Você está na página 1de 281

Luna Soares

CORAÇÕES EM JOGO
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS
Copyright© Luna Soares

A violação de Direitos Autorais é crime, previsto na lei 9610/98 e


conforme estabelecido no Art. 184 do Código Penal Brasileiro. É proibida a
reprodução total ou parcial dessa obra, por qualquer meio, sem a prévia
autorização da autora.

Capa: Bia Carvalho


Revisão: Independente
Diagramação: Luna Soares
Sumário

Sinopse
Playlist
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Epílogo
Sinopse
Tudo ia muito bem na minha vida. Era o bem-sucedido CEO de uma
grande rede de lojas e, apesar de ser um homem bem centrado nos negócios,
também sabia como curtir a vida: festas, noitadas, amigos e mulheres. Todas
eu quisesse ter.
E eu queria todas... até ela aparecer.
Foi por uma aposta que a conheci. Uma briga de egos com meu
irmão, que me provocou dizendo que eu só conquistava garotas por causa do
meu dinheiro.
Eu teria duas semanas para seduzi-la, mas ela não poderia saber quem
eu era; não poderia saber que era rico, muito menos que era seu chefe.
O problema era que eu não esperava que Luíza fosse tão especial e
que eu acabasse me apaixonando por ela e por sua filhinha, Sofia, com quem
precisei fazer um pacto muito engenhoso quando descobriu minha identidade
antes da mãe.
O que era para ser apenas uma aposta, acabou tomando rumos
diferentes. Agora, não era apenas uma conquista que estava em jogo... mas
também o meu coração.
Playlist
Heart Attack – Demi Lovato
Alive – Sia
Bet my Heart – Maroon 5
Say You Won't Let Go – James Arthur
It's Gonna Be Me – *NSYNC
She Wolf (Falling to Pieces) – David Guetta (feat. Sia)
She's The One – Robbie Williams
Let Love Lead The Way – Spice Girls
We Belong Together – Mariah Carey
Crazy for You – Adele
I Bet my Life – Imagine Dragons
Locked out of Heaven – Bruno Mars
If I Let You Go – Westlife
I Knew I Loved You – Savage Garden
Love Someone – Lukas Graham
The game is over – Evanescence
The Trouble with Wanting – Joy Williams
A Moment Like This – Kelly Clarkson
Vulnerable – Roxette
If I Ain't Got You – Alicia Keys
Never be Alone – Shawn Mendes
A Thousand Years – Christina Perri
Everything Has Changed – Taylor Swift
Back At One – Brian Mcknight
Who Knew – Pink
Always – Bon Jovi
Quit playing games – Backstreet Boys
Broken-Hearted Girl – Beyoncé
Wrong Direction – Hailee Steinfeld
Goodbye – Jessica Lowndes
Fix you – Coldplay
Already Gone – Sleeping At Last)
You Are The Reason – Calum Scott
If You're Not The One – Daniel Bedingfield
All Of Me – John Legend
I Get to Love You – Ruelle
Capítulo 1
“Armando minhas defesas

Porque não quero me apaixonar

Se alguma vez fizesse isso

Acho que teria um ataque cardíaco”

(Heart Attack - Demi Lovato)

Despertei sentindo o par de mãos femininas que contornavam o meu


corpo nu, o que logo me trouxe à mente a lembrança de que a noite havia sido
boa. Havia sido ótima, para falar a verdade. Abri os olhos e virei o rosto para
o lado, encontrando a bela morena que também parecia acordar nesse
momento. Ela tinha olhos verdes, que coisa. Eu nem tinha reparado nisso na
noite anterior.
— Bom dia... — ela sussurrou, dengosa.
— Bom dia, princesa — respondi com o elogio genérico. Porque, afinal
de contas, eu não lembrava do nome dela.
— Dormiu bem?
— Como uma pedra, e você?
— Também. — Ela aproximou a boca do meu ouvido. — Estou
recarregada e pronta para nos divertirmos um pouco mais.
A proposta de fato era tentadora. Eu não me lembrava do nome dela, não
recordava a cor dos seus olhos, mas tinha lembranças bem nítidas das coisas
que ela tinha feito comigo na noite anterior. Por baixo da coberta, meu amigo
endureceu, animado com a ideia de brincar um pouco mais. Mas fui racional
o suficiente para negar a oferta. Eu tinha um conjunto de regras pessoais, e
estas incluíam jamais repetir a dose pela manhã com a mulher com quem
passei a noite. Isso apenas a faria ficar mais e, bem... eu não tinha qualquer
interesse nisso.
— Vai ter que ficar para outra vez, princesa. Tenho um compromisso
agora pela manhã.
Levantei-me, passando pelas roupas espalhadas pela espaçosa suíte e indo
diretamente para o banheiro. Liguei o chuveiro e entrei embaixo da água
morna, tomando um rápido banho. Quando saí, ainda nu, a mulher
permanecia sobre a minha cama, agora já sentada, com os fartos seios à
mostra, olhando-me de forma confusa.
— Tem certeza de que não quer mais? — ela me perguntou. A oferta era
realmente tentadora demais, mas precisei recusar, enquanto entrava no closet,
escolhendo as roupas que iria usar.
— Não posso, princesa. Tenho uma reunião importante. Sabe que sou
um homem de negócios.
— Mas... hoje é sábado.
— E um verdadeiro homem de negócios não para nem mesmo aos fins de
semana. — Tinha acabado de vestir as calças e coloquei a cabeça para fora do
closet, sorrindo para ela. — Mas você não precisa ter pressa, viu? Fique à
vontade. A Joana vai preparar um café da manhã para você.
Terminei de me vestir e fui até ela, depositando um beijo em seus lábios.
— A gente se vê, princesa.
— Vai me ligar?
— É claro que vou.
Era óbvio que não iria. Eu nunca ligava. Eu nunca precisava ligar. O
cardápio à minha disposição era extenso demais para eu me preocupar em
repetir o mesmo prato.
Saí do quarto e desci as escadas enquanto colocava o relógio no pulso.
Joana passava pela sala nesse momento, com seus cabelos negros e lisos,
como de costume, presos em um impecável coque. Ao me ver, parou para me
esperar.
— Devo chamar um táxi para a mocinha? — ela perguntou.
Parei ao lado dela, dando um beijo em seu rosto. Joana tinha trabalhado
para os meus pais desde que eu tinha uns dois ou três anos de idade. A parte
mais difícil quando me mudei para os Estados Unidos para estudar e acabei
permanecendo por lá gerindo a empresa de Marketing que eu havia criado foi
de longe ficar longe de Joana. Eu era muito mais apegado a ela do que à
minha própria mãe – que, desde a morte do meu pai, passara a morar em sua
fazenda. Aquela casa ficara para o meu irmão, e Joana acabou se tornando
governanta dele.
Agora, que eu estava de volta ao Brasil, me perguntava como tinha
conseguido viver tantos anos sem aquela mulher.
— Bom dia para você também, minha deusa — rebati. — Pode chamar
um táxi, sim. Mas antes sirva um café caprichado pra ela. A noite foi longa,
ela precisa recarregar as energias.
— Você não tem jeito mesmo, Rique.
— Heitor já acordou?
— Ainda não voltou. Aparentemente passou a noite na casa da Bruna.
Bruna era a noiva do meu irmão. Os dois planejavam se casar em
algumas semanas. Mas minha volta ao Brasil não tinha sido apenas para
participar da festa. Os pais de Bruna moravam nos Estados Unidos e o sonho
dela era também ir para lá, para ficar mais próxima deles. Heitor fazia de tudo
para atender às vontades de sua futura esposa, por isso me perturbara tanto
que acabei cedendo em sua ideia de trocarmos os negócios pelo período de
dois anos. Ele iria para os Estados Unidos e assumiria o comando da empresa
de marketing – apesar de eu ser o sócio majoritário, ele também tinha uma
parte lá. Já eu, passaria esse tempo cuidando das Lojas Lizano, criadas pelo
nosso avô há mais de meio século e grande orgulho da família.
Por mim, sinceramente, não faria muita diferença. Eu tinha uma vida
estabilizada nos Estados Unidos, mas nada que de fato me prendesse lá. No
Brasil, tinha minha mãe, Joana e bons amigos. Dois anos por ali seriam muito
interessantes.
— Não vai tomar café? — Joana perguntou, me arrancando de meus
pensamentos.
— Não. Vou deixar para comer algo lá na reunião.
— Reunião? Chame de ‘farra’, que é mais honesto.
— A farra é só a noite, Jojo. Agora durante o dia será só uma reunião.
Com piscina, bebidas e churrasco, mas ainda assim uma reunião.
Dei outro beijo nela e saí. Peguei meu carro conversível, dirigindo
enquanto sentia o vento em meu rosto. Por ser fim de semana, a pista estava
praticamente livre, o que me trazia uma sensação maravilhosa de liberdade.
Intensificava isso deixando o som em um volume bem alto.
Eu não menti quando disse que era um homem de negócios. Aos vinte e
nove anos, eu era, junto ao meu irmão, herdeiro de uma rede de lojas de itens
de construção e decoração, a maior da região, tendo inclusive uma grande
fábrica para produção de itens exclusivos. Negócio iniciado pelo nosso avô,
assumido por anos pelo nosso pai, e agora inteiramente nosso. Eu não me
envolvia muito, ao menos não até aquele momento. Meu irmão era o CEO
responsável pela franquia, já que eu há anos me dedicava à empresa de
Marketing que criei nos Estados Unidos. Como o capital para a criação veio
em grande parte do nosso pai, com a sua morte Heitor agora tinha direito a
uma parte dela, e veio daí a proposta de trocarmos os comandos por algum
tempo.
Muita coisa tinha mudado nos anos em que estive fora. Agora já tínhamos
vinte e cinco lojas por todo o país, algumas já chamadas de “mini-
shoppings”, e estávamos prestes a inaugurar a vigésima sexta. Eu era um bom
administrador e pretendia, agora, acompanhar todo o trabalho de perto.
Sempre fui bem responsável no que dizia respeito aos negócios. Porém, fora
do meio empresarial, eu era só um cara que queria curtir a vida. Festas e
mulheres eram rotina para mim, não importava em que lugar do mundo eu
estivesse.
Dirigia a caminho da casa de um amigo, que estava dando uma festa
nesse dia. Desviei por um momento os olhos para o rádio do carro na
intenção de passar uma música que eu não gostava e, quando voltei a levantar
o rosto me assustei ao ver alguém atravessando a pista na minha frente. Pisei
com força no freio, parando apenas a poucos centímetros de atropelar uma
garotinha que andava com um cachorro.
— Meu Deus! — praticamente gritei, nervoso. — Você está bem?
Desci do carro, indo até a menina que, provavelmente também devido ao
susto, tinha praticamente paralisado no meio da pista. Ela devia ter uns cinco
ou seis anos, tinha um cabelão loiro bem comprido e trazia na guia um
cachorro vira-lata caramelo que era quase maior do que ela.
Ela me encarou por alguns segundos, com os olhos arregalados, até que
tomou fôlego e gritou:
— Mas qual é o seu problema, moço? Quase nos atropelou! Olha como o
Joe está assustado!
Joe devia ser o nome do cachorro, obviamente. Mas ele não me parecia
assustado. Tinha se sentado e olhava distraído para as pessoas passando na
calçada.
— Desculpe, garotinha. Mas você deveria olhar para os dois lados antes
de atravessar.
— E você deveria respeitar o sinal vermelho!
Mas que sinal?
Ela apontou para algo atrás de mim e só então avistei o semáforo que
nesse momento mudava de vermelho para verde. Ela tinha razão, eu não tinha
visto. Não era minha culpa, ele não estava ali na última vez que eu tinha
estado na cidade, há... uns três anos?
— Olha, está certa, eu sinto muito por isso. Mas você não se machucou,
não é? Então vá para casa, porque crianças do seu tamanho não deveriam
andar por aí sozinhas.
— Não estou sozinha. Minha tia está bem ali. Ela está trabalhando e eu
vim trazer o Joe para passear um pouco.
Ela apontou para o outro lado da rua, mas especificamente para uma
mulher sentada em uma mesa na calçada em frente a uma lanchonete,
conversando animada com um cara. Suspirei, pensando em algo para
recompensar o susto que dei à pobre menina.
Só consegui pensar em uma coisa. Abri minha carteira e peguei uma nota
de cinquenta reais, entregando para ela. Ela olhou para aquilo confusa e
franziu o cenho, me encarando como quem pergunta por que eu estava
fazendo aquilo.
— Isso é só um presente. Compre um doce para você. É um modo de
recompensar o susto que eu te dei.
— Você deu um susto no Joe também.
Voltei a olhar para o cachorro que, repito, não parecia nada assustado.
Mas permiti-me ser extorquido por uma criança e peguei outra nota de
cinquenta, entregando as duas para ela.
— Compre algo para o Joe também. Mas volte para perto da sua tia, é
perigoso uma criança ficar andando sozinha por aí.
Ela pegou as notas da minha mão e as enrolou, colocando dentro de uma
bolsinha de mão que carregava.
— E você, vê se presta atenção no trânsito. É perigoso um motorista ruim
como você ficar andando por aí com um carro.
— Sofia! — ouvi a mulher a gritando. A tal tia apenas agora parecia ter
notado que a menina tinha se afastado e vinha em nossa direção. Quando me
olhou, ela pareceu intrigada, e algo me dizia que ela me reconhecia. Bem, não
seria estranho. Eu não era exatamente famoso ou uma celebridade, mas
aquela era uma cidade que não era tão grande assim, onde toda a elite
econômica se conhecia, e o restante da população conhecia alguns nomes
mais influentes. Henrique e Heitor Lizano – eu e meu irmão – éramos donos
de uma grande rede de lojas nascida naquela cidade e que alimentava boa
parte da economia local. Não é como se minha cara fosse conhecida, não era
nenhum pop star, mas sempre tinha um ou outro que já a tinha visto antes em
algum lugar.
E, bem... não seria estranho, também, se eu tivesse dormido com aquela
mulher durante os últimos dez dias em que eu estava por ali, ou mesmo em
alguma de minhas rápidas visitas anteriores. Eu não me lembrava do rosto
dela, mas... eu geralmente não guardava rostos mesmo.
A petulantezinha me deu mais uma olhada, antes de seguir atravessando,
indo para perto da tia.
E eu voltei a entrar no carro e segui meu caminho. Aquele incidente não
iria me desanimar. Tinha inúmeros planos para o final de semana.
Capítulo 2
"Eu queria tudo que nunca tive

Como o amor que vem junto com a luz

Eu senti inveja e odiei isso

Mas eu sobrevivi"

(Alive - Sia)

Sábados costumavam ser os dias mais puxados da semana. Mas eu não


reclamava. Se estava puxado, era porque tinha trabalho para mim, e eu
deveria me sentir grata por isso, porque não era sempre que acontecia.
Esses dias geralmente eram ocupados por bicos como garçonete em
alguma festa. Conhecia a dona do buffet há anos, e ela me ajudava muito me
chamando para esses eventos. Não era muito dinheiro, mas ajudava demais.
Às noites eu tinha o meu trabalho fixo como atendente em um barzinho. O
salário também não era grande coisa – se fosse, eu não precisava pegar os
extras das festinhas aos fins de semana – mas era algo certo, além das
gorjetas, que ajudavam muito.
O intervalo entre um trabalho e outro representava mais um momento
corrido do meu sábado: a troca de babás.
Minha prima Sara era dona de uma pequena lanchonete, onde trabalhava
de segunda à segunda, mesmo assim aos sábados aceitava cuidar da minha
filha para mim, mas apenas durante o dia, porque à noite ela não abria mão de
suas saídas com os amigos. Porém, como à noite o meu trabalho era fixo, eu
tinha uma babá contratada.
Desci do ônibus e do outro lado da rua avistei minha filha sentada em
uma das mesas que ficavam na calçada em frente à lanchonete, parecendo
distraída desenhando algo em uma folha de papel, com o nosso cachorro –
Joe, um mestiço de labrador com vira-lata – deitado no chão aos seus pés.
Terminava de atravessar a rua quando ela me viu e largou o que fazia, vindo
correndo em minha direção e me recebendo com um abraço. Sara veio logo
atrás. Apesar de sermos primas, éramos fisicamente muito diferentes. Sara
tinha a pele negra como a de seu pai – marido da minha tia –, os cabelos
crespos e curtos e devia medir uns dez centímetros a mais do que os meus
1,60. A diferença de altura junto à de idade – ela era cinco anos mais velha
que eu – contribuía para que ela sempre tivesse sido para mim como um
espécie de irmã mais velha super protetora. Sinceramente, não sabia o que
faria da minha vida sem ela. Já eu tinha os cabelos compridos e lisos,
levemente ondulados nas pontas, em um tom claro de castanho.
Antes de qualquer cumprimento, ela já veio logo contando:
— Você não sabe o que sua filha aprontou.
Estava já com Sofia no colo e olhei bem em seu rosto. Por baixo dos
óculos que usava para fazer atividades escolares, ela desviou os olhos como
fazia sempre que aprontava algo.
— O que a senhorita fez? — questionei, pausadamente.
— Pedi para ela ficar sentada e quietinha enquanto eu conversava com
um cliente, e ela decidiu atravessar a rua sozinha.
— Eu tava levando o Joe pra passear! — a pequena se defendeu.
Antes que eu pudesse dar qualquer bronca, Sara prosseguiu:
— Por pouco ela não foi atropelada.
— Meu Deus! — eu praticamente gritei, sentindo meu sangue gelar só de
imaginar tal hipótese. — Sofia, por que foi fazer isso?
— Tia Sara já brigou comigo, mamãe. Eu não vou fazer de novo.
— Não vai mesmo. Vamos ter uma conversa muito séria em casa,
mocinha!
Ela fez bico e desceu do meu colo, cruzando os braços.
Olhei para minha prima.
— Como você não viu isso, Sara?
— Desculpa, Lu. Eu realmente me distraí por alguns minutos. Os clientes
querem atenção, não dá para ignorar, você sabe.
É, eu sabia. Minha prima tinha o trabalho dela, e já fazia muito por
mim olhando Sofia – de graça – nos sábados em que eu era chamada para
trabalhar em alguma festa.
De qualquer maneira, aquilo não era o ideal, e esse era o meu grande sinal
de que eu não deveria mais deixá-la lá. O dinheiro, infelizmente, faria muita
falta, mas a segurança da minha filha vinha em primeiro lugar.
— E você não sabe quem era o motorista — ela voltou a falar.
— Quem? — Imaginei que fosse algum conhecido.
— Henrique Lizano.
Em um primeiro momento, o nome não me disse nada, mas levou apenas
alguns segundos até que o sobrenome me soasse familiar. Como ignorar, se
era justamente o nome da grande loja tão importante na cidade?
A qual eu, particularmente, nutria uma grande antipatia.
Contudo, o primeiro nome ainda seguia me causando estranheza.
— Não era outro o nome do CEO de lá?
— Heitor? Ah, sim. Henrique é o irmão dele, parece que veio do exterior
para assumir os negócios, não sei porque.
Bem, a verdade é que ela já sabia de coisa demais.Eu mesma desconhecia
que ela tinha todo aquele conhecimento sobre os Lizano.
Voltei a focar no que interessava: o quase atropelamento da minha filha.
E meu sangue ferveu.
— Era só o que faltava. Esse estúpido não viu uma criança
atravessando a rua?
— Sofia disse que ele passou direto pelo sinal vermelho.
— Típico desses ricos, acharem que podem tudo!
—Mas, por falar neles... Eu nem sabia que cara esse sujeito tinha, mas
hora estava conversando exatamente sobre eles com o Jonas, foi ele que o
reconheceu e me contou quem era.
Não pude evitar revirar os olhos, enfim entendendo o motivo de tanta
distração.
— O Jonas, né? Sei...
— Não é nada do que está pensando, Lu. Ele trabalha para as Lojas
Lizano, e tem certa influência lá. Sabe que vão inaugurar uma nova loja
semana que vem, logo ali na rua da frente, e ainda estão contratando
vendedores? Falei de você, e ele disse que é só levar o seu currículo, que ele
garante que será contratada.
— Em uma loja da Lizano, Sara? Por favor! Você sabe que eu odeio
aquele lugar.
— E sei também que está precisando de um emprego em horário
comercial. Vive reclamando de ter que trabalhar à noite e deixar a Sofia com
uma babá.
Ela tinha razão, no fim das contas. Mas naquele momento, eu não tinha
nem tempo de pensar a respeito daquilo. Precisava me organizar para ir para
o trabalho.
Sendo assim, despedi-me dela, agradeci por ter novamente cuidado de
Sofia e, de mãos dadas com minha filha, segui por duas quadras até a nossa
casa. Logo que entramos, ela se adiantou em quebrar o silêncio, tentando
escapar da bronca:
— Não foi culpa minha, mamãe. Eu atravessei com o sinal certo, como
você me ensinou. O moço é que passou direto pelo vermelho.
Suspirei, sentando-me no sofá e assim ficando com os olhos à altura dos
dela. Joe pulou para se deitar ao meu lado, completamente despreocupado
com a conversa.
— Quando eu te ensinei a atravessar a rua, deixei bem claro que você não
pode fazer isso sozinha. Tem sempre que ter um adulto por perto.
— Eu sei, mamãe. Não vou fazer mais, prometo.
— Acho bom que não faça mesmo. Podia ter se machucado, Sofia.
— Eu sei. A tia Sara me falou. Ela ficou muito brava comigo. E você
também está.
— Eu não estou brava. Estou triste por você ter nos desobedecido. É para
ficar sentadinha enquanto a tia Sara está atendendo.
Ela movimentou a cabeça em concordância e pareceu se distrair por
alguns instantes, pensando em outra coisa.
— Mamãe, sabe o moço que dirigia? Ele parou o carro e veio falar com a
gente. Comigo e com o Joe.
— Pelo menos isso. Ele foi ver se você estava bem?
— Não, ele nos deu isso daqui.
Ela colocou a mão dentro de sua bolsinha de pelúcia cor de rosa e de lá
tirou duas notas de cinquenta reais. Eu mal conseguia acreditar no absurdo
que era aquilo.
— Ele te deu... dinheiro?
— É. Acho que ele é rico. Tinha que ver o carrão dele. A tia Sara disse
que ele é dono daquele lojão que vai inaugurar.
— Ele tentou te levar a algum lugar? Te chamou para entrar no carro? —
Mil hipóteses assustadoras se passaram pela minha mente, relembrando
histórias horríveis que já tinha ouvido sobre rapto de crianças para os mais
horripilantes propósitos. Na maioria das vezes os criminosos as atraíam
oferecendo doces, brinquedos, ou mesmo dinheiro. Meu estômago revirou,
devido ao pânico de pensar nas coisas que poderiam ter acontecido à minha
filha.
— Não, mamãe. Ele disse que era para.. como era mesmo? Recom...
recompi...
— Recompensar?
— Isso! Pelo susto que ele deu em mim e no Joe.
Apesar do alívio de descobrir que não se tratava de um criminoso
sequestrador de crianças, eu bufei, ainda indignada.
— Era só o que me faltava. Avança um sinal vermelho, quase mata a
minha filha e tenta comprar as desculpas dela com dinheiro. Arg, odeio esses
playboys idiotas que parecem estar se proliferando pela cidade!
— Não posso ficar com o dinheiro então, mamãe?
Ela fez um biquinho e aquilo quebrou o meu coração. Óbvio que se eu
estivesse com ela na hora não a deixaria aceitar aquele dinheiro. Mas, agora,
já era tarde demais para devolver. Ela provavelmente não voltaria a encontrar
aquele idiota.
Ao menos, eu desejava que não.
— Não pode aceitar dinheiro de estranhos, Sofia. Nem dinheiro, nem
comida, nem brinquedos... nada, entendeu? Em hipótese alguma!
— Quer que eu jogue ele fora?
— Não, né? Agora você já aceitou. Podemos comprar com ele alguma
coisa para você e uns petiscos para o Joe.
— Eu conversei com o Joe e a gente teve uma ideia melhor para esse
dinheiro, mamãe. Queremos que você coloque no cofrinho da sua loja.
Por um momento, vi-me sem fala, emocionada com a atitude da minha
filha. Há muitos anos que eu vinha juntando todo o dinheirinho que sobrava
no fim do mês – isso é: quando sobrava – em uma poupança, com a intenção
de realizar o meu grande sonho, que era montar o meu próprio ateliê para
trabalhar com os móveis que eu reformava na garagem; onde eu pudesse
expô-los e comercializá-los. Eu já os anunciava pela internet, onde as vendas
ocorriam mesmo que de forma lenta, mas ter o meu próprio espaço era um
sonho que eu trazia em mim desde menina. Só que acabei sendo mãe antes do
planejado, e isso fez minhas prioridades mudarem drasticamente, arrastando
meu sonho cada vez mais para frente.
Cem reais não era um valor que faria uma diferença tão vital assim para a
compra de um imóvel, mas Sofia demonstrava acreditar nisso, e ela estar
abrindo mão de comprar algo para si própria me emocionava demais.
— Você tem certeza disso, querida?
— Claro que tenho, mamãe. Nós vamos comprar a nossa loja, e com isso
você ainda vai ter que trabalhar muito, mas eu vou poder ficar perto de você.
— Não acredito que o Joe vá querer abrir mão do dinheiro dele. Sabe que
ele gosta muito de petiscos — brinquei.
— Ele quer sim, mamãe. Tanto que concordou na hora com a minha
ideia. Contei que você vai fazer uma casinha de madeira para ele, bem bonita
e colorida, em um cantinho da loja, para ele ficar lá com a gente.
— Foi um ótimo argumento para convencê-lo, então.
— Com essas notas já vai dar pra comprar a loja?
— Ainda não. Vamos precisar de mais ‘algumas’ delas.
— Mas elas vão ajudar muito, não vão?
— Vão sim, meu amor. Vão sim.
Coloquei-a sentada no meu colo, abraçando-a com força. Ficamos em
silêncio por alguns instantes, até que ela, responsável demais para os seus
seis anos de idade, me lembrou:
— Precisa trocar de roupa para ir pro trabalho, mamãe. Ou vai chegar
atrasada.
Eu simplesmente odiava aquilo. Trabalhando em um bar, eu tinha apenas
uma noite livre por semana. Nas outras, estava em casa no horário em que
minha filha estava na escola, e quando ela voltava eu saía para trabalhar.
Chegava muito tarde, e já a encontrava dormindo. Passávamos juntas apenas
algumas horas pela manhã, em que eu a ajudava nos deveres de casa,
preparava o almoço e a arrumava para levá-la ao colégio. Sentia que aquilo
não era o suficiente e que estava perdendo o crescimento dela. Perdendo
coisas como colocá-la para dormir e contar histórias, ou ficar ao lado dela
quando tinha pesadelos.
Andava distribuindo currículos em outros comércios da cidade e torcia
muito para logo ser chamada para algum. Um trabalho em horário comercial
era tudo o que eu queria naquele momento.
Claro, nem perto do tanto que eu queria conseguir comprar o meu próprio
imóvel e construir nele o meu ateliê.
— Tem razão. Anda, venha me ajudar a escolher uma roupa.
— Mas você usa sempre o mesmo uniforme, mamãe.
— É, tem razão de novo. Vou te ajudar a escolher o seu pijama, então.
Fiz cócegas nela, conseguindo uma deliciosa gargalhada como resposta.
Aquilo me dava ainda mais tristeza em ter que sair e deixá-la com uma
babá.
Mas eu sabia que, de alguma forma, Sofia entendia que era por ela que eu
fazia aquilo.
Capítulo 3
“Eu perderia se apostasse o meu coração em você?

Isso é real? É falso? Você iria embora? Você ficaria?

Será que a noite vai virar dia?

Será que ficaremos mais próximos?

Ou será que acabaria?”

(Bet my Heart - Maroon 5)

O meu sábado estava sendo aproveitado como devia ser. Durante todo o
dia, curti a festa na mansão de um amigo, com direito a piscina, muita bebida
e mulheres maravilhosas. Depois dela, foi apenas o tempo de passar em casa,
tomar um banho rápido e trocar de roupa, e já segui para a segunda rodada.
Dessa vez, um programinha mais leve: um barzinho, acompanhado por outro
grupo de amigos.
O lugar escolhido por Heitor, o amigo em questão – que, aliás, também
era meu sócio e, não menos importante, meu irmão – era um barzinho mais
‘classe média’, bem menos luxuoso do que os que costumávamos frequentar,
mas bem aconchegante. Eu nunca tinha ido lá, e confesso que gostei do
ambiente. Especialmente porque era muito bem frequentado, cheio de
mulheres maravilhosas. Para mim, a ‘caçada’ fazia parte da noite. Era só
escolher uma garota, certificar-me de que não estava acompanhada, flertar
por algum tempo, pagar um drink ou dois, ainda à distância, enquanto curtia a
conversa com os amigos. Ao final da noite, vinha a finalização: a
aproximação, mais alguns flertes, mais um drink e um convite para conhecer
a minha casa. Não falhava nunca.
— Olha aí o Rick já caçando a presa da noite — Joca, um dos meus
amigos, comentou em tom de zombaria.
— Só se vive uma vez — rebati, erguendo meu copo em um brinde.
Meu irmão Heitor, como de costume, não perdeu a oportunidade de
fazer uma crítica disfarçada de elogio:
— Se tem um cara que sabe usar bem os seus privilégios, esse cara é
o Henrique. — Ele também ergueu o próprio copo. — Desde que ele voltou
ao Brasil, toda manhã eu me deparo com uma mulher diferente saindo da
minha casa.
A casa não era exatamente ‘dele’. Era herança do nosso pai, e ele
apenas a usara durante os últimos anos. Agora, eu é que iria assumi-la. Mas
preferi não focar nisso.
— Ser um sujeito irresistível não deixa de ser um privilégio — rebati,
embora soubesse que não era a isso que ele se referia.
— Você poderia ser horroroso, irmão. Não faria qualquer diferença. As
mulheres vão como moscas em cima de você por conta de outros atributos
seus, sabe disso.
— Se fosse assim, creio que estariam também em cima de você, Heitor.
Temos o mesmo sobrenome e somos sócios. Aliás, seu rosto é conhecido pela
cidade, o meu não.
Ele levantou a mão, exibindo a aliança de noivado. Revirei os olhos.
Heitor namorava com a mesma menina desde os seus dezesseis anos. E era
um cordeirinho fiel. Nem sei por que ainda saía com a gente, já que nunca se
permitia esticar a noite com alguma mulher.
Não que ele fosse tão bonito quanto eu, mas... tinha lá o seu potencial.
Era uma pena que não usufruísse disso.
— Nunca entenderei essa tara por monogamia... — respondi ao gesto
dele.
— Para alguém como você, deve ser realmente difícil entender o conceito
de gostar de uma pessoa pelo que ela é.
— Iiiih, já vão começar com as provocações? — Paulo, outro amigo que
estava à mesa conosco, questionou. Joca concordou com ele.
— Sempre assim. Esses dois parecem estar em uma eterna competição.
Joca disse muito bem. Competição era a palavra certa. Desde crianças que
meu irmão e eu estávamos sempre competindo por alguma coisa. Nossa
diferença de idade era de apenas um ano e meio – sendo eu mais velho –
então até ele conhecer a Bruna, sua noiva, disputávamos as meninas na
escola. Mas mesmo ele tendo saído do mercado tão jovem, ainda
competíamos por qualquer outra coisa. De campeonatos online de videogame
a fechamentos de contratos para as empresas, tudo virava uma disputa. Foi
em uma aposta daquele tipo que acabei tendo que aceitar a troca de comando
das empresas com ele. Não que eu tivesse qualquer objeção a passar algum
tempo no Brasil, mas o interesse principal era dele e eu nunca estava disposto
a ceder tão fácil a qualquer coisa que ele quisesse. Nossas competições eram
nesse nível.
E eu estava disposto a transformar aquilo, também, em mais uma.
— É a primeira vez que venho aqui, irmão. Pode ser que nas festas nas
casas de amigos logo corra a notícia sobre quem sou eu, mas por aqui
ninguém me conhece se eu não disser o meu sobrenome. Escolha uma
mulher, qualquer uma, que vou te mandar uma selfie pela manhã, acordando
ao lado dela, sem que ela saiba quem eu sou.
— Levando-a para a nossa mansão? Seria um ótimo argumento.
— Ela é que vai me levar para a casa dela, mano. Nem carro eu tenho,
serei só um sujeito humilde.
Ele riu e tomou mais um gole da bebida, enquanto percorria os olhos ao
redor, à procura da garota ideal. Eu já podia imaginar que ele faria uma
escolha muito aleatória apenas para me irritar.
— É melhor que eu escolha — intervi.
— Tudo bem, escolha. Mas eu terei que aprovar.
Fui com os olhos diretamente para o balcão, onde uma atendente de cara
chamou a minha atenção. Era uma coisinha linda, com os cabelos castanhos
presos por um rabo de cavalo no alto da cabeça e usando um uniforme que eu
julgava muito sexy. Não via a hora de tirá-lo.
— A mocinha do bar — declarei, enfático.
Heitor não pareceu aprovar a escolha.
— Bonita demais, irmão. Não quero dar essa moral toda para você.
Bufei, mas aceitei escolher outra, embora meu foco se mantivesse naquela
gracinha de uniforme. A duas mesas de nós, estava uma loira. Não era tão
gata quanto a garçonete, mas era muito bonita.
— Aquela ali, então?
— Ela sabe quem você é, Henrique.
— Como pode ter certeza disso?
— Porque o nome dela é Renata. Sei disso porque ela se apresentou para
mim na curta conversa que tivemos, há uma semana, quando eu a vi saindo lá
de casa pela manhã.
Certo, como eu disse: eu raramente lembrava de rostos ou de nomes. Ao
contrário do meu irmão, que tinha uma memória fotográfica.
— Se é assim, voltamos à garçonete. Parece uma moça simples, não deve
me conhecer.
— Tá... tudo bem. Vai fundo na garçonete.
— Ah, eu vou. Bem fundo mesmo. Pode ter certeza.
Voltei a beber e nossos amigos – já um pouco cansados das minhas
apostas com o meu irmão – já tinham até mesmo entrado em outro assunto
paralelo. Heitor e eu éramos assim, afinal: tudo virava motivo para apostas.
Eu tinha perdido a nossa última, e agora estava ali. Não pretendia perder mais
uma vez.
— Valendo o que dessa vez? — instiguei. Se a vitória me era certa, eu
queria saber o que eu ganharia com aquilo.
— Quero o seu conversível.
No momento que ele falou eu levava o copo à boca, então quase
engasguei. Eu tinha comprado aquele carro há duas semanas, logo que
cheguei ao Brasil. Ainda estava com cheirinho de novo.
— Qual é, Heitor! Você tem grana para comprar um carro como o meu.
Vai, em vez disso, gastar dinheiro levando-o para outro país?
— Tenho e pretendo continuar tendo, jamais gastaria tanto em um carro,
maninho. Mas, se for ganhado em uma aposta, será muito bem-vindo. Não
pretendo levá-lo comigo, mas sabe que voltarei ao Brasil duas ou três vezes
por ano, no mínimo. Ele estará na garagem me esperando para eu usar
quando estiver por aqui. A não ser que esteja com medo de perder, daí
podemos pensar em algo menor...
— Não tenho medo, porque não vou perder. — Obviamente, eu já tinha
bebido demais, e meu irmão também. Eram nesses momentos que nós
acabávamos nos excedendo nos prêmios das apostas.
Certa vez, em uma de minhas visitas ao Brasil, eu o acompanhei na
inauguração de uma loja em uma cidade do interior e apostamos um cavalo
bonito que descobrimos que estava à venda. Eu venci, Heitor foi obrigado a
comprar o animal para mim. Acabou virando um presente para o nosso pai,
ainda vivo na época, porque o deixei na fazenda dele. Afinal, eu não tinha
como levar um cavalo comigo para os Estados Unidos.
— Então, tudo acertado. Vá fazer a sua parte — meu irmão concluiu.
O inferno que estava tudo acertado.
— Eu ainda não disse o que eu vou querer quando eu ganhar.
— Se você ganhar.
— Quando eu ganhar. Já que você jogou alto na aposta... sabe aquele
quadro bem na entrada da sala lá de casa?
O semblante descontraído dele deu lugar a uma expressão séria. Ele sabia
muito bem de que quadro eu estava falando. Nosso avô o havia adquirido em
um leilão na Itália, há umas três ou quatro décadas. Meu irmão e eu o
adorávamos quando éramos moleques, mas foi Heitor o escolhido pelo nosso
velho avô para ficar com tal obra, já que ele supostamente apreciava arte bem
mais do que eu. Sabia definir períodos, estilos e tudo mais, enquanto eu não
sabia nem mesmo o nome do pintor. Só que ele era bonito e, caramba,
combinava muito com os móveis da casa.
— Isso é golpe baixo... — Heitor resmungou. — Sabe que pretendo levar
aquele quadro comigo quando me mudar. A Bruna também o adora.
— Você me parece tão certo da vitória, que não deveria estar preocupado.
Ele pareceu pensar por um instante e eu poderia jurar que iria desistir.
Mas se existia algo em que eu e meu irmão éramos parecidos, era na
teimosia. Portanto, ele estendeu a mão, a qual eu apertei, selando nossa
aposta.
Já começava a planejar mentalmente mudar o local do quadro, colocando-
o na sala de jantar, achava que combinaria bem mais.
Ali mesmo na mesa, iniciei o jogo. Lancei alguns olhares para a
garçonete, que ainda levou algum tempo até parecer percebê-los, mas não me
deu muita confiança. Explicável, já que a todo tempo alguém encostava no
balcão pedindo alguma coisa. O trabalho parecia puxado, pois ela não parava
um só minuto.
Em um momento em que um garçom veio à mesa, decidi usar a velha
tática de escrever um bilhete em um guardanapo e pedir para que o
funcionário levasse até ela. Quando ele assim o fez, eu tive a confirmação de
que tal estratégia nunca falhava, porque, ao terminar de ler, ela olhou em
minha direção e sorriu levemente. Mas logo outro freguês chegou, pedindo
uma bebida, e ela parou de me olhar para atendê-lo.
A primeira isca já tinha sido jogada e foi prontamente aceita. Eu não tinha
mais qualquer sombra de dúvidas de que ganharia aquela aposta. Na verdade,
nunca cheguei a ter. Se todo o status e a influência do meu nome e do meu
dinheiro tinham seu peso, este ainda assim era só uma pequena fração de todo
um pacote. Eu me garantiria muito bem sem aquilo.
Paulo logo se levantou para conversar com uma garota e, algum tempo
depois, voltou à mesa apenas para se despedir e foi embora com ela. Joca
também não demorou a se arranjar. Sobramos apenas eu e Heitor, e ele, após
mais algumas provocações, resolveu que também estava na hora de ir.
— Vai logo antes que a Bruna venha com um rolo de macarrão na mão
para te levar para casa.
— Ela não faria isso, porque confia em mim.
— Ela sabe que você é um otário. Anda, vai logo e aproveita para se
despedir do seu amado quadro quando chegar em casa.
— Melhor que você se despeça do seu carro.
— Não demore muito para ir dormir, porque vou te acordar com uma foto
minha acordando com aquela gracinha ali ao meu lado.
— Se ela souber quem você é...
— Não vai saber. Vou jogar limpo, tenha certeza. Sei ser um ótimo ator
quando quero. Ah, e antes de ir, pague a conta. Lembre-se que sou apenas o
amigo pobre do grupo.
Ele riu, assentiu e, após fazer o que eu pedi, foi embora. Tomei o último
gole do meu drink, dando uma boa olhada na belezinha que seguia
trabalhando atrás do balcão.
Era hora de agir.
Capítulo 4
“Eu te conheci no escuro

Você me acendeu

Você me fez sentir como se

Eu fosse o suficiente”

(Say You Won't Let Go - James Arthur)

Ter um cara flertando comigo durante o expediente não era algo novo
para mim. E não havia nenhuma presunção da minha parte em dizer isso, mas
o meu ambiente de trabalho era um local bem propício a esse tipo de coisa.
Contudo, meu procedimento era sempre o mesmo, o de não dar muita
confiança a isso. Em geral, os caras desistiam, e eu imaginei que fosse isso o
que ele também iria fazer. Mas percebi que era bem insistente quando um
colega chegou me trazendo um guardanapo com um bilhete escrito.

Um mulher linda como você teria algum impedimento em me


acompanhar em uma bebida?
Eu o olhei novamente e a forma como ele me encarava profundamente
acabou fazendo com que um sorriso bobo escapasse de meus lábios. Oras, eu
era uma profissional, mas, no fim das contas, também era uma mulher. Ver o
interesse de um homem lindo como aquele por mim não deixava de mexer
com o meu ego.
Embora parecesse um pouco fazer o estilo playboy – que eu detestava
com todas as minhas forças – eu não poderia negar que ele era realmente o
que eu poderia classificar como um homem lindo. Tinha os cabelos castanhos
e curtos, e uma barba curtinha que eu considerava um charme. Porém,
infelizmente eu não podia me dar ao luxo de deixar qualquer coisa rolar, por
isso simplesmente voltei ao meu trabalho. Achava que o bonitão iria fazer
como todos os outros: cismar com alguma outra mulher bonita – estava cheio
delas por ali – e encerrar a noite com qualquer uma delas. Não contava que
algum tempo depois ele apareceria diante do balcão. Cheguei a sobressaltar,
surpresa ao dar de cara com ele. De perto ele conseguia ser ainda mais bonito.
— Oi — ele falou, enquanto abria um sorriso.
Meu Deus, ele tinha dentes perfeitos. Era uma ótima visão, no fim das
contas.
— Boa noite — respondi, ativando o modo profissionalismo. — Deseja
beber algo?
Ele me mediu de cima a baixo e eu me senti como se estivesse sendo
despida por aquele olhar. Não era bom um homem tão lindo me olhar de
forma tão profunda. Eu estava há muito tempo sozinha. Tempo demais para
conseguir ser indiferente àquela situação.
Bem, uma massagem no ego ia bem de vez em quando, não é?
— Uma cerveja, por favor.
O pedido foi uma surpresa. Imaginei que ele fosse pedir algum drink mais
sofisticado. Pelo que pude observar, era o que ele bebia quando estava na
mesa.
Não que eu o estivesse observando.
Parecendo ler a minha mente, ele explicou:
— Era aniversário de um amigo que tem um padrão de vida bem melhor
que o meu, até vesti minha melhor roupa para vir aqui. A conta da mesa foi
toda dele. Agora que ele foi embora, vou ter que consumir algo mais simples.
Eu não sabia por que ele estava me dando tal satisfação. Sobre as roupas,
notei que ele estava bem vestido, mas sinceramente não saberia se seriam
peças de grife ou de uma loja de departamento, eu realmente não me
interessava e, consequentemente, não entendia nada dessas coisas. Apenas
esbocei um sorriso de simpatia em resposta e me virei para o freezer vertical,
onde as garrafas de cerveja ficavam, apanhando uma delas e colocando sobre
o balcão, onde a abri. Em seguida percorri os olhos pelo balcão, vendo se
algum outro freguês faria um novo pedido. O bonitão voltou a falar,
chamando novamente minha atenção para si:
— Ainda estou esperando pela resposta ao meu bilhete.
Recapitulei as palavras lidas naquele pedaço de papel, antes de responder:
— Desculpe, mas estou trabalhando. Acho que isso conta como
impedimento. O lugar está cheio de mulheres jovens e bonitas, estou certa de
que alguma delas vai querer acompanhá-lo.
— Realmente, há outras mulheres jovens e bonitas... Mas nenhuma delas
chamou a minha atenção como você.
Era lisonjeiro, mas confesso que a parte sobre ser jovem e bonita me soou
meio estranha. Não que eu não me considerasse bonita, mas... apesar de meus
vinte e cinco anos, eu sentia como se houvesse em minhas costas um peso
dobrado dessa idade. Ter sido mãe solo fez com que eu assumisse um mundo
de responsabilidades e obrigações, me obrigou a amadurecer vinte anos em
seis. Coisas como flertes descompromissados e namoros agora me pareciam
uma realidade muito distante.
Mas, bem... é claro que o carinha bonito não precisava ouvir toda essa
história.
— Eu sinto muito. Mas meu expediente vai até as três da manhã.
Ele voltou os olhos para o relógio que decorava a parede atrás do balcão,
voltando a me olhar em seguida.
— Bem, temos pouco mais de uma hora até lá. Eu não me importo de
esperar.
Acho que ele não havia entendido.
— Quando acabar com tudo aqui, eu preciso ir para casa.
— Entendo. Pais rígidos?
Isso era outra coisa que parecia bem distante da minha realidade atual.
Minha mãe morava em outra cidade e meu pai já era falecido há alguns anos.
— Não, eu não moro mais com os meus pais.
— ...Um marido ciumento, então?
— Não, sou solteira. — Quando terminei de dizer tais palavras, vi um
meio sorriso surgir no rosto dele. Droga! Era tudo o que ele queria saber.
Confesso que minha resposta tinha sido completamente sincera e inocente.
Como eu disse, há tempos não dominava mais a arte do flerte. — Eu apenas
preciso ir para casa — completei, ainda tentando soar simpática e educada,
mas com um tom de voz firme para não dar margens a insistências.
— Bem... posso te acompanhar, então. Até o seu carro, ou até o ponto de
ônibus, táxi, Uber, bicicleta... como você fizer para ir embora.
— Daqui até o ponto de ônibus não são nem dois minutos.
— Cada um deles valeria a pena.
Outro freguês me chamou, na outra ponta do balcão, e eu quase agradeci
por isso. Não que aquele homem estivesse, de fato, me incomodando. Era
insistente e eu tinha um palpite de que era um cafajeste sedutor, mas não era
desagradável ou mal educado, como muitos que já passaram por ali. Não
parecia ser do tipo que tentaria me seguir na rua ou me agarrar à força.
Bem, não que desse para saber disso apenas por sua aparência ou por
meia dúzia de palavras trocadas. Eu não era uma pessoa que costumava
confiar facilmente nos outros. Especialmente em estranhos.
Quando me afastei para atender a outra pessoa, outras acabaram me
solicitando e, com isso, eu acabei ficando por quase meia hora do outro lado
do balcão. Retornei para atender a um casal e me surpreendi ao ver que o
bonitão permanecia ali, agora com a garrafa de cerveja já vazia, balançando
em minha direção em um sinal silencioso de que queria mais uma. Depois de
atender o casal ao seu lado, eu apanhei mais uma garrafa no freezer,
entregando a ele.
Tentei ser o mais educada possível:
— Se está mesmo aguardando por mim, falei sério quando disse que
preciso ir embora.
— E eu também falei sério quando disse que não me importo de só te
acompanhar até o ponto. Até lá podemos apenas conversar, enquanto você
trabalha. Nenhum impedimento a isso, não é?
De fato, não havia nenhum. Se ele não me atrapalhasse, não me distraísse
ou não fosse inconveniente, que problema teria? Mesmo porque, o
movimento no balcão já começava a cair um pouco.
Talvez fosse até agradável conversar com um homem bonito e lisonjeiro,
afinal.
— Tudo bem. Apenas não poderei lhe dar atenção exclusiva. Estou
trabalhando.
— É uma pena por isso, mas eu aceito as condições. Meu nome é
Henrique. E o seu?
— Luíza.
— Então, Luíza... trabalha aqui há muito tempo?
— Uns três anos. — E não via a hora de sair. Meus patrões eram ótimos,
mas o trabalho – especialmente o horário – era desgastante. Mas, novamente,
não ia desabafar aquilo com um desconhecido, por isso repassei a pergunta
— E você? Trabalha com o quê?
Ele pareceu pensar um pouco antes de responder:
— No momento eu estou desempregado. Como falei, só vim hoje até aqui
porque era aniversário do meu amigo e ele bancou a mesa toda. Duas
cervejas é tudo o que dá para comprar com o meu dinheiro.
Detalhes demais, ao contrário de mim, que tentava contar o mínimo
possível da minha vida. Mas não fui indiferente ao relato dele. Afinal, já
tinha passado na vida por algumas fases de desemprego e sabia o quanto era
angustiante. Ele, diferente de mim, talvez não tivesse o agravante de ter um
filho para sustentar, mas... ainda assim, não era uma situação agradável. Com
isso, acabei me lembrando do que minha prima tinha me dito mais cedo:
— Está procurando por algo em alguma área específica?
— Ah, não... Já fiz muitas coisas na vida. Qualquer emprego eu toparia.
Mas está difícil, né?
— Não sei se você sabe, mas vão abrir uma loja nova da Lizano. Parece
que estão contratando vendedores.
Ele deu mais um gole na cerveja e sorriu.
— Parece um lugar bom para trabalhar.
— Acha mesmo?
— Claro. É uma rede grande de lojas, que nasceu na nossa cidade. Gosto
muito dos produtos de lá, não devem ser difíceis de vender.
Inconscientemente acabei revirando os olhos. Eu tinha uma certa
dificuldade em esconder meus sentimentos com relação a coisas e pessoas, e
isso era muito ruim em alguns momentos. Naquele, eu tentei ser discreta, mas
percebi que não tinha conseguido quando Henrique me perguntou:
— Algum problema?
— Ah, não. Eu só não simpatizo muito com aquele lugar.
— Comprou algo com defeito ou foi mal atendida em alguma loja?
Porque o atendimento de lá é em geral muito bom. Bem, digo... é o que todo
mundo fala.
— É só algo pessoal. Não gosto muito dessa coisa de móveis feitos em
escala industrial. Em geral têm má qualidade e nada de originalidade. E a
Lizano tem fornecedores duvidosos e fábricas sem um mínimo de
responsabilidade social ou ambiental.
Ele arqueou as sobrancelhas, parecendo meio em choque com o meu
discurso. A mesma expressão que eu já tinha visto milhares de vezes em
outros rostos. Esse era um motivo a mais para eu não gostar muito dessa
coisa de ser transparente em minhas opiniões.
Um cliente me chamou e me afastei para atendê-lo, imaginando que
naquele meio tempo Henrique aproveitaria a minha distração para ir embora.
A sinceridade teria ido bem a calhar, no fim das contas. Contudo, ele
permaneceu lá, já com a garrafa vazia em mãos, me olhando como se
esperasse pelo meu retorno.
— Falta apenas meia hora agora — ele comunicou, mostrando que seguia
esperando pelo meu horário de saída.
Sorri, cruzando os braços diante do corpo, me permitindo a um pouco
mais de leveza.
— Sério que vai ficar aí até as três da manhã só pelo prazer de me
acompanhar até o ponto de ônibus?
— Será realmente um enorme prazer.
— Será, na realidade, uma perda de tempo. Acredito que nada vá rolar
entre nós nesses poucos minutos.
— Talvez. Mas quem sabe eu consiga o seu telefone e a gente marque
algo para outro dia em que você esteja com um pouco mais de tempo.
— Sinceramente, eu ainda acho que seria mais vantagem você tentar essa
sorte com alguma outra mulher. Deve estar procurando uma companhia para
o final da noite, e, reforço: eu não sou uma opção.
— Não estou interessado em tentar a sorte com outra mulher. Quero, sim,
a sua companhia, e é por isso que estou usufruindo dela agora.
— Então está dizendo que apenas isso — movimentei o dedo indicador
entre nós — é o suficiente para você?
— Não. Eu adoraria tentar algo mais. Mas saberei ser paciente e, por ora,
apenas a sua companhia em uma conversa num balcão de bar está adorável.
— O que tem de adorável em uma garçonete provavelmente com cara de
cansada e acabada ao final de um dia de trabalho, que precisa parar a todo
momento para atender outras pessoas e que problematizou uma loja que você
parece gostar?
— Eu realmente acho adorável a forma como você faz tudo isso. E... você
já se olhou no espelho? Se essa é a sua versão cansada e acabada num fim de
noite, não sou nem capaz de imaginar como é quando está descansada.
Não consegui deixar de sorrir. O cara era realmente um galanteador. Era
uma pena que ele realmente estivesse perdendo o seu tempo. Não ia
conseguir nada de mim.
Decidida a, naquele primeiro momento, apenas relaxar e deixar aquilo
rolar, voltei ao freezer e peguei mais uma cerveja, entregando a ele após
abrir.
— Ah, não, espera... eu... — ele tentou me deter.
— Essa é por conta da casa. Na verdade, os patrões deixam que a gente
pegue uma bebida ao final do expediente, mas as minhas estão meio
acumuladas, já que eu não bebo.
— Se é assim, vou aceitar. Não é todo dia que uma mulher bonita me
paga uma bebida. Devo encarar como uma investida?
— Encare apenas como um “eu aceito a sua companhia”. Mas sigo
reforçando que não terá mais do que isso.
— Já é um primeiro passo. — Ele tomou o primeiro gole. — Sério que
você não bebe? Isso é bom para quem trabalha em um bar, não é? Não tem o
risco de passar vontade durante o expediente.
— É. Na verdade, eu nunca gostei. Meu pai bebia muito quando eu era
criança, então eu meio que peguei ranço de álcool. Ele não ficava violento
nem nada do tipo... apenas bastante desagradável.
— Sei. Tenho alguns amigos desse tipo. Daí eu preciso beber também,
porque só dessa forma eu consigo aturá-los. Lembro de uma vez que o Heitor
tinha brigado com a namorada, bebeu tanto e ficou tão louco que subiu no
palco do show de aniversário da cidade, e...
— Espera... foi no show há uns três anos? De uma banda de pop-rock?
— É! Isso! Ouviu essa história?
— Não só ouvi, eu estava lá.
Ele tomava um gole nesse momento e, por qualquer razão, engasgou,
começando a tossir. Fiquei preocupada e me aproximei, tocando de leve em
seu ombro.
— Ei, você está bem?
— Estou... eu só engasguei. Desculpe. Você disse que estava lá? Viu a
cara dele, então?
— Ah, não, eu estava super longe do palco. Eu raramente vou a esses
eventos, e quando vou sou a que fica um pouco mais distante da multidão.
Mas isso virou notícia no dia seguinte. O cara não era um dos donos da
Lizano? Você é amigo dele?
Ele tossiu mais um pouco, tentando normalizar a respiração.
— Ah, não exatamente amigo. Temos alguns amigos em comum e às
vezes nos encontramos em algumas saídas. Uma vez ou outra, claro. O cara
frequenta uns lugares que eu não teria como pagar.
— Se tem amigos em comum, ele pode ver para você a questão do
emprego na loja nova.
— É, eu pensei nisso quando você me falou. Vou ver isso durante a
semana.
— Mas me diz... consegue se enturmar bem com esse tipo de gente? Você
parece um cara legal.
Ele fez uma expressão confusa, como se estivesse lisonjeado pelo elogio
e, ao mesmo tempo, intrigado com algo que eu disse.
— Bem, obrigado, mas... os caras são legais também. Digo, o Heitor nem
tanto, mas o irmão dele é bem gente boa.
— O tal que morava nos Estados Unidos? Não é o que eu escuto falar.
Como é mesmo o nome dele? ...Bem, não importa. Mas o que dizem é que é
um esnobe esbanjador de dinheiro, um playboy viciado em farras e que se
envolve com um número interminável de mulheres, as quais depois descarta
como se fossem lixo.
— As pessoas falam demais.
— ...Acho que é Henrique, não é? O nome dele. Como o seu.
— Ah... é... É meu xará. É um nome bem comum, né?
Não dei muita atenção a isso, já que ele tinha razão e aquele era um nome
bastante comum.
— Talvez as pessoas exagerem mesmo um pouco, mas não é tudo
mentira. Hoje mesmo, aconteceu de... — estava prestes a mencionar que o
idiota Lizano quase tinha atropelado a minha filha e decidiu ‘se desculpar’
dando dinheiro a ela, mas fui interrompida por um colega que veio da
cozinha, me informando que tinha uma ligação para mim. Eu sempre deixava
o meu celular guardado na minha bolsa, dentro do armário na cozinha, por
isso informava o número fixo da loja como contato de emergência para
algumas poucas pessoas.
Pedi licença e entrei, indo atender o telefone. Era a babá da minha filha,
contando que estavam em um pronto-socorro, já que Sofia havia sofrido um
pequeno acidente.
Por mais que ela dissesse que não tinha sido nada demais, eu entrei em
desespero e precisei ser amparada por alguns colegas. Um dos patrões se
aproximou e, ao ouvir do que se tratava, me liberou para ir embora, junto a
um colega que se ofereceu para me levar de carro até lá.
Saí pela porta da cozinha, que saía na parte de trás do estabelecimento.
No caminho cheguei a lembrar do rapaz com quem conversava, e me senti
mal por estar indo embora sem dar qualquer satisfação a ele. Contudo, lógico,
a preocupação com minha filha sempre viria em primeiro lugar.
Mesmo porque, eu acreditava que nunca mais voltaria a ver aquele cara
na minha vida.
E eu não poderia estar mais enganada com relação a isso...
Capítulo 5
"Está chegando o dia
Em que você será minha
Você verá
Que será..."
(It's Gonna Be Me - *NSYNC)

Ela foi embora.


