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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

CENTRO DE HUMANIDADES
CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS

RAFAEL SILVEIRA DE AGUIAR

MOVIMENTOS SOCIAIS: TENDÊNCIAS, DESAFIOS E PERSPECTIVAS PARA O


SÉCULO XXI.

FORTALEZA

2011
2

Considerações iniciais

Este trabalho pretende abordar e mostrar as diversas linguagens e as diversas


possibilidades de como a relação entre o Estado e os Movimentos Sociais, tendo em vista que
possuem lógicas completamente distintas, onde teremos o auxílio de autores de grande
relevância para o pensamento desta relação tão conflituoso, mas ao mesmo tempo harmoniosa
em algumas situações.

Para Maria da Glória Gohn (2003), quando se refere ao conceito de movimentos


sociais a autora destila com muito louvor essa categoria de grande relevância para este
pensamento. Antes de entrar no arcabouço conceitual da autora é preciso deixar bem claro
quando me refiro aos movimentos populares e os movimentos sociais, onde o primeiro refere-
se às organizações da dita sociedade civil organizada oriunda da grande massa de indivíduos
que a compõe, na maioria dos casos de classes menos favorecidas. Já o segundo, advém de
uma visão global de qualquer organização de indivíduos independentemente de classe ou
grupo social (econômico-social ou de status) específico, fazendo assim um apanhado do que
seria uma organização. Ratifico essa dicotomia para evitar possíveis distúrbios interpretativos
no que diz respeitos à organização de qualquer classe ou grupo social envolvido que venham a
prejudicar tal análise na relação Estado/Movimentos Sociais.1

Assim, os movimentos sociais podem ser definidos como: ações coletivas de costume
sociopolítico, construídas por atores sociais2 pertencentes a diferentes classes e camadas
sociais; politizam suas demandas; desenvolvem processo social e político-cultural que cria
uma identidade coletiva; gera inovações na esfera pública e privada; bases de assessores,
lideranças; estreitas relações com entidades sociopolíticas, mídia, universidades,
parlamentares, campos da administração governamental/Estatal.

A abordagem que a autora faz é de suma importância atentar e entender como os


movimentos sociais se faz presentes no cotidiano como: ações coletivas de forma política e/ou
social com as mais diversas demandas possíveis e oriundas dos mais diversos níveis sociais.
Usando de diversas possibilidades de exposição das suas demandas usando da pressão direta

1
Para Maria da Glógia Gohn no livro “Movimentos sociais no início do século XXI: Antigos e novos atores
sociais”, os movimentos ou a reivindicação dos direito das estratificações sociais, sempre perpassaram a história
da humanidade como também participaram como uma espécie de experiências socioculturais dos atores sociais.
2
Quando refiro a „atores sociais‟ falo de sociologia do conhecimento (Fenomenologia), onde o seu principal
teórico é Alfred Schut (1979). Teórico australiano, nasceu em 1899. A ameaça nazi fê-lo emigrar para França em
1938 e para os Estados Unidos da América em 1939, onde permaneceu até a sua morte em 1959. Ele afirma que
quando se observa os indivíduos participantes de uma sociedade, se constroem e desconstroem as percepções de
mundo que vive. O seu local de vivência e de experiências são reveladores para a construção de um “stock de
conhecimentos”.
3

as suas marchas, passeatas, panfletagens, greves e negociações, como também de ações


indiretas. Existe também a utilização de meios para a divulgação de suas idéias usando as
redes sociais com o auxílio da internet como forma de expandir suas lutas e aumentando suas
fronteiras de impacto.

Como bem entendi a autora (GOHN, 2003) vê suas diversas vertentes a partir do olhar
dos sujeitos que participam, no que se referem as suas opiniões e ideais que lhes pertencem,
usando a multiplicidade como palavra mais adequada para selecionar suas ideias.
Recentemente, os movimentos estão passando por modificação, pois anteriormente, alguns
grupos se sentiam excluídos de algumas lutas. Agora, com o aumento do leque de lutas sociais
fez com que mais sujeitos se inserissem nesses grupos que estavam até então „excluídos‟,
dando mais liga as lutas; defesa das culturas locais e o uso do sentido dos locais públicos,
esfera política; exigência por ética na política e; autonomia de algumas instituições com a
possibilidade da autodeterminação sem dar as costas ao mundo que lhe foi proposto a atuar;
reivindicando também a escolha usando a meritocracia como único quesito para suas
atribuições no trabalho da espera pública.

