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INDICE

PREF ÁCI o ix

1 o PLANETA TERRA E SUAS ORIGENS 1


1.1 Estrutura .do Universo 2
1.2 Como Nasceu o Universo '''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''' 4
1.3 Evolução Estelar e Formação dos Elementos 6
1.4 O Sistema Solar 11
1.5 Meteoritos 13
1.6 Planetologia Comparada 17
1.7 Perspctivas do Estudo do Universo 24

2 MINERAIS E ROCHAS: CONSTITUINTES DA TERRA SÓLIDA 27


2.1 Minerais: Unidades Constituintes das Rochas 28
2.2 Rochas: Unidades _Formadoras da Crosta 37

3 SISMICIDADE E ESTRUTURA INTERNA DA TERRA 43


3.1 O que É o Terremoto? 44
3.2 Estrutura Interna da Terra 47
3.3 Medindo os Terremotos 50
3.4 Sisrnicidade Mundial 54

4 INVESTIGANDO O INTERIOR DA TERRA 63


4.1 O que é a Gravidade 64
4.2 Medindo a Gravidade 65
4.3 A Forma da Terra 66
4.4 Interpretando Anomalias Gravimétricas 67
4.5 O Princípio da Isostasia 69
4.6 A Terra como um Imenso Ímã 71
4.7 Representação Vetorial do Campo Magnético 74
4.8 A Magnetosfera 74
4.9 Por que o Campo Magnético é Variável 76
4.10 Mapas Magnéticos e Anomalias Magnéticas 77
4.11 O Mecanismo de Dínamo na Geração do Campo Magnético 78
4.12 O Magnetismo da Terra no Passado Geológico 79
4.13 A História Gravada das Inversões de Polaridade 80
4.14 Magnetismo das Rochas e a Deriva dos Continentes """"""""""""""""""""""""""""''''''''''''''''''''''',81

5 A COMPOSIÇÃO E O CALOR DA TERRA 83


5.1 Introdução .. 84
5.2 Modelos de Estrutura e Composição 85
5.3 O Calor do Interior da Terra 90

6 TECTÔNI CA GLOBAL 97
6.1 O Surgimento da Teoria da Deriva Continental : 98
6.2 Anos 50: O Ressurgimento da Teoria da Deriva Continental 99
6.3 O Surgimento da Teoria da Tectônica Global 101
6.4 Placas Tectônicas '."'"'''''''''''''''''''''''''''' 101
6.5 A Dança dos Continentes 111
7 CICLO DA ÁGUA, ÁGUA SUBTERRÂNEA E SUA AÇÃO GEOLÓGICA 113
7.1 O Movimento de Água no Sistema Terra - Ciclo Hidrológico 114
7.2 Água no Subsolo: Água Subterrânea 118
7.3 Ação Geológica da Água Subterrânea " 127

8 INTEMPERISMO E FORMAÇÃO DO SOLO 139


8.1 Tipos de Intemperismo 141
8.2 Intemperismo, Erosão e Sedimentação " 144
8.3 As Reações do Intemperismo 144
8.4 Distribuição dos Processos de Alteração na Superfície da Terra 148
8.5 Fatores que Controlam a Alteração Intempérica 150
8.6 Produtos do Intemperismo ...; 157

9 SEDIMENTOS E PROCESSOS SEDIMENTARES 167


9.1 Como Formas e Processos se Relacionam? 170
9.2 Biografia de um Grão de Areia 170
9.3 Sedimentos que Não São Grãos: o Transporte Químico (iônico) 174
9.4 Dando Nomes aos Sedimentos 175
9.5 Categorias de Transporte Mecânico 179

10 RIOS E PROCESSOS ALUVIAIS 191


10.1 Bacias de Drenagem 192
10.2 Rios 196
10.3 Leques Aluviais e Deltaicos 200
10.4 Os Depósitos Aluviais no Registro Geológico , 202

11 AÇÃO GEO LÓG ICA DO GELO 215


11.1 Gelo e Geleiras 216
11.2 Ação Glacial Terrestre 222
11.3 Ação Glacial Marinha ; 238
11.4 Glaciação ao Longo do Tempo Geológico 242
11.5 Causas das Glaciações 243

12 PROCESSOS EÓLICOS E A AÇÃO DOS VENTOS 247


12.1 Os Mecanismos de Transporte e Sedimentação 250
12.2 Registros Produzidos pelo Vento ' 252
12.3 Depósitos Eólicos Importantes na História Geológica do Planeta 259
12.4 Características Mineralógicas e Físicas dos Sedimentos Eólicos 259
12.5 Registros Sedimentares Eólicos Antigos 259

13 PROCESSOS OCEÂNICOS E A FISIOGRAFIA DOS FUNDOS MARINHOS 261


13.1 O Relevo dos Oceanos 262
13.2 A Origem e a Distribuição dos Sedimentos nos Fundos Oceânicos Atuais 266
13.3 Processos Responsáveis pela Distribuição de Sedimentos Marinhos 268
13.4 A Fisiografia da Margem Continental Brasileira e o Fundo Oceânico Adjacente 275
13.5 Ocupação, Conhecimento e Exploração doJitoral e Margem Continental Brasileira 281
13.6 Perspectivas da Exploração dos Fundos Oceânicos ".. 283

-----
:-~'- -
íNDICE vii

14 DEPÓSITOS E ROCHAS SEDIMENTARES 285


14.1 Transformando Sedimentos em Rochas Sedimentares 288
14.2 Componentes de Rochas Sedimentares ~.: 292
14.3 Dando Nomes às Rochas Sedimentares 293
14.4 Para que Servem as Rochas e Depósitos Sedimentares 301

15 EM BUSCA DO PASSADO DO PLANETA: TEMPO GEOLÓGICO 305


15.1 Como Surgiu a Geologia e uma Nova Concepção do Tempo 307
15.2 Datação Relativa e o Estabelecimento da Escala de Tempo Geológico 314
15.3 Princípios e Métodos Modernos de Datação Absoluta 320
15.4 A Humanidade e o Tempo Geológico 326

16 ROCHAS ÍGNEAS 327


16.1 Magma: Características e Processos de Consolidação 329
16.2 Variedade e Características das Rochas Ígneas 335
16.3 Rochas Intrusivas: Modos de Ocorrência e Estruturas 342
16.4 Magmatismo e Tectônica de Placas 345

17 VULCANISMO: PRODUTOS E IMPORTÂNCIA PARA A VIDA 347


17.1 Conhecendo os Produtos Vulcânicos 350
17.2 Morfologia de um Vulcão 361
17.3 Estilos Eruptivos 364
17.4 Vulcanismo e seus Efeitos no Meio Ambiente 373
17.5 É Possível Prever Riscos Vulcânicos? 375
17.6 Vulcanismo e seus Benefícios 379

18 ROCHAS METAMÓRFICAS 381


18.1 Evolução Histórica dos Estudos sobre Metamorfismo 383
18.2 Fatores Condicionantes do Metamorfismo 384
18.3 Processos Físico-químicos do Metamorfismo 386
18.4 Tipo de Metamorfismo . :... ,... 388
18.5 Sistemática do Estudo Geológico dos Terrenos Metamórficos 391
18.6 Mineralogia, Texturas e Estruturas de Rochas Metamórficas 393
18.7 Nomenclatura de Rochas Metamórficas 395
18.8 Rochas Metamórficas e a Tectônica Global 397

19 ESTRUTURAS EM ROCHAS 399


19.1 Princípios Mecânicos da Deformação 400
19.2 Formando Dobras 406
19.3 Formando Falhas 411

20 RECURSOS HÍDRICOS : 421


20.1 Abundância e Distribuição de Água Doce no Planeta 423
20.2 Demanda de Água 422
20.3 Impactos das Atividades Antrópicas nos Recursos Hídricos 427
20.4 O Recurso Hídrico Subterrâneo 427
20.5 A Influência das Atividades Antrópicas nos Recursos Hídricos Subterrâneos 430
20.6 A Contaminação da Água Subterrânea 435
20.7 Proteção das Águas Subterrâneas """"'J""'''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''' 442

~. J ',I
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21 RECURSOS MINERAIS 445
21.1 Depósito Mineral: Conceitos Básicos 446
21.2 Os Principais Tipos Genéticos de Depósitos Minerais - Feições Essenciais 456
21.3 Tectôruca Global e Depósitos Minerais 461
21.4 Descobrindo Novos Depósitos Minerais 462
21.5 Panorama dos Recursos Minerais do Brasil 463
21.6 Recursos Minerais e Civilização 467

22 RECURSOS ENERGÉTI COS ... 471


22.1 Biomassa 472
22.2 Combustíveis Fós seis 472
22.3 Energia Nuclear.. 480
22.4 Energia Geotérmica ... 482
22.5 Hidreletricidade 488
22.6 Outras Fontes de Energia 489
23 PLANETA TERRA: PASSADO, PRESENTE E FUTURO 493
23.1 O Ritmo e Pulso da Terra 495
23.2 As Linhas-Mestre da História da Terra 499
23.3 Tendências Seculares na História Geológica 500
23.4 Ciclos Astronômicos e Geológicos 506
23.5 Eventos Singulares e seus Efeitos 511
24 A TERRA, A HUMANIDADE E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL 517
24.1 Como Nasceu o Conceito de Desenvolvimento Sustentável 521
24.2 A Globalização e a Dinâmica Social do Final do Século XX 522
24.3 Papel das Geociências no Século XXI 524
24.5 Globalização versus Sustentabilidade 528

B IBLI OG RAFIA COMPLEMENTAR 529

APÊNDICE I Classificação Sistemática de Minerais e seus Usos 533

APÊNDICE 11 Conversão de Unidades 537

APÊNDICE 111 Dados Numéricos sobre a Terra 538

APÊNDICE IV Minerais como Fonte de Elementos Químicos 539

APÊNDICE V Minerais Empregados em sua Forma Natural 544

APÊNDICE VI Resistência Mecânica de algumas Rochas 548

ÍNDICE REMISSIVO 549


.

PREFAcIO
Decifrando a Terra objetiva preencher uma lacuna há muito sentida na literatura didática em Geociências,
substituindo textos anteriores em língua portuguesa, tradicionalmente utilizados pela comunidade universitária. Apre-
senta uma temática introdutória, porém ampla e moderna, acerca da dinâmica natural do planeta Terra. Seu escopo
multidisciplinar enfoca conceitos básicos das Ciências Geológicas e está voltado às necessidades do estudante
universitário nos cursos de Geologia, Geofísica, Geografia, Biologia, Química, Oceanografia, Física e Engenharias,
entre outros, bem como ao leitor leigo interessado em compreender como seu planeta funciona. Ao enfatizar o papel do
ser humano como agente transformador da superfície terrestre, induz o leitor a uma reflexão responsável sobre assun-
tos que afetam o desenvolvimento da sociedade.
Em seus dois anos de maturação, o projeto Decifrando a Terra reuniu mais de 30 conceituados cientistas da
Universidade de São Paulo e resulta, agora, nesta obra de excelente qualidade didática e gráfica, organizada em 24
capítulos ricamente ilustrados, que aborda em linguagem acessível os processos geológicos internos e externos da
Terra, com ênfase em exemplos brasileiros e sul-americanos sem, no entanto, descartar casos clássicos da literatura
especializada. Termos técnicos importantes estão destacados em negrito ao longo do texto, sendo objeto de um índice
remissivo no final do livro. Tópicos e temas complementares muito atuais são também apresentados, tais como
Geologia, Sociedade e Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável, Alteração Superficial, problemas de Poluição de
Solo e Aqüíferos, Recursos Minerais, Hídricos e Energéticos, e ainda as perspectivas da Geologia como Ciência. Como
não é possível abordar a totalidade dos temas ou mesmo aprofundar determinados assuntos para os leitores mais
críticos, uma bibliografia específica é apresentada ao final de cada capítulo. O livro ainda reúne em sua parte final
uma série de apêndices com tabelas que complementam informações de interesse mais geral.
Coube aos editores a responsabilidade pela decisão final da temática e forma da obra além da leitura crítica.
As ilustrações receberam especial cuidado na sua definição e elaboração, com assessoramento direto dos autores.
Muito desse material é propositadamente descritivo, de modo a trazer ao leitor os fundamentos teóricos complementa-
res para melhor entendimento do texto. Para as imagens fotográficas neste livro foi utilizado material cedido de acervos
pessoais dos autores, colegas e estudantes, bem como imagens colhidas de publicações especializadas e de dife-
rentes fontes da Internet.
Nesta oportunidade, os autores expressam seus agradecimentos aos docentes, funcionários e alunos da
Universidade de São Paulo (USP), bem como a diversas outras pessoas e instituições colaboradoras, que tornaram
possível a conclusão deste projeto, em especial o apoio do Instituto de Geociências (IGc) da USP e ao gerenciamento
financeiro realizado pela Fundação de Estudos e Pesquisas Aquáticas - Fundespa. Agradecemos particularmente aos
seguintes colaboradores por sua participação em diversas etapas do trabalho:
A. Gambarini, Alen P. Nutman, A. Ruellan, A. V. Suhogusoff, A. V. Morgan/Un. of Watertoo, A. P. Dunnbark, Carl O.
Dunbar Jr., C. Cingolani, C. H. Grohman de Carvalho, C. M. Noce, C. Schobbenhaus/DNPM, C. Secchin, E. Hefter, E.
Molina, F. Munizaga, F. Penalva (in memoriam), F. R. Alves, G. Slavec, G. Leonardi, I. Wahnfried, J. D. Griggs do U. S.
Geological Survey, J.w. Schopf/Precambian Paleobiology Research Group, J. J. Bigarella, J. Florence/Un. of Arizona
News Services, L. L. Casais e Silva, L. G. Sant'Anna, L. M. Victorllnst. Geofísico da Unode Lisboa, Massaru Yoshidal
Osaka City Univ., M. A.Chamadoira, M. Coutinho, M. Hambrey, N. Ussami, O. Bortolotto, P. Abori, P. Comin-Chiaramonti,
P. R. Renne, P.Tackley, R. Andreis, R. G. de Araujo, R. Linsker, R. L. Christiansen do U. S. Geological Survey, R. P. Conde,
R. Simone, R. Trouw, R. Trindade, R. Linsker, S. B. Citrone, S. F. Beck, S. N. Saito, S. S. Gouveia, S. C. Morris/Un. of
Cambridge, S. M. Stanley, M. K. Blausteinl Departament of Earth&Planetary Sciences, T. C. Samara, Thomas M. Fairchild,
W. Shukovsky, W. K. Hartmann/Planetary Science Institute, Zig Koch.
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---
e às segqintesinstituiçijes:

British Geological Survey, Companhia de Energia do Estado de São Paulo - CESP, Geological Survey of Japan,
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE/S.J. dos Campos, Institut of Technology DevelopmenUSpace Remote
Sensing Center, Instituto de Investigação Científica Tropical, IPT, John Wiley&Sons International Rights, NASA, NOAA,
The McGraw-HiII Companies, United States Geological Survey, Wm. C. Brown Publishers.

Os editores agradecem, sobretudo, ao valioso patrocínio financeiro concedido pela Agência Nacional do Petróleo
(ANP), da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) e pelo Grupo Votorantim-Cimentos, sem o que não
teria sido possível concluir o projeto Decifrando a Terra. Por fim, somos gratos à Editora Oficina de Textos que se propôs
a publicar uma obra desta magnitude pela primeira vez no País, obra esta que esperamos seja uma referência para os
universitários interessados em conhecer o nosso planeta Terra.
- --- - -
---
Sol)re'os patr()Cinadores: - - ..------- - - -- -- - --------------
- - - - - - ~ .
A Agência Nacional do Petróleo - ANP - tem por missão regular a indústria de petróleo e gás natural, contratando,
regulamentando e fiscalizando suas atividades, promovendo a livre-concorrência e o desenvolvimento nacional, sempre
com o espírito de preservação do interesse público e do meio ambiente.

A Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração - CBMM - sediada em Araxá, MG, desenvolve a extração,
beneficiamento e industrialização do minério de nióbio. É a principal fornecedora de produtos de nióbio
no mercado mundial e a única empresa produtora presente em todos os segmentos do mercado. A CBMM
atende à totalidade da demanda nacional e exporta seus produtos para 45 países. Considerando a atual taxa de
consumo de nióbio, a reserva mineral da CBMM pode atender por vários séculos às necessidades deste
recurso em todas as suas formas - ligas, óxidos e nióbio metálico.

A Votorantim é um grupo com mais de 80 anos de existência, que se dedica a atividades como a
metalurgia e mineração, a produção de cimento e papel, bem como à atuação na agroindústria, indústria química,
na produção de energia e em serviços financeiros. O Grupo Votorantim, um dos cinco maiores conglomerados
industriais de capital 100% nacional, destaca-se pela qualidade de seus produtos e serviços, estando presente
em todas as regiões do Brasil, por meio de suas várias empresas que se voltam inclusive para a exportação de
seus principais commodities, como o alumínio, o zinco, o níquel, a celulose e o suco de laranja.

Sobre os organizadores/editores

. Wilson
Teixeira: Geólogo (1974), Mestre (1978), Doutor (1985), Livre Docente (1992) e Professor Titular (1996) pelo
IGc-USP. Professor Titular (1996) do Departamento de Mineralogia e Geotectônica, bem como Diretor deste Instituto
desde dezembro de 1999. Realiza pesquisas em Geocronologia e Geotectônica. Membro titular da Academia
Brasileira de Ciências desde 1998. É assessor científico da FAPESP, pesquisador e membro titular do comitê
assessor do CNPq, bem como assessor ad hoc da CAPES. Foi membro titular do Conselho Editorial do Boletim -
IGc (1997-1999). e-mail: wteixeir@usp.br
. MariaCristina Motta de To/edo: Geóloga (1977), Mestre (1981), Doutora (1986) e Livre Docente (1999) pelo IGc-
USP. Professora Associada do Departamento de Geologia Sedimentar e Ambiental deste Instituto. Reponsável por
um programa de divulgação das Geociências junto à Secretaria Estadual de Cultura e a Secretarias Municipais de
Cultura e Escolas de 10 e 20 graus no Estado de São Paulo, de 1991 a 1995. Realiza pesquisas em Geoquímica de
Superfície. Foi Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Geoquímica e Geotectônica do IGc-US~ de 1995
a 1996 e editora associada da Revista Geochímíca Brasíliensís de 1996 a 1999. e-mail: mcristol@usp.br
. Thomas Rích Fairchild: Bacharel em Geologia (1966) pela Stanford University (EUA) e Doutor (1975) pela Universidade
da Califórnia em Los Angeles (UCLA, EUA). Professor Doutor do Departamento de Geologia Sedimentar e Ambiental
do IGc-USP. Realiza pesquisas em Paleontologia do Pré-Cambriano. Em 1966, veio ao Brasil pela primeira vez pelo
Corpo da Paz (Peace Corps), programa governamental criado pelo Presidente Kennedy, atuando durante três anos
como auxiliar de ensino na Escola de Florestas (Curitiba) da Universidade Federal do Paraná - UFPR. e-mail:
trfairch@usp.br.
. FabioTaioli:
Geólogo (1973) pelo IGc-USP, Mestre em Míníng Engíneeríng (1987) pela Pennsylvania State University
(EUA), Doutor (1992) e Livre Docente (1999) pelo IGc-USP. Professor Associado do Departamento de Geologia
Sedimentar e Ambiental deste Instituto. Trabalhou como Geofísico naPetrobrás (1974/75) e no Instituto de Pesquisas
Tecnológicas (1975/95). Desenvolve pesquisas nas áreas de Mecânica de Rochas, Geologia de Engenharia, Geofísica
Aplicada e Geologia Ambienta!. Ativo na Associação Brasileira de Geologia de Engenhariá e Sociedade Brasileira de
Geofísica. É assessor científico da FAPESP, CNPq, CAPES e FINEP. e-mail: ftaioli@usp.br

INSTITUTODE GEOCIÊNCIAS Professores Doutores Professores Associados:


Daniel Atencio Marcelo Sousa de Assumpção
Professores Titulares: Gergely Andres Julio Szabó Márcia Ernesto
Antônio Carlos Rocha Campos lan McReath Leila Soares Marques
Cláudio Riccomini Ivo Karmann
João Moreschi INSTITUTO OCEANOGRÁFICO
Jorge Silva Bettencourt
Umberto Giuseppe Cordani José Barbosa Madureira Filho Professores Doutores
Wilson Teixeira Marly Babinski Michel Michaelovitch Mahiques
Paulo Cesar Fonseca Giannini
Moyses Gonsalez Tessler
Professores Associados: Ricardo Hirata
Colombo Celso Gaeta Tassinari Thomas Rich Fairchild ESCOLA SUPERIOR DE
Excelso Ruberti AGRONOMIA E AGRICULTURA
Fabio Taioli Professor Assistente Luís DE QUEIROZ
Joel Barbujiani Sígolo Coriolano de Marins Dias Neto
Professor Titular
Marcos Egydio Silva Adolpho José Melfi
Maria Cristina Motta de Toledo INSTITUTO
Paulo Roberto Santos ASTRONÔMICO E GEOFíSICO UNIVERSIDADEFEDERAL
Rômulo Machado DOPARANÁ
Sônia Maria Barros de Oliveira Professor Titular
Professor Assistente
IgorIvoryGil Pacca FernandoMancini

~~-- - -
..~--
2 DECIFRANDO A TERRA

( . )Phmeta em que
mo material quevivemo,
compõeé fo",udo
os demaispelo me,-
corpos
do Sistema Solar e tudo o mais que faz parte de nosso
Universo. Assim, a origem da Terra está ligada intrin-
Para as quarto primeiras perguntas já existem evi-
dências suficientes para estabelecer uma razoável
confiança nos pesquisadores em relação às suas teori-
as, baseadas no conhecimento científico, tanto teórico
secamente à formação do Sol, dos demais planetas como prático, observacional ou experimental. A quinta
do Sistema Solar e de todas as estrelas a partir de nu- e a sexta talvez também possam vir a ser respondidas
vens de gás e poeira interestelar. Por isso, na investigação a contento com o progresso da Ciência.
da origem e evolução de nosso planeta, é necessário Contudo, o que existia antes do Universo? Para esta
recorrer a uma análise do espaço exterior mais longín-
pergunta ainda não temos esperança de resposta no
quo e, ao mesmo tempo, às evidências que temos do campo do conhecimento científico convencional, e tal
passado mais remoto. Com base nas informações
questão permanecerá como objeto de considerações
decorrentes de diversos campos da Ciência (Física, filosóficas e metafísicas - tema de âmbito das diferen-
Química, Astronomia, Astrofísica, Cosmoquímica), tes religiões, cujos dogmas implicam a presença de
bem como estudàndo a natureza do material terrestre
um Criador, exercendo sua vontade superior.
(composição química, fases minerais, etc.), já foram
obtidas respostas para algumas importantes questões
que dizem respeito à nossa existência:
1.1 Estrutura do Universo
. Como se formaram os elementos químicos? A Astronomia nos ensina que existem incontáveis
. Como se formaram as estrelas? estrelas no céu. Ao mesmo tempo, observamos que

. Como se formaram os planetas do Sistema Solar?


elas se dispõem de uma maneira ordenada, segundo
hierarquias. As estrelas agrupam-se primeiramente em
. Qual é a idade da Terra e do Sistema Solar? galáxias, cujas dimensões são da ordem de 100.000

. Qual é a idade do Universo?


anos-luz (distância percorrida à velocidade da luz, 300
mil km/s, durante um ano). As figuras 1.1 e 1.2 apre-
. Qual é o futuro do Sistema Solar, e do próprio
Universo?
sentam dois exemplos comuns de galáxias:tipo elíptico
e tipo espiral. A estrutura interna das galáxias pode

Fig. 1.1 A galáxia gigante de Andrômeda (tipoelíptico) - a mais próxima do nosso Sistema Solar (2,4 milhões de anos-luz) - com SaJ
núcleo denso e brilhante contendo bilhões de estrelas. Fonte: NASA.

Fotomontagem Terra e Lua, NASA.


CApíTULO1 .0 PLANETATERRAE SUASORIGENS 3

Universo é o de superaglomerados, compostos de até


dezenas de milhares de galáxias, e com extensões que
atingem centenas de milhões de anos-luz.
As observações astronômicas nos conduzem a pelo
menos duas reflexões relevantes para os temas da ori-
gem do Universo e da matéria nele concentrada:
. uma visão retrospectiva, visto que a observação
das feições mais distantes nos leva à informação de
épocas passadas, quando os objetos observados eram
mais jovens. São as observações das regiões no limite
do observável, que refletem eventos ocorridos há vá-
rios bilhões de anos (Fig. 1.3);

Fig. 1.2 Exemplo de uma galáxia do tipo espiral (NGC1232).


Fonte: NASA.

conter mais de 100 bilhões de estrelas de todas as di-


mensões, com incontáveis particularidades. Por
exemplo, entre as descobertas que vêm sendo alvo de
estudos rádio-astronômicos estão os quasars, objetos
peculiares com dimensão semelhante à do nosso Sis-
tema Solar, mas contendo imensa quantidade de energia
e brilhando com extrema intensidade. As galáxias po-
dem conter enormes espaços interestelares de baixa
densidade, mas também regiões de densidade extre-
ma. Os assim chamados buracos negros podem sugar
qualquer matéria das proximidades, em virtude de sua
gigantesca energia gravitacional. Nem mesmo a luz
consegue escapar dos buracos negros, e o seu estudo
é um dos temas de fronteira da Astronomia.

A Via Láctea é também uma galáxia do tipo es-


piral, sendo que o Sol - a estrela central de nosso
Sistema Solar - está situado num de seus braços peri-
féricos. A Via Láctea possui também um núcleo central,
onde aparecem agrupamentos de estrelas jovens.
Fig. 1.3 Imagem obtida pelo telescópio Hubble numa das par-
As galáxias, por sua vez, se agrupam nos assim
tes mais distantes do Sistema Solar. Os três objetos com raios
chamados aglomerados, que podem conter entre al- são estrelas, enquanto os demais objetos visíveis são galáxi-
gumas dezenas a alguns milhares de galáxias. A Via as, cada uma delas contendo muitos bilhões de estrelas. Os
Láctea pertence ao chamado Grupo Local, que inclui objetos menores e menos luminosos são galáxias que distam
também a galáxia de Andrômeda e as Nuvens de cerca de 11 bilhões de anos-luz em relação ao Sistema Solar.
Magalhães. Finalmente, o maior nível hierárquico do Fonte: NASA.
4 DECIFRANDO A TERRA

. uma visão comparativa, que possibilita a re- tidade muito superior à da matéria visível, e nesse caso
construção do ciclo de evolução estelar, visto que a densidade média poderia superar o valor crítico,
existe uma grande diversidade de tipologia nas es- apontando assim para um Universo "fechado".
trelas, em relação à sua massa, tamanho, cor,
temperatura, idade, etc. Embora se saiba que a vida 1.2 Como Nasceu o Universo
de uma estrela é muito longa, da ordem de diver-
sos bilhões de anos, o grande número de estrelas Se nosso Universo for fechado, isto é, se sua densida-
disponíveis para observação faz com que seja pos- de média for superior a 6,5 x 10-30g/ cm3,sua velocidade
sível verificar a existência de muitas delas em
de expansão deverá diminuir até anular-se, e em seguida
diferentes fases da evolução estelar, desde a sua ele deverá implodir sobre si mesmo, num colossal
formação até o seu desaparecimento ou a sua trans- cosmocrunch,
no futuro longínquo, daqui a muitas dezenas
formação em outro objeto diferente do Universo. de bilhões de anos. Toda a matéria estará reunida numa
o Universo encontra-se em expansão. Não é a dis- singularidade, um espaço muito pequeno de densidade
tância entre as estrelas de uma galáxia que está extremamente alta,virtualmente infinita, e sob uma tem-
aumentando, e nem a distância entre as galáxias de um peratura também extremamente alta,virtualmente infinita.
aglomerado, visto que tanto as primeiras como as úl- N esta singularidade que foge a qualquer visualização,
timas estão ligadas entre si pela atração da gravidade. matéria e energia seriam indistinguíveis,não haveria espa-
A expansão do Universo significa que aumenta conti- ço em seu entorno e o tempo não teria sentido.
nuamente o espaço entre os aglomerados galácticos Esta pode ter sido a situação existente cerca de 15
que não estão suficientemente ligados pela atração bilhões de anos atrás, o ponto de partida de tudo o
gravitacional. A velocidade desta expansão é dada pela que nos diz respeito, um ponto reunindo toda a maté-
constante de Hubble, ainda não determinada com
ria e energia do Universo, que explodiu no evento único
grande precisão, e que presentemente parece se situar e original que os físicos denominaram Grande Explo-
próxima de 18 km/s.106anos-Iuz. Se o nosso Univer- são, ou Big Bang.
so for "aberto", este valor permanecerá constante, ou
Por meio do conhecimento existente sobre matéria
poderá aumentar no futuro. Se entretanto o Universo
for "fechado", a velocidade de expansão diminuirá e energia, radiações, partículas elementares, e fazendo
com o tempo, tenderá a anular-se e em seguida toma- uso dos recursos da Física teórica, incluindo modela-
rá valores negativos característicos de contração. gens e simulações, os cientistas reconstituíram com
grande precisão as etapas sucessivas à Grande Explo-
A Astronomia ainda não está segura quanto à na- são. Segundo dizem, tendo como situação de partida o
tureza aberta ou fechada do Universo, pois isto depende ylem imaginado recentemente por Gamow, e iniciado o
de sua densidade média, cujo valor não se encontra Big Bang, o resto é perfeitamente previsível. A Tabela
estabelecido adequadamente. O valor limite entre 1.1 reúne os eventos ocorridos por ocasião da origem
Universo aberto e fechado, chamado de densidade do Universo, ordenados cronologicamente. A Ciência
crítica, é dado por Po = 3 H02/ 8nG, onde Ho é a não tem elementos para caracterizar o período que os
constante de Hubble e G a constante gravitacional. físicos denominam Planckiano, decorrido logo após
Para o valor mencionado acima de Ho a densidade o instante inicial. Trata-se do tempo necessário para
crítica é de 6,5 x 10-30g/ cm3. Observações recentes a luz atravessar o com.primento de Planck, a unida-
(ver os comentários finais deste capítulo) sugerem que de fundamental de comprimento, pois não é possível
a densidade média tem valor inferior ao crítico, indi- saber se as constantes fundamentais que governam nos-
cando um Universo aberto, portanto tendendo a so mundo já atuavam naquelas condições. Durante os
expandir-se para sempre. Entretanto, é difícil medir 3 x 10-10segundos iniciais a temperatura era alta de-
essa densidade em virtude da existência da chamada mais para a matéria ser estável, tudo era radiação. Ainda
matéria escura, de complicada caracterização e de pre- hoje, o espectro da radiação de microondas de fundo
sença ubíqua em todo o espaço interestelar. Este (microwavebackgroundradiation)que pervaga o Univer-
material, virtualmente invisível, consiste de neutrinos e so em todas as direções do espaço, como
possivelmente de outras partículas desconhecidas que remanescente da radiação emitida, é uma das maiores
interagem apenas por forças de gravidade com a ma- evidências para a teoria do Big Bang e implica que a
téria conhecida. Muitos cientistas acreditam que esta radiação original partiu para todos os lados com a
matéria invisível estaria presente no Universo em quan- mesma temperatura.
CAPíTULO 1 .O PLANETA TERRA E SUAS ORIGENS 5

Tabela 1.1 Cronologia do Big Bang, mostrando que Tempo e Espaço são grandezas físicas
que nasceram junto com a Grande Explosão.
Tempo Raio do universo Temperatura (K) Eventos
(metros)

Zero Aparecimento de espaço, tempo e energia.

1,6 x 1 Q-35 1032 Fim do períbdo Hli:mckiapo.

3 X 10-35 Separação da Gravidade.

3 x 10-27 1028. Separação das forças Núcleanrorte eElétrk:cj-fracq,

10-27até 0,1 Fase inflacionária.

0113 1015 Separação das forças Nuclear-~raca eEletroflJagn@l!ca.

EstabilizarJ:},-se (massa

7,5 x Estabilizamcseosquarksdo tipob (mqssa ==5 u).

Estabilizafli\-se (massa

3,3 x Estabilizam;.se osquarks do tip6s, d ey (massas O,S,~ 0,4 d).

300,000 X 1010 Estabilizam-seoShÚcleos2H(etiergiade ligqção ,7 MeY).

09 EstabilizalJi-se

100 s 3 X 1010 1,5 X109 Estabilizal"fVCse os núcleos 3He e4He.

paro a luz.
Obs: u oS' l,66Q540 xl O -27kg.

Com a expansão e a criação contínua do espaço, fo- cer, visto que, após a fase inflacionária, estes teriam sua
ram surgindo as quatro forças fundamentais da natureza própria expansão e evolução muito distante de nós, de
que incluem a força eletromagnética, as forças nucleares modo que sua luz não nos alcançaria.
forte e fraca (que só têm influência no interior do núcleo
Após 10-32segundos, nosso universo inflado, o uni-
atômico), e a força da gravidade que, de longe, é a mais
verso visível,teria sua expansão governada pela constante
familiara todos nós. Contudo, a força da gravidade por
de Hubble, e sua evolução o levaria até o estágio atual,
ser muito fraca é difícil de ser medida (na verdade, sua
em que seu raio é da ordem de 15 bilhões de anos-luz.
medida equivale à constante G). Houve "também uma
fase de expansão extremamente rápida (fase inflacioná- Nesta evolução primitiva,a temperatura e a densidade
ria), em que a velocidade da expansão foi até maior do de energia foram decrescendo, e foram criadas as condi-
que a velocidade da luz. Com base nesse modelo, os ções para a formação da matéria,no processo denominado
astrofísicosexplicam as feições anômalas observadas em nucleogênese: prótons, nêutrons, elétrons e em seguida
nosso Universo. Implica também que pode ter-se origi- os átomos dos elementos mais leves.Primeiramente H e
nado da mesma forma uma quantidade enorme de He - os dois elementos principais da matéria do Universo
outros universos que jamais seremos capazes de conhe- - e posteriormente Li e Be. Com pouco menos de um
f

li ' 6 D EC I F RA N DO A TE RRA

milhão de anos de vida, a temperatura do Universo en- 1.3 Evolução Estelar e


contrava-se em cerca de 3.000 K, e a energia estava
Formação dos Elementos
suficientemente baixa para permirir aos átomos permane-
cerem estáveis.Com a captura dos elétrons pelos átomos No Universo em expansão havia variações de den-
em formação, o Universo embrionário tornou-se trans- sidade como em gigantescas nuvens em movimento,
parente à luz, sendo constituído por H (74%), He (26%), com regiões de grande turbulência, Embora sua den-
além de quantidades muito climinutasde li e Be. sidade fosse muito baixa, eram tão vastas que sua
Por outro lado, quando a temperatura decresceu para própria atração gravitacional era suficiente para pro-
valores abaixo de alguns milhões de graus, nenhum ou- duzir contração, ao mesmo tempo em que o seu
tro elemento teve condição de ser criado.As estrelas e as momento angular impedia a sua rápida implosão. Na
galáxias formaram-se mais tarde, quando o resfriamento medida em que elas foram se contraindo e a densida-
generalizado permitiu que a matéria viesse a se confinar de aumentando, algumas regiões menores com
em imensas nuvens de gás, Estas, posteriormente, entra- densidade maior passaram a se autocontraírem, e a
riam em colapso gravitacional pela ação da força de grande nuvem dividiu-se em nuvens menores separa-
gravidade, e seus núcleos se aqueceriam, levando à for- das, mas orbitando entre si. O progresso da contração
mação das primeiras estrelas. As primeiras galáxias gravitacional resultou na hierarquia hoje reconhecida,
surgiram por volta de 13 bilhões de anos atrás, A Via com as galáxias pertencendo a aglomerados, que por
Láctea tem aproximadamente 8 bilhões de anos de ida- sua vez formam superaglomerados.
de e dentro dela o nosso Sistema Solar originou-se há
cerca de 4,6 bilhões de anos.

Fig. 1.4 Nebulosa do Caranguejo, Trata-se de uma grande nuvem de gás, localizada na constelação de Touro, originada pela
explosão de uma supernova, ocorrido no ano de 1054 e registrado por vários povos na época, Fonte: NASA
CAPíTULO1 . O PLANETA TERRA E SUAS ORIGENS 7

As estrelas nascem pela radicalização do processo e mais para a esquerda no diagrama. A queima de
de contração, a partir das mencionadas nuvens de gás Hidrogênio - a reação termonuclear característica das
(nebulosas), constituídas quimicamente por grande estrelas que se situam na Seqüência Principal, em que
quantidade de Hidrogênio e Hélio, além de alguns pela fusão de quatro núcleos de Hidrogênio forma-se
outros gases e partículas sólidas que integram a poei- um de 4He - inicia-se quando as temperaturas centrais
ra interestelar (Fig. 1.4). Observações astronômicas da estrela em formação atingem 107K. Esta reação libe-
revelam regiões onde está ocorrendo o fenômeno da ra uma imensa quantidade de energia, muitos milhões de
formação de estrelas, em nebulosas de enorme massa vezes superior àquela que seria causada pela queima quí-
e baixa densidade. No interior destas, um volume mica do H. Desta forma, a estrela pode continuar
menor com densidade ligeiramente mais alta entra em queimando H durante bilhões de anos, como é o caso do
autocontração, e o material tende ao colapso produ- Sol, visto que tal produção de energia compensa e equi-
zindo uma esfera, na região central, tornando-se uma libra a tendência à contração pela ação da gravidade.
proto-estrela. Daí em diante continuará a contrair para
compensar a perda de calor pela sua superfície, de-
senvolvendo temperaturas
,8
progressivamente mais eleva-
das em seu centro. o o o
Ri~1 tDeneb
A evolução das estrelas, tal GIGANTES Polaris
-5 AZUIS 104
como será relatada a seguir, 8 ok"
o
encontra-se sintetizada na Fig. o
o
1.5, que representa o diagra- o
o
ma de Hertzsprung-Russel GIGANTESAldebaran
(H-R). Neste gráfico, a maio-
ria das estrelas situa-se perto da
-1

o t
o a
VERMELHAS
Q

00 'O
r o
o

102
Capeaa o, Arcturus
curva representada, desde o -1 1.5Mo o ~ Pollux
canto inferior direito (baixa
temperatura e baixa luminosi- $1
::J
(5 II
dade) até o canto superior 13
« (5
'"
esquerdo (alta temperatura e "O
::J
1 Q)
alta luminosidade). Esta região 5+
. -g
'O
no diagrama é a denominada ~ 'o;
.2 g
c
Seqüência Principal, com a O> 'E

estrela de massa unitária (Sol = ~ -3

1 MJ ocupando a posição cen-


tral.Uma certa concentração de
+1 10'2
estrelas aparece acima e para a ANÃS BRANCAS
.
direita da Seqüência Principal, .
enquanto apenas algumas apa- Slrius
8 /""
recem abaixo dela. . .
Quando uma estrela nasce,
.
i seu material está ainda muito +1 10'4
.
diluído e expandido. Sua tem-
peratura superficial é baixa, de
modo a situar-se na porção in-
ferior direita do diagrama H-R.
o 8 A F G K M
.
Com sua contração, temperatu- Tipo espectrol
.
ra e luminosidade aumentam, e
Fig. 1.5 Diagrama H-R (Hetrzsprung-Russel), no qual o tipo espectro I (que depende da
J a estrelavai ocupando posições
cor e da temperatura da superfície) de muitas estrelas cuias distâncias são conhecidas,
sucessivamentemais para cima está representado em função da luminosidade (relativa ao 501= 1).
r--
8 DECIFRANDO A TERRA

A queima do H no centro das estrelas, onde a Cada estágio sucessivo de queima, desde o H
temperatura é máxima, produz He, elemento que até o Fe, libera menos energia que o anterior. A
permanece onde é formado, visto que o calor pro- diminuição da fonte de energia coincide com a ne-
duzido é transferido para as camadas mais externas cessidade crescente de energia para as etapas
por radiação, e não por convecção. A acumulação posteriores da evolução estelar, de modo que estas
de He forma um núcleo que cresce, com o H em são sucessivamente muito mais rápidas do que as
ignição, confinado a uma camada concêntrica ex- anteriores, e especialmente a fase de estabilidade,
terna a esse núcleo. Com o crescimento do núcleo, quando a estrela permanece ao longo da Seqüência
a parte externa da estrela expande muito, e sua su- Principal. Uma estrela que permaneceu durante bi-
perfície resfria, assumindo uma coloração vermelha. lhões de anos queimando H e depois He, passa
É a fase denominada gigante vermelha (Fig. 1.4). extremamente rápido pela fase dos processos de
Nesta fase o núcleo se contrai novamente pela atra- equil1'brio, em segundos apenas, formando Fe, para
ção gravitacional, e a temperatura central aumenta ter imediatamente seu combustível nuclear esgota-
muito, para valores da ordem de 108 K. Inicia-se do em sua parte central. Nesta situação, a
a queima do He, que pode durar muitos milhões temperatura aumenta muito, a contração torna-se
de anos, formando C pela fusão de três partículas insustentável, e a estrela implode em frações de se-
alfa. Em seguida, com o esgotamento do He, nova gundo comprimindo as partículas e formando uma
contração do núcleo e novo aumento de tempe- estrela de nêutrons com diâmetro da ordem de
ratura acarretam uma enorme expansão da estrela. apenas alguns quilômetros.
Trata-se da fase de supergigante vermelha. Se o
Sol atingir esta fase, daqui a cerca de 5 bilhões de Nas camadas mais externas da estrela permane-
anos, seu tamanho estender-se-á para além da ór- ce grande quantidade de elementos ainda não
bita de Marte. queimados: H, He, C, O etc. A implosão do centro
causa o colapso generalizado de tais camadas ex-
Em estrelas de tamanho médio, como é o caso
ternas, com o concomitante grande aumento da
do Sol, o núcleo de C é muito quente, mas não o
temperatura. A quantidade de energia liberada é tão
suficiente para produzir fusões nucleares, de modo
grande, em tão pouco tempo '(menos de um se-
que cessam as reações produtoras de energia. Como
resultado, o núcleo contrai ulteriormente, e a sua gundo), que a estrela explode literalmente, lançando
para o espaço a maior parte de seu material, num
densidade aumenta, originando uma anã branca.
evento único no céu, um grande espetáculo para os
Tais tipos de estrela perdem sua energia residual
continuamente, por radiação, resfriando durante astrônomos, e que caracteriza a fase de supernova
outros bilhões de anos, transformando-se em anãs (Fig. 1.6). Nesta explosão, grande número de nêu-
marrons, e finalmente, em anãs negras. trons é liberado pela fissão dos nuclídeos mais
pesados, e esses nêutrons são imediatamente cap-
Por outro lado, em estrelas cujo tamanho é pelo turados por outros nuclídios, dando origem aos
menos oito vezes maior que o do Sol, em suas fa- processos denominados r (rapid - rápidos) e s (slow
ses de supergigantes vermelhas, a temperatura do - lentos) de formação de elementos novos. A pro-
núcleo de C é suficiente para produzir O, Ne e Mg
va da nucleossíntese pelas supernovas está na
pela adição de partículas alfa, e posteriormente fun-
detecção do espectro de certos elementos instáveis,
dir O, formando Si e outros nuclídeos de número
como o Tecnécio, ou alguns elementos
de massa mais elevado. Tais processos, em que os
transurânicos, tal como foi observado recentemen-
resíduos da queima de combustível nuclear se acu-
te pelos astro físicos.
mulam no núcleo para em seguida queimarem por
sua vez em outra reação termo nuclear mais com- O diagrama H-R tem fundamental importância
plexa, fazem com que as estrelas se constituam por no entendimento da evolução estelar, descrita an-
uma série de camadas concêntricas. As reações nu- tes, visto que podem ser observadas estrelas
cleares cessam quando o elemento Fe é sintetizado individuais em todas as etapas evolutivas, e deter-
(processos de equilíbrio, ou e-processes),visto que este minadas as suas propriedades através de análises
elemento é o mais estável de sua região na curva de espectrais de diversos tipos. Após longa permanên-
energia de ligação, e por isso uma fusão nuclear cia sobre a Seqüência Principal, produzindo He, a
ulterior consumiria energia ao invés de produzi-Ia. luminosidade das estrelas aumenta nas fases seguin-
CAPíTULO 1 . O PLANETATERRAE SUASORIGENS' 9

formaram-se durante a evolução das estrelas, nas


partes centrais das gigantes vermelhas, enquanto
aqueles com número atômico superior ao do Fe ori-
ginaram-se unicamente naqueles instantes mágicos
das explosões das supernovas. Ao mesmo tempo,
desaparecendo a estrela-mãe, toda a sua matéria foi
devolvida ao espaço interestelar, fertilizando-o e
possivelmente dando início a um novo ciclo de evo-
lução estelar.
Somente as estrelas de massa gigantesca podem
evoluir até a fase de supernova. Estima-se que em
cada galáxia ocorrem duas ou três explosões de
supernovas em cada século. O evento mais brilhan-
te parece ter sido aquele registrado no ano 1054,
cuja matéria, espalhada pela explosão, deu origem
à Nebulosa do Caranguejo (Fig. 1.4).
Existe uma relação íntima entre a origem do Uni-
verso e a dinâmica das estrelas, por um lado, e
abundância dos elementos nos sistemas estelares,
por outro. Explosões de supernovas têm como con-
seqüência importante que os novos elementos
formados, primeiramente no interior da estrela, e
posteriormente durante a explosão, são devolvidos
ao espaço e misturados ao meio interestelar, essen-
cialmente constituído no início de H e He. Desta
forma, as novas estrelas a se formarem a partir de
tal mistura já começariam a sua evolução com um
complemento de elementos pesados, incluindo-se
Fig. 1.6 Exemplode fase de supernova. Nebulosa com formato aí os isótopos radioativos de meia-vida longa, como
de uma "ampulheta", mostrando os anéis ejetados de gases (N, U e Th. Este é o mecanismo pelo qual o Universo
H, O) resultantes de sua explosão. Fotografia tomada do teles-
se torna progressivamente mais rico em elementos
cópio Hubble. Fonte: NASA.
pesados. Estrelas formadas recentemente possuem
cerca de 100 a 1.000 vezes mais Fe e outros ele-
tes, de gigante vermelha e de supergigante verme- mentos mais pesados do que aquelas mais antigas,
lha, mas diminui a temperatura de sua superfície, formadas em épocas mais próximas da origem do
por causa da expansão. As estrelas se deslocam en- Universo.
tão para a parte superior direita do diagrama (Fig. O Sistema Solar foi formado há "apenas" 4,6
1.4). Por outro lado, com a perda de luminosidade bilhões de anos, quando o Universo já contava de 8
que antecede a morte das estrelas, as anãs brancas a 10 bilhões de anos de idade. A nebulosa solar
vão se situar na parte inferior do diagrama, abaixo resultou possivelmente da explosão de uma
da Seqüência Principal. supernova, cuja massa estimada teria sido de apro-
Assim, os elementos constituintes do Universo ximadamente 8 massas solares, e que em sua fase
foram formados em parte durante a nucleogênese, final teria sintetizado os elementos pesados que hoje
nos tempos que se sucederam ao Big Bang (basica- constituem o Sol e seus planetas (Fig. 1.7). Portan-
mente H e He), ou então foram sintetizados no to, a matéria constituinte dos corpos planetários do
interior das estrelas em processos denominados Sistema Solar possui certa quantidade de elemen-
genericamente de nucleossíntese. Aqueles com nú- tos pesados, e constituição química coerente (ver as
mero atômico intermediário entre o He e o Fe denominadas abundâncias solares na Tabela 1.2).
r--

10 DECIFRANDO A TERRA

Tabela 1.2 Abundância Solar dos elementos. Embora existam diferenças de estrela para estrela, por causa
da própria dinâmica interna, a abundância solar é tido como um valor médio representativo da constituição
química do Universo,também chamada abundância cósmica (valoresem átomos/l OSSi).

2 He 2,18x109 30 Zn fi60 59 Pr o,fZ4"


w -~
Li 31 S7,8 Nd 0,8~,9

4 Se 0,78 32 Ge 118 62 Sm 0,261

J
5 S 24 33 As 6.79 63 Eu 0,09(;;2
, "11
6 C 1,21x107 34 Se 62,1 64 Gd 0,331
'"
7' N 2,48x.106 35 Sr 1!if,8 65 Tb 0,0589
I I
. 8 O 36 45,3 66 Dy 0,398
2,01x,107

9 F 84S 37 Rb 1.09 61 Ho 0,0815


I
10 Ne 3,76g,,06 38 Sr 23,8 68 Er 0,253

Na 5,70!if.04 39 y' 4,64 6'9 Tm .. 0,03$6


~ '" e ~ I
12 Mg t075)(106 40 Zr 10,7 70 Yb 0,243

41 tfq1 Ir.
8,49xi()4 ,,' ;!jLu
'" "" " "" ~ ~ 1
14 Si 1,00)(106 42 Mo 2,52 72 Hf 0,176
44 ~86
li!
1 m "" m f
16 S 5, 15x.105 45 Rn 0,344 74 w 0,13'7
'" ~ - ..
CI 5.2 46 1,,,39
."..
.. ~ ~
18 Ar 1,04x105 47 Ag 0,529 76 Os 0,7f?
.. ii' .. ~
,..
1 K 3.710 48 cq, t-69 ~.Ir
.. . . 'P~ ~ i J
20 Ca 6, 11x:l.04 49 In 0,184 78 Pt 1,37
..
2\& Se 33l 50 So ~i82 79 ~Au 0,18.9
li! "" .. .. ~ :~ I
22 Ti 2.400 51 Sb, 0,352 80 0,52
Hg
... .. ~ ... ~
2S V 295 52 Té 4~91 8í' 'Ti O,1alf
i I
24 Cr 1,34x,I04 53 0,90 82 Pb 3,15
'" úi' ""'
20 Mn 9.5110 54 Xá' ,&.35 83 Si 0,14~
1

26 Fe 9,00)(105 55 Cs 0,372 90 Th 0,0335


I 56
2.zl!b 4,36 '0,0090
l . ... I
28 Ni 4,93x104 57 La 0,448
- - - - -
Fonte: Anders & Ebihara, 1982.
1 CApíTULO 1 .O PLANETATERRAE SUAS ORIGENS 11

1.4 O Sistema Solar

Nosso Sol é uma estrela de média grandeza, ocu-


pando a posição central na Seqüência Principal no
diagrama H-R (Fig. 1.5). Como tal, encontra-se for-
mando He pela queima de H, há cerca de 4,6 bilhões
de anos. Possivelmente, permanecerá nesta fase por
outros tantos bilhões de anos, antes de evoluir para
a fase de gigante vermelha, anã branca, e finalmen-
te tornar-se uma anã negra.
Os demais corpos que pertencem ao Sistema
Solar (planetas, satélites, asteróides, cometas,
além de poeira e gás) formaram-se ao mesmo tem-
po em que sua estrela central. Isto confere ao sistema
uma organização harmônica no tocante à distribui-
ção de sua massa e às trajetórias orbitais de seus
corpos maiores, os planetas e satélites. A massa do
sistema (99,8 %) concentra-se no Sol, com os pla-
netas girando ao seu redor, em órbitas elipticas de
pequena excentricidade, virtualmente coplanares,
segundo um plano básico denominado eclíptica.
Neste plano estão assentadas, com pequenas incli-
nações, as órbitas de todos os planetas, e entre Marte
e Júpiter orbitam também numerosos asteróides.
Por sua vez, a grande maioria dos cometas parece
seguir também órbitas próximas do plano da Fig. 1.7 O Sistema Solar. Os quatro planetas internos situ-
ecliptica. O movimento de todos estes corpos ao am-se mais perto do Sol e são rochosos e menores em
redor do Sol concentra praticamente todo o mo- tamanho, enquanto os quatro planetas externos são gigantes;
mento angular do sistema. estes possuem satélites majoritariamente gasosos e com nú-
cleos rochosos. O planeta mais distante, Plutão, é um pequeno
A Tabela 1.3 reúne os principais parâmetros fí- corpo congelado de metano, água e rocha. Notar o cinturão
sicos dos planetas do Sistema Solar. São, de dentro de asteróides que se localiza entre o grupo de planetas inter-
para fora do sistema: Mercúrio, Vênus, Terra, Mar- nos e externos.
te,Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Pode-se
verificar que suas distâncias em relação ao Sol obe-
decem a uma relação empírica (a denominada 'iei Tabela 1.3, verifica-se que os planetas internos pos-
de Titius-Bode'j, proposta por JE. Bode: suem massa pequena e densidade média semelhante
d = 0,4 + 0,3 x 2° à da Terra, da ordem de 5 g/cm3, enquanto que os
planetas externos possuem massa grande e densi-
na qual d é a distância heliocêntrica em unidades
dade média próxima à do Sol. Os incontáveis corpos
astronômicas (UA = distância média ,entre a Terra
de dimensões menores, que orbitam no cinturão de
e o Sol, equivalente a cerca de 150 milhões de km),
asteróides (o maior asteróide conhecido, Ceres, tem
e n é ig a a -00 para Mercúrio, zero para Vênus, e

í!
tem _nú eros de ? a 8 ~ara os planetas (Terra até
Plutao). asteroldes tem n= 3.
diâmetro da ordem de 970 km), apresentam caracte-
rísticas variáveis, porém mais assemelhadas àquelas
dos planetas internos. Os planetas internos, possu-
As caract rísticas geométricas, cinemáticas e di- em poucos satélites e atmosferas finas e rarefeitas.'
nâmicas d s planetas do Sistema Solar foram Já os planetas externos possuem normalmente mais
condicio adas pela sua origem comum. Os plane- satélites e suas atmosferas são muito espessas e de
tas odem ser classificados em internos (ou composição muito parecida à do Sol, com predomi-
terrestres, ou telúricos) e externos (ou jovianos). Pela nância de H e He.
Tabela 1.3 Parâmetros físicos dos planetas do Sistema Solar.

14,53 0,002

H (78) H+He (15)


He(20) H20, CH4,
NH3(60)

19,19 39,53

4.347 30.680 90.582

0,99 -0,72 -6,39

0,05 0,05 0,25

142.984 51.118 2.300

0]7 17,15

-
As diferenças fundamentais entre planetas internos são nuclear, a temperatura de toda a região mais inter-
e externos podem ser atribuidas à sua evolução qui- na, pouco aquém da órbita de Júpiter, permanecia
mica primitiva. Basicamente, os últimos são gigantes elevada. Com o resfriamento gradativo, pela perda de
gasosos, com constituição quimica similar à da nebu- energia por radiação, parte do gás incandescente
losa solar, enquanto que os internos são constituidos condensou-se em partículas sólidas, iniciando o pro-
de material mais denso. Como será descrito adiante, cesso de acresção planetária, mediante colisões entre
tais diferenças, a partir de uma quimica inicial similar, tais partículas, guiadas pela atração gravitacional.
se devem a um evento de alta temperatura que ocor-
Provavelmente formaram-se no estágio inicial al-
reu numa fase precoce da evolução dos sistemas
guns anéis com concentração maior de material sólido,
planetários, responsável pela perda de elementos vo-
separados por espaços com menor concentração. À
láteis pelos planetas internos.
medida que ocorreu o resfriamento, o material dos
Segundo os modelos mais aceitos (por exemplo o anéis foi se concentrando em corpos com dimensões
de Safronov, 1972), a origem do Sistema Solar re- da ordem de um quilômetro, ou pouco maior
monta a uma nebulosa de gás e poeira cósmica, com (planetésimos), que posteriormente se aglomeraram
composição química correspondente à abundância em corpos ainda maiores (protoplanetas). Finalmente,
solar dos elementos (Tabela 1.2). A nebulosa tinha for- estes varreram as respectivas órbitas, atraindo para si,
ma de um disco achatado, em lenta rotação. Nos pela ação gravitacional, todo o material sólido que gi-
primórdios da evolução, ocasião em que a sua estrela rava nas proximidades, dando origem aos planetas.
central, o Sol, iniciava seus processos internos de fu- Embora seja desconhecida a duração do processo de
CAPíTULO 1 . O PLANETA
TERRAESUASORIGENS 13

acresção planetária, estima-se que, numa escala de tem- conhecimentos obtidos pela meteorítica, que serão
po cósmica, ele foi muito rápido, pois a cristalização vistos a seguir.
de corpos diferenciados, conforme será visto a seguir,
ocorreu no máximo 200 ou 300 milhões de anos após 1.5 Meteoritos
os processos de nucleossíntese que originaram a ne-
bulosa solar. Meteoritos são fragmentos de matéria sólida pro-
o processo de acresção planetária, extremamente venientes do espaço. A imensa maioria, de tamanho
complexo, não é totalmente conhecido, de tal modo diminuto, é destruída e volatilizada pelo atrito, por oca-
que os modelos não explicam adequadamente todas sião de seu ingresso na atmosfera da Terra. Os
as particularidades observadas nos planetas e satélites meteoros (estrelas cadentes) - estrias luminosas que
sulcam o céu e são observadas em noites escuras e
do Sistema Solar. Independentemente do modelo es-
colhido, parece que o estágio inicial da formação sem nuvens - são os efeitos visíveis de sua chegada.
planetária corresponde à condensação da nebulosa em Apenas os meteoritos maiores conseguem atingir a
resfriamento, com os primeiros sólidos, mínerais re- superfície da Terra. Alguns cuja massa alcança diversas
fratários aparecendo a uma temperatura da ordem de toneladas produziram crateras de impacto que vez ou
1.700 K. O mecanismo para agregar as partículas, outra são descobertas. Por exemplo, um meteorito
com cerca de 150.000 toneladas chocou-se com a Terra
possivelmente relacionado com afinidade química, ain-
da é obscuro. Por outro lado, os protoplanetas, de há cerca de 50.000 anos, cavando o Meteor Crater
dimensões grandes e com apreciável campo (Arizona, E.u.A.), uma depressão com 1.200 metros
gravitacional, podem atrair e reter planetésimos. No de diâmetro e 180 metros de profundidade (Fig. 1.8).
citado modelo de Safronov, em cerca de 100 milhões Um impacto meteorítico ainda maior, ocorrido em
de anos poderiam ter-se acumulado 97-98% do ma- época ainda não determínada, produziu uma cratera
terial que constitui hoje o planeta Terra. com cerca de 3.600 metros de diâmetro nas proximi-
dades da cidade de São Paulo, hoje, porém, preenchida
As diferenças nas densidades dos planetas internos por sedimentos (Cap.23).
(Tabela 1.3), decrescendo na ordem Mercúrio-Terra-
Vênus-Marte (e também Lua), são atribuídas à O estudo de algumas trajetórias, quando a obser-
progressão do acrescimento, visto que a composição vação foi possível, indicou como provável região de
química da nebulosa original foi uniforme e análoga à origem dos meteoritos o anel de asteróides já referi-
abundância solar dos elementos. do que se situa entre as órbitas de Marte e de Júpiter
(Fig. 1.7). Análises químicas de alguns meteoritos su-
Finalmente, após os eventos relacibnados com sua gerem uma proveniência da Lua, e também de Marte,
acresção, os planetas internos passaram por um está- arrancados das superfícies desses corpos por grandes
gio de fusão, condicionado pelo aumento de impactos.
temperatura ocorrido em seu interior, com o intenso
calor produzido pelos isótopos radioativos existentes
em quantidade relevante, nas épocas mais antigas da
evolução planetária. Com seu material em grande parte
no estado líquido, cada planeta sofreu diferenciação
química e seus elementos agregaram-se de acordo com
as afinidades químicas, resultando num núcleo metáli-
co interno, constituído essencialmente de Fe e Ni,
envolto por um espesso manto de composição
silicática (Cap. 5). No caso dos planetas externos, além
de conterem H e He, ao lado de outros compostos
voláteis em suas atmosferas exteriores, acredita-se que
tenham núcleos interiores sólidos, em que predomi-
nam compostos silicáticos. Tanto no caso do episódio
inicial da acresção planetária, como neste episódio
posterior de diferenciação geoquímica, são cruciais os
Fig. 1.8 Meteor Crater, Arizona, EUA. Fonte: NASA.
14 D EC I F RA N DO A T E R RA

As amostras de meteoritos conhecidas e estudadas Dois aspectos da meteorítica são importantes para
pela meteorítica - o ramo da Ciência que estuda es- o entendimento da evolução primitiva do Sistema
ses corpos - são da ordem de 1.700. Porém, alguns Solar: a significação dos meteoritos condríticos para o
milhares de amostras adicionais estão sendo continua- processo de acresção planetária e a significação dos
mente coletados por expedições na Antártica. A busca meteoritos diferenciados em relação à estrutura inter-
de meteoritos é grandemente facilitada na calota gela- na dos planetas terrestres.
da, onde eles se concentram na superfície Guntamente
Os meteoritos do tipo condrítico correspondem a
com outros resíduos sólidos), com o passar do tem-
cerca de 86% do total, em relação às quedas de fato
po, por conta da redução do volume das geleiras,
observadas, sendo que 81% correspondem aos do tipo
causada pela ação do vento combinada com a trajetó-
ordinário, enquanto, que os outros 5% são os chama-
ria ascendente do fluxo do gelo quando este encontra
dos condritos carbonáceos (Tabela 1.4).
elevações topográficas.
Com exceção de alguns tipos de condritos
Os meteoritos subdividem-se em classes e
carbonáceos, todos os demais tipos de condritos pos-
subclasses, de acordo com suas estruturas internas,
suem côndrulos, pequenos glóbulos esféricos ou
composições químicas e mineralógicas (Tabela 1.4).

Tabela 1.4 Classificação simplificada dos meteoritos.

diferenciados. Idade

Proveniência prov6vel: asteróides.

prov6vel: corpos asteróides.

,.
CApíTULO1 . O PLÁNETATERRAE SUASORIGENS

elipsoidais, com diâmetros normalmente Os condritos ordinários consistem em aglomera-


submilimétricos (O,S-lmm), e constituídos de mine- ções de côndrulos. Nos interstícios entre os côndrulos,
rais silicáticos (Fig. 1.9), principalmente olivina, aparecem materiais metálicos, quase sempre ligas de
piroxênios ou plagioclásios. Estes minerais, que serão ferro e níquel, ou sulfetos desses elementos, fazendo
vistos no Capo 2, são os mesmos que se encontram com que o conjunto tenha uma composição química
em certos tipos de rochas terrestres, denominadas global muito similar àquela preconizada para a pró-
magmáticas, formadas pela cristalização de líquidos pria nebulosa solar para quase todos os elementos,
silicáticos (magmas), originados nas profundezas da com exceção de H, He, e alguns outros entre os mais
Terra. Por analogia, os côndrulos devem ter-se for- voláteis. Em conseqüência, tais meteoritos condríticos
mado, com grande probabilidade, por cristalização (e entre estes os condrítos carbonáceos do tipo Cl)
de pequenas gotas quentes (temperatura da ordem de são considerados os corpos mais primitivos do Siste-
2.000°C), que vagavam no espaço em grandes quanti- ma Solar diretamente acessíveis para estudo científico.
dades, ao longo das órbitas planetárias, em ambientes A interpretação de sua origem é a de que eles são
virtualmente sem gravidade. fragmentos de corpos parentais maiores, mais ou
--- - menos homogêneos em composição, que existiam
como planetésimos na região do espaço entre Marte e
Júpiter, que não chegaram a sofrer diferenciação quí-
mica, permanecendo portanto sem transformações
importantes em suas estruturas internas. A figura 1.10
ilustra a formação e evolução primitiva dos corpos
parentais dos meteoritos.
A própria existência dos côndrulos indica que o
material formou-se durante o resfriamento e a cor-
respondente condensação da nebulosa solar, portanto,
-.
antes dos eventos principais de acresção planetária. Mais
ainda, indica que houve um estágio de alta temperatu-
~
ra, seguramente acima de 1.700°C e provavelmente
próximo de 2.000°C, pelo menos em toda a parte
--- interna do Sistema Solar, incluindo o anel dos
asteróides. Considera-se que este evento de alta tem-
Fig. 1.9 Meteorito condrítico (Barwell. Inglaterra). Fonte: IPR/
7-79. British Geological Survey @ NERC. Ali rights reserved. peratura, ocorrido numa fase precoce da evolução dos

I Acresção I IFragmentação I

rr;~lç'+ ~
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I1':;'1..
di. 4,..I~ Fig. 1.10 Esquema simplificado da
.. t .-. . A." origem dos corpos parentais dos
~A.
.. \ ) ~
Acondritos
meteoritos. Grandes impactos no
espaço causaram a fragmentação
desses corpos parentais, originan-
I Acresção I I Diferenciação I I Fragmentação I do diferentes tipos de meteoritos.
sistemas planetários, tenha sido o responsável pela per- a ocorrência de fusão interna. De certa forma, trata-se
da dos elementos mais voláteis, e principalmente H e de sistemas químicos complementares em relação ao
He, por parte do material que viria mais tarde a cons- "modelo condrítico".
tituir os planetas internos, seus satélites e os asteróides.
No âmbito da evolução dos corpos parentais dos
Os condritos carbonáceos do tipo Cl contém mi- meteoritos, até a sua fragmentação final (Fig. 1.10), o
nerais hidratados e compostos orgânicos, formados em processo acrecionário inicial seria similar, e no caso do
temperaturas relativamente baixas, e não possuem corpo parental não atingir grandes dimensões, a sua
côndrulos. Além disso, apresentam uma composição fragmentação produziria apenas condritos. Para os
química muito próxima da abundância solar dos ele- corpos maiores, a energia dos impactos, aliada ao ca-
mentos, à exceção dos elementos gasosos e dos lor produzido pelas desintegrações de determinados
compostos mais voláteis. Assim, este tipo é considera- isótopos radioativos existentes no. material, elevariam
do o mais primitivo e menos diferenciado dos a temperatura e produziriam a fusão do material, com
produtos condensados da matéria planetária inicial. Suas a conseqüente separação das fases silicáticas em rela-
feições particulares sugerem que seus corpos parentais ção às fases metálicas. Os corpos parentais, tanto
foram menos aquecidos do que os que deram origem diferenciados como não diferenciados, colidiram en-
aos demais condritos e portanto estariam situados a tre si, fragmentando-se e produzindo objetos menores,
maiores distâncias do Sol, na região orbital entre Mar- como os atuais asteróides. Muitos dos fragmentos re-
te e Júpiter. sultantes das inúmeras colisões acabariam cruzando
eventualmente com a órbita da Terra e seriam captu-
Os acondritos, siderólitos e sideritos (Tabela 1.4)
rados por ela, como meteoritos, devido à atração
perfazem cerca de 14% das quedas recuperadas. A
gravitacional.
Fig. 1.11 mostra a estrutura interna típica de um siderito,
formada pelo intercrescimento de suas fases minerais O estudo dos meteoritos permite o estabelecimen-
na época da sua formação, ainda no interior do nú- to, com certa precisão, da cronologia dos eventos
cleo do corpo parental. ocorridos durante a evolução primitiva do Sistema
Solar. Determinações de idade, obtidas diretamente
nos diversos tipos de meteoritos, têm revelado uma
quase totalidade de valores entre 4.600 e 4.400 mi-
lhões de anos, sendo que há determinações de grande
precisão em certos meteoritos rochosos (portanto di-
ferenciados) por volta de 4.560 milhões de anos. A
principal exceção refere-se ao grupo de meteoritos
do tipo SNC (Shergottitos-Nakhlitos-Chassignitos),
cujas idades de cristalização são da ordem de 1.000
milhões de anos. Estas idades mais jovens e a natureza
e mineralogia basáltica (silicatos ferro-magnesianos
principalmente) destes meteoritos apóiam sua prove-
niência de Marte.
Fig. 1.11 Siderito de Coopertown, EUA. Face polida mos- Com base na idade dos meteoritos diferenciados
trando a estrutura típica de Widmanstatten, produzida pelo
por volta de 4.560 milhões de anos, evidenciou-se que
intercrescimento de lamelas de dois minerais diferentes, am-
naquela época já tinha ocorrido acúmulo de material
bos constituídos de Fe e Ni. Siderito de Coopertown, EUA.
Fonte: IPR/7-79. BritishGeological Survey@ NERC.Alirights em corpos parentais com dimensão suficiente para
reserved. ensejar diferenciação geoquímica. Como corolário, os
planetas terrestres também devem ter sido formados
Esses meteoritos não-condríticos correspondem a de acordo com este cronograma. Segundo o modelo
diversas categorias de sistemas químicos diferentes, já mencionado de Safronov, a acumulação de 97-98%
formados em processos maiores de diferenciação do material do planeta Terra teria ocorrido em cerca
geoquímica, no interior de corpos parentais maiores de 100 milhões de anos. Mais ainda, a existência das
do que aqueles que deram origem aos condritos e que assim chamadas "radioatividades extintas" permite
atingiram dimensões superiores aos limites críticos para colocar um limite de idade para aqueles eventos de
nucleossíntese que produziram, no interior de uma me impulso e levou ao estabelecimento da planetologia
supernova que explodiu, a grande parte dos elemen- comparada, um ramo recente das ciências geológicas
tos do Sistema Solar. Radioatividades extintas que busca elucidar condições e processos que ocorre-
referem-se a certos isótopos, como o 127Xe, que se ram em determinados períodos da história da Terra,
forma a partir da desintegração do isótopo radioati- por meio das observações nos planetas e satélites que
vo 1271,de meia-vida curta (Cap. 15), da ordem de 12 são nossos vizinhos.
milhões de anos. Este isótopo formado no interior da
Para a Terra, assim como para Mercúrio, Vênus e
estrela, foi lançado no espaço e produziu Xe até o seu Marte, a existência de um núcleo denso foi demons-
desaparecimento, nas primeiras duas ou três centenas trada há muito tempo, em virtude dos dados
de milhões de anos a partir do evento de sua forma- observados sobre seus momentos de inércia, bem
ção. O fato de 127Xeem excesso ter sido encontrado e
como as determinações, pela Astronomia, de suas
medido em muitos meteoritos indica que o isótopo
densidades médias. Como os planetas telúricos tive-
127 do Iodo esteve presente no sistema durante os ram evolução similar à dos corpos parentais dos
processos de acresção e diferenciação. A medida da
meteoritos diferenciados, podemos concluir que eles
quantidade de xenônio formado em excesso permi- têm um núcleo metálico, análogo em composição aos
tiu fIxar um limite, da ordem de 200 milhões de anos,
sideritos, e um manto silicático, análogo em composi-
para o processo de nucleossíntese que formou a gran- ção a certos acondritos. No caso da Terra, a separação
de maioria dos elementos que hoje constituem o Sol e
entre esses dois sistemas quimicamente muito diferen-
seus corpos planetários. Estes, por sua vez, descen-
tes é caracterizada por uma clara descontinuidade nas
dem da explosão de uma supernova ocorrida por volta
propriedades sísmicas, situada a uma profundidade
de 4.800 milhões de anos atrás.
aproximada de 2.885 km (Cap. 4).

