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José Mariano Amabis

Licenciado em Ciências Biológicas pelo Instituto de Biociências –


Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.
Doutor e Mestre em Ciências, na área de Biologia (Genética)
pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.
Professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (1972-2004).
Coordenador de Atividades Educacionais e de Difusão do Centro de Estudos
do Genoma Humano da Universidade de São Paulo (2000-2004).

Gilberto Rodrigues Martho


Licenciado em Ciências Biológicas pelo Instituto de Biociências –
Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.
Lecionou Biologia em escolas de ensino médio e cursos pré-vestibulares.

Biologia
volume

2
Biologia dos
organismos

Componente curricular: Biologia

MANUAL DO PROFESSOR
3a edição

São Paulo, 2010

Frontis PNLEM_Biologia Amabis 1 a 3 LP.indd 2 4/15/10 6:04:56 PM


UNIDADE A A diversidade biológica

Capítulo
Sistemática e

1 classificação biológica
Desvendando o parentesco evolutivo
Evidências fósseis, anatômicas e moleculares permitem aos
cientistas descobrir relações de parentesco entre os seres vivos,
mesmo que a adaptação tenha levado a grandes mudanças
O reconhecimento da grande na aparência. Peixes-bois, por exemplo, são mais aparentados
variedade de seres vivos existentes aos elefantes do que às baleias e aos golfinhos.
levou os cientistas a desenvolver
um sistema para organizar e
compreender essa diversidade;
Passos de uma história evolutiva
esse sistema é a classificação Evidências fósseis sugerem que os sirênios, grupo ao qual
biológica, ou taxonomia. pertence o peixe-boi, tenham sido os primeiros mamíferos
Este capítulo apresenta os a se adaptarem à vida no ambiente aquático.
princípios fundamentais da
classificação biológica, que faz
parte da Sistemática, o ramo
da Biologia cujo objetivo maior
é descobrir as relações de
parentesco evolutivo entre as
espécies biológicas atuais e as
que viveram no passado. Pezosiren portelli,, um sirênio extinto que viveu há cerca
de 50 milhões de anos, era quadrúpede e tinha as
1.1 Fundamentos da pernas posteriores bem desenvolvidas, com um estilo
classificação biológica de vida anfíbio semelhante ao dos hipopótamos atuais.

A classificação biológica, ou taxonomia,


distribui os seres vivos em grupos
hierárquicos, nos quais grupos
“menores” ficam incluídos em outros
mais abrangentes.
1.2 Classificação biológica e
parentesco evolutivo
A classificação biológica moderna tem Metaxytherium floridanum,, que viveu entre 20 milhões e
1 milhão de anos atrás, não tinha membros posteriores
por base a teoria da evolução e procura
e representa uma transição entre as formas mais antigas
evidenciar as relações de parentesco e os sirênios atuais.
evolutivo entre os grupos de seres vivos.
1.3 Os reinos de seres vivos
Quantos reinos de seres vivos devemos
considerar: três, cinco, oito ou mais? Seja
qual for o sistema adotado, o importante
é conhecer as principais categorias de seres
vivos e as características que levam à sua
inclusão em um ou em outro reino.
Os sirênios atuais não apresentam pernas traseiras e seus
membros anteriores têm forma de nadadeiras.

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Há três espécies atuais de peixe-boi: Trichechus
manatus, Trichechus inunguis e Trichechus senegalensis.
O maior deles é T. manatus, que pode atingir até 4 m
de comprimento e pesar cerca de 800 kg. O T. inunguis
atinge 2,5 m e 300 kg. T. senegalensis tem entre 3 e 4 m
de comprimento e cerca de 500 kg.

O peixe-boi-marinho
(T. manatus) tem unhas e
pode viver tanto em água
salgada quanto em água doce.
O peixe-boi-da-amazônia
(T. inunguis) não tem unhas
e vive apenas na bacia do
Os peixes-bois rio Amazonas.
comunicam-se
por meio de sons,
como as baleias Por causa da caça intensiva pela
e os golfinhos. carne, couro e gordura, as duas
espécies brasileiras de peixe-boi
estão em risco de extinção.

ilustrações: nilson cardoso

O termo “Sirenia” – sereia – Os sirênios são os


vem do grego e se refere a únicos mamíferos
um ser mitológico metade aquáticos herbívoros.
mulher, metade peixe.

Para pensar
Parentesco evolutivo Hyracoidea
Os grupos atuais
Paenungulata A denominação “peixe-boi”, dada
evolutivamente mais
Sirenia aos sirênios, não parece muito
próximos aos sirênios
adequada quando se consideram
são os proboscídeos
as características desse animal e a
(elefantes) e os hiracoídeos,
Tethytheria
relação de parentesco com outros
pequenos mamíferos
Proboscidea
animais. Em sua opinião, qual nome
africanos do tamanho
seria mais apropriado a esse grande
de coelhos.
mamífero aquático? Por quê?

(Imagens sem escala, cores-fantasia.)


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Seção 1.1
Fundamentos da
classificação biológica

❱❱  Habilidades 1 Breve história da classificação


sugeridas dos seres vivos
CC     Reconhecer que as À primeira vista, a incrível diversidade da vida parece inacessível à
polêmicas e a falta nossa compreensão. Entretanto, os estudos têm mostrado que, apesar de
de consenso entre os formidável, a variedade biológica se manifesta em relativamente poucos
cientistas quanto à “temas”, ou padrões, gerais. Vejamos o que isso quer dizer.
classificação dos Embora se conheçam cerca de 1.250.000 espécies de animais inver-
seres vivos devem- tebrados, a grande maioria deles, mais de 1 milhão, tem corpo formado
-se à variedade de por segmentos transversais, revestido por uma armadura resistente (o
pontos de vista sobre exoesqueleto), e apêndices corporais (pernas, antenas etc.) dotados de
o assunto, indicativo de juntas articuladas, isto é, dobráveis. Essas características compõem o
que a ciência é padrão corporal básico dos animais denominados artrópodes (termo que
um processo em

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


significa “pernas articuladas”), e a enorme diversidade do grupo resulta
contínua construção. de variações em torno desse padrão.
CC     Conhecer a hierarquia O grupo dos artrópodes é atualmente composto por insetos, crustáceos,
nas relações aracnídeos e miriápodes, entre outros animais menos conhecidos. Dentro
de inclusão das do grupo dos artrópodes pode-se, por exemplo, reconhecer claramente um
seguintes categorias “padrão inseto” — corpo revestido por exoesqueleto, dividido em cabeça,
taxonômicas: espécie, tórax e abdome, e apêndices articulados, sendo três pares de pernas e
gênero, família, ordem, um par de antenas.
classe, filo e reino.
O reconhecimento desse padrão básico de organização corporal ajuda-nos
CC     Compreender a a entender a variedade do grande grupo dos insetos, que reúne mais de 700
importância da mil espécies descritas. Esse modo de proceder, isto é, agrupar os seres
nomenclatura binomial vivos de acordo com padrões compartilhados, tem ajudado os cientistas
e reconhecer que a a organizar e a compreender a diversidade da vida. (Fig. 1.1)
primeira palavra do antena antenas
nome científico
designa o gênero
(epíteto genérico) e
a segunda, a espécie adilson secco

(epíteto específico).

❱❱  Conceitos principais
• classificação biológica
• táxon
Inseto Quelicerado Crustáceo
• nomenclatura binomial
Unidade A • A diversidade biológica

Inseto Quelicerado Crustáceo


• conceito biológico de Artrópodes
Artrópodes
espécie Figura 1.1 Apesar da formidável diversidade dos animais, a maioria apresenta o
• cladogênese padrão típico dos artrópodes, grupo que reúne animais de corpo segmentado,
• isolamento geográfico com exoesqueleto e apêndices corporais articulados, indicados em laranja.
(Imagens sem escala, cores-fantasia.)
• isolamento
reprodutivo
Nos três últimos séculos, pensadores e cientistas têm se empenhado
em desenvolver um sistema eficiente para organizar e compreender a di-
versidade de formas de vida. Esse sistema é a classificação biológica, ou
taxonomia, que distribui os seres vivos em grupos hierárquicos denomina-
dos táxons, com grupos “menores” incluídos em outros mais abrangentes.
Táxon é qualquer agrupamento de organismos com base em semelhanças:
pode ser uma espécie ou conjunto de espécies.
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Por exemplo, na taxonomia tradicional, o grande conjunto de seres vivos divide-se em diversos
reinos; esta categoria taxonômica é, portanto, a mais abrangente. O reino que contém o maior
número de espécies descritas é o reino Animalia, que reúne todos os animais, inclusive nossa
espécie; outro reino é Plantae, que reúne todas as plantas.
Dentro de cada reino há táxons menores, os filos; no reino Animalia, por exemplo, há um filo
que reúne todos os animais com apêndices corporais articulados denominados artrópodes (filo
Arthropoda). Outro filo, ao qual pertencemos, é o que reúne animais dotados de uma estrutura
dorsal de sustentação, a notocorda, presente na fase embrionária (filo Chordata). Dentro de cada
filo há táxons menores, e assim por diante.
Atualmente, a taxonomia faz parte de um ramo da Biologia denominado Sistemática, cujo
principal objetivo é estudar e compreender a diversidade da vida, como veremos mais adiante.

A classificação de Aristóteles
O filósofo grego Aristóteles (348-323 a.C.) foi pioneiro em classificar os seres vivos. Em um
de seus trabalhos, ele demonstra uma visão avançada da classificação biológica ao destacar a
importância da organização corporal dos animais como critério para dividi-los em grupos, ideia
que só foi retomada mais de 2 mil anos depois, por Lineu.
Aristóteles argumentava, por exemplo, que baleias e golfinhos, apesar de viverem em am-
biente aquático e apresentarem semelhanças com os peixes, diferiam notadamente destes na
organização de seus corpos, nisso assemelhando-se aos mamíferos, junto aos quais deveriam
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ser classificados. (Fig. 1.2)

Animais aéreos Animais terrestres Animais aquáticos


Bob Jensen/Alamy/Other Images

Fabio Colombini

André Seale/Pulsar
Palê Zuppani/Pulsar

R-P/Kino

André Seale/Pulsar

Capítulo 1 • Sistemática e classificação biológica


Fabio Colombini

Frans Lemmens/Alamy/Other Images

André Seale/Pulsar

Figura 1.2 Um sistema de classificação utilizado na Grécia antiga dividia os animais


em aéreos, terrestres e aquáticos.

(As imagens desta página não apresentam proporção entre si.) 19

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Depois de Aristóteles, praticamente não ocorreram progressos significativos na classificação
biológica até o Renascimento, período histórico que abrange os séculos XIV, XV e XVI. A partir
de então, os estudiosos começaram a pensar em sistemas que agrupassem os seres vivos de
acordo com suas características mais típicas, como estrutura corporal e funções orgânicas, e
não com base em critérios arbitrários, místicos ou de utilidade prática, como se fazia até então.
Começavam a surgir, assim, os primeiros sistemas naturais de classificação, em que o objetivo
era utilizar na classificação apenas características realmente importantes da natureza biológica,
diferenciando-se dos muitos sistemas “artificiais” desenvolvidos anteriormente.

O sistema de classificação de Lineu


A classificação biológica moderna teve início com os trabalhos do botânico sueco Carl von
Linné (1707-1778), também conhecido por Carolus Linnaeus, forma latinizada de seu nome, ou
Lineu, em português. As ideias de Lineu sobre classificação biológica foram publicadas em seu
livro Systema Naturae (Sistema natural), cuja primeira edição saiu em 1735.
Para Lineu, o número de espécies existentes na natureza era fixo e havia sido determinado por
Deus no momento da criação. Espécie era um grupo de indivíduos dotados de certas característi-
cas estruturais típicas, ausentes em outros grupos. Lineu justificava seu trabalho argumentando
que um sistema de classificação perfeito seria capaz de revelar o plano e as intenções do Criador
ao “desenhar” o universo.

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Ele ponderava que era preciso escolher criteriosamente as características utilizadas para
agrupar os seres vivos, pois certas semelhanças podiam ter pouca importância na classificação.
Por exemplo, o hábitat dos organismos, muito utilizado em classificações antigas, não deveria ser
empregado como critério, uma vez que há animais aéreos tão diferentes como uma mosca, um
morcego e uma gaivota, e animais aquáticos tão distintos como águas-vivas, baleias e ostras.
Lineu acreditava que as características anatômicas (isto é, relativas à estrutura corporal)
eram as mais adequadas para agrupar os seres vivos e utilizou-as como critério principal em seu
sistema de classificação. Ele agrupou os animais de acordo com semelhanças na organização
corporal e as plantas, de acordo com a forma corporal e a estrutura de flores e frutos. (Fig. 1.3)
Akg/Latinstock –
bibliothèque nationale, paris, frança

reprodução/Akg/Latinstock – swedish museum of natural history, estocolmo, suécia

Figura 1.3 Acima, o


Unidade A • A diversidade biológica

botânico sueco Lineu


(pintura de Alexander
Roslin, de  1850),
que lançou as bases
da classificação e da
nomenclatura biológicas.
À direita, frontispício do
livro Systema Naturae, de
Lineu, edição de 1768.

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A nomenclatura binomial
Um dos méritos de Lineu foi associar à classificação dos seres vivos um sistema eficiente para
lhes dar nomes, ou seja, uma nomenclatura biológica. Ele propôs que o “nome científico” de todo
ser vivo fosse sempre composto por duas palavras, a primeira referindo-se ao epíteto genérico e
a segunda, ao epíteto específico. Vejamos o que isso significa por meio de um exemplo.
Cães e lobos, que Lineu considerava duas espécies distintas, eram para ele semelhantes o
bastante para ser colocadas juntas em um táxon mais abrangente, hierarquicamente superior
ao de espécie, que ele chamou de gênero. Essas espécies teriam um mesmo epíteto genérico —
Canis — acompanhado dos respectivos epítetos específicos — familiaris e lupus —, portanto: Canis
familiaris e Canis lupus.
Por atribuir dois nomes a cada espécie, o sistema criado por Lineu ficou conhecido como
nomenclatura binomial, e é utilizado até hoje. É possível que você conheça nomes científicos
como Homo sapiens (espécie humana), Drosophila melanogaster (mosca-do-vinagre, ou mosca-
-da-banana), Araucaria angustifolia (pinheiro-do-paraná), Musa paradisiaca (banana), entre outros.
(Tab. 1.1)

  Tabela 1.1   Nomes científicos de alguns organismos


Nome popular Nome científico
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Batata-inglesa Solanum tuberosum

Lobo Canis lupus

Espécie humana Homo sapiens

Gato Felis catus

Girafa Giraffa camelopardalis

Milho Zea mays

Minhoca Pheretima hawayana

Uma das regras da nomenclatura binomial determina que os nomes científicos dos organismos
sejam escritos em latim (ou devem ser latinizados). A primeira letra do epíteto genérico deve ser
sempre maiúscula e a do epíteto específico, minúscula.
Além disso, o nome científico sempre deve ser destacado no texto em que aparece, seja pela
impressão em itálico ou grifado. Confira esses critérios nos nomes científicos escritos anterior-
mente e sempre que aparecerem no livro.
Na nomenclatura binomial, o epíteto genérico é sempre um substantivo e o epíteto específico é
geralmente um adjetivo, que qualifica o gênero. Por isso, de acordo com as regras nomenclaturais, Capítulo 1 • Sistemática e classificação biológica
podemos escrever o nome genérico sozinho, desde que seguido de uma abreviatura padronizada.
Por exemplo, para nos referirmos a um animal do gênero Canis sem especificar se é lobo, coiote
etc., apenas acrescentamos a abreviatura “sp.” após o nome do gênero. Veja na frase: “O que se
pode dizer, pelos rastros do animal, é que se trata de um Canis sp.”. Para nos referirmos simulta-
neamente a várias espécies do gênero Canis, acrescentamos a abreviatura “spp.” após o nome
do gênero. Veja na frase: “Os Canis spp. possuem dieta essencialmente carnívora”.
Ao contrário do gênero, o epíteto específico não pode ser escrito sozinho. Por exemplo, o nome
científico de uma mosca escura comum em nossas casas é Musca domestica; entretanto, se es-
crevermos domestica isoladamente não identificaremos aquela mosca, pois existem (ou podem
existir), em outros gêneros, espécies com esse mesmo epíteto específico. Alguns exemplos de
espécies que compartilham o epíteto específico domestica são: Curcuma domestica (cúrcuma),
uma planta da qual se extrai um corante utilizado em culinária; Nandina domestica, um tipo de
bambu; Monodelphis domestica, um pequeno mamífero marsupial encontrado em florestas tro-
picais da América do Sul.
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Ao ser utilizado pela primeira vez em um texto, o nome científico deve necessariamente ser
escrito por extenso; nas demais vezes em que aparece, a parte genérica pode ser abreviada. Por
exemplo, depois de nos referirmos ao nome científico Canis lupus uma primeira vez em um texto,
podemos passar a escrever simplesmente C. lupus.
Você pode estar se perguntando por que a nomenclatura científica é tão rigorosa. O principal
motivo é que regras bem estabelecidas e aceitas por todos facilitam a comunicação entre os
cientistas e mesmo entre os não cientistas. Os nomes populares dos seres vivos variam nos
diferentes idiomas e também em diferentes regiões de um mesmo país, ao passo que o nome
científico é um só: ele designa apenas uma espécie catalogada e descrita detalhadamente pelos
estudiosos, o que evita confusões.
Por exemplo, na Região Sul do Brasil há um pássaro conhecido popularmente como cardeal,
classificado pelos biólogos como Paroaria coronata. Essa mesma espécie também vive no pantanal
mato-grossense, onde recebe o nome popular de galo-da-campina; ou seja, a mesma espécie, P.
coronata, é conhecida por dois nomes regionais diferentes (no Sul, cardeal e, no Centro-Oeste,
galo-da-campina). No pantanal mato-grossense vive também a espécie Paroaria capitata, conhe-
cida localmente por cardeal; ou seja, a denominação popular “cardeal” refere-se a duas espécies
distintas (no Sul, P. coronata e, no Centro-Oeste, P. capitata). E, como se não bastasse essa
confusão, no Nordeste brasileiro dá-se o nome de galo-da-campina a uma terceira espécie do
mesmo gênero, Paroaria dominicana. (Fig. 1.4)

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Pete Oxford/Minden/Latinstock

SA Team/Foto Natura/Minden/Latinstock

A C
Haroldo Palo Jr./Kino

Figura 1.4 A. Pássaro da espécie Paroaria coronata,


que recebe os nomes populares de cardeal na Região
Sul e galo-da-campina na região do pantanal
mato-grossense. B. Pássaro da espécie Paroaria
capitata, conhecido popularmente como cardeal
no pantanal mato-grossense. C. Pássaro da espécie
Paroaria dominicana, que recebe o nome popular
de galo-da-campina na Região Nordeste.

2 Categorias taxonômicas
Unidade A • A diversidade biológica

Durante anos Lineu trabalhou na elaboração de um sistema rigoroso para classificar plantas,
animais e minerais, aprimorando-o gradativamente e desenvolvendo o sistema de nomenclatura.
Foi apenas na décima e última edição de seu livro Systema Naturae, publicada em 1758, que ele
apresentou a proposta detalhada de nomenclatura binomial que acabamos de ver.
Lineu elegeu a espécie como o táxon mais básico de sua classificação. Como já mencionamos,
para ele espécie era um grupo de indivíduos dotados de certas características estruturais típicas,
ausentes em outros grupos. O táxon imediatamente superior à espécie, em termos hierárquicos,
foi chamado de gênero. Este, portanto, reúne espécies que apresentam certas semelhanças.
Seguindo a linha de criar táxons cada vez mais abrangentes, Lineu reuniu gêneros semelhantes
em uma categoria denominada ordem; ordens semelhantes em classe, e classes semelhantes
em reino. Posteriormente, foram criados outros táxons, como família (entre gênero e ordem),
tribo (entre família e gênero) e filo (entre classe e reino).
22 (As imagens desta página não apresentam proporção entre si.)

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É possível conceituar espécie biológica?
Logo após a publicação do livro A origem das espécies pelo natura-

SPL/Latinstock
A
lista inglês Charles Darwin, em 1859, seu colega, Thomas Henry Huxley,
também um naturalista inglês, questionou-o quanto ao título e propósito
da obra: “Mas, em primeiro lugar, o que é uma espécie?”.
Darwin, apesar do título de seu livro, não estava realmente preocupa-
do com a definição precisa de espécie, por considerá-la desnecessária
para demonstrar que a evolução era responsável pela diversidade da
vida. Ele escreveu: “Nenhuma definição de espécie conseguiu, ainda, sa-
tisfazer a todos os naturalistas, embora todos eles saibam vagamente
o que se quer dizer quando se fala em espécie”.
Essas palavras de Darwin continuam válidas, mesmo tendo sido es-
critas há mais de 150 anos. Não se tem, até hoje, uma definição única

Bruni Meya/AKG/Latinstock
e geral para espécie biológica. Muitos chegam a discutir se existem B
realmente espécies na natureza ou se elas não seriam apenas criações
arbitrárias dos biólogos, em sua tarefa de conceituar e organizar o co-
nhecimento. Outros defendem que o conceito de espécie é importante,
mas tem necessariamente de ser operacional, isto é, permitir a distinção
inequívoca de cada espécie biológica.
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Conceito biológico de espécie


Nas décadas de 1930 e 1940, dois grandes cientistas e divulgadores
da teoria evolucionista, Theodosius Dobzhansky (1900-1975) e Ernst
Mayr (1904-2005), propuseram uma conceituação de espécie que ficou
Figura 1.5 Fotos do
conhecida como conceito biológico de espécie. (Fig. 1.5) geneticista ucraniano
Segundo Dobzhansky e Mayr: “Espécie é um grupo de populações Theodosius Dobzhansky (A)
e do zoólogo alemão Ernst
cujos indivíduos, em condições naturais, são capazes de se cruzar e de Mayr (B), em 2001 em
produzir descendentes férteis, estando reprodutivamente isolados Berlim, ambos naturalizados
de indivíduos de outras espécies”. estadunidenses.

Note que o principal critério expresso nessa conceituação não é a


morfologia dos organismos e sim a possibilidade de haver ou não cru-
zamentos bem-sucedidos entre eles. Consideram-se da mesma espécie
apenas os indivíduos capazes de se cruzar e produzir descendentes
férteis e que apresentem isolamento reprodutivo em relação aos de
outras espécies.
Duas espécies apresentam isolamento reprodutivo quando seus
membros não se cruzam em condições naturais ou, mesmo que se
cruzem, sua descendência não é fértil. Por exemplo, a égua (Equus
caballus) e o jumento (Equus asinus) cruzam-se com facilidade e pro-
Capítulo 1 • Sistemática e classificação biológica
duzem híbridos popularmente chamados de mulas ou burros. Esses
híbridos, entretanto, são quase sempre estéreis, de modo que surgem
somente pela hibridização das duas espécies parentais: E. caballus e
E. asinus. (Fig. 1.6)
McPhoto/Vario Images/
Other Images

Haroldo Palo Jr./Kino

Maurício Simonetti/Pulsar

A B C

Figura 1.6 O cruzamento entre uma égua (Equus caballus) (A) e um jumento (Equus asinus) (B) gera a mula
(C), um híbrido estéril. Se o cruzamento for entre um cavalo e uma jumenta, nasce o híbrido conhecido
como bardoto, também estéril, que apresenta mais semelhanças com a jumenta do que com o cavalo.

(As imagens desta página não apresentam proporção entre si.) 23

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Na definição biológica de espécie, a ressalva “em condições naturais” é importante, pois há es-
pécies cujos indivíduos podem se cruzar e produzir descendentes férteis em condições artificiais
de cativeiro, embora nunca se cruzem em condições naturais. Na natureza, essas espécies estão
reprodutivamente isoladas umas das outras. O exemplo a seguir nos ajudará a aprofundar as refle-
xões sobre a conceituação biológica de espécie.
Em alguns jardins zoológicos do mundo já foram obtidos cruzamentos entre leões (Panthera
leo) e tigres (Panthera tigris). O cruzamento entre um leão e uma tigresa produz o híbrido deno-
minado liger (do inglês, lion e tiger). Nos poucos cruzamentos desse tipo ocorridos no mundo,
os ligers revelaram-se estéreis, ou seja, incapazes de deixar descendentes e de perpetuar suas
características (uma mistura entre leão e tigre). Esse fenômeno equivale ao que ocorre entre
égua e jumento.
Em cruzamentos entre um tigre e uma leoa, por sua vez, surge outro tipo de híbrido, o tigon
(do inglês, tiger e lion). Segundo biólogos de alguns zoológicos, fêmeas de tigon férteis já foram
cruzadas com tigres, produzindo descendentes também férteis, batizados de ti-tigons. Ainda
que sejam férteis, os ti-tigons só existem em cativeiro; nunca foram encontrados em condi-
ções naturais, e uma das razões é que os hábitats dos leões (savanas africanas) e dos tigres
(florestas da Índia e da China) são completamente isolados. Com base nessas observações,
mesmo que sejam capazes de se cruzar em cativeiro, leões e tigres podem ser considerados
espécies distintas, de acordo com o conceito biológico, pois nunca se cruzam em condições

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


naturais. (Fig. 1.7)
Sharon Lowe/Alamy/Other Images
tbkmedia.de/Alamy/Other Images

A B
Christian Charisius/Reuters/Latinstock

Figura 1.7 Leões (A) e tigres (B) pertencem ao


mesmo gênero (Panthera) e a espécies distintas
(P. leo e P. tigris, respectivamente), mas podem
se cruzar em cativeiro, o que já ocorreu em alguns
zoológicos, originando o liger ou o tigon (C).
Em condições naturais, essas espécies não se
cruzam, pois vivem em ambientes diferentes
e têm hábitos distintos. Os leões vivem em
grupo nas savanas, ao passo que os tigres
Unidade A • A diversidade biológica

são solitários e habitam florestas.

Conceito de subespécie, ou raça geográfica


Uma população biológica pode crescer e se espalhar por diferentes ambientes existentes na
área ocupada pela espécie. Por exemplo, uma população de pássaros que viviam originalmente
em um continente pode espalhar-se por diversas ilhas costeiras.
Com o passar do tempo, cada subpopulação modifica-se em decorrência de mutações e
pressões seletivas específicas, adaptando-se ao novo ambiente. Por exemplo, em cada ilha, os
pássaros migrantes encontram hábitats e recursos alimentares peculiares e desenvolvem ca-
racterísticas adaptativas ajustadas à sua exploração. Formam-se assim novas populações com
características peculiares.

24 (As imagens desta página não apresentam proporção entre si.)

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Esse processo evolutivo em que, a partir de uma população original, se formam novas po-
pulações com características adaptativas próprias, que as distinguem entre si, é chamado
radiação adaptativa.
Populações de uma mesma espécie, que surgem por radiação adaptativa e podem ser diferenciadas
por critérios diagnósticos precisos, são chamadas de subespécies, ou raças geográficas.
Por exemplo, alguns especialistas reconhecem atualmente 32 subespécies de lobo (Canis lupus): 24
vivem na América do Norte e 8 na Eurásia. A distinção entre elas é feita com base em características
como tamanho corporal, cor da pelagem, tamanho e forma do crânio e das orelhas e espessura dos
dentes molares. Admite-se que essas subespécies de lobo surgiram por radiação adaptativa de uma
população ancestral de Canis lupus.
A denominação científica de uma subespécie requer o acréscimo de um terceiro termo ao binômio
que designa a espécie. Por exemplo, alguns paleontólogos consideram os homens neandertalenses
(hoje extintos) e os seres humanos atuais duas subespécies de uma mesma espécie, denominando-as
Homo sapiens neanderthalensis e Homo sapiens sapiens, respectivamente.
Outro exemplo é o dos gorilas, que são separados pelos especialistas em duas espécies — Go-
rilla gorilla e Gorilla beringei —, cada uma delas com duas subespécies: Gorilla gorilla gorilla, Gorilla
gorilla diehli, Gorilla beringei beringei e Gorilla beringei graueri.
A caracterização de subespécies é ainda mais polêmica que a de espécies. Por exemplo, em
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

1993, o Instituto Smithsoniano e a Sociedade Americana de Mamalogistas reclassificaram os


cães, que deixaram de ser considerados uma espécie biológica, designada como Canis fami-
liaris, e passaram a ser uma subespécie do lobo (Canis lupus), com o nome científico de Canis
lupus familiaris. Algumas autoridades científicas queriam ir mais além, defendendo a ideia de
que os cães domésticos não devem ser considerados sequer uma subespécie, mas apenas
uma variante doméstica do lobo cinzento; assim, deveriam ser denominados, simplesmente,
Canis lupus. (Fig. 1.8)
Blickwinkel/Alamy/Other Images

Eichaker Xavier/Biosphoto/Other Images

A B

Capítulo 1 • Sistemática e classificação biológica


Imagebroker/Alamy/Other Images

Figura 1.8 A. Canis lupus lupus. B. Canis lupus arabs.


C. Canis lupus familiaris.

(As imagens desta página não apresentam proporção entre si.) 25

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Como a teoria evolucionista explica a formação de novas espécies
A formação de novas espécies, processo denominado especiação, é a base do processo evolutivo.
Segundo os biólogos, a principal maneira de novas espécies se formarem na natureza é por cladogê-
nese (do grego klados, ramo, e genesis, origem), também chamada especiação por diversificação.
Em linhas gerais, cladogênese é a divisão de uma espécie ancestral em dois ou mais novos
ramos que, ao final de algum tempo, constituem novas espécies.
A cladogênese teria início com a separação física entre duas ou mais populações de uma
espécie ancestral, o chamado isolamento geográfico, que dificulta ou impede completamente
o encontro entre indivíduos das populações isoladas. O isolamento pode ser causado por um rio
que corta uma planície, um vale que separa dois planaltos, um braço de mar que separa ilhas e
continentes etc.
Uma vez isoladas, ou seja, em alopatria (do grego allos, outro, diferente, e do latim patrie,
local de nascimento), as populações de uma espécie passam a ter histórias evolutivas diferen-
tes. Mutações gênicas que ocorrem em uma delas podem não ocorrer na outra e vice-versa; a
adaptação a ambientes diferentes leva à diversificação dos isolados populacionais, de modo que
muitos de seus genes e, consequentemente, suas características morfológicas e fisiológicas
vão se tornando cada vez mais diferentes.
Nas fases iniciais desse processo de diversificação, se as populações isoladas voltam a
entrar em contato, ou seja, se tornam simpátricas (do grego syn, juntos), seus membros pas-

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


sam a se cruzar livremente, produzindo descendência fértil. Com isso, as diferenças entre elas
diminuem, pois seus genes se misturam e o resultado final é uma população única, com maior
variabilidade genética. Os cientistas admitem que subespécies de uma espécie encontram-se
nessa situação.
Se as populações continuam impedidas de trocar genes livremente, ou seja, se as barreiras
que impedem o livre cruzamento persistem, as diferenças se acumulam e os indivíduos das dife-
rentes populações se tornam incapazes de se cruzar livremente. Surge, assim, um novo tipo de
isolamento entre elas, o isolamento reprodutivo, e as duas populações passam a ser conside-
radas espécies distintas. (Fig. 1.9)

paulo cesar pereira


Espécie A

DIVERSIFICAÇÃO
GÊNICA

Separação geográfica de dois


Surgem duas
grupos populacionais ISOLAMENTO novas espécies
(espécie ancestral) REPRODUTIVO

ISOLAMENTO
GEOGRÁFICO
Unidade A • A diversidade biológica

DIVERSIFICAÇÃO
GÊNICA

Espécie B

Figura 1.9 Esquema ilustrativo da formação de duas novas espécies por diversificação de
uma espécie ancestral. O isolamento geográfico bloqueia a troca de genes entre dois grupos
populacionais dessa espécie, permitindo sua diferenciação gênica. A adaptação a cada ambiente
acentua as diferenças. O último passo da diversificação é o isolamento reprodutivo.

26

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Seção 1.2
Classificação biológica
e parentesco evolutivo

❱❱  Habilidades 1 A classificação biológica


sugeridas e a teoria evolucionista
CC     Compreender que a Em meados do século XIX, uma nova teoria revolucionou a Biologia e
classificação biológica
teve impacto direto sobre a classificação biológica: a teoria evolucionista
organiza a diversidade
de Charles Darwin, apresentada em 1859.
dos seres vivos e
facilita seu estudo, De acordo com a teoria evolucionista, todos os seres vivos atuais des-
além de apontar as cendem dos primeiros seres que habitaram a Terra bilhões de anos atrás.
possíveis relações de A vida teria surgido uma única vez e desde então foi se diversificando:
parentesco evolutivo espécies originaram outras, levando à enorme variedade de seres atuais.
entre diferentes grupos Nós e todas as outras formas de vida somos “parentes” em algum grau,
de organismos. pois temos ancestrais comuns no passado.
CC     Compreender os A incorporação dos princípios da teoria evolucionista à classificação
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

princípios básicos biológica forneceu as bases científicas para este ramo da Biologia.
da elaboração de Sem uma base teórica consistente, a classificação dos seres vivos não
árvores filogenéticas diferiria muito de qualquer outro sistema de classificação. Por exemplo,
e cladogramas, colecionadores de selos classificam os exemplares de suas coleções de
reconhecendo-os como acordo com diversos critérios, agrupando-os em diferentes categorias,
formas de representar como: personalidades, esportes, natureza etc. Estas podem ser subdivi-
as relações de didas em categorias menores, como o ano de emissão do selo e assim
parentesco entre por diante.
os seres vivos.
O que torna científica a classificação biológica moderna, diferenciando-a
❱❱  Conceitos principais substancialmente de outras classificações, é que ela se baseia na teoria
da evolução. O que se procura na classificação biológica é utilizar caracte-
• clado
rísticas que reflitam o grau de parentesco evolutivo entre os grupos.
• filogenia
• especiação Por causa disso, há uma tendência de abandonar as categorias
• Sistemática taxonômicas da classificação tradicional uma vez que, em diferentes
• biodiversidade grupos, não há correspondência entre os táxons. Por exemplo, os táxons
• órgãos homólogos que os estudiosos de mamíferos costumam chamar de família não cor-
• divergência evolutiva respondem, em termos evolutivos, aos que os entomólogos associam
• órgãos análogos a famílias.
• convergência evolutiva
Capítulo 1 • Sistemática e classificação biológica
Em lugar das categorias tradicionais, muitos sistematas têm preferido
• cladística utilizar o termo clado, ou clade, para designar um grupo de espécies cons-
• cladograma tituído por uma espécie ancestral e todos os seus descendentes.
Para a teoria evolucionista, as semelhanças e diferenças entre os
seres vivos resultam de suas histórias evolutivas. Duas espécies que se
diversificaram mais recentemente de uma espécie ancestral tendem a ter
mais semelhanças entre si do que com espécies cujo grau de parentesco
evolutivo é mais antigo. Por exemplo, nossos laços de parentesco com
um canário remontam a mais de 250 milhões de anos atrás, quando, a
partir de linhagens reptilianas, os ancestrais das aves e dos mamíferos
se diversificaram. Por outro lado, nosso parentesco com um chimpanzé é
bem mais próximo no tempo evolutivo: acredita-se que tivemos ancestrais
comuns há aproximadamente 5 milhões de anos, quando, a partir de uma
espécie de primata, surgiram os ancestrais dos chimpanzés e dos seres
humanos. As semelhanças e diferenças entre seres humanos, chimpanzés
e canários refletem esses graus de parentesco.
27

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Filogenias ou árvores filogenéticas
delphia

O próprio Darwin escreveu que, aceitando-se a


teoria evolucionista, as classificações passariam
seum, phila

a ser “genealogias”. Em 1879, cerca de vinte anos


depois da publicação do livro de Darwin, o médico e
l Society Mu

naturalista alemão Ernst Haeckel (1834-1919) elabo-


rou pioneiramente um diagrama em forma de árvore
para representar a genealogia evolutiva da espécie
Philosophica

humana. Ele a chamou de filogenia (do grego phylon,


grupo, e genesis, origem) ou árvore filogenética,
para designar as relações de parentesco evolutivo
/American

entre grupos de seres vivos. (Fig. 1.10)


reprodução

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Figura 1.10 Árvore filogenética da espécie
humana, apresentada em 1879 por Ernst
Haeckel em seu livro A evolução do homem.
Atualmente, as árvores filogenéticas são
mais esquemáticas e menos “artísticas”
que a representação pioneira de Haeckel.