Como forma de institucionalizar os movimentos sociais e criar mecanismos de


formalização tornado suas ações válidas e oficiais a criação, por exemplo, das ONGs,
associações de moradores, sindicatos, partidos políticos entre outras formas de organização
legítima e formalizada.

A divisão que Gohn faz uma lista das lutas em relação ao contexto deste milênio dos
movimentos como mais demandas reais do Brasil: a cidade e seus problemas; participação em
instituições estatais; a contribuição para pauta os problemas das diversas regiões geográficas
do país; ocupação de espaços públicos e equipamentos estatais; combate ao desemprego;
moradores de rua, portadores de HIV e deficientes físicos; Movimentos dos Trabalhadores
Rurais Sem-Terra, étnico-racial; gênero e sexualidade; reforma agrária, e; contra o
neoliberalismo.

1. América Latina, Democracia e Movimentos Sociais

Para Maria da Glória Gohn, existe várias fases que os movimentos sociais passaram
durante o século XX, e que a primeira fase, no início das lutas, passa-se a perceber o caráter
urbano tomando forma e então as classes sociais e a indústria são os norteadores dessas novas
lutas na zona urbana. Ou seja, as lutas sociais da classe operária, a luta pela mudança do
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regime político, lutas de afirmação étnico-racial entre outros, irão começar a aparecer nos
panfletos e manifestos de reivindicações nesse novo campo de atuação.

Até então, as manifestações eram tratados como caso de polícia, o Estado com a força
repressiva atuava diretamente de forma autoritária e truculenta nas atividades dos movimentos
a fim de impedir que os “baderneiros” ou “agitadores” quebrassem a ordem do local. Hoje, se
me permite dizer, ainda é tida como caso de polícia, mas se comparado nos moldes do século
passado, já se vê uma clara diferenciação e diminuição da censura, mas, contudo nem sempre
pacifica a relação entre os tais.

Já na segunda faze pós-revolução de 1930, se revela com outros olhares,


principalmente quando os movimentos populares começam a ser reinseridos no contexto do
país, onde as lutas se tornam mais profundas no que diz respeito aos direitos a serem
adquiridos. Deixam de ser tratados como caso de polícia, e o cidadão passam ser visto como
portador de direitos e por isso reivindica-os.

Em meados dos anos que correspondem a 1945-1964 ficou conhecido com época
populista ou nacional-desenvolvimentista no contexto brasileiro. Com a ideologia do nacional
desenvolvimentista, o Estado brasileiro possui um grande valor intervencionista no que diz
respeito à estrutura do país. Isso se deu principalmente da necessidade de se haver uma
estrutura mínima para comportar a grande leva de imigrantes que saiam do interior em busca
de melhores condições de vida nas grandes cidades. Esse período ficou marcado na história
brasileira pela intensa participação popular, no sentido da efervescência das organizações
populares institucionalizadas, por exemplo, sindicatos, agremiações partidárias, como também
a sociedade civil organizada. Para autora, todos esses fatores correspondem à terceira fase dos
movimentos sociais do Brasil. Essa fase é lembrada como um dos momentos mais ricos da
história do país, pois:

As greves de operários e de setores do aparelho estatal, recém-expendido pelas


necessidades da conjuntura, marcaram o período como um dos mais ricos da história
do país em mobilizações e propostas sociais. Também culturalmente foi um período
muito fértil, destacando-se realizações no cinema, na música (o surgimento da
bossa-nova) e no teatro. (GOHN, 1995, p.90)

Ficaria incompleto se não citasse a quarta fase, o Regime Militar. Nesse período
singular, apesar de ter acontecido inúmeros processos de repressão, limitação de atuação,
censura, ocorreram inúmeros processos de resistência e movimentos contra a Ditadura Militar
brasileira. Nesse momento, há uma grande efervescência de movimentos contra a ideologia
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capitalista no país, onde nascem os principais movimentos esquerdistas de resistência e de


combate ao sistema Capitalista. Esses atores sociais que faziam parte dessa lutas contra o
capitalismo, geralmente eram pessoas oriundas das camadas médias e estudante universitários
– como nós conhecemos hoje de Movimento Estudantil (ME), mas esse movimento já se
organizava anteriormente a esse período. Entretanto, as massas populares sofreram de apertos
salariais, mas mantiveram calados pelo medo da repressão; não havia vida sindical se não
pelo fator assistencialista; o sinhô da casa própria estava mais próximo, mas a compra dos
terrenos se localizava longe demais dos grandes centros urbanos.

