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CENTRO UNIVERSITÁRIO FG - UNIFG

DIREITO

TAINARA MORAIS CARNEIRO

RELATÓRIO DE ESTUDO DE CASO:


Uma análise do caso Garibaldi à luz dos paradoxos do sistema judiciário frente às
decisões do SIDH.

Guanambi - BA
2021
TAINARA MORAIS CARNEIRO

RELATÓRIO DE ESTUDO DE CASO:


Uma análise do caso Garibaldi à luz dos paradoxos do sistema judiciário frente às
decisões do SIDH.

Relatório apresentado ao curso de Direito do


Centro Universitário FG - UNIFG como
requisito de avaliação parcial da disciplina de
Direito Internacional.

Professor: Guilherme Alcântara.

Guanambi - BA
2021
SUMÁRIO

1 EMENTA DO CASO GARIBALDI VS. BRASIL ...............................................................3


2 CASO POSTO EM JULGAMENTO....................................................................................4
3 CONTEXTO HISTÓRICO ...................................................................................................6
4 DO PROCEDIMENTO .........................................................................................................7
5 ANÁLISE DO VOTO DO RELATOR .................................................................................8
6 EFEITOS DA DECISÃO.......................................................................................................9
REFERÊNCIAS .....................................................................................................................11
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UMA ANÁLISE DO CASO GARIBALDI À LUZ DOS PARADOXOS DO SISTEMA


JUDICIÁRIO FRENTE ÀS DECISÕES DO SIDH: Comentários à decisão da Corte
Interamericana de Direitos Humanos acerca do caso Sétimo Garibaldi de nº. 12.478.

Julgamento ocorrido em 23 de setembro de 2009.

Tainara Morais Carneiro1

1 EMENTA DO CASO GARIBALDI VS. BRASIL

Retirada da sentença proferida pela corte, segue a ementa2 do caso a ser analisado:

1. Em 24 de dezembro de 2007, conforme disposto nos artigos 51 e 61 da Convenção


Americana, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (doravante “a Comissão
Interamericana” ou “a Comissão”) submeteu à Corte uma demanda contra a República
Federativa do Brasil (doravante “o Estado”, “o Brasil” ou “a União”), a qual se
originou da petição apresentada em 6 de maio de 2003 pelas organizações Justiça
Global, Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (RENAP) e Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em nome de Sétimo Garibaldi (doravante
denominado também “senhor Garibaldi”) e seus familiares. Em 27 de março de 2007,
a Comissão emitiu o Relatório de Admissibilidade e Mérito No. 13/07 (doravante
também “o Relatório No. 13/07”), nos termos do artigo 50 da Convenção, o qual
continha determinadas recomendações para o Estado. Esse relatório foi notificado ao
Brasil em 24 de maio de 2007, sendo-lhe concedido um prazo de dois meses para
comunicar as ações empreendidas com o propósito de implementar as recomendações
da Comissão. Apesar de uma prorrogação concedida ao Estado, os prazos para que
apresentasse informação sobre o cumprimento das recomendações transcorreram
“sem que a Comissão recebesse qualquer informação”. Diante da falta de
implementação satisfatória das recomendações contidas no Relatório de
Admissibilidade e Mérito No. 13/07, a Comissão decidiu submeter o caso à jurisdição
da Corte, considerando que o presente caso representava uma oportunidade
importante para o desenvolvimento da jurisprudência interamericana sobre os deveres
de investigação penal do Estado diante das execuções extrajudiciais, para a aplicação
de normas e princípios de direito internacional e os efeitos do seu descumprimento a
respeito da regularidade do processo penal, assim como a necessidade de combate à
impunidade. A Comissão designou como delegados os senhores Clare K. Roberts,
Comissionado, e Santiago A. Canton, Secretário Executivo, e como assessoras legais
as senhoras Elizabeth Abi-Mershed, Secretária Executiva Adjunta, e Lilly Ching e
Andrea Repetto, advogadas.
2. Segundo a Comissão, a demanda se refere à alegada “responsabilidade [do Estado]
decorrente do descumprimento [da] obrigação de investigar e punir o homicídio do
Senhor Sétimo Garibaldi, ocorrido em 27 de novembro de 1998; [durante] uma

