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A Ciência no ICB/UFMG
50 nos de História
Todos os direitos reservados à Fino Traço Editora Ltda.
© Ana Carolina Vimieiro Gomes, Rita de Cássia Marques
Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer
meio sem a autorização da editora.
As ideias contidas neste livro são de responsabilidade de seus organizadores
e autores e não expressam necessariamente a posição da editora.

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C511
A ciência no ICB/UFMG : 50 anos de história / organização Ana Carolina Vimieiro
Gomes, Rita de Cássia Marques. - 1. ed. - Belo Horizonte [MG] : Fino Traço, 2021.
244 p. ; 23 cm.
Inclui bibliografia
ISBN 9786589011125

1. Universidade Federal de Minas Gerais. Instituto de Ciências Biológicas - História.


2. Universidades e faculdades - Brasil. 3. Difusão de inovações. I. Gomes, Ana Carolina
Vimieiro. II. Marques, Rita de Cássia.

21-69328 CDD: 378.098151 CDU: 378(815.1)

Fino Traço Editora ltda.


finotracoeditora.com.br
Sumário

Apresentação.............................................................................................................................7
Agradecimentos........................................................................................................................9

Introdução
História de uma cultura científica do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG....... 11
Ana Carolina Vimieiro Gomes
Rita de Cássia Marques

Capítulo 1
História, ciência e memórias nos 50 anos do ICB............................................................. 23
Anny Jackeline Torres Silveira
Rita de Cássia Marques

1.1 A universidade e a ditadura..................................................................................... 29


Rodrigo Patto Sá Motta
1.2 Os caminhos percorridos pelas cientistas do ICB................................................ 44
Jéssica Bley Pina Silva

Capítulo 2
A Criação do ICB: : políticas, tensões e desdobramentos na graduação
e pós-graduação..................................................................................................................... 59
Rita de Cassia Marques

2.1 O Museu de História Natural da UFMG e as parcerias com o


Instituto de Ciências Biológicas.................................................................................... 71
Antônio Gilberto Costa

Capítulo 3
Cultura Científica no âmbito do ICB: economia moral e seus
imperativos éticos................................................................................................................ 101
Marina Assis Fonseca

3.1 O ICB e as suas ações de educação e preservação ambiental............................ 120


Gabriel Schunk
3.2 Extensão e Divulgação Científica no ICB............................................................ 130
Débora d’Ávila Reis e Verona Campos Segantini
3.3 O Museu de Ciências Morfológicas: lugar de extensão e divulgação de
conhecimento ............................................................................................................... 138
Betânia Gonçalves Figueiredo
Capítulo 4
Os “modos de conhecer” e fazer ciência do Instituto de Ciências Biológicas............. 149
Ana Carolina Vimieiro Gomes

4.1 Doenças negligenciadas e saúde global................................................................ 164


João Nunes
4.2 O Instituto de Ciências Biológicas e a OMS........................................................ 173
Ana Carolina Durães Vaz de Melo Barreto

Capítulo 5
Em nome da “neutralidade”: as dinâmicas nas políticas de financiamento
científico no ICB.................................................................................................................. 199
Paloma Porto

5. 1 As ciências biomédicas e a Guerra Fria.............................................................. 202


Marcos Cueto

Posfácio
Cinquenta anos do ICB: precariedades e lutas................................................................. 203
Tomaz Aroldo da Mota Santos
AGRADECIMENTOS

O primeiro agradecimento é para o saudoso Prof. Tomaz Aroldo da Mota Santos, idealiza-
dor e grande colaborador desse projeto sobre a história do ICB. Agradecemos aos Professores
Luciano Mendes de Faria Filho e Eliane Marta Santos Teixeira Lopes a indicação do Scientia-
Grupo de Teoria e História da Ciência para realizar esta pesquisa. À equipe de pesquisadores
associada, composta pelas professoras Anny Jacqueline Torres Silveira, Paloma Porto e Silva,
Verona Segantini e Marina Assis Fonseca, que participaram ativamente das reuniões de acom-
panhamento dos resultados e produziram textos para este livro com esperada competência.
Nosso agradecimento aos pesquisadores que, a nosso convite, nos honraram com textos
complementares: Rodrigo Patto Sá Mota do Departamento de História da UFMG, Marcos
Cueto da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, João Nunes da University of York, Débora d’Ávila
Reis do ICB, Betânia Gonçalves Figueiredo do Departamento de História da UFMG e Antônio
Gilberto Costa do IGC/UFMG.
Agradecemos à comunidade ICB, na pessoa de seus diretores: Tomaz Aroldo da Mota
Santos e Janetti Nogueira de Francischi (2010-2014) e Andrea Mara Macedo (2014-2018) e Carlos
Augusto Rosa e Elida Mara Rabelo (2018-atual), pelo imprescindível incentivo, colaboração e
apoio institucional no período da idealização e da realização da pesquisa e da produção desse
livro. Agradecemos também ao assessor de imprensa do ICB Marcus Vinicius dos Santos.
Nosso agradecimento especial à Fundação de Amparo a Pesquisa de Minas Gerais -FAPEMIG
pelo financiamento que tornou possível a execução dessa pesquisa, sobretudo pelo apoio para
a contratação de uma equipe de dedicados bolsistas: Ana Carolina Resende Fonseca, Jessica
Bley da Silva Pina e Geisiane Souza Câmara (Apoio Técnico); Ana Luísa Moreira Silva, Sarah
Campos Cardoso Bruna Luiza Costa Pessoa, Gabriel Schunk Pereira, Maria Daniela Donoso
(Iniciação Cientifica) A eles se juntaram Ana Carolina Durães V. M . Barreto com apoio do
CNPq e Wellington Ubiratan, como bolsista voluntário.
A pesquisa não seria possível sem o acesso ao Arquivo Institucional do ICB, sob guarda
da sua Secretaria Geral. Nele encontramos importantes documentos, fotos e publicações que
tornaram possível a escrita desse volume. Em outros acervos conseguimos encontrar contri-
buições preciosas para as lacunas encontradas na pesquisa no ICB. Agradecemos assim a todos
aqueles que nos receberam/atenderam e disponibilizaram o que precisávamos em diversos
órgãos dentro e fora da UFMG: a Secretaria dos Órgãos de Deliberação Superior (SODS),
Departamento de Planejamento Físico e Obras (DPFO), Arquivo Institucional da Faculdade
de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH), Centro de Memória da Medicina (CEMEMOR),
Centro de Memória da Veterinária (CEMEMOR-VET), Biblioteca Universitária e CEDECOM,
especialmente Foca Lisboa que nos cedeu várias fotografias institucionais relacionadas ao ICB.
Para além da UFMG, contamos com a gentileza do Arquivo Histórico da Casa de Oswaldo
Cruz (COC-FIOCRUZ), além do Serviço de Informação Cientifica, Histórica e Cultural da

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Fundação Ezequiel Dias (SICHC-FUNED). Com recursos do CNPq, vasta pesquisa documental
foi realizada nos arquivos da Fundação Rockefeller (Rockefeller Archive Center) em Nova York.
Agradecemos àqueles que gentilmente colaboraram conosco, seja cedendo seus depoimentos
ou nos fornecendo informações relevantes. Este livro é fruto de quatro anos de pesquisas em
diversos acervos e com mais de 30 entrevistas: Eduardo Osorio Cisalpino, Ênio Cardillo Vieira,
Giovanni Gazzinelli, Hugo Pereira Godinho, Humberto de Carvalho, Ângelo Barbosa Monteiro
Machado, Darcy dos Santos, David Pereira Neves, Paulo Marcos Zech Coelho, Tomaz Aroldo
Mota Santos, José Carlos Nogueira, Antoniana Ursine Krettli, Pedro Marcos Linardi, Nailda
Maria de Almeida, Edmar Chartone, Egler Chiari, Wilson Mayrink, Maria Norma Melo, Nelson
Monteiro Vaz; Edmar Chartone de Souza; Edward Félix Silva; Naftale Katz; Sergio Danilo Junho
Pena; Robson Augusto Souza dos Santos; Geovanni Dantas Cassali; Jacques Robert Nicoli; Maria
Cecília Souza Lima; Maria Auxiliadora Roque de Carvalho; Geraldo Wilson Afonso Fernandes;
Luiz Renato de Franca; Candido Coimbra.

As organizadoras.

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APRESENTAÇÃO

Esse livro foi idealizado para contar a vitoriosa história do Instituto de Ciências Biológicas –
ICB, ao longo de seus 50 anos. Os autores e autoras dos diversos capítulos buscaram aqui pincelar
janelas da vivência de alguns dos atores dessa história. Muitos de nós entramos na história do
ICB em diferentes pontos, alguns já como estudantes da casa e outros como novas e importantes
incorporações vindas dos mais diversas cantos do País e do mundo. Assim, juntos pudemos
acompanhar o crescimento do Instituto, embalados pelos inebriantes relatos dos responsáveis
por sua criação. Essa contação de histórias se entranhou de tal forma no nosso imaginário que
muitas vezes torna-se impossível discernir o que de fato vivenciamos e o que nos foi contado. O
contagiante sentimento de amor e de pertencimento aos poucos irremediavelmente se enraíza
em nossa comunidade, à medida que vamos conhecendo e nos tornando parte dessa história.
Como bem diz Fernando Brant, “o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir”.
Nesse livro que busca resgatar e dar mais um passo na nossa história, novos capítulos
seguem sendo narrados, desde o livro de memórias anterior, elaborado por ocasião dos 30
anos do Instituto.
Agradecemos à toda comunidade do ICB, em especial aos servidores docentes, técnico-
administrativos em educação, e também aos funcionários terceirizados, nas suas mais diversas
áreas de atuação. Agradecemos também a todos os estudantes que tiveram o privilégio de terem
passado por esse magnífico Instituto e nos emprestaram a sua alegria e dedicação. Eles são a
nossa inspiração e a razão da existência do Instituto!
Finalmente, agradecemos profundamente às Professoras Rita de Cassia Marques e Ana
Carolina Vimieiro Gomes, por terem se deixado contagiar por estes 50 anos de história, estando
à frente dessa empreitada, bem como às colegas e aos colegas também autores do livro. Que
esse livro possa inspirar as gerações presentes e futuras! E que venham mais outros 50 anos de
igualmente agradável convivência, cooperação, desafios e crescimento
da nossa comunidade e, por conseguinte, do nosso Instituto.
A inspiração para a elaboração desse livro teve início ainda durante
a gestão do Professor Tomaz Mota Santos à frente da Diretoria do ICB, a
quem somos imensamente gratos pelo privilégio da convivência. Nesse
ano o Professor Tomaz se tornou “encantado”. Sentiremos saudades das
suas histórias. Coube a nós gestores que sucedemos ao professor Tomaz,
na Direção do Instituto, Professora Andréa Macedo, Professor Carlos
Rosa e Professora Elida Rabelo, a honra de propiciar o desenvolvimento
desse livro, que agora dedicamos com muito carinho à sua memória pela
sua incansável devoção à vida pública em várias oportunidades de sua
trajetória acadêmica e em especial ao ICB e à UFMG.
Andrea Macedo
Carlos Rosa
Elida Rabelo
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0 História de uma cultura científica do Instituto de
Ciências Biológicas da UFMG

Ana Carolina Vimieiro Gomes – Departamento de História/UFMG


Rita de Cássia Marques – Escola de Enfermagem/UFMG

Em 2018, foi oficialmente comemorado o cinquentenário do Instituto de Ciências Biológicas


da UFMG, tendo como marco comemorativo de sua criação o dia 11 de novembro, data da
1ª Assembleia Geral do Corpo Docente ocorrida em 1968; decorrência da implantação da
nova organização universitária exigida pela legislação federal, que culminou na Reforma
Universitária de 1968, na qual se previa o ensino e a pesquisa básicos reunidos em institutos
centrais. Evidentemente, a versão mais difundida é que a conformação do instituto data de alguns
anos anteriores, a partir de reivindicações e iniciativas de vários professores atuantes, também
como pesquisadores, na antiga Faculdade de Filosofia (FAFI), nas Faculdades de Farmácia,
Medicina, Odontologia e na Escola de Veterinária, para formar um centro de pesquisas biológicas.
A criação de um instituto central também vinha atender a uma melhor organização do ensino
dos vários cursos que exigiam formação a partir de conhecimentos biológicos e biomédicos.
Entretanto, cabe ressaltar que o desejo de criação de instituto central é anterior à criação
oficial e regulamentada do Instituto de Ciências Biológicas. O projeto de um centro, autônomo
e diretamente vinculado à Reitoria, que reunisse ações de ensino e pesquisas biológicas nasce
muito antes, em 1957, com as iniciativas dos professores do curso de História Natural da antiga
Faculdade de Filosofia (FAFI), sob liderança do Prof. Braz Pellegrino, com o intuito de formalizar
a institucionalização do “Instituto de Biologia Geral” – então criado em 1947. Esse processo de
institucionalização amplia-se e ganha corpo ao longo dos anos 1960, com o projeto de criação
de um Instituto Central de Ciências Biológicas(ICCB); quando a criação de institutos centrais,
de ensino das cadeiras básicas, passou a ser uma política da Universidade Federal de Minas
Gerais, na reitoria do Prof. Aloísio Pimenta. Na verdade, desde 1964, já existia um grupo de
professores responsável pela avaliação e estruturação dos institutos centrais com representantes da
Química, Física e Ciências Biológicas, representado pelo professor Wilson Beraldo. No âmbito da
administração central é a partir de 1966 que tal empreendimento acadêmico se efetiva na prática

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com a designação dos professores Amílcar Viana Martins, Giorgio Schreiber, Osmane
Hipólito e Carlos Ribeiro Diniz para examinar a “transferência de cátedras básicas”
e realizar a implantação do Instituto Central de Ciências Biológicas. No mesmo
ano, Amílcar Viana começa a participar das reuniões do Conselho Universitário
representando o ICCB. Desde 1966 foram várias reuniões de planejamento e decisões
para que ocorresse a centralização do ensino e da pesquisa. Em 1968, quando surge
a legislação oficial posta pela Reforma Universitária, a UFMG já contava com uma
proposta de ensino estruturada e tornou-se um caso acompanhado pelo MEC, como
Foto 1: Cerimônia de um modelo de instituto central.
entrega do Prêmio de Diante disso, de pronto, a imagem que se vem à mente acerca da trajetória
Pesquisa Básica Marcos
Mares Guia, ao ICB, em histórica do ICB é que sua criação e decorrente organização institucional permitiu,
14 nov. 2013. A partir da no âmbito do ensino, ampliar os cursos de graduação e melhorar a formação
esquerda: Reitor, Clélio
científica em disciplinas “básicas” e profissional dos alunos e; no âmbito científico,
Campolina, José Márcio
de Souza, Rocksane promover o desenvolvimento das pesquisas nas ciências biológicas e biomédicas,
de Carvalho, Mário por meio da criação e da integração dos grupos de pesquisa existentes, com a criação
Neto Borges, Janetti
Francischi, Tomaz
das pós-graduações e com a concentração, em uma mesma instituição, de vários
Aroldo da Mota Santos, espaços e infraestruturas técnico científicas, antes dispersos, tais como: laboratórios,
Evaldo Vilela e Renato equipamentos, bibliotecas, organização administrativa, mão de obra técnica etc.
de Lima Santos.
A partir dessa ambiência acadêmico-científica é que o ICB, nos últimos 50
Foto: Foca Lisboa,
anos, transformou-se numa das mais reconhecidas instituições de ensino, pesquisa e
Fonte: https://www.
ufmg.br/online/ extensão na área biológica e biomédica no Brasil; tendo sido condecorado em 2013,
arquivos/030948.shtml com o Prêmio Marcos Luiz dos Mares Guia, concedido pela FAPEMIG. A honraria

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foi justificada pela contribuição significativa do ICB para as pesquisas básicas e para o avanço
do conhecimento científico com potencial de subsidiar o desenvolvimento de soluções para
problemas da humanidade. Foi, portanto, em decorrência desse reconhecimento da excelência
acadêmica do ICB e por iniciativa do seu diretor na ocasião, Tomaz Aroldo da Mota Santos, que
surgiu esse projeto sobre a história científica do Instituto de Ciências Biológicas ao longo dos
seus 50 anos. Ao receber a premiação o Prof. Tomaz prometeu investir na construção de um
memorial do ICB, cujas diretrizes seriam definidas no futuro. Desde então, ele se dedicou a isso.
Foi dele a ideia de convidar historiadores e encaminhar um projeto à FAPEMIG para financiar
uma pesquisa sobre a Memória e História científica do ICB. Foi o primeiro entrevistado, cedeu
documentos e abriu as portas do arquivo institucional do ICB para que a pesquisa fosse feita.
Com todo esse envolvimento, o Prof. Tomaz foi o primeiro leitor dos manuscritos desse livro
e nos ofertou o texto do posfácio.
O Scientia – Grupo de Teoria e História da Ciência, da FAFICH-UFMG, incumbido de
contar a história científica do ICB deparou-se, ao longo de mais de quatro anos de pesquisa, com
a dimensão e complexidade institucional desse Instituto. Percebeu-se impossível contar uma
história totalizante ou mesmo resgatar todos os vestígios do passado e as memórias tecidas ao
longo dos vários anos de atuação institucional, investimentos afetivos e experiências acadêmicas
e pessoais dos atores que por lá passaram parte de suas vidas. Foi preciso ter em conta o
imenso número de docentes, funcionários técnicos administrativos, pesquisadores e alunos de
graduação e pós-graduação que passaram pelo ICB ao longo dos 50 anos. Além isso, pensamos
todos os espaços possíveis de ensino, extensão e produção de conhecimento vinculados ao ICB.
Todos, de alguma forma, partícipes da história do instituto. Ou, ainda, os seus indicadores de
produtividade científica, número total de artigos ou livros publicados e patentes registradas
por seus professores e alunos; além das teses e dissertações defendidas. E nesse universo de
atividades, há que se ter em mente as abundantes ações de ensino e extensão. Tudo isso nos
levou a refletir sobre a necessidade de se definir um possível caminho para tratar a complexa
trama histórica que levou o ICB/UFMG a tais dinâmicas acadêmicas e ao lugar privilegiado
como importante centro de ensino e produção de conhecimento científico no Brasil. Para tanto,
recortes temáticos e metodológicos foram necessários.
Uma das possibilidades de se discutir essa história é por meio da ideia de cultura científica.
Entendemos cultura científica como valores e concepções institucionais atribuídos à ciência,
ou seja, os seus modos de conhecer, fazer e difundir específicos, bem como os objetivos e, não
menos importante, o papel conferido para a ciência na sociedade e na cultura e que é reflexo
dos diferentes contextos científicos, institucionais e sócio-históricos, locais e internacionais.
A vantagem de se usar cultura científica, como sugerido por Carlos Vogt (2003)1, tem a ver
com a compreensão de que “o desenvolvimento científico é um processo cultural, quer seja
ele considerado do ponto de vista de sua produção, de sua difusão entre pares ou na dinâmica
social do ensino e da educação, ou ainda do ponto de vista de sua divulgação na sociedade,
como um todo, para o estabelecimento das relações críticas necessárias entre o cidadão e os

1 Ver: https://www.comciencia.br/dossies-1-72/reportagens/cultura/cultura01.shtml. Acesso em: 23 out. 2020.

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valores culturais, de seu tempo e de sua história.” A ideia de cultura científica nos levaria a uma
imagem de ciência complexa e dinâmica e que abarcaria as várias ações envolvidas no fazer
ciência de uma instituição multifacetada como o ICB.
A cultura científica, assim como a própria ciência, tem uma historicidade. E essa historicidade
interferiu no que o ICB se tornou institucionalmente, no presente, em termos de pesquisa,
ensino e extensão. Com o desenvolvimento desta pesquisa histórica, percebemos que o ICB/
UFMG ao longo dos seus 50 anos de existência acabou por configurar e consolidar uma cultura
científica que lhe é peculiar, mas que sempre dialogou com todo um cenário sociocultural,
científico e acadêmico nacional e internacional; tendo em vista os modelos científicos da biologia
e da biomedicina, o contexto de transformações nas universidades e na ciência brasileira na
segunda metade do século XX e a trama de produção técnico-científica internacional desde o
período da Guerra Fria.
Um dos lugares em que a cultura científica pode se revelar é na memória. Sabemos que a
consolidação de uma memória institucional hegemônica é resultado de relações de poder e da
eleição de acontecimentos e personagens protagonistas que se quer registrar, para o presente e
para o futuro, como balizadores de determinada representação do passado. Num ponto de vista
amplo, consideramos interessante entendermos quais as narrativas que compõem a memória atual
sobre o desenvolvimento científico do ICB e como elas refletem as facetas da cultura científica
do instituto. A entrevista do professor do Departamento de Morfologia Hugo Godinho, por
exemplo, apresenta uma narrativa possível sobre a história científica do ICB, onde se destaca
o valor da ciência e o lugar do instituto como espaço aglutinador dos vários pesquisadores:
“A gente era muito ligado na área da ciência. Quando eu fui para medicina fazer estágio eu fiquei
muito amigo do Ângelo e da Conceição[Machado] , eu ia para sala deles, ficava lá, nós nos tornamos
amigos, fizemos trabalhos em conjunto. Quando nós nos juntamos no ICB estávamos em casa,
praticamente em casa. Para nós, esses cientistas e pesquisadores que viviam isolados, o ICB era
um paraíso! Você tinha gente de todas as áreas ali na sua porta querendo te ajudar, pesquisadores
renomados do Brasil e do exterior.” (Godinho, 2015)

Tais narrativas nos levam então a atentarmos às visões de alguns dos próprios professores do
ICB sobre o que é ciência e suas implicações sociais e econômicas, o que é ser cientista e qual a
função social. Podemos até mesmo dizer que há uma partilha de certo ethos científico por vários
de seus pesquisadores. Uma concepção de ciência que marca a história do ICB está refletida
numa agenda científica que promove o desenvolvimento da pesquisa básica em interface com a
aplicação, principal fator potencializador da criação de seus vários grupos de pesquisa, laboratórios
e infraestrutura comuns, além de permitir as colaborações interdepartamentais, a partilha de
temas de investigação e o fomento à inovação biotecnológica. Tudo isso mediado em termos
epistemológicos pela ascensão de uma cultura de pesquisa molecular nas ciências da vida, que
fez da biologia e da biomedicina, ciências protagonistas no cenário técnico-científico mundial
na segunda metade do século XX. É nesse cenário que já em 1968 é criada a Pós-Graduação
em Bioquímica, com professores de diferentes departamentos, que inicia uma forte tradição

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de formação de pesquisadores doutores atrelada ao desenvolvimento de condições acadêmicas
para formação de grupos de pesquisa e produção de conhecimento com excelência e inserção
internacional. Vários fatores contribuem para uma dinâmica de produção de conhecimento
integrada, como a própria configuração do prédio que permite o compartilhamento de laboratórios
e equipamentos pelos vários grupos de pesquisa, conforme avalia o Prof. Candido Coimbra da
Departamento de Fisiologia e Biofísica:
“Então quando você vai agregando pessoal que trabalha com a ciência você vai agregando novos
equipamentos à necessidade de energia, no prédio de instalações que não estavam adequadas
porque elas foram feitas e planejadas por um pessoal que não fazia pesquisa. É o ICB, ele tem uma
característica que não é tão ruim assim de fazer reforma. Ele é mais modular. Você pode derrubar
as paredes fazer outras paredes, esse tipo de coisa”. (Coimbra, 2017)

Num ponto de vista proximal, não se pode discutir a história científica do ICB sem passar pelo
papel central da pós-graduação e dos grupos de pesquisa. Mas, observamos que tal centralidade
foi geradora de tensões sobre a verdadeira atividade fim do instituto. Desejado por alguns para
ser um Centro de Pesquisa e por outros para ser uma central de aulas, o instituto enfrentou
tensões, principalmente por parte dos alunos, que já em meados dos anos 1970 realizaram junto
aos professores o “julgamento do ensino do ICB” e por parte de outras instituições da UFMG,
como foi o caso da Faculdade de Medicina, que em determinado momento viu proliferar no
ICB uma inquietação sobre o modelo do professor pesquisador, muitas vezes menos dedicado
à atuação docente na graduação:
“Teve uma reunião na Medicina para discutir ensino, o [Fattini] levantou isso, me deu uma raiva tão
grande que eu falei: - Vamos ver se é verdade: quem está aqui discutindo ensino? Eu faço pesquisa,
a Conceição faz pesquisa,) Beraldo faz pesquisa, Diniz faz pesquisa, todo esse pessoal dá aula e
faz pesquisa...[Eles] não aceitam professor Universitário que não tem experiência de pesquisa,
pode ter pouco ou muito aí é uma variável, não é? Um exemplo é o Eurico da bioquímica, era um
grande professor, já fez pesquisa também, mas ele não era grande pela pesquisa. Ele era grande
pela aula...”(Angelo Machado, 2015)

A história científica do ICB também passa pelos seus espaços: seja na elaboração e construção
do seu prédio próprio ou nas disputas pela divisão dos espaços ou ainda na pluralidade de lugares
onde o conhecimento é produzido; e que em nada se limitam aos tradicionais laboratórios e
suas bancadas. Museus, herbários e hortos, Estação Ecológica, centro de atividades didáticas,
além do biotério e centro de microscopia também são loci importantes onde várias formas de
fazer ciência se revelam. Aliás, as ciências biológicas têm seu berço na História Natural, cujas
raízes científicas estão no trabalho de campo, para coleção, conservação, descrição, taxonomia
(morfológica e funcional), catalogação das espécies e sua divulgação perante a comunidade de
naturalistas. Modos de conhecer e fazer ciência que permanecem presentes no ensino e pesquisa
científicas do ICB na atualidade, como fica evidente na criação e institucionalização, na forma
de Órgão Complementar, do Centro de Coleções Taxonômicas (CCT) em 1997 e 2015.

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Uma cultura científica do ICB também aparece numa tradição de pesquisa em que os temas
privilegiados e condições de infraestrutura laboratorial são transversais aos diversos grupos de
pesquisa e campos de conhecimento biomédicos com suas metodologias, modelos experimentais
e técnicas específicos. Esquistossomose e ancilostomose, leishmaniose, tripanossomíases,
venenos, plantas medicinais, leveduras, vírus etc. são temas recorrentes nos projetos de pesquisa
e publicações de pesquisadores da bioquímica, parasitologia, fisiologia, biofísica, farmacologia,
patologia, morfologia, genética, zoologia, botânica e microbiologia. Temas esses, que ao envolver
pesquisadores diversos, criam redes e atraem financiamentos de variadas agências e instituições
de apoio à pesquisa científica. Um exemplo é a formação de um grupo como o GIDE (Grupo
Interdepartamental de Estudos sobre a Esquistossomose) que congregou pesquisadores de vários
departamentos, nos anos 1970 e 1980, em torno da Esquistossomose e conquistou financiamentos
de agências de fomento nacionais e internacionais, como CNPq, Capes, FINEP, além da Fundação
Rockefeller, Fundação Ford, OMS, OPAS, laboratórios farmacêuticos, etc.
No ICB também foram gestados embriões de uma fundação de apoio e gestão financeira
da Pesquisa, como a FAPEBIO, o que mais tarde, com a participação efetiva de professores
do ICB, acarretou na criação da FAPEMIG. Decorrente da vocação biotecnológica de suas
pesquisas, é no ICB que foi gestada, em 1975, pelo Prof. Marcos Luiz dos Mares Guia, a empresa
Biobrás (Bioquímica do Brasil S.A.), tida como a primeira empresa brasileira de biotecnologia
e inicialmente voltada para a produção de enzimas industriais. A atuação dos professores do
ICB também envolve fazer o conhecimento circular entre os pares. Isso implica esforços de
publicação, nacional e internacional, a organização de eventos, a criação de publicações próprias
do instituto – como o Boletim Informativo do ICB (iniciado em 1969) e a Revista Lundiana, a
participação no corpo editorial de revistas nacionais e internacionais, bem como o envolvimento
em sociedades e associações científicas. Nos anos 1970 se criou os Encontros de Pesquisa do ICB
e é no ICB que nasce a Semana de Iniciação Científica da UFMG. O ICB hospedou ao longo
dos anos centenas de eventos científicos nacionais e internacionais.
Essa história marcada pela conformação de uma cultura cientifica, inclui as atividades
acadêmicas de uma graduação vigorosa, que abriga cursos diurno e noturno em Ciências
Biológicas e a oferta de disciplinas básicas para todos os cursos da área de saúde da UFMG.
O ICB também abriga atividades de extensão reconhecidas e diversificadas como é o caso do
Museu de Ciências Morfológicas, que é também fruto de uma de suas formas de prática científica
de produção e divulgação de conhecimento: a coleção de peças anatômicas para fins didáticos.
Além é claro do Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, no bairro Horto e a
Estação Ecológica, esta última dentro do Campus, que do mesmo modo articulam produção
de conhecimento – em áreas como a ecologia, conservação e manejo ambiental – e atividades
de extensão dirigidas para o público mais amplo.
Assim, povoado por professores, funcionários técnicos-administrativos e alunos de vários
cursos, o ICB passou pelo seu cinquentenário, mantendo sua cultura cientifica peculiar, alimentada
por uma comunidade científica consolidada e vigorosa, que está em sintonia com os modos de
conhecer e fazer ciência contemporâneos, incorporando novos procedimentos metodológicos

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e tecnologias e erguendo novas estruturas e condições institucionais para continuar formando
cientistas e sempre comprometido com uma ciência básica associada à aplicada e a serviço da
sociedade mineira e brasileira.
As interpretações e histórias narradas nos artigos que compõem o presente livro são
baseadas em extensa pesquisa empírica, financiada pela FAPEMIG, realizada a partir de material
recolhido e digitalizado no âmbito da própria UFMG, sobretudo no Arquivo Institucional do
ICB, sob guarda da Secretaria Geral; além do CEDECOM e da Biblioteca Universitária. Pesquisas
também foram realizadas em acervos no exterior, como é o caso do Rockefeller Archive Center.
Esse material é composto de documentos administrativos relativos a atividades de ensino e
pesquisa, correspondências, recortes de jornais, publicações periódicas institucionais, relatórios
departamentais e das pós-graduações, relatórios de pesquisas, anais de eventos científicos, registros
de atividades de pesquisa (como é o caso do Rockefeller fellowships cards), fotos, dentre muitos
outros. Parte importante do trabalho empírico se deu por meio da realização de entrevistas e
coleta de depoimentos de alguns professores (incluindo professores ex-alunos) e servidores do
ICB, aposentados e na ativa. O critério de seleção dos entrevistados obedeceu a seguinte lógica:
professores atuantes na constituição do ICB, professores eméritos, professores pesquisadores do
CNPq 1A. No caso dos servidores técnicos a seleção foi feita a partir de indicações sobre a efetiva
atuação dos mesmos ao longo da história da instituição. Aqui prestamos nossas homenagens
aos professores Eduardo Cisalpino, Angelo Machado, Egler Chiari, Giovanni Gazzinelli, Wilson
Mayrink, e Tomaz Aroldo da Mota Santos, falecidos durante o período da pesquisa e produção
do livro, mas que, seja em entrevista ou na disponibilização de documentos, contribuíram com
informações importantes para o trabalho empírico que sustenta a presente história.
As narrativas obtidas, uma vez narrativas de memória, descortinaram vários testemunhos de
experiências no tempo vivido dos personagens como atuantes no fazer científico, o que, cotejadas
com outros documentos, serviram de pistas para entender o desenvolvimento acadêmico-
científico e conformação de uma cultura científica na instituição. A coleta de testemunhos,
através da História Oral, foi uma importante ferramenta para enriquecimento de informações
detalhadas relativas às atividades envolvidas no processo de produção de conhecimento e na
trama institucional própria do ICB. Por meio dos testemunhos, foi possível perceber não só como
o entrevistado vê a si mesmo e ao mundo, mas, também, como ele é visto por outro(s) sujeito(s)
ou por uma coletividade. Além de proporcionar um relato de detalhes pessoais e institucionais
raramente capturados em arquivos disponíveis, a história oral contribuiu para dar pistas sobre
compreensões ideológicas e sentidos sociais da ciência por parte dos professores do ICB. As
entrevistas seguiram roteiro semiestruturado, a fim de se orientar a coleta de informações,
mas de modo que o entrevistado pôde se manifestar livremente. Foram respeitados todos os
cuidados éticos exigidos pela metodologia da História Oral e pelo Comité de Ética em Pesquisa
com seres humanos; como, sobretudo, o consentimento pós-esclarecido e o cuidado e respeito
às manifestações emotivas dos entrevistados.
O presente livro está estruturado em cinco capítulos, que são contribuições dos pesquisadores
envolvidos na pesquisa sobre a história científica do ICB. O primeiro capítulo, “História, ciência

17
e memórias nos 50 anos do ICB”, de autoria das Profas. Dra. Anny Jackeline Torres Silveira e
Rita de Cássia Marques, propõem uma discussão sobre memória e ciência a partir, sobretudo,
dos depoimentos de alguns professores do ICB, que, nas lembranças de experiências vividas,
individual e coletivamente, revelaram um conjunto de representações acerca da história científica
do instituto nos seus 50 anos de história. O segundo, “A Criação do ICB: Políticas, Tensões e
Desdobramentos na Graduação e na Pós-Graduação”, da Profa. Dra. Rita de Cássia Marques,
aborda a dificultosa e conflituosa configuração do ensino de graduação e pós-graduação do
ICB e sua centralidade para a formação de uma cultura científica para o instituto. O terceiro
capítulo “Cultura Científica no âmbito do ICB: economia moral e seus imperativos éticos”,
discute em específico o processo histórico de formação de alguns valores e aspectos morais
sobre a ciência, que estruturaram uma cultura científica para o ICB. O quarto capítulo, “Os
“modos de conhecer” e fazer ciência do Instituto de Ciências Biológicas, da Profa. Dra. Ana
Carolina Vimieiro Gomes, trata da história do desenvolvimento científico do ICB: os modos
de conhecer e fazer ciência que marcam a sua história. Por fim, a Profa. Dra. Paloma Porto
Silva, no capítulo 5, “O ICB e as Agências de Fomento”, discute a trama de financiamentos,
fomentos e articulações políticas que sustentou os empreendimentos científicos do ICB. Três dos
bolsistas que trabalharam na pesquisa também produziram textos curtos de temas caros para a
história científica do ICB: a já mestre Jéssica Bley Pina da Silva, em “Os caminhos percorridos
pelas cientistas do ICB”, levanta uma discussão sobre o lugar das mulheres cientistas no ICB e
nos revela pontos importantes da trajetória de quatro reconhecidas professoras do ICB: Profa.
Conceição Ribeiro da Silva Machado, Profa. Maria Auxiliadora Roque de Carvalho, Profa. Maria
Norma Melo e Profa. Antoniana Ursine Kretli. No texto O ICB e as suas ações de educação
ambiental, o atualmente mestrando Gabriel Schunk, discute a relevância dos temas ambientais
na agenda acadêmica do ICB e, a isso atreladas, as iniciativas de educação ambiental da Estação
Ecológica. A também agora mestre Ana Carolina Durães Vaz de Melo Barreto, discute as primeiras
interações entre pesquisadores do ICB e as ações científicas e de saúde pública Organização
Mundial de Saúde, com o texto O Instituto de Ciências Biológicas e a OMS.
Os capítulos são entremeados por pequenos textos com temáticas específicas, muito
gentilmente escritos por pesquisadores colaboradores, que servem de reflexões que nos ajudam a
situar a história do ICB em contextos sociais, políticos, científicos e institucionais mais amplos. O
Prof. Dr. Rodrigo Patto Sá Mota, do Departamento de História da UFMG, em “A Universidade
e a Ditadura” nos brinda com texto sobre o projeto modernizador-autoritário que promoveu,
paradoxalmente, a transformação da universidade brasileira no período da ditadura militar,
que governou o Brasil entre 1964 e 1985. No texto “As ciências biomédicas na Guerra Fria”, o
historiador da ciência e medicina Prof. Dr. Marcos Cueto, da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz,
nos levanta intrigantes questões sobre transformações e continuidades nas ciências biomédicas
decorrentes de estratégias geopolíticas envolvendo a ciência durante a segunda metade do século
XX. O pesquisador português em relações internacionais da University of York, Inglaterra, João
Nunes, com o texto “Doenças negligenciáveis e saúde global”, contribui com interessante
reflexão sobre o lugar (e não lugar) das “doenças negligenciadas” nas agendas científicas de

18
políticas de saúde global em organismo internacionais como a Organização Mundial da Saúde
desde a segunda metade do século XX.
O livro conta também com elucidações sobre alguns aspectos do contexto institucional do
próprio ICB. As professoras doutoras, Débora d’Ávila Reis e Verona Segantini, em “Extensão
e Divulgação no ICB”, trazem um panorama das ações de extensão e divulgação científica e
seu impacto no ensino de ciências e atividades de pesquisa do instituto. Uma história do ICB
não poderia deixar de mencionar, mesmo que de modo conciso, a história dos museus a eles
vinculados, que, historicamente, têm sido espaços plenos de ensino, pesquisa e extensão e
que refletem muito algumas facetas da cultura cientifica do ICB. Estão aí as contribuições da
Prof. Dra Betânia Gonçalves Figueiredo, sobre o Museu de Ciências Morfológicas e do Prof.
Dr. Antônio Gilberto Costa sobre o Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG.
Esperamos que o resultado da pesquisa sintetizado e expresso na presente obra possa
sensibilizar a própria comunidade do ICB sobre a historicidade da ciência lá praticada, além da
necessidade de se preservar o seu patrimônio científico e de se registrar as memórias alimentadas
pela sua comunidade. Que as reflexões históricas aqui tecidas sirvam de estímulo para muitas
outras histórias possíveis sobre o desenvolvimento científico do instituto nos seus 50 anos de
existência, manifesto nas suas múltiplas e numerosas ações de ensino, pesquisa e extensão.

19
Capítulo 1
50 50
50
50
50 50
50
50
História, ciência e memórias nos 50 anos do ICB

Anny Jackeline Torres Silveira


Departamento de História/UFMG

Rita de Cássia Marques


Escola de Enfermagem/UFMG

A partir do Homo sapiens, a constituição de um aparato da memória social domina


todos os problemas da evolução humana. (...)
A tradição é biologicamente tão indispensável à espécie humana como o
condicionamento genético o é às sociedades de insetos: a sobrevivência étnica
funda-se na rotina, o diálogo que se estabelece suscita o equilíbrio entre rotina e
progresso, simbolizando a rotina o capital necessário à sobrevivência do grupo,
o progresso, a intervenção das inovações individuais para uma sobrevivência
melhorada. (Leroi-Gourhan 1964-65, p. 24; 476).