O grande momento em que se gritava pela sua recente saída do Regime Militar, as
amarras que deixava as grades massa „caladas‟ começam a ser quebradas. Agora, o povo
brasileiro quer Democracia ou uma Redemocratização do Estado. Na verdade, seria o
enfrentamento ao regime militar, o importante era a resistência aos mandos e desmando do
militarismo. Esse momento, a população brasileira aproveita o enfraquecimento do regime
militar pelo fato da crise econômica mundial de 1973 (crise do petróleo). Cria-se partidos de
oposição (MDB), que consequentemente foi vitorioso nas urnas. Também marca esse período
a rearticulação que a sociedade civil retomou, criando novas possibilidades de organização da
oposição. “A união das forças de oposição possibilitou a construção de propostas e frente de
lutas.” (GOHN, 1997, p.111). Essa é a Quinta fase, o clima de esperança.

Existe uma fase chamada de “a época da negociação e dos Direito” – 1982-1985, onde
se caracteriza pela retomada dos direitos que foram retirados no período de Ditadura Militar.
Nesse momento, será marcante no tocante ao processo de barganha de direitos, que a
negociação será de grande importância para explicar a atual conjuntura política. Sobretudo,
nesse momento em que as vozes estão ecoando por todas as discussões que tocam os direitos
básicos dos cidadãos. Podemos citar, por exemplo, a retomada pelo direito de votações direta
para Presidente da República – Diretas Já –, como também a liberdade na formação política
dos partidos políticos. Com tudo isso acontecendo, a inflação, que já será resquícios da
ditadura militar, criou uma mobilização social para expressão seu descontentamento com a
atual situação econômica, e que, portanto, fazer justiça com as próprias mãos por
conseqüência do nível de desespero social.

Todas essas explicações que Gohn fez sobre os movimentos sociais, sobretudo que
eles perpassam por toda história da América Latina, sobretudo no Brasil, e que, portanto, não
devem ser esquecidos ou resumidos em meras fragmentações de lutas fragmentadas e
isoladas.
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Então, os novos movimentos sociais irão incluir na sua visão de mundo, o fator
subjetivo das ações sociais com sistema de valores dos grupos sociais, o uso da subjetividade
irá, por exemplo, abrir novas possibilidades de “fazer” movimentos, pois não estará mais
ligado, necessariamente, em pontos concretos da nossa sociedade. Portanto, essa subjetivação
das ações humanas estará ligada a luta referente às mulheres e todos os que compõem os
LGBTT‟s.

Segundo a autora (CARLEAL, 2006), inicia-se uma relativa aparição da América


Latina em noticiários dos grandes meios de comunicação, mesmo de forma muito
embrionária. Percebe-se uma publicização de algumas ações dos estados latino-americanos
possibilitando que seja chamada a atenção dos intelectuais e estudiosos sobre os desafios de
uma nova (re) democratização desse continente, de forma mais global.

Apesar dos desafios dessa nova visão, a atual situação requer que reconheça as
mudanças por parte dos movimentos sociais e sindicais oriundas de classes populares e de
possibilitar novas oportunidades de mudanças a partir das revoluções para a construção de
ideias, levando em consideração que esses sujeitos possuem inúmeros conceitos de
democracia, e que estão sempre a ampliar suas visões. Tais concepções possuem um ponto em
comum: não concordam com a atual situação do sistema neoliberal, e querem uma
democracia que não existam desigualdades na vida social, sem exploração, sem injustiças, o
combate a pobreza decorrente da concentração de riquezas entre outras bandeiras de luta.