1
Graduanda do curdo de Direito. Centro Universitário FG – UNIFG.
Endereço eletrônico: e-mail: naracarneirot1@gmail.com

2
Trecho da Decisão localizada em:
https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2016/09/c5be67d768a9e6f774020ea22d4062d4.pdf
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operação extrajudicial de despejo das famílias de trabalhadores sem terra, que


ocupavam uma fazenda no Município de Querência do Norte, Estado do Paraná”.
3. Na demanda, a Comissão solicitou à Corte declarar que, em atenção à sua
competência temporal, o Estado é responsável pela violação dos artigos 8 (Garantias
Judiciais) e 25 (Proteção Judicial) da Convenção Americana, com relação à obrigação
geral de respeito e garantia dos direitos humanos e ao dever de adotar medidas
legislativas e de outro caráter no âmbito interno, previstos, respectivamente, nos
artigos 1.1 e 2 do referido tratado, também em consideração às diretrizes emergentes
da cláusula federal contida no artigo 28 do mesmo instrumento, em prejuízo de
Iracema Cioato Garibaldi, viúva de Sétimo Garibaldi, e seus seis filhos. A Comissão
solicitou à Corte que ordene ao Estado a adoção de determinadas medidas de
reparação.
4. Em 11 de abril de 2008, as organizações Justiça Global, RENAP, Terra de Direitos,
Comissão Pastoral da Terra (CPT) e MST (doravante denominados “representantes”)
apresentaram seu escrito de petições, argumentos e provas (doravante denominado
“escrito de petições e argumentos”), nos termos do artigo 23 do Regulamento. No
referido escrito, solicitaram ao Tribunal que declare a violação dos direitos à vida e à
integridade pessoal, em prejuízo de Sétimo Garibaldi, e às garantias judiciais e à
proteção judicial, em prejuízo de Iracema Garibaldi e de seus seis filhos, previstos,
respectivamente, nos artigos 4, 5, 8 e 25 da Convenção, todos estes em relação aos
artigos 1.1, 2 e 28 do referido tratado. Em consequência, requereram à Corte que
ordene diversas medidas de reparação. Iracema Garibaldi, Darsônia Garibaldi Guiotti,
Itamar José Garibaldi, Itacir Caetano Garibaldi e Vanderlei Garibaldi, mediante
procuração outorgada em 10 de julho de 2007, designaram como suas representantes
legais as advogadas da Justiça Global, senhoras Andressa Caldas, Luciana Silva
Garcia, Renata Verônica Cortês de Lira e Tamara Melo.
5. Em 11 de julho de 2008, o Estado apresentou um escrito no qual interpôs quatro
exceções preliminares, contestou a demanda e formulou observações sobre o escrito
de petições e argumentos (doravante denominado “contestação da demanda”). O
Estado solicitou que a Corte considere fundadas as exceções preliminares e, em
consequência: i) reconheça a incompetência ratione temporis para examinar supostas
violações ocorridas antes do reconhecimento da jurisdição contenciosa da Corte pelo
Brasil; ii) não admita, por extemporâneo, o escrito de petições e argumentos dos
representantes; iii) exclua da análise do mérito o suposto descumprimento do artigo
28 da Convenção; e iv) declare-se incompetente em razão da falta de esgotamento dos
recursos internos. Subsidiariamente, a respeito do mérito, o Brasil alegou que “não há
nada que indique que os procedimentos de investigação tenham sido conduzidos de
forma que não corresponda aos parâmetros estabelecidos pelos [artigos] 8 e 25 da
Convenção”, razão pela qual não deve ser imputada ao Estado sua violação. Da
mesma maneira, solicitou à Corte que tampouco declare que o Brasil descumpriu os
artigos 2 e 28 da Convenção Americana. O Estado designou o senhor Hildebrando
Tadeu Nascimento Valadares como agente e as senhoras Márcia Maria Adorno
Cavalcanti Ramos, Camila Serrano Giunchetti, Bartira Meira Ramos Nagado e
Cristina Timponi Cambiaghi como agentes assistentes.
6. Consoante previsto no artigo 37.4 do Regulamento, em 24 e 27 de agosto de 2008,
a Comissão e os representantes apresentaram suas alegações sobre as exceções
preliminares opostas pelo Estado, respectivamente. (CORTE INTERAMERICANA
DE DIREITOS HUMANOS, Caso Garibald vs. Brasil. Sentença de de 2009).

