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Recensão crítica

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Setephen R. Stoer & António Magalhães (2005).


A Diferença Somos Nós – A Gestão da Mudança social
e as Políticas educativas e sociais.
Porto: Edições Afrontamento.

A gestão da mudança social passado tanto tempo já deveríamos estar


e as políticas educativas a pensar em temos de sociedade inclusiva.
Curiosamente em termos de mercado “foi
criado um espaço global onde todos os in-
Desde o século XIX que o modelo cien- divíduos, independentemente das suas dife-
tífico dominava a investigação nas várias renças, parecem ser incluídos como consu-
áreas do conhecimento. Tentando explicar midores” (p. 11). Nesta lógica, o ser incluído
e compreender o funcionamento do mundo, é essencialmente um potencial consumidor,
da vida e das sociedades, sempre ligado às onde a identificação das pessoas se reali-
conjunturas políticas e às decisões governa- za em termos de necessidade de consumo.
mentais em vigor. Esta ideologia é denominada pelos autores
Actualmente estamos perante uma nova de “concepção medieval” que segundo estes
situação descrita por Stoer e Magalhães assemelha-se bastante à moderna e onde
(2005) como uma “encruzilhada em que se este tipo de inclusão nega qualquer diferen-
parece encontrar o pensamento e a acção ça. Assim, esta pretende redefinir a inclusão
sobre as diferenças”(p. 10). social negando a sua identidade própria. Le-
Os autores apresentam uma nova pers- vanta ainda várias questões nomeadamente
pectiva de pensar a diferença da seguinte em termos de globalização e opõe-se à ideia
forma: “segundo a qual a inclusão se deve desen-
volver com base na lógica de que quem não
O acto de devolução de voz pode não escapar à é consumidor é excluído” (p. 13). Defende
delimitação de outro como objecto, desta feita também que a “ justiça redistributiva este-
através da nossa generosidade política. É neste
sentido que nos colocamos sob a afirmação “ a ja ligada ao reconhecimento das diferenças” (p.
diferença somos nós” a diferença, nesta pers- 13).
pectiva, é o produto de um jogo relacional no As decisões no campo da sociologia da
qual deixou de haver um centro privilegiado a educação numa época de globalização mos-
partir do qual se pode determinar quem são os
outros, quem são os diferentes. (p. 10)
tram as implicações das decisões políticas
nos processos de mudança e propõem um
“dispositivo hermenêutico que nos permita
Será difícil neste momento falar em inclu-
simultaneamente escapar ao anything goes
são numa fase onde as pessoas já deveriam
(vale tudo) pós- modernista e localizar as
estar plenamente incluídas na sociedade.
acções políticas na nova geografia social dos
Ao criar projectos de inclusão está-se a
processos de decisão” (p.19)
criar uma diferença, a partir de “um olhar
Em primeiro lugar surge a perspectiva de
marcado pela diferença” ou será ainda que
que os projectos políticos são projectos de
este olhar não irá excluir? Deste modo, as
mudança social, com vista a sua legitimação
relações existentes nestas duas posições e
política sustentada por uma narrativa funda-
como os autores definem “os diferentes em
dora, que segundo os autores, baseados em
relação ao Nós”
Cood (1988) defendia que as palavras pro-
Além disso, no mercado e numa perspecti-
feridas pelos políticos não vão de encontro
va de inclusão social, parece existir um con-
aos reais interesses do povo e sobretudo,
tra-senso em falar em inclusão, uma vez que
não representa “ a real heterogeneidade

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da sociedade e a diversidade dos interesses” próprios actores “a própria relação entre os