A grande diversidade de movimentos populares se deve pelas multiplicidades de


interesse e concepções de mundo, pois essas multiplicidades de visões fazem debater as
concepções que acarretarão em uma maior qualidade para as resoluções dos desafios da
democracia. Assim como diz Adelita,

Quanto mais canais de participação existirem, maior a crítica e maior a possibilidade


de resolução dos impasses. A quantidade de organismos e de manifestações se
transforma em qualidade da ação política. Conflitos e tensões configuram
instabilidade política necessária e frutífera, pois tendem a mudar e construir novas
sociabilidades. (CARLEIAL, 2006, p.67)

Uma democracia jovem. Essa frase seria uma boa síntese do atual contexto político,
econômico e social dos latino-americanos, que implica em uma constante construção de
valores e costumes ligados ao um sistema democrático de se viver. Mesmo o Brasil, por
exemplo, ainda não consegue deslumbrar uma democracia se não no ato de votar a cada dois
anos ou esporadicamente em plebiscitos. Ora, isso implica que será necessário visualizar
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atitudes de cunho mais democrático no dia-a-dia dos cidadãos brasileiros, tendo em vista que
falar de atos democráticos é algo muito mais complexo do que se pensa, pois a Democracia já
é em si um assunto abstrato, e por isso fica a deriva pensar em “atitudes democráticas”.

Um exemplo claro desse “fazer democrática”, a Associação Madres de Plaza de Mayo


se expressão de forma muito visualizadora e perceptível a qualquer cidadão argentino, onde
essa associação possui um forte poder de pressão. Pode-se conceituar essa associação como
um grupo de mães que perderam seus filhos por consequência da Ditadura Militar acontecida
em 1966 na Argentina. Esse grupo permanece até hoje protestando de forma silenciosa na
praça que foi dada para homenageá-las que se localiza em frente da sede do governo.

A construção da cidadania está muito mais envolvida com esse sistema do que
podemos imaginar, pois o ser cidadão inclui uma gama de informações e costumes que não
cabe aqui se debruçar essa temática, mas deixo claro que existe a complexificação do que
poderá dizer com “atitudes democráticas”.

Mas os movimentos sociais não só lutam em prol da democracia, ao contrário, existem


inúmeros grupos que entendem que a qualidade de vida para a maioria passa por outros
sistemas de governo, e vou além, também existem movimentos que não vislumbram uma
qualidade de vida a partir da existência do Estado, são os chamados „Anarquistas‟ e suas
vertentes de aproximações com esse grupo. Dito de outra forma, o Anarquismo, o Socialismo,
o Comunismo, a Democracia e tantas outras formas de organização em sociedade, se chegam
a uma maior qualidade de vida da maioria, pode haver possíveis caminhos. Estes podem ser
considerados como o contraponto ao que é vivenciado hoje.

Um exemplo claro dessas novas possibilidades, os autores André G. Frank e Marta


Fuentes3 descrevem que o socialismo e os movimentos sociais devem propor mudanças
organizadas sincronicamente com seus membros, com a economia e com a sociedade e
propor, sobretudo transformações nessas áreas. O fato de buscar “desligar-se” do capitalismo
deve ser encarado como uma nova forma de articulação. Atualmente os movimentos sociais
são os responsáveis por modificarem estas articulações para seus componentes. Essa nova
visão perpassa não só por uma ruptura radical e complexa do termo, mas também por
mudanças da articulação onde essa mudança dos movimentos perpassa também pelo conceito
de Socialismo.

3
Texto chamado Dez teses acerca dos movimentos sociais, aonde é escrito na tese número sete:
“desligamento e transição para o socialismo nos movimentos sociais”, (FRANK; FUENTES, 1989)
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A superação da economia capitalista não será possível através do socialismo real, pois
este se encontra estagnado em uma via lateral e sua organização política perdeu sua força na
esfera nacional. Exemplos práticos do Socialismo propriamente dito ainda não conseguiram
se desvincular cem por cento do sistema Capitalista de viver. Vimos também que o Socialismo
não conseguir competir de forma igual em relação às novas tecnologias, tendo em vista que há
um constante investimento em tecnologias no modo Capitalista, por exemplo.