Sobre comemoração e a cristalização do tempo


Em sua origem etimológica, comemorar é trazer à lembrança, fazer recordar ou narrar
(Torrinha, 2001, p. 768). Ato que envolve duas ações: o retorno ao passado e a seleção, nessa
extensão do tempo vivido, de um momento que se pretende solenizar, tornar memorável, re-
vestindo-o de um sentido especial. Comemorar pressupõe, assim, destacar na experiência da
passagem do tempo, no curso comum e contínuo dos acontecimentos, um evento tornado marco,
inflexão, fração de momento que delimita dois tempos, um antes e um depois, assumindo por
isso mesmo um lugar de referência simbólica para um grupo ou sociedade.
Muito bem, eu fui um felizardo, eu vivi na época em que estava tudo começando. Fui um dos
primeiros a fazer algumas coisas. (Hugo Godinho, 2015)

Os estudos historiográficos que têm se debruçado sobre as práticas comemorativas partem


do pressuposto de que tais celebrações são um fenômeno característico das chamadas sociedades
laicizadas, cuja experiência se inscreve em um tempo cronológico, marcado por uma sucessão
progressiva dos acontecimentos (Nora, 1993; D’Alesio, 1996). Nesse contexto o ato de comemorar
se reveste do desejo de fazer presente determinado momento imbuído de um caráter especial –
geralmente fundador – e que seja um marco reconhecido e compartilhado por um coletivo de

23
indivíduos. Nesse processo de revivescência, uma das operações fundamentais é o realçamento
da identidade, o reforço de um sentimento de pertencimento, inserção e, ao mesmo tempo,
reafirmação de uma determinada tradição, de histórias que integram o repertório comum de
grupos ou sociedades. De tal forma, investigações que tematizam as práticas comemorativas
invariavelmente remetem a uma reflexão sobre a memória, entendida como uma categoria de
apreensão da experiência através do tempo, que seleciona e inscreve sentidos aos eventos que
integram o percurso de uma existência, seja ela individual ou coletiva.
Eu fiz História Natural. É onde funcionava o Instituto de Biologia. E era História Natural naquele
tempo. Então nós formamos eu, a minha esposa, Dulce Regina, é... Mais duas colegas, uma mais
experiente desse grupo aí, que não era recém-formada, era professora nossa, que era a Maria Luísa
Bandeira de Melo. Então ela foi junto com essa equipe, nós éramos quatro, sabe? (...) Só depois
de 1969 é que a UFMG fez o primeiro Vestibular Único, que era aqui no Mineirão, só em 1969.
Eu lembro disso que nessa altura eu já tinha sido contratado pelo Colégio Universitário. (Edmar
Chartone de Souza, 2015; grifos nossos)

Com o surgimento da história científica, em meados do século XIX, a memória se viu rele-
gada ao universo intricado e “obscuro” das sensibilidades e do subjetivo. Tal exílio que perdurou
até as últimas décadas do século XX, quando retomou lugar de importância no pensamento e
nos debates da comunidade dos historiadores. O movimento de (re)emergência da memória
é associado à percepção de uma alteração da experiência da duração surgida com a transição
para a modernidade: uma sucessão cada vez mais acelerada dos eventos, potencializada pelas
transformações tecnológicas, e cuja marca indelével é a efemeridade da experiência e das coisas.
Tem-se então o que se denomina como a “ditadura do presente”, onde a existência privada de
futuro e do passado é aprisionada e a história é tornada “eternamente contemporânea” (D’Alessio,
1993, p. 92; Marshall Berman, 1982; Zygmunt Bauman, 2001).
Nesse mundo marcado pela “hegemonia do efêmero”, a experiência do passado se torna
cada vez mais distante e fugidia. Uma vez considerando que o passado e a identidade são dois
elementos indissociáveis na urdidura de qualquer grupamento social, esse afastamento em re-
lação ao passado significa então a possibilidade da perda da identidade, entendida como uma
qualidade fundada na combinação estabelecida a partir de um conjunto de referenciais que
vão sendo selecionados no percurso da experiência, e que conferem substrato ao exercício do
reconhecimento e da diferenciação entre os diversos grupamentos ou coletividades. São essas
marcas identitárias o substrato no qual se assentam o reconhecimento, a percepção de coesão, o
senso de pertencimento, fundamentos instituidores de uma comunidade – estado ou qualidade
daquilo que mantém a unidade pela comunhão, reconhecimento ou partilha de algo em comum.
Não quis sair muito. Em todos os locais, recebíamos convites para ficarmos lá. Mas nós tínhamos um
compromisso naquele grupo do Prof. Baeta Vianna de não nos dispersarmos, para que se formasse
um núcleo realmente forte. (Ênio Cardillo Vieira, 2015)

É por isso que, nem mesmo aqueles reconhecidos como cultores do moderno defendem a
destruição dos traços, dos vestígios de passado inscritos na vivência presente de um grupamento

24
social (D’Alessio, 1993, p. 97). Foi no contexto das comemorações do bicentenário Figura 1: Recorte
de manuscrito
da Revolução Francesa, momento de evocação de eventos e símbolos reconhecidos
elaborado pelo Prof.
como expressões do sentimento nacional, da memória e da identidade francesas, Jenner Procópio de
que Pierre Nora colocou em evidência o clássico conceito de “lugares de memória”. Alvarenga, intitulado
por ele “Memória
Entendidos como pontos materiais e imateriais nos quais a memória e a história da Zoologia/UFMG”,
se interseccionam –– os lugares de memória se constituem como elementos simbólicos sem data. Podemos
materializados em representações, ou objetos-lugares espacialmente estabelecidos observar a descrição dos
laboratórios e salas no
tornados simbólicos, que se constituem uns e outros em fundamentos sob os quais Colégio Marconi, além
se erigem a autorrepresentação dos grupos sociais, os signos conformadores de sua de um relato sentimental
identidade. E às qualidades material e simbólica vem juntar-se ainda um sentido dos professores e
funcionários que
de funcionalidade, uma vez que tais “lugares” garantiriam, “ao mesmo tempo, a trabalhavam nesses
cristalização da lembrança e a sua transmissão” através das gerações, alicerçando a espaços.
memória coletiva (Nora, 1993, p. 22). Fonte: Acervo Pessoal
Prof. Jenner Procópio
O laboratório de biologia, departamento de biologia que era o do Schreiber, lá onde
de Alvarenga, Arquivo
tinha a Faculdade de Filosofia, atuava o GIDE e o Pellegrino. Então aqui tem a Institucional Secretaria
história. (Pedro Linardi, 2015 ; grifos nossos) Geral do ICB.

25
A pesquisa no Brasil na época era pequena. Alguns dos laboratórios nossos eram grandes, eram
amplos, cada professor tinha uma sala de laboratório. (...) Lá na Faculdade de Medicina, no oitavo
andar da Faculdade de Medicina. Então, a gente tinha as salas, os laboratórios, microscópio, lupa,
essas coisas básicas que se pediam na época, que a gente sabia usar. (Davi Neves, 2015)

Não havia, pois, salas de aula e laboratórios suficientes para atender a demandas do ensino do
novo Instituto e a solução encontrada foi a utilização de espaços de outras Unidades. Contudo, a
maior parte das atividades do ICB se concentrava mesmo no prédio da Faculdade de Medicina.
Esse período é marcado, na minha lembrança por dois fatos importantes: o conflito resultante
do uso do prédio da Faculdade de Medicina pelo Instituto, que era um conflito de ocupação do
espaço, mas também um conflito político, relacionado à implantação da reforma universitária, à
qual reagiram as correntes mais conservadoras da Universidade, da quais participavam docentes
da Faculdade. (Tomaz Aroldo da Mota Santos, 2014; grifos nossos)

Os lugares de memória abarcam um conjunto variado de elementos ou “coisas”, por assim


dizer, em um sentido lato: arquivos, bibliotecas, dicionários, coleções, tratados, museus, sítios,
cemitérios, santuários, comemorações, festas, aniversários, ritos, calendários, processos verbais,
emblemas, minutos de silêncio, elogios fúnebres, monumentos... miríade de fenômenos-ações-
-objetos-espaços sobre os quais interessa não a sua enumeração exaustiva, mas sim sua riqueza
evocadora. São espaços que abrigam o que resta a ser perpetuado do passado, cristalizações
de outro tempo (Nora, 1993, p. 27), transformados em herança, em patrimônio a ser legado,
portanto elo que comunica passado, presente e futuro.
A coisa mais frustrante é ver a sua linha de pesquisa desaparecer na hora de aposentar [por falta
de] pessoas para continuar. Isso é uma perda grande porque muito trabalho e dinheiro público
foram investidos. (...)Essas meninas são de Iniciação Científica. Daqui há um ano vão embora.
Precisamos muito de um técnico estável, um bioterista de formação. (Jacques Nicoli, 2016)

HOMENAGEM MAIS QUE JUSTA, NECESSÁRIA, essa que a Sociedade Brasileira de Genética
presta ao professor Giorgio Schreiber por seus 50 anos de magistério. Numa hora em que começam
a ser valorizados os trabalhos publicados, a participação em Congressos, a assessoria aos grandes
órgãos de decisão ou a colaboração com a indústria, por que não se destacar também as atividades
didáticas tão frequentemente legadas ao segundo plano? (Carvalho, 1975, destaques do autor)

Reside aí outro elemento fundamental na identificação dos lugares de memória: o fato de


serem produtos do desejo, efeitos decorrentes de um movimento intencional, de uma busca de-
liberada de resgate de experiências objetivas e subjetivas que estão prestes a desaparecer, daquilo
que não mais ocorre de forma natural, que vai perdendo o caráter comezinho e ordinário. São,
na expressão de Pierre Nora, o resultado de uma “vontade de memória”. No plano individual,
para além das lembranças de uma experiência vivida, a memória de uma pessoa acaba por
também incorporar aspectos de uma história que foi contada por outrem ou que ele ou ela leu
em algum lugar. Com isso, a memória acaba por ser mediada socialmente, coletivamente, e as

26
histórias que se contam vão incorporando ao longo do tempo essas memórias construídas e
alimentadas (outras tantas esquecidas) por uma transmissão cultural.
Eu levei minhas memórias, isto é, documentos relativos à minha atuação docente – o que eu podia
guardar, para meu apartamento. (Hugo Godinho, 2015; grifos nossos)

A ameaça do esquecimento, imposta pela transformação ininterrupta e acelerada do presente


tão característica da modernidade é o elemento que esclarece a percepção da profusão desses
espaços no mundo contemporâneo, como também do que se considera sua “obsessão pelo re-
gistro, pelos traços, pelos arquivos” (D’Alessio, 1993, p. 101). É nessa perspectiva de passagem do
tempo, em meio a qual se demarca a comemoração dos cinquenta anos de existência do Instituto
de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas Gerais que se projetam os textos
reunidos nesse volume. São, cada um deles, produtos dialogados no desenvolvimento de um
programa de investigação elaborado em resposta a uma demanda institucional, e apoiado pela
Fundação de Apoio à Pesquisa de Minas Gerais, Fapemig, cujas atividades se estenderam por
aproximadamente quatro anos. Coordenado e desenvolvido por professores e alunos bolsistas
associados ao Scientia - Grupo de Teoria e História da Ciência da UFMG, o projeto resultou
no levantamento e reprodução de um volumoso material, composto por documentos diversos,
entre impressos, imagens, e objetos tridimensionais, além da produção de depoimentos em
conjunto com diferentes gerações de pesquisadores e funcionários do ICB. Trabalho que só foi
possível em decorrência de iniciativas institucionais de uma “vontade de memória”, voluntária
ou involuntária, em que foram registrados em termos materiais e subjetivos vivências de um
passado que remete à existência de uma pujança de um passado muito recente.
Tá bom. Eu estou com oitenta e cinco anos, mas minha memória tá boa! (Eduardo Cisalpino,
2014; grifos nossos)

(risos) Eu não! Eu acho que eu já falei até demais! Essas coisas assim mais digressão você(...) É,
mas eu assumo tudo que eu falei! Não tenho dúvida do que eu falei para vocês eu falo em qualquer
lugar! Aquela brincadeira que eu tava falando (risos) que eles vão me matar eu não tô nem ai!
(Egler Chiari, 2015)

O período de cinquenta anos acomoda geralmente a experiência de vida de duas gerações.


Considerado em uma perspectiva histórica mais panorâmica, pode parecer pouco tempo para
que se operem transformações profundas ou radicais. Com frequência, a rotinização de hábitos
tende a encobrir a percepção da alteração das coisas. Sem a consciência do contínuo processo
de mudança, resta o espanto diante do “novo”, que parece emergir em um átimo de tempo sem
que dele se dê conta. Mas quando objeto de um olhar comparativo e meticuloso, que busca
extrair da norma e da continuidade aquilo que na verdade é diverso, cinquenta anos podem
então revelar mudanças significativas. E no âmbito das ciências e da tecnologia, os últimos 50
anos representaram uma aceleração nas transformações dos conhecimentos, com uma sobre-
valorização dos dados publicados hoje (ou dos dados brutos pré-publicados), o que afetaria a
percepção do passado, visto então como uma linha contínua em direção acelerada ao progresso

27
futuro, em que a ciência avança cada vez mais. E deixa-se ao plano do esquecimento ou como
remota memória aquilo que coletivamente não se valora mais como o up to date das ciências.
Seria necessária então fazer da reunião dessas memórias História.
Não. Eu acho que eu queria falar isso. ... Eu acho muito rico a gente saber a história das instituições
para não se perder, para saber como é que as coisas têm princípio, meio, e fim [risos]. Não
é? Então a gente tem que saber disso para dar continuidade, para saber como é que as coisas são
dessa ou daquela forma. (Angelo Machado, 2015; grifos nossos)

Os textos aqui reunidos se somam a um conjunto de ações e iniciativas promovidas pela


comunidade do ICB com o propósito de comemorar a passagem do seu cinquentenário. O foco
que direciona os olhares aqui produzidos, pautando as reflexões sobre as concepções, técnicas,
crenças e ideias que alicerçam a existência mesma da instituição é o próprio objeto de memória
destas celebrações: o fazer ciência. Na consecução desse objetivo, essas histórias revisitam lem-
branças e experiências, retomam marcos e símbolos, evidenciam personagens, interpretações,
promovem escolhas construindo, reforçando e cristalizando velhos e novos rastros do passado
em sua narrativa, reafirmando velhas e sugerindo outras possibilidades de memórias. As me-
mórias pessoais carregam experiências subjetivas junto àquelas histórias que se ouviu dizer
ou se leu em algum lugar. Elas seriam também apropriações individuais de um conhecimento
do passado construído coletivamente (Halbwacks, 1990). E, portanto, nessa perspectiva, essas
histórias, vividas e vivas, também buscam cumprir o papel de “lugar de memória”, importantes
para a formação de uma identidade e a legitimação de uma organização social.
Diante do amplo universo de possibilidades para se explorar a constituição de uma ou
várias memórias sobre a ciência no ICB, o presente capítulo explorará dois traços marcantes
dessa memória que se afirmaram ao longo dos 50 anos de história do instituto: 1) a atribuição de
destaque a marcos sobre o desenvolvimento científico do instituto produzida institucionalmente
para celebrar os 2, 15 e 30 anos do instituto; 2) as memórias partilhadas pelos entrevistados nas
suas diferentes vivências das atividades acadêmicas do ICB.

28
A universidade e a ditadura Foto 1: Estudantes
deixam o Campus da
Saúde, após a tentativa
de realização do III
ENE, em 04 jul. 1977,
acompanhados do reitor
Rodrigo Patto Sá Motta da UFMG, Eduardo
Departamento de História/UFMG Osório Cisalpino, do
secretário de educação,
José Fernandes Filho, e
do diretor do Instituto
A ditadura militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985 implantou mudanças de Ciências Biológicas
de grande impacto no sistema de ensino superior. Com o advento do projeto da UFMG, Marcello
de Vasconcellos
modernizador-autoritário capitaneado pela ditadura, as universidades receberam Coelho. Acervo Projeto
recursos e equipamentos de monta. O projeto militar resultou da apropriação dos República/UFMG
debates e demandas produzidos por professores e estudantes nos anos 1960, quando Fonte:  http://www.
começou a movimentação pela reforma universitária. Os militares não tinham memoriasreveladas.
gov.br/index.php/
projeto próprio para o ensino superior. Na verdade, foram civis os formuladores dos
component/content/
planos, enquanto a liderança militar contribuiu com a decisão política e o comando. article?id=683
Além da pauta modernizadora e desenvolvimentista, objetivos políticos estavam
em jogo: aplacar – e reprimir - o descontentamento de intelectuais e acadêmicos, e
sobretudo o ativismo radical dos estudantes.
O impulso modernizador foi acompanhado por intervenções autoritárias,
que visavam expurgar inimigos ideológicos da ditadura e submeter as lideranças
acadêmicas rebeldes à domesticação. É certo que em certas situações foi possível
atenuar a violência política e por vezes incorporar intelectuais “suspeitos” em posições
acadêmicas e cargos oficiais. Alguns líderes do Estado mostraram flexibilidade diante

29
das determinações repressivas, pois seu projeto modernizador demandava quadros acadêmicos
considerados subversivos pelas agências de repressão. O expurgo ideológico em regra da elite
intelectual atrapalharia as prioridades desenvolvimentistas. Por outro lado, flexibilidade e
acomodação também constituíram estratégia inteligente para o futuro dos agentes autoritários,
bem como se inscrevia nas tradições políticas do país, marcadas por estratégia de acomodação
envolvendo grupos de elite social. Mas o Estado reservava tratamento bem mais duro para os
setores sociais subalternos, que viram a violência policial “comum” aumentar consideravelmente
durante a ditadura. Por outro lazdo, mesmo entre as elites acadêmicas nem todos tiveram
oportunidade de reduzir o impulso repressivo, pois a tolerância do Estado tinha limites. Um deles
eram os próprios muros universitários. Ações e ideias questionadoras tinham mais chance de ser
toleradas se ficassem restritas aos círculos intelectuais e não influenciassem o grande público.
Nas ocasiões em que esses limites foram transpostos, invariavelmente o aparato repressivo fez
sentir sua presença.
A faceta violenta do regime militar deixou marcas nas instituições e causou grande prejuízo
e sofrimento às pessoas atingidas. Carreiras de pesquisadores e professores foram ceifadas ou
truncadas, e centenas de estudantes tiveram sua vida escolar abruptamente interrompida. Pior
ainda, muitos integrantes da comunidade universitária, sobretudo do corpo estudantil, foram
torturados e mortos pela ditadura. A violência mais contundente estava reservada aos envolvidos
com a esquerda revolucionária, que atraíram com mais intensidade a ira das forças da repressão.
Mesmo assim, muitas pessoas sem militância política também sofreram sevícias nas mãos de
agentes do Estado. No que se refere aos prejuízos causados às instituições, os expurgos políticos
afastaram lideranças importantes para o sucesso das reformas, gerando impulso contraditório em
relação ao projeto modernizador. Sobretudo na área das ciências humanas e sociais, a repressão
disseminou o medo e a insegurança, afetando a liberdade de pesquisa e motivando práticas de
autocensura, à medida que, pelas ambiguidades do sistema autoritário, ninguém sabia ao certo
as fronteiras entre o proibido e o tolerado, pois elas eram flexíveis. Por vezes os professores
sentiam-se seguros dentro das instituições universitárias, mas o medo voltava quando saíam
dos campi e rumavam para casa, momento em que sua fragilidade diante do aparato repressivo
se revelava de modo mais marcante.
Os grupos de direita venceram a batalha de 1964, derrotando seus inimigos de esquerda e
garantindo o predomínio oficial de seus valores. No entanto, as reformas implantadas fomentaram
forças sociais contrárias ao regime militar graças ao crescimento da massa de estudantes e
professores universitários, grupos receptivos a ideias radicais. Apesar dos esforços do Estado
autoritário, que, para manutenção dos valores tradicionais, adotou tanto políticas repressivas
quanto persuasivas, as ideias de esquerda se disseminaram durante os anos da ditadura. No fim
do processo elas eram mais influentes do que haviam sido antes, embora o comunismo estivesse
em crise e superado por “novas esquerdas”, e o marxismo fosse consumido pelos jovens em doses
superficiais. No início dos anos 1980, na fase final do poder militar, as universidades oficiais
haviam se tornado celeiros da cultura marxista, embora ela fosse eclética e incapaz de dar vida
a projeto político hegemônico – além de ter concorrentes importantes na disputa pelo campo
intelectual. Os golpistas de 1964, ao contrário de suas expectativas, não foram capazes de impedir
30
Figura 1: Ofício
do General Itiberé
Gouveia do Amaral,
Comandante da
Quarta Região
Militar, ao reitor da
UFMG Marcelo de
Vasconcelos Coelho
sobre medidas
preventivas para
a manutenção da
ordem pública
de acordo com as
diretrizes do AI5, 14
mar. 1969.
Fonte: UFMG,
Arquivo
Institucional do ICB,
caixa 4.

31
o crescimento da influência da esquerda. Podem ter retardado o processo momentaneamente,
contudo os próprios efeitos das práticas autoritárias alimentaram o esquerdismo de muitos
jovens. O declínio das culturas de esquerda viria anos depois, por outras razões, e não pela
força da repressão, que é incapaz de coibir ideias.
No fim do ciclo militar, as universidades estavam em crise, às voltas com falta de recursos
e salários corroídos pela inflação. O conhecimento produzido exercia limitado impacto sobre o
sistema produtivo, e a instituição universitária era mais importante por seu papel na formação
de técnicos, profissionais, burocratas e intelectuais ligados à academia. Ademais, o modelo
implantado foi elitista e socialmente injusto, como era o tom geral das políticas modernizadoras
e desenvolvimentistas da ditadura. Os investimentos nas universidades favoreceram os grupos
sociais e as regiões mais ricas do país, consolidando – e ampliando – as tradicionais desigualdades
sociais e regionais.
A ditadura legou um sistema universitário e educacional que, em linhas gerais, ainda
vigora: um setor público minoritário no qual se encontra a elite de pesquisadores e os melhores
alunos, e onde se faz pesquisa; e um setor privado majoritário que, malgrado as exceções,
não prima pela qualidade. Há universidades públicas de grande qualidade para os padrões
do país, em contraste com um ensino público médio e fundamental insatisfatório, o que em
parte também é herança das prioridades estabelecidas pelo regime militar. Não obstante os
problemas apontados, a modernização imposta legou estruturas retomadas em período posterior.
As mudanças implantadas no início dos anos 1970 só vieram a frutificar décadas depois, em
particular após a retomada do crescimento econômico e dos investimentos estatais em pesquisa,
no século XXI.
A UFMG, naturalmente, viveu experiências semelhantes às de outras instituições que
compunham o sistema federal de ensino superior. Recebeu recursos para expandir sua
infraestrutura e para ampliar os corpos discente e docente, bem como para incrementar as
pesquisas e os cursos de pós-graduação. Durante esse processo o campus da Pampulha foi
efetivamente implantado, com a construção de vários prédios que abrigaram importantes
unidades acadêmicas, especialmente os novos institutos que após a reforma universitária se
desprenderam das antigas Faculdades. No entanto, ao mesmo tempo, a universidade foi submetida
à vigilância e à repressão, tendo professores e servidores expurgados dos seus quadros, bem
como estudantes excluídos do corpo discente. Pelo menos cinco estudantes ou ex-estudantes
da UFMG foram mortos por agentes da ditadura.
Também como nas outras universidades, não houve apenas resistentes e vítimas da repressão.
Uma parte da liderança da universidade aderiu ao projeto da ditadura, enquanto outros tantos
buscaram formas de acomodação, seja porque planejavam com isso reduzir o escopo da violência,
seja porque pretendiam evitar que a UFMG perdesse as oportunidades de investimento oferecidas
pelo Estado autoritário.

32
Da criação e das recriações do ICB
A criação do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, em fins da década de 1960, não
é evento isolado, se inscrevendo em um contexto marcado por amplo movimento em favor
da reformulação do ensino universitário no Brasil. Considerado essencialmente profissional e
elitista, o ensino superior foi foco, entre os anos de 1950 e 1960, de intensas críticas e debates
que tinham como horizonte a proposta de integração da educação superior em uma agenda
modernizante que dominava a pauta política do país no período. A universidade era então uma
experiência recente na história brasileira, especialmente quando comparada a outras regiões
do continente americano1.
Data de 1931 o decreto que instituiu o “Estatuto das Universidades Brasileiras”2, estabele-
cendo que a educação superior seria, “preferencialmente”, organizada através de um sistema
universitário, admitindo-se a criação de institutos isolados, determinando ainda a padronização
do sistema público de ensino. A “unidade universitária” deveria congregar “pelo menos três dos
seguintes institutos do ensino superior: Faculdade de Direito, Faculdade de Medicina, Escola
de Engenharia e Faculdade de Educação Ciências e Letras”3, à qual caberia à instituição “seu
caráter propriamente universitário” (Campos, 1931, apud Fávero, 2006, p. 24). Previa o estatuto
que, além do ensino profissional, habilitando “ao exercício de atividades que requerem preparo
técnico e científico superior”, constituíam objetivos da educação universitária: elevar a cultura
geral e estimular a investigação científica, concorrendo, “pela educação do indivíduo e da co-
letividade, .... para a grandeza da nação e o aperfeiçoamento da humanidade”.4 Entretanto, as
instituições surgidas após o estabelecimento desta legislação, e mesmo as duas anteriormente
existentes, pouco alteraram o panorama essencialmente profissionalizante do ensino superior,
permanecendo em sua maioria como simples justaposição de escolas profissionais (frequente-
mente três, número mínimo como indicava o estatuto), sob a administração de uma reitoria,
muitas vezes figurativa: “verdadeiras “ilhas” dependentes da administração superior”. “A ideia
de universidade contudo, era só uma ideia. O caminho para a realização dessa ideia se estendeu
por décadas” (Fávero, 2006, p. 24).
A universidade era na verdade, antes de 1964, 1965 uma federação de escolas. Já tinha escola
de Medicina, de Engenharia, de Farmácia, então juntou isso tudo e virou Universidade, e nem
era Federal de Minas Gerais, era UMG Universidade de Minas Gerais, era isso que era. (Edmar
Chartone, 2015)

1 A presença de universidade nos territórios de colonização espanhola e inglesa na América remontam aos pri-
meiros séculos da ocupação. Na região colonial espanhola a primeira foi a de Santo Domingo (1538), seguida por
San Marcos, no Peru (1551), México (1553), Bogotá (1662), Cuzco (1692), Havana (1728) e Santiago (1738). Nas colônias
inglesas a primazia coube a Havard (1636), Yale (1701) e Filadélfia (1755). Gomes (2002) In: Jornal da Unicamp n.
191 - ANO XVII - setembro de 2002. http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/setembro2002/uniho-
je_ju191pag7a.html . Acesso: 18 jul. 2018.
2 DECRETO Nº 19.851, de 11 de abril de 1931. Dispõe que o ensino superior no Brasil. Disponível em: http://
www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1930-1939/decreto-19851-11-abril-1931-505837-publicacaooriginal-1-pe.html.
Acesso: 18 jul. 2018.
3 DECRETO Nº 19.851.
4 DECRETO Nº 19.851.

33
Ainda na década de 1930, duas iniciativas iriam capitanear o que os estudiosos do tema
acordam representarem a criação das primeiras instituições de caráter efetivamente universitário
no país: a Universidade de São Paulo (USP, 1934) e da Universidade do Distrito Federal (UDF,
1935) (Fávero, 2006, p. 24). Apesar do curto período de funcionamento (cerca de 4 anos), a
Universidade do Distrito Federal (UDF) é considerada um marco, pelas disputas políticas que
ensejou e por incorporar o espírito de “lugar da atividade científica livre e da produção cultu-
ral desinteressada” defendido pelos intelectuais associados à Academia Brasileira de Ciências
e Associação Brasileira de Educação (Maria H. T. de Almeida, 1989, apud Fávero, 206, p. 25).
Apesar destas iniciativas, o descontentamento com o modelo de ensino tradicional praticado na
maioria destas instituições ainda persistia, e as críticas do “Manifesto dos Pioneiros da Educação
Nova” (1932), desembocam atualíssimas na década de 1960.
Em dezembro de 1961, a ideia da UDF é retomada, com a criação das duas leis incorporando
duas concepções distintas, foram promulgadas no Brasil. Em 15 de dezembro de 1961, foi criada
a Universidade de Brasília (Lei 3.998) e ao mesmo tempo, em 20 de dezembro a luta de 14 anos
em torno foi promulgada a Lei 4.024 das Diretrizes e Bases da Educação. Por meio desta lei foi
consolidada uma estrutura tradicionalista para a maioria das instituições de ensino superior.
Nesse mesmo ano, os estudantes universitários dirigidos pela União Nacional dos Estudantes
desencadearam uma luta radical por uma reforma radical da universidade, através da realização
do I Congresso Nacional da Reforma Universitária. Nesse encontro a reforma universitária passa a
ser uma das frentes de luta da UNE, luta essa que se desdobra em propostas de reestruturação do
ensino superior, greves, envio de projetos para o legislativo, manifestações de rua, e mobilização
interna nas instituições de ensino. (Veiga, 1982, p. 32).

Em meio a essa mobilização começou a se delinear uma proposta de reforma universitária,


“cujas bandeiras principais eram: a democratização do acesso; a extinção da cátedra vitalícia;
autonomia universitária, compromisso social e o co-governo nos órgãos colegiados” (Trindade,
2004, p. 828). De modo geral, ao lado de certas propostas que caracterizavam tendências mais
liberais ou mais à esquerda nos projetos de uma nova universidade, havia também concordân-
cias, especialmente quanto ao que devia ser transformado, tais como eram o sistema das cáte-
dras, a elitização do ensino superior, a necessidade de integrá-las através do desenvolvimento
científico, à modernização em curso na sociedade. Esse movimento acabaria sendo solapado
mais adiante pela Lei 5.5405, de 28 de novembro de 1968, que implementou o que se chamou a
Reforma Universitária de 1968 que, em muitas de suas determinações encampou as propostas
que já vinham sendo discutidas desde há mais de uma década.
Naquele tempo, não havia câmara departamental. Os catedráticos comandavam os departamentos.
Antes da Reforma Universitária, entre 1964 e 1968 o Prof. Carlos Diniz exerceu a chefia, o típico
catedrático. Ouvia a opinião de todos. De vez em quando ele reunia o que ele chamava de “staffão”.

5 LEI Nº 5.540, de 28 de Novembro de 1968, fixa normas de organização e funcionamento do ensino superior.
http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1960-1969/lei-5540-28-novembro-1968-359201-publicacaooriginal-1-pl.
html . Acesso: 18 jul. 2018.

34
O “staffão” eram os líderes, os mais velhos no departamento. Muitas vezes reunia o “staffão” e o
“staffinho’’, o que era um tipo de assembleia geral. (Ênio Cardillo Vieira, 2015; grifos nossos)

Entre as diretrizes estabelecidas na lei de 1968 destacam-se o fim das cátedras e a organiza-
ção das disciplinas em departamentos e a separação entre o ensino básico e ensino profissional,
concentrando-se, o primeiro, nos chamados Institutos Centrais, responsáveis pelas disciplinas
de caráter mais geral que integravam os currículos de diferentes áreas de conhecimento, sinte-
tizando assim a ideia de não duplicação dos meios de formação científica básica em diferentes
unidades de caráter profissional independentes.
No rastro desses acontecimentos outras experiências e iniciativas foram delineadas no âmbito
da educação superior, como é exemplo o projeto de reforma da atual Universidade Federal de
Minas Gerais, levado a cabo durante o reitorado de Aluísio Pimenta, iniciado em fevereiro de
1964. Entre 1964 e 1968 sua comunidade esteve envolvida na implementação dos novos estatutos
da Universidade que, encampando diversos elementos que alimentavam os debates sobre o en-
sino universitário, determinava a criação de institutos centrais como unificadores e promotores
das atividades de pesquisa científica; na alteração, dez anos depois da federalização, do nome
UMG para UFMG; na reorganização didático-administrativa com a separação entre o ensino
básico e ensino profissional, deu-se a criação dos Institutos Centrais, entre os quais se destaca
o Instituto de Ciências Biológicas, cujo marco de fundação escolhido por sua comunidade é a
data da 1ª Assembleia Geral do Corpo Docente, ocorrida em 11 de novembro de 1968.
A formação dos departamentos do ICB se deu em razão da legislação federal que forneceu as bases
da reforma universitária, ocorrida na segunda metade da década de 1960. A situação vigente até
então era a de uma organização moldada em disciplinas, cada uma delas dirigida por professor
catedrático, cuja chefia era vitalícia e praticamente autônoma. Historicamente, as disciplinas
eram rígidas no sentido de terem seus limites razoavelmente bem definidos. Havia uma palpável
preocupação de não ultrapassar esses limites. Nessa nova legislação, consagraram-se os princípios
da organização departamental pelo agrupamento de disciplinas historicamente afins e o da não
duplicação de meios para fins idênticos ou equivalentes. A unidade departamental seria então
encarregada de desenvolver simultaneamente ensino e pesquisa. A legislação também enquadrou
essas unidades universitárias em sistemas básico e profissional, além de permitir a criação de novas
unidades. O ICB, enquadrado no sistema básico, foi instituído com a transferência dos departamentos
e respectivas disciplinas básicas das unidades da UFMG existentes à época. (Hugo Godinho, 2015).

Num plano mais amplo, para nos situar no marcante turbilhão de transformações na
estrutura da universidade nesse período, está no processo de ocupação efetiva do campus
Pampulha, com a instalação de sua reitoria em icônico exemplar da arquitetura modernista
mineira. O projeto modernista do edifício no qual a reitoria se instalou em 1962, se sobrepôs a
outro, de característica mais tradicional. “A obra começou a ser realizada na década de 50 como
resultado do movimento de uma geração de arquitetos modernistas contra a proposta anterior,
neoclássica, do plano diretor para a cidade universitária, o Plano Pederneiras”. A elaboração de
um primeiro anteprojeto de cidade universitária foi acordada entre a reitoria da recém-criada

35
UMG e o engenheiro Eduardo Vasconcelos Pederneiras em fevereiro de 1929. Após a tentativa
de execução de outras propostas, em novembro de 1943 um novo acordo seria estabelecido
com Pederneiras, que concebeu uma proposta de caráter neoclássico. O plano suscitou um
movimento de oposição que se estendeu por cerca de uma década, tendo entre seus líderes
o arquiteto Eduardo Mendes dos Guimarães Junior, autor do novo projeto. Para o Eduardo
Farjado, arquiteto do DPFO em 2003, “Construir um Campus com aquelas características logo
após a construção da Pampulha seria um retrocesso”. (UFMG Notícias: https://www.ufmg.br/
noticias/no_17122003_reitora.shtml. Acesso: 19 jul. 2018).
Além do aspecto arquitetônico, a batalha pelo projeto modernista parece imbricar-se com
a luta por um projeto de modernização da própria instituição: - “’Como líder estudantil na
minha época, início da década de 1945, lutei muito contra o projeto Pederneiras’, conta, hoje, o
professor Aluísio Pimenta, reitor de 1964 a 1967. Segundo ele, Pederneiras pretendia construir
uma Universidade clássica, do tipo inglês, enquanto havia uma expectativa de ‘uma universidade
moderna, flexível, com laboratórios mais para serem usados do que mostrados’”.6
No início do ano letivo de 1969, integravam o ICB onze departamentos: Parasitologia,
Zoologia, Bioquímica, Imunologia, Biologia Geral, Microbiologia, Botânica Morfologia, Fisiologia,
Biofísica e Farmacologia. As atividades didáticas, de pesquisa e administrativas encontravam-
-se divididas em diferentes unidades da UFMG. Parte mais significativa delas foi alojada na
Faculdade de Medicina. Outra parte, porém, dividiu-se entre as Faculdades de Odontologia,
Filosofia e as escolas de Enfermagem e Veterinária. Naquele primeiro ano de existência, o ins-
tituto congregava cerca de 170 professores, 1500 alunos e 130 funcionários (Boletim Informativo
do ICB, Ano I, n. 1, p. 2, 1969). A unificação das atividades e a reunião de sua comunidade em
um mesmo espaço foi obra de toda uma década.
Dificílima. Era dificílima [ a convivência]. Eu fico vendo lá, os Diretores passaram aperto. O Marcelo
[Vasconcelos Coelho] foi Diretor lá, passou aperto. O Cisalpino, Eduardo Cisalpino, que foi Reitor
depois. Nossa, ele passou aperto lá naquela escola de medicina. E passava aperto porque a gente
era considerado como uma espécie de invasor. E tinha muita gente da Medicina, da Engenharia e
da Escola de Direito, elas sempre foram mais tradicionais. É claro, o curso de Medicina funcionava
há vinte, trinta anos e, de repente, chega uma turma nova e vai tomando. Então, é realmente isso
que aconteceu. Então foi por isso, é porque a gente era novo e com ideias mais novas, e existia
uma ideia implementada já e que os médicos tinham medo de cair a qualidade do profissional, seja
ele engenheiro, médico ou o que fosse. Então eles queriam manter toda aquela estrutura, todas as
disciplinas básicas eles que davam, todas as profissionais eles que davam, até gerar o diploma e gerar
o profissional. De repente, tem essa ideia meio maluca, nova, de que as disciplinas básicas deviam
ser dadas em Institutos Centrais, não é? Uma modificação inteira. Vocês hoje não imaginam, vocês
que estão pegando a coisa pronta, mas naquele tempo não tinha nada disso. (Edmar Chartone
de Souza, 2015; grifos nossos)

6 Diversa- Revista da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG 80 anos. Ano 5, n.11, maio de 2007. https://
www.ufmg.br/diversa/11/expansao.html. Acesso: 19 jul. 2018)

36
Diferentes desafios marcaram a existência do ICB durante os seus primeiros Foto 1- A Faculdade de
Medicina dos anos 1970.
anos. E a importância assumida pelos mesmos no âmbito da comunidade de pro-
fessores, estudantes e funcionários pode ser percebida pela sua reiterada referência, Fonte: Arquivo DPFO.
tanto na documentação produzida no momento mesmo de sua vivência, como nos
discursos da memória que se reelabora a respeito daquele período. Há ainda aqueles
que não são explicitamente formulados, que não estão descritos de forma objetiva,
mas que acompanham a experiência e se impõem à percepção.