Em uma árvore filogenética, a divisão de um ramo em dois indica que uma espécie ancestral,
naquela etapa do processo, separou-se em duas novas espécies, ou seja, ocorreu especiação.
Cada espécie atual representa a ponta de um ramo da árvore filogenética; se “descermos” por
um ramo dessa árvore encontraremos o ponto em que ele se une ao ramo vizinho (um “nó”); esse
ponto indica o ancestral mais recente que as duas espécies têm em comum. (Fig. 1.11)

Espécies atuais
adilson secco

C D F G C D F G

B
Escala do tempo
Unidade A • A diversidade biológica

Ancestralidade

Figura 1.11 À esquerda, árvore filogenética em que as espécies atuais C e D descendem da espécie
ancestral B, e as espécies atuais F e G descendem da espécie ancestral E. Note que o aparecimento
das espécies C e D foi posterior ao aparecimento de F e G. As quatro espécies atuais têm em
comum a ancestral A. À direita, a maneira mais comum de representar a árvore filogenética, em que
o ancestral está representado simplesmente pelo ponto de bifurcação.

28

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Na figura 1.12 podemos observar as relações de parentesco evolutivo entre alguns representan-
tes de diferentes gêneros da ordem Perissodactyla, à qual pertencem cavalos, zebras, rinocerontes
etc. Essa ordem é uma das muitas incluídas na classe dos mamíferos (Mammalia).
Observe, na parte superior esquerda da árvore, que asno, cavalo e zebra teriam como ancestral
comum um representante do gênero Equus que viveu no passado e originou todas as espécies
de equinos. Se “descermos” pela árvore filogenética a partir do ancestral equino, encontraremos
sua relação de parentesco com outros animais da ordem Perissodactyla, que reúne também as
antas (gênero Tapirus, família Tapiridae) e os rinocerontes (gêneros Rhinoceros e Diceros, família
Rhinocerotidae). Ao classificar cavalos, rinocerontes e antas na mesma ordem, indicamos que no
passado eles compartilharam uma espécie ancestral comum. (Fig. 1.12)

adilson secco
ESPÉCIE

E. asinus E. caballus E. zebra T. terrestris T. indicus R. unicornis D. bicornis


(asno) (cavalo) (zebra) (anta) (tapir malaio) (rinoceronte de um chifre) (rinoceronte de dois chifres)
GÊNERO

Equus Tapirus Rhinoceros Diceros


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FAMÍLIA

Equidae Tapiridae Rhinocerotidae

(girafas, porcos, hipopótamos etc.)


ORDEM

Perissodactyla
Artiodactyla
CLASSE

Mammalia

Figura 1.12 Relações de parentesco e classificação de alguns animais da ordem Perissodactyla, uma das muitas
ordens incluídas na classe dos mamíferos (Mammalia). (Imagens sem escala.) (Dados taxonômicos baseados em Tree
of life. Disponível em: http://tolweb.org/Eutheria/15997 – acesso em: mar. 2010.)

Até alguns anos atrás, as classificações baseavam-se quase exclusivamente na comparação


Capítulo 1 • Sistemática e classificação biológica
de características morfológicas dos seres vivos. Nos últimos anos, porém, a taxonomia tem
sido revolucionada pelo emprego de técnicas avançadas de Biologia Molecular, que permitem
comparar a composição química dos seres vivos, principalmente quanto a proteínas e ácidos
nucleicos (DNA e RNA).
A comparação bioquímica é importante, uma vez que o DNA é o material hereditário, que
compõe os genes; estes, expressando-se por meio dos RNAs e das proteínas, controlam
todas as características estrututurais e fisiológicas dos organismos. Portanto, a análise
bioquímica, associada aos estudos de semelhança anatômica e funcional, pode fornecer
pistas importantes sobre as relações de parentesco entre espécies de seres vivos.
Um caso recente em que evidências estruturais e bioquímicas se somaram foi o da classi-
ficação dos pandas-gigantes (Ailuropoda melanoleuca). Esses animais, nativos da China, foram
descritos pela primeira vez em 1869 e classificados na família dos ursos (família Ursidae). Mais
tarde, alguns biólogos questionaram essa classificação ao notar semelhanças estruturais entre
o panda-gigante e o panda-vermelho (Ailurus fulgens), existente no Himalaia e nitidamente apa-
rentado aos racuns norte-americanos (família Procyonidae).
29

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Após anos de debate, um detalhado estudo anatômico publicado em 1964 mostrou que o
panda-gigante era realmente um ursídeo, o que foi confirmado pela análise do DNA. Algumas das
características que o assemelhavam ao panda-vermelho surgiram devido à adaptação de ambos a
uma dieta constituída quase exclusivamente de bambu, e não do parentesco evolutivo. (Fig. 1.13)

Imagebroker/Alamy/Other Images
A C Urso- Urso- Urso- Panda- Panda-
-pardo -malaio -andino -gigante -vermelho Racum Cachorro

adilson secco
0

20

MILHÕES DE ANOS ATRÁS 40

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


60
tbkmedia.de/Alamy/Other Images

B 80

Figura 1.13 Apesar de ambos se chamarem “panda” e


de se alimentarem de bambu, o panda-gigante da China
(Ailuropoda melanoleuca) (A) é mais aparentado com
os ursos do que com o panda-vermelho do Himalaia
(Ailurus fulgens) (B), mais próximo dos racuns. A árvore
filogenética (C), elaborada com base em evidências
anatômicas, funcionais e bioquímicas, sugere as relações
de parentesco entre algumas espécies relacionadas aos
pandas. (Imagens sem escala.) (Baseado em Curtis,
H. e Barnes, N. S., 1989.)

2 Sistemática moderna
Até agora, apresentamos um panorama geral da história da taxonomia e de como se desen-
volveram seus princípios gerais. Discutimos também algumas das diferentes abordagens dos
Unidade A • A diversidade biológica

cientistas na tentativa de conceituar espécie, considerada uma importante entidade da natureza


biológica e o táxon mais básico da classificação.
Como mencionamos no início do capítulo, a taxonomia faz parte da Sistemática, ramo da
Biologia que estuda a biodiversidade, ou diversidade biológica. A biodiversidade compreende
todos os tipos de variações existentes entre os seres vivos, nos diferentes níveis de organização
biológica, desde o nível molecular até os ecossistemas.
Os principais objetivos da Sistemática são:
a) compreender os processos responsáveis pela existência da diversidade biológica;
b) desenvolver critérios para organizar a diversidade, agrupando os seres vivos de acordo
com características importantes;
c) descrever a diversidade biológica, desenvolvendo catálogos tão completos quanto possível
das características típicas de cada espécie, além de “batizá-la” com um nome científico.

30 (As imagens desta página não apresentam proporção entre si.)

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A Sistemática integra todos os conhecimentos disponíveis sobre os seres vivos para com-
preender e evidenciar suas relações de parentesco evolutivo, traçando filogenias que procuram
relacionar espécies atuais e espécies ancestrais já extintas. Assim, pode-se dizer que a Sistemá-
tica moderna teve início após a consolidação da teoria evolucionista de Darwin, segundo a qual
a origem da biodiversidade é a diversificação das espécies por evolução.
A aplicação dos princípios evolucionistas à taxonomia tem possibilitado rever a distribuição
hierárquica dos táxons nas classificações tradicionais. Hoje, o principal objetivo da classificação
é estabelecer um sistema natural em que as espécies sejam organizadas com base em seu grau
de parentesco evolutivo. É exatamente a adequação da taxonomia tradicional aos princípios da
moderna Sistemática que tem levado a muitas polêmicas entre os cientistas quanto à classifi-
cação dos seres vivos, fazendo desse ramo um dos mais dinâmicos da Biologia; e, ao que tudo
indica, as polêmicas ainda vão continuar por mais alguns anos.

Homologias e analogias
Um dos grandes desafios do biólogo sistemata é identificar nos organismos aspectos impor-
tantes para a classificação, sejam eles morfológicos, funcionais, cromossômicos ou moleculares.
A ideia é encontrar padrões de semelhança entre diferentes espécies, partindo do seguinte prin-
cípio: espécies que compartilham estruturas correspondentes herdaram-nas de um ancestral
comum que tiveram no passado.
Essas características comuns entre espécies, herdadas da mesma ancestralidade, são cha-
madas de homologias. Dizer que duas estruturas são homólogas implica dizer que as espécies
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

que as possuem tiveram um ancestral comum, que também as apresentava.


Órgãos homólogos são estruturas corporais que se desenvolvem de modo semelhante em
embriões de espécies diferentes que têm ancestralidade comum. Apesar da origem embrionária
semelhante, órgãos homólogos podem ser morfologicamente diferentes e desempenhar funções
distintas, como é o caso dos esqueletos das asas dos morcegos, adaptadas ao voo, e das nada-
deiras peitorais dos golfinhos, adaptadas à natação. (Fig. 1.14)
jurandir ribeiro

Úmero Falanges
Rádio Carpos

Braço e mão
humanos Ulna Metacarpos

Carpos Falanges
Rádio
Úmero

Nadadeira de

Capítulo 1 • Sistemática e classificação biológica


golfinho Metacarpos
Ulna

Rádio Metacarpos
Asa de
morcego Úmero

Ulna
Falanges

Carpos e Figura 1.14 Exemplo de órgãos


homólogos. Apesar de terem
Asa de Rádio metacarpos funções distintas, os membros
ave Úmero anteriores de uma pessoa, de
um golfinho, de um morcego
e de uma ave apresentam
Ulna Falanges esqueletos com o mesmo plano
estrutural e com a mesma
origem embrionária. (Imagens
sem escala, cores-fantasia.)

31

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Segundo a teoria da evolução, os órgãos homólogos apresentam semelhanças porque seu
plano estrutural básico foi herdado do ancestral comum ao grupo de espécies. Por outro lado,
funções diferentes dos órgãos homólogos podem ser explicadas se admitirmos que as espécies
se diversificaram ao longo da evolução, cada uma adaptando-se a um modo de vida particular.
Essa diversificação de estruturas homólogas decorrente da adaptação a modos de vida diferentes
é denominada divergência evolutiva.
Você pode estar se perguntando: “Será que a presença de estruturas semelhantes, em diferentes
espécies, sempre significa que elas tiveram ancestrais comuns?”. A resposta é: nem sempre.
Certas estruturas podem ter aparecido independentemente em linhagens diferentes de seres
vivos, ao longo de sua evolução. Por exemplo, as nadadeiras de um camarão e as de uma baleia
não são estruturas homólogas, pois, apesar de desempenharem funções semelhantes, são to-
talmente diferentes do ponto de vista anatômico e quanto à origem embrionária. Casos como
esses são chamados pelos biólogos de analogias. (Fig. 1.15)
Flip Nicklin/Minden/LatinStock

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Masa Ushioda/Stephen Frink Collection/Alamy/Other Images
Unidade A • A diversidade biológica

Figura 1.15 Exemplo de analogia. As nadadeiras de uma espécie de crustáceo e de uma


baleia são estruturalmente diferentes, o que indica que evoluíram independentemente
em diferentes grupos. As formas semelhantes resultam da convergência adaptativa ao
modo de vida aquático. Pode-se dizer o mesmo em relação às asas de um inseto,
de uma ave e de um morcego.

32 (As imagens desta página não apresentam proporção entre si.)

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Assim, órgãos análogos são estruturas que apareceram de forma independente em diferen-
tes grupos de organismos, constituindo adaptações a modos de vida semelhantes. Por exemplo,
asas são estruturas adaptadas para voar e, por isso, apresentam superfície ampla que permite
sustentação no ar. Esse princípio estrutural está presente tanto nas asas de insetos como nas
asas dos morcegos, que têm origens embrionárias totalmente distintas.
Durante a evolução, a adaptação a um determinado ambiente pode selecionar organismos
pouco aparentados, mas que apresentem estruturas e formas corporais semelhantes, o que
é denominado convergência evolutiva. (Fig. 1.16)

A C

jurandir ribeiro
B D
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Figura 1.16 Exemplo de convergência evolutiva. A forma hidrodinâmica do corpo


surgiu independentemente em diferentes espécies de vertebrados, em função de sua
adaptação ao modo de vida aquático. A. Golfinho. B. Ictiossauro (um réptil extinto).
C. Peixe ósseo. D. Pinguim. (Imagens sem escala, cores-fantasia.)

Sistemática filogenética
No começo dos anos 1950, o entomologista alemão Willi Hennig (1913-1976) desenvolveu o
que ele chamou de Sistemática filogenética e que mais tarde se popularizou com o nome de
cladística. Sua proposta era um método de classificação das espécies baseado estritamente
na ancestralidade evolutiva.
A Sistemática filogenética distingue-se de outros sistemas taxonômicos porque seu foco
está na evolução, e não na simples semelhança entre espécies. Além disso, a cladística prioriza,
sempre que possível, a objetividade proporcionada pela análise quantitativa dos dados sobre
Capítulo 1 • Sistemática e classificação biológica
os seres vivos.
A proposição fundamental da cladística pode ser enunciada nos seguintes termos: se uma
novidade evolutiva surgiu e se fixou em uma espécie, todas as espécies descendentes dela
herdarão essa novidade. Entende-se por novidade evolutiva uma característica que não estava
presente nos ancestrais daquela espécie, tendo surgido nela por modificações hereditárias
(mutações) de uma característica ancestral.
A partir da aceitação dessa proposição, pode-se inferir que um conjunto de espécies que
compartilham uma novidade evolutiva descende da espécie ancestral em que essa novidade
surgiu e constitui um clado. Vejamos um exemplo.
A maioria dos grupos de inseto tem dois pares de asas, mas há um grupo de espécies com
apenas um par: mosca, pernilongo, borrachudo. Nessas espécies, conhecidas como dípteros
(do grego di, duas, e pteron, asa), no lugar do segundo par de asas há um par de estruturas em
forma de clava, denominadas halteres ou balancins, que funcionam como órgãos de equilíbrio.
Há inúmeras evidências de que o par de halteres dos dípteros é uma condição modificada do
segundo par de asas que quase todos os outros insetos apresentam.

33

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A explicação para o par de halteres presente nos dípteros, segundo a cladística, é que essa novi-
dade evolutiva surgiu em uma espécie ancestral pela modificação do segundo par de asas. A partir
daí infere-se que o conjunto de espécies que compartilham essa novidade evolutiva, ou seja, todos
os dípteros, descendem daquela espécie ancestral em que o par de halteres surgiu. (Fig. 1.17)

Asa do primeiro par


Gabor Nemes/Kino

Photoresearchers/Latinstock
A B

Asa do segundo par


Asa do primeiro par

Halter

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Claude Nuridsany & Marie Perennou/
Science Photo Library/LatinStock

Asa do
primeiro par

Halter

Figura 1.17 A. A maioria dos insetos apresenta dois pares de


asas. Na foto, Libelula odonata (libélula). B. Os dípteros têm o
segundo par de asas transformado em estruturas denominadas
halteres ou balancins. Na foto, o díptero Tipula oleracea.

A cladística tem por objetivo reunir em um mesmo grupo apenas organismos que comparti-
lham uma história evolutiva comum. No exemplo que acabamos de ver, os insetos dotados de
apenas um par de asas compartilham uma história evolutiva comum, ou seja, descendem de uma
mesma espécie ancestral na qual ocorreu a novidade compartilhada por elas: a transformação
do segundo par de asas em halteres. É isso que justifica a reunião de todos os dípteros em um
mesmo clado, no caso, na ordem Diptera.

Cladogramas
Atualmente, a cladística é considerada um dos melhores métodos para estudos filogenéti-
cos porque permite formular hipóteses explícitas e testáveis das relações de parentesco entre
seres vivos.
A cladística expressa suas hipóteses pela construção de cladogramas (do grego clados,
Unidade A • A diversidade biológica

ramo, divisão), que são representações gráficas em forma de árvore nas quais são mostradas
as relações evolutivas entre grupos de seres vivos.
Os cladogramas são semelhantes às árvores filogenéticas, porém construídos segundo os
princípios da cladística. Um desses princípios é que as espécies surgem sempre pela divisão
em duas de uma espécie ancestral. Quando os cladogramas apresentam três ou mais ramos
originando-se de um mesmo ponto, o que é denominado politomias, significa que há hipóteses
ainda não resolvidas sobre a origem desses ramos.
Idealmente, uma espécie ancestral origina duas espécies descendentes e a espécie antiga
desaparece. Cada “nó” do cladograma representa, assim, o processo de cladogênese que originou
os dois novos ramos. A partir desse ponto, os dois novos grupos passam a apresentar as carac-
terísticas derivadas, ou apomorfias. Grupos de espécies que apresentam um ancestral comum
exclusivo são denominados de monofiléticos. (Fig. 1.18)
34 (As imagens desta página não apresentam proporção entre si.)

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Presente A B C D E

adilson secco
Característica
derivada do grupo D

Tempo evolutivo
Ancestral
comum
Ramos Característica primitiva exclusivo dos
do grupo ancestral grupos D e E

Passado

Cada nó representa a
diversificação por cladogênese e o
ancestral comum dos ramos acima

Figura 1.18 Representação genérica de um cladograma. Cada terminal de um ramo (A, B, C, D, E)


representa um grupo ou espécie atual. Cada nó indica um ponto de diversificação e representa
a cladogênese que deu origem aos grupos representados acima dele; corresponde, também, ao
ancestral comum exclusivo dos ramos acima.
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A aplicação da análise cladística à classificação biológica vem trazendo mudanças significa-


tivas nas árvores filogenéticas construídas pelos métodos tradicionais. Por exemplo, enquanto
na classificação tradicional os mamíferos, as aves e os répteis formam três classes distintas, a
cladística defende que as aves, por apresentarem as mesmas apomorfias que os répteis, deveriam
ser classificadas junto com eles. A presença de penas não é uma apomorfia das aves, ou seja, uma
característica exclusiva delas, pois ocorria em grupos primitivos extintos, com características tipi-
camente de répteis. (Fig. 1.19)

CLASSES
adilson secco

Reptilia Mammalia
SUBCLASSE
Archossauria Figura 1.19 Alguns
sistematas, com base
na análise cladística,
propõem mudanças na
Dinossauros filogenia e na classificação
Tartarugas Lagartos Cobras Crocodilos (extintos) Aves Mamíferos dos seres vivos. A classe
Aves, como aparece na
classificação tradicional,
deixaria de existir e as

Capítulo 1 • Sistemática e classificação biológica


aves passariam a fazer
parte da classe Reptilia
(subclasse Archossauria),
juntamente com
crocodilos e dinossauros.
(Imagens sem escala,
cores-fantasia.) (Dados
taxonômicos baseados
em Tree of life. Disponível
em: http://tolweb.org/
Eutheria/15997 – acesso
em: mar. 2010.)

Os métodos modernos de análise filogenética, associados a análises genéticas e bioquímicas


cada vez mais detalhadas, devem trazer mudanças expressivas à classificação biológica nos próximos
anos. É até mesmo possível que o gênero ao qual pertencem os seres humanos, atualmente o único
da família Hominidae e representado apenas pela espécie Homo sapiens, ganhe duas novas espécies.
É essa a proposta de alguns cientistas com base na análise detalhada de certas sequências de DNA
do chimpanzé (Pan troglodytes) e do bonobo, ou chimpanzé-pigmeu (Pan paniscus).

35

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Atualmente, chimpanzés e bonobos são classificados na

ORANGOTANGOS
CAMUNDONGOS

VELHO MUNDO
família Pongidae, juntamente com gorilas e orangotangos. Aná-

MACACOS DO

CHIMPANZÉS
lises recentes mostraram 96% de semelhança entre o DNA de

HUMANA
GORILAS

ESPÉCIE
chimpanzés e o DNA de seres humanos. Baseando-se na análise
desses dados, alguns cientistas concluíram que a diversificação
que resultou na separação evolutiva entre os chimpanzés e a
adilson secco

5,1 6 0,8 nossa espécie teria ocorrido há “apenas” 5,1 milhões de anos.
maa*
Essas são algumas das justificativas usadas pelos cientistas
que defendem o remanejamento dos chimpanzés para nossa
6,3 6 0,6 Homo
maa família. (Fig. 1.20)
13,8 6 0,8 MACACOS Enquanto muitos cientistas discordam da inclusão de
maa AFRICANOS nossos “primos” chimpanzés no gênero humano (seriam eles
chamados de Homo troglodytes?), outros chegam mesmo a
sugerir que mudemos de família, classificando nossa espécie
MACACOS
ANTROPOIDES na família Pongidae, junto com os grandes macacos (seríamos
25,3 6 1,4
maa nós chamados Pan sapiens?). Como se pode ver, a Sistemática
promete-nos ainda grandes surpresas.
SÍMIOS
Figura 1.20 Filogenia adaptada de um artigo da revista de divulgação
científica New Scientist, de maio de 2003, que mostra as estimativas

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


de tempo de divergência evolutiva na linhagem dos primatas (ordem
a que pertencem macacos e humanos), com base na comparação de
DNA. O artigo sugere que chimpanzés e seres humanos poderiam ser
*milhões de anos atrás
incluídos no mesmo gênero, Homo.

Seção 1.3
Os reinos de seres vivos
❱❱  Habilidades 1 As diferentes classificações
sugeridas
O conhecimento científico está em constante construção e a todo
CC     Caracterizar cada um dos momento novas descobertas levam os cientistas a reavaliar hipóteses e
reinos de seres vivos – teorias consagradas. Na classificação dos seres vivos, como acabamos de
Monera, Protoctista, Fungi, ver, não é diferente, e há opiniões divergentes entre os cientistas sobre
Plantae e Animalia – questões aparentemente tão básicas como: “Quantos reinos de seres vivos
quanto a: tipo de célula devemos considerar: três, cinco ou oito? Ou mais?”.
(procariótica ou eucariótica);
número de células A polêmica é saudável e absolutamente necessária ao desenvolvi-
(unicelular ou multicelular); mento científico. Por isso, não se espante ao descobrir que, em certos
nutrição (autotrófica assuntos, não há consenso entre os cientistas, evidenciando que ainda
ou heterotrófica). há muito a descobrir e avançar até que as divergências sejam superadas
ou diminuídas.
Unidade A • A diversidade biológica

CC     Compreender e explicar
por que os vírus não são Para a Sistemática filogenética, o problema central é estabelecer uma
incluídos em nenhum desses classificação que reflita as relações de parentesco evolutivo entre os gru-
reinos de seres vivos. pos de seres vivos. Entretanto, a absoluta maioria das espécies extintas
não deixou registros fósseis, de modo que nossos conhecimentos sobre
❱❱  Conceitos principais a história evolutiva são muito incompletos.
• Monera Além disso, só recentemente foram desenvolvidas técnicas que permi-
• Protoctista tem compreender melhor a diversidade dos seres vivos, principalmente em
• Fungi seus aspectos microscópicos, genéticos e bioquímicos. São justamente
• Plantae esses avanços que têm permitido estabelecer novas relações entre as
• Animalia espécies atuais, acarretando a necessidade de mudanças nos sistemas de
classificação, para levá-los a expressar melhor a história da vida na Terra.

36

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Lineu, como outros naturalistas que o precederam, reconhecia a existência de três reinos:
Seção 1.3
Vegetal, Animal e Mineral. À medida que o conhecimento sobre a natureza progredia, porém, ficava
cada vez mais evidente que animais e plantas eram bem mais semelhantes entre si do que com
os minerais. Essencialmente, animais e plantas eram seres vivos, enquanto os minerais (rochas,
água, ar etc.) eram inanimados, isto é, sem vida. Essa constatação levou o anatomista alemão Karl
Friedrich Burdach (1776-1847)a usar o termo Biologia para designar o ramo das ciências naturais
que tinha a vida como objeto de estudo. Em 1802, o médico e naturalista alemão Gottfried Rei-
nhold Treviranus (1776-1837) e o naturalista francês Jean Baptiste Lamarck (1744-1829) usaram,
independentemente, o mesmo termo com idêntico propósito.
O desenvolvimento da recém-batizada Biologia revelou a enorme diversidade da vida, mas os
seres vivos continuaram a ser classificados apenas em dois grupos: animais ou plantas.
Os biólogos consideravam animais todos os organismos que se moviam, que se alimentavam
da matéria de outros seres vivos (heterotróficos) e cresciam até atingir determinado tamanho. No
reino das plantas eram incluídos todos os seres vivos que não se moviam e que, em sua maioria,
produziam seu próprio alimento (autotróficos), podendo crescer indefinidamente.
De acordo com esses critérios, os organismos unicelulares que se movem ativamente (os
chamados protozoários) eram considerados animais, enquanto as algas, os fungos e as bactérias
eram considerados plantas. O critério para incluir as bactérias e os fungos no reino das plantas
era a presença de uma parede rígida envolvendo suas células.
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O desenvolvimento da Biologia na primeira metade do século XX revelou a necessidade de


separar os seres vivos em novos reinos. Em 1937, o biólogo francês Edouard Chatton (1883-1947)
chamou a atenção para o fato de as bactérias apresentarem células procarióticas, isto é, sem
núcleo nem organelas membranosas, enquanto todos os outros seres vivos possuem células
eucarióticas. Essa diferença levou alguns biólogos a propor a separação das bactérias em um
reino exclusivo, o qual denominaram Monera, termo utilizado anteriormente para designar uma
das divisões do reino Protista, proposto por Haeckel em 1866.
Na década de 1960, Herbert F. Copeland (1902-1968), um professor de Biologia da Califórnia
(EUA), sugeriu a divisão dos seres vivos em quatro reinos: Animalia (animais), Plantae (plantas ou
vegetais), Protista (protozoários, algas microscópicas e fungos) e Monera (bactérias). Em 1969,
o biólogo norte-americano Robert H. Whittaker (1924-1980) reconheceu e ampliou as propostas
de Copeland, sugerindo, além dos quatro reinos propostos por ele, a retirada dos fungos do reino
Protista e sua colocação em um reino próprio, Fungi.
Na década de 1980, as biólogas norte-americanas Lynn Margulis e Karlene Schwartz re-
conheceram os cinco reinos propostos por Whittaker e tentaram definir melhor os limites do
reino Protista. Em sua proposta original, Whittaker incluía entre os protistas apenas seres
unicelulares eucarióticos e algas multicelulares de pequeno porte, classificando as algas de
grande porte como plantas. De acordo com a proposta de Margulis e Schwartz, o reino pas-
saria a se chamar Protoctista e deveria incluir também todas as algas, independentemente
de seu tamanho.
Recentemente, outras classificações têm proposto a divisão dos seres vivos em três grandes Capítulo 1 • Sistemática e classificação biológica
domínios ou super-reinos denominados Bacteria, Archaea e Eukarya. (Tab. 1.2)

  Tabela 1.2  Diferentes sistemas para classificação dos seres vivos

Domínios
Em três
Bacteria Archaea Eukarya
domínios
Reinos
Em cinco
Monera Animalia Fungi Plantae Protoctista
reinos
Em seis
Bacteria Archaea Animalia Fungi Plantae Protoctista
reinos
Em oito
Bacteria Archaea Animalia Fungi Plantae Archaezoa Protozoa Chromista
reinos

37

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O domínio Bacteria inclui as eubactérias, ou bactérias verdadeiras, atualmente chamadas
apenas bactérias, enquanto o domínio Archaea agrupa as arqueobactérias, atualmente chama-
das apenas arqueas. A separação entre esses seres procarióticos deve-se ao fato de eles serem
muito diferentes tanto na estrutura como na fisiologia de suas células.
O domínio Eukarya compreende todos os seres eucarióticos, incluindo os reinos, nos quais
se distribuem os protozoários, as algas, os fungos, as plantas e os animais.
Neste livro, adotamos a classificação originalmente sugerida por Whittaker e modificada por
Margulis e Schwartz, que divide os seres vivos em cinco grandes reinos: Monera, Protoctista,
Fungi, Plantae e Animalia.
Seja qual for o sistema de classificação adotado, o importante é conhecer as principais cate-
gorias de seres vivos e as características que levam a incluí-los em um ou em outro reino.

Reino Monera
O reino Monera reúne os seres procarióticos, cuja principal característica é possuírem células
sem separação física entre o material nuclear e o citoplasma.
Há algumas décadas, os biólogos descobriram que, entre os organismos procarióticos até
então denominados genericamente de bactérias, havia dois grupos bem distintos e pouco rela-
cionados filogeneticamente. Eles foram então denominados eubactérias (do grego eu, verdadeiro)
e arqueobactérias (do grego archaio, antigo).

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


As arqueobactérias receberam esse nome por terem sido consideradas um grupo primitivo,
provavelmente semelhante aos primeiros seres que habitaram nosso planeta. A maioria das
espécies desse grupo habita ambientes com condições extremas, como fontes termais, tubos
digestórios de animais, lagos de salinidade altíssima ou fendas vulcânicas no fundo do mar. Mais
recentemente, descobriu-se que as então chamadas arqueobactérias eram mais aparentadas
com os organismos eucarióticos do que com as bactérias verdadeiras; assim, elas passaram a
ser chamadas apenas de arqueas. As eubactérias voltaram, então, a ser denominadas simples-
mente bactérias.
Como já mencionamos, diversos sistematas têm sugerido que arqueas e bactérias sejam se-
paradas em categorias taxonômicas hierarquicamente superiores aos reinos, o domínio Archaea
e o domínio Bacteria. No entanto, na divisão em cinco reinos que adotamos neste livro, elas são
classificadas juntas no reino Monera, com base no fato de apresentarem células procarióticas.

Reino Protoctista
Alguns biólogos criticam a existência do reino Protoctista (antigamente chamado Protista),
considerando-o uma categoria artificial por incluir organismos com origens evolutivas diferentes.
Eles defendem a separação dos protoctistas em diversos reinos, definidos por várias apomorfias,
o que também é motivo de grande controvérsia: enquanto alguns admitem que quatro reinos se-
riam suficientes, outros sugerem um número bem maior, em torno de doze ou mais. (Fig. 1.21)
adilson secco

Reino Reino Reino Reino Reino


Monera Protoctista Plantae Fungi Animalia
Unidade A • A diversidade biológica

Primeiros Figura 1.21 Uma hipótese das relações


filogenéticas entre os reinos de seres vivos.
seres vivos
(Baseado em Campbell, N. A. e cols., 1999.)

38

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Isso mostra que a classificação, nesse nível, poderá sofrer mudanças significativas em
um futuro próximo. Por enquanto, a divisão em cinco reinos continua a ser a mais difundida e
prática e por isso é adotada neste livro.
O reino Protoctista inclui os protozoários, seres eucarióticos, unicelulares e heterotró-
ficos, e as algas, seres eucarióticos, unicelulares ou multicelulares, e autotróficos fotossin-
tetizantes. Os mixomicetos, anteriormente classificados como fungos, são agora incluídos
no reino Protoctista.

Reino Fungi
O reino Fungi inclui os fungos, seres eucarióticos, unicelulares ou multicelulares com corpo
formado por filamentos (hifas). Eles assemelham-se às algas na organização e na reprodução,
mas diferem delas por serem heterotróficos.
Em alguns sistemas de classificação mais antigos, os fungos eram incluídos no reino Plantae;
depois passaram ao reino Protista (atualmente chamado Protoctista), e hoje são classificados
em um reino próprio.

Reino Plantae
O reino Plantae reúne as plantas, seres eucarióticos, multicelulares e autotróficos fo-
tossintetizantes. As plantas têm células diferenciadas e tecidos corporais bem definidos.
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Musgos, samambaias, pinheiros e plantas frutíferas são os principais grupos que compõem o
reino Plantae.
A apomorfia que caracteriza o reino Plantae é a presença de embriões multicelulares sólidos
que, durante o desenvolvimento, retiram alimento diretamente da planta genitora. Portanto, as
algas multicelulares são excluídas do reino das plantas justamente por não formarem embriões
desse tipo, cujo desenvolvimento depende da planta-mãe.

Reino Animalia
O reino Animalia reúne os animais, seres eucarióticos, multicelulares e heterotróficos. Esse
grupo inclui uma grande variedade de organismos, desde animais simples, como as esponjas,
até animais complexos, como os cordados, grupo ao qual pertencemos.
A apomorfia que caracteriza os animais é o estágio embrionário denominado blástula, uma
esfera celular oca. O desenvolvimento da blástula origina a gástrula, a fase embrionária em
que são “esboçados” os tecidos do novo ser.

Vírus, um caso à parte


Os vírus não estão incluídos em nenhum dos cinco reinos, pois não possuem células (são
acelulares), a unidade fundamental de todos os outros seres vivos. Eles são constituídos
por uma ou algumas moléculas de ácido nucleico, que pode ser o DNA ou o RNA, envoltas por
Capítulo 1 • Sistemática e classificação biológica
moléculas de proteínas.
Os vírus são sempre parasitas intracelulares:
Hazel Appleton/Health Protection Agency/
Science Photo Library/ Latinstock

somente conseguem se reproduzir no interior de


células de outros seres. Quando estão fora da célu-
la hospedeira, são completamente inertes e não se
reproduzem. No interior do hospedeiro apropriado,
porém, um único vírus pode originar centenas de vírus
idênticos. (Fig. 1.22)

Figura 1.22 Os vírus não têm organização celular


e, por isso, não estão incluídos em nenhum dos cinco
reinos de seres vivos (alguns biólogos nem mesmo
os consideram seres vivos). Na micrografia,
vírus causador da síndrome respiratória aguda grave
(sars), observado ao microscópio eletrônico
de transmissão (colorizada artificialmente;
aumento  145.0003).

39

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Atividades Escreva as respostas no caderno

8. “Grupos de populações naturais que se cruzam real


QUESTÕES PARA PENSAR E DISCUTIR ou potencialmente e que estão isolados reprodutiva-
mente de outros grupos semelhantes.” A afirmação
pode ser tomada como uma definição de
Questões objetivas
a) espécie.
1. A divisão dos seres vivos em grupos de acordo com b) família.
suas semelhanças é chamada c) gênero.
a) classificação biológica. d) filo.
b) evolução. e) subespécie.
c) filogenia.
9. As denominações Gorilla gorilla diehli e Gorilla berin-
d) nomenclatura binomial. gei graueri
a) referem-se a duas subespécies de uma mesma
2. A categoria taxonômica correspondente à primeira espécie.
palavra do nome científico de um ser vivo é
b) referem-se a duas subespécies de duas espécies
a) classe. de um mesmo gênero.
c) filo. c) indicam duas subespécies de duas espécies de
b) família. dois gêneros.
d) gênero. d) indicam duas espécies de dois gêneros de uma

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mesma família.
3. O sistema de nomeação dos seres vivos, original- e) não são denominações científicas, pois estas só
mente proposto por Lineu e utilizado até hoje, é possuem dois termos, de acordo com a nomen-
chamado de clatura binomial.
a) categoria taxonômica.
b) evolução. 10. A ideia de que a classificação biológica passaria
a refletir as relações de parentesco entre os di-
c) filogenia.
versos grupos de seres vivos foi proposta origi-
d) nomenclatura binomial. nalmente por
a) Aristóteles. c) Hennig.
4. Qual das alternativas a seguir traz escrito corre-
tamente o nome científico de uma espécie de ser b) Darwin. d) Lineu.
vivo?
a) Canis Familiaris. 11. Diagramas que mostram as possíveis relações de
parentesco evolutivo entre os seres vivos são cha-
b) Homo.
mados atualmente de
c) solanum tuberosum. a) árvores filogenéticas.
d) Zea mays. b) árvores genealógicas.

5. Dois organismos que pertencem à mesma ordem c) árvores taxonômicas.


também pertencem d) diagramas sistemáticos.
a) à mesma classe.
12. Analise a filogenia mostrada na figura 1.20,
b) à mesma família.
publicada na revista New Scientist, de maio
c) ao mesmo gênero. de 2003, que mostra estimativas do tempo de
d) à mesma espécie. divergência na linhagem dos primatas, com
base na comparação de DNA. Pode-se concluir
6. Espera-se encontrar maior grau de semelhança en- corretamente que
tre organismos pertencentes a um(a) mesmo(a) a) gorilas são mais aparentados com os chimpan-
a) classe. zés do que chimpanzés com os humanos.
Unidade A • A diversidade biológica

b) família. b) gorilas e chimpanzés compartilharam um mes-


c) filo. mo ancestral há 5,1 6 0,8 milhões de anos.
d) gênero. c) gorilas, chimpanzés e humanos compartilharam
um mesmo ancestral há 6,3 6 0,6 milhões de
7. A teoria central da Biologia que admite que todas anos.
as formas de seres vivos descendem de seres pri- d) gorilas e chimpanzés deveriam ser classificados
mitivos que surgiram há cerca de 3,5 bilhões de em um mesmo gênero e humanos, em outro.
anos, modificando-se e diversificando-se ao longo
do tempo, é denominada teoria 13. Um método moderno de representar em diagramas
a) do Big Bang. as relações de parentesco evolutivo, que tem como
b) do criacionismo. critério importante as novidades evolutivas, ou
c) da evolução. apomorfias, de cada grupo, é denominado
d) da abiogênese. a) árvore evolutiva. c) evolução biológica.
e) da biogênese. b) cladograma. d) sistemática.