(p.20). actores que é susceptível de ser localizada
Os autores referem igualmente Dale como emancipação, como dominação, como
(1986) que estudou a política educativa alienação, etc..., e não a acção política apa-
dividindo-a em três projectos: o de adminis- rentemente dimanada da substância de cada
tração social, o de análise das políticas e o um dos actores” (p. 26).
da ciência social, salientando que no resulta-
do obtido verifica-se uma divisão nítida en- A “Nova Classe Média”
tre o trabalho dos políticos e dos adminis- e a reconfiguração do mandato
endereçado ao sistema educativo
tradores e o trabalho dos cientistas sociais.
Independentemente da natureza do projec-
Neste capítulo, os autores realizam uma
to “a decisão política é um texto dentro de
retrospectiva da educação face às exigências
um (con)texto, sua determinação directa do mercado de trabalho ou seja, a escolari-
entre um e outro” (p. 22). Acrescentam que zação aparece como uma possível resposta
na língua inglesa existem duas palavras que necessária à sociedade e “ao mesmo tempo
diferenciam bem estas duas situações a polí- como um instrumento a utilizar para es-
tica: politics e policies, que é a concretização capar às origens sociais e familiares como
directa das decisões, mas na nossa língua consequência dessas mesmas origens”(p.41).
não existe essa nuance. Surge então uma nova classe social “a nova
Como exemplo significativo desta situação, classe média”, que no campo da educação
Stoer e Magalhães (2005) referem a criação faz novas exigências e reivindica os seus di-
de turmas de currículo alternativo, no sen- reitos. Em termos económicos, as regras são
tido de combaterem o insucesso escolar e normalmente impostas pelo capital e trans-
abandono que se confrontam com a políti- forma hábitos, costumes e a cultura dos po-
ca global e a gestão flexível do currículo. vos de uma forma global, “fenómenos que
Aliás, na prática estas turmas tornam-se um vão desde a transformação da intimidade à
depósito de alunos com problemas de com- reinvenção das tradições e o culto do efé-
portamento, que são rotulados na própria mero” (p.41).
escola pelos colegas, pelos próprios pro- Deste modo, surgem novos modos de
fessores e que originam a sua exclusão no vida ligados directamente ao consumo que
transforma a sociedade. Assim sendo, con-
seio da sociedade. No contexto escolar es-
vém reflectir sobre esta situação a um nível
tes alunos são postos de parte e rotulados
planetário, porque compromete igualmente
negativamente ou como os autores referem
toda a existência humana, já não se trata de
proporcionam “a gestão controlada da ex- problemas isolados de um só país, mas que
clusão” (p. 23). dizem respeito ao ser humano em geral. Os
Relativamente às mudanças sociais en- autores advertem que na sociedade surgem
quanto consequências de decisões políticas novas circunstâncias e onde “efectivamente,
nem sempre são directas ou até nem che- as implicações destas mudanças de teor cul-
gam a obter qualquer mudança. Assim, citan- tural conduzem-nos a uma análise não só de
do os autores: “aquilo que é desejável em estilos de vida, como também do surgimen-
termos políticos, geralmente cristalizado em to de novas formas de cidadania” (p. 41).
torno das utopias tem sido de algum modo
heterogeneizado, dando lugar a heterotopias Educação, sociedade em rede
mais ou menos incomensuráveis entre si”(p. 25). e redefinição do conhecimento
Estes autores referem também vários exem-
plos: projectos ecologistas, feministas, mo- O capítulo três é essencialmente basea-
vimentos homossexuais entre outros que do no mandato para o sistema educativo de
normalmente não chegam a concretizar ne- Dale (1996) que “sofreu transformações que
nhuma mudança social. Pelo contrário, estas não se limitam à formação da cidadania e à
poderão ser possíveis através da acção dos preparação para o trabalho, implicando tam-

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bém mudanças no âmbito da dimensão re- Pelo exposto as exigências da sociedade


