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Gênero, Diversidade e Trabalho

Resenha 01_Mulher e Trabalho

Gabriel Soares da Costa

Belo Horizonte, Outubro de 2021


A luta feminista, ou o movimento feminista, começa a partir do momento em que as
mulheres entendem sua condição de subjulgo e submissão e ao não concordar com esta,
escolhem se permitir viver além do que o aparato social tem lhes mostrado possível, ou
único. Antes mesmo de termos estudos e grandes nomes femininos à frente de lutas, sejam
elas nas ruas reivindicando direitos, seja em movimentos nas diversas áreas da cultura social,
o despertar desse transe em que as mulheres são colocadas pela imposição de gênero social é
o despertar da luta feminina pela igualdade.

O documentário “Feministas: O Que Elas Estavam Pensando?” (Johanna


Demetrakas, 2018) aborda o feminismo em diversas facetas a partir dos registros fotográficos
dos anos 70 feitos por Cynthia MacAdams, explorando relatos de diversas mulheres, artistas
plásticas, pintoras, escritoras, poetas, atrizes, cantoras, ativistas, ect, que fazem parte do
acervo de “Emergence” (MacAdams, C. 1977) e compartilham um olhar pessoal do contraste
sobre a época em que foram fotografadas, o presente em que falam e o caminho que separa
esses dois momentos no contexto do crescimento, do desenvolvimento e da explosão da luta
feminista, mais precisamente da segunda onda do feminismo.

A abordagem da segunda onda feminista nas décadas de 60 e 70 através do olhar e das


experiências individuais, e ao mesmo tempo coletivas, de cada uma das mulheres retratadas
na obra audiovisual é um apelo a necessidade de reiterar que embora tenham sido
conquistados visibilidade e ganhos, ainda há muito pelo que lutar. As diferentes visões e
pontos de partida do despertar da chama feminsta, apresentadas pelo documentário, cunham
uma linha histórica que nos mostra como um movimento tão singular e necessário se
desenvolveu através da união de mulheres diferentes, com histórias diferentes e
posicionamentos diferentes que acabam por convergir na luta por igualdade e espaço em uma
sociedade massivamente machista e patriarcal.

Podemos dizer que a base do movimento feminista é a reivindicação de igualdade e


direitos básicos perante seus semelhantes Homens. É fato que a relação do trabalho e da
figura feminina é pautada na desigualdade a qual as mulheres são subjugadas, e ainda sobre a
disparidade hierárquica existente entre a figura masculina e a feminina dentro das
organizações, sendo esta uma das maiores violências de gênero sofridas pelas mulheres na
sociedade, sendo essa violência fator notável dessa relação mulher-trabalho e ponto forte
presente nas reivindicações da luta feminista. E ainda sendo o subjugo e submissão impostos
às mulheres não somente organizacionais, no que se refere a empresas, mas também nas
relações sociais, sejam inter-relacionais, no dia a dia, sejam domésticas.

No episódio #10 Divisão Sexual do trabalho do podcast Maria vai com as outras,
Rosiska Darcy de Oliveira fala sobre o início de seu tornar-se feminista, o início do
movimento feminista no Brasil, seu exílio durante a ditadura militar e a presença da mulher
no mercado de trabalho. Ponto relevante da conversa é quando Rosiska relata sua experiência
com a questão da mulher no mercado de trabalho quando, em 95, ela foi presidente do
conselho nacional dos direitos da mulher e percebeu a importância e a força da mulher na
sociedade e no mercado. Ela aponta como o fato de a mulher querer trabalhar representava
uma grande transgressão e como as questões que implicam ser mulher, como por exemplo
engravidar, representavam empecilhos para a sua atuação no mercado, nas palavras de
Rosiska no trabalho as mulheres diziam, figurativamente, “Você não vai nem perceber que
sou mulher…” e em casa “...você não vai nem perceber que saí”.

Mulheres Negras e Empregabilidade é um episódio do podcast Siriricas Co, que


aborda, como o nome diz, o local da mulher negra no mercado de trabalho. Amanda Abreu, a
convidada do episódio, fala sobre o Indique, que é uma iniciativa de inserção de mulheres
negras em empresas visando a diversidade e integração.
A convidada relata a experiência de ser uma mulher negra em ambientes onde
predomina a branquitude e o sentimento de solidão que é sentida na ocupação desse espaço, e
como é bizarro termos a predominância da população negra e ter tão poucas pessoas negras
empregadas, e ainda junto a isso, a necessidade de quebrar a cultura dos corpos e buscar a
visibilidade e diversidade, buscando quebrar a hegemonia branca heterossexual empregando
mulheres negras, pessoas gordas, pessoas LGBTQIA+, e demais corpos marginalizados.