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14. A justificativa para agrupar bactérias e arqueas no b) O reino Protista é representado por organismos
mesmo reino — Monera — era a de que ambas procariontes unicelulares com reprodução as-
a) são unicelulares. sexuada e sexuada.
b) têm célula procariótica. c) O reino Plantae é representado geralmente por
c) têm DNA. seres procariontes unicelulares e autotróficos
d) têm parede com peptidioglicano. fotossintetizantes.
d) O reino Fungi é representado por eucariontes
Considere as alternativas a seguir para responder que podem ser unicelulares ou ter o corpo for-
às questões de 15 a 19. mado por filamentos (hifas).
a) Animalia e) O reino Animalia é representado somente por
b) Archaea procariontes pluricelulares.
c) Fungi
d) Plantae 2. (UFGO) As categorias sistemáticas, ou taxas, coloca-
e) Protoctista das ordenadamente, em graus hierárquicos, são
a) reino, divisão, classe, família, ordem, gênero,
15. Qual dos reinos agrupa seres procarióticos?
espécie.
16. Que reino agrupa organismos fotossintetizantes b) reino, classe, divisão, ordem, família, gênero,
que formam embriões multicelulares compactos espécie.
durante o desenvolvimento?
c) reino, divisão, classe, ordem, família, gênero,
17. Que reino agrupa organismos multicelulares não espécie.
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

fotossintetizantes que apresentam, durante o d) reino, classe, divisão, família, ordem, gênero,
desenvolvimento embrionário, estágio de blástula espécie.
(uma esfera celular oca)?
e) reino, divisão, família, classe, ordem, gênero,
18. A que reino pertencem organismos uni ou multice- espécie.
lulares, sem clorofila, dos quais os cogumelos são
representantes? Nota: a categoria divisão, utilizada em certas clas-
sificações botânicas, corresponde a filo.
19. Que reino agrupa os organismos genericamente
chamados de algas e protozoários?
3. (Ufes) Têm maior grau de semelhança entre si dois
20. Os vírus não são incluídos em nenhum dos seis
organismos que estão colocados dentro de uma das
reinos de seres vivos porque são
seguintes categorias taxonômicas:
a) acelulares.
b) eucarióticos. a) classe.

c) parasitas. b) divisão.
d) procarióticos. c) família.
d) gênero.
21. Um organismo unicelular, eucariótico e heterotró-
fico pode ser um(a) e) ordem.
a) alga.
b) bactéria. 4. (Unesp) Três populações de insetos, X, Y e Z, habi-
tantes de uma mesma região e pertencentes a uma
c) fungo.
mesma espécie, foram isoladas geograficamente.
d) planta.

Capítulo 1 • Sistemática e classificação biológica


Após vários anos, com o desaparecimento da bar-
reira geográfica, verificou-se que o cruzamento dos
Questões discursivas
indivíduos da população X com os da população
Y produzia híbridos estéreis. O cruzamento dos
22. A partir de que momento duas populações geradas
indivíduos da população X com os da população Z
pela fragmentação de uma população ancestral
produzia descendentes férteis, e o dos indivíduos
constituirão espécies distintas?
da população Y com os da população Z não pro-
23. Admitindo a classificação de seres vivos em cinco duzia descendentes. A análise desses resultados
reinos, adotada nesta obra, caracterize resumida- permite concluir que
mente cada um dos reinos. a) X, Y e Z continuaram pertencendo à mesma
espécie.
vestibulares pelo brasil b) X, Y e Z formaram três espécies diferentes.
c) X e Z tornaram-se espécies diferentes e Y con-
Questões objetivas tinuou a pertencer à mesma espécie.

1. (UEA-AM) Sobre a classificação dos seres vivos, é d) X e Z continuaram a pertencer à mesma espécie
correto afirmar: e Y tornou-se uma espécie diferente.
a) O reino Monera é representado por seres pluri- e) X e Y continuaram a pertencer à mesma espécie
celulares destituídos de parede celular. e Z tornou-se uma espécie diferente.

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Atividades

5. (Fuvest-SP) Um pesquisador estudou uma célula ao c) uma família contendo um gênero monotípico e
microscópio eletrônico, verificando a ausência de dois gêneros com várias espécies.
núcleo e de compartimentos membranosos. Com d) um gênero contendo três espécies diferentes e
base nessas observações, ele concluiu que a célula pertencentes a famílias distintas.
pertence a
e) um gênero contendo onze subespécies diferen-
a) uma bactéria. d) um fungo. tes, mas pertencentes à mesma família.
b) uma planta. e) um vírus.
c) um animal. 8. (ENC-MEC) Uma ilha oceânica, rica em vegetação,
foi invadida por representantes de um vertebra-
6. (UFRGS-RS) Os cinco cladogramas das alternativas do herbívoro, que se adaptaram muito bem às
ilustram relações filogenéticas entre os táxons hi- condições encontradas e povoaram toda a ilha.
potéticos 1, 2, 3, 4 e 5. Quatro desses cladogramas Esta, após certo tempo, foi dividida em duas por
apresentam uma mesma hipótese filogenética. um fenômeno geológico. Os animais continuaram
vivendo bem e se reproduzindo em cada uma das
Determine a alternativa que contém o cladograma
novas ilhas mas, depois de muitos anos, verificou-
ilustrações: adilson secco

que apresenta hipótese filogenética diferente das


demais. -se que os indivíduos das duas ilhas haviam per-
dido a capacidade de produzirem descendentes
férteis quando intercruzados.
a) 1
1
2 3
2
4 5
1 2 3
3 4
4 5
5 Esse texto exemplifica um caso de

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


a) diferenciação morfológica.
b) convergência adaptativa.

3 4 5 1 2 c) especiação.
3
b) 3 4
4 5
5 1
1 2
2
d) seleção natural.
e) radiação adaptativa.

3 4 5 1 2 Questões discursivas
c) 3
3 4
4 5
5 1
1 2
2

9. (UEG-GO) Na atualidade, o sistema utilizado para a


classificação taxonômica de todos os organismos
vivos existentes é o binomial.
2 1 3 5 4
d) 2
2 1 3
1 3 5
5 4
4 a) O que é a nomenclatura binomial?
b) Por que uma nomenclatura binomial é pre-
ferencialmente utilizada ao invés de nomes
comuns?
3 5 4 2 1
e) 3
3 5
5 4
4 2
2 1
1 10. (Vunesp) Alunos de uma escola, em visita ao zo-
ológico, deveriam escolher uma das espécies em
exposição e pesquisar sobre seus hábitos, alimen-
tação, distribuição etc. No setor dos macacos, um
dos alunos ficou impressionado com a beleza e a
7. (ENC-MEC-Adaptado) No esquema abaixo, os cír- agilidade dos macacos-pregos. No recinto desses
culos representam três categorias taxonômicas animais havia uma placa com a identificação:
inclusivas.
Nome vulgar: Macaco-prego (em inglês Ring-tail
Unidade A • A diversidade biológica

adilson secco

Monkeys ou Weeping capuchins).


Ordem Primates.
Família Cebidae.
Espécie Cebus apella.

Esta foi a espécie escolhida por esse aluno. Che-


gando em casa, procurou informações sobre a
Se os triângulos representarem o táxon espécie, o espécie em um site de busca e pesquisa na Internet.
quadrilátero será O aluno deveria digitar até duas palavras-chave e
a) uma família contendo dois gêneros e uma única iniciar a busca.
espécie. a) Que palavras o aluno deve digitar para obter in-
b) uma família contendo um único gênero, no qual formações apenas sobre a espécie escolhida?
foram classificadas onze espécies. b) Justifique sua sugestão.

42

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UNIDADE B Vírus, bactérias, algas,
protozoários e fungos

Capítulo

2
Vírus e bactérias
Micrografia de partículas do vírus
da “gripe suína” (linhagem H1N1) ao
microscópio eletrônico de transmissão
(colorizada artificialmente; aumento
×
q 420.000 ). Essa linhagem contém
uma mistura de material genético de
vírus de gripe de porcos, aves e seres
humanos, sendo capaz de se transmitir
Vírus e bactérias são seres diretamente entre as pessoas.
microscópicos, muitos deles
causadores de doenças. Os
primeiros são seres acelulares,
isto é, não apresentam estrutura
celular; as bactérias, por sua
vez, são seres unicelulares,
cuja célula é procariótica,
estruturalmente mais simples
que as células eucarióticas de
todos os outros seres vivos.
Neste capítulo estudaremos os
vírus, com ênfase nos causadores

CDC/SPL/LATINSTOCK
de gripe e da aids, e as bactérias,
tanto as que causam doenças
como algumas outras espécies
aliadas da humanidade.

2.1 Vírus
Os vírus diferem dos outros seres
vivos porque são acelulares. Vírus são
parasitas intracelulares obrigatórios,
dependendo de células vivas para se
reproduzir. O estudo dos vírus tem
importância econômica e médica,
uma vez que eles causam diversas
doenças em plantas e animais,
inclusive na espécie humana.

2.2 Bactérias
Bactérias são seres unicelulares
procarióticos: a célula bacteriana
não apresenta núcleo nem organelas
membranosas citoplasmáticas. Embora
umas poucas espécies causem doenças
em animais, a maioria das bactérias
desempenha papel fundamental no
equilíbrio ecológico do planeta.

43

043_074_CAP02_BIO2_PNLEM-2.indd 43 4/14/10 8:46:35 AM


Seção 2.1
Vírus

❱❱  Habilidades 1 A estrutura dos vírus


sugeridas
Vírus são as menores entidades biológicas conhecidas. A absoluta maioria
CC     Conhecer a estrutura deles não pode ser visualizada ao microscópio óptico. A maioria dos vírus
geral dos vírus, mede entre 15 e 300 nanometros (nm). Um dos maiores vírus conhecidos,
reconhecendo sua que causa a varíola humana, tem cerca 300 nm (0,3 mm), e um dos menores,
relativa simplicidade causador da febre aftosa bovina, mede apenas 15 nm (0,015 mm); recente-
estrutural e bioquímica mente foram descobertos vírus com mais de 600 nm, os mimivírus.
quando comparados Diferentemente de outros seres vivos, os vírus são acelulares, ou seja,
a qualquer outro não são constituídos por células; no entanto, precisam delas para se repro-
grupo de organismos. duzir. Eles são parasitas intracelulares obrigatórios, atacando células de
Relacionar essa relativa diferentes seres vivos, sejam bactérias, protozoários, algas, fungos, plan-
simplicidade dos tas e animais, incluindo a espécie humana. Quando estão fora de células
vírus ao fato de eles hospedeiras, os vírus não se multiplicam nem apresentam qualquer tipo
serem parasitas de atividade metabólica. Por essa razão, alguns cientistas sugerem não
intracelulares incluí-los entre os seres vivos. A maioria, porém, considera os vírus uma

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


obrigatórios. forma de vida cujas principais estratégias adaptativas são a simplicidade
CC     Estar informado sobre estrutural e o parasitismo de células vivas. Seja como for, ninguém discorda
as principais formas de que os vírus são sistemas biológicos, uma vez que eles têm ácidos nucleicos
semelhantes aos dos demais seres vivos e utilizam o mesmo sistema de
transmissão dos vírus,
codificação genética que todas as formas de vida conhecidas.
o que permite atuar
com mais consciência A infecção viral, como é chamada a invasão de uma célula por vírus,
e cidadania no combate causa profundas alterações no metabolismo celular. Em alguns casos, as
e na prevenção de células hospedeiras passam a se dividir sem controle, originando tumores.
doenças virais. Entretanto, o destino da maioria das células infectadas por vírus é a mor-
te, que ocorre quando os novos vírus formados saem da célula infectada,
CC     Conhecer, em linhas provocando sua destruição.
gerais, em que consiste
Existem várias doenças causadas por vírus, genericamente denomina-
uma infecção viral e
das viroses. Entre as viroses humanas podemos citar a aids, as gripes, a
explicar como a célula
varíola, o sarampo, a catapora e a poliomielite, entre outras. (Fig. 2.1)
afetada tem seu
metabolismo controlado
Adek Berry/AFP/Getty Images

pelo vírus; reconhecer


que a infecção
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

é a maneira de o vírus
se multiplicar.

❱❱  Conceitos principais
• vírus
• infecção viral
• virose
• capsídio
• envelope viral
• vírion
• bacteriófago
• HIV
• vírus de gripe
• zoonose viral
• epidemia
• endemia Figura 2.1 A gripe aviária — popularmente conhecida como “gripe do frango” — é uma virose
• pandemia animal que causa prejuízos consideráveis aos países asiáticos e europeus. Muitos países
foram obrigados a sacrificar e incinerar parte de suas criações de aves na tentativa de
erradicar esse vírus. (Jacarta, Indonésia, 2007.)

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Um vírus é fundamentalmente constituído por uma ou mais moléculas de ácido nucleico (DNA
ou RNA), envoltas por moléculas de proteína que constituem o capsídio. Juntos, capsídio e ácido
nucleico compõem o nucleocapsídio.
Em certos vírus, o nucleocapsídio é envolto externamente por uma membrana lipoproteica, o
envelope viral, formada, em geral, quando a partícula viral é expelida pela célula hospedeira. Além
de proteínas e lipídios de origem celular, o envoltório do nucleocapsídio contém proteínas virais es-
pecíficas, que foram adicionadas à membrana celular enquanto o vírus se multiplicava no interior da
célula hospedeira. A presença ou não de envoltório lipoproteico permite classificar os vírus em duas
categorias: vírus envelopados e vírus não envelopados. Exemplos de vírus envelopados são os vírus do
herpes, da varíola, da rubéola e da gripe. Exemplos de vírus não envelopados são o adenovírus, que causa
infecções respiratórias e conjuntivites, e o vírus da poliomielite, que causa a paralisia infantil.
A partícula viral morfologicamente completa é denominada vírion; cada tipo de vírus apresenta
vírions de formato característico. (Fig. 2.2)
Capsídio

adilson secco
RNA

Envelope
Cabeça
membranoso DNA

Capsídio DNA
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Capsídio Cauda
RNA

Capsídios

Fibras
Hazel Appleton, Centre for Infec-
tions/Health Protection Agency/
Science Photo Library/Latinstock

Nibsc/Science Photo Library/


Latinstock

DEPT. OF MICROBIOLOGY, BIOZENTRUM/


Science Photo Library/Latinstock
Centre for Biomaging, Rothamsted
Research/Science Photo Library/
Latinstock

Vírus do mosaico do Adenovírus Vírus de gripe Bacteriófago T4


tabaco (aumento  62.0003) (aumento  33.0003) (aumento  91.4003) (aumento  91.7003)

Figura 2.2 Representação esquemática de alguns vírus, com parte do capsídio removida para mostrar o ácido nucleico
em seu interior. (Imagens sem escala, cores-fantasia.) Na parte inferior, micrografias desses mesmos vírus ao
microscópio eletrônico de transmissão (colorizadas artificialmente).

Especificidade dos vírus


Tanto o capsídio (no caso de vírus não envelopados) como o envelope lipoproteico (no caso de vírus
envelopados) contêm proteínas, denominadas ligantes, capazes de se encaixar em determinadas
Capítulo 2 • Vírus e bactérias

proteínas presentes na membrana da célula hospedeira, denominadas receptores virais.


Para invadir uma célula, um vírus tem de se encaixar perfeitamente nos receptores presentes
na membrana celular, como uma chave se encaixa em uma fechadura. É justamente a necessidade
dessa associação exata às proteínas celulares que torna os vírus tão específicos: eles só conseguem
infectar células que possuam receptores compatíveis com os ligantes de seu envoltório. Por exemplo,
o ligante do vírus da gripe é a hemaglutinina, substância que se liga especificamente a receptores
presentes principalmente em células do epitélio das vias respiratórias e dos pulmões. Consequen-
temente, esse vírus penetra e se multiplica mais facilmente nesses tipos de célula. O vírus da raiva,
por sua vez, liga-se a receptores presentes em células nervosas de diversos mamíferos, como cães,
morcegos e seres humanos. Como as membranas plasmáticas das células nervosas dessas espécies
têm o mesmo tipo de receptor, o vírus da raiva pode infectá-las e ser transmitido entre elas.
45

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Depois de se ligar aos receptores da membrana, o vírus infecta a célula; isso se dá por meio de
processos que variam conforme os diferentes tipos de vírus. Alguns deles, como os bacteriófagos,
injetam apenas o ácido nucleico na bactéria, ficando o capsídio proteico do lado de fora.
Certos vírus envelopados, entre eles o HIV, penetram na célula por meio da fusão de seu envelope
membranoso com a membrana celular. Nesse caso, a membrana do vírus incorpora-se à membrana
plasmática da célula hospedeira, da qual passa a fazer parte, e apenas o nucleocapsídio penetra no cito-
plasma, onde as proteínas virais são degradadas por enzimas celulares e o ácido nucleico é liberado.
Outros vírus penetram na célula por endocitose, processo em que são englobados ativamente
pela membrana celular, após esta ter sido estimulada pelos ligantes virais. Uma vez no citoplasma,
os vírus libertam-se da bolsa membranosa e se desintegram no citoplasma, liberando o ácido
nucleico. (Fig. 2.3)

INJEÇÃO DE ÁCIDO FUSÃO DO ENDOCITOSE

adilson secco
NUCLEICO ENVELOPE VIRAL
A B C

Bactéria Célula Célula


hospedeira hospedeira hospedeira

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Receptores
celulares do vírus
Ligantes Ligantes
MEIO
Receptores Envelope
EXTERNO Receptores Envelope
celulares do vírus celulares do vírus

CITOPLASMA

Capsídio

Capsídio Capsídio
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

Ácido
nucleico
Ácido nucleico viral
viral Ácido nucleico
viral

Figura 2.3 Os vírus podem penetrar na célula hospedeira basicamente de três maneiras: A. injetando apenas
o ácido nucleico, como os bacteriófagos; B. por fusão do envelope viral à membrana plasmática, como o HIV;
C. por endocitose, como o vírus da gripe. (Imagens sem escala, cores-fantasia.)

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2 Como os vírus se multiplicam?
Se a célula hospedeira fosse comparada a um computador com todos os acessórios (har-
dware), o vírus corresponderia a um CD com o programa (software) para produzir novos vírus.
Esse “programa” está inscrito no ácido nucleico que constitui o genoma viral.
Enquanto estão fora do computador, as instruções do programa contido em um CD não
atuam. Da mesma maneira, enquanto um vírus não encontrar uma célula em que possa pe-
netrar, ele não manifesta nenhuma atividade. Entretanto, ao encontrar a célula hospedeira
apropriada, o vírus introduz nela seu programa genético, que entra em ação e passa a utilizar
a “maquinaria” bioquímica celular para a produção de novos vírus.
A maneira pela qual os vírus multiplicam-se no interior da célula hospedeira varia entre
os diferentes tipos virais. Confira as diferenças acompanhando, a seguir, os ciclos virais do
bacteriófago T4, de um vírus de gripe e do HIV.

Ciclo de um vírus bacteriófago


Bacteriófagos (do grego phagein, comer), também chamados simplificadamente de fagos,
são vírus que atacam bactérias. O fago T4, por exemplo, cujo ciclo estudaremos a seguir, é
um vírus de DNA cujo capsídio proteico é constituído por uma “cabeça” facetada e por uma
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

“cauda” cilíndrica. No interior da cabeça encontra-se, compactada, uma longa molécula de


DNA de cadeia dupla.
Ao encontrar uma bactéria que lhe sirva de hospedeiro, o fago adere à parede bacteriana
por meio de ligantes presentes na cauda. Em seguida, perfura a parede da bactéria e injeta
nela o DNA; a cabeça e a cauda do fago não penetram na célula. (Fig. 2.4)
Biozentrum, University of Basel/Science Photo Library/Latinstock

MEIO EXTERNO Fago T4

Figura 2.4 Micrografia


de bacteriófago T4 aderido
à parede bacteriana de
Escherichia coli
ao microscópio eletrônico
CITOPLASMA BACTERIANO de transmissão (colorizada
artificialmente;
aumento . 100.0003).
Capítulo 2 • Vírus e bactérias

No interior da célula bacteriana, o DNA do fago inicia sua multiplicação, produzindo dezenas
de cópias idênticas ao DNA original. Ao mesmo tempo, o DNA viral comanda a síntese de molé-
culas de RNAm, utilizando para isso os sistemas enzimáticos e a energia da própria bactéria.
O metabolismo bacteriano passa, então, a ser totalmente comandado pelo genoma do
fago. Moléculas de RNAm viral são traduzidas em proteínas, algumas das quais inibem o
funcionamento do cromossomo bacteriano e o picotam em pequenos fragmentos. Outras
proteínas passam a constituir dezenas de cabeças e caudas, que se associam a moléculas
de DNA viral, originando fagos completos. Uma enzima codificada no genoma viral, chamada
de lisozima, é produzida pela bactéria na fase final da infecção, degradando os componentes
da parede bacteriana.
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Cerca de 30 minutos após a penetração do DNA de um único fago invasor, a bactéria se rompe
e libera dezenas de novos fagos, que podem infectar imediatamente outras bactérias ao redor
e reiniciar o ciclo. (Fig. 2.5)

adilson secco
1 Adesão Capsídio
O vírion adere à Detalhe Cabeça
célula hospedeira

Parede
bacteriana
Bainha
Cromossomo
bacteriano

Fibra da Cauda
cauda
Placa basal
2 Penetração Fixador
O vírion perfura a Parede
célula hospedeira e bacteriana
injeta seu DNA Detalh Citoplasma da célula hospedeira
e Membrana
plasmática

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


3 Biossíntese
O DNA viral determina
a síntese dos
componentes virais
Bainha contraída

Eixo da cauda

DNA sendo
expelido
4 Maturação
Novos vírions são
montados na célula
hospedeira

DNA
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

5 Liberação
A célula hospedeira
rompe-se e os novos
vírions são liberados
Cauda

Capsídio

Fibras
da cauda

Figura 2.5 Ciclo reprodutivo do bacteriófago T4. Observe, nos estágios 1 e 2, mais à direita, os detalhes ampliados do
fago aderido à bactéria. No círculo, na parte inferior direita da figura, esquema das etapas de montagem de um vírion
completo. (Imagens sem escala, cores-fantasia.) (Baseado em Tortora, G. J. e cols., 1995.)

48

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Ciclo do HIV
O vírion do HIV tem, no envelope lipoproteico, glicoproteínas capazes de se ligar a receptores de
determinadas células humanas, principalmente certas células do sistema imunitário. O HIV é um re-
trovírus, seu nucleocapsídio contém duas moléculas idênticas de RNA de cadeia simples, associadas
a moléculas de duas enzimas: a transcriptase reversa, capaz de “retrotranscrever” DNA a partir de
RNA, e a integrase, responsável pela integração do DNA viral ao cromossomo da célula hospedeira.
Depois de se ligar aos receptores da célula hospedeira, o envelope do HIV funde-se à membrana
celular; o nucleocapsídio penetra no citoplasma e se desfaz, liberando o RNA, a transcriptase reversa
e a integrase virais no citosol. A transcriptase reversa entra imediatamente em ação e transcreve
uma cadeia de DNA a partir do RNA viral (transcrição reversa). À medida que transcreve o DNA, a
transcriptase reversa degrada o RNA molde e, em seguida, produz uma cadeia de DNA complementar
à recém-sintetizada, originando, dessa forma, um DNA de cadeia dupla. Este penetra no núcleo da
célula hospedeira e, por ação da integrase viral, incorpora-se a um dos cromossomos.
Uma vez integrado a um cromossomo da célula, o DNA viral começa a produzir moléculas de RNA.
Algumas delas irão constituir o material genético dos novos vírus; outras serão traduzidas pelos
ribossomos da célula, produzindo longas cadeias polipeptídicas. Essas cadeias são posteriormente
cortadas em lugares exatos por enzimas virais, originando todas as proteínas constituintes do vírus:
transcriptase reversa, integrase, proteínas do capsídio e glicoproteínas. Estas últimas, que fazem
parte do envelope viral, migram para a membrana da célula hospedeira, onde se agregam. Por sua
vez, RNA, enzimas e proteínas unem-se e formam novos nucleocapsídios.
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Os novos nucleocapsídios formados aderem a regiões da membrana plasmática onde há glicoproteí­


nas virais, originando os envelopes lipoproteicos. Vírions completos do HIV são expelidos da célula
hospedeira e podem infectar células sadias. A célula infectada continua a ter o material genético
do vírus integrado ao seu e segue produzindo partículas virais. Em certas células, o vírus integrado
ao cromossomo mantém-se em estado de provírus, sem produzir RNA. Isso impede que o sistema
imunitário e drogas antivirais eliminem completamente os vírus do corpo humano. (Fig. 2.6)

Figura 2.6 Etapas da reprodução do HIV em uma célula


adilson secco

Glicoproteína
humana. Analise a figura seguindo as explicações no texto.
Envelope (Imagens sem escala, cores-fantasia.)
Integrase
Capsídio

Liberação de
1212 novos vírions
Genoma
viral
Transcriptase
VÍRION reversa

Integração
de proteínas
2 Fusão do envelope viral
à membrana celular virais na
membrana
Formação do celular
envelope ao
11
3 Desintegração redor do capsídio
do capsídio e
liberação do RNA 9 Quebra da
e enzimas virais cadeia
polipeptídica
Capítulo 2 • Vírus e bactérias

Montagem dos viral pela


4b Integrase 10 protease,
capsídios
Síntese de penetrando originando as
4a DNA viral por no núcleo proteínas virais
transcrição reversa
Adesão do vírus
1 à proteína CD4

6 DNA viral
Receptor
5 Entrada do integrando-se ao
celular
DNA viral cromossomo
(proteína CD4) 8 Síntese de polipeptídios
no núcleo Integrase 7 Transcrição de
RNA viral a partir virais a partir do RNA viral
do DNA integrado
Cromossomo da ao cromossomo
CITOPLASMA NÚCLEO célula hospedeira

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Ciclo do vírus de gripe
Os vírus de gripe ligam-se a receptores presentes na membrana das células das vias res-
piratórias e são englobados por endocitose. Nesse processo, o envelope lipoproteico do vírus
funde-se à membrana do endossomo e o nucleocapsídio entra em contato direto com o citosol,
liberando as moléculas de RNA viral. Estas migram para o interior do núcleo da célula hospedeira,
onde passam a atuar.
Uma vez no núcleo da célula hospedeira, as cadeias de RNA viral servem de molde para pro-
duzir moléculas complementares, que saem para o citoplasma e atuam como RNAm na síntese
de proteínas virais. Algumas das moléculas de RNA complementares permanecem no núcleo e
serão utilizadas como molde para a produção de moléculas de RNA que constituirão o material
genético dos novos vírus.
Cada conjunto de oito moléculas de RNA é envolvido por proteínas do capsídio, produzidas
nos ribossomos da célula infectada a partir de RNAm viral; juntos, RNA e capsídio constituem o
nucleocapsídio. Outras proteínas virais, entre elas a hemaglutinina e a neuraminidase, deslocam-
-se para a membrana da célula infectada, preparando-a para envelopar os novos vírus formados.
Um nucleocapsídio que encosta na membrana da célula é envolvido por ela, formando-se o en-
velope viral de um novo vírus, o qual é ejetado da superfície celular como um pequeno broto. Na
infecção gripal não há, necessariamente, morte da célula hospedeira, embora isso possa ocorrer
em virtude das perturbações causadas pela infecção. (Fig. 2.7)

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


VÍRION DO VÍRUS
DE GRIPE

adilson secco
Partículas
virais recém-
-liberadas
Espículas

MEIO EXTRACELULAR
Receptores
Adesão do celulares do vírus
vírus aos
receptores da
membrana
plasmática

Formação
do capsídio
ENDOCITOSE

Formação do
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

envelope viral
Endossomo
Síntese das Empacotamento
proteínas virais do RNA
Liberação do genômico viral
conteúdo da Saída dos RNAm
partícula viral do núcleo
CÉLULA HUMANA

Saída do
RNA
genômico
viral do
núcleo
Síntese de Síntese de RNA� (RNA
RNA� genômico viral)

Entrada do NÚCLEO
RNA viral
no núcleo RNA RNA mensageiro
genômico viral viral
CITOPLASMA
(cadeias RNA�) (cadeias RNA�)

Figura 2.7 Etapas da multiplicação de um vírus de gripe em uma célula humana. Analise a figura a partir do lado
esquerdo superior, acompanhando o desenvolvimento do vírus dentro da célula até a formação de novos vírus.
Releia as explicações no texto acompanhando as informações na figura. (Imagens sem escala, cores-fantasia.)

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CIÊNCIA Um problema mundial de saúde: gripe
E CIDADANIA

Pandemias de gripe 4 As variedades de vírus de gripe são caracteriza-


das pelos tipos de espículas N e H que apresentam;
1 Embora seja uma doença corriqueira, milhares
já são conhecidos dezesseis tipos de hemaglutininas
e milhares de pessoas morrem anualmente em
e nove tipos de neuraminidases, que costumam ser
decorrência da infecção pelo vírus de gripe. Na
identificados por um índice alfanumérico (H0, H1,
grande pandemia (epidemia mundial), ocorrida
H2 etc.; N1, N2 etc.). A gripe asiática que assolou o
em 1918 e 1919, morreram entre 20 e 40 milhões
mundo em 1957, por exemplo, foi causada por uma
de pessoas em todo o mundo, de todas as idades e
variedade viral H2N2, que combinava as espículas H
classes sociais. Entre as vítimas estava Francisco de
do tipo 2 e espículas N do tipo 2. O vírus H5N1, por
Paula Rodrigues Alves, o presidente da República
exemplo, que combina espículas H do tipo 5 e espícu-
do Brasil na época. Outras grandes pandemias fo-
las N do tipo 1, é responsável por epidemias de gripe
ram a gripe asiática de 1957, que matou mais de 1
em aves que ocorrem na Ásia desde 1997. O vírus
milhão de pessoas, e a gripe de Hong Kong de 1968,
H5N1 raramente é transmitido para seres humanos,
em que morreram cerca de 700 mil pessoas.
entretanto, quando isso ocorre, costuma ser fatal.
Variedade dos vírus de gripe Felizmente, ainda não foi registrado nenhum caso
de transmissão desse vírus entre seres humanos.
2 Há diversas variedades de vírus de gripe, todas in-
(Fig. 2.8)
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

cluídas no gênero Influenzavirus. Os vírions de gripe têm


5 Ao contrair gripe, a pessoa produz anticorpos
diâmetro entre 80 e 120 nm e apresentam um envelope
lipoproteico externo. Este envolve um nucleocapsídio contra as proteínas do vírus, incluindo as espículas
que contém sete ou oito moléculas diferentes de RNA. H e N, tornando-se imune àquele tipo de gripe. Por
3 O envelope lipoproteico tem dois tipos de glicopro- isso, depois de um surto gripal, grande parte da
teínas características do vírus de gripe: a hemagluti- população torna-se imune ao tipo de vírus causador.
nina, que constitui as espículas H, e a neuraminidase, Podem surgir em algumas pessoas, porém, vírus
que constitui as espículas N. As espículas recebem mutantes dotados de espículas H e N ligeiramente
esse nome porque formam saliências afiladas no diferentes das presentes na linhagem original, o
envelope membranoso do vírus. As espículas de que impede os anticorpos produzidos de atuar efi-
hemaglutinina permitem que o vírus se ligue às cientemente. Os vírus mutantes podem provocar
células hospedeiras. As espículas de neuraminidase novo surto da doença, por exemplo, nos meses de
parecem ser importantes para que os vírus recém- inverno, quando a resistência natural das pessoas
-formados se desprendam da célula hospedeira. diminui devido às variações climáticas.

Espícula N RNA viral

adilson secco
(neuraminidase)

H1N1 H0N1 H1N1 H2N2 H3N2 H5N1

1918-1928 1929-1946 1947-1956 1957-1967 1901-1917 1997


2009-? 1977-? 1968-?
Capítulo 2 • Vírus e bactérias

Causou a Causou a gripe


Causou a pandemia de Causou a
pandemia de de aves na Ásia
gripe espanhola e é responsável pandemia de
gripe asiática
pela pandemia de gripe de 2009 gripe de Hong
Kong
Envelope
Espícula H lipoproteico
(hemaglutinina)
Figura 2.8 À esquerda, representação esquemática da estrutura de um vírus de gripe com
parte do envelope removido para mostrar as moléculas de RNA. À direita, tipos de vírus que
vêm causando pandemias. Os pontos de interrogação em certas datas indicam que não se
sabe quando acabaram os surtos epidêmicos devido àquele vírus. (Imagens sem escala,
cores-fantasia.) (Baseado em Tortora, G. J. e cols., 1995.)

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3 Vírus e doenças humanas
Reservatórios virais
Certos tipos de vírus podem atacar indiscriminadamente tanto células humanas quanto células
de outros animais; assim, uma pessoa pode infectar-se ao ter contato com um animal portador
do vírus. As doenças humanas causadas por esses vírus são chamadas de zoonoses virais. As
espécies animais em que esses vírus ocorrem naturalmente são consideradas reservatórios
naturais do vírus. A raiva, ou hidrofobia, é um exemplo de zoonose viral, cujo reservatório natural
do vírus é o morcego. Esse vírus pode ser transmitido aos humanos tanto pelo morcego quanto
por cães, gatos ou outros mamíferos contaminados.
O principal reservatório de parasitas causadores de doenças em nossa espécie são os pró-
prios seres humanos. Muitas pessoas abrigam vírus em seu corpo e os transmitem direta ou
indiretamente a outras pessoas. A hepatite B, o sarampo, a rubéola e a aids são exemplos de
doenças virais cujos reservatórios são seres humanos.

6 No Brasil, o Ministério da Saúde atua preventi- tentando identificar rapidamente os novos vírus que
vamente contra a gripe, ministrando à população, surgem. Se são identificados logo, é possível produzir
preferencialmente aos maiores de 60 anos de idade, vacinas e imunizar grande parte da população antes

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


uma vacina antigripe produzida com uma mistura que a epidemia atinja maiores proporções.
das formas virais mais comuns, em particular das que 9 Outra preocupação dos órgãos de saúde pública
causaram gripe nos últimos anos. (Fig. 2.9) é monitorar criadouros de aves e de porcos, cujos
vírus de gripe podem eventualmente infectar seres
humanos. Embora os vírus desses animais não sejam
Cortesia do Ministério da Saúde

transmitidos de pessoa para pessoa, há um risco de


ocorrerem alterações na hemaglutinina viral, capaci-
tando-os a infectar células humanas. Isso aconteceria
tanto por mutação dos genes virais animais quanto
por recombinação com o vírus de gripe humano. Por
exemplo, uma célula infectada simultaneamente
por um vírus de ave e por um vírus humano poderia
originar novos tipos de vírus, com misturas dos dois
tipos de RNA, eventualmente capazes de infectar
células humanas. Esses novos vírus seriam perigosos
porque, tendo parte de seus componentes provenien-
te do vírus de ave, não seriam reconhecidos por nosso
sistema imunitário.
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

10 No sudoeste asiático, foco inicial de várias epide-

Figura 2.9 Cartaz da campanha de vacinação contra a gripe. mias de gripe, o ambiente é perigosamente favorável
à recombinação entre vírus de animais domésticos e
de humanos, devido à criação de marrecos junto com
7 Variedades muito perigosas do vírus da gripe porcos. Como estes últimos podem ser infectados
surgem esporadicamente por meio de recombinação tanto por vírus de aves quanto por vírus humanos,
genética. Como os vírus têm oito moléculas de RNA é possível ocorrer recombinação do material gené-
diferentes em seu genoma, se uma célula é infectada tico de ambos os vírus em suas células, tendo como
simultaneamente por dois tipos diferentes de vírus, resultado a produção de novos tipos virais. O vírus
podem se formar partículas virais com combinações de H1N1, responsável pela chamada “gripe suína”, que
moléculas de RNA das duas variedades, não reconhe- teve início no México em 2009, pode ter surgido da
cidas pelo sistema imunitário humano. Nesses casos, maneira relatada. (Fig. 2.10)
o vírus recombinante pode se reproduzir rapidamente 11 Recentes estudos genéticos da hemaglutinina do

e se espalhar pela população, causando pandemias de vírus da gripe aviária asiática mostraram que uma
gripe. única mutação já seria capaz de permitir ao vírus se
8 A Organização Mundial de Saúde mantém vigilân- ligar a receptores humanos e, assim, ser transmitido
cia rigorosa e permanente sobre os surtos de gripe, de pessoa para pessoa.