Boletim Informativo do ICB como lugar de memória


Um dos lugares privilegiados para a construção da identidade do ICB, é o seu
órgão institucional, o Boletim Informativo do ICB. Iniciado em 1969, cumpriu a
função de dar unidade a uma instituição e uma comunidade dispersa em espaços
variados e diferentes. O Boletim Informativo (BI) era um produto do Serviço de
Relações Universitárias (SRU) que trabalhava aos moldes de uma assessoria de
comunicação, setor “cuja finalidade era divulgar todos os acontecimentos de impor-
tância ocorridos dentro e fora desta Unidade. Uma de suas tarefas era a elaboração e
distribuição do Boletim, órgão oficial da diretoria deste instituto. O BI é um veículo
aberto a todos os professores e funcionários que podem dele se utilizar todas as
vezes que se fizerem necessárias.
O SRU está encarregado também da divulgação, por meio de jornais, rádios
e televisões da capital, daqueles fatos que interessam à comunidade em geral com
intuito de melhor informá-la sobre o que é o ICB e qual a sua importância dentro

37
da Universidade. Solicita a professores e funcionários que enviem notícias se utilizando dos
serviços sempre que acharem necessário. (Ano IV, 26 maio -abril de 1972, p. 6)
O chamado deu certo e os boletins iniciais funcionavam como um elemento de integração
entre docentes e funcionários que se espalhavam pelos prédios da faculdade de Medicina, da FAFI
(antiga FAFICH) e do Museu de História Natural. O BI constituiu-se de um meio de apresentar
o instituto aos seus leitores, ou seja, aos membros da comunidade do ICB. Seu primeiro número
foi publicado já em maio de 1969, seis meses após a oficialização da criação do instituto. Em
1969 foram seis números. Regularidade que varia ao longo dos anos. O BI deixou de ser publi-
cado em 1976 e 1977 e nos anos 1980, entre 1984 e 1992, sendo interrompido em 2002. A partir
de 1994, o projeto editorial contará com a publicação regular de fotos, ilustrações e imagens,
primeiramente na capa e a partir de 1995 também no corpo do texto. Vemos nos primeiros
números a publicação de um editorial, sempre assinado pelo diretor do ICB na ocasião, com
um resumo do conteúdo ou destaques de notícias importantes para o ICB. No boletim podia-
-se informar sobre os novos cursos criados e sua estrutura curricular, o número de alunos por
cursos atendidos pelo instituto, como eram os departamentos, eleições internas e concursos a
se realizar, além de quem assumia cadeiras, cargos e funções administrativas no instituto, quais
os números de telefones dos setores, etc. Ele também dizia do expediente administrativo do ICB
e da universidade, ao informar sobre as funções de cada órgão e procedimentos institucionais,
como portarias expedidas pela diretoria, além de comunicar as discussões e resoluções do
Conselho Universitário. O boletim trazia noticiário com a divulgação de palestras, congressos
na área biomédica dentro e fora da UFMG, de seleções para a pós-graduação, oportunidades
de bolsa e financiamentos de pesquisa, visita de pesquisadores externos, viagens e participação
dos pesquisadores em eventos, pesquisas desenvolvidas pelos grupos e suas publicações mais
importantes. Também cumpria o papel de reforçar um senso de comunidade e pertencimento
com notícias sociais como casamentos, aniversários, alunos que se formam, trabalhos, defesas
de mestrado e doutorado, professores em capacitação, prêmios.
Ao longo dos anos, as informações e notícias trazidas no Boletim Informativo do ICB fo-
ram se diversificando e multiplicando e, com isso, podemos perceber como ele foi se tornando
um lugar de reconhecimento dessa comunidade, cumprindo o papel de apresentar o instituto
aos seus leitores. E não só. Hoje, um olhar sobre o BI do ICB ao longo dos anos nos permite
considerá-lo um lugar de memória e, assim, acompanhar a sua história institucional, além da
configuração de uma cultura científica que lhe é peculiar.
No Boletim era possível saber que em 1969, que “21 professores são titulares (12,5%); 26
professores são adjuntos (15,9%), 118 são assistentes (70%) e apenas 2 são auxiliares de ensino
(1,1%). Muitos dos professores são também pesquisadores”. (Boletim, ano 1, n. 5, out./nov. 1969,
p. 3). Esses professores eram jovens, uma média de 38,5 anos.
O boletim de outubro/novembro de 1969, que comemoraria o primeiro aniversário, nada
fala da data. A grande noticia era a criação do GIDE (grupo Interdepartamental de Estudos
sobre esquistossomose), liderado pelo professor José Pellegrino. Notícia melhor do que co-
memorar aniversário, pois ali estava a concretização de uma concepção de ciência muito cara

38
para o Instituto, qual seja, a de professores de diversos
departamentos trabalhando juntos em projetos comuns.
Os 11 departamentos tinham se tornado 9 com a jun-
ção da Zoologia com a Parasitologia e da Imunologia
com a Bioquímica. Tudo estava começando, dentro do
previsto. Não era tempo de lembranças, mas de fazer
o ICB funcionar.
No segundo ano do ICB, o Boletim 14, dedica duas
páginas ao aniversário do ICB, Um balanço otimista
é feito. O retrato traçado apresentava 1956 alunos dos
cursos de Medicina, Enfermagem, Veterinária, História
Natural, Farmácia, Odontologia, Psicologia e Educação
Física. Eram 170 professores, 42 técnicos e 38 servidores
administrativos. As aulas continuavam sendo dadas
em prédios diferentes: Biologia Geral, na Faculdade de
Filosofia (FAFICH), Botânica no Museu de História
Natural e na Faculdade de Medicina. A biblioteca e o
Diretoria Acadêmico funcionavam numa casa na Praça Hugo Werneck, 174. Já Figura 2: Capa do
primeiro número do
existiam três cursos de pós-graduação: Bioquímica, Parasitologia e Microbiologia. Boletim Informativo do
O crescimento do ICB, obrigava a uma constante atualização, nos boletins per- ICB de 1969.
sistia a pergunta: Você conhece o ICB? Parecia “brincadeira mas muitos professores
e alunos ainda não conhecem a estrutura o instituto não sabendo a quem se dirigir
quando precisam de algum documento ou demanda de qualquer outra questão
da instituição. Para facilitar as questões burocráticas resolveu-se então explicar
para a comunidade o que compete a cada setores e seções. “ao longo de sessenta e
nove números publicados, durante cinco anos, o B.I. viu o ICB crescer e os objetivos
de formar e informar se desenvolverem como um todo, perfeitamente interligados.”
(Boletim n. 69 de 31-05 -1974, p. 2)
Nos anos seguintes, o Boletim manteve alguma regularidade e registrou os
passos da construção do novo prédio, além dos esforços para a mudança paulatina
de setores e departamentos para o Campus Pampulha.

O Boletim especial 1984


Em 15 anos, a estrutura do ICB era completamente diferente. A pesquisa já era
uma realidade, a pós graduação ampliada e eram outras as questões colocadas para
o ensino. A comunidade havia crescido significativamente e então, era composta
por 2.386 alunos de graduação, 276 de Pós-graduação, 261 professores distribuídos
em 10 departamentos. O número especial de comemoração dos seus 15 anos, fala
sobre o ICB, de uma forma que ainda não tinha sido divulgado. Revelando detalhes
do quanto tinham sido penosos os primeiros anos do Instituto. O sucesso da trans-

39
ferência para o prédio novo, em 1979, tornou os relatos das dificuldades mais ameno e assim
soube-se que no início, eram apenas “5 salas de aulas teóricas com 40 lugares” contrastando
com a situação de 1984, “ 154 salas, 4 auditórios pra 375 lugares”.(Boletim Informativo do ICB,
Edição Comemorativa, - 15 anos do ICB 1969-1984).
Imagens dos laboratórios, ênfase na estrutura da época, nas linhas de pesquisa e no de-
senvolvimento de produtos, vacinas, e outros produtos de aplicação mostrando o impacto
que a ciência produzida no ICB tinha na comunidade e na sociedade, com destaque para os
seguintes temas: Leishmaniose, Schistosoma, piolho, interferon, preservação bacia hidrográfica
da Pampulha.
Os boletins sempre traziam notícias dos departamentos, mas no Boletim Especial, foi apre-
sentada a história de cada um deles. Essa apresentação faz um histórico de cada um, destacando
os seus laboratórios com as respectivas infraestruturas de equipamentos, equipes de professores
e os cursos de pós-graduação. O impacto da pesquisa na vida social foi destacado para pensar
soluções para a vida das pessoas comuns. Sobressaem-se os convênios com empresas e autar-
quias públicas. Atenção especial foi dada para a criação do Biotério de animais sem germes, o
primeiro e até então o único da América Latina.
O Boletim Comemorativo dos 15 anos, contudo, marca também o fim do Boletim Informativo
que só retorna em1992, com o nome de Boletim ICB. Curiosamente, ele volta como sendo o
número 1 do ano 2. Em editorial feito pelo então diretor Tomaz Aroldo da Mota Santos, reafir-
ma-se o compromisso do Boletim ser um meio de aproximação entre a comunidade do instituto
e a sua administração. Nessa perspectiva:
“o Boletim do ICB será veiculo de divulgação das atividades acadêmicas e administrativas que, por
seu sentido geral, ofereça um retrato atual da vida do Instituto. Por sua dimensão e complexidade
o ICB carecia de instrumento como esse, a fim de que o processo de “comunicação” interna da
unidade viesse, entre outros aspectos, a contribuir para o conhecimento de si mesma “. (Boletim
Informativo do ICB Comemorativo, 1984; p.1)

A prática de abrir o Boletim com um editorial feito pelo diretor continua pelo difícil ano
de 1992, quando o país passava por uma grave crise política, em
torno do governo de Fernando Collor de Mello, com reflexos
nas universidade. O editorial de maio de 1992, faz referência a
complexidade do momento e que era preciso o ICB buscar as
aproximações e se unir na luta pela sua manutenção diante dos
problemas externos, crise econômica, etc. Dois meses depois, o
boletim incita os departamentos a projetarem o seu futuro
“Essa tarefa, que não parte do zero, dá prosseguimento aos esforços
dos Departamentos e do próprio Instituto na busca de sua maturidade

Figura 3: O 6º aniversário do ICB foi lembrado na capa do Boletim Informativo


com a representação alegórica de um homem (ou um pesquisador?) sob o
escrutínio de um microscópio (ou dos aparatos de vigilância do Governo
Militar?).
40 Fonte: Boletim Informativo do ICB, n. 76, 25 nov. 1974.
institucional, atentos ao que o ar do tempo já nos traz como semente do futuro. Os Foto 2- O prédio do ICB
ainda em construção,
planos de trabalho, que não hão de ser tomados como leis imutáveis e inflexíveis,
1980. Fachadas dos
mas como balizadores das iniciativas que repercutem por longo tempo na vida dos blocos A e B.
departamentos e do Instituto.” (Boletim do ICB, Julho de 1992, ano 5, n. 4) Fonte: Acervo do
DEMAI (antigo DPFO).
Paralelamente ao incitamento ao planejamento do futuro “Planejar, planear,
matutar, explicitar propósitos para exercemos com alegria e eficácia a parte que nos
toca da responsabilidade social da universidade” (Boletim do ICB, Julho de 1992 ano
5 n. 4), o boletim se esforçava em investir na memória do instituto, acreditando
ser esta uma outra maneira de falar da história do nosso Instituto, como podemos
acompanhar na fala do então diretor Tomaz A da Mota Santos.:
Se é certo que a justaposição das histórias individuais dos Departamentos não reconstitui
a história do ICB, também é certo que não se pode escrevê-la sem se levar em conta as
trajetórias de seus departamentos, mesmo porque estes precedem no tempo o próprio
ICB. Não apenas por isso há de se pensar sobre a história dos Departamentos. Eles
fundam, do ponto de vista da nossa organização, a diversidade do Instituto. Ainda por
que, no fundo, suas histórias são as das pessoas – mulheres e homens – que, por seu
trabalho, sua inteligência, sua paixão – fizeram as bases do nosso Instituto. Considerar
a história dos Departamentos é, assim, reconhecer o instituto como inconclusa obra de
algumas gerações de professores, alunos e funcionários e mais e melhor nos conhecermos
como uma comunidade, em movimento, traçando no tempo, sua trajetória, por vezes
com algum insucesso. A história de cada departamento, ou pelo menos o momento
de pensar sobre ela, é oportunidade de reconstrução, de recuperação do que foi,
eventualmente, esquecido, irrelevâncias temporárias.
41
Figura 4: Capa do Para onde vamos por essas trajetórias? (Boletim do ICB, n. 5, ago.-set. de 1992, p.1)
Boletim Informativo do
ICB em comemoração Seguindo essa orientação, o Boletim passou a apresentar sempre uma sessão que
dos 15 anos do instituto, falasse da história do ICB. Nessa parte, os departamentos foram apresentados nos
1984.
números subsequentes, a começar pelo de Bioquímica. Outras sessões se tornaram
Figura 5: Boletim do frequentes no Boletim como “Conheça o ICB”, “Nossa História”, “Prof. Eméritos”, entre
ICB em homenagem ao outros, que se transformaram em colunas que registravam a História da instituição.
Prof. Wilson Beraldo,
do Departamento de
São duas as questões que perpassam a história do Boletim Informativo do ICB:
Fisiologia, falecido em o desenvolvimento do ensino e a necessidade de construir laços de identidade, de
28 de julho de 1998. se reconhecer no outro. O desejo de perpetuar memórias e histórias fica evidente
mais uma vez, no último número do Boletim de 1998, que anuncia as comemorações
pelos 30 anos do ICB. Entre as diversas atividades e ações de comemorações foi
lançado o livro: ICB-30 anos: Memórias do Instituto de Ciências Biológicas da
UFMG, organizado pelo então diretor Ramon Moreira Consenza e publicado pela
editora da UFMG.
No livro, os fatos que construíram a história do ICB foram elencados, depoi-
mentos foram colhidos, fotos mostradas. Registro documental valioso para novas
releituras. Destaque para os depoimentos dos ex-diretores do ICB. Uma primeira
iniciativa institucional de se registrar a memória, individual e coletiva, guardada
por alguns membros da comunidade do instituto. Ali estão depoimentos de pessoas
importantíssimas para a criação e desenvolvimento do ICB. Alguns dos depoentes
também estiveram entre os 30 entrevistados para este volume comemorativos dos
50 anos. O ICB foi apresentado em datas e dados; departamentos foram historiados
e ao final, ainda surge, a lista de todos os alunos formados em Ciências Biológicas,
42
desde 1945, quando formou a primeira turma do curso
de História Natural; e ainda algumas fotos de professores
e eventos acontecidos no ICB. Importante ressaltar a fala
da reitora, Ana Lucia Gazzola, no texto de apresentação:
“Relendo a história narrada neste livro, através de
relatos e depoimentos dos que foram protagonistas da
vida institucional, não é difícil entender o significado e
a importância desse aniversario do ICB. São três décadas
construídas pelo esforço coletivo dos que tiveram a visão
que resultou na UFMG de hoje. São 30 anos de um projeto
que compreendeu a Universidade não como um conjunto
de unidades separadas, mas como uma instituição
marcada por pontos de integração que se tornariam a
base das formações profissionais.” (Consenza, 1998)

Ao revisitar a narrativa sobre a criação do ICB não


há como ignorar a experiência de dispersão espacial que
marcou os primeiros anos do instituto. Como mencionado,
somente decorridos dez anos de sua criação teve o instituto
todos os seus departamentos e setores reunidos em um mesmo local: o conjunto de Figura 6: Capa do livro
ICB 30 anos: Memória
blocos planejado e construído no Campus Pampulha. O prédio original compôs-se
do Instituto de Ciências
de quatro andares, sendo cada um dividido por 17 blocos, categorizados pelas letras Biológicas, 1998.
A até Q. Quem de fora (ou mesmo de dentro) das comunidades científicas do ICB,
ao circular pelo prédio, nunca se perdeu em seus blocos labirínticos? A organização
desse novo espaço partilhado passou por ações efetivas de demarcação de espaços e
territorialização dos departamentos, dos espaços de ensino e dos grupos de pesquisa
e seus laboratórios.
Construir um sentido de unidade para um coletivo que se forma a partir de
grupos originários de outras comunidades espacialmente localizadas não é tarefa
simples. Decerto que a construção da identidade e da memória de uma comunidade
não se define necessariamente por sua territorialização objetiva, mas é difícil negar
a importância que o enquadramento espacial das experiências tem na constituição
de ambas.
Discutindo a respeito das formas de constituição da memória coletiva, Maurice
Halbwachs afirma que alguns grupos ou coletividades são assim entendidos pelo
fato de se encontrarem reunidos em uma mesma região espacial. Chama a atenção,
porém, para o fato de ser esta “apenas uma condição da existência desses grupos,
mas uma condição essencial e muito clara” (1990: 139). Na sequência, sinaliza que
a maioria das formações sociais faz abstração do espaço ocupado, baseando sua
identificação em “qualidades de outra ordem” (1990: 139).

43
Foto 1- Conceição
Ribeiro da Silva
Os caminhos percorridos pelas cientistas do
Machado a receber o
título de Professora
ICB
Emérita em 1996, das
mãos do então reitor
Tomaz Aaroldo da Jéssica Bley Pina Silva
Mota Santos.
Fonte: UFMG,
Arquivo Institucional
do ICB, caixa 43
O Campus Pampulha da UFMG possui 17 ruas nomeadas1, fora outras vias
pavimentadas não designadas. Os nomes que distinguem essas ruas foram atribu-
ídos em homenagem a professores e reitores dessa comunidade acadêmica. Entre
elas está a Rua Profa. Conceição Ribeiro da Silva Machado, do Instituto de Ciências
Biológicas, a única via com nome de uma professora na cidade universitária. No
entanto, se percorrermos a história institucional do ICB, outros nomes femininos
emergem das fontes históricas como professoras atuantes no Instituto. Dentre eles,
destacamos nomes como os das Profa. Maria Auxiliadora Roque de Carvalho, Profa.
Maria Norma Melo e Profa. Antoniana Ursine Kretli, que foram entrevistadas com o
objetivo de compreender “o que foi” e “o que é” para elas serem mulheres cientistas.
A partir da década de 1940, o ingresso de mulheres nas universidades foi au-
mentando pouco a pouco, até 1968, por ocasião da Reforma Universitária que,
alterando as estruturas da academia, ampliou mais ainda o acesso das mulheres ao

1 Arquivo de Projetos do Departamento de Planejamento e Projetos da PRA UFMG.

44
meio científico (Ferreira et al, 2008, p. 51-56, 66). Essa
geração de cientistas do ICB se encontra na interseção
desses dois marcos, pois todas ingressaram na graduação
no início da década de 1960 e, exceto a Profa. Machado,
concluíram o mestrado ou doutorado após o ano de 1968,
usufruindo das mudanças que a Reforma Universitária
provocou. Formadas para fazer ciência, não encontra-
mos em suas reflexões epistêmicas sobre a ciência uma
abordagem feminista. Foto 2- Maria Norma
Esse fator é bem explicável pela filósofa da ciência Evellyn Fox-Keller, que Melo em seu laboratório
argumenta através de um panorama dos principais pensamentos que embasam a Fonte: UFMG,
Ciência Moderna (a saber, as ideias de Sócrates, Platão e Bacon), que a neutralidade CEDECOM, Foca Lisboa,
sem data
da ciência foi edificada sobre valores como objetividade, autonomia, força e poder.
Todos esses elementos são historicamente construídos como próprios da masculi-
nidade e contrários a feminilidade. Logo, a neutralidade científica assumida pelos
e pelas cientistas é, nesse viés, uma abordagem masculina (Fox-keller, 1985, p. 48,
75, 78-79).
A partir das carreiras das cientistas Krettli, Melo, Machado e Carvalho podemos
interpretar que posturas como objetividade, autonomia, força e poder podem ser
cultural e historicamente dadas como masculinas, porém, não são exercidas ape-
nas por homens. Krettli e Machado se tornaram titulares da Academia Brasileira
de Ciências, em 1996 e 1994 respectivamente. O Boletim do ICB noticiou as duas
titulações, demostrando o capital científico e o reconhecimento de ambas dentro
da comunidade.
Melo, Carvalho e Machado receberam o título de professoras eméritas do ICB
e ao refletirem sobre esse momento dão mostras do que é ser cientista para elas.
No Boletim do ICB, a Professora Conceição Machado deu depoimento sobre os
motivos que a levaram pela área acadêmica na matéria que noticiou sua titulação
emérita: “O fato de ter feito iniciação científica sob a adequada orientação do Angelo
Machado, a atividade no laboratório, o prazer de ler, tudo isso me levou a desistir de
seguir a Medicina e continuar na carreia de pesquisa”2. Ou seja, a presença de um
outro cientista para iniciá-la no “ethos científico”, a práxis científica do laboratório
e a busca pelo conhecimento são os elementos destacados pela professora como
aqueles que a levaram para a carreira acadêmica.
Destaco que Conceição Machado foi a primeira mulher a ser emérita no ICB,
sendo que, antes dela, dez homens já haviam sido contemplados com os títulos, de
1975 a 1995. De forma geral, as três professoras são até hoje as únicas mulheres emé-
ritas em um total de 23 títulos distribuídos no Instituto. Em entrevista, questionada
se tinha uma hipótese explicativa para essa proporção, Norma Melo ponderou: “é

2 Boletim do ICB, ago./set. 1997, p. 3. Arquivo Permanente do ICB.

45
porque os homens sempre ocuparam os postos de co-
mando na universidade [...] e a mudança que as mulheres
foram conquistando espaço, ela veio muito devagar, sabe?
[...] Então, essa discriminação ela não é ostensiva, mas ela
existe, certo?”3. Maria Auxiliadora de Carvalho faz reflexão
muito semelhante sobre o tema: “Sinto que o trabalho da
mulher vem sendo gradativamente reconhecido, princi-
palmente na Academia. A ocupação de cargos deveria
ser sempre pela competência e experiência de cada um, e
nossa Instituição tem procurado manter este caminho”4.
Melo e Carvalho foram membros do Comitê de Ética
em Pesquisa da UFMG. Machado fundou o Centro de
Microscopia eletrônica da UFMG e assim como Krettli se
tornou pesquisadora 1A do CNPq. Além dessas atividades,
cada uma desenvolveu trabalhos e projetos relevantes em
suas respectivas áreas, publicando em revistas internacio-
nais, registrando patentes e orientando alunas e alunos
Foto 3- Maria em Programas de Pós-Graduação.
Auxiliadora Roque de
Carvalho, sem data. Quando questionadas sobre o que é ser cientista mulher, surge na descrição o
Fonte: UFMG,
entendimento de que é uma prática orientada por uma metodologia científica carre-
CEDECOM, Foca gada da neutralidade. Nas palavras de Antoniana Krettli, “ser cientista mulher é um
Lisboa, sem data. acaso, antes de mais nada um acaso”5. Norma Melo entende que não há diferença na
ciência feita por homens e mulheres, “porque as metodologias, o desenvolvimento
Foto 4: Antoniana
Ursine Krettli da Ciência, ele tem que ocorrer dentro dos ambientes que você está vivendo e que
Fonte: http://www.
são propícios para você desenvolver sua cabeça, desenvolver suas ideias, não é? [...]
abc.org.br/membro/ Mas fazer é, tem que ser do mesmo jeito, porque você tem uma metodologia a seguir,
antoniana-ursine-krettli/ você tem uma meta a alcançar”6. A perspectiva dos gêneros para as cientistas passa
por uma outra lógica que vê no método a superação das relações de poder e papéis
sociais atribuídos a homens e mulheres e toda performatividade que os envolvem
quando se trata do produto de seu fazer, ou seja, a ciência.
A Rua Conceição Ribeiro da Silva Machado está situada entre as ruas Prof.
Dr. Amílcar Viana Martins e Prof. Dr. Baeta Viana (ambos cientistas pioneiros na
UFMG nas áreas das ciências médicas e biológicas). A única rua com denomina-
ção feminina no Campus é referência simbólica em meio ao hegemônico universo

3 MELO, Maria Norma. 2015. Entrevista concedida ao Projeto Memória e História Científica do
Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, 1949-2010.
4 CARVALHO, Maria Auxiliadora Roque de. 2016. Entrevista concedida ao Projeto Memória e
História Científica do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, 1949-2010.
5 KRETTLI, Antoniana Ursine. 2016. Entrevista concedida ao Projeto Memória e História Científica
do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, 1949-2010.
6 MELO, Maria Norma. 2015. Entrevista concedida ao Projeto Memória e História Científica do
Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, 1949-2010.

46
de ruas nomeadas em homenagem a intelectuais e cientistas masculinos. É, desse modo, uma
forma de marcar presença, assim como as mulheres estavam, à sua época, presentes na comu-
nidade científica, seguindo os seus caminhos na ciência e desempenhando seus papéis como
os outros homens ali. As questões de gênero já permeavam esse quadro, só não estavam postas
como estão hoje. Encarnar a neutralidade científica foi uma forma de contrapoder (consciente
ou não) dessas mulheres cientistas para fazer ciência em um ambiente duplamente masculino,
pela presença e pela episteme.

Referências
FERREIRA, Luiz Otávio et al. Institucionalização das ciências, sistema de gênero e produção
científica no Brasil (1939-1969). História, Ciência, Saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 15,
supl. p. 43-71, 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi-
d=S0104-59702008000500003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 05 ago. 2016.
KELLER, Evelyn Fox. Reflexions on gender and science. New Haven and London: Yale University
Press, 1985.

47
Figura 7: Mapa de
orientação no prédio Sendo assim, Halbwachs entende que toda memória coletiva se constrói por
do ICB e as explicações referência a um quadro espacial, uma vez que, na impossibilidade de retermos no
sobre os códigos do espírito nossas experiências, só podemos recuperá-las se as inscrevermos em lugares
sistema de orientação.
espacialmente determinados. E, se a memória partilhada é elemento importante na
constituição da identidade de uma coletividade, em última instância, a experiência
espacial também contribui na percepção e no fortalecimento da ideia de pertença.
Na impossibilidade da convivência cotidiana¸ que contribui na partilha de
experiências e no estreitamente dos laços de conhecimento e reconhecimento entre
os diferentes grupos como uma única coletividade, certas iniciativas assumem o
caráter de intermediação, trazendo à vista o outro, funcionando como instrumento
de liga entre o todo. Das ações que cumprem esse papel no âmbito da experiência
do instituto, destaca-se o Boletim Informativo do ICB.

Memórias partilhadas e memórias esquecidas


Enquanto o Boletim traz a voz oficial e institucional, do ICB, a história do
Instituto também pode ser revelada pelos relatos pessoais. Para a realização desse
projeto sobre os 50 anos do ICB, foram realizadas 30 entrevistas. Inicialmente, os
pioneiros foram procurados. Aqueles que estavam presentes nos primeiros tem-
pos de idealização e constituição do ICB. Nessa categoria se enquadram: Eduardo
Osorio Cisalpino, Ênio Cardillo Vieira, Giovanni Gazzinelli, Hugo Pereira Godinho,

48
Humberto de Carvalho, Angelo Barbosa Monteiro Machado, Darci dos Santos, Davi Pereira
Neves, Paulo Marcos Zech Coelho, Tomas Aroldo Mota Santos, Jose Nogueira, Antoniana
Ursine Krettli, Pedro Linardi, Naftale Katz, Nailda Maria de Almeida, Edmar Chartone, Egler
Chiari, Edward Felix.
vocês não vão conseguir grandes coisas não...porque passou muito...tem muitas coisas que se perdem
na memória do tempo. (Egler Chiari, 2015; grifos nossos).

Mas as entrevistas diversas, mesmo contendo apenas fragmentos de memórias, foram


fundamentais para compor um tecido vistoso e rico sobre o ICB, como se formou, como se
consolidou. Todos atuavam nos primeiros tempos do ICB, sejam como professores, funcioná-
rios, pesquisadores, alunos de pós-graduação, alunos de graduação... Cada um deles trouxe
um fragmento importante da memória do Instituto. Nos depoimentos, muitas vezes aparecia
a reflexão sobre a importância do depoimento e de como a lembrança deles poderia contribuir
para a história do ICB:
“É a memória da instituição. Porque daqui a pouquinho a gente vai embora, nós já estamos
indo, não é? O Hugo está com oitenta, eu estou com setenta e oito, o Humberto está com oitenta e
tantos .... E esse pessoal, o Cisalpino está doente. E vai embora e acaba, enfim. Quer dizer, ninguém
conhece essa história, uma história, assim, muito trabalhosa, mas foi muito bonita (José Carlos
Nogueira, 2015)

Se nos documentos o passar dos tempos é datado e os personagens têm nome e sobrenome,
nas entrevistas a narrativa aparece com poucas datas e dados as vezes imprecisos, a memória
traz à tona, episódios recheados de “naquele tempo” e principalmente de “naquela época”.
Conscientes de serem a memória viva da instituição, professores, funcionários e pesquisadores
deixaram seu depoimento como contribuição para a história do ICB. Todos os trechos exibi-
dos foram autorizados para serem divulgados com os nomes. Afinal são personagens de uma
história, que sabidamente não se constrói apenas nos documentos oficiais.
O ICB surge do curso de História Natural e das disciplinas básicas dos cursos da área
da saúde. Por ser um curso da década de 1940, os seus líderes faleceram até mesmo antes da
mudança para o prédio novo. Sabe-se pouco sobre Braz Pellegrino e Giorgio Schreiber, nomes
frequentes nos documentos, mas nas entrevistas ele aparece mais humanizado, com detalhes:
Por exemplo, o Schreiber veio ajudar a fundar o Curso nosso, ele veio durante a Segunda Guerra.
Ele veio com a mulher dele, carregando microscópio, fugindo pelas fronteiras, essas coisas todas. E
publicava muito. E era considerado um cientista de ponta. Então, a área dele a gente considerou
que era imexível, que essa aí a gente tem que incentivar e dar (...) Já estava consolidada com ele
e a turma dele. Ele veio para cá e ficou uns quinze, vinte anos. (...)Então era bem consolidado,
tinha desenhista, tinha fotógrafo, o Schreiber ele arrumou uma infraestrutura, sabe? E ele tinha
equipamento bom, então ele conseguia recursos da Ford, naquele tempo era a Ford que dava mais
recursos para a gente (Edmar Chartone de Souza, 2015)

49
Pela D. Nailda que cuidava da limpeza e por anos trabalhou nos laboratórios, soubemos que
o professor Braz Pellegrino era um chefe bravo, que cobrava muito serviço. Só no depoimento
dela encontramos referência a uma mina de água, que brotava lá dentro do atual prédio do ICB.
“Uma mina de água. Como não tinha água encanada, nós apanhávamos água naquela fonte e
subíamos para lavar aquário lá em cima.(D. Nailda, 2015)

Ninguém mais se lembrou de falar dessa mina e nem que o prédio tinha problemas de
abastecimento de água, mas essa história é lembrada por quem carregava água da mina para os
laboratórios. E de um outro funcionário, o relato, alegórico, do caos que se instalou no inicio
do ICB, ainda na Faculdade de Medicina, segundo Darcy Santos:
Dentre outras mil coisas que aconteceram, você vê, de repente, o café que eu tô falando desde o início
aí que era tomado, muita das vezes, por oito, dez professores e uns seis funcionários, de repente,
você tinha que esperar sair um grupo de vinte para entrar mais vinte.. (Darcy Santos, 14/11/2015)

No depoimento de um aluno, que entra na pós-graduação em Bioquímica, no ano de 1969,


chamado Tomaz Aroldo Mota Santos, e que depois fez longa carreira como professor pesquisa-
dor, diretor da unidade e Reitor, é possível saber detalhes da vida de um pós-graduando. Tomaz
Santos ao falar da sua experiência de aluno do ICB, revive como eram as aulas, os colegas, os
apertos, a competição e a solidariedade:
Aí teria que fazer um esforço de memória enorme para lembrar. (...)Só que o curso de pós-
graduação em Bioquímica começou reunindo pessoas graduadas em várias áreas de conhecimento,
não só propriamente da biologia, mas até mesmo da área tecnológica, como neste caso, de colegas
da Escola de Engenharia. Então, havia duas coisas, entre os alunos, simultâneas, né. Havia um
forte espirito de cooperação, mas havia também uma certa competição para ver quem é que tinha
as melhores notas, se saía melhor, quem terminava a tese mais cedo, fazia os melhores trabalhos e
tal... o que trazia naturalmente uma enorme tensão individual para cada um dos alunos, né? E o
curso, eram dois anos de curso, né?
Puxado, muito puxado. A gente varava a noite estudando preparando pra prova e tal... Então ao
mesmo tempo havia cooperação entre os alunos para estudar, etc. Do ponto de vista das condições de
pesquisa, essas eram muito precárias, né? É os equipamentos eram poucos né? Eram equipamentos...
isso aí certamente o Ênio[Cardillo] e o Giovanni [Gazzinelli] vão poder dizer melhor que eu, mas
eram equipamentos resultantes, ainda, de uma antiga cooperação estabelecida entre o departamento
com a Rockefeller (Tomaz Aroldo da Mota Santos, 2014)

O tecido da memória é passado para os mestres citados, que trazem um relato mais de-
talhado dos equipamentos e de outros aspectos dos laboratórios dos primeiros anos do ICB:
Segundo Giovani Gazzinelli o laboratório dos anos 1960, contava com aparelhos vindos pelo
convênio com a Rockefeller:
Nós tínhamos, além do espectrofotômetro, nós ganhamos um novo, não é? Tinha microscópio,
tinham reagentes caríssimos, todos vinham dos Estados Unidos e tínhamos pipetas automáticas.
(Giovanni Gazzinelli, 2015)

50
Pelos depoimentos, relatos de memória, surgem as confidências, a conversa franca. A
oportunidade, talvez a última de falar sobre, torna a conversa mais aberta, sem filtros. Podemos
saber, se aulas eram preparadas ou não, qual era a intenção por trás delas:
Eu não me importo. Como eu já era o autor do livro, eu sei a Parasitologia toda. Não precisava de
preparar aula. E mesmo porque eu tenho uma visão seguinte: professor não ensina, professor desperta
interesse. Para eu despertar interesse, eu não preciso saber profundamente toda aquela matéria,
não é? Eu podia não saber tão bem... vamos supor um Strongyloides, uma estrongiloidíase, como
um especialista. Mas eu tenho a absoluta certeza que, ao final da minha aula o aluno iria estudar
sobre estrongiloidíase com muito interesse. No final da aula do outro professor ele ia ficar de saco
cheio daquilo [risos]. Entendeu? É... tem umas coisas que você não precisa ter modéstia. Eu, com
setenta e seis anos, não preciso de estar medindo as palavras e nem vir com falsa modéstia, né?
Por isso que eu fui professor homenageado e paraninfo de quase todas as turmas que eu dei aula,
tanto no ICB como fora do ICB. (Davi Neves, 2015)

O fazer ciência no ICB, várias vezes foi mencionado. Os lugares foram descritos, compa-
nheiros foram lembrados, detalhes da produção científica, um pedaço aqui e outro ali...

Naquele tempo não, nós tínhamos que preparar tudo. Tudo. A cultura nós que fazíamos, nós
pegávamos do sal básico e fazíamos o meio. Então, talvez, essa foi a grande experiência do laboratório.
Hoje não, hoje você compra o meio pronto, não é? Facilitou muito. (Edward Felix da Silva, 24 nov.
2015)
E o Carlos teve esse grande mérito. Carlos [Ribeiro Diniz] tinha um tipo de liderança “laissez faire,
laissez passer”. (...)Então ele aparava aresta aqui, aparava aresta ali, sabe? Então ele conseguia
manter um bom ambiente no laboratório. (Ênio Cardillo Vieira, 2015)
Você mandava o trabalho para publicar e ficava esperando três meses a respostas se era aceito ou
não. Se fosse aceito, depois que publicava, a própria editora dos Estados Unidos mandava um certo
número de separatas e você recebia pedido, mandava pelo correio. (Giovanni Gazzinelli, 2015)
Eu trabalhei algum tempo na biblioteca do Campus da Saúde, depois na Biblioteca do IGC e,
finalmente, eu vim para o ICB. Mas, na época, não existia uma biblioteca do ICB, existiam várias
bibliotecas do ICB. A chefe da biblioteca era a Otília Ferreira e o centro de todas as bibliotecas do
ICB era no prédio da Faculdade de Medicina. Nessa época, no andar onde ficávamos, funcionava
a biblioteca do Departamento de Microbiologia, uma coleção já voltada para a pós-graduação.
Num outro andar ficava a biblioteca do Departamento de Parasitologia e, num andar mais abaixo,
a biblioteca dos alunos da graduação do ICB. (Maria Cecilia Souza Lima, 2016)
Mas agora vocês ainda tem dinheiro, mas naquela época não tinha dinheiro, não é? Era, realmente,
difícil. Tanto é que era difícil, que para a gente comprar um microcomputador, que era o Itautec na
época, a gente teve que juntar a diretoria do ICB, verba da diretoria do ICB através do núcleo de
pós-graduação de pesquisa da Pró-Reitoria de Pesquisa para poder comprar um microcomputador,
porque não tinha. Foi um dos primeiros/ foi o primeiro do ICB que veio, um Itautec. Para você

51
ver o quanto, realmente, era difícil. No início, a gente não tinha nem dinheiro para tratar, por
exemplo, a ração, comprar ração para os departamentos, por exemplo, era dificílimo. Para você
poder comprar ração para os animais a gente tinha que fazer ginásticas para conseguir manter o
biotério funcionando (Edward Felix Silva, 2015)
Me formei em Farmácia e Bioquímica em 1968. Mas antes disso eu já comecei a trabalhar com o
Doutor José Pellegrino e o Doutor Naflate Katz. Fui bolsista de iniciação científica na época, e assim
minha relação com o doutor José Pellegrino começou ainda na fase de estudante de graduação. Logo
depois que eu me formei tive a sorte de entrar na primeira turma do curso de parasitologia que
foram os programas aquela época chamados de curso de pós-graduação. Foram cursos pioneiros
junto com a bioquímica, depois a micro e posteriormente, a fisiologia. Foi nessa sequência que os
cursos foram instalados lá no ICB. E eu tive a sorte de entrar nessa época. (Paulo Marcos Zech
Coelho, 2016)

Nas falas, a memória revela o fato e a emoção. Comprova o que está escrito na História,
mas traz o que jamais conta nos documentos oficiais:
Ao entrar no concurso sem ter ideia do currículo dos colegas fui tensa apesar de ter o Pós-Doutorado
a alguns trabalhos reconhecidos na literatura, além de colaborações importante como no [Instituto]
Pasteur e na Universidade de Nova York. O concurso consistia do exame do memorial, uma aula
sobre a atividade científica e pontuação do currículo e ao final do concurso fui aprovada em primeiro
lugar com média dez nas quatro provas. Minha primeira reação pô, eu chorei e queria sair correndo
contar minha família, mas a gente tinha combinado que iríamos jantar juntos os candidatos e os
membros da banca examinadora, independente do resultado e de fato fomos num restaurante
próximo do ICB. Nós tínhamos passado três dias fazendo prova e eu era a primeira a ser arguida
por ter sido a primeira a me inscrever no concurso, ficava lá o dia todo assistia no fundo da sala os
exames, estava exaurida. Tudo que queria ir para casa dormir. (Antoniana Ursine Krettli, 2015)

Então, tinham essas, estou te falando, tem essas ciumeiras, essas relações pessoais que, às vezes,
atrapalham demais. Então, depende da personalidade. O GIDE deu certo porque, primeiro foi
uma coisa muito bem estruturada e pela personalidade do chefe. Quando o Paulo [Zech Coelho]
assume, que o [Jose]Pellegrino faleceu, o Paulo é igual. O Paulo é uma mãe. O Paulo é até demais.
Ele dá tudo, ele não quer nada, ele não pede nada em troca. Ele não entra no trabalho, ele distribui
material, ele distribui ideia, discute e passa. Ele é muito generoso. Mas mesma coisa. Então, ele
continuou dando certo. Porque o Paulo tem o mesmo espírito do Pellegrino. (Naftale Katz, 2016)

Eu era diretor do ICB. Então o professor Oscar Versiani tinha sido meu professor, e eu me dava
muito bem com ele, porque a disciplina dele era de Doenças Tropicais, e eu já estava interessado em
doenças tropicais, então fui um bom aluno, sabe? E ele, ele era um homem tranquilo. Ele não tinha
nenhuma violência, nenhuma agressividade, sabe? Então ele me chamava às cinco horas da tarde
para tomar um chá, você pensou bem? E eu ia com o professor. Hoje professor é estressado assim,
eu acho, não é? Naquele tempo nós tínhamos o maior respeito pelos professores, os catedráticos. Eu
fui catedrático e fui contra catedrático, mas já defendendo a reforma. Um dia estava um barulho

52
terrível lá, nós estávamos derrubando um corredor inteiro, sabe? As paredes internas, Foto 3- Prédio atual
do ICB.
iam ser um almoxarifado [para o ICB]. Ele falou:
Fonte: UFMG,
- Cisalpino, que barulho é esse?
CEDECOM, Foto Foca
Lisboa.
- Professor, se o senhor quer eu vou apurar... Eu já sabia, se eu apurasse eu não
voltava. [risos]

- Não, pode deixar, então.

