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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.

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A
INTERIORIZAÇÃO
DA ASSISTÊNCIA
UM ESTUDO SOBRE A EXPANSÃO E A DIVERSIFICAÇÃO
DA ASSISTÊNCIA À SAÚDE NO BRASIL (1850-1945)

ORGANIZAÇÃO
LUIZ OTÁVIO FERREIRA
GISELE SANGLARD
RENILDA BARRETO

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Todos os direitos reservados à Fino Traço Editora Ltda.

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meio sem a autorização da editora.
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e autores e não expressam necessariamente a posição da editora.

CIP-Brasil. Catalogação na Publicação | Sindicato Nacional dos Editores de Livros, rj


A interiorização da assistência: um estudo sobre a expansão e a diversificação da
assistência à saúde no Brasil (1850-1945)/organização Luiz Otávio Ferreira, Gisele
Sanglard, Renilda Barreto. - 1. ed. - Belo Horizonte [MG] : Fino, 2019.

366p. ; 23 cm.
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-8054-426-8

1. Assistência médica - Brasil - História. 2. Casas de misericórdia - Brasil -


História. 3. Saúde pública - Brasil. 4. Bem-estar social - História. I. Ferreira, Luiz Otávio.
II. Sanglard, Gisele. III. Barreto, Renilda.

19-6003 CDD: 362.10981 CDU: 614.21(81)”1850/1945”

conselho editorial Coleção História


Alexandre Mansur Barata | UFJF
Andréa Lisly Gonçalves | UFOP
Gabriela Pellegrino | USP
Iris Kantor | USP
Junia Ferreira Furtado | UFMG
Marcelo Badaró Mattos | UFF
Paulo Miceli | UniCamp
Rosângela Patriota Ramos | UFU

Fino Traço Editora ltda.


Rua Dom Braz Baltazar 209 | Cachoeirinha | CEP 30150-100
Belo Horizonte. MG. Brasil | Telefone: (31) 3212-9444
finotracoeditora.com.br

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Sumário

Apresentação..........................................................................
CAP 1: De Portugal à América: formas institucionais de auxílio aos expostos,
sécs. XVI-XVIII..........................................................................................

Renato Franco (UFF)

CAP 2: Assistência, poder e sociabilidades na Paraíba do Sul dos Campos


dos Goytacazes: A Santa Casa e o Asilo da Lapa (1786-1874) ...................

Claudia Cristina Azeredo Atallah (UFF- Campos) e Mariana Salvador da Silva


(Fiocruz)

CAP 3: Médicos no interior fluminense na segunda metade do


Oitocentos..................................................................................................

Tania Pimenta (Fiocruz) e Ticiana Santa Rita

CAP 4: A nova pobreza na virada do século XIX para o século XX


(Valença, RJ, 1883-1893).............................................................................

Gisele Sanglard (Fiocruz)

CAP 5: Saúde na Terra da Laranja: rede de assistência médica em Nova


Iguaçu 1920/1940........................................................................................

Lucia Silva (UFRRJ)

CAP 6: Assistência à saúde e sanitarismo no estado do Rio de Janeiro


(1937-1945).................................................................................................

Luiz Otávio Ferreira (Fiocruz)

CAP 7: Doenças e estratégias da pobreza no interior do Rio Grande do Sul


na Primeira República...............................................................................

Daiane Silveira Rossi (Fiocruz)

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CAP 8: Assistência à saúde no interior da Bahia oitocentista: A Irmandade
da Santa Misericórdia de Nazaré...............................................................

Renilda Barreto (CEFET-RJ) e João Batista Cerqueira (UEFS)


CAP 9: Interiorização da Assistência na Bahia: a Santa Casa de Misericórdia
de Amargosa..............................................................................................

Christiane Cruz (IFBA)


CAP 10: A interiorização da saúde em Minas a partir de um panorama da
assistência hospitalar no território provincial no correr do século XIX......

Anny Jackeline Torres (UFOP) e Rita de Cássia Marques (UFMG)


CAP 11: “Itinerários abençoados”: mulheres católicas e a assistência na
cidade de Belo Horizonte (1927-1934)........................................................

Polyana Valente (UEMG)


CAP 12: O Estado e as Misericórdias: os subsídios financeiros às Santas
Casas do Estado de São Paulo....................................................................

Márcia Regina Barros da Silva (USP)


CAP 13: A rede de assistência à saúde no estado de São Paulo: processos
e dinâmicas de sua interiorização. Uma análise em perspectiva histórica
(1889-1930).................................................................................................

Maria Gabriela Marinho (UFABC), Cristina de Campos (Unicamp), Soraya


Lódola (Unicamp) e Robson Alexandre Simões (Unicamp)

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Apresentação

O livro que ora apresentamos é um dos resultados do projeto “A


interiorização da assistência: um estudo sobre a expansão e a diversificação da
assistência à saúde no Brasil (1850-1945)” que contou com financiamento do
PROEP/COC/CNPq. O projeto teve como objetivo estudar a interiorização
da assistência à saúde em cidades das Províncias/Estados de São Paulo,
Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia no período que se estende da fase de
consolidação do Estado Imperial (1840-1850) até o esgotamento do regime
republicano denominado de Estado Novo (1937-1945). A interiorização foi
entendida como o processo de institucionalização de formas de organização
da assistência – nomeadamente: caridade, filantropia, auxílio mútuo e políticas
sociais – em municípios ou microrregiões localizadas geograficamente
afastadas (interioranos) ou nas periferias (suburbanos) das capitais. Trata-se
de um estudo sobre o longo processo de constituição da assistência médica
em nível local, mas em conexão com dinâmica nacional e global. A questão
básica que orientou a pesquisa foi a seguinte: como modelos “universais”
de organização da assistência foram aplicados para estabelecer serviços
de saúde em cidades brasileiras, levando-se em conta as peculiares sócio-
econômicas e culturais?
A questão macro se desdobrou em outras: qual o perfil e o número dos
profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, farmacêuticos e dentistas)
ativos nas cidades interioranas ou suburbanas? Qual a correlação entre a
interiorização da assistência e a o deslocamento de profissionais de saúde, em
direção de oportunidades de trabalho fora das capitais? Quanto do modelo
de assistência colonial - pautado nas irmandades leigas - foi preservado e em
que medida houve ruptura e reinvenção? Qual a relação entre o crescimento
das cidades e a criação/recriação de equipamentos hospitalares? O que
significou a experiência escravista na organização da assistência?

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A partir destas orientações as equipes começaram a selecionar os objetos
de análise. Assim, o interior das províncias/estados do Rio de Janeiro, São
Paulo, Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Sul foram escrutinados em
busca de novas fontes ou de novos olhares sobre velhas fontes, que pudessem
responder às questões propostas. As dificuldades foram enormes, pois muitas
vezes dependemos de documentações privadas – como o caso das atas das
inúmeras Santas Casas da Misericórdia, espelhadas por todo o país. Mas
as recompensas vieram em larga medida, e são partilhadas nos artigos que
compõe esta coletânea.
A expansão da pós-graduação teve papel decisivo nos resultados, uma
vez que os alunos ao mergulharam nas experiências locais, proporcionaram
o repensar das práticas locais e dos sistemas gerais, sobretudo as análises
que têm por base as cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Rio
Grande do Sul. Cada vez mais se torna visível que o modelo dos grandes
centros urbanos não representa uma síntese da assistência brasileira. Um
bom exemplo pode ser percebido nos trabalhos sobre assistência à saúde
no vale do Paraíba fluminense a partir dos estudos de Keith Barbosa (2104)
e Anne Proença (2016). Ambas se dedicaram ao estudo de Cantagalo e
Nova Friburgo e demonstram como a assistência à saúde se desenvolveu
nas fazendas daquela região. Keith Barbosa estudou a assistência prestada
pelo barão de Nova Friburgo e Anne Proença dedicou-se a relação que
se estabeleceu entre o barão de Nova Friburgo e o médico italiano Carlos
Éboli. A partir da memória apresentada por Éboli à Academia Imperial
de Medicina, Proença acabou por alargar o estudo de Barbosa: o que fora
visto nas fazendas do barão de Nova Friburgo foi bem semelhante ao caribe
escravista (Sheridan: 1985; Savitti: 1978). Estamos a falar da manutenção de
enfermarias ou hospitais pelos fazendeiros do vale do Paraíba fluminense
como prática de assistência à saúde, bem mais usual do que se conhecia.
Os equipamentos de saúde foram uma estratégia para preservação da mão
de obra no contexto do fim do tráfico transatlântico, como também lócus
de atração de médicos, algum dos quais estrangeiros.
Os municípios da região expandiram com o café e viram sua população
se modificar com o processo de abolição da escravatura e a chegada de

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trabalhadores livres – imigrantes estrangeiros; migração de mão de obra
escrava interna; negros livres e forros; e homens livres e pobres. É o processo
de transformação urbana destas localidades que justifica a abertura de
instituições de caridade – com maior ou menor alcance; bem como possibilita
vermos a presença de médicos e boticários não só nas freguesias urbanas,
como também nos núcleos urbanos das freguesias rurais.
Este processo pode ser percebido na dissertação de Rogério Oliveira
(2015) que analisa as ações do barão de Bertioga em Juiz de Fora (MG) e
as tentativas de criação de uma casa de caridade na cidade. O que o autor
demonstra é que nos anos iniciais o hospital tem pouca expressão. A Santa
Casa da Misericórdia só irá se firmar e expandir em fins do século XIX,
conforme demonstra Maciel Fonseca (2018). As duas pesquisas acabam por
se complementarem e evidenciam que a ascensão da urbe foi condição sine
qua non para o fortalecimento do hospital urbano.
É inegável que a dinâmica urbana está pari passu com a fundação/
ampliação de serviços hospitalares. Os trabalhos publicados nesta coletânea
apontam a simultaneidade entre a criação dos municípios e a abertura
de instituições de assistência, vis-à-vis com o crescimento econômico e a
complexificação das relações sociais – independente do momento histórico.
Outro dado importante que os estudos apontaram é a questão do
financiamento público. Todas as instituições, sobretudo as menores,
sobreviveram graças as dotações orçamentárias das províncias: com
patrimônio restrito, tinham nas loterias provinciais sua principal fonte de
renda – a fragilidade econômica delas já havia sido percebida por Renato
Franco (2011 e 2014) e Claudia Tomaschescky (2014) já havia demonstrado
a forte dependência destas instituições em relação ao estado – característica
se agudiza com a passagem do século XIX para o século XX, mesmo que a
situação financeira da irmandade que mantém o hospital tenha melhorado
com a passagem dos anos, mas a dependência dos cofres públicos parece ser
uma constante o caso da província do Rio de Janeiro já foi objeto de análise
de Tânia Salgado Pimenta em artigo anterior (2017).
A lei dos Municípios de 1828 determinou no artigo 69, que caberia
às câmaras municipais a criação e manutenção de casas de caridade, com

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o objetivo de: criar os expostos, curar os necessitados, vacinar crianças
e adultos. Tais ações seriam executadas por um médico ou cirurgião de
partido. O artigo 76, ao tratar das rendas das câmaras, determinou que
não “podendo prover a todos os objetos de suas atribuições, preferirão
aqueles, que forem mais urgentes” e entre os mais urgentes, os senadores
ordenaram a criação e educação dos expostos, dos órfãos mais pobres e dos
desamparados, enfatizando a prioridade desses serviços em cidades e vilas
que não contassem com uma casa de misericórdia Tal legislação abriu a
possibilidade de transferir para às instituições de caridade a obrigação de
criação dos expostos, órfãos pobres e desamparados, bem como da assistência
em geral.
Criar casas de caridade era interessante para as lideranças políticas, uma
vez que permitia acessar verbas provinciais e desonerava, assim, os cofres
das câmaras. Repartiam o financiamento destas instituições com as elites
locais e os cofres provinciais. Vale lembrar as lideranças faziam parte da elite
e ocupavam vários espaços de poder: as câmaras, as assembleias provinciais
e as irmandades, em particular a da Santa Casa da Misericórdia. –. Quando
não estavam concomitantemente nesses locais de poder, tinham parentes
ou representantes que garantiam que seus interesses fossem defendidos,
quando não atendidos.
Por fim, a assistência volta-se ao pobre e o público atendido fala muito
do local, das condições sociais e econômicas do município, e do tempo
que está sendo analisado. Por mais longevas que sejam as instituições de
assistência, o público a quem se destina a assistência muda com o passar
do tempo, bem como as próprias instituições. O século XIX é marco pelo
advento da questão social, ou os males do pauperismo urbano, que no Brasil
só se faz sentir na segunda metade do século, com o processo de abolição
da escravidão.
A preocupação com o futuro dos órfãos e enjeitados faz com que as
instituições de caridade passem a manter cursos para formação de mão de
obra mecânica. Para as mulheres: engomar, passar, lavar, cozinhar, arrumar
e ensinar (professoras, para as mais prendadas); para os homens: sapateiro,
gráfico, alfaiate, além dos tradicionais Arsenais do Império. Era preciso

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treinar a mão de obra. As tradicionais instituições de assistência à infância
vão passar, gradativamente, por esta transformação; e as que foram criadas
a partir de meados do século XIX, já tinham esse perfil.
O público atendido por estas instituições vai se modificando aos poucos,
mas sobretudo vai crescendo gradativamente. A transformação social de fins
do século XIX trará impacto forte na população do hospital, assim como
a pobreza urbana exigirá das autoridades públicas e da filantropia maior
alcance de suas ações. Os pequenos e acanhados hospitais vão dobrar sua
capacidade em poucas décadas; e outras instituições vão surgindo nas cidades.
Os artigos que compõem essa coletânea representam o início de uma
virada historiográfica na compreensão da organização da assistência no
Brasil por dois motivos: a quebra do paradigma, onde a periferia - seja a
colônia ou o interior do Brasil - orbita em torno da metrópole ou dos centros
urbanos e o reconhecimento da questão racial. Até então, a assistência à
saúde foi compreendida a partir do paradigma metropolitano (português)
onde as elites – em associação com o estado - organizaram redes de apoio e
solidariedade aos confrades, bem como pobres merecedores. Não negamos
a potência dessa chave interpretativa porque ela responde aos formatos
estudados, em particular quando se trata da fundação das Santas Casas da
Misericórdia. Entretanto, o que há de novo no horizonte historiográfico é a
vertente racial, matizada pela experiência escravista e uma melhor compressão
de quem era o pobre brasileiro. Em um território atravessado pela escravidão
de indígenas e africanos, por cerca de três séculos, o grupo que esteve nas
franjas do tecido social, com maior vulnerabilidade foi aquele constituído por
homens e mulheres, livres e libertas/os. Se durante o cativeiro os fazendeiros
se encarregavam da assistência dos escravizados, após a conquista da liberdade
jurídica a realidade se mostrava brutal, principalmente no momento do
adoecimento.
Estes temas podem ser encontrados ao longo dos capítulos aqui
apresentados. A importância da transformação urbana – tanto do ponto
de vista econômico, quanto social – para que seja possível a criação de um
hospital aparece nos artigos Christiane Souza, Gisele Sanglard, Daiane Rossi,
Lucia Silva, Anny Tores & Rita Marques.

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A perspectiva de encarar a experiência escravista e suas expressões de
liberdade como elemento estruturante da assistência em principio do século
XIX é uma das contribuições do capítulo de Renilda Barreto & João Batista
Cerqueira. Esse estudo também aponta para a dinâmica social local, matizada
pela questão racial e pelas estratégias de pacificação social.
O aumento populacional das cidades e a complexificação da vida urbana,
do interior não impactaram, necessariamente, na maior presença de médicos,
como demonstram Tania Pimenta & Ticiana Santa Rita. Mas o processo de
abolição impactou diretamente no público do hospital, com o aumento da
internação de idosos, muitos dos quais tinham como doença a velhice – como
Gisele Sanglard ressalta em seu capítulo ao analisar o público do hospital
da Misericórdia de Valença, no coração do Vale do Paraíba fluminense.
O hospital da virada do século XIX para o século XX é o do trabalhador
pobre – jovem e idoso, aquele que necessita ir ao hospital quando doente.
Em uma cidade mais jovem, como Santa Maria na região central do Rio
Grande do Sul, a presença do homem em idade laborativa irá predominar
nas enfermarias do Hospital de Caridade local, como o estudo de Daiane
Rossi aponta.
Esta coletânea fala, assim, da modificação da assistência, premida pelas
transformações do mundo do trabalho, das dinâmicas sociais atravessadas
pela questão do trabalho escravo e do trabalho livre. A percepção do pobre
também segue este processo, sobretudo em uma assistência discricionária
como aquela ofertada pelas Misericórdias. Nesse processo, não só a indicação
do público a ser atendido era importante, como também a utilidade do
serviço ofertado – permitir que o indivíduo tivesse condições de retornar ao
trabalho e de garantir o próprio sustento, era uma escolha dos filantropos. A
preocupação com o destino das crianças enjeitadas e órfãos que estavam sob
cuidado das Câmaras e das Casas de Caridade também fez parte do repertório
de preocupações destes homens, junto com as disputas de responsabilidade
entre Estado, Câmaras e Misericórdias no que tange ao financiamento da
criação dos expostos – como Renato Franco chama atenção em um dos
capítulos.

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O cuidado com as órfãs ganha contornos especiais na análise de Claudia
Attalah e Mariana Salvador da Silva. As autoras se dedicam ao estudo da
criação de um asilo para meninas – o Asilo N. Sra. da Lapa – em Campos dos
Goytacazes e chamam atenção para as estratégias nupciais que a Irmandade
da Misericórdia construiu para sete de suas asiladas: o casamento com irmãos
da Misericórdia. Este tipo de relação de compadrio já havia sido percebida
na criação da Misericórdia em fins do século XVIII.
A presença de novos atores na prestação da assistência também é
abordada neste livro: estados e municípios – e a presença da saúde pública
não mais restrita a ações pontuais; bem como a presença da Igreja Católica
e organismos internacionais vão marcar a assistência no século XX. Assim,
a militância feminina católica, em conjunto com a Sociedade de São Vicente
de Paulo, vai transformando a prática filantrópica e ampliando suas ações e
seu público, como demonstrado por Polyana Valente.
A presença de iniciativas privadas, como a Fundação Rockefeller -
em interlocução com o estado e os municípios paulistas - dará a tônica
da assistência neste estado, e se organiza o binômio interiorização-
internacionalização, marcado pela cooperação e também por disputas, como
ressaltam Maria Gabriela Marinho, Cristina de Campos, Soraya Lódola &
Robson Alexandre Simões.
Os serviços de saúde pública passaram a direcionar a ação pública
para determinadas doenças e tiveram o objetivo de prevenir e/ou curá-
las. Os pobres são vistos como vítimas de doenças preveníeis ou curáveis
– o que mostra outra forma de pensar essa categoria. Esse é o mote do
sanitarismo da Primeira República, onde doença e pobreza estarão ainda
mais vinculadas; a doença será percebida como um obstáculo para formação
da classe trabalhadora na Era Vargas.
A questão da política local e/ou regional impacta na oferta da assistência
e em seu financiamento. De forma positiva, como no financiamento às
instituições de caridade no estado de São Paulo, que vivenciou uma expansão
enorme das casas de caridade no período republicano, como Márcia Regina
Barros da Silva ressalta em seu capítulo, ou de forma negativa, como Luiz
Otávio Ferreira demonstra na experiência do Rio de Janeiro.

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A crise da “velha província” impediu que os poderes públicos
modernizassem e/ou expandissem os serviços de assistência. Outro ponto,
evidenciado por ele, é que no governo da Amaral Peixoto (1937-1945) a
implantação de serviços públicos de saúde privilegiou postos de saúde e não
os hospitais. Mas contrariando, em parte, as expectativas dos sanitaristas,
os serviços de saúde pública (no caso os centros de saúde) tinham função
preventiva e curativa. Eram dispensários com múltiplas funções entre as
quais também se incluía o estabelecimento de alianças políticas entre o
interventor e as elites locais.
Como se verá ao longo da coletânea, as injunções que levam a criação
de instituições de assistência no interior dos estados são múltiplas e dizem
respeito a questões locais, mas que olhadas em conjunto permitem ao
pesquisador questionar e repensar as práticas sociais e o papel dos diversos
atores envolvidos com a prestação e financiamento de instituições de caridade.
A organização e a expansão da assistência a partir de 1822 se desenharam
como opções nacionais, ainda que se reconheça a releitura do modelo de
assistência colonial. Quiçá essa coletânea apresente pistas sobre a reinvenção
da assistência à saúde mediada pelas fronteiras étnica, racial e de gênero;
pelas demandas dos pobres, dos remediados e dos ricos, radicados nas
pequenas vilas e cidades do Brasil Imperial e Republicano.
Esperamos que este livro abra novas investigações sobre o tema.
A todos uma boa leitura!

O/as organizador/as

Referências:
BARBOSA, Keith Valéria de Oliveira. Escravidão, saúde e doenças nas
plantations cafeeiras do Vale do Paraíba Fluminense, Cantagalo (1815-1888).
Tese (Doutorado em História das Ciências e da Saúde) – Casa de Oswaldo
Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro, 2014. 269 f.

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FONSECA, Maciel. Filantropia e assistência à saúde em Juiz de Fora:
as Irmandades dos Passos e da Santa Casa de Misericórdia (1897-1927).
Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História.
Universidade Federal do Juiz de Fora; 2018.
FRANCO, Renato. Pobreza e caridade leiga: as Santas Casas de Misericórdia
na América portuguesa. Tese de doutorado em História. Universidade de
São Paulo; 2011.
FRANCO, Renato. “O modelo luso de assistência e a dinâmica das Santas
Casas de Misericórdia na América portuguesa”. Estudos Históricos, v. 27,
n. 53, jan-jun 2014, p. 5-25.
OLIVEIRA, Rogério Siqueira de. Assistência à saúde dos escravos em juiz
de fora (1850-1888). Dissertação (Mestrado em Relações Étnico-Raciais) -
Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca. 2016
PIMENTA, Tania Salgado. “Assistência à saúde no interior do Rio de
Janeiro do Oitocentos” IN: KONDÖRFER, Ana Paula et al (orgs). História
da assistência à saúde e à pobreza – olhares sobre suas instituições e seus
atores. São Leopoldo: Ed. Oikos; 2017.
PROENÇA, Anne Thereza de Almeida. Vida de médico no interior
fluminense: a trajetória de Carlos Eboli em Cantagalo e Nova Friburgo
(1860-1880). Dissertação (Mestrado em História das Ciências e da Saúde)
– Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro, 2017. 141 f.
SAVITT, Todd L. Medicine and Slavery: The Diseases and Health Care of
Blacks in Antebellum Virginia. Illinois: University of Illinois Press, 1978.
SHERIDAN, Richard B. Doctors and Slaves: A medical and demographic
history of slavery in the British West Indies, 1680-1834. Cambridge: Cambridge
University Press 1985.
TOMASCHEWSKI, Cláudia. Entre o Estado, o Mercado e a Dádiva:
A distribuição da assistência a partir das irmandades da Santa Casa de
Misericórdia nas cidades de Pelotas e Porto Alegre, Brasil, c. 1847 – c. 1891.
Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em História da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul; 2014.

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De Portugal à América: formas institucionais de
auxílio aos expostos, sécs. XVI-XVIII

Renato Franco1

A obrigação legal de cuidar dos expostos


Em fevereiro de 1498, as Cortes de Lisboa fizeram referência ao
costumeiro hábito de mulheres abandonarem os filhos nas portas de igrejas,
onde muitos recém-nascidos acabavam morrendo porque ninguém se
dispunha a recolhê-los. Acontecia também de haver crianças abandonadas,
apanhadas por voluntários que passado algum tempo eram reivindicadas
pelas famílias biológicas, dando origem a desentendimentos2. A decisão das
Cortes de multar quem quisesse retomar os filhos estabeleceu um fato novo
nas formas de absorver os expostos, tornando o abandono mais consequente
– o arrependimento da família biológica tinha agora valor pecuniário –,
favorecendo os criadores e punindo os pais naturais que se desonerassem,
mesmo que temporariamente, da responsabilidade de criar os filhos. O que

1. Professor do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense; pesquisador do


PPGH/UFF. E-mail: renfranco@gmail.com
2. Os valores deveriam ser estipulados pelos juízes de órfãos. Ver: PMM, 3, 2004: 212.

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se decidiu em 1498 poderia também amparar o abandono definitivo, pois
colocava empecilhos ao livre exercício do pátrio poder3.
A defesa dos criadores nascia de um problema específico, de natureza
jurídica, a fim de resolver o impasse de quem seriam os responsáveis por
menores de 25 anos, sem pais declarados, nem tutores, nem heranças. As
Ordenações Afonsinas (1446-1448) não faziam referência aos expostos,
mas a condição de desamparo os aproximava a órfãos sem familiares. Até o
início do século XVI, o cuidado dos que estavam desamparados da proteção
familiar ficava a cargo dos chamados tutores dativos4, ou seja, era resolvido
por meio de laços vicinais e intermediado pelo juiz de órfãos, encarregado
de redistribuir as crianças no interior das comunidades (Ver: Sá & Paiva
In: PMM, 3, 2004: 7-21).
Em 1502, o rei d. Manuel, na tentativa de aumentar o número de
“amos”, assegurou aos criadores de expostos do Hospital de Todos os Santos,
nos três primeiros anos ou no tempo que durasse a criação, os mesmos
privilégios dos homens bons das câmaras, estabelecendo, além de um
pagamento regular, a isenção de tributos (peitas, fintas, talhas) e empréstimos
compulsórios eventualmente exigidos pelas municipalidades5. As decisões

3. As implicações legais do abandono foram tema controverso entre os juristas romanos. O


ponto de virada teria sido dado por Constantino que, pela primeira vez, em 331, estabeleceu
a perda do pátrio poder (patria potestas) por parte dos progenitores que abandonassem
seus filhos, bem como dos senhores que abandonassem seus escravos. A sobrevivência desse
princípio é clara nas Siete Partidas (Vol. 4, Tit. 20, Lei 4): “El padre o madre del expósito no
tiene derecho en él, pues por el hecho de desampararlo, pierden la potestad, salvo si otro
lo echare sin su mandado ni saberlo, pues en tal caso se lo deben volver dando el padre
o madre las despensas de su crianza al que lo alimentó, al menos que este lo hiciese por
Dios. El dueño pierde el señorío que tenía en el esclavo que expuso: y lo mismo si fuese
manumitido”. Para o caso romano, ver: Boswell, 1988: 54-75. Para legislação espanhola, ver:
Xavier Perez y Lopez, 1796: 400-405.
4. A legislação previa três diferentes tipos de tutores: testamenteiro, estabelecido por
meio de testamento; lidimo, quando não foi referido em testamento, mas a lei o impele
em virtude do parentesco; dativo, quando não há testamento, nem parente que queira ou
possa ser obrigado à criação. Neste caso, cabia ao juiz de órfãos constranger um homem da
localidade: “ E não achando a justiça em o dito lugar seu parente tal, deve constranger um
homem bom do lugar, ainda que seja estranho ao dito órfão, o qual seja abonado e discreto
e digno de fé, idôneo e pertencente para ser tutor, e curador do dito órfão”. Ordenações
Afonsinas, Livro IV, Títulos 82-87.
5. “... que não paguem nenhumas peitas, fintas, talhas, pedidos, serviços, empréstimos que
pelo concelho onde for morador sejam lançados per qualquer guisa e maneira que seja, nem
vá com presos, nem com dinheiros, nem seja tutor, nem curador de nenhumas pessoas que

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de 1498 e 1502 prepararam o caminho para a virada observada a partir das
Ordenações Manuelinas (1512-1514), quando o financiamento dos criadores
de abandonados ganhou foros de legalidade.
No texto das Ordenações eram redefinidas as atribuições do juiz de
órfãos e estabelecidas formas institucionais de apoio aos expostos a serem
acionadas caso falhassem todas as tentativas de absorção intrafamiliar. Na
letra da lei, o problema era justificado a partir de uma questão exclusivamente
moral, apresentando a associação clara entre ilegitimidade, orfandade e
enjeitamento. Era o resultado de pais que não estavam dispostos – “não o
querendo fazer” – a tornarem públicos filhos de nascimentos ilegítimos,
espúrios ou sacrílegos. Para que as crianças não morressem “por míngua de
criação”, estabeleceu-se uma gradação de responsabilidades que era composta
por: 1) pais; 2) mães; 3) parentes; 4) hospitais; 5) albergarias; 6) câmaras
(Ordenações Manuelinas, Livro I, Título 67, Parágrafo 10).
A obrigação jurídica de cuidar dos abandonados inaugurou em Portugal
uma nova fase em relação às formas de auxílio típicas da Baixa Idade Média,
porque secundarizou soluções pessoalizadas para atribuir ao governo civil,
em última instância, o dever de custear os que cuidassem dos expostos até
os sete anos de idade. A institucionalização de serviços aos criadores de
expostos era um movimento cada vez mais vulgar no cenário europeu, onde,
ao longo do século XIV, foram sendo fundadas instituições exclusivas para
acolher crianças abandonadas (Boswell, 1988: 415), mas cuja sobrevivência
financeira era um assunto sobretudo de irmandades religiosas, ainda que
as municipalidades pudessem oferecer contribuições esporádicas e isenções
de tributos6.

sejam, salvo se as tutorias forem lidimas, nem sirva em nenhuns outros encarregos, nem
servidões do dito concelho nem seja oficial dele contra sua vontade, nem pousem com ele
em suas casas de morada, adegas, nem cavalariças, nem lhe tomem seu pão, vinho, roupa,
palha, cevada, lenha, galinhas, nem bestas de sela, nem d’albarda nem outra alguma cousa
de seu contra sua vontade e queremos e nos praz que pelo trabalho deste privilégio assi-
nado per Estevão Martinez, mestre escola da Sé desta cidade e provedor do dito hospital
seja guardado e escudado qualquer amo que o dito enjeitado ou enjeitada do dito Hospital
criar de todas as cousas aqui declaradas durando o tempo dos ditos três anos em que o dito
enjeitado pode ser criado e mais não porque passados não haverá lugar nem lhe será mais
guardado o dito privilégio”. Ver: PMM, 3, 2004: 258-259.
6. Para uma síntese recente sobre o caso europeu, ver: Roman, 2018. Ver ainda: Bardet,
1991; Sá, 1995.

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Tão logo o texto das Ordenações entrara em vigor era possível constatar
a atuação de hospitais como os principais responsáveis pelo cuidado dos
expostos. Na letra da lei, o financiamento camarário deveria ser praticado
apenas quando se esgotassem todas as outras possibilidades de custeio7. Em
paralelo, uma nova dinâmica vinha se sedimentando, porque embora a rede
de misericórdias que começara a se estabelecer a partir do século XVI não
tivesse nos expostos um alvo imediato de caridade, a incorporação de antigas
instituições por parte das santas casas as obrigara, muitas vezes, a lidar com
a criação dos abandonados (Ver: Sá & Paiva In: PMM, 3, 2004: 7-21). Em
certos casos, assumiram o cuidado de um número reduzido de crianças, com
base nas dotações incorporadas, mas não previam o atendimento universal
como uma atribuição exclusiva.
Em meados do século XVI, era comum encontrar irmandades que
arcassem com custos de expostos: em 1561, a Câmara de Braga notificou
a misericórdia para que criasse um enjeitado, “por assim ser costume que
os enjeitados que se puserem no dito Hospital de São Marcos e Gafaria, os
mande criar” ( PMM, 4, 2005: 244-245. Ver ainda: PMM, 4, 2005: 466-467).
Quando, em 1567, o provedor da comarca da cidade de Beja orientou que
os custos dos expostos da vila de Serpa recaíssem sobre a câmara, tanto
a misericórdia quanto os vereadores reagiram e os irmãos solicitaram a
permissão para continuarem a “criar os ditos enjeitados das rendas do dito
Hospital como até aqui se fizera” (PMM, 4, 2005: 220). No mesmo ano, a
partir da anexação da gafaria de São Lázaro pela Misericórdia de Évora, o
rei mandava que o remanescente das rendas da gafaria fosse destinado à
criação dos enjeitados, porque a câmara vinha passando por dificuldades de
financiar os expostos, e garantiu, no ano seguinte, que caso faltassem verbas
em determinados anos, ficaria encarregado de dar esmolas eventuais para
suprir o desfalque dos orçamentos. (PMM, 4, 2005: 221-222)

7. Em 1520, a Misericórdia de Arzila, no norte da África, solicitou uma esmola ao rei para
salvar doentes, crianças órfãs e viúvas. PMM, 3, 2004: 477. Pouco tempo depois, em virtu-
de do grande número de expostos da cidade do Porto, a câmara demandou alguma verba
para a misericórdia porque “os ditos enjeitados se haviam de criar com essas rendas dos
hospitais”; a irmandade ficou incumbida de contribuir anualmente com até 10 mil reais e,
caso os custos fossem maiores, a câmara se encarregaria do restante. PMM, 4, 2005: 161.

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Apesar da anuência de certas irmandades em se responsabilizarem
pelos abandonados, não tardaram notícias de misericórdias insatisfeitas com
o imperativo que ia se sedimentando em diferentes espaços. Foi contra a
naturalização do dever de cuidar dos expostos que a Misericórdia de Coruche,
nas cercanias de Lisboa, reivindicou a autonomia para gerir seu patrimônio,
criando enjeitados ocasionalmente quando em algum testamento fosse
ordenado tais legados. Em 1573, o ouvidor do mestrado da Ordem de Avis
reconheceu que a misericórdia não estava obrigada a criar enjeitados que, por
sua vez, deveriam ser financiados pelo concelho (PMM, 4, 2005: 467-468).
Em 1574, um conflito de natureza semelhante chegou à Casa de Suplicação
de Lisboa: o juiz de fora da cidade Sintra havia ordenado que um enjeitado
fosse criado pela santa casa, mas, diante da negativa, chegou a embargar parte
das rendas da irmandade. A misericórdia reagiu defendendo sua autonomia
para curar enfermos pobres e desamparados, remediar pessoas honradas e
envergonhadas, sustentar presos pobres, fazer reformas na casa da igreja.
Por outro lado, argumentava o juiz, se a irmandade era uma instituição de
caridade, “nenhuma necessidade havia maior, nem obra de mais misericórdia
que criar e alimentar uma criança que não sabia falar, porque todos os outros
necessitados podiam falar, bradar e pedir” (PMM, 4, 2005: 476-479). Ao fim
do processo, a sentença régia deu ganho de causa à santa casa, que manteve
firme sua capacidade de escolher quem, quando e como iria ajudar.
O dever de cuidar dos expostos enfrentou resistências quando, no interior
das misericórdias, tornavam-se mais claras duas implicações diretas que o
cuidado dos expostos colocava: de um lado, a atribuição vinha se cristalizando
como um direito das comunidades junto aos hospitais, reduzindo a autonomia
das instituições de gerirem seus respectivos patrimônios, e, por outro
lado, era um serviço caro, cujo aumento exponencial poderia, no limite,
inviabilizar qualquer outro tipo de caridade, impondo uma obrigação civil
e universalizante a estabelecimentos discricionários que tinham um escopo
de ações mais diversificado (pobres, doentes, presos, órfãos, viúvas) e uma
abrangência de atendidos consideravelmente mais seletiva.
Em fins do século XVI, a resistência por parte das misericórdias em
assumir integralmente a responsabilidade sobre os enjeitados lentamente ia

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produzindo um consenso de que o financiamento sistemático deveria recair
sobre os concelhos e não sobre os hospitais, naquele momento já quase
exclusivamente controlados pela rede de santas casas de misericórdias8.
Essa recusa em naturalizar a jurisprudência pode ser observada em 1584,
quando um menino foi dado à Misericórdia de Punhete sob o argumento
que as Ordenações obrigavam primeiramente os hospitais, albergarias e
misericórdias. O juiz local afirmou que havia menos de 15 dias a santa casa
vendera uma casa, além de ter “outros rendimentos e provimentos e esmolas
que dava o povo e estrangeiros”. A irmandade lembrava que o financiamento
camarário dos expostos era costume em Abrantes, Golegã e Sardoal, mas
perdeu e foi obrigada a custear a criação de três expostos. A querela terminou
na casa de suplicação, que deu ganho à misericórdia: “não é bem julgado
por vós juiz em condenardes o Hospital que crie os meninos enjeitados,
revogando-vos a sentença, visto como pela Ordenação os vereadores são
obrigados das rendas do concelho ou fazer fintas, quando as rendas não
bastarem” (PMM, 5, 2006: 374-378).
Foram as muitas resistências por parte das misericórdias que seguramente
garantiram a inovação legal prevista nas Ordenações Filipinas (1603) dando
autonomia aos concelhos de lançarem fintas sem necessidade de autorização
régia e, assim, estabelecendo uma alternativa para as municipalidades
angariarem fundos que financiassem os enjeitados9. Embora fosse se tornando
comum as câmaras ficarem responsáveis pelos expostos, o caso de Lisboa,
a partir dos anos 1630, representou um momento definidor para a nova
interpretação das Ordenações.
Havia anos que a Misericórdia de Lisboa vinha tentando fazer cumprir a
interpretação de que caberia à municipalidade o dever de pagar pelo sustento
dos expostos, o que resultou em uma vitória legal com a publicação do alvará

8. Desde sua criação, em 1492, o Hospital Real de Todos os Santos assumira serviços que
ficavam dispersos entre pequenas instituições da capital, como era o caso das dotações para
auxílios de expostos. A anexação do Hospital de Todos os Santos à Misericórdia de Lisboa,
em junho de 1564, indicava uma espécie de coroamento do novo arranjo institucional, gestado
ao longo da primeira metade do século XVI, que dava às Santas Casas o protagonismo do
atendimento hospitalar. Ver: Sá, 1997; Xavier & Paiva In: PMM, 4, 2005: 7-30; Abreu, 2014.
9. Ordenações Filipinas, Livro 1, Título 66, Parágrafo 41. As demais prescrições seguem o
estabelecido desde as Ordenações Manuelinas. Ver: Ordenações Filipinas, Livro 1, Título
88, Parágrafo 11.

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régio de março de 1635: “informando-me nesta parte com o costume que se
usa e pratica nas mais das cidades e vilas deste Reino de se fazer esta despesa
por conta das rendas dos concelhos delas” (PMM, 5, 2006: 217-218; 234-235).
A determinação régia ordenava que, “sem mais réplica nem dilação”, caso a
Câmara de Lisboa não quisesse ficar com a tarefa de gerir as criações, fosse
obrigada a repassar 680.360 réis ao Hospital de Todos os Santos (PMM, 5,
2006: 217-218). Para evitar que a municipalidade descumprisse a determinação
régia, como aliás já vinha fazendo, a misericórdia, em junho de 1634, mandou
fixar nas portas dos conventos, além de avisar pelos púlpitos da cidade
que seu hospital não receberia mais enjeitados, porque a criação agora
pertencia à câmara. A estratégia da irmandade gerou, seis dias mais tarde,
uma indignada carta ao rei, reafirmando o tradicional dever do Hospital
de Todos os Santos, o endividamento camarário e a hierarquia prevista nas
Ordenações, nas quais os hospitais eram os primeiros responsáveis (Oliveira,
IV, 1889: 129-130; 133-134). Pressionada pela negativa da misericórdia em
aceitar enjeitados – cujo resultado imediato era o aparecimento de crianças
mortas pelas ruas da cidade –, a câmara propôs pagar 300 mil réis anualmente
(Oliveira, IV, 1889: 147-149; 179).
A queda de braço entre misericórdia e câmara reservou um último
capítulo diante da negativa da irmandade em aceitar uma segunda oferta
de 500 mil réis anuais e a terceira, no valor de 550 mil réis. Em novembro
de 1636, os vereadores resolveram assumir a administração dos expostos,
solicitando também o espaço onde se recebiam as crianças (Oliveira, IV, 1889:
203-204; 220-222); mas em 1637, o senado deve ter voltado atrás porque foi
celebrado um contrato de 600 mil réis anuais (Oliveira, V, 1889: 98-99). O
impasse sobre a administração dos expostos logo cedeu a uma constatação
comum quando se tratava de expostos: o valor estipulado de 600 mil réis já
não dava conta do número de abandonados que a cidade tinha. Em dezembro
de 1643, um decreto real lembrava à câmara que os custos com os expostos,
àquela altura, haviam duplicado e era preciso escolher um sítio conveniente
e sadio para a instalação da roda do concelho (Oliveira, IV, 1889: 524-525).
Da segunda metade do século XVII em diante, a responsabilidade
financeira das câmaras tornou-se uma interpretação vencedora, dando origem

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a contratos com as misericórdias locais e marcando um momento distinto
na dinâmica institucional do abandono em todo o império. Sobretudo nas
maiores cidades, enquanto as municipalidades financiavam, as irmandades
administravam. De um lado as câmaras se desoneravam de uma tarefa
custosa, as santas casas, interessadas em gerenciar um serviço cada vez
mais legítimo em termos assistenciais, protagonizavam, mais uma vez e de
outro modo, a primazia das formas de auxílio à “pobreza”, atraindo para si
os legados destinados aos abandonados.
O exemplo de Lisboa é emblemático, porque sintetiza muitas das
situações que se tornariam correntes ao longo dos séculos XVIII e XIX: a
despeito das contínuas reclamações sobre o número exponencial de enjeitados,
as contribuições das câmaras se tornariam obrigatórias e quase sempre
insuficientes. Enquanto as misericórdias reclamavam por mais verbas, as
municipalidades mostravam-se incapazes de prover um módico subsídio
de modo a atrair amas. O número de abandonados, até então regulado
pelo caráter esporádico de dotações previstas em testamentos, assumiu em
definitivo uma justificativa universalizante, cujo modelo se estendeu pelo
império.

O financiamento aos expostos na América


Antes de se estabelecer auxílios regulares na América, a Misericórdia de
Lisboa, por exemplo, há muito se debatia com os problemas de financiamento
dos criadores: em 1673, o rei ordenou que fossem destinados 49.760 réis de
propina sobre o contrato dos dízimos da capitania da Bahia para auxiliar
na criação dos enjeitados da sede do império, porque todos os anos muitos
morriam “por falta de cabedais bastantes” (Documentos Históricos, 67, 1945:
163-164). Ausentes na Ásia e na África, os auxílios sistemáticos aos expostos
se tornaram um dever para os habitantes da América na virada do século
XVII e para XVIII; até a última década do século XVII, mesmo nas principais
cidades como eram o caso de Olinda10, Salvador e Rio de Janeiro, tudo indica

10. Ainda no século XVII, há uma referência a uma roda que teria existido em Pernambuco,
que, se houver existido, durou pouco tempo. Ato régio de 8 de julho de 1675 do rei Pedro
III In: Costa, 4, 1984: 91.

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que os índices de abandono fossem baixos e as crianças fossem absorvidas
por laços vicinais (Ver Marcílio, 2006).
Na América portuguesa, os primeiros pagamentos que se tem notícia
datam das últimas décadas do século XVII, no Rio de Janeiro, quando em
junho de 1693 o governador recém-chegado, Antônio Pais de Sande, escreveu
uma carta ao rei espantado com a quantidade de crianças enjeitadas, “mortas
ao desamparo, sem que a misericórdia nem os oficiais da câmara as queiram
recolher” (AHU, Rio de Janeiro, cx. 10, doc. 1880). Instituído o auxílio no
ano seguinte, quatro décadas mais tarde a Câmara do Rio de Janeiro tinha
acumulado uma dívida considerável (Venancio, 2002: 130). Nos anos de
1730, as cartas enviadas ao rei atestavam que o número de crianças seguia
sempre se multiplicando, dando origem a disputas entre a câmara e os
que acolhiam os recém-nascidos. Em um requerimento encabeçado por
duas mulheres referenciadas como “donas” e “outros moradores do Rio de
Janeiro”, reivindicava-se o cumprimento do dever camarário em relação às
famílias acolhedoras. Como um imposto geral – previsto nas Ordenações –
foi recusado, foram solicitadas as sobras do Real Donativo para a quitação
das dívidas11.
No Rio de Janeiro, a questão dos expostos seguiu um direcionamento
distinto quando o negociante português Romão de Mattos Duarte doou,
em 1738, como forma de ingresso na misericórdia local, 32 mil cruzados
para a fundação de uma roda. Àquela altura, mesmo com o atendimento
da câmara, alegava-se que as crianças circulavam sem que ninguém as
recolhessem em definitivo e muitas vezes eram encontradas mortas em praias
e calçadas (AHSCMRJ, Patrimônio Predial dos Expostos, f. 6). A doação de
Romão Duarte representava pouco mais de três vezes o valor que a câmara
despendera com os expostos em 1733; já nos anos 1740, a misericórdia teria

11. AHU, Rio de Janeiro, cx. 27, doc. 6078. Os camaristas questionavam também até qual
idade os expostos, especialmente as expostas, deveriam ser alimentados, porque “nesta
cidade, nem em todo o Brasil se não costumam servir os moradores com criados e criadas
brancas, porque o fazem com escravos”. Anais da BN, 46, 1924: 27; AHU, Rio de Janeiro,
cx. 25, doc. 2695. Dois anos depois, o monarca enviou uma carta régia autorizando o paga-
mento do salário. AHU, Rio de Janeiro, cx. 28, doc. 2956. Sobre a petição do povo do Rio
de Janeiro ver: AHU, Rio de Janeiro, cx 47. doc. 10958.

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problemas, chegando a interromper o acolhimento em virtude dos altos
dividendos com as criações. (Ver Gráfico 1).
O sucesso da roda dos expostos não dependeu apenas do fervor religioso
dos fiéis, mas de um acordo mútuo, em que ambas as instituições tinham
interesses a negociar. No fim da década de 1740, tanto a câmara quanto a
misericórdia encontravam-se inviabilizadas de prestar qualquer serviço
regular, quando o Concelho do Rio fez subir uma carta comunicando uma
nova bancarrota provocada pelo financiamento dos expostos, cujos atrasos
haviam causado uma dívida de 20 mil cruzados. Outra vez recusavam-se
a lançar fintas pela população: “neste povo todo o gênero de contribuição
se lhe faz agro”. A câmara relatava ainda dificuldades em controlar a pouca
caridade dos moradores, que frequentemente escravizavam seus enjeitados
mulatos12.
Naquele momento, o cálculo político parece ter sido claro: a câmara
sugeriu trespassar integralmente a responsabilidade para a misericórdia tal
como era prática em muitas localidades do império português. Enquanto
a câmara se livrava de um trabalho oneroso e difícil de ser controlado, a
misericórdia capitalizava mais uma função social, reiterava a imagem de
instituição de caridade, tornava-se útil para a comunidade. Para tanto, a
municipalidade propôs um pagamento anual de 400 mil réis, o que daria novo
fôlego à recém-criada roda dos expostos. Em 1757, o ouvidor proibiu a Câmara
do Rio de acolher qualquer enjeitado, ficando essa função exclusivamente
sob a tutela da misericórdia, mediante pagamentos regulares do concelho13.
Daquele momento em diante, os expostos e as formas de financiar tantas
criações seriam um assunto prioritariamente da Misericórdia do Rio de
Janeiro.

12. Em uma carta da câmara, escrita em 1749, os vereadores fazem menção ao funciona-
mento intermitente da roda “pondo a dita Santa Casa a roda pública, como já teve, que por
falta de rendimentos se supõem haver os irmãos da Santa Casa faltado a esta caridade tão
precisa nesta Cidade”. AHU, Rio de Janeiro, cx. 42, doc. 4306.
13. Para o caso carioca, ver: Venancio, 1999; Venancio, 2002: 129-159.

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Gráfico 1 - Volume dos enjeitados na casa dos expostos,
1738-1822
350

300
Números absolutos

250

200

150 Meninos
Meninas
100
Total
50

0
1741-1742
1745-1746
1749-1750
1753-1754
1757-1758
1761-1762
1765-1766
1769-1770
1773-1774
1777-1778
1781-1782
1785-1786
1789-1790
1793-1794
1797-1798
1801-1802
1805-1806
1809-1810
1813-1814
1817-1818
1821-1822
1738

Fonte:Exposição
Fonte: Exposiçãodede1908.
1908.Notícias
Notícias dos
dos diversos estabelecimentosmantidos
diversos estabelecimentos mantidospelapela Santa
Santa
Casa dedeMisericórdia
Casa Misericórdiada
da cidade
cidade de São Sebastião
de São Sebastiãodo
doRio
RiodedeJaneiro,
Janeiro,organizadas
organizadas pelo
pelo
provedor dr.dr.
provedor Miguel Joaquim
Miguel Ribeiro
Joaquim de Carvalho.
Ribeiro Rio de
de Carvalho. RioJaneiro: Typographia
de Janeiro: do Jornal
Typographia do
do Commercio, 1908. p. 125-128.
Jornal do Commercio, 1908. p. 125-128.

Como pode se observar no Gráfico 1, os índices da década de 1740


pareceriam tímidos se comparados com a ascensão dos percentuais na
segunda metade do século. Tanto no Rio de Janeiro, quanto em Salvador, e
mais tarde em Minas e em Pernambuco, o auxílio sistemático foi desencadeado
por pressão de autoridades régias que, à semelhança do que acontecia em
várias cidades portuguesas, procuraram vulgarizar a ajuda institucional,
entendida como um avanço civilizatório a despeito dos custos e da resistência
encontrada nos poderes locais.
Na Bahia, ainda no início do século XVIII, a misericórdia chegara a
receber o rendimento de um açougue, mas a concessão fora logo retirada
por ordem régia, impossibilitando a universalização do atendimento. A
irmandade continuou a eventualmente recolher os enjeitados deixados em
sua porta, contudo a criação da roda só voltaria à pauta quase 20 anos depois,
por pressão política: em 1726, o vice-rei do Brasil, Vasco Fernandes Cesar
de Meneses, vaticinou contra o grande número de crianças enjeitadas, “que
sem piedade se lançam nas ruas e muitas vezes em partes donde a voracidade

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dos animais as consomem”14. Sem nenhuma esmola específica – como seria
o caso da Santa Casa do Rio de Janeiro em 1738 –, os irmãos da Misericórdia
de Salvador hesitaram em ceder à tarefa de cuidar dos abandonados; o aceite
previa contrapartidas bem definidas: uma esmola regular via fazenda real, o
rendimento de um açougue, e, por fim, a concessão dos mesmos privilégios
que tinham os enjeitados da Misericórdia de Lisboa15.
A roda, aprovada em 14 de fevereiro de 1726, começou a funcionar em
abril e até fevereiro de 1727 foram acolhidos 46 enjeitados; a partir de então, a
misericórdia, apadrinhada pelo vice-rei, passou a reivindicar formas seguras
de financiamento. Atribuída de uma só vez em 1732, a esmola de 400 mil réis
tornou-se anual em 1734, com custos divididos entre a câmara e a fazenda
real (AHU, Bahia, cx. 26, doc. 2325). Os camaristas de Salvador tentaram
em vão se esquivar do dever, mas foram obrigados por determinação régia
a custearem parte da esmola destinada aos expostos (AHU, Bahia, cx. 49,
doc. 4360).

14. Há indícios de que a Câmara de Salvador financiava a criação dos enjeitados, no en-
tanto, não é possível saber a dimensão desse atendimento. Documentos Históricos, 87,
1950: 129-130; Documentos Históricos, 90, 1950: 134. O documento original está em AHU,
Bahia, cx. 30, doc. 2753.
15. A votação também não foi consensual, tal como indica a ata da mesa: “... assim se entrou
a votar por favas e regulados os votos pelo dito irmão provedor atual junto com o irmão
Antônio Ferram Castelbranco, presidente da junta, por haver sido provedor desta dita Santa
Casa, se achou pela maior parte das favas brancas que foram 19 e 7 pretas, tomando-se
a resolução de se mandar abrir a roda para os ditos enjeitados”. Ata da mesa (cópia) de
14/02/1726. AHU, Bahia, cx. 26, doc. 2325. Segundo os pareceres do Conselho Ultramarino,
não era “conveniente ao serviço de Vossa Majestade conceder-se aos suplicantes os privi-
légios que pedem, nem que haja privilegiados nos Estados do Brasil pelo embaraço que
os ditos privilégios poderão causar à defesa do mesmo Estado”. Documentos Históricos,
91, 1951: 24-25. A carta régia de 31 de maio de 1502 concedia privilégios durante três anos a
quem tomasse conta das crianças expostas do Hospital de Todos os Santos, de Lisboa. Os
criadores estavam isentos de pagar taxas lançadas pelos concelhos, como “peitas, fintas e
talhas”, não eram obrigados aos “encarregos nem servidões”, não deveriam ser constrangidos
a servirem como oficiais, a oferecer moradia, ou colocar à disposição alimentos e animais de
suas casas. Findo o período de criação de três anos, findavam também as isenções. PMM, 3,
2004: 258. Em 29 de agosto de 1654, um alvará régio determinou que os maridos das amas
dos enjeitados, enquanto durasse a criação, ficassem isentos dos encargos da guerra, sendo
apenas obrigados a ter armas e a acudirem aos alardos gerais que se fazem duas vezes por
ano em cada comarca do Reino. PMM, 6, 2007: 74. De acordo com Antônio Gouvea Pinto,
a primeira carta de privilégio das amas dos enjeitados foi a de 1502, confirmada em 1595, em
1701, no decreto de 31/03/1787, no alvará 09/11/1802, e no §10 do alvará de 1806. Pinto, 1820: 37.

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Na mesma época, a Misericórdia de Olinda tentou reivindicar a
responsabilidade de cuidar dos abandonados da cidade e solicitou que a
esmola costumeiramente repassada à câmara ficasse sob sua administração
porque a senado não prestava serviços devidos. A resposta da câmara, em
tom acusatório, reconhecia, no entanto, que desde 1733 – nove anos, portanto
– não fazia mais pagamentos anuais aos criadores, porque o subsídio era
incapaz de custear o deslocamento dos criadores até Olinda16. Em 1729,
a Câmara do Recife – instituída em 1710 –, sem rendimentos suficientes,
enviou uma carta ao monarca solicitando suporte para certas despesas,
entre as quais estava um auxílio regular para os enjeitados “que chegam a tal
miséria que algum fora comido dos porcos por não haver quem os quisesse
criar sem se lhe pagar” (AHU, Pernambuco, cx. 41, doc. 3671). Em 1731, a
câmara passaria a receber anualmente 120 mil réis – “na forma que Vossa
Majestade foi servido conceder aos oficiais da Câmara de Olinda” – para as
despesas referentes aos enjeitados17.
Na década de 1740, Rio de Janeiro, Salvador, Olinda e Recife ofereciam
algum tipo de auxílio institucional aos abandonados, em um momento em
que diferentes vilas e cidades de Portugal continental também estruturavam
seus serviços. Se comparada com o quadro geral de Portugal, a assistência
aos expostos na América era, de fato, mais restrita em termos institucionais:
estava presente em um pequeno número de localidades, todas situadas
no litoral (Ver: Scott & Bacellar In: Venancio, 2010: 59-80). Entretanto, o
aumento dos aparatos de acolhimento foi um fenômeno conexo, em que dos
dois lados do Atlântico, a referência a crianças devoradas por animais antes
mesmos de serem batizadas fazia parte de uma espécie de lugar-comum
argumentativo que se repetia com considerável frequência e justificava a
ampliação da rede de amparo.
Em meados do século XVIII, as justificativas para o financiamento
foram se apoiando em novas bases e deixaram de se valer prioritariamente
de um repertório moralizante para se tornarem também parte da obrigação

16. AHU, Pernambuco, cx. 61, doc. 5203; AHU, Pernambuco, cx. 63, doc. 5389. Esse caso
foi trabalhado também por Alcilede Cabral do Nascimento (2008).
17. Documentos Históricos, 100: 63-64 (17 de agosto de 1731) 120 mil reis. Ver ainda AHU,
Pernambuco, cx. 43, doc. 3862.

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objetiva dos Estados. Àquela altura, a reflexão econômica sobre a utilidade
da população pobre e operosa foi um aspecto importante de reflexão e
fundamental para recolocar o debate em termos consideravelmente mais
secularizados. Embora do ponto de vista institucional essa viragem não
representasse um novo modelo de organização, a ênfase posta no Estado
como o grande defensor dos expostos deu novo fôlego ao abandono, cujas
taxas tenderam ao crescimento na segunda metade do século XVIII (Franco,
2019: prelo).

Câmaras e misericórdias
A essa altura, por todo o império, o financiamento dos expostos era
um atributo incontroverso das câmaras e, mesmo quando os serviços eram
gerenciados pelas misericórdias locais, esperava-se que os concelhos arcassem
com toda ou ao menos a maior parte dos custos da assistência prestada. A
bem da verdade, na América portuguesa, o grosso das municipalidades
desconsiderou a obrigação prevista nas Ordenações, mantendo a prática
informal de fazer circular os expostos entre as famílias dispostas a cria-los,
sem custos adicionais para as instituições locais – câmaras ou misericórdias
(Ver: Scott & Bacellar In: Venancio, 2010: 59-80).
Como dito, em meados do século, ainda eram poucas as localidades
americanas que haviam tornado regular o auxílio aos criadores de expostos,
mas esse cenário tendeu à maior institucionalização nas décadas seguintes,
espalhando o modelo sedimentado mais de um século antes em Lisboa.
Era comum que nas regiões onde as misericórdias fossem mais dinâmicas,
elas ficassem encarregadas de administrar rodas, custeadas, em parte, por
estipêndios regulares dos concelhos. Na América portuguesa, os dois mais
importantes exemplos de Santas Casas – Salvador e Rio de Janeiro – haviam
reverberado esse padrão, relativamente corrente no Reino, ainda na primeira
metade do século XVIII.
Na segunda metade do século, não obstante as muitas resistências
ao pagamento regular, a expansão da rede institucional aos expostos
se deu por meio das câmaras, em um território onde as Santas Casas
eram consideravelmente mais frágeis (Franco, 2014b: 5-25). A partir do

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estabelecimento de pagamentos em Mariana – na década de 1740 – e Vila
Rica – na década de 1750 –, os auxílios deixaram de se localizar exclusivamente
nas cidades litorâneas para se interiorizar (Damasceno, 2011; Franco, 2014a).
Essas câmaras arcaram de modo exclusivo com o financiamento, em uma
capitania cronicamente desprovida de santas casas que pudessem dividir os
ônus das criações (Franco, 2011: 177-231). A ausência de hospitais locais e de
qualquer tipo de auxílio por parte da monarquia podem ter contribuído para
tentativas autônomas de contenção do público beneficiário, com propostas
já conhecidas de seleção, limitando o auxílio aos criadores de expostos que
fossem comprovadamente “brancos” (Franco, 2016: 437-469).
Desde os anos 1740, em Mariana e em Vila Rica, seguindo a tendência
geral de aumento dos índices de abandono nas áreas urbanas da América
portuguesa (e no Ocidente como um todo), observou-se uma progressão
substantiva das taxas. Nas décadas de 1750 e 1760, as ações restritivas
desembocaram em batalhas judiciais entre as câmaras e a população local,
exacerbando a fúria dos camaristas que teimavam em responsabilizar os
mestiços pelo aumento vertiginoso do fenômeno. Em termos de modelo
de financiamento, o que se verificou nas duas sobreditas câmaras de Minas
compunha um cenário mais próximo ao que se observara no Rio de Janeiro
antes da doação feita por Romão Duarte, e distinto daquele verificado, por
exemplo, nas municipalidades de Olinda, Recife ou Salvador, que se valeram
de negociações junto aos monarcas para implantar a assistência.
Especialmente nas áreas mais urbanizadas, como eram o caso de
Salvador, Rio de Janeiro ou Vila Rica, a alta dos percentuais foi acompanhada
de diagnósticos de bancarrota financeira. Em Vila Rica, por exemplo, o
volume de expostos assistidos obrigou os camaristas a uma repactuação
de valores nos anos 1770; na mesma época, a Misericórdia do Rio tentava
aumentar suas fontes de financiamento. Não obstante o tom catastrófico dos
que administravam os serviços de assistência, no último lustro do século
XVIII, o auxílio aos expostos assumiu uma legitimidade invulgar por todo
o império, a partir dos decretos de 1775 – referendando a ingenuidade das
crianças e a universalidade da assistência – e o de 1783 – fomentando a
criação de rodas anônimas como solução para a mortalidade dos enjeitados.

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Na América portuguesa, enquanto, em algumas localidades como
Sorocaba, Curitiba, Vila Boa de Goiás, Natal, os enjeitados dependeram
exclusivamente da caridade particular, sem qualquer auxílio regular por parte
das municipalidades, datam dessa conjuntura a instituição de fundos para os
abandonados em câmaras como Sabará, Caeté, São João del Rei, Porto Alegre18.
Também em Recife, onde se instalou a terceira e última roda do período
colonial19, a negociações partiram do governador que, em 1789, incumbiu a
câmara local de administrar os pagamentos aos criadores, posteriormente
transferindo para a misericórdia a administração dos enjeitados20.
Nos anos 1780, quando o Estado português empreendeu uma verdadeira
cruzada em favor das rodas anônimas, o auxílio aos expostos vinha se
tornando um assunto prioritariamente associado à filantropia e à civilização.
O aumento dos índices e a expansão da malha assistencial eram aspectos
complementares de um ambiente cada vez mais tolerante aos efeitos do
enjeitamento, não obstante ainda permanecessem notórios a ineficácia em
conter os índices de mortalidade infantil e o endividamento crônico das
instituições de acolhimento. Na América portuguesa, o abandono também
foi objeto de controvérsias, verificando-se, no último lustro do século, uma
tímida, mas progressiva expansão dos aparatos assistenciais das câmaras,
além do acréscimo das taxas21.
Na virada do século, o aumento das referências à assistência aos expostos
era constatável nas reflexões de letrados e de administradores régios, na
América ou na Europa. A ênfase nos aspectos cívicos em detrimento dos de
fundo religioso que justificavam o auxílio regular não representou qualquer

18. Sobre Sorocaba, ver: Bacellar, 2001; Curitiba, ver: Cavazzani, 2005; Vila Boa de Goiás,
ver: Valdez, 2007; Natal, ver: Paula, 2016. Sobre Sabará e Caeté ver: Arquivo Público Mineiro
(APM), Câmara Municipal de Sabará, Enjeitados (1780-1784) e Lançamento da receita do
Procurador e tesoureiro da Câmara para a contribuição imposta à criação de enjeitados
(1794-1796) e Câmara Municipal de Caeté, Registros da matrícula de expostos da Câmara
Municipal de Caeté (1782-1785), (1828), (1912-1922), (1927-1936). Sobre São João del Rei, ver:
Brügger, 2006; sobre Porto Alegre, ver: Silva, 2014; 2019.
19. Há referências a uma roda dos expostos em Campos dos Goitacazes, que teria sido
criada em 1796, anos depois da criação da irmandade, em 1790. Contudo, sabe-se muito
pouco sobre o funcionamento da sobredita instituição, especialmente em seus primeiros
anos. Ver: Faria, 1998: 70.
20. Sobre a roda do Recife, ver: Nascimento, 2008; Almeida & Bezerra, 2017: 149-176.
21. Ver índices gerais em Marcílio, 2006.

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alteração legal: a dinâmica do abandono seguiu o mesmo ordenamento
jurídico adotado havia séculos, atribuindo às municipalidades a obrigação
de custear as criações, eventualmente auxiliadas por hospitais com dotações
específicas, tal como previu a lei dos municípios de 1828.
No Brasil, as duas décadas que se seguiram à independência
testemunhariam ainda um verdadeiro boom de rodas, embora, no conjunto,
esses estabelecimentos tenham tido uma eficácia irregular, a depender da
dinâmica de cada localidade (Venancio, 2009: 121-149). De todo modo, o
modelo gestado especialmente no último terço do setecentos, associado
aos valores gerais do Estado filantrópico, deu o timbre da assistência aos
expostos ao longo do século XIX, tornando-se o chão comum sobre o qual
se orientaram as experiências locais. Até a extinção das rodas, a ênfase no
papel do Estado como grande gestor do destino das crianças – ainda que a
maior parte dos custos recaísse sobre as comunidades locais – justificou a
expansão dos aparatos de assistência.

