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O peso morto da modernidade no conto O afogado mais bonito do mundo, de

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SOU ANTROPÓFAGO. DEVORO livros. Quem me ensinou foi Murilo Mendes: livros são feitos com a carne e o sangue dos que os escreveram. Os hábitos de
antropófago determinam a maneira como escolho livros. Só leio livros escritos com sangue. Depois que os devoro, deixam de pertencer ao autor. São meus
porque circulam na minha carne e no meu sangue.

É o caso do conto “O Afogado Mais Bonito do Mundo”, de Gabriel García Márquez. Ele escreveu. Eu li e devorei. Agora é meu. Eu o reconto.

É sobre uma vila de pescadores perdida em nenhum lugar, o enfado misturado com o ar, cada novo dia já nascendo velho, as mesmas palavras ocas, os mesmos
gestos vazios, os mesmos corpos opacos, a excitação do amor sendo algo de que ninguém mais se lembrava…

Aconteceu que, num dia como todos os outros, um menino viu uma forma estranha flutuando longe no mar. E ele gritou. Todos correram. Num lugar como aquele
até uma forma estranha é motivo de festa. E ali ficaram na praia, olhando, esperando. Até que o mar, sem pressa, trouxe a coisa e a colocou na areia, para o
desapontamento de todos: era um homem morto.

Todos os homens mortos são parecidos porque há apenas uma coisa a se fazer com eles: enterrar. E, naquela vila, o costume era que as mulheres preparassem os
mortos para o sepultamento. Assim, carregaram o cadáver para uma casa, as mulheres dentro, os homens fora. E o silêncio era grande enquanto o limpavam das
algas e liquens, mortalhas verdes do mar.

Mas, repentinamente, uma voz quebrou o silêncio. Uma mulher balbuciou: “Se ele tivesse vivido entre nós, ele teria de ter curvado a cabeça sempre ao entrar em
nossas casas. Ele é muito alto…”.

Todas as mulheres, sérias e silenciosas, fizeram sim com a cabeça.

De novo o silêncio foi profundo, até que uma outra voz foi ouvida. Outra mulher… “Fico pensando em como teria sido a sua voz… Como o sussurro da brisa? Como
o trovão das ondas? Será que ele conhecia aquela palavra secreta que, quando pronunciada, faz com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque no cabelo?” E
elas sorriram e olharam umas para as outras.

De novo o silêncio. E, de novo, a voz de outra mulher… “Essas mãos… Como são grandes! Que será que fizeram? Brincaram com crianças? Navegaram mares?
Travaram batalhas? Construíram casas? Essas mãos: será que elas sabiam deslizar sobre o rosto de uma mulher, será que elas sabiam abraçar e acariciar o seu
corpo?”

Aí todas elas riram que riram, suas faces vermelhas, e se surpreenderam ao perceber que o enterro estava se transformando numa ressurreição: um movimento
nas suas carnes, sonhos esquecidos, que pensavam mortos, retornavam, cinzas virando fogo, desejos proibidos aparecendo na superfície de sua pele, os corpos
vivos de novo e os rostos opacos brilhando com a luz da alegria.

Os maridos, de fora, observavam o que estava acontecendo e ficaram com ciúmes do afogado, ao perceberem que um morto tinha um poder que eles mesmos
não tinham mais. E pensaram nos sonhos que nunca haviam tido, nos poemas que nunca haviam escrito, nos mares que nunca tinham navegado, nas mulheres
que nunca haviam desejado.

A história termina dizendo que finalmente enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma.

Esse conto narra a história de um povoado no Caribe que, um dia, recebe do mar um cadáver. Crianças do povoado que
brincavam na praia são as primeiras pessoas que veem o corpo. Fascinadas com o presente do mar, passam o dia
brincando de enterrá-lo e desenterrá-lo, até que algum adulto descobre e chama a atenção dos demais. O afogado é,
então, levado para as mulheres do povoado, as quais ficam responsáveis pela preparação do corpo para o funeral. Os
homens saem pelos vilarejos vizinhos, a fim de verificar se algum homem encontrava-se desaparecido. Como não se
consegue qualquer informação sobre a identidade do morto, decidem realizar o funeral no próprio povoado. O cadáver
torna-se "deles". Então, aos poucos, acontece uma transformação nas pessoas: à medida que limpam e arrumam aquele
corpo de proporções descomunais, as mulheres imaginam quem foi aquele homem, atribuem a ele o nome de Esteban,
comparam-no aos seus maridos, "dão vida" àquele que já não era mais um estranho. Posteriormente, também os homens
(embora, em princípio, tenham se zangado com todas as considerações e lamentos dedicados ao morto,) reconhecem as
qualidades atribuídas a Esteban. Assim, o momento do funeral torna-se realmente triste para todos, que lamentam a
morte de Esteban, cuja memória será honrada para sempre naquele lugar, que nunca mais será o mesmo, depois de ter
tido alguém como Esteban, até as casas serão modificadas: as portas serão mais largas, os tetos serão mais altos e os
pisos serão mais resistentes, a fim de que a lembrança de Esteban possa se locomover à vontade. E, principalmente, as
pessoas não serão mais as mesmas, pois, agora, são habitantes do "povoado de Esteban".

O que torna esse conto tão fascinante é a forma como, paulatinamente, um cadáver trazido pelo mar vai sendo
transformado no melhor e mais honrado dos homens, digno representante do povoado (ao qual sequer pertenceu em
vida), querido por todos. Ele representa todos os sonhos dos habitantes do local. Por ser ninguém, pode tornar-se tudo o
que os moradores queriam ser. Como ninguém o conheceu, ninguém pode apontar defeitos nele; como ninguém conviveu
com ele, ninguém pode não gostar dele; como ninguém conversou com ele, ninguém pode ter discutido ou se zangado
com aquele indivíduo. Logo ele se torna superior a todos "os homens reais" :

"Pensavam [as mulheres] que [Esteban] teria tido tanta autoridade que poderia tirar os peixes do mar só os chamando por
seus nomes, e teria posto tanto empenho no trabalho que faria brotar mananciais entre as pedras mais áridas e semear
flores nas escarpas. Compararam-no em segredo com seus homens, pensando que não seriam capazes de fazer em toda
uma vida o que aquele era capaz de fazer numa noite, e acabaram por repudiá-los no fundo dos seus corações como os
seres mais fracos e mesquinhos da terra".

Assim, percebe-se que "os homens reais" passam a ser considerados inferiores, pois destes se conhecem os defeitos,
enquanto o morto, ou melhor, Esteban é idealizado. Não há como competir com a idealização: por não ter convivido com
ninguém, as mulheres poderiam imaginá-lo perfeito, enquanto os homens "concretos" cometem erros, falham, têm
defeitos...

Assim, quando "Esteban parte", deixa uma sensação de perda e nostalgia. Afinal, nunca mais haverá ali alguém como
Esteban, ninguém será tão bom, tão humano, tão perfeito. Mas restará a todos o orgulho de ter tido entre eles aquele
verdadeiro herói. O afogado desconhecido dá identidade àquelas pessoas, elas são do "povoado de Esteban", "onde o sol
brilha tanto que os girassóis não sabem para onde girar". Aliás, não só identidade, Esteban, apesar de morto, é
responsável pela criação de vínculos entre as pessoas:

"Na última hora, doeu-lhes devolvê-lo órfão às águas, e lhe deram um pai e uma mãe dentre os melhores, e outros se
fizeram seus irmãos, tios e primos, de tal forma que através dele todos os habitantes do povoado acabaram por ser
parentes entre si".
Toda vez que leio esse conto, pergunto-me quantos "Estebans" não são criados na vida de cada um de nós. Quantas vezes
as pessoas que estão ao nosso lado são comparadas com aquelas que conhecemos superficialmente, com quem
convivemos esporadicamente (ou até sequer conhecemos) e imaginamos que aqueles que estão conosco erram demais?...
Quantas vezes não imaginamos que um estranho pode ter qualidades superiores àquelas dos que conhecemos a fundo?
Quantas vezes não imaginamos que aquela pessoa que convive tão pouco conosco foi capaz de ser mais compreensiva ou
mais solidária ou mais divertida que aquelas pessoas com as quais convivemos intensamente?

E, assim, muitas vezes, passamos a desejar que as pessoas ao nosso lado sejam mais parecidas com aquelas que
conhecemos pouco e não nos damos conta de que essas pessoas que conhecemos pouco são tão perfeitas justamente por
isso: porque as conhecemos pouco. Deixamos, então, de dar valor aos relacionamentos reais e nos entragamos à fantasia,
como fizeram os habitantes do povoado caribenho, e, dessa forma, estabelecemos padrões inatingíveis que só podem
resultar em frustração.
se atrevesse a sussurrar no futuro já morreu o bobo grande, que pena, já morreu o bobo bonito, porque eles iam pintar as
fachadas de

Fundamentos da Análise do Discurso Eduardo de Araújo Carneiro e Egina Carli de Araújo Rodrigues Carneiro - Publicado em 11.07.07

O Discurso e o Interdiscurso
O discurso é de natureza tridimensional. Sua produção acontece na história, por meio da linguagem, que é uma das instâncias por onde a
ideologia se materializa. Por isso, os estudos lingüísticos tradicionais não conseguem abarcar a inteireza de sua complexidade.

Como o discurso encontra-se na exterioridade, no seio da vida social, o analista/estudioso necessita romper as estruturas lingüísticas para
chegar a ele. É preciso sair do especificamente lingüístico, dirigir-se a outros espaços, para procurar descobrir, descortinar, o que está
entre a língua e a fala (FERNANDES, 2005, p. 24).

Para a Análise do Discurso, o discurso é uma prática, uma ação do sujeito sobre o mundo. Por isso, sua aparição deve ser contextualizada
como um acontecimento, pois funda uma interpretação e constrói uma vontade de verdade. Quando pronunciamos um discurso agimos
sobre o mundo, marcamos uma posição - ora selecionando sentidos, ora excluindo-os no processo interlocutório.

Para Maingueneau, o discurso é “uma dispersão de textos cujo modo de inscrição histórica permite definir como um espaço de
regularidades enunciativas” (2005, p. 15). Já Foucault diz “Chamaremos discurso um conjunto de enunciados na medida em que se apóia
na mesma formação discursiva... ele é constituído de um número limitado de enunciados para os quais podemos definir um conjunto de
condições de existência” (2005).

Os sujeitos falam de um lugar social


Este lugar no discurso é governado por regras anônimas que definem o que pode e deve ser dito. Somente nesse lugar constituinte o
discurso vai ter um dado efeito de sentido. Se for pronunciado em outra situação que remeta a outras condições de produção, seu sentido,
conseqüentemente, será outro.

Na medida em que retiramos de um discurso fragmentos e inserimos em outro discurso, fazemos uma transposição de suas condições de
produção. Mudadas as condições de produção, a significação desses fragmentos ganha nova configuração semântica (BRANDÃO, 1993).

A unidade do discurso é um efeito de sentido, como Orlandi explica, “a palavra discurso, etimologicamente, tem em si a idéia de curso, de
percurso, de correr por, de movimento” (1999, p. 15). Os discursos se movem em direção a outros. Nunca está só, sempre está
atravessado por vozes que o antecederam e que mantêm com ele constante duelo, ora o legitimando, ora o confrontando. A formação de
um discurso está baseada nesse princípio constitutivo – o dialogismo. Os discursos vêm ao mundo povoado por outros discursos, com os
quais dialogam. Esses discursos podem estar dispersos pelo tempo e pelo espaço, mas se unem por que são atravessadas por uma mesma
regra de aparição: uma mesma escolha temática, mesmos conceitos, objetos, modalidades ou um acontecimento. Por isso que o discurso é
uma unidade na dispersão.

O discurso é o caminho de uma contradição a outra: se dá lugar às que vemos, é que obedecem à que oculta. Analisar o discurso é fazer
com que desapareçam e reapareçam as contradições, é mostrar o jogo que nele elas desempenham; é manifestar como ele pode exprimi-
las, dar-lhes corpo, ou emprestar-lhes uma fugidia aparência (FOUCUALT, 2005, p. 171).

O discurso político pode ser um campo onde vários discursos semelhantes se alojam. Esses discursos se assemelham pelo objeto de suas
análises, embora possam ter divergências quanto à interpretação do mesmo. Dentro desse campo, podemos fazer recortes menores, a fim
de abstrairmos maiores semelhanças entre os discursos, como por exemplo, dentro do discurso político, podemos fazer uma opção pelo
discurso anarquista.

Mas toda identidade do discurso são construções feitas através do próprio discurso, por isso, permeável e passível de movências de
sentido. Quando um discurso é proferido, ele já nasce filiado a uma rede tecida por outros discursos com semelhantes escolhas e
exclusões. A metáfora da rede é pertinente para explicar o discurso:

“Uma rede, e pensemos numa rede mais simples, como a de pesca, é composta de fios, de nós e de furos. Os fios que se encontram e se
sustentam nos nós são tão relevantes para o processo de fazer sentido, como os furos, por onde a falta, a falha se deixam escolar. Se não
houvesse furos, estaríamos confrontados com a completude do dizer, não havendo espaço para novos e outros sentidos se formarem.

A rede, como um sistema, é um todo organizado, mas não fechado, por que tem os furos, e não estável, por que os sentidos podem passar
e chegar por essas brechas a cada momento. Diríamos que o discurso seria uma rede e como tal representaria o todo; só que esse todo
comporta em si o não-todo, esse sistema abre lugar para o não sistêmico, o não representável” (FERREIRA. In INDURSKY, 2005, p. 20).
É por isso que o sentido do discurso não é dado a priori, pois a unidade é construída pela interação verbal, que é histórica e que mantém
relação com uma ideologia. Somente nesse espaço o discurso consegue esconder sua polissemia.

Não se trata, aqui, de neutralizar o discurso, transformá-lo em signo de outra coisa e atravessar-lhe a espessura para encontrar o que
permanece silenciosamente aquém dele, e sim, pelo contrário, mantê-lo em sua consistência, fazê-lo surgir na complexidade que lhe é
própria (Foucault, 2005).