As missões Apoilo e Luna efetuaram valiosas obser-


1.6 Planetologia Comparada vações na Lua e coletaram mais de 380 quilos de amostras
lunares (Fig. 1.12). Do mesmo modo, Mercúrio foi estu-
Com o advento da era espacial, a partir do fInal
dado pelas sondas espaciais Mariner; Vênus pelas sondas
dos anos 50, mais de 80 espaçonaves norte-america-
nas e da ex-União Soviética efetuaram missões Venera e Mageilan, e o planeta Marte pelas sondas Mars,
Mariner, Vicking, Mars Pathfinder, e Mars Global
exploratórias, trazendo informações dos planetas e
Surveyor. As sondas Pioneer e Voyager foram lançadas
outros objetos do Sistema Solar de uma maneira sem
para observações à distância dos diversos planetas e sa-
precedentes. Assim, o estudo dos planetas teve enor-

Fig. 1.12 Astronauta da missão Apollo 17, examinando uma grande rocha lunar nas proximidades do sítio de pouso da nave
espacial, em dezembro de 1972. Fonte: NASA.
télites externos, tendo sido produzidas fotografias e ima- Ao mesmo tempo, a superfície terrestre recebe
gens de enorme valor cienrifico. Outra iniciativa estratégica energia do Sol, através da radiação solar incidente,
é a missão Galileo,um programa cienrifico dos mais am- que produz os movimentos na atmosfera e nos oce-
biciosos, em que a nave espacial, lançada em 1989, chegou anos do planeta. Estas últimas atividades são as que
até júpiter em 1995, e desde então está realizando um provocam profundas transformações na superfície
tour fantástico daquele planeta e de seus satélites princi- da Terra, modificando-a continuamente. justificam
pais, destacando uma missão suicida de uma de suas assim o fato de que quaisquer feições primitivas de
sondas, que mergulhou na atmosfera de júpiter, colhen- sua superfície, como por exemplo crateras de im-
do dados preciosos sobre sua constituição e sua dinâmica. pacto meteorítico, tenham sido fortemente

Resumiremos a seguir algumas características dos pla- obscurecidas ou totalmente apagadas ao longo da
sua história.
netas e dos principais satélites do Sistema Solar, com
ênfase nos que têm especial importância para a elucidação A Lua, o satélite da Terra, apresenra 1,25% da
de determinados ambientes físico-quimicos e processos massa do planeta a que se relaciona, sendo neste
evolutivos relevantes para a história do nosso planeta. particular um dos maiores satélites do Sistema So-
lar. Tem um diâmetro de 3.480 km e densidade de
1.6.1 Planetas internos
3,3 g/ cm3, portanto muito menor do que a da Ter-
ra. Não detém atmosfera.
Terra -O terceiro planeta do Sistema Solar apresenta
massa aproximada de 6x1029g e densidade de 5,52 As feições geológicas maiores da Lua são visí-
g/ cm3.O raio equatorialterrestre é de 6.378,2km e o seu veis a olho nu (Fig. 1.13). Trata-se de áreas claras
volume 1,083 x 1012km3. Embora tenha perdido seus ele- que circundam áreas mais escuras de contorno mais
mentos voláteis na fase de acresção do Sistema Solar, a ou menos circular, conhecidas como mares
Terra apresenta uma atmosfera secundária, formada por ("maria"). As informações obtidas nas missões es-
emanações gasosas durante toda a história do planeta, e paciais à Lua indicaram que as primeiras são regiões
constituída principalmente por nitrogênio, oxigênio e de terras altas (highlands),de relevo irregular, e apre-
argônio.A temperatura de sua superfícieé suficientemente sentando grande quantidade de crateras de impacto,
baixapara permitir a existênciade águaliquida,bem como enquanto que as segundas são vastas planícies, com
de vapor de água na atmosfera, responsável pelo efeito muito menor quantidade de crateras.
estufa regulador da temperatura, que permite a existência
da biosfera. Por causa dos envoltórios fluidos que a reco-
brem, atmosfera e hidrosfera, a Terra quando vista do
espaço assume coloração azulada, conforme simbolizado
pela fotomontagem introdutória deste capítulo. Esta vi-
são magnífica foi relatada por Yuri Gagarin, o primeiro
astronauta a participar de uma missão aeroespacial.
A característica principal do planeta Terra é seu con-
junto de condições únicas e extraordináriasque favorecem
a existência e a estabilidade de muitas formas de vida,
sendo que evidências de vida bacteriana abundante fo-
ram já encontradas em rochas com idade de 3.500
milhões de anos.

A Terra possui importantes fontes de calor em seu


interior, que fornecem energia para as atividades de
sua dinâmica interna e condicionam a formação de
magmas e as demais manifestações da assim chamada
tectônica global (Cap. 6). Este processo conjuga-se aos
movimentos de grandes placas rígidas que constituem Fig. 1.13 Principais feições observáveis na superfície lunar a
a litosfera, a capa mais externa do planeta, que por sua partir da Terra, destacando-se as planícies, os mares (áreas
vez situa-se em todo o globo acima de uma camada escuras) e as terras altas de relevo irregular com grande quan-
mais plástica, a astenosfera. tidade de crateras. Fonte: Observatório Lick,NASA.
CAPíTULO1 ~ O PLANETATERRAE SUASORIGENS 19

As amostras de material lunar coletadas pelas mis-


sões Apoilo permitiram esclarecer que nas terras altas
predominam rochas claras, pouco comuns níl Terra e
denominadas anortositos,constituídas essencialmente de
plagioclásios (silicatosde Na e Ca) que são por sua vez
muito comuns na Terra. Determinações de idade obti-
das nestas rochas mostraram-se sempre acima de 4.000 ,
milhões de anos. Alguns valores de idade resultaram pró-
ximos de 4.600 milhões de anos, da mesma ordem das
idades obtidas em meteoritos. Estas idades indicam que
os materiais lunares foram também formados nos
primórdios da evolução do Sistema Solar.
Por sua vez, as amostras coletadas das regiões bai-
xas (nos mana) revelaram uma composição basáltica,
material de origem vulcânica muito comum na Terra.
Suas idades resultaram em geral mais novas do que as Fig. 1.14 Imagem do Mare Imbrium, uma cratera de impacto
das rochas anortosíticas, mas de qualquer forma mui- gigantesca, preenchida por lava, com cerca de 1.000 km de
to antigas, da ordem de 3.800 milhões de anos. As diâmetro. Notar o grande número de crateras menores e mais
datações mais jovens obtidas nas rochas basálticas lu- jovens também presentes. Fonte: NASA.
nares foram da ordem de 3.200
milhões de anos.
a J Minuto após contato", b 10 Minutos após contato c I Hora

A análise das estruturas de im-


pacto visíveis na superfície da Lua
demonstra que o satélite foi sub-
metido a um violento bombardeio
por planetésimos e asteróides de TER
todos os tamanhos, desde sua fase
embrionária. As crateras maiores
têm diâmetros superiores a 1.000
km (como por exemplo os deno- Manto

minados Mare Imbrium, Mare


TranquzJitatis,
ou a Bacia Oriental, no d . 4Horas f 24Horas
lado distante da Lua), mas existem
muitas outras, de todos os tama-
nhos (Fig. 1.14).
A origem do sistema Terra-Lua
é assunto ainda controvertido, tendo
em vista as muitas semelhanças e di-
ferençasde nosso satélite em relação
à Terra. O modelo mais aceito atual-
Núcleo do
mente (Fig.1.15)postula um impacto corpo impctante

de um corpo de dimensões pouco


maiores que Marte, durante os está- Fig.1.15 Sistema Terra-Lua- Simulação de computador sobre a origem da Lua, conside-
gios finais da acresção planetária, rando o impacto oblíquo de um objeto com cerca de 0,14 da massa terrestre, com
velocidade de 5 km/s. Ambos os corpos já estariam diferenciados em núcleo metálico e
ocasiãoem que a Terra já tinha prati-
manto silicático. Logo após a colisão, o corpo impactante e parte do manto terrestre
camenteseutamanho atual,e jáestava
foram despedaçados, e muitos compostos voláteis foram vaporizados. Emseguida, gran-
diferenciada,com núcleo metálico e de parte do manto do obieto que colidiu teria sido ejetado para uma situação orbital e
manto silicático.
coalesceria rapidamente formando uma Luaparcial ou totalmente fundida. Grande parte
do material do núcleo do corpo impactante, mais pesado, teria sido incorporadoà Terra.
r-

Mercúrio - é o planeta mais interno do Sistema So- radar de sua superfície (Fig. 1.17). Algumas dessas mis-
lar. Sua massa é apenas 5,5% da Terra, mas sua densidade sões chegaram a pousar no planeta, e as análises obtidas
é apenas pouco inferior à do nosso planeta. Seunú- revelaram rochas com composição basáltica similar à
cleo metálico é, portanto, proporcionalmente muito de rochas terrestres.
maior que o terrestre.

Mercúrio tornou-se geologicamente inativo logo


após ter sido formado. Praticamente não tem atmos-
fera, e por causa disso sua superfície não sofreu grandes'
transformações, sendo portanto muito antiga. Obser-
vações da sonda Mariner 10 revelaram que a sua
superfície é árida e preserva grande quantidade de cra-
teras de impacto resultantes do bombardeio ocorrido
nos primórdios da evolução do Sistema Solar (Fig.
1.16), como na Lua.

Vênus - é o planeta que apresenta maior seme-


lhança com a Terra, em tamanho, em peso, na sua
herança de elementos químicos, e sua massa equivale a
81,5% da massa desta. Sua aparência externa, obser-
vada ao telescópio, é obscurecida por nuvens,
refletindo a densa atmosfera, que esconde suas feições
topográficas. Contudo, diversas sondas, a exemplo das
Fig. 1.17 Feições morfológicas da superfície de Vênus em
soviéticas Venera 9 e 10, ou a norte-americana Magellan,
mosaico de radar obtido pela missão Magellan. Observar es-
nas décadas de 70 e 80, lograram obter imagens de trutu~as circulares gigantes e a faixa mais clara de planaltos
elevados. Fonte: NASAlJPL.

° relevo do planeta é menos variado que o da


Terra. São observadas ondulações moderadas da su-
perfície em cerca de 60% da área, terras baixas em
cerca de 30%, e alguns planaltos elevados (Terra Ishtar
e Terra Aphrodite), que foram interpretados como
massas rochosas "continentais". Feições similares a vul-
cões e estruturas circulares gigantes (Fig. 1.17 pàrecidas
com grandes estruturas vulcânicas de colapso existen-
tes na Terra fora!ll observadas. Além disso, foram
identificados sistemas simétricos de elevações lineares
de grande extensão, interpretados como análogos aos
sistemas de dorsais existentes nos oceanos terrestres
(Cap. 17), e também elevações topográficas na Terra
Ishtar interpretadas como cadeias montanhosas pro-
duzidas por colisão de massas continentais. Grandes
crateras de impacto foram identificadas, sugerindo que
certas áreas do planeta são geologicamente antigas.
A atmosfera de Vênus, secundária como a da Ter-
ra, é formada basicamente por COz e quantidades
menores de N, SOz e outros gases. A pressão atmos-
férica na superfície do planeta é de cerca de 92 bars, e
a enorme quantidade de gás carbônico existente gera
Fig. 1.16 Superfície árida de Mercúrio, mostrando grande
um efeito estufa gigantesco, elevando a temperatura
quantidade de crateras de impacto de tamanhos diversos.
Fonte: NASA. da superfície a quase 500°C.

::.-~-~-
CAPíTULO .
1. O PLANETA
TERRAESUASORIGENS 21

Por causa das similaridades de tamanho e compo- Marte contém uma atmosfera tênue (pressão at-
sição, Vênus deveria ter regime térmico similar ao da mosférica na superfície de apenas 0,007 bar),
Terra, sugerindo, portanto, a existência de uma consistindo principalmente de CO2, além de quanti-
estruturação interna. Entretanto, evidências diretas de dades diminutas de nitrogênio e argônio. Os processos
uma tectônica global do tipo terrestre não estão com- geológicos superficiais do planeta são dominados pela
provadas. Ao mesmo tempo, a elevada temperatura ação do vento, tendo sido observados enormes cam-
superficial do planeta sugere que a sua litosfera seria pos de dunas, constantemente modificados por
menos espessa e mais flutuante, impedindo ou dificul- tempestades de areia. Marte também apresenta calo-
tando processos de subducção para o manto interior tas polares que incluem gelo, além de gelo seco.
do planeta como os que ocorrem na Terra (Cap. 6).
Há uma grande diferença entre os dois hemisféri-
Além disso, a grande quantidade de vulcões apontaria os marcianos, sendo o meridional de relevo mais
à existência de regiões com elevada produção de ca-
elevado e mais acidentado, enquanto que o setentrio-
lor (hot spots)(Caps. 6 e 17) no manto de Vênus, as
nal é formado por uma extensa planície pontilhada por
quais poderiam refletir o produto final de uma dinâ-
enormes vulcões, entre os quais o Monte Olimpus, com
mica de dissipação superficial do calor interno do
26 km de altura sobre a planície circundante (Fig. 1.19).
planeta. . Este é o maior vulcão conhecido do Sistema Solar. O
Marte - O quarto planeta do Sistema Solar é pe- hemisfério sul é repleto de crateras de impacto, e o
queno, com massa total de cerca de 11% daquela da panorama assemelha-se às terras altas lunares, de modo
Terra. As numerosas sondas espaciais, mas em especi- que a superfície do hemisfério sul deve ser
al as missões recentes das sondas Pathfinder e Global analogamente muito velha. Por outro lado, a superfí-
Surveyor,trouxeram enorme quantidade de dados muito cie do hemisfério norte possui número menor de
valiososacerca do "planeta vermelho" (Fig. 1.18). crateras, e sua superfície deve ser relativamente mais
jovem, embora ainda antiga se comparada com à de
Vênus ou da Terra. Os edifícios vulcânicos e seus der-
rames de lava praticamente não possuem crateras,
devendo ser geologicamente mais jovens. Quanto à
composição química das lavas marcianas, devem pre-
dominar variedades basálticas ou variedades derivadas
de magmas basálticos, como foi revelado pelas análi-
ses efetuadas durante a missão Pathfinder e também
aquelas realizadas nos meteoritos SNC, já menciona-
dos, cujas composições químicas mostram-se
semelhantes às dos basaltos terrestres.

A litosfera de Marte deve ser muito espessa, no


minimo de 150 a 200 km, por ser capaz de suportar o
crescimento de estruturas vulcânicas tão altas como a
do Monte Olimpus, numa posição fixa. Provavelmente
o planeta teve nos seus primórdios uma evolução ge-
ológica interna importante, que deve ter cessado há
muito tempo, visto que, pelo seu pequeno tamanho,
muito do calor interno produzido teria escapado di-
retamente para o espaço. Interpretações com base em
determinações de idade dos meteoritos SNC suge-
Fig. 1.18 Marte vistodo espaço. Destacam-se 3 vulcões como
manchas escuras circulares no setor ocidental, bem como uma rem que as rochas vulcânicas de Marte teriam cerca de
estruturaenorme que cruza o planeta em sua porção equatori- 1.000 milhões de anos, após o quê teria terminado a
al. Trata-se de um cânion com 4.500 km de extensão, fase de vulcanismo ativo no planeta. Presentemente,
denominado VallesMarineris, semelhante aos vales de afun- não se observam evidências de atividades geológicas
damento terrestres e possivelmente formado por processos em Marte, com as feições indicando que o planeta
geológicos internos de Marte. Fonte: NASAlJPL. provavelmente nunca teve uma tectônica global pare-
cida com a que se desenvolve até hoje na Terra. Toda-
via, feições morfológicas lineares típicas de Marte, tais
como o já mencionado VallesMarineris(Fig. 1.18), são
semelhantes a certas estruturas terrestres de mesma
magnitude, como os vales de afundamento da África
oriental, ou a estrutura geológica que condicionou o
aparecimento do Mar Vermelho.
Em vários lugares, a superfície de Marte aparece
como dissecada e modificada por uma combinação
de erosão aquosa e movimentos de massa (Fig. 1.20).
Tendo em vista que a superfície é muito fria, com tem-
peraturas normalmente abaixo de Ü"C,a água somente
poderia atuar como agente erosivo em episódios Fig. 1.20 A superfície de Marte tal como foi vista pela sonda
"quentes" de curta duração, como em decorrência de Pathfinder, na região de seu pouso, na confluência dos vales
eventuais impactos meteoríticos. Em tais casos ocor- Ares e Tiu. Trata-se de uma enorme planície de inundação, for-
reria a liquefação do gelo que deve existir de modo mada numa época em que ocorreram grandes movimentosde
permanente na sub-superfície de Marte, em materiais material transportado em meio aquoso. Fonte: NASA.
porosos ou fraturados, em situação similar à dos ter-
renos congelados que existem na Terra nas regiões de pequeno grupo de meteoritos SNC que se considera
altas latitudes.
provenie9te de Marte. Tais evidências, ainda hoje d~-
Desde as primeiras observações de Marte, passan- batidas pela Ciência, consistem de hidrocarbonetos
do pelos relatos de astrônomos do século XVIII, como aromáticos encontrados em superfícies frescas de fra-
o italiano Schiaparelli e o norte-americano C. Lowel1, turas do meteorito e formações globulares carbonáticas
que descreveram os famosos "canais", sempre houve que se assemelham, em textura e dimensão, a alguns
especulações sobre possíveis habitantes, ou sobre a precipitados carbonáticos terrestres formados por ação
existência de formas de vida naquele planeta. Em 1996 bacteriana.
um grupo de pesquisadores da NASA relatou ter en-
contrado possíveis evidências de atividade biogênica 1.6.2 Planetas externos: os gigantes gasosos
no shergottito ALH84001, um dos constituintes do
Júpiter, Saturno, Urano e Netuno são muito dife-
rentes dos planetas internos descritos até aqui e
correspondem a enormes esferas de gás comprimi-
do, de baixa densidade. Júpiter e Saturno são gigantes
gasosos formados principalmente por H e He, en-
quanto que Urano e Netuno possuem cerca de 10-20%
desses elementos, mas suas massas compreendem tam-
bém sólidos, incluindo gelo e materiais rochosos. De
qualquer forma, nos quatro planetas é possível obser-
var diretamente apenas as partes mais externas de suas
atmosferas e especular a respeito da natureza e das
condições de seus interiores, onde as pressões exis-
tentes são tão grandes que desconhecemos a física que
nelas prevalece.
A missão Voyager 2 foi a que trouxe maior número
de informações e magníficas visões de seu "grande tout'
pelo Sistema Solar na década de 80. Entretanto, a missão
Galileo,iniciadaem 1989 e que chegou aJúpiter em 1995,
Fig. 1.19 Monte Olimpus, o maior vulcão conhecido do Sis-
tema Solar, cujo tamanho é três vezes o do monte Everest. obteve a maior quantidade de informações sobre este
Fonte: NASAl JPL. planeta gigante, seus anéis e seus satélites.

-""=--""--
r
I
CAPíTULO
1 . o PLANETA TERRA E SUAS ORIGENS 23

Júpiter (Fig. 1.21), pelo seu tamanho descomunal,


pode ser considerado uma estrela que falhou. Possi-
velmente, nos primórdios de sua evolução, ele brilhou
tal como uma estrela, porém com luminosidade mui-
to fraca. Se Júpiter tivesse massa muito maior, o
Sistema Solar teria sido uma estrela dupla, como há
muitas no Universo, e provavelmente a Terra e outros
planetas não teriam sido formados. Júpiter possui al-
guns anéis e diversos satélites, todos diferentes entre si
e formados por material sólido. Os maiores, deno-
minados satélites galileanos, são Europa, Ganimedes,
Callisto e Ia (Fig. 1.21). Este último satélite tem tempe-
ratura interna extremamente alta, de tal modo que produz
continuamente violentas e gigantescas erupções vulcâni-
cas em sua superfície (Fig. 1.22). Trata-se do mais intenso
vulcanismo do nosso Sistema Solar.

A energia interna de Júpiter é ainda muito elevada,


provavelmente suficiente para manter o material de
seu interior inteiramente líquido. Considera-se que as Fig. 1.21 Mosaico mostrando Júpiter e quatro de seus satéli-
camadas externas do planeta contenham essencialmen- tes (Ganymede, Callisto, Europa e 10),como observado pela
te H molecular, Hz, enquanto que nas internas nave Voyager 1. Fonte: NASA.
predomina H metálico, líquido. Júpiter teria ainda um Pouco se conhece acerca do interior de Saturno
núcleo relativamente pequeno de material fundido, pos-
(Fig. 1.23), que deve compartilhar muitas das proprie-
sivelmente silicatos.
dades de Júpiter. Ainda menos se conhece sobre Urano
e Netuno, que pelas suas densidades médias devem
ter núcleos de material denso. Os modelos propostos
para suas estruturas internas preconizam um núcleo
rochoso, coberto por um "manto" de água líquida,
metano, amônia e outros compostos, formando um
oceano com milhares de quilômetros de espessura. Este
oceano seria recoberto por uma atmosfera muito densa
formada por H e He.

1.6.3 Cinturão de asteróides

Entre as órbitas de Marte eJúpiter ocorre o cinturão


de asteróides, constituído de incontáveis corpos pla-
netários de tamanhos diversos. Como foi mencionado
anteriormente, a grande maioria dos meteoritos que
continuamente caem na superfície da Terra provém
desse cinturão. É provável que os asteróides não pu-
deram se reunir num único planeta, na época de
acresção, devido às perturbações de natureza
gravitacional causadas pela proximidade de Júpiter.
O maior asteróide conhecido é Ceres com diâme-
tro de 974 km. Além deste, conhecem-se mais seis
Fig. 1.22 10,um dos satélites de Júpiter, cuja superfície é coberta
asteróides com diâmetros superiores a 300 km, cerca
de vulcões ativos (por exemplo na parte centro sul do satélite), que de duzentos com diâmetro superior a 100 km, por
expelem enxofre líquido é compostos sulfurosos. Fonte: NASA. volta de 2.000 com diâmetro superior a 10 km, e as-
--------- ---

I
. ~ 24 D EC I F RA N D O A T ERRA

bitas dos cometas foram perturbadas pela ação


gravitacional das estrelas mais próximas, e agora
eles estariam orientados ao acaso nas proximida-
des do plano principal do sistema. A nuvem de
Oort deve conter possivelmente muitos bilhões de
cometas.

Cerca de 750 cometas são conhecidos, como


por exemplo o de Hallry, de período curto, cuja
órbita o faz se aproximar da Terra a cada 75-76
anos, como ocorr.eu em 1986, ou o Schumacher-Le1(Y,
que colidiu espetacularmente com o planeta Júpiter
em julho de 1995. A constituição dos cometas in-
clui compostos voláteis congelados, tais como I--Iz°;
HzCO, C, CO, COz, H, OH, CH, O, S, NH, NHz,
HCN, Nz, e muitos outros, inclusive metais como
Na, K, AI, Mg, Si, Cr, Mn, Fe etc. Quando cometas.
são trazidos para perto da órbita da Terra, seus gases
são vaporizados e ionizados pela radiação solar, e
o conjunto toma a forma típica de um núcleo (coma)
Fig. 1.23 Mosaico mostrando Saturno e seus satélites Dione, e uma cauda apontando para o lado oposto do
Rhea e Tethys. Os sete anéis deste planeta são formados essen- Sol.
cialmente de gelo e poeira, em partículas e fragmentos pequenos.
Fonte: NASN.

sim por diante. Cerca de 75% desses corpos consis-


tem de silicatos de Fe e Mg, material similar ao dos
meteoritos condríticos. Cerca de 15% apresentam-se
como misturas de material silicático e material metáli-
co (Fe-Ni), podendo ser análogos aos siderólitos, e
cerca de 5% parecem ser totalmente metálicos, asse-
melhando-se aos sideritos. Os 5% restantes podem
representar outros tipos de meteoritos. A massa total
dos asteróides conhecidos corresponde a cerca de 2%
da massa da Lua.

1.6.4 Cometas

Cometas são constituídos predominantemente


por material gasoso (Fig. 1.24), que representa a
matéria primordial da nebulosa solar. Acredita-se
que durante o processo de acresção planetária, na
fase de formação de planetésimos, os cometas tam-
bém foram formados numa região muito além do
anel planetário mais externo. Tais corpos, de di-
mensões variáveis (da ordem de 1 km de diâmetro
ou menos), não puderam originar protoplanetas,
por estarem muito afastados entre si. Durante os Fig. 1.24 Cometa de Hyakutake, descoberto em 30 de janei-
4,6 bilhões de anos de nosso Sistema Solar, as ór- ro de 1996. Fonte: NASA.

--
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CAPíTULO
1 . O PLANETA TERRA E SUAS ORIGENS 25

1. 7 Perspectivas do Estudo alta precisão foram instalados num balão atmosférico


do Universo que se encontra sobrevoando a Antártica, com a fina-
lidade de observar uma região do céu praticamente
A aventura extraterrestre da humanidade está apenas co- sem estrelas, buscando captar a luminosidade da cha-
meçando, na busca de respostas para aquelas questões mada radiação de fundo) resultante do Big Bang. As
fundamentais formuladas no início deste capítulo. A todo imagens obtidas por este telescópio permitiram aos
cientistas oferecer uma estimativa da densidade do
momento, novas observações e novos dados científicos são
adicionados, e muitos deles causam surpresas inesperadas Universo, considerada convincente por muitos
que moclificam teorias e idéias estabelecidas. É desta forma astro físicos, e com isto sugerir que tal densidade esta-
ria abaixo do valor crítico comentado no item 1.1 deste
que a Gência progride.
capítulo. Embora a demonstração inequívoca ainda
Para o conhecimento do Sistema Solar, as últimas quatro
dependa de uma solução definitiva para o mistério da
décadas do séCuloXX foram cruciais. Contudo, a explora- matéria escura) a evidência do projeto Boomerangapon-
ção dos planetas, satélites e demais objetos associados está taria para a hipótese do Universo aberto) portanto
apenas começando. A sonda Galileo ainda continua estu- com uma expansão contínua para sempre. Voltamos
dando Júpiter, e são apenas do final de 1999 as imagens assim às nossas inquietudes metafísicas iniciais, com
fantásticasdo satélite 10, com um de seus vulcões expelindo
uma possível resposta para o futuro do Universo. Mas
lava extremamente quente, a mais de 1 km de altura, .nurna se o nosso Universo teve um início, no Big Bang) e se
escalamaior do que qualquer das erupções famosas do Havaí. for finalmente demonstrado que ele é eterno e ocupa
Para a primeira década do século XXI estão programadas um espaço em contínua expansão, tendendo portanto
outras missões, com ênfase para o planeta Marte, ao redor ao infinito, não seriam estas características sugestivas
do qualaindapermaneceo GlobaISurn:yer.Planeja-secoletar da existência de uma vontade criadora?
amostras de gases, solos e rochas, entre outras coisas, para
buscar evidênciasinequívocas de vida, na seqüência das indi- Nesse contexto, cabe lembrar as palavras de Albert
cações fornecidas pelo estudo do meteorito ALH84001. Einstein: Quero saber como Deus criou este mundo. Não estou
Pretende-se também obter um melhor conhecimento de interessado neste ou naquele .fenômeno) ou no espectro deste ou

asteróides e cometas, talvez os objetos mais enigmáticos do daquele elemento. Quero conhecer seus pensamentos) o resto são
detalhes.
Sistema Solar, por meio de missões especiais, envolvendo
aproximações e até mesmo aterrissagens.

Para melhor compreendermos o Universo, têm


sido decisivas as fotografias obtidas pelo telescó-
pio orbital Hubble (Fig. 1.25). Este instrumento com
12 toneladas, lançado ao espaço em 1990 a mais de
500 km da superfície terrestre, permitiu evitar
distorções provocadas pela nossa atmosfera nas
imagens fotográficas dos telescópios convencionais.
Em poucos anos, o Hubble produziu remotamen-
te, a partir de sistemas de controle na Terra, mais
de 270.000 observações preciosas. Entre elas, estão
imagens nítidas de nebulosas, galáxias antigas, bu-
racos n~gros, explosões de supernovas e até mesmo
do choque espetacular do cometa Shumacher-Levy
contra Júpiter se fizeram disponíveis para astrôno-
mos e astrofísicos, e seus resultados revolucionaram
a cosmologia moderna.
Em 1999 foi implementado outro experimento
científico ambicioso, denominado projeto Boomerang.
Um telescópio de duas toneladas e instrumentos de Fig. 1.25 Telescópio espacial Hubble. Fonte: NASA.
I, ,'o, 26 D EC I FRA N D O A T ERRA

r- ---- --
1.1 Planetologia comparada
-I
Atua1mente, os planetas do Sistema Solar deixaram de ser objetos de estudo apenas de astrônomos, passando
I tatnb~m a s<:;rfocq. ge,interç:sse dO$geocie:11tistas. Bmbor\!oicada objeto nQSistemaSolar,;~eja Ú!Úgó,Q11Qvo ca.t:.P.po
I da Ci'bcia, a. planetQlogia cQmparada, tem fornecido muitas liçõe:sque podem ser aplic:adasàJ'erra, em especial
quanto aos tópicos de sua origem e evolução primitiva, conforme resumido nos, temas abaixo: I
l
?
estudo da Lua, Vênus, Marte, e de muitos acondritos, mostrou que o magmatismo de tipo basáltico é
'

I. ompresente.
o
_
I
o O," 00 .0 . .

2. Embora alguns objetos primitivQS, tais como Os condritos carbonáceos, sobrevivera.t:.P.para indicar, a idade; do
Sistem.aSolar, não há evidências da existência de material primordial não transformado, nos planetas e em seus
satélites.

~ 3. Os;;plane~s formaram-se guente~, ou tQtnaram-í;egue11teslQgo após fl'sua o4sem. A"sua eS~turas:ão qtÚnJÍca I
L em 111anto e núcleo ocorreu numa oofaseprecoce, provavelmente ainda durante a chamada acresção plan<:;tária.

4. As diferenças na composição das atmosferas dos planetas intero,os indicam que as composições origireús de seus
gases, a perda inicial dos C0111postoSvolátcis e os subseqüentes processq.s de degasificação para a f01;mação das
atuais; atmosferas fora.t:.P.específicos e distintos, Pataocada planeta.

I 5. Ap&tl'enteniente,Q 'regime de tectônica global do planeta Terra é único.


6. A ~dência de grandes impactos pelo bombardeio de corpos de todos os tatnanhosdurante o acrescimentoplanetário,
que continuol1pelomenos durante 800 milhõesde atlQS,é observávelnas superficiesda Lua, ~ercúriooe Marte.
--- -- - -- ----

<Leituras.;tecomend~das .

I
°ANIY~RSO~, D. Theo'fjj 0/ the;Earth.Boston:
Blackwell., 1989.

i CI>O$WE~, K M-/lgnijiceJ1t
Univç:rse.New York:

t &~$chu~tel; J 999;,
GOl\[ES, C. B. & KEIL>,oK. Brazilial1 Stone.
Meteontes;,Albuq}lerque: University of New
Mexico Press, 19130.

t F. '&MATIHEWS, S. (eds.)
Mé1eontesand the Ear!J Solar System. Tucson:
University of Arizona Press, 1988.
I 'MA&SAMBANI, O & MANTOV ANI, M. S.
Iii: Marte)f;JoftlsJ)escobertas.
São Paulo: Ins-
l Asftonô11ill':oe Geofísico, USP, 1997.

WEINER, 1~-Planeta Terra, São Paulo: Martins


Fq.p.tes,1986.
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mara estudarmos o planeta Terra é necessário, ini- Embora coesa e, muitas vezes, dura, a rocha não é
I.JIcialmente, conhecer as características dos homogênea. Ela não tem a continuidade física de um
materiais que o constituem, especialmente os mais su- mineral e, portanto, pode ser subdividida em todos
perficiais e com os quais temos maior contato. Na os seus minerais constituintes.
superfície terrestre, podem ser observados materiais
Já o termo minério é utilizado apenas quando o
inconsolidados (por exemplo, os solos dos nossos jar-
mineral ou a rocha apresentar uma importância eco-
dins, as areias dos rios e das praias) e rochas
nômica (Cap. 21).
consolidadas, ambos constituídos por associações mais
ou menos características de minerais. Para conhecer mais sobre os minerais, vamos de-
talhar os principais conceitos usados na definição
Os principais usos atuais dos minerais e rochas mais
apresentada. Como será visto, a tradição estabelecida
comuns são apresentados no Capo21. A importância
pelo uso e, às vezes, o abuso dos termos, conduz a
dos minerais e rochas no desenvolvimento tecnológico
algumas inconsistências. Conseqüentemente, a utiliza-
da humanidade cresceu continuamente desde a época ção do termo mineral nem sempre é completamente
da pedra lascada. Entre outras coisas, a sociedade consistente.
tecnológica não teria conseguido chegar à Lua não fosse
o seu conhecimento sobre as características e proprie- a) Quanto à definição ". . .elementoou compostoquímico
dades dos minerais. A dureza excepcional do diamante, com composiçãodq-inidadentro de certoslimites. . ."
por exemplo, foi responsável pela fabricação de pe- Alguns poucos minerais têm uma composição quí-
ças mecânicas de altíssima precisão que auxiliaram a mica muito simples, dada por átomos de um mesmo
ida do homem à Lua. Além dessas aplicações muito elemento químico. São exemplos o diamante (átomos
especializadas, muita coisa que usamos no nosso dia- de carbono), o enxofre (átomos de enxofre) e o ouro
a-dia vem do reino mineral.
(átomos de ouro). A grande maioria dos minerais,
entretanto, é formada por compostos químicos que
2.1 Minerais: Unidades Constituintes resultam da combinação de diferentes elementos quí-
das Rochas micos; sua composição química pode ser fixa ou variar
dentro de limites bem definidos. Na composição quí-
mica do quartzo (SiO~, um átomo de silício combina
2.1.1 O que são minerais e rochas? com dois de oxigênio, qualquer que seja o tipo de
ambiente geológico em que o quartzo se forme.
Minerais são elementos ou compostos químicos
com composição definida dentro de certos limites, Já na composição do mineral olivina (Mg, Fe)zSi04
cristalizados e formados naturalmente por meio de -mineral incomum nas rochas da superfície terrestre,
processos geológicos inorgânicos, na Terra ou em cujo membro magnesiano, no entanto, deve formar
corpos extraterrestres. A composição química e as parte importante das rochas do interior da Terra (Cap.
propriedades cristalográficas bem definidas do mine- 5) - as relações que se mantêm fixas são a soma das
ral fazem- com que ele seja único dentro do reino quantidades de ferro e magnésio, com dois átomos, a
mineral e, assim, receba um nome característico. quantidade de silício, com um átomo, e a de oxigênio,
com quatro átomos. A composição química das
Cada tipo de mineral, tal como o quartzo (SiO~,
olivinas pode variar entre dois átomos de ferro e zero
constitui uma espécie ~eral. Sempre que a sua cris-
de magnésio e dois de magnésio e zero de ferro, sem-
talização se der em condições geológicas ideais, a sua
pre com um átomo de silício e quatro de oxigênio,
organização atômica interna se manifestará em uma
formando uma série de minerais que fazem o grupo
forma geométrica externa, com o aparecimento de das olivinas.
faces, arestas e vértices naturais. Nesta situação, a amos-
tra do mineral será chamada também de cristal. b) Quanto à deftnição ". . .cristalizado.. ."
O termo rocha é usado para descrever uma asso- O fato de a definição de mineral destacar o termo
ciação de minerais que, por diferentes motivos cristalizado, para esses materiais, signiftca que eles têm
geológicos, acabam ficando intimamente unidos. um arranjo atômico interno tridimensional. Os áto-

Veio pegmatítico no qual se destacam cristais centimétricos de Amazonita (cor esverdeada), intrusivoem rocha gnáissica, cuja
estrutura orientada típica é visívelno canto inferioresquerdo. Foto: Museu de Geociências/IG-USP.
mos constituintes de um mineral encontram-se distri- Substâncias sólidas amorfas, tais como géis, vidros
buídos ordenadamente, formando uma rede e carvões naturais, não são cristalinas e, portanto, não
tridimensional (o retículo cristalino), gerada pela re- satisfazem às exigências da definição de mineral. Estas
petição de uma unidade atômica ou iônica fundamental substâncias formam parte da classe dos mineralóides.
que já tem as propriedades físico-químicas do mineral A repetição sistemática dos motivos estruturais
completo. Esta unidade que se repete é a cela unitá- formados de átomos, íons ou moléculas sustenta o
ria, o "tijolo" que vai servir de base para a construção conceito de simetria cristalográfica. A
do retículo cristalino onde cada átomo ocupa uma
Cristalografia estuda a origem, desenvolvimento e
posição definida dentro da cela unitária (Fig. 2.1). classificação dos cristais naturais - os minerais que exi-
bem formas externas geométricas - e artificiais.
O estudo da simetria externa dos cristais é feito
com auxílio dos elementos abstratos de simetria

~ A (planos, eixos e centro) e as suas respectivas opera-


ções de simetria (reflexão, rotação e inversão). Assim,
reconhecer a existência de um plano de simetria no
cristal é visualizar uma superfície que o corta em duas
metades iguais, simétricas (Fig. 2.2).

Fig.2.1 Arranio espacial dos íons de Na+ e CI- no composto


NaCl (halita),mostrando a cela unitária que resulta no hábito
cristalinoem cubos geralmente apresentados pelo mineral.

Duas propriedades físicas que por si só atestam


esta organização interna são o hábito cristalino e a Fig.2.2 Plano de simetria, que corta o objeto em duas partes
clivagem. O hábito cristalino é a forma geométrica iguais, simétricas, como um objeto e sua imagem refletida num
externa natural do mineral, desenvolvida sempre que espelho-
a cristalização se der sob condições calmas e ideais.
Já a clivagem é a quebra sistemática da massa mineral O eixo de simetria é uma reta imaginária que passa
em planos preestabelecidos que reúnem as ligações pelo centro geométrico do cristal e ao redor da qual,
químicas mais fracas oferecidas pela estrutura do num giro total de 3600, uma feição geométrica do
mineral. cristal se repete certo número de vezes (Fig. 2.3).

Na natureza, os cristais perfeitos dos minerais são O centro de simetria é um ponto de simetria coin-
raros e conseqüentemente constituem as jóias do rei- cidente com o centro geométrico do cristal, em relação
no mineral. Mais comumente os minerais se apresentam ao qual as feições geométricas do cristal se invertem
como massas irregulares. No entanto, a cristalinidade (Fig. 2.4).
destas amostras de minerais também pode ser reco-
O conjunto dos possíveis elementos de simetria
nhecida de outras formas, por meio de suas encontrados em um cristal é chamado de grau ou classe
propriedades ópticas, por exemplo. de simetria ou grupo pontual. Existem, na natureza,
O mercúrio (elemento nativo), é o único líquido apenas 32 graus de simetria, agrupados de acordo com
considerado espécie mineral. O gelo formado natu- a similaridade de seus elementos de simetria em sete
ralmente (nas calotas polares, por exemplo) é sistemas cristalinos, do "mais simétrico" ao "me-
considerado mineral, mas a água líquida, não. nos simétrico": cúbico, tetragonal, trigonal, hexagonal,
.

ortorrômbico, monoclínico e triclinico. Os sete siste-


mas cristalinos são usados para a classificação
cristalográfica de todas as substâncias, naturais ou não,
que apresentam estrutura cristalina (Tabela 2.1).
A escola norte-americana de cristalografia consi-
dera a existência de apenas seis sistemas cristalinos, uma
vez que coloca o nosso sistema trigonal como uma
subdivisão do sistema hexagonal, chamada de hexa-
gonal romboedral. Assim, enquanto nós, brasileiros
(que seguimos a escola européia de cristalografia), fa-
lamos que, por exemplo, o quartzo a e a turmalina se
cristalizam no sistema trigonal, os norte-americanos
consideram estes minerais como pertencentes ao sis-
tema hexagonal romboedral. Por isso, devemos tomar
o cuidado, sempre que usarmos um livro de
cristalografia e mineralogia da escola norte-america-
na, de não confundir o nosso sistema hexagonal (H)
com a classe hexagonal romboedral (Hr) deles.
c) Quanto à definição ". . Jórmado naturalmente.. ."

Quando usamos o termo "naturalmente" na defini-


ção de mineral, indicamos que as substâncias devam
ocorrer espontaneamente na natureza. Como regra ge-
ral,substânciassintéticasfeitaspelo ser humano por síntese
no laboratório ou os produtos resultantes de combus-
tão ou os formados a partir de materiais artificiais,mesmo
com a ação do ar ou de água, não são considerados
minerais embora apresentem todas as características de
seus equivalentesnaturais, e sua síntese possa ajudar a en-
tender o processo da formação dos minerais nos
diferentes ambientes geológicos. Por exemplo, enquanto
o rubi natural é mineral, o rubi sintético não o é . Entre-
tanto, como se vê, na prática os compostos sintéticos
recebem os mesmos nomes dos equivalentes naturais.
Em alguns textos, vê-se o termo "mineral sintético" o
que é, estritamente, um contrasenso.
Fig. 2.3 Eixos de simetria: ternário, quaternário e senário.
d) Quanto à definição ". . processos
inorgânicos.
. ."
O uso do termo inorgânico na definição de mine-
J' I ,,' ral impede que as substâncias puramente biogênicaE
c:~ ..J4...' '" ' , , sejam minerais. A pérola, o âmbar, os recifes de coraiE
--- 1/-:...~ :-.:...
. -1- "':.'"- - "",
I , e o carvão são algumas substâncias biogênicas que nãc
I
.l '.
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podem ser consideradas minerais, por um motivo 01:
, .
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\ J '(i"
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I outro. São todas mineralóides. No caso do coral
r. I
I o. embora possamos reconhecer compostos químico~
I '. idênticos às formas naturais de carbonato de cálcic
I .


:
I!'"
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C!II>
sólido, o organismo vivo tem intervenção essencial n,
I li
I
r produção do composto - que é uma secreção gerad,
I
por seu metabolismo.
Fig. 2.4 Centro de simetria (C).

- .-
-~
Tabela 2.1 Sistemas cristalinos, constantes cristalográficas e simetria principal de alguns minerais.

Sistema Constantes cristalográficas Simetria principal Exemplos de minerais

a] =02=03 Diamante, granada, espinélio


a=p=y=90°

a] =a2*c Zircão, cassiterita, rutJlo


a=p=y=90°

Hexagonal QUartzo p, berilo


e y = 120°

a] =a2=a3*c Quartzo a, turmalina, coríndon


a=p=8=90 e y = 120°

n"b*c Olivina, ortopiroxênio, topázio


a=p=y=90°

a*b*c Orfodásio, mica,


a=y'==90° ep*90° dinopiroxênio, dinoanfibólio

a*b*c Microdínio, plagiodásio


a*p*y*90°
unitária; a, p, y e 8: ângulos e tfigonal, há quatro eixos,

2.1.2 A origem dos minerais (Cap. 16). Ocorre também pela condensação de
materiais rochosos em estado de vapor, quando os
A origem de um mineral está condicionada aos
cristais se formam diretamente do vapor sem pas-
"ingredientes químicos" e às condições físicas (tempe-
sar pelo estágio intermediário do estado líquido. A
ratura e pressão) reinantes no seu ambiente de
condensação de minerais a partir da nebulosa solar
formação. Assim sendo, minerais originados no inte-
(Cap. 1) deve ter sido um processo importante
rior da Terra são geralmente diferentes daqueles
durante a formação dos planetas. Atualmente, po-
formados na sua superfície. As informações sobre
demos ver na Terra a formação de cristais de
minerais presentes em corpos extraterrestres são
enxofre a partir das fumarolas de atividades ígneas
inferidas a partir de amostras desses corpos; no caso vulcânicas.
da Lua, coletadas diretamente de sua superfície e no
caso de Marte e alguns asteróides maiores, a partir de A cristalização de substâncias a partir de soluções
amostras de meteoritos caídos na Terra. aquosas a baixas temperaturas « 1OO°C) é um pro-
cesso importante na formação das rochas sedimentares
Um mineral pode se formar de diferentes ma-
químicas (Cap. 14).
neiras, por exemplo, a partir de uma solução, de
material em estado de fusão ou vapor. O processo Na passagem de matéria de um para outro estado
de cristalização tem início com a formação de um cristalino, os materiais rochosos que já estão cristaliza-
núcleo, um diminuto cristal que funciona como uma dos podem, por modificações nas condições de
semente, ao qual o material vai aderindo, com o pressão e/ou temperatura, tornar-se instáveis e se
conseqüente crescimento do cristal. O estado cris- recristalizar em uma nova estrutura cristalina mais es-
talino pode ser conseguido pela passagem da tável para as novas condições, sem que haja fusão do
matéria do estado físico amorfo para o cristalino, mineral inicial. Este processo é importante na forma-
em ambiente geológico quente. Isto occotre na cris- ção de alguns dos minerais das rochas metamórficas
talização de magma, material rochoso fundido (Cap. 18).
m I])_li~m~l fll!('ürJ~

2.1 Ligações químicas no reino mineral


Os minerais apresentam composição química constante dentro de certos limites, o que permite, portanto, que
se atribuam fórmulas químicas aos minerais. Os elementos químicos constituintes dos minerais estão unidos
através de diferentes tipos de ligação, sendo as mais comuns as ligações iônicas, covalentes, metálicas e de Van
der Waals.

Nas ligações iônicas, cátions (íons com carga positiva) e ânions (íons com carga negativa) se unem. Por exem-
I
plo, no mineral halita, de fórmula NaCl, o cátion Na, de valência 1+, une-se ao ânion Cl, de valência 1-. Ao
I
invés de um ânion simples, como o Ct, pode se constituir um grupo aniônico ("radical aniônico''), como o
II SiOt, que é a unidade fundamental de todos os silicatos. Nas ligações covalentes, ocorre o compartilhamento
. de elétrons, a exemplo da ligação entre os átomos de carbono no diamante. As ligações metálicas são aquelas
em que se formam "nuvens de elétrons", como nos elementos nativos (ouro, prata, cobre etc.). A mais fraca
das ligações químicas é a de Van der Waals, que une moléculas e unidades estruturais praticamente neutras, ou
seja, com pequenas cargas residuais. É rara nos minerais e um exemplo é a grafita, onde as camadas de átomos
de carbono ligadas de modo covalente são unidas entre si por ligações de Van der Waals. Em decorrência da
força de ligação entre os átomos de um mineral, formam-se "empacotamentos" de átomos, às vezes mais
outras vezes menos compactos. Obviamente, isto vai influenciar sobremaneira as propriedades dos minerais. A
substituição de íons em um determinado sítio catiônico é favorecida por semelhanças de raio e valência. Os
átomos constituintes de um mineral podem ser imaginados como "esferas" com carga positiva ou negativa.
Assim, MgZ+e Fez+apresentam carga 2+ e volumes relativamente semelhantes (caracterizados pelo raio iônico,
respectivamente 0,74 A e 0,80 A; lA= 0,1 nm = 1(JIOm), enquanto Na+ (raio 0,98 A) e K+ (1,33 A), ambos
com carga 1+, são íons maiores. Assim, as substituições entre Na e K, e entre Mg e Fe são mais freqüentes que
entre Na e Mg, Na e Fe, K e Mg, e K e Fe, por exemplo.

Nos silicatos, a unidade estrutural é o tetraedro SiOt com quatro OZ (raio 1,36 A) unidos a um Si4+central
(raio 0,39 A), que pode ser parcialmente substituído por AP+ (raio 0,57 A). Essa unidade fundamental, que
constitui um "poliedro de coordenação", ou seja, uma figura geométrica defmida pela união dos átomos de
oxigênio, pode aparecer isolada (evidentemente rodeada por cátions, para neutralizar sua carga negativa), cons-
tituindo os silicatos chamados de nesossilicatos, ou, muito freqüentem ente, associada, formando substâncias
tais como os sorossilicatos etc. A polimerização é a união entre estes poliedros (no caso tetraedros), que origina
associações entre 2, 3, ... infmitos poliedros (Quadro 2.3). Quanto maior o grau de polimerização, menor fica
a razão entre o número de átomos do Si e o do ° no ânion polimerizado.

2.2 Polimorfismo e solução sólida


Minerais polimorfos (de "poli", muitos, e "morphos", forma) são aqueles que têm essencialmente a mesma
composição química mas estruturas cristalinas diferentes, o que se reflete em suas propriedades físicas e
morfológicas diferenciadas. Por exemplo, grafita e diamante sãopolimorfos de carbono. Ambos têm a mes-
ma composição química mas suas estruturas são diferentes, e como tal são considerados como espécies separadas.
Assim ocorre também com a calcitae a aragonita,polimorfos de CaC03. Quartzo a e quartzo 13(Tabela 2.1)
são dois dos polimorfos de sílica SiOz'

Minerais isomorfos (de "iso", igual, e "morphos", forma) são os que possuem estrutura cristalina semelhante
mas composição química diferente ou variável dentro de determinados limites (e.g. calcita - CaCq, magnesita
. - MgC°3 e siderita -;FeCOJ. Em diversos casos, pode ocorrer um intercâmbio de determinados elementos
na estrutura, dando origem a substâncias de composição intermediária entre dois (ou mais) termos finais,
resultando em um fenômeno conhecido como solução sólida, por exemplo, olivinas: forsterita (M&SiOJ e
faialita (FezSiO J, nas quais Mg e FeZ+se substituem mutuamente; e plagioclásios: albita (NaAlS~OJ e anortita
(CaAlzSizOJ, nas quais a solução sólida se realiza atraves da substituição acoplada (assim chamada porque
envolve dois pares de elementos) de (Na,Si) por (Ca,Al).
2.1.3 Classificação sistemática de minerais Tabela 2.2 Alguns dos critérios usados para
classificar os minerais.
° estudo sistemático dos minerais fica facilitado quan- d'
do se usam critérios que permitam agrupá-Ios em
conjuntos com características similares. Alguns dos crité-
Sistema de cristalização Minerais monoclínicos,
rios mais usados são resumidos na Tabela 2.2.
cúbicos
Nos livros de mineralogia descritiva, exposições
Usos Minérios, gemas, minerais
mineralógicas em museus e em coleções em geral usa-se formadores de rochas
o critério químico baseado na natureza do radical aniônico
do mineral. Por exemplo, no mineral barita (BaSOJ, o Composiçã() química Elementos nativos, óxidos,
radical aniônico é o S04z e, portanto, a barita será classi- sulfetos
ficada como sulfato.

Esta última classificação dos minerais se assemelha à exemplo, a siderita (FeCOJ tem mais afinidades com a
decompostos químicos utilizada pela Química Inorgânica calcita (CaCOJ, ou com a magnesita (MgC°J do que
e apresenta as seguintes vantagens: com a pirita (FeSz) ou com a hematita (FezOJ;

a) minerais com o mesmo radical aniônico possuem b) minerais com o mesmo radical aniônico tendem a
propriedades físicas e morfológicas muito mais seme- se formar por processos físico-químicos semelhantes e a
lhantes entre si que minerais com o mesmo cátion. Por ocorrer associados uns aos outros na natureza.

2.3 Classificação sistemática dos minerais

As espécies minerais conhecidas são agrupadas em Silicatos: Devido a sua grande importância, os
classes minerais com base no ânion ou radical silicatos são subdivididos de acordo com o grau de
aniônico dominante em sua fórmula química. James polimerização dos tetraedros SiOt e consequente-
D. Dana (1813~1895)teve papel fundamental na ela- mente pela razão Si:O dos ánions:
boração desta classificação. Assim, tem-se, de
.. tetraedros isolados (nesossilicatos) - Si:O = 1:4.
maneira simplificada, as seguintes classes, e no caso
olivina [(Mg,Fe)zSiOJ, granada, zircão, topázio.
dos silicatos,as subclasses, seguidas de alguns exem-
plos e suas fórmulas químicas: . duplas de tetraedros (sorossilicatos) Si:O = - 2:7.

. Elementos nativos: ouro (Au), enxofre (S).


hemimorfita [Zn4(Sip7)(OH).HP], epídoto.
- Si:O = 1:3.
. Sulfetos:galena (PbS), esfalerita (ZnS),pirita (FeS)
. anéisde tetraedros(ciclossilicatos)
berilo [Be3Alz(SiP1J], turmalina.
. Sulfossais:tetraedrita (CulzSb4S13)'
enargita . cadeias de tetraedros (inossilicatos)
(Cu3AsSJ. !
a) cadeias simples de tetraedros ~ Si:O - 1:3.
. Óxidos:gelo(HP), hematita(FePJ, cassiterita piroxênios: enstatita[Mg/Sip J].
(SnO). b) cadeias duplas de tetraedros - Si:O = 4:11.
. Halóides:halita(NaCl);fluorita (CaFJ. anfibólios: tremolita [CazMgs(SiPzz)(OH)J
. Carbonatos: caleita (CaC03), dolomita . folhas de tetraedros (fllossilicatos) - Si:O = 2:5.
argilominerais (caulinita, esmectita), micas
[CaMg(COJzl.
. Nitratos: salitre (KNOJ, salitre-do-chile (NaNOJ,
(muscovita, biotita).
. estrUturas tridimensionais (tectossilicatos) =
. Boratos: bórax NazB407.10Hzo. quartzo SiOz
- Si:O 1:2.

. Sulfatos e cromatos: barita (BaS04)' gipsita . feldspatos:


(CaS04.2Hp). a) potássicos: microclínio (KAISi3Os)' ortoclásio
. Fosfatos, arseniatos e vanadatos: apatita (KAlSi3° J.
[Cas(F,Cl,OH)
(P°JJ. b) plagioclásios: albita (NaAISi3Os)' anortita
. Tungstatose molibdatos:scheelita(CaWOJ. (CaAlzSizOJ.
Das várias classes minerais existentes, apenas uma, Exemplos: tetraedrita (devido ao seu hábito
a dos silicatos, é responsável pela constituição de apro- tetraédrico), cianita (devido a sua cor mais comum,
ximadamente 97% em volume da crosta continental. azul).
Esta, como veremos no Capo 5, configura a parte ex-
que o nome indique a presença de um elemento
terna da Terra em regiões continentais, com espessura
químico predominante.
de algumas dezenas de quilômetros (Tabela 2.3). Mi-
nerais das demais classes, embora menos abundantes, Exemplos: molibdenita, cuprita, arsenopirita,
também são importantes pelo seu interesse econômi- lantanita.
co e científico.
que o nome homenageie uma pessoa proemi-
nente. Exemplos: andradita (em homenagem
Tabela 2.3 Constituição minera lógica
da crosta continental. a José Bonifácio de Andrada e Silva, 1763-
1838, geólogo e patriarca da independência
Classe mineral Espécie ou grupo mineral % brasileira); arrojadita (em homenagem a Miguel
emvol.
Arrojado Ribeiro Lisboa, 1872-1932, geólogo
feldspatos 58 brasileiro) .

piroxênios e anfibólios 13 Quando ocorrem apenas pequenas variações quí-


Silicatos quartzo 11 micas na composição de um mineral, utiliza-se o
termo variedade em contraposição a "espécie mi-
micas, clorita, argilominerais 10
neral". Por exemplo, quando parte do zinco da
olivina 3 espécie mineral esfalerita (ZnS) é substituído por
epídoto, cianita, andalÚzita, ferro, gerando assim a fórmula (Zn,Fe)S, origina-
sillimanita,granadas, 2 se uma variedade de esfalerita enriquecida em Fe, e
ieÓlitas etc. 'não uma outra espécie e, portanto, não recebe um
novo nome.

2.1.5 Identificação dos minerais

Os minerais mais comuns podem, muitas vezes,


ser identificados simplesmente com a observação
de suas propriedades físicas e morfológicas, que
2.1.4 Nomenclatura dos minerais são decorrentes de suas composições químicas e
de suas estruturas cristalinas. Utilizamos para fins
A nomenclatura dos minerais é hoje controlada de identificação rápida de minerais as seguintes pro-
pela Comissão de Novos Minerais e Novos No- priedades: hábito cristalino, transparência, brilho,
mes de Minerais (CNMNM) da Associação cor, traço, dureza, fratura, clivagem, densidade re-
Mineralógica Internacional (IMA), criada em 1959. lativa, geminação, propriedades elétricas e
Os nomes de novos minerais devem ter, no caso magnéticas.
brasileiro, a terminação "ita". Em contraposição, a
terminação "ito" é usada para nomes de rochas. Hábito cristalino
Os minerais conhecidos desde épocas remotas e
cujos nomes já têm uso consagrado podem não É a forma geométrica externa, habitual, exibida
respeitar esta regra. pelos cristais dos minerais, que reflete a sua estrutura
Outras recomendações para a criação de um cristalina (Fig. 2.5). É chamada simplesmente hábito
nome para um novo mineral são: do mineral e pode ser observada, sobretudo, quando
o mineral cresce em condições geológicas ideais. Os
que o nome indique a localização geográfica hábitos mais comuns são: o laminar, o prismático (os
de sua descoberta.
cristais aparecem alongados como prismas), o fibro-
que o nome indique uma de suas proprieda- so, o acicular, o tabular (em forma de tábuas ou tijolos)
des físicas. e o equidimensional.

.~~.-
Transparência

Os minerais que não absorvem ou absorvem


pouco a luz são ditos transparentes. Os que absor-
vem a luz consideravelmente são translúcidos e
dificultam que imagens sejam reconhecidas através
deles. Obviamente, estas características dependem da
espessura do mineral: a maioria dos minerais
translúcidos torna-se transparente quando em lâminas
muito finas (Fig. 2.6). Existem, contudo, os elementos
nativos metálicos, óxidos e sulfer6s que absorvem to- b
talmente a luz, independentemente da espessura. São
os mmeralS opacos. Fig. 2.6 Transparência e translucidez: (a) escala vista através
do quartzo (Si02) transparente, variedade cristal de rocha; (b)
a a luzé parcialmente transmitida pelo quartzo translúcido, vari-
edade leitosa, porém a escala embaixo da amostra, na parte
inferior, não é visível.Foto: I. McReath.

Cor

A cor de um mineral resulta da absorção seletiva


da luz. O simples fato de o mineral absorver mais um
determinado comprimento de onda do que os ou-
O,5em tros faz com que os comprimentos de onda restantes
se componham numa cor diferente da luz branca que
Fig. 2.5 Exemplos de hábitos cristalinos' (a) cubo de pirita (FeS2) chegou ao mineral. Os principais fatores que colabo-
vistopor um eixo temário, mostrando também sua cor amarela e ram para a absorção seletiva são a presença de
seu brilho metálico; (b) fibras de gipsita (CaS04' 2H2O). Foto: I. elementos químicos de transição (ferro, cobre, níquel,
McReath.
cromo, vanádio etc.) na composição química do mi-
neral, os defeitos na sua estrutura atômica, e a presença
Brilho
de pequeníssimas inclusões de minerais, dispersas atra-
vés dos cristais. Alguns minerais têm cores bastante
É a quantidade de luz refletida pela superfície de
características, sendo chamados de idiocromáticos (por
um mineral. Os minerais que refletem mais de 75% da
exemplo, o enxofre, amarelo). Outros são
luz incidente exibem brilho metálico (Fig. 2.7a). É o
alocromáticos, isto é, sua cor varia amplamente. A
caso da maioria dos minerais opacos.
turmalina e o quartzo, por exemplo, ocorrem em
Os que não atingem esta reflexão têm brilho não- muitas cores. Conseqüentemente, a cor do mineral nem
metálico.Entr~ os tipos de brilho não-metálico, é usual sempre é propriedade confiável na sua identificação.
distinguir alguns característicos, como o vítreo (o bri-
lho da fratura fresca do vidro), o gorduroso (o brilho
Q
do azeite), o sedoso etc. (Fig.2.7b).
O brilho metálico, como o nome diz, é o brilho
dos metais polidos, que todos estamos acostumados
a ver em objetos de uso comum. Por causa disso, al-
guns esquemas sistemáticos de identificação de minerais
utilizam o tipo de brilho - metálico ou não-metálico -
como o primeiro critério de identificação. Entretanto,
O,5em
é bom lembrar que alguns minerais (a pirita, por exem-
pio) podem sofrer leve oxidação superficial, o que Fig. 2.7 Brilhos: a) não metálico, tipo terroso no minério
resulta na perda pelo menos parcial do brilho metáli- bauxita (oxi-hidróxidode AI);b) metálico [galena (PbS)].Foto:
co natural. I.McReath.
Traço

O traço é a cor do pó do mineral. É obtida ris-


cando o mineral contra uma placa ou um fragmento
de porcelana, em geral de cor branca (Fig. 2.8). Esta
propriedade só é útil como elemento identificado r dos
minerais opacos ou minerais ferrosos, que apresen-
tam freqüentem ente traços coloridos (vermelho,
marrom, amarelo etc.). A maioria dos minerais
translúcidos ou transparentes exibe traço branco. Ao
I I i provar minerais mais duros que a porcelana (aproxi-
Fig. 2.9 Fratura e clivagem: a) fratura conchoidal do quartzo;
madamente 7 na escala de Mohs - ver a seguir), o b) três clivagens perfeitas, em padrão romboedral, cujos pia-
traço resultante não é do mineral, mas sim da porcela- nos se destacam pela iluminação, de brilhante a bastante
na. A cor do pó destes minerais somente pode ser escuro; cristal de calcita (CaC03), variedade de espato da Is-
observada por moagem do mineral. lândia. Foto: I. McReath.

l1li

Fig. 2.8 Traço vermelho (ris- Fratura


co de comprimento de 1 cm,
aproximadamente, na parte su- Denomina-se fratura a superfície irregular e curva
perior sobre placa de resultante da quebra de um mineral. As superfícies de
porcelana) da hematita fratura, obviamente controladas pela estrutura atômi-
(Fe203J, mineral de cor cinza ca interna do mineral, podem ser irregulares ou
escura e brilho metálico. Foto:
conchoidais (são estes os tipos mais comuns de fratu-
I. McReath.
ra) (Fig. 2.9a).
Dureza

A dureza é a resistência que o mineral apresenta Clivagem


ao ser riscado. Para classificá-Ia, utiliza-se a escala de
Muito freqüentemente, ocorrem superfícies de que-
Mohs, em homenagem ao mineralogista australiano
bra que constituem planos de notável regularidade.
F. Mohs, que a elaborou com base na dureza de mine-
Neste caso, a quebra passa a ser denominada clivagem,
rais relativamente comuns utilizados como padrões e
que pode ser perfeita, boa ou imperfeita. A maioria
que varia de 1 a 10, em ordem crescente de dureza.
dos minerais, além de mostrar superfícies de fratura,
Na falta destes, podem ser usadas algumas alternativas
apresenta uma ou mais superfícies de clivagem, no-
apresentadas na coluna à direita da Tabela 2.4. A lâmi-
meadas segundo sua orientação com referência a faces
na de aço risca todos os materiais com dureza menor
de sólidos geométricos (por exemplo, clivagem cúbi-
que 5 e, por sua vez, é riscada por todos os materiais
ca, clivagem romboédrica etc., Fig. 2.%).
com dureza maior que 5,5.
Tabela 2.4 Escala de Mohs Densidade relativa
e padrões secundários.
Mineral" padrão Dureza Padrão secundário É o número que indica quantas vezes certo volu-
me do mineral é mais pesado que o mesmo volume
talco 1
2 de água (a 4°C). A densidade relativa da maioria
3 dos minerais formadores de rocha oscila entre 2,5 e
4 3,3. Alguns minerais que contêm elementos de alto
5 peso atômico (por exemplo, Ba, Pb, Sr etc.) apresen-
6 tam densidade superior a 4. Com alguma prática,
7 pode-se avaliar manualmente, de forma qualitativa, a
8 maior ou menor densidade do mineral ou seu agrega-
9 do. No entanto, a determinaçãO precisa deste valor t
10
feita utilizando-se uma balança especial.