Simples assim. Passei horas naquele balcão esperando por ela... e ela
simplesmente se foi, como uma fugitiva.
Era oficial: eu tinha sido dispensado pela primeira vez na minha vida.
Primeiro eu a xinguei mentalmente por uns nomes que nem vale a pena
repetir, mas logo consegui falar com o funcionário que a havia chamado na
cozinha para avisar sobre um telefonema, e ele se limitou a me contar que ela
teve uma emergência familiar e precisou ir embora.
Eu queria acreditar que fosse verdade. Não que eu desejasse qualquer mal
a algum familiar dela, longe disso, mas... se fosse mentira, significaria que eu
tinha sido despachado. O que comprovaria a tese do meu irmão, de que meu
sucesso com as mulheres dependia do meu dinheiro. Afinal, com o CEO
Henrique Lizano nunca havia acontecido algo sequer parecido com isso.
Poucas horas fingindo ser um pobretão e eu tinha sido dispensado como se eu
fosse um monte de nada.
Isso me faria perder a aposta, mas era algo muito maior do que o meu
carro em risco. Seria uma derrota moral e isso eu não conseguia admitir.
— ‘Emergência familiar” é a senha para se livrar de embustes, maninho
— Heitor provocou, já na segunda-feira, sentado em uma poltrona na sua sala
do escritório da empresa. Em breve, seria minha sala.
Ele tinha saído cedo no domingo para ir à casa da noiva, fazer mais umas
das intermináveis listas de sei lá o quê para o casamento. Antes que ele
retornasse, fui eu que saí para beber com outro grupo de amigos. Quando
retornei, ele já estava dormindo. Então, apenas na segunda-feira fomos nos
reencontrar para eu dar satisfações da minha vergonhosa derrota.
— Ela realmente pareceu nervosa quando a chamaram para atender o
telefone — argumentei. E nem era uma desculpa esfarrapada, eu realmente
tive essa impressão.
— Mulheres são ótimas atrizes, Henrique. Você precisa aprender isso.
Será que ela também estava sendo atriz nas críticas feitas ao CEO da
Lizano, sem fazer ideia de que estava falando com o próprio? Talvez.
Mas não perdi a chance de devolver a provocação ao meu irmão:
— Bruna está incluída nessa generalização?
Ele fechou a cara e eu quase ri por deixá-lo sem resposta. Ao menos algo
bom eu estava tirando daquilo. Ele realmente acreditava que Bruna fosse
especial e outras baboseiras do tipo. Bem, eu a achava uma garota legal e
tudo mais, mas... no fundo, ela não devia ser tão diferente assim. Na minha
opinião, não que as mulheres fossem todas iguais, mas... elas eram bem
parecidas. Tirando as diferenças físicas, em sua essência elas seguiam o
mesmo padrão.
— Não mude de assunto, Henrique, e entrega logo as chaves do carro.
Não esquenta, eu te dou uma carona até em casa.
Eu não ia entregar os pontos. Não tão facilmente.
— E quem disse que a aposta está encerrada?
— Como não estaria? Você não conseguiu conquistar a garota.
— Mas não estipulamos um prazo. Podemos fazer isso agora, se você
desejar.
— E de que vai adiantar? Não conseguiu nem ao menos o telefone dela.
— É, mas sei onde encontrá-la. Vou voltar ao bar e tentar novamente.
Ele me analisou em silêncio por alguns instantes, e eu poderia apostar que
estava pensando em algo para me massacrar.
Curiosamente, quando ele disse algo, foi o extremo oposto disso.
— Tem quinze dias. Contando a partir de seu próximo encontro com ela.
— O quê? Pelo amor de Deus, Heitor. Eu não preciso de tudo isso.
— Eu quero que você tenha tempo. Pratique bem a arte da conquista.
— Eu não preciso praticar nada.
— Não, porque as mulheres voam para cima de você como moscas em
um bolo só por você ser quem você é. A garçonete não vai poder saber, é
justo que você tenha mais tempo.
— Que seja. Essa noite mesmo eu consigo. Não, espera, hoje o bar não
abre. Mas amanhã...
— Em uma terça-feira?
— Ela estará trabalhando.
— Ela vai pensar que você é um maníaco, além de um desocupado.
Aguarde até o final da semana.
— Sério que você está tentando me ajudar?
— Considere como uma pequena vantagem. Não quero que sua derrota
seja tão humilhante assim. Nem que a mulher chame a polícia para te
prender, imagine como isso seria péssimo para os negócios.
Eu ri. Embora ainda preferisse recusar o auxílio dos conselhos dele, vi-me
obrigado a aceitar porque, no fim das contas, ele tinha razão. Eu esperaria até
a sexta-feira para então retomar o plano.
Dessa vez, eu não pretendia perder.
E não era só pela aposta em si, mas um desafio pessoal. A garota se fez
de difícil, e isso era algo praticamente inédito em minha vida. Mas como
negar que isso tinha o seu encanto? Talvez o dinheiro fosse realmente um
fator decisivo na hora das conquistas fáceis, como o meu irmão dizia, mas
algo me dizia que não era assim com Luíza. Antes de eu me aproximar dela e
fazer meu discurso de homem simples, desempregado e ferrado de grana, ela
me viu em uma mesa consumindo drinks caros e, se o dinheiro de um homem
fizesse alguma diferença para ela, talvez ela tivesse respondido ao meu
bilhete ou sido um pouco menos difícil em um primeiro momento, mas não
foi o que aconteceu. Luíza parecia ser um tipo que realmente precisava ser
conquistada aos poucos e que não iria simplesmente se jogar na minha cama
logo na primeira noite.
E a vida inteira eu procurei exatamente pelo tipo que me poupava de
maiores esforços. Exatamente por isso, ela representava um desafio para
mim.
E eu jamais fugia de um bom desafio.
Com todas as coisas que eu precisava aprender e organizar para assumir o
comando da empresa, a semana foi bastante corrida. Com uma loja nova
prestes a inaugurar, havia muito o que ser feito. Então, teoricamente, eu não
deveria ter tido tempo livre para pensar naquela maldita aposta. Mas minha
mente parecia encontrar brechas para tais pensamentos. Por vezes eu me
pegava planejando como iria me aproximar de Luíza quando voltasse ao bar,
o que era estranho em incontáveis níveis. Nunca antes eu havia ensaiado
mentalmente como chegar em uma mulher, assim como eu raramente me
lembrava dos nomes delas em um hipotético segundo encontro. Claro que
creditei aquilo tudo ao fato de eu querer muito vencer aquela aposta, para
alimentar o meu lado competitivo. Mas, no fundo, era estranho perceber que
existia algo mais, já que eu não pensava apenas na situação, mas também na
mulher. Ela era linda, uma delícia, para falar a verdade. Eu realmente estava
louco para deslizar minhas mãos por aquele corpinho escondido embaixo do
uniforme. Mas preciso confessar que também gostei de nossa breve conversa.
Não estava mentindo quando disse que ela era uma boa companhia.
Mas não iria me focar nisso. Tudo o que me importava era vencer aquela
aposta.
Na quinta-feira, dois dias antes da nossa grande inauguração, Heitor e eu
fomos realizar a visita final à loja, que já estava com tudo preparado para
abrir. O espaço era enorme, aquela já era a maior filial, e, além de loja, tinha
uma pequena praça de alimentação, um espaço de jogos e, em breve,
pretendíamos inaugurar ali também duas salas de cinema. Seria praticamente
um mini-shopping. E eu estava orgulhoso do resultado final. Embora Heitor
fosse o maior responsável pelo progresso dos últimos anos, eu, como um dos
donos, também participava de muitas decisões, mesmo que à distância.
Apesar de ser o cara festeiro e mulherengo, eu me dedicava muito ao
trabalho.
No momento, Heitor e eu éramos guiados pelo Carlos, gerente geral da
loja, para ver o andamento das coisas. Tínhamos já visitado os depósitos, o
estacionamento, a praça de alimentação e, agora, fazíamos um tour pela loja
em si. Era ainda bem cedo e os novos funcionários ainda começavam a
chegar para seguirem com a organização dos últimos produtos nas prateleiras,
bem como a equipe de limpeza iniciava os trabalhos para deixar tudo
impecável para a inauguração. Paramos para conversar sobre os eventos que
ocorreriam no sábado, quando passou um grupo de vendedores sendo guiados
por um gerente de vendas. Aparentemente, estavam em treinamento para o
trabalho que assumiriam dali a dois dias. Heitor e eu logo conversaríamos
com eles, em uma palestra de uma hora. Era uma formalidade feita em toda
loja que abríamos, e poderia representar algo chato, mas eu sinceramente
adorava. Achava motivador, para falar a verdade. Os vendedores eram a base
principal dos negócios, e tudo dar certo dependia em grande parte deles. Eu
valorizava muito aquele trabalho.
Contudo, o que era para ter sido uma olhada rápida acabou levando mais
tempo que o previsto quando meus olhos bateram em uma mulher em meio
ao grupo, usando o mesmo uniforme que os demais, com os cabelos
castanho-claros presos por um coque. Levei menos de um segundo para
reconhecê-la. Depois mais meio segundo para me certificar.
Não era possível...
— É ela... — sussurrei.
— O quê? — Heitor me olhou, confuso.
Recuei, indo para trás de uma prateleira, de modo que os funcionários não
pudessem me ver. Heitor me seguiu, sem entender nada.
— É ela. A garçonete! — expliquei.
Heitor olhou para o grupo e levou alguns segundos percorrendo os olhos
por eles até localizar a pessoa de quem eu falava.
— O que ela está fazendo aqui? — ele questionou, intrigado. Parecendo
compreender a situação, sorriu. — Quem diria... Ela é nossa funcionária
agora?
— Tudo indica que sim — respondi entredentes.
— Romance entre chefe e empregada? Que clichezão, hein, irmão?
— Cala essa boca. Não vai ter romance nenhum se ela me vir aqui.
— Bem, é óbvio que ela vai te reconhecer... Acho que isso significa que a
vitória da aposta é minha.
Mas nem fodendo! Eu não ia entregar os pontos tão fácil. Não havia nada
no mundo que me fizesse desistir de uma aposta com tanta facilidade.
O gerente veio até nós, perguntando se existia algum problema. O coitado
devia estar no mínimo confuso com o fato de eu estar praticamente me
escondendo.
Bem, mas eu não me importava com o que ele iria pensar. Tudo o que me
importava era levar meus planos adiante.
Porque, sim... eu tinha um plano.
— Carlos, eu preciso de um uniforme — informei, causando surpresa não
apenas ao gerente, mas também ao meu irmão.
— Perdão, senhor Henrique... um uniforme?
— É. Um uniforme de vendedor. Do meu tamanho. E quero que você
pare de me chamar de senhor e me veja como apenas mais um dos novos
funcionários. — Olhei para Heitor e sorri. — Aparentemente, irmão, você
terá que assumir a palestra sozinho.
Ele movimentou a cabeça em uma negativa, incrédulo.
Eu realmente não estava disposto a perder.
Capítulo 6
"Você me perseguiu
Como um lobo, um predador
Senti-me como um cervo nas luzes do amor"
(She Wolf (Falling to Pieces) - David Guetta (feat. Sia))

A noite de sábado foi encerrada no pronto-socorro, indo buscar minha


filha depois de ela ter acordado no meio da noite e decidido que era uma boa
ideia se manter acordada para esperar que eu chegasse, porque queria me
contar sobre um sonho legal que teve. Para espantar o sono, a estratégia
encontrada foi pular na cama, acompanhada pelo Joe (sempre cúmplice! Eu já
nem sabia mais qual dos dois era uma péssima influência na vida do outro).
Só que ela tinha caído e batido a cabeça na quina da escrivaninha. Com isso,
ganhou quatro pontos bem no meio da testa.
Mas, graças a Deus, nada além disso. Poderia ter sido fatal. E por isso eu
nem havia conseguido dormir naquela noite, de tanto que tremia pelo pavor
do que poderia ter acontecido.
Fabíola, a babá, considerou o ocorrido como a gota d’água para pedir sua
demissão. Ela já havia reclamado sobre Sofia ser teimosa e por vezes um
tanto desobediente, e... que inferno, eu sabia que ela estava com a razão. E
era impossível deixar de mentalizar o quanto a culpa de tudo aquilo era
inteiramente minha. Não dava mais, eu precisava largar aquele emprego.
E foi por isso que, no dia seguinte, fui falar com a Sara e disse que
aceitava a ajuda com o meu currículo para eu passar a trabalhar na Lizano.
Por mais que eu não gostasse nem um pouco daquele lugar. O salário era o
mesmo do bar, com a diferença de que eu não teria gorjetas, o que, no fim das
contas, significava que eu iria ganhar menos e ficar ainda mais longe do meu
sonho de comprar a minha própria loja. Mas o bem estar de Sofia sempre
viria em primeiro lugar na minha vida.
O Jonas – crush da minha prima – tinha um cargo grande na central das
Lojas Lizano e encaminhou meu currículo diretamente para o responsável
pelas contratações. Dois dias depois, eu recebia uma ligação informando que
eu estava contratada. Começaria na quinta-feira, seriam dois dias de
treinamento antes da abertura da loja. Assim, Sara cuidaria de Sofia pela
manhã, e a tarde a van escolar passaria para pegá-la. E eu estaria em casa
quando minha filha retornasse do colégio e, à noite, iria poder conversar com
ela, ouvir sobre o seu dia e contar sobre o meu, ajudá-la nas lições de casa e
colocá-la para dormir. Nenhum dinheiro no mundo pagaria por isso.
Na quinta-feira, lá estava eu, naquela loja onde eu nunca costumava
entrar nem como cliente. Usando o uniforme de vendedora – calça e camisa
cinzas, com detalhes em vermelho – eu estava junto a uma equipe de mais de
setenta vendedores fazendo uma tour pelo espaço, sendo guiados pelo senhor
Geraldo – sim, ele fazia questão do ‘senhor’ antes do nome, embora fosse um
homem relativamente jovem, de pouco mais de quarenta anos. Enquanto nos
mostrava cada um dos setores da loja, ele explicava minunciosamente sobre
cada tipo de produto à venda, citando os argumentos que deveríamos usar
para vender cada um deles, explicando as diferenças entre as marcas e
modelos. Aquela loja era enorme, e eu achava muito pouco provável que ele
conseguisse nos apresentar a tudo que havia ali, com tanta riqueza de
detalhes, em apenas dois dias.
— Estou quase dormindo... — ouvi uma voz feminina comentando ao
meu lado. Olhei, encontrando uma moça que deveria ter a minha idade,
negra, com os cabelos compridos e trançados.
Sorri. Em parte, para ser simpática com uma nova colega de trabalho. Em
outra, por concordar com o que ela dizia.
— E o dia apenas começou... — respondi, com a voz baixa, lembrando
que eram ainda pouco mais de nove da manhã. A partir de sábado,
começaríamos a trabalhar em turnos alternados, mas nos dias de treinamento
o expediente de todos era igual e seríamos liberados apenas às dezessete
horas.
— E será um longo dia... — Ela suspirou e eu fui obrigada a concordar.
Parecendo ouvir nossa breve conversa, senhor Geraldo se calou e
percorreu os olhos pelo grupo, tentando encontrar quem teria falado. Como
aparentemente não achou, jogou uma bronca coletiva:
— Preciso que fiquem atentos a tudo, e conversas paralelas não ajudarão
nisso. Quem não estiver interessado em aprender sobre o trabalho, também
não está em ser um vendedor da Loja Lizano, então, pode ir embora, se
quiser.
Revirei os olhos, achando o discurso completamente arrogante e
desproporcional. Éramos adultos ali, não um bando de crianças
indisciplinadas em uma turma de ensino fundamental. E tampouco éramos
robôs que precisássemos ficar completamente calados.
Porém, é claro, o que eu achei que a Loja Lizano pudesse esperar de seus
funcionários?
Quando eu tivesse a minha loja, definitivamente, jamais trataria meus
vendedores daquela forma.
Voltei a tentar focar minha atenção àquele chato, embora por dentro
estivesse pensando em mil outras coisas diferentes das que ele discursava. O
falatório sobre o design inovador das mesas de escritório era substituído em
minha mente por comentários sobre como aquilo era mal feito e de um
material extremamente ruim. Uma placa de papelão seria mais resistente que
aquela imitação vagabunda de madeira, com certeza.
Percebi uma certa movimentação ao meu redor e vi que todos voltavam o
rosto para trás. Segui os olhos na mesma direção, vendo que se tratava de
uma pessoa, usando o mesmo uniforme que nós, que se juntava subitamente
ao grupo. Eu mal pude acreditar quando o reconheci. Era o carinha do bar.
Aquele bonitão e com ares de cafajeste.
— Isso são horas de chegar? — Geraldo indagou, nada cordial.
— Desculpe, senhor. Recebi o telefonema de aprovação apenas hoje de
manhã e precisei correr para cá — ele respondeu, enquanto ajeitava as
roupas. Percebi que estava meio ofegante, mostrando que realmente havia
corrido até ali.
Mas o nosso superior não pareceu satisfeito.
— Achei que todos os telefonemas tivessem sido feitos no máximo até
ontem. Aliás, achei também que estivessem todos já aqui. Diga, qual é o seu
nome? — Ele levantou sua prancheta à altura dos olhos para verificar a lista
com os nomes dos novos funcionários.
— Ah, meu nome é Henrique... Henrique Alves da Silva. Mas meu nome
não deve estar na lista, senhor. Fui contratado além da cota estipulada. Sou
amigo de um amigo de Heitor Lizano, e...
— Ah, o velho esquema de indicações... — Geraldo o interrompeu,
revirando os olhos. Ouvi alguns buchichos ao meu redor, o que demonstrava
que os outros contratados também não haviam gostado muito disso.
Henrique, de fato, deveria ter guardado tal informação apenas para ele. —
Não pense que isso vai te trazer qualquer vantagem aqui dentro. Todos terão
que mostrar produtividade para se manterem no trabalho, e fiscalizarei de
perto um por um.
— Sim, senhor... — Henrique respondeu. E quando Geraldo voltou a
falar sobre os móveis, ele olhou para mim e em seu rosto surgiu uma
expressão de surpresa, como se não esperasse me encontrar ali. Acenou para
mim e eu acenei de volta, ainda um pouco sem graça pela forma como o
deixei sozinho há alguns dias.
Voltei a me focar nas explicações sobre os produtos, por mais que fosse
bem difícil conseguir manter os olhos abertos durante aquele lenga-lenga. Até
que, enfim, chegou o horário de almoço e fomos todos para a praça de
alimentação, onde alguns estabelecimentos já estavam funcionando para
atender aos funcionários. A moça ao meu lado – que agora eu sabia que se
chamava Beatriz – seguiu puxando assunto e logo nos enturmamos,
juntamente a outra, uma loira chamada Carla, que já era um pouco mais velha
que nós – devia ter algo em torno de trinta e poucos anos. Dividimos as três
uma mesa durante o almoço. Em determinado momento, olhei ao redor,
percebendo que Henrique estava sozinho em uma mesa próxima. Flagrando
meu olhar em sua direção, ele sorriu e acenou novamente, o que eu
correspondi.
— Conhece o carinha bonito? — Carla perguntou.
— Não exatamente. Ele esteve semana passada no bar onde eu
trabalhava, conversamos um pouco, nada demais.
— Ele não parece ter muita facilidade para se enturmar — ela opinou, e
Beatriz concordou.
— Também, né... Todo mundo sabe o quanto é difícil conseguir um
emprego e ele já chega contando que entrou por indicação? E jogando ainda
aquela carteirada ridícula de que é “amigo de um amigo” do dono? Podia ter
ficado quieto.
Ela não deixava de ter razão. Eu também havia conseguido a vaga por
uma indicação, embora fosse de uma forma um pouquinho diferente. A
pessoa que me colocou na vaga era apenas um intermediário, não tinha
qualquer autoridade ali na loja e não me garantiria qualquer proteção se eu
não fizesse o meu trabalho de forma correta. Mas Henrique era conhecido
direto do dono de tudo aquilo, e a forma como contou isso diante de todo
mundo mais soou mesmo como uma carteirada. E ninguém gostava muito
disso.
Terminamos de comer e logo voltamos ao trabalho. Dessa vez, Henrique
se aproximou, passando a caminhar bem ao meu lado enquanto éramos
guiados pela loja. Sério que ele de novo ia tentar alguma coisa comigo?
Coitado, estava perdendo tempo.
— Não esperava te encontrar por aqui — ele falou.
— É. Precisei pedir demissão no bar.
— Espero que não tenha sido por causa daquele telefonema naquele dia.
Ai, claro... o telefonema. Isso voltava a me lembrar da forma como eu o
havia deixado sozinho sem dar qualquer satisfação. Por mais que eu, de fato,
não desejasse dar qualquer esperança a ele, minha saída súbita podia ter lhe
parecido com uma fuga.
— Mais ou menos. Aliás, desculpe por ter ido embora daquele jeito.
Realmente, rolou uma emergência, e...
— Não, não precisa explicar. Eu entendo. Só espero que esteja tudo bem
agora.
— É, está.
Ele sorriu e eu sorri de volta, grata pela compreensão dele. Ele não era
apenas bonito, também parecia ser um cara legal. Além de esforçado. Tinha
comentado com ele sobre a vaga na loja e ele de fato tinha corrido atrás e
conseguido. Estava feliz por ele.
Mas eu sabia, muito bem, que o inferno deveria estar abarrotado de “caras
legais”. Aquilo não me convencia.
Voltamos a fazer silêncio por conta dos olhares de reprovação do senhor
Geraldo, mas volta e meia ele cochichava alguma coisa para mim, geralmente
algo engraçado relacionado a alguma instrução recebida ou a algum trejeito
do nosso insuportável superior. Às cinco da tarde encerramos a tour do dia
para nos dirigirmos ao estacionamento, onde Heitor Lizano nos aguardava
para seu discurso motivacional de boas-vindas. Já iniciou pedindo desculpas
pela ausência do irmão, que segundo nos disseram, era para estar ali com ele.
Diziam que Heitor Lizano estava deixando a função de CEO da empresa e
esse lugar passaria a ser ocupado pelo seu irmão. Achei meio descaso da
parte dele não ter ido se apresentar aos funcionários de sua nova loja, porém,
o que esperar de uma porcaria de um playboy?
Dessa vez, eu é que não me aguentei em fazer alguns comentários com
Henrique, em voz baixa, de forma que apenas ele pudesse ouvir:
— Então, esse daí é o seu amigo milionário?
— Amigo de um amigo meu. Na verdade, ele é amigo do amigo de um
amigo meu, uma relação bem distante. Quem sou eu para ter amigos ricos?
— Não perde muito não tendo. Não acho que sejam as melhores pessoas
desse mundo.
— Sério? Bem, digo... também não são as piores. O Heitor até que é
gente boa.
— Não foi ele quem deu o vexame no palco daquela festa de aniversário
da cidade?
Ele abriu um meio sorriso, como se achasse graça em recordar a cena.
— Estava bem bêbado, tinha terminado com a namorada. Acabaram
voltando depois e, até onde sei, ele não deu mais vergonhas por conta de
bebidas. Mas, no fim das contas, ele é mesmo um bom sujeito.
— Bem, dizem que o problemático mesmo é o irmão dele. Que, aliás,
disseram que viria aqui também. Achava que ele fosse só um playboy
irresponsável em seu dia a dia, mas aparentemente também é com a própria
empresa.
Percebi que Henrique ficou calado por alguns instantes, o que me fez
pensar que sua ‘relação distante’ com os irmãos Lizano talvez não fosse tão
distante assim.
A palestra seguiu até as cinco da tarde, quando enfim fomos liberados.
Seguimos para a área de funcionários, onde ficavam os armários onde
guardávamos nossas coisas, e Henrique continuou a caminhar ao meu lado.
— E então, será que hoje eu posso te acompanhar até o ponto de ônibus?
O rapaz era insistente, isso eu não poderia negar. Assim como não
poderia negar, também, que isso fazia uma certa massagem no meu ego.
— Não vou pegar ônibus hoje. Moro a quinze minutos a pé daqui.
Aproveito para fazer uma caminhada, já que não resta muito tempo para
praticar exercícios físicos.
— Uma atividade física seria ótimo. Seria bom te acompanhar até lá.
Ele não parecia ser do tipo que precisava de artifícios para encaixar
atividades físicas em sua rotina. Pelos braços bem torneados visíveis sob as
mangas curtas do uniforme, dava para perceber que ele malhava.
Bem, não que eu estivesse observando, mas... Ah, que droga, não tinha
como não reparar!
— Novamente: se estiver planejando algo, eu adianto que...
— Não planejo nada que não seja te acompanhar até em casa. Quinze
minutos conversando com você sem ter que disfarçar com os olhares
reprovadores do chato do Geraldo.
— E o que ganha com isso?
— Também já te disse: a sua companhia. É só o que eu quero. Confie em
mim.
Confiar... Eu mal o conhecia, mas, sinceramente, ele não me dava
motivos para desconfianças. Mesmo porque, seria apenas uma caminhada por
ruas que costumavam ser bem movimentadas naquele horário.
Portanto, acabei aceitando a oferta.
Afinal, ele era uma companhia agradável, no fim das contas.
Capítulo 7
"Eu era ela, ela era eu
nós éramos um, nós éramos livres
E se há alguém me chamando
É ela"
(She's The One - Robbie Williams)

Era incrível o tanto que a sorte estava ao meu lado. Reencontrar com
Luíza era algo totalmente inesperado, mas uma oportunidade que eu não iria
deixar me escapar.
Mas, no processo, algumas coisas inusitadas aconteceram.
A primeira é que, eu sempre soube, eu era um cara muito legal. Nunca
tive qualquer problema ou dificuldade para me enturmar em nenhum
ambiente. Fazia amigos com facilidade em todos os lugares do mundo por
onde já passei. Mas ali, na loja... na minha própria loja, as pessoas pareciam
não gostar de mim. Isso dava uma leve vantagem ao discurso do meu irmão
de que as pessoas se aproximavam de mim pelo meu dinheiro. Contudo, eu
queria acreditar que aquilo era só por ainda não me conhecerem o suficiente.
No que dependesse de mim, infelizmente, nem chegariam a conhecer, já
que o plano quando me ofereci para acompanhar Luíza até em casa era
encerrar a aposta ainda naquela noite.
A segunda era que, por qualquer razão, Luíza não parecia gostar nem um
pouco da minha versão milionária. O pouco caso com que ela falava a meu
respeito – sem saber que eu era o Henrique Lizano – era um tanto
desconfortante. Eu sabia que muita gente se referia a mim como um playboy
festeiro e cafajeste, mas sempre via isso como sendo dito em um tom de voz
brincalhão ou até mesmo de admiração. Mesmo quando eram críticas, eram
como algo leve e sem importância. Mas com Luíza não era assim. Ela
realmente parecia rejeitar o que a minha imagem representava. E eu já não
sabia se isso significava que ela fosse a mulher certa para a aposta, já que o
dinheiro de um homem definitivamente não parecia ser um fator positivo para
suas escolhas. Acreditava que, se viesse a descobrir a verdade, ela ficaria
furiosa. Seria também a primeira vez que uma mulher não iria querer que eu
ligasse para ela no dia seguinte.
Bem, mas, se isso ocorresse, seria apenas depois de eu conseguir vencer a
minha aposta, e, nesse caso... sinceramente, não faria qualquer diferença na
minha vida se ela ficaria zangada ou não. Apesar de ela ser uma garota legal.
Na verdade... bem legal. Enquanto saíamos da loja fazendo a pé o
caminho para a sua casa, ela me explicava pacientemente os motivos de os
demais funcionários terem me tratado tão mal.
— Então eu não podia ter falado sobre alguém ter conseguido a vaga para
mim? — questionei, perplexo.
— Não é só sobre isso. Eu também me beneficiei de uma indicação para
entrar, e acho que muitos outros lá também, mas... é diferente, sabe? Não só
por, no seu caso, a indicação ter sido feita por um dos donos, mas pela forma
como você falou isso, daquele jeito, na frente de todo mundo.
— Mas de que forma? Eu apenas... falei.
— Parecia que você estava tentando contar com alguma vantagem diante
dos demais. Sabe, como se fosse superior a nós e fosse ter privilégios lá
dentro. Era o que o seu tom de voz dizia.
— Mas o quê? Não, de forma alguma foi isso. Eu só estava respondendo
ao Geraldo.
— Então, que depois falasse a sós com ele. Mas, de qualquer forma...
estou certa de que essa primeira impressão que você deixou logo vai passar.
As pessoas vão perceber que você é um cara legal.
Era meio bobo, mas eu me senti feliz com o elogio, tanto que sorri.
— Acha mesmo que sou um cara legal?
— Eu não estaria deixando que você me acompanhasse até a minha casa
caso achasse que você é um maníaco ou coisa parecida.
Ok, eu estava planejando ser um pouco mais incisivo para apressar as
coisas entre nós. Depois disso, pensei que seria mais seguro pisar um pouco
no freio. Imagine, se eu tentasse beijá-la, e ela cismasse que eu fosse mesmo
um maníaco?
Tudo a seu tempo. Meu prazo para levá-la para a cama era de quinze dias,
mas eu não pretendia fazer uso de nem metade disso. No entanto, naquele
primeiro dia, podíamos realmente apenas conversar enquanto eu a
acompanhava até sua casa, e ir ganhando um pouco mais da sua confiança.
Talvez conseguisse um beijo de despedida... o que já abriria caminho para, no
dia seguinte, eu conseguir ter aquele corpinho todinho para mim.
Meu pau chegava a doer apenas com aquela imagem mental. Mas tentei
desviar o foco do meu pensamento.
— E então... você foi tão firme quando disse que não gostava das Lojas
Lizano. Não imaginei que fosse querer trabalhar em uma.
— Eu não quero. Mas, infelizmente, na vida adulta nossas vontades nem
sempre valem muita coisa.
— Foi demitida do bar?
— Não. Eu é que pedi minha demissão. Gostava muito de lá, mas... o
horário é ruim, especialmente porque me faz passar pouco tempo com a
minha filha.
Parei de andar, em choque com a revelação. Filha? Ela era mãe?
Parando alguns passos à minha frente, ela me olhou, parecendo curiosa
com a minha reação, mas não surpresa, no fim das contas.
— Mudou de ideia sobre querer ‘apenas a minha companhia’? É o que os
homens geralmente fazem quando descobrem que uma mulher tem filhos.
Não, era claro que não era isso. Falando daquela forma, parecia uma coisa
completamente estúpida, e... bem, eu não era um estúpido, era?
Só precisaria tomar alguns cuidados. Eu não ia querer uma mulher
alimentando a esperança de ter comigo algum relacionamento sério, me
vendo como um substituto para o pai de sua filha. Seria só uma noite, nada
mais. Não queria deixar ninguém sofrendo no fim dessa história.
Era apenas uma questão e eu evitar conhecer a criança.
— Claro que não. De onde tirou isso? Eu só estou surpreso, porque...
bem, você é tão jovem.
— Minha filha tem seis anos. Fui mãe aos dezenove. E, não, eu não
acabei com a minha vida.
— Eu não disse isso.
— É o que todo mundo diz ou ao menos pensa.
— Não pensei em nada disso, Luíza. É sério. Vai, me fala mais sobre ela.
‘Me fala mais sobre ela’? Era sério que eu tinha pedido isso?
Ao menos foi um pedido que aparentemente a deixou feliz. Abrindo um
enorme sorriso, ela começou a contar sobre a Sofia, sua garotinha de seis
anos. Voltamos a caminhar lado a lado rumo à casa dela e, confesso, apesar
de conversas sobre crianças não estarem necessariamente no ranking dos
meus assuntos favoritos, o papo não foi nada tedioso. As histórias sobre a
menina eram até mesmo engraçadas. Parecia ser bem levada, e muitas de suas
artes me lembravam coisas que eu próprio fazia quando era moleque. Parecia
ser uma criança bem divertida.
Logo paramos em frente a uma casa simples, de muro verde e portão de
madeira.
— Então... é aqui que eu moro — ela anunciou, enquanto colocava a
chave no portão e o destrancava. Ouvi um latido do outro lado do muro, o
que me indicava que ela tinha um cachorro.
Pensei que, obviamente, com a novidade sobre a criança, não era nada
viável me convidar para entrar. Precisava começar a armar um novo plano
para o dia seguinte.
— Viu? E tudo o que eu queria era a sua companhia.
— Sei... Bem, espero que tenha gostado dela.
— Foi simplesmente perfeita. Nos vemos amanhã na loja, então?
— Sim, nos vemos amanhã.
Aproximei-me, tocando estrategicamente a cintura dela com uma das
mãos enquanto depositava um beijo em seu rosto. Demorei com os lábios
colados à bochecha dela por um pouco mais de tempo que o habitual e pude
perceber que a pele dela se arrepiou com aquele contato.
Pensei em usar a velha artimanha de me afastar apenas um pouco,
mantendo meus olhos fixos ao dela e atrai-la para um beijo, mas sequer tive
tempo de iniciar tal processo porque uma van escolar parou diante de nós, a
porta dela se abriu e uma garotinha chegou correndo, puxando uma mochila
de rodinhas, que largou no chão para se jogar nos braços de Luíza.
— Mamãe! — ela gritou, empolgada.
Olhando a cena, eu não pude evitar sorrir. Luíza havia me contado que
trocara de emprego porque precisava voltar a viver momentos simples, como
receber sua filha na volta da escola. Meus pais nunca tiveram interesse em
coisas como aquela, mas lembro que a Joana sempre nos buscava na porta da
escola, e que sempre era uma alegria sair e encontrá-la lá nos esperando.
Do lado de dentro da casa, um cachorro latiu e, por cima dos ombros da
mãe, a menina puxou o portão, deixando que o animal de cor caramelo saísse,
pulando feliz sobre as duas. Era ridículo, eu sei, mas vi-me sentindo uma leve
inveja daquilo. Chegar em casa e ser recebido por uma família parecia algo
bom, no fim das contas.
Não que um casamento, filhos ou mesmo um cachorro fizesse parte dos
meus planos. Eu era bem feliz sozinho. Uma boa companhia durante as noites
(uma diferente a cada noite) já era o resumo da felicidade para mim.
— Seja educada, Sofia. Mamãe está acompanhada por um colega do
trabalho, você já o cumprimentou?
A menina se virou para mim e seu rostinho pareceu congelar, ao mesmo
tempo em que seus olhos se arregalaram. Levei ainda alguns instantes até
compreender aquela situação ao, enfim, reconhecê-la. A única coisa nova era
o curativo da testa, provavelmente protegendo os pontos do tombo que Luíza
me contou que ela havia sofrido há alguns dias, mas eu conhecia aquela
criança. E aquele cachorro também. Como não conhecer? Tinha sido
extorquido pelos dois apenas alguns dias antes.
Eu não podia acreditar que fosse mesmo aquela pestinha! Ela era a filha
de Luíza? Quais as chances disso?
O cachorro latiu e deu um pulo sobre mim, o que fez com que eu me
desequilibrasse e acabasse caindo no chão. Usei as mãos para tentar
amortecer a queda, e nisso uma delas acabou esfolando em uma falha do
asfalto.
— Joe! — Luíza repreendeu o animal, tirando-o de cima de mim. — Meu
Deus, o que você fez? Ai, Henrique, me perdoe por isso. Sofia, leve o Joe lá
para dentro, sim?
A menina me olhou em silêncio por algum momento, até que obedeceu à
ordem, entrando com o cachorro. Consegui me levantar, só então percebendo
que minha mão estava sangrando.
— Desculpe mesmo por isso. Está ferido! Anda, entra, precisa limpar
essa mão e passar algo para não infeccionar.
Ela abriu mais o portão, fazendo um sinal para que eu entrasse, e eu
pensei se deveria mesmo fazer isso. Contudo, qual seria a outra opção? Fugir
como um covarde, com medo de uma garotinha? Acabei aceitando e entrei.
Era um quintal pequeno, mas com um gramado bem cuidado. Subi os dois
degraus da varanda, adentrando a pequena sala. Sobre o sofá, estavam a
pestinha, sentada ao lado do cachorro igualmente peste.
— Vou pegar a caixa de remédios no meu quarto e já volto. Por favor,
fique à vontade. E, Sofia, não deixe o Joe pular nele novamente, hein? E seja
boazinha!
Dito isso, ela subiu as escadas que iam para o segundo andar da pequena
casa. Encarei a menina em silêncio, pensando em como deveria iniciar aquela
conversa, mas ela se adiantou:
— Você não pode ser colega de trabalho da mamãe. Eu vi o seu carrão
naquele dia.
— Mas eu sou. Naquele dia eu estava usando um carro emprestado.
— Tava nada! Tia Sara contou que você é muito rico, e que é dono de
todas as lojas Lizano. É patrão da mamãe e não colega dela. Está fingindo
ser, porque patrões não usam uniformes.
Abaixei-me no chão diante dela. Precisaria usar de todo o meu poder de
persuasão porque, apesar da pouca idade, aquela menina parecia ser bem
esperta.
— Olha... talvez eu esteja mesmo fingindo, mas...
— Está mentindo pra minha mamãe! — ela me interrompeu, com um tom
de voz mais alto do que deveria. Fiz um sinal para que ela falasse baixo.
— Não, não é exatamente uma mentira. Mas eu precisei fingir porque...
sua mamãe não gosta dos donos da Lizano, né?
— E você quer que minha mamãe goste de você? — Ela olhou para o alto
das escadas e voltou a olhar para mim, baixando o tom de voz como quem
conta um segredo. — Como namorados?
— Depende... O que você acharia de sua mamãe ter um namorado?
— Eu acharia legal. Mamãe sempre foi sozinha, e todo mundo diz que
namorar é bom. Se você for um adulto, claro. Mamãe diz que crianças não
podem namorar.
— É, não podem. Mas sua mamãe é uma adulta, não é? E eu ia gostar de
namorar com ela, mas se ela souber quem eu sou, vai brigar comigo.
Ela cruzou os bracinhos diante do corpo, me olhando de forma
desafiadora.
— Eu disse que seria legal a mamãe ter um namorado. Mas não tem que
ser um playboy como você.
Criaturinha difícil...
Mas eu precisava apelar. Usar todos os argumentos possíveis até que
algum convencesse aquela pestinha. E rápido, antes que Luíza retornasse.
— Olha, podemos fazer um acordo. Tem alguma coisa que você queira?
— O cachorrão ao lado dela latiu, me dando um susto. — Alguma coisa que
você e o vira-lata queiram?
— Tá querendo sunorbar a gente?
Levei ainda alguns segundos para compreender o que ela estaria querendo
dizer.
— É ‘subornar’. E não é isso que eu quero. Só fazer uma troca. Você
guarda esse nosso segredo e eu te dou um presente. E pensa que é para o bem
da sua mamãe, não disse que seria legal ela ter um namorado?
— Mas você tá mentindo pra ela! E mentir é feio, muito feio!
— Não é uma mentira. É só... uma surpresa. Eu vou convencê-la de que a
Lizano é uma loja bem legal, e quando ela acreditar em mim... surpresa! Eu
conto toda a verdade.
Ela inclinou a cabeça para o lado, observando-me em silêncio, como se
analisasse minhas palavras.
— Se for assim... tem uma coisa que Joe e eu queremos.
— Diga, o quê? Qualquer coisa!
— Aquelas notas que você nos deu outro dia... Queremos juntar várias
delas, para comprar uma coisa muito cara e muito importante.
Quem estava subornando quem, no fim das contas?
Ouvindo os passos que pareciam vir do corredor no alto das escadas, agi
rápido e peguei minha carteira, pegando duas notas de cinquenta e
entregando-as à menina, que as amassou e enfiou no bolso da mochila.
— Temos um acordo? — questionei.
— Por hoje, sim.
Por hoje? Aquela menina pretendia me cobrar diariamente, era isso?
Voltei os olhos para as escadas, vendo que Luíza já as descia. Tentei
disfarçar, fingindo que estava brincando com o cachorro, mas mal aproximei
minha mão dele e o vira-lata rosnou, mostrando-me todos os seus dentes.
Eram cúmplices aqueles dois.
Capítulo 8
"O que o seu futuro reserva?
Isso é uma história desconhecida
Ela descobrirá através de seus dias?
Deixe o amor mostrar o caminho"
(Let Love Lead The Way - Spice Girls)

A caixinha de primeiros socorros pareceu ter sido tragada por algum


buraco negro dentro do meu quarto. Passei algum tempo procurando, até que
a encontrei dentro do meu guarda-roupas. Saí com ela do quarto e desci as
escadas. Cheguei na sala no momento em que Joe rosnava para Henrique.
Mas o que tinha dado naquele cachorro? Sempre foi tão dócil com todo
mundo. Era estranha a sua mudança de comportamento.
— Desculpe, eu juro que ele não costuma agir assim — desculpei-me
com Henrique, que apenas sorriu compreensivo.
— Imagine, é normal isso. Até porque, essa é a primeira vez que ele me
vê, não é, cachorrinho? — Ele olhou para o cão, que voltou a mostrar-lhe os
dentes. Sério, o que estava acontecendo ali?
— O nome dele é Joe! — Sofia rebateu. Percebi que ela também
demonstrava um pouco de antipatia com Henrique. — Mamãe, vou para o
meu quarto porque hoje tenho muita lição de casa para fazer.
Estranhei aquilo. Sofia não era de agir assim. Muito pelo contrário, ela
costumava adorar tagarelar com as visitas. Mas não insisti e deixei que ela
fosse para o seu quarto, acompanhada pelo Joe. Ficando a sós com Henrique,
fiz um sinal para que ele se sentasse no sofá e me sentei ao seu lado para que
eu cuidasse do ferimento em sua mão. Limpei tudo com água oxigenada e
passei um medicamento antisséptico. Ao final, prendi uma gaze com
esparadrapo, apenas para proteger melhor. Quando encerrei esse trabalho,
percebi que ele estava olhando fixamente para mim. Senti meu rosto
esquentar, tímida com aquilo, mas tentei disfarçar.
— Prontinho. Não foi nada demais, mas é bom proteger para não correr o
risco de infeccionar.
— Você é muito boa nisso. Eu não saberia fazer um curativo nem se
minha vida dependesse disso.
— Faz parte das coisas que a gente aprende depois que tem filhos.
— Deve precisar muito disso com Sofia, né?
— Com bastante frequência. Ela é muito agitada e está constantemente se
machucando.
— E o cachorrinho não fica atrás.
— Desculpe pelo Joe. Repito que ele não é assim. Nunca o vi rosnando
para ninguém.
— Deve estar com ciúmes da dona. Acontece.
Ciúmes...
Talvez Sofia estivesse se sentindo assim também. Será que pensava que
Henrique seria meu namorado? Depois do pai dela, não voltei a me relacionar
com ninguém, por isso não sabia como ela iria reagir caso isso viesse a
acontecer. Eu precisava conversar com ela e explicar que não era nada
daquilo.
Que coisa... a gente cresce, vira adulto, e não precisa mais dar satisfações
da vida aos pais, mas se vê fazendo isso com a filha de seis anos.
Ele se levantou.
— Bem, você deve estar cheia de coisas para fazer e precisa dar atenção à
sua filha. É melhor eu ir.
Pensei em insistir para que ele ficasse mais um pouco. Pensei em oferecer
um café, chamá-lo para fazer um lanche com a gente. Porém, pensei melhor,
e talvez isso servisse apenas para dar mais estímulo a qualquer investida dele.
Eu não era mais criança, percebi muito bem suas intenções no beijo que me
deu. Mesmo sendo no rosto e teoricamente inocente, havia uma intenção ali.
Eu podia estar ‘fora de prática’ há algum tempo, mas certas coisas não
mudavam.
Sendo assim, seria melhor cortar aquilo pela raiz. Mesmo porque, embora
ele tentasse se mostrar como um cara legal, sabia bem como homens viam
mulheres solteiras com filhos: um sinal vermelho para relacionamentos
sérios. Não que eu estivesse procurando por um, mas também não estava
disposta a ser a diversão de uma noite de um homem.
Ofereci-me para acompanhá-lo até o portão. Quando chegávamos na
varanda, percebi que ele voltou os olhos para a mesinha redonda de madeira
rústica, que era acompanhada por duas cadeiras.
— Nossa... — ele sussurrou, parecendo encantado. — Que linda. Posso
ver?
— Claro!
Ele se aproximou, tocando levemente a mesa e percorrendo os olhos
pelos detalhes talhados a mão.
— Se importaria de me contar onde comprou? Nossa, é linda!
— Na verdade, receio que não vá encontrar outra exatamente igual para
comprar. É uma peça única.
— Você mandou fazer? Teria o contato da pessoa? É um trabalho lindo.
— Bem, posso te levar ao local de trabalho dela.
— Sério? Adoraria.
— Então vem.
Percebi que ele ficou confuso quando fiz um sinal para que ele me
seguisse e desci os degraus da varanda, indo para a lateral da casa, no espaço
do terreno dedicado a uma garagem. Eu não tinha carro, então eu fazia do
pequeno espaço o meu cantinho de trabalho. Olhei para Henrique, que vinha
bem atrás de mim, e era visível a surpresa em seus olhos ao ver o local com
uma mesa de serra, pedaços de madeira e outros materiais em um canto e, em
outro, algumas carcaças de pequenos móveis antigos; uma das paredes era
toda tomada por prateleiras onde guardava ferramentas, pregos, parafusos,
latas de tintas e vernizes, pincéis e mais todo o tipo de coisa que eu poderia
precisar no meu trabalho. Após analisar todo o ambiente, ele me olhou, ainda
confuso.
— Você fez aquela mesa?
— Na verdade, a estrutura dos pés dela era de outra mesa velha, que uma
vizinha queria se desfazer e perguntou se me interessava. A parte de cima
veio de outra que eu já tinha encostada há alguns anos, mas ela não tinha os
detalhes talhados, isso fui eu que fiz. Lixei, envernizei... enfim juntei tudo,
montando um móvel novo.
— Mas isso é... Luíza, isso é sensacional. Como você faz tudo isso em
um espaço tão pequeno?
— É o espaço que tenho.
— Mas se você vender essas peças, pode comprar um espaço maior.
Ele fazia tudo parecer fácil demais. Tanto, que até sorri.
— Eu vendo. Tenho um Instagram onde anuncio as coisas que vou
fazendo. Como eu não tenho uma estrutura que me permita realizar entregas
em locais distantes por um valor de frete acessível, acabo restringindo as
vendas apenas dentro da cidade. Mas, ainda assim, além de não serem muitas
vendas, minha margem de lucro é bem pequena. As pessoas não querem
pagar caro por um móvel reformado.
— Como não? Seu trabalho é lindo, e é único.
— E daí? Sempre existe a opção de ir a uma loja Lizano e comprar uma
mesa de fabricação em larga escala por um preço em conta. Não faz diferença
se as de lá foram cortadas por máquinas e na minha eu passei semanas
fazendo um trabalho único a mão. Poucas pessoas dão valor a esse tipo de
coisa.
— Eu não acredito nisso. E se você falar com os responsáveis pela
Lizano? Eu posso intermediar isso pra você. Pode colocar alguns móveis seus
lá em consignação, e...
— Isso não vai acontecer. Aqueles milionários estão interessados em altas
margens de lucro, não em valorizar o trabalho de alguém. E, de qualquer
maneira... Estou juntando um dinheiro e espero em breve conseguir comprar
um espaço para montar um ateliê e uma loja. É meio complicado conseguir
juntar dinheiro quando se é uma pessoa assalariada criando sozinha uma
criança, mas... Eu tenho fé de que vou conseguir.
Ele manteve seus olhos fixos em mim, e sequer piscou mesmo quando eu
terminei de falar. Estaria ainda tão impressionado com a minha mesa? Sem
falsa modéstia, aquele nem era o melhor dos meus trabalhos. Eu tinha alguns
– poucos, mas fiéis – clientes, para os quais eu já havia feito algumas coisas
das quais eu realmente me orgulhava.
— Você é incrível... — ele falou, ainda com os olhos fixos em mim.
Senti-me levemente envergonhada, não apenas com o elogio, mas com a
intensidade com que as palavras foram ditas. Pareciam sinceras. Ele balançou
a cabeça, parecendo sair de algum tipo de transe, e explicou: — Digo... o seu
trabalho. É incrível, de verdade.
Sorri em agradecimento, mas ficamos em silêncio. Dessa vez, eu também
vi meus olhos presos aos dele, e novamente reforcei em minha mente o
quanto ele era um homem bonito. Os olhos castanho-claros tinham um toque
sedutor que na certa deveriam ser fatais em muitas mulheres, embora eu meio
que fosse vacinada contra homens tão perigosamente sedutores, ainda que
eles parecessem serem caras legais. O último bonitão que aparecera na minha
vida também parecia gente boa, conseguiu tudo de mim e simplesmente
sumiu quando eu contei que estava grávida. Meu coração já havia sido
suficientemente partido nessa ocasião, e eu não estava disposta a repetir a
dose.
E, agora, já não restava mais dúvidas de que aquilo estava novamente
prestes a acontecer. Isso se confirmou quando ele aproximou um pouco o
rosto do meu, na nítida intenção de me beijar. Por alguns milésimos de
segundo eu me deixei levar, mas logo despertei para a realidade quando os
lábios dele já estavam tão próximos aos meus que eu conseguia sentir sua
respiração.
Afastei-me bruscamente, evitando que aquele beijo acontecesse.
— Já está tarde, é melhor você ir.
Ele concordou, e voltou a sorrir, embora parecesse um tanto frustrado.
— Te vejo amanhã na loja?
— Sem dúvidas. Até amanhã.
Ele assentiu e deixei que saísse. Fiquei ali parada até ouvir o som do
portão se fechando. Só então voltei a entrar em casa e subi as escadas, indo
até o quarto de Sofia. Ela estava sentada na cama, folheando o livro da
escola, e Joe estava deitado ao seu lado. Fui até eles, sentando-me na ponta
da cama.
— Ele foi embora? — ela questionou, parecendo desconfiada.
— É, ele foi. Sabe que ele é só um colega de trabalho da mamãe, não é?
Ela ainda pareceu pensar a respeito da pergunta, levando alguns segundos
para movimentar a cabeça em uma afirmação.
— Eu sei, mamãe.
— Mas você pareceu não gostar muito dele. O que foi? Ele te disse algo
ruim enquanto eu subia para pegar a caixa de primeiros socorros?
— Não. Na verdade mesmo, quem não gostou dele foi o Joe. Mas eu
gostei, até.
— Gostou? Mesmo?
— Gostei. Ele parece ser legal. Você acha ele legal, mamãe?
— É... eu acho. Agora, que tal a gente fazer um lanche? Daí depois eu te
ajudo com o dever de casa, e depois faremos o jantar.
Ela abriu aquele sorrisão lindo que derretia o meu coração.
— Agora vai ser assim todo dia, mamãe?
Levei a mão ao cabelo loiro dela, tirando uma mecha que caía sobre seus
olhos castanhos e depositando-a atrás de sua orelha. Não havia nada no
mundo que pagasse um momento como aquele.
— Vai, meu amor. Será assim todos os dias.
Animada, ela ajoelhou-se sobre a cama e se jogou sobre mim, enroscando
os braços ao redor do meu pescoço.
Capítulo 9
“Eu só penso em você em duas ocasiões
De dia e de noite
Eu poderia quebrar
Se pudesse estar com você”
(We Belong Together - Mariah Carey)

O dia começou meio... confuso.