A linguagem e o Sentido
Na ótica da Análise do Discurso, a linguagem não é um simples instrumento de comunicação ou de transmissão de informação. Ela é mais
do que isso, pois também serve para não comunicar. A linguagem é o lugar de conflitos e confrontos, pois ela só pode ser apanhada no
processo de interação social. Não há nela um repouso confortante do sentido estabilizado.

O signo é uma arena privilegiada da luta de classe. Não se pode dizer o que quer quando se ocupa um determinado lugar social, pois este
exige o emprego de certas representações e a exclusão de outras. Gregolin diz, “se temos hoje um sentido para dada coisa é porque houve
um processo que o cimentou e organizou a exclusão do sem-sentido” (2001, p. 10).

O sentido está inscrito na Ordem do Discurso. Basta descobrir as regras de sua formação para tornar evidente a polifonia que fez dela um
nó de significância. Mas a polissemia afronta os sentidos oficiais, àquele que é desejado e prestigiado, rasgando a máscara que esconde a
heterogeneidade reinante. Por isso, todo sentido cristalizado deixa entrever um rastro da história do jogo de poder que o instaurou nas
malhas da linguagem.

É por isso que o estudo da linguagem não pode estar apartado das condições sociais que a produziram, pois são essas condições que criam
a evidência do sentido. Foucault (1999) esclarece que a produção do discurso é controlada, selecionada, organizada e distribuída, a fim de
que seus “perigos e poderes” sejam conjurados.

A Análise do Discurso é contra a idéia de imanência do sentido. Não pode haver um núcleo de significância inerente à palavra, pois a
linguagem da qual o signo lingüístico faz parte é polissêmica e heteróclita. O signo não pode estar alienado de outros signos que com ele
interagem. A linguagem está na confluência entre a história e a ideologia.

Essa visão da linguagem como interação social, em que o Outro desempenha papel fundamental na constituição do significado, integra todo
ato de enunciação individual num contexto mais amplo, revelando as relações intrínsecas entre o lingüístico e o social.

O percurso que o indivíduo faz da elaboração mental do conteúdo, a ser expresso à objetivação externa – a enunciação – desse conteúdo, é
orientado socialmente, buscando adaptar-se ao contexto imediato do ato da fala e, sobretudo, a interlocutores concretos (BRANDÃO, 1993,
p. 10).

A Análise do Discurso não toma o sentido em si mesmo, ou seja, em sua imanência. Não se acredita na existência de uma essência da
palavra - um significado primeiro, original, imaculado e fixo capaz de ser localizado no interior do significante. Nesse sentido, podemos
dizer que foi uma grande ilusão de Saussure achar que se poderia encontrar na palavra alguma pureza de sentido.

Como alçapões, os textos capturam e transformam a infinitude dos sentidos em uma momentânea completude.... Inserido na história e na
memória, cada texto nasce de um permanente diálogo com outros textos; por isso, não havendo como encontrar a palavra fundadora, a
origem, a fonte, os sujeitos só podem enxergar os sentidos no seu pleno vôo (GREGOLIN, 2001, 10).

A constituição do sentido é socialmente construída. A aparente monossemia de uma palavra ou enunciado é fruto de um processo de
sedimentação ou cristalização que apaga ou silencia a disputa que houve para dicionarizá-la. “O sentido não existe em si mesmo. Ele é
determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo histórico no qual as palavras são produzidas” (PECHÊUX, apud
BRANDÃO, 1993, p. 62).

A incompletude é constitutiva de qualquer signo - qualquer ato de nomeação é um ato falho, um mero efeito discursivo. O discurso diz
muito mais do que seu enunciador pretendia. “A multiplicidade de sentido é inerente à linguagem” (ORLANDI, 1988, p. 20).

Por isso, o sentido é alvo do exercício do poder, principalmente em sociedades cujos governos são autoritários.

Nos discursos oficiais, o sentido é atravessado por paráfrases, o mesmo é dito de várias formas para garantir que a monossemia se
naturalize.

A Análise do Discurso mostra a relação que existe entre a produção do saber que naturaliza o sentido, com o poder que estabelece as
regras da formação do referido saber. Ou seja, revela toda a trama feita no transcurso da história para que o sentido pudesse ganhar uma
forma monossêmica, um status de natural.

De forma resumida, podemos ver a concepção de sentido para a Análise do Discurso no esquema abaixo:

O sujeito do discurso e a subjetivação


O sujeito da Análise do Discurso não é o cartesiano dos tempos áureos do iluminismo. Descartes (1596-1650) projetou um homem dono de
si, senhor de seu próprio destino, consciente de suas ações e desejos, capaz de conhecer a verdade e alcançar a felicidade através da
razão.

O sujeito da Análise do Discurso não é o sujeito das Ciências Exatas, que se diz capaz de explicar o objeto através de um conhecimento
imparcial. Um sujeito que está no exterior da realidade pesquisada e que observa o fenômeno com a distância suficiente para assumir um
comportamento neutro diante do fato.

O sujeito da Análise do Discurso também não é o da Lingüística Clássica, que o concebe ora como idealizado, ora como mero falante. O
sujeito idealizado baseado na crença de que todos os falantes de uma mesma comunidade falam a mesma língua. O sujeito falante é o
empírico, o individualizado, que “tem a capacidade para aquisição da língua e a utiliza em conformidade com o contexto sociocultural no
qual tem existência” (FERNANDES, 2005, p. 35).

Muito menos é o sujeito da Gramática Normativa que o classifica em simples, composto, indeterminado, oculto e inexiste. O sujeito do
discurso não pode estar reduzido aos elementos gramaticais, pois ele é historicamente determinado.

Na Análise do Discurso, para compreendermos a noção de sujeito, devemos considerar, logo de início, que não se trata de indivíduos
compreendidos como seres que têm uma existência particular no mundo; isto é, sujeito, na perspectiva em discussão, não é um ser
humano individualizado... um sujeito discursivo deve ser considerado sempre como um ser social, apreendido em um espaço coletivo
(FERNANDES, 2005, p. 33).

Para a Análise do Discurso, o sujeito do discurso é histórico, social e descentrado. Descentrado, pois é cindido pela ideologia e pelo
inconsciente. Histórico, por que não está alienado do mundo que o cerca. Social, por que não é o indivíduo, mas àquele apreendido num
espaço coletivo. “O sujeito de linguagem é descentrado, pois é afetado pelo real da língua e também pelo real da história, não tendo o
controle sobre o modo como elas o afetam” (ORLANDI, 2005, p. 20).

A Análise do Discurso defende uma teoria não-subjetiva do sujeito. Como explica Fernandes, “a constituição do sujeito discursivo é
marcada por uma heterogeneidade decorrente de sua interação social em diferentes segmentos da sociedade” (2005, p. 41). Isso implica
três coisas: o sujeito não ocupa uma posição central na formação do discurso; ele não é fonte do que diz; muito menos tem uma
identidade fixa e estável.

Na perspectiva da Análise do Discurso, a noção de sujeito deixa de ser uma noção idealista, imanente; o sujeito da linguagem não é o
sujeito em si, mas tal como existe socialmente, interpelado pela ideologia. Dessa forma, o sujeito não é a origem, a fonte absoluta do
sentido, por que na sua fala outras falas se dizem. (BRANDÃO, 1993, p. 92).

O que define de fato o sujeito é o lugar de onde fala. Foucault diz que “não importa quem fala, mas o que ele diz não é dito de qualquer
lugar” (2005, p. 139). Esse lugar é um espaço de representação social (ex: médico, pai, professor, motorista etc.), que é uma unidade
apenas abstratamente, pois, na prática, é atravessada pela dispersão.

A unidade é uma criação ideologia, é uma coação da ordem do discurso. Por isso, podemos dizer que o sujeito é um acontecimento
simbólico. “Se não sofrer os efeitos do simbólico, ou seja, se ele não se submeter à língua e à história, ele não se constitui, ele não fala, ele
não produz sentidos” (ORLANDI, 2005, p. 49).

O dolo da unidade pode ser desmascarado pela polifonia inerente a todo sujeito. O sujeito é constituído por vários “eus”. Não há centro em
seu ser, pois o seu interior está saturado por várias vozes, de modo que, quando fala, o seu dizer não mais lhe pertence: “Ele é polifônico,
uma vez que é portador de várias vozes enunciativas. Ele é dividido, pois carrega consigo vários tipos de saberes, dos quais uns são
conscientes, outros são não-conscientes, outros ainda inconscientes” (CHARAUDEAU, 2004, p. 458).

O sujeito pode ocupar várias posições no texto. Um único indivíduo pode assumir o papel de diferentes sujeitos. O sujeito é caracterizado
pela incompletude. Mas essa marca vai se apagando de acordo com a função enunciativa que o sujeito assume. Hierarquicamente esse
apagamento acontece da seguinte maneira: locutor enunciador autor.

O sujeito é um eu pluralizado, pois se constitui na e pela interação verbal. “É múltiplo porque atravessa e é atravessado por vários
discursos, por que não se relaciona mecanicamente com a ordem social da qual faz parte, por que representa vários papéis, etc.”
(ORLANDI, 1988b, p. 11).

Não existe o sujeito sem o discurso, pois é este quem cria um espaço representacional para aquele.

Talvez a grande contradição do sujeito seja o fato dele produzir o discurso e ao mesmo tempo ser produzido por ele. “O sujeito tem acesso
a si a partir de saberes que são sustentados por técnicas” (SARGENTINI, 2004, p. 93). O sujeito é inventado pelo discurso através do
processo de subjetivação. E Miriani nos alerta “... falar de subjetividade é falar de algo que é puro movimento, apreensível apenas num só-
depois...” (2006, p. 8).

O sujeito não aparece individualizado naturalmente. É preciso que o poder o disciplinarize e molde o seu comportamento conforme a ordem
desejada. O sujeito se relaciona consigo mesmo através do discurso, discurso esse que não lhe pertence completamente, mas que é
devassado pelo outro.

É o olhar de um outro que permite a constituição de uma imagem unitária do eu. O eu só tem sentido quando o outro lhe atravessa. Não
existe subjetividade sem a intersubjetividade. Não existe uma alteridade que esteja fora do eu, os dois não estão separados por uma
fronteira bem definida, pelo contrário, ambos são um mosaico de vozes, que formam um saber sobre si e sobre o outro recalcado pelos
jogos de poder.

O discurso não é fruto de um sujeito que pensa e sabe o que quer. É o discurso que determina o que o sujeito deve falar, é ele que estipula
as modalidades enunciativas. Logo, o sujeito não preexiste ao discurso, ele é uma construção no discurso, sendo este um feixe de relações
que irá determinar o que dizer quando e de que modo. (NAVARRO-BARBOSA, in: SARGENTINI, 2004, p. 113).

Somos acostumados a ligar um indivíduo a uma identidade, a nomear para familiarizar, generalizar para domesticar. Sem darmos conta,
somos conseqüência da atuação de poderes múltiplos (família, escola, patronato etc.) que agem sobre nossas vidas para forjar
representações de subjetividades e impor formas de individualidades.

Foi o que Foucault chamou de Técnicas de Si, ou seja, procedimentos que fixam, mantêm e transformam a identidade, em função de
determinados fins.

Mas todo processo de subjetivação é falho, é lacunar, conseqüentemente, abre brechas para resistências. Pois não existem protótipos
humanos biologicamente determinados a serem iguais uns aos outros. A subjetivação é instrumentalizada pela linguagem que, como já
vimos, é opaca, não consegue nomear nada, sem que haja falha.

A identidade do sujeito é um efeito do poder. “A identidade, assim como o sujeito, não é fixa, ela está sempre em produção, encontra-se
em um processo ininterrupto de construção e é caracterizada por mutações” (FERNANDES, 2005, p. 43).

Impossível é moldar uma forma que defina o sujeito sem essa relação que trava com o outro. Fernandes afirma que “compreender o sujeito
discursivo requer compreender quais são as vozes sociais que se fazem presente em sua voz” (2005, p. 35).

O poder é quem administra os saberes sobre o indivíduo de modo a traçar-lhes um perfil ideal e condicioná-los a serem passivos
politicamente e ativos economicamente. A formação de um estilo de vida igual para todos os indivíduos de uma comunidade é uma tática
para melhor controlá-los, de modo a fazê-los responder de forma previsível aos comandos emanados do poder. É isso que a Análise do
Discurso chama de processo de subjetivação - a verdade que o poder cria sobre o sujeito para regulá-lo.

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RÉMOND, René. O Século XX: de 1914 aos nossos dias. Trad. Octavio Mendes Cajado. São Paulo: Cultrix, s/d.
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SASSURE, Ferdinand. Curso de Lingüística Geral. São Paulo: Cultrix, 1995.
WEESWOOD, Barbara. História concisa da lingüística. Trad. Marcos Bagno. São Paulo: Parábola editora. 2002.