Depois de várias discussões sobre qual poderia ser a nomenclatura mais adequada para
definir os movimentos oriundos das classes mais baixas: movimentos sociais populares,
movimentos populares urbanos, movimentos populares, ou o mais utilizado, o “Movimento
Popular”. Essa discussão também existe dentro da nova roupagem que se quer dar aos tais
movimentos (DOIMO,1995), onde diferenciar os “novos” com os “velhos” faz com que
fiquemos presos a um labirinto ortográfico imenso, mas também fica deslocado do principal
foco: lutar contra o sistema capitalista partidos de sujeitos que não estão satisfeitos com a
atual situação do mundo.

Com as diversas mudanças no e na produção do conhecimento, houve também para


acompanhar tais modificações, surgiram novas dicotomias bastante propositivas e reflexivas
acerca dos pensamentos que rondava as lutas e das formas de dominação, por exemplo. Nesse
momento se faz uma anexação de outras lutas a serem observadas e acompanhadas pelos seus
militantes: em vez de comunidade versus sociedade, passa-se a ser usado materialismo versus
pós-materialismo. A utilização desses exemplos não é considerada equivalente, mas tento aqui
que se faça perceber que os “antigos” paradoxos já não estão dando conta da complexidade
das relações sociais envolvendo o mundo do trabalho dos sujeitos.

A partir de análises de sociólogos, com Alain Touraine, inicia-se a (re) classificação


dos movimentos populares ditos anacrônicos. Assim, os movimentos de ecologistas, gênero,
pacifistas entre outros, passaram a estar mais presente nos programas de seus militantes desde
então. Poderíamos dizer que essas modificações nas lutas se tornarão o primeiro passo para a
multiplicação e diversificação das bandeiras “esquecidas” ou nem mesmo levantadas
anteriormente.

O autor (Alan Touraine) ataca a primazia das relações econômicas e afirma que, com
a proximidade da sociedade pós-industrial, não só o movimento operário deixe de
ser o personagem central da história social, como o campo cultural torna-se o locus
onde se formam as principais contestações e lutas. (grifo nosso) (DOIMO, 1995,
pp.41)
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Mesmo sabendo sobre a formação dos novos sujeitos apoiadores das “novas” causas,
necessita-se ter bastante atenção em observar certos movimentos que nem mesmo com todas
as modificações sobre as relações sociais de hoje, ainda se tenta fazer releituras a lutas e
ideais construídos primordialmente no século XIX; aqueles que compartilham ideias que a
classe trabalhadora deve se inserir na cúpula política do estado, pressupondo que seriam os
sujeitos da grande transformação social. Ou seja, movimentos que clamam por princípios
morais, como a desigualdade e a autonomia do indivíduo; ou a igualdade e a exigência da
participação, também podem ser consideradas lutas formuladas com valores do século XIX,
logo, não sendo mais compatíveis com a totalidade das relações sociais dentro do mundo do
trabalho.

2. A ‘nova utopia’ do Fórum Social Mundial

Para uma maior aderência das pessoas a certas ideias e atitudes desse
descontentamento do atual modelo de globalizando de vida, há momentos em que esses
grupos organizados se unem entre se a fim de construir eventos que possibilite à divulgação
desse descontentamento, e consequentemente a construção de possíveis alternativas para um
mundo melhor e mais justo. Assim foi criado o Fórum Social Mundial.

O lema do Fórum Social Mundial (outro mundo é possível) é certamente bem


emblemático da sua capacidade de mostrar para que viesse esse evento presente em diversos
países. Criando diálogos com os movimentos sociais (ONGs, Sindicatos de trabalhadores,
associações de moradores etc.) a fim de compartilhar suas experiências de práticas das lutas
políticas tanto de forma regional quanto de forma global. Discussões, palestras, passeatas,
atos públicos, cartas de apoio e de repúdio, tudo isso são produtos desse diálogo com a
sociedade civil (organizada ou não) com o propósito de mostrar que não está satisfeita com
atual situação do planeta, e usa esse evento como forma de espreitar as experiências, novas
alternativas de convivência de forma sustentável ou que não prejudique o outro.