Primeiro, pela mudança de rotina. Abandonei os ternos do dia a dia para
vestir aquele odioso uniforme cinza. Já fazia parte dos meus planejamentos,
logo que tudo aquilo acabasse e eu voltasse a ser o CEO da Lizano, solicitar à
equipe responsável que mudasse aquelas roupas horrorosas. Meus vendedores
mereciam vestir algo que não abalasse tanto suas autoestimas. Descia a
escadaria da minha casa no momento em que Joana passava pela sala. Ela
parou, me olhando de forma confusa.
— O que é isso, garoto? — ela indagou, me olhando de cima a baixo. Ela
sempre me veria como uma criança, no fim das contas.
Dei um beijo em seu rosto e apenas respondi:
— Nem queira saber, Jojo. Nem queira saber...
Enquanto seguia em direção à porta, ainda a ouvi perguntar:
— Não vai tomar café?
— Não posso, estou atrasado.
— “Atrasado”? Tem alguma reunião para a parte da manhã?
Ela sabia que, se não fosse por algum compromisso do tipo, eu não tinha
motivos para me preocupar com horários, afinal, eu era o chefe. Mas aquilo,
também, não seria facilmente explicável, por isso apenas mudei de assunto:
— Capricha no jantar hoje que provavelmente chegarei cheio de fome. Te
vejo à noite.
E saí, deixando-a provavelmente sem entender nada.
Ainda sobre a mudança de rotina, nesse dia eu precisei deixar meu carro
na garagem. Não chegaria à loja em um conversível, obviamente. Optei por
pedir um carro de aplicativo, que me deixaria em frente à loja e, caso alguém
me visse, eu poderia argumentar que tinha pegado uma carona com algum
amigo. Provavelmente ninguém argumentaria nada porque, afinal, meus
colegas de trabalho não simpatizavam comigo.
E isso era algo que eu pretendia mudar. Eu não podia sentir que era um
homem que só conquistava amizades por causa do dinheiro. Iria aproveitar
aquela aposta para provar a mim mesmo que eu era um cara legal em todas as
esferas.
Exceto com cachorros. Aquele vira-lata da Luíza era a prova disso.
A segunda razão que tornava aquele dia confuso era qualquer coisa ligada
aos meus pensamentos. Porque havia em mim uma certa ansiedade de
reencontrar com Luíza. E nem era para seguir investindo em tentativas de
beijá-la para que o beijo nos levasse a outras coisas e à minha vitória na
aposta. Era só porque eu queria... estar com ela. Queria saber mais sobre
aquela coisa de reformar móveis – confesso, estava admirado demais com
aquele trabalho dela – queria as conversas aleatórias sussurradas nos
momentos em que Geraldo não nos vigiava como um cão de caça; queria
saber mais a respeito dela... o máximo que pudesse vir a saber.
E, é claro, a coisa da aposta seguia forte, mas até mesmo nisso o foco da
minha mente me pregava peças. Eu realmente queria beijá-la. Realmente
queria fazer tudo com ela. Não apenas pela aposta, mas porque eu queria.
Aquela mulher tinha se tornado um desafio alto para mim... porque eu de fato
a desejava.
Assim como no dia anterior, eu cheguei quando o grupo inteiro já estava
reunido, e novamente fui chamado a atenção por Geraldo e todos ali me
olhavam pelo canto dos olhos, enquanto se iniciava um burburinho
visivelmente de críticas a meu respeito.
Assim como o cachorro de Luíza, eles pareciam realmente não gostarem
de mim.
Carlos, o gerente geral da loja, me observava à distância, ainda parecendo
confuso com o fato de o patrão ter se camuflado no meio dos funcionários.
Ele tratou de informar outros dois gerentes da loja – que já me conheciam – a
meu respeito, para que não corresse o risco de eu ser reconhecido por algum
deles. Aparentemente, Geraldo não tinha sido avisado, mas, para a minha
sorte, ele não me conhecia. Achava até melhor que fosse assim, já que não
correria o risco de ele me tratar de forma diferenciada por saber que eu era o
seu patrão. Queria ser tratado como todos os outros ali.
Queria me aproximar de Luíza, mas ela já havia se enturmado, desde o
dia anterior, com outras duas mulheres, e estava bem no meio delas, então eu
simplesmente não tinha como me enfiar ali para ganhar um pouco de sua
atenção.
Aguardei pacientemente por cerca de uma hora, até que Geraldo nos deu
um tempo para olharmos livremente o setor de ferramentas para ver se
teríamos alguma dúvida das cansativas explicações que ele havia dado a
princípio – as quais eu não havia prestado a menor atenção. Nesse momento,
o grupo se dispersou pelos corredores do setor. E foi apenas então que
consegui flagrar Luíza sozinha por um momento, o qual aproveitei para me
aproximar, parando ao seu lado enquanto fingia olhar a prateleira cheia de
chaves de fenda.
— E aí, está bem descansada? — Perguntei. Ela me olhou, parecendo não
entender a razão da pergunta, por isso fui mais específico. — Dormiu bem
essa noite?
— Dormi, e estou descansada sim. Por quê?
— Só para conferir se era essa a sua melhor versão. Não perde muito para
a de cansada no fim de um dia de trabalho. Achei as duas igualmente muito
satisfatórias.
Ela sorriu, provavelmente se recordando do diálogo que eu citava, e eu
sorri de volta, sentindo uma faísca de animação por ver aquele sorriso lindo.
E isso, também, me trouxe um certo alívio ao perceber que,
aparentemente, sua filha não havia contado nada do que sabia a meu respeito.
Tinham sido os cem reais mais bem gastos da minha vida.
— Toda essa coisa de ferramentas deve ser bem simples para você, não
é? — indaguei, apontando para a prateleira.
— Algumas, sim. Uma grande parte, para falar a verdade.
— De onde veio o seu amor por mexer com madeira?
— Meu pai era marceneiro. E ele era um pai legal, quando não estava
bêbado. Aprendi muito com ele, e acabei herdando a paixão por madeira.
— Ele deve ter muito orgulho de você.
Pude perceber um brilho de tristeza em seus olhos, o que denunciava que
eu tinha feito um comentário indevido.
— Talvez estaria, não sei. Já tem dez anos que ele morreu. Como eu falei,
ele bebia muito e isso trouxe consequências para a saúde dele.
— Poxa, eu... eu sinto muito. Desculpe por ter te feito lembrar disso.
— Não se preocupe. E os seus pais, fazem o quê?
— Eu também perdi o meu pai. Há três anos.
Ela tocou levemente a minha mão com a sua, numa demonstração de
pesar. Era estranho como um toque tão sutil e inocente parecia causar
descargas elétricas na minha pele.
— Sinto muito, Henrique.
— É... assim é a vida.
— E a sua mãe?
Eu havia escapado da pergunta a respeito do pai, não saberia que trabalho
atribuir a ele caso fosse perguntado o que ele fazia em vida. ‘Dono da
Lizano’ não seria uma opção de resposta. Com a minha mãe talvez fosse mais
simples.
— Ela mora em uma fazenda. Digo, é caseira... trabalha como caseira lá.
— Apenas a primeira parte da informação era verdadeira, no fim das contas.
Ela era a dona da fazenda. Mas isso era só um detalhe, não era?
— Tem irmãos?
— Apenas um — respondi quase que no automático, em seguida me
lembrando de inventar alguma história rápida — Ele mora com a minha mãe
na fazenda, também trabalha lá.
— Então foi só você que abandonou as raízes da família?
— Eu sempre quis morar na cidade. Tinha sonhos altos demais para o
interior.
Ela sorriu e percebi que estava admirada pelo homem humilde e
esforçado que eu fingia ser. Parecia estúpido, mas, naquele momento, eu me
senti, pela primeira vez, culpado por mentir para ela. Se a intenção era
seduzi-la com a pessoa que eu era e não pelo que eu tinha, talvez eu estivesse
trapaceando em inventar tanto um personagem que, no fim das contas, não
era eu.
Porém, tal culpa logo se dissipou quando mudamos de assunto, passando
a falar de coisas triviais. Nem sei como, mas o assunto foi parar em cinema e
descobrimos que tínhamos vários filmes favoritos em comum. Assim como
eu, ela era muito fã de “O Clube da Luta”, mas, diferente de mim, também
tinha lido o livro. Eu não era muito de ler ficções, mas ela começou a citar
outras obras que também viraram filmes que eu gostava, e a falar sobre as
diferenças nas adaptações, e eu achei aquilo tão incrível que decidi que queria
conhecer aqueles textos.
— Talvez eu encontre alguém que me empreste. — Não era uma indireta
para que ela me emprestasse, apenas mais uma fala de meu personagem
fodido que não deveria ter grana sobrando para comprar muitos livros.
— Olha, se eu fosse você, procuraria em um sebo, ou esperaria uma
promoção em livrarias. Essa coisa de emprestar livros é complicada.
— Sério? Complicada por quê?
— Digamos que, para um leitor, emprestar um livro é o ápice da
confiança completa em uma pessoa. Porque é muito comum livros
emprestados voltarem danificados, ou não voltarem nunca.
— Entendi. Então você é do tipo que não empresta seus livros?
— De forma alguma.
— Nem para alguém em quem você tenha... como é mesmo? O ápice da
confiança completa?
— Acho que não cheguei nesse nível com nenhuma pessoa. Ao menos
não para emprestar os meus livros. Isso é inegociável, desculpe. Mas posso te
indicar uns bons sebos online.
— Tudo bem, eu aceito a indicação.
Quando vi, já era hora do almoço, e ela me convidou para me sentar na
mesma mesa que ela e suas duas colegas – que eram bem simpáticas e não
pareciam terem (tanta) implicância comigo como os demais vendedores.
Voltamos para o trabalho e, dessa vez, consegui passar o tempo inteiro ao
lado dela. O mala do Geraldo não nos deixava livres para conversas paralelas,
mas ainda assim a gente vez ou outra cochichava algo. Ela tinha muito senso
de humor e eu adorava isso nela.
No final do expediente, eu novamente me ofereci para acompanhá-la até a
sua casa, ainda que soubesse que aquilo não seria eficaz. Com uma filha
pequena em casa, fatalmente seria muito improvável que eu conseguisse
consumar a minha aposta. Mas eu realmente queria a companhia dela.
Engatamos em uma conversa sobre a franquia de “Velozes e Furiosos” (sim,
ela também amava filmes de ação, assim como eu) e aquela era
provavelmente a primeira vez que eu conversava assim com uma garota...
sobre assuntos banais, sobre gostos em comum, bobeiras como opiniões a
respeito de um personagem de um filme. Acho que eu nunca tinha antes me
dado esse direito. Porque conversas com mulheres que não fossem alguém da
família ou contatos de trabalho eram sempre centradas na arte da conquista,
sempre com o único objetivo de terminar em uma cama com elas. Mas com
Luíza era tão diferente...
Justo com ela, não deveria ser. Eu precisava me manter firme no meu
objetivo.
Estávamos ainda no estacionamento da loja quando ela parou de repente,
olhando para algo mais à frente. Antes que eu pudesse ver o que era, ela me
pediu para esperar e correu até uma das entradas da loja. Segui-a com os
olhos, até compreender o que ela estava indo fazer. Havia um senhor já de
idade avançada, cadeirante, tendo sua carreira empurrada por uma senhora
que devia ter a mesma idade e, portanto, tinha um pouco de dificuldades para
subir a rampa de acesso. Luíza os cumprimentou com um sorriso e ofereceu-
se para empurrar a cadeira até o alto da rampa. O casal então conseguiu entrar
na loja, ambos agradecendo-a pela ajuda. Vendo a cena, eu sorri, como um
bobo, admirando-a pela atitude. Voltei a andar até alcançá-la.
— Isso foi bem legal... — comentei, parando ao lado dela, que ainda
olhava para a rampa.
— O quê? — ela questionou, parecendo realmente não entender ao que eu
me referia.
— Isso, oras.
— Ah, não. Isso é horrível! — Ela apontou para a rampa, revoltada. —
Olha a distância que essa entrada com acessibilidade fica da entrada principal
da loja. É um absurdo!
Ok, lá estava ela, arrumando motivos para criticar a minha loja. Daquela
vez, eu precisava defendê-la!
— Mas existe a acessibilidade, não é o que importa? Além disso, se as
rampas fossem colocadas na entrada principal, ia prejudicar o estilo da
fachada.
Ela me olhou, assustada, e foi só então que eu recapitulei a frase que eu
mesmo havia dito e percebi o quanto aquilo soava estúpido e até mesmo
cruel. Passados alguns instantes, Luíza riu.
— Nossa, Henrique, você falou tão sério que eu até demorei para
compreender a ironia. Mas é exatamente assim que esses milionários da
Lizano devem pensar.
Ela voltou a andar e eu a segui, deixando que ela continuasse achando
que eu havia sido meramente irônico. Porque, caramba, ela tinha toda a razão.
Para mim tudo era apenas uma questão distante e prática: as regras mandam
ter entradas acessíveis, nós as tínhamos em todas as nossas lojas, mas sem
qualquer preocupação se aquilo estava realmente da forma mais adequada
que poderia estar.
Quando aquela aposta chegasse ao fim e eu voltasse a ser apenas CEO da
Lizano, veria junto aos responsáveis pela arquitetura das lojas se seria
possível realizar algumas mudanças.
Novamente, Luíza parou de andar, olhando para qualquer coisa diante de
nós. Segui os olhos na mesma direção e não vi nada além de um caminhão
sendo descarregado com caixotes de mercadoria.
— Se eu pudesse ter alguns daqueles, seria ótimo... — ela falou, quase
como um pensamento em voz alta, olhando fixamente para a cena.
Não compreendi muito bem. Ela queria comprar o conteúdo da carga, era
isso? Mas como ela poderia saber do que se tratava, se estava tudo
encaixotado?
De qualquer maneira, não resisti em fazer uma provocação:
— Mas não é você mesma quem diz que a Lizano vende produtos de
qualidade duvidosa?
— Não estou nem aí para os produtos. São os caixotes que eu quero.
— Como é? — Eu tinha dúvidas se teria ouvido direito.
Ela fez um movimento para que eu a seguisse e voltou a andar, indo
devagar pela lateral do caminhão, como uma criminosa prestes a realizar um
furto.
E, meu Deus, aparentemente eu seria cúmplice daquilo.
Capítulo 10
“Me encontrei hoje
Cantando seu nome
Você disse que eu sou louca
Se eu sou
Eu sou louca por você”
(Crazy for You - Adele)

— Eu sou um criminoso... — Henrique murmurou ao meu lado,


aparentemente ainda em choque por ter me ajudado a pegar alguns dos
caixotes em um momento em que não havia ninguém por perto.
Ele novamente me acompanharia até em casa, dessa vez para me ajudar a
levar os vários caixotes que havíamos recolhido.
Recolhido. Não ‘roubado’. E expliquei isso a ele:
— Isso iria tudo para o lixo. Aliás, é uma pena eu não ter como recolher e
armazenar tudo, porque é um verdadeiro desperdício de material.
— Mas é um material da loja. Não é certo pegar assim sem pedir
autorização. Não acha que os patrões podem não gostar de ter suas coisas
‘recolhidas’ desse jeito?
— Caguei...
Ele pareceu meio chocado. Seria com o meu vocabulário, por eu ser mãe
e tudo mais? Oras, quando minha filha não estava por perto, eu poderia usar
alguns “termos feios”.
— Além do mais... — prossegui — Já disse que tudo isso iria para o lixo.
E, o pior: em um descarte completamente indevido. Você sabia que a Lizano
não tem qualquer preocupação ambiental com o descarte de seu lixo? Nada
de lá é reciclado, um absurdo!
Olhei para ele e o vi surpreso com a minha informação. Ao mesmo
tempo, a culpa pelo suposto furto pareceu se dissipar.
— Se é assim... você está certa. Você está novamente certa, aliás. Temos
que ver algum meio de dar uma destinação correta ao lixo de lá.
— “Temos”? Henrique, você é um cara legal, e acho que não entende
ainda muito bem como essas coisas funcionam. Entendo que é ‘amigo de um
amigo’ dos donos de lá, mas não há diálogo com essa gente, não nesse
sentido. Tudo o que eles visam é o lucro.
— Não é bem assim, Luíza. Olha, eu tenho certeza de que se eu conversar
com eles a respeito disso, eles podem...
Eu estava prestando atenção ao que ele dizia, mas tinha virado por um
instante o rosto para van escolar, que em segundos passou diretamente por
nós. Meu Deus, quanto tempo eu tinha perdido para pegar aqueles caixotes?
— Ai, não... — resmunguei.
— O que foi? — Henrique questionou, confuso.
— Corre! — foi a única coisa que consegui dizer antes de iniciar uma
corrida atrás do veículo.
Henrique me seguiu, aparentemente ainda sem compreender o que
acontecia.
— O que foi? É a polícia? Eles estão atrás da gente?
— O quê? — Ainda levei alguns instantes para processar a pergunta. Ele
estava levando aquela ideia de ser um criminoso a sério demais. — Não, é a
van escolar. Minha filha vai chegar e eu não estarei em casa para recebê-la.
— Ah... Você vai. Vamos acelerar!
Para ele era fácil falar. Pelos braços torneados aparentes nas mangas
curtas da camisa, ele fazia um tipo que se exercitava com frequência.
Provavelmente tinha um condicionamento físico muito melhor do que o meu.
Se eu já não era muito ágil em situações normais, imagine tendo que correr
carregando aquele monte de caixotes?
Porém, Henrique pareceu se dar conta disso e, sem parar de correr,
conseguiu amontoar a maior parte dos caixotes que carregava em apenas uma
das mãos, usando a outra para pegar os meus. Livre do peso, eu ganhei um
fôlego a mais e consegui acelerar um pouco. Ele seguiu pouco atrás de mim,
já que não caberia ao meu lado na calçada carregando aquele monte de tralha,
mas mantendo uma velocidade parecida com a minha. Antes de entrar na
minha rua, a Van fez uma parada de uns dois minutos em um sinal, e isso foi
essencial para que nós conseguíssemos alcançá-la. Ela parou diante do meu
portão, e cheguei lá no mesmo momento em que a porta se abria e Sofia saía,
vindo animada me abraçar. Nem sei como consegui ainda força para pegá-la
no colo.
— Mamãe, eu vi você correndo! — ela comentou, como se estivesse
achando aquilo o máximo.
— É... — respondi, ainda ofegante, respirando profundamente para tentar
recuperar a respiração.
Olhei para Henrique e percebi que ele não parecia tão menos cansado do
que eu. Por mais que tivesse um condicionamento físico bem melhor, tinha
corrido como um louco carregando sozinho todo aquele peso. Apesar disso,
percebi que ele segurava o riso, e isso me contagiou, fazendo com que eu me
adiantasse em explodir em uma gargalhada. Ele me acompanhou nisso.
— Por que vocês estão rindo? — Sofia questionou, curiosa. — E o que
são essas caixas? — Apontou para os caixotes que Henrique havia deixado
sobre a calçada. Em seguida ela me olhou, e pelo brilho em seus olhos eu
reparei que ela tinha entendido do que se tratava.
— Não lembra para o que a mamãe estava querendo encontrar alguns
caixotes iguais? — indaguei a ela, confirmando suas suspeitas.
Ela abriu um enorme sorriso.
— É para a minha estante, mamãe? A estante colorida para o meu quarto?
Aquela que a gente viu na internet e você me prometeu que ia fazer uma igual
para mim?
— Igual nada. A sua vai ficar muito mais bonita! Vamos começar hoje
mesmo. Pronta para muito trabalho nesse fim de semana?
— Mas no domingo a gente vai no parque, mamãe! Você não esqueceu,
né?
Uma das coisas que tinha prometido a Sofia, agora que teríamos mais
tempo juntas, era que na minha primeira folga – que seria no domingo – eu a
levaria para o Parque Municipal. Era um programa simples, mas muito
esperado por ela. Nosso quintal era muito pequeno e ela adorava andar de
bicicleta. O parque tinha uma área perfeita para isso.
— É claro que não esqueci. Vamos poder fazer tudo isso no fim de
semana.
Ela me abraçou com força, mas logo me soltou, descendo do meu colo.
— Abre o portão, mamãe, eu preciso contar as novidades para o Joe! Ele
vai ficar muito feliz!
Atendi ao pedido, pegando a chave na bolsa e abrindo o portão. Ela
entrou correndo, sendo recebida no quintal pelo nosso ‘labra-lata’.
Voltei a respirar fundo e olhei para Henrique, que ainda me fitava
sorrindo. Estava suado depois daquela corrida e, preciso confessar, achei-o
altamente sensual daquele jeito. Mas, obviamente, lutei para tirar tal
observação da minha cabeça.
— Desculpe por isso — pedi. — Além de te fazer ‘roubar’ caixotes, você
ainda teve que correr até aqui comigo.
— Desculpe? Está falando sério? Acho que essa foi uma das coisas mais
divertidas que fiz nesses últimos tempos.
Ele só podia estar brincando.
— Sua vida deve ser meio monótona, né?
— Não tanto, mas... furtos e perseguições nunca costumaram fazer parte
da minha rotina.
— Bem, como você pode imaginar, na minha isso é meio comum. Ah,
mas não a parte do ‘furto’. Isso ia para o lixo, já disse.
— Não tinha ido ainda, então, teoricamente, ainda é um furto.
— Vai ganhar uma destinação muito melhor.
— Sei... uma estante, não é?
Sorri, animada. Era algo realmente muito simples, mas Sofia viu o
modelo comigo e ficou muito empolgada. Queria muito encontrar aquele
estilo de caixotes para dar aquele presente a ela.
— É, para organizar melhor os livrinhos e o material escolar da Sofia. É
algo bem simples, na verdade, mas não tinha ainda encontrado a quantidade
certa de caixotes que fossem do mesmo material. Hoje mesmo já começo, e
provavelmente até amanhã estará concluída.
— Não deixe de me convidar para ver quando estiver pronta.
Tomei fôlego para responder, mas fui impedida por Sofia, que voltou à
calçada acompanhada por Joe – provavelmente depois de contar a ele a
novidade. Ela agarrou um dos caixotes, mal conseguindo levantá-lo do chão,
e começou a entrar com ele, na tarefa de me ajudar a levar tudo para a
garagem. Ela certamente estava ansiosa para começarmos os trabalhos.
Henrique e eu nos entreolhamos e rimos e ele voltou a pegar alguns
caixotes, sinalizando que iria me ajudar. Também peguei alguns – embora ele
já tivesse pegado a maioria – e entramos no quintal, seguindo para a garagem
que servia como meu ateliê temporário. Deixamos tudo em um canto e eu dei
uma boa olhada neles, já pensando em o que faria com os que sobrassem.
Tinha aproveitado a oportunidade para pegar uma quantidade maior do que a
que eu precisaria para a estante. Mas antes de iniciar o trabalho, eu precisava
urgente de um bom banho e um copo grande de água gelada, para me
recuperar um pouco daquela corrida insana.
Ah, é claro! Que educação a minha!
— Vou pegar água, você deve estar morrendo de sede, não é? —
perguntei a Henrique.
Ele concordou, passando a mão pela testa.
— Na verdade, eu já estou de saída e não queria dar trabalho, mas vou
aceitar a água, sim.
— Eu já volto. Sofia, por que não vem comigo e já vai adiantando o seu
banho para começarmos o trabalho?
— Eu já vou, mamãe. Vou depois que o tio Henrique for embora.
Enquanto você pega a água, eu e o Joe vamos ficar aqui conversando um
pouquinho com ele.
Ela sorriu, daquele jeitinho que derretia o meu coração. E, na verdade,
confesso que achei muito fofo da parte dela querer fazer companhia para o
Henrique Ela não havia se comportado muito bem quando o conheceu no dia
anterior, mas agora se mostrava tão educada, que fez o meu peito se encher
de orgulho da minha menininha.
Anunciando que já voltava, segui para a parte de dentro da casa. Entrei
pela porta da sala e segui diretamente para a cozinha. Enquanto pegava os
copos no armário e uma garrafa de água na geladeira, não conseguia deixar
de pensar no comportamento da minha filha. Sempre me perguntava como
ela reagiria caso algum dia eu me relacionasse com alguém. Ela teria ciúmes?
Implicância? Raiva? Ou ficaria animada?
Lógico, esse não era um caso assim. Henrique era apenas um colega de
trabalho, nada mais do que isso.
Até porque... eu não tinha planos de iniciar um novo relacionamento. A
verdade é que eu não tinha tempo para sequer pensar nisso. Toda a minha
vida estava completamente focada em ser mãe, em trabalhar para pagar as
contas e no sonho de um dia poder viver da venda dos meus móveis. Um
sonho que parecia a cada dia mais distante.
Mas, naquele momento, por qualquer razão eu me vi povoada por aqueles
pensamentos. Talvez fosse o jeitinho fofo como Sofia chamou Henrique de
‘tio’ e demonstrou querer fazer companhia para ele. Ou, talvez... só talvez...
fosse algo com o próprio Henrique. Algo no sorriso dele, nas nossas
conversas, nos nossos gostos em comum, na forma como me olhava... ou
como correu comigo na rua carregando um monte de caixote.
A última lembrança me fez sorrir, como uma boba.
Mas balancei a cabeça, forçando-me a me livrar de tais pensamentos.
Nada iria acontecer entre nós.
Capítulo 11
“Estive ao redor do mundo
E nunca nos meus sonhos mais loucos
Eu viria correndo para você
Te contei um milhão de mentiras
Mas agora lhe conto uma única verdade:
Tem um pedaço de você em tudo que faço”
(I Bet my Life - Imagine Dragons)

Eu já estava arrependido de ter aceitado a oferta da água. Se eu tivesse


pensado um pouco mais e compreendido que aquilo significaria ficar a sós
com aquela pequena peste, eu na certa teria recusado.
Sim, era isso. Eu estava com medo de uma garotinha de seis anos.
Aliás, uma garotinha de seis anos e seu vira-lata caramelo. O quão
ridículo isso era?
O fato é que os dois estavam diante de mim, ambos com as cabeças
inclinadas para o alto para poderem me olhar. Logo que Luíza saiu, levou
menos de dois segundos até que Sofia começasse a falar.
— Então, tio... Já contou a verdade para a minha mãe?
‘Tio’... Eu não estava muito acostumado a ser chamado daquela maneira.
A garotinha já estava se achando bem íntima, aparentemente.
— Não, eu ainda não contei. E espero poder continuar contando com o
nosso trato, de que você vai guardar esse segredo.
— Se é assim... hoje é outro dia, está na hora de outro pagamento.
O quê? Aquela pequena peste queria tirar mais dinheiro de mim?
— Eu não já te dei o bastante?
— Aquilo foi ontem, tio. E eu guardei o segredo ontem. Mas pra eu
guardar hoje, preciso do pagamento de hoje.
Aquilo era um absurdo em muitos níveis. Contudo, que escolha eu tinha?
Luíza tinha ido apenas até a cozinha pegar água, não demoraria para voltar.
Sendo assim, peguei a carteira no bolso, tirando dela uma nota de cinquenta e
entregando-a para a menina. Logo que o fiz, o cachorro latiu, me dando um
leve susto.
— Falta o pagamento do Joe — Sofia explicou, mantendo a mãozinha
esticada para que eu entregasse outra nota. Fui obrigado a fazer isso. E nem
era apenas para que ela não contasse nada para a mãe, mas desconfiava
fortemente que aquele cachorro fosse capaz de me atacar.
Ela amassou as notas, colocando-as, como no dia anterior, em um dos
bolsos da mochila de rodinhas. Depois cruzou os braços, continuando a me
olhar como quem tirasse satisfações.
— Mamãe não costuma trazer colegas de trabalho em casa, e você já veio
duas vezes, ontem e hoje.
— E o que acha que isso quer dizer?
— Eu não sei. Só tenho seis anos, não entendo dessas coisas de adultos.
— Então, quando você entender, não deixe de me contar, tudo bem?
Ela mexeu os ombros, logo desviando a atenção para os caixotes, nos
quais começou a mexer, curiosa. Aquilo chamou a minha atenção.
— Então... Sua mãe vai fazer uma estante para o seu quarto?
Ela me olhou e sorriu, empolgada.
— É! Vai ser bem grandona e colorida. Meus livros ficam em uma cesta,
agora vão ficar bem bonitos na minha estante!
Por qualquer motivo, eu também sorri. A animação dela era contagiante,
no fim das contas. E por algo tão simples. Pensei na minha própria infância,
onde eu sempre tive de tudo, e lembrei que tudo vinha de forma tão fácil que
era preciso muito mais que uma simples estante para me causar tamanha
animação.
Olhei para os caixotes e senti uma ponta de orgulho ao pensar que o ‘ato
infrator’ que eu ajudei a praticar contra a minha própria loja tinha valido
muito à pena, no fim das contas. Aliás, era um absurdo que toneladas de
materiais como aquele fossem descartados de maneira imprópria todos os
dias pelas minhas lojas. Eu poderia simplesmente culpar Heitor por isso, já
que ele era o CEO até então e eu estava assumindo apenas agora. Mas eu
sabia que aquela também jamais teria sido uma preocupação minha, porque
eu nunca havia sequer pensado a respeito. Era grato por Luíza ter me aberto
os olhos para que eu fizesse alguma mudança.
E por falar na Luíza, ela logo voltou, trazendo a minha água. Após bebê-
la, eu me despedi e fui logo embora. Sabia que a pequena Sofia estava louca
para começar a fazer sua estante, e que Luíza queria muito ter aquele
momento especial com sua filha.
Caminhei por uma quadra, até me sentir longe o suficiente para chamar
um carro por aplicativo sem correr o risco de ser visto com Luíza (já que eu
já tinha contado para ela que dali para a minha casa eu pegaria um ônibus).
Fui para casa recapitulando o dia. Não lamentei que eu tinha deixado passar
mais um dia sem vencer a aposta. Eu ainda teria mais treze de prazo, e queria
aproveitar bem cada um deles.

Apesar de estar há anos fora do país, eu já tinha ido a algumas


inaugurações de lojas da Lizano. Especialmente quando criança, lembro de
achar tudo aquilo uma coisa cafonérrima, mas meu pai dizia que o público
gostava dessas coisas, e com o tempo tínhamos aprendido que ele tinha toda a
razão.
E lá estava, a vigésima sexta loja sendo inaugurada com o mesmo estilo
piegas de todas as vinte e cinco anteriores. Os balões cinza e vermelhos, a
bandinha na entrada tocando músicas, o locutor no microfone anunciando as
promoções especiais do dia para a multidão que se aglomerava na entrada,
esperando a abertura da loja.
Como CEO, eu provavelmente deveria estar chegando lá na hora da
abertura, passearia por todo o local, cumprimentaria cada um dos
funcionários... aquela coisa solene de praxe. Porém, meu irmão é que teria
que mais uma vez fazer isso no meu lugar, já que eu estaria camuflado entre
os vendedores, fazendo o trabalho pesado.
Trabalho que já começava antes mesmo de a loja abrir, com o discurso
entediante de Geraldo. Ele contava toda a história das Lojas Lizano, desde a
criação da primeira... tudo de forma meio fantasiosa, exagerando em algumas
partes. Oras, meu avô nunca tinha sido “um humilde agricultor”, era um filho
de fazendeiros. E ele também não tinha ido para a cidade para “tentar a vida”,
e sim para fazer faculdade. E ao terminar os estudos foi que ele abriu sua
primeira loja. Com dinheiro emprestado, isso era verdade. Mas pelo meu
bisavô, não de um banco.
Se eu ouvisse tudo aquilo como Henrique Lizano, o CEO da empresa,
talvez eu achasse tudo muito poético e até emocionante. Estando do outro
lado, ali como um Henrique anônimo qualquer, em meio aos vendedores, eu
percebi que nada daquilo estava sendo bem recebido.
E os comentários de Luíza ao meu lado me traziam a confirmação disso.
Eu até mesmo ri em alguns deles. Porque estar do lado daquela mulher era
sempre divertido, ainda que o tema das piadas fosse a empresa da minha
família.
Era curioso... acho que eu nunca na vida havia me divertido tanto com
uma mulher estando os dois vestidos. Luíza me fazia rir com uma facilidade
assustadora.
Enfim, o discurso chato terminou, as portas se abriram e se iniciava
oficialmente a inauguração da nova loja. Adoraria poder continuar perto de
Luíza, mas o grande volume de pessoas que entrou nos obrigava a dispersar.
Não havia se passado nem dez minutos e eu não fazia mais ideia de para onde
ela tinha ido. Eu tinha acabado de guiar um casal de clientes até o setor de
pisos e azulejos, mas eles logo dispensaram minha ajuda, dizendo que
estavam por enquanto apenas pesquisando e vendo os modelos e não iriam
comprar nada naquele dia.
Eu precisava admitir: meus vendedores mereciam ganhar no mínimo o
dobro do que recebiam. Que trabalho mais chato dos infernos!
— Você trabalha aqui? — perguntou-me uma senhora que surgiu do nada
na minha frente.
Não, senhora. Estou usando esse uniforme ridículo porque é a moda do
momento.
Claro, não expressei tais pensamentos em voz alta.
— Trabalho, sim. No que posso te ajudar?
— Eu quero trocar o meu sofá. Você pode me ajudar a escolher um novo?
Sofás... claro. Estávamos no setor de pisos e azulejos. Os móveis ficavam
na outra ponta da loja. Bem longe. A uma distância que custaria uns trinta
reais de UBER.
Minha recente experiência na vida de pobre havia me ensinado uma série
de novas medidas de distância. Essa era uma delas.
Claro que eu estava exagerando um pouco. Mas, ainda assim, era bem
longe.
Mas aquele era o meu trabalho e, ainda que fosse uma farsa, seria bem
vergonhoso para mim ser demitido por justa causa da minha própria empresa,
por isso eu atendi ao pedido da senhorinha, guiando-a pelo longo trajeto até
os benditos sofás. Chegávamos lá quando eu avistei Luíza. Apenas vê-la me
trouxe vontade de sorrir, mas tal desejo morreu quando vi que ela trocava
sorrisos com um cliente, com o qual conversava de forma muito
descompromissada.
— Qual o preço desse daqui? — a voz da velhinha chegou aos meus
ouvidos. Sequer a olhei e apenas balancei a mão, respondendo:
— Tem uma etiqueta de preço bem grande colada nele, senhora.
O cara que conversava com Luíza disse algo do qual ela pareceu achar
graça, pois voltou a rir. Definitivamente não deveria estar relacionado ao
preço dos pufes.
— Tem dele em outras cores? — a vovó voltou a falar.
Enfim eu a olhei, um tanto impaciente:
— Que cores desse modelo a senhora está vendo aqui?
— Esse amarelo e aquele branco ali.
— Então, temos nas cores amarelo e branco.
Bufei, voltando a prestar atenção aos dois que ainda conversavam de
forma animada. Luíza o guiou alguns passos até os suportes para TV, e
parecia estar mostrando os produtos a ele. Mas eu conhecia bem aquele
tipinho. Ele não queria saber de pufes nem de suportes. Os olhos dele
percorriam o corpo de Luíza a todo instante.
Desgraçado!
— A moça bonita é sua namorada? — a voz da velhinha novamente
chegou aos meus ouvidos. Virei o rosto em sua direção, vendo que ela tinha
parado ao meu lado, olhando para a mesma cena que eu observava até então.
— Não, é só minha colega de trabalho. — Eu poderia ter parado por aí,
mas não resisti. Eu precisava colocar aquilo para fora. Voltei a olhar para os
dois. — Olha como aquele panaca olha para ela.
— Ele só está olhando, isso não tira pedaço. Ela é uma mulher muito
bonita. Tem certeza de que não é sua namorada?
— Não, ela não é. Não tivemos nada.
— Mas você parece interessado em ter, não é?
— É, eu tenho tentado há alguns dias. Sem sucesso. — A que ponto eu
tinha chegado? Estava desabafando com clientes da loja?
— Está tentando como? Não se importa de eu ser tão enxerida, não é?
Eu não me importava. Novamente, era bom ter alguém com quem
conversar. Tudo o que eu falava com Heitor sobre Luíza dizia respeito a
provocações a respeito da aposta, nada além disso.
— Eu a acompanho todos os dias até em casa, sou gentil...
— Aí você está sendo apenas um rapaz educado.
— Faço elogios...
— Elogios a gente escuta até de estranhos na rua. E vamos concordar,
meu rapaz, uma moça bonita como aquela sabe que é bonita, não precisa de
alguém para contar a ela.
— Não é só isso. Eu também invisto em uma boa conversa, em bons
olhares... As mulheres não costumam resistir aos meus olhares. Mas ela
resiste. Bravamente.
— Daí você está sendo um galanteador barato. Não é assim que se
conquista uma mulher, meu filho.
Eu a olhei novamente. Ela já devia ter seus quase oitenta anos, tinha
experiência de vida. Devia saber do que estava falando.
— Então o que devo fazer?
— Mostre a ela que você se importa. Que você sabe do que ela gosta de
fazer, dos lugares que gosta de ir... e faça junto, vá junto. Mostre que presta
atenção nas coisas que ela diz. Atitudes que provam que você se importa
dizem mais do que palavras.
Pensei a respeito daquilo e algumas ideias logo começaram a povoar a
minha mente.
Capítulo 12
“Nunca botei muita fé no amor ou em milagres
Nunca quis pôr meu coração em jogo
Mas nadar em seu mundo é algo espiritual”
(Locked out of Heaven - Bruno Mars)

Eu pouco havia dormido naquela noite. No sábado, cheguei esgotada da


inauguração da loja, mas fui cumprir minha promessa de trabalhar na estante
de Sofia. Ela, é claro, ficou o tempo todo ao meu lado, para me ajudar. No dia
anterior ela já tinha se animado muito com a pintura dos caixotes, nas cores
que ela escolheu – azul, amarelo, rosa, verde e roxo, e agora passara a me
‘auxiliar’ pegando as ferramentas que eu pedia, isso enquanto falava sem
parar sobre suas expectativas para o domingo no parque. Isso foi até umas
dez da noite, quando ela já não se aguentava mais de sono e eu a levei para o
quarto, contando uma história até que ela dormisse. Joe, como sempre, a
acompanhou, e eu voltei a descer para a garagem, agora sozinha, onde fiquei
até bem tarde, para concluir o trabalho. Faltaria apenas a montagem final, que
faria nos próximos dias, já no quarto de Sofia.
No dia seguinte, eu mais parecia um zumbi, mas precisei acordar cedo.
Fiz uma faxina rápida na casa e preparei os lanches que levaríamos em nosso
passeio. Logo que Sofia também acordou, eu a ajudei a se arrumar e também
tomei meu próprio banho, colocando uma roupa leve para o dia quente que
fazia – camiseta baby look e bermuda jeans, junto a um tênis, já que teríamos
uma caminhada até lá.
O parque municipal ficava quase em frente à loja onde eu trabalhava.
Consequentemente, a poucos minutos a pé da minha casa. E lá fomos nós, eu
levando a guia de Joe em uma mão e a mochila com os lanches nas costas,
enquanto Sofia ia ao meu lado empurrando sua bicicleta amarela ainda com
rodinhas. Chegando ao parque, escolhemos um local na grama, embaixo da
sombra de uma grande árvore, e eu abri a mochila, tirando de lá uma canga
que estendi no chão. Tirei a guia de Joe para permitir que ele andasse mais
livre, já que ele costumava ser um cão bem obediente e não se distanciar
muito de nós. Sofia me ajudava a tirar os potes e pacotes de lanches da bolsa,
quando seus olhos se desviaram para a área calçada onde as pessoas
costumavam correr e andar de patins ou bicicleta. Uma pista que circulava a
extensa área gramada onde estávamos. Segui meus olhos na mesma direção,
para ver o que chamava a atenção dela. Fiquei surpresa com o que eu avistei.
Vestido no melhor estilo ‘atleta de fim de semana’, Henrique vinha
correndo pela pista. Parecia distraído, até que seus olhos se focaram em nós e
ele sorriu, acenando e passando a vir em nossa direção.
— Oi! Vocês por aqui? — Ele parou diante de nós, tirando os fones dos
ouvidos.
A surpresa dele, em um primeiro momento, me soou estranha, mas
recapitulei para tentar me lembrar se não havia comentado com ele a respeito
do planejamento de levar Sofia ao parque no domingo. Lembrei que a própria
Sofia havia falado isso comigo, na frente dele, no dia em que ele me ajudou
com os caixotes. Porém, é claro, tinha sido apenas um comentário solto, ele
talvez nem tivesse prestado atenção.
Nossa, eu devia estar meio paranoica. Só assim para imaginar que um
homem lindo como aquele iria se preocupar em armar um ‘encontro por
acaso’ entre nós dois. Claro que era uma coincidência. E nem era das mais
surpreendentes, já que aquele parque, além de ser o único da cidade, também
era muito frequentado aos fins de semana por famílias, casais, pessoas
passeando com seus cachorros ou se exercitando, como parecia ser o caso
dele.
— Está explicado o seu bom condicionamento para correr atrás de vans
enquanto carrega caixotes — brinquei.
Ele balançou a cabeça e riu, enquanto passava a mão pelo pescoço,
limpando uma trilha de suor. Eu não deveria ficar observando aquele tipo de
coisa, mas foi impossível deixar de achar a imagem incrivelmente sensual.
— É o tempo que sobra para fazer alguma atividade física, não é? Com
toda a correria do dia a dia.
— Ao menos te sobra algum — brinquei.
Ele riu e olhou para Sofia, que o fitava com desconfiança.
— E você, princesinha, como está?
— Não sou uma princesinha boboca — ela rebateu, fazendo bico.
— Sofia! — chamei a sua atenção.
Cruzando os braços e com um bico ainda maior, ela resmungou em
resposta a ele, tentando aplicar os bons modos que eu sempre tentava lhe
ensinar:
— Estou bem, e você?
— Melhor agora que encontrei vocês — ele rebateu, sem perder o bom
humor. Olhou para Joe. — E você, cachorrinho? Está de bom humor hoje?
Nosso cão respondeu apenas mostrando-lhe todos os seus dentes. Aquilo
me assustou.
— Joe! Meu Deus, o que está acontecendo com você? Eu juro, Henrique,
ele nunca agiu assim com ninguém.
— Não se preocupe com isso. Cães, assim como crianças, precisam ser
conquistados aos poucos. Todo mundo precisa, no fim das contas, não é?
Concordei, convidando-o para se sentar conosco, o que ele aceitou
imediatamente. Como já era quase hora do almoço, combinei com Sofia que
primeiro iríamos comer alguma coisa, e apenas depois ela poderia andar de
bicicleta. A intenção era comprar algo por lá, já que eu tinha levado apenas
alguns lanchinhos mais leves como biscoitos, frutas e alguns sanduíches que
pretendia deixar para a tarde. Comentei a respeito disso e Henrique logo se
levantou, dizendo que compraria hamburgueres para nós. Eu disse que ia lhe
dar o dinheiro, mas ele negou, logo se afastando e indo até um trailer que
vendia os lanches. Tinha um mais próximo, mas ele foi até outro um pouco
adiante.
— Ele até que é legal... — Sofia comentou, sentando-se ao meu lado,
também olhando para Henrique.
Eu a olhei e sorri.
— Acha mesmo?
— É. Mas não conta pra ele que eu disse isso — ela cochichou, como
quem conta um segredo.
Achei graça, mas não contestei o pedido.
— Pode deixar, eu não vou contar. Mas por que você o acha legal?
— Ah, ele deixa você feliz.
— O quê? De onde tirou isso, Sofia?
— Ué, mamãe, você está sempre sorrindo quando está perto dele.
Fiquei sem resposta, pensando a respeito daquela afirmação que, por mais
que tivesse vindo de forma inocente, me fazia refletir a respeito. De fato, nas
vezes em que Sofia havia visto Henrique perto de mim, eu realmente estava
sorrindo na maior parte das vezes, mas... era só uma coincidência, não?
Afinal, quando ela não estava por perto, eu...
Que droga, eu também estava sorrindo. Até mesmo no trabalho na loja,
que era algo que eu jurava que seria um martírio fazer, por não gostar nada
daquele lugar. Henrique tornava o clima leve. Eu me sentia bem na presença
dele, essa era a verdade.
Voltei a olhá-lo, vendo ele trazer algumas sacolas com os lanches e latas
do que parecia ser refrigerante. Era impossível deixar de me sentir
hipnotizada por aquela beleza.
Logo que parou diante de nós, ele se abaixou, apoiando as compras sobre
a canga e tirando uma coisa por vez para nos entregar.
— Para a Sofia, um cheeseburguer com salada sem tomates.
Minha filha arregalou os olhos, surpresa.
— Eu não gosto mesmo de tomate... — ela comentou.
— É, eu sei, sua mãe comentou comigo outro dia.
Forcei a mente, tentando me recordar em que momento eu teria dito
aquilo. Enfim, lembrei que foi em uma conversa durante o almoço na loja,
um comentário rápido, enquanto comia uma salada, sobre Sofia odiar tomates
e sempre me pedir para tirá-los do hamburguer.
Tinha sido algo tão simples... por que ele tinha guardado tal informação?
— E para a Luíza... — ele continuou, me entregando outro hamburguer
— um com carne de frango. Você gosta mais do que da bovina, não é?
Movimentei a cabeça em concordância, embora não me recordasse de ter
comentado qualquer coisa a respeito.
— Como você sabe?
— Você sempre pede frango no almoço. Por isso fui no outro trailer, sei
que esse mais perto só vende hamburguer de carne vermelha.
— Você reparou?
— É, uma vez dei uma parada ali e queria um hamburguer de frango, mas
não tinha.
— Não estou falando disso. Falo de eu sempre pedir frango no almoço.
— Eu reparo tudo em você.
A frase dita com tanta naturalidade não apenas me pegou de surpresa,
como fez com que eu sentisse uma leve alteração nos meus batimentos
cardíacos. Será que aquele homem fazia alguma ideia do efeito que ele
causava em uma mulher dizendo algo daquele tipo?
Lindo daquele jeito, aliás, seria difícil se não soubesse.
Pegando seu próprio hamburguer, ele se sentou ao meu lado. Joe
geralmente ficaria por perto pelo fato de estarmos comendo, mas ele gostava
tanto de ir ao parque que, em vez disso, estava se divertindo rolando sozinho
na grama um pouco adiante de nós, parecendo bem feliz.
E eu precisava confessar que ele não era o único por ali. Estava realmente
feliz pelo fato de Henrique ter nos encontrado.
Enquanto ainda comíamos, ele apontou para a bicicleta de Sofia.
— Bicicleta nova? — indagou.
Sofia estava com a boca cheia, por isso eu me adiantei em responder:
— Na verdade, ela já a tem há quase um ano.
— Ué... então por que as rodinhas?
— Só sei andar assim — Sofia respondeu, parecendo quase insultada com
a pergunta. Eu achava curioso como ela, na ausência de Henrique, dizia que
ele era legal, mas na frente dele demonstrasse um certo ar de implicância.
— Mas é questão de aprender a andar sem elas — ele contestou.
Sofia fez bico e eu respondi por ela.
— Já tentei convencê-la disso, mas ela tem medo.
— Medo de quê? Não tem razão para isso. Vamos, Sofia, eu vou te
ensinar.
Ela olhou para Henrique, desconfiada, mas foi enfática na resposta.
— Não. Tô bem com as rodinhas, elas não me incomodam.
— Sério mesmo? Sei lá, é porque rodinhas em bicicleta parece uma coisa
que uma princesinha usaria. E você me disse que não é uma.
Ele tinha chegado ao ponto certo. Vi os olhos de Sofia faiscarem em
direção a ele, e ela rebateu:
— Não sou uma princesinha boboca, já disse. Sou uma super-heroína
corajosa e destemida.
— Eu não imagino a Super Girl andando por aí com uma bicicleta de
rodinhas.
— Dã, claro que não. Porque ela sabe voar!
Segurei o riso, querendo ver até onde aquela discussão iria. Henrique logo
perceberia que tentar argumentar com Sofia era um exercício de paciência.
Minha filha tinha resposta para tudo, e por vezes conseguia ser bem
convincente. Acho que ela daria uma ótima advogada quando crescesse.
— Mas e quando ela não está combatendo o crime e se disfarça como
uma pessoa normal? Acha que ela anda em uma bicicleta com rodinhas?
Incrivelmente, ela ficou sem resposta, o que era um grande ponto para
Henrique. Ela deu mais uma mordida em seu hamburguer e mastigou
lentamente, parecendo tentar ganhar tempo para contra-argumentar. Quando
enfim o fez, foi sincera:
— Mas e se eu cair?
— Eu não vou te deixar cair. Anda, termina de comer que eu vou te
ensinar a não depender mais daquelas rodinhas de princesinha boboca.
Sofia não respondeu, apenas continuou a comer um pouco menos devagar
do que fazia antes. E isso me dava uma boa dica de que havia aceitado a
proposta de Henrique.
Capítulo 13
“Eu continuo procurando, mas eu não consigo achar
A coragem para mostrar, para te dizer
Que nunca senti tanto amor antes
E mais uma vez eu fico pensando
Em pegar a saída mais fácil”
(If I Let You Go - Westlife)

Aquele tinha se tornado mais um desafio pessoal da minha vida. E eu


nunca fugia de um.
Se me perguntassem porque eu fiz aquilo, de cabeça fria e tentando ser
pragmático, eu provavelmente argumentaria que era mais uma estratégia para
ganhar a confiança de Luíza, conquistando sua pequena filha. Mas a grande
verdade é que nada daquilo tinha sequer se passado pela minha cabeça
quando iniciei a conversa sobre a bicicleta e me ofereci para ensinar Sofia a
andar sem as rodinhas. Eu achava, realmente, que seria divertido para ela.
Lembrava de minha própria infância e de como o meu pai tinha me ensinado
a andar de bike. Ele não era um pai tão presente assim, já que estava sempre
envolvido com a empresa, mas aquele foi um dos momentos que tive junto a
ele e que trazia vivo na memória até hoje. A sensação tinha sido tão boa, que
eu ainda seria capaz de sentir aquilo apenas vendo outras crianças fazendo o
mesmo. Sofia iria adorar, eu tinha certeza.
Todo o resto até ali, no entanto, não nego, tinha sido previamente
planejado. Lembrava do comentário de Sofia sobre irem ao parque no
domingo, e só havia um em nossa cidade, que era o municipal, próximo à
loja. Fui cedo para lá e fiquei perto da entrada, camuflado atrás de uma
árvore, como se fosse uma porra de um bandido armando um sequestro ou
coisa parecida, aguardando até que as duas chegassem – acompanhadas pelo
vira-latas. Não podiam ter deixado ele em casa? Dali as segui, vendo onde
elas parariam e achando o ponto perfeito. Ficava próximo ao trailer que
vendia hamburgueres de frango. Isso porque, no dia anterior, tinha solicitado
a um funcionário meu um mapeamento do parque, com detalhes sobre cada
um dos pontos de venda de comida. Talvez Heitor não aprovasse muito se
soubesse que eu havia desviado um funcionário do escritório da empresa para
essa função, mas... era uma competição, não era? Valia tudo!
Porém, para as demais descobertas eu não havia necessitado de nenhum
espião. Eu me lembrava bem sobre a história do tomate, e também tinha de
fato observado que Luíza preferia frango à carne vermelha. Sem contar que
sabia que ambas gostavam de hamburguer, porque ela já havia comentado
comigo que em suas noites de folga, quando ainda trabalhava no bar, pedia os
lanches por delivery para comer com sua filha enquanto assistiam desenhos
na TV. Para um sujeito que não conseguia sequer se lembrar do nome de uma
mulher depois de ter passado a noite com ela, eu recordava de detalhes
demais a respeito de Luíza. E o mais curioso é que nem precisava fazer muito
esforço para isso.
E Sofia aparentemente preferia as super-heroínas às princesas. Disso eu
ainda não sabia, mas agora que tal informação tinha chegado até mim, não
pretendia esquecê-la.
Quando terminamos de comer, ela se levantou e colocou o capacete
amarelo – combinando com a cor da bicicleta. Luíza permaneceu sentada,
juntando o lixo em uma sacola e guardando os lanches que sobraram na
mochila. Sofia e eu nos adiantamos e seguimos na frente enquanto ela
organizava tudo. Eu empurrava a bicicleta e seguia para a pista ao lado de
Sofia. Quando já estávamos a uma distância relativa de sua mãe, ela me
surpreendeu com um comentário:
— Tá me devendo o pagamento de ontem e de hoje. A mim e ao Joe.
— Você é uma pequena agiota, não é?
— Uma agi o quê?
— Esquece. Mas você é muito pequena para querer tanto dinheiro.
— Estou juntando tudo para um investimento. — Certo, eu estava sendo
extorquido, mas não pude deixar de rir com o tom de voz que ela usou ao
dizer aquela frase. Vamos ser sinceros? Eu estava começando a gostar
daquela menina.
Mas não deveria, já que, em alguns dias, eu sequer a veria mais.
— Vamos fazer o seguinte? — Paramos, já na calçada, e eu me curvei
para ficar com os olhos na mesma altura dos dela — Vou te ensinar a andar
de bicicleta, isso não conta como o pagamento?
— Talvez conte como o de hoje.
— Acho que é uma coisa muito valiosa. Deveria valer por ontem e por
hoje.
Ela revirou os olhos, quase convencida.
— Tá legal. Mas você não está ensinando nada ao Joe, então ainda
continua devendo o pagamento dele.
— Fechado.
Abaixei-me, começando a tirar as rodinhas de apoio. Quando terminei de
fazer isso, Sofia olhou para a bicicleta e depois para mim, cruzando os
braços.
— Eu não vou subir aí.
— Se não subir, como vai aprender?
— Mas eu vou cair. — Ela apontou para a cicatriz em sua testa. — Eu
levei uns pontos da cabeça outro dia e doeu muito. Não quero me machucar
de novo.
— E quem disse que você vai se machucar? E nem vai cair. Eu vou estar
o tempo todo segurando você.
— Eu prefiro aprender usando as rodinhas. Eu gosto delas.
— Com as rodinhas você já sabe. Para aprender a andar sem elas, precisa
tirá-las. Anda, seja corajosa! Olhe todas essas crianças andando já sem as
rodinhas. Não quer ser como elas?
Ela olhou para a pista. Havia muitas crianças ali, mas os olhos dela se
fixaram diretamente em um garotinho que devia ser um pouco mais velho
que ela e que pedalava sua pequena bicicleta ao lado de outra maior, onde
havia um homem. Os dois riam de qualquer coisa engraçada, enquanto
aparentemente apostavam uma corrida. O garoto chamava o mais velho de
‘pai’, o que não deixava dúvidas sobre o parentesco entre os dois.
Voltei a me focar em Sofia e percebi um traço de tristeza em seus olhos
olhando para a cena. Luíza nunca falava nada sobre o pai da menina, mas
tudo me levava a crer que ele não era nem um pouco presente na vida da
filha. Eu só conseguia pensar que ele era um grande idiota, que não fazia a
menor ideia das coisas maravilhosas que estava perdendo.
— É, eu quero — Sofia respondeu, por fim, voltando a me olhar. — Eu
quero aprender a andar sem rodinhas, tio Henrique. Mas você promete que
não vai me soltar? Porque se soltar, eu vou cair.
— Eu prometo que não vou deixar você cair.
— Então tá.
— Assim é que se fala. — Estendi a mão em sua direção. Ela me fitou
com desconfiança por alguns instantes, até que, vencida, acabou batendo sua
pequena palma contra a minha. Luíza chegou nesse instante, acompanhada
pelo vira-lata.
— E então, filha, vai mesmo fazer isso? — ela questionou. Percebi que
ali havia um leve tom de medo, talvez um instinto de superproteção por temer
que a filha pudesse se machucar.
Sofia a olhou com determinação.
— Vou. Sou corajosa. Além do mais, o tio Henrique prometeu que não
vai me deixar cair.
— E não vou mesmo.
Enquanto Sofia ia verificar a bicicleta, junto ao seu cachorro, Luíza se
afastou alguns passos, fazendo um sinal para que eu a seguisse, e então
sussurrou:
— Tem certeza de que isso é seguro, Henrique? Ela ainda é muito
pequena.
— Ela já tem seis anos, Luíza. Eu já andava sem rodinhas na idade dela.
— É, eu também, mas... Sei lá... Foi o meu pai que me ensinou a andar de
bicicleta, e... como eu já te contei, quando ele não estava bêbado e chato, ele
era o melhor pai do mundo, e me passava muita confiança. Já eu, sempre fico
nervosa achando que a Sofia vai cair e se machucar, e com isso acabei que
nunca a incentivei a fazer isso, entende?
Balancei a cabeça, dizendo que entendia. Bem, eu não tinha filhos, então,
em teoria, não teria como compreender aquilo com perfeição. Mas eu sabia
que também não queria que Sofia se machucasse e que tomaria todos os
cuidados para que isso não acontecesse. E também sabia de outra coisa, que
expus:
— Ela parece confiar em mim.
Luíza seguiu com os olhos em direção à filha e esboçou um sorriso.
— É. Ela confia mesmo.
— Então confie em mim também, vai dar tudo certo.
Ela voltou a me olhar e, por um instante, vi-me completamente preso aos
olhos dela. Desviei por um instante para seus lábios, que pareciam me
chamar para tomá-los com os meus. Como eu desejava por aquilo.
Contudo, obviamente, não era o momento adequado, por isso eu apenas a
puxei levemente para mais perto, depositando um beijo em sua testa. O gesto
tão inocente, no entanto, pareceu tão significativo. Havia um sentimento ali
naquele ato. Mas logo forcei meus pensamentos a deixarem isso de lado e
focar em outra coisa.
O foco ali era ensinar Sofia a andar de bicicleta. E era o que eu faria.
Sofia subiu na bicicleta e eu segurei na parte de trás, seguindo-a enquanto
ela pedalava devagar, nitidamente desconfiada. O papo sobre ela confiar em
mim, no fim das contas, não era algo tão absoluto assim. Claro, ela estava
com medo de que eu a soltasse a qualquer momento. E era justamente esse
medo que eu precisava eliminar para que ela conseguisse fazer aquilo.
Passamos muito tempo assim, parando em um momento para fazermos
um lanche com os sanduíches que Luíza tinha levado. Ela durante todo o
tempo incentivava a filha e tirava fotos. Nós três ríamos muito, e até mesmo
o vira-lata parou de rosnar para mim, parecia que tinha me dado uma trégua.
Por aquelas horas, eu esqueci completamente da aposta que me motivou a
estar ali. E em nenhum momento lamentei por passar um domingo em um
programa tão leve, abrindo mão das minhas festas regadas a álcool e
mulheres. Eu estava, de fato, feliz.
Já no final da tarde, percebi que, enfim, Sofia tinha ganhado confiança e
já pedalava mais rápido e com equilíbrio, parecendo por vezes até mesmo
esquecer que eu segurava a bicicleta por trás. Eu era grato por toda a minha
rotina de anos de academia, para conseguir ter condicionamento físico de
aguentar o ritmo daquela criança. Estávamos quase completando uma volta
inteira na pista e voltando a passar por onde Luíza e Joe estavam, quando
senti que aquele era o momento e soltei. Passávamos por Luíza nesse
momento e a vi levar as mãos à boca, num misto de susto e surpresa. Sofia
seguiu pedalando, sem perceber que agora estava sozinha, e eu continuava a
correr atrás dela, sentindo um inusitado orgulho por ela ter conseguido.
Passou-se alguns segundos até que ela percebeu o que acontecia.
Aumentei o ritmo, passando a correr ao lado dela.
— Você me soltou! — ela gritou, enquanto ainda pedalava. — Mentiu
pra mim!
— Não. Eu prometi que você não iria cair. E não caiu. Está pedalando
sozinha.
Só então ela pareceu ter se dado conta do que fazia e a expressão de medo
em seu rosto se dissolveu, dando lugar a um enorme sorriso de empolgação.
— Eu tô pedalando sozinha, e sem as rodinhas! — E passou a gritar mais
alto. — Mamãe, eu tô pedalando sozinha! Tá vendo, mamãe?
Eu não achava que Luíza poderia ouvi-la, devido à distância, mas me
surpreendi ao ouvir um grito ao longe, em resposta:
— Estou vendo, meu amor! Você é incrível!
Olhei para trás, e vi que Luíza corria atrás de nós, ao lado de Joe. Por
estar levando a mochila, o ritmo dela era bem mais lento que o nosso, então
ela ficava cada vez mais para trás, mas não desistia. Poderia ter simplesmente
esperado até que déssemos mais uma volta e passássemos novamente por ela,
mas, na empolgação, não devia ter pensado nisso. Ou até pensara, mas queria
correr até a filha, como uma forma de comemorar e mostrar o quanto estava
orgulhosa.
Em determinado momento, Sofia tentou frear, mas, por ainda não ter
muita prática, acabou se desequilibrando quando a bicicleta começou a parar.
Eu a amparei antes que viesse a cair, mas a parada brusca fez com que eu
próprio derrapasse e fosse ao chão, levando Sofia e sua bicicleta junto
comigo. Porém, consegui segurar a menina com meus braços, evitando que
ela se machucasse. Eu ralei um pouco a perna, mas, na hora, não senti
qualquer dor. Apenas gargalhei junto a Sofia. Eu a coloquei de pé e me
ajoelhei diante dela, já me preparando para também me levantar. Então, ela
me surpreendeu com um abraço.
Um abraço... Um simples abraço de uma criatura tão pequena. E meu
coração pareceu ter parado de bater por um instante.
Recuperando-me daquela emoção súbita, decidi fazer uma brincadeira
para descontrair:
— E então, acho que isso realmente valeu pelo pagamento de ontem e
hoje, não é?
Ela se afastou um pouco e me olhou nos olhos. Parecia analisar em sua
cabecinha as coisas que diria a seguir:
— Eu sei como você pode pagar os próximos dias. Todos eles, até você
contar a verdade para a mamãe.
Olhei rapidamente para Luíza, apenas para garantir que ela estava longe o
suficiente para não ter conseguido ouvir aquela proposta. Ela estava a alguns
metros de nós, mas tinha parado, aparentemente porque o Joe resolveu que
seria um bom momento para usar o banheiro. Ela alternava o olhar entre nós
dois e o vira-lata, já com uma sacolinha na mão, preparada para recolher as
fezes logo que ele terminasse. Ela parecia emocionada ao ver o nosso abraço,
e vê-la assim também me deixou subitamente sem ar. Sentia algo dentro de
mim que não seria capaz de descrever.
Voltei a olhar para Sofia, dando prosseguimento à conversa.
— Então diga, como posso fazer esse pagamento?
— Vai ter uma festa na minha escola. Na sexta-feira. Mamãe vai pedir
pra trocar o horário dela, pra entrar mais cedo e sair mais cedo, assim ela vai
poder ir.
— Entendi. — Na verdade, não havia entendido. Meu primeiro
pensamento foi que, com aquilo, ela quisesse me pedir para, como dono da
loja, cuidar para que o pedido de troca de horário de sua mãe fosse aceito.
Mas, por mais que Sofia fosse bem esperta para a pouca idade,
provavelmente ainda não seria capaz de formular algo assim, não deveria
compreender as complexidades desses requerimentos. Para ela devia parecer
bem simples que seria apenas pedir, que Luíza teria sua troca de horários
garantida.
Bem, mas ela teria, de qualquer maneira. Porque eu me certificaria de
garantir isso.
Tomando fôlego, Sofia continuou a falar:
— Nós vamos apresentar uma peça. Vai ser legal. Eu vou fazer o papel de
uma das árvores e a chata da Júlia fica implicando dizendo que é um papel
bobo. Mas não é! Porque as árvores vão cantar no final. E, além de tudo, eu
amo as árvores, elas são muito importantes pra natureza, você sabia?
— É, eu estou sabendo. Você tem razão, o papel de árvore é bem legal.
— Na verdade, não devia ser tão legal assim. Mas eu não iria desiludir a
criança, não é? — Mas o que você vai querer que eu faça?
— Eu quero que você vá à festa, junto com a mamãe. Você vai, não é?
Promete que vai?
Luíza nos alcançou nesse momento, me safando de ter que dar aquela
resposta.
Como eu iria prometer uma coisa daquelas? Faltava quase uma semana, o
que significava que até lá o meu prazo para a aposta estaria em seus dias
finais. Tudo o que eu tinha que fazer era levar Luíza para cama, garantindo
que antes disso ela não soubesse sobre eu ser um milionário, e então tudo
estaria acabado. Eu iria ganhar a minha aposta, seguiria com a minha vida, e
Luíza com a dela, e fim. Construir laços fortes com a filhinha dela não
ajudaria em nada nesse processo. Uma coisa era eu passar uma tarde junto
com ela e ajudá-la a andar de bicicleta – apesar de, no fim das contas, aquilo
ter sido mais significativo do que era na minha intenção inicial. Outra,
completamente diferente, era eu fazer uma promessa como aquela.
Luíza se abaixou diante da filha, abraçando-a com força e vibrando,
emocionada, por ela ter conseguido pedalar sozinha sem as rodinhas. A
pequena se empolgou, narrando para a mãe os detalhes de sua aventura. E eu
fiquei ali, olhando para as duas, sentindo meu coração bater forte, querendo
guardar para sempre aquela imagem...
E, pior... querendo reviver mais e mais momentos como aquele, ao lado
delas duas.
Mas o que estava acontecendo comigo, afinal?
Capítulo 14
“Não há nenhuma rima ou razão
Apenas essa sensação de plenitude
E em seus olhos
Eu vejo as peças perdidas
Que eu estive procurando”
(I Knew I Loved You - Savage Garden)