2 CASO POSTO EM JULGAMENTO

Trata-se de uma decisão proferida pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, em


que o Estado brasileiro foi responsabilizado por não ter apurado satisfatoriamente a execução
extrajudicial de um trabalhador rural sem terra, seguindo como parâmetro normativo a
5

Convenção Americana de Direitos Humanos, também chamada de Pacto de San José da Costa
Rica.
A análise do presente caso decorreu de petição apresentada em 6 de maio de 2003 pelas
organizações Justiça Global, Rede Nacional de Advogados e Advogados Populares (RENAP)
e Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), devido ao homicídio do Sr. Sétimo
Garibaldi, ocorrido em 27 de novembro de 1998, durante uma operação extrajudicial de despejo
de famílias de trabalhadores sem terra que ocupavam uma fazenda no município de Querência
do Norte, Estado do Paraná.
A sentença narra que cerca de cinquenta famílias vinculadas ao MST estavam
acampadas no local, quando um grupo com cerca de vinte homens, encapuzados e armados,
chegaram efetuando disparos e ordenando aos trabalhadores que deixassem suas barracas e se
dirigissem ao centro do acampamento, permanecendo deitados no chão.
Nesse contexto, quando o Sr. Garibaldi saiu de sua barraca, foi ferido na coxa por um
projétil de arma de fogo, não resistindo ao ferimento e vindo a óbito por hemorragia. Foi então
aberto um inquérito policial para apuração dos crimes de homicídio, porte ilegal de arma por
parte do administrador da Fazenda e de formação de quadrilha ou bando.
Sem chegar a uma solução amigável, a Comissão, conforme previsto no artigo 50 da
Convenção, elaborou um relatório com recomendações para o Estado brasileiro, com prazo de
dois meses para comunicar as ações implementadas. Contudo, diante da omissão, a Comissão
submeteu o caso à jurisdição da Corte para que declarasse a violação dos direitos à vida,
integridade pessoal, garantias judiciais e proteção judicial, com medidas de reparação.
Por fim, a Corte decidiu pela responsabilidade do Estado brasileiro, e, como forma de
reparação, determinou que o Estado deveria divulgar no Diário Oficial e em jornais de ampla
circulação, por um ano, a parte resolutiva da sentença, assim como sua íntegra, além de
indenizar a família por danos morais e materiais.
Os Estados americanos signatários da referida Convenção pactuaram direitos e deveres,
dentre eles, em especial, os das garantias judiciais e a proteção judicial. Assim, o presente
estudo visa analisar a violação desses direitos no caso de Sétimo Garibaldi, o qual foi submetido
à Corte Interamericana de Direitos Humanos contra a República Federativa do Brasil.
Preliminarmente, ressalta-se que não há antagonismo entre os sistemas global e regional.
Ao contrário, nas palavras de Piovesan (2008, p. 31), “ao adotar o valor da primazia da pessoa
humana, estes sistemas se complementam, interagindo com o sistema nacional de proteção, a
fim de proporcionar a maior efetividade possível na tutela e promoção de direitos
fundamentais”, o que significa dizer que são complementares.
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Dessa forma, frente aos instrumentos internacionais de proteção, cabe a quem sofreu a
violação eleger o mecanismo mais favorável, haja vista que direitos idênticos são tutelados por
dois ou mais instrumentos de alcance global ou regional, ou, de alcance geral ou especial, sendo
que os diversos sistemas de proteção de direitos humanos interagem em benefício dos
indivíduos protegidos (PIOVESAN, 2006).
Nesse sentido, no que tange à tramitação do caso em análise perante a Corte, a Comissão
Interamericana de Direitos Humanos havia acentuado que o Brasil deveria adotar medidas
eficazes visando evitar o aumento de grupos armados que pratiquem desocupações clandestinas
violentas, o que ressalta a importância do sistema interamericano de proteção dos direitos
humanos.