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Ultramarino sobre a representação do Provedor e irmãos da Mesa da
Misericórdia do Rio de Janeiro em que pediam por esmola um dos ramos
das miunças daquela Capitania para ajudar as despesas do seu hospital”, Rio
de Janeiro (Castro Almeida), cx. 10, doc. 1880, 1693.
_______. “Consulta do Conselho Ultramarino acerca de uma provisão
ordenado ao governador da Capitania do Rio de Janeiro, Luis Vahia Monteiro,
declarasse se seria possível tirar-se a administração dos contratos à Câmara
daquela Cidade em todo ou em parte e incorporasse na Fazenda Real”, Rio
de Janeiro (Castro Almeida), cx. 27, doc. 6078, 1729.
_______. “Carta dos oficiais da Câmara do Rio de Janeiro ao rei d. João V,
remetendo cópias das precatórias requeridas ao provedor da Fazenda Real
daquela cidade, Bartolomeu de Serqueira Cordovil, para que conceda das

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propinas daquele Juízo uma importância em dinheiro para pagar o salário
do síndico e do procurador do senado na Corte, devido à pouca receita do
Senado, cujas despesas aumentaram com os custos referentes aos enjeitados”,
Rio de Janeiro, cx. 25, doc. 2695, 1733.
_______. “Provisão do rei d. João V concedendo aos oficiais da Câmara do
Rio de Janeiro uma quantia em dinheiro para pagar as despesas do senado
que aumentaram com a criação da roda dos enjeitados e ordenando que
o provedor da Fazenda Real do Rio de Janeiro, Bartolomeu de Sequeira
Cordovil, pague pelos sobejos do contrato dos subsídios, as propinas e
despesas do senado que ultrapassarem o seu rendimento”, Rio de Janeiro,
cx. 28, doc. 2956, 1735.
_______. “Requerimento de d. Ascensa de Menezes, d. Ana da Fonseca,
Nicolau Rodrigues do Luro, d. Bárbara de Barcelos, Helena da Fonseca
Vieira, Brites Rangel de Mendonça e outros moradores da cidade do Rio de
Janeiro, no qual pedem que das sobras do donativo Real se lhes pagassem
diversas quantias em dívida pela criação dos expostos (1740)”, Rio de Janeiro
(Castro Almeida), cx. 47. doc. 10958, 1740.
_______. “Carta dos oficiais da Câmara do Rio de Janeiro ao rei d. João V
sobre as grandes despesas do senado com as festividades da religião católica e
com as principais procissões, solicitando a extinção da obrigação da Câmara
com os enjeitados, repassando-a à Santa Casa de Misericórdia”, Rio de Janeiro,
cx. 42, doc. 4306, 1749.
_______. “Requerimento do provedor e mais irmãos da Mesa da Santa
Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro ao rei [d. José] solicitando alguma
consignação para poderem continuar mantendo a roda de expostos daquela
Casa, que um devoto havia criado em 1738, e que agora enfrentava grandes
dificuldades financeiras, face às outras despesas da Casa com os pobres e
doentes”, Rio de Janeiro, cx. 96, doc. 8258, 1773.
_______. “Requerimento do provedor e mais irmãos da Santa Real Casa da
Misericórdia do Rio de Janeiro à rainha [D. Maria I], solicitando ajuda de
custo para a criação e sustento dos expostos naquela instituição, conforme
os benefícios concedidos ao hospital da cidade de Lisboa, visto que desta

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forma conseguiriam aumentar o pequeno rendimento que possuem para
este fim”, Rio de Janeiro, cx. 112, doc. 9316, 1780.
_______. “Consulta do Conselho Ultramarino ao rei d. João V sobre o que
o vice-rei e capitão-general do estado do Brasil, conde de Sabugosa, Vasco
Fernandes César de Meneses, da conta da roda dos enjeitados que se ergueu
na cidade da Bahia”, Bahia, cx. 30, doc. 2753, 1727.
_______. “Carta (cópia) do [vice-rei e capitão-general do estado do Brasil],
conde de Sabugosa, Vasco Fernandes César de Meneses ao rei [D. João V]
sobre a necessidade de criar uma roda preta da Santa Casa da Misericórdia
da Bahia a fim de atender as várias crianças que ficam expostas a voracidade
dos animais”, Bahia, cx. 26, doc. 2325, 1726.
_______. “Consulta do Conselho Ultramarino ao rei D. João V sobre a
existência do açougue Misericórdia da Bahia e das despesas dos enjeitados”,
Bahia, cx. 47, doc. 4199, 1734.
_______. “Carta do [vice-rei e capitão-general do estado do Brasil],
Vasco Fernandes César de Meneses, conde de Sabugosa ao rei [D. João V]
comunicando a assistência aos enjeitados com o rendimento dos açougues
ou currais”, Bahia, cx. 49, doc. 4360, 1734.
_______. “Carta do [vice-rei e capitão-general do estado do Brasil] André
de Melo e Castro, [conde das Galveias] ao rei [D. João V] comunicando a
assistência aos doentes e enjeitados da Misericórdia pelas rendas anuais de
duzentos mil reis”, Bahia, cx. 56, doc. 4799, 1736.
_______. “Carta da Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Olinda ao rei
[D. João V], pedindo que a consignação que a dita Câmara tem para os
enjeitados, seja dada à Santa Casa para criação dos mesmos”, Pernambuco,
cx. 61, doc. 5203, 1744.
_______. “Carta dos oficiais da Câmara de Olinda ao rei [D. João V], sobre
suspensão da distribuição em dinheiro para os expostos, a pretensão da
Santa Casa da Misericórdia à dita quantia para distribuí-lo, e os motivos da
oposição da Câmara”, Pernambuco, cx. 63, doc. 5389, 1746.
_______. “Carta do [governador da capitania de Pernambuco], Duarte
Sodré Pereira Tibão, ao rei [d. João V], sobre a representação dos oficiais da

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Câmara do Recife a respeito do seu patrimônio e das propinas que pendem
para as festas reais”, Pernambuco, cx. 41, doc. 3671, 1730.
_______. “Carta dos oficiais da Câmara de Recife ao rei [D. João V], sobre
a doação dos rendimentos dos contratos que administrava a dita Câmara
para as despesas dos enjeitados e outras do real serviço”, Pernambuco, cx.
43, doc. 3862, 1732.
_______. “Carta da Mesa da Santa Casa de Misericórdia de Olinda à rainha
[d. Maria I] pedindo recursos e a instalação da roda dos expostos na Santa
Casa”, Pernambuco, cx. 134, doc. 10081, 1779.
_______. “Ofício do Bispo de Pernambuco, frei d. Diogo de Jesus Jardim,
ao secretário de estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro,
sobre a possibilidade de transformar o Colégio dos Jesuítas em um seminário,
e sugerindo formas de gestão e a necessidade de prestar socorro para os
expostos”, Pernambuco, cx. 157, doc. 11321, 1786.
_______. “Ofício do ouvidor da capitania de Pernambuco, Antônio Xavier
de Moraes Teixeira Homem, ao secretário de estado da Marinha e Ultramar,
Martinho de Melo e Castro, informando o estado do prédio atual da Alfândega,
da produção do algodão, da necessidade de uma leprosaria, dos esforços da
população para se construir uma, e da criação de uma roda dos expostos”,
Pernambuco, cx. 159, doc. 11475, 1787.
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D. José, dando o seu parecer sobre a representação dos oficiais da Câmara de
Vila Rica, de 22/11/1759, a respeito das datas e medições das sesmarias, dos
salários dos capitães de mato, dos expostos e ainda do começo das caçadas”,
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Assistência, poder e sociabilidades na Paraíba do
Sul dos Campos dos Goytacazes: A Santa Casa e o
Asilo da Lapa (1786-1874)

Claudia C. Azeredo Atallah


Mariana Salvador da Silva

Breve Histórico sobre os campos dos goitacazes


Conhecidas, ao longo do século XVII, como os campos dos goitacazes, as
terras que integravam a capitania da Paraíba do Sul faziam parte da capitania
de São Tomé, doada a Pero de Góis da Silveira por D. João III em 1536 por
serviços prestados e fidelidade. Essas paragens se caracterizavam por vasta
planície de solo arenoso e densa vegetação, próxima ao mar e cortada pelo
rio Paraíba do Sul, importante via para o comércio interno e de passagem
pelos sertões então desconhecidos e, mais tarde, proibidos pelo poder real.
(Sofiatti, 2007)
As tentativas de povoamento foram muitas, o donatário fundou uma
vila e iniciou uma cultura de cana de açúcar, porém foi vencido, segundo
alguns relatos posteriores, pelos povos nativos que habitavam a região.
(Carvalho, 1888:48)
Custava muito grandes trabalhos e perigos o haver de chegar a eles;
por que por uma parte as cercou a natureza de arvoredos espessos, rios,

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charcos e alagadiços extraordinários, - por outra parte as fechou numa
cinta de alterosas montanhas e além disso as povoou de tribos belicosas e
inimigas entre si.1
Os sertões da América portuguesa eram um grande obstáculo para os
súditos e vassalos que pretendiam transpor o oceano atlântico. O imaginário
em torno das viagens ultramarinas e de terras inóspitas fora do mundo então
conhecido era panfletado na Europa desde, quando menos, o século XV
(Fonseca, 1992). Conforme afirmou Laura de Mello e Souza, àquele tempo
”os olhos enxergavam primeiro o que se ouvira dizer”: notícias de povos
disformes, fauna e flora exuberantes e ameaçadoras que, com o suporte de
contos medievais, transformavam a empreitada rumo a essas terras numa
dificuldade a ser vencida (Souza, 1986:21).
Os goitacazes (Navarro, 2013:131) amedrontaram os primeiros forasteiros
que andavam por aquelas terras. Guerreiros, hábeis caçadores e pouco
amistosos ao diálogo com o europeu, teriam dificultado, segundo o padre, a
instalação segura dos portugueses. Sobre o assunto, Sheila de Castro Faria nos
deixou importante contribuição: “a partir do momento em que os interesses
eram despertados, o destino dos índios foi comum a todos; mesmo com
lutas sangrentas ou grandes resistências não escaparam da assimilação ou
do extermínio” (Faria, 1998:30).
A renúncia de Pero de Góes às terras da Paraíba do Sul resultou na sua
doação aos chamados “Sete Capitães”2, após “prestar[em] grande concurso
à coroa portuguesa” em 1627. Homens de cabedal e de engenho nas regiões
litorâneas do Rio de Janeiro, não chegaram a ocupar efetivamente a planície,
arrendando suas terras a sesmeiros que passavam a lhes dever obrigações.
Apesar de não se fixarem nos campos dos goitacazes, muitos dos seus
rendeiros se estabeleceram na região. Da mesma forma, seus herdeiros

1. VASCONCELOS, Simão de. Vida do Padre João de Almeida da Companhia de Jeus, na


Província, composta pelo padre Simão de Vasconcellos da mesma Companhia, provincial
na dita província do Brasil. Dedicada ao Senhor Salvador Correa de Sá, & Benavides dos
Conselhos de Guerra, & Ultramarino de Sua Majestade. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana,
1658 (Carvalho, 1888:133).
2. Alberto Lamego nos informa quem eram esses capitães: Miguel Aires Maldonado, Gonçalo
Correia, Duarte Correia, Antônio Pinto, João de Castilho, Manoel Correia e Miguel Riscado
(Lamego, s/d:35).

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buscaram, ao longo das próximas décadas do século XVII, fixarem-se nessas
terras e delas tirarem seu sustento. As lavouras se intensificaram e a criação
de gado se tornaria a base da economia regional por mais de cem anos.
(Lamego, s/d:34) (Faria:1998).
Em 1674 a então capitania da Paraíba do Sul foi doada a Salvador Correia
de Sá e Benevides. A concessão compensava o almirante por serviços prestados
durante a Guerra de Restauração e na reconquista de Angola e São Tomé
e Príncipe (o que pôs fim a ocupação francesa no leste da África), além de
importantes lugares ocupados na administração da América portuguesa.
O interesse de Sá e Benevides na região era antigo, principalmente devido
aos indícios da existência de ouro e dos caminhos possíveis, que partiam
daquelas terras, para os sertões ainda desconhecidos (Boxer, 1973).
Em 1677 foram criadas as vilas de São Salvador da Paraíba do Sul e de
São João da Praia. A partir daí, o clã Correia de Sá passou a exercer grande
poder sobre aquela capitania. Seu primogênito e primeiro Visconde de
Asseca, Martin Correia de Sá e Benevides Velasco, assumiu a donatária
juntamente com o irmão, João Correia de Sá. A carta de doação previa o
povoamento e a manutenção da ordem real e demarcava a importância
que esses vassalos assumiam para a dinâmica política e social do império
português. O donatário recebia a jurisdição sobre a terra e sobre os povos,
devendo zelar pelo seu bem estar e fazendo cumprir a justiça em nome do
rei (Atallah, 2017).
As próximas décadas foram bastante conturbadas. Moradores daquela
planície, rendeiros e herdeiros dos sete capitães, há muito estabelecidos,
travaram inúmeros conflitos com os procuradores dos Asseca. Terra, mão
de obra escrava, jurisdição política e da justiça, foram vários os motivos
que levavam, quase que cotidianamente, os povos da Paraíba do Sul a se
sublevarem contra seus donatários e seus representantes legais. A querela
principal desses moradores era a compra da capitania pela coroa. Ainda que
estivessem numa região inóspita do império português, os habitantes da
Paraíba do Sul clamavam por sua condição de súditos reais, o que os levou
a representar mais de uma vez ao Conselho Ultramarino a respeito. Após
inúmeros conflitos durante a primeira metade do século XVIII, a coroa

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portuguesa conclui o processo de anexação da capitania ao seu patrimônio
em 1754 (Atallah, 2017) e (Atallah, 2018).
A contar da década de 1760, a capitania em questão passaria por
grandes transformações. Os caminhos que interligavam a região ao resto
da América portuguesa se tornaram mais atrativos, devido ao incremento
das relações de mercado. Efetivamente, a ausência intermediária dos antigos
donatários incrementou as práticas comerciais e gerou maior segurança para
os comerciantes andarilhos que buscavam novas áreas para investimento.
Cabe lembrar que os Asseca preservaram terras “em forma de morgadio”
até 1848 (Faria,1998:32).
A segunda metade do setecentos também foi marcada pela transição
entre a pecuária, não totalmente extinta e restrita ao comércio local, e a cultura
da cana de açúcar. A propósito, a produção açucareira e de aguardente se
tornaram, a contar das primeiras décadas do século XIX, duas das principais
bases da economia campista para a agroexportação (Faria, 1998) (Lara, 1988).
Toda essa conjuntura de crescimento populacional e econômico tornou
as estruturas sociais mais complexas. O fluxo urbano e mercantil criava
oportunidades para os forasteiros que chegavam à região: alguns prosperaram
e passaram a concorrer, socialmente, com a elite agrária campista. Outros,
porém, passaram a ampliar o número de homens pobres que nada tinham
de seu. Há de se considerar ainda o aumento da população negra escravizada
que engrossava a mão de obra dos emergentes engenhos açucareiros. Silvia
Hunold observa que a Vila de São Salvador representava, ao findar o século
XVIII, “o núcleo escravo de maior densidade” da região fluminense (Lara,
1988:137).
A concentração da mão de obra do africano escravizado na produção
açucareira gerou uma carência de braços na lavoura de gêneros alimentícios
que acabaria por afetar a sua produção. De forma semelhante, o pequeno
lavrador, anteriormente envolvido com o cultivo doméstico desses mesmos
produtos, voltou-se para o plantio e corte da cana, arrendando seus serviços
e suas terras aos senhores de engenho, que ficavam responsáveis pelo
beneficiamento do açúcar. Sobre o assunto, Couto Reis nos chamou a atenção

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para o fato de que o açúcar promovia importantes mudanças na planície
dos Goytacazes
Por que a decadência do gado sucedeu quase pelo mesmo tempo em que
se foram levantando os engenhos e engenhocas, que há, e aplicando-se quase
tudo o que era de lavradores na plantação de cana, cessou a abundância dos
legumes, madeiras, algodões e outros gêneros que era feito o País e principiou
a rodar o negócio quase unicamente sobre o açúcar, por que antigamente
recebiam os mercadores em pagamento quaisquer efeitos de terra (...) e hoje
só recebem açúcar ou taboado. (Reis, 1785:115)
No século XIX, a produção açucareira alcançou seu auge devido às
novas técnicas introduzidas nos engenhos, aumentando a produção e o
enriquecimento dos latifúndios. A “civilização do açúcar”3 foi composta
pelas alianças políticas de barões e viscondes que fizeram fortunas com
essa atividade econômica e pelo maior protagonismo político no norte da
província. A propaganda e o incentivo na ocupação de novas terras são
estimulados pelos líderes locais, como é o caso de José Carneiro Silva, que
publicou sua “Memória” em 1819, enfatizando a potencialidade dos solos
e os rios. O futuro Barão de Araruama usou como base os manuscritos
de Couto Reis e sua obra nos revela indícios dos esforços empreendidos
por importantes famílias da região, durante o oitocentos, em forjar uma
identidade regional (Chrysostómo, 2011:60).
Esse processo de urbanização iniciado no final do século XVIII foi,
portanto, deveras doloroso para a capitania e teve como uma de suas
mais profundas consequências o recrudescimento das relações sociais. “À
medida que cresce o povo, o comércio e os maiores interesses, assim se
vão aumentando os preços”, afirmara Couto Reis (Reis, 1785:113). Nesse
ambiente, a pobreza também se agudizou. Surgiram, a partir daí, as primeiras
providências assistencialistas em Campos dos Goytacazes.

3. A expressão foi cunhada por Alberto Lamego para descrever a elite açucareira que se
desenvolveu em Campos dos Goytacazes durante o século XIX (Lamego, 1996).

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Uma Santa Casa de Misericórdia para Campos dos Goytacazes
O final do século XVIII foi bastante complexo em todo mundo então
conhecido, trazendo mudanças significativas para as populações europeias
e do mundo colonial. As ideias burguesas de cidadania e altruísmo social
incentivaram as preocupações com os mais carentes, transformando-as em
dever. A religião não determinava mais, em boa parte da Europa, as ações
caritativas, responsáveis por um dever cristão que durante muito tempo
havia se pautado pela obediência religiosa e pela cultura da fé. O mote
dessa sociedade que se entendia laica, erudita e racional, era a filantropia,
estruturada sobre os pilares do racionalismo, da justiça e do utilitarismo
social, preconizados pelo iluminismo (Subtil, 2015) e (Sá, 2013).
Ainda que as sociedades, mormente as instituições religiosas, buscassem,
durante a época moderna, tratar com atenção a condição de pobreza e de
miserabilidade, as demandas quase sempre foram maiores do que as ações
de caridade. Devido a esses e a outros fatores relacionados ao controle das
populações, a busca por uma definição de um conceito do pobre que reunisse
condições de merecedor das políticas sociais empreendidas pelos poderes
instituídos, na Europa moderna, foi sempre uma prioridade. Os andarilhos
e mendicantes eram sempre mal recebidos e seu acolhimento recusado pelas
comunidades. O dever social de se adequar às regras estabelecidas levava à
marginalização desses grupos, que eram acusados de atos ilícitos de “viver
dos recursos alheios”. Desse modo, ia-se cunhando, aos poucos, um modelo
do pobre que deveria receber ajuda. O trabalho promovia a integração do
homem à sociedade e criava uma previsibilidade passível de controle social.
Por outro lado conferia “uma índole marcadamente moralista” à caridade.
Segundo Laurinda Abreu, “as confrarias assumiram neste tempo um papel
determinante no amparo às populações”. (Abreu, 2014:23)
As santas casas tiveram sua origem nas confrarias que se espalharam
por todo continente europeu durante a alta idade média. Arrebatavam
homens e mulheres leigas que se dedicavam a realizações de obras de
caridade, sem estarem vinculados à Igreja Católica. Possuíam o costume
de promover e manter o bem estar dos irmãos e de sua família. Suas ações
mais comuns estavam concentradas na manutenção de hospedarias instaladas

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pelos caminhos europeus e que possuíam “uma natureza ambivalente”, por
funcionarem, por vezes, como hospitais. Durante os primeiros séculos da
era moderna, essas associações foram fundamentais para manter certo
equilíbrio social, haja vista representassem importante papel em épocas
de fome, guerras e pestes. Porém, suas atuações foram se tornando cada
vez mais constantes e cotidianas, crescendo em prestígio social e político
(Russel-Wood, 1981:7).
Durante o século XVIII em Portugal, segundo Isabel dos Guimarães
Sá, as misericórdias passaram por uma crise abaladora de suas estruturas
financeiras e administrativas. Fraudes, corrupção, dívidas provenientes
dos irmãos que demandaram os cofres assistenciais durante muito tempo
assolavam a maioria das instituições. Nesse aspecto, o ministério pombalino
(1756-1777)4 agravou ainda mais tal panorama, ao “pôr em causa a supremacia
das almas sobre os corpos, quando se começa a observar que poucas terras
em Portugal pertenciam aos vivos”. Diversas medidas foram tomadas com o
objetivo de reduzir as esferas de ação dessas instituições, principalmente no
que diz respeito à propriedade sobre as terras: muitas foram incorporadas ao
patrimônio real. Os empréstimos a juros, praticados pelas misericórdias há
tempos, passou a ser controlado pela coroa, ficando sob a responsabilidade
do Desembargo do Paço sua regulamentação (Sá, 2013:84).
Na América portuguesa não houve um padrão para a instituição e
desenvolvimento das santas casas. Por todas as partes do império foram
instaladas confrarias de misericórdias que atendiam a dinâmica da caridade
cristã e também serviam de lugares promotores da ascensão social. Na Bahia,
Russel-Wood demonstrou, através de pioneira investigação, que a passagem
do século XVII para o XVIII e suas “modificações econômicas e sociais”
na região afetaram a dinâmica financeira da Santa Casa, dependente cada
vez mais dos homens bons da Bahia, que passaram a “financiar a atividades
caritativas da irmandade por meio de legados e doações”. Para o Rio de Janeiro,
Renato Franco demostrou a ingerência de homens de grosso trato entre os

4. Propomos aqui a cronologia para a duração do ministério pombalino proposta por José
Subtil em “O terramoto político”, que demarca o início desse período a partir da ascensão
de Sebastião José de Carvalho e Mello a Secretário de Estado dos Negócios do Reino, em
1756, um ano após o terremoto que assolou Lisboa em 1755 (Subtil, 2006).

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confrades da Santa Casa em fins do setecentos e uma franca capacidade de
adaptação ao panorama então anunciado. Novas instalações, como a roda
de expostos, representavam, àquela época, uma modernização que não
foi regra entre suas congêneres coloniais. Tal fenômeno teria sido fruto,
segundo o autor, de um emergente cosmopolitismo demarcador da crescente
“capacidade financeira das elites”, (considerando aí a participação ativa dos
comerciantes), bem como da “importância social” e política adquirida pela
cidade (Russel-Wood, 1981:110) e (Franco, 2011:113).
Para a Paraíba do Sul, as mudanças operadas nessa mesma época
estudadas, na seção anterior, afetaram a previsibilidade da agroeconomia
e das relações sociais. A pobreza se tornou um problema social e passou a
chamar mais a atenção das autoridades da região. Sheila de Castro Faria notou
que os padrões que definiam o estado de pobreza pelos rincões da América
portuguesa não eram uniformes. Para definir tais referências, precisou-
se, anteriormente, definir os níveis de riqueza, que também diferiam por
região e pela importância que certos ofícios e posições, bem como produtos,
adquiriam. Convencionou-se definir o pobre por “nada ter de seu”, por viver
somente do trabalho e não possuir “bem de qualidade alguma”. Porém,
tais regras não encerravam a seleção daqueles que deveriam receber ajuda.
Para as paróquias investigadas na capitania da Paraíba do Sul, em que pese
certa inconstância nos padrões observados, a autora afirma que a origem
étnica constituía-se “lugar destacado (embora não exclusivo) na criação de
categorias sociais”. (Faria, 1998:101)
Esse panorama analisado por Castro Faria sugestionou profundamente a
institucionalização da Santa Casa de Misericórdia em Campos dos Goytacazes.
Oficialmente fundada em 1792, seus irmãos obtiveram o reconhecimento
real de Dona Maria I, que aprovou seu compromisso registrado em ata da
câmara da Vila de São Salvador em vinte e cinco de julho de 1790.5 Antes
disso, porém, já havia mobilização de alguns campistas para a estruturação
efetiva da instituição. A Irmandade de Nossa Senhora Mãe dos Homens foi
fundada em 1786: ao que nos parece, essa teria sido a origem da Santa Casa.

5. Ata da Primeira Sessão da irmandade Mães dos Homens, 25 de julho de 1790 (Feydit,
1979:327).

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Igreja matriz, um hospital simples, de pau a pique e um cemitério foram
providenciamos. (Lamego, 1951:13)
Acreditamos ser possível relacionar essa conjuntura de transformações
no mundo das ideias políticas e sociais então operantes na Europa, bem
como o contexto de responsabilidade social e assistência pública que se
configurou nessa mesma época, com outros aspectos, de natureza regional. A
fundação da Santa Casa de Misericórdia da Paraíba do Sul também possuía
vínculos bastante particulares com simbolismos que nos remetem a tradições
mantenedoras de hierarquias sociais de Antigo Regime, qualificadoras
de privilégios. Naquela sociedade, o status quo era garantido às elites,
proporcionando-lhes a assunção de ofícios e cargos políticos que lhes
garantiam o acesso ao poder. Tais posições, muitas vezes, não lhes estavam
garantidas. Nesse sentido, as redes estabelecidas entre esses grupos eram
fundamentais para o estabelecimento das relações de interdependência
que os mantinham no poder. Em fins de Antigo Regime, tais costumes
e configurações sociais adentrariam ao século XIX, demarcando ainda
prerrogativas e privilégios a essas elites, herdeiras dessa tradição social
demarcada por um ordenamento jurídico forjado ainda na época medieval
(Xavier e Hespanha, 1994) (Monteiro, 1996).
O período entre 1786 e 1792, ano da confirmação real do compromisso da
irmandade, foi demarcado por alguns conflitos que envolveram prerrogativas
sociais costumeiras. Os irmãos reunidos pela N. S. Mãe dos Homens exigiam
da câmara privilégios em algumas cerimônias religiosas das quais, segundo o
protocolo, não poderiam ainda se valer, recebendo o apoio do poder local e do
vice-rei, José Luís de Castro. Os primeiros dois provedores responsáveis pelo
período trienal inicial (1793-1795), o coronel José Caetano Barcellos Coutinho
e o ouvidor João Pinto Ribeiro, estavam profundamente envolvidos com as
redes clientelares, locais e imperiais. Pinto Ribeiro, ouvidor do Espírito Santo,
comarca responsável pelas vilas da Paraíba do Sul, arquitetou uma complexa
rede entre a Vila de São Salvador e a de Vitória, envolvendo camarários e
sobrinhas suas para casamento, com o objetivo de ocupar o cargo de provedor,
o que se concretizou em 1794.6

6. Sobre as irmandades e seus privilégios e prerrogativas ver (Karasch, 2010). Sobre os


conflitos na Vila de São Salvador envolvendo a Nossa Senhora Mães dos Homens e outras
irmandades e para um estudo do perfil dos dois provedores citados ver (Atallah, 2019).

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Portanto, podemos afirmar que a fundação da Santa Casa de Misericórdia,
em Campos dos Goytacazes, possuiu correlações, ainda que veladas, com
aspectos inerentes à sociedade moderna e às tradições costumeiras que
ajudariam a moldar a sociedade oitocentista no Brasil.
A partir das primeiras décadas do século XIX uma elite vinculada a terra
e às dinâmicas regionais somente se fortaleceu, acompanhando o crescimento
da agricultura canavieira. Concomitante a esse processo endógeno, há um
investimento por parte do Rio de Janeiro, já a partir das últimas décadas
do século anterior, no povoamento das terras mais ao norte da província.
Formula-se um ambicioso plano de ocupação, cuja base de apoio é
sustentada pela montagem de uma rede de instituições judiciárias e religiosas.
São criados, assim, os postos de juízes de fora, capitães, ouvidores, mestre de
campo etc, que passam a administrar pontos estratégicos do chamado ‘sertão
dos índios bravios.’ Esse novo corpo administrativo, juntamente com os
viajantes, aventureiros, missionários e as elites locais, pouco a pouco pintam
um novo retrato dos homens e da paisagem campista. (Chrysóstomo, 2011:4)
Nesse contexto se deu a emergência da capitania de Campos dos
Goytacazes no tabuleiro do centro sul. Mais ainda, na medida em que a sua
economia crescia, com incentivos da corte portuguesa (instalada em 1808 no
Rio de Janeiro) e, a partir de 1822, com o beneplácito imperial, a cidade passou
a ser reconhecida como principal centro econômico regional, que cooptava
outros distritos locais. Configurava como área de passagem e escoamento dos
caminhos mercantis que ligavam Minas Gerais, Espírito Santo e o nordeste,
sem necessidade de passagem pelo Rio de Janeiro (Chrysóstomo, 2011).
A historiadora Fátima Gouvêa chamou a atenção para o fato de que
Campos preservava ainda uma importante produção voltada para o mercado
interno. Isso ajudou a configurar, durante as três décadas iniciais do Império
do Brasil, uma posição de autonomia perante possíveis flutuações do mercado
externo. Também influenciou a ideia de uma identidade provincial que
adquiriu força a partir de 1834, quando a província do Rio de Janeiro ganhou
autonomia administrativa: Campos dos Goytacazes reunia atrativos que
reforçavam essa visão, tornando-se assim uma das principais cidades da
província (Gouvêa, 2008:162).

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A década de 1840 foi marcada pelo início de uma estabilidade política
que propiciou o surgimento de diversos debates na assembleia provincial. A
cidade de Campos era sempre associada a propostas que podiam viabilizar o
comércio provincial e a comunicação com o norte da província: tais assuntos
estiveram frequentemente em pauta. O projeto de construção do canal
Campos – Macaé foi o primeiro a vir à tona. Propostas de construção de
estradas de ferro entre as regiões, especialmente entre Campos e Niterói
também foram apresentadas. Alguns opositores dos projetos para o norte
fluminense alegavam “que Campos já recebia uma proporção desmesurada
de fundos do Tesouro Provincial”. Apesar das divergências, alguns desses
projetos foram aprovados entre as décadas de 1860 e 70 (Gouvêa, 2008:164).
Todos esses fatores colaboraram para o amadurecimento da ideia de
uma “grandeza regional”, reforçada pela rede fluvial, pela fertilidade da terra
e pela amabilidade de seu povo.7 O norte da província do Rio de Janeiro se
configurava, então, como uma região comandada pela cidade de Campos
dos Goytacazes (Chrysóstomo, 201:5). Um regionalismo que demarcaria, a
contar daquela época, boa parte da história campista.8
Os provedores da Santa Casa de Misericórdia que se alternaram no
poder faziam parte das mais importantes famílias de Campos (Lamego, 1951)
e estavam envolvidos em redes muito bem estruturadas garantidoras de suas
presenças nos meandros das relações políticas locais e de sociabilidades.9

7. Maria Isabel Chrysóstomo sugere que, a partir dos Manuscritos de Manoel M. do Couto
Reis, de 1785, “tenha nascido o projeto, tantas vezes propalado no século XIX, de Campos
ser o local que melhor reúne condições de comandar política e economicamente e as áreas
de entorno” (Chrysóstomo, 2011, p.60).
8. O conceito de região é aqui pensado a partir de um recorte econômico, político e socio-
cultural. As demarcações geográficas feitas pelo Estado não encerram, necessariamente, sua
definição. Ainda que possam exercer influência sobre as perspectivas analíticas, algumas
outras determinantes devem ser consideradas. Podem ser físicas e ambientais, econômicas,
sociais ou ainda históricas, a região pensada deve ser construída a partir de questiona-
mentos relativos aos “afrontamentos e luta em torno de distintos interesses” (Sena, 2010)
e (Albuquerque Júnior, 2015).
9. O conceito de sociabilidades assume para a nossa discussão importante papel. Nas últimas
décadas, ganhou espaço na pesquisa histórica a partir da obra do historiador francês Maurice
Agulhon, que defende a compreensão das sociabilidades a partir do estudo das associações
e de suas transformações, considerando suas dimensões geográficas e temporais, bem como
as identidades culturais na e suas aspirações políticas no campo social. No Brasil, Marco
Morel desenvolveu importantes trabalhos sobre o assunto (Agulhon, 1968) (Morel, 2001).

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Entre os primeiros anos do Império do Brasil e a década de 1840, época crucial
para a configuração do Estado Imperial, foram frequentes os debates na
câmara da cidade sobre financiamento de ações assistencialistas. A sociedade
local participava, frequentemente, dessas ações, porém, segundo os relatórios
da provedoria dos anos de 1840, ainda não era o suficiente. Frequentemente,
nesses relatórios, há a referência à espera de ajuda financeira.10 Ademais, tais
debates, algumas vezes, foram levados à assembleia provincial, mormente
no que diz respeito aos valores referentes às loterias (regulamentadas por
lei federal e destinadas a ações de caridade), demonstrando o quanto essas
redes se estendiam até a capital da província (Feydit, 1979) (Gouvêa, 2008).
Um dos mais constantes temas presentes nos relatórios da provedoria das
décadas de 40 e 50 do século XIX era a preocupação dos irmãos com o sustento
dos expostos. As dificuldades em promover o auxílio às crianças abandonadas
na cidade de Campos estavam expressas nos relatórios anuais desde então.
Também observamos esforços por parte da Santa Casa de Misericórdia e
de seus aliados na assembleia provincial, bem como da sociedade campista,
em erigir um abrigo para cuidar das meninas abandonadas. Trataremos
desse assunto a seguir.

Abandono infantil e filantropia em Campos dos Goytacazes


Os anos oitocentos apresentaram concepções de mundo renovadas
e, conforme já afirmamos, as propostas médico-higienistas e os rumos
sócio-políticos rumavam em direção a ordem e ao progresso no Império do
Brasil e no mundo. Todavia, velhos problemas de ordem pública insistiam
em sobreviver e esperavam por soluções. Um dos mais complexos foi o
abandono de crianças e a prática do infanticídio. Ao longo da época moderna,
as Santas Casas auxiliaram a infância desvalida. As câmaras municipais
eram responsáveis pelos subsídios oferecidos aos ditos expostos e agiam em
parceria com as misericórdias na assistência ao menor abandonado. Essas
atividades assistenciais originaram fontes de estudos para historiografia
brasileira e portuguesa (Silva, 2017).

10. Relatório da Administração da Santa Casa de Misericórdia de Campos dos Goytacazes.


Anos 1844 a 1850. Campos dos Goytacazes: Tipografia Patriótica. Arquivo da Santa Casa
de Misericórdia de Campos dos Goytacazes.

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Segundo Luciana Gandelman, durante o século XVIII, a dinâmica
organizacional administrada pelas santas casas relativa ao recolhimento
das órfãs era complexo. A atividade estava sob a responsabilidade dessas
instituições, porém recebiam recursos de instâncias particulares que se
tornavam fundamentais para a administração. Concomitante, essas mesmas
instâncias adquiriam certo poder sobre as misericórdias, que deviam atender
as exigências na efetivação dos recolhimentos (Gandelman, 2005:167).
Na passagem para o século XIX, a banalização do abandono estimulou
a criação de uma rede institucional, que normatizava o hábito criando as
rodas dos expostos. Importante lembrar que o ato de expor anonimamente,
não alterava o destino desses rebentos, mas configurava uma proposta de
modernização do serviço assistencial. Segundo Sheila de Castro Faria, a
criação da roda dos expostos estava associada à preservação do anonimato do
expositor(a), já que, mais cotidianamente, eram abandonados nas rodas filhos
ilegítimos de pessoas abastadas das localidades. Os dados recolhidos pela
autora mostram ainda que as regiões urbanas foram as que mais registraram
essa atividade. Ainda assim, o abandono se dava, de forma mais ampla e
cotidiana, às portas de residências particulares nas regiões rurais (Faria, 1998).
Durante o século XIX a configuração política e social brasileira
ajudou a moldar as concepções sobre criança e infância e a educação dos
menores se tornou uma preocupação para as famílias das elites. A sociedade
imperial era rigorosamente hierarquizada, incorporando heranças coloniais
e ressignificando-as. As posições sociais ocupadas por membros da elite
exigiam atenção aos cuidados com a educação das crianças, como estratégia
para a formação de futuros cidadãos comprometidos com a moral católica.
A educação infantil funcionou como uma introdução para referenciais
como ordem e civilização. Acreditava-se que os anos iniciais garantiam a
incorporação desse padrão de comportamento. Tal projeto social incluía o
consumo de manuais de etiquetas, moda, literatura (os romances) e periódicos
científicos. O interesse pela aquisição de conhecimentos não incluía críticas
políticas aos valores morais da época, os novos valores de prestígio social não
buscavam igualdade, mas sim a identificação e assimilação da sociedade de
privilégios e hierarquizada da época. Os fundamentos básicos para tal processo

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eram os preceitos europeus de civilização adaptados à realidade brasileira,
que, além de sua estratificação social, conservava uma particularidade: a
mão-de-obra escrava, solidificando as divisões sociais (Muaze, 2003).
Considerando essa lógica educacional, baseada nos preceitos europeus
de civilização adaptados aos trópicos, o cuidado com os expostos e órfãos
deveria ser redobrado. Em Campos, a manutenção desses menores se tornou
bastante onerosa, apesar das doações de particulares e da câmara. Frente
às dificuldades enfrentadas pela Santa Casa, as crianças abandonadas eram
encaminhadas às famílias da região que se comprometiam com esse modelo
de educação e recebiam uma ajuda de custo para a tarefa. Porém, de acordo
com alguns registros feitos nos relatórios, foram constatados desvios dos
recursos destinados às necessidades dessas menores. A solução encontrada,
em face dessa problemática, foi mantê-los nas dependências da Santa Casa.11
Desde fins da década de 1840, o apelo à câmara municipal pelo aumento
da quantia doada para esses fins se tornou mais frequente. Da mesma forma,
os provedores constantemente faziam referências, em seus relatórios, a figuras
influentes (sem citar nomes) que buscavam por recursos na assembleia
provincial. Os proventos advindos das loterias eram de grande importância
e os irmãos pretendiam aumentar os valores repassados. Tantos esforços
empreendidos se justificavam pelo desejo dos confrades em fundar um
Asilo para as jovens meninas abrigadas. Ao que nos parece, os meninos
ainda ficariam sob o teto da Misericórdia. Finalmente, na gestão do irmão e
provedor José Gomes da Fonseca Parahyba, a concessão do antigo prédio do
Seminário da Lapa foi autorizada pelo governo provincial para a estruturação
de um asilo que se tornaria lar para as expostas e órfãs. A fundação da
instituição foi no ano de 1864.12
Em sua obra sobre a história da Santa Casa de Campos, Alberto
Lamego descreveu a gestão do quadragésimo provedor, oferecendo destaque
à questão das meninas contempladas com a fundação do Asilo da Lapa.
Afirma que, com poucos recursos, a Misericórdia buscou inúmeras doações.

11. Relatório da Administração da Santa Casa de Misericórdia de Campos dos Goytacazes.


Anos 1844 a 1850. Arquivo da Santa Casa de Misericórdia de Campos dos Goytacazes.
12. Relatório da Administração da Santa Casa de Misericórdia de Campos dos Goytacazes.
Ano 1863/1864. Arquivo da Santa Casa de Misericórdia de Campos dos Goytacazes

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As meninas recebiam, por filantropia, aulas de educação primária de um
professor de francês. Também tinham aulas de corte e costura, numa clara
alusão à educação básica de uma menina segundos os costumes da época.
Outra informação registrada por Lamego e frequentemente mencionada
nos relatórios é o fato de que as moças, ao saírem para casar, recebiam a
quantidade de 200 mil réis como dote13 (Lamego, 1951).
Fonseca Parahyba condenou em seu relatório de 1864 alguns boatos
que circularam na sociedade local relativo ao asilo e ao trabalho de caridade
realizado pela Santa Casa nesse âmbito. Já havia quem considerasse que essas
recolhidas eram tratadas como criadas e até mesmo dadas a prostitutas. O
provedor afirmou que esses boatos feriam a dignidade e caridade presente
na administração, legando às meninas “desonra e miséria”. Afirmava, mais
a frente, ser o intuito do Asilo formar “mães de família”, exercendo uma
“maternidade adotiva” temporária com o objetivo de encaminhá-las a “um
futuro honesto, por meio do casamento”.14
Podemos notar que o modelo comportamental esperado na época, para
as mulheres que compunham a sociedade imperial e, desse modo campista,
estava presente na formação dessas meninas e na razão da concepção do
asilo. Esse referencial de comportamento era constantemente utilizado nas
escolas e por professores que educavam as moças para o Império do Brasil.
Configurava também em livros sobre condutas de civilidade e de etiqueta,
que eram “concebidos como guias, ‘escolas do mundo’, continham normas
da ‘arte de comportar-se socialmente’ nas mais diversas ocasiões” (Muaze,
2003:66). De qualquer forma, o destino dessas moças deveria ser, sempre,
o casamento. E a Santa Casa tinha estratégias para que as meninas do asilo
seguissem esse caminho.

Rede de sociabilidades no Asilo N. S. da Lapa (1864 – 1874)


Nessa última seção faremos um breve balanço de uma pesquisa, ainda em
andamento, sobre as primeiras expostas do Asilo da Lapa e seus casamentos.
O livro de Registro de Órfãs e Recolhidas ao Asilo de N. S. da Lapa (1864 –

13. Idem.
14. Ibdem.

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1962) foi peça fundamental para um estudo sobre relações de sociabilidades
estabelecidas entre alguns irmãos. O recorte cronológico eleito para análise
foi a primeira década de funcionamento do Asilo (1864-1874).15
As informações recolhidas notificam que, nesse período, foram recebidas
quarenta e nove meninas: quarenta expostas e nove órfãs. Desse grupo,
trinta se casaram e as demais foram entregues a guarda de famílias locais
ou ainda se retiraram (não há maiores informações quanto a isso) e outras
duas faleceram. Além de fazer distinção entre expostas e órfãs, as descrições
mostram a data de entrada, as habilidades domésticas como “sabe lavar,
engomar, cozinhar e cozer” e o grau de instrução das meninas: “sabe ler,
escrever, contar e bordar com perfeição”. O documento também registrou as
datas dos casamentos ou da saída das meninas, com o nome dos noivos e dos
padrinhos ou o nome das famílias as quais algumas foram encaminhadas.16
Considerando costumes e comportamentos daquela sociedade, a
educação para o lar era elemento essencialmente destinado às mulheres.
As atribuições conferidas a meninos e meninas eram, desde a infância,
bastante específicas e foram tacitamente estabelecidas. Enquanto eles eram
preparados para assumirem cargos políticos e de administração pública, elas
recebiam instruções para se tornarem boas esposas e mães (Muaze, 200:67).
A partir dos registros nos foi possível perceber essa dinâmica: as moças
eram entregues à instituição para concorrerem a um futuro promissor como
esposas, adquirindo competências para os trabalhos domésticos e uma boa
formação moral com os estudos de orientação religiosa.
Segundo os dados contidos no livro do asilo, sete moças, expostas sob
a guarda do Asilo da Lapa, foram desposadas por alguns dos irmãos da
Santa Casa, ou os tiveram como testemunhas da cerimônia ou padrinhos,
conforme previa a legislação da época. Homens que integravam um rol
seleto no cenário social campista, os membros da Misericórdia reforçavam

15. Livro de Registro de Órfãs e Recolhidas ao Asilo de N. S. da Lapa (1864 – 1962). Arquivo
da Santa Casa de Misericórdia de Campos dos Goytacazes.
16. Livro de Registro de Órfãs e Recolhidas ao Asilo de N. S. da Lapa (1864 – 1962). Arquivo
da Santa Casa de Misericórdia de Campos dos Goytacazes. Por exposta entende-se a menina
livre sem referências aos progenitores. Das órfãs a instituição possuía referências sobre os
pais: muitos morriam no hospital da Santa Casa, deixando bens que eram revertidos em
dotes para as meninas crescidas (Faria, 2010).

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suas relações políticas mantendo vínculos sociais entre si. Ainda que não
tenhamos informações mais detalhadas das tramas que os envolveram, tais
matrimônios foram responsáveis pela inserção daquelas moças, expostas e
à margem das relações sociais, naquela sociedade fortemente hierarquizada
do Segundo Reinado. O quadro, a seguir, mostra as conexões estabelecidas
entre homens a partir dos casamentos.
Moças
Noivos Padrinhos
(expostas)

Jozé Fernandes da Costa Pereira e


Luísa Maria da Conceição Antônio Pereira da Rocha
Rufino Gomes de Oliveira

Antônio Pereira da Rocha e Jozé


Ricardina Antônia Virtude Chispriano Jozé da Gama Junior
Luiz da Silva
Cônego Antônio Collares e
Cândida Maria do Espirito Santo Francisco Domingues da Cruz
Antônio Pereira da Rocha
Geraldina Carolina das Dores Antônio dos Santos Queiróz Antônio Secioso Moreira de Sá
Antônio Secioso Moreira de Sá e
Zelinda Rosa Octaviana Joaquim Gonçalves Vianna
Antônio Pereira da Rocha

Jozé Gomes da Fonseca Parahyba


Maria Francisca do Nascimento Antônio Secioso Moreira de Sá
e Antônio Pereira da Rocha

Jozé Fernandes da Costa Pereira e


Anna Stella dos Prazeres Francisco Antônio Navarino
Antônio Pereira da Rocha

Fonte: Livro de Registro de Órfãs e Recolhidas ao Asilo de N. S. da Lapa (1864 – 1962)


- Arquivo da Santa Casa de Misericórdia de Campos dos Goytacazes.

Os matrimônios ocorreram entre os anos de 1866 a 1870 e foram


realizados na Igreja Matriz São Salvador. Alguns desses homens exerciam
funções na Misericórdia. Antônio Pereira da Rocha foi tesoureiro durante
a administração de Fonseca Parahyba. Era campista e representou “sua
Província em duas legislaturas provinciais e fora presidente das Províncias do
Espírito Santo, do Ceará, de S. Paulo, do Rio Grande do Sul e de Pernambuco”.
Exerceu também o cargo de Ministro da Agricultura, participava do Conselho
do Imperador e era Cavalheiro da Ordem de Cristo. Seus padrinhos,
Rufino Gomes de Oliveira e José Fernandes da Costa Pereira, ocupavam,
respectivamente, o cargo de mordomo do hospital e o advogado da instituição.
Observemos que a presença do tesoureiro é constante, aparecendo como

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padrinho em mais dois casamentos. O Cônego Collares, que figura também
como padrinho, havia ocupado o cargo de provedor entre 1846 e 1853 e ainda
participava das discussões e das propostas administrativas na Santa Casa.
Também foi vereador de cidade. Antônio Secioso Moreira de Sá ocupava
o cargo de médico adjunto do hospital, e teve como padrinhos o provedor
e o tesoureiro da Santa Casa. Uma exposta ainda foi encaminhada para
companhia de sua família em 1868. Importante chamarmos a atenção para
a posição privilegiada ocupada por esse médico, pois além de servir como
padrinho em mais de um casamento, teve como testemunha de seu enlace
Fonseca Parahyba, homem que estava à frente da instituição e que possuía
grande prestígio social na região. Além disso, o médico desposara a filha
de Valentim Codeço, proeminente membro que participou e articulou a
fundação da Misericórdia de Campos, assumindo a provedoria por duas
vezes (1804/1805-1807/1808)17 (Lamego, 1951).
O último casamento listado teve por padrinhos, novamente, o tesoureiro
Antônio Pereira da Rocha e José Fernandes da Costa Pereira. Salta-nos
aos olhos, pois, as boas relações e as alianças formadas por esses homens
dentro desse espaço social. O cruzamento entre as informações fornecidas
por Alberto Lamego, o relatório anual da provedoria de Fonseca Parahyba
e o livro de registros das expostas, revela-nos que o bacharel Costa Pereira
possuía proeminência social. Formou-se em Direito pela Faculdade de São
Paulo e assumiu o cargo de provedor da Santa Casa de Campos após Fonseca
Parahyba (1868 – 1871) (Lamego, 1951:45).
Dedicou-se também à política. Foi um dos principais defensores do
projeto que propunha elevar Campos dos Goytacazes a província. Em meados
do século XIX, o então vereador requereu uma comissão para coletar “dados
estatísticos e topográficos do município e informações sobre a produção e
população”, que corroborassem o projeto. O apoio das províncias vizinhas,
Minas Gerais e Espirito Santo, incentivaria o processo de integração e
aproximação dos povoados da região, o que atendia a interesses econômicos
de homens poderosos, como o próprio Costa Pereira, um proeminente

17. Livro de Registro de Órfãs e Recolhidas ao Asilo de N. S. da Lapa (1864 – 1962). Arquivo
da Santa Casa de Misericórdia de Campos dos Goytacazes.

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proprietário de terras que visava “ampliar o lucrativo comércio de madeira
e demais produtos”. A expansão do café entusiasmou o advogado e político a
fazer a interligação da cidade de Campos com o porto de São João da Barra,
construindo o canal do onça para controlar as terras dos sertões capixabas
da Pedra Lisa (Chrysóstomo, 2011:70).
Nesse aspecto, podemos identificar um emaranhado que comprometia
esses homens com códigos de civilidade importantes para a configuração
social. Mais ainda, essas redes envolviam diversos interesses e criavam relações
de interdependência entre eles. Essas sociabilidades configuram a existência de
associações em constante movimento, circunscritas a dimensões geográficas
e temporais, marcadas por identidades culturais específicas e suas aspirações
políticas no campo social (Morel, 2001).
Alexandre Mansur Barata analisou a formação das elites regionais e
nacionais a partir do conceito de sociabilidades. Afirmou que as relações entre
o Estado e a sociedade, durante o oitocentos, estavam inseridas numa política
cultural específica, entendida como um “conjunto de discursos e práticas
políticas simbólicas pelas quais” essa simbiose se dava. Especificamente, o
autor investiga os acontecimentos no cenário mineiro e nos adverte que,
antes de uma continuação das relações coloniais presentes nas irmandades e
nas misericórdias, observa-se, no início do século XIX, a formação de novas
práticas associativas, com o surgimento das sociedades filantrópicas. Essas
sociedades engendram discussões políticas e sociais, fundam bibliotecas
e associações literárias que visavam a expansão de sabedoria para povo
(Barata, 2009:52).
Como podemos perceber, as discussões acima adquirem extrema
importância ao fornecer subsídios para a análise aqui proposta. Num ambiente
bastante específico, de rearranjos de redes de sociabilidades que viabilizavam
as demandas e forjavam uma dada cultura política, a Santa Casa de Campos
figura, ao que nos parece, como importante epicentro de discussões e alianças
políticas locais que se alargavam por seu entorno provincial.
Chamamos a atenção, da mesma forma, para a importância que os
laços de compadrio possuíam naquela sociedade oitocentista. As redes
clientelares eram definidas a partir de alianças e compromissos firmados com

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o intuito de estabilizar padrões de interdependência e poderes, entre diversos
grupos sociais que articulam e negociam posições nessa estrutura social
hierarquizada. O compadrio assumia ai papel definidor dessas hierarquias:
a escolha dessas testemunhas não era aleatória. Da mesma forma, essas
relações não implicavam dominação ou submissão, configuravam sim um
entrelaçamento de deveres, direitos e compromissos mútuos. Era uma relação
moral, fundada em valores religiosos, acima de tudo (Vellasco, 2009:87).
Esses referenciais de conduta constituíam-se em pilares daquela
sociedade. Alianças com homens poderosos eram almejadas por aqueles
que buscavam lugar entre as elites regional e nacional. No caso aqui analisado,
os casamentos dos irmãos com aquelas expostas nos sugerem relações de
sociabilidades estabelecidas no âmbito da Misericórdia, com conexões
regionais e nacionais. A participação de José Fernandes da Costa Pereira
em dois casamentos, por exemplo, é representativa de sua importância
perante as instâncias políticas da Província do Rio de Janeiro. Figurava
entre os grandes proprietários da região. As boas relações com esse homem
poderiam render cargos e posições privilegiadas, não só em Campos, como
no cenário social brasileiro (Lamego, 1981) e (Chrysóstomo, 2011).

Conclusão
As elites da capitania e, mais tarde, província de Campos dos Goytacazes,
desde o início dos setecentos, viram-se forçadas a reconfirmar, cotidianamente,
suas prerrogativas e privilégios. A contar da segunda metade da centúria,
o crescimento populacional acompanhou o econômico, resultando num
processo de ressignificação daquela sociedade. Às transformações operadas a
partir da virada do século em todo império português (que se dinamizariam
no desenrolar do século seguinte) somaram-se os esforços dessas elites
regionais em ser reconhecidas como principais da terra, através de estratégias
que garantissem aquelas mesmas distinções sociais de tempos atrás.
Nesse contexto a Santa Casa de Misericórdia exerceu um papel
fundamental. Fundada sob a égide de tentativas de reformas nas estruturas
assistencialistas portuguesas, os objetivos assistencialistas que impulsionaram
sua fundação se confundiam com desejos de demarcação de espaços sociais. A

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partir do século XIX, com a complexidade assumida pela região, a instituição
estudada se tornou um dos principais centros aglutinadores de alguns dos
principais homens do poder local, juntamente com a câmara municipal.
Sobre o Asilo da Lapa, sua fundação, em 1864, atendeu a uma demanda
antiga da assistência campista, de décadas atrás, conforme vimos. O processo
de urbanização das cidades se adensou nos oitocentos, exigindo providências
sociais e políticas de suas elites. A efetivação do referido asilo, sob a guarda
da Santa Casa de Misericórdia, é fruto dessa dinâmica. Além disso, nossa
intenção foi sugerir, a partir do estudo dos compadrios estabelecidos pelos
casamentos, algumas reflexões acerca da persistência de certas tradições
costumeiras que ainda influenciavam as relações sociais e determinavam
prerrogativas, demarcando a relevância dessas instituições de assistência aos
mais pobres para a sociedade imperial e para suas elites regionais.

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Médicos no interior fluminense na segunda metade
do Oitocentos

Tânia Salgado Pimenta1


Ticiana Santa Rita2

Ao longo do século XIX, algumas obras escritas por médicos para


leigos se destacaram, sendo adquiridas por muitas famílias letradas. Embora
tenham circulado também em centros urbanos, justificavam a sua existência
por procurarem suprir a ausência de médicos nas regiões do interior3. Na
edição de 1878 do “Dicionário de Medicina Popular”4, Pedro Luiz Napoleão
Chernoviz foi enfático sobre a “impossibilidade de encontrar um facultativo
no interior do Brasil, a uma zona de 10, 20 ou mais léguas” (Chernoviz, 1878
apud Guimarães, 2016:64; Medeiros, 2018:43). Anos antes, em 1865, Theodoro
Langgaard também chamava a atenção, em seu “Dicionário de Medicina
Doméstica e Popular” para a “carência absoluta que há de médicos nas

1. Pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz-Fiocruz e professora do Programa de Pós-


Graduação em História das Ciências e da Saúde- Fiocruz.
2. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde-Fiocruz.
3. Como os manuais “O Manual do Fazendeiro” e o “Guia Médico das Mães de Família”,
ambos escritos por Jean-Baptiste Alban Imbert e publicados, respectivamente em 1839 e
1843; e “O Médico e o Cirurgião da Roça” e “Primeiros Socorros ou a Medicina e Cirurgia
Simplificada” de Luiz Francisco Bonjean, publicados respectivamente em 1866 e 1857. Confira
Guimarães, 2016:cap.2.
4. A primeira edição do Dicionário é de 1842 e teve seis edições. Sua primeira obra, Formulário
ou Guia Médico foi publicada em 1841 e teve 19 (Guimarães, 2016:79).

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vastíssimas regiões do interior” e que “a presença do médico, muitas vezes
impossível de encontrar numa zona de 20, 50 e mais léguas.” (Langgaard,
1865 apud Medeiros, 2018:43; Langgaard, 1873 apud Guimaraes, 2016:66). Esse
argumento era usado para defender a ideia de que seria bastante razoável
que leigos tivessem acesso ao conhecimento médico e pudessem praticar a
medicina em certos contextos de total ausência de médicos5.
Para entender o contexto referido por esses dois médicos é preciso
deixar claro que, certamente, a maior parte da assistência à saúde era exercida
por indivíduos sem formação acadêmica. O universo das práticas de cura
era bem amplo, abarcando os curandeiros, sangradores e parteiras, por
exemplo. Assim, o pequeno número de médicos distribuídos pela província
não significava que a população sentisse falta de médicos. Para tanto, seria
necessário que houvesse demanda por esses profissionais, um processo que
estava sendo construído ao longo de todo o século XIX.
Nesse artigo, pretendemos identificar a assistência à saúde disponível
através de médicos e cirurgiões no interior da província do Rio de Janeiro
divulgada no Almanaque Laemmert na segunda metade do século XIX.
Pretendemos traçar um quadro aproximado da disponibilidade desses
terapeutas no interior fluminense, que constituía parte da assistência à
população local. Para tanto, escolhemos os anos de 1850, 1865 e 18806.
Apontaremos para a importância da interiorização desses profissionais
como uma forma de construir suas carreiras. Ao analisarmos as mudanças
observadas na oferta desses profissionais ao longo do período, estamos

5. Ver Maria Regina Guimarães: “Tais manuais foram escritos e apreciados justamente por
sua utilidade na ausência de médicos, mas seus autores têm dificuldades em ser tão arro-
jados nessa sentença. Em Chernoviz, Imbert e Bonjean, os prefácios argumentam que há
campos da medicina fáceis de serem alcançados por um leigo letrado, que é de fundamental
importância que a ciência chegue às pessoas de forma inteligível, que há uma definitiva
ausência de médicos no interior do Brasil, e que os charlatães estão sempre prontos para
agir. O leitor, então, vai encontrar, nestes autores, uma tentativa de conciliar tais argumentos
com o da indispensabilidade de um médico em algumas situações. Embora, geralmente, o
conteúdo das obras não corrobore esta indispensabilidade, de qualquer maneira, a intenção
está registrada”. (2016:65)
6. Agradecemos a Paula Scofano de Almeida, bolsista de Iniciação Científica/PROEP
entre maio e agosto de 2018, do projeto “A interiorização da assistência: um estudo sobre a
expansão e a diversificação da assistência à saúde no Brasil (1850-1945) pelo levantamento
dos médicos listados em 1850.

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tratando também da disseminação da medicina acadêmica pelo interior
da província.
É preciso esclarecer que as listas de médicos publicadas anualmente
no Almanaque Laemmert dependiam de informações enviadas por cada
município. Assim, é possível que houvesse outros médicos atuando na região,
ainda que não tivessem sido apontados pelo Almanaque. De todo modo,
consideramos que esses dados indicam de forma bastante aproximada o
número de médicos estabelecidos pelo interior da província do Rio de Janeiro.

Casas de Caridade
Durante o Oitocentos, observamos o crescimento do número de
estabelecimentos voltados para a assistência à saúde denominados, pelo
governo provincial, de casas de caridade, uma vez que seriam voltados para
a pobreza. Por oferecer atendimento médico, essas casas constituíam um
atrativo ou fixador de um esculápio na região. Assim, temos como certo que
existiam médicos nos municípios onde havia casas de caridade e que à medida
que novos estabelecimentos desse tipo fossem criados em outros municípios
da província, mais médicos existiriam no interior. Não era incomum que
médicos que trabalhavam nessas casas de caridade também tivessem sua
clientela particular, atendendo famílias com recursos para pagá-los.
A criação de casas de caridade está relacionada à identificação de uma
pobreza que necessitava de assistência à saúde. Esses pobres moravam nos
centros urbanos e seus arredores e, muitas vezes, encontravam-se em uma
frágil rede de proteção insuficiente para evitar o internamento em hospital ou
casa de caridade. Entre 1850 e 1880, o número desses estabelecimentos mais
que dobrou na província fluminense. No começo do período analisado eram
sete e, ao final, passaram a ser quinze. Assim, em 1850 podemos enumerar:
Angra dos Reis, Paraty, Resende, Valença, Magé, Cabo Frio e Campos. E em
1880: além dessas sete, havia Petrópolis, Vassouras, Barra Mansa, Itaguaí,
Niterói, Macaé, São João da Barra e Cantagalo. Constituem instituições
bem diferentes entre si. Algumas foram inauguradas por irmandades que
já existiam, enquanto outras irmandades foram criadas para administrar
alguma casa de caridade. No caso das irmandades da Misericórdia, embora,

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em geral, seguissem o Compromisso da Misericórdia de Lisboa, de 1618, eram
estabelecidas a partir da articulação da elite local, como se deu no caso da
Misericórdia do Rio de Janeiro (Gandelman, 2005:176).
No interior da província fluminense, a Santa Casa de Campos era a mais
bem estabelecida, tendo sido criada ainda no período colonial, em 1792. Angra
dos Reis e Paraty também possuíam hospitais administrados por suas Santas
Casas da Misericórdia, inaugurados em 1835 e antes de 1838, respectivamente.
Cabo Frio, por sua vez, possuía uma casa de caridade, fundada em 1835,
administrada pela irmandade de Santa Izabel. Diferentemente, a Casa de
Caridade de Magé, estabelecida antes de 1835, e o Hospital de Caridade de
Petrópolis, reconhecido como tal em 1850, eram administrados por suas
Câmaras Municipais. Outro aspecto que variava bastante dizia respeito ao
tamanho da enfermaria das casas de caridade. Enquanto, anualmente, a de
Cabo Frio poucas vezes passou de 20 enfermos, a de Campos recebia de
300 a mais de 600 e o Hospital de São João Baptista de Niterói chegava a
tratar de mais de 1.500 doentes (Relatórios de Presidentes de Província do
Rio de Janeiro, 1835-1888)7.
Percebemos, assim, que a denominação “casa de caridade” englobava
estabelecimentos de assistência à saúde muito diferentes entre si. Em comum,
tinham o subsídio do governo provincial, que distribuía o resultado da
arrecadação de loterias de acordo com a necessidade. Havia, no entanto,
muita reclamação sobre o não recebimento do auxílio, sobretudo na primeira
metade do século XIX.
A maior parte dos municípios, contudo, não contava com um
estabelecimento de assistência à saúde voltado para os pobres. Apesar disso,
é interessante considerar a existência da assistência à saúde nos núcleos
urbanos numa perspectiva regional. A Santa Casa de Vassouras, por exemplo,
esclarecia que atendia muitos trabalhadores da Estrada de Ferro D. Pedro II
(RPPRJ, 1859 e 1864), assim como a Misericórdia de Resende que também
atendia a trabalhadores da Estrada de Ferro e moradores de municípios
limítrofes (RPPRJ, 1862). Argumentavam que, por isso, deveriam receber
mais subsídio provincial sobre o qual deveriam prestar contas através de

7. De agora em diante: RPPRJ.

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relatórios, o que não era muito frequente a julgar pelas reclamações dos
presidentes de província. A assistência à saúde de um município através do
médico ou cirurgião de partido, que era contratado pela câmara municipal
para atender a pobreza, também podia servir a outros municípios próximos,
uma vez que constava em alguns orçamentos não o médico, mas sim o
transporte de doentes para outros locais (Pimenta, 2017, p.41-42).
Os médicos que se dispusessem a clinicar no interior fluminense -
fosse por laços familiares, fosse pela dificuldade de se estabelecer na Corte
– teriam oportunidades interessantes. Além de construir suas clientelas
particulares, podiam trabalhar como médico da câmara municipal, em casas
de caridade de alguns municípios, assim como em várias fazendas, sobretudo
aquelas voltadas para exportação do café, cujos proprietários consideravam
importante oferecer assistência de um médico, a fim de explorar melhor
sua escravaria.
Alguns exemplos ajudam a visualizar as posições para o exercício da
medicina nos diversos municípios. Em Resende, José Pimentel Tavares
aparecia na lista de médicos de 1850, 1865 e 1880 e constava, nos três anos,
como médico da Santa Casa de Misericórdia local. Em 1865, em Valença, o
médico da Misericórdia era Francisco Antônio de Souza Nunes e, na vizinha
Vassouras, Antônio Lazzarini ocupara esse lugar na Santa Casa, que passou
para responsabilidade de Antônio Corrêa de Macedo e Lucindo Pereira
dos Passos Filho em 1880. Nesse mesmo ano, em Cantagalo, Henrique
Sauerbronn e Eduardo Pereira de Mello eram os médicos da casa de caridade,
administrada pela Sociedade Maçônica. Em algumas situações, portanto,
havia mais de um médico contratado pela casa de caridade como ocorreu na
Santa Casa de Angra dos Reis, que, embora não tivesse uma grande dimensão,
empregava quatro médicos em 1865: José Pereira Peixoto, José Teixeira da
Cunha Louzada, Manoel Teixeira de Souza Leite e Paulino Corrêa Vidigal.
Outros atuavam diretamente para o poder público como identificamos,
em 1850, Lauriano Pinto da Silva, médico da câmara e vacinador em Iguassú e
o cirurgião João Militão da Fonseca, vacinador em Mangaratiba. Em Campos,
em 1865, Maximiniano Antônio de Azevedo e Silva e Joaquim Hermenegildo
da França eram médicos de partido. Em 1880, desempenhavam as funções

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de médicos de partido e de vacinadores José Teixeira da Cunha Louzada, em
Angra dos Reis, Manoel Antônio de Abreu Sodré, em Capivari, e Matheus
José Firme de Assis, em Paraty.
Alguns poucos conseguiam acumular diversas funções como José Isidoro
de Sá que atendia no Hospital de Santa Isabel da Caridade de Cabo Frio entre
1850 e 1865, pelo menos, e era cirurgião e vacinador da Câmara Municipal no
mesmo período. Também em 1850 e 1865 identificamos Raymundo Antônio
Teixeira como vacinador em Itaguaí e médico da Casa de Caridade local,
onde dividiu as funções em 1865 com José Maria de Souza Loureiro, que
aparece sozinho em 1880. Em Magé, Peregrino José Freire era vacinador e
médico da casa de caridade de Magé em 1850, lugar que passou a ser ocupado
por Domingos João da Soledade Valente em 1865. Em Campos, em 1850,
observamos que Felicíssimo Antônio da Gama era vacinador e João Baptista
de Lacerda trabalhavam na Santa Casa.
Como essa análise se restringiu aos anos de 1850, 1865 e 1880, não foi
possível identificar o período em que esses médicos permaneceram nas
funções de médico de partido, vacinador e médico de casa de caridade8.
Percebemos, apesar dessa limitação, alguma variação em torno dos nomes que
ocupavam os cargos, cujas informações também não eram muito frequentes
no Almanaque. Ademais, se um médico considerasse que não estava bem
estabelecido num município, poderia se mudar para outro em busca da
posição almejada através da formação de uma clientela particular ou de
contrato com a câmara municipal ou casa de caridade.

Médicos que se moviam e médicos que se estabeleciam


Interessa destacar que, além dos doentes em busca de alguma assistência
para seus males, os próprios médicos também circulavam. O quadro abaixo
demonstra a mobilidade de médicos no exercício de sua profissão:

8. A pesquisa está em curso e pretendemos ampliar o levantamento para os demais anos


do Império.

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Quadro 1: Médicos que atuaram em mais de um município (1850, 1865 e
1880)

Médico 1850 1865 1880


Antonio Lazzarini Valença Vassouras
Joaquim Antunes de Figueiredo Valença Angra dos Reis
Vassouras
Miguel José Ferreira de Souza
Valença
Segismundo Speridião de Almeida Vassouras
Piraí
Beltrão Valença
Bernardo Francisco Justiniano Piraí Vassouras
Vassouras
Aureliano Teixeira Garcia
Valença
Manoel Gonçalves de Moura Capivari Iguassú
Barra Mansa
Cassiano Augusto de Mello Mattos
Valença
Saturnino Evangelista São João do Príncipe Barra Mansa
Carlos Éboli Cantagalo Nova Friburgo
Reginaldo Maurício de Torres
Itaboraí Macaé
Quintanilha
Paraty
Matheus José Firme de Assis
Angra
José Mariano de Amorim Carrão Paraty Niterói
Luiz Alves Nogueira da Silva Cabo Frio Barra de São João
Capivari
Marcos Francisco Vieira
Rio Bonito
Luiz José Soares Iguassú Vassouras
Manoel Antonio Fernandes Pereira Campos Nova Friburgo

Eloy Benedicto Ottoni Magé Santa Maria Madalena

Jeronymo Severiano Barrão Itaboraí Estrela


João Antônio de Barcellos Resende Itaguaí
João Goulart Rolim São João do Príncipe Angra dos Reis
Paraíba do
João Rodrigues de Araujo França Paraíba do Sul Sapucaia
Sul
José Joaquim Rodrigues Paraíba do Sul Sapucaia
Luiz Antônio Chanes Piraí Vassouras Vassouras
Fonte: Almanaque Laemmert, 1850, 1865 e 1880

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Diante das mudanças nas delimitações dos municípios, em geral por
criação de alguns, destacamos que médicos como João Rodrigues de Araújo
França e José Joaquim Rodrigues, que aparecem em Paraíba do Sul em 1865,
podem não ter saído do lugar, apesar de estarem em Sapucaia em 1880. Em
1874, parte do território de Magé e Paraíba do Sul foi desmembrado para
criar o município de Sapucaia. Essa situação, porém, não aconteceu na maior
parte dos casos listados no quadro 1.
Em geral, entre os casos que pudemos reconhecer, a mudança ocorria
entre municípios próximos da mesma região, corroborando com Fridman
(2006; 2010) e Macedo (2008) sobre a constituição de redes entre núcleos
urbanos que apontam para a importância de analisarmos as cidades em
relação à região. Outro aspecto que merece ser destacado é a identificação
de alguns médicos que constavam na lista de dois municípios vizinhos no
mesmo ano. Esses indivíduos se movimentavam pela região em que habitavam
através das estradas, rios e ferrovias. Por esses núcleos urbanos circulavam
produção e consumo, assim como se buscava obter o controle territorial.
Aos caminhos abertos em função da atividade mineradora em Minas
Gerais nos Setecentos, somaram-se a construção intensa de estradas e de
ferrovias com a expansão da produção cafeeira (Macedo, 2008:13-15;115-116).
O grande investimento em estradas e ferrovias nas primeiras décadas da
segunda metade do século XIX estava de fato “relacionado à estratégia de
manter os altos índices da produção cafeeira, mas também visava garantir o
apoio político dos cafeicultores em relação ao Estado imperial, após a efetiva
suspensão do tráfico atlântico de escravos” (Gouvêa, 2008:49). A ocupação
das áreas do centro-leste e norte da província, chegando a Cantagalo e
São Fidélis, nos anos 1840 e 1850, permitiu a continuação da expansão da
cultura cafeeira fluminense e, ainda na década de 1850, a província do Rio de
Janeiro se tornou a principal região de exportação de café do Brasil, sendo
responsável por 78% da produção entre 1853 e 1859 (Gouvêa, 2008:27;47-49).
Apesar dessa proeminência do café, a historiografia vem apontando que
o processo de expansão provincial deve ser entendido como caracterizado
por um conjunto de aspectos diferenciados que marcaram cada região da
província. Ao analisar as receitas anuais dos municípios entre 1838 e 1884,
Maria de Fátima Gouvêa aponta para municípios que enfrentaram estagnação

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econômica como Araruama, Estrela, Magé, Mangaratiba e Santo Antonio
de Sá. Outros se voltaram para atender as necessidades do mercado interno
e conseguiram manter uma atuação econômica equilibrada como Capivari,
Itaboraí, Itaguaí, Macaé, Nova Friburgo, Paraty, Petrópolis, Rio Bonito, São
João da Barra, Sapucaia e Saquarema (2008:55-60).
Por diferentes regiões, médicos circulavam e alguns se estabeleciam.
Estudos recentes indicam que o interior da província fluminense poderia
atrair médicos estrangeiros porque eles teriam mais liberdade para atuar
antes mesmo da validação de seus diplomas pela Faculdade de Medicina
do Rio de Janeiro, como no caso de Carlos Eboli em Cantagalo no começo
da década de 1860 (Proença, 2017:46-50) e de Jean Baptiste Lacaille entre o
final da década de 1840 e a de 1850 em Magé (Dantas, 2017:82-88). Entre os
médicos que atuavam no interior, havia estrangeiros que ainda não tinham
estabelecido redes de sociabilidade na Corte e diante de um mercado bastante
competitivo, na segunda metade do século XIX, procuravam espaços onde
pudessem exercer sua profissão.
A partir do início do século XIX, em especial, com a criação das
faculdades de medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, em 1832, observa-se uma
progressiva organização da corporação médica (Ferreira, 1996). O próprio
desenvolvimento da capital do Império e a complexificação da vida urbana
com expressivo aumento populacional levou ao crescimento do número de
médicos que ofereciam seus serviços não apenas em clínicas particulares,
atendimento em domicílio, mas também em casas de saúde e hospitais
(Dantas, 2017; Barbosa, 2016). Conforme afirmava Edler, a competição entre a
reduzida clientela abastada e a livre atuação de terapeutas populares levariam
a “uma tendência de empobrecimento da maioria dos médicos” na Corte
(2014, p.54). Embora importantes médicos estrangeiros tenham se destacado
na Corte, inclusive no ambiente acadêmico, outros tantos preferiram tentar a
sorte no interior, ao menos nos primeiros anos de exercício médico no Brasil.
Além de exercerem a medicina na clínica particular nos núcleos urbanos,
em casas de caridade ou como médico da câmara, médicos brasileiros e
estrangeiros também poderiam ser atraídos pelo trabalho em fazendas no
interior da província. Tratar das escravarias das fazendas, sobretudo nas
regiões cafeeiras, constituía uma possibilidade de atuação que poderia tornar

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interessante o estabelecimento no interior da província. Reinhold Teuscher
aproveitou a experiência adquirida no tratamento da escravaria em cinco
fazendas do Barão de Nova Friburgo, em Cantagalo, para desenvolver sua
tese de validação de seu diploma, intitulada “Algumas observações sobre
a estatística sanitária dos escravos em fazendas de café” (1853) (Barbosa,
2014; Pereira, 2016). Doze anos depois, Teuscher ainda estava atuando em
Cantagalo constando na lista de médicos de 1865.
David Gomes Jardim também abordou o tema dos cuidados com os
escravizados em sua tese apresentada para obtenção do diploma da Faculdade
de Medicina do Rio de Janeiro. Sua tese pode ser associada à origem do
autor. Embora tivesse nascido na Corte, sua família viveu algum tempo em
Resende, onde nasceram seu pai e seu irmão. Pouco depois de ter se formado,
Jardim volta para a região, aparecendo em 1850, na lista de Barra Mansa. A
tese “Algumas considerações sobre a higiene dos escravos” defendia que “A
escravidão degrada o homem, embota suas faculdades, e o torna incapaz
de qualquer aperfeiçoamento” (1847:2). A partir dessa consideração, Jardim
discorre sobre a alimentação, o vestuário, o trabalho e os cuidados com
escravos enfermos (Eugênio, 2016:167-193)9.
Enquanto alguns médicos chamam a atenção pela mobilidade e
disposição para construir suas clientelas ou buscar algum cargo como médico
de partido ou de casa de caridade, outros acabavam ficando no mesmo
lugar por décadas. Ressaltamos que trabalhamos com apenas três anos.
Dessa forma, não pretendemos dar conta de todo o universo de médicos
da província, mas sim apresentar possibilidades e escolhas de médicos que
optaram pela interiorização.
Desse modo, identificamos quinze médicos que constam nas listas
dos três anos analisados de um mesmo município (Quadro 2). Ou seja,
permaneceram, pelo menos, trinta anos na mesma localidade. Verificamos
também que 79 médicos ficaram, ao menos, quinze anos em determinado
local (Quadro 3). Continuar no mesmo lugar por 15, 30 anos ou mais aponta
que essas pessoas apostaram em exercer a medicina no interior da província

9. Sobre a administração do trabalho escravo através da análise de manuais de fazendeiro,


ver Marquese, 2001.