Como diz Boaventura de Sousa Santos, no seu livro intitulado O Fórum Social
Mundial: manual de uso (2005)

O FSM é o conjunto de iniciativas de intercâmbio transnacional entre movimentos


sociais, organizações não-governamentais (ONGs), e os seus conhecimentos e
práticas das lutas sociais locais, nacionais e globais, levadas a cabo em
conformidade com a Carta de Princípios de Porto Alegre contra as formas de
exclusão e de inclusão, de descriminalização e igualdade, de universalismo e
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particularismo, de imposição cultual e relativismo, produzidas ou permitidas pela


face actual do capitalismo conhecida como globalização neoliberal. (SANTOS,
2005, p. 15)

Diante dessa breve síntese de que seria o FSM, existe atrelado a essa visão de
alternativo, a idéia de „nova‟ utopia a fim de se contrapor a linha atual de „utopias
conservadoras‟, esta com a finalidade de negar qualquer possibilidade de alternativismo em
relação à realidade do presente.

Essa reivindicação e crítica ao „utopismo conservador‟ advém do seu nascimento no


começo do século XXI com uma nova visão dos movimentos sociais para a globalização
como a única via de transição ou de modificação para um possível „progresso‟. Com isso, há
um grande movimento contra-hegemônico do mundo que ali estava (GONH, 1995). No FSM,
reacendeu algumas lutas que em meados da derrubada do muro de Berlim, nesse momento
nasce em Porto Alegre no Rio Grande do Sul.

Extrema diversidade de ideias, conceitos e que só existe uma coisa em comum “outro
mundo é possível”, com um constante diálogo que na maioria das vezes não é nada tranquilo
nas escolhas dos pontos a serem discutidos. Quem chamar? Quem não chamar? Qual a
estrutura do evento? Não há consenso em chamar líderes mundiais, por exemplo. Ou seja, um
intenso espaço de tensão entre os pensamentos para a realização do evento.

Sobre a tensa relação entre os movimentos sociais e os partidos políticos de esquerda,


devemos levar em consideração que o modelo organizacional do FSM não tem a pretensão de
ser representacional da população contra-hegemônica na sua plenitude, e mais, ninguém
representa e ninguém poder falar em nome do coletivo. Ao contrário, a lógica do partido
político já é uma representação da sociedade, aonde tenta dar uma maior semelhança dos seus
participantes na sociedade. O FSM pretende usar as formas da democracia como modelo
organizacional por completo, prezando pela horizontalidade, diversidade e pluralidade, e por
isso que não poder existir indivíduos que os representem.

Considerações finais

Diante das grandes modificações dos diversos movimentos sociais sofreram com
forme à adequação da situação da sociedade, os sujeitos e as ideias permitem que tais grupos
sempre, ou quase sempre, tentaram interpretar a vida social a partir de seu ponto de vista, haja
vista que é necessário situá-los no seu contexto de formação e de vivências desses sujeitos. É
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necessário, de fato, que os grandes movimentos sociais se façam presente em todas as suas
possibilidades de participação, independente de modificações que o mundo sofrerá.

A relação entre Estado versus movimentos sociais pode se tornar tensa em alguns
momentos. Já em outros haverá constantes participações e cordialidade. Haverá momentos em
que os grandes líderes dos grandes movimentos sociais serão absolvidos pelo Estado, usando-
os como forma de auxiliá-los em momentos em que a soberania-nacional não dará de conta de
certas demandas. É chamada de cooptação.

Existe uma interpretação sobre tal relação, os grandes movimentos sociais sempre
demandarão ações pelo Estado em prol de que esses movimentos representam-lhe, fazendo
assim, uma constante briga de quem demanda e de quem é recebido. E mais, o poder de
barganha dos movimentos sociais (populares ou não) estará sempre em disputa entre tais,
causando uma eterna confusão interna de quem demanda mais ações do que outros.

No caso do Brasil, existe uma secular deficiência em relação sobre as demandas


mínimas de vivência dignamente no nosso país, a infra-estrutura ainda é um processo de
grande construção por parte dos governantes e que ainda não se viu soluções prática para isso.
Ou seja, as necessidades primárias de qualquer população param se viver em sociedade ainda
não é por completo atendido, ainda que atualmente venhamos constantes avanços no que diz
respeito à alimentação, moradia, enfim, qualidade de vida.