3 CONTEXTO HISTÓRICO

Os fatos ocorreram no contexto da violência no campo no estado do Paraná na década


de 1990. Marés e Sauer (2013) afirmam que os conflitos socioterritoriais faziam parte da
realidade brasileira, sendo a concentração fundiária, o avanço do modelo do agronegócio,
mobilizações populares de luta por direitos e inexistências de políticas públicas estruturantes
de acesso à terra, elementos que reiteravam no tempo e no espaço os conflitos.
Medeiros (2014) aduz que as disputas em torno de terras têm sua raiz no processo de
transformação da terra em equivalente de mercadoria e na criação de condições para sua livre
compra e venda no mercado e apropriação da renda fundiária.
A obra Conflitos no Campo aponta a ocorrência de trinta e seis assassinatos e cinquenta
e seis tentativas de assassinatos que concentraram-se nos estados do Pará, Maranhão, Mato
Grosso e Rondônia, no ano de 2013. As ocorrências de pistolagem (17.695 situações) aparecem
em todo o Brasil, mas também estão concentradas: 49% na região Norte, com destaque para o
Pará e 27,50%, no Nordeste, com primazia do Maranhão. Essas duas regiões, somadas, são
responsáveis por 76% dos casos.
Nesse cenário, dos cento e vinte e cinco casos contra o Estado brasileiro em trâmite na
CIDH, cerca de cinquenta faziam referência à violência no campo, e, das quatro condenações
do Estado brasileiro pela Corte, duas se referenciavam à violência no campo, ambas sobre
violações à Convenção Americana relacionadas a crimes que ocorreram no Estado do Paraná.
Ressalta-se que entre os anos 1990 e início nos anos 2000, o Paraná apresentava a maior
incidência de violações de Direitos Humanos contra trabalhadores rurais, apontando a
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Comissão Pastoral da Terra que a situação agravou-se durante os anos de 1995 a 2002, quando
foi estabelecida uma política repressiva contra os trabalhadores pelo governo estadual.
No mencionado período, a Secretaria de Segurança do estado iniciou uma série de
despejos em acampamentos de famílias sem terra, onde fazendeiros intimidavam os
trabalhadores rurais empregando grupos armados e pressionavam o governo do Paraná para que
fizesse despejos de famílias sem terra; em diversas operações de despejo violentas, foram
identificados, atuando em conluio com a força pública, pistoleiros particulares, contratados
pelos proprietários das terras objeto do despejo.

4 DO PROCEDIMENTO

Consernente ao inquérito policial realizado no Brasil, os fatos anteriores a 10 de


