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TABLE OF CONTENTS

Capítulo Um: O tema central da Bíblia


Capítulo Dois: O que é um pacto? (parte 1)
Capítulo Três: O que é um pacto? (parte 2)
Capítulo Quatro: A histó ria dos pactos (parte 1)
Capítulo Cinco: A histó ria dos pactos (parte 2)
Capítulo Seis: O pacto edênico
Capítulo Sete: A promessa pó s-queda
Capítulo Oito: O pacto noaico
Capítulo Nove: O pacto abraâ mico
Capítulo Dez: O pacto mosaico
Capítulo Onze: O pacto davídico
Capítulo Doze: O pacto da restauraçã o
Capítulo Treze: O novo pacto
Sobre o autor
A estrutura pactual da Bíblia
 
Ralph Allan Smith
 
 
 
 
 
 

Copyright @ 2006, de Ralph Allan Smith


Publicado originalmente em inglês sob o título
The Covenantal Structure of the Bible
pela Covenant Worldview Institute,
Tó quio, Japã o.
 
 

 
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por
EDITORA MONERGISMO
SCRN 712/713, Bloco B, Loja 28 — Ed. Francisco Morato Brasília, DF, Brasil — CEP
70.760-620
www.editoramonergismo.com.br
 

 
1ª ediçã o, 2020
 
Tradução : Felipe Sabino de Araú jo e Paulo José Benício
Revisão : Felipe Sabino de Araú jo

 
 
 
 

SUMÁRIO
Capítulo Um: O tema central da Bíblia
Capítulo Dois: O que é um pacto? (parte 1)
Capítulo Três: O que é um pacto? (parte 2)
Capítulo Quatro: A histó ria dos pactos (parte 1)
Capítulo Cinco: A histó ria dos pactos (parte 2)
Capítulo Seis: O pacto edênico
Capítulo Sete: A promessa pó s-queda
Capítulo Oito: O pacto noaico
Capítulo Nove: O pacto abraâ mico
Capítulo Dez: O pacto mosaico
Capítulo Onze: O pacto davídico
Capítulo Doze: O pacto da restauraçã o
Capítulo Treze: O novo pacto
Sobre o autor

CAPÍTULO UM: O TEMA CENTRAL DA BÍBLIA


 
Qual é o tema central da Bíblia? Para responder a essa questã o
devemos considerar uma que é ainda mais fundamental: a Bíblia
tem um tema central? Se a Bíblia é um livro, é aparente que a
resposta deve ser sim. Certamente essa é a resposta que tem sido
dada pelos cristã os de todas as terras, línguas e culturas, que por
quase 2000 anos confessam ser a Bíblia a ú nica revelaçã o unificada
de Deus.
Mais importante ainda, a pró pria Bíblia confirma esse testemunho.
Apesar de ter sido escrita por mais de 40 autores diferentes em um
período de aproximadamente 1500 anos, a Bíblia apresenta uma
visã o de mundo integrada em sua doutrina sobre Deus, o homem, a
lei, a histó ria e a salvaçã o. A harmonia do ensino bíblico é a mais
maravilhosa, pois representa um crescimento orgâ nico da revelaçã o
na realizaçã o histó rica do relacionamento pactual de Deus com seu
povo desde a criaçã o original até o fim do mundo.
Os cristã os de todas as épocas têm confessado a unidade da
mensagem bíblica, mas nã o encontraram a unidade da Bíblia nos
mesmos temas. Eles nã o concordaram sobre qual tema é central.
Alguns, por exemplo, têm sugerido a ideia de redençã o. Ora, a
histó ria bíblica é, com certeza, o desdobramento de um drama
redentor. A Bíblia nos conta como o homem caiu no pecado e como
Deus em sua graça salvou o homem (Gn 3.1-15). Ela nos fala do
grande amor de Deus pelos pecadores e da morte de Jesus para
redimir o homem (Jo 3.16). A Bíblia nos ensina que o Espírito Santo
foi enviado ao mundo para aplicar a obra redentora de Jesus (Rm
8.1-14). No clímax da histó ria, veremos o mundo ser redimido e a
plena manifestaçã o da gló ria de Deus (1Co 15.22-28).
A redençã o é certamente um dos grandes temas da Bíblia, mas ela
nã o parece ser um tema amplo o suficiente para incluir todos os
outros. Para ser específico, ela nã o parece ser um tema amplo o
suficiente para incluir tó picos como a criaçã o, que aconteceu antes
que houvesse qualquer necessidade de redençã o e parece ser mais
importante na Bíblia do que uma simples informaçã o de pano de
fundo para a redençã o. Seria difícil, com um tema central tã o restrito
como a redençã o, encontrar um lugar apropriado para outros temas
como anjos, Sataná s, anjos caídos, inferno e assim por diante.
Outros sugeriram que o tema principal da Bíblia é o pró prio Cristo.
Isso deve ser verdade de alguma forma, pois Cristo é o Criador do
mundo e a Palavra de Deus encarnada (Jo 1.1-3). Da queda até a
consumaçã o da redençã o, a mensagem bíblica está centrada na
pessoa de Cristo enquanto Salvador do mundo. Ele está
representado previamente em tipos e predito em profecia (Lc 24.25-
27). Qualquer resposta que possa ser dada à questã o do tema
principal da Bíblia, Cristo deve ser parte dela. Mas é possível
encontrar uma resposta mais concreta? Em que sentido nó s
devemos pensar em Deus como o centro?
A ideia do pacto também é sugerida como o tema mais importante
da Bíblia. Mais uma vez, o pacto é definitivamente um tema
fundamental. A Bíblia conta a histó ria dos pactos de Deus com Adã o
e Cristo (Rm 5.12). Ela nos conta como Adã o quebrou o pacto e
trouxe a raça humana, que ele representava, para o pecado e
julgamento. Noé, Abraã o, Moisés e Davi receberam promessas
pactuais que representavam uma renovaçã o do pacto feito com
Adã o e a promessa de um pacto melhor ainda por vir. Esse pacto
melhor, claro, é o novo pacto em Cristo. Ele veio para ser o nosso
novo representante, para ter sucesso onde Adã o falhou. Por meio da
sua morte na cruz ele nos redimiu do pecado e do julgamento, a
maldiçã o de Adã o. Na sua ressurreiçã o nó s recebemos a vida.
Portanto, da criaçã o à redençã o, toda a mensagem bíblica é pactual.
Assim como a redençã o, o pacto é definitivamente um tema
unificador da Bíblia, mas também parece ser inadequado para juntar
a abrangência completa da revelaçã o bíblica. A noçã o de pacto tende
a ser abstrata e difícil de ser definida por si só . O que é necessá rio é
um tema amplo o suficiente para envolver todas as ideias essenciais
da Bíblia, um tema que inclua redençã o, dê honra apropriada a
Cristo como o Criador e Salvador e também faça justiça à
centralidade da ideia pactual.
Um tema assim é o reino de Deus. Nele estã o incluídos todos os
outros temas fundamentais sugeridos e cada um recebe o espaço
adequado. Além disso, o reino de Deus inclui outros temas
importantes para a nossa compreensã o da Bíblia, como a criaçã o, os
ensinamentos bíblicos acerca dos anjos e demô nios, a doutrina do
julgamento final e da puniçã o eterna. O pró prio Cristo é um tema
central da Bíblia, porque enquanto rei ele é o centro do reino, é a sua
essência. A redençã o como um tema central é entendida como o
drama de Deus restaurando o reino ao seu propó sito original, pois
apó s Deus ter criado seu reino, o homem o levou ao pecado por meio
da rebeliã o pactual.
O tema do pacto encontra o seu lugar apropriado quando se percebe
que o pacto é a constituiçã o do reino, a definiçã o da relaçã o do reino
celestial com o seu povo. Na histó ria bíblica o reino e o pacto sã o
quase sinô nimos e ao menos concepçõ es mutuamente dependentes.
O pacto define e estabelece o reino. O reino na sua essência é uma
relaçã o pactual ampliada.
Gênesis começa com a criaçã o do reino de Deus e a rebeliã o do
homem sob Sataná s. O resto da Bíblia conta como Deus restaura o
seu reino para si mesmo e traz de volta o homem à posiçã o de gló ria
do reino que Deus designou originalmente para ele. A histó ria é a
estó ria da guerra de Deus contra Sataná s. Deus derrota-o e
reconstró i seu reino por meio de Cristo, trazendo sua proposta
original para a criaçã o.
O evangelho que Cristo pregou foi o evangelho do reino de Deus:
“Percorria Jesus toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando
o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e
enfermidades entre o povo” (Mt 4.23; 9.35; 4.17; 5.3,10; 6.33; 10.7;
12.28; 13.11; 16.19,28; 18.3-4; 19.14; 21.43; 24.14; 25.34). Paulo, o
grande apó stolo, pregou a mensagem do reino: “Por dois anos,
permaneceu Paulo na sua pró pria casa, que alugara, onde recebia
todos que o procuravam, pregando o reino de Deus, e, com toda a
intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas referentes
ao Senhor Jesus Cristo” (At 28.30-31; 14.22; 19.8; 20.25; 28.23). O
ú ltimo livro da Bíblia celebra o estabelecimento eterno do reino de
Deus: “O sétimo anjo tocou a trombeta, e houve no céu grandes
vozes, dizendo: O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do
seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11.15; 1.9;
12.10). O final do livro de Apocalipse descreve a Nova Jerusalém, a
cidade celestial, o cumprimento do propó sito da criaçã o de Deus e a
manifestaçã o final do reino de Deus (Ap 21-22).
Como o “cabeça” do novo pacto, Cristo traz o reino de Deus,
cumprindo as promessas feitas a Abraã o e Davi, realizando tudo o
que Deus designou para o homem na criaçã o original. A tentativa de
Sataná s de destruir o reino é derrotada pelo Messias, que salva o
mundo e estabelece o reino eterno.
Portanto, o reino pactual de Deus é o tema central da revelaçã o
bíblica. Todos os outros temas sugeridos sã o incluídos naturalmente
nele, visto que o pacto é a constituiçã o do reino. Cristo é o rei e a
redençã o é a obra de Deus para restaurar o reino, de forma que
enquanto vice-regente de Deus, o homem pode cumprir o seu
propó sito original.
 

CAPÍTULO DOIS: O QUE É UM PACTO? (PARTE 1)


 
Quando nó s dizemos que o reino de Deus é um reino pactual, nos
referimos ao fato de que o pacto define a relaçã o de Deus com o
homem, e assim, o pacto é a “constituiçã o” do reino. Mas nó s
devemos considerar mais especificamente o que vem a ser um
pacto. Para começar, é importante entender a essência do pacto,
pois ela é frequentemente mal interpretada. À s vezes até mesmo
estudiosos da Bíblia dizem erroneamente que a ideia bíblica do
pacto é essencialmente a mesma de um contrato. Isso nã o é verdade.
O pacto nã o é um tipo contratual de relacionamento que dura
somente enquanto as duas partes conseguem algum tipo de
benefício mú tuo.
Para discernir a essência de uma relaçã o pactual nó s precisamos
apenas considerar o livro de Deuteronô mio, um dos primeiros livros
da Bíblia e que enfatiza o pacto. Deuteronô mio mostra claramente
que a essência do pacto é o amor. O amor de Deus por seu povo é a
base do seu chamado. Eles sã o compelidos a responder com amor,
expresso pela lealdade ao pacto estabelecido entre eles.
Porque tu és povo santo ao SENHOR , teu Deus; o SENHOR , teu
Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo pró prio, de
todos os povos que há sobre a terra. Nã o vos teve o SENHOR
afeiçã o, nem vos escolheu porque fô sseis mais numerosos do que
qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, as porque o
SENHOR vos amava e, para guardar o juramento que fizera a
vossos pais, o SENHOR vos tirou com mã o poderosa e vos resgatou
da casa da servidã o, do poder de Faraó , rei do Egito. Saberá s,
pois, que o SENHOR , teu Deus, é Deus, o Deus fiel, que guarda a
aliança e a misericó rdia até mil geraçõ es aos que o amam e
cumprem os seus mandamentos; e dá o pago diretamente aos
que o odeiam, fazendo-os perecer; nã o será demorado para com
o que o odeia; prontamente, lho retribuirá . Guarda, pois, os
mandamentos, e os estatutos, e os juízos que hoje te mando
cumprir. Será , pois, que, se, ouvindo estes juízos, os guardares e
cumprires, o SENHOR , teu Deus, te guardará a aliança e a
misericó rdia prometida sob juramento a teus pais; ele te amará ,
e te abençoará , e te fará multiplicar; também abençoará os teus
filhos, e o fruto da tua terra, e o teu cereal, e o teu vinho, e o teu
azeite, e as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas, na terra que,
sob juramento a teus pais, prometeu dar-te. (Dt 7.6-13)
 
Nesses versículos nó s vemos que a origem do pacto é o amor de
Deus por Abraã o e sua descendência. Deus determinou abençoar os
filhos de Israel e fazer deles seu pró prio povo. Ele nã o os escolheu
como se tivesse fazendo um bom negó cio. Nã o há nada contratual
aqui. Em graça ele se determinou a amá -los e a conceder-lhes a sua
bênçã o.
Mas o amor requer mutualidade. É uma via de mã o dupla. Assim,
Deus pede que os filhos de Israel também o ame m .
Ouve, Israel, o SENHOR , nosso Deus, é o ú nico SENHOR . Amará s,
pois, o SENHOR , teu Deus, de todo o teu coraçã o, de toda a tua
alma e de toda a tua força. (Dt 6.4-5)
Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR requer de ti? Nã o é que
temas o SENHOR , teu Deus, e andes em todos os seus caminhos, e
o ames, e sirvas ao SENHOR , teu Deus, de todo o teu coraçã o e de
toda a tua alma, para guardares os mandamentos do SENHOR e os
seus estatutos que hoje te ordeno, para o teu bem? (Dt 10.12-13)
 
Diferente de um pacto, um contrato persiste apenas se ambas as
partes desfrutam os benefícios do relacionamento. A condiçã o de ser
proveitosa para as duas partes as mantém ligadas. Por outro lado,
um pacto é um compromisso de amor. Desde que ele cria um
relacionamento fundamentalmente diferente da relaçã o que só
busca benefícios mú tuos de um contrato, ele deve ser estabelecido
de uma maneira diferente. Na Bíblia, um pacto apenas pode ser feito
e selado com um juramento, o que geralmente envolve uma
cerimô nia como uma circuncisã o (ou seja, no Antigo Israel, o ato de
circuncidar uma criança é constituído com um pacto de juramento).
O juramento é tã o importante em um pacto que a pró pria palavra é
algumas vezes empregada como sinô nimo de pacto (cf. Dt 29.12,
14).
Entã o o que vem a ser um juramento? É uma promessa auto-
amaldiçoadora. Quando alguém faz um juramento, promete
preservar a relaçã o pactual e sela a promessa com palavras que lhe
traz uma maldiçã o se ele falhar em mantê-la. A maldiçã o do pacto é a
morte.
Muitos cristã os podem nã o perceber que uma maldiçã o é parte dos
votos tradicionais de um casamento cristã o. “Até que a morte nos
separe” significa “até a morte”, mas inclui a ideia que nada além da
morte pode quebrar um pacto, implicando a maldiçã o da morte para
aquele que for desleal ao juramento. Outro aspecto dos votos
tradicionais de um casamento ilustra o tipo de compromisso
demandado em um pacto. Por exemplo: nó s dizemos “na saú de e na
doença”, “para o melhor e para o pior”, o que testemunha o fato que
até mesmo um relacionamento pode ser nã o proveitoso para nó s.
Nó s nã o abandonaremos nosso parceiro por causa da economia ou
outras dificuldades. O amor matrimonial é autosacrificial. Nã o há
base para dissolver uma relaçã o, exceto quando uma das partes que
fez os votos os trai e questiona toda a relaçã o. A doença, a pobreza
ou uma personalidade desagradá vel nã o podem desfazer um
juramento. No casamento cada pessoa faz um juramento de se doar
sacrificialmente para o outro, sem pensar em proveito pessoal.
A ilustraçã o do casamento é especialmente apropriada, pois a
relaçã o de Deus com Israel é comparada à de marido e mulher (Ez
16). Enquanto Israel for fiel ao amor do pacto — e fiel aqui nã o
significa perfeiçã o sem pecado, e sim fidelidade e amor de
arrependimento — Deus nunca o deixará ou abandonará . Seu
compromisso de abençoá -lo nã o pode se abalar.
Mas nã o é no relacionamento de Deus com Israel que nó s vemos o
significado completo do amor, pois a Bíblia nã o revela o significado
total do amor pactual até a vinda de Cristo. É na relaçã o entre Cristo
e o Pai que nó s vemos primeiramente que o amor pactual é a eterna
sociedade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também
comigo os que me deste, para que vejam a minha gló ria que me
conferiste, porque me amaste antes da fundaçã o do mundo… Eu
lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de
que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja. (Jo
17.24, 26)
Na relaçã o de Cristo com o Pai nó s entendemos que as palavras de
Joã o “Deus é amor” tem um significado trinitariano. Deus é amor
porque o Pai, o Filho e o Espírito Santo compartilham um amor
eterno uns pelos outros. Cada uma das três pessoas da Trindade é
inteiramente dedicada a abençoar e glorificar umas à s outras (cf. Jn
7:18; 8:50, 54; 11:4; 12:28; 13:31-32; 14:13; 16:14;17:1, 4, 5, 22,
24). Na sociedade do amor trinitariano o pró prio Deus é o rei
absoluto e a relaçã o entre as Pessoas da Trindade é o verdadeiro
pacto.
Isso tem um significado profundo para a histó ria bíblica da criaçã o e
da redençã o. Deus criou o mundo como o seu reino a fim de
manifestar a sua gló ria (cf. Sl 8, 19). Desde que as três pessoas da
Trindade constituem um reino pactual de amor, assim também o
mundo criado é um reino pactual em que Deus mandou Adã o e Eva
para governar. O seu governo deveria ser baseado no amor a Deus e
um pelo outro. Eles deveriam proteger o mundo criado e cuidar dele
de modo que ele fosse o fruto da gló ria de Deus (Gn 2.15). A queda
do homem foi uma rejeiçã o ao amor de Deus e uma rejeiçã o do
caminho do amor entre os homens. A violência do mundo pré-
dilú vio é o clímax da rebeliã o da queda e da consequência ló gica da
rejeiçã o do amor de Deus.
Redençã o significa a restauraçã o do propó sito pactual de Deus. O
homem é restaurado ao seu chamado original segundo a imagem de
Deus, ou seja, o homem é chamado de volta à sociedade do amor
pactual do Pai, do Filho e do Espírito. O mundo criado também deve
ser restaurado ao seu propó sito original da revelaçã o da gló ria de
Deus por meio da organizaçã o pactual da imagem de Deus. O reino
da justiça e do amor deve chegar à realizaçã o histó rica para que a
mentira de Sataná s e a tentaçã o no Jardim possam ser totalmente
derrotadas para a gló ria de Deus. A redençã o é cumprida no reino de
Deus. Deus derramou seu amor pactual sobre nó s em Jesus para que
por meio da fé nele nó s possamos ser recriados como seus filhos e
trazidos para uma sociedade de amor eterno.
A Bíblia é a histó ria do reino pactual de Deus — sua criaçã o, sua
corrupçã o pelo pecado e pela loucura, e a redençã o graciosa de Deus
desse reino para o louvor e gló ria da sua graça. O tema central da
Bíblia, o reino pactual de Deus, revela a natureza do Deus Triú no
como um Deus de amor, que chamou o homem para compartilhar
com ele uma sociedade de amor.