ferente ao desenvolvimento de capacidades realizadas à escola aumentam cada vez mais
individuais” (p. 43). tornando-se dificilmente exequíveis.
Ultimamente a comunidade em geral tem O conhecimento como meio de formação
exigido da escola os resultados obtido e as estrutura-se basicamente em dois pontos:
contas do que gasta ou seja a prestar contas “como competências essenciais”, necessá-
do dinheiro investido pelo estado. Por outro rias ao funcionamento autónomo de qual-
lado exige que esta responda às suas neces- quer indivíduo e como formação integral
sidades, como é o exemplo do preenchimen- que está longe ou afastada de qualquer re-
to de horário com actividades extra-curri- lação com o trabalho. Estes dois pontos pa-
culares, onde as crianças estão ocupadas até recem cruzar-se com “o surgimento da so-
ao momento em que os pais as possam ir ciedade em rede”. Os autores referem que
buscar. De igual modo é solicitada uma res- “ao tornar-se capital informacional comuni-
posta educativa que propicie a socialização cacional, o conhecimento parece mudar de
escolar e a formação de trabalhadores. Nes- natureza” (p.52). Alertam e interrogam-se
se aspecto é curioso que estas exigências se sobre o facto da rede se ter transformado
contradizem: por um lado pede-se à escola e ser conivente com o sistema, ou seja, es-
que fomente a socialização e a emancipação tar ao serviço da nova economia global. Será
dos indivíduos, por outro lado é-lhe também que é possível ficar fora desta ou fora deste
solicitada a formação de trabalhadores dis- sistema de informação?
ciplinados e com competências adequadas
ao mundo laboral. Uma das críticas realizada Este último tipo de reconfiguração do conhe-
ao sistema escolar é a de não conseguir pre- cimento é condicionado pelo facto de ele ser
parar os alunos para a realidade laboral. simultaneamente local e global, isto é, o conhe-
cimento produzido localmente, dado que não
Esta combinação da racionalidade moderna existe independentemente da estrutura capi-
com a lógica do capitalismo e com a da orga- talista globalizada, tem uma dimensão global.
nização estatal teve amplas consequências nos (Stoer e Magalhães, 2005, p.57)
mandatos dirigidos à socialização escolar, não
só visível na já mencionada formação de bons No seguimento deste tema, surge uma pre-
operários, mas também na própria concepção ocupação com a inclusão e a “emancipação
do papel do conhecimento no desenvolvimento humana”, que segundo os autores, importar
individual. (Stoer e Magalhães, 2005, p. 45) resolver, no sentido de saber se a socieda-
de pretende desenvolver nos indivíduos ca-
Consequentemente, será sempre difícil pacidades que respondam ao mercado de
corresponder às exigências do capitalismo trabalho ou se quer um cidadão capaz de
feroz onde o conhecimento aparece como decidir o que pretende para si próprio, para
formação e ao serviço do mesmo. Cria-se a sua espécie e para o planeta. Na opinião
então um fosso entre a pedagogia e a per- de Pernoud (2001), citado pelos autores, “a
formance, ou seja, é necessário clarificar o competência é uma mais valia acrescentada
conceito que é aproveitado enquanto ins- aos saberes: a capacidade de a utilizar para
trumento ao serviço do mercado do traba- resolver problemas, construir estratégias,
lho e do poder político: tomar decisões, actuar no sentido mais vas-
como se o conhecimento veiculado na to da expressão” (p. 55).
relação ensino/aprendizagem fosse uma ex-
tensão das exigências da globalização eco- Cinco lugares do impacto de exclusão
nómica, por um lado, e função das novas social
necessidades emergentes da reconfiguração
científica e tecnológica dos processos de A questão central apresentada pelos auto-
produção e distribuição por outro. (Stoer e res, neste ponto, não se refere à diferencia-
Magalhães, 2005, p. 47) ção de terminologias como “informação” e
“conhecimento”, mas sim à “sua relação nos

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contextos de agência social”(p.58), em que Numa sociedade de consumo, quem co-