Especial - Notas introdutórias sobre a análise do discurso


• Parte 1 - Conjuntura Histórica: o pós-guerra
• Parte 2 - Conjuntura intelectual no campo lingüístico: os estruturalismos
• Parte 3 - A fundação da Análise do Discurso
• Parte 4 - Fundamentos da Análise do Discurso

ANÁLISE DO DISCURSO

INTRODUÇÃO
Este resumo foi elaborado de acordo com o livro Análise de Discurso – Princípios e procedimentos, da autora Eni P. Orlandi, o qual divide-
se em três capítulos sendo: I - O Discurso; II - Sujeito, História, Linguagem e III - Dispositivo de Análise.
I. O DISCURSO
A Análise de Discurso de acordo com a autora, não trata da língua, não trata da gramática embora todas essas coisas lhe interessem. Ela
trata do discurso. E a palavra discurso etimologicamente, tem em si a idéia de curso, de percurso, de correr por, de movimento. O discurso
é assim palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando. Na análise de discurso
procura-se compreender a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do trabalho social geral, constitutivo do homem e da
sua história. A Análise de discurso concebe a linguagem como mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social. Essa
mediação que é o discurso torna possível tanto a permanência e a continuidade quanto o deslocamento e a transformação do homem e da
realidade em que ele vive. O trabalho simbólico do discurso está na base da produção da existência humana. Levando em conta o homem
na sua história, considera os processos e as condições de produção de linguagem, pela análise da relação estabelecida pela língua com os
sujeitos que falam e as situações em que se produz o dizer. Tendo em vista esta finalidade, ele articula de modo particular conhecimento
do campo das Ciências Sociais e do domínio da Lingüística. Fundando-se em uma reflexão sobre a história da epistemologia e da filosofia
do conhecimento empírico, essa articulação objetiva a transformação da prática das ciências sociais e também a dos estudos da linguagem.
Nessa confluência, a Análise de Discurso critica a prática das ciências sociais e da Lingüística, refletindo sobre a maneira de como a
linguagem está materializada na ideologia e como essa ideologia se manifesta na língua e que de acordo com M. Pêcheux (1975) “não há
discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia: o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é assim que a língua faz sentido”

UM NOVO TERRENO E ESTUDOS PRELIMINARES


De acordo com Orland, a Análise de Discurso que toma o discurso como seu objeto próprio, tenha seu início nos anos 60 do século XX, o
estudo de que interessa à ela – o da língua funcionando para a produção dos sentidos e que permite analisar unidades além da frase, ou
seja, o texto-já se apresentara de forma não sistemática em diferentes épocas e segundo diferentes perspectivas que são: a semântica
histórica., o texto como estrutura e maneiras de abordagem como a análise de conteúdo.
A Análise de conteúdo tem como objetivo extrair o sentido do texto, já a Análise de Discurso considera que a linguagem não é
transparente. Desse modo ela não procura atravessar o texto para encontrar um sentido do outro lado. Ainda em termos de precursores
outra forma de análise bem sucedida.

FILIAÇÕES TEÓRICAS
Nos anos 60, a Análise de Discurso se constitui no espaço de questões criadas pela relação entre três domínios preliminares que são ao
mesmo tempo uma ruptura com o século XIX: a Lingüística, o Marxismo e a Psicanálise.A Lingüística constitui-se pela afirmação da não
transparência da linguagem: ela tem seu objeto próprio, a língua tem sua ordem própria, a história tem seu real afeto pelo simbólico, o
sujeito da linguagem é descentrado, pois afetado pelo real da língua e também pelo real da história. As noções de sujeito e da linguagem
que estão na base das Ciências Humanas e Sociais no século XIX já não têm atualidade após a contribuição da Lingüística e da Psicanálise.
Por outro lado, a noção da língua como sistema abstrato pode ser a mesma com a contribuição do Materialismo. O Discurso em sua
definição distancia-se do modo como o esquema elementar da comunicação dispõe seus elementos, definindo o que é mensagem, também
não se deve confundir discurso com “fala” na continuidade da dicotomia (língua/fala) proposta por F. de Saussure. O discurso tem sua
regularidade, tem seu funcionamento que é possível apreender se não opomos o social e o histórico, o sistema e a realização, o subjetivo
ao objetivo, o processo ao produto. Um outro recorte teórico feito pela Análise de Discurso é a sistematicidades lingüísticas – que nessa
perspectiva não afastam o semântico como se fosse externo - são as condições materiais de base sobre as quais se desenvolvem os
processos discursivos.

II. SUJEITO, HISTÓRIA, LINGUAGEM.


CONJUNTURA INTELECTUAL DA ANÁLISE DE DISCURSO
A Análise de Discurso visa a compreensão de como um objeto simbólico produz sentidos, como ele está investido de significância
para e por sujeitos. Essa compreensão, por sua vez, implica em explicitar como o texto organiza os gestos de interpretação que relacionam
sujeito e sentido, produzindo assim novas práticas de leitura. Cada material de análise exige que seu analista, de acordo com a questão
que formula, mobilize conceitos que outro analista não mobilizaria, face á outras questões, uma análise não é igual a outra porque mobiliza
conceitos diferentes e isso tem resultados cruciais na descrição dos materiais, entretanto, o dispositivo teórico e o analítico são de
diferentes formas sendo que o que define o dispositivo analítico é a questão posta pelo analista, a natureza do material que analisa e a
finalidade de análise, já quanto ao dispositivo teórico cabe ao analista a interpretação de acordo com as descrições materiais com
determinada prática de leitura. A Análise de Discurso ao permitir explorar de muitas maneiras a relação trabalhada com o simbólico, sem
apagar as diferenças, significando-as teoricamente, no jogo que se estabelece na distinção entre o dispositivo teórico da interpretação e os
dispositivos analíticos que lhe correspondem.

DISPOSITIVO DE INTERPRETAÇÃO
As condições de produção compreendem fundamentalmente os sujeitos e a situação, a memória também faz parte da produção de
discurso. A maneira como a memória “aciona”, faz valer, as condições de produção.
A memória por sua vez, tem suas características, quando pensada em relação ao discurso. E nessa perspectiva, ela é tratada como
interdiscurso, ou seja, memória discursiva. A constituição determina a formulação, pois só podemos dizer (formular) se nos colocamos na
perspectiva do dizível (interdiscurso, memória). O interdiscurso é todo o conjunto de formulações feitas e já esquecidas que determina o
que dizemos, ou seja, para que as palavras tenham sentido é preciso que elas já façam sentido. E isso é efeito do interdiscurso: é preciso
que o que foi dito por um sujeito específico, em um momento particular se apague na memória para que, passando para o
“anonimato”possa fazer sentido. Se tanto o interdiscurso como o intertexto mobiliza o que chamamos relações de sentido, o interdiscurso é
da ordem do saber discursivo, memória afetada pelo esquecimento, ao longo do dizer, enquanto o intertexto restringe-se à relação de um
texto com outros textos. Nessa relação, a intertextual, o esquecimento não é estruturante, como o é para o interdiscurso.
ESQUECIMENTOS
Segundo M. Pêcheus (1975), podemos distinguir duas formas de esquecimento no discurso que são chamados de esquecimento ideológico
e o esquecimento da enunciação.
O esquecimento ideológico é da instância do inconsciente e resulta do modo pelo qual somos afetados pela ideologia. Por esse
esquecimento temos a ilusão de ser a origem do que dizemos quando, na realidade, remontamos sentidos preexistentes. Esse
esquecimento reflete o sonho adâmico: o de estar na inicial absoluta da linguagem, ser o primeiro homem, dizendo as primeiras palavras
que significariam apenas e exatamente o que queremos, o esquecimento da enunciação produz a impressão da realidade do pensamento a
qual é denominada ilusão referencial que faz acreditar que há uma relação direta entre o pensamento, a linguagem, o mundo de tal modo
que pensamos que o que dizemos só pode ser dito com aquelas palavras e não outras.
Quando nascemos os discursos já estão em processo e nós é que estamos nesse processo apenas materializando-os sendo essa uma
determinação necessária para que haja sentidos e sujeitos, por esse motivo é que dizemos que o esquecimento é estruturante. Ele é parte
dos sujeitos e dos sentidos.

PARÁFRASE E POLISSEMIA
Duas forças que trabalham continuamente o dizer de tal modo que todo discurso se faz numa tensão são a paráfrase e a polissemia,
e é num jogo entre essas forças que, entre o mesmo e o diferente, entre o já dito e o a se dizer que os sujeitos se movimentam, fazem
seus percursos, (se) significam. Se o real e a língua não fosse sujeito à falha e o real da história não fosse passível de ruptura não haveria
transformação, não haveria movimento possível, nem dos sujeitos nem dos sentidos. É desse modo que distinguimos na análise de discurso
a criatividade da produtividade. A criação em sua dimensão técnica é produtividade, reiteração de processos já cristalizados. Processos
parafrásicos são aqueles pelos quais em todo dizer há sempre algo que se mantém, isto é, o dizível a memória.

RELAÇÕES DE FORÇA, RELAÇÕES DE SENTIDO, ANTECIPAÇÃO: FORMAÇÕES IMAGINÁRIAS.


As condições de produção que constituem os discursos funcionam de acordo com certos fatores. Um deles é o que chamamos de relações
de sentido onde os sentidos resultam de relações: um discurso aponta para outros que ostentam assim como para dizeres futuros. Todo
discurso é visto como um estado de um processo discursivo mais amplo, contínuo, um dizer tem relação com outros dizeres realizados,
imaginados ou possíveis. Relação de força é o lugar de partida pelo qual o sujeito é constitutivo do que ele diz, se o sujeito fala a partir do
lugar do professor, suas palavras significam do modo diferente do que se falasse do lugar do aluno. O padre fala de um lugar em que suas
palavras têm uma autoridade determinada junto aos fiéis etc. Como nossa sociedade é constituída por relações hierarquizadas são relações
de força, sustentadas no poder desses diferentes lugares, que se fazem valer na comunicação.
Nas relações discursivas são as imagens que constituem as diferentes posições. Isto se faz de tal modo que o que funciona no discurso não
é o operário visto empiricamente, mas o operário enquanto posição discursiva produzida pelas formações imaginárias. O imaginário faz
necessariamente parte do funcionamento da linguagem, é eficaz, não brota do nada: assenta-se no modo como as relações sociais, se
inscrevem na história e são regidas em uma sociedade como a nossa, por relações de poder.

FORMAÇÃO DISCURSIVA
A noção de formação discursiva é básica na Análise de Discurso, pois permite compreender o processo de produção dos sentidos, a sua
relação com a ideologia e também dá ao analista a possibilidade estabelecer regularidades no funcionamento do discurso.
A formação discursiva se define como aquilo que numa formação ideológica dada - ou seja, a partir de uma posição dada – determina o que
pode e o que deve ser dito. O discurso se constitui em seus sentidos porque aquilo que o sujeito diz se inscreve em uma formação
discursiva e não outra para ter um sentido e não outro, a palavra é sempre parte de um discurso e todo discurso se delineia na relação com
outros: dizeres presentes e dizeres que se alojam na memória. As formações discursivas podem ser vista como regionalizações do
interdiscurso, configurações específicas dos discursos em suas relações. O interdiscurso disponibiliza dizeres determinando, pelo já dito
aquilo que constitui uma formação discursiva em relação a outras, é afirmar essa articulação de formação discursivas denominadas pelo
interdiscurso em sua objetividade contraditória.
A metáfora é imprescindível na análise de discurso na qual ela representa basicamente transferência, estabelecendo o modo como as
palavras significam.

IDEOLOGIA E SUJEITO
Um dos pontos fortes da Análise de Discurso é re-significar a noção de ideologia a partir da consideração da linguagem, trata-se de uma
definição discursiva de ideologia. O fato de que não há sentido sem interpretação, atesta a presença da ideologia, ou seja, não há sentido
sem interpretação e, além disso, diante de qualquer objeto simbólico o homem é levado a interpretar. O trabalho da ideologia é produzir
evidências colocando o homem na relação imaginária com suas condições materiais de existência, a ideologia é condição para a
constituição do sujeito e dos sentidos. O indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia para que se produza o dizer. A evidência dos
sentidos a que faz com que uma coisa apaga o seu caráter material, faz ver como transparente aquilo que se constitui pela remissão a um
conjunto de formações discursivas que funcionam com uma dominante. As palavras recebem seus sentidos de formações discursivas em
suas relações. Este é o efeito da determinação do interdiscurso (da memória).
A evidência do sujeito apaga o fato de que o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia. Esse é o paradoxo pelo qual o sujeito é
chamado à existência: sua interpretação pela ideologia. São essas evidencias que dão aos sujeitos a realidade como sistema de
significação, percebidas, experimentadas. Essas evidências funcionam pelos chamados esquecimentos, isso se dá de tal modo que a
subordinação - assujeitamento se realiza sob a forma da autonomia, como um interior sem exterior, esfumaçando-se a determinação do
real do interdiscurso, pelo modo como ele funciona. O trabalho ideológico é um trabalho de memória e do esquecimento, pois, é só quando
passa para o anonimato que o dizer produz seu efeito de literalidade. O dizer tem história, os sentidos não se esgotam no imediato. Tanto é
assim que fazem efeitos diferentes para diferentes interlocutores. Não temos controle sobre isso.

O SUJEITO E SUA FORMA HISTÓRICA


A forma-sujeito histórica que corresponde à sociedade atual apresenta bem a contradição: é um sujeito ao mesmo tempo livre e submisso.
Ele é capaz de uma liberdade sem limites e uma submissão sem falhas: pode tudo dizer contanto que se submeta à língua para sabe-la.
Essa é a base que chamamos assujeitamento. Através da noção de determinação, o sujeito gramatical cria um ideal de completude,
participando do imaginário de um sujeito mestre de suas palavras, ou seja, ele determina o que diz em determinados casos o
assujeitamento se faz do modo a que o discurso apareça como instrumento (límpido) do pensamento e um reflexo justo da realidade. O
sentido literal na concepção lingüística imanente é aquele que uma palavra tem independentemente de seu uso em qualquer contexto. Daí
seu caráter básico, discreto, inerente, abstrato e geral. A literalidade é uma construção que o analista deve considerar em relação ao
processo discursivo com suas condições.
INCOMPLETUDE: MOVIMENTO, DESLOCAMENTO E RUPTURA A condição da linguagem é a incompletude. Nem sujeitos nem sentidos estão
completos, já feitos, constituídos definitivamente. Constituem-se e funcionam sob o modo do entremeio, da relação, da falta, do
movimento. Essa incompletude atesta a abertura do simbólico, pois a falta é também lugar do possível.
No processo de incompletude significa que trabalhamos continuamente a articulação entre estrutura e acontecimento: nem o exatamente
fixado, nem liberdade em ato. Sujeitos, ao mesmo tempo, à língua e a história, ao estabilizado e ao irrealizado, os homens e os sentidos
fazem seus percursos, mantém a linha, se detém junto às margens, ultrapassam limites, transbordam, refluem. No discurso, no movimento
do simbólico, que não se fecha e que tem na língua e na história sua materialidade, ou seja, a forma encarnada, não abstrata nem
empírica, onde não se separa forma e conteúdo: forma lingüístico-histórica, significativa. A linguagem não é transparente os sentidos não
são conteúdos. É no corpo a corpo com a linguagem que o sujeito (se) diz. Pela natureza incompleta do sujeito, dos sentidos, da linguagem
(do simbólico), ainda que todo sentido se filie a uma rede de constituição, ele pode ser um deslocamento nessa rede. Entretanto, há
também injunções à estabilização, bloqueando o movimento significante. Nesse caso o sujeito não se desloca e o sentido não flui. Ao invés
de se fazer um lugar para fazer sentido ele é pego pelos lugares (dizeres) já estabelecidos, num imaginário em que sua memória não
reverbera. Estaciona. Só repete por intermédio de processos de identificação rígido pelo imaginário e esvaziados de sua historicidade em
suas evidências ideológicas.