Então foi assim a nossa convivência... Depois você lê isso porque é interessante
esse depoimento meu, num livro do centenário, não é? (Eduardo Cisalpino, 2014)

E assim foram se sucedendo os relatos, conscientes do valor de suas falas de


memória que comporiam uma história construída individual e coletivamente. Se
nos documentos a linguagem deve ter objetiva e precisa, nas entrevistas as formali-
dades não são obrigatórias e até desnecessárias. A memória vem com emoção, com
desejos de perenidade e com senso de fazer justiça a pessoas, esclarecer mistérios,
caracterizar pessoas. As entrevistas aqui analisadas ofereceram alguns relatos de
detalhes pessoais e institucionais raramente capturados em arquivos e documen-
tação disponíveis, demonstrando todo o potencial dos depoimentos para informar
sentidos sociais da ciência e ideais científicos individuais e partilhados coletiva-
mente. Pudemos também perspectivar algumas das dinâmicas afetivas envolvidas
na pesquisa, evidências da centralidade de conhecimentos tácitos e incorporados
no fazer científico, e várias formas de trabalho invisível e interações entre pesqui-
sadores não capturadas em fontes documentais. Aqui chamamos a atenção para

53
a necessidade de se engajar cientistas e suas memórias no processo de criação, organização e
guarda de documentação histórica sobre a ciência, com o intuito de fundamentar o trabalho
histórico relacionado a questões relevantes para a prática científica do presente.
Os capítulos que se seguem, escritos por diferentes autores, tecem juntos os documentos
escritos e orais. Eles são possibilidades de construção de histórias sobre o ICB, com os perso-
nagens que foram selecionados, a partir das questões históricas suscitadas nesta pesquisa sobre
os 50 anos do ICB. Em outros momentos de comemoração, outros documentos e personagens
certamente renderão outras histórias.

Entrevistas

Almeida, Nailda Maria de. Depoimento [julho de 2015]. Entrevistadora: Ana Carolina
Vimieiro Gomes. Belo Horizonte, 1 de julho de 2015. Entrevista concedida ao projeto Memória
e História Científica do ICB.
Chiari, Egler. Depoimento [novembro de 2015] Entrevistadoras: Ana Carolina Vimeiro
Gomes; Anny Jackeline Torres da Silveira. Belo Horizonte, 12 de novembro de 2015. Entrevista
concedida ao projeto Memória e História Científica do ICB.
Cisalpino, Eduardo. Depoimento [dezembro 2014] Entrevistadoras: Rita de Cássia Marques
e Ana Carolina Vimieiro Gomes. Belo Horizonte, 01 de dezembro de 2014. Entrevista concedida
ao projeto Memória e História Científica do ICB.
Coelho, Paulo Zech. Depoimento [fevereiro de 2016]. Entrevistadoras: Ana Carolina
Vimieiro Gomes e Rita de Cássia Marques. Belo Horizonte, 16 de fevereiro de 2016. Entrevista
concedida ao projeto Memória e História Científica do ICB.
Gazzinelli, Giovanni. Depoimento [fevereiro de 2015]. Entrevistadoras: Rita de Cássia
Marques e Ana Carolina Vimieiro Gomes. Belo Horizonte, 27 de fevereiro de 2015. Entrevista
concedida ao projeto Memória e História Científica do ICB.
Godinho, Hugo Pereira. Depoimento [abril de 2015]. Entrevistadoras: Rita de Cássia Marques
e Ana Carolina Vimieiro Gomes. Belo Horizonte, 03 de abril de 2015. Entrevista concedida ao
projeto Memória e História Científica do ICB.
Katz, Naftale. Depoimento [março de 2015]. Entrevistadoras: Rita de Cássia Marques,
Paloma Porto, Ana Carolina Vimieiro Gomes. Belo Horizonte, 06 de março de 2015. Entrevista
concedida ao projeto Memória e História Científica do ICB.
Krettli, Antoniana Ursine. Depoimento [janeiro de 2015]. Entrevistadoras: Jéssica Bley Pina
(J.P.) e Ana Carolina Rezende Fonseca (A.F.). Belo Horizonte, 12 de janeiro de 2015. Entrevista
concedida ao projeto Memória e História Científica do ICB.
Lima, Maria Cecilia Souza. Depoimento [julho de 2016]. Entrevistadoras: Rita de Cássia
Marques e Jéssica Bley da Silva. Belo Horizonte, 12 de julho de 2016. Entrevista concedida ao
projeto Memória e História Científica do ICB.

54
Linardi, Pedro. Depoimento [dezembro de 2015]. Entrevistadora: Rita de Cássia Marques.
Belo Horizonte, 05 de dezembro de 2015. Entrevista concedida ao projeto Memória e História
Científica do ICB.
Machado, Ângelo Barbosa Monteiro. Depoimento [julho de 2015]. Entrevistadoras: Rita de
Cássia Marques, Ana Carolina Vimeiro Gomes. Belo Horizonte, 07 de janeiro de 2015. Entrevista
concedida ao projeto Memória e História Científica do ICB.
Neves, David Pereira. Depoimento [julho 2015]. Entrevistadora: Ana Carolina Vimieiro
Gomes. Belo Horizonte, 09 de julho de 2015. Entrevista concedida ao projeto Memória e História
Científica do ICB.
Nicoli Jacques Robert, Depoimento (junho de 2016). Entrevistadora: Rita de Cássia Marques.
Belo Horizonte, 30 de junho de 2016. Entrevista concedida ao projeto Memória e História
Científica do ICB.
Nogueira, José Carlos. Depoimento [setembro de 2015]. Entrevistadoras: Ana Carolina
Vimieiro Gomes, Paloma Porto. Belo Horizonte, 18 de setembro de 2015. Entrevista concedida
ao projeto Memória e História Científica do ICB.
Santos, Darcy Ferreira. Depoimento [outubro de 2015]. Entrevistadora: Rita de Cássia
Marques. Belo Horizonte, 14 de outubro de 2015. Entrevista concedida ao projeto Memória e
História Científica do ICB.
Santos, Tomaz Aroldo da Mota. Depoimento [novembro de 2014]. Entrevistadoras: Rita
de Cássia Marques e Ana Carolina Vimieiro Gomes. Belo Horizonte, 26 de novembro de 2014.
Entrevista concedida ao projeto Memória e História Científica do ICB.
Silva, Edward Felix. Depoimento [novembro de 2015]. Entrevistadora: Ana Carolina Vimieiro
Gomes. Belo Horizonte, 24 de novembro de 2015. Entrevista concedida ao projeto Memória e
História Científica do ICB.
Souza, Edmar Chartone. Depoimento [outubro de 2015]. Entrevistadoras: Rita de Cássia
Marques e Anny Jackeline Torres Silveira. Belo Horizonte, 26 de outubro de 2015. Entrevista
concedida ao projeto Memória e História Científica do ICB.
Vieira, Ênio Cardillo, Depoimento [Abril de 2015]. Entrevistadoras: Rita de Cássia Marques
e Paloma Porto. Belo Horizonte, 14 de abril de 2015. Entrevista concedida ao projeto Memória
e História Científica do ICB.

55
Bibliografia

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56
Capítulo 2
50 50
50
50
50 50
50
50
A criação do ICB: políticas, tensões e
desdobramentos na graduação e pós-graduação

Rita de Cassia Marques


Escola de Enfermagem/UFMG

Os projetos de criação dos institutos centrais


O ICB é resultado de um movimento de mudança que vinha acontecendo em algumas
cátedras da Universidade de Minas Gerais (UMG), que desenvolveram especificidades científicas
que iam além das necessidades de preparação do curso profissional a que estavam vinculadas.
Bioquímica, Biologia Geral, Anatomia, Fisiologia, Parasitologia, estavam fazendo pesquisas!
Pesquisas precisam de espaços adequados, laboratórios bem equipados, colaboradores e alunos
engajados. O ICB também é resultado de um investimento que a Fundação Rockefeller vinha
fazendo, há tempos, na educação superior, aos moldes norte-americanos e portanto, estava em
sintonia com a experiência de uma universidade sem cátedras e com departamentos autônomos.
O ICB era desejo de profissionais que embora diplomados, preferiam ficar nos laboratórios e
não nos consultórios. Era sonho de quem queria ensinar novidades da ciência. Era desejo de
fazer ensino e pesquisa integrada, com professores e alunos usufruindo de um mesmo espaço e
sem o limite de uma graduação. Um espaço que possibilitasse o crescimento da Pós-graduação,
onde a pesquisa pudesse continuar e se renovar sempre. O ICB era para ser diferente e só seria
possível em uma nova universidade.
“A Criação dos Institutos Centrais será, a meu ver – e para tanto lutarei - a mais eficiente arma
contra o particularismo das Escolas. Não faz sentido, num país falho de recursos financeiros,
a existência de laboratórios de química, independentes e quase hostis uns aos outros, em seis
unidades universitárias. Poderíamos ampliar os exemplos de duplicidade de atividades idênticas
ou semelhantes, dispersas pelas várias escolas que compõem a nossa Universidade. Os Institutos
centrais são um remédio contra o desperdício de verbas e um poderoso estímulo à formação do
verdadeiro espirito universitário(...). O novo Reitor, tudo fará para efetivar a medida. Para isso
dará prioridade à construção desses Institutos Centrais na Cidade Universitária, que não terá
sentido ser apenas o local onde se construiu esta riquíssima sede.” (trecho do Discurso de Posse
de Aluísio Pimenta, em 21 fev. 1964, In: Resende, 1998, p. 45-46)

59
O discurso acima foi proferido em fevereiro de 1964, antes mesmo do Golpe
Militar e consequentemente antecede a Reforma Universitária de 1968, que criou
os Institutos Centrais na estrutura das universidades brasileiras. Aluísio Pimenta,
professor da Faculdade de Farmácia, elegeu-se porque incorporou anseios de
uma nova universidade inspirada na Universidade de Brasília (UnB), planejada
para funcionar com departamentos e institutos de pesquisa no lugar de cátedras e
faculdades isoladas. Inspirava-se também no Instituto Tecnológico da Aeronáutica
(ITA) que desde a década de 1950, não tinha cátedras e dava ênfase à pesquisa.
(PATTO, 2014, p. 69)
O novo reitor discursou sobre a criação de Institutos Centrais, respaldado em
um movimento que vinha se avolumando na Universidade Federal de Minas Gerais
desde a década de 1950. Criada em 1927 pela reunião das escolas tradicionais de
Medicina, Engenharia, Direito, Farmácia e Odontologia, com o correr dos anos não
era suficiente para atender a todas as demandas da nova universidade. Por serem
tradicionais, muitos professores e alunos não se preocupavam com questões didáticas
Foto 1- Prédio da
e mesmo científicas, pois o importante era fornecer o diploma que colocaria um
reitoria 1962.
profissional respeitado no mercado. Ser médico, advogado, engenheiro, farmacêutico
Fonte: https://www.
ufmg.br/90anos/ e dentista, no século XX já era credencial suficiente para se conquistar um lugar
historia-da-ufmg/ ao sol, na sociedade de um país com grande parcela de iletrados ou que tinham

60
apenas o nível primário. Contudo, a universidade, para além da terra brasilis, era uma instituição
conhecida a mais de mil anos1 e portanto, oferecia possibilidades diferentes de desenvolvimento.
Comparando com outros países jovens, as universidades americanas se destacavam, com estruturas
mais consolidadas e com propostas até mais inovadoras que as europeias. O caso americano
é emblemático, pois mesmo quando era colônia inglesa, criou universidades como Harvard,
em 1636 (Oliven, 2005). No início do século XX, antes da UFMG nascer, Harvard já era uma
universidade famosa e, portanto, modelo a ser espelhado e almejado por aqueles que a conheciam.
Quando a UFMG nasceu não havia formação específica para ser cientista. Dois outros lugares
se destacavam na área biomédica: O Instituto Ezequiel Dias, ex-filial do Instituto Oswaldo Cruz
no Rio de Janeiro, atual Fundação Ezequiel Dias e a Faculdade de Medicina. Os personagens
que circulavam por esses dois espaços, desfrutavam de reuniões na biblioteca do instituto e
muitos desses pesquisadores eram professores da Faculdade, como Ezequiel Dias, Henrique
Marques Lisboa e Octávio de Magalhães e José Aroeira Neves, entre outros. Reuniam-se para
discutir artigos e as novidades da ciência, professores e alunos interessados, usufruíam do mundo
cientifico, possível no início do século XX e assim, formaram novas gerações que mais tarde se
tornaram professores e cientistas, como por exemplo, Amílcar Vianna Martins.
Eu trabalhei muito tempo com Doença de Chagas. Era evidentemente um trabalho importante,
porque ela foi descoberta em MG. De modo que mesmo os trabalhos relativamente sem grande
profundidade, sem extensão, foram pioneiros. Foi lá que começou a pesquisa médica científica
sobre a doença em Minas Gerais e, em parte, no Brasil também. Acho que esse papel não tem
sido devidamente acentuado, porque o pessoal do Instituto Ezequiel Dias, se interessava por um
assunto durante algum tempo, chamava a atenção e logo mudava para outro. Foi o que fiz, comecei
trabalhando com doença de Chagas, passei para Esquistossomose e depois para febre maculosa.
Essa mudança de orientação era devido ao fato de ter pouco pessoal e muitos assuntos. A gente
não podia ficar só em um tema durante o resto da vida, como o pessoal de Manguinhos. (Amílcar
Vianna Martins, apud Klein, 2007, p. 28)

Nesse relato, o médico e pesquisador do Instituto Ezequiel Dias, Amílcar Martins mostra o
que era ser cientista na primeira metade do século passado, em Minas Gerais. Ao longo dos anos,
apesar das muitas dificuldades de se produzir ciência, Belo Horizonte começou a se destacar
em pesquisas sobre venenos de cobras e escorpiões, esquistossomose e Doença de Chagas, mas
era preciso fazer o curso de medicina para ter acesso a esse mundo.
Em 21 de abril de 1939, foi criada a Faculdade de Filosofia de Minas Gerais (FAFI), com o
principal objetivo de formar professores para o ensino secundário. A legislação Varguista que
criou a Faculdade Nacional de Filosofia e inspirou a criação da FAFI, contudo, além de pregar
a formação de professores de nível superior, mencionava “realizar pesquisas nos vários domínios
da cultura, que constituem o objeto do ensino” como filosofia, letras, pedagogia e ciências. (Brasil,
1939). Ou seja, surgia nas faculdades de filosofia e possibilidade de se formar cientistas fora das

1 Como exemplos as universidades europeias: Universidade de Bolonha (1088), Oxford (1096), Paris (1170),
Coimbra (1290)

61
Foto 2- Trabalho de campo,
Doença de Chagas: Zigmar
Brener e Amilcar Viana Marins,
1962. Acervo: Casa de Oswaldo
Cruz.

Foto 3- Edifício Acaiaca, onde


funcionou a Faculdade de Filosofia da
Universidade de Minas Gerais.
Fonte: A fundação do Faculdade de
Filosofia de Minas Gerais (https://
www.fisica.ufmg.br/memoria/
fundacao-da-faculdade-de-filosofia-
de-minas-gerais/)

62
faculdades de medicina. Ser cientista sem ser médico, passa a ser possível quando Foto 4- Diretoria da
Faculdade de Filosofia,
em 1943, foi criado o curso de História Natural, dentro da Faculdade de Filosofia
Artur Verisani Velloso,
(FAFI) e os alunos matriculados poderiam ter aulas de Biologia Geral, Zoologia, Braz Pellegrino, Lúcio
Botânica, Mineralogia e Petrografia (FAFICH, 1943). Mais uma vez, personagens José dos Santos, Padre
Clóvis de Souza e José
eram comuns em mais de um ambiente, como o italiano Braz Pellegrino que era livre Lourenço de Oliveira.
docente de Clínica Médica, na Faculdade de Medicina, professor e depois diretor
Fonte: UFMG, Centro de
do curso de História Natural. Memória da Fale.
A Constituição de 1946, facultava a criação de institutos de pesquisa junto aos
estabelecimentos de ensino superior (Constituição, Cap. II, artigo 174, Parágrafo
Único). Na esteira dessa possibilidade, o Instituto de Biologia e Pesquisas correlatas
(IB), foi criado em 1947, dentro da FAFI. No Instituto destacou-se o italiano Giorgio
Schreiber, que veio dar aulas de Biologia Geral e se tornou um dos pioneiros dos
estudos de Genética. Schreiber tinha estreitas ligações com a Fundação Rockefeller
que lhe financiou bolsas de estudos e enviava recursos para realização de suas
pesquisas e o funcionamento do Instituto de Biologia.
A qualidade das pesquisas realizadas no IB, encorajou a direção do Instituto a
encaminhar à Reitoria, solicitação de sua independência da Faculdade de Filosofia.
Nos arquivos da Fundação Rockefeller é vasta a correspondência relacionada ao
Instituto de Biologia, inclusive é possível ler cartas trocadas entre a Fundação e a
Reitoria da UFMG, em novembro de 1957, sobre a criação iminente do instituto
no âmbito da Reitoria. No projeto de autonomia do Instituto de Biologia, estava
claramente desenhada a pretensão de ser um centro de pesquisas básicas, que,

63
Foto 5- Uma aula com o futuramente, inspirou a criação do ICB. O Instituto dedicado às Ciências Biológicas
Prof. Giorgio Schreiber,
não nasce do movimento de 1957, mas é importante ressaltar que as negociações
s/d.
avançaram a partir desse momento, especialmente com as discussões sobre a
Fonte: UFMG, Arquivo viabilidade da sua implantação.
Institucional do ICB, Vale também chamar a atenção para na década de 1950, no plano federal,
caixa 45.
outras leis e decretos que transformaram a cena da ciência no Brasil. A década
começou com a volta de Getúlio Vargas ao poder e com ele a retomada do projeto
de construção de uma nação desenvolvida e independente. Para tal, era necessário
formar especialistas e pesquisadores nos mais diversos ramos de atividade. Logo,
em 1951, foram criadas duas instituições que impactam o desenvolvimento da
universidade brasileira: a Coordenadora Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal
do Nível Superior (atual CAPES) e o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). A Lei
nº 1.310 de 15 de Janeiro de 1951, que criou o CNPq. Essas iniciativas foram chamadas
de “Lei Áurea da pesquisa no Brasil.” Entre os seus objetivos estava: manter-se em
relação com instituições nacionais e estrangeiras para intercâmbio de documentação
técnico-científica e participação nas reuniões e congressos, promovidos no país e no
exterior, para estudo de temas de interesse comum; (Brasil, 1951).
A CAPES, criada poucos meses depois, em 11 de julho de 1951, pelo Decreto nº
29.741, tinha por objetivo “assegurar a existência de pessoal especializado em quantidade
e qualidade suficientes para atender às necessidades dos empreendimentos públicos e
privados que visam ao desenvolvimento do país”. (Brasil, 1951-a). Logo no Artigo 1

64
desse Decreto, fica instituída uma comissão composta de representantes do Ministério Foto 6- Laboratório de
Bioquímica do Prof.
da Educação, Fundação Getúlio Vargas, Banco do Brasil e a Comissão Mista Brasil e
Baeta Vianna.
Estados Unidos, entre outros, com o objetivo de empreender o aperfeiçoamento do
Fonte: D’ASSUMPÇÃO,
pessoal de nível superior. (Brasil, Decreto, 1951). Esse contexto histórico, favoreceu Evaldo Alves. Os 53
a retomada de uma parceria da Fundação Rockefeller com José Baeta Vianna (1894- de 63. Belo Horizonte:
Editora: O autor, 1993.
1967), professor de Bioquímica da Faculdade de Medicina. Baeta Vianna, foi um
dos primeiros bolsistas da fundação em Minas Gerais, em 1923, e no seu retorno Fonte: UFMG,
CEMEMOR Faculdade
ao Brasil, começou a implantar procedimentos fundamentais para o crescimento de Medicina.
das ciências biomédicas, entre o alunado da Faculdade.
O tipo de atividade era diferente. No laboratório de patologia clínica, usam-se métodos
consagrados para as dosagens. No laboratório de Bioquímica íamo-nos preparar para
a pesquisa científica. O Prof. Baeta Vianna, era uma pessoa muito rigorosa na parte
de análise. Começávamos a fazer dosagens químicas, aprendemos a pesar. Naquele
tempo, não havia balança eletrônica. Tivemos um treinamento rigoroso em Química
Analítica. Curso não, um treinamento de Química Analítica. Para se ter uma ideia,
aprendemos a soprar vidro, isto é, aprendemos a “fabricar” pequenos aparelhos feitos
de vidro. O Prof. Baeta Vianna ressaltava a importância da precisão nas dosagens.
Paralelamente, cada um tinha um pequeno projeto de pesquisa. Eu trabalhei com
dosagem de iodo (Vieira, 2015)

65
Tais procedimentos, na prática, estavam fazendo a iniciação cientifica de muitos
médicos que não foram trabalhar exclusivamente com a clínica e preferiram se
dedicar às pesquisas e à docência.
O relato de Vieira sobre as aulas de Baeta Vianna, mostra que na prática a
iniciação científica estava acontecendo no laboratório, independente da distribuição
de bolsas e portanto, a ação da Fundação Rockefeller, CNPq e mesmo a Capes, tinham
campo fértil ao se associar a esse professor. A influência americana, fica evidente no
uso de metodologias ativas de aprendizagem, onde a experiência era incentivada
e o aluno aprendia fazendo. Baeta Vianna também incentivava seus alunos para
que estudassem inglês e alemão, que despertassem o senso crítico e participassem
ativamente das aulas práticas. Carismático, além da formação científica, falava sobre
política, música, etc. E com isso formou mais que alunos, conseguiu seguidores.
Com a retomada da parceria e as bolsas concedidas pela Capes, veio o
reconhecimento da Fundação Rockefeller à capacidade que Baeta Vianna tinha
de formar bons pesquisadores e lhe concedeu recursos financeiros tanto para
suplementar o salário pela dedicação exclusiva, quanto para equipar o laboratório e
oferecer bolsas de estudos para os jovens pesquisadores, formados em seu laboratório,
nas universidades americanas: ”Diversos estudantes que tinham mostrado interesse
em investigação científica foram recrutados pelo Prof. Baeta Vianna. Fazíamos, então,
o que hoje se cognomina iniciação científica.” (Vieira, 2015)
Os médicos, que passaram pela “iniciação científica”, com atividades crescentes
no laboratório, conseguiram se manter na própria Universidade, sem precisar clinicar.
Muitos desses, como Carlos Ribeiro Diniz, Wilson Beraldo, Marcos Mares Guia,

Foto 7- Prof. José


Baeta Viana, sendo
homenageado, em 1961,
pela Congregação da
Faculdade de Medicina
da UFMG pelos bons
serviços prestados, junto
com Robert Watson,
representante da
Fundação Rockefeller.

66
Eurico Figueiredo, Giovanni Gazzinelli e Ênio Cardilllo Vieira, além da iniciação científica,
estagiaram nos Estados Unidos e fizeram toda a sua carreira voltada para a pesquisa no laboratório
e foram por décadas, professores do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de
Minas Gerais (ICB-UFMG). Esses, ao contrário do depoimento de Amílcar Vianna, puderam
se especializar em temas que foram estudados não só por eles, como por seus alunos.
Esse processo de qualificação dos pesquisadores, estava em consonância com o que pregava
as agências de fomento, tornando o Departamento de Bioquímica um polo de formação para
o Brasil, recebendo pesquisadores e professores de várias partes do país, com bolsas para
aperfeiçoamento. O movimento iniciado com o protagonismo do Departamento de Bioquímica
se estendeu a outros como os de Departamentos de Fisiologia e o de Anatomia Patológica.
Observando os bolsistas que passaram pelos estágios em universidades americanas, reconhece-
se facilmente os professores que tiveram liderança no processo de criação do ICB e da pós-
graduação na área das ciências biológicas.
Fora da Faculdade de Medicina e do Instituto de Biologia, de Giorgio Schreiber e Braz
Pellegrino, merece destaque o investimento da Fundação Rockefeller na Escola de Veterinária
da UFMG. Criada em 1942, a partir do desmembramento da Escola Superior de Agricultura
e Veterinária (ESAV), transferiu-se de Viçosa para Belo Horizonte, visando desenvolvimento
em melhores condições. A Fundação Rockefeller financiou suas estruturas, equipamentos e
fomentou a formação de professores com bolsas e estágios nos Estados Unidos. (Meneses, 2018)
Esses estágios tinham papel fundamental na qualificação dos professores e na mudança
de característica da formação profissional que aos poucos foi perdendo a característica de
“Arte veterinária” e se modernizando com a incorporação de novas técnicas e procedimentos
científicos, desenvolvendo experimentações importantes. Também na Escola de Veterinária,
aconteceu o envio de professores para aprimorarem nas universidades americanas. Um bom
exemplo desse intercâmbio está no depoimento do professor José de Alencar Carneiro Vianna
que esteve em Iowa State College, entre 1946-47, mesmo não se dedicando às pesquisas vinculada
às suas necessidades, ressaltou a aprendizagem metodológica para a pesquisa, os equipamentos
adquiridos e até ratos para experimentação:
“Eu trouxe uma geladeira e dez ratos. Gastamos 23 dias de Nova Orleans ao Rio sem parar em
lugar nenhum. E eu tinha que tratar os ratos. Na alfândega, falaram: Por isso é que o Brasil não
vai para frente. Nós temos ratos demais aqui e ainda vem esse mineiro trazendo mais ratos dos
EUA. Mas esses ratos serviram para experimentação na Escola de Veterinária até 1973, quando foi
unificado o biotério” (Carneiro Vianna, apud Meneses, 2012 p. 120-121

A história desses ratos americanos é um bom exemplo de como os anos anteriores, foram
importantes para o desenvolvimento da ciência e especialmente para a criação do ICB em
1968. O ciclo básico da Escola de Veterinária, integrou o ICB e o biotério unificado em 1973, e
é um bom exemplo das estruturas fundamentais para o desenvolvimento das pesquisas e do
ensino de ciências biológicas que foram viabilizadas com a criação do ICB. A própria ideia de
biotério evoluiu no ICB, que desde 1989, conta com um Centro de Bioterismo (CEBIO), órgão

67
Foto 8 - Biotério da complementar do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) destinado especificamente
UFMG é o primeiro
à criação e fornecimento de animais para atividades acadêmicas e científicas, no
do país concebido para
produzir animais de âmbito da Graduação e de Pós–Graduação do ICB. O CEBIO tem trabalhado junto
laboratório. com o Biotério Central ligado a Pró-reitora de Pesquisa da UFMG para suprir as
necessidades dos pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas, mas também dos
Fonte: UFMG,
CEDECOM, Foca cursos de Medicina, Veterinária, Farmácia, Educação Física, Fisioterapia e Terapia
Lisboa. Ocupacional, Psicologia e de Engenharia. A produção do Biotério também atende
outras oito instituições que compõem a Rede Mineira de Bioterismo: as universidades
federais de Juiz de Fora, de Lavras, de Ouro Preto, de Uberlândia, de Viçosa e do
Triângulo Mineiro; Fundação Ezequiel Dias e Centro de Pesquisas René Rachou.
Todo o projeto foi financiado com recursos próprios da UFMG e de agências de
fomento – Finep, CNPq, Capes e Fapemig. (Boletim UFMG, n. 1820, 15 mai. 2013)
A abrangência do atual Biotério e a criação de redes como a de Bioterismo,
certamente deixa feliz aqueles que defenderam a criação do ICB, como um espaço
propício à integração de vários conhecimentos e estruturas físicas, que servisse a toda
a comunidade universitária e não a uma única escola. Era isso que pensava o reitor
Aluísio Pimenta, e todos aqueles que o apoiaram, quando prometeu, em seu discurso
de posse, povoar o Campus Pampulha com institutos Centrais. Certamente estava
se referindo a espaços que propiciassem o desenvolvimento do espírito universitário
e não arraigado ao que acontecia nas faculdades isoladamente. A mudança da
mentalidade era um poderoso obstáculo:

68
Quando mudaram para o Campus [a Escola de Veterinária] foi uma das primeiras a mudar para
o Campus, eu era diretor do ICB e o Marcelo Coelho, reitor. O Marcelo mudou com a Veterinária
para lá e eu participei da mudança assistindo aquela solenidade e tudo. Chegou perto de mim um
catedrático recente da Veterinária, um daqueles veterinários puros, ele olhou para mim e falou
assim: - Ô Cisalpino, onde é que está a cerca aqui? [risos]. O catedrático, achou que tinha que ter
uma cerca delimitando a Escola de Veterinária do resto do Campus. Era isso a Universidade naquela
época, não era? Ninguém se conhecia e cada Escola levava sua filosofia. E havia a Engenharia, a
Medicina e o Direito que mandavam na Universidade. (Cisalpino, 2014)

Um campus universitário não deveria ter cercas. As estruturas montadas para os institutos
centrais poderiam e deveriam servir a mais de uma escola. A integração deveria ser real. Espaços
partilhados por diferentes alunos economizaria recursos e enriqueceria a formação dos alunos
com novas metodologias e perspectivas. A existência de uma Cidade Universitária deserta e
desprezada pelas grandes escolas que mantinham seus domínios no Centro de Belo Horizonte,
condenava o projeto de uma universidade moderna, simbolizada na construção do prédio da
Reitoria. Era preciso povoar o campus e o que fazer com um campus deserto, sem as grandes
escolas? Que poder teria um reitor com domínios tão escassos? Terreno enorme, deserto, mas
cheio de possibilidades.
A ideia dos institutos centrais venceu em 1966, quando o Conselho Universitário aprovou a
mudança de Estatuto da UFMG. A aprovação não pôs fim à rixa estabelecida entre os partidários
a favor e contra esses institutos. Angelo Machado, então professor da Faculdade de Medicina,
testemunhou esse período e lembra que a ideia de desmembrar a parte básica da profissional,
“causou uma polêmica muito grande na época. A Medicina foi contra” especialmente grandes
mestres de disciplinas clínicas. Por outro lado, os professores que como ele, estavam interessados
na mudança começaram a estudar e a pensar em como seria o Instituto Central de Ciências
Biológicas (ICCB). Ainda em 1966, o Centro de Coordenação dos Institutos Centrais foi criada,
o Prof. Amílcar Vianna Martins tornou-se o primeiro diretor do Instituto Central de Ciências
Biológicas (ICCB) e passa a frequentar as reuniões do Conselho Universitário.
A partir de 1967, uma comissão especial composta por Moacyr Gomes de Freitas, Wilson
Teixeira Beraldo, Adalmo de Araújo Andrade, Galeno Procópio Mendonça de Alvarenga, Warton
Monteiro e Humberto Coelho de Carvalho começaram a se reunir, sob a presidência do Prof.
Moacyr, encarregada do planejamento, programação e implantação das atividades de ensino
pesquisa e administração do Instituto de Ciências Biológicas, bem como na apresentação de
uma proposta de regimento. Foram encontradas as atas referentes a 21 reuniões que aconteciam
todas as terças-feiras de 13:30 às 15:30h., na Faculdade de Medicina. (Arquivo Institucional
Secretaria Geral do ICB, caixas 5 a 7)
Acompanhando as atas é possível perceber como a questão do ensino era espinhosa.
A comissão tendia a seguir o modelo americano de ciclo básico, onde o aluno entraria na
universidade sem um curso definido, somente a área. Faria dois anos de disciplinas básicas
e depois escolheria um curso. A concorrência para o curso de medicina abriu o principal
debate sobre quais critérios seriam adotados para selecionar quem deveria ou poderia ir para

69
o curso cobiçado. Na ata da quarta reunião da Congregação do ICB, em 7 de novembro de
1967, a organização da Universidade Nacional de Brasília (UnB), foi amplamente discutida,
especialmente a organização dos dois primeiros anos e de como seria o encaminhamento dos
alunos para as escolas profissionalizantes. (UFMG. Comissão Especial, Ata da 19ª reunião, ata
da quarta reunião, 07/11/1967) Também foram discutidos quantos alunos por aulas práticas e
teóricas; como seriam os laboratórios; etc. A construção dos prédios também foi discutida. Era
frequente a comissão convidar professores e pesquisadores para dar subsídios para a discussão
de temas específicos como o ensino integrado. De todos os convidados apenas Hilton Rocha não
atendeu ao chamado, mantendo-se na oposição à criação do ICB. Até o Prof. Mauricio Rocha
e Silva, cientista renomado que desempenhou importante papel na organização da UnB, esteve
junto à comissão para discutir sobre sua experiência. Todos contribuíram em muito para as
discussões; mas também tantas discussões inquietaram o Prof. Wilson Beraldo, que na reunião
de 26 de março de 1968, sugeriu que a implantação fosse acelerada. O Presidente, Moacyr de
Freitas, retrucou alegando que as mudanças dependiam da Comissão, mas também da adaptação
do Regimento do ICB ao Estatuto da Universidade. Beraldo insistiu que as alterações fossem
processadas e a implantação do instituto realizada à medida que fosse definida a legislação
(UFMG. Comissão Especial, Ata da 19ª reunião, 26 de março de 1968)
O receio de Moacyr de Freitas com a legislação tinha sentido. A história da criação dos
institutos centrais começou como uma discussão interna, mas cruzou pelo caminho da Reforma
Universitária do governo militar. Para além da experiência revolucionária de uma universidade
sem cátedras e com departamentos estabelecida na UnB, estava o desejo de modernização
pregado pelos governos militares alinhados com interesses americanos. Em 18 de novembro
de 1966, o governo militar baixou o Decreto Lei 53, que fixava normas para a organização das
universidades, reunindo o ensino e a pesquisa básicos em unidades centrais. No ano seguinte,
no dia 28 de fevereiro, um novo decreto extinguiu as cátedras, por meio do Decreto-Lei 252,
e assim o movimento que vinha acontecendo internamente, foi se consolidando na UFMG,
amparado na legislação federal.
O plano de reestruturação da UFMG que contemplava a criação dos institutos centrais foi
aprovado, na gestão do Reitor Gerson de Brito Mello Boson, pelo o Decreto-Lei 62.137, de 28 de
fevereiro de 1968. Em 11 de novembro de 1968, realiza-se no ICB a 1ª Assembleia Geral do Corpo
Docente e em 18 de novembro daquele mesmo ano a Congregação do Instituto reúne-se pela
primeira vez. Tudo isso acontece antes de 28 de novembro de 1968, quando foi publicada a Lei
5540, da Reforma Universitária. Por ter um processo adiantado no dia seguinte à publicação,
enquanto muitas universidades ainda estavam sob o impacto da Lei, o ICB já estava indicando
o Moacyr Gomes de Freitas, professor de Parasitologia da Escola de Veterinária, como diretor
pro-tempore. Segundo Angelo Machado, esse era um diferencial do ICB.
quando saiu, o decreto, da reforma universitária, o pessoal que ia ser ICB já estava todo entrosado.
Um ou outro que não quis, mas foi muito pouco, se você comparar com o que aconteceu no resto
do país. (..)Por exemplo, em São Paulo, o professor Junqueira que era o mais famoso, simplesmente
não foi pro Instituto Central, ficou na Medicina sozinho. É, ele era “um Deus” lá dentro também.
(Machado, 2015 ).
70
O Museu de História Natural da UFMG e as parcerias
com o Instituto de Ciências Biológicas