questões como a Inclusão/Exclusão social manda é o capital e o fluxo de dinheiro que,
implicam, necessariamente transformações segundo os autores, acaba por deshumanizar:
da sociedade em si, quer no contexto euro-
peu quer a um nívelmais global. O capitalismo desteritorializa radicalmente, por
De um modo geral as exigências da econo- um lado, a produção, a distribuição e o consumo
e, por outro, identidades, o que significa que vão
mia internacional esquecem as necessidades sendo criadas condições para que as identida-
individuais ou seja cada indivíduo é encara- des já não sejam potencialmente baseadas num
do como um potencial consumidor caso não local, mas antes cada vez mais fundadas nos es-
corresponda aos padrões impostos pelas tilos de vida e nas crenças partilhadas. (p.117)
exigências do capital, o mesmo acabará por
ser excluído da sociedade e até marginali- Giddens (1999) definiu como “reinvenção
zado. da tradição”, uma filiação em princípios e
Stoer e Magalhães, neste capítulo reali- estilos de vida que se agrupam, como é caso
zam uma análise detalhada e com diferentes dos verdes, entre outros. Pelo exposto “a
perspectivas em vários contextos nomea- definição de território é determinada pelo
damente em “ cinco lugares – o corpo, o paradigma do qual ele faz parte e a partir do
trabalho, a cidadania, a identidade e o ter- qual é interpretado” (p.117).
ritório – onde a inclusão/exclusão social Nos contextos descritos pelos autores
produz o seu impacto” (p. 61). Os autores que expõem esta nova realidade assim, “ no-
utilizam como referência três paradigmas vas formas de identidade, novas formas de
socioculturais que englobam as sociedades cidadania, novas formas de posicionamen-
tradicionais, as sociedades modernas e as to no mundo do trabalho, novas formas de
emergentes, sociedades pós-modernas. pensar e de viver o território e novas for-
Nas sociedades pré-modernas, o territó- mas de assunção do corpo por parte dos in-
rio era definido pela comunidade local. A divíduos e dos grupos” (Stoer e Magalhães,
exclusão social resulta do facto de não se 2005, p. 118). Por sua vez, Giddens (1999)
pertencer a essa comunidade. Assim, o que definiu esta nova realidade como sendo uma
provém de fora da comunidade e do seu ter- “sociedade sociológica”.
ritório é encarado como uma ameaça. Em forma de conclusão e parafraseando
Nas sociedades tradicionais o indivíduo os autores:
incluído experimenta um forte sentimento
de pertença, uma vez que partilha os valo- Com alguma frequência, o mundo que genero-
res culturais da comunidade, apropriando-se samente queremos construir para os outros é
precisamente o mesmo em que nós próprios
dos seus símbolos sociais, costumes “ritu- queremos ser incluídos. Assim, lutar pela inclu-
ais” próprios. A sociedade da antiga Grécia são é lutar pela afirmação da diferença própria
é disso um bom exemplo, na medida em que e não para um mundo próprio. (p. 123)
quem nascesse fora da cidade (designada-
mente os escravos) tinha um estatuto infe- Daí “A diferença somos nós”, onde somos
rior e era pura e simplesmente excluído. nós próprios que criamos as diferenças e
Nas sociedades pós-modernas “o terri- dentro das nossas próprias diferenças so-
tório torna-se nacional em escala global”, mos “desiguais”.
exercendo uma cultura planetária. Dale
(2000), citado pelos autores definiu esta si-
tuação como uma “cultura mundial comum” A incomensurabilidade da diferença
(p. 116). O exemplo mais flagrante é a Inter- e o anti-antietnocentrismo
net que conseguiu criar uma “sociedade em
rede”, onde quem está na rede está incluído, Neste capítulo, os autores tentam encon-
mas quem não está ou não faz parte da rede trar um quadro de referências quanto ao
é excluído. relativismo e ao etnocentrismo. Como au-

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tores de referência, evocam Clifford Geertz e são reconhecidos, como pertencentes a