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e, provavelmente, conseguiram uma situação estável. Embora nesses quadros
houvesse médicos que trabalharam em casa de caridade e para câmara
municipal, a maior parte deve ter se sustentado com a construção de clientela
particular.

Os médicos em números
Depois de analisarmos as motivações que poderiam levar os médicos
a se estabelecerem no interior da província, pretendemos traçar um quadro
geral dessa presença a partir da quantificação dos dados retirados das listas de
1850, 1865 e 1880. Devido a problemas no fornecimento de informações dos
municípios fluminenses para o Almanaque Laemmert, fizemos três correções
em 1880, utilizando dados de 1881. O município de Campos apresentou 25
médicos em 1850, 28 em 1865 e 9 em 1880. Em 1881, apresentou 27 médicos,
condizendo com os anteriores. Itaboraí parece ter sido um caso de não
envio de informações em 1880, pois de 15 em 1850, e 7, em 1865, passou
para zero e, 1881, cinco. O caso de Valença merece mais atenção, porque de
8 e 15 médicos em 1850 e 1865, respectivamente, passou para 13, sendo que
em 1881 apresenta 23 médicos. Essa variação incide na soma de cada ano
e nos permite ponderar que houve uma expansão significativa da atuação
dos médicos no interior do Rio de Janeiro de 1850, quando somaram 170,
para 1865, que totalizou 266. Em relação a 1880, acreditamos ter havido uma
estabilização do número desses profissionais. Com as correções de Campos
e de Itaboraí, soma-se 262. Corrigindo-se o número de Valença também, a
soma do último ano chega a 272.

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Tabela 1: Número de médicos por município fluminense, 1850, 1865 e
1880
Municípios 1850 1865 1880¹⁰
Angra dos Reis 7 4 4
Paraty 5 3 1
Mangaratiba 1 1 1
Itaguaí 4 3 4
Valença 8 15 23
Vassouras 14 21 13
Resende 7 10 10
Barra Mansa 3 6 14
Piraí 6 12 7
Rio Claro 0 2 1
Sapucaia 0 0 9
Santa Maria Madalena 0 7 8
Paraíba do Sul 7 14 18
Cantagalo 4 13 23
Nova Friburgo 2 4 9
Petrópolis 0 5 3
Araruama 0 8 4
Barra de São João 0 4 3
Cabo Frio 6 4 3
Saquarema 4 4 2
Maricá 5 5 5
Capivary 2 2 2
Rio Bonito 3 2 3
Campos 25 28 27
Macaé 5 9 7
São Fidélis 0 7 8
São João da Barra 1 3 5
Estrela 6 6 3
Iguassú 4 7 7
Magé 3 11 3
Itaboraí 15 7 5
Niterói 17 28 33
Santana de Macacú 0 0 2
Santo Antonio de Sá 6 2 0
São João do Príncipe 0 9 2
Total 170 266 272

Fonte: Almanaque Laemmert, 1850, 1865 e 1880

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O número total de médicos a cada ano, contudo, esconde as variações
que ocorreram nas diversas regiões. A fim de compararmos esses contextos,
relacionamos o número de habitantes dos municípios da província de 1851 e
de 1878, organizados por Gouvêa (2008:43-44)10, com o número de médicos
listados no Almanaque Laemmert nos anos de 1850 e 1880, respectivamente.
No intervalo de três décadas, a população de alguns municípios havia
crescido bastante, mas o número de médicos listados também, diminuindo
a quantidade de habitantes por cada médico. Isso ocorreu em Valença,
Resende, Barra Mansa, Piraí, Paraíba do Sul, Cantagalo, Nova Friburgo,
Niterói, capital da província, e Iguassú. Em outros municípios essa proporção
seguiu a mesma tendência, mas por outro motivo: sua população diminuiu e
o número de médicos se manteve, como em Mangaratiba, Itaguaí e Maricá.
Em Vassouras, a população cresceu bastante, mas o número de médicos
não, fazendo com que a proporção habitantes por um médico fosse alta.11
Angra dos Reis e Paraty apresentaram a mesma tendência de 1850 para 1880,
embora tenha sido porque perderam habitantes e médicos. Também havia
menos médicos para tratar da população de Cabo Frio, Saquarema, Capivari,
Rio Bonito, Estrela, Magé e Itaboraí. No caso de Campos, houve um aumento
da população bem maior do que o número de médicos listados, havendo
mais indivíduos para serem atendidos por um médico. Macaé manteve uma
proporção alta, mas semelhante entre os dois anos.
A tendência de aumento ou diminuição do número de habitantes
para cada médico entre 1850 e 1880 poderia ser bastante semelhante de
um município para outro, ainda que estivessem em contexto econômicos
opostos. Isso demonstra a necessidade de uma análise mais detalhada sobre a
região. A proporção número de habitantes/médico, em geral, era menor nos
municípios produtores de café, contudo, também encontramos variações,
que devem ser examinadas considerando-se justamente as relações dos
municípios entre si.

10. Ainda que consideremos as falhas dos censos, constituem uma aproximação sobre o
número de habitantes e o crescimento populacional.
11. Petrópolis, Araruama, Barra de São João, Sapucaia, Santa Maria Madalena, Santana de
Macacú foram criados depois de 1850, o que não permitiu a comparação no tempo, assim
como Santo Antonio de Sá que já não existia mais em 1878/1880.

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À guisa de conclusão
Algumas situações, de fato, nos remetem às afirmações de Chernoviz e
Langgaard. Em Rio Claro e São João do Príncipe, não havia médicos listados
para os seus pouco mais de 8.500 e 15.000 habitantes, respectivamente, em
meados do Oitocentos e três décadas depois havia apenas um médico para
os mais de 29.000 moradores da primeira cidade e dois médicos para as
mais de 17.000 pessoas da segunda. Paraty apresentava apenas um médico
para quase 12.000 moradores em 1880.
Porém, ao mostrarmos as diferenças entre as regiões, pretendemos
ter matizado as afirmações desses famosos esculápios. Certamente, a
diminuição da proporção de médicos/habitantes não significava que havia
médicos suficientes para tratar de seus habitantes. Como apontamos, não
havia necessariamente uma demanda por médicos diplomados em todos
os grupos sociais. Tratamos aqui de outro aspecto: sobre a interiorização e
disseminação da medicina acadêmica e a importância disso para as carreiras
desses profissionais.
Quadro 2: Médicos presentes nos três anos analisados

Médicos/Cirurgiões Municípios
Camilo José de Moura Campos
Gervasio Caetano Peixoto Lima Campos
Antonio da Silva Rosa Estrela
Bernardino Antonio Alves Machado Estrela
José Martins de Oliveira Estrela

João Marcello Brasil – vacinador da Câmara Maricá

Jacintho Pereira Machado Maricá


Joaquim Marianno de Azevedo Soares Maricá
Ignacio Alves da Silva Paraíba do Sul
Martinho Alves da Silva Campos Paraíba do Sul
Matheus José Firme de Assis Parati
José Pimentel Tavares Resende
João Antonio de Velasco Molina Rio Bonito
José Antonio de Mattos Silva Rio Bonito
Manoel Antonio da Silva Saquarema

Fonte: Almanaque Laemmert, 1850, 1865 e 1880.

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Quadro 3: Médicos presentes em dois dos anos analisados

Médico/Cirurgião Município/Ano
José Pereira Peixoto Guimarães Angra dos Reis 1850/1865
Manoel Teixeira de Souza Leite Angra dos Reis 1865/1880
Candido Teixeira da Cunha Barra Mansa 1850/1865
José Corrêa da Silva Sampaio Barra Mansa 1850/1865
Antonio Freire da Silva Reis Barra Mansa 1865/1880
Pedro Luiz Vieira Barra Mansa 1865/1880
Francisco Antonio de Souza Cabo Frio 1850/1865
José Isidoro de Sá Cabo Frio 1850/1865
Antonio da Cunha Santos Cabo Frio 1865/1880
José Ferreira Passos Campos 1850/1865

Antonio Francisco de Almeida Barbosa Campos 1850/1865

Caetano Thomaz Pinheiro Campos 1850/1865


Francisco Rodrigues Penalva Campos 1850/1865
Francisco Thomaz Pinheiro Campos 1850/1865
João Baptista de Lacerda Campos 1850/1865
Joaquim Manhães Barreto Campos 1850/1865
José Joaquim Heredia de Sá Campos 1865/1880
José Gomes da Fonseca Parahyba Campos 1850/1865
José Pinto Ribeiro de Sampaio Campos 1850/1865
Manoel José da Costa Bastos Campos 1850/1865
Miguel Antonio Heredia e Sá Campos 1850/1865
Herculano José de Oliveira Mafra Cantagalo 1865/1880
Manoel Antonio de Abreu Sodré Capivari 1865/1880
Guilherme Antunes Marcello Estrela 1865/1880
Joaquim José de Oliveira Iguassú 1865/1880
Augusto Candido Xavier Itaboraí 1850/1865
Francisco Xavier de Mattos Itaboraí 1850/1865
João Gomes dos Santos Itaboraí 1850/1865
José Bernardino Ferreira Pacheco Itaboraí 1850/1865
José Maria de Souza Loureiro Itaguaí 1865/1880
Raymundo Antonio Teixeira Itaguaí 1850/1865
Manoel José da Costa Pires Magé 1850/1865
Domingos João da Soledade Valente Magé 1850/1865
Francisco Ferreira de Siqueira Magé 1865/1880
Celestino do Nascimento Silva Mangaratiba 1865/1880
Antonio da Silva Gradim Niterói 1850/1865 79
Francisco Rabello de Figueiredo Niterói 1850/1865
João José Pimentel Niterói 1850/1865
Joaquim Hermenegildo da França Niterói 1850/1865
Maxliniano Antonio de Azevedo e Silva Niterói 1850/1865
LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 79 23/01/2020 14:59:16
Francisco Xavier de Mattos Itaboraí 1850/1865
João Gomes dos Santos Itaboraí 1850/1865
José Bernardino Ferreira Pacheco Itaboraí 1850/1865
José Maria de Souza Loureiro Itaguaí 1865/1880
Raymundo Antonio Teixeira Itaguaí 1850/1865
Manoel José da Costa Pires Magé 1850/1865
Domingos João da Soledade Valente Magé 1850/1865
Francisco Ferreira de Siqueira Magé 1865/1880
Celestino do Nascimento Silva Mangaratiba 1865/1880
Antonio da Silva Gradim Niterói 1850/1865
Francisco Rabello de Figueiredo Niterói 1850/1865
João José Pimentel Niterói 1850/1865
Joaquim Hermenegildo da França Niterói 1850/1865

Maxliniano Antonio de Azevedo e Silva Niterói 1850/1865


José Francisco Frongeth Niterói 1850/1880
Manoel da Silveira Rodrigues Niterói 1850/1865
Guilherme Taylor Marc Niterói 1865/1880
Bento Maria da Costa Niterói 1865/1880
Hamvultando de Oliveira Niterói 1865/1880
João José de Freitas Bahiense Niterói 1865/1880
José Martins da Rocha Niterói 1865/1880
José Severino Avellar e Lemos Niterói 1865/1880
José Victorino da Costa Niterói 1865/1880
Liberato de Castro Carreira Niterói 1865/1880
Manoel Antonio da Costa Niterói 1865/1880
Marcellino Pinto Ribeiro Duarte Niterói 1865/1880
João Henrique Brauné Nova Friburgo 1850/1865
Antonio José Rodrigues Caldas Paraíba do Sul 1850/1865
João Rodrigues Araujo França Paraíba do Sul 1850/1865
Luiz Gomes Ribeiro de Avellar Paraíba do Sul 1865/1880
José Joaquim Pereira de Souza Paraty 1850/1865
Domingos Genelicio Lopes de Araujo Paraty 1850/1865
José Caetano de Oliveira Piraí 1865/1880
Custodio Luiz de Miranda Resende 1850/1865
Jorge João Theodoro Fischer Resende 1850/1865
Thomaz Wathely Resende 1850/1865
Gustavo Gomes Jardim Resende 1865/1880
Joaquim Coelho Gomes Resende 1865/1880
Salvador José Pereira Santo Antônio de Sá 1850/1865
Samuel da Paz Furtado de Mendonça Santo Antônio de Sá 1850/1865
Francisco Nicolao dos Santos São João do Príncipe 1865/1880
Luiz Januario da Silva Saquarema 1865/1880
Francisco Antonio de Souza Nunes Valença 1850/1865
Camillo Bernardino Fraga Valença 1865/1880
80
João Gomes dos Reis Vassouras 1850/1880
Joaquim Teixeira de Castro Vassouras 1850/1865
Joaquim Alexandre de Sequeira Vassouras 1850/1880
José Ribeiro Leite Zamith Vassouras 1850/1865
Manoel
LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA lgnacio de Figueiredo
GRAMÇÃO.indb 80 Jayme Vassouras 1850/1865 23/01/2020 14:59:17
Jorge João Theodoro Fischer Resende 1850/1865
Thomaz Wathely Resende 1850/1865
Gustavo Gomes Jardim Resende 1865/1880
Joaquim Coelho Gomes Resende 1865/1880
Salvador José Pereira Santo Antônio de Sá 1850/1865
Samuel da Paz Furtado de Mendonça Santo Antônio de Sá 1850/1865
Francisco Nicolao dos Santos São João do Príncipe 1865/1880
Luiz Januario da Silva Saquarema 1865/1880
Francisco Antonio de Souza Nunes Valença 1850/1865
Camillo Bernardino Fraga Valença 1865/1880
João Gomes dos Reis Vassouras 1850/1880
Joaquim Teixeira de Castro Vassouras 1850/1865
Joaquim Alexandre de Sequeira Vassouras 1850/1880
José Ribeiro Leite Zamith Vassouras 1850/1865
Manoel lgnacio de Figueiredo Jayme Vassouras 1850/1865
Vicente Porphirio Soares Serpa Vassouras 1850/1865
Antonio Corrêa de Macedo Vassouras 1865/1880
Joaquim Corrêa de Figueiredo Vassouras 1865/1880
Luiz Antonio Chaves Vassouras 1865/1880

Fonte: Almanaque Laemmert, 1850, 1865 e 1880.

Quadro 4: Proporção número de habitantes para cada médico


População Médicos População Médicos
Município Proporção Proporção
1851 1850 1878 1880
Angra dos Reis 25.216 7 3.602 20.867 4 5.217
Paraty 13.146 5 2.629 11.989 1 11.989
Mangaratiba 9.372 1 9.372 7.197 1 7.197
Itaguaí 16.003 4 4.001 14.118 4 3.530
Valença 28.702 8 3.588 51.082 23 2.221
Vassouras 28.638 14 2.046 39.981 13 3.075
Resende 20.000 7 2.857 29.671 10 2.967
Barra Mansa 17755 3 5.918 28.702 14 2.050
Piraí 26.003 6 4.334 24.941 7 3.563
Rio Claro 8531 0 0 29.363 1 29.363
Sapucaia - - - 12.955 9 1.439
Santa Maria Madalena - - - 22.929 8 2.866
Paraíba do Sul 16.753 7 2.393 35.716 18 1.984
Cantagalo 16.478 4 4.120 33.023 23 1.436
Nova Friburgo 7.114 2 3.557 19.405 9 2.156
Petrópolis - - - 7.499 3 2.500
Araruama - - - 20.674 4 5.169
Barra de São João - - - 9.122 3 3.041
Cabo Frio 23.756 6 3.959 19.051 3 6.350
Saquarema 9.246 4 2.312 15.082 2 7.541
Maricá 18.265 5 3.653 16.091 5 3.218
Capivary 12.028 2 6.014 13.965 2 6.983
Rio Bonito 22.750 3 7.583 25.218 3 8.406
Campos 69.222 25 2.769 90.324 27 3.345
Macaé 22.604 5 4.521 31.599 7 4.514
São Fidélis 11.279 0 0 46.092 8 5.762
81
São João da Barra 9.989 1 9.989 16.596 5 3.319
Estrella 14.920 6 2.487 21.643 3 7.214
Iguassú 21060 4 5.265 20.799 7 2.971
Magé 13.613 3 4.538 19.267 3 6.422
Itaboraí 18.042 15 1.203 24.982 5 4.996
LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 81
Niterói 30.679 17 1.805 45.569 33 1.381 23/01/2020 14:59:17
Cantagalo 16.478 4 4.120 33.023 23 1.436
Nova Friburgo 7.114 2 3.557 19.405 9 2.156
Petrópolis - - - 7.499 3 2.500
Araruama - - - 20.674 4 5.169
Barra de São João - - - 9.122 3 3.041
Cabo Frio 23.756 6 3.959 19.051 3 6.350
Saquarema 9.246 4 2.312 15.082 2 7.541
Maricá 18.265 5 3.653 16.091 5 3.218
Capivary 12.028 2 6.014 13.965 2 6.983
Rio Bonito 22.750 3 7.583 25.218 3 8.406
Campos 69.222 25 2.769 90.324 27 3.345
Macaé 22.604 5 4.521 31.599 7 4.514
São Fidélis 11.279 0 0 46.092 8 5.762
São João da Barra 9.989 1 9.989 16.596 5 3.319
Estrella 14.920 6 2.487 21.643 3 7.214
Iguassú 21060 4 5.265 20.799 7 2.971
Magé 13.613 3 4.538 19.267 3 6.422
Itaboraí 18.042 15 1.203 24.982 5 4.996
Niterói 30.679 17 1.805 45.569 33 1.381
Santana de Macacú - - - 24.151 2 12.076
Santo Antonio de Sá 16.233 6 2.706 - - -
São João do Príncipe 15.326 0 0 17.270 2 8.635
Fonte: Gouvêa, 2008:43-44; Almanaque Laemmert, 1850, 1865, 1880 e 1881.

Bibliografia
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Industrial do Império do Brazil, 1844 a 1889.
BARBOSA, Giselle Machado. As madames do parto: parteiras através dos
periódicos no Rio de Janeiro (1822-1889). Dissertação (Mestrado em História
das Ciências e da Saúde) – Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro,
2016.
BARBOSA, Keith Valéria de Oliveira. Escravidão, saúde e doenças nas
plantations cafeeiras do Vale do Paraíba Fluminense, Cantagalo (1815-1888).
Tese (Doutorado em História das Ciências e da Saúde) – Fundação Oswaldo
Cruz. Casa de Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, 2014.
DANTAS, Rodrigo Aragão. As transformações no ofício médico no Rio
de Janeiro: um estudo através dos médicos ordinários (1840-1889). Tese
(Doutorado em História das Ciências e da Saúde) - Fundação Oswaldo
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EDLER, Flávio. Ensino e profissão médica na Corte de Pedro II. Santo André:
Ed. da Universidade Federal do ABC, 2014.
EUGÊNIO, Alisson. Lágrimas de sangue. A saúde dos escravos no Brasil da
época de Palmares à Abolição. São Paulo: Alameda, 2016.

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 82 23/01/2020 14:59:17


FERREIRA, Luiz Otávio. O nascimento de uma instituição científica:
o periódico médico brasileiro da primeira metade do século XIX. Tese
(Doutorado em História Social). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
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FRIDMAN, Fânia. “As cidades e o café”. Revista Rio de Janeiro, n.18-19, 2006.
FRIDMAN, Fânia;  CHRYSOSTOMO, Maria Isabel de Jesus. “Projetos
territoriais para o império brasileiro: o caso da província fluminense”. Praia
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GANDELMAN, Luciana Mendes. Mulheres para um império : órfãs e caridade
nos recolhimentos femininos da Santa Casa da Misericórdia (Salvador, Rio
de Janeiro e Porto – século XVIII). Tese (doutorado) - Universidade Estadual
de Campinas, SP, 2005.
GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. O império das províncias, Rio de Janeiro,
1822-1889. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
GUIMARÃES, Maria Regina Cotrim. Civilizando as artes de curar:
Chernoviz e os manuais de medicina popular no Império. Rio de Janeiro:
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JARDIM, David Gomes. Algumas considerações sobre a higiene dos escravos.
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MACEDO, Valter Luiz de. Província fluminense: um território a serviço da
nação. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto
de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, 2008.
MARQUESE, Rafael Bivar. Feitores do corpo, missionários da mente:
senhores, letrados e o controle dos escravos nas Américas, 1660-1860. São
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MEDEIROS, Aline da Silva. Autoria científica do doutor Chernoviz entre
a vulgarização da medicina e a formação profissional: o caso do Dicionário
de medicina popular, 1842-1890. História, Ciências, Saúde – Manguinhos,
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PEREIRA, Júlio César Medeiros da S. “‘A América devora os pretos’: teses
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Salgado; GOMES, Flávio (Orgs). Escravidão, doenças e práticas de cura no
Brasil. Rio de Janeiro: Outras Letras, 2016. pp.114-129.

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 83 23/01/2020 14:59:17


PIMENTA, Tânia Salgado. “Assistência à saúde no interior do Rio de Janeiro
do Oitocentos”. In: KORNDÖRFER, Ana Paula et al. História da Assistência
à Saúde e à Pobreza – olhares sobre suas instituições e seus atores. São
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PROENÇA, Anne Thereza de Almeida. Vida de médico no interior fluminense:
a trajetória de Carlos Eboli em Cantagalo e Nova Friburgo (1860/1880).
Dissertação (Mestrado em História das Ciências e da Saúde) – Fundação
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Janeiro, 1835- 1889, disponíveis em: http://www-apps.crl.edu/brazil/provincial/
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A nova pobreza na virada do século XIX para o
século XX (Valença, RJ, 1883-1893)

Gisele Sanglard

Este artigo tem como objetivo analisar as transformações ocorridas no


âmbito da assistência a partir das mudanças percebidas no público atendido no
hospital da Santa Casa da Misericórdia de Valença, ao longo de uma década.
Não uma década qualquer, mas aquela que abarca o fim do escravismo e o
início da República – entre os anos de 1883 e 1893.
Ao entender o hospital como microcosmo da sociedade, analisar-se-á
as transformações ocorridas no interior na sociedade valenciana na virada
do século XIX para o século XX. Contudo, o que se percebe no hospital da
Misericórdia de Valença não é uma singularidade local, mas um processo que
pode ser verificado em diversas outras cidades com as mesmas características
e mesmo na capital.
Tais questões tem correlação com o surgimento da questão social no
Brasil, ou os males do pauperismo urbano, que está intrinsecamente ligado
ao processo da abolição da escravatura. Hannah Arendt resume tudo isso
a uma única palavra: pobreza (Arendt, 2011). Uma pobreza que passa a ter
características distintas daquela historicamente conhecida, que não tem laços
de solidariedade primário e que, em caso de impossibilidade de trabalhar,
chega à miserabilidade.

85

LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 85 23/01/2020 14:59:17


Além da doença, a velhice se transforma em outro fator de vulnerabilidade
social. E quando ambas se encontram – doença e velhice – resta ao indivíduo
recorrer à assistência privada.
Assim, para dar corpo às questões aqui propostas este artigo será dividido
em três partes distintas: a primeira se dedicará a falar sobre o hospital da
Santa Casa da Misericórdia de Valença; a segunda, sobre o público atendido
chamando atenção para alguns grupos específicos – como as mulheres e os
imigrantes; e a terceira parte se dedicará as transformações da assistência
na virada do século XIX para o século XX.

A Santa Casa da Misericórdia de Valença e seu hospital


A ocupação das terras de Valença se deu, segundo o memorialista
Luiz Damasceno Ferreira, a partir do ano de 1789, quando o vice-Rei d.
Luiz de Vasconcelos e Souza autoriza o capitão Ignácio de Souza Werneck
a combater os índios coroados “em suas próprias aldeias”. O combate aos
índios coroados é o que diferencia Valença das outras cidades do Vale. Uma
década depois, em 1800, surge a primeira sesmaria – de Pau Grande – doada
José Rodrigues da Cruz que desde o início se dedica ao cultivo do café. Os
índios ficaram restritos a uma aldeia no que seria depois a freguesia de Santo
Antônio do Rio Bonito.
Ainda segundo o memorialista, em 1803 é erigida uma capela dedicada
à N. Sra. da Glória onde outrora fora a principal aldeia dos coroados. Em
1826 é criada a vila de Valença e, em 1835, é instalada a sua Câmara para,
enfim, em 1842 ser transformada em município. De 1803 até 1889 Valença
vai crescendo, ganhando complexidade e se transformando.
A antiga aldeia dos coroados é transformada, em 1824, em freguesia –
Santo Antônio do Rio Bonito, atualmente, Conservatória. As outras freguesias
surgem a partir de 1851, Santa Isabel do Rio Preto; 1852, N. Sra. da Piedade
de Ipiabás; Santa Tereza, em 1855; o arraial de Desengano; e, por fim, São
Sebastião do Rio Bonito, em 1885. Com a proclamação da República em
1889 duas destas freguesias se emancipam formando os municípios de Santa
Teresa de Valença e Barra do Piraí (antiga Ipiabás).

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Do ponto de vista econômico o memorialista aponta que as principais
culturas de Valença eram o café, fumo, cereais e o bicho da seda – este por
iniciativa da empresa Antonio Grijó e filhos. Aponta também que no pós-
abolição, os cafezais foram incendiados, de forma criminosa, para usar suas
próprias palavras, e transformados em pastagens.
A transformação dos antigos cafezais em pasto foi uma realidade em
todo o Vale. José Jorge Siqueira comenta o caso da fazenda dos Correia e
Castro na vizinha Vassouras, pertencente aos herdeiros do barão de Tanguá,
que foi adquirida pelo Frigorífico Anglo em 1908 e transformada em pasto,
“processo que ocorreria em várias outras grandes propriedades” (Siqueira,
2013: 171), como a fazenda Cachoeira do Mato Dentro, também em Vassouras,
adquirida pela família Rangel.
A Santa Casa da Misericórdia de Valença e seu hospital foram criados
em 1838, contudo o memorialista Luiz Damasceno Ferreira aponta que seu
início remonta a dois ou três anos antes, quando foi criada uma enfermaria
para doentes pobres, mantida pelo comendador João Batista de Araújo Leite e
pelos fazendeiros Joaquim Pinheiro de Souza, Manoel do Nascimento de Jesus
e Francisco Martins Pimentel. Teria cabido a João Baptista de Araújo Leite
o convite ao visconde de Baependi para se juntar ao grupo (Ferreira, 1925).
Foi com a entrada do visconde de Baependi no grupo que surgiu a Santa
Casa de Valença. Brás Carneiro Nogueira da Costa e Gama (1812-1887), sem
dúvida a maior liderança local, se tornou visconde de Baependi (2º) em 1828
pelas mãos do imperador Pedro I e, em 1858 conde de Baependi já pelas mãos
de Pedro II. Seu pai, Manoel Jacinto Nogueira da Gama, recebera o título
de visconde de Baependi em 1824, ano em que foi outorgada a Constituição
imperial da qual foi signatário, e em 1826 foi agraciado, pelo imperador Pedro
I, com o título de marquês. Dois de seus irmãos também receberam títulos:
Manuel Jacinto Carneiro Nogueira da Costa e Gama, barão de Juparanã;
e Francisco Nicolau Carneiro Nogueira da Gama, barão de Santa Monica.
As datas de criação da Irmandade e de seu hospital são extremamente
emblemáticas: enquanto a Santa Casa foi criada a 2 de julho de 1838, no
dia e mês em que se inicia o ano compromissal das Misericórdias; a data
do hospital é uma alusão ao aniversário natalício do imperador Pedro II.

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Se no plano simbólico a Misericórdia valenciana procura se aproximar da
experiência portuguesa, no plano concreto, está mais próxima da política
imperial.
A leitura de seu primeiro compromisso não deixa dúvidas – apesar
de publicado em 1875, o documento vem datado de 02 de julho de 1838 e
é assinado pelo visconde de Baependi. A edição traz ao final uma série de
documentos: auto de aprovação, com a aprovação do ordinário – no que
tange ao culto; e a confirmação do governo imperial, datada de 08 de outubro,
dando o de acordo ao compromisso da irmandade. O documento vem
assinado pelo regente Bernardo Pereira de Vasconcelos (Compromisso, 1875).
O primeiro capítulo já demonstra a diferença com a atuação histórica da
Irmandade da Misericórdia, onde a criação de expostos não era atribuição
dela. A Santa Casa de Valença tem por fim curar os expostos ou meninos
abandonados, além das tradicionais obras de misericórdia, como curar os
enfermos, socorrer os pobres encarcerados e dar dote às donzelas órfãs ou
desamparadas. Não resta dúvidas que a criação desta instituição procura
responder à Lei dos Municípios de 1828 que transfere às câmaras municipais
a criação e manutenção de casas de caridade, com o objetivo claro de, na
ordem: criar os expostos, curar os necessitados, vacinar os meninos e todos
os que não o tivessem sido. E para tal deveriam ter um médico ou cirurgião
de partido. O artigo 76, que fala das rendas das câmaras, determina que não
“podendo prover a todos os objetos de suas atribuições, preferirão aqueles,
que forem mais urgentes” e entre os mais urgentes, os senadores indicam a
criação e educação dos expostos, dos órfãos mais pobres e dos desamparados.
Mas ainda determina, apenas nas “cidades, ou vilas, aonde não houverem
casas de misericórdia”.1
O enquadramento do Compromisso desta instituição à Lei de 1828 pode
ser visto em diversos capítulos. Como, por exemplo, na definição de quem
é o desvalido que será atendido em suas dependências:

1. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM-1-10-1828.htm, acessada a 06/03/2019.

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 88 23/01/2020 14:59:17


Cap. XV – do mordomo do hospital

Art. 115 Todo o enfermo desvalido tem direito a ser admitido, e curado,
gratuitamente no Hospital da Misericórdia. Reputa-se desvalido: 1 - aquele
que por sua nímia pobreza não tiver meio algum para tratar-se na própria
casa; 2 - aquele que se achar-se como forasteiro, sem parentes ou amigos,
que o socorra na sua moléstia.

Art. 116 Qualquer outro enfermo, que não tenha comodidade para curar-
se será admitido ao Hospital por despacho do provedor, prestando fiança,
ou comprometendo-se completamente a pagar a despesa que fizer. E só
por esta forma serão admitidos os escravos a tratar-se no Hospital, salvo
os do Art. 20 (Compromisso, 1875: 25, grifos meus).

Nestes dois artigos estão definidos os que tem acesso gratuito ao


hospital: aqueles que, segundo Robert Castel estão alijados dos laços de
solidariedade primária (família) ou não tem recursos para se tratarem em
casa; aos outros, mediante a pagamento (Castel, 2008). Quanto ao escravo
este era de responsabilidade de seu senhor – cabia a este arcar com os custos
da internação. O artigo 20, refere-se ao irmão que tivesse apenas um escravo,
sendo, neste caso, o irmão considerado pobre.
No que tange aos expostos, o Capítulo XIV – do Mordomo dos Expostos
– esse deveria zelar pela criação da criança, encaminha-la à criação externa,
e fazer visitas inesperadas às casas das amas afim de verificar como a criança
estava sendo tratada., O compromisso obrigava a ama a levar a criança ao
hospital em caso de adoecimento e também a não se mudar sem comunicar
ao Mordomo – sendo a desobediência cabível de demissão. Também cabia ao
mordomo zelar pela educação da criança a partir do momento do desmame
podendo essa permanecer na casa da ama até a idade de seis anos para as
meninas e sete anos para os meninos.
A partir desta idade os meninos eram obrigados a aprender a ler e
escrever, além de aprender algum ofício quer sendo encaminhado como
aprendiz, sem definição do lugar, ou sendo encaminhado para alguma oficina
dos Arsenais do Império. Se no primeiro caso cabe à família que o estiver
criando providenciar o encaminhamento; no segundo caso cabe à Mesa

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 89 23/01/2020 14:59:17


providenciar o local. No caso das meninas elas deviam, além de ler e escrever,
costurar, engomar e lavar, cabendo apenas à família que a criou ensiná-las.
Por fim, o Mordomo deveria garantir que as crianças fossem vacinadas.
Com relação ao cuidado com os expostos, o Compromisso permite,
não só percebermos como esta instituição responde à legislação, incluindo a
preocupação com a vacinação; mas também deixa perceber a preocupação com
a utilidade dos expostos – a criação deve voltar-se para a profissionalização
das crianças.
Apesar do compromisso ser muito detalhista com relação à criação dos
enjeitados, a documentação da Misericórdia de Valença é pouco loquaz com
relação a este tipo de assistência.
Entre 1838 e 1857 o Hospital funcionou em prédios alugados pela
Irmandade, mas desde 1842 havia projeto para a construção de um prédio
específico para ele. Nos anos iniciais o pessoal do hospital era restrito a
um cirurgião (Casemiro Lucio de Azevedo Coutinho), um médico (José
Leopoldo Gamard) e a um boticário (José Antônio de Queiroz) que fornecia
gratuitamente os medicamentos. Ressalte-se que até 1851 o hospital funcional
às expensas dos irmãos, não recebendo nenhuma verba da Província. Segundo
o memorialista, o “estabelecimento de Caridade de Valença fez as honras
dos habitantes do município, principalmente aos coevos de sua fundação,
que sem contarem com outros recursos, além de suas bolsas, empreenderam
uma instituição de tanta utilidade à humanidade” (Ferreira, 1925: 63).
O trecho extremamente laudatório do memorialista tem por objetivo
enaltecer os feitos dos homens da boa sociedade valenciana, que se
empenharam na construção do prédio próprio. A construção do hospital
foi extremamente problemática e causou enormes dissabores aos provedores
que sucederam ao visconde de Baependi: quer a contestação do Juízo dos
Feitos da Fazenda da Província que questionou o uso da sobra da subscrição
de 1842 que era destinada para a manutenção das tropas que seguiram para
conter a rebelião em Minas Gerais, para a construção do hospital; quer pelo
fato do prédio novo ter ruído após a finalização das obras iniciadas em 1851,
graças a nova lista de subscrição, desta vez destinada à construção do prédio,
pela argamassa utilizada não ter sido boa.

90

LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 90 23/01/2020 14:59:18


Após a inauguração do Hospital em 1857 parece que não houve grandes
alterações, a exceção da construção do chalet contíguo onde passou a
funcionar a farmácia (1886), doação do barão de Ipiabás quando provedor
(1884-86). Do ponto de vista do movimento do hospital percebe-se que, no
início da década de 1880 contava com 50 leitos e, no final do mesmo período,
já havia dobrado sua capacidade de atendimento. Para os casos de epidemia
eram abertas enfermarias especiais, como na epidemia de febre amarela que
grassou na cidade na década de 1890.
O processo de construção do prédio do hospital chama atenção para
alguns aspectos que nos levam em direção ao enobrecimento dos cafeicultores
locais; e para o envolvimento da população local, a partir da assinatura das
listas públicas de subscrição.
Com relação ao primeiro ponto, deve-se notar que, em 1838, o único a ter
título de nobreza era o visconde de Baependi, quando da visita do Imperador
à região em 1848, as obras e seus imbróglios já estavam adiantados. De certo,
a criação desta instituição ajudou a levar ao baronato os ricos cafeicultores
de Valença – se o título de barão demorasse a chegar, as comendas já os
distinguia.

O hospital da Santa Casa e seu público


Para conhecer o público do hospital a principal fonte é o livro de entrada
e saída de pacientes do Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Valença. O
livro abrange os anos de 1882 a 1897, contudo, a análise se baseará, sobretudo,
no período entre 1883 e 1894. As razões são duas e de caráter metodológico:
o ano de 1882 não está completo – são apenas seis meses; e a partir de 1895 os
dados não foram preenchidos corretamente, apresentando muitas falhas – o
que prejudica a análise. Além deste livro, foram encontrados prontuários de
pacientes referente ao ano de 1904 que serão incorporados na medida em
que reforçam o argumento aqui defendido.
O hospital era eminentemente masculino, com uma presença discreta
das mulheres. A partir de 1886 percebe-se uma maior presença feminina,
mas nada que coloque em risco a supremacia masculina, conforme pode
ser percebido nos gráficos a seguir.

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 91 23/01/2020 14:59:18


Gráfico 1: Gênero pacientes - 1882 a 1894
100.0
90.0
80.0
70.0
60.0
50.0
40.0
30.0
20.0
10.0
.0
1882 1883 1886 1889 1890 1891 1892 1893 1894
feminino 9.5 17.4 27.0 27.0 25.9 31.3 32.2 29.6 27.6
ilegivel 0 0 1.9 1.9 1.5 1.6 2.2 .7 1.8
masculino 90.5 82.6 71.1 71.2 72.6 67.1 65.6 69.7 70.6

feminino ilegivel masculino

Fonte: Livro de entrada e saída de pacientes, 1882-1897, Santa Casa da Misericórdia de


Valença. Tabulação própria.

Gráfico 2: Comparativo gênero 1883 e 1893


90.0 82.6
80.0 69.7
70.0
60.0
50.0
40.0 29.6
30.0
17.4
20.0
10.0 0 .7
.0
1883 1893

feminino
Fonte: Livro de entrada e saída ilegivel1882-1897,
de pacientes, masculino
Santa Casa da Misericórdia de
Valença. Tabulação própria.

Com relação às mulheres, não parece que o hospital tivesse uma


enfermaria feminina. Tal hipótese pode ser levantada a partir dos mais
variados leitos ocupados por mulheres: percebe-se que os leitos iniciais – de
01 a 06 – eram reservados preferencialmente a elas; e do 07 em diante, aos

92

LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 92 23/01/2020 14:59:18


homens. Mas isso não significa que elas não pudessem ser internadas em
outros leitos, caso estes estivessem ocupados. Como exemplos, o caso de
Arminda Soares da Silva, primeiro registro feminino no livro em análise,
solteira, 20 anos, costureira que deu entrada com gonorreia a 09/08/1882.
Esta mesma mulher retorna ao hospital pouco tempo depois, a 04/10/1882,
agora diagnosticada com leucorreia, e fica no leito 6. A lavadeira, de origem
africana, Rachel Xavier, livre, de 40 anos, com sífilis, fica no leito 38 quando
chega a 09/04/1883; e a centenária lavadeira, Ignacia Maria da Conceição,
que entra a 16/01/1886 com cardiopatia, fica com o leito 15.
Acredita-se que a distribuição dos leitos tivesse correlação a sua
disponibilidade/vacância. Afinal, estamos falando de um hospital que tinha,
em 1882, 50 leitos.
Outro caso que deve ser anotado, ainda no que tange às mulheres, é a
presença de seus filhos acompanhando as mães doentes. Tal fenômeno já
havia sido percebido no hospital da Misericórdia carioca e gerado um fluxo
entre os hospitais da Misericórdia do Rio de Janeiro e a Casa dos Expostos,
para onde as crianças eram encaminhadas enquanto suas mães estavam nas
enfermarias dos hospitais (Sanglard, 2016). No caso do Rio de Janeiro, a
Casa dos Expostos cuidava da criança, no caso de Valença, não temos ideia
de como estas crianças eram cuidadas.
O primeiro caso anotado neste livro é o de Carolina Wlhume, 30 anos,
casada, moradora da freguesia de Santa Isabel do Rio Preto, profissão artista, e
que dá entrada no hospital a 08/04/1883 com seu filho e recebe o diagnóstico
de “alienação mental”. Recebe alta no dia 23 do mesmo mês. Outro exemplo
é o da parda Francisca de Paula, 25 anos, lavadeira, moradora da mesma
freguesia, que chega ao hospital a 21/06/1884 acompanhada de seu filho
menor Anselmo. A 19/06/1885, um ano depois, retorna ao hospital com
seu filho, sendo diagnosticada com sífilis. Há ainda o exemplo de Maria
Rosalina da Conceição, costureira, casada, 24 anos, dá entrada no hospital,
a 10/01/1885, com dois filhos menores – está com anemia.
Os exemplos se sucedem e ganham maior presença a partir de 1885 –
certamente com uma piora das condições sociais na região. Há casos onde a
mãe tem alta e o filho morre, como ocorreu com Bárbara, liberta, lavadeira

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 93 23/01/2020 14:59:18


de 20 anos, que dá entrada no hospital a 30/04/1883, acompanhada de dois
filhos menores. Recebe o diagnóstico de anasarca. Tem alta a 15/05/1883, mas
neste intervalo um de seus filhos faleceu. Outro exemplo é de Brigida Maria
Marcelino Guimarães, preta, casada, 42 anos, dá entrada no hospital no dia
17/01/1886 com dois filhos menores. Fica internada até 14/03 do mesmo ano
em função de uma cardiopatia – neste ínterim, falece um dos filhos.
No que tange as doenças que mais afligiam às mulheres temos a sífilis
e a tuberculose como as principais causas das internações, seguida de perto
pelas cardiopatias, doenças do aparelho respiratório e reumáticas. As doenças
mentais e a histeria, em particular, também têm grande presença junto
às mulheres, tendo um caso de ida para Niterói – provavelmente Maria
Joaquina do Rosário, diagnosticada com alienação mental (22 de março
1890) foi transferida para o Hospício do Hospital São João Batista, na capital
do estado do Rio de Janeiro.

Gráfico 3: Doenças femininas


120 110
105
100
83
77
80
66
57
60 51
41
40 35 34 32
28
18 14 16 19 18 17
20 12 13 13 11 12 10 10 13 14

0
Alcoolismo
Anemia

Histeria

Várias
Cancro/Tumor

Doenças Genito-urinárias

Hipoemia intertropical

Pneumonia

Senilidade

Traumas
Tuberculose
Doenças Gastro-intestinais

Febres

Hemiplegia
Abcesso/fístula

Doenças Reumáticas

Úlcera
Doenças Hepáticas

Doenças Respiratórias

Sífilis
Doenças Aparelho Circulatório

Metrite
Doenças Mentais

s.i.
Cardiopatias

Doenças Dermatológicas diversas

Gravidez (complicações)

Fonte: Livro de entrada e saída de pacientes, 1882-1897, Santa Casa da Misericórdia de


Valença. Tabulação própria.

Por fim, há aquelas mulheres cuja entrada no hospital se deu a pedido


do delegado de polícia. Entre elas há escravas, libertas e livres e as doenças
podem ser alcoolismo, alienação mental, contusão e prolapso do útero.

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 94 23/01/2020 14:59:18


Outro público que merece destaque neste hospital são os imigrantes.
Diferente do escravo, cuja assistência médica era feita nas fazendas quer
através dos médicos de partido (Barbosa, 2014; Proença, 2017), quer de
um boticário ou do envio para alguma fazenda em que houvesse recursos,
no caso dos imigrantes estes deviam, em caso de necessidade, procurar
assistência médica por conta própria, pagando um curandeiro ou mesmo se
dirigindo à Misericórdia caso não pudesse pagar pelos serviços de médicos
e/ou boticários.
É o universo destes homens que estas fontes permitiram descortinar e
conhecermos um pouco.
Os imigrantes que precisaram recorrer ao hospital de Valença eram em
sua maioria jovens, tinham entre 20 e 40 anos – precisavam melhorar para
voltar ao trabalho. Estavam assim no auge de sua capacidade laborativa.
Eram majoritariamente solteiros2: 66,7% dos portugueses eram solteiros;
26,4% casados e 6,6% viúvos – a diferença, 0,3% era de menores de 10 anos.
Tais dados, que podem ser visualizados nos gráficos a seguir, não diferem
muito do panorama traçado para Vassouras.

Gráfico 4: faixa etária dos imigrantes


120
100
80
60
40
20
0
10 a 20 a 30 a 40 a 50 a 60 a 70 a 80 a 90 a mais
0a1 2a9
19 29 39 49 59 69 79 89 99 100
Europeu 1 11 2 23 30 33 22 12 7 2 1 0
Português 1 11 0 109 94 110 85 30 26 6 1 0
Sul-americano 0 0 0 0 3 2 0 0 1 0 0 0

Europeu Português Sul-americano

Fonte: Livro de entrada e saída de pacientes, 1882-1897, Santa Casa da Misericórdia de


Valença. Tabulação própria.

2. A análise será concentrada nos portugueses por serem majoritários no hospital. Além
de que os dois outros grupos, europeus em geral e sul americanos seguem a tendência
anotada para os portugueses.

95

LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 95 23/01/2020 14:59:18


Outra característica deste grupo é o fato de ser formado principalmente
por homens – entre os portugueses 97,5% dos atendidos eram homens e 2%
mulheres; e entre os outros europeus a proporção é um pouco menor: 82,8%
eram do sexo masculino, 16,4% do sexo feminino. A diferença percebida
em ambos os grupos, dá-se ao número de casos em que o sexo do paciente
não foi indicado no livro.

Gráfico 5: sexo dos imigrantes


500
450
400
350
300
250
200
150
100
50
0
Europeu Português
SEXO feminino 24 10
SEXO masculino 121 469

SEXO feminino SEXO masculino

Fonte: Livro de entrada e saída de pacientes, 1882-1897, Santa Casa da Misericórdia de


Valença. Tabulação própria.

Gráfico 6: Estado Civil dos imigrantes


350
300
250
200
150
100
50
0
casado menor Solteiro viúvo
Europeu 47 1 87 11
Português 127 1 321 32
Sul-americano 1 0 5 0

Europeu Português Sul-americano

Fonte: Livro de entrada e saída de pacientes, 1882-1897, Santa Casa da Misericórdia de


Valença. Tabulação própria.

96

LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 96 23/01/2020 14:59:19


No que tange às doenças que os levou ao hospital, percebe-se que a
grande incidência das doenças venéreas, em geral, e da sífilis em particular.
Em seguida vê-se a incidência das febres, doenças gastrointestinais e traumas.
No que tange às febres ocorreu, em 1890 uma epidemia de febre amarela o
que certamente impactou no número de casos de febres entre os imigrantes;
já com relação aos traumas, estes são descritos das mais diversas formas:
podem ter significado uma briga ou mesmo contusões devidas ao trabalho
na roça.

Gráfico 7: as principais doenças dos imigrantes


Traumas
Hipoemia intertropical
Doenças Reumáticas
Doenças Gastro-intestinais
Cancro/Tumor
Alcoolismo
0 10 20 30 40 50 60 70
Doença
Doença Doença Hipoe
s
Alcoolis Cancro Cardio s s mia Trauma Tuberc
Anemia Gastro- Febres Sífilis
mo /Tumor patias Respira Reumá intertro s ulose
intestin
tórias ticas pical
ais
Português 18 17 10 16 38 24 25 39 11 60 37 30
Europeu 3 3 1 7 16 7 9 7 3 19 19 4

Português Europeu

Fonte: Livro de entrada e saída de pacientes, 1882-1897, Santa Casa da Misericórdia de


Valença. Tabulação própria.

Ainda sobre as doenças é preciso chamar atenção para os casos de


anemia e hipoemia intertropical – nome que a nosologia recebeu do médico
brasileiro Cruz Jobim em 1835. Mais tarde comprovou-se que a hipoemia
intertropical de Cruz Jobim nada mais era que uma verminose, também
conhecida como opilação, amarelão ou ancilostomose, que tem como
uma de suas formas visíveis a fraqueza do indivíduo, causada por anemia
(Edler, 2011). Não é possível afirmar que os casos de anemia fossem todos
causados pela infestação de helmintos, mas certamente os casos descritos
como hipoemia intertropical também estavam anêmicos – o que certamente

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 97 23/01/2020 14:59:19


aumenta a quantidade de pacientes que tinham na anemia a principal doença
que os levou à internação. Apenas no século XX, quando o ciclo da doença
for totalmente descrito, é que se procurará combater à principal forma de
infestação da doença: o hábito do homem do interior de andar descalço,
uma vez que o verme entra pelo pé.
Outras duas doenças falam sobre as condições de vida e de trabalho
destes homens: os distúrbios gastrointestinais e a tuberculose. A primeira
fala sobretudo da alimentação ou da má alimentação; enquanto a segunda
fala diretamente da habitação e das condições de vida em geral: muitas horas
de trabalho, má alimentação, moradia insalubre.
Por fim, chama atenção o auto índice de alcoolismo, que associado às
más condições de vida ajudam na propagação de doenças como a tuberculose.
As doenças falam, sobretudo, das condições de vida, trabalho e
alimentação dos pobres e, para o caso das mulheres há ainda algumas
especificidades, como a histeria e as complicações de uma gravidez.

As transformações na pobreza e o Hospital da Santa Casa de


Valença
A maior evidência na mudança dos pacientes deste hospital é no que
tange à faixa etária. Percebe-se o envelhecimento da população ao longo
dos anos. Como se pode ver nos gráficos abaixo, no início do período aqui
analisado (1882) a concentração dos pacientes estava na idade laborativa,
entre os 20 e 29 anos, caindo gradativamente nos anos seguintes. Em 1886
os jovens e os maduros, na faixa etária de 40 a 49 anos, quase se encontram
e, a partir de 1891, os idosos com mais de 60 anos se sobressaem aos jovens.

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 98 23/01/2020 14:59:19


Gráfico 8: LINHA da IDADE

45
40
35
30
25
20
15
10
5
0
1882 1883 1886 1889 1890 1891 1892 1893 1894

0a1 02 a 09 10 a 19 20 a 29
30 a 39 40 a 49 50 a 59 60 a 69
70 a 79 80 a 89 90 a 99 100 ou mais

Fonte: Livro de entrada e saída de pacientes, 1882-1897, Santa Casa da Misericórdia de


Valença. Tabulação própria.

Tal mudança fica mais clara ao compararmos a década de 1883 a 1893.


Neste decênio vê-se nitidamente o envelhecimento da população que
frequentava o hospital.
Gráfico 9: variação de idade entre 1883 e 1893
40
35
30
25
20
15
10
5
0
100 ou
0a1 02 a 09 10 a 19 20 a 29 30 a 39 40 a 49 50 a 59 60 a 69 70 a 79 80 a 89 90 a 99
mais
1883 0 0.4 8.9 36.6 21.0 13.4 13.4 1.3 3.6 .9 .4 .0
1893 2.2 1.1 8.6 14.6 9.7 14.2 8.2 12.4 19.5 7.5 1.5 .4

1883 1893

Fonte: Livro de entrada e saída de pacientes, 1882-1897, Santa Casa da Misericórdia de


Valença. Tabulação própria.

99

LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 99 23/01/2020 14:59:19


A média etária variou entre os 34 anos, em 1883, e os 47,4 anos dez anos
depois (1893), apresentando uma variação de 39% no período, como pode
ser percebido no gráfico 10.

Gráfico 10: Média etária


47.4 46.22
50 44.7
45 41 41.6 41.5
38.6 40
40
34
35
30
25
20
15
10
5
0
1882 1884 1886 1888 1890 1892 1894 1896

Fonte: Livro de entrada e saída de pacientes, 1882-1897, Santa Casa da Misericórdia de


Valença. Tabulação própria.

Como pode ser interpretada esta variação tão grande ao longo do


período? Este movimento está vinculado diretamente ao processo de abolição
da escravatura e, como pode ser percebido no gráfico 10, a Lei do Sexagenário
de 1886 reforça a tendência de aumento da faixa etária. Como apontaram
Keith Barbosa (2014) e Anne Proença (2016) a manutenção de hospitais ou
enfermarias nas fazendas do vale do Paraíba fluminense pode ser entendida
como uma estratégia para a manutenção da mão de obra. Assim, os escravos
que precisavam de atendimento médico o recebiam na fazenda ou eram
deslocados para a fazenda mais próxima que tivesse um médico de partido
ou mesmo uma farmácia. Com a lei do Sexagenário, estes homens e mulheres
com mais de 60 anos perderam o acesso às enfermarias das fazendas e, em
caso de doença e sem apoio familiar, precisavam do socorro oferecido pela
Santa Casa da Misericórdia local. É este processo que explica o envelhecimento
dos pacientes do hospital.
Tal alteração pode ser também percebida nas doenças que os afligiam:
nota-se um aumento das cardiopatias (lesões da válvula mitral, hipertrofia
cardíaca, asma cardíaca, lesão cardíaca, dilatação aórtica, insuficiência mitral

100

LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 100 23/01/2020 14:59:20


e outras); bem como das doenças reumáticas. Apesar disso, identifica-se a
permanência do alto índice da sífilis, das doenças venéreas como um todo
(blenorragia, gonorreia) e da tuberculose.

Gráfico 11: principais doenças dos idosos


300

250

200

150

100

50

40 a 49 50 a 59 60 a 69 70 a 79 80 a 89 90 a 99 mais 100

Fonte: Livro de entrada e saída de pacientes, 1882-1897, Santa Casa da Misericórdia de


Valença. Tabulação própria.

Outras descrições são indicativas da idade do paciente: artereo-esclerose


e as senilidades (marasmo senil, catarro senil e enfisema senil). A artéreo-
esclerose era uma indicação de que o paciente podia ficar uma longa temporada
no hospital, como o caso de José Joaquim de Souza Pinto, brasileiro, preto,
jornaleiro, viúvo de Cândida de Jesus, residente na Fazenda da Glória. Deu
entrada no hospital a 18 de janeiro de 1904 e faleceu a 17 de dezembro do
mesmo ano, tendo passado 11 meses no hospital. Foi diagnosticado com
arteriosclerose, todos os tratamentos empregados foram ineficazes. Seu
prontuário tem quatro páginas.
Em outros casos, pode ser fulminante a passagem do indivíduo, como
José Ignácio da Costa, brasileiro, fluminense, pardo, 90 anos. Viúvo de Luiza
Valéria. Deu entrada a entrada a 3 de outubro de 1904 com arteriosclerose,
vindo a óbito no mesmo dia.
Este envelhecimento notado em Valença não é caso isolado. Pode ser
percebido em diversas cidades brasileiras, como o caso do estado de Minas
Gerais analisado por Virna Braga (Braga, 2015).

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Outra cidade em que se percebe com clareza tal mudança é Vassouras,
também na província do Rio de Janeiro e distante 30 km de Valença.
Durante a década de 1880, o jornal O Vassourense publicava mensalmente
a movimentação do hospital e, em julho, apresentava o balanço do ano
compromissal findo. Na edição de 05/07/1885 publica o balanço do ano
de 1884-1885 e traz a idade dos falecidos. Dos 58 óbitos naquele período, a
grande concentração está na faixa etária entre 40 e 64 anos – respondendo
por 45% dos óbitos. E para o ano compromissal de 1888-1889, dos 64 óbitos
ocorridos 11 foram por lesão cardíaca (17,2%), 10 por tuberculose (15,6%)
e 7 por marasmo senil (11%). A partir destes dados, pode-se perceber o
envelhecimento dos pacientes no Hospital da Misericórdia de Vassouras.
A comparação entre estes dois anos apresentados aqui nos permite
afirmar que o envelhecimento dos pacientes no Hospital de Vassouras também
ocorreu, tal qual verificado em Valença.
A pobreza pode ser ainda distinguida através de outros indícios, que se
somam à idade do paciente. Entre os anos de 1893 e 1894, o médico Moncorvo
Filho oferece seus serviços ao Hospital da Santa Casa da Misericórdia de
Valença e publica na revista Brazil-Médico, principal periódico científico da
época, uma série de 20 observações clínicas acerca do tratamento de doenças
da pele – notadamente lesões sifilíticas. Chama atenção a observação 14:
Observação 14 (pessoal) – Manoel Marcelino de Aguiar, brasileiro, pardo,
de 50 anos de idade, viúvo, procura o hospital em 2 de março de 1894.
Algumas bolhas de pênfigo sobre vários pontos do corpo. Lipoma na região
glútea direita. Várias pequenas úlceras atônicas em ambas as pernas
resistindo há 29 anos a todos os meios locais e gerais sucessivamente
empregados. O doente pálido e desnutrido. (grifo nosso)

Segundo o relato do jovem médico, o tratamento realizado por ele


fez com que o pênfigo fosse curado ou, como ele diz, levou “a completa
cicatrização das úlceras tão rebeldes até então”. Pode-se levantar a hipótese de
que Manoel Marcelino de Aguiar também tenha melhorado da desnutrição
no período em que esteve no hospital.
Outro indício da situação em que ficou a população de egressos do
cativeiro já idosa é com relação ao local de moradia. O prontuário datado de

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1904, pertencente a Pedro João, originário da Bahia, preto, solteiro, jornaleiro
e com 70 anos de idade, e internado por artereo-esclerose nos fornece outra
pista: Pedro João indica como local de moradia um abarracamento – típica
moradia coletiva, das mais pobres dentre elas. Por ter ca. de 54 quando houve
a Abolição, pode-se supor que a capacidade de trabalho deste jornaleiro logo
tenha sido reduzida com o passar dos anos.
A situação de aumento da pobreza também é percebida no hospital de
Vassouras. O Vassourense, de 16 de fevereiro de 1890, publica relatório da
Camara onde os vereadores falam da necessidade de aumentar a parte do
cemitério destinada ao enterro de indigentes. Afirma o relatório “que só os
corpos de indigentes falecidos na Misericórdia desta cidade ocupam mais
da metade do espaço do cemitério” (Camara Municipal, 1890: 2).
A questão do envelhecimento da população recoloca a discussão sobre a
questão do pauperismo urbano. Ou como garantir a sobrevivência dos idosos,
quando estes não tivessem mais condições de se sustentarem através de seu
trabalho. São dois os caminhos que se seguem: de um lado, a filantropia e
de outro, a mutualidade.
A proteção do público mais vulnerável – meninas e idosos – marcou
as ações das Misericórdias a partir da segunda metade do século XIX.
Experiências, como a da Misericórdia do Porto, mostram que estas ações
traduzem uma preocupação do período. O antigo Recolhimento passa a
oferecer a educação mais completa possível às jovens asiladas; bem como
são criadas instituições voltadas à educação profissional. Igualmente são
criadas instituições voltadas para os idosos, notadamente às viúvas (Esteves,
2018). A Misericórdia do Rio de Janeiro abriu, no final do século XIX, o
Asilo de Santa Maria na rua da Passagem, em Botafogo, voltado às viúvas
pobres (Carvalho, 1908).
Ao lado dessas ações postas em prática pelas Misericórdias, percebe-
se uma mudança nas práticas das elites locais: a participação deste grupo
em associações filantrópicas ganhava espaço, sobretudo a partir das
transformações do mundo do trabalho – a necessidade de socorro aos
acidentes de trabalho, a formação de pecúlio para a velhice, o atendimento
à maternidade – que obrigavam a repensar as relações entre patrões e
empregados.

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Em países como a França, o surgimento do operariado alterou o foco
de preocupação de um grupo de intelectuais, médicos, industriais e políticos
que se propuseram a pensar um novo pacto social para seu país. No final do
século XIX, em meio à agitação social que sacudiu aquele país (Jornadas de
1848, Comuna de Paris, entre outros), a filantropia não respondia mais às
suas necessidades, foi, então, cunhada uma nova expressão: reformadores
sociais. Contrapunham-se aos “filantropos” por atribuir a eles uma resposta
ineficaz às necessidades sociais, em um momento em que eram redefinidas
as fronteiras entre as esferas pública e privada. Também se opunham por
terem tomado como objeto de atuação o “operário” e não mais o “pobre”,
anunciando, assim, um longo debate sobre a legitimidade do papel do
Estado na sociedade industrial. Esses “reformadores” tinham por objetivo
alcançar a paz social, em um momento marcado pelas agitações sociais. As
ações propostas por eles estavam direcionadas para a criação de habitações
salubres voltadas para o operariado, o que demonstrava uma forte influência
do credo higienista, mediante a criação de uma legislação protetora; e de
incentivos aos círculos operários, organizados nas fábricas, objetivando
também a educação cívica e o lazer. Foram defensores das sociedades de
auxílio mútuo, que visavam ao socorro em caso de doença, acidente, velhice,
maternidade ou morte e eram consideradas como uma necessidade do mundo
do trabalho. A mutualidade era percebida como estrutura complementar
para a organização dos operários e proposta em consonância com a prática
liberal então vigente (Horne, 2004).
O discurso de controle da pobreza no Brasil não esteve alheio a esse
movimento internacional e teve, na figura do jurista Ataulfo de Paiva, seu
maior divulgador e defensor. Ataulfo de Paiva, filantropo e liberal, defendeu
o mutualismo como forma de suavizar a indigência.3

3. Como juiz do Tribunal Civil e Criminal, a partir de 1894, Ataulfo de Paiva trava contato
com as chamadas questões sociais do seu tempo, muito vinculadas às transformações do
mundo do trabalho: a necesssidade de socorro aos acidentes de trabalho, à formação de
pecúlio para a velhice, o atendimento à maternidade – que obrigava a repensar as relações
entre patrões e empregados; ou dito de outra forma, mão-de-obra, órfãos, saúde, entre
outros temas. Este seria um dos temas que norteariam seus trabalhos, reunidos na obra
Justiça e assistência – novos horizontes (Paiva, 1916) e acerca do mutualismo propriamente
dito, no artigo “O mutualismo – seus benefícios e seus perigos” presente na obra citada.

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Na virada do século XIX para o século XX nota-se, em todo o país, o
grande crescimento de instituições criadas pela sociedade civil, tendo como
objeto o auxílio mútuo – e que pode ser percebida como uma singularidade
do período e que denotam as transformações no mundo do trabalho que
obriga os grupo de trabalhadores a se organizar em busca de pecúlio para
a velhice e a invalidez; para os socorros médicos e o lazer, como mostra os
trabalhos de Cláudio Batalha (2004, 2009 e 2010) e Cláudia Viscardi (2007,
2008, 2009 e 2011), McCord e Batalha (2014) entre outros.
O olhar voltado aos operários também pode ser percebido na Igreja
Católica a partir da edição, em 1891, da encíclica Rerum Novarum pelo papa
Leão XIII, seguida pela Inter Sollicitudines (1892). A publicação da Rerum
Novarum é uma resposta da Igreja Católica ao crescimento do movimento
socialista no mundo ocidental e toma para si a questão do operário. No texto,
família e Estado, propriedade privada são temas discutidos à luz do dogma
católico; os direitos e deveres de patrões e empregados; reafirma a caridade
dos cristãos; conclama a participação do Estado na resolução da questão do
operário e na proteção da propriedade privada; entre outros temas (Carta
Encíclica “RERUM NOVARUM”, 1891).
A presença cada vez maior de idosos em hospitais cuja doença pode
ser definida como velhice e pobreza dá outro sentido discussões acerca do
pecúlio para os trabalhadores. As discussões historiográficas, como visto
acima, centram-se sobretudo nos estudos sobre o trabalhador urbano, reunido
em associações de classe ou mutuais, deixando de fora o trabalhador rural
cuja percepção como classe custará muito a ser forjada. O que o processo
da abolição da escravatura evidencia, a partir do caso analisado neste artigo,
é o problema social que os trabalhadores idosos, e sem pecúlio, vão trazer
às sociedades.
Provavelmente o hospital da Misericórdia do Rio de Janeiro também
devia estar repleto de indivíduos internados nesta situação, se houvessem
fontes para nos debruçarmos. A criação do Asilo Santa Maria é apenas um
indício do problema, e é certamente uma forma de tentar mitiga-lo. A fala
do provedor da Misericórdia carioca é lapidar neste sentido:

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Acresce que, em desacordo com os fins dos Hospitais e pernicioso
menosprezo das leis de higiene existem nos da Santa Casa cerca de duzentos
decrépitos, inválidos e incuráveis, que não há para onde enviar, não é
possível lançar a rua, e, entretanto, permanecem nos leitos que deviam ser
ocupados pelos que sofrem de moléstias agudas e não podem ser recebidos
por falta de espaço nas enfermarias. (Carvalho, 1908: 136)

Outra instituição onde a presença dos idosos sem condições de se


sustentarem é evidenciada é no Asilo de Mendicidade da Corte. Inaugurado
em 1879, e vincualdo à Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro, o Asilo foi
criado com o objetivo de retirar os mendigos das ruas da cidade, contudo se
vê repleto de idosos e pessoas incapazes de se auto-sustentarem. A solução
encontrada pelo conselheiro Ferreira Vianna, então ministro da Justiça do
Império em 1888, foi a criar a Casa de São José, para abrigar os menores, e
a Colônia de Alienados do Galeão para transferir os alienados (Silva Junior,
2008).4
Para finalizar o artigo, retorno à compreensão do hospital como
microcosmo da sociedade. De uma sociedade em transformação, onde a
abolição da escravatura agudiza um problema geral, quer mesmo mundial:
indivíduos cuja velhice os impedia de trabalhar e, por conseguinte, de
subsistirem.
A falência das fazendas de café no Vale do Paraíba Fluminense e a
substituição dos cafezais pelo pasto – produção de laticínios (Ferreira,
1925, Siqueira, 2013) – expulsou boa parte da população, que foi buscar
trabalho alhures. Alguns seguiram para São Paulo, para trabalharem nas
fazendas paulistas; outros buscaram se empregar nas fábricas que foram se
instalando na região e outros ainda foram para a capital em busca de melhores

4. O regulamento de 1884 permitia a admissão de quatro classes de mendigos de ambos os


sexos: os menores de 14 anos, abandonados e ociosos; os indigentes, os velhos e os incapa-
zes que recorriam à caridade dos transeuntes; os que se apresentassem espontaneamente,
provando indigência, e os alienados que não podiam ser recebidos no Hospício de Pedro II,
superlotado e com graves dificuldades financeiras. O asilo recebia os indesejados de outras
instituições. A grande aglomeração de pessoas e as más condições de vida levaram a sérias
críticas de profissionais como o dr. Teixeira Brandão, psiquiatra da Faculdade de Medicina,
ao encontrar ali grande número de alienados (Silva Junior, 2008).

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oportunidades de trabalho. Aos mais idosos, e sem família, tal mobilidade
era mais restrita e as oportunidades de trabalho certamente eram menores.
Neste momento a Santa Casa da Misericórdia de Valença reafirma seu
papel na assistência na cidade, onde os incuráveis disputam espaço com
os doentes. Incapaz de ampliar suas instituições de assistência, coube ao
hospital acolher estes idosos.
A discussão sobre o socorro à velhice, à invalidez e à viuvez estará
colocada no cerne dos debates sobre o papel do estado na assistência, que
no Brasil começará a ser discutido no Primeiro Congresso Nacional de
Assistência Público e Privada, ocorrido no Rio de Janeiro em 1908, no âmbito
das comemorações do centenário da abertura dos Portos. Convocado pela
prefeitura do Distrito Federal, reuniu intelectuais das mais variadas áreas
de atuação para discutirem os limites de atuação do Estado e da filantropia.
Mas para que isso se tornasse uma realidade para o pecúlio dos idosos,
deveria ser esperar a década de 1920 para que as classes mais organizadas
conquistassem o direito através das Caixas de Aposentadoria e Pensões, a
começar pelos ferroviários em 1923. Para os trabalhadores rurais de Valença,
ao menos, percebe-se pela leitura do livro de entrada e saída de pacientes
para os anos de 1930 a 1940 que as fazendas passaram a custear a internação
de seus empregados e, junto com Instituto de Aposentadoria e Pensão
dos Industriais, eram os maiores compradores de serviço do hospital da
Misericórdia valenciana. Quanto ao pecúlio dos velhos trabalhadores rurais,
estes teriam que esperar bem mais tempo, mas isto é uma outra história que
não cabe nós limites deste artigo.

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Referências
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operários, 1891, disponível em http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/
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acessada em 26/02/2012.
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Saúde na Terra da Laranja: rede de assistência
médica em Nova Iguaçu 1920/1940

Lucia Silva

O texto tem por objetivo apresentar o processo de constituição de uma


pequena rede de assistência médico hospitalar no município de Iguaçu entre
os anos de 1920/40, momento áureo da citricultura. A riqueza gerada pela
produção da laranja permitiu a ascensão política econômica de um grupo
que investiu fortemente na construção e funcionamento do único hospital
da Baixada Fluminense nas primeiras sete décadas do século XX, o Hospital
de Iguaçu. O texto busca resgatar o processo de formação da rede de saúde
na região
O município de Nova Iguaçu entre as décadas de 1920 e 1940 era o sexto
município em extensão do estado do Rio de Janeiro, maior territorialmente
que o Distrito Federal, ocupando o que atualmente denomina-se de Baixada
Fluminense. Área contigua à capital da república, começava a ser ocupada
urbanamente em suas franjas, ainda que a principal atividade econômica
fosse a citricultura. Em 1932, o município-região1 administrativamente estava
dividido em nove distritos: Bonfim (atual Arcádia, em Miguel Pereira),
Caxias, Estrela (Saracuruna-Imbariê), J. Bulhões (Cava), Nilópolis, Nova
Iguassu (distrito sede), Pilar (Xerém), Queimados e S. João de Meriti.