Antônio Gilberto Costa


O Museu História Natural e Jardim Botânico da UFMG (MHNJB), órgão suplementar
da Universidade Federal de Minas Gerais, tem suas origens ligadas à extinta Sociedade Mineira
de Naturalistas. Fundada na Faculdade de Filosofia da UFMG, em 19 de outubro de 1956, a
Sociedade objetivava estimular atividades ligadas às pesquisas científicas e criar um Museu de
História Natural em Belo Horizonte.
Em 1947, o prof. Anibal Mattos, presidente da Academia de Ciências de Minas Gerais, e
considerando a importância do sítio arqueológico da região do Horto, em Belo Horizonte, já
destacava a necessidade de tal museu para Belo Horizonte. Apesar dos esforços desses cientistas
e de estudantes do curso de História Natural para criação do Museu nessa época, foi só no fim
da década de 1960 que a ideia começou a ser concretizada. Em 28 de fevereiro de 1968, pelo
Decreto nº 62317, do Presidente Arthur da Costa e Silva, determinou-se uma reformulação da
estrutura das universidades brasileiras. O ato, conhecido como Reforma Universitária, implicou
em muitas mudanças e, entre várias medidas, tratou da criação de um Museu de História Natural,
assim como dos institutos, entre os quais o de Ciências Biológicas.
Nessa época, o Instituto Agronômico, localizado no Horto e, então, com suas pesquisas
paralisadas e sua área verde cada vez mais devastada, foi o local escolhido para sediar o Museu.
Após necessárias negociações ao longo do primeiro semestre de 1969, o museu foi instalado em
parte do terreno do Instituto. Essa instalação formal aconteceu em 12 de agosto de 1969, por meio
da assinatura de termo de comodato, sendo, portanto, considerada como a sua data de criação.
Recuando no tempo, é de conhecimento que nessa área, em fins do século XIX, existia
a Fazenda Boa Vista. No início do século XX, a fazenda foi desapropriada pela Comissão
Construtora de Belo Horizonte, a nova capital de Minas Gerais, e adquirida pelo Governo do
Estado com a finalidade de instalação de um Horto Florestal.
Em 1912, com o objetivo de impulsionar suas atividades agroindustriais, o Estado de Minas
Gerais transformou o Horto Florestal em uma Estação Experimental de Agricultura. Entre agosto
de 1938 e novembro de 1947, pesquisadores da Secretaria de Agricultura, da antiga Faculdade de
Filosofia e da Academia Mineira de Ciências encontraram material arqueológico nessa região
do Horto, que por conta disso também era conhecida como Estação Arqueológica do Horto.
Artefatos líticos e cerâmicos encontrados foram então enviados ao Museu Nacional, no Rio
de Janeiro, pela ausência, nessa época, de um museu de História Natural em Belo Horizonte.
71
Foto 1- Cerimônia em Em 1953, a estação experimental deu lugar ao Instituto Agronômico, extinto
de comodato entre a
em 1968. Da área desse instituto foi desmembrada uma parte com 439.000 m2, que
PBH e a UFMG, 1973,
que recebeu uma área foi cedida à UFMG mediante o já mencionado Convênio de Comodato, que nela,
de 150.000m para posteriormente, instalou o seu museu. Em 1973, outro Convênio de Comodato
implantação de um
Jardim Botânico. No
firmado entre a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e a UFMG anexou mais 150.000
centro da imagem m2 de mata nativa contígua à área do Museu de História Natural, para a criação
vemos o Prof. Eduardo de um Jardim Botânico. Em 1979, a área total do museu, incluindo essa do Jardim
Cisalpino então diretor
do ICB. Botânico, foi finalmente doada à UFMG.
Desde a instalação, inicialmente do Museu de História Natural da
Fonte: https://www.
ufmg.br/mhnjb/mu- UFMG, pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas tem desenvolvido
seu50anos/fotogra- inúmeras atividades de pesquisa e de ensino no museu. Destacamos a existência
fias-do-museu/ Aces- de laboratórios e outros espaços, que sediaram atividades dos departamentos
so: 18 set. 2020.
de Botânica e Zoologia, nos anos iniciais de funcionamento do MHNJB.
Posteriormente, essas atividades foram transferidas para as dependências do ICB,
localizadas no Campus Pampulha.
Desse tempo inicial até a atualidade, as parcerias do ICB com o MHNJB
tem sido muito importantes para a instituição e dentre os vários projetos
desenvolvidos, pode ser mencionada a implantação de uma coleção de plantas
vivas no MHNJB, provenientes de espécies coletadas e cultivadas para projetos de
pesquisa do Departamento de Botânica e que necessitavam de um espaço físico
adequado e cuidados para a sua manutenção. Essa coleção foi fundamental para o

72
reconhecimento da existência no MHNJB de um Jardim Botânico pelo Ministério Foto 2: Exposição
Paleontológica do
do Meio Ambiente, em 2010. Por meio dessas parcerias com o ICB, se encontram
Museu de História
em desenvolvimento projetos de pesquisa e extensão envolvendo o conhecimento Natural e Jardim
de sua flora, a biologia das abelhas solitárias e interações entre microorganismos Botânico da UFMG,
aproximadamente
e plantas. 1990
Atualmente, e a exemplo do que ocorre com a História Natural e seus
museus, o MHNJB mantém variado conjunto de atividades, envolvendo aquelas Fonte: https://www.
áreas do conhecimento tradicionais e outras mais recentes. No MHNJB da UFMG ufmg.br/mhnjb/
museu50anos/
a Arqueologia, a Etnografia, a Cartografia Histórica, a Geologia, a Paleontologia fotografias-do-
representam algumas dessas áreas, para além da Botânica e da Zoologia. museu/ Acesso: 18 set.
2020

73
Foto 9 - Edifício O ICB, do plano à realidade
Central concluído em
1967, onde começou a As aulas começaram em 1969 com uma nova comissão composta pelos professores
administração e parte
das aulas o ICB. Amílcar Viana, Giorgio Schreiber, Osmane Hipólito e Carlos Ribeiro Diniz que
ficaram encarregados da implantação do ICB. O pioneirismo das discussões,
Fonte: Anais da
Faculdade de Medicina contudo não foi suficiente para superar todos os obstáculos. O espaço exclusivo
da Universidade Federal para o instituto não existia e era necessário abrigá-lo em algum prédio existente
de Minas Gerais. Ano
XXV-XXVII. Belo
na Universidade. Começar em espaço cedido não era tarefa fácil. O prédio novo
Horizonte. 1971. 88. da Faculdade de Medicina pareceu uma solução óbvia, mas nem por isso a mais
Acervo: UFMG, tranquila. De todas as escolas que teriam o ciclo básico no ICB, a Faculdade de
CEMEMOR Faculdade Medicina é a que contava com maior espaço disponível. O prédio antigo tinha sido
de Medicina.
demolido em 1958 e em 1960 foi inaugurado um outro edifício amplo e moderno.
O espaço amplo que as disciplinas básicas ocupavam foram incorporados ao novo
instituto, gerando insatisfações, não só de professores, mas também dos funcionários,
como relata, Darcy Santos
A criação do ICB foi, um feito histórico, vamos falar assim, que assustou muito a
muita gente, desde o pessoal docente, até o corpo administrativo. Por que? De repente,
aquele prédio da Medicina, que tem 10 andares, virou uma cidade com a chegada
do pessoal e foi agrupando todo mundo. (...) Teve muito colega nosso administrativo
que pediu a remoção para alguns setores da Medicina, eles não quiseram ficar no
ICB. (Santos, 14 nov. 2015)

74
O prédio da Faculdade de Medicina, não era o único local onde os alunos circulavam para
ter aulas e demais atividades do ciclo básico: “o ICB tinha outras atividades em outros prédios da
Universidade. Havia atividades no prédio da antiga Faculdade de Filosofia, na Rua Carangola,
no Museu de História Natural, no Horto, e na Escola de Enfermagem”. Contudo, a maior parte
do curso funcionava no prédio que antes só abrigava o tradicional curso de medicina e que de
repente, passou a sediar o ciclo básico de seis cursos da universidade. O belo e eficiente modelo,
que professores gabaritados vinham desenhando e planejando a implantação, na prática parecia
um atropelo, um desvario, para muitos, especialmente para aqueles professores, funcionários e
alunos que ficaram de fora das discussões de criação do ICB. Como observa Darcy Santos: Dentre
outras mil coisas que aconteceram, você vê, de repente, o café que eu tô falando desde o início aí
que era tomado, muita das vezes, por oito, dez professores e uns seis funcionários, de repente, você
tinha que esperar sair um grupo de vinte para entrar mais vinte. (Santos, 2015)
Entre esses grupos do revezamento no café, estavam ex-catedráticos e seus assistentes que
certamente se ressentiam da perda do espaço e poder anterior. No ano anterior eram catedráticos
consolidados em seus domínios e no ano seguinte, ex-catedráticos e transferidos para um espaço
novo e expostos a uma nova rotina de aulas teóricas e práticas. Inicialmente as aulas foram
divididas entre os vários professores. Catedráticos que em suas escolas de origem definiam
como seria dada a disciplina e eram considerados os experts no assunto, passaram a ter suas
aulas comparadas a de outros professores. As aulas, os conteúdos selecionados, os equipamentos,
a qualificação dos docentes tudo passa a ser confrontado. Segundo Tomaz Aroldo Santos, o
conflito era resultante do uso do prédio da Faculdade de Medicina pelo Instituto, “um conflito
de uso e ocupação do espaço, mas também de certa maneira um conflito político, de implantação
da própria reforma universitária,” (Santos, 26 nov. 2014) A outra característica é que o ICB tinha
uma notável influência do corpo docente da Faculdade de Medicina que passou a integrar o
ICB. Esses conflitos eram externados especialmente, nas atividades de sala de aula, conforme
relato do professor Jaime Neves:
Mas no início foi um caos a parte de ensino. Cada professor que chegou, cada grupo que chegou
tinha uma metodologia de ensino. Nós tínhamos problemas de espaço físico para salas de aula,
espaço físico para acomodar essa quantidade de pessoas, espaço físico para acomodar alunos.
Haviam disciplinas que uma entrava na outra. Aí, o professor Cisalpino, Eduardo Osório Cisalpino,
logo que assumiu como diretor do ICB, criou uma comissão para organizar esse sistema de ensino.
Optou-se pelo ensino integrado. E quem comandava essa equipe era a Maria Lisboa de Oliveira...
(...) tinha uma visão de conjunto, uma posição muito firme, muito autoritária, mas, com objetivos
certos. (Neves, 2015)

Cresciam as tensões. Uma das questões que perpassam praticamente todos os discursos
que tematizam o período de instalação do ICB diz respeito ao desafio de oferecer disciplinas de
formação básica comuns a um universo tão variado de careiras profissionais. A ação do então
diretor Eduardo Cisalpino foi fundamental nesse momento, para que o ICB não cindisse em
um centro de pesquisa e uma central de aulas. Era preciso dar estrutura de ensino superior
para aquele grupo de professores e alunos que de repente chegaram no prédio da Faculdade
de Medicina.
75
Quando nós chegamos na Medicina, no prédio da Medicina com 500 alunos, 600 alunos nós
tínhamos um problema imediato [risos] para resolver. Como é que nós daríamos aula? Aula era
uma preocupação constante nossa. Tanto é que nós tínhamos comissões de ensino integrado, daí
que surgiu a ideia de um ensino integrado, das disciplinas básicas. Dessa comissão eu participei.
(Godinho, 2015)

Desde de o inicio um grupo de professores se destacaram na busca soluções para o Ensino


integrado, criação de disciplinas integradas de primeiro nível. Pensar em um ou dois anos de
estudos em comum para todos os cursos da área biológica e da saúde. Pensar em disciplinas e
em como acomodar os alunos. Como acomodar tantos alunos em uma só disciplina? E a prática
nos laboratórios? E como avaliar tantos alunos ao mesmo tempo?
O grande e moderno prédio da Faculdade de Medicina não era suficiente para tudo isso. Era
preciso buscar alternativas. A aplicação das provas é um bom exemplo de como o ICB precisava
de uma logística diferente à que a todos estavam acostumados. Outros espaços e outros horários
precisaram ser pensados. Escola de Engenharia, sábado de manhã, auditórios das faculdades de
Direito e das Ciências Econômicas, auditório da Secretaria de Saúde, sexta à noite. No dizer de
José Carlos Nogueira, “um processo muito trabalhoso, complicado e frequentemente gerador
de atritos” ( Nogueira, 2015)
Os mesmo problemas foram também relatados por outro pioneiro do ICB, Hugo Godinho:
dávamos provas, não sei se vocês, se se alguém já mencionou a Escola de Engenharia, nos sábados
de manhã nós ocupávamos a escola de engenharia [risos]. Aulas e provas. E também usávamos
o auditório da Secretaria de Saúde que hoje é lá o Minascentro. Ficavam 600 alunos, tinha 30,
40 professores tomando conta deles. Imagina a logística daquela época, sem internet, sem.., que
era um problemão. E com gente insatisfeita, que saiu do seu cantinho, sem querer, obrigado.
-Amanhã você tem que estar lá na Medicina.
-Ah, eu não quero.
-Mas você tem que estar lá.
E você tinha gente, pessoas... Enquanto outros brigavam para ir, uns brigavam para não ir, para
ficar nas suas origens. (Godinho, 2014)

Para dirigir o ICB era preciso dominar uma “engenharia de guerra”, onde as estratégias de
deslocamento e manutenção da tropa era mais importante que decidir entre privilegiar ensino
ou pesquisa. Esse foi um dos elementos que tensionaram a vida do instituto tanto internamente,
evidenciando-se através de uma mobilização constante de professores e alunos em relação
à melhor forma de organização do ensino, como externamente, na expressão de oposição,
desconfiança e crítica daquela iniciativa.
... e existia uma ideia implementada já de que os médicos tinham medo de cair a qualidade do
profissional, seja ele engenheiro, médico ou o que fosse. Então eles queriam manter toda aquela
estrutura, todas as disciplinas básicas que eles davam, todas as profissionais que eles davam, até
gerar o diploma e gerar o profissional. De repente tem essa ideia meio maluca, nova, de que as

76
disciplinas básicas deviam ser dadas em Institutos Centrais, não é? Uma modificação inteira.
(Chartone de Souza, 2015).

Havia um grupo de professores pesquisadores, influenciado pelos americanos, que se


uniram em comissões e desenvolveram discussões sobre o ensino, dentre eles Carlos Diniz,
Angelo Machado, Hugo Godinho. Professores tradicionalmente preocupados com o ensino
como Humberto de Carvalho sempre estavam juntos para pensar as soluções, mas era preciso
mais que pensar e discutir. Tornou-se necessário organizar esse processo e, para tal, o diretor
Cisalpino constituiu uma Comissão de Pesquisas e Desenvolvimento Curricular (COPDEC)
formada de membros internos e externos ao ICB. A equipe de trabalho era composta por três
funcionários (2 datilógrafos e 1 coordenador de aplicação de prova), 3 professores da área de
educação (Maria Lisboa de Oliveira, Norma Lucia Faria Pereira, Regina Maria Dias Carneiro) e
por um professor da área biológica – Eurico Alvarenga Figueiredo. Também integrava o núcleo,
dois sociólogos. Esse grupo avaliou a estrutura do ICB, que a época recebia 520 estudantes por
semestre, sendo 80 dos cursos de Ciências Biológicas e Enfermagem, 320 da medicina e 120
dos cursos de Veterinária, Odontologia e Farmácia.
As dificuldades do processo geraram resistências à integração, uma insatisfação geral
manifestada nas avaliações e nas dificuldades de execução das atividades de ensino. Além
das dificuldades logísticas, a rebeldia dos professores e o conflito em algumas disciplinas no
ensino integrado, um dos principais problemas também estava no âmbito disciplinar, ou seja,
em entender os limites no conteúdo de cada disciplina.
Até onde eu vou com a Patologia e até onde eu vou com a Imunologia? E até onde a Imunologia
pode entrar em uma doença parasitária? Até onde a Patologia vai com a anatomia patológica,
vai numa doença parasitária? Porque algumas doenças, como a esquistossomose, a doença de
chagas e mesmo as leishmanioses, a patologia está muito imbricada com o parasito. Você tinha
que saber isso bem, tinha que saber o quê que era, até onde você vai. Então, com esse sistema
de ensino integrado com os objetivos específicos definidos a gente pôde selecionar melhor o
programa. (Neves, 2015)

O ensino integrado que funcionava na UnB, ao ser transplantado para a UFMG não gerou
os resultados esperados. Na UnB, a universidade foi criada do zero. Não havia poder, nem
estruturas a serem demolidas. Era tudo novo. O ciclo básico, com disciplinas comuns a todos
os cursos tinha obstáculos que com o tempo se tornaram intransponíveis. O estudante de
Medicina, tinha aulas ao lado das alunas de Enfermagem, das Ciências Biológicas, da Farmácia,
e isso foi mal avaliado, com o argumento que se estava nivelando o curso por baixo. A oposição
se tornou forte e a fórmula, no dizer do professor José Nogueira, se esgotou.
O Ensino Integrado foi uma experiência que se esgotou. Nós começamos, mas fizemos uns dois anos
de Ensino Integrado entre as várias disciplinas, mas depois, sem uma avaliação muito profunda,
aquilo esgotou. As resistências de fato, integrar um ensino em uma instituição grande, com uma
comunidade muito grande de estudantes, diversidade... (...) Mas foi uma experiência, por exemplo,
para nós, que vivenciamos aqui, foi muito boa. Porque o ICB abriu, abriu a cabeça, (Nogueira, 2015)

77
Entretanto, o pioneirismo da UFMG com o ensino integrado, possível graças ao movimento
antecipado em relação à própria legislação federal, fez da universidade uma parceira privilegiada
do MEC:
Optou-se pelo desenvolvimento desde 1971 da experiência de ensino integrado da Operação
Produtividade do Departamento de Assuntos Universitários do Ministério da Educação e Cultura,
que objetiva transformar o tradicional sistema de ensino por disciplinas em um sistema centrado
em unidades de conteúdo. Assim, dá-se ênfase à estrutura fundamental das ciências biológicas, não
às disciplinas. Estas surgem em graus, formas e momentos diferentes de acordo com o conteúdo do
estudo. Para a realização dessa experiência foram criados dentro do ICB o Núcleo de Assessoramento
do Ensino (NAE) e a Seção Técnica de Ensino-STE (UFMG- Arquivo Institucional ICB- Caixa 32,
Núcleo de Assessoramento Pedagógico, 1974)

Na proposta do ensino integrado era preciso ter um professor que se responsabilizasse


pela execução da proposta em cada período. O diretor Eduardo Cisalpino convidou David
Neves para ser o coordenador do quarto período. Neves foi convocado porque desde o início,
o chefe do seu Departamento, Wilson Mayrink, identificou que ele gostava das atividades de
ensino. Sob a coordenadoria de David Neves, a metodologia de ensino integrado começou a
ser modificada. A mudança no ensino era fundamental. Estavam todos juntos, mas os cursos
eram diferentes e suas necessidades também. Assim, na Parasitologia criou-se as disciplinas
Parasitologia Médica, Parasitologia Humana (Enfermagem, Farmácia e Ciências Biológicas) e
a Parasitologia Veterinária; na Fisiologia criou-se a Fisiologia Veterinária, e assim por diante.
Em 1971 o ICB firmou com o Ministério da Educação e Cultura um convênio visando
favorecer a integração curricular iniciada no ano anterior. Foi então instituída uma Comissão de
Pesquisas e Desenvolvimento Curricular (COPDEP) que tinha por missão estabelecer, partindo
da experiência existente, uma proposta de Ensino para o instituto, coordenando e controlando
seu planejamento e desenvolvimento.
“Os estudos realizados pela COPDEC, levaram a considerar a ideia básica de ensino por estruturas,
como a mais adequada para a definição do conteúdo integrado do ciclo básico e justificou o ensino por
estruturas como sendo o método que torna a matéria mais compreensível, significativa, possibilitando
uma maior motivação, um maior estímulo intelectual, maior índice e retenção, menor distância
entre o conhecimento básico e o avançado e uma transferência mais adequada de aprendizagem.
Numa tentativa de definição da estrutura fundamental das ciências biológicas, foi apontada a
Biologia Celular como suporte para todos os assuntos posteriores, obedecendo-se à seguinte sequência:
células, tecidos, sistemas, órgãos e organismos. (UFMG – Arquivo Institucional do ICB . Boletim
Informativo ICB, Ano IV, n. 26, abril/maio de 1972, p.19-20).

O Ministério da Educação estava interessado no processo do ICB-UFMG, pois esse desafio


imposto pela criação dos institutos centrais incomodava e dificultava a vida das universidades após
a Reforma de 1968. O problema era generalizado. Em fins de novembro e início de dezembro de
1971, a cidade de Juiz de Fora sediou o Simpósio de Reitores do Brasil, para discutir os problemas
do processo de implantação da reforma nas universidades brasileiras, uma vez que a reforma
tinha validade tanto para universidades como para os estabelecimentos isolados, fossem eles
78
de caráter público ou privado2. Cerca de 40 reitores, estiveram presentes. (Boletim Figura 1: O ensino
Informativo ICB. Ano IV, n. 24, jan.;fev. de 1972, p. 10-12). do ICB. Documento
aprovado em Assembleia
A preocupação com o ensino integrado, não era exclusividade da cúpula e dos Geral do corpo docente,
professores. Ressalte-se a importância do Núcleo de Assessoramento Estudantil 14 jan. 1971
(NAE) que, cumprindo seu papel de assessoramento do ensino, se juntou ao Diretório
Acadêmico (DAICB) para saber dos alunos o que eles pensavam do ensino no ICB. A
participação dos alunos estava respaldada na lei da chamada Reforma Universitária,
que no seu artigo 38 do Capitulo 3, que trata do corpo discente da universidade,
concedia a eles representação, com direito a voz e voto, nos órgãos colegiados, bem
como comissões, instituídas na forma dos estatutos e regimentos. A conjuntura
política dos governos militares, não era favorável às manifestações e a oportunidade
de ter voz e voto nos órgãos colegiados não era para ser desprezada. Nesse contexto,
se destaca o chamado “Julgamento do ICB” que convocou a comunidade para uma
avaliação da qualidade do ensino, com acusação e defesa. ( Nascimento et. al, 1972)
Alguns cartazes questionando a qualidade do ensino foram afixados nas
dependências do ICB no prédio da Faculdade de Medicina e cartas com o mesmo
teor enviadas aos professores. Também pelo Boletim Informativo a comunidade do
ICB foi convocada a participar do júri simulado:
“Vamos colocar o Ensino do ICB em Julgamento. Júri mesmo! Com acusação e defesa.
Fatos comprovados. Testemunhas. E você julga, em debate com os seus colegas. ... Há
uma equipe de três alunos, três professores e um especialista em ensino preparando

2 LEI Nº 5.540, de 28 de Novembro de 1968, fixa normas de organização e funcionamento do ensino


superior. http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1960-1969/lei-5540-28-novembro-1968-359201-pu-
blicacaooriginal-1-pl.html . Acesso: 18 jul. 2018

79
os argumentos para a acusação, outra para a defesa. Procure-nos. Leve a eles os fatos
que você conhece. Participe!” ( Boletim Informativo ICB, n. 38, 30.10.1972, p. 1 e 2).

Foi um momento de agitação no ICB, alunos e professores se prepararam.


Figura 2: Boletim Palestras com professores externos foram proferidas, como a de Mauricio Rocha e
Informativo do ICB, Silva (Farmacologia, USP- Ribeirão Preto), sobre “Ensino e Pesquisa na Universidade”
n. 38, de 24 de outubro
de 1974, chamando (Boletim Informativo, n. 38.). Essa superposição de eventos corrobora uma fala de
a comunidade para Angelo Machado, na qual ressalta que não havia desprezo da graduação por parte
avaliar o ensino, no que
dos professores, por causa de uma suposta ênfase na pesquisa:
ficou conhecido como
“julgamento do ensino”. - Vamos ver se é verdade: quem está aqui discutindo ensino? Eu faço pesquisa, a
Conceição faz pesquisa, Beraldo faz pesquisa, Diniz faz pesquisa, todo esse pessoal dá
Figura 3: Os discentes
e as reformas do ensino aula e faz pesquisa. Eles não aceitam professor Universitário que não tem experiência
no ICB. Boletim do de pesquisa, pode ter pouco ou muito aí é uma variável, não é? Um exemplo é o Eurico,
Diretório Acadêmico
da bioquímica, era um grande professor, já fez pesquisa também, mas ele não era
do ICB, 30 de outubro
de 1975. grande pela pesquisa. Ele era grande pela aula. (Machado, 2015)
Fonte: UFMG - Arquivo
As acusações de que o ICB privilegiava a pesquisa em detrimento do ensino
Institucional do ICB,
caixa 32. sempre existiram, mas no momento do julgamento, quando os alunos tiveram

80
oportunidade de avaliar o curso, após ouvirem os argumentos da acusação e defesa,
apresentaram um conclusão de parecer objetivo e moderado: “acreditamos nesse
trabalho que se inicia na medida em que as soluções estejam ao nosso conhecimento”
(UFMG, Arquivo Institucional do ICB, Boletim Informativo ICB, 42, de 24/11/1972)
As dificuldades com o ensino integrado não atingiam só alunos e professores,
os funcionários também se ressentiam da mudança brusca de rotina. Acostumados
a preparar aulas práticas para um grupo pequeno e homogêneo, passaram a atender
um contingente variado e muito mais numeroso, sem o correspondente aumento de
pessoal e material. O ensino integrado era novidade para todos e em um momento
de conturbação política e social, o que acirrava o quadro e dificultava o sucesso do
ensino integrado.
...mas de 1969 até nossa vinda para cá em 1976 ainda era bem confuso e eu acho que
o ICB começou a jogar com a mesma bola, na mesma corda a partir dos anos 80,
… Aí sim engrenou, entendeu? Tanto é que tinha o Coordenador de Veterinária, o
Coordenador de Fisiologia, Fisiologia Cardiovascular, Fisiologia Respiratória. Esse
direcionamento para cada curso, entendeu? Então foi muito difícil essa adaptação.
Mistura isso aí, períodos políticos, período da Ditadura, foi um negócio assim violento.
O ICB, até que graças a Deus, não tinha tanta gente de esquerda nem de direita. Você Foto 10- Sala de
vai falar: “uai, mas o quê tem a ver isso com ensino?”. Teve. Tinha recusa de aluno aulas práticas com
microscópios, s/d.
ter aula com a fulana, com o fulano que ele era de direita, ele era fascista, ele era
um monte de nome lá, pelego e assim por diante. Então isso gerou quase que uma Fonte: UFMG, Arquivo
Institucional do ICB,
insubordinação entre os funcionários e o corpo docente. (Santos, 2014 ) caixa 45.
Cada professor passou a se responsabilizar pela matéria toda, ou seja, dava aulas teóricas
e se encarregava das aulas práticas. O conjunto dos professores do departamento fazia uma
ementa da parte básica que deveria ser ministrada e cada professor dava sua aula teórica e prática
correspondente. Com isso foi possível melhorar todo o material da prática. Cada laboratório
preparava o seu material para facilitar a dinâmica das aulas práticas, como é o caso da montagem
de caixas apropriadas para as lâminas a serem observadas nos microscópios. Como exemplo, o
material didático de caixas e lâminas desenvolvido pela parasitologia, começou a ser vendido
para várias universidades. Hoje são só lâminas que a gente monta para alguma faculdade nova,
por exemplo, lá no Acre, ou mesmo da USP. Não tem material, pede e a gente fornece o material.
(Neves, 2015)
O acerto da proposta, foi se dando aos poucos e várias iniciativas foram consolidadas. A
melhoria do ensino pedia outros recursos e um desenhista foi contratado para fazer desenho de
cartazes para as aulas práticas de Parasitologia. Além dos cartazes que poderiam mostrar com
mais precisão detalhes dos ciclos dos parasitos a serem explorados em sala de aula, Segundo
ele: “esses cartazes eram muito importantes para as aulas práticas. Ah, e tinham também os slides.
A gente montou uma coleção para cada professor, o qual tinha à sua disposição um projetor de
slide. Mas cada professor possuía liberdade de seguir sua forma particular de lidar com os alunos
e o material que dispunha. (Neves, 2015)
O sucesso desse recurso implantado pelo departamento de Parasitologia, se estendeu para
outros departamentos que começaram a contratar profissionais para atenderem demandas
didáticas dos professores. Em 2003, o então diretor do ICB, Carlos Alberto Pereira Tavares –
reconheceu a importância da atividade, contratando uma servidora para este fim – Rosa Alves,
que além de se encarregar das demandas dos professores, tornou-se responsável pela organização
do I Encontro Brasileiro de Ilustração Cientifica, em 2006 e também pela organização de cursos
de extensão regulares para formação de novos ilustradores. O oferecimento desse trabalho foi
institucionalizado com a criação do Laboratório de Ilustração Cientifica3, que hoje funciona
dentro do Centro de Coleções Taxonômicas e se tornou referência nacional na Ilustração para
fins didáticos e de publicação científica. Um dos muitos desdobramentos positivos da criação
do ICB!
Iniciar o ICB em um espaço que não era próprio, acarretou problemas para a implantação
das suas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Já estava dado que não era possível fazer
ciência sem estar atualizado com as descobertas científicas, novas técnicas e novas metodologias.
A existência da biblioteca era fundamental. Todas as escolas tinham suas bibliotecas, que
permaneceram em suas unidades, enquanto o Ciclo Básico foi para a Faculdade de Medicina,
o que dificultava o acesso dos estudantes à bibliografia recomendada. A Faculdade de Medicina
tinha uma moderna biblioteca, mas esta era especializada em temas médicos e seu acesso foi
negado aos estudantes de outros cursos. Diante dessa impossibilidade, o então diretor Eduardo
Cisalpino, alugou uma casa nas proximidades da Faculdade de Medicina, e colocou os livros
lá dentro. A solução da casa alugada, contudo, não foi duradoura. A casa apresentava vários

3 Ver: https://www2.icb.ufmg.br/cct/lic.html, acesso em: 06 out. 2020.

82
problemas e um dia houve uma vazamento na Caixa d´água molhando livros e causando
transtornos. (Lima, 2016)
A solução provisória da biblioteca da Graduação, convivia com outras minibibliotecas
espalhadas entre a Biologia Geral, que ficava no prédio da Faculdade de Filosofia, e nos diversos
departamentos do ICB e mesmo dentro da Faculdade de Medicina. Esse acervo antes espalhado,
hoje está abrigado na Biblioteca Central da UFMG ao lado do ICB. As aulas no ICB, eram
de ciência básica e a prática, sobretudo pela realização da experimentação, era um dos pilares
de sua criação. Uma das vantagens de se criar o ciclo básico era poder concentrar recursos e
profissionais qualificados. Contudo, as várias infraestruturas para a prática ao serem unificadas
acabaram por revelar a situação dos laboratórios, com materiais e equipamentos de excelente
qualidade se juntando a outros obsoletos. Em algumas disciplinas era difícil preparar aulas
práticas para tantos alunos com equipamentos precários.
O período de acomodação foi árduo. O ICB teve a sorte de ter naquela época um diretor
desassombrado, visionário e realizador, o Prof. Eduardo Osório Cisalpino, que comandava delegando,
apoiando e defendendo seus comandados. O Prof. Nello de Moura Rangel, primeiro chefe do
Departamento, apoiava integralmente a diretoria e se concentrava na árdua coordenação didática do
setor microscópico em uma nova experiência na Universidade; a implantação do ensino de massa!
As necessidades de espaço físico, microscópios, lupas e outros utensílios que se nos apresentavam
eram, na medida do possível, sendo superadas. A ordem geral era funcionar!!! Sendo assim, a
improvisação era frequentemente acionada. O Prof. Marco Jacques Magalhães e eu, professores em
tempo integral e dedicação exclusiva, coordenávamos o setor microscópico do Departamento. Logo de
início deparamos com um grande, o primeiro grande entrave: a falta de microscópios!. Microscópios
encostados e oriundos das várias faculdades foram recuperados total ou parcialmente, inclusive
antiquíssimos microscópios, sem Charriot, que estavam no depósito de sucatas da Faculdade de
Medicina para serem descartados, voltaram, bravamente ao trabalho! (Nogueira, 2015)

Com medidas como essas, as aulas não precisaram ser suspensas e as práticas foram ganhando
padrão. Ao mesmo tempo, os conteúdos começaram a ser mais específicos para os diferentes
públicos. Os velhos microscópios cumpriram seu papel, mas o investimento na melhoria dos
equipamentos prosseguiu e, em 1987, foi criado o Centro de Microscopia Eletrônica (CEMEL),
a partir do Laboratório de Microscopia existente no Departamento de Morfologia. O CEMEL
saiu da alçada do departamento e tornou-se órgão complementar do ICB. Em 2013, o CEMEL
muda de nome a passa a ser chamado de Centro de Aquisições e Processamento de Imagem
(CAPI), O CAPI é um centro multiusuário que possui infraestrutura em várias áreas da pesquisa
científica que utilizam como método de estudo a captura e análises morfométricas de imagens
digitais, tais como microscopia eletrônica, Confocal, dissecação a laser e escâner de lâminas e géis4.
Nos anos de 1980, continuaram os seminários de ensino para avaliar a integração, que
mais uma vez entrou em crise, quando cada curso, tentando adaptar-se à realidade e às

4 Sobre o Centro de Aquisições e Processamento de Imagem ver: https://www2.icb.ufmg.br/capi/ acesso em: 06


out. 2020.

83
necessidades, introduziram modificações independentes,
prejudicando a ideia de conjunto, de centralização
das matérias. Segundo o Boletim do ICB, perdeu-se a
interdisciplinaridade e a visão de conjunto foi esfacelada,
separando-se teoria da prática. (Boletim Informativo
ICB, outubro de 1983)
Embora tenha se firmado como o” lugar da
ciência”, não se pode desprezar na história do ICB os
longos debates, experimentos, rearranjos, reviravoltas,
insatisfações e acomodações que marcam a história do
ensino da sua graduação especialmente no ciclo básico,
razão maior da sua criação. Até porque o ensino, com
toda a sua dimensão criativa, também é uma forma de se produzir conhecimento.
Foto 11- Prof. Nello
Rangel, e um dos antigos Sobre esse assunto vale relembrar a ótima reflexão feita por Marilene Marques
microscópios, s/d.. Michalick e Maria Salete Castro, respectivamente vice-diretora e Coordenadora
Fonte: Centro de do Colegiado Especial do 1º. Ciclo:
Memória da Escola de
Veterinária “Finalmente resta-nos questionar o que esta integração, que vimos buscando por meio
de tantas e tantas medidas e propostas. Através dos anos temos observados a criação
de “mecanismos integradores” que se revelam ineficazes ou que funcionam apenas
parcial e descontinuamente. Isto parece decorrer do fato de que cada um de nós pode
estar encarando a integração por um ponto de vista pessoal. Temos que definir de
maneira concreta, qual o nosso objetivo. Só assim, a “busca da Integração” deixará de
espelhar a busca mística do Santo Graal, podendo vir a fornecer resultado satisfatórios
e duradouros”(Michalick, Castro, Boletim do ICB, ano VIII, set., 1995, n. 5)

O sonho da integração no ensino de graduação continua, 50 anos depois da


criação dos institutos centrais. A Resolução Complementar 01 de 20 de fevereiro de
2018, aprovou as Normas Gerais do Ensino de Graduação da UFMG, propondo no seu
Artigo 5, a ideia do Tronco Comum como uma das estruturas formativas possíveis:
Tronco comum: estruturas articuladas em torno de eixos temáticos comuns a
cursos de determinado campo de conhecimento, que objetivam propiciar ambientes
compartilhados de formação de estudantes, provendo atividades acadêmicas curriculares
que sejam comuns ao que prevejam atuação conjunta.
(...)
Parágrafo Único: as estruturas formativas de tronco comum podem constituir a opção
de ingresso dos estudantes na Universidade, situação em que estes deverão escolher o
curso o qual irão obter o grau após cursar o tronco comum.

Desta vez, a universidade chegou até essa proposta depois de longos anos
propondo a flexibilização curricular. Ao dar liberdade para os cursos escolherem
seus percursos, a proposta do caminho único, como fez com criação dos institutos

84
Figura 4: Currículo do curso de História Natural de 1956.
Fonte: UFMG, Arquivo Institucional da Secretaria Geral
da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas.

85
centrais foi afastada. A sobrevivência do ICB, hoje não depende só do ciclo básico dos cursos
profissionalizantes, pois desenvolveu uma graduação própria e uma pós-graduação vigorosa.

O Curso de Ciências Biológicas


O início do ICB foi de intensa transformação no ensino básico dos cursos para a área de
saúde. Para o curso de História Natural que funcionava dentro da Faculdade de Filosofia desde
a década de 1940, contudo, o futuro não era promissor, pois desde 1962 convivia com a “sombra”
do curso de Ciências Biológicas, regulamentado pelo Conselho Federal de Educação (CFE).
Embora a UFMG não tivesse criado um novo curso, era um claro sinal que a licenciatura para
os professores de ciências tinha novos parâmetros.
Com a Lei 5540, além do ICB outros institutos centrais foram criados entre eles o Instituto
de Geociências (IGC), e as sobreposições de conteúdos, como geologia e mineralogia, levava o
curso de História Natural a se inviabilizar no ICB. Ao mesmo tempo, outras disciplinas como
biologia geral, zoologia e Botânica eram da alçada do ICB. Por ser sobrecarregado do estudo
de geociências, o curso de História Natural não mais se adequava ao mercado de trabalho,
que carecia de fundamentos matemáticos, físicos e químicos, necessários ao entendimento
dos fenômenos biológicos, segundo a proposta desenvolvimentista do governo militar. Ou
seja, era preciso de um outro professor para os conteúdos de ciências a ser dado aos alunos
do antigo ginásio. Pensando nesse novo professor, foi estabelecido o currículo mínimo para
o curso de Ciências Biológicas. A licenciatura de Ciências tinha caráter prioritário, tendo em
vista a sensível falta de pessoal. A expansão do ensino de ciências não tinha como se dar sem
esses novos professores.
“Acresce-se ainda que destinando a dar ao adolescente uma primeira visão cientifica do mundo de
sua experiência, o ensino de iniciação às Ciências, exige um tipo de professor com formação global
e não como especialista (...) Para a formação da maioria dos pesquisadores em biologia de um
lado e de geociências do outro já não cabe a conjugação dos materiais oferecidos no bacharelado
de História Natural” (...)
“muito mais recomendável nos parece que os pesquisadores das diferentes áreas da Biologia se
formem em curso de bacharelado nos quais a quarta parte da duração dos estudos de graduação
seja dedicada a um dos grandes ramos das Ciências biológicas, tais como a Zoologia, a Botânica,
a Genética, a Ecologia e a Fisiologia Geral.”(Brasil: Parecer107-1970)

O curso de História Natural sofreu nova pressão quando, em 1964, o CFE instituiu as
chamadas “licenciaturas de 1º ciclo” ou “licenciaturas curtas” alegando a falta de professores e
a exigência de um professor com formação global (generalista) para atender ao 1º grau. Para
trabalhar no 2º grau era preciso ter feito a Licenciatura Plena.  A partir de 1965 o país passou
a contar com dois profissionais com formação diferente para atender a mesma demanda, ou
seja, Ciências no 1º grau. Em 1970, com o Parecer 107/69-70,5 o curso de Ciências Biológicas foi
5 Conselho Federal de Educação, Parecer n.107/69, aprovado em de 4/2/1970. In: LUCAS, Mariana da Costa,
FERREIRA, Marcia Serra. História do currículo da formação de professores de ciências e biologia (1960/70). Educ.

86
Figura 5: Instruções para excursões e trabalho de campo da disciplina ZoologiaScanned by
para o curso CamScanner
de Ciências Biológicas, 1979.
Fonte: UFMG, Arquivo Institucional do ICB. Acervo Jenner Procópio Alvarenga.