O dia tinha sido maravilhoso. Faltavam palavras para que eu pudesse


descrever o tanto de felicidade que eu sentia quando voltei para casa.
Henrique tinha nos acompanhado até lá, mas não ficou por muito tempo e
logo foi embora. Eu compreendia, afinal, quando ele saiu de casa pela manhã,
provavelmente planejava apenas fazer sua corrida de fim de semana pelo
parque e retornar, mas, em vez disso, havia passado o dia inteiro conosco. O
sol já tinha se posto quando fomos embora.
Reparei que, ao contrário da primeira vez que ele tinha me levado em
casa, ele não voltou a insinuar que queria me beijar. Aliás, por mais sutil que
fosse, eu percebia que o comportamento dele vinha mudando dia após dia.
No início, ele fazia a linha mais sedutor, usando um tom de conquista nítido
em sua voz, mas aos poucos isso foi se dissipando e se tornando mais...
natural, talvez. Embora eu ainda fosse capaz de perceber, na forma como me
olhava, que havia um traço de desejo ali.
— Mamãe! — Pelo tom de voz de Sofia, percebi que não devia ser a
primeira vez que ela me chamava. Acabávamos de entrar na sala de casa.
— Desculpe, querida. Falou comigo?
— Parece que você tá com a cabeça no mundo da lua, mamãe — ela riu
ao usar contra mim a mesma expressão que eu volta e meia usava quando ela
se distraía.
— É, parece que eu estava. Mas me diga, por que me chamou?
— A tia Sara vem mesmo aqui hoje?
Ah, é claro! Eu tinha esqueci completamente. Minha prima tinha
combinado de ir lá para casa nessa noite. Tinha estreado a nova temporada de
uma série que ambas amávamos, e sempre que isso acontecia marcávamos de
assistir juntas. Por sorte eram apenas oito episódios, então conseguíamos
sempre assistir em uma tacada só, ainda que isso fosse até de madrugada.
Seria mais uma noite com poucas horas de sono, mas por uma boa razão.
Seria ótimo me distrair um pouco das obrigações do dia a dia maratonando
uma série em companhia de uma amiga.
— É, ela vem... Aliás, preciso avisar a ela que já estamos em casa. —
Apanhei o celular, digitando rapidamente uma mensagem, que enviei para
Sara. — Prontinho. Que tal a senhorita ir tomando um banho enquanto eu
arrumo as coisas por aqui? Pode fazer isso sozinha?
Ela estufou o peito, orgulhosa.
— É claro que posso, mamãe. Já sei até andar de bicicleta sem rodinha.
Rodinhas são para bebês!
Mordi os lábios em uma forma de controlar o riso.
— Mas você ainda precisa praticar, para melhorar o equilíbrio.
— Tio Henrique falou que, depois que a gente aprende a andar sem as
rodinhas, pra ganhar equilíbrio é molezinha.
No fim das contas, não é que os dois estavam se dando bem?
Balancei a cabeça, tentando parar de pensar nisso e insisti para que ela
fosse para o banho. Enquanto isso, limpei as patas do Joe para que ele
pudesse subir no sofá e esvaziei minha mochila, lavando e guardando os
potes que tinha levado com lanches. Logo Sofia desceu, de banho tomado,
quase no mesmo momento em que a campainha tocou. Era Sara, como
sempre trazendo algumas sacolas com petiscos de sua lanchonete. Deixei as
duas arrumando tudo sobre a mesa de centro da sala, enquanto subia para
tomar o meu banho. Quando voltei a descer, tudo já estava arrumado e as
duas dividiam um dos sofás da sala (o outro era totalmente ocupado pelo Joe,
que não tirava os olhos dos petiscos da mesa). Sofia estava muito animada,
contando a Sara sobre o seu dia e sobre como tinha aprendido a andar de
bicicleta.
— ...Daí, quando eu percebi, estava pedalando sozinha, ele tinha me
soltado e eu nem vi! Eu ainda não sei frear muito bem, quando tento acabo
ficando sem equilíbrio e quase caio. Mas tio Henrique falou que é muito fácil
pegar o jeito, é só praticar. Já quero tentar de novo no domingo que vem. —
Ela me olhou. — Podemos ir ao parque de novo no outro domingo, mamãe?
— Vou pensar no caso — rebati. Era certo que eu acabaria cedendo,
ainda que meu corpo implorasse por um dia de descanso.
— E o tio Henrique pode ir de novo com a gente? Pra ele me ajudar a
praticar.
Deixei de sorrir, começando a ficar preocupada com toda aquela
aproximação. Henrique era apenas um colega – certo, talvez já quase um
amigo – e um carinha bonito que flertava comigo de vez em quando, mas
provavelmente não passaria disso. Tinha medo de que Sofia estivesse
começando a projetar nele uma figura paterna e isso a fizesse se ferir no
futuro.
— O tio Henrique tem a vida dele, querida. Hoje ele passou o dia com a
gente e foi bem legal, mas isso não vai acontecer sempre. — Antes que ela
pudesse retrucar, olhei para Sara e mudei de assunto. — Conseguiu fechar a
lanchonete na hora hoje?
— Amém por isso. Hoje não tinha nenhum freguês chato enrolando para
ir embora no final do expediente.
— Se ao menos fosse o Jonas, né?
Ela arremessou uma almofada contra mim, atingindo-me bem no peito, e
isso fez com que Sofia gargalhasse.
— Não vai acontecer nada entre o Jonas e eu. Te contei que ele está com
uma namoradinha nova?
Aproximei-me, sentando-me no sofá. Sofia se ajeitou no meio de nós
duas, deitando com a cabeça no meu colo e as pernas no de Sara. Então
respondi:
— Contou isso na semana passada. E na retrasada também. E acho que
também na anterior. Jonas troca de ‘namoradinha’ toda semana.
— Com essa parece que o lance é sério.
— Você também disse isso nas últimas vezes. Sério, Sara, ele é louco por
você, qualquer um vê isso. E vocês dois não saem desse chove-não-molha, é
irritante.
— Olha só quem fala. A Sofia me contou sobre o seu novo ‘amigo’.
As duas riram juntas, cúmplices. E eu não gostei nada daquilo. Não
queria colocar falsas ideias ou esperanças na cabecinha da minha filha.
— Vamos ver a série ou não? — desconversei, pegando o controle e
ligando a TV.
Olhei para Sofia, vendo que ela já estava com seu tablet na mão, plugado
aos fones de ouvido. Sara e eu assistiríamos a uma série de suspense, que
apesar de não ter cenas de sexo ou violência muito explícita, continha um
enredo adulto que seria um tanto chato e sem sentido para uma criança de
seis anos. Por isso, ela assistiria uma programação que ela própria escolhesse.
Claro, sob minha supervisão.
Ela logo ficou entretida no desenho que assistia, enquanto Sara e eu
comentávamos sobre os acontecimentos da série. Ao final do primeiro
episódio, minha prima pausou, chamando a minha atenção.
— Ela dormiu — Sara sussurrou, apontando para o meu colo. Olhei para
baixo, vendo Sofia adormecida usando minhas pernas como travesseiro. — E
ainda não são nem nove da noite. Geralmente a gente tem o maior trabalho
insistindo para que ela aceite ir para a cama antes das dez.
Minha pequena parecia de fato estar exausta. Com cuidado, tirei os fones
de seus ouvidos e peguei o tablet que estava já quase caindo de suas
mãozinhas, entregando tudo a Sara, que o deixou sobre a mesa de centro.
— É. Mas hoje ela está cansada — expliquei, enquanto afastava
delicadamente uma mecha do cabelo loiro que caía sobre o seu rosto. — O
dia foi bem agitado.
— Então... Aproveitamento que ela dormiu... fala mais sobre esse tal de
“tio Henrique”.
— Não é nada demais. É só um colega lá da loja.
— Sei. Nunca te vi convidando colegas de trabalho para passeios
familiares.
— E eu não convidei. A gente se encontrou lá por acaso.
— E foi por acaso, também, que ele passou o dia todo com vocês? Sem
ter qualquer interesse em você?
Movi os ombros, pensando um pouco a respeito.
— Ainda que ele tenha algum interesse, Sara, será frustrado. Porque eu
não estou interessada.
— Não é o que a Sofia me contou. Ela disse que você está sempre
sorrindo quando está perto dele.
Aquela menina! Além de muito observadora, ela também era bem
fofoqueira.
— Gosto da presença dele, não nego. Mas não vai passar disso.
— Por que não, prima? Nem venha me dizer que é por causa da Sofia. Ser
mãe não te fez deixar de ser uma mulher. Além do mais, ela o adora.
— Ela disse isso, é?
— Disse. E também me contou que ele é bem bonito e que parece gostar
de você.
— Ele faz o tipo sedutor. Deve agir assim com todas as mulheres.
— Será que ele passa o dia inteiro em um parque ensinando aos filhos de
todas essas mulheres a andar de bicicleta? Ele não faria isso se não gostasse
de você.
— Ou se não estivesse muito empenhado em ter sucesso em mais uma
conquista.
Sara estendeu a mão, levando-a até a minha de forma carinhosa.
— Lu, não é porque o pai da Sofia era um canalha que todos os homens
serão iguais a ele.
Eu sabia que ela tinha razão, mas eu não estava disposta a arriscar. O pai
de Sofia havia sido uma paixão avassaladora na minha vida, e era um cara em
quem eu confiava com os meus olhos fechados. Até que eu fiquei grávida e
ele me largou, fugindo como um rato, tornando-se um ser humano bem
diferente daquele homem que namorou comigo durante mais de um ano e que
tanto dizia que me amava. Desde então, meu coração se encontrava
absolutamente fechado para o amor. Mesmo porque, eu passei a ter outros
focos em minha vida. E cuidar de minha filha sempre seria prioridade.
Antes de começarmos a assistir ao segundo episódio, anunciei a Sara que
iria levar Sofia para a cama. Com cuidado para não a acordar, peguei-a nos
braços e subi as escadas até o seu quarto. O cesto de livros já estava separado
bem no local onde sua estante nova ficaria, e relembrar da felicidade dela
com a estante colorida que ela tanto queria fez o meu coração se aquecer.
Coloquei-a na cama e a cobri, sentando-me devagar ao lado dela e fitando
em silêncio aquele rostinho tão lindo, que conseguia ficar ainda mais
encantador enquanto ela dormia. Eu a amava tanto, que seria capaz de passar
a noite inteira ali, velando o seu sono.
Estava com o meu celular no bolso da calça de moletom que eu usava, e
ele nesse momento vibrou, no alerta de uma mensagem recebida. Peguei-o e
destravei a tela. Não consegui evitar que um sorriso bobo surgisse em meu
rosto quando li aquelas palavras enviadas a mim.

Pode parecer bobagem, mas hoje foi um dos dias mais incríveis que já
vivi. Obrigado por tudo. Diga a Sofia que estou muito orgulhoso dela, e que
ela tinha razão: é uma verdadeira super-heroína.

Que droga. O que eu sentia ali ia na contramão de tudo o que eu jurava a


mim mesma há seis anos. Eu não iria me apaixonar novamente. Não podia
me apaixonar novamente.
Contudo, agora já parecia ser tarde demais.
Talvez eu já estivesse apaixonada.
Eu ainda olhava para a tela do celular quando mais uma mensagem
chegou:

Estou ansioso para te reencontrar amanhã na loja.


Muitos beijos e tenha bons sonhos.
Nos vemos amanhã.

Quando dei por mim, meus dedos já se moviam sobre a tela, digitando
uma resposta rápida.

Eu é que agradeço por tudo.


Beijos. Até amanhã.

Realmente... parecia já ser tarde demais para ainda insistir em não me


apaixonar.
Capítulo 15
“Porque você ainda continua perfeita com o passar dos dias
Mesmo nos piores, você me faz sorrir
Eu pararia o mundo se isso nos desse tempo”
(Love Someone - Lukas Graham)

Neste dia, eu começaria a trabalhar em um horário diferente de Luíza.


Enquanto o expediente dela começava às oito, o meu teria início às onze e,
consequentemente, eu sairia mais tarde que ela, o que significava que não
teria como acompanhá-la mais até a sua casa. Obviamente que eu poderia
falar com o Carlos para mudar isso, mas daí esbarraria em outra questão: eu
precisava de pelo menos umas duas horas da parte da manhã livres para tratar
de assuntos importantes da empresa. Já me bastava ter adiado todas as
reuniões que ocorreriam naquele espaço de quinze dias, e deixado um monte
de pendências nas costas do Heitor.
No momento, eu conferia alguns relatórios, quando a porta do escritório
se abriu e meu irmão entrou, já implicando:
— Tic-tac... o tempo está passando, meu irmão. Já se foi quase uma
semana do seu prazo, e até agora nenhum progresso?
Que ódio. Não havia tido mesmo nem um mísero progresso. Nem uns
amassos, nem ao menos um mísero beijo... um inocente selinho já contaria
alguma coisa. Mas nada, absolutamente nada havia acontecido.
Porém, é claro, eu não comentaria a respeito com o meu irmão. Não daria
essa moral para ele.
— Tive muitos progressos. O terreno está sendo preparado, e tudo se
encerrará antes mesmo do final do prazo.
— Se você quer se enganar, o problema é seu.
Bufei, preferindo deixar o assunto de lado. Voltei a tentar me concentrar
nas planilhas exibidas na tela do computador, mas meus pensamentos já
haviam se deslocado completamente para Luíza. Por qualquer razão bizarra
eu não conseguia deixar de pensar no nosso final de semana. Tinha sido tudo
muito bom, mas não perfeito. Porque eu ainda estava louco para sentir o
sabor dos seus lábios. Para senti-la por completo. Nunca uma conquista tinha
sido tão árdua e, ao mesmo tempo, tão desejada por mim.
Eu poderia ter aproveitado a minha noite de domingo para ir à alguma
festa. Não seria nada difícil conseguir uma companhia para encerrar a noite
na minha cama e suprir aquele desejo, mas não era disso que eu precisava.
Ou melhor, até era. Uma boa noite de sexo era tudo o que eu mais queria,
mas sentia que essa vontade não seria sanada se fosse com qualquer outra
mulher que não fosse a Luíza.
— Terra chamando Henrique — ouvi a voz de Heitor já bem próxima e
só então percebi que ele havia se sentado na poltrona do outro lado da minha
mesa, bem à minha frente. — No que tanto você pensa?
Pisquei algumas vezes, voltando a olhar para a tela do computador. Não
tinha nada a ver com a temática dos relatórios, mas algo me veio à mente e,
quando percebi, já estava expondo em voz alta.
— Precisamos rever a questão de acessibilidade das nossas lojas.
Heitor fez uma cara de confuso, mostrando que de fato não esperava por
tal comentário.
— Como é? Temos rampas de acesso, não temos?
— Não na entrada principal. As pessoas precisam dar uma volta grande
para chegar até lá. Ah, e outra coisa... Você sabia que o lixo produzido nas
nossas lojas é simplesmente descartado sem qualquer cuidado maior?
— Não produzimos lixo hospitalar ou nuclear — rebateu.
— Não importa. É um material que deveria receber uma destinação mais
apropriada. Sabe, ser separado para reciclagem, e muita coisa ali pode ser
reaproveitada por... associações de artesãos, por exemplo.
— Henrique, você está se ouvindo falar? “Associações de artesãos”?
Você por acaso conhece alguma?
— Não, mas elas devem existir. Muitas pessoas fariam maravilhas com
coisas como caixotes, ou móveis quebrados ou com defeitos de fabricação,
que simplesmente mandamos para o lixo. Tem coisas que poderiam ser até
mesmo doadas a instituições como asilos ou abrigos de menores.
Heitor sacudiu a cabeça, parecendo realmente confuso. Pensando um
pouco a respeito, como eu poderia culpá-lo por isso? Eu realmente nunca fui
um cara que se preocupou com qualquer uma daquelas questões.
Porém, meu irmão logo pareceu refletir um pouco a respeito do que eu
dizia, enfim percebendo que era uma boa ideia. Embora as motivações dele
fossem bem diferentes das pensadas por mim.
— Você não deixa de ter razão, Henrique. Preocupações sociais e
ambientais garantem likes em redes sociais, e isso obviamente ajuda no nosso
negócio. Podemos ver com a equipe de marketing para criarmos alguma
campanha nesse sentido. Talvez para o Natal.
— Não estou falando de marketing, Heitor. Nem de uma campanha. Mas
de uma mudança sólida na política da empresa. E precisamos falar também
sobre os uniformes dos vendedores.
— Sobre... os uniformes? Qual o problema com os uniformes?
— São feios.
— Como assim são feios, Henrique? São básicos e funcionais.
— Falou o cara que raramente repete uma gravata. Ninguém gosta de ser
básico e funcional, Heitor.
— Quer vesti-los com trajes de festa?
— Claro que não. Mas podemos ver algo menos enjoativo do que aquilo.
E por falar em vendedores... Você sabe quanto eles ganham?
Heitor arregalou os olhos, em choque com o meu discurso.
— É claro que eu não sei, Henrique. Temos milhares de funcionários em
infinitas funções. Existem responsáveis por cuidar dessa questão de gastos
com pessoal e de definir os salários.
— Eis o problema, meu irmão. Como você quer que tudo funcione bem
se você nem sabe quanto os vendedores, que são o pilar principal dos ganhos
de nossas lojas, recebem por mês?
— E você sabe quanto ganha cada um dos seus funcionários da empresa
nos Estados Unidos?
— Não sei, mas logo que você for para lá quero que se inteire a respeito
disso.
— Tudo bem, Henrique. Me conta, o que está acontecendo? Está
gostando daquela mulher e quer dar mais dinheiro para ela, é isso?
Bufei, tentando mostrar que não era nada daquilo.
— Eu estou em contato direto com os outros vendedores, agora sou um
deles. Compreendo de perto suas angústias e seus anseios.
— Carlos me disse que ninguém lá gosta de você. Que tirando a tal Luíza
e mais umas duas amigas dela, ninguém te dá nem bom dia.
Nisso ele tinha razão. Mas eu, obviamente, não admitiria isso.
— O ritmo de trabalho é tão insano que não sobra muito tempo para fazer
amizades, de fato. Mas eu não quero “dar dinheiro para a Luíza”. O que
quero realmente é rever toda a questão salarial. Funcionários bem pagos são
mais felizes e, consequentemente, realizam melhor o seu trabalho.
— Você nunca se preocupou com isso. Alguns dias vivendo uma vida de
vendedor já te fez levantar tantas questões assim, sozinho? Ou realmente tem
alguma influência daquela mulher nisso?
— Influência nenhuma. Bem, nós vamos discutir tudo isso com calma em
outro momento. Agora eu preciso ir, ou chegarei atrasado.
— Você é o patrão, Henrique. Está só fingindo. Nada vai acontecer se
você chegar atrasado.
— Como se o Geraldo soubesse disso. Aliás... precisamos conversar
também sobre o Geraldo.
— Como é? Geraldo não é o gerente de vendas? Você não contou a ele
sobre quem você é?
— Não. De lá, só quem sabe quem eu sou é o Carlos e mais uns dois sub-
gerentes, e espero que continue assim.
— Mas o Geraldo é o gerente de vendas, ele é seu superior direto.
— Exatamente por isso. Quero ser tratado como todos os outros
vendedores lá, sem qualquer privilégio.
— Qual a necessidade de tudo isso?
Na realidade, eu não sabia. Mas confesso que estava sendo uma
experiência interessante isso de ser olhado como uma “pessoa normal”.
Minha vida inteira eu sempre fui o riquinho, o herdeiro, o playboy, o patrão,
o CEO... pela primeira vez, eu era só “um sujeito qualquer” e isso, ao mesmo
tempo em que era um tanto assustador, também tinha seu lado bom.
E a melhor parte, sem dúvidas, era saber que Luíza sorria para mim
apenas por me achar um homem agradável, sem fazer qualquer ideia do que
eu tinha ou de quem eu era.
A filha dela me extorquia, mas... ainda assim, os sorrisos de Sofia eram
verdadeiros. Eu já gostava daquela menininha, no fim das contas.
Fechei as planilhas e me levantei, anunciando novamente ao meu irmão
que estava de saída. Entrei no banheiro do escritório, onde meu – horroroso –
uniforme já esperava por mim. Tirei o terno, vestindo aquela coisa cinza e
sem graça, e então saí. Ao passar por Heitor, ele novamente tentou insistir
para compreender os motivos das minhas ideias de mudanças nas políticas da
Lizano, mas disse a ele que em outro momento conversaríamos, ou eu iria me
atrasar.
De lá, segui para a loja, novamente indo por um carro de aplicativo.
E durante toda a distância que separava a empresa da loja, eu segui o
caminho inteiro sentindo um leve frio na barriga, algo como uma ansiedade
para...
Para rever Luíza, era isso?
Se fosse, não deveria ser. Porque isso era o mesmo que admitir para mim
mesmo que eu estava perdido.

E foi quando eu cheguei à loja que a certeza veio. Estava mesmo


completamente perdido. Logo que entrei, eu me deparei com ela, e foi como
se uma porra de um raio de sol a iluminasse.
Ah, cara... eu estava ficando maluco, além de extremamente piegas.
Ela atendia pacientemente um jovem casal, mostrando a eles os móveis
de cozinha. A forma com que ela sorria enquanto falava a respeito de um
conjunto de mesas e cadeiras nem dava para desconfiar sobre as reais
opiniões dela a respeito daqueles “móveis de fabricação industrial feitos com
material barato e sem qualquer qualidade ou preocupação socioambiental”.
Eu sabia que Luíza não era feliz estando ali, mas ainda assim ela se
empenhava em seu trabalho, dava o seu melhor e tratava todos – dos colegas
aos clientes – com carinho e simpatia. Eu só conseguia pensar no quanto ela
era uma mulher incrível.
Em determinado momento, ela enfim percebeu a minha presença ali e me
olhou, acenando discretamente para mim, mas logo voltando sua atenção ao
casal. Um homem me abordou, pedindo auxílio para a compra de
ferramentas, e eu o guiei até o setor, mostrando a ele as opções e informando
os valores. Para a minha sorte, ele parecia entender daquilo. Graças a Deus,
porque se fizesse qualquer pergunta mais técnica eu fatalmente não saberia
responder. Eu era uma verdadeira negação como vendedor da minha própria
loja, e isso não deixava de ser vergonhoso.
O homem decidiu que ia pesquisar os produtos em outros lugares antes de
decidir a compra, e foi embora. Dei meia-volta para vagar pela loja à procura
de outros clientes perdidos e, ao final do corredor, eu voltei a me deparar com
ela. Dessa vez, seu sorriso era direcionado totalmente a mim e ela vinha
caminhando devagar em minha direção. Que inferno, como ela conseguia ser
linda até mesmo dentro daquele uniforme horroroso? Lá estava novamente a
porra do raio de sol imaginário a iluminá-la.
Eu estava muito fodido...
— Bom dia — ela me cumprimentou, parando diante de mim.
Sorri de volta, porque era impossível resistir ao sorriso daquela mulher.
— Bom dia, linda. — Pela primeira vez, meu elogio não tinha uma
intenção galanteadora. Era mais como uma simples constatação do óbvio,
junto a uma expressão de carinho. Saiu de forma automática e natural.
O sorriso dela pareceu aumentar, mas talvez fosse uma mera impressão
minha.
Ela colocou a mão no bolso de trás da calça, tirando de lá duas folhas de
papel dobradas, as quais me entregou. Peguei-as, sem entender.
— Sofia acordou cedo hoje e ficou desenhando enquanto eu preparava o
café. Ela fez essas duas “cartinhas” para você, pediu para que eu te
entregasse.
— Para mim? — questionei, curioso.
— É. Não sei o que ela desenhou aí, porque ela me fez jurar que eu não ia
olhar, disse que era só para você ver.
Foi inevitável rir por conta daquilo.
— Sua filha é uma figura, Luíza. Diga a ela que agradeço pelas cartas.
Talvez eu mande uma resposta, mas já alerto que não sou um bom desenhista.
— Tudo bem, ela vai entender. Como eu te disse, eu não vi, mas estou
certa de que é um agradecimento ao dia de ontem. Ela não para de falar sobre
agora saber andar de bicicleta sem as benditas rodinhas de apoio.
— Ela só precisava de um empurrãozinho, porque ela realmente é muito
corajosa, como as super-heroínas que tanto gosta.
— É, ela sem dúvidas é. Não merecia ter uma mãe tão medrosa. Como
você disse, ela já devia ter aprendido a andar de bicicleta, mas a verdade é
que eu é que estou sempre com medo de que ela possa se machucar, e acabei
passando esse medo para ela.
— Não é um simples medo. É preocupação materna. Isso é natural.
Como um cara que não tinha – nem nunca pensara em ter – filhos, eu não
possuía nenhuma propriedade para falar sobre aquilo, mas parecia ser óbvio o
que acontecia ali. Luíza nunca falara nada a respeito, mas eu estava certo de
que algo – ou alguém, para ser mais exato – já a havia machucado muito no
passado. Toda a história sobre o pai de Sofia era mantida como um segredo,
mas era algo que parecia machucar as duas. Eu nem conhecia aquele homem,
mas já o odiava por isso.
Apesar de que... será que o que eu pretendia fazer com ela também não
poderia machucá-la profundamente?
Antes que eu pudesse pensar mais a respeito, ela voltou a falar.
— Bem, mas eu também quero te agradecer pelo dia de ontem. Sofia
ficou muito feliz pela sua presença lá com a gente. Bem... na verdade, não
apenas ela.
Vi-me sem resposta e, por alguns segundos, ficamos presos em uma troca
silenciosa de olhares. Até que uma voz feminina chegou aos nossos ouvidos,
interrompendo aquele silêncio confortável.
— Ei, moça, você trabalha aqui? Pode me ajudar?
Luíza imediatamente se virou, indo atender a mulher que a chamava. E eu
fiquei ali parado no meio do corredor, como um idiota, tentando colocar em
ordem tantos pensamentos que inundavam a minha mente.
Tentando voltar à realidade, atentei-me às duas folhas dobradas que ainda
estavam nas minhas mãos. Desdobrei uma delas, deparando-me com um
desenho de uma garotinha loira sobre uma bicicleta, com um homem a
olhando logo atrás. Sorri, sentindo-me emocionado com a representação
infantil do momento vivido no dia anterior. Parecia realmente uma carta de
agradecimentos, embora eu achasse, por qualquer razão, que era eu quem
deveria agradecer por aquele domingo.
Passei para o outro papel, desdobrando-o. Senti minha testa franzir com o
que eu encontrei ali. Era o desenho de algo amarelo que parecia ser um
animal – um cachorro, possivelmente. Sobre a cabeça dele estava um balão
de pensamento, e, dentro dele, algumas notas desenhadas, pintadas da mesma
cor dele. Inclinei a cabeça, mal conseguindo acreditar no significado daquele
desenho. Uma nada sutil carta de cobrança às notas de cinquenta reais que eu
ainda estava devendo “para o Joe”.
Por fim, acabei rindo. Eu já adorava aquela menina, essa era a grande
verdade.
Capítulo 16
“Respiro fundo e tento seguir o jogo, mas
Eu sou uma péssima mentirosa
Eu sinto o mundo como um tijolo em meu peito
E a festa só começou”
(The game is over - Evanescence)

Embora passássemos a maior parte do dia juntos, nossos horários de


entrada e saída agora eram diferentes, o que significava que eu não tinha mais
a companhia dele até a minha casa, como ocorreu na semana anterior. Sofia
havia sentido falta, chegou da escola perguntando pelo “tio Henrique”. Ele
havia mandado um envelope para ela, com a resposta de sua carta, e, assim
como ela, também me fez prometer que eu não abriria e entregaria direto para
ela. Atendi ao pedido, mas, como uma mãe zelosa (e curiosa), após entregar
pedi para que Sofia me mostrasse. Ela inicialmente correu com o envelope
para o quarto, dizendo que primeiro ia ver sozinha, e voltou alguns instantes
depois, para me mostrar o desenho, que disse ser a única coisa no envelope.
Ao contrário do que me dissera, Henrique desenhava relativamente bem, mas
eu não compreendi a ilustração feita com uma caneta bic preta, que a gente
usava na loja. Era um cachorro – parecia ser o Joe – usando óculos escuros e
um colar com um enorme pingente de um cifrão, com umas notas de dinheiro
caindo ao seu redor.
— O que isso quer dizer? — perguntei, franzindo a testa.
— Ih, mamãe, não sei. Tio Henrique é meio louco. Mas fala pra ele que
eu gostei, e o Joe também.
— Só veio isso mesmo dentro do envelope?
— Só! — foi toda a resposta que ela deu, antes de pular no sofá e ligar a
televisão.
Não insisti e fui apenas fazer o jantar.
No dia seguinte, confesso que, novamente, fui para a loja mais animada
do que achei que estaria por trabalhar naquele local. Teria três horas de
trabalho antes que Henrique chegasse, e esse era o período do dia que mais se
arrastava para passar. Que droga, eu parecia até mesmo uma adolescente
apaixonada. Aliás, a última vez que eu me sentira assim foi quando eu de fato
era apenas uma adolescente.
As primeiras horas de trabalho foram bem tranquilas, embora a loja
estivesse um pouco mais cheia que o habitual. Em geral, boa parte das
pessoas dispensava a oferta de ajuda dos vendedores, até que um homem me
chamou, solicitado o meu auxílio.
Logo que bati meus olhos nele, fui tomada por um pressentimento ruim.
Talvez fosse por conta da implicância natural que eu tinha com os riquinhos
da cidade, que era exatamente o que aquele cara – que devia ter a minha
idade ou um pouco mais – parecia ser. Vestia-se e se comportava como um
perfeito playboy.
Mas isso, por si só, não teria sido o suficiente para me incomodar. O pior
de tudo foi o jeito como ele me devorou com os olhos, de forma tão
descarada que me deixou terrivelmente sem graça.
— Pois não? — joguei para ele, de forma automática. Geralmente
emendaria com um “no que posso ajudá-lo?”, mas detive-me, pressentindo
que a frase educada poderia levar a alguma resposta completamente
inapropriada.
Ele desceu os olhos até a altura dos meus seios, dando uma olhada geral
antes de se fixar no meu crachá.
— Luíza, não é? Trabalha aqui há muito tempo?
Forma ridícula de puxar um papinho. Mesmo porque, ninguém trabalhava
ali há muito tempo, tendo sido a loja inaugurada há apenas alguns dias.
— Uma semana — respondi simplesmente, sem sorrisos ou tom de
simpatia. — Está procurando algo em especial?
Ele ignorou a minha pergunta.
— Você é bonita demais para trabalhar num muquifo desses.
Assim como eu, ele não parecia gostar daquele lugar, embora
aparentemente por razões bem distintas. As Lojas Lizano tinham um público-
alvo focado em consumidores de classe média, e o estilo daquele cara me
dizia que ele não deveria comprar os móveis de sua sala ali.
— Procurando por algo em especial? — respondi a pergunta, para ver se
ele iria direto ao ponto do que procurava por ali.
— Minha mãe me ligou dizendo que minha madrinha apareceu de
surpresa lá em casa e quer me ver. Seria educado eu levar alguma coisa para
ela. Estava passando aqui em frente e decidi parar pra ver se encontro algo,
estou sem tempo de procurar um lugar melhor.
Aparentemente, ele não fazia ideia do que iria comprar. Esse costumava
ser o tipo mais complicado de cliente. Embora, até o momento, nenhum deles
tivesse sido tão cara de pau na forma como olhava para os meus peitos.
Isso acontecia constantemente no bar, embora tivesse dois fatores
diferentes. O primeiro, era que geralmente os caras que faziam isso estavam
tão bêbados que logo mudavam o foco para outra coisa ou acabavam
desmaiando no balcão antes disso. Com os que seguiam a insistir, eu
simplesmente lançava um olhar para o meu patrão, que era um cara de quase
cinquenta anos, mas com dois metros de altura, um físico super bombado e
um instinto paternal para defender seus funcionários, todos na faixa dos vinte
e poucos anos, a mesma idade da filha dele. Ele apenas se aproximava,
perguntava ao engraçadinho qual era o problema dele, e isso geralmente
resolvia tudo.
Mas, ali... eu duvidava muito que Geraldo fosse exercer seu poder como
gerente para encarar um cliente e proteger um funcionário.
— Tem ideia do que a sua tia iria gostar de ganhar? Ela gosta de itens de
decoração com uma pegada mais mística? Temas florais? Artigos de cozinha?
Arranjos de plantas?
— Planta, isso! Aquela velha tem um matagal em casa. E ela não é uma
pessoa de muito luxo, gosta de qualquer porcaria.
Controlei-me para não revirar os olhos, indignada com a forma como ele
se referia à tal madrinha. Embora ele fosse um homem adulto e minha filha
uma garotinha de seis anos, como mãe eu não conseguia deixar de pensar que
aquilo ali era fruto de uma péssima educação.
Pedi que ele me acompanhasse e, enquanto caminhava à sua frente,
guiando-o para o setor de jardim, suspirei profundamente, desejando que ele
escolhesse logo qualquer coisa e fosse embora. Quando chegamos ao nosso
destino e eu me virei, reparei que ele olhava descaradamente para a minha
bunda.
Desagradável... para dizer o mínimo.
— Esses arranjos têm saído bastante para presente — comuniquei, na
esperança de que ele apenas escolhesse um deles e fosse embora.
Ele sequer olhou para os produtos e manteve-se me encarando em um
silêncio constrangedor de alguns segundos, até que perguntou:
— E quanto vai me custar essa belezinha?
— Depende. Eles têm valores diversos. De qual o senhor gostou mais?
— De você.
— O quê? — Foi impossível evitar a indagação automática. Fiquei ainda
imaginando que eu deveria ter entendido errado.
— Me diz qual o valor da sua hora de trabalho, que eu te levo para um
lugar bem mais legal que esse daqui.
— Não estou interessada em mudar de emprego, senhor. — Eu tinha
entendido muito bem o que ele estava querendo dizer, mas ainda assim
banquei a desentendida. Era uma forma mais sutil de mostrar a ele que não
estava interessada em nenhuma proposta engraçadinha. Minha vontade real
era a de levar a mão à fuça dele, mas precisava manter aquele emprego. — Já
escolheu o arranjo para a sua madrinha?
— Esquece a minha madrinha. Estou agora interessado em algo muito
melhor.
Ele tentou pegar a minha mão, mas eu a puxei bruscamente, notando que
ele pareceu meio surpreso com isso.
— Se o senhor não quer levar nada da loja, pode se retirar, e tenha um
bom dia.
— Já disse que quero levar algo da loja. Vem comigo, vai. Já falei que
vou te recompensar muito vem. Ninguém vai te demitir. Meu pai é parceiro
de vários negócios com os Lizano. Um telefonema meu e amanhã você volta
ao trabalho como se nada tivesse acontecido, nem vão descontar o seu dia
nem nada. Mas se você não quiser ir... eu posso dar um telefonema também,
mas aí não garanto que será tão legal.
Enquanto ele falava, vi-me subitamente sem reação, mal acreditando que
estivesse mesmo ouvindo aquele monte de merda.
— Senhor, não me interessa quem é o seu pai e nem os telefonemas que o
senhor pretende dar. Eu não sou uma mercadoria e não estou à venda, então,
por favor, pode se retirar? Ou serei obrigada a chamar um segurança da loja?
Ele abriu a boca, prestes a retrucar, mas sua voz foi abafada por outra:
— Ouviu o que a moça disse? Faça o favor de se retirar.
Virei o rosto na direção em que vinha a voz, deparando-me com
Henrique, que vinha pelo corredor lateral, caminhando em nossa direção.
O playboy babaca, no entanto, sequer o olhou e continuou a me secar com
os olhos, como um animal faminto obcecado por um pedaço de carne.
— Garota, você não vai querer mexer com alguém de família importante
como a minha. Não estou te pedindo nada demais, apenas para que me
acompanhe. A gente vai se divertir um pouco.
Enojada, preparei-me para responder, enfim perdendo toda a educação
que eu ainda me forçava a ter. Para o inferno com as chances de eu ser
demitida, eu não iria abaixar a cabeça para um playboy de merda.
Contudo, antes que eu dissesse qualquer coisa, Henrique parou ao meu
lado, encarando aquele idiota.
— A moça já disse que não tem qualquer interesse em te acompanhar,
agora vá embora daqui.
— Cala a boca, seu monte de bosta! — ele retrucou sem sequer olhar para
Henrique.
Deu um passo à frente e novamente tentou agarrar a minha mão. Dessa
vez, o movimento tinha sido tão rápido que eu não tive o reflexo de recuar e
ele acabou conseguindo segurar o meu pulso. Mas tal contato durou poucos
segundos, pois ele logo me largou ao ser atingido por um soco certeiro no
rosto.
— Não ouse encostar nela de novo! — Henrique advertiu, apontando-lhe
o dedo indicador.
Recuperando-se do impacto que quase o levou ao chão, o playboy voou
para cima de Henrique, tentando contra-atacar. Até conseguiu acertar um
soco, mas levou novamente a pior, sendo de novo atingido, dessa vez com
mais força. Ele cambaleou e acabou caindo.
Ouvi vozes femininas próximas, as quais identifiquei como sendo de
Carla e Beatriz, dizendo que iriam chamar um segurança. Pessoas se
aglomeravam ao nosso redor, mas eu não prestava qualquer atenção a elas,
olhando apenas para aqueles dois. Estava nervosa com a situação, com medo
de que Henrique se machucasse ou que se prejudicasse gravemente por ter
batido naquele imbecil. Especialmente se ele fosse mesmo de uma família
com dinheiro, aquilo poderia trazer consequências a Henrique. Ao mesmo
tempo, havia um sentimento inusitado em mim ao pensar que ele se arriscava
daquele jeito para me proteger.
Henrique desferiu mais um soco e uma trilha de sangue voou do nariz
daquele idiota, sujando o piso branco da loja. Por mais que eu tivesse aquele
sentimento quase primitivo de sentir-me lisonjeada por um cara fazer aquilo
por mim, eu sabia que não era certo. Mesmo que aquele playboy realmente
merecesse aquilo. Por isso, aproximei-me, segurando os ombros de Henrique.
— Pare, por favor. Deixa esse imbecil ir embora, ele já teve o que
merecia.
Nesse momento, o babaca parou de se debater para tentar se soltar e
olhou diretamente para Henrique, parecendo reconhecê-lo de algum lugar.
— Ei... você? Mas você não é o...
— Cala a sua boca e dá o fora daqui — Henrique o interrompeu, furioso.
O outro cara parecia ter reconhecido um demônio no rosto de Henrique,
pois se levantou e, como um rato, saiu de lá correndo em desespero. Mas
isso, obviamente, não amenizaria a situação. A confusão já estava mais do
que armada. Uma multidão se aglomerava ao nosso redor. Dentre os rostos
que fitavam Henrique de forma confusa, havia um que o encarava com
verdadeiro ódio. Aproximando-se alguns passos, Geraldo ordenou:
— Vá para a sala da gerência. Agora.
Capítulo 17
“Alma errante
Mente errante
Imaginando o que aconteceu de errado comigo”
(The Trouble with Wanting - Joy Williams)

Como eu já mencionei, nomes e rostos nunca foram o meu forte. Por isso
que, em um primeiro momento, eu não reconheci aquele verme. Mas agora eu
me lembrava bem. Jonatas Vieira era filho de Ricardo Vieira, dono de
inúmeros negócios, dentre eles uma empresa de eletrodomésticos da qual a
Loja Lizano era a revendedora oficial. Na verdade, a família dele precisava
muito mais da nossa do que vice-versa, e provavelmente por isso ele ficou tão
apavorado ao me reconhecer. Mas isso não me importava, ele poderia ser o
homem mais poderoso do mundo, que eu da mesma forma não hesitaria em
dar a ele a lição que mereceu por ter tratado Luíza da forma como tratou.
Porém, o que mais me embrulhava o estômago era lembrar que nós dois,
apesar de não sermos amigos nem nada próximo a isso, frequentávamos os
mesmos lugares. No dia em que conheci Luíza no bar, por exemplo, eu tinha
estado mais cedo em uma festa em que ele também estava. Sempre o achei
meio idiota, mas agora era assustador pensar que talvez eu fosse mais
parecido com ele do que imaginava.
O que Luíza iria pensar de mim se soubesse disso?
Fui para a sala da gerência e Luíza insistiu em me acompanhar, embora
eu tivesse pedido que ela não fizesse isso. Seria muito mais simples resolver
a situação – já que Carlos também estaria lá – se ela não fosse junto.
Mas ela não apenas foi, como também tentou me defender da fúria de
Geraldo.
— Aquele homem me assediou bem aqui, no meu local de trabalho, e
Henrique agiu como um bom colega e tentou me defender — ela argumentou.
Em um canto da sala, Carlos me olhava em silêncio, como se me
perguntasse se queria que ele resolvesse aquela situação. Sem que Luíza
percebesse, movimentei rapidamente a cabeça para ele, em uma negativa, de
forma com que ele compreendesse que eu não queria qualquer tratamento
diferenciado. Desde o início eu tinha deixado claro para ele que, ali, eu seria
apenas um vendedor, e deveria ser tratado com qualquer outro deles.
— Aquilo não foi uma defesa, senhorita — Geraldo argumentou, irritado.
— Foi um ataque de fúria, um comportamento animalesco e imperdoável.
Como pôde tratar assim um cliente, rapaz?
— Você deveria perguntar ao cliente por que ele tratou a Luíza daquela
forma.
— Ele é um cliente. Ela é uma vendedora. Tem que se colocar em seu
lugar e aprender a lidar com esse tipo de situação sem perder a calma. Pelo
que me contaram, era o que ela estava fazendo, até você decidir interferir e
agir como um selvagem.
Ia retrucar, mas Luíza foi mais rápida do que eu.
— Quem te contou fez uma análise bem superficial. Porque eu estava a
ponto de perder a linha com aquele sujeito. Ele não foi só inconveniente. Ele
me ameaçou!
— Isso você resolveria da porta daqui para fora. Durante o seu
expediente, tem que ser paciente e educada com os clientes. Sempre.
Dessa vez, eu não aguentei e precisei me manifestar:
— Você tem razão quando diz que ele é um cliente e ela é a vendedora. É
a sua vendedora. Você é gerente dela, devia prezar pela sua segurança acima
de tudo. Uma loja não é nada sem os seus vendedores. Uma empresa não é
nada sem seus funcionários.
— O que você entende de empresas, moleque? É só um coitado que não
tem onde cair morto, precisou de uma indicação para entrar aqui. E se tivesse
realmente alguma ligação com Heitor Lizano, como afirmou ter, teria entrado
em um cargo decente. Não como uma porcaria de um vendedor.
“Porcaria”? Mas qual era o problema daquele sujeito? O que o fazia achar
que poderia falar daquele jeito com qualquer pessoa? Eu estava preparado
para colocá-lo em seu devido lugar, mas Carlos acabou fazendo isso por
mim.
— Já chega, Geraldo. Não tem qualquer necessidade, nem mesmo o
direito, de falar com ele dessa maneira. Ser superior direto dele não te dá esse
poder. Assim como eu sou o seu superior e não me lembro de ter te tratado
dessa forma em momento algum.
O covarde logo colocou o rabinho entre as pernas, mostrando que toda a
sua moral era apenas para quem ele julgasse inferior a ele.
Ah... se ele soubesse que bastaria uma ordem minha e ele iria para o olho
da rua...
Contudo, aparentemente, o demitido ali não seria ele.
— Perdão, senhor Carlos, eu me exaltei. Bem, mas a decisão cabe ao
senhor, não a mim. Mas preciso lembrar que agredir um cliente ou qualquer
pessoa dentro da loja é considerado uma infração gravíssima. E sabe qual é a
pena para isso.
Olhei para Carlos, sabendo que Geraldo tinha toda a razão. Era a política
da empresa. Óbvio que meu papel ali como vendedor era um grande teatro e,
oficialmente, eu não teria como ser demitido da minha própria empresa –
mesmo porque, sequer era formalmente contratado. Mas eu tinha deixado
claro a Carlos que, para manter bem a minha farsa, eu deveria ser tratado do
mesmo modo que todos os outros funcionários. Eu tinha mesmo agredido
uma pessoa – embora não tivesse qualquer remorso por isso. Para defender
Luíza, eu faria de novo quantas vezes fossem necessárias. E tive muitas
testemunhas da minha ação. Todos os demais funcionários sabiam do
ocorrido e, caso eu não fosse punido da forma correta, eles saberiam que
havia algo errado com a minha situação ali. Portanto, eu apenas suspirei e
disse:
— Faça o que deve ser feito, senhor Carlos. Pelo que eu fiz, eu devo ser
demitido, não é?
Ele movimentou a cabeça em uma afirmação, embora aparentasse estar
nitidamente desconfortável em ter que fazer aquilo.
— Sim, Henrique. Eu sinto muito. Mas vou ter que demiti-lo.
— Não! — Luíza entrou na minha frente, furiosa. — Isso é injusto. Ele se
excedeu ao bater naquele filho da puta, mas fez isso para me defender.
— Que vocabulário inadequado para falar com seus superiores... —
Geraldo resmungou, sendo prontamente rebatido por ela.
— Ah, vá à merda! — Sabia que o momento era tenso, mas foi inevitável
rir da cara de choque de Geraldo. Não devia estar acostumado a ser tratado
assim por aqueles que julgava inferiores a ele. Luíza voltou a olhar para
Carlos e prosseguiu. — Por favor, senhor Carlos, não é justo que ele seja
demitido por tentar defender uma colega que estava sendo assediada.
— Eu sinto muito, Luíza — Carlos respondeu. E, realmente, parecia
sentir. — Mas é a política da empresa.
— Mas é uma política burra! — Ela bufou. Nesse caso, eu concordava
com ela. Precisava urgentemente rever aquela porcaria de regulamento
interno. — Mas... quer saber? O que esperar dessa loja de merda? Que enfiem
a política de vocês no...
— Calma, Luíza... — Toquei o ombro dela, tentando acalmá-la. Além de
ser demitido da minha própria empresa, o que eu menos queria para finalizar
aquele dia era ter que levá-la para um pronto socorro depois de sofrer um
ataque cardíaco, que era o que parecia estar prestes a acontecer ali.
— Bem, eu vou ficar calma. A partir de agora, já que também não
trabalho mais aqui. Eu me demito dessa filial do inferno!
Após dizer essas palavras, ela saiu da sala, furiosa. Fiquei ainda
paralisado por alguns instantes, em choque, pego de surpresa por aquela
reação dela. Eu não esperava por aquilo. E eu não poderia permitir aquilo de
forma alguma.
Assim, enfim tive uma reação e saí dali correndo, indo atrás dela, na
esperança de fazê-la mudar de ideia.
Mas eu já a conhecia o suficiente para saber que eu não teria sucesso
nisso.
E, de fato, não tive.
De herói do dia eu fui rebaixado no meu próprio conceito a um grande
merda. A verdade é que eu não era muito acostumado a ter muitas reflexões a
respeito das consequências dos meus atos. E, ao socar aquele imbecil,
especialmente por estar movido pela raiva, eu não tive nem um milésimo de
segundo de reflexão. Mesmo depois, tendo como consequência a “demissão”,
que me faria ter que me afastar de Luíza, eu tinha zero arrependimento pelo
que eu fiz.
Mas, agora... tudo mudava radicalmente de figura. Era Luíza quem tinha
perdido um emprego do qual ela precisava muito.
— Você não devia ter feito isso... — repeti isso a ela pela milésima vez.
Andávamos lado a lado pela rua, a caminho da sua casa. Talvez fazendo
aquele trajeto pela última vez. — Ainda dá tempo de você voltar lá, Luíza.
Carlos vai entender que você disse aquilo no calor do momento e vai ignorar
seu pedido de demissão.
— Henrique, eu já disse: não volto para aquela loja. De forma alguma.
Nunca mais colocarei meus pés naquele lugar dos infernos!
Pronto... se ela antes já odiava a minha rede de loja, agora esse ódio
parecia ter triplicado. E eu não queria que fosse assim, porque... sei lá! Eu
não me importaria se fosse qualquer outra pessoa, mas me entristecia que
justo Luíza tivesse tanta raiva do negócio da minha família. E eu estava tão
disposto a melhorar as coisas erradas da Lizano, para fazê-la mudar de
opinião...
— Além do mais — ela prosseguiu. — Eu tenho o meu emprego antigo
no bar esperando por mim, sei que meus antigos patrões vão me aceitar de
volta. Minha maior preocupação é com relação a você.
A mim? Ela estava sem emprego e tinha uma filha pequena para criar,
mas se preocupava comigo? Aquela mulher era realmente incrível.
— Eu vou dar um jeito. Tenho uma grana guardada, não se preocupa
comigo, Luíza, é sério. Mas, sobre o bar... Aquele horário de trabalho é
horrível para você. Além de cansativo, te faz perder muito da companhia da
Sofia, e te faz ter que deixá-la com uma babá.
— É, eu sei disso. Mas é o que me resta, né? A vida adulta não nos dá
muitas opções.
Ela já tinha me falado algo parecido da outra vez. O que me fazia lembrar
que nada daquilo fazia parte dos sonhos de Luíza. Nem o bar, nem tampouco
a loja. Ela tinha sonhos e talentos muito maiores que tudo aquilo. O que ela
fazia com seus móveis era encantador, e ela merecia ter o seu trabalho
reconhecido e poder ganhar a sua vida com aquilo que ela fazia tão bem. E
não me importava mais que rumos aquela maldita aposta tomasse, eu estava
disposto a ajudá-la naquilo.
Mas como faria isso sem que ela soubesse quem eu realmente era?
Porque se ela soubesse fatalmente não aceitaria nada de mim. Engraçado
que há até alguns poucos dias, pensar sobre isso não me trazia aflição
alguma. Agora, eu sentia um medo enorme da reação dela quando
descobrisse a minha mentira.
Paramos em frente à casa dela. Preparei-me para me despedir, mas ela fez
um convite inesperado.
— Vem, entra um pouco.
— Ah... não... — neguei. Ainda estava bem cedo, levaria horas até que
Sofia retornasse. Em qualquer outro momento eu vibraria com a possibilidade
de ficar a sós com ela. Mas, por qualquer motivo, agora eu não me sentia
mais assim. — É melhor você descansar um pouco, o dia foi pesado.
— Não vou te deixar ir embora assim, Henrique. Precisa colocar um gelo
nesse rosto o quanto antes, ou vai inchar muito amanhã.
Eu já tinha até mesmo esquecido que, em meio à confusão, aquele filho
da puta tinha conseguido me acertar um soco bem abaixo do meu olho
esquerdo. Provavelmente por ainda estar com o sangue quente, eu não sentia
qualquer dor. Mas era certo que aquilo ficaria roxo. Se já não estivesse.
Ela abriu o portão e deu espaço para que eu entrasse. Acabei aceitando a
oferta. Ainda no quintal, o vira-lata veio até mim, rosnando e me mostrando
os dentes de forma ameaçadora, antes de ir pular sobre sua dona, para
recepcioná-la.
Nós não estaríamos tão sozinhos assim, afinal.
Capítulo 18
“Algumas pessoas esperam a vida inteira
Por um momento como este
Algumas pessoas procuram para sempre
Por aquele beijo especial”
(A Moment Like This - Kelly Clarkson)

Henrique tinha toda a razão quando disse que aquele dia tinha sido bem
pesado. Tinha sido tanta emoção em um intervalo tão curto de tempo, que eu
nem saberia determinar qual sentimento estava mais forte dentro de mim,
porque... eram tantos...
Era nojo daquele playboy babaca...
Raiva do Geraldo e da forma como achava que poderia tratar outras
pessoas por se achar superior...
Raiva, também, da Lizano e da forma como via seus funcionários como
lixos.
Preocupação por estar agora desempregada. Porque, mesmo que eu
soubesse que minha vaga no bar ainda estaria esperando por mim, aquilo era
voltar um passo em uma decisão minha que tinha melhorado
consideravelmente a minha rotina com Sofia.
Tristeza, por pensar em como contaria a Sofia que voltaria a trabalhar
durante a noite e a passar menos tempo com ela.
Mas, ao mesmo tempo, eu também sentia alívio. Porque eu não gostava
da Lizano, e por mais que meus dias trabalhando lá tivessem sido agradáveis,
eu não conseguia tirar da minha mente o fato de estar trabalhando para uma
empresa da qual eu discordava de tantas coisas. O ato de me demitir tinha
sido incrivelmente libertador.
E... sobre o Henrique... Como descrever o que eu sentia? Ele tinha me
defendido. E isso fez com que ele próprio perdesse o seu emprego. Por mim.
Eu não podia negar o quanto aquela atitude dele tinha mexido com o meu
coração em tantos níveis. Culpa, gratidão, carinho... era tanta coisa se
agitando dentro de mim.
Deixei-o na sala enquanto ia até a cozinha. Peguei algumas pedras de gelo
e embrulhei em uma sacola plástica, levando de volta para a sala. Quando
cheguei lá, Henrique estava sentado no sofá, ao lado de Joe. Sorri com a
cena.
— Impressão minha, ou vocês dois estão começando a se entender?
— Estou tentando convencê-lo de que eu sou um humano legal, mas ele
ainda não parece gostar muito de mim.
Entreguei a ele a sacola com gelo, orientando-o a pressionar levemente
sobre o ferimento. Ele assim o fez, soltando um baixo gemido de dor quando
o frio do gelo tocou a sua pele. Eu me sentia tão culpada por mais aquilo...
Além de perder o emprego, ele ainda estava ferido. Tudo isso por me
defender.
Dei um leve toque na cabeça de Joe, que ele logo compreendeu como um
sinal para que descesse do sofá para que, assim, eu pudesse me sentar ali. Ele
foi se sentar no tapete, mas ainda manteve os olhos fixos em Henrique.
— Tá vendo? — Henrique aprontou para o cachorro. — Ele realmente
não gosta de mim. Está planejando o melhor momento para me morder, tenho
certeza disso.
Eu ri. Como se compreendendo que estávamos falando sobre ele, Joe se
levantou e subiu as escadas, provavelmente indo para o quarto da Sofia. Ele
amava dormir na cama dela quando ela não estava em casa, e eu imaginava
que fosse por causa do cheiro dela na roupa de cama, que devia aliviar um
pouco a sua saudade.
— Joe é um cão muito dócil e amigável, mas nem sempre foi assim.
Quando o adotamos, ele era meio desconfiado também. Sofia tinha só três
aninhos, mas chorava dizendo que ele não gostava dela.
— Tá brincando? O Joe não gostava da Sofia? Mas ele é louco por vocês
duas.
— Porque nós ganhamos a confiança dele. Ele já tinha quase um ano e
teve outros donos antes de nós, que o abandonaram. Provavelmente temia que
isso acontecesse novamente.
E eu o compreendia perfeitamente. Era difícil se permitir voltar a confiar
em qualquer pessoa depois que uma te fez algum mal. Especialmente se fosse
alguém a quem você amou incondicionalmente.
— Se é assim, seguirei tentando ganhar a confiança dele — Henrique
declarou. — E a sua também.
— Talvez a minha seja um pouquinho mais difícil que a do Joe.
— Tudo bem. Posso ter um pouquinho mais de insistência com você do
que com ele.
Sorri, mas logo mudei de assunto, voltando para aquele que tanto me
incomodava:
— Eu sinto muito por tudo isso. Você perdeu o emprego, está aí com o
olho roxo... por minha causa.
— Não foi por sua causa, Lu. Foi por causa daquele babaca. E eu já te
disse: vou conseguir outro trabalho, e até lá eu tenho umas economias
guardadas, vou ficar bem. O olho roxo logo vai curar... a cara arrebentada
dele é que vai demorar bem mais para voltar a ficar decente.
Voltei a rir, sendo obrigada a concordar. Contudo, algo no que ele disse
chamou mais a minha atenção. Algo tão bobo, mas que não pude deixar de
comentar:
— Gostei da forma como me chamou.
Ele pareceu pensar um pouco, mostrando que o apelido tinha sido usado
de forma intuitiva e não proposital.
— De “Lu”? Você gosta?
— É. É como o meu pai me chamava. É como minha mãe, minha prima e
meus amigos me chamam. As pessoas que eu gosto, de forma geral.
— Isso quer dizer que você gosta de mim?
— Talvez mais do que deveria.
A sinceridade da resposta pareceu tê-lo deixado surpreso. E talvez tenha
surpreendido até mesmo a mim. Não que eu fosse uma pessoa que
costumasse esconder sentimentos. Na verdade, era o mais completo oposto
disso. Mas fazia muito tempo que eu não me permitia sentir aquele tipo de
coisa por alguém. E isso era um tanto assustador. Na verdade, deixava-me
apavorada. Mas, ao mesmo tempo, também era algo bom de sentir. Era como
uma comprovação do que minha prima tinha me dito há alguns dias: que ser
mãe não tinha me feito deixar de ser uma mulher.
E foi por isso que, naquele momento, eu não quis mais lutar contra
aquilo. Quando Henrique levou delicadamente a mão ao meu rosto e
lentamente começou a se aproximar, eu apenas fechei os olhos, aguardando o
instante em que seus lábios tocassem os meus.
E quando isso aconteceu... por Deus, foi mágico! Um arrepio percorreu a
minha coluna, ao mesmo tempo em que uma onda de calor pareceu envolver
cada uma das células do meu corpo. Entreabri os lábios, deixando o caminho
livre para que a língua dele explorasse a minha em movimentos inicialmente
lentos e delicados, mas que aos poucos foram se tornando mais profundos e
intensos. Fui inclinando o corpo para trás e ele veio sobre mim, sem afastar
por nenhum momento a sua boca da minha. Uma das mãos dele levantou
suavemente a minha camiseta, deslizando pela minha cintura. Aquele toque
da pele dele contra a minha fez com que as ondas de calor ficassem mais
intensas, como se um verdadeiro incêndio estivesse ocorrendo dentro de
mim.
Naquele momento, mandei toda a prudência para o inferno. Eu não fazia
ideia do quanto eu precisava daquilo até ter aquela boca devorando a minha,
aquela mão roçando suavemente a pele da minha barriga... o cheiro dele, o
gosto dele... E aquele volume duro sob suas calças, que provava que ele
desejava aquilo tanto quanto eu.
Deslizei também a minha mão por baixo de sua camisa, sentindo os
músculos firmes e definidos de seu abdômen. Aquele homem era uma
perfeição, e parecia mentira que, além de tão lindo, também fosse um cara tão
incrível e, junto a tudo isso, ainda estivesse ali, comigo. Parecia um sonho do
qual eu não queria acordar.
Mas acordei quando ele mesmo parou, deixando-me confusa.
— É melhor não, Luíza... — ele falou, voltando a se sentar e abaixando a
camiseta que eu havia levantado.
Fiquei por alguns segundos parada, sem compreender a atitude dele. Eu
poderia achar que fosse o caso de ele não me querer, mas eu não era nenhuma
criança inocente. Desde o primeiro olhar que ele me lançou naquela noite no
bar, estava claro para mim que era aquilo o que ele desejava. E, ainda que
restasse qualquer dúvida, o volume de sua ereção ainda estava visível sob a
calça do uniforme.
— O que aconteceu? — perguntei, confusa, ainda sem me mover.
— Aconteceu que estamos indo rápido demais.
“Rápido demais”? Era sério aquilo?
— E não era isso o que você queria quando me conheceu no bar e insistiu
tanto que desejava a minha “companhia”? Ou você acha que eu realmente
acreditei que você só estava a fim de uma conversa?
— Mas aquilo foi antes.
— Antes de quê?
Ele passou as mãos pelos cabelos em um gesto de nervosismo.
— Antes de te conhecer, Luíza. Antes de chegarmos a esse ponto.
— Qual ponto? — No fundo, talvez eu soubesse o que ele queria dizer.
Mas tinha medo de estar enganada, de me iludir.
Ele me olhou diretamente nos olhos e percebi que ele também parecia um
pouco confuso com relação ao que sentia. Percebi sinceridade em sua
resposta:
— Talvez eu devesse dizer que também gosto de você mais do que
deveria. Mas seria errado, porque... na verdade, eu deveria, sim. Porque é
impossível conviver com você e não se encantar por você. Mas você merece
muito mais do que um homem como eu tem a oferecer.
Senti como se meu coração estivesse se derretendo diante daquela
declaração, por mais simples que fosse. Porque havia sinceridade ali, eu
podia sentir isso.
— Você é um homem maravilhoso, Henrique. Qualquer mulher seria
feliz ao seu lado.
— Não, Luíza. Você merece muito, muito mais.
— Se sua preocupação for o fato de estar desempregado, sei que isso por
vezes nos traz uma sensação de inferioridade, mas saiba que isso não define
você. Além do mais, sei que vai encontrar algo logo.
— Você também. Digo, algo diferente do bar. Algo à sua altura. Eu juro.
Vou dar um jeito nisso.
Eu não queria rir, mas foi impossível segurar, porque achei fofa a forma
como ele falava, como se houvesse algo que ele pudesse fazer para me ajudar
naquele sentido. No fim das contas, estávamos em uma situação bem
parecida por ali.
Mas não era aquilo o que importava. E sim o que parecia estar
começando a nascer entre nós.
— Acho melhor eu ir... — ele anunciou, já se preparando para se
levantar.
— Não, espera! Tenho uma coisa para você! — apressei-me em me
levantar antes dele e corri, subindo as escadas até o meu quarto. Peguei algo
em minha estante e voltei a descer, entregando a ele, que se levantou e o
pegou, sem entender.
— O Clube da Luta?
— Tome cuidado com ele! — adverti. Por mais que minha edição já
estivesse meio gasta, eu tinha um enorme apresso por ela.
— Espera... Você está me emprestando um livro, é isso?
— É. Mas não se anima, não. Vou colocar a polícia atrás de você caso
não me devolva.
Ele olhou para o livro, voltando a olhar para mim em seguida.
— Mas você me disse que... emprestar livros era... como é mesmo?
— O ápice da confiança em uma pessoa? É. Mas você fez por merecer.
— Mesmo?
— Claro. Levou um soco no olho e perdeu o emprego por minha causa.
— Poxa... Achei que eu merecesse isso por beijar tão bem.
Lá estava, novamente, o carinha metido a conquistador que conheci
naquele bar. E eu também, confesso, gostava um pouco dessa versão.
— Bem... talvez por isso também.
Ele sorriu e se aproximou, beijando-me novamente. Dessa vez, foi mais
suave e mais breve, mas igualmente bom.
Então nos despedimos e ele foi embora, levando o meu livro, a minha
confiança... e um pedaço do meu coração.
Capítulo 19
“Ela é tão vulnerável, como uma porcelana em minhas mãos.

