceitos como multiculturalismo, direitos
culturais e reconhecimento, se pretende pensar no direito de participação na vida cultural,
previsto nos instrumentos internacionais de direitos humanos, não só como acesso aos bens
culturais, mas como a própria cidadania cultural, inspirada no ideal de cidadania plena. Nesse
sentido, o exercício de participação na vida cultural se daria a partir de espaços abertos pelas
constituições democráticas e outros espaços criados pelos próprios atores, no sentido do
acesso aos bens, ao patrimônio, aos meios de se produzir cultura, como também na

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participação nas próprias decisões das políticas culturais (por meio das conferencias,
consultas, conselhos), contemplando as reais aspirações dos atores envolvidos em termos de
cultura.
Considerações finais
Os últimos comentários em verdade se tratam de uma abertura de campos de análise
da pesquisa em curso, para se pensar na política como ação, e a democracia a partir do ideal
arendtiano, que pressupõe participação direta, discurso e pluralidade, sem descuidar da sua
resignificação, diante dos novos contextos que envolvem extensão dos territórios,
complexidade social etc. Relacionar cidadania e democracia pressupõe pensar em cidadania
no sentido de conquista de direitos, porém em eterno porvir, admitindo-se o seu caráter
histórico, político e dialético, envolvendo tensões de diversas ordens, mesmo porque pautada
na premissa da igualdade diante da pluralidade.
Ao falar em cidadania, desde sua origem, chega-se a um conceito formal com
tendência universalizante, no entanto, observa-se que apropriado pelas mais diversas
correntes. Nesse sentido também o discurso dos direitos humanos, de origem moderna e
civilizatória e que também parte da ideia de universalização de direitos, pensados a partir do
ponto de vista ocidental e eurocêntrico. Isso não afasta, contudo, a importância desses
discursos - dos direitos humanos e da cidadania - como roteiros emancipatórios, se
apropriados por todos os atores envolvidos, sempre no sentido de aprofundamentos da
democracia e na superação de injustiças.
Os direitos culturais, de reconhecimento tardio, cumprem papel relevante nesse
sentido, na medida em que fincados no princípio da igualdade, do reconhecimento, do
pertencimento, do respeito à diversidade. E o direito de participação na vida cultural,
especificamente, a partir desse roteiro emancipatório, seria importante fator de
aprofundamento da democracia, a partir da utilização e ampliação dos espaços
institucionalizados de participação e aqueles criados pelos “novos” atores - que se tratam, em
verdade de atores excluídos -, tanto do processo de fruição dos bens culturais, quanto da
própria liberdade de criação e expressão dos seus modos de viver e de criar, como também
dos processos de participação nas próprias decisões das políticas públicas de cultura. Por fim,
o regime democrático, a despeito de suas imperfeições, tem se mostrado o mais propício para
a garantia formal e substancial de direitos. A proposta, portanto, a despeito de todas as críticas
aos catálogos prontos de direitos humanos ocidentais, é a apropriação desses discursos e
instrumentos, no sentido de garantir uma expressão cultural livre, uma democracia real e uma
cidadania ampla.

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