III – DISPOSITIVO DE ANÁLISE


O Lugar da Interpretação
A Análise de Discurso não procura o sentido verdadeiro, mas, o real do sentido em sua materialidade lingüística e histórica. A ideologia não
se aprende, o inconsciente não se controla com o saber. A própria língua funciona ideologicamente tendo em sua materialidade esse jogo.
As transferências presentes no processo de identificação dos sujeitos constituem uma pluralidade contraditória de filiação histórica. Uma
mesma palavra, uma mesma língua, significa diferentemente, dependendo da posição do sujeito e da inscrição do que diz em uma ou outra
formação discursiva. O dispositivo, a escuta discursiva, deve explicitar os gestos de interpretação que se ligam aos processos de
identificação dos sujeitos, suas filiações de sentidos: descrever a relação do sujeito com sua memória. Nessa empreitada, descrição e
interpretação se inter-relacionam. E é também tarefa do analista distingui-las em seu propósito de compreensão e o que se espera do
dispositivo analista é que ela se permita trabalhar não numa posição, mas, que seja relativizada em face da interpretação: é preciso que
ele atravesse o efeito da transparência da linguagem, da liberdade dos sentidos e da onipotência do sujeito. Esse dispositivo vai assim
investir na capacidade da linguagem, no descentramento do sujeito e no efeito metafórico, no equívoco, na falha e na materialidade, no
trabalho da ideologia. A construção desse dispositivo resulta na alteração da posição do leitor para o lugar construído pelo analista, lugar
em que se mostra a alteridade do cientista, a leitura outra que ele pode produzir no qual ele se coloca em uma posição deslocada que lhe
permite contemplar o processo de produção de sentidos em suas condições. Tendo isso em conta ele constrói finalmente seu dispositivo
analítico que ele particulariza a partir da posição que ele coloca face aos materiais de análises que constituem seu corpus e que ele visa
compreender, em função do domínio científico a que ele vincula seu trabalho e para isso é preciso que ele compreenda como o discurso se
textualiza.
Recortar e analisar estados diferentes. Considera-se que a melhor maneira para atender a questão da constituição do corpus é construir
montagens discursivas que obedeçam critérios que decorrem de princípios teóricos da análise de discurso, face aos objetivos da análise, e
que permitam chegar a sua compreensão. Esses objetivos em consonância com o método e os procedimentos não visa a demonstração,
mas, a mostrar como um discurso funciona produzindo efeitos de sentidos.
Uma vez analisado o objeto permanece para novas e novas abordagens. Ele não se esgota em uma descrição, por isso, o dispositivo
analítico pode ser diferente nas diferentes tomadas que fazemos do corpus, relativamente à questão posta pelo analista em seus objetivos,
isto conduz a resultados diferentes.

UMA QUESTÃO DE MÉTODO


Há uma passagem fundamental que é a questão entre a superfície lingüística (o material da linguagem em bruto coletado, tal como existe)
e o objeto discursivo, este sendo definido pelo fato de que o corpus já recebeu um primeiro tratamento de análise superficial, feito em uma
primeira instância, pelo analista, e já se encontra de-superficializado, que é o chamamos de materialidade lingüística, isto é, naquilo que se
mostra em sua sintaxe e enquanto processo de enunciação (em que o sujeito se marca no que diz), fornecendo-nos pistas para
compreendermos o modo como discurso que pesquisamos se textualiza.
O objeto discursivo a ser pesquisado supõe um trabalho do analista, e para se chegar a ele é preciso numa primeira etapa da análise,
converter a superfície lingüística (o corpus bruto), o dado empírico de um discurso concreto, em um objeto teórico, um objeto
lingüisticamente de-superficializado, produzido por uma primeira abordagem analítica que trata criticamente a impressão da “realidade” do
pensamento, da ilusão que sobrepõe palavras, idéias e coisas, em determinados textos inicia-se o trabalho de análise pela configuração do
corpus retomando-se conceitos e noções, pois, a análise de discurso tem um procedimento que demanda ir e vir constantemente entre
teoria, consulta ao corpus e análise, e esses procedimentos dão-se ao longo de todo o trabalho.

TEXTUALIDADE E DISCURSIVIDADE
O texto, referido á discursividade, é o vestígio mais importante dessa materialidade, funcionando como unidade de análise, unidade que se
estabelece pela historicidade como unidade de sentido em relação á situação. Ser escrito ou oral, não muda a definição do texto. Como a
materialidade conta, certamente um texto escrito e um oral significam de modo específico particular as suas propriedades materiais. Mas
ambos são textos.
Se o texto é unidade de análise, só pode sê-lo porque representa uma contrapartida à unidade teórica, o discurso, definido como efeito de
sentidos entre locutores. Para a análise de discurso o que interessa é como o texto organiza a relação da língua com a história no trabalho
significante do sujeito em sua relação com o mundo. É dessa natureza sua unidade: lingüístico-histórica, já o discurso é uma dispersão de
textos e o texto é uma dispersão do sujeito, o sujeito se subjetiva de maneiras diferentes ao longo de um texto. A mediação de um
dispositivo analítica, da teoria e dos objetivos do analista dá ao texto seu estatuto como unidade da análise.

AUTOR E SUJEITO: O imaginário e o real


A relação autor e sujeito esta definida da seguinte forma: o sujeito está para o discurso assim como o autor está para o texto e o autor
possui a função discursiva do sujeito. O autor é considerado como princípio de agrupamento do discurso, com unidade e origem de suas
significações, como fulcro de sua coerência .
Não basta falar para ser autor, assunção da autoria implica uma inserção do sujeito na cultura, uma posição dele no contexto histórico-
social. Aprender a se representar como autor, é assumir diante das instancias institucionais, esse papel social na sua relação com a
linguagem: constituir-se e mostrar-se autor
O sujeito precisa passar da multiplicidade de representações possíveis para a organização dessa dispersão num todo coerente,
apresentando-se como autor, responsável pela unidade e coerência do que diz. Essa representação do sujeito tem seu pólo correspondente
que é o leitor.

A ANÁLISE: DIPOSITIVO E PROCEDIMENTOS


Os procedimentos da Análise de Discurso têm a noção de funcionamento como central, levando o analista a compreende-lo pela observação
dos processos e mecanismos da constituição de sentidos e de sujeitos, lançando mão da paráfrase e da metáfora como elementos que
permite um certo grau de operacionalização dos conceitos.
Na primeira etapa, o analista, no contato com o texto, procura ver nele sua discursividade e incidindo em primeiro lance de análise em de
natureza lingüístico enunciativa, constrói um objeto discursivo em que já esta considerado o esquecimento número dois(da estância da
enunciação), fazendo assim a ilusão de que aquilo que foi dito só poderá sê-lo daquela maneira. Desnaturaliza-se a relação palavra-coisa,
na segunda etapa, a partir do objeto discursivo. o analista vai incidir uma análise que procura relacionar as formações discursivas distintas
que pode ter-se delineado no jogo de sentidos observado pela análise do processo de significação(paráfrase, sinonímia etc.). ao longo de
todo procedimento analítico, ao lado do mecanismo parafrásico cabe ao analista observar o que chamamos de efeitos metafóricos.

TIPOLOGIAS E RELAÇÕES ENTRE DISCURSOS


São muitos os critérios pelos quais se constituem tipologias na análise de discurso, uma das mais comuns é a que reflete as distinções
constitucionais e suas normas. Temos então o discurso político, o jurídico, o religioso, o jornalístico, o pedagógico, o médico, o científico.
Com suas variáveis: o terapêutico, o místico, o didático etc. também as diferenças das disciplinas podem estar na base de tipologias: o
discurso histórico, sociólogo, antropólogo, biológico, o da física etc. Há ainda diferenças relativas entre estilos (barroco, renascentista etc),
a gêneros (narrativa, descrição, dissertação), a subdivisões no interior dos já categorizados(em relação ao político, neo-liberal,marxista
etc.) e assim por diante.
O que interessa primordialmente ao analista são as prioridades internas ao processo discursivo: condições, remissão a formação discursiva,
modo de funcionamento observando-se e sem dar nenhuma prioridade a determinados tipos de discursos tais como: autoritário, lúdico ou
polêmico de modo que é sabido que não há um discurso puramente autoritário, o que há são misturas, articulações de modo que podemos
dizer que o discurso tem um funcionamento autoritário, ou tende para o autoritário (para paráfrases) etc. Um modo de se evitarem essas
categorizações é dizer em relação aos modos de funcionamento discursivo que o discurso em análise tende para a paráfrase, ou para
polissemia (quando lúdico) e se divide entre polissemia e paráfrase (quando polêmico).

MARCAS PROPRIEDADES E CARACTERÍSTICAS:


O formal, o discursivo e o conteudista.
Ao olhar os textos o analista defronta-se com a necessidade de reconhecer, em sua materialidade discursiva, os indícios (vestígios, pistas)
dos processos de significação aí inscritos, no entanto para praticar a análise de discurso e não a análise lingüística ou a análise de
conteúdo, ele precisa ter em conta algumas distinções teóricas e metodológicas. Como a Análise de Discurso se constitui na relação de
pressuposição com a Lingüística e numa proximidade com as ciências sociais, ela também tem de mostrar os meios pelos quais se demarca
delas em sua prática analítica. Diferencia-se da Lingüística porque não trabalha com as marcas (normais),mas, com propriedades
discursivas (materiais que referem a língua à história, para significar relação língua-exterioridade). Por outro lado, à diferença de Análise de
Conteúdo instrumento tradicional de análise de textos das Ciências Sociais.

ENUNCIAÇÃO, PRAGMÁTICA, ARGUMENTAÇÃO, DISCURSO: Há uma aproximação e um trânsito constante entre esses campos de
conhecimento. O que eles tem em comum é que os fatos da linguagem por eles tratados referem a linguagem ao seu exterior. A
pragmática tem sido considerada de modo mais amplo muitas vezes incluindo a enunciação, a argumentação e o discurso. Do ponto de
vista do fato em comum na medida em que todos esses campos, pelo modo como consideram a linguagem, distingue-se de uma
abordagem lingüística imanente. No entanto há diferenças bastante nítidas entre eles. a maneira como concebem o sujeito(na enunciação,
o sujeito é um sujeito origem de si; na argumentação o sujeito é o sujeito psico-social e na Análise de Discurso o sujeito é lingüístico-
histórico constituído pelo esquecimento e pela ideologia ) e o modo como define o exterior(na pragmática o exterior é o fora e não o
interdiscurso) marcam as diferenças teóricas, de distintos procedimentos analíticos, com suas conseqüências práticas e diversificadas.
RAMOSOLI
Publicado no Recanto das Letras em 02/05/2010
Código do texto: T2232674

O objetivo deste artigo é oferecer elementos para uma discussão teórica e


metodológica sobre o conceito de discurso em Michel Foucault e a respectiva
contribuição para as investigações no campo educacional. Tal empreitada se justifi-
ca, à medida que proliferam nesta área pesquisas que se propõem a “analisar
discursos” – de professores e professoras, de alunos de diferentes níveis, de insti-
tuições ligadas à educação, de textos oficiais sobre políticas educacionais, entre
outros. Apresento aqui os principais conceitos relacionados à teoria foucaultiana
do discurso – enunciado, prática discursiva, sujeito do discurso, heterogeneidade
discursiva –, tecendo comentários sobre as ricas possibilidades que essa proposta
oferece em termos teóricos e metodológicos. Para melhor entendimento da teo-
ria, utilizo ora exemplos genéricos do campo da educação, ora exemplos específi-
cos de uma pesquisa

Comunicação e Discurso - Introdução à Análise de Discursos (Milton José Pinto) por Daniela Lemmertz - 8/07/2004
Em seu livro, Milton Pinto procura sintetizar em uma só teoria, denominada por ele Análise de Discursos, várias correntes teóricas que
trabalham com diferentes noções de discurso. O objetivo dessa síntese é analisar meios de comunicação, como o jornalismo e a
publicidade. O termo discurso é utilizado no plural pelo autor “não só para dar conta da idéia da multiplicidade, como também para fugir
das grandes categorias abstratas à maneira do estruturalismo, onde o conceito originariamente se forjou”.
Em termos de filiação teórica, a proposta de Milton Pinto está muito próxima da abordagem do discurso construída por Norman Fairclough.
Na mesma medida em que o último trabalhou uma síntese de muitos empreendimentos nos estudos da linguagem (sociolingüística, análise
da conversação, análise do discurso francesa, etc.), Milton Pinto, por sua vez, apresenta em seu livro uma discussão bastante semelhante.
Um dos exemplos que atesta a proximidade é a definição de Milton Pinto de modos de dizer: o modo de mostrar (texto), o modo de
interagir (prática discursiva) e o modo de seduzir (prática social). As dimensões citadas fazem parte da concepção de discurso
tridimensional que foi proposta por Fairclough em seu trabalho de síntese teórica: Discurso e Mudança Social. Uma outra contribuição
teórica bastante central no trabalho de Milton Pinto - também trazida para o domínio da análise do discurso crítica por Fairclough - é a de
Pierre Bourdieu, o modelo teórico-analítico de uma economia das trocas lingüísticas. A articulação das três dimensões constitutivas do
discurso (texto, prática discursiva/interativa e pratica social) passa pelos três pilares da economia dos bens simbólicos: a produção, a
circulação e o consumo.
Existe, de fato, uma grande diferença (e talvez uma série de incompatibilidades) na base epistêmica da proposta de Fairclough e Pêcheux
de uma análise de discursos. Uma das diferenças superficiais seria a oposição conhecida que, via de regra, serve para distinguirmos as
duas escolas teóricas na análise de discurso. De um lado a proposta empirista anglo-saxã com Fairclough - a necessidade de trabalharmos
os textos e os contextos sócio-históricos de forma articulada e, de outro, a proposta francesa de um tratamento textual que assume o
contexto dentro do texto, afastando a necessidade de um tratamento do entorno empírico dos discursos (entorno social, diríamos, das
instituições e das interações subjetivas e identitárias). Infelizmente essa diferença não se apresenta de forma explícita no texto de Milton
Pinto, talvez por tratar-se de uma introdução ao assunto.
Em aspectos práticos, o trabalho teórico feito por Milton Pinto é importante pois traz a publicidade para o campo de análises discursivas. É
interessante o trabalho que o autor faz com a idéia de discurso relacionado à idéia de produção, circulação e consumo de sentidos, pois
essa é uma característica dos anúncios publicitários, que são produzidos para circular e convencer o consumidor a respeito da qualidade e
importância do seu produto, assim como são, em geral, os discursos, que são produzidos com a ilusão de inovação por parte do autor.
Do ponto de vista da Análise do Discurso da escola francesa, consideramos que este livro deva ser trabalhado com um certo cuidado devido
às diferentes posições teóricas assumidas pelo autor indistintamente, já que isso pode causar algum tipo de confusão a quem está iniciando
seus estudos na área, seja através da escola francesa ou da escola anglo-saxã. Apesar de trazer noções importantes, utiliza-se da maioria
delas sem denominar a filiação teórica à qual pertencem e isso pode prejudicar aqueles que ainda não têm os conceitos da teoria
incorporados.
Acreditamos que o livro tenha contribuições importantes, como o trabalho sobre a importância das imagens, o trabalho sobre a sedução,
formas de ver o consumidor enquanto sujeito. Mas no trabalho teórico, ele poderia ser mais específico, delimitando as diferentes correntes
teóricas citadas e incorporadas. O objetivo inicial do autor era o de sintetizar diferentes teorias em uma só e isso ele conseguiu; mas
acreditamos que ao sintetizar diferentes teorias ele fez com que cada uma destas perdesse sua especificidade e seus acréscimos
importantes para os estudos da linguagem fossem devidamente destacados.