Ela é tão vulnerável e eu não entendo

Eu nunca poderia magoar a quem amo

Ela é tudo que tenho

Mas ela é tão vulnerável...”

(Vulnerable - Roxette)

Tinha passado a noite tentando ler o livro que Luíza me emprestou, mas
não conseguia terminar um mísero parágrafo sem que tivesse perdido
totalmente a atenção no meio do caminho. Não que a leitura fosse ruim, mas
eu não conseguia desfocar meus pensamentos de todo o ocorrido.
Eu me aproximei de Luíza com um foco certo: levá-la para a cama em um
prazo, para vencer uma aposta estúpida feita com o meu irmão. Passei todos
aqueles dias me empenhando em conquistar a sua confiança e em preparar o
terreno para isso. Até o momento em que a tive de mãos beijadas em meus
braços... e simplesmente não quis ir adiante.
Sim, Henrique Lizano tinha dito não a uma mulher que estava
completamente entregue para ele. Quais as chances, em mil anos, de algo
assim ocorrer? Na hora, isso pareceu o certo a ser feito. Por mais que meu
pau estivesse dolorido de tão duro, por mais que eu não visse a hora de
possuir aquela mulher... e por mais que esse tivesse sido o meu único
objetivo durante todos aqueles dias.
Mas... para o inferno com aquela aposta. Meu irmão tinha feito uma
pequena viagem com Bruna, para levar os convites do casamento às tias dela
que moravam em outro estado, e apenas estaria de volta na sexta-feira à noite.
E quando ele voltasse, eu conversaria com ele e entregaria a chave do meu
carro. Que ele fizesse bom proveito, tanto do veículo quanto do prazer da
vitória.
No dia seguinte, fui ao escritório da empresa e passei o dia inteiro lá,
focado nas inúmeras pendências que eu havia deixado nos últimos dias. Ou,
ao menos, tentando focar, porque novamente só conseguia pensar em Luíza.
Ela me enviou uma mensagem pela manhã, perguntando como estava o
meu olho, e respondi com uma foto, mostrando que estava roxo, mas bem
menos do que achei que estaria. Ela contou que tinha ido ao bar e que
conseguiu o emprego dela de volta, e que começaria na terça-feira da semana
seguinte, porque assim teria alguns dias para procurar por uma nova babá.
Percebi que ela estava bem preocupada comigo, e a tranquilizei dizendo que
neste dia faria entrevistas em vários lugares.
Lá estava eu, contando mais mentiras para ela. Quantas mais eu ainda
diria antes de revelar a verdade?
Já no final da tarde eu voltei para casa. Entrava na sala quando encontrei
Joana sentada no sofá, escrevendo algo em um caderninho. Provavelmente
alguma lista de compras para casa ou coisa do tipo.
— Voltou cedo hoje, Rique.
Balancei a cabeça em resposta. Eu vinha chegando mais tarde por conta
do horário da loja, mas Joana ainda não sabia nada a respeito disso.
Ela desviou os olhos do caderno, enfim olhando para mim. Vi uma
expressão assustada surgir em seu rosto.
— Meu Deus, Rique, o que aconteceu com o seu olho?
Ah, é... No dia anterior eu cheguei em um momento em que ela estava no
jardim, dando orientações ao jardineiro, e fui direto para o meu quarto. Ela
chegou a bater na porta mais tarde, perguntando se eu estava bem, e apenas
disse que estava com dor de cabeça e ela não insistiu. Só agora ela via a
marca da minha luta na loja.
— Eu caí — menti.
— Com a cara no punho de alguém?
Era óbvio que eu não conseguiria enganá-la. Mas também não iria insistir
naquilo. Joana era como uma mãe para mim e já tinha me dado inúmeros
conselhos na vida, especialmente na época da adolescência. E já que eu agora
me sentia como uma porra de um adolescente apaixonado, acho que tinha
chegado o momento de voltar a pedir a ajuda dela.
Sentei-me ao seu lado, iniciando o assunto:
— Preciso te contar uma coisa.
— Pois conte, menino. Estou ficando preocupada.
— Talvez eu tenha feito uma aposta com o Heitor...
— Meu Deus, de novo um cavalo?
— Não. Não, Jojo, sem cavalos dessa vez. O problema agora não é o
prêmio da aposta, mas ela em si. Eu apostei que eu ia levar uma mulher para
cama.
— E você não faz isso todos os dias? Ou quase todos. Tem já algum
tempo que não vejo nenhuma garota saindo daqui pela manhã, o que está
acontecendo?
— Então... É que não é apenas levar uma mulher aleatória para a cama.
Seria uma mulher específica e ela não poderia saber sobre eu ser o Henrique
Lizano, entende?
— Sei. E bonito desse jeito você teve algum problema com isso?
— Acontece que... não rolou nada na primeira noite, e... a gente meio que
prorrogou por um prazo de quinze dias.
Ela piscou, parecendo processar aquelas informações.
— Espera... está dizendo que está há dias saindo com uma mesma mulher
e... mentindo para ela?
— Basicamente é isso.
— Henrique! Uma coisa é você sair uma noite e dormir com uma mulher
que também está à procura de sexo casual, sem mencionar a ela o seu
sobrenome. Seriam duas pessoas buscando por sexo e conseguindo apenas
sexo, e tudo bem. Outra coisa completamente diferente é você passar duas
semanas mentindo para uma moça e tentando conquistá-la para transar com
ela e ir embora. Garoto, o que você tem na cabeça?
Ouvir tudo aquilo assim tão claro, dito em voz alta, fazia eu perceber que
a ideia era, desde o início, completamente estúpida e cruel.
— É, eu sei, Jojo. Mas era para ser algo casual, eu juro. Eu não esperava
que fosse conhecê-la tão bem... que fosse frequentar a casa dela, conhecer a
filhinha dela, e...
— Ela tem uma filha? E o que essa menina acha de você?
— Não parecia gostar muito no início, mas agora me chama de ‘tio’, e...
eu até a ensinei a andar de bicicleta.
— Você está iludindo uma pobre moça e uma criança, Henrique? Repito:
o que você tem na cabeça?
— Tá, Jojo... não briga comigo. Eu me meti nessa confusão e agora
preciso sair dela.
— Para você será fácil sair, né? E deixar mãe e filha sofrendo pelas suas
mentiras.
— Eu não quero deixá-las, Jojo. Essa é a maior das questões.
Ela arregalou os olhos, como se custasse a acreditar nas minhas palavras.
— Está dizendo que... está apaixonado por ela?
— Apaixonado pela mãe e encantado pela filha. É, eu estou.
Completamente.
— E... em que nível de relacionamento vocês estão?
— Nós nos beijamos, e... nada muito além disso. Podíamos ter ido além,
mas eu não quis. Não me pareceu certo. Isso foi ontem. E hoje a gente...
trocou mensagens algumas vezes.
— Então, basicamente, vocês estão namorando.
Namorando? Era isso?
Eu sempre fugi da palavra namoro como um demônio fugindo de um
crucifixo, mas... pensar em viver isso com Luíza não me parecia mais uma
coisa ruim.
Joana prosseguiu:
— Não pode continuar mentindo para a moça, Rique. Converse com ela e
conte a verdade. Diga que gosta dela e que quer ficar com ela. Você quer
ficar com ela, não é?
Surpreendentemente, não precisei pensar muito para responder:
— Quero. Quero ficar com ela, cuidar da filha dela... quero até mesmo
ficar amigo daquele cachorro dela, que nem gosta muito de mim.
— Então... apenas seja sincero e diga isso. Diga toda a verdade. A pior
forma de começar um relacionamento é com mentiras.
Eu sabia que Joana estava com a razão, apesar de também saber que as
coisas não seriam tão simples assim. Eu não fazia ideia de como contar a
verdade para Luíza, de como iniciar o assunto. Ela iria me odiar, eu tinha
certeza. Precisava antes preparar um terreno para isso.
Dei um beijo no rosto de Joana e me levantei. Ia me afastar, quando ela
me chamou.
— E... Henrique... Leve um petisco para o tal cachorro. É uma forma de
começar a ganhar a confiança dele.
Sofia dizia que Joe gostava muito de petiscos. Talvez aquela fosse uma
ótima ideia, no fim das contas.
— Obrigada, Jojo. Vou subir para o quarto, não vou jantar hoje, pretendo
ficar lendo até o sono vir.
— Boa noite, meu querido. E boa leitura.
Trocamos um sorriso e eu subi para o meu quarto. Era um cômodo tão
grande, e, ao mesmo tempo, terrivelmente solitário.
Tomei um banho e me deitei na cama, levando comigo o livro que Luíza
tinha me emprestado, mesmo sabendo que não ia conseguir prestar atenção a
nada. Foi então que meu celular tocou, anunciando a chegada de uma
mensagem.

E aí, como foram as entrevistas? Estou na torcida para que tenham sido
ótimas.
Me conta quando chegar em casa.
Beijos.

Apesar de um sentimento inicial de felicidade por ela ter me mandado


mais uma mensagem, eu odiava o fato de ser obrigado a, mais uma vez,
mentir para ela. Afinal, não teve entrevista alguma. O que eu diria? Que
foram boas? Que foram ruins? Que eu acabei não indo? Qualquer uma dessas
opções representava mais uma mentira.
Fiquei alguns minutos pensando a respeito do que eu deveria responder,
quando o aplicativo de mensagem exibiu uma chamada para ligação de voz.
O rosto de Luíza sorrindo na foto do contato fez o meu coração acelerar e
acho que minha mão até tremia um pouco quando deslizei o dedo pela tela
para aceitar a ligação.
— Luíza? — atendi, mal escondendo a minha animação.
Mas não foi a voz dela que ouvi do outro lado da linha.
— Minha mãe foi tomar banho, tio. Peguei o telefone dela pra falar
contigo, mas ela não pode saber, tá?
Não pude evitar sorrir. Aquela pestinha não tinha jeito mesmo. Mas eu já
era incapaz de ficar zangado com ela.
— Como está a minha mini-super-heroína?
— Eu tô nervosa, tio. É amanhã a peça e eu tô com medo de errar tudo.
É claro... a peça; o papel de árvore; a festa na escola. Só então me dei
conta que isso já seria no dia seguinte.
— Não tem que ficar nervosa, Sofia. Você vai se sair muito bem.
— Você vai me ver, não vai? Lembra que é o pagamento para eu não
contar nada pra mamãe.
Lá estava seu modo pestinha exploradora de volta.
— Sabe, talvez eu mesmo conte tudo em breve para a sua mãe.
Ela fez um instante de silêncio, provavelmente surpresa com o meu
comentário.
— Tio, você disse que ia fazer isso quando a convencesse de que a sua
loja é muito legal. Mas acho que ela ainda não pensa assim, não. Hoje mesmo
ela estava xingando a Lizano.
Eu imaginava que estivesse mesmo. Talvez aquela fosse uma coisa que
eu ainda demoraria muito para conseguir convencê-la, e eu não poderia
esperar esse tempo todo para contar a ela a verdade.
— Vou precisar de mais alguns dias, Sofia. Pode continuar guardando
esse segredo para mim? Eu vou continuar te pagando, prometo.
— Mas eu não quero mais dinheiro, tio. Quero que você vá à festa, pra
me ver na peça fazendo o papel da árvore.
Como eu poderia dizer a ela que não achava prudente eu ir à tal festa?
Não sabia se conseguiria encarar Luíza sem ter contado a verdade para ela.
Mas também não estava certo de que conseguiria contar tudo a ela naquele
momento.
Havia outras coisas que eu precisava fazer antes daquilo. As mudanças na
Lizano seriam o primeiro passo. Queria mostrar a Luíza que eu agora era
outra pessoa – graças a ela. E queria também ajudá-la com seus móveis,
pondo em prática a ideia que tinha comentado a respeito com ela certa vez: de
colocar suas peças à venda na Lizano, como parte de uma coleção especial de
itens exclusivos. Apenas depois de tudo isso, eu poderia contar a verdade e
torcer para que ela me perdoasse.
— Escuta, Sofia, eu acho que... — comecei a falar, mas ela me
interrompeu.
— Tio, a minha mãe está vindo, preciso desligar. Te vejo amanhã lá na
escola, tchau.
E ela desligou, sem me dar qualquer chance para responder.
Voltei a olhar para a tela do celular, onde a mensagem de Luíza voltava a
ser exibida. Eu precisava responder alguma coisa. Qualquer coisa. E decidi
que não iria pensar muito mais a respeito daquilo.
Sendo assim, digitei:

Te conto amanhã, pessoalmente, na festa da escola da Sofia.


Beijos, tenha uma ótima noite, linda.

Bem, agora não tinha mais como voltar atrás. Eu iria à festa.
Capítulo 20
“Algumas pessoas querem tudo
Mas eu não quero nada
Se não for você, querido
Se eu não tiver você, querido”
(If I Ain't Got You - Alicia Keys)

Ele iria à festa na escola da Sofia.


O que, afinal, aquilo poderia significar?
Oras, as pessoas que iam a festas em escolas eram, na maioria das vezes,
parentes muitos próximos à criança, como pais, avós... às vezes uma tia ou
madrinha. Era algo considerado chato para a maioria das pessoas, embora eu,
como mãe, sempre morresse de orgulho com cada apresentação da minha
filha. Mas eu não esperava que Henrique fosse querer participar daquilo.
Na verdade, eu nem ao menos fazia ideia de como ele sabia a respeito da
festa.
Sofia me disse, quando a perguntei a respeito, que ela havia contado a ele
e que ele próprio tinha demonstrado interesse em ir. Do jeito que eu conhecia
a minha filha, eu poderia apostar que ela o tinha convidado descaradamente.
Porém, ainda assim, ele não tinha qualquer obrigação de ir. Poderia dar
qualquer desculpa, quem o condenaria por isso?
— O tio Henrique não disse que vinha? — Sofia me perguntou pela
milésima vez, sentada no meu colo, durante um intervalo entre as
apresentações das turmas. Já que era uma festa da Primavera, todo o pátio
estava decorado com flores.
— Ele disse, meu amor. Mas pode ter tido algum imprevisto. Ele ontem
fez várias entrevistas de emprego. Quem sabe não o chamaram para algo
hoje?
— Mas ele disse que vinha... — ela insistiu, dengosa.
Como se para me salvar, a melhor amiga dela, Gabriele, chegou nesse
momento correndo, sendo seguida pela mãe.
— Sofia, Sofia, falei com a minha mãe de você dormir lá em casa hoje e
ela deixou!
Sofia sorriu, empolgada com a notícia. Depois olhou para mim com o seu
melhor olhar de gato de botas.
— Eu posso ir, mamãe? Por favor! Por favor!
Antes de responder, olhei para a mãe de Gabi que se aproximava e me
levantei para cumprimentá-la com dois beijos no rosto. Gabiele e Sofia
estudavam juntas desde a creche, onde ambas entraram aos dois anos. Assim
como eu, a mãe da Gabi também criava a filha sozinha e não tinha com quem
deixá-la por conta do trabalho, e por causa disso acabamos desenvolvendo
também uma amizade. As meninas volta e meia dormiam uma na casa da
outra.
— Deixa ela ir, Luíza. Como hoje é sexta-feira, vamos fazer uma noite de
cinema — a mãe, Daniela, falou.
Eu sei que isso era um enorme defeito, mas eu era apegada demais à
minha menina, e a ideia de passar uma noite sem ela não era algo exatamente
simples para mim. Especialmente porque a partir da próxima terça eu voltaria
a trabalhar durante a noite e a passar muitas noites longe da minha pequena.
Porém, ao mesmo tempo, eu me esforçava para pegar leve naquele apego.
Daniela morava a duas ruas da minha, eu a conhecia bem e Sofia já tinha
dormido lá outras vezes. E, além de tudo, minha filha parecia muito animada
em assistir filmes com a amiguinha. Que mal haveria nisso?
Permiti, embora fizesse uma observação à Sofia:
— Mas a senhorita prometa que vai se comportar e obedecer a tia Dani.
— Prometo, mamãe!
Voltei a olhar para Daniela.
— Podemos passar lá em casa no caminho para pegar as coisinhas dela?
Antes que Daniela pudesse responder, Gabi o fez por ela:
— E vamos pegar o Joe também, não é, mamãe?
— Ah, é... — Daniela riu. — O convite também é para o Joe, como da
última vez.
Certo, eu seria abandonada naquela noite pela minha filha e pelo meu
cachorro. Mas não iria reclamar. Gabi também adorava o Joe, e a verdade é
que ele ficaria muito triste sem a Sofia em casa.
Concordei e passei alguns minutos conversando com Daniela, até que
uma das professoras veio chamar as meninas para que elas fossem se preparar
para sua apresentação, que seria em breve. Gabi foi na frente, mas antes de
segui-la Sofia me olhou com seus olhinhos cheios de tristeza.
— Poxa, mamãe, o tio Henrique mentiu. Disse que vinha e não veio.
Antes que eu respondesse qualquer coisa, ela se virou e correu para
alcançar a professora. Daniela também se despediu, anunciando que ia voltar
para o seu lugar, perto do ex-marido que tinha ido para assistir à apresentação
da filha. Por mais que não fosse o mais participativo dos pais, ele era
minimamente presente na vida da Gabi.
Voltei a me sentar e peguei meu celular para olhar se havia alguma
mensagem de Henrique. Foi nesse momento que senti um par de mãos
taparem meus olhos por trás, obstruindo minha visão. Tateei-as, percebendo
que eram mãos masculinas. Talvez fosse a textura da sua pele ou o seu
cheiro, mas eu sorri ao reconhecê-lo.
— Henrique? — pronunciei.
Ele destampou meus olhos e se sentou na cadeira vaga ao meu lado,
dando-me um beijo na bochecha.
— Desculpe o atraso, peguei um trânsito horrível até aqui. Cadê a Sofia?
Olhei para a mão dele, encontrando ali duas rosas e um livro, cuja capa eu
não conseguia ver. Mas não comentei nada a respeito e apenas respondi:
— A professora acabou de vir chamá-la para se preparar. Logo será a
apresentação da turma dela.
— Que bom que cheguei a tempo. Ah, aqui, provando que sou um
homem digno de sua confiança. — Ele me entregou o livro, que só ao pegar
percebi que era o meu exemplar de “O Clube da Luta”.
— Você já leu?
— Já, e temos muito a conversar a respeito dele. Mas mais tarde. Tome,
isso aqui também é para você. — Ele me entregou uma das rosas. Achei o
gesto tão lindo que não pude deixar de sorrir.
— Obrigada. E essa outra? Pretende tentar seduzir alguma outra mãe
solo?
— Não. Já conquistei a que eu queria.
— Ah, é? E quem disse que eu fui conquistada?
— E não foi?
Talvez eu tivesse sido. Droga, eu realmente tinha sido, sem a menor
sombra de dúvidas.
Sem esperar por respostas, ele explicou sobre a outra flor.
— Essa aqui é para a estrela do dia.
— Ah, a Sofia vai adorar.
— Sabe o que pensei? Quando terminar a peça, podíamos ir a algum
lugar para comemorar, o que acha? Nós três. Uma pizzaria ou coisa do tipo.
Sorri mais uma vez. Meu Deus, eu era uma boba sorridente quando estava
na presença daquele homem.
— Somos dois desempregados, Henrique. Não podemos ficar gastando
dinheiro com pizzaria.
— Como assim dois? Você não conseguiu voltar para o bar?
— É, mas vou trabalhar um mês inteiro até receber.
— Mas você deve... digo, nós devemos receber algo da Lizano, né? Pelo
tempo trabalhado. Não marcaram para você ir até lá resolver isso?
— É, ligaram para mim hoje de manhã. Vou na terça à tarde, antes de ir
para o bar. Mas... Foram só alguns dias, Henrique. O que vamos receber é
uma mixaria, não vai dar para nada.
— Entendo. Cancelada, então, a ideia da comemoração.
— Além do mais, a Sofia vai dormir fora essa noite. Vai para a casa de
uma amiguinha.
Ele ficou subitamente sério. Eu diria que até mesmo um pouco...
preocupado.
— E você conhece os pais dessa menina? São pessoas de confiança? O
lugar é seguro? E ela pode sentir medo de noite e querer voltar para casa... é
perto para você ir buscá-la caso isso aconteça?
— Ei, relaxa. Sim, eu conheço a família. Ela mora apenas com a mãe,
aliás. E, sim, é uma pessoa de confiança. E não vai acontecer de Sofia ficar
com medo no meio da noite, porque ela já dormiu na casa dessa menina
várias vezes. Ela também já cansou de dormir lá em casa. São amigas desde
bebês.
— Tudo bem. Eu só perguntei por... curiosidade, nada demais.
— Mas... você pode ir lá para casa. Eu tenho pizza congelada no freezer,
é só esquentar.
— Opa... sério? Só nós dois? ...digo, nós dois e o Joe, né?
— Na verdade, só nós dois mesmo. O Joe também foi convidado, junto
com a Sofia, para passar a noite fora.
— Só nós dois mesmo então? Eu não sou nem louco de recusar isso.
Ele aproximou o rosto do meu, mostrando a intenção de me beijar. Meu
Deus, eu estava louca para sentir os lábios dele sobre os meus mais uma vez,
mas precisei resistir àquilo.
— Tem crianças aqui, Henrique — sussurrei. — E eu não quero ainda
que a Sofia saiba. Quero conversar com ela com calma sobre nós. E, na
verdade... nós dois também precisamos conversar sobre isso.
Ele manteve o rosto perigosamente perto do meu, respondendo também
com a voz baixa.
— Temos muito o que conversar, sim. Mas... Sobre nós dois, parece
muito claro o que está acontecendo.
— Tem algumas coisas que você precisa pesar.
— Por exemplo?
— O fato de eu ter uma filha. Não existe um relacionamento simples
comigo. Não sou apenas eu, é um combo, que inclui uma criança.
— Talvez eu queira exatamente o combo completo. Mas... você tem
razão, mais tarde podemos conversar sobre tudo isso. Eu tenho muito também
para te dizer. Mas agora, vamos apenas curtir a apresentação da Sofia? Onde
ela está? Será que eu posso falar com ela antes de ela subir no palco? Ela
deve estar nervosa com a peça.
— Ela está. E também está triste por achar que você não viesse. Seria
mesmo bom que fosse falar com ela.
Indiquei o caminho para a sala de aula da Sofia, onde as crianças iriam
com a professora para se arrumarem. Antes de ir, no entanto, ele me
surpreendeu com um breve selinho em meus lábios. Foi tão rápido, que eu
sequer tive tempo de piscar. Então ele se levantou e seguiu na direção que eu
indiquei.
Eu fiquei ali sentada, olhando para a rosa em minhas mãos, sentindo
ainda o toque dele nos meus lábios, como uma adolescente apaixonada.
A última vez que eu tinha me sentido daquela maneira, não acabou nada
bem. Mas, ainda assim, pela primeira vez eu sentia vontade de voltar a
arriscar.
Esperava não me decepcionar.
Capítulo 21
“Eu sei que existem algumas coisas
Que nós precisamos conversar
E eu não posso ficar
Então me deixe te abraçar um pouco mais, agora”
(Never be Alone - Shawn Mendes)

Segui o caminho que Luíza havia me indicado, chegando ao corredor de


salas de aula. Na porta de uma delas, uma mulher meio desesperada tentava
alternar sua atenção em uma ligação pelo celular e na sala cheia de crianças.
Odiaria causar mais uma distração a ela, mas precisei perguntar:
— Desculpe, essa aqui é a turma da Sofia? Uma menininha de seis anos,
loirinha, e...
— É, sim! — ela me respondeu, parecendo até animada pela minha
presença ali. — Por favor, estou em uma ligação importante e não consigo
ouvir nada por conta desse falatório, você poderia dar uma olhada nas
crianças para mim? Será rápido, eu juro!
Sem aguardar por respostas, ela voltou a falar no celular, afastando-se no
corredor. Fiquei ali parado, sem compreender muito bem o pedido.
— Como assim olhar as crianças? — questionei, com a voz mais alta para
ela conseguir me ouvir, já que já tinha se distanciado um pouco.
Ela virou o rosto para trás e sacudiu a mão, respondendo apenas:
— É só não deixar que nenhum deles se mate. Será rápido, prometo.
Não deixar que eles se matem...
Em um primeiro momento, imaginei que existia um certo exagero
naquele pedido. Especialmente quando olhei para dentro da sala e os vi.
Apesar do falatório, ninguém parecia correr risco iminente de vida por ali.
Eram só crianças de seis anos, o que poderiam fazer?
Logo descobri quando um garotinho passou correndo por mim, sendo
seguido por outro que o ameaçava usando um lápis como se fosse um punhal.
Segurei-o e o levantei no colo, evitando que alcançasse o outro e alguém ali
acabasse com um olho machucado.
Tipo eu, com aquele roxo ainda visível na minha cara.
— Ei, o que está fazendo? Pare já com isso, que coisa!
— Quem é você? — o moleque perguntou, curioso.
— Eu vim falar com a Sofia, onde ela está?
— Mas você não é o pai dela.
— Como você pode saber disso?
— Porque ela não tem pai.
Juro que minha vontade foi jogar o moleque no chão, sem nenhuma
gentileza. Sei que o que ele disse não era nenhuma mentira, mas não foi a
frase em si, mas o tom de desdém com que ela foi dita. Encheu-me de raiva a
ideia de que Sofia poderia enfrentar algum tipo de bullying na escola por não
ter um pai.
Ódio seria a palavra certa. Pelo estúpido que teve a covardia de
negligenciar uma mulher incrível como Luíza e uma menininha maravilhosa
como Sofia.
— Onde ela está? — voltei a perguntar, descendo devagar com o garoto e
colocando-o no chão, embora permanecesse segurando-o para deixar claro
que esperava uma resposta.
Minha intenção não era amedrontar o menino, mas acho que acabei
fazendo isso, porque ele simplesmente apontou em uma direção, sem dizer
uma única palavra.
— E pare de tentar matar o seu colega — ordenei, soltando-o.
Reparei, então, que a sala era bem grande e possuía uma meia-parede que
a separava em dois ambientes. Fui até lá, e ao me aproximar ouvi uma voz
que logo reconheci como sendo de Sofia.
— Eu não sou mentirosa!
— Claro que é! — rebateu outra voz de menina. Parei atrás da parede,
olhando por cima dela.
Encontrei Sofia usando um macacão colante marrom escuro, com uma
espécie de chapéu enorme que envolvia seu rosto, fazendo o formato da copa
de uma árvore. Diante dela estava outra garotinha um pouco mais alta do que
ela, usando um vestido longo cor de rosa e cheio de fru-fru, com uma coroa
sobre os cabelos loiros e cacheados.
— Não sou! — Sofia rebateu.
— É, sim! O pai de todo mundo da peça veio, menos o seu! Você nem
tem pai!
— Mas o tio Henrique me disse que vai vir. E ele vai ser o meu pai por
hoje.
Aquilo foi como um tiro acertando em cheio o meu peito. Então era por
isso que Sofia queria tanto que eu fosse à sua apresentação? E aquelas
crianças maldosas realmente implicavam com o fato de ela não ter um pai?
Eu não podia deixar aquilo daquele jeito. Para o inferno com toda a
prudência que o lugar de adulto me exigia. Estavam mexendo com a minha
menina. E eu não ia deixar que aquilo prosseguisse.
É, eu disse “minha”. Para o inferno com isso também! Mais tarde eu
pensaria melhor a respeito das palavras, aquele era o momento de proteger a
Sofia.
— Eu disse que vinha e vim — anunciei.
As duas meninas levantaram seus rostos em minha direção. A
‘princesinha’ abriu a boca, surpresa. Já Sofia abriu um enorme sorriso.
— Tio Henrique! — ela vibrou.
Dei a volta pela divisória dos dois ambientes, ajoelhando-me no chão.
Sofia veio até mim e se jogou em meus braços, me abraçando com força.
— Você veio mesmo! — ela vibrou.
Aquela felicidade dela foi como um segundo tiro. Não sabia se meu
coração aguentaria tudo aquilo em um dia só.
— É claro que eu vim. Eu disse que viria, não disse?
— Mas você não é o pai dela — a outra garotinha retrucou. Olhei para
ela, vendo-a nos encarar com os braços cruzados diante do corpo.
— Você não ouviu o que ela disse? Eu serei o pai dela por hoje — rebati.
Voltei a olhar para Sofia e entreguei a ela a rosa que trazia em mãos. — Aqui,
trouxe para você.
— Que linda! — Os olhos dela brilharam e ela pegou a rosa, cheirando-a
com força. — Você vai ver a peça, tio Henrique?
— É claro que vou. Não falei? Vim especialmente para isso. Aliás, você
está linda vestida de árvore.
— Você acha? — Ela se afastou alguns passos para que eu a visse
melhor. — Vamos ser várias árvores e vamos cantar juntos uma música linda.
— Que besteira! — a outra menina voltou a falar, revirando os olhos. —
Que graça tem em ser uma árvore?
Sofia tomou fôlego para rebater, mas fiz isso por ela:
— Tem muita graça. Eu amo as árvores. Elas são muito úteis, não é
mesmo, Sofia?
— São mesmo! — Sofia concordou. Agora era ela quem cruzava os
braços. — Elas dão frutinhas para a gente comer.
— Sim. E fazem... fotossíntese.
Sofia me olhou, confusa.
— Foto quê?
Decidi que não seria um bom momento para tentar explicar aquilo, então
apenas mudei o argumento:
— Elas dão sombra.
— Sim! — Sofia concordou, enfim ouvindo um argumento que ela já
conhecia. — E são muito bonitas!
— Não tanto quanto você.
Ela abriu um sorriso lindo, e esse foi o terceiro tiro. Eu já estava
completamente derrotado por aquela pestinha.
Já a outra menina não pareceu nem um pouco feliz com aquilo e bufou,
dando meia volta e se afastando.
— A Júlia é uma chata, tio — ela me explicou. — Está sempre
implicando comigo. Ela todo dia joga na minha cara que ela vai ser a princesa
da peça e eu só uma árvore.
— Nossa, não faz sentido nenhum. Árvores são mais legais que princesas.
— Né? E ela tem um cachorro de uma marca cara...
— Quer dizer raça?
— Isso. E ela diz que ele é mais bonito que o Joe. Mas o Joe também é
bonito, além de ser muito legal.
Eu discordava um pouco sobre a simpatia do cachorro dela – pelo menos
no que dizia respeito a mim – mas ainda assim concordei.
— É claro que é!
— E ela também implica porque o pai dela é bonito e tem um carro legal.
E eu... eu nem pai tenho.
— Bem... Eu também tenho um carro muito legal — Em breve não teria
mais, já que iria perder a minha aposta com Heitor, mas isso era o de menos.
— Sim, o seu é muito mais legal que o do pai dela. Posso um dia dar uma
volta nele com você?
— Claro que pode. E, olha, modéstia à parte, duvido que o pai dela seja
mais bonito que eu.
Ela levou as mãos à boca, contendo uma risada. Mas logo voltou a ficar
séria.
— Mas você não é meu pai, tio Henrique. A não ser que comece mesmo a
namorar com a mamãe.
— E você ia gostar se isso acontecesse?
Ao invés de responder, ela fez um comentário que, mesmo em sua
inocência infantil, era bastante pertinente.
— Mas pra isso você tem que contar a verdade pra ela. Que você é o dono
da loja. A mamãe não gosta de mentiras, diz que é uma coisa muito feia.
— E ela tem razão. É por isso que eu vou contar a verdade. Só preciso de
mais alguns dias. Você acha que pode guardar esse segredo mais um pouco?
— Ela movimentou a cabeça em concordância. — Boa garota. Mas...
independente do que aconteça, você disse para aquela princesinha que hoje
eu seria o seu pai, não é? Então, eu vou ser. Hoje e sempre que você precisar.
Ela voltou a sorrir e mais uma vez se jogou em meus braços, me
apertando com força.
A professora retornou à sala e eu saí, voltando para a plateia de frente ao
palco e me sentando novamente ao lado de Luíza. Outras duas turmas ainda
se apresentaram antes da de Sofia, e confesso que eu já começava a ficar um
tanto entediado com aquelas dancinhas.
Até que chegou o grande momento. Foi então que me vi como um bobo,
admirado com a desenvoltura de Sofia no palco, ainda que a personagem dela
quase não tivesse movimentos ou falas. A parte mais significativa de sua
apresentação foi na última cena, quando as árvores juntas entoaram o refrão
de uma música cantada pela princesa chatinha. Não importava que a
participação tivesse sido tão pequena. Eu poderia jurar ter visto nuances na
atuação de Sofia e comentei inúmeras vezes com Luíza que aquela menina
tinha muito talento para ser uma atriz. Até sugeri um curso de teatro.
Eu não tinha qualquer dúvida de que ela era a árvore mais linda que já
tinha visto na vida.
A apresentação da turma dela encerrou a festa. Depois de trocar de roupas
e tirar aquela fantasia de árvore, ela veio até nós e me apresentou à sua
melhor amiga, Gabi, contando que dormiria na casa dela nessa noite.
Também conheci a mãe da menina, que seguiu com a gente até a casa de
Luíza, onde Sofia pegou algumas roupas, seu travesseiro e sua escova de
dentes. Joe também foi convocado a passar a noite com as meninas, mas
antes que ele saísse, eu o chamei. Ele, como de costume, mostrou os dentes
para mim e se preparou para rosnar, mas eu o surpreendi pegando um
biscoito canino no bolso da minha calça e entregando-o a ele. Embora meio
desconfiado, ele aceitou o agrado, antes de sair atrás de sua pequena dona.
Aparentemente, Joana tinha razão. Mais alguns petiscos daqueles e, eu
estava certo, ganharia a confiança dele.
Agora, eu precisaria descobrir como reconquistar a de Luíza, que eu já
tinha, mas já previa perder muito em breve, quando eu lhe contasse toda a
verdade.
Capítulo 22
“O tempo todo eu acreditei que te encontraria
O tempo trouxe o seu coração para mim
Eu te amei por mil anos
Eu te amarei por mais mil”
(A Thousand Years - Christina Perri)

Sofia estava simplesmente radiante. Parecia que a presença do Henrique


em sua apresentação tinha sido realmente muito importante para ela. Era
inegável que estava acontecendo alguma coisa entre Henrique e eu, embora
eu não pudesse ainda precisar se seria uma coisa séria ou só um lance
passageiro. De qualquer forma, era importante que Sofia aprovasse isso e me
deixava muito feliz que, além de ter sua aparente aprovação, Henrique
também tinha o carinho dela. Mas era inegável sentir medo de que ela se
apegasse a ele e fosse apenas algo passageiro. Eu não queria que minha filha
sofresse. Bem, e eu própria também não queria sofrer mais uma decepção.
Porque já sentia que gostava demais dele para querer somente um caso
momentâneo.
Depois que Daniela levou as meninas e o Joe para sua casa, ficamos os
dois a sós, e acho que aquele era o momento decisivo para termos todas as
conversas necessárias. Mais cedo eu tinha conversado com Sara a respeito
disso e, na opinião dela, eu estava complicando demais coisas que deveriam
ser simples, e devia apenas deixar tudo rolar. Talvez ela estivesse com a
razão.
Como combinado, aqueci no forno a pizza que tinha no freezer. Servi
para nós na mesa da sala e comemos sentados lado a lado sobre o tapete.
— Não tem como pedir à direção da escola para trocar aquela Júlia de
turma? — ele questionou, após me contar que presenciou a menina
implicando com Sofia. — Ela não é só uma criança chata. Ela é cruel.
— A Sofia já tinha reclamado comigo sobre ela, mas nunca me disse que
essa menina praticava bullying por ela não ter pai. Meu Deus, eu não fazia
ideia de que minha garotinha passasse por isso.
— O que ela tinha te contado?
— Que Júlia a provocava com coisas tipo... ter um caderno mais bonito
ou um cachorro mais bonito... ultimamente com o fato de ela ter sido
escolhida para ser a protagonista da peça de hoje. Mas ela nunca me contou
nada sobre isso do pai.
— Acho que ela sabia que faria você sofrer, por isso não quis te contar.
É claro que me fazia sofrer, porque minha filha estava sofrendo. Ela não
podia ter guardado isso sozinha. Pouquíssimas vezes na vida Sofia tinha me
questionado a respeito do pai e eu sempre tentei, da forma mais sutil possível,
dizer a verdade para ela, que o pai tinha ido embora antes de ela nascer, mas
que isso não importava, porque eu a amava demais, porque ela era o presente
mais maravilhoso da minha vida. Mas não havia sutileza no mundo que
fizesse uma criança compreender que seu próprio pai simplesmente não quis
sequer conhecê-la. E eu agradecia pelo fato de ela poucas vezes questionar
qualquer coisa a respeito disso. Dava-me uma ilusão de que eu era o
suficiente para ela.
Mas talvez não fosse.
— Ela não deveria estar preocupada com me poupar de nada. Ela tem seis
anos e eu sou a mãe dela. Eu é que devo protegê-la e não o contrário. Ela só
tem que se preocupar em ir para a escola e em brincar.
— Ela só tem seis anos, mas... você é tudo no mundo para ela, Lu. É claro
que ela se preocupa, do jeito dela.
Isso me lembrou uma história, que só então me dei conta de que ainda
não tinha contado a Henrique.
— Sabe que... Outro dia ela quase foi atropelada por aquele traste daquele
Henrique Lizano.
Ele começou a tossir, parecendo ter engasgado com algo. Fiquei
preocupada, passando a mão nas costas dele.
— Ei, está tudo bem?
— Tudo... cof... ótimo... — ele pegou o copo de refrigerante sobre a
mesa, tomando um gole. — Foi só um engasgo. Pode continuar.
Percebendo que não era nada sério, prossegui na história:
— E se não bastasse quase atropelar uma criança, aquele playboy achou
que podia se livrar da culpa dando dinheiro para ela. Você acredita nisso? Ele
deu dinheiro para ela.
— Nossa... Isso é... ruim, né?
— Péssimo! Mas como ela já tinha aceitado, eu disse que ela poderia
comprar algo para ela. Mas sabe o que ela fez? Ela me deu o dinheiro. Disse
que era para colocar no “cofrinho da loja”. É como ela chama a poupança que
abri para tentar juntar dinheiro e comprar um espaço para o meu ateliê.
Ele pareceu surpreso com a história.
— Ela fez isso?
— Fez. Tinha que ver que fofa, ela me perguntou se aquelas duas notas
de cinquenta reais seriam o suficiente para comprar a loja. Para ela isso é
muito dinheiro, né?
— E o que você respondeu?
— Disse que a gente precisaria de mais ‘algumas’ notas como aquela,
mas deixei que ela sentisse que a ajuda dela foi importante. E foi, né? Não
que tenha muito dinheiro nessa poupança, mas... Esses cem reais são de longe
os mais importantes de todo esse valor.
— A sua filha é maravilhosa, Lu. Como você. Você se importa se eu...
perguntar sobre...
— O pai da Sofia? — eu me adiantei. Já tinha percebido que ele tinha
curiosidade a respeito disso.
— É. Mas só se não te incomodar falar a respeito disso.
Não incomodava. Não mais.
— Eu o conheci no ensino médio. Eu já tinha tido outros namorados
antes, mas... com ele foi mais sério, sabe? Foi com ele que tive a minha
primeira vez, e... ficamos juntos por mais de um ano, e eu acreditava que
seria para sempre. Eu era uma boba apaixonada, e ele um canalha que dava
corda para isso. Até que eu fiquei grávida, contei a ele, e... primeiro ele
tentou me convencer a abortar, e como eu não queria, ele simplesmente
sumiu. Depois de um tempo descobri que ele tinha até ido embora da cidade.
— Que filho da puta...
— Mas sabe que eu hoje entendo que foi melhor assim? Porque... o que
um traste como esse teria a oferecer para a minha filha? Que tipo de educação
daria a ela? Que merda de pai seria?
— Mas você o amava.
— É. Mas isso não é o pior, sabe? Porque descobrir que ele era uma
pessoa diferente do que eu achava que fosse me ajudou a superar esse amor.
Esse sentimento acabou completamente, não resta mais nada dele. Mas... eu
entreguei a minha confiança para ele. E ele a jogou contra uma parede, como
um vaso frágil de porcelana, e a destroçou. E essa dor da confiança quebrada
é algo que nunca cicatriza. E não é difícil voltar a amar alguém porque eu
amei e me desiludi. Mas porque a confiança é a base do amor. E uma vez que
você a entrega a alguém e essa pessoa a quebra, é muito difícil aprender a
confiar em outra pessoa novamente.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, apenas olhando para mim de
uma forma que eu não seria capaz de desvendar no que ele estava pensando.
Quando enfim disse algo, sua voz saiu baixa.
— Você me disse outro dia... quando me emprestou o livro... que
confiava em mim. Posso perguntar por quê?
— Bem... além de ter ganhado um olho roxo e ter sido demitido por
minha causa... E ter me ajudado a roubar caixotes e... ensinado minha filha a
andar de bicicleta... e hoje ainda ter ido vê-la em uma festinha chata de
escola... tem algo em você que... eu não sei, mas me passa sinceridade.
— E você sente isso desde que me conheceu?
— Ah, não. No início você não me passou nada disso. Naquele dia no
bar, eu te achei muito bonito, mas... só isso. Na verdade, achei até que você
fosse um tipo meio cafajeste.
— Sério?
— É. Para você ter uma ideia, no segundo dia, quando você apareceu lá
na loja... eu cheguei a ter uma sensação de que você tivesse se infiltrado lá
para continuar dando em cima de mim, olha que louco!
Eu ri, porque, de fato, dito em voz alta, aquilo era completamente insano.
Ele continuou me olhando de forma séria, então eu prossegui:
— Acho que só a partir do terceiro dia eu comecei a sentir algo diferente
em você, e... com o tempo fui vendo que aquela primeira impressão tinha
sido completamente equivocada. E que na verdade você é um bom homem.
— Talvez eu nem seja tão bom assim, Lu. Mas... a partir desse momento
eu realmente quero que você confie em mim. Nesse Henrique que está aqui
agora e que está sendo totalmente sincero quando diz que você é uma mulher
maravilhosa. E que eu sinto por você algo que eu nunca senti antes por
ninguém.
— Eu confio — sussurrei, sincera.
Ele segurou minhas mãos junto às dele e olhou profundamente nos meus
olhos.
— Tem algo muito importante que eu preciso te contar sobre mim, mas...
Eu não sei se consigo fazer isso agora.
Eu compreendia. Afinal, eu própria, apenas naquele momento, tinha
contado a ele sobre o pai da minha filha. Sabia que todo mundo tinhas suas
histórias, seu passado e seus traumas. Henrique contava vir de uma família
humilde de trabalhadores de uma fazenda, e tinha se esforçado muito no
sonho de vir para a cidade e conseguir ganhar a sua vida. Eu sabia que ele
teria um futuro brilhante pela frente, porque eu estaria ao seu lado para apoiá-
lo no que fosse preciso. Era certo que sua história de vida trazia muitas
histórias, e talvez algumas fossem dolorosas e precisassem de tempo para
serem verbalizadas. Pensei que talvez fosse de algum passado seu com
alguma mulher, ou mesmo algo relacionado à família. Não importava. Ele me
contaria quando se sentisse pronto para isso.
— Não precisa ter pressa — eu o tranquilizei. — E eu também tenho algo
para te contar. Na verdade, para te mostrar. — Levantei-me, puxando-o pela
mão para que ele fizesse o mesmo.
Então o guiei para o lado de fora da casa, até a garagem que eu usava
como ateliê improvisado. Bem no centro do espaço estava a peça em que eu
estava trabalhando. Era uma mesa de madeira, bem parecida com a que ele
tinha visto em minha varanda. Percebi os olhos dele brilhando quando viu
aquilo e ele foi até o móvel, passando a mão sobre os detalhes que eu tinha
começado a talhar.
— Nossa! Você vai fazer outra como aquela?
— Não vai sair igual. Como eu te disse, cada peça é única. Modéstia à
parte, acho que essa ficará mais bonita que a minha. A madeira tem uma
qualidade muito melhor.
— Roubou de alguma loja? — ele implicou.
— Não. Essa eu comecei do zero. Já tinha a madeira guardada nos fundos
do quintal há algum tempo, mas nunca tinha tempo para mexer nela.
Aproveitei esses últimos dias desempregada para isso. Já está praticamente
pronta, estou agora talhando os detalhes.
— Vai ficar linda. Foi encomenda de algum cliente?
— Não. Na verdade, é um presente para uma pessoa especial.
Ele voltou a me olhar, parecendo em dúvida se havia compreendido
direito. Sorri e movimentei a cabeça em uma confirmação.
— Não, Lu, nem pensar. Não é justo, esse é o seu trabalho. Eu vou pagar
por ela.
Achei graça. Às vezes ele falava como se não estivesse provavelmente tão
ferrado de grana quanto eu.
— Se você me pagar, vai deixar de ser um presente. E eu quero te
presentear com uma peça minha.
Ele voltou a se aproximar de mim, parando bem à minha frente. Então,
sem qualquer anúncio, fez aquilo que eu desejava que ele fizesse desde que
nos encontramos mais cedo no pátio da escola. Ele me beijou.
O que começou de forma lenta logo se aprofundou. Nossas línguas se
exploravam de forma aflita e ele puxou meu corpo para mais junto do dele.
Pude sentir novamente seu membro enrijecido por baixo da calça, e isso
voltou a acender em mim o desejo de nos tornarmos um só.
Era o que teria acontecido dias antes, no sofá da minha casa, se ele não
tivesse agido com a razão e decidido que devíamos esperar. Mas eu queria
mandar a razão para o inferno, e agora ele também parecia estar bem disposto
a isso quando subiu a mão pela minha coxa por baixo do vestido.
Eu não queria ter prudência, nem esperar por nenhum ‘momento
especial’. Porque aquele momento, para mim, já estava mais do que perfeito.
Ali mesmo, no meu ateliê pequeno e improvisado, mas que representava o
local onde meus sonhos tomavam vida através dos meus móveis. E com ele,
com Henrique, o rapaz simples que havia conquistado o meu coração.
Capítulo 23
“Tudo o que sei é que seguramos a porta
Você será meu e eu serei sua
Tudo o que sei desde ontem é que tudo mudou”
(Everything Has Changed - Taylor Swift)