CAPÍTULO TRÊS: O QUE É UM PACTO? (PARTE 2)


 
A essência do pacto de Deus é o amor, mas a ideia de um pacto
também implica em um relacionamento formal. O compromisso
mú tuo de uma relaçã o de amor pode ser expresso de uma forma
legal, que torna as obrigaçõ es do amor explícitas. Um pacto é um
compromisso formal de amor.
Novamente a analogia do casamento é ú til. O fato de que um voto de
casamento é uma cerimô nia legal nã o difama o amor expresso aqui.
Pelo contrá rio. Se um homem professa amor a uma mulher, mas se
recusa a assumir obrigaçõ es legais, a realidade do seu amor é muito
questioná vel. O amor de Deus pelo homem é expresso na forma legal
de um pacto em que Deus assume obrigaçõ es para si mesmo e
convoca o homem a ser leal ao pacto. Portanto, o mesmo tem uma
estrutura clara e pode ser expresso em uma linguagem formal e
legal.
O livro de Deuteronô mio, o livro do pacto de amor, nos fornece
nossa compreensã o sobre ele. O livro inteiro é um documento
pactual, estruturado nos termos do plano de cinco pontos que é
usado em toda a Bíblia para definir o pacto. Ray Sutton explica o
esboço de Deuteronô mio da seguinte maneira:
 Transcendência (Dt 1.1-5). O pacto começa com um
reconhecimento do senhorio absoluto de Deus. Ele garante
o pacto. Ele é o rei absoluto.
 Hierarquia (Dt 1.6; 4.49). Nessa seçã o de Deuteronô mio,
Moisés descreve a histó ria de Israel nos termos da liderança
e das bênçã os de Deus. Deus deu a Israel líderes,
representantes do pacto. Quando Israel foi fiel a Deus, ele
obedeceu aos seus líderes.
 É tica (Dt 5-26). A seçã o central do pacto define como o povo
de Deus deve viver para que possa ser a sua naçã o santa. O
relacionamento de Deus com seu povo é ético. Eles devem
ser justos para desfrutar as bênçã os do pacto.
 Juramento (Dt 27-30). O pacto promete bênçã os para
aqueles que obedecerem à lei e maldiçõ es para quem se
rebelar. Quando o povo de Deus faz o juramento do pacto,
ele clama para que Deus o amaldiçoe se ele desobedecer e o
abençoe se ele obedecer.
 Sucessã o (Dt 31-34). A seçã o final do pacto diz respeito aos
herdeiros das bênçã os do pacto. Deus pretende que o pacto
continue de geraçã o em geraçã o nas famílias religiosas.
Treinar as crianças para que elas sigam a Deus e trabalhar
para prosseguir com as bênçã os no futuro é essencial para a
obediência verdadeira ao pacto. [1]
É claro que o plano de cinco pontos é agora o ú nico plano do pacto
com validade bíblica. Em um estudo indutivo de Levítico e
Deuteronô mio, James Jordan sugere que organizaçõ es triplas
(Trindade), quá druplas (fundaçõ es mundiais), quíntuplas
(construçã o de casas), sêxtuplas (homem), séptuplas (sá bado),
décuplas (lei) e duodécuplas (pessoas pactuais) do material pactual
também sã o possíveis. [2] De qualquer forma, ainda que Jordan nã o
acreditasse que a divisã o do pacto em cinco partes tivesse qualquer
prioridade real sobre quaisquer outros planos possíveis, ele mostra
que o plano de cinco pontos é usado com maior frequência por
Moisés e nã o é uma invençã o arbitrá ria dos expositores. [3]
Além disso, de acordo com North, [4] Sutton [5] e Jordan, [6] os Dez
Mandamentos sã o estruturados como uma repetiçã o dupla do plano
de cinco pontos do pacto.
1. O primeiro mandamento, ao ensinar que só Deus deve ser
adorado, chama-nos a honrar o transcendente Criador e
Redentor. Proibindo o assassinato, o sexto mandamento
protege a imagem do Deus transcendente.
2. O segundo e o sétimo mandamentos podem ser
encontrados em toda a Bíblia na conexã o entre a idolatria e
o adultério. Ambos os pecados sã o perversõ es da submissã o
do Deus decretado.
3. A terceira seçã o do pacto, a ética, trata de limites, que
também sã o o assunto do oitavo mandamento, “Nã o
furtará s”. O terceiro mandamento exige que nó s usemos o
nome de Deus justamente, é um chamado à obediência da
sua lei, segundo a qual nó s mostramos a gló ria do seu nome
nas nossas vidas.
4. O quarto e o nono mandamentos sã o ambos relacionados à s
sançõ es visto que o sá bado é um dia de julgamento em que
o homem traz suas obras para serem avaliadas por Deus. A
ordem de nã o dizer falso testemunho nos coloca no tribunal
participando do processo judicial.
5. O quinto e décimo mandamentos correspondem à quinta
parte do pacto, a herança e continuidade. No quinto, os
filhos, os futuros herdeiros, sã o aconselhados a como obter
uma herança no Senhor. No décimo nó s somos proibidos de
cobiçar, um pecado que leva à destruiçã o da herança de
vá rios modos.
 
Nó s vimos que o plano de cinco pontos do pacto é: 1) Na verdade o
esboço de Deuteronô mio, 2) repetidamente usado em Levítico e
Deuteronô mio e 3) o plano estruturado dos Dez Mandamentos.
Portanto, ele pode ser utilizado como uma ferramenta para a
exegese bíblica e um relato do pacto para os detalhes concretos da
vida cotidiana. Jordan lista os cinco pontos em termos amplos que
esclarecem as implicaçõ es gerais de cada ponto.
1. Iniciaçã o, anú ncio, transcendência, vida e morte, idolatria
pactual.
2. Reestruturaçã o, ordem, hierarquia, idolatria litú rgica,
proteçã o da noiva.
3. Distribuiçã o de uma garantia, incorporaçã o, propriedade,
lei em geral como manutençã o da garantia.
4. Implementaçã o, bênçã os e maldiçõ es, testemunhas,
julgamentos sabatinais.
5. Sucessã o, aperfeiçoamentos artísticos, respeito pelos
líderes, cobiça. [7]
 
Nó s usaremos o plano de cinco pontos do pacto para ajudar a
analisar os vá rios pactos na Bíblia de maneira que possamos obter
uma compreensã o detalhada de cada era pactual. Embora a
estrutura geral do pacto seja a mesma, as relaçõ es pactuais crescem
com o tempo. Para ver as implicaçõ es do pacto para cada era e
observar o crescimento do pacto é importante considerar cada
ponto em todos os pactos existentes na Bíblia.
Como podemos ver, o primeiro ponto, o senhorio do Deus Triú no, é
essencialmente o mesmo em todos os pactos. De qualquer forma,
Deus se revela em cada um deles de maneiras tã o diferentes que o
seu povo chega a uma compreensã o profunda dele. O segundo ponto
diz respeito ao sistema representativo estabelecido na Terra. Em
cada época existem representantes na igreja, no Estado e na família
que sã o líderes apontados por Deus para o seu povo, mas os
detalhes do sistema mudam nas diferentes épocas. O terceiro ponto
cobre os mandamentos detalhados para a vida diá ria que Deus dá ao
seu povo. Esses também variam de acordo com o tempo, mesmo que
o cerne da justiça exigida pela lei de Deus seja imutá vel. O quarto,
bênçã os e maldiçõ es, varia dependendo da situaçã o atual do povo de
Deus. Além disso, o quarto ponto lida com as cerimô nias pactuais, a
nossa renovaçã o do juramento, os detalhes que mudam muito de
pacto para pacto. O quinto ponto, que trata da herança, varia com o
segundo e o quarto pontos de acordo com a situaçã o pactual do
povo.
Antes de considerar cada era pactual em detalhes, é importante
entender um pouco da estrutura pactual completa da Bíblia.
 

CAPÍTULO QUATRO: A HISTÓRIA DOS PACTOS (PARTE 1)


 
A doutrina do pacto é o que dá estrutura para a histó ria bíblica. A
relaçã o de Deus com o homem era pactual desde o início, mas Adã o
quebrou o pacto logo no primeiro Sabá . Esse poderia ter sido o fim
da histó ria, mas Deus é um Deus de graça. Ele renovou seu pacto
com o homem e prometeu estabelecer um pacto totalmente novo
por meio de um novo Adã o (Gn 3.15). O Salvador prometido seria a
cabeça da nova humanidade, que cumpriria o propó sito de Deus em
criar o mundo como seu reino (cf. Rm 5.12-25).
Quando lemos sobre o pecado original em Gênesis 1-3, vemos como
o homem se rebelou contra Deus ao quebrar o seu pacto — ainda
que a palavra “pacto” nã o seja usada de fato nesses capítulos. Nó s
entendemos que o relacionamento original era pactual porque
vemos todos os elementos do pacto na narrativa e Oseias se refere a
esse arranjo como um pacto (Os 6.7). [8] Mais adiante, quando a
palavra “pacto” é usada pela primeira vez na Bíblia em Gênesis 6.18
e 9.9-17, fica claro que o pacto com Noé é uma renovaçã o redentora
do pacto original com Adã o.
Abençoou Deus a Noé e aos seus filhos e lhes disse: Sede
fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra. Pavor e medo de vó s
virã o sobre todos os animais da terra e sobre todas as aves dos
céus; tudo o que se move sobre a terra e todos os peixes do mar
nas vossas mã os serã o entregues. Tudo o que se move e vive ser-
vos-á para alimento; como vos dei a erva verde, tudo vos dou
agora. Carne, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, nã o
comereis. Certamente, requererei o vosso sangue, o sangue da
vossa vida; de todo animal o requererei, como também da mã o
do homem, sim, da mã o do pró ximo de cada um requererei a vida
do homem. Se alguém derramar o sangue do homem, pelo
homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a
sua imagem. Mas, sede fecundos e multiplicai-vos; povoai a terra
e multiplicai-vos nela. (Gn 9.1-7)

O pacto original com Adã o é o pacto bá sico para toda a era que
começa com a Criaçã o e perdura até a Encarnaçã o de Cristo. Paulo
aponta isso quando explica a histó ria completa do mundo nos
termos de dois homens: Adã o e Cristo (Rm 5.12-21; 1Co 15.22-49).
Adã o era o “cabeça” do antigo pacto. Cristo é o “cabeça” do novo
pacto. Adã o era o vice-gerente de Deus, mas falhou e levou os seus
filhos ao pecado (Rm 5.12). Cristo é o vice-gerente de Deus e
guardou o pacto e ganhou as bênçã os, tanto para si mesmo quanto
para a sua descendência (Rm 5.19; cf. Is 53.10-12).
Desde a época da queda de Adã o até a vinda de Cristo a Bíblia traz
seis pactos secundá rios adicionais. Esses pactos sã o renovaçõ es e
extensõ es do pacto com Adã o, sendo que cada um ressalta um
aspecto particular da responsabilidade do homem como imagem de
Deus. No Jardim, Adã o era um sacerdote cuja responsabilidade era
proteger o Jardim e sua esposa, Eva. Ele era também um rei a quem
foi dado domínio sobre o mundo. E ele era um profeta com quem
Deus falou. Os pactos que seguem apó s a era do antigo pacto
mostram o crescimento da humanidade redimida em um
relacionamento pactual com Deus. Em graça redentora Deus leva o
homem da imaturidade no Jardim ao processo de crescimento
pactual, levando à maturidade em Cristo.
Os seis “subpactos” na era do antigo pacto desenvolvem-se em dois
ciclos do sacerdó cio ao reinado e ao profético. Esses “subpactos” sã o
novas versõ es do pacto original de Adã o, e nã o pactos inteiramente
novos ou independentes. Cada um deles renova o pacto de Adã o e
acrescenta uma promessa de redençã o, uma promessa que
desenvolve e cresce de pacto em pacto. Ainda que esses nã o tragam
uma “nova criaçã o”, eles fazem mudanças significativas na
administraçã o divina dos assuntos do homem no sistema-mundo
adâ mico. Eles guiam a histó ria na direçã o de Cristo até que ele venha
para cumprir todas as promessas da salvaçã o (2Co 1.20). Eles
mostram o progresso histó rico do propó sito de Deus para a criaçã o.
Sataná s tentou o homem a pecar e o arruinou enquanto vice-gerente
de Deus, mas em Cristo, a graça de Deus restaurou o homem de
forma que ele pode trabalhar na histó ria pelo poder do Espírito
Santo para trazer o reino de Deus.
 
O primeiro pacto sacerdotal: O pacto adâmico

O primeiro entre esses pactos pó s-queda nã o é explicitamente


chamado de pacto no texto da Escritura. Como o pacto original com
Adã o, ele deve ser deduzido do contexto. Apó s o pecado de Adã o e
Eva, Deus apareceu no Jardim e confrontou-os pela sua rebeliã o,
mas ele nã o instituiu a maldiçã o do pacto na sua totalidade. A morte
pactual, física e judicial começou, mas foi dado também o tempo e a
promessa de salvaçã o. Adã o e Eva morreram pactualmente, pois
foram expulsos do Jardim, para longe de Deus. De qualquer forma, a
graça é vista no fato de que eles foram aparentemente permitidos a
oferecer sacrifícios perto do Jardim (cf. Gn 4.3). Eles também
começaram a morrer fisicamente, mas pela graça de Deus foram
permitidos a viver tempo suficiente para ter descendentes. Deus
prometeu que a semente da mulher traria salvaçã o (Gn 3.15).
A graça de Deus pode ser vista também em Deus fazer vestimentas
de peles para cobri-los (Gn 3.21). A pele de animal aponta para o
fato de Adã o e Eva morrerem judicialmente perante seus
representantes pactuais: os animais mortos. Isso estabeleceu o
sistema sacrificial do velho pacto que prevalece até Cristo. Nó s nã o
sabemos os detalhes dos arranjos pactuais dessa época, mas parece
estar claro que Caim e Abel sabiam que deveriam oferecer sacrifícios
animais. Gênesis diz explicitamente que Deus nã o aceitou Caim ou
suas ofertas sem derramamento de sangue, enquanto ele aceitou
Abel e sua oferta (Gn 4.4-5; cf. Hb 11.4). Noé também entendeu a
ideia de sacrifício animal e até fez distinçã o entre animais puros e
impuros (Gn 7.1-2).
O primeiro pacto enfatizou a responsabilidade sacerdotal do
homem, pois a obra primá ria de Adã o no início era proteger o
Jardim. Apó s ter falhado nessa tarefa, ele foi afastado. De qualquer
forma, seus filhos continuaram a ter essa responsabilidade, que
Caim e sua descendência abandonaram. Por outro lado, os
seguidores de Sete sã o caracterizados pela sua adoraçã o a Deus (Gn
4.26). A linhagem piedosa de Sete apostatou ao se casar com
mulheres incrédulas e abandonar a adoraçã o ao Deus verdadeiro
(Gn 6.1-5).
A primeira era pactual chega ao fim com o dilú vio. Deus trouxe
julgamentos pactuais contra um mundo de homens que, com
exceçã o de Noé e sua família, tornaram-se como Caim e Lameque.
Assim como no princípio, quando trouxe o julgamento, ele também
concedeu graciosamente um novo pacto.
 
O primeiro pacto régio: O pacto noaico
 
O pacto com Noé é a segunda renovaçã o pactual do mundo de Adã o
apó s a queda. O que ele traz de novo é que é dado ao homem o
direito de agir como um juiz (Gn 9. 5-6), algo nã o permitido
anteriormente, quando Caim matou Abel (Gn 4.15). Esse pacto
enfatiza a responsabilidade do homem enquanto rei. Nã o que as
obrigaçõ es sacerdotais sejam esquecidas. Mas, pela primeira vez na
histó ria, é exigido do homem que ele administre a puniçã o capital.
Isso é uma bênçã o e indica crescimento histó rico. De qualquer
forma, tal era pactual também termina ferindo precisamente a á rea
em que o homem era abençoado: a autoridade de governar. O
homem tentou elevar seu trono à altura do céu por meio da torre de
Babel (Gn 11.1). Deus julgou o pecado do homem destruindo a torre
e dispersando os homens por todo o mundo.
 
O primeiro pacto profético: O pacto abraâmico
 
Mais uma vez, apó s o julgamento, Deus graciosamente renovou seu
pacto com o homem, de forma que pudesse cumprir a promessa da
salvaçã o e restaurar o reino que Sataná s tentava arruinar tentando o
homem a se rebelar. Deus elegeu Abraã o e estabeleceu a sua
descendência como o seu povo sacerdotal do pacto. Desse ponto da
histó ria até a chegada do novo pacto o homem deve se aproximar de
Deus por meio do povo de Abraã o — “a salvaçã o vem dos judeus” (Jo
4.22b). O mundo de Adã o continua, mas mudou significativamente,
pois o pacto com Abraã o se expande pela promessa da salvaçã o mais
do que a promessa pó s-queda ou o pacto com Noé. É dada a Abraã o
a visã o de um mundo redimido do pecado e restaurado por Deus:
“em ti serã o benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3b; cf. Gn
18.18; 26.4; 28.14).
A possibilidade da bênçã o global é a característica do período
profético. Abraã o é certamente visto como um sacerdote e como um
rei, visto que ele oferece sacrifícios, lidera um exército e tem a
promessa de domínio sobre as naçõ es e reis e a sua descendência
(Gn 22.3; 14.13; 17.5-6). Mais importante, Abraã o é o primeiro
homem da Bíblia a ser chamado de profeta: “ele é profeta” (Gn 20.7).
As bênçã os proféticas de Isaque e Jacó sã o características relevantes
na histó ria de Gênesis. O patriarca José era um homem de sabedoria
profética que trouxe as bênçã os de Abraã o para os egípcios.
Assim como os pecadores antes deles, a descendência de Abraã o
quebrou o pacto e tornou-se idó latra no Egito (Js 24.14). Portanto,
Deus trouxe o julgamento pactual sobre seu povo e eles foram
vendidos como escravos para Faraó . Quando eles clamaram a Deus,
ele graciosamente ouviu suas oraçõ es e libertou-os por meio de
Moisés e Arã o.

CAPÍTULO CINCO: A HISTÓRIA DOS PACTOS (PARTE 2)


 
O segundo pacto sacerdotal: O pacto mosaico
 
Embora os hebreus, como Adã o, tenham se rebelado contra o pacto
de Deus, ele mais uma vez buscou o homem graciosamente e
garantiu a ele um novo pacto. O pacto dado por meio de Moisés era
consideravelmente mais avançado que qualquer outro até aquela
época, em parte porque Israel era agora uma naçã o que precisava de
uma declaraçã o mais detalhada e completa do pacto. A promessa a
Abraã o que a sua descendência seria como as estrelas do céu estava
sendo cumprida (Dt. 1.10; 10.22; cf. Hb. 11.12).
O pacto mosaico deu a Israel nã o só a promessa da salvaçã o e um
sistema sacrificial, como também providenciou uma declaraçã o dos
mandamentos e estatutos de Deus que incluíam suas aplicaçõ es ao
governo civil, algo que seria necessá rio na nova terra. De qualquer
forma, seria errado pensar na lei civil teocrá tica como sendo a
característica primá ria do pacto mosaico, quando ela claramente
nã o é. Sã o dedicados mais espaço e preocupaçã o ao taberná culo, à s
leis de limpeza, ao sistema sacrificial e ao calendá rio festivo do que
à s leis civis. As pró prias leis civis também contêm muita coisa que é
“sacerdotal” em cará ter. Com a lei de Moisés nó s alcançamos um
novo está gio de desenvolvimento pactual. As responsabilidades de
rei e de profeta do homem foram reveladas nos pactos passados, de
modo que todos os três aspectos da obra do homem, enquanto
imagem de Deus, aparecem na lei, mas o sacerdotal é o mais
importante.
Acima de tudo, o pacto mosaico diz respeito à dá diva do taberná culo
— o lugar da habitaçã o de Deus entre a naçã o de Israel. Pela
primeira vez na histó ria pó s-queda Deus habitou entre os homens, e
estes, representados pelo sumo sacerdote, tinham permissã o para
estar em sua presença. De qualquer forma, a naçã o de Israel nunca
foi realmente fiel ao pacto mosaico. Nos dias de Josué eles
guardaram a lei do Senhor, mas apó s a morte dele, eles
constantemente vagaram para longe dos mandamentos de Deus,
como mostram os livros de Juízes e 1 Samuel. Seu fracasso em
guardar o pacto foi especialmente uma falha no sentido de adoraçã o
ao verdadeiro Deus de acordo com os seus mandamentos. Isso é
visto no julgamento final dessa era, que veio depois que o sacerdote
Eli e seus filhos macularam extremamente a adoraçã o a Deus (1Sm
2.22-36; 3.11-14).
O julgamento pactual, contudo, veio de forma misericordiosa. Por
causa de apostasias anteriores, os israelitas foram repetidamente
oprimidos por diferentes naçõ es e se arrependeram da sua idolatria
pecaminosa (cf. Jz 2.1-23). Porém, dessa vez, o pró prio Deus,
simbolicamente falando, mandou os filisteus para o cativeiro
quando a arca tomada durante uma batalha (1Sm 4 ss.). A arca de
Deus nã o retornou ao seu lugar apropriado até que um novo pacto
fosse feito.
 
O segundo pacto de rei: O pacto davídico
Saul, líder de Israel, foi uma figura transitó ria de uma falha
transparente. Seu reino foi o fim do pacto antigo e a preparaçã o para
um mais novo. A era do pacto mosaico terminou quando Deus
trouxe um novo líder pactual, Davi, e um novo pacto, que incluiu a
promessa davídica do Messias (2Sm 7). A era moná rquica também
trouxe uma forma mais gloriosa de adoraçã o, o templo. Salomã o
tornou-se o maior rei da antiga era pactual, o maior “Adã o” desde o
homem original do Jardim. Mas assim como seu pai, Salomã o caiu.
Ele desobedeceu a todas as três proibiçõ es mosaicas em relaçã o aos
monarcas: contra a criaçã o de um exército agressivo, a poligamia e a
cobrança opressiva de impostos (Dt 17.16-17). Nã o há dú vidas de
que Salomã o também esqueceu o mandamento de que o rei deve
escrever sua pró pria có pia da lei e lê-la diariamente (Dt 17.18-20).
Tudo isso levou Salomã o a se comprometer de fato com o que ele já
havia se comprometido em seu coraçã o: idolatria (1Rs 11.10). Como
resultado do pecado de Salomã o, o reino foi dividido em norte e sul
(1Rs 11.11; 12.22-25).
O reino do norte nã o teve sequer um líder piedoso. Desde o início,
todo rei foi idó latra e desobediente a Deus (1Rs 12.26-33; 15.34;
16.2-3; 16.18-19, 25-26, 31; 22.51-52; 2Rs 3.1-3; 10.29, 31; 13.1-2,
10-11; 14.23-24; 15.8-9, 17-18, 23-24, 27-28; 17.20-23).
Eventualmente a grande maioria das pessoas piedosas do reino do
norte migrara para Judá , de forma que todas as doze tribos foram
preservadas (2Cr 11.13-17; 15.8-9; 30.1-11, 18). Por volta do ano
720 a.C., o reino apó stata do norte foi carregado para o cativeiro
para se tornar escravo em um novo Egito, a Assíria (2Rs 17.5-6;
18.9-12).
Assim como sua irmã , Judá gradativamente abandonou o pacto e foi
carregada para o cativeiro (2Rs 24.1-5; 25.1-21; 2Cr 36.6, 15-21). Os
descendentes de Abraã o voltaram para o lugar de onde partiram:
escravidã o em uma terra estrangeira. Assim como eles nunca foram
abandonados no Egito, na Babilô nia Deus permaneceu com eles. E
quando eles se arrependeram, Deus ouviu as suas oraçõ es e apó s
setenta anos, libertou-os e restaurou-os à sua terra (Dn 9.1-27; 2Cr
36.22-23; Ez 1.1-4).
 