dezembro de 1998, data em que foi reconhecida, pelo Brasil, a jurisdição obrigatória da Corte,
foram considerados como antecedentes, deles não advindo qualquer consequência jurídica.
O inquérito foi aberto em 27 de novembro de 1998 e durante mais de cinco anos o
Ministério Público requereu a realização de diligências, além da oitiva de testemunhas. Após,
mediante requerimento do MP, foi arquivado em 18 de maio de 2004, uma vez que não foi
possível identificar a autoria do homicídio. Foi impetrado contra a decisão, Mandado de
Segurança, o qual foi denegado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Paraná. Em 20 de abril
de 2009, o MP requereu o desarquivamento do inquérito e a realização de diligências com base
na alegação de surgimento de novas provas.
Vale salientar que a obrigação de investigar violações de direitos humanos, está incluída
nas medidas positivas que os Estados devem adotar para garantir os direitos reconhecidos na
Convenção. No caso de morte violenta, o Estado, ao tomar conhecimento do fato, deve
iniciar ex oficio e sem demora, uma investigação séria, imparcial e efetiva, devendo ser
realizada por todos os meios legais disponíveis e orientada à determinação da verdade.
Para que se verifique se um Estado violou ou não obrigações reconhecidas na
Convenção, a Corte entende que pode ocupar-se do exame dos respectivos processos judiciais
internos, razão pela qual, no caso em tela, examinou o inquérito policial, particularmente com
relação aos fatos ocorridos após 10 de dezembro de 1998. E, com isso, foram constatadas falhas
e omissões.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos sustentou, por sua vez, com base no
artigo 28 da Convenção, que o Brasil deveria ter adotado medidas adequadas para que Sétimo
Garibaldi não fosse assassinado por um grupo armado a mando de fazendeiros do Estado do
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Paraná, bem como ter proporcionado aos familiares uma adequada indenização civil.
No que tange ao processo na Corte, o Brasil interpôs contestação requerendo como
preliminares: O reconhecimento da incompetência ratione temporis da Corte para examinar
supostas violações ocorridas antes do reconhecimento da jurisdição contenciosa pelo Brasil; a
inadmissibilidade de petições dos representantes das vítimas; a exclusão, da análise do mérito,
do suposto descumprimento do artigo 28 da Convenção; e a declaração de incompetência da
Corte em razão do não esgotamento dos recursos internos. Quanto ao mérito, alegou que nada
indicava que os procedimentos de investigação houvessem sido conduzidos de forma a
contrariar dispositivos do Pacto de San Jose da Costa Rica.
Contudo, a corte decidiu, por unanimidade, que era parcialmente admissível a exceção
preliminar de competência ratione temporis, rejeitando as demais exceções preliminares
interpostas e declarando que o Estado violou os direitos às garantias judiciais e à proteção
judicial reconhecidos nos artigos 8.1 e 25.1 da Convenção Americana.
Ademais, verifica-se a necessidade de analisar se o julgado em apreciação seguiu os
trâmites processuais de maneira regular, quais sejam, conforme a Convenção: O oferecimento
da denúncia ou petição, que é encaminhada com vistas a determinar o cumprimento dos
requisitos indispensáveis para iniciar sua tramitação; Se devidamente cumpridos, é realizado o
envio ao Estado para fins de resposta.
Decorrido o período de intercâmbio de informações sobre a denúncia ou petição, a
Comissão decide acerca da admissibilidade. Dessa forma, se a denúncia é aceita, passa a ser um
caso, momento no qual a comissão chama as partes para estabelecer acordo e procurar uma
solução amistosa. Não havendo essa solução, a Comissão decide o mérito.
Sendo caracterizada a violação de direitos humanos, são emitidas e transmitidas
recomendações ao Estado para que se cumpra dentro do estabelecido prazo. Havendo o
cumprimento, dar-se-á o caso por finalizado. Caso contrário, a Comissão pode remeter o caso
à Corte ou decidir por sua publicação no relatório anual.
Outrossim, é perceptível que o caso em tela seguiu todos os trâmites previstos na CADH,
conforme artigos 48, 49, 50 e 51 da seção 4, tendo sido realizados todos os procedimentos
necessários. Na Corte, o procedimento também seguiu o que prevê o CADH nos artigos 66, 67,
68 e 69 da seção 3.

5 ANÁLISE DO VOTO DO RELATOR


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O voto fundamentado pelo Juiz Hoc Roberto de Figueiredo Caldas interligado à


sentença da CIDH, proferida em 23 de setembro de 2009, confirmou os votos unânimes
prolatados pelos demais julgadores, declarando a responsabilidade do Estado Brasileiro sobre
os atos que violaram os artigos 8.1 e 25.1 da Convenção.
O julgador explicitou que, ao indicar a omissão do Estado como violador dos direitos
de seus cidadãos, buscou-se o teor da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, adotada
no âmbito da Organização dos Estados Americanos em 22/11/69, com início de vigor
internacional em 18/07/78.
Foi demonstrado que a exigência de celeridade do processo judicial não é algo atual,
haja vista que a vigência internacional da supracitada norma teve início no Brasil em 25/09/92.
Ademais, entendeu-se pela obrigação do Estado de realizar reformas dos poderes judiciários
para adequarem a tramitação do processo ao tempo requerido pela norma.
O Brasil foi, por sua vez, condenado às formas de reparação anteriormente citadas neste
estudo. Além disso, a Corte reafirmou o papel de acompanhar a posteriori suas decisões, o que
demonstra que a sua atuação não se exaure na análise e julgamento.