87
organizado em duas formações: Licenciatura e Bacharelado. O currículo mínimo foi estabelecido,
definiu-se a duração da licenciatura e do bacharelado, em uma estrutura que se mantém até os
dias de hoje. (Brasil, 1997; Lucas, Ferreira,  2017)
Diante dos argumentos do Parecer 107/70, o ICB extinguiu o curso de História Natural
e implantou em 1972, o curso de Ciências Biológicas, atendendo “às exigências do inevitável
processo de especialização”. O modelo de ensino integrado do ICB, contaminou a proposta
do currículo que foi organizado com características que o distinguiam dos demais cursos da
Universidade, apresentando grande flexibilidade, com a apresentação de um tronco comum até o
terceiro período e após, o aluno deveria escolher entre licenciatura e bacharelado e caso optasse
por ser bacharel, deveria escolher entre onze áreas de concentração, realizando estágios nas
seguintes áreas: Bioquímica, Botânica, Ecologia, Farmacologia, Fisiologia e Biofísica, Genética,
Imunologia, Microbiologia, Morfologia, Parasitologia e Zoologia.  (UFMG Arquivo Institucional
do ICB, caixa. 16, pasta 1)
O currículo flexível foi considerado experimental e foi acompanhado de perto com grande
espírito crítico, pensando constantemente na sua avaliação e posteriormente foi reelaborado,
incluindo mais dois períodos para uma formação geral mais ampla e possibilidade de fazer a
opção mais amadurecido. A proposta desse currículo é mais uma prova do quanto o Instituto
estava interessado nas questões de ensino e o quanto elas passavam por maior aproveitamento
da capacidade instalada de materiais e recursos humanos.
Atualmente entre os 23 cursos de graduação atendidos pelo ICB estão Ciências Biológicas
(Licenciatura e Bacharelado), Ciências Biológicas Noturno (Licenciatura) e Ciências Biológicas
à Distância (Licenciatura), em números de 2015 são cerca de 4 mil alunos, envolvidos nessa
nova formação/profissão. Com esses números, podemos observar que o ICB vem cumprindo
assim seu objetivo inicial de formar especialistas e professores na área de ciências biológicas.
O crescimento do ensino no ICB é uma realidade que extrapolou o que se previa no momento
da sua criação.
O problema do espaço para um curso de graduação próprio e a demanda crescente pelo
ciclo básico realizada pela expansão dos cursos de graduação da UFMG, fez com que cada
vez mais se instalasse uma ideia de conflito do centro de pesquisa versus central de aulas. Não
era possível expandir o ensino e sacrificar a área de laboratórios, pois mais do que espaço de
pesquisas, eles eram espaços de práticas e isso é inegociável pela história do ICB.
A última expansão institucional da graduação, se deu com o Programa de Apoio ao Plano de
Reestruturação e Expansão das Universidades Federais– REUNI. (Brasil, 2007) Esse programa
apresenta metas quantitativas (como a ampliação do acesso às universidades públicas federais
com o aumento do número de matrículas e de cursos e abertura de concursos para docentes e
técnico-administrativos), além de metas qualitativas (como a flexibilização curricular, a renovação
de práticas pedagógicas e o uso de tecnologias de apoio à aprendizagem) para a expansão
do ensino superior nas Instituições Federais de Ensino Superior (IFES). Para cumpri-las foi
preciso: expandir o número de vagas e de cursos; apostar na flexibilidade e interdisciplinaridade;

foco, Juiz de Fora, v. 22, n. 2, p. 145-166, 2017.

88
diversificar as modalidades de graduação; articular a graduação com a pós-graduação; e ter
maior interface com a educação básica. (Coelho, 2014)
Muitas unidades da UFMG apresentaram propostas de criar novos cursos e para atender
ao aumento de estudantes na Universidade. O ICB não apresentou proposta de curso novo, mas
sim a expansão dos já existentes cursos de bacharelado e licenciatura em Ciências Biológicas,
com a inclusão da modalidade de ensino a distância, para a formação de professores. Além da
expansão de vagas, passou a receber mais alunos para o ciclo básico, vindo de outras escolas
que propuseram a expansão de vagas via criação de novos cursos.
A expansão da área física tornou-se assim fundamental e a solução apresentada pela UFMG
foi a criação dos Centros de Atividades Didáticas (CAD), vinculado à Pró- Reitoria de Graduação,
de uso comum a toda a universidade, com salas de variados tamanhos devidamente equipadas
e adequadas para o emprego de novas metodologias de ensino. O CAD 1 construído em frente
ao prédio do ICB, embora de uso comum, favoreceu a ocupação mais racional de espaços no
Instituto.

Pós-graduação como meio de desenvolvimento científico


O Reuni possibilitou a expansão do ensino da graduação e também da pós-graduação,
tendo sido criados dois cursos de mestrado profissional, em Microbiologia aplicada e Ensino
de Biologia em Rede Nacional-PROFBIO, abrangendo todas as subáreas das ciências biológicas:
biomédica, biotecnologia e ambiental. Na modalidade lato sensu surgiram as especializações em:
Farmacologia, Gerenciamento de Recursos hídricos, Microbiologia Aplicada, Neurociências
e suas fronteiras. Desde 2003, o ICB tem um Programa de Pós-graduação Interunidades no
campo da Bioinformática, reunindo os departamentos de Bioquímica e Imunologia e de Ciências
da Informação do ICEX. Ao todo são cinco departamentos envolvidos em três unidades: ICB,
ICEX e Escola de Engenharia, mas está situado no departamento de Bioquímica que concentra
o maior número de docentes do curso. Bioinformática foi considerada na ocasião como uma
área estratégica em projetos multidisciplinares.
O ensino no ICB, se destaca para além do ciclo básico e do curso de Ciências Biológicas, pois
tem uma das pós-graduações mais vigorosas do país, especialmente devido aos seus 12 programas de
pós-graduação strictu senso, oferecendo cursos de mestrado e doutorado. Desse total 92% estão acima do
conceito 5 de avaliação da CAPES, com destaque para 8 deles que apresentam os níveis máximos de 6 e 7.
O vigor da pós-graduação se explica pelos antecedentes da própria criação do ICB, que se
pode considerar como fruto do que aconteceu nos anos de 1950 e 1960, quando começaram os
investimentos da Fundação Rockefeller, aliado a criação da CAPES e CNPq, impulsionando a
pesquisa, e incentivando alunos a permanecer nesse campo depois da graduação. Um dos objetivos,
inicialmente, era possibilitar a formação do quadro de docentes para atender as demandas por
pesquisadores e expansão do ensino superior no país. Antes mesmo de haver pós-graduação
formal no país, em 1954, a CAPES, credenciou o curso de Bioquímica, na Faculdade de Medicina,
como um centro de excelência, onde docentes de outras universidades poderiam estagiar para
aprofundar seus conhecimentos em bioquímica. E de fato, para aqui vieram professores de

89
Foto 12- Foto do muitos estados brasileiros e mesmo de outros países da América Latina. (Santos,
Centros de Atividades
História do Departamento de Bioquímica, avulso). Assim, a cátedra de Bioquímica
Didáticas (CAD) 1
da Faculdade de Medicina, antes da Reforma de 1968, já abrigava professores de
Fonte: UFMG
CEDECOM; Foto: Foca outros cursos. Atraídos pela possibilidade de se pós-graduarem, vieram professores
Lisboa. das faculdades de Farmácia, Veterinária, Filosofia e os de Química do Colégio
Universitário, dentre outros.
Os estágios fora do país foram fundamentais para o desenvolvimento da
Bioquímica, pois ao retornarem dos EUA, esses pesquisadores naturalmente foram
ocupando postos na Universidade. Inicialmente como assistentes do catedrático
e depois como professores do departamento. Ênio Vieira fala do pacto que esses
pesquisadores fizeram para não se dispersar e embora muitos tenham recebido
convites de outras universidades, permaneceram na UFMG.
Outro acordo que havia era o de não nos dispersarmos. Isto porque recebemos ofertas
para ir para Florianópolis ser professor, porque naquela época, diversas faculdades
de medicina foram fundadas. Os diretores dessas faculdades vinham aqui buscar
professores de Bioquímica (…)
Nós nos revezávamos dando aulas nessas faculdades. Geralmente, ficávamos um mês.
Fiquei um mês em Florianópolis. Não fui para os outros lugares porque minhas filhas
eram novas. Não quis sair muito. Em todos os locais, recebíamos convites para ficarmos
lá. Mas nós tínhamos um compromisso naquele grupo do Prof. Baeta Vianna de não
nos dispersarmos, para que se formasse um núcleo realmente forte. (Vieira, 2015)

90
Quando a Lei 5540, de 28 de novembro de 1968, instituiu o pós-graduação e o regime
de dedicação exclusiva, o Departamento de Bioquímica estava um passo à frente dos outros
departamentos por já ter um programa de Pós-Graduação. Essa primeira iniciativa em formação
na pós-graduação serviu então para qualificar não somente os seus professores, como os de
outros departamentos, que desenvolveram dissertações e teses em Bioquímica, aproveitando a
facilidade da oferta de um doutorado na própria casa. O curso de pós-graduação em Bioquímica
foi aberto em 1967, a primeira tese defendida em 1970, e o credenciamento pelo Conselho Federal
de Educação, aconteceu em 1971. Juntamente com o curso de Parasitologia logo se tornou um
Centro Regional de Pós-graduação. Em 1984, quando a maioria dos cursos universitários não
havia sequer conseguido criar uma pós-graduação, o departamento de bioquímica já tinha
aprovado 102 teses, das quais 25 de doutorado e 77 de mestrado. (Arquivo Institucional Secretaria
Geral do ICB, Caixa 2, pasta 8)
A importância dessa pós-graduação pioneira pode ser medida no quadro de egressos
publicado em 1984.
Professores de Instituição de ensino:
a) UFMG - 38
b) Outras Universidades do estado-17
c) Universidades de outros estados-10
d) De outros países- 3
Indústria- 5
Fundação de pesquisas-10
Mestre em processo de doutoramento- 6

Dentre os 38 professores do ICB, contudo, não estão só professores da Bioquímica, mas


de outros departamentos, que viram nesse curso o caminho mais viável para a pós-graduação,
enquanto não havia um programa em sua área de atuação. Com o tempo, outros departamentos
começaram a organizar seus programas de pós-graduação. A existência do ICB favoreceu tal
organização em termos institucionais. O funcionamento do curso de pós-graduação com um
grupo qualificado e cobiçado por outras universidades, num ambiente onde havia condições
básicas de fazer ciência era inspirador porque, segundo Angelo Machado, “aglutinou coisa,
equipamento...tudo. O Marcos Mares Guia que foi um gênio que teve lá, não é? O Carlos Diniz
e... as outras pós-graduações foram aparecendo”. (Machado, 2015)
Em 1969, foi criado o curso de mestrado em Parasitologia e em 1970, o de Microbiologia.
Esses mestrados visavam formar profissionais qualificados para as atividades didáticas. A
criação desses primeiros cursos estimulou a criação de outros e mesmo em 1970, começaram
a ser gestados as pós-graduações de Morfologia, Fisiologia e Zoologia. No documento que
apresenta os critérios de seleção dos 3 primeiros cursos de pós, verifica-se que o esforço pela
qualificação era enorme.
No curso de Bioquímica, os candidatos não aprovados no processo de seleção tinham a
opção de cursar em um semestre, as disciplinas Métodos de Química de Proteínas e Enzimas ou
Química Fisiológica para receber o título de especialista. Na Microbiologia, os candidatos deveriam
fazer curso intensivo de atualização e revisão de Métodos de Microbiologia e Imunologia, nos
91
meses de janeiro e fevereiro, no Instituto de Microbiologia da UFRJ. Os que concluíam o curso
com bom aproveitamento, seguiam para o mestrado. Na Parasitologia, era grande o número
de disciplinas para preparar os novos mestres, na linguagem, na bibliografia e nas práticas
laboratoriais modernas. Especialmente para a Prática, o curso de Parasitologia contava com a
parceria do Centro de Pesquisas René Rachou (Arquivo Institucional Secretaria Geral do ICB,
Caixa 22). Com esses procedimentos, os candidatos foram-se qualificando para novos processos
de seleção e ao mesmo tempo retornando para as salas de aula mais preparados.
A pós-graduação tornou-se uma marca pioneira do ICB e comum na vida dos professores,
novos cursos foram criados e outros fora de Minas e do Brasil, foram buscados. A pós-graduação
colocava o pesquisador/professor/aluno em contato com novas metodologias, nova bibliografia
e conhecimentos. Uma estrutura que favoreceu o crescimento da Pós-graduação no ICB, foi a
existência de uma biblioteca exclusiva, desde a década de 1970. A luta por uma biblioteca que
disponibilizasse livremente aos estudantes as modernas publicações sobre a biomedicina e ciências
biológicas, foi uma conquista do ICB. De 1979 a 2013, a biblioteca funcionou no 4º andar do
ICB. Com a abertura de novos cursos de pós-graduação, seja lato ou strictu sensu, aumentava
a pressão pela aquisição de livros e assinatura de novos periódicos. Essa pressão existia, pois
todos estavam conscientes que a pós-graduação aumentava a barganha dos departamentos por
todos os serviços disponíveis no Instituto.
A biblioteca é apenas um dos muitos exemplos de estruturas que se constituíram
especificamente para o ICB e para o desenvolvimento de suas atividades acadêmicas.
Em 1968, para um espaço provisório, vieram professores, equipamentos, livros, funcionários,
alunos de diversos cursos e sonhos de integração. A construção do Instituto, precisou de um
novo prédio novos equipamentos, novas parcerias, novas estruturas administrativas, recursos
financeiros variados, professores, funcionários e alunos mais engajados no ensino, pesquisa e
extensão. Nos 50 anos aconteceram perdas importantes, mas avanços significativos a partir do
interesse na pesquisa e na qualidade de ensino. Resultados previstos e imprevistos; desejados
e indesejados. A propagada disputa entre ensino e pesquisa, gerou bons frutos sempre que
foram colocadas lado a lado, especialmente se consideramos a pós-graduação, e um projeto de
expansão constante das suas condições institucionais.

Considerações finais:
É comum ouvir por parte de alguns alunos, funcionários e até mesmo professores do ICB
que a pesquisa e a pós-graduação desviavam os professores da tarefa magna que é o ensino. Por
outro lado, desde o seu início, as pessoas que estavam trabalhando pela criação do instituto,
reconheciam a importância do ensino de graduação. Conciliar ensino e pesquisa era a única
solução para o sucesso do ICB, nascido com a missão de se equilibrar entre o ensino, pesquisa e
a pós-graduação: ser um centro de pesquisas e uma central de aulas. A frente dessa empreitada,
estavam professores influenciados pelo modelo das grandes universidades americanas. O desejo
de implantar novas metodologias de ensino e desenvolver pesquisa básica voltada para os
problemas do país, impulsionou esses professores que começaram a planejar um lugar onde se

92
pudesse fazer ciência, de forma diferente da academia recheada de catedráticos, que acomodados
no seu poder vitalício e incontestável, pouco se importavam com a produção do conhecimento.
Esse grupo pioneiro tinha certeza que a produção do conhecimento científico era possível.
O desenvolvimento científico, para eles, começava na sala de aula se ela deixasse de ser o lugar
da mera repetição das aulas expositivas. Um documento avulso encontrado em meio àqueles
guardados por Carlos Diniz, último catedrático de Bioquímica da Faculdade de Medicina,
exemplifica essa mudança:
“Não nos sentimos no Curso de Bioquímica como meros assistidores de aula. Pelo contrário,
fizemos um curso na base da nossa própria iniciativa, o que, sem dúvida, demonstra a
confiança de que fomos alvo, por parte dos professores. (...) O que sentimos ao passar pelo
Laboratório de Bioquímica foi que ali é um lugar de trabalho muito sério. Para nós foi um
privilégio trabalhar sob a orientação deste brilhante corpo de jovens professores liderados
pelo prof. Carlos Diniz” (Alunos de 1965- documento avulso)
Esse agradecimento, feito em 1965, três anos antes da criação do ICB e dois anos antes da
criação da Pós-graduação, mostra como a mudança já vinha se processando e como isso era do
agrado não apenas de professores, mas também de alunos. Se a proposta de um ensino prático
e integrado desse certo não só para um curso de bioquímica, mas para todos os alunos do ICB,
seria mais fácil desenvolver o gosto pelo fazer científico, fundamental para a continuação das
pesquisas e a consolidação do Instituto como um lugar privilegiado da produção do conhecimento
biomédico. A busca por uma boa proposta para o ensino integrado que pudesse atender ao
alunado diversificado que chegava ao ICB, foi e ainda é debatida, discutida, rechaçada, elogiada
e segue como uma meta a ser alcançada, visto que as disciplinas básicas de todos os cursos da
área de saúde continuam acontecendo no ICB. Se as críticas e as novas propostas de ensino
básico integrado continuam no ICB é sinal que essa é uma característica importante, incorporada
pela sua comunidade. A sobrevivência da vocação cientifica do ICB não depende apenas do seu
curso de graduação – Ciências Biológicas, pois é normal ex-alunos dos cursos de Enfermagem,
Nutrição, Medicina, Fonoaudiologia, Farmácia, entre outros, voltarem ao ICB em busca da
pós-graduação. A vitalidade da sua pós-graduação e da sua produção científica depende disso.
Ao reunir as disciplinas básicas de todos e para todos os cursos da área biomédica, uma das
consequências foi o laboratório ganhar papel de destaque no ensino, a despeito das frequentes
reclamações sobre a necessidade de novos equipamentos e de mais investimento em tecnologia
para modernizar as estruturas existentes. Os jovens professores souberam como ninguém se
aproveitar da oportunidade de trabalhar em um ambiente integrado a com diversos pesquisadores,
outrora espalhados por vários outros cursos. O ICB era a oportunidade de partilhar cérebros,
equipamentos e conhecimentos. O ICB ampliou a clientela dos que se encantaram com a pesquisa
de laboratório. A pesquisa, com participação crescente de alunos de níveis diferentes, viabilizou
algo impossível no início do século XX, que era fazer pesquisa na universidade.
O ICB hoje é um lugar privilegiado para a pesquisa biomédica, não apenas na UFMG, mas
no Brasil. Se no início do século XX, para se fazer ciência em Belo Horizonte era preciso buscar
um curso profissional como medicina e amparo no acervo da biblioteca e nos pesquisadores do
93
Instituto Ezequiel Dias, hoje o ICB é referência e considerado um lugar de pesquisa, por excelência.
Os temas de pesquisa predominante, sabiamente, continuaram em torno das doenças que já
vinham sendo pesquisadas no Instituto Ezequiel Dias e no Centro de Pesquisas René Rachou,
mas ganharam relevo com a integração de outras áreas como a bioquímica, a morfologia, a
fisiologia, etc. O prédio do ICB de estrutura flexível, nos últimos 50 anos foi se transformando e
se adaptando aos novos grupos que foram se formando para além das estruturas departamentais.
A influência americana, presente desde os anos 1950, contribuiu para antecipar políticas
como a lei 5540 de 1968, a chamada Reforma Universitária. No ICB criaram-se as condições
para que ensino, pesquisa e extensão se articulassem e o crescimento das pós-graduações foi
uma das principais consequências. Isso ajuda a explicar os índices altos de produção científica,
as patentes, os financiamentos vultosos, os pesquisadores estrangeiros que foram atraídos e
o reconhecimento nacional e internacional. Tudo isso funcionando dentro das estruturas de
órgãos colegiados, onde funcionários, alunos e professores podem participar das decisões sobre
o Ensino (graduação e pós-graduação), a pesquisa, e a extensão.
O ICB como lugar de fazer pesquisa, não seria o sonhado centro de pesquisa de Schreiber e
Pellegrino, nem um centro de aulas como queriam outros. O ensino colou-se à pesquisa, e a pós-
graduação tornou-se um horizonte possível e desejado. Não foi lugar de cátedras e nem mesmo,
do reinado exclusivo dos departamentos; pois ao lado deles, estruturas interdepartamentais
foram criadas, a partilha de espaços gerou integração entre pesquisadores e recursos materiais.
Financiamentos foram partilhados. O legado dos pioneiros segue assim por outras mãos em
outras conjunturas, mas segue produzindo novos conhecimentos e consolidando uma cultura
científica peculiar e facilmente reconhecida. É um lugar de se fazer ciência!
A criação do ICB foi sonhada, planejada e implantada por professores que assumiram a
tarefa de introduzir um instituto central na estrutura universitária. Funcionários e alunos não
participaram das primeiras discussões, mas é importante ressaltar que a construção do ICB
não se deu sem que toda a comunidade se engajasse no sucesso da proposta. Como bem disse
o então reitor Tomaz Aroldo da Mota Santos, em um discurso no Conselho Universitário: “É
a comunidade universitária que dá vida à instituição, enquanto enche de vozes, de movimento e
desejos, os espaços imaginados e concretizados pelo esforço de inúmeras gerações. (Tomaz Aroldo
Mota Santos. Discurso proferido no Conselho Universitário pelos 70 anos da UFMG, 11 set. 1977)

94
REFERÊNCIAS:

Fontes
UFMG. Arquivo Institucional do ICB.
UFMG, Arquivo Institucional da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas.

Imagens
UFMG, Faculdade de Letras. Centro de Memória. http://www.letras.ufmg.br/memoria/
UFMG , CEDECOM.

Entrevistas
CISALPINO, Eduardo. Depoimento [dezembro 2014] Entrevistadoras: Rita de Cássia Marques e
Ana Carolina Vimieiro Gomes. Belo Horizonte, 01 de dezembro de 2014. Entrevista concedida
ao projeto Memória e História Científica do ICB.
GODINHO, Hugo Pereira. Depoimento [abril de 2015]. Entrevistadoras: Rita de Cássia Marques
e Ana Carolina Vimieiro Gomes. Belo Horizonte, 03 de abril de 2015. Entrevista concedida ao
projeto Memória e História Científica do ICB.
LIMA, Maria Cecilia de Souza. Depoimento [julho 2016] Entrevistadoras: Rita de Cássia Marques
e Jéssica Bley Silva. Belo Horizonte, 12 de julho de 2016. Entrevista concedida ao projeto Memória
e História Científica do ICB.
MACHADO, Angelo Barbosa Monteiro. Depoimento [julho de 2015]. Entrevistadoras: Rita de
Cássia Marques, Ana Carolina Vimeiro Gomes. Belo Horizonte, 07 de janeiro de 2015. Entrevista
concedida ao projeto Memória e História Científica do ICB.
NEVES, David Pereira. Depoimento [julho 2015]. Entrevistadora: Ana Carolina Vimieiro Gomes.
Belo Horizonte, 09 de julho de 2015. Entrevista concedida ao projeto Memória e História
Científica do ICB.
NOGUEIRA, José Carlos. Depoimento [setembro de 2015]. Entrevistadoras: Ana Carolina
Vimieiro Gomes, Paloma Porto. Belo Horizonte, 18 de setembro de 2015. Entrevista concedida
ao projeto Memória e História Científica do ICB.
SANTOS, Darcy Ferreira. Depoimento [outubro de 2015]. Entrevistadora: Rita de Cássia Marques.
Belo Horizonte, 14 de outubro de 2015. Entrevista concedida ao projeto Memória e História
Científica do ICB.
SANTOS, Tomaz Aroldo da Mota. Depoimento [novembro de 2014]. Entrevistadoras: Rita de
Cássia Marques e Ana Carolina Vimieiro Gomes. Belo Horizonte, 26 de novembro de 2014.
Entrevista concedida ao projeto Memória e História Científica do ICB.

95
SOUZA, Edmar Chartone. Depoimento [outubro de 2015]. Entrevistadoras: Rita de Cássia
Marques e Anny Jackeline Torres Silveira. Belo Horizonte, 26 de outubro de 2015. Entrevista
concedida ao projeto Memória e História Científica do ICB.
VIEIRA, Ênio Cardillo. Depoimento [Abril de 2015]. Entrevistadoras: Rita de Cássia Marques
e Paloma Porto. Belo Horizonte, 14 de abril de 2015. Entrevista concedida ao projeto Memória
e História Científica do ICB.

96
BIBLIOGRAFIA

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de 2018, aprovou as Normas Gerais do Ensino de Graduação da UFMG.

98
Capítulo 3

99
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50
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Cultura Científica no âmbito do ICB: economia moral
e seus imperativos éticos

Marina Assis Fonseca

Ciência e Cultura
Quem passa pelo Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG) aprende sobre ciências biológicas, seus conteúdos e, principalmente, sobre suas
práticas. Na UFMG de hoje, progressivamente, valoriza-se percursos abertos, mais autorais, que
permitam o exercício de liberdade e autonomia com responsabilidade para inovar, mantendo
uma tradicional e reconhecida qualidade. Os estudantes circulam por Escolas diversas e podem
perceber o que lhes é comum, diverso e peculiar. Conscientemente ou não, forjam-se pessoal
e profissionalmente embebidos na cultura de cada destas escolas, em suas zonas de conflitos e
convergências.
As diferenças entre as diversas Escolas se dão por objetos e objetivos que congregam
pessoas, recursos materiais e imateriais, por tradições epistêmicas, por emaranhados de episódios
vivenciados. Diferenças que se constituem a partir daquilo que tais Escolas escolheram ser,
coletiva e institucionalmente, ou por aquilo que a sociedade e contingências, internas e externas,
delas fizeram.
Podemos dizer que em toda a universidade e, especialmente, no ICB, vivencia-se aspectos
de uma cultura científica, cuja concepção varia historicamente. O exame de permanências e
transformações em dada cultura científica pode ajudar a compreender a relação da comunidade
científica com a sociedade. Entendemos que seja importante esboçar aspectos de uma cultura
científica que emerge do Instituto objeto desta construção histórica porque “as visões do papel
da ciência na sociedade vão muito além do avanço de uma determinada forma de conhecimento
e seus eventuais ou promissores frutos. Elas envolvem valores, posturas e práticas a difundir e
revelam expectativas de avanço social e cultural”. (Fonseca e Oliveira 2015).
Não tratamos da cultura científica como um conceito unívoco, ou seja, como se ela fosse
igual em toda parte e em qualquer época. Ao contrário, entendemos que aspectos de uma
101
cultura científica que se seja delineada no Instituto de Ciências Biológicas possa contribuir para
compor um repertório de noções de cultura científica. Ao buscarmos delinear dada concepção
de cultura científica, podemos enfatizar aspectos de sua dimensão histórica, envolvendo certos
cientistas e as influências que provavelmente exerceram na construção de visões sobre ciências,
nas ciências desenvolvidas no ICB, especificamente, e o papel que desempenham na sociedade.
A ciência e, possivelmente, de forma mais direta a biologia, tornou-se um elemento
essencial da construção de nós mesmos, interpretando por sua própria via, temas anteriormente
deixados a cargo das religiões, da ética e da filosofia. Na medida em que o poder das explicações
biológicas crescem, o mesmo acontece com sua influência na cultura. Para além de determinar
as tecnologias do nosso tempo e influenciar nas construções da nossa visão de mundo, a ciência
tem consequências éticas e efeitos amplos em como organizamos a sociedade e definimos a
natureza humana. As ciências da vida assumiram uma complexidade política e cultural que
tem uma dimensão moral e requer atenção. (Tauber, 1999).

Do Ethos Científico às Economias Morais


O termo cultura científica favorece o reconhecimento de que a ciência envolve um conjunto
de discursos, instituições, práticas, artefatos, técnicas, crenças, posturas, valores e formas de
vivenciá-los (ethos), de organizar os grupos e suas relações. A noção de cultura sugere a existência
de uma ordem coletiva invisível constituída na dinâmica das interações, que organiza um
conjunto de práticas. Sem dúvida alguma, a percepção da dinâmica cultural e de seus processos
de ressignificação ajuda a entender o empreendimento científico, mas há que se reconhecer
também que sua abrangência traz consigo certa imprecisão.
Isto posto, coloca-se a questão de como a cultura científica pode ser discutida. Uma das
possibilidades é por meio da investigação de valores associados à mesma. E a relação entre
valores e ciência se apresenta, sobretudo, por meio de duas categorias centrais, que são o ethos
científico, mais tradicional e genérico, e o conceito de economias morais, mais contemporâneo
e situado, histórica e institucionalmente.
Robert Merton como sociólogo, procurou conceituar o ethos científico, delineando seus
imperativos. A escolha desse autor como uma das referências de ethos científico se deve à
imagem com a qual grande parte da comunidade científica de fato associou ou tentou associar
seu trabalho, como parte do acordo tácito que Merton identificou em 1942. Essa é uma imagem
que reflete e reforça certa autorrepresentação entre a comunidade científica por meio de valores
gerais, supostamente prescritos para os que produzem ciência.
Ziman, pesquisador veterano no campo da física, chama de “ciência acadêmica”1 àquela
associada ao ethos mertoniano, e trata da constituição de uma “ciência pós-acadêmica”. Ele
1 Sucintamente, o autor descreve a ciência acadêmica como uma cultura que pode ser identificada na descrição
de um ethos mertoniano: comunialismo, universalismo, desinteresse, originalidade, ceticismo organizado. Na
ciência acadêmica é imperativo que todo o conhecimento produzido seja tornado público. Segundo o ethos dessa
ciência, as descobertas científicas decorrem da colaboração de várias pessoas e devem estar disponíveis a todos, o
que define a norma comunialismo. O universalismo se dá pela norma de que qualquer pessoa pode, em princípio,
fazer ciência, se aproximar dos campos do conhecimento, discutir e debater questões científicas, independente-

102
usa o acrônimo PLACE (talvez no sentido do espaço que o cientista precisa conquistar) em
contraposição, ou complementarmente, ao CUDOS (KUDOS que em inglês significa glória,
prestígio)2, acrônimo pelo qual o trabalho de Merton pode ser rapidamente reconhecido. O
acrônimo CUDOS, na releitura de Ziman, sintetiza imperativos mertonianos: comunialismo,
universalismo, desinteresse, originalidade, ceticismo organizado; e PLACE os que ele apresenta,
tencionando em relação aos anteriores: proprietário, local, autoritário, comissionado, especialista 3.
Portanto, da idealização de Merton em 1942, caminhou-se para a Real Science de John
Ziman que, em 2000, por meio do livro assim intitulado, buscou atualizar o debate, identificando
permanências, continuidades ou reconfigurações que os imperativos do ethos científico ganharam
no contexto contemporâneo.
Aportes importantes, que podem dialogar e subsidiar alegações mais generalistas das
configurações primeiras ou mais contemporâneas do ethos vem do conceito de economias
morais, cujos estudos buscam entender dinâmicas mais locais de valores que são constituídos
institucionalmente.
As economias morais seriam sistemas de valores compartilhados, tradições e convenções,
sobre formas de fazer, ser, conhecer e trocar que se constituem como expressões das comunidades
morais que as sustentam (Daston, 1995; Atkinson-Grosjean, e Fairley, 2009).
Três pontos definem a economia moral: ênfase na comunidade, ou seja, a discussão relativa
a valores de grupos, mais do que de estruturas sociais ou de instituições; o adjetivo moral ser
descritivo e não avaliativo; o pronome economia significar um arranjo funcional e ordenado
de interação e troca baseados em valores comuns, não necessariamente monetários. Em outras
palavras, a economia moral relaciona-se com as experiências, a tradições e práticas em comum
que definem o que somos e o entendimento comum do que conta em dado grupo. Não existe
uma visão unívoca de economia moral, baseada em uma teoria social, ética ou política que
governe e organize as disciplinas científicas. Neste sentido, a economia moral é provisória e
historicamente situada. (Atkinson-Grosjean, e Fairley, 2009).
Neste capítulo caminharemos tangenciando ambos os conceitos e estudos. Ou seja, lançamos
mão dos referenciais teóricos que nos apoiaram a nos aproximarmos dos dados das entrevistas
deste projeto, instrumentalizando-nos com categorias iniciais de análise: os imperativos dos
ethos de Merton (1942) e de Ziman (2000). E trazemos o referencial da economia moral para
deixar marcada a condição situada e mutável de cultura científica, que propomos para seguir
em busca da identificação de alguns elementos do ethos e de economias morais, que possam
mente de seu capital cultural. Na descrição da ciência acadêmica também se inclui a ideia de que o cientista faz
ciência de forma desinteressada, sem necessariamente vinculá-la a uma aplicação, mas intencionando a busca
pelo conhecimento. Na ciência acadêmica, a originalidade dos cientistas se refere à sua capacidade de contribuir
com alguma ideia nova, dando uma contribuição para o trabalho que, apesar de coletivo, necessita de indivíduos
que possam vislumbrar partes que faltem no escopo do conhecimento, indivíduos capazes de ir um pouco além
para criar algo novo. O ceticismo organizado se refere à ideia de que deve haver críticas entre os pares e que o
conhecimento científico é aberto a todos, sendo a ênfase na análise do argumento e não na pessoa que o anuncia.
2 Esta interpretação sobre o jogo de palavras se encontra no artigo “O Intelectual Público, a Ética Republicana
e a Fratura do Éthos da Ciência”, do professor Ivan Domingues.
3 ZIMAN, 2000, p. 78-79. Termos em inglês: CUDOS (Communism, Universalism, Disinteretedness, Originality,
Organized Skepticism); PLACE (Proprietary, Local, Authoritarian, Commissioned, Expert).

103
ser representativos de um cultura científica própria do ICB; além de identificarmos conexões
com dinâmicas e comunidades afins aos ICB, ainda que específicas.

Cultura Científica no ICB


Reconstruir o passado a partir de diferentes pontos de vista pode trazer insights para as
explicações históricas (Krathwohl, 1993). Admitimos a complexidade das causas dos fenômenos
sociais, sobretudo no caso de valores. Intencionamos com esta pesquisa contribuir com um debate
que consideramos importante, por meio de um viés histórico, e não esgotar a possibilidade de
descrição histórica do tema, o que seria, de acordo com princípios da nova história, simplesmente
impossível. Concordamos com a impossibilidade da objetividade na história. Nossa análise foi
marcada por nosso ponto de vista particular, por convenções, esquemas e estereótipos, que
tiveram influência significativa também da cultura das ciências naturais, com a qual estamos
envolvidos.
Julgamos importante esclarecer que o foco das entrevistas foi na história científica do ICB.
A explicitação de aspectos ligados ao ethos científico, seja nos âmbitos da pesquisa, do ensino
e da extensão ficaram a critério dos entrevistados. A investigação foi conduzida de modo a
permitir identificar elementos do ethos científico, que compõe facetas da cultura científica do
ICB, nas expressões de memórias sobre práticas científicas e profissionais de alguns de seus
principais pesquisadores.
A seguir, apresentaremos e discutiremos duas categorias que emergiram na análise das
entrevistas: senso de oportunidade para viabilização de pesquisas e legados acadêmicos após
despertar de vocações. Buscaremos delinear o que entendemos que seja cada um destes elementos
do ethos, trazendo breves definições seguidas de exemplos e, quando adequado, discutir como
se aproximam, se distanciam ou se mesclam com elementos do ethos de Robert Merton e John
Ziman reconfigurando-se em meio às contingências das economias morais em curso.
Ao tratarmos da cultura científica do ICB, escolhemos falar destes dois imperativos,
pois foram os mais aparentes nas entrevistas: o senso de oportunidade, necessário para o
desenvolvimento da pesquisa; e a ideia dos legados, a fim de formar pessoas que dão continuidade
a empreendimentos científicos, a partir de vocações despertadas para tal.
Diferentemente das escolas de enfermagem, farmácia ou odontologia, por exemplo, nas
quais se vê os sujeitos se produzindo como profissionais, o ICB é o lugar dos pesquisadores,
que ensinam e fazem ciência. Parece que, sendo a produção do conhecimento científico um
elemento central da história do ICB, tornou-se necessário viabilizar materialmente os recursos
(mobilizados, inclusive, junto a setores privados) e formar cientistas, cujas vocações fossem
despertadas e cultivadas por pesquisadores veteranos.
Apresentaremos esses dois aspectos, identificados como imperativos no contexto desta
investigação histórica, explicitando como ambos se relacionam às ações para se criar e se manter
a pesquisa em desenvolvimento, sendo o primeiro relativo propriamente a materialidade do
fazer científico e o segundo à intelectualidade.

104
Obviamente, dentro deste universo da pesquisa científica, existem várias nuances, que se
identificam com aspectos diferentes, sejam eles no âmbito extensionista, do ensino e até mesmo
filosófico. A cultura da produção da ciência tem suas facetas, como formas diferentes de se fazer
ensino, pesquisa, extensão e política e alguns destes aspectos serão sinalizados oportunamente.

Senso de oportunidade para viabilização de pesquisas


A primeira categoria que entendemos compor o ethos científico no âmbito da cultura
científica do ICB é o que chamamos de “senso de oportunidade”. Este se relaciona à mobilização
de recursos, principalmente, materiais, convergentes com um tema de pesquisa, escolhido, então,
a partir da percepção do que seria possível fazer e potencializar na condição e com os recursos
materiais e intelectuais dos quais se dispunha em dadas circunstâncias, tendo em perspectiva
campos de conhecimento, além de potencialidades locais.
Para tratar do senso de oportunidade, chamamos a fala do professor Hugo Pereira Godinho,
em entrevista concedida em 2015:
Como não tinha mais a fazenda da Escola de Veterinária [risos], meu interesse científico pela
biologia da reprodução de peixes nasceu, e se estende até os dias de hoje, meio que por insistência
do colega e depois aluno de pós-graduação, Professor Marcos Silva, ao final da década de 1970.
[...] Conduzimos seu trabalho de doutorado utilizando tilápias do lago da Reitoria, no campus,
praticamente sem custos no que se refere ao material biológico. Marcos utilizou técnicas morfológicas
avançadas, como microscopia eletrônica de transmissão com o novo microscópio eletrônico já então
instalado no Departamento de Morfologia... (Godinho, 2015)

105
Foto 1- Centro de
Microscopia Eletrônica
Fonte: UFMG,
CEDECOM,
Acervo Foca Lisboa
Na foto: Jesus Manoel
Francisco, Kimulpe
Honorato Sampaio,
Elizana Santana de
Moraes e Douglas
Rodrigues Miquita.