O segundo pacto profético: O pacto da restauração

Pela ú ltima vez, na era do antigo pacto, Deus garantiu uma


renovaçã o do pacto adâ mico, que adiou o julgamento final e
expandiu a promessa da salvaçã o. Esse pacto de restauraçã o
prevaleceu até a vinda de Cristo. Deus prometeu aos israelitas que
eles voltariam para sua terra apó s setenta anos de cativeiro (cf. Jr
25.11-12; 29.10). Nessa época ele faria um novo pacto com eles (Ez
37.21-28). A era do novo pacto da restauraçã o foi inaugurada pelos
profetas Ageu e Zacarias (cf. Es 5.1). Assim como outros novos
pactos, havia uma nova casa de Deus (Es 1.3; 3.1; 5.1) e um novo
sacerdó cio (Es 2.62-63; 3.8-10; 6.18, 20; 7.11). A visã o do templo de
Ezequiel (40-48) ensinou ao povo de Deus que havia um templo
celestial de grande gló ria que era meramente simbolizado pelo
templo terreno. Mas, pela primeira vez na sua histó ria, esse templo
celestial foi aberto para que todos pudessem falar e ver. Os filhos de
Abraã o também receberam um novo nome. A partir desse momento,
eles foram chamados de judeus.
Também houve certas mudanças na administraçã o do pacto de
Deus. Por exemplo, a terra de Israel nã o poderia ser restaurada à s
famílias de acordo com os lotes dos dias de Josué (Js 11.23; 13.1;
15.20), nem haveria mais rei em Israel. Daniel instruiu os judeus que
eles estariam sob o domínio de reinos gentios até a vinda do Messias
(Dn 2.7). Tudo isso significa que esses muitos aspectos da lei de
Moisés nã o poderiam mais ser literalmente aplicados.
Como no primeiro período profético, a obra de evangelizar entre as
naçõ es do mundo também era essencial aqui. Dois livros inteiros sã o
dedicados ao ministério dos gentios: Jonas (escrito na verdade no
fim do período de Davi) e Ester. Esdras e Neemias compartilham
uma perspectiva internacional que é significativamente diferente
dos tempos dos reis. Os livros proféticos desse período — Ageu,
Zacarias e Malaquias — buscam o estabelecimento do reino global
de Deus por meio do testemunho de Israel (cf. Ag 2.5-7; 2.21-23; Zc
2.11; 4.12; 8.22-23; Ml 4.2).

O novo pacto: Cristo como Profeta, Sacerdote e Rei


 
Incluindo a era do pacto adâ mico pré-queda, existem sete eras
pactuais no antigo pacto. Em todas elas existem certas
características. Todas lidam com “o mundo de Adã o”, a primeira
criaçã o. A vinda de Cristo traz um novo pacto e um novo mundo. “As
coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5.17b).
Jesus, o novo Adã o, cumpre as exigências justas do pacto de Deus e
traz bênçã os para uma nova humanidade. Nã o há mais necessidade
de sacrifícios animais porque o seu sacrifício resolveu o problema
do pecado de uma vez por todas (Hb 10.1-14). O pró prio mundo,
que “está sujeito à vaidade” por causa do pecado de Abraã o (Rm
8.20), foi reconciliado com Deus pela obra expiató ria de Cristo (Cl
1.20) e foi restaurado para a sua pureza cerimonial original.
Portanto, nã o podem mais existir terras impuras ou lugares santos.
Também há uma nova raça humana para ocupar o novo mundo. Essa
nova raça, incluindo mulheres e gentios, é formada por sacerdotes
de Deus. Todos têm acesso igual ao trono de Deus (Ef 2.12-22; Gl
3.28; Cl 3.11), pois Cristo é o Grande Sumo Sacerdote que traz seu
povo para Deus.
Agora que o mundo foi redimido e o homem foi salvo pela morte e
ressurreiçã o de Jesus Cristo, o homem pode herdar a gló ria
originalmente pretendida pelo Pai celestial. Na pessoa de Cristo, um
Homem glorificado senta-se à destra de Deus, governando o mundo
até que “haja posto todos os inimigos debaixo dos pés” (1Co 15.25;
Sl 110.1; Ef 1.22; Hb 1.13). Somente assim, quando a igreja, seu
corpo, tiver conquistado todas as naçõ es por meio da pregaçã o do
evangelho (Mt 28.18), Jesus poderá retornar em gló ria para o
julgamento final (1Co 15.23-28). A nova raça, convertida à fé em
Cristo, nã o está sem pecado, mas é justa pela graça de Deus e pelo
poder do seu Espírito. Eles foram salvos em Cristo para cumprir a
comissã o original de Adã o para submeter todas as coisas à gló ria de
Deus. O mundo será preenchido com homens e cada deserto será
transformado em um jardim e o potencial da criaçã o será
desenvolvido para o louvor do Criador. Entã o a histó ria pode chegar
a um fim quando Sataná s for totalmente derrotado, o homem
verdadeiramente salvo e Deus glorificado tanto como Criador
quanto Redentor.
O reino que começou no Jardim será cumprido e uma era totalmente
nova, a era do reino eterno, terá início. A nova humanidade herdará
seus corpos ressurretos e viverá com Deus em gló ria eterna. Quando
o pacto da criaçã o e da redençã o forem cumpridos, o homem será
glorificado com Cristo na Nova Jerusalém (Ap 21-22), mas isso nã o é
o fim. É o começo de algo novo, algo mais glorioso e maravilhoso do
que podemos imaginar.
 

CAPÍTULO SEIS: O PACTO ED ÊNICO


 
O pacto pré-queda com Adã o governa toda a era desde a criaçã o até
a vinda de Cristo. O novo pacto em Cristo é mais um cumprimento
do que uma substituiçã o do pacto original. Em outras palavras, toda
a histó ria bíblica do crescimento do reino é baseada no pacto do
É den dado em Gênesis 1-3. Se nó s nã o entendemos esses capítulos
adequadamente, nã o estamos aptos a entender o restante da
Escritura. Para começar nosso estudo, devemos considerar primeiro
a condiçã o do reino na época da criaçã o, os cinco pontos do pacto do
edênico e a responsabilidade do homem no pacto e no julgamento
de Deus.
 
O reino
 
Deus criou o mundo em seis dias. Por que seis dias? Porque sua obra
na criaçã o estabelece ao homem um padrã o a ser seguido, trabalhar
seis dias e descansar um dia (Ê x 20.9-11). Além disso, a obra do
homem deveria ser a continuaçã o da obra de Deus. O mundo era
escuro, sem forma e vazio no princípio (Gn 1.2). Por seis dias Deus
trabalhou para dar ao mundo luz, forma e seres viventes. A coroa da
sua criaçã o foi o homem, que foi encarregado de dar continuidade à
obra que Deus iniciou (Gn 1.26-28).
Quando Deus criou o homem, ele criou Adã o, o cabeça da raça,
primeiro. Entã o, Deus criou o lar de Adã o, o Jardim do É den,
enquanto Adã o assistia (Gn 2.8), dando a ele um exemplo de como
deveria trabalhar. O Jardim foi organizado com duas á rvores
especiais no centro, um muro ao redor delas e um portã o em frente.
Foi permitido ao homem comer livremente de qualquer á rvore do
Jardim, exceto da á rvore do conhecimento do bem e do mal (Gn
2.16-17). O homem tinha duas responsabilidades principais:
proteger o Jardim e cultivá -lo para que produzisse ainda mais frutos
(Gn 2.15).
Deus treinou Adã o para a vida familiar trazendo todos os animais
diante dele e deixando que ele lhes desse nome (Gn 2.19-20).
Nomear os animais significou mais do que pronunciar um som.
Significou determinar um “ró tulo” para cada animal, que os
descrevesse apropriadamente. Adã o aprendeu sobre cada um deles
e entendeu o propó sito de cada um no reino de Deus. Ele também
viu que os animais lembravam a si mesmo de muitas formas, mas
que havia uma distâ ncia biocultural imensurá vel entre ele e os
animais. Adã o percebeu que todos eles tinham pares, mas que ele
estava sozinho. Ele estava pronto para receber uma esposa que
pudesse amar. Sua oraçã o nã o pronunciada foi respondida e Deus
lhe deu Eva (Gn 2.21-23).
O mundo que Adã o e Eva governavam estava dividido em três
partes. O Jardim do É den era seu lar. Era também um santuá rio no
topo da montanha, onde eles encontravam Deus diretamente. A
terra do É den era a terra do santuá rio, perto de Deus. O resto do
mundo estava mais afastado do Santo Lugar onde Deus se
manifestava. Havia outras três divisõ es no mundo. Os céus estavam
acima deles, governados pelo sol durante o dia e pela lua e as
estrelas à noite (Gn 1.14-18). A terra era o seu lar. O grande oceano
estava abaixo deles. Essa é a fonte do simbolismo do mundo como
uma estrutura tripla, refletida mais tarde no taberná culo e no
templo.
 
O pacto
 
Os cinco pontos do pacto nã o sã o apresentados na ordem simples
pactual, mas todos eles aparecem no texto.
1. A passagem inteira (Gn 1-3) mostra claramente o senhorio
absoluto de Deus, que cria todas as coisas de acordo com a sua
vontade e planos. A soberania de Deus na criaçã o é especialmente
vista em todas as coisas que ele criou por meio da sua palavra. O
discurso feito dez vezes na histó ria da criaçã o (Gn 1.3, 6, 9, 11, 14,
20, 24, 26, 28, 29) corresponde à palavra dita dez vezes por Deus no
pacto mosaico: os Dez Mandamentos. Existe até mesmo um conselho
da Trindade na criaçã o de Adã o e Eva, ambos no conselho divino:
“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”
(Gn 1.26) e no fato de que a sociedade humana é a imagem de Deus,
nã o menos que o indivíduo humano.
2. Adã o é o senhor da criaçã o abaixo de Deus. Ele é o rei original do
mundo, apesar de nã o haver declaraçã o em um sentido formal. Adã o
e sua rainha recebem o domínio sobre toda a criaçã o (Gn 1.28). Ele é
também o sacerdote e profeta original, visto que Deus fala com
Adã o, que entã o ensina à sua esposa a palavra de Deus (Gn 2.16-18).
Sua responsabilidade sacerdotal é vista no mandamento de proteger
o santuá rio do Jardim (Gn 2.15), pois tempos depois, eles foram os
guardiõ es do templo. Sua responsabilidade como o primeiro marido
e pai incluía cultivar o Jardim (Gn 2.15) e ter filhos para encher a
Terra para gló ria de Deus (1.28).
3. De certa maneira, essas responsabilidades constituíram os
mandamentos do pacto também, mas o cerne ético deste é
encontrado na ordem de nã o comer da á rvore do conhecimento do
bem e do mal (Gn 2.17). Como o mandamento foi declarado, Adã o
inferiu que a proibiçã o era temporá ria. Pois a ênfase está claramente
na provisã o divina graciosa de todas as á rvores do Jardim (2.16). O
fato que existiam duas á rvores no meio do Jardim com nomes (Gn
2.9), sendo uma delas proibida, constituiu virtualmente um convite
divino para comer da outra, a á rvore da vida.
A essência do mandamento de nã o comer da á rvore do
conhecimento do bem e do mal nã o era uma questã o de comer ou
nã o comer. O ponto era: Adã o e Eva confiavam em Deus e lhe
obedeciam simplesmente por ele ser Deus? Testar a obediência de
Adã o em algo que ele entendesse ser uma questã o de justiça teria
sido um teste. Mas Deus deu a Adã o um teste ainda mais difícil. A
obediência ao mandamento de nã o comer da á rvore do
conhecimento do bem e do mal nã o tem o tipo de significado ético
ó bvio como um mandamento “nã o matará s”. Se Adã o tivesse
obedecido a Deus quando foi testado, ele teria manifestado a fé e o
amor que estã o no coraçã o obediente. Por esse motivo, Deus testou
Adã o no que pode parecer uma questã o arbitrá ria.
A bênçã o e maldiçã o do pacto foram colocadas nas duas á rvores. A
á rvore da vida traria bênçã os se Adã o e Eva escolhessem-na em vez
da á rvore do conhecimento do bem e do mal. Se eles escolhessem a
á rvore proibida, de qualquer forma enfrentariam a maldiçã o da
morte. É como se o Senhor dissesse a Adã o o que Moisés disse
posteriormente a Israel: “Os céus e a terra tomo, hoje, por
testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênçã o e a
maldiçã o; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua
descendência” (Dt 30.19).
Se Adã o tivesse escolhido a vida, ele e sua posteridade teriam
herdado o mundo e Sataná s teria sido expulso. Aparentemente isso
teria incluído herdar o direito de comer da á rvore do conhecimento
do bem e do mal também, pois se Adã o tivesse repelido a tentaçã o
de Sataná s, ele teria entendido o verdadeiro significado do bem e do
mal, a pró pria coisa que a á rvore e o teste pretendiam ensinar-lhe.
Em outras palavras, a proibiçã o da á rvore do conhecimento do bem
e do mal era pedagó gica. Se a liçã o tivesse sido aprendida, Adã o e
Eva teriam sido elevados a um status mais alto.
 
A resposta pactual de Adão
 
Sataná s apareceu no Jardim sob a forma de serpente. Isso foi
permitido por Deus com o intuito de testar Adã o e ensiná -lo o
significado essencial do bem e do mal. Dar a Adã o meramente uma
liçã o sobre a filosofia do bem e do mal nã o teria lhe fornecido a
compreensã o que ele precisava. Logo quando Deus quis lhe dar uma
esposa, primeiramente providenciou um projeto que seria
significativo para ele por toda a sua vida e, ao mesmo tempo, falou a
Adã o sobre a necessidade de uma esposa, da mesma maneira que,
quando Deus quis lhe ensinar sobre o bem e o mal, enviou Sataná s
para testá -lo. Isso exigiu que Adã o protegesse o Jardim do mal. Se
ele tivesse defendido o Jardim com sucesso do ataque de Sataná s, a
parte difícil do seu trabalho de vigilâ ncia teria terminado.
Quando Sataná s se aproximou de Adã o e Eva, Adã o deveria ter
entendido, pelo desafio de Sataná s, qual era o significado real de
bem e mal. Bom é obedecer à voz de Deus e mau é se rebelar contra
ele. Bem e mal nã o sã o entidades ou coisas. Sã o palavras que
descrevem nossa reaçã o pactual a Deus. Se Adã o tivesse aprendido
essa verdade pela submissã o à vontade de Deus, ele teria se
confirmado em santidade ao comer da á rvore da vida. Nó s podemos
dizer que Adã o teve uma escolha de sacramentos, o ritual má gico de
Sataná s, que prometeu poder através da desobediência a Deus ou o
sacramento pactual de Deus, que prometeu vida e todas as coisas
boas pela submissã o a ele.
O que Adã o realmente fez foi usar sua esposa como cobaia para ver
o que aconteceria se alguém comesse da á rvore. Quando Sataná s se
dirigiu a Eva, Adã o, que estava ao leu lado, nã o disse nada. Ele
permitiu intencionalmente que Eva fosse enganada para comer do
fruto com a intençã o de ver o que sucederia a ela (cf. 1Tm 2.14). Se
ela nã o morresse, entã o saberia se era seguro para ele comer
também. Nada aconteceu a Eva, de modo que Adã o deduziu que era
seguro comer. Porém, a queda já tinha acontecido quando Adã o
deixou Eva comer.
 
O julgamento pactual de Deus
 
Deus apareceu em pessoa para expulsar Adã o e Eva do Jardim. Eles
ouviram o som de Deus, que era provavelmente o som da nuvem de
gló ria (cf. Ê x 19.16; 20.18; 1Sm 22.8-16; Ez 1.4, 24), como o som de
um trovã o. Nada no Gênesis indica um som gentil e suave. Como a
naçã o de Israel no Monte Sinai, Adã o e Eva ficaram apavorados com
o que ouviram e se esconderam (Gn 3.10). Deus falou com Adã o
primeiro porque ele era o líder do pacto. Ele logo pronunciou o
julgamento da serpente por ela ser a fonte da tentaçã o, e em tal
julgamento é encontrada a primeira promessa de salvaçã o, a base de
um novo pacto: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua
descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe
ferirá s o calcanhar” (Gn 3.15).
Adã o e Eva morreram naquele mesmo dia, como Deus disse que
aconteceria. Eles morreram pactualmente por meio do seu
representante, o sacrifício animal oferecido em seu lugar, que sofreu
a maldiçã o do pacto por eles (Gn 3.21). Esse é o começo do sistema
sacrificial da Bíblia. O julgamento inclui a promessa de vida em um
novo pacto que fornece um representante que realmente poderia
levar o pecado embora.
Ser expulsos do Jardim foi outra forma de morte, pois Adã o foi
criado para ter uma sociedade com Deus. Afastado do Jardim, Adã o e
a raça humana apó s ele têm fome do verdadeiro Jardim de Deus,
sem realmente saber o que estã o buscando: “Declarou-lhes, pois,
Jesus: Eu sou o pã o da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o
que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6.35).
Além disso, os processos de decadência física, a “morte” gradual dos
seus corpos, começou naquele dia. A doença, a dor, a fatiga e os
sofrimentos do corpo no processo de envelhecimento nã o faziam
parte da criaçã o original. Desde o dia em que pecaram, Adã o e Eva
“começaram a morrer” fisicamente. Além da morte física que
experienciaram, o mundo ao redor deles começou a morrer também.
A pró pria Terra foi “sujeita à vaidade” (Rm 8.20) por causa do
pecado de Adã o. Todo o mundo animal e físico foi trazido para o
“cativeiro da corrupçã o” (Rm 9.21).
Mas no julgamento também havia graça. Deus nã o anulou
meramente o pacto original e destruiu a raça que criou à sua
imagem, ainda que fosse direito dele fazer isso. Ele trouxe o homem
para uma forma de julgamento de provisã o para a redençã o. Isso
envolveu dois aspectos. Em primeiro lugar, Deus trouxe provisã o
para a continuaçã o do velho pacto, um adiamento do julgamento
final, para se dizer assim. Em segundo, Deus garantiu ao homem a
promessa de um novo pacto — a descendência da mulher viria e
destruiria a serpente. Ademais, a situaçã o pactual estabelecida pelo
julgamento de Deus de Adã o e Eva era uma extensã o temporá ria do
pacto original que incluía uma promessa de um pacto novo e melhor
no futuro.
CAPÍTULO SETE: A PROMESSA PÓS-QUEDA
 
O pró prio mundo mudou com a queda. Um novo relacionamento
pactual entre Adã o e Deus também significou que as relaçõ es entre
Adã o e seu ambiente, Adã o e Eva, e Adã o e sua condiçã o subjetiva
interna foram drasticamente alteradas. Essa nova situaçã o pactual
poderia ser apenas temporá ria. Era claro que o problema
fundamental da queda só poderia ser resolvido por um sacrifício
redentor que poderia levar o pecado totalmente embora. Enquanto
isso, o homem continuaria o projeto que Deus determinou para ele
na criaçã o.
 
O reino
Em muitos aspectos a situaçã o do reino é imutá vel. Adã o é o líder da
raça: profeta, sacerdote, rei e pai. A Terra é dividida em três á reas
distintas: o Jardim do É den, a terra do É den e o resto do mundo. A
responsabilidade de Adã o é cultivar a terra e adorar a Deus da
forma certa. Ainda que o novo ambiente apresente novos desafios, a
definiçã o fundamental de bem e mal nã o muda. Deus ainda é o
Senhor sobre todas as coisas, determinando tudo de acordo com sua
perfeita vontade. De qualquer maneira, houve uma mudança pactual
fundamental que é abrangente em seus efeitos. Adã o se preparou
para a rebeliã o de Sataná s contra Deus, colocando o mundo sob a
autoridade de Sataná s, nã o em um sentido pró prio ( de jure ), mas
praticamente falando ( de facto ). A partir desse momento Satã é
chamado de “príncipe desse mundo” (Jn 12.31). Adã o está com Satã
até ser repudiado por ele. Os filhos de Adã o também estã o abertos à
influência e ao ataque de Sataná s.
A distinçã o entre o É den e o mundo antes da queda era
simplesmente uma questã o de proximidade de Deus, mas agora que
Adã o pecou, o Jardim do É den se tornou o lugar santo onde o
homem nã o podia entrar, o É den se tornou a terra santa e o resto do
mundo se transformou em uma terra suja. O foco nã o é uma nova
substâ ncia ter sido introduzida no mundo e o tornado mau. O mal
nã o é uma substâ ncia, é ter uma relaçã o pactual errada com Deus.
Apó s a queda, o mundo sob Adã o se tornou pactualmente separado
de Deus — contaminado ou impuro — pois foi amaldiçoado com
Adã o. Onde Deus manifestou sua presença, tornou tal á rea um
“santo lugar”, temporariamente livre da maldiçã o por meio da
virtude da presença graciosa de Deus.
Paulo diz que a morte entrou por causa do pecado (Rm 5.12). A
morte é uma realidade sempre presente e inescapá vel no mundo
caído em decorrência da maldiçã o. Em outras palavras, apó s a
queda, o mundo foi contaminado pela maldiçã o sobre o homem.
Somente na graça de Deus há esperança de salvaçã o.
 