A Ordem do Discurso de Michel Foucault


por Luis Felipe Rosado Murillo - 10/05/2004 A ORDEM DO DISCURSO
Aula inaugural no College de France (dezembro de 1970) , substituição de Jean Hyppolite na disciplina "História dos sistemas de
pensamento"
1. Hipótese: em todas as sociedades a produção de discursos é regulada, selecionada, organizada e redistribuída
conjugando poderes e perigos.
1.2 Procedimentos Exteriores de controle e delimitação do discurso

1.2.1 Interdição: não se tem o direito de dizer tudo, não se pode falar tudo em qualquer circunstância, qualquer um não pode falar de
qualquer coisa (TABU do OBJETO + RITUAL DA CIRCUNSTÂNCIA + DIREITO DE FALAR PRIVILEGIADO OU EXCLUSIVO DO SUJEITO). Por
mais que o discurso aparente ser bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e
com o poder

1.2.2 Separação / Rejeição: Separação RAZÃO / LOUCURA; o louco é aquele cujo o discurso é impedido de circular como o dos outros.
Desde a Alta Idade Média, a palavra do louco não é ouvida e quando é ouvida, é escutada como uma palavra de verdade (de uma verdade
que os indivíduos normais não percebem).
1.2.3 Vontade de Verdade: Se nos situarmos no nível de uma proposição, no interior de um discurso, a separação entre o verdadeiro e o
falso não é nem arbitrário, nem modificável, nem institucional, nem violento. Mas se levantarmos a questão de saber, situando-nos em
outro nível, qual é essa vontade de verdade que atravessou tantos séculos de nossa história, ou qual é o tipo de separação que rege nossa
vontade de saber, então é algo como um sistema de exclusão (sistema histórico, institucionalmente constrangedor).
1.3 Procedimentos Internos de controle e delimitação do discurso
1.3.1 Comentário: Existe um desnivelamento entre os discursos: os discursos que se dizem no correr dos dias e das trocas, e que
passam com o ato mesmo que os pronunciou, e os discursos que estão na origem mesmo de um certo número de atos novos de fala que os
retomam, os transformam ou falam deles. A relação do texto primeiro com o texto segundo permite construir novos discursos, permite
trabalhar o acaso do discurso, permite dizer algo além do texto mesmo. "O novo não está no que é dito mas no acontecimento de sua
volta".
1.3.2 Princípio de Autoria: O autor como princípio de agrupamento do discurso, como unidade e origem de significações, como foco de
coerência. "O autor é aquele que dá a inquietante linguagem da ficção suas unidades, seus nós de coerência, sua inserção no real".
1.3.3 Disciplinas: Definem-se por um domínio de objetos, um conjunto de métodos, um corpus de proposições consideradas verdadeiras,
um jogo de regras e definições, técnicas e de instrumentos: tudo isto constitui uma espécie de sistema autônomo à disposição de quem
quer ou pode servir-se dele. Para que uma proposição seja da disciplina, ela precisa dirigir-se a um plano de objetos determinado.
1.4 Imposição de regras aos sujeitos do discurso
1.4.1 Ritual: Define a qualificação que devem possuir os individuos que falam (e que, no jogo de um diálogo, da interrogação, da recitação
devem ocupar determinado tipo de enunciados). Por exemplo: os discursos religiosos, judiciários e políticos não podem ser dissociados
dessa prática de um ritual que determina para os sujeitos que falam, ao mesmo tempo, propriedades singulares e papéis preestabelecidos.
1.4.2 Doutrinas: Constituem o inverso da "sociedade do discurso": nesta, o número de indivíduos que falam, mesmo se não fosse fixado,
tendia a ser limitado; e só entre eles o discurso podia circular e ser trasmitido. A doutrina, pelo contrário, tende a difundir-se; e é pela
partilha de um só e mesmo conjunto de discursos que indivíduos, tão numerosos quanto se queira imaginar, definem sua pertença
recíproca. Aparentemente, a única condição requerida é o reconhecimento das mesmas verdades e a aceitação de uma certa regra de
conformidade com os discursos validados. "A doutrina liga os indivíduos a certos tipos de enunciação e lhes proíbe, consequentemente,
todos os outros".
1.4.3 Apropriação Social dos Discursos: O sistema educacional é espaço onde os indivíduos tem acesso a muitos discursos. É a maneira
política de manter ou modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e o os poderes que eles trazem consigo.

2. Temas Filosóficos relativos aos processos de delimitação dos discursos: "o pensamento ocidental tomou cuidado para que o
discurso ocupasse o menor lugar possível entre o pensamento e a palavra; parece que tomou cuidado para que o discurso aparecesse
apenas como um certo aporte entre pensar e falar; seria um pensamento revestido de seus signos tornando visível pelas palavras, ou,
inversamente, seriam as estruturas mesmas da língua postas em jogo e produzindo um efeito de sentido".
3. Três direções que o trabalho de elaboração teórica deverá seguir: Para analisar a materialidade discursiva em suas condições ,
seu jogo e seus efeitos, é preciso, creio, optar por três decisões às quais nosso pensamento ainda resiste um pouco, hoje em dia, e que
correspondem aos três grupos de funções que acabo de evocar: questionar nossa vontade de verdade; restituir ao discurso seu carater de
acontecimento; suspender, enfim, a soberania do significante.
3.1 Princípio de descontinuidade: Não existe um discurso ilimitado, contínuo e silencioso que nós tivessemos por missão descobrir
restituindo-lhe, enfim, a palavra. Não se deve imaginar, percorrendo o mundo e entrelaçando-se em todas as suas formas e
acontecimentos, um não-dito ou um impensado que se deveria, enfim articular ou pensar. Os discursos devem ser tratados como práticas
descontínuas, que se cruzam às vezes, mas também se ignoram e excluem.

3.2 Princípio de especificidade: Não transformar o discurso em um jogo de significações prévias; não imaginar que o mundo nos
apresenta uma face legível que teríamos de decifrar apenas.
3.3 Princípio da exterioridade: Não passar do discurso para o seu núcleo interior e escondido, ou para o âmago de um pensamento ou
de um sentido que se manifestaria nele, mas a partir do próprio discurso, de sua aparição e de sua própria regularidade, passar às suas
condições externas de possibilidade.
4. Agradecimentos (Canguilhem e Hyppolite)
Discourse Analisys vs. Análise do Discurso Francesa - por Norman Fairclough por Luis Felipe Rosado Murillo - 10/05/2004
1. Discussão da análise de Pecheux: O método de análise de Pecheux é a AAD-69 (procedimento computadorizado com o fim de identificar FDs em
um corpus de textos).
2. Procedimento da AAD-69 2.1 Primeiro momento: Análise lingüística do texto em orações (simples), usando os procedimentos "transformacionais" do
lingüísta Zelig Harris (1963).
2.2. Segundo momento: Submetem-se as orações já organizadas (homogeneizadas) a um processo computadorizado de identificação de termos-pivô (com o
intuito de determinar palavras ou expressões que se encontram em uma relação de substituição, que podem ocorrer nas mesmas posições nas orações).
2.3. Terceiro momento: Os resultados do procedimento analítico são interpretados, embora se dedique pouca atenção a problemas associados à
interpretação, e o método parece bastante ad hoc.
3. Crítica: "O tratamento dos textos é insatisfatório"
3.1. Os textos são homogeneizados antes da análise pela maneira como o corpus é constituido (Courtine, 1981). 3.2. O efeito da aplicação de procedimentos
transformacionais à análise de textos em orações separadas é eliminar aspectos distintivos da organização textual.
3.3. Os textos são tratados como produtos, e os processos discursivos de produção e interpretação recebem pouca atenção.
3.4. O foco em termos-pivô: são consideradas apenas as dimensões ideacionais do significado, enquanto deixam de ser contempladas as dimensões
interpessoais que dizem respeito às relações sociais e às identidades sociais e são favorecidas as relações de significado mais abstratas em detrimento das
propriedades do sentido dos enunciados no contexto.
Lembrar a representacao tridimensional do discurso: texto/pratica discursiva/pratica social
3.5. Os textos são tratados como evidências para as hipóteses formuladas sobre a FD a priori.
3.6. Há uma ênfase na teoria althusseriana na reprodução - como os sujeitos são posicionados dentro de formações e como a dominação ideológica é
assegurada - em detrimento da transformação - como os sujeitos podem contestar e progressivamente reestruturar a dominação e as formações mediante a
prática.
3.7. A teoria das desidentificação como mudança gerada exteriormente por uma prática política particular é uma alternativa implausível para construir a
possibilidade de transformação em nossa visão do discurso e do sujeito.
4. Segunda geração da AD francesa: mudanças nos aspectos fundamentais da abordagem em função das críticas à AAD e das transformações políticas na
França. O discurso passa a ser considerado heterogêneo e ambíguo. Introdução da noção de heterogeneidade discursiva (Authier-Revuz, 1982), a partir do
dialogismo de Bakhtin.
4.1. Interdiscursividade: Em constante processo de reestruturação, na qual a delimitação da FD é "fundamentalmente instável, não se tratando de um limite
permanente a separar o interior do exterior, mas um limite entre diferentes FDs que muda de acordo com o que está em jogo na luta ideológica".
4.2. Abandono da ilusão do teórico: a idéia de que "transformações radicais do interdiscurso são autorizadas pela existência do marxismo-leninismo".
5. Análise do Discurso Textualmente Orientada: É considerada como interpretação, e os analistas buscam ser sensíveis a suas próprias tendências
interpretativas e "razões sociais". A ADTO "busca uma análise que focaliza a variabilidade, a mudança e a luta; variabilidade entre as práticas e
heterogeneidade entre elas como reflexo sincrônico de processos de mundanças histórica que são moldadas pela luta entre as forças sociais" (Fairclough,
1992).
O QUE É ANÁLISE DO DISCURSO
A língua é algo que está em constante mudança, movimento, há sempre um discurso ligado a outro e a outro, sem que haja uma pausa. O discurso
não é estático.

A utilização da língua efetua-se em forma da enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera
da atividade humana. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo
(temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais -, mas
também, e sobretudo, por sua construção composicional. Estes três elementos (conteúdo temático, estilo e construção composicional) fundem-se
indissoluvelmente no todo do enunciado, e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação. Qualquer enunciado
considerado isolado é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo
isso que denominamos de gênero do discurso. (Bakhtin, 1992:279)
A Análise do Discurso tem como base de pesquisa o discurso seja ele narrativo, político, pedagógico, poético, humorístico, jornalístico, religioso ou
publicitário (gêneros) Sua proposta básica é considerar como primordial a relação da linguagem com a exterioridade, ou seja, as chamadas
condições de produção do discurso: o falante, o ouvinte, o contexto da comunicação e o contexto histórico-social (ideológico). Tais condições estão
representadas por formações imaginárias: imagem que o falante tem de si mesmo, do ouvinte, do leitor, etc...
Cada discurso tem seu objeto de pesquisa. Exemplos:
Narrativo: De uma forma geral, os romances, contos, crônicas ou outros tipos de histórias narradas. Podendo ser incluídas também as histórias de
filmes e teatro.
Político: O discurso dos governantes ou candidatos a este tipo de cargo, em campanhas, câmaras, senado, etc
Pedagógico: Discurso dos professores e profissionais ligados à área, seja em sala de aula, na escola ou nos livros didáticos.
Poético: Discurso encontrado em textos líricos, tais como poemas, trovas, sonetos ou até mesmo letras de músicas.
Humorístico: Discurso encontrado em charges, piadas, histórias engraçadas, programas humorísticos de rádio e TV.
Jornalístico: Discurso da mídia jornalística como jornais, revistas, telejornais, etc
Religioso: Discurso de qualquer autoridade religiosa (padres, bispos, pastores,etc) ou em livros e textos do gênero.
Publicitário: Discurso da mídia publicitária encontrado em jornais, revistas, TVs, rádios, outdoors, internet.
Pode-se perceber que o discurso não é geral como a língua, nem individual e a-sistemático como a fala. Ele tem a regularidade de uma prática,
como as práticas sociais(Orlandi, 62). Não é definido como transmissor de informação, mas como efeito de sentido entre locutores, num
determinado contexto social e histórico. A análise de discurso procura, então, mostrar o funcionamento dos textos, a partir da sua articulação com as
formações ideológicas.

