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CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO

Processo: Processo Administrativo Disciplinar nº: 1.00997/2020-21

Relatora: Conselheira Fernanda Marinela de Sousa Santos


Requerente: Corregedoria Nacional do Ministério Público
Requerido: Diogo Castor de Mattos

E M E N TA

Documento assinado via Token digitalmente por FERNANDA MARINELA DE SOUSA SANTOS, em 20/10/2021 20:04:37.
PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR. MEMBRO
DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. CONTRATAÇÃO DE
OUTDOOR PARA PROMOÇÃO PESSOAL.
RECONHECIMENTO DA CONTRATAÇÃO NO CURSO DE
SINDICÂNCIA PERANTE A CORREGEDORIA GERAL DO
MINSITÉRIO PÚBLICO FEDERAL. OFENSA AOS
PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DA IMPESSOALIDADE E
MORALIDADE. FATOS QUE TIPIFICAM IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA (ART. 11, CAPUT, DA LEI 8.429/1992).
INOCORRÊNCIA DE PRESCRIÇÃO. VIOLAÇÃO AOS
DEVERES DE MANTER CONDUTA ILIBADA E DE ZELAR
PELA DIGNIDADE DE SUAS FUNÇÕES. AUTORIA E
MATERIALIDADE CONFIGURADAS. CABIMENTO DA
PENALIDADE DE DEMISSÃO (ART. 239, IV, C/C ART. 240, V,
“B”). JURISPRUDÊNCIA DO SUPERIOR TRIBUNAL DE
JUSTIÇA. PROCEDÊNCIA.
1. Cuida-se de Processo Administrativo Disciplinar instaurado
contra o Procurador da República Diogo Castor de Mattos, pela
Corregedoria Nacional do Ministério Público, com o objetivo de
apurar a sua responsabilidade pela suposta prática de infrações
disciplinares em razão da publicação de peça publicitária (outdoor),

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contendo imagem de 10 (dez) procuradores integrantes da Força


Tarefa da Lava Jato de Curitiba/PR, acompanhada do texto: “Bem-
vindo a República de Curitiba – terra da Operação Lava Jato – a
investigação que mudou o país. Aqui a lei se cumpre. 17 de março,
cinco anos de Operação Lava Jato – O Brasil Agradece”.
2. O Pedido de Providências nº 1.00230/2019-50 que tramitou
neste CNMP sinalizou possível fraude nos documentos
apresentados pela empresa OUTDOORMÍDIA, em virtude de

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informações obtidas pela parte requerente no feito no sentido de
que o contratante apontado jamais encomendou qualquer peça
publicitária.
3. Posteriormente, a Corregedoria-Geral da origem informou a
instauração de sindicância (Sindicância CMPF nº
1.00.002.000067/201997) mediante a Portaria CMPF Nº 26, de 20
de abril de 2020, a partir do Ofício nº
2730/2019/PROCURADORIA DA REPÚBLICA – PARANÁ,
datado de 05.04.2019, da lavra do Procurador da República Deltan
Dallagnol, cujo assunto é “comunicação de fato de possível
interesse da Corregedoria”, nos seguintes termos: “Cumprimentando-
o, dirijo-me a V. Exa. para informar, em nome dos colegas que integram a
força-tarefa da operação Lava Jato, que o procurador Diogo Castor de
Mattos, afastado nesta data por razão psiquiátrica, comunicou aos
procuradores que custeou com recursos próprios, por iniciativa de um
amigo do seu relacionamento particular, a publicação de outdoor com
imagem e mensagem de reconhecimento dos trabalhos da Lava Jato, nesta
cidade, em março deste ano. (...)” (sem grifo no original)
4. A Corregedoria-Geral do Ministério Público Federal entendeu
pela configuração, em tese, de violação dos deveres do membro do
Ministério Público da União, preconizados no art. 236, incisos IX e
X, da Lei Complementar nº 75/93, conduta que ensejaria a

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penalidade de censura, que estaria fulminada pela prescrição. O


procedimento foi arquivado.
5. A Corregedoria Nacional divergiu da conclusão adotada pela
Corregedoria-Geral do MPF, conforme permissivo regimental e deu
continuidade à investigação dos fatos no âmbito deste CNMP.
6. A Corregedoria Nacional entendeu que o fato imputado ao
membro ministerial poderia configurar, em tese, improbidade
administrativa, o que implicaria a penalidade de demissão (art. 239,