Outro ponto relevante na discussão apresentada diz da importância do desprendimento


de ideia de competência credenciadas, uma vez que o mais bem avaliado ou diploma da
melhor universidade nem sempre será o melhor ao exercer a prática da profissão pretendida,
essa é uma "vantagem" retida a um público privilegiado e avaliado não apenas em razão de
critérios técnicos e objetivos mas, majoritariamente, em razão de seus fenótipos e classe
socioeconômica pertencente, mesmo motivo pelo qual os demais corpos marginalizados são
segregados.
Saffioti cunha em seus textos como as questões de gênero se relacionam diretamente
com o feminismo de formas ligadas à legitimação da violência contra a mulher e a
subjetividade dos indivíduos que se relacionam nas questões de gênero, ou seja, o homem e a
mulher. A autora perpassa por uma visão socio-filo a medida que entra em suas colocações
sobre feminismo e os temas que escolhe abordar.
Em “Contribuições feministas para o estudo da violência de gênero” a autora evidencia o
lugar do Homem e como as relações entre estes e as mulheres é forjada dentro de uma relação
de poder onde já se prediz um vitimismo da parte da mulher e como esse vitimismo seria
justificado pelas questões ligadas à dominação, uma vez que a mulher é colocada em uma
condição de “ser passivo, coisa e cúmplice do agressor” (Saffioti. 2001, p.127). Sendo esse
um dos muitos pontos permeados pela autora, busca-se entender o papel dos estudos
feministas na contribuição do entendimento da(s) violência(s) de gênero voltadas para a
mulher.

Uma vez que o feminismo entende o gênero como categoria histórica e analítica, sendo
substantiva, e concomitantemente, adjetiva, um consenso está no fato do gênero ser uma
construção social, comum, porém não de forma exclusiva, baseada no sexo, por isso há, no
Feminiso, diversas abordagens em relação ao gênero, por vezes baseadas em essencialismo
biológico e por outras recaindo sobre o essencialismo social. A diferenciação dessas várias
vertentes do feminismo é um fator crítico para sua compreensão real, visto que a sua
homogeneização ocasiona uma visão simplista e infiel dos fatos. Não se compreende,
portanto, um modelo único feminista, mas uma perspectiva, a patrtir da qual se tem
originários vários modelos.

Por outro lado, em “Violência de gênero: o lugar da práxis na construção da subjetividade",


Saffioti puxa um pouco, ou mais a fundo, a questão da violência de gênero para além da
relação de poder entre homens e mulheres, colocando três instâncias como focais, sendo essas
as de gênero, etnia/raça e de classe social, e essas três instâncias entrelaçam-se em um nó, e
este trata-se de um entrelace que as potencializa (Saffioti, 1997. p.61). Disso a autora tece de
forma muito objetiva a forma como o homem percebe sua posição de poder sobre a mulher,
dentro da organização social de gênero proposta, e critica a posição de vítima a qual a mulher
é colocada em relação ao seu agressor, porém evidencia que esta termina por de fato ser
vítima pelo que obtém menos poder para reverter a situação. Entende-se que, por fim, a
mulher acaba por se colocar como sujeito da violência, tanto quando se insere na situação,
quanto no seu discurso acerca da situação.

Saffioti mostra que o discurso é de caráter normatizador, mas nem seria produzido sem os
componentes humanos em sua totalidade (corpo, psique e razão) que desempenham papéis
dentro da coletividade, qualificando assim a práxis. Vale ressaltar ainda, as contradições entre
feminilidade e autoestima, pois a cobrança de feminilidade (submissão, subordinação ao
homem, domesticidade) está em confronto com suas necessidades básicas (sobrevivência e
desenvolvimento pessoal dentro de uma realidade que a permita).

Fraser em “O Feminismo, O Capitalismo e a Astúcia da História”, trata questões de gênero de


forma bem semelhante a Saffioti, porém entendo que enquanto esta fala de um lugar mais
sócio-filosófico, essa, nesta obra especificamente, trata o assunto de forma mais política.
Fraser fala do movimento feminista em dois momentos, o primeiro sendo o movimento que
entrelaçou três dimensões da injustiça de gênero (econômica, social e política) em uma crítica
ao capitalismo androcêntrico do Estado, e o segundo sendo um movimento que parecia
fadado ao “fim” (fracasso), porém que casa de certa forma inesperada com o novo
capitalismo neoliberal, e de certa forma, mas não em sua totalidade, consegue um
sobrefolego.