O QUE É ANÁLISE DO DISCURSO


A língua é algo que está em constante mudança, movimento, há sempre um discurso ligado a outro e a outro, sem que haja uma pausa. O discurso
não é estático.

A utilização da língua efetua-se em forma da enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera
da atividade humana. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo
(temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais -, mas
também, e sobretudo, por sua construção composicional. Estes três elementos (conteúdo temático, estilo e construção composicional) fundem-se
indissoluvelmente no todo do enunciado, e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação. Qualquer enunciado
considerado isolado é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo
isso que denominamos de gênero do discurso. (Bakhtin, 1992:279)
A Análise do Discurso tem como base de pesquisa o discurso seja ele narrativo, político, pedagógico, poético, humorístico, jornalístico, religioso ou
publicitário (gêneros) Sua proposta básica é considerar como primordial a relação da linguagem com a exterioridade, ou seja, as chamadas
condições de produção do discurso: o falante, o ouvinte, o contexto da comunicação e o contexto histórico-social (ideológico). Tais condições estão
representadas por formações imaginárias: imagem que o falante tem de si mesmo, do ouvinte, do leitor, etc...
Cada discurso tem seu objeto de pesquisa. Exemplos:
Narrativo: De uma forma geral, os romances, contos, crônicas ou outros tipos de histórias narradas. Podendo ser incluídas também as histórias de
filmes e teatro.
Político: O discurso dos governantes ou candidatos a este tipo de cargo, em campanhas, câmaras, senado, etc
Pedagógico: Discurso dos professores e profissionais ligados à área, seja em sala de aula, na escola ou nos livros didáticos.
Poético: Discurso encontrado em textos líricos, tais como poemas, trovas, sonetos ou até mesmo letras de músicas.
Humorístico: Discurso encontrado em charges, piadas, histórias engraçadas, programas humorísticos de rádio e TV.
Jornalístico: Discurso da mídia jornalística como jornais, revistas, telejornais, etc
Religioso: Discurso de qualquer autoridade religiosa (padres, bispos, pastores,etc) ou em livros e textos do gênero.
Publicitário: Discurso da mídia publicitária encontrado em jornais, revistas, TVs, rádios, outdoors, internet.
Pode-se perceber que o discurso não é geral como a língua, nem individual e a-sistemático como a fala. Ele tem a regularidade de uma prática,
como as práticas sociais(Orlandi, 62). Não é definido como transmissor de informação, mas como efeito de sentido entre locutores, num
determinado contexto social e histórico. A análise de discurso procura, então, mostrar o funcionamento dos textos, a partir da sua articulação com as
formações ideológicas.
Análise do discurso aplicada em
charges e cartuns políticos
Ana Caroline Luiza Sousa
UNIPAM
Orientação: Prof. Agenor Gonzaga dos Santos
Resumo: O presente trabalho, fundamentado em uma pesquisa bibliográfica e em análises de
textos, consiste em um breve estudo à luz da teoria da Análise do Discurso de linha Francesa,
aplicado em charges e cartuns políticos, bem como identificar nestes gêneros a ironia e o humor
como estratégias de linguagem.
Palavras-chave: Análise do discurso. Ironia. Ideologia. Dialogia. Cartuns. Charges.
Considerações iniciais
Os estudos da linguagem sempre estiveram presentes em nossa sociedade e, de uma
maneira geral, sempre se preocuparam mais com a linguagem como produto acabado, isento das condições de produção. À medida que
tais estudos foram evoluindo, surgiu a necessidade de desviar o enfoque do produto final para enfatizar as condições do processo de
produção.
Em frente de tal realidade, surge, na década de 1960, a teoria da Análise do Discurso, através dos estudos do lingüista lexicólogo, Jean
Dubois, e do filósofo Michel Pêcheux.
Essa nova Teoria sugeria que o objeto de estudo não deveria tratar da língua, nem da gramática, embora essas coisas lhes interessassem,
e sim estudar o discurso, isto é, a palavra
em movimento em que se procura compreender a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do trabalho social geral,
constitutivo do homem e de sua história.
Embora existam muitas pesquisas sobre a maneira de trabalhar com a Análise do
Discurso, os resultados ainda são deficitários, pois os estudos se limitam à identificação da
formação ideológica e da formação discursiva nos textos.
Diante do exposto, intentamos desenvolver neste estudo uma análise discursiva acerca de cartuns e charges de cunho político, pois
acreditamos que esta linha teórica nos
possibilita os sentidos que buscamos compreender nos textos mencionados.
Para a consecução deste artigo, foram adotados dois tipos de investigação: a pesquisa bibliográfica, na qual não só realizamos uma
compilação crítica dos teóricos que tratam
da Análise do Discurso de linha Francesa, mas também a apresentação do papel do diálogo
no discurso, a distinção entre o gênero charge e cartum, determinando suas condições de
Crátilo: Revista de Estudos Lingüísticos e Literários. Patos de Minas: UNIPAM, (1): 39-48, ano 1, 200840
signos ideológicos, portadores de elementos de natureza irônica e humorística. Por conseguinte, desempenhamos um levantamento de
charges e cartuns divulgados na internet.
Não pretendemos inovar nem esgotar as possibilidades de análise dessa temática,
mas suscitar, ainda que minimamente, uma reflexão sobre a questão de como se podem
trabalhar esses gêneros em situações da leitura e da compreensão de seus desdobramentos.
1. Análise do Discurso e ideologia
A Análise do Discurso teve origem na década de 1960, em função das contribuições
do lexicólogo Jean Dubois e do filósofo Michel Pêcheux. Conforme Mussalim e Bentes
(2001) essa teoria tem como suporte o método de análise estruturalista, o conceito de ideologia marxista e o conceito de sujeito advindo
da teoria psicanalítica, e tem como objetivo
demonstrar que “o discurso é o lugar em que se pode observar a relação entre língua e ideologia, compreendendo-se como a língua produz
sentido por/ para os sujeitos” (ORLANDI,
1999, p. 17).
Dessa forma, é possível afirmar que a ideologia resulta de uma prática social, portanto não é subjetiva, no sentido de oposição à objetiva.
Ela nasce da atividade social dos
homens no momento em que estes procuram representar essa atividade para si mesma. A
ideologia se apresenta de forma invertida, se considerar que cada classe social deveria representar o seu próprio modo de existência de
acordo com as experiências vividas no interior das relações sociais de produção; ou seja, as idéias que deveriam estar nos sujeitos sociais e
em suas relações sociais determinadas pela realidade do processo histórico, são tomadas como determinantes dessa mesma realidade.
De acordo com Mussalim (2001, p. 11), a Análise do Discurso “se refere à linguagem
apenas à medida que esta faz sentido para sujeitos inscritos em estratégias de interlocução
em posições sociais” ou em conjunturas históricas. Assim, é possível afirmar que, o sujeito
do discurso é condicionado pela ideologia e pela formação discursiva, o que irá permitir o
que o sujeito pode ou deve falar em um determinado contexto.
A natureza de todo sistema de comunicação, de toda linguagem é eminentemente
ideológica e a charge é uma delas, por ser desenho que se refere a fatos acontecidos em que
agem pessoas reais, em geral conhecidas, com o propósito de denunciar, ironizar, criticar e
satirizar.
Segundo Mikhail Bakhtin, todo signo é ideológico, caracterizado como uma realidade ideológica, que tem sua materialidade e que se
constrói no ambiente social da comunica-
ção, pela interação verbal.
Um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo
físico instrumento de produção ou produto de consumo; mas ao contrário destes, ele
também reflete e retrata uma outra realidade, que lhe é exterior. Tudo que é ideológico
possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo
que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia. (...). A existência do signo
Ana Caroline Luiza Sousa | Análise do Discurso aplicada em charges e cartuns políticos41
nada mais é do que a materialização de uma comunicação. É nisso que consiste a natureza de todos os signos ideológicos. (BAKHTIN,
1999, p. 31-36).
Aqui o autor afirma que o signo reflete e retrata uma realidade. Ele reflete na medida em que se refere uma realidade que lhe é exterior e
retrata porque, dentro dos seus mais
variados índices de valor possíveis, um se sobressai e outros se ocultam. Decorre dessa
constatação que o mesmo signo tem significados diferentes de acordo com a situação histó-
rico/social do sujeito e que todo e qualquer discurso se constitui como diálogo entre vários
enunciados, estes constituídos socialmente.
Assim, é através do condicionamento do sujeito à formação ideológica e à formação
discursiva que o enunciador constrói representações fundamentais de seu discurso e dos
lugares que ele e seu interlocutor ocupam, além de construir também as imagens que ele
tem de seu interlocutor e as imagens que ele imagina que seu interlocutor tenha dele e de
seu discurso. Dá-se, nessa perspectiva o jogo de imagens, que faz parte da teoria de Pê-
cheux.
Sob essa perspectiva teórica, pretende-se focalizar as charges e cartuns políticos veiculados na internet.
2. A ironia presente no discurso
A ironia surpreende-se como sendo um processo discursivo podendo ser observada
em diferentes manifestações de linguagem.
Para Eco (apud BRAIT, 1996, p. 14), o destino interpretativo no discurso irônico, atua segundo uma estratégia que inclui previsões do
movimento do outro.
Assim, os sinais contextuais em um enunciado promovem no plano da significação
uma cumplicidade entre enunciado e o enunciatário, de tal modo que imediatamente o leitor pode compreender que aquilo que o locutor
assume e anuncia como fato é a tradução de
um desejo coletivo.
Nesse sentido, Beth Brait afirma que
O produtor de ironia encontra formas de chamar a atenção do enunciatário para o discurso, e através desse procedimento, contar com sua
adesão. Sem isso a ironia não se
realiza. O conteúdo, portanto, estará subjetivamente assinalado por valores atribuídos
pelo enunciador, mas apresentados de forma a exigir a participação do enunciatário.
(1996, P. 129)
Nesta perspectiva, constata-se que o discurso irônico desencadeia um jogo entre o
que o enunciado diz e o que o enunciador quer dizer, contando com o envolvimento do enunciatário ou leitor.
Ainda nesse enfoque BRAIT (1996, p. 129-130), acredita que
Crátilo: Revista de Estudos Lingüísticos e Literários. Patos de Minas: UNIPAM, (1): 39-48, ano 1, 200842
O processo irônico fundamenta-se na lógica dos contrários na tensão entre o literal e o
figurado e numa relação muito especial entre o enunciador e seu objeto de ironia, e entre o enunciador e o enunciatário. A ironia requer de
seu produtor uma familiaridade
muito grande com os elementos a serem ironizados, o que de imediato torna isomorfa a
cisão constitutiva do seu sujeito, do seu produtor. Por outro lado, também o enunciatá-
rio espelha a cisão, na medida em que capta a sinalização emitida pelo discurso e, através dela, aciona sua competência discursiva, ou
como parceiro de um ponto de vista do
enunciador.
Desse modo, pode-se dizer que a natureza da ironia é a ambigüidade, por possuir
vários sentidos, tornando a interpretação impossível de ser resolvida, e gerando muita das
vezes o humor.
O objetivo de quem ironiza é desmascarar valores que se colocam como únicos e
verdadeiros, denunciar problemas e acontecimentos culturais, sociais e históricos.
Nas charges e cartuns brasileiros podemos encontrar exemplos disso. Os cartunistas
e chargistas mostram o aspecto negativo e vergonhoso em que se encontra o Brasil e, através de críticas e denúncias, expõem a situação
política brasileira.
3. O papel do diálogo e do dialogismo
Neste capítulo entraremos em contato com uma das idéias fundamentais do pensamento de Bakhtin, que é a “dialogia”. Para este autor,
qualquer enunciação produzida por
seres humanos só pode ser compreendida se entendermos sua relação com outras enuncia-
ções. Bakhtin afirma que toda enunciação é um diálogo, que faz parte de um processo ininterrupto da comunicação humana. Um enunciado
jamais pode ser entendido como fato
isolado, pois ele pressupõe uma conexão com todos aqueles que o antecederam e com aqueles que o sucederá, um enunciado configura-se
como o elo de uma cadeia e só é possível a
sua compreensão dentro desta cadeia.
Bakhtin não se limita a considerar dialogia como diálogo estático entre indivíduos,
em geral, ele se refere às muitas formas como duas ou mais vozes se inter-relacionam, considerando que as relações dialógicas são muito
mais amplas, heterogêneas e complexas do
que a mera redução ao instante da interlocução. Dois enunciados, aparentemente diferentes, emitidos em tempo e espaço diferenciados,
quando confrontados em relação ao seu
sentido, podem revelar uma relação dialógica.
Segundo MAINGUENEAU (1997, p. 77) os “enunciadores” são seres cujas vozes estão
presentes na enunciação sem que lhes possa, entretanto, atribuir palavras precisas; efetivamente, eles não falam, mas a enunciação
permite expressar seu ponto de vista. Ou seja, o
“locutor” pode pôr em cena, em seu próprio enunciado, posições diversas da sua, instaurando a polifonia.
Dessa forma, percebemos que em uma formação discursiva (Pêcheux situa o conceito de formação discursiva como o que pode e deve ser
dito numa dada conjuntura), haverá
sempre a presença do outro, que confere ao discurso seu caráter heterogêneo.
Ana Caroline Luiza Sousa | Análise do Discurso aplicada em charges e cartuns políticos43
Authier-Revuz (1982) aponta três tipos de heterogeneidade mostrada:
a) aquela em que o locutor usa de suas palavras para traduzir o discurso de um Outro, ou recorta as palavras do Outro e as cita;
b) aquela em que o locutor assinala as palavras do Outro em seu discurso, por meio
de aspas ou itálico;
c) aquela em que a presença do Outro não é explicitamente mostrada na frase, mas
é mostrada no espaço do implícito.
Nesse conjunto, podemos dizer que os diálogos presentes nos cartuns e charges, em
geral são utilizados com a finalidade de denúncia e de críticas, não estão necessariamente
explícitos. O enunciador vai instaurando vários locutores, deflagrando um humor cujas
entrelinhas atualizam representações de dada mentalidade, valores característicos de um
dado momento ou cultura de forma implícita.
4. Análise do corpus
Vejamos a seguir algumas análises de charges e cartuns políticos que expressam a
realidade política brasileira. Deve-se considerar que se no quadrinho houver somente personagens desconhecidos, será denominado
“cartum”, caso os