Sem parar de beijá-lo, desci as mãos entre nós, até alcançar o fecho de sua
calça jeans. Abri-a e, ousada, enfiei a mão em sua cueca, encontrando aquele
volume grande e duro como uma pedra.
Eu estava longe de ser uma mocinha virgem, mas também não podia me
dizer altamente experiente no sexo. Tinha feito apenas com meu ex-
namorado, e era sempre o mesmo papai-e-mamãe certinho e recatado sobre
uma cama. No dia que perdi minha virgindade, insisti tanto que queria que
fosse algo especial, que ele tinha me levado à sua casa e “feito amor” comigo
em uma cama previamente preparada, cheia de pétalas de rosas. Romântico,
mas, ao mesmo tempo, vazio. Porque tal lembrança, que deveria ser tão
bonita, tinha se tornado um borrão sujo nas minhas memórias. Agora, eu não
queria mais romantismo e perfeição. Os sentimentos me bastavam.
Trouxe o seu membro para fora das roupas e o massageei com vontade.
Ele correspondeu, enfiando a mão por dentro da minha calcinha, enquanto
continuávamos a nos beijar com cada vez mais fúria. Fui recuando alguns
passos, até minha bunda encontrar a mesa que eu preparava para ele.
Henrique me suspendeu, colocando-me sentada ali. Pude então abrir as
pernas, deixando o caminho mais livre para os dedos dele me explorarem. Eu
estava tão desesperada por aquilo que senti que não ia demorar a explodir de
prazer. Contudo, ele parou com os movimentos e interrompeu o nosso beijo.
Afastou o rosto apenas alguns poucos centímetros, de modo com que eu
podia ainda sentir sua respiração sobre a minha pele. Uma respiração
profunda, que dava mais uma prova de que ele também queria continuar.
— Lu, é melhor a gente... — ele começou a falar, mas eu o interrompi.
— Eu estou há muito tempo sem isso, Henrique. Só me fode, por favor.
Em qualquer outro momento, eu teria até mesmo me surpreendido com o
meu próprio vocabulário. Mas agora, eu pouco me importava. Eu só queria
voltar a me sentir como uma mulher, no sentido mais físico e selvagem da
coisa.
— Eu não estou com camisinha aqui — que inferno, aquilo era hora de
ser o cara certinho?
Bem, eu não poderia reclamar por ele aparentemente ser o responsável da
situação.
— Eu tomo remédio. Só me fode, Henrique. Agora. Por favor...
Eu sempre tive a menstruação desregulada, por isso que, depois que Sofia
nasceu, eu passei a tomar anticoncepcionais mesmo não precisando deles
para a sua finalidade principal, que era a de evitar uma gravidez. Já fazia sete
anos desde a última vez que um homem havia me tocado daquele jeito.
E, para a minha satisfação, ele atendeu ao meu pedido. Sequer percebi em
que momento arrancou a minha calcinha, e eu o senti entrando dentro de
mim. Céus, como aquilo era bom! Quando Henrique começou a se mover,
indo e voltando de forma cada vez mais profunda, eu me perguntei se antes
era tão gostoso assim, ou se era o jejum de tanto tempo que fazia o prazer ser
tão intenso. Então, ele levou novamente uma das mãos ao meio das minhas
pernas, usando o polegar para massagear meu clitóris em movimentos
circulares. Não consegui segurar o gemido alto que escapou pela minha
garganta. Depois mais outro, e mais outro. Henrique aumentou o ritmo e a
pressão das estocadas, levando-me pouco a pouco a um estado pleno de
loucura. Até que uma onda intensa de prazer me tomou e eu arqueei o corpo,
completamente entregue. Ainda sentia os espasmos do orgasmo quando ele
também gozou, dentro de mim, preenchendo-me por completo.
Fiquei ali, estirada sobre mesa, com meu vestido levantado e nua apenas
da cintura para baixo, tentando regularizar a minha respiração, com os olhos
fixos no teto, sentindo o sangue circular depressa pelas minhas veias e meu
coração acelerado.
Sentindo-me plena. Satisfeita. Viva.
Se eu achava que tal sensação não poderia melhorar, percebi que estava
enganada quando Henrique se debruçou sobre mim e seu rosto surgiu diante
do meu e ele me beijou de forma lenta, profunda e apaixonada. Quando
nossos lábios se afastaram, no entanto, ele disse algo que eu não esperava
ouvir.
— Desculpe...
— Por atender ao meu pedido?
— É que... não era para ser assim. Foi a nossa primeira vez, você merecia
muito mais.
Será que aquilo era mesmo real? Eu tinha medo de acordar de repente e
perceber que tudo não passava de um sonho. Aquele homem parecia
maravilhoso demais para existir fora de livros de romance ou de filmes
clichês.
Mas eu não queria mais sentir medo. Tinha sido atormentada por ele
durante tempo demais. Agora, eu só queria viver. E se a vida tinha me
proporcionado um homem tão maravilhoso como Henrique, eu iria me jogar
naquela oportunidade de ser feliz. Sem medo.
— Bem... a gente pode, então, entrar em casa, tomar um banho... e
recomeçar. Podemos ter outra primeira vez.
O olhar dele sobre mim foi de pura luxúria. Ele pressionou o quadril
sobre o meu. Seu membro, do lado de fora da calça, me dizia que ele já
começava a se recuperar para mais uma rodada.
— Com uma condição... — ele falou. Sua voz estava rouca, carregada de
desejo. — Que depois desse recomeço, a gente possa recomeçar de novo.
— Teremos a noite toda para muitos recomeços.
E ele me beijou mais uma vez. Fui erguendo o corpo até me sentar e ele
ficar de pé, então enrosquei minhas pernas ao redor de sua cintura. Ele
segurou em minhas coxas e, sem interromper o beijo, me levou para dentro
da casa. Subimos para o meu quarto e tomamos um banho juntos. Foi então
que tiramos toda a roupa e pudemos ver e explorar melhor nossos corpos.
Ele era... incrível. O corpo parecia ter sido minuciosamente esculpido. Ele
não falava de outras mulheres, mas um homem jovem e lindo como ele
obviamente já devia ter se deitado com inúmeras. Por isso, senti um pouco de
vergonha de me despir diante dele. Eu já tinha uma filha, por isso meus seios
já não eram mais tão firmes e, apesar de magra, meu corpo era marcado por
algumas sutis marcas de estrias. Mas a forma como ele me olhou, cheio de
desejo, me dizia que gostava do que via.
Embaixo da água morna do chuveiro, nós acariciamos o corpo um do
outro. Se na primeira vez eu tinha agido como um animal no cio, exigindo
urgência, agora eu me deliciava com cada toque. Ele me deu outro orgasmo,
usando apenas as mãos. Enquanto meu ex tinha uma dificuldade surreal de
até mesmo encontrar o meu clitóris, Henrique parecia conhecer bem não só o
caminho até ele, mas a forma e a intensidade certa para tocá-lo. Depois nos
secamos e fomos para a minha cama.
Então, cumprimos o nosso acordo e recomeçamos, tendo uma nova
primeira vez. Dessa vez, não foi só sexo. Dessa vez, fizemos amor, no
sentido mais pleno da palavra.
Capítulo 24
“Um: você é como um sonho se tornando real
Dois: só quero estar com você
Três: garota, é evidente que você é a única para mim
Quatro: repita os passos de um a três
Cinco: fazer você se apaixonar por mim
Uma vez que eu achar que meu trabalho está feito, então volto ao passo um”
(Back At One - Brian Mcknight)

Os raios de sol penetravam através das frestas da cortina, iluminando


aquele corpo despido da mulher que dormia serenamente ao meu lado
naquela cama. Lembrei-me da timidez em seus olhos ao se despir para mim e
pensei no quanto ela era boba por se sentir assim. Seu corpo era lindo,
perfeito com cada uma de suas marcas. E tinha sido meu naquela noite. De
várias formas. E eu ainda conseguia pensar em várias outras que queria
experimentar com ela.
Porque eu queria que ela fosse minha não apenas por aquela noite. Mas
para sempre.
Mas eu sabia que não seria tão simples. Eu não conseguia parar de pensar
em como iniciaria aquela conversa com ela. Porque eu precisava dizer toda a
verdade. Luíza merecia isso.
Pensava a respeito quando ouvi o som do toque familiar de um celular,
Comecei a olhar ao redor, aflito, tentando descobrir onde eu tinha deixado o
aparelho, quando percebi que o som baixo vinha do banheiro do quarto.
Próximo o suficiente para que eu pudesse ouvir, mas não o bastante para
acordar Luíza. Levantei-me e corri até o pequeno cômodo, fechando a porta.
Peguei o aparelho no bolso traseiro da minha calça jeans que tinha ficado,
como as outras peças de roupas, espalhadas pelo chão. No visor era exibido o
contato do meu irmão. Atendi, falando o mais baixo possível para evitar que
Luíza ouvisse:
— Isso são horas de me ligar, Heitor?
— Sei que hoje é sábado, irmãozinho, mas já são quase onze da manhã.
Em que farra você se meteu para achar que ainda é cedo? Estava dormindo
até agora?
Já havia algum tempo que eu estava acordado, mas confesso que sequer
tinha percebido o tempo passar, achava que ainda deveriam ser oito ou no
máximo nove da manhã. Luíza provavelmente também não estava habituada
a dormir até tão tarde. Não pude conter um sorriso de satisfação em meu
rosto ao pensar que ela deveria estar bem exausta das atividades da noite.
— O que você quer? — questionei, querendo que ele fosse direto ao
assunto.
— Hoje tem festa na casa do Joca. Está todo mundo aqui te esperando. Já
vieram umas cinco gostosas diferentes perguntar por você.
Festa? Casa do Joca? Mulheres?
De repente, tudo isso parecia fazer parte de uma encarnação passada. Não
pertenciam mais a mim.
— Você não dormiu em casa, né? — Heitor prosseguiu. — Disse pelo
telefone que queria conversar comigo quando eu voltasse ontem, mas fiquei
até tarde acordado te esperando e não te vi chegar.
— É... nós temos que conversar, sim. Mas não dá para ser pelo telefone.
De noite nos falamos em casa. Não me liga mais, senão a Luíza pode ouvir.
Falei aquilo de forma automática, mas mal as palavras saíram da minha
boca e me arrependi profundamente, dando-me conta da merda que eu tinha
revelado.
— Você está na casa da garçonete? — Ele gargalhou. — Seu grande filho
da puta! Não acredito que conseguiu ganhar a aposta!
— De noite a gente conversa, Heitor.
— Não, nem pensar! Isso é histórico, você levou mais de dez dias para
conseguir trepar com uma mulher. Vai ter que me contar como tudo
aconteceu. Conta aí, para fazer tanto doce, ela era virgem?
Eu queria, sinceramente, dar um murro na cara dele, sem me importar
com o fato de ser meu irmão. Mas tentei me acalmar. Primeiro, porque ele
não estava ali para eu socá-lo, e segundo porque qualquer alteração na minha
voz poderia chamar a atenção de Luíza.
— Cala essa boca, Heitor.
— Ela era mesmo virgem? — o panaca insistiu.
— É claro que não, seu estúpido. Não te contei que ela tem uma filha?
— Ah, é verdade. Então, cara, dá logo o fora daí antes que a pirralha
acorde. Não vai querer ter uma coisinha te chamando de papai, não é? Mas
não esquece a foto para provar sua vitória. Tira de um bom ângulo, viu?
— Me faz um favor, Heitor... Vá para o inferno.
Desliguei a ligação, praticamente jogando o celular sobre o lavatório.
Passei as mãos pela cabeça e me olhei no espelho, vendo ali o reflexo de um
cara que não era nada menos que um merda. Eu realmente, quando fiz aquela
maldição de aposta, cheguei a acreditar que aquilo fosse minimamente
aceitável? Que eu iria fazer sexo com Luíza, tirar uma foto dela nua ao meu
lado como prova, e sair de sua casa à espreita para simplesmente desaparecer
da sua vida?
— Você é um bosta, Henrique... — resmunguei para o meu reflexo, ainda
encarando-o fixamente. — Um grande saco de bosta.
Eu não iria magoar aquela mulher. De maneira alguma.
Joguei um pouco de água no rosto e saí. Encontrei Luíza já acordada,
agora com o corpo coberto por um lençol, olhando-me com o sorriso mais
lindo do mundo.
Meu coração pareceu se partir em mil pedaços. Eu realmente planejava
magoá-la com as regras daquela merda de aposta?
— Bom dia... — ela sussurrou. Sua voz doce era como um conforto para
a minha alma. Ela percorreu os olhos pelo meu corpo, só então me fazendo
me dar conta de que eu ainda estava nu.
Eu me aproximei, voltando a me deitar ao lado dela e tomando seus
lábios com os meus em um beijo breve.
— Bom dia, linda!
— Já é de manhã?
Achei graça da pergunta.
— Já passam das dez, Lu.
— O quê? — Os olhos dela se arregalaram e ela levantou o tronco,
sentando-se na cama. O lençol escorregou até a sua cintura, deixando aqueles
seios lindos à mostra. — Daniela disse que ia trazer a Sofia na hora do
almoço, porque ela vai levar a Gabi para almoçar com o pai.
— Ainda falta um pouco para a hora do almoço, não acha?
— Ela me disse que seria em torno de meio-dia. Mas eu ainda preciso
começar a preparar o almoço.
— Calma, eu vou te ajudar. Temos tempo.
Ela me olhou, parecendo estar cheia de dúvidas.
— O que Sofia vai pensar se descobrir que você dormiu aqui essa noite?
— Não sei. Mas o que você quer que ela pense? Porque, assim... ela me
contou uma vez que acharia legal se a mamãe dela tivesse um namorado.
Ela sorriu.
— Ela disse isso para você?
— É, ela disse. Eu não sei se ela consideraria o tio Henrique um
namorado ideal para a mamãe dela, mas...
— Talvez ela considere. E talvez eu devesse contar isso a ela. Mas... acho
melhor conversar antes com ela, sabe? Só nós duas. Para meio que preparar o
terreno.
— Eu entendo.
E provavelmente, antes disso, eu é que devesse conversar com Luíza e
enfim contar toda a verdade. Mas também tinha um terreno para preparar. Na
segunda-feira já começaria a implantar mudanças na empresa. Como eu disse
uma vez a Sofia, contaria a verdade à sua mãe quando pudesse convencê-la
de que a Lizano é “uma loja legal”. Depois disso, poderia mostrar que ela me
ajudou a abrir a minha visão a várias questões que eu antes não via, e com
muito jeito contaria primeiramente sobre ter mentido sobre ser um cara pobre
e escondido ser o CEO da Lizano. Talvez, em um primeiro momento, eu
ainda ocultasse a motivação disso, que foi a aposta. Essa seria a parte mais
difícil de contar, com toda a certeza.
Mas não ia pensar naquilo naquele momento. Não enquanto eu estava em
uma cama junto à mulher mais maravilhosa desse mundo. Ali, eu iria me
empenhar apenas em fazê-la feliz. Especialmente porque eu já sabia de coisas
que ela gostava...
Tomei sua boca devagar, inicialmente em um beijo inocente que aos
poucos foi se tornando mais ousado. Em determinado momento ela conseguiu
se livrar dos meus lábios, mas não parecia disposta a sair dali, especialmente
quando comecei a beijar seu pescoço.
— Henrique, é melhor não... Sofia vai chegar daqui a pouco.
— Temos mais de uma hora até lá. Já disse que te ajudo a preparar o
almoço.
— Eu sei, mas... você não vai querer tomar café?
— Vou. Vou querer você como meu café da manhã.
Desci devagar, tomando um de seus mamilos com a boca, enquanto
acariciava o outro com a mão. Luíza jogou a cabeça para trás e soltou um
gemido baixo que fez o meu pau endurecer por completo. Desci lentamente a
outra mão, afastando o lençol com o qual ela ainda se cobria. Encontrei-a já
molhada, macia e quente, esperando por mim. Mais um gemido escapou de
seus lábios e eu não mais resisti. Precisava prová-la.
E foi o que eu fiz. Ela voltou a se deitar e eu usei as mãos para abrir mais
as suas pernas, afastando-as, me dando o caminho livre para a minha refeição
matinal. Comecei passando lentamente a língua, vendo-a remexer o quadril
em resposta.
— Está delicioso... — falei. — Posso provar mais um pouco?
Levantei o rosto para olhá-la e a encontrei com a respiração entrecortada,
olhando-me como se suplicasse para que eu prosseguisse. Minha garota
gostava disso...
E eu gostava de poder chamá-la de minha.
Voltei a passar a língua por toda a sua intimidade, usando também os
dedos para explorá-la. Enfiei primeiro um, devagar, em seguida penetrando
outro. Ela arqueou para trás, mas os gemidos ainda não eram tão deliciosos
quanto os que ela começou a soltar quando iniciei o vai-e-vem dos dedos ao
mesmo tempo em que minha boca se deliciava com o seu clitóris.
— Henrique... mais, por favor... mais... — Meu nome dito entre gemidos
com a sua voz era a coisa mais excitante que eu já tinha ouvido. Ela rebolava
em minhas mãos e boca, e meu pau ficava a cada instante mais dolorido de
tão duro.
A respiração dela foi ficando mais descompassada, até que um gemido
mais alto foi ouvido, enquanto ela arqueava o corpo. Deitei-me ao lado dela,
apoiando o peso do corpo em um dos braços, enquanto admirava seu rosto.
Os olhos fechados, a respiração ofegante, o meio-sorriso entre os lábios, a
expressão de satisfação. Eu tinha dado isso a ela. Engraçado que eu já tinha
dado prazer a tantas outras mulheres, mas Luíza era a primeira que me
deixava naquele estado. Meu pau doía, desesperado pelo seu próprio prazer,
mas era o dela que me deixava tão satisfeito.
— Como estava o café da manhã? — ela sussurrou, abrindo as pálpebras
e me encarando com aqueles olhos castanhos sedutores.
Ela sabia bem como me enlouquecer.
— Quente e doce, do jeito que eu gosto.
— Chegou a minha vez de provar, então.
Antes que eu pudesse responder, ela desceu até o meu pau, abocanhando-
o sem qualquer cerimônia. Passei as mãos pelos seus cabelos, olhando-a,
sentindo aqueles lábios macios e aquela boca faminta a me devorar. Tentei
me controlar ao máximo, ou acabaria gozando em sua boca. E não era isso o
que eu queria.
Com todo o pouco autocontrole que ainda me restava, eu a afastei.
Estendi minhas mãos para que ela as segurasse, mostrando o que ela deveria
fazer.
Ela olhou para o meu membro e em seguida para mim, mordendo o lábio
de forma incrivelmente sedutora, embora eu pudesse notar em seus olhos
uma certa confusão que me deixou completamente louco.
— Nunca ficou por cima? — Não resisti em perguntar.
Quando ela movimentou a cabeça de forma negativa, meu coração
pareceu que ia explodir dentro do peito e, como se fosse possível, meu pau
doeu ainda mais. Ela tinha tido experiências apenas com um único cara... ou,
na verdade, um moleque, ainda na adolescência. Não duvidava que fizessem
apenas da forma como ele queria e estava acostumado. Pensar nisso me
encheu de um ódio insano.
Ele era um merda, que não valia nada. Seria eu a ensinar Luíza todas as
formas de se sentir prazer.
— Vem, linda... Agora você ficará no comando.
Hesitante, ela segurou em minhas mãos e se ajoelhou sobre mim, com
uma perna de cada lado do meu corpo. Apertei suas mãos e olhei fundo em
seus olhos, em um sinal para que ela fizesse o que queria fazer. Devagar, ela
foi se abaixando, sentando-se sobre minha ereção. A forma como ela inspirou
e fechou os olhos enquanto meu pau a penetrava me fez, novamente, me
controlar para não acabar gozando antes da hora. Eu estava já em desespero,
e tudo, cada gesto dela me excitava ainda mais.
— E agora? — ela sussurrou, já completamente sentada sobre mim, meu
pau a preenchendo até o fundo.
— Agora faça o que quiser fazer, linda.
E ela fez. Começou a cavalgar sobre mim. No início, de forma ainda um
pouco desajeitada e fora de prática, mas logo foi pegando o jeito e
aumentando o ritmo. Eu a vi levar as mãos aos próprios seios, ávida por
intensificar o próprio prazer. E eu a ajudei nisso, usando minha mão para
massagear o seu clitóris. A cavalgada dela foi se tornando mais acelerada, até
que gozamos juntos e ela deixou seu corpo cair sobre o meu, enquanto ambos
normalizávamos nossas respirações.
Ficamos ali calados e eu beijei seus cabelos, sentindo-me mais em paz do
que nunca.
Até que essa paz era tumultuada quando a realidade voltava à minha
mente e eu me lembrava de que era uma merda de um mentiroso.
— Agora preciso mesmo levantar — ela anunciou, levantando a cabeça
para me olhar nos olhos. — Vou tomar um banho e preparar o almoço.
— Posso te ajudar nas duas coisas.
— Nem pensar. Aceito a ajuda para o almoço. Mas você pode tomar o
seu banho no banheiro lá de baixo e eu no do meu quarto. Senão fatalmente
será mais do que um simples banho e vamos demorar ainda mais.
— Sabe que a ideia era exatamente essa, não é?
— Muito engraçadinho. Anda, vamos logo. Tem toalhas limpas e
sabonete no armário embaixo do lavatório.
Ela se levantou e eu fiz o mesmo. Fui até o banheiro dela e peguei minhas
peças de roupa espalhadas pelo chão. Quando passei por ela, voltei a beijá-la,
e ela novamente precisou me empurrar para que eu não acabasse me
empolgado e prolongando aquele beijo mais do que deveria.
— Serei rápida. Te encontro na cozinha em dez minutos — ela falou.
E eu aceitei, sabendo que aquele tempo ia demorar uma eternidade para
passar.
Pelo amor de Deus, eu era um idiota apaixonado. Logo eu, que vivia
implicando com o meu irmão por isso.
Desci, indo para o banheiro social. Tomei um banho sem muita pressa e,
quando saí, imaginei que Luíza já estaria até mesmo me esperando na
cozinha. Mas ela não estava. Sentei-me no sofá e fiquei ali por uns cinco
minutos, impaciente, e nada de ela descer. Preocupado com a demora, decidi
subir.
— Lu? Está tudo bem aí? — perguntei, enquanto abria a porta do quarto.
A do banheiro estava meio aberta, por isso fui até lá. — Você disse que o
banho seria rápido, não foi? — brinquei, mas o ar de diversão foi
completamente sufocado com a cena que encontrei.
Ela estava parada diante da pia, com um olhar aflito voltado para o celular
em suas mãos. Em um primeiro momento, fiquei preocupado achando que
pudesse ser alguma notícia de algo com Sofia, mas, ao olhar novamente,
percebi que não era o celular dela que estava em suas mãos. Mas o meu.
Eu tinha esquecido a porra do aparelho lá.
Durante todo o tempo de convivência, eu nunca mexia no celular na
frente de Luíza, porque, se eu queria representar o papel de um rapaz humilde
e assalariado, eu jamais poderia ter um aparelho que custasse quase um ano
de salário de um vendedor da loja. E eu achei que fosse esse o motivo da
surpresa dela. Mas logo percebi que não era apenas isso quando o telefone
em sua mão soou um alerta de mensagem recebida, que provavelmente surgia
nas notificações da tela.
Algo na expressão do rosto dela me dizia que aquela não deveria ser a
primeira.
Ela me olhou e vi confusão e tristeza em seus olhos. Os lábios dela se
abriram, mas sua voz não chegou a sair, porque foi interrompida pelo som da
campainha. Como se quisesse usar aquilo para fugir da situação, ela
empurrou o celular contra mim e saiu do banheiro e do quarto. Ouvi que
descia as escadas correndo e aguardei que chegasse ao último degrau para
enfim criar coragem de ler as mensagens recebidas.

Não acredito que você conseguiu realmente seduzir a mamãezinha.

Para de me enrolar e manda logo foto dela, Henrique!

E faça o favor de focar bem nos peitinhos.

Sem foto você não ganha a aposta!

Senti como se o sangue tivesse congelado em minhas veias.


Luíza não podia ter lido aquilo. Não era daquela forma que ela deveria
descobrir a verdade.
Capítulo 25
“Você pegou minha mão
Você me mostrou como
Você me prometeu que ficaria por perto
Eu absorvi suas palavras
E eu acreditei em tudo que você me disse”
(Who Knew - Pink)

Há muito tempo que eu tinha desenvolvido um medo patológico de ter


felicidade na vida amorosa. Eu buscava a minha realização em outras formas.
No meu trabalho, no sonho do meu próprio ateliê, nos momentos passados
com a minha filha, nas maratonas de série com minha prima, nos passeios no
parque com o Joe... em diversas outras coisas que me faziam
verdadeiramente feliz. E por muito tempo tudo isso me bastou, até que
chegou Henrique e, em apenas alguns dias, tumultuou tudo no meu
emocional.
Quando entrei no banheiro para tomar o meu banho, no entanto, eu já não
sentia mais esse medo. Ele tinha ido embora com a noite de amor que
tivemos, com a redescoberta do meu próprio prazer, com o turbilhão de
sentimentos crescendo dentro de mim... com a confiança que eu agora
depositava no Henrique. Separei uma roupa bem leve para vestir, algo no
melhor estilo ‘sábado em casa’, porque obviamente Henrique ficaria para
almoçar comigo e com a Sofia. A expectativa de passar o dia inteiro com eles
dois – e com o Joe, claro – acendia em mim uma nova faísca de felicidade.
Tomei um banho rápido, conforme havia prometido a Henrique, e logo
saí do box, me enxuguei com uma toalha e vesti a roupa que havia separado.
Aproximei-me do espelho para secar e pentear os cabelos, quando meus
olhos se detiveram no objeto sobre a pia. O símbolo do I-phone reluzia sobre
a capa dourada e, curiosa, peguei para ver do que se tratava. Porque, bem...
nem em mil anos eu teria um aparelho daquele, e me pareceu óbvio também
que Henrique não tivesse um. Em um primeiro momento, cogitei ser alguma
réplica ou um brinquedo de Sofia que eu não me recordava de ter visto antes,
mas logo constatei que era exatamente o que parecia ser: um celular. Pensei
em simplesmente descer e entregá-lo para Henrique, quando o aparelho tocou
um alerta e a tela acendeu. Eu realmente não tinha qualquer intenção de
invadir a privacidade dele, mas a mensagem simplesmente surgiu na tela e foi
impossível ignorá-la.
Especialmente, porque ela parecia falar a meu respeito.

Não acredito que você conseguiu realmente seduzir a mamãezinha.

Bem... homens às vezes são meio idiotas, pensei comigo mesma. Era
certo que Henrique tinha comentado a meu respeito com algum amigo babaca
com uma péssima escolha de palavras.
Era assim que eu pensava, quando o aparelho voltou a tocar e outra
mensagem surgiu na tela.

Para de me enrolar e manda logo foto dela, Henrique!

Foto? Uma foto... minha?


Henrique havia combinado de enviar uma foto íntima minha? Que merda
era aquela?
Mais uma mensagem chegou, embrulhando o meu estômago de vez:

E faça o favor de focar bem nos peitinhos.

— Lu? Está tudo bem aí? — a voz de Henrique chegou aos meus
ouvidos, distante, como se viesse de algum plano paralelo. Porque o homem
que havia passado a noite comigo não parecia ser o mesmo que recebia
aquelas mensagens a meu respeito. — Você disse que o banho seria rápido,
não foi? — Agora a voz já estava mais próxima, me indicando que ele estava
já na porta do banheiro.
Mas eu não consegui olhá-lo. Sequer conseguia desviar os olhos do
celular, relendo a última mensagem e tentando colocar aquelas informações
em ordem.
Então, mais uma chegou:

Sem foto você não ganha a aposta!

Aposta? Ele tinha feito uma aposta sobre... me seduzir?


Mas... por quê? Por que eu? A troco de quê?
Enfim reuni coragem para levantar o rosto e olhá-lo. Ele parecia tenso, o
que me dava uma dica de que nada daquilo seria um mero engano. Eu tentei
falar alguma coisa, embora nem soubesse o que deveria dizer, quando o som
da campainha chegou aos meus ouvidos. Praticamente empurrei o celular
contra ele, também o empurrando no processo para tirá-lo do meu caminho.
Quando saí daquele quarto e desci correndo as escadas, foi praticamente uma
fuga. Talvez já fosse Daniela levando Sofia para casa e, nesse caso, eu
precisaria me controlar na frente da minha filha.
Porém, quando abri o portão, vi que era outra pessoa. Sara estava lá
parada na calçada.
E eu não tinha qualquer condição de atendê-la naquele momento.
— Desculpa, Sara. Eu agora não posso conversar com você porque...
— Estou desde ontem tentando te ligar! — ela me cortou, parecendo
preocupada. Bem, na verdade eu nem sabia onde tinha largado o meu celular
quando cheguei em casa e...
As lembranças da noite fizeram a minha cabeça doer. Aquilo não podia
estar acontecendo.
Sara prosseguiu, iniciando o assunto que tinha ido tratar:
— Uma freguesa lá da lanchonete tem um filho que estuda na mesma
escola que Sofia, e...
— Sara, por favor! — eu a interrompi. — Se veio fazer alguma fofoca ou
coisa do tipo, reforço, não é o melhor momento.
Ela pareceu um pouco ofendida com o meu comentário e eu não a
culpava por isso. Sara não era necessariamente uma fofoqueira. E ela
realmente parecia preocupada com alguma coisa. Por isso, respirei fundo.
— Desculpe, prima. É que não é um bom momento, mas... Aconteceu
alguma coisa?
— Por que não é um bom momento, Lu? Eu é que te pergunto, o que
aconteceu?
— Em outra hora eu te conto. Até porque... eu também estou precisando
entender. Mas, diga, o que a freguesa da lanchonete falou?
— Lu, eu te liguei ontem de noite e você não atendeu, mas achei que
tivesse... sei lá, ido dormir cedo, ou se distraído nos trabalhos na garagem e
deixado o celular dentro de casa. Mas com o que me contaram hoje... eu
realmente temi que algo tivesse acontecido com você. Porque nada mais
justificaria você ter saído da escola ontem acompanhada por aquele homem
que você odeia se não fosse por alguma ameaça ou coisa do tipo.
Homem que eu odeio? Ameaça? Do que ela estava falando?
Então, a voz de Henrique, vinda de dentro da casa, chamou a nossa
atenção.
— Luíza, por favor, a gente precisa conversar... — ele se calou ao parar
na varanda e perceber que eu não estava sozinha ali.
— Lu, o que esse cara está fazendo aqui? — Sara perguntou, voltando
novamente a minha atenção para ela.
— Você conhece o Henrique, Sara?
Ela piscou várias vezes, parecendo fazer a conexão de informações
distintas.
— Está me dizendo que esse é o seu Henrique? O carinha com quem você
anda saindo é... esse Henrique?
— Repito, Sara: você conhece o Henrique?
Ela respirou fundo.
— O que a moça da lanchonete me disse é que te viu na festa ao lado de
um cara que ela achava familiar. Ela conseguiu tirar uma foto dele com o
celular e mandou em um grupo de amigas. Uma delas, que é mais ligada às
fofocas da elite da cidade, o reconheceu. Lu... esse cara é o Henrique Lizano.
Tudo ao meu redor pareceu girar.
Aquilo só podia ser um pesadelo do mais insano possível.
Enquanto eu tentava me acalmar, Sara continuou a falar:
— Eu não fazia ideia de que ele fosse o seu Henrique. Quando soube que
você saiu da escola ontem com ele, sabendo que você odeia tudo relacionado
à família dele, as piores coisas vieram à minha cabeça. Tentei te ligar e você
de novo não atendeu, então larguei a lanchonete e vim ver se estava tudo
bem.
Não estava tudo bem. Estava o mais completo oposto de “tudo bem”. O ar
me faltou e eu não sabia o que fazer ou falar. Sabia que Henrique continuava
parado na varanda, mas não tinha coragem de me virar para voltar a olhá-lo.
Eu só queria que uma cratera se abrisse sob os meus pés e me engolisse
naquele momento, para eu não ter que lidar com aquilo.
Porque eu simplesmente não sabia como lidar. Mas eu sabia que
precisaria encarar.
— Sara, eu preciso conversar a sós com ele.
— Lu, você não está bem. Eu não sei o que aconteceu, mas eu não vou
sair e te deixar sozinha com esse sujeito.
Eu já tinha ficado tempo demais sozinha com ele. O suficiente para saber
que ele provavelmente não pretendia me matar. Porque ele poderia ter feito
isso se quisesse, já que eu havia me confiado inteiramente a ele. Porém, eu
compreendia a preocupação de Sara. E, mais do que isso, eu sabia que eu não
ia querer ficar sozinha quando ele fosse embora. Por isso, concordei.
— Pode me esperar lá em cima? No quarto da Sofia?
Ela balançou a cabeça em afirmação e me abraçou, embora eu não tivesse
forças para corresponder ao gesto. Eu sentia que não tinha forças para mais
nada.
— Qualquer coisa você me grita — ela falou, antes de entrar. Percebi que
lançou um olhar fuzilador para Henrique quando passou por ele. Ela era mais
do que apenas uma prima, era também uma ótima amiga e eu sabia que faria
de tudo para me defender do que fosse necessário.
Mas, naquele momento, apenas eu poderia fazer minha própria defesa.
— Henrique Lizano... — pronunciei, enfim criando coragem para encará-
lo. Aquele homem vestido com jeans e camiseta era o dono de uma grande
rede de lojas. Por que inferno aquele teatro todo?
— Eu vou te explicar tudo, Luíza. Não era para você descobrir assim.
— Não, né? Talvez você não tenha tido ainda tempo de tirar uma bela
foto dos meus peitinhos para validar a sua maldita aposta.
— Escuta, foi o meu irmão que mandou aquelas mensagens. Ele é um
completo idiota. Não tem mais aposta nenhuma.
— Então por que você mentiu sobre quem era? Meu Deus, você trabalhou
comigo na Lizano, sendo o dono de lá! Todo mundo lá sabia, menos eu, é
isso? Aquela palhaçada da demissão foi um teatro também?
— Não, Lu. O Geraldo não sabia. Ele ainda não me conhecia, só o Carlos,
e...
— Por que eu? Dizem que você é um festeiro mulherengo, tem qualquer
mulher que queira sem qualquer esforço. Qual era a necessidade de ter feito
isso comigo?
Ele respirou fundo. Aparentemente, havia compreendido que não
adiantaria seguir mentindo ou tentar enfeitar as palavras para soar menos
cruel – como se isso fosse possível. Portanto, foi direto:
— Meu irmão apostou que eu não seria capaz de seduzir uma mulher sem
que ela soubesse do meu sobrenome ou do meu dinheiro. Foi naquela noite,
no bar. Eu não te conhecia, Luíza. Foi uma escolha aleatória.
Uma escolha aleatória... Isso deveria fazer tudo soar menos grave?
— Você tem razão, Henrique Lizano: seu irmão é um idiota. E você não é
nada melhor do que ele.
Ele deu um passo à frente, mas estendi a mão como um sinal para que ele
não se aproximasse mais.
— Luíza, me escuta, por favor. Foi um erro, eu sei. Mas há dias que eu
desisti dessa aposta. Tanto que tive outra oportunidade de fazer algo com
você, e não fiz.
— Ah, é claro... Foi mais divertido esperar mais alguns dias, não é? Para
que a idiota aqui tivesse tempo de se apaixonar ainda mais. Porque, não
bastava me tratar como um pedaço de carne sem valor, você ainda queria ter
certeza de que eu estivesse emocionalmente envolvida com você o suficiente
para sofrer ainda mais depois que você conseguisse o que queria, não é?
— Não, Luíza. Eu nunca quis que você se apaixonasse. Assim como eu
nunca quis me apaixonar. Era para ser algo rápido, ainda naquela primeira
noite. Ou no máximo mais dois ou três dias. Mas não aconteceu e eu fui te
conhecendo melhor, e...
Eu não queria mais ouvir nada daquilo. O que ele estava querendo, depois
de tudo? Se divertir ainda mais com os meus sentimentos? Eu vinha tentando
me manter forte até então, mas não consegui mais segurar as lágrimas, que
começaram a descer pelo meu rosto, e isso fez com que ele se calasse. Estaria
com pena de mim? Duvidava muito que ele fosse capaz de ter sequer esse
tipo de sentimento.
Passei a mão pelo rosto e tentei voltar a me concentrar.
— Tirou alguma foto minha? — questionei. Tudo o que eu menos
precisava e ter nudes meus expostos rolando por aí.
— Não! — ele pareceu até mesmo ofendido com o questionamento. —
Eu não fiz isso, Luíza, eu juro. Olha, pode conferir.
Ele mexeu no celular, indo para o seu álbum de fotos da câmera, e me
estendeu o aparelho. Eu o peguei, passando as últimas fotos. Nenhuma delas
era minha, mas a grande maioria era dele em festas, exibindo garrafas de
bebidas ou posando ao lado de mulheres de biquíni, que pareciam bem felizes
em sua companhia. Como se fosse possível, aquilo fez o aperto em meu peito
aumentar. Era aquele homem que eu tinha levado para dentro da minha casa,
apresentado à minha filha e para quem entregado o meu corpo e o meu
coração?
Respirei fundo, tentando permanecer firme. Eu não gritaria, não daria um
escândalo e não desabaria em um choro compulsivo na frente dele. Não me
humilharia de mais aquela forma. Tudo o que eu queria era que ele saísse da
minha vida.
Na verdade, queria que nunca tivesse entrado nela. Pena que isso não era
possível.
Devolvi a ele o celular e abri o portão, dando espaço para que ele
passasse. O filho da puta ainda tentou insistir:
— Por favor, Lu... Vamos conversar. Me deixa te explicar tudo.
— Vá contar ao seu irmão e aos seus amigos como foi seduzir a
mãezinha. Faça o que quiser, Henrique. Apenas suma da minha vida.
Ele veio em direção ao portão e achei que fosse realmente atender ao meu
pedido e iria embora. Porém, parou bem diante de mim.
— Eu amo você, Luíza. E amo a Sofia também.
Que inferno! Eu estava me mantendo o mais firme possível, mas ouvir
aquilo me fez desmoronar de vez. Um soluço escapou pela minha garganta e
mais lágrimas desceram pelo meu rosto. Até que ponto ele pretendia ir para
brincar com os meus sentimentos? Como ele ousava falar de amor? Como
ousava mencionar o nome da minha filha naquela conversa sobre seu plano
imundo?
Inspirei profundamente e, engolindo o choro, retruquei.
— Seu irmão estava certo em uma coisa, Henrique. Um cara que é capaz
de fazer com uma mulher isso o que você fez comigo, realmente não é capaz
de conquistar ninguém por qualquer outro motivo que não seja pelo seu
dinheiro.
Ele pareceu em choque com as minhas palavras, mas percebi que não iria
rebater porque, no fundo, ele sabia que o que eu dizia era verdade. Sendo
assim, insisti mais uma vez:
— Vá embora. E não me procure mais.
E ele enfim atendeu ao meu pedido e saiu. Fechei o portão e me virei,
apoiando as costas no muro. Meu peito explodiu em soluços incontroláveis e
um choro intenso enfim veio à tona. Fui deslizando as costas pelo muro, até
me sentar no chão gramado, onde me encolhi, abraçando meus próprios
joelhos e escondendo o rosto em meio aos braços.
Era tanta dor dentro de mim que eu não sabia se aquele choro seria capaz
de colocá-la para fora.
Capítulo 26
“O que não daria para passar meus dedos por seus cabelos
Tocar em seus lábios, abraçá-la apertado
Quando você disser suas preces, tente entender
que eu cometi erros, sou apenas um homem”
(Always - Bon Jovi)

Ela tinha razão. Ela tinha toda a razão. Afinal, que argumentos eu teria
para usar em minha defesa? Eu tinha sido um completo idiota, a ideia da
aposta tinha sido a coisa mais esdrúxula que eu já havia topado na vida e eu
não merecia o seu perdão.
Eu só queria ter o poder de passar uma borracha em Henrique Lizano e
poder ser apenas o Henrique-cara-legal que havia sido colega de trabalho dela
em uma loja, que a ajudou a roubar caixotes, correu ao lado dela atrás de uma
van escolar, passou um dia com ela e sua filha em um parque e tinha
compartilhado com ela uma pizza semipronta sem graça em casa por não
terem grana para irem a uma pizzaria. O cara que, na mesma noite, a fodeu
como ela desejava ser fodida, e também a amou como ela merecia ser amada.
O cara que, quando acordou naquela manhã ao lado dela, sentia-se o sujeito
mais sortudo do mundo e que só desejava poder fazer aquela mulher feliz.
Porque o Henrique Lizano... o CEO playboy e mulherengo que apostava
na sedução de uma mulher com mentiras como quem aposta em um jogo de
cartas... esse era apenas um monte de bosta.
Quando saí da casa dela, não consegui ir direto para a minha. Fui
caminhando até o parque e me sentei na grama, no mesmo local onde
havíamos comido hambúrgueres alguns dias antes. Avistei uma família
caminhando feliz pela pista e, em um primeiro momento, fui corroído por
uma inveja dos infernos. Porra, como eu queria também poder ter aquilo.
Carros, festas, noitadas, mulheres, todo o dinheiro do mundo... nada tinha o
mesmo valor de uma família. Nada chegava nem perto daquilo.
Contudo, levou alguns segundos até que eu reconhecesse a criança que
andava no meio do casal. Era a tal Júlia, a menininha vestida de princesa que
implicava com Sofia na escola. Ela segurava a guia de um cachorro branco,
peludão e frufruzento. Bufei.
— O Joe é muito mais bonito que ele... — resmunguei.
Que merda... até daquele vira-lata eu estava sentindo falta. Ele tinha toda
a razão ao sempre rosnar para mim, no fim das contas. Estava tentando
proteger a família dele de um filho da puta mentiroso. Não era isso o que se
devia fazer com as famílias: protegê-las? Um cachorro sabia disso muito
melhor do que eu.
Passei horas ali, pensando em muitas coisas, mas sem conseguir encontrar
qualquer solução. Luíza não ia querer me ouvir e, mesmo se quisesse, o que
eu poderia dizer que a fizesse me perdoar?
Já estava quase no final da tarde quando decidi ir embora. Logo que
cheguei à mansão, dei de cara com Heitor sentado no sofá da sala, com uma
taça de vinho em sua mão. Logo que me viu entrar, o filho da puta teve a cara
de pau de sorrir e falar as piores palavras que poderia pronunciar naquele
momento.
— E aí? Cadê a foto dos peitinhos que eu te pedi?
Eu praticamente voei para cima dele, acertando um soco bem no meio da
sua boca. Desejava quebrar todos aqueles malditos dentes. A taça escapou de
sua mão, derramando o vinho sobre o sofá branco. E eu estava pouco me
importando com isso.
Eu já ia socá-lo novamente, se não fosse por Joana, que surgiu nesse
momento, me segurando. No entanto, ela não pôde me impedir de gritar com
aquele infeliz.
— Seu filho da puta! Você nunca mais, nunca mais ouse falar desse jeito
a respeito da Luíza, ouviu bem?
— Menino, acalme-se! — Joana pediu. Óbvio que uma mulher de meia
idade não teria força suficiente para me deter. Porém, ela se colocou à minha
frente de modo com que eu acabaria machucando-a caso insistisse em socar
Heitor.
E quando ele enfim levantou a cabeça para me olhar e vi o sangue que se
avolumava em sua boca, confesso que senti-me minimamente vingado.
— Seu filho da puta, o meu casamento é semana que vem! — ele rebateu,
provavelmente frustrado porque ele fatalmente não sairia muito bonito nas
fotos com a cara roxa.
— Mas o que deu em você, Henrique? — Joana me perguntou. Embora
eu tivesse parado de tentar avançar em Heitor, ela continuava a me segurar,
temendo que eu voltasse a atacar. — O que o Heitor fez a você?
— Vou te dizer o que ele fez, Joana. Ele teve aquela ideia esdrúxula de
aposta.
— O quê? — Heitor arregalou os olhos. — A ideia foi sua! Você é que
não aceita uma provocação!
Que inferno, eu sabia que ele tinha razão. Mas isso não aliviava a culpa
dele naquilo tudo.
— Por que tinha que me mandar aquelas mensagens hoje de manhã?
— Mas que mens... Ah, aquelas mensagens. — Ele enfim pareceu se dar
conta da merda que havia feito. — Cara... ela leu? Não era para ela ler.
— Não era para ninguém ler. Eu exijo que você respeite a Luíza. Não se
atreva nunca mais a falar dela usando aquelas palavras, como se ela fosse um
objeto e não uma pessoa. Não se atreva nem a pensar nela assim!
— Cara... você está apaixonado — Não foi sequer uma pergunta, foi uma
afirmação. E exatamente por isso eu não tive qualquer vontade de negar.
Se fosse há uma semana, usar essa palavra para se referir a mim seria o
mesmo que uma implicância à qual eu iria querer rebater. Henrique Lizano,
de quatro por uma mulher? Sem chances! Mas, agora... eu de forma alguma
me envergonhava disso.
— Acho melhor vocês dois conversarem... — Joana comentou. Enfim
parecendo se sentir segura para isso, ela me soltou e passou a palma da mão
pelo meu rosto, antes de sair do cômodo.
Como Heitor ainda parecia esperar pela minha confirmação, dei isso a
ele:
— É, cara, eu estou apaixonado. E ela também. Ou ao menos ela estava,
porque você fodeu com tudo com aquelas mensagens ridículas.
— Como eu podia imaginar que ela iria ler? Achava que você tinha
dormido com ela e caído fora, não foi o que disse que faria?
Eu quis voltar a socá-lo, mas então me dei conta de que, nesse ponto, eu
seria injusto. Eu realmente disse que faria aquilo.
Sentindo-me cansado demais eu me deixei cair sentado no sofá ao lado do
meu irmão.
— E então, o que você vai fazer agora? — ele questionou.
— O que eu posso fazer? Eu magoei demais a Luíza, ela nunca vai me
perdoar.
— E você vai entregar os pontos assim? Cara, eu nunca te vi assim antes.
Se está mesmo apaixonado por ela, precisa lutar por isso.
— Como? Ela não quer me ouvir, não quer me ver. Fui olhar o contato
dela no celular pensando em enviar alguma mensagem, e percebi que ela me
bloqueou.
— Bem, talvez você deva dar um tempo a ela.
— Devo dar um tempo ou lutar? Decide! Heitor, você namora a mesma
garota desde o ensino médio, não é possível que não entenda de mulheres.
— Exatamente: a mesma garota. Éramos pouco mais do que duas
crianças quando começamos a namorar, praticamente amadurecemos juntos.
Nós sabemos lidar um com o outro. As vezes que tentei mentir para Bruna
por qualquer razão besta ela percebeu na mesma hora.
— Só que eu comecei com uma mentira, Heitor. Fingi ser um cara que eu
não era. E foi por esse cara que a Luíza se apaixonou, e não pelo Henrique
Lizano.
— Então, quando estava com ela você se comportava de forma diferente?
Fingia gostar do que não gosta? Mentia sobre suas opiniões? Fingia estar
feliz quando não estava?
— Não. Eu só menti sobre meu trabalho e a situação financeira da minha
família. De resto, eu... sempre fui sincero demais ao lado dela.
Demais mesmo. Mais do que com qualquer outra pessoa. Na verdade,
antes de conhecer Luíza eu sequer sabia que poderia me sentir feliz com
tantas coisas tão aparentemente banais. Acho que, ao lado dela, eu acabei
conhecendo um lado meu que eu sequer sonhava conhecer. E eu gostava
desse outro lado. Achava muito melhor do que o festeiro egoísta que eu
costumava ser.
— Se é assim, meu irmão, foi exatamente por você que ela se apaixonou.
E, apesar de você provavelmente não querer ouvir nada a respeito disso, eu
preciso dizer que isso sem dúvidas te faz ganhador daquela aposta.
É, eu realmente não queria mais ouvir nada a respeito daquela merda de
aposta.
— Eu não quero aquela porcaria de quadro. Nem gosto dele tanto assim,
pode levá-lo com você — resmunguei. E eu até preferia que fosse assim.
Olhar para aquele quadro sempre me faria lembrar da ideia mais estúpida que
já tive em toda a minha vida. E eu que achava que a aposta do cavalo tinha
sido o nosso auge.
— Isso quer dizer que eu vou poder ficar com o seu carro?
— Não. Sofia comentou comigo uma vez que achava ele legal, prometi
que algum dia a levaria para dar uma volta nele.
— Sofia? É a filha da Luíza?
— É. Ela é uma menina incrível. E tão inteligente. Tem que ver como ela
é boa de lábia e de negociações. Seria uma ótima gestora de empresas. Mas
também daria uma ótima atriz. Tinha que vê-la fazendo papel de árvore.
— Onde você viu a menina fazendo papel de árvore?
— Em uma peça da escola dela.
— Foi a uma apresentação na escola dela? Então você não apenas está de
quatro pela Luíza, como também já praticamente adotou a filha dela como
sua?
A ideia me parecia tão maravilhosa que, mesmo eu me sentindo um bosta
de ser humano, eu consegui sorrir.
— Eu seria o homem mais feliz do mundo sendo pai daquela coisinha
chantagista.
Lembrei do que Luíza me contou, sobre Sofia ter dado o dinheiro que dei
a ela quando a conheci para a mãe juntar com a poupança para a loja.
Certamente era por isso que ela seguia me exigindo dinheiro para guardar o
nosso segredo. Ela queria, mais do que tudo, ajudar a realizar o sonho da
mãe. Como não se orgulhar de uma criança como aquela?
— Então, acho que talvez você deva fazer as duas coisas, irmão.
Primeiro, dê um tempo a ela. Alguns dias para ela respirar e a raiva reduzir
um pouco. E, então, você luta por ela.
Embora a ideia não fosse boa, também não era necessariamente ruim. Era
inegável que Luíza precisava de um tempo, mas eu não iria passá-lo de
braços cruzados. Eu o usaria para mudar o que fosse preciso e mostrar para
ela que eu tinha me tornado um homem melhor.
Que ela tinha me transformado em um homem melhor.
Capítulo 27
“Pare de brincar com meu coração
Eu já deveria saber desde o início
Você sabe que você tem que parar
Você está nos separando”
(Quit playing games - Backstreet Boys)

Eu não sabia quanto tempo havia se passado.


Desde que Henrique foi embora, eu vi o dia virar noite, e então virar dia
de novo e eu simplesmente não sentia vontade para nada. Logo que ele se foi,
contei tudo a Sara e chorei no colo dela. Eu era grata demais por ela estar ali,
porque ela recebeu a Sofia quando voltou da casa da amiguinha e cuidou dela
e de tudo na casa enquanto eu estava no escuro do meu quarto, mergulhada
na minha depressão. Parecendo combinar com o meu humor, o tempo havia
mudado drasticamente com a chegada de uma frente fria, meio incomum para
um início de primavera. As temperaturas haviam caído muito, o que
contribuía para que eu ficasse ainda mais enraizada naquela cama.
Já fazia algum tempo que tinha voltado a clarear quando acabei
adormecendo e sonhando com Henrique. Que droga! Eu não conseguia ter
paz nem quando pegava no sono. Acordei quando voltava a anoitecer, com
Sara entrando no meu quarto, trazendo uma bandeja com o jantar. Ela vinha
cuidando de mim como quem cuida de uma pessoa doente. Era assim que eu
me sentia, no fim das contas: com o coração terrivelmente machucado.
Sentei-me e ela deixou a bandeja à minha frente, sentando-se na cama ao
meu lado.
— Como está se sentido? — ela repetiu a pergunta que fazia sempre que
entrava no meu quarto.
— Péssima. Você está há três dias fora de casa e com a lanchonete
fechada por minha causa.
— Ontem foi domingo, eu fecharia mais cedo de qualquer forma. — Já
era segunda-feira? Quando falei dos três dias, tinha sido apenas um chute,
mas aparentemente eu estava certa. Era sábado quando tudo aquilo aconteceu.
— Certo. Dois dias e meio — corrigi. — Não é justo estar deixando a sua
vida de lado para cuidar de mim.
— Não estou fazendo nada que você não faria por mim, Lu.
É claro que faria, sem pensar duas vezes. Minha mãe e meus tios, pais da
Sara, moravam em outra cidade, então nós éramos a família próxima uma da
outra.
Por falar em família...
— E a Sofia?
— Ela está bem. Só está preocupada com você.
— Como que ela ainda não veio aqui no quarto para perguntar como eu
estava?
— Porque eu contei a ela que você está com uma gripe muito forte e
muito contagiosa e que não queria que ela entrasse aqui para não pegar.
Mesmo sentindo uma tristeza tão profunda, eu ri levemente. Tinha sido
uma mentira boa, no fim das contas.
Bem... não que qualquer tipo de mentira fosse efetivamente algo bom.
Mas tudo o que eu menos precisava era da minha filha vendo a mãe naquele
estado deplorável.
Mesmo a contragosto, comecei a comer. Sara estava fazendo de tudo por
mim, seria muito ingrato da minha parte renegar sua comida – que sempre era
tão deliciosa – por não estar sentindo a mínima vontade de me alimentar. E,
também, porque por mais que eu não sentisse fome alguma, eu sabia que
deveria me esforçar a fazer o mínimo por mim mesma. Eu tinha uma filha
para criar sozinha, afinal de contas.
Enquanto eu comia, Sara tentou me distrair contando histórias engraçadas
como sobre quando Joe roubou o seu pão no café da manhã. Forcei-me a
sorrir com aquilo e consegui comer a maior parte da comida posta no prato.
Então, anunciei.
— Eu estou bem, prima. Eu vou me levantar dessa cama, tomar um banho
e sair desse quarto para fazer companhia à minha filha. Amanhã volto a
trabalhar no bar, não vou estragar essa última noite que tenho com ela.
— Tem certeza de que vai ficar bem? Posso dormir mais essa noite aqui,
sem problemas.
— Tenho, sim. Você já fez muito por nós e eu agradeço demais.
— Tudo bem, então. Vou até deixar a louça para você lavar. A Sofia fez
as minhas unhas, não quero estragá-las. — Ela exibiu as mãos que só agora
eu via que estavam com as unhas borrocadas com diferentes cores de esmalte.
Novamente, não pude conter um leve riso.
— Obrigada mesmo por tudo. E pode deixar a louça comigo, não quero
que estrague essas unhas maravilhosas.
Ela também sorriu, mas logo ficou séria, parecendo se lembrar de algo.
— Sabe, Lu... Eu estive pensando em uma coisa. Pensei em conversar
com a Sofia, mas achei melhor falar a respeito com você antes.
— O quê? — Fiquei preocupada.
— É que... Você sabe que eu apenas vi o Henrique Lizano uma única vez,
não é? E ainda assim bem rápido.
A simples menção ao nome dele fez o meu peito doer, mas não fugi do
assunto porque entendi que devia ser algo importante.
— Sim, eu sei. Foi quando a... — detive-me antes de completar minha
fala. Estive tão imersa em minha própria tristeza naqueles últimos dias que
sequer havia me lembrado daquele detalhe. — Foi quando ele quase
atropelou a Sofia — completei. — Mas ela deve ter visto ele muito rápido
também, não é?
— Não exatamente, Lu. Ele saiu do carro, se aproximou dela e conversou
por alguns minutos com ela. Sofia pode ser muito pequena, mas ela tem uma
memória visual até melhor do que a minha. Quando ela ficava comigo na
lanchonete aos sábados, ela sempre se lembrava dos clientes, mesmo os que
ela tinha visto antes uma única vez.
— O Henrique veio aqui em casa apenas alguns dias depois dessa
situação. Estranho que ela não tenha se lembrado dele.
— Também pensei nisso. Fiquei preocupada. Será que ele a ameaçou para
que não contasse nada a você?
— Não — eu o defendi mais rápido do que gostaria. Eu realmente não
acreditava que ele pudesse ter feito isso, mas sabia que pensar assim me fazia
ser ainda mais estúpida. Aquele homem havia mentido para mim, passou dias
ao meu lado representando um personagem. Não era digno da minha
confiança. Porém, havia outro motivo para eu não acreditar naquela hipótese
— A Sofia é muito transparente. Ela realmente gosta muito do Henrique, não
é fingimento. Não acho que ele a ameaçou, mas...
— Talvez a tenha convencido.
— Não. Sem chance. Eu vou conversar com ela. Vou descobrir o que
aconteceu. Talvez, na ocasião do quase atropelamento, ela tenha ficado tão
assustada que não prestou tanta atenção ao rosto dele. — Provavelmente era
isso. O que mais seria?
Sara concordou. Antes, de sair, no entanto, ela contou mais uma coisa:
— Chegaram flores para você. Ontem e hoje. Vieram com cartões. — Ela
levou a mão ao bolso do casaco, tirando dois pequenos envelopes de lá e
deixando sobre a minha mesa de cabeceira. — As flores eu coloquei em
vasos com água.
— Podia ter jogado fora — resmunguei. Perguntava-me por que aquele
homem continuava insistindo. Levar-me para a cama já não bastava para
vencer sua tão estimada aposta? O que ele pretendia? Brincar ainda mais com
os meus sentimentos?
Sara se aproximou, depositando um beijo em meu rosto, e então foi
embora.
Reunindo coragem, consegui me levantar da cama e fui para o banheiro
do meu quarto, onde tomei um bom banho. Era impossível ignorar as
lembranças dos momentos de prazer que vivi embaixo daquele chuveiro com
Henrique. E isso se misturava às memórias do momento em que, naquele
mesmo banheiro, eu tinha lido no celular dele as tais odiáveis mensagens.
Lutando para tentar desvencilhar tudo aquilo da minha mente, eu terminei
o meu banho, escovei os dentes e saí. No corredor, parei diante da porta
entreaberta do quarto de Sofia, vendo-a sentada na cama diante de Joe,
brincando com duas bonecas enquanto conversava com ele. Logo que me viu,
ela abriu um enorme sorriso e pulou da cama, vindo abraçar as minhas
pernas.
— Mamãe, você está melhor?
Eu a peguei no colo, no mesmo momento em que Joe também se
aproximou, começando a pular sobre mim, também demonstrando estar feliz
em me ver. Como eu poderia não melhorar sendo cercada por todo aquele
amor.
— Estou sim, meu amor. Desculpe por ter ficado esses dias longe de
você. Certo, Joe, de você também. Acalme-se, garoto. Eu também senti a sua
falta!
Levei Sofia até a cama e a coloquei sentada lá, sentando-me ao seu lado.
Joe se aninhou no meio de nós duas, virando com a barriga para cima para
receber carinho. Passamos alguns minutos rindo e brincando com ele, até que
senti que era o momento de conversar com a minha filha.
— Sofia, a mamãe precisa falar sério com você agora.
Ela piscou, preocupada.
— O que houve, mamãe?
Pensei em como iniciaria aquele assunto. E se Sofia realmente não
soubesse de nada? Como explicar para uma criança de seis anos que o cara
legal que ela tanto gostava era um mentiroso e que a partir de agora estaria
definitivamente fora das nossas vidas? Eu não sabia como iniciar aquilo, por
isso tentei uma estratégia para ganhar um pouco de tempo.
— Você já escovou os seus dentes depois do jantar?
— Ainda não, mamãe. O Joe me chamou para brincar e acabou me
distraindo.
Eu sabia que Joe não deveria estar nada interessado em brincar com
Barbies – a não ser que fosse para arrancar e mastigar as cabeças delas – mas
obviamente não contestei tal informação.
— Bem, então agora que o Joe parou de brincar de bonecas para ganhar
carinho na barriga, que tal a senhorita ir escovar esses dentes?
Ela assentiu e, empolgada, deu um pulo da cama, correndo para o
banheiro. Continuei ali, alisando a barriga de Joe e tentando pensar em como
eu iniciaria aquele assunto delicado com a minha filha.
— Você bem que tentou me alertar, não é, Joe? — perguntei, lembrando
que ele não parecia simpatizar com Henrique. — Bem dizem que animais têm
sexto sentido, eu deveria ter dado atenção ao seu.
Suspirei, desanimada, percorrendo os olhos pelo quarto. Eu tinha
montado a estante de Sofia no dia anterior à sua festa da escola, e aquilo
deveria servir para melhorar a organização do quarto, mas não era exatamente
o que acontecia. Estava tudo uma bagunça. Sofia tinha deixado suas bonecas
caírem, e alguns de seus livros escolares também estavam jogados no chão,
próximos à sua mochila que estava com os bolsos todos abertos.
Em geral, eu orientaria Sofia a recolher tudo do chão, dando-lhe um
rápido sermão sobre cuidar bem das suas coisas. Contudo, eu estava prestes a
partir o coraçãozinho da minha filha a respeito de Henrique, então poderia
aliviar na bronca pela bagunça dessa vez.
Levantei-me e fui recolher as bonecas, colocando-as no cesto de
brinquedos. Fiz o mesmo com os cadernos, guardando-os dentro da mochila e
começando a fechar o zíper dos compartimentos. Levava a mão antes a cada
um dos bolsos, verificando se o restante do material estava todo ali. Havia um
bolsinho pequeno na frente, onde ela geralmente não guardava nada, já que
era estreito demais para caber ao menos um lápis. Porém, sem pensar muito a
respeito, apenas segui o padrão do que fazia nos outros bolsos antes de fechá-
los, e me surpreendi quando meus dedos encostaram em algo feito de papel.
Puxei, acreditando que fossem folhas de caderno dobradas, e me surpreendi
com o que vi saindo de lá.
Era dinheiro. Várias notas de dinheiro.
Onde minha filha teria conseguido aquilo?
A resposta que me veio à mente me aterrorizou.
Sofia voltou ao quarto nesse momento. Ela parou e o sorriso em seu rosto
se desfez quando me viu com aquele dinheiro nas mãos.
— Sofia, onde você conseguiu esse dinheiro? — perguntei pausadamente.
Ela não respondeu. Parecia assustada, com medo de que eu brigasse com
ela. Respirei fundo, tentando manter a voz no mesmo tom baixo.
— Sofia... Aquele moço que quase te atropelou naquele dia... o dono da
Lizano... Você sabia que ele era o Henrique, não é?
Ela movimentou a cabeça em uma confirmação. Aquilo fez a dor em meu
peito aumentar ainda mais. A pergunta que eu faria a seguir era difícil, mais
precisava ser feita.
— Por acaso ele te deu todo esse dinheiro para que você não contasse
para mim que já o conhecia?
— Ele disse que era só por alguns dias, até que você acreditasse que a
Loja Lizano é legal.
— E o que mais ele te disse?
— Que ele ia gostar de namorar com você, mas se você soubesse quem
ele era, ia brigar com ele.
Inferno!
Levantei-me, furiosa, passando a caminhar de um lado a outro do quarto,
em uma tentativa inútil de descontar em meus passos aquela raiva. Não
estava dando certo.
— Quantas vezes eu tenho que te dizer, Sofia, que você não deve aceitar
dinheiro de estranhos?
Ela continuava com os olhinhos arregalados, mais assustada do que antes.
— Mas você disse que ele era seu colega de trabalho, mamãe. Então ele
não era um estranho.
— Ainda assim, Sofia, você não devia aceitar o dinheiro. Especialmente
porque ele te mandou mentir para mim. E eu sou sua mãe, você não pode
mentir para mim.
— Desculpa, mamãe...
Ela abaixou o rosto, triste, e isso acabou comigo. Depois de tudo,
Henrique Lizano seguia destruindo o meu emocional, agora por conta de ter
subornado a minha filha. Que inferno, ela era só uma criança. Como ele pôde
ter chegado tão baixo?
E, mesmo sendo tão pequena, eu não conseguia deixar de me sentir de
certa forma traída pela minha própria filha. Mas eu não conseguia culpá-la
por isso, mas a mim mesma. Onde eu havia errado para que Sofia
concordasse com a ideia de um estranho de mentir para mim?
Eu não tinha condições emocionais de continuar aquela conversa naquele
momento. Então, respirei fundo, e ainda controlando o tom de voz, pedi:
— Vá para a cama, Sofia. Amanhã, antes de você ir para a escola, nós
conversaremos sobre tudo isso.
— Tá brava comigo, mamãe?
— Eu não estou brava, Sofia. Estou triste. É diferente. Anda, vá para a
cama.
Ela me obedeceu. Joe desceu, indo se deitar em sua caminha ao lado da
cama dela. Cobri Sofia com um edredom, já que estava bem frio naquela
noite e, como de costume, depositei um beijo em sua testa e lhe desejei boa
noite, saindo. Fui para o meu quarto e voltei a me afundar na cama. E a
chorar, desejando que Henrique Lizano nunca tivesse aparecido nas nossas
vidas.
Capítulo 28
“Você é o único que eu desejo poder esquecer
O único que eu adoraria não perdoar
E apesar de você partir meu coração, você é o único”
(Broken-Hearted Girl – Beyoncé)

Em determinado momento da noite, esgotada de tanto chorar, eu acabei


pegando no sono. Acordei, contudo, ainda bem cedo. Não deviam ser nem
mesmo seis da manhã e, com o agravante do tempo chuvoso e do frio que
vinha fazendo, do lado de fora da janela ainda estava tudo escuro.
Já cansada de ficar na cama, levantei-me, tomei um banho rápido e
escovei os dentes. Sabia que a louça do jantar ainda estaria me esperando na
cozinha, e além disso também queria preparar um café para tomar enquanto
esperava que Sofia acordasse para podermos conversar. Não queria ser muito
dura com ela, mas também não poderia deixar aquilo para lá. O que ela fez
tinha sido grave, e precisava dizer isso a ela de modo que fosse
compreensível para os seus seis anos de idade. Ela já teria, infelizmente, uma
punição muito cruel que seria a de saber que Henrique estava definitivamente
fora das nossas vidas.
Saí do meu quarto na intenção de descer direto para a cozinha, mas parei
ao perceber que a porta do quarto de Sofia estava entreaberta. Decidi dar uma
olhada para ver se ela estava bem coberta – afinal, ainda estava muito frio.
Foi com surpresa que encontrei a cama dela vazia.
Entrei no cômodo, olhando-o por completo – até mesmo embaixo da
cama. Nem ela nem Joe estavam lá. Sofia não costumava acordar tão cedo,
então me preocupei pensando em se a cabecinha dela estaria tão atordoada
com a nossa breve conversa na noite anterior que isso a fez perder o sono.
Reparei que as pantufas dela não estavam ao lado da cama, como
costumavam ficar. Ela devia ter levantado e ido para a sala ou para a cozinha.
Desci as escadas, chamando por ela. Quando cheguei à sala, reparei que
as chaves estavam na fechadura da porta e esta estava destrancada. Sara não
teria deixado aquilo assim, já que ela tinha as chaves da minha casa, para
emergências, e ela não teria ido embora na noite anterior sem trancar tudo por
fora. Imaginei, então, que Sofia tivesse ido para a garagem, embora o local
provavelmente estivesse bem frio. Saí, indo até lá na certeza de que a
encontraria. Uma onda de pânico tomou conta de mim ao ver que ela não
estava lá.
— Sofia! — gritei insistentemente, correndo ao redor da casa pelo lado de
fora, reforçando em minha mente que ela precisava estar em algum lugar por
ali.
Parei ao lado do portão e, ao olhá-lo, meu desespero se tornou ainda
maior. A chave dele também estava ali, do lado de dentro, e ele estava
destrancado.