O pacto
 
1. Deus permaneceu sendo o Senhor sobre o mundo, mas Adã o nã o
poderia mais se aproximar dele como outrora. O homem nã o
poderia ter uma sociedade íntima com ele como tinha no Jardim. De
qualquer modo, ainda há esperança, pois Deus revelou-se de uma
nova maneira. Ele é nã o somente o Senhor absoluto da Criaçã o,
como também o Redentor do homem. Deus fez uma promessa a Eva,
de que sua descendência conquistaria Satã e libertaria o homem. Ele
também fez “casacos de pele” para Adã o e Eva e os vestiu (Gn 3.21),
ensinando-os um futuro sacrifício substitutivo que cobriria sua
vergonha.
2. A posiçã o de Adã o no mundo foi comprometida. Ele ainda era
responsá vel perante Deus por sua liderança nos deveres
sacerdotais, régios e paternais, mas também estava aberto para a
tentaçã o satâ nica de um novo modo. Agora ele tinha uma simpatia
interna pela rebeliã o pecaminosa de Satã contra Deus. Portanto, o
fato de Adã o permanecer com Deus significa uma guerra com
Sataná s a vida inteira, bem como uma guerra contra o pecado em
seu pró prio coraçã o. A partir daí o trabalho de Adã o incluía também
a luta para recuperar para Deus o que Satã tinha roubado. Adã o ter
autoridade em um mundo caído significava ter que lutar, por Deus
ou contra ele. A autoridade também incluía a dor da perseverança
em um mundo amaldiçoado pelo pecado. Adã o teria que trabalhar
mesmo se nã o tivesse pecado, mas apó s a queda, seu trabalho
deixou de ser o grande prazer que deveria ter sido.
3. A essência da justiça nã o pode mudar, mas a instruçã o muda à
medida em que a situaçã o pactual muda. Antes da queda nã o havia
necessidade de ensinar Adã o a nã o matar ou roubar porque ele nã o
estava inclinado a cometer pecados por natureza. Depois da queda, a
obrigaçã o do homem deve ser explicada em alguns detalhes. Nó s
nã o sabemos o quanto ou precisamente que tipo de revelaçã o Adã o
tinha além do que está registrado na Bíblia. É dito que seu
descendente Enoque andou com Deus (Gn 5.24), o que implica mais
do que “sociedade espiritual” e pode incluir revelaçã o profética.
Mesmo sem revelaçã o divina especial, o homem enquanto imagem
de Deus, sabia em seu coraçã o que assassinato era pecado. Caim, por
exemplo, nã o precisava de explicaçã o do seu crime. Ao mesmo
tempo Deus proibiu que qualquer pessoa se vingasse pelo
assassinato de Abel (Gn 4.15). O homem nã o era maduro o suficiente
para compartilhar um ofício judicial, ao menos nã o com referência à
puniçã o capital.
O verdadeiro herdeiro da natureza de Caim, Lameque,
comprometeu-se com o pecado da poligamia (Gn 4.19), proibida
implicitamente na doutrina original do casamento: “Por isso, deixa o
homem pai e mã e e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só
carne” (Gn 2.24). Sua violência excedeu a de Caim em sua
intensidade e orgulho. Nã o pode haver dú vida de que ele nã o
adorava o verdadeiro Deus.
O outro grande pecado da era está gravado em Gênesis 6. “Vendo os
filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram
para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram” (Gn 6.2).
Os “filhos de Deus” aqui sã o a linhagem religiosa de Sete. Esse
versículo nos dá uma explicaçã o do que aconteceu ao justo antes do
dilú vio. Nó s lemos em Gênesis 5 acerca das muitas geraçõ es de
homens que eram descendentes cristã os de Adã o. Como seus filhos
puderam desaparecer? A resposta é que eles nã o desapareceram,
mas sim apostataram. Como Salomã o, seus coraçõ es se afastaram de
Deus por causa das mulheres descrentes com quem se casaram, pois
tomaram como esposas as filhas da família de Caim. De todos os
filhos de Sete, apenas Noé permaneceu fiel a Deus nesse tempo de
infidelidade global (Gn 6.8).
4. A maldiçã o do pacto, já vista na expulsã o de Adã o e Eva do Jardim,
foi progressivamente aplicada aos homens pecadores. Caim foi
levado para leste, mais longe do É den do que Adã o e Eva. Mas a
expulsã o da presença de Deus alcançou seu clímax no julgamento do
dilú vio. Aqui os descendentes rebeldes de Sete, junto aos
descendentes ímpios de Caim, foram levados da face da Terra e o
mundo teve um novo começo.
A bênçã o do pacto foi revelada de um modo especial na vida de
Enoque. A retidã o exemplar de Enoque obteve para ele a bênçã o de
ser levado para a presença de Deus sem morrer. Isso mostrou aos
homens que a bênçã o do pacto era o perdã o dos pecados e a vida
eterna com Deus no céu.
5. O homem deveria herdar o mundo como reino de Deus, mas o
pecado o privou de desfrutar totalmente tal herança. A graça de
Deus ter interferido em benefício do homem preservou para ele um
certo nível das bênçã os originais dessa vida, até mesmo para
aqueles que nã o se arrependem dos seus pecados. Caim se tornou
um morador da cidade e seus descendentes foram usados por Deus
para desenvolver instrumentos musicais (Gn 4.21), pois até mesmo
os ímpios servem aos propó sitos de Deus na histó ria.
Quando a linhagem religiosa de Sete se rebelou, eles perderam tudo.
Somente Noé encontrou graça e foi preservado do julgamento. Noé,
sua esposa e filhos viveram para se tornar a primeira nova família
em um novo mundo, herdando também o conhecimento e a
tecnologia das eras mais antigas: “a riqueza do pecador é depositada
para o justo” (Pv 13.22).

A resposta pactual do homem

Do pecado de Caim ao de Lameque a descendência da serpente


imitou seu pai espiritual. Assassinato, poligamia, orgulho e tirania
caracterizavam a sua linhagem familiar. Por outro lado, os
descendentes de Sete foram religiosos por muitas geraçõ es. Enos, o
primeiro filho de Sete, tornou-se um sacerdote e levou os homens à
verdadeira adoraçã o a Deus (Gn 4.26). A descendência de Sete
continuou aparentemente a ser religiosa até a época de Noé, que foi
nomeado na esperança que os homens encontrassem conforto nele
(Gn 5.29). Mas a semente da mulher foi enganada pela semente da
serpente e foi desviada. Os filhos de Deus, de Sete, a “descendência
da mulher”, casou-se com a nã o religiosa semente da serpente e de
Caim. Seus filhos se tornaram homens poderosos (Gn 6.1-4). Mas
esses homens se corromperam e encheram a Terra com violência
(Gn 6.11). Toda a raça, com exceçã o da família de Noé, juntou-se à
rebeliã o da serpente contra Deus. Isso naturalmente levou ao ó dio
mú tuo e destruiçã o entre eles, já que Sataná s pode promover
unidade apenas nos que odeiam a Deus, que odeiam também toda a
criaçã o.
 
O julgamento pactual de Deus

Os filhos de Sete quebraram o pacto, como Adã o fez antes deles. Eles
transformaram a bênçã o em maldiçã o. Deus destruiu toda a Terra e
trouxe de volta a raça humana para o seu estado original de apenas
uma família. O julgamento do dilú vio foi a destruiçã o da criaçã o, um
juízo de “descriaçã o”. Quando as á guas do dilú vio cobriram a Terra,
o mundo pareceu com o que era no princípio: “A terra, porém,
estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o
Espírito de Deus pairava por sobre as á guas” (Gn 1.2).
No julgamento, Deus foi misericordioso: “Lembrou-se Deus de Noé e
de todos os animais selvá ticos e de todos os animais domésticos que
com ele estavam na arca” (Gn 8.1a). Noé e sua família foram
preservados de maneira que o homem pudesse ter um novo começo
apó s o dilú vio. Os animais foram preservados na arca de forma que
pudesse existir um novo mundo animal também. Em outras
palavras, no “julgamento final” do dilú vio, a redençã o estava
incluída. Deus traria um novo mundo.
Nenhum outro julgamento na histó ria é tã o parecido com o juízo
final como o dilú vio. Este quase-julgamento-final é o paradigma
bíblico para o juízo final do pacto. Quando uma era pactual termina,
a figura literá ria do discurso recorda a grande tempestade com a
linguagem de uma catá strofe global. O julgamento pactual é sempre
uma “des-criaçã o” teoló gica, mesmo que nenhum juízo histó rico
subsequente seja tã o espetacular como o dilú vio.
Depois do dilú vio Deus estabeleceu seu pacto com Noé: um novo
pacto que era uma renovaçã o daquele de Adã o, com adiçõ es
redentoras (Gn 9.1-17). Noé se tornou o primeiro Adã o para o novo
mundo. O primeiro período pactual apó s a queda de Adã o terminou
em um grande fracasso e pecado.

CAPÍTULO OITO: O PACTO NO AICO


 
O pacto com Noé marca um novo começo. Sendo claro em relaçã o à
missã o dada a ele por Deus, Noé é respeitado como um novo Adã o.
“Abençoou Deus a Noé e aos seus filhos e lhes disse: Sede fecundos,
multiplicai-vos e enchei a terra” (Gn 9.1). A destruiçã o do mundo
pelo dilú vio trouxe um fim para a era edênica e para o sistema de
adoraçã o centrado no Jardim do É den. Mas assim como Deus deu ao
homem um novo pacto apó s a queda, Deus graciosamente deu ao
homem outro pacto apó s o dilú vio. Esse novo pacto, como todos da
era do antigo pacto, era uma extensã o do pacto edênico. Como os
pactos posteriores, o pacto noaico adicionou nova revelaçã o que
ampliou ainda mais a promessa do novo pacto. Assim como na era
pré-dilú vio, cada “novo pacto” na era do antigo pacto terminava com
o julgamento de Deus sobre o pecado do homem, porque “em Adã o”
o homem nã o pode escapar do pecado. Ao mesmo tempo, contudo,
os julgamentos de Deus na histó ria nunca foram meramente
negativos. Cada juízo avança o propó sito do reino de Deus ao
conduzir a histó ria para Cristo, o Segundo Adã o que salva o homem.
 
O reino
O mundo mudou radicalmente depois do dilú vio. Isso
provavelmente incluiu as mudanças geográ ficas que causaram o
movimento dos continentes. Se as teorias sobre uma “expansã o de
á gua” estiverem corretas — a ideia de que o mundo pré-dilú vio foi
coberto por uma camada nebulosa que produziu um efeito estufa,
mantendo o mundo aquecido — mudanças radicais no clima e na
superfície da Terra seriam evidentes. Em qualquer acontecimento,
Noé e sua família seriam conscientes do fato que viveram em um
novo mundo.
De qualquer forma, a maior mudança foi a perda do Jardim do É den.
O santuá rio de Deus nã o estava mais com os homens. Nã o havia
mais um centro do mundo divinamente ordenado aonde os homens
viriam para se encontrar com Deus e nem uma terra santa pró xima
ao santuá rio. Nesses termos, o mundo pó s-dilú vio é um mundo sem
Deus. De certo modo isso quer dizer que a recriaçã o do mundo é
incompleta, pois faltam duas ou três partes do mundo do É den. Na
criaçã o original Deus criou o mundo (Gn 1.1), entã o a terra do É den
e, por ú ltimo, todo o Jardim (Gn 2.8). Depois do dilú vio passou a
existir um novo mundo, mas nã o uma nova terra santa. Esta nã o foi
recriada até Israel conquistar Canaã . O santuá rio nã o está realmente
completo até o templo de Salomã o, o novo É den. Isso significa que a
recriaçã o do mundo começou apó s o dilú vio e continua por séculos
até os dias de Salomã o, quando há um Jardim-Templo no centro
pactual do mundo, cercado pela terra santa.
Noé era o novo Adã o, incompleto como a situaçã o de Noé, o líder do
pacto da nova raça. De qualquer maneira, nesse novo mundo, Noé
nã o estava sozinho com sua esposa. (Nó s nem ao menos sabemos o
nome dela.) Seus três filhos, Jafé, Sem e Cã o, e suas respectivas
esposas (novamente, nã o sabemos seus nomes), também estavam
com Noé no novo mundo. Em vez de uma família de dois, o novo
mundo teve início com uma extensa família de oito indivíduos, que
na verdade eram quatro famílias.
 
Os cinco pontos do pacto
O pacto com Noé é referido muito explicitamente como um pacto
(Gn 6.18), mas nã o há explicaçã o do que seja um pacto. Em outras
palavras, um pacto nã o parece de jeito nenhum ser uma nova ideia
para Noé. A linguagem do pacto em Gênesis 9, além disso, deixa
clara além de dú vida razoá vel que o pacto com Noé era
simplesmente uma continuaçã o do arranjo com Adã o. Agora,
contudo, o pacto foi dado para uma nova raça que era pecadora
desde o começo.
1. Deus, como Criador, Redentor e Juiz do mundo, concede o pacto a
Noé e sua família. A iniciativa divina e a graça sã o importantes em
qualquer lugar. A bênçã o de Deus estabelece o pacto e dá ao homem
um novo começo. É importante notar que cada pacto inicia, assim
como o pacto do Jardim, com Deus abençoando o homem (cf. Gn
1.28). O pacto nunca é neutro, nem é baseado nas obras do homem.
2. Ao homem como profeta, sacerdote e rei, sã o dadas novas
responsabilidades. Noé foi claramente a principal autoridade
humana no novo mundo e era o “rei” da raça. Ele age como um
sacerdote ao oferecer sacrifícios (Gn 8.20) e como um profeta ao
pronunciar bênçã os e maldiçõ es sobre seus filhos (Gn 9.25). Mas a
diferença primá ria na autoridade do homem é judicial. Antes do
dilú vio, a autoridade judicial do homem foi limitada a casos que nã o
fossem de puniçã o capital (Gn 4.14-15). Com o pacto de Noé veio a
autoridade para executar assassinos (Gn 9.6). Isso nã o era uma
mera permissã o para executar, era ordem de Deus. Assim como no
dilú vio o pró prio Deus executou toda a raça por causa da violência
(Gn 6.11-13), ele mandou Noé matar os homens violentos e ímpios.
Isso é algo misericordioso, principalmente porque a execuçã o
individual de homicidas impede a violência antes que ela se espalhe
a ponto de chegar ao julgamento de uma sociedade inteira. Isso
também representa crescimento histó rico: foi dada à descendência
da mulher, à imagem de Deus, uma parcela na autoridade judicial de
Deus a fim de proteger o mundo da violência de forma que a missã o
histó rica do homem pudesse ser realizada.
3. Assim como Deus proibiu o fruto da á rvore do conhecimento do
bem e do mal no Jardim, agora ele proíbe que se beba sangue (Gn
9.4). De qualquer maneira, pela primeira vez, foi especificado que o
homem pode comer a carne dos animais (Gn 9.3), mas
aparentemente nã o pode comer os sacrifícios animais. Os sacrifícios
oferecidos por Noé foram “holocaustos”, onde o animal inteiro era
oferecido a Deus no altar. Noé nã o só conhecia o sacrifício, ele
também entendia a distinçã o entre animais puros e impuros (Gn
7.2-3). Além desses poucos pontos, porém, nã o sabemos muito
sobre como ele conduzia a adoraçã o a Deus. Falando de um modo
geral sobre ética, os mandamentos de Deus eram os mesmos para
Adã o e Eva. Noé e seus filhos deveriam encher a Terra (Gn 9.1) e
governá -la (Gn 9.2) para que o reino de Deus pudesse ser
concretizado na histó ria.
4. A bênçã o do pacto é enfatizada quando Deus dá o pacto a Noé:
“Estabeleço a minha aliança convosco: nã o será mais destruída toda
carne por á guas de dilú vio, nem mais haverá dilú vio para destruir a
terra” (Gn 9.11). O arco-íris, símbolo do pacto, foi colocado no céu
para lembrar Deus — nã o o homem — da promessa do pacto (Gn
9.13-16). Deus prometeu que jamais amaldiçoaria novamente todo o
mundo (Gn 8.21). Ele preservaria os padrõ es comuns da criaçã o
para que o homem soubesse como viver e construir o reino de Deus
(Gn 8.22). Essa promessa de regularidade na criaçã o é o fundamento
da ciência.
Mas a nova raça em Noé foi uma continuaçã o da antiga raça em
Adã o. O homem continua a se rebelar contra Deus, invocando a
maldiçã o sobre a raça por sua apostasia.
5. Noé e seus filhos ganharam um novo mundo como herança. A
graça de Deus estava sobre eles. Se tivessem mantido seu pacto, a
bênçã o somente teria crescido. Regozijando-se em Deus, Noé
plantou uma vinha. Ele parece ter sido o primeiro homem a
descobrir o vinho. Ele bebia o vinho a qualquer momento, um
símbolo de bênçã o e descanso na Bíblia. Era perfeitamente legítimo
para Noé beber vinho e descansar na sua tenda porque seu trabalho
estava feito. Era o tempo certo de desfrutar a bênçã o de Deus. A
Bíblia nunca condena Noé por sua bebida. Seu filho, Canaã , que
tentou roubar autoridade e bênçã o, simbolizados na tú nica de Noé,
foi condenado. Sua rebeliã o foi apenas uma amostra do que os
descendentes de Noé fariam mais tarde.
 
A resposta pactual do homem
O homem pecador nã o estava satisfeito em herdar a bençã o do pacto
e trabalhar pacientemente para a gló ria de Deus. Em vez de buscar a
Deus em um templo ou local de adoraçã o, o homem tentou construir
seu pró prio É den, a torre de Babel (Gn 11.4). A nova raça queria um
centro do mundo para preservar a unidade religiosa e política entre
eles mesmos. Mais que isso, o homem queria um novo centro do
mundo para glorificar a si pró prio. Portanto, a torre de Babel era
uma declaraçã o de independência de Deus. Agora o homem
determinava o caminho para o céu. Na verdade, a torre de Babel era
toda a raça formada pelos descendentes de Noé imitando o pecado
de Canaã , que pode ser descrito como um plano para roubarem a
autoridade do seu pai e se estabelecerem como reis. O verdadeiro
herdeiro de Canaã , Ninrode, o grande caçador, liderou os homens a
uma rebeliã o contra o pai celestial, a fim de “roubar sua tú nica” e
estabelecer um reino rival.
 
O julgamento pactual de Deus
Deus “visitou” a torre de Babel. Ele viu que os homens estavam
unificados, mas que essa era uma unidade que trabalhava contra o
reino de Deus. O sistema Babel permitia que homens ímpios como
Ninrode estabelecessem uma tirania política sobre a base de uma
falsa religiã o da qual seria difícil para qualquer um fugir. O resultado
só poderia ter sido uma repetiçã o dos dias anteriores ao dilú vio,
uma era de corrupçã o universal. Para preservar os restantes e
confundir os propó sitos rebeldes dos homens, Deus confundiu a
língua do homem. Isso significa mais do que simplesmente usarem
palavras diferentes para os mesmos objetos. Tal confusã o levou à
desconfiança mú tua e à destruiçã o da organizaçã o de Babel.
Os homens se dispersaram por todas as partes da Terra, mas a
qualquer lugar que fossem, seus líderes imitavam Ninrode,
construindo suas pró prias pequenas Babeis, cada um querendo que
fosse o centro do mundo. Todo grupo tribal declarou ser o
verdadeiro herdeiro da gló ria do homem. Aqui está o ponto inicial
para as falsas religiõ es do mundo antigo, todas variaçõ es do
“babelismo”. Cada tribo construiu suas pró prias torres, zigurates e
pirâ mides. Cada uma tinha seu pró prio sacerdó cio, que
supostamente poderia se comunicar com os deuses e
frequentemente declarava ser descendente dos deuses. As
semelhanças e diferenças das sociedades arcaicas e suas religiõ es
originavam a Babel.
A dispersã o dos homens significava que aqueles que se rebelaram
contra Deus também odiavam uns aos outros, de forma que o reino
de imitaçã o de Sataná s nã o poderia substituir nem superficialmente.
O julgamento de Deus na torre de Babel leva o mundo a uma nova
administraçã o do pacto em que Deus escolheria um povo especial
para ser seu representante sacerdotal entre os homens. Mais uma
vez, o julgamento preparou o caminho para uma nova manifestaçã o
da graça.