1. Sobre a discussão da Baixada Fluminense estar restrita ao antigo município de Iguaçu


ver Silva, 2013

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Nesse mesmo período, o município era o maior produtor de laranja do
estado do Rio de Janeiro, respondendo por 37% da renda do estado em 1934
(Pantoja, 1992: 13). Essa riqueza consolidou um grupo social no executivo
municipal, permitindo que o distrito-sede, a cidade de Nova Iguaçu, antiga
Maxambomba, passasse por grandes transformações urbanas; esse grupo iria
investir fortemente na modernização da estrutura urbana, cujos ícones foram
a urbanização das Praças da área central do distrito-sede e a construção do
hospital. Coetânea à reforma urbana houve a constituição de uma pequena
rede de assistência médica no município-região.
A antiga Nova Iguassu englobava os atuais municípios de Belford Roxo,
Duque de Caxias, Japeri, Mesquita Nilópolis, Queimados e São Joao de
Meriti, e apesar de grande parte de seu território, cerca de 80%, ser utilizado
para as atividades agrícolas, passaria a receber a população da cidade do
Rio de Janeiro nos núcleos urbanos que se desenvolviam nas proximidades
das estações. Entre 1920 e 1940, a população local passou de 33.963 para
140.606, aumento de mais de 400%.
Foi nesse momento áureo de crescimento econômico, centrado na
citricultura, que políticas de saúde foram efetivamente implantadas no
município, a partir de discursos que se assentavam na imagem de região
insalubre, construída desde o final do século XIX associando doença à pobreza,
vistas como interligadas e obstáculos à ordem social e ao desenvolvimento
econômico da região.
No final do século XIX, a região entre a Serra do Mar e a cidade do
Rio de janeiro era vista como insalubre, principalmente pela associação que
se tornara consensual entre a existência de área pantanosa e disseminação
de doenças palustres. A mudança da sede do município (de Vila de Iguaçu
para Maxambomba) ocorreu, entre outras coisas, em função da epidemia de
varíola que atingiu as áreas embrejadas do município. A Comissão Federal
de Saneamento, criada por Nilo Peçanha quando presidente da república,
consolidou a imagem de insalubridade da região e reforçou a necessidade
de intervenção do governo federal no município por ser área contigua à
capital do país.

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A proposta de saneamento defendida pela comissão federal de 1910
se diferenciava das anteriores estaduais, que se assentavam somente nos
paradigmas da Higiene advinda da Medicina Social. A novidade era que
trazia também a ideia da salubridade como instrumento de desenvolvimento
econômico regional, já que visava transformação da estrutura material, o
foco de intervenção não era a população local, mas o meio, diferente dos
médicos cuja ação voltava-se para profilaxia das doenças. As duas atuações
ao fim e ao cabo objetivavam a diminuição da mortalidade dos habitantes.
Saneamento estava atrelado à modernização do território, fazendo dos
engenheiros “missionários do progresso” (Herschmann; Kropf; Nunes, 1996)
Ao longo da década de 1920, as atividades da engenharia estariam
articuladas ao dessecamento das terras que seriam utilizadas economicamente
para agricultura, enquanto os médicos agiam para a erradicação das doenças;
cada governo ao enfatizar um aspecto minimizava o outro. Comissão de
saneamento significava grandes obras e dependendo da gestão uma opção
era escolhida em detrimento da outra. Vistas como complementares, na
prática eram concorrentes na captação dos poucos recursos financeiros
disponíveis dentro da administração do estado.
Engenheiros e médicos transformaram, discursivamente, a Baixada em
lugar que necessitava de intervenção, pois contraditoriamente, ao mesmo
tempo em que era vista como sertão, portanto, espaço a ser ocupado e
desenvolvido economicamente, estava muito próxima da capital do país,
cujo centro já estava saneado e incorporado às “luzes do progresso”, faltando,
então, à sua área contígua (subúrbio e periferia) seguir o mesmo destino.
Foi neste contexto de atuação da engenharia e da medicina social que o
município-região foi palco de ações do governo federal e estadual, além de
uma heterogeneidade de práticas dos grupos sociais locais que acabaram por
constituir uma pequena rede de assistência médica na região. Este processo
é o que será descrito a seguir

Rede de assistência médica em Nova Iguaçu 1920-40


Desde 1919, com o apoio da Fundação Rockfeller, o município passou a
ser servido por três postos de profilaxia rural sob a supervisão de Belisário

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Pena; os postos de Caxias, Nova Iguaçu e São Joao de Meriti tratavam de
doenças ligadas às verminoses e à malária, além de oferecer vacinação
contra varíola. Os chefes dos postos comandavam as atividades por áreas
administrativas denominadas de Inspetorias (Inspetoria Sanitária Rural do
Departamento Nacional de Saúde Pública), composta também de subpostos;
essas unidades não tinham correspondência com os distritos municipais, o
que dificultava integração com as ações da prefeitura.
Fig.01. Mapa do municipio de Nova Iguaçu

Fonte: Rio de Janeiro, 1920: 37

Os postos, além de vacinação e de tratamento para verminose e


malária, eram utilizados como instrumento de propaganda na luta contra
as principais doenças endêmicas que assolavam a região. Até 1930 o município
possuía apenas essa rede rudimentar de postos de profilaxia, além de
poucos consultórios particulares e dos gabinetes médicos concentrados
nas proximidades das estações das vias férreas. Nos núcleos urbanos da

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zona citricultora, atrelados às farmácias funcionavam os gabinetes médicos;
a farmácia Fluminense de propriedade de Sebastião Herculano de Mattos foi
um exemplo dessa parceria, funcionando também como um posto médico.
Posto médico

Acha-se funcionando na Pharmacia Fluminense, com toda a regularidade,


o Posto Médico- Cirúrgico Dentário que, graças á dedicação do
distincto farmacêutico sr. Sebastião Herculano de Matos, tem prestado
extraordinários benefícios a seus inúmeros associados.

O conhecido facultativo, sr. Dr. Augusto Silva, a quem está confiada a


parte médica, dá consulta na Pharmacia Fluminense ás segundas, quartas
e sextas-feiras, das 13 ás 16 horas.

O serviço dentário acha-se a cargo do distincto profissional, sr. Dr.


Carlos Novaes, que se encontra no gabinete á disposição dos associados
ás segundas, quintas e sábados, das 13 ás 16 horas.

A mensalidade é de 2$000 á 3$000, estando ao alcance de todos.

Ao Posto Médico, que veio preencher uma lacuna em Nova Iguassú,


desejamos a sua constante prosperidade. (Correio da lavoura de 13/09/1917:
2)

Sebastião Matos era presidente da Sociedade Fruticultora de Nova


Iguaçu, entidade que congregava todos os citricultores da região. Os núcleos
urbanos cuja economia voltava-se para a produção de laranja tinham uma
farmácia com gabinete que atendia a população, normalmente de propriedade
de um citricultor. Nova Iguaçu, Austin e Queimados, estações da ferrovia
Central do Brasil, tinham farmácias com gabinetes médicos.
Graças a inteligente iniciativa do operoso coronel Jayme Esteves,
estimado proprietario em Queimados, inaugurar-se-á, no dia 10 do mez
vindouro, a Pharmacia S. José.

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O coronel Jayme Esteves, compreendendo a necessidade do povo dessa
localidade, que de há muito ressentia de um estabelecimento desta
ordem, mandou transformar um dos seus predios, adaptando-o com
todos os requisitos da hygiene.

O novo estabelecimento, tem um espaçoso consultório e confortável


laboratório, e será entregue a um hábil farmacêutico diplomado, ficando
a clínica médica a cargo do conhecido facultativo Dr. Sá Freire.

Auguramos a Pharmacia S. José toda a sorte de prosperidade e esperamos


que o povo de Queimados saiba corresponder aos esforços do coronel
Jayme Esteves. (Correio da lavoura, 25/10/1917: 2)

Além de funcionar como consultório particular, esses gabinetes antes


da constituição dos postos de profilaxia, eram utilizados como tal, em
função da posição social de seus proprietários e das relações políticas que
os mesmos mantinham com os governos estaduais e municipais, este último,
por exemplo, solicitava as vacinas ao Instituto Vacínico de Niterói, para
aplicação/ministradas nas farmácias, daí também serem chamados de postos
médicos. O jornal local ratificava essa imagem, como no exemplo a seguir:
“Vaccinação Gratuita. As pessoas que quiserem vacinar-se, como preservativo
contra a terrível varíola, poderão dirigir-se á Pharmacia Fluminense, a
qualquer hora do dia. (Correio da lavoura, 25/10/1917: 1)
A partir de 1920, as farmácias perderiam esta função com a constituição
da pequena rede de postos de profilaxia, ficando restritas ao tratamento das
doenças não endêmicas. Já as pequenas clínicas estabeleceram-se nas áreas
de ocupação urbana (com características de “periferia” da cidade do Rio de
Janeiro), nas franjas do município, enquanto as farmácias difundiram-se
nos núcleos urbanos da zona rural de base citricultora. Em Nilópolis, por
exemplo, foi inaugurada em 1935 a primeira policlínica do distrito, o mesmo
ocorreria com Merity (Caxias) e São Joao de Meriti. Durante o governo de
Amaral Peixoto (1937/45) postos sanitários estaduais foram inaugurados
sob a supervisão do Departamento das Municipalidades, compondo então a

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rede médico-hospitalar da região, junto com as clínicas particulares, postos
de profilaxia e o hospital Iguaçu.
“Assistência Médico-Hospitalar”
“Para atender às suas necessidades, possue o município além de grande
número de médicos aqui domiciliados, modelar Centro de Saúde, subordinado
ao Distrito Sanitário VI do Estado, com Postos Sanitários em Santa Rita,
Queimados, Merití, Xerém, Estrêla e Caxias.
Mantido pela Municipalidade, temos o Hospital de Iguassú, moderno e
bem aparelhado e dispondo de um dedicado e competente corpo clínico
Em Nilopolis funcionam regularmente, prestando ótimos serviços à
pobreza, uma Policlinica e uma Maternidade, ambas pertencentes a organizações
particulares.” (Correio da lavoura, 07/04/1940: 5)

Essa estrutura incipiente de saúde até a década de 1940 materializava a


atuação de diversos agentes no combate a insalubridade e doenças na região.
Os postos e subpostos de profilaxia sob o comando de Belisário Penna não
ficaram restritos à prática médica propriamente dita, pensados para serem
espaços pedagógicos na zona rural, refletiam a construção de um consenso
acerca da manutenção do homem no campo a partir de um programa de
ação voltado ao saneamento e à educação. O bem estar do trabalhador rural
passava pelo desenvolvimento econômico, leia-se agrícola, e para isto sua
fixação deveria ocorrer em condições salubres. A região, principalmente
depois da Reforma Passos, por ser muito próxima ao Distrito Federal passou
a ser objeto de atenção dos engenheiros e médicos em função da ideia da
criação de um cinturão verde para a capital.
Zona rural muito próxima à cidade do Rio, o município-região
representava/apresentava em pequena escala a situação sanitária do país
naquele momento. As áreas alagadas existentes eram vistas como obstáculos
à ocupação produtiva e foco de doenças, com o agravante de que poderiam
atingir também a capital. A atuação do governo federal, através da Liga
Pró-Saneamento era uma resposta a leitura de como resolver os problemas
de insalubridade da região, e porque não dizer, como laboratório para
pensar o país. Para o que cabe aqui, a profilaxia também era vista enquanto

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ação pedagógica, assim os postos organizavam séries de palestras com o
objetivo de educar a população para a saúde. A expansão dessa forma de
ação médica teria no Correio da Lavoura, semanário local, um importante
aliado na disseminação de um saber higiênico, condizente com a campanha
educativa encetada pelos médicos. Através das colunas “conselhos ao povo”
e “conferências do posto”, o periódico informava as palestras realizadas
pelos chefes dos postos, além de trazer detalhadas notícias sobre visitas de
médicos na região e de obras de saneamento.
Serviço de Prophylaxia rural

Posto de Nova Iguassú

Conselhos ao Povo

Casa sem latrina é morada de doença. Nenhum morador escapa de


ser carniça de vermes e viveiro de micróbios, que entram no corpo
e no sangue das pessoas, trazidos pelas moscas, ou diretamente, pela
terra e pela água, sujas de excremento de gente. (Correio da Lavoura,
13/11/1919:3)

As visitas de Belisário Penna (inicialmente diretor do Serviço de Profilaxia


Rural e depois diretor de saneamento rural do Departamento Nacional de
Saúde e por fim Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP) e as
conferências de Mario Pinnoti inspetor sanitário rural do Departamento
Nacional de Saúde Pública, prefeito de Nova Iguaçu, diretor do serviço
Nacional de Febre Amarela e depois do Departamento de Saúde do estado
do Rio de Janeiro), eram registradas no jornal com o intuito de preparar a
população, vista então como inculta e doente, para o desenvolvimento social-
econômico esperado no município. Na década de 1920, a laranja já começava
a se sobressair na pauta das exportações do estado, criando uma nova classe
dominante local. Essa classe, os pomicultores, consciente do diagnóstico
das condições de vida e de saúde da população local/brasileira, fruto da
intensificação dos debates dos movimentos sociais de caráter nacionalista,
no qual vários médicos engajaram-se na década de 1910, tinha no discurso

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sanitarista um dos elementos de identidade (de classe), que em Iguaçu
tinha como porta voz o periódico Correio da Lavoura, lançado no mesmo
momento da Liga Pró Saneamento.
A Liga Pró-Saneamento do Brasil, fundada em fevereiro de 1918, no
primeiro aniversário de morte de Oswaldo Cruz, pretendia alertar
as elites políticas e intelectuais para a precariedade das condições
sanitárias e obter apoio para uma ação pública efetiva de saneamento
no interior do país ou, como ficou consagrado, para o “saneamento dos
sertões”. Em um contexto onde prosperava a ideia de salvação nacional,
o sanitarismo encontrava-se sintonizado com as tendências gerais das
correntes nacionalistas brasileiras (Hochman, 1998: 221)

Ao lado dos postos, na década de 1920 havia as farmácias na zona


rural. A existência e a forma de funcionamento dos gabinetes médicos
das farmácias podem ser pensadas inicialmente como materialização do
ideário que conjugava desenvolvimento econômico, saneamento e saúde,
articulando a agricultura, vista como principal atividade econômica, ao
saneamento, concebido enquanto instrumento de progresso ao promover
infraestrutura necessária a fixação do homem no campo, neste sentido,
reverberando localmente um pensamento que circulava nacionalmente. As
farmácias estavam localizadas em um vasto território composto por pequenas
propriedades de produção familiar, as chácaras, tal como preconizava Belisário
Penna em seus vários discursos acerca do desenvolvimento do meio rural.

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Quadro1. Rede de farmácias com gabinetes em Nova Iguaçu

Farmácia Proprietário/ Médico Localidade


Cel. Sebastião Herculano de Matos Dr.
Fluminense Augusto Silva, Dr. Cledon Cavalcanti e Centro de Nova Iguaçu
DrAlcides Marques Canário
Cel. Jose Lopes de Castro
Santo Antônio Centro de Nova Iguaçu
Dr. Alcides Marques Canário
-
Central Centro de Nova Iguaçu
Dr. Montermor Filho
Coronel Jaime Esteves
São Jose Queimados
Dr. Sá Freire.
Romário Cap Romário Muniz Anchieta
Severino Lopes
Humanitária Nilópolis
Dr. L. A. Aguiar
-
São Matheus Nilópolis
Dr. Montermor Filho
s/identificação s/identificação Austin

Fonte: Correio da Lavoura 1917/1924

Ainda localmente, os gabinetes podem ser vistos como primeiro ensaio


de filantropia do grupo citricultor, cujo ápice seria o Hospital de Iguaçu. As
farmácias, pequenos empreendimentos de atendimento à população, não
ficavam restritas à venda dos medicamentos receitados pelos médicos, ou
mesmo ao pagamento das consultas, pois em função dos contatos políticos
dos proprietários, até a criação dos postos, atuavam como agentes de saúde
pública, mas já tendo a filantropia como mecanismo político social. Ao
extrapolar as consultas e receitas pagas e se dedicar também à vacinação e
controle de moléstias gratuitamente, transformavam os proprietários das
farmácias em filantropos. Faltam pesquisas sobre essa rede de farmácias,
mas não é descabido pensar que a campanha da construção do hospital
iniciou-se justamente no momento em que a constituição dos postos de
profilaxia destituía as farmácias dessas atividades.

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Até o final da década de 1930, o munícipio contava apenas com essa
pequena rede de assistência. Com o advento do Estado Novo e a reforma
administrativa estadual realizada durante a gestão de Amaral Peixoto, o
município passaria a fazer parte do sexto Distrito Sanitário com um centro
de saúde, postos e subpostos ampliando a rede de saúde local. A partir de
março de 1938, começaram a ser inaugurados os centros de saúdes de cada
distrito. Essa divisão foi produto da reforma ocorrida em 3 de janeiro de
1938, que também criava um fundo composto por 5,5% da arrecadação de
cada município, fazendo de Iguaçu um dos maiores contribuintes. Cada
distrito passaria a ter um centro de saúde, e a partir dele uma rede de saúde,
foi o que ocorreu com Iguaçu.
Inaugurado um centro de saúde em Nova Iguassú

A cerimônia foi presidida pelo interventor federal

Foi inaugurado ontem em Nova Iguaçu, a prospera cidade fluminense


vizinha da capital federal um centro de saúde modelo, instalado num
prédio fronteiro à estação da central do Brasil e especialmente construído
para tal fim.

Dispondo de material todo novo e moderníssimo, o centro está


suficientemente aparelhado para desempenhar a função que lhe cabe.
Será dirigido pelo dr. Candau, a cargo de quem está todo distrito sanitário
que serve a Teresópolis, Petropólis, etc

O acto de inauguração foi muito concorrido, notando-se entre os


presentes grande numero de senhoras da sociedade local e além do
interventor federal, os srs Augusto do Amaral Peixoto, Mario Pinotti,
Barros Barreto, J (?) Fontinelli, Heitor Gurgel, do gabinete do interventor
e etc (Correio da Manhã, 01/07/1938: 3)

A zona sanitária definida pelo VI Distrito era maior que o município,


pois abrangia Petrópolis e Teresópolis, mas Iguaçu abrigava em 1940 uma
população de 140.606 habitantes, espalhados no território de forma desigual,

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já que a maioria ficava nas franjas urbanas (86.621) do imenso município,
nestas localidades só havia dois postos de saúde (o de Meriti e Caxias),
restando aos seus moradores “pegarem o trem” e irem à capital federal
ou locomoverem-se nas precárias estradas locais para serem atendidos na
sede do município onde havia o moderno centro de saúde e o hospital de
Iguaçu, este último o maior da região e marca inconteste do poder político
dos citricultores.
Os postos de profilaxia da década de 1920 foram estadualizados na década
de 1940 no bojo da reforma administrativa de 1938, a mesma que dividiu o
território fluminense em distritos sanitários e inaugurou em cada distrito
um centro de saúde. Era a partir do centro de saúde, com capacidade para
atender uma região com população de 80 mil pessoas (Correio da Lavoura,
07/07/38) que se estabelecia toda a ação médica na região, em uma estrutura
de postos e subpostos.
Sua organização - zonas de atividade

A organização do Centro compreende serviço de doenças transmissíveis


– Lepra – Enfermeiras e visitadoras – Estatística vital – Exame de saúde
-Higiene da alimentação e do trabalho -Higiene da criança: lactário,
gabinete dentário, oftalmo-otorrino-laringologia, - Tuberculose ( possui
um aparelho de raio X moderníssimo)- Doenças venéreas – Endemias
-Propaganda e educação – Verificação de óbito- Laboratório e farmácia
– Fiscalização: saneamento e polícia sanitária e fiscalização de gêneros
alimentícios e do exercício profissional

O VI Distrito Sanitário tem jurisdição em Petrópolis, Paraíba do Sul,


Teresópolis (Santa Rita e Venda) e Magé (Guapi, S Aleixo e Suruí)

O Centro de Saúde n.2 possui postos em Nilópolis, Caxias, S J de Meriti,


e subpostos em Xerem S Rita, Queimados e Estrela. (Correio da lavoura
de 07/07/38: 1)

Curiosamente, todos os problemas de saúde pública que eram publicados


no jornal local semanalmente, depois da inauguração do centro deixaram de
aparecer, dando a impressão que todos foram resolvidos com a inauguração

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do centro de saúde e do hospital; a explicação pode estar no alinhamento
do governo municipal ao estadual sob a égide do Estado Novo, já que o
município comportava uma população maior do que o centro de saúde era
capaz de atender (fora pensado para 80 mil)

O Hospital da Laranja
A partir da década de 1920, a citricultura passou a ser a principal
atividade econômica do município, criando um grupo social que disputaria
a liderança da política local com as antigas famílias proprietárias de terras,
foi nesse embate em que se instituiu a prefeitura e ocorreu a campanha em
prol da construção do hospital de Iguaçu. O primeiro hospital do município-
região foi resultante da disputa intra-oligárquica e da constituição de um
novo ideário, parte da identidade do grupo citricultor.
Para o que cabe aqui, é importante destacar que a criação da prefeitura
e a posse do médico Mario Pinotti como primeiro prefeito do munícipio
revelam a potência do discurso do saneamento para o entendimento da
região, como também desvela o intrincado jogo político que se estabeleceu
com a ascensão econômica dos citricultores. Desde os anos de 1910, esse
novo grupo pressionava a municipalidade para fazer as melhorias necessárias
ao crescimento da pomicultura, mas inicialmente sem ter representantes
na câmara e depois estando em minoria, passaria a década seguinte fora
da máquina administrativa local. O Sindicato Agrícola de Iguaçu, fundado
em 1923, no ano seguinte transformou-se em Associação dos Fruticultores
de Nova Iguaçu foi um exemplo de espaços alternativos de pressão política
utilizada pelo grupo para ver acolhidas suas demandas. Sem adentrar no
que significa essa mudança de nome, a entidade classista buscou fora da
prefeitura canais de atendimentos de seus pleitos. Na década de 1930, depois
da revolução de 30, o grupo assumiu definitivamente o executivo municipal.
A criação da prefeitura foi o primeiro momento em que os dois grupos
se confrontaram e ali já se podia perceber as distinções entre as frações
da classe dominante. Os citricultores perfilados politicamente ao ideário
de desenvolvimento rural que conjugava policultura (em detrimento da
monocultura do café), saneamento e modernização, via o saneamento

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como condição primordial para a realização do progresso econômico e
social da região, situação sine qua non para o povoamento e aceleração da
dinâmica territorial assentada no desenvolvimento agrícola das áreas que
hoje compreendem Nova Iguaçu, Mesquita, Belford Roxo e Queimados.
Neste sentido, apoiavam todas as ações de profilaxia do governo federal
e as políticas nilistas de incentivo à diversificação da agricultura. A criação da
prefeitura foi uma exigência do governo estadual para a liberação de recursos
que seriam utilizados na instalação de rede de esgoto em municípios que
ainda não tinham o executivo separado do legislativo. No caso de Iguaçu, o
escolhido pelo governo estadual para ocupar a prefeitura foi o médico Mario
Pinotti, que entre outras coisas, era um profissional que trabalhava na Baixada
com saúde, dentro do perfil político desenhado pelo “governador” Raul Veiga,
isto é, profissional voltado para saúde, visto como técnico, “popular” na região
e principalmente, sem compromissos com o grupo local que controlava a
máquina municipal, a antiga elite formada pelos grandes proprietários de
terra do século XIX.
Mario Pinotti era conhecido pela população do município, pois como
chefe do posto de profilaxia do Distrito Sede, suas palestras eram noticiadas
pelo semanário local e transformadas em acontecimento social.
Palestras Sobre Profilaxia

A’S QUARTAS FEIRAS

O dr. Mario Pinotti, chefe do Posto de Profilaxia, resolveu realizar uma


serie de conferencias sobre verminoses, impaludismo e higiene em
geral, com o concurso de seus auxiliares.

Essas conferencias terão lugar às quartas-feiras, ás 11 horas da manhã,


com projeções luminosas, na sede do Posto.

A primeira será realizada no dia 2 de julho, pelo dr. Mario Pinotti.

A entrada é franca. E de esperar-se grande afluência dos moradores


desta cidade. (Correio da lavoura de 27/05/1920: 2)

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Visitava todos os subpostos, o que reforçava a sua popularidade, dissertava
inclusive para estudantes de escolas públicas. Conhecido pelos citricultores
e moradores, Mario Pinotti tornou-se um profissional reconhecido pela sua
atuação no campo da saúde e do saneamento.
A conferência do dr. Mario Pinotti

Efetuou-se ontem, às 11 horas, a primeira conferência sobre profilaxia,


com projeções luminosas, por iniciativa do esforçado chefe do Posto, sr
dr. Mario Pinotti, na respectiva sede, com grande afluência de moradores
desta localidade.

O dr. Pinotti dissertou, em linguagem clara ao alcance de todas as


intelligencias, sobre todos os múltiplos aspectos da opilação, prendendo
a atenção do auditório pelo espaço de 1 hora e 40 minutos.

CE’ digna de louvores a iniciativa do dr. Pinotti, que inegavelmente é


um dos mais dignos auxiliares da obra sacrossanta de Belisario Penna- o
saneamento do Brasil. (Correio da Lavoura, 10/06/1920: 2, grifo nosso)

Ficou pouco tempo à frente da prefeitura, mas deu visibilidade às


fragilidades da estrutura de saúde no município, ao mesmo tempo em
que o funcionamento dos postos de profilaxia tornou desnecessários os
gabinetes de farmácia, fazendo com que a elite citricultora passasse a investir
na construção do hospital. O novo patamar de atuação desse grupo conjugou
filantropia, modernidade e conhecimento da rede deficitária de assistência
à saúde. Pinotti ao sair da prefeitura voltou a ocupar seu antigo cargo de
chefe do posto de saúde.
O Correio da Lavoura encampou prontamente a proposta de construção
do hospital apelando para a caridade dos mais ricos, os citricultores, ao
mesmo tempo em que apontava o hospital como índice de progresso e
modernidade, já que as grandes cidades do estado o tinham, além de explicitar
os vários problemas que a população enfrentava nos casos de emergência e
de tratamento ambulatorial.
A NECESSIDADE DE UM HOSPITAL EM NOVA IGUASSÚ

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Um apello ao povo

E’ de se admirar que os nossos poderes públicos ainda não adoptassem


a nossa cidade de um estabelecimento hospitalar.

A fundação de uma casa de caridade em Nova Iguassú impõe-se como


uma necessidade de primeira ordem, justamente num momento como
este em que se vae notando um aumento sensível na nossa população.

Não há, no Estado, uma cidade que já não disponha de um hospital, seja
por iniciativa particular ou por deliberação do governo. Barra Mansa,
Campos, Rezende, etc; bem como todas as grandes cidades do Estado,
dispõem hoje de excelentes casas de caridade.

Porque não havemos nos de fazer o mesmo em Nova Iguassú ?

A caridade é o caminho mais recto que nos conduzirá ao seio de Jesus.


Sem ella, o homem jamais alcançará o grau desejado de perfeição. Sêde
caridosos si quereis merecer as graças de Deus.

Fundemos, pois, um hospital em Nova Iguassú. (Correio da Lavoura,


19/10/1922: 1)

Modernidade preconizada pelo semanário esbarrava na realidade de


um sistema de saúde que na prática dependia do distrito federal. O jornal
relatava frequentemente o envio de doentes pelo trem aos hospitais da cidade
do Rio de Janeiro, e assim como hoje, uma vaga nessas unidades significava
longa espera ou óbito como os noticiados pelo Correio
Ainda há muito pouco tempo assistimos á morte de um desses
desgraçados, num dos bancos da estação e que trazia no bolso uma
guia que elle esperava havia já um mez, para se internar no hospital
de Cascadura. Foi uma scena commovente.

Homens ricos, detentores da fortuna, congregai-vos e segundo os


preceitos do Christo, amparai com o vosso carinho e com a vossas

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sobras esses tantos infelizes, desherdados da sorte e que andam a encher
as ruas por falta de um leito que lhes minore a dor ou á espera de quem
lhes atire ás mãos mirradas uma fatia de pão. (Correio da lavoura,
19/10/1922: 1)

Desastres locais desvelavam a fragilidade da estrutura de socorro do


grande município, onde o trem também era utilizado como recurso. Assim,
doenças da alta complexidade e acidentes tinham na via férrea a única solução.
Um exemplo foi a explosão da fábrica de pólvora Jacaré, como informada
pelo semanário em setembro de 1921, que destruiu vários pavilhões matando
dois operários e deixando mais de 10 feridos. O que a notícia revelava, além
do grande prejuízo material, como a população socorreu os feridos e um
dos dois mortos não resistindo à espera do trem, faleceu na plataforma da
estação. Sem o hospital, a farmácia mais uma vez foi utilizada como posto
de atendimento médico.
Assim, verificaram-se duas mortes, uma a do venerando operário Baptista
cujo corpo foi retirado dos escombros de um dos prédios desabados e
a outra a do desventurado encarregado do serviço sr Domingos Vieira
que em estado desesperador depois de ser medicado na farmácia Santo
Antônio, para onde o transportaram, veio a falecer na gare da estação
quando esperava o comboio que o devia transportar para a Santa Casa.
As outras vítimas são (....), que foram igualmente medicados na farmácia
Santo Antônio, recolhendo-se as suas residências, a exceção do menor
Oswaldo que por ter tido um dos braços fraturados foi mandado para
a capital no trem das 17 horas... (Correio da Lavoura, 22/09/1921: 2)

Com a inexistência de estrutura médico hospitalar, a ideia de um hospital


de grande porte, que atendesse todo o município passou a ganhar forma no
periódico. Ao longo da década de 1920, o jornal sempre que podia apelava
para a caridade das classes abastadas para se engajar na construção de um
hospital que designava de Santa Casa. O modelo de filantropia veiculado
pelo periódico tinha como base a atuação da família Guinle. Não é descabido

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pensar que o paralelo feito era no sentido de ressaltar o capital simbólico e
a visibilidade social que a filantropia trazia para a família Guinle, naquele
momento articulado ao grupo citricultor, do qual também fazia parte, já que
os Guinle eram proprietários das Fazendas Reunidas Normandia.
A imagem desse novo grupo que ascendia, não ostentando somente
riqueza material, mas benemerência, poderia também contribuir para a
resolução dos problemas sociais da região, essa leitura foi fruto da construção
social do semanário Correio, tornando-se “bom sócio” (Duprat apud Sanglard,
2003) da filantropia, fazendo dos pomicultores mecenas social, tal como os
Guinle.
Emprehendimentos da natureza desse não devem ficar á mercê da bòa
vontade dos governantes. Mesmo com o auxilio do poder não se póde
rescindir da iniciativa particular: o concurso leal e desinteressado dos
particulares é indispensável em taes occasiões.

Nos Estados Unidos como em outros paizes do velho mundo a


beneficiencia particular tem acudido a essas necessidades, dando
o melhor dos recursos necessários á fundação de novos hospitais,
sanatórios, dispensários, etc.

Muitos milionários têm repartido um pouco de sua fortuna com os


necessitados de um leito de hospital para se tratar e aqui entre nos temos
um exemplo egual, infelizmente isolado, da família Guinle “que tem
dotado o Rio com instituições beneficentes da mais alta significação social”.

E’ de rasgos de filantropia assim que precisávamos para levar avante a


construcção do hospital de caridade de Nova Iguassú, há tanto tempo
falado mas que até hoje não tem sido mais que uma ficção. (Correio
da Lavoura, 28/02/1929: 1. grifo nosso)

Ao longo dos anos, a construção do hospital tornou-se consensual,


da mesma forma sobre quem deveria dirigir e organizar o processo. A
ideia de benemerência atrelada ao grupo os distinguia da outra fração da

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classe dominante. Ao longo da década de 1920 esse grupo ainda que fosse
responsável pela principal atividade econômica do município, não ocupava
o executivo local; somente com a ascensão do grupo à prefeitura foi possível
realizar o projeto exaustivamente propagandeado pelo Correio da Lavoura
na década anterior. É importante ressaltar que esse acontecimento coincidiu
com a Revolução de 30 e o realinhamento do grupo dominante, fazendo
dos citricultores a nova liderança política.
Sebastião Arruda Negreiros assumiu a prefeitura em 19 de dezembro de
1930 com a incumbência de garantir a execução das principais demandas do
grupo citricultor, viabilizando sua gestão por cinco anos, tornando-se político
de grande projeção no município. Um dos primeiros atos do governo Arruda
Negreiros foi encampar a construção do hospital, organizando efetivamente
a sua subscrição, constituindo a Associação de Caridade Mantenedora do
Hospital de Iguassu, instituição que construiria e gerenciaria o hospital.
Desde o primeiro artigo em 1922, não casualmente ano do centenário
da independência, o Correio da Lavoura iniciou a campanha do hospital;
nove anos depois, Getúlio Vargas colocava a pedra fundamental, já sob a
gestão de Arruda Negreiros. O prefeito constituiu um grupo para organizar
as finanças do município, entre seus membros encontravam-se Sebastião
Herculano de Mattos e Nicolau Rodrigues da Silva, os mesmos que seriam o
presidente e o secretario da associação, respectivamente, que se encarregaria
da construção do hospital,
PREFEITURA MUNICIPAL DE IGUASSÚ

O Dr. Sebastião de Arruda Negreiros, Prefeito do Município de Iguassú,


Estado do Rio de Janeiro, usando das atribuições conferidas em Lei
resolve:

Nomear os cidadãos dr. Alberto Nunes Brigagão, Sebastião Herculano


de Mattos, Cel. Nicolau Rodrigues da Silva e João de Almeida, para
membros da Comissão criada pelo Decreto de 20 de Dezembro do
corrente ano, encarregada da organização do Orçamento de 1931

Registre-se e cumpra-se.

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Gabinete do Prefeito, 23 de Dezembro de 1930.

O Prefeito

Sebastião de Arruda Negreiros (Correio da Lavoura, 25/12/1930: 2)

Decorridos seis meses da constituição da Associação, o presidente da


república Getúlio Vargas em visita ao município, entre outras coisas, colocava
a pedra fundamental, iniciando a construção do Hospital.
Terminando essa primeira cerimônia seguiu-se a do lançamento da pedra
fundamental do futuro hospital de Iguassú, cujo clichê representando
o projeto do sumptuoso edifício, daremos no próximo do número.

Foi com a mais intensa emoção que contemplamos o local onde já foram
colocados os primeiros alicerces do futuro hospital da nossa cidade,
á Praça do Fórum á esquerda do grande edifício que dá o nome ao
logradouro. Sim porque a realização dessa obra inestimável de assistência
pública aos nossos necessitados, que os há em grande número em nosso
município, com de resto em toda parte do solo pátrio; (...)

Há dez anos iniciamos por estas colunas intensa campanha em prol de


um hospital para Iguassú, reclamando dos poderes públicos sua atenção
para tão magno problema (...)

O ato inaugural da sua pedra basilar teve começo com a leitura da


acta referente ao grande acontecimento de que se encarregou o Cel.
Nicolau Rodrigues da Silva, secretário da diretoria para isso organizada.
Terminada essa leitura seguiu-se a assinatura do referido documento,
o que foi feita pelo Sr. Presidente da República, autoridades locais,
paraninfos e demais pessoas de destaque presentes. Em seguida não só a
acta como os jornais do dia da imprensa local e do Rio foram encerrados
na urna, sobre a qual foi colocado um bloco de granito. Ouviu-se então
o primeiro discurso proferido pela senhora Gioconda de Moraes Ribas,
saudando o chefe da Revolução, que é o seguinte: (...). Falaram após

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o dr. Américo Mello, dr. Getúlio Moura, prof. Senhorita Nair Iguassú,
dr. Marcondes Paraná e por último o dr. Eurico Antônio da Costa.

Uma banda militar fez-se ouvir durante a cerimônia, assistida por


grande multidão. (Correio da Lavoura, 25/06/1931: 3)

O período da construção corresponde ao momento áureo da produção


de laranja no município e da gestão de Arruda Negreiros. Com o custo
inicial de 250 contos de reis, representando, portanto, 1/3 da receita anual da
prefeitura, a Associação começaria a angariar esse valor, sob a supervisão do
prefeito. A partir da pedra fundamental, com o projeto arquitetônico pronto,
seriam realizadas várias atividades visando arrecadar a quantia necessária
para finalizar o edifício. Através do semanário é possível acompanhar os
esforços do grupo citricultor e do engajamento da população em prol do
hospital, como a venda de flores, sessões beneficentes de cinema e circo, além
de quermesses. O jornal passou a apelar ao espirito caridoso dos habitantes
e ressaltando a importância da existência de uma unidade de saúde daquele
porte na região.
A população encampou a construção comprando flores, comparecendo
as sessões de cinema e circo, e participando das inúmeras quermesses
realizadas pelas senhoritas da sociedade local. Curiosamente, o momento
de participação da população é justamente aquele em que a prefeitura menos
precisava, já que entre 31 e 1935, a receita do município dobrou. Esse período
também marcou a consolidação da ideia de um hospital para os desvalidos
locais, fazendo de sua construção um ato de caridade coletivo. É sempre bom
ressaltar que a população e sociedade pensadas pelo jornal eram aqueles
que viviam na área citricultora, embora apelasse para a colaboração dos
moradores de todos os distritos.
O grupo citricultor capitaneou a campanha para angariar fundos,
tornando a iniciativa de um grupo em demanda social, ainda que necessária
coletivamente. A ideia de filantropia do grupo citricultor, disseminada pelo
jornal nos anos 1920 cujo modelo era a família Guinle, deslocava-se para
a que se centrava na saúde pública. O periódico que inicialmente apelava
à benemerência dos mais ricos passaria a ressaltar a atuação do grupo em

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prol do coletivo, mas trazendo também a participação da municipalidade e
da população. O Hospital da Laranja era também hospital dos desvalidos e
dos pobres locais, cabendo ao estado, leia-se a municipalidade, a tarefa de
auxiliar com recursos.
Enquanto o semanário local acentuava a atuação dos citricultores no
processo, deixando a prefeitura a reboque, o Correio da Manhã, diário
do Distrito Federal, ressaltava a participação do estado na construção do
edifício, principalmente porque entendia que a municipalidade, ainda que
comandada pelos laranjeiros, havia dado racionalidade efetivado o processo
de construção.
(...) Dali o presidente do governo provisório partiu para a avenida que
tem o seu nome inaugurando-a, assim como assistiu ao lançamento da
pedra fundamental de um hospital, que brevemente será construído
com o auxilio da população de Nova Iguassu e de uma subvenção da
municipalidade (...) (Correio da Manhã, 23/06/1931: 3)

A prefeitura destinou 30 contos anuais à construção, subvencionando


diretamente com 150 contos a edificação do hospital, dessa forma o município
afinava-se à política estadual de fomentar as instituições particulares como
forma de diversificar o “sistema de saúde” das localidades. Sob a gerência
da Associação de Caridade Mantenedora do Hospital de Iguassu, quatro
anos mais tarde, Arruda Negreiros inaugurava o hospital. A associação era
formada pelas pessoas mais influentes do município, não só citricultores,
como também o jornalista Silvino Azeredo (proprietário do Correio da
Lavoura) e diversos comerciantes. Fundada em 1 de fevereiro de 1931, em 26
de junho do mesmo ano lançava a pedra fundamental com a presença do
presidente da república e em 31 de março de 1935 o hospital era inaugurado.
Ao longo da construção a diretoria da associação permaneceu a
mesma, sendo ratificada nas eleições de 1933 e de 1935, esta última já com a
incumbência de garantir o funcionamento do hospital, que seria inaugurado
um mês depois, tendo apenas a inclusão do médico Cledon Cavalcanti, futuro
diretor do hospital, o mesmo que dava consultas na Farmácia Fluminense,
de propriedade de Sebastião Herculano Mattos, presidente da associação
de caridade que administrava o hospital. Através do semanário local é

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possível observar a circulação de alguns médicos na região. Os médicos
que atendiam em farmácias ganhavam notoriedade, principalmente nos
anúncios de agradecimentos pagos pela saúde restabelecida. Marques Canário
por atender em duas farmácias era muito popular, mas quem ficou com a
direção do hospital foi o médico da Fluminense.
A inauguração não teve a mesma visibilidade social que o lançamento da
pedra fundamental. Era também domingo, mas sem a presença do presidente,
poucos jornais cariocas noticiaram o evento, ainda assim alguns informaram
ou veicularam a propaganda/notícia paga da inauguração. A comparação do
que foi noticiado no semanário local com a revista mensal Vida Doméstica
e a Gazeta de Notícias deu a dimensão do que o evento representou para o
município e para as redes políticas e de saúde. A revista colocou dois títulos,
o primeiro com letras enormes ressaltava a grandiosidade do hospital como
ícone da economia local; o outro dava dimensão prática do que significava
a existência do hospital: “Iguassu não oferecerá jamais o espetáculo triste e
deprimente dos doentes transportados nos trens e caminhões, por falta de
hospital” (Vida Doméstica, Maio de 1935).
A revista ratificava a ideia do hospital da laranja, ao designar o
empreendimento como uma “manifestação californiana” de desenvolvimento
rural, nesta linha seguiu o Correio da Lavoura, entretanto, sem lembrar a
dificuldade de tratamentos médicos e de primeiros socorros enfrentada
pelos moradores locais sem o hospital. O semanário local, diferente do
jornal carioca que foi convidado especialmente para a ocasião, esqueceu-se
de mencionar a participação do representante da classe operária, dando o
tom da solenidade apenas como ato do grupo dominante.
(...) Deu depois a palavra ao Cel. Herculano de Mattos, orador oficial da
solenidade que proferiu brilhante peça oratória vivamente aplaudida,
terminando por dizer que a caridade é o caminho mais próximo para
o ceu e a obra que se inaugurava era um verdadeiro monumento a
caridade. Após o após orador oficial seguiram com a palavra o Dr. Luiz
Palmieri, que também foi muito feliz na sua oração, tendo invocado
os exemplos de Alice Tibiriçá para despertar ainda mais o amor da
mulher pelas grandes coisas em prol da humanidade sofredora. Jarbas

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Cordeiro, orador oficial do S C Iguassu, o proletário ferroviário, Arthur
Pires de Lima, que falou em nome do proletariado, tendo a sua vibrante
oração empolgado toda a assistência, terminando este orador por pedir
que o auditório de pé guardasse um minuto de silencio a memória
de Nilo Peçanha, o verdadeiro empreiteiro da obra do progresso e
engrandecimento do estado do Rio de Janeiro (...) (Gazeta de Notícias,
03/04/1935: 8, grifo nosso)

Enquanto o semanário ressaltava a participação do grupo dominante, a


Gazeta apresentava uma sociedade mais heterogênea, inclusive descortinando
as filiações políticas. O Correio da Manhã desde o lançamento da pedra
fundamental enfatizou a atuação da prefeitura na construção, deixando
claro que sem ação conjunta dos governos de Arruda Negreiros (municipal)
e de Ary Parreiras (estadual), o hospital não sairia. A inauguração também
descortinou uma rede médica existente no estado, que Luiz Palmieri, diretor
do hospital São Gonçalo representava, ainda que fosse a face política dessa
rede. Faltam pesquisas sobre essa rede de sociabilidade médica, mas não
é descabido pensar que sua presença na inauguração indicava contatos e
interações sob a égide do saber médico.
Uma semana após a inauguração, o mesmo semanário que deu tom
épico ao evento, informava a péssima situação financeira da Associação e a
dificuldade de funcionamento do monumental hospital, solicitava auxilio
da municipalidade para a manutenção da unidade de saúde.
HOSPITAL DE IGUASSSÚ

Conforme notícia que divulgamos com as respectivas minucias no


numero anterior, constituiu um acontecimento de invulgar realce
e acentuada repercussão social a festa com que se comemorou a
inauguração do Hospital de Iguassú, padrão marcante de uma das
mais valiosas conquistas do povo iguaçuano.

Esse pio estabelecimento vem funcionando somente há bem poucos


dias, mas seus abençoados serviços já têm sido solicitados muitas vezes
e a eficiência de seus inigualáveis préstimos posta a prova outras tantas,

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quer na urgência com que são atendidos os pedidos de socorros, que
na solicitude e carinho com que são tratados os enfermos internados.

O facto apontado é uma prova inconcussa da grande lacuna que o salutar


empreendimento acaba de preencher, vindo ao encontro da maior e mais
premente necessidade de nosso povo, satisfazendo indubitavelmente
uma amiga e justíssima aspiração do mesmo.

Dentro de um estabelecimento nas condições do que tratamos, muitas


são as exigências atinentes aos serviços a satisfazer e múltiplos os
encargos decorrentes a cumprir.

A conclusão das obras de instalação está por bem pouco. Agora,


novo problema se apresenta –o custeio da manutenção do bendito
estabelecimento, - pois as quantias resultantes das mensalidades dos
associados e a verba apurada pela taxa hospitalar não darão de forma
alguma, para cobrir suas enormes despesas.

A solução do aludido problema se impõe e se torna urgente.

Faz-se mister que a Associação de Caridade Hospital de Iguassú


cogite desde já, da formação de um fundo patrimonial para custeio
do grandioso empreendimento que tomou a ombros sem o que não
medrará a ótima e salutar semente plantado sob tão bons auspícios,
em nosso amado município.

E’ preciso que Iguassú confirme os elevados, sentimentos de seus filhos.


(Correio da lavoura, 11/04/1935: 1)

Os mesmos 30 contos da taxa hospitalar que garantiram parte dos


recursos para a construção, passaram anualmente a fazer parte da manutenção
do hospital, cabendo a diretoria, denominados de mordomos, gerir o recurso.
O hospital nos primeiros anos tinha nas doações dos citricultores e na
verba da prefeitura suas principais fontes de renda. Com o fim da gestão de
Arruda Negreiros em 1936, o novo prefeito Ricardo Xavier da Silveira passaria
fazer parte da diretoria com outros pomicultores. O advento do Estado

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Novo potencializou uma nova forma de gerenciar o sistema de saúde no
município, pois passaria a depender do Departamento das Municipalidades,
principalmente depois do fim da laranja. O período áureo da pomicultura
foi curto, pois a Segunda Guerra impediu as exportações das laranjas para a
Europa (principal mercado exportador), dessa forma, até 1942 os citricultores
ainda injetavam recursos no hospital, inclusive garantindo a ampliação
de suas instalações, depois disto passou a depender das contribuições dos
usuários, do município e dos sindicatos (IAPs).
Hospital de Iguassú: Ampliadas as suas instalações

A associação de Caridade Mantenedora do Hospital de Iguassú, contando


atualmente com a colaboração eficiente de pessoas de destaque em
nossa sociedade, já deu início às grandes realizações prometidas para
o corrente ano, após a posse dos seus novos diretores. Isso se deve em
grande parte ao dr. Ricardo Xavier da Silveira, benemérito da instituição,
que vem prestigiando de modo louvável os novos mordomos, entre os
quais se encontram os srs. dr. Orlando Moniz Dias Lima, dr. Getúlio
Moura, Murilo Costa, Antônio de Oliveira Carvalho, Pantaleão Rinaldi,
Francisco Baroni, Sebastião Herculano de Matos e Abelardo Pinto.

Agora mesmo acabam de ser inaugurados no Hospital de Iguassú o seu


laboratório e um aparelho de Raio X, o que veio ampliar e valorizar
sobremodo as suas instalações

Portanto, estão de parabéns os mordomos que se acham à frente desse


estabelecimento Hospitalar (Correio da lavoura, 25/01/1942: 2)

Até a construção do hospital público da Posse em 1982 e a expansão


do N S de Fátima (particular) em 1975, o de Iguaçu era a única unidade de
saúde de grande porte da região. O edifício foi projetado para ser espaço de
tratamento e de Primeiros Socorros da população da Baixada. Era grande
para os padrões da época, daí os periódicos chamá-lo de monumental,
ficava na Praça João Pessoa, do “Outro Lado” (área nobre, de residência
dos citricultores). O Correio da Lavoura via o hospital como ícone de

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modernidade, principalmente pela existência de um conjunto de aparelhagem
ultramoderna em seu interior, desta forma o semanário ratificava o progresso
patrocinado pelos citricultores.
O edifício, especialmente construído, é amplo, arejado e bem iluminado.
Possui 4 grandes enfermarias com capacidade para 120 leitos, 5 quartos
particulares, maternidade, 1 apartamento, sala para raio X, quarto para
exames de olhos, sala de esterilização, sala de anistia, sala de cirurgia
e ambulatório com 6 salas.

E’ dotado ainda dos indispensáveis anexos para seu perfeito


funcionamento e das mais modernas instalações sanitárias e higiênicas.

Está sob a direção do dr. Cledon Cavalcanti, que tem como auxiliares os
seguintes drs: Francisco Guimarães, cirurgião; Egas Muniz de Aragão,
Luiz Guimarães, Antônio de Luca, José Manhães e Vianna Pires, médicos.

O corpo de enfermeiros é composto de um enfermeiro chefe e 6


enfermeiros.

Há, ainda, 4 serventes, para seus diferentes serviços.

Esta cidade já tem, pois, seu hospital, distribuindo abençoados préstimos


e concretizado numa grandiosa obra que honra o povo iguaçuano.
(Correio da Lavoura, 04/04/1935, p.2)

Processo iniciado na década de 1920, sob a direção dos citricultores,


a construção do hospital deu visibilidade às disputas internas da classe
dominante, o grupo sobressaiu-se como moderno utilizando-se do discurso
da filantropia, em um período em que o Estado (em suas muitas esferas)
afirmava-se como garantidor dos direitos sociais, principalmente no que
concerne à saúde. Faltam conhecer a rede de sociabilidade médica da região
e a própria estrutura de saúde, pois nas áreas urbanas as clínicas particulares
integravam-se ao “sistema de saúde” como “espaços de atenção básica”
voltados também aos tratamentos ambulatoriais de doenças não endêmicas
na região (como malária, febre amarela e tuberculose).

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O desconhecimento sobre a atuação dos médicos e dos espaços voltados
à saúde e doença no município-região, inclusive o hospital da laranja, deve-
se à inexistência de uma documentação organizada já que está espalhada
em diversos arquivos locais e a impossibilidade de consulta aos registros da
Associação de Caridade que administrava o Hospital. Ainda assim é possível
através dos jornais, principalmente o periódico local, e da documentação dos
governos estaduais conhecer a formação da pequena rede médico-hospitalar
da região. Foi um longo processo de estruturação da rede de assistência à
saúde na região, que ainda hoje é deficitária.
É interessante perceber como um discurso de modernidade em uma
área rural, veiculado pelos citricultores calcado na saúde e no saneamento
das primeiras décadas do século XX, articulou-se às práticas da filantropia
típicas do século XIX, acabaram por viabilizar o controle político do grupo
na prefeitura até a década de 1980, em função da imagem da ligação do grupo
com a construção do hospital, alcançando e mantendo certa ordem social.
A construção do hospital não foi voltada especificamente à assistência
ao trabalhador da laranja, mas de toda a população da região, também
não esteve inserida em uma política de amparo social como os do Açúcar,
apontados por Monteiro (2011). Inaugurado em 1935, momento próximo
à criação dos institutos (IAPs), sua construção não tinha relação com a
disciplinarização da classe trabalhadora local, seja rural ou urbana, estava
atrelada à visão paternalista dos citricultores, pensamento comum aos grupos
dominantes locais no início do século XX, momento em que se consolidaram
politicamente no município-região. O Hospital da Laranja transformou-se
rapidamente em hospital dos pobres
Com capacidade para acolher 120 pessoas em suas enfermarias, além
de sala de cirurgia e ambulatório, o hospital transformou-se em centro de
referência da região, sendo mais um equipamento que garantiu a centralidade
do núcleo urbano de Nova Iguaçu. O prédio encontra-se fechado desde anos
2000, ainda pertence à Associação de Caridade, perdeu a monumentalidade
em função do desaparecimento da praça. Com a estruturação da rede pública
a partir dos anos de 1980, o hospital atenderia a população via SUS, fechando
logo em seguida, ainda assim, permanece como ícone de um momento
glorioso da história de Nova Iguaçu, de quando os laranjais valiam ouro!

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Fig. 02. Hospital de Iguaçu

Fonte: IBGE, 2018

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HERSCHMANN, Micael; KROPF, Simone; NUNES, Clarice. Missionários do
Progresso: Médicos, engenheiros e educadores no Rio de Janeiro – 1870/1937.
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HOCHMAN, Gilberto. “Logo ali, no final da avenida: Os sertões redefinidos
pelo movimento sanitarista da Primeira República”. Hist. cienc. saúde-

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 139 23/01/2020 14:59:22


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(orgs) História Cultural: ensaios de sobre linguagens, identidades e práticas
de poder. Rio de Janeiro: Apicuri, 2010.
SILVA, Lúcia. “De recôncavo da Guanabara a baixada Fluminense: leitura de
um território pela história” In: Recôncavo: revista de História da UNIABEU,
vol 3. N 5, 2013
Nota biográfica
Lúcia Silva é historiadora com pós-doutorado em Planejamento Urbano
e Regional (IPPUR/UFRJ). Docente permanente do PPGDT/UFRRJ
(Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial e Políticas
Públicas da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro). Coordenadora do
GEMULTIBAIXADA, laboratório de pesquisa multidisciplinar da Baixada
Fluminense. Organizadora do livro Região Metropolitana do Rio de Janeiro:
entre tensões e desafios (2018)

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Assistência à saúde e sanitarismo no estado do Rio
de Janeiro (1937-1945)1

Luiz Otávio Ferreira


luiz.ferreira@fiocruz.br

O objetivo desse capítulo é tratar do tema da assistência à saúde no


estado do Rio de Janeiro durante o Estado Novo (1937-1945). Partimos da
premissa de que a institucionalização e a interiorização da assistência à saúde
no estado do Rio de Janeiro ocorreram tardiamente em face, por exemplo,
ao caso do estado de São Paulo em que o mesmo processo estava em curso
desde as primeiras décadas do século passado. No campo da saúde, nada
de muito significativo foi feito na “velha província” durante a primeira fase
do regime republicano que se encerrou em 1930. A institucionalização da
assistência à saúde dependeu de condições políticas favoráveis propiciadas
por um regime de governo centralizador – o Estado Novo. No estado do
Rio de Janeiro, o governo centralizador foi comandado pelo interventor
federal Ernani Amaral Peixoto (1905-1989) que empreendeu uma política de
assistência à saúde que procurou equilibrar-se entre a modernidade técnica
proposta pelos sanitaristas e a necessária negociação política e ideológica
com as elites locais.

1. O projeto de pesquisa A interiorização da assistência: um estudo sobre a expansão e a


diversificação da assistência à saúde no Brasil (1850-1945), que deu origem ao capítulo, recebeu
apoio de Programa de Excelência em Pesquisa - PROEP/FIOCRUZ – CNPq.

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Às vésperas da revolução de 1930, a situação sanitária do estado do
Rio de Janeiro não era animadora. Em mensagem enviada à assembleia
legislativa (Estado do Rio de Janeiro, 1930), o presidente estadual Manuel
de Mattos Duarte Silva avisava aos deputados que a questão sanitária era
grave por conta do contágio pela febre amarela que ameaçava a população
de quase todos os municípios fluminenses. O regresso da febre amarela ao
Rio de Janeiro (DF) e ao estado do Rio de Janeiro, entre 1928 e 1929, obrigou
reformulação das estratégias sanitárias de controle da epidemia e tornou
obsoleto o modelo profilático adotado por Oswaldo Cruz na década de 1910
(Benchimol, 2001:121-134). Contando com o apoio do Departamento Nacional
de Saúde Pública (DNSP) e da Fundação Rockefeller (FR), as autoridades
sanitárias fluminense promoveram uma intensa campanha sanitária que,
segundo o presidente Manuel de Mattos, já havia conseguido controlar a
propagação da epidemia em 86% dos 43 municípios atingidos.
Na trilha da campanha de combate à febre amarela, o governo estadual
reorganizou os serviços de saúde que foram reagrupados em um novo órgão,
a Diretoria Geral de Saúde e Assistência que, não por acaso, ficou sob o
comando do sanitarista Alcides Lintz, que chefiava o Serviço de Febre Amarela
do Departamento de Saúde Pública do estado Rio de Janeiro (Benchimol,
2001:137).
Na década de 1920, o estado do Rio de Janeiro investia timidamente em
assistência à saúde. Em média, o percentual do orçamento anual aplicado
à rubrica saúde e assistência não ultrapassava 1,1% (Hochman, 1998:201). A
escassa rede de serviços oferecida à população fluminense se concentrava
em serviços tipicamente de saúde pública. O governo estadual, com o apoio
do DNSP e da FR, mantinha alguns postos sanitários rurais orientados para
o combate de doenças epidêmicas (febre amarela, varíola, febre tifoide) e
doenças endêmicas (ancilostomose e malária). O estado não dispunha de rede
própria de hospitais, ambulatórios ou dispensários. A assistência hospitalar
e o socorro à pobreza estavam sob a responsabilidade dos municípios.
Quase sempre a prestação da assistência hospitalar e social era realizada
por irmandades religiosas leigas ou entidades filantrópicas.

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Conforme descreve o presidente Manuel de Mattos Duarte Silva, além
dos postos sanitários rurais, a estrutura de assistência à saúde contava com
os seguintes serviços: um instituto responsável pela produção de vacina
antivariólica, o Instituto Vacínio, um hospital psiquiátrico, o Hospital-
Colônia de Psicopatas de Vargem Alegre, a Inspetoria de Profilaxia da
Lepra e das Doenças Venéreas vinculadas ao DNSP. Na cidade de Niterói,
em parceria com Instituto de Assistência e Proteção à Infância de Niterói,
existia um serviço higiene escolar e de higiene pré-natal. A hospitalização
e a prestação de serviços de pronto-socorro aconteciam no Hospital de São
João Baptista, “casa de caridade” de Niterói que se encontrava em estado
precário de conservação. Cogitava-se a construção de um hospital regional
para atender à população de Niterói e de outros municípios vizinhos como
São Gonçalo, Maricá e Itaboraí. O presidente estadual não cita os hospitais
das Santas Casas de Caridade herdados do regime imperial que, certamente,
formavam a única rede de assistência hospitalar existente no estado do Rio
de Janeiro na década de 1920.
A mensagem do presidente Estadual não traz um balanço sobre o
número de médicos, enfermeiras, farmacêuticos, dentistas ou parteiras em
exercício profissional no território fluminense, mas dá duas informações
importantes a respeito2. A primeira é que naquele ano (1930) 470 médicos
haviam requerido o registro de diploma, procedimento que permitia que
exercessem a medicina no território fluminense. Outra informação é sobre
o funcionamento de 569 farmácias distribuídas pelos 48 municípios. Se
correta as informações repassadas pelo presidente do estado, haveria, em
média, 11 farmácias por município, número bastante significativo e que pode
indicar que práticos em farmácia tinham um papel relevante na prestação
da assistência à saúde em âmbito local.
Apresentamos (Tabela 1) a lista dos serviços de assistência à saúde
citados pelo presidente Manuel de Mattos Duarte Silva, com suas respectivas

2. O regime republicano estabeleceu que cabia aos Estados da Federação a responsabilidade


pela autorização, registro e fiscalização dos profissionais de saúde em seus respectivos
territórios. Temos conhecimento da documentação referente ao Serviço de Fiscalização
do Exercício Profissional do Estado de São Paulo (SFEP-SP) que foi estudada por Maria
Lúcia Mott (2008). Não localizamos, para o caso do estado Rio de Janeiro, documentação
equivalente.

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 143 23/01/2020 14:59:22


funções e indicando suas limitações técnicas, conforme apontadas pelo chefe
do poder executivo fluminense.
Tabela 1

Serviço Função Limitação


Registro de diplomas, exames de
Fiscalização do
habilitação, fiscalização de
exercício da Não consta
estabelecimentos de saúde e de
medicina
medicamentos
Limitado a cidade de
Higiene Escolar Assistência médica e dentária
Niterói
Limitado a cidade de
Higiene Pré-Natal Assistência a gestantes
Niterói
Vigilância sanitária e epidemiológica, Dificuldadepara realizar
Inspeção sanitária
diagnósticos verificação de óbitos

Dificuldade para
Serviço de Registro e Coleta de dados demográfico-
realizar colheita de
Estatística sanitários
dados
Higiene Industrial Inspeção de fabricas e oficinas Implantação recente
Lepras e Doenças
Assistência médica em dispensários Não consta
venéreas
Atendimento médico em via pública Limitado a cidade de
Pronto socorro
ou domiciliar Niterói
Limitado a cidade de
Hospitalização Assistência médica e psiquiatria
Niterói
Instituto Vacínico Produção de vacina antivariólica Não consta

(Fonte: Estado do Rio de Janeiro, 1930: 42-55)

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 144 23/01/2020 14:59:22


A assistência da província ao estado: caridade e sanitarismo
No regime imperial a província do Rio de Janeiro se destacou pelo seu
poderio econômico e prestígio político auferidos da produção e exportação
de café. Mas, nesse período, quando “o tesouro provincial podia ainda gastar
grandes quantidades de recursos com saúde pública, caridade e religião”
(Gouvêia, 2008:47), as elites políticas fluminenses investiram poucos recursos
em assistência à saúde. Somente entre 1848 e 1853, por ocasião das primeiras
grandes epidemias de febre amarela e cólera morbos, é que se registram
orçamentos significativos em saúde pública e caridade. Nos anos seguintes, até
o final do regime imperial, os investimentos em saúde do governo provincial
fluminense ficaram estacionados em apenas 1:000 $ (um mil contos de réis).
Nos relatórios do presidente da província Rio de Janeiro os assuntos
relacionados à assistência à saúde são tratados em tópicos diversos - “caridade”,
“hospitais”, “assistência social”, “saúde pública” e “saneamento” - nos quais
eram descritas as ações governamentais relacionadas.
Normalmente, a situação dos hospitais é tratada no tópico “caridade”. A
política de assistência à saúde adotada durante o regime imperial determinava
que cabia as câmaras municipais garantir a prestação de assistência aos doentes
considerados pobres. No entanto, somente em algumas localidades havia
hospitais (enfermarias, eu diria) mantidos por irmandades leigas, organizadas
pelas elites locais. O presidente provincial, conselheiro Carlos Affonso de
Assis Figueiredo, (Província do Rio de Janeiro, 1889:30-33) apresentou a
lista das “casas de caridade” em funcionamento nos municípios fluminenses
(Tabela 2) e comentado que as contas da maioria delas estavam deficitárias.

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 145 23/01/2020 14:59:22


Tabela 2
Casa de Caridade Município
Asilo de Santa Leopoldina Niterói
Casa de Caridade de Angra do Reis Angra de Reis
Casa de Caridade de Cabo Frio Cabo Frio
Casa de Misericórdia de Campos Campos
Casa de Caridade de Cantagalo Cantagalo
Casa de Caridade de Itaguaí Itaguaí
Casa de Caridade de Macaé Macaé
Casa de Caridade da Paraíba do Sul Paraíba do Sul
Casa de Caridade de Parati Parati
Santa Casa de Misericórdia de Resende Resende
Santa Casa de Misericórdia de S. João da Barra S. João, da Barra
Santa Casa de Misericórdia de Valença Valença
Hospital São João Baptista Niterói

(Fonte: Província do Rio de Janeiro, 1889:30-33)

A “caridade” deixou de ser tratada nas mensagens do presidente


republicanos do estado do Rio de Janeiro. Isso acarretou ausência de
informações sobre a situação dos hospitais denominados “casas de caridade”.
Mas isso não significa que, no regime republicado, os hospitais caritativos
tenham perdido importância como solução (quase sempre a única) de
assistência à saúde disponível para as populações pobres urbanas. O governo
provisório de Getúlio Vargas institucionalizou a “caridade” criando a Caixa
de Subvenções que proporcionava financiamento público para a ação privada
no campo assistencial. A Caixa de Subvenções funcionou até 1937 e sua ação
se caracterizou pela distribuição de subvenções, sobretudo para hospitais.
Certamente os hospitais caritativos fluminenses foram beneficiados, mesmo
que a maior parte dos recursos distribuídos tenha sido canalizada para
instituições estabelecidas na cidade do Rio de Janeiro (Gonçalves, 2011:327).
A Caixa de Subvenções foi extinta em 1937 e a tarefa de subvencionar a
caridade foi assumida pela Legião Brasileira de Assistência, entidade federal
criada em 1942 (Barbosa, 2017).

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A maioria dos governos estaduais republicanos não foi capaz de executar
autonomamente políticas de assistência à saúde. No caso do estado do Rio
de Janeiro, a incapacidade decorria da grave crise que se abateu sobre a
economia cafeeira agroexportadora fluminense, a partir de 1890 (Ferreira,
1994). Na década de 1920, os postos sanitários rurais eram a única forma de
assistência à saúde proporcionada pelo poder público estadual. A mensagem
do presidente Raul de Morais Veiga, enviada ao legislativo em 1920 (Estado do
Rio de Janeiro, 1920:36-42), registra a criação dos primeiros postos sanitários
com o apoio do DNSP e da Fundação Rockefeller (RF). Sob a responsabilidade
técnica do DNSP, os postos sanitários foram implantados em Nova Iguaçu
(especificamente nos distritos de Meriti, São João do Meriti e Queimados) e
em Itaguaí, municípios localizados no entorno da capital federal, na região
que começava a ser conhecida como Baixada Fluminense.
Os postos sanitários da Baixada Fluminense se dedicavam exclusivamente
ao tratamento da população acometida por duas doenças: verminoses
(especialmente ancilostomose) e malária. No primeiro ano de funcionamento
foram realizados dezenove mil exames de fezes. Em 92 % o resultado foi
positivo para algum tipo de verminoses. A ancilostomose foi detectada em
64% dos exames realizados. Classificada como o principal problema de saúde
pública observado no território fluminense, a malária foi diagnosticada em
seis mil pacientes. As estatísticas dos postos sanitários registraram mais oito
mil casos de “outras doenças” não especificadas.
No total foram realizados quarenta mil exames laboratoriais que visavam
revelar a presença de parasitos, verificar da taxa de hemoglobina ou contagem
de hemácias. Uma vez diagnosticada a doença (verminoses ou malária), o
paciente recebia tratamento providenciado pela equipe do próprio posto
sanitário. Os médicos ministraram quarenta mil doses de medicamentos,
aplicaram mais de três mil injeções, visitaram sete mil pacientes em
seus domicílios e realizaram em torno de quatro mil curativos. Além de
se ocuparem das verminoses e da malária, os postos sanitários também
procediam a vacinação contra a varíola, tendo realizando a vacinação e
revacinação de onze mil indivíduos. A educação sanitária das populações
locais era uma atividade importante desenvolvida pelos sanitaristas.

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 147 23/01/2020 14:59:22


O campo de atuação dos postos sanitários ia além da assistência à saúde
propriamente dita. Na verdade, dentre suas atribuições técnicas como unidade
de saúde pública estava a engenharia sanitária peça fundamental do ambicioso
projeto de saneamento da Baixada Fluminense que se desenrolou entre o
final do século XIX e meados do século XX (Fadel, 2009). Por isso, os postos
sanitários encarregavam-se de tarefas relacionadas ao saneamento ambiental
se responsabilizando pela construção de fossas, banheiros e poços d’agua.
Também se incumbiram de obras de “hidrologia sanitária” que incluíam a
construção de valas e desobstrução, canalização e retificação de rios, ações
que estavam relacionadas às tentativas de controle da malária na região.
Em 1921 o presidente Raul de Moraes Veiga (Estado do Rio de Janeiro,
1921:42-46) manifestava-se otimista quanto aos resultados alcançados nos
postos sanitários implantados pelo DNSP, na Baixada Fluminense. Atuando
na região limítrofe do Distrito Federal e estendendo seu raio de ação até o
município de Vassouras, os postos sanitários deveriam funcionar como uma
espécie de cinturão sanitário em torno da capital do país. Os dados indicavam
o aumento significativo do número de ações sanitárias com a realização de 80
mil exames para os diagnósticos de verminoses que detectaram a presença
de parasitas em mais de 77 mil (96%) casos, sendo que 55 mil (69%) positivos
para ancilostomose. Mais de 10 mil casos de malária foram diagnosticados
e mais de 17 mil indivíduos vacinados ou revacinados contra a varíola.
A quantidade de tratamentos realizados, incluindo medicação, injeções,
curativos, tratamento em domicílio, somaram mais de 200 mil atendimentos.
Os postos sanitários sob a direção da Fundação Rockfeller (FR) foram
implantados nos municípios de Itaperuna e Campos (região norte), em
Resende (Vale do Paraíba ao sul) e Maricá (região litorânea vizinha à Niterói).
Os postos da FR ficavam estrategicamente localizados em regiões econômico-
geográficas distintas e tinham como objetivo promover à profilaxia e ao
tratamento da ancilostomose. As campanhas de tratamento da ancilostomose
foi uma das primeiras ações realizadas no Brasil pela FR e foram desenvolvidas
em São Paulo e no Rio Grande do Sul, nas décadas de 1910 e 1920 (Korndörfer,
2015, Brannstrom, 2010). Os dados que constam da mensagem do presidente
Raul de Morais Veiga (Estado do Rio de Janeiro, 1920:36-42) informam a

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realização de noventa e cinco mil tratamentos, quarenta e oito mil exames
de sangue e a inspeção das condições sanitárias em três mil domicílios.
No entanto, em Itaperuna e Maricá, os postos sanitários da FR também
ativeram à profilaxia da malária através da distribuição de comprimidos de
quinina e da limpeza e drenagem dos rios. Apresentamos abaixo (Tabela 3)
os números relativos às ações de combate à ancilostomose. Em 1923, com o
encerramento das atividades de combate a ancilostomose promovida pela
FR, as atividades dos postos deixam de ser anunciadas nas mensagens dos
presidentes do estado do Rio de Janeiro.
Tabela 3

Posto Itaperuna Campos Resende Maricá


Tratamentos 17.406 35.888 30.013 11.751
Exame de sangue 8.422 18.330 15.693 5.633
Inspeção sanitária de casas 1.768 395 936 397
(Fonte: Estado do Rio de Janeiro, 1921:42-46)

As informações detalhadas sobre os postos sanitários não estão mais


presentes nas mensagens dos presidentes do estado Rio de Janeiro enviadas
à assembleia legislativa entre 1923 e 1930. De modo geral, o que é informado
são episódios esporádicos de surtos epidêmicos como de febre tifoide e a
continuidade das linhas de atuação concentradas na malária e nas verminoses.
No final da década de 1920, a greve epidemia de febre amarela obrigou o
governo do Estado do Rio de Janeiro a organizar uma campanha para o
controle da doença que foi quase totalmente custeada pelo governo federal. Os
episódios relacionados à revolução de 1930 interrompem a série de mensagens
anuais enviadas pelo presidente ao legislativo estadual.