Os olhos de Cátia brilhavam enquanto ela passava as fotos impressas que


eu mostrava para ela, devidamente organizadas em uma pasta. Eu sabia bem
que não havia como ter erros naquilo. Nenhuma pessoa com um mínimo de
senso estético deixaria de achar aquelas peças lindíssimas.
— Senhor Henrique, isso é... sensacional...
Já devia ser a terceira vez que ela repetia aquilo, e eu sorria em todas elas.
A espaçosa sala de reuniões da sede da empresa costumava receber grupos
grandes, mas hoje era ocupado por apenas nós dois. Cátia era a Executiva de
Vendas, e toda e qualquer marca, fábrica ou fornecedor que fosse ter seus
produtos à venda nas Casas Lizano precisava antes passar pelo aval dela.
O horário era um tanto incomum. Nosso encontro foi marcado para as
oito da manhã, porque eu teria uma agenda bem extensa naquele dia.
Quando terminou de ver as fotos – que eu havia imprimido do Instagram
de Luíza – ela enfim levantou uma questão:
— Mas não será possível uma produção dessas peças em escala, não é?
— Não. Mas é daí que vem o encanto, Cátia. Cada uma dessas peças será
exclusiva. Podem ter conceitos parecidos, mas nenhuma jamais será idêntica
à outra. Vamos atingir uma parcela do público que prefere a originalidade ao
preço em conta. Será uma linha exclusiva dentro da Lizano.
— E com isso podemos atingir um público das faixas A e B, que em geral
não são clientes da Lizano — ela completou, compreendendo onde eu
pretendia chegar. — Preciso fazer uma reunião com o meu pessoal e decidir
toda uma estrutura de logística para fazer isso funcionar. Mas acho que tem
tudo para dar certo.
— Então, deixo isso por sua conta.
— Já conversou com a moça a respeito?
— Ainda não. Quero estar com todo o projeto pronto para já apresentar
tudo a ela.
— Conte comigo para isso — ela declarou, abrindo seu maior sorriso
profissional.
Nos despedimos e voltei ao meu escritório. Aquela tinha sido, ainda, a
minha primeira reunião do dia, mas várias outras ainda viriam. Além das
decisões corriqueiras a respeito da loja, eu vinha me focando em questões
que, para mim, passaram a ser fundamentais ali. Já estava orgulhoso por uma
coisa que já estava devidamente resolvida: o lixo produzido por nossas lojas
não seria mais descartado de qualquer maneira. Todo o material passaria a ser
separado e enviado a cooperativas de reciclagem. Uma boa parte deles seria
inclusive utilizado em nossa fábrica. Já estava sendo iniciado o projeto de
linhas de itens feitos a partir de material 100% reciclado. Com matéria prima
vinda das nossas próprias lojas.
Eu me sentia uma toupeira por nunca ter pensado em algo tão simples.
Meu celular tocou e, como sempre, peguei-o na esperança de que fosse
Luíza. Mas o número era o da minha casa. Então, só poderia ser uma pessoa.
— O que houve, Jojo?
— Não te vi essa manhã, querido. Estou ligando para saber como você
está.
Estava dividindo a atenção entre o telefone e o computador, mas não pude
evitar sorrir diante da preocupação. De fato, eu tinha saído tão cedo de casa
que não tinha visto Joana, mas isso em qualquer outra ocasião não a teria
deixado preocupada. Eu sabia que ela andava assim por conta da minha
situação com Luíza.
— Estou bem, Jojo. Acabei de sair de uma reunião com a executiva de
vendas, e acho que vamos conseguir fechar um projeto para trabalhar com os
móveis feitos pela Luíza.
Sim, eu já tinha conversado com ela a respeito disso. Joana tinha virado
minha conselheira. Eu falaria com Heitor, mas ele estaria completamente
ausente pela próxima semana, já que seu casamento estava se aproximando e
ele tinha ainda muitas coisas para resolver junto a Bruna. Logo após a festa,
eles viajariam para sua lua de mel e seguiriam depois direto para sua nova
casa nos Estados Unidos. O período de transição havia chegado ao fim e eu já
era oficialmente o novo CEO da Lizano.
— Rique, isso é ótimo, mas... — a pausa dela me deu uma dica de que
viria um leve puxão de orelha na sequência. — O certo não seria você antes
falar com a Luíza?
— Eu quero estar com tudo no esquema, para fazer uma surpresa. — Isso
é, claro, se ela aceitasse conversar comigo e se aceitasse o meu perdão.
E eu realmente não esperava mais do que essas duas coisas. Óbvio que eu
queria o amor daquela mulher, e que estava disposto a lutar por isso. Mas se
ela ao menos pudesse me perdoar, ainda que não aceitasse ter mais qualquer
relacionamento comigo, eu faria aquilo por ela. Luíza era talentosa e havia
muito amor no que ela fazia. Poder ganhar a vida vendendo seus móveis era o
seu sonho, e eu faria de tudo para que ela o realizasse.
— Não é o tipo de coisa que se faz de surpresa, meu filho. Você antes
precisa saber se ela vai aceitar ou não.
— Eu sei, Jojo. E é claro que eu pretendo falar com ela. Estou fazendo o
que Heitor sugeriu, dando algum tempo a ela.
— Eu sei, querido. Ela provavelmente precisa mesmo de um tempo.
— Mas acho que ela poderia me mandar uma mensagem em resposta aos
bilhetes.
— Que bilhetes?
— Os que estou mandando com as flores.
— Está mandando flores para ela?
— Um buquê por dia. Fiz mal?
— Henrique, em que mundo perturbar todos os dias a moça com entregas
é dar um tempo a ela?
Ué... e por que não seria? Que merda, eu estava querendo ser romântico.
Será que tinha de novo feito tudo errado?
— Eu só quero que ela saiba que... quando ela estiver pronta para
conversar, eu estarei aqui esperando por ela.
Joana fez um instante de silêncio, até que suspirou.
— Tudo bem, meu querido. Eu compreendo. Você está se esforçando
para ser alguém melhor por ela. Estou certa de que isso fará diferença. Bem,
preciso desligar. Tenho que sair para fazer compras. Quer algo em especial?
O perdão de Luíza, infelizmente, não poderia ser comprado em um
mercado. Sendo assim, eu neguei e agradeci pela preocupação dela. Assim,
encerramos a ligação e voltei a me focar nas planilhas exibidas no
computador. Após alguns minutos, o celular voltou a tocar e, dessa vez, o
atendi sem sequer olhar o visor, acreditando que fosse novamente Joana.
Contudo, a voz que ouvi do outro lado da linha fez o meu coração parar de
bater por um instante.
— Henrique?
Meu Deus... era ela. Apertei o telefone com mais força, como se dessa
forma pudesse impedir que ela me escapasse novamente.
— Lu? ...Lu, que bom que você...
— A Sofia... — ela me interrompeu, parecendo aflita.
Novamente, foi como se eu tivesse uma breve parada cardíaca. Tinha
acontecido alguma coisa a Sofia?
— O que tem a Sofia?
— Ela está com você?
O que era aquilo? Uma acusação de sequestro ou coisa do tipo?
Espera... se ela estava me perguntando isso... Ela não sabia onde estava a
filha?
— Não, Luíza, ela não está comigo.
— Por favor... se ela procurar por você...
— Como assim procurar por mim, Luíza? O que aconteceu?
A resposta veio junto a um choro aflito.
— Ela sumiu. Tudo leva a crer que ela fugiu, mas... Já liguei para todos
os lugares onde ela poderia estar. E só me faltou ver se ela tinha ido procurar
por você.
Sem tirar o telefone do ouvido, eu me levantei, já começando a desligar o
computador e me preparando para sair e procurar por Sofia, embora nem
fizesse qualquer ideia de por onde deveria começar. Uma hipótese me
ocorreu e contei a Luíza:
— Se ela tentou procurar por mim, ela não saberia onde é meu escritório.
Mas ela sabe que sou dono da Lizano, então pode achar que meu trabalho é...
— Na loja... — Ela completou, aflita.
— Na loja — confirmei.
— Eu vou para lá.
— E eu te encontro lá.
Antes que ela pudesse sequer pensar em dizer que eu não precisaria ir, eu
desliguei a ligação e saí.
Praticamente voei para a loja, o mais rápido que pude, enquanto desejava
com todas as minhas forças que Sofia estivesse lá.
Capítulo 29
“Eu não te odeio
Não, eu não poderia mesmo que quisesse
Eu só odeio toda a dor que você me fez passar”
(Wrong Direction - Hailee Steinfeld)

Aquelas tinham sido as horas mais angustiantes de toda a minha vida.


Minha primeira reação ao ver que minha filha havia saído de casa sozinha
foi abrir o portão e também sair pela rua. Pensei em para onde Sofia poderia
ter fugido procurando por um refúgio, então fui direto para a casa daquela
que era a nossa única família na cidade, a Sara. Devido ao horário, a
lanchonete ainda estava fechada, então toquei a campainha da casa da minha
prima, que ficava bem ao lado. Eu tinha as chaves da casa dela – assim como
ela tinhas as da minha – mas saí tão aflita que nem tinha me lembrado de
pegá-las.
Ela me atendeu totalmente sonolenta, mas logo ficou em alerta quando eu
contei o que havia acontecido. E, não, para o meu desespero, Sofia não tinha
ido para lá. Queria percorrer as ruas à procura dela, mas Sara me alertou que
seria mais eficaz eu ir para casa, porque Sofia poderia voltar para lá a
qualquer momento, e telefonar para todas as pessoas que a conheciam e para
onde ela poderia ter ido, enquanto ela própria faria uma busca pelas ruas do
bairro. Estava ainda muito cedo e, com exceção de algumas padarias, os
estabelecimentos comerciais estavam ainda fechados.
Fiz o que Sara sugeriu e retornei para casa. Confesso que tive esperanças
de que minha menina estivesse de volta, mas isso não aconteceu. Liguei para
todos os contatos que eu tinha. Mandei uma mensagem no grupo do
WhatsApp dos pais dos alunos da turma de Sofia, mas não esperei que eles
visualizassem e telefonei para um por um, perguntando se minha filha teria
ido para a casa de algum deles. Nenhum deles sabia de nada a respeito dela.
Tinha acabado de ligar para o último dos contatos quando alguém mexeu
no meu portão. Corri até a varanda, esperançosa, mas senti como se o chão
embaixo de mim voltasse a desabar ao constatar que não era Sofia. Era Sara.
Pela expressão em seu rosto, ela não tivera sucesso em sua busca.
— Falei com os donos de algumas padarias e lanchonetes que já estavam
abertas, estão todos espalhando fotos da Sofia por seus grupos de contato.
Alguém vai encontrá-la, Lu. Tenha fé.
Era difícil ter fé quando minha filhinha pequena estava sozinha em algum
lugar lá fora, naquelas ruas geladas.
Eu não ia suportar continuar parada ali esperando, precisava fazer alguma
coisa. Mas estava tão atordoada que sequer sabia por onde começar. Sara
percebeu isso e me auxiliou.
— Eu vou voltar a procurar nas ruas, mas antes vou ligar para a polícia.
Já ligou para todo mundo que a conhece?
— Tirando a minha mãe, para todo mundo — Minha mãe tinha quase
sessenta anos e era hipertensa, se eu ligasse para contar o que estava
acontecendo correria o risco de ela ter um troço. Ela morava em outra cidade
bem distante, não havia possibilidade alguma de Sofia ter ido para lá.
— E para o Henrique? — a pergunta de Sara me pegou de surpresa.
— Acha que ela pode ter ido atrás dele?
— É claro que eu acho. E, mesmo que não tenha ido... Ele é o cara mais
rico dessa cidade, Lu. Certamente tem muito mais recursos do que nós para
mobilizar as buscas por uma criança desaparecida.
Se, por um lado, eu era a pessoa mais orgulhosa do mundo, por outro, eu
passaria por cima de qualquer coisa no mundo para proteger a minha filha.
Não importava o que tinha acontecido entre Henrique e eu, tudo o que ele
tinha feito para mim e como eu realmente desejava nunca mais ter qualquer
contato com ele. Nada disso poderia ter qualquer importância naquele
momento.
Por isso, enquanto Sara discava para a polícia do seu celular e entrava
para a sala com o aparelho no ouvido, eu me mantive de pé ali na varanda e
olhei para a visor do meu celular. Busquei pelo telefone de Henrique entre os
contatos bloqueados, desbloqueei o número e realizei a ligação. Enquanto a
chamada era completada, uma onda de medo correu o meu corpo. Quem me
atenderia? O Henrique legal que eu tinha conhecido e que mexeu com o meu
coração como há muitos anos ninguém era capaz de mexer, ou o babaca e
egoísta CEO da Lizano, que poderia muito bem dizer que o desaparecimento
da filha de uma das muitas mulheres que já tinham ido para a cama com ele
simplesmente não era da sua conta?
Torci para que fosse o primeiro, e foi o que me pareceu ter acontecido.

Ainda não eram nem nove da manhã e a loja ainda estava fechada para o
público. Mas eu sabia que mesmo de madrugada já havia movimento por ali
de seguranças, caminhões com descarga de mercadorias, e mesmo a equipe
de limpeza que chegava bem cedo. Uma criança do tamanho de Sofia poderia
facilmente entrar lá e havia uma infinidade de lugares onde ela poderia se
esconder.
Da forma como eu estava vestido, com o meu terno Armani, ninguém
sequer contestava a minha presença ali e eu simplesmente entrei com meu
conversível no estacionamento, deixei-o em uma vaga bem próxima à entrada
principal e adentrei a loja sem ser detido por ninguém por estar ainda em um
horário com a entrada permitida apenas para funcionários. Percebi que passei
por vários vendedores que por dias foram meus colegas de trabalho, e a
maioria deles não pareceu sequer ter me reconhecido. Ainda era eu, o mesmo
cara para quem eles torciam o nariz há até alguns dias atrás e, agora, usando
uma roupa cara, era cumprimentado muito educadamente quando passava por
cada um deles.
Quando me provocou para que entrássemos naquela aposta ridícula,
Heitor não deixava de ter razão. As pessoas não me tratavam bem em todos
os lugares onde eu ia por quem eu era, mas sim pelo que eu tinha. Mas nem
todas as pessoas eram assim. E foi Luíza quem me ensinou isso.
Segui diretamente para a sala da gerência, já que buscava pela ajuda de
Carlos. Queria que ele mobilizasse todos os funcionários da loja. Nada iria
funcionar por ali até que todo o local fosse revistado à procura de Sofia. E eu
esperava que ela realmente estivesse em algum lugar por ali. Quando entrei
na sala, no entanto, foi com outro gerente que me deparei. Aquele que era
imediatamente inferior ao Carlos, mas que foi o meu superior direto durante
uma semana em que passei ali. Ao contrário das outras pessoas, ele olhou
diretamente para o meu rosto, reconhecendo-me antes que pudesse analisar as
minhas roupas.
— O que está fazendo aqui, rapaz? Você não trabalha mais aqui.
— Onde está o Carlos? — perguntei diretamente. Não tinha tempo para
lidar com aquele chato.
— Se veio pedir o seu emprego de volta, perdeu o seu tempo. E nem
adianta usar esse terno que você provavelmente pegou emprestado de
alguém. Não adianta mudar a embalagem, um nada como você continuará
sendo um nada, não importa o que vista.
Virei-me para sair dali e, nesse momento, por sorte, deparei-me com
Carlos, que vinha em direção à sala.
— Senhor Henrique, algum problema? — ele me questionou,
preocupado.
Dei um passo para o lado para que ele pudesse atravessar a porta e entrar
em sua sala, e entrei em seguida.
— Sim, Carlos, eu estou com um grande problema. Avise a sua equipe
que a loja não abrirá agora às nove e comunique a todos para irem até a praça
de alimentação. Não só os vendedores, todos os funcionários de todos os
setores.
Embora confuso, Carlos concordou e já ia fazer o que solicitei, quando
aquele insuportável do Geraldo interveio.
— Mas quem esse merda acha que é para chegar aqui dando ordens?
Bufei, já não suportando mais ouvir a voz daquele sujeito, especialmente
com toda a tensão do momento. Mas, graças a Deus, Carlos resolveu a
questão por mim.
— Geraldo, acho que você ainda não conhece o senhor Henrique Lizano.
Ele se infiltrou na loja como vendedor por alguns dias e acho que a avaliação
que ele teve de você não foi das mais proveitosas. — Olhou para mim —
Com licença, senhor Henrique, vou mandar reunir o pessoal. Me dê vinte
minutos para estarem todos lhe aguardando na Praça de Alimentação.
— O caso é urgente, Carlos. Tem dez minutos.
— Farei o possível, senhor.
E ele saiu, apressado. Eu ia segui-lo para fora da sala, quando Geraldo
praticamente se jogou à minha frente. Olhando em seu rosto percebi,
perplexo, que ele chorava.
Aquele maldito insensível tinha lágrimas, quem diria?
— Senhor Henrique, como eu poderia saber que era o senhor? Por favor,
me perdoe. Eu nunca quis ofendê-lo, eu juro.
— A gente resolve isso outra hora, Geraldo. Vá logo para a praça de
alimentação e avise a todos os funcionários que encontrar pelo seu caminho
para te acompanhar. Apenas, por favor... tenha o mínimo de educação e
respeito ao falar com eles.
Dito isso, eu saí, em direção ao local do encontro.

Eu nunca na minha vida imaginei que pudesse fazer uso da famosa


‘carteirada’ para entrar em algum lugar. O fato é que, quando tentaram me
impedir de entrar na loja, eu informei que Henrique Lizano estava esperando
por mim. E, dessa forma, minha entrada foi facilmente autorizada. Tendo em
vista que eu havia trabalhado ali e todos me conheciam... e que Henrique
havia chegado minutos antes de mim e alguns dos nossos antigos colegas o
reconheceram dentro daquele terno – e os que não haviam reconhecido,
tinham sido alertados por outros funcionários... Bem, se o Henrique era o
dono de tudo aquilo, por qualquer motivo fingindo ser um vendedor dali, não
era difícil imaginar que eles estavam supondo que eu, que era a única amiga
dele ali dentro e fui demitida no mesmo dia, também deveria ser uma
milionária infiltrada ou coisa do tipo.
A ideia poderia soar esdrúxula no início, mas tive a confirmação de que
era de fato isso o que pensavam quando, enquanto adentrava a loja, encontrei
com Beatriz, que foi bem direta no seu comentário:
— Alguns estão dizendo que você é prima dos Lizano, outros que é
sócia... eu estou no grupo dos que apostam que você é namorada dele.
— Sem apostas, Bia. Nada de apostas, por favor. — Acho que por muito
tempo eu ainda teria trauma daquela maldita palavra. — Só me diz onde está
o Henrique. — Os corredores estavam assustadoramente vazios.
— Ele mandou todos o encontrarem na praça de alimentação.
Então, era para lá que eu iria.
Cheguei quando, aparentemente, a reunião já havia começado. Henrique
estava de costas para mim, de frente para o grupo de funcionários e, embora
eu ainda estivesse a certa distância, ele falava alto para ser ouvido por todos,
de forma que eu também conseguia ouvir o que ele dizia.
— Quero que vasculhem todo o terreno da loja. O estacionamento, os
depósitos, banheiros, cada uma das lojas da área de alimentação. Lembrem-se
que é uma criança pequena, ela pode estar escondida embaixo de qualquer
vão. Essa loja hoje não vai abrir enquanto essa criança não aparecer. E
fiquem atentos aos alto-falantes. Carlos vai preparar uma escala e alguns de
vocês serão chamados para iniciarmos uma busca pelas ruas nos arredores da
loja. Eu sinto muito por isso estar tumultuando um dia de trabalho de vocês.
Como todos aqui já devem ter me reconhecido, sabem que passei alguns dias
infiltrado entre vocês, realizando o trabalho como vendedor. O gerente de
vendas não sabia da minha identidade, portanto eu sofri com ele todas as
ignorâncias que vocês sofrem no dia a dia. E eu garanto a vocês que vou
cuidar para que isso não volte a acontecer.
Percorri os olhos pelas pessoas ali presentes, até encontrar Geraldo, que
abaixou a cabeça, parecendo envergonhado pelo que era dito a seu respeito.
Nada que não fosse verdade.
Ao menos, agora eu sabia que essa parte do que Henrique me contara era
real, e nem os demais vendedores nem o nosso gerente direto sabiam sobre
quem ele era. O que provavelmente queria dizer que todo o ocorrido que
levou à sua demissão foi realmente real e não um teatro armado. Ele tinha
mesmo entrado em uma briga para me defender.
Balancei a cabeça, me desvencilhando daqueles pensamentos. Não era o
momento de ter esperanças nos sentimentos de Henrique a meu respeito.
Tudo o que me importava era encontrar a minha filha.
Henrique prosseguiu:
— Depois de ter vivido tudo isso na pele, eu garanto a vocês que muitas
coisas mudarão por aqui. Mas, nesse momento, eu preciso da ajuda de vocês.
Repetindo: é uma menininha de cabelos compridos e loiros, de seis anos de
idade. Ela é muito importante para mim. Ela confiou em mim como um pai e
eu não posso destruir essa confiança, porque eu também aprendi a amá-la
como se fosse minha filha. E eu não estou aqui diante de vocês agora apenas
como um patrão dando uma ordem de trabalho. Estou como um homem
desesperado, pedindo por favor para que façam de tudo para encontrarem
aquela garotinha.
As palavras entraram pelos meus ouvidos e se agitaram dentro de mim,
causando um efeito devastador. Achei que já tivesse chorado tudo o que
podia, mas senti mais lágrimas se avolumarem em meus olhos.
Carlos assumiu a palavra, parecendo já ter separado um esquema sobre
quais grupos percorreriam quais áreas, e começou a passar tais informações.
Uma moça que eu nunca havia visto por ali – na verdade, era praticamente
uma menina, devia ter no máximo uns vinte anos, com uma câmera
fotográfica profissional em mãos, se aproximou de Henrique, indo conversar
com ele. Enquanto a ouvia, ele voltou os olhos para trás e enfim me avistou.
E naquela troca de olhares, mais uma tempestade pareceu ocorrer dentro
de mim.
Capítulo 30
"Eu não posso olhar para trás
A melhor parte de mim quebrou quando nos despedimos"
(Goodbye - Jessica Lowndes)

Ele voltou a dar atenção para a moça, concordou com algo que ela dizia e,
então, voltou a me olhar, fazendo um sinal com a mão para que eu me
aproximasse. Assim o fiz, nervosa, imaginando que talvez ela tivesse alguma
notícia sobre Sofia. Logo que cheguei até eles percebi que não era
exatamente isso, mas era algo que, sem dúvidas, poderia nos ajudar.
— Luíza, essa é a Joice, ela é Social Media e cuida das redes sociais
dessa filial.
Joice estendeu a mão para mim, e eu a apertei de forma automática,
pouco me importando para apresentações. Só queria que ela dissesse que
tinha alguma forma de encontrar a minha filha.
— Oi, Luíza. Hoje eu vim para cá cedo para tirar umas fotografias da
loja, mas vamos alterar todo o cronograma de hoje. Tem com você alguma
foto recente e nítida da Sofia? Quero que me passe, junto ao máximo de
informações que puder. Vou entrar em contato com a empresa e, a pedido do
senhor Henrique, todas as mídias sociais de todas as lojas Lizano do país
estarão hoje empenhadas em divulgar isso. O senhor Henrique me sinalizou
para divulgar alguns telefones do escritório da Lizano, os secretários de lá
passarão o dia unicamente na função de receber telefonemas com
informações. Contamos com milhões de seguidores e isso vai alavancar o
alcance. Até porque, devemos trabalhar com a hipótese de Sofia nem estar
mais na cidade.
Aquela possibilidade foi como uma facada em meu peito. Cheguei a
sentir um desequilíbrio e acho que teria caído se as mãos de Henrique não
tivessem se agarrado aos meus ombros. E se minha filha não estivesse mais
na cidade? E se alguém a tivesse encontrado e levado para longe de mim? Eu
não queria nem pensar nessas possibilidades, portanto apenas tentei me fixar
na ajuda que aquela mulher me oferecia. Precisava ter fé de que aquilo
chegaria a alguém que a tivesse visto em algum lugar e que nos ligaria para
informar.
Concordei e comecei a vasculhar o celular em busca da foto mais nítida
que tivesse de Sofia. Enquanto isso, comecei a narrar:
— Se ela não trocou de roupas antes de sair, ela está com um pijama de
calça comprida azul com estrelas brancas e blusa vermelha de mangas
compridas, com uma estampa do símbolo da Mulher-Maravilha. E pantufas.
As pantufas não estavam do lado da cama de manhã, acho que ela saiu com
ela. São marrons, imitando um cachorro. — O cachorro, claro! Como eu
poderia ignorar aquela informação? — O nosso cachorro também sumiu,
provavelmente foi com ela.
— O Joe provavelmente está protegendo-a — Henrique me garantiu,
apertando meus ombros com mais força. Percebi que eu apenas conseguia me
manter de pé pelo apoio dele naquele momento. Notando que eu me vi
novamente sem voz devido ao choro que ameaçava retornar, ele prosseguiu
as explicações. — É um cachorro grande, caramelo. Lembra muito um
labrador, mas é um pouco menor, é mestiço com vira-lata, acho.
— Ele é — retornei a fala. Encontrei no celular uma foto que julgava ser
perfeita, já que Sofia estava justamente ao lado de Joe. Mostrei-a para Joice.
— Essa daqui serve?
Ela parou de digitar no celular as informações que passávamos e olhou
para a tela do meu telefone.
— É perfeita. Vou pedir para que você me envie e já criarei as postagens.
Toda a rede Lizano de todo o país estará engajada nisso, até que sua filha seja
encontrada.
Henrique apertou meus ombros com um pouco mais de força para chamar
a minha atenção e, então, anunciou.
— Vou fazer mais alguns telefonemas para agilizar outras formas de
busca. Vou te deixar aqui com a Joice para resolverem sobre as postagens,
mas estarei no estacionamento caso você precise de mim, tudo bem?
Acenei com a cabeça em concordância, mas confesso que, quando ele me
soltou e se afastou, cheguei a sentir uma dor física. A presença dele era muito
mais essencial do que eu poderia descrever ou mesmo seria capaz de admitir.
Se um lado da minha mente seguia a gritar que ele havia me enganado, o
outro era grato por ele estar cuidando tão bem daquela situação, assumindo o
comando das buscas por Sofia. Como um verdadeiro companheiro faria.
Como um verdadeiro pai faria.

Eu não queria me afastar dela, mas tinha de fato alguns telefonemas


importantes para fazer e, além de não querer atrapalhar a conversa dela com a
Joice – era importante que ela se concentrasse muito naquilo para passar o
máximo possível de informações a ela – eu estava tão tenso que precisava
respirar. Logo que cheguei ao estacionamento, o ar frio bateu contra o meu
rosto, e isso fez minha tensão aumentar ao invés de diminuir. Pensei em Sofia
vestida apenas com um pijama, perdida em algum lugar daquelas ruas frias.
Esperava mesmo que ela estivesse em algum lugar daquela loja e que algum
funcionário a encontrasse, mas não poderia contar com isso.
Meu primeiro telefonema foi para o escritório da empresa. Passei
instruções claras para os funcionários de lá. Todas as reuniões daquele dia
seriam desmarcadas e todo e qualquer telefonema habitual deveria ser
rapidamente despachado. As linhas precisavam estar livres e seriam usadas
unicamente para receber ligações de pessoas que pudessem ter visto o
anúncio do desaparecimento nas redes sociais e tivesse qualquer informação
que pudesse levar a Sofia. Depois, liguei para Heitor. Eu odiava ter que
incomodá-lo já nas vésperas de seu casamento, mas o caso era urgente. Ele
era amigo do delegado do bairro e pedi para que entrasse em contato com ele
para pedir uma atenção especial ao caso. Na sequência, telefonei para Joana e
dei a ela a missão mais difícil: pegar na internet os telefones dos hospitais da
cidade e ligar para cada um deles para ter informações sobre a possível
entrada de uma garotinha com as descrições de Sofia. Se a busca desse
positiva – e eu desejava com todas as forças para que não – preferia que fosse
Joana a me repassar essa notícia.
Após encerrar as ligações, sentei-me no degrau da entrada principal da
loja, pensando no que mais eu poderia fazer, sentindo-me um completo
derrotado por não conseguir visualizar nenhuma saída. Eu não poderia
admitir que nada acontecesse àquela garotinha. Eu ainda precisava ajudá-la a
treinar seu equilíbrio na bicicleta, ainda precisava cumprir a promessa de
levá-la para passear no meu carro... e existia um mundo de coisas que eu
queria ensinar a ela. Minha vontade era sair correndo pelas ruas, gritando
pelo seu nome, até encontrá-la. Mas isso, obviamente, não seria nada
produtivo. Se eu ao menos tivesse algo para me guiar...
Ouvi um barulho vindo da rua, algo como uma freada súbita, mas não dei
atenção a isso. Até que, menos de um minuto depois, o som de um latido
chegou aos meus ouvidos. Era algo que eu, em geral, ignoraria, se não tivesse
achado estranhamente familiar.
Mais um latido, dessa vez um pouco mais nítido. Olhei para a direção de
onde o som vinha – a entrada do estacionamento.
— Joe... — murmurei, incrédulo. Em um primeiro momento cheguei a
achar que fosse alguma ilusão, ou um cachorro qualquer que eu estaria
confundindo por ser parecido. Mas não havia dúvidas de que era realmente
ele.
Ele estava simplesmente imundo, como se tivesse rolado em algum lugar
com muita terra. Percebi que ele mancava, parecia estar com uma das patas
dianteiras machucadas, e por isso sua velocidade era um pouco menor que de
costume, então fui ao encontro dele. Diferente das outras vezes, ele pareceu
feliz em me ver.
— Ei, garoto, de onde você veio? Onde está a Sofia?
Ele me olhou e latiu, como se quisesse me responder, embora eu não
fosse capaz de compreendê-lo. Então, ele olhou para algo além de mim e
correu, ao mesmo tempo em que a voz de Luíza chegava aos meus ouvidos.
— Joe!
Virei-me para trás, seguindo Joe de encontro a Luíza, que saía da loja
nesse momento. Ele pulava nela de forma aflita, e ela o abraçava, enquanto
inutilmente também repetia a pergunta sobre onde Sofia estava.
— De onde ele veio? — ela me perguntou logo que me aproximei.
— Aparentemente da rua. Mas ele pode ter saído e retornado. É muito
provável que Sofia esteja mesmo em algum lugar pela loja.
Nesse momento, meu celular tocou e eu de pronto o atendi. Era Carlos,
informando que todo o terreno da loja havia sido vistoriado e não tinha
qualquer sinal da menina. Pedi que verificassem novamente e desliguei. Se
Joe estava ali, Sofia não poderia estar longe.
— Ei, garoto... — chamei, passando a mão sobre a cabeça de Joe, que me
olhou de forma atenta. Seus pelos estavam bem molhados, provavelmente
pela chuva da noite. — A gente precisa encontrar a Sofia. — Percebi que as
orelhas dele tremeram, como se reagindo ao nome da pequena dona. — É, a
sua amiga Sofia. Onde ela está?
Ele latiu e correu de volta para a saída do estacionamento. Luíza e eu
corremos atrás dele até a calçada já do lado de fora, onde ele parou, latindo
insistentemente para nós como se quisesse dizer alguma coisa.
Luíza fez sua interpretação:
— Ele deve estar querendo ir para casa. Deve ter se perdido de Sofia em
algum momento, e agora que me encontrou quer que eu o leve de volta.
Não parecia ser isso. Sofia e Joe eram inseparáveis. Ele não teria se
afastado dela tão facilmente. Ele não estava nos pedindo para levá-lo para
casa. Ele queria a nossa ajuda, queria nos levar até Sofia.
Mas se ele estava ali, ela deveria estar por perto. E, se não estava na loja...
Olhei para o outro lado da rua, onde um enorme portão de ferro
delimitava a entrada do parque municipal. Um funcionário abria o portão
naquele momento, mas as grades dele eram bem espaçadas, o suficiente para
que uma criança pequena e um cachorro pudessem ter entrado ali durante a
noite.
Agarrei a mão de Luíza e estalei o dedo para que Joe me seguisse,
atravessando a rua em direção ao parque.
Ela tinha que estar ali.
Capítulo 31
“E as lágrimas escorrem pelo seu rosto
Quando você perde algo que não pode substituir
Quando você ama alguém, mas isso se desperdiça
Poderia ser pior?”
(Fix you - Coldplay)

Se eu cheguei a achar que, nos guiando para fora da loja, Joe quisesse
apenas voltar para casa, agora eu percebi que eu estava enganada e que
Henrique tinha toda a razão. Logo que entramos no parque tive ainda mais
certeza de que aquele era o lugar quando Joe avançou à nossa frente,
correndo. Apesar da pata machucada, ele ia com rapidez, mostrando-se aflito
para nos levar até Sofia. O chão estava encharcado pela chuva fina da noite,
e, por conta da vegetação, por ali a temperatura parecia ainda mais baixa. Eu
nem sabia onde eu encontrava forças para continuar a andar, porque eu estava
completamente atordoada, tomada pelo pânico de pensar que minha garotinha
estaria sozinha em algum lugar daquele parque gelado.
Passada a área mais movimentada, iniciava-se uma parte do parque bem
mais extensa, que era costumeiramente usada para praticantes de trilhas. O
mato ali estava alto, mas não o suficiente para encobrir uma criança, ainda
que ela estivesse deitada. Joe parou em certo ponto e Henrique e eu nos
afastamos, percorrendo os olhos por todo o local, sem nos distanciarmos
muito de onde o cão rondava, farejando. Não havia nenhum sinal de Sofia ali.
Eu já não suportava mais aquela dor dilacerante em meu peito.
— Ela não está aqui — falei. Minha voz mal saindo devido ao cansaço
emocional.
Foi então que, ainda farejando, Joe novamente voltou a correr. Nós o
seguimos, até que ele parasse diante de uma enorme árvore, latindo e
saltando insistentemente para algo atrás dela. Ao chegar lá, eu a avistei.
Desacordada, molhada, toda encolhida aninhada ao tronco da árvore.
— Sofia! — chamei, deixando-me cair de joelhos no chão, desesperada.
Levei as mãos ao seu rostinho gelado.
Nenhuma resposta.

Eu não me recordava de nenhum outro momento na minha vida em que


sentisse um medo tão grande. Aquela sensação de verdadeiro pavor, em que
toda a situação ao meu redor estava completamente fora do meu controle. E,
como um cara que era empresário desde bem jovem, eu estava acostumado a
ter controle sobre tudo. Absolutamente tudo. Luíza foi a primeira pessoa a me
tirar da minha zona de conforto, me fazendo entrar em uma realidade onde eu
não poderia ter tudo o que eu queria. Mas aquele momento superava qualquer
coisa que eu já tivesse vivido.
Os piores pensamentos passaram pela minha mente, e eu não poderia
admitir que nenhum deles pudesse ser real.
Sofia não se movia e o corpinho dela estava gelado, além da pele estar
com um tom arroxeado. Enquanto Luíza chorava e chamava por ela, encostei
o ouvido ao seu peito, sentindo um alívio indescritível ao perceber que,
embora bem baixinho, eu poderia ouvir seu coração batendo.
— Calma, ela está bem — garanti, embora ‘bem’ fosse uma palavra um
tanto quanto vaga. Ela estava viva, e era nisso que eu precisava que ela se
agarrasse. — Me ajude, pode tirar essa roupa molhada dela?
Enquanto Luíza fazia o que pedi, eu tirei meu paletó e o envolvi em seu
pequeno corpo já sem o pijama molhado e sujo de terra, buscando aquecê-la.
Além de alguns arranhões, ela não tinha ferimentos aparentes. Peguei-a no
colo, abraçando-a junto ao meu peito, tentando aquecê-la ainda mais e, ao
mesmo tempo, sentindo como se aquele gesto fosse capaz de protegê-la de
tudo.
Levantei-me e, sem tempo a perder, fui seguido por Luíza e por Joe,
todos correndo, fazendo o caminho de volta para fora do parque e para o
estacionamento da loja, onde meu carro estava. Luíza entrou no banco de trás
e entreguei-lhe Sofia, como se aquele fosse o bem mais precioso das nossas
vidas. Joe também pulou no banco, sentando-se ao lado de Luíza e cheirando
Sofia com preocupação, como se checando se ela estava bem.
Ela ficaria bem. Ela tinha que ficar bem. Nada mais importava naquele
momento.
Entrei pela porta do motorista e dei partida no carro, rumo ao hospital.

Todo o trajeto até o hospital se passou como um borrão diante dos meus
olhos. Eu só me preocupava em abraçar com força a minha garotinha,
tentando aquecer seu corpinho com o calor do meu e repetindo o tempo
inteiro em seu ouvido que eu estava ali com ela e que tudo ficaria bem.
Quando Henrique estacionou diante do prédio hospitalar, eu saí levando-a
nos braços. Na entrada, um segurança tentou nos deter e logo compreendi o
motivo quando vi que Joe ainda nos seguia, e ele não podia entrar lá.
Henrique pediu ao homem que o olhasse para que não fugisse e a Joe que nos
esperasse ali, mas eu sabia que nenhum dos dois pedidos seriam necessários.
Joe não iria a lugar algum até que saíssemos de lá com Sofia, eu tinha certeza
disso. Logo que entramos, eu precisei me separar da minha filha para que a
levassem para o atendimento de emergência, e aquela separação doeu como
uma facada em meu peito. Eu ouvia Henrique conversando com um médico e
palavras soltas chegavam ao meu ouvido e eram lentamente processadas pelo
meu cérebro.
Hipotermia.
Quadro delicado.
Exames.
Compreendi que iriam aquecê-la, tentar normalizar os batimentos
cardíacos e a respiração, e fazer nela coisas como eletrocardiograma – para
ver se o baixo fluxo de sangue provocado pela baixa temperatura afetou seu
coração – e exames de sangue para saber se algum outro órgão tinha sido
afetado.
As vozes ao meu redor se tornaram uma grande confusão, assim como
tudo na minha mente. Apenas uma certeza martelava em minha cabeça: eu
não poderia deixar que levassem minha menina para longe de mim. Sentia
um pavor aterrorizante de que ela não voltaria para os meus braços. Gritei
alguma coisa, mas sequer consegui compreender o que eu mesma dizia, e
corri indo na direção do corredor para onde haviam levado a minha filha. De
repente, tudo ao meu redor escureceu e eu senti braços fortes me acolhendo,
antes de ser completamente tragada pela total escuridão.
Não sei quanto tempo se passou, mas aos poucos minha visão foi
retornando e me vi em outro ambiente, aparentemente uma pequena sala de
atendimento, sentada em uma cadeira reclinável, com uma agulha perfurando
um dos meus braços, levando à minha veia alguma medicação diluída em
uma bolsa de soro. Henrique estava ali comigo, de pé diante de mim, fitando-
me com preocupação.
— O que aconteceu? — consegui perguntar. Senti minha fala um pouco
arrastada. Não sabia o que tinham me dado, mas eu sentia muito sono.
Henrique passou as mãos pelo meu braço. Eu vi que os olhos dele
estavam vermelhos, o que me dava uma dica de que também andara
chorando.
— Você teve uma crise nervosa e tentou invadir a sala onde levaram a
Sofia. Eu te segurei e você desmaiou.
— Cadê a minha filha? — questionei. Eu não sabia o que tinham injetado
na minha veia, mas era qualquer coisa que deixava o meu corpo apático,
incapaz de me levantar dali e voltar a procurar por Sofia.
— Estão cuidando dela, Lu. Fique tranquila, logo nos trarão notícias.
Eu estava certa de que tinha sido dopada. Porque existia uma
tranquilidade estranha dentro de mim. O tremor no meu corpo e a sensação
de desespero haviam diminuído, mas a tristeza e a preocupação estavam
ainda lá, latentes, insuportáveis.
Pensei em toda a situação que levara àquela em que estávamos naquele
momento. Sofia havia fugido de casa, ela nunca antes tinha feito algo sequer
parecido com isso.
— Eu descobri sobre o dinheiro... — comentei com a voz baixa, sem
olhar para Henrique. Meus olhos se mantinham fixos ao acesso em meu
braço, enquanto minha mente navegava pelas lembranças da noite anterior.
— Você brigou com ela?
— Não. Eu não briguei. Eu quis brigar, mas não o fiz. Apenas disse que
conversaríamos no dia seguinte. Ela deve ter ficado com medo dessa
conversa.
— Não acredito que ela tenha ficado com medo. Você nunca a deu
motivos para isso. É uma mãe tranquila e compreensiva.
Em certo ponto, ele tinha razão. Eu raramente brigava com Sofia, apesar
de ela ser uma criança que por vezes me dava motivo para isso. A gente
sempre conversava, e eu tentava fazer com que ela compreendesse onde havia
errado. Lembro de ter contestado esse meu método na noite anterior, quando
vi que Sofia voltou a aceitar dinheiro de alguém mesmo eu tendo conversado
com ela a respeito daquilo apenas algumas semanas antes.
— Acho que ela se sentiu triste, com medo de ter decepcionado você. Ela
é pequena demais para conseguir compreender que a culpa nunca foi dela, e
sim minha. Pagar pelo silêncio de uma criança é algo bem reprovável.
Enfim, eu o olhei. Percebi um arrependimento real em seus olhos, mas
não pude evitar concordar com suas palavras.
— Nisso você tem toda a razão.
— E você também estava certa em toda a sua opinião sobre Henrique
Lizano. Eu me arrependo muito de tudo o que fiz.
— E em que ponto esse arrependimento veio? — Não havia nenhum tom
provocativo na minha voz. Havia algo de positivo em ter conversas sérias
com alguém enquanto se está dopado, no fim das contas. Eu conseguia
manter uma calma que eu fatalmente não teria em situações normais.
— Eu não sei exatamente qual foi o ponto, porque ele ocorreu aos
poucos, ao mesmo tempo em que eu estava mergulhado nas mentiras que
tinha iniciado e via que não tinha como voltar atrás tão facilmente sem te
machucar.
— Mas você machucou, Henrique. E muito.
— E acho que nunca vou me perdoar por isso. Ao menos não enquanto
você não me perdoar.
Fiquei em silêncio, remoendo aquelas palavras, com minha mente indo e
voltando nos momentos que vivi ao lado daquele homem. Em todos eles. Do
primeiro encontro no bar, passando por nossa noite de amor e terminando em
nossa discussão quando descobri toda a verdade. Dopada ou não, aquilo não
se tornava menos doloroso. Mas tudo tinha sido tão intenso, que eu ainda me
perguntava se teria sido uma grande mentira.
— Mentiu quando disse que me amava? — perguntei. Sinceridade demais
também seria um efeito do medicamento?
— Não, eu não menti. Você já tinha descoberto a verdade. Eu não teria
mais por que mentir para você.
— Uma nova aposta, talvez?
— Eu já tinha feito com você... tudo o que um homem desprezível como
eu costumava ser poderia querer de uma mulher. O que mais eu poderia
apostar?
Ponto para ele.
Minhas pálpebras estavam fechando, então tentei encerrar aquela
conversa ao me dar conta de que não aguentaria acordada por muito tempo.
— Eu não quero discutir perdão agora, Henrique. Nada mais importa para
mim enquanto minha filha não estiver bem.
Eu já estava começando a ser tragada pelo sono quando ouvi a resposta
dele.
— Nem para mim, Lu. A Sofia ficar bem é tudo o que importa agora.
Capítulo 32
"Lembre-se todas as coisas que queríamos
Agora todas as memórias estão assombradas
Nós sempre fomos destinados a dizer adeus"
(Already Gone - Sleeping At Last)