CAPÍTULO NOVE: O PACTO ABRA ÂMICO


 
O pacto abraâ mico revelou o plano da salvaçã o com uma clareza
maior do que antes. Na promessa pó s-queda e no pacto com Noé a
graça salvadora de Deus é revelada, mas o plano da salvaçã o ainda é
obscuro. Com Abraã o, a promessa do novo pacto é
consideravelmente engrandecida, dando uma visã o muito mais clara
da futura salvaçã o. Por isso, o pacto abraâ mico se tornou o “pacto de
referência” para o restante dos pactos na era do antigo pacto. Os
pactos mosaico, davídico e da restauraçã o sã o todos explicitamente
baseados no pacto abraâ mico. O pacto de Noé e a promessa pó s-
queda funcionam mais como um “fundamento oculto”. Eles
realmente se referem a isso, mas no geral indiretamente, fazendo
alusã o e com linguagem figurativa, com menos freqü ência que no
pacto abraâ mico.
O novo pacto também aponta especialmente para Abraã o. Duas das
mais importantes doutrinas de Paulo proclamam o cumprimento do
pacto abraâ mico: a doutrina da justificaçã o pela fé (Rm 4) e a
doutrina do dom do Espírito como a essência da graça do novo pacto
(Gl 3). Um terceiro tema desenvolvido nos escritos de Paulo, a
compreensã o da Igreja como o novo povo de Deus, os filhos adotivos
de Abraã o, é essencial para o entendimento do novo pacto (Gl 3.7-9,
14, 29). Portanto, entender o pacto abraâ mico é vital para entender
toda a Bíblia.
 
O reino
Antes do chamado de Abraã o, o mundo daquele dia, como o mundo
de Noé, nã o tinha um centro mundial designado por Deus. Faltava
também um sistema sacerdotal unificado. A pró pria família de
Abraã o adorava a ídolos (Js 24.2), mas alguns eram verdadeiros
sacerdotes. Havia pelo menos um real sacerdote de Deus,
Melquisedeque, o rei-sacerdote de Salém (Gn 14.18-20) e
provavelmente outros — em um período posterior, Jetro, sogro de
Moisés, foi um verdadeiro sacerdote (cf. Ex 3.1, 18.1-24). As tribos
foram espalhadas pelo mundo como resultado do julgamento de
Babel. A multiplicidade de diferentes línguas e religiõ es entre eles
levou à desconfiança e ao conflito. Também houve lugares, como
Sodoma e Gomorra, em que a depravaçã o extrema do pré-dilú vio foi
vista.
Nessas circunstâ ncias, Abraã o foi escolhido para ser o progenitor da
raça de sacerdotes que culminaria no Salvador do mundo. Desde a
época em que foi escolhido, foi exigido que os homens se
relacionassem com Deus por meio de Abraã o. Aqueles que
abençoaram Abraã o seriam abençoados e aqueles que o
amaldiçoaram seriam amaldiçoados (Gn 12.1-3). Ainda que um
centro do mundo nã o estivesse estabelecido, um sacerdó cio para a
humanidade já estava. Onde Abraã o se encontrasse, ele cavava
poços e construía altares (Gn 12.7-8; 13.4; 18; 21.33; 26.15),
estabelecendo tais locais como “santuá rios”, versõ es simplificadas
do É den e centros temporá rios do mundo. Mais importante, o pacto
prometeu a “descendência de Abraã o”, o centro do plano de Deus,
que traria bênçã os para o mundo todo.
 
Os cinco pontos do pacto
1. Com o novo está gio do desenvolvimento pactual, a revelaçã o de
Deus de si mesmo também avançou. Deus se manifesta
repetidamente aos patriarcas e à queles que sã o pró ximos a eles de
vá rias maneiras: de forma humana (Gn 16.9; 17.1; 18.1; 22.11, 15;
26.2, 24; 32.24; 35.9), em “um fogareiro fumegante e uma tocha de
fogo” (Gn 15.17), em sonhos (Gn 15.1; 20.3; 28.12; 31.11, 24; 35.7;
41.1; 46.2) e pela sua palavra (Gn 12.1; 21.12; 22.1; 25.23; 31.3;
35.1). Além disso, há uma dica da Trindade no Anjo do Senhor, que é
o Senhor, mas aparentemente também se distingue do Senhor (Gn
16.7; 21.17; 22.11, 15; 24.7, 40; 31.11; 48.16). O nome de Deus é
principalmente “Todo-Poderoso” (Gn 17.1; 28.3; 33.20; 35.11;
43.14; 48.3; 49.24, 25), mas ele também é o Deus que vê (Gn 16.13)
e o Senhor que provê (Gn 22.14).
2. Abraã o, Isaque e Jacó , os pais da raça dos sacerdotes, sã o
naturalmente sacerdotes também (Gn 12.7; 13.4, 18; 22.9; 26.25;
33.20; 35.1, 3, 7). Abraã o é também o primeiro homem da Bíblia a
ser chamado de profeta (Gn 20.7) e Isaque e Jacó têm a funçã o
profética (cf. Gn 27, 49; Sl 105.15). Como conselheiro do rei e
homem que via o futuro em seus sonhos, José foi o profeta clá ssico
da era. Em um sentido secundá rio eles também sã o reis. Abraã o
julga reis (Gn 14), Isaque é tã o rico e poderoso que um rei declarou
ter medo dele porque seu poder era maior que o do rei (Gn 26.16),
Jacó abençoou o Faraó (Gn 47.7) e José tornou-se governador de
todo o Egito (Gn 41.40). Talvez sua responsabilidade sacerdotal
tenha alcançado consequências mais altas: “em ti serã o benditas
todas as famílias da terra” (Gn 12.3; cf. 18.18; 22.18; 26.4; 27.29;
28.14), mas acima de tudo, esses homens foram os primeiros
profetas de Deus em uma nova era de revelaçã o profética.
3. A lei de Deus foi revelada aos patriarcas em detalhes maiores do
que sabemos. Abraã o, por exemplo, ofereceu aves de acordo com as
regras registradas mais tarde em Levítico (cf. Gn 15.10 e Lv 1.17) e
Judá conhecia as leis do Levirato (Gn 38.6). Apesar de Deus ter
escolhido Abraã o e ter feito dele o que ele era pela graça, também é
verdade que Deus abençoou Abraã o por causa da sua justiça:
“Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa
depois dele, a fim de que guardem o caminho do SENHOR e pratiquem
a justiça e o juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraã o o que
tem falado a seu respeito” (Gn 18.19). Quando o Senhor falou sobre
isso com Isaque, ele disse que Isaque seria abençoado “porque
Abraã o obedeceu à minha palavra e guardou os meus mandados, os
meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis” (Gn 26.5).
Quaisquer que fossem os detalhes precisos, está claro que Abraã o
teve uma revelaçã o da lei de Deus e obedeceu.
4. Abraã o foi abençoado por Deus e foi escolhido para ser uma
bênçã o para o mundo. Como sempre, Deus tomou a iniciativa de dar
sua bênçã o. Ele chamou Abraã o e o selecionou como um canal de
bênçã os para o mundo. Abraã o recebeu a bênçã o pela fé (Gn 15.6) e
mostrou a realidade da sua fé pela obediência (Gn 26.5). Isaque e
Jacó também receberam a bênçã o do pacto e passaram-na para os
filhos de Jacó (Gn 26.3; 27.28; 28.3; 49). O livro de Gênesis termina
com uma imagem profética da bênçã o do pacto abraâ mico estendida
a todas as famílias da Terra: os filhos de Israel vivem na melhor
parte do Egito (Gn 47.6, 11) e José está no trono do Egito provendo
pã o para o mundo (Gn 41.57).
5. A promessa de Deus para Abraã o é bem conhecida: “De ti farei
uma grande naçã o, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu
uma bênçã o! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os
que te amaldiçoarem; em ti serã o benditas todas as famílias da
terra” (Gn 12.2-3). De qualquer forma, Abraã o nã o veria essas
bênçã os durante a sua vida, ao menos nã o completamente. A bênçã o
fundamental do pacto abraâ mico foi a final: “em ti serã o benditas
todas as famílias da terra”. Paulo estava se referindo a isso quando
escreveu: “Nã o foi por intermédio da lei que a Abraã o ou a sua
descendência coube a promessa de ser herdeiro do mundo, e sim
mediante a justiça da fé” (Rm 4.13).
A promessa de que aqueles que abençoaram Abraã o seriam
abençoados e aqueles que o amaldiçoaram seriam amaldiçoados
significava que, no final, apenas as naçõ es que acreditassem no Deus
de Abraã o sobreviveriam, e as outras desapareceriam. Ao mesmo
tempo, é prometido que a bençã o de Abraã o se estenderia a “todas
as famílias da Terra”, ou seja, todo o mundo deveria ser convertido.
Nó s nã o enfrentamos um futuro de muitas naçõ es desaparecendo
gradualmente, e sim de naçõ es se convertendo a Cristo.
Visto que todos os convertidos se tornam filhos de Abraã o,
abraâ mico herda o mundo por meio da propagaçã o do evangelho,
como Paulo explicou: “Sabei, pois, que os da fé é que sã o filhos de
Abraã o. Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé
os gentios, preanunciou o evangelho a Abraã o: Em ti, serã o
abençoados todos os povos. De modo que os da fé sã o abençoados
com o crente Abraã o, para que a bênçã o de Abraã o chegasse aos
gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o
Espírito prometido. E, se sois de Cristo, também sois descendentes
de Abraã o e herdeiros segundo a promessa” (Gl 3.7-9, 14, 29).
 
A resposta pactual do homem
Até serem guiados ao Egito no final de Gênesis, os patriarcas foram
fiéis a Deus. Ainda que tenham pecado de alguma forma, foram
grandes líderes de fé. Os filhos de Jacó foram menos
impressionantes, mas claramente se arrependeram também do seu
pecado contra José (Gn 42.21) e o livro de Gênesis termina com
todos eles vivendo em harmonia e fé (Gn 50.18-21). No início de
Ê xodo, os filhos de Israel sã o escravizados (Ê x 1.8). O Faraó era
certamente ímpio, mas a verdadeira razã o para os hebreus serem
escravizados é haverem quebrado o pacto e cometido idolatria (Js
24.14; cf. Lv 17.7), ficando assim sob a maldiçã o do pacto. Eles
tiveram que ser disciplinados por Deus para serem trazidos de volta
para ele. Como antes, a era pactual terminou em fracasso e pecado
no que se refere ao homem, e mais uma vez, isso levou a uma
revelaçã o ainda maior da graça de Deus.
 
O julgamento pactual de Deus
Deus abençoou os patriarcas pela sua fidelidade e disciplinou-os
quando eles pecaram. Ele os guiou em caminhos misteriosos e
operou milagres maravilhosos neles: “Entã o, eram eles em pequeno
nú mero, pouquíssimos e forasteiros nela; andavam de naçã o em
naçã o, de um reino para outro reino. A ninguém permitiu que os
oprimisse; antes, por amor deles, repreendeu reis, dizendo: Nã o
toqueis nos meus ungidos, nem maltrateis os meus profetas” (Sl
105.12-15). Abraã o, Isaque e Jacó aprenderam sobre o poder e
bondade de Deus por meio das suas experiências.
Quando os descendentes deles se afastaram de Deus no Egito, Deus
mesmo os vendeu como escravos — e ele faria isso posteriormente
na histó ria de Israel — para fazer com que voltassem para si mesmo.
Em sua tribulaçã o, os filhos de Israel clamaram a Deus e ele enviou
Moisés e Arã o para salvá -los. Deus lhes garantiu um novo pacto com
maiores revelaçõ es e maior graça.
CAPÍTULO DEZ: O PACTO MOSAICO
 
Nã o foi coincidência que o Egito veio a ser governado por um Faraó
“que nã o conhecera a José” (Ê x 1.8). Assim como a era do pacto
noaico terminou em fracasso e na rebeliã o da torre de Babel, a era
dos patriarcas também terminou com a rebeliã o dos filhos de Israel.
Moisés nã o menciona isso diretamente no livro de Ê xodo, mas Josué,
em seu ú ltimo sermã o aos israelitas, lembrando-os que eles
serviram outros deuses no Egito (Js 24.14) e avisando-os que se eles
servissem outros deuses novamente, Deus os julgaria (Js 23.1). Os
filhos de Israel tornaram-se escravos no Egito por causa dos seus
pecados. Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça de
Deus. Deus deu a Israel um novo pacto.
Assim como as administraçõ es dos pactos anteriores, o novo pacto
que foi dado por meio de Moisés nã o anulou os mais antigos, mas foi
construído sobre eles. A lei de Moisés nã o era oposta à promessa (Gl
3.17-18). Ela foi instituída sobre a base da promessa abraâ mica a
fim de promover a concretizaçã o histó rica dessa promessa (Ê x 2.24;
6.8; Lv 26.42; Dt 1.8; 6.10; 9.5; 29.13; 30.20).
Ele era, além disso, o primeiro pacto em um novo ciclo de pactos. O
pacto adâ mico foi sacerdotal, o noaico foi real e o abraâ mico foi
profético. O ciclo começou mais uma vez com o pacto mosaico, o
novo pacto sacerdotal que trouxe maior graça do que já havia sido
visto em qualquer um desde a queda. Deus habitaria novamente
com o homem. Um novo santuá rio e o acesso ilimitado ao mesmo
foram a essência da graça de Deus garantida na lei de Moisés. Nã o
foi o ofício de profeta ou rei que constituía o centro da
administraçã o mosaica; o taberná culo com seus levitas, sacerdotes e
o sistema sacrificial eram o centro.
 
O reino
Pela primeira vez na histó ria desde a queda o povo de Deus garantiu
sua pró pria terra separada e um santuá rio. Nã o havia reino
estabelecido pela administraçã o de Moisés, ainda que as leis que
anteciparam um reino futuro fossem parte da lei (Dt 17.14-20). A
maior ênfase da lei é sacerdotal, nã o política. Atençã o especial é
dada à construçã o do taberná culo (Ê x 35-40), os sacrifícios e leis de
pureza (Levítico). Deus lida com Israel como uma naçã o sacerdotal
(Nú mero) e os abençoa quando eles o adoram em verdade
(Deuteronô mio).
O sistema de adoraçã o do taberná culo, incluindo os levitas e
sacerdotes, sã o a preocupaçã o central da lei e a característica mais
importante da nova situaçã o pactual. O sistema levítico incluía
primeiramente o ofício de sacerdote, mais importante na
administraçã o mosaica do que o ofício de rei, ainda nã o estabelecido
contudo, ou de profeta, uma figura ocasional, nã o um ofício
permanente. Sacerdotes, como juízes da suprema corte, lidavam
com casos difíceis que as cortes locais nã o lidavam (Dt 17.8-13).
Questõ es de pureza ritual, uma preocupaçã o maior da lei, eram
todas julgadas por sacerdotes (Lv 13) e o sistema sacrificial, o
verdadeiro centro da lei, também estava comprometido com os
sacerdotes. Eles também foram importantes na administraçã o do
sistema de bem-estar de Israel (cf. Dt 14.28-29; 26.12).
Um importante aspecto da lei frequentemente esquecido é a
provisã o à s cidades levíticas. Em vez de receber terras cultivá veis
como as outras tribos, os levitas receberam quarenta e oito cidades
(Nm 35.1-5). Essas cidades seriam centros culturais e comerciais de
educaçã o, mú sica e direito. As seis cidades mais importantes do
período de Moisés foram as seis cidades de refú gio, que teriam
significado especial como lugares de julgamento em adiçã o ao seu
significado normal, como as cidades levitas (Nm 35.6-8, cf. Js 20.1-
9). A localizaçã o central e acessibilidade dessas seis cidades em
particular e as cidades levitas em geral, indica a intençã o da lei para
a cultura israelita para ser claramente levita e bíblica. Israel, a naçã o
dos sacerdotes, seria sacerdotal na sua vida cultural.
 
Os cinco pontos do pacto
Deus revelou sua gló ria a Israel no Monte Sinai em um esplendor
assustador (cf. Dt 5.1-5, 23-29), dando a eles os Dez Mandamentos, a
essência do “novo pacto” mosaico. A libertaçã o do Ê xodo como um
cumprimento da promessa de Abraã o de que seus descendentes
seriam trazidos de volta à terra de Canaã (Gn 15.13-16) foi uma
nova revelaçã o do cará ter de Deus. Abraã o e os outros patriarcas
conheciam o Senhor como El Shaddai, o Deus de poder, mas nã o
viveram para vê-lo manter sua promessa do pacto de dar a terra de
Canaã à descendência de Abraã o. Deus se revelou como Senhor a
Moisés e Israel do seu tempo, de maneira que o significado completo
do nome pactual de Deus foi manifestado como nunca havia sido
antes (Ê x 6.2-8; 34.5-7).
A lei falava dos profetas (Dt 18.9), reis (Dt 17.14) e sacerdotes,
principalmente dos sacerdotes. Deus estabeleceu limites para a
terra e um sistema de cidades, cortes, adoraçã o e bem-estar. Israel
tinha uma “constituiçã o” dada por Deus para direcioná -lo no seu
ofício sacerdotal para o mundo. A família era fortalecida enquanto
instituiçã o por um presente da terra, que nã o poderia ser tomada
por fronteiras ou impostos e por limites de autoridade dos
magistrados e sacerdotes.
Pela primeira vez na histó ria a autoridade dos sacerdotes e reis é
claramente dividida. O sacerdó cio pertence à tribo de Levi, nenhuma
outra tribo poderia assumir legitimamente os privilégios garantidos
a ela. Os profetas podem ser de qualquer tribo e apesar de serem
apenas ofícios ocasionais, eles tinham uma autoridade especial
transcendendo sacerdotes e reis se necessá rio, ainda que tanto os
sacerdotes quanto os reis pudessem ser profetas. Os reis viriam
eventualmente da tribo de Judá (Gn 49.8-12; cf. Nm 24.17). Desse
ponto em diante, portanto, homem algum poderia ser ao mesmo
tempo sacerdote e rei.
A revelaçã o dada nos Dez Mandamentos e no comentá rio das leis
casuísticas (Ê x 21-24; Dt 6-26), que expunham o significado
religioso, civil e cultural mais completo dos Dez Mandamentos, deu a
Israel uma ética distinta que seria a essência da sua sabedoria nesse
mundo (Dt 4.5-6). A lei era uma unidade. O real significado dos Dez
Mandamentos nã o poderia ser visto à parte das aplicaçõ es mais
amplas dadas nas leis detalhadas de Ê xodo a Deuteronô mio. Em
particular, o sistema sacrificial estabelecido em Levítico expô s a
ordem de cultuarmos no segundo mandamento, o que significa
honrar o nome de Deus na adoraçã o, o terceiro mandamento, e
como guardar o Sabá .
A lei revelou a justiça de Deus em seus mandamentos e sua graça em
seus sacrifícios. Isso ultrapassou todas as revelaçõ es prévias. Israel
recebeu uma revelaçã o ética — sacerdotal na sua preocupaçã o
principal, mas aplicá vel a cada aspecto da vida — que o guiaria em
sabedoria de modo que ele pudesse conduzir o mundo a Deus (Dt
4.1-8).
4. Como qualquer outra administraçã o pactual, a lei de Moisés
incluía a ameaça da maldiçã o por desobediência e a promessa da
bênçã o por obediência, mas nã o era e nã o poderia ser um pacto
“legalista”. A interpretaçã o da lei feita pelos fariseus era que Jesus e
Paulo haviam ensinado claramente uma perversã o do significado
verdadeiro. A lei foi dada como uma bênçã o para Israel a fim de
conduzi-la no caminho da alegria, prosperidade e paz (Dt 6.10-11,
24; 8.7; 10.13; 12.7, 12, 18; 14.26; 16.11, 14, 15; 26.11; 29.9; 30.5, 9,
15). A maior bênçã o da lei foi o taberná culo, dado por Deus como
um santuá rio, sua moradia entre seu povo. A promessa do pacto de
que Deus estaria com seu povo cumpriu-se na dá diva do santuá rio-
taberná culo. Contudo, isso também era claramente temporá rio, visto
que a lei apontava para um santuá rio mais permanente a ser
estabelecido no futuro, em um local nã o especificado (Dt 12.5, 11,
14, 18, 21, 26; 14.23-25; 16.11, 15, 16; 17.8, 10; etc).
É claro que a lei de Moisés também incluía a maldiçã o. Ainda que a
lei fosse uma bênçã o para o povo e uma manifestaçã o de graça,
nesse ponto da histó ria ela também foi a revelaçã o mais enfá tica da
justa ira de Deus contra o pecado já dada ao homem. A definiçã o
profunda de pecado e a puniçã o justa exigida pela lei pretendiam
impressionar os israelitas com sua necessidade da graça de Deus.
Além disso, a lei advertia repetidamente que se Israel se afastasse
dos caminhos de Deus, ela seria rejeitada da sua posiçã o de
liderança e privilégios pactuais (Dt 28.15 ss.).
Mas isso nã o é “legalismo” por qualquer definiçã o razoá vel. A
maldiçã o da lei é aplicada à queles que nã o perseveram no
relacionamento da bênçã o que o pacto estabeleceu. Em outras
palavras, a maldiçã o é aplicada à queles que rejeitam a bênçã o do
pacto, visto que o pacto é um relacionamento de via dupla. O que
deve ser entendido com clareza é que a maldiçã o e a bênçã o nã o sã o
colocadas diante de Israel como dois possíveis destinos iguais que
ele escolhe por livre vontade ou determina por suas obras. Israel foi
abençoado por Deus. Foi assim que começou sua vida pactual com
Deus. A bênçã o do pacto seria dada se Israel perseverasse nele, ou
seja, se respondesse ao amor de Deus com amor. Mas, a maldiçã o
advertia, se traísse esse amor, Israel herdaria a ira de Deus.
5. A lei estabeleceu um sistema elaborado para a continuaçã o do
sacerdó cio e a herança da terra. O mais importante é enfatizado na
preocupaçã o central da herança — a herança de fé — ordenando
que os pais educassem seus filhos no pacto, incluindo seu dever
como uma expressã o da lealdade e amor dos pais a Deus. “Ouve,
Israel, o SENHOR , nosso Deus, é o ú nico SENHOR . Amará s, pois, o
SENHOR , teu Deus, de todo o teu coraçã o, de toda a tua alma e de
toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarã o no teu
coraçã o; tu as inculcará s a teus filhos, e delas falará s assentado em
tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te”
(Dt 6.4-7).
Israel recebeu a terra de Canaã como sua herança pactual, mas o que
foi dado como um presente da graça e recebido pela fé tinha que ser
conquistado por obras difíceis da fé. Foi exigido que Israel lutasse
por sua herança, mas a batalha foi do Senhor. Ele lhes daria a vitó ria.
Nã o só foi prometida a Israel a terra de Canaã , Deus reafirmou a
promessa de Abraã o do domínio evangélico (baseado no Evangelho)
mundial. Se guardasse o pacto, Israel conduziria as naçõ es do
mundo a bênçã os e, ao trazer bênçã os ao mundo todo, herdaria a
terra (cf. Dt 4. 6-8; 28.1, 7, 10, 13).
 