.---
~
Geminação fornecedor de quartzo para esta finalidade.
Piroeletricidade é a eletricidade originada pelo aumento
É a propriedade de certos cristais de aparecerem de calor. Os minerais sem centro de simetria, quando
intercrescidos de maneira regular. Os diferentes indi- aquecidos, emitem uma corrente elétrica. Os primei-
víduos de um cristal geminado relacionam-se por ros pirômetros, usados para medida de temperaturas
operações geométricas. A geminação pode ser sim- em altos fornos, foram fabricados explorando a ele-
ples (dois indivíduos intercrescidos) ou múltipla vada piroeletricidade das turmalinas.
(polissintética).O tipo de geminação é, muitas vezes,
uma propriedade diagnóstica do mineral (Fig. 2.1O). Entre os minerais mais comuns, a magnetita (Fe3O J
e a pirrotita (Fel.xS) são os únicos atraídos por um
a campo magnético (ímã de mão). Este "l-x" na fór-
mula química da pirrotita significa que a relação Fe:S é
menor que 1; ficam vazias, então, algumas posições
destinadas ao Fe.

A orientação dos minerais magnéticos nas rochas


ígneas é importante no estudo do paleomagnetismo
terrestre (Caps. 4 e 6). Sua presença é de grande valor
para as explorações minerais baseadas em técnicas de
sensoriamento remoto, uma vez que os minérios as-
O,5em
sociados à magnetita são mais facilmente localizados,
Fig.2.10 Exemplosde geminados: (a) geminado simples em mesmo em subsuperfície, por meio de magnetômetros
cruz da estaurolita (mineral da família dos silicatos); (b) espeClais.
geminação polissintética(repetida) na labradorita, da família
silicática dos plagioclásioSi o padrão destaca-se pela -
alternância de finas bandas que apresentam reflexões
2.2 Rochas: Unidades Formadoras
alternada mente mais e menos fortes; este padrão de da Crosta
geminação,quando visível,serve para distinguiros plagiocásios
dos feldspatos alcalinos. Foto: I. McReath.
2.2.1 O que são rochas?
Propriedades elétricas e magnéticas
Por definição, as rochas são produtos consolida-
Muitos minerais são maus condutores de eletrici- dos, resultantes da união natural de minerais. Diferente
dade. Exceções a esta regra se devem à presença de dos sedimentos, por exemplo areia de praia (um con-
ligações atômicas totalmente metálicas, como é o caso junto de minerais soltos), as rochas têm os seus cristais
dos metais nativos ouro, prata, e cobre, todos exce- ou grãos constituintes muito bem unidos. Dependen-
lentes condutores. Nas estruturas em que as ligações do do processo de formação, a força de ligação dos
atômicas são apenas parcialmente metálicas, por exem- grãos constituintes varia, resultando em rochas "du-
ras" e rochas "brandas".
plo, sulfetos,. os minerais são semicondutores. No caso
dos minerais considerados não-condutores, as ligações Chama-se estrutura da rocha o seu aspecto geral
iôrucas e covalentes predominam. externo, que pode ser maciço, com cavidades, orien-
Piezoeletricidade e piroeletricidade são proprieda- tado ou não etc. A textura se revela por meio da
des elétricas especiais. Elas aparecem em minerais que observação mais detalhada do tamanho, forma e rela-
se cristalizam em classes de simetria sem centro de cionamento entre os cristais ou grãos constituintes
da rocha.
simetria. Piezoeletricidade é a propriedade que um mi-
neral tem de transformar uma pressão mecânica em Outra informação importante no estudo das ro-
carga elétrica. Se uma placa de quartzo, conveniente- chas é a determinação dos seus minerais constituintes.
mente cortada, for pressionada, surgirão cargas Na agregação mineralógica constitúinte das rochas,
positivas e negativas extremamente regulares. Esta ca- reconhecemos os minerais essenciais e minerais aces-
racterística faz com que o quartzo seja muito usado sórios. Os essenciais estão sempre presentes e são os
pela indústria eletroeletrônica, no controle das rádio- mais abundantes numa determinada rocha, e as suas
freqüências. O Brasil tem grande importância como proporções determinam o nome dado à rocha. Os
acessórios podem ou não estar presentes, sem que isto
modifique a classificação da rocha em questão. FA
Quando os minerais agregados pertencerem à mes-
ma espécie mineralógica, a rocha será considerada
""
monominerálica. Quando forem de espécies dife-
rentes, ela será pluriminerálica (Tabela 2.5).

Tabela 2.5 Rochas monominerálicas


e pluriminerálicas. Q%

Rochas Rochas
monominerálicas pluriminerálicas Fig. 2.11 Detalhe de uma chapa de granito pOlida. As massas
róseas (por exemplo, FA)sõo o feldspato alcalino, as brancos
Colcário Gnaisse
(por exemplo, PL),o plagioclásio. Junto 00 quartzo (os massas
Mármore Gabro levemente esbranquiçadas, por exemplo, QZ), os feldspatos
- - - ~
Quarlzito Granito formam os minerais essenciais que somam em torno de 80%
do volume da rocha. A mim preta (biotita) e o anfibólio
(hornblenda) compõem a maior parte das áreas escuras.

2.2.2 Classificação genética das rochas O resfriamento dos magmas extrusivos é muito
mais rápido. Muitas vezes, não há tempo suficiente
Classificar as rochas significa usar critérios que para os cristais crescerem muito. A rocha extrusiva
permitam agrupá-Ias segundo características seme- tende a ter, portanto, uma textura de granulação
lhantes. Uma das principais classificações é a fina.
genética, em que as rochas são agrupadas de acor-
do com o seu modo de formação na natureza. Sob Outro fato que chama a atenção no estudo das
este aspecto, as rochas se dividem em três grandes rochas ígneas é que a sua cor é bastante variável. As
grupos: rochas ígneas escuras são mais ricas em minerais
contendo magnésio e ferro (daí o nome "máfico").
O gabro, de composição equivalente ao basalto, é
Ígneas ou magmáticas
uma rocha ígnea, intrusiva, plutônica e máfica. As
Estas rochas resultam do resfriamento de mate- rochas ígneas claras são mais ricas em minerais con-
rial rochoso fundido, chamado magma (Fig. 2.12a). tendo silício e alumínio (siálicas), que incluem os
Quando o resfriamento ocorrer no interior do glo- feldspatos e o quartzo, ou sílica (daí, o nome
bo terrestre, a rocha resultante será do tipo ígnea félsico). O granito é uma rocha ígnea, intrusiva,
intrusiva. Se o magma conseguir chegar à superfí- plutônica, siálica e félsica. Esta diferença na consti-
cie, a rocha resultante será do tipo ígnea extrusiva, tuição química dos magmas indica que existem
também chamada de vulcânica (Fig. 2.12b). A ro- diferentes tipos de magmas (Cap. 16).
cha vulcânica mais abundante é o basalto, cuja
composição química é rica em piroxênios e Sedimentares
plagioclásio cálcico. O Capo 16 trata especificamente
dos magmas e rochas ígneas. Parte das rochas sedimentares é formada a partir
da compactação e/ou cimentação de fragmentos pro-
Para reconhecer se a rocha é intrusiva ou
duzidos pela ação dos agentes de intemperismo e
extrusiva é necessário avaliar sua textura. O
pedogênese (Cap. 8) sobre uma rocha preexistente
resfriamento dos magmas intrusivos é lento, dan- (protólito) (Fig. 2.12b), e após serem transportados
do tempo para que os minerais em formação pela ação dos ventos, das águas que escoam pela su-
cresçam o suficiente para serem facilmente visíveis. perfície, ou pelo gelo, do ponto de origem até o ponto
Alguns cristais podem chegar a vários centímetros. de deposição (Fig. 2.12c). Para que se forme uma ro-
O granito (Fig. 2.11) é a rocha ígnea intrusiva mais cha sedimentar é necessário, portanto, que exista uma
abundante na crosta terrestre.
rocha anterior, que pode ser ígnea, metamórfica e mes-

1
mo outra sedimentar, fornecendo, pelo intemperismo, O metamorfismo regional ocorre em grandes ex-
sedimentos (partículas e/ ou compostos químicos di~- tensões da subsuperfície do globo terrestre, em
solvidos) que serão as matérias-primas usadas na conseqüência de eventos geológicos de grande porte
formação da futura rocha sedimentar. Os compostos como, por exemplo, na edificação de cadeias de mon-
químicos dissolvidos representam a matéria-prima para tanhas. Dependendo dos valores alcançados pela
os sedimentos químicos. Os sedimentos (Fig. 2.12c) variação de pressão e temperatura têm-se os
sempre se depositam em camadas sobre a superfície metamorfismos regionais de baixo, médio e alto grau.
terrestre. As principais rochas metamórficas formam-se no
metamorfismo regional. Muitas rochas metamórficas
Quando a rocha sedimentar é constituída por partí-
são reconhecidas graças a sua estrutura de foliação, ou
culas (clastos) preexistentes, ela é classificada como
seja, a orientação preferencial que os minerais placóides
elástica. O processo geológico que une as partículas
assumem, bem como a sua estrutura de camadas do-
sedimentares é conhecido como litificação ou diagênese,
bradas (Fig. 2.12d), devido às deformações que
e compreende uma combinação entre os processos de
acompanham o metamorfismo regional (Cap. 19) . O
compactação e cimentação. A litificação ocorre em
metamorfismo local restringe-se a domínios de terre-
condições geológicas de baixa pressão (peso dos sedi-
no que variam entre centímetros e dezenas de metros
mentos posteriores) e baixa temperatura (~250°C) e,
de extensão. Quando, no metamorfismo local, o au-
por isso, as rochas elásticas não têm, salvo raras exce-
mento de temperatura predomina, fala-se em
ções, a mesma consistência dura das rochas ígneas.
metamorfismo termal ou de contato. Por exemplo, as
As rochas sedimentares clásticas são classificadas rochas regionais submetidas ao contato com uma câ-
de acordo com o tamanho de suas partículas constitu- mara magmática podem sofrer este tipo de
intes, como veremos no Capo 14. Elas são facilmente metamorfismo. As rochas resultantes são chamadas
reconhecidas, pela seqüência de camadas horizontais hornfels. No metamorfismo dinâmico predomina o
com espessuras variáveis que normalmente exibem. aumento de pressão no fenômeno da transformação
das rochas, como em zonas de falhas.
As rochas sedimentares químicas ou não-clásticas
são formadas pela precipitação dos radicais salinos, Quando a temperatura do metamorfismo ultrapassa
que foram produzidos pelo intemperismo químico, e um certo limite, determinado pela natureza química da
agora encontram-se dissolvidos nas águas dos rios, rocha e pela pressão vigente, freqüentemente na faixa de
lagos e mares. Entre os principais ânions salinos estão 700-800°C, as rochas começam a se fundir, produzindo
os carbonatos, cloretos e sulfatos, enquanto os princi- novamente um magma (Fig. 2.12e).
pais cátions são os mais solúveis, os alcalinos Na e K,
e os alcalino terrosos Mg e Ca.
2.2.3 Distribuição e relações das rochas na
Os depósitos sedimentares de origem orgânica são crosta terrestre
acúmulos de matéria orgânica tais como restos de ve-
getais, conchas de animais, excrementos de aves etc. A crosta terrestre representa a camada sólida externa
que, por compactação, acabam gerando, respectiva- do planeta. Ela está dividida em crosta continental, que
mente, turfa, coquina e guano. São pseudo-rochas corresponde às áreas continentais emersas, e crosta oce-
porque as suas partículas agregadas não são minerais. ânica, que constitui os assoalhos oceânicos (Cap. 5). Tanto
uma como outra são formadas por rochas. Estudos da
Metamórficas distribuição litológica da crosta continental indicam que
95% do seu volume total correspondem a rochas crista-
As rochas metamórficas (Cap.18) resultam da linas, ou seja, rochas ígneas e metamórficas e apenas 5%
transformação de uma rocha preexistente (protólito) a rochas sedimentares. Entretanto, considerando a distri-
no estado sólido. O processo geológico de transfor- buição destas rochas em área de exposição rochosa
mação se dá por aumento de pressão e/ou superficial, os números se modificam para 75% de ro-
temperatura sobre a rocha preexistente, sem que o chas sedimentares e apenas 25% de rochas cristalinas. Isto
ponto de fusão dos seus minerais seja atingido. Os indica que as rochas sedimentares representam uma fina
geólogos não consideram transformações lâmina rochosa que se dispõe sobre as ígneas e
metamórficas aquelas que ocorrem durante os pro- metamórficas, consideradas principais na constituição
cessos de intemperismo e de litificação. litológica da crosta continental.
c) ocorre nas
de sedimen-
este material pode
e transforma-

;SIDIMENTÔ

RDQ-IA

Fig. 2.12 O ciclo das rochas

!IIIi1iiIi
O.C::I L CH
o
chas ígneas,
sl!perfície terrestre,
tuídoipor materialfriável (foto b).
solo na parte superior do perfil.

..IMNTODE
iJtJT&MPEIIISMO

MAGMA
Qualquer tipo de rocha (ígnea,
sedimentar)pode ser levada
cos de P e T ainda
metamórfico.
cial. No e)
compostas
do magma
nos refratários,
compostas
chegam a fundir.
As relações entre os três tipos genéticos de ro- cimentação dos fragmentos uns aos outros. As ro-
chas na crosta não se dão ao acaso. Ao contrário, chas sedimentares, por sua vez, por aumento de
existe uma disposição rígida que reflete exatamente pressão e temperatura, gerarão as rochas
os eventos geológicos que ocorreram em determi- metamórficas (Fig. 2.12d). Ao aumentar a pressão
nada região. É possível, para o geólogo, descrever e, especialmente, a temperatura, em determinado
a história geológica da crosta, através do estudo ponto ocorrerá a fusão parcial (Fig. 2.13e) e nova-
das rochas e dos tipos de contatos que existem en- mente a possibilidade de formação de uma nova
tre elas. As fontes de informações para este estudo rocha ígnea, dando-se início a um novo ciclo.
são os mapas geológicos, cortes rochosos em es-
Esta seqüência de eventos geológicos é apenas
tradas e ferrovias, perfurações de poços para uma das várias alternativas que a natureza tem para
obtenção de água e petróleo etc. estabelecer um relacionamento genético entre as
rochas de nossa crosta.
2.2.4 O ciclo das rochas

As rochas terrestres não constituem massas es-


2.2.5 Utilidade dos minerais e rochas

táticas. Elas fazem parte de um planeta cheio de Os minerais e rochas representam bens minerais
energia, que promove, com sua alta temperatura e de grande importância ao conforto e bem-estar da
pressão interna, todos os processos de abalos sís- humanidade. Encontram utilizações das mais diver-
micos, movimentos tectônicos de placas e atividades sas formas, nas áreas da metalurgia (ferrosa e não
vulcânicas em uma dinâmica muito intensa (Caps. 3
ferrosa), da construção civil, da indústria de fertili-
e 6). Da mesma forma, a atividade intempérica e zantes, etc. (Cap. 21).
erosiva externa, envolvendo os agentes atmosféri-
cos como o calor do Sol, chuvas, ventos, geleiras,
também atuam sobre estas rochas, causando cons- Leituras recomendadas
tantes alterações (Caps. 8 a 13). Em suma, a Terra é
um planeta vivo em contínua modificação. DANA, J. D. Manual deMineralogia..PortoAlegre:
LTC, ..Riode Janeiro, 1976.
As atuais rochas ígneas superficiais da Terra es-
tão sofrendo o constante ataque dos agentes DEER, WA., HOWIE, R A. & ZUSSMAN,J. Mie
intempéricos - os componentes atmosféricos O2 e nerais constituintesdas rochas- uma introduçâo.
CO2, a água e os organismos - que lentamente re- Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1966.
duzem-nas a material fragmentar, incluindo tanto ERNST, G.W Minerais e RiJchas.São Paulo: Edgard
os detritos sólidos da rocha original como os no- Blücher, 1971.
vos minerais formados durante o intemperismo
KLEIN, C. & HURLBUT, Jr., C.S. Manualof
(Fig. 2.12b). A ação de agentes de erosão e trans-
porte - a água corrente, os ventos ou o gelo - Mineralogy.New York: JOM Wiley & Sons, 1993.
redistribui o material fragmentar através da super- LEINZ, V. & SOUZA CAMPOS, J. fi:. Guiapara
fície, depositando como sedimentos (Fig. 2.12c), determinação
de minerais.São Paulo: Nacional, 9a
incoesos no início. Transformam-se em rochas ed., 1982.
sedimentares, porém, pela compactação dos frag-
mentos e expulsão de água intersticial e pela
~UrqUia, madrugada de 17 de agosto de 1999. Terra revela sua estrutura interna, tema que será deta-
UNa cidade de Izmit, numa das regiões mais den- lhado nos próximos capítulos.
samente povoadas do país, a população dorme
O Brasil era considerado as sísmico até pouco
tranqüila. De repente, sem nenhum aviso prévio, a ter-
tempo atrás, por não se conhecerem registros de
ra treme violentamente, causando terror e destruição.
sismos destrutivos, e os poucos abalos sentidos eram
Em menos de um minuto, está deflagrada mais uma
interpretados como "simples acomodação de cama-
tragédia: mais de 15.000 mortos, quase meio milhão
das". Estudos sismológicos a partir da década de 70
. de desabrigados, a cidade inteira praticamente arrasa-
mostraram que a atividade sísmica no Brasil, apesar
da e prejuízos de bilhões de dólares ao país. Em poucos
de baixa, não pode ser desprezada e é resultado de
segundos, a Terra faz lembrar ao ser humano que a
forças geológicas que atuam em toda a placa que
noção de terra fume é uma ilusão: o país já havia qua- contém o continente sul-americano. Veremos tam-
se esquecido a calamidade semelhante sofrida 60 anos
bém que um dos aspectos importantes da sismicidade
antes. Como se não bastasse a tragédia humana para
no Brasil é que parte dela é causada pela implanta-
mostrar o poder das forças internas da Terra, uma
ção de novos reservatórios hidroelétricos (chamada
ruptura de 40 km de extensão na superfície, com des-
sismicidade induzida).
locamento lateral de vários metros, evidencia mais uma
vez a evolução contínua e inevitável do nosso planeta.
1;
3.10 que É o Terremoto?
Os terremotos, mais do que qualquer outro fenô-
meno natural, demonstram inequivocadamente o caráter Com o lento movimento das placas litosféricas,
dinâmico da Terra. O registro de milhares de terremo- da ordem de alguns centímetros por ano, tensões
tos em todo o mundo (Fig. 3.1) defme e emoldura as vão se acumulando em vários pontos, principalmente
várias placas que formam a casca rígida da Terra. Nes- perto de suas bordas. As tensões acumuladas po-
te capítulo, estudaremos os terremotos e sua relação dem ser compressivas ou distensivas, dependendo
com a movimentação destas placas litosféricas (a di- da direção de movimentação relativa entre as pla-
ferença entre litosfera, a casca rígida da Terra, e crosta cas, como veremos adiante. Quando essas tensões
será explicada adiante). Veremos também como o estu- atingem o limite de resistência das rochas, ocorre
do da propagação das ondas sísmicas pelo interior da uma ruptura (Fig. 3.2); o movimento repentino en-
180' -160' -140' -120' -100' -80' -60' -40' -20' O' ~ ~ ~ W 1~1~ 1~ 1~ 1W

60'

40'

20'

O'

-20'

-40'

-60'
.
36 350
.
.
51 675 ,,-
Fig.3.1 Sismicidade Mundial. Mapa de epicentros do período 1964 a 1995 de sismos com magnitude:::5,0. Fonte:U.S.Geological
Survey.
~ Efeitosde um terremoto ocorrido em Taiwan, em 1999. Foto: Reuters.
--

lógico de acúmulo lento e liberação rápida de tensões.


A diferença principal entre os grandes terremotos e os
pequenos tremores é o tamanho da área de ruptura, o
.. ..
(~ que determina a intensidade das vibrações emitidas.
..
3.1.1 Ondas sísmicas

Quando ocorre uma ruptura na litosfera, são gera-


das vibrações sísmicas que se propagam em todas as
direções na forma de ondas. O mesmo ocorre, por
@ exemplo, com uma detonação de explosivos numa
pedreira, cujas vibrações, tanto no terreno como so-
noras, podem ser sentidas a grandes distâncias. São
estas "ondas sísmicas" que causam danos perto do
epicentro e podem ser registradas por sismógrafos
em todo o mundo.
0
Em 23 de janeiro de 1997, ocorreu um terremoto
na fronteira Argentina/Bolívia (Fig. 3.3a), com pro-
fundidade focal de 280 km e magnitude de 6,4. As
ondas deste s)smo tiveram amplitudes suficientes
para serem sentidas na cidade de São Paulo, nos

Fig.3.2 Geraçãode um sismo por acúmulo e liberação de


esforços em uma ruptura. A crosta terrestre está suieita a ten-
sões (a) compressivas neste exemplo, que se acumulam
lentamente, deformando as rochas (b); quando o limite de re-
sistência das rochas é atingido, ocorre uma ruptura com um
2o0i
deslocamento abrupto, gerando vibrações que se propagam em
todas as direções (c). Geralmente, o deslocamento (ruptura) se
dá em apenas uma parte de uma fratura maior pré-existente
(falha geológica). O ponto inicial da ruptura é chamado
hipocentro ou foco do tremor, e sua proieção na superfície é o
epicentro. Nem todas as rupturas atingem a superfície.
e 0.05

! o.o/' z
o
tre os blocos de cada lado da ruptura geram vibra-
~ -0.05
to) 0.05
ções que se propagam em todas as direções. O plano "o 0.00rN
de ruptura forma o que se chama de falha geológi- o
~(li -0.05
ca. Os terremotos podem ocorrer no contato entre
duas placas litosféricas (caso mais freqüente) ou no
e 0.05
~
o
0.001'"E
interior de uma delas, como indicado no exemplo 'iii -o.o
(li
da Fig. 3.2, sem que a ruptura atinja a superfície. O Q 200 400
ponto onde se inicia a ruptura e a liberação das ten- Tempo desde origem (s)
sões acumuladas é chamado de hipocentro ou foco.
Sua projeção na superfície é o epicentro, e a dis- Fig. 3.3 Argentina abala São Paulo. a) Registro na estação
tância do foco à superfície é a profundidade focal. sismográfica de Valinhos, Sp,de um sismo ocorrido na frontei-
ra Argentina/ Bolívia (23.01.1997) com magnitude 6,4. b) O
Embora a palavra "terremoto" seja utilizada mais
movimento do chão é descrito pelos três componentes: Z (ver-
para os grandes eventos destrutivos, enquanto os me-
tical, positivo para cima), NS (positivo para o Norte) e EW
nores geralmente são chamados de abalos ou tremores
(positivo para o Leste).As ondas P e S chegam 230s e 41 Os,
de terra, todos são resultado do mesmo processo geo- respectivamente, após a ocorrência do terremoto.
andares superiores de prédios altos (na verdade, as
ondas sísmicas fizeram alguns prédios entrar em res-
sonância: os andares mais altos oscilam com maior
amplitude!). A Fig. 3.3b mostra os sismogramas (um
para cada componente do movimento do chão: ver-
tical, NS e EW) registrados naquela ocasião pela
estação sismográfica de Valinhos, a 70 km de São
Paulo. A ruptura que causou o terremoto foi muito
rápida e durou cerca de 5 s apenas. No entanto, fo-
ram geradas ondas sísmicas que passaram pela
estação, a 1.930 km de distância, durante mais de 20
minutos. Isto ocorre porque há vários tipos de on-
das sísmicas com velocidades de propagação
diferentes e que percorrem trajetórias distintas.

3.1.2 Como vibra o chão?

Na Fig. 3.3 a primeira movimentação do chão


(chegando 230s após a ocorrência do terremoto) é
um deslocamento de 0,03mm para cima e para
Leste. Nesta primeira onda, quase não há vibração
na direção NS. Como as ondas estavam se propa-
gando de Oeste para Leste (do epicentro para a
estação) e chegaram na estação vindo de baixo para Fig. 3.4 Os dois modos principais de propagação das vibra-
cima (porque as ondas são transmitidas pelo interi- ções sísmicas são a onda P (a), longitudinal (vibração paralela
TIrda Terra), vemos que as vibrações nesta primeira à direção de propagação), e a onda S (b),transversal (vibração
perpendicular à direção de propagação). Junto à superfície da
onda são paralelas à direção de propagação. Esta
Terra, propagam-se também as ondas superficiais:- onda
primeira onda é, portanto, longitudinal e chama-se
Rayleigh(c),que é uma combinação de ondasP e S onde cada
onda P. Quase 200 segundos depois da onda P, o
partícula oscila num movimento elíptico, e ondas Love, com
chão sofre um deslocamento de 0,07 mm no senti- oscilação horizontal transversal. Nas ondas de superfície, as
do Norte. Esta segunda onda tem vibração amplitudes diminuem com a profundidade. Note que, na pas-
perpendicular à direção de propagação e é chama- sagem das ondas sísmicas, o meio se deforma elasticamente.
da onda transversal ou onda S.

Há, portanto, dois tipos de vibrações sísmicas


em um meio sólido que se propagam em todas as a chegar e a S é a segunda (daí o nome de P e S). O
som que se propaga no ar também é uma onda P, da
direções: vibrações longitudinais e transversais. Nas
mesma forma que as vibrações em um meio líquido.
ondas longitudinais (ondas P), as partículas do meio
As ondas S não se propagam em meios líquidos e
vibram paralelamente à direção de propagação; nas
transversais (ondas S), as vibrações das partículas gasosos, apenas nos sólidos.
são perpendiculares à direção de propagação da As velocidades de propagação das ondas P e S
onda. As Figs. 3.4a e 3.4b mostram como um meio dependem essencialmente do meio por onde elas
sólido se deforma com a passagem das ondas lon- passam, como mostrado na Fig. 3.5. Em geral,
gitudinais e ttansversais. Numa onda sísmica há quanto maior a densidade de uma rocha, maior a
transmissão não apenas de vibrações das partículas velocidade das ondas sísmicas. É justamente esta
do meio, mas também de deformações do meio: propriedade que permite utilizar as ondas sísmicas
as ondas P correspondem a deformações de dila- para obter informações sobre a estrutura e a com-
tação / compressão, e as ondas S correspondem a posição em grandes profundidades. Por exemplo,
deformações tangenciais (também chamadas de analisando-se as vibrações provocadas por explo-
cisalhamento). A velocidade de propagação da onda sões artificiais controladas em uma bacia sedimentar,
P é maior que a da S. Por isso, a onda P é a primeira podemos deduzir as velocidades sísmicas nas várias
CAPíTULO 3 . SISMICIDADEE ESTRUTURAINTERNADA TERRA 47

camadas sedimentares da bacia e obter informações 0,0


z p
sobre eventuais estruturas geológicas importantes. Ê 0,0
.§. -o,1
Assim, o método sísmico é de grande importância
,2 °\ N
prática, por exemplo, na exploração de petróleo e ~ rs
0,0
-0,1
na busca de água subterrânea. Em uma escala glo- "
lU

.!! 0,1
bal, os registros dos terremotos em uma rede de .. t- E
~ 0,0
-0,1
rw
estações sismográficas permitem também conhecer
as velocidades sísmicas no interior da Terra e estu- 400 600 800 1000

Tempo desde origem (s)


dar a estrutura, a composição e a evolução atual do
nosso planeta.
Fig. 3.6 Sismo das Ilhas Sandwich (Atlântico Sul) em 27-09-
As vibrações P e S são chamadas ondas internas 1993, registrado numa estação perto de Poços de Caldas, MG
por se propagarem em todas as direções a partir (Brasil),a 3.570 km de distância. No trem de ondas superfici-
de uma perturbação dentro de um meio. Além das ais Rayleigh (componentes Z e NS)e no trem das ondas Love
ondas internas P e S, há uma maneira especial de (componente EW),as oscilações com períodos maiores che-
gam antes por terem velocidades de propagação maiores.
propagação de vibrações junto à superfície da Ter-
ra: são as ondas superficiais, que podem ser de dois
tipos, Lave e Rayleigh. As ondas superficiais Love
correspondem a superposições de ondas S com vi- 3.2 Estrutura Interna da Terra
brações horizontais concentradas nas camadas mais
Não é possível ter acesso direto às partes mais pro-
externas da Terra. A onda superficial Rayleigh é uma
combinação de vibrações P e S contidas no plano fundas da Terra devido às limitações tecnológicas de
enfrentar as altas pressões e temperaturas. O furo de
vertical (Figs. 3.4c e 3.4d). No sismograma da Fig.
sondagem mais profundo feito até hoje (em Kola,
3.6, podemos observar que as ondas superficiais
aparecem como um trem de ondas de maior dura- Rússia) atingiu apenas 12 km, umfl fração insignifican-
ção e com períodos diferentes. Uma característica te comparada ao raio da Terra de 6.370 km. Assim, a
das ondas superficiais é que a velocidade de pro- estrutura interna do planeta só pode ser estudada de
maneira indireta. A. análise das ondas sísmicas,
pagação depende também do período da oscilação
(no exemplo, vê-se que as oscilações de maior pe- registradas na superfície, permite deduzir várias carac-
ríodo estão chegando primeiro). As ondas Love, terísticas das partes interJ?-asda Terra atravessadas pelas
em geral, têm velocidade de propagação maior do ondas. Alguns aspectos 'básicos de propagação de
ondas sísmicas serão abordados agora, mostrando
que as ondas Rayleigh.
como as principais camadas da Terra são estudadas.

3.2.1 Lei de Snell e curvas tempo-distância


:AreJa nãêf'
saturada Como qualquer outro fenômeno ondulatório (por
Aterro
exemplo, a luz), a direção de propagação das ondas
Argila
sísmicas muda (refrata) ao passar de um meio com
,Água
velocidade VI para outro com velocidade diferente
IAreia
saturada
Vz. As ondas sísmicas sofrem refração e reflexão e
Fothelho 'O também obedecem à lei de Snell (Fig. 3.7). Numa
Calcâr/o
interface separando dois meios diferentes, há também
!Arelilto

Granito
conversão de onda P para S e de onda S para P. Por
exemplo, a Fig. 3.7c mostra uma onda P incidente,
Aço iJI1
cuja energia é repartida entre P e S refletidas e P e S
Bas.,alto r~p
refratadas. A lei de Snell, neste caso, se aplica a cada
o 1000 2000 3000 4000 5000 6000
tipo de raio.
Velocidade da onda P (rnls)
Quando o meio é constituído de várias camadas.
Fig. 3.5 Exemplos de intervalos de velocidades da onda P horizontais, a lei de Snell define a variação da
para alguns materiais e rochas mais comuns. direção do raio sísmico, como mostrado na Fig. 3.8.
.~. @ jetória da onda se aproxima da -normal à interface

~
(como visto na Figo3.7b). Isto faz o raio sísmico C se
afastar muito do raio sísmico B, criando uma inter-
V, V,
V2<V, rupção na curva tempo-distância (Figo3.10b), também
v,>v, 9.. .. ...
chamada "zona de sombra" na superfície. As ondas
que penetram na camada mais profunda formam um
ramo mais atrasado com relação ao ramo mais raso
(Fig. 3.10b). O núcleo da Terra foi descoberto pela
P
sua zona de sombra, como se verá adiante.
s p@

~
VP,

VP.
Vs. ~ e
'
I

t,.
.
,
's
p
...e, - ...e,
Vp, Vp.
-
Vs,
.
...~, ...~,
Vs. @ T tempo

Fig. 3.7 Leide 5nell que rege a reflexão e refração das on- I'
das. Quando a onda passa de um meio de menor velocidade
para outro de maior velocidade, o raio da onda se afasta da
normal à interface (a). Quando a onda passa para um meio
@ y @. distância;'11
com velocidade menor, ela se aproxima da normal à interface
(b). No caso das ondas sísmicas, parte da energia da onda
incidente P (ou 5) pode se transformar em ondas 5 (ou P),sem-
pre obedecendo à lei de 5nell (c). z velocidade
.,~
profundidade
(ã~i
'-.-/ Figo309 Quando a velocidade aumenta linearmente com
V1 a profundidade (a), os tempos de percurso formam uma cur-
va (b), e as trajetórias dos raios sísmicos são arcos de
V2
circunferência (c).
V3

V4
@T c
sen a, - sen 132- sen 133 A BT
V1 - V2 - ~
Figo308 Leide 5nell numa sucessão de camadas horizontais. I

No caso em que a velocidade aumenta gradualmente 0 v 0 A ac ~


com a profundidade, equivalente a uma sucessão de
infinitas camadas extremamente finas (Fig. 309a), as ---~

-~
...
.
P ..

.."'---------
ondas percorrem uma trajetória curva (Figo309c) e o
gráfico dos tempos de percurso em função da distância
será uma curva, como na Figo309b. z
Imaginemos agora que haja uma descontinuidade
Fig. 3.10 Quando a estrutura de velocidades apresenta uma
no interior da Terra separando dois meios diferentes
diminuição abrupta na velocidade numa certa descontinuidade
(Fig. 3.10a), sendo que o material imediatamente abai- (a), as curvas de tempo de percurso terão uma interrupção (b).
xo da descontinuidade tem velocidade menor à do
Aonda correspondente ao raio "(", ao atingira descontinuidade
material acimao Quando as ondas passam do meio (c)sofrerá uma refração (aproximando-se da normal à interface,
com velocidade maior para o meio com velocidade como na Fig.3. 7b) que a afastará bastante do raio "B",criando
menor (ponto P na Figo3.10c), pela lei de Sneli, a tra- uma "zona de sombra" na superfície.
--

3.2.2 As principais camadas da Terra


40
A análise de milhares de terremotos durante mui-
tas décadas permitiu construir as curvas
tempo-distância de todas as ondas refratadas e refleti-
U) 30
das no interior da Terra (Figs. 3.11 e 3.12) e deduzir a o
.....
:J
sua estrutura principal: crosta, manto, núcleo externo e !::

núcleo interno (Fig. 3.13), assim como as proprieda- E


~ 20
des de cada uma destas camadas principais. o
a.
E
Q)
f-
10

.l
o a 30 60 90 120 150 180

Distância (graus)
Fig. 3.12 Tempo de percurso das principais traietórias pelo
interior da Terra. A distância é medida pelo ângulo subtendido
no centro da Terra. SKS,por exemplo, é a onda S pelo manto
PKKP que se transforma em Pdurante a passagem pelo núcleo exter-
no (percurso "K")e se transforma em S novamente ao voltar ao
Fig.3.11 Trajetóriasde alguns tipos de onda no interior da manto.
Terra.O trecho do percurso da onda P no núcleo externo é de-
nominado"K".Assim,a onda PKPé a aquela que atravessa o
núcleo externo. No núcleo externo, não há propaga-
mantocomo onda P,depois o núcleo externoe volta pelo manto
como onda P novamente. O percurso no núcleo interno é cha- ção de ondas S, o que mostra que ele deve estar em
mado"I"para onda P.Letrasminúsculasdesignam reflexões:"c"é estado líquido, razão pela qual a velocidade da onda P é
reflexãodo núcleo externo e "i"do núcleo interno. bem menor do que as do manto sólido. Por outro lado,
a densidade do núcleo é muito maior do que a do man-
to (conforme deduzi da de outras considerações
A primeira camada superficial é a crosta, com es-
geofísicas, como a massa total da Terra e seu momento
pessura variando de 25 a 50 km nos continentes e de 5
de inércia). Estas características de velocidades sísmicas
a 10km nos oceanos. Na Fig. 3.11, a crosta não apare-
baixas e densidades altas indicam que o núcleo é com-
ce por ter uma espessura comparável à espessura da
posto predominantemente de Ferro.
linha que representa a superfície da Terra. As veloci-
dades das ondas P variam .entre 5,5 km/ s na crosta
3.2.3 Litosfera e crosta
superior e 7 km/ s na crosta inferior.
A curvatura da primeira onda P (Fig.3.12) indica que A grande diferença entre as velocidades sísmicas
as velocidadesde propagação abaixo da crosta aumen- da crosta e do manto (Fig. 3.13b) indica uma mudan-
tam até a profundidade de 2.950km. Nesta região, ça de composição química das rochas. A
chamada de manto, as velocidades da onda P vão de descontinuidade crosta/manto é chamada de Moho
8,0km/ s,logo abaixo da crosta, a 13,5 km/ s (Fig.3.13a). (em homenagem a Mohorovicic, que a descobriu em
Nas curvas tempo-distância (Fig.3.12), a interrupção da 1910). Abaixo da crosta, estudos mais detalhados em
onda P à distânciade 105°e o atraso do ramo PI<:Pentre muitas regiões mostram que há uma ligeira diminui-
120°e 180°,com relação à tendência do ramo das ondas ção nas velocidades sísmicas do manto ao redor de
P, caracterizamuma "zona de sombra" e indicam que as 100km de profundidade, especialmente sob os ocea-
ondas PI<:Patravessaram uma região de velocidade me- nos. A composição química das rochas do manto varia
nor abaixo do manto. Esta região, a profundidades relativamente pouco comparada com a da crosta. Esta
maiores de 2.950km, é o núcleo da Terra (Fig. 3.13a). "zona de baixa velocidade" abaixo dos 100km é cau-
Dentro do núcleo, existe um "caroço" central (núcleo sada pelo fato de uma pequena fração das rochas
interno), com velocidades um pouco maiores do que o estarem fundidas (fusão parcial), diminuindo bastante
50 D E C I F RA N D O A TE R R A

o
........
GIl
12
-E
5 Iltostera
crosta
- - Moho
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(/) núcleo : núcleo a.. 3oO-i mesostera
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manto externo interno
@ 35-'@
o 2000 4000 6000 I 4 5 6 7 8 9 10
Profundldade(km) Vp(km/s)

Fig.3.13 a) Perfil de velocidades sísmicos (Vp e Vs) e densidade p) no interior da Terra. b) Exemplo de perfil de velocidade da onda
Pna crostae manto superior,numa região continental.

a rigidez do material nesta profundidade. Desta ma- com valores aproximados das acelerações do movi-
neira, a crosta, junto com uma parte do manto acima mento do solo. Cada grau da escala MM corresponde
da zona de baixa velocidade, forma uma camada mais aproximadamente ao dobro da aceleração do grau
dura e rígida, chamada litosfera. Nesta zona de baixa anterior. Naturalmente, quanto maior a distância do
velocidade, chamada astenosfera, as rochas são mais epicentro, a intensidade tende a ser menor. A Fig. 3.14
maleáveis (plásticas). Enquanto a Moho é uma mostra um exemplo de mapa de intensidades (dito
descontinuidade abrupta indicando mudança de com- mapa" macro ssísmico ") do sismo de Mogi-Guaçu,
posição, o limite litosferaj astenosfera é mais gradual SP, de 1922, sentido até mais de 300km de distância.
e indica mudança de propriedades físicas: aumento de Na região epicentral, a intensidade atingiu o grau VI
temperatura, fusão parcial e grande diminuição da vis- MM, provocando rachaduras em várias casas e des-
cosidade. A verdadeira "casca" da Terra, portanto, é a pertando muitas pessoas em pânico. As isolinhas de
litosfera. As placas tectônicas (ou litosféricas) são pe- intensidade (linhas que cercam intensidades iguais) são
daços de litosfera que se movimentam sobre a chamadas isossistas.
astenosfera.
52° 44°

3.3 Medindo os Terremotos


20°

3.3.1 Intensidade
Classificando os efeitos do terremoto

A Intensidade Sísmica é uma classificação dos


efeitos que as ondas sísmicas provocam em determi-
nado lugar. Não é uma medida direta feita com 24°

instrumentos, mas simplesmente uma maneira de des- 100km


crever os efeitos em pessoas (como as pessoas
sentiram) em objetos e construções (barulho e queda
de objetos, trincas ou rachaduras em casas, etc.) e na Fig. 3.14 Intensidades do sismo de 27.01.1922, com
epicentro na região de Mogi-Guaçu, SP.Os números são in-
natureza (movimento de água, escorregamentos, lique-
tensidades "Mercalli Modificada". As maiores intensidades
fação de solos arenosos, mudanças na topografia, etc.).
foram VI.O epicentro (estrela)foi estimado com base na dis-
A Tabela 3.1 mostra uma descrição da Escala Mercalli
tribuição das intensidades e em dados da estação sismográfica
Modificada (MM), a mais usada atualmente, juntamente do Observatório Nacional no Rio de Janeiro.
-

Como a intensidade é apenas uma classificação, e "poucas pessoas", "muitas pessoas", etc. A maior uti-
não uma medida, ela está sujeita a multas incertezas. lidade da escala de intensidades é no estudo de sismos
As informações de como as pessoas sentiram o tre- "históricos", i.e., sismos ocorridos antes da existência
mor é sempre subjetiva. A própria escala tem uma de estações sismográficas.
natureza qualitativa quando se refere, por exemplo, a

Tabela 3.1 Escala de Intensidade Mercalli Modificada (abreviada).

Grau Descrição dos Efeitos Aceleração (g)

efeitos de período longo de terremotos grandes

/I

111

IV

V
pequenos e .instáveis

VI

VII

VIII

IX comuns bastante

XI

de
ar.
-~
3.3.2 Magnitude Ms = 10g(A/T) + 1,66 10g(i'1)+ 3,3
Medindo a "força" do terremoto onde:

Em 1935, para comparar os tamanhos relativos A = amplitude da onda superficial Rayleigh (f.tm)
dos sismos, Charles F. Richter, sismólogo americano, registrada entre 20° e 100° de distância;
formulou uma escala de magnitude baseada na am-
T = período da onda superficial (deve estar entre
plitude dos registros das estações sismográficas. O 18 e 22 s).
princípio básico da escala é que as magnitudes sejam
expressas na escala logaljtmica, de maneira que cada i'1= distância epicentral, em graus; é o ângulo no
ponto na escala corresponda a um fator de 10 vezes centro da Terra entre o epicentro e a estação
nas amplitudes das vibrações. Existem várias fórmu- W = lllkm).
las diferentes para se calcular a magnitude Richter, A escala Ms só é aplicada para sismos com pro-
dependendo do tipo da onda sísmica medida no fundidades menores de ~ 50km. Sismos mais
sismograma. Uma das fórmulas mais utilizadas para profundos geram relativamente poucas ondas super-
terremotos registrados a grandes distâncias é da mag- ficiais e sua magnitude ficaria subestimada. Nestes casos,
nitude Ms: são usadas outras fórmulas para a onda P.

para as condições de
distância:

em

Da maneira como foi definida, a magnitude Richter A Tabela 3.2 mostra a relação entre magnitude (MJ,
não tem um limite inferior nem superior. Tremores mui- amplitude máxima do movimento do chão (A) a 50 km
to pequenos (microtremor~s) podem ter magnitude de distância, tamanho da fratura (L), deslocamento mé-
negativa. O limite superior depende apenas da própria dio na fratura (D) e energia.
natureza. Tremores pequenos, sentidos num raio de pou-
cos quilômetros e sem causar danos, têm magnitude da É importante ressaltar que cada ponto na escala de
ordem de 3. Sismos moderados, que podem causar al- magnitude corresponde a uma diferença da ordem
gum dano (dependendo da profundidade do foco e do de 30 vezes na energia liberada. Para se ter uma idéia
tipo de terreno na região epicentral) têm magnitudes na do que seja um terremoto de magnitude 9, imagine
uma rachadura cortando toda a crosta entre Rio e São
faixa de 5 a 6. Os terremotos com grande poder de
Paulo e cada bloco se movimentando 10 metros, late-
destruição têm magnitudes acima de 7. As maiores mag-
ralmente, um em relação ao outro.
nitudes já registradas neste século chegaram a 1\=8,5
(terremotos nos Himalaias em 1920 e 1950, e no Chile
em 1960).
Tabela 3.2 Energia relacionada à magnitude dos terremotos

m
1em
mm
mm
-

Tabela 3.3 Alguns terremotos importantes do mundo

Data Local Magnitudes Mortos Observações


ano mês dia Ms Mw
1531 0126 Portugal, Lisboa

1556 01 China, Maior mortalidade da história.

1737 10 índia, Calcutá

1755 11 Portugal, Lisboa Tsunami devastador; maior terremoto em crosta


oceânica.

1811 12 E.u.A., Missouri, 8,1 Dois maiores terremotos intraplaca, intensidade


Nova Madrid XMM.

1812 02 8,0 Intraplaca, intensidade XIMM.

1868 08 Equador e Colômbia

1886 09 USA, Carolina do Sul 7,3 Intraplaca, margem Atlântica.

1906 04 CalHórnia, S. Francisco 7,9 San Andreas.

1908 12

1920 12 8,3

1922 11 8,7

1923 09 8,5 Grande incêndio de Tóquio.

1929 11 6,5 Margem passiva do Atlântico; deslizamento de


talude continental destruindo cabos submarinos.
XMM.

1950 08 8,6 Um dos maiores no Himalaia.

1960 05 9~7 terremoto do século XX.

1964 03 Alaska 9,2 Segundo maior terremoto.

1970 05 Peru 7,9

1975 02 6,9 grande terremoto previsto com sucesso.

1976 07

1988 12

1990 06

1992 06

1993 09

1995

1999 08
--
54 DE CI F RA N D O A TERRA

3.3.3 A nova escala de magnitude Mw são principalmente rasos (profundidade focal menor que
~50km), mas podem atingir profundidades de até 670
A escala de magnitude Richter, por definição, não km (Fig.3.1).
tem unidade e apenas compara os terremotos entre si. -
Atualmente, os sismólogos usam uma nova escala de Nestas faixas, como por exemplo na margem oeste
magnitude que melhor reflete os tamanhos absolutos do Oceano Pacífico (Fig. 3.1) e na costa ocidental da
dos terremotos, baseada nos processos físicos que América do Sul (Fig.3.15),pode-se notar que as profun-
ocorrem durante a ruptura. Esta magnitude é baseada didades dos sismos aumentam em direção ao continente.
no "momento sísmico" Mo: Quando observados em perfis transversais às faixas, os
sismos se alinham em uma zona inclinada, geralmente
Mo = f.L D S (unidade de N.m) com 30° a 60° de inclinação, conhecida como Zona de
= módulo de rigidez da rocha que se rom-
onde f.L Benioff (Fig. 3.15). Esta distribuição dos sismos em
peu; D = deslocamento médio na falha; e S = área total profundidade revela uma placa oceânica mergulhando
da superfície de ruptura. em direção ao manto, sob outra placa. Estas faixas sís-
micas mais largas, incluindo sismos profundos, marcam
2 regiões da Terra de convergência de placas litosféricas.
Mw =-10gMo-6.0
3 Nestas áreas, os sismos rasos (até -50 km aproximada-
mente) são causados por esforços compressivos
Nesta nova escala, o maior terremoto já registra-
horizontais. Os grandes terremotos, com magnitudes
do ocorreu em 1960 no sul do Chile com uma ruptura
acima de ~7, acontecem geralmente nestas zonas, exata-
de mais de 1.000km de comprimento dando uma
mente no contato entre as duas placas.
magnitude de 9,7 ~ .
Os sismos intermediários e profundos ocorrem,
3.4 Sismicidade Mundial preferencialmente, ao longo do Cinturão Circum-Pa-
cífico. Entretanto, na margem oeste da América do
A atividade sísmica mundial, através das concentra- Norte, eles não estão presentes. Neste setor, são
ções dos epicentros mostrada na Fig. 3.1, delimita áreas registrados apenas sismos rasos, a maioria associada à
da superfície terrestre como se fossem as peças de um Falha de San Andreas, limite entre a placa norte-ame-
"quebra-cabeça global". A distribuição dos sismos é uma ricana e a placa do Pacífico, as quais se movimentam
das melhores evidências dos limites destas "peças" cha- lateralmente. Este tipo de limite entre placas é chama-
madas placas tectônicas (Cap.6). Cerca de 75% da do transformante (Cap. 6).
energia liberada com terremotos ocorre ao longo das A quase totalidadeda atividadesísmicamundial ocorre
estruturas marginais do Oceano Pacífico, caracterizando associada aos limites das placas, delineando-as e possibi-
o "Cinturão Circum-Pacífico" ou "Cinturão de Fogo do litando caracterizar o movimento relativo entre as placas.
Pacífico", em alusão à presença de vulcões coincidentes Trata-se da sismiddade interplacas, a respeito da qual
com os sismos (ver Capo17).
nos referimos até aqui.
Padrão em Linha - onde os epicentros se organi-
zam, na escala global, ao longo de um fino traço, no 3.4.1 Sismicidade intraplaca
fundo dos oceanos seguindo o eixo das dorsais oceâni-
cas que são cordilheiras submarinas marcando o local No interior das placas, também ocorrem sismos,
onde placas oceânicas são criadas e se afastam umas das chamados "sismos intraplaca", em decorrência das ten-
outras, como por exemplo no Oceano Atlântico e no sões geradas nas bordas das placas transmitirem-se por
Índico. Este padrão se relaciona, portanto, aos limites de todo o seu interior. Estes sismos são rasos, com até 30-
placas oceânicas, com regime de esforços tracionais. Os 40 km de profundidade. Esta "sismicidade intraplaca" é
sismos associados a estas estruturas são bastante rasos, relativamente pequena, com sismos de magnitudes bai-
com profundidades focais de poucos quilômetros. xas a moderadas, quando comparadas à sismicidade nas
Padrão em Faixa - a distribuição dos sismos ao lon- bordas das placas. Entretanto, há registros de sismos al-
go de faixascaracterizao Cinturão Circum-Pacífico,assim tamente desttutivos no interior das placas (como o de
como a atividade sísmica na Europa e Ásia. Este padrão Nova Madrid, Missouri, Estados Unidos, Tabela 3.4),
sísmico se associa a regimes compressionais, em especial indicando que, apesar de remota, a possibilidade de ocor-t
a limites convergentes de placas. Os sismos nestas faixas rência de um grande terremoto intraplaca não é nula.
r-

-«)' .70' -61)' -50' -40' .00' .10'


A
- A'

°r
"",,200

e-400

-000

o 400 800 1200 1600


-10'-1

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B~___~
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~
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~
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o 400 600 1200 1600

Fig, 3,15 Sismicidade da América do Sul (1964 a


1995, mag>4,7). Círculovermelho, quadrado ama-
relo e triângulo branco indicam epicentros de sismos
rasos «60km), intermediários e profundos
(>350km). Nos perfisMe BB', mostram-se a topografia (linha grossa) e a projeção dos hipocentros (pontos) dos sismos até 300
kmde cada lado do perfil.Na região do Peru (perfilM), os hipocentros se alinham horizontalmente, antes de mergulhar sob oAcre.
Fonte: U.S. Geological Survey/ Engdahl.

Tabela 3.4 Principais terremotos em regiões continentais estáveis,

Ano Latitude(O) Longitude (°) Magnitude Ms Localidade Feição tectônica

1811
1812
- R
36,5 N 89,6W 8,8 Nova Madrid, MO, E.UA

1819
1886 32,9 N 80,OW 7,7 Charleston, SC, E.UA MP?/E

1909
1918 23,5 N 117,0 E 7,3 Nanai, costa SEda China MP/FP?

1929
1932 28,5S 32,8 N 6,8 África do Sul MP

1933
1935 31,5 15,3 S 7,0 Golfo de SidGaiUbia, África MP/R
1968
1988 19,8 S 133,9 E . 6,8 Tenant Creek, Austrália FP

MP = margem passiva; FP = falha pré-existente; R = rift; FC = falha Cenozóica;


E = crosta extendidq (geralmente relacionada à formação de margem passiva),

~
Os- maiores sismos em regiões continentais está- o sismo de Mogi-Guaçu, de 1922, com magnitude 5,1ll\
veis (intraplaca) ocorrem preferencialmente em áreas (Fig. 3.14). Um dos mais importantes sismos do Nordeste
onde a crosta continental foi tracionada e extendida foi sentido em praticamente toda a região em 1980, com
por processos geológicos relativamente recentes magnitude 5,2 lI\, e intensidade máxima VII MM, provo-
(Mesozóico ou Cenozóico), como por exemplo nas cando o desabamento parcial de algumas casas modestas
plataformas continentais ou em rifts intra-continentais na região de Pacajus, CE (Tabela 3.5). O maior sismo co-
abortados (Cap.6), como em Nova Madrid nos Esta- nhecido do Brasil ocorreu em 1955, com magnitude Richter
dos Unidos. 6,2 lI\, e epicentro localizado 370 km ao norte de Cuiabá,
MT. As informações contidas na Fig. 3.16 retratam o míni-
mo da sismicidade real.
3.4.2 Sismicidade do Brasil

Ocupando grande parte da estável Plataforma 3.4.3 Sismos intraplaca e


Sul-americana, o Brasil era considerado, até pouco tem- estruturas geológicas
po, como assísmico, por não se conhecer a ocorrência
de sismos destrutivos. Estudos sismológicos desde a dé- Pequenos sismos intraplaca podem ocorrer em
cada de 1970 mostraram que a atividade sísmica no Brasil, qualquer local. Entretanto, algumas áreas são bem mais
apesar de baixa, não pode ser negligenciada (Fig. 3.16 e ativas do que outras, como é o caso dos Estados do
Tabela 3.5). Para sismos no Brasil usa-se preferencial- Ceará, do Rio Grande do Norte e da parte norte de
mente a magnitude mb calculada com a onda P de Mato Grosso. Nem sempre é fácil compreender as
estações distantes. Esta escala é equivalente à escala regio- causas desta variação na sismicidade intraplaca em ter-
nal ~e aproximadamente igual à escala 11,;. mos de estruturas ou forças geológicas. Ainda são
insuficientes os estudos geológicos e sismológicos ne-
A grande quantidade de epicentros nas regiões Su-
cessários para explicar o padrão observado da
deste e Nordeste (Fig. 3.16) reflete, em parte, o processo
sismicidade. A baixafreqüência de ocorrência dos sismos
bistórico de ocupação e distribuição populacional, pelo
não permite uma relação estatística segura, a não ser em
fato de muitos eventos terem sido estudados a partir de
alguns poucos casos estudados em maior detalhe.
documentos antigos. Mesmo assim, sismos de destaque
têm sido registrados nestas regiões, como por exemplo
-75" -70' -65" -60' -55' -50" -45' -40' -35'
5'
2400

1600
Fig. 3.16 Sismos do Brasil O'
Epicentros do Brasil de 1724 a 1200
1998, com magnitude> 2,5.
Note que a cobertura do catálo- -5' 900
go utilizado (fonte: USp, UnB, 700
UFRN,IPT)é bastante incomple-
ta: até meados do século '1:1..,-10' 500
apenas sismos com magnitude
400
acima de 4 em áreas bem povo-
adas estão incluídos.Atualmente, -15' 300
sismos da região Sudeste com
magnitudes acima de 2,5 são o
registrados, mas na Amazônia o -20' "500
limite de detecção é de 3,5. Os
números indicam os sismos da 3 "2000
Tabela 3.5. A linha tracejada -25'
4 -3000
grossa no oceano indica o limite
da crosta continental que foi -4000
5
extendidae afinada durante a se-
paração entre a América do Sul e -SO' 6 -4500
a África. Fonte: IAG ~ USP.
-5000

--
~

Tabela 3.5 Sismos mais importantes do Brasil.

N° Ano Latitude Longitude Magnitude Intensidade Localidade


(OS) (OW) (mb) máx. (MM)

1955

2 1955

3 1939
1

4 1983 II
5 1964
1
6 1990 I
7 1980

8 1922

9 1963

10 1986 VII

11 1998

A zona sísmica de Nova Madrid (Tabela 3.4), no cen- devido a tensões compressivas orientadas aproximada-
tro-leste da América do Norte, responsável pelos grandes mente na direção E-W e tensões tracionais N-S. Estas
terremotos intraplaca de 1811 e 1812, caracteriza-se pela tensões podem ter várias origens, como a movimenta-
reativação de um sistema de falhas geológicas antigas. ção da placa sul-americana e forças locais causadas pela
Estas falhas foram criadas no Mesozóico, por forças estrutura crustal da região.
tracionais num processo de extensão crustal que formou A faixa sísmica SW-NE nos Estados de Goiás e
um graben (Cap. 6). A sismicidade que se registra hoje
Tocantins (Fig. 3.16) tem um paralelismo marcante com
ocorre nas mesmas estruturas antigas, mas em resposta
o Lineamento Transbrasiliano (Fig. 3.18), embora não
às forças compressivas que atuam hoje na placa norte- coincida exatamente com ele. É possível que os sismos
amencana.
ocorram devido a dois fatores: concentração de ten-
A atividade sísmica, ocorrida de 1986 a 1990 em sões e existência de uma zona de fraqueza, ambos
João Câmara, RN, foi estudada em detalhe com uma talvez relacionados às estruturas que deram origem ao
rede de estações sismográficas, permitindo identificar antigo lineamento.
uma zona de falha de aproximadamente 40 km de Do mesmo modo, a concentração de epicentros
comprimento, orientada N400E com mergulho de 60°- na plataforma continental da região Sudeste e em re-
70°para NW (Fig. 3.17). Apesar da grande extensão giões próximas à costa (Fig. 3.16) pode indicar que
da zona sísmica,ainda não foi possível associá-Ia com estes sismos estejam relacionados às estruturas da
outras feiçõesgeológicas de superfície. Isto mostra cla- margem continental geradas, ou reativadas, em conse-
ramentea grande dificuldade de se estudar a correlação
qüência da fragmentação da crosta continental durante
entre sismicidadeintraplaca e outras feições geológicas. a formação do oceano Atlântico.
Sabe-se,porém, que os sismos do Nordeste ocorrem

~
-5" 25' -52' -50'
-10' r .
magnitude
s

Lf~
.
f) 3
2

~ .4
-12'
.
-5" 30'
BA
MT

-14'

-5" 35'

-16'

Fig. 3.18 Faixa sísmica Goiás-Tocantins. Notar o paralelismo


entre a direção geral dos epicentros e a orientação do linea-
mento Transbrasiliano, estrutura formada no final do
-5" 40' Pré-Cambriano e início do Paleozóico (~570 Ma). Os
.35" 50' -35" 45' -35" 40'
epicentros, no entanto, não coincidem diretamente com os li-
neamentos, indicando uma relação indireta entre a sismicidade
Fig. 3.17 Sismos de João Câmara, RN. Os hipocentros defi- e a estrutura que originou os lineamentos.
nem uma falha principal mergulhando para NW.

No mundo todo, já ocorreram dez sismos induzidos


3.4.4 Sismos e barragens
por reservatórios com magnitude superior a 5, vários de-
A interferência do homem na Natureza pode pro- les em regiões intraplaca de baixa sismicidade. A maior
vocar sismos, através de explosões nucleares, de injeção parte dos eventos induzidos têm magnitude entre 3 e 5.
de água e gás sob pressão no subsolo, de extração de
A sobrecarga causada pela massa de água do re-
fluidos do subsolo, do alívio de carga em minas a céu
servatório gera pequenos esforços no maciço rochoso,
aberto e do enchimento de reservatórios artificiais li-
normalmente insuficientes para provocar sismos. Desta
gados a barragens hidroelétricas. forma, o efeito da sobrecarga e o aumento da pres-
Com exceção das barragens, os sismos induzidos são da água nos poros e fraturas das rochas, causado
pelo restante dos casos têm sido muito pequenos e de pela variação do nível hidrostático, favorecendo a di-
efeito estritamente local, não havendo registros de minuição da resistência ao cisalhamento dos materiais,
danos consideráveis. Entretanto, os sismos induzi- atuam como disparadores na liberação dos esforços
dos por reservatórios, apesar de normalmente pré-existentes na área do reservatório. Não seria exa-
pequenos, podem alcançar magnitudes moderadas. gero afirmar que o reservatório é a "gota d'água" que
O maior ocorreu em 1967, no reservatório de pode provocar sismos.
Koyna, Índia, com magnitude 6,3, tendo provoca-
Em reservatórios maiores, há maior probabilidade de
do 200 mortes e sérios danos à estrutura da
ocorrência de sismos induzidos. Deve-se ressaltar, entre-
barragem.
tanto, que a maioria dos reservatórios artificiais não provoca
Com o enchimento do Lago Mead do reservató- sismicidade alguma, mesmo nas regiões mais sísmicas do
rio Hoover, Estados Unidos, em meados da década mundo. A grande dificuldade que se enfrenta é não se
de 1930, e, principalmente, nos anos 60, com a ocor- poder determinar se as tensões numa região estão muito
rência de sismos induzidos pelos reservatórios de altas, próximas do ponto de ruptura, ou não. Por esse
Hsinfengkiang, Kariba, Kremasta e Koyna (Tabela 3.6), motivo, todas as grandes barragens operam estações
reconheceu-se que o enchimento de reservatórios pode sismográficas para detectar alguma possível atividade sís-
causar terremotos e danos consideráveis. mica que venha a ser induzida pelo reservatório.
~

Tabela 3.6 Principais sismos induzidos por reservatórios no mundo

Barragem, país Altura (m) Ano Magnitude (~) Sismicidade regional

103 6,3

128

160

105

236

67

--~

As primeirascitaçõessobre sismos illduzidosno Brasil de 1994, ocorreu o maior sismo, com magnitude 3,0
(Tabela3.7) referem-seà Usilla Hidrelétrica de Capivari- (Fig. 3.20). Os eventos sísmicos que ocorreram entre
Cachoeira,a NE de Curitiba, PR. A atividade sísmica os anos de 1987 e 1989 apresentaram forte correla-
principal ocorreu em 1971 e 1972, na fase final da forma- ção com as variações no nível do reservatório, como
ção do lago, e se prolongou até 1979, decrescendo pode ser observado na Fig. 3.20, enquanto nos outros
lentamente com alguns pulsos de reativação (Fig. 3.19). anos essa associação não é tão clara. A atividade sísmi-
ca ocorreu por reativação de antigas rupturas orientadas
O reservatório de Açu, RN, apresentou atividade
NE - S\X!,devido a tensões compressivas E- W e
sísmica illduzida pelo menos desde 1987, quando foi
tracionais N-S, semelhantes às tensões que agem na
iniciado o monitoramento sismológico. Em agosto
região de João Câmara, RN, mais a leste.

11 Barragem
25 - ::J Usina
"
li
20 - li
li
11) li
o I'
"

E .,I' nível do
11) 'i. reservatório
'U; 15- ,
,i
845,00 845,50 (m)
(I)
'C
834,00 I
r- - 850
a
Z 10-
835,00

r- r- ('3.80 - 840
830
820
810
o 800
JUL170 JAN/71 JAN/72 JAN/73 JAN/74 JAN/75 JAN/76 JAN/77 JAN/78 JAN/79 JAN/80

Fig.3.19 Distribuição mensal da atividade sísmica induzido e nível do reservatório de Capivari-Cachoeira, PR.