Parecendo despertar de um pesadelo, eu abri abruptamente os olhos,


encontrando o teto branco de um ambiente hospitalar, o que me dava a
informação de que não tinha sido um sonho ruim. Era tudo real. A bolsa de
soro não estava mais presa ao suporte do meu lado e, no lugar da agulha, meu
braço estava com um esparadrapo protegendo o local onde tinha ficado o
acesso. Mas eu ainda estava tonta. A medicação que me deram devia mesmo
ser bem forte.
Tentei me levantar, mas tudo rodou. Então alguém surgiu para me
segurar. Não era Henrique, mas, sim, uma mulher de meia idade, com olhos
bondosos. Não usava roupas brancas, então não devia ser enfermeira ou
médica do hospital.
— Calma, menina — ela pediu docemente. Provavelmente, percebeu meu
olhar de interrogação, pois se apresentou. — Meu nome é Joana. Henrique
me pediu para vir para cá te fazer companhia. — Ele tinha ido embora? Antes
que eu pudesse formular tal pergunta, aquela senhora pareceu ler a minha
mente e explicou. — Ele levou o cãozinho.
— Henrique roubou o meu cachorro? — questionei, completamente
grogue. Dita em voz alta, a ideia era ainda mais estúpida do que pareceu em
minha mente.
Joana sorriu e explicou.
— Não, querida. Ele o levou para uma clínica veterinária. Parece que
estava com a patinha machucada, não é? Henrique acha que ele foi
atropelado, disse que ouviu um som de freada de carro antes do cachorrinho
aparecer no estacionamento da loja. Falei para ele aproveitar para mandar dar
um banho no bichinho, estava imundo, pobrezinho.
Mais uma vez eu era grata por Henrique estar ali. Porque eu fatalmente
não teria cabeça para pensar em nada daquilo. Pobre Joe, estava machucado,
e eu não teria como cuidar dele naquele momento. Saber que eu não estava
sozinha era algo muito confortante.
— Algum médico veio dar alguma notícia? — questionei, sem saber ao
certo por quanto tempo eu teria pegado no sono.
— Ainda não. A última informação que eu tive foi a que Henrique me
passou logo que cheguei aqui, de que a menina precisaria ser observada pelas
próximas horas.
— Que hospital é esse? — poderia parecer uma pergunta aleatória, mas
coisas ocorridas a partir do momento que encontramos Sofia não eram mais
do que um borrão em minha mente. Eu mal saberia dizer como cheguei até
aquele lugar.
— É o Santa Agnes. É o melhor da região. Sua filha está em ótimas mãos.
Não só era o melhor, como também era o mais caro. Se eu vendesse todos
os órgãos do meu corpo, eu ainda não seria capaz de pagar a conta de uma
internação ali.
Novamente parecendo ler os meus pensamentos – aquela senhora era boa
nisso – ela falou:
— Fique tranquila, menina. O Rique está cuidando de tudo.
— A senhora é a mãe dele? — questionei, curiosa.
— Ah, não. Embora sou como se fosse. Eu antes trabalhava para os pais
dele e o vi crescer. Depois passei a ser governanta na casa do Heitor, que
agora é dele.
— Que coincidência, ele já foi meu patrão também. Embora eu não
fizesse ideia disso. — Não consegui conter o sarcasmo. Acho que o calmante
estava começando a perder o efeito e voltando a me deixar um tanto ácida.
— Ele recentemente me contou sobre as besteiras que fez. Sempre foi um
menino meio mimado, pudera, sempre teve tudo o que quis. Mas tem um
bom coração. Tanto que não demorou a se dar conta da besteira que estava
fazendo com você.
— Não é fácil acreditar que um surto de consciência tenha vindo do nada.
— Não foi exatamente do nada. Foi quando ele se deu conta de que
estava completamente apaixonado por você.
As palavras me deixaram sem fala. Eu podia estar, novamente, quebrando
a cara, mas era difícil não sentir confiança naquela mulher tão doce que
estava de pé ao meu lado.
Ela prosseguiu:
— Ele não apenas está apaixonado por você, como também é louco pela
sua filha. Os olhos dele brilham toda vez que conta alguma coisa da menina.
Ele me narrou completa a peça em que ela fez o papel de uma árvore.
Tive vontade de sorrir ao me lembrar da peça e do quanto Sofia estava
ansiosa e animada para um papel tão secundário – quase de figuração. Ela
tinha passado dias cantando aquela musiquinha sem parar, ensaiando para
não errar a letra na hora da apresentação. Eu daria a minha vida para ouvi-la
cantar novamente.
E tal lembrança me remeteu a outra, da forma como Henrique parecia de
fato orgulhoso ao assistir aquela apresentação ao meu lado, de como ele me
contou depois, chateado, sobre a coleguinha de turma que havia destratado a
Sofia por ela não ter pai. E, especialmente, de como, naquelas últimas horas,
ele tinha estado ao meu lado e cuidado de tudo para que Sofia fosse
encontrada. De que forma eu poderia duvidar de que ele de fato se importava
com ela?
Antes que eu dissesse qualquer coisa, a porta da sala onde eu estava se
abriu e minha prima Sara surgiu, entrando como um furacão e vindo
diretamente me abraçar. Novamente, a senhora me explicou:
— Ah, sua amiga ligou para o seu celular, você estava dormindo e eu
achei prudente atender. Expliquei o que tinha acontecido e onde você estava.
Agora que você já tem companhia, vou me ausentar um pouco para tomar um
café, tudo bem?
Assenti, ainda confusa. Sara me soltou e segurou as mãos de Joana com
as suas.
— Pode ficar tranquila. Eu cuido dela agora. Muito obrigada por tudo.
Ela passou a mão pela face de Sara, de forma quase maternal.
— Não se preocupe, minha filha. Vou mesmo apenas tomar um café e já
volto. Vocês querem algo da cantina? — Só uma ligação e elas já estavam
próximas assim?
Sara negou e eu também balancei a cabeça em negativa, e a senhora saiu.
Minha prima voltou a me olhar e segurou minhas mãos, abaixando-se no
chão ao lado da minha cadeira.
— A Jojo me contou tudo, Lu. — ‘Jojo’? Sério, por quanto tempo eu
tinha dormido? — Alguma notícia da Sofia?
— Nada. E, aparentemente, eu não tenho nada a fazer que não seja
esperar. Quando tentei fazer algo, me colocaram aqui e me doparam como
um animal raivoso.
— A Jojo me contou isso também. Eu imagino o seu desespero. Mas vai
dar tudo certo, prima. E do Joe? Alguma notícia? Henrique já voltou da
clínica?
— Ainda não. Sara, como sabe de tudo isso? — questionei, intrigada.
— Eu estava do outro lado da cidade, procurando pela Sofia, quando
tentei te ligar e a Jojo atendeu. Vim o caminho quase todo até aqui
conversando com ela, quase uma hora de ligação. Meu Deus, não dá uma
vontade de guardar aquela senhora em um potinho? Eu quero pedir para ela
me adotar, sério!
— Aposto que ela te encheu também a respeito do ‘Rique’, não é?
— É. O seu bonitão ocupou mais da metade da conversa. E, quer saber?
Acho que acredito nela. Bem, eu continuo achando que ele foi um canalha,
mas ele realmente parece arrependido.
Não respondi, porque me vi novamente perdida em devaneios a respeito
daquilo. Até que a porta se abriu e Henrique entrou, trazendo algumas sacolas
de compras. Ele parou próximo à porta, já que provavelmente não esperava
encontrar minha prima ali. O encontro anterior dos dois não tinha sido tão
amigável assim.
Sara voltou a me olhar, ignorando-o propositalmente.
— Lu, eu vim mesmo apenas para saber como você está. Se precisar de
alguma coisa, qualquer coisa, me ligue que eu venho correndo.
Assenti, forçando um sorrido, e trocamos mais um abraço antes de ela se
afastar para sair. Trocou um leve aceno de cabeça com Henrique quando
passou por ele perto da porta, e se foi, nos deixando a sós. Ele voltou a me
olhar:
— Alguma notícia?
— Nada.
— É normal. Essas coisas demoram mesmo. Pode ficar tranquila, os
médicos daqui são excelentes. Sei que estão cuidando bem da Sofia.
Concordei, fazendo outro questionamento:
— E o Joe?
— Ah, tiveram que engessar a pata dele, mas ele vai ficar bem. Não tem
mais nenhuma outra fratura, fizeram vários exames e está tudo bem com ele.
Deram um banho também e o levaram lá para casa. A Jojo e eu vamos cuidar
dele até que vocês possam voltar para casa. Aliás, encontrei com a Jojo lá
fora e avisei que eu ficaria com você, então ela foi embora, mas te mandou
um beijo.
Voltei a movimentar a cabeça em concordância. Lá estava ele cuidando
de mais uma coisa para mim.
— Acha que o Joe tentou aquecer a Sofia durante a noite?
— Eu não acho, tenho certeza. Se não fosse por ele, talvez ela... Bem,
cães são animais fiéis, não é? Eu não gostava muito de cachorros há até
alguns dias. Mas... eu também não tinha qualquer encantamento particular
por crianças, nunca nem pensei em ter filhos, e... também não era do tipo que
se apaixona ou que planeja um futuro com uma única mulher. Mudei mais
durante as duas últimas semanas do que em quase trinta anos de vida.
Houve um breve instante de silêncio, até que eu decidisse comentar
alguma coisa.
— Devia adotar um cachorro. Talvez devesse pensar na ideia de ter filhos
também.
— Eu quero. As duas coisas. Na verdade, as três que eu mencionei.
Voltei a ficar em silêncio e ele me acompanhou, ambos em uma troca
silenciosa de olhares, até que a porta voltou a se abrir. Levantei-me em um
pulo, esquecendo-me totalmente que ainda me sentia um pouco tonta pelo
medicamento, ao ver uma mulher usando jaleco entrando na sala.
— Boa noite. São os pais da pequena Sofia?
— Somos! — afirmei de imediato, sem sequer pensar a respeito. —
Como ela está?
— Olha, foi um grande susto. Tenho que dizer que, na situação em que
ela estava, mais algumas horas teriam sido fatais. Ela teve uma hipotermia, a
temperatura dela estava muito baixa quando chegou, por isso entramos com
cuidados imediatos. Geralmente, quando isso acontece, o fluxo de sangue
pelo corpo diminui, o que pode causar uma parada cardíaca, danos cerebrais
ou comprometer algum outro órgão. Mas fizemos vários exames e
aparentemente nenhum órgão dela foi afetado. Sua filha é muito forte e está
ótima.
Durante toda a fala dela, fui segurando o ar nos meus pulmões, como se
esperasse pelo pior, mas enfim pude voltar a respirar aliviada.
E meu peito ainda explodiu em mais felicidade com a frase dita a seguir
pela médica:
— Ela já está consciente e foi transferida para um quarto. Poderá ficar
com um acompanhante.
Ela estava acordada. Meu Deus, eu iria poder falar com a minha filha e
passar a noite com ela.
A médica continuou:
— Apenas um poderá passar a noite, mas os dois podem ir vê-la agora.
Ela está bem cansada, então logo deve adormecer de novo.
— E quando ela terá alta? — perguntei, aflita.
— Não posso dar certeza agora. Vamos observar o quadro dela durante a
noite. Se ela continuar progredindo bem, talvez amanhã à tarde já possa ir
para casa, mas pode ser que precise ficar um dia a mais.
Concordei e voltei a olhar para Henrique.
— Acho que ela vai ficar feliz em ver você.
Ele pareceu surpreso com meu convite, mas o negou.
— A doutora tem razão: a Sofia está cansada, não é bom que ela tenha
muitas emoções. Ah, e trouxe algumas coisas para você — Ele me entregou
as sacolas. Eram várias. Algumas de lojas de roupas, uma de loja de
brinquedo e algumas que pareciam ser comida. Olhei para tudo, confusa. —
Você deve estar louca para se trocar, não é? Achei que era mais eficaz
comprar algo aqui perto do que mandar alguém ir à sua casa pegar roupas
suas para você passar a noite aqui. Não é nada demais, mas são bem
quentinhas, e confortáveis como você gosta de usar. Trouxe também alguns
lanches, já que você não comeu nada o dia todo e ninguém merece comida de
hospital, já basta a Sofia que provavelmente por hoje não vai poder comer
outra coisa. E tem um presentinho para ela também.
Balancei a cabeça em concordância e mal consegui dizer um ‘obrigada’,
porque estava de fato comovida com todo aquele cuidado. Ele me disse um
‘até amanhã’ e depositou um beijo na minha testa, um que eu daria tudo para
que tivesse sido nos lábios. Então, levando todos aqueles pacotes, eu segui a
médica. A porta do quarto onde Sofia estava tinha uma parte de vidro
transparente, então eu ainda parei por um instante, emocionada ao ver minha
garotinha sentada na cama, olhando para a TV ligada em um canal infantil.
Ainda ali, a médica me passou algumas instruções, às quais eu mal consegui
ouvir de tão aflita que estava para abraçar minha menina. Agradeci à doutora
por tudo e, enfim, pude entrar. Sofia me olhou, com seus olhinhos cansados,
mas ainda assim abriu um sorriso. Corri até a cama, largando as sacolas no
chão e debruçando-me sobre ela para abraçá-la com força, enquanto chorava.
Um choro de alívio, ao mesmo tempo em que agradecia a Deus por minha
garotinha estar bem.
— Está chorando por minha culpa, mamãe? — ela perguntou, com sua
vozinha baixa e fraca.
Afastei-me um pouco, passando as mãos pelo rostinho dela.
— Estou chorando de felicidade por você estar bem, meu amor.
— Cadê o Joe?
— Está na casa do tio Henrique.
— Mas o Joe não gosta dele...
— Aparentemente, os dois agora são bons amigos.
— E você e o tio Henrique, ainda são amigos? Ele só mentiu porque
queria que você gostasse dele, mamãe. Não briga com ele, por favor.
Ajeitei-me, sentando-me na cama, de frente para ela.
— A gente pode conversar um pouquinho, filha? Aquela conversa que
iríamos ter hoje de manhã? — Ela movimentou a cabeça em uma afirmação,
embora eu percebesse que havia um traço de medo em seus olhos. — Eu não
vou brigar com você, filha. Mas eu só queria entender... por que você
concordou em mentir para a mamãe? A gente já conversou tanto sobre isso, e
eu já te disse tantas vezes que mentir é errado. Especialmente para as pessoas
que a gente ama.
— É que... você disse que com mais daquelas notas você ia conseguir
comprar a nossa loja. Eu juntei um monte delas para você, mamãe.
Ouvir aquilo foi como ter o meu coração dilacerado em mil pedaços. Ela
tinha aceitado aquele acordo para conseguir dinheiro, achando que assim
poderia realizar o meu sonho? Mais lágrimas vieram à tona nos meus olhos,
mas lutei para contê-las. Por mais que estivesse emocionada, eu precisava me
manter firme.
— Meu amor, conseguir dinheiro é um problema da mamãe e não seu.
Você é só uma criança. Tem apenas que estudar e brincar, não precisa se
preocupar com esse tipo de coisa.
— Mas tem outra coisa também, mamãe. No começo, eu só queria
mesmo conseguir juntar muito dinheiro, mas depois... Eu fui achando o tio
Henrique legal, e... eu pensei que... se você gostasse dele, ele poderia ser seu
namorado e se tornar o meu pai.
Não existia mais uma mísera migalha do meu coração. Ele já havia sido
completamente quebrado e dilacerado por aquela garotinha.
Talvez em uma tentativa inconsciente de fugir daquele assunto, eu olhei
para as sacolas no chão e peguei uma delas, que estava com o emblema de
uma loja de brinquedos. Tirei o conteúdo lá de dentro diante de Sofia e os
olhos dela brilharam ao ver uma almofada de pelúcia no formato de uma
árvore, com bracinhos e um rostinho sorridente.
— Tio Henrique mandou esse presente para você — anunciei, não
conseguindo deixar de também sorrir ao ver o que era.
Sofia a pegou a abraçou, encantada. Aquilo fez com que eu me lembrasse
do lugar onde ela tinha sido encontrada: justamente embaixo de uma árvore.
Então foi inevitável perguntar:
— Por que você fugiu, meu amor? No meio da noite. Tem noção de
quantos riscos você correu?
— Eu achei que você estivesse chateada comigo porque eu menti pra
você. Você sempre diz que não dá pra confiar em quem conta mentiras. Então
eu achei que você não confiava mais em mim. Daí eu e o Joe decidimos ir
embora. Bem, na verdade, fui só eu... O Joe queria ficar, mas eu convenci ele
a ir comigo. A gente foi para o Parque, porque é um lugar que a gente gosta.
Aí voltou a chover e a gente se abrigou embaixo da árvore. Mas tava muito
frio. Eu fiquei abraçada com o Joe pra gente se esquentar, mas tava frio
demais, mamãe... muito mesmo. Eu queria voltar pra casa, mas não conseguia
mais me levantar, porque estava tremendo muito. Daí eu dormi e acordei
aqui.
— Sabe o que deixou a mamãe chateada? O que aconteceu com você. Eu
podia ter perdido você, filha. Não importa o que aconteça. Sou sua mãe e
sempre vou amar você. Promete pra mim que nunca mais vai fugir de casa?
— Prometo, mamãe. E eu também vou te amar pra todo o sempre.
Ela se ajoelhou sobre a cama e me abraçou. Retribuí, sentindo toda a
energia gasta naquele dia aos poucos ser recarregada. Nesse momento, olhei
para a porta. Do outro lado dela, olhando-nos através do vidro, estava
Henrique. Percebi que ele estava... chorando? Dali, ele provavelmente não
poderia ouvir nossa conversa, mas pela forma como olhava para mim e para a
Sofia, eu podia deduzir que sua emoção fosse por vê-la bem, depois de todo o
susto que passamos naquele dia.
Ao perceber que havia sido flagrado, ele esboçou um sorriso e acenou,
virando-se e indo embora.
Capítulo 33
“Eu escalaria todas as montanhas
E nadaria todos os oceanos
Apenas para estar com você
E arrumaria o que quebrei
Oh, porque eu preciso que você veja
Que você é o motivo”
(You Are The Reason - Calum Scott)

Há até muito pouco tempo, ser acordado com lambidas era um sinal de
que eu tinha, como eu costumava dizer, “me dado bem” durante a noite, e
agora acordava com alguma gata ao meu lado. Mesmo ainda em um estado
de sonolência, eu estava certo de que aquele definitivamente não era o caso,
embora eu adorasse estar acordando ao lado de Luíza.
Apenas pensar nisso fez um sorriso bobo desabrochar entre meus lábios,
até que estes fossem novamente lambidos. Abri os olhos. Como imaginei,
não era a companhia mais sexy do mundo.
— Bom dia, Joe — resmunguei. — Quem autorizou você a subir na
minha cama? E ainda com essa pata engessada. Ao menos tomou um bom
banho ontem e não está mais fedorento.
Ele respondeu voltando a me lamber e eu acabei sorrindo. Acho que nós
dois enfim tínhamos uma trégua e estávamos de fato nos tornando amigos.
Levantei-me e liguei para o hospital, para obter informações sobre Sofia.
Aparentemente, ela teria alta depois do almoço. Quando me dei conta, estava
como um bobo dando saltos, como se tivesse acabado de ganhar um prêmio
ou coisa do tipo.
— Ei, garotão, a Sofia vai para casa! — contei a Joe.
Não sei se ele necessariamente entendeu o que eu falei, mas pulou da
cama e começou a pular sobre mim, o que fez com que eu, empolgado,
também voltasse a pular. Estávamos assim, como dois cangurus, quando a
porta do meu quarto se abriu após uma batida. Joana travou com a porta
aberta, ainda com a mão na maçaneta, olhando-nos inicialmente confusa, e
em instantes começou a rir.
— Esse era o cachorro que não gostava de você? — ela questionou, entre
risos.
Ignorei o questionamento e contei a ela as ótimas notícias.
— A Sofia terá alta hoje depois do almoço, Jojo. Minha garotinha está
bem e vai voltar para casa!
— Sua garotinha? — Ela sorriu ainda mais.
Eu já amava tanto aquela menininha que já nem conseguia mais negar o
desejo de ser seu pai. Mas para isso eu antes precisava reconquistar a sua
mãe.
E fazendo tudo certo dessa vez.
Mas... o que afinal seria o certo?
— O que devo fazer, Jojo?
— Ah, garoto... você sabe onde encontrar essa resposta. Pergunte a si
mesmo: o que o Henrique faria? Não o Lizano. Mas apenas o Henrique.
Acho que o Henrique sabia, muito bem, o que deveria fazer.

Sofia poderia ir para casa.


A informação era insistentemente repetida pela minha mente, trazendo-
me uma indescritível sensação de felicidade e alívio. Há menos de vinte e
quatro horas eu vivi os piores momentos da minha vida, junto ao medo de
perder a minha filha. Mas agora, ela não apenas estava bem... mas ela estava
ótima. Além da melhora do estado clínico, que surpreendeu positivamente os
médicos, o ânimo dela estava tão bom que ninguém diria que aquela
menininha tinha passado por momentos tão ruins. Estava com um ótimo
apetite, ativa, e, especialmente, muito animada com a informação de que
poderia voltar para casa.
Junto com as roupas para mim, Henrique havia mandado também
algumas peças para Sofia. A preocupação principal dele visivelmente tinha
sido aquecê-la bem, já que escolhera um conjunto de calça e casaco de
moletom quentes o suficiente para aquecerem alguém no frio de um inverno
europeu; mas ele também lembrava do fato de minha filha gostar de super-
heroinas, já que o tema do conjunto era a Mulher Maravilha – assim como o
pijama que ela usara ao fugir de casa. Também enviou um par de tênis, que
eram exatamente o número dela. Fiquei me perguntando onde ele havia
conseguido tal informação, mas não demorei a supor que talvez Joana tivesse
perguntado a Sara, no telefonema de uma hora que as duas trocaram no dia
anterior.
Depois de almoçar, Sofia foi novamente atendida pela mesma médica,
que muito pacientemente explicou a ela os perigos de ficar exposta a
temperaturas baixas. Minha filha ouviu a tudo com atenção e, mais uma vez,
prometeu que jamais voltaria a fazer aquilo. E eu esperava de todo o meu
coração que ela cumprisse aquela promessa. Então, ela foi liberada. Fui
informada que todas as despesas hospitalares já haviam sido pagas, então
seguimos direto para a saída do hospital.
— Mamãe, o Joe não está em casa? — Sofia me perguntou, quando já
chegávamos à portaria.
— Não, meu amor. Ele ainda está na casa do Henrique. Depois veremos
como faremos para pegá-lo de volta.
— O tio Henrique podia levá-lo lá em casa, né? Aí eu aproveito para
dizer obrigada pelos presentes que ele mandou pra mim e por ter me salvado,
junto com você.
Eu tinha contado a ela como a havíamos encontrado no dia anterior, e ela
não parava de falar a respeito.
— Depois vemos isso, querida. Vou chamar um Uber para irmos para
casa.
Logo que passamos da saída do hospital, paramos ainda na calçada e eu
peguei o celular para chamar o carro por aplicativo. Sara tinha se oferecido
para ir nos buscar, mas neguei a oferta. Ela já tinha perdido muitos dias de
vendas dos seus lanches por nossa causa, não era justo que perdesse mais
aquele.
— Mamãe! — o grito empolgado de Sofia chegou aos meus ouvidos, me
fazendo desviar os olhos do celular para fitá-la. A mão dela estava agarrada
em uma das pernas da minha calça, e ela a sacudia, enquanto a outra mão
apontava para algo.
Segui os olhos na direção que o dedo dela indicava e, à primeira vista,
não compreendi, já que vi apenas um carro. Um carro de luxo, mas um carro.
Contudo, quando olhei melhor, identifiquei a cara peluda que olhava pela
janela do veículo, com os olhos fechados enquanto o vento batia em seus
pelos. O carro parou diante de nós e então pude ver também o motorista.
— Tio Henrique! — Sofia gritou, empolgada. — E o Joe! Vocês são
mesmo amigos agora?
Henrique saiu do carro e deu a volta, recebendo Sofia em seus braços. Ela
correu aflita até ele, abraçando-o com força, e ele a levantou nos braços,
jogando-a para cima.
— Nós não só somos amigos, como viemos buscar vocês para levá-las
para casa.
— Oba! Ouviu isso, mamãe? Guarda esse celular, não precisa mais
chamar o Uber, o tio Henrique vai levar a gente!
Henrique me olhou e só então percebi que eu tinha praticamente
paralisado na mesma posição, segurando o celular na mão, pouco abaixo do
rosto. Ele, então, sorriu para mim. Não era o sorriso de conquistador barato
do nosso primeiro encontro, mas aquele que fui descobrindo depois. Tinha
até um certo toque de... timidez, talvez.
E algo me dizia que o playboy Henrique Lizano não era do tipo que
ficava tímido diante de uma mulher.
— Guarda esse celular, Lu — ele usou as mesmas palavras que Sofia
havia dito. — Eu vou levar vocês.
Tentei dizer alguma coisa, mas minhas palavras foram camufladas pelos
latidos de Joe, que parecia aflito para que Sofia entrasse no carro. Também
ansiosa para reencontrar o amigo, Sofia abriu a porta de trás do veículo e
nosso cachorro pulou nela, latindo e chorando ao mesmo tempo, como se não
a visse há mais de um ano. A cena, claro, me fez sorrir enquanto sentia
algumas lágrimas turvando a minha visão. Mas logo ativei o lado mãe zelosa
e precisei controlar aquela brincadeira dos dois.
— Sofia, a médica te disse que hoje você não pode fazer muito esforço,
lembra? E nem você, Joe! Está com a pata engessada, comporte-se ou esse
osso não vai voltar ao normal.
Os dois me obedeceram – Sofia, na verdade. Joe continuou querendo
brincar, mas reduziu o ritmo, já que Sofia tinha parado.
— Podemos aceitar a carona do tio Henrique, mamãe? — ela questionou,
lançando-me seu melhor olhar de gato de botas.
Bufei, rendida.
— Podemos, sim. Entrem logo. E coloque o cinto, Sofia!
Ela vibrou e entrou no carro, sendo seguida por Joe. Henrique ajustou o
cinto dela, e então eu também entrei, sentando-me no banco do carona.
Coloquei meu próprio cinto e aguardei até que Henrique entrasse no veículo e
desse a partida, levando-nos para casa.
Eu achava que voltar a encontrar com Henrique poderia ser uma
experiência um tanto constrangedora, mas naquele momento percebi que eu
não tinha como estar mais enganada. Ele começou a conversar com Sofia,
iniciando de maneira séria e pedindo para que ela não voltasse a fazer o que
fez. Explicou, de uma forma adequada à idade dela, os perigos que ela correu
e contou como nós dois ficamos desesperados.
Nós dois...
Existia mesmo um nós dois?
Sofia o escutou sem contestar e voltou a repetir sua promessa de que não
voltaria a fugir de casa, e então os assuntos começaram a mudar. Ela
agradeceu pelos presentes e contou sobre o quanto amou as roupas, os tênis e,
principalmente, sua almofada em formato de árvore, e depois contou
detalhadamente sobre toda a rotina da noite que passara no hospital. Contou
sobre a comida, sobre as enfermeiras – a que era mais legal e a que era mais
chata –, os remédios que tomou, os exames que fez. Henrique parecia
realmente interessado em tudo aquilo e, quando percebi, eu mesma já
participava da conversa e tudo aquilo se tornou muito natural.
Essa era a palavra. Natural. Talvez outras pudessem ser igualmente
usadas, como aconchegante. Ou, a melhor delas: familiar. Era como estar em
família. Uma sensação que eu queria guardar para sempre.
Enfim chegamos. A forma como Sofia me olhou enquanto saíamos do
carro deixava claro que ela queria que eu convidasse Henrique para entrar. E
eu fiz isso, porque me pareceu o certo a ser feito. Minha filha não deixou a
ele qualquer opção de aceitar ou não, e insistiu tanto que queria mostrar a ele
a estante de seu quarto, que ele, quando se deu conta, já era puxado por ela
para dentro de casa e, em seguida, escada acima. Fiquei ali parada na sala,
sentindo meu coração batendo num ritmo acelerado e me perguntando que
rumo eu daria dali para frente à minha vida.

Minha intenção realmente era a de apenas levá-las em casa. Eu havia


prometido dar um tempo à Luíza, e vinha tentando me manter firme nessa
decisão, embora tudo o que eu quisesse era estar o tempo todo ao lado dela.
Porém, não dava para resistir aos pedidos de Sofia, especialmente depois de
termos passado pelo medo de perdê-la. Então eu deixei que aquela pequena e
adorável pestinha me levasse até o seu quarto para me mostrar a estante que
sua mãe tinha feito com os caixotes que pegamos na loja. Luíza tinha razão
quando me disse que a estante seria simples, mas eu não fazia ideia de que tal
simplicidade ficaria tão bonita.
Porque tudo em Luíza era assim. Ela conseguia esse feito de unir
simplicidade e beleza em tudo, até nela mesma.
Enquanto apontava para a estante e me narrava o que tinha colocado em
cada um dos nichos, percebi que Sofia coçava insistentemente os olhos e logo
compreendi os motivos disso.
— Está com sono, não é?
Ela ajeitou a postura, movimentando a cabeça em uma negação enfática.
— Ainda é muito cedo pra dormir. Nem é noite ainda.
— Mas não faz mal tirar um cochilo de tarde. Especialmente quando se
está cansada depois de ter feito tanta arte no dia anterior, não é?
Passei o indicador pelo nariz dela, em uma brincadeira. No entanto, ela se
manteve séria. Parecia tomar coragem para o que diria a seguir.
— Tio, foi tudo culpa minha. A mamãe encontrou o dinheiro na minha
mochila.
Ajoelhei-me no chão para que meus olhos ficassem em uma altura mais
nivelada aos dela.
— A culpa nunca poderia ser sua, Sofia. O único errado nessa história fui
eu.
Ela se afastou, indo até a mochila que estava no primeiro nicho da estante
e pegando as notas de dinheiro do bolso dela. Depois voltou a se aproximar
de mim, me entregando.
— Eu quero devolver o dinheiro pra você, tio. E o Joe também.
— Como você pode saber disso? Ele passou a noite lá em casa e não me
disse nada a respeito de me devolver o dinheiro.
— Nós dois tivemos uma conversa muito séria na noite que passamos no
parque. E ele concorda comigo que a mamãe vai ficar mais feliz se a gente te
devolver tudo.
Pensei ainda por um instante, antes de decidir por aceitar o dinheiro de
volta. Se Sofia tinha decidido que aquele era o certo a ser feito, eu iria
respeitar e incentivar a sua decisão. Aquelas notas não faziam diferença
alguma na minha vida, mas eu sabia que não era sobre dinheiro... era sobre
responsabilidade. E eu estava orgulhoso de Sofia por sua decisão.
Além do mais, eu sabia os motivos que levaram Sofia a querer juntar
aquele dinheiro. E, no que dependesse de mim, seus objetivos seriam
alcançados. Eu ajudaria Luíza a ter uma forma de comercializar os seus
móveis. Não importava se ela não me aceitasse de volta. Aquela era uma
promessa que eu havia feito a mim mesmo.
— Se você... e o Joe, claro... decidiram assim, por mim tudo bem. Você
queria esse dinheiro para a loja da sua mãe, não é?
Ela movimentou a cabeça em uma afirmação, e começou a contar:
— A gente sempre conversa sobre isso, e temos tudo planejado. Terá um
espaço reservado pra ela poder trabalhar fazendo os móveis, e na frente será a
loja, bem grandona, mas não vai ter cara de loja, porque os móveis vão estar
como em uma casa. E os vendedores e clientes vão poder sentar nas cadeiras
e nos sofás, todos bem à vontade. Vai ter um balanço bem bonito e, do lado
dele, uma casinha de madeira, bem colorida, onde o Joe vai poder tirar suas
sonecas. Mamãe disse que vai dar um crachá de vendedor pra ele, e ele vai
receber o pagamento em petiscos.
Ela riu e eu sorri junto, encantado com a visão que se formava em minha
mente com as narrativas dela. Então, eu entendi que o que eu tinha em mente
para ajudar Luíza não era exatamente o que ela sonhava. Achava que colocar
os móveis dela à venda através da estrutura comercial das Lojas Lizano seria
o suficiente, mas agora enfim eu entendia que estava enganado. Não era
simplesmente sobre vender. Ia muito além disso.
Sofia voltou a esfregar os olhos, me dando mais um indicativo de que
estava com sono. Voltei a passar o dedo pelo contorno do nariz dela.
— Acho que você realmente precisa dormir um pouco.
Ela concordou, demonstrando que de fato estava com muito sono. Então,
fez uma pergunta que eu não esperava ouvir.
— Você me conta uma história?
Contar uma história? Aquele devia ser um passo importante para eu
merecer o título de pai, e isso deveria, em qualquer outra situação, me
amedrontar. Mas, na realidade, eu me senti subitamente empolgado e
agradecido por aquela oportunidade.
Quando fiz que sim, Sofia abriu um enorme sorriso e correu para a cama.
Uma enorme bola de pelos entrou no quarto nesse momento, mancando, e eu
o ajudei a subir na cama, já que ele estava com a pata engessada. Sofia riu
enquanto Joe se acomodava ao seu lado, e meu coração se aquecia com o som
de sua risada.
Antes de iniciar a história – que eu nem fazia ideia de qual seria – eu
declarei:
— Eu fiquei desesperado quando você sumiu. E ainda mais quando te
encontramos daquele jeito.
— Não vou mais fazer aquilo, tio. Eu juro.
— Eu acredito em você. Mas, me diz... por que, quando fugiu, você
decidiu ir para o parque?
— Eu gosto muito de lá. Me lembra o dia que você me ensinou a andar de
bicicleta. Foi muito importante pra mim, porque...
— Por quê?
— Porque foi como se eu fosse sua filha. E eu me senti muito feliz,
porque... queria muito que você fosse o meu pai.
Um nó se formou em minha garganta, impedindo-me de falar qualquer
coisa. Ao mesmo tempo, lágrimas embaçaram a minha visão.
Todo o meu coração pertencia àquela menina e à sua mãe. E não havia
mais como voltar atrás.
Capítulo 34
“Não quero fugir, mas não consigo evitar, não entendo
Se não fui feito para ti, então por que meu coração diz que sou?
Há alguma maneira de ficar nos seus braços?”
(If You're Not The One - Daniel Bedingfield)

Quando consegui me livrar daquela súbita taquicardia, decidi que, depois


de tudo o que Henrique tinha feito por nós, o mínimo que ele merecia era ser
bem recebido em nossa casa. Eu ainda estava magoada... e muito. As
mentiras dele ainda doíam imensamente. Mas eu não sabia o que teria sido de
mim no dia anterior se não fosse por todo o apoio dele. Eu talvez nem mesmo
teria encontrado Sofia, já que deduziria que Joe estava apenas querendo
voltar para casa e o levaria para lá, sem dar a ele o crédito para que me
guiasse até onde Sofia estava. E, ainda que a tivesse encontrado, não saberia
se teria todo o discernimento de agir rápido como ele agiu, livrando-se das
roupas molhadas e a aquecendo. Aquilo tinha sido primordial para salvar a
minha filha. E, se isso ainda não bastasse, ele a levou a um hospital, arcou
com toda a conta, e ainda tinha tido cabeça para cuidar da patinha quebrada
do Joe. E para cuidar de mim, levando-me roupas limpas e algo para comer.
Era tanto carinho, tanto cuidado, que se sobressaía e muito a todo o mal que
ele havia feito. Porque do mal, ele parecia verdadeiramente arrependido. E o
bem, era nítido, tinha sido feito com sinceridade e... sentimento.
Sendo assim, fui para a cozinha e preparei um café. Joe me acompanhou
o tempo inteiro e me olhava como se fosse capaz de ler os meus
pensamentos.
— O que foi, hein? Estou preparando um café para o seu novo amigo.
Vocês agora se dão bem, né?
Ele apenas continuou a me olhar e, nesse momento, eu é que queria poder
ser capaz de ler os seus pensamentos. Talvez eles pudessem me dar alguns
bons conselhos.
Terminando de preparar o café, peguei alguns biscoitos e organizei a
pequena mesa da cozinha para um lanche. Então, na intenção de chamar Sofia
e Henrique, subi as escadas devagar, num ritmo em que Joe conseguisse me
seguir, já que tinha alguma dificuldade por conta do gesso na pata. A porta do
quarto estava entreaberta e eu já ia entrar, mas travei ao ouvir um pedido dito
na voz da minha filha:
— Você me conta uma história?
Uma história? Seria para que ela dormisse? Ela estava pedindo isso ao
Henrique?
Joe entrou no quarto, mas eu me mantive ali parada, praticamente
escondida, incapaz de interromper aquele momento. Ouvi o barulho de
alguém subindo no colchão e, após alguns instantes, veio a voz de Henrique:
— Eu fiquei desesperado quando você sumiu. E ainda mais quando te
encontramos daquele jeito.
— Não vou mais fazer aquilo, tio. Eu juro.
— Eu acredito em você. Mas, me diz... por que, quando fugiu, você
decidiu ir para o parque?
Aquela era uma pergunta que eu também vinha me fazendo. Fiquei atenta
para ouvir a resposta dela.
— Eu gosto muito de lá. Me lembra o dia que você me ensinou a andar de
bicicleta. Foi muito importante pra mim, porque...
— Por quê?
— Porque foi como se eu fosse sua filha. E eu me senti muito feliz,
porque... queria muito que você fosse o meu pai.
Ele se calou, e de certa forma eu sabia que se sentia emocionado como
eu.
Após alguns instantes, ele enfim disse alguma coisa.
— Eu seria o homem mais afortunado do mundo se tivesse você como
minha filha.
— Afortu... Afortu... o quê?
— Afortunado. É uma pessoa que tem uma grande fortuna.
— Mas isso você já tem, tio. Você é dono de um monte de lojas, é muito
rico.
— Existem muitos tipos de riqueza, Sofia. E em algumas delas eu sou
bem pobre. Exatamente nas que mais importam na vida.
— E nessas coisas que você é pobre, a mamãe e eu somos ricas?
— Vocês são. Muito.
— Então a gente divide a fortuna com você.
Olhei pela fresta da porta e vi quando ela se jogou nos braços de
Henrique, abraçando-o. Precisei levar a mão à boca para conter o som de um
soluço que escapou pelos meus lábios. Depois de abraçá-la, Henrique ajeitou
a coberta sobre ela e o vi passar a mão pelo próprio rosto, aparentemente
detendo uma lágrima.
E eu, mais uma vez, presenciava o poderoso Henrique Lizano chorar.
Achava que a emoção que eu sentia não poderia ficar ainda maior, mas
percebi que estava muito errada quando ele voltou a falar.
— Eu amo vocês, Sofia. E não há nada nesse mundo que eu não faria para
ficar com a sua mãe e me tornar o seu pai. Mas as coisas entre adultos são
complicadas, entende? Eu não posso decidir sozinho a respeito disso.
— Mas eu também te amo, tio Henrique. E sei que a mamãe também ama
você.
Sofia seguia sendo uma grande fofoqueira, além de uma ótima
observadora. Eu nunca tinha dito aquelas palavras relacionadas a ele, nem
para ela, nem para Henrique, nem ao menos para mim mesma. Mas era
exatamente como eu me sentia. Tão claro quanto água cristalina, eu amava
aquele homem.
Ele respondeu:
— Eu fiz muita coisa errada, Sofia. Não sei se Luíza poderá perdoar a
forma como menti para ela. Estou disposto a lutar por ela, a fazer de tudo
pelo seu perdão, mas... ela tem todo o direito de não me querer em sua vida.
Mas não importa o que aconteça. Vocês duas vão sempre poder contar
comigo para tudo. E sempre que você precisar de um pai... seja para te
ensinar algo novo ou para ir a uma festa de escola e calar a boca de alguma
princesinha boboca que esteja implicando com você... eu vou sempre estar
disponível para você. Sempre.
Dessa vez, foi Sofia quem ficou sem resposta, e isso era algo
extremamente raro de acontecer. Então, Henrique enfim começou a contar
uma história que ele nitidamente inventava naquele instante. Era sobre uma
menina com superpoderes que, junto ao seu cachorro também dotado de
vários dons, combatia o mal e protegia a cidade. Fiquei ali parada no
corredor, rindo como uma boba da narrativa e sentindo meu coração se
aquecer sempre que ouvia alguma risada de Sofia. Mas estas foram ficando
mais raras, até que entendi que ela havia pegado no sono. Também parecendo
perceber aquilo, ele se calou e voltou a ajeitar as cobertas dela. Como um
verdadeiro pai, depositou um beijo em sua testa, depois fez um carinho na
cabeça de Joe e se levantou. Afastei-me da porta, indo para o outro lado do
corredor, esperando até que ele saísse. Quando o fez, ele parou, parecendo
surpreso em me encontrar ali.
Mas não permiti que ele dissesse uma única palavra. Eu já havia ouvido
absolutamente tudo o que precisava ouvir. Por isso que, deixando-me ser
movida apenas por instinto, eu avancei em sua direção e o beijei.
Embora em um primeiro instante ele se mostrasse surpreso com minha
atitude, ele logo correspondeu. Sua mão contornou a minha cintura e me
puxou para mais perto dele, aprofundando o beijo. Todo o meu corpo pareceu
entrar em ebulição, saciando aquele desejo que ia muito além do físico. Meu
coração precisava dele. E minha alma também.
Senti minhas costas encontrarem a parede atrás de mim e, então, nossos
corpos se viram ainda mais colados. Por Deus, eu amava aquele homem, e
queria voltar a ser dele. Não apenas de forma carnal, mas por completo.
Porém, minha filha estava dormindo bem ali, no quarto diante de nós. Não
era o momento para me entregar àquilo. Mesmo porque, embora
aparentemente as palavras não fossem necessárias, algumas delas precisavam
ser ditas.
Quando o ar nos faltou, nos obrigando a afastar nossas bocas, eu toquei os
lábios dele com os dedos, como num sinal para que não voltasse a me beijar.
Sabia que era o que ele queria fazer e, no fundo, eu também. Ficamos ainda
alguns instantes com nossos corpos colados, os rostos a poucos centímetros
de distância um do outro, os corações acelerados e os olhos ligados, até que
eu consegui retomar o fôlego e a sanidade para enfim começar a falar:
— Eu pensei muito nesses últimos dias, especialmente nessa última noite.
E todas as minhas reflexões sempre chegaram à mesma conclusão: eu não
quero continuar o que tínhamos antes.
— Luíza... eu... — levei mais uma vez os dedos delicadamente aos seus
lábios, calando-o.
— Eu não quero continuar o que tínhamos, Henrique — repeti. — Porque
o que tínhamos podia parecer bonito, mas começou em uma mentira.
Começou em uma aposta egoísta e cruel. E nada iniciado em um alicerce
assim tem como dar certo. Eu definitivamente não quero continuar com
aquilo. Mas eu acho que a gente pode... talvez... tentar recomeçar.
— Recomeçar? — ele sussurrou, surpreso.
— É. Recomeçar. Acha que podemos?
Ele abaixou o rosto por um rápido momento e percebi o leve esboço de
um sorriso surgindo em seus lábios. Quando voltou a me olhar, ele deu um
passo para trás e estendeu a mão para mim.
— Prazer, meu nome é Henrique.
— Luíza. — Apertei a mão dele com a minha, achando graça da forma
como ele levava aquilo ao pé da letra.
— O que você faz da vida, Luíza? — ele questionou, ainda segurando
minha mão junto à sua.
— Trabalho em um bar para pagar as contas, mas também faço e vendo
alguns móveis. E você?
— Eu tenho umas lojas aí. Estavam sob o comando do meu irmão, mas eu
estou assumindo agora e não estou muito feliz com algumas coisas. Ando
pensando em mudar alguns conceitos dela.
— Posso te dar umas sugestões, se você quiser.
— Eu quero. Eu sem dúvidas quero. Na verdade, mais do que isso: estava
mesmo planejando pedir ajuda nisso a alguém que entenda mais de questões
socioambientais e de qualidade de móveis do que eu.
— Bem... talvez eu possa te ajudar.
— Mesmo? Ouvi dizer que você não gosta muito das minhas lojas.
— Quero te ajudar exatamente por não gostar muito das suas lojas. Quem
sabe, se mudar algumas coisas, eu até mesmo mude um pouco de ideia?
— Ótimo. Acho que a gente pode conversar sobre isso. Que tal amanhã à
noite?
— Não posso. Tenho que trabalhar. E só saio às três da manhã.
— Estarei livre às três da manhã. E vou real e sinceramente adorar ter a
sua companhia.
— Tipo um encontro?
— Pode ser um encontro. Se você quiser que seja.
— Bem... Antes de marcar um encontro comigo, há algumas coisas que
precisa saber sobre mim. Eu tenho uma filha. E um cachorro. Isso é problema
para você?
— Há até uns dois dias, o cachorro certamente representaria um
problema. Mas acho que estou conseguindo lidar com isso. Ele está até
começando a gostar de mim.
— Então tudo bem. Acho que podemos ter um encontro.
Ele voltou a aproximar lentamente seu rosto do meu e parou, a apenas
alguns centímetros de distância.
— Sei que estamos começando agora, Luíza. Será, então, que é um pouco
cedo para eu dizer que amo você? Que amo tudo em você. Que amo sua filha.
E que quero vocês duas na minha vida?
— Não. Porque eu também te amo e também te quero nas nossas vidas.
Então, voltamos a nos beijar. E foi tão intenso e tão mágico que, de fato,
parecia ser a primeira vez.
E, agora, era muito mais significativo. Porque era real.
Capítulo 35
“Porque tudo de mim
Ama tudo em você
Ama suas curvas e todos os seus limites
Todas as suas perfeitas imperfeições”
(All Of Me - John Legend)

Sete meses depois...

Aquilo não se parecia em nada com uma das entediantes inaugurações das
filiais da Lizano. Era, na realidade, completamente diferente. Tinha... sei lá...
vida.
O espaço tinha ficado muito parecido com o que eu imaginei quando
Sofia me narrou os planos que ela e a mãe faziam. Com a diferença de que,
na realidade, conseguia ser ainda mais bonito. Não foi difícil encontrar o
terreno perfeito para a construção do ateliê, e, então, eu fiz a proposta a
Luíza: uma sociedade. Eu entraria com o capital e, ela, com a mão de obra.
Boa parte do material usado nos móveis viria das próprias lojas Lizano. Ela
topou, e agora ali estávamos nós, vendo o nosso sonho se tornar real.
Porque o sonho agora também era meu.
Tudo estava perfeito. Até mesmo meu irmão e sua agora esposa Bruna
vieram dos Estados Unidos para a inauguração. Aliás, os dois estavam
completamente encantados por Sofia e, quem diria, Heitor tinha se tornado
um tio babão. O que não era nada difícil com uma criança linda, inteligente e
divertida como Sofia.
Sim, eu tinha me tornado o pai mais orgulhoso de todo o mundo. Não
gostava da palavra ‘padrasto’, e Sofia também não, por isso que ela seguia
me chamando de tio Henrique e sempre me apresentava a outras pessoas
dizendo que eu era seu pai emprestado. Eu não gostava muito daquela coisa
de “empréstimo”, mas pretendia mudar isso em breve. Na festa de
inauguração, ela usava um vestido rodado vermelho, com os cabelos presos
por um alto rabo de cavalo, decorado com uma fita da mesma cor das roupas.
Estava parecendo uma boneca. Ela andava por toda loja, mostrando cada
detalhe à sua amiguinha Gabi, ambas acompanhadas por Joe, que estava
elegante com uma gravata borboleta – ideias da Jojo, que também estava
presente. A partir do dia seguinte, ele substituiria aquele traje formal pelo seu
crachá de vendedor – Luíza havia mesmo providenciado um para ele, com o
cargo de “Cãosultor de vendas”. Beatriz e Carla trabalhariam ali com a gente.
Sara também estava presente na festa, acompanhada pelo seu novo
namorado, um tal de Jonas, que parecia ser um cara legal.
Já Luíza, estava...
Porra, que palavras eu poderia usar para descrever aquela mulher, meu
Deus? Havia escolhido o verde para compor o vestido incrivelmente elegante
e sexy que usava. Aquela era a cor da logomarca do Ateliê Sofia, cujo
símbolo, como não poderia deixar de ser para combinar com a homenageada,
trazia o desenho de uma árvore. Eu não via a hora de aquele dia chegar ao
fim para eu poder tirar aquele vestido. Logicamente, isso não aconteceria de
forma tão simples assim, já que teríamos que esperar uma certa garotinha
dormir.
E ela não dormiria tão cedo assim, porque... bem, eu tinha uma pequena
surpresa para as duas naquela noite.
Depois da inauguração, eu as levei para a minha casa, onde elas
passariam o final de semana. O dia seguinte seria o aniversário de sete anos
de Sofia e um grupo de coleguinhas dela iria também para lá, passar o dia em
uma festinha na piscina.
Aquela, aliás, era a minha nova definição para ‘reuniões com piscina e
churrasco’. Agora eram basicamente eventos familiares, ou cercado por
crianças. Ao final, eu ainda costumava encerrar a noite ao lado de uma
mulher, mas agora era sempre a mesma. Aquela com quem eu queria acordar
para sempre.
Chegando em casa, ficamos algum tempo conversando na beira da
piscina, à noite. Fazia calor, e aquele era um lugar onde gostávamos de ficar.
Só nós três – ou quatro, contando com Joe. Heitor optou por ficar com a
esposa na antiga casa dela, e nesses dias Joana estava ficando lá com eles,
com a desculpa de ajudá-los na casa. Mas a grande verdade é que Heitor
morria de saudades daquela mulher que havia sido muito mais presente na
nossa vida que a nossa mãe. Ele até mesmo queria levá-la com ele para os
Estados Unidos. Mas era óbvio que eu não teria deixado. Agora, com certeza,
ela própria é que não iria querer sair do Brasil, tendo em vista que já tinha por
Sofia o amor de uma avó.
E o clima ali entre nós era simplesmente maravilhoso. A sensação de
estar em família era tão acolhedora, que eu tinha vontade de não as deixar
saírem daquela casa nunca mais.
Esse, aliás, era um plano que eu pretendia em breve colocar em ação.
— Podia ter festa todo dia lá na loja, né? — Sofia comentou, em um
momento em que conversávamos justamente sobre o sucesso da inauguração.
— A vida não é só festa, Sofia! — Luíza chamou a sua atenção. — O
propósito de uma loja é vender, lembra?
— Mas você vendeu muito hoje, mamãe!
— Isso é verdade — concordei. E um lindo sorriso surgiu no rosto da
minha namorada.
— É, eu realmente não esperava que fosse tão bom logo na inauguração.
Por sorte, passei esses últimos meses empenhada em criar muitas peças e
tínhamos uma boa quantidade e variedade. Mas se continuar nesse ritmo,
acho que teremos que contratar mais funcionários para me ajudar.
— Contrataremos, se for preciso. Tudo pelo sucesso do Ateliê.
— Não estou certa se o seu conceito de sucesso é em alguma coisa
parecido com o meu. Se o parâmetro for o lucro das lojas Lizano, não vai
chegar nem aos pés. Você sabe disso, não é?
— Você está de brincadeira? Se continuarmos nesse ritmo de encomenda,
em muito pouco tempo recuperaremos todo o dinheiro investido. Até o
empresário mais mercenário do mundo é capaz de ver isso.
Ela se inclinou para frente, aproximando o rosto dela mais do meu.
— Você não é o empresário mais mercenário do mundo.
— Ah... não sou?
— Não. Esse é o seu irmão.
Tive que rir do comentário. Embora ela tivesse perdoado Heitor por
aquelas malditas mensagens e os dois até se dessem bem atualmente, ela
nutria ainda uma leve implicância com a forma com que ele cuidou dos
negócios da Lizano antes de eu assumir como CEO.
Aproveitei a proximidade para dar um selinho em seus lábios, o que fez
com que Sofia levasse as mãos ao rosto, rindo. Luíza apenas sorriu de forma
provocadora, e eu compreendia o recado. Mais tarde iríamos terminar aquilo.
E eu não via a hora.
Aparentemente, ela também, porque se levantou, anunciando:
— Acho que é hora de irmos dormir.
— Ah, mamãe... tá cedo... — Sofia reclamou.
— Nada disso, mocinha. Amanhã precisamos levantar cedo para
recebermos o bufê da sua festa, lembra?
— Sua mãe tem razão — concordei, embora não quisesse que Sofia fosse
dormir naquele momento. Eu ainda tinha algo para ela e para Luíza. — Mas
antes de entrarmos, quero adiantar um dos presentes de aniversário da minha
pequena super-heroína. Deixei escondido atrás do balanço. Por que não vai
ver o que é, Sofia?
Ela deu um pulo, empolgada, e correu até o local que eu indiquei. Tinha
colocado um balanço para ela na área da piscina, suspenso sobre uma grande
árvore que tinha ali. Era um dos lugares preferidos dela na minha casa. Ela
encontrou uma enorme caixa escondida atrás do tronco. Tinha praticamente
metade do tamanho dela, mas era bem leve, então ela conseguiu carregar.
Enquanto Sofia voltava até nós trazendo a caixa, Luíza comentou.
— “Um dos” presentes? Você a mima demais, Henrique. — Luíza
comentou, voltando a se sentar na cadeira espreguiçadeira ao lado da minha.
— Minha garotinha merece o mundo. Minhas duas garotas merecem,
aliás.
Ela tentou, sem sucesso, conter um meio-sorriso e me olhou novamente
com aqueles olhos de quem prometia que teríamos uma noite e tanto. E eu
não via a hora.
— E você pode me contar o que é? — ela disfarçou com uma pergunta
relacionada ao embrulho que Sofia trazia.
— Não. Porque não é um presente apenas para ela, mas para vocês duas.
— Para mim também? O que você aprontou, senhor Henrique?
— Aguarde para ver.
— Para ver o quê? — Sofia parava diante de nós nesse momento,
colocando a enorme caixa no chão. Estava embalada em um papel cor-de-
rosa, com um grande laço da mesma cor.
— Estava contando para a sua mãe que esse não é um presente só para
você. É para as duas.
— É um novo cachorro? — Sofia saltitou. Joe latiu, parecendo entender a
pergunta.
— Não, não é um cachorro.
— Um gatinho, então? — Mais um salto e mais um latido de Joe.
— Não. Não é nenhum bichinho de estimação. Fique tranquilo, Joe, você
continuará sendo o único por algum tempo.
— Então, o que é, tio Henrique?
— Abra e veja.
Ajeitei a caixa de forma estratégica, bem no meio entre nós e Sofia, com
um dos lados específicos virados para ela. Luíza fez menção de se levantar
para ajudá-la, mas eu a segurei. Estávamos em cadeiras diferentes, embora
uma ao lado da outra, mas fui para a dela, sentando-me ao seu lado e a
abraçando à minha frente. Uma eternidade pareceu passar em expectativa
enquanto Sofia puxava a ponta do laço, soltando-o. Logo que o fez, a tampa
da caixa se abriu e uma série de balões vermelhos, em formato de coração,
subiu, parando pouco acima da abertura da caixa por estarem presos ao fundo
desta por fitas. Eu me levantei e Luíza fez o mesmo, assim conseguindo ver o
rosto de Sofia. Ela percorria os olhos pelos balões e movimentava os lábios,
parecendo ler algo silenciosamente. Eu não podia imaginar que a reação dela
fosse aquela, mas um nó de emoção surgiu em minha garganta quando vi os
olhos dela ficando marejados. Ela passou as costas das mãos pelo rosto,
secando as lágrimas, e pareceu tentar dizer alguma coisa, mas não conseguiu.
Preocupada com aquilo, Luíza me soltou e deu a volta pela caixa, indo até
a filha. Então parou quando seus olhos bateram nos dizeres do balão. Fui até
elas, também olhando o que estava escrito ali, sendo uma palavra em cada um
dos corações.

Sofia, aceita ser minha filha?

Não dei tempo para que nenhuma das duas dissesse qualquer coisa e me
ajoelhei diante de Luíza, tirando do bolso a caixinha que pareia queimar ali
dentro o dia inteiro, ansioso por aquele momento. Lágrimas também caíram
pelo rosto de Luíza quando abri a caixinha e comecei a falar:
— Nós começamos de uma forma completamente errada, porque eu era
um grande idiota. Mas, quando eu ainda estava mergulhado na mentira, você
me fez querer ser um homem melhor. Você me fez sentir felicidade em coisas
simples, me fez entender a importância de olhar as pessoas ao meu redor, me
fez querer ter uma família. Você me deu uma família, e eu seria o homem
mais feliz desse mundo se essa família também fosse minha de forma oficial.
E é por isso que eu tenho uma pergunta para você e duas para a Sofia. A
primeira eu já fiz, através dos balões. E a segunda é... — Olhei para Sofia,
que havia se aproximado de forma tímida. — Você me concede a mão da sua
mãe em casamento?
Então, ela teve a reação mais inusitada. Abriu a boca e desabou no choro,
jogando-se sobre mim e me abraçando. Acolhi-a em meus braços,
preocupado.
— Querida, você está bem? Está sentindo alguma coisa, Sofia?
— Sim! — ela praticamente gritou, me deixando ainda mais nervoso. —
Sim, sim!
— O que você está sentindo? Luíza, você trouxe um termômetro? Eu não
sei se tenho um aqui em casa. Melhor a levarmos para um hospital, não é?
Quando levantei o rosto para olhar para Luíza, no entanto, ela também
estava chorando, mas, em meio às lágrimas, havia um sorriso.
— Acho que essa foi a resposta dela, Henrique... — Luíza conseguiu
falar, com a voz entrecortada por soluços.
Sofia se afastou um pouco e me olhou, com seu rostinho todo molhado
pelas lágrimas.
— Sim, eu concido, tio. Digo... papai. Vou poder sempre te chamar
assim?
Soltei o ar dos pulmões, em um misto de alívio por ela estar bem, com
felicidade por aquela resposta. Por aquela palavra tão doce, dita pela menina
mais doce do mundo. Era como se meu peito fosse explodir. Minha visão
ficou turva, provavelmente porque já havia lágrimas se avolumando ali
também.
Deixei de lado a correção por ela ter errado na conjugação do verbo
“conceder”. Tudo o que me importava era o seu “sim”, e responder também à
sua pergunta.
— Serei o homem mais feliz e realizado desse mundo todas as vezes em
que você me chamar assim, filha.
Ela voltou a me abraçar. Luíza também se ajoelhou à minha frente e
abraçou nós dois. Ficamos assim por algum tempo. Dentro daquele abraço
coletivo, era como se existisse a proteção para todo e qualquer mal. Era como
se o restante do mundo lá fora não tivesse qualquer importância. Todo aquele
pequeno universo criado por nós me bastava.
Até que Sofia se afastou para voltar a enxugar o rosto e Luíza aproveitou
para fazer o mesmo, passando as mãos também pelo rosto da filha.
Da nossa filha.
Bem... na verdade, eu ainda precisava de uma das respostas.
— Falta você me responder, Lu... — falei, mostrando a caixinha de anel
que eu ainda segurava.
Ela ergueu uma sobrancelha, divertida, e soltou outro questionamento.
— Ei, Joe, o que você acha disso?
O mencionado se aproximou, olhando fixamente para mim. Pisquei,
confuso, e Sofia então explicou:
— Você pediu só pra mim a mão da mamãe. Tem que pedir pra ele
também.
Que diabos... era só o que faltava. Nós dois andávamos até amigos nos
últimos meses, mas... sei lá se aquele vira-lata iria voltar a querer me morder.
— Então, Joe... Nós somos amigos agora, não é? Lembra que eu sempre
trago petiscos para você. Então... Você me concede a mão da sua humana em
casamento?
Ele continuou a me olhar daquela forma em que parecia não apenas ler,
mas também analisar a minha mente. Então, ele aproximou o focinho do meu
rosto e me mostrou os dentes. Eu juro que cheguei a fechar os olhos,
esperando por uma mordida. Mas o que veio foi uma lambida por toda a
minha cara.
— Arg, Joe! — reclamei, passando as mãos pela cara lambida. Luíza e
Sofia riram.
— Acho que isso foi um sim — minha pequena deduziu.
E Luíza concordou.
— Bem... se Sofia e Joe autorizaram, você também tem o meu sim.
Aquilo era tudo o que eu queria ouvir.
Segurei o rosto dela com ambas as mãos e me aproximei, beijando-a nos
lábios. Sofia se levantou, indo brincar com os balões, e Joe a seguiu. Quando
afastei meus lábios dos de Luíza, nós encostamos nossas testas e fechamos
nossos olhos, sentindo forte o amor que nos cercava.
E, apesar de eu ter prometido a mim mesmo que jamais voltaria a fazer
apostas, eu poderia apostar qualquer coisa que eu era o sujeito mais feliz de
todo o mundo.
Epílogo
“Eu irei te amar
É a melhor coisa que eu vou fazer
É uma promessa que eu estou fazendo com você
O que quer que o seu coração decida, eu vou escolher
Para sempre eu sou sua, para sempre eu sou”
(I Get to Love You - Ruelle)

Um ano depois...

Olhar-me no espelho e me ver usando aquele vestido de noiva me fazia


relembrar meus sonhos de menina, deixados para trás. Em certo ponto, a vida
havia me levado a acreditar que eu não poderia realizar todos os meus
sonhos, que deveria priorizar alguns em decorrência de outros... que não era
possível ter tudo.
E, agora, lá estava eu, realizando o sonho que eu tinha desde... sei lá... uns
doze ou treze anos de idade. Queria que meu pai estivesse ali para me levar
até o altar. Aquele desejo não seria possível. Mas ele estaria comigo, no meu
coração. E eu estava certa de que, em algum lugar, ele estava bem orgulhoso
de mim.
— Mamãe! — a voz de Sofia chamou a minha atenção e eu me virei,
ficando de costas para o espelho e de frente para a porta que se abria. Minha
filha e minha mãe entravam juntas, ambas parando para me olharem melhor.
— Você parece uma princesa. Mas não uma princesa boboca, uma bem legal.
Abri os braços para que ela viesse ao meu encontro me abraçar. Ela usava
um vestido num tom de areia muito parecido com o meu. Seria minha dama
de honra.
— E você é a princesa e a super heroína da minha vida — declarei,
encostando minha testa na dela.
Então, recebi o abraço da minha mãe. Ela é que me levaria até o altar.
Entraríamos nós três juntas, três gerações de mulheres da mesma família.
Aquilo, para mim, seria perfeito. Muito mais significativo do que eu poderia
sonhar quando pensava a respeito de meu próprio casamento quando era
apenas uma menina.
E já estava na hora.
Saí da casa onde eu me arrumava, localizada na fazenda da família de
Henrique. Decidimos por uma cerimônia simples, apenas para os mais
próximos. O local escolhido não poderia ser mais perfeito, em meio à
natureza. O altar foi montado bem à sombra de uma enorme árvore, com a
aprovação de Sofia. O cheiro das flores do meu buquê se misturava ao de
toda aquela vegetação ao nosso redor. Um cheiro de vida, de esperança... de
amor.
No caminho até o altar, pouco mais de quarenta pessoas estavam ali para
presenciarem nossa união. Lá na frente, diante do cerimonialista, estavam
nossos padrinhos – Sara e Jonas os meus, Heitor e Bruna os de Henrique, e
nosso mascote, sentado de forma comportada ao lado de seu “pai humano”.
Joe estava bem elegante com uma gravata preta, combinando com a de
Henrique.
E, por falar nele... UAU. Eu já tinha visto várias versões do meu noivo.
De vendedor de loja, playboy no barzinho com amigos, CEO elegante... e até
mesmo de unhas pintadas e maquiagem borrada feitos pela Sofia em suas
brincadeiras. Mas nada chegava aos pés de sua versão de smoking. Era
simplesmente de perder o fôlego.
E eu ia adorar tirar cada peça daquele traje chique mais tarde, para
saboreá-lo em sua versão amante. Ele sem roupas também era uma versão
perfeita.
Trocamos nossos votos diante da presença de nossas famílias e amigos.
Quando o cerimonialista nos declarou casados, a boca de Henrique se
apossou da minha em um beijo apaixonado.
Enfim, casados.
Enfim, tornávamos oficial aquilo que nossos corações já sabiam: que
éramos uma família.

FIM

Você também pode gostar