A resposta pactual do homem
Apesar de Israel ter tido um início ruim, a pró xima geraçã o sob a
liderança de Josué conquistou a maior parte da terra de Canaã e
começou a estabelecer uma naçã o temente a Deus com a lei pactual
dele servindo como a lei acima da lei. Apó s a morte de Josué, a
rebeldia repetitiva trouxe a disciplina pactual repetitiva. Israel nã o
prestou atençã o ao aviso final de Josué (Js 24). Israel contraiu
matrimô nio misto com naçõ es nã o cristã s e caiu na idolatria (Jz 2.1-
3; 11-15). Por meio do compromisso espiritual ele contestou sua
pró pria autoridade como naçã o sacerdotal de Deus e foi vendido
como escravo, assim como aconteceu no Egito.
Quando Israel clamou a Deus, ele enviou salvadores, juízes para
libertá -lo dos seus inimigos (Jz 2.16-18). Portanto, períodos de
fidelidade relativa foram seguidos por períodos de rebeldia em
ciclos de pecado, julgamento e arrependimento até o tempo de
Samuel, quando um tipo de julgamento final foi trazido sobre a
naçã o. Saul foi dado como uma espécie de “juiz permanente”, mas
ele também, como a naçã o que conduziu, se afastou de Deus e trouxe
julgamento sobre si mesmo e sobre o seu povo.
 
 
O julgamento pactual de Deus
A bênçã o suprema do pacto mosaico, o taberná culo, foi destruída
depois que Israel trouxe a arca de Deus para a batalha, como se ela
tivesse um poder má gico para lhe dar vitó ria (1Sm 4). Deus
entregou a arca, o símbolo da sua presença, nas mã os dos filisteus
(1Sm 4.11). Com efeito, o pró prio Deus foi para o cativeiro no lugar
do seu povo, trazendo julgamento para seus inimigos, bem como
disciplina do pacto em Israel (1Sm 5.1; 6.18). Assim como os
egípcios antes deles, os filisteus foram aterrorizados com o
julgamento de Deus e enviaram a arca de volta para Israel. A arca,
entã o, saiu do “cativeiro” com o ouro dos filisteus, como Israel saiu
do Egito com espó lios.
Mas o sistema do taberná culo nunca voltou ao “normal”. A arca foi
separada do taberná culo e jamais se uniram novamente. O sistema
mosaico terminou com a destruiçã o do seu centro. Além disso, a
exigência prematura de Israel por um rei, motivada pelo seu desejo
de ser “como as naçõ es” (1Sm 8.5) conseguiu um rei para eles, que
era verdadeiramente como os reis das naçõ es e uma reflexã o sobre a
sua desobediência nacional. A loucura de Saul atingiu seu clímax no
assassinato de Abimeleque e dos sacerdotes de Nobe (1Sm 22.16-
19). Apesar de ele ter preparado o caminho para o pró ximo reinado
do pacto, Saul atraiu a ira de Deus com a sua rejeiçã o do pacto. Israel
nã o manteve o pacto melhor que Saul. O pecado mais grave, que
arruinou Israel mais que qualquer outra coisa, foi o pecado de Eli e
seus dois filhos, que mancharam o sacerdó cio (1Sm 3.11). A naçã o
de sacerdotes falhou na sua responsabilidade central, mas Deus
permaneceu fiel. Ele continuaria manifestando sua graça ao dar a
eles um novo pacto com um novo rei.

CAPÍTULO ONZE: O PACTO DAVÍDICO


 
Assim como o povo de Deus foi oprimido por um Faraó “que nã o
conhecia José” no fim da era patriarcal, eles também foram
oprimidos por um rei que aparentemente nã o conhecia o Senhor no
fim da era mosaica. Saul era uma figura transitó ria — o primeiro rei
de Israel, e mesmo assim, por causa do seu pecado, nã o era um
verdadeiro rei — nã o tã o mau como o Faraó de muitas formas, mas
sob outra perspectiva, ainda pior que Faraó , pois pecou contra uma
luz maior. Além disso, como rei de Israel ele massacrou oitenta e
cinco sacerdotes e destruiu a cidade de Nobe, matando homens,
mulheres e crianças em Israel (1Sm 22.18-19), apesar de ter tido
misericó rdia do rei pagã o Agague (1Sm 15). Ele também procurou
destruir Davi, que ele sabia ser o ungido de Deus.
Foi apenas com Davi que Israel teve um rei verdadeiramente do
Senhor, um homem “segundo seu pró prio coraçã o” (1Sm 13.14),
alguém para quem o Senhor deu um novo pacto. O novo pacto de
Deus com Davi nã o anulou a lei de Moisés ou a promessa a Abraã o.
Pelo contrá rio, ele ampliou e cumpriu ambos, especialmente em três
questõ es: a conquista final da terra, o estabelecimento do reino
hereditá rio e a provisã o de um novo lugar de adoraçã o. A primeira
dessas é frequentemente esquecida, ainda que a Escritura chame
atençã o especificamente para isso. Deus disse a Abraã o: “Naquele
mesmo dia, fez o Senhor aliança com Abrã o, dizendo: À tua
descendência dei esta terra, desde o rio do Egito até ao grande rio
Eufrates” (Gn 15.18). Finalmente, apó s centenas de anos, a
promessa foi cumprida: “Dominava Salomã o sobre todos os reinos
desde o Eufrates até à terra dos filisteus e até à fronteira do Egito; os
quais pagavam tributo e serviram a Salomã o todos os dias da sua
vida” (1Rs 4.21).
O reinado foi mencionado na lei de Moisés, mas nã o foi dado rei
algum. Isso acontece em parte por causa da maldiçã o de Deus na
descendência de Judá , cuja maioria eram filhos de bastardos (cf. Gn
38), e portanto, nã o estavam qualificados para o reinado até a
décima geraçã o (cf. Dt 23.2). Mesmo se a família de Judá estivesse
qualificada, Israel nã o estava maduro o suficiente para a instituiçã o
do reinado durante a era mosaica. Somente quando se desenvolveu,
cultural e espiritualmente, seriam estabelecidos o reinado, o
governo centralizado e um lugar central de adoraçã o.
Além disso, o mesmo pacto que estabeleceu a família de Davi como
família real, também deu a Israel um lugar central de adoraçã o, a
cidade de Davi, Jerusalém. A lei de Moisés faz alusã o a um santuá rio
principal, mas só com o pacto davídico ele foi realmente
providenciado. Planejado por Davi e construído por Salomã o, o
sistema do templo trouxe mudanças importantes na lei e na
adoraçã o de Israel. Novamente, isso é frequentemente esquecido. Os
aspectos cerimoniais do sistema mosaico, com exceçã o dos detalhes
éticos, sã o mudados consideravelmente para se adequarem à
situaçã o do novo pacto.
Em adiçã o ao cumprimento de certas promessas dos pactos
abraâ mico e mosaico, mais adiante o pacto de Davi desenvolveu o
aspecto mais importante do pacto, a doutrina do Messias. O pacto
abraâ mico tinha prometido que a descendência de Eva que salvaria
o mundo seria da família de Abraã o. A profecia de Jacó indicou a
tribo de Judá (Gn 49.8-11). O pacto mosaico previu um profeta como
ele (Dt 18.15). Agora o novo pacto real desenvolveu a promessa
declarando que o Messias seria um descendente real de Davi por
meio do seu filho Salomã o (2Sm 7.8-29; Sl 89).
 
O reino
Nos dias de Davi e Salomã o o mundo destruído pelo dilú vio de Noé
foi finalmente reconstruído. Mais uma vez havia um santuá rio no
centro do mundo onde os homens poderiam ir para adorar a Deus.
Aparentemente Davi entendeu do livro de Gênesis que Jerusalém, o
lar de Melquisedeque, rei-sacerdote, como o Messias, deveria ser a
cidade certa para ser o templo de Deus (cf. Hb 7 e Sl 110, escrito por
Davi). Na cidade santa o rei habitava perto da casa de Deus,
trazendo a ideia de que o rei humano é uma representaçã o do rei
divino. Havia uma terra sagrada ao redor do santuá rio pela qual a
influência do lugar santo deveria fluir para todo o mundo. Com o
restabelecimento da divisã o tríplice de santuá rio, terra e mundo, o
mundo foi finalmente reconstruído. A destruiçã o do dilú vio foi
superada pela graça de Deus.
A provisã o de um rei para governar a terra santa e para servir como
um símbolo e representaçã o do rei celestial evidenciou o
crescimento do pacto. O reino de Deus era muito mais visível e
poderoso nos dias de Salomã o do que tinha sido desde a queda.
Davi, um rei piedoso, era naturalmente responsá vel por promover a
reconstruçã o do sistema de adoraçã o que tinha ruído por causa do
pecado do sacerdote Eli, que desonrou Deus ao nã o disciplinar seus
filhos ímpios (1Sm 2.22-36; 3.11-14). Deus garantiu graciosamente
a Davi a honra de preparar a construçã o da sua casa e ao filho de
Davi a bênçã o de construir o santuá rio do novo templo, um modelo
de É den mais maduro e glorioso que o taberná culo. Deus também
dirigiu Davi e Salomã o a mudarem o sacerdó cio para se adequarem
à situaçã o do novo pacto (cf. Hb 7.12). Primeiramente Davi
replanejou o sacerdó cio ao nomeá -los para servirem o templo em
turnos (1Cr 23-24; 28.11-13; 20-21). Em segundo lugar, Salomã o
expulsou o sumo sacerdote Abiatar e nomeou Zadoque em seu lugar,
em cumprimento da profecia contra a casa de Eli (1Rs 2.27, 35).
Um novo templo no centro da terra que foi prometida a Abraã o e um
rei glorioso para representar o verdadeiro Deus: essa é a situaçã o do
reino nos dias de Davi e Salomã o. Israel estava no auge do seu poder
e gló ria quando Deus graciosamente cumpriu as promessas do pacto
que ele fez aos seus pais.
 
Os cinco pontos do pacto
 
1. Transcendência: quando Davi derrotou seus inimigos e
estabeleceu sua autoridade, ele chamou o profeta Natã e declarou
sua intençã o de construir uma casa para Deus. Mas Deus tinha um
plano diferente. Ele construiria uma casa para Davi: “Porém a tua
casa e o teu reino serã o firmados para sempre diante de ti; teu trono
será estabelecido para sempre” (2Sm 7.16). Deus tomou a iniciativa
de colocar Davi como líder da dinastia de reis que culminaria em
Cristo, o Messias, Rei dos reis e Senhor dos senhores.
2. Hierarquia: Davi e sua descendência foram estabelecidos como
líderes representantes humanos do reino de Deus. O sistema
levítico, estabelecido pela lei de Moisés, continuaria a funcionar,
ainda que fosse modificado para se adequar à situaçã o do novo
reino e à nova casa de Deus. Vinte e quatro séries de sacerdotes
foram nomeados para servirem o templo em turnos. O sumo
sacerdó cio foi tirado da família de Eli e dado a Zadoque, de acordo
com a palavra profética de julgamento dita por meio de Samuel.
O sistema de herança de famílias e terras permaneceu como era sob
a lei de Moisés, ainda que no tempo de Davi, com o aumento da
populaçã o rural, a migraçã o natural de famílias das fazendas e vilas
para cidades maiores deve ter começado. A cultura religiosa
alcançou seu auge com Davi e Salomã o. Posteriormente, quando o
reino do norte se afastou de Deus nos dias de Jeroboã o e depois
disso, as famílias devotas do norte foram transferidas para o sul,
preservando um remanescente de cada tribo.
O reino de Israel era governado por um rei dado por Deus, que ainda
que tenha cometido vá rios pecados sérios contra Deus, buscou
sinceramente a gló ria de Deus e o crescimento do seu reino. O rei
Davi e seu filho, Salomã o, foram profeticamente inspirados a
escrever a Sagrada Escritura segundo suas disposiçõ es particulares
e dons: Davi, Salmos, e Salomã o, a literatura sobre Sabedoria.
3. É tica: A lei de Deus dada por meio de Moisés foi
significativamente modificada. Um novo santuá rio em um lugar fixo
com uma nova família como sumo sacerdotes nã o sã o mudanças
pequenas. Um coro também foi nomeado. De qualquer forma, nos
seus aspectos civis, houve poucas mudanças na lei de Moisés. O rei,
como juiz supremo da terra, deveria manifestar o espírito da lei no
seu governo, para que a lei se tornasse mais clara para o povo de
Deus através dos tempos. Davi comeu dos pã es da proposiçã o, que
eram reservados somente para os sacerdotes, um ato aparente de
desobediência que Deus nã o só abençoou, mas nosso Senhor
ensinou aos fariseus o verdadeiro significado da lei (Mc 2.25-27).
Salomã o, o juiz supremo da terra demonstrou sabedoria na
aplicaçã o da lei de Deus, tanto que a rainha de Sabá viajou a
Jerusalém para encontrá -lo.
4. Juramento: O rei em Israel representava Deus para o povo, assim
como o profeta e o sacerdote. Assim como Deus lidou com a terra
primeiramente por meio dos sacerdotes durante a era sacerdotal de
Moisés, ele também lidou com ela por meio dos reis ao longo da era
real de Davi. Quando os reis eram justos, eles traziam bênçã os de
Deus para toda a naçã o, e quando pecavam, traziam maldiçõ es. O
pecado de Davi ao contar o seu povo nã o foi visto como um pecado
particular (2Sm 24), nem o pecado idó latra de Salomã o (1Rs 11).
Contudo, os reis de Judá eram frequentemente melhores que seu
povo, raramente piores! Quanto mais a naçã o se tornava corrupta, o
povo era amaldiçoado com governantes maus, cujo cará ter e moral
refletiam o cará ter do povo.
5. Sucessã o: O ofício do rei deveria ser herdado pelos descendentes
de Davi, sucedendo no Messias. Mas a idolatria de Salomã o destruiu
o reino unido, dividindo a terra em norte e sul. O reino do norte
adorou desde o princípio o Deus verdadeiro de Israel por meio de
um ídolo, como fizeram os israelitas no deserto. Eles por fim caíram
nas formas mais grotescas de perversidade idó latra. O norte nunca
desfrutou sequer de um rei piedoso. O reino do sul, pela graça de
Deus, teve alguns reis piedosos, mas no fim, foi sobrepujado com
iniquidade e idolatria piores que do norte. Por causa dos seus
pecados, a casa de Davi parecia ter perdido a promessa messiâ nica.
Deus amaldiçoou a linhagem real, jurando que nenhum dos
descendentes de Conias jamais governaria a terra (Jr 22.28-30). A
herança do reino foi perdida, aparentemente para sempre.
 
A resposta pactual do homem
A mesma histó ria de rebeldia e julgamento seguida de
arrependimento que nó s vimos nas eras anteriores ocorreu durante
o período da monarquia. O pró prio Davi pecou cometendo adultério
com Bate-Seba e matando Urias, o heteu. Mesmo ele tendo se
arrependido, mais tarde ele pecou ao recensear seu povo. Salomã o
pecou casando-se com mulheres nã o cristã s, que o afastavam de
Deus. Entã o, o filho do rei mais sá bio de Israel, ouvindo os
conselheiros jovens em vez dos homens mais velhos e sá bios,
tolamente insistiu na sua autoridade quando deveria ter sido
gracioso (1Rs 12). Por causa do pecado e loucura, o reino foi
dividido em dois: Israel e Judá .
A histó ria remanescente de ambos os reinos é de apostasia
progressiva. Tanto Israel no norte quanto Judá no sul se afastaram
de Deus: Israel rapidamente apó s a divisã o do reino, Judá mais
gradativamente depois de um longo período de tempo. No fim, eles
eram o mesmo. Ambos se tornaram apó statas, reinos idó latras que
trouxeram sobre si mesmos a ira de Deus.
 
O julgamento pactual de Deus
Deus retirou o status de Israel como reino independente. Nunca
mais ele recuperou a gló ria do reino de Salomã o. Levado em
cativeiro para a Assíria, os apó statas do reino do norte
desapareceram da histó ria. O reino do sul foi levado à Babilô nia por
setenta anos, mas pela graça de Deus, Judá — cujo tempo de exílio já
incluía em seus limites um remanescente de todas as doze tribos —,
teve permissã o para retornar à terra e reconstruir o templo. O povo
de Deus quebrou uma vez mais o pacto, mas a graça de Deus o
trouxe de volta para a terra para lhe dar um novo e mais glorioso
começo.
 
 
 

CAPÍTULO DOZE: O PACTO DA RESTAURAÇÃO


 
Os setenta anos em cativeiro foram a disciplina de Deus pela
negligência de Israel à sua lei, particularmente em relaçã o ao ano
sabá tico (2Cr 36.21). Esse foi precisamente o julgamento de que ele
foi prevenido na lei de Moisés:
Se ainda assim com isto nã o me ouvirdes e andardes
contrariamente comigo, eu também, com furor, serei contrá rio a
vó s outros e tornarei a castigar-vos sete vezes mais por causa
dos vossos pecados. (Lv 26.27-28)
Assolarei a terra, e se espantarã o disso os vossos inimigos que
nela morarem. Espalhar-vos-ei por entre as naçõ es e
desembainharei a espada atrá s de vó s; a vossa terra será
assolada, e as vossas cidades serã o desertas. Entã o, a terra
folgará nos seus sá bados, todos os dias da sua assolaçã o, e vó s
estareis na terra dos vossos inimigos; nesse tempo, a terra
descansará e folgará nos seus sá bados. Todos os dias da
assolaçã o descansará , porque nã o descansou nos vossos sá bados,
quando habitá veis nela. (Lv 26.32-35)
A transgressã o do descanso começou aparentemente no tempo da
construçã o do templo de Salomã o, indicando o fracasso de Israel em
seguir a lei desde o começo da era do reino. Novamente, onde
abundou o pecado, superabundou a graça de Deus ainda mais. Ao
fim dos setenta anos de cativeiro profetizados por Jeremias (Jr
25.11-12; 29.10), Deus levantou um Messias gentio, como prometeu
em Isaías (Is 44.28-45.4). Ciro, o persa, derrotou a Babilô nia e
pronunciou o decreto que restaurou Israel à sua terra (Es 1.1-4).
 
O reino
O período de restauraçã o é a ú ltima era da histó ria de Israel como
povo de Deus e o período climá tico do antigo pacto. O reino de Deus
cresceu além de Israel e se espalhou pelas naçõ es, que sã o as
protetoras apontadas por Deus para o seu povo sacerdotal. A perda
de independência de Israel e a submissã o aos poderes gentios nã o
foi um movimento negligente no programa do reino de Deus. Abraã o
foi escolhido por Deus de modo que por meio dele todas as naçõ es
do mundo pudessem ser abençoadas (Gn 12.3). Na era da
restauraçã o, isso foi cumprido mais que em qualquer outra época da
histó ria de Israel. Com a dispersã o, os judeus se espalharam por
todo o mundo e trouxeram com eles o conhecimento do verdadeiro
Deus.
Ainda que Daniel tenha passado a maior parte de sua vida servindo
ao Deus da Babilô nia durante o tempo do cativeiro, ele ainda é uma
boa imagem da era da restauraçã o, pois serviu também a “Dario, o
medo”. O trabalho de Daniel era o de aconselhar, ele era o
conselheiro supremo do rei da Babilô nia e entã o dos sá trapas e
presidentes do reino da Pérsia (Dn 6.1-3). O rei pretendia
essencialmente designar Daniel como governador da Pérsia, como
José foi no Egito: “e o rei pensava em estabelecê-lo sobre todo o
reino” (Dn 6.3). Esse nã o foi um chamado secular. Aconselhar o rei e
o auxiliar nos negó cios diá rios do governo era uma das funçõ es de
um profeta, como por exemplo, o profeta Natã fez com Davi (cf. 2Sm
7).
Em outras palavras, durante a era da restauraçã o, Israel enquanto
naçã o nã o tinha mais poder civil, mas ele foi nomeado por Deus para
servir como uma testemunha profética para o mundo. Era
habilidade profética de Israel dar conselhos religiosos aos líderes
dos impérios Babilô nico, Persa, Grego e Romano, que o protegeram
e apesar da sua posiçã o no império, espalharam o conhecimento do
verdadeiro Deus. A era final da histó ria de Israel foi uma era
profética em que a palavra de Deus foi mais abrangente que em
qualquer época da histó ria de Israel.
Seu novo templo em Israel carecia da gló ria do templo de Salomã o
(cf. Ag 2.3), mas como era apropriado para um povo profético em
uma época internacional, seu novo templo real era o templo
“celestial” que foi revelado a Ezequiel (40-48). Os judeus dessa
época receberam uma visã o gloriosa da adoraçã o de Israel e seu
significado global que explicitou o propó sito do taberná culo e do
templo. Por meio da adoraçã o ao verdadeiro Deus, a naçã o
sacerdotal deveria trazer bênçã os para todos os homens.
 