(1984) que escreveu sobre o relativismo e esse grupo, a essa sociedade” (p. 130). As-
Richard Rorty (1991) que definiu a inco- sim, nas sociedades existe uma variedade de
mensurabilidade da diferença da seguinte grupos culturais que possuem os mesmos
forma: “trata-se, “para nós” (sic), de uma valores universais e os mesmos padrões de
tentativa de comunicação entre “nós” e comportamento.
“pessoas” que não podem ser consideradas Ainda neste capítulo, é abordada a ques-
como possíveis parceiros de conversas” (p. tão do multiculturalismo, em que os autores
126). propõem a criação de propostas de acção
Ainda segundo Stoer e Magalhães (2005), social e políticas que favoreçam esta reali-
neste caso estes, são considerados como dade. São também referidos e citados vários
etnocentristas. Como exemplo, é relatado autores, nomeadamente Chavez (1994) que
o caso de um índio americano que tinha alertou para o perigo da “naturalização das
problemas de rins e precisava de fazer tra- alteridades culturais”, onde a relação com a
tamentos de hemodiálise; tendo ignorado diferença poderá transformar-se em integra-
ção da cultura dominante.
as orientações dos médicos no sentido de
Falam ainda da renovação do multicultura-
deixar de beber álcool, acabou por morrer.
lismo como se fosse um “jogo de relações
Neste relato é explicado que a recusa em
com a diferença cultural no jogo mais amplo
deixar de beber é condenada pela classe
que é o dos processos sociais” (p. 133) e
médica, no entanto, o índio foi sujeito aos
onde a tolerância assume um papel de cons-
tratamentos como qualquer outra pessoa.
ciência. No entanto, os autores questionam
“a própria natureza arrogante da tolerância,
O índio americano, cidadão americano, precisa-
enquanto máximo de consciência possível
va de tratamento, foi inscrito na lista de espera
dos cidadãos que aguardavam o mesmo tipo de daquilo que é susceptível de ser aceite” (p.
tratamento e, quando chegou a sua vez, foi tra- 134). Referem o ocidente como um exemplo
tado como todos os outros...Isto é, os médicos de cultura dominante que tem mantido até
tinham que actuar em nome da justiça para to- agora a sua supremacia.
dos, justiça essa crucial para que a sociedade No mundo como um bazar de Kuwait,
funcione. Se tivessem assumido o quadro cultu-
ral do índio teriam postos em causa os direitos os autores enquadram estas mudanças
dos cidadãos, a maior parte dos quais perten- “numa época de globalização”, onde o mun-
cente a quadros culturais diferentes. (p. 128) do se parece cada vez mais com um “bazar
do Kuwait, do que um clube inglês” com uma
enorme diversidade de relações e onde a
Rorty diferenciando “agentes do amor
diferença prima em detrimento da homoge-
e agentes da justiça”, refere que em todas
neidade e da uniformidade: “o eixo das rela-
as sociedades democráticas deveriam exis- ções sociais torna-se mais horizontal do que
tir estas duas vertentes, em primeiro lugar vertical, quer dizer, privilegia-se as relações
como “connaisseurs da diversidade” que têm entre culturas a partir da sua igualdade e
como objectivo principal a “inclusão com não as relações hierarquizadas entre elas”
base na diferença e como também “guar- (p. 134). Referem Rorty (1991) que definiu
diões da universalidade” em que defende a o bazar, não como uma “comunidade”, mas
promoção da cidadania fundada no princípio sim como uma sociedade civil.
da igualdade de oportunidades” (cf. Rorty, Defendem também uma cidade mundial
1991, citado por Stoer e Magalhães, p. 128). que teria responsabilidades, justiça e que
Seguidamente, nesta obra, os autores re- seria baseada em ideais morais.
alizam uma reflexão em torno da diferença Na realidade, o mundo encontra-se cada
na sua incomensurabilidade e referem Shwe- vez mais desigual e esta visão de cidade
den (1997) que apresentou formas de so- mundial dificilmente se poderá concretizar
cialização e “enculturação”, ou seja, pessoas ou terá permanecido somente como “uma
dentro de um mesmo grupo cultural, “den- promessa de modernidade não cumprida”
tro dos quais os indivíduos se reconhecem (p. 135).

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Contributos para a reconfiguração da edu- taram a seguinte sugestão “trata-me como