52

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Diversas doenças virais que atualmente se transmitem de uma pessoa a outra foram adquiridas
originalmente de reservatórios animais. Há indícios de que a varíola e o sarampo, por exemplo,
passaram do gado bovino para nossa espécie há menos de 10 mil anos, quando as populações
humanas tornaram-se sedentárias e passaram a conviver com os animais recém-domesticados.
O vírus da gripe humana, ao que tudo indica, descende de um vírus de marreco ou de porco.
Os vírus continuam a cruzar a barreira entre seres humanos e outros animais, com riscos para
nossa saúde. A expansão da população humana mundial, acompanhada da degradação do ambiente
natural e de distúrbios no equilíbrio ecológico, é um dos principais fatores que nos expõem a novos
tipos de doenças virais. Por exemplo, o vírus curiosamente denominado sin nombre (“sem nome”,
em espanhol), um hantavírus que ataca os pulmões e geralmente causa morte, espalhou-se pelo
sudoeste norte-americano em 1993 em consequência da explosão populacional de um camun-
dongo silvestre, que atua como reservatório natural desse vírus. O aumento do contato de seres
humanos com as fezes e a urina dos camundongos fez aumentar drasticamente o número de
pessoas afetadas pela síndrome pulmonar causada pelo hantavírus.
hOANG DINh NAm/AFP/GeTTy ImAGeS

A rIA NOvOSTI/SCIeNCe PhOTO LIBrAry/LATINSTOCK B


Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Figura 2.10 A. Criação


consorciada de
galinhas e porcos
na aldeia de Zian
Fu Chun, China.
B. Pesquisadores
testam vacina
experimental para
a gripe aviária.
(São Petersburgo,
Rússia, 2006.)

GUIA DE LEITURA

1. Leia o primeiro parágrafo, que aponta o agente que teve um surto rápido no país em 2009, é
causador da gripe exemplificando com três causada por qual tipo de vírus?
grandes pandemias dessa doença. Para saber o 5. Leia o quinto parágrafo. Ele se refere a dois fe-
significado exato do termo “pandemia”, consulte nômenos: ao desenvolvimento de imunidade na
o item 3 da Seção 2.1 deste capítulo. Anote as população, após um surto de gripe, e ao apare-
épocas dessas pandemias de gripe em seu cader- cimento de novos surtos de gripe. Como o texto
no, deixando um espaço ao lado para adicionar, explica cada um deles?
como será solicitado adiante, a informação sobre
6. No sexto parágrafo, menciona-se uma importan-
os tipos de vírus específicos responsáveis por
te providência do Ministério da Saúde brasileiro
cada uma.
para prevenir a gripe (observe também a Figura
2. No segundo parágrafo, aparece o conceito de 2.9). Que providência é essa? Você já conhecia
“vírion”. Relembre-o no item 1 da Seção 2.1. O esse programa governamental? Algum de seus
que significa dizer que os vírions de gripe são parentes ou conhecidos já tomou essa vacina?
“envelopados”?
7. Leia os parágrafos 7 e 8 e responda: a) como se ex-
3. Leia o terceiro parágrafo, que fala de dois im- plica o aparecimento de novas variedades de gripe
Capítulo 2 • Vírus e bactérias

portantes componentes do envelope do vírus causadoras de pandemias? b) o que se tem feito


de gripe. Quais são eles e quais suas funções para monitorar essas situações?
para o vírus?
8. Nos parágrafos 9, 10 e 11 comenta-se a preocupa-
4. Leia o quarto parágrafo, que comenta a variedade ção dos órgãos de saúde sobre o aparecimento de
de vírus quanto às espículas do envelope. Analise novas linhagens de vírus de gripe potencialmente
os dados do texto em conjunto com os da Figura perigosas. Resuma o mais sucintamente possível
2.8. Com base nessa análise, complete os dados as ideias dos parágrafos. Se for o caso, acrescente
anotados em seu caderno, conforme solicitado algum comentário pessoal sobre a chamada gripe
no item 1 deste guia. A chamada “gripe suína”, suína, se tiver alguma informação a respeito.

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O caso mais dramático do cruzamento das barreiras naturais por um vírus é, sem dúvida, o da
aids. Há cerca de 100 anos, o HIV era restrito a chimpanzés (reservatório do ancestral do HIV-1) e
a outras espécies de macacos africanos (reservatórios do ancestral do HIV-2). O desmatamento,
as guerras no continente africano e o crescimento das populações humanas contribuíram para o
aumento do contato entre a espécie humana e esses primatas, permitindo a passagem dos vírus
entre as espécies. Fatores tecnológicos e sociais, como a facilidade de viagens internacionais, a
popularização das transfusões de sangue, a promiscuidade sexual e o uso crescente de drogas
injetáveis, fizeram com que o HIV se espalhasse rapidamente pela população humana, transmi-
tindo-se de pessoa para pessoa e causando, em menos de 20 anos, uma grande pandemia.

Formas de transmissão de doenças virais


cortesia do ministério da saúde

Certos vírus não sobrevivem por muito tempo fora do corpo do

Cortesia do Ministério da Saúde


hospedeiro e necessitam, para sua transmissão, de contato dire-
to entre o portador e o novo hospedeiro. Os vírus causadores do
herpes, por exemplo, que atacam a pele e as mucosas, podem ser
transmitidos pelo simples toque. Outros somente se transmitem
por meio de secreções, como o vírus da raiva, presente na saliva de
animais infectados, e o HIV, transmitido por meio de fluidos como
esperma e sangue. Os vírus de gripe são transmitidos de pessoa
para pessoa por meio de gotículas de muco lançadas ao falar, rir

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


e espirrar.
Alguns vírus mantêm sua capacidade infectante mesmo depois
de permanecer longo tempo fora de um hospedeiro; seu reservatório
é, portanto, o ambiente não vivo. De modo geral, vírus que atacam
o sistema digestório e são eliminados com as fezes têm como
reservatório o solo ou a água contaminados por esgotos. Entre os
vírus transmitidos por água e alimentos contaminados podem-se
citar os que causam gastrenterites em crianças, poliomielite e
hepatites A e E.
Outros vírus são transmitidos por meio de vetores animais, princi-
palmente insetos, sendo conhecidos genericamente como arbovírus
(do inglês arthropod borne virus). Certos mosquitos, por exemplo,
adquirem vírus ao sugar sangue de uma pessoa contaminada e o
transmitem ao picar pessoas sadias. Os vírus da febre amarela, da
Figura 2.11 Cartaz de campanha de combate dengue e de diversas encefalites são arbovírus, transmitidos pela
à dengue. picada de mosquitos contaminados. (Fig. 2.11)
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

Epidemia e endemia
Em termos populacionais, as doenças infecciosas podem existir na condição de epidemias ou
de endemias. Fala-se em epidemia quando ocorre um aumento súbito no número de casos de uma
doença em uma população. Fala-se em endemia quando uma doença se mantém praticamente
constante numa determinada região. Costuma-se também utilizar o termo pandemia para se
referir a uma doença que atinge mais de um continente, em uma onda epidêmica que pode se
prolongar por vários anos. Surto é uma forma particular de epidemia, em que todos os casos es-
tão relacionados entre si. Uma mesma doença pode ser endêmica em uma população, epidêmica
em outra e não existir em uma terceira. Diversos fatores são responsáveis por esse quadro, que
depende tanto das condições ambientais quanto do nível sociocultural das populações.

Tratamento e prevenção de doenças virais


Até o momento, poucas drogas terapêuticas mostraram-se eficazes em combater os vírus.
Os antibióticos, que atuam com eficácia contra as bactérias, não têm nenhum efeito sobre as
infecções virais. Existem drogas capazes de bloquear a multiplicação dos ácidos nucleicos virais
que são utilizadas com relativo sucesso para conter infecções como o herpes, por exemplo. No
caso do HIV, são utilizados coquetéis de drogas que atuam tanto na multiplicação do ácido nu-
cleico quanto na produção das proteínas virais.

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O combate mais efetivo às doenças virais é a prevenção, que pode ser feita por meio da vaci-
nação, por medidas de saneamento básico, de preservação do meio ambiente, de saúde pública
e de cuidados pessoais.
Muitas doenças virais podem ser prevenidas por meio de vacinas. Em geral, as vacinas são prepara-
das com vírus previamente mortos ou atenuados pelo calor e por outros tratamentos físicos e químicos.
Ao entrar em contato com os componentes virais presentes na vacina, o organismo reage e ativa os
sistemas de defesa imunitária, produzindo anticorpos específicos contra aquele tipo de vírus.
Se a pessoa vacinada for infectada pelo vírus causador de uma doença contra a qual ela foi
imunizada, os anticorpos presentes no sangue combatem imediatamente a infecção. As campa-
nhas mundiais de vacinação contra a varíola humana, por exemplo, levaram à sua total erradica-
ção. Outras vacinas atualmente utilizadas, e altamente eficazes, são as que previnem contra a
poliomielite e contra o sarampo.

Seção 2.2
Bactérias
❱❱  Habilidades
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sugeridas 1 A célula bacteriana


CC     Conhecer a estrutura
geral da célula Estrutura da célula bacteriana
bacteriana e identificar Bactérias são organismos unicelulares procarióticos, cuja célula não
suas partes principais: apresenta núcleo nem organelas membranosas citoplasmáticas. Todos
parede celular, os outros organismos vivos conhecidos apresentam células eucarióticas,
membrana plasmática, exceto as arqueas, que também são seres procarióticos, e os vírus, que
citoplasma, ribossomos, são acelulares.
nucleoide, cromossomo, A célula bacteriana quase sempre apresenta um envoltório externo rígi-
plasmídio e flagelo. do, a parede celular, responsável pela forma da célula e por sua proteção.
CC     Conhecer o processo de Se a bactéria estiver imersa em água pura ou outras soluções hipotônicas,
reprodução assexuada é essa parede que impede a célula bacteriana de inchar e arrebentar devido
em bactérias. à osmose. Entretanto, a maioria das bactérias desidrata-se e morre em
ambiente de salinidade alta, pois perde água por osmose. É por isso que
CC     Estar informado de que
se costuma salgar certos alimentos, como carnes e peixes (carne-seca,
certas bactérias são
bacalhau, arenque etc.) para preservá-los do ataque de bactérias. A penici-
causadoras de diversas lina e alguns outros antibióticos impedem que certas bactérias produzam
doenças humanas substâncias componentes de sua parede, levando-as à morte.
e conhecer formas
Na parte interna da parede celular bacteriana encontra-se a membrana
de tratamento
plasmática. De composição lipoproteica semelhante à das membranas de
e de prevenção.
células eucarióticas, a membrana plasmática delimita o citoplasma, onde
CC     Caracterizar as há milhares de pequenos grânulos, os ribossomos, responsáveis pela pro-
arqueas e apontar suas dução das proteínas. Embora a atuação dos ribossomos seja semelhante
principais diferenças em células eucarióticas e procarióticas, nestas eles são menores e têm
em relação às bactérias. composição química ligeiramente diferente de seus correspondentes
Capítulo 2 • Vírus e bactérias

eucarióticos. A célula da bactéria Escherichia coli, por exemplo, apresenta


❱❱  Conceitos principais cerca de 15 mil ribossomos, cada um capaz de produzir uma molécula de
• bactéria proteína por minuto, o que nos dá uma ideia da capacidade de crescimento
• nucleoide e multiplicação das bactérias.
• plasmídio A célula bacteriana tem uma molécula circular de DNA que constitui seu
• cápsula bacteriana cromossomo; neste estão presentes alguns milhares de genes, necessá-
• bactéria aeróbia rios ao crescimento e à reprodução da bactéria. O cromossomo bacteriano,
• bactéria anaeróbia geralmente localizado na região central da célula, é longo e fino, formando
• divisão binária um emaranhado denominado nucleoide. Diferentemente das células eu-
• clone carióticas, não há membrana envolvendo o material cromossômico das
• arquea células procarióticas.

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Além do DNA cromossômico, a célula procariótica também pode conter moléculas circulares
adicionais de DNA denominadas plasmídios. Estes são menores que o DNA cromossômico e sua
presença não é essencial à vida da bactéria. Possuir plasmídios, no entanto, por vezes é vanta-
joso, pois eles podem conter genes responsáveis pela destruição de substâncias tóxicas como
os antibióticos, por exemplo.
Muitas bactérias apresentam flagelos, filamentos proteicos móveis ligados à parede e à mem-
brana bacteriana, que permitem a movimentação da célula. Os flagelos bacterianos, estrutural-
mente diferentes dos flagelos das células eucarióticas, têm em sua base um microscópico motor
molecular que segue princípios semelhantes aos dos motores elétricos: há um rotor móvel que
gira dentro de um anel fixo, à incrível velocidade de até 15 mil rotações por minuto. (Fig. 2.12)

A
Ilustrações: jurandir ribeiro

Ribossomos

A. B. Dowsett/Science Photo Library/Latinstock


Membrana
B D
plasmática
Flagelos
Parede
celular Filamento

Plasmídios
Nucleoide
Cotovelo

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Membrana
Eixo
plasmática

Parede
celular

Fímbrias

Figura 2.12 A. Representação esquemática de uma célula bacteriana parcialmente cortada para mostrar
seu interior. B. Detalhe da base de um flagelo. C. Representação do deslocamento de uma bactéria
impulsionada pelos flagelos. (Imagens sem escala, cores-fantasia.) (Baseado em Campbell, N. A. e cols.,
1999.) D. Micrografia da bactéria Proteus mirabilis, ao microscópio eletrônico de transmissão, mostrando
seus inúmeros flagelos (colorizada artificialmente; aumento . 6.0003).

Certas bactérias têm uma cobertura de aspecto mucoide externamente à parede celular, a cha-
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

mada cápsula bacteriana. A composição da cápsula varia nas diferentes espécies de bactéria; ela
pode ser formada por polissacarídios, por proteínas ou por ambos. Esses componentes são produ-
zidos no interior da célula e secretados para fora, onde se agregam à região externa da parede.
Em certas espécies de bactéria causadoras de doenças, a cápsula dificulta sua fagocitose e
destruição pelos glóbulos brancos, permitindo ao microrganismo driblar essa linha de defesa de
nosso sistema imunitário. Por exemplo, somente as linhagens capsuladas da bactéria Streptococcus
pneumoniae causam pneumonia; linhagens sem cápsula (o que ocorre como consequência de muta-
ção genética) são incapazes de causar a doença, pois, assim que penetram no corpo do hospedeiro,
são prontamente fagocitadas pelos glóbulos brancos. O mesmo ocorre com o Bacillus anthracis,
o causador do antraz: somente linhagens capsuladas desse bacilo provocam a doença.

Forma da célula e tipos de agrupamentos bacterianos


Há milhares de espécies de bactéria, que diferem quanto ao metabolismo, ao hábitat e à forma da
célula. Diversas espécies bacterianas formam agrupamentos em que os participantes mantêm sua
individualidade, sendo capazes de sobreviver quando separados do grupo. A forma da célula e o tipo
de agrupamento são características importantes na classificação de bactérias.
As células bacterianas podem apresentar diversas formas. As mais frequentes e suas respectivas
denominações são: esférica — coco; bastonete — bacilo; espiralada — espirilo; de vírgula — vibrião.
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Os agrupamentos bacterianos podem ser de diversos tipos, dos quais os principais são: dois cocos
unidos — diplococo; oito cocos formando um cubo — sarcina; cocos alinhados formando cadeias que
lembram colares de contas — estreptococos; cocos unidos como um cacho de uvas — estafilococos; ba-
cilos reunidos dois a dois — diplobacilos; bacilos alinhados em cadeia — estreptobacilos. (Fig. 2.13)

Chlamydia trachomatis

levi ciobotarin
(coco)

Rhizobium leguminosarum
Figura 2.13 Representação
Diplococcus pneumoniae (bacilo)
esquemática de bactérias de
diferentes formas e tipos de (diplococo) Desulfovibrio desulfuricans
agrupamentos. (Imagens sem escala, (vibrião)
cores-fantasia.) De A a E, micrografias
que mostram diferentes espécies de
bactérias causadoras de infecções ao Streptococcus hemolyticus Treponema pallidum
microscópio eletrônico (colorizadas (estreptococo) (espirilo)
artificialmente). A. Streptococcus
pneumoniae, causador de um tipo de
pneumonia (aumento . 6.5003).
B. Chlamydia trachomatis, agente Aquaspirillum
causador de doenças sexualmente magnetotacticum
transmissíveis (aumento . 15.0003). (espirilo)
C. Haemophylus influenzae, causador
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

de doenças respiratórias (aumento .


14.8003). D. Vibrio cholerae, causador Staphylococcus
do cólera (aumento . 8.8003). aureus Bacillus megaterium Sarcina ventriculi
E. Leptospira interrogans, causador da
(estafilococo) (estreptobacilo) (sarcina)
leptospirose (aumento . 27.7003).
Eye of Science/Science Photo Library/
Latinstock

AMI Images/Science Photo Library/


Latinstock

A. B. Dowsett, Health Protection Agency/


Science Photo Library/Latinstock
A B C
Eye of Science/Science Photo Library/
Latinstock

CNRI/Science Photo Library/Latinstock

D E

2 Características nutricionais das bactérias


Capítulo 2 • Vírus e bactérias

O estudo das bactérias mostrou grande variedade de formas de nutrição. Quanto a essa
característica, as bactérias podem ser separadas em dois grandes grupos: autotróficas e he-
terotróficas. As bactérias autotróficas são as que obtêm átomos de carbono — matéria-prima
básica para fabricar moléculas orgânicas — diretamente de moléculas de gás carbônico (CO2). Já
as bactérias heterotróficas obtêm átomos de carbono a partir de moléculas orgânicas.
As bactérias autotróficas mais conhecidas são fotossintetizantes; elas produzem as subs-
tâncias orgânicas que lhes servem de alimento, utilizando gás carbônico (CO2) como fonte de
carbono e luz como fonte de energia. Essas bactérias podem ser divididas em dois grupos, que
diferem quanto ao tipo de fotossíntese que realizam; em um dos grupos estão as proclorófitas
e as cianobactérias, no outro, as sulfobactérias.
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As proclorófitas e as cianobactérias (estas últimas antigamente chamadas de cianofíceas) execu-
tam um processo de fotossíntese semelhante ao de algas e de plantas, em que moléculas de gás car-
bônico (CO2) reagem com moléculas de água (H2O) produzindo glicídios e gás oxigênio (O2). (Fig. 2.14)

Claire Ting/Science Photo Library/Latinstock

Phototake/Alamy/Other Images
A B

Figura 2.14 A. Micrografia de bactérias do gênero Prochlorococcus ao microscópio óptico


(aumento . 1.6003). B. Micrografia de cianobactérias do gênero Anabaena ao
microscópio eletrônico de varredura (colorizada artificialmente; aumento . 1.2003).

As sulfobactérias realizam um tipo de fotossíntese em que a substância doadora de hidro-


gênio não é a água, mas compostos de enxofre, principalmente o gás sulfídrico (H2S). Por isso,

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


essas bactérias produzem enxofre elementar (S) como subproduto da fotossíntese, e não gás
oxigênio (O2), como na fotossíntese que utiliza água (H2O).
CO2  1  2 H2S  #  (CH2O)  1  2 S  1  H2O
Gás Gás LUZ Glicídio Enxofre Água
carbônico sulfídrico
As bactérias heterotróficas utilizam moléculas orgânicas absorvidas do meio como fonte
de energia e de átomos de carbono. Dentre estas vamos distinguir dois tipos de bactérias, as
saprofágicas e as parasitas.
As bactérias saprofágicas (do grego sapros, podre, e phagein, comer) obtêm alimento a partir
de matéria orgânica de cadáveres, fezes ou partes descartadas por seres vivos (folhas caídas,
por exemplo). Por degradar diversos tipos de substâncias orgânicas, as bactérias saprofágicas
exercem o importante papel de decompositoras na natureza, reciclando cadáveres e resíduos
orgânicos do ambiente.
As bactérias parasitas obtêm alimento a partir de tecidos corporais de seres vivos, geral-
mente causando doenças.

Bactérias aeróbias e bactérias anaeróbias


Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

Algumas espécies de bactérias heterotróficas obtêm energia unicamente pela respiração


aeróbia. Consequentemente, elas só sobrevivem na presença de gás oxigênio; são chamadas de
bactérias aeróbias.
Outras bactérias podem obter energia tanto por meio da respiração aeróbia quanto da fer-
mentação, dependendo da disponibilidade ou não de gás oxigênio. Por isso, elas são denominadas
bactérias anaeróbias facultativas.
Certas espécies de bactérias anaeróbias, como a espécie causadora do tétano, não toleram
a presença de gás oxigênio e morrem se são expostas a ele; por isso, são denominadas bactérias
anaeróbias obrigatórias.

3 Reprodução das bactérias


Nas bactérias ocorre reprodução assexuada por divisão binária. Nesse processo, a célula
bacteriana duplica o cromossomo e divide-se ao meio, originando duas novas bactérias. Em
algumas espécies, em condições ideais, o processo completo ocorre em apenas 20 minutos. É
por isso que, em algumas horas, uma única bactéria pode originar uma população composta de
milhares de células geneticamente idênticas. As bactérias originadas de uma única célula, por
sucessivas reproduções assexuadas, são denominadas clones. (Fig. 2.15)

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jurandir ribeiro

A. B. Dowsett/Science Photo Library/


Latinstock
Bactéria Cromossomo

Figura 2.15 Representação esquemática do processo de divisão de uma


célula bacteriana (em corte, para mostrar o cromossomo). (Imagens
sem escala, cores-fantasia.) Na micrografia ao microscópio eletrônico
de transmissão, bactéria Escherichia coli em divisão; a região central
alaranjada é o nucleoide (colorizada artificialmente; aumento . 18.5003).
Bactérias-filhas

Sob certas condições ambientais, como a falta de nutrientes essenciais ou de água, al-
gumas espécies de bactéria, destacadamente as dos gêneros Clostridium e Bacillus, formam
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estruturas denominadas endósporos (do grego endos, dentro). Um endósporo resulta da de-
sidratação da célula bacteriana e da formação de uma parede grossa e resistente em torno
do citoplasma desidratado. Nessas condições, o endósporo é capaz de permanecer anos com
a atividade metabólica totalmente suspensa, resistindo ao calor intenso, à falta de água e a
outras condições adversas.

CIÊNCIA A importância das bactérias para a humanidade


E CIDADANIA

Biotecnologia geneticamente certas bactérias, fazendo-as produ-


1 O desenvolvimento científico e tecnológico tem zir substâncias de interesse comercial. Já se produz
levado, cada vez mais, à utilização de seres vivos em hormônio de crescimento e insulina idênticos aos
tecnologias úteis à humanidade, atividade conhecida humanos utilizando como “fábricas” bactérias geneti-
genericamente como biotecnologia. camente transformadas pela Engenharia Genética.
2 Embora tenham sido descobertos apenas no
século XVII, os microrganismos já são utilizados há
Biorremediação
muitos séculos em biotecnologias de produção de 5 Biorremediação é a utilização de microrganismos,
alimentos, como na fabricação de queijos, iogurtes, principalmente bactérias, para limpar áreas ambien-
requeijões, vinagre, picles etc. tais contaminadas por poluentes. O grande interesse
3 Bactérias também são utilizadas na indústria por esse tipo de procedimento deve-se ao fato de
farmacêutica para a produção de antibióticos e a biorremediação ser mais simples, mais barata e
vitaminas. O antibiótico neomicina, por exemplo, é menos prejudicial ao ambiente que os processos não
produzido por uma bactéria do gênero Streptomyces. biológicos utilizados atualmente, como recolher os
A indústria química também utiliza bactérias para poluentes e transportá-los para outros locais.
produzir substâncias como o metanol, o butanol, a Como exemplo de biorremediação pode-se citar
Capítulo 2 • Vírus e bactérias

6
acetona etc. Nos grandes centros urbanos, as bacté- a utilização de bactérias do gênero Pseudomonas na
rias ganham cada vez mais destaque como agentes descontaminação de ambientes poluídos por pes-
decompositores da matéria orgânica dos esgotos ticidas ou por petróleo. Pseudomonas spp. e outras
domésticos e do lixo. bactérias semelhantes oxidam diversos compostos
4 O potencial biotecnológico das bactérias cresceu orgânicos nocivos, transformando-os em substâncias
nas últimas décadas devido ao desenvolvimento da inócuas ao ambiente. Atualmente as pesquisas têm
tecnologia do DNA recombinante, também chamada se voltado para o estudo genético dessas bactérias, a
de Engenharia Genética. Essa tecnologia consiste fim de modificar seus genes e aumentar sua eficiência
em um conjunto de técnicas que permite modificar como despoluidoras.

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Bactérias e doenças
7 Calcula-se que metade das doenças humanas seja causada por bactérias patogênicas
(do grego pathos, sofrimento, doença, e genesis, que gera). Ao penetrar no corpo humano, as
bactérias instalam-se e multiplicam-se nos tecidos de diversos órgãos, causando as infecções
bacterianas. A bactéria causadora da tuberculose, por exemplo, instala-se preferencialmente
nos pulmões, embora também possa afetar outros órgãos.
8 Enquanto os vírus sempre penetram nas células, as bactérias geralmente vivem entre
as células dos tecidos e nas superfícies e cavidades de órgãos. Salmonelas e micobactérias
também podem invadir células hospedeiras e reproduzir-se em seu interior, porém não são
parasitas intracelulares obrigatórios.
9 Muitos sintomas das infecções bacterianas são causados por substâncias tóxicas (toxi-
nas), que as bactérias eliminam, ou por substâncias presentes em suas paredes celulares.
10 Certas bactérias causam doenças apenas quando o sistema de defesa da pessoa está

debilitado, sendo por isso denominadas bactérias oportunistas. A bactéria Streptococcus


pneumoniae, por exemplo, não causa problemas à maioria das pessoas saudáveis, mas
pode produzir pneumonia se as defesas corporais estiverem debilitadas. Por exemplo, um
dos principais problemas da aids é fragilizar o sistema imunitário, o que abre caminho para
uma série de infecções oportunistas que não afetariam pessoas sadias.
Tratamento e prevenção de doenças bacterianas

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


11 O tratamento das infecções bacterianas é feito com antibióticos, substâncias capazes de
matar bactérias. O primeiro antibiótico foi descoberto em 1929 por Alexander Fleming, que o
extraiu de um fungo do gênero Penicillium; por isso, esse antibiótico foi chamado de penicilina.
Dez anos depois, a penicilina foi industrializada e passou a ser produzida em grande escala.
12 Todos os antibióticos continuam sendo extraídos de bactérias e de fungos, mas atual-
mente grande parte deles é modificada por processos químicos para aumentar seu potencial
de ação, daí serem chamados de antibióticos “sintéticos”.
13 A prevenção de certas doenças bacterianas é feita pela vacinação. Há vacinas eficazes, por
exemplo, contra o tétano e a coqueluche. A vacina antitetânica estimula nosso sistema de defesa
por mais ou menos 10 anos, durante os quais ficamos protegidos das bactérias que causam a
doença. Depois desse tempo, é preciso tomar dose de reforço para continuar imunizado.
14 A higiene é, com certeza, a principal atitude preventiva contra muitas doenças bacte-

rianas. As medidas higiênicas reduzem substancialmente as taxas de mortalidade infantil


e aumentam o tempo médio de vida das pessoas. O conhecimento sobre a forma de trans-
missão das infecções bacterianas mais comuns pode nos ajudar a evitá-las.

GUIA DE LEITURA
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

1. Leia o primeiro e o segundo parágrafos e res- 5. Leia o sétimo, o oitavo e o nono parágrafos, no
ponda: o que é biotecnologia? Baseando-se item Bactérias e doenças. Caracterize: a) bacté-
nos exemplos, pense em como essa prática é rias patogênicas; b) infecção bacteriana; c) locais
antiga. do corpo afetados e causas da doença.
2. No terceiro parágrafo fala-se em modernas bio- 6. Leia o parágrafo 10 e caracterize “bactérias
tecnologias que empregam bactérias. Comente oportunistas”.
brevemente o exemplo que mais lhe despertou 7. Nos parágrafos 11 e 12 comenta-se sobre a
interesse. principal forma de tratamento de infecções
3. Leia o quarto parágrafo, que comenta como bacterianas. Qual é ela? Explique brevemente.
a Engenharia Genética permitiu desenvolver 8. Leia o décimo terceiro parágrafo, que se refere
tecnologias utilizando bactérias. Resuma as a uma importante forma de prevenir doenças
principais ideias do parágrafo. bacterianas. Qual é ela? Explique brevemente.
4. Leia o quinto e o sexto parágrafos, referen- 9. O último parágrafo comenta sobre outra importan-
tes à biorremediação. Defina o termo e exem- te forma de prevenir infecções, tanto bacterianas
plifique. quanto virais. Qual é ela? Explique brevemente.

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4 Parentesco evolutivo entre bactérias, arqueas e seres eucarióticos
As arqueas são seres procarióticos que apresentam forma esférica, de bastão, espiralada,
achatada ou irregular. Esses seres só foram diferenciados das bactérias há poucas décadas,
graças ao desenvolvimento das técnicas de análise molecular.
Uma diferença marcante entre bactérias e arqueas está na organização e no funcionamento
de seus genes. Curiosamente, as sequências codificadas nos genes e a atividade gênica das ar-
queas são mais semelhantes às encontradas nos organismos eucarióticos, diferenciando-se da
organização genética das bactérias. Para ilustrar essas diferenças, alguns biólogos costumam
dizer que as arqueas diferem mais das bactérias do que um ser humano difere de uma alface.
As arqueas habitam, geralmente, ambientes extremos. Um grupo de arqueas expressivo é o das
halófilas (do grego halos, sal, e philos, amigo), que habitam águas com alta concentração salina.
Outro grupo reúne as termoacidófilas, que suportam condições extremas de acidez e tempera-
tura, vivendo em fontes termais ácidas, onde a temperatura oscila entre 60 e 80 °C, ou em fendas
vulcânicas nas profundezas oceâ­nicas. Arqueas metanogênicas são anaeróbias obrigatórias que
vivem em pântanos e no tubo digestório de cupins e de animais herbívoros, onde produzem gás
metano. Recentemente foram descobertas arqueas em ambientes gelados e acredita-se que elas
possam ser relativamente abundantes nas águas superficiais da costa da Antártica.
Quando ainda não se conhecia a diferença entre bactérias e arqueas, ambas eram chamadas
de bactérias e classificadas no reino Monera, que reúne os organismos com célula procariótica.
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A descoberta das primeiras diferenças entre os dois tipos de seres procarióticos levou à criação
de um novo grupo para reunir as espécies com características consideradas primitivas. O novo
grupo foi denominado Archaeobacteria (do grego archeos, antigo), enquanto as demais bactérias
passaram a ser reunidas no grupo Eubacteria (do grego eu, verdadeiro).
Estudos posteriores mostraram que esses dois tipos de seres procarióticos eram ainda mais
diferentes do que se imaginava. Isso levou à eliminação do termo bactéria do nome do grupo mais
primitivo, que passou a ser denominado simplesmente Archaea (arqueas). Com isso desapareceu
a necessidade do prefixo “eu” para designar as bactérias verdadeiras, e elas passaram a integrar
o grupo Bacteria (bactérias).
No sistema de classificação em cinco reinos, arqueas e bactérias ocupam sub-reinos distintos
no reino Monera. Entretanto, propostas recentes de classificação sugerem que esses grupos
sejam ainda mais separados, o que refletiria melhor a história evolutiva da vida na Terra. Nessas
propostas, haveria uma categoria taxonômica acima dos reinos, o domínio. Os seres vivos seriam,
então, separados em três grandes domínios: Bacteria, Archaea e Eukarya. O domínio Bacteria
reuniria as bactérias; o domínio Archaea reuniria as arqueas; o domínio Eukarya reuniria os
protoctistas, os fungos, as plantas e os animais, constituídos por células eucarióticas.
Informações recentes mostram que as arqueas são evolutivamente mais relacionadas aos
organismos eucarióticos do que às bactérias. Isso significa que, nos primórdios da vida na Terra,
um grupo de organismos primitivos separou-se em duas linhagens, uma das quais deu origem às
bactérias atuais. Em um segundo momento, a outra linhagem também se diversificou em duas:
uma deu origem às arqueas e a outra, aos seres eucarióticos.

CIÊNCIA Doenças sexualmente transmissíveis causadas por vírus e bactérias


E CIDADANIA

1 Doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) são 2 Algumas DSTs são difíceis de curar, mas em todos
Capítulo 2 • Vírus e bactérias

causadas por agentes diversos, transmitidos de pessoa os casos há tratamentos que podem evitar a progres-
a pessoa por meio de atividades sexuais. Esses agentes são da doença. Outras DSTs são curáveis, desde que
podem ser vírus, bactérias, fungos, protozoários e até se procure rapidamente ajuda médica.
mesmo artrópodes, como o causador da pediculose 3 As doenças sexualmente transmissíveis consti-
pubiana (popularmente conhecido por “chato”). Com tuem um dos grandes problemas mundiais de saúde
exceção desta última e de algumas viroses, todas pública. É direito e dever de todo cidadão manter-se
as doenças sexualmente transmissíveis podem ser informado sobre essas e outras doenças transmissí-
prevenidas pela utilização da camisinha durante as veis, de modo a agir preventivamente em benefício
relações sexuais. de sua própria saúde e a de toda a sociedade.

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Aids
4 A mais temível das DSTs é a síndrome da imunodeficiência adquirida, ou aids (do inglês,
acquired immunodeficience syndrome), doença até o momento incurável, embora já existam
formas de tratamento que podem melhorar a condição de vida dos doentes. A aids é causada
pelo vírus da imunodeficiência humana, ou HIV (do inglês, human immunodeficience virus),
que ataca células do sistema imunitário, entre elas o linfócito T auxiliador (célula CD4). Os
linfócitos T auxiliadores são os “comandantes” da defesa imunitária do organismo: são eles
que estimulam os linfócitos B a produzir anticorpos e os linfócitos T citotóxicos (células CD8)
a destruir células estranhas ao organismo.
5 Ao atacar e destruir os linfócitos CD4, o HIV diminui a capacidade do organismo de reagir
às infecções mais comuns. Com isso, a pessoa infectada pelo HIV pode ser atacada por diversos
tipos de microrganismos que, em condições normais, não representariam perigo. (Fig. 2.16)
6 Na fase inicial da doença, a pessoa infectada não apresenta sintomas, mas a presença do
HIV já pode ser detectada por exames de sangue, no qual aparecem anticorpos contra o vírus.
Pessoas com anticorpos contra o HIV são chamadas de soropositivas e podem disseminar o
vírus pelo ato sexual, se não for usada a camisinha.
7 A evolução da doença leva à queda no número de linfócitos CD4 e a pessoa começa a
manifestar os primeiros sintomas da aids: inchaço dos linfonodos, fraqueza, febre, emagre-
cimento, suores noturnos e diarreias infecciosas. No estágio avançado, aparecem problemas

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


neurológicos e a pessoa é seriamente afetada pelas chamadas “infecções oportunistas”, que
levam a pneumonias (frequentemente causadas pelo fungo Pneumocystis carinii) e a câncer
de pele (o mais comum é o sarcoma de Kaposi, causado pelo vírus KSHV).

fotos: eye of science/science photo library/latinstock


Proteínas do
envoltório viral Partícula viral
inseridas na membrana em formação
da célula infectada

Membrana
plasmática
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

Citoplasma

Partícula viral
livre

Figura 2.16
Micrografias
ao microscópio
eletrônico de
transmissão
mostrando etapas
da liberação do
HIV por uma
célula hospedeira
(colorizadas
artificialmente;
aumento .
200.0003).