Os cinco pontos do pacto
1. Transcendência: a soberania de Deus controlando as naçõ es foi
revelada nesse período do antigo pacto mais que em qualquer outro.
Daniel previu toda a histó ria do mundo desde a época da Babilô nia
até os tempos do estabelecimento do reino do Messias (Dn 2.27;
7.1). Os reinos desse mundo estavam claramente nas mã os dele e ele
estava guiando a histó ria de acordo com sua vontade. Para os judeus
enquanto naçã o, essa maior revelaçã o do reinado de Deus foi
importante pois aparentemente eles estavam nas mã os de
governadores incrédulos nesse período. Mas o fato de que Deus
predisse a histó ria de toda a era desde o começo colocou tudo isso
numa luz diferente. Os judeus aprenderam que “como ribeiros de
á guas assim é o coraçã o do rei na mã o do Senhor; este, segundo o
seu querer, o inclina” (Pv 21.1).
2. Hierarquia: o governo civil foi tomado dos judeus e dado aos
impérios gentios, mas os gentios foram designados como protetores,
nã o como perseguidores. Enquanto os judeus fossem fiéis a Deus
eles perceberiam que os governantes gentios os favoreciam em
relaçã o a outras naçõ es, como, por exemplo, o rei da Pérsia que
favoreceu os judeus nos dias de Esdras, Neemias, Ester e Mordecai.
O templo tinha um novo sacerdó cio examinado e aprovado por
Esdras (Es 2.62). Jerusalém foi reconstruída nã o mais como um
centro civil, mas como o centro do mundo para a adoraçã o do
verdadeiro Deus, o que é muito mais importante. Além disso, perto
do início dessa era os escribas e fariseus aparentemente
desenvolveram um ministério de lei “profético” para ensinar ao
povo a palavra de Deus. No princípio eles eram, sem dú vida, fiéis a
Deus.
3. É tica: a lei civil dada a Israel por meio de Moisés nã o podia mais
ser aplicada literalmente, pois os judeus deveriam se conformar à s
ordens civis do império. O exemplo mais ó bvio de leis que tiveram
que mudar foram os regulamentos de Moisés concernentes ao rei,
mas outras leis também foram afetadas. Em alguns casos, isso pode
incluir a definiçã o de crime, já em outros pode ser a imposiçã o de
um julgamento diferente daquele especificado na lei de Moisés. Nó s
sabemos, por exemplo, que os judeus sujeitos aos romanos nã o
tinham permissã o para executar criminosos e o pecado da idolatria
nã o foi definido como um crime contra o Estado. As leis territoriais
também tinham que ser modificadas, pois apó s o retorno do exílio
nem todas as famílias podiam provar suas identidades e, sem
dú vida, muitas das famílias originais nã o existiam mais. Além disso,
diferentes limites e claramente a divisã o das terras nos dias de Josué
já nã o seriam mais relevantes. Em suma, vá rias mudanças das leis
civis e sociais foram exigidas, mas a essência da lei, a exigência justa
desta, permaneceu imutá vel.
4. Juramento: durante essa era os líderes mais evidentes da naçã o
eram os profetas e os mestres da Escritura: os escribas e os fariseus.
Se esses homens fossem fiéis a Deus, teriam conduzido a naçã o com
justiça e o reino dos gentios mostraria favor aos judeus, que é o que
nó s vemos nos livros de Esdras, Neemias e Ester. A soberania de
Deus levou os reis da Pérsia a mostrarem bondade especial ao povo
judeu. Os judeus seriam abençoados por Deus enquanto
mantivessem sua lei e se submetessem à autoridade dos gentios, que
Deus colocou sobre eles. Durante grande parte dessa era os judeus
eram oprimidos, nã o por causa da loucura dos impérios dos gentios,
mas por causa da sua pró pria infidelidade a Deus.
5. Sucessã o: a promessa de Adã o de bênçã o global nã o seria
impedida, e sim facilitada pelo fato de que os judeus estavam sob o
governo dos impérios gentios. Mais do que em qualquer outra época
da sua histó ria, os judeus tiveram oportunidade de comercializar e
viajar, espalhando o conhecimento de Deus nas terras dos gentios.
Nã o é coincidência que as reformas das religiõ es do mundo
ganharam espaço nesse período. As mudanças nas religiõ es da
Grécia, Índia e outras naçõ es podem ter sido impostas, pelo menos
em parte, pela influência dos embaixadores enviados por Daniel da
corte da Babilô nia, comerciantes do império Persa e outros judeus,
que trouxeram o conhecimento do verdadeiro Deus com eles por
onde fossem.
Mas Paulo se queixa de que os judeus falharam em sua missã o como
embaixadores do reino de Deus: “Se, porém, tu, que tens por
sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus... Tu, que te
glorias na lei, desonras a Deus pela transgressã o da lei? Pois, como
está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por
vossa causa” (Rm 2.17, 23, 24). No fim dessa era em vez de herdar o
mundo, os judeus, ganharam para si mesmos ignomínia por causa da
sua hipocrisia.
 
A resposta pactual do homem
Os judeus rejeitaram a graça do pacto de Deus nessa era como
fizeram nas anteriores. Assim como em cada era do antigo pacto, os
filhos de Adã o imitaram seu pai na carne. Nos tempos do império
romano, eles sofreram novamente no cativeiro de um poder
estrangeiro. Mas a pecaminosidade do homem alcançou um nível
alto na era da restauraçã o, pois no fim dessa era o Messias apareceu.
Jesus Cristo, a encarnaçã o de Deus, que veio para salvá -los, viveu
entre os judeus por 30 anos e ministrou-lhes por três anos. Sua
reaçã o à graça de Deus era clara: eles odiavam o Salvador com
paixã o. E os oponentes mais entusiá sticos de Cristo eram os líderes
do povo, em particular os escribas e os fariseus, mas também os
sacerdotes, visto que eles expuseram sua hipocrisia e maldade.
A principal acusaçã o de Jesus contra os fariseus e escribas é de que
eles se afastaram da Bíblia e a substituíram por tradiçõ es humanas.
Eles declararam que a autoridade de Deus por tradiçõ es foi
adicionada à palavra de Deus. Declararam ainda ser os verdadeiros
intérpretes da palavra de Deus, mas distorceram seu significado
para seu pró prio proveito: “Ai de vó s, escribas e fariseus, hipó critas,
porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro,
estã o cheios de rapina e intemperança” (Mt 23.25).
Quando os judeus entregaram Cristo para os romanos, para que
fosse morto, até mesmo Pilatos sabia que eles odiavam Jesus por
causa de inveja, e nã o por causa de qualquer crime que ele tenha
cometido (cf. Mt 27.18). Portanto, dada a escolha entre Barrabá s, um
criminoso, e Cristo, eles preferiram Barrabá s (Mt 27.20-22), uma
decisã o que manifestou perfeitamente os padrõ es espirituais da
naçã o. No final, o povo como um todo, e nã o só os líderes, tomaram a
responsabilidade pela morte de Jesus: “E o povo todo respondeu:
Caia sobre nó s o seu sangue e sobre nossos filhos” (Mt 27.25)! Essa
foi a rejeiçã o final da graça de Deus e a manifestaçã o completa do
pecado do homem. Nada em toda a Histó ria do mundo exibiu tã o
claramente a verdade do que a essência do pecado do homem é o
ó dio a Deus (cf. Rm 8.7).
 
O julgamento pactual de Deus
O julgamento de Deus contra o pecado dos judeus começou com a
ressurreiçã o de Cristo, pois a ressurreiçã o coloca a avaliaçã o de
Deus a respeito de Cristo contra aquela dos judeus. A morte nã o
poderia conter Jesus, pois ele era o Filho de Deus sem pecado. A
ressurreiçã o deixou claro para o mundo que Jesus foi aprovado por
Deus e obteve vitó ria sobre o pecado e a morte. Entã o, o julgamento
de Deus começou com vindicaçã o. Ele ergueu Jesus da morte e o
colocou à sua destra, concedendo ao Jesus desprezado e rejeitado
todo o poder no céu e na terra.
O homem que foi crucificado como rei dos judeus foi exaltado e se
tornou Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19.16).
A bênçã o de Deus no ministério dos apó stolos, fazendo milagres por
meio deles e defendendo suas afirmaçõ es como porta-vozes do
verdadeiro Deus e Messias, é outro aspecto do julgamento pactual
de Deus. Pois esse foi o início da criaçã o de um novo Israel, uma
nova descendência de Abraã o que seria nascida do Espírito, nã o da
carne. Isso também significa uma nova lei, um novo sacerdó cio e um
novo templo.
Mas antes que a Igreja pudesse ser totalmente estabelecida, o
julgamento pactual de Deus daqueles que foram responsá veis pela
rejeiçã o do Messias teve que ser finalizado. Tal julgamento seria
cumprido na destruiçã o de Jerusalém, que Jesus predisse que
tomaria lugar durante a geraçã o em que ele morreu (Mt 24.34).
Dentro de quarenta anos, em 70 d.C., Deus trouxe o exército romano
para Jerusalém, da mesma forma que trouxe os babilô nios em 605
a.C. e mais tarde, em 597 e 587 a.C. Os romanos destruíram a antiga
Jerusalém e seu templo, trazendo um julgamento final para o povo
do antigo pacto e trazendo um fim definitivo para a era do antigo
pacto.
Mesmo desde o julgamento, os descendentes físicos de Abraã o nã o
ofereceram os sacrifícios de sangue exigidos pela lei. A destruiçã o do
templo em 70 d.C. trouxe um fim definitivo para a naçã o de Israel
como povo especial de Deus. Deus escolheu uma nova naçã o de
descendentes de Abraã o de acordo com o nascimento espiritual pela
fé (Gl 3.26-29). A nova naçã o incluía os judeus e gentios restantes de
cada terra e tribo. Mas o que faz dessa naçã o fundamentalmente
diferente do antigo povo de Deus é o novo líder, o Ú ltimo Adã o, que
como representante do seu povo satisfez totalmente a ira de Deus
contra o pecado e trouxe a bênçã o da vida eterna. Pela primeira vez
na histó ria do mundo desde a queda, a raça humana é liberta do
domínio do pecado e do mal. O caminho da vida e da bênçã o foi
aberto. É apenas uma questã o de tempo e obra do Espírito irá salvar
o mundo e o conhecimento de Deus encherá o mundo tanto quanto
as á guas cobrem o mar.
CAPÍTULO TREZE: O NOVO PACTO
 
Diferente dos “novos pactos” anteriores, o novo pacto em Cristo
verdadeiramente “recriou” o mundo (cf. 2Co 5.17). Desde a queda de
Adã o, o pacto adâ mico foi renovado vá rias vezes, cada um deles
trazendo um novo líder adâ mico, um novo sacerdó cio, um novo
templo e um novo É den, mas nenhum trouxe a salvaçã o do mundo.
Em todo “novo pacto” anterior à vinda de Cristo, o cabeça pactual
era um mero filho pecador de Adã o que transgrediu a lei como seu
pai. Dessa forma, a maldiçã o do pacto, pronunciada sobre Adã o e sua
raça, nã o pô de ser tirada, somente postergada. Nenhum dos novos
“Adã os” das eras do antigo pacto poderiam cumprir a promessa de
que a descendência da mulher esmagaria a cabeça da serpente,
porque eles mesmos foram esmagados, de novo e de novo.
Mas nos “ú ltimos dias”, Jesus, o Cristo, apareceu (Hb 1.2) e trouxe
um pacto realmente novo. Esse pacto incluiu um novo sacrifício que
tiraria os pecados, um novo templo nã o feito pelas mã os do homem,
um novo sacerdó cio chamado de cada tribo e naçã o e um novo povo
de Deus nascido de cima pelo Espírito. Cristo, portanto, é o
verdadeiro antítipo de Adã o, o cabeça de uma raça inteiramente
nova e uma nova ordem mundial, estabelecida sobre a base da sua
obra salvadora (cf. Rm 5.12-25).
 
O reino
Na situaçã o original do reino, o homem foi colocado em um
santuá rio em um jardim e recebeu o domínio sobre o mundo. Havia
uma distinçã o entre o Jardim do É den e o resto do mundo, mas a
diferença entre as três esferas originais nã o era uma questã o de
santo versus impuro, mas de santidade versus mais santidade e
santíssimo. A funçã o de domínio do homem era preencher o mundo
e transformá -lo em um Jardim de Deus, que manifestaria os louvores
do seu Rei-Criador. A queda de Adã o trouxe ruína. O mundo foi
maculado. O homem foi afastado da presença de Deus e Sataná s
tomou realmente o controle sobre as questõ es cotidianas entre a
raça de Adã o. Assim, a criaçã o original foi julgada e o mundo foi
refeito nos dias de Noé, mas o problema do pecado de Adã o ainda
nã o estava resolvido. Somente a vinda do Messias, a descendência
prometida da mulher, poderia trazer mudanças decisivas.
Quando Jesus nasceu, o mundo do pacto da restauraçã o havia se
deteriorado ao ponto do julgamento final. A terra foi maculada com
os pecados de um povo rebelde. O templo foi manchado com os
pecados de um sacerdó cio também rebelde. O povo de Deus foi
escravizado por um poder estrangeiro, mas de uma forma mais nova
e sutil que antes, pois estavam em sua pró pria terra e desfrutavam
de meios de liberdade externa e tolerâ ncia por suas instituiçõ es
religiosas, ainda que mescladas a desprezo e opressã o.
Externamente eles estavam sujeitos a Roma e muitos dos seus
líderes, particularmente os saduceus, eram escravos espirituais da
visã o de mundo romana.
Oss primeiros dias da era dos gentios foram muito diferentes do seu
fim. A época dos gentios começou com homens como Daniel, Esdras
e Neemias desempenhando a funçã o de conselheiros proféticos para
os reis dos gentios. Nos tempos dos gentios, o relacionamento ideal
entre os judeus e seus reis gentios pode ser ilustrado no livro de
Ester. Os gentios eram os guardiõ es da terra nomeados por Deus,
mas os judeus deveriam governar com eles como uma rainha, com
homens judeus sá bios fornecendo conselhos à corte. Enquanto os
judeus foram fiéis a Deus, os reis gentios o favoreceram e levaram a
sério seus conselhos.
Na época em que Cristo veio, contudo, o tempo dos gentios já tinha
quase chegado à sua conclusã o. Como em eras anteriores de
rebeldia, o povo de Deus foi oprimido. Mas os judeus dos dias de
Jesus abraçaram sua escravidã o como se estivessem em liberdade.
Quando Pô ncio Pilatos perguntou a eles: “Hei de crucificar o vosso
rei?”, os principais sacerdotes, os líderes oficiais da terra,
responderam: “Nã o temos rei, senã o César!” (Jo 19.15).
Eles falaram mais verdadeiramente do que pretendiam, pois os
filhos de Abraã o e seus líderes, os supostos herdeiros de Esdras e
Neemias, degeneraram em críticos legalistas que estavam mais
preocupados com honras e riquezas mundanas do que com o reino
de Deus. Os líderes reais dos judeus eram os fariseus, que eram
primariamente responsá veis por desviar os judeus. Assim, desde o
início do seu ministério, nosso Senhor usou testemunho profético
contra eles pela sua rejeiçã o à palavra de Deus. Sua palavra primá ria
para eles era hipocrisia (Mt 6.2, 5, 16; 15.7; 16.3; 22.18; 23.13-15,
23, 25, 27; Lc 13.15), visto que nã o eram o que fingiam ser.
Os fariseus nã o só enganaram o povo nos seus pró prios dias, mas
também nos nossos, ironicamente confundindo-os como se fossem
seguidores zelosos de Moisés. Ao contrá rio, a essência da acusaçã o
de Cristo contra eles era que eles abandonaram a lei de Moisés e
foram seguir as tradiçõ es dos homens. Para expor a sua hipocrisia
antibíblica Jesus repetidamente lhes pergunta: “Nã o lestes?” (Mt
12.3, 5; 19.4; 21.16, 42; 22.31; Mc 12.10, 26). As tradiçõ es dos seus
ancestrais judeus, sem dú vida, tinham originalmente a intençã o de
auxiliar na interpretaçã o da palavra de Deus, mas essas tradiçõ es
passaram a substituir a autoridade da palavra de Deus. Essa era a
essência da acusaçã o de Jesus contra eles: “Negligenciando o
mandamento de Deus, guardais a tradiçã o dos homens…
Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa
pró pria tradiçã o… invalidando a palavra de Deus pela vossa pró pria
tradiçã o, que vó s mesmos transmitistes…” (Mc 7.8, 9, 13).
Foi essa escravidã o a palavra de homens que constituiu o
verdadeiro cativeiro dos judeus nos dias de Jesus, assim como foi a
escravidã o aos deuses das terras pagã s que constituiu o real
cativeiro das eras anteriores. O poder de Roma representou a
palavra do homem em sua forma mais impressionante. Os judeus
odiavam Roma, mas eles nã o conheciam a liberdade que se pode
encontrar na obediência a Deus. De fato, por mais que tivessem
odiado Roma, eles preferiam escravidã o prá tica ao seu poder do que
culto verdadeiro ao Deus vivo.
Os judeus mostraram claramente que a escravidã o ao homem, nã o
menos que a escravidã o aos ídolos, significa escravidã o aos
demô nios. Assim, embora os judeus fossem governados por um
poder essencialmente secular para quem a adoraçã o do imperador
nã o era religiã o, mas um meio de subjugar o povo, eles nã o estavam
meramente sem Deus no desprezo secular. A terra estava cheia de
demô nios. Nos relatos do Evangelho sobre o ministério de Jesus, nó s
lemos que onde quer que Jesus fosse ele era confrontado por
demô nios que clamavam contra ele. Repetidamente Jesus afasta os
demô nios para salvar os oprimidos, mas isso nã o cura
verdadeiramente os homens que nã o recorrem a Deus, como Jesus
disse para os judeus:
Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares
á ridos, procurando repouso; e, nã o o achando, diz: Voltarei para
minha casa, donde saí. E, tendo voltado, a encontra varrida e
ornamentada. E, tendo voltado, a encontra varrida e
ornamentada. Entã o, vai e leva consigo outros sete espíritos,
piores do que ele, e, entrando, habitam ali; e o ú ltimo estado
daquele homem se torna pior do que o primeiro. (Lc 11.24-26)
Israel era apó stata como um todo. Seus líderes eram hipó critas.
Ainda que nã o adorasse ídolos como nos dias de Jeremias, sua
adoraçã o era vã (Mc 7.7). Jesus veio a Israel como um profeta
chamando ao arrependimento e prometendo a graça de Deus, mas
Israel rejeitou seu testemunho, assim como fez com o ministério de
Jeremias.
Contudo, mesmo nessa época de apostasia demoníaca, Jesus foi
capaz de encontrar um remanescente que acreditasse em Deus e o
seguisse. Esse remanescente deveria ser tirado do Egito — que é o
que Israel se tornou — para uma nova terra, a igreja de Jesus Cristo.
Primeiro, ele foi perseguido pela falsa igreja — a circuncisã o
segundo a carne —, mas Jesus prometeu que por fim eles seriam
justificados por Deus e tornados primícias da colheita do reino que
se estende para todas as terras e tribos.
A vinda do Messias é o pró prio centro da histó ria, o ponto de virada
no programa do reino de Deus. Mesmo que todo pacto antes disso
tenha acabado em fracasso por causa da pecaminosidade do homem,
no final da era dos gentios, nos “ú ltimos dias”, Deus garantiu um
novo pacto, que mudou a histó ria, visto que trouxe a verdadeira
redençã o dos pecados. De um modo radicalmente diferente de
qualquer outra época, o novo pacto em Cristo inaugurou um novo
mundo, criou uma nova raça de homens e estabeleceu um novo
santuá rio com um novo sacerdó cio.
Para trazer um pacto verdadeiramente novo em que o homem fosse
mais uma vez restaurado ao favor de Deus e pudesse ser seu filho
amado, Jesus teve que cumprir perfeitamente as exigências do velho
pacto. A lei exigia a morte pelo pecado de Adã o e sua posteridade
(Rm 6.23). Se o preço do pecado nã o fosse pago, nã o haveria
possibilidade de um novo pacto: “derramamento de sangue, nã o há
remissã o” (Hb 9.22b). O antigo sistema sacrificial do pacto prometia
redençã o por meio de sacrifício substitutivo. Jesus cumpriu a
promessa e entã o retirou a condenaçã o da lei:
Quando, porém, veio Cristo como sumo sacerdote dos bens já
realizados, mediante o maior e mais perfeito taberná culo, nã o
feito por mã os, quer dizer, nã o desta criaçã o, nã o por meio de
sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu pró prio sangue,
entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido
eterna redençã o. Portanto, se o sangue de bodes e de touros e a
cinza de uma novilha, aspergidos sobre os contaminados, os
santificam, quanto à purificaçã o da carne, muito mais o sangue
de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem
má cula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas,
para servirmos ao Deus vivo! (Hb 9.11-14)
Porque, com uma ú nica oferta, aperfeiçoou para sempre quantos
estã o sendo santificados. (Hb 10.14)
 
Ao mesmo tempo, o novo pacto pode ser visto como uma renovaçã o
do antigo pacto, já que ele nã o o anula simplesmente, mas o cumpre
(cf. Mt 5.17-18). O novo pacto em Cristo restaura o que Adã o perdeu
e torna possível para os seus descendentes o cumprimento da obra
que ele se tornou incapaz de finalizar. Assim como cada renovaçã o
do pacto adâ mico original nas eras do antigo pacto envolve
continuidade, assim acontece com a recriaçã o do mundo em Cristo.
Em Cristo, o homem ainda tem a responsabilidade de subjugar o
mundo para a gló ria de Deus (cf. Mt 28.18-20).
O que é chamado de “Antigo Testamento” nã o é abolido como
verdade de Deus para ser substituído pelo chamado “Novo
Testamento”. Na verdade há um livro apenas, cujo todo o conteú do é
relevante e aplicá vel à vida cristã , como os livros do “Novo
Testamento” deixam bem claro. “Toda a Escritura é inspirada por
Deus e ú til para o ensino, para a repreensã o, para a correçã o, para a
educaçã o na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e
perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16-17).
A boa obra que a nova humanidade é chamada a fazer é dupla. A
construçã o do reino de Deus agora nã o significa apenas o
cumprimento da tarefa pactual original da criaçã o que Deus deu a
Adã o e Eva, frequentemente chamada de mandado cultural (Gn
1.26-28), como também envolve o cumprimento da Grande
Comissã o (Mt 28.18-20). A primeira comissã o foi dada à família, que
ainda é a instituiçã o social primá ria para o seu cumprimento. A
dá diva dos filhos é para a família, a educaçã o dos filhos é
primariamente uma responsabilidade familiar, e a atividade
econô mica pertence à família. Contudo, a grande comissã o de Cristo
foi dada à Igreja, a quem pertence a responsabilidade de pregar o
Evangelho, ensinar e batizar.
Ao ensinar a palavra de Deus a indivíduos e famílias, a Igreja traz o
poder salvador de Deus para o mundo, pois o Espírito Santo
trabalha por meio da Palavra. As famílias sã o renovadas pelo seu
poder. Enquanto a Igreja e a família cumprirem seus chamados
dados por Deus, naçõ es inteiras serã o transformadas e o reino de
Deus será espalhado até que o mundo acredite em Cristo. “Lembrar-
se-ã o do Senhor e a ele se converterã o os confins da terra; perante
ele se prostrarã o todas as famílias das naçõ es. Pois do Senhor é o
reino, é ele quem governa as naçõ es” (Sl 22.27-28).
 