106
Tal capacidade de identificar oportunidades nas quais a pesquisa pudesse se desenrolar
também aparece nas palavras do professor Sérgio Danilo Pena, em trecho da entrevista concedida
em 2016:
Então você tem que ser flexível, e a pesquisa vai evoluir por seleção natural, para onde ela pode,
para onde os recursos podem... Por exemplo, quando eu cheguei aqui, a minha pesquisa, antes de vir
para o Brasil, era principalmente em biologia celular [...]. E aqui no Brasil, então, um dia não tinha
célula, outro dia não tinha isótopo, então ficou claro logo que aquilo ali não ia... o Brasil não estava
pronto pra gente trabalhando com pesquisa em biologia celular. Então eu comecei a trabalhar com
DNA, que, embora o DNA possa parecer complexo, o DNA é na verdade uma molécula bastante
simples porque ela é monótona [...] e a parte pragmática da coisa é o seguinte: se eu vou trabalhar
com um modelo, porque não trabalhar com um parasita que tem relevância médica? [...] você vai
trabalhar com um modelo, trabalha com o modelo que esteja disponível, você não precisa montar
um ciclo de vida e ficar perdendo tempo com isso. E então, eu acho que a nossa pesquisa de uma
certa maneira sempre foi oportunista nesse aspecto de identificar os caminhos pelos quais você
podia se dirigir e onde você pode inovar, não é!? (Sérgio Pena, 2016)

Desta fala, podemos explorar também um aspecto sobre o qual vários pesquisadores
tratam e que marca toda a história do ICB em uma perspectiva mais ampla, que é o fato das
pesquisas, por inúmeros fatores discutidos mais detalhadamente em outros capítulos, terem
privilegiado doenças parasitárias, sendo alguns destes temas desenvolvidos prioritariamente
no Brasil, a exemplo da Esquistossomose ou da Doença de Chagas. Neste sentido, Sérgio Pena
(2016), complementa:
Nós estávamos trabalhando com a genética de parasitos e trabalhar com parasitas que são de alta
prevalência no Brasil, te dá uma espécie de reserva de mercado. Por exemplo, se a gente estava
trabalhando com a genética com aspectos moleculares da estrutura populacional de T. cruzi, não
tinha uma competição tão grande dos americanos ou dos europeus com relação, porque cruzi é
uma coisa que é hipertrofiada no Brasil. [...] Porque se você for fazer a pesquisa que você quer
você pode não conseguir fazer nada. Então fazendo a que você pode, você pode chegar a resultados
inovadores e muito úteis. (Pena, 2016).

O senso de oportunidade parece se aproximar de elementos do imperativo problemas


locais, apresentado por Ziman (2000) em oposição aos imperativos do universalismo e da
busca desinteressada pelo conhecimento de Merton (1942). Podemos interpretar também a
conjugação dos imperativos citados no sentido de que, no intuito de contribuir com um campo
científico constituído universalmente, busca-se apoio para o qual se elege uma temática e um
operacionalidade local, como é o caso do uso dos parasitas prevalentes na localidade (e toda
a rede de sustentação dessa pesquisa) no desenvolvimento de aspectos da biologia molecular.
O senso de oportunidade se desenvolve também no sentido de, além de identificar
oportunidades, criá-las sob pena de que, caso não o fizessem, nenhuma pesquisa teria se
desenvolvido. Para tanto, os pesquisadores buscaram pesquisas financiáveis e estabeleceram

107
Figura 1: Ofício de
criação do Gide, 1969.
Fonte: UFMG, Arquivo
Institucional do ICB,
Caixa GIDE.

Scanned by CamScanner
108
parceria com alguns interessados em financiá-la, no caso, indústrias ligadas à produção de
medicamentos ou outras iniciativas de capital privado.
Nas entrevistas, que trataram da história científica do ICB, emergiu naturalmente, entre a
grande maioria dos investigados, bastante entusiasmo para se tratar de financiamentos privados
à ciência, o que denota uma convergência em relação elementos do ethos de uma ciência pós-
acadêmica (Ziman, 2000), especialmente seu aspecto comissionado (encomendado).
Esse é um aspecto evidente nas entrevistas de Jacques Robert Nicoli (2016), e de seu mentor
na pesquisa, Ênio Cardillo Vieira (2015), que juntos implementaram a gnotobiologia no Brasil:
... gnoto, em grego, é “conhecido”, “biologia do conhecido”. Que se eu tenho um animal sem germe,
se eu coloco nele uma bactéria ele não é mais sem germe, mas ele é gnotobiótico, eu sei o que é que
tem nele. (Vieira, 2015)

Segundo Nicoli (2016) implementação teve uma boa dose de investimento financeiro
próprio (ou desprendimento financeiro), obstinação e ousadia, até a estabilização de colônias
de camundongos e produção científica sobre o tema no Brasil:
Ênio tinha contato com o Dr. Julian Pleasants no laboratório do qual ele tinha feito um estágio.
O Pleasants, que era uma pessoa muito prestativa, se prontificou não somente em fornecer esses
animais, mas também em levar pessoalmente esses camundongos. [...] Com esses animais isentos
de germes, ou seja, sem microbiota associada, nós começamos a luta para manter a colônia,
tentando adaptar as técnicas da gnotobiologia às condições brasileiras. [...] Adaptar a criação dos
animais às condições existentes no Brasil não foi fácil. Perdemos várias vezes a colônia, tendo que
importar matrizes de novo, tudo isso inclusive ao custo do bolso do Ênio, que pagou tudo isso. [...]
Na bagagem de mão, foi só a primeira [apontando para a foto de Ênio com Julian Pleasants em
1979, quando trouxe os primeiros camundongos]. O período de adaptação foi muito longo e duro,
até que, em 1994 conseguimos estabilizar a colônia. (Nicoli, 2016)

Com colônias de camundongos estabilizadas e produção acadêmica suficientemente


reconhecida, o contato com as indústrias não tardou e começaram a trabalhar com a parte
mais aplicada, os probióticos:
Nós tivemos já vários contratos de pesquisas encomendadas com empresas, como a Merck S.A (Rio
de Janeiro, RJ), Christian Hansen Lab. (Dinamarca) e a Geyer Medicamentos (Porto Alegre, PR).
Atualmente nós temos um contrato com a Natura Cosméticos (São Paulo, SP). [...] Os contratos
com empresas foram muito importantes para sobrevida do laboratório em épocas onde os auxílios
governamentais (CNPq, FAPEMIG) eram escassos. Com este tipo de parceria, todo mundo fica
feliz [risos] (Nicoli, 2016).

Jacques Nicoli (2016) esclarece como se iniciou a relação com a indústria que guiou questões
específicas das pesquisas, dentro do espectro das possibilidades do campo por eles implementado:
Em relação às diversas empresas com as quais fechamos contratos de pesquisa encomendadas, foram
sempre elas que procuraram o nosso laboratório. De alguma maneira, elas ficaram sabendo da nossa

109
Foto 2- Biotério Central e Professor Ênio Cardillo Vieira a alimentar os ratos no laboratório.
Fonte: UFMG, CEDECOM, Fotos (MG9383) e Foca Lisboa (MG6295)

110
existência e do tipo de trabalho que estávamos desenvolvendo. Acredito que foi pela visibilidade das
nossas publicações que são na maioria em veículos de divulgação internacional, assim como pelas
nossas comunicações em eventos científicos nacionais e internacionais.  Foi assim que a primeira
que apareceu assim do nada foi a Merck S.A. em 1994... (Nicoli, 2016)

Um aspecto considerado muito relevante nesta relação é a flexibilidade e autonomia


proporcionadas por estas verbas, de natureza privada, que puderam ser usadas com menos
restrições e menos burocracias, comparativamente às verbas públicas:
Esse dinheiro de empresa, você faz o que quiser, exceto comprar champagne e caviar [risos] [...]
Além disso, por exemplo, se você tem um problema de conserto ou manutenção urgente, como um
aparelho que pifa, você tem esse dinheiro que salva a gente naquele momento. É um dinheiro muito
flexível, você pode fazer o que você quiser e isto ajuda muito... Esse é um dinheiro fantástico que
realmente salvou o laboratório em situações de emergência... A única cobrança solicitada por todos
os parceiros que nós tivemos na indústria, foi obter resultados... Isto nunca foi um problema, já que
publicamos muito e apresentamos todos os resultados em congressos o que é uma boa propaganda
para as indústrias... (Nicoli, 2016)

Na linha das pesquisas comissionadas, Jacques Nicoli lembra quando, em 1994 o diretor da
Merck encomenda uma pesquisa sobre um probiótico, o qual foi comercializado com a designação
Floratil , e relata quando eles (pesquisadores), “viram que dava muito dinheiro” para a indústria.
Neste sentido, Nicoli (2016) comenta sobre a pesquisa a partir de conhecimentos da medicina
popular e o caso específico do Floratil, que veio da contaminação por um fungo da Lichia do qual se
extraia um chá. A Merck comprou da Biocodex, indústria francesa, os direitos de comercialização
desta levedura para a América do Sul. Nicoli (2016) comenta sobre outras espécies, as quais
seriam potencialmente utilizáveis pela indústria e o fato de já existirem empresas brasileiras
interessadas na comercialização de uma levedura específica, já patenteada. E destaca o papel
da Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica (CTIT) da UFMG neste processo
das patentes porque “o pessoal da microbiologia não entende nada sobre registros”. (Nicoli, 2016)
Interpretamos que o ICB trilha um caminho comum entre instituições do campo da pesquisa
biomédica para as quais a associação próxima entre a ciência médica, as indústrias farmacêuticas
e as estruturas e pesquisadores da pesquisa universitária parece ser mais uma norma, do que uma
exceção. Atkinson-Grosjean e Fairley (2009) discutem o caso da economia moral da pesquisa
acadêmica médica norte-americana no período entre as Guerras, o qual contém elementos
que podem dialogar com o senso de oportunidade e a busca por pesquisas financiáveis que
encontramos no contexto do ICB.
Naquele contexto, na medida em que os cientistas trabalhavam com companhias de
medicamentos para encontrar padrões de regulação e melhoravam a qualidade dos produtos,
eles também encontraram meios de trabalhar em relação aos seus objetivos por um melhor
atendimento médico, tanto quanto conduzir diretamente os achados das suas pesquisas (Grosjean,
e Fairley, 2009).

111
Figura 2: O ICB e as patentes
Fonte: Boletim do ICB outubro de 1998.

112
Na entrevista de Paulo Marcos Zech Coelho, concedida em 2016, fica claro
como relações diretas com indústrias por parte de pesquisadores do ICB, vêm desde
antes de sua constituição, como foi o caso, por exemplo, das indústrias com o Grupo
Interdepartamental de Estudos sobre a Esquistossomose (GIDE).
Então o Dr. José Pellegrino com essa capacidade de conseguir recursos através de
projetos, da Organização Mundial de Saúde e outras Agências de Fomento ele montou
um laboratório muito bom e também conseguiu muito dinheiro fazendo triagem de
drogas com verbas de Laboratórios de Medicamentos.[...] Só para vocês terem ideia,
fizeram um levantamento na época em que vários laboratórios no mundo todo,
trabalhavam intensamente à procura de composto esquistossomicidas e verificou-se
que tinha mais ou menos uns quatrocentos mil produtos. Mais de 10% foram testados
no GIDE. Pellegrino inclusive é quem estabeleceu o método mais eficiente para se
procurar droga. [...] O Pellegrino era uma pessoa com uma visão extraordinária de
gestão. Quando vinha pessoal das multinacionais ele organizava uma encenação

Foto 3- Prof. José


Pellegrino, sem data.
Fonte: UFMG, Arquivo
Institucional do ICB,
Caixa 43.

113
lá: Todo mundo aí, fazendo isso e aquilo, cada um num canto. [risos] Mas era aquilo que fazia
mesmo. (Coelho, 2016).

Ao responder sobre quem financiou o GIDE, Paulo Z. Coelho (2016) comenta:


Eram os projetos de laboratórios que estavam testando droga para esquistossomose e projetos de
pesquisa do CNPq e outras Agências do país, como FINEP. Havia críticas pelo financiamento
estrangeiro mas eu acho que era a coisa mais justa e racional do mundo. Mas na época uns ainda
achavam ... pô, estranho trazer dinheiro estrangeiro para cá. Hoje em dia esta alternativa é fortemente
estimuladas nas Universidades do país. [...] Uma das quais que ele recebeu muitos recursos foi a
fundação Walter Reed que é Agência de pesquisa Médica do exército americano. E coincidiu que na
época da guerra do Vietnã os soldados americanos estavam sendo infectados com esquistossomose
japônica naqueles campos de batalha pantanosos do Vietnã. Lá tinha muita água natural e muito
caramujo com Schistosoma, no caso S. japonicum. Não tinha uma droga boa ainda na época. Então
eles financiaram muito a pesquisa para desenvolver novas drogas. (Coelho, 2016).

Paulo Zech Coelho (2016) comenta que a Fiocruz produz um medicamento em condições
muito viáveis financeiramente, depois da quebra da patente. Ele ingressou na Fiocruz após se
aposentar na universidade e ficou satisfeito com a possibilidade de trabalhar mais intensamente
no campo com uma condição que dificilmente se encontra na universidade, em termos de
estrutura material, organizacional, especialmente pela possibilidade de dedicação exclusiva de
tempo à pesquisa.
Paulo Zech Coelho valoriza a condição que o GIDE proporcionava de agregar cientistas
que chegavam espontaneamente para estudar esquistossomose e que podiam acessar material
para desenvolver seus estudos de forma independente do grupo. O professor destaca que
sentia-se orgulhoso em saber que material biológico era disponibilizado para os interessados.
Ele enfatizava este aspecto como um dever, um comportamento desejável de quem trabalha
em uma instituição pública. O laboratório cresceu testando produtos que vinham codificados
e no GIDE estudava-se mais a parte biológica, como as reações imunológicas e sorológicas.
O professor Paulo Zech Coelho tangencia o imperativo comunialista do ethos mertoniano,
num sentido interessante. Um laboratório que cresceu graças às indústrias de medicamentos,
testando-os, poderia proporcionar condições de pesquisa a pesquisadores independentes de tais
vínculos. Mas esta condição parece ter sido consequência de uma época de grande expansão
que, segundo ele mesmo e hoje de forma bastante evidente, não se sustentou como um modelo
viável nas economias morais de grupos ligados às pesquisas médicas contemporâneas.
O imperativo do comunialismo parece ser essencial nas comunidades científicas, como via
para a própria produção do conhecimento, mas parece que não cabe na contemporaneidade uma
vivência exclusiva deste elemento conforme a definição mertoniana do mesmo. Isto significa
que exista uma tensão e uma forte atração em direção ao particularismo, descrito por Ziman
(2000), o qual se define no sentido de que existe um interesse e muitas vias de compartilhamento
dos novos conhecimentos gerados, mas há que se “pagar por eles”, por algum via, como é
emblemático no caso das patentes.

114
Sérgio Pena (20016) criou sua própria empresa, chamada GENE Laboratório, a qual, em
parceria com a universidade, viabilizaria uma maior velocidade para a ida “da bancada ao
paciente”, denominada pesquisa transacional. Segundo ele, as metodologias desenvolvidas pela
empresa foram patenteadas e, estando publicadas, podem ser utilizadas por outros laboratórios,
obviamente respeitando-se a legalidade posta.
Eu tenho patente mais do GENE, de coisas de lá. Mas lá então você podia pegar essas coisas, por
exemplo desse desenvolvimento que nós fizemos do teste de paternidade e oferecer aquilo para o
público. [...] Então eu acho que foi uma interação (universidade-empresa) virtuosa e até hoje estamos
inovando, com a Genômica Clínica, que veio a partir do projeto Genoma Humano. Recentemente,
em 2011. Eu percebi que já havia, a metodologia estava madura o suficiente para permitir uma
Genômica Clínica, eu abri um laboratório novo na Faculdade de Medicina que é o Laboratório
de Genômica Clínica. Então peguei um conjunto novo de alunos, cinco alunos de pós-graduação e
nós fomos um dos pioneiros na Genômica Clínica no Brasil. Ao mesmo tempo, de novo, a interação
da universidade com a empresa e essa é uma área que a gente tem trabalhado até hoje e continua
inovando. (Pena, 2016)

Ainda que, como o professor Sérgio Pena, alguns tivessem a percepção de que estas atividades
paralelas, típicas do perfil de cientista-empreendedor não fossem “bem-vistas”, certamente já eram
praticadas. Se no passado tal perfil se chocava com um ideal mertoniano do ethos, certamente,
perfis como o do professor e pesquisador em bioquímica Marcos Mares-Guia, por exemplo, se
configuraram no cenário para trazer ao horizonte de possibilidades concretas do ICB um novo
perfil de pesquisador-empreendedor, como parece ser o caso do próprio Sérgio Pena.
De acordo com Rasmussen (2004), durante os anos 1920, muitas vitaminas e hormônios,
como a insulina, por exemplo, originados na academia se tornaram drogas espetacularmente bem
sucedidas, tanto clínica, quanto financeiramente, e o autor descreve uma atmosfera de “corrida
pelo ouro”, envolvendo estas pesquisas. Esta leitura ajuda na interpretação da influência de perfis,
como o de Marcos Mares-Guia, na caracterização do ethos do pesquisador-empreendedor, no
âmbito da cultura científica do ICB.
Carlos Ribeiro Diniz (1993)4 conta que saiu de Ribeirão Preto para assumir a cadeira do
professor Baeta Viana, que havia se aposentado. Ele recebeu a visita de Oscar Versiani, então
diretor da Faculdade de Medicina, e de Luigi Bogliolo, professor de patologia, que o convidaram
a assumir a cadeira de Baeta Viana, que havia se aposentado. Carlos Diniz aceitou o convite
para fazer uma transição:
Resolvi ficar um ano na UFMG, cuidando da transição. Havia alguma coisa, mas estava longe de
ser um laboratório com as condições necessárias para a moderna pesquisa em bioquímica. Tratei
de ir atrás de recursos e procurei o BNDE. Até então o Banco, que estimulava a pesquisa industrial,
nunca havia auxiliado a pesquisa em bioquímica. O projeto, o primeiro do BNDE para a área, foi
aprovado em 1966. (Carlos Diniz, 1993)

4 Entrevista concedida à Angelo Machado e Roberto Barros de Carvalho, publicada em maio de 1993 na revista
Ciência Hoje e que compõe o livro Cientistas do Brasil, 1998.

115
Ele esclarece que a base desse projeto era desenvolver conhecimento que pudesse servir
para o desenvolvimento industrial. Ele atribui o sucesso da empresa Biobrás à “mescla de
bioquímicos, médicos e engenheiros” (Carlos, Diniz, 1993). E confirma que, naquele contexto,
criaram uma norma na pós-graduação em bioquímica de que um processo de patente poderia
valer tanto quanto uma tese.
Ao ser questionado como surgiu a Biobrás, esclarece:
Não estávamos brincando com esse negócio de indústria: tínhamos uma intenção muito firme. [...]
Procuramos banqueiros daqui de Minas e expusemos o projeto. [...] O BNDE, que resolveu entrar
como parceiro, se ofereceu para captar recursos da Sudene sem receber comissão. A Biobrás é um
exemplo muito feliz de associação da universidade com o meio empresarial. Sempre achei muito
injusta a ideia de que a universidade não era capaz de se integrar num esquema desse. Podia fazer,
desde que direcionasse as coisas nesse sentido. Posso dizer hoje que uma das grandes satisfações
que eu tenho é ver que a Biobrás foi adiante. (Diniz, 1993)

Ao ser questionado sobre não ter se envolvido com a indústria propriamente dita, ainda
que tivesse participado ativamente da construção da base teórica e experimental que propiciou
seu surgimento, Carlos Diniz, marca um perfil acadêmico, reforça este perfil – o do cientista-
empreendedor, que é, então, convergente com uma ciência pós-acadêmica5, como Ziman sinaliza,
mas sinaliza um limite ou um contraponto com a vocação da ciência exclusivamente acadêmica.
Ao justificar porque não se tornou sócio da Biobrás:
Minha vocação está intimamente ligada à universidade. Além disso tinha dois outros problemas:
já havia me comprometido a voltar para Ribeirão e, na época, eu teria que ter empenhado minha
casa, como fez o Marcos,. (Diniz para levar à frente o projeto da indústria, 1993)

Assim como indica Carlos Diniz a noção de que o pesquisador tem que estar em uma
instituição universitária ou de pesquisa parece muito forte, sobretudo no Brasil. A pesquisa feita
em empresas, exclusivamente, parece não se constituir como um ethos prevalente, muito menos
exclusivo, para a comunidade científica. Neste, como em outros casos, parece que o pesquisador
precisa estar articulado em espaços de pesquisa, os quais a universidade proporciona, juntamente
com um capital simbólico exclusivo da mesma.
Se a relação virtuosa entre capital privado e pesquisa acadêmica parece ser bem aceita e ter
diversos defensores no ICB, este não é o caso do professor Nelson Vaz, que se diz preocupado
com as finalidades desta relação:

5 Ao intitular a cultura emergente como pós-acadêmica, Ziman (2000) não sugere um repúdio ou uma revisão
dos objetivos tradicionais da ciência acadêmica. Ao contrário, diz que essa expressão indica tanto continuidade
quanto distinção. Uma continuidade que às vezes parece tão óbvia, que leva muitos cientistas a afirmarem que
nada mudou. A ciência pós-acadêmica nasceu fora da ciência acadêmica, com elementos de uma ciência industrial,
mas cruza-se com a ciência acadêmica e preserva muitas de suas características e performances, estando localizada
no mesmo espaço social, tipicamente universidades e institutos de pesquisa. Apesar de as ciências acadêmica e
pós-acadêmica se mesclarem, suas diferenças culturais e epistêmicas são suficientemente importantes para jus-
tificar o novo nome desse produto de uma revolução cultural não dramática e, para muitos, pouco perceptível.

116
... hoje em dia acho que dois terços do prédio (de congressos na área da imunologia) é tomado
pela indústria farmacêutica com propagandas de remédios e livros, então é comércio. (Vaz, 2015)

Nelson Vaz (2015) vê com olhos pessimistas a associação entre universidade e empresas
porque a atividade empresarial não teria relações com as ciências, exceto no modo de fazer.
Mas, definitivamente não em relação aos propósitos:
Não basta uma coisa estar certa, verdadeira para ser aceita. Não, ela tem que ser conveniente.
E isso para mim foi uma revelação, quer dizer, eu entrei na filosofia da ciência pela porta dos
fundos, não é? E fui diretamente tocado por essa história, porque está tudo publicado, gente! Essas
coisas estão evidentes nas melhores revistas, não é que seja uma coisa feito a de Gregor Mendell,
publicado em uma revista ignota, não. Publicamos na melhor revista com toda a tinta necessária
e tal e eu achei na mesma revista argumentos que são completamente incompatíveis conosco. E
quando não se leva em conta essa incongruência, você não entende o que está acontecendo. E na
Biologia e na Medicina o grande poder que impede essa harmonia ao meu ver é o comércio. É a
indústria farmacêutica. E eu vejo com olhos muito pessimistas a associação da universidade com
empresas. Porque a atividade empresarial não tem nada a ver com a ciência. Nada, não tem nada
a ver. E a gente começa a colocar valor nessa atividade, inclusive em projetos, quanto vai custar e
tal. Um desses formulários do CNPq que é copiado do NIH é assim, tem previsões de quanto tempo
vai durar; na verdade está perguntando quanto valem os anos do que você está propondo, não é.
Quantos dólares vai gerar, quantas pessoas eles podem empregar e tal. Isso não tem nada a ver
com as ideias. Nada a ver. Então é extremamente importante existirem pessoas como o Tomaz e o
Diniz e tal que abram espaços uma vez que a demanda não está sujeita a esse tipo de pressão, não
é? Quer dizer, onde as pessoas possam fazer suas próprias perguntas. (Vaz, 2015)

Nelson Vaz (2015) parece denunciar o que seria uma racionalidade utilitarista. Quando ele
diz que além de verdadeira, uma informação para ser certa, precisa ser conveniente, ele está,
no mínimo, problematizando aspectos relacionados à construção do conhecimento, de forma
aparentemente mais profunda e abrangente, fazendo perguntas que vão além de uma abordagem
reducionista do funcionamento dos sistemas biológicos em interação com produtos e sistemas.
Segundo Atkinson-Grosjean, e Fairley (2009), a nova economia moral da pesquisa médica
procura o balanço entre as suspeitas antigas, baseadas em uma deontologia mais ou menos
moralista contra a necessidade de recursos materiais, combinada com o desejo de realizar seu
trabalho de pesquisa. Esta situação leva ao que pode ser considerado a já citada racionalidade
utilitarista.
A busca por pesquisas financiáveis coloca os cientistas, direta ou indiretamente, frente a
questões de natureza moral, já que de forma muito enfática leva esta comunidade a se aproximar
do ethos de uma ciência industrial6 e a configurarem uma economia moral que se forja com a
presença desta lógica de produção de conhecimento tecnológica.
6 Ziman apresenta a ciência industrial como proprietária, local, comissionada (encomendada) e especialista.
Ela produz um conhecimento privado, que não é necessariamente tornado público. Ela se foca em problemas
técnicos locais mais do que em um entendimento de princípios gerais. Os pesquisadores industriais atuam sob
forte autoridade gerencial, mais do que de maneira independente. Sua pesquisa é subsidiada para atingir objetivos

117
Figura 3: ICB realiza teste de paternidade
Fonte: Boletim da UFMG, No 1378 - Ano 29 - 12.12.2002

118
A identificação de que as pessoas estão buscando por pesquisas financiáveis e que o
ethos científico tem um caráter no ICB muito ligado à ciência pós-acadêmica, que se expressa
principalmente por meio das patentes, não implica, necessariamente, que possa ser interpretado
como ligado a uma visão que se coadune a esta ou aquela posição política, ligadas ao liberalismo
ou ao nacionalismo, por exemplo.
Dois professores que abordaram mais detalhadamente a questão das pesquisas financiáveis,
demonstram a preocupação em situar esta forma de produção do conhecimento como uma
circunstância necessária para a produção de pesquisa e que a viabiliza materialmente, mas também
sugerindo possíveis respostas sobre o alcance dos benefícios destas pesquisas como quando,
por exemplo, Paulo Z. Coelho comenta a situação de um medicamento anti-esquistossomose:
Isso aí tem problema, laboratório visa lucro assim dividiam a Oxamniquina da Pzifer era usada
aqui no Brasil e o Praziquantel que era da Bayer ficou para África e Ásia evitando a concorrência.
E aí é o monopólio põe o preço que quer. Tanto é que para tratar esquistossomose antes dessa
formulação da Fiocruz, você gastava mais de 60 reais para tratar uma pessoa. Enquanto que a
Fiocruz produzindo o princípio ativo, após a patente caducar, sai por menos de um dólar o tratamento
de um adulto. E funciona muito bem. Uso por via oral não dá efeitos colaterais importantes. Nós
fizemos vários estudos no GIDE inclusive em macacos Cebus (prego), funcionava sem problema
nenhum. (Coelho, 2016).

Paulo Z. Coelho, neste ponto, e Jacques Nicoli (em tema tratado anteriormente sobre
leveduras identificadas no Brasil) de certa forma, desnaturalizam componentes do ethos da
ciência industrial e problematizam a questão da propriedade sobre o conhecimento. Parece
que enfatizam o benefício do que o cientista faz, não com interesse próprio, mas visando o
benefício da comunidade de maneira ampla e, neste caso mais especificamente, possibilitando
uma produção de medicamentos ou produtos de forma autônoma pelo Brasil e acessível em
sistemas públicos ou ao menos acessíveis a baixo custo.
Este valor ou imperativo identificado na cultura científica do ICB não parece ser
concomitantemente uma relevante causa e consequência do nível de excelência do Instituto no
quesito de produção científica nos campos em que atua. Os pesquisadores do ICB, especialmente
os citados nesta seção, ao buscarem meio de viabilizar materialmente suas pesquisas, ajustando
questões e buscando ativamente ou aceitando financiamentos privados indistintamente, parecem
ter contribuído para manter a ciência e os cientistas do ICB bem situados no ranking da produção
científica mundial em seus campos de conhecimento.

específicos, em vez de buscar desinteressadamente o conhecimento. Os cientistas são contratados como experts
para resolver problemas, mais do que por uma criatividade pessoal. Nesse sentido o acrônimo PLACE (posição),
mais do que KUDOS (honra), refere-se àquilo que o profissional consegue fazendo uma boa ciência industrial.

119
O ICB e as suas ações de educação e preservação
ambiental

Gabriel Schunk
Durante a segunda metade do século XX, o meio ambiente tornou-se um tema quente. Os
debates sócio-políticos acerca da natureza entraram em voga e adquiriram demasiada importância
dentro de diversos setores da sociedade. As universidades, como lócus de conhecimento, não
ficaram isoladas dessas discussões, que, aos poucos, foram adentrando nos ambientes acadêmicos,
resultando na criação de disciplinas e grupos de pesquisas que estão inseridos e relacionados
com o tema. No Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, podemos encontrar diversos
exemplos de como as universidades, sobretudo os cursos das áreas de ciências naturais e biológicas
- mas não somente -, contribuem para enriquecer as conversas sobre o mundo natural, discutir
sobre os problemas e procurar meios de solucioná-los.
Dentro do ICB teve e ainda tem diversos profissionais que, além do trabalho técnico-
científico como professores e pesquisadores, atuaram politicamente na cena pública defendendo
as causas ambientais em Minas Gerais. Muitos compuseram o quadro de ativistas do Centro
para Conservação da Natureza de Minas Gerais, uma ONG pioneira no estado mineiro, como
Hugo Werneck, Amílcar Vianna Martins, Angelo Machado, Célio Murilo de C. Valle, José
Rabelo de Freitas, dentre outros. Outros foram responsáveis pela fundação de ONG’s, como é
o caso da Biodiversitas, uma das mais importantes em nível nacional e que tem um trabalho
fundamental na identificação e conservação de espécies ameaçadas de extinção, sendo responsável
pela edição das listas e livros vermelhos de Minas Gerais e, mais tarde, do Brasil. É notável
também a participação de alguns professores no quadro técnico de pesquisadores de importantes
organizações conservacionistas, como a WWF e a Conservation International (CI), e no rol
de especialistas membros da Comissão para Sobrevivência de Espécies (em inglês, Species
Survival Comission) da União Internacional para Conservação da Natureza (UICN), instituição
internacional que iniciou a elaboração dos livros e listas vermelhas de espécies em extinção -, como
é o caso dos professores Anthony B. Rylands e Gustavo Alberto B. da Fonseca.
No interior dos muros da universidade, o ICB possui um papel significativo relativo
à pesquisa, ensino e extensão temas ambientais. Há de se destacar algumas iniciativas dos
professores e alunos do Instituto, as quais muitas são precursoras. Uma delas foi a criação do
mestrado em Ecologia, Manejo e Conservação de Vida Silvestre, em 1989, o primeiro curso de
pós-graduação dessa área no país. O curso interdepartamental congrega três departamentos

120
do ICB, o de Biologia Geral, Botânica e Zoologia, sendo um curso que acompanha Figura 1: Estação
Ecológica.
o movimento da criação de disciplinas como a Biologia da Conservação e busca
aplicar a ciência ecológica para a conservação de espécies (Franco, 2013). É relevante Fonte: UFMG,
observar que o curso, os departamentos responsáveis por ele e os vários projetos de CEDECOM, Foca Lisboa,
pesquisa desenvolvidos receberam financiamento de instituições públicas e privadas 1996. (INS:138)

associadas às questões ambientalistas, tais como WWF, CI, o United States Fish and
Wildlife Service (FWS), a Fundação Brasileira para Conservação da Natureza (FBCN),
a Biodiversitas, Ibama, Banco Mundial, Fundo Nacional de Meio Ambiente, dentre
outras instituições de fomento à pesquisa (FUNDEP, 1989, p. 49).
Como espaços de ensino e extensão, destacamos a Estação Ecológica da UFMG
(EE) e o Museu de História Natural e Jardim Botânico, órgãos complementares que,
além de espaços de pesquisa, são locais de visitação para a comunidade externa,
sobretudo de escolas, utilizados para educação ambiental, estando interessados em
sensibilizar e despertar o cuidado e o respeito para com o mundo natural. O Museu
possui uma imensa área verde, e constitui-se como “um espaço privilegiado para
programas de Educação Ambiental, desenvolvimento da sensibilidade à natureza
e criação de uma consciência ecológica” (UFMG, 1991, p. 89). Foram ‒ e ainda
são ‒ ofertados cursos de formação, organizadas palestras e eventos voltados para
as discussões sobre conservação da natureza, tais como Programa de Educação
Ambiental, Semana de Educação Ambiental e Semana do Meio Ambiente, além de
produções culturais como o Programa Encontro com a Natureza e Exposição de
Fauna e Flora (UFMG, 1994, p. 12-29). A EE é a área verde do campus Pampulha,

121
um espaço utilizado para fins de pesquisa científica e educação ambiental. O principal uso da
área seria feito pelo curso de pós-graduação em Ecologia, que tinha a EE como sede do curso
e também como área de desenvolvimento de estudos e pesquisas sobre conservação (Dal Pont,
2009).
O ICB, personificado na sua equipe de professores pesquisadores e alunos, não ficou alheio
às discussões sobre a conservação da natureza. Pelo contrário, muitos de seus integrantes tiveram
ações pioneiras e atuaram tanto dentro quanto fora da universidade, tanto cientificamente quanto
politicamente no que tange aos assuntos ambientais. Associados às organizações e instituições
em níveis nacional e internacional, contribuíram e ainda contribuem com pesquisas que auxiliam
e se traduzem em políticas públicas para conservação de habitats e espécies em extinção, bem
como outros temas relativos à natureza. Alimentado pela discussão social, o fazer científico
dos pesquisadores do Instituto preocupados com a conservação do mundo natural contribuiu
e continua contribuindo para identificação e solução de alguns dos problemas ambientais,
retribuindo os investimentos recebidos pelo Instituto para o setor da sociedade preocupado
com tais discussões e, de maneira indireta, para os que são indiferentes ao debate.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DAL PONT, Karina Rousseng. De “bota-fora” a Estação Ecológica da UFMG: pequenas conquistas
e a construção de significados ambientais urbanos. In: STARLING, Heloísa Maria M.; DUARTE,
Regina Horta (Org.). Cidade universitária da UFMG: história e natureza. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 2009.
FRANCO, José Luiz de Andrade. O conceito de biodiversidade e a história da biologia da
conservação: da preservação da wilderness à conservação da biodiversidade. História (São
Paulo) v. 32, n. 2, p. 21-48, jul/dez, 2013.
FUNDAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA - FUNDEP. Relatório de atividades
1988. 1989. Arquivo Permanente do Instituto de Ciências Biológicas. Arquivo Institucional do
ICB. Caixa 20. Avulso.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Relatório de atividades 1992 – Extensão
UFMG. 1994. Arquivo Institucional do ICB. Caixa 19. Avulso.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. UFMG 90 - Relatório anual de atividades
(Boletim Estatístico). 1991. Arquivo Institucional do ICB, Caixa 18. Avulso.

122
Legados acadêmicos e despertar de vocações
O ensino no ICB entra em cena ligado à prevalência da pesquisa que lá se desenvolvia, na
verdade, desde antes da criação oficial do instituto. Ou seja, uma parte significativa do ensino
tem o tom da formação para a ciência, no sentido de se criar uma mentalidade voltada para a
investigação científica. O foco é menos na questão “que profissional o sujeito será” e mais em “que
tipo de pesquisador o sujeito será”. Nos discursos sobre ethos da ciência, o ensino é valorizado
no sentido da formação do pesquisador com ênfase nas vocações que se deve despertar por esta
via e dos legados acadêmicos que se cultiva, especialmente nas relações com os sucessores, sejam
estudantes de pós-graduação e/ou professores das novas gerações de pesquisadores do ICB.
Trazemos trechos da entrevista do professor Ênio Cardillo para melhor definir o que estamos
chamando de “legado acadêmico”. Algumas memórias, narradas por este professor sinalizam
para a valorização da ciência como um trabalho de equipe e de formação de pessoas em um
caráter de tutoria, bem próximo, via pesquisa, com o que Ênio diz ter vivenciado como parte
do “staff ” do professor Baeta Viana. Lembra-se de que havia um acordo no grupo do Baeta
Viana de “não se dispersarem” (Vieira, 2015).
Ele sinaliza também que, assim como recebeu, estaria deixando o espaço e condições para
seus sucessores:
Que eu tinha duas linhas de pesquisa no Departamento: uma era animais sem germes, e outra, de
nutrição. Então eu tocava as duas áreas. Quando eu saí, a Leda e o Jacques Nicoli ficaram com os
animais sem germes e a Jaqueline com a nutrição. (Vieira, 2015)

Ênio Cardillo lança mão da imagem de “nonaneto de Lavosier” para reforçar esta visão
de ciência como um trabalho de equipe, com intensa convivência entre os pesquisadores, no
sentido formativo, enquanto um constituinte, senão do ethos, ao menos um aspecto central da
cultura científica:
O Lavoisier-nós somos descendentes científicos de Lavoisier – O Lavoisier tinha um discípulo
chamado Berthollet, que, por sua vez, tinha um discípulo chamado Gay-Lussac. Agora, o Liebig,
que era um químico alemão, foi para a França aprender química com o Gay-Lussac. Em três meses
ele aprendeu toda a química que se conhecia. E o Liebig, ele formou três escolas. [...] Mas o Liebig
teve três/ teve uma cadeia: Kintender, Boyer, Kunner e Mendel. Não é o Mendel da genética, é
o Mendel da nutrição com quem o Baeta trabalhou na Universidade de Yale. Então, o Baeta é
discípulo de Mendel, eu, discípulo do Baeta. Então, eu sou nonaneto do Lavoisier. Do que você
está rindo? [...] (Vieira, 2015)

Neste sentido, Ênio reforça a importância das gerações de cientistas, que dão continuidade
e garantem a sucessão das linhas de pesquisa. Muitos professores denotam que ficariam muito
frustrados, caso sua linha de pesquisa viesse a desaparecer, por não ter algum expert a dar-lhe
prosseguimento.