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8 A aids é transmitida pelo contato sexual com pes- são pouco evidentes, o que representa um grande
soas infectadas e também pelo sangue, principalmente risco de a infecção evoluir para o que se denomina DIP
pelo compartilhamento de seringas no uso de drogas (doença inflamatória pélvica), com comprometimento
injetáveis ou por transfusões de sangue contami- das tubas uterinas. Em muitos casos, a inflamação das
nado. Recém-nascidos filhos de mães portadoras do tubas pode levar à esterilidade. Nos bebês, a infecção
HIV podem adquirir o vírus durante o parto ou ao ser gonocócica pode provocar cegueira.
amamentados com o leite materno. 14 A gonorreia pode ser curada com antibióticos, que

9 Embora ainda não haja cura para a aids, os tratamen- devem ser ingeridos, com acompanhamento médico,
tos quimioterápicos, denominados terapias antirretrovi- tão logo os sintomas se manifestem. É importante que
rais, evoluíram muito. O uso combinado de diversas drogas o homem, ao perceber os sintomas iniciais da doença,
antivirais, os chamados “coquetéis antivirais”, compostos abstenha-se imediatamente de relações sexuais e infor-
de inibidores da síntese de ácidos nucleicos e de enzimas me suas parceiras ou parceiros sobre o problema, para
importantes para a formação das partículas virais, tem que eles também iniciem o tratamento com antibióticos.
conseguido prolongar a vida de muitos doentes. Esse alerta, aliás, é válido para qualquer tipo de DST.
Cancro mole Herpes genital
10 Cancro mole (também chamado cancro venéreo 15 O herpes genital é uma DST causada pelo herpes-

simples ou “cavalo”) é uma DST causada pela bactéria -vírus tipo 2 ou HSV-2 (do inglês, Herpes simplex virus
Haemophilus ducreyi, transmitida exclusivamente type 2)*. Os sintomas são lesões nos órgãos genitais,
por via sexual. Caracteriza-se por lesões, geralmente no início caracterizadas por bolhas cheias de líquido
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

dolorosas, nos órgãos genitais, sendo mais frequente que, depois, se transformam em pequenas feridas.
no homem. O período de incubação da bactéria, du- O período de incubação da doença é de 3 a 14 dias,
rante o qual os sintomas ainda não se manifestam, no caso de ser a primeira infecção. Em muitos casos,
geralmente é de três a cinco dias, mas pode durar até o herpes é recorrente, isto é, volta a atacar a pessoa
duas semanas. O tratamento é feito com antibióticos aparentemente curada.
e a pessoa deve abster-se de relações sexuais até estar 16 O tratamento consiste em limpar as lesões com

completamente curada. solução fisiológica ou água boricada e aplicar pomadas


antibióticas para evitar infecções secundárias, isto é,
Condiloma acuminado causadas por outros agentes infecciosos. A dor pode ser
11 O condiloma acuminado (popularmente chamado aliviada com analgésicos e anti-inflamatórios. Embora
de “crista de galo” ou de verruga genital) é uma DST alguns medicamentos possam reduzir a duração e a
causada pelo papilomavírus humano ou HPV (do inglês, frequência das infecções recorrentes, ainda não há cura
human papilloma virus), transmitido por via sexual ou definitiva para o herpes genital. Um dos riscos dessa
adquirido da mãe durante a gestação. Caracteriza-se pelo DST é a contaminação dos bebês ainda no período de
aparecimento, nos órgãos genitais, de lesões em forma gestação. O herpes pode ser grave nos recém-nascidos
de verrugas altas, que apresentam um “cume”, ou crista, e exige cuidados médicos especializados.
bem pronunciado (daí o nome condiloma acuminado).
Linfogranuloma venéreo
Um grande problema do contágio pelo HPV é que ele pode
causar também câncer nos órgãos genitais e no ânus. 17 O linfogranuloma venéreo (conhecido popular-

12 O tratamento consiste em remover as lesões con- mente por “mula”) é uma DST causada pela bactéria
dilomatosas (com o uso de substâncias químicas ou Chlamydia trachomatis, que se transmite exclusi-
com cirurgia), mas ainda não se sabe como eliminar vamente por via sexual. Os sintomas iniciais são
o vírus do organismo. Por causa disso, costuma haver pequenas bolhas ou feridas nos órgãos genitais, que
recorrências depois da infecção primária. geralmente desaparecem logo. Mais tarde, após um
período de incubação entre 3 e 30 dias, ocorre grande
Gonorreia inchaço nos linfonodos das virilhas (bubão inguinal),
Capítulo 2 • Vírus e bactérias

13 A gonorreia (também conhecida por blenorragia) é mais frequente nos homens.


uma DST causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae 18 Os principais sintomas do linfogranuloma venéreo
(gonococo), transmitida exclusivamente por via sexual são: febre, indisposição, dores no corpo, suores noturnos,
ou adquirida pelo recém-nascido no momento do par- perda de apetite e emagrecimento. Se a pessoa não for
to. O diagnóstico da doença é fácil nos homens, que tratada a tempo, a doença pode deixar sequelas como
manifestam sintomas como ardor ao urinar e produção perfurações (fístulas) no reto e na vagina. O tratamento é
de uma secreção uretral de cor amarelada, poucos dias feito à base de antibióticos, que melhoram rapidamente
após a infecção. Nas mulheres, porém, os sintomas os sintomas, embora não revertam as fístulas.

**O HSV-1 é um vírus que ataca geralmente a mucosa da boca e não é transmitido por contato sexual.
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Sífilis
PASIeKA/SCIeNCe PhOTO LIBrAry/LATINSTOCK

19 A sífilis é uma DST causada pela bactéria Treponema

pallidum, transmitida exclusivamente por via sexual ou da


mãe para o feto durante a gestação. A doença apresenta três
estágios distintos, separados por períodos “latentes”. (Fig.
2.17)
20 O primeiro estágio caracteriza-se pelo aparecimento do

“cancro duro”, uma lesão nos órgãos genitais de consistência


endurecida e pouco dolorosa. A lesão cancroide manifesta-se,
em média, cerca de 20 dias após a contaminação. No homem,
o cancro duro aparece com maior frequência na glande do
pênis; na mulher, aparece nos lábios menores, nas paredes
da vagina e no colo uterino.
Figura 2.17 Micrografia da bactéria Treponema 21 No segundo estágio, que geralmente ocorre cerca de seis a oito
pallidum, causadora da sífilis ao microscópio semanas após o cancro duro, surgem lesões escamosas na pele e
eletrônico de transmissão (colorizada
artificialmente; aumento  20.0003). nas mucosas. Lesões nas palmas das mãos e nas plantas dos pés
são fortes indicativos de sífilis secundária. Outros sintomas são
dores no corpo, febres, dores de cabeça e indisposição.
eye OF SCIeNCe/SCIeNCe PhOTO LIBrAry/LATINSTOCK

22 No terceiro estágio, a sífilis pode afetar o sistema nervoso,

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


causando problemas mentais, dificuldades de coordenação
motora e cegueira. O tratamento é feito com antibióticos
específicos para cada estágio da doença. Naturalmente,
quanto mais cedo a doença for diagnosticada, maior o êxito
do tratamento e menores as sequelas.
Tricomoníase
23 A tricomoníase é uma DST causada pelo protozoário Tricho-

monas vaginalis. Na mulher, os sintomas são corrimento vaginal e


ardor ao urinar. No homem, pode haver ardor e corrimento uretral,
mas a doença permanece assintomática em muitos casos.
Figura 2.18 Micrografia do protozoário 24 O tratamento consiste na administração de drogas que matam
Trichomonas vaginalis, causador da tricomoníase
ao microscópio eletrônico de varredura (colorizada
os protozoários. Como sempre, todos os parceiros sexuais também
artificialmente; aumento  3.0003). devem se tratar, para evitar recontaminação. (Fig. 2.18)

GUIA DE LEITURA

1. Leia o primeiro parágrafo e responda: o que são 5. No sexto parágrafo são caracterizadas as pes-
doenças sexualmente transmissíveis? Se lembrar,
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

soas denominadas “soropositivas” em relação


dê um exemplo de uma DST causada por um vírus à aids. Certifique-se de ter compreendido essa
e de uma causada por uma bactéria. definição. Você poderá encontrar o termo em
2. Leia o segundo e o terceiro parágrafos. Em sua propagandas de prevenção da doença.
opinião, qual é um motivo importante, além do 6. Leia o sétimo parágrafo, que fala sobre as fases
pessoal, para se tratar as DSTs o mais rapidamen- mais avançadas da aids. O que são as chamadas
te possível? “infecções oportunistas”?
3. Após os três parágrafos iniciais são apresentadas 7. O oitavo parágrafo refere-se às principais formas
oito DSTs, algumas causadas por vírus e outras de transmissão da aids. Quais são elas? Lembre-
causadas por bactérias. Seu desafio é elaborar uma -se de que esses conhecimentos são essenciais
tabela que relacione essas DSTs com as seguintes
na prevenção da doença.
informações relativas a cada uma: a) agente cau-
sador; b) sintomas e consequências da doença; 8. Leia o nono parágrafo, que comenta algumas
c) tratamento e prevenção. Preencha a tabela à terapias para a aids. Termine de preencher a
medida que estudar cada um dos itens. coluna (ou linha) de sua tabela relativa à aids.
4. O quarto e o quinto parágrafos referem-se ao 9. Leia, a seguir, os parágrafos de cada item referen-
agente causador da aids e às células do organismo tes às outras sete DSTs apresentadas no quadro.
humano atacadas por ele. De posse dessas informa- Após estudar cada item, preencha a tabela em
ções você já pode começar a preencher a tabela. que já aparece a aids.

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QUADRO DE CONSULTA I Algumas doenças humanas causadas por vírus

I. Doenças virais associadas à pele doença perigosa, principalmente em crianças e idosos. Em


0,1% dos casos ocorre encefalite, que frequen­temente deixa
Catapora (quando ocorre a primeira vez na infância); herpes lesões cerebrais permanentes. O sarampo é fatal em cerca de
zóster ou cobreiro (quando há recorrência da infecção na 0,03% dos casos, principalmente em crianças. Adquire-se o
fase adulta). vírus pelas vias respiratórias, por meio de gotículas de saliva
É causada pelo varicela-zóster, um vírus envelopado com de pessoas portadoras do vírus. Não há tratamento. A vacina
DNA de cadeia dupla. Afeta frequentemente crianças, com é aplicada na infância juntamente com as vacinas contra ca-
formação de pústulas na pele, que regridem após três ou xumba e rubéola na forma da vacina tríplice viral. Deve-se
quatro dias; a infecção pode atingir também diversos ór- evitar contato com pessoas que apresentem os sintomas
gãos internos. O DNA viral permanece, em geral, em estado da infecção.
latente nos gânglios nervosos espinais e pode ser ativado
décadas mais tarde, causando lesões dolorosas na pele, ao
Varíola
longo de nervos sensitivos, quadro clínico chamado herpes É causada por Orthopoxvirus variolae, um vírus envelopado
zóster ou cobreiro. Adquire-se o vírus pelas vias respiratórias; com DNA de cadeia dupla. O vírus infecta inicialmente órgãos
a infecção manifesta-se em cerca de duas semanas. Não há internos antes de entrar na corrente sanguínea e infectar as
tratamento; deve-se evitar o contato com pessoas contami- células da pele, com a formação de pústulas que provocam
nadas pelo vírus. lesões desfigurantes pelo resto da vida. A taxa de mortalidade
é grande entre os infectados. A transmissão ocorre pelas
Herpes simples labial vias respiratórias, por meio de gotículas de saliva de pessoas
O agente causativo é o herpes simplex tipo 1 (HSV-1), um vírus portadoras do vírus. Não há tratamento. A vacina é muito
envelopado com DNA de cadeia dupla. A infecção ocorre eficiente e sua aplicação sistemática e generalizada levou à
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

na infância e chega a atingir 90% da população dos países erradicação da doença no mundo.
desenvolvidos, mas apenas 15% apresentam os sintomas, na
forma de lesões nas bordas dos lábios. O DNA viral permanece II. Doenças virais associadas
em estado latente no gânglio do nervo trigêmeo que inerva ao sistema nervoso
a face. O vírus pode ser reativado, infectando células da pele
e provocando as lesões típicas do herpes. Essas recorrências Poliomielite
estão associadas a situações traumáticas, como exposição É causada por Enterovirus, um vírus não envelopado com
excessiva à luz ultravioleta do sol, estresse emocional e RNA de cadeia simples. O vírus multiplica-se inicialmente
variações hormonais do ciclo menstrual. Adquire-se o vírus em células da garganta e do intestino delgado invadindo,
por contato com pessoas ou com objetos contaminados, por em seguida, as tonsilas, os linfonodos do pescoço e o íleo (a
isso deve-se evitar contato íntimo com pessoas durante as porção terminal do intestino delgado). Em geral, a infecção
recorrências da infecção. Pomadas contendo inibidores da regride e, na maioria dos casos, é assintomática ou produz
síntese de DNA viral podem aliviar os sintomas. sintomas leves como dor de cabeça, dor de garganta, febre
e náusea, confundindo-se com meningite branda ou com
Rubéola
gripe. Se a infecção persistir, o que ocorre em cerca de 1% dos
É causada por Rubivirus, um vírus envelopado com RNA de casos, os vírus caem na circulação sanguínea e penetram no
cadeia simples. Os sintomas são muito leves e podem passar sistema nervoso central. Ali eles infectam preferencialmente
despercebidos; em geral ocorrem febre branda e pequenas as células nervosas motoras que formam as raízes dorsais dos
manchas vermelhas na pele. A infecção durante a gravidez nervos espinais, matando-as e provocando paralisia e atrofia
produz, em 35% dos casos, a síndrome da rubéola contagiosa, dos músculos por elas inervados. A doença pode causar a
caracterizada por sérios danos ao feto em desenvolvimento, morte se forem atingidos nervos que controlam os músculos
incluindo surdez, catarata, má-formação cardíaca, retardo do sistema respiratório. Adquire-se o vírus por ingestão de
mental e mesmo a morte. É importante detectar mulheres água e alimentos contaminados com fezes de portadores;
sem imunidade contra a rubéola; em alguns países, os testes há indícios de que o vírus também pode ser transmitido
sanguíneos requeridos para obtenção de licença para casa- pela saliva. Não há tratamento. A vacina é muito eficiente
mento incluem o teste para rubéola. Mulheres não imunes e sua aplicação sistemática e generalizada está levando à
que desejam engravidar devem se vacinar; a vacinação du- erradicação da doença.
rante a gravidez deve ser evitada, pois pode provocar danos
ao feto. Adquire-se o vírus pelas vias respiratórias, por meio Raiva
de gotículas de saliva expelidas por pessoas portadoras do É causada por Lyssavirus, um vírus envelopado com RNA
Capítulo 2 • Vírus e bactérias

vírus. Não há tratamento. A vacina é aplicada na infância de cadeia simples. O vírus multiplica-se inicialmente em
juntamente com as vacinas contra sarampo e caxumba na células musculares e do tecido conjuntivo, onde permanece
forma da vacina tríplice viral. por dias ou meses. Em seguida, entra nos nervos periféricos,
deslocando-se por eles até o sistema nervoso central, onde
Sarampo causa encefalite. Quando o vírus penetra em áreas ricas em
É causado por Morbillivirus, um vírus envelopado com RNA de fibras nervosas, como o rosto ou as mãos, o período de incu-
cadeia simples. A infecção tem início na parte superior das bação pode ser bem curto e a doença é mais perigosa, pois
vias respiratórias e, após um período de incubação de 10 a não há como combater o vírus após sua entrada no sistema
12 dias, aparecem sintomas semelhantes aos do resfriado nervoso. Quando este é atingido, alternam-se períodos de
comum: dor de garganta, dor de cabeça e tosse. Logo depois agitação e de calma. Nessa fase são frequentes os espasmos
aparecem erupções na pele, começando na face e espalhan- dos músculos da boca e da faringe, que ocorrem quando o
do-se pelo tronco e pelas extremidades. O sarampo é uma animal ou a pessoa afetada tentam inalar ar ou beber água.

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Quadro de consulta I • Algumas doenças humanas causadas por vírus

A simples visão de água ou o pensar nela desencadeia os es- contaminados; nas matas, outras espécies de mosquito trans-
pasmos, daí a doença ser conhecida também como hidrofobia. mitem a doença; os reservatórios naturais são macacos. Não
A raiva é sempre fatal em questão de dias. O vírus presente há tratamento específico para a febre amarela. A vacinação,
na saliva do animal infectado é transmitido por mordida ou com a forma atenuada do vírus, confere imunidade efetiva
pelo contato com ferimentos expostos. Antes que atinja o com poucos efeitos adversos. A doença pode ser controlada
sistema nervoso, a doença pode ser evitada com a injeção e eventualmente erradicada pelo combate aos mosquitos
de anticorpos antivirais (soro) ou mesmo com vacinação pós- vetores. Devem-se eliminar os criadouros de mos­qui­tos, como
-exposição ao vírus. Pessoas mordidas por um animal (ou se a foi mencionado no caso da dengue.
saliva deste entrar em contato com algum ferimento exposto)
devem lavar o local ferido com água limpa e sabão, manter Mononucleose
o animal sob observação rigorosa e procurar imediatamente É causada por Lymphocryptovirus (vírus Epstein-Barr), um
um serviço de assistência médica. vírus envelopado com DNA de cadeia dupla. O vírus Epstein-
-Barr é um dos mais comuns, ocorrendo em todo o mundo.
III. Doenças virais associadas aos sistemas Nos países desenvolvidos, onde há estatísticas a respeito,
cardiovascular e linfático cerca de 95% das pessoas com idade entre 35 e 40 anos já
foram infectadas por esse vírus. Crianças tornam-se susce-
Dengue tíveis à infecção pelo vírus assim que desaparece a proteção
por anticorpos maternos presentes em seu sangue por oca-
É causada por Flavivirus (arbovírus), um tipo de vírus enve-
sião do nascimento. Quando a pessoa se infecta durante a
lopado com RNA de cadeia simples. São conhecidas quatro
infância não ocorrem sintomas específicos e as indisposições
variedades do vírus, três das quais ocorrem no Brasil. Se uma
causadas pelo vírus são confundidas com doenças infantis
pessoa for infectada por uma das formas não adquire imuni-
sem importância. Quando a infecção ocorre na adolescência
dade para as outras. A dengue, também conhecida como febre

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


ou logo depois (cerca de 35% a 50% dos casos), ocorre a mono­
quebra-ossos, caracteriza-se por febre, dor muscular intensa,
nucleose, cujos sintomas são febre, dor de garganta e inchaço
dores nas juntas, manchas vermelhas na pele e pequenas
dos linfonodos. Problemas cardíacos e comprometimento do
manifestações hemorrágicas. Essa é a forma mais branda
sistema nervoso ocorrem raramente e há pouquíssimos casos
da doença, conhecida como dengue clássica, cujos sintomas
fatais. Após a infecção, o vírus permanece latente em células
regridem em cinco a sete dias, podendo persistir a fadiga. A
da garganta e do sangue pelo resto da vida; ele é reativado
forma mais grave, conhecida como dengue hemorrágica, tem
periodicamente, reproduzindo-se e liberando novos vírus que
sintomas iniciais basicamente semelhantes aos da dengue
são detectados na saliva, mas nessas recorrências da infecção
clássica mas, no terceiro ou quarto dia, começam a ocorrer
os sintomas não reaparecem. Em uns poucos portadores, o
sangramentos internos, a pressão sanguínea cai, os lábios
vírus parece ter algum papel no desenvolvimento de cân-
ficam roxos, ocorrem dores abdominais e alternam-se perío-
ceres (linfoma de Burkitt e carcinoma nasofaríngeo), não
dos de letargia e de agitação. A dengue hemorrágica pode
sendo, no entanto, a única causa dessas doenças. A pessoa
levar à morte. Adquire-se dengue pela picada de um mosqui-
adquire o vírus por contato íntimo com a saliva de pessoas
to portador do vírus, o Aedes aegypti ou o Aedes albopictus.
contaminadas, sendo praticamente impossível evitar a
Nenhuma dessas duas espécies é nativa das Américas, tendo
dispersão do vírus. Não há tratamento.
sido introduzidas diversas vezes em nosso continente. O Ae-
des aegypti é o principal vetor da dengue no Brasil e o Aedes
albopictus, na Ásia e nos EUA. Os mosquitos infectados podem
IV. Doenças virais associadas
transmitir o vírus à descendência pelos ovos. Não há trata-
ao sistema respiratório
mento específico para a dengue; combatem-se os sintomas
com hidratação e antitérmicos, mas medicamentos à base de Gripe
ácido acetilsalicílico, como a aspirina, não devem ser utilizados, É causada por Influenzavirus, um vírus envelopado que con-
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

uma vez que essa substância pode aumentar as hemorragias. tém oito moléculas de RNA de cadeia simples. Os sintomas
A doença pode ser controlada e eventualmente erradicada são calafrios, febre, dor de cabeça e dores musculares gene-
com eliminação dos mosquitos vetores. Uma medida é im- ralizadas. A recuperação costuma ocorrer em poucos dias,
pedir o acesso do mosquito a qualquer tipo de água parada mas pessoas idosas e crianças, bem como as debilitadas por
onde ele possa depositar seus ovos e suas larvas venham a se doenças crônicas, correm o risco de desenvolver pneumonia
desenvolver; devem-se cobrir caixas-d’água e eliminar pneus, viral ou bacteriana, otites, sinusites, entre outras doenças.
vasos e utensílios onde haja risco de acumular água da chuva, Essas complicações, dependendo da gravidade, podem causar
servindo de criadouro aos mosquitos transmissores. até a morte da pessoa. A contaminação dá-se por meio de
gotículas de saliva contendo o vírus, que penetram pelas vias
Febre amarela respiratórias. A droga antiviral amantadina parece reduzir
É causada por Flavivirus (arbovírus), um vírus envelopado significativamente os sintomas se administrada apropria-
com RNA de cadeia simples. O vírus infecta inicialmente cé- damente. A vacinação de idosos tem sido bastante eficiente,
lulas dos linfonodos, espalhando-se em seguida pelo fígado, reduzindo significativamente a taxa de mortes.
baço, rins e coração. No início da infecção os sintomas são
febre, calafrios, dor de cabeça, dor nas costas e, em seguida, Resfriado comum
náusea e vômito. Com a lesão do fígado, pigmentos biliares Cerca de 50% dos resfriados são causados pelo Rhinovirus, um
(bilirrubina) são liberados no sangue e se depositam na vírus não envelopado com RNA de cadeia simples. Entre 15%
pele e nas membranas mucosas, levando a pessoa a ad- e 20% são causados por Coronavirus, um vírus envelopado
quirir uma tonalidade amarelada (icterícia); daí o nome da de RNA com cadeia simples. Os demais casos devem-se a
doença. A febre amarela é uma doença ainda endêmica na vírus diversos. Os vírus infectam células da mucosa nasal,
América Central, nas regiões tropicais da América do Sul e na produzindo sintomas como espirros, aumento de secreção
África. O vírus é transmitido por mosquitos Aedes aegypti das vias respiratórias e congestão nasal. A infecção pode

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Quadro de consulta I • Algumas doenças humanas causadas por vírus

facilmente espalhar-se da garganta para os seios nasais, as Hepatites A e E


vias respiratórias inferiores e os ductos auditivos, causando São causadas pelos vírus Hepatitis A (HAV) e Hepatitis E (HEV),
laringite e otite. Adquire-se o vírus por contato direto com respectivamente, dois vírus não envelopados com RNA de
secreções nasais ou com ambientes contaminados; os vírus cadeia simples. Esses vírus multiplicam-se inicialmente nas
podem resistir durante horas em superfícies como telefones e células do epitélio do intestino e, em seguida, espalham-se
outros utensílios, podendo contaminar as mãos e ser levados pelos rins, baço e fígado, cuja inflamação caracteriza a doen­
até as cavidades nasais. Não há tratamento. Deve-se evitar ça. Os sintomas são, em geral, sub­clínicos, ou seja, passam
contato com pessoas apresentando sintomas da infecção. despercebidos. Nos casos severos ocorrem febre, dor de
cabeça, indisposição e icterícia, devido à ruptura de células
Síndrome respiratória aguda grave ou sars (do inglês,
hepáticas e à liberação de bilirrubina, que se deposita na pele
Severe Acute Respiratory Syndrome) e nas membranas mucosas. As hepatites A e E não causam
É causada por Coronavirus, um vírus envelopado com RNA doença crônica do fígado como as outras hepatites virais (B,
de cadeia simples. A doença foi registrada pela primeira vez C e D). A contaminação dá-se por ingestão de alimentos e
em fevereiro de 2003, na China, infectando de início 300 água contaminados com fezes de portadores do vírus. Não
pessoas, das quais 5 morreram. Os sintomas são febre, tosse há tratamento, mas logo será comercializada uma vacina
seca, dor de cabeça, dispneia (dificuldade em respirar) e, em contra a hepatite A, que confere proteção apenas temporária.
alguns casos, diarreia. Embora relativamente leves na primei- Deve-se evitar o contato com pessoas doentes. Tratamento de
ra semana, os sintomas costumam agravar-se em seguida. água e outras medidas de saneamento básico podem conter
Os primeiros dados indicam que a infecção mata 13,2% dos a disseminação do vírus.
afetados com menos de 60 anos e 43,3% das pessoas com
mais de 60 anos. A origem do vírus parece ter sido a civeta Hepatite B
(Paguma larvata), um mamífero do tamanho aproximado de É causada por Hepadnavirus, um vírus de DNA de cadeia
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um gato, muito apreciado como quitute em certas regiões da dupla, envelopado. O DNA viral não se duplica diretamente;
China. Transmite-se de pessoa para pessoa pelo ar e também em sua replicação, é utilizada a enzima transcriptase reversa,
por objetos contaminados. Pode ser que se transmita também produzindo o DNA dos novos vírus a partir de RNA mensagei-
pela ingestão de alimentos ou água contaminados por fezes ro. Os sinais clínicos da infecção variam muito, mas cerca de
de doentes. Não há tratamento. Deve-se evitar contato com metade dos casos são assintomáticos. Os sintomas, quando
pessoas que apresentem os sintomas da infecção e os locais ocorrem, são: perda de apetite, febre baixa e dores nas juntas;
por elas frequentados. posteriormente, pode ocorrer icterícia. O vírus pode causar
hepatite crônica e câncer de fígado. A transmissão dá-se
V. Doenças virais associadas por transfusão de sangue ou contato com fluidos corporais
ao sistema digestório (saliva, leite e sêmen) contaminados. Não há tratamento,
mas como prevenção pode-se utilizar uma vacina produzida
Caxumba (parotidite epidêmica) por engenharia genética. Dentre as medidas preventivas
destacam-se: o uso de camisinha nas relações se­xuais; o
É causada por Paramyxovirus, um vírus envelopado com não compartilhamento de objetos como lâminas de bar­bear,
RNA de cadeia simples. O vírus infecta, em geral, células das escovas de dente e seringas; a não utilização de agulhas de
glândulas salivares parótidas, provocando inchaço em um ou tatuagem e de equipamentos de piercing não devidamente
em ambos os lados da porção superior do pescoço, acompa- esterilizados; a utilização somente de sangue devidamente
nhado de febre e dor ao engolir. Entre 20% e 30% dos homens testado para transfusões.
infectados após a puberdade apresentam inflamação dos
testículos (orquite) que, em casos raros, provoca esterilidade. Hepatite C
Pode raramente provocar inflamação dos ovários. A transmis- É causada pelo vírus Hepatitis C (HCV), um vírus envelopado
são dá-se por meio de gotículas de saliva contendo os vírus, com RNA de cadeia simples. Os sintomas são leves ou subclí-
que penetram pelas vias respiratórias. Não há tratamento; nicos; 50% dos casos, porém, evoluem para hepatite crônica.
deve-se evitar o contato com pessoas doentes e com objetos A transmissão dá-se por transfusão de sangue contaminado;
utilizados por elas. A imunização é feita por vacina aplicada durante relações sexuais, quando há contato sanguíneo entre
na infância juntamente com as vacinas contra sarampo e os parceiros; de mãe contaminada para o feto por meio de
rubéola na forma da vacina tríplice viral. hemorragias placentárias. Muitos casos crônicos respondem
ao tratamento com interferon alfa, mas são frequentes as
Gastrenterite rotaviral
recaídas.
É causada por Rotavirus, um tipo de vírus não envelopado
que contém 11 moléculas de RNA de dupla cadeia no capsídio. Hepatite D
Capítulo 2 • Vírus e bactérias

Após um período de incubação de dois ou três dias, surgem os É causada pelo vírus da hepatite D, conhecido também como
sintomas: febre baixa, diarreia e vômito, que podem persistir vírus delta (HDV). Esse é um vírus que não consegue produzir
por cinco a oito dias. A infecção pelo rotavírus é a causa mais envoltório proteico e, por isso, está sempre associado ao
comum de diarreia severa em crianças, sendo responsável vírus da hepatite B (HBV), utilizando o capsídio deste para
por cerca de 600 mil mortes por ano, no mundo. Adquire-se sair da célula hospedeira e infectar outras células. Alguns o
a doen­ça pela ingestão de alimentos ou água contaminados consideram um viroide e não um vírus. O HDV já foi detectado
por fezes contendo o vírus. A substituição do leite materno em diversas partes do mundo, sendo endêmico na região da
por mamadeira aumenta o risco de contaminação, princi- Amazônia. A pessoa nunca é infectada apenas pelo HDV,
palmente em populações carentes de saneamento básico. adquirindo esse vírus juntamente com o HBV ou se já estiver
Não há forma de combater a infecção; o único tratamento é contaminada por ele. Os sintomas são os da hepatite B. Não
a reidratação oral dos pacientes e, em casos graves, a reidra- há tratamento e as medidas preventivas são as mesmas que
tação intravenosa. se utilizam para a hepatite B.

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QUADRO DE CONSULTA II Algumas doenças humanas causadas por bactérias

I. Doenças bacterianas associadas à pele Meningite


Os agentes causativos podem ser Neisseria meningitidis,
Acne Hemophilus influenzae ou Streptococcus pneumoniae. As
É provavelmente a doença de pele mais comum, afetando bactérias provocam inflamação das meninges, causando
principalmente adolescentes. Resulta do bloqueio dos ductos febre alta, dores de cabeça intensas, rigidez do pescoço e
secretores das glândulas sebáceas do pelo, com acúmulo de se- vômitos, podendo levar à morte. A contaminação dá-se pelas
creção e formação de um ponto esbranquiçado característico. O vias respiratórias, por inalação de partículas contaminadas
folículo piloso rompe-se e é invadido por Propionibacterium acnes, por saliva ou secreção nasal de portadores da bactéria, que
normalmente presente na pele. Essas bactérias alimentam-se podem não apresentar os sintomas da infecção (portadores
da secreção do folículo e produzem ácidos graxos que induzem assintomáticos). Uma atitude preventiva é evitar aglomera-
a resposta inflamatória, com formação de pústulas que podem ções em ambientes pouco ventilados e contato com pessoas
resultar em cicatrizes. Não é contagiosa; as causas são alterações contaminadas, que devem ficar hospitalizadas em isolamen-
hormonais no organismo e proliferação da bactéria comum to. Utiliza-se também a vacinação. O tratamento é feito com
da pele. Como prevenção deve-se evitar o uso de cosméticos e antibióticos específicos.
manter higiene cuidadosa da face e dos cabelos. O tratamento
Tétano
é feito com a aplicação de antissépticos e o uso de antibióticos
específicos, com orientação de um dermatologista. É causado pelo Clostridium tetani, cujos esporos estão presen-
tes no solo e penetram no corpo através de lesões profundas
Erisipela na pele. As toxinas liberadas pela bactéria atuam sobre os
É causada por Streptococcus pyogenes e ocorre mais fre- nervos motores provocando fortes contrações musculares; se
quentemente em crianças e em idosos. Caracteriza-se pela não for tratada a tempo, ocorre morte por parada respiratória

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presença de manchas avermelhadas na pele, produzidas pelas e cardíaca. Como prevenção, utiliza-se vacinação. Em caso de
toxinas bacterianas. O quadro é geralmente acompanhado de ferimentos sujos e profundos com sinais de contaminação,
febre alta. O modo de contágio ainda não está definido; não aplica-se soro antitetânico. O tratamento consiste em re-
se sabe se a pele é invadida por bactérias vindas diretamente mover o tecido danificado (para evitar a produção de mais
do ambiente ou de algum local contaminado do corpo, via toxina) e administrar antibióticos (pouco eficaz se a toxina
sistema linfático (uma infecção de garganta causada por tiver atingido os nervos).
estreptococo, por exemplo). Como tratamento empregam-se
antibióticos específicos. III. Doenças bacterianas associadas aos
sistemas cardiovascular e linfático
Impetigo
Comum em crianças; nas mais jovens é geralmente causada Brucelose
por Staphylococcus aureus, e nas em idade escolar, por Strep- É causada por bactérias do gênero Brucella, que provocam
tococcus pyogenes. Os sintomas são pústulas isoladas na pele, sintomas variados e, em muitos casos, subclínicos; nos casos
que se rompem e desenvolvem uma “casca”. O contágio dá-se agudos, há febre e calafrios. A bactéria, presente no gado, é
por contato direto com pessoas portadoras; as bactérias pe- transmitida por leite não pasteurizado e pela manipulação
netram por pequenas lesões previamente existentes na pele. da carne de animais contaminados, penetrando no corpo por
Como prevenção deve-se manter a higiene da pele. O trata- lesões na pele ou através das mucosas da boca, da garganta e
mento é feito com antissépticos e antibióticos específicos. do tubo digestório. Como prevenção deve-se evitar o consumo
de carne crua de matadouros clandestinos e leite não pasteuri-
II. Doenças bacterianas associadas zado; o tratamento é feito com antibióticos específicos.
ao sistema nervoso
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

Febre maculosa
Botulismo O agente causativo é Rickettsia rickettsii e os sintomas são fe-
É causado pela ingestão da toxina botulínica produzida por bre alta, dor de cabeça e vômito, além de manchas vermelhas
Clostridium botulinum, presente em alimentos industriali- no corpo devido a hemorragias subcutâneas provocadas pelo
zados mal processados (enlatados, conservas e embutidos ataque das bactérias aos vasos sanguíneos. A taxa de mortali-
como salsicha). O principal sintoma é paralisia muscular, dade é alta quando a infecção não é tratada adequadamente.
pois a toxina bloqueia a transmissão de impulsos nervosos. A bactéria é transmitida pela picada do carrapato-estrela
Pode ser fatal se não for tratada rapidamente, em decorrência (Dermacentor variabilis) contaminado. O carrapato adulto
da paralisia dos músculos responsáveis pela respiração. O ou suas ninfas, conhecidas como micuins, contaminam-se ao
tratamento é feito com soro antitoxina. sugar animais portadores da bactéria, como aves, mamíferos
domésticos e selvagens. Como prevenção devem-se evitar
Lepra ou hanseníase locais infestados pelo carrapato ou proteger-se adequada-
O agente causativo é Mycobacterium leprae, que se aloja em mente contra eles, além de combatê-los. O tratamento é feito
nervos sensitivos próximos à superfície do corpo, levando à com antibióticos específicos.
perda de sensibilidade e, por isso, são frequentes as lesões
na pele e nas extremidades afetadas. O contágio dá-se pelo Febre reumática
contato com secreções contaminadas de pessoas doentes; Desenvolve-se em decorrência de infecções por Streptococcus
as bactérias penetram no corpo através de pequenas lesões pyogenes e outros estreptococos. A ação da bactéria ainda é
na pele e mucosas. O tratamento é feito com antibióticos pouco conhecida, mas o resultado é uma reação de autoi-
específicos e a prevenção (ainda em testes), pela vacinação munidade, desencadeada pela infecção da garganta pelo
de pessoas que tenham contato íntimo com portadores. estreptococo. Afeta geralmente crianças e jovens entre 4 e

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Quadro de consulta II • Algumas doenças humanas causadas por bactérias

18 anos, podendo causar artrite e inflamação do coração, com de mortalidade é alta. A contaminação dá-se pela inalação ou
danos às valvas cardíacas. A contaminação dá-se pelas vias ingestão de grande quantidade de esporos, geralmente presen-
respiratórias, por inalação de partículas contaminadas por tes no solo. Como prevenção deve-se evitar contato com locais
saliva ou secreção nasal de portadores da bactéria. A aplicação contaminados, em geral pastos onde morreram animais com a
de antibióticos em pessoas com infecção de garganta pelo doença. O tratamento é feito com antibióticos específicos.
estreptococo é usada como prevenção.
Coqueluche
Gangrena gasosa Causada por Bordetella pertussis, afeta principalmente
Gangrena é a morte de tecidos pela interrupção do suprimen- crianças. Os primeiros sintomas assemelham-se aos de um
to sanguíneo, causada, por exemplo, por um ferimento. Subs- resfriado. Em seguida sobrevém uma fase de tosse intensa,
tâncias liberadas pelos tecidos mortos servem de alimento decorrente de as secreções bacterianas imobilizarem os cílios
a diversas bactérias, entre elas Clostridium perfringens, que da traqueia, impedindo a eliminação de muco. A tosse é a
produz gás e leva ao inchaço dos tecidos. Toxinas liberadas por tentativa do organismo de eliminar o muco acumulado nas
essa bactéria destroem progressivamente os tecidos e a doen- vias respiratórias. A recuperação é lenta e pode levar meses.
ça espalha-se; quando não tratada, é sempre letal. Adquire- A contaminação dá-se pela inalação de bactérias eliminadas
-se a bactéria por contaminação de ferimentos necrosados durante a tosse de pessoas infectadas. A prevenção é feita
com esporos bacterianos presentes no solo. Previne-se pela pela vacinação, aos dois meses de idade. O tratamento em-
limpeza adequada de ferimentos e tratamento preventivo prega antibióticos específicos.
com antibióticos específicos. Uma vez instalada a bactéria, é
necessária a remoção cirúrgica do tecido necrosado, muitas Difteria (ou crupe)
vezes por amputação do membro afetado. É causada pela bactéria Corynebacterium diphtheriae. Inicial-
mente ocorrem dor de garganta e febre, seguidas de mal-estar
Peste
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e inchaço do pescoço. Forma-se na garganta uma membrana


O agente causativo é Yersinia pestis, uma bactéria que pode cinzenta em resposta à infecção, constituída por fibrina, tecidos
multiplicar-se no interior dos macrófagos, em vez de ser des- mortos e células bacterianas, podendo bloquear totalmente
truída. Os sintomas são inchaço dos linfonodos das virilhas e a passagem de ar para os pulmões. Algumas linhagens da
axilas, acompanhado de febre. Sem tratamento, a morte pode bactéria, portadoras de um fago lisogênico, podem produzir
ocorrer menos de uma semana após os primeiros sintomas. uma toxina potente que ataca o coração e os rins, causando
Adquire-se a bactéria pela picada de pulga-do-rato (Xenop- a morte. A contaminação ocorre pela inalação de bactérias
sylla cheopis) contaminada ou por ferimentos e arranhões eliminadas com as secreções respiratórias de pessoas in-
causados por animais infectados (cães ou gatos). A prevenção fectadas, as quais podem ser assintomáticas. O tratamento
consiste em combater pulgas e ratos e evitar contato com constitui-se na ministração de antibióticos específicos e soro
animais que possam estar contaminados. O tratamento é antitoxina. A prevenção é feita com vacina aplicada normal-
feito com antibióticos específicos. mente nos primeiros meses de vida.
Tifo epidêmico Pneumonia bacteriana
É causado pela bactéria Rickettsia prowazekii, transmitida O agente causativo é a bactéria Streptococcus pneumoniae. Os
por fezes do piolho-do-corpo (Pediculus humanus corporis) sintomas são febre, dificuldade respiratória e dor no peito. Em
contaminado; a bactéria penetra através do ferimento da resposta à infecção, os alvéolos pulmonares ficam tomados
picada quando o local é coçado. Os sintomas são febre alta e por glóbulos vermelhos, leucócitos e fluido dos tecidos. As
persistente por cerca de duas semanas e manchas vermelhas bactérias podem invadir a corrente sanguínea, a cavidade
no corpo devido a hemorragias subcutâneas provocadas pleural e, ocasionalmente, as meninges. Muitas doenças de
pela entrada das bactérias nas células da parede dos vasos pessoas idosas evoluem para pneumonia estreptocócica. O
sanguíneos. A taxa de mortalidade é alta quando a infecção contágio ocorre pela inalação de bactérias eliminadas com as
não é tratada adequadamente. Como prevenção deve-se secreções respiratórias de pessoas infectadas, as quais podem
evitar a presença do piolho mantendo as habitações limpas. ser assintomáticas. O tratamento é feito com antibióticos
O tratamento é feito com certos tipos de antibiótico. específicos; a prevenção, principalmente em idosos, é feita
Tifo endêmico por meio da vacinação.