~
barragem 1989 t:.
35 &" -.. 100 -5'40' - 1990/91+
2.6 3.0

Ê
altura d'água
. - 80 VI
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1995 8

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25 E -5'44' -
-:J VI
- 20 "iii
li

20 O
87 88 89 90 91 92 93 94 95 96

Fig.3.20 Sismicidade induzida no açude deAçu, RN.(9)Níveld'água -5'48' -


e sismicidade. De 1987 a 1989, o aumento do níveld'água foi segui-
do, aproximadamente 3 meses depois, por um aumento na atividade
sísmica. De 1990 a 1993, o regime pluviométricovariou e a correla-
ção não é clara. Depois de 1994, há nova correlação entre níveld'água
e sismicidade. (b) Epicentros em três épocas diferentes. A área mais
ativa varia com o tempo. Os sismos de Açu provavelmente ocorrem
-5'52'
@
por reativação de pequenas falhas antigas, orientadas SW-NE,sob o
regime atual de tensões: compressão E-W(setas vermelhas) e tração 5km
N-S (setas amarelas).
-36'56' -36'52' -36'48'

3.4.5 É possível prever terremotos? dades, tais como diminuição nas velocidades de pro-
pagação das ondas P e S, queda na resistividade elétrica,
Quando vai ocorrer o próximo grande terremo- mudanças no número de microtremores, entre outras.
to? Esta pergunta freqüente ainda não tem resposta. A Na década de 1970, foram estudados vários casos de
previsão de terremotos tem sido um dos maiores de- sismos antecedidos por tais mudanças, levando mui-
safios para os geocientistas. Apesar de intensas pesquisas tos sismólogos a acreditar que a previsão de terremotos
por várias décadas, ainda não foi possível desenvolver seria finalmente possível. Alguns sismos pequenos,
um método prático e seguro para se fazer previsões durante estudos detalhados de microtremores, pude-
de terremotos.
ram ser antecipados, e um grande terremoto na China,
As várias etapas durante a geração de um sismo em 1975, foi previsto com sucesso, salvando milhares
(acúmulo lento de tensões na crosta, deformação das de vidas (ver Tabela 3.3). No entanto, a Terra mos-
rochas e ruptura ao atingir o limite de resistência) são trou-se muito mais complexa do que se imaginava, e
relativamente bem conhecidas. Assim, haveria duas nem sempre os terremotos são antecedidos por fenô"
maneiras de se prever terremotos: medidas diretas das menos fáceis de detectar. Outro fator complicante é
tensões crustais e observações de alguns fenômenos que o comportamento das rochas varia muito depen-
que indicam a iminência de uma ruptura na crosta. dendo do regime de tensões, profundidade,
Embora seja possível medir as tensões crustais, há enor- temperatura e composição mineralógica. Assim, mes-
mes problemas práticos a superar: seria necessário mo que a previsão fosse possível na prática, os
medir as tensões em profundidades de dezenas de qui- métodos usados na Califórnia, por exemplo, poderi-
lômetros, em áreas muito extensas e com uma precisão am não ser úteis no Peru.
ainda não disponível na prática. Além disso, seria ne- Quando as tensões atingem o ponto crítico de re-
cessário conhecer detalhadamente as características de
sistência das rochas na crosta, uma fratura se inicia.
resistência ao fraturamento dos vários tipos de rocha
Uma quantidade enorme de detalhes geológicos de-
que compõem a crosta numa certa região. Na prática, termina a localização exata do ponto crítico (início do
o custo e a quantidade de medidas necessárias tornam sismo) e o tamanho final da fratura (e, portanto, a
inviável essa abordagem.
magnitude do sismo). Muitos sismólogos acreditam,
Quando uma rocha está prestes a se romper, há por razões físicas, que a previsão de terremotos é in-
uma pequena mudança em algumas de suas proprie- trinsecamente impossível.
r-
Tabela 3.7 Principais sismos induzidos no Brasil

Barragem Altura Ano Magnitude Intensidade

(m) (mb) (MM)

3,6

3.4.6 Convivendo com o risco


10'N
Como não é possível prever terremotos (e mes-
mo que fosse, não se poderia evitá-Ios) o melhor é se
prevenir.Em regiões sísmicas, com muitas falhas geo-
lógicasativas, a melhor estratégia tem sido identificar
as zonas de maior atividade sísmica e mapear as áreas
com maior probabilidade de que o chão tenha fortes
vibrações (mapas de "risco" sísmico) Fig. 3.21. Isto é
feito combinando-se as probabilidades de ocorrênci-
as de terremotos fortes, para vários níveis de
magnitude, com as vibrações esperadas para cada
magnitude. No caso do Brasil, ocorrem a cada ano,
em média, cerca de 20 sismos com magnitudes maio-
res de 3, dois sismos com magnitudes maiores de 4;
0,2 sismos maiores de 5 (i.e., um a cada 5 anos); 0,02
sismos maiores que 6, etc. A observação de que o
número de sismos diminui aproximadamente 10 ve-
zes para cada incremento de uma unidade de
magnitude é uma lei empírica válida em qualquer re- 80" 4O'W
gião do mundo e foi descoberta por Richter. Pode-se,
assim, extrapolar que sismos com magnitudes acima 0.0 0.2 0.4 0.8 1.6 2.4 3.2 4.0 4.8
de 7 deveriam ocorrer no Brasil uma vez a cada 500
anos. Em regiões de alta atividade sísmica, como o Fig. 3.21 Mapa de perigo sísmico na América do Sul mos-
Chilepor exemplo, terremotos com magnitude acima trando o nível de vibração (aceleração máxima do chão, em
de 7 ocorrem, em média, uma vez a cada 3 anos. mN) com a probabilidade de 90% de não ser excedido, para
um período de 50 anos. Estes níveisde vibração referem-se à
rocha sã exposta; locais de sedimentos inconsolidados podem
amplificar bastante as vibrações. Fonte: IDNDR-ILP.

l
3.1 Tsunamis

já registrados, correram para o mar em suas


embarcações tentando se proteger. 10 a 15 minutos após o
o mar recua dezenas de metros e volta logo em
seguida numa onda gigantesca destruindo todos os barcos.
de Chiloé 200 mortes foram contabilizadas.
a distância, destas
ondas causaram mortes dólares
em destruição.

Pacífico devido à predominância de


podem gerar tsunamis

González, maio de pp.

Com base nas freqüências de sismos, pode-se cons-


truir mapas de risco sísmico (ou mais precisamente
Leituras recomendadas
"perigo" sísmico), como na Fig. 3.21. Ao se construir
um prédio no Chile, por exemplo, que deve durar 50
anos, e se quisermos ter uma garantia de 90% de acerto, 1 (6).
o prédio deve ser projetado para resistir a acelerações
4th York:
do chão de até 50% da aceleração da gravidade. No
1999.
Brasil, com poucas exceções, os níveis esperados de vi-
bração do chão são menores de 2% de g, em rocha.
Mapas mais detalhados de perigo sísmico podem ser
feitos considerando os diferentes tipos de solo e substrato
rochoso de uma cidade, estimando quais bairros sofreri-
am maiores vibrações do chão. Em países sísmicos, leis
que regulam o tipo de construção permitido em cada ,1990.
área (obrigando construções mais resistentes em locais vol. 262.
mais perigosos) diminuem os riscos de perdas materiais
e humanas em caso de terremotos.
"
iIf'

nen-

can
64 D ECI FRA N D O A TERRA

r. )"tudO d" da
do interior pwpdOOade,fi,i=
Terra correspondefundamentai,
ao ramo das
Geociências denominado Geofisica. Muitas informações
mes nos seus interiores, atraem-se na razão direta do pro-
duto de suas massas e na razão inversa do quadrado da
distância entre os seus centros, conforme descrito pela
sobre o comportamento dinâmico do interior do nosso equação 4.1:
planeta resultam do estudo de suas propriedades fisicas, (4.1)
tais como a gravidade e o magnetismo. Através do estu- F=G ml.mz
r2
do global do campo da gravidade, obtém-se informação
acerca das dimensões, forma e massa da Terra, bem
na qual ml e mz são as massas das esferas,r é a distância
como do modo como a massa se distribui no interior
entre elas,F é a força de atração que age sobre cada uma
do planeta. Em escala local, a análise das variações de das esferas e G é a constante da gravitação universal (veja
gravidade é o fundamento da prospecção gravimétrica. tabela de unidades no final do livro).
O uso criterioso desta última, combinado com infor-
mações geológicas, permite localizar,identificar e avaliar De acordo com a lei de Newton (equ;1ção4.1), se a
o potencial econômico de jazidas de minérios diversos, esfera com massa ml estiver fixa e a esfera com massa
carvão, petróleo, sal, matéria-prima para indústria cerâ- mz puder movimentar-se, ela irá se deslocar em direção
mica e de construção, etc. à primeira, devido à força F. Neste caso, sua aceleração
ag será igual a F / mz ou, substituindo-se na equação 4.1:
o campo magnético terrestre origina-se no núcleo
terrestre e a observação na superficie da Terra da forma a -----F - (G.ml) (4.2)
e variações desse campo magnético permite estudar a
g mz r
dinâmica dessa região da Terra. As rochas da superficie
Portanto, a aceleração ag depende apenas da distância
terrestre, ao se formarem, registram as informações do
entre as duas esferas e da massa ml, que cria um campo
campo geomagnético da época, e a recuperação dessas
de aceleração gravitacional ao seu redor, o qual é igual
informações permite desvendar a história do magnetis-
em todas as direções, ou seja, é isotrópico. Estas caracte-
mo terrestre no passado geológico. Além disso, através
rísticas fazem com que um corpo, mesmo possuindo
das propriedades magnéticas das rochas, é possível loca-
massa muito elevada, produza um campo menos inten-
lizar jazidas minerais e traçar os movimentos pretéritos
so do que um outro, com massa muito menor, mas
dos blocos litosféricos durante a evolução da Terra.
situado mais próximo. Como exemplo, podemos citar
O objetivo deste capítulo é fornecer os conceitos fun- a queda de meteoritos sobre a superficie terrestre. Em-
damentais sobre a gravidade e o campo magnético bora sendo atraídos pelo Sol,muitos deles acabam caindo
terrestres e ilustrar de que forma estas característicasfisi- na Terra, de massa muito menor, ao passarem em órbita
cas trazem informações sobre a própria estrutura interna próxima.
do planeta.
Além disso, como o campo gravitacionalé isotrópico,
as forças de atração tendem a aglutinar massa em corpos
4.1 O que é a Gravidade? esféricos.Esta característicaexplica a forma aproximada-
mente esférica do Sol e dos planetas que compõem o
Embora os estudos empíricos sobre o movimento
Sistema Solar, os quais foram formados a partir de uma
de queda livre tenham sido iniciados e publicados por
nuvem de gás e poeira interestelares, há 4,6 bilhões de
Galileu no final do século XVI, a formulação da teoria
anos, durante o processo de acresção (Cap. 1).
da gravitação universal só ocorreu praticamente um sé-
culo depois, quando Newton publicou os seus estudos Como a Terra executa um movimento de rotação
no ano de 1687. Nessa época, o conhecimento de que a ao redor de si mesma com um período de 24 horas,
Terra possui forma aproximadamente esférica já estava qualquer ponto do seu interior ou de sua superficie
totalmente difundido, visto que em 1522 Magalhães ha- sofre o efeito da aceleração centrífuga dada pela ex-
via concluído a primeira viagem de circunavegação. pressão:

A gravitação é uma propriedade fundamental da


ac = ú)zr (4.3)
matéria, manifestando-se em qualquer escala de grande-
za, desde a atômica até a cósmica. Os fenômenos na qual ú) = 2n/T é a velocidade angular de rotação,
gravitacionais são descritos pela lei de Newton, na qual T é o período de rotação e r é a distância ao eixo de
duas massas esféricas 11\ e mz, com densidades unifor- rotação. Como a aceleração centrífuga é dirigida per-
- Ação do vento solar sobre as linhas de força do campo geomagnético.
--~",'--~-'-' ,

pendicularmente ao eixo de rotação, os únicos locais componente ag, diminuindo gradualmente em dire-
onde não há aceleração centrífuga (ac= O)são aqueles ção ao Equador, onde atinge o valor mínimo. Como
situados sobre o eixo de rotação, ou seja nos pólos. pode ser observado na Fig. 4.1, a direção de g só
Todos os outros pontos da Terra sofrem uma acele- coincide com aquela do componente gravitacional ag
ração centrífuga cuja intensidade é diretamente nos pólos e no Equador, sendo que nas demais latitu-
proporcional à distância do eixo de rotação, atingindo des ela não é radial.
valores máximos na linha do Equador, como pode
ser observado na Fig. 4.1. 4.2 Medindo a Gravidade
Através da medida do campo da gravidade da Terra
c-t foram obtidas importantes informações sobre o seu in-
terior, determinando-se também diversas de suas
~E
OQ<; ao características,como sua forma e interações com outros
c.',
.21~ corpos do Sistema Solar.
~<D
Como vimos anteriormente, o campo da gravidade
associa a cada ponto da superfície terrestre um vetar de
aceleração da gravidade g. Esse vetar caracteriza-se por
Rajp
equatOrial
sua intensidade, denominada gravidade, e por sua dire-
6378 km ção, denominada vertical.A gravidade é medida por meio
de gravímetros, enquanto a vertical é obtida por méto-
dos astronômicos. Em gravimetria, em homenagem a
Galileu, utiliza-se como unidade de aceleração o Gal (ver
tabela de unidades no final do livro).
Dois tipos de gravímetros podem ser utilizados em
medidas da gravidade. Os gravímetros absolutos (Fig.
4:..- 4.2) medem diretamente a intensidade da aceleração da
gtaVídade em um dado ponto, sendo os do tipo queda
Fig.4.1 Aaceleração da gravidade varia de ponto para ponto
sobre a superfície terrestre. A Terra é achatada nos pólos e
executamovimentode rotação, portanto a aceleração da gra-
vidade em um dado local resulta da soma vetorial das
acelerações gravitacional a9 e da centrífuga ac' A direção da
aceleração da gravidade g não é radial e sua intensidade atin-
ge valoresmáximosnos pólos e mínimos na região equatorial.

A soma vetorial da aceleração gravitacional e da


aceleraçãocentrífuga é denominada aceleração da gra-
vidade (Fig. 4.1) ou simplesmente gravidade.
g = ag+a c (4.4)

Tanto a direção como a intensidade de g variam


conforme a posição sobre a superfície terrestre. Em-
bora o componente gravitacional ag possua intensidade
aproximadamente constante, sua direção é variável,
sendo praticamente radial e apontando para o centro
da Terra. Já o componente centrífugo ac tem direção
sempre p-erpendicular ao eixo de rotação terrestre, mas
sua intensidade varia em função da latitude. Desta for- Fig. 4.2 Experimento realizado em Valinhos (SP)para a medi-
ma, a intensidade de g é máxima nos pólos e igual ao da da gravidade utilizando um gravímetro absoluto.
66

livre (que se baseiam na medida do tempo de percurso Como a diferença entre os raios equatorial e po-
de um corpo em queda livre) os mais utilizados atual- lar é relativamente pequena (21 km), em comparação
mente. Como são de difícil transporte, ficam instalados com as dimensões da Terra, seu achatamento é mui-
em laboratórios. Por outro lado, os gravimetros diferen- to pequeno, sendo de 1/298,247, quando calculado
ciais são basicamente balanças de mola que determinam precisamente. Portanto, em primeira aproximação, po-
com precisão o peso de uma massa de valor constante, demos considerar que a Terra é esférica.
cuja variação é causada por diferenças no valor de g.
A atração gravitacional mantém a Terra, os outros
Este tipo de gravimetro mede a diferença de gravidade
planetas do Sistema Solar e o próprio Sol coesos.
entre dois pontos distintos, e nos casos em que o valor
Entretanto, contrariamente ao que ocorre na Terra,
em um dos pontos é conhecido, pode-se determinar a
nem todos os planetas possuem achatamento tão pe-
gravidade no outro.
queno. Por exemplo,júpiter apresenta um achatamento
Em levantamentos gravimétricos de detalhe é ne- polar (1/15) bem mais acentuado. Mesmo assim, esse
cessário medir pequenas variações da gravidade, achatamento é pouco perceptível em fotografia. Para
causadas por estruturas ou corpos localizados na sub- se ter uma idéia, para um raio equatorial de 1° cm, o
superfície, requerendo, uma sensibilidade instrumental raio polar seria de 9,3 cm. júpiter efetua um rápido
da ordem de 0,01 mGal. Para essa finalidade sãoge- movimentQ de rotação (período de cerca de 1° ho-
ralmente utilizados gmvimetros. diferenciais, que ras) e possui também elevadas dimensões (raio
possuem maior sensibilidade do que os absolutos. equatorial de 71.600 km), implicando grandes distân-
Nesses gravímetros é possível medir, por exemplo, cias de pontos localizados em sua superfície em relação
variações do valor de g quando o instrumento é colo- ao eixo de rotação. Estes dois fatores fazem com que
cado sobre uma mesa ou sobre o assoalho de um a aceleração centrífuga no bojo equatorial de júpiter
mesmo local. Entretanto, como sofrem deriva, isto é, seja muito maior do que a equivalente na superfície
diferenças temporais nas medidas devido a mudanças terrestre, provocando assim um maior achatamento.
nas propriedades elásticas de seus componentes, esses O achatamento terrestre forneceu informações
gravimetros devem ser aferidos em locais cuja gravi-
fundamentais para o conhecimento do interior do
dade é conhecida, antes de se iniciar a aquisição de um
nosso planeta. Com a suposição de que a Terra possui
novo conjunto de medidas. Como isso nem sempre é
densidade constante e é constituída por um fluido em
possível, costuma-se ao final de cada dia de trabalho
perfeito equilibrio hidrostático, Newton calculou um
retornar ao ponto da primeira medida e efetuar nova achatamento de 1/230. Com os conhecimentos atuais
leitura. Dessa forma, determina-se a deriva do instru-
sobre a velocidade de rotação da Terra e de suas di-
mento durante o período, para posteriores correções.
mensões, o achatamento polar teórico é de 1/299,5,
bastante próximo do valor aceito hoje, obtido por
4.3 A Forma da Terra meio da observação precisa das órbitas de satélites
artificiais.
Como a intensidade de g é maior nos pólos do
Esse resultado indica que grande parte do interior
que no Equador, a Terra não possui forma totalmen-
da Terra comporta-se como um fluido. A princípio,
te esférica, sendo que o seu raio equatorial (6.378 km)
isto parece contraditório, tendo em vista os resultados
é ligeiramente maior do que o raio polar (6.357 km).
obtidos pela Sismologia, que indicam que a crosta,
Portanto, a Terra possui a forma de um esferóide
manto terrestre e núcleo interno são sólidos. A expli-
achatado nos pólos e isto explica, por exemplo, por-
cação para esse fato é que as rochas do manto terrestre
que um objeto é levemente mais pesado nos pólos do
comportam-se como um sólido elástico em curtos
que no Equador. O grau de deformação do esferóide
intervalos de tempo (segundos), durante a passagem
é medido pelo seu achatamento, definido como sen-
das ondas sísmicas por exemplo, e como um fluido
do a diferença relativa entre os raios equatorial e polar
viscoso na escala do tempo geológico (milhões de
do esferóide, conforme a expressão:
anos). Considerando que a Terra formou-se há 4,6
a-c
f= (4.5) bilhões de anos, houve tempo suficiente para ocorrer
a deformação plástica das rochas que compõem o man-
to terrestre, originando assim, seu achatamento devido
na qual a é o raio equatorial, c é o raio polar e f é o
achatamento. ao movimento de rotação.
r
Capítulo 4 . Investigando o Interior da Terra 67

4.4 Interpretando Anomalias que corresponde à média da crosta continental. A corre-


Gravimétricas ção Bouguer é aplicada conjuntamente com a de altitude
(ar-livre), restando apenas o efeito devido à atração dos
materiais situados abaixo do nível do mar.
Na superfície terrestre, o valor médio da gravidade é
de aproximadamente 9,80 mJs2 ou 980 Gal. Devido ao Em regiões muito acidentadas, é efetuada uma ter-
momento de rotação e ao achatamento na região po- ceira correção, denominada correção de terreno, que
lar, o valor da gravidade diminui cerca de 5,3 Gal dos leva em conta as feições topográficas de uma área. Em
pólos ao Equador, o que representa uma variação em geral, como seus valores não ultrapassam algumas deze-
torno de 0,5%. Além disso, a atração exercida pela Lua e nas de mGa!, são aplicadas somente nos levantamentos
pelo Sol, bem como as diferenças de altitude entre os de detalhe. Em áreas oceânicas, onde as medidas são
pontos de medida causam alteração no valor da gravi- realizadas no nível do mar, costuma-se efetuar apenas
dade. Como todas essas variações se superpõem, torna-se correções ar-livre, enquanto em áreas continentais utiliza-
necessário quantificá-Ias e eliminá-Ias ao máximo para, se também a correção Bouguer.
então, estudar aquelas variações causadas por diferenças
Se o interior da Terra fosse uniforme, os valores pre-
na composição e estrutura da crosta ou do manto supe-
rior da Terra. visto e medido da gravidade seriam iguais, após todas
essas correções. Entretanto, como existem importantes
A maior variação no valor de g é a latitudinal, causa- variações laterais e verticais nas rochas que compõem o
da pela rotação e achatamento terrestres. O valor teórico interior da Terra, esses valores são geralmente distintos.
da gravidade y ao nível do mar é descrito pela Fórmula A diferença entre o valor medido e o previsto é chama-
Internacional da Gravidade, estabelecida em 1980 como: da de anomalia de gravidade. Dependendo da correção
y(~)=978,0318(1 +O,OO53024sed~-0,OOOOO587sen22~)Gal (4.6) aplicada, a anomalia recebe o nome de anomalia ar-livre
ou de anomalia Bouguer.
na qual ~ é a latitude sobre um ponto do elipsóide de
As anomalias gravimétricas resultam de variações na
referência, cuja superficie é a que melhor se ajusta à for-
densidade dos diferentes materiais que constituem o inte-
ma da Terra.
rior da Terra. Os contrastes de densidade entre diferentes
As variações da gravidade devido à ação da Lua e do tipos de rochas modificam a massa e causam, conseqüen-
Sol (efeitos de maré) são descritas por meio de tabelas temente, mudanças nos valores da gravidade (Fig. 4.3).
publicadas periodicamente. As variações causadas por di-
ferençasde altitude, devido à topografia do terreno, também
Peridotitos
podem ser eliminadas através de duas correções, denomi-
nadas correção ar-livre e correção Bouguer. Esta última Basaltos
deve seu nome a uma homenagem a Pierre Bouguer por
Gnaisses
seus estudos, no século XVIII, sobre a força de atração I
.
,
gravitacional exercida pela Terra. Granulitos :+-:
:2,63 :
A correção de ar-livre é aplicada para eliminar o efei- Granitos ~:
~I
to causado pela diferença de altitude entre o ponto de II 2,66 II

observação e o nível do mar (Equação 4.6) no valor da Calciirios -H-


:2.63
:
gravidade. Esta correção é dada por 0,03086 x h mGa!, FoIhelhos .4...
onde h é a altitude em metros, e deve ser somada ao
valor medido, já que a gravidade diminui com a altitude. Arenitos

Como existem massas rochosas entre o ponto de Crosta Continental

medidae o nível do mar, em áreas continentais, aplica-se Crosta Oceânica


a correçãoBouguer para eliminar o efeito gravitacional 1.5 2.0 2.5 3.0 glcm3
dessaporção crustal, sendo conveniente conhecer a sua
Fig. 4.3 Intervalos de variação da densidade de algumas ro-
densidadecom a melhor exatidão possível. A correção
chas freqüentemente encontradas na superfície terrestre e
de Bougueré dada por -0,0419 x p mGa! por metro de
densidades médias para essas mesmas rochas. Atí1ulode com-
altitude,em que p é a densidade em g/ cm3. Quando paração, encontram-se também representados os valores
esse parâmetro é desconhecido, utiliza-se 2,67 g/ cm3, médios da crosta continental e da crosta oceânica.

~
Nas anomalias negativas de gravidade, os valo- posição de matéria orgânica, que pode originar pe-
res medidos são menores do que os previstos, após tróleo, essas anomalias podem indicar áreas
todas as correções, sendo causadas por rochas com potencialmente favoráveis à prospecção.
densidade relativamente baixa ou sedimentos loca-
Anomalias positivas de gravidade'ocorrem quan-
lizados na sub-superfície, em contato com outras
rochas de maior densidade existentes no substrato. do os valores de gravidade medidos são maiores
do que os previstos e são causados pela presença
Por exemplo, anomalias negativas são encontradas
de materiais com alta densidade na superfície ou
em cadeias montanhosas (que possuem raízes pro-
em profundidade. Assim, locais onde ocorrem ro-
fundas constituídas por rochas com densidade chas com alta densidade são caracterizados por
relativamente baixa), ou ainda associadas à presen-
apresentarem anomalias positivas. Na região meri-
ça de corpos rochosos intrusivos de baixa dional do Brasil há uma anomalia dessa natureza
densidade (Fig. 4.4).
(Fig. 4.5), causada por uma das maiores manifesta-
ções de vulcanismo basáltico do planeta, que
37'3D'W
originou, há aproximadamente 130 Ma, a Forma-

9
ção Serra Geral da Bacia do Paraná.

1-
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sedimento
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Bacia do Paraná
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~ ~,)I
J
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5km

" !II
II, I
5kml 9 Anomalia positiva
de gravidade
Fig. 4.4 Anomalia de gravidade causada pelo granito Tourão
(situado no Estado do Rio Grande do Norte, Brasil). O perfil A-B, A
indicado no mapa, mostra uma acentuada queda no valor de gra-
vidade que coincide com o setor de maior profundidade do
kmt- a .baslc as
-..:-m--= - vTI\Cãmcas
... . .~.- _.
- --
rochas
-
.

granito, menos denso que as rochas encaixantes. Note que a ~


.. .

extensão horizontal do corpo intrusivo (- 50 km) é cerca de dez 20 - sedimentares


II J vezes maior que a sua profundidade máxima (- 5 km).Cortesia
I

crosta
I de R.I.F.Trindade.
40
~- ""'"
Il1@t,psuperior

Fig. 4.5 Anomalias positivas de gravidade podem ser causa-


As anomalias negativas são geradas também pela das pela presença de rochas de alta densidade próximasda
presença de domos de sal de baixa densidade, for- superfície. Na Bacia do Paraná, onde houve a extrusãode uma
mados pela evaporação da água de antigos mares grande quantidade de magmas básicos, observa-se uma pro-
rasos. Como este ambiente é propício para a de- nunciada anomalia positivade gravidade.
Depósitos de minerais metálicos de alta densi- 4.5 O Princípio da Isostasia
dade localizados em sub-superfície podem também
ser identificados em levantamentos gravimétricos Entre 1735 e 1745 foi realizada uma expedição
de detalhe, por produzirem anomalias positivas de francesa para o Peru, liderada por P. Bouguer, com
gravidade. o objetivo de determinar a forma da Terra. Nessa
viagem, Bouguer notou que as montanhas da Cor-
A representação de anomalias gravimétricas é dilheira dos Andes exerciam uma força de atração
feita por meio de mapas de curvas iso-anômalas,
gravitacional menor do que a esperada para o res-
cujas linhas unem pontos com os mesmos valores
pectivo volume. Cerca de um século mais tarde, G.
de anomalia. Nesses mapas (Fig. 4.6) ocorrem al- Everest fez a mesma observação nos Himalaias,
tos e baixos gravimétricos causados por diferenças
durante uma expedição à Índia. Na época, foi
na densidade dos materiais que ocorrem na crosta
sugerida a hipótese de que as montanhas teriam
e no manto superior. As anomalias que possuem
menor massa do que as áreas adjacentes; não havia,
dimensões de até dezenas de quilômetros são de-
entretanto, uma explicação geológica razoável para
nominadas anomalias locais, e são geralmente
esse tipo de fenômeno comum.
associadas a corpos rochosos relativamente peque-
nos, com densidade anômala, localizados próximos A explicação viria em 1855, quando J. H. Pratt e
da superfície (na crosta superior). Por outro lado, G. Airy propuseram, independentemente, hipóte-
as anomalias regionais possuem dimensões de até ses para explicar essas observações, e em 1889 o
milhares de quilômetros e são, em geral, associadas termo isostasia foi utilizado para denominar o me-
a feições de grande escala. Por exemplo, os altos canismo que as explica. De acordo com o conceito
gravimétricos de escala regional que ocorrem em de isostasia, há uma deficiência de massa abaixo
bacias oceânicas profundas são causados pela pro- das rochas da cordilheira aproximadamente igual à
ximidade das rochas do manto, uma vez que a crosta massa das próprias montanhas.
oceânica é pouco espessa (6 a 7 km).

-80' -75' -70' -65' -60' -55' -50' -45' -40' -35" -30'
5' 5' mGal
60
40
O' O"
20
O
-S' -5' -20
-40
-60
-10' -10" -80
-100
-120
-15' -15' -140
-160
-180
-20' -20" -200
-220
-240
-25' -25" -260
-280
-300
-30' -30' -320
-340
-360
-35' -35' -380
-80" -75" -70" -65" -60' -55" -50" -45" -40' -35' -30'
Rg. 4.6 Mapa de anomalias Bouguer do Brasil e áreas adjacentes. O intervalo das linhas de contorno é de 20 mGal. Fonte: Sá et aI. 1993.
70 D EC I FRA N D O A T E RRA

o conceito de isostasia baseia-se no princípio


de equilíbrio hidrostático de Arquimedes, no qual lâmina
nível do
um corpo ao flutuar desloca uma massa de água mar d'água
equivalente à sua própria. Nesse caso, uma cadeia S'i.~~..

montanhosa poderia comportar-se como uma ro- + +,.jo


lha flutuando na água. De acordo com este
~\.~~
x x'"
. +
+
x + +-~
princípio, a camada superficial da Terra relativamen- x x
+ v v
te rígida flutua sobre um substrato mais denso. + + v v

Sabemos hoje que essa camada corresponde à cros-


ta e parte do manto superior, que integram a
litosfera. O substrato denso é denominado
astenosfera (Cap. 5), comportando-se como um
fluido viscoso, no qual ocorrem deformações plás-
ticas na escala do tempo geológico. O equilíbrio
isostático é atingido quando um acúmulo de carga --'-
ou perda de massa existente na parte emersa é
contrabalançada, respectivamente, por uma perda Fig. 4.8 Ilustração do modelo de compensação isostática
de massa ou acúmulo de carga na parte submersa. de Pratt. A camada superior rígida é composta por blocos
de igual profundidade, mas com densidades diferentes e I
Nas duas hipóteses de compensação isostática, menores do que aquela do substrato plástico. A condição
a superfície terrestre é considerada suficientemente de equilíbrio isostático é atingida .pela variação da densi-
rígida para preservar as feições topográficas e me- dade, de modo que as rochas sob as cadeias montanhosas
nos densa do que o substrato plástico. No modelo são menos densas, enquanto as das bacias oceânicas são
mais densas.
de Airy, as montanhas são mais altas por possuí-
rem raízes profundas, da mesma forma que um
imenso bloco de gelo flutuando no mar (Fig. 4.7).

nível do
Sabemos hoje que os dois modos de compen-
sação isostática ocorrem na natureza. As montanhas
são mais altas, pois se projetam para as partes mais
profundas do manto, conforme informações obti-
das através da Sismologia. Por outro lado, os
continentes situam-se acima do nível do mar devi-
do às diferenças de composição e densidade
(Fig. 4.3) entre crosta continental e a crosta oceâni-
ca (Fig. 4.9). Mesmo após ter sofrido intemperismo
e erosão intensos no decorrer do tempo geológi-

--- JJ co, a crosta continental situa-se acima do nível do


mar devido à isostasia, pois à medida que a erosão
remove as camadas mais superficiais, ocorre lento
Fig. 4.7 Ilustração do modelo de compensação isostática
de Airy. A camada superior rígida possui densidade cons- soerguimento. Portanto, rochas originadas em pro-
tante mas inferior àquela do substrato plástico. A condição fundidades maiores acabam atingindo níveis
de equilíbrio isostático é atingida pela variação da espes- superficiais. Uma confirmação desse fato é a ocor-
sura da camada superior, de modo que as montanhas têm rência de rochas metamórficas, formadas em condições
raízes profundas. de alta pressão e temperatura, compatíveis com as exis-
Por outro lado, no modelo de Pratt, as monta- tentes na base da crosta continental e que hoje
nhas são elevadas por serem compostas por rochas encontram-se expostas em várias regiões do planeta.
de menor densidade do que as existentes nas regiões No Brasil, estas rochas (granulitos) são vistas, por exem-
vizinhas (Fig. 4.8), havendo neste caso diferenças late- plo, em vários pontos do Estado da Bahia (Cráton do
rais na densidade. São Francisco).
r Capítulo 4 . Investigando o Interior da Terra 71

crosta crosta o processo oposto, soerguimento, resulta da


continental oceânica
remoção de uma carga existente na superfície da
crosta, como nos casos do degelo de calotas glaci-
ais ou da erosão intensa de áreas montanhosas. A
litosfera [
Escandinávia, por exemplo, encontra-se em fase de
manto soerguimento (de até lcm/ano), retornando ao
[ equilíbrio isostático, devido ao desaparecimento do
gelo que ali existia há cerca de 10.000 anos. Esse
Fig. 4.9 Os dois modelos de compensação isostática ope- movimento persistirá até que o equilíbrio isostático
ram simultaneamente. As montanhas possuem raizes profundas,
seja totalmente atingido. Nessas situações, a falta
compostas por rochas com densidade relativamente baixa, fa-
de equiHbrio isostático pode ser revelada pela pre-
zendo com que a crosta e a litosfera sejam mais espessas nessas
sença de anomalias de gravidade (Fig. 4.10).
regiões, conforme previsto no modelo de Airy. Por outro lado,
a crosta oceânica situa-se em níveis topográficos mais baixos
do que a crosta continental, devido à sua maior densidade, 4.6 A Terra como um Imenso Ímã
conforme previsto no modelo de Pratt.
Hoje estamos absolutamente familiarizados com
Em geral, a litosfera suporta grandes esforços sem o magnet;ismo terrestre através do uso da bússola para
sofrer deformação. Entretanto, em algumas situações orientação. Este instrumento nada mais é dn que uma
geológicas, uma carga muito elevada pode ser adicio- agulha imantada, livre para girar no plano horizontal,
nada ou removida da litosfera, deformando-a. sendo atraída pelos pólos magnéticos da Terra. Des-
Podemos citar como exemplo a adição de massa cau- de há séculos, esta propriedade física da Terra é
sada pelo extravasamento de grandes quantidades de conhecida e tem-se relatos de que a bússola já era usa-
basaltos em províncias ígneas, pela sedimentação ou da por volta de 1100 d.e. pelos chineses, a quem é
pela formação de calotas de gelo. Essa massa adicio- atribuída sua descoberta. Evidentemente, a forma da
nal faz com que a litosfera entre em subsidência, para bússola era muito diferente da atual: uma coleção de
que o equiHbrio isostático seja atingido. Atualmente, contos persas escritos em 1232 descreve uma folha de
na Groenlândia, está ocorrendo um processo desse ferro em forma de peixe usada como bússola dez
tipo, devido ao peso da espessa camada de gelo da anos antes ou, como relatado por escritores árabes,
sua superfície, de modo que suas rochas encontram- uma agulha magnetizada flutuava em água apoiada em
se abaixo do nível do mar. madeira ou junco.

,; ,.- - - - - - ... gravidade


- - - - - - - -.'" ,-:::-.~ .~. ':'."':'
.-'...- - - - - - - -
- - - - - - .,.:: . . . , . . . . , . , . . . . ~ .',- - -- - --
(b)
(a) carga

- - - - - -
Fig. 4.10 Movimentos verticais da litosfera causados pela ,. '. . . . . . . . . . . . . , . . ". /
. \000
-- - - - -

adição (a) e remoção (c)de uma carga (calota de gelo, sedi- (c)
mentos,derrames de basaltos, ele.) na sua superfície. A linha
pontilhadarefere-seao valor da gravidade antes da adição ou
remoção da carga (situação de equilíbrio isostático). A linha
tracejada indicacomo a gravidade varia com a adição ou re-
moção da carga quando ainda não ocorreu a compensação
isostática,como ilustrado em (a) e (c).

~
Mas as primeiras investigações sobre o fenômeno do dessa esfera é semelhante à de um ímã de barra que cha-
magnetismo só tiveram início em 1269 com as experiên- mamos de dipolo. Podemos então imaginar a Terra como
cias de Petrus Peregrinus de Maricourt. Ele esculpiu uma esfera, no centro da qual existe um dipolo ou ímã de
magnetita (mineral magnético de óxido de ferro) numa barra (Fig. 4.11). O eixo do dipolo geocêntrico está pró-
forma esférica, da qual aproximava pequenos ímãs. De- ximo do eixo de rotação da Terra e faz com ele um ângulo
senhou sobre a superfície esférica as direções indicadas de cerca de 11,5°. Por esta razão, a agulha de uma bússola,
por eles, obtendo linhas que circundavam a esfera e inter- em geral, não aponta para o norte mas sua direção faz
ceptavam-se em dois pontos, da mesma forma que as
linhas da longitude sobre a Terra interceptam-se nos pó-
los. Por analogia, ele denominou esses pontos de pólos
do ímã. Na Inglaterra, William Gilbert repetiu e ampliou
tais experiências, reunindo todo o conhecimento de até
então sobre magnetismo no tratado De Magnete,publica-
do em 1600. A partir das semelhanças no comportamento
magnético com a magnetita esférica, ele reconheceu que a
própria Terra era um imenso ímã.

Mas foi apenas depois de 1838 que se pôde conhecer


melhor a distribuição do campo magnético terrestre, quan-
do Carl Friedrich Gauss começou a fazer medidas
sistemáticas da intensidade do campo geomagnético. Atra-
vés de análise matemática, mostrou que 95% do campo
magnético da Terra originam-se no seu interior e somente
uma pequena parte restante provém de fontes externas.

Por outro lado, a conclusão de Gilbert de que o cam-


po magnético da Terra é semelhante ao da esfera de
Fig.4.11 O campo magnético terrestre é equivalente ao cam-
magnetita equivale a dizer que a Terra é uma esfera unifor-
po de um dipolo, cujo eixo faz um ângulo de 11,5° com o eixo
memente magnetizada. A forma do campo magnético
de rotação da Terra e está um pouco afastado de seu centro.

60°

30°

-30°

-60°

-180° -120° -60° 0° 60° 120° 180°

Fig.4.12 Mapa de declinação magnética indicando a posição dos pólos e a linha de declinação zero. Fonte Langel et 01., 1980.
r Capítulo 4 . Investigando o Interior da Terra 73

a unidade gamma - y que equivale 1 nT; (ver tabela de


um ângulo com a direção norte-sul, fato este já conhecido
dos grandes navegantes desde o século XVI. Esse ângulo unidades no final do livro). Isto corresponde a um
de desvio da agulha é a declinação magnética. campo centenas de vezes mais fraco do que o campo
entre os pólos de um ímã de brinquedo. A intensidade
A agulha da bússola desvia do norte geográfico
varia conforme a região considerada sobre a superfí-
para Leste ou para Oeste segundo um ângulo que
cie da Terra, sendo menor próximo ao Equador e
dependerá do local onde se encontra o observador
maior em direção aos pólos (60.000 nT no pólo mag-
em relação aos pólos geográfico e magnético. Desta
nético norte e 70.000 nT no pólo magnético sul), como
forma, se o ponto de observação e esses pólos estive-
pode ser observado na Fig. 4.13.
rem alinhados sobre o mesmo meridiano, então a
declinação será zero. Se o eixo do dipolo coincidisse Uma agulha imantada livre para girar em torno de
com o eixo geográfico, não haveria declinação (Fig. um eixo horizontal não permanece na horizontal. Ela
4.12). Somente nos pontos correspondentes à linha de acompanha as linhas de força do campo magnético
declinação zero (ou linha agônica) da Fig. 4.12 é que a (Fig. 4.11), de tal forma que a extremidade norte da
agulha indicará o norte geográfico verdadeiro. agulha inclina-se para baixo no hemisfério Norte e,
para cima no hemisfério Sul. O ângulo que a agulha
Entretanto, o campo magnético da Terra não é
faz com o plano horizontal é chamado de inclinação
um dipolo perfeito e cerca de 5% desse campo é irre-
magnética. Sobre os pólos magnéticos a agulha co-
gular,ou seja, não-dipolar. A conjugação desses dois
loca-se na posição vertical e portanto a inclinação é de
campos provoca desvios nas linhas de declinação
90°. Em pontos intermediários, o ângulo de inclina-
magnética,bem como em todas as linhas de força do
ção varia até chegar a zero no equador magnético, onde
campomagnético terrestre, pois o campo não-dipolar
as linhas de força são paralelas à superfície. Os pólos
é diferente para cada região da superfície da Terra,
magnéticos estão localizados a aproximadamente 78°N
resultandonuma distribuição de intensidades (Fig.4.13)
104°We 65°S 139°E, portanto não são diametralmente
diferentedaquela esperada para um campo dipolar.
simétricos, afastando-se cerca de 2.300 km do
A intensidade do campo geomagnético é muito antípoda. Desta forma, a melhor representação do
fraca,cerca de 50.000 x 10-9T ou 50.000 nT (T repre- campo magnético terrestre é a de um dipolo cujo eixo
sentaTesla que é a unidade de indução magnética no está deslocado em relação ao centro da Terra de 490
SistemaInternacional; correntemente usa-se também km. Este dipolo é chamado dipolo excêntrico.

60.

3D.

O'

23

-60.

-180. -120. -60. O' 60. 120. 180.


Fig.4.13 Mapa de intensidade total do campo geomagnético em milhres de nT.
74 D EC I F RA N D O A T E RRA

Os pólos magnéticos migram a uma velocidade de vetorialmente num sistema de eixos ortogonais conveni-
cerca de 0,2° por ano ao redor do pólo geográfico (Fig. entemente escolhidos, como mostra a Fig. 4.15. O eixox
4.14), em geral sem se afastar mais do que 30° deste tem direção norte-sul, y tem direção leste-oeste e o eixo
último, porém descrevendo uma trajetória irregular. As- vertical z é tomado com sentido positivo para baixo. O
sim é que a declinação magnética de um local muda ângulo de declinação D é o ângulo entre o meridiano
continuamente, aumentando ou diminuindo. Torna-se magnético que passa pelo ponto considerado e a dire-
então necessário corrigir o valor de declinação conheci- ção norte-sul. A inclinação magnética I é o ângulo que o
do para um determinado ponto da superfície terrestre a vetor campo magnético total F faz com o plano hori-
cada cinco anos aproximadamente. Como se pode de- zontJ J\- X
,.Aer'<> .
duzir facilmente, os pólos magnéticos levam alguns
milhares de anos para percorrer os 360° de trajetória ao ~t
redor dos pólos geográficos. D__1.

I
y
I
I
I
II
I
I
I
J
z I
J
\...................................
J
I

z (vertical)
Fig. 4.15 Representação vetorial do campo geomagnético.
Os eixos x e y coincidem com as direções geográficas e o eixo
z tem sentido positivo em direção ao centro da Terra. Os ân-
gulos D e I são, respectivamente, o declinação e inclinação
magnéticas.

Como é visto na Fig. 4.15, os componentes do


Fig. 4.14 Movimento do pólo magnético norte ao redor do campo geomagnético relacionam-se através das equa-
pólogeográficoduranteo períodocompreendidoentreapro- ções abaixo:
2 2%
ximadamente 69.000 e 45.500 anos atrás, como registrado
F=(H+Z) (4.7) ou
em rochas sedimentares do Japão. Fonte: Dawson e Newitt, 2 2 2 'I,
1982. F=(X+Y+Z) (4.8)

D=arctg G-) (4.9) e


Não só a direção, mas também a intensidade do cam- I=arctg (~) (4.1O)
po geomagnético variam com períodos muito lentos e,
por isso, o conjunto dessas variações recebe o nome de 4.8 A Magnetosfera
variação secular.A origem da variação secular é interna
Apesar de fraco, o campo geomagnético ocupa um
à Terra e deve-se aos processos geradores do campo
volume muito grande, com suas linhas de força esten-
geomagnético que ocorrem no núcleo da Terra.
dendo-se a distâncias de 10 a 13 raios terrestres (vide
, seção 4.3). A região ocupada pelo campo magnético
4.7 Representação Vetorial terrestre recebe o nome de magnetosfera (Fig.4.16). É
do Campo Magnético uma região com forma característica,assimétrica em re-
lação à Terra, assemelhando-se a uma gota com cauda
Uma vez que o campo magnético terrestre não é extremamente comprida. Essa forma particular é con-
constante no espaço, variando tanto em direção como seqüência principalmente do chamado vento solar, que
em intensidade, torna-se necessário representá-Io será explicado a seguir.
r
I
Capítulo 4

mente
. Investigando o Interior da Terra

à superfície da Terra, as partículas penetram facil-


75

mente até a atmosfera superior ou ionosfera inferior


e (60 km a 100 km de altitude), porque são conduzidas
~-J.
.,° pelas próprias linhas de campo.
~
Vento .:I; ~ A ionosfera corresponde à camada mais externa da
Solar atmosfera terrestre (Fig. 4.17) e se caracteriza por ser uma
,fi
u,
fiII camada eletricamente condutora, constituída por íons e
.... outras partículas carregadas (elétrons e prótons). Por essa
S
razão, ela é utilizada na radiocomunicação, propagando
/ e refletindo ondas de rádio. Quando essa camada é inva-
h~
Cauda geomagnética dida por um fluxo de radiação solar mais intenso, sua
condutividade elétrica é alterada, podendo causar inter-
rupções na comunicação de rádio.
Fig.4.16 Representaçãoesquemática da magnetosfera e ação
doventosolarsobreas linhasde força do campo geomagnético.
700
Observações com equipamentos a Satélites
metereológicos
bordo de naves espaciais levaram à con-
clusão de que o espaço entre o Sol e a 600
107

Terra não é um vácuo quase perfeito


como se acreditava, mas está preenchido
10
por um gás ionizado constituído de par- 500
",

tículascom diferentes energias (núcleos de


Auroras boreais e austrais
átomos, principalmente de hidrogênio e 10 '
elétrons), que são emitidas pelo Sol e por 400
isso chamado de vento solar. O vento
solar flui a uma velocidade de cerca de 10'"
TERMOSFERA

300 a 500 km/s; próximo da Terra exer- 300


,
10
ce uma pressão sobre o campo ... AÊ AE
'" tb 10'''. u
Ê ..Q
magnético, comprimindo-o. No lado da
Terra que não está sendo iluminado pelo
=-
.,
'C 200
-E
O
..,
10'
~
=-
.,
-g
(;j
'"
"5
u
..,
Sol,isto é, no lado noite, as linhas de for- ~
<i:
fi)
fi)
I!!
"CI
'éij ..
C 10 .
Õ
., :!! 10
ça do campo não sofrem essa pressão e 11. 10'" C
4
10 '
estendem-se a distâncias que 100
10 ~

correspondem a mais de 2.000 vezes o 90 10"

raio da Terra, chegando a atingir a Lua. 10 '


8Q 10 -'2

10".
O campo magnético terrestre desem- 70
10'"
10 '!
penha um papel importante como 60
10 ". <t
blindagem, impedindo que as partículas 50 10.:t.
'"
w
u.
'"
solares mais energéticas atinjam a superfí- 40
O
z
O
cie terrestre, causando danos à biosfera. 10 "-. N
10
O
30
Quando ocorrem erupções solares, há
20
emissão de grande quantidade de partí- 100 10
10
culas de alta velocidade, que alcançam a
1000
Terra em algumas dezenas de minutos. .100 -80 ~o -40 -20 O 20 40
Temperatura ('c)
Parte dessa radiação é bloqueada pelo
campo geomagnético e não atinge a at- Fig. 4.17 Desenho esquemático das camadas que compõem a atmosfera,
mosfera. Entretanto, nas regiões polares, ilustrando a propagação e reflexão de ondas eletromagnéticas utilizadas na
onde as linhas de força do campo radiocomunicação. A linha vermelha representa a variação de temperatura
geomagnético colocam-se perpendicular- na Ozonosfera e na lonosfera. Fonte: A. Miller, 1972.

1
76 D E C I F RA N D O A T E R RA

Uma tempestade magnética ocorre em geral um


4.9 Por que o Campo Magnético é
dia após o aparecimento das chamas solares, que
Variável?
são emissões luminosas de grandes proporções da
o efeito da atividade solar é sentido pela mag- região mais externa do Sol (a cromosfera). Por
ocasião desses fenômenos, o Sol emite não só radi-
netosfera continuamente, sendo que o lado da Terra
iluminado pelo Sol (lado dia) é o lado que sofre as ação de onda visível, mas também um fluxo
perturbações. O lado noite, em geral, não é afeta- corpuscular que viaja com velocidade de 1000 km/s e
do. Dependendo da intensidade da atividade solar, atinge toda a Terra causando distúrbios magnéti-
faz-se a distinção entre dias magneticamente cal- cos. As tempestades são freqüentes e podem
ocorrer até várias vezes durante um mesmo mês.
mos e dias ativos ou perturbados (Fig. 4.18). A
Têm início repentino e seus efeitos são sentidos
magnitude das variações geomagnéticas regulares
durante um dia ou vários dias. Uma vez que as tem-
(dias calmos) é somente cerca de 1/1.000 da inten-
sidade do campo geomagnético total. Em pestades causam interferência na comunicação de
determinados dias, contudo, ocorrem grandes per- rádio, é interessante poder prever sua ocorrência.
Entretanto, os seus "sintomas" só são percebidos
turbações equivalentes a vários graus na declinação
e a até 1.000 nT (1.000 G) ou mais em intensidade. nas observações magnéticas pouco antes de acon-
tecerem.
Esses distúrbios são chamados de tempestades
magnéticas. Uma tempestade pode ser acompanhada pelo
aparecimento de um dos fenômenos luminosos
mais intensos e fascinantes no céu, que são as auro-
ras boreais ou austrais nas regiões polares norte ou
sul, respectivamente. A aurora é causada pela emis-
são de luz da atmosfera superior numa forma
parecida com uma descarga elétrica (Fig. 4.19).
Aparece como uma cortina luminosa de cor
06 12 15 esverdeada ou rósea, com a borda inferior a cerca
de 100 km de altura e a superior talvez a 1.000 km.
O fluxo de energia emitido por uma aurora intensa
é apenas três vezes menor do que o fluxo de ener-
gia refletido pela Lua na fase cheia.

03 06 09 12 15 24

Fig. 4.18 Diagramas de variação da intensidade


geomagnética ao longo de períodos de 24 horas durante
dias magneticamente calmos (11/03/1979) e perturbados
(1 e 8/03/1979), conforme registrado no observatório
magnético de Toolangi, Austrália. Fig. 4.19 Fotografia de uma aurora boreal.
r
I

4.1 .A'.uto17a,S
.e.Outras Manifestações
Capítulo 4" Investigando o Interiorda Terra

do Campo~eOJ:nagnético
77

Um dos fenômenos naturais mais espetaculares da Terra são as auroras, que pode1Jlser vistas em noites claras em
locaissituadosa altas tanto no hemisfério norte como no sul. As auroras oconemna alta ( 100
~

km de altitude)e são por partículas energéticas, principalmente elétrons que são guiados para dentro da
atmosferapelo campo magnético da Terra. Portanto, as estruturas observadas nas auroras são freqüentemente
alinhadascom o campo geomagnético. As auroras podem ser muito ativas e às vezes apresentam uma fase expan-
sivaem que se espalham por uma re~ão correspondente a vários graus de latitude no lado noite da Terra e dissipam
energiaa taxas comparáveis com o consumo de energia elétrica dos Estados cor dominante das auroras
é o verde, mas outras cores podem ser vistas em períodos de alta atividade. cor verde deve-se a emissões de
energiaPQrátomos de oxigênioe a cor vermelha que pode aparecer nas bordas, às emissões de nitrogênio molecular.
Partículasenergéticasque não são conduzidas pelas linhas de força do campo geomagnético às regiões polares são
tambémaprisionadaspor este campo e quando desaceleradas concentram-se em regiões anelares ao redor da Terra,
com maisde 36.000km de raio, chamadas de Cinturões de Van Alien. Quando esses cinturões foram detectados, há
cercade 40 anos, acreditava-seque eram muito estáveis,sendo seus elétrons dissipados em períodos de meses. Pela
redede satélites,verificou-se,entretanto, que os elétronspodem ser aceleradospelas variações do campo geomagnético,
até atingirem velocidades próximas às da Nessas condições, elétrons podem atravessar uma lâmina de
alumíniocom mais de um centimetro de espessura.
Estaçõese ônibus espacialsorbitam a cerca de 450 km da superfície da Terra estando~portanto, mergulhados nos
camposelétricosmais intensos dos cintniões; seus equipamentos eletrônicos podem estar sujeitos a interferências,
devido à ação dos elétrons acelerados. Da mesma forma, os satélites de telecomunicação estão a essa
interferência,que pode causar mau funcionamento de "pagers" e telefones celulares. que realmente aconteceu
em maio de 1998,quando dez satélitescientificos dos EUA receberam sinais de que os elétrons estavam acelerando
e, finalmente,em 19 de maio, o satélite Galaxy 4 sofreu pane milhões de usuários perderam o serviço de
"pagers".Os cientistasesperam que os Cintufões de Van Alien tornem-se particularmente dinâmicos no final do ano
2000, durante o período de máxima atividade solar, que irá produzir violentas tempestades solares, causando
intensasemissõesde particulas elétricasf::fortes tempestades geomagnéticas.
Fonte: Space Science News, NASA, 08/12/98.

4.10 Mapas Magnéticos e Anomalias O mapa da intensidade total do campo (Fig. 4.13)
mostra que o campo magnético terrestre é mais com-
Magnéticas
plicado que o campo que seria associado a um simples
A distribuição do campo geomagnético sobre a dipolo geocêntrico. Se o campo fosse exatamente um
superfície da Terra é melhor observada em cartas campo dipolar, as linhas de mesmo valor da intensi-
isomagnéticas, isto é, mapas nos quais linhas unem dade total (Fig.4.13) seriam linhas paralelas ao equador
pontos que correspondem a um mesmo valor de um magnético do dipolo (linha sobre a qual a inclinação
determinado parâmetro magnético. magnética é igual a zero), isto é, exceto perto dos pó-
los, elas seriam praticamente retas nesse mapa. Esta
Contornos de igual intensidade para qualquer com-
diferença é chamada de campo não-dipolar ou ano-
ponente do campo são chamados de linhas
malia geomagnética. Quando as cartas isomagnéticas
isodinâmicas (Figs.4.12 e 4.13). É importante obser-
são construídas a partir de pesquisas mais pormenori-
var que um fenômeno como o campo geomagnético
zadas, os contornos aparecem superpostos por campos
mostre tão pouca relação com as feições principais da localizados devido a fontes magnéticas na crosta da
geologiae geografia. As linhas isomagnéticas cruzam Terra. Estas anomalias com seções transversais de 1 a
continentes e oceanos sem distúrbios e não mostram
100 km ou mais não podem ser representadas num mapa
relaçõesóbvias com as grandes cadeias de montanhas
de escala global (Fig. 4.20).
I
ou com as cadeias submarinas. Esse fato deixa claro
que a origem do campo geomagnético necessariamen- Concentração de minerais magnéticos em rochas e
I te tem de ser profunda. algumas correntes elétricas fracas na crosta ou nos ocea-

1
78 D E C I F RA N D O A T E R RA

os questões são difíceis de responder porque o núcleo não


24.35
nT
pode ser investigado diretamente e as altas pressões e
1400
1200 temperaturas lá existentes são difíceis de reproduzir em
1000 laboratório. Mas a combinação de resultados teóricos e
24,39 800
600
experimentais já permitiu estabelecer alguns fatos.
400
200 O núcleo consiste de uma esfera gigante, essencial-
O
24,43
mente metálica,. do tamanho aproximado do planeta
-200
-400
Marte. Sob condições normais, o núcleo fluido conduz
-600 calor e eletricidade até melhor que o cobre, e tem prova-
-800
-1000
velmente a mesma viscosidade que a água. Com um raio
24,47
médio de 3.485 km, corresponde a cerca de 1/6 do
volume da Terra e a cerca de 1/3 de sua massa. A den-
sidade do núcleo varia de, no mínimo, 9 vezes a densidade
Fig. 4.20 Anomalia magnética de intensidade total gerada da água nas suas bordas até 12 vezes a densidade da água
no seu centro. Os cálculos de densidade combinados
por concentração de minerais magnéticos em corpo ígneo
intrusivo na região de Juquiá, Estado de São Paulo. Cortesia com as hipóteses acerca da origem do sistema solar su-
de W. Shukowsky. gerem que o núcleo é composto principalmente de ferro
e níquel com traços de elementos mais leves como en-
nos são as principais fontes responsáveis pelos cam-
xofre e oxigênio. No seu interior, localiza-se um núcleo
pos localizados. Essas irregularidades de superfície ou
interno com propriedades diferentes. Tem um raio de
anomalias magnéticas podem ter intensidades corres-
1.220 km, o que corresponde a 2/3 do tamanho da Lua
pondentes a uma pequena porcentagem do campo
e, ao contrário do núcleo externo, é sólido.
normal mas, acima de jazidas de ferro ou depósitos
magnéticos próximos à superfície, estas anomalias po- A partir dessas informações, a única teoria viável de
dem exceder o campo da Terra. É na busca e geração do campo magnético terrestre é aquela que trata
interpretação dessas anomalias que se baseia o méto- o núcleo como uma espécie de dínamo auto-susten-
do magnético em prospecção geofísica. tável. Este modelo foi desenvolvido por volta de 1950
por Bullard e Elsasser. Um dínamo é qualquer mecanis-
4.11 O Mecanismo de Dínamo na mo que converte energia mecânica em energia elétrica,
como aquele utilizado em centrais hidrelétricas. O dína-
Geração do Campo Magnético mo da Terra é auto-sustentável porque, depois de haver
sido disparado por um campo magnético que poderia
Como visto até aqui, o campo magnético da Terra é
ter sido muito fraco (como por exemplo o próprio cam-
razoavelmente bem representado por um dipolo mag-
nético localizado em seu centro. Entretanto, cabe a po do sistema solar), continuou produzindo seu próprio
campo sem suprimento de campo externo. O líquido
pergunta - o que poderia causar esse magnetismo? A
metálico do núcleo terrestre, movendo-se de maneira
presença de minerais permanentemente magnetizados nas
apropriada (Fig.4.21), agiria como um dínamo, necessi-
camadas superficiais da Terra não é suficiente para expli-
tando apenas de um suprimento contínuo de energiapara
car a intensidade do campo geomagnético. Além do mais,
manter o material em movimento.
esses minerais não são suficientemente móveis para ex-
plicar as mudanças periódicas na direção e intensidade Uma das fontes de energia mais prováveis nesse caso
do campo. Desta forma, algum outro mecanismo ca- seria a movimentação do fluido causada pelo seu
paz de gerar um campo magnético com as características resfriamento, com a cristalização e fracionamento de fa-
observadas deve ser proposto. A análise de ondas sísmi- ses minerais densas, liberando energia potencial. Pode-se
cas indica que pelo menos parte do núcleo da Terra é estabelecer assim um movimento de convecção provo-
fluido. Já é universalmente aceito que o movimento des- cado por diferenças de temperatura e composição do
se fluido metálico gera correntes elétricas que, por sua fluido, que devem ser mantidas para que o movimento
vez, induzem campo magnético. Entretanto, discute-se não cesse. O movimento de rotação da Terra exerce
ainda de que forma o fluido metálico flui no núcleo, que uma força no fluido do núcleo, chamada força de
fonte de energia coloca o fluido em movimento e como Coriolis, que atua em qualquer massa que descreva um
esse movimento dá origem a um campo magnético. Essas movimento de rotação. Esta é a mesma força responsá-
Capítulô4.~<lnvestigand()..o ,Interior da Terra

vel pelos movimentos ciclôrucos Zona de Auroras


do ar e das correntes marinhas. A
Vento
massa é acelerada em uma dire-
solar '" /

ção perpendicular ao seu


movimento, fazendo com que,
no caso do fluido condutor do
núcleo,estabeleçam-se espirais de / Manto sólido
material condutor que vão gerar
campo magnético com resultan- ;~NÚCleo externo
te aproximadamente paralela ao
""
eixo de rotação da Terra. úcleo internlo

Movimento
4.12 O Magnetismo db flúido
da Terra no Pas- ""

sado Geológico
As observações do campo ""

magnético terrestre resumem-


T
se a apenas alguns séculos,
considerando-se aí aquelas
Fig.4.21 Movimento do fluido condutor do núcleo externo e geração do campo magnético
mais rudimentares em que,
dipolar, indicado pelas linhas de força. Fonte: Jeanloz, 1983.
por questões ptáticas de nave-
gação, media-se a declinação
em rotas marítimas e portos visitados. Este é um tentar reconstruir o passado magnético da Terra. O estu-
intervalo de tempo muito curto em comparação à do sistemático das rochas com essa finalidade é chamado
história da Terra. Então cabe perguntar: terá tido o de Paleomagnetismo. O mesmo princípio do
campo magnético terrestre sempre o mesmo pa- Paleomagnetismo pode ser aplicado a cerâmicas e fornos
drão que o atual? Terá sempre existido o arqueológicos e este estudo recebe o nome de
magnetismo da Terra ou será apenas transitório? Arqueomagnetismo. Esses materiais cerâmicas são
particularmente apropriados para se determinar a inten-
Questões desse tipo puderam ser respondidas a
sidade do campo durante os tempos históricos. Foi através
partir de quando se verificou (meados do século
XX) que a história magnética da Terra não se perde do Arqueomagnetismo que se constataram as variações
de intensidade do campo da Terra.
completamente, mas fica registrada como um mag-
netismo fóssil nas rochas. Alguns minerais que Os estudos paleomagnéticos indicam que a Terra
contêm ferro, ao serem submetidos a um campo tem tido um campo magnético significativo, pelo
magnético, comportam-se como ímãs permanen- menos durante os últimos 2,7 bilhões de anos. Entre-
tes, isto é, esses minerais retêm uma magnetização tanto, várias rochas apresentam magnetização inversa
que é chamada remanescente, mesmo depois de à esperada, isto é, compatível com um campo
cessada a ação do campo magnético. Substâncias geomagnético de polaridade oposta à do campo atu-
desse tipo são chamadas ferromagnéticas. Os prin- al, com linhas de força que emergem do pólo norte e
cipais minerais magnéticos presentes nas rochas são convergem para o pólo sul. Acreditava-se, a princípio,
os óxidos de ferro, como por exemplo, a que aquelas rochas teriam propriedades especiais, ad-
magnetita (Fe30J e a hematita (Fez03)' Embora quirindo magnetização contrária à do campo
estejam presentes em pequena proporção (cerca de magnetizante. Porém, grande número de experiências
1%), esses minerais são, em geral, os responsáveis mostrou que somente algumas poucas rochas apre-
pelas propriedades magnéticas de uma rocha. sentavam tal propriedade. Datações por métodos
radiométricos, associadas a determinações de polari-
A intensidadede magnetização das rochas é em ge-
dade demonstram claramente que tem havido
ralfracamas,atravésde instrumentos sensíveis,é possível
determinara direção da magnetização remanescente e intervalos nos quais as rochas de todas as regiões da
Terra adquiriram magnetização com polaridade igual 4.13 A História Gravada das
à atual e, alternadamente, intervalos em que todas as Inversões de Polaridade
rochas adquiriram polaridade oposta. Nos anos 60
foi estabelecida uma escala de reversões (Fig. 4.22), Na época em que se iniciaram as pesquisas magné-
agrupando-se os dados normais e reversos de várias ticas nas rochas da crosta oceânica, feitas por navios
regiões da Terra numa seqüência cronológica, confir- oceanográficos levando a bordo magnetômetros, re-
mando conclusivamente a realidade das reversões. O
velou-se um fato surpreendente. A nordeste do Oceano
campo geomagnético permanece em uma deter- Pacífico, foi mapeado. um padrão de anomalias mag-
minada polaridade durante intervalos variáveis de néticas lineares, diferente de qualquer padrão
aproximadamente 105 a 107 anos, e para comple- conhecido nos continentes. Esse padrão é formado
tar-se uma transição de polaridade são necessários por faixas de polaridades alternadas e dispostas sime-
103 a 104 anos.
tricamente em relação à cadeia meso-oceânica, como
ilustrado na Fig. 4.23.
Vine e Mathews propuseram em 1963 que esse
padrão "zebrado" era conseqüência da expansão do
assoalho oceânico e das reversões do campo geomag-
nético, através de um processo representado
esquematicamente na Fig. 4.23. O material fundido

«
:: 1Ir~'"
~
t:
::

fi)
fi)
::J
«
c:I

EOCENO

Fig. 4.22 Escala de inversões de polaridade ou reversões do


campo geomagnético nos últimos 80 milhões de anos. Faixas
escuras representam polaridade normal e faixas claras, polari-
dade inversa. À direita, detalhe da coluna, ressaltando épocas
Fig. 4.23 Padrão "zebrado" de anomalias do assoa lho oceâ-
e eventos de polaridade ocorridos nos últimos4,5 milhões de
nico e sua relação com a tectônica de placas.
anos e que recebem nomes especiais.

1
Capítulo4- Investigando o Interior da Terra 81

do manto, ascendendo em correntes de convecção atra-


vés das cadeias oceânicas, esfria ao atingir a superfície
terrestre. Os minerais ferromagnéticos (principalmen-
te magnetita) cristalizados nesse magma adquirem
magnetização induzida pelo campo geomagnético.
Essa magnetização será permanentemente retida por
esses minerais quando atingirem temperaturas abaixo
de um certo valor característico. Essas temperaturas
são chamadas de temperaturas de Curie que, para a
magnetita, é da ordem de 580°C. A nova rocha assim
formada e já magnetizada constitui-se num novo seg-
mento do assoalho oceânico, que lentamente afasta-se
da cadeia, enquanto por ela novo material ascende.
Nesta fase, se o campo geomagnético inverteu a pola-
ridade, surgirá então uma nova faixa de assoalho, desta
vez com polaridade invertida. Assim, surge, a longo
prazo, o padrão zebrado simétrico à cadeia, tal como
foi observado. O assoalho oceânico comporta-se,
portanto, como uma esteira rolante que grava a histó-
ria das reversões do campo geomagnético tal qual uma Fig. 4.24 Correlação entre o vetor magnetização de uma
fita magnética, à medidaque vai se formando no tem- rocha (seta), definido pelos ângulos de declinação (D) e in-
po geológico. clinação (I), obtido em um sítio (5), e a posição do pólo
paleomagnético (P).