6 EFEITOS DA DECISÃO

Casos semelhantes ao abordado, infelizmente, não deixam de existir no Brasil, havendo


a continuidade da violação de direitos humanos, sem receber, contudo, a devida atenção por
parte do Estado. Nesse sentido, a decisão da Corte em responsabilizar internacionalmente o
Brasil, trouxe efeitos significantes.
O primeiro vislumbrado é a divulgação da efetividade dos mecanismos de proteção
interamericano dos direitos humanos. Em segundo, na investigação de casos de violação de tais
direitos, não pode ser alegada pelo Estado a presença de obstáculos internos para o não
cumprimento das obrigações.
Além desses, com a responsabilização, o Estado é obrigado a implementar medidas
repressivas e preventivas quanto a eventos que representem violação a compromissos
assumidos internacionalmente.
Enfatiza-se que aceitar a jurisdição da Corte é ato facultativo, porém, a partir do
momento que o Brasil aceita a competência contenciosa da Corte, as decisões produzidas por
esse órgão internacional se tornam obrigatórias e têm os mesmos efeitos jurídicos de uma
sentença proferida pelo Judiciário nacional.
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Em suma, a sentença do presente caso expõe que a responsabilidade estatal pode ser
realmente empregada por um organismo regional internacional e produzir seus devidos efeitos
na sociedade, tendo, por sua vez, um caráter punitivo e pedagógico, no qual, além de punir o
Estado pelo ato omissivo ou comissivo, também desestimula a reiterar tais práticas, o que serve
de modelo para outros Estados, alcançando assim, todos os seus objetivos.
Entretanto, obstáculos são encontrados na implementação das decisões da Corte. Podem
ser citados a falta de cumprimento pelos agentes públicos ao não realizarem a adequada
investigação dos fatos e não punirem os responsáveis; e ainda o desconhecimento da população
acerca da jurisprudência interamericana de direitos humanos.
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REFERÊNCIAS

CONVENÇÃO AMERICANA SOBRE DIREITOS HUMANOS. (Assinada na


Conferência Especializada Interamericana sobre Direitos Humanos, San José, Costa Rica, em
22 de novembro de 1969). Disponível em:
https://www.cidh.oas.org/Basicos/Portugues/c.Convencao_Americana.htmhttps://www.cidh.o
as.org/Basicos/Portugues/c.Convencao_Americana.htm. Acesso em: 27 de março de 2021.

CORTE IDH, Corte Interamericana de Direitos Humanos. Caso Garibaldi versus Brasil.
Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. Sentença 07 de setembro de 2009.
Disponível em: https://www.cnj.jus.br/wp-
content/uploads/2016/09/c5be67d768a9e6f774020ea22d4062d4.pdf. Acesso em: 29 de março
de 2021.

MARÉS, Carlos Frederico; SAUER, Sérgio. Casos emblemáticos e experiências de


mediação: análise para uma cultura institucional de soluções alternativas de conflitos
fundiários rurais. Brasília: Ministério da Justiça, Secretaria de Reforma do Judiciário, 2013.

MEDEIROS, Leonilde Servolo de. Conflitos fundiários e violência no campo. Comissão


Pastoral da Terra. Goiânia: CPT Nacional, 2014.

PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 7ª ed. São


Paulo: Saraiva, 2006.

PIOVESAN, Flávia. Implementação das obrigações standards e parâmetros internacionais de


direitos humanos no âmbito intra-governamental e federativo. Revista Direitos
Humanos. Número 01. Recife: GAJOP, março de 2008.

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