A assistência do interventor
Durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, que se divide em três
fases - Governo Provisório (1930-1934), Constitucional (1934-1937) e Estado
Novo (1937-1945) -, a vida social fluminense foi marcada pela instabilidade
política e pela crise econômica. Até 1937, quando Getúlio Vargas nomeou seu

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ajudante de ordens, o capitão-tenente Ernani Amaral Peixoto, para o cargo
de interventor federal, o estado do Rio de Janeiro havia sido governado por
cinco interventores e por um governador eleito indiretamente. Os governantes
mais destacados formam o interventor tenente Ari Parreiras (1931-1935) e o
governador eleito indiretamente almirante Protógenes Guimarães (1935 -1937).
O texto relativo à situação da saúde pública que constava da mensagem
envida à assembleia legislativa pelo governador Protógenes Guimaraes em 1937
foi reproduzido no Boletín de la Oficina Sanitária Panamericana (Guimarães,
1938: 287-291), antes do almirante ter se afastado da política por motivos de
saúde (Abreu et al., 2001:2704-24707). O trecho apresenta breves notícias sobre
o que vinha sendo feito em relação à assistência aos alienados e aos leprosos,
e informações sobre o surto epidêmico de febre tifoide que acometia Nova
Friburgo ensejando a promoção de obras de saneamento e a implantação
de sistema de cloração da água consumida pela população. Também cita a
implantação de rede composta de sete hospitais situados nos municípios de
Maricá, São Fidélis, Natividade, Pádua, Bom Jardim, Miracema e Bom Jesus,
uma ampliação significativa da rede hospitalar que, até 1930, era composta
pelas “casas de caridade” anteriormente citadas (Tabela 2).
Além das informações sobre os serviços de assistência à saúde, o relatório
sobre a saúde pública trazia um componente importante que antecipa a
política de assistência à saúde que foi adotada pelo interventor Amaral
Peixoto: a formação de corpo técnico capacitado em saúde pública para atuar
nos centros e postos de saúde que se pretendia implantar em todo o estado.
O verbete sobre Amaral Peixoto elaborado pelo CPDOC (Abreu et al.,
2001:4499-4517) aponta quais foram os desafios enfrentados pelo interventor
federal para legitimar-se no conturbado cenário fluminense: 1) consertar a
situação financeira deficitária do governo estadual e reativar a combalida
economia agrícola fluminense, em crise desde 1890; 2) criar vínculos efetivos
com a política estadual conquistando a confiança das elites e o apoio da
população dos 48 municípios fluminenses.
Para encarar tais desafios Amaral Peixoto dispunha de dois recursos que
foram decisivos para a sua atuação no jogo político fluminense. No plano
institucional, o recurso era a própria condição de interventor. O interventor

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concentrava o poder decisório e limitava extremamente a capacidade política
das elites locais. Para ser bem-sucedido o interventor deveria ser capaz de
usar o poder centralizado em suas mãos para criar “mecanismos políticos de
enquadramento, articulação e harmonização das elites regionais” (Codato,
2013) capazes de trazer benefícios tanto para a sua gestão quanto para as
elites locais. No plano simbólico, o recurso de que dispunha Amaral Peixoto
era o capital social consolidado na relação de proximidade e intimidade que
desfrutava junto a Getúlio Vargas, laços sociais e afetivos que são estreitados
com seu casamento, celebrado em 1939, com Alzira Vargas, filha dileta e
conselheira informal do presidente da república (Vargas, 2017; Lira, 2013).
Para sanear as finanças estaduais e promover o renascimento da economia
fluminense, Amaral Peixoto empreendeu duas reformas, a administrativa e
a tributária. Contratou empréstimos com instituições financeiras nacionais
e internacionais. Criou a Caixa Econômica e a Loteria do estado do Rio de
Janeiro. E concedeu incentivo e isenções fiscais para atrair novos negócios
agrícolas, comerciais e industriais para o território fluminense.
Para conquistar da confiança das elites e o apoio da população fluminense
o interventor federal lançou mão de uma política social concentrada nas
áreas da educação e da saúde. O “centro de cálculo” da política social do
interventor foi a Secretaria de Educação e Saúde Pública, criada em 1938 para
ser o órgão do governo estadual que reproduziria a política do Ministério
da Educação e Saúde Pública que, sob o comando de Gustavo Capanema,
empreendia ampla reformulação dos sistemas públicos de educação e saúde
pública em âmbito nacional (Fonseca, 2007).
A educação escolar foi melhorada com a expansão e modernização da
rede escolar que ficou composta por escolas isoladas, escolas rurais e grupos
escolares, com destaque para estes últimos que simbolização a modernização
pedagógica e arquitetônica (Rizzini e Schueler, 2014). Na saúde pública, a
novidade trazida pelo interventor foi a criação de uma rede de assistência
estruturada em torno dos centros de saúde, postos e subpostos de higiene,
todos geridos pelo governo estadual.
No arquivo Ernani do Amaral Peixoto (CPDOC/FVG EPA int
1945.00.00/10), há o esboço do relatório do Departamento de Saúde

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 151 23/01/2020 14:59:23


da Secretaria de Educação e Saúde Pública do Estado Rio de Janeiro
correspondente ao ano de 1945. Nesse documento há informação sobre
a existência 84 unidades de saúde em funcionamento nos municípios
fluminenses naquele ano.
O documento cita a existência de 61 unidades hospitalares entre públicos
e privados. Comparativamente, ainda segundo o esboço de relatório, o
número de hospitais teria crescido de 55 (1937) para 61 (1945) e um incremento
de 522 leitos na rede pública e outros 150 leitos na rede privada. Os novos
leitos públicos concentravam-se, exclusivamente, em unidades hospitalares
destinadas ao tratamento e a internação de pacientes acometidos de
tuberculose, lepra e doenças psiquiátricas, doenças contempladas pela política
de âmbito nacional empreendida pelo Departamento Nacional de Saúde
(DNS) do Ministério da Educação e Saúde (MES).
Tabela 4

Hospitais Unidades Leitos Especializados Unidades Leitos


Hospital geral 43 1964 Tuberculose 7 647
Hospital infantil 6 120 Psiquiátrico 5 603
Maternidade 3 66 Isolamento 1 80
Pequeno hospital 3 17 Lepra 1 30
Casa de Saúde 6 88 -------------- ----------- --------

(Fonte: CPDOC/FVG EPA int 1945.00.00/10)

O número de serviços de saúde pública - centros de saúde, postos de


higiene, subpostos de higiene) - foi expandido no embalo de uma política que
prometia a implantação uma unidade sanitária em cada um dos municípios
fluminenses. Como vimos anteriormente, os primeiros serviços de saúde
pública são criados no início da década de 1920 sob a direção técnica do DNSP
e da Fundação Rockefeller (FR). Abaixo (Tabela 5) comparamos o número
de unidades sanitárias implantadas antes e durante a gestão do interventor.

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Tabela 5

Subpostos de
Unidade Sanitária Centros de Saúde Postos de Higiene
Higiene
Até 1937 - 14 -
Entre 1937 e 1945 15 40 17

(Fonte: CPDOC/FVG EPA int 1945.00.00/10)

Finalmente, o relatório sobre as realizações do interventor Amaral


Peixoto no campo da assistência à saúde mostra sua preocupação com
formação de profissionais habilitados para atuar nos serviços públicos.
Nesse sentido, observa-se a consonância da política de assistência à saúde
do interventor Amaral Peixoto com as diretrizes nacionais. Foi constante a
oferta de curso intensivos de higiene e saúde pública para os médicos que
chefiavam os centros e postos de higiene. Se registra os cursos oferecidos
pelo DNS e oportunidades (poucas, é verdade) para formação avançada em
saúde pública para médicos e enfermeiras em universidades brasileiras e nos
Estado Unidos da América com bolsas fornecidas pelo Serviço Especial de
Saúde Pública (SESP), agência binacional criada no contexto do acordo de
guerra entre o Brasil e Estados Unidos. A participação do SESP foi importante
para organização da saúde pública em vários estados, antes e depois do
Estado Novo (Campos, 2006). A ação mais importante do interventor no
âmbito da formação de profissionais de saúde foi, sem dúvida, a criação em
1944, em parceria com o SESP e a Legião Brasileira de Assistência (LBA), da
Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa e da Escola de Serviço Social
criada em 1945, atualmente vinculadas a Universidade Federal Fluminense.
Até então, o Estado do Rio de Janeiro contava apenas com a Faculdade
Fluminense de Medicina.
O balanço das realizações no campo da assistência à saúde, esboçado no
relatório inacabado é coerente com as ideias e ações do interventor federal
que foram expostas em duas ocasiões diferentes em matérias do tradicional
jornal diário O Fluminense, editado em Niterói desde 1878.
A primeira matéria veio a público em de 1938, logo no início da gestão
de Amaral Peixoto como interventor federal, e tratava da visita do presidente

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Getúlio Vargas a cerimônia de inauguração do Leprosário do Iguá 3. No
discurso pronunciado no evento, o interventor se referiu ao “programa
médico social” que pretendia implantar no estado do Rio de Janeiro em
consonância com as diretrizes definidas pelo Ministério de Educação e
Saúde. A intenção era organizar a assistência à saúde adotando o modelo
sanitário que tinha os centros de saúde como o eixo organizador:
[...] era preciso um plano prévio, de conjunto, para ser executado pelas
unidades locais, foram criados distritos sanitários, de acordo com
características bem definidas, tais como facilidade de comunicações
entre os municípios, área, riqueza, densidade demográfica e, tanto quanto
possível, identidade de problemas nosológicos. Foi escolhido para sede
de cada distrito sanitário o município que, dentre os componentes, fosse
o mais importante e centralizasse melhor os demais. Em cada sede de
distrito haverá um centro de saúde e nos municípios componentes postos
e subpostos de higiene que comporão a estrutura sanitária distrital. (O
Fluminense, 23 de agosto de 1938).

Cinco anos mais tarde, em 1943, o assunto voltou às páginas de O


Fluminense em matéria cujo título - Um posto de higiene em cada município
– A batalha pela saúde popular na terra fluminense - sugere que o “programa
médico social” anunciado em 1938 estava em andamento e que era hora
de apresentar os resultados objetivos da “batalha pela saúde popular” e
“valorização do homem do interior”:
Somas enormes que atestam a importância dessa batalha pela saúde,
foram empregadas de 1937 a esta data, em favor do povo fluminense. Nos
últimos cinco anos, a velha Província do Rio de Janeiro foi beneficiada
com as seguintes realizações: reestruturação dos serviços sanitários e
adoção de um moderno Regulamento Sanitário; unificação dos serviços
de saúde em todo o território fluminense e extinção dos serviços
municipais de saúde; instalação de 10 Centros de Saúde, completos,
nas principais cidades fluminenses; instalação de, pelo menos, um

3. Existem imagem do evento: http://www.fgv.br/CPDOC/BUSCA/arquivo-pessoal/GC/


audiovisual/gustavo-capanema-getulio-vargas-e-outros-por-ocasiao-da-inauguracao-do-
leprosario-de-igua

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 154 23/01/2020 14:59:23


Posto de Higiene em cada município; instituição da carreira sanitária
no Estado; e instituição da carreira de enfermagem de saúde.

Isto, porém, não é tudo. Compreendendo o valor do homem rural


como base de nossa economia e sentindo a necessidade de encarar
o problema das endemias rurais, o comandante Amaral Peixoto
determinou a execução de obras de saneamento, água e esgotos em 50
cidades fluminenses, facilitando, desse modo, a tarefa dos higienistas
nesta obra verdadeiramente nacional de soerguimento do homem do
campo, célula de nossa economia Incansável, porém, na ampliação de
um programa de assistência médico sanitária, o interventor federal,
através do Departamento de Saúde do Estado do Rio, organiza, neste
momento, um plano detalhado de assistência médico hospitalar a
toda a população fluminense e cogita não só de melhorar as unidades
hospitalares ora existentes como ainda iniciar alguns hospitais regionais
capazes de assegurarem assistência médica do melhor padrão a todos
os trabalhadores e labradores fluminenses.

Ainda como cooperação à sua obra médico social o governo fluminense


obteve a cooperação técnica e financeira do Serviço Especial de
Saúde Pública, (S.E.S.P.) para a organização imediata duma escola de
enfermagem do melhor padrão, no Estado do Rio, e a concessão de quatro
bolsas de estudo nos Estados unidos para técnicos do Departamento
de Saúde. (O Fluminense, terça-feira, 09/11/1943).

Os recursos orçamentários destinados à assistência à saúde constam do


esboço do relatório do Departamento de Saúde da Secretaria de Educação e
Saúde. Entre 1937 e 1945 o orçamento para a saúde dos fluminenses oscilou
entre o mínimo de 5,25% (1941) e o máximo de 9,5% (1944) do total dos
recursos orçamentários estaduais. As prioridades na utilização desses recursos
foram: 1) a estadualização dos serviços municipais de saúde, 2) a criação
de centros de saúde nos principais municípios fluminenses, 3) instalação
de um posto de higiene em cada município e 4) instituição da carreira de
sanitarista e de enfermagem de saúde pública.

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 155 23/01/2020 14:59:23


Assistência e sanitarismo
No depoimento que concedeu (Camargo et. al., 1991:163-67), Amaral
Peixoto destaca que sua prioridade inicial foi recrutar quadros técnicos
qualificados para compor as equipes da Secretaria de Educação e Saúde
Pública. Como já apontado pela historiografia (Santos e Faria 200: 32-65) este
período (décadas de 1930 e 1940) foi de reconfiguração do campo médico na
área da saúde pública caracterizado pela especialização técnica dos médicos
e enfermeiras. A formação dos sanitaristas era feita em cursos oferecidos
pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC), pela Faculdade da Saúde Pública da
Universidade de São Paulo e pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro,
além disso, abriam-se oportunidade de estudo no exterior (Estados Unidos)
e de treinamento local nos centros de saúde e serviços sanitários estaduais e
federias. A par disso, o interventor recrutou para comandar sua equipe de
saúde os médicos Mario Pinotti4 (Abreu et al, 2001:4652-4652) e Manuel
Ferreira, dois sanitaristas já experimentados, Foram contratados 20 jovens
médicos que, imediatamente, são matriculados no curso de saúde pública
ministrado no Instituto Oswaldo Cruz. Entre eles estavam Marcolino Candau
(futuro diretor da Organização Mundial da Saúde) e Adelmo Mendonça
(futuro diretor do Departamento Nacional de Saúde).
A época, os sanitaristas tinham a firme convicção de que o centro de
saúde deveria ser o “eixo” da assistência médico sanitária. A força dessa
convicção era tanta que o centro de saúde era apresentado como a instituição
que distinguia o trabalho sanitário: “o que é o hospital é para profissão médica
e o prédio escolar é para o professor, o centro de saúde é para o sanitarista”
(Vieira, 1936:9). No entanto, a adoção do centro de saúde como o fio condutor

4. Mario Pinotti iniciou a carreira de sanitarista em 1919 como inspetor sanitário rural
do DNSP lotado no posto de saúde implantado no município de Nova Iguaçu o primeiro
implantado no Estado do Rio. Tornou-se prefeito de daquela e cidade e depois se engajou na
campanha contra a febre amarela empreendida pelo DNSP e a FR no território fluminense
entre 1928 a 1931. Durante a gestão de Gustavo Capanema à frente do Ministério da Educação
e Saúde (1937-1945), Pinotti foi nomeado diretor-assistente do Serviço Nacional de Febre
Amarela, e em 1937 passou a inspetor dos Serviços Especiais do Departamento Nacional de
Saúde. Foi ministro da saúde em 1954 e 1958-1960. (Abreu et al., 2001, p. 4651-4652). Sobre
a atuação de Pinotti como inspetor sanitário rural e prefeito de Nova Iguaçu consultar
Amália Dias (2014:41-115).

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estava muito longe de ser uma unanimidade entre médicos e políticos. É o
que podemos concluir pela leitura de artigo de dois sanitaristas paulistas
(Souza, Vieira, 1944), vinculados ao Instituto de Higiene e à Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo, que descreve os percalços da
institucionalização centro saúde no Brasil.
No início de século XX, o centro de saúde surge a solução para o
atendimento das populações pobres nos aglomerados urbanos e industriais.
Os centros de saúde unificariam os serviços de assistência e deveriam
ser estrategicamente localizados em distritos urbanos de configuração
sociodemográfica definida. O objetivo era racionalizar a oferta de serviços
de assistência, reduzindo o custo e aumentando a eficiência. Na prática,
a ideia era que os centros de saúde substituíssem os antigos dispensários
(Rosenberg, 1974, Loudon, 1981), tradicionais serviços de assistência muito
populares na Europa e nos Estados Unidos e que, no Brasil, existiam desde
o final do século XIX atuando, sobretudo, no campo da higiene infantil,
tuberculose e doenças venéreas.
Mas a implantação dos centros de saúde, mundo afora, estava longe
daquilo que ambicionavam os sanitaristas:
“O plano dos centros de saúde, tão auspiciosamente iniciado, foi
adulterado por muitos que não compreenderam bem a finalidade técnica
de se entregarem serviços vários em um só organismo, sob um só teto.
Assim nasceram adulterados centros de saúde para proteção à infância,
centros de saúde rurais, e, até, resoluções como a tomada em 1922 pela
Sociedade Médica da Califórnia, declarando que o consultório de cada
um dos seus 4.000 membros, espalhados por todo o Estado, seria um
centro de saúde a emanar conselhos médicos e sanitários, dos melhores
que um médico pode dar.” (Souza, Vieira, 1944:10)

Os sanitaristas paulistas se queixavam com alguma razão. Pioneiros na


implantação dos centros de saúde na cidade de São Paulo na década de 1920
(Faria, 2007, p. 113-152), os dois tinham assistido eles serem paulatinamente
extintos pela ação de “adversários ferrenhos” entre os quais se incluíam
“médicos de responsabilidade política e figuras conspícuas na administração
sanitária do Estado”. No início da década de 1930, os centros de saúde da

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capital paulista teriam desparecido “dando lugar a dispensários isolados
de diversas especialidades, e executando, além de serviços de assistência
sanitária, outros exclusivamente de assistência médica sem aquela finalidade”
(Souza, Vieira, 1944:29).
A historiografia relativiza a visão pessimista dos sanitaristas sobre o
destino dos centros de saúde em São Paulo após a revolução de 1930. Apesar
das disputas políticas entre sanitaristas e médicos que defendiam ideias
diferentes a respeito de como deveriam se organizar os serviços de saúde,
os centros de saúde continuaram ocupando lugar de destaque. Ao invés de
extintos, o número de centros de saúde não parou de crescer entre 1938 e
1945. A resiliência dos centros de saúde paulista é atribuída dois fatores:
ao prestígio e influência política dos sanitaristas e, sobretudo, ao fato de
“ainda que preponderantemente voltados para a prevenção, não excluíam
o tratamento médico” (Santos, Faria, 2009: 154-186).
Como o interventor federal pretendia implantar centros de saúde no
estado do Rio de Janeiro? Funcionariam como idealizavam os sanitaristas
dedicados exclusivamente dedicados à prevenção ou também se dedicariam
ao tratamento médico? A resposta é dada pelo próprio Amaral Peixoto:
“Sim, aí eu tive certa divergência com eles [os sanitaristas], porque
eles viam mais o problema da saúde pública, e eu dizia: ‘vocês não
podem desprezar o homem’. Eles não queriam que os centros tivessem
atendimento médico. Mas não era possível, porque o homem estava
ali, doente, sabia que havia um centro de saúde, e esse centro não
cuidava dele, só tratava de endemias, epidemias… então eu criava um
ambulatório em cada centro. (Camargo et. al., 1991:167).

Consultando as matérias publicadas no jornal O Fluminense entre


1937 e 1945 podemos acompanhar, ainda que parcialmente, o processo de
implantação dos centros de saúde fluminenses que se estendeu de 1937 a 1945,
contemplando municípios importantes como Niterói, Campos, Petrópolis,
Resende, São Gonçalo e Volta Redonda.
Uma matéria de propaganda institucional apresentou ao público leitor
as atribuições do centro de saúde que se pretendia fossem postas em prática
pelos sanitaristas estaduais:

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A unidade sanitária que dispõe de um conjunto de serviços e técnicos
incumbidos das seguintes atividades: cuidar de doentes e sãos, impedindo
que os males dos primeiros se disseminem, e dando aos segundos meios
de zelarem pela saúde; corrigir defeitos e descobrir estados anormais
dos escolares; controlar a saúde dos infantes, dos pré-escolares e das
parturientes; proceder à vigilância sanitária das habitações; fiscalizar
a qualidade dos gêneros alimentícios; difundir a educação sanitária.
Está, enfim, incumbindo, nesse conjunto de serviços do aprimoramento
da raça - SESP (O Fluminense, 04 de junho de 1942).

Os centros de saúde são apresentados aos leitores populares de modo


que pudessem ser facilmente identificados com os tradicionais dispensários,
tipo de instituição de assistência que era muito popular entre as famílias
trabalhadoras pobres urbanas, sobretudo pelo trabalho dedicado à higiene
infantil.
O primeiro centro de saúde foi inaugurado em Niterói, a capital do estado,
em 1939. Localizado no bairro de Santa Rosa, foi dirigido pelo sanitarista
Marcolino Candau. Um resumo do primeiro relatório de atividades de
funcionamento do “centro de saúde modelo” foi publicado pelo O Fluminense
(O Fluminense, Sexta-feira, 19/07/1940). A matéria jornalística dava ênfase
aos números: mais de noventa e cinco mil (95.000) atendimentos, alcançando
a “média de 321 consulentes por dia”. Uma boa parte dos “consulentes”
que acudiram à unidade sanitária, o fizeram para receber “curativos” ou
“injeções”. O público mais frequente eram crianças em fase de amamentação
que, acompanhadas de suas mães, iam diariamente ao lactário para serem
servidas com uma das “141.942 mamadeiras distribuídas sob prescrição
médica”. A prioridade dada à infância e a maternidade fica ainda mais evidente
nos cursos de educação sanitária dirigidos para gestantes e parteiras e no
atendimento aos escolares e professoras nos grupos escolares. Cabia ao
centro de saúde produzir a epidemiologia local notificando a ocorrência de
casos de doenças transmissíveis. A tuberculose era a doença transmissível
que mais preocupava. Por isso foi grande a grande afluência de pacientes ao
ambulatório especializado que realizava roentgenfotografias, as populares

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abreugrafias5. Evidentemente, o centro de saúde funcionava como local de
vacinação. São citadas as vacinações antivariólicas, contra a febre tifoide e
aplicações da anatoxina diftérica. As atribuições e as atividades desenvolvidas
no centro de saúde modelo de eram muito semelhantes àquelas que vinham
sendo desenvolvidas, desde a década de 1920, nos centros de saúde paulistas.
As enfermeiras eram personagens fundamentais no funcionamento
do centro de saúde niteroiense, com responsabilidades que iam desde a
matrícula dos pacientes até as visitas domiciliares. O ingresso de enfermeiras
diplomadas no quadro técnico do Departamento de Saúde estadual foi uma
novidade da política de assistência do interventor. A cerimônia de posse de
uma turma de “doze enfermeiras de alto padrão”, todas com “curso completo
da Escola Ana Néri”6, foi noticiada em agosto de 1942. A importância capital
atribuída às enfermeiras para o funcionamento dos centros de saúde pode ser
aquilata nomeando-se as autoridades públicas presentes à cerimônia: Amaral
Peixoto, Barros Barreto (diretor do DNS), Laís Neto dos Reis (diretora da
Escola Ana Nery), Rui Buarque (secretário de Educação e Saúde), Adelmo
de Mendonça (diretor do Departamento de Saúde). Para suprir a demanda
por enfermeiras, foi criada em 1944, em parceria com o SESP e a Legião
Brasileira de Assistência (LBA), a Escola de Enfermagem Aurora de Afonso
Costa. (O Fluminense, Quarta-feira, 5 de agosto de 1942)
O “centro saúde modelo” transformou-se numa espécie de cartão-postal
da cidade sendo sempre incluído no roteiro de visitas de pessoas ilustres

5. Método de diagnóstico da tuberculose criado pelo médico brasileiro Manoel Dias de


Abreu (1891- 1962). A abreugrafia é uma técnica de diagnóstico de simples aplicação que
consiste na produção de pequenas imagens (chapas) radiográficas dos pulmões.
6. A Escola de Enfermeira Ana Nery foi criada como parte do acordo cooperação técnica
assinado entre o Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP) e a Fundação Rockefeller
(FR) em 1921. A Missão de Cooperação Técnica para o Desenvolvimento da Enfermagem
foi enviada, a princípio, para treinar e supervisionar as visitadoras sanitárias que atuavam
nos serviços públicos de tuberculose, doenças venéreas e higiene infantil instalados no Rio
de Janeiro. A líder a missão, a enfermeira Ethel Parsons, e o diretor do DNSP, o médico e
sanitarista Carlos Chagas chegaram à conclusão de que a Missão deveria ter uma meta mais
ambiciosa. As enfermeiras norte-americanas permaneceram no país por 10 anos – de 1921 a
1931 – e nesse período se dedicaram exclusivamente a tarefa de viabilizar o funcionamento de
uma escola de enfermeiras que seguisse, na medida do possível, os padrões norte-americanos
de formação acadêmica e profissional em enfermagem. A Escola de Enfermeiras do DNSP
- denominada depois Escola de Enfermeiras Ana Nery - entrou em funcionamento em 1923

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ou de autoridades nacionais e estrangeiras em passagem por Niterói. Foi
visitado pelo jornalista portenho José Cardela que comandava uma missão
que pretendia “desenvolver as correntes turísticas” entre o Brasil e a Argentina
(O Fluminense, Sexta-feira, 23/02/1940). Uma visita importante foi a da
esposa do interventor, Alzira Vargas, personagem muito atuante no governo.
Acompanhada por Adelmo de Mendonça (diretor do Departamento de Saúde)
e Marcolino Candau (chefe do centro de saúde de Niterói), ela conheceu o
funcionamento do centro de saúde. Ficou muito bem impressionada com o
“sistema original” de controle do contágio que evitava contato entre pacientes
portadores de doenças contagiosas e os outros frequentadores sãos da unidade
de assistência à saúde (O Fluminense, Sábado, 04/10/1941). Evidentemente
o centro de saúde também atraia a curiosidade de médicos. Um exemplo
pinçado do noticiário foi a visita de uma delegação de quarenta médicos que
participavam da “Semana Carioca Paulista de Ginecologia e Obstetrícia”,
evento organizado pela Sociedade Brasileira de Ginecologia. No centro de
saúde modelo os médicos foram recepcionados pelo Secretário da Educação
e Saúde, Rui Buarque (O Fluminense, Quarta-feira, 01/09/1943).
A interiorização dos centros de saúde contemplou os municípios de
maior importância política e/ou econômica ou aqueles de maior significado
simbólico. O sucesso da interiorização dos centros de saúde foi garantido
pela política de transferência dos serviços municipais de saúde para a alçada
estadual, especificamente para o âmbito da Secretária de Educação e Saúde.
Algumas transferências foram anunciadas no O Fluminense. Em janeiro
de 1942, registou-se a assinatura do convênio que transferiu “a exemplo do
que sucedeu com outros municípios fluminenses” os serviços municipais
de saúde pública de Petrópolis para a competência estadual. No mesmo ato
de transferência foi formalizado o compromisso de construção do centro
de saúde na famosa cidade da região serrana fluminense (O Fluminense,
Quinta-feira, 22 de janeiro de 1942). Em maio, noticiaram-se os convênios
assinados com os municípios de Nova Friburgo e de São Fidélis, com destaque
para as vantagens administrativas auferidas pelos municípios que aderiam ao
projeto: “como tem acontecido nos contratos deste gênero entre os municípios
e Estado, os funcionários municipais terão garantidos os seus diretos, inclusive
o de promoção” (O Fluminense, Terça-feira, 5 de maio de 1942).

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O processo de instalação de um centro de saúde no município de
Petrópolis foi acompanhado de perto pelo O Fluminense. Em janeiro de
1941, o chefe do Departamento de Saúde, Mario Pinotti, designou o médico
sanitarista Luiz Barbosa Romeu para elaborar o plano para a construção do
Centro de Saúde de Petrópolis (O Fluminense, 27 de janeiro de 1941). Dois
anos mais tarde, em 1943, outra matéria explicava que o projeto envolvia
o Ministério de Educação e Saúde, a Fundação Rockfeller e a Oficina
Sanitária Pan-americana que ofereciam recursos para o projeto. Adesão
das entidades citadas estava associada à ideia de que centro de saúde de
Petrópolis funcionaria, depois de inaugurado, como local de estágio e de
investigações de problemas sanitários. A pretensão era que o centro de
saúde se firmasse como “um dos grandes centros de estudos de higiene
preventiva da América Latina” (O Fluminense, Quarta-feira, 17 de fevereiro
de 1943). A inauguração do centro de saúde de Petrópolis foi prevista para
1944 e uma provável data foi combinada em reunião realizada no Palácio
do Ingá, sede do governo estadual, em junho daquele ano. Participaram da
reunião o interventor Amaral Peixoto, Adelmo de Mendonça (diretor do
Departamento de Saúde), Barros Barreto (diretor do DNS) e Samuel Libânio
(diretor da Campanha Nacional da Tuberculose)
Um centro de saúde de extrema importância simbólica foi o situado no
então denominado distrito de Santo Antônio de Volta Redonda (o oitavo do
distrito de Barra Mansa), localidade escolhida para receber a Companhia
Siderúrgica Nacional (CSN), projeto industrial-econômico estratégico para
a política de desenvolvimento nacional do governo de Getúlio Vargas. O
projeto tinha um apoio financeiro do consorcio formado pela CSN e pela
Legião Brasileira de Assistência (LBA), comandada por Alzira Vargas
(Barbosa, 2017), esposa do interventor federal. Projetado para ser um dos
“maiores da América Latina” (1600 metros quadrados de área construída)
e com obras orçadas “em quase Cr$2.000.000,00”, o centro de saúde de
Volta Redonda era tratado como um dos resultados concretos da política de
proteção social varguista que pretendia promover a “saúde do operariado”
desde o período pré-natal até a higiene do trabalho (O Fluminense,
Quinta-feira, 11 de maio de 1944). A cerimônia de lançamento da pedra
fundamental do centro de saúde de Volta Redonda ocorreu em novembro de

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1943 e foi prestigiada com a presença dos interventores Amaral Peixoto (Rio
de Janeiro) e Agamenon Magalhães (Pernambuco). Também compareceram
ao evento dois representantes norte-americanos do SESP, o sociólogo Charles
Walgley, responsável desenvolvimento de estudos socioculturais (estudos
de comunidade) sobre saúde e educação (Figueiredo, 2014), e o engenheiro
sanitário Herman G. Baity (O Fluminense, Terça-feira, 09 novembro de 1943).
Uma prática habitual de Amaral Peixoto foram as constantes viagens
de visita aos municípios do interior do estado. Na agenda do interventor
constava a inauguração ou lançamento de obras públicas, as comemorações
de datas cívicas, a inspeção de situação de críticas de calamidade pública ou
atividades relacionadas ao desenvolvimento social e econômico do estado.
Em algumas ocasiões a visita e/ou a inauguração de um centro de saúde
fez parte do roteiro.
Em maio de 1940, em visita aos municípios de Itaboraí, Paraíba do Sul e
Sapucaia, o interventor, além de inaugurar escolas, visitou o centro de saúde
e o hospital de caridade de Itaboraí. (O Fluminense, Quarta-feira, 15 de maio
de 1940). Em sua passagem por Miracema, pequeno município do noroeste
fluminense, Amaral Peixoto ordenou que a equipe do centro de saúde de
Itaperuna (cidade vizinha) fosse deslocada “para ajudar os seus colegas
no trabalho de assistência às vítimas do aguaceiro” que havia devastado a
região (O Fluminense, Quinta-feira, 21 de novembro de1940). Em Barra
do Piraí (região sul do vale do rio Paraíba), Amaral Peixoto inaugurou, em
julho de 1943, o centro de saúde municipal que foi “dotado de moderno
aparelhamento e de material adequado às suas atividades, bem como dos
necessários técnicos” para se incumbir dos problemas “afetos de educação
sanitária, higiene pré-natal, infantil e escolar, polícia sanitária, fiscalização de
gêneros alimentícios, controle das doenças transmissíveis” (O Fluminense,
Sábado, 06 julho de 1942).
Foi comum que a construção de centros de saúde fosse incluída no rol
de obras de saneamento e de remodelação urbana. Foi o caso, por exemplo,
do município de Resende que, em 1941, recebia obras de saneamento e de
urbanização que preparavam a cidade para receber a “futura Escola Militar
do Brasil”, a atual Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Dentre
as obras previstas estavam “a instalação de uma nova rede de abastecimento

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d’água, a construção de um parque infantil e de prédios para o hospital
de isolamento, escolas, abrigos e centro de saúde, além da retificação do
rio Sesmaria e do aterro da margem direita do Paraíba” (O Fluminense,
Terça-feira, 28 de janeiro de 1941). As obras de remodelação urbana do
município de São Gonçalo, cidade vizinha a Niterói, incluíam a pavimentação
das principais vias de tráfego, a instalação de serviços de água e esgoto e a
construção (ou remodelação) de um centro de puericultura e de um centro
de saúde (O Fluminense, Quarta-feira, 10 setembro de 1941).
O município de Campos, tradicional região de produção açucareira,
é muito citado em matérias publicadas em O Fluminense relacionadas à
política de assistência à saúde adotada pelo interventor. Mas nem tanto por
causa do centro de saúde local. Na verdade, o “esperado” centro de saúde de
Campos aparece no noticiário somente em 1944, quando foi anunciado que
a planta de um “novo edifício”, financiado pelo governo federal, ocuparia
“uma área de 1600 quadrados” algo semelhante em tamanho aos centros
de saúde implantados em Petrópolis e em Volta Redonda (O Fluminense,
Sábado, 25 de março de 1944).
Na região norte do estado do Rio de Janeiro, o foco da assistência foi
a saúde materno-infantil. Em julho de 1940, os prefeitos das cidades do
norte fluminense se reuniram, em Campos, com o Amaral Peixoto para
tratar de vários assuntos, entre eles aqueles relacionados à saúde pública
(O Fluminense, Sexta-feira, 7 de junho de 1940).
Em parceria com o recém-criado Departamento Nacional da Criança
(DNCr), novo órgão vinculado ao Ministério da Educação e Saúde
(decreto-lei 2024 de 17 fevereiro de 1940), seria criado um posto de puericultura
(higiene infantil) no município de Cantagalo (O Fluminense, Terça-feira,
29 outubro de 1940). Demanda idêntica seria atendida pela Divisão de
Amparo à Maternidade, à Infância e a Adolescência - órgão estadual que
negociava com DNCr - que prometia aos prefeitos a criação de postos de
puericultura em Campos e em São João da Barra. (O Fluminense, Quinta-
feira, 06 fevereiro de 1941).
A criação dos postos de puericultura com a apoio do governo federal
estava associada às ações orquestradas pelos usineiros do açúcar em parceira

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com o governo do interventor. Os usineiros fizeram uma doação que foi
distribuída pelo governo às entidades públicas e privadas locais dedicadas à
assistência materno-infantil. É o que deixa entrever a seguinte nota publicada
em O Fluminense:
Por proposta do Sindicato dos Industriais do Açúcar e Álcool de Campos,
a comissão executiva do Instituto do Açúcar e do Álcool enviou ao
governo do Estado a quantia de quatrocentos contos de réis para a
realização de obras sociais na zona açucareira fluminense. Tomando
conhecimento da doação, o interventor Amaral Peixoto, depois de
agradecê-la, distribuiu aquela importância da seguinte maneira: Campos,
para auxiliar a construção do Hospital Infantil, 150:000$; para o Hospital
de Tuberculosos, 100:000$; Asilo Nossa Senhora do Carmo, 6:000$;
Fundação Policlínica e Maternidade, 6:000$; Santa Casa, 6:000$;
Centro de Puericultura, para a conclusão de obras, 31:000$; e Posto de
Puericultura de Guarulhos, 25:000$; Macaé, Casa de Caridade, 50:000$;
São João da Barra, Centro de Puericultura, 20:000$. (O Fluminense,
Domingo, 18 outubro de 1942).

O projeto mais ambicioso concretizado pela parceria entre os usineiros


e o governo estadual foi criação de “um grande hospital destinado apenas a
crianças pobres” que foi inaugurado em Campos em dezembro de 1944. A
iniciativa que deu origem ao Hospital Infantil de Campos foi uma campanha
organizada pela Sociedade Fluminense de Medicina. A entidade corporativa
ficou à frente do novo hospital filantrópico. Com a implantação do hospital
destinado à infância pobre, acreditava-se que Campos tinha se tornado, no
curso do governo o interventor,
[A] cidade dotada talvez da maior organização de assistência e amparo
à criança pobre, de vez que já possui duas maternidades, dois centros
de puericultura e um magnífico parque infantil o Parque ‘Alzira Vargas’
do Amaral Peixoto no coração mesmo da cidade, com piscina, campos
de esporte e completo “playground”. (O Fluminense, Sexta-feira, 22 de
dezembro de 1944)

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Ao contrário do observado em outros municípios fluminenses citados,
no caso de Campos, o centro de saúde não ocupou o lugar principal entre
os serviços de assistência à saúde. Esse papel coube a todo o “aparelhamento
de proteção a população infantil” constituído dos centros de puericultura,
maternidades, hospital infantil, parque infantil e, podemos incluir os grupos
escolares. Existia um projeto local para a assistência à saúde, que envolvia a
elite dos usineiros e a elite médica local. Em torno desse projeto de assistência
se estabeleceu uma aliança entre os usineiros e o interventor federal. Em
Campos, a assistência do interventor configurou-se, com nitidez, como
o dispositivo de “enquadramento, articulação e harmonização das elites
regionais”, conforme o teorizado pela historiografia (Codato, 2013).

Conclusão
Encerramos aqui a narrativa sobre a gestão do interventor federal,
Amaral Peixoto no campo da assistência à saúde. A tardia assistência à
saúde no território fluminense pôs em prática diretrizes propostas pelo
Ministério da Educação e Saúde (MES), processo que ficou conhecido com
a reforma Capanema (Gomes, 2000). A política de criação de centros de
saúde foi conduzida por um grupo de sanitaristas e contou com o apoio do
MES e do SESP, as duas agências federais que cuidavam da saúde pública e da
assistência à saúde. Nesse sentido, as ações do interventor federal no campo da
assistência à saúde apresentaram a marca de modernidade técnica propostas
pelos sanitaristas. Os municípios escolhidos para receber os centos de saúde
foram os de maior importância econômica e social, especialmente aqueles
onde se implantavam projetos de desenvolvimento econômico e social como
foi o caso de Volta Redonda (CSN) e Resende (AMAN). Apesar de concebidos
para atuarem exclusivamente em atividades de medicina preventiva, no estado
do Rio de Janeiro, os centros de saúde também funcionaram praticando a
medicina curativa. A combinação de assistência à saúde com o sanitarismo
fez com que os centros de saúde fluminense atuassem tanto “cuidando dos
doentes” como “prevenindo as doenças”, sobretudo entre crianças, escolares
e parturientes.

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A quantia foi integralmente empregada na zona açucareira fluminense”.
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O FLUMINENSE. “A remodelação de S. Gonçalo”. Quarta-feira, 10 de
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O FLUMINENSE. “A reunião dos prefeitos da Zona Norte fluminense na
cidade de Campos”. Sexta-feira, 7 de junho de 1940
O FLUMINENSE. “A viagem do Interventor Amaral Peixoto. Cooperativas
de leite e inauguração de um centro de saúde”. Sábado, 06 de agosto de 1942.

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 169 23/01/2020 14:59:23


O FLUMINENSE. “Amparo à criança em Campos” (28 S. P. T.). Terça-feira,
29 de outubro de 1940.
O FLUMINENSE. “O centro de saúde modelo e os seus importantes serviços”.
Sexta-feira, 19 de julho de 1940.
O FLUMINENSE. “O interventor Amaral Peixoto em Miracema”. Quinta-
feira, 21 de novembro 1940.
O FLUMINENSE. “Posto de puericultura de Campos” (5 S.P.T.). Quinta-
feira, 06 de fevereiro de 1941.
O FLUMINENSE. “Saneamento e remodelação de Resende”. Terça-feira,
28 de janeiro de 1941.
O FLUMINENSE. “Será um dos maiores centros de saúde da América do
Sul”. Quinta-feira, 11 de maio de 1944.
O FLUMINENSE. “Um dos conjuntos de assistência mais importante do
país”. Sexta-feira, 22 de dezembro de 1944.
O FLUMINENSE. “Um posto de higiene em cada município – A batalha
pela saúde popular na terra fluminense”, Terça-feira, 09 novembro de 1943.
O FLUMINENSE. “Um posto de higiene em cada município – A batalha
pela saúde popular na terra fluminense”. Terça-feira, 09 de novembro de1943.
O FLUMINENSE. “Visita presidencial ao Estado do Rio O discurso do
Interventor Federal no Leprosário do Iguá”, 23 de agosto de 1938.
O FLUMINENSE. A remodelação de S. Gonçalo. Quarta-feira, 10 de setembro
de 1941.
O FLUMINENSE. A reunião dos prefeitos da Zona Norte fluminense na
cidade de Campos. Sexta-feira, 7 de junho de 1940.
O FLUMINENSE. A viagem do Interventor Amaral Peixoto Cooperativas
de leite e inauguração de um centro de saúde. Sábado, 06 de julho de 1942.
O FLUMINENSE. Centro de saúde de Volta Redonda. Terça-feira, 09 de
novembro de 1943.
O FLUMINENSE. Centro de Saúde. 04 de junho de 1942.
O FLUMINENSE. Médicos paulistas. Quarta-feira, 01 de setembro de 1943.
O FLUMINENSE. Novo edifício para o centro de saúde de Campos. Sábado,
25 de março de 1944.

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 170 23/01/2020 14:59:23


O FLUMINENSE. Novo edifício para o Centro de Saúde de Campos. Sábado,
25 de março de 1944.
O FLUMINENSE. Os serviços de saúde pública de Petrópolis Um centro
sanitário naquele município. Quinta-feira, 22 de janeiro de 1942.
O FLUMINENSE. Quarta-feira, 5 de agosto de 1942. A posse das enfermeiras
de alto padrão. Quarta-feira, 5 de agosto de 1942.
O FLUMINENSE. Saneamento e remodelação de Resende. Terça-feira, 28
de janeiro de 1941.
O FLUMINENSE. Será um dos maiores centros de saúde da América do
Sul. Quinta-feira, 11 de maio de 1944.
O FLUMINENSE. Vai ser reformado. A visita do interventor. Quarta-feira,
15 de maio de 1940.
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Doenças e estratégias da pobreza no interior do Rio
Grande do Sul na Primeira República1

Daiane Silveira Rossi

A cidade de Santa Maria localizada na região central do Rio Grande do


Sul, ultrapassou a virada dos séculos XIX e XX cercada de mudanças sociais
ocasionadas pelo seu crescimento populacional e urbano. A partir de 1885,
tornou-se o entroncamento ferroviário de uma das principais linhas do
estado ligando a capital, Porto Alegre, até a fronteira com a Argentina, na
cidade de Uruguaiana. Santa Maria viu sua população mais do que duplicar
entre a chegada da ferrovia e os anos 1900, variando de, aproximadamente,
13 mil habitantes, para mais de 30 mil (Rossi, 2017).
Ao mesmo tempo que recebia novos moradores, gradativamente, a
cidade foi se transformando através do calçamento das ruas, ampliação das
avenidas, instalação da iluminação pública na área central, ampliação de
atividades comerciais como fábricas, mercearias e hotéis. Rapidamente, um
local que era predominantemente rural, foi ganhando ares de modernidade
e junto a isso emergiram as demandas por sanar os problemas relativos à
urbanidade. As autoridades municipais precisaram, entre outras medidas,

1. Esse capítulo apresenta alguns resultados atingidos no quarto capítulo da tese intitulada
“Assistência à saúde e à pobreza no interior do Sul do Brasil (1903-1913)”, defendida no
Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde, da Casa de Oswaldo
Cruz (COC/FIOCRUZ).

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encontrar meios para solucionar as questões relacionadas ao crescimento
do número de pobres e para proteger os habitantes contra as doenças que
mais facilmente eram propagadas.
Foi nesse contexto de transformações que, a partir da década de 1890, foi
pensada a criação do Hospital de Caridade de Santa Maria (HCSM), através
da organização de uma Sociedade de Caridade fundada em 1898, composta
por médicos, políticos e membros da sociedade civil local. Por meio de
recursos oriundos de donativos, empréstimos com a ferrovia e subvenções
estaduais e municipais, a instituição foi inaugurada em setembro de 1903 e
recebia pobres, militares, ferroviários e pensionistas.
A hospitalização dos pobres era custeada pela subvenção municipal,
fazendo parte do serviço de assistência pública da cidade e a dos militares
era financiada por subvenção estadual. Já o atendimento aos trabalhadores
da ferrovia, eram pagos pela Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS),
empresa responsável pela concessão da estrada Porto Alegre-Uruguaiana. Os
pensionistas, classificados entre I e II classe, pagavam por seus atendimentos.
Cada grupo atendido no hospital era classificado de acordo com seu
financiamento. Os militares, por exemplo, representavam os soldados
da Brigada Militar e a classificação “pobres” dizia respeito àqueles que
eram subvencionados pela Intendência Municipal, através do serviço de
Assistência Pública. Esse serviço foi regulamentado através do Relatório
Anual do HCSM de 1904, determinando que em retribuição a subvenção
recebida pela Intendência Municipal, o hospital se comprometia em atender
gratuitamente em suas enfermarias os feridos em vias públicas; socorreria a
qualquer indivíduo residente na cidade que buscasse atendimento alegando
pobreza; e deveria prestar os serviços fúnebres a indigentes e acidentados.
A partir de dados do Livro de Registro de Entrada de Pacientes do HCSM,
objetiva-se traçar um perfil desse grupo e identificar quais as principais causas
que os levavam à internação. Uma das hipóteses investigadas refere-se ao
fato de buscarem socorro como meio de voltarem ao trabalho, pensando
que a doença estaria impossibilitando. Na documentação consultada consta
o nome, sexo, idade, cor, nacionalidade, residência, profissão, diagnóstico,
médico responsável, data de entrada e saída e classificação de cada indivíduo

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hospitalizado. Restringimos a análise apenas ao primeiro livro, que diz
respeito aos anos de 1903 a 1913, correspondendo 5224 registros, sendo 2727,
ou 52,2%, classificados como pobres. Além dessa classificação, também serão
analisados outros indivíduos que também eram custeados pelo serviço
público, mas que não constam no livro de registro porque não chegavam a
realizar internação, sendo atendidos apenas no ambulatório ou na farmácia
do hospital.

A administração da pobreza no Hospital de Caridade de Santa


Maria
Os pobres no Hospital de Caridade eram tanto oriundos de
encaminhamentos enviados pelo serviço de Assistência Pública, quanto
chegavam por conta própria alegando pobreza ou indigência, ficando pouco
claro na documentação quais os critérios utilizados pela administração para
que fossem aceitos. De acordo com o relatório de 1917-19182, há menções
apenas que os pobres ou indigentes seriam recebidos indistintamente, sem
preferência de nenhuma espécie, relacionada a raça, nacionalidade ou religião,
desde que fossem oriundos de Santa Maria (Hospital de Caridade de Santa
Maria, 1919).
A maneira como o discurso foi elaborado no relatório parece indicar
que a documentação oficial do Hospital de Caridade trata indigente e pobre
como sinônimo. Afinal, em um primeiro momento afirma que receberiam
indigentes sem distinção desde que fossem residentes em Santa Maria. Na
frase que se segue, complementando a anterior, refere-se a “doentes pobres”
de outros municípios que não deveriam ser atendidos, abrindo exceção em
caso de urgências intransferíveis. Outro ponto trata-se da distinção para
loucos e inválidos, os quais deveriam ser transferidos a outras instituições, no
caso dos primeiros, ao Hospício São Pedro, em Porto Alegre, e dos últimos
a asilos de Mendicidade.
O relatório de 1904, que delineou o regimento do Hospital, já previa
clausulas semelhantes, recomendando que fossem evitados “cegos, idiotas e

2. Esse relatório faz um apanhado de todos os anos anteriores do seu funcionamento,


sendo o primeiro subsequente ao relatório de 1904, ao menos na pesquisa que realizamos.

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em geral pessoas atacadas por enfermidades incuráveis, que ocupariam por
longos anos um lugar utilizável para outros mais capazes de aproveitá-los. A
não ser assim o hospital estaria, no fim de pouco tempo, transformado em
um asilo de inválidos” (Hospital de Caridade de Santa Maria, 1904, p.15).
Além de excluir os incuráveis, a instituição deixava claro suas funções: seria
um hospital para tratar doentes curáveis. Sobre os alienados, afirmam que
não seriam recebidos inclusive por serem “até perigosos para os outros
doentes”. A respeito dos enfermos residentes em outros municípios, além
de deixar claro que não os admitiram, ainda complementam que seria um
abuso, pois estas cidades “em nada concorrem para a manutenção da casa”.
Esse era o discurso oficial, porém analisando o livro de entrada de pacientes,
perceberemos que embora a proporção de pobres residentes fora de Santa
Maria fosse bem menor do que os nativos, ela existia, conforme podemos
perceber na tabela 01.
Tabela 01 – Residência dos Pobres e Particulares atendidos no HCSM
(1903-1913)

Pobre: Particular:
Local:
Total: % Total: %
Santa Maria 1873 68,6 171 35,6
Região central do RS 453 16,7 118 24,6
Zona Rural de Santa Maria 166 6,1 98 20,5
Outras cidades 87 3,2 34 9,1
Rosário 15 0,5 23 4,8
Não consta 33 1,2 15 3,1
Ilegível 43 1,6 10 2,1
Passo Fundo 33 1,2 6 1,2
São Gabriel 15 0,6 4 0,8
Outros países 6 0,2 1 0,2
Outros estados 3 0,1 0 0
Total 2727 100 480 100
Fonte: Tabela elaborada a partir do Livro 01 de Registros de Entrada de Pacientes do
Hospital de Caridade de Santa Maria.

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No livro de registros do HCSM, na coluna “residência” há a inscrição de
“Santa Maria” para o que interpretamos serem os habitantes da área urbana,
ou do 1º distrito do município, pois quando se trata de outros distritos
ou localidades rurais estão discriminados nominalmente3. Os moradores
das áreas rurais, por exemplo, aparecem como São Pedro, Boca do Monte,
Pains, Arroio do Só, etc. Nesse sentido, olhando para a tabela 01, notamos o
quanto a grande maioria de pobres era oriunda da área urbana, quase 70%. O
censo de 1920, o mais próximo do nosso recorte a trazer informações sobre
a divisão rural e urbana, aponta que dos 52.700 habitantes de Santa Maria,
36.200 localizavam-se na área rural, ou seja, quase 70%, e apenas 16.500 na
área urbana (Fundação de Economia e Estatística, 1981:128). Baseado nisto,
entendemos que a população urbana era a minoria na cidade e a maioria
no hospital. Sendo assim, podemos inferir que o Hospital de Caridade
congregava uma parcela expressiva da pobreza urbana de Santa Maria.
Em segundo lugar na tabela da residência estavam as cidades limítrofes
da região central do Rio Grande do Sul, porém representando uma parcela
bem menor, de 16,7%. A área rural, ou os distritos que mencionamos,
destaca-se na terceira colocação com 6,1%. Somando as demais categorias
que englobam outras cidades, estados e países, elas ultrapassam pouco mais
de 5%. Ressalta-se que na tabela há menção específica a Passo Fundo, São
Gabriel e Rosário porque se tratam de cidades que o número de atendimentos
ultrapassou 15. Passo Fundo, especialmente, é a que mais se distingue, com
mais de 30. Um dos motivos que apontamos refere-se à grande mobilidade
entre ela e Santa Maria, dada a construção da ampliação da ferrovia que
ligava as duas cidades.
Já se compararmos esses dados com relação ao público pagante – o
“particular” na tabela – temos informações mais heterogêneas. Embora
a proporção de moradores de Santa Maria seja também a maioria, essa é
representada por apenas 35,6 %, seguida por 24,6% de moradores da região
central do estado e 20,5% da área rural do município. As demais cidades
juntas somam 14,7%. Pensando nesses dados, apontamos a hipótese de que

3. De acordo com o censo de 1900, Santa Maria possuía 5 distritos. A sede, 1º distrito “Santa
Maria”, 2º “Porteirinha”, 3º “Rincão de São Pedro”, 4º “Ex Colônia Silveira Martins” e 5º
“Arroio do Só” (Fundação de Economia e Estatística, 1981:103).

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a mobilidade era um fator que levava o público pagante ao hospital. Ainda
assim, percebemos diferenças significativas entre essas duas populações. Não
pode ser ignorado o fato de Santa Maria possuir traços rurais muito marcantes.
O entrelaçamento entre o campo e a cidade era sua base econômica, através da
comercialização de produtos agrícolas, que provocava constante intercâmbio
de indivíduos.
Outro elemento que não pode ser descartado é a diferença entre o
pobre urbano e o pobre rural. O pobre morador da área rural possuía outros
recursos, como uma mínima porção de terra da qual poderia retirar seu
sustento, dando-lhe uma alimentação melhor, por exemplo. Além das redes
de solidariedade que se fazem muito presentes no interior, fornecendo
subsídios de proteção para aqueles grupos não caírem na miserabilidade4.
Já o pobre urbano era o que muitas vezes migrava do campo para a cidade
vislumbrando possibilidades de trabalho. Parte significativa desse grupo
transformava-se em jornaleiros, “atividade remunerada que era realizada por
jornal, isto é, por um tempo determinado, geralmente curto e que não carecia
de qualquer especialização” (Carvalho, 2005:73-74). Carvalho, estudando os
jornaleiros em Santa Maria, destaca ainda que “muitos populares que passam
a compor a cidade e que não se encontram integralmente absorvidos pelo
desenvolvimento urbano, continuam a manter laços com o universo rural,
como uma estratégia de sobrevivência” (ibidem).
A presença dos pobres no hospital ainda se relaciona com a questão das
escolhas individuais e coletivas, mesmo que seja necessário entender em que
medida elas pesam na busca de socorro em uma instituição. No contexto
da primeira década do século XX, escolher ir até um hospital buscar ajuda
para sua enfermidade ainda era algo novo para o interior do Rio Grande
do Sul. Haja vista que o Hospital de Caridade era o primeiro da região, sua
população encontrava-se a pelo menos 300km de distância de instituições
daquele porte presentes, por exemplo, em Porto Alegre, Rio Grande e Pelotas
desde início e meados do século XIX.

4. Ao longo da tese (Rossi, 2019) a ideia de pobreza associada às redes sociais foi melhor
desenvolvida, sendo um dos principais argumentos para compreender e classificar quem
eram os pobres do interior do Rio Grande do Sul durante a Primeira República.

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Quando nos referimos ao início do século XX, além de considerar
as opções de cura disponíveis e as preferências da população, é necessário
acrescentar outras questões que corroboram as suas escolhas, como o fato de
estarmos falando de pobres trabalhadores. A condição de enfermo implicava
na impossibilidade do trabalho e isso poderia gerar uma necessidade mais
urgente na busca de soluções à saúde. Nos primeiros anos do novecentos a
região vivia uma ebulição populacional, que ampliou significativamente as
profissões urbanas e das necessidades de trabalho. Veremos, adiante, que
o tipo de doença que leva o pobre ao hospital pode indicar o caminho da
necessidade de cura para que o mesmo retorne aos seus labores e não caia
na miserabilidade.
Dessa forma, é importante refletir sobre quem recorria ao Hospital de
Caridade de Santa Maria, a respeito dos diferentes grupos que compunham
os 52245 atendimentos durante os dez anos que estamos analisando. Filtrando
as informações a partir da classificação dada pelo hospital, temos a maioria
de pobres, 52,2% ou 2727 registros, seguidos pela Brigada Militar – a polícia
militar do estado do Rio Grande do Sul – a qual se somarmos com os
militares, representam 21,4%, 1118 internações. Esses dois grupos, pobres e
Brigada Militar, alternaram-se ao longo do período como a maioria. Ambos
equivalem a atendimentos custeados através de subvenção, municipal e
estadual, respectivamente. Percebemos que, ao longo dos dez anos de análise,
o Hospital de Caridade foi, gradativamente, se tornando um espaço da
pobreza. Afinal, através das séries de atendimentos nesse período, notamos
que assim que inaugura, em 1903, a instituição recebia principalmente praças
da Brigada Militar, porém a medida que vai se consolidando a curva se
inverte e os pobres representam a maioria.
A afirmação que fizemos de que o Hospital de Caridade de Santa Maria
(HCSM) se transformou num hospital de pobres ganha ainda mais força
quando acrescentamos outros dois elementos à análise: a questão de ser

5. Ressalta-se que o total de atendimentos não necessariamente diz respeito ao número de


pessoas internadas, visto que, por exemplo, no caso dos pobres, cerca de 120 indivíduos
aparentemente retornam ao hospital duas, três ou até mais vezes. Percebemos isso através da
repetição de nomes e outras características que nos permite entender que aquele determinado
indivíduo regressou ao hospital com a mesma doença ou não.

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responsável pelo serviço de assistência pública da cidade e a observação a
respeito do seu quadro de despesas e receitas. O relatório elaborado pela
instituição em 1919 que correspondia às atividades de 1917 e 1918, também
traz informações de todos os anos anteriores do seu funcionamento. Assim,
conseguimos acompanhar anualmente todos os gastos e rendimentos do
hospital. O quadro anexo do relatório apresentava números desde 1901, ano em
que começam a serem arrecadados financiamentos para sua construção, até
1918. Porém, utilizamos somente os dados até 1913, para focar a investigação e
comparar as informações com os mesmos anos dos atendimentos em análise.
O quadro de despesas do HCSM entre 1901 e 1913 apresenta vinte tipos
diferentes de gastos e mais da metade, 55%, correspondem às despesas com
pobres hospitalizados. Porém, aparecem somente as somas totais das despesas,
mas se compararmos esses números com outros descritos no relatório,
percebemos que os gastos referentes a esse grupo eram ainda maiores, pois
havia a parte específica de consultório para pobres, receituário externo e
enterros de pobres, os quais não aparecem discriminados no quadro. De
modo geral, entre 1901 e 1913, o hospital despendeu em socorros à pobreza:
269:152$340, dividindo os gastos entre pobres hospitalizados (236:724$760),
enterros de pobres (1:617$000), consultório para pobres (15:271$400) e
receituário externo para pobres (15:539$340) (Hospital de Caridade de Santa
Maria, 1919:5).
As despesas relacionadas a consultório e receituário externo diziam
respeito aos atendimentos que o hospital prestava em seu ambulatório,
correspondendo ao compromisso que haviam assumido com a assistência
pública. O relatório de 1904 deixa claro que todos os médicos davam consultas
aos pobres no ambulatório. As informações sobre quem eram os enfermos
recebidos nessa ala não constam nos livros de registros de entrada e saída,
pois não era considerado internação. Entretanto, encontramos indícios
sobre eles em uma publicação do jornal “O Estado”, de setembro de 1904,
alusiva a comemoração de um ano da inauguração do Hospital. Nela há uma
retrospectiva do que era a assistência aos pobres na cidade antes e como
estava naquele momento.

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Há um ano já que o humanitário estabelecimento abriu suas portas à
pobreza desvalida, socorrendo neste período de tempo a centenas de
infelizes que, sem ele, andariam de porta em porta suplicando uma
esmola para comprar o medicamento necessário às moléstias que os
afligem. (...) Agora não, a Caridade os amparou. Vemos homens e
mulheres, alquebrados pelos anos, que vagueiam pelas ruas pedindo
pão para a boca e lá vão pedir remédios para seus padecimentos físicos.
Não é só aqueles que a moléstia atira no leito, que o Hospital ampara e
protege, não, muitos outros que não estão debaixo de seu teto protetor
recebem seus socorros, levam dele o alívio as dores que os devoram.
Destarte, é justa, é digna a proteção que dispensa o público santa-
mariense ao piedoso estabelecimento. (Grifo nosso) (Arquivo Histórico
de Santa Maria. Jornal “O Estado”, nº 73, 10/09/1904)

Acreditamos que essa descrição se refere àquelas pessoas atendidas no


ambulatório do hospital, pois diz respeito aos que buscavam remédios, mas
não iriam parar nos leitos. Ou seja, através desse serviço de distribuição de
medicamentos e socorros emergenciais, a instituição atendia aos infelizes, os
que vagavam pelas ruas mendigando alimentos e ajuda para seus padecimentos
físicos. Ou seja, aparece um outro tipo de pobre indigente, que difere do
trabalhador, pois não busca tratamento para voltar ao labor, mas algum
meio de socorro que atenda as suas necessidades de sobrevivência nas ruas.
Ainda no quadro das despesas aparece o item “Pobres hospitalizados”,
com a cifra de 141:916$480, que diz respeito aqueles classificados como
“pobres” no Livro de Registro do hospital. Assim, representa o custo dos já
citados 2727 atendimentos identificados como pobres.
Já no quadro referente a receita do hospital, percebemos que as duas
principais fontes de rendimentos do HCSM eram a farmácia e as subvenções,
embora os donativos somados aos benefícios e quermesses, representassem
cifras consideráveis. As hospitalizações dos doentes de primeira e segunda
classe, ou seja, os particulares, colaboravam com um montante significativo
também. Assim, abarcando a farmácia com as subvenções, donativos,
quermesses e hospitalizações temos 77,3% dos rendimentos do Hospital de

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Caridade de Santa Maria, ou seja, a grande maioria da receita concentrada em
apenas cinco itens, enquanto os outros quinze se dividem em apenas 22,7%.
A maior fonte de renda do hospital era a farmácia e correspondia a 22,2%
da receita total. Ela era um serviço prestado assim como o consultório e o
receituário. Ao mesmo tempo que o hospital não cobrava dos pobres esses
dois serviços, possuía na venda de medicamentos e pequenos procedimentos
na farmácia o seu maior rendimento, ou seja, talvez compensasse as despesas
através dessa receita. No relatório de 1904 que traz as diretrizes para o seu
funcionamento, consta que a farmácia do HCSM fornecia todo o receituário
da estrada de ferro, “da Margem até Bagé, despachando-se mensalmente 700
fórmulas mais ou menos” (Hospital de Caridade de Santa Maria, 1904:16). Ou
seja, abastecia de medicamentos toda a linha que passava por Santa Maria,
desde a região de Porto Alegre, até próximo a fronteira com o Uruguai.
Além disso, forneciam materiais de curativo, especialidades farmacêuticas,
instrumentos e aparelhos.
As enfermarias do hospital eram abastecidas pela farmácia, com a
produção mensal de 250 fórmulas divididas entre as alas da Brigada Militar
e dos pobres. Também forneciam seus produtos aos pobres atendidos
no ambulatório e aos que fossem socorridos em domicílio, desde que
apresentassem o receituário expedido por um médico. Os familiares dos
praças da Brigada poderiam receber igualmente os produtos, porém deveriam
ser pagos pelos oficiais. Esses atendimentos eram custeados de acordo com o
público atendido: pobres pela Intendência e militares pelo governo estadual.
Porém também havia a venda de fórmulas para o público em geral e no
tocante a este assunto o relatório é confuso, porque ao mesmo tempo em
que indica até o horário de atendimento, “os benefícios prodigalizados pela
farmácia do Hospital estão no domínio público e podem ser aquilatados por
quem quer que compareça no saguão do edifício, todos os dias úteis, das 9
às 11 horas” (Hospital de Caridade de Santa Maria, 1904:16); por outro lado,
afirma “não se vendem remédios ao público” (ibidem). Entretanto, já no
relatório de 1917-1918, está muito claro que a farmácia se constituiu enquanto
“esteio do hospital” (Hospital de Caridade de Santa Maria, 1919:5), através da
venda de medicamentos e mercadorias ao público – além do fornecimento de
fórmulas para todas as enfermarias, tanto dos pobres quanto dos pensionistas.

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A segunda maior receita do HCSM vinha das subvenções, oriundas do
governo estadual e da Intendência Municipal, custeando a internação da
Brigada Militar e dos pobres. Esses dois grupos juntos representam 73,6% de
todos os atendimentos ao longo dos dez anos analisados. Logo, compreende-
se a cifra elevada desse rendimento, embora nos relatórios a administração
do hospital reclame muito do quanto atender esses dois públicos era oneroso
e causava prejuízo aos seus cofres.
O terceiro maior rendimento do hospital era relativo aos donativos e a
eles somamos os benefícios e quermesses, pois entendemos fazerem parte da
mesma fonte de renda, ou seja, doações da sociedade, representando 18,7%
da receita. O item “benefícios e quermesses” só aparece no quadro de receitas
entre os anos 1901-1911 e acreditamos que o motivo esteja relacionado ao fato
de que foram nos anos anteriores à fundação e iniciais de funcionamento, nos
quais se concentrou o maior número de festas organizadas para a arrecadação
de fundos à instituição. A prática de doar ao hospital se tornou recorrente e,
inclusive, aparece com regularidade em todos os anos descritos no quadro
de receitas. Ela era realizada também por meio dos membros da Associação
Protetora do Hospital, em que os sócios mensalmente concediam montantes
destinados à manutenção e ao funcionamento da instituição, colaborando
para custear, sobretudo, as hospitalizações.
Por conseguinte, a arrecadação com as hospitalizações representava 16,1%
da receita, ou seja, a quarta maior. Com exceção dos pobres e qualquer pessoa
remetida pela Intendência, dos soldados da Guarda Municipal e dos presos,
que não desembolsavam nenhuma quantia para serem atendidos, a todos
os demais era cobrada uma taxa. Os soldados da Brigada Militar custavam
800 réis diários, porque já havia a subvenção estadual que financiava esse
serviço. Já aos doentes oriundos da Estrada de Ferro, foram estabelecidas
diárias de 3$000. Enquanto aos particulares, que se dividiam entre primeira
e segunda classe, os valores variavam entre 2$, 3$ e 5$000 (Hospital de
Caridade de Santa Maria, 1904:15).
Os demais 15 itens que compunham o restante de 22,7% da renda
dividiam-se entre: bens de raiz, material, joias e mensalidades, mobiliário,
juros e descontos, etapas, legados, remédio da Influenza, dividendos, serviço

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funerário, produtos da Chácara, construção do Passo Fundo, ponte de Santa
Maria6, ações e auxílio do Governo do Estado. Entre esses rendimentos,
destacamos o remédio da Influenza, amplamente divulgado nos jornais
locais por ser algo que se vendia como inovador e com de fórmula própria
criada pelo médico Astrogildo de Azevedo, diretor do hospital. Além disso, o
serviço funerário mostrava-se como uma fonte lucrativa, no qual forneciam-
se caixões e transporte não apenas para os falecidos que estavam internados,
mas também à Intendência – para os indigentes –, à Viação Férrea, à Brigada
Militar e aos particulares que solicitassem esse serviço. Ou seja, ao longo dos
dez anos analisados o HCSM constitui-se como a principal opção funerária
da cidade, inclusive no relatório de 1917-1918 foi destacado o quanto essa
atividade era lucrativa aos seus cofres.
Agora que já apresentamos as funcionalidades do hospital, suas despesas
e receitas, na qual constatamos o quanto a questão dos pobres aparece com
frequência, seja através do número de atendimentos, quanto aos custos com
sua manutenção, retomaremos a compreensão de quem era esse público
e por que motivos era hospitalizado, o qual já percebemos que se tratava,
majoritariamente, de residentes em Santa Maria, da área urbana e rural, e
na região central do Rio Grande do Sul.