Dessa forma, como diz Bernardo Sorj (SORJ, 2010), para entender a sociedade de
forma minimamente devemos evitar os extremos, nem tornar o Estado como um „demônio‟
como possuidor do poder total de modificação e manipulação do povo, nem tão pouco usar a
sociedade civil como possuidores de uma verdade absoluta, não reconhecendo os possíveis
avanços que o Estado ou a Gestão tenha trazido para melhorar a sociabilidade, mesmo de
forma pontual, a vida da população que tanto quer suas demandas sendo atendias. Outra
possibilidade de conhecer a sociedade é não pensá-la de forma homogênea. Ou seja, entender
que a sociedade civil é uma complexidade e multiplicidade de demandas, de classes, de perfis
e idéias. Outra idéia que o autor descreve de grande importância nesse momento é entender
que a sociedade civil não possui só uma forma de ver a democracia. Ora, existem inúmeras
interpretações do conceito da democracia. Em regiões aonde a democracia ainda é um
processo de criação - frágil - é possível que a população confunda a representatividade dos
governantes, da participação direta sem a necessidade de um representante.
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Assim, (FRANK; FUENTES, 1989) a priori os movimentos sociais são os mais


habilitados a lutarem por mudanças, pela busca de uma alternativa “socialista”, já que os
mesmo são os atores sociais mais ativos e participativos. No que se refere à política, são os
menos passiveis de se tornarem “alienados”, pois participam ativamente dos processos
políticos. Provavelmente os movimentos sociais serão os responsáveis por buscar e
estabelecer novas articulações para que haja a transição de uma solução no que se refere à
atual economia, sociedade e política mundiais.

Com os Estudos Culturas4 no campo acadêmico, mais especificamente a Antropologia,


começa a borbulhar, onde o pensar, hoje, em movimentos sociais é pensar a própria
sustentação da democracia, onde a cultura política será a ligação dessas categorias
(Movimentos Sociais/Estado) constitutiva de um estado federativo brasileiro. Mesmo
pensando em um contexto político brasileiro dos movimentos sociais as ideologias, os
pensamentos, as correntes políticas, as mobilizações, as bandeiras de luta são, de fato,
bastante complexas. E mais, como Maria da Glória Gonh bem referenciou, as bandeiras de
luta a partir dos movimentos operários passando pelos movimentos de base campesina e por
diante, podemos compreender minimamente a sua lógica, e de como existe inúmeras
possibilidades de abordagem metodológica do mundo social, sob a lógica dos movimentos
sociais, independente de serem de base popular ou de base de classes mais abastardas.

Atualmente, passamos por incertezas políticas, econômicas e sociais, mas acima de


tudo a população, a grande massa deve buscar novas possibilidades de construção gradativa
de uma verdadeira democracia além do voto. Uma democracia (ou quaisquer formas de
organizar o estado) que preze pela liberdade, o diálogo com as múltiplas minorias, harmonia
entre o interesse público e privado e que a democracia não se torne uma tirania da maioria.

4
Os Estudos Culturais tenta articular diálogos com outras áreas de conhecimento que passa pelas teorias
sociológicas, teorias relacionadas à economia, teoria dos meios de comunicação, o cinema, a antropologia
cultural, Ciências Políticas entre outras. Tais Estudos pretendem elaborar significados culturas que as sociedades
criam dentro da perspectiva contemporânea.
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Referências bibliográficas

CARLEIAL, Adelita. Projetos nacionais e conflitos na América Latina. In: ______ (Org.).
Projetos nacionais e conflitos na América Latina. Fortaleza: UFC, 2006. p.57-68.
DOIMO, Ana Maria. A vez e a voz do popular: movimentos sociais e participação política
no Brasil pós-70. Rio de Janeiro: Remule-Dumará: ANPOCS, 1995.
FRANK, André Gunder; FUENTES, Marta. Dez teses acerca dos movimentos sociais. Lua
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GONH, Maria da Glória. Movimentos sociais no início do século XXI: antigos e novos
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SANTOS, Boaventura de Sousa. O Fórum Social Mundial: manual de uso. São Paulo:
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SORJ, Bernardo. (org.). Usos, abusos e desafios da sociedade civil na América Latina. São
Paulo: Paz e Terra, 2010.