O agente causativo é a bactéria Rickettsia typhi, transmitida Tuberculose


pela picada da pulga-do-rato (Xenopsylla cheopis) contamina- O agente causativo é Mycobacterium tuberculosis. As bactérias
da. Os sintomas são semelhantes ao do tifo epidêmico, mas primeiramente multiplicam-se no interior de macrófagos
menos severos. A prevenção consiste em combater as pulgas e
Capítulo 2 • Vírus e bactérias

que, ao invés de destruí-las, passam a protegê-las. Quando


os ratos. O tratamento é feito com antibióticos específicos. o número de bactérias torna-se muito grande, elas abando-
nam os macrófagos e espalham-se pelo sistema respiratório
IV. Doenças bacterianas associadas e, eventualmente, por outros sistemas corporais. A pessoa
ao sistema respiratório perde peso e vigor corporal, sendo acometida por crises de
tosse com eliminação de secreção sanguinolenta, decorrente
Antraz da ruptura de vasos sanguíneos pulmonares. Se não for tra-
É causada pelo Bacillus anthracis, que produz infecção purulen- tada adequadamente, causa morte. Pessoas saudáveis são
ta localizada quando penetra por ferimento, havendo perigo geralmente resistentes à infecção pelo bacilo da tuberculose;
de septicemia (infecção generalizada). Situações mais graves se a imunidade diminui, a bactéria instala-se e causa a enfer-
ocorrem pela inalação dos esporos e instalação de pneumo- midade. A queda da imunidade pode ocorrer devido a outras
nia, com febre alta, dificuldade para respirar e dores no peito; enfermidades, má nutrição e estresse. O bacilo é adquirido
nesses casos, na maioria das vezes, ocorre septicemia, e a taxa normalmente por inalação; ao atingir os alvéolos pulmonares,

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Quadro de consulta II • Algumas doenças humanas causadas por bactérias

é fagocitado pelos macrófagos. A prevenção é feita com a Gastrenterite (diarreia do viajante)


vacina BCG; devem-se evitar ambientes com condições de É causada por algumas linhagens patogênicas de Escherichia
higiene ruins e aglomeração de pessoas. A detecção de porta- coli que produzem toxinas responsáveis pelos distúrbios gas-
dores assintomáticos do bacilo da tuberculose pode ser feita trintestinais. Os sintomas são diarreia aquosa, assemelhando-
pelo teste da vacina tuberculina na pele (teste de Mantoux).
-se a uma forma branda de cólera. A contaminação dá-se pela
O tratamento dos portadores é feito com antibióticos espe-
ingestão de água ou de alimentos contaminados com fezes de
cíficos. O aparecimento recente de linhagens resistentes da
portadores. É quase impossível evitar. O tratamento é a reidra-
bactéria da tuberculose tem sido motivo de preocupação dos
tação oral, recomendada para qualquer tipo de diarreia.
órgãos de saúde pública em diversos países.
Salmonelose
V. Doenças bacterianas associadas
É causada por bactérias do gênero Salmonella, que penetram
ao sistema digestório
nas células da parede intestinal, onde se multiplicam, poden-
do, eventualmente, atravessá-la e atingir vasos sanguíneos e
Cárie dentária
linfáticos, espalhando-se pelo corpo. Os sintomas são febre
É causada por Streptococcus mutans, uma bactéria comumente moderada, dores abdominais, cólicas e diarreia, dependendo
presente na cavidade bucal. Resulta da deterioração dos tecidos da quantidade de bactérias ingeridas. Adquire-se a bactéria
do dente pelas secreções produzidas por bactérias que formam pela ingestão de produtos de origem animal contaminados,
as placas dentárias. A degradação do esmalte abre caminho para principalmente ovos e carne de galináceos. A prevenção con-
a invasão dos tecidos internos do dente (dentina) pelas bactérias. siste na higiene adequada dos criadouros de animais, para
A prevenção da cárie consiste em diminuir a ingestão de açú-
evitar sua contaminação, na refrigeração adequada da carne,
cares e manter a higiene cuidadosa dos dentes, escovando-os
para evitar a proliferação das bactérias contaminantes, e no
depois de cada refeição. A aplicação de flúor fortalece o esmalte
cozimento adequado de carne e ovos. O tratamento é a reidra-

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


dentário. Deve-se consultar regularmente o dentista.
tação oral, recomendada para qualquer tipo de diarreia.
Cólera
Doença péptica
É causada por Vibrio cholerae. A bactéria multiplica-se no
O agente causativo é Helicobacter pylori, uma bactéria que se
intestino delgado e produz uma toxina que induz as células
instala na parede do estômago, causando ruptura da camada
intestinais a liberar água e sais. A perda de líquido, na forma
de vômito e, principalmente, de diarreia, pode chegar de 12 a protetora de muco e contribuindo para agravar uma gastrite,
20 litros em um só dia, levando ao colapso dos órgãos e, com levando-a a evoluir para úlcera péptica. A maioria das pes-
frequência, à morte. Adquire-se a bactéria pela ingestão de soas possui a bactéria no estômago e o desenvolvimento da
água ou de alimentos contaminados com fezes de portadores. doença depende de sua associação a outros fatores (estresse,
Como prevenção devem-se evitar alimentos preparados sem condições alimentares etc.). O tratamento consiste na elimi-
condições higiênicas adequadas e a ingestão de água não nação da bactéria por meio de antibióticos específicos, o que
potável. O tratamento é feito com antibióticos específicos e leva, em geral, ao desaparecimento das úlceras pépticas.
reposição de líquidos e sais minerais.
VI. Doenças bacterianas associadas
Disenteria bacilar (ou shigelose) ao sistema urinário
É causada por bactérias do gênero Shigella. As bactérias
multiplicam-se nas células do intestino delgado, liberando Cistite
uma toxina muito ativa que destrói a mucosa do intestino Os agentes causativos são Escherichia coli ou Staphylococcus
grosso, causando diarreia severa e, em alguns casos, febre. saprophyticus. A bactéria causa inflamação da bexiga urinária,
As formas mais agudas da doença podem levar à morte.
o que provoca dificuldade em urinar e a presença de leucócitos
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

Alguns casos da chamada “diarreia do viajante” são uma


na urina. Afeta mais comumente as mulheres. Desenvolve-se
forma branda de disenteria bacilar. Adquire-se a bactéria
em decorrência da contaminação da uretra com bactérias
pela ingestão de água ou de alimentos contaminados com
presentes nas aberturas do sistema urogenital. A infecção
fezes de portadores. Como prevenção, devem-se evitar ingerir
é facilitada pelas relações sexuais e pelo descuido com a
alimentos preparados sem condições higiênicas adequadas
higiene pessoal. A prevenção é feita por meio de cuidados
e água não potável. O tratamento é feito com antibióticos
específicos e reposição de líquidos e sais minerais. com a higiene pessoal e o tratamento, pelo uso de substân-
cias bactericidas.
Febre tifoide
Leptospirose
O agente causativo é a bactéria Salmonella typhi. Cerca de
duas semanas após a infecção (período de incubação), ocorrem É uma doença típica de animais domésticos e selvagens
febre e forte dor de cabeça; a diarreia tem início apenas após causada por Leptospira interrogans. Os animais portadores
três semanas, quando a febre declina. Durante esse período, eliminam a bactéria na urina e as pessoas infectam-se pelo
a bactéria dissemina-se por todo o organismo e pode ser iso- contato com água e solo contaminados. Após um período de
lada do sangue, da urina e das fezes. Em casos graves podem incubação de uma a duas semanas, aparecem os sintomas:
ocorrer perfuração do intestino e morte. Adquire-se a bactéria dor de cabeça, dor muscular, calafrios e febre. Pode afetar o
pela ingestão de água ou de alimentos contaminados com fígado e os rins. Comprometimentos renais são as principais
fezes de portadores. Como prevenção deve-se evitar ingerir causas de morte pela doença. A prevenção consiste em com-
alimentos preparados sem condições higiênicas adequadas bater os ratos, um dos principais portadores, e evitar contato
e água não potável. O tratamento é feito com antibióticos com animais que possam estar contaminados. O tratamento
específicos e reposição de líquidos e sais minerais. é feito com antibióticos específicos.

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Atividades Escreva as respostas no caderno

11. Cápsula bacteriana é


QUESTÕES PARA PENSAR E DISCUTIR a) a membrana plasmática das bactérias.
b) um revestimento mucoso externo à parede
Questões objetivas celular.
c) sinônimo de parede celular.
Considere as alternativas a seguir para responder
às questões de 1 a 6. d) uma forma de resistência.
a) Bacteriófago.
12. Uma justificativa para agrupar bactérias e arqueas
b) Capsídio.
no mesmo reino é que ambas
c) Envelope viral. a) são unicelulares.
d) Infecção viral. b) têm célula procariótica.
e) Nucleocapsídio. c) têm DNA.
f ) Parasita intracelular. d) têm parede com peptidioglicano.

1. Qual dos termos é utilizado para indicar que um vírus 13. Observe o diagrama a seguir, que representa um
só se multiplica no interior de uma célula viva? cladograma dos grandes grupos de seres vivos.
2. Como se denomina a porção de membrana plas-
BACTERIA ARCHAEA EUKARYA
mática que envolve certos tipos de vírus?
(Eubactérias) (Arqueobactérias) (Eucariotos)
3. Qual é a denominação do conjunto formado pelo

adilson secco
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ácido nucleico viral e pelas proteínas que o en-


volvem?
2
4. Que termo é utilizado para designar o processo
de penetração e multiplicação do vírus na célula
hospedeira? 1

5. Como se denomina um vírus cujo hospedeiro é


uma bactéria? Com base no diagrama pode-se concluir que
a) o organismo 2 é o ancestral de todas as bactérias
6. Qual é a denominação do conjunto de proteínas atuais.
que envolve o ácido nucleico viral? b) as arqueas são mais aparentadas com as bacté-
rias.
7. Os vírus se distinguem dos demais seres vivos
c) os seres eucarióticos são mais aparentados com
porque as arqueas.
a) são parasitas intracelulares.
d) o organismo 2 é mais antigo que o organismo 1.
b) têm células procarióticas.
c) não têm estrutura celular.
d) não têm proteínas em sua constituição. Questão discursiva
8. O material genético dos vírus é 14. Recentemente foi descoberto que um dos princi-
a) sempre DNA. c) sempre DNA e RNA. pais agentes causadores de úlceras estomacais e
b) sempre RNA. d) DNA ou RNA. duodenais é uma bactéria, Helicobacter pylori. Leia,
a seguir, as conclusões de uma clínica de gastren-
9. A vacinação contra um vírus consiste em terologia, publicadas na internet. Reproduzimos
a) impedir que vírus infectantes penetrem no essas conclusões da maneira exata como estavam
corpo. escritas:
b) injetar na pessoa agentes infecciosos atenuados, A infecção pelo Helicobacter Pylori é o processo
que ativam as defesas corporais. Crônico mais difundido do Universo. Existem
c) injetar na pessoa drogas quimioterápicas que 3 tipos de Helicobacter Pylori: Bom, Médio e Mau.
destroem os vírus. Bactéria boa é bactéria morta.
Capítulo 2 • Vírus e bactérias

d) injetar na pessoa antibióticos específicos contra a) O nome científico da bactéria está escrito
doenças virais. de acordo com as normas da nomenclatura
científica?
10. Moléculas de DNA circulares que podem ou não es- b) Levando em conta o que foi apresentado no
tar presentes em células procarióticas e geralmente capítulo, você concorda com a afirmação “Bac-
contêm genes para resistência a antibióticos são téria boa é bactéria morta”? Suponha que você
denominadas desejasse enviar suas críticas e sugestões aos
a) clamídias. responsáveis pelo texto da clínica, a fim de
b) cromossomos. contribuir para melhorar a qualidade de seus
serviços. Escreva uma carta objetiva aos edi-
c) nucleoides. tores da página da clínica de gastrenterologia,
d) plasmídios. justificando suas sugestões.

71

043_074_CAP02_BIO2_PNLEM-2.indd 71 4/14/10 8:47:58 AM


Atividades
6. (UFSCar-SP) Determinado medicamento tem o
VESTIBULARES PELO BRASIL seguinte modo de ação: suas moléculas interagem
com uma determinada proteína desestabilizando-a
Questões objetivas e impedindo-a de exercer sua função como media-
dora da síntese de uma molécula de DNA, a partir
de um molde de RNA. Este medicamento
1. (UEMS) Sobre os vírus é correta a afirmação: a) é um fungicida.
a) Todos os vírus têm DNA na sua constituição. b) é um antibiótico com ação sobre alguns tipos
b) Os vírus diferem dos seres vivos por serem de bactérias.
acelulares. c) impede a reprodução de alguns tipos de vírus.
c) Não necessitam de outros organismos para sua d) impede a reprodução de alguns tipos de proto-
reprodução. zoários.
e) inviabiliza a mitose.
d) Não infectam células bacterianas.
e) É considerado um ser unicelular.
7. (UFRGS-RS) Em 2006, chegaram ao Brasil dois tipos
de vacinas para prevenir a infecção por HPV, que
2. (UEMS) Componente que faz parte da estrutura é a doença viral sexualmente transmissível mais
dos vírus, formado por proteínas que, além de comum. O HPV é causador
proteger o ácido nucleico viral, têm a capacidade a) da sífilis. d) do câncer de útero.
de se combinar quimicamente com substâncias
b) da gonorreia. e) do cancro mole.
presentes na superfície das células hospedeiras,
c) da aids.
permitindo ao vírus reconhecer e atacar o tipo de
célula adequado a hospedá-lo:
8. (Enem) O Aedes aegypti é vetor transmissor da dengue.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


a) Núcleo viral. Uma pesquisa feita em São Luís – MA, de 2000 a 2002,
b) Envoltório lipídico. mapeou os tipos de reservatório onde esse mosquito
c) Capsídio. era encontrado. A tabela abaixo mostra parte dos
dados coletados nessa pesquisa.
d) DNA.
e) RNA. População de A. aegypti
Tipos de
reservatórios 2000 2001 2002
3. (UEMS) O Ministério da Saúde promove, regular-
mente, campanhas de vacinação contra o sarampo pneu 895 1.658 974
e a paralisia infantil. Essas doenças são causadas
tambor/tanque/
por 6.855 46.444 32.787
depósito de barro
a) uma bactéria. vaso de planta 456 3.191 1.399
b) um protista.
material de
271 436 276
c) um fungo. construção/peça de carro
d) um bacteriófago. garrafa/lata/plástico 675 2.100 1.059
e) um vírus.
poço/cisterna 44 428 275

4. (Uerj) A alternativa que apresenta uma propriedade caixa-d’água 248 1.689 1.014
comum a todos os vírus é recipiente natural,
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

a) replicam-se independentemente. 615 2.658 1.178


armadilha, piscina e outros
b) possuem ácido nucleico e proteínas. total 10.059 58.604 38.962
c) são formados por DNA e carboidratos.
Caderno Saúde Pública, vol. 20, no 5,
d) reproduzem-se de forma similar às bactérias. Rio de Janeiro, out./2004 (com adaptações).

5. (Fuvest-SP) Os bacteriófagos são constituídos por De acordo com essa pesquisa, o alvo inicial para a
uma molécula de DNA envolta em uma cápsula de redução mais rápida dos focos do mosquito vetor da
proteína. Existem diversas espécies, que diferem dengue nesse município deveria ser constituído por
entre si quanto ao DNA e às proteínas constituin- a) pneus e caixas-d’água.
tes da cápsula. Os cientistas conseguem construir b) tambores, tanques e depósitos de barro.
partículas virais ativas com DNA de uma espécie
c) vasos de plantas, poços e cisternas.
e cápsula de outra. Em um experimento, foi pro-
duzido um vírus contendo DNA do bacteriófago T2 d) materiais de construção e peças de carro.
e cápsula do bacteriófago T4. Pode-se prever que a e) garrafas, latas e plásticos.
descendência desse vírus terá
a) cápsula de T4 e DNA de T2. 9. (FUA-AM) Além do cromossomo, algumas bactérias
contêm um pequeno DNA circular extracromossô-
b) cápsula de T2 e DNA de T4.
mico denominado
c) cápsula e DNA, ambos de T2. a) Z DNA. d) DNA linear.
d) cápsula e DNA, ambos de T4. b) Plasmídio. e) P DNA.
e) mistura de cápsulas e DNA de T2 e de T4. c) B DNA.

72

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10. (UFMS) 45,6%
“O Ministério da Saúde estuda incluir quatro novas
vacinas no calendário oficial do país já a partir Infecto-parasitárias
de 2005. As vacinas contra o rotavírus, varicela, 4,6%
pneumococo e meningococo poderão ser gratuitas 27,8%
e fazer parte do Plano Nacional de Imunização. 21,3%
Outras causas

adilson secco
Atualmente, fazem parte do calendário oficial: BCG
(tuberculose), hepatite B, poliomielite, Hib (menin- 27,2%
11,8%
gite), febre amarela (áreas endêmicas), tríplice viral Circulatórias
e tríplice bacteriana.” 11,5% 9,6%
Respiratórias
Folha de S.Paulo, p. C4, 27 ago. 2004. 4,5% Digestivas 4,7%
13,2%
2,7% Câncer
As vacinas tríplice viral e tríplice bacteriana são Causas externas 12,9%
2,6%
administradas para evitar, respectivamente, as
1930 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000 2002
seguintes doenças:
(MS/SVS/DASIS/CGIAE/Sistema de informação sobre a Mortalidade – ENSP/Fiocruz)
a) rubéola, leptospirose e sífilis / gonorreia, saram-
po e tétano. No período considerado no diagrama, deixaram de ser
b) gripe, sarampo e coqueluche / botulismo, sífilis predominantes, como causas de morte, as doenças
e rubéola. a) infecto-parasitárias, eliminadas pelo êxodo
rural que ocorreu entre 1930 e 1940.
c) sarampo, difteria e cólera / tétano, rubéola e
coqueluche. b) infecto-parasitárias, reduzidas por maior
sanea­mento básico, vacinas e antibióticos.
d) gripe, herpes e coqueluche / cólera, botulismo e
sífilis. c) digestivas, combatidas pelas vacinas, vermífu-
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

gos, novos tratamentos e cirurgias.


e) sarampo, caxumba e rubéola / difteria, coque-
luche e tétano. d) digestivas, evitadas graças à melhoria do pa-
drão alimentar do brasileiro.
11. (Unigranrio-RJ) Doença causada pelo Treponema e) respiratórias, contidas pelo melhor controle da
pallidum, transmitido por contato sexual ou da mãe qualidade do ar nas grandes cidades.
para o feto pela placenta:
a) Sífilis. 14. (Enem) A duração do efeito de alguns fármacos está
relacionada à sua meia-vida, tempo necessário para
b) Gonorreia.
que a quantidade original do fármaco no organismo
c) Tracoma. se reduza à metade. A cada intervalo de tempo corres-
d) Condiloma. pondente a uma meia-vida, a quantidade de fármaco
existente no organismo no final do intervalo é igual
e) Herpes genital.
a 50% da quantidade no início desse intervalo.

12. (Enem) Na embalagem de um antibiótico, encontra- 100


-se uma bula que, entre outras informações, explica 90
a ação do remédio do seguinte modo:
% de fármaco no organismo

80
O medicamento atua por inibição da síntese
proteica bacteriana. 70
Essa afirmação permite concluir que o antibiótico 60
adilson secco

a) impede a fotossíntese realizada pelas bactérias 50


causadoras da doença e, assim, elas não se
40
alimentam e morrem.
b) altera as informações genéticas das bactérias 30
causadoras da doença, o que impede manuten- 20
ção e reprodução desses organismos.
10
c) dissolve as membranas das bactérias respon-
0
sáveis pela doença, o que dificulta o transporte 0 1 2 3 4 5 6 7
de nutrientes e provoca a morte delas.
número de meias-vidas
d) elimina os vírus causadores da doença, pois
Capítulo 2 • Vírus e bactérias

não conseguem obter as proteínas que seriam O gráfico acima representa, de forma genérica, o que
produzidas pelas bactérias que parasitam. acontece com a quantidade de fármaco no organismo
humano ao longo do tempo.
e) interrompe a produção de proteína das bacté-
rias causadoras da doença, o que impede sua F. D. Fuchs e Cher I. Wannma. Farmacologia Clínica.
multiplicação pelo bloqueio de funções vitais. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1992. p. 40.
A meia-vida do antibiótico amoxicilina é de 1 hora.
13. (Enem) Algumas doenças que, durante várias Assim, se uma dose desse antibiótico for injetada às
12 h em um paciente, o percentual dessa dose que
décadas do século XX, foram responsáveis pelas
restará em seu organismo às 13 h 30 min será apro-
maiores percentagens das mortes no Brasil não
ximadamente de
são mais significativas neste início do século XXI.
a) 10%. d) 35%.
No entanto, aumentou o percentual de mortali-
dade devida a outras doenças, conforme se pode b) 15%. e) 50%.
observar no diagrama: c) 25%.

73

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Atividades

15. (Cesumar-PR) Doenças como a tuberculose, a aids Um resultado positivo no teste permite tratamen-
e a dengue têm sido motivo de preocupação para to precoce e é importante para que as mulheres
a população de modo geral. possam evitar a transmissão posterior do HPV. O
A tuberculose causou a morte de milhares de pes- gráfico a seguir mostra a incidência de três tipos
soas entre 1890 e 1930 e ainda continua contami- de câncer em mulheres de países ricos e pobres.
nando a população e preocupando as autoridades
médicas. Outro fato preocupante é que o microrga- 450

adilson secco
nismo causador da tuberculose já apresenta varie- Países ricos

Nº- de casos por 100.000 pessoas


400
dades resistentes aos medicamentos habituais. Países pobres
350
Com relação à aids, já se passaram décadas desde
a sua descoberta e, por enquanto, não se conhece 300
a cura para a doença.
250
“A dengue é um dos principais problemas de saú-
de pública no mundo. A Organização Mundial da 200
Saúde (OMS) estima que entre 50 a 100 milhões 150
de pessoas se infectem anualmente, em mais de
100 países...” 100
(Acesso: www.portal.saude.gov.br.) 50
Com relação ao texto acima e seus conhecimentos 0
sobre o assunto, determine a alternativa correta. Colo de útero Pulmão Endométrio
a) A aids e a dengue são doenças causadas por Tipo de câncer
vírus, enquanto que a tuberculose é causada
por bactéria. a) Identifique o tipo de câncer causado por infec-

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


b) A dengue é transmitida por meio da picada do ção pelo HPV. Justifique sua resposta.
mosquito Aedes aegypti contaminado. Esse mos- b) Indique um método eficaz para evitar a trans-
quito pertence à classe dos insetos e também missão do HPV por indivíduos sexualmente
pode transmitir a tuberculose. ativos. Justifique sua resposta.
c) O HIV, agente causador da aids, é um vírus que
se multiplica principalmente no interior das he- 19. (Fuvest-SP) Um estudante escreveu o seguinte em
mácias humanas. Estas células são responsáveis uma prova: “as bactérias não têm núcleo nem DNA”.
pela produção de anticorpos, que aumentam Você concorda com o estudante? Justifique.
nossas defesas corporais. 20. (UFRJ) Desde a Antiguidade, o salgamento foi usado
d) A tuberculose é causada por um vírus transmi- como recurso para evitar a putrefação dos alimen-
tido principalmente por meio do contato direto tos. Em algumas regiões tal prática ainda é usada
com uma pessoa doente. para a preservação da carne de boi, de porco ou de
peixe. Explique o mecanismo por meio do qual o
Questões discursivas salgamento preserva os alimentos.
21. (UFRRJ)
16. (UFG-GO) A maioria dos pesquisadores da área bio- Surto de cólera atinge centenas de pessoas na
lógica considera complexa a tarefa de definir se os cidade paranaense de Paranaguá
vírus são seres vivos ou seres não vivos. Apresente “Num período de apenas 12 dias, entre 26 de março
dois argumentos a favor e dois contra a inclusão e 7 de abril, mais de 290 habitantes da cidade de
dos vírus na categoria dos seres vivos. Paranaguá, no estado do Paraná, foram parar em
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

hospitais com forte diarreia e uma perigosa desi-


dratação. O cólera voltou a atacar — e com força.”
17. (Unesp) O vírus responsável pela síndrome da
imunodeficiência adquirida (aids) é um retroví- Adaptado de: Revista Época, 12 abr. 1999, p. 68.
rus. Qual o tipo de ácido nucleico que constitui a) Identifique o reino a que pertence o agente
o material genético dos retrovírus? A denomi- etiológico do cólera.
nação “retrovírus” refere-se a que característica b) Cite duas formas de proteção contra essa doença.
desse vírus?
22. (Unesp) Os antibióticos e as vacinas fazem parte do
18. (UFRJ) O HPV (papiloma vírus humano) é um vírus arsenal da medicina, auxiliando-nos no combate
sexualmente transmitido, causador do apareci- às doenças provocadas por agentes infecciosos.
mento de verrugas genitais em homens e mulheres. Dentre essas doenças, podemos citar: tuberculose,
A infecção pelo HPV em mulheres está diretamente gripe, hepatite, febre amarela, gonorreia.
relacionada à incidência de um tipo de câncer que a) Das doenças citadas, para quais delas se pres-
pode ser diagnosticado precocemente por meio de creve tratamento com antibiótico?
um teste histológico simples e barato, o teste de b) Por que os antibióticos são indicados para os
Papanicolau. Após a puberdade, esse teste é reali- casos de infecções cujos agentes são bactérias,
zado regularmente pela maioria das mulheres em enquanto as vacinas são indicadas para a pre-
países ricos, o que não ocorre nos países pobres. venção de infecções virais?

74

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UNIDADE B

Capítulo
Algas, protozoários

3 e fungos
Micrografia do protozoário ciliado parasita Trichodina
sp., ao microscópio eletrônico de varredura. Esse
organismo vive na pele, nas brânquias e em membranas
mucosas de peixes. Note sua forma discoide com
inúmeros cílios em uma das faces. (colorizada
artificialmente; aumento q 3.0003).

Eye of Science/Science
Photo Library/Latinstock
As primeiras classificações
dividiam o mundo vivo em animais
e vegetais, mas logo se descobriu
que muitos organismos não se
enquadravam nessas categorias.
Desde então, os cientistas
discutem a criação de novos
reinos para classificar mais
adequadamente os seres vivos.
Neste capítulo estudaremos
as principais características
de algas e protozoários
(reino Protoctista), e dos
fungos (reino Fungi).

3.1 Algas
O grupo das algas reúne seres
fotossintetizantes que vão desde
formas microscópicas até organismos
de grande porte, que lembram plantas.

3.2 Protozoários
Protozoários são seres unicelulares
heterotróficos de tamanho
microscópico. A maioria das
espécies é de vida livre; algumas
espécies habitam o interior do
corpo de animais, em muitos casos
provocando doenças.

3.3 Fungos
Fungos são seres heterotróficos,
unicelulares ou pluricelulares, que
vivem da decomposição de matéria
orgânica; juntamente com as
bactérias, são os maiores recicladores
da natureza. Algumas espécies
são parasitas e causam doenças
em plantas e animais.

75

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Seção 3.1
Algas

❱❱  Habilidades 1 Características gerais das algas


sugeridas
No sistema de classificação que adotamos, as algas são incluídas no reino
CC     Valorizar o estudo
sistematizado das algas, Protoctista. As algas caracterizam-se por serem organismos eucarióticos, fo-
de modo a reconhecer tossintetizantes, uni ou multicelulares, diferindo das plantas por não apresenta-
padrões de semelhança rem embriões dependentes do organismo materno para sua nutrição. As algas
e de diferença entre vivem no mar, em água doce e em terra firme, sobre superfícies úmidas.
os seres com os quais As algas microscópicas são abundantes nas camadas mais superficiais
convivemos. Reconhecer dos mares e de grandes lagos onde, juntamente com bactérias, protozoários,
que o estudo de larvas de diversos animais, microcrustáceos etc., constituem o plâncton
certos grupos de algas (do grego plankton, errante). As espécies de algas multicelulares formam fi-
possibilita aproveitar lamentos, lâminas ou estruturas compactas, chamadas de talo, que podem
seus benefícios para a lembrar caules e folhas de plantas terrestres. Os talos de certas espécies
espécie humana. de algas encontradas no Oceano Pacífico chegam a atingir até 60 metros
CC     Explicar as principais de comprimento. (Fig. 3.1)

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


características
As células das algas são dotadas de cloroplastos de forma e tamanho
das algas quanto à
variáveis, dependendo da espécie. Cada célula pode apresentar desde
estrutura, à nutrição,
um único cloroplasto grande até dezenas de cloroplastos pequenos.
à reprodução e
Os cloroplastos contêm pigmentos (clorofilas, xantofilas, carotenos etc.)
aos ambientes
em que vivem. que atuam na fotossíntese. Um dos critérios importantes para classificar
as algas refere-se aos tipos desses pigmentos.
CC     Compreender, em linhas
gerais, a alternância de Todo cloroplasto apresenta clorofila a, essencial ao processo de fotossínte-
gerações, fenômeno se, e um ou mais tipos de clorofila acessória, dependendo do grupo. As clorofilas
que ocorre em muitos designadas pelas letras b, c e d possuem estrutura molecular ligeiramente
grupos de algas. diferente da clorofila a. Os cloroplastos podem conter também outros tipos
de pigmento, entre eles carotenos e xantofilas, cuja cor chega a “mascarar” o
❱❱  Conceitos principais verde da clorofila, tornando as algas marrons, amareladas ou avermelhadas.
• alga A maioria das algas possui células dotadas de parede celular. Em quase
• clorofícea todas, a parede celular é composta de celulose, em geral combinada a
• feofícea outras substâncias, como ágar, carragenina, carbonato de cálcio (CaCO3),
• rodofícea entre outras. Como veremos adiante, algumas dessas substâncias têm
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

• diatomácea importância econômica.


• crisofícea
• euglenoide
Fabio Colombini

• dinoflagelado
• maré vermelha
• carofícea
• zoosporia
• alternância de
gerações
• fitoplâncton

Figura 3.1 Variedade de algas


macroscópicas comuns no
litoral brasileiro (Cumuruxatiba,
BA). A alga de coloração verde,
na região central da foto, é uma
clorofícea do gênero Ulva
1
( do tamanho natural).
3
76

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Neste capítulo, consideramos oito filos de algas, cujas principais características são apre-
sentadas na tabela abaixo (Tab. 3.1)

  Tabela 3.1    Classificação das algas adotada neste livro


ALGAS (protoctistas autotróficos)
Componentes
Tipo de Pigmentos Substâncias
Filo Organização da parede
clorofila acessórios de reserva
celular
Chlorophyta Unicelular Carotenos e
a, b Amido Celulose
(algas verdes) ou multicelular diversas xantofilas
Phaeophyta
Carotenos, fucoxanti- Óleos
(algas pardas Multicelular a, c Celulose e algina
na e outras xantofilas e laminarina
ou marrons)
Carotenos, diversas
Rhodophyta Multicelular Amido das Celulose, ágar
a, d xantofilas, ficoeritrina
(algas vermelhas) (a maioria) florídeas e carragenina
e ficocianina
Bacillariophyta Carotenos, fucoxantina
Unicelular a, c Óleos Dióxido de silício
(diatomáceas) e outras xantofilas
Celulose (em
Óleos
Chrysophyta Unicelular Carotenos, fucoxantina alguns casos
a, c e crisolaminarina,
(algas douradas) (a maioria) e outras xantofilas com dióxido
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

um polissacarídio
de silício)
Euglenophyta Carotenos Sem parede
Unicelular a, b Paramilo
(euglenoides) e xantofilas celular
Dinophyta Carotenos, peridina
Unicelular a, c Amido e óleos Celulose
(dinoflagelados) e diversas xantofilas
Celulose e
Charophyta Carotenos
Multicelular a, b Amido carbonato de
(carofíceas) e xantofilas
cálcio

2 Principais grupos de algas


Filo Chlorophyta (clorofíceas ou algas verdes)
As clorofíceas (do grego khloros, verde, e phykos, alga) constituem um dos filos mais diver-
sificados, com cerca de 8 mil espécies descritas, que podem ser unicelulares ou multicelulares.
A cor dessas algas varia de verde intenso até tons de verde acastanhado ou acinzentado, em
virtude da presença de outros pigmentos associados à clorofila. Uma espécie multicelular comum
no litoral brasileiro é a Ulva lactuca, popularmente conhecida como alface-do-mar. (Fig. 3.2)
Poelzere Wolfgang/Alamy/Other Images

Capítulo 3 • Algas, protozoários e fungos


M. I. Walker/Photoresearchers/Latinstock

Figura 3.2 Representantes de algas verdes (clorofíceas). A. Rocha submersa recoberta por Ulva
lactuca, alga verde multicelular macroscópica, comum no litoral do Brasil. B. Micrografia de alga
verde unicelular de água doce Micrasterias sp. ao microscópio óptico; cada organismo unicelular
é formado por duas semicélulas, unidas pela região central (aumento . 3003).

77

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A maioria das clorofíceas é aquática, com espécies marinhas e de água doce. Há também
espécies que vivem em ambientes úmidos, como barrancos, troncos de árvores nas florestas,
ou até mesmo na superfície da neve.
Algumas espécies de clorofícea vivem em associação com fungos, constituindo liquens. Outras
vivem no interior de células de animais, principalmente cnidários de água doce como a Hydra. Essas
algas, conhecidas como zooclorelas, fazem fotossíntese e fornecem substâncias orgânicas nutriti-
vas ao cnidário; este, por sua vez, lhes garante abrigo, além de nutrientes inorgânicos e substâncias
orgânicas que elas não conseguem produzir. Esse tipo de associação, chamada de endossimbiose, é
comum entre os protoctistas; uma das dificuldades da classificação do grupo decorre do fato de muitos
protoctistas atuais serem resultantes de várias endossimbioses ocorridas no passado. (Fig. 3.3)
Fabio Colombini

Grant Heilman/Alamy/Other Images


A B

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


1
Figura 3.3 A. Alguns liquens, como o da foto ( do tamanho natural), resultam da associação entre fungos e algas verdes.
2
B. A cor verde do cnidário de água doce Chlorohydra viridis (aumento . 503) deve-se à associação com algas verdes microscópicas.