O perfil dos pobres do Hospital de Caridade de Santa Maria


Tentando entender quem eram as pessoas classificadas como pobres pelo
Hospital de Caridade de Santa Maria, buscamos traçar um perfil demográfico
daquele grupo, a fim de estatisticamente definirmos suas características,
como sexo, idade, profissão, nacionalidade, além das principais doenças
que eram as causas de seus atendimentos.
Conforme já mencionamos, os pobres representam 52,2% de todos
os atendimentos no Hospital de Caridade de Santa Maria. Começamos
analisando suas origens, 85% dos indivíduos atendidos eram oriundos do
Rio Grande do Sul, seguidos por 6% naturais da Itália, 2% da Alemanha e o
restante dividindo-se entre outros países e outros estados brasileiros.

6. Extensão da linha férrea que ligava o centro ao norte do Rio Grande do Sul, neste caso,
Santa Maria até Passo Fundo.

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Com relação aos “outros países”, temos: Estado Oriental (19), Espanha
(17), Áustria (10), Portugal (9), Polônia e França (8), Paraguai (7), África (6),
Síria (5), Argentina (4), Inglaterra e Holanda (3), Arábia e Hungria (2), Chile
(1), Dinamarca (1), Grécia (1) e Japão (1). Desses números levantamos três
questões: a proximidade com o Estado Oriental, atual território Uruguaio, que
favorecia o trânsito desses indivíduos; a imigração, a presença de dezenove
países diferentes indica o forte fluxo migratório que a região central do Rio
Grande do Sul recebia. Afinal, além desses que estão classificados como
“outros países”, ainda temos 6%, 163 casos, e pobres oriundos da Itália; 2%,
57 casos, da Alemanha; e 1%, 28 casos, da Rússia. Destaca-se que esses três
últimos países possuíam colônias de imigrantes na região. Por fim, chama
atenção questões do mundo pós-abolição através de indivíduos oriundos
da África. Na sua totalidade são pretos e possuem mais de 70 anos de idade.
Somamos eles aos casos de africanos classificados como “outros estados” e
todos foram egressos do cativeiro, nascidos, aproximadamente, entre 1823
e 1842. Trata-se de 1 homem de 70 anos e 5 mulheres, com 80, 90, duas
com 100 e uma com 120 anos. Essa última, de nome “Maria”, na categoria
profissão está descrita como mendiga, fazendo parte do grupo de apenas 8
assim classificados durante todo o período de análise, todos pobres. Maria
ficou sob os cuidados do hospital durante sete dias, diagnosticada com
“eczema” - doença dermatológica -, saindo curada (Hospital de Caridade
de Santa Maria , 1906:19). As outras africanas, Maria de Tal e Maria Luiza
Fernandes, possuem diagnósticos relacionados à idade avançada: velhice
e marasmo senil. Maria Rita da Conceição foi internada com bronquite
(Hospital de Caridade de Santa Maria, 1905:15), no período de inverno, o
que pode também se relacionar a sua alta idade. Manuel, João Pedro Dias
e Rosa não constam a doença. Assim, pensando a partir das enfermidades
e voltando ao caso de Maria, de 120 anos, refletimos se essa idade não foi
atribuída pelo Hospital muito mais pela sua condição de mendiga, andarilha
da cidade, sem condições, do que propriamente por possuí-la, ou mesmo
indicar quando nascera, essa idade mostra apenas que era muito idosa.
Especialmente sobre os imigrantes italianos, o segundo maior grupo
no quadro das nacionalidades dos pobres, relacionando seus dados com as

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demais classificações (VFRGS, particular, Brigada Militar, etc.), temos 63%
de todos os indivíduos descritos como de nacionalidade italiana identificados
como pobres. Entre eles as classificações se dividem entre pobre, particular
(22,4%), VFRGS (10,8%) e não consta ou ilegível (3,4%). A Brigada Militar,
uma das categorias mais recorrentes, não possui representação entre esse
grupo. Relacionando a nacionalidade com as suas profissões apenas entre
os pobres, 52% eram agricultores; 27,6% domésticas (o que não as exclui
de serem também agricultoras, porém as mulheres eram, geralmente,
classificadas dessa forma quando não possuíam outro ofício fora de casa);
9,8% foram identificados apenas como “trabalhadores”; 4,9% eram operários;
2,4% constam como “vida errante” – pensamos tratar-se de andarilhos,
sem residência fixa; e os demais dividiam-se em várias atividades, alfaiate,
carpinteiro, ferreiro, lavrador, marceneiro, mecânico, pedreiro, plantador,
sapateiro, entre outras. A respeito do sexo, 68,7% eram homens, o que explica,
em parte, essa grande variedade de profissões. Sobre o estado civil, entre
ambos os sexos, 55,8% eram casados, 31,2% solteiros e 13% viúvos. Em suma,
o perfil geral do imigrante italiano classificado como pobre pelo Hospital
de Caridade de Santa Maria era homem, casado e agricultor.
Ainda há uma pequena parcela, entre o total de pobres, que concentramos
em “outros estados”, como Bahia (8 casos), Santa Catarina (4), Ceará, São
Paulo e Rio de Janeiro (3), Amazonas (1), Minas Gerais (1), Paraíba (1), Paraná
(1), Pernambuco (1), Rio Grande do Norte (1) e Sergipe (1). Eles representam
apenas 1% do total da origem dos pobres, mas chamou atenção a grande
variedade de estados, 12, que embora sejam apenas um ou no máximo oito
indivíduos de cada, pode representar a mobilidade no interior do Brasil entre
as unidades federativas, partindo do pressuposto que entender a população
de um hospital significa analisa-la enquanto microcosmos da sociedade.
De acordo com o sexo, a população pobre do hospital corresponde
a 62%, ou 1690 homens e 38%, ou 1031 mulheres. Já no total de registros
do hospital no período analisado, a relação é de 75,2%, ou 3928 homens
atendimentos masculinos e 24,7% ou 1288 atendimentos femininos. Assim,
dos 1288 atendimentos femininos, 1031 foram classificados como pobres.
Ou seja, 80% das mulheres que entravam no hospital eram pobres. Além

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disso, embora em ambos os grupos as mulheres representem a minoria,
entre os pobres a disparidade é menor. Um elemento que ajuda a entender
essa relação diz respeito a profissão, entre a pobreza aparece uma variedade
maior de ocupações femininas: criada, lavadeira, cozinheira, costureira,
engomadeira, mendigo, vida errante e indigente, além de doméstica, que
era uma denominação generalizada para a mulher “do lar”. Percebemos que
entre as ocupações apareceram três que caracterizam a indigência urbana:
mendigo, vida errante e indigente, nos levando a pensar que o hospital
também assumia um papel de abrigo para esse tipo de público que difere da
pobreza trabalhadora característica, conforme indicou a análise detalhada
das profissões entre os pobres.
Entre os mais de oitenta ofícios distintos, seis se sobressaem: doméstica,
trabalhador, jornaleiro, operário, agricultor e criada. Com exceção de
doméstica que era uma classificação genérica, as demais indicam profissões
que caracterizam o campo e a cidade, o que nos leva mais uma vez a inferir
o grande intercâmbio que havia entre esses lugares. Além disso, também
demonstram a diversificação das atividades, sobretudo urbanas e algumas
rurais. Várias aparecem com apenas um caso, porém outras se repetem mais,
ainda que comparadas ao total sejam números ínfimos, com cerca de 10 a 20
registros, tais como: alfaiate, carpinteiro, carroceiro, chacareiro, charqueador,
empregado do comércio, cozinheira, ferreiro, lavadeira, marceneiro, padeiro,
pedreiro, pintor, sapateiro e servente. Alguns ofícios foram praticados
exclusivamente por mulheres, como lavadeira e cozinheira. Os chacareiros
eram responsáveis por zelar pela propriedade “chácara” na ausência de seus
donos ou como empregados diariamente. Carpinteiro, marceneiro, pedreiro,
pintor e servente são profissões relacionadas à construção civil. Em conjunto,
a presença significativa delas, confere os ares de uma cidade que vivia uma
época de crescimento populacional e urbano.
Temos ainda jornaleiros e trabalhadores, embora o primeiro seja
mais fácil de definir como aquele que atua por jornada; o segundo é mais
complexo, porque também pode significar o indivíduo sem especialidade
que pratica vários ofícios por períodos curtos ou longos. No decorrer de
1903 a 1913, filtrando as informações somente entre essas duas profissões,

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notamos que, gradativamente, elas apresentaram curvas inversas. Ou seja,
se até 1906 os jornaleiros correspondiam a, aproximadamente, mais de 70%
e os trabalhadores 30%; em 1907 e 1908 esses dados se invertem; entre 1909
e 1910 retorna à maioria de jornaleiros e após 1911 as cifras de trabalhadores
variam entre 75% e 85% e os jornaleiros ficam entre 25 e 15%.
Nos estudos de Carvalho (2005), a autora também identifica os
jornaleiros e os agricultores como as principais profissões entre “os populares”,
denominação dada por ela, em Santa Maria entre o final do século XIX e o
início do século XX. Destacamos a diferença entre as fontes utilizadas por
Carvalho e as nossas, enquanto ela analisou os processos criminais, nós nos
detivemos nas correspondências da Intendência e nos registros do Hospital
de Caridade. A presença constante de jornaleiros e agricultores nos três
tipos de documentações demonstra o quanto eram ofícios representativos
na região central do Rio Grande do Sul.
Ainda sobre o perfil dos pobres, até o momento todas as categorias
remetem a questões do mundo do trabalho às profissões especialmente,
mas também a nacionalidade e ao sexo. Outro ponto que vai ao encontro
disso relaciona-se com a idade desses indivíduos. A maior concentração de
indivíduos está entre os 16 e 40 anos, ou seja, idades consideradas produtivas.
Temos, portanto, um grupo composto por trabalhadores pobres, fossem eles
nacionais ou estrangeiros, homens ou mulheres.
Mas o que levou esses indivíduos a buscarem socorro no Hospital
de Caridade? Já indicamos algumas possibilidades através da questão da
pobreza urbana e rural, da maior carência entre os residentes na cidade em
relação aos do campo, que, minimamente poderiam tirar sua sobrevivência
da terra. Além disso, apontamos a característica principal desse público:
eram pobres trabalhadores. A necessidade de manter-se ativo ao labor era
questão de sobrevivência e recorrer ao hospital implica pensarmos que esses
indivíduos já não possuíam outros meios e estavam beirando à miserabilidade.
Ademais, o tipo de ofício do público classificado como pobre corrobora com
esse argumento, a maioria eram assalariados: trabalhadores, jornaleiros
e operários; ou seja, viviam do seu sustento. Assim, o hospital torna-se a
melhor estratégia de sobrevivência, afinal, se possuíssem outros recursos,

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mínimos que fossem, poderiam pagar, com dinheiro ou produtos, um médico
particular, farmacêutico ou mesmo a curandeira ou a benzedeira, práticas
estas que ocorriam rotineiramente na cidade.

Pobres doentes
No total das 2727 internações descritas como pobres, encontramos
aproximadamente 175 diagnósticos diferentes, variando entre doenças
definidas, como tuberculose e sífilis, e o que hoje reconhecemos como
sintomas, como febres, convulsões e cólicas, por exemplo. Sendo assim,
adotamos a Classificação Internacional das Doenças (CID), organizada
pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que atualmente está na sua 11ª
versão, atualizada em 20187. Outros historiadores já utilizaram esse sistema,
sendo Karasch (2000) uma das pioneiras, ao analisar a vida dos escravos no
Rio de Janeiro, na primeira metade do século XIX.
Weber (1999:63) destaca que entre 1895 e 1928 as doenças que mais
preocupavam os governos do Rio Grande do Sul eram praticamente as
mesmas “difteria, peste bubônica, febre tifoide, varíola, varicela, sífilis e
tuberculose”. Ou seja, todas estão classificadas dentro da categoria de doenças
infecto parasitárias e, conforme veremos no gráfico 01, a seguir, tanto no
total de atendimentos do Hospital de Caridade de Santa Maria, quanto entre
os pobres, confirma-se a presença desses tipos de enfermidades.

7. https://icd.who.int/browse11/l-m/en acesso em 11 de janeiro de 2019

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Gráfico 01 - Doenças do público geral e dos pobres (1903-1913) *
excluíram-se as causas ilegíveis ou não mencionadas

Fonte: Livro 01 de Registro de Entrada e Saída de Pacientes do Hospital de Caridade de


Santa Maria. Acervo do Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo.

De acordo com o gráfico 01, há uma pequena variação entre o público


total do hospital e apenas os classificados como pobres, menos em relação as
doenças infecto-parasitárias, que se sobressaem entre os pobres, com 32,08%,
comparados aos 20,2% entre o total. Entre as lesões e envenenamentos também
há uma variação considerável, embora menor, 8,02% entre os pobres e 6,27%
entre o total. As demais variam menos de 1% comparando os dois grupos.
Em certa medida, esses dados indicam a relação entre uma das doenças com
maior número de casos, a tuberculose, com a pobreza, assim como a sífilis.
Ambas as enfermidades se destacam das demais significativamente. Dos
608 casos de infecto parasitárias, 216 são de tuberculose e 188 de sífilis, ou
seja, juntas representam mais de 60%.
As doenças do sistema respiratório aparecem como a segunda maior
causa de internação. Entre esse grupo, destacam-se a gripe e a bronquite,
com 147 e 59 casos, respectivamente. Entre o total de 264 internações, juntas
correspondem a quase 80%.
No terceiro maior grupo, “lesões, envenenamento e outras causas
externas”, entre os 152 registros, as lesões gerais e os ferimentos por arma de

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fogo ou arma branca dizem respeito a 116 casos, cerca de 76%. Essa categoria
é muito mais representada por indefinições do que por doenças, pois nela
foram registrados diagnósticos como ferimentos e lesões nos mais diversos
membros do corpo. Destaca-se que esse grupo aparece proporcionalmente
maior entre os pobres, com relação ao quadro geral do hospital. Esse fato
pode estar relacionado aos conflitos entre os trabalhadores, identificados
através das lesões por armas. Carvalho (2005:95-96), estudando os processos
criminais de Santa Maria no final do século XIX e início do XX, apontou que
a maior incidência entre os réus era de jornaleiros e agricultores, duas das
profissões mais frequentes entre o público do hospital. Carvalho entende a
relação entre os jornaleiros e o crime vinculada ao fato de que não possuir
um trabalho fixo poderia associa-los à vagabundagem, à desordem e ao ócio.
A quarta maior causa de internações foram as doenças reumáticas,
com 142 entradas, sendo 69% por reumatismo, 18% com nevralgia, 11% com
artrite e apenas 1 caso de artrose. Esses diagnósticos associados ao aparelho
locomotor, ou seja, ossos, articulações, cartilagens, músculos, tendões e
ligamentos8, também podem representar um sintoma de outras doenças,
como a sífilis, por exemplo. Inclusive há vários casos de reumatismo sifilítico,
que na classificação inserimos nas infecto-parasitárias. Analisando a trajetória
de alguns enfermos recorrentes, ou seja, aqueles que retornam ao hospital
mais de uma vez, temos casos que endossam esse argumento.
Por exemplo, Graciano de Souza Leal: sua primeira entrada foi registrada
em 01/10/1903, homem branco, de 49 anos, viúvo, lavrador, residente em
Santa Maria, diagnosticado com sarna, após 32 dias de hospitalização, deu
alta como curado. No ano seguinte, em 19/08, com as mesmas características,
mas um ano a mais de idade, 50, retorna com o diagnóstico de reumatismo
e dessa vez fica internado por 52 dias, saindo curado. No início de 1907, um
indivíduo de mesmo nome, com 52 anos, cuja profissão agora aparece como
agricultor, fica internado por cerca de 100 dias, tendo alta como “melhorando”,
cuja doença está registrada como sífilis. As características desse caso nos
levam a pensar que se trata do mesmo homem que, ao longo de quatro anos,

8. Sobre a caracterização desse grupo de doenças, ver em http://bvsms.saude.gov.br/bvs/


folder/doencas_reumaticas.pdf acesso em 18 de janeiro de 2019.

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padeceu de sífilis, porém nos dois primeiros casos de hospitalização, foram
tratados apenas seus sintomas, o reumatismo, e outra moléstia também
relacionada às más condições de higiene, a sarna, doença muito atrelada à
pobreza. Essa trajetória demonstra que embora tenhamos tentado classificar
as doenças em grupos específicos, muitas vezes elas se encaixam em mais
de um grupo. Por isso também tratamos aqui por número de internações
e não de pessoas, pois no caso de Graciano, por exemplo, em cada uma
de suas hospitalizações ele foi classificado de forma diferente, primeiro
em “causas conhecidas, variadas”, segundo em “reumáticas” e, por fim, em
“infecto-parasitárias”.
No quinto maior grupo de enfermidades que acometiam os pobres estão
as “causas mal definidas”, que foram assim denominadas por apresentarem
diagnósticos vagos, que podem indicar alguma doença específica ou apenas
sintomas e situações momentâneas de alguma enfermidade. Dizem respeito
a 137 casos, sendo a maior incidência entre úlceras, 25%, abscessos, 20%,
velhice, 8% - sendo os 11 casos de internação de velhice entre os pobres a
totalidade desse tipo de diagnóstico entre todos os públicos do hospital – e o
restante divide-se em: alcoolismo, edemas, febres, flegmão (muito associado
ao abscesso), feridas, gangrena, hemorragias, hérnias, entre outras.
Há alguns diagnósticos nessa mesma classificação que são descrições,
como dois casos de “entrou moribundo”. Foram os casos de dois homens,
um em 1906, com 60 anos (Hospital de Caridade de Santa Maria, 1906:25) e
outro em 1910, com 20 anos (Hospital de Caridade de Santa Maria, 1910:73).
O primeiro faleceu no mesmo dia que entrou no hospital e o segundo no
dia seguinte. Ou seja, provavelmente ambos recorreram ao hospital em
uma situação já de extremo agravo e não foi nem possível detectar suas
enfermidades. Sanglard (2016:352-353), analisando os registros da Casa dos
Expostos da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro entre fins do
século XIX e início do XX, afirma que “as classificações como ‘moribunda’,
‘fraqueza congenial’ e ‘debilidade congênita’ eram indicativos de que o óbito
era iminente”. Identificamos situação idêntica no Hospital de Caridade
de Santa Maria, mesmo se tratando de um público diferente, com poucas
crianças.

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Outro diagnóstico interessante que consta nesse grupo foi o de um
menino branco, de 10 anos, internado em 1910, com “miséria fisiológica”
(Hospital de Caridade de Santa Maria, 1910:79), que ficou hospitalizado
por 7 dias e recebeu alta como “curado”. O fato de ter sido registrado com
esse tipo de diagnóstico nos leva a pensar que as circunstâncias da pobreza
e miséria causaram, por exemplo, desnutrição e fraqueza. Assim, foi o seu
estado físico, associado à sua condição, que o levou ao hospital para que lá
pudesse recuperar forças e se reestabelecer, saindo curado após uma semana
de tratamento. Infelizmente, não temos informações sobre as terapêuticas
utilizadas, mas levantamos essas questões como possíveis interpretações
deste caso.
Ao refletirmos sobre o sexto grupo de doenças com maior incidência no
hospital entre os pobres, “sistema digestivo”, mais uma vez leva-nos a pensar
sobre as condições de vida dessa população. As principais incidências entre
os 124 casos, foi de 22% com enterite, 18% de gastrite, 15% com embaraço
gástrico, 12% com infecção intestinal e 5% com diarreia, as demais dividem-
se entre constipação, cólica intestinal, dispepsia, gastralgia, gastroenterite,
indigestão e úlcera gástrica. Entre as doenças mais recorrentes, todas remetem
a causas alusivas à má digestão através da ingestão de alimentos e/ou águas
contaminadas. Porém, também pode ser associada às condições de trabalho,
visto que, de acordo com o Dicionário de Medicina Popular, Chernoviz, o
embaraço gástrico pode ter como suas causas “o cansaço exagerado”9.
Witter, analisando a documentação da Comissão de Higiene de Porto
Alegre em meados do século XIX, apontou como a principal causa de
mortalidade problemas no aparelho digestivo, remetendo às suas principais
causas a “má qualidade da água e os alimentos adulterados ou corrompidos,
vendidos nos mercados” (2007, p. 65). Enquanto Oliveira (2018, p. 290),
baseado na documentação da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre num
período posterior, entre 1875 e 1895, destaca que a causa mortis mais frequente
era de doenças infecto-parasitárias (22,85%), seguidas pelas enfermidades
do sistema digestivo (16,68%). O contexto que perpassa a análise de Witter

9. http://dicionarios.bbm.usp.br/pt-br/dicionario/4/embara%C3%A7o%20do%20estomago
acesso em 19 de janeiro de 2019.

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 193 23/01/2020 14:59:25


ficou caracterizado pelas más condições de saúde da cidade, associadas à
má qualidade da água, sendo marcado, inclusive, por pela epidemia do
cólera (1855). Já no período correspondente à pesquisa de Oliveira, Porto
Alegre estava em um momento de intenso aumento populacional (43.998
hab, em 1872, para 73.000 em 1900), constituindo-se enquanto uma cidade
portuária com ativo comércio e várias melhorias urbanas: encanamento de
água, serviço de bondes, iluminação a gás e serviço telefônico (Oliveira,
2018:108). Assim, a principal causa de mortes, as doenças infecto-parasitárias,
estavam muito mais relacionadas à vida urbana e às condições de pobreza,
como a tuberculose, por exemplo. Porém, ainda aparece como a segunda
maior incidência as doenças do sistema digestivo, demonstrando que embora
com as melhorias, os problemas relacionados às más condições de vida e
alimentação ainda eram recorrentes.
Em Santa Maria, tanto entre os pobres, quanto no quadro geral do
Hospital, as hospitalizações por enfermidades do sistema digestivo aparecem
em sexta colocação, com apenas 6,5% dos casos, bem distantes dos 32%
das causas infecto-parasitárias. A essa questão associamos a pobreza, suas
condições de vida e, principalmente, de trabalho, considerando que são
pobres jornaleiros, trabalhadores, agricultores e operários, em sua maioria. As
doenças mais incidentes eram a tuberculose e a sífilis, a primeira altamente
relacionada aos pobres e a segunda à vida sexual desregrada. Ou seja,
se nos contextos estudados por Witter e Oliveira as enfermidades eram
caracterizadas por problemas envolvendo o cotidiano e o ambiente; no caso
do nosso estudo refere-se às condições de vida, trabalho e comportamento.
Os outros dois diagnósticos que aparecem com mais de 100 casos entre
os pobres são as doenças do sistema geniturinário e causas conhecidas
(variadas). Entre as primeiras, as causas concentram-se em problemas renais,
nefrite e insuficiência renal representam 40%. A seguir, aparece o cancro
venéreo, com 12%, cistite, 10% e fimose, 8%. O cancro venéreo também poderia
estar classificado entre as doenças infecto-parasitárias, por representar a
primeira fase do ciclo biológico da sífilis (Batista, 2014:62). Já entre as causas
conhecidas (variadas), mais uma vez aparece o cancro, com 24% dos casos;
anemia, 14%; sarna, 13%; eczema e osteomielite, 8% cada uma; e as demais

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são a maioria relacionadas às doenças dermatológicas: furúnculo, fístulas,
dermatoide, entre outras.
Ao chegar no hospital, o indivíduo era encaminhado para uma das
nove enfermarias10, permanecendo lá até receber alta. De acordo com a
movimentação do hospital, mais de 60% dos pobres deixavam as enfermarias
ou como “curado” ou descrito como “melhorando”. Cerca de 9,6% saíram “a
pedido”, ou seja, possivelmente ainda não haviam acabado o tratamento, mas
por vontade própria deixaram o hospital. Havia alguns casos de transferências:
“para a cadeia”, indicando que os presos também eram hospitalizados; “para
o campo”, todos com essa indicação foram diagnosticados com tuberculose,
o que nos leva a refletir sobre a terapêutica recorrente para essa doença, a
climatoterapia, que recomendava os ares amenos do campo, associado a
repouso, alimentação rica em carboidratos e cavalgadas (Bertolli Filho, 2001).
Com relação ao tempo de permanência no hospital, ele variava entre 1
a 15 dias, sendo de 1 a 7 dias a maioria, dentre todas as categorias: particular,
pobre, brigada militar, ferroviários, guarda municipal e exército. E o terceiro
maior período significativo era de 16 a 30 dias. Ou seja, nos registros em
que consta o tempo de hospitalização, em todas as classificações, mais da
metade do público ficava internado no máximo um mês. Isso indica que o
hospital era um espaço de constante circularidade, de permanência curta e
de melhoria significativa do quadro, pois voltando ao que dizemos acima
sobre a alta, a maioria voltava para casa “curado”, embora não houvesse
“cura” para doenças como sífilis e tuberculose, por exemplo.
Ainda pensando nas “altas”, com foco apenas nos falecidos, a taxa
de mortalidade entre todas as classificações era de 10,95%. Das 5223
hospitalizações entre 1903 e 19013, 572 morreram, porém destes, 418, ou,
73%, eram pobres. Isso reflete que entre todas as internações classificadas
como pobres, a taxa de mortalidade era de 15,3%, a maior entre os grupos.
Analisando exclusivamente esses registros, conseguimos mapear o tempo

10. No Relatório de 1917-1918 não consta o número total de enfermarias, nem de leitos,
mas há indicação da presença de três pavilhões no hospital, o que indica sua ampliação no
período. Existe também a menção a quatro enfermarias para mulheres pobres no andar
inferior e todo piso superior destinado aos pensionistas, demonstrando a separação entre
os sexos e as classificações, questões não distinguidas no relatório da inauguração (Hospital
de Caridade de Santa Maria, 1919:7).

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de permanência desses indivíduos e quais doenças ocasionaram os óbitos.
Em apenas 18 casos, o indivíduo faleceu no mesmo dia que foi hospitalizado.
A maioria, 35,6% veio a óbito na primeira semana e 33% entre o 8º dia e o
1º mês. Ou seja, mais da metade das mortes ocorriam em até um mês de
internação. 20% faleceram entre 1 e 3 meses e em apenas 6,5% dos casos
o indivíduo ficou no hospital por mais de 3 meses até falecer, nenhum
ultrapassando 9 meses, inclusive há apenas um registro desse caso. Entre as
11 pessoas que permaneceram mais de 100 dias hospitalizadas até a morte,
8 tinham mais de 55 anos de idade e, destas, 7 eram solteiras ou viúvas.
Assim, embora na totalidade representem dados ínfimos, podemos identificar
essas características como de indivíduos que, provavelmente, não possuíam
outros recursos de proteção e amparo, como as redes parentais e, por isso,
permaneceram no hospital até a morte, pensando nesse espaço como ambiente
de abrigo. Isso foge à regra geral desta instituição, a qual mostra, através
do pequeno intervalo entre a internação e a maioria dos óbitos, que talvez
os homens e mulheres que lá faleciam, só recorriam a hospitalização em
último caso, quando já se encontravam em um estado avançado da doença.
Os tipos de enfermidades que levaram a óbitos também indicam
essa busca por socorro no último momento. Entre as causas conhecidas –
excluímos os registros não legíveis ou não preenchidos – 51% faleceram em
decorrência de doenças infecto-parasitárias e em segundo lugar aparecem
as enfermidades do sistema respiratório, 8%, seguidas pelas do sistema
geniturinário, 7%. O restante, 34%, divide-se entre sistemas circulatório,
nervoso, digestivo; gravidez, parto ou puerpério; lesões, envenenamentos ou
outras causas externas; e causas conhecidas ou mal definidas. A doença que
mais matou os pobres foi a tuberculose, 80% entre as infecto-parasitárias,
correspondendo a 33% entre todos os diagnósticos. Comparando os dados
de todas as internações com os de mortalidade, notamos que a tuberculose
foi, junto com a sífilis, a doença que mais levou os pobres ao hospital, porém,
de longe, a primeira foi a que mais levo-os a óbito. Há apenas três casos de
morte por sífilis e suas consequências.

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Considerações finais
Nesse estudo compreendemos o hospital como microcosmos da
sociedade, portanto, através dele conseguimos entender a composição social
do interior do Rio Grande do Sul, constituída por uma massa de trabalhadores
pobres, fossem eles jornaleiros, imigrantes, ferroviários ou soldados da
Brigada Militar. Além disso, também percebemos a visão dos envolvidos
naquele processo, por meio da seleção dos grupos que seriam atendidos,
em conjunto com as formas de financiar a instituição. O recebimento das
subvenções municipais e estaduais configuraram o público do Hospital de
Caridade, através do custeio das hospitalizações dos pobres e dos militares,
respectivamente.
Desse modo, ao analisarmos o perfil dos pobres hospitalizados,
concluímos que ele consistia, sobretudo, de homens, nacionais, jornaleiros
ou trabalhadores sem especialização, que buscavam socorro, principalmente
quando diagnosticados com doenças infecto parasitárias, em especial a
tuberculose, a sífilis e a gripe. Entendemos que esse grupo de trabalhadores
pobres recorria à instituição para buscar algum tipo de amparo que colaborasse
para que voltassem ao trabalho. Também percebemos, quando olhamos para
os indigentes, que o hospital era um local de abrigo, em que buscavam
socorro quando viam-se desamparados.
Assim, destacamos a importância de estudos como esse para que
sejam elucidadas questões que reflitam a composição social das cidades
a partir da pobreza, afinal, dela conseguimos visualizar as diferentes faces
que compuseram os trabalhadores urbanos e rurais no início do século XX.

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,Referências:
BATISTA, Ricardo dos Santos. Mulheres livres: uma história sobre prostituição,
sífilis, convenções de gênero e sexualidade. Salvador: EDUFBA, 2014.
BERTOLLI FILHO, Claudio. História social da tuberculose e do tuberculoso:
1900-1950. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2001.
CARVALHO, Daniela Vallandro de. “Entre a solidariedade e a animosidade”:
os conflitos e as relações interétnicas populares, Santa Maria – 1885 a 1915.
Dissertação (Mestrado em História), Programa de Pós-Graduação em
História, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, RS, 2005.
FUNDAÇÃO DE ECONOMIA E ESTATÍSTICA. De Província de São Pedro
a Estado do Rio Grande do Sul – censos do RS 1803-1950. Porto Alegre, 1981.
HOSPITAL DE CARIDADE DE SANTA MARIA. Relatório apresentado
em sessão da Assembleia Geral da Associação Protetora do Hospital, em
7 de setembro de 1904, pelo dr. Astrogildo César de Azevedo, diretor da
Associação e do Hospital. Porto Alegre: Officinas gráficas d’ “A Federação”,
1904. Arquivo Casa de Memória Edmundo Cardoso.
_________. Livro de Registros de Entrada e Saída de pacientes. Livro 1.
Santa Maria, 1905. Arquivo Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo.
_________. Livro de Registros de Entrada e Saída de pacientes. Livro 1.
Santa Maria, 1906. Arquivo Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo.
_________. Livro de Registros de Entrada e Saída de pacientes. Livro 1.
Santa Maria, 1910. Arquivo Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo.
_________. Relatório apresentado em sessão de assembleia geral da
Associação Protetora do Hospital de Caridade, 25 de maio de 1919, pelo Dr.
Astrogildo de Azevedo, diretor da Associação e do Hospital - 1917-1918. Porto
Alegre: Officinas gráficas d’ “A Federação”, 1919. Arquivo Casa de Memória
Edmundo Cardoso.
KARASCH, Mary. A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro (1808-1850). São
Paulo, Cia das Letras, 2000.
OLIVEIRA, Daniel. “Os facultativos são obrigados a declarar [...] cor, [...]
moléstia”: mortalidade, atuação médica e pensamento racial em Porto
Alegre, na segunda metade do século XIX. Tese (Doutorado em História).
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2018.

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ROSSI, Daiane Silveira. A interiorização da assistência no sul do Brasil durante
o início da República. In: KORNDÖRFER, Ana Paula; BRUM, Cristiano
Henrique de; ROSSI, Daiane Silveira; FLECK, Eliane Cristina Deckmann;
e QUEVEDO, Éverton dos Reis (Orgs.) História da assistência à saúde e à
pobreza: olhares sobre suas instituições e seus atores. São Leopoldo: Oikos,
2017.
ROSSI, Daiane Silveira. Assistência à saúde e à pobreza no interior do Sul
do Brasil (1903-1913). 274f. Tese (Doutorado em História), Programa de Pós-
Graduação em História das Ciências e da Saúde, Casa de Oswaldo Cruz,
Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, RJ, 2019.
SANGLARD, Gisele. Entre o Hospital Geral e a Casa dos Expostos: assistência
à infância e transformação dos espaços da Misericórdia carioca (Rio de
Janeiro, 1870-1920). Revista Portuguesa de História – t. XLVII (2016) – p.
337-358.
WEBER, Beatriz Teixeira. As artes de curar: Medicina, Religião, Magia e
Positivismo na República Rio-Grandense (1889-1928). Santa Maria: Ed. da
UFSM; Bauru: EDUSC, 1999.
WITTER, Nikelen Acosta. Males e epidemias: sofredores, governantes e
curadores no sul do Brasil (Rio Grande do Sul, século XIX). 292f. Tese
(Doutorado em História), Instituto de Ciências Humanas e Filosofia,
Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, 2007.
_________. Dizem que foi feitiço: as práticas de cura no sul do Brasil (1845
a 1880). Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001.

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Assistência à saúde no interior da Bahia
oitocentista: A Irmandade da Santa Misericórdia
de Nazaré (1830-1850)

Maria Renilda Barreto1*


João Batista de Cerqueira2**

O artigo é o resultado do projeto “A interiorização da assistência:


um estudo sobre a expansão e a diversificação da assistência à saúde no
Brasil (1808-1945)”, financiado pelo CNPq e tem por objetivo discutir os
mecanismos de organização da assistência à saúde, no interior da Bahia, na
primeira metade do século XIX, a partir da criação da Irmandade da Santa
Casa da Misericórdia de Nazaré, em 1830. 3 Investiga-se quem organizou a
irmandade, com qual finalidade e como essa estrutura se ajustou as demandas
do cenário local, nacional e global. As principais fontes documentais foram o
Compromisso da Irmandade da Santa Misericórdia da Constitucional Cidade
de Nasareth, de 18524 e a compilação dos documentos da instituição, reunidos

1.* Doutora em História da Ciência pela FIOCRUZ, professora e pesquisadora do CEFET/RJ.


2.** Doutor em doutor em Ensino, Filosofia e História das Ciências pelas UFBA/UEFS,
professor da UEFS.
3. Somos gratos ao Provedor da Santa Casa de Nazaré, Sr. Cleidson dos Reis Prazeres, e a
equipe de funcionários que nos atendeu durante a visita. Por fim, minha gratidão a Emanoel
Silva Cairo – a altura Venerável Mestre da Loja Maçônica Fraternidade e Sabedoria em
Santo Antônio de Jesus - que intermediou e nos acompanhou durante a visita ao Hospital
da Santa Casa. Essa pesquisa contou com o financiamento do CNPq.
4. O primeiro compromisso, aprovado em 05 de agosto de 1832, não foi localizado.

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na obra Um século de evolução: contribuição histórica (1º de fevereiro de
1831 – 1º de fevereiro de 1931), publicado em 1933 e republicado em 2006.
A interiorização é entendida como o processo de institucionalização de
formas de organização da assistência – nomeadamente: caridade, filantropia,
auxílio mútuo e políticas sociais – em municípios ou microrregiões localizadas
geograficamente afastadas (interioranos) ou nas periferias (suburbanos)
das capitais.
A Irmandade de Nazaré, discutida nesse artigo, é uma das possiblidades
de compreender a experiência de interiorização da assistência no Brasil
Império a partir de um caráter de unidade nacional, em uma Bahia
marcada pela bandeira do federalismo e das revoltas sociais. A fundação
de irmandades para assistir a pobreza precisa ser compreendida como ação
social em momento de contrarrevolução. Não por acaso o recôncavo rebelde
foi alvo da fundação das misericórdias em Cachoeira, Nazaré e Maragogipe
e Oliveira dos Campinhos, povoação que fazia parte do Termo da Vila de
Santo Amaro. O antigo modelo de articulação entre estado e sociedade em
prol do controle social é reorganizado pelas elites locais, tanto em nível
provincial, como nacional. Para a Bahia, a fundação das irmandades tem a
um só tempo o papel de diálogo entre os poderes local, estadual e nacional,
bem como a organização de segmentos sociais em prol de uma agenda em
comum. As confrarias e seu poder de articulação político-social foi uma
herança do período colonial, remodelada e ampliada numericamente a
partir do século XIX.

Os “principais da terra” e criação das misericórdias do interior


da Bahia
O estado português implantou no Brasil o modelo de assistência
ancorado, fortemente, na atuação das Câmaras e das irmandades de caridade
e confrarias laicas. Dessas, a mais burocratizada e complexa foi a Santa Casa
da Misericórdia que se espalhou por todo império lusitano e deu o tom da
assistência material e espiritual aos seus confrades e aos pobres merecedores
(Abreu, 2000, 2002, 2003; Franco, 2014; Sá, 1997; Boxer, 2001; Araújo, 2012)

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Ainda que a Irmandade da Misericórdia não tenha se proliferado no
Brasil como em Portugal (Franco, 2014) seus ideais e sua complexidade
foram basilares na organização da assistência no Brasil, após o processo de
independência e organização do estado imperial. Entretanto, os estudos
monográficos sobre cada uma dessas irmandades, que abraçaram o rótulo
de Misericórdia, vêm mostrando as especificidades regionais, os arranjos
políticos entre o local e o global, os consensos e dissensos do campo, os
interesses pessoais, as disputas por espaços profissionais e os mecanismos
de legitimação social de grupos localizados nas franjas do tecido social,
dentre outros aspectos.
Na Bahia, durante o período colonial, foram instaladas três irmandades
nos moldes da misericórdia lisboeta em Salvador, Ilhéus e Santo Amaro.
Durante o século XIX, já no período imperial, surgiram mais nove irmandades
localizadas em Cachoeira, Nazaré, Maragogipe, Valença, Oliveira dos
Campinhos (Arraial da Vila de Santo Amaro), Barra do Rio Grande, Lençóis,
Feira de Santana, Oliveira dos Campinhos e Juazeiro. As cinco primeiras
se localizam no Recôncavo Baiano, região estratégica para o comércio
entre o sertão e Salvador, da grande e da pequena lavoura, da produção
hortifrutigranjeira e do pescado.
O processo de expansão das Santas Casas no Recôncavo da Bahia foi
marcado pela participação de homens de elite política imperial, natural de
Salvador ou de Vilas do Recôncavo, donos de terras e de escravos, abastados
comerciantes e homens pertencentes ao topo da hierarquiza política local
e nacional.

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QUADRO 1. Fundação de Irmandades da Misericórdia na Bahia (1549-1980)

PERÍODO Nº Localidade Ano de fundação


1 Salvador 1549
COLÔNIA 2 Ilhéus 1564
3 Santo Amaro 1778
1 Cachoeira 1826
2 Nazaré 1830
I 3 Maragogipe 1846
M 4 Barra do Rio Grande 1852
P
5 Valença 1860
É
R 6 Lençóis 1862
I 7 Feira de Santana 1859
O
8 Oliveira dos Campinhos 1866
I
9 Juazeiro 1885
10 Amargosa 1892
11 Vitória da Conquista 1914
12 Itabuna 1917
13 Santo Antônio de Jesus 1918
14 Senhor do Bonfim 1918
15 Alagoinhas 1920
R 16 São Félix 1923
E 17 Cruz das Almas 1938
P
18 Esplanada 1938
Ú
B 19 Conceição do Almeida 1943
L 20 Serrinha 1948
I
21 Ruy Barbosa 1950
C
A 22 Itambé 1953
23 Itaberaba 1957
24 Itapetinga 1960
25 Miguel Calmon 1961
26 Antas 1970
27 Una 1970
28 Coaraci 1973
29 Canudos 1980

Fonte: Cerqueira (2009); Khoury (2004); Souza e Sanglard (2013).

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Quadro 2. Datas, locais e lideranças responsáveis pela fundação das
Santas Casas no Recôncavo da Bahia, durante o período imperial.

ANO LOCAIS: VILAS E ARRAIAL FUNDADOR PROFISSÃO


Vila de Nossa S. R. do P. da Dr. Antônio Vaz de
1826 Juiz de Fora
Cachoeira Carvalho
Dr. José Gonçalves
1830 Arraial de Nossa Senhora de Nazaré Juiz de Fora
Martins
Dr. Gustavo Xavier de
1846 Vila de Maragogipe Juiz de Fora

Cel. Izidro de Sena
1860 Cidade de Valença Comerciante
Madureira
Pe. Antônio Pinheiro de
1866 Arraial de Oliveira dos Campinhos Religioso
Queiroz

Fonte: Cerqueira (2009); Nascimento (2011); Barbosa (1968).

O perfil de Antônio Vaz de Carvalho é emblemático para compreendermos


quais grupos organizaram a assistência no interior do Brasil, em particular no
Recôncavo Baiano. Vaz Carvalho era proprietário dos engenhos de Conceição
de Itapagipe, na Freguesia de Paripe – região do recôncavo baiano, limítrofe
com as freguesias urbanas de Salvador - e o Engenho Santa Barbara das
Pindas, na Freguesia de Santo Amaro de Ipitanga – atual Lauro de Freitas.
Mas, sua atuação econômica também foi forte na praça de Salvador, onde foi
membro do corpo de comércio da Bahia. Ele estudou Direito em Coimbra,
entre os anos de 1818-1824. Ao regressar ao Brasil ele ocupou o cargo de Juiz
de Fora da Vila de Cachoeira, entre 1825 a 1828 e participou do Tribunal da
Relação da Bahia – espaço da alta magistratura desde o período colonial.
Ele foi membro do Conselho Geral da Província (CGP5), em 1828 quando
esse efetivamente posto em funcionamento e do Conselho do Governo
(Oliveira, 2017).
Vaz de Carvalho foi membro da Santa Casa da Misericórdia da Bahia
e provedor em 1824. Ter ocupado a provedoria da Misericórdia da Bahia
revela que esse homem fazia parte da elite baiana, uma vez que essa era uma
posição de prestígio e poder, ocupada pelos “principais da terra”. Dois anos
depois ele encabeçou o movimento de fundação da Santa Casa de Cachoeira,

5. Segundo Nora Oliveira (2017) o Conselho Geral da Província foi um espaço de projeção
política na esfera nacional.

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zona importante do recôncavo baiano tanto pela produção e escoamento
do açúcar, como pelo protagonismo político nas lutas de independência.
Assim que a Misericórdia ficou estabelecida na vila de Cachoeira, a
irmandade assumiu o já centenário Hospital São João de Deus que, até
aquela data (1826), continuava na condição de patrimônio régio, uma vez
que, desde o ano de 1778, era administrado pelo Senado da Câmara e tinha
os seus dirigentes nomeados pelo Juiz de Fora da urbe (Cerqueira, 2015).
Essa relação entre as elites regionais e a fundação de irmandades da
Misericórdia foi um padrão recorrente na criação dessas instituições, muito
bem discutido pela historiografia que trata do tema (Abreu 2000, 2002,
2003; Barreto, 2005; Boschi, 1996; Pimenta, 2011; Sá, 1997; Russel-Wood,
1968; Franco, 2014; Sá; Boxer, 2001; Araújo, 2012, 2006).
O quanto a Misericórdia de Nazaré se afasta ou se apoia no padrão
conhecido de criação das Misericórdias? À guisa de uma conclusão provisória,
as evidências documentais revelam que a população afrodescendente viu
na criação da Santa Casa da Misericórdia um mecanismo de ascensão e
aceitação social; que através dessa Instituição foi possível estabelecer uma
linha divisória entre os negros, pardos e mestiços fora da lei e “boa sociedade”
local; ingressar no circuito de civilidade e aceitação social ainda que pelo
viés conservador.

2. O recôncavo mandioqueiro
Denomina-se recôncavo baiano as terras ao redor da Baia de Todos os
Santos, numa área entre 10 e 13 mil quilômetros quadrados. Foi uma região
bem drenada por rios, igarapés, manguezais, mata atlântica e terra fértil.
Apesar das características gerais definidoras desse território, o recôncavo
sempre foi marcado pela diversidade demográfica, humana e econômica,
portanto, vamos adotar a subdivisão apresentada por Stuart Schwartz.
Segundo ele o recôncavo foi dividido em três zonas: a) zona norte açucareira
composta por Salvador e suas freguesias urbanas e suburbanas, São Francisco
do Conde e Santo Amaro da Purificação; b) a zona fumageira, no solo arenoso
do rio Paraguaçu e de Cachoeira; c) e o recôncavo sul, onde estavam as vilas
de Maragigipe e Jaguaripe, também chamado de mandioqueiro, caracterizado

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pela agricultura de subsistência (Schwartz, 1985, p. 85). Essa era a configuração
geopolítica do recôncavo no raiar do século XIX e, nosso olhar volta-se
para a zona sul, da pequena propriedade, do roceiro, da policultura, dos
rios povoados por embarcações e por gente de todos os matizes e origens.
O português Luis dos Santos Vilhena, professor de grego que viveu na
Bahia em fins do século XVIII, em suas cartas, nos apresenta o recôncavo
e, para efeito desse texto nos interessa a era a caracterização que ele montou
da Vila de Jaguaripe:
Foi a vila de Jaguaripe fundada no tempo do Exmo. D. João de Lancastre
[Governador Geral entre 1694-1702], e disputa preferência na antiguidade
à vila de Cachoeira; caminhando pelo rio Jequiriçá pela parte norte
começa o termo da vila de Jaguaripe, e continua até o rio Tijuca; acham-
se neste terreno as seguintes povoações: Jequiriçá, que fica defronte
da Estiva, Jacuruna, Santo Antônio da Aldeia, Nazaré, e Tijuca, e além
destas algumas outras à beira-mar, e tem as freguesias (...)

Os efeitos, e gêneros de comércio desta vila são muita louça de barro,


e vidrada, que unicamente se faz nas suas muitas olarias, que dão
provimento em abundância, não só a cidade como a todas as vilas,
povoações e inúmeras fazendas do Recôncavo, e fora dele além de muita,
que sai para quase todas as povoações e portos da costa, e embarcações;
sai igualmente dessa vila toda a telha, e tijolo de que se carece não só na
cidade, como em todas as mais povoações, e fazendas, dela se exportam
tabuados de qualidades diferentes, e muitas madeiras de construção
de edifícios assim na cidade, como pelo Recôncavo; sai da mesma
forma muita lenha, assim para muitos engenhos a quem faltam matos,
e alambiques para provimento de naus, navios do comércio, e mais
embarcações que da Bahia saem, o que tudo são ramos de comércio
daquela vila, além de muita piaçaba, e coquilho que tiram, e vendem,
e que não obstante, o comum é ver-se ali pobreza [grifo nosso].

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Tem muito boas Casa da Câmara, e governa-se com dois juízes
ordinários, três vereadores, e um Procurador do Conselho.6 A sua
matriz é muito boa, e a vila em si bem povoada. Há no seu termo
bastante ilhas, vários rios, e esteiros, onde se pesca delicioso peixe, e
tiram diversos mariscos em suma abundância, que constitui o sustento
ordinário do seus habitantes (Vilhena, 1969: 485-486).

Informa-nos o professor de grego que a Vila de Jaguaripe em fins do


setecentos era tão antiga como Cachoeira, mas que diferentemente da sua
vizinha – considerada por Vilhena como a mais próspera do Recôncavo
por conta da produção de tabaco e açúcar e do rico comércio - se dedicava
a outras atividades econômicas, certamente tão importante quando as de
Cachoeira. Dali saía a louça de uso quotidiano consumida na região – as
talhas, potes, panelas, moringas etc -, as madeiras, a lenha que abastecia o
consumo doméstico e as fornalhas dos engenhos baianos, o pescado, a piaçaba
e a farinha de mandioca. Interessante notar que as cartas de Vilhena, apesar
do propósito de evidenciar o quão promissora eram as terras baianas, deixa
escapar evidências da pobreza social, em local de natureza era pródiga, Casa
da Câmara muito bem instalada e porto bem movimentado.

6. Observa-se que essa composição, válida durante o período colonial, sofrerá alteração a
partir da Lei de 1º de outubro de 1828, a qual determinava que as câmaras das vilas seriam
compostas por apresentariam sete vereadores.

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Fonte: Reis (2003:15)

Apesar da existência de engenhos na região, com plantação de cana,


produção de melaço, aguardente e açúcar, essa parte do Recôncavo foi
marcada pela existência de pequenas propriedades voltadas para a produção
de farinha de mandioca, fumo, dendê, piaçava, frutas, galináceos, pescado
e fabrico de louça. Kátia Mattoso (1992) demonstrou que, em meados do
século XIX os latifúndios coloniais haviam sido fragmentados pelo “jogo das
partilhas”, tornando as propriedades pequenas e fragmentadas. Barickman
(2003) ao trabalhar com a estrutura que determinavam a distribuição da
propriedade fundiária e a ocupação da terra no Recôncavo, em fins do século
XVIII e meados do XIX, reitera o perfil apresentado por Mattoso e configura
a Freguesia de Nazaré como tradicionalmente produtora de mandioca, ao
lado de Maragogipe e Santo Antônio de Jesus.
Uma indicação do predomínio de propriedades pequenas e médias
no sul e no oeste do recôncavo vem do número de proprietários que
se registraram. Aqui é particularmente revelador o contraste entre os
distritos açucareiros e as freguesias do sul e do oeste. Nas freguesias na

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margem norte da Baía, os proprietários não somam, em nenhum caso,
mais de 49. Mesmo uma freguesia grande, como Nossa Senhora da
Purificação de Santo Amaro, um centro de produção de açúcar desde os
fins do século XVI, tinha menos proprietários do que a freguesia, menor
mais compacta, de Nossa Senhora do Rosário do Porto de Cachoeira,
onde o fumo era tradicionalmente a principal cultura. Por sua vez, as
freguesias de Nossa Senhora de Nazaré das Farinhas e São Bartolomeu
da Maragogipe tinham três vezes mais proprietários rurais que Nossa
Senhora da Purificação. Os proprietários eram ainda mais numerosos
em Santo Antônio de Jesus, onde a posse da terra estava dividida entre
quase quintetos proprietários (Barickman, 2003:185).

Estudos clássicos sobre o recôncavo chamaram chama atenção para a Vila


de Jaguaripe, como um exemplo de pouca concentração de posse de escravos
e grande distribuição de propriedade (Schwartz, 1985; Barickman, 2003).
Ana Maria Carvalho dos Santos Oliveira (2000) estudou as propriedades
agrárias no recôncavo sul, particularmente na freguesia de Santo Antônio
de Jesus, pertencente a Vila de Nazaré até 1880. Nessa região, até 1862 a
concentração fundiária era pequena, com 85,8% dos proprietários donos
de apenas um “pedaço de terra”. O quadro vai se alterando nas décadas
seguintes e esse percentual cai para 54%, contudo preponderaram as pequenas
e médias propriedades camponeses, 92 de 99 investigadas. Oliveira (2000),
adotando a classificação proposta por Kátia Mattoso (1978) identificou 28
proprietários como pobres uma vez que eles possuíam pequenos lotes de
terra, com o mínimo de benfeitorias, cultivadas por poucos escravos e pela
mão-de-obra familiar. Para Walter Fraga Filho (1996) o pobre na Bahia era
aquele que possuía um casebre, um escravo, algumas roupas e móveis; os
que não tinham escravos e viviam do próprio trabalho estavam na condição
de extrema pobreza.

O entorno social
Nazaré localiza-se parte sul do recôncavo baiano, na contracosta da
Ilha de Itaparica, situado na margem direita do Rio Jaguaripe. Em 1831 -
um ano após a criação da Irmandade da Misericórdia - o arraial de Nossa
Senhora de Nazaré, pertencente a Vila de Jaguaripe, adquiriu autonomia

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político-administrativa e foi elevado à Vila de Nossa Senhora de Nazaré.
Posteriormente, através da Resolução Provincial No 368, de 10 de novembro
de 1849, a vila passou a ser denominada de Constitucional Cidade de Nazaré.
Para o historiador atento, salta aos olhos a fundação da Irmandade
da Misericórdia em uma freguesia. Por que a escolha de Nazaré e não de
Jaguaripe? De partida podemos interpretar que essa foi uma estratégia
política dos locais para elevar Nazaré à categoria de vila. A literatura aponta
a crescente importância econômica de Nazaré a partir de início do século
XIX, com grande movimentação em seu porto e, como centro produtor e
exportador de farinha de mandioca, produto de grande importância na
dieta alimentar baiana (Vianna, 1893; Freire 1906; Mattoso, 1992; Oliveira,
2000; Barickman, 2003).
Além disto, as transformações políticas ocorridas na primeira metade
do novecentos revelam o crescente poder da “boa” sociedade local, articulada
ao poder provincial. Nessa espiral de ações a criação da Santa Casa da
Misericórdia, a despeito da existência de outras irmandades7, indica que a
elite local viu na Misericórdia o seu espaço de distinção social, a marca de
prestígio e poder que as inseria no repertório de civilidade, de proximidade
com o poder político e de ascensão simbólica. Se por um lado a Irmandade
da Misericórdia foi o espaço de qualificação e distinção dos “melhores da
terra”, por outro nos interessa questionar como era a configuração social da
região na primeira metade do século XIX.
A região, qualificada por Vilhena como de “comum pobreza” era
atravessada por tensões permanentes entre escrava/sos, libertas/os, mulheres
e homens pobres, com as autoridades e fazendeiros. A década de 1830 foi
bastante turbulenta na Bahia com inúmeras revoltas de cariz diverso:
anticolonial, antilusitana, federalista, militar e escrava. Nesse cenário de
agitação social provocada plebe livre, como diz João José Reis, os africanos
e seus descendentes perceberam que “as rupturas institucionais e divisões
entre os brasileiros livres poderiam facilitar-lhes o sucesso” (Reis, 2003:45).
No recôncavo, a vida dos roceiros e dos comerciantes não foi tranquila.

7. Vale salientar que havia outras Irmandades na freguesia de Nazaré em 1816: Irmandades
das Almas, Coração de Jesus, do Santíssimo Sacramento e São Benedito (Livro de Registro
de Óbitos da Freguesia de Nossa Senhora de Nazaré de Jaguaripe, 1816:1).

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Em 1832 os soldados que lutaram na guerra de independência atacavam os
povoados e chegaram a ameaçar invadir Nazaré e suspender o comércio
de víveres. Antes disso, em 1809, um grupo de duzentos a trezentos cativos
em fuga haviam tentado tomar o povoado de Nazaré (Barickman, 2003).
Zona de constante conflito e local de esconderijo de cativos fugidos, de
formação de quilombos, de planejamento de rebeliões escravas e de trânsito
de libertos a criação de uma Santa Casa da Misericórdia também pode
ser compreendida como um elemento de pacificação e de controle social.
Na composição do nosso argumento vamos usar largamente o trabalho
de Wellington Castellucci Junior (2008). O pesquisador, ao estudar as
estratégias de luta e resistência de escravos e libertos (1830-1850), no período
de intensificação dos processos disciplinares, compôs o cenário social dos
excluídos, no qual nos apoiamos para compreender quem era a população
em situação de fragilidade, os pobres, tão mencionados na documentação da
Santa Casa de Nazaré. Certamente, o grupo social trabalhado por Castellucci
Júnior compôs o segmento alvo das ações repressão e de pacificação.
No início do século XIX estima-se que havia na freguesia de Nazaré
cerca de 1439 pessoas escravizadas (Barickman, 2003: 214). Em 1876, já
elevada a categoria de cidade, a urbe contava com aproximadamente 13.344
pessoas, sendo 2.284 cativas (Oliveira, 2000:51). Ainda nos faltam pesquisas
que permitam recuperar o perfil racial da população de Nazaré, ao longo do
período estudado. Contudo, a região possui um percentual significativo de
pretos e pardos, segundo o censo do IBGE, em 2010: dos 27.274 habitantes do
município, 6.166 eram pretas e 16.917 eram pardas. Desse modo, 84,63% dos
habitantes são afrodescendentes. Essa questão racial é demasiadamente forte
para desconsideramos a possibilidade de, no passado, aquela região ter sido
o local de assentamento de negras/os e mestiças/os, em todos os segmentos
sociais, desde os poucos afrobaianos com alguma fortuna, passando pelos
remediados, chegando aqueles das franjas do tecido social, na linha da
pobreza ou abaixo dela, na indigência.
De volta ao século XIX, aquela “gente perigosa” estudada por Castellucci
Júnior (2008) reagiu a tentativa de disciplinarização organizada pelo estado,
as leis municipais que visavam proibir a circulação de pessoas desconhecidas,

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fiscalizar a movimentação portuária e evitar os crimes e as fugas tão comuns
naquela região. Diante das inúmeras evidências de uma Bahia rebelde e de
um território explosivo8 os juízes de paz do recôncavo sul se reuniram em
novembro de 1831 com o propósito de evitar a articulação entre libertos,
cativos, ciganos e vadios9. Os negros, mulatos e pardos que seguiam os
caminhos das águas, com produtos necessários para o abastecimento local
e escoamento da produção deveriam apresentar um passaporte emitido
pela autoridade policial de origem, com a descrição de sua aparência física.
Essa população, sistematicamente burlou o regramento oficial, construiu
alternativas de sobrevivência e de liberdade, facilitada pela geografia da
região – ribeirinha, litorânea e de mata fechada – onde, “grande número de
escravos fugitivos e forros, procurados pela justiça, zanzaram e escaparam
das malhas da lei, fincando ali moradia ou apenas passando rapidamente para
tão logo se deslocarem na direção sul da Província [da Bahia]” (Castellucci
Júnior, 2008: 272-273).
Em 1825 Antonio Joaquim da Costa, residente na vila de Santo Amaro,
ofereceu recompensa para quem denunciasse o paradeiro do escravizado
Antônio, alfaiate, que fugira havia um ano e sete meses. O anuncio finalizava
informando que Antônio nasceu na Vila de Cachoeira - onde morava sua
mãe - e que havia sido visto em Jaguaripe ou Maragogipe (AVISOS, Jornal
Grito da Razão, 02/08/1825: 4.). Essa anúncio é um, entre dezenas, que
reportava a fuga de escravizados mas, nos interessa no âmbito desse artigo, o
itinerário da fuga – do recôncavo do açúcar para o recôncavo da mandioca.
Não nos causaria espanto se Antônio Alfaiate vivesse e circulasse na zona sul
do recôncavo, com outra identidade, camuflado por uma rede de proteção
de mulheres e homens negros, que pelos mais variados motivos, o colocou
sob proteção.
Ser negro, independente se escravo, livre ou liberto representava, aos
olhos do estado um perigo em potencial. As autoridades governamentais
tentavam, sem sucesso, controlar a questão social por leis, pela força das
armas e pela violência. Vale lembrar a criação da Guarda Nacional em 18

8. Sobre os inúmeros movimentos de contestação ao estado e à escravidão ver Lina Aras


(2012), Joao Reis (2003), Schwartz (1996).
9. Sobre a interpretação da vadiagem na Bahia do século XIX ver Walter Fraga Filho (1996)

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de agosto de 1831, a qual reforçou o mandonismo local, alargou a rede de
favores e perseguições e ampliou os poderes dos proprietários de terra. A
autoridade civil, empoderada pelo estado, passou a defender seus interesses,
escolher seus protegidos e reclamar, pela força das armas, o que julgava
que lhe pertencia (Falcon, Rodrigues e Neves, 1981). As ações da Câmara
Municipal e da Guarda Nacional estavam longe de serem pacificadoras! Mas
uma Santa Casa poderia representar um respiro de acolhimento para aquelas
pessoas tão perseguidas e reativas e uma forma de controle das elites sobre
os explosivos pobres e miseráveis. Os homens que estavam na Câmara eram
os mesmos que estavam na Guarda Nacional e na Misericórdia.

A Irmandade de Nazaré
A segunda Santa Casa do recôncavo fundada na Freguesia de Nazaré,
Termo da Vila de Jaguaripe, também foi organizada por um Juiz de Fora, José
Gonçalves Martins, nascido em Santo Amaro, filho de Raimundo Gonçalves
Martins. Diplomado em Direito na Universidade de Coimbra entre 1822-1827,
Gonçalves Martins era agente do governo, tal qual Antônio Vaz de Carvalho
que liderou a fundação da Santa Casa de Cachoeira.
A Misericórdia de Nazaré foi instituída em 30 de agosto de 1830, a partir
de uma reunião na residência do camarista Francisco José de Araújo Cruz,
onde estiveram presentes José Gonçalves Martins e outros “cavalheiros de
destaque”. Segundo o magistrado havia grande número de indigentes doentes,
vindos de vários lugares do recôncavo e do sertão, espalhados pelos beirais
das casas e outros pontos da cidade, a pedir misericórdia. Ele considerava
essa cena incompatível com os “foros de civilização”, daí a necessidade de
fundação de um hospital que pudesse amparar “aquela gente infeliz”, oprimida
pelas “enfermidades e penúria” (Um século de evolução, 2006).
No plano ideológico a criação da irmandade se pautou na caridade, no
patriotismo e na civilidade. No plano material Martins direcionou quem
seriam os merecedores da assistência a ser prestada pela Santa Casa: os
braços agrícolas e o trabalhador indigente; os compatriotas que caíram em
miséria e que ficaram impossibilitados de prover o seu sustento e cuidar dos

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seus males; a viúva; a mulher solteira, virtuosa e trabalhadora (Um século
de evolução, 2006).
A Misericórdia de Nazaré estava sob a proteção dos santos padroeiros
Senhor Bom Jesus dos Aflitos e Nossa Senhora; e, pelo Compromisso de
1852 era formada por indivíduos de ambos os sexos, com o propósito de
exercer a caridade a partir dos seguintes meios: a) criar um hospital para
socorrer os doentes pobres; b) sepultar os mortos em cemitério próprio; c)
criar as/os enjeitados/as em casa da própria irmandade ou de particulares,
encaminhado os meninos para uma profissão e as meninas para o casamento;
d) sustentar os presos pobres, prestar conforto espiritual e sepultamento
dos condenados a execução penal.
A irmandade era hierarquizada, assim como a sociedade, havendo oito
classes de irmãos. Para ingressar a/o pleiteante fazia um requerimento à mesa
e pagava uma joia de cinquenta mil réis. Deveriam ter idade completa de
21 anos ou ser emancipada/o, ter meios honestos estáveis de subsistência e
conhecida morigeração.
A primeira mesa ad hoc foi formada por José Gonçalves Martins,
pelo alferes Antônio Nunes Pinheiro e Manuel Joaquim Gonçalves, pelos
advogados Pantaleão Conegundes de Souza e Manuel Clemente Caldas.
Ainda em setembro de 1830 ocorreu eleição e posse da primeira mesa
constituída por 16 membros, sendo quatro oficias (provedor, escrivão,
tesoureiro e procurador), doze visitadores e doze zeladoras. Dos 16 homens
que compunham a mesa dez eram militares, um era juiz. É notável que os
integrantes da mesa compusessem a elite local, o que revela uma característica
das misericórdias tanto em Portugal como no Brasil.
A existência de militares - tantos homens de armas – alferes, tenente
e capitão – na mesa diretora indica que a defesa do território e da ordem
era fundamental para Nazaré. Outras possibilidades de análise podem ser
levantadas a partir da síntese elaborada por Marta Lobo de Araújo (2012)10
para as misericórdias portuguesas no período moderno, analisadas como
espaços de enquadramento das elites, de caridade e de pacificação social.
A historiografia portuguesa registrou a presença de oficiais do exército nos

10. Para os estudos de caso e a referência bibliográfica completa ver Araújo (2012).

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cargos diretivos, na região fronteiriça de Vila-Viçosa e Monção (Araújo,
2000, 2008, 2012). Partilhamos da interpretação de Araújo de que os militares
abriram importante força social nas irmandades, com poderes específicos
em dada conjuntura; e esse grupo teve em contrapartida o reforço de seu
poder e prestígio locais, ingressou em uma rede de solidariedade, garantiu
acesso a tratamento de doenças e ferimentos, amparo em caso de invalidez
e, sobretudo, o enterramento digno11, as missas para as almas.12
As mulheres figuraram como integrantes da mesa apenas no compromisso
de 1832. No segundo compromisso, em 1852, elas passam a ser chamadas
de “irmãs protetoras” com a obrigação de visitar as enfermarias femininas
do hospital, a Casa dos Expostos, o Recolhimento, cuidar da rouparia dos
estabelecimentos da Santa Casa e fornecer alguns insumos para o curativo
dos enfermos. É perceptível que a partir da sedimentação da Misericórdia
as mulheres vão perdendo espaço, ainda que duas tenham sido benfeitoras:
Berrnarda Maria de Jesus Caldas (1832) e Constança G. Vasconcellos -
Baronesa do Taytinga – (1862). Para o mesmo período encontramos três
benfeitores: José Gonçalves Martins (1831), Antonio Francisco Tinta – Barão
de Taytinga – (1834) e Pedro Rodrigues Bandeira (1836).
D. Maria Vicência da Lapa, em 1846, tornou-se irmã de 1ª classe ao doar
uma casa arruinada, situada à rua do Cotovelo e, posteriormente, alienada
por 60$000 (sessenta mil reis) por está “muito arruinada” (Um século de
evolução, 2006: 21). Certamente, a conduta moral de D. Maria estava dentro
do código de comportamento desejado pela sociedade local. A doação não
foi tão expressiva se comparada ao preço do escravizado José, arrematado
em hasta pública para servir no hospital, por 301$000.
A preocupação com a morte levou Anna Rita Xavier a deixar para a Santa
Casa um crucifixo de prata e ouro com a condição da Irmandade fazer o seu

11. As honras fúnebres consistiam em ter o cadáver conduzido no esquife rico das Irmandades,
ser conduzido ao cemitério, ter o corpo encomendado pelo capelão, ser sepultado nos
carneiros do cemitério irmandade, e ter missa celebrada, todos os anos, no mês de janeiro.
Sobre o significado simbólico do enterramento ver João José Reis (1995).
12. Segundo o Art. 22 do Compromisso de 1852, os irmãos em situação de extrema em casos
de extrema indigência, resultante de doença ou avançada idade receberiam subsídios em
dinheiro. Aos doentes seriam dados tratamento e alimentação no hospital da irmandade,
em enfermaria separada dos demais enfermos.

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enterro e da sua irmã, e celebrar missa por sua alma. Essa segunda mulher,
diferente da primeira, não era uma sinhá dona, não se tornou membro da
irmandade mas negociou as condições para uma boa morte.
Preocupação com a morte teve a Maria Thereza que deve ter deixado
testamento regulando sei bom morrer. Essa mulher, crioula e viúva, morreu
aos cem anos, em 13 de agosto de 1831, recebeu os Sacramentos de Penitência
e a Extrema-unção, teve enterro solene, com todos os sacerdotes da Povoação
presentes, foi sepultada na Igreja Matriz de Nazaré, com o hábito de São
Francisco. Teve o corpo encomendado pelo Vigário Manuel Jacintho P. de
Almeida que servia à Santa Casa de Nazaré (Livro de Registro de Óbitos,
Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, 1831).
O caso de Maria Thereza - que não era uma sinhá dona, mas que teve
sua morte regrada aos moldes da elite baiana - bem como os retratos dos
benfeitores e das benfeitoras que estão expostos no salão nobre da Santa
Casa de Nazaré, revelam a cor da pele da elite nazarena: eram homens e
mulheres de cor, para usar a mesma expressão de Thales de Azevedo (1996)
ao tratar da elite negra soteropolitana, ou afrodescendentes, para usar uma
categorização racial dos nossos dias.
Doar objetos, dinheiro, escravos e objetos litúrgicos foram comuns em
Nazaré. Seus doadores caiam nas boas graças da Irmandade, ampliavam a
admiração, o respeito e incrementavam o capital social. Em uma sociedade
onde a troca de favores era a tônica das relações essa atitude estava revestida
de significado simbólico, político e social. Foi o caso de Antônio Francisco
Pinheiro que em março de 1848 ofereceu cem mil reis a fim de que lhe
fosse permitido carregar a imagem do Senhor dos Aflitos – padroeiro da
Irmandade, na procissão dos Fogaréus (ou Endoenças). A proposta foi
aceita e Pinheiro se tronou irmão de 2ª classe. Se ele carregou o andor do
Senhor dos Aflitos não sabemos mas a imagem do santo de devoção era toda
aparelhada em prata, tendo o diadema uma flor de ouro no centro, também
de ouro eram as letras de inscrição no alto da cruz e foi doado pelo Barão de
Taytinga. Cabia a ele a prerrogativa de conduzi-la na procissão de Endoenças
(Um século de evolução, 2006: 21). A estratégia de Antônio Francisco revela
os mecanismos de ascensão de homens que não nasceram sob o manto da

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fortuna e do reconhecimento social e que usaram a irmandade como forma
de distinção social, de estar próximo dos mais poderosos, de reforço das
redes de sociabilidade e clientelismo.