Análise do Discurso
De acordo uma das leituras possíveis, discurso é a prática social de produção de textos. Isto significa que todo discurso é uma construção social, não
individual, e que só pode ser analisado considerando seu contexto histórico-social, suas condições de produção; significa ainda que o discurso reflete uma
visão de mundo determinada, necessariamente, vinculada à do(s) seu(s) autor(es) e à sociedade em que vive(m).
Contexto
Contexto é a situação histórico-social de um texto, envolvendo não somente as instituições humanas, como ainda outros textos que sejam produzidos em volta
e com ele se relacionem. Pode-se dizer que o contexto é a moldura de um texto. O contexto envolve elementos tanto da realidade do autor quanto do receptor
— e a análise destes elementos ajuda a determinar o sentido. A interpretação de um texto deve, de imediato, saber que há um autor, um sujeito com
determinada identidade social e histórica e, a partir disto, situar o discurso como compartilhando desta identidade.
Ordem de Discursos
Uma ordem de discursos é um conjunto ou série de tipos de discursos, definido socialmente (Foucault) ou temporalmente (Fairclough), a partir de uma origem
comum. São os discursos produzidos num mesmo contexto de uma instituição ou comunidade, para circulação interna ou externa e que interagem não apenas
entre eles, mas também com textos de outras ordens discursivas, (intertextualidade). Sua importância para a Análise do Discurso está em contextualizar os
discursos como elementos relacionados em redes sociais e determinados socialmente por regras e rituais, bem como modificáveis na medida em que lidam
permanentemente com outros textos que chegam ao emissor e o influenciam na produção de seus próprios discursos.
Universo de Concorrências
O universo de concorrências ou mercado simbólico é o espaço de interação discursiva no qual discursos de diferentes emissores se dirigem ao mesmo público
receptor: por exemplo, diferentes marcas de cerveja apelando ao mesmo segmento de mercado (homens entre 20-45 anos, classes A/B, solteiros). A
concorrência ocorre quando cada um destes discursos tenta "ganhar" o receptor, "anulando" os demais ou desarticulando seus argumentos ou credibilidade
em seu próprio favor. O modo de interpelar o receptor definirá as características do seu discurso (posicionamento competitivo) e determinará seu êxito ou
insucesso.
Dificuldades da Contextualização
A contextualização de um discurso é dificultada por, fundamentalmente, três itens:
- a relação de causalidade entre características de um texto e a sociedade não é entre dois elementos distintos A -> B, um causa e outro conseqüência, mas é
dialética, ou seja, a continência de um pelo outro é uma relação contraditória;
- pelo mesmo raciocínio, os discursos (esfera da superestrutura) não sofrem apenas os determinantes econômicos (esfera da infraestrutura), mas também
culturais, sexuais, etários etc.
- o não-imediatismo da passagem da análise semiológica para a interpretação semântica, ou seja: não basta demarcar e classificar as palavras para
mediatamente interpretar seus significados. É preciso considerar o máximo possível de variáveis presentes no contexto.
O discurso tem uma dimensão ideológica que relaciona as marcas deixadas no texto com as suas condições de produção, e que se insere na formação
ideológica . A dimensão ideológica do discurso pode tanto transformar quanto reproduzir as relações de dominação. Para Marx, essa dominação se dá pelas
relações de produção que se estabelecem e as classes que estas criam numa sociedade. Por isso, a ideologia cria uma “falsa consciência” sobre a realidade
que visa a reforçar e perpetuar essa dominação
FIORIN, José Luiz. Linguagem e Ideologia. São Paulo: Ática, 1988.
MAINGUENEAU, Dominique. Novas Tendências em Análise do Discurso. Campinas: Pontes & Editora da Unicamp, 1989.
PINTO, Milton José. Comunicação e Discurso. São Paulo: Hackers, 1999.
Fonte: http://pt.shvoong.com/social-sciences/1808413-an%C3%A1lise-discurso/#ixzz1JsmH9UPW

Parte 3 - A fundação da Análise do Discurso


Eduardo de Araújo Carneiro e Egina Carli de Araújo Rodrigues Carneiro - Publicado em 03.07.2007

O estruturalismo foi reinante nas décadas de 1960, apesar das resistências do existencialismo e do marxismo. Na lingüística, havia uma aparente unidade
emtorno das teorias saussureanas. “Do funcionalismo de Martinet às teorias behavioristas da comunicação, o pensamento de Saussure se estende até o estruturalismo
distribucional de Bloomfield” (PÊCHEUX, 1999, p.10).

O estruturalismo conferiu cientificidade aos estudos da linguagem. Mas à medida que a Era Ouro da qual Hobsbawm falava ia passando, o estruturalismo,
conseqüentemente, entrava em crise. Se, nos anos 60, não se encontrava um lingüista que não devesse algo a Saussure, como bem falou Benveniste, nos anos 70, suas
obras passaram a ser questionadas, e nos anos 80, houve um “largo consenso anti-saussuriano” (PÊCHEUX, 1999, p.13).

Michel Pêcheux (1999) diz que desde a publicação do Curso de Lingüística Geral (1919) até os anos 1950, as teorias lingüísticas giraram em torno de Saussure, ora
filiando-se a ele, ora dela se distanciando. Essas “diásporas e reunificações” demonstram o quanto a recepção das obras do genebrino foram descontinuidades. O que, de
um lado, já revela a polissemia inerente à linguagem.

A história das interpretações das idéias saussureanas acompanha a história das revoluções e das guerras do século XX. Trubetzkoy e Jakobson fugindo às perseguições
migram de um círculo a outro. Trubetzkoy desaparece, Jakobson sobrevive e migra para os Estados Unidos e da América faz as idéias saussureanas chegarem à França.
No pós-guerra dos anos 50, ocorreu uma aparente reunificação (GREGOLIN, 2005, p. 102).

As mudanças na conjuntura francesa no final dos anos 60 desordenaram o sistema de alianças que existia em torno da lingüística (PÊCHEUX, 1999). Os acontecimentos
de maio de 1968 provocaram brechas no poderio das estruturas. “As estruturas não vão às ruas” diziam. A sublevação social repercutiu no campo epistemológico. Os
intelectuais passaram a questionar os saberes até então estabelecidos.

Maio de 68 produziu uma exasperação da circulação dos discursos, sobre as ondas, sobre os muros e na rua. Mas, também, no silêncio das escrivaninhas universitárias.
Era o tempo da multiplicação das releituras, das grandes manobras discursivas; os conceitos se entrechocavam: a luta de classe reinava na teoria. (COURTINE, 2006, p.
9)

As constantes releituras que se faziam das obras de Saussure provocaram movências epistemológicas tanto do objeto, como do método da lingüística. Tanto a
sistematicidade da língua, quanto a assistematicidade da fala foram postos em discussão. A linguagem passou a ser vista como um ramo de estudo muito complexo para
estar limitada ao sistema saussuriano. “Atrás da fachada visível do sistema, supomos a rica incerteza da desordem” (FOUCAULT, 2005, p. 85).

A fala, o sujeito, a ideologia, o social, a história, a semântica e outras exclusões operadas por Saussure são trazidas para as discussões lingüísticas. A partir de então,
surgem quase concomitantemente, várias disciplinas que estilhaçarão a teoria da linguagem. Rompem com a sincronia e corte saussuriano, e propõem uma análise
transfrástica e subjetiva da linguagem.

O reconhecimento da dualidade constitutiva da linguagem, isto é, do seu caráter ao mesmo tempo formal e atravessado por entradas subjetivas e sociais, provoca um
deslocamento nos estudos lingüísticos até então batizados pela problemática colocada pela oposição língua/fala que impôs uma lingüística da língua.

Estudiosos passam a buscar uma compreensão do fenômeno da linguagem não mais centrado apenas na língua, sistema ideologicamente neutro, mas num nível situado
fora desse pólo da dicotomia saussureana. E essa instância da linguagem é o discurso. Ela possibilitará operar a ligação necessária entre o nível propriamente lingüístico e
o extralingüístico (BRANDÃO, 1993, p. 11-12).

O surgimento dessas disciplinas e as contundentes críticas que faziam ao estruturalismo provocam, neste, o desmoronamento de seu edifício teórico. Em meados dos
anos 1980, “a lingüística perdeu progressivamente seus ares de ciência-piloto no campo das Ciências Humanas e Sociais” (PÊCHEUX, 1999, p. 13), de modo que “a maior
parte das forças da Lingüística pensa neste momento contra Saussure” (PÊCHEUX, 1999, p.9). A Análise do Discurso contribui para esse trágico destino do
estruturalismo.

A Análise do Discurso aparece no final dos anos 1960. Michel Pêcheux lança, em 1969, o livro Análise Automática do Discurso que, para a maioria dos estudiosos,
representa a fundação dessa disciplina. “Pela primeira vez na história, a totalidade dos enunciados de uma sociedade, apreendida na multiplicidade de seus gêneros, é
convocada a se tornar objeto de estudo” (CHARAUDEAU, 2004, p. 46).

Pêcheux coloca em cena o discurso como objeto de análise. Este elemento diferencia-se tanto da língua, quanto da fala. Não é a mesma coisa que transmissão de
informação, nem é um simples ato do dizer. O discurso evoca uma exterioridade à linguagem – a ideológica e o social.

Inicialmente, podemos afirmar que discurso, tomado como objeto da Análise do Discurso, não é a língua, nem texto, nem a fala, mas que necessita de elementos
lingüísticos para ter uma existência material. Com isso, dizemos que discurso implica uma exterioridade à língua, encontra-se no social e envolve questões de natureza
não estritamente lingüística. Referimo-nos a aspectos sociais e ideológicos impregnados nas palavras quando elas são pronunciadas (FERNANDES, 2005, p. 20).

O discurso foi conceituado como a língua posta em funcionamento por sujeitos a que produzem sentidos numa dada sociedade. A complexidade desse fenômeno ia muito
além do que a epistemologia tradicional previa. O discurso se inscreve na confluência de três regiões do conhecimento científico.

A Análise do Discurso nasce no entremeio de três disciplinas, de modo que, desde sua gestação, evoca a interdisciplinaridade. De acordo com Pêcheux, o nascimento da
Análise do Discurso foi presidido por uma “tríplice aliança”. Uma teoria da História, para explicar os fenômenos das formações sociais; uma teoria da Lingüística, para
explicar os processos de enunciação; e uma Teoria do Sujeito, para explicar a subjetividade e a relação do sujeito com o simbólico. Como vimos, o discurso é um objeto de
estudo que não tem fronteiras definidas. Ele é tridimensional - está na intersecção do lingüístico, do histórico e do ideológico. Por isso, foi inevitável para a Análise do
Discurso romper com os postulados da lingüística clássica, já que, se define como o estudo lingüístico das condições de produção de um enunciado.

Paveau (2006, p. 202) definiu a Análise do Discurso como “a disciplina que estuda as produções verbais no interior de suas condições sociais de produção”. Já Orlandi
(2005, p. 26), “A análise do discurso visa a compreensão de como um objeto simbólico produz sentidos, como ele está investido de significância para e por sujeitos”.

A Análise do Discurso não busca uma verdade nuclear do signo, pois é contra a imanência estruturalista. O que ela pretende é reconstruir as falas que criam uma vontade
de verdade científica em certo momento histórico. Busca-se verificar as condições que permitiram o aparecimento do discurso. Explicar por que tomou esse sentido e não
outro. Sempre relacionando o lingüístico com a história e com o ideológico.

A Análise do Discurso não trabalha com a língua enquanto um sistema abstrato, mas com a língua no mundo, com maneiras de significar, com homens falando,
considerando a produção de sentido enquanto parte de suas vidas, seja enquanto sujeitos, seja enquanto membros de uma determinada forma de sociedade. (ORLANDI,
2005, p. 15-16).

A verdade é uma construção discursiva. A evidente naturalidade, na verdade, é uma miragem discursiva. Os políticos criam essa miragem e enganam centenas de
pessoas. O alvo de todo grupo político é se tornar em força hegemônica.

A hegemonia é sustentada pelo discurso. Daí não é difícil chegar à conclusão de que “o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de
dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, é o poder do qual nos queremos apoderar”, já diria Foucault (1999, p. 10). Tomar a palavra jamais representa um gesto
ingênuo, pois sempre está ligado a relações de poder.

Portanto, a Análise do Discurso não foi projetada para ser apenas um simples campo de estudo, mas para ser um instrumento de luta política. Dentre outras funções,
pretendia desmascarar as verdades construídas por políticos oportunistas, pois a verdade é “sempre uma reta em direção ao poder” (SILVA, in: SARGENTINI, 2004, p.
178).

Conhecer a produção, a circulação e a recepção dos discursos passou a ser uma atitude revolucionária, pois expunha as entranhas da relação do saber científico com as
técnicas de poder. Daí a importância de relacionar um acontecimento discursivo às condições históricas, econômicas e políticas de seu aparecimento. Até por que, no bojo
de sua formação, houve inúmeras micro-resistências que precisam ser resgatadas, pois também significam.