cação inter/multicultural igual, mas deixa-me ser quem eu sou” (p.
165). Assim, esta obra “representa o nosso
No sexto capítulo, os autores apresentam contributo para o repensar da igualdade
quatro modelos de conceptualização e de le- num contexto em que a definição da cidada-
gitimação da relação com a diferença, tendo nia se faz crescente a partir daquilo que, em
em conta as políticas educativas e sociais: termos individuais e grupais nos distingue
dos outros concidadãos” (p. 165). Trata-se
- Modelo etnocêntrico: o outro é dife- de um paradoxo que tem vindo a aparecer
rente devido ao seu estado de desenvolvi- cada vez mais e onde deixou de haver um
mento (cognitivo e cultural); centro privilegiado a partir do qual as dife-
Modelo da tolerância: o outro é dife- renças eram definidas. Essa perda de privi-
rente, mas a sua diferença é lida através de légio cognitivo e político levou os autores a
um padrão que reconhece essa diferença perspectivar uma nova visão da situação de
como legitima (a ser tolerada); “A diferença somos nós”, o que implica que
Modelo da generosidade: o outro é di- o “nós” é o produto do conflito sobre os
ferente e essa diferença é assumida como outros e com os outros “nós”.
uma construção do próprio Ocidente; No modelo relacional onde “os espaços
Modelo relacional: O outro é diferente de relação em que o conflito não surge
e nós também somos! A diferença está na como um obstáculo à reinvenção das co-
relação entre diferentes. (p. 138) munidades, mas como o próprio terreno a
partir do qual o próprio contrato social é
Estes modelos, segundo os autores, têm renegociado”(p. 166). Assim o principal ob-
em conta as sociedades ocidentais numa jectivo é a emancipação da diferença.
“perspectiva diacrónica e sincrónica” e as O projecto da educação universal tal
relações existentes com a diferença de uma como foi concebido pelo “projecto da mo-
forma interna e externa. Para tal, tentaram dernidade” e organizado de “cima para bai-
clarificar as intenções políticas e a sua apli- xo” Top down pelo governo não parece ter
cabilidade no terreno, numa perspectiva obtido os resultados esperados porque a ló-
epistemológica e sociológica. gica social impõe uma organização de “baixo
Na segunda parte deste ponto, relacionam para cima”, ou seja, deverá ser construída a
estes modelos “assumidos como heurísti- partir dos principais interessados, dos seus
cos” com o sector específico da educação interesses, projectos e vontades de forma
inter/multiculturalidade e apontam para um individual ou colectiva. Neste sentido a edu-
necessidade de se centrar no próprio indiví- cação reclamada é:
duo que “pensa a diferença e não na própria
diferença”, nas suas acções. Não obstante, Ao mesmo tempo um conjunto de ameaças e
este será aquele que percebe e se preocupa de oportunidades. Ameaças porque o risco é a
de condenação a tornarem-se definitivamente
com esta questão e não como um represen- individuais (esvaziando, assim, qualquer política
tante da acção social. Finalmente, Stoer e educativa e / ou social enquanto projecto de
Magalhães (2005) entendem que as diferen- responsabilidade colectiva pela satisfação das
ças sustentam uma postura epistemológica e necessidades individuais: o indivíduo é res-
política que se poderá assim, situar no mo- ponsável pelas sua educação, saúde, segurança
etc...); oportunidades, porque permite colocar
delo relacional. a educação nos projectos “globais” dos indiví-
duos desresponsabilização do estado e dos gru-
A Europa como bazar: educação na Eu- pos. (Stoer e Magalhães, 2005, p.167)
ropa do conhecimento
Os autores, continuando com a mesma li-
Na tentativa de redefinir o conceito de nha de pensamento, acreditam que se existe
igualdade, os autores em questão apresen- alguém que se sobrepõe ao outro, não será

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por ser certamente “mais sabedor e seguro Acreditamos, como os autores, que o mo-
acerca do que convém aos outros. Estes ou- delo relacional será o mais adequado. Citan-
tros no fundo, na perspectiva que desenvol- do os autores, este modelo: “baseia-se numa
vemos surgem como um parceiro integral, forma de agência bastante mais modesta do
cujo controlo político já não é desejável, que a agência da perspectiva do multicultu-
nem possível exercer” (p. 168). ralismo crítico. Em vez de ser “emancipató-
Em suma, gerir as políticas sociais é pro- ria”, é reflexiva e, em vez de repor o domí-
curar, no fio da navalha, lidar com a inco- nio da mudança, propõe uma matriz tripla
mensurabilidade das diferenças num mundo para lidar com a mudança” (p. 142).
e particularmente na Europa, onde estamos Enquanto docente, pensamos que aceitar
definitivamente “condenados” a viver em o que difere do nosso mundo é sempre uma
conjunto” (p. 168) tarefa complicada, onde a tolerância é muito
mais que aceitar, vai mais além e pressupõe
Concluindo uma forma diferente de estar na escola. Esta
À luz da informação e dos conceitos apre- postura terá que ser forçosamente diferente
sentados nesta obra, entendemos que di- do comum, do que é habitual. Deverá tam-
ficilmente se poderá dar uma resposta re- bém ser um modelo enquanto agente educa-
almente eficaz aos problemas da educação tivo promotor da diferença ou ainda, como
sem, ao mesmo tempo, se terem realizado Rortry (1991) definiu “agentes do amor e
transformações concretas no seio da socie- agentes da justiça”.
dade. Será pertinente apurar que políticas
educativas estão realmente associadas à fi- Anabela França Mota
losofia da inclusão e se já deveríamos, neste anafranca@portugalmail.pt
momento, ter passado essa etapa e já estar
plenamente incluídos, não sendo, por isso,
necessário falar de inclusão!

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