Os cinco pontos do pacto
1. Transcendência: a transcendência de Deus foi revelada em cada
era pactual desde a criaçã o do mundo, mas nunca de forma tã o
completa e poderosa como na chegada do novo pacto. Para começar,
existe uma revelaçã o da soberania transcendental de Deus no
cumprimento rico e detalhado de toda a profecia messiâ nica do
antigo pacto. Nó s lemos sobre a realizaçã o de centenas de profecias
messiâ nicas que mostram os detalhes do nascimento, vida e morte
de Jesus.
Assim como outros “novos pactos” envolveram uma revelaçã o maior
do cará ter de Deus, o novo pacto revela quem é Deus de forma tã o
completa que os ensinamentos anteriores sobre Deus parecem
obscuros em comparaçã o. A revelaçã o de Deus do novo pacto vem
com a encarnaçã o de Cristo e o dom do Espírito Santo. O novo pacto
nos ensina que Deus é uma Trindade. Essa verdade está presente no
antigo pacto, visto que o Anjo do Senhor é diferenciado do Senhor ao
mesmo tempo que é identificado com o Senhor (cf. Gn 22.15-16; Ê x
3.2-6; 1Cr 21.15; etc.) e é falado sobre o Espírito Santo (Sl 51.11; Is
44.3; etc.). Mas a clareza da nova revelaçã o é incompará vel. Como
Joã o disse: “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está
no seio do Pai, é quem o revelou” (Jo 1.18).
2. Hierarquia: Cristo fez-se homem e o Espírito Santo é dado a ele,
unindo assim Deus e o homem em um amor pactual e sociedade com
uma intimidade que ultrapassa tudo o que o homem possa imaginar.
Os pagã os se viam como deuses, mas os deuses dos pagã os nã o eram
transcendentais, nem justos. O Deus da Bíblia nã o nos torna
“deuses” no sentido que os pagã os sonharam, mas ele faz da Igreja
sua noiva, trazendo-a para a sociedade pactual da Trindade, que era
o propó sito original de Deus ao criar o homem. Em Cristo, o homem
nã o é apenas salvo do pecado, ele é um herdeiro de Deus (Rm 8.17).
A nova raça humana em Cristo está com Deus em termos pactuais
em uma sociedade eterna de amor.
Isso quer dizer que o povo que faz parte do pacto de Deus nã o pode
mais ser determinado por relaçã o racial com Abraã o, nem por
rituais sangrentos, como circuncisã o. Jesus cumpriu todos os rituais
relacionados a sangue por meio da cruz. Ele abriu um novo caminho
para chegar a Deus por meio da fé na sua morte e ressurreiçã o. O
novo povo de Deus é entã o um povo de fé (Rm 4.1-25). Nã o que o
povo de Deus no antigo pacto fosse um povo de obras ou descrenças.
Pelo contrá rio, Abraã o e Davi sã o grandes exemplos da fé salvadora
a que Paulo apela ao nos mostrar a justificaçã o pela fé (Rm 4.1-8). O
ponto é que essa fé é mais enfatizada do que nunca porque a graça é
revelada como nunca foi antes. Desse modo, o novo povo de Deus é
definido pela fé.
Jesus cumpriu o significado do homem como profeta, sacerdote e rei,
ao se tornar tudo o que Adã o deveria ter sido e ainda mais. Nele, a
nova raça de homens sã o feitos também profetas (At 2.16-18),
sacerdotes (1Pe 2.5) e reis (1Pe 2.9; Ap 1.6). Isso significa a
transformaçã o do indivíduo à imagem de Cristo (Rm 8.29) e, por
meio da obra de regeneraçã o e santificaçã o do Espírito Santo nos
indivíduos, a transformaçã o da família (Ef 5.22-6.4), da igreja (1Co
12.13) e do Estado (Rm 13.1-6). O Estado tem prioridade em
preservar a paz, que é uma responsabilidade primá ria. A família tem
o direito exclusivo de trazer filhos ao mundo e educá -los para Deus.
Ela é também a instituiçã o responsá vel por ensinar a palavra de
Deus e administrar as cerimô nias pactuais de batismo e da ceia do
Senhor. Da perspectiva da construçã o do reino de Deus por meio da
Palavra e do Espírito, a Igreja tem prioridade.
3. É tica: assim como Jesus trouxe uma nova revelaçã o de Deus e uma
transformaçã o do povo de Deus, ele também trouxe uma nova ética.
Ele nã o anula os ensinamentos éticos da lei de Moisés, embora traga
um fim ao sistema sacrificial, as leis acerca da divisã o da terra, e
outros aspectos distintamente judaicos da lei de Moisés, tais como
as restriçõ es alimentícias e os có digos de vestimentas. Mas a ética da
lei de Moisés é ensinada com maior profundidade que antes (cf. Mt
5-7). A essência da lei de Moisés como amor a Deus e amor ao
pró ximo é contrastada com a perversã o farisaica da lei em uma
mera justiça cerimonial externa (Mt 22.34-40). Acima de tudo, a vida
perfeitamente sem pecado de Jesus manifestou o real significado da
lei de Deus como nenhum comentá rio fez.
Seu grande mandamento expressa o mandamento principal da lei de
Moisés com seu pró prio exemplo adicionado como a manifestaçã o
dessa lei: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos
outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos
outros. Nisto conhecerã o todos que sois meus discípulos: se tiverdes
amor uns aos outros” (Jo 13.34-35). Paulo segue o exemplo de Jesus
e resume os Dez Mandamentos na palavra amor (Rm 13.8-10). Os
detalhes da lei de Moisés sã o proveitosos (2Tm 3.16-17). Mas os
detalhes da lei devem ser vistos nos termos do propó sito da lei, que
é nos ensinar como amar Deus e nosso pró ximo. Cristo nos mostrou
o caminho.
4. Juramento: a maldiçã o do antigo pacto, a morte dos pecadores, foi
completamente revelada e totalmente cumprida em Cristo. Ele
suportou os pecados do mundo (Jo 1.29), satisfez a ira de Deus (Rm
3.25; 1Jo 2.2) e redimiu o mundo da maldiçã o (Ti 2.14; Jo 3.16-17). A
morte e a ressurreiçã o de Jesus constituíram um julgamento final
contra o pecado e a vitó ria da justiça sobre o pecado e a morte (cf.
Rm 5.12; 1Co 15).
Por Jesus ter removido a maldiçã o, o caminho para a bênçã o é
aberto para os homens que acreditam nele. A vida eterna, a bênçã o
do pacto que originalmente era simbolizada pela á rvore da vida, é
dada agora livremente à queles que simplesmente acreditam em
Cristo (Jo 3.16). O Evangelho é a declaraçã o de que a maldiçã o foi
tirada e que Deus se reconciliou com o homem. O mundo nã o está
mais sob uma maldiçã o e necessitando da purificaçã o, pois Jesus já o
purificou uma vez. Todos os lugares estã o limpos. Todo o alimento
está limpo. O caminho da salvaçã o está aberto e, pelo poder do
Espírito Santo, Jesus salvará o mundo por meio do Evangelho (Mt
28.18-20; Jo 3.17).
A Igreja segue a Cristo. É normal, mesmo que nã o necessariamente
sem exceçã o, que a Igreja, em qualquer nova á rea, passe por
perseguiçã o e morte, assim como aconteceu com Jesus. A Igreja
também ganha a bênçã o através da maldiçã o. Os primeiros cristã os
obtiveram a vitó ria contra o império romano, nã o por uma
conquista militar, mas pelo derramamento do seu pró prio sangue e
pelo testemunho de Jesus (cf. Ap 12.11, 17). A confiança da Igreja em
Deus e sua fé constante ao enfrentar a morte eventualmente foram
usadas pelo Espírito de Deus para condenar os conquistadores dos
seus pecados (Jo 16.7-11). Quando os cristã os tomam a cruz e
seguem a Cristo, o poder da sua vida ressurreta está com eles e eles
conquistam o mundo (cf. 2 Cr 4.10-12).
5. Sucessã o: Jesus é o “herdeiro de todas as coisas” escolhido por
Deus (Hb 1.2), a verdadeira descendência de Abraã o (Gl 3.16) a
quem foi dada a promessa do mundo (Rm 4.13). Porém, os judeus
planejaram matar seu herdeiro e roubar sua herança por si mesmos
(Mt 21.38). O que eles realizaram, ironicamente, foi a garantia de
que Jesus pudesse herdar todas as coisas, pois foi no que parecia ser
sua maior derrota — a morte como um criminoso — que Jesus
obteve a vitó ria contra o pecado, a morte e o diabo (Cl 2.14-15). A
ressurreiçã o de Cristo justificou Jesus e provou que ele é o Messias,
mas a maioria dos judeus nã o acreditou nesse evento. A destruiçã o
de Jerusalém em 70 d.C. vindicou entã o publicamente Jesus como o
profeta verdadeiro que predisse a vinda da maldiçã o pactual (Mt 23-
25), assim como Jeremias e seus profetas de outrora, e portanto
demonstrou também que ele é o Messias e seus seguidores o
verdadeiro povo de Deus.
Na sua ascensã o, Jesus sentou-se à destra de Deus como Rei dos reis
e Senhor dos senhores, mas seu governo nã o foi realmente um
manifesto de forma pú blica até a destruiçã o de Jerusalém, que
vindicou a sua pessoa e seus ensinamentos. Agora que foi vindicado,
ele conduz sua igreja na conquista do mundo por meio da pregaçã o
do Evangelho (Ap 19.11-16). A Igreja é chamada para viver como
seguidora do Rei dos Reis. Seu Senhor ressuscitou, ascendeu e
sentou-se à destra de Deus. Isso aconteceu porque Jesus herdou
todas as coisas e Paulo pô de dizer aos coríntios: “Portanto, ninguém
se glorie nos homens; porque tudo é vosso: seja Paulo, seja Apolo,
seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas
presentes, sejam as futuras, tudo é vosso, e vó s, de Cristo, e Cristo,
de Deus” (1Co 3.21-23).
Israel recebeu a terra de Canaã como sua herança, mas teve que
lutar para torná -la sua. Portanto, quando a Igreja de Jesus Cristo
recebeu o mundo como herança, ela também teve que participar da
batalha espiritual do Evangelho para trazer o mundo para a sujeiçã o
ao seu mestre (Mt 28.18-20; Ef 6.10-18; Ap 19.11-16). O mundo
inteiro está sob o domínio de Jesus (Mt 28.28; Ef 1.20-23; etc.), mas
ainda nã o o ama e obedece por completo. Por sua pró pria
obediência a Deus, por oraçã o e pregaçã o do Evangelho, a Igreja de
Cristo subjugará o mundo, de forma que um mundo redimido será
capaz de cumprir a comissã o original que Deus deu a Adã o e Eva no
Jardim. A gló ria de Deus será vista em todo o mundo e o propó sito
do homem dado por Deus será cumprido.
 
A resposta pactual do homem
A resposta pactual do homem à graça de Deus é dupla. Primeiro há a
resposta de Cristo, o homem perfeito e o cabeça representativo da
nova raça. Jesus obedeceu a palavra de Deus perfeitamente em sua
vida e subiu aos céus para ficar à destra de Deus como Rei dos reis e
Senhor dos senhores. Pela primeira vez desde a queda, existe um
homem que amou a Deus e guardou seus mandamentos para que o
amor de Deus pudesse ser revelado na histó ria e uma nova
humanidade pudesse ser criada pela graça de Deus.
A Igreja é conduzida pelo Espírito Santo a obedecer a Cristo e por
fim conquistará o mundo à fé em Cristo. Porém, ela nunca será
perfeita até a Segunda Vinda de Cristo. Portanto, a histó ria sempre
será caracterizada por uma luta contra o pecado, pela loucura
humana, egoísmo e orgulho. De fato, a ú ltima geraçã o do homem
apostatará em grande medida e rejeitará o Evangelho. Quando os
homens que odeiam a Deus dessa geraçã o tentarem destruir a Igreja
fazendo uso de violência, Cristo retornará e trará o julgamento final
(Ap 20.7-10).
 
O julgamento pactual de Deus
O julgamento pactual de Deus sobre Cristo na cruz abriu o caminho
para a salvaçã o de forma que a raça humana é salva da ira eterna de
Deus. Ainda que muitos homens rejeitem o Evangelho, a maioria
será salva (Jo 3.17). Na histó ria, o julgamento pactual de Deus de
indivíduos, famílias e naçõ es que rejeitam o Evangelho produz o
crescimento da Igreja e sua vitó ria final. Mas Deus julga e purifica a
pró pria Igreja por meio da disciplina pactual (Hb 12.4-13). A
perseguiçã o e o sofrimento vêm de Deus para espalhar o Evangelho
e purificar seu povo, como pelo fogo (1Pe 1.6-7).
O final da presente era pactual acontecerá com o julgamento final e
o estado eterno do céu e do inferno (Mt 25.31-46; Ap 20.11-15). O
juízo final é um julgamento de obras (Ap 20.13) porque sã o as obras
do homem que manifestam sua fé e declaram publicamente no que
ele realmente acredita. Trata-se também de um julgamento segundo
as obras pois as recompensas da bênçã o eterna e o grau de maldiçã o
eterna sã o determinados pelas vidas que os homens vivem nesse
mundo.
O julgamento pelas obras e a salvaçã o pela fé nã o entram em
conflito, pois a verdadeira fé trabalha pelo amor (Gl 5.6). Ela sempre
se manifesta por meio de atos (Tg 2.14-26). A falsa fé e a hipocrisia
também se manifestam pelos atos e isso nunca foi mostrado com
tanta clareza como na cruz de Cristo, já que foram os líderes
religiosos dos seus dias, que declararam ter fé no verdadeiro Deus,
que o mataram. Entã o o juízo final trará à luz a verdadeira atitude de
coraçã o dos homens e mostrará como ela foi manifestada em suas
obras. Deus julgará e recompensará todos os homens com justiça
perfeita. Mas para seu povo ele dará mais do que justiça, pois o
recompensará por seus bons atos, que nunca foram perfeitos e
jamais poderiam merecer qualquer recompensa.
Na eternidade, a Igreja glorificará a Deus e desfrutará dele para
sempre. Ela crescerá em conhecimento, amor e sabedoria à medida
que vê para sempre novos aspectos da beleza e gló ria de Deus. O
pró prio Deus e toda a maravilha da sua infinita grandeza sã o o que
tornam o céu um lugar da mais perfeita felicidade. Nó s nã o sabemos
que obras Deus nos reserva na eternidade, mas sabemos que a Igreja
de Cristo olha para o tempo incontá vel de novas tarefas a serem
cumpridas com e por Cristo, que ela desfrutará em atividade com
seu bendito Salvador (Ap 22.1-5).
Para aqueles que odeiam Deus, o pró prio céu seria um inferno, pois
nada é mais repugnante para eles que Deus. A maioria dos homens,
ou seja, aqueles que se rebelaram teimosamente contra a sua
bondade passarã o a eternidade no inferno, padecendo um
sofrimento sem fim. Eles odiarã o a si mesmos pela loucura que se
tornará inescapavelmente clara à medida que odeiam Deus por
deixar isso claro para eles. Nó s nã o reconheceremos mais os nossos
antigos amigos ali. Pois todo o pecado e a impiedade que estã o em
seus coraçõ es, que foram graciosamente reprimidos pelo Espírito
Santo durante suas vidas terrenas, serã o agora totalmente
desenvolvidos e manifestos o má ximo possível dentro dos confins
da prisã o eterna.
A histó ria do pacto de Deus é trazida ao fim no que concerne à tarefa
do homem na terra. Mas a relaçã o de Deus com o homem continua
sendo uma relaçã o pactual e a eternidade trará eras sem fim de
gló ria e maravilhas. A essência do pacto é o amor e o propó sito final
do pacto que Deus deu ao homem é que o homem seja levado à
comunhã o das Pessoas Triú nas. Isso é onde a Bíblia termina — uma
visã o do homem no céu com Deus, vivendo em uma cidade-
santuá rio cheia de toda sorte de bênçã os conhecidas ao homem.
 
Nunca mais haverá qualquer maldiçã o.
Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro.
Os seus servos o servirã o,
contemplarã o a sua face,
e na sua fronte está o nome dele.
Entã o, já nã o haverá noite,
nem precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol,
porque o Senhor Deus brilhará sobre eles,
e reinarã o pelos séculos dos séculos.
(Ap 22.3-5)

SOBRE O AUTOR
 
Ralph Allan Smith se formou com honras na Universidade de Ohio
em 1967, com especializaçã o em psicologia. Em 1976 casou-se com
sua esposa Sylvia. Em 1978 ambos terminaram o mestrado em
teologia, no Grace Theological Seminary. Em 1981, apó s anos de
experiência em plantaçã o de igrejas nos Estados Unidos, eles se
mudaram para Tó quio, Japã o. O casal serve desde entã o a Mitaka
Evangelical Church, fundada em 1981 e afiliada à Communion of
Reformed Evangelical Churchs. Autor de diversos livros, Ralph é
diretor do Covenant Worldview Institute.
 

[1]
O esboço original de Sutton nã o traz a grafia da palavra THEOS como aqui, mas os
pontos sã o os mesmos. Conferir Ray Sutton, That You May Prosper (Tyler, Texas: Institute
for Christian Economics, 1987).
[2]
James B. Jordan, Covenant Sequence in Leviticus and Deuteronomy (Tyler, Texas:
Institute for Christian Economics, 1989), p. 3-6. Jordan também sugere uma aproximaçã o
tripla ao pacto em The Law of the Covenant (Tyler, Texas: Institute for Christian Economics,
1984), p. 7: “Em linhas gerais o pacto tem três aspectos. Há uma ligaçã o lícita. Há um
relacionamento pessoal. Há uma estrutura que permeia a comunidade”. Ele desenvolve
uma abordagem de quatro pontos e uma de doze pontos em Through New Eyes , p. 130-
131.
[3]
Covenant Sequence in Leviticus and Deuteronomy , p. 6, 9-10.
[4]
Gary North, The Sinai Strategy: Economics and the Ten Commandments (Tyler, Texas:
Institute for Christian Economics, 1986).
[5]
Op. cit. p. 214-24.
[6]
Op. cit. p. 10-13.
[7]
Covenant Sequence in Leviticus and Deuteronomy , p. 14.
 
[8]
A traduçã o correta de Oseias 6.7a é: “Mas eles como Adã o transgrediram o pacto…”.
Veja, Benjamin B. Warfield, “Hosea VI.7: Adam or Man?”, em Shorter Collected Writings , vol.
1, p. 116 ss.

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