4.14 Magnetismo das Rochas e


a Deriva dos Continentes Sabendo-se que o campo geomagnético só pode
ser representado por um único dipolo magnético, isto é,
o paleomagnetismo não só contribui para a existe apenas um par de pólos norte e sul situados próxi-
reconstituição da história do campo magnético da Terra, mos aos pólos geográficos, a existência de vários pólos
como também fornece informações quantitativas sobre no passado geológico tem de ser descartada. A explica-
os processos que afetam as camadas superficiais da Ter- ção para o fato está baseada no deslocamento dos
ra, revelados como grandes movimentos laterais dos continentes que modifica a orientação da magnetização
continentes ou deriva continental. Nos anos 50, resulta- registrada em suas rochas, em relação ao pólo geográfi-
dos paleomagnéticos reavivaram o interesse nas sugestões co. Pólos paleomagnéticos de mesma idade e pertencentes
de que os continentes se moveram consideravelmente a diferentes blocos continentais podem ser deslocados
durante o tempo geológico. Alfred Wegener propôs em até que coincidam. Ao fazermos isso, os continentes de
1910 que todos os continentes já haviam estado agrupa- onde foram extraídas as rochas analisadas também se
dos num único "supercontinente", que ele chamou de deslocam, chegando-se a reconstruções paleogeográficas
Pangea. Ele sugeriu que esse supercontinente teria se surpreendentes, tal como a ilustrada na Fig. 4.25 para a
desmembrado há cerca de 200 milhões de anos. Entre- América do Sul e África.
tanto, suas idéias não foram aceitas por muitos cientistas A maneira mais conveniente de se representarem
e a discussão sobre a deriva continental ficou estagnada
dados paleomagnéticos para o estudo da deriva con-
até que os resultados paleomagnéticos trouxeram novas tinental é em termos da posição de pólos
evidências.
paleomagnéticos. Pólos paleomagnéticos para perío-
A magnetização remanescente de rochas de mesma dos geológicos consecutivos e, de um único continente,
idade e magnetizadas simultaneamente pelo mesmo cam- são interligados para produzir um caminho ou uma
po magnético deve indicar a mesma localização para os curva de deriva polar (Fig. 4.25). Torna-se aparente,
pólos magnéticos associados a esse campo indutor. En- quando se comparam as curvas para os vários conti-
tretanto, a magnetização de rochas antigas e de mesma nentes que, durante um longo intervalo de tempo, os
idade,provenientes de distintos continentes, indicam pó- continentes moveram-se conjuntamente e depois afas-
los (pólos paleomagnéticos) diferentes (Fig.4.24). taram-se. O grau de divergência entre duas curvas de
deriva polar é a medida do grau de separação dos
continentes. Uma relação entre a inclinação do vetor
magnetização (I) e latitude paleogeográfica (<p)pode
ser facilmente obtida do modelo de dipolo
geocêntrico, por trigonometria esférica:
tanI = 2tan <p (4.11)
Com este dado é possível avaliar quantitativamente
a paleolatitude em que se encontrava uma determina- 240'E
da região da Terra. Por exemplo, os filões de rochas
ígneas (diques) que cortam as praias de Ilhéus e
Olivença, na região sul do Estado da Bahia, apresen-
tam magnetização cujo vetor coloca-se a ~66° de Fig. 4.25 Curvas de
inclinação em relação ao plano horizontal. Utilizando- deriva polar para a Amé-
se a fórmula 4.11, calcula-se que a latitude em que se rica do Sul e África e
formaram essas rochas há um bilhão de anos era de reconstrução desses
48°, portanto muito mais elevada do que a atual (15°S), continentes, com a jus-
indicando que aquela região era de clima frio. taposição de parte
dessas curvas. Notar
Neste capítulo estudamos os campos de gravida- que entre 200 e 130
de e magnético da Terra. Vimos como estas milhões de anos atrás as
importantes propriedades físicas podem ser utilizadas curvas começam a diver-
para se entender processos dinâmicos que ocorrem gir porque os dois
em nosso planeta. Além disso, o mapeamento continentes migraram
gravimétrico e magnético da superfície permite iden- independentemente.
tificar anomalias que refletem estruturas das camadas
mais superficiais ou estão diretamente relacionadas com
a presença de depósitos minerais. Desta forma, méto-
do~ de investigação baseados em gravimetria e
magnetometria constituem importantes ferramentas
geofísicas voltadas à prospecção de bens minerais.

Leitutas Recoinendadas

R. F. Paleomagnetism:MagneticDomainsto
Geologic Terranes. Oxford: Blackwell Scientific
Publications, 1991.

BROWN, G. & MUSSET, A. E. The Inaccessible


Earth. London: George Allen & Unwin, 1985.
FOWLER, C. M. R. The5olidEarth:An Introduction
Global Geopl?Jsics.Cambridge: Cambridge
University Press,
]EANLOZ, R. The Earth's Core. Scientific
American, v.249, 1983.
LOWRIE, W Fundamentais of Geophysics.
Cambridge: Cambridge University Press, 1997.
TELFORD, W. M.; GELDART, L. P.; SHERIFF,
R. E.; KEYS, Applied Geophysics.
Cambridge: Cambridge University Press, 1985.
BODE

90DE
'!'
~às
maior parte do interior da Terra é inacessível
observações diretas, de modo que, para co-
da Terra. Podem ser detectadas pela rede de observa-
tórios sismográficos distribuídos pelos continentes,
nhecer sua constituição interna, é necessário recorrer a após sofrerem reflexões, refrações e difrações, quan-
métodos indiretos. No Capo 3 foi apresentada uma do encontram superfícies de separação entre camadas
aplicação da sismologia na obtenção de estimativas que contrastem por sua densidade, parâmetros elás-
para as densidades e outras propriedades físicas das ticos (tais como compressibilidade e rigidez) ou
rochas do interior do planeta. À primeira ordem, a composição mineralógica e química (Cap. 3).
sismologia revela que a estrutura interna da Terra con-
siste de uma série de camadas que compõem a crosta, 5.1.1 As descontinuidades mais notáveis do
o manto e o núcleo. A partir das propriedades físicas, interior da Terra
e com o apoio de experiências que simulam as condi-
ções de temperatura e pressão no interior da Terra, é A primeira descontinuidade detectada na Terra
possível inferir as composições mineralógicas das ca- foi o limite crosta-manto, encontrada pelo sismólogo
madas presentes. O calor interno da Terra e os iugoslavo Andrija Mohorovicic, em 1909. Comparan-
processos de sua redistribuição são fatores importan- do os tempos de chegada a vários observatórios das
tes para entender os movimentos dentro de e entre as ondas sísmicas de um grande terremoto ocorrido na
camadas da Terra. Esses movimentos são responsá- Croácia, Mohorovicic verificou que a velocidade era
veis pela estrutura interna de segunda ordem, que é sensivelmente maior para distâncias ao epicentro su-
dinâmica. periores a 200 km. Explicou a diferença supondo que,
à profundidade de cerca de 50 km, haveria uma brus-
ca variação das propriedades elásticas do material
5.1 Introdução terrestre. Esta é a descontinuidade que separa a crosta
N o século 19, os cientistas especulavam sobre a do manto que, em homenagem a seu descobridor,
constituição interna da Terra. Charles Darwin, por passou a ser chamada de Moho. Sabemos hoje que
exemplo, depois de testemunhar erupções vulcânicas o Moho não está a profundidade constante por
toda a Terra mas a cerca de 5-10 km nas áreas oce-
e terremotos nos Andes, sugeriu, já na primeira meta-
ânicas e a 30-80 km nos continentes, variando com
de daquele século, que a Terra era composta por uma
o relevo.
fina casca, que denominamos crosta, ao redor de uma
mass,a fundida. Na segunda metade do século, partin- Quanto mais penetram na Terra, as ondas sísmicas
do de estimativas para o raio e massa da Terra, á) vão sendo detetadas em observatórios cada vez mais
densidade média terrestre foi calculada em 5,5 g/ cml distantes do epicentro (Cap. 3). Entretanto, há uma
aproximadamente. Uma vez que essa densidade é zona de sombra entre 1030e 1440 do foco sísmico
maior que a da grande maioria das rochas expostas na (Cap. 3), que foi interpretada como sendo devida ao
superfície terrestre (2,5 - 3,0 g/ cm3), concluiu-se que núcleo, por conta de propriedades muito diferentes
pelo menos parte do interior terrestre deveria ser com- daquelas do manto. A interface manto-núcleo, ou
posta por material muito denso. Usando os sideritos e descontinuidade de Gutenberg, situa-se a 2.900 km
os meteoritos pétreos (Cap. 1) como analogia, suge- de profundidade, implicando que o manto forma 83%
riu-se, ainda no final do século 19, que a Terra teria do volume da Terra. Estudando as ondas S, que são
um núcleo composto por uma liga metálica de ferro transversais, verificou-se que elas não se propagavam a
e níquel, envolto por um manto de silicatos de ferro e no núcleo, o que levou à conclusão de que a rigidez do
magnésio. Antes da utilização da sismologia para des- material é nula, ou seja, o meio é líquido (Fig. 5.1).
vendar a estrutura terrestre, essas idéias representavam
Examinando os sismogramas com mais detalhe, ve-
meras especulações.
rificou-se que apareciam algumas ondas, de amplitude
Como visto no Capo 3 anterior, embora os focos muito reduzida na zona de sombra que não era, então,
da maioria dos terremotos estejam a menos de 100 uma zona de completa sombra. Em 1936, a sismóloga
I
km de profundidade, eles emitem ondas elásticas em dinamarquesa Inga Lehman concluiu que a parte inter-
I
I todas as direções, propagando-se por todo o interior na do núcleo era distinta da parte externa, com

-- Erupção do Kilauea, no Havaí, um dos mais ativos vulcões do planeta, derramando sua lava nas águas do oceano Pacífico.No
I

I detalhe, fotografia tomada no Microscópio Óptico de uma rocha ígnea. G. Brad Lewis/ SPL/ Stock Photos.
I
I

,
I

J
CAPíTULO5 . A COMPOSiÇÃOEO CALORDA TERRA 85

a- velocidadesde propagação das ondas P muito maio- ças geológicas externas, como a erosão, que contribui
:s, res,dando origem às ondas que apareciam na zona de para o desgaste das montanhas, com a exposição de
[1- sombra.Sabemos hoje que o núcleo interno começa rochas cada vez mais profundas (Cap. 2).
as a aproximadamente 5.100 km de profundidade e que Essas mesmas forças geológicas são responsáveis
s- nelese propagam não só as ondas P mas também as
pela colocação, por sobre os continentes, de segmen-
)li ondasS que, como já vimos, são ondas transversais, o tos da crosta oceânica chamados de ofiolitos e pela
quesignificaque o material constituinte é sólido. Veri-
exposição na superfície continental de partes da crosta
fica-se,portanto, que o núcleo é composto por uma
continental profunda, expondo na horizontal seções
o parteexterna que é líquida e uma parte interna, sólida.
que anteriormente ficavam na vertical. Observações
diretas desses ftagmentos crustais permitem a verifi-

ra
5.2Modelos de Estrutura e Composição cação dos modelos sísmicos.

~o Como desenvolvimento da rede sismográfica mun- A crosta continental apresenta' espessura muito
n- diale dos métodos de observação e análise, foram variável, desde cerca de 30-40 km nas regiões sismica-
.as encontradasnovas interfaces e zonas de transição no mente estáveis mais antigas (os crátons) até 60-80 km
na nas cadeias de montanhas, tais como os Himalaias na
interiorterrestre, mostrando que a crosta, o manto e o
:ra Ásia e os Andes da América do Sul. A evidência sísmi-
núcleosão domínios heterogêneos. Partindo das velo-
u- cidades sísmicas, calculam-se as densidades das ca mostra que, em algumas regiões cratônicas, a crosta
le, continental está dividida em duas partes maiores pela
camadasprincipais e de suas subdivisões, para em se-
1S- descontinuidade de Conrad que assinala um ligeiro
guidabuscara identificação das rochas presentes nessas
ial camadas. aumento das velocidades sísmicas com a profundida-
;ta
CROSTA
Jr, 5.2.1A crosta terrestre
ue
or CONTlNE:NiAL
Para alcançar as partes da crosta atu-
:e- almentemais profundas, já foram feitas
>m sondagenstanto nos oceanos como nos \(11'
continentes. Os custos de tais sonda=- ...
:as gens são muito altos, e é necessário
aiS buscar outras evidências diretas para
:na controlar os modelos obtidos através
.co das ondas sísmicas. Dentre as rochas
ao expostas na superfície dos continen-
tes tes, encontram-se desde as rochas
ou sedimentares pouco ou não deforma-
das até as rochas metamórficas que
Descontinuidade
Ull
de Gutenberg
3% foram submetidas a condições de tem-
;ão peratura e pressão correspondentes às
am da crosta intermediária ou profunda a
do mais de 20 km. Podem estar presen-
tes, também, rochas plutônicas que
cristalizaram em níveis crustais desde
ve-
rasos (1-3 km) até profundos. Tanto
lde as rochas metamórficas como as
tão, plutônicas estão expostas atualmente
Dga pela ação combinada das forças geo-
ter-
lógicasinternas que, entre outras coisas,
Dm
sãoresponsáveis pelo soerguimento das
Fig.5.1 Estruturainterna da Terra: o modelo clássico de primeira ordem, em camadas
.No cadeiasmontanhosas, (Cap. 6), edas for- concêntricas, obtido a partirdas velocidades das ondas sísmicas.Mantêm-se as divisões
na devida escala, exceto para as crostas e a zona de baixa velocidade.
86., PE~IF R A N DO A.T ERR

de e que separa, portanto, rochas de densidade menor superior, às vezes denominado de camada 4. Confir-
na crosta superior de rochas de maior densidade, na ma-se essa inferência nos ofiolitos (Fig. S.3b), que
crosta inferior (Fig. Sola), enquanto as observações demonstram que a camada 3 é formada por rochas
diretas sugerem que uma divisão em três partes pode intrusivas máficas a ultramáficas, inuito ricas em mine-
ser mais adequada (Fig. S.2b). rais de magnésio e ferro. Há ampla variação das
espessuras das camadas e, conseqüentemente, da es-
O modelo geofísico para a Crosta oceânica su-
pessura total da crosta oceânica. Enquanto a crosta
gere a presença de três camadas de rochas sobre o
oceânica média apresenta espessura total em torno de
manto (Fig.S.3a).Programas de sondagens do assoalho
7,5 km, no Oeste do Oceano Pacífico encontram-
oceânico incluíram alguns furos mais profundos que
se alguns platôs oceânicos nos quais a espessura da
penetraram até em torno de 1,5 km, permitindo, as-
crosta oceânica alcança de três a quatro vezes a es-
sim, a verificação direta de parte do modelo geofísico.
pessura média.
A camada superior (camada 1), mais fina, apresenta
velocidades sísmicas baixíssimas e é composta predo-
minantemente por sedimentos inconsolidados. A 5.2.2 O Manto
camada intermediária (camada 2), de velocidades sís-
micas mais altas, inclui rochas vulcânicas má ficas O manto superior situa-se abaixo da
descontinuidade de Mohorovicic até a primeira das
(relativamente ricas em minerais que contêm magnésio
descontinuidades mantélicas abruptas, que se manifes-
e ferro) no topo e diques subvulcânicos máficos na
ta a uma profundidade de cerca de 400 km (Fig. 5.1).
base. Infere-se que a camada inferior (camada 3) deve
No manto superior, a densidade, geralmente ex-
ser composta por rochas plutônicas predominante-
mente máficas. Abaixo da camada 3, ocorre o manto pressa em valores para pressão zero po' varia desde

I I
0
Vp Fig.5.2 (a) Estrutura da crosta con-
km/s materiais
I
tinental em regiões cratônicos ou
escudos- regiõesque permanece-
4-5 sedimentos
ram geologicamente estáveisdurante
longos períodos de tempo até os dias
I I

xistos de hoje - sugerida pelas velocidades


granitos dasondas P, onde senota a separa-
O
ção em duas partes sísmicas pela
II ã:
w descontinuidade de Conrad em cros-
Q.
11) ta superior, com rochas de Vp
5,5-6 migmatitos menores, e crosta inferior, com ro-
11) chas de Vp maiores.
I I
O
O

(b) Estrutura da crosta continental


sugerida pelas observações de seções
descontinuidade
crustais expostas. Nota-se a divisão
de Conrad
O em três partes petrologicamente di-
ã: -7 ferentes. É importante notar a
w
11.. presença das rochas ígneas máficas
e ultramáficas na mesozona e na
II catazona, demonstrando a contribui-
i 11) 6-7
O ção da intrusão de rochas ígneas à
O descontinuidade formação da crosta continental. A
Moho sismologia dificilmente distingue as
8 Manto Superior rochas máficas ígneas das máficas
metamórficas (anfibolitos).

ILI I.
lfir-
f P íTU LO 5 A COMPOSiÇÃO.E .0 CALORDA TERRA

-fica-se que a temperatura do solidus é superior à da


87

3,2g/ cm3no topo até em torno de 3,6 - 3,7 g/ cm3 a


que 400km. Dentre as rochas terrestres conhecidas, são as geoterma sob pressões baixas e altas. Nessa situação o
has ultramáficasricas em olivina magnesiana (M&SiO e J manto permanece sólido. Por outro lado, se a tempera-
l1le- r~ piroxênios (MgSi03 e CaMgSizOJ que apresentam tura da geoterma excede a do solidus, o manto deve
das densidadesadequadas a estes parâmetros (Tabela 5.1). ficar incipientemente fundido, num intervalo de pro-
es- Entre o Moho e ~400km de profundidade, a veloci- fundidade que corresponde, aproximadamente, à zona
)sta dade de propagação das ondas sísmicas nas regiões de baixa velocidade definida pelas propriedades sís-
) de oceânicase em partes das regiões continentais sofre micas. Estima-se que a quantidade de líquido presente
im- uma ligeiradiminuição com aumento da profundida- nesta zona seja pequena, em torno de 2 % no máximo.
c da de. Essa zona ou camada recebe a denominação de Essa quantidade de líquido, no entanto, é suficiente
es- zona de baixa velocidade. para tornar o manto mais plástico e mole do que o
manto sobrejacente quando se considera a escala do
Um controle adicional sobre a provável composi-
tempo geológico.
ção do manto superior é dado pelas rochas máficas
observadasna superfície terrestre, cuja origem se dá
da predominantemente ali. A petrologia
das
experimental demonstra que, para o
manto superior poder produzir estas
@ DIVISÕES
SISMICAS
@ MATERIAIS
fes- Sedimentos
rochasmáficas, as rochas nele presen- Camada 1:
;.1). espessura variável (100m)
tes são, com maior probabilidade, o Vp = 1,8km/s
ex-
peridotito (olivina + piroxênio) ou o Camada 2: Vulcânicas
sde 1,7:!:. O,75km máficas (2km)
eclogito(granada+ piroxênio). As den-
Vp = 5,Okm/s
sidades dos minerais presentes e as
Diques máficos
velocidadesVp nas rochas são apresen- (1,5km)
tadasna Tabela 5.1.
Intrusões
:on- Superiores
As rochas se fundem ao longo de Camada 3: (O,5km)
ou um determinado intervalo de tem- 4,85 :!:. 1,42km
,;ce- Vp = 5,4km/s
peratura,uma vez que são compostas
ante Série de rochas
dias
por vários minerais que possuem, por acamadadas
]des sua vez, faixas de temperaturas de (4km)
fusão diferentes. A temperatura do Descontinuidade
ara- de Mohorovicic
Jela iníciode fusão - o primeiro apareci-
:ros- mentode líquido - determina o solidus Camada 4: Manto Moho
,v da rocha, que depende da pressão vi- Vp ~ 8,Okm/s
p
ro- gente, entre outros fatores (Quadro Manto
5.1 e Fig.5.1). A curva do solidusda
rocha peridotito aumenta de modo
não linear com o aumento da pressão
e da profundidade na Terra. A tempe- Fig. 5.3 (a) Estrutura média da crosta oceânica sugerido pela velocidade das
ntal ondas P,com base em diversas perfilagens sísmicas (Raitt, 1963). Nota-se a grande
ratura, outro parâmetro importante,
;ões tambémaumenta de maneira não line- variação de espessurasdas camadas. A partir das velocidades observadas, é possí-
isão vel propor que a camada 1 compõe-se de sedimentos, a camada 2, de rochas
~ di- ar, acompanhando o aumento da vulcânicasporosascom proporçãopequenade sedimentos,a camada 3, de rochas
Ir a profundidade.Chama-se de geoterma máficas maciças e a camada 4, de rochas ultramáficas.
"icas a curvaque relaciona a temperatura vi- (b) Estruturada crosta oceânica observada no ofiolito de Omã, Golfo Pérsico (Lippard
, na genteauma determinada profundidade et 01., 1987).Nota-se que, embora haja correspondência entre as compo$ições das
bui- no interiorda Terra. camadas superiores,nosofiolitosé possíveldistinguirrochasvulcânicasmaciçasde
as à rochas plutônicas, com e sem estruturas de oca momento. Mesmo que apareçam
d. A É possívelexperimentalmente com- rochas ultramáficas na série acomodada, é possível distingui-Ias das ultramáficas
'; as parar os prováveis formatos da curva do manto pelo fato daquelas serem não deformadas e claramente associadas à
-icas do soliduse da geoterma (Fig. 5.5). Veri- série acomodada, enquanto estas são deformadas e metamorfisadas, e suas com-
posições possuem relações apenas muito indiretas com a série acomodada.
-
88 D ECI F RA N D O A T ERRA

------------

fundido presente

I,

, I,

~
.
r Ao descer através da crosta e do topo do manto
CAPíTULO5 A COMPOSiÇÃOE O CALORDA TERRA

Temperatura
89

'superior, portanto, passamos de uma parte rígida, aci-


ma da zona de baixa velocidade, para uma parte P1 sólido +
plástica dentro da zona de baixa velocidade. A parte líquido
rígida que inclui crosta e parte do manto é denomina-
da litosfera, enquanto a parte dúctil é denominada P2
astenosfera. Na mesosfera abaixo da zona de baixa
velocidade,o manto, a despeito de sua mais alta tempe-
o
ratura,que poderia torná-Io mais plástico, está submetido 'co
fi)
a uma pressão mais alta, o que faz com que seja nova- fi)
(J)
....
mente pouco plástico e totalmente sólido. c..

A geonsica revela que numa zona de transição no


intervalo de aproximadamente 400 a 650 km (Fig. 5.5)
há algumas descontinuidades, caracterizadas por pe-
Fig. 5.5 Diagrama esquemático mostrando os formatos da
quenos aumentos de densidade nítidos ou gradativos geoterma e do so/idus de peridotito, e a faixa de pressões (P]a
que podem ser causados por mudanças na composi- P2)onde deve ocorrer a fusão parcial (em laranja). Na prática,
ção química do manto para uma composição em que o topo dessa zona de baixa velocidade deve ocorrer em torno
um ou outro elemento de maior peso atômico (por de 75 km de profundidade sob os oceanos, e a 150-200 km
exemplo, o ferro) começa a predominar sobre os ou- sob os continentes. A espessura da zona de baixa velocidade
tros elementos de menor peso atômico (por exemplo, deve alcançar em torno de 200 km abaixo dos oceanos.
o magnésio). Igualmente, a composição quimica pode
ser mantida, e os minerais mudam de estruturas cristali- do manto superior para estruturas mais densas devido às
1 nasmenos densas sob as pressões relativamente menores pressões maiores do topo do manto inferior, através de
transformações polimórficas ou reações de decomposi-
Tabela 5.1 Densidade de alguns minerais e velo- ção promovidas pela pressão sempre crescente quanto
cidadesde ondas primárias em algumas rochas maior for a profundidade terrestre.
Através da petrologia experimental, demonstra-se
que, nesse intervalo de grande profundidade, os mi-
nerais presentes no topo do manto superior tornam-se
instáveis e são substituidos por outros mais densos.
Por exemplo, a olivina magnesiana transforma-se su-
cessivamente a ~400 km e a ~ 500 km em polimorfos
~e y, respectivamente, que mantêm a fórmula (Mg,
Fe)zSi04, porém adotam estruturas mais densas, com
menor espaço livre entre os íons constituintes. No
mesmo intervalo, os piroxênios também adotam es-
truturas mais densas. A ~650 km, a fase olivina-y
decompõe-se, formando (Mg,Fe)O e (Mg, Fe)Si03
com estrutura densa, adotada também pelos
piroxênios. Todas as transformações citadas são acom-
panhadas por aumentos das densidades e das
Gabro
velocidades de propagação das ondas sísmicas, prati-
Peridotito
camente idênticos aos aumentos observados
sismicamente.
Os três primeiros minerais são os constituintes essenciais do
IS Acredita-se que, desde ~650 km até em torno de
granito, rocha comum na crosta continental. A olivina
100-300 km da descontinuidade de Gutenberg a 2.900
magnesiana e o clinopiroxênio são minerais essenciais dos
km de profundidade (Fig. 5.1), o manto inferior seja
gabros, que formam parte importante da crosta oceônica. Es-
sesdois minerais, mais o ortopiroxênio e a granada, compõem
composto predominantemente por silicatos
o peridotito. ferromagnesianos com estrutura densa e, em menor
90 D E C I F R A N DO. A T ERRA

quantidade, por silicatos cálcio-aluminosos também temente, acredita-se que a liga deva incorporar algum
densos, bem como óxidos de magnésio, ferro e alu- elemento de número atômico baixo, cuja presença re-
mínio. Tendo em vista o grande volume do manto sulta numa diminuição da densidade. Os candidatos já
inferior, a perovskita ferromagnesiana, mineral muito sugeridos são vários, como hidrogênio, oxigênio, sódio,
incomum nas rochas crustais, deve ser o silicato mais magnésio, enxofre. O núcleo interno, sólido, deve ser
abundante da Terra. composto pela liga ferro-niquel, uma vez que sua den-
Nesse intervalo de ~650 a ~2.600-2.800 km, a den- sidade corresponde à densidade calculada. O núcleo
interno deve crescer lentamente pela solidificação do
sidade Po deve aumentar desde cerca de 4,0 g/crd até
núcleo externo. Estudos recentes sugerem que o núcleo
perto dos 5,0 g/ cm3. Estudos recentes e ainda contro-
interno assemelha-se a um enorme cristal anisotrópico
versos sugerem que pode haver heterogeneidades
que permite uma velocidade ligeiramente maior às on-
importantes no manto inferior, conduzindo à presença
das sísmicaspropagadas na direçãoN-S. O núcleo interno
de domínios químicos distintos separados por uma su-
gira com velocidade maior que a do resto do planeta, o
perficie bastante irregular, cuja profundidade pode variar
que sugere que numa época anterior todo planeta girava
desde 1.600 km até a descontinuidade de Gutenberg.
com maior rapidez. Por estar isolado mecanicamente
A zona entre 2.600 e 2.900 km, aproximadamente, do resto do planeta pelo núcleo externo líquido, o nú-
apresenta propriedades sísmicas anômalas e variáveis. cleo interno mantém sua velocidade.
Junto à zona de baixa velocidade, essa zona inferior
do manto, denominada de D", revela uma diminui-
5.3 O Calor do Interior da Terra
ção das velocidades sísmicas com aumento de
profundidade. A origetn e naturéza da zona D" é ain-
da especulativa. Pode ser uma zona herdada da época 5.3.1 Origem do calor dos corpos do
da aglutinação da Terra (embora seja difícil imaginar Sistema Solar
como ficou preservada durante as fortes segregações
internas que ocorreram), pode representar uma zona Como visto no Capo 1, os corpos do Sistema So-
onde se acumulam bolsões de material gerado anteri- lar, desde os meteoritos até os grandes planetas, foram
ormente a profundidades bem menores e em vias de formados pela agregação de condensados do materi-
reciclagem dentro da Terra,pode incluir materiallibe- al original, em processo chamado de acresção. A
rado do núcleo, ou pode representar material do manto energia cinética do impacto dos fragmentos acretados
inferior, decomposto para a forma de óxidos densos. acabou se transformando em calor, que elevou a tem-
Estudos recentes demonstram que essa zona pode ter peratura do corpo alvo.
superfícies superior e inferior irregulares, e que as par-
Uma segunda fonte de energia térmica foram emis-
tes mais espessas podem acumular-se em volumes cujos
tamanhos assemelham-se aos dos continentes na cros- sões de átomos radioativos que constituíram a
ta. matéria-prima original- a energia de partículas ou fótons
também se transforma em calor. Isótopos de meia vida
curta tiveram papel importante no inicio, mas são os
5.2.3 O Núcleo isótopos radioativos de elementos como o urânio, o
tório, o rádio e o potássio, com meias vidas da mesma
Os aumentos da densidade e da velocidade Vp , ao
ordem que a idade do Sistema Solar, que contribuem
atravessarem a descontinuidade de Gutenberg, são
significativamente para manter funcionando as máqui-
muito grandes e não podem ser gerados por transfor-
nas térmicas responsáveis pela dinâmica interna dos
mações polimórficas dos materiais que compõem o
planetas.
manto inferior. As densidades calculadas para o nú-
cleo terrestre deixam poucas dúvidas de que seja O calor gerado em ambos os processos depende
composto predominantemente por uma liga metálica da quantidade de material e, portanto, do volume
de ferro e níquel, hipótese corroborada pela do corpo; os corpos maiores, como os planetas,
planetologia comparada e pelo estudo de meteoritos. devem ter gerado maior quantidade de calor. Por
Entretanto, a densidade po calculada para o núcleo outro lado, parte do calor do interior do corpo,
externo na descontinuidade de Gutenberg é um pou- chegando à superfície, pode ser irradiada para o
co menor do que 10 g/cm3, inferior à densidade de espaço. Esta perda de calor é portanto proporcio-
11,5 g/ cm3 determinada para essas ligas. Conseqüen- nal à superfície do corpo.
r CAPíTULO 5 . A COMPOSiÇÃOE O CALORDA TERRA 91

1m
re-
; já
lia, não houve fusão por acresção fusão por acresção
ser
convecção possível
~n-
[eo
sem atividade ígnea atividade ígnea atividade ígnea
do limitada próxima
à superlícíe
[eo
lCO
)n-
remanência magné-
no tica primitiva condi- ,,'
" o possível remanéncia magnética cíonada rern~,tI,êi1Cíam~gnétiCa~p..gaÇla
primitiva
wa
tlte
1Ú- ASTERÓIDES LUA MERCÚRIO MARTE

o 1588 2200 6150 Raio (km)


Flg.5.6 A relação entre o tamanho do corpo planetário e alguns fenômenos que dependem de sua evolução térmica. Vulcanismo,
a erupção na superfície de magma gerado por fusão parcial dentro do corpo planetário, é discutido no Capo 17. A Tectônica de
Placascorresponde, essencialmente, aos movimentos dos segmentos da litosfera e é discutida no Capo 6,

Concluímos então que o calor produzido em um O fluxo geotérmico total corresponde a uma
corpodo Sistema Solar é proporcional a seu volume, energia de 1,4xl021joules por ano, que é muito maior
~o- enquantoque o calor que perdeu por irradiação é pro- do que outras perdas de energia da Terra, como aque-
arn porcionala sua superfície. Um corpo esférico de raio la da desaceleração da rotação pela ação das marés
~r1- R conseguiriaportanto reter quantidade de calor pro- (1020joules por ano) ou como a energia liberada pelos
A porcional ao quociente entre R3 e R2, portanto terremotos (1019joules por ano). A energia para pro-
ias proporcionala R. Ou seja, os corpos maiores retive- cessos como a movimentação essencialmente
m- ramgrandequantidade de calor, tendo sido capazes de horizontal da litosfera por sobre a astenosfera (Cap.
desenvolverprocessos mais complexos, enquanto que 6) e a geração do campo geomagnético deve provir,
os corposmenores perderam praticamente todo o seu portanto, do calor da Terra.
us-
calorpor irradiação. Outros fatores, como o grau de
1a O fluxo geotérmico através de uma camada da
oxidaçãodo material acretado, ,que variou com a dis-
)ns Terra é definido como o produto da variação da
tânciaao Sol,também devem ter sido importantes para,
ida temperatura com a profundidade (gradiente
a diferenciaçãodos planetas.
os geotérmico), pela condutividade térmica das ro-
,0 A Fig.5.6ilustra diferentes fenômenos que ocorre- chas daquela camada. Para medi-Io, é necessário,
ma rampara asteróides, a Lua e os planetas terrestres, em portanto, conhecer as variações de temperatura.
em funçãodo seu tamanho, ou seja, da energia térmica
O conhecimento das variações da temperatura
m- disponível.
com a profundidade é, entretanto, precário quando
Ias
comparado, por exemplo, com variações de densi-
5.3.2O fluxo de calor do interior da Terra
dade e de parâmetros elásticos, obtidos da
lde A radiação solar é a maior responsável pelos fenô- sismologia. A razão é que as temperaturas somente
me menosque ocorrem na superfície da Terra e na atmosfera. são conhecidas próximas à superfície da Terra, me-
'as, Entretanto, a poucas dezenas de centímetros de profun- didas em furos de sondagem ou no interior de
)or minas. A condutividade térmica também é medida
didade da superfície, seus efeitos diretos sobre a
)0, temperatura terrestre são praticamente desprezíveis e o experimentalmente com rochas próximas à super-
l o aumento de temperatura que sentimos ao descermos no fície e os valores para maiores profundidades
10- interiorde uma mina, por exemplo, é somente devido ao acabam sendo inferidos a partir de outras proprie-
fluxo de calor do irlterior da Terra. dades físicas obtidas principalmente da sismologia.
..

92 D ECI F RA N D O A T ERRA

Dependendo da composição, idade e natureza do 5.3.3 O transporte de calor e as


material da litosfera e dos processos que ocorrem abai- temperaturas no interior da Terra
xo dela, o fluxo de calor varia com a região da Terra. A
Fig. 5.7 ilustra valores de fluxo geotérmico obtidos para o transporte de calor no interior da Terra ocorre
áreas com diferentes características geológicas. A Fig. por dois processos: condução e convecção. A con-
5.8 ilustra um modelo de distribuição global do fluxo dução é um processo mais lento, com transferência de
geotérmico, proposto em 1993. De acordo com este energia de uma molécula para as vizinhas. Acontece
modelo, as regiões de fluxo térmico mais elevado es- nos sólidos e, por isso, é importante na crosta e litosfera.
tão associadas ao sistema de dorsais meso-oceânicas. A convecção é um processo mais rápido e eficien-
Aproximadamente a metade do fluxo total de calor da te, com movimento de massa, que ocorre nos fluidos,
Terra é perdida no resfriamento de litosfera oceânica quando o gradiente térmico excede um certo valor,
de idade cenozóica (menor do que 65 Ma). chamado de gradiente adiabático. A convecção
acontece no núcleo externo e também no manto por-
que, embora ele se comporte como sólido na escala
de tempo da propagação de ondas sísmicas, numa
escala de tempo geológico, comporta-se como um
líquido. A convecção no manto é essencial para expli-
car o movimento de placas tectônicas. No núcleo
externo, é a convecção que provoca movimentos ra-
diais do fluido condutor, permitindo a ação das forças
de Coriolis, essenciais para a geração do campo mag-
nético terrestre.
! Nosso conhecimento direto sobre a temperatu-
I I ra limita-se aos dados obtidos em furos de
,I
I
sondagem na crosta, onde a variação da tempera-
tura com a profundidade (gradiente térmico) alcança
de 30 a 40°C por quilômetro. É claro que, se estes
gradientes continuassem com o mesmo valor para
o interior da Terra, as temperaturas próximas ao
centro seriam tão altas que todo o material estaria
Fig. 5.7 Fluxo de calor médio, fluxo reduzido e espessura da fundido. A sismologia informa contudo que o nú-
camada que produz calor através de radioatividade em várias cleo interno é sólido.
províncias de fluxode calor, segundo Vitorello&Pollack(1980).
O fluxode calor médio é a média de medições em cada área. Reunindo dados sobre densidade, parâmetros elás-
I O fluxode calor reduzido é o fluxoconstante que vem do manto ticos e limites entre diferentes fases, através da
I II
II
e crosta inferior,passando através da crosta superior. A espes- sismologia, variações do campo magnético da Terra e
sura da camada é a espessura efetiva da crosta superior. Os informações sobre seu mecanismo de geração, do
exemplos incluem: (i)regiões com forte fluxo de calor, medido geomagnetismo, a distribuição de densidades, a varia-
e reduzido. O exemplo da província Basine Range é do Oeste
ção da pressão e a massa total da Terra e a possível
dos EUA,numa região em que a crosta está bastante recorta-
distribuição de materiais radioativos, com os valores
da por falhas e onde há vulcanismo recente; (ii)regiões com
forte fluxo de calor medido e baixo fluxo de calor reduzido, de fluxo térmico, elaboraram-se modelos de variação
com crosta superior bastante espessa; os exemplos são da da temperatura no interior do planeta.
Austrália central e do Escudo Indiano antigo, com rochas re- A Fig. 5.9 mostra a curva proposta por um desses
lativamente antigas; (iii)regiões de fluxos de calor reduzidos, modelos, indicando a variação da temperatura com a
com crosta superior de espessura variável; os exemplos são
profundidade (geoterma). É mostrada também a curva
do Canadá, do Escudo Indiano muito antigo e do Oeste da
de variação da temperatura de fusão do material com
Austrália. De um modo geral, o fluxode calor, medido ou efe-
tivo, tende a diminuir com aumento da idade geológica da a profundidade. A temperatura de fusão muda com
área. O escudo litorâneo brasileiro apresenta características o tipo de material, como na interface manto-núcleo,
térmicas condizentes com sua situação geológica e idade, não mas muda também com a pressão, como ilustrado na
muito antiga. interface núcleo externo-núcleo interno.

""-1
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CAPíTULO 5 A COMPOSiÇÃOE O CALORDA TERRA 93

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o 40 60 85 120 180 240 350
:a-
ça
Fig.5.8 Distribuiçãoglobal do fluxode calor na superfície da Terra, segundo Pollacket 01.(1993). As linhas contínuas represertam
:es
oslimitesde segmentos da parte superior terrestre (Cap. 6) que incluem as dorsais meso-oceânicas, compostas por vulcões subma-
lra
rinosativosou recentemente ativos. Os fluxosde calor mais intensos (em marrom) associam-se a essas dorsais, enquanto as pares
ao
maisfrias(embranco, em regiões oceânicas nas proximidades dos continentes) concentram-se nos continentes.
na
ú- o

is- 1000 Temperatura do


da geoterma inferior
i e .-. à do solidus
E 2000
do ::to
......
la-
(])
vel "C
3000
tU
res "C Temperatura do
ao "C 4000 geoterma superior
c: à do solidus
::J
li-
O
;es \...
5000
a.
1a I T Núcleo de
Núcleo interno ferro sólido Temperatura do
'Va geoterma novamente
6000 L- sólido inferior à do solidus
>fi
>fi 1000 2000 3000 4000 5000
=0,
na Temperatura na Terra (oC)
Fig.5.9 A relação entre a geoterma e o solidus de liga de ferro.
94 D ECI F RA N D O A TE R RA

É importante notar que ainda há muitas dúvidas a Atualmente, com a rede mundial composta de cen-
respeito dos valores absolutos das temperaturas vi- tenas de estações sismológicas distribuídas pelos
gentes nas partes mais profundas da Terra. Assim, continentes e ilhas, é possível estudar como cada estação
estudos recentes sugerem que a diferença de tempera- recebe as ondas emitidas por milhares de terremotos,
tura entre a base do manto inferior e o topo do núcleo que ocorrem predominantemente em determinadas fai-
externo (ou seja, na interface manto-núcleo) pode fi- xas muito ativas. Aplicando-se os princípios da
car na casa de centenas de °C até talvez 1.500°C. Esse tomografia, utilizada na Medicina, para a análise, ob-
aumento de temperatura é rápido e deve ser acomo- têm-se distribuições tridimensionais das velocidades,
dado pela zona D". A temperatura dentro do núcleo mostrando que, além das variações com a profundida-
externo pode ser da ordem de 6.000°C, oU seja, de de, existem consideráveis variações laterais no material
1.000 a 1.500°C mais quente que indicado na Fig. 5.9. do interior da Terra. Para ilustrar estas diferenças, a Fig.
Acredita-se que o núcleo esteja se resfriando, com 5.1O, de um trabalho pioneiro publicado em 1984 por
conseqüente aumento do volume do núcleo interno. Woodhouse & Dziewonski, mostra anomalias no man-
Calculou-se que um aumento da ordem de 25m3 por to superior, até 670 km de profundidade, e no manto
segundo, embora imperceptível para detecção pela inferior, entre 670 e 2.890 km. A figura mostra, por
Sismologia, poderia liberar 2x101lwatts, na forma de exemplo, velocidades sísmicas anomalamente altas em
calor latente de solidificação,que seriam suficientes para regiões do manto abaixo de continentes como América
manter o dínamo que gera o campo geomagnético. do Sul e África.
I

I1

I
1I

II

I
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I
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I' "C
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..... _o
c'i:
O
.... asQ)
a. :!E'ê:

-3% ondas-S +3%


',1

-0.75% ondas-P +0.75%


Fig. 5.10 Mapa da distribuição dos continentes (superior) e seções sísmicas tomográficas do manto em perfis equatoriais
I, para ondas S no manto superior (intermediário) , e para ondas P no manto inferior (inferior), segundo um estudo pioneiro de
Woodhouse e Dziewonski (1984). A linha tracejada no mapa superior indica as dorsais meso-oceânicas (Fig. 5.8). Material
iI que transmite as ondas sísmicas com maior velocidade, portanto mais denso e mais frio, é representado em roxo. Esse
material deve afundar através do material menos denso ao seu redor. Em contra partida, o material com velocidades sísmicas
menores, portanto menos denso e mais quente, representado em vermelho, deve estar em ascensão. Os braços ascendentes
e descendentes constituem partes de células de convecção de material dentro da terra, em que o calor interno circula pelo
transporte de material. Nota-se que, nesse estudo, não há sempre uma correspondência perfeita entre as secções de 25 a
670 km e de 670 a 2.890 km.
1:1
:en- A interpretação dos resultados da tomografia sís- transicional ou mesmo até a descontinuidade de
Ias mica relacionaas zonas com velocidades sísmicas maiores Gutenberg. Além disso, deve haver ressurgências de
çao que a normal com zonas mais densas e mais frias, en- material quente e menos denso, ascendendo desde a
tos, quanto as zonas com velocidades sísmicas menores são descontinuidade de Gutenberg, em direção à superfície.
fai- zonas com rochas menos densas e mais quentes. Essas Portanto, assim como a litosfera está em movimento
da situações são instáveis: o material mais denso tende a essencialmente lateral (Cap. 7), o interior da Terra con-
ob- afundar, enquanto o menos denso tende a boiar. Atra- tém celas de convecção em que o material está em
les, vés do mode1amento numérico' dessas situações, é movimento essencialmente vertical.
da- possíveldemonstrar que o material mais frio pode cons-
rial
Fig.
tituir verdadeiras avalanches muito lentas dentro do . Técnica em que se utilizam equações que relacionam variáveis
conhecidas para determinaros valoresde variáveisdesconhecidas.
manto, que afundam desde o nível crus tal até o manto
Jor
an-
Gto
)or
em
:lca
~amadasé sufici
i',ercebeque,
.s camadas
leterminada
os podem ,
Iresença de
endea
sue abrangem
Fig. 5.11
fundando
..... ~ig.5.11b)
o
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CD IasPacífico e
c..
:::::J
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o
.....
CD
'+-
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96 D EC I F RA N DO A T E R RA

I
I
I
! I
I
I

I1

'r !
II
!I
I1
I
t
'

~ i Terra é um planeta dinâmico. Se fosse foto-


grafada do espaço a cada século, desde a sua
formação até hoje, e estas fotos compusessem um
filme, o que veríamos seria um planeta azul se contor-
6.10 Surgimento da Teoria da
Deriva Continental:
de uma revolução
o embrião
nas ciências
cendo com os continentes ora colidindo, ora se geológicas
afastando entre si. Atualmente, acreditamos que a
A teoria da Tectônica de Placas - que revolucio-
litosfera terrestre é fragmentada em cerca de uma dú-
nou as Geociências assim como a teoria da Origem
zia de placas, que se movem por razões não muito
das Espécies modificou as Biociências e as teorias da
bem compreendidas, mas cujo motor situa-se no
Relatividade e da Gravitação Universal mudaram os
manto. Placas são originadas nas dorsais meso-oceâ-
conceitos da Física - nasceu quando surgiram os pri-
nicas e ao se chocarem provocam o mergulho da placa
meiros mapas das linhas das costas atlânticas da
mais densa sob a outra e o seu conseqüente retorno
América do Sul e da África. Em 1620, Francis Bacon,
ao manto. A constatação da existência das placas
filósofo inglês, apontou o perfeito encaixe entre estas
tectônicas deu uma nova roupagem às antigas idéias
duas costas e levantou a hipótese, pela primeira vez
de Deriva Continental, explicando satisfatoriamente
historicamente registrada, de que estes continentes es-
muitas das grandes feições geológicas da Terra, como
tiveram unidos no passado. Nos séculos que se
as grandes cordilheiras de montanhas, como os An-
seguiram, esta idéia foi diversas vezes retomada, po-
des, e respondendo a questões, por exemplo, sobre as
rém raramente com argumentações científicas que lhe
concentrações dos sismos e vulcões atuais ou sobre as
dessem suporte teórico.
rochas que já estiveram no fundo dos oceanos e estão
hoje no topo de grandes cadeias montanhosas, como A origem da teoria da Tectônica de Placas ocorreu
nos Himalaias. A Tectônica Global ou Tectônica de no início do século XX com as idéias visionárias e pou-
Placas é a chave para a compreensão da história geo- co convencionais para a época do cientista alemão
lógica da Terra e de como será o futuro do planeta Alfred Wege:ner, que se dedicava a estudos
em que v1vemos. meteorológicos, astronômicos, geofísicos e
Neste capítulo será mostrado um breve histórico
paleontológicos, entre outros assuntos. Wegener pas-
do desenvolvimento da Teoria da Deriva Continental sou grandes períodos de sua vida nas regiões geladas
da Groenlândia fazendo observações meteorológicas
até chegar à moderna Tectônica de Placas. Também
e misturando freqüentem ente atividades de pesquisa
serão enfatizados aspectos sobre a constituição das
com aventuras. Entretanto, sua verdadeira paixão era
placas tectônicas, as causas de seus movimentos, bem
como as feições fisiográficas e os produtos gerados a
a comprovação de uma idéia, baseada na observação
de um mapa-múndi no qual as linhas de costa atlântica
partir da dinâmica destas placas. Além disso serão dis-
atuais da América do Sul e África se encaixariam como
cutidos os mecanismos de crescimento dos continentes
e a movimentação das massas continentais através do
um quebra-cabeças gigante, de que todos os conti-
nentes poderiam se aglutinar formando um único
tempo geológico.
megacontinente. Para explicar estas coincidências,
Wegener imaginou que os continentes poderiam, um
dia, terem estado juntos e posteriormente teriam sido
separados. Poucas idéias no mundo científico foram
tão fantásticas e revolucionárias como esta.

A este supercontinente Wegener denominou


Pangea, onde Pan significa todo, e Gea, Terra, e con-
siderou que a fragmentação do Pangea teria iniciado
há cerca de 220 milhões de anos, durante o Triássico,
quando a Terra era habitada por Dinossauros, e teria
prosseguido até os dias atuais. O Pangea teria iniciado
a sua fragmentação dividindo-se em dois continentes,
sendo o setentrional chamado de Laurásia e a austral
Fig. 6.1 Pangea e sua divisão em dois continentes, Laurósia a
norte e Gondwana a sul, pelo Mar de Tethys. de Gondwaná(Fig. 6.1).

Imagem de satélite mostrando a cordilheira do Himalaia como resultado da colisão da índia com a Ásia.
NSIDC/SPL/Stock Photos.

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- - .
6..8 TECTÓNICAGLOBAL 99

Apesarde não ter sido o primeiro nem o único de


seu tempo a considerar a existência de movimentos
horizontaisentre os continentes, Wegener foi o pri-
meiro a pesquisar seriamente a idéia da deriva
continentale a influenciar outros pesquisadores. Para
isto,procurou evidências que comprovassem sua teo-
ria,alémda coincidência entre as linhas de costa atuais
dos continentes.Wegener enumerou algumas feições
geomorfológicas,como a cadeia de montanhas da
a
Serrado Cabo na África do Sul, de direção leste-oes-
te,que seria a continuação da Sierra de Ia Ventana, a
qualocorre com a mesma direção na Argentina, ou
aindaum planalto na Costa do Marfim, na África, que
teriacontinuidadeno Brasil. Entretanto, as evidências
maisimpressionantes apresentadas pelo pesquisador
foram:

. Presença de fósseis de Glossopteris (tipo de


g1mnospermaprimitiva) em regiões da África e Brasil,
cujasocorrências se correlacionavam perfeitamente, ao
b
sejuntarem os continentes.

. Evidências de glaciação, há aproximadamente


Fig. 6.2 a) Distribuição atual das evidências geológicas deexistên-
300 cio de geleiras há 300 Ma. As setas indicam a direção de movimento
Mana região Sudeste do Brasil, Sul da África, Índia, das geleiras. b) Simulação de como seria a distribuição das geleiras
Oesteda Austrália e Antártica. Estas evidências, que com os continentes juntos, mostrando que estariam restritas a uma
incluema presença de estrias indicativas das direções calota polar no hemisfério Sul.
dosmovimentos das antigas geleiras, sugeririam que,
quela época as propriedades plásticas da astenosfera
naquelaépoca, grandes porções da Terra, situadas no
não eram ainda conhecidas, o que impediu Wegener
hemisfériosul, estariam cobertas por camadas de gelo
de explicar sua teoria. Em virtude destas importantes
(Fig.6.2a), como as que ocorrem hoje nas regiões
objeções colocadas principalmente pelos geofísicos, o
polarese, portanto, o planeta estaria submetido a um
livro de Wegener não foi considerado sério por gran-
climaglacial.Caso isto fosse verdade, como explicar a
de parte do mundo científico. Com a morte de
ausênciade geleiras no hemisfério norte, ou a presen-
ça de grandes florestas tropicais, que teriam dado Wegener, em 1930, a Teoria da Deriva Continental
começou a ficar esquecida, não obstante ainda hou-
origemnaquela época aos grandes depósitos de car-
vesse tentativas de alguns cientistas em buscar provas,
vão?Este aparente paradoxo climático poderia ser
que acabaram por descartar a idéia, uma vez que não
facilmenteexplicado, como mostrado na Fig. 6.2b, se
conseguiam encontrar uma explicação lógica e aceitá-
oscontinentesestivessem juntos há 300 Ma, pois neste
vel do mecanismo capaz de movimentar as imensas
casoa distribuição das geleiras estaria restrita a uma massas continentais.
calotapolar no Sul do planeta, aproximadamente
comoé hoje.
Em 1915, Wegener reuniu as evidências que en- 6.2 Anos 50: O Ressurgimento da
controupara justificar a teoria da Deriva Continental, Teoria da Deriva Continental
o quepara ele já seriam provas convincentes, em um
livrodenominado A origemdos Continentese Oceanos. A chave para explicar a dinâmica da Terra, ao con-
Entretanto,ele não conseguiu responder a questões trário do que muitos cientistas pensavam, não estava
nas rochas continentais, mas no fundo dos oceanos.
fundamentais,como por exemplo: Que forças seriam
Na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mun-
capazesde mover os imensos blocos continentais?
Comouma crosta rígida como a continental deslizaria dial, devido às necessidades militares de localização de
submarinos no fundo dos mares, foram desenvolvi-
sobreuma outra crosta rígida como a oceânica, sem
quefossem quebradas pelo atrito? Infelizmente na- dos equipamentos, como os sanares, que permitiram
traçar mapas detalhados do relevo do fundo oceânico, Por outro lado, no final dos anos 50 e início da
muito distintos da planície monótona com alguns pi- década de 1960, o surgimento e aperfeiçoamento da
cos e planaltos isolados que se imaginava na época geocronologia permitiu a obtenção de importantes
para o fundo do mar. Surgiram cadeias de monta- informações sobre a idade das rochas do fundo oce-
nhas, fendas e fossas ou trincheiras muito profundas, ânico, onde novamente, ao contrário do que se
mostrando um ambiente geologicamente muito mais imaginava na época, a crosta oceânica não era com-
ativo do que se pensava. posta pelas rochas mais antigas do planeta mas
apresentava idades bastante jovens, não ultrapassando
No final dos anos 40 e na década seguinte, expedi-
200 milhões de anos. Datações de rochas vulcânicas
ções constituídas principalmente por pesquisadores das
do Atlântico Sul efetuadas no Centro de Pesquisas
universidades de Columbia e Princeton (EUA)
Geocronológicas da Universidade de São Paulo con-
mapearam o fundo do Oceano Atlântico, utilizando
tribuíram para o estabelecimento do padrão de idades
novos equipamentos e coletando amostras de rochas.
da crosta oceânica, no qual faixas de rochas de mesma
Estes trabalhos permitiram cartografar uma enorme idade situam-se simetricamente dos dois lados da
cadeia de montanhas submarinas, denominadas Dorsal
dorsal mesa-oceânica, com as mais jovens próximas
ou Cadeia Mesa-Oceânica, ,que constituíam um sis-
da dorsal e as mais velhas ficando mais próximas dos
tema continuo ao longo de toda a Terra, estendendo-se
continentes, conforme ilustrado na Fig. 6.3.
por 84,000 km e apresentando uma largura da ordem
de 1.000 km; rio eixo destas montanhas constatou-se O estudo do magnetismo das rochas (Cap. 4) tam"
a presença de vales de 1 a 3km, associado a um siste- bém contribuiu para uma melhor compreensão dos
ma de riftes (Cap. 19), indicando a presença de um movimentos da crosta continental. Estudos de
regime tensional. Posteriormente foi constatado que paleomagnetismo revelaram que as posições primiti-
ao longo da cadeia mesa-oceânica o fluxo térmico vas dos pólos magnéticos da Terra tinham mudado
era mais elevado que nas áreas contíguas de crosta ao longo do tempo geológico em relação às posições
oceânica, e que esta era uma zona de forte atividade atuais dos continentes. Como era sabido que o eixo
sísmica e vulcânica. Esta cadeia de montanhas emerge magnético da Terra coincidia com o seu eixo rotacional,
na Islândia, onde seus habitantes levam uma vida pa- os dados paleomagnéticos poderiam indicar, ao invés
cata, mas freqüentemente afetada por sismos e de mudanças do eixo magnético, um movimento re-
vulcarusmo. O mais importante, porém, era que esta lativo entre os continentes. As novas informações
dorsal meso-oceânica dividia a crosta submarina em provenientes do estudo da crosta oceânica e de
duas partes, podendo representar, portanto, a ruptura paleomagnetismo fizeram com que parte dos geofísicos
ou a cicatriz produzida durante a separação dos con- passassem a considerar uma deriva dos continentes
tinentes. Se assim fosse, a teoria da Deriva Continental mais seriamente.
poderia ser aceita.

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Fig.6.3 Distribuição das idades geocronológicas do fundo oceânico do Atlântico Norte, onde se observam as idades (em Ma) mais
jovens próximas à dorsal meso-oceânica.
CAPíTULO 6 .TECTôNICAGLOBAL 101

6.3O Surgimento da Teoria da rolante. Com a continuidade do processo de geração


Tectônica Global de crosta oceânica, em algum outro local deveria ha-
ver um consumo ou destruição desta crosta, caso
No finaldos anos 50, estudos de magnetismo das contrário a Terra expandiria. A destruição da crosta
rochasdo fundo oceânico, realizados na porção nor- oceânica mais antiga ocorreria nas chamadas Zonas
deste do Oceano Pacífico, mostraram anomalias de Subducção, que seriam locais onde a crosta oceâ-
magnéticas(desvios dos valores do campo magnético nica mais densa mergulharia para o interior da Terra
em relaçãoà média medida), que exibiam em mapa até atingir condições de pressão e temperatura sufici-
padrãosimétrico b.lndado, com as sucessivas bandas entes para sofrer fusão e ser incorporada novamente
ao manto.
indicandoalternadamente anomalias positivas e nega-
tivas(Cap.4). Em 1963, F. J. Vine e D. H. Mathews,
ambosda Universidade de Cambridge, sugeriram que
asbandasmagnéticas observadas eram relacionadas a
bandasmagnetizadas de lavas vulcânicas do fundo
oceânico,geradas durante a expansão deste fundo e
queguardavamo registro do campo magnético ter-
restrena época de extrusão das lavas submarinas.
Estainterpretação trouxe subsídios a favor do con-
ceitoda expansãodo assoalho oceânico postulado por
HarryHess da Universidade de Princeton (EUA) no .....---
Zona de alta tempérdtura
inícioda década de 1960, quando a atenção dos pes-
Fig. 6.4 Esquema de correntes de convecção atuantes na
quisadoresestava voltada para o estudo de bacias
dorsal mesa-oceânica.
oceânicas.Foi neste contexto que surgiu a hipótese de
expansãodo fundo oceânico, publicada em 1962 no
trabalhode Harry Hess, "History of the Ocean Basins". 6.4 Placas Tectônicas
Combasenos dados geológicos e geofísicos disponí-
Como visto em capítulos anteriores, o planeta Ter-
veis,esteautor propunha que as estruturas do fundo
ra esta reologicamente dividido em domínios
oceânico estariam relacionadas a processos de
concêntricos maiores, sendo o externo constituído pela
convecçãono interior da Terra. Tais processos seriam
Litosfera. A parte superior da litosfera é chamada de
origillados
pelo alto fluxo calorífico emanado na dorsal
crosta e a parte inferior, mais interna, é composta por
mesa-oceânica,que provocaria a ascensão de material
rochas do manto superior, sendo que uma das dife-
do manto,devido ao aumento de temperatura que o
renças principais entre elas é sua composição química.
tornariamenos denso, conforme ilustrado na Fig. 6.4,
A crosta da Terra é constituída pela crosta continental,
onde se encontra representada uma célula de
que inclui predominantemente rochas de composição
convecção.De acordo com o modelo de Hess, este
granítica e pela crosta oceânica, que contém rochas
material,ao atingir a superfície, se movimentaria late- basálticas. As rochas crustais ocorrem sobre o manto
ralmentee o fundo oceânico se afastaria da dorsal. A
fendaexistentena crista da dorsal não continua a cres- superior.

cerporque o espaço deixado pelo material que saiu A espessura média da crosta varia de 5 a 10 km
paraformar a nova crosta oceânica é preenchido por para a oceânica e entre 25 e 50 km para a continental,
novaslavas,que, ao se solidificarem, formam um novo sendo que sob as grandes cordilheiras, como os
fundooceânico.A continuidade deste processo pro- Himalaias, esta espessura pode atingir até 100 km. Estas
duziria,portanto, a expansão do assoalho oceânico. A camadas de crosta mais uma porção rígida do manto
DerivaContinental e a expansão do fundo dos ocea- superior sotoposta constituem a litosfera.
nosseriamassimuma conseqüência das correntes de
A litosfera tem espessuras variadas, com uma mé-
convecção.
dia próxima a 100 km. É compartimentada por falhas e
Assim,em função da expansão dos fundos oceâni- fraturas profundas em Placas Tectônicas. A distribui-
cos,os continentes viajariam como passageiros, fixos ção geográfica destas placas na Terra é ilustrada na
em uma placa, como se estivessem em uma esteira Fig. 6.5.
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Dorsafdo SUdeste-lndia,:-I.

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Placa Antártica tf!


Fig. 6.5 Distribuição geográfica das placas tectônicas da Terra. Os números representam as velocidades em cm/ano entre as
placas, e as setas, os sentidos do movimento. Por exemplo, a velocidade de 10,1 para a placa Sul-Americana indica que um ponta
situado nesta placa está se aproximando de algum ponto da placa de Nazca a uma razão de 10,1 cm por ano.

o limite inferior da Litosfera é marcado pela pequenos fragmentos de crosta continental, o que
Astenosfera que consiste de uma zona no manto pode ser exemplificado pela imensa Placa do Pací-
superior, conhecida também como "Zona de Bai- fico, de natureza oceânica, que contém uma pequena
xa Velocidade", por causa da diminuição de parte da Califórnia, onde se situa a cidade de Los
velocidade das ondas sísmicas P e S devido ao es- Angeles. De uma forma geral, as placas desta natu-
tado algo plástico desta zona, pois entre 100 e 350 reza incluem somente crosta oceânica, a exemplo
km de profundidade (topo e base da astenosfera) da Placa de N azca.
as temperaturas alcançam valores próximos da tem- As características das crostas oceânicas e conti-
peratura de fusão das rochas mantélicas. O processo
nentais são muito distintas, principalmente no que
de fusão parcial inicia-se produzindo uma fina pe-
diz respeito à composição litológica e química,
lícula líquida em torno dos grãos minerais, suficiente
morfologia, estruturas, idades, espessuras e dinâ-
para diminuir a velocidade das ondas sísmicas. Desta
mica (Caps. 3, 4 e 5). A crosta continental tem uma
forma o estado mais plástico desta zona permite
composição litológica muito variada, pois compre-
que a litosfera rígida deslize sobre a Astenosfera,
ende rochas de caráter ácido até ultramáfico, o que
tornando possível o deslocamento lateral das pla-
cas tectônicas.
lhe confere uma composição média análoga às das
rochas granodioríticas a dioríticas (Cap. 16). A crosta
continental pode ser subdividida em superior e in-
6.4.1 A natureza das placas tectônicas ferior, sendo a superior composta por rochas
sedimentares, ígneas e metamórficas de baixo a
As placas litosféricas podem ser de natureza oce-
médio grau, e a inferior constituída predominante-
ânica ou mais comum ente compostas de porções
mente por rochas metamórficas de alto grau de
de crosta continental e crosta oceânica. Como exem-
natureza básica a intermediária.
plo deste tipo de placa podemos citar as Placas
Sul-Americana, Africana e Norte-Americana. As A crosta continental está sendo formada há pelo
placas de natureza oceânica podem ou não incluir menos 3,96 bilhões de anos, como mostram as ida-
des de gnaisses na região centro-norte do Canadá. 6.4.3 Que forças movem as placas
Por isso apresenta estruturas complexas, produzi- tectônicas?
daspelos diversos eventos geológicos que afetaram
as rochas após a sua formação. Em geral, a espes- Uma das principais objeções à Teoria da Deriva
sura média da crosta continental é da ordem de 30 Continental era que Wegener não conseguia explicar
a 40 km, adelgaçando-se à medida que se aproxi- as forças que moveriam os continentes. Hoje sabe-
ma da zona de transição com a crosta oceânica. mos qual o motor que faz as placas tectônicas se
moverem, mas não sabemos explicar exatamente
A crosta oceânica tem uma composição litológica
como os processos naturais fazem este motor funci-
muitomaishomogênea, consistindo de rochas ígneas onar. Entretanto, nós podemos modelar as causas
básicas(basaltos),cobertas em várias partes por uma dos movimentos e testar estes modelos com base
fina camada de material sedimentar. É bem menos
nas leis naturais. O que sabemos é que a astenosfera e
espessado que a crosta continental, em geral da or- a litosfera estão intrinsecamente relacionadas. Se a
dem de 6 a 7 km, adelgaçando-se à medida que se astenosfera se mover, a litosfera será movida tam-
aproximadas dorsais mesa-oceânicas. bém. Sabemos ainda que a litosfera possui uma energia
cinética cuja fonte é o fluxo térmico interno da Ter-
6.4.2 Tipos de limites entre placas ra, e que este calor chega à superfície através das
litosféricas correntes de convecção do manto superior. O que
não sabemos com certeza é como as convecções do
Os limites das placas tectônicas podem ser de manto iniciam o movimento das placas.
trêstipos distintos:
O princípio básico de uma célula de convecção pode
a-Limites Divergentes: marcados pelas dorsais ser observado esquentando uma grande panela com
mesa-oceânicas,onde as placas tectônicas afastam- mel, no qual bóiam duas rolhas de cortiça. Ao aquecer
se uma da outra, com a formação de nova crosta o centro da base da panela o mel esquenta mais rapida-
oceânica.
mente no centro do que nas bordas da panela, diminuindo
b- Limites Convergentes: onde as placas ali a densidade do mel. Conseqüentemente, o mel aque-
tectônicascolidem, com a mais densa mergulhan- cido subirá enquanto o mel mais frio da borda descerá
do sob a outra, gerando uma zona de intenso para ocupar o lugar do mel que subiu, instalando-se
magmatismoa partir de processos de fusão parcial uma circulação de fluidos, que afastará as duas rolhas
da crosta que mergulhou. Nesses limites ocorrem para a borda da panela, segundo o sentido das correntes
fossase províncias vulcânicas, a exemplo da Placa de convecção geradas.
Pacífica(Cap. 17). De forma análoga este movimento de convecção
c- Limites Conservativos: onde as placas ocorre no manto. Entretanto, a convecção no manto
tectônicasdeslizam lateralmente uma em relação à refere-se a um movimento muito lento de rocha, que
outra, sem destruição ou geração de crostas, ao sob condições apropriadas de temperatura elevada,
longo de fraturas denominadas Falhas se comporta como um material plástico-viscoso mi-
Transformantes (Cap. 19). Como exemplo de li- grando lentamente para cima. Este fenômeno ocorre
miteconservativo temos a Falha de San Andreas, quando um foco de calor localizado começa a atuar
na América do Norte, onde a Placa do Pacífico, produzindo diferenças de densidade entre o material
contendoa cidade de Los Angeles e a zona da Bai- aquecido e mais leve e o material circundante mais
xa Califórnia se desloca para o norte em relação à frio e denso. A massa aquecida se expande e sobe len-
PlacaNorte-Americana, que contém a cidade de tamente. Para compensar a ascensão destas massas de
SãoFrancisco. material do manto, as rochas mais frias e densas des-
cem e preenchem o espaço deixado pelo material que
É em torno destes limites de placas que se con-
subiu, completando o ciclo de convecção do manto,
centraa mais intensa atividade geológica do planeta,
conforme ilustrado na Fig. 6.6. O movimento de
como sismos (Cap. 3), vulcanismo (Cap. 17) e
convecção das massas do manto, cuja viscosidade é
orogênese.Atividades geológicas semelhantes tam-
1018vezes maior do que a água, ocorre a uma veloci-
bémocorrem no interior das placas, mas em menor
dade da ordem de alguns centímetros por ano.
intensidade.
Dorsal
meso - oceânica a- Pressão sobre a placa provocada pela criação de
Fossa
nova litosfera nas zonas de dorsais meso-oceânicas, o
Utosfera
que praticamente empurraria a placa tectônica para os
lados.

b- Mergulho da litosfera para o interior do manto em


direção à astenosfera, puxada pela crosta descendente
mais densa e mais fria do que a astenosfera mais quente a
sua volta. Portanto, por causa de sua maior densidade, a
a parte da placa mais fria e mais antiga mergulharia puxan-
do parte da placa litosférica para baixo.
Dorsol
mesa - oceânica c- A placa litosférica torna-se mais fria e mais es-
pessa à medida que se afasta da dorsal meso-oceânica
Utosfera onde foi criada. Como conseqüência, o limite entre a
litosfera e a astenosfera é uma superfície inclinada.
Mesmo com uma inclinação muito baixa, o próprio
peso da placa tectônica poderia causar uma movimen-
tação de alguns centímetros por ano.