O Hospital
O hospital foi a primeira ação social da Misericórdia de Nazaré,
inaugurado em 01/02/1831, com o internamento de oito doentes. Em setembro
de 1830 a mesa deliberou a compra de duas casas contíguas, localizadas
nas proximidades do Cemitério do Senhor dos Aflitos, para ali instalar
o Hospital. Em 1852 ele foi transferido para a Rua do Padre Antunes e a
Irmandade começou a planejamento de construção de um edifício próprio,
o qual foi inaugurado em 28 de outubro de 1888. Ter um hospital como
ponto de partida para criação de uma Misericórdia constituiu-se em uma
ação padrão moderno, em Portugal e no seu império colonial e, em Nazaré
não foi diferente. (Barreto, 2005; Maria Antónia Lopes 2012, 2017; Araújo,
2009; Sá 1997; Abreu, 2000)
Para assegurar o funcionamento do hospital, de partida, foram contatados
uma senhora viúva para servir como enfermeira, recebendo alimentação e
3$000 e o cirurgião Gervasio Joaquim do Amparo que ficou sob supervisão
do médico Cezar Perciani. Coube a ele formular o regulamento do serviço
do hospital, que foi aprovado pela mesa em fevereiro de 1835.
Para os serviços gerais foi arrematado o escravo José. Com o passar dos
anos cresce o número de doentes nas enfermarias do hospital e foi contratada,
em 1836, outra senhora para o serviço de enfermagem, ganhando 3$000,
mais alimento e roupa lavada. Cresce também o número de escravos doados
por irmãos. Em 1838 foi contratado o médico Antonio Manuel de Souza,
com salário de 120$000 anuais. O medicamento era fornecido pela botica
do farmacêutico Francisco do Nascimento, por 10$000 mensais.
Os registros hospitalares eram feitos no livro de entrada e saída de
enfermos que ficava sob responsabilidade do enfermeiro. Havia outro livro
para registro de receita e despesa. A receita para manutenção do hospital
vinha das esmolas arrecadadas, das doações dos doentes, dos bilhetes de
loteria e dos legados.

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Logo após a fundação do hospital a Irmandade da Misericórdia é
autorizada pela Província a receber dotação orçamentária para cuidar dos
presos pobres. Em 1835 o governo provincial estendeu a Santa Casa de
Nazaré os mesmos privilégios, regalias e isenções que gozava a Santa Casa
da Misericórdia da Bahia. As relações políticas da Irmandade de Nazaré
são reforçadas com a visita do Presidente da Província – Francisco Martins
Gonçalves – e comitiva, em abril de 1849, bem como do Imperador Pedro
II, em novembro de 1859. Tais evidências revelam que a Misericórdia de
Nazaré fez parte da construção do Estado Imperial brasileiro.
A movimentação do hospital flutuou entre duas e seis dezenas de doentes
por ano, e pelas poucas evidências o público era formado por soldados,
irmãos, presos e pobres desvalidos (Um século de evolução, 2006:38). A
despeito de não termos encontrado o livro de registro de pacientes é bem
provável que essa descrição corresponda ao perfil do público, uma vez que
nas primeiras décadas do século XIX o hospital era o espaço daqueles que
se encontravam fora dos laços de solidariedade. O tratamento das doenças
ocorria no espaço doméstico, onde o enfermo era cuidado pelos familiares,
parentes e amigos. Cidades que possuíam um intenso fluxo populacional,
seja por conta do porto, da agricultura ou da concentração de operários
organizaram hospitais para assistir doentes em trânsito e aqueles excluídos
das redes de sociabilidade familiar e territorial (Lopes, 2016; Barreto, 2005,
2011; Correa, 2018).

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Gráfico 1. Movimentação do Hospital (1831-1850)

Fonte : Um século de evolução, 2006:161.

Tabela 2. Movimentação do Hospital (1831-1850)


curados e
Ano no doentes falecidos
melhorados
1831 63 39 14
1832 28 17 14
1833 72 42 31
1834 77 46 30
1835 66 46 18
1836 68 42 22
1837 99 67 36
1838 73 42 30
1839 81 44 36
1840 62 37 27
1841 87 41 44
1842 52 29 24
1843 69 35 32
1844 71 32 32
1845 73 43 29
1846 85 52 40
1847 105 58 43
1848 93 58 35
1849 83 51 31
1850 100 56 44

Fonte : Um século de evolução, 2006:161.

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Dos dados obtidos através do registro de óbito da Freguesia de Nossa
Senhora de Nazaré entre os anos de 1831-183313 percebe-se que o perfil desse
pequeno grupo corrobora o quadro geral dos atendidos pelo hospital de
Nazaré. A seguir, apresentamos nove casos de doentes que faleceram no
Hospital da Misericórdia de Nazaré: 1) Manuel de Jesus Cardozo faleceu
em 07 de março de 1831, no Hospital da Misericórdia de Nazaré, com vinte
e cinco anos, pardo, casado não se sabia com quem, foi sepultado na Igreja
da vila, e seu corpo foi coberto com uma mortalha branca; 2) em 07 de
maios de 1831 foi óbito Josefa Maria, de trinta anos, por conta das moléstias
interiores, não se soube se era casada ou solteira, mas foi sepultada na Igreja
matriz, com mortalha branca; 3) Anna era branca, viúva, morreu em 04 de
junho de 1831, com tísica, foi sepultada também da Igreja Matriz, vestida com
mortalha branca; 4) Victorio Marinho Falcão morreu de hidropisia, em 08
de junho de 1831, na altura tinha 30, foi sepultado na Igreja Matriz, portando
mortalha branca; 5) Aos 21 de junho 1831 faleceu de moléstias interiores Maria
de Tal, cabra, solteira, com oitenta anos, sepultada na Matriz, com mortalha
branca; 6) 01 de julho de 1831 morreu Maria [?], com 48 anos, branca, solteira,
sepultada na Matriz, amortalhada de branco; 7) em 23 de janeiro de 1832
faleceu um dos enfermos que se achava no Hospital [ilegível]14; 8) Thomás
José Tourinho, branco, solteiro, com 20 anos, morreu em 19 de outubro de
1833, foi amortalhado de branco e sepultado, por caridade, no Cemitério; 9)
Manoel Severinno da Silva, pardo, com 44 anos, casado, morreu de jatos, em
22 de dezembro de 1833, foi amortalhado de branco e sepultado por caridade
no Cemitério (Livro de Registro de Óbitos, Paróquia de Nossa Senhora de
Nazaré - Bahia, 1831-1833).
A análise qualitativa dos dados acima demonstra um grupo de pessoas
em zona de fragilidade social seja pela idade avançada nos moldes do século
XIX – acima de 45 anos, seja pelo desconhecimento dos familiares ou por
ter sido enterrado pela caridade, provavelmente com caixão e mortalha
fornecidos pela Santa Casa. O que todos trazem em comum, além da morte, é

13. Agradecemos a Wellington Castellucci Júnior a indicação dessa e de outras fontes que
nos ajudou a compor o perfil social do recôncavo sul.
14. Os registros estão ilegíveis entre 10 de outubro de 1831 a 7 de novembro de 1833. É provável
que outros doentes tenham falecido no hospital nesse espaço de tempo.

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terem recebido os sacramentos e os seus corpos amortalhados de branco. Joao
José Reis (1995) nos mostra que na Bahia da primeira metade do século XIX
havia preocupação do indivíduo em se preparar para a morte. Quando esse
momento chegasse o moribundo deveria receber os sacramentos – comunhão
e extrema-unção - e o corpo preparado para sua última viagem: banhado,
unhas e cabelos aparados, barba feita, e vestimenta adequada, fossem as suas
melhores roupas ou as mortalhas ritualmente significativas. Nesse quesito Reis
(1995, p. 119) constatou 34 variedades de roupa funerária nos livros de óbitos
das paróquias de Salvador: mortalhas brancas, pretas, coloridas, vermelhas,
traje franciscano, batinas, fardas militares e escolares.15 Em nossa pesquisa,
dentro do mesmo período e com as mesmas fontes delineia-se a mesma
tendência, tendo a predominância da mortalha branca, seguida da preta e
por, fim a de São Francisco, como vimos no caso da crioula Maria Thereza.
O sucesso do hospital também revela que aquela não era uma área
dominada pelas grandes propriedades dispondo de hospital para tratamento
de doentes. A recente historiografia aponta para a existência de enfermarias
e hospitais nas grandes e médias fazendas possuíam das províncias do Rio
de Janeiro e Minas Gerais (Oliveira e Barreto, 2019; Keith Barbosa, 2014;
Oliveira 2016 ; Mariosa, 2006; Pereira, 2011, Almeida, 2012; Loner et al
(2012). Esse sistema de assistência à saúde dos escravos foi comum na pela
plantation escravista do Caribe e dos Estados Unidos da América (Sheridan,
1985; Savitti, 1978). Ainda faltam estudos de casos para podermos tecer um
panorama geral, mais tudo indica que onde houve hospitais rurais a existência
dos equipamentos urbanos ficou comprometida (Oliveira e Barreto, 2019).
Nazaré, uma região que se constrói sua identidade desembarcadouro
portuário, de fluxo de pessoas e mercadorias, de zona produtora de farinha,
marisco, dendê, frutas e raízes, o investimento em um equipamento de
saúde foi fulcral para o desenvolvimento da cidade. Houve esforço privado
e filantrópico articulado ao estado, na criação e manutenção de um hospital
privado, para benefício público.

15. Sobre a simbologia das roupas mortuárias ver Reis (1995).

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Conclusão
No recôncavo sul se formou quilombos, comunidades autônomas e
autossustentáveis de negras/os fugitivos e libertos. Os forros montaram
acampamentos na zona de manguezal e na orla ribeirinha, de onde tiravam
seu sustento com as atividades de pesca, pequeno roçado ou prestando
serviço como jornaleiro nas fazendas e nas embarcações; também foram
posseiros ou rendeiros, constituíram relações familiares e estratégias de
sobrevivência. Esse grupo populacional enquadra-se na categoria população
pobre, alvo da pacificação e do controle social exercido pelo poder público
e pela sociedade civil.
A Câmara Municipal, a Guarda Nacional e a Santa Casa da Misericórdia
de Nazaré formam instituições basilares na construção do estado imperial
no recôncavo sul, a partir do binômio repressão e caridade. À Misericórdia
coube a função de proteger os seus membros, de auxiliar o pobre trabalhador
e a infância abandonada. Com tais ações essa instituição organizou os lugares
sociais, a rede de clientela e a mão-de-obra local, dando o tom de civilidade
e de pacificação social para a cidade em construção.
O ponto alto da assistência em Nazaré foi a criação e administração do
hospital. Esse equipamento alcançou o público flutuante, pretas/os livres,
escravos e agregados dos pequenos proprietários locais que não dispunham de
hospitais e enfermarias nas suas propriedades, e os membros da irmandade.
Dessa forma, a Misericórdia de Nazaré estruturou redes clientelares, tratou
da mão-de obra local uma vez que a doença era um obstáculo ao trabalho
e, por fim, se tornou espaço de barganha política e ascensão social de uma
elite de cor, junto ao poder público.
A complexa teia de relações socioeconômicas do recôncavo sul foi
pautada pela articulação da elite local, nitidamente afrodescendente, que
escolheu uma rota tradicionalmente trilhada “ pela boa sociedade”, qual
seja, a de organizar a assistência local, tomando para si o protagonismo
de pacificação social e de construção do estado. Dessa forma, os pretos,
pardos e mestiços de Nazaré elaboraram estratégias de diferenciação social,
capitalizaram prestígio, ampliaram os contatos socais e deram o tom da
civilidade local, ainda que por vias conservadoras.

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Assistência na Bahia no alvorecer da República: a
Santa Casa de Misericórdia de Amargosa

Christiane Maria Cruz de Souza

Neste capítulo, toma-se por objeto de reflexão a Santa Casa de


Misericórdia de Amargosa, no intuito de desvelar os contornos historicamente
construídos que modelaram a oferta de assistência à população pobre do
interior da Bahia, em período imediatamente subsequente à Proclamação da
República.1 O município de Amargosa está situado na interseção da zona da
mata Atlântica e o semiárido baiano, atualmente denominada de Recôncavo
Sul. Na época de criação da Irmandade da Misericórdia (1892), a cidade
havia sido recém-emancipada e desfrutava da prosperidade resultante do
desenvolvimento das lavouras cafeeira e fumageira.
A partir do estudo dessa confraria, objetiva-se compreender como o
Estado, em parceria com os poderes regionais e locais, estruturou e ofereceu
assistência pública através de instituições privadas e como isso se refletiu na
conformação do poder político em nível local. Ao longo do texto, pretende-

1. Texto elaborado a partir das pesquisas realizadas no decorrer do projeto “A interioriza-


ção da assistência: um estudo sobre a expansão e a diversificação da assistência à saúde no
Brasil”, coordenado por Luiz Otavio Ferreira (COC/FIOCRUZ), cujo objetivo é estudar o
processo de expansão da assistência à saúde em cidades do interior das Províncias/Estados
de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia entre 1840 e 1945.

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se, igualmente, analisar o processo de formação da Santa Casa no município,
caracterizar os protagonistas e os alvos das ações beneficentes e discutir
a relação entre a Irmandade e os poderes instituídos, na expectativa de
suscitar reflexões sobre o papel das Misericórdias na nova ordem política
e socioeconômica. Almeja-se, assim, contribuir para o debate sobre as
permanências e transformações ocorridas nesse modelo de assistência na
longa duração.
O texto se dividirá em duas partes: na primeira, será apresentado o
processo de povoamento e desenvolvimento do município, enfatizando
aspectos econômicos, político-administrativos, sociais e culturais; na segunda,
o foco recairá sobre o processo de formação da Santa Casa, a composição,
as ações propostas, os alvos dessas ações e o custeio destas nos primeiros
anos de funcionamento da Irmandade.
Para embasar as reflexões apresentadas, recorreu-se a fontes primárias,
muitas delas inéditas, como a Ata de fundação e o Compromisso escritos
em 1892, o Relatório da Santa Casa de Misericórdia de Amargosa escritos
em 1896 [ca.], impressos e publicados em 1938, o Livro Caixa de 1892, o
Relatório de 1947. 2 Os censos, os pronunciamentos das autoridades públicas,
os jornais em circulação no período, os almanaques, dentre outras fontes
também contribuíram para ampliar a compreensão do assunto, além da
literatura especializada e transversal, produzida no Brasil e em Portugal.

Sinais de civilização e progresso


O povoamento do atual município de Amargosa, Bahia, teve início
na segunda década do século XIX, quando as famílias de Gonçalo Correia
Caldas e Francisco José da Costa Moreira se instalaram em planalto irrigado,
de clima ameno, próximo à localidade de Pedra Branca, onde já havia um
aldeamento de índios Kiriri e Sapuyá. Ali se formou um próspero povoado,
erguendo-se, por volta de 1840, uma capela em devoção a Nossa Senhora
do Bom Conselho. (REGO, 2009:45-74; ZORZO, 2001:24-25)

2. Documentação gentilmente cedida pela Professora Regina Maria Vaz Almeida.

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Mapa 1
Amargosa – entre o litoral e o sertão

Fonte: Detalhe de um mapa do Brasil, extraído da “Carta da Republica dos Estados


Unidos do Brazil”, de 1892. http://www.historia-bahia.com/mapas-historicos/seculo19.htm

A amenidade do clima, a fertilidade do solo e a disponibilidade de água


tornavam o lugar atrativo, especialmente, para os grupos de retirantes das
secas intermitentes que castigaram o semiárido nordestino na última metade
do século XIX. (GONÇALVES, 2000:68) Pelas cercanias também passavam
as boiadas e tropas que realizavam as trocas comerciais entre o sertão e o
litoral. O rápido desenvolvimento do local fez com que, em 30 de junho de
1855, o povoado fosse elevado à categoria de freguesia, denominada Freguesia
de Nossa Senhora do Bom Conselho, subordinada à vila de Tapera, atual
Santa Teresinha. (VIANNA, 1893:145; ZORZO, 2001:44-69)
Em princípios da década de 1870, a Freguesia de Nossa Senhora do
Bom Conselho já possuía 9.875 habitantes. Os brancos eram minoria, grande

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parte da população era composta por pretos, pardos e caboclos3. Não consta
nas fontes que, naquela altura, houvessem se estabelecido ali indivíduos de
outras nacionalidades, salvo 16 escravizados nascidos na África. (BRASIL,
1874:118-119)
O número de analfabetos era muito alto – 8.375 pessoas – a maioria
dos habitantes. Da população em idade escolar, com recorte estabelecido
entre 6 e 15 anos de idade, só 170 frequentavam a escola, em um total de
482 crianças e adolescentes nessa faixa etária.4 Já o número de escravizados
era relativamente pequeno se considerarmos o número total de habitantes
– 344 escravos. Dentre os 3.347 lavradores, apenas 111 eram escravos. Entre
as 4.417 pessoas que se dedicavam ao serviço doméstico, apenas 92 eram
escravas. Infere-se que aí estariam inclusas as denominadas “donas-de-casa”,
como também as pessoas livres que trocavam o serviço doméstico por casa,
vestuário e alimentação. De outro lado, no item assinalado como “pessôas
assalariadas” [sic] havia 116 homens, 237 mulheres livres, três escravas e
28 escravos registrados como “criados e jornaleiros” em um total de 384.
É possível que se tratasse de trabalhadores urbanos e rurais, empregados
em serviços diversos como os de carregadores, vendedores ambulantes,
trabalhadores nos serviços de colheita e beneficiamento de café e de fumo,
dentre outros. (BRASIL, 1874: 118-120)
Nas “profissões manuaes ou mecanicas”, das 346 costureiras, apenas 30
eram escravas. No item “operários” computou-se 313 homens livres e apenas
42 escravos, que trabalhavam nos serviços de edificações, de “canteiros,
calceteiros, mineiros e cavoqueiros” e manufaturas de metais, madeiras,
vestuário, chapéus e calçados. As 166 mulheres livres e 12 escravas trabalhavam
na manufatura de tecidos. (BRASIL, 1874: 118-120)
O número superior de pessoas livres qualificadas como “lavradores”,
“operários”, “criados e jornaleiros” pode revelar que, naquela localidade, o
braço escravo já vinha sendo substituído pelo trabalho assalariado. Visto por
outra perspectiva, pode sugerir, também, que havia poucas pessoas com posses
suficientes para manter um grande número de escravizados. O censo de 1872

3. Denominação encontrada na documentação para se referir aos mestiços de índio com


branco.
4. 312 crianças e adolescentes estavam fora da escola. (BRASIL, 1874, p. 118).

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revela que havia 22 pessoas qualificadas como “proprietários e capitalistas”, 74
“criadores”, provavelmente, de gado bovino, que não demandava um grande
número de trabalhadores, 22 donos de manufaturas e fábricas, além de 62
pessoas livres qualificadas como “comerciantes, guarda-livros e caixeiros”.
(BRASIL, 1874:120)
As atividades econômicas daquela localidade, onde predominava
a policultura, com o cultivo da mandioca, cana-de-açúcar, fumo, café e
criação de gado, favoreceu o trabalho de negros libertos e mestiços como
pequenos sitiantes, lavradores e jornaleiros. A expansão daquele pequeno
centro urbano garantia, igualmente, a subsistência de ex-escravos em
atividades relacionadas ao serviço doméstico, aos serviços de edificações
e obras públicas, às manufaturas, ao comércio, dentre outras. (BRASIL,
1874:118-120; VIANNA, 1893: 421)
Por sua vez, o desenvolvimento da lavoura fumageira e cafeeira estimulou
a imigração espontânea de ingleses, italianos, portugueses e espanhóis para
aquelas paragens. Os estrangeiros se estabeleceram em empórios de secos
e molhados, em casas de comércio de exportação e importação de fumo e
café ou no cultivo desse último produto. Devido à prosperidade alcançada,
a freguesia foi desmembrada de Tapera, sendo elevada à Vila de Nossa
Senhora do Bom Conselho de Amargosa, através da resolução provincial
nº 1.726, de 21 de abril de 1877. (VIANNA, 1893: 421)
Em 1883, o Governo Provincial autorizou o prolongamento da Estrada
de Ferro Tram-Road Nazareth, que possibilitaria a interligação da Vila de
Amargosa a Santo Antônio de Jesus e Nazaré. (FERREIRA, 1892:20-21)
Enquanto isso, a Assembleia Provincial autorizou o Governo da Província
a despender a quantia de 2:000$000 para a construção de uma estrada de
rodagem ligando Tapera à Vila de Amargosa. (ASSEMBLÉA PROVINCIAL,
1889:1) Começava-se, assim, a criar alguma estrutura para fazer frente ao
desenvolvimento do lugar.
Em 1890, Amargosa já contava com uma população total de 17.042
de habitantes.5 (BRASIL, 1898:17) Nesse período, o Conselho Municipal

5. Essa é a soma total, contando com os distritos de Giboia, Patrocínio de Tartaruga e São
Francisco do Caldeirão. A Vila de Nossa Senhora do Bom Conselho de Amargosa possuía
13.430 habitantes. (BRASIL, 1898:17)

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envidava esforços para urbanizar o espaço público, calçando ruas, edificando
praças, cemitério, matadouro público, antes mesmo que a Vila fosse elevada
à categoria de cidade. Os conselheiros pretendiam, inclusive, buscar recursos
pecuniários junto ao Governo do Estado para a construção de um açude e a
instalação de um sistema de iluminação pública. (CONSELHO MUNICIPAL,
1890:3)
Aquele foi um tempo de rápidas transformações – em 13 de maio de 1888,
foi assinada a Lei Áurea, que extinguiu a escravidão; em 15 de novembro de
1889, foi proclamada a República; em 1891 foi promulgada a 2ª constituição
do Brasil. Nesse mesmo ano, em 19 de junho de 1891, a Vila de Nossa Senhora
do Bom Conselho de Amargosa foi elevada à categoria de cidade, passando
a chamar-se apenas Amargosa.6
Naquela altura, Amargosa mantinha relações comerciais com a Capital
do Estado, com as cidades de Nazaré, Castro Alves, São Félix, Cachoeira, Santo
Antônio de Jesus, Ubaíra e outros municípios da região central do estado.
A produção de café e fumo colocava Amargosa em posição de destaque na
região, suplantando cidades até então mais importantes, como Santo Antônio
de Jesus. O município estava se tornando um importante exportador de café
e fumo, o que demandava a criação de infraestrutura para dar suporte e
ampliar os negócios. (REIS, 1898:443; VIANNA, 1893: 421)
Em 1892, a ferrovia, finalmente, chegou a Amargosa, encurtando
caminhos, facilitando a circulação de pessoas, o escoamento da produção
e promovendo o desenvolvimento do comércio. Naquele ano, o município
remeteu 200.000 arrobas de fumo e mais de 250.000 arrobas de café para
Nazaré pela via férrea recém-inaugurada. Além da lavoura de fumo e café,
a criação de gado bovino também assumia importante papel na economia
local. A cidade possuía também uma grande fábrica de charutos, quatro
fábricas de sabão, uma serraria a vapor e uma fábrica de “apurar e limpar
café”. (REIS, 1898:443; VIANNA, 1893: 421)

6. Segundo os memorialistas, o topônimo é relativo às pombas de carne


amarga que integravam a fauna local e atraíam caçadores à região, com
o convite: “vamos às amargosas”.

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A sede do município era composta por um conjunto de casas caiadas
e envidraçadas e alguns sobrados, incluindo-se aí o prédio do Conselho.
As cinco praças e 17 ruas principais eram quase todas pavimentadas, o
que denotava o esforço dos gestores para manter um ambiente urbano
higienizado e de bom aspecto. Além da Igreja Matriz, da velha cadeia, do
cemitério, do matadouro público e de três hotéis, o município possuía duas
escolas municipais, duas estaduais, um colégio particular na Sede e mais
cinco escolas distribuídas pelos distritos de Corta-Mão, Tartaruga, Cavaco,
Corrente e Brejões. (REIS, 1898:443-444; VIANNA, 1893: 421)
Amargosa contava com duas tipografias, que eram responsáveis pela
edição dos jornais locais, o Echo Amargoense e Cidade de Amargosa. A
existência do Club Caixeiral Amargoense, do Club Literário Amargoense,
de “uma boa biblioteca”, um “Teatro de Variedades” e duas filarmônicas – o
Quinteto Amargoense e a Quinze de Novembro – garantia a sociabilidade e
enriquecia a vida cultural na cidade. (REIS, 1898:443-444; VIANNA, 1893:
421) A criação de uma Santa Casa de Misericórdia seria mais um sinal de
progresso, civilização e distinção do recém-criado município, ao tempo
em que atenderia à arrogada necessidade de se oferecer cuidados médicos
e amparo aos desvalidos.
Em Amargosa, nem todos colhiam os frutos da prosperidade. O fumo
era considerado uma “cultura de pobre”. A lavoura de fumo não requeria
grandes investimentos por isso estava na medida de pequenos lavradores que
não dispunham de recursos pecuniários. O cultivo era feito em pequenas
propriedades “com, no máximo, um hectare de roça” e envolvia toda a família
– homens, mulheres, velhos e crianças – na sementeira, plantio, desfolha,
escolha e manocação7. O produtor era mal remunerado, sendo necessário
manter uma lavoura de subsistência – de milho, mandioca e feijão – e uma
pequena criação de aves e porcos, para garantir a alimentação da família.
(ZORZO, 2001:157-158)
Vigorava, nesse período, o sistema de arrendamento, meação ou terça.
Em tal sistema os lavradores não tinham nenhuma garantia. Roceiros,
agregados, rendeiros e meeiros podiam ser expulsos das terras a qualquer

7. Formação de feixes de cinco a seis folhas de tabaco para a secagem.

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momento, havendo a anexação de suas posses e benfeitorias por parte dos
grandes proprietários. (CARVALHO, 2003:101)
Nas fazendas de café, os trabalhadores recebiam por diária, por
empreitada ou por tarefas, mas nem sempre o pagamento era em dinheiro.
Era comum que fossem remunerados com produtos retirados na “venda”
ou armazém do patrão, que, além de caros, não supriam as necessidades
de sua família, resultando em endividamento contínuo do lavrador. Dessa
maneira, criavam-se laços de dependência do trabalhador do campo em
relação ao proprietário de terra, vinculação agravada pelo analfabetismo ou
baixíssima escolaridade dessa camada da população. (CARVALHO, 2003:101)
Conforme demonstrou o censo de 1872, o número de analfabetos era alto,
quadro que não sofre grandes modificações ao longo da Primeira República.
Nos armazéns da cidade, o trabalho de beneficiamento do fumo
envolvia um grande contingente de operários especializados em serviços
distintos. Segundo Zorzo (2001:158), havia cerca de dez ocupações diferentes
e equipes compostas por mais de dez pessoas, na maior parte, mulheres.8 O
beneficiamento e a comercialização do café também exigia grande número de
trabalhadores urbanos. Homens e mulheres faziam a “catação” em grandes
galpões, para escolher os grãos tipo exportação, recebendo uma pequena
quantia por saca; havia os que faziam isso nos próprios domicílios, recebendo
menos ainda que os trabalhadores dos armazéns. (ZORZO, 2001:155-156)
O trabalho de criados, jornaleiros e de artífices como sapateiros,
carpinteiros, pedreiros, alfaiates, costureiras, ferreiros, dentre outros, era
mal pago e dependia da demanda, das posses e da honestidade de quem
contratava o serviço. Os parcos ganhos dos que possuíam trabalho fixo –
caixeiros, tipógrafos, operários, professores, etc. – garantiam-lhes, quando
muito, as condições mínimas de sobrevivência. A situação piorava quando
não se podia produzir devido à eventualidade de um acidente ou doença
incapacitante ou mesmo por velhice, visto que não havia, nesse período,
mecanismos que assegurassem a proteção e a subsistência do trabalhador
em tais condições.

8. O autor descreve as diversas etapas e tipos de trabalhos especializados realizados no


beneficiamento do fumo. (ZORZO, 2001, p. 158)

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Assim, o grosso da população da Bahia da Primeira República, incluindo-
se aí grande parte dos habitantes de Amargosa, era, potencialmente ou de
fato, muito pobre. Os relatórios de inspetores sanitários da Bahia no início
do século XX revelam que a maioria dos habitantes dos vilarejos, municípios,
como também das áreas rurais, vivia em condições precárias: trabalhava
em excesso, alimentava-se mal, abrigava-se em casebres que não ofereciam
proteção contra intempéries nem contra o ataque de animais nocivos, não
tinha acesso à água tratada e nem a esgotamento sanitário. (SOUZA, 2013)
Naquela altura, a sede do município padecia com a falta de água encanada
e as formas de abastecimento e precárias condições de armazenamento,
certamente, contribuíam para o surgimento de várias doenças. (VIANNA,
1893:421; REIS, 1898:443-444)
A par da pobreza, surtos epidêmicos irrompiam periodicamente em
Amargosa.9 Em 1886, o Echo Amargoense (FEBRES, 1886:2) registrou a
ocorrência de “febres de mau carácter”, que afetaram 1/3 da população do
município, especialmente as crianças. Em 1892, a “febre” fez muitas vítimas,
dizimando famílias inteiras na localidade rural de Palmeiras, situada a cerca
de 4 km da sede do município. (FEBRES DE MAU CARACTER, 1892, p. 2)
As elites começavam a perceber que a doença roubava braços ao trabalho e
um indivíduo doente poderia, facilmente, contaminar os sãos.

A Santa Casa de Amargosa - riqueza, prestígio e poder


Na Bahia, os primeiros governadores da República se declararam
desaparelhados para enfrentar as demandas da assistência social. Persistia
entre os gestores públicos o discurso de que a assistência aos pobres era
um dever da filantropia e não do Estado. (SOUZA, 2009; 2011) No que diz
respeito à assistência à saúde, o médico Joaquim Manoel Rodrigues Lima,
eleito por sufrágio popular para governar a Bahia para o período de 1892
a 1896, sancionou uma lei que previa a organização sanitária do estado.
(MONIZ de ARAGÃO, 1926:30) Dentre as disposições, a legislação previa
a atuação conjunta de estado e município na organização dos serviços de

9. Além das doenças endêmicas que, certamente, acometiam os habitantes de Amargosa.

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socorro público em épocas de epidemias ou por ocasião de algum tipo de
calamidade pública. (BAHIA. Lei n.º 30, de 29 de agosto de 1892, Art. 25,
§ 90:173)
No âmbito dos municípios, a Lei n.º 30, de 29 de agosto de 1892,
determinava a constituição de Conselhos Locais de Saúde sob a orientação
do governo, com a finalidade de opinar sobre questões de higiene, salubridade
geral e assistência pública. (BAHIA. Lei n.º 30, de 29 de agosto de 1892, Art.
25, §1º a 13º:172-173) Em conformidade com a referida lei, o Governo Estadual
resguardava-se, igualmente, o direito de nomear delegados de higiene para
realizar a vacinação, a revacinação e a estatística demográfico-sanitária nos
municípios. (BAHIA. Lei n.º 30, de 29 de agosto de 1892:164-177) 10
Não se pode negar que essa legislação representou certo avanço no
processo de montagem de uma estrutura de saúde no estado. Todavia, a
lei nem sempre era aplicada, visto que a maioria das cidades da Bahia não
possuía pessoal, recursos financeiros, nem estrutura para tal. Ademais,
muitos líderes políticos e gestores municipais não consideravam importante
a criação e manutenção de serviços de assistência à população. O sistema
clientelista, que vigorou por longo tempo, atendia ao jogo político e às
aspirações políticas e econômicas dos chefes locais. (SOUZA, 2009; 2013)
Na recém-nascida República brasileira, a assistência à pobreza e à saúde
ainda não era encarada como um direito do cidadão, como ocorre no Estado
de bem-estar social. As ações eram pontuais, isoladas e seletivas, adotadas em
conjunturas de crise, como no caso dos surtos epidêmicos. (SOUZA, 2009;
2011; 2013) Competia à sociedade se organizar para prestar assistência aos
desvalidos, suplementando o papel do Estado. Nesse período, a assistência
prestada por sociedades de socorros mútuos, por instituições filantrópicas,
pelas irmandades, especialmente as Santas Casas de Misericórdia, eram
fundamentais onde o Estado não conseguia ou não se interessava em atuar.

10. O cargo de delegado de higiene não era remunerado, salvo em períodos de epidemias,
quando esses médicos eram comissionados pelos serviços prestados aos indigentes nos
municípios onde residiam ou eram designados a atuar. O posto, contudo, conferia ganhos
simbólicos a quem o ocupava, visto que muitos dentre esses médicos acabavam por ingressar
na carreira política nos municípios onde atuavam. (SOUZA, 2009; 2013)

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A Irmandade da Santa Casa de Misericórdia é um legado do sistema
colonialista português. No Brasil, tais irmandades surgiram quase que ao
mesmo tempo em que foram criados os povoados, vilas ou cidades. As
primeiras foram as de Olinda (c.1539-1545) e Santos (c.1543), seguidas das
confrarias do Espírito Santo (c.1545), Bahia (1549), São Paulo (c.1560) e Ilhéus
(c.1564). (FRANCO, 2014:10)
Para Charles Boxer (2002: 286), as Misericórdias e as câmaras municipais
contribuíram, significativamente, para a continuidade e coesão do império
colonial português. Na Bahia, por exemplo, esse modelo de assistência
foi adotado em núcleos de povoamento estratégica e economicamente
importantes, como Salvador, cuja Misericórdia foi fundada em 1549, Ilhéus,
cuja irmandade foi fundada em 1564, Maragogipe, cuja Santa Casa foi criada
entre 1680 e 1692 e Santo Amaro, com fundação datada em 1778. 11
Contudo, apesar do modelo relativamente padronizado de assistência
social disseminado por todo o Império Português, o processo de formação,
continuidade e desenvolvimento das Misericórdias tanto na antiga metrópole
quanto na ex-colônia obedeceu a normas, ritmos e experiências diferentes
devido aos contextos distintos. As confrarias fundadas no Brasil eram muito
mais modestas do que a de Lisboa e diferiam-se entre si não só pela origem,
etnia e condição socioeconômica dos seus membros, como também pelas
formas de gestão, de investimentos e patrimônio. Tampouco conseguiam
garantir regularidade na oferta de assistência aos desvalidos, nem oferecer
a mesma cartela de serviços. (FRANCO, 2014:8-19)
A Santa Casa de Misericórdia da Bahia, criada em Salvador, foi a que mais
se aproximou do modelo português – possuía uma “estrutura complexa”, com
“envergadura assistencial” e “uma elite ciosa de sua importância”. (FRANCO,
2011:69) Desde a sua criação, esta misericórdia assumiu papel preponderante
entre as confrarias fundadas na América, “emitindo, tal como Lisboa, a relação
de privilégios para algumas congêneres, servindo de parâmetro institucional
para as demais confrarias que se estabeleciam”. (FRANCO, 2011:69)

11. Ilhéus, Maragogipe e Barra do Rio Grande tiveram uma descontinuidade no seu fun-
cionamento, fechando e se reeditando em outros contextos históricos.

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Em que pesem as diferenças locais, fato é que durante todo o século XIX
e até, pelo menos, a terceira década do XX, a assistência à pobreza no Brasil
dependeu, em grande parte, do protagonismo das Misericórdias. Persistia
entre os governantes a ideia de que a assistência à pobreza era um dever da
caridade e uma obrigação dos mais abastados. Todavia, os poderes públicos
não se furtavam de todo dessa função, visto que liberavam recursos para
as Misericórdias em troca dos serviços prestados por essas entidades aos
desvalidos. (SOUZA, 2009; 2013)
Subsidiadas pelos governos regional e local, as Santas Casas de
Misericórdia, tradicionalmente, prestavam assistência aos expostos, aos
órfãos, aos velhos, aos loucos, aos mendigos, aos doentes e aos presos,
responsabilizando-se, também, pelo sepultamento dos mortos. Contudo,
como assinalado anteriormente, nem todas ofereciam o mesmo leque de
serviços, mas devido à necessidade de cuidados para com os doentes, muitas
construíram ou incorporaram hospitais já existentes. O grande número de
óbitos provocados por contínuos surtos epidêmicos e por doenças endêmicas,
fez com que o cuidado para com os enfermos se tornasse uma das ações
preferenciais das Santas Casas fundadas no interior da Bahia. (SOUZA, 2009)
Assim, durante o Império, foram fundadas Misericórdias e ergueram-se
hospitais em Cachoeira (1826), Nazaré (1830), Maragogipe (1846/1866), Feira
de Santana (1859), Valença (1860), Lençóis (1861), Oliveira dos Campinhos
(1868), Barra do Rio Grande (1852/1869) e Juazeiro (1885).12 Na denominada
Primeira República, formaram-se Santas Casas de Misericórdia em cidades
como Amargosa (1892), Belmonte (1893/1918), Ilhéus (1913), Vitória da
Conquista (1914), Itabuna (1917), Santo Antônio de Jesus (1918), Alagoinhas
(1920), São Félix (1923).13 (CERQUEIRA, 2009; KHOURY, 2004; SOUZA;
SANGLARD, 2011).
Ao analisar a expansão das Santas Casas no Recôncavo da Bahia durante
o período imperial, João Batista de Cerqueira ressalta o papel dos agentes

12. O fato de aparecerem duas datas diz respeito à descontinuidade da irmandade como
também porque uma data se refere à sua fundação e outra à de seu hospital. Para saber
mais, procure as referências supracitadas.
13. Foram fundadas instituições com essa denominação até a década de 1980, mas optamos
por enumerar nesse texto apenas as formadas na Primeira República. Para saber mais,
consultar: Cerqueira, 2009; Khoury, 2004; Souza; Sanglard, 2011.

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públicos nesse processo. (CERQUEIRA, 2016; 2015) O autor constatou que
83% delas contaram com “expressiva participação de agentes governamentais”
em sua fundação. (CERQUEIRA, 2016:7-8)
No caso de Amargosa, coube ao Juiz Preparador Manoel Luiz do Rêgo
a iniciativa de convocar uma assembleia com o objetivo de fundar uma “casa
de Misericórdia” na cidade. (ACTA..., 1938:3; ANNUARIO, 1909: C-77) A
reunião realizada no salão do “Club Amargoense”, no dia 8 de setembro de
1892, foi presidida pelo Juiz de Direito Eduardo Augusto da Silva e atraiu
95 pessoas. As mais destacadas autoridades do município prestigiaram o
evento – o Intendente, coronel Francisco de Almeida Sampaio, o presidente
do Conselho Municipal, coronel Leão Caldas de Brito, o Juiz Municipal,
Filinto Justiniano Ferreira Bastos, o Juiz de Paz, José da Cunha, e o Delegado
da Higiene, Luiz Narciso Gomes. (ACTA..., 1938:3; ANNUARIO, 1909: C-77)
Os grandes proprietários de terras, os comerciantes de secos e molhados,
gente de relevo naquela sociedade, como, por exemplo, Manoel Ciryaco de
Oliveira e Eudoro Tude de Souza14, assim como os donos de grandes empórios
de importação e exportação, como Pedro Calmon Freire Bittencourt e João
Câncio Pereira Soares15 também atenderam à convocação do juiz. Além desses,
outros personagens de destaque na cena urbana de Amargosa compareceram
ao evento – o vigário, Cônego José Soares Portella, o médico Esmeraldo de
Andrade e os farmacêuticos Zepherino Augusto de Castro e Marcellino dos
Santos Lima. (ACTA..., 1938:3; ANNUARIO, 1909: C-77)
Como se pode observar, os mais graduados representantes da elite local
estiveram presentes à reunião de fundação da Santa Casa de Misericórdia de
Amargosa. Os integrantes deste grupo exerciam algum tipo de autoridade
ou influência em seu meio por possuir ou atribuir a si mesmos méritos,
privilégios, capacidade intelectual e/ou aptidão para assumir o direito ou a
obrigação de agenciar e administrar as demandas da sociedade.

14. Proprietário da firma Tude, Irmão e Cia., fundada em Amargosa em 1893, com lojas em
Salvador, Nazaré, S. Inês, Jaguaquara, Jequié, etc., com representação em Paris. (ZORZO,
2007, p.91)
15. Em 1891, João Câncio Pereira Soares recebeu do governo federal a concessão para instalar
em Amargosa a Companhia Industrial e Agrícola da Bahia, para contratar mão de obra
estrangeira, beneficiar e comercializar café, produto-chave da economia brasileira, à época.

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Naquela conjuntura, situavam-se no topo da pirâmide os proprietários de
terras, de grandes firmas comerciais de importação e exportação, dos grandes
empórios de secos e molhados, como também os criadores de gado. Todavia,
a camada mais alta da classe média também era identificada como elite por
comungar gostos, valores, educação e instrução com os mais abastados.
Nessa condição estavam os profissionais liberais, que ostentavam o título de
“doutor” ou “bacharel”, como os médicos, juízes, advogados, engenheiros,
dentistas, farmacêuticos e “homens de letras”, em geral, pertencentes ou
vinculados à classe dos proprietários de terra e/ou dos grandes comerciantes.
Muitos dentre os participantes daquela reunião ostentavam títulos
da Guarda Nacional, o que também lhes conferia prestígio, autoridade e
força, fator decisivo nas eleições, tanto no Império quanto na República.16
Pertencer ao oficialato da Guarda Nacional era um sinal de supremacia
social e econômica. Era possível conhecer o status de uma pessoa pelo título
que ostentava: “o fazendeiro mais poderoso era um coronel, o principal
comerciante da cidade era tenente-coronel, o funcionário público era major,
um dono de loja era capitão e o dono de hospedaria era tenente”. (PANG,
1979: 24-30) O coronel Francisco de Almeida Sampaio, por exemplo, além
de Intendente, era Comandante Superior da Guarda Nacional da Comarca
de Amargosa.
Ser irmão da Misericórdia resultava, igualmente, em ganhos simbólicos
e materiais. Seus integrantes administravam importante patrimônio e um
número considerável de recursos públicos provenientes dos subsídios
governamentais. Gerir tal patrimônio, bem como os recursos públicos
destinados a estas instituições era um atrativo para os mais abastados. Além
disso, intencionalmente ou não, os beneméritos adquiriam notoriedade,

16. A Guarda Nacional foi criada no período da Regência Trina (1831-1835) e rapidamente
se popularizou entre as famílias de origem latifundiária e mercantil. Recrutava cidadãos
eleitores, com renda anual superior a 200 mil réis, nas grandes cidades, e 100 mil réis nas
demais regiões. Em casos de guerra, seus contingentes seguiam para reforçar as tropas
militares regulares – a chamada 1ª Linha, seja de Cavalaria ou de Infantaria. Em períodos
de paz, esperava-se que atuassem como milícia local, exerciam funções militares somente
na cidade onde residiam, funções estas que incluíam: garantir a pacificação e a manutenção
da ordem e a cobrança dos tributos. Subordinava-se aos Juízes de Paz, aos Juízes Criminais,
aos presidentes de Província e ao Ministro da Justiça, sendo somente essas autoridades que
podiam requisitar seus serviços. (PANG, 1979:24-30)

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pois suas ações eram publicizadas, até mesmo por causa dos fins aos quais
se destinavam. Assim, a Irmandade conferia prestígio social, visibilidade e
ganhos políticos aos seus membros mais graduados.
Se de um lado, os benefícios e favores prestados conferiam prestígio
e autoridade a quem os distribuía, trazendo vantagens políticas, sociais
e econômicas, de outro, como bem lembra Isabel Sá (1996:100), o grupo
que constituía as Santas Casas “coincide regra geral com os indivíduos que
efetivamente detêm o poder” em determinado espaço político. Essa condição
certamente concorria também para que recursos públicos fossem destinados
para a Irmandade.
As motivações para a criação de Irmandades da Misericórdia em
diferentes contextos históricos, de desenvolvimento urbano e econômico
foram variadas e complexas. Pode-se, contudo, levantar algumas hipóteses
para a formação da Irmandade em Amargosa: o desejo de alcançar alguma
distinção para a cidade recém-emancipada e em franco desenvolvimento,
a ambição de obter privilégios individuais, atender a interesses políticos e
econômicos locais, a necessidade de controle e amparo aos trabalhadores
pobres e de evitar a disseminação de doenças.
Fossem quais fossem os reais motivos que mobilizaram os cidadãos de
Amargosa a aderirem à proposta de criação de uma “casa de Misericórdia”
na cidade, fato é que não desejavam perder tempo. Assim, na mesma sessão
em que foi proposta a criação da Misericórdia, foi instituída uma comissão
para elaborar o compromisso, texto de fundacional e de normalização da
Irmandade. O grupo era formado pelos juízes Eduardo Augusto da Silva17,
Filinto Justiniano Ferreira Bastos18 e Manoel Luiz do Rêgo19, os médicos

17. Pai do médico e cientista Pirajá da Silva.


18. Filinto Bastos foi um veemente defensor da abolição da escravatura. Foi um dos funda-
dores da Sociedade Emancipadora Acadêmica, o primeiro grupo abolicionista organizado na
Faculdade de Direito de São Paulo. Com o advento da República, foi nomeado Juiz de carreira
e designado para a comarca de Caetité, servindo em seguida, em Caravelas e Amargosa. Em
1892 foi promovido para Salvador como juiz de Primeira Entrância e cinco anos mais tarde
foi elevado a Conselheiro (Desembargador) do Tribunal de Apelação e Revista da Bahia.
19. Natural do estado de Sergipe. Cursou a Faculdade de Direito do Recife, pela qual se
formou em 1890. Ao iniciar a sua carreira, exerceu o cargo de juiz preparador na Bahia, até
1895; no ano seguinte, foi nomeado procurador fiscal do estado. Escreveu várias obras sobre
Direito. Em 1918, ajudou a fundar a Associação de Funcionários Públicos do Estado da Bahia.

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Esmeraldo de Andrade e Luiz Narciso Gomes, esse último Delegado de
Higiene do município, e o farmacêutico Zepherino Augusto de Castro.
Após a elaboração, leitura e reajustes no texto, o compromisso foi aprovado.
Em seguida, por aclamação, constituiu-se a Mesa, órgão dirigente das
Misericórdias. À posição de Provedor foi conduzido o juiz Eduardo Augusto
da Silva e o lugar de Vice-provedor foi ocupado pelo coronel Leão Caldas de
Brito, então presidente do Conselho Municipal. O juiz Manoel Luiz do Rêgo
assumiu o posto de 1º Secretário, ficando o farmacêutico Zepherino Augusto
de Castro como 2º Secretário. O capitão-cirurgião Anselmo Moreira Coelho
ficou com o cargo de Tesoureiro, o capitão Aprígio Gustavo da Silva, com o
de Procurador Geral e o Juiz de Paz José da Cunha com o de Sub-Procurador.
Além da Mesa, formou-se a comissão de contas, integrada pelo Intendente
Francisco de Almeida Sampaio e importantes homens de negócios da cidade,
como Pedro Calmon Freire Bittencourt e João Câncio Pereira Soares. Na
ocasião, constituiu-se também a comissão dos irmãos visitadores composta
por 12 cidadãos eminentes e a de “irmãs protetoras” com igual número de
senhoras pertencentes à elite local. Essa configuração confirma o que afirmam
vários autores em relação ao perfil social dos dirigentes das Misericórdias
– eram “invariavelmente [...] membros elitários locais, que, naturalmente,
refletiam a configuração social das comunidades, estando sempre escorados
no Regime político vigente”. (SÁ, 2001:61-69; LOPES, 2015:53-54)
O Compromisso da Santa Casa de Amargosa estabelecia que pessoas
de ambos os sexos, maiores de 21 anos, ou emancipadas legalmente, que
dispusessem de meios honestos e estáveis de subsistência, poderiam ingressar
na Irmandade. A admissão de um irmão, todavia, era de competência da
Mesa. Deveria ser precedida de requerimento ou proposta e submetida à
votação secreta. Se aceito, o irmão deveria pagar a primeira parcela da joia
antes de prestar o juramento e assinar o termo competente, depois disso,
poderia receber o diploma que certificava o pertencimento à Misericórdia.
O fato de mulheres figurarem na Misericórdia de Amargosa não era de
todo inusitado. No início podiam ingressar nas Misericórdias um número
ilimitado de homens e mulheres, tal como ocorria em outras irmandades.
A partir de 1577, com o novo Compromisso de Lisboa, estabeleceu-se um

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numerus clausus 20 e proibiu-se a admissão de mulheres, judeus, menores,
assalariados e analfabetos. (LOPES, 2015:50-51; SÁ, 2001:69-70) Isabel
Guimarães de Sá (2015, p. 63) afirma que as Misericórdias eram espaços
eminentemente masculinos – especialmente, em momentos em que “a
caridade ocupava um lugar demasiado central para ser deixado ao cuidado
das mulheres”. Lopes (2015:50-51), contudo, chama a atenção para as exceções.
A autora informa que houve casos de mulheres que ocuparam a posição de
provedoras nas vilas da Feira e na Aldeia Galega do Ribatejo no século XVII.
Em 1818, a Misericórdia de Mogadouro aceitava que mulheres se tornassem
membros da irmandade, mas, segundo ela, “só a partir do último terço do
século XIX que as mulheres passam a ser legalmente admitidas em algumas
Misericórdias, num difícil processo que em alguns casos se prolongou até à
década de 1980”. (LOPES, 2015:50-51)
Em texto ainda em fase de pré-publicação, Barreto e Cerqueira registram
a presença de mulheres na Santa Casa da Misericórdia de Nazaré, Bahia. Os
autores informam o compromisso de 1832 permitia que mulheres integrassem
a Mesa da Irmandade, mas a partir do segundo compromisso, datado de
1852, elas perderam essa posição, passando a figurar apenas como “irmãs
protetoras”. Nessa posição, as mulheres tinham como obrigações as visitas às
enfermarias femininas do hospital, à Casa dos Expostos e ao Recolhimento,
os cuidados com a rouparia e o fornecimento de material para o curativo
dos enfermos.
No caso da Santa Casa de Misericórdia de Amargosa, nada consta na
documentação consultada que aponte para uma atuação das mulheres como
provedoras ou mesmo ocupando alguma posição importante na Mesa.
O que se esperava das “irmãs protetoras” é que sua atuação não fugisse
das características atribuídas ao gênero, tais como o instinto maternal, a
vocação para o acolhimento e o cuidado: visitar e cuidar dos desvalidos
nas enfermarias do hospital e na casa dos expostos; “mandar consertar
a rouparia do hospital e da casa dos expostos às suas custas”; “fornecer
ataduras, fios, presilhas, para curativos dos doentes, à sua custa”; zelar pela
capela. (COMPROMISSO, 1938:31)

20. Número determinado de aceites.

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As mulheres que ocuparam a posição de “Irmãs Protetoras” no ato da
fundação daquela Misericórdia pertenciam aos extratos mais elevados daquela
sociedade. Os sobrenomes das que foram nomeadas no Compromisso de
1892 sugerem que estas eram esposas, irmãs, filhas dos coronéis, dos grandes
proprietários, “capitalistas” e profissionais liberais ali presentes. Possuíam,
portanto, recursos financeiros para prover às próprias custas, o material de
consumo e a rouparia do hospital. (ACTA..., 1938:5-6)
Quanto aos homens, a posição que ocupariam na irmandade era atinente
ao valor da joia, legado ou à prestação de serviços à Misericórdia. Nas
Misericórdias portuguesas analisadas por Lopes (2015:50-51), a estratificação
se dava de forma decrescente e dividia-se em duas classes de confrades:
“os de 1ª condição, nobres, eclesiásticos e magistrados, e os de 2ª condição,
mestres de ofícios, mercadores, lavradores nas zonas rurais, isto é, a elite
do terceiro estado”.
Na Classificação estabelecida pelo Compromisso da Santa Casa de
Amargosa, os irmãos de 1ª classe eram os que tinham contribuído com menor
valor. Da 2ª classe em diante os valores vão aumentando proporcionalmente
à classificação, chegando-se até a 7ª classe. Da 2ª à 7ª classe, os irmãos tinham
os nomes inscritos no “Livro de Honra”, onde constavam todos os donativos
e serviços prestados por ele. Quando o valor dos donativos excedia os da
última classe ou em caso de alta relevância dos serviços prestados, o irmão
recebia o título de “Benfeitor”. (COMPROMISSO, 1938:10-14)

Tabela 1- Classificação dos irmãos

Classe 1ª 2ª 3ª 4ª 5ª 6ª 7ª
Valor da joia 50$000 250$000 500$000 1:000$000 2:000$000 4:000$000 5:000$000

Fonte: Compromisso da Santa Casa de Misericórdia de Amargosa, 1982, p. 14.

Durante a reunião de formação da irmandade, contudo, foi apresentada


a proposta de subscrição entre os presentes, sendo já considerado irmão,
com a classificação a que tivesse direito conforme o compromisso, aquele que
subscrevesse de cinquenta mil réis ou mais. (ACTA..., 1938:3-4) A quantia
doada poderia ser paga em duas parcelas, tendo como prazo final o dia 30

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de dezembro do ano em curso. Seriam aceitos como “irmãos instaladores”,
com classificação de direito, conforme o Compromisso, os que subscrevessem
“de cinquenta mil réis a mais”. (ACTA..., 1938:3)
Segundo os registros do Livro Caixa, naquele mesmo dia, foi arrecadada
a quantia de 21:652$000 contos de réis no cômputo total das joias. Quanto aos
donativos, arrecadou-se na ocasião 1:187$000 contos de réis, que somados
às joias, totalizou o valor de 22:839$000 contos de réis. A ata, entretanto,
menciona um valor superior a três contos de réis, sendo que duzentos e setenta
mil réis foram doados pelo capitão Aprígio Gustavo da Silva, angariados
com o espetáculo de “variedades” oferecido pela companhia de Hypolito
de Carvalho. (LIVRO CAIXA, 1892:1; ACTA..., 1938:4)
As metas a serem alcançadas dependiam de muitos recursos. O
compromisso evidenciava que aquela era uma associação de pessoas que se
propunham a exercer a caridade oferecendo aos enfermos pobres “socorros
médicos, de enfermaria e espirituais” e, para tal, ambicionava-se erguer um
hospital. Era encargo do Provedor, admitir os “doentes miseráveis e desvalidos”,
em consenso com o Irmão Visitador e o Irmão Médico. (COMPROMISSO,
1938:23) Assim, em primeira instância, era ele quem decidia quem era o
pobre merecedor de assistência. Essa prerrogativa, certamente, lhe conferia
enorme capital político e prestígio social.
Além dos doentes pobres, qualquer irmão enfermo teria direito à
hospitalização e alimentação gratuitas. A diferença era que esses últimos
ocupariam uma enfermaria especial. Os irmãos de 2ª classe em diante que
caíssem em indigência comprovada e reconhecida pela Mesa, incapazes de
trabalhar por velhice ou doença, teriam direito a um subsídio mensal, 10%
proporcional à joia estipulada para cada classe, aumentando conforme o
número de filhos menores de 14 anos que tivessem. Em caso de morte do
irmão, os filhos menores de 14 anos também receberiam amparo, se houvesse
recurso para tal. (COMPROMISSO, 1938:12-13)
Além do hospital, a Misericórdia de Amargosa se propunha a oferecer
sepultura aos enfermos pobres que falecessem no hospital e aos membros da
irmandade. Para tanto, deveria ser erguido um cemitério. Os irmãos teriam
direito a honras fúnebres, com acompanhamento do féretro pela Irmandade,

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enterramento em carneiras especiais e missas anuais em sufrágio de suas
almas. (COMPROMISSO, 1938:13-14)
O Compromisso também mencionava o objetivo de “receber e criar
expostos de ambos os sexos” em lugar apropriado ou em casas de particulares
mediante contrato, para que lhes proporcionassem educação elementar, que
lhes possibilitassem exercer arte ou ofício que lhes garantissem a subsistência.
As casas das Irmãs teriam a precedência sobre as demais. Por ocasião do
casamento, tais expostos receberiam um dote proveniente do legado ou
da Irmandade, se houvessem recursos para tal. (COMPROMISSO, 1938:7)
Maria Luiza Marcilio (1998:136) informa que o “sistema informal ou
privado de criação dos expostos em casas de famílias foi o sistema de proteção
à infância abandonada mais amplo e presente em toda a História do Brasil.”
Para além da tradição cultural de se compadecer e acolher o órfão ou a criança
enjeitada, nos lares mais humildes, a ajuda pecuniária era bem-vinda, visto
que engrossaria a renda da família, como também seria um braço a mais
a executar tarefas que garantiam a sobrevivência de todos. Em lares mais
abastados, muitas vezes o órfão ou o enjeitado vivia uma situação ambígua
– quando era conveniente, figurava como filho, quando não, era confundido
com os serviçais, funcionando como mão de obra suplementar, gratuita, fiel
e reconhecida à família que o acolheu. 21 (MARCILIO, 1998:137)
Não se tem notícia, contudo, de que a Irmandade houvesse constituído
algum tipo de instituição para acolher expostos e órfãos em Amargosa, nem
tampouco há registros de que esses expostos tivessem sido acolhidos nas
“casas de particulares” conforme previa o Compromisso. Sabe-se, contudo,
que foi erguido um cemitério próprio, em área afastada da cidade, para evitar
a contaminação dos ares, e que o hospital foi inaugurado um ano depois da
formação da irmandade – 16 de abril de 1893.
Para tal, não faltaram recursos financeiros. Além dos donativos dos
irmãos e esmolas arrecadadas, a Irmandade era subvencionada pelo Conselho

21. Até a década de 1970 era comum, na Bahia, ouvir pessoas dizerem que tomou um
menino ou uma menina “para criar”. Na prática, entretanto, a condição dessa criança não
se equiparava à do filho biológico – em geral, ocupava-se das tarefas domésticas ou fazia o
serviço de babá – e só estudavam em horário que não conflitasse com os serviços sob sua
responsabilidade.

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Municipal e pelo Governo Estadual. Em 1896, o valor dos donativos foi de
1:726$514. Para o período de 1893 a 1896, o Conselho Municipal contribuiu
com 1:000$000 contos de réis. Para os anos seguintes, havia a promessa de
aumentar o subsídio para 1:800$000 contos de réis. (RELATÓRIO, 1938:42)
O Governo Estadual estipulou a contribuição fixa anual de 3:000$000 contos
de réis. (RELATÓRIO, 1938:42; REIS, 1899:325)
Para abrigar o hospital, ergueu-se um edifício imponente, de traços
neoclássicos, com dois pavimentos, porão e muitas janelas, para garantir
a aeração e insolação preconizada pela higiene hospitalar, em terreno
alto, afastado do centro da cidade. No intervalo de tempo entre o dia da
inauguração e o dia 31 de dezembro de 1896, ali ingressaram 252 doentes,
dos quais, 60 morreram. A documentação, contudo, não informa nada
sobre esses doentes, de que males padeciam e de que doenças morreram.
(RELATÓRIO, 1938:42)

Figura1 - Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Amargosa

Foto: Manoel Ciríaco de Oliveira Neto, s/d. /Acervo da prefeitura Municipal de Amargosa

O Relatório de 1947 informa que o edifício contava com um salão grande


no piso superior, que, infere-se, tratava-se de uma enfermaria, além de três
salas nas quais funcionava a sala de curativos, a farmácia e a capela. Nessa

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gestão, foram reformados e equipados seis quartos para pensionistas, uma
enfermaria para crianças, salas de refeição, de leitura e de trabalhos manuais,
sala de cirurgia, de esterilização e construídos dois banheiros e um tanque
de cimento com encanamento de água. (OLIVEIRA, 1947:11)

Considerações finais
A Santa Casa de Misericórdia de Amargosa foi criada em período
imediatamente subsequente à proclamação da República e à emancipação
da cidade. Na recém-nascida República, a assistência à pobreza e à saúde
ainda não era encarada como um direito do cidadão. As ações protagonizadas
pelo Estado eram pontuais, isoladas e seletivas, adotadas em conjunturas de
crise, como no caso dos surtos epidêmicos. Delegava-se à sociedade a tarefa
de organizar-se para prestar assistência aos desvalidos, suplementando o
papel do Estado.
A recente implantação do regime republicano e a emancipação da
cidade requeriam uma mobilização da elite local para modernizar a urbe,
criando a infraestrutura necessária; reorganizar e reformar a administração
pública; conservar-se no poder e cooptar eleitores; evitar perdas econômicas
atraindo e garantindo braços para o trabalho; impedir a subversão da ordem
e evitar a disseminação de doenças, dentre outras questões.
Naquela altura, o município era um importante polo cafeeiro e
fumageiro, possuindo significativo contingente de lavradores, jornaleiros
e trabalhadores urbanos envolvidos no plantio, colheita, beneficiamento e
comercialização desses produtos, como também de trabalhadores domésticos,
criados, artífices, operários, costureiras, caixeiros, dentre outros. Esses
trabalhadores eram, em sua maioria, homens e mulheres pobres, mestiços
e analfabetos, que lutavam para prover a subsistência sem qualquer proteção
para os períodos de escassez e adversidades como os de doença, viuvez,
orfandade, acidentes incapacitantes e velhice. Para lidar com o incômodo
e a ameaça representados pela pobreza e pela disseminação das doenças,
recorreu-se então a uma instituição historicamente consolidada – a Santa
Casa de Misericórdia.

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Tal como ocorreu com outras Misericórdias, partiu de um agente público
– um juiz – a iniciativa de criar a Santa Casa na cidade. Outro juiz tornou-
se o primeiro provedor da irmandade, permanecendo na função nos anos
subsequentes. Além destes, concorreram para a fundação da Irmandade
outros homens de poder, autoridades públicas e representantes da elite
local – proprietários de terras, grandes comerciantes e profissionais liberais
– eleitos por aclamação para compor a Mesa. Pertencer a Misericórdia
conferia prestígio e projeção individual e da cidade, ganhos simbólicos e
materiais que atraíam os membros mais proeminentes daquela sociedade.
Rapidamente, os homens e mulheres das camadas mais abastadas de
Amargosa conseguiram reunir os recursos financeiros necessários para
erguer um hospital para tratar os doentes e um cemitério para enterrar os
mortos. Além das joias, dos donativos e esmolas, a Irmandade contou com
subsídios regulares do governo municipal e, principalmente, do estadual. A
posição política, o prestígio e as redes de parentesco, de sociabilidade e de
poder a que pertenciam os irmãos da Misericórdia, certamente, garantiram
os recursos advindos de particulares, como também das instâncias públicas.
Ao subsidiar as Misericórdias, que eram instituições privadas, os
poderes públicos garantiam a assistência gratuita às camadas mais pobres
da população. Permeavam-se, assim, os limites entre o público e o privado.
Naquela altura, essa parceria era fundamental para ampliar a rede de proteção
e a oferta de serviços de saúde, visto que os recursos orçamentários destinados
a este fim não eram suficientes para atender a toda a população, especialmente,
à pobreza.

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PANORAMA DA INTERIORIZAÇÃO DA
ASSISTÊNCIA À SAUDE NO TERRITÓRIO
PROVINCIAL DE MINAS GERAIS: AS SANTAS
CASAS DO SÉCULO XIX

Anny Jackeline Torres Silveira


Rita de Cássia Marques

Em um texto clássico da historiografia da saúde no Brasil, Gilberto


Hochman (1998) argumenta que a agenda de saúde que mobilizou a sociedade
brasileira no período da Primeira República1 serviu como instrumento
importante no processo de enraizamento e ampliação da capacidade
interventora do poder estatal, traduzindo-se como um movimento agregador
na construção do Estado Nacional brasileiro. Foi durante as décadas de 1910 e
1920, no bojo de uma ferrenha campanha para maior atenção aos problemas
de saúde aos quais estavam relegadas as populações dos imensos sertões
brasileiros, que emergiu uma consciência sobre a interdependência social

1. Hochman se refere aqui ao Movimento Sanitarista da década de 1910 que, no rastro das
reformas urbanas que em fins do século XIX e a primeira década do século XX haviam
colocado o problema sanitário das maiores cidades brasileiras na ordem do dia, propôs
a extensão dessa ação saneadora aos vastos sertões brasileiros, dominados pela doença e
pelo atraso. Anunciando ser o “Brasil um grande hospital”, seus integrantes insistiam na
necessidade de expansão dessa intervenção saneadora para o interior, ameaça onipresente:
“Porque, não nos iludamos, o nosso sertão começa para os lados da Avenida Central”
(Afrânio Peixoto, apud: Hochman, 1998, p.70, nota.15).

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e a “necessidade de um sistema nacional e coletivizado de saúde pública”
(Lessa, 1998:13). No curto prazo, esse movimento resultaria na criação, em
1919, do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), substituído em
no início do governo Vargas, pelo Ministério dos Negócios da Educação e
Saúde Pública e desmembrado duas décadas mais tarde, dando lugar, em
1953, ao Ministério da Saúde.
Essa mobilização em torno da saúde é, com frequência, contrastada
com o período colonial brasileiro, caracterizado como momento marcado
pela ausência de ações coordenadas pela administração colonial no âmbito
da saúde. Ela seria nesse momento um problema de foro privado, reduzindo
quando muito as autoridades sua intervenção aos momentos nos quais
ameaças de caráter epidêmico colocassem sob risco a ordem cotidiana e a vida
das populações. Mesmo assim, tais ações eram em grande medida simples
reação a um problema momentaneamente instalado, sem se constituírem
em projeto ativo de preservação e manutenção da saúde ou da salubridade.
Alterações nesse cenário seriam observadas apenas nas décadas finais do
período colonial e, especialmente, quando da instalação da corte portuguesa
em território brasileiro, entendido como período no qual um conjunto
de iniciativas, ainda que na sua maioria pouco exitosas, foram instituídas
visando atender demandas e promover melhorias na situação da saúde da
população e da salubridade dos espaços. Ao lado dessas iniciativas envolvendo
a administração pública, o século XIX viu ampliar a oferta de serviços
profissionais assim como de estabelecimentos devotados à restauração e à
manutenção da saúde da população - médicos, farmacêuticos e dentistas
diplomados, hospitais, farmácias, lazaretos, asilos e clinicas privadas
começaram a constituir uma rede de atenção que se expandia para além das
capitais e centros mais importantes das províncias, seguindo o caminho do
comércio e da expansão das atividades econômicas observadas no período
imperial.
Este texto focaliza a saúde em Minas Gerais no decorrer do século XIX,
discutindo como ao longo desse período é possível observar uma tendência
de ampliação e de interiorização da oferta de serviços profissionais e de
estabelecimentos dedicados à saúde da população. Ainda que, como frisou

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Hochman (1998), uma atuação mais efetiva e consistente do poder público
no âmbito da saúde pública seja evento característico das primeiras décadas
do século XX, a historiografia aponta que o século anterior foi um momento
no qual as questões relacionadas à saúde foram ganhando certo destaque na
vida social como também na esfera das preocupações e da ação do estado,
ainda que, como anteriormente destacado, tais ações não tenham resultado
nos objetivos almejados. O texto é resultado de um esforço de pesquisas e
reflexões realizado por uma equipe de docentes e alunos que se debruçaram
sobre inúmeros documentos e bibliografia por cerca de mais ou menos 10
anos, na pretensão de construir quadros informativos e interpretações sobre
o tema da saúde na província de Minas Gerais no século XIX2. Também se
integra a um projeto capitaneado pela Fundação Oswaldo Cruz, congregando
pesquisadores de diferentes estados e instituições, interessado em examinar
processo pelo qual variados serviços de saúde – desde aquele oferecido por
profissionais de formação distintas, passando pela instalação de instituições
voltadas para o atendimento e cura, inserindo também intervenções públicas
visando a garantia de melhorias nas condições de salubridade – foram
sendo interiorizados, alcançando em diversas províncias regiões outras que
não a capital, local no qual, por natureza, tenderia a se concentrar maiores
comodidades e benfeitorias ligadas à assistência e à promoção da saúde no
período do Império e as primeiras décadas da República no Brasil.
Nossa opção narrativa passa pela apresentação de um breve panorama
da história da saúde no Império brasileiro e na província mineira, apontando
algumas das iniciativas associadas à saúde que a nosso ver indicam uma
mobilização social e do poder público em relação ao tema, além de uma
ampliação do espectro geográfico por elas abrangido. Em um segundo
momento, voltamos nossa análise para destacar nesse processo uma instituição
em particular, as chamadas casas de caridade ou de misericórdia. Como revela
a investigação realizada tendo como objeto o território mineiro, o transcurso

2. A investigação aqui mencionada abrange um conjunto de projetos coletivos e pessoais


desenvolvidos no interior do Grupo Scientia, apoiados por agencias como FAPEMIG e
CNPq, e também com bolsas de Iniciação disponibilizadas através de editais da UFMG no
qual participaram como pesquisadores as autoras deste artigo, e ainda Betânia Gonçalves
Figueiredo, Ana Carolina Vimieiro Gomes, Keila Aparecida Carvalho, Ana Carolina Rezende
Fonseca, Eliza Teixeira Toledo, Nathália Tomagnini, Isabela Dornelas, Luiza Lima Dias....

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do século XIX foi marcado por um expressivo movimento de criação de
estabelecimentos caritativos que dispensavam cuidados aos enfermos e
desvalidos em diferentes regiões da província. Apresentamos então uma
cartografia da dispersão desses estabelecimentos no período em destaque,
tomada como retrato do processo de interiorização da saúde para além da
região central do território mineiro no período colonial.