Filo Phaeophyta (feofíceas ou algas pardas)


Todas as espécies de feofíceas (do grego phaios, marrom, escuro) são multicelulares e vivem
no mar. Seu tamanho varia de poucos centímetros a mais de 60 metros de comprimento. Algu-
mas feofíceas têm partes relativamente diferenciadas, que lembram caules e folhas de plantas.
Na costa oeste da América do Norte, por exemplo, vivem algas pardas gigantes (kelps) ancora-
das no fundo marinho e formando extensas “florestas” submersas, que servem de hábitat para
diversas espécies de animais.
Nos mares tropicais há poucas espécies de feofíceas, entre as quais se destacam as do
gênero Sargassum, fáceis de encontrar na costa brasileira. Essas algas, dotadas de estruturas
cheias de gás que permitem a flutuação, são muito abundantes nas águas do Oceano Atlântico,
próximas às Ilhas Açores, local que os antigos navegadores portugueses batizaram de Mar dos
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

Sargaços. (Fig. 3.4)


David Chapman/Alamy/Other Images

Norbert Wu/Minden/Latinstock

A B

Figura 3.4 Representantes de algas pardas


(feofíceas). A. Alga parda marinha da espécie
Fucus serratus, que atinge cerca de 1 metro de
comprimento. B. Sargassum sp., gênero de alga
parda marinha. Note as estruturas esféricas,
que ajudam a flutuação. Elas podem atingir
cerca de 30 centímetros de comprimento.

78

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A cor das feofíceas vai do bege-claro ao marrom-amarelado. Algumas espécies acumulam car-
bonato de cálcio na parede celular, o que lhes confere um aspecto petrificado rígido. Certas subs-
tâncias produzidas pelas feofíceas têm importância econômica, como veremos mais adiante.

Filo Rhodophyta (rodofíceas ou algas vermelhas)


As rodofíceas (do grego rhodos, vermelho) compõem um grupo bastante diversificado, com cerca
de 6 mil espécies descritas, a maioria multicelular. Elas são abundantes nos mares tropicais, mas
também ocorrem em água doce e em superfícies úmidas, como troncos de árvores de florestas.
A cor das algas vermelhas, decorrente da presença dos pigmentos ficoeritrina e ficocianina,
pode variar desde o vermelho até o roxo-escuro, quase preto. O talo dessas algas é geralmente
ramificado, tendo na base uma estrutura especializada na fixação ao substrato. Certas espécies
de rodofícea, denominadas “coralíneas”, acumulam carbonato de cálcio nas paredes celulares,
o que torna seu talo rígido e de aspecto petrificado. Muitas vivem em recifes de coral nos quais
desempenham papel importante: sua estrutura rígida absorve parte da energia das ondas, aju-
dando a criar um ambiente tranquilo, onde os organismos formadores do coral podem crescer e
construir os recifes que servem de moradia a diversas formas de vida. (Fig. 3.5)
Photoresearchers emaphotos/Alamy/Other Images

John Clegg/Science Photo


Library/Latinstock
A B
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Figura 3.5 A. Representante de rodofícea macroscópica


(Callophylis laciniata). Esta espécie atinge cerca de
15 cm de comprimento. B. Micrografia ao microscópio
óptico de Batrachospermum sp., rodofícea microscópica
filamentosa (aumento desconhecido).

Filo Bacillariophyta (diatomáceas)


Diatomáceas são organismos unicelulares que medem entre 20 mm e 200 mm, embora al-
gumas espécies cheguem a atingir até 2 milímetros. A maioria das diatomáceas vive em mares
de águas frias, mas há espécies de água doce. As células das diatomáceas são recobertas por
uma carapaça, a frústula, constituída por dióxido de silício (SiO2), ou sílica, o mesmo material
empregado na produção de vidro.
Em muitas espécies, a frústula é formada por duas partes encaixadas como uma caixa redonda
com tampa e dotadas de saliências, depressões e poros que permitem contato da membrana
Capítulo 3 • Algas, protozoários e fungos

plasmática com o meio. Isso confere a muitas espécies de diatomáceas um aspecto iridescente
e brilhante. A iridescência das carapaças silicosas, associada aos pigmentos presentes, dá a
essas algas diferentes colorações, que vão do dourado ao marrom-esverdeado.
As principais substâncias de reserva das diatomáceas são óleos, que em certas espécies con-
tribuem para facilitar a flutuação. Muitas diatomáceas flutuam nos mares e lagos, representando
parcela importante do fitoplâncton. Outras produzem um muco aderente e vivem presas à superfície
de organismos marinhos, como outras algas, moluscos, crustáceos, tartarugas, baleias etc.
Em certas regiões do fundo marinho as carapaças de diatomáceas acumularam-se ao longo
de milhares de anos, formando camadas rochosas compactas conhecidas como terras de dia-
tomáceas (ou diatomito). As terras de diatomáceas são utilizadas desde a Antiguidade como
material de construção, geralmente misturadas à cal. Alguns exemplos de obras construídas
com terras de diatomáceas e que ainda se conservam são os aquedutos de Roma, os portos de
Alexandria e o canal de Suez.
79

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Por ser constituído de carapaças

cortESia Da Profa EStELa maria


B
vitrificadas muito pequenas, o diatomito
tem granulosidade finíssima, sendo por
isso empregado como matéria-prima de
polidores e também na confecção de fil-
tros e isolantes. (Fig. 3.6)

anDrEW SyrED/SciEncE Photo Library/LatinStock


A
Figura 3.6 A. Micrografia
ao microscópio eletrônico
de varredura de diversas
espécies de diatomácea,

fabio coLombini
dotadas de carapaça C
de sílica (colorizada
artificialmente; aumento
 1.1003). B. Casa feita
com tijolos de diatomito, no
Ceará. C. Tijolo recortado
de um depósito de
diatomito constituído por
carapaças compactadas
de diatomáceas.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Filo Chrysophyta (crisofíceas ou algas douradas)
A maioria das crisofíceas (do grego chrysos, dourado) é unicelular. Há tanto
bLickWinkEL/aLamy/othEr imagES

espécies marinhas como de água doce. A cor dos pigmentos, marrom-amarelada,


combinada à iridescência produzida pela sílica da parede celular, confere a certas
crisofíceas um aspecto dourado, que levou os cientistas a denominá-las de algas
douradas. Em certos aspectos, as crisofíceas assemelham-se às diatomáceas e,
em outros, às feofíceas. Por isso, a classificação desse grupo ainda é controversa.
Em muitas classificações, as crisofíceas são reunidas às diatomáceas. (Fig. 3.7)

Filo Euglenophyta (euglenoides)


Euglenoides são organismos unicelulares livre-natantes, a maioria de água
doce. Eles não têm parede celular e sim uma película flexível, sob a qual há fibrilas
que permitem à célula contrair-se rapidamente. Em geral, os euglenoides têm dois
flagelos, um muito curto, que não chega a emergir da célula, e outro longo, usado
na locomoção.
Figura 3.7 Micrografia
Certas espécies apresentam, perto da base do flagelo, uma estrutura pigmenta-
ao microscópio óptico
da, o estigma, ou ocelo, capaz de perceber a luminosidade do ambiente e orientar
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

de algas douradas
(crisofíceas) coloniais os organismos para a luz, o que é importante nas espécies que fazem fotossíntese.
do gênero Dinobryon A maioria dos euglenoides possui também uma estrutura intracelular denominada
(aumento  1403).
vacúolo contrátil, responsável pela eliminação periódica do excesso de água que
entra na célula por osmose. (Fig. 3.8)

invaginação
A
aLEX rakoSy, cuStom mEDicaL
Stock Photo/SciEncE Photo
Library/LatinStock

B
Película
ocelo

Vacúolo
contrátil

Núcleo
carLoS EStEvão Simonka

Plastos Figura 3.8 A. Representação esquemática


do euglenoide Euglena viridis. (Imagem
Flagelo sem escala, cores-fantasia.) B. Micrografia
de Euglena sp. ao microscópio óptico
(aumento  7003).

80

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No que se refere à nutrição, euglenoides são organismos versáteis. Em ambientes ilumina-
dos fazem fotossíntese, produzindo seu próprio alimento. Quando colocados no escuro, podem
sobreviver ingerindo partículas de alimento por fagocitose, um modo heterotrófico de nutrição.
Há espécies de euglenoides sem cloroplastos, cuja nutrição é exclusivamente heterotrófica; os
pesquisadores acreditam que esses organismos provavelmente perderam os cloroplastos no
curso da evolução. O modo ambíguo de nutrição, autotrófica e heterotrófica, tem sido um dos
motivos de polêmica na classificação dos euglenoides. Em certos sistemas, os euglenoides são
classificados como protozoários.

Filo Dinophyta (dinoflagelados)


Dinoflagelados (do grego dinos, pião, rodopiar) são seres unicelulares, a maioria marinha; junta-
mente com as diatomáceas, constituem parte importante do fitoplâncton oceânico. Possuem dois
flagelos, que utilizam para se deslocar em rápidos rodopios sobre si mesmos, característica que deu
nome ao grupo. Outra denominação do filo ainda utilizada em muitas classificações é Pyrrophyta (do
grego pyrros, flamejante), inspirada na cor avermelhada brilhante que certas espécies apresentam.
A célula de muitos dinoflagelados é revestida por placas de celulose que formam uma armadura,
denominada lórica (do latim loriga, armadura, couraça). Em algumas espécies, a lórica pode conter sílica.
Certos dinoflagelados não têm cloroplastos, apresentando nutrição exclusivamente heterotrófica.
Algumas espécies de dinoflagelado, assim como certas diatomáceas e certas crisofíceas, co-
nhecidas como zooxantelas, vivem dentro de células de protozoários e de certos animais marinhos
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

(cnidários, platelmintos e moluscos) em uma relação de endossimbiose. Como as zooclorelas, as


zooxantelas mantêm uma relação de troca de benefícios com as células hospedeiras. Graças à
sua capacidade de realizar fotossíntese, as zooxantelas permitem que animais como os corais,
que se alimentam de plâncton, possam viver em locais onde há pouco plâncton disponível.
Um dinoflagelado particularmente interessante é CARLOS ESTEVÃO SIMONKA
Noctiluca sp., responsável pela bioluminescência do A Núcleo
Citoplasma
mar. Esse curioso fenômeno é visível à noite em certas
épocas do ano quando o movimento das ondas faz as
noctilucas emitirem uma tênue luz esverdeada.
Diversas espécies de dinoflagelados são responsá-
veis pela maré vermelha, fenômeno em que a água do
mar fica colorida de tons marrom-avermelhados devido
KEVIN SCHAFER/ALAMY/OTHER IMAGES

Flagelo
à multiplicação exagerada dessas algas perto do litoral.
Nessas situações, as substâncias tóxicas liberadas pe-
los dinoflagelados causam a morte de peixes e outros
Parede
animais marinhos, eventualmente podendo intoxicar celular
pessoas. (Fig. 3.9)
Ocelo
30 m
B

Capítulo 3 • Algas, protozoários e fungos

Figura 3.9 A. Representação esquemática de Noctiluca sp., que causa a bioluminescência marinha.
(Cores-fantasia.) B. Fenômeno da maré vermelha em Baja California, no México,
em 2000, provocado pelo aumento populacional explosivo de dinoflagelados.

81

075_112_CAP03_BIO2_PNLEM-2.indd 81 4/15/10 2:59:36 PM


Bob Gibbons/Alamy/Other Images A
Filo Charophyta (carofíceas)
Carofíceas são algas multicelulares de água doce, de cor esverdeada
às vezes tendendo para o castanho-acinzentado, que geralmente crescem
ancoradas a fundos submersos. O talo apresenta nós e entrenós, lembrando
os musgos terrestres, com filamentos nos quais se localizam os órgãos
reprodutivos. A maioria das carofíceas acumula carbonato de cálcio nas pa-
redes das células, o que lhes confere um aspecto áspero e petrificado.
Em virtude dessa característica e de sua semelhança com os musgos,
essas algas são conhecidas popularmente como “musgos pétreos” (em
inglês, stoneworts). Um gênero existente no Brasil é Nitella sp., cujas cé-
lulas podem atingir até 10 centímetros de comprimento. A classificação
John Clegg/Science
Photo Library/Latinstock
B
das carofíceas é controversa mesmo em sistemas tradicionais e alguns
autores as incluem no filo das clorofíceas. (Fig. 3.10)

3 Reprodução das algas

Reprodução assexuada
Nas algas unicelulares, o mecanismo básico de reprodução é a divi-
são binária. Euglenoides, por exemplo, duplicam o núcleo e os flagelos e

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Figura 3.10 A. A Chara vulgaris, dividem-se longitudinalmente.
uma carofícea que vive em lagos
e lembra um pequeno musgo
Algumas diatomáceas se reproduzem por meio de uma divisão binária
(imagem em tamanho natural). peculiar: quando a célula se divide, uma das células-filhas recebe a metade
B. Representante do gênero maior da carapaça e a outra, a menor. Após a divisão, para completar a
Nitella, fotografado em detalhe;
carapaça, as diatomáceas produzem sempre a metade menor e, consequen-
as estruturas esféricas contêm
os gametas masculinos, os temente, uma parte dos indivíduos fica com tamanho ligeiramente menor
anterozoides (aumento . 93). que a linhagem original. Em dado momento, ocorre reprodução sexuada,
que produz organismos de mesmo tamanho que o original. (Fig. 3.11)
Em muitas algas filamentosas, a reprodução assexuada ocorre pela
fragmentação do talo. Os fragmentos crescem pela multiplicação das
células que os constituem, regenerando talos completos.

EUGLENOIDE diatomácEa

Plasto
carlos estevão simonka

Valva
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

menor

Valva
maior

Vacúolo Núcleo

Figura 3.11
Representação
esquemática da divisão
binária de um euglenoide
e de uma diatomácea
(ao lado). Nesta última,
após a divisão, há
reconstituição sempre
da parte menor da
carapaça, de modo que Indivíduo
uma das diatomáceas- menor
-filhas sempre é
ligeiramente menor que
a outra. (Imagens sem
escala, cores-fantasia.)

82

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É comum, principalmente em algas multicelulares, a reprodu-

Astrid & Hans-Frieder Micheler/


Science Photo Library/Latinstock
B
ção por meio de zoosporia, processo que consiste na formação
de células flageladas, os zoósporos. Estes se libertam da alga
que os formou e nadam até atingir locais favoráveis, onde se
fixam e originam novos talos. (Fig. 3.12)

A
levi ciobotarin

Zoósporo

Fixação e
desenvolvimento
do zoósporo

Formação dos
zoósporos Figura 3.12 A. Representação
esquemática da reprodução
assexuada da alga verde
filamentosa Ulothrix sp., que
forma células flageladas
chamadas zoósporos. (Imagens
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

sem escala, cores-fantasia.)


B. Micrografia de filamentos
Filamento de Ulothrix sp. ao microscópio
adulto óptico (aumento . 803).
Filamento
jovem

Reprodução sexuada
A reprodução sexuada das algas envolve, como nos outros seres eucarióticos, a fusão de dois
gametas haploides. A célula originada dessa fusão é o zigoto, diploide. Em alguma fase do ciclo
de vida ocorre meiose, processo que reduz à metade o número cromossômico das células-filhas.
Dada a diversidade das algas, há grande variedade de processos sexuais, dos quais veremos
apenas alguns exemplos.
Em algas unicelulares como Chlamydomonas sp., cada organismo comporta-se como um ga-
meta. Dois indivíduos sexualmente maduros, haploides, fundem-se e originam uma célula diploide
(zigoto) contida no interior de um envoltório, o zigósporo. A célula do zigósporo passa por meiose
e origina quatro células haploides. Depois de se libertar do envoltório, cada uma das células
haploides origina um novo organismo, que na maturidade poderá reproduzir-se assexuadamente
por meio de zoosporia ou repetir o ciclo sexuado. (Fig. 3.13)

União Fusão
A
levi ciobotarin

Pascal Goetgheluck/Science
sexual Photo Library/Latinstock
citoplasmática B
Capítulo 3 • Algas, protozoários e fungos

Fusão dos
Organismos adultos
núcleos e
haploides (n)
formação
do zigoto (2n)

Figura 3.13 A. Representação esquemática


R! do ciclo sexuado da alga verde unicelular
Chlamydomonas sp. A meiose está representada
MEIOSE por R!, que simboliza a redução cromossômica.
Por ocorrer no zigoto, a meiose é denominada
zigótica. (Imagens sem escala, cores-
-fantasia.) B. Micrografia de clamidomonas ao
microscópio óptico (aumento . 6003).
Organismos jovens
haploides (n)
83

075_112_CAP03_BIO2_PNLEM-2.indd 83 4/14/10 10:36:38 AM


Em certas espécies de algas filamentosas ocorre um processo de reprodução sexuada de-
nominado conjugação. Células de alguns filamentos da alga diferenciam-se, transformando-se
em gametas masculinos. Em outros filamentos, células diferenciam-se em gametas femininos.
Entre células masculinas e femininas de diferentes filamentos formam-se tubos, pelos quais
todo o conteúdo celular do gameta masculino pode atingir o gameta feminino, fecundando-o.
A fecundação origina o zigoto, que se liberta do filamento materno e se multiplica, produzindo
um novo talo. (Fig. 3.14)

Andrew Syred/Science Photo Library/Latinstock


Transferência de
citoplasma B
Conjugação Fecundação
levi ciobotarin

Tubo de
conjugação
Filamento
feminino

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Filamento Filamento em
masculino Filamentos formação
adultos

Zigoto (2n)
R!

MEIOSE
Zigoto

Figura 3.14 A. Representação esquemática da reprodução sexuada por conjugação na alga verde
Spirogyra sp. (Imagens sem escala, cores-fantasia.) B. Micrografia de filamentos de Spirogyra sp.
ao microscópio óptico (aumento . 5003). Note, no centro, células em conjugação.

Alternância de gerações
No ciclo de vida de muitas algas multicelulares alternam-se gerações de indivíduos haploides
(n) e diploides (2n), fenômeno denominado alternância de gerações.
A alga verde Ulva sp., por exemplo, apresenta dois tipos de talo, muito semelhantes na apa-
rência, mas formados ou por células diploides ou por células haploides. Talos diploides são cha-
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

mados de esporófitos; algumas de suas células se diferenciam e passam por meiose, originando
células haploides, os esporos. Estes se libertam do talo diploide que os originou e, ao encontrar
condições adequadas, germinam e produzem talos haploides, os gametófitos. Na maturidade,
algumas células do gametófito se diferenciam: seu núcleo multiplica-se por mitose, originando
dezenas de gametas haploides flagelados. Estes se libertam dos gametófitos e se fundem dois
a dois, produzindo zigotos diploides. O desenvolvimento do zigoto dá origem a um talo diploide,
que na maturidade repetirá o ciclo. (Fig. 3.15)

4 Importância ecológica e econômica das algas


Algas e cadeias alimentares
Como já mencionamos, nas camadas superiores das águas dos mares e lagos, movimentando-se
ao sabor das ondas, vive uma comunidade de seres flutuantes denominada plâncton. Os princi-
pais componentes do plâncton são bactérias fotossintetizantes, algas, protozoários, larvas de
diversos animais e microcrustáceos.
Os biólogos dividem a comunidade planctônica em duas categorias: fitoplâncton, constituído
basicamente por algas e bactérias fotossintetizantes, e zooplâncton, constituído pelos seres
heterotróficos que se alimentam, direta ou indiretamente, do fitoplâncton.

84

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A
levi ciobotarin

Andrew J. Martinez/
Photoresearchers/Latinstock
Gametófitos haploides B
Esporos haploides (13 cromossomos)
Células onde (13 cromossomos)
ocorreu meiose
R!

DETALHE DO
ESPORÓFITO

DETALHE DOS
GAMETÓFITOS

Células formadoras Figura 3.15 A. Representação


de gametas esquemática do ciclo sexuado da
DESENVOLVIMENTO alga verde multicelular Ulva lactuca,
Esporófito diploide DO ZIGOTO a alface-do-mar. Nesse organismo
(26 cromossomos) há alternância de talos haploides e
Gametas diploides. A meiose ocorre em células
(13 cromossomos) do talo diploide, levando à formação
Zigoto diploide de esporos haploides. Por isso, fala-se
(26 cromossomos) que a meiose é espórica. (Imagens sem
escala, cores-fantasia.) B. Talos de
Fecundação
Ulva lactuca sobre uma rocha
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

1
( do tamanho natural).
10

Os principais grupos de algas presentes no fitoplâncton são diatomáceas e dinoflagelados.


Estes, junto com as bactérias fotossintetizantes, constituem a base da cadeia alimentar nos mares
e lagos. Por meio da fotossíntese, os seres fotossintetizantes captam a energia da luz solar e a
transformam em energia química, que fica armazenada nas moléculas orgânicas de suas células.
Ao servirem de alimento para outros seres vivos, transferem para eles a energia que originalmente
captaram da luz solar. Os seres do fitoplâncton servem de alimento para os seres do zooplâncton.
Estes, por sua vez, sustentam animais maiores, como peixes, moluscos e crustáceos.
A quantidade de gás oxigênio (O2) hoje existente no ar atingiu um nível em torno de 21%, graças
à atividade fotossintetizante de bactérias, algas e plantas. Estima-se que as bactérias e as algas
planctônicas sejam responsáveis por quase 90% da fotossíntese realizada no planeta. Se esses
seres eventualmente desaparecessem, o teor de gás oxigênio declinaria a ponto de a atmosfera ter-
restre tornar-se incompatível com a vida da maioria das espécies, incluindo a nossa. (Fig. 3.16)
daniela weil

o2
Zooplâncton
(consumidores primários)
Fitoplâncton
(produtores)

Bactérias e fungos
(decompositores) Capítulo 3 • Algas, protozoários e fungos

Peixe
(consumidor
secundário)
tubarão
(consumidor
terciário)

Figura 3.16 A vida nos mares depende de seres fotossintetizantes do fitoplâncton. Além de servir de alimento, direta
ou indiretamente, para todos os organismos marinhos, bactérias fotossintetizantes e algas do fitoplâncton produzem,
por fotossíntese, grande parte do gás oxigênio da atmosfera terrestre. Os decompositores alimentam-se dos restos
de todos os outros seres vivos. (Imagens sem escala, cores-fantasia.)

85

075_112_CAP03_BIO2_PNLEM-2.indd 85 4/14/10 10:36:45 AM


Exemplos de importância econômica das algas
Diversas espécies de alga são comestíveis. As mais utilizadas como alimento são as pardas,
as vermelhas e as verdes, apreciadas principalmente pelos povos orientais. Uma alga parda
muito consumida no Japão é a Laminaria japonica, conhecida como kombu, rica em glutamato
de sódio, substância que acentua o sabor dos alimentos. Várias espécies da alga vermelha do
gênero Porphyra, depois de secas e prensadas, transformam-se em folhas usadas na prepara-
ção de sushis e de outros pratos da culinária japonesa. Algas são ricas em vitaminas e minerais
essenciais. (Fig. 3.17)

imagEbrokEr/aLamy/othEr imagES

bioPhoto aSSociatES/
PhotorESEarchErS/LatinStock
A B

Lâmina

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


fabio coLombini
C
carLoS EStEvão Simonka

Estipe

apressório

Figura 3.17 A. Foto da alga parda Laminaria hyperborea,

fabio coLombini
espécie marinha comestível conhecida na culinária D
japonesa como kombu. O talo dessa alga tem
uma região ramificada especializada na fixação, e
lâminas achatadas que lembram folhas. À esquerda,
representação esquemática dessa alga. (Imagem sem
escala, cores-fantasia.) B. A alga marinha vermelha
Porphyra sp., chamada de nori pelos japoneses,
tem cor violeta-escuro. Depois de seca e prensada,
transforma-se em folhas com as quais se prepara o
sushi, prato típico da culinária japonesa (C e D).
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

De algas vermelhas extraem-se duas substâncias economicamente importantes, o ágar e a


carragenina. O ágar é um polissacarídio coloidal com diversas aplicações na indústria de alimentos
e na pesquisa científica. A carragenina é semelhante ao ágar e também utilizada na indústria,
principalmente para manter a estabilidade de emulsões. (Fig. 3.18)
th foto/aLamy/othEr imagES

mEDicaL-on-LinE/aLamy/othEr imagES

A B

Figura 3.18 A. Ágar purificado, extraído de algas vermelhas. B. Placas de Petri com gel de ágar
e nutrientes, utilizadas para o cultivo de bactérias. Os pontos claros sobre o gel da placa são
1
colônias de bactéria ( do tamanho natural).
3
86

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Seção 3.2
Protozoários
❱❱  Habilidades 1 Características gerais dos protozoários
sugeridas
CC     Explicar as principais O termo protozoário (do grego protos, primitivo, primeiro, e zoon, ani-
características dos mal) é empregado pelos biólogos para designar um grupo de organismos
protozoários quanto à unicelulares heterotróficos com tamanho entre 2 mm e 1 mm. A maioria
estrutura, à nutrição, dos protozoários é aquática e vive em água doce, água salgada, regiões
à reprodução e lodosas e terra úmida. Algumas espécies são parasitas, habitando o inte-
aos ambientes rior do corpo de animais invertebrados e vertebrados, em muitos casos
em que vivem. provocando doenças. Há também protozoários que mantêm relações de
CC     Conhecer protozoários troca de benefícios com outros seres vivos, como veremos adiante.
causadores de doenças A estrutura da célula dos protozoários varia nos diferentes grupos.
humanas – amebíase, Em certas amebas, por exemplo, a membrana celular é flexível e o organismo
leishmaniose, doença de consegue mudar rapidamente de forma, alongando-se ou contraindo-se.
Chagas e malária – Já outros protozoários, como o paramécio, apresentam uma película en-
e formas de tratamento
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

voltória consistente, que define a forma da célula.


e de prevenção
dessas protozooses. Os protozoários são heterotróficos e se alimentam tanto da matéria
orgânica de cadáveres como de microrganismos vivos, como bactérias,
❱❱  Conceitos principais algas e outros protozoários.
• protozoário A classificação dos protozoários é ainda muito controversa. Os cientis-
• rizópode tas admitem que esses organismos podem descender de várias linhagens
• actinópode ancestrais e, consequentemente, “protozoá­rio” não constitui uma categoria
• foraminífero taxonômica válida. Entretanto, as novas classificações de protozoários com
• apicomplexo base na cladística são complicadas e difíceis de usar. Para se ter uma ideia,
• flagelado algumas classificações recentes de protozoários propõem dezenas de filos,
• ciliado o que inviabiliza seu estudo sistemático por não especialistas.
• amebíase No sistema de classificação que adotamos, os protozoários estão
• leishmaniose
distribuídos em seis filos do Reino Protoctista. Os nomes e as principais
• doença de Chagas
características dos filos de protozoários considerados neste livro estão
• malária
sumarizados na tabela abaixo. (Tab. 3.2)

  Tabela 3.2   Classificação dos protozoários adotada neste livro


PROTOZOÁRIOS (protoctistas unicelulares heterotróficos)
Filo Características principais
Célula flexível, sem estruturas de sustentação. Locomoção e captura de alimento por meio de
Rhizopoda (amebas) pseudópodes. Há espécies de vida livre (ex.: Amoeba proteus, que vive em água doce) e espécies
Capítulo 3 • Algas, protozoários e fungos

parasitas (ex.: Entamoeba histolytica, que parasita o intestino humano).


Actinopoda Apresentam pseudópodes afilados. Radiolários são dotados de uma cápsula central de
(radiolários e sustentação (quitinosa) e são exclusivamente marinhos; heliozoários não têm cápsula central
heliozoários) e a maioria vive em água doce.
Foraminifera Apresentam esqueleto perfurado, externo à célula (quitinoso ou de carbonato de cálcio).
(foraminíferos) Pseudópodes projetam-se pelos furos da carapaça. A maioria das espécies vive no mar.
Apicomplexa Não apresentam estruturas locomotoras. Possuem, em alguma fase da vida, uma estrutura celular
(apicomplexos ou chamada complexo apical. Todas as espécies são parasitas. Exemplos de apicomplexos parasitas
esporozoários) humanos são Plasmodium vivax (causa malária) e Toxoplasma gondii (causa toxoplasmose).
Apresentam flagelos que permitem a natação (em espécies livre-natantes) ou a captura de alimento
Zoomastigophora
(em espécies sésseis). Há espécies de vida livre (ex.: Codosiga sp., coanoflagelado de água doce) e
(flagelados)
parasitas (Trypanosoma cruzi, que causa a doença de Chagas).
Apresentam cílios que permitem a natação (em espécies livre-natantes) ou a captura de alimento (em
Ciliophora (ciliados) espécies sésseis). Têm dois núcleos celulares (macronúcleo e micronúcleo). A maioria das espécies
tem vida livre (ex.: Paramecium sp., ciliado de água doce).

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2 Principais grupos de protozoários
Filo Rhizopoda (amebas)
O filo Rhizopoda, ou Sarcodina, compreende os rizópodes, protozoários que se locomovem
por meio de expansões citoplasmáticas denominadas pseudópodes (do grego pseudos, falso,
e podos, pé), também empregadas para capturar alimento. O termo “rizópode” (do grego rhiza,
raiz) refere-se ao aspecto muitas vezes ramificado dos pseudópodes de certas amebas. O termo
“sarcodina” (do grego sarkos, carne), por sua vez, refere-se ao aspecto “carnoso” e consistente
das amebas, os principais representantes do grupo.
Há espécies de rizópodes que vivem em água doce ou no mar, deslocando-se sobre os fundos
e a vegetação submersa. Algumas espécies formam carapaças, ou testas, sendo genericamente
chamadas de tecamebas. (Fig. 3.19)

A Núcleos
Ilustrações: carlos estevão simonka

M. I. Walker/Photoresearchers/
Latinstock
B
Vacúolo
contrátil
Carapaça
(testa)

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Pseudópodes
Figura 3.19 Representantes do filo
C Rhizopoda. A. Representação esquemática
de Arcella sp., cuja carapaça é constituída
por uma proteína rígida. B. Micrografia de
Arcella sp., ao microscópio óptico em vista
superior, mostrando a carapaça circular
Testa de grãos (aumento . 2303). C. Representação
de areia esquemática de Difflugia sp., rizópode
marinho que agrega e cimenta grãos de
areia microscópicos para constituir sua
testa. (Em A e C, imagens sem escala,
cores-fantasia.)

Pseudópodes

Certas espécies de ameba vivem no corpo humano sem causar prejuízo, em uma relação que
os biólogos chamam de comensalismo. Exemplos de amebas comensais humanas são Entamoeba
gengivalis, que vive na boca, e Entamoeba coli, que vive no intestino. No entanto, a Entamoeba
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

histolytica é parasita e, ao instalar-se no intestino humano, provoca a doença conhecida como


amebíase, ou disenteria amebiana, que será estudada mais adiante.

Filo Actinopoda (radiolários e heliozoários)


O filo Actinopoda reúne os actinópodes, que se caracterizam por apresentarem pseudópodes
afilados, os axópodes, sustentados por um eixo central e que se projetam como raios em torno
da célula. Há dois grupos de actinópodes: radiolários e heliozoários.
Os radiolários vivem exclusivamente no mar, constituindo um importante componente do
plâncton, ao passo que a maioria dos heliozoários vive em água doce. A abundância de radiolá-
rios, tanto hoje como no passado, é evidenciada pelas extensas camadas de esqueletos desses
microrganismos acumuladas no fundo oceânico.
A célula dos radiolários apresenta uma cápsula interna central, esférica e perfurada, constituída
de quitina e ligada a um esqueleto formado por espículas de sílica ou de sulfato de estrôncio
(SrSO4). O citoplasma desses protozoários contém muitos vacúolos, vários dos quais armazenam
óleos, importantes como reserva nutricional e na flutuação. Muitos radiolários abrigam em seu
citoplasma zooxantelas (algas endossimbióticas), em geral crisofíceas e diatomáceas sem ca-
rapaça. Embora possam eventualmente capturar alimento por fagocitose, radiolários obtêm boa
parte de seu alimento das zooxantelas endossimbióticas.

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Heliozoários são esféricos e podem ou não ser dotados de estruturas esqueléticas. Eles se
diferenciam dos radiolários por não apresentarem cápsula esférica central. Algumas espécies
vivem no fundo de lagos de água doce ou sobre a vegetação submersa, capturando ativamente
alimento por fagocitose, realizada por seus pseudópodes afilados. (Fig. 3.20)

Blickwinkel/Alamy/Other Images
Partícula A
capturada

Vacúolo
digestório
carlos estevão simonka

Vacúolo
contrátil

Steve Gschmeissner/
Science Photo Library/Latinstock
B

Núcleo
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Pseudópodes
filamentosos
(axópodes)

Figura 3.20 Representantes do filo Actinopoda. A ilustração mostra um heliozoário, em que o esqueleto interno
é recoberto por uma fina camada de citoplasma. Note os pseudópodes filamentosos (axópodes) capturando
alimento. (Imagem sem escala, cores-fantasia.) A. Micrografia do heliozoário de água doce Acanthocystis
turfacea ao microscópio óptico (aumento  5003). B. Micrografia do radiolário Acanthomera sp., que faz parte
do plâncton marinho, ao microscópio eletrônico de varredura (colorizada artificialmente; aumento . 4003).

Filo Foraminifera (foraminíferos)


O filo Foraminifera (do latim foramen, buraco, furo) reúne os foraminíferos, protozoários dotados
de uma carapaça externa constituída de carbonato de cálcio, quitina ou mesmo de fragmentos calcá-
rios ou silicosos selecionados da areia pelo protozoário. A carapaça apresenta numerosas perfurações,
pelas quais se projetam pseudópodes finos e delicados, utilizados na captura de alimento.
A maioria dos foraminíferos vive no mar; muitas espécies flutuam, constituindo parte importan-
te do plâncton, enquanto outras vivem sobre algas e animais ou rastejam no fundo. Foraminíferos
foram muito abundantes nos mares do passado e suas carapaças formaram extensos depósitos
no fundo dos oceanos, que originaram as rochas sedimentares calcárias, denominadas vasas.
As grandes pirâmides do Egito, por exemplo, foram construídas com rochas calcárias compostas
Capítulo 3 • Algas, protozoários e fungos

por carapaças dos foraminíferos do gênero Nummulites, hoje extintos, mas muito comuns nos
mares há 100 milhões de anos. (Fig. 3.21)
A presença de determinados foraminíferos está
Andrew Syred/Science Photo Library/Latinstock

relacionada a rochas sedimentares que contêm


petróleo. Por isso, encontrar certos tipos de cara-
paça de foraminíferos durante as perfurações de
prospecção petrolífera indica para os geólogos a
possibilidade de existência de petróleo na região.

Figura 3.21 Micrografia do foraminífero


Elphidium crispum ao microscópio
eletrônico de varredura (colorizada
artificialmente; aumento . 903).

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Filo Apicomplexa (apicomplexos ou esporozoários)
O filo Apicomplexa reúne os apicomplexos, protozoários parasitas, destituídos de estru-
turas locomotoras e dotados, em algum estágio do ciclo de vida, de uma estrutura celular
proeminente, o complexo apical (daí o nome do grupo). Estudos têm mostrado que o complexo
apical desempenha papel importante na penetração desses protozoários parasitas nas células
hospedeiras. O termo Sporozoa, antigamente utilizado para designar o filo, refere-se ao fato
de que muitos representantes do grupo possuem ciclos de vida com estágios em que ocorre a
formação de esporos.
Algumas espécies de apicomplexos causam doenças em aves e mamíferos, inclusive na es-
pécie humana, e também em invertebrados, como insetos e minhocas. Dependendo da espécie,
o protozoário habita diferentes locais do corpo do hospedeiro, como o interior de células de
diversos órgãos, o sangue ou cavidades do corpo. Entre os representantes mais conhecidos
dos apicomplexos estão os do gênero Plasmodium, causadores da malária, o Toxoplasma gondii,
causador da toxoplasmose, e o Pneumocystis carinii, causador de uma forma de pneumonia que
ataca pessoas com deficiência do sistema imunitário. (Fig. 3.22)
CNRI/Science Photo Library/Latinstock

Moredun Animal Health Ltd/Science


Photo Library/Latinstock
A Hemácia B
infectada
Plasmódios

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Toxoplasmas

Figura 3.22 Representantes do filo Apicomplexa (esporozoários). A. Micrografia ao microscópio


eletrônico de transmissão de hemácia humana infectada pelo protozoário Plasmodium falciparum,
causador de um tipo de malária humana (colorizada artificialmente; aumento . 7.2003).
B. Micrografia ao microscópio eletrônico de transmissão de corte de célula infectada por Toxoplasma
gondii, causador da toxoplasmose (colorizada artificialmente; aumento . 6.2003). Os protozoários
são as formas alongadas e mais escuras que podem ser vistas no centro da micrografia.