6.4.4 A velocidade do deslocamento das


b
placas tectônicas
Fig. 6.6 Modelos sugeridos para mecanismos de correntes
de convecção. a - Correntes de convecção ocorrendo somen- Em média, a velocidade de movimentação das
te na astenosfera. b - Correntes de convecção envolvendo todo placas tectônicas é considerada de 2 a 3 cm/ ano, em-
o manto. bora a velocidade relativa constatada entre algumas
Muitos cientistas acreditam que as correntes de placas seja muito maior do que entre outras. Geral-
mente, as diferenças de velocidade estão relacionadas
convecção do manto por si só não seriam suficien-
tes para movimentar as placas litosféricas mas à proporção de crosta continental presente nas placas.
constituiriam apenas um dentre outros fatores que As placas Sul-Americana e Africana mostram baixas
em conjunto produziriam esta movimentação. O velocidades, enquanto as placas com pouco ou ne-
nhum envolvimento de crosta continental, como a do
processo de subducção teria início quando a par-
Pacífico, tendem a exibir velocidades maiores. Além
te mais fria e velha da placa (portanto mais distante
da dorsal meso-oceânica) se quebra e começa a disso, a velocidade das placas depende também da
mergulhar por debaixo de outra placa menos den- geometria do movimento da placa em uma superfície
sa, e a partir daí os outros fatores ilustrados na Fig. esférica, como será visto a seguir.
6.7 começariam a atuar em conjunto com as cor- Em um primeiro momento, podemos pensar que
rentes de convecção. Estes outros fatores incluem: todos os pontos situados em uma placa litosférica te-
riam a mesma velocidade. Isto seria verdade se a placa
fosse plana e deslizasse sobre uma superfície chata e
aplainada, como uma balsa navegando sobre a água.
Na verdade, as placas são convexas e deslizam sobre
uma superfície esférica em torno de um eixo e de um
pólo, denominados de eixo de rotação da placa e pólo
de expansão, que nada têm a ver com o eixo rotacional
Fig. 6.7 Processos geológicos que causam a movimentação
da Terra e os pólos norte e sul geográficos. O pólo de
das placas tectônicas: a) criação de nova litosferaoceânica na
expansão é definido como um ponto em volta do
dorsal meso-oceânica; b) mergulho da litosfera para o interior
do manto, puxada pela crosta oceânica descendente mais den- qual uma placa tectônica gira, representado na Fig. 6.8
sai c) espessamento da placa litosférica, à medida que se por p o. Para uma dada velocidade angular de uma
distancia da dorsal meso-oceânica, tornando o limiteentre a placa, a velocidade de distintos pontos sobre a placa
placa e a astenosfera uma superfície inclinada. será diferente, aumentando à medida que os pontos

..... -~
- .
Eixo de rotação
se distanciamdo pólo. Por exemplo, o pólo po gira,
da placa
masnão percorre nenhuma distância e portanto sua
velocidadeé zero, enquanto os pontos mais distantes
do pólo, dentro de um mesmo intervalo de tempo,
terãode percorrer distâncias maiores e conseqüente-
mente terão maior velocidade, conforme pode ser
visto na Fig. 6.8.

Embora todas as placas litosféricas possam se


mover, não são todas que atualmente estão em movi-
mento. Existem algumas, como a Placa Africana, que
parecem estacionárias, por estarem bordejadas quase
inteiramente por limites divergentes de placas que se
afastam a taxas similares.

A velocidade medida de placas litosféricas geral-


mente é relativa, mas a velocidade absoluta pode ser
determinada através da utilização de pontos de refe-
rência, como os Hot Spots ou Pontos Quentes.
Estes pontos quentes na superfície terrestre registram
atividades magmáticas ligadas a porções ascendentes
de material quente do manto denominadas Plumas
do Manto e originadas em profundidades diversas
do manto, a partir do limite entre o núcleo externo e
o manto inferior. As marcas que eles deixam nas pla-
cas que se movimentam sobre eles incluem vulcões Fig.6.8 Modelo de movimento de uma placa curva sobre
(ilhasvulcânicas, como o HavaQ, platôs mesa-oceâni- uma superfície esférica. Notar que os pontos 1 e 2, na placa
cos e cordilheiras submarinas. B, exibem diferentes velocidades, pois têm de percorrer dife-
rentes distâncias no mesmo intervalo de tempo, tendo o ponto
As plumasdo manto, em comparação com as pla- 2 uma velocidade maior do que o ponto 1.
cas,são relativamente estacionárias, de modo que as
placas litosféricas se movimentam sobre elas.
assoalho oceânico. Um exemplo espetacular desta fei-
Freqüentemente,a passagem de uma placa sobre um
ção é a Islândia, onde a atividade magmática relacionada
Hot5potresulta em um rastro de feições lineares na
ao Hot 5pot foi tão intensa que o platô, na dorsal meso-
superfícieda placa, cuja direção indica a movimenta-
oceânica, se expõe acima do nível do mar (Cap. 17).
ç~odestaplaca.No caso de placas oceânicas, como a
do Pacífico,o traço dos Hot 5pots pode ser uma ca-
deiade montanhas vulcânicas ou uma série de ilhas 6.4.5 As colisões entre placas tectônicas
vulcânicas,que quando datadas radiometricamente
o movimento das placas tectônicas produz ao lon-
permitemcalculara velocidade de movimentação das
placas,a partir da distância entre as ilhas e as idades go de seus limites convergentes colisões que, em
daserupçõesvulcânicas, como mostrado na Fig. 6.9. função da natureza e composição das placas envolvi-
das, irão gerar rochas e feições fisiográficas distintas.
As plumas do manto explicam muitas das ativida- Nesse sentido, o choque entre placas litosféricas pode
desvulcânicasque ocorrem no interior das placas, para envolver crosta oceânica com crosta oceânica, crosta
o casode crosta oceânicagerando ilhas oceânicas, e no continental com crosta oceânica ou crosta continental
casodecrostacontinental,gerando um espessamento da com crosta continental, como ilustrado na Fig. 6.10.
crostacom uma cadeia de vulcões, como por exemplo
a costaoesteda Américado Norte. Quando o Hot 5pot Quando placas oceânicas colidem, a placa mais den-
se situasob ou próximo da dorsal meso-oceânica, ele sa, mais antiga, mais fria e mais espessa mergulha sob a
produz um aumento do fluxo de material fundido, outra placa, em direção ao manto, carregando consigo
causandoum espessamento maior do que no resto da parte dos sedimentos acumulados sobre ela, que irão
dorsal,muitasvezes sob a forma de um platô sobre o se fundir em conjunto com a crosta oceânica em
106 D EC I FRA N D O A T E R RA

subducção. O processo produz intensa atividade vul- o choque entre placas continentais (Fig.6.1Oc)pode
cânica de composição andesítica, comumente ocorrer após o processo colisional do tipo Andino,
manifestada sob a forma de arquipélagos, conhecidos onde a continuidade do processo de subducção da
como "Arcos de Ilhas" (Fig. 6.10a), de 100 a 400 km crosta oceânica sob a crosta continental leva uma massa
atrás da zona de subducção. Na zona de subducção continental ao choque com o arco magmático forma-
forma-se uma fossa que será mais próxima do arco do inicialmente. Quando os dois continentes colidem,
de ilhas, quanto mais inclinado for o ângulo de mer- a crosta continental levadapela crosta oceânica mais
gulho. As ilhas do Japão constituem um exemplo atual densa mergulha sob a outra. Este processo não gera
de arco de ilhas. vulcanismo expressivo como nos outros dois proces-
sos anteriores, mas produz intenso metamorfismo de
A colisão entre uma placa continental e umaoceâ-
rochas continentais pré-existentes e leva à fusão parci-
nica (Fig. 6.1Ob) provocará a subducção desta última
al de porções da crosta continental gerando
sob a placa continental, que, a exemplo dos arcos de
magmatismo granítico. Os exemplos clássicos de fei-
ilhas, produzirá um arco magmático na borda do con-
ções geradas por este processo são as grandes
tinente, caracterizado por rochas vulcânicas de
cordilheiras de montanhas do tipo dos Alpes e dos
composição andesítica e dacítica e rochas plutônicas
Himalaias, esta última gerada a partir da colisão entre
de composição principalmente diorítica e granodiorítica,
as placas da Índia e a Asiática, processo este iniciado
acompanhado de deformação e metamorfismo tanto
cerca de 70 milhões de anos atrás que continua até os
das rochas continentais pré-existentes como de parte dias atuais.
das rochas formadas no processo. As feições
fisiográficas geradas neste processo colisional são as
grandes cordilheiras de montanhas continentais como
os Andes na América do Sul.

(1,,,,[
q"\. ,.r
Ilha vCi!Cânica

;J

Manto Câmara Manto Câmara


a magmática b magmática

Manto Câmara
c magmática

Fig. 6.9 Esquema de formação de ilhas vulcânicas a partir deHot spots: a) O Hot Spot produz a primeira Ilha Vulcânica; b) com o
movimento da placa e o HotSpot fixoa IlhaVulcânica 2 irá se formar em outro lugar; c) com a continuidade de movimento da placa,
as ilhas 1 e 2 se deslocam e a ilha vulcânica 3 se forma; d) mapa mostrando as ilhas que compõem o Arquipélago do Havaí formada;
por ação de Hot Spot desde 5,6 milhões de anos atrás. Os números correspondem às idades das rochas vulcânicas em milhõesde
anos. Notarque as idadesaumentamconformeo movimentoda placa,indicadopela seta,a partirda ilhamaisjovem,que contémo
vulcanismo recente, para a ilha mais antigade 5,6 Ma.
Associados aos processos colisionais entre placas
tectônicas ocorrem uma série de feições geológicas e
associações litológicas características ilustradas na Fig.
6.11, como as bacias de Ante-Arco e Retro-Arco,
fossas e associações de rochas típicas de zonas de
subducção como mélanges e ofiolitos.
Astenosfera
As bacias do tipo ante-arco são formadas na placa
a
continental, na frente do arco entre este e a fossa (Fig.
6.11), uma vez que o choque de placas produz uma ele-
vação (soerguimento) na borda da placa e como
conseqüência forma-se uma bacia entre esta elevação e o
~ arco. Geralmente, estas bacias contêm importante con-
6;. Manto Litosfértco
tribuição de sedimentos provenientes da erosão de rochas
I Astenosfera
vulcânicas e sedimentares do próprio arco adjacente. Por
outro lado, a formação de uma bacia do tipo Retro-
b Arco em um processo colisional envolvendo crosta
oceânica pode ou não ocorrer. Essas bacias são forma-
das a partir de fenômenos distensivos que produzem o
adelgaçamento da crosta atrás do arco. Este processo de
distensão ocorre em função de vários fatores relaciona-
dos, tais como idade, densidade e velocidade da placa
oceânica em subdução, que vão resultar no ângulo de
mergulho da placa. Se o ângulo for maior do que 45°, o
c que implica uma placa oceânica mais velha e mais densa,
a zona de subducção migrará para a frente e a placa que
contém o arco sofrerá distensão, gerando a baciade retro-
Fig.6.10 Processos colisionais envolvendo: a) crosta oceâni-
arco. Os dois tipos de bacias são paralelos ao arco e as
co com crosto oceânica; b) crosta continental com crosta
bacias retro-arco são preenchidas por sedimentos mari-
oceônicai c) crosta continental com crosta continental (os tra-
ços representam rupturas).
nhos típicos de mar raso, podendo ocorrer vulcanismo
basálticoassociado aos movimentos tensionais (rupturas).
Batélitodo
Bacia de granito Crosta
i continental
Prismade acresção Ante-arco Bacia de
Mélange, Ofiolito Retro-arco
~

~
Fig.6.11 Perfilde um limite de placa convergente mostrando as principais feições geológicas formadas e as associações de
rochas relacionadas.
Muitos materiais rochosos ocorrem como resulta-
do de processos colisionais e constituem as
denominadas "associações petrotectônicas", sen-
do as mais típicas as Mélanges e os Ofiolitos.
As fossas ou trincheiras comumente contêm pe-
quenas quantidades de sedimentos marinhos e
sedimentos provenientes do arco, dos quais uma par-
te é carregada para baixo pela placa que mergulha na
zona de subducção, e outra parte, mais significativa, é
deformada e quebrada pelo tectonismo que ocorre
nas margens convergentes. A esta mistura caótica de
rochas quebradas e desordenadas, que ocorrem nas Fig. 6.13 Ofiolitos com pillow-Iavas (Complexo de Troodos,
fossas por uma extensão que varia de metros a algu- Chipre). Foto: B. B.de BritoNeves.
mas dezenas de quilômetros, denomina-se mélange
(palavra francesa que significa mistura). Como estes ser explicados pelos processos normais de subducção,
sedimentos são de baixa densidade, não podem ser onde a placa oceânica mergulha por debaixo da placa
levados para o interior do manto. Conseqüentemente, continental. Nesse sentido foi definido o termo
são pressionados pela colisão das duas placas; sendo obducção, que estaria relacionado ao deslocamento
cisalhados, fraturados e metamorfisados em condi- de partes de crosta oceânica sobre uma crosta conti-
ções de alta pressão e baixa temperatura, já que estão nental através de processos tectônicos complexos. A
próximos da superfície. As rochas típicas deste pro- Fig. 6.14 ilustra três mecqnismos de colocação de pe-
cesso são os eclogitos, rochas mantélicas e os xistos daços de crosta oceânica em meio à crosta continental,
azuis, cuja cor azulada é proveniente de um anfibólio onde os dois primeiros modelos mostram eventos de
chamado glaucofânio. Como as mélanges são feições obducção.
superficiais, dificilmente são encontradas em terrenos O primeiro diagrama mostra um modelo de
pré-cambrianos como no Brasil porque são erodidas obducção através do cavalgamento da crosta oceâni-
com facilidade. Na América do Sul, exemplos de mélanges
ca sobre margem continental passiva durante um
podem ser encontrados nos Andes.
processo colisional. O segundo exemplo também de
Os ofiolitos são rochas máficas-ultramáficas (Figs. obducção ilustra o fraturamento da parte superior da
6.12 e 6.13) que representam fatias e fragmentos de litosfera oceânica em subducção e posterior cavalga-
crosta oceânica ou manto superior posicionados em mento dos fragmentos assim gerados por sobre um
meio a rochas da crosta continental, geralmente asso- arco pré-existente. O último esquema mostra a adição
ciados a sedimentos marinhos na zona de contato entre tectônica ao complexo de subducção ou prisma de
as placas. Os processos de cavalgamentos de frações acresção de uma fatia de crosta oceânica através de
de ofiolitos sobre margens continentais não podem seu deslocamento para fora da fossa e sua respectiva
introdução no prisma. Os melhores exemplos de
ofiolitos são encontrados no Complexo de Troodos
em Chipre (Figs. 6.12 e 6.13) e nas Montanhas de Omã,
próximo à Arábia Saudita.

6.4.6 Margens continentais

Como conseqüência da tectônica de placas, os con-


tinentes fragmentam-se e juntam-se periodicamente ao
longo do tempo geológico. As evidências geológicas
destas aglutinações e rupturas são encontradas em áreas
de margens dos continentes atuais ou que foram no
passado geológico e hoje se encontram suturadas no
Fig. 6.12 Ofiolitos com pillow-Iavas cortados por diques (com- meio dos continentes. Nesse contexto podemos reco-
plexo de Troodos, Chipre) Foto: B. B. de Brito Neves. nhecer dois tipos de margens continentais:

. - -
b - Margens Continentais Passivas desenvol-
vem-se durante o processo de formação de novas
bacias oceânicas quando da fragmentação de conti-
nentes. Este processo é denominado de rifteamento,
palavra proveniente do termo geológico em inglês Rift
Valley, que significa um vale de grande extensão for-
mado a partir de um movimento distensivo na crosta,
a
que produz falhas subverticais e abatimento de blocos
(Cap.19). Este processo, ilustrado na Fig. 6.15, inicia-
se com o aumento pontual do fluxo térmico no manto,
que irá causar o soerguimento e abaulamento da cros-
ta continental sobre este ponto, eventualmente
provocando o fraturamento e extrusão de rochas
máficas (Fig. 6.15a). Com a subseqüente instalação de
b correntes de convecção no manto subjacente a esta
Fragmento do crosta
região, inicia-se um processo distensivo gerando
oceânica adicionada falhamentos normais e o desenvolvimento de estrutu-
aa pnsma de acresção
ras do tipo rift valley (Fig. 6.15b). Com a continuidade
do movimento distensivo, ocorre o adelgaçamento da
crosta continental até que finalmente ocorra a ruptura
desta crosta e o desenvolvimento de uma crosta
basáltica oceânica incipiente (Fig. 6.15c). Um novo
oceano começa a se formar. À medida que o proces-
so distensivo continua, a crosta oceânica e o oceano
Fig.6.14 Mecanismos possíveis para a colocação tectônica vão também aumentando (Fig. 6.15d). Ao longo das
de fragmentos de crosta oceânica em meio a rochas continen- margens adelgaçadasdos continentes ocorre a movimen-
tais. Fonte: Condie, 1989. tação tectônica de blocos, caracterizada, principalmente,

a - Margens Continentais Ativas, si-


tuadas nos limites convergentes de placas
tectônicas onde ocorrem zonas de
Fusão parcial
subducçãoe falhas transformantes; nestas
margens estão em desenvolvimento ativi-
dades tectônicas importantes, como por
exemplo,formação de cordilheiras, no pro-
cessochamado de orogênese. Na América
do Sul,o exemplo de margem continen-
tal ativaé a costa do Pacífico, onde a Cadeia
Andinaencontra-se atualmente em desen-
volvimento.As margens continentais ativas
constituem os ambientes geológicos onde c
se formam mélanges e ofiolitos, que irão Plataforma continental

comporo denominado prisma de acresção


de um arco. Este prisma acrescionário é
compostopor rochas basálticas e sedimen-
tos provenientes da raspagem da parte
superficialda placa oceânica descendente,
Fig. 6.15 Esquema evolutivo de fragmentação de uma massa continental e
que foram adicionadas ao arco. desenvolvimento de margens continentais passivas.
por sistemas de falhas subverticais.Atualmente este pro- fratura em geral forma um vale que se estende para
cesso ocorre no Oceano Atlântico, onde as costas leste dentro de áreas continentais, mas não chega a de-
da América do Sul e oeste da África constituem as senvolver uma bacia oceânica. Este terceiro braço
margens continentais passivas. Portanto, este tipo de constitui um rifte abortado.
margem continental situa-se ao longo de limites diver-
O ponto de encontro destes três riftes é denomi-
gentes de placas tectônicas e não sofre tectonismo
nado junção tríplice ou ponto tríplice e marca o
importante em escala regional.
ponto geográfico onde se iniciou a fragmentação de
Quando o processo de rifteamento é iniciado, continentes. Um dos exemplos atuais de junção tríplice
possivelmente induzido pela ascensão de uma plu- ocorre entre a Arábia Saudita e o noroeste da África,
ma do manto (Hot 5pot), é comum que a crosta onde os dois riftes ativos formam o Golfo de Aden e
continental se rompa ao longo de um sistema de o Mar Vermelho, e o terceiro rifte constitui o Rift Valley
três fraturas separadas por ângulo de 120°, sendo Africano que se estende para o interior do continente
que duas delas evoluem para a formação de ocea- africano, como mostrado na Fig. 6.16.
nos e de margens continentais passivas e a terceira

Graben no ~ Falha
continente ~ transformante

Cadeia
Rifte preenchido Mesa- oceânica
por sedimento, e graben central
coberto pelo mar

Fig. 6.16 Ilustração mostrando a iunção tríplice no Oriente Médio: a) riftes do Golfo de Aden, do Mar Vermelho e do interiorda
África; b) junção tríplice entre a América do Norte, África e América do Sul, no início da fragmentação do Pangea.
A abertura e o fechamento de bacias oceânicas 6.5 A Dança dos Continentes
ou oceanos é conhecida como "Ciclo de Wilson",
nomedado por Burke e colaboradores, em 1976, em Um processo geológico da importância emagni~
homenagem a J. T. Wilson, que foi um dos tude da fragmentação do supercontinente Pangea não
idealizadoresda Teoria de Expansão do Assoalho ocorreu somente nos últimos 200 milhões de anos da
Oceânico.Este ciclo inicia-se com a ruptura de uma história da Terra. As informações geológicas disponí-
massa continental, através do desenvolvimento de veis, principalmente as geocronológicas,
fraturase de sistemas de riftes, como os que ocor- paleomagnéticas e geotectônicas, demonstram que a
rem atualmente no "Rift Valley da África", seguido aglutinação e a fragmentação de massas continentais
pelaabertura de utna pequena bacia oceânica/ ocea- ocorreram diversas vezes no passado geológico e que
no, como o Mar Vermelho hoje; este deverá o Pangea foi apenas a última importante aglutinação
expandir-seate uma extensão indeterminada, que de continentes. Antes do Pangea as massas continen-
poderiaser similar à do atual Oceano Atlântico Sul. tais se juntavam em blocos de dimensões e formatos
diferentes dos continentes atuais, pois os primeiros blo-
Posteriormente,o ciclo se inverte, iniciando-se uma cos de crosta continental formaram-se há 3,96 bilhões
subducçãode crosta oceânica em uma ou ambas as de anos e foram crescendo com o desenvolvimento
margenscontinentais, que passam de passivas para ati- de nova crosta continéntal, através de orogêneses, até
vas.Podeocorrer, então, o fechamento total ou parcial
atingir as dimensões atuais. Há 550 milhões de anos
dasbaciasoceânicas, gerando uma orogênese. O re- cerca de 95% das áreas continentais atuais já estavam
gistrogeológicoexistente indica que o Ciclo de Wilson formadas.
ocorreuvárias vezes na história da Terra, o que pro-
duziuuma movimentação contínua dos continentes A Fig. 6.17 mostra a reconstituição da aglutinação
em diversasdireções, ora se aglutinando ora se frag- de blocos continentais elaborada para os últimos 2
mentando. bilhões de anos (2,0 Ga) da história geológica da Ter-

Fig. 6.17 Reconstituição da


posição dos continentes de 2,0
bilhões de anos até 100 mi-
lhões de anos atrás, mostrando
as diversas aglutinações e
fragmentações das massas
conti nenta is.
ra. Nessa figura pode ser observado que, no início, as fragmentos de crosta continental teriam tornado a co-
massas continentais estavam reunidas em três micro- lidir entre si formando um novo supercontinente
continentes, Ártica, Atlântica e Dr, com partes do que denominado Gondwana, que incluiu a América do Sul
seria a futura América do Sul fazendo parte da Atlânti- e outros dois menores, Laurentia-Báltica e Sibéria. Há
ca. Entre 2,0 e 1,0 bilhão de anos atrás, estes 550 Ma, estes três continentes estiveram juntos, for-
microcontinentes se fragmentaram, através de proces- mando, por um curto período de tempo geológico, o
sos de rifteamentos, com os fragmentos colidindo entre supercontinente denominado Panótia, o que em gre-
si, para gerar novas configurações continentais maio- go significa "tudo no Sul", já que este supercontinente
res. Entre 1,3 e 1,0 bilhão de anos atrás, os principais situou-se no hemisfério Sul. Há cerca de 500 Ma,
blocos de crosta continental se juntaram originando o Panótia teria iniciado a sua fragmentação, permane-
primeiro supercontinente, que foi denominado Rodínia, cendo o Gondwana inteiro no hemisfério Sul, incluindo
rodeado pelo oceano Miróvia. Ambas as denomina- a América do Sul e África, e uma outra massa conti-
ções são de origem russa significando respectivamente nental constituída pela Laurentia-Báltica e Sibéria, que
mãe-pátria e paz. A América do Sul faria parte dos incluía partes do que seria hoje a América do Norte,
blocos Amazônia, Rio da Prata e São Francisco. Entre Europa e Ásia. Há aproximadamente 340 Ma todas
1.000 e 800 milhões de anos atrás, o continente Rodínia as massas continentais começaram novamente a se jun-
teria sido fragmentado e entre 800 Ma e 500 Ma os tar, culminando há cerca de 230 Ma com a formação
do supercontinente Pangea, circundado por um único
oceano denominado Pantalassa (em grego significa
"todos os mares"). Há 200 milhões de anos o Pangea
vem se fragmentando, e a América do Sul iniciou sua
separação da África há 180 Ma. Nesta mesma época,
a Austrália e a Antártica também se separaram do
Pangea, e a Índia, que estava na parte sul do Gondwana,
iniciou sua viagem até o hemisfério Norte, onde foi
colidir com a Ásia, sendo a Cordilheira dos Himalaias
o produto dessa colisão.
750 Ma 422 Ma
(NeoproterozóicoJ (Silurianomédio) A Fig. 6.18 mostra as posições da América do Sul
e da África, ao longo do tempo geológico, desde 750
milhões de anos atrás.

550 Ma 374 Ma
(Neoproterozóico tardio) (Devoniano)

530 Ma 260 Ma
(Cambriano médio) (Permiano)

Fig. 6.18 Posições das massas continentais da América do


Sul e Áfricade 750 milhõesde anos atrás. Fonte: Dalziel,1995.
água é a substância mais abundante na superfí- servatórios compreende o ciclo da água ou ciclo
cie do planeta, participando dos seus processos hidrológico, movimentado pela energia solar, e repre-
modeladores pela dissolução de materiais terrestres e do senta o processo mais importante da dinâmica externa
transporte de partículas. É o melhor e mais comum da Terra.
solvente disponível na natureza e seu papel no
intemperismo químico é evidenciado pela hidrólise (Cap. 7.1.1 Origem da água
8). Nos rios, a água é responsável pelo transporte de
partículas, desde a forma iônica (em solução) até casca- No ciclo hidrológico vamos acompanhar o percur-
lho e blocos, representando o meio mais eficiente de so de uma gota de água pelos reservatórios naturais
erosão da superfície terrestre (Caps. 9 e 10). Sob forma (Tabela 7.1). Mas de onde veio a primeira gota? A res-
de gelo, acumula-se em grandes volumes, inclusivegelei- posta está nos passos iniciaisda diferenciação do planeta.
ras, escarificando o terreno, arrastando blocos rochosos A origem da primeira água na história da Terra está rela-
e esculpindo a paisagem (Cap. 11). cionada com a formação da atmosfera? ou seja, a
degaseificação do planeta. Este termo refere-se ao fenô-
Sua importância na superfície terrestre é atestada ain-
meno de liberação de gases por um sólido ou líquido
da quando se comparam as áreas cobertas por água e
quando este é aquecido ou resfriado. Este processo, atu-
gelo com aquelas de "terra firme": do total de 510xlct
ante até hoje, teve início na fase de resfriamento geralda
kmz da superfície da Terra, 310xlct kmz são cobertos
Terra, após a fase inicialde fusão parcial. Neste gradativo
por oceanos, em contraposição a 184,94xlct kmz de ter-
resfriamento e formação de rochas ígneas, foram libera-
ra firme, resultando numa proporção entre superfície
dos gases, principalmente vapor de água (HzO)e gás
marítima e terra firme de 2,42 : 1. Considerando-se que
cerca de 2,5xlQ6kmz das terras firmes são cobertas por carbônico (COJ, entre vários outros, como subprodutos
voláteis da cristalização do magma (Cap. 16). A geração
rios e lagos e até 15xlQ6kmz por geleiras, esta relação
de água sob forma de vapor é observada atualmente
fica ainda mais desfavorável para as terras emersas. Por
em erupções vulcânicas, sendo chamada de água juve-
isso a Terra é chamada de planeta azul quando vista do
nil, suportando o modelo acima, sobre a origem da
espaço: é a cor da água. Em subsuperfície, a água tam-
água. Logo surge outra dúvida: o volume de água que
bém é importante, alimentando poços, hoje responsáveis
atualmente compõe a hidrosfera foi gerado
por significante abastecimento de água em grandes cen-
gradativamente ao longo do tempo geológico ou surgiu
tros urbanos e áreas áridas (Cap. 20).
repentinamente num certo momento desta história?Os
É a água que mantém a vida sobre a Terra, pela geólogos defendem a segunda possibilidade. Existem
fotossÍlltese, que produz biomassa pela reação entre evidências geoquímicas que suportam a formação de
COz e HzO. Neste contexto biológico, devemos lem- quase toda a atmosfera e a água hoje disponível nesta
brar que praticamente 80% do corpo humano é primeira fase de resfriamento da Terra; desde então,este
composto por água. volume teria sofrido pequenas variações, apenas por
A origem da água, sua distribuição em superfície e reciclagem, através do ciclo das rochas (Cap. 2).
subsuperfície, assim como o movimento entre seus re-
servatórios naturais são temas do presente capítulo,todos 7.1.2 Ciclo hidrológico
fundamentais para orientar o aproveitamento, manejo e
proteção dos mananciais hídricos do planeta Terra. Partindo de um volume total de água relativamente
constante no Sistema Terra, podemos acompanhar o ci-
clo hidrológico (Fig.7.1), iniciando com o fenômeno da
7.1 O Movimento de Água no Sistema precipitação meteórica, que representa a condensação
Terra - Ciclo Hidrológico de gotículas a partir do vapor de água presente na at-
mosfera, dando origem à chuva. Quando O vapor de
A água distribui-se na atmosfera e na parte superficial água transforma-se diretamente em cristais de gelo e es-
da crosta até uma profundidade de aproximadamente tes, por aglutinação,atingem tamanho e peso suficientes,
10 km abaixo da interface atmosfera/crosta, constituin- a precipitação ocorre sob forma de neve ou granizo,
do a hidrosfera, que consiste em uma série de responsável pela geração e manutenção do importante
reservatórios como os oceanos, geleiras, rios, lagos, va- reservatório representado pelas geleiras nas calotas pola-
i por de água atmosférica, água subterrânea e água retida res e nos cumes de montanhas.
I nos seres vivos. ° constante intercâmbio entre estes re-
II Lago subterrâneo da caverna Poço Encantado (calcários do Grupo Una), ltaetê, BA. Foto: Adriano Gambarini.
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I1
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Tabela 7.1 Distribuição de água nos principais reservatórios naturais. A água doce
líquida disponível na Terra corresponde praticamente à água subterrânea.

Reservatório Volume (km3 x 106) Volume (%) Tempo médio de permanência

Oceanos 1.370 94 4.000 anos

Geleirase capas de gelo 30 2 10 - 1000 anos

Águas subterrâneas 60 4 2 semanas a 10.000 anos

Lagos,rios, pântanos e 0,2 <0,01 2 semanas a 10 anos


reservatóriosartificiais

Umidadenos solos 0,07 <0,01 2 semanas a 1 ano

Biosfera 0,0006 <0,01 1 semana

Atmosfera 0,0130 <0,01 - 10 dias

Parteda precipitação retoma para a atmosfera por mos, principalmente as plantas, através da respiração.
evaporaçãodireta durante seu percurso em direção à Esta soma de processos é denominada evapotrans-
superfícieterrestre. Esta fração evaporada na atmos- piração, na qual a evaporação direta é c~usada rela
ferasoma-seao vapor de água formado sobre o solo radiação solar e vento, enquanto a transpiração de-
e aqueleliberadopela atividade biológica de organis- pende da vegetação. A evapotranspiração ~m áreas

Energia
solar

o
'o....
o
C
o-
o
JJ

~ ~

Rg. 7.1 O ciclo hidrológico.


florestadas de clima quente e úmido devolve à atmos- os como de transformação entre os estados gasoso,
fera até 70% da precipitação. Em ambientes glaciais o líquido e sólido. Processos de consumo e formação
retorno da água para a atmosfera ocorre pela subli- de água interferem neste ciclo, em relativo equiliôrio
mação do gelo, na qual a água passa diretamente do através do tempo geológico, mantendo o volume geral
estado sólido para o gasoso, pela ação do vento (Cap. 11). de água constante no Sistema Terra. Há, portanto, um
balanço entre a geração de água juvenil e consumo de
Em regiões florestadas, uma parcela da precipita-
água por dissociação e sua incorporação em rochas
ção pode ser retida sobre folhas e caules, sofrendo sedimentares.
evaporação posteriormente. Este processo é a
interceptação. Com a movimentação das folhas pelo Considerando o tempo geológico, o ciclo
vento, parte da água retida continua seu trajeto para o hidrológico pode ser subdividido em dois subciclos:
solo. A interceptação, portanto, diminui o impacto das o primeiro opera a curto prazo envolvendo a dinâmi-
gotas de chuva sobre o solo, reduzindo sua ação ca externa da Terra (movido pela energia solar e
eroslVa. gravitacional, Capo 9); o segundo, de longo prazo, é
movimentado pela dinâmica interna (tectônica de pla-
Uma vez atingido o solo, dois caminhos podem
cas, Capo 6), onde a água participa do ciclo das rochas
ser seguidos pela gotícula de água. O primeiro é a
(Fig.7.1).
infiltração que depende principalmente das carac-
terísticas do material de cobertura da superfície. A No ciclo "rápido", a água é consumida nas rea-
água de infiltração, guiada pela força gravitacional, ções fotoquímicas (fotossíntese) onde é retida
tende a preencher os vazios no subsolo, seguindo principalmente na produção de biomassa vegetal (ce-
em profundidade, onde abastece o corpo de água lulose e açúcar). Com a reação contrária à fotos síntese,
subterrânea. A segunda possibilidade ocorre quan- a respiração, esta água retorna ao ciclo.
do a capacidade de absorção de água pela superfície
No ciclo "lento" o consumo de água ocorre no
é superada e o excesso de água inicia o escoamen-
intemperismo químico através das reações de hidrólise (Cap.
to superficial, impulsionado pela gravidade para
8) e na formação de rochas sedimentares e metamórncas,
zonas mais baixas. Este escoamento inicia-se atra-
com a formação de minerais hidratados (Cap. 2). A pro-
vés de pequenos filetes de água, efêmeros e
dução de água juvenil pela atividade vulcânica representa
disseminados pela superfície do solo, que conver-
o retorno desta água ao ciclo rápido.
gem para os córregos e rios, constituindo a rede de
drenagem. O escoamento superficial, com raras ex-
ceções, tem como destino final os oceanos. É bom 7.1.4 Balanço hídrico e bacias hidrográficas
lembrar ainda que parte da água de infiltração retoma
O ciclo hidrológico tem uma aplicação prática
à superfície através de nascentes, alimentando o
no estudo de recursos hídricos (Cap. 20) que visa
escoamento superficial ou, através de rotas de flu-
avaliar e monitorar a quantidade de água disponí-
xo mais profundas e lentas, reaparece diretamente
vel na superfície da Terra. A unidade geográfica
nos oceanos.
para esses estudos é a bacia hidrográfica, definí-
Durante o trajeto geral do escoamento superficial da como uma área de captação da água de
nas áreas emersas e, principalmente na superfície dos precipitação, demarcada por divisores topográfi-
oceanos, ocorre a evaporação, realimentando o vapor cos, onde toda água captada converge para um
de água atmosférico, completando assim o ciclo único ponto de saída, o exutório (Fig. 7.2).
hidrológico. Estima-se que os oceanos contribuem com
A bacia hidrográfica é um sistema físico onde
85% do total anual evaporado e os continentes com
podemos quantificar o ciclo da água. Esta análise
15% por evapotranspiração.
quantitativa é feita pela equação geral do balanço
hídrico, expressão básica da Hidrologia:
7.1.3 Formação e consumo de água no ciclo
P - E - Q (:1::L1S) =O
hidrológico
Nesta equação, P corresponde ao volume de água
O ciclo hidrológico pode ser comparado a uma gran- precipitado sobre a área da bacia, E o volume que
de máquina de reciclagem da água, na qual operam voltou à atmosfera por evaporação e transpiração, e
processos tanto de transferência entre os reservatóri- Q ao volume total de água escoado pela bacia, duran-
Bacia hidrográfica

Linígrafo.

Q3
. Seção no ~"tório

"~~--~~~=-~-,---",
I _03
E
,Q
Curva chave

~--\... ~ ~02
-u
Qj
.2:
Z
01

Q3'
Vazão

. ,
--
Registro do linígrafo Hidrograma

t
~~O

'"
'-.
~~r ME
,g'
~ '
, .. N

F M A Tempo
+.
--- = escoamento total ( Q )

Fig.7.2 Elementosde uma bacia hidrográfica e obtenção do hidrograma. O fluxo basal no hidrograma representa a água do rio
provenienteda água subterrânea, enquanto o escoamento direto corresponde à água superficial em resposta a eventos de chuva.
te um intervalo de tempo. Este escoamento total (Q) água ou seu aproveitamento hidroelétrico. Permite ana-
representa a "produção" de água pela bacia, medida lisar o comportamento das bacias, identificando
pela vazão no exutório durante o período de períodos de vazão baixa e alta, auxiliando na previsão
monitoramento. O termo !lS refere-se a variações de enchentes e estiagens, assim como períodos e volu-
positivas e negativas devido ao armazenamento no mes de recarga da água subterrânea. Através da
interior da bacia. Este armazenamento ocorre na for- identificação, no hidrograma, dos componentes de es-
ma de água retida nas formações geológicas do coamento direto e fluxo basal, é possível avaliara
subsolo, cujo fluxo é muito mais lento que o do esco- contribuição da água subterrânea na produção total
amento superficial direto. Considerando-se períodos de água da bacia (Fig. 7.2).
de monitoramento mais longos (ciclos anuais), as di-
ferenças positivas e negativas de armazenamento 7.2 Água no Subsolo:
tendem a se anular. Os valores positivos ocorrem quan-
do o escoamento total da bacia é alimentado pela água Água Subterrânea
subterrânea (períodos de estiagem), enquanto os ne- Trataremos agora da fração de água que sofre in-
gativos refletem períodos de recarga (época de chuvas), filtração, acompanhando seu caminho pelo subsolo,
quando parte da precipitação sofre infiltração, onde a força gravitacional e as características dos ma-
realimentando a água subterrânea, em vez de escoar
teriais presentes irão controlar o armazenamento e o
diretamente da bacia. Portanto, para um ciclo
movimento das águas. De maneira simplificada, toda
hidrológico completo da bacia, é possível resumir a água que ocupa vazios em formações rochosas ou no
equação ger'al do balanço hídrico para: regolito (Cap. 8) é classificadacomo água subterr~ea
P=E+Q,
onde Q (vazão total da bacia) representa a soma 7.2.1. Inf1ltração
do escoamento superficial direto com o escoamento
Infiltração é o processo mais importante de recarga
da bacia suprido pela água subterrânea e E a água
da água no subsolo. O volume e a velocidade de infil-
perdida por evapotranspiração.
tração dependem de vários fatores.
Na maioria das bacias hidrográficas a saída do es-
coamento total rQ) é através de um rio principal que
Tipo e condição dos materiais terrestres
coleta toda água produzida pela bacia. A medição de
Q constitui um dos objetivos principais da hidrologia A infiltração é favorecida pela presença de materiais
de bacias. Baseia-se na construção de umhidrograma, porosos e permeáveis, como solos e sedimentos areno-
que expressa a variação da vazão em função do tem- sos.Rochas expostas muito fraturadas ou porosas também
po (Fig. 7.2), envolvendo as seguintes etapas: permitem a infiltração de águas superficiais. Por outro
1. Medição de diferentes vazões do rio ao longo lado, materiais argilosos e rochas cristalinas pouco fratu-
radas, por exemplo corpos ígneos plutônicos e rochas
do ano para obter a curva chave que relaciona a
altura com a vazão do rio. metamórficas como granitos e gnaisses, são desfavorá-
veis àinfiltração.Espessas coberturas de solo (ou material
2. Obtenção do traçado da variação do nível do inconsolidado) exercem um importante papel no con-
rio ao longo do período de monitoramento por trole da infiltração, retendo temporariamente parte da
meio de um linígrafo. água de infiltração que posteriormente é liberada lenta-
3. Transformação do registro da variação do nível mente para a rocha subjacente. A quantidade de água
do rio em curva de vazão (hidrograma), pela transmitida pelo solo depende de uma característicaim-
substituição de cada ponto de altura do rio pelo portante, chamada de capacidade de campo, que
seu correspondente valor de vazão. corresponde ao volume de água absorvido pelo solo,
antes de atingir a saturação, e que não sofre movimento
4. Cálculo da vazão total da bacia através da área
para níveis inferiores. Este parâmetro influencia direta-
sob a curva do hidrograma (m3/s x tempo, em mente a infiltração, pois representa um volume de água
segundos = volume total).
que participa do solo mas que não contribui com a
O hidrograma é a base para estudos hidrológicos recarga da água subterrânea, sendo aproveitada somente
de bacias visando, por exemplo, o abastecimento de pela vegetação.
Cobertura vegetal 7.2.2 Distribuição e movimento da
água no subsolo
Em áreasvegetadas a in@tração é favorecida pelas
raízesqueabrem caminho para a água descendente no
solo.A cobertura florestal também exerce importante o conceito de superfície freática ou nível dágua
funçãono retardamento de parte da água que atinge
o solo,atravésda interceptação, sendo o excesso len- Além da força gravitacional e das características
dos solos, sedimentos e rochas, o movimento da
tamente liberado para a superficie do solo por
gotejamento.Por outro lado, nos ambientes densa- água no subsolo é controlado também pela força
mente florestados, cerca de 1/3 da precipitação de atração molecular e tensão superficial. A atração
interceptadasofre evaporação antes de atingir o solo. molecular age quando moléculas de água são pre-
sas na superfície de argilominerais por atração de
cargas opostas, pois a molécula de água é polar.
Topografia
Este fenômeno ocorre principalmente nos primei-
De modo geral declives acentuados favorecem o ros metros de profundidade, no solo ou regolito,
escoamento superficial direto, diminuindo a in@tra- rico em argilominerais (Cap. 8). A tensão superfici-
ção. Superfícies suavemente onduladas permitem o al tem efeito nos interstícios muito pequenos, onde
escoamento superficial menos veloz, aumentando a a água fica presa nas paredes dos poros, podendo
possibilidade de in@tração. ter movimento ascendente, contra a gravidade, por
capilaridade. A adsorção de água em argilominerais
e nos capilares dificulta seu movimento nas proxi-
Precipitação
midades da superfície, reduzindo sua evaporação e
o modo como o total da precipitação é distribu- infiltração. Assim, conforme o tamanho do poro, a
ído ao longo do ano é um fator decisivo no volume água pode ser higroscópica (adsorvida) e pratica-
de recargada água subterrânea, em qualquer tipo de mente imóvel, capilar quando sofre ação da tensão
terreno.Chuvasregularmente distribuídas ao longo do superficial movendo-se lentamente ou gravitacional
tempopromovem uma in@tração maior pois, desta (livre) em poros maiores, que permitem movimen-
maneira,a velocidade de infiltração acompanha o vo- to mais rápido.
lumede precipitação.Ao contrário, chuvas torrenciais O limite inferior da percolação de água é dado
favorecemo escoamento superficial direto, pois a taxa quando as rochas não admitem mais espaços aber-
deinfiltraçãoé inferior ao grande volume de água pre- tos (poros) devido à pressão da pilha de rochas
cipitadaem curto intervalo de tempo. sobrejacentes. Esta profundidade atinge um máxi-
mo de 10.000m, dependendo da situação topográfica
Ocupação do solo e do tipo de rocha. Pode-se imaginar então que toda
água de infiltração tende a atingir este limite inferi-
o avanço da urbanização e a devastação da vegeta-
or, onde sofre um represamento, preenchendo todos
çãoinfluenciam significativamente a quantidade de água
os espaços abertos em direção à superfície. Estabe-
infiltradaem adensamentos populacionais e zonas de in-
lece-se assim uma zona onde todos os poros estão
tensouso agropecuário. Nas áreas urbanas, as construções
cheios de água, denominada zona saturada ou
e a pavimentação impedem a in@tração, causando efei-
freática (Fig. 7.3). Acima desse nível, os espaços
tos catastróficos devido ao aumento do escoamento
vazios estão parcialmente preenchidos por água,
superficiale redução na recarga da água subterrânea. Nas contendo também ar, definindo a zona não
áreasruraís,ainfiltração sofre redução pelo desmatamento saturada, também chamada de vadosa ou zona de
em geral,pela exposição de vertentes através de planta- aeração. O limite entre estas duas zonas é uma im-
çõessem terraceamento, e pela compactação dos solos portante superfície denominada superfície freática
causadapelo pisoteamento de animais, como em exten-
(SF) ou nível da água subterrânea (nível d'água, NA),
sivasáreas de criação de gado.
facilmente identificado na prática, ao se perfurarem
Um fato curioso é a situação em grandes centros poços, nos quais a altura da água marca a posição
urbanos, como São Paulo, onde se detectou uma do nível da água. A superfície gerada por vários
recargasignificativa da água subterrânea por vazamen- pontos do NA constitui a superfície freática.
tos da rede de abastecimento (Cap. 20).
I'
I

Fig. 7.3 Distribuição de água no subsolo.

o nível freático acompanha aproximadamente as Em áreas áridas, onde a evaporação é intensa e su-
irregularidades da superfície do terreno, o que pode planta a precipitação, pode ocorrer a inversão sazonal
ser visualizado pelo traçado de sua superfície através da infiltração, quando uma parte da água subterrânea
de uma rede de poços (Fig. 7.4). Sua profundidade é tem movimento ascendente por capilaridade, atraves-
função da quantidade de recarga e dos materiais ter- sando a zona vadosa para alimentar a evaporação na
restres do subsolo. Em áreas úmidas, com alta superfície do solo. Este processo é responsável pela
pluviosidade, tende a ser mais raso, enquanto em am- mineralização dos horizontes superficiais do solo, pois
bientes áridos tende a ser profundo. De modo geral, sais dissolvidos na água subterrânea acabam precipitan-
é mais profundo nas cristas de divisores topográficos do e cimentando os grãos do regolito (salinização do
(nos interflúvios) e mais raso nos fundos de vales. solo). O caliche é um exemplo de solo endurecido pela
Quando o nível d'água intercepta a superfície do ter-
reno, aflora, gerando nascentes, córregos ou rios. A
maioria dos leitos fluviais com água são afloramentos
do NA.

o nível freático tem uma relação íntima com os


rios. Os rios cuja vazão aumenta para jusante são cha-
mados de rios efluentes, e são alimentados pela água
subterrânea, situação típica de regiões úmidas. Ao con-
trário, nos rios influentes, a vazão diminui a jusante,
como conseqüênéia da recarga da água subterrânea pelo
escoamento superficial. Nestes casos a água do rio
infiltra-se para o nível freático (Fig. 7.5) e o rio poderá
secar se o nível for rebaixado, abandonando o leito do
rio, como é comum em áreas semi-áridas ou áridas. Fig. 7.4 O nível freático e o relevo da superfície.
Porosidade intergranular
precipitaçãode carbonato de cálcio
pelas águas ascendentes em áreas CD
semi-áridasa áridas.

Porosidade Porosidade de fraturas:


tedônicas de resfriamento
A porosidade é uma proprie-
dade física definida pela relação
entre o volume de poros e o volu-
@ @
me total de um certo material.
Existem dois tipos fundamentais
de porosidade nos materiais ter-
restres: primária e secundária. A Porosidade de condutos
porosidade primária é gerada jun- ( cárstica )
tamentecom o sedimento ou rocha, estrotificoção

sendo caracterizada nas rochas fratura

sedimentarespelos espaços entre os


0 conduto
clastos ou grãos (porosidade
intergranular) ou planos de
estratificação(Cap. 14). Nos mate-
riaissedimentareso tamanho e forma
daspartículas,o seu grau de seleção
e a presençade ciinentação influen-
ciam a porosidade. A porosidade
secundária, por sua vez, se desen-
volveapós a formação das rochas
ígneas, metamórficas ou
sedimentares,por fraturamento ou
falhamentodurante sua deformação
(porosidade de fraturas). Um tipo
especialde porosidade secundária
se desenvolve em rochas solúveis,
x
como calcários e mármores, atra- ~
Gnaisse
vés da criação de vazios por
X X X:
dissolução, caracterizando a
porosidade cárstica (Fig. 7.6).
Fig. 7.6 Os três tipos fundamentais de porosidade conforme diferentes materiais numa
seção geológica.
Tabela 7.2 Volume de poros e tamanho de partículas em sedimentos.
Fato importante é a diminuição da permeabilidade com o aumento da
porosidade e diminuição do tamanho da partícula.

Material Tamanho das partículas, mm Porosidade % Permeabilidade

Cascalho 7 a 20 35,2 Muito alta

Areia grossa 1a 2 37,4 Alta

Areia fina 0,3 42 Alta a média

Siltes e argila 0,04 a 0,006 50 a 80 Baixa a muito baixa

Permeabilidade Assim como os tipos de porosidade, a permeabili-


dade pode ser primária ou secundária.
o principal fator que determina a disponibilidade
de água subterrânea não é a quantidade de água que
os materiais armazenam, mas a sua capacidade em o fluxo de água no subsolo
permitir o fluxo de água através dos poros. Esta pro- Além da força gravitacional, o movimento da água
priedade dos materiais conduzirem água é chamada subterrânea também é guiado pela diferença de pres-
de permeabilidade, que depende do tamanho dos são entre dois pontos, exercida pela coluna de água
poros e da conexão entre eles. sobrejacente aos pontos e pelas rochas adjacentes. Esta
Um sedimento argiloso, por exemplo, apesar de diferença de pressão é chamada de potencial da água
possuir alta porosidade (Tabela 7.2), é praticamente (potencial hidráulico) e promove o movimento da
impermeável, pois os poros são muito pequenos e a água subterrânea de pontos com alto potencial, como
água fica presa por adsorção. Por outro lado, derra- nas cristas do nível freático, para zonas de baixo po-
mes basálticos, onde a rocha em si não tem porosidade tencial, como em fundos de vales. Esta pressão exercida
alguma, mas possui abundantes fraturas abertas e pela coluna de água pode causar fluxos ascendentes
interconectadas, como disjunções colunares Guntas de da água subterrânea, contrariando a gravidade, como
resfriamento), podem apresentar alta permeabilidade no caso de porções profundas abaixo de cristas, onde
devido a esta porosidade primária. a água tende a subir para zonas de baixo potencial,
junto a leitos de rios e lagos.

Linhas de fluxo da água subterrânea


'- Equipotenciais

i
Fig. 7.7 Percolação da água subterrânea com linhas de fluxo e equipotenciais.

~
A uniãode pontos com o mesmo potencial hidráu- Alerta-se para o fato de que a vazão específica é
licoemsubsuperfíciedefine as linhas equipotenciais do um conceito macroscópico que considera o material
nívdfreático,semelhantesa curvas de nível topográficas. todo, não se referindo às velocidadczs reais dos traje-
O fluxode água, partindo de um potencial maior para tos microscópicos entre os espaços da porosidade. A
outromenor, define uma linha de fluxo, que segue o vazão específica, com unidades de velocidade (distân-
caminhomaiscurto entre dois potenciais diferentes, num cia/tempo), deve ser entendida como uma velocidade
traçadoperpendicularàs linhas equipotenciais (Fig.7.7). macroscópica, ou média, ao longo do trajeto entre
um ponto de entrada e outro de saída da água.
Condutividade hidráulica e a lei de Darcy Uma das aplicações da lei de Darcy é determi-
nar o fluxo da água subterrânea numa certa região,
Observandoo movimento do nível freático em po-
pela condutividade hidráulica medida em labora-
çose nascentesapós eventos de chuva (recarga),nota-se
tório ou, ao contrário, medindo a velocidade média
queavelocidadedo fluxo da água subterrânea é relativa-
do fluxo, determinar a condutividade hidráulica dos
mentelenta.Sefosse rápida, passados alguns dias depois materiais.
dachuva,um poço normal iria secar. Surge a pergunta:
porqueo fluxoda água subterrânea em certos locais é A velocidade de percolação da água subterrâ-
rápidoe em outros é lento? nea também pode ser medida com o uso de
traçadores, como corantes inofensivos à saúde e ao
No fluxo de água em superfície, a velocidade é
ambiente, quando o trajeto do fluxo é conhecido.
diretamenteproporcional à inclinação da superfí-
Neste caso, injeta-se o corante na zona saturada de
cie. Este grau de inclinação, denominado
um poço, medindo-se o tempo de percurso deste
gradiente hidráulico (f h/ f L), é definido pela ra-
até um outro poço ou uma nascente. A velocidade
zãoentre o desnível (f h) e a distância horizontal entre
do fluxo é a distância entre os pontos sobre o tem-
doispontos (fL). ° desnível indica a diferença de po-
po de percurso.
tencialentre os pontos. Quanto maior a diferença de
potencial,
dadauma distâncialateralconstante, maior será De maneira geral, o movimento da água subterrâ-
a vdocidadedo fluxo. nea é muito lento quando comparado ao escoamento
superficiaL Em materiais permeáveis, como areia mal
Para o fluxo da água subterrânea, necessita-se consi-
selecionada, a velocidade varia entre 0,5 e 15 cm/ dia,
derar,alémda inclinação do nível d'água, a permeabilidade
atingindo máximos de até 100 m/ dia em cascalhos
do subsolo e a viscosidade da água. A influência desses
bem selecionados sem cimentação. No caso de grani-
parâmetros sobre o fluxo da água subterrânea foi
tos e gnaisses pouco fraturados, o fluxo chega a
investigadae quantificada em laboratório pelo engenhei-
algumas dezenas de centímetros por ano.Já em basaltos
ro hidráulicofrancês Henry Darcy, em 1856, resultando
muito fraturados, registram-se velocidades de até
na formulação da lei de Darcy, base da hidrologia de
1OOm/dia. Os fluxos mais rápidos são registrados em
meiosporosos.
calcários com condutos (cársticos), com máximos de
o experimento de Darcy baseou-se na medição da 1.000 m/hora.
vazão de água (Q) com um cilindro preenchido por
Para movimentos muito lentos e por longas distânci-
materialarenoso, para diferentes gradientes hidráulicos
as, os hidrogeólogos utilizam métodos geocronológicos
(Fig.7.8).O fluxo de água para cada gradiente foi calcu-
(Cap. 15) para medir velocidades. Um deles baseia-se no
ladopda relação entre a vazão (Q) e a área (A) da seção
14C, presente no COz atmosférico dissolvido na água
do cilindro.Este fluxo, com unidade de velocidade, foi
subterrânea. Uma vez que o isótopo radioativo 14Cnão
definidocomo a vazão específica (g) do material.
é reposto no percurso subterrâneo, seu decaimento em
A vazão específica é diretamente proporcional ao função do tempo permite datar a água subterrânea. Di-
gradientehidráulico. Neste gráfico (Fig. 7.8), o coefi- vidindo-se a distância entre a zona de recarga da água
cienteangular da reta corresponde à condutividade subterrânea e o ponto analisado (um poço ou nascente)
hidráulica, que é uma característica intrínseca do ma- pela idade da água, obtém-se sua velocidade de
terial,expressando sua capacidade de transmissão de percolação. Estudos realizados na bacia do Maranhão
água.Este parâmetro é uma forma de quantificar a (piam), mostraram idades de até 35.000 anos para a água
capacidadedos materiais transmitirem água em fun- subterrânea em camadas profundas, indicando fluxos em
ção da inclinação do nível freático. torno de 1m/ano.
Na natureza:

gradiente hidráulico:
H 1 - H2 - i1H
L L

Ensaio no laboratório:

Volume injetado

A = Área da seção do cilindro ( m2)

Q = Vazão obti da para llH 1e LlH 2

Q ( m3/s ) = Volume recuperado em


tempo t
. Q
A vazão específica q ( m/s ) é obtida de Q = q x A q = -
A

No gráfico de q em função de llH


L
o ql K = Constante do material = condutividade hidráulica
u
.:.;:

Q) K=~ ou
Q.
ti) LlH
Q)
O T
10
N
:J2 q2 q = K 2t!.. ou
L

Q
L1H2

L L
i1H]

A
- K llH
L } 'q"açãa d, Doecy
Gradiente hidráulico

Fig. 7.8 Obtenção experimental da lei de Darcy.

11
7.2.3 Aqüiferos: reservatórios da água sub- aqüíferos deste tipo. A produtividade em água dos
terrânea arenitos diminui com o seu grau de cimentação, como é
o caso de arenitos siliciflcados, quase sem permeabilidade
Unidades rochosas ou de sedimentos, porosas e intergranular.
permeáveis, que armazenam e transmitem volumes
A maioria dos aqüíferos de fraturas forma-se em
significativos de água subterrânea passível de ser ex-
conseqüência de deformação tectônica (Cap. 19), na
plorada pela sociedade são chamadas de aqüíferos
qual processos de dobramento e falhamento geram
(do latim "carregar água"). O estudo dos aqüíferos
sistemas de fraturas, normalmente seladas, devido à
visando a exploração e proteção da água subterrânea
profundidade. Posteriormente sofrem aberturas
(Cap.20) constitui um dos objetivos mais importantes
subrnilimétricas a milimétricas, permitindo a entrada e
da Hidrogeologia.
fluxo de água, pela expansão das rochas devido ao
Em oposição ao termo aqüífero, utiliza-se o ter- alívio de carga litostática causado pelo soerguimento
mo aqüiclude para deflnir unidades geológicas que, regional e erosão das rochas sobrejacentes. É óbvio
apesar de saturadas, e com grandes quantidades de que o fluxo de água somente se instala quando as
água absorvida lentamente, são incapazes de transmi- fraturas que compõem o sistema estão
tir um volume signiflcativo de água com velocidade interconectadas. Fraturas não tectônicas, do tipo
suficiente para abastecer poços ou nascentes, por se- disjunção colunar (Cap. 17) em rochas vulcânicas,
remrochas relativamente impermeáveis. Por outro lado, como nos derrames de basaltos, podem ser gera-
unidades geológicas que não apresentam poros das durante as etapas de resfriamento e contração,
interconectados e não absorvem e nem transmitem
possibilitando que estas rochas tornem-se posteri-
água são denominadas de aqüifugos. ormente importantes aqüíferos.
Recentemente os hidrogeólogos têm utilizado os Aqüíferos de condutos caracterizam-se pela
termos aqüífero e aqüitarde para exprimir compara- porosidade cárstica, constituída por uma rede de con-
tivamente a capacidade de produção de água por dutos, com diâmetros milimétricos a métricos, gerados
unidades rochosas, onde a unidade com produção de pela dissolução de rochas carbonáticas. Constituem
água corresponde ao aqüífero e a menos produtiva aqüíferos com grandes volumes de água, mas extrema-
ao aqüitarde (Cap. 20). Por exemplo, numa seqüência mente vulneráveis à contaminação (Cap. 20), devido à
de estratos intercalados de arenitos e siltitos, os siltitos, baixa capacidade de f1ltração deste tipo de porosidade.
menos permeáveis que os arenitos, correspondem ao
Na natureza, esses aqüíferos ocorrem associados,
aqüitarde. Numa outra seqüência, formada de siltitos
refletindo a variedade litológica e estrutural de seqüên-
e argilitos,a unidade siltosa pode representar o aqüífero.
cias estratigráflcas. Situações transitórias entre os tipos
Portanto, o aqüitarde corresponde à camada ou uni-
de aqüíferos ocorrem, como por exemplo, em regi-
dade geológica relativamente menos permeável numa
ões calcárias, onde aqüíferos de fraturas passam a
determinada seqüência estratigráflca.
aqüíferos de condutos, ou de porosidade granular nos
Bons aqüíferos são os materiais com média a alta depósitos de cobertura.
condutividade hidráulica, como sedimentos
inconsolidados(por exemplo, cascalhos e areias), rochas
Aqüíferos livres, suspensos e confinados
sedimentares (por exemplo, arenitos, conglomerados e
algunscalcários),além de rochas vulcânicas, plutônicas e Aqüíferos livres são aqueles cujo topo é demarca-
metamórficascom alto grau de fraturamento. do pelo nível freático, estando em contato com a
atmosfera (Fig. 7.9). Normalmente ocorrem a pro-
Aqüíferose tipos de porosidade fundidades de alguns metros a poucas dezenas de
metros da superfície, associados ao regolito, sedimen-
Conforme os três tipos fundamentais de porosidade, tos de cobertura ou rochas.
identificam-seaqüíferos de porosidade intergranular (ou
Aqüíferos suspensos são acumulações de água so-
granular), de fraturas e de condutos (cárstico). Os
bre aqüitardes na zona insaturada, formando níveis
aqüíferosde porosidade granular ocorrem no regolito
lentiformes de aqüíferos livres acima do nível freático
e em rochas sedimentares elásticas com porosidade
principal (Fig. 7.9).
primária. Os arenitos, de modo geral, são excelentes
Poço no
Aqüíferos confinados ocorrem quando um estra-
aqüífero livre
to permeável (aqüífero) está confinado entre duas
unidades pouco permeáveis (aqüitardes) ou imperme-
áveis. Representam situações mais profundas, a dezenas,
várias centenas ou até milhares de metros de profun-
didade, onde a água está sob ação da pressão não
somente atmosférica, mas também de toda a coluna
de água localizada no estrato permeável (Fig. 7.10).

Artesianismo

Em determinadas situações geológicas, aqüíferos con-


finados dão origem ao fenômeno do artesianismo,
responsável por poços jorrantes, chamados de artesi-
anos (nome derivado da localidade de Artois, França).
Neste caso, a água penetra no aqüífero confinado em
direção a profundidades crescentes, onde sofre a pres-
I são hidrostática crescente da coluna de água entre a
Fig. 7.9 Aqüíferos livres e suspensos. Aqüíferos suspensos
ocorrem quando uma camada impermeável intercepta a infil- zona de recarga e um ponto em profundidade. Quan-
tração. do um poço perfura esse aqüífero, a água sobe,
I

I pressionada por esta pressão hidrostática, jorrando


I
I,
I Í>J'eo. oe rec.orgo
.
00 oo.,DI\ero c.01'\\i1'\OOO ~
1\
""
II'I ,,
II ''
II '' Superfície
II '' potenciométrica
I ' Altura do nível da água
II '' na área de recarga
II ''
I '
I \
I '\\
\
,

Aqürfero
confinado

Poço
artesiano

Fig. 7.10 Aqüífero confinado, superfície potenciométrica e artesianismo. A água no poço artesiano jorra até a altura da linha AC
e não AB devido à perda de potencial hidráulico durante a percolação no aqüífero.
~1)c ~1!Ii.\1. iH7

naturalmente.A formação deste tipo de aqüífero re- A zona de ocorrência da água subterrânea é uma
querasseguintescondições: uma seqüência de estratos região onde é iniciada a maioria das formas de relevo,
inclinados,onde pelo menos um estrato permeável pois a água subterrânea é o principal meio das reações
encontre-seentre estratos impermeáveis e uma situa- do intemperismo químico. O movimento da água sub-
çãogeométricaem que o estrato permeável intercepte terrânea, somado ao da água superficial, são os
a superfície,permitindo a recarga de água nesta cama- principais agentes geomórficos da superfície da Terra.
da.O poço,ao perfurar o aqüífero, permite a ascensão A ação geomórfica da água subterrânea se traduz por
da águapelo princípio dos vasos comunicantes, e a vários processos de modificação da superfície terres-
águajorra na tentativa de atingir a altura da zona de tre e seus respectivos produtos (Tabela 7.3).
recarga.A altura do nível da água no poço corres-
pondeao nível potenciométrico da água; em três 7.3.1 Escorregamentos de encostas
dimensões,o conjunto de vários níveis potencio-
métricosdefine a superfície potenciométrica da A movimentação de coberturas como solos ou se-
água(Fig.7.10). Devido à perda de carga hidráuli- dimentos inconsolidados em encostas de morros tem
caao longo do fluxo há um rebaixamento no nível velocidades muito variáveis (Cap. 9). Os movimentos
dágua no poço em relação ao nível dágua da zona rápidos, com deslizamentos catastróficos acontecem
de recarga.Este desnível cresce conforme aumenta com freqüência em épocas de fortes chuvas, em regi-
a distânciada área de recarga. ões de relevo acidentado. Os movimentos muito lentos
são chamados de rastejamento (creep)do solo, com
Quandoocorre a conexão entre um aqüífero con-
velocidades normalmente menores que 0,3 m/ ano. Os
iinadoem condições artesianas e a superfície, através
de descontinuidades,como fraturamentos, falhas ou movimentos de encostas com velocidades superiores
iissuras,formam-se nascentes artesianas. a 0,3 m/ ano são englobados na categoria de
escorregamentos ou deslizamentos de encostas, com
velocidades que podem ultrapassar 100 km/hora.
7.3Ação Geológica da Água Enquanto o rastejamento lento é movido unicamente
Subterrânea pela força gravitacional, não havendo influência de água
no material, os escorregamentos são movidos pelo
Açãogeológicaé a capacidade de um conjunto de processo de solifluxão, no qual a força gravitacional
processoscausar modificações nos materiais terres- age devido à presença de água subterrânea no subsolo.
tres,transformandominerais,rochas e feições terrestres.
Os materiais inconsolidados em encostas possuem
Oesculpimentode formas de relevo da superfície ter-
uma estabilidade controlada pelo atrito entre as partí-
restreé um tipo de ação geológica, dominada pela
culas. No momento em que o atrito interno é vencido
dinâmicaexterna do planeta Terra, conhecida como
pela força gravitacional, a massa de solo entra em
açãogeomórfica.
movimento, encosta abaixo. A diminuição do atrito

Tabela 7.3 Principais processos e respectivos produtos


da ação geomórfica da água subterrânea.

Processo Produto

Pedogênese (intemperismo químico) (Cap. 8) Cobertura pedológica (solos)

Solifluxão (Cap. 9) Escorregamentos de encostas

Erosão interna, solapamento Boçorocas

Carstificação (dissolução) Relevo cárstico, cavernas, aqüífero de condutos


entre as partículas é causada principalmente pela adi-
ção de água ao material. Embora a água aumente a
coesão entre partículas do solo quando presente em
pequena quantidade, (através da tensão superficial que
aumenta a atração entre as partículas), a saturação do
solo em água acaba envolvendo a maioria das partí-
culas por um f1lme de água, diminuindo drasticamente
o atrito entre elas e permitindo o seu movimento pela
força gravitacional, no processo conhecido como
solifluxão. A saturação em água também aumenta o
peso da cobertura, o que contribui à instabilização do
material.

Tanto o rastejamento como o escorregamento de


encostas são processos naturais que contribuem para
a evolução da paisagem, modificando vertentes. Um
exemplo de escorregamento catastrófico ocorreu na
Serra do Mar, em 1967, destruindo estradas e soter-
rando bairros periféricos da cidade de Caraguatatuba,
litoral de São Paulo. Esses movimentos podem ser
induzidos ou acelerados pela retirada artifical da co-
bertura vegetal, acarretando o aumento da inftltração
de chuvas, lubrificação das partfculas e seu movimen- Fig. 7.11 A saturação em água do material inconsolidado
devido à subida do lençol freático em períodos de chuvasin-
to vertente abaixo (Fig. 7.11).
tensas promove escorregamentos de encostas.