Panorama da saúde no Império


No Brasil do século XIX, a assistência à saúde não foi necessariamente
sinônimo de assistência médica. Como bem revela a bibliografia sobre o
tema, desde o período da colonização, o médico ou físico cuja formação
era oficialmente reconhecida convivia com diversos outros praticantes
das chamadas “artes de curar” – como boticários, cirurgiões, anatômicos,
algebristas, sangradores, parteiras, curiosos, curandeiros, feiticeiros entre
outros – chancelados ou não pelo ensino formal ou pela autoridade constituída
(Figueiredo, 2002, Holanda, 2003, Ribeiro, 1971, Santos Filho, 1977). A cada um
desses sujeitos versados nos misteres da cura tendemos associar determinado
status social, muitas vezes referido ao lugar que nossa própria sociedade
destina aos saberes e crenças por eles professadas. Entretanto, é possível
afirmar que para os brasileiros e, por extensão, os habitantes das Minas Gerais
dos tempos da colônia e do império, e mesmo no período republicano, essas
hierarquias talvez tenham sido bem mais fluídas e diversas.
Como vem sendo discutido pelos investigadores da história da saúde
e da medicina desde fins da década de 1990(Ribeiro, 1997; Weber, 2001;
Sampaio, 2005; Edler, 2010), a baixa procura pelos serviços prestados por
médicos entre brasileiros nos 400 anos que se seguiram ao contato e à
colonização portuguesa seria explicada por fatores bem mais complexos que
simplesmente o reduzido número desses profissionais ou a quase ausência dos
mesmos, contrastada à vastidão do território brasileiro, como uma bibliografia
mais tradicional costumou enfatizar. Mais que à presença ou escassez de
profissionais, esse comportamento tem sido contemporaneamente explicado
a partir de uma maior ou menor proximidade entre as percepções e práticas
relativas aos fenômenos da doença e da cura professadas por esses curadores

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e aquelas partilhadas pela população de forma mais geral. Apoiada em uma
tradição que projeta suas raízes nos fundamentos hipocráticos-galênicos,
as percepções sobre saúde e doença prevalentes ainda na segunda metade
do século XIX seguiam um modelo de ordem mais holística, associadas
que estavam a uma gama de elementos - tais como o clima, a alimentação
e os modos de vida, o equilíbrio físico e emocional a experiência espiritual
- que seriam colocados em segundo plano ou mesmo desconsiderados
pelo paradigma biomédico em ascensão a partir daquele período (Abreu,
Nogueira e Kury, 2018, Benchimol, 2018).
Além de muitas vezes apresentar uma distância mais pronunciada em
relação às concepções sociais correntes concernentes ao adoecimento e à cura,
a medicina acadêmica também possuía um baixo nível de resolubilidade,
favorecendo por isso a procura por e a difusão de outras práticas e paradigmas
explicativos (Sayd, 1998). Em meio a modelos teóricos às vezes pouco
claros e a posições terapêuticas expectantes, predominava um pronunciado
descompasso entre a clínica e a terapêutica. Os avanços do conhecimento em
alguns campos como a fisiologia e a anatomopatologia e no entendimento
de processos infectantes/contaminantes não se faziam acompanhar pelo
equivalente conhecimento de como agir e debelar esses mesmos processos.
Ignorando a etiologia das doenças, a terapêutica permaneceu durante boa
parte do período restrita à intervenção sobre a sintomatologia, lançando mão
de um amplo arsenal de estimulantes, vomitórios, purgativos, diuréticos,
sudoríficos (Holanda, 2004:557).
A terapêutica andou à reboque da clínica até a revolução implementada
pela quimioterapia, já bem entrado o século XX (Sayd, 1998). O novo cenário
foi uma decorrência de uma ampla combinação de fatores envolvendo tanto
o desenvolvimento do conhecimento mais sistemático da histologia, das
estruturas moleculares, da química - um conjunto de investigações propiciado
pelos avanços do laboratório - como sobre as manifestações patológicas das
doenças, e também dos avanços proporcionados por uma medicina voltada
para a solução de problemas e de males de caráter mais coletivo. Exemplo foi
o desenvolvimento observado nos campos da bacteriologia e da imunologia,
especialmente na segunda metade do século XIX, quando um conjunto de

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organismos apresentados como agentes causais de determinados males
foram sendo estabelecidos, favorecendo a procura por antídotos capazes
de intervir ou impedir sua dispersão e ação no organismo.
Em relação ao mercado e à prática médica e farmacêutica as mudanças
também ocorreram de forma lenta, concentrando-se no último quartel
dos oitocentos, seja no que se refere ao arsenal de técnicas e substâncias
empregadas ou ainda pelos recursos tecnológicos disponíveis. Como se lê
em texto organizado por Sergio Buarque de Holanda: “As boticas, até quase
o final do império, mantinham um aspecto muito próximo ao que foram
nos tempos coloniais, reunindo drogas, preparados e fórmulas secretas,
panaceias e elixires milagrosos, aumentados na sua quantidade, mas pouco
alterados na sua qualidade” (Holanda, 2004:559). Os primeiros laboratórios
farmacêuticos criados no país datam da segunda metade do século, somando
no último ano do Império (1889) o montante de 35 empresas3. (Edler, 2006).
A formação profissional de médicos e farmacêuticos, exclusivamente
estrangeira no período colonial, passou a ser ofertada pelas duas escolas
de Cirurgia criadas por Dom João logo após a chegada da corte ao Brasil.
Se aos médicos e cirurgiões era exigido o diploma em curso específico, a
formação dos boticários foi essencialmente prática até as duas primeiras
décadas do século XIX. A Escola Anatômico Médico-Cirúrgica do Rio
de Janeiro, instalada em 1809, oferecia entre suas disciplinas uma cadeira
de matéria médica e farmácia, cujas aulas eram ministradas no horto do
Passeio Público, acrescidas tempos depois de prática laboratorial oferecida
pelo farmacêutico português João Caetano de Barros nas dependências do
seu próprio estabelecimento. (Fernandes, 2004:29). A instalação do curso de
farmácia ocorreu somente após a reforma do ensino médico de 1832, sendo,
porém, vinculado aos cursos médicos das faculdades do Rio de Janeiro e de
Salvador. A primeira escola do país e da América Latina, exclusivamente
dedicada ao ensino da arte farmacêutica, a Escola de Farmácia de Ouro Preto
foi criada pela Lei Provincial nº 140 de 4 de abril de 1839. O curso, realizado
em dois anos, compunha-se de disciplinas de farmacologia e botânica e de

3. O número foi computado pelo primeiro recenseamento da indústria farmacêutica realizado


em 1889. (Fernandes, 2004:31)

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matéria médica, além da mais prática, desenvolvida em estabelecimentos da
cidade sob a supervisão dos farmacêuticos locais. Excetuando-se o período
de 1840-18544, a manutenção do curso esteve a cargo do governo provincial
(Velloso, sd). Quanto ao curso médico, somente na segunda década do século
XX ele seria instalado na capital mineira. O impacto da presença de cursos
voltados para a formação de médicos e farmacêuticos demorou ainda algum
tempo para alterar os números no mercado da cura da do Império como
um todo, e da província em particular. Até o último quartel do século XIX
o número dos profissionais em atuação no país e em Minas, deixava muito a
desejar. Levantamento organizado pelo governo provincial em fins da década
de 1860 indicava a presença de 46 médicos, 6 cirurgiões e 133 farmacêuticos
e boticários em exercício no território mineiro5. A consulta a almanaques
comerciais editados uma quinzena de anos mais tarde, apontam para algumas
pequenas alterações nesses dados, sugerindo que situação mais alentadora,
ao menos para quem dispunha de recursos para pagar pelos serviços, estava
circunscrita às sedes de municípios (Martins, 1874).
O exercício das profissões médica e farmacêutica já era objeto de
preocupação e regulamentação das autoridades públicas desde o período
colonial. A partir de 1810, o Regimento da Fisicatura-mor estabelecia o
conjunto de regras que deviam pautar a prática da medicina e da farmácia
(Pimenta e Costa, 2008, p.1015). Ao longo do século, uma série de outras
determinações foram sendo integradas à legislação referente às artes da cura
e as ações de saúde pública. A regulamentação vinha acompanhada por um
conjunto de outras de iniciativas e instituições, que sinalizam no sentido de
um progressivo aumento do controle e da intervenção pública no âmbito
da saúde. Nem sempre, porém, as leis foram observadas pela população
ou mesmo pelos agentes públicos responsáveis pela sua implementação e
fiscalização.

4. Nesse período a escola de Farmácia em que esteve vinculada ao Colégio Ouro Preto,
administrado pela Congregação das Missões
5. Certamente esses dados não são absolutos, uma vez as autoridades responsáveis pelo
levantamento indicarem que muitas câmaras instadas a enviar o número de profissionais
em atuação nos municípios, não terem encaminhado resposta (Relatório, 1870).

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Na corte ou nas províncias pululavam os vendedores ambulantes de
remédios secretos. A população não associava competência terapêutica
com os diplomas oficiais e as autoridades faziam vista grossa à
multiplicidade de anúncios que ofereciam, para os mais diversos males,
remédios que prometiam curas imediatas. (Edler, 2010:44)

Os dados levantados não permitem mensurar o impacto que o


treinamento profissional teve na formação dos médicos e farmacêuticos na
época imperial. Entretanto é possível presumir que a instalação dos cursos
a sua regulamentação no decorrer do período, tenham progressivamente
auxiliado na instauração, ainda que muito preliminarmente, de algum
tipo padrão na formação desses profissionais, contribuindo ainda que
discretamente na regulamentação do exercício da profissão e em um
movimento de ampliação na oferta dos serviços médicos e farmacêuticos
à população. É nesse contexto que inscrevemos, por exemplo, a decisão do
governo provincial em meados do século, de determinar a primazia dos
farmacêuticos diplomados na instalação e direção destes estabelecimentos.
Entre as iniciativas que evidenciam a tentativa de constituição de um
serviço que favorecesse a manutenção da saúde dos povos destacam-se os
esforços despendidos pelas autoridades públicas em torno da divulgação e
propagação da vacina. Conhecida desde o primeiro século da colonização, a
varíola era temida entre governantes e a população tanto pela experiência física
do adoecimento como pela experiência social do medo por ela provocado.
A dispersão da prática da variolização6 teria se dado no território brasileiro
ainda no período colonial. A possibilidade de erupção de epidemias virulentas
após esse tipo de procedimento contribuiu para que ela fosse substituída
pela técnica da vacinação.
Ocorrida na última década do século XVIII, a descoberta da vacina
jenneriana teve repercussão rápida no Brasil. Já em 1804, uma pequena

6. Variolização ou inoculação: técnica anterior à vacinação jenneriana, e que consistia em


promover a infecção artificial de uma pessoa saudável pela inoculação de fragmentos do
material extraído das pústulas de variolosos em indivíduos sãos para a reprodução de uma
manifestação mais branda da doença, promovendo a imunização do paciente. Difere da
vacinação, uma vez que nessa o material inoculado é produzido por outro tipo de vírus
(Cowpox) que, quando introduzido no homem produz uma infecção de caráter mais brando
que a varíola (Crosby, 1999:1010).

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comitiva composta por jovens escravizados e um médico aportavam no
Brasil trazendo a linfa da cidade de Lisboa. Da iniciativa particular muito
brevemente a difusão da vacina seria encampada pelo governo da corte.
Quatro anos depois desse evento, era criada no Rio de Janeiro, sob os auspícios
do Príncipe Regente Dom João, a Junta Vacínica da Corte, tendo como missão
a conservação e propagação da vacina na cidade do Rio de Janeiro e para as
demais regiões do vasto império brasileiro. Responsável pelo atendimento das
requisições encaminhadas de diferentes partes do Império, a engrenagem da
vacinação envolvia, além da Junta, as autoridades provinciais e especialmente
a administração local, sendo as câmaras parceiras necessárias para que a
vacina chegasse aos braços da população7.
As avaliações sobre essa iniciativa, desde sua organização inicial,
passando pela sua reformulação e centralização através da criação do Instituto
Vacínico do Império em 1846, afirmam ter sido ela bastante inexpressiva,
considerando-se a magnitude de problemas com os quais a difusão dessa
prática defrontava-se naquele período. As dificuldades enfrentadas abarcavam
desde questões de ordem técnica, como a conservação e propagação da linfa,
passando por aquelas de ordem administrativa e cultural, como a organização
burocrático/administrativa do estado, que não dispunha de uma estrutura
capaz de transitar a vacina para os diversos pontos do território e nem pessoal
para efetuar a inoculação da população, chegando até as questões culturais que
divergiam quanto a efetividade e as consequências indesejáveis do processo
de vacinação. A epopéia envolvendo a difusão da vacina na região da Minas
Gerais no período imperial é descrita em vasta correspondência entre o
governo da província e as autoridades locais e imperiais, como também
nos relatórios produzidos pelos responsáveis pela saúde em âmbito local e
provincial, muitas vezes reproduzidos nos relatórios anuais encaminhados
pelos presidentes de província à Assembléia Provincial (Silveira 2013:51).
A inoculação da vacina envolvia um conjunto de pessoas, entre as
quais estavam incluídos os responsáveis pelo envio e transporte das linfas
desde a corte. Seu recebimento e redistribuição na província, a divulgação

7. Desde 1828, pela lei de 1º de outubro daquele ano, as câmaras municipais passavam a
assumir uma série de prerrogativas, entre as quais encontravam-se questões associadas à
saúde pública à saúde pública.

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e organização local da vacinação mais a confecção de relatórios que se
iniciava entre os comissários vacinadores locais, passava pelas autoridades
de saúde provinciais (inspetor de saúde) chegando até administração central.
Também integrava esse coletivo, as pessoas utilizadas como propagadoras,
pois a reprodução da vacina era feita pela retirada da linfa entre aqueles
indivíduos nos quais a vacinação teria provocado o aparecimento de pústulas,
sinais característicos da doença. O processo da vacinação era iniciado com a
convocação da população através de editais, divulgados em locais de grande
aglomeração, como adro de Igrejas ou a porta das câmaras, como o edital
abaixo, fixado na cidade de Mariana no ano de 1830:
[...] lhe(s) faço saber que a Ilma. Câmara pôs em execução o artigo 69
da lei de 1º de outubro de 1828, para que sejam vacinad(a)s todas as
pessoas, tanto meninos como adultos, e assim devem concorrer a essa
casa da Câmara, principiando no dia 14 do corrente mês, desde ás 9
horas às 11, que onde achar pronto o cirurgião-mor, José Luiz de Brito,
presente o secretário para os tomar aval, onde também o serei presente,
e durará aqueles dias que forem precisos e nas horas já marcadas de cada
dia. A Ilma. Câmara espera que as operem para um ato tão útil para os
brasileiros porque os livra infalível do seu inimigo geral, qual é a bexiga
maligna. E para que chegue à notícia de todos, este será publicado pelo
porteiro do auditório e afixado no lugar do costume (Lopes, 2004:147).

Apesar do interesse manifesto pelas autoridades na propagação do


novo método de prevenção contra a varíola e da persistente tentativa de
implementá-lo no correr do século XIX, esse acabou sendo um projeto de
pouco êxito. Como ele, outros projetos também acabaram postergados, pela
falta de recursos, de uma estrutura administrativa os que os viabilizasse, ou
ainda de vontade política.

Uma cartografia da interiorização da assistência hospitalar na


Província de Minas Gerais
No passado colonial e no período do império, em contraste com os dias
de hoje, as poucas instituições voltadas para o acolhimento e tratamento dos

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doentes eram devotadas aos pobres e miseráveis, desprovidos dos recursos
necessários para vivenciar a doença no âmbito do privado. Excetuando-se
lazaretos e hospitais de isolamento provisórios, instalados quando alguma
epidemia grassava de forma mais severa e durante as quais a intervenção
do estado parecia ser mais visível, ou ainda os poucos hospitais dedicados
ao atendimento das tropas militares, a assistência aos enfermos e desvalidos
esteve invariavelmente associada ao exercício da caridade pública e religiosa.
Essa forma de atenção se traduziu no mundo da colônia e do império na
instituição das casas de caridade e dos estabelecimentos mantidos pela
Irmandade da Misericórdia.
A tradição da associação entre caridade e saúde observada desde
o mundo colonial encontra suas raízes na instituição da Irmandade da
Misericórdia de Lisboa, surgida no ano de 1498, pelo empenho e patrocínio
da rainha dona Leonor e do frei espanhol Miguel de Contreras, seu suposto
confessor. (Sá, 1997)8 Reafirmando a sensibilidade medieval da caridade
para com os pobres, enfermos e peregrinos, as Misericórdias também foram
espaço de observação de um processo de laicização dessa caridade e ao mesmo
tempo de acomodação de interesses sociais e de centralização, trazendo o
enquadramento da assistência para uma órbita mais próxima do estado.
Os estudiosos das irmandades da Misericórdia são acordes em enfatizar
a importância que tais instituições adquiriam na vida social do império
português. (Boxer, 1977, Boschi, 1984, Sá, 1997)
Basta lembrar, como o fez Charles Boxer, que, dentre as instituições
peculiares do império colonial português, “que ajudaram a manter
unidas as suas diferentes colônias, contavam-se o senado da Câmara
e as irmandades de caridade e confrarias laicas”, verdadeiros pilares
gêmeos da sociedade colonial portuguesa, desde o Maranhão até Macau,
garantias de uma continuidade que circunstanciais governadores,
bispos e magistrados não tinham condições de assegurar e que se
transformaram em suporte da política centralizadora e absolutista da
Metrópole. (Boschi, 1986:28)

8. Segundo a autora, não há na historiografia uma “evidencia definitiva do primado de um


sobre o outro”. (Sá, 1997, p.49)

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Os deveres a serem observados pela instituição e seus seguidores,
estabelecidos através do Compromisso da Irmandade, referiam-se ao
engajamento em 14 obras, divididas entre aquelas de caráter espiritual e as
de ordem corporal. Entre essas últimas encontravam-se: “remir os cativos e
presos; visitar e curar os enfermos; cobrir os nus; dar de comer aos famintos;
dar de beber aos que têm sede; dar pousada aos peregrinos e pobres; enterrar
os finados”. (Franco, 2014:20) Como observa Caio Boschi, a atuação destas
irmandades pressupunha a existência de recursos vultosos, que pudessem
fazer frente ao cumprimento destas ações. (Boschi, 1984:29). Além do prestígio
social conferido aos seus integrantes por tais instituições, os interesses
comerciais e o controle sobre os recursos amealhados pela instituição eram
outros estímulos para a integração em seus quadros, justificando também a
presença expressiva de membros privilegiados da sociedade entre os mesmos.
A transposição destas instituições para o território brasileiro remonta
às décadas iniciais da ocupação portuguesa. Estudos relativos à Irmandade
da Misericórdia no império português afirmam que, apesar do caráter
homogeneizador representado pelo compromisso da irmandade, essas
foram instituições autônomas, cujo funcionamento esteve marcadamente
definido pelo caráter local. (Sá, 1997; Franco, 2014). Também sugerem a
existência de dois diferentes momentos na história da irmandade no contexto
brasileiro. Um período inicial, compreendido entre os séculos XV e XVII
e coetâneo à fundação das primeiras vilas e cidades, quando a instituição é
percebida como instauradora de uma renovação das práticas assistencialistas
de tradição lusitana e de “algum luzimento às pequenas e frágeis povoações
do território americano, carentes de instituições e elementos de distinção”.
(Franco, 2014:10), replicando-se na sequência pelas diferentes regiões do
império.
“Em todas as capitanias há Casas de Misericórdia que servem de
hospitais, edificadas e sustentadas pelos moradores da terra com muita
devoção em que se dão muitas esmolas, ... curam os enfermos de toda a
sorte e fazem outras obras pias conforme o seu instinto e possibilidade de
cada uma...” (José de Anchieta, apud Franco, 2014:10).

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O segundo momento, caracterizado pela crise que se seguiu à experiência
da invasão holandesa, é tomado como período de arrefecimento na criação e
instalação de novas casas de misericórdias. Temporalmente abarca a segunda
metade do século XVII atravessando praticamente todo o século seguinte.
Esse contexto de crise, entre outros fatores, ajudaria a entender a pouca
acolhida à proposta de criação de uma Misericórdia na cidade de Ouro
Preto, reclamada pelas autoridades da capitania ao governo metropolitano
e para a qual o capitão-mor Henrique Lopes de Araújo havia deixado como
legado “umas casas e lavras” (Sales, 2004:70). Focalizando o caso brasileiro
em específico, podemos acrescentar um terceiro momento, cronologicamente
não mais inscrito no conjunto da experiência do império português, mas
sim do Brasil independente no seu período imperial (1822-1889) e que será
objeto de uma análise mais detalhada adiante.
Em Minas Gerais, durante o século XVIII, havia em funcionamento três
estabelecimentos dedicados ao atendimento de doentes pobres. A primazia
coube à Santa Casa de Ouro Preto, confirmada por provisão da Mesa de
Consciência e Ordens em 1740, tendo como primeiro provedor o então
governador da província, Gomes Freire de Andrade. (Rocha, 1995) Na cidade
de Mariana, a irmandade de Sant’Ana também propôs a criação de um
hospital para o atendimento aos enfermos pobres, demanda que, entretanto,
não logrou êxito junto às autoridades metropolitanas. (Franco, 2014, 194)9
Outras duas casas de caridade foram criados na cidade de São João del
Rei (1783) e Diamantina (1790). A instalação desses dois estabelecimentos
é atribuída ao ermitão Manuel de Araújo Fortes, que havia percorrido o
território mineiro realizando obras de caridade. (Salles, 2004:71) No século
XIX, esses e outros estabelecimentos caritativos dedicados à assistência aos
pobres doentes passariam a receber a denominação de casas de misericórdia.
Do mesmo século XVIII é o Hospital do Contrato Diamantino,
localizado no Arraial do Tejuco e cuja data de instalação não é conhecida,
mas que se presume estivesse em funcionamento no ano de 1740. (Quintão,
2017:70) Posteriormente, seria aberto um Hospital Militar em Vila Rica

9. São poucas as referencias ao hospital que teria sido criado pela Irmandade de Santana
na Vila do Carmo, depois cidade de Mariana.

269

LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 269 23/01/2020 14:59:30


(1771). (Grossi, 2003/2004:280) Deste modo, durante parte do século XVIII
a assistência hospitalar na região das Minas Gerais esteve reduzida a cinco
estabelecimentos. Três deles dedicados aos pobres e outros dois que voltavam
sua atenção aos militares. Fica claro então, diante dessa estrutura pouco
expressiva e de recursos tão escassos o quanto era deficitária a assistência
disponível aos enfermos e pobres, diante da extensão do território da
capitania das Minas do Ouro e do tamanho de sua população. Reduzido
no número, esses estabelecimentos o eram também quanto ao tipo de serviço
e à capacidade de atenção oferecidos:
“como escrevia o governador à corte, a Misericórdia tinha “limitadas
rendas ... e todos os dias se diminuem por ser em casas que a terrível matéria
deque são feitas sempre estão necessitando de conserto”. Por tais motivos,
dizia o governador, não podiam curarem-se no hospital “mais que o número
de sete até oito”. (Grossi, 2003/2004: 281)
Sobre a estrutura física e de pessoal existente no hospital militar de Ouro
Preto, a documentação provincial informava que os soldados das tropas que
necessitassem atendimento seriam curados em “‘duas casinhas que ficam ao
lado direito’, próximas à cozinha, e o comandante acomodado ‘nas do lado
esquerdo’”. Prestavam serviço aos doentes, “enfermeiros contratados a trinta
oitavas”, e mais médicos e cirurgiões, “remunerados somente pelas visitas
realizadas aos soldados doentes e os boticários receberiam pelos remédios
fornecidos”. (Grossi, 2003/2004: 280-281)
No século seguinte esses hospitais militares tenderam ao abandono ou
ao encerramento de suas atividades. E para cumprir a obrigação de assistir
à saúde das praças e outros oficiais enfermos, foi negociado um acordo
entre o estado e as autoridades da Santa Casa, resultando na organização
por parte de alguns destes estabelecimentos de enfermarias destinadas ao
atendimento de uma clientela exclusivamente militar. Como argumentam
alguns estudiosos, os recursos amealhados com a manutenção da enfermaria
dos militares perfaziam uma parte considerável dos recursos recebidos pela
instituição. (Franco: 2014:125).
As dificuldades de manutenção e um forte argumento para a existência
de apenas três estabelecimentos de caridade em Minas Gerais, no século

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 270 23/01/2020 14:59:30


XVIII, que foram instalados nas principais vilas erigidas na capitania, polos
de atividade econômica, social e política destacados no mundo colonial.
Ouro Preto e Diamantina, dois dos mais importantes centros da atividade
mineradora, e São João Del Rei, centro mercantil de destaque já em meados
do século XVIII (Mapa1). O novo século iniciado em 1801 assistirá expressiva
expansão de casas de caridade no território mineiro. Levantamento realizado
no âmbito dessa pesquisa, apontaram para um total de trinta e oito instituições
do gênero fundadas no decorrer dos oitocentos. Exercício interessante é o
de proceder uma leitura geográfica desse movimento de criação de casas
de caridade no decorrer do período e ainda mais revelador é acompanhar
essa expansão fragmentadamente, identificando de forma mais detida as
transformações operadas nessa cartografia a partir de dados decenais.

Mapa1: Hospitais de caridade instalados em Minas Gerais no período


colonial até 1800.

Fonte: adaptação ao mapa do Arquivo Público Mineiro. Fundo: Secretaria da Agricultura.


Notação Atual: AS-233. Notação Antiga: 431 MC. “Estado de Minas Gerais – Cartograma
dos Itinerários, por território mineiro, entre as sedes municipais e a capital do Estado (...)”.

Como pode se observar do mencionado acima, dos três estabelecimentos


criados no século XVIII, dois deles se deram no último quartel do século,
o que vale dizer que a Santa Casa de Ouro Preto permaneceria como única
271

LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 271 23/01/2020 14:59:31


instituição do gênero nas Minas por quase meio século. Avançando o período
no qual o Brasil ainda se encontrava integrado ao império português, até
a Proclamação da Independência em 1822, apenas mais uma instituição
do gênero seria criada no território mineiro, em Sabará, somando quatro
estabelecimentos durante a fase “colonial”. Vinte anos depois, finda a década
de 1840, a província já abrigava um total de nove santas casas, dobrando o
número do período anterior com o acréscimo de Baependi e Campanha, no
sul; Mariana*, Pitangui e Santa Luzia na região central (Mapa 2).
Mapa 2: Hospitais de caridade instalados em Minas Gerais,
compreendendo o período colonial até 1849.

Foi a partir de meados do século XIX que o movimento de criação de


casas de caridade no território mineiro ganhou maior expressão. Somente na
década de 1850, surgiram cerca de outros nove estabelecimentos. O aumento
de estabelecimentos acontece no momento em que a economia mineira se
diversificava e as possibilidades de financiamento também.
Comparativamente ao período anterior, amplia-se significativamente
o número de estabelecimentos localizados na região centro-sul (Centro,
Sul- Sudoeste, Campo das Vertentes, Zona da Mata) como área de expansão

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mais concentrada. Agregam-se a elas, Paracatu na região noroeste e Rio
Pardo na região norte (Mapa 3).

Mapa 3: Hospitais de caridade instalados em Minas Gerais,


compreendendo o período colonial até 1860.

Dos anos de 1860 até o final do século seriam criados mais vinte e três
estabelecimentos: cinco na década de 1860; outros seis nos anos de 1870,
quatro na década de 1880 e oito na década de 1890. Novamente a região
centro-sul da província seria privilegiada, sediando a maior parte das novas
instituições criadas. É possível observar também a inclusão da região do
Triângulo, através da Santa Casa de Uberaba (Mapas 4 e 5).

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Mapa 4: Hospitais de caridade instalados em Minas Gerais,
compreendendo o período colonial até 1880.

Mapa 5: Hospitais de caridade instalados em Minas Gerais,


compreendendo o período colonial até 1890.

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 274 23/01/2020 14:59:31


O desequilíbrio observado quanto à presença destas instituições entre
as regiões norte e sul da província permanecerá como tendência até o final
do século XIX. Comparando os quadros cartográficos obtidos para cada uma
das décadas do século XIX com aqueles gerados no âmbito de projetos de
investigação dedicados à economia mineira no mesmo período é possível
verificar como o movimento de criação destas santas casas se sobrepõe
aos vetores do desenvolvimento econômico provincial no mesmo período
(Mapa 6).
Mapa 6.

Godoy e Barbosa, (2008)

Desde fins da década de 1970, as interpretações que propõem uma


retração da economia de Minas Gerais, entre o declínio da atividade
mineradora na segunda metade do século XVIII e a expansão da cafeicultura

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 275 23/01/2020 14:59:31


na segunda metade do século XIX, vem sendo questionadas. Conforme a
nova historiografia, inaugurada a partir do estudo de Alcir Lenharo (1979), a
abordagem tradicional obscurece a presença e a pujança de outros setores de
atividade, em especial aqueles dedicados à produção de artigos de subsistência
e à sua comercialização em praças diversas, além de própria recuperação da
atividade mineradora que, aliadas ao aparecimento da cafeicultura, revelam
um panorama econômico bem mais diversificado para a região das Minas.
(Graça Filho, 2002; Carrara, 2007; Dulci, 2013).
Além de contestarem uma visão mais rígida, os novos estudos oferecem
dados que permitem uma interpretação mais rica e variada da economia e da
sociedade mineira no século XIX. Essa perspectiva afirma que nesse período,
os centros mais dinâmicos das atividades produtivas estavam ligados a áreas
que tinham uma relação mais ou menos forte com o comércio. Mesmo que de
forma diferenciada, dependendo da região territorial focalizada, a província
de Minas Gerais estava inserida em um circuito comercial que abrangia
as ligações interprovinciais, com uma gama variada de rotas e centros de
troca, até o comércio com o Rio de Janeiro – estreitado desde a chegada da
corte. (Graça Filho, 2002; Pires, 2013; Carrara 2007) Entre os centros que
apresentavam maior dinamismo econômico-comercial estavam a Zona da
Mata, o sul de Minas e a zona mineradora, impulsionados pela expansão
da economia cafeicultora, pelo movimento de industrialização e ainda pelo
trânsito comercial. Estas regiões exerciam um efeito agregador e dominador,
funcionando como centros de referência em relação às demais regiões.
A cartografia das Santas Casas, revela o dinamismo da economia no
interior da Província de Minas Gerais. Na documentação analisada, a lei
determinava que a construção de uma Santa Casa era assunto da esfera civil,
apoiada na iniciativa dos cidadãos que faziam subscrições de donativos e
partir dessas listas, à Câmara cabia a aprovação da construção. A iniciativa
particular também dominava os recursos para a manutenção, fossem por meio
das esmolas ou doações, mas muito outros recursos se juntaram às doações:
aluguel e arrendamento de casas, aluguel de escravos, prêmio de alguns
capitães confiados a particulares sob fiança idônea, , direitos chamados de
caixão, diárias do tratamento de guardas nacionais, praças do corpo policial

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 276 23/01/2020 14:59:31


e presos pobres, pagas pelas Tesourarias Geral e Provincial, pagamento
das despesas com curativo e dietas, entre outros recursos, especialmente
variados nos centros maiores como na capital Ouro Preto. As loterias com
extração destinada às Santas Casas, ocorriam e eram consideradas “como
um dos meios mais eficazes de conservar, e melhorar este estabelecimento”.
(Relatório, 1857)
Em alguns casos, quando a santa casa estava em uma região com um
efetivo maior de guardas, a renda aferida com o tratamento dos militares,
paga pelo Thesouraria Provincial, era significativa, como era o caso de
Ouro Preto::“[conta] com a variavel de 6:500$000 reis aproximadamente,
proveniente da diárias pagas pelas thesourarias geral e provincial pelo
tratamento de guardas nacionaes destacados, praças do corpo policial e
presos pobres”. (Relatório 1872, p.30-31))
Entre os recursos mais substanciais, estavam os juros de Apólices
da Dívida Pública, e algumas vezes era o principal meio de sobrevivência
dos estabelecimentos. Em quase todos os relatórios, essas apólices eram
relacionadas. Mas sem dúvida, um recurso nada desprezivel vinha do Governo
Provincial, não só por assumir as contas de militares e presos, mas também
pelas chamadas subvenções, pelas quais tanto reclamavam os provedores,
mas que nem sempre chegavam por causa das exigências da fiscalização:
“A existência simplesmente de casas de caridade não autoriza a percepção
do que lhes é votado como subvenção. É mister que as administrações
respectivas dêem conta do seu encargo, e manifestem, por seus balanços
de receita e despeza, não só a necessidade de serem coadjuvados pelos
cofres da Provincia, como que justificadamente despendem as rendas
entregues á sua fiscalização. Todas quantas satisfizeram taes exigências
foram pagas do que a lei lhes concedeu.“ (Relatório, 1867)

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 277 23/01/2020 14:59:31


“CASAS DE CARIDADE”

N. 1.
“Quadro dos hospitaes de caridade existentes na província, com
declaração das subvenções que lhes tem sido concedidas e das leis que as
concederam”.

LOCALIDADES SUBVENÇÕES LEIS QUE AS CONCEDERAM OBSERVAÇÕES

Annualmente pelo art. 10 da lei Tem recebido constantemente em


Ouro Preto........... 2:000$000
prestações trimensaes de 500$000.
n.º 1009 de 1859..........................
Por despacho de 12 de fevereiro
Lei n.º 1, 215 de 1864 e 1,375 de
Sabará.................. 3:000$000 de 1866 mandou-se entregar a 1ª
1866............................................. subvenção de 2:000$000.
Annualmente pelo paragrafo 11 do
S. João d'El-Rei... 1:500$000
art. 1º da lei n.º 1,145 de 1862
Marianna.
Annualmente pelo paragrafo 11 do
Barbacena............ 1:000$000 art. 1º da lei n.º 1,145 de 1862 e tit.
5.º da de n.º 1,375 de 1866
Em 14 de fevereiro de 1867
Lei n.º 1,267 de 2 de janeiro, e
mandou-se entregar 1:000$000
Diamantina............ 8:000$000
1,375 de 14 de novembro de por conta da 1.ª subvenção de
1866 4:000$000.
Pitangui.
Santa Luzia........... 1:000$000 Lei n.º 1,375 de 1866................... Idem, idem, idem.
Mandou-se entregar em 23 de
Paracatu............... 2:000$000 Idem, idem....................................
março de 1867.
Tres Pontas.
Uberaba.
Campanha.
Annualmente pelo paragrafo 11 do
Serro.................... 1:000$000 art. 1.º da lei n.º 1,145 de 1862 e
1,375 de 1866
Itabira................... Lei n.º 1,267 de 1865 e 1,375 de Mandou-se entregar a 1.ª
Curvello. 2:000$000 1866............................................ subvenção de 1:000$000 em
prestações trimensaes de 250$000.
Lavras.
Hade ter execução no exercicio da
Passos.................. 1:200$000 Lei n.º 1,375 de 1866....................
lei, que é o seguinte.
Hospital das Irmãs de
caridade em 1:200$000 Idem, idem.................................... Idem, idem, idem.
Marianna..........

FONTE: Secretaria da Presidencia da Província de Minas Geraes, em Ouro-Preto, 22 de


junho de 1867. Francisco de Paula Pinheiro d’Ulhôa, 1º official.

A tabela apresentada, ilustra os aportes concedidos por lei, aos hospitais


de caridade pela Presidência da Província. As localidades contempladas
estão espalhadas por toda a Minas Gerais, mas concentradas nas regiões de

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alto e médio desenvolvimento. Interessante observar que os subsídios para
hospitais em Sabará e Diamantina superam a verba concedida a capital Ouro
Preto, revelando um investimento na interiorização da assistência à saúde.
No mesmo relatório é possível calcular o peso do financiamento das casas
de caridade, vindo de fontes diversas as conhecidas esmolas e doações. A
importância do financiamento do Estadoso longo do século XIX é crescente.
Em Diamantina, por exemplo, em 1876, a cidade que recebeu o maior volume
de subvenção do governo (8:000$000), teve no mesmo ano, “14:000$000,
em apólices da dívida pública”. (Relatório, 1867)

Considerações finais
A cartografia das Santas Casas de Minas Gerais no século XIX,
apresenta um cenário de interiorização da assistência. Ações como a
vacinação antivariólica, o crescimento da oferta de serviços profissionais e
dos estabelecimentos de saúde, não ficaram restritos à capital ou aos antigos
redutos urbanos dos tempos áureos da mineração. Ao longo do século XIX,
a despeito de uma propagada decadência econômica, o modelo das Santas
Casas se firma como opção de atendimento não só aos desvalidos, mas a
população em geral. Criar e manter uma Santa casa, mesmo que modesta,
exigia mobilização social, beneméritos com recursos e investimentos do
Estado.
A nosso ver, além das instituições hospitalares herdadas do período
colonial – Ouro Preto, São Joao del Rei, Diamantina e Sabará - cuja
instalação se explica quer pela centralidade econômica das cidades onde se
localizaram, quer pelo seu papel político-administrativo, a expansão dessa
rede de estabelecimentos, especialmente a partir de meados dos XIX, virá a
reboque do processo de urbanização, baseado na acumulação e concentração
de capital que vão marcar a economia mineira nas diferentes partes do
seu território no decorrer do século XIX. De modo diverso ao que afirma
Caio Boschi em relação às casas de caridade abertas no período colonial,
de que o advento destas instituições “se processa coincidentemente com
momentos em que a crise sócio-econômica na atividade mineratória se
torna mais acentuada” (Boschi, 1984: 32), no período imperial a criação

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LUIZ OTAVIA SEGUNDAS DIA GRAMÇÃO.indb 279 23/01/2020 14:59:31


destes estabelecimentos esteve associada muito mais ao sucesso do que à
crise econômica e o consequente aumento da carência ou escassez a serem
assistidas.

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positivismo na República Rio-Grandense – 1889-1928. Santa Maria: Editora
da UFSM; Bauru: EDUSC, 1999.
WITTER, Nikelen Acosta. Dizem que foi feitiço: as práticas de cura no sul
do Brasil (1845 a 1880). Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001.

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“Itinerários abençoados”: mulheres católicas e a
assistência na cidade de Belo Horizonte
(1927-1934)

Polyana Valente

Em Belo Horizonte, nas primeiras décadas do século XX, devido à grande


variedade de grupos e nacionalidades que compunham sua população, as
associações voluntárias serviam como agregadoras do conjunto urbano.
Floresciam as associações de auxílio mútuo de comerciantes, clubes de
senhoras, bandas, grupos teatrais e associações profissionais bem organizadas
e amplamente atuantes no ordenamento da sociedade mineira.
Como já foi amplamente discutido pela historiografia (Julião, 1996;
Mello, 1996; Goodwin Jr., 2004 e Souza, 2004), Belo Horizonte foi planejada
e construída dentro dos padrões de higiene e salubridade da época, para
ser símbolo da República. A construção da cidade foi revestida de ideais de
modernidade e civilização. Sua criação serviu para minar conflitos entre as
forças políticas regionais e, consequentemente, promover a integração do
estado tornando-se centro econômico, político e cultural.
Embora tivesse ampla divulgação do discurso de cidade moderna –
planejada e construída seguindo os preceitos da urbanidade e higiene – havia
poucas instituições destinadas a cuidar da saúde da população, prevalecendo
assim, a caridade e a assistência popular (Teixeira, 2012). A Igreja Católica
mineira, sem dúvida, teve papel importante nas organizações voluntárias.

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Essa atuação pode ser verificada no trabalho de Souza (2004), que destaca
a força da Igreja na economia da caridade, seu controle sobre as famílias
desfavorecidas e as estratégias de aproximação e convencimento usadas
pelos grupos de vicentinos em suas visitas aos pobres.
Segundo John Wirth (1982: 134), as organizações voluntárias, juntamente
com os meios de comunicação, a educação e a Igreja, era um dos principais
órgãos socializadores em Minas Gerais. Como mostra o autor, no censo
do ano de 1920 havia cerca de 2.600 associações atuantes em Minas. Desse
número, mais da metade era do tipo beneficente ou religioso tradicional
e funcionavam como sociedades de amparo médico e irmandades laicas.
Em Belo Horizonte, nesse período, contabilizava-se 117 associações
voluntárias ativas. O expressivo número de associações voluntárias, sobretudo
as de cunho filantrópico, associadas às limitações de instituições destinadas
ao atendimento de saúde e higiene da população pobre, revela a importância
dos serviços de assistência no atendimento a essa parcela da sociedade.
Pensando esse universo, o presente trabalho, que é parte da minha tese de
doutorado defendida em 2016, no Programa de Pós-Graduação em História
na Universidade Federal de Minas Gerais, tem como objetivo contribuir para
o debate sobre a atuação de mulheres na prestação da assistência em Belo
Horizonte, sobretudo, das mulheres engajadas no associativismo feminino
católico, tão atuante em Minas Gerais no primeiro quartel do século XX.
Na ocasião da tese, procurei analisar o perfil e a ação desse grupo de
mulheres pela ótica da chamada Ação Social Católica. Neste texto, busco
demonstrar que as associações femininas, reunidas na Confederação
Católica Feminina (CCF), não eram apenas instituições de caridade, mas sim
instituições constituídas por um grupo de mulheres instruídas e modernas,
que criaram programas de assistência em diversos campos, particularmente
na saúde e na educação. Intento, sobretudo, demonstrar seus itinerários
pela cidade.
A CCF foi criada em 1927, com o objetivo de centralizar e organizar
a assistência católica em Belo Horizonte. As atividades realizadas pela
Confederação permitem conhecer o perfil das mulheres católicas, os percursos
pelas instituições filantrópicas, os trabalhos por elas desenvolvidos e as redes

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de influências acionadas. O trabalho dessa agremiação evidencia também
a importância das parcerias desse grupo com a Sociedade São Vicente de
Paulo e o poder público para a diligência da assistência em Belo Horizonte.

A Confederação Católica Feminina, a geografia da cidade e o


perfil das associadas
A Confederação Católica de Belo Horizonte foi organizada por D. Cabral,
em abril de 1927, para desenvolver o papel centralizador e coordenador dos
grupos da chamada “Ação Católica”. A agremiação destaca-se por agrupar as
três principais associações de militância católica feminina na capital: Damas
da Caridade, Filhas de Maria e Mães Cristãs. Na sua origem, tratava-se de
uma associação mista, mas rapidamente foi subdivida em seções masculina
e feminina.
A primeira reunião exclusivamente feminina ocorreu no dia primeiro
de junho de 1927. As reuniões aconteciam no salão da Cúria Metropolitana
de Belo Horizonte e eram acompanhadas pelo arcebispo D. Cabral. Na sua
ausência, assumiam o comando das reuniões outros eclesiásticos. Apesar
da presença dos eclesiásticos nas reuniões, pela leitura das atas observa-se
que as mulheres eram responsáveis por conduzir as discussões, propor os
planos de trabalho e organizar as intervenções do grupo. Eram as associadas
que levantavam fundos, geriam as verbas arrecadadas e criavam campanhas
de ação, havendo, portanto, autonomia feminina nas decisões da CCF. As
reuniões da CCF ocorriam uma vez por mês, sendo a sessão aberta pelo
Presidente, D. Cabral, ou por seus substitutos. Cada comissão, em ordem,
apresentava o relatório de atividades e definia novas ações.
O quadro burocrático da agremiação era composto pela senhorita
Marieta Viotti (secretária), D. Maria de Vasconcellos (diretora) e a senhorita
Jacyntha Neves (presidente). Esse quadro manteve-se do ano de 1927 a 1934.
Essa é uma das características marcantes das lideranças nas associações
católicas femininas desse período, ou seja, mantinham por longa data seus
cargos. Embora ocorressem eleições periódicas, via de regra as líderes eram
reeleitas. Outra característica importante era o fato de acumularem cargos
de liderança em outras associações.

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Marieta Viotti pertencia a uma família de farmacêuticos com ampla
atuação na política e na filantropia em Minas Gerais. A senhorita Jacyntha
Neves era uma figura notável no campo da assistência à saúde. Seu nome
era recorrentemente mencionado nas fichas de inscrição da Escola de
Enfermagem Carlos Chagas (EECC), principal mecanismo da seleção das
candidatas ao curso de enfermagem, e provavelmente ela era uma agenciadora
de moças para a Escola de Enfermagem. Nas fichas, além dos dados relativos
à identificação (nome, idade, endereço e a pessoa responsável), encontramos
informações sobre a instrução, ocupação anterior, exposição de intenções e
referências pessoais das candidatas (SANTOS, 2006).
Sabe-se que na virada do século XIX até os anos 1920, a enfermagem
estava nas mãos de religiosas e de práticas que exerciam tal atividade
baseadas no conhecimento empírico. Acreditamos que, antes da criação dos
cursos de enfermagem em Minas Gerais, as mulheres ligadas à filantropia,
especialmente as normalistas que possuíam algum conhecimento nessa
área, trabalhavam nos hospitais com as religiosas e, por isso, com o tempo,
tornaram-se referência no campo da enfermagem.
No período anterior à institucionalização da enfermagem, as pessoas que
trabalhavam nos hospitais possuíam alguma qualificação. Até os primeiros
anos das escolas de enfermagem em Belo Horizonte, os pré-requisitos para
ser enfermeira eram ser uma pessoa dedicada, de confiança, honesta, além
de gostar e saber trabalhar com as irmãs de caridade. (Teixeira, 2012). O
que endossa nosso argumento de que a ação das mulheres no associativismo
católico foi movida pelo saber técnico e o saber científico adquiridos na
formação escolar, preferencialmente nos cursos normais e de enfermagem.
Além do quadro de gestoras, as comissões eram formadas por mulheres
líderes de outras pastorais, destacando-se a participação das associadas às
Filhas de Maria, às Mães Cristãs e às Damas da Caridade, a maior parte delas
pertencia às paróquias São José, Boa Viagem, Lourdes, Santa Efigênia, Santa
Tereza, Lagoinha, Barroca, Floresta, Calafate e Barro Preto, como podemos
ver no mapa a seguir.

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FIGURA 1 - Mapeamento das Paróquias atuantes na assistência e dos
colégios secundários frequentados pelas associadas católicas

Fonte: Gustavo Libério de Paulo - 2019

As associadas residiam em sua maioria nos bairros nobres de Belo


Horizonte, circunscritas dentro da Avenida do Contorno, especialmente
no bairro de Lourdes. O que denota aspectos de segregação impostos pela
planta da cidade e a consequente hierarquização dos espaços. As famílias
pobres viviam para além dos limites da Avenida do Contorno, em áreas
consideradas perigosas e insalubres em contraposição aos espaços centrais
e planejados onde viviam as associadas (Julião, 1996; Duarte, 2007).
O mapeamento da cidade deixa entrever que se, por um lado, as
associadas moravam e pertenciam às paróquias das regiões mais nobres da
cidade, por outro, seus projetos de assistência e instituições asilares eram
erigidos em regiões mais distantes do centro, nas zonas suburbanas, em

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que se formavam as vilas. Os bairros Santa Efigênia, Lagoinha, Calafate e
Barro Preto, que ocupavam as franjas entre as zonas urbanas e suburbanas
da cidade de Belo Horizonte, eram praticamente ignorados pelos serviços
básicos de Saúde Pública, o que gerava uma situação de precariedade entre os
pobres que viviam na região (TORRES, 2008). Tornando mais importante a
atuação das associações assistencialistas, conforme demonstram Luiz Otávio
Ferreira e Gisele Sanglard, as associações científicas e filantrópicas eram
também motivadas pela ausência de políticas públicas que visassem corrigir
os “maus hábitos” típicos da cultura das famílias, sobretudo das famílias
que ocupavam vasto setor das classes trabalhadoras urbanas (FERREIRA;
SANGLARD, 2010).
Observa-se também que os pais, maridos e irmãos das associadas
eram atuantes na educação e saúde em Minas Gerais - médicos, dentistas,
farmacêuticos, advogados, engenheiros, industriais, grandes comerciantes,
funcionários públicos, ourives e educadores. Elas utilizavam desses meios
para alcançar suas reivindicações. Assim, eram mulheres pertencentes da elite
política e econômica mineira, havendo uma ampla convivência familiar no
interior das associações católicas: eram primas, mães e filhas, tias e sobrinhas.
Elas se dividiam em pelo menos duas gerações, os das senhoras nascidas a
partir das três últimas décadas do século XIX e das senhorinhas nascidas nas
primeiras décadas do século XX. Tinham entre 19 e 46 anos, desse grupo,
poucas eram casadas, sendo 88% delas solteiras. Quanto à raça, possuíam
maior ascendência branca e alguma mestiçagem entre brancos e negros. A
maior parte delas possuía cabelos castanhos e lisos, olhos castanhos e cor de
pele morena, seguidos pelos tons de pele morena clara e branca. (Viotti, 1933)
Para essas mulheres, as associações de caridade, as agremiações literárias
e as reuniões internas de jornais e revistas femininas também se configuravam
em lugares de encontro e discussão das questões que diziam respeito ao bem
comum e aos interesses do sexo feminino (Mott, 2001). Todos esses espaços
eram ambientes seletivos e serviam de aproximação das famílias, permitindo
o estreitamento dos vínculos de sociabilidade. Desse modo, era muito comum
uma grande intimidade entre os indivíduos. Assim, além dos circuitos de
eventos familiares e casas de amigas, podemos afirmar que a escola e a igreja
foram os espaços por excelência da sociabilidade das mulheres mineiras.

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As associadas tiveram uma sólida formação escolar. No ensino
secundário, parte das associadas estudou em colégios confessionais católicos,
destacando-se os colégios Santa Maria e Sagrado Coração de Jesus, nas
modalidades de internato ou externato. Outras cursaram o ensino secundário
na Escola Normal Modelo. Desse modo, o grande contingente de mulheres
do associativismo católico era de normalista, talvez todas elas. Observamos
que essas mulheres não eram apenas donas de casa, quase todas tinham uma
carreira profissional e, dentre elas, um número significativo dedicava-se
exclusivamente à sua profissão (Viotti, 1933).
Mais tarde, algumas normalistas se formaram em enfermagem na EECC.
Parte delas, quando normalistas, atuavam no serviço de enfermagem na
Inspetoria Médica Escolar. O que denota a presença das questões relativas à
higiene, saúde e puericultura na formação das mesmas. Nas escolas públicas
de Belo Horizonte havia o Serviço de Inspetoria e Higiene Escolar, através do
qual todo aluno da escola primária era examinado pelo médico e enfermeira
escolar. É possível conjecturar que, antes da criação das escolas de enfermagem
em Minas, eram as normalistas que assumiam esse papel. Por isso, muitas
delas, mais tarde, optaram pela carreira de enfermeira. Certamente as escolas
secundárias foram ambientes fundamentais para a formação do laicato
católico feminino, visto o maciço controle da Igreja Católica sobre o ensino
secundário em Minas Gerais.
Desse modo, essas mulheres de refinada educação e pertencentes às elites
econômicas e políticas de Minas Gerais que ocupavam as nove comissões
da CCF, das quais destacamos: Assistência e Caridade, sob a direção do
Dr. Furtado de Menezes1 e a presidência de Alexandrina Santa Cecília, a
comissão tinha como tarefas a criação e direção de obras de caridade. Joaquim
Furtado de Menezes teve uma ampla atuação no campo da assistência em
Minas Gerais, fundando e dirigindo a Sociedade de São Vicente de Paulo
em Minas Gerais. Destacam-se no seu trabalho de assistência aos pobres a

1. Joaquim Furtado de Menezes (1875-1940), engenheiro de minas e civil. Farmacêutico e


professor da Escola de Minas de Ouro Preto. Foi diretor de Indústria do Estado, Secretário
de Agricultura, prefeito da cidade de Águas Formosas e deputado federal. Atuou como
membro do Conselho de Imprensa de Belo Horizonte, colaborou para os jornais católicos
O discípulo, O Regenerador, Adoremos, O Horizonte e Diário. Ajudou na fundação da
corporação dos médicos católicos e dos engenheiros católicos.

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criação da Assistência aos Mendigos e da Cidade de Ozanan (Souza, 2001;
Souza, 2004).
Alexandrina de Santa Cecília, por sua vez, era normalista e trabalhou
como professora da Escola Normal Modelo, nas cadeiras Costura e Trabalhos
de Agulha (1907), Trabalhos Manuais (1910), e Trabalhos Manuais e Economia
Doméstica (1916). A dedicação às disciplinas foi importante para seu trabalho
na assistência, já que grande parte dos projetos destinados às mulheres e jovens
tinha como mote a formação em trabalhos manuais, especialmente corte,
costura e economia doméstica. Alexandrina também lecionou a disciplina de
Ginástica como professora substituta e participou da comissão de professores
que redigiu o primeiro regimento interno da Escola Normal Modelo. Na
ocasião, viajou para o Rio de Janeiro para comparar o currículo da Escola
Normal Modelo de Belo Horizonte com a Escola Normal da capital federal.
Além disso, ela foi presidenta do pensionato Nossa Senhora Auxiliadora e
benfeitora da Creche Menino Jesus. Sobre a inspiração de Gustavo Capanema2
e em parceria com outras associadas, fundou em Belo Horizonte, no ano de
1932, a Sociedade Mineira de Assistência à Infância (SMAI).
Embora tenha atuado de forma significativa no ensino secundário em
Belo Horizonte, até a segunda década do século XX, Alexandrina de Santa
Cecília, que pertencia à família do médico Santa Cecília, desempenhou
trabalhos importantes no campo da assistência social, deixando a carreira
docente em segundo plano. Ao lado de Furtado de Menezes, presidiu a
comissão Assistência e Caridade, na qual era responsável por administrar as
verbas arrecadadas, organizar campanhas e pedir subsídios junto ao poder
público, especialmente nas esferas municipais e federais.
De acordo com D. Cabral, a Conferência Vicentina e os centros de
Senhoras da Caridade não davam conta de tantas necessidades, sendo
urgente a criação de novos espaços de assistência. A comissão, então, tinha
o compromisso de ampliar a atuação assistencialista da SSVP. Dessa forma,
estabeleceu-se como objetivos desse grupo:

2. Gustavo Capanema Filho (1900-1985) ocupava o cargo secretário do Interior de Minas


Gerais naquele ano.

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- Incrementar a vida dos vicentinos e senhoras de caridade nas
associações já existentes, recrutando novos combatentes, estimulando
a seção perseverança nos moldes de São Vicente de Paula.
- Multiplicar, o mais que seja possível, o número dessas associações em
todas as paróquias e recantos da arquidiocese.
- Organizar um dispensário, agência para ser o canal de esmolas que
se pedem porta a porta (mendicância publica).
- Conselhos de higiene e moral, instrução religiosa, facilitação de
trabalhos.
- Seguir modelo Alemanha e França que fazem matrícula dos pobres.
- Educação para a caridade.
- Assistência espiritual, recebimento de sacramentos aos doentes e
pobres.
- Assistência religiosa nos hospitais, asilos, prisões e outros institutos.
- Assistência religiosa, moral e material as crianças de rua.
- Assistência religiosa, moral nos albergues noturnos e públicos.
- Assistência religiosa, moral nas pensões e hotéis. (O Horizonte,
13/04/1927: 3)

O programa da comissão era bem similar às aspirações da assistência


vicentina. Baseado numa ampla assistência aos pobres e doentes, preconizavam
os hábitos higiênicos, educação moral e a criação de instituições asilar,
hospitalar e educacional. Destacavam ainda a necessidade de criação de
institutos de Senhoras de Caridade em todas as paróquias da cidade e um
curso de enfermeiras católicas. O objetivo era formar enfermeiras profissionais
católicas que certamente seriam preferidas entre as famílias e atuariam nas
instituições em que desenvolviam o trabalho caritativo.
É relevante destacar que a parceria entre a comissão Assistência e
Caridade e a Sociedade São Vicente de Paulo foi fortalecida no ano de 1931,
quando Furtado de Menezes e Alexandrina Santa Cecília transformaram a
comissão efetivamente numa extensão dos trabalhos sociais desenvolvidos
pela SSVP. Houve nesse período um nítido aumento do número de Senhoras
da Caridade, bem como das instituições para atender os pobres, crianças e
mulheres viúvas, abandonadas ou “desviadas”.

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A comissão Assistência e Caridade foi sem dúvida o segmento que
mais desempenhou ações dentro da CCF. Dentre as principais atividades da
comissão estavam as organizações de festividades, a distribuição de roupas
e gêneros alimentícios aos pobres, a visita aos presos, aos meninos de rua
e aos doentes nos hospitais, o encaminhamento de internações, as visitas
domiciliares a doentes, os atendimentos médicos, a doação de medicamentos,
etc. Essa era a comissão que tinha o maior número de integrantes. Para além
da apresentação de trabalho nas reuniões da CCF, a comissão reunia-se
periodicamente no salão dos vicentinos, visando melhor direção e controle
das tarefas. A comissão foi dividida em duas fases, a primeira de 1927 a 1930,
e a segunda de 1931 a 1934. A primeira fase caracteriza-se por atividades mais
pontuais e menos diversificadas. Dessa fase destacamos a organização da
Cruzada Santa Terezinha do Menino Jesus, em favor dos filhos de tísicos e
morféticos e o auxílio na construção da Vila dos Proletários Tuberculosos.
Já a segunda fase apresenta-se mais dinâmica na realização de atividades
(atendimento médico, internações, distribuição de vales alimentícios,
aviamento de receitas médicas, construção de casas, etc) sendo também
marcada pela criação de variados institutos de assistência.

As atividades realizadas pela Comissão Assistência e Caridade


da Confederação Católica Feminina
Além das subvenções públicas, as formas mais comuns de arrecadação das
associadas eram: caixas de coletas, doações por graças alcançadas, campanhas
e mensalidades de sócios. Também por comemoração de aniversário, parte
de heranças, pedido de pessoas no leito de morte, ou doações para manter a
virtude cristã da caridade (Souza, 2004). Desse modo, vejamos a dinâmica
de arrecadações e realizações desempenhadas pela comissão assistência e
caridade entre os anos 1927 e 1934.
No ano de 1927, havia apenas três grupos de Damas, as de São José, Boa
Viagem e Lagoinha, nesse primeiro momento as atividades da comissão
voltaram-se essencialmente para dispensa econômica, rouparia e vigilância,
como podemos ver na tabela 1.

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TABELA 1. Obras realizadas pela Comissão Assistência e Caridade no
ano de 1927
Dispensa Econômica Rouparia Vigilância Moral
Damas da Caridade de São José e Boa Viagem Levantamento de Verba Damas de Caridade
Atendimento de 320 pobres.
com distribuição de roupas e gêneros aos da Lagoinha para Casamento de operárias.
(1:082$300)
pobres (100$000)

Fonte: Elaborada pela autora com dados extraídos das Atas da Confederação Católica
Feminina (1927-1934).

Além disso, foram atuantes nas campanhas e atendimentos a doenças


infectocontagiosas. Isso porque, nesse ano ocorreu a reformulação da estrutura
da Diretoria de Saúde Pública de Minas Gerais. Na ocasião, a parceria entre
os municípios tornou-se mais explícita, com ênfase na profilaxia e no ensino.
Houve uma descentralização dos serviços a partir da criação dos centros de
saúde, nos municípios que fariam a ligação direta com a população pelos
atendimentos, na inspeção, na epidemiologia, na educação e na propaganda
sanitária. Esta última tinha papel vital na profilaxia das doenças e no conjunto
das mudanças de práticas culturais. Era pormenorizada a profilaxia de uma
série de doenças transmissíveis, como peste, tifo, difteria, cólera, tuberculose,
malária, varíola, verminoses, doença de Chagas, bouba, doenças venéreas,
filariose e lepra (CHAVES, 2011: 52).
Salienta Chaves (2011: 52) que o tratamento da lepra foi um assunto à
parte na reformulação dos serviços sanitários. A questão dos leprosários
tinha estreita relação com a imagem social que se construiu em torno da
doença. As construções distantes, baseadas em uma concepção de isolamento
dos doentes, foram acompanhadas de uma série de medidas de caráter
profilático, com vistas a conter a enfermidade. Dessa maneira, observa-
se a preocupação dos trabalhos da comissão Assistência e Caridade no
controle mais cuidadoso a doenças infectocontagiosas como sífilis, lepra
e tuberculose. Por iniciativa do Conselho Central Metropolitano da SSVP
da capital, reuniu-se, em fevereiro de 1927, no prédio vicentino, um grupo
de senhoras para promover, em todo estado, um movimento para obter
recursos e organizar um instituto cujo fim seria recolher os filhos de ambos
os sexos de morféticos, subtraindo o perigo de contágio e ao mesmo tempo

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evitando que servissem de veículos de propagação do terrível mal a todos
os meios infantis (O Horizonte, 13/04/1927). Nessa reunião preparatória
ficou resolvida a organização benemérita intitulada Santa Terezinha. Dessa
reunião formou-se uma comissão central sob a presidência de Alice Sigaud.
A senhora Alice ficou responsável pela criação de comissões locais nas
cidades e vilas do estado.
Em matéria publicada no jornal O Horizonte3, intitulada “Filhos de
Leprosos”, Furtado de Menezes comentava a iniciativa das Senhoras da
Caridade na organização da Cruzada e defendia o isolamento como a única
possibilidade de conter a doença. Assim argumentava em seu artigo,
(...) antigamente suponha-se que a lepra era hereditária e acreditava-se
na inutilidade do isolamento dos filhos dos leprosos, tão certo estava
o povo e até os médicos de que mais dia menos dia, a lepra surgiria
no pobre condenado. Hoje ninguém mais crê na hereditariedade do
mal de São Lázaro. A preocupação final hoje de todos que combatem
a lepra e a profilaxia. (O Horizonte, 30/03/1927: 3)

É interessante notar no texto de Furtado de Menezes o seu conhecimento


sobre a etiologia da doença e o entendimento da lepra como uma doença
infectocontagiosa. Ângela Porto explica que a lepra foi uma das primeiras
doenças infectocontagiosas a ser investigada pela microbiologia do final do
século XIX e início do XX, no entanto, o bacilo da lepra não se reproduzia in
vitro, não atendendo aos postulados de Kock. Essa especificidade desencadeou
as mais complexas discussões científicas sobre o contágio e profilaxia da
doença. Por isso, de acordo com a autora, durante o I Congresso Internacional
sobre Lepra (1897) ficou determinado que a única forma de conter o avanço
da doença era o isolamento e a vigilância dos doentes (Porto, 1997). Em Minas
Gerais, desde 1918, o isolamento de leprosos era obrigatório, regulamentado
pelo decreto 1.510 de junho desse ano.
Guiadas por essa determinação, por todo ano de 1927 as Senhoras da
Caridade estiveram mobilizadas, discutindo questões e realizando eventos
para arrecadação de verbas para a criação de preventórios para filhos de

3. O jornal O Horizonte foi o órgão de imprensa oficial do Conselho de Imprensa da


Arquidiocese de Belo Horizonte, publicado entre 1923 e 1934.

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morféticos. Entretanto, foi no ano seguinte que organizaram uma agenda
mais sistemática para concretização desses projetos.
Pela ata da CCF, observa-se que no ano de 1928 D. Cabral sugeriu
a Alexandrina de Santa Cecília que convocasse as senhoras da comissão
Assistência e Caridade para que retomassem a organização da Cruzada
Santa Terezinha, em favor dos Leprosos (Ata da Confederação Católica
Feminina, 25/4/1928). As Damas da Caridade organizaram a Cruzada sobre
o patrocínio de Julieta Guimarães de Andrada, esposa do então presidente
Antônio Carlos de Andrada.
A Cruzada apresentava-se para o editorial do jornal O Horizonte como,
Uma inicitativa opportuna, pois a sorte dos leprosos e dos seus descentes,
sem um asylo que os abrigasse, estava a reclamar o amparo das almas
piedosas que condoídas do seu imenso infortúnio, procurassem resolver
o angustiante problema de forma a atender as suas necessidades e
ao mesmo tempo aos interesses da defesa social, comprometida com
a liberdade que tinha até agora de perambolar pelas nossas ruas.
Obra de assistência e ao mesmo tempo de defesa contra o contagio
terrível, abrangendo os próprios descendentes de leprosos pelo seu
isolamento dos focos de infecção, a tarefa humanitária meritória a que
se abalançaram as dignas senhoras é das reclamam a solidariedade de
todos os corações bem formados. [...] A cruzada encetada, portanto,
pelas senhoras horizontinas, em prol dos filhos dos leprosos, é pela sua
oportunidade e pelo fim humanitário que visa, merecedora não só do
apoio official, como de todos os que sabem compreender o alcance dessa
benemérita obra de assistência e defesa social. (O Horizonte, 13/04/27:3)

O texto enfatiza a necessidade colaborativa dos órgãos oficiais e da


sociedade para o êxito da campanha encabeçada pelas senhoras. Vê-se ainda
que o trabalho desenvolvido pelas Damas não era apenas caritativo, mas
também de defesa social. Mais tarde as Damas da Caridade unificaram a
Cruzada em favor dos filhos de leprosos e tuberculosos, nomeando-a como
Cruzada Santa Terezinha do Menino Jesus4. Nessa nova fase, a prioridade da

4. A devoção a Santa Terezinha do Menino Jesus é confirmada na biblioteca de algumas


essas mulheres. Encontramos o livro que conta a história da santa na biblioteca particular

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Cruzada era a construção de uma instituição para recolhimento e isolamento
de crianças, filhos de pais morféticos e tísicos.
Para arrecadação de fundos, as Damas fizeram circular uma lista de
donativos pelo comércio, indústrias, colégios, por homens e mulheres da
alta sociedade. Além da arrecadação dessa natureza, durante três meses, as
Damas da Caridade instalaram em lugares estratégicos da cidade uma Pipa
da Cruzada Santa Terezinha do Menino Jesus, para depósitos espontâneos.
O Bar do Ponto foi um dos lugares escolhidos pelas Damas, no qual a Pipa
permaneceu por um longo período. Tal local estava situado na Rua da Bahia,
considerada por Carlos Drummond de Andrade como o cérebro de Belo
Horizonte, onde se encenava os debates sobre literatura, artes, ciências,
desporto, regimes políticos e alimentares, bailes, finanças, o temporal e o
espiritual (Bomeny, 1994). O bar foi fundado em 1907 e estava localizado em
frente à estação dos bondes. Não era apenas o café mais famoso da cidade,
era um ponto de referência na vida da capital, ponto de negócios, encontros,
conversas e notícias (Chacham, 1996).
Claro está que a escolha dos lugares percorridos pela Pipa não
era aleatória. As Damas da Caridade procuravam os ambientes mais
movimentados da cidade e frequentados pela alta sociedade, com o objetivo
de ter uma arrecadação significativa. A abertura solene da Pipa ocorreu na
sede da Sociedade São Vicente de Paulo. Na ocasião foram arrecadados
490$000 (quatrocentos e noventa mil réis), e o valor foi depositado no
banco. Era uma prática comum das Damas da Caridade depositar os valores
arrecadados em contas movimentadas por elas, como forma de aplicação e
planejamento dos gastos.
Não há indicação explícita nas fontes de como o dinheiro arrecadado
foi gasto e se de fato houve a construção do asilo para o isolamento dos
filhos dos tuberculosos e leprosos. Entretanto, a hipótese é de que grande
parte da construção do preventório São Tarcísio tenha ocorrido com a
verba arrecadada pela Cruzada. Sua construção teve início no ano de 1930
e ele foi inaugurado em 12 de outubro de 1934, com apoio da Sociedade de

de Helena Antipoff e no acervo da Escola Normal Modelo.

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Assistência aos Lázaros de Defesa Contra a Lepra5, e sob os cuidados de
uma ordem religiosa. O edifício principal tinha capacidade para abrigar
200 crianças. Era localizado na Praça Lagoa do Campo Verde, no município
de Mário Campos, próximo à colônia Santa Isabel. Dentro do preventório
as crianças tinham acesso ao ensino primário, mantido pelo Estado. Os
meninos trabalhavam na plantação de produtos agrícolas e na olaria. As
meninas produziam artigos artesanais, que eram vendidos em benefício da
instituição. Há poucos trabalhos sobre o preventório, mas tudo indica que
sua inauguração foi acelerada pela política varguista de combate à lepra,
encabeçada pelo então Ministro da Educação e da Saúde, Gustavo Capanema,
em parceria com os grupos locais, dos quais destacamos as ordens religiosas
católicas e as mulheres envolvidas na filantropia.
Outro resultado da Cruzada foi a criação de uma Assistência aos
Tuberculosos Proletários, bem como a criação de uma Vila para trabalhadores
tuberculosos. Em matéria publicada no jornal O Horizonte, Maria Luiza de
Almeida Cunha conta que, depois da realização da Cruzada, ela, juntamente
com as demais confederadas, chegou à conclusão que,
o espírito de caridade e de altruísmo da sociedade belorizontina tem
se preocupado nestes últimos tempos de um problema que constituía
a muito uma das questões sociais mais salientes da capital. Clima de
sanatório, cidade moderna, recursos abundantes peculiares a um centro
de estudos médicos, Belo Horizonte atraiu desde sua fundação as vistas
dos que buscam energias para resistência terrível a peste branca. (O
Horizonte 14/7/1928: 3)

De fato, como salienta Rita de Cássia Marques (2011), a tuberculose,


que foi um dos principais flagelos dos fins do século XIX e início do XX, não
tinha cura medicamentosa e a transferência dos tísicos para cidades como
Belo Horizonte tornou-se corriqueira. Considerando o grande número de
pessoas que chegavam à cidade em busca do bom clima e do ar ameno da
montanha, a Diretoria de Higiene entendeu que a construção de sanatórios
seria a melhor opção para controlar a doença e a população doente na

5. A Sociedade Mineira de Proteção as Lázaros e Defesa contra a Lepra a cargo de Berenice


Martins.

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capital, evitando assim que os belo-horizontinos fossem contaminados por
forasteiros. Os primeiros empreendimentos construídos eram particulares.
À diretoria de Saúde Pública coube a fixação de regras e a fiscalização dos
espaços que alojavam os doentes na cidade (Marques e Gonçalves, 2011:
82). Havia, portanto, uma carência de tratamento para a população pobre.
Assim, após longas discussões, as mulheres envolvidas na Cruzada
julgavam que, além do cuidado e isolamento dos filhos dos tuberculosos, era
urgente a criação de serviços mais relevantes para conter a doença, como,
por exemplo, a criação de uma Associação de Assistência ao Proletário
Tuberculoso. Esse grupo de mulheres, encorajadas por Maria Luiza de
Almeida Cunha, decidiu levar a ideia ao conhecimento do profess