O texto de Fraser conversa de forma interessante com o documentário explorado


anteriormente uma vez que a autora tece a , e uma crítica à, crítica da segunda onda feminista
ao capitalismo androcêntrico do Estado. E assim a autora mostra em cima de quatro
características definidoras da cultura política do capitalismo organizado pelo Estado, sendo
elas Economicismo, Androcentrismo, Estatismo e o Westfalianismo, as críticas das feministas
sobre essas características desse capitalismo androcêntrico dirigido pelo Estado, e como o
“Novo Espírito do Capitalismo” (Capitalismo Neoliberal) se fez valer dessas críticas a fim de
obter a legitimidade, uma vez que o neoliberalismo sendo uma etapa do capitalismo, é capaz
de fazer críticas às primeiras etapas do sistema, com o objetivo de obter a legitimidade
necessária para se perpetuar. Desgraça dada, é ai que o Neoliberalismo se faz valer das
críticas da segunda onda feminista, dando às feministas espaço crítico contra o cpaitalismo, a
fim de se legitimar, umas vez que ambos, neoliberalismo e a segunda onda do feminismo são
movimentos de crítica ao capitalismo organizados pelo estado, e o movimento feminista era
relativamente rico no contexto neoliberal no que se referem à críticas ao sistema capitalista
androcêntrico.
O texto de Marlise Matos é uma costura interessante dos assuntos tratados, a autora começa
buscando tematizar a adoção do “conceito” de gênero no âmbito do desenvolvimento dos
estudos de mulheres e feministas, onde Matos parte da exclusão da mulher na participação da
produção de conhecimento e como essa prática disseminada desde os séculos anteriores aos
meados dos séculos XVIII e XIX contribuíram para que entre 30 e 70, no século XX,
surgissem críticas que geraram estudos feministas e de mulher, e ainda a partir destes por
volta dos anos 70 os “estudos de gênero”. Marlise aponta a existência de um binarismo muito
presente no que permeia questões de gênero, sempre pautado na diferenciação do feminino e
masculino, hetero e homossexual, homem e mulher, e em Pscitelli a autora fala sobre
desestabilizar esse binarismo que acaba por facultar lugares fixo e naturais de gênero. E
através do desenvolvimento do “conceito de gênero” e sua incorporação às ciências humanas
e sociais, atreladas ao desenvolvimento das “teorias de gênero” enviesadas pelo feminismo,
sugere-se partir de um pressuposto comum, a subordinação da mulher ao homem, a fim de se
entender como as relações de opressão e dominação se dão socialmente e propor uma
desconstrução de homem-masculinidade e mulher-feminilidade e desse binarismo estrito
existente entre eles.

A autora fala que a epistemologia feminista busca restaurar a essência das discussões
epistemo-lógicas contemporâneas, de forma que a ciência instituída no modelo ocidental seja
vista como um dos muitos discursos possíveis sobre a realidade, que serão estabelecidos e
construídos sobre processos sociais. É assim que uma forma de entendimento prevalece ou
persiste dependendo não somente da validade empírica da questão, mas também de um
conjunto de processos sociais que incluem comunicação, negociação, conflito, retórica e
marcação de gênero.

A conclusão que podemos costurar do debate abarcado por todo o conteúdo é o de que o
movimento feminista muito cunhou em luta e reivindicações a favor das mulheres, porém
como lembra Demetrakas pelo olhar das mulheres fotografadas por MacAdams, ainda há um
longo caminho a percorrer. Sabemos que a mulher hoje conquistou direitos extremamente
básicos, como o voto, a possibilidade de independência financeira, o acesso à educação,
básica e superior, e o mais importante o direito de escolha sobre sua vida, porém ainda muito
se cerceia a liberdade das mulheres no mercado de trabalho. Pouco ainda vemos relatos da
ocupação das mulheres em posições de poder organizacional, ainda há a manutenção da
posição da mulher nos postos mais baixos. Para não dizer da violência de gênero socialmente
praticada contra as mulheres, uma vez que ao falar de cerceamento libertário ainda se ouve
relatos do medo das mulheres em transitar sozinhas pelas cidades, independente da hora do
dia, pelo medo de ser violada por seus iguais Homens (Sic); e dizendo de violência social de
gênero não poderíamos deixar de citar o ataque mais recente sofrido pela figura feminina do
governo que é o maior violador das mulheres, com sua política “misógino-higienista” de
corte na distribuição de absorventes para mulheres carentes.

Muito se tem de ganhos da luta feminista em prol das mulheres na sociedade moderna, e os
ganhos dessa luta são de fato perceptíveis, porém ainda é preciso abrir os olhos para a
realidade das mulheres no país e no mundo, os textos, os podcasts e o documentário
evidenciam que para além do ganho até aqui ainda precisamos lutar por mais, a mulher
embora ascendida de certa forma a uma condição nada especial, ainda é invisível no mercado
como evidenciado por Rosiska Darcy, isso se conseguir chegar no mercado como pontuado
pelo Sirircas Co no caso de mulheres negras que contam com iniciativas como o ‘Indique
uma Preta’, faz-se necessário elevar o pensamento para uma possível terceira onda do
feminsmo.

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