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IV, c/c art. 240, V, “b” da Lei Complementar nº 75/93), cuja
prescrição é de 4 (quatro) anos (art. 244, III, da Lei Complementar
nº 75/93), bem como configurar figuras típicas penais, razão pela
qual o prazo prescricional da respectiva ação disciplinar tem por
parâmetro o estabelecido no artigo 109 do Código Penal, conforme
determina o artigo 142, § 2º, da Lei nº 8.112/90.
7. Preliminarmente alegou-se: a) ofensa ao princípio do ne bis in
idem; b) violação à ampla defesa pelo indeferimento da realização
da prova pericial psiquiátrica; c) ilicitude da prova impulsionadora
do feito. Afastamento de todas as preliminares.
8. No mérito, após colhidas todas as provas necessárias e feita
análise minuciosa dos autos, ficou comprovada a materialidade e a
autoria dos fatos, ou seja, constatou-se a existência da peça
publicitária com a imagem do grupo da Lava Jato e mensagem de
reconhecimento dos trabalhos, tendo o membro requerido assumido
que custeou com recursos próprios a publicação de outdoor.
9. Os fatos apontados além de configurarem faltas disciplinares,
também se enquadram como improbidade administrativa, na
modalidade violação aos princípios constitucionais. Quanto à
ocorrência dos crimes tipificados nos artigos 299 (falsidade
ideológica) e 307 (falsa identidade) da legislação penal pátria, não
há elementos suficientes nos autos que comprovem tais condutas.
10. Assim, comprovada a violação aos deveres funcionais
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previstos nos incisos IX e X do artigo 236 da Lei Complementar


75/93 e no art. 11 da Lei de Improbidade Administrativa.
11. Falta funcional punível inicialmente com a pena de
demissão, nos termos do art. 239, IV, c/c art. 240, V, “b”, da Lei
Complementar nº 75/937, já que há elementos suficientes do
cometimento de infração disciplinar. Além disso, a falta funcional
em questão tem correspondência com atos de improbidade
administrativa.

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12. In casu, os fatos praticados pelo processado acabam por
infringir a própria instituição Ministério Público, propiciando uma
segregação entre os membros que atuaram em determinada
operação e os demais. Dessa forma, macula-se a dignidade da
Instituição e, em maior extensão, da Justiça, porquanto o Ministério
Público é instituição permanente, una e indivisível essencial à
função jurisdicional, segundo a Carta Magna. Além disso, as
condutas enquadradas como improbidade administrativa por sua
própria natureza, revestem-se de elevada gravidade, ante a violação
aos princípios da Administração Pública.
13. Saliento a Súmula 650 do Superior Tribunal de Justiça
(STJ), in verbis: “A autoridade administrativa não dispõe de
discricionariedade para aplicar ao servidor pena diversa de
demissão quando caracterizadas as hipóteses previstas no artigo
132 da Lei 8.112/1990”.
14. Em que pese o art. 240, §5º, da Lei Complementar n. 75-
93 traga a possibilidade de conversão da pena de demissão em
suspensão, nas hipóteses previstas nas alíneas a e h do inciso V,
quando de pequena gravidade o fato ou irrelevantes os danos
causados, entendo bastante grave a conduta do membro
ministerial, não sendo cabível no presente caso a aplicação
desta conversão, conforme permissivo legal.
15. Diante dos elementos de prova colhidos dos autos, julgo
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procedente o presente Processo Administrativo Disciplinar, e o faço


aplicando a penalidade DEMISSÃO ao membro ministerial
processado (art. 240, inciso V, b, da LC nº 75/1993), Diogo Castor
de Mattos, em razão da violação dos deveres funcionais previstos
no art. 236, incisos IX e X, da Lei Complementar nº 75/1993 e
capitulação à lei de improbidade.
16. Procedência.

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AC Ó R D ÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os membros do Conselho


Nacional do Ministério Público, por maioria, em julgar PROCEDENTE o presente processo
administrativo disciplinar, nos termos do voto da Relatora.

Brasília, 18 de outubro de 2021.

FERNANDA MARINELA DE SOUSA SANTOS


Conselheira Relatora

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