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(inspirado no conto "O contribuinte", de Ray Bradbury)

O planeta Marte finalmente estava sendo colonizado. Porém, visitá-lo era


privilégio de poucos. O fato é que a maioria da população só poderia realizar um
passeio desses nos sonhos. Mas existiam pessoas que não aceitavam essa
realidade. Acontece que a colonização de Marte foi financiada pelo governo, ou seja,
com dinheiro oriundo dos impostos. Assim sendo, muitos reclamavam dessa
situação, exigindo o direito de poder viajar de foguete até o planeta vermelho.
Existiam aqueles que acreditavam que todos, sem exceção, deveriam ter esse direito:
esses eram chamados de “rubros”. Outros, que se autointitulavam “cidadãos de
bem”, achavam que o direito deveria ficar restrito a eles, não se estendendo aos
“rubros vagabundos”, como eles gostavam de dizer. Richard pertencia a esse
segundo grupo. Ele era um nacionalista,
defendia o governo, apesar da maneira
autoritária que os assuntos de Estado estavam
sendo conduzidos e acreditava que tudo o que
acontecia de ruim no país era culpa dos “rubros
vagabundos”.

Certo dia, Richard decidiu ir à base, exigir


o seu direito de cidadão contribuinte e
embarcar no próximo foguete com destino a
Marte. Quando ele chegou à base de
lançamento, notou que um foguete estava
sendo preparado para mais uma viagem. “É o
meu foguete”, pensou ele. No entanto, entre ele
e o foguete havia uma cerca de arame farpado e uma dúzia de soldados armados.
“Olá, soldados, amigos patriotas!”, disse ele entusiasmado, mas os soldados o
ignoraram. “Estou aqui para exigir o meu direito de bom cidadão e contribuinte. Quero
embarcar nesse foguete”. Nesse momento, os soldados se entreolharam e caíram
na risada. “Do que estão rindo? Quero embarcar nesse foguete. Com quem eu falo?
O que eu devo assinar?”, disse Richard. Mas, para surpresa do nosso estimado
contribuinte, os soldados responderam com um “cale a boca” e um “saia daqui
imediatamente”. Inconformado, ele ainda tentou pular a cerca de arame, mas foi
imediatamente alvejado por balas de borracha e caiu ferido.

Depois de alguns minutos, Richard conseguiu se levantar, mas antes que


pudesse dizer qualquer coisa foi atingido por gás lacrimogêneo. Desnorteado,
Richard foi fortemente agarrado por trás por um soldado peludão. Nesse momento,
Richard, sentiu-se profundamente humilhado, afinal de contas, essa não é a maneira
correta de um cidadão de bem ser tratado. Arrastado e jogado dentro de uma viatura,
ele ainda quis dizer alguma coisa, mas a sola de um coturno pressionava o seu
pescoço e o impedia de falar. De repente, com o rosto pressionado contra o vidro da
viatura, Richard viu um clarão. Era o foguete, que naquele momento decolava sem
ele. Antes de perder os sentidos, após ser golpeado na cabeça com um rifle, Richard,
o cidadão de bem e contribuinte, ainda ouviu um dos soldados gritar no seu ouvido:
“maldito rubro, maldito rubro”.

POSFÁCIO

Escrevi esse pequeno conto, em primeiro lugar, porque sou fã de Ray Bradbury.
Em segundo lugar porque a leitura desse grande autor da ficção científica, mais
precisamente de seu conto “O contribuinte”, presente nas Crônicas marcianas, me
fez pensar na triste realidade que vivemos no Brasil, com as nossas desavenças
políticas, com os nossos cidadãos de bem... Se você conhece esse conto de
Bradbury, certamente percebeu a referência. Se nunca leu Bradbury, mas é
brasileiro, compreendeu ainda mais o que eu quis dizer.
Cleber Gimenes Freitas
clegifrei@gmail.com
(maio/2020)

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