Filo Zoomastigophora (flagelados)


O filo Zoomastigophora (do grego zoon, animal, mastix, chicote, e phoros, portador), também
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

conhecido por Flagellata, compreende os flagelados, protozoários que se locomovem por meio
de estruturas filamentosas em forma de chicote, os flagelos. Geralmente as espécies possuem
um ou dois flagelos, porém algumas podem apresentar dezenas deles.
Classificar os protozoários pela presença ou não de flagelo não é um bom critério para re-
fletir o parentesco evolutivo do grupo. Provavelmente, o flagelo surgiu de forma independente
em diversos grupos de organismos e não constitui uma apomorfia que define um grupo monofi-
lético. Em palavras mais simples, o flagelo não é uma novidade evolutiva exclusiva desse grupo
de protozoários, ocorrendo também em organismos classificados como algas (euglenoides e
dinoflagelados). Por isso, alguns sistemas modernos de classificação distribuem os protozoários
flagelados em diferentes filos e mesmo em reinos diferentes.
Flagelados podem viver no meio aquático, no mar e em água doce. Alguns têm vida livre, uti-
lizando os flagelos para nadar e capturar alimentos por fagocitose; outros são sésseis, vivem
fixados a um substrato e com o movimento do flagelo criam correntes líquidas, que atraem
partículas de alimento. Entre os flagelados livre-natantes encontrados em água doce podem-se
citar os gêneros Bodo e Streblomastix; entre os sésseis, destacam-se os coanoflagelados dos
gêneros Monosiga e Codosiga. Estes últimos apresentam em torno do flagelo uma espécie de
funil que auxilia a captura de alimento.

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Diversas espécies de flagelados são parasitas e causam doenças em animais e seres humanos.
Entre os flagelados parasitas humanos destacam-se: Trypanosoma cruzi, causador da doença de
Chagas; Leishmania brasiliensis, causador da leishmaniose tegumentar; e Trichomonas vaginalis,
causador de inflamações e corrimentos vaginais.
Certos flagelados, como os do gênero Trichonympha, vivem no tubo digestório de ba-
ratas e cupins em uma relação de troca de benefícios (mutualismo) com esses animais.
Os protozoários encontram abrigo e alimento no tubo digestório dos insetos, que, por seu
lado, se beneficiam com as substâncias úteis derivadas da digestão da celulose realizada
pelos microrganismos. (Fig. 3.23)
Eric V. Grave/Photoresearchers/Latinstock

M. I. Walker/PR/Latinstock
A B
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Figura 3.23 Micrografias ao microscópio óptico de representantes do filo Zoomastigophora. A. Trichonympha sp.,
flagelado que vive no intestino dos cupins, auxiliando-os na digestão da madeira (colorizada artificialmente; aumento
. 3103). B. Peranema trichophorum, flagelado de água doce em que a base do flagelo é rígida (aumento . 3203).

Filo Ciliophora (ciliados)


O filo Ciliophora (do latim cilium, cílio, e do grego fóros, portador), ou Ciliata, compreende os
ciliados, protozoários dotados de estruturas locomotoras filamentosas geralmente mais curtas
e mais numerosas que os flagelos, os cílios. Ciliados têm mais de um núcleo por célula, um deles
maior, o macronúcleo, e um ou mais núcleos menores, os micronúcleos.
A maioria dos ciliados tem vida livre. Entre as pouquíssimas espécies parasitas destaca-se
Balantidium coli, que parasita o intestino do porco e pode, eventualmente, contaminar a espécie hu-
mana, provocando a infecção intestinal conhecida como balantidiose. Certos ciliados vivem no tubo
digestório de animais ruminantes, como bois, carneiros, cabras, girafas etc., auxiliando a digestão
da matéria vegetal e servindo, eles próprios, de alimento para seus hospedeiros. Os ciliados atuais
ilustram o alto grau de complexidade que um organismo unicelular pode alcançar. (Fig. 3.24)
M. I. Walker/Photoresearchers/Latinstock

Biophoto Associates/Photoresearchers/Latinstock

A C

Capítulo 3 • Algas, protozoários e fungos


Michael Abbey/Photoresearchers/
Latinstock

Figura 3.24 A e B. Micrografias ao microscópio óptico do ciliado


de água doce Euplotes sp. (aumento . 3203) e do ciliado
parasita Balantidium coli (aumento . 5003), respectivamente.
C. Micrografia ao microscópio eletrônico de varredura de um
paramécio (à direita) sendo atacado por outro ciliado, Didinium
sp. (colorizada artificialmente; aumento . 4203).

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3 Reprodução dos protozoários

Reprodução assexuada
A maioria dos protozoários de vida livre reproduz-se assexuadamente por divisão binária.
A célula cresce até determinado tamanho e divide-se ao meio, originando dois novos indivíduos.
(Fig. 3.25)
carlos estevão simonka

Figura 3.25 Representação esquemática da reprodução assexuada por divisão binária


em uma ameba de vida livre. (Imagens sem escala, cores-fantasia.)

CIÊNCIA Protozoários que causam doenças


E CIDADANIA

1 Os protozoários parasitas causam diversas doenças pessoas. Entre as formas de prevenção destaca-se a

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


em seres humanos: disenteria, lesões na pele e em construção de instalações sanitárias adequadas, como
órgãos internos, malária etc. As infecções por proto- privadas, esgotos e fossas sépticas, que impeçam a
zoários parasitas são genericamente denominadas contaminação da água e de alimentos por fezes com
protozooses. Conhecer a dinâmica de transmissão das cistos de ameba. A água, caso não seja tratada, deve
principais protozooses, além de útil na prevenção dessas ser fervida antes de ser usada para beber ou para lavar
doenças, é também um exercício de cidadania, uma vez alimentos consumidos crus. Esses e outros cuidados
que pessoas bem informadas podem ajudar a diminuir básicos, associados a uma maior higiene pessoal,
a incidência dessas e de outras parasitoses. previnem não só a amebíase como inúmeras outras
doenças infecciosas. (Fig. 3.26)
Amebíase ou disenteria amebiana
2 A amebíase, ou disenteria amebiana, é causada pelo Leishmaniose
rizópode parasita Entamoeba histolytica (entameba). 5 Leishmaniose é a denominação genérica da infec-
Adquire-se essa parasitose ao ingerir cistos de entame- ção causada por protozoários flagelados denominados
ba presentes na água ou em alimentos contaminados leishmânias. No Brasil, estima-se que cerca de 40 mil
com fezes de pessoas doentes. O cisto é uma bolsa pessoas por ano adquiram um dos tipos de leishma-
de parede rígida repleta de amebas jovens, capazes niose, visceral ou tegumentar.
de infectar um novo hospedeiro. No intestino, a parede 6 A leishmaniose visceral (ou calazar) é causada,
do cisto se rompe, libertando as amebas, que invadem principalmente, pela Leishmania chagasi, que ataca
tecidos da parede intestinal, onde passam a se alimen- o baço e o fígado. Febre contínua, perda de apetite,
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

tar de sangue e de células do hospedeiro. Esses locais inchaço do fígado e do baço, lesões na pele e anemia
podem inflamar-se e romper-se, liberando sangue, são alguns dos sintomas da doença que, em certos
muco e milhares de amebas, muitas já na forma de casos, pode levar à morte. Os cães também são
cistos. Ao serem eliminados com as fezes, os cistos atacados por esse protozoário. A parasitose é trans-
podem contaminar água e alimentos (como verduras, mitida pela picada do mosquito Lutzomyia longipal-
por exemplo) e ser transmitidos a outras pessoas. pis, conhecido popularmente como mosquito-palha,
3 Apenas uma em cada dez pessoas infectadas por ou maruim.
E. histolytica apresenta sintomas da doença. Estes são 7 A leishmaniose tegumentar (ou úlcera de bauru)
geralmente brandos, como diarreias e dor de estômago; é uma doença parasitária de pele e mucosas causada
em casos mais graves, ocorrem diarreias com sangue pela Leishmania brasiliensis. Na pele, a doença ma-
e a pessoa pode tornar-se anêmica. A amebíase leva, nifesta-se pela formação de feridas ulcerosas, com
frequentemente, ao desenvolvimento de infecções bordas elevadas e fundo granuloso. Nas mucosas
secundárias bacterianas no intestino. Atualmente há (cavidade nasal, faringe ou laringe), a leishmaniose
medicamentos eficazes contra a amebíase, que devem destrói tecidos e, em casos graves, pode perfurar
ser ministrados após o diagnóstico da parasitose por meio o septo nasal e produzir lesões deformantes. A
de exame microscópico das fezes do doente. transmissão da leishmaniose tegumentar ocorre
4 Para prevenir a disseminação da amebíase são pela picada de mosquitos do gênero Lutzomyia
necessárias atitudes por parte do poder público e das (mosquito-palha).

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Alguns sarcodíneos e apicomplexos podem reproduzir-se assexuadamente por divisão múltipla.
Nesse caso, a célula multiplica seu núcleo diversas vezes por mitose antes de se fragmentar em
inúmeras pequenas células.

Reprodução sexuada
Quase todas as espécies de protozoários apresentam processos sexuais. No tipo mais comum
de reprodução sexuada, dois indivíduos de sexos diferentes fundem-se e formam um zigoto, que
posteriormente passa por meiose e reconstitui novos indivíduos, geneticamente recombinados.
O paramécio apresenta um processo sexual elaborado, denominado conjugação, que, apesar de
não resultar diretamente em aumento do número de indivíduos, é tradicionalmente considerado
um tipo de reprodução sexuada, pois promove a recombinação genética entre indivíduos.
Nos esporozoários geralmente há alternância entre formas sexuadas e assexuadas. Muitas
espécies são capazes de produzir esporos resistentes, que infestam o hospedeiro. Os agentes
causadores da malária (gênero Plasmodium) são exemplos de protozoários com esse tipo de ciclo
reprodutivo, como veremos mais adiante.
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Liberação da ameba
no intestino Hemácias
ingeridas pela
ameba

Núcleos

iLuStraçõES: carLoS EStEvão Simonka


cisto

Formas vegetativas
multiplicam-se e lesam INTESTINO
ingestão de vasos sanguíneos
cistos de intestinais
ameba

contaminação de alimentos Eliminação de cistos


e água potável com as fezes
Parede
do cisto

Capítulo 3 • Algas, protozoários e fungos

LaVaR aS mÃoS com FERVER a áGUa LaVaR BEm NÃo dEFEcaR EVitaR coNtamiNaÇÃo
FREQUÊNcia a SER BEBida oS aLimENtoS ao aR LiVRE da áGUa doS PoÇoS

Figura 3.26 Representação esquemática do ciclo de Entamoeba histolytica, protozoário parasita do


intestino humano e causador da disenteria amebiana (amebíase). O cisto dessa ameba é o que os biólogos
denominam “forma de resistência”, pois é capaz de sobreviver por longos períodos fora de organismos
hospedeiros. As amebas não estão representadas na mesma escala que o intestino, estão em escala
muito maior, lembre-se de que elas são microscópicas. Nos quadros abaixo, estão citadas as principais
maneiras de prevenção da amebíase. (Imagens sem escala, cores-fantasia.)

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8 As principais medidas de prevenção da leishmanio- dos pelo parasita. Mulheres portadoras da doença podem
se são evitar a proliferação do mosquito transmissor e transmitir o parasita aos filhos durante a gravidez ou na
impedir sua picada. O combate ao mosquito pode ser amamentação. Transplantes de órgãos e transfusões
feito pelo aterro de lagoas e poças d’água que servem de sangue de doadores infectados são outras vias de
de criadouro para as larvas e também pela aplicação de transmissão da doença de Chagas. (Fig. 3.28)
inseticidas sobre as áreas atingidas pela doença. Esta 11 O barbeiro adquire tripanossomos ao sugar san-
última providência tem a consequência indesejável de gue de pessoas com doença de Chagas ou de animais
matar indiscriminadamente outras espécies de inseto, contaminados pelo parasita, entre eles cães, gatos,
muitas delas de importância econômica ou ecológica. roedores e diversos animais silvestres, que servem de
Para impedir a picada do mosquito, pode-se proteger reservatórios naturais do protozoário. Os barbeiros
as portas e as janelas das casas com telas, e cobrir as têm hábitos noturnos, escondendo-se durante o dia
camas com cortinados de filó. (Fig. 3.27) em frestas, de onde saem, à noite, para se alimentar
Doença de Chagas de sangue. Depois de picar uma pessoa, geralmente no
rosto (daí o nome “barbeiro”), o inseto defeca; se esti-
9 A doença de Chagas, também chamada tripanos-
ver contaminado, os tripanossomos contidos em suas
somíase americana, é causada pelo flagelado Trypano-
soma cruzi, o tripanossomo. Foi o médico sanitarista fezes podem penetrar através do ferimento da picada,
brasileiro Carlos Chagas (1878-1934) quem descobriu quando a pessoa coça o local, atingindo a circulação
o parasita causador e descreveu seu ciclo de vida e o sanguínea, via de acesso aos órgãos do corpo.
modo de transmissão. Estima-se que 50 mil pessoas 12 Nos primeiros estágios da doença, os principais
sintomas são cansaço, febre, aumento do fígado ou do

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


morram anualmente no mundo em consequência
da doença. No Brasil, o controle governamental da baço e inchaço dos linfonodos. Depois de 2 a 4 meses
transmissão da doença de Chagas vem obtendo amplo esses sintomas desaparecem. Somente 10 a 20 anos
sucesso e a maioria dos estados brasileiros já pode após a infecção é que começam a aparecer os sintomas
ser declarada livre da doença; apesar disso, continua mais graves da doença; os protozoários instalam-se
sendo uma das parasitoses mais letais, com cerca de preferencialmente no músculo cardíaco e causam
5 mil óbitos anuais e milhões de portadores crônicos, lesões que prejudicam o funcionamento do coração,
para os quais ainda não existe tratamento. o que leva à insuficiência cardíaca crônica.
10 O tripanossomo é transmitido por insetos popu- 13 Até a década de 1960, não havia medicamentos
larmente chamados de “barbeiros” ou “chupanças”, eficientes contra o tripanossomo. A partir de então
sendo a espécie transmissora mais comum o Triatoma têm sido desenvolvidas drogas terapêuticas capazes de
infestans. A doença geralmente é adquirida pelo contato matar e destruir o Trypanosoma cruzi, principalmente no
das mucosas (dos olhos, do nariz e da boca) ou de feridas período inicial da doença. Entretanto, as lesões do cora-
na pele com fezes do inseto portador do parasita. Uma ção e de outros órgãos, como o esôfago e o intestino, são
forma aguda da doença pode ocorrer pela ingestão de irreversíveis e até o momento não há tratamento eficaz
alimentos contaminados com fezes de barbeiros infesta- para os estágios avançados da doença de Chagas.
cnri/SciEncE Photo Library/LatinStock

iLuStraçõES: carLoS EStEvão Simonka


ray WiLSon/aLamy/othEr imagES

A B
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

PRotEGER
PoRtaS E
JaNELaS
com tELaS
anDy crumP, tDr, Who/SciEncE
Photo Library/LatinStock

Figura 3.27 A. Mosquito-palha Lutzomyia longipalpis


picando uma pessoa; esse inseto tem menos
de 2 milímetros e é o principal transmissor da UtiLiZaR
leishmaniose tegumentar. B. Micrografia ao iNSEticidaS
microscópio eletrônico de varredura do protozoário
flagelado Leishmania tropica, outra espécie do
gênero que ataca órgãos internos (colorizada
artificialmente; aumento  7.0003). C. Ferida
causada pela leishmaniose tegumentar, sendo
tratada com nitrogênio líquido, na Etiópia. Nos
PRotEGER
quadros, estão citadas as principais maneiras de camaS com
prevenção da leishmaniose tegumentar. coRtiNadoS

94

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r-P/kino
membrana ondulante

carLoS EStEvão Simonka

SincLair StammErS/SciEncE
Photo Library/LatinStock
B
A C
Núcleo

Flagelo

Figura 3.28 A. Barbeiro, ou chupança (Triatoma viticipes), inseto transmissor da doença de Chagas (aumento  1,53).
B. Representação esquemática do protozoário Trypanosoma cruzi, agente causador da doença de Chagas. (Imagem sem
escala, cores-fantasia.) C. Micrografia de um corte de coração humano ao microscópio óptico, mostrando um “ninho” do
protozoário Trypanosoma cruzi (área ovoide no centro da foto). Os protozoários são os pontos escuros; nessa fase de seu
ciclo de vida, não apresentam flagelos (aumento  1.0003).

14 A principal maneira de combater a parasitose é


Malária
a adoção de medidas preventivas, que impeçam a
entrada dos protozoários no organismo humano. 15 Entre os protozoários apicomplexos, o gênero Plasmo-
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A primeira providência, evidentemente, é evitar a dium (plasmódio) é um dos mais conhecidos por causar a
picada do barbeiro, o agente transmissor (ou vetor) malária, doença que já afligia os antigos egípcios há cerca
da doença. Como esses insetos se escondem nas de 5 mil anos e que ainda hoje produz cerca de 250 milhões
frestas das casas de barro ou de pau a pique, a cons- de novos casos por ano em todo o mundo. Calcula-se
trução de casas de alvenaria, sem esconderijos para que 900 mil morram anualmente devido a essa doença.
o barbeiro, ajuda a combater a doença de Chagas. No Brasil, a cada ano ocorrem cerca de 500 mil casos de
Outra medida preventiva importante é a instalação malária, quase todos restritos à região amazônica.
de cortinados de filó sobre as camas e de telas de 16 Há quatro espécies do gênero Plasmodium que cau-
proteção em portas e janelas. (Fig. 3.29) sam malária, todas transmitidas pela picada de fêmeas

Fezes
Local da
contaminadas com
picada
tripanossomos

Barbeiro transmissor
Fibras
(Triatoma infestans)
musculares
do coração
PRotEGER PoRtaS E
JaNELaS com tELaS iLuStraçõES: carLoS EStEvão Simonka

Ninho de
Capítulo 3 • Algas, protozoários e fungos

tripanossomos

Hemácias
UtiLiZaR iNSEticidaS

tripanossomo
no sangue

Figura 3.29 Representação esquemática dos principais aspectos


PRotEGER camaS da doença de Chagas. Os quadros ilustram formas de prevenção
com coRtiNadoS dessa protozoose. (Imagens sem escala, cores-fantasia.)

95

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de mosquitos do gênero Anopheles (anófeles), que são he- 40 °C, coincidem com a ruptura das hemácias infectadas
matófagas. Os protozoários Plasmodium malariae e Plas- e a consequente liberação dos merozoítos no plasma.
modium ovale são responsáveis por uma forma branda 21 Em algumas hemácias, em vez de se reproduzirem
da doença; Plasmodium falciparum causa a forma mais por divisão múltipla, os merozoítos crescem e transfor-
grave de malária; Plasmodium vivax causa uma forma de mam-se em formas sexuadas, os chamados gametócitos
malária de gravidade intermediária. Dentre essas quatro masculinos e gametócitos femininos. Ao sugar o sangue
espécies, P. ovale é a única que não ocorre no Brasil. de uma pessoa doente, o mosquito transmissor pode in-
17 Uma pessoa adquire malária ao ser picada por gerir hemácias contendo gametócitos, que amadurecem
fêmeas do mosquito Anopheles sp. contaminadas pelo no estômago do inseto, formando gametas masculinos
protozoário. Na picada, elas injetam uma secreção e femininos. A união dos gametas dá origem a um ou
salivar anticoagulante, que pode conter as formas in- mais zigotos, que se instalam na parede estomacal do
festantes do plasmódio, chamadas esporozoítos. Parte mosquito. Cada zigoto origina milhares de esporozoítos;
dos esporozoítos penetra nas células hepáticas, onde estes são liberados nas cavidades corporais do inseto e
se multiplicam de modo assexuado, enquanto outra migram para suas glândulas salivares, de onde podem
parte penetra nas hemácias. Em cada célula hepática ser transmitidos para pessoas sadias.
infectada podem surgir, dependendo da espécie, entre 22 Atualmente, há vários medicamentos capazes de
2 mil e 40 mil novos protozoários. Nas infecções por eliminar o plasmódio do sangue. Além do quinino e de
P. falciparum, os parasitas permanecem no fígado me- seus derivados utilizados tradicionalmente, novas drogas
nos tempo que os das outras espécies de plasmódio. terapêuticas têm sido usadas com sucesso no tratamento
18 Entre 6 a 16 dias após a infecção inicial, as células da malária. Drogas antimaláricas devem ser ingeridas

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hepáticas infectadas liberam no sangue os novos para- preventivamente, sob rigorosa orientação médica, por pes-
sitas, agora em um estágio chamado merozoíto. Cada soas que visitam regiões com alta incidência da doença.
merozoíto que penetra em uma hemácia do sangue 23 A principal medida de prevenção da malária
pode originar, assexuadamente, entre 8 e 24 novos consiste em combater a proliferação do mosquito
merozoítos. transmissor e impedir sua picada. Pode-se combater o
19 As hemácias infectadas se rompem e liberam na mosquito mediante o aterro de lagoas e poças d’água
corrente sanguínea novos merozoítos, que invadem que servem de criadouro para as larvas, bem como pela
hemácias sadias, repetindo o ciclo. A cada 48 horas, no aplicação de inseticidas sobre as áreas atingidas pela
caso de P. vivax e P. falciparum, ou de 72 horas, para P. doença. Com esta última providência, porém, matam-se
malariae, novas gerações de merozoítos são liberadas indiscriminadamente outras espécies de inseto, mui-
pela ruptura sincrônica das hemácias infectadas. tas das quais podem ser de importância ecológica ou
20 Milhares de hemácias, rompendo-se simultaneamen- econômica. Telas em portas e janelas e cortinados de
te, liberam parasitas e substâncias tóxicas, que causam filó sobre as camas também constituem barreiras para
febre e calafrios. Os picos de febre alta, entre 39 °C e a picada do mosquito. (Fig. 3.30)

GUIA DE LEITURA

1. Leia o primeiro parágrafo, que conceitua proto- termo “forma de resistência”. O que ele significa?
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

zoose. Você concorda com a afirmação do texto 5. Os parágrafos 5, 6, 7 e 8 referem-se à leishmaniose.


de que conhecer as protozooses é um exercício de Leia-os e, neste item, responda apenas à seguinte
cidadania? Discuta. questão: qual é a diferença entre as duas formas
2. Após o parágrafo inicial são apresentadas quatro de leishmaniose apresentadas, com relação aos
protozooses. Seu desafio é elaborar uma tabela órgãos afetados?
que relacione cada protozoose às seguintes in- 6. Analise a Figura 3.27, complementando a leitura
formações relativas a cada uma delas: a) agente
do texto. Sintetize as informações pertinentes e
causador; b) sintomas e consequências da doença;
continue a preencher a tabela.
c) tratamento e/ou prevenção. Preencha a tabela à
medida que estudar cada um dos itens. 7. Os parágrafos de 9 a 14 referem-se à doença de
3. Os parágrafos 2, 3 e 4 referem-se à amebíase. Chagas. Leia inicialmente o parágrafo 9; certifique-
Leia-os e, neste item, responda apenas à seguinte -se de ter compreendido o porquê do nome dado ao
questão: por que essa doença é também chamada protozoário causador da doença. Com base apenas
de disenteria amebiana? nos dados do parágrafo, pode-se dizer que o Brasil
4. Analise a Figura 3.26, lendo atentamente a legenda. contribui em que porcentagem com as mortes anu-
Em geral é necessário alternar a observação da figu- ais no mundo devido a essa protozoose?
ra com a leitura do texto, integrando-os. Sintetize 8. Leia o décimo parágrafo, que apresenta o inseto
as informações pertinentes e comece a preencher transmissor da doença de Chagas e as principais
a tabela. Note que na legenda da figura aparece o formas de contágio. Complemente a leitura com

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Mosquito ingere hemácias
Gametócito com gametócitos
Diferenciação
ILUSTRAÇÕES: CARLOS
ESTEVÃO SIMONKA

do plasmódio Gametas
nas hemácias

Gametócito
Gameta
Hemácia Ruptura de hemácias
acompanhada de
febre
Fecundação

O zigoto instala-se na ELIMINAR CRIADOUROS


Merozoítos invadem parede estomacal do DE MOSQUITOS
hemácias mosquito

R!
Esporozoítos invadem Meiose
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Esporozoítos invadem a glândula salivar


o fígado humano do mosquito

Parede
USAR INSETICIDAS
O mosquito transmite estomacal
esporozoítos por meio de
sua secreção salivar

PREVENÇÃO DA MALÁRIA

Figura 3.30 Representação esquemática do ciclo do Plasmodium vivax,


agente causador de uma das formas de malária humana (a chamada
febre terçã benigna). Observe, nos quadros, algumas maneiras de PROTEGER CAMAS COM PROTEGER PORTAS E
prevenir a malária. (Imagens sem escala, cores-fantasia.) CORTINADOS JANELAS COM TELAS

a observação da Figura 3.28 e a leitura da legenda. 13. O parágrafo 17 refere-se à forma infestante do pro-
Resuma as informações apresentadas. tozoário que penetra no corpo e origina a malária.
9. Leia o parágrafo 11, que complementa informa- Qual é ela e onde se aloja depois de penetrar no
ções sobre a transmissão do Trypanosoma cruzi e organismo hospedeiro?
apresenta o conceito de “reservatório natural” do 14. Leia o parágrafo 18. Em que forma o plasmódio é li-
parasita. O que isso quer dizer? berado para o sangue da pessoa e onde se aloja?
Capítulo 3 • Algas, protozoários e fungos

10. Leia os parágrafos 12, 13 e 14, que relacionam os 15. Os parágrafos 19 e 20 explicam por que a malária
sintomas, tratamento e transmissão da doença de se caracteriza por apresentar picos de elevação da
Chagas. Analise a Figura 3.28, complementando as temperatura corporal, acompanhada de mal-estar.
informações do texto. Utilize-as para continuar o
Resuma essa explicação em um texto curto.
preenchimento de sua tabela.
11. Os parágrafos de 15 a 23 referem-se à malária. Leia 16. O parágrafo 21 contém informações que permitem
inicialmente o parágrafo 15 e calcule, com base ape- compreender como se completa o ciclo de vida do pa-
nas nos dados do parágrafo, com que porcentagem rasita. Resuma essas informações em um esquema.
o Brasil contribui nas mortes anuais do mundo 17. Os parágrafos 22 e 23 completam o quadro, apre-
devidas à malária. sentando formas de tratamento e de prevenção da
12. Leia o parágrafo 16 e responda: a) quais são as qua- malária. Analise a Figura 3.30, que apresenta o ciclo
tro espécies de protozoário causadoras de malária? de vida do protozoário causador da malária e formas
b) qual delas não ocorre no Brasil? Qual é o gênero do de prevenir a parasitose. Utilize essas informações
inseto transmissor? para concluir o preenchimento de sua tabela.

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Seção 3.3
Fungos

❱❱  Habilidades 1 Características gerais dos fungos


sugeridas
Fungos são organismos eucarióticos, heterotróficos, uni ou multicelula-
CC     Explicar as principais
res, que se nutrem por absorção e têm o glicogênio como principal substância
características dos de reserva. Os fungos vivem no solo, na água ou no corpo de outros seres
fungos quanto à vivos. Seus principais representantes são os fungos filamentosos conhecidos
estrutura, à nutrição, como bolores, os cogumelos, as orelhas-de-pau e as leveduras, estas últimas
à reprodução e aos também chamadas de levedos, ou fermentos.
ambientes em que vivem.
Fungos são organismos fundamentais ao equilíbrio da natureza. As espécies
CC     Reconhecer e explicar sapróbias, juntamente com certas bactérias, desempenham o papel de agentes
a importância ecológica decompositores, decompondo cadáveres e restos de organismos. Com isso,
dos fungos, assim os elementos químicos constituintes da matéria orgânica dos seres mortos
como os benefícios e podem ser reaproveitados por outros seres vivos. Entretanto, essa mesma
prejuízos que causam à atividade decompositora pode ter aspectos negativos para o nosso dia a dia,
espécie humana. já que os fungos causam o apodrecimento de roupas, objetos de couro, cercas,

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


dormentes de madeira das estradas de ferro, alimentos etc. A partir da década
❱❱  Conceitos principais de 1970, os biólogos reconheceram que os fungos são tão diferentes dos outros
• fungo grupos de seres vivos que mereciam ter um reino próprio, Fungi. (Fig. 3.31)
• hifa Atualmente são conhecidas mais de 70 mil espécies de fungos e, a cada
• micélio ano, são descritas entre 1,5 e 2 mil novas espécies. Em algumas estimati-
• corpo de frutificação vas constam mais de 1,5 milhão de espécies de fungos viventes, número
• líquen só superado pelo de espécies de insetos. Acredita-se que o maior ser vivo
• micorriza existente hoje na Terra seja um fungo da espécie Armillaria ostoyae, com
• quitridiomiceto idade estimada em 2.400 anos. Os filamentos desse fungo, popularmente
• zigomiceto conhecido como cogumelo-do-mel, estendem-se por uma área de quase
• ascomiceto 9 milhões de metros quadrados, sob o solo de uma floresta próxima das
• basidiomiceto Strawberry Mountains, no estado norte-americano de Oregon.
• asco Todos os fungos multicelulares são constituídos por filamentos rami-
• ascoma ficados denominados hifas, as quais contêm o material celular do fungo.
• basídio O conjunto de hifas forma o micélio, que constitui o corpo do fungo. As
• basidioma hifas podem ser de dois tipos: cenocíticas e septadas.
Fabio Colombini

Fabio Colombini

R-P/Kino

A B C
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

Figura 3.31 Representantes do reino


David Scharf/Science Photo
Library/Latinstock

D Fungi. A. Orelhas-de-pau, fungos que


vivem em madeira em decomposição
1
( do tamanho natural). B. Bolor verde,
3
fungo filamentoso que ataca diversos tipos
de alimento (na foto, uma laranja).
1
C. Cogumelo, Boletus edulis. ( do tamanho
2
natural). D. Micrografia de células do levedo
Saccharomyces cerevisiae ao microscópio
eletrônico de varredura (colorizada
artificialmente; aumento . 2.4003).
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Hifas cenocíticas (do grego koinos, co- H HNcocH3 cH2oH H HNcocH3
mum, e kitos, célula) são filamentos contínuos, o HH o o H
sem divisões transversais, preenchidos por oH H H oH H Quitina
H oH H H
uma massa citoplasmática com centenas H o HH o
o o

adilson secco
de núcleos. Hifas septadas têm paredes cH2oH H HNcocH3 cH2oH
transversais regulares (septos) que delimitam
H oH cH2oH H oH
compartimentos celulares com um ou dois nú-
o HH o o H
cleos, dependendo do estágio do ciclo sexual oH H H oH H celulose
(veja o item sobre a reprodução dos fungos). H oH H H
H o HH o
Os septos são incompletos, apresentando um o o
orifício central, denominado poro septal, que cH2oH H oH cH2oH
põe em comunicação direta os citoplasmas
Figura 3.32 Quitina e celulose têm estruturas químicas
de células vizinhas. semelhantes; a principal diferença é que a quitina
A parede das hifas é formada basicamente contém o elemento nitrogênio em sua composição
(note os componentes da fórmula destacados em
pelo polissacarídio quitina. Curiosamente, essa roxo). As propriedades desses dois polissacarídios
substância também está presente no reino Ani- também são parecidas: ambos são resistentes,
mal, constituindo o esqueleto dos artrópodes flexíveis e insolúveis em água.
(crustáceos, insetos, aranhas etc.). (Fig. 3.32)
O emaranhado de hifas que constitui o micélio pode crescer indefinidamente, enquanto houver
alimento disponível e condições favoráveis. O crescimento das hifas ocorre apenas nas extremida-
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

des; nas regiões mais antigas, o conteúdo citoplasmático pode até mesmo desaparecer. Durante
o crescimento do fungo, a massa citoplasmática prolonga as hifas, fluindo para as extremidades
dos compartimentos em construção e, eventualmente, abandonando os mais antigos.
Nos processos de reprodução sexuada de muitas espécies de fungo, formam-se hifas especiais
que crescem em agrupamentos compactos, constituindo os corpos de frutificação, dos quais
cogumelos e orelhas-de-pau são os exemplos mais conhecidos. (Fig. 3.33)
Os fungos têm nutrição heterotrófica por absorção e utilizam grande variedade de fontes or-
gânicas como alimento. A maioria das espécies nutre-se de restos de outros organismos, sendo
chamadas de espécies sapróbias. Outras espécies nutrem-se de matéria orgânica viva e são
parasitas de animais e plantas, causando-lhes doenças.
Esporo Cogumelo
A B Septo
ilustrações: cecília iwashita

Germinação Hifas septadas


do esporo dicarióticas
Núcleos

Hifa

Hifas compactadas
Poro septal
no cogumelo

Solo
Hifas septadas
monocarióticas
Núcleos Núcleo
Micélio
(conjunto de hifas)

C
Fabio Colombini

Hifa
cenocítica

Figura 3.33 A. Representação esquemática do desenvolvimento das hifas


a partir de um esporo. B. Representação esquemática de um cogumelo,
mostrando as hifas. (Imagens sem escala, cores-fantasia.) C. Corpos de
1
frutificação do fungo Amanita muscaria. ( do tamanho natural).
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Durante seu crescimento sobre a fonte de alimento, o micélio libera enzimas digestivas, que
agem extracelularmente, degradando as moléculas orgânicas. As hifas absorvem, então, os pro-
dutos da digestão, utilizando-os como fonte de energia e matéria-prima para sua sobrevivência
e crescimento. Esse modo de vida dos fungos é responsável pelo apodrecimento de diversos
materiais, como frutas e verduras. (Fig. 3.34)
Brendan MacNeill/Alamy/
Other Images

Fabio Colombini
Figura 3.34 Fotografias de tomate e
de arroz com bolor. Bolores são fungos
sapróbios que decompõem materiais
orgânicos, sendo responsáveis pela
deterioração de diversos alimentos.

Há espécies de fungo que vivem em associações harmoniosas com outros organismos, trocando
benefícios, como em liquens e micorrizas. Os liquens são formados pela associação cooperativa de
fungos e algas, ou de fungos e cianobactérias. A “crosta” que forma o líquen contém três camadas:
as duas externas são constituídas pelas hifas do fungo unidas e compactadas; a mais interna é
formada pelas células das algas e por hifas do fungo frouxamente entrelaçadas. As hifas estão
intimamente associadas às células das algas, das quais extraem substâncias nutritivas.
Tradicionalmente, os biólogos têm considerado a associação entre fungos e algas no líquen

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


uma troca mútua de benefícios, ou mutualismo. Enquanto a alga produz substâncias utilizadas
na nutrição do fungo, este protege a alga, mantendo-a em um ambiente úmido e favorável. É a
associação com o fungo que permite às algas viverem em ambientes pouco convidativos, como
rochas nuas e troncos de árvores ressecados. Graças a essa capacidade de sobreviver em am-
bientes áridos, os liquens são os pioneiros na colonização de novos ambientes, criando condições
para o estabelecimento posterior de outros seres vivos.
Liquens reproduzem-se assexuadamente por meio de fragmentos especiais que têm hifas do
fungo e células da alga em associação. Esses fragmentos, chamados de sorédios, soltam-se e
são geralmente levados pelo vento para novos locais, constituindo as unidades de disseminação
dos liquens. (Fig. 3.35)
Micorrizas (do grego myketos, fungo, e rhiza, raiz) são associações em que as hifas de certos
fungos se enrolam e às vezes penetram nas raízes das árvores.
Estudos mostraram que as plantas se beneficiam com essa associação, principalmente se o solo
for pobre em minerais de que elas necessitam. O fungo aumenta a capacidade da raiz de absorver
minerais escassos no solo, mas também se beneficia com a associação, obtendo das raízes açúcares,
aminoácidos e outras substâncias orgânicas das quais se nutre. Essa relação de mutualismo ocorre na
maioria das plantas atuais e é muito antiga, já tendo sido observada em raízes de plantas fósseis.
Unidade B • Vírus, bactérias, algas, protozoários e fungos

Figura 3.35 A e B. Dois


Blickwinkel/Alamy/Other Images

ilustrações: levi ciobotarin

A C Sorédios (estruturas tipos de liquens


reprodutivas) (aumento  2).
Células C. Representação
da alga esquemática de um
líquen mostrando sua
estrutura microscópica.
No destaque, detalhe
ampliado da relação entre
as células da alga e as
hifas do fungo no líquen.
(Imagens sem escala,
cores-fantasia.)
Andrew Tiley/Alamy/Other Images

B
Hifas do fungo

Hifas do fungo Células


da alga

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2 Principais grupos de fungos
Adotamos neste livro a classificação que agrupa os fungos em quatro filos: Chytridiomycota,
Zygomycota, Ascomycota e Basidiomycota. Classificações mais antigas consideravam um quinto
filo de fungos (filo Deuteromycota), originalmente idealizado para abrigar os fungos sem processos
sexuais conhecidos. Recentemente, porém, comparações de sequências de DNA e de detalhes
da estrutura interna das células têm permitido deslocar espécies originalmente classificadas
como deuteromicetos para os filos dos ascomicetos e dos basidiomicetos, apesar de elas não
apresentarem reprodução sexuada. (Fig. 3.36)
Photoresearchers/Latinstock

Arco Images GmbH/Alamy/Other Images


A B
Roger Phillips/Alamy/Other Images