7.3.2 Boçorocas: a erosão que ameaça


cidades

Quem viaja pela serra da Mantiqueira (sul de Mi- em linhas, as boçorocas são geradas pela ação da água
nas Gerais) e vale do Paraíba, ou observa as colinas subterrânea. A ampliação de sulcos pela erosão super-
do oeste de São Paulo e norte do Paraná, nota a pre- ficial forma vales fluviais, em forma de V, com
sença de fendas e cortes disseminados nas vertentes, vertentes inclinadas e fundo estreito. A partir do mo-
cada vez mais freqüentes: são as boçorocas (ou mento em que um sulco deixa de evoluir pela erosão
voçorocas), temidas pelos moradores locais porque fluvial e o afloramento do nível freático inicia o proces-
constituem feições erosivas, altamente destrutivas, que so de erosão na base das vertentes, instala-se o
rapidamente se ampliam, ameaçando campos, solos boçorocamento. A erosão provocada pelo afloramento
cultivados e zonas povoadas. O termo boçoroca (guljy, do fluxo da água subterrânea tende a solapar a base das
em inglês) tem sua origem do tupi guarani "yby", ter- paredes, carreando material em profundidade e forman-
ra "sorok", rasgar ou romper. do vazios no interior do solo (erosão interna ou
Esses cortes se instalam em vertentes sobre o manto tubificação). O colapso desses vazios instabiliza as ver-
intempérico, sedimentos ou rochas sedimentares pou- tentes e é responsável pela inclinação abrupta e pelo
co consolidadas, e podem ter profundidades de recuo das paredes de boçorocas.
decímetros até vários metros e paredes abruptas e A evolução de sulcos de drenagem para boçorocas
fundo plano, com seção transversal em U. O fundo é normalmente é causada pela alteração das condições
coberto por material desagregado, onde aflora água, ambientais do local, principalmente pela retirada da
freqüentemente associada a areias movediças (Cap. 9), cobertura vegetal, sendo quase sempre conseqüência
ou canais anastomosados (Fig. 7.12). da intervenção humana sobre a dinâmica da paisa-
Originam-se de sulcos gerados pela erosão linear. gem. Estas feições podem atingir dimensões de até
Mas, enquanto os sulcos ou ravinas são formados pela várias dezenas de metros de largura e profundidade,
ação erosiva do escoamento superficial concentrado com várias centenas de metros de comprimento. A
~111t'81110 ~1iR7' e

,,,

Níveld'água

Sulcos ou mvinas

Fig.7.12 Morfologia de sulcos e boçorocas.

ocorrênciade boçorocas sobre vertentes desprotegidas


torna este processo pouco controlável, e o seu rápido
crescimentofreqüentemente atinge áreas urbanas e es-
tradas(Fig. 7.13).

7.3.3 Carste e cavernas: paisagens


subterrâneas

Dentre as paisagens mais espetaculares da Terra


ressaltam-seos sistemas cársticos, com cavernas,
cânions,paredõesrochosos e relevos ruiniformes pro-
duzidospelaação geológica da água subterrânea sobre
rochassolúveis.Além de representarem atrações obri-
gatórias
paraturistas,fotógrafos e cientistas, as cavernas
constituemum desafio aos exploradores das frontei-
rasdesconhecidasdo nosso planeta. Juntamente com
toposde cadeiasde montanhas e fundos oceânicos, as
cavernasainda reservam territórios nunca antes per-
corridospelo ser humano. A exploração de cavernas
temsido de interesse da humanidade desde tempos
pré-históricos,conforme o registro arqueológico de
habitaçõeshumanas, com até dezenas de milhares de Fig. 7.13 Boçoroca na região urbana do município de Bauru
anos,comonas cavernas de Lagoa Santa (MG) e São (SP),desenvolvida sobre o manto intempérico em arenitos da
RaimundoNonato (PI). bacia do Paraná. Foto de 1993, arquivo IPT-SP.
il~
Carste é a tradução do termo alemão karst, origi- chas mais favoráveis à carstificação encontram-se as
nado da palavra kras~ denominação dada pelos carbonáticas (calcários, mármores e dolomitos, por exem-
camponeses a uma paisagem da atual Croácia e plo), cujo principal mineral caleita (e/ou dolomita),
Eslovênia (antiga Iugoslávia), marcada por rios sub- dissocia-se nos íons Ca2+ e/ou Mg2+ e cot pela ação
terrâneos com cavernas e superfície acidentada da água. Os calcários são mais solúveis que os dolomitos,
dominada por depressões com paredões rochosos e pois a solubilidade da calcita é maior que a da dolomita.
torres de pedra.
Rochas evaporíticas, constituidas por halita elou
Do ponto de vista hidrológico e geomorfológico, gipsita, apesar de sua altíssima solubilidade, originam
sistemas cársticos são constituidos por três compo- sistemas cársticos somente em situações especiais, como
nentes principais (Fig. 7.14), que se desenvolvem de em áreas áridas a semi-áridas, pois seu intemperismo
maneira conjunta e interdependente: sob clima úmido é tão rápido que não permite o ple-
no desenvolvimento do carste.
1. sistemasde cavernas- formas subterrâneas aces-
síveis à exploração; Como exemplo de rocha considerada insolúvel,
pode-se citar os granitos, nos quais feldspatos e micas
2. aqüiferos de condutos - formas condutoras da
submetidos ao intemperismà originam argilominerais,
água subterrânea;
estáveis em superfície, produzindo muito resíduo in-
3. relevo cárstico - formas superficiais. solúvel em comparação ao volume inicial de rocha, o
que impede o aumento da porosidade secundária.
Rochas carstificáveis
Um caso especial, pouco comum, são os quartzitos.
Sistemas cársticos são formados pela dissolução de
Apesar da baixa solubilidade do quartzo em águas
naturais, quartzitos com baixo teor de resíduos inso-
certos tipos de rochas pela água subterrânea. Considera-
se rocha solúvel aquela que após sofrer intemperismo
lúveis podem desenvolver sistema~ cársticos, quando
sofrem longos períodos de exposição à ação da água
químico produz pouco resíduo insolúvel. Entre as ro-
subterrânea.

Nível d' água antigo Sumidouro

Ressurgêncía

Nível d' águo atual

Condutos freáticos
Fig. 7.14 Componentes principais do sistema cárstico.
Dissoluçãode rochas carbonáticas cársticas, cujas águas são chamadas de "duras", devi-
do ao alto teor de Ca e Mg (até 250 mg/L). Este fato
o mineralcaleita é quase insolúvel em água pura, deve-se à dissolução ácida do carbonato de cálcio pelo
produzindoconcentrações máximas em Ci'+ de cer- ácido carbônico (Cap. 8), gerado pela reação entre água
ca de 8 rng/L, ao passo que em águas naturais é e gás carbônico (Fig. 7.15).
bastantesolúvel, como é evidenciado em nascentes

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Tiposde espeleotemas
1 -Estalagmite 3 -Estolodite tipo canudo 5 -Cortina com estoladite 7 . Excêntricas ( helidites )

-
2 EstalagmiteJipo vela 4 . Estoladite 6 . Coluna a . Represasde travertinoeom
cristaisde caleita subaquátiea
Fig.7.15 Dissoluçãoe precipitação de caleita num perfil cárstico e principais tipos de espeleotemas.
As águas de chuva, acidificadas inicialmente com o subterrâneos, acelerando o processo de c~rstificação.
CO z atmosférico, sofrem um grande enriquecimento Águas com fluxo lento exercem pouca ação, pois
em acido carbônico quando passam pelo solo, pois a logo saturam-se em carbonato, perdendo sua ação
respiração das raízes da.splantas e a decomposição de corrosiva e a capacidade de transportar partículas.
matéria orgânica resultam em elevado teor de COz no
solo. O ácido carbônico é quase totalmente consumi- c) Clima - disponibilidade de água
do nos primeiros metros de percolação da água de
infiltração no pacote rochoso, sendo que, nas partes Sendo a dissolução a causa principal da formação
mais profundas do aqüífero, resta somente uma pe- de sistemas cársticos, o desenvolvimento do carsteé
quena parcela deste ácido para dissolver a rocha. mais intenso em climas úmidos. Além de alta
pluviosidade, a carstificação também é favorecida em
Outro agente corrosivo às vezes presente na água
ambientes de clima quente com densa vegetação, onde
subterrânea é o ácido sulfúrico, gerado principalmen-
a produção biogênica de COz no solo é maior, au.
te pela oxidação de sulfetos, como pirita e galena,
mentando o teor de ácido carbônico nas águas de
minerais acessórios muito freqüentes em rochas
carbonáticas. infiltração. Desse modo as pajsagens cársticas são mais
desenvolvidas em regiões de clima quente e úmido
quando comparadas às regiões de clima frio.
Requisitos para o desenvolvimento de sistemas
cársticos
Cavernas e condutos
O desenvolvimento pleno de sistemas cársticos Cavernas são cavidades naturais com dimensões
requer três condições:
que permitem acesso ao ser humano. Cavernas cársticas
a) Rocha solúvelcom permeabilidadede fraturas. . são parte do sistema de condutos e vazios característi.
cos das rochas carbonáticas.
Rochas solúveis do substrato geológico, principal-
mente calcários, mármores e dolomitos, devem possuir A ampliação dos condutos que compõem as ro.
uma rede de descontinuidades, formadas por superfí- . tas preferenciais de fluxo da água subterrânea aumenta
cies de estratificação, planos de fraturas e falhas, gradativamente a permeabilidade secundária da ro.
caracterizando um aqüífero de fraturas. Com a disso- cha, transformando parte do aqüífero fraturado em
lução da rocha ao longo de intercessões entre planos, aqüífero de condutos, característica hidrológica fun.
instalam-se rotas preferenciais de circulação da água damental de sistemas cársticos.
subterrânea. Em rochas sem descontinuidades plana- Devido ao rebaixamento do nível freático em
res e porosidade intergranular dominante, a dissolução
função da crescente permeabilidade, muitas vezes
ocorre de maneira disseminada e homogênea, sem o
somada ao soerguimento tectônico da região, se-
desenvolvimento de rotas de fluxo preferencial da água
tores da rede de condutos, iniciados e desenvolvidos
subterrânea.
em ambiente freático, são expostos acima do nível
da água, sofrendo modificações e ampliação em
b) Relevo - gradientes hidráulicos moderados a ambiente vadoso. Estes segmentos de condutos,
altos
quando atingem dimensões acessíveis ao ser huma-
no, constituem as cavernas. O processo de formação
O desenvolvimento do carste é favorecido quan-
do aqüífero de condutos e cavernas é chamado de
do a região carbonática possui topografia, no
mínimo, moderadamente acidentada. Vales encai- espeleogênese, termo originado do grego spelaion,
que significa caverna.
xados e desníveis grandes geram gradientes
hidráulicos maiores, com fluxos mais rápidos das No vasto sistema de porosidade de condutos de
águas de percolação ao longo dos condutos no um aqüífero cárstico, cerca de 1% é acessível ao ho-
aqüífero, à semelhança do que se observa no esco- mem, formando sistemas de cavernas, compostos por
amento superficial. Essas velocidades maiores da um conjunto de galerias, condutos e salões, todos fa-
água subterrânea resultam em maior eficiência na zendo parte de uma mesma bacia de drenagem
remoção de resíduos insolúveis, bem como na dis- subterrânea, caracterizada por entradas e saídas da água.
solução da rocha ao longo das rotas de fluxo e rios Os padrões morfológicos dos sistemas de cavernas
refletem principalmente a estrutura da rocha detritos provenientes das áreas de captação superficial
(acamamento dobrado ou horizontal e geometria e desses rios. Parte dos detritos pode ser acumulada ao
densidadedo sistema de fraturas) e a maneira como é longo das drenagens subterrâneas, formando depósi-
realizadaa recarga de água no sistema, ou seja, através tos sedimentares fluviais nas cavernas. Com o gradativo
de sumidouros de rios com origem externa ao carste rebaixamento do leito fluvial, acompanhando o
ou a partir de vários pontos de inf1ltração distribuídos soerguirnento regional, testemunhos dos sedimentos
sobre a superfície carbonática. fluviais são preservados em níveis superiores das gale-
rias subterrâneas, Estas feições são importantes no
Depósitossedimentares em cavernas e estudo da história de entalhamento e registros
espeleotemas . paleoambientais do rio subterrâneo.
Outro fenômeno importante que ocorre nas ca-
Nos condutos expostos na zona de oscilação do
vernas acima do nível freático é a deposição de
nívelda água, a ampliação das cavernas ocorre pela
minerais nos tetos, paredes e pisos das cavidades, pro-
açàode rios subterrâneos, os quais entalham seus lei-
tos, formando cânions subterrâneos. Nesta fase duzindo um variado conjunto de formas e
ornamentações, genericamente denominadas de
iníciam-seprocessos de abatimento de blocos, trans-
espeleotemas (Fig. 7.15). Os minerais mais comuns
formandoparte dos condutos originais. em salões de
depositados em cavernas cársticas são a calei ta e
desmoronamentoonde se acumulam pilhas de frag-
mentos de rocha com dimensões extremamente aragonita (Fig. 7.16). A precipitação ocorre quando as
,'ariadas. águas saturadas em CaC03 perdem COz para o am-
biente das cavernas, pois a concentração de COz da
Com o rebaixamento do nível da água, rios da atmosfera subterrânea é muito menor que a quantida-
superfíciesão absorvidos pelos condutos cársticos, o de de COz dissolvido nas águas de infiltração
quecausaa injeçãode importantes volumes de água e enriquecidas em COz biogênico. Devido a esta dife-
rença de conteúdo em COz' a solução de inf1ltração
tende a se equilibrar com a atmosfera da caverna, per-
dendo COz' e causa o deslocamento da reação entre
água, gás carbônico e carbonato de cálcio no sentido
de precipitação de CaC03 .
Os espeleotemas são classificados segundo sua for-
ma e o regime de fluxo da água de inf1ltração, causa
principal da sua grande diversidade morfológica. Os
mais freqüentes são formados por gotejamento da
água de inf1ltração, como estalactites e estalagmites

Figs.7.16 (a) estalactites do tipo canudo e estalagmite no


centro, compostas por calcita, caverna Santana, SP.Foto: Ivo
Karmann; (a) espeleotema tipo flor de aragonita, caverna
Santa na, SP.Foto: Adriano Gambarini.
(Fig. 7.15). As primeiras são geradas a partir de gotas trechos do piso e paredes de cavernas até uma espes:
que surgem em fraturas nos tetos de cavernas e cres- sura de vários metros. 1
cem em direção ao piso. Inicialmente formam-se Os espeleotemas podem formar acumulaçõ
estalactites do tipo canudo (Fig. 7.16), pela de várias camadas, compostas por mais de um .
superposição de anéis de carbonato de cálcio com neral (por exemplo calcita e aragonita), e englob
espessura microscópica. Estes canudos podem dar contribuições detríticas, como areia e argila, traz'
origem posteriormente a formas cônicas, quando o dos por enchentes de rios subterrâneos, ou mesm
interior do canudo é obstruído e a deposição do mi- pela água de gotejamento. Desta maneira, conscitu
neral passa a ocorrer através do escorrimento da em rochas sedimentares de origem químic
solução pela superfície externa do canudo. As precipitadas a partir da água subterrânea.
estalagmites crescem do piso em direção à origem
do gotejamento, com o acúmulo de carbonato de
Formas do relevo cárstico
cálcio precipitado pela gota após atingir o piso. Quan-
do a deposição do mineral é associada a filmes de A característica principal de superfícies cárscica
solução que escorrem sobre superfícies inclinadas, são é a substituição da rede de drenagem fluvial,co~
gerados espeleotemas em forma de crostas seus vales e canais organizados por bacias de drl
carbonáticas, que crescem com a superposição de nagem centrípeta, que à primeira vista formamUI
finas lâminas de carbonato de cálcio, podendo cobrir quadro de drenagem caótico. Essas bacias condJ
zem a água superficial para sumidouros, qu!
conectam a superfíciecon
a drenagem subterrâo~
Divisor topográfico (Fig.7.17). I

Drenagem Quanto mais desenval


! II
. Sumidouro
vido o sistema cárstic
maior sua permeabilida j
... Contato litológico secundária, o que aumeo
/700:: Curvos de nevel o número de sumidouros
~
respectivas bacias de dre
gem centrípeta. Isto,pors
vez, condiciona um forte'
cremento no volume
infiltração e diminuição
'li
volume de água do esca
mento superficial.
: I

Associadas às drenag
centrípetas, desenvolvem,
dolinas, que represent
, ,I N uma das feições de rele
I mais freqüentes e típicas
paisagens cársticas, com
manhos que variam eo
uma banheira e um esci
de futebol. Dolinas são
pressões côrucas, circUla!
na superfície, lembrandd
forma de um funil.DolitJ
~ l
~'o 400m de dissolução formam'
~0:\
com a dissolução a partir
l

Fig. 7.17 Bacias de drenagem centrípeta e vales cegos vistos em mapa topográfico. Exemploda
um ponto de inültraçãoI
região da bacia da rio Betari, vale do Ribeira, sul de São Paulo.
-
Dissolução do
calcário ao longo
das fraturas e
Drenagem
início da depressão

NA

Fraturas

A depressão
é ampliada com
a dissolução ao
longo das fraturas

Rebaixamento do N.A. e
abatimento de blocos no
teto da caverna

Dolina de subsidência lenta Dolina de colapso

Fig. 7.18 Evolução esquemática de dolinas de colapso e de subsidência lenta.

superfíciedarocha(zonade cruzamentode fraturas). dolina a subsidência do' terreno é lenta, enquanto no


Crescemem profundidade e diâmetro, conforme a segundo, é rápida, freqüentemente dando acesso a ca-
rochae o materialresidual são levados pela água sub- vernas. Um dos processos que desengatilha o
terrânea(Fig.7.18). Dolinas de colapso (Fig. 7.18) são abatimento de cavidades em profundidade é a perda
aquelasgeradas a partir do colapso da superfície de- da sustentação que a água subterrânea exerce sobre as
vido ao abatimento do teto de cavernas ou outras paredes desses vazios, pelo rebaixatI1ento do nível
cavidades em profundidade. No primeiro tipo de freático e exposição das cavidades na zona vadosa.
.._~
Outra feição diagnós-
tica do carste são os
vales cegos com rios
que repentinamente desa-
parecem em sumidouros
junto a anfiteatros rocho-
sos ou depressões. Os
vales cegos mais expres-
sivos ocorrem quando a
superfície cárstica é re-
baixada em relação aos
terrenos não carbonáti-
cos, onde os rios correm
em direção aos carbona-
tos e os sumidouros
marcam a zona de con-
tato entre as rochas (Fig.
7.17).
Vales cársticos ou
Fig. 7.19 Vale cárstico associado à caverna Lapa dos Breiões. No lado esquerdo do valeavisto.
de abatimento são for-
o pórtico de entrada da caverna com 106 m de altura. Município de Morro do Chapéu, Chapa!
mados quando galerias Diamantina, BA.Foto: IvoKarmann.
I de cavernas sofrem aba-
; II timento, freqüentemente expondo rios subterrâneos,
I e geram depressões alongadas com vertentes
verticalizadas. Apesar do produto final ser pareci-
do com vales fluviais, este não pode ser classificado
como tal, pois sua origem não é devida ao
entalhamento de um canal fluvial (Fig. 7.19).
Áreas de rochas carbonáticas expostas quase sem-
pre exibem um padrão de sulcos com
profundidades de milimétricas a métricas, às vezes
com lâminas proeminentes entre os sulcos. São os
lapiás ou caneluras de dissolução. Formam-se ini-
cialmente pela dissolução da rocha na interface solo
- rocha e após a erosão do solo continuam seu de-
senvolvimento pelo escorrimento da água de
I ti precipitação diretamente sobre rocha (Fig. 7.20).
Entre as formas mais notáveis do relevo cárstico,
11,: :
citam-se ainda os cones cársticos. Constituem
morros de vertentes fortemente inclinadas e pare-
des rochosas, representando morros testemunhos
que resistiram à dissolução. São típicos de áreas
carbonáticas com relevo acidentado. Distribuem-
se na forma de divisores de água contornando
bacias de drenagem centrípeta. Freqüentemente abri-
gam trechos de antigos sistemas de cavernas em
diferentes níveis (Fig. 7.21).
Fig. 7.20 Afloramento calcário entalhado por caneluros
dissol~ção (Iapiás) na região da caverna do Padre,Toconn
Foto: Adriano Gambarini.
.
Fig.7.21 (a)Cones cársticos, região do vale do rio Betari, Iporanga, SP;(b) região de Pinar
dei Rio,Cuba. Fotos: Ivo Karmann.

Carste no Brasil

Cerca de 5 a 7% do território brasileiro é ocu- com dolinas de abatimento e vales cársticos. Mui-
pado por carste carbonático, constituindo um tas cavernas são conhecidas nessas áreas, incluindo
importantecomponente nas paisagens do Brasil. a mais extensa do País, como a Toca da Boa Vista
A maior área de rochas carbonáticas (município de Campo Formoso, BA), uma caverna
com padrão labiríntico e cerca de 80 km de galeri-
corresponde aos Grupos Bambuí e Una, do
as mapeadas. Além de cavernas e vistosas paisagens,
0:eoproterozóico. O primeiro cobre porções do
noroestede Minas Gerais, leste de Goiás, sudeste abrigam também importantes aqüíferos, ainda pou-
co explorados para abastecimento de água. Grande
de Tocantins e oeste da Bahia. O segundo ocorre
parte da região metropolitana de Belo Horizonte,
naregiãocentral da Bahia. Predominam calcários e
por exemplo, é abastecida com água subterrânea
dolomitospouco deformados e drenagens de bai-
proveniente do carste.
xogradiente,com relevos suaves e vastas depressões
Nos Estados de São Paulo e Paraná, os terrenos grandes lagos subterrâneos. Atividades de explora-
cársticos concentram-se sobre calcários ção subaquática têm revelado passagens com 50 fi
metamorfizados e dobrados do Grupo Açungui, com de largura e profundidades de 150 m, evidencian-
relevo acidentado e zonas de carste poligonal, domi- do cavernas em processo de submersão devido à
nado por bacias de drenagem centrípeta e vistosos subsidência tectônica da região.
cones cársticos. Os sistemas de cavernas, atingindo até
8km de desenvolvimento, caracterizam-se por abrigar
os maiores desníveis subterrâneos do país, como as Leituras recomendadas
cavernas Casa de Pedra, com 350 m, e o Abismo do
PEITOSA, FA. C. eMANOEL Po., J. (coord.)
Juvenal, com 250 m, localizadas no alto vale do rio
Hidrogeologia conceitose aplicações.Fortaleza:
Ribeira, sul de São Paulo.
CPRM e LABHID-UFPE, 1997.
N o Oeste do Brasil, importantes sistemas
PREEZE, A. & CHERRY, J. A. Groundwater.
cársticos encontram-se nos calcários e dolomitos
Engelwood Cliffs:Prentice Hall, 1979.
do Grupo Corumbá, MS e Grupo Araras, MT. No
setor leste da serra da Bodoquena e região do mu- GILLIESON, D. Caves:,Processes,Development,
nicípio de Bonito, MS, ocorrem cavernas com Management.Oxford: Blackwell,1996.

7.1 "Buraco" de Cajamar: acidente geológico no carste


ElIlagosto de 1986, a população de CajalIlar (SP) assistiu ao episódio repentino da formação de uma cratera
com cerca de 10m de diâmetro e profuo.didade. Destruindo o quintal de uma casa, a formação do buraco foi
antecedida por ruídos descritos como explosões ou trovoadas longínquas. A partir deste dia, o buraco conti-
nuou a crescer, atingindo 29m de diâmetro e 18m de profundidade em um mês, consumindo quatro sobrados
(figura 7.22) e formando trincas em construções num raio de 400m. Após seis meses, o buraco estabilizou
com 32m de diâmetro e profundidade constante de 13m. A população IOGU,sem saber, estava sentindo a
predisposição ao colapso com muita antecedência observando deformações em pisos, surgimento de racha-
duras em paredes, rompimento de tUbulações da rede de fornecimento de água e a ocorrência de ruídos.
No dia do colapso, geólogos em visita ao local levantaram arupótese do abatimento de uma caverna abaixo da
cidade, pois esta se encontra sobre calcários.EstUdos posteriores realizados porgeólogos do InstitUto de.Pesquisas
Tecnológicas de São Pau!~:>, mostraram tratarcse de uma dolina desenvolvida no manto intempérico que cobre as
rochas carbonáticas, devido ao colapso de cavidades profundas na rocha. O rebaixamento do nível freâtico abaixo
da zona de cavidades foi a caUsado co-
lapso destas..Atribuiu-seo.rebaixamento
do nível d'água à somatória dos efeitos
da época de estiagem e da extração de
água por poços da região. Este acidente
geológico causou muita polêmica na
época, pois foi a primeira dolina de
colapso no Brasil que afetou uma
zona urbana densamente ocupada.
Após sua estabilização, a área da
dolina de Cajamar foi transforma-
da em praça pública. Fenômeno
semelb.ante aconteceu em seguida na
zona urbana de Sete Lagoas, MG.
Aliás, Sete Lagoas deriva seu nome
.~ de sete dolinas com lagos. A forma-
,'"" ção de dolinas .representa um
fenômeno de risco geológico que
Fig. 7.22 Situação estabilizada da ,çJolina de Caiamar em 771/87, com
deve ser considerado no pLanejamen-
afloramento do níveld' água no fundo. No início do colapso em 12/8/86, época
to do uso e ocupação do solo em
de estiagem, não aflorava água. terrenos carbonáticos.
l'T1abitamos a superfície da Terra e dependemos, Terra. Os produtos do intemperismo, rocha alterada
1.1.1 para viver, dos materiais disponíveis. Estes, em e solo, estão sujeitos aos outros processos do ciclo
sua maior parte, são produto das transformações que supérgeno - erosão, transporte, sedimentação - os
a crosta terrestre sofre na interação com a atmosfera, quais acabam levando à denudação continental, com
a hidrosfera e a biosfera, ou seja, são produtos do o conseqüente aplainamentodo relevo.
intemperismo. Constituem a base de importantes ati-
Os fatores que controlam a ação do intemperismo
vidades humanas, relacionadas, por exemplo, ao cultivo
são o clima, que se expressa na variação sazonal da
do solo e ao aproveitamento dos depósitos minerais
temperatura e na distribuição das chuvas, o relevo, que
na construção civil e na indústria. A exploração sus-
influi no regime de inftltração e drenagem das águas
tentável desses recursos depende do conhecimento de
pluviais, a fauna e flora, que fornecem matéria orgâni-
sua natureza e da compreensão de sua gênese, o que
ca p~ra reações químicas e remobilizam materiais, a
constitui o objetivo principal deste capítulo.
rocha parental, que, segundo sua natureza, apresenta
O intemperismo é o conjunto de modificações de resistência diferenciada aos processos de alteração
ordem física (desagregação) e química (decomposi- intempérica e, finalmente, o tempo de exposição da
ção) que as rochas sofrem ao aflorar na superfície da rocha aos agentes intempéricos.

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'0 B I ,V")
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H
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Fig. 8.1 Perfilde alteração ou perfil de solo típico, constituído, da base para o topo, pela rocha inalterada, saprolito e solum.O
solum compreende os horizontes afetados pela pedogênese (O, A, Ee B).° solo compreende o saprolito (e) e oso/um.

Descrição dos horizontes:

c - Horizonte de rocha alterada (saprolito). Pode ser subdividido em saprolito grosseiro (parte inferior, onde as estruturas e Exturos
da rocha estão conservadas) e saprolito fino (parte superior, onde a herança morfológica da rocha não é mais reconhecida).
B - Horizontede acumulaçãode argila, matériaorgânicae oxi-hidróxidosde ferroe de alumínio.
E - Horizonte mais claro, marcado pela remoção de partículas argilosas, matéria orgânica e oxi-hidróxidosde ferro e de alumínio
A - Horizonte escuro, com matéria mineral e orgânica e alta atividade biológica.
O-Horizonte rico em restos orgânicos em vias de decomposição.

Perfil de solo. Foto: Alain Ruellan.


.3t~L::~u~..'.íi.l!~o8. .INT~MPERISMO E,FoRMAÇÃODO SOLO 141 ;;
A pedogênese (formação do solo) ocorre quan- predominantes de atuação, são normalmente classifi-
do as modificações causadas nas rochas pelo cados em intemperismo físico e intemperismo
intemperismo,alémde serem químicas e mineralógicas, químico. Quando a ação (física ou bioquímica) de
tornam-sesobretudo estruturais, com importante re- organismos vivos ou da matéria orgânica proveniente
organizaçãoe transferência dos minerais formadores de sua decomposição participa do processo, o
do solo - principalmente argilominerais e oxi- intemperismo é chamado de físico-biológico ou quí-
hidróxidosde ferro e de alunúnio - entre os níveis mico-biológico.
superioresdo manto de alteração. Ai desempenham
papelfundamentala fauna e a flora do solo que, ao 8.1.1 Intemperismo fisico
realizarem
suas funções vitais, modificam e movimen-
tamenormes quantidades de material, mantendo o Todos os processos que causam desagregação das
soloaeradoe renovado em sua parte mais superficial. rochas, com separação dos grãos minerais antes coe-
sos e com sua fragmentação, transformando a rocha
O intemperismo e a pedogênese levam à forma-
inalterada em material descontínuo e friável, constitu-
çãode um perfil de alteração ou perftl de solo. O
em o intemperismo físico.
perftlé estruturado verticalmente, a partir da rocha
fresca,na base, sobre a qual formam-se o saprolito e As variações de temperatura ao longo dos dias e
o solum,que constituem, juntos, o manto de altera- noites e ao longo das diferentes estações do ano cau-
çãoou regolito (Fig.8.1). Os materiais do perftl vão sam expansão e contração térmica nos materiais
setornandotanto mais diferenciados com relação à rochosos, levando à fragmentação dos grãos mine-
rochaparentalem termos de composição, estruturas rais.Além disso, os minerais, com diferentes coeficientes
e texturas,quanto mais afastados se encontram dela. de dilatação térmica, comportam-se de forma dife-
Sendo dependentes do clima e do relevo, o renciada às variações de temperatura, o que provoca
intemperismoe a pedogênese ocorrem de maneira deslocamento relativo entre os cristais, rompendo a
distintanos diferentes compartimentos morfo-climá- coesão inicial entre os grãos. A mudança cíclica de (
.~
ticosdo globo, levando à formação de perfis de umidade também pode causar expansão e contração .~

alteraçãocompostos de horizontes de diferente es- e, em associação com a variação térmica, provoca um ~


.~

pessurae composição. 'i


efetivo enfraquecimento e fragmentação das rochas. ...
Este mecanismo é especialmente eficiente nos deser-
tos, onde a diferença de temperatura entre o dia e a
8.1 Tipos de Intemperismo noite é muito marcada.
Os processosintempéricos atuam através de me- O congelamento da água nas fissuras das rochas,
canismosmodificadores das propriedades físicas dos acompanhado por um aumento de volume de cerca
mineraiserochas (morfologia, resistência, textura, etc.), de 9%, exerce pressão nas paredes, causando esforços
edesuascaracterísticasquímicas (composição quími- que terminam por aumentar a rede de fraturas e frag-
cae estruturacristalina).Em função dos mecanismos mentar a rocha (Figs. 8.2 e 8.3).

- - --
- - chuva -
- ti ti ti ti ti
_ti ti ti ti

.....
"
.- -- Jc _..:&

a b

Fig.8.2 Fragmentação por ação do gelo. A água líquida ocupa as fissuras da rocha (a), sendo posteriormen-
te congelada, expandindo e exercendo pressão nasparedes(b).
I, !
A cristalização de sais dis-
solvidos nas águas de
inf1ltração tem o mesmo efei-
to. Com o passar do tempo,
o crescimento desses mine-
rais também causa expansão
das fissuras e fragmentação
das rochas. Essa cristalização
pode chegar a exercer pres-
sões enormes sobre as
paredes das rochas, não so-
mente devido ao próprio
crescimento dos cristais, mas
também por sua expansão tér-
Fig. 8.3 Bloco de gnaisse fraturado pela ação do gelo nas fissuras (Antártica).Foto:Michad
mica, quando a temperatura
Hambrey.
aumenta nas horas mais
quentes do dia, ou pela ab-
sorção de umidade.

Este tipo de intemperismo físico é um dos princi- pelas soluções percolantes provenientes das chuvas.i
pais problemas que afetam os monumentos. Os sais Há, atualmente, uma grande preocupação em preser.
mais comuns que se precipitam nas fissuras das rochas var e restaurar monumentos históricos e, por essarazão,
são cloretos, sulfatos e carbonatos originados da pró- esses processos intempéricos vêm sendo intensamen
I
I' pria alteração intempérica da rocha, que são dissolvidos te investigados.
II I
Superfície O intemperismo físico também ocorre quando
partes mais profundas dos corpos rochosos ascen
I ~
dem a níveis crus tais mais superficiais. Com o alivi
da pressão, os corpos rochosos expandem, causand
a abertura de fraturas grosseiramente paralelasà super
fície ao longo da qual a pressão foi aliviada. Estasfra
recebem o nome de juntas de alívio (Fig. 8.4).

: I

i I

Juntas de alívio
.1\
li

Fig. 8.4 Formação das juntas de alívio em conseqüência da


expansão do corpo rochoso sujeito a alívio de pressão pela ero-
são do material sobreposto. Estas descontinuidades servem de Fig. 8.5 Ação do crescimento de raízes, alargando as fissul

caminhos paro a percolação das águas que promovem a altera- e contribuindo para a fragmentação das rochas. Fata Ale'

ção químico. a) antes da erosão; b) depois da erosão. Ruellan.


Finalmente, outro efeito do intemperismo físico é e oxigênio, é muito diferente daquele onde a maioria
a quebra das rochas pela pressão causada pelo cresci- das rochas se formaram. Por esse motivo, quando as
mentode raízes em suas fissuras (Fig. 8.5). rochas afloram à superfície da Terra, seus minerais
entram em desequilibrio e, através de uma série de
Fragmentando as rochas fê, portanto, aumentando
reações químicas, transformam-se em outros mine-
a superfície exposta ao ar e à água, o intemperismo
rais, mais estáveis nesse novo. ambiente.
fisicoabre o caminho e facilita o intemperismo quími-
co.A Fig.8.6 mostra o aumento da superfície específica ° principal agente do intemperismo quínúco é a
de um bloco de rocha quando dividido em blocos água da chuva, que infiltra e percola as rochas. Essa
menores. água, rica em °2, em interação com o CO2 da atmos-
fera, adquire caráter ácido. Em contato com o solo,
onde a respiração das plantas pelas raízes e a oxidação
8.1.2Intemperismo químico
da matéria orgânica enriquecem o ambiente em CO2,
o ambienteda superfície da Terra, caracterizado tem seu pH ainda mais diminuído.
porpressõese temperaturas baixas e riqueza de água

- Bloco único de aproximadamente


1 m de lado

70
- Volume = 1 m3
60
li
- Superfície específica =" 6 m2 '" 50
-2
c
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2 30 (
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20 ,;
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6 9 12 15 18 21 24
Ruptura ao

! longo de
fralu ras
Superfície específica total ( m2)

o
U,
3
- 8 fragmentos, cada um
com aproximadamente
0,5 m de lado

- Volume = ( 0,5)3 x 8 = 1 m3

- Superfície específica = 12 m3

Fig.8.6 A fragmentaçõo de um bloco de rocha é acompanhada por um aumento significativo da superfície exposta à
açõo dos agentes intempéricos. Neste exemplo, um bloco de rocha aproximadamente cúbico, de 1 m de lado, apresenta
uma área exposta de 6m2; quando dividido em oito volumes cúbicos de O,Sm de lado, passa a apresentar superfície
expostade 12m2, O gráfico mostra que a superfície específica aumenta geometricamente com o aumento do número de
fragmentosem que é dividido o bloco.
As equações abaixo representam os equiHbrios de as micas mais ou menos transformadas, os argilominerais
H20 com CO2: do grupo da caulinita e da esmectita e os oxi-hidróxidos
de ferro e alumínio. Complementarmente à geração
CO2 + H20 ~ H2C03
do manto de alteração, é produzida uma fase líquida
H2C03 ~ H+ + HCq- composta de soluções aquosas ricas nos elementos mais
solúveis nas condições reinantes na superfície da Ter-
HCq-~ H+ + cq2- ra, tais como o sódio, o cálcio, o potássio e o magnésio
Quando a degradação da matéria orgânica não é e, em menor grau, o silicio. .

completa, vários tipos de ácidos orgânicos são for- Em períodos de estabilidade tectônica, quando os
mados e incorporados às águas percolantes, tornando-as continentes estão recobertos por vegetação, essas so-
muito ácidas e, conseqüentemente, aumentando seu luções são lentamente drenadas do perfil de alteração,
poder de ataque em relação aos minerais, intensifican- indo depositar-se nos compartimentos rebaixados das
do assim o intemperismo químico. paisagens, entre os quais os mais importantes são as
Os constituintes mais solúveis das rochas bacias de sedimentação marinhas. Assim, enquanto o
intemperizadas são transportados pelas águas que dre- continente sofre principalmente erosão química, que
nam o perfil de alteração (fase solúvel). Em leva ao rebaixamento de sua superfíce, nas bacias
conseqüência, o material que resta no perfil de altera- sedimentares precipitam-se essencialmente sedimentos
ção (fase residual) torna-se progressivamente químicos, que darão origem às rochas sedimentares
enriquecido nos constituintes menos solúveis. Esses químicas, tais como os calcários, chertse evaporitos (ver
constituintes estão nos minerais primários residu- Capo 14).
ais, que resistiram à ação intempérica, e nos minerais Mudanças climáticas e fenômenos tectônicos po-
secundários que se formaram no perfil. Dentre os dem colocar em desequilibrio o manto de alteração
principais minerais residuais, o mais comum é o quartzo. dos continentes, removendo a vegetacão e tornando-
Os minerais secundários são chamados de o mais vulnerável à erosão mecânica. Dessa forma, os
neoformados quando resultam da precipitação de minerais primários e secundários formados no perf1l
substâncias dissolvidas nas águas que percolam o per- serão carregados pelas águas e depositados nas bacias
'"
fil, como é o caso, por exemplo, dos oxi-hidróxidos de sedimentação. Essa etapa do aplainamento dos con-
de ferro e de alumínio. Quando se formam pela tinentes dominada pela remoção mecânica dos materiais
interação entre as soluções de percolação e os mine- do manto de alteração está relacionada à geração das
rais primários, modificando sua composição química, rochas sedimentares clásticas, tais como os arenitos,
porém preservando pelo menos parcialmente sua es- folhelhos e argilitos (ver Capo 14).
trutura, são chamados de minerais secundários
transformados. A transformação ocorre essencial-
Ambientes de intemperismo e ambientes de sedi-
mente entre os filossilicatos, como no caso das micas mentação podem ser vistos, portanto, como
complementares, sendo dominantes nos primeiros os
(filossllicato primário) alteradas em illitas ou
vermiculitas (filossilicatos secundários).
processos de subtração de matéria e, nos últimos, os
processos de adição de matéria.

8.2 Intemperismo, Erosão e


8.3 As Reações do Intemperismo
Sedimentação
As reações do intemperismo químico podem ser
° intemperismo é um elo importante no ciclo das representadas pela seguinte equação genérica:
rochas, estando sua atuação estritamente relacionada à
gênese das rochas sedimentares. Mineral I + solução de alteração ~ Mineral II +
solução de lixiviação
Os processos intempéricos atuando sobre as ro-
chas individualizam uma fase residual que permanece Estas reações estão sujeitas às leis do equiHbrio quí-
in situ, cobrindo os continentes, e que é formada por mico e às oscilações das condições ambientais. Assim,
minerais primários inalterados e minerais secundários se componentes, como a própria água, são retirados
transformados e neoformados. As principais associa- ou adicionados, as reações poderão ser aceleradas ou
ções minerais do manto de alteração incluem o quartzo, retardadas, ou seguir caminhos diferentes, gerando

I
OOO'l!;'c'k'!Oi'itt'''''';''''''"'''''i''''4:k~' o ';;"",ff:Si!:ii?,'i'''''1Ii'!""ii1\1iiil:ff°o"""",'i''
INTÉMPERISMO:E'FORMAcÁnr.';' SOLO

diferentesminerais secundários e diferentes soluções Hidrólise


de lixiviação.
Os principais minerais formadores das rochas, que
Na maior parte dos ambientes da superfície da são os silicatos, podem ser concebidos como sais de
Terra,as águas percolantes têm pH entre 5 e 9. Nesses um ácido fraco (H4SiOJ e de bases fortes (NaOH,
ambientes,as principais reações do intemperismo são KOH, Ca(OH)z' Mg(OH)J Quando em contato com
hidratação, dissolução, hidrólise e oxidação. Em a água, os silicatos sofrem hidrólise, resultando numa
algunsambientes, o pH das águas pode ser inferior a solução alcalina, pelo fato de o H4SiO 4 estar pratica-
5 e, neste caso, ao invés da hidrólise, a reação predo- mente indissociado e as bases muito dissociadas.
minanteé a acidólise.

co,
Hidratação co, co, cOz
A hidratação dos minerais ocorre pela atração en-
CO2 'S;°ta de'chuva,COz Pequena proporção de
treosdipolos das moléculas de água e as cargas elétricas
nào neutralizadas das superfícies dos grãos (Fig. 8.7). Co, moléculas de CO2 no ar
0Jahidratação, moléculas de água entram na estrutura
mineral, modificando-a e formando, portanto, um Co, dissolve em gotas de chuva
novo mineral. Como exemplo, pode-se citar a trans- para formar ácido carbônico
formaçãode anidrita em gipso, segundo a reação: (H2C03).

CaS04 + 2 HP ~ CaS04.2HzO
Uma pequena proporção de
moléculas de H2 C03 ioniza
formando íons W e HCOj
Argílomineral
(bicarbonato) tornando as
r+
; H
gotas levemente ácidas.

fo A água levemente ácida


dissolve potássio e sílica
do feldspato

Molécula de ág ua
(HP)

Fig.8.7 As cargas elétricas insaturadas na superfície dos


grõ~smineraisatraem as moléculas de água, que funcio-
namcamadipalos devido à sua morfologiao
que se recombinam em
'>(\(,oi
K+
\ caulinita neoformada; os
íons hidrogênio são retidos
Dissolução
na água do argilomineral.
Alguns minerais estão sujeitos à dissolução, que
consistena solubilização completa. É o caso, por exem- Sílica, íons potássio (K+)
plo, da caleita e da halita, que entram em solução e bicarbonato (HCOj) são
conforme as equações abaixo: lixiviadosem direção aos rios.
CaCO3 -t Caz+ + COl-
3

NaCl-t Na+ + cr Fig. 8.8 Alteração de um feldspato potássico em presença


de água e ácido carbônico, com a entrada de H+na estrutura.
A dissolução intensa das rochas, que ocorre mais do mineral,substituindoK+.O potássio é totalmente elimina-'\
comumente em terrenos calcários, pode levar à for- do pela solução de lixiviaçãoe a sílica apenas parcialmente; a
sílicanão eliminada recombina-se com o alumíniotambém não
maçàoderelevos cársticos, caracterizados pela presença
eliminado, formando uma fase secundária argilosa (caulinita).
decavernase dolinas (ver Capo 7).
II
o íonH+, resultado da ioruzação da água, entra nas
estruturas minerais,deslocando principalmente os cátions
I
alcalinos (1<:+e Na+) e alcalino-terrosos (CaZ+e Mg2+),
I que são liberados para a solução. A estrutura do mineral
i na interface sólido/solução de alteraçãoacaba sendo rom-
!
pida, liberando Si e AI (átomos isolados: monômeros, AI(OH!3
em grupos: polímeros) na fase líqüida. Esses elementos
podem recombinar-se, resultando na neoformação de
minerais secundários. A Fig. 8.8 mostra o esquema de
alteração de um feldspato em um mineral secundário
neoformado, a caulinita. Na Fig. 8.9, um cristal de
feldspato em vias de alteração por dissolução, sem for-
mação de produtos secundários de precipitação imediata,
dá uma idéia da perda de matéria e da geração de
porosidade causadas pelo intemperismo químico.

o
pH
Fig. 8.10 Solubilidade da sífica e do alumínio em função c

pH, a 25°C. Até valores de pH de cerca de 8, a sílica é POU(


solúvel; sua solubilidade aumenta em meios mais alcalinos.
I
I alumínio é praticamente insolúvel no intervalo de pHdoson
1'1
I bientes normais na superfície (4,5 a 9,5); em meiosmun
I
ácidos ou muito alcalinos, é solubilizado como AP+e Alq
respectivamente.

,I:

mente eliminada se as soluções de altéração perm~


necerem diluídas, o que acontece em condiçõesdi I
pluviosidade alta e drenagem eficiente dos perf
O resíduo da hidrólise total do K-feldspato é
hidróxido de alumínio (gibbsita), insolúvel nes
Fig. 8.9 Imagem obtida ao Microscópio Eletrônico de Varre-
faixa de pH (Fig. 8.10).
dura, mostrando feldspato parcialmente dissolvido ao longo
das clivagens pelo intemperismo químico. Foto:A. Alcover Neto. KAlS~Os + 8 HP ~ AI(OH)3 + 3 H4Si04 + K++01

I A hidrólise ocorre sempre na faixa de pH de 5 a 9. Hidrólise parcial


I Se há, no meio, condições de renovação das soluções
I Na hidrólise parcial, em função de condiçà!
I
reagentes, estas mantêm-se sempre diluídas, e as rea-
I , 1 I de drenagem menos eficientes, parte da sílicapel
ções podem prosseguir, eliminando os componentes
manece no perfil; o potássio pode ser total (
solúveis. O grau de eliminação dos elementos / subs-
tâncias dissolvidos define a intensidade de hidrólise. parcialmente eliminado. Esses elementos reage:
com o alumínio, formando aluminossilicat(
Por exemplo, no caso dos feldspatos potássicos, po-
hidratados (argilominerais).
dem-se distinguir:
I

II . Em função do grau de eliminação do potássí


Hidrólise total duas situações são possíveis:

Na hidrólise total, 100% da sílica e do potássio


. 100% do potássio é eliminado em solução:
são eliminados. A sílica, apesar de pouco solúvel na 2 KAISips + 11HP ~ SizAlPs(OH)4 + 4 H4Si04
faixa de pH da hidrólise (Fig. 8.10) pode ser total- 2 K+ + 2 OR

.--1
~esse caso, forma-se a caulinita, com eliminação A acidólise parcial ocorre quando as soluções de
de66%da sílicae permanência de todo o alumínio. ataque apresentam pH entre 3 e 5 e, nesse caso, a re-
.partedo potássio não é eliminada em solução: moção do alumínio é apenas parcial, levando à
individualização de esmectitas aluminosas:
2,3KAlS~08+ 8,4~O ~ Si3,7~,3 °10 ~ (0H)2 ~,3
+ 3,2H4Si04+2K++ 20B- 9 K Al Si3°8 + 32 H+ ~ 3 Si3,5AlO,5°10 Al2 (O H)2
+ 1,5 Al3++ 9 K+ + 6,5 H4Si04
Aqui forma-se outro tipo de argilomineral, a
esmectita,com eliminação de 87% do potássio, 46%
Oxidação
dasílicae permanência de todo o alumínio.
No casode hidrólise total, além do alumínio, tam- Alguns elementos podem estar presentes nos mi-
bémo ferro permanece no perfil, já que esses dois nerais em mais de um estado de oxidação, como, por
elementostêm comportamento geoquímico muito exemplo, o ferro, que se encontra nos minerais ferro-
semelhanteno domínio h1drolítico. Ao processo de magnesianos primários como a biotita, anfibólios,
eliminação totalda silicae formação de oxi-hidróxidos piroxênios e olivinas sob forma de Fe2+.Liberado em
dealuminioe de ferro dá-se o nome de alitização ou solução, oxida-se a Fe3+,e precipita como um novo
ferralitização. mineral, a goethita, que é um óxido de ferro hidratado
(Fig. 8.11):
No caso de hidrólise parcial, há a formação de 1
silicatosde alumínio, e o processo é genericamente 2 FeSi03 + 5 H20 + 2" °2 ~ 2 FeOOH + 2 H4Si04
denominadosialitização. Quando são originados
A goethita pode transformar-se em hematita por
argilomineraisdo tipo da caulinita, em que a rela-
desidratação:
çãode átomos Si:Alé 1:1 (um átomo de silício para
um de alumínio na molécula), fala-se de 2FeOOH ~ Fe203 + H20
monossialitização. No caso de serem formados
argilomineraisdo tipo esmectita, em que a relação
Si:Alé 2:1 (dois átomos de silício para um de alu-
míniona molécula), o processo é a bissialitização.

Acidólise
~
~a maior parte da superfície dos continentes,
Piroxênio rico em ferro, 1 --
os processos intempéricos são de natureza
hidrolítica.No entanto, em ambientes mais frios,
ondea decomposição da matéria orgânica não é
liberandopara
ferrosos sílica
a solução. .~
e lonsSi02/ "
02
[Qta~formam-se ácidos orgânicos que diminuem
r
"
bastanteo pH das águas, sendo assim capazes de Ferro ferroso é oxidado
complexaro ferro e o alumínio, colocando-os em
solução.Nestes domínios de pH < 5 não é a
pelas moléculas de
oxigênio, formando ferro
férrico. e)
hidrólise,mas a acidólise o processo dominante
de decomposiçãodos minerais primários,
~o casodo feldspato potássico, ocorre acidólise Ferro férrico combina com
total,quandoas soluções de ataque tiverem pH me- água precipitando produtos
ferruginosos.
norque3,fazendocom que todos o~lementos entrem
emsolução:

KAlS~°8 + 4H++ 4HP ~ 3 H4Si04+ Al3++ K+


Asrochasque sofrem acidólise total geram solos
constituídos
praticamente apenas dos minerais primá- Fig. 8.11 A alteração intempérica de um mineral com Fe2+
rios mais insolúveis como o quartzo (solos resulta, por oxidação do Fe2+para Fe3+,na formação de um
podzólicos) .
oxi-hidróxido,a goethita.

I~

-'
o Fe3+ não entra na estrutura da maior parte dos 8.4 Distribuição dos Processos de
argilominerais. Apenas em certas esmectitas
Alteração na Superfície da Terra
(nontronitas) pode ser encontrado substituindo o Al3+.
Mais raramente, em quantidade muito pequena, pode A distribuição potencial dos processos de alter
substituir o Al3+ nas caulinitas. De modo geral, no ção na superfície da Terra na escala do planeta,el
domínio da hidrólise total ou da hidrólise que leva à função dos parâmetros climáticos atuais, estárepl
monossialitização, o ferro é individualizado em óxi- sentada na Fig. 8.14. Esse esquema distingl
dos e oxi-hidróxidos (hematita e goethita, basicamente dois domínios:
principalmente). Esses minerais conferem às cobertu-
ras intempéricas tons de castanho, vermelho, laranja e
. Regiões sem alteração química, corresponden
a 14% da superfície dos continentes;
amarelo, tão comuns nos solos das zonas tropicais.

Genericamente, dá-se o nome de lateritas às for-


. Regiões com alteração química, correspondem
a 86% da superfície dos continentes.
mações superficiais constituídas por oxi-hidróxidos de
alumínio e de ferro e por caulinita. Ao conjunto de As regiões sem alteração química são aquelas
processos responsáveis por essas associações minerais, racterizadas por uma carência total de água no estal
respectivamente, alitização e monossialitização, dá-se líquido, o que pode resultar de duas situações:
o n~me de laterização.
a) as temperaturas reinantes são inferiores a~
Todas as reações do intemperismo quimico acon- de tal sorte que a água se encontra sempre no esta!
tecem nas descontinuidades das rochas, podendo sólido: são as zonas polares;
resultar no fenômeno denominado esfoliação
b) o meio é caracterizado por uma secura extre
esferoidal. As arestas e os vértices dos blocos rocho-
devido à ausência de chuva, ou por forte evaporaç
I sos são mais expostos ao ataque do intemperismo são os desertos verdadeiros, como o Saara, o Atac~
I'
,'
I] químico que as faces, o que resulta na formação de e o Gobi.
blocos de formas arredondadas a partir de formas
angulosas (Figs. 8.12 e 8.13).

Ataque em
um lodo

I, ,

redução
do cubo em esfera

'I

!li

Fig. 8.12 A alteração esferoidal resulta na produção de formas


arredondadas a partir de formas angulosas de blocos de rocha.
As formas arredondadas podem apresentar-se escamadas, como
mostra a Fig. 8.13. Este fenômeno deve-se à maior rapidez do Fig. 8.13 Alteração esferoidal em bloco de rocha ígnea,

ataque do intemperismo nos vértices e arestas dos blocos rocho- escamas concêntricas, sendo as mais externas maisalter

sos, em relação às faces, que as mais internas. Fonte: Plummer & McGeary,199/
As regiõescom alteração química correspondem plexos orgânicos capazes de fazer o alumínio migrar
ao resto do globo e são caracterizadas, ao mesmo por acidólise total. Os solos resultantes são solos
tempo,por uma certa umidade e pela existência de podzólicos, ricos em quartzo e em matéria orgânica.
coberturavegetalmais ou menos desenvolvida. Trata- A zona da acidólise total corresponde à zona
sedeum douúnio heterogêneo, que é subdividido em circumpolar do hemisfério norte.
quatrozonasde distribuição grosseiramente latitudinal,
emfunçãode suas características climáticas:
. Zona da alitização (13,5% da superfície continental)

. Zona da acidólise total (16% da superncie continental)


Cor responde às regiões do domínio tropical, ca-
racterizadas por precipitação abundante, superior a
São as zonas frias do globo, onde a vegetação é 1.500 mm, e vegetação exuberante. A associação mi-
compostaprincipalmente por líquens e coníferas, cujos neral característica é de oxi-hidróxidos de ferro e de
resíduos se degradam lentamente, fornecendo com- alumínio, goethita e gibbsita, respectivamente.

30°

1 Zona da alitizoção
2 Zona da monossialitização
3 Zona da bissialitizoção
4 Zonas muito áridas, sem alte-
ração química
5 Zona da acidólise total
6 Zonas cobertas por gelo
7 Extensãoaproximada das áre-
astectonicamenteativas (TA),
nas quais os tipos de
intemperismoencontram-se
modificados

Fig.8.14 Distribuição dos principais processos de intemperismo na superfície da Terra.


. Zona da monossialitização (18% da superfície con-
tinental)

Está contida no domínio tropical sub-úmido, com


precipitação superior a 500 mm e temperatura média
anual superior a 15°C. Os principais minerais forma-
dos são a caulinita e os oxi-hidróxidos de ferro.

. Zona da bissialitização (39% da superfície continental)

São as zonas temperadas e áridas, onde a alteração


e lixiviação são pouco intensas, resultando na forma-
ção de argilominerais secundários em silicio. Essa zona
engloba tanto o ambiente hidrolítico de formação de
esmectitas ricas em elementos alcalinos e alcalino-
terrosos, como o ambiente da acidólise parcial, onde
se formam as esmectitas aluminosas.

Esse esquema, válido na escala do planeta, pode ser


bastante modificado por condições locais de relevo,
microclima, tipo litológico predominante, etc. Na Bacia
Amazônica, por exemplo, embora o processo domi-
nante seja a laterização, sobre rochas ricas em quartzo
pode ocorrer uma acidólise secundária, resultando na
perda de argilas e levando à formação de verdadadeiros
~olos podzólicos.
,! II

I
8.5 Fatores que Controlam a Fig. 8.15 Rochas diferentes expostas na mesmaépl
(década de 1960), apresentando diferentes grausdealll
Alteração Intempérica
ração. A escultura, em mármore, encontra-se bastaR
Várias características do ambiente em que se pro- alterada, enquanto o túmulo, em granito, está bemmel
preservado. Foto: M. C. M. de Toledo.
cessa o intemperismo influem diretamente nas reaçoes
de alteração, no que diz respeito à sua natureza, veloci-
dade e intensidade. São os chamados fatores de controle
II do intemperismo, basicamente representados pelo (ver Capo 16), que representa a ordem de cristaliza9
: I

t
material parental, clima, topografia, biosfera e tem-
dos minerais a partir do magma. Assim, consider~
po.
do a seqüência de minerais máficos, a olivina,prirnci
mineral a cristalizar-se, a cerca de 1.4000C, é omin~
Material parental
mais suscetível à alteração; em seguida vêm ~

piroxênios, os anfibólios e as micas, cristalizadosate


A alteração intempérica das rochas depende da
peraturas mais baixas. Considerando a seqüência(
natureza dos minerais constitutintes, de sua textura
plagioclásios, a anortita apresenta ponto de fusãou
e estrutura. Por exemplo, uma rocha silicática como
ximo e a albita, mínimo. Os K-feldspatos funden
o granito é mais resistente à alteração que uma ro-
temperaturas ainda mais baixas. Assim, são mais~
cha carbonática, como o mármore (Fig. 8.15).
cetíveis à alteração intempérica, pela ordem, anorb
Entre os minerais constituintes das rochas, alguns albita e K - feldspato. O quartzo, último mineralaCJ
são mais suscetíveis que outros à alteração. A série de talizar-se, já a temperaturas próximas de SOO'C, é
Goldich (Tabela 8.1) representa a seqüência normal mineral comum mais resistente ao intemperismo.
N

de estabilidade dos principais minerais frente ao é, entretanto, inalterável, pois, em condições decru
intemperismo. Para os minerais silicáticos de origem tropical muito agressivas, o intemperismo q , .
magmática, esta série é equivalente à série de Bowen pode dissolvê-lo.

ti'
. INTEMP[~ISM~!Ê FOIÚ~\AÇÃODO SOLO 1 51

Tabela 8.1 Série de Goldich: ordem de estabilidade frente ao intemperismo dos minerais
mais comuns. Comparação com a série de cristalização magmática de Bowen.

ESTABILIDADE DOS VElOCIDADE DE


SÉRIE DE BOWEN
MINERAIS INTEMPERISMO

Mais estável Menor


Óxidos de ferro
(hematita)

Hidráxidos de alumínio
(gibbsita)
Último a cristalizar
Quartzo
Quartzo

Argilominerais

Muscovita
Muscovita
Ortoclásio
Albita
Ortoclásio
Biotita
o
Biotita .0
U'
Albita o
..
O
.;;;
::::""'"
.5! g
Anfibólios o '8
'" .0 .. c:

Piroxênios Anfibálio

Piroxênio
~
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~
Anortita

Olivina
~
?! ~ M
';f ..,
~
.!!~
Anortita

Calcita Olivina

Halita

Primeiro a cristalizar

Menos estável Maior

Comoconseqüência dessa diferenciação de com- água, ocorre hidratação pela atração entre os dipolos
portamentodos minerais frente ao intemperismo, da água e as cargas superficiais (Fig. 8.7), podendo
os perfisde alteração serão naturalmente enrique- esta atração ser forte o suficiente para ionizar a água.
cidosnosmineraismais resistentes, como o quartzo, Os íons H+ assim gerados substituem os cátions
e empobrecidos ou mesmo desprovidos dos mi- nas superfícies dos grãos minerais, o que resulta no
neraismaisalteráveis, como a olivina. aumento do pH da fase líquida. Assim, a presença
de minerais portadores de elementos alcalinos e al-
A composição mineralógica da rocha em vias
calino-terrosos possibilita a instalação de um pH
dealteraçãomodifica o pH das soluções percolantes
mais alcalino nas águas que os percolam, enquanto il
em função das reações químicas que ocorrem.
minerais sem estes elementos geram condições de
Emboraa carga elétrica global das estruturas mi-
pH mais ácidas.
neraisdeva ser nula, a superfície dos grãos pode
contervalências insaturadas. Em contato com a

i~
Uma idéia desta diferença é dada pela escala de. A textura da rocha original influencia o intemperismo,
pH de abrasào (Tabela 8.2). O pH de abrasão é de- na medida em que permite maior ou menor infiltração
terminado experimentalmente através da medida do da água. Entre os materiais sedimentares, os arenosos
pH da suspensão formada por água destilada e ácido tendem a ser mais permeáveis que os argilosos. Consi-
carbônico em contato, durante um certo tempo, com derando outros tipos de rochas, aquelas com arranjo mais
a fase mineral pura moída. Na natureza, onde rara- compacto e texturas mais grossas (menor superfície es-
mente as rochas são monominerálicas, os valores de pecífica dos grãos) alteram-se menos rapidamente que
pH resultantes do contato delas com as águas são a as menos compactas e de texturas mais finas. Outras
média ponderada dos valores relativos às fases mine- descontinuidades, como juntas e diáclases, também faci-
rais presentes. O pH depende também do tempo de litam a percolação das águas e, portanto, a alteração.É
contato das soluções com os grãos minerais e pode nesse sentido que o intemperismo físico, com seu efeito
variar dentro do perfil, de acordo com os minerais desagregador do material original, contribui para acele-
presentes. A boa circulação das soluções no perf1lleva rar o intemperismo químico.
à homogeneização do pH. Assim, nas partes dos per-
Na Fig. 8.16, pode-se observar o efeito, após erosão,
fis onde a alteração se processa já há algum tempo, a
do chamado intemperismo diferencial. A rocha da base
circulação das águas é mais intensa e o pH das solu-
da seqüência foi mais intemperizada, tornando-se friável
ções é mais homogêneo. Nas zonas mais profundas
e sendo mais erodida que a rocha da parte superior, que
do perfil, onde a alteração é incipiente pelo fato de as
fica suspensa, ainda coesa, não afetada pelos agentes
descontinuidades serem mais fechadas, restringindo a
erosivos que atuaram na área. Efeito semelhante ocorreu
circulação das águas, a variação do pH das soluções é
nas rochas vulcânicas e sedimentares da Bacia do Paraná,
muito maior, diferindo de um ponto a outro, em fun-
onde as camadas de derrames basálticos foram menos
ção do contato com um ou outro mineral.

Tabela 8.2 Valores de pH de abrasão para os principais minerais

diopsídio CaMg(SiOah
olivina (MgFehSi04
hornblenda (C a N a)2 (M 9 F eA I) s( A IS i)8 0:z2( OHh
10
leucita KAISi20a 10
li) albita NaAISi30s 9 - 10
o
.... biotita 8- 9
-t'CJ
.~
êi)
microclínio
anortita
K(Mg F e h(AI)Sh
KAISi30s
CaAI2Si 2Os
Oto (O H h
8 - 9
8
hiperstênio (MgFehSi2Oa 8
muscovita KAI2(AI)Si3010(OH) 2 7- 8
ortoclásio KAISbOs 8
montmorillonita AbS~010(OHh.nH2O 6 - 7
caulinita AbS~Os(OH)4 5- 7

6
6
e
intemperizadase, assim, mais preservadas da erosão, que A velocidade da alteração de um mesmo tipo de
asrochassedimentares sobre e subjacentes. O resultado material pode modificar-se com o tempo. Por exem-
é o relevoem forma de cuestas. plo, um derrame vulcânico recém-formado apresentará,

,
'.
no início de sua exposição aos agentes intempéricos,
uma alteração mais lenta, devido à limitada infiltração
das águas. Com o desenvolvimento de material
intemperizado na superfície do derrame, haverá pro-
gressivamente condições para que as águas se infiltrem
cada vez mais e permaneçam mais tempo em contato
com os materiais ainda inalterados, promovendo as re-
ações químicas de forma mais eficiente que no início.

Clima

O clima é o fator que, isoladamente, mais influen-


Fig.8.16 O intemperismo, desagregando e decompondo as
cia no intemperismo (Fig. 8.17). Mais do que qualquer
rochas,preparao material para a erosão, Assim, rochas me- outro fator, determina o tipo e a velocidade do
nos intemperizadas serão menos afetadas pela erosão, Na intemperismo numa dada região. Os dois mais im-
fotografia,observa-se que a erosão incidiu mais fortemente na portantes parâmetros climáticos, precipitação e
rochainferior,mais afetada pelo intemperismo. Fonte: Plummer, temperatura, regulam a natureza e a velocidade das
C. &D,McGeary, com permissão da McGraw Hill Companies, reações químicas. Assim, a quantidade de água dispo-

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~ 20
E
~

200 150 100 50

Pluviosidade anual (em)

Figo8.17 O papel do clima é preponderante na determinação


dotipoe eficácia do intemperismo. O gráfico mostra as variações
doscondições de intemperismo em função da pluviosidade anual
e da temperatura média anual. O intemperismo físico predomina
nosáreas onde temperatura e pluviosidade são baixas. Ao contrá-
rio, temperatura e pluviosidade mais altas favorecem o
intemperismoquímico. No mapa estão representados os diferen-
tes regimes de intemperismo em várias regiões do continente
americano,
nível nos perfis de alteração, fornecida pelas chuvas,
bem como a temperatura, agem no sentido de acele-
rar ou retardar as reações do intemperismo, ou ainda ~O 80
<f)
modificar a natureza dos produtos neoformados, se-
O
c 60
gundo a possibilidade de eliminação de componentes
potencialmente solúveis. .~ 40
O) '-
Quanto maior a disponibilidade de água (pluviosidade O 20
<D
total) e mais freqüente for sua renovação (distribuição -O
das chuvas), mais completas serão as reações químicas ~
do intemperismo. A Fig. 8.18 mostra que a quantidade e
a natureza dos produtos do intemperismo estão muito 1.000 2.000 3.000 4.000
bem correlacionadas com a precipitação média anual. Pluviosidade anual ( mm )
A temperatura desempenha um papel duplo,
condicionando a ação da água: ao mesmo tempo em Fig.8.18 A intensidade do intemperismo aumenta com a
que acelera as reações quimicas, aumenta a evapora- pluviosidade, resultando num solo com maior proporção de
ção, diminuindo a quantidade de água disponível para minerais secundários (fração argila). A cada faixo de
a lixiviação dos produtos solú-:eis. A cada 1QOCde pluviosidade corresponde uma composição preponderante dos
aumento na temperatura, a velocidade das reações minerais secundários: esmectita para pluviosidade não muito
elevada (bissialitização), caulinita para pluviosidade média
químicas aumenta de duas a três vezes.
(monossialitização) e oxi-hidróxidos para pluviosidade maisalta
A Fig. 8.19 mostra o efeito combinado da precipita- (alitização e ferralitização).
ção, temperatura e vegetação sobre o desenvolvimento

Tundra Zona de Estepe Deserto e Savana


ac semí-deserto
."" o padzolização
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E 2700
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. Zona da Alitização
. Zona da Bissialitização Rocha inalterada

. Zona da Monossialitização Rocha pouco alterada

Fig. 8.19 O tipo e a intensidade do intemperismo podem ser relacionados com a temperatura, pluviosidade e vegetação. O
intemperismo químico é mais pronunciado nos trópicos, onde temperatura e pluviosidade são maiores. Ao contrário, nas regiões
polares e nos desertos, o intemperismo é mínimo.
do perfilde alteração. O intemperismo é mais pronun-
ciadonos trópicos, onde a alteração é intensa, afetando
todosos minerais alteráveis ao mesmo tempo, que de-
saparecem rapidamente, dando lugar a produtos
secundáriosneoformados. Em geral, os minerais pri-
mários estão ausentes, com exceção daqueles mais
resistentescomo, por exemplo, o quartzo e a muscovita.
Os perfis apresentam grande espessura de saprolito e
de solum.