O discurso, segundo Orlandi, “[...] é assim palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando”. Nesse trecho a
autora do livro explica que o discurso não trata somente da língua ou da gramática, trata do uso que nós, seres humanos, fazemos dela para nos expressarmos.
Orlandi diferencia a análise de discurso da análise do conteúdo, dizendo que esta última procura extrair sentidos do texto, enquanto a outra considera que a
linguagem não é transparente e vê o texto tendo uma materialidade simbólica própria e significativa e uma espessura semântica, ou seja, não leva em
consideração somente o texto analisado para compreender e identificar os significados presentes nele.
São consideradas então as condições de produção de um determinado discurso que compreendem os sujeitos, a situação e a memória. Os sujeitos nada mais são
do que os produtores desse discurso influenciados sempre pela exterioridade na sua relação com os sentidos. Situação trata-se do contexto, imediato ou amplo,
levando sempre em consideração o momento histórico que se estava vivendo na época da produção. E a memória é o que sustenta os dizeres desse discurso, tudo
que já se disse sobre o assunto tratado. “O fato de que há um já-dito que sustenta a possibilidade mesma do dizer, é fundamental para se compreender o
funcionamento do discurso e sua relação com os sujeitos e com a ideologia”, afirma Orlandi.
No livro de Eni P. Orlandi são explicados alguns recursos da análise de discurso utilizados para identificar as características ideológicas dos sujeitos. A primeira
delas é o “esquecimento” que é explicado de duas formas: primeiro na ordem da enunciação ela diz que “[...] ao falarmos, o fazemos de uma maneira e não de
outra, e, ao longo do nosso dizer, formam-se famílias parafrásticas que indicam que o dizer sempre podia ser outro”, isso quer dizer que acabamos expressando a
nossa impressão da realidade através da escolha que fazemos por determinadas palavras ou expressões. Já o esquecimento ideológico consiste na retomada de
algo que já foi dito como se tivesse se originado no sujeito que o faz. Ele faz isso inconscientemente, pois mesmo antes de ele nascer esse discurso já estava em
processo.
Outro recurso explicado pela autora são a “paráfrase” e “polissemia”. Segundo ela, “essas são duas forças que trabalham continuamente o dizer, de tal modo que
todo discurso se faz nessa tensão: entre o mesmo e o diferente”. Paráfrase é aquilo que se mantém nos dizeres e polissemia é a ruptura disso. Logo, temos que
tanto as constantes quanto as contradições existentes nos dizeres de um mesmo discurso ajudam-nos a identificar muito da situação e da ideologia desses
sujeitos, uma vez que sem essas transformações não haveria o movimento dos sentidos, nem a particularidade dos sujeitos. Orlandi completa o pensamento
dizendo que nem os sujeitos, nem os sentidos, nem os discursos já estão prontos e acabados, estão sempre se fazendo, estão sempre em movimento na tensão
entre paráfrase e polissemia. E essa incompletude é que condiciona a linguagem e cria os diferentes sentidos de um discurso.
“Um dizer tem relação com outros dizeres realizados, imaginados ou possíveis”, inicia Orlandi quando explica que, ao dizer, o sujeito se sustenta em outros dizeres
e também visa seus efeitos sobre o interlocutor, sendo que esses efeitos variam quanto à relação de poder que o interlocutor tem com o sujeito. Isso porque o
imaginário que um tem do outro interfere em como a mensagem será entendida, e em como o sujeito pensa que ela será entendida. Por muitas vezes os sujeitos
antecipam isso, imaginando qual será a imagem que causará nos interlocutores, buscando, através dessa antecipação, que sua imagem seja aquela que ele quer
ter para os interlocutores.
O autor demonstra mais adiante que uma “formação discursiva” é que determina o posicionamento ideológico de um discurso. “As palavras mudam de sentido
segundo as posições daqueles que as empregam.”, ou seja, a partir do momento em que relacionamos os diferentes sentidos que se pode ter de uma determinada
palavra com o sujeito que a usa em seu dizer, isso nos permite compreender o processo de produção dos sentidos e sua relação com a ideologia, levando-nos cada
vez mais próximos ao sujeito e a sua intenção ao dizer. A essa transferência de significação de uma palavra para outra, na análise de discurso, se dá o nome de
“metáfora”.
Ao afirmar que a presença da ideologia se dá através da interpretação dos sentidos a autora do livro demonstra que tanto os sentidos quanto os sujeitos de um
discurso também dependem da ideologia que adotam, e ao mesmo tempo são constantemente influenciados pela linguagem, pela história em que se inserem.
Orlandi ainda afirma que o gesto de interpretação se faz entre a memória institucional, que é aquilo que está incorporado ao sujeito desde sempre, e os efeitos da
memória constitutiva, que é o dizível, o interpretável, o saber discursivo. Considerando as afirmações da autora pode-se perceber que o sentido que percebemos
nos dizeres também estão sujeitos a deslocamentos, apesar de muitas vezes parecerem inalterados, pois somente com ideologia o indivíduo se torna sujeito com
identidade. Ainda no mesmo capítulo, Orlandi expõem que a forma histórica de um sujeito assim como a ideologia da
sociedade em que vive, pode alterar sua percepção sobre determinados discursos. Como por exemplo, no capitalismo, onde existem processos de individualização
do sujeito pelo Estado, que o submete a um reflexo da realidade aparentemente livre e responsável, provocando o assujeitamento dos indivíduos. A autora
também ressalta que “[...] é pela sua abertura que o processo de significação também está sujeito à determinação, à institucionalização, à estabilização e a
cristalização”, e que por isso temos que trabalhar continuamente a articulação entre estrutura e acontecimento.
O capítulo seguinte trata de como o analista deve proceder, tendo em vista todos os conceitos levantados anteriormente. Como ele deve trabalhá-los, a ponto de,
através deles, conseguir extrair de um determinado dizer os sentidos e ideologias do sujeito. Segundo a autora do livro “a Análise de Discurso não procura o
sentido ‘verdadeiro’, mas o real do sentido em sua materialidade lingüística e histórica.” A partir daí, Orlandi descreve como devem ser desenvolvidos os
dispositivos para aprimorar a análise e reforça as bases que devem ser consideradas, que são as condições de produção em relação à memória, onde intervém a
ideologia, o inconsciente, a falha, o equívoco.
A seguir, o livro traz alguns métodos para ordenar o processo de análise de discurso e organizar as aplicações feitas no objeto de análise. O primeiro deles mostra
que o primeiro passo para a análise é o levantamento dos elementos do contexto de produção como o papel social do produtor e interlocutor, lugar social,
momento da produção. Feito isso, o próximo passo indicado pela autora é o trabalho com as paráfrases, polissemias, metáforas e a relação dizer/não dizer. Neste
último, deve-se construir uma nova versão do objeto de análise, dizendo de outra forma o que é dito, isto para demonstrar que, ao contrario do que parece, o
dizer pode sim ser dito de outro modo, sem alterar sua definição semântica, mas podendo alterar a forma como significa dentro do discurso. Após isso, é preciso
identificar relações do discurso com formações discursivas que estejam agindo sobre ele, e assim relacioná-lo à ideologia do sujeito para, enfim, poder tirar
conclusões a partir dos sentidos de discurso já realizados, imaginados ou possíveis. Tanto a fundamentação dos conceitos, quanto a orientação de
como aplicá-los em um objeto de análise, feitos por Eni P. Orlandi em seu livro demonstram de forma clara os pontos que devem ser considerados na análise de
discurso. Entendidos e desenvolvidos esses pontos, podemos não só aprimorar nosso estudo em relação aos textos jornalísticos, como também estar cada vez
mais familiarizadas com o modo como se dão as publicações de grandes acontecimentos nos veículos midiáticos de nosso país, e o modo como cada um desses
veículos se posiciona em relação a eles.

Conhecimento Traz Liberdade*


Quando eu tinha 12 anos, decidi aprender a tocar trompete. Como nossa escola tinha uma banda, me inscrevi – sem imaginar o quanto iria
gostar da brincadeira.
Quando o professor entrou – com aquele brilho nos olhos – já sabíamos que estudar com ele seria uma experiência interessante.
E acertamos em cheio. Ele fez o melhor que pôde para nos inspirar.
Me lembro de uma ocasião quando desenhou no quadro um círculo com vários tracinhos na borda. Enquanto observávamos, acrescentou:
“Meninos, estão vendo essas marquinhas na beirada do círculo? Se o círculo representa o conhecimento que vocês têm hoje, cada tracinho
representa uma janela que pode ser aberta para novas descobertas na vida...”
Ele deu uma volta pela sala – dando um tempo pra assimilarmos o conceito – e substituiu o círculo por um outro maior.
“À medida em que vocês adquirirem mais conhecimento, seu círculo crescer – e você pode abrir mais e mais janelas para o mundo...”
Notando que havia captado nossa atenção, ele desenhou o último círculo:
“Podem me dizer o que vai acontecer quando o círculo de vocês crescer, e crescer, e crescer?”
Uma vozinha tímida veio lá do fundo:
“Esses círculos não têm fim, professor. Quanto mais você aprende, mais você pode.”
Olhamos pra trás admirados. Aquele rapazinho de 12 anos havia resumido o momento... Ele estava ainda mais surpreso do que nós! O
professor concordou, animado:

“Mandou bem! A liberdade é resultado do conhecimento!”


E aquele foi apenas o começo de muitas, muitas outras descobertas que fizemos juntos.

• ENGLISH VERSION
Knowledge Brings Freedom
When I was 12, I wanted to learn how to play the trumpet. As our school had a band, I promptly enrolled for it, not knowing how much I
would enjoy the whole process.
When our teacher came on the scene – with a glimmer in his eyes – we knew that learning from him would be an amazing experience.
And we were absolutely right. He did his best to inspire us.
I still recall when he drew a small circle on the blackboard and crossed its border about a dozen times. While we held our breath, he said:
"My boys, can you see those little marks around this circle? If the circle represents all the knowledge you currently have, each check
represents a window that may be opened to new discoveries in life..."
He moved around - giving us a little time to think about the concept – and replaced the first circle with a larger one.
"As you acquire more knowledge, your circle keeps growing, and you can set up more and more windows to interact with the world..."
Noticing that he had our attention, he added the last circle:
"Can you tell me what is going to happen when your circle grows and grows in constant motion?"
A timid voice came from the back:
"Those circles will never end, teacher. The more you learn, the more you can!"
We all looked back surprised. That 12-year-old young man had so beautifully summarized the moment... He was even more surprised than
we were! The teacher nodded, excited:
"You've got it! Freedom is the result of learning!"
And that was just the beginning of many, many discoveries we made together.
*Este texto é parte integrante do livro ‘Aprenda Inglês em Casa’, que pode ser adquirido na seção Livros à Venda.
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Teresina, 20Fev2011

Cara Bênção,

Pesou-me ver que sua leitura pouco ou nada refletia o propósito dos meus pequenos (e mal sucedidos) textos. Incapaz de fazer-me
entendido (pobre escritor que sou!), consegui a infelicidade de deixá-la irritada e, assim, tornei-me detestável. É horrível e penoso sentir-se
assim, "detestável". Nem queira saber!

Quando você disse que até leria o que eu porventura lhe escrevesse, mas nada responderia, ...chorei por dentro. Era uma 6ªfeira triste, e
dias tristonhos se seguiriam a ela, ao menos para mim. Não há culpa em você. Ela é toda minha. Ciente disso, ardentemente desejei voltar
no tempo para..., mas ele "passa e nós voamos" (Salmo 90.10).

Tentarei não mais lhe escrever. Isso é bem mais difícil do que você possa imaginar. Serei capaz? Conseguirei? Mesmo que eu fraqueje aqui
ou ali, você não o saberá; meus escritos (fracassos) serão secretos. Não pense que deixei ou deixarei de gostar de você, de ser seu amigo.
Não! Nunca! Jamais! Isso eu sei que não conseguiria.

Imaginando ser este texto "o último dos moicanos" (lembra?), quis fazê-lo em forma poética, de uma a outra alma, de um a outro coração,
sem olvidar o bom e equilibrado juízo da razão.

Nos poemas abaixo, produzidos em meio à intensa turbulência desses dias cinzentos, há muito de mim mesmo e (a quem enxergar possa)
um pouco de você. Na verdade, penso que neles há muito de nós, todos nós que vivemos a condição humana: mescla de sonhos, seivas e
risos, desilusões, temores e tristezas. Sendo assim, resta-nos (eu que o diga!) aprender a "contar nossos dias de modo a alcançar corações
sábios" (Salmo 90.12). Trôpego, astigmático e míope que seja, persisto nessa caminhada crescente, salutar e contínua.

Finalmente, com todas as forças e melhores intenções da minha alma, torço para que lhe seja uma boa e profícua leitura. Ainda que
reflitam um tanto do autor, tais versos, antes mesmo de terem sido escritos, já pertenciam a outra pessoa e para ela surgiram. São todos
seus, não meus. Todavia, caso lhe ocorra não entender algo do todo que é seu, talvez eu possa lhe ajudar a percorrer as trilhas formadas
pelas palavras. Ponho-me a seu dispor, não para monólogo (história de um), mas para diálogo (história de dois ou mais).

Inútil apontar direção a quem conhece o caminho? Igualmente será nomear este autor, sincero e conhecido amigo do leitor.

EMUDECIDAS VOZES

Encharcado na dor do golpe sentido


Refuga, contorce-se, anda a esmo e cai;
Lambendo o liquefeito sal que da visão escorre,
Assombra-lhe o fundo rasgo que na alma trás.
Inepto, mira labirintos de indiferenças e medos;
Nulificado, ouve funestos planos de murmurantes "ais"
E, sem fome, sorve gélida sopa de intrigas.

Lastimáveis fontes de abjetas crises!


Antes não existissem ou mencionadas fossem!
Irradiante paz do olhar amigo, outra vez brilhe!
Núncio afeto de alegre encanto, sê rebento forte!
Emudecidas vozes, soai firmes, meigas e nobres!

LEITURA & AMIZADE

Elencáveis antagonismos perversos e impróprios


Nulificam a beleza dos significados pretendidos;
Inaceitáveis, permutam sentidos, torcem desejos;
Avessos ao diálogo, corruptores dos conceitos,
Lamuriam a graça do riso, sonegam doçura ao texto.

Lançada a palavra límpida, por que fazê-la turva?


Agitada a flâmula da paz, por que abraçar a guerra?
Instado à clemência vital, por que a vingança inglória?
Nebulosos porquês; abissais, iníquos, espúrios.
E maculada a latina norma, labéu: “in dúbio pro reu”.

Eu quero o bem oculto nas palavras ditas ou inferidas,


Não a exegese maniqueísta do ruim pretenso ao texto.
Importa-me ouvir a voz, ler o dito, degustar a fala,
Aprender, pouco a pouco, aqui, agora, ali e além,
Lembrar que "amigo" é canção a guardar no cárdio peito.