Nos climasmais frios, a alteração afeta apenas os mi-


neraisprimários menos resistentes (por exemplo, nas
rochasmaiscomuns da crosta, os ferromagnesianos, dei-
xandoinalterados os aluminossilicatos). Esta alteração é
diferencialno tempo, resultando em níveis alterados que
contêmuma certa quantidade de minerais primários não
decompostos.

Umexemploclássico da ação do clima na veloci-


dadedo intemperismo químico é dado pelo caso de
umobeliscoegípciocom idade de mais de 3.000 anos
e quese encontrava ainda bem preservado em seu
localde origem; quando foi retirado e exposto em
regiãomaisúmida (Nova Iorque, EUA), sofreu tama-
nhaalteraçãoque, após pouco tempo, as inscrições
originais
jánão eram mais legíveis (Fig. 8.20).
Fig. 8.20 A agulha de Cleópatra, um obelisco egípcio de
Topografia granito, sofreu alteração mais intensa em 75 anos em Nova
lorque do que em 35 séculos no Egito, sob clima muito mais
A topografiaregula a velocidade do escoamento su- seco. Foto: M. C. M. de Toledo.
perficialdas águas pluviais (que também depende da
coberturavegetal)e, portanto, controla a quan-
cidadede água que se infiltra nos perfis, de
cujaeficiênciadepende a eliminação dos com- ~ +
ponentessolúveis. As reações químicas do
intemperismo ocorrem mais intensamente nos
compartimentosdo relevo onde é possível
boainfiltraçãoda água, percolação por tempo
!
suficientepara a consumação das reações e
drenagempara lixiviação dos produtos solú-
veis.Com a repetição desse processo, os
componentes solúveis são eliminados é o
perfilse aprofunda.

A Fig. 8.21 mostra diferentes situações


derelevoque influem diretamente na infil-
traçãodas águas e na drenagem interna dos
perfis.Em encostas muito íngremes, o per-
_A B c
Fig. 8.21 Influência da topografia na intensidade do intemperismo.
tilde alteraçãonão se aprofunda porque as Setor A: Boa infiltração e boa drenagem favorecem o intemperismo químico.
águasescoamrapidamente, não ficando em Setor B: Boa infiltração e má drenagem desfavorecem o intemperismo químico.
contatocom os materiais tempo suficiente Setor C: Má infiltração e má drenagemdesfavorecem o intemperismo químico
e favorecem a erosão.
II

para promover as reações químicas. Além disso, o ma-


I
terial desagregado em início de alteração é facilmente
I carregado pela erosão. Por outro lado, nas baixadas, as
águas ficam muito tempo em contato com as rochas e
tornam-se concentradas nos componentes solúveis,per-
dendo assim sua capacidade de continuar promovendo
as reações de ataque aos minerais. Nesses meios I-~ ~

confinantes, próximos ao nível fteático e sem escoamen- I


to suficiente, o per@ também não se aprofunda muito e
o processo atuante é normalmente a bissialitização. K+
O relevo ideal para o desenvolvimento de perfis de
alteração profundos e evoluídos, ou seja, portadores de
Fig. 8.22 A concentração hidrogeniônica nas imediações
minerais secundários de composição bem distante da- das raízes das plantas pode ser muito grande (baixopH),
quela dos minerais primários e pobres em componentes facilitando trocas iônicas com os grãos minerais.
potencialmente solúveis,é o de platôs de encostas suaves.
I Nesses compartimentos topográficos, há desnível consi-
derável em relação ao nível de base regional, permitindo dos silicatos que as águas da chuva. Superfícies ro-
I

boa in@tração das águas, drenagem interna dos perfis chosas colonizadas por líquens, que secretam ácido
eficiente e conseqüente eliminação dos produtos dissol- oxálico e ácidos fenólicos, são atacadas pelo
I

vidos. Com o escoamento superficialreduzido, os perfis intemperismo químico muito mais rapidamente que su-
I
formados são poupados de uma erosão intensa, poden- perfícies rochosas nuas, diretamente expostas aos
II
do desenvolver grandes espessuras,de dezenas ou mesmo outros agentes do intemperismo.
I de centenas de metros. Os minerais secundários aí for-
II mados tendem a uma composição mais simples: Tempo
oxi-hidróxidos de ferro e de alumínio e caulinita onde a
"~o
sílica não tiver sido tota~ente lixiviada; em outras O tempo necessário para intemperizar uma deter-
-,.

'" palavras, ocorre alitização (ou ferralitização) e monos si- minada rocha depende dos outros fatores que controlam
alitização. o intemperismo, principalmente da susceptibilidade dos
constituintes minerais e do clima. Em condições de
Biosfera intemperismo pouco agressivas, é necessário um tem-
po mais longo de exposição às intempéries para haver
A qualidade da água que promove o intemperismo o desenvolvimento de um per@ de alteração.
químico é bastante influenciada pela ação da biosfera.
Calcula-se a taxa atual de intemperismo através de
A matéria orgânica morta no solo decompõe-se, libe-
estudos de balanço de massa em bacias pequenas, me-
rando COz' cuja concentração nos poros do solo pode
dindo a saída de substâncias dissolvidas na drenagem. A
ser até 100 vezes maior que na atmosfera, o que dimi-
avaliação da velocidade do intemperismo passado pode
nui o pH das águas de in@tração. Em torno das raízes
ser realizada no caso de haver, por exemplo, lavas
das plantas, o pH é ainda menor, na faixa de 2 a 4, e é
capeando o per@ de alteração: a datação absoluta da
mantido enquanto o metabolismo da planta continua
rocha parenta! do per@ e das lavas coloca um intervalo
(Fig. 8.22). Isso é particularmente importante para o
máximo de tempo para o desenvolvimento do perfil.
comportamento do alumínio que, sendo muito pou-
co solúvel nos meios normais, torna-se bastante solúvel Avalia-se também o tempo a partir do qual as rochas
em pH abaixo de 4. foram sujeitas ao intemperismo pela datação das super-
fícies de aplainamento onde os perfis se desenvolvem.
A biosfera também participa mais diretamente no
processo intempérico através da formação de molé- Valores da ordem de 20 a 50 m por milhão de
culas orgânicas que são capazes de complexar cátions anos podem ser considerados representativos paraa
dos minerais, colocando-os em solução. Os ácidos velocidade de aprofundamento do perfil de altera-
orgânicos produzidos pelos microorganismos são ca- ção, sendo que o extremo superior deste intervalo
pazes de extrair até mil vezes mais ferro e aluminio refere-se aos climas mais agressivo"s.
Em climasmuito frios, como na Escandinávia, su- Os processos pedogenéticos ou de formação dos
perfíciesgraníticasdescobertas pelo gelo há cerca de solos são estudados por um ramo relativamente re-
10.000anos apresentam um manto de alteração de cente das Ciências da Terra, a Pedologia, cujas noções
poucosmilirnetrosde espessura. Por outro lado, sob básicas e conceitos fundamentais foram definidos em
climatropical,na Índia, cinzas vulcânicas datadas de 1877, pelo cientista russo Dokouchaev. A partir dessa
4.000anos desenvolveram uma camada de solo argi- data, o solo deixou de ser considerado simplesmente
losode 1,8m de espessura. Em regiões muito úmidas, um corpo inerte, que reflete unicamente a composi-
comono Havaí, o intemperismo de lavas basálticas ção da rocha que lhe deu origem (rocha parental), para
recentespermitiu a formação de solo suficiente para ser identificado como um material que evolui no tem-
o cultivoem apenas um ano. po, sob ação dos fatores ativos do ciclo supérgeno
(clima, vegetação, topografia e biosfera).
Os estudos da decomposição das rochas em mo-
numentose edifícios também é útil na compreensão Não é fácildefinir o solo, pelo fato de ser um materi-
dofatortempono fenômeno da alteração intempérica. al complexo, cujo conceito varia em função da sua
Avelocidadedo intemperismo dos monumentos pode utilização.Assim, para o agrônomo ou para o agricultor,
sermuitopequena, da ordem de alguns milímetros o solo é o meio necessário para o desenvolvimento das
porano.O exemplo já citado do obelisco (Fig. 8.20) plantas, enquanto para o engenheiro é o material que ser-
quefoi rapidamente alterado em Nova Iorque, sob ve para a base ou fundação de obras civis;para o geólogo,
climamaisúmido que o reinante no Egito, onde foi o solo é visto como o produto da alteração das rochas
naturalmentepreservado por cerca de 3S séculos, de- na superfície, enquanto para o arqueólogo é o material
monstrao efeito interativo entre clima e tempo no fundamental para as suas pesquisas, por servir de regis-
processode intemperismo. tro de civilizaçõespretéritas; já para o hidrólogo, o solo é
simplesmente o meio poroso que abriga reservatórios
8.6Produtos do Intemperismo de águas subterrâneas. Desta forma, cada uma das espe-
cialidades possui uma definição que atende a seus (

O manto de intemperismo geralmente evolui, objetivos. Entretanto, existe uma definição simples que 'f
S
emsuasporções mais superficiais, através dos pro- se adapta perfeitamente aos propósitos das Ciências
~
cessospedogenéticos, para a formação dos solos. da Terra e que considera o solo como o produto do ;:
~
Emcondições excepcionais, que exigem uma con- intemperismo, do remanejamento e da organização
junçãode vários fatores, entre os quais condições das camadas superiores da crosta terrestre, sob ação
relativamenteagressivas de intemperismo, formam- da atmosfera, da hidrosfera, da biosfera e das trocas
se no manto de alteração horizontes enriquecidos de energia envolvidas.
emmineraisde interesse econômico. São os depó-
sitos lateríticos. Para um saprolito tornar-se um solo, é preciso, em
primeiro lugar, que nesse meio a alimentação mineral dos
organismos vivos autótrofos e, em particular, dos vege-
8.6.1Solos
tais superiores, esteja assegurada. A vida necessita de água
Os produtos friáveis e móveis formados na su- e de elementos quimicos, que são encontrados no ar ou
perfícieda Terra como resultado da desagregação e dissolvidos na água e que têm como fonte primária as
decomposiçãodas rochas pela ação do intemperismo rochas e, secundariamente, os tecidos orgânicos pré-exis-
podemnão ser imediatamente erodidos e transporta- tentes. Nas rochas, esses elementos estão disponíveis
dos pelos' agentes da dinâmica externa (vento, gelo, para os organismos em concentrações muito baixas e,
nas soluções, em concentrações demasiadamente eleva-
águas)parabacias de sedimentação continentais ou ma-
rinhas(zonas deprimidas nos continentes, rios, lagos, das, para assegurar uma alimentação contínua e suficiente I
I
marese oceanos). Quando formados em regiões pla- para os organismos vivos. Neste particular, o solo de- ,
li
nas ou de relevo suave ou, ainda, quando estão sempenha um papel fundamental por se tratar de um
protegidospor cobertura vegetal, sofrem pouco a ação meio intermediário entre a fase sólida (rocha) e líquida
(água). No solo, essa função vital para os organismos 1
daerosão,sobretudo a erosão física ou mecânica. Nesta
situação,o saprolito evolui através de reorganizações vivos é desempenhada por uma fração organomineral de-
estruturais efetuadas por processos pedogenéticos, nominada plasma argilo-húmico, por ser constituída
II
dandoorigem aos solos. pela intima associação de argilominerais e húmus. A as- I
sociação deste plasma argilo-húmico com minerais resi- vermes se estende por todo o planeta, mas concentra-se
duais, herdados da rocha parenta! como, por exemplo, o preferencialmente nos ambientes úmidos das pastagens
quartzo, fornece a organização estrutural e textural do e florestas. Em termos geográficos, as formigas são mais
solo. disseminadas que qualquer outro animal. A atuação da
Em função das condições ambientais, que envol- fauna nos solos pode atingir profundidades de até al-
vem rocha parental, clima, organismos vivos (flora e guns metros, com a escavação, transporte e redeposição
fauna, incluindo o ser humano), relevo e tempo, os de consideráveis quantidades de material, misturando os
solos podem apresentar características e propriedades vários componentes do solo e promovendo a forma-
físicas, químicas e físico-químicas diferenciadas. Assim, ção de estruturas típicas de bioturbação. A importância
os solos podem ser argilosos ou arenosos (varia- da bioturbação pode ser avaliada pela velocidade de cons-
ções texturais), podem ser vermelhos, amarelos ou trução de cupinzeiros, que se dá na razão de alguns gramas
cinza esbranquiçados, podem ser ricos ou pobres a alguns quilograillas de material por mZ por ano.
em matéria orgânica, podem ser espessos (algumas Os horizontes mais superficiais do perftl, por con-
dezenas de metros) ou rasos (alguns pouco centí- terem quantidades maiores de matéria orgânica,
metros), podem apresentar-se homogêneos ou apresentam uma tonalidade mais escura, enquanto os
nitidamente diferenciados em horizontes.
horizontes inferiores, mais ricos em argilominerais e
oxi-hidróxidos de ferro e de alumínio, são mais claros
A formação do solo (regiões temperadas) ou mais avermelhado-amarela-
dos (em regiões tropicais).
Na porção mais superficial do perftl de alteração,
o saprolito, sob a ação dos fatores que controlam a
alteração intempérica, sofre profundas e importantes Classificação dos solos
modificações, caracterizadas por: (i) perda de maté- Os solos encontrados na superfície da Terra apre-
ria, provocada pela lixiviação tanto física (em partículas) sentam grande diversidade em função das diferentes
como química (em solução), (ii) adição de matéria, combinações de seus fatores de formação. Para a re-
'"'' proveniente de fontes externas, incluindo matéria or-
,~.
alização da cartografia dos solos, etapa essenciale
.,. gânica de origem animal ou vegetal, poeiras minerais necessária para sua correta utilização nos diferentesdo-
vindas da atmosfera e sais minerais trazidos por fluxo mínios de aplicação, é de fundamental importância sua
ascendente de soluções, (iii) translocação de maté- classificação.
ria, isto é, remobilização através dos fluxos de soluções
Classificar um solo, entretanto, não é tarefa fácil,
no interior do perftl (movimentos verticais e laterais)
ou pela ação da fauna e (iv) transformação de ma- pois eles formam um meio contínuo ao longo do re-
téria, em contato com os produtos da decomposição levo, sendo que a passagem lateral de um tipo a outro
post mortemda matéria vegetal e animal. se faz de forma gradual, o que dificulta em muitoa
colocação de um limite entre os vários tipos.
Esses mecanismos são controlados pelas solu-
ções que percolam o perfil vertical e lateralmente A classificação dos solos pode ser feita segundo dife-
ao longo da vertente e pelos organismos. A cober- rentes critérios. A ênfase na utilização de critérios

tura vegetal, dificultando a erosão, tem um papel genéticos, morfológicos ou morfogenéticos varia de país
mais protetor que destruidor das estruturas dos para país, o que dá origem a diferentes classificações
solos. pedológicas. São bastante conhecidas a classificação fran-
cesa, largamente utilizada para cartografar os solos tropicais
Numa escala global, os principais agentes de da África, a classificação adotada pela FAO (Food and
remobilização dos materiais do solo (bioturbação) são Agricultural Organization) na sistematização da carta
os animais. Os vermes são os mais importantes
mundial de solos, e a classificação portuguesa, tam-
bioturbadores, seguidos pelas formigas. Os cupins e bém largamente utilizada na África. Entretanto, sem
outros invertebrados têm papel menos importante. O dúvida, a classificação mais difundida é a "Soil
impacto desses vários grupos não é uniforme no globo Taxonomy", desenvolvida nos EUA, que considera 12
porque habitam ambientes específicos. Os cupins atuam ordens de solos, subdivididos em sub-ordens, grandes
principalmente na faixa tropical, enquanto a atuação dos grupos, grupos, famílias e séries.
O
. ALFISSOLO
Solo de florestas decíduas,
fértil, rico em alumínio e ferro

ARIDISSOLO
de cor marrom, relativamente

Solo de regiões secas, de cor pálida, arenoso, com


pouca matéria orgânica

D
..
ENTISSOLO
Solo jovem de regiões secas ou frias, com cores pálidas
e matéria orgânica

HISTOSSOLO
Turfa orgânica muito jovem, de cor escura e
freqüentemente ácida

..
INCEPTISSOLO
Solo jovem de regiões árticas e montanhosas, formado
por material fracamente íntemperizado

MOLlSSOLO
Solo escuro e macio, formado sob gramíneas, com alio
conteúdo em matéria orgânica

OXlSSOLO
Solode regiões tropicais úmidas, altamente íntemperi-
zado, ácido e pouco fértil (equivalente ao latossolo)
r.:fl ESPODOSSOLO
l8ó.J Solojovem, ácido, das florestas de coniferas, coberto
por uma camada pálida acínzentada

D ULTlSSOLO
Solo velho, pobre em nutrientes, de regiões
montanhosas e outras áreas altamente intemperizadas

li]. VERTlSSOLO
Solo de idade íntermediária com argilas expansivas

.
Iiii SOLOSDE ÁREAS MONTANHOSAS

REGIÕES
GELADAS

Fig.8.23 Mapa de solos do continente americano.

I~
A classificação é importante e essencial para a car- ção dos solos tropicais, que pode levá-los à destruição,é
tografia do solo, pois permite estabelecer correlações um dos mais importantes problemas ambientais que a
entre solos encontrados em diferentes regiões do glo- humanidade terá de enfrentar neste século.
bo. No mapa de solos do continente americano (Fig.
8.23), traçado com base na classificação norte-ameri- Solos brasileiros
cana, fica evidente que a distribuição dos solos é zonal,
em função da latitude e da altitude, estando relaciona- O Brasil situa-se quase que inteiramente no domí-
da, portanto, ao clima e à vegetação. nio tropical úmido (exceto a região Sul e o Nordeste
semi-árido). Esta situação, aliada à estabilidade estru-
tural de seu embasamento, que desde o final do
Solos Tropicais
Cretáceo não sofreu movimentações de grande por-
N as regiões tropicais, como é o caso do Brasil, te, leva à predominância de uma cobertura pedológica
cada tipo de solo possui propriedades físicas, quí- que reflete, de maneira àcentuada, o fator climático
micas e morfológicas específicas, mas seu conjunto como preponderante na sua formação. Nessa escala
apresenta um certo número de atributos comuns de análise, rocha original e condições topográficas lo-
como, por exemplo, composição mineralógica sim- cais têm importância secundária.
ples (quartzo, caulinita, oxi-hidróxidos de ferro e de Os solos brasileiros são bem estudados, existindo
alumínio), grande espessura e horizontes com cores
um serviço cartográfico da EMBRAPA (Empresa
dominantemente amarelas ou vermelhas (Fig. 8.24).
Brasileira de Pesquisa Agropecuária) que vem reali-
Em função dos processos genéticos e do longo zando, desde a década de 1960, levantamentos
tempo envolvido na sua formação, os solos tropicais cartográficos sistemáticos do território brasileiro. Es-
são geralmente empobrecidos quimicamente, como ses trabalhos permitiram o desenvolvimento de uma
reflexo de uma composição dominada por minerais classificação própria, publicada em 1999, subdiviclin-
II desprovidos dos elementos mais solúveis. São solos do os solos em classes, com seis diferentes níveis
de mais baixa fertilidade, quando comparados com hierárquicos. O primeiro nível comporta 14 classes,
""- os solos de clima temperado, ricos em argilominerais identificadas por características expostas na Tabela 8.3.
"",
"'i capazes de reter os elementos químicos necessários ao
0'0 No Brasil, os latossolos são, de longe, os solos
metabolismo vegetal.
mais importantes do ponto de vista da representa-
Os solos tropicais representam ecos sistemas frágeis, ção geográfica. Eles ocorrem em praticamente todas
extremamente vulneráveis às ações antrópicas, e que so- as regiões bioclimáticas do País, sobre diferentes
frem de forma acentuada os éfeitos de uma utilização que tipos de rochas. Como pode ser visto na Fig. 8.23,
se dá por técnicas de manejo não adequadas. A degrada- outros tipos de solos ocorrem em função de pecu-
liaridades das condições de formação
~-""" """. -~,,- >-- e evolução pedológica, como o cli-
ma semi-árido do Nordeste brasileiro,
que condiciona a formação de
vertissolos e entissolos, segundo a
"Soil Taxonomy", já mencionada.

Importância do solo e de s~a


preservação
O solo é, sem dúvida, o recurso
natural mais importante de um país, pois
é dele que derivam os produtos para
alimentar sua população. Nas regiões
intertropicais, essa importância é maior
ainda, por duas razões principais:
Fig. 8.24 Perfilde solo laterítico, com cores avermelhadas características. Foto:
Alain Ruellan.
Tabela 8.3 Classificação de solos utilizada pela EMBRAPA
Solo Características
Neossolo Solo pouco evoluído, com ausência de horizonte B. Predominam as
características herdadas do material original.
Vertissolo Soto com desenvolvimento restrito; apresenta e contração
pela presença de argiias 2:1 expansivas.
Cambissolo Solo pouco desenvolvido, com horizonte B incipiente.
Chernossolo Solo com desenvolvimento médio; atuação de de
bissialitização; podendo ou não apresentar ac de carbonato de
cálcio.
Luvissolo Solo com horizonte B de acumulação (B textural), formado por arg~a de
atividade alta (bissialitização); horizonte superior lixiviado. \,
Alissolo Solo com B te}$tural, com alto conteúdo alumínio extraível;
solo ácido.
Argissolo Solo bem evoluído, argiloso, apresentando mobilização de argila da
parte mais superficial.
Nitossolo Solo bem evoluído (argila caulinítica oxi-hidróxido~
estruturado (esfrutura em blocos), apresentando sup
(cerosidade) .
Latossolo Solo altamente evoluído, laterizado, rico em argilominerais 1:1 e oxi-
hidróxidos de ferro e alumínio.
Espodossolo Solo evidenciando a atuação do processo de podzolização; forte
eluviação de compostos aluminosos, com ou sem ferro; presença de
humus ácido.
Planossolo Solo com forte perda de argila na parte superficial e concentração
intensa de argila no horizonte subsuperficial.
Plintossolo Solo com plintitização (segregação e concentração
localizada .

Gleissolo Solo hidromórfico (saturado em água), rico em matéria orgânica,


apresentando intensa redução dos compostos de ferro.
Organossolo Solo essencialmente orgânico; material original o próprio solo.

. nessa zona climática, encontra-se a quase totali- ras, uso de agroquímicose exploração mineral são ativi-
II1
. paísesem desenvolvimento, cuja economia
dadedos dades que, se não forem bem conduzidas, através de
dependeda exploração de seus recursos naturais, es- técnicas desenvolvidas com criteriosa base científica,po- !ir,
11,'
pecialmenteagrícolas; dem levar à erosão e à contaminação dos solos. ,II

.os processos que levam à formação dos solos Por ser um recurso finito e não renovável, poden-
do levar milhares de anos para tornar-se terra produtiva,
I:
I.
~
podem,na zona intertropical, levar também à forma-
çãode importantes recursos minerais. o solo, uma vez destruído, na escala de tempo de al-
gumas gerações, desaparece para sempre. De acordo
Entretanto,os solos dessas regiões são, em geral, de-
com estimativas recentes, as várias formas de degrada-
senvolvidosem áreas tectonicamente estáveis e sobre
ção dos solos têm levado a perdas de 5 a 7 milhões de
superfíciesde aplainamento esculpidas a partir do final hectares de terras cultiváveis por ano. Para compensar
doMesozóico.São, portanto, solos velhos, frágeis, em- essas perdas, seria necessária a disponibilização dessa
pobrecidos quimicamente e que se encontram em mesma superfície a cada ano. para fins de cultivo, o
contínuaevolução. Existem em situação de equili'brio
que é cada vez mais difícil.
precário,de tal forma que os impactos provocados por
causasnaturais ou por atividades antrópicas podem A perda dos solos e o crescimento demográfico,
desestabilizaro sistema. Desmatamento, cultivo de ter- que gera grandes pressões para a produção de maior

f,.I
(, .
.1~
quantidade de alimentos, têm resultado no
) Em algumas situações, ocorre um processo mis-
desmatamento de áreas florestadas para expansão das ( to, pelo qual o mineral primário portador do
áreas agriculturáveis. Essa é uma solução ilusória, pois elemento de interesse permanece inalterado no que
os solos das florestas representam sistemas muito frá- diz respeito a seu arcabouço essencial, mas sofre
geis, que acabam sendo destruídos com o transformações que podem melhorar ou piorar sua
desmatamento. Na Amazônia, por exemplo, a taxa qualidade como mineral de minério. Um bom
anual de desmatamento para fins agrícolas está em exemplo dessa situação são os depósitos lateríticos
torno de 1,3 milhões de hectares, e não tem resolvido de nióbio, onde o pirocloro do manto laterítico
satisfatoriamente o problema. O uso adequado dos não é mais o Ca-pirocloro da rocha parenta!, mas
solos já existentes, prevenindo-se sua destruição, é a sim o Ba-pirocloro transformado pelo
melhor solução. Além disso, solos de outros ambien- intemperismo.
tes, como o cerrado, com a aplicação de formas
adequadas de irrigação, po<Jeriam contribuir de for- N o caso de alguns depósitos lateríticos, como
ma mais concreta e permanente para o aumento da os de ouro, o minério é formado pela atuação
produção de alimentos. conjunta dos dois processos: o mineral de miné-
rio é uma mistura de partículas de ouro primário
Para proteger os recursos do solo, está disponível mais ou menos preservadas da alteração e de par-
hoje um conjunto de técnicas de manejo que incluem a tículas de ouro secundário precipitado a partir de
identificação e mapeamento dos solos vulneráveis, a soluções.
implementação de soluções alternativas à forte depen-
dência de agroquímicos e, finalmente, o reflorestamento. Como conseqüência de seu modo de forma-
ção, por processos de acumulação relativa e/ou
absoluta de elementos no perfil de alteração, em
8.6.2 Depósitos lateriticos
ambiente de abundância de água e de oxigênio, as
1I
Os processos genéticos que atuam na formação jazidas lateríticas apresentam algumas característi-
de um depósito laterítico classificam-se em 2 grupos: cas comuns. Ocorrem sempre na superfície da terra
ou próximo dela, sob forma de bolsões ou man-
""

,i::~"
I . Preservação do mineral primário de interesse e tos, o que permite a lavra a céu aberto. No casode
.,. sua concentração por acumulação relativa devida à elementos que admitem mais de um número de
perda de matéria do perf1l durante a alteração. Nesse oxidação, estes se encontram com seus números de
caso, o mineral portador do elemento de interesse oxidação mais altos. De modo geral, os depósitos
econômico é relativamente resistente ao intemperismo lateríticos possuem teores relativamente baixos,o
e permanece no perf1l, enquanto os outros minerais que é compensado por tonelagens expressivas. Fi-
são a:lterados,e pelo menos parte da matéria é lixiviada nalmente, dada a dificuldade de preservação de
II do perf1l. É o caso, por exemplo, dos depósitos de formações superficiais por um período de tempo
,I fosfato, por concentração de apatita, de crômio, por muito extenso, os depósitos lateríticos estão limita-
concentração de cromita, estanho, por concentração dos aos tempos geológicos mais recentes,
de cassiterita, ferro, por concentração de hematita, etc. principalmente cenozóicos.
. Destruição do mineral primário e formação de Para que um depósito laterítico se forme, é ne-
, ,I minerais secundários mais ricos que o mineral primá- cessário que ocorra uma convergência de fatores
i rio no elemento de interesse. Isso ocorre com elementos
de ordem litológica, climática e morfotectônica, Por
de baixa solubilidade como o Al e o Ti, que formam fator litológico, entende-se a natureza da rocha so-
minerais secundários (gibbsita e anatásio, respectiva- bre a qual o intemperismo vai atuar. De modo geral,
mente) imediatamente após sua liberação dos minerais nas jazidas lateríticas, há um enriquecimento prévio
primários portadores. Mas também pode ocorrer com do elemento em questão na rocha parental que, nesse
elementos mais solúveis, que migram no perf1lde alte- contexto, é denominada protominério. Às vezes,
ração e vão precipitar como fases secundárias nos o próprio protominério pode ser explorado, e,
horizontes que apresentem condições propícias para nesse caso, o minério laterítico é apenas uma C9-
tal. É o caso, por exemplo, do minério de níquel bertura enriquecida do minério primário. Como
(garnierita e goethita niquelífera) e de manganês exemplo, podem-se mencionar algumas jazidas de
(psilomelano e pirolusita). apatita e de manganês. Em outros casos, o
protominério é rocha estéril, como as rochas Depósitos lateriticos de ferro
ultramáficasque dão origem às jazidas de níquel
laterítico,ou rochas de qualquer natureza, que dão Em todas as jazidas de ferro do Brasil, a primeira
origemàs bauxitas (minério de alumínio). concentração é de origem sedimentar química, como
no Quadrilátero Ferrífero (MG) e em Carajás (PA), e
O climatem um papel importante na gênese dos parcialmente detrítica, como em Urucum (MS). Os
depósitoslateríticos. De modo geral, são necessári- sedimentos depositaram-se em bacias pericratônicas
ascondiçõesde alta pluviosidade e temperatura para vulcano-sedimentares que sofreram posteriormente
quea alteração tenha natureza laterítica, caracteri- uma ou mais fases de metamorfismo. O protominério
zadapelo intenso ataque aos minerais primários e que resulta desses processos é o itabirito, rocha de
lixiviaçãodos íons mais solúveis. Por esse motivo, estrutura bandada característica, com alternância de
a maiorparte das jazidas lateríticas do mundo en- leitos ferruginosos (hematita predominante) e
contra-sena faixa tropical do globo, sobretudo nas silicosos (quartzo).
regiõesúmidas. Depósitos lateríticos situados fora
destafaixaforam originados em outras épocas geo- O processo intempérico levou à dissolução do
lógicasquando, em função da deriva continental, quartzo com a conseqüente concentração relativa da
estavamsujeitos a condições climáticas mais favo- hematita (mineral de minério) no perfil, por uma es-
ráveis. pessura que pode ultrapassar 300 m. No topo do
perf1l desenvolveu-se um horizonte endurecido de
Por fatores morfotectônicos favoráveis à gênese couraça ferruginosa formada principalmente por
dejazidaslateríticas, entendem-se as características goethita (canga), que impediu a erosão e permitiu o
do relevQque permitem uma boa drenagem, possi- aprofundamento do perfil. Em Carajás e no Qua-
bilitandoo escoamento das soluções de ataque das drilátero Ferrífero, esse horizonte de canga
rochaspara que o intemperismo seja intenso. Além corresponde à Superfície Sul-Americana, indicando
disso,é necessário que o perf1l seja preservado da um período de tempo muito longo (desde o Eoceno)
erosãopara poder aprofundar-se. São, dessa forma, para a formação dos depósitos.
asáreasbem drenadas e tectonicamente estáveis as
maisfavoráveis para a formação de depósitos es- No caso dos depósitos de ferro lateríticos, os con-
pessose evoluídos. troles preponderantes na gênese do minério são de
ordem litológica e morfotectônica.

Depósitos lateríticos do Brasil


Depósitos lateriticos de manganês
No Brasil,situado quase todo na faixa tropical do
O Brasil possui numerosos depósitos de
globo,ascondiçõespara o intemperismo laterítico vêm
manganês, para os quais a laterização contribuiu
existindopelo menos desde o Terciário, o que resul-
tounumaárea de 75% do território nacional coberto decisivamente. Os principais situam-se no Mato
Grosso do Sul (Urucum) e na Amazônia (Serra do
por formaçõeslateríticas. Essas formações estão au-
Navio, Azul, Buritirama). Nesses últimos, a primei-
sentesapenasna região Nordeste, de clima semi-árido,
ra acumulação de manganês é de origem sedimentar
e naregiãoSul, de clima sub-tropical. As formações
ou vulcano-sedimentar, sob a forma de uma rocha
lateríticas
comportam inúmeras jazidas, que contribu-
rica em carbonatos (rodocrosita) e silicatos de
emcomcercade 30% da produção mineral brasileira,
manganês (Mn-granadas, Mn-olivinas e Mn-
excluindo o carvão e o petróleo.
piroxênios), onde este elemento aparece com
Os principais bens minerais concentrados por número de oxidação 2+, acompanhados de outros
laterizaçãono Brasil são Fe, Mn, Al, Ni, Nb e fosfatos minerais tais como micas, quartzo etc. Quando a
(Fig.8.25).Os depósitos formaram-se a partir de proporção de minerais de manganês já é elevada
protominériosde idades que vão do Arqueano ao no protominério, este pode ser explorado econo-
Terciário,masa laterização é sempre relativamente re- micamente, como é o caso do depósito de
cente,estandorelacionadaprincipalmente às superfícies Conselheiro Lafaiete (MG). Porém, em geral, é a
deaplainamentoSul-Americanas (Eoceno) e Velhas laterização que, aumentando o teor de manganês
(plioceno). no minério, torna econômica sua exploração.
li; A - Amazonas

Bacias B - Parnaíba

c - Paraná

CD - Guianas
Escudos 0 - Brasil - Central
@ - Atlântico

OAI 8Fe DMn .Ni O P e Nb


1 - Trombetas 1 - Carajás 1 - Amapá 1 - Carajás 1 - Catalão
2 - Jari 2 - Urucum 2 - Carajás 2 - Santa Fé 2 - Araxá
3 - Paragominas 3 - Quadrilátero 3 - Urucum 3 - Niquelândia 3 - Tapira
4 - Poços de Caldas Ferrífero 4 - Quadrilátero 4 - BarroAlto
Ferrífero
"

Fig. 8.25 Localização dos mais importantes depósitos lateríticos do Brasil de AI, Mn, Fe, Ni, P e Nb.
A alteração intempérica provoca a dissolução dos Não há, portanto, controle litológico na geração das
mineraisque acompanham os minerais de minério e jazidas de bauxita, sendo os fatores mais influentes as
promovea oxidação dos minerais de manganês, com a condições morfotectônicas, que devem propiciar uma
formaçãode óxidos de Mn3+ (hausmanita e manganita, alteração em ambiente de drenagem livre para que a
por exemplo) e Mn4+ (pirolusita, criptomelano e lixiviação dos outros elementos possa ocorrer, e cli-
litioforita,por exemplo), mais ricos em manganês que máticas, caracterizadas por precipitação intensa e
os mineraisoriginais. Aqui também o controle princi- temperaturas altas.
pal na gênese do minério é litológico. Porém, ao
contráriodo caso do ferro, parece não existir uma as-
Depósitos lateríticos de nióbio e fosfatos
sociaçãoclara entre os depósitos e as superfícies de
aplainamento. o Brasil possui grandes reservas de nióbio e
fosfatos, cuja origem está relacionada à alteração de
Depósitos lateríticos de níquel maciços carbonatíticos. Essas rochas têm originalmen-
te teores elevados de Nb e P, e são facilmente alteráveis,
Os maciços ultrabásicos do Brasil, que são as ro- pois seus constitutintes principais são carbonatos. A
chasoriginais dos depósitos de níquel laterítico, são gênese das jazidas é, portanto, estrit~mente controlada
numerosos,de tipos variados e dispersos por todas as pelo fator litológico.
zonasclimáticas. Os depósitos mais importantes estão O Nb é enriquecido a partir da concentração resi-
situadosno Centro-Oeste (Niquelândia e Barro Alto), dual do pirocloro, sua principal fase portadora. Apesar
regiãode clima tropical de estações contrastadas e, em desse mineral poder sofrer uma certa alteração duran-
menorgrau, na Amazônia (Vermelho), sob clima tropi- te o intemperismo, seu conteúdo em nióbio fica mantido.
calúmido. As maiores jazidas de nióbio do Brasil estão situadas
em Araxá e Catalão. A primeira, Araxá, constitui a mai-
O Ni está presente na rocha original ultrabásica, or reserva de nióbio do mundo. I'
IJ
incorporadoao retículo cristalino das olivinas, serpen- ~
tinase, em menor grau, dos piroxênios. Esses minerais Da mesma forma, o fósforo é enriquecido pela con-
sãofacilmente alterados, dando origem a novos mine-
centração residual da apatita. Em alguns maciços, como
]acupiranga (SP), o teor de apatita no carbonatito já é
raiscomo a serpentina, o talco, a clorita e a goethita,
suficientemente alto para que a rocha parental possa I
enriquecidosem Ni. O controle litológico é muito im-
ser explorada como minério. Porém, na maior parte
portantenesse caso, pois as rochas ultrabásicas são as
das jazidas de fosfato, como, por exemplo, Catalão e
únicasrochas que possuem teores de níquel suficien- Araxá, é o manto de alteração, onde a apatita está con-
te para gerar depósitos por intemperismo. Nesse caso, centrada, que constitui o minério.
entretanto,o fator climático também conta muito, sendo
as regiõesde clima mais contrastado as mais favoráveis
par:!.agênese de depósitos de níquellaterítico.

r
Depósitos lateríticos de alumínio i'I;:
'I
O Brasilpossui enormes reservas de bauxita (mi- lil
nériode alumínio),concentradas principalmente na jl~
Amazônia(paragominas,Trombetas, etc.), onde deri-
vamdesedimentosareno-argilosos. Porém, espalhados
portodoo País,há pequenos depósitos de bauxita re-
lacionadosprincipalmentea rochas alcalinas (poços de
Caldas,por exemplo).Diferentemente dos outros mi-
nérioslateríticos,qualquer rocha pode gerar bauxita,
poiso AI é um elemento abundante nas rochas co-
munse muito pouco solúvel na superfície, de modo
queseconcentrafacilmente com a lixiviação intensa
dosoutroscomponentes. O principal mineral de mi-
nérioéumhidróxido,a gibbsita.
. Leituras recomendadas

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I
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ma maneira ilustrativa de introduzir um estu-
sobre modelagem da superfície é evocar
alguns cenários do ecogeoturismo brasileiro: a planí-
cie do rio Amazonas, os lençóis maranhenses, a serra
do Mar, Vila Velha, as lagunas fluminenses, as dunas
costeiras do Nordeste, os pantanais matogrossenses e
as praias do Rio de Janeiro. Não é difícil associar a
cada uma destas paisagens naturais uma imagem dig-
na de cartão postal. Em cada imagem pode-se ver
uma forma ou um conjunto de formas de relevo, que
podem ser consideradas nas mais diferentes escalas: a
duna da Careca, em Natal (RN), apreciada para pas-
seios de buggy, é uma forma de relevo individual, com
algumas centenas de metros de extensão, dentro de
um campo de dunas maior que se estende por quilô-
metros. Duna e campo de dunas inserem-se numa
unidade de relevo ainda mais ampla, uma planície lito-
rânea delimitada ao seu interior por escarpas e serras.
Duna e campo de dunas diferem das serras, escarpas
e planícies costeiras não apenas quanto à escala espaci-
al (que pressupõe escala de tempo de formação), mas
também quanto à constituição. As dunas são um tipo
específico de forma de relevo construída inteiramente
<: pela deposição de grãos por um agente natural (no
"""I
caso, o vento), o que será visto no Capo 12. Para este
tipo de relevo, costuma-se utilizar a denominação for-
.....
ma de leito sedimentar. As formas de leito ocorrem Fig. 9.2 Fotografia aérea da região da lagunalbiraqüero,
município de Garopaba (Se). Calhas de dunas similares àsda
em escalas que variam de alguns milímetros (denomi-
figura anterior aparecem agora como traços escuros sinuosas
nadas microondulações ou marcas onduladas) a
sobre uma forma de leito de hierarquia ainda maior (decor
quilômetros (megaondulações, incluindo dunas branca na fotografia), com geometria parabólica. A extensão
eólicas), e envolvem processos formadores cuja dura- da megaforma eólica é de cerca de 7 km. Norte geográfica
ção varia respectivamente de segundos a centenas de voltado para cima. Aerofoto Cruzeiro do Sul, vôo 1977-1979.
milhares de anos (Figs. 9.1 e 9.2).

As serras, escarpas e planícies são formas modela-


das na superfície terrestre por uma combinação de
processos erosivos e deposicionais, tendo como
substrato não apenas grãos, mas rochas de diferentes
naturezas. Sua formação pode envolver processos ge-
ológicos com duração de até várias dezenas de milhões
de anos. Mas serras e escarpas têm uma diferença fun-
damental em relação à planície, que reside na escassez
de sedimentos em deposição. Sob esse aspecto, pode-
se dizer que dunas e planície litorânea têm em comum
o fato de serem formas superficiais dominadas por
processos sedimentares deposicionais, o que chama-
remos simplificadamente de formas deposicionais.
Fig. 9.1 Duas hierarquias de formas de leito em areias depo- Assim, dos exemplos de paisagem mencionados no
sitadas pelo vento: microondulaçães e duna. Proximidadesda início deste capítulo, dois deles não correspondem a
praia do Sol, município de Laguna (Se). Foto: P.C. F.Giannini. formas deposicionais, mas a formas erosivas: VilaVe-
lha, no Paraná, é exemplo de forma erosiva esculpida
Leque aluvial na região andina. Foto: W.Teixeira.
sobrerochas sedimentares; a serra do Mar é exemplo aos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, na cidade de
deformaesculpida sobre rochas ígneas e metamórficas. São Paulo e dos morros super-habitados do Rio de
Janeiro e de Santos.
É importante lembrar que a ação modeladora dos
processossedimentares, erosivos ou deposicionais, não Neste capítulo, estudaremos as relações entre os
serestringeàs paisagens que fazem jus ao adjetivo na- processos sedimentares e a modelagem da superfície
turais,isto é, às paisagens menos modificadas pelo ser terrestre. Procuraremos demonstrar a premissa fun-
humano.Aliás, a idéia ilusória de que a urbanização damental de nosso estudo: a de que a interação
seriacapaz de estancar estes processos conduziu, em processo-forma se dá nas mais diferentes escalas, da
muitascidades, a uma ocupação urbana sem critérios, planície sedimentar à marca ondulada. O recurso de
queignoroue desrespeitou os sítios naturais de erosão reduzir e ampliar nossa escala de observação é válido
e deposição.Assim, à lista de formas de relevo aqui para exercitarmos nossa capacidade de entender a na-
citadas como exemplos de ação de processos tureza dessas interações (que, afinal, é sempre a mesma,
sedimentares,é preciso acrescentar regiões onde pro- independente da escala), desde que se compatibilizem
cessosnaturaise ocupação humana interagem de modo entre si as escalas relativas à forma e ao processo. Cha-
agressivo,em um autêntico exemplo de equiHbrio ins- maremos a este recurso de zoom, em alusão ao
tá\'el:são os casos das avenidas e bairros marginais mecanismo das câmeras fotográficas e filmadoras.

Tabela 9.1 Classificação dos sedimentos segundo a granulometria


Iniciaremos nossa abordagem com grande detalhe, ção, umidade e tamanho do grão, influenciam a forma
observando um grão de areia de praia, e tentando con- e as dimensões da duna (Cap. 12). Havendo mútua
tar ou filmar a sua história. Com isso, tentaremos interação entre formas e processos sedimentares, o
responder às perguntas mais urgentes deste início de estabelecimento da escala de observação da forma
capítulo. O que é, afinal, um sedimento e o que é um implica uma escala compatível de processo. Assim não
processo sedimentar? E qual a diferença entre os pro- podemos explicar todo o campo de dunas do Nor-
cessos sedimentares que ocorrem hoje, por exemplo, deste brasileiro apenas com base nos mecanismos aqui
na serra do Mar, e aqueles que ocorrem nos pantanais evocados de queda e avalancha de grãos, pois estes
e nas planícies litorâneas? A opção por um grão de processos dizem respeito a uma escala muito báj;icae
areia de praia como nosso personagem central deve- instantânea de análise do processo de transporte
se apenas a uma questão de universalidade do exemplo, sedimentar eólico. Será preciso utilizar conhecimentos
isto é, aos fatos de o oceano ser o destino final da sobre processos e variáveis mais duradouros e regio-
maioria dos sedimentos, o que facilita a reconstituição nais, responsáveis pela formação do estoque de areia
de um ciclo sedimentar completo, e de a praia sei:-a na costa: a energia das ondas, a morfodinâmica das
parte mais acessível dos oceanos. Do ponto de vista praias, as correntes de deriva litorânea e a declividade
dos conceitos que se quer introduzir, não há diferença da plataforma continental interna (porção da plata-
porém entre este grão de areia e o seixo de uma planí- forma caracterizada pela interação das ondas com o
cie aluvial ou a partícula de argila presente no mangue fundo; Cap.13).
ou numa laguna. Antes de passarmos à história do
grão, portanto, é conveniente conhecer o significado
9.2 Biografia de um Grão de Areia
dos termos areia, seixo e argila.

9.1 Como Formas e Processos se 9.2.1 Intemperismo da rocha-mãe:


Relacionam? gestação e nascimento do grão
Como se pode definir o termo sedimento? A raiz
Cada forma de relevo deposicional corresponde a
do termo, sedis) vem do latim, que significa assento,
uma série de processos modeladores. No nosso exem-
deposição. Assim, sedimento, numa tradução
plo da duna, estes processos incluem o transporte e
etimológica literal, seria aquilo que se deposita, que se
deposição da areia seja através de nuvens de grãos em
depositou ou que é passível de se depositar. Por aqui-
suspensão, seja através de avalanchas na frente da duna,
lo, deve-se entender, no caso, material sólido,
seja pela migração de marcas onduladas em sua super-
Deposição pressupõe movimento, transporte. Por ex-
fície (Fig. 9.1). Incluem, a mais longo prazo (e em escala
tensão, a formação do sedimento implica algum tipo
espacial proporcionalmente maior) o fornecimento de
de transporte físico (mecânico) elou químico, No
areia pelas praias adjacentes e, em última instância, a
transporte mecânico, o sedimento, enquanto matéria
própria dinâmica das ondas e marés responsável pelo
excesso de areia existente na costa, disponível para a sólida, já começa a existir durante o transporte. No
ação do vento. transporte químico, a matéria sólida só se forma na
deposição a partir de íons.
Tipos de formas sedimentares e tipos de processos
são interdependentes: se, por um lado, a forma da duna Em geologia sedimentar, o termo grão, por defini-
eólica determina a ocorrência de avalanchas (fluxos ção, denota transporte mecânico. Se admitirmos queo
rápidos de massas de grãos de areia) ou de nuvens de grão de areia de praia, que escolhemos como exemplo,
grãos (movimento de grãos soltos em suspensão) a é constituído de quartzo (por se tratar do mineral mais
partir da ação do vento sobre sua porção mais alta e comum nos sedimentos), e considerando que o quart-
exposta (a crista da duna), por outro lado, a repetida zo não pode precipitar-se quimicamente nem na bacia
sucessão de fenômenos de avalancha e queda livre de oceânica nem na planície litorânea, concluímos que
grãos promove o avanço gradual da duna para sota- ele sofreu transporte mecânico desde a área elevada
vento. A intensidade e freqüência com que cada um adjacente à costa (a serra do Mar, num exemplo típico
destes dois mecanismos de transporte sedimentar ocor- do Sul-Sudeste brasileiro). Sua "biografia" inicia-se
rem, em função de condições como energia do vento, portanto nesta serra onde passou muitos milharesou
quantidade de areia disponível, presença de vegeta- milhões de anos no que poderia ser chamado de seu
eslÓlio
feta!ou estágio
pré-grão.Se adotarmos, para exercí- do sedimento e que depende da sua densidade. O flui-
cio de exemplificação, que esta serra era sustentada do que envolve o grão exerce sobre seu centro de
por rochas ígneas ou metamórficas, este estágio massa uma força de reação, conhecida como empuxo
corresponderiaao período em que o cristal de quartzo de Arquimedes. A magnitude do empuxo é diretamen-
do qualele se derivou foi sendo gradualmente libera- te proporcional à densidade do fluido que envolve o
dodos cristaisvizinhos na rocha. Esta liberação dá-se grão ou que este desloca. A força resultante entre peso
atravésde uma gama de processos de desintegração e empuxo é a tensão interna atuante no grão, a qual
fisicae decomposição química da rocha exposta em depende de sua densidade efetiva (diferença de densi-
superfície,eportanto sujeita ao intemperismo (Cap. 8). dade entre grão e fluido). Quando a densidade efetiva
A rocha onde se opera este período de gestação do é negativa (fluido mais denso que o grão), o empuxo
grão(queno Cap.8 foi denominada rocha inalterada) é sobrepuja a força-peso e ocorre flutuação.
tambémconhecida como rocha-mãe ou rocha-matriz.
As demais forças passíveis de atuar nos sedimen-
Estesnomes são muito apropriados a esta biografia do
tos agem mais sobre sua área superficial do que sobre
grão,porque fazem alusão direta à idéia de gestação. sua massa ou volume. Em razão disso, são denomina-
É importante ressaltar que os processos das forças de superfície. Destacam-se entre elas a
intempéricosnão envolvem transporte mecânico sig- fricção (resultante do atrito entre grãos), a coesão (re-
nificativo,de modo que o resultado não é ainda um sultante da atração eletrostática ou eletroquímica
sedimento,mas um manto de alteração in situ, no qual superficial entre grãos), a força ascendente produzida
seincluiuma camada superior de solo. A rigor, não por turbulência e as forças de ação e reação na interface
podemosfalar em grãos de solo, mas apenas em partí- grão / fluido. Entre estas últimas, incluem-se pelo me-
culas.Quanto à etimologia, o termo partículas significa nos dois pares de forças importantes. O primeiro par é
partespequenas, o que se pode traduzir geologica- formado pelo esforço tangencial (força que desloca
mentecomo as partes menores de um todo, neste caso massa no sentido de sua ação, como a que separa as
a rocha-mãeou o próprio solo. A partir do momento cartas de um baralho sobre uma mesa) exercida pelo
emque esta partícula começa a sofrer transporte me- -,
~ .
fluido em movimento sobre um grão, e sua força oposta
cànico em superfície, ela passa a constituir uma (a resistência oferecida pelo grão). O segundo par é
~
partículasedimentar, sinônimo de grão. formado pelo esforço tangencial imposto pelo grão
em movimento sobre um fluido estacionário e a resis-
9.2.2 O que move o grão?
,
tência do fluido a este cisalhamento (Fig. 9.3).

Sedimentoimplica deposição. Deposição pressu- As forças de superfície dependem da razão área 11

põeaçãoda gravidade. Em função disto, a força da superficial/volume (forma) nos grãos, e da viscosi-
gravidade
é a variávelfísica básica em todos os fenô- dade do fluido. A viscosidade corresponde à tensão
menosdesedimentação.Trata-se de uma força de corpo, necessária para produzir determinada deformação no
isto~,umaforça que age sobre o volume ou a massa fluido e mede a resistência do fluido ao cisalhamento. II

@ @ @ @

---
jE
T

.çf'
Fig.9.3 Principaisforças atuantes sobre grãos livres em movimento: a - força-peso (P)e sua reação, o empuxo (E),b - força de
coesão(e)entrepartículas,c - força ascendente (A),introduzidodevido à turbulência gerada no fluido pela presença de um ob;táculo
ed -esforçotangencial (T)exercido pelo fluido sobre o grão (e vice-versa).
Como a intensificação da viscosidade e das forças de cas (mineralógicas) ou físicas (texturais), em respostaà
superfície dificulta o movimento autônomo do grão, ação dos agentes de intemperismo e transporte. A mag-
oferecendo, por exemplo, resistência a sua decantação, nitude destas mudanças é uma manifestação desse
estas forças são conhecidas também como forças de processo de maturação, mas depende também do grau
resistência. Por outro lado, as forças de superfície ou de sensibilidade do mineral que o constitui. Assim,
resistência, quando intensas (isto é, em fluidos muito por exemplo, o quartzo é muito menos propenso que
viscosos), podem constituir uma forma de transporte o feldspato a tais modificações. Dentre as mudanças
de grãos contra a ação de seu peso individual. Por químicas, pode-se citar desde alterações tênues nas
exemplo, um bloco (dimensão maior que 6,4 cm) im- superfícies de fratura e clivagem até a completa trans-
passível à passagem da água ou do vento, pode ser formação ou mesmo a dissolução do mineral (Cap.8),
facilmente transportado por uma corrente de lama de Estas mudanças não são raras em feldspatos e em mi-
mesma velocidade (porém mais viscosa). nerais ferromagnesianos como piroxênios e anfibólios,
mas podem ser consideradas desprezíveis em grãosde
As considerações acima sugerem que, fisicamente,
quartzo. As mudanças físicas incluem a redução de
há diferenças substanciais entre o transporte sedimentar
tamanho e o aumento de grau de arredondamento
pelas águas de um rio e pela massa viscosa que des- do grão, devido à abrasão (desgaste) e cominuição
morona numa encosta. A diferença reside no modo
(quebra).
como os dois tipos de forças, de corpo e de superfí-
cie, atuam nos sedimentos. Reconhecem-se assim dois A comparação entre o transporte sedimentar e a
tipos de transporte sedimentar mecânico. Quando for- maturação de grãos de origem física encontra expres-
são no conceito de maturidade sedimentar. A maturidade
ças de corpo e de superfície atuam sobre cada grão
individualmente é porque os grãos apresentam sufici- representa a experiência de um sedimento, no sentido
ente liberdade de movimento em um fluido pouco de quão intensa e prolongada foi a história de trans-
viscoso: é o transporte de grãos livres. Quando a porte a que ele se submeteu. Entre os parâmetros
força-peso age mais sobre a massa de grãos do que químicos de avaliação da maturidade, destaca-se a re-
sobre grãos individuais, é porque os grãos estão muito lação entre minerais estáveis e instáveis, como a razão
próximos uns dos outros, em alta concentração em quartzo / feldspato. Entre os físicos, destacam-se a eli-
relação ao fluido: é o transporte gravitacional ou minação de matriz pelítica, a seleção granulométrica
fluxo denso. Neste último tipo de transporte mecânico, (grau de homogeneidade dos grãos quanto ao tama-
a grande proximidade entre grãos vizinhos favorece a nho) e o arredondamento.
forte interação entre eles. Como conseqüência, acentu-
am-se as forças de superfície dentro da massa, como 9.2.4 Principais cenários da existência do
coesão, fricção ou tensão cisalhante (esta ligada à capaci- grão: conceitos de área-fonte, bacia
dade de transportar massa). Outro efeito possível é a sedimentar e nível de base
mistura entre fluido e sedimentos finos criar uma massa
pseudofluidal viscosa e densa, capaz de exercer forte Um resumo das informações acumuladas até aqui
empuXo e resistência viscosa sobre os grãos maiores e permite abandonar o zoom de detalhe e retomar à visão
anular o efeito da força-peso. mais abrangente e sintética possível da história do grão.
Nessa visão, podem-se reconhecer três grandes estágios,
fases maiores de sua biografia, correspondentes a três
9.2.3 Transporte sedimentar: a maturação
cenários geográficos principais: a serra, sua escarpa fron-
do grão
tal e o oceano. Podem-se também destacar quatro
Após o transporte iniciat,por torrentes pluviais e/ou processos geológicos maiores: o intemperismo, a erosão,
movimentos gravitacionais nas encostas da serra, o grão o transporte e a deposição (Fig. 9.4).
é incorporado à carga dos rios e corredeiras da escarpa, Com que intensidade atuam estes processos maio-
através das quais atingirá os rios de mais baixo gradiente res em cada um daqueles cenários? A atuação do
(namaioriadasvezes,com morfologiameandrante;Cap.lO) intemperismo é diretamente proporcional ao tempo de
que caracterizam a planície litorânea. residência em superfície do grão e da matéria-prima
O transporte do grão da serra ao mar corresponde geológica em geral. Assim, o intemperismo é menos
a um período de intenso amadurecimento ou maturação atuante nas partes mais íngremes da escarpa, onde os
em sua biografia. O grão pode sofrer mudanças quími- processos de remobilização dos produtos de alteração
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Fig.9.4 Cenários da existência de um grão sedimentar, com quantificação relativa das taxas de erosão (E), intemperismo (I) e 1

deposição(D),tomando como exemplo o caso atual do leste do Paraná. Fonte: João José Bigarella,A Serra do Mar e a Porção í
Orientaldo Estado do Paranó, 1978.
a
~

sàoaceleradospela intensa ação da gravidade. E é mais porte. Relevos muito acidentados e abruptos favore- I
atuanteno topo da serra e na planície litorânea, onde o cem curtas distâncias de transporte, a base de fluxos e
baixodeclivefavorece a longa manutenção, em super- torrentes episódicos e de alta viscosidade, bem como
6cie,de solos, depósitos sedimentares e sedimentos o soterramento rápido, que reduz o contato dos sedi-
1
emtrânsito(Fig.9.4). mentos com os agentes intempéricos. Relevos suaves
propiciam transporte contínuo e prolongado, atuante
o transporte domina onde cria um saldo negativo
sobre grãos livres, com longo tempo de ação dos agen-
dematéria.Trata-se ai da remobilização sistemática de
tes de intemperismo (Fig. 9.4).
~s e partículas,que se pode chamar de erosão. Tem,
portanto,uma distribuição geográfica recíproca à do A deposição ocorre preferencialmente em algumas
intemperismo.Na serra como na planície, o transporte porções da planície litorânea e em grande parte do
dogrãopode ter caráter intermitente e, assim, alternar oceano, embora possam existir pequenos depósitos tem-
fasesde alta energia e transporte rápido com períodos porários também nas drenagens que descem a escarpa
prolongadosde arrasto lento, ou mesmo retenção em (Fig.9.4).
meioa outros grãos da margem temporariamente ex- Têm-se, assim, quanto à relação intemperismo / ero-
posta.A duração, intensidade e importância relativa são / deposição, três tipos de domínios geográficos: no
. destasfases ou regimes hidrodinâmicos de transporte primeiro tipo, o intemperismo predomina francamente
sedimentardependem do gradiente de relevo e das sobre a erosão e a deposição. Corresponde, em nosso
condiçõesclimáticas. A influência do clima, conforme exemplo, ao interior da serra. Num lapso de tempo
vistono Capítulo 8, reside em especial na intensidade menor, inclui também a planície litorânea. Deve-se lem-
de ação dos agentes intempéricos. Climas quentes e brar, porém, que por volta de 120.000 anos atrás, a
úmidospromovem desintegração e decomposição mais maior parte das atuais planícies litorâneas brasileiras
rápidaque climas frios ou áridos. A principal influên- encontrava-se submersa, e, portanto, com predomínio
cia do relevo está no tempo de ação dos agentes de processos deposicionais marinhos (Cap.13). No se-
imempéricose de desgaste mecânico durante o trans- gundo tipo de domínio, a erosão prevalece francamente
sobre o intemperismo e a deposição. Este dominio en- tempo atual, o nível de base é uma linha melhor defi-
contra-se hoje na escarpa da serra. É, por excelência, nida. Nessa escala de análise, a planície litorânea
o dominio do transporte sedimentar. O conjunto for- torna-se área-fonte. E os sedimentos de praia atual
mado por estes dois primeiros dominios é responsável possuiriam dois domínios de áreas-fontes: um primá-
pelo fornecimento de sedimentos para o mar. Por esta rio, situado na serra e na escarpa, e outro secundário,
razão, costuma-se denominá-Io área-fonte e as rochas localizado na planície litorânea.
nele existentes, rochas-fontes (Fig. 9.4). Nesse senti-
do, rocha-fonte pode ser considerado um termo
9.3 Sedimentos que Não São Grãos: o
sinônimo para rocha-mãe. No terceiro tipo de domi-
nio, a deposição predomina sobre os demais processos. Transporte Químico (iônico)
É o que ocorre hoje na bacia oceânica submersa e na
No início, abordamos a história de um grão
praia, e que, há 120.000 anos, estendia-se também à
sedimentar de quartzo, desde a área-fonte até a bacia.
atual planície litorânea. Este domínio recebe o nome
No entanto, em sua trajetória de grão sedimentar, o
de bacia sedimentar (Fig. 9.4). É importante ressal-
quartzo pode ser acompanhado não apenas por grãos
tar que o domínio da deposição sobre os processos
de vários outros minerais e rochas, como também por
intempéricos e erosivos pode ocorrer também em rios,
íons transportados em solução. Este soluto tem uma
lagos, lagunas e campos de dunas existentes no con-
tinente. Desse modo, bacia sedimentar não implica origem e história bastante parecida com a dos sedi-
mentos, com a diferença de que seu transporte é
obrigatoriamente bacia marinha.
químico, portanto não envolve carreamento de mate-
O nível horizontal imaginário abaixo do qual a de- rial sólido. O destino final do soluto é igualmente a
posição predomina sobre erosão e intemperismo e bacia sedimentar, onde parte dos íons pode agrupar-
acima do qual erosão e intemperismo predominam so- se, adquirir a forma de composto sólido e
bre deposição recebe o nome de nível de base de transformar-se assim em sedimento. A transforma-
erosão, ou simplesmente, nível de base (Fig. 9.4). Esta ção do soluto em sedimento, dentro da bacia
denominação expressa o fato de que a erosão não pode sedimentar, pode ocorrer por pelo menos três mo-
atuar significativamente além (abaixo) deste nível. E dos diferentes: pela precipitação química, por exemplo
também que a erosão continuada da área-fonte tende- em um evaporito (sais formados num mar restrito ou
ria a arrasá-Ia, no máximo, até este nível. Nos casos de no solo devido à taxa de evaporação maior que a de
bacias marinhas e naquelas com conexão ao mar (o precipitação; Capo 13); pela ação direta de organismos
que inclui planícies litorâneas, plataforma submersa, vivos, por exemplo em uma carapaça de molusco ou
planícies abissais, golfos, lagunas, deltas e estuários), o em um recife de corais; ou pela precipitação química
nível de base confunde-se com o nível do mar. Mas,
induzida pelo metabolismo de seres vivos, por exem-
em bacias sedimentares continentais, ele pode encon- plo em um carbonato precipitado devido à redução
trar-se sobrelevado em diferentes altitudes em relação de concentração de gás carbônico na água, absorvido
ao nível do mar. Deve-se ressaltar que o nível de base na fotos síntese de algas verde-azuis (cianobactérias).
varia no tempo, em função de mudanças do nível rela-
tivo do mar (nível observável do mar, resultante do O limite entre íon e partícula sólida e, por extensão,
efeito combinado da variação do volume de água no entre transporte químico e físico, não é absoluto. Entre
estado líquido e da tectônica; Cap.13). Há 120.000 anos, um e outro, existe uma categoria intermediária deparn-
por exemplo, o nível relativo do mar no Brasil estaria cula ou complexo iônico, grossa e pesada demais para
8 a 10 m acima do atual, ao passo que há 17.000 anos, ter o comportamento de íon, e fina e leve demais para
estaria a cerca de 110m abaixo. Assim, o nível de base respeitar as fórmulas físicas de tensão interna (força-
para a bacia oceânica do Atlântico adjacente ao territó- peso e empuxo). Em lugar de decantar segundo as leis
rio brasileiro, nos últimos 120.000 anos, teria variado da física clássica, este tipo de partícula realiza no fluido
dentro de uma faixa entre as cotas -110 e +10 m. Nes- um movimento aparentemente aleatório, denominado
se intervalo de tempo, as porções atualmente emersas movimento browniano, que seria melhor descrito pelas
e submersas da plataforma continental ora atuaram teorias da Física do Caos. Estas partículas que exibem
como área-fonte ora como bacia. Este fato nada mais é comportamentos intermediários ou discrepantes de só-
que uma evidência de seu caráter de borda de bacia lidos e íons recebem o nome de colóides, e constituem
sedimentar. No entanto, se considerarmos apenas o uma espécie de estado da matéria importante em
sedimentologia,com características físicas muito pró- A resposta para esta primeira pergunta permite clas-
prias.Suas dimensões mínimas e máximas variam em sificar os materiais sedimentares em alóctones e
função da composição química e das condições autóctones. O prefixo alo origina-se do grego állos,
ambientais.Muitos dos compostos formados por pro- que significa outro ou diferente. O prefixo auto, tam-
cessosquímicose biológicos em ambientes intempéricos bém vindo do grego (autós) quer dizer por si próprio
e sedimentaresprecipitam-se originalmente sob a for- ou de si mesmo. Assim alóctone é o sedimento que
made colóides, podendo passar mais tarde a formas vem de um lugar diferente daquele onde ele se depo-
maiscristalinas.É o casode algunsóxidos metálicose sita. Sofreu, portanto, transporte mecânico e possui
dasílica(opala)presentes como cimentos em arenitos e origem última de caráter físico. E autóctone é o sedi-
concreçÕesou do carbonato precipitado pela ação do mento que se formou exatamente onde se encontra
metabolismode algas. A matéria orgânica nas águas de (in situ). Não sofreu nenhum transporte (a não ser o
riose lagos apresenta-se com freqüência sob a forma iônico, quando porém ainda não existia a matéria sóli-
coloidal e pode ser adsorvida por argilominerais da sedimentar). Desse modo, possui origem
(filossilicatos
hidratados, como ilita, esmectita e caulinita), puramente química e/ou biológica.
estestambémcomumente coloidais.
Em seguida, serão apresentadas as demais pergun-
tas, a serem feitas em cada uma das duas grandes
9.4 Dando Nomes aos Sedimentos categorias previamente reconhecidas.

A esta altura já reunimos informações suficientes


paraperceber o quão diversificados são os tipos de 9.4.1 Transporte e deposição por processos
sedimentos.O conceito inclui tudo o que se deposita,
físicos: materiais alóctones
:
comtransporte prévio químico ou mecânico, fora e/
O conceito de alóctone abrange tanto o grão de quartzo
ou dentro da bacia, por vias físicas, químicas, biológi- li
provindo de um granito na área-fonte quanto o fragmen-
casou bioquímicas. Torna-se conveniente assim uma
to de lava lançado e consolidado no ar, durante uma f..
classificação
dos tipos de sedimentos, que permita, com
explosão vulcânica. Assim, a primeira pergunta a fazer ;i
um ou dois termos técnicos, informar sobre todas
para classificar os sedimentos alóctones objetiva distin- ~:
essasquestÕesrelativas a seus processos formadores.
guir entre estes dois tipos de origem: o sedimento foi
~.I
A classificação geral dos materiais de origem transportado por força dos agentes da dinâmica externa .
/'1
sedimentar(isto é, sedimentos inconsolidados e ro- da Terra, como correntes, geleiras e ventos, ou teve par-
chas sedimentares) visa responder a uma série de ticipação essencial de fenômenos da dinâmica interna 1I
questÕessobre sua "biografia" (Fig. 9.5). De certo manifestados sob a forma de explosão vulcânica? Os
modo, são as perguntas que faremos ao sedimento materiais alóctones classificam-se desse modo em
parasaber o seu nome. Embora as perguntas sejam epiclásticos (do grego epi, posição superior, superfície) e
genbticas,tendo como ponto de partida a caracteriza- piroclásticos (do grego py