123
Este aspecto do ethos foi recorrente nas falas dos professores: a ideia de que é preciso
trabalhar com uma equipe na qual as pessoas vão se formando em uma espécie de tutoria,
uma relação profissional muito próxima, o que faz perpetuar uma linha de pesquisa específica.
Outro bom exemplo é a escolha de Hugo Godinho por seu orientador em estágio de pesquisa
nos Estados Unidos, e que teve relação com a forma como um dos professores o respondeu,
entre dois com quem tinha feito contato, que foi mais simpática e cativante. Isto pode indicar
que também nas relações acadêmicas devam ser colocados nos horizontes de escolha aquelas
pessoas mais dispostas a uma abertura, que demonstrem, de alguma forma, disponibilidade
para investir na formação do outro, seja um estudante visitante, um sucessor, etc.
Outra ideia recorrente entre os professores e, também evidenciada na fala de Hugo Godinho,
é o aspecto de que a configuração do ICB com professores ligados às ciências básicas, juntos no
mesmo espaço, era algo que favorecia a pesquisa porque dava acesso à diferentes conhecimentos
e contatos possíveis.
Para os cientistas e pesquisadores que viviam isolados nas suas antigas unidades, o ICB era um
paraíso! Você tinha gente de todas as áreas, o que você necessitasse estava ali disponível, pessoal
querendo te ajudar, pesquisadores renomados do Brasil e do exterior. (Godinho, 2015)

Este parece ter sido um diferencial num momento inicial do ICB, em que estes contatos
eram mais lentos pelas próprias condições das vias de comunicação, o que é muito diferente
do que ocorre na atualidade, com contatos por meio da internet.
São visões distintas que coexistem porque outros professores comentam que se tem mais
contato com professores de outros países do que com professores do próprio departamento.
Como disse Hugo Godinho, “o ICB é este ambiente de pesquisa que acontece na prática”, mas,
depois da internet e de outras tecnologias que agilizaram estes contatos que já existiam, parece
que fica mais fortalecido um caráter individualista dos pesquisadores na instituição, mantendo
contatos mais próximos por afinidades com certos temas de pesquisa do que por algum tipo de
compromisso com seu departamento ou mesmo com o instituto como um todo.
A questão do individualismo na pesquisa é sinalizada pelo professor Nelson Vaz, como
quando ele diz:
... na realidade, a unidade básica da universidade é o professor. E o professor não conhece o colega do
lado não é. [...] A ciência, não poderia ser assim. Mas a ciência estimula muito essa individualidade.
Esse egoísmo, de interesses e tal. (Vaz, 2015)

Em outra fala, uma definição interessante do que é ser professor:


... professor é a pessoa disposta a abrir um espaço de convivência. Agora, convivência genuína, não
é. Se alguém chega e diz: – Professor eu posso estagiar no seu laboratório? Você diz: Pode, claro.   E
larga o sujeito lá sentado, não é uma coisa genuína, não é. Convivência é para essa abertura de
confiança, não é. [...]E se você não conversar você não está exercendo a essência do que é ser humano
não é. Ser humano é conversar. Tem outra definição não. (Vaz, 2015)

124
E certamente os legados existirão enquanto existirem estes espaços de convivência genuína
e relações de confiança.
Tão importante quanto deixar legados no âmbito da pesquisa, seria fundamental despertar
vocações científicas e o desejo nos estudantes de se tornarem investigadores. Este é um dos
aspectos em que o tema do ensino aparece para compor a história científica do ICB. Como não
foram feitas perguntas específicas sobre ensino, não podemos afirmar que este seja um aspecto
negligenciado. Mas podemos perceber que o contexto em que as intenções educativas aparecem
são, prioritariamente, no sentido da formação para o cultivo de vocações de pesquisa científica.
O professor de neuroanatomia e de zoologia, Angelo Machado, com produção acadêmica
reconhecida em ambos os campos, declaradamente, considera o ideal de professor universitário
aquele que consegue agregar aspectos de ensino, pesquisa e extensão. Considera, ainda, que as
condições para exercer este ideal foram viabilizadas com a constituição do ICB no contexto da
reforma universitária, o que, na sua opinião, teve entre outros objetivos a não duplicação de
meios para fins idênticos.
No que diz respeito à sua própria vocação para as ciências, ele considera ter sido despertada
pelo catedrático da Faculdade de Medicina Henrique Marques Lisboa, lembrando que este
professor ia à escola primária ensinar às crianças, as quais também levava em fazendas da
região. “Do bicho para o livro” foi um lema da atuação de Angelo Machado como professor
de zoologia na graduação. Este lema significava a valorização das práticas com o intuito de
despertar o interesse dos estudantes. Recorrendo ao contato com o professor Newton Dias
dos Santos, ele valoriza uma atitude louvável do professor de despertar uma vocação, através
de práticas investigativas:
Um dia minha tia escritora Lúcia Machado de Almeida, disse pra mim:
Tem um professor aí do Museu Nacional, Newton Santos, que está dando aula lá no Instituto de
Educação, leve algumas libélulas que você tem aí, porque ele vai dar o nome. Eu tinha 16 anos. Eu
fui lá emocionado para falar com o famoso professor. (Machado, 2015)

Angelo Machado (2015) traz o diálogo que se desenrolou no qual o professor o instiga a
buscar por ele mesmo a resposta que tinha ido buscar e conclui:
Hoje eu penso, olhem só, a genialidade do Newton, se ele tivesse dado o nome, eu tinha 5 nomes,
como ele não deu, eu mexo a vida inteira com libélulas... (Machado, 2015)

Este aspecto do ethos aparece também quando Giovani Gazzinelli (2015) comenta a prática
de orientação do professor Baeta Viana, a quem ele atribui seu interesse por bioquímica. Ele
ressalta que Baeta Viana sempre dava um problema a ser investigado com pequenos projetos de
pesquisa. Gazzinelli ressalta o ideal de treinamento científico do professor Baeta como aquele
que para ser cientista era “para fazer ciência e não para ler ciência” (Gazzinelli, 2015)
David Pereira Neves (2015) foi dos poucos entrevistados que se declararam entusiastas
do ensino, explicitando sua maior empolgação com este, em relação à pesquisa. Aqueles que,
como David, não se inseriram na dinâmica de pesquisa científica biomédica e biológica e que

125
Figura 4: Professor Angelo Machado a receber o Prêmio José Reis de Divulgação Científica do CNPq em 1995. A
reportagem chama a atenção para a atuação do Professor Angelo Machado não só como professor e pesquisador,
mas também ambientalista e premiado escritor de literatura infantil.
Fonte: Boletim do ICB, junho/julho de 1995.

126
se dedicaram prioritariamente ao ensino, talvez se identifiquem com o entendimento de terem
sido marginalizados por tal enfoque e priorização.
David P. Neves foi o responsável pela organização do ensino no departamento de Parasitologia
no início do ICB, em um formato mais generalista, o qual se manteve nesta linha por três décadas.
Nesse formato, cada professor normalmente ensinava todo o conteúdo de uma disciplina. Em 1992,
com uma reforma ocorrida no âmbito do departamento, cada professor assumiu e se restringiu
ao ensino de sua especialidade. Tal conformação mais especializada de atuação docente levou
o professor David P. Neves a optar pela aposentadoria, uma vez que não conseguiu exercer,
segundo ele, o papel fundamental da docência que era despertar o interesse dos estudantes.

Figura 5:
Parasitologia
Humana do
Professor David
Pereira Neves, 7ª
edição 1988. A
primeira edição é de
1974.

127
... professor não ensina, professor desperta interesse. Para eu despertar interesse, eu não preciso saber
profundamente toda aquela matéria, não é? [...] Nas duas aulas teóricas que eu dava, eu procurava
mostrar o mundo para os alunos. Por que um professor não pode só ser técnico e ensinar aquilo, ele
tem que... que mostrar as conjunturas do dia, das pessoas, o que está se passando, comentar sobre
aquele livro interessante, aquele filme que é ótimo, não é? (Neves, 2015)

Após sua aposentadoria, David foi ser diretor do zoológico e, posteriormente, passou a
lecionar em instituições privadas de ensino nas quais, certamente, seus livros eram adotados
como referência. O livro “Parasitologia Humana”, publicado em 1974 está na 13ª edição, atualmente
aprovado pela Organização Pan-americana de Saúde como o livro referência na América
Latina. David Neves (2015) se refere ao livro com grande entusiasmo e orgulho, mas também
com certa mágoa:
E assim, esse livro, logo que ele saiu, ele teve uma rejeição brutal por parte de alguns colegas. E teve
um deles que me falou em uma reunião do Departamento de Parasitologia que eu não podia escrever
o livro, isto é, três ou quatro pessoas queriam proibir que eu escrevesse o livro.[...] Aí mandei um
livro para o professor Samuel Pessoa, que era o papa da Parasitologia. Falei para ele: - Professor, me
atrevi a escrever esse livro. Gostaria que o senhor visse. O que o senhor acha? O que que o senhor
acha do livro? Eu gostaria da opinião do senhor.[...] Passados uns dois ou três meses, recebi uma
cartinha, a qual sumiu mais tarde. Uma das coisas mais dramáticas para mim foi o sumiço dessa
cartinha, que dizia assim: “David, li o seu livro com atenção. Está ótimo. Você está no caminho
certo. Continue, persevere” (Neves, 2015).

A resistência inicial que ele relata ao valor de redigir uma obra, como a que se constitui nas
décadas posteriores, talvez tenha se dado no contexto da valorização da condição do pesquisador
especialista em oposição à figura dos professores catedráticos, e o que isso significava à época.
Além disso, pode significar um pressão da especialização sobre a complexidade, ou neste caso,
ao generalismo. David sente-se orgulhoso por dominar todo o conteúdo, mas o generalismo
dele seria mal visto, na sua memória. Podemos supor que tendo seu livro sido proposto no
momento pós-catedrático, em meio a um forte movimento de especialização, este pode ter
sido um motivo inicial de rejeição aos seus esforços. Obviamente, não concordamos que seja
correto associar sua atuação à de um “catedrático”, apesar do viés generalista, uma vez que a
ação de produzir manuais é um processo que guarda uma dimensão criativa e de reelaboração
do conhecimento, a qual não se difere substancialmente de pesquisas, mas que se difere muito
da leituras das se-bentas pelos catedráticos.
A rejeição que ele denuncia perceber em relação aos seus intentos, pode denotar também
uma menor valorização de ações e da produção do ensino e da divulgação do conhecimento no
próprio meio acadêmico para os estudantes, em detrimento de um investimento em pesquisa,
no ethos, como ele o percebia. Em suas memórias, a sensação de não aceitação, de exclusão e
até perseguição possa advir do fato de agir em uma tendência que se contrapunha à prática
acadêmica mais valorizada do âmbito do ICB, predominantemente de pesquisa, sobretudo, na
bancada de laboratório.

128
O professor David P. Neves expressa ter tido sempre a intenção de ampla divulgação do
valor de se trabalhar em prol da saúde pública e de doenças as quais ele define como “doenças
da pobreza”:
Então esse primeiro livro, era bem simplesinho. Criei o nome “Parasitologia Humana” e eu coloquei
na capa, a frase “o jeca não é assim, ele está assim”, de Monteiro Lobato junto com o desenho de
um “jeca”.[...] (Neves, 2015)

Nas palavras de David Neves, “o objetivo do livro foi escrever uma Parasitologia objetiva.
Sem complicações, com palavras fáceis para o entendimento do aluno”. Este intento foi, na
nossa interpretação, na contramão de elementos do ethos na economia moral dominante ou
vivenciada por alguns pesquisadores respeitados na instituição à época.
O compromisso com a divulgação, por meio do ensino, que o professor David defendeu, sua
visão de função social, parece ser um tradição no campo da parasitologia, ao menos de boa parte
dos fundadores da parasitologia no Brasil, que como ressalta o professor Cisalpino “tinham a
fama de comunistas. [...] O departamento de parasitologia da USP era chamado de departamento
vermelho”. Samuel Pessoa, uma referência que incentivou o professor David, vinha de lá.
Apesar de, na maioria das entrevistas, o ensino não ter relevo para além da formação
dos cientistas, os professores que atuaram nesta frente são, paradoxalmente, fundamentais
exatamente para a formação científica. Um ethos não tão focado nos espaços dos laboratórios,
mas em atividades de ensino (e extensão), que também são atividades vinculadas à produção
de conhecimento, constituem-se como essenciais no despertar e cultivar de vocações científicas.

129
Extensão e Divulgação Científica no ICB

Débora d’Ávila Reis e Verona Campos Segantini

A divulgação científica, que nos parece existir no âmbito do ICB desde a sua criação, passou
por várias transformações ao longo desses cinquenta anos, com objetivos e práticas diversificadas.
Divulgar para a democratização dos resultados da ciência, para buscar reconhecimento por parte
da sociedade, para despertar talentos, para uma educação libertadora, para o empoderamento
e/ou para uma formação crítica em temas relacionados à ciência e à tecnologia. A divulgação
científica também associa-se às artes para estimular a criatividade e o encantamento pela ciência.
Estas e outras ações, como a formação complementar de professores da educação básica ou
cursos de atualização para profissionais que atuam na área da saúde, revelam a interface entre
uma perspectiva extensionista da divulgação científica. Nos últimos anos, na UFMG e também
no ICB, a divulgação científica veio se consolidando no contexto da extensão universitária e
incorporando sua dimensão inclusiva e dialógica.
Percebe-se que a atividade de pesquisa nos primeiros anos do ICB, muitas vezes já tinha
incorporada a ela um pensamento ou postura extensionista. Alguns pesquisadores da época
como Baeta Viana e posteriormente Wilson Beraldo e Giovanni Gazzinelli, dentre outros, no seu
papel de formação crítica e ética de estudantes de pós-graduação, atuavam como divulgadores
da ciência cotidianamente, sem nem mesmo se preocuparem em se nomear como tal.
Apenas no início da década de 1970, a extensão passou a ser nomeada e reconhecida nas suas
especificidades no âmbito do ICB. Foi criada a Coordenadoria das Atividades de Extensão, que
teve como primeiro coordenador o professor e pesquisador David Pereira Neves. A Coordenadoria
promovia palestras e atividades voltadas para a comunidade interna, já perspectivando uma
conexão com a cidade, em parcerias com a Faculdade de Medicina e Escola de Enfermagem.
Eram objetivos da Coordenadoria:
(...) contribuir para solucionar os problemas da área biológica, esclarecer a comunidade das
possibilidades profissionais oferecidas pelo ICB e estimular atividades, visando a maior cultura
geral e humanística dos alunos do ICB...

130
Figura 1: Folheto do GIDE: O que é a esquistossomose? Produzido pelos professores Leógenes Pereira, José Pellegrino e
Paulo Marcos Zech Coelho, 1987.
Fonte: Arquivo Institucional Secretaria Geral do ICB, caixa GIDE.

131
Durante a década de 1970, dentre outras iniciativas isoladas de difusão de informações
científicas, ressaltamos a do Grupo Interdepartamental de Doenças Endêmicas (GIDE), que
confeccionou folhetos, cartilhas e um vídeo com informações sobre esquistossomose em
linguagem acessível à população leiga. Na década de 1980 podemos citar, pelo menos, duas
importantes iniciativas na área de extensão e divulgação científica sendo elas, a inauguração
do Museu de Morfologia, com foco no corpo humano e educação para a saúde, e a criação do
Programa de Educação Ambiental e Patrimonial, coordenado pela professora e pesquisadora
Paulina Maria Maia Barbosa.
A perspectiva extensionista da divulgação científica no ICB desdobra-se nos anos de 2000
em projetos e ações isoladas que incluíam oficinas, cursos, confecção de material didático
para escolas de educação básica e a veiculação de resutaldos da ciência, quer seja em material
impresso, em vídeos ou áudios. Naquele momento, um marco de grande relevância e impacto
para a divulgação científica, não apenas para o ICB, mas para toda a UFMG, foi a criação da
Rádio UFMG Educativa, como um setor do Centro de Comunicação da UFMG, que na época
era dirigido pela doutora em Ciências Sociais, Maria Ceres Pimenta Spínola. Desde a sua
inauguração, a rádio já contava com dois programas de rádio coordenados por professoras do
ICB, sendo eles intitulados “Na Onda da Vida”, destinado a veicular resultados de pesquisas
realizadas na instituição e “Universidade das Crianças”, com perguntas de crianças da Escola
de Ensino Fundamental do Centro Pedagógico da UFMG.
A partir da segunda metade da década de 2000 o número de atividades de divulgação
científica coordenadas por professores e técnicos administrativos do ICB se expandiu em
consonância com as políticas brasileiras na área. Em 2006 constituía-se o Departamento de
Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia, vinculado à Secretaria de Ciência e Tecnologia
para Inclusão Social (SECIS) do Ministério de Ciência e Tecnologia e no mesmo ano, era
criado também o Comitê Temático de Divulgação Científica dentro do CNPq. Neste contexto,
nota-se uma expansão das colaborações no âmbito dos projetos de divulgação científica do
ICB, com seus coordenadores e suas coordenadoras indo buscar colaborações em outras áreas
do conhecimento. Essas articulações resultaram em projetos e ações de grande impacto, não
apenas para o ICB, mas para toda a UFMG. Dentre essas ações, cita-se a criação do Núcleo de
Divulgação Científica (NDC), com financiamento do CNPq, instalado no CEDECOM, que se
propunha a dar suporte e congregar as várias ações que tinham a Rádio UFMG Educativa como
veículo de divulgação da ciência.
Com a criação do Centro de Extensão (CENEX-ICB) e a sistematização de seus projetos,
programas, eventos e cursos, as atividades de divulgação científica do ICB adquiriram maior
visibilidade. Em 2016, a partir de um edital criado para ocupação de laboratórios multiusuários,
um grupo de professoras extensionistas foram contempladas com um espaço que atualmente
abriga o Núcleo de Educação e Comunicação em Ciências da Vida e da Saúde. Além desta,
várias outras iniciativas relevantes aconteceram, dentre elas citam-se a criação de disciplinas na
graduação e pós-graduação abordando temas do campo da divulgação científica e ainda mais

132
recentemente a criação do evento anual “Ciência, Ensino e Cultura”, que acontece durante a
Semana do Conhecimento da UFMG.
O cenário aqui apresentado demonstra o investimento crescente do ICB na área de
divulgação científica. Diante de um futuro promissor, a expectativa é que os projetos nessa
área estejam cada vez mais em consonância com as diretrizes apresentadas na Política Nacional
de Extensão Universitária (2012). Em linhas gerais, propõe-se que os processos de extensão
sejam concebidos a partir de uma interação dialógica, ou seja “marcada pelo diálogo e troca de
saberes” (p.16) produzindo-se conhecimento novo como desdobramento da interação entre a
universidade e setores sociais. Além disso, deve ser caracterizada pela interdisciplinariedade e
a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, reconhecendo a participação efetiva de
atores não-universitários nos processos de produção, difusão e portanto na democratização do
conhecimento (FORPROEX, 2012).

Bibliografia:

FORPROEX - Fórum de Pró-reitores de extensão das universidades públicas brasileiras. Política


Nacional de Extensão Universitária. Manaus, 2012.

133
Nuances do Ethos Científico no ICB
Como conclusão, apresentamos outras categorias, valores periféricos, no sentido de não serem
tão marcantes nas entrevistas, mas trazidos por serem determinantes para o fazer científico do ICB
na interface com a sociedade, por meio da extensão e do envolvimento político administrativo
de alguns atores. Ao longo da história do ICB, tais frentes foram essenciais na constituição de
políticas universitárias e de como a própria ciência se constitui nestes lugares institucionais.7

Buscando extensões
Apesar do ICB ser um dos principais centros que promovem ações extensionistas na
universidade, este não foi um aspecto priorizado na fala do conjunto dos entrevistados. Assim
como ocorreu com o ensino, aspectos ligados à extensão foram menos citados espontaneamente
pelos entrevistados. Não podemos afirmar que este seja um aspecto menos valorizado da atuação
científica, mas podemos supor que também não seja central (ainda que o ICB, em comparação
com outras Faculdades figure entre os mais produtivos na extensão).
Contrapontos de um ethos focado na pesquisa e na formação dos pesquisadores, emerge
em pesquisas mais associadas à extensão e ações de divulgação científica e supomos que as
atividades de extensão sejam uma prática mais valorizada entre uma geração ainda posterior
à do conjunto dos entrevistados, ou seja, de universo de professores que não foi o escolhido
como foco neste projeto.
O professor Geovanni Cassali (2016) traz um exemplo de projeto de extensão que parece
representativo das inúmeras atividades de extensão que acontecem no ICB atualmente:
“Surgiu então a proposta de um projeto de extensão que tinha um caráter principalmente social
(atendimento às pacientes carentes – SUS) e, ao mesmo tempo, auxiliaria na formação dos estudantes
de fisioterapia e terapia ocupacional, suprindo uma lacuna existente nesta área. Assim, em 2003,
criamos o projeto de extensão “Câncer de mama: abordagem multidisciplinar.” Este projeto assistencial
durou treze anos e “auxiliou a comunidade carente ao mesmo tempo que formou alunos de graduação
e pós-graduação, procurando ensinar o trabalho em equipe e a pesquisa aplicada com uma finalidade:
o melhor atendimento ao paciente”.
(Cassali, 2016)

Pedro Linardi (2015) em um exemplo esclarece como uma ação de extensão pode cumprir
um papel essencial para a visão pública sobre a ciência:
Mas acontece que por volta de 1985, eu e os coparticipantes idealizamos um tipo de metodologia que
permitia determinar rapidamente a prevalência da pediculose, e que consistia em encontrar piolho
em restos de cabelo coletados no chão das barbearias. A Prefeitura de Belo Horizonte, através do

7 O ICB conta com ações de extensão categorizadas como cursos, prestação de serviços e projetos comunitários.
Em 2012, por exemplo, o ICB contava com cerca de 24 Programas/Projetos comunitários em várias frentes como
na educação não formal no Museu de Morfologia, de divulgação científica e ações educativas na área de saúde
por exemplo. Fonte: https://www2.icb.ufmg.br/cenex/ Acesso em: 24 set. 2020.

134
Departamento de Vigilância e Fiscalização, nossos parceiros nesse estudo, mandava os Foto 4-Professor
Munir Charmone
fiscais recolherem o material do chão que eram acondicionados em sacos de plástico e,
do Departamento
posteriormente, levados para o ICB. Na época, tínhamos no Laboratório, vinte e tantos de Bioquímica e
estagiários que ficavam examinando o quê? Os cabelos! Se neles haviam lêndeas, se Imunologia com a
mistura do “Pão Forte”.
estas estavam na base ou no meio do fio de cabelo, se ele era crespo, ondulado, liso...
O Projeto Pão Forte
[Risos] E se, o cabelo era claro, escuro e também qual que era o preço do corte de é um dos projetos de
cabelo no salão. Com isso criamos, assim, um… Uma resposta muito boa em relação a extensão de maior
esse tipo de atividade. O interessante é que isso como atividade de extensão foi muito repercussão do ICB. A
mistura nautricional
divulgado no ICB e em Belo Horizonte. Tanto é que a Prefeitura baseando-se em nosso desenvolvida no
trabalho colocou vários cartazes nos ônibus, relativos ao controle da pediculose. [...] projeto tem sido
utilizada por creches
Isto era muito importante, porque naquele tempo, a Universidade fazia muita greve
e escolas, alcançando
e a sociedade vivia questionando: “o que, de fato a Universidade faz pelo povo?” E milhares de crianças
esta era uma boa resposta poris (?) ainda que vários pesquisadores trabalhassem em comunidades
carentes de várias
importantes linhas de pesquisa, com diversos grupos, tais como vacinas, ou mesmo
cidades mineiras, para
estudando Trypanosoma cruzi, o que é que faz para o povo? (Linardi, 2015) combater a desnutrição
e promover orientação
A repercussão deste projeto era na prefeitura inteira e as pesquisas impactavam educacional em saúde. O
e eram reconhecidas, inclusive, na Organização Mundial de Saúde8. A extensão era Pão Forte foi patenteado
em 1995.
tão volumosa, que este aspecto sobressai, em relação à pesquisa do professor, ainda
Fonte: Boletim da
que a mesma fosse também reconhecida e guardasse diversas facetas, de impactos UFMG, ano 25, 1238,
diversos, como quando ele situa: pag. 5, 1999. e
https://medium.com/@
É fazer a parasitologia não como um fim, mas como um meio para resolver problemas ligaufmg/ctit-ufmg-
de filogenia, de ecologia, de distribuição geográfica e outras áreas, associando, a 93491c957ed2 Acesso
em: 07 out. 2020.

8 Ver entrevista do Professor Pedro Linardi no Programa do Jô Soares disponível no Youtube:


https://youtu.be/m07Yor2MJuM Acesso: 17 out. 2020.

135
geologia, mineralogia, a zoologia e a parasitologia. Eu diria que esta seria uma linha
de ectoparasitologia evolucionária. (Linardi, 2015)

Para além de ações de extensão claramente definidas, como as citadas


anteriormente nos casos dos professores Geovanni Cassali e Pedro Linardi, podemos
pensar que as ações de divulgação científica também guardam elementos desta missão
institucional. Obviamente, e ainda de forma mais explícita no caso que discutiremos
a seguir, a intenção é, também, a de busca por dar visibilidade e, preferencialmente,
respaldo público para determinada descrição da realidade.
Sérgio Pena, em 1989, estava trabalhando com uso de DNA e a identificação da
individualidade humana e da paternidade. Trabalhando com DNA mitrocondial,

Figura 6: Capa da
revista “Ciência Hoje”
(2000) que contém o
artigo de Sérgio Danilo
Pena “Retrato molecular
do Brasil”.

136
fez uma tipificação do pessoal do laboratório para usar como linha de base. Identificou que
um terço do DNA mitocontrial era de índios e outro terço dos africanos, na interpretação
dos dados. Como estava próximo aos anos 2000 e dos 500 anos da chegada dos Europeus, ele
entrou em contato com a Revista Ciência Hoje e pediu uma publicação em abril de 2000, que
se tornou uma reportagem de capa, intitulada “O retrato molecular dos Brasil”, a qual ainda
hoje é utilizada em cursos de sociologia e antropologia, segundo ele. A partir deste episódio,
a revista Veja contratou sua empresa, GENE, para fazer um estudo publicado em 2000, com a
ancestralidade de alguns brasileiros famosos, como o então presidente José Sarney.
Como discute Tauber (1999), a ciência é uma poderosa aliada evocada para sustentar ou
desfiar a posição ideológica de algum posicionamento nas disputas sociais por determinados
temas. O caso da definição biológica das raças, ou melhor, da defesa sobre a não existência destas
em termos biológicos é um caso exemplar de que quando a ciência é aplicada ao domínio social,
alterando sua função epistemológica, conhecer a natureza, para uma arena distinta amplamente
lastreada por julgamentos de valores, história, cultura e forças políticas.
O caso da discussão sobre o conceito de raça é um exemplo de como a ciência adentra no
domínio moral. A concepção de que as variações genéticas individuais são bem mais significativas
do que as que existem entre grupos e de que características das supostas raças estariam apenas à
“flor da pele”, podem ser utilizadas como argumentos em debates sociais com ampla variações.
Este é um exemplo mais, entre outros, nos quais os limites entre o que é e o que deveria ser,
entre a ontologia e a ética é transposto, na medida em que a ciência assume dominância crescente
na discussão pública de temas de interesse social (Tauber, 1999), neste caso, como quando o
reducionismo genético pode dar respaldo a um tipo particular de determinismo biológico.
A ciência legitima argumentos de racionalidade e objetividade na busca por objetivos
articulados, os quais são promessas importantes para o bem-estar humano. Mas quando os
cientistas se engajam no debate público sob questões sociais, que vão decidir as políticas
públicas, sua autoridade está sujeita a uma investigação com regras distintas (Tauber, 1999).
Neste sentido, ressaltamos a relevância da influência de dada cultura científica, quer seja no que
tange a determinados conteúdos que se produz  e que impactam a sociedade materialmente
e culturalmente , quer em ações mais evidentes de construção de espaços, cursos, e contatos
com a comunidade; além das inúmeras relações políticas que se desenrolaram no decorrer dos
50 anos do ICB.
Para além da pesquisa, priorizada nas entrevistas e, possivelmente na prática, como
eixo principal de atuação dos pesquisadores; do ensino, que enfatiza a formação de futuros
pesquisadores; e da extensão, que busca experimentar junto ao público mais amplo dada
perspectiva sobre um tema; as funções administrativas a serem exercidas na universidade
naturalmente surgiram como práticas necessárias para a sustentação do ICB na posição de
excelência na qual se encontra atualmente.
Nesse sentido, a visão dos professores sobre as ações explicitamente políticas, as quais se
relacionam mais diretamente aos cargos administrativos ainda que não restritos a eles, são o
último aspecto que consideramos relevante nesta discussão sobre cultura científica no âmbito
do ICB.
137
Foto1- Sala
de Exposição O Museu de Ciências Morfológicas: lugar de
Permanente Museu de
Ciências Morfológicas
extensão e divulgação de conhecimento
Fonte: UFMG,
CEDECOM, Marli
Assis, 1993. (INS
0100)
Betânia Gonçalves Figueiredo1

A ideia do Museu de Ciências Morfológicas (MCM) partiu do pressuposto que


um número importante de pessoas tinha interesse em conhecer o corpo humano,
mas não tinha acesso às disciplinas dos cursos da área das ciências biológicas.
Apenas os alunos de cursos universitários dessas áreas específicas podem frequentar
os cursos de anatomia.
Nasceu, então, um projeto de extensão e divulgação de conhecimento, advaindo
do desejo de ampliar o público com acesso às informações relativas ao corpo humano
por meio de uma linguagem adequada. Para tanto, haveria a necessidade de desenvolver
uma narrativa museal que ousasse aproximar um púbico majoritariamente escolar
ao ambiente universitário.
1 Professora Titular aposentada do Departamento de História da UFMG. Primeira coordenadora
da Rede de Museus da UFMG.

138
Deste modo, o Museu de Ciências Morfológicas, aberto ao público em 1997, já nasce
fazendo a diferença. Nesta época tanto as atividades de extensão como as ideias de divulgação
do conhecimento acadêmico não recebiam a atenção dos dias atuais.
A partir daí, o conhecimento das ciências morfológicas foi utilizado para organizar a
apresentação do corpo humano. O pressuposto foi seguir a mesma organização utilizada no estudo
das ciências biológicas. O corpo humano é estudado no ocidente a partir dos agrupamentos dos
seus sistemas: cardiovascular, respiratório, digestório, nervoso, excretor, urinário, reprodutor,
esquelético, muscular, tegumentar.
Foi um projeto audacioso. Desde o século XVI a forma de apresentação e estudo do corpo
humano estava restrito aos especialistas e, quando muito, apresentada de forma bastante
esquemática nos livros didáticos. Havia os modelos e os atlas que poderiam ser acessados por
pessoas não especializadas.
A equipe de professores/pesquisadores do Departamento de Morfologia assumiu o desafio.
Uma das mais entusiastas do projeto foi a professora Maria das Graças Ribeiro, que coordenou
a equipe e assumiu a oportunidade como um grande compromisso acadêmico até o final da
sua vida.
A compreensão do museu como espaço de divulgação do conhecimento só iria se difundir
no Brasil em torno dos anos 2000. Até então os museus estavam bastante restritos nas suas
formas de exposição. Já um museu de ciências morfológicas, nas bases do que se pretendia, era
praticamente inexistente. O desafio de apresentar o corpo humano, a partir de peças anatômicas
reais, com uma expografia adequada foi, sem dúvida, o maior até então enfrentado.
Não se desejava trabalhar com réplicas do corpo humano e sim apresentá-lo de forma real,
com o cuidado de não ser nem exótico nem esdrúxulo. Afinal, cada uma das peças anatômicas
representara uma vida e deveria ser tratada com todo o respeito, tanto do ponto de vista técnico,
como na forma de apresentação e na recepção dos visitantes.
Para cada um dos sistemas apresentado optou-se por compará-lo com os animais e distinguir
detalhes da sua morfologia, com diversas técnicas.
Desde que o Museu de Ciências Morfológicas foi inaugurado, em 1997, tornou-se um
sucesso de público. Há uma demanda escolar (educação básica) que consegue preencher a
agenda do museu durante todo o ano, e por anos. Para muitos especialistas em quantificar o
público, o Museu de Ciências Morfológicas é um dos com o maior número de visitantes por
metro quadrado.
Há um potencial de desdobramentos de atividades do Museu de Ciências Morfológicas, e
a equipe, na medida do possível, as desenvolve. Entre as muitas atividades e projetos podem-se
destacar: a) “Célula ao alcance da mão”: apresentação de modelos desenvolvidos pela equipe
para permitir interação com o público, em especial público com baixa visão. Esses modelos
representam desde uma célula até um órgão do corpo humano. b) Projetos com professores
de ensino de ciências (educação básica): Muito professores de Ciências da educação básica
foram formados sem nunca terem utilizado microscópios. O Museu desenvolveu um módulo de
formação para observação em microscópios de lâminas; c) Ciências Morfológicas e a arte; rica

139
pesquisa que aproxima as imagens das ciências morfológicas ampliadas às formas da natureza.
É um conjunto belíssimo de imagens que são projetadas para o público. Há outros projetos
como: “LEVE CIÊNCIA PARA A VIDA”, “VAGALUME MIRIM”, “CIENTISTA MIRIM”,
“QUALIDADE DE VIDA NÃO TEM IDADE”, “CONHEÇA SEU CORPO” e “CIÊNCIA
NA PRAÇA”.
Os desafios do MCM são muitos. Um dos maiores é garantir o seu financiamento. Boa
parte dos pesquisadores que atua no Museu não é do quadro permanente da UFMG o que gera
incertezas quanto à manutenção do projeto.

Foto 2- Maria das Graças Ribeiro junto a monitora na preparação das peças anatômicas
para exposição no Museu de Ciências Morfológicas.
Fonte: UFMG, CEDECOM, Marli Assis, 1993. (INS 0100)

140
Inescapáveis cargos e política (des)velada Foto 5- Tomaz Aroldo da
Mota Santos, reitor, em
Por meio das entrevistas, os professores do ICB dizem prioritariamente não seu gabinete na reitoria.
ter interesse em política, com algumas exceções. No entanto, foram muito atuantes Fonte: UFMG,
CEDECOM, Foca Lisboa.
em várias instâncias administrativas e políticas dentro e fora da universidade. As
questões da política, da política científica, da administração, expressas, por exemplo,
em quatro reitorados9, denotam a notoriedade de atores que valorizaram questões
políticas e administrativas ao ponto de se engajarem em diversos cargos.
Sendo o ICB um centro muito produtivo, que sai à frente na pesquisa acadêmica
e também em ações de extensão, produziu várias lideranças políticas na UFMG. Um
grande exemplo disso, entre os entrevistados, são os ex-reitores Eduardo Cisalpino
e Tomaz Aroldo da Mota Santos, o primeiro a quem se pode atribuir um papel
fundamental na implementação do ICB no Campus; o segundo , primeiro reitor
negro da UFMG, sempre lembrado pela marcante defesa da universidade pública,
gratuita e inclusiva e da necessidade de recursos públicos para educação e ciência.
Outra importante liderança política do ICB foi o Prof. Marcello de Vasconcellos
Coelho, reitor da universidade entre 1969 a 1973, pós AI5 e, assim, durante os primeiro
anos do período mais duro da Ditadura Militar. É na sua gestão que, por exemplo,
a Reforma Universitária foi colocada em prática e foi aprovado, pelo Conselho
Universitário, o plano diretor que possibilitou a construção, no campus Pampulha,
de unidades como o Instituto de Ciências Biológicas (ICB), a Biblioteca Central, o

9 Reitores ligados direta ou indiretamente ao ICB: Tomaz Aroldo Mota Santos; Eduardo Osório
Cisalpino; Marcelo de Vasconcelos Coelho; Aluísio Pimenta.

141
Scanned by CamScanner
Foto 6- Prof Eduardo Centro Pedagógico e o Colégio Técnico; além de ter anexado a Escola de Educação
Cisalpino, sem data.
Física à Universidade e, em 1971, ter fundado o Centro de Computação (Cecom)10.
Fonte: UFMG,
CEDECOM, Foca Professor Eduardo Cisalpino, segundo ele mesmo, chamado de “Coronel” por
Lisboa. Ana Lúcia Gazola (então pró-reitora de pós-graduação), atuou efetivamente na
Figura 7: Retrato do
organização dos espaços e das dinâmicas administrativas para que as atividades
Prof. Marcello de do ICB se desenvolvessem. Cisalpino narrou sobre processos e ações, tanto na ida
Vasconcellos Coelho do ICB para o Campus, como do processo de incorporação do Museu de História
Fonte: Galeria de Natural pela UFMG , nos quais ele tomou a frente em decisões que requeriam que
retratos dos reitores da
UFMG. ele resolvesse porque “se você começar com muita luva, igual Itamaraty, não resolve
não.” (Cisalpino, 2014). Todo este trabalho culmina com seu reitorado, um das
maiores expressões da sua ação administrativa e política na Universidade.
Ainda que as memórias acerca de cargos administrativos ocupados pelos professores
na universidade sejam descritos principalmente como situações inescapáveis, quando
o professor, seja por características pessoais ou por reconhecimento na pesquisa, é
chamado a assumir posições diversas (desde coordenação dos departamentos ou
das pós graduações à própria diretoria do ICB), é muito notória a relevância do
envolvimento direto com a construção de políticas universitárias, que vão desde a
atuação de professores do ICB em reitorias, em pró-reitorias (especialmente na de
pesquisa), à definição de políticas científicas, que são alimentadoras dos recursos e
do desenvolvimento científico dos laboratórios e campos de investigação situados
e sob influência do Instituto.
A própria organização das vias de financiamento, primeiramente fragmentadas
nos departamentos, passando organização da FAPEBIO depois a atuação dos

10 https://www.ufmg.br/online/arquivos/000850.shtml acesso: 22 out. 2020.

142
pesquisadores na organização da FAPEMIG e outras ações (conforme tratado no capítulo 5),
indicam a relevância da atuação e circulação dos pesquisadores em instâncias de poder e de
decisões sobre as políticas científicas, não apenas para universidade como para o país no campo
das ciências.
Giovanni Gazzinelli (2015) expressa uma distinção, que lhe parece possível, entre atuação
na pesquisa e atuação política. Na sua visão, ao contrário de Baeta Viana, que “comentava tudo,
especialmente política”, considera ter dedicado sua vida à pesquisa e ao ensino e que “não fazia
política na Universidade”.
Esta fala denota uma impressão, que talvez seja comum na cultura científica do ICB, um
senso de forte distinção entre fazer política e fazer ciência e, talvez, isso se deva ao entendimento
de que fazer política seria, especificamente atuar em cargos administrativos ou ter esta intenção.
Mas é possível interpretarmos que, mesmo através de uma pesquisa (que se entenda básica,
pura ou independente), acaba-se, se não fazendo diretamente, tangenciando-se aspectos de
ordem política.
Como discute Tauber (1999) seria ingênuo ver a biologia como isolada de sua cultura.
A biologia não pode ser confinada às suas questões investigativas porque suas fronteiras não
podem ser firmemente definidas. Enquanto guardam seu próprio domínio, os biólogos buscam
informar a agenda política, como uma extensão do seu pensamento.
A sinalização de Alfred Tauber, feita há quase 20 anos, - quando já questionava a
biologia como ciência política, sugerindo seu futuro como ciência altamente embebida na
cultura -, parece estar se desenrolando, uma vez que, de fato, não se trata apenas de uma tentativa
laboratorial de estudar a natureza, mas se torna, como no caso do ICB, uma instituição que
tem um desempenho em um cenário cultural complexo. Debates relativos à sociobiologia ou
bioética demonstram a questão do papel cultural da biologia, como, por exemplo, no caso de
explicações evolutivas para altruísmo, sexualidade, religião, estruturas sociais hierárquicas.
De Platão à Freud, os pensadores humanistas extrapolaram as descrições biológicas para os
comportamentos humanos nos seus esforços por definir e explicar a natureza humana.
Ainda que esta forma de atuação política não seja algo que se faça individualmente
pelos cientistas, o instituto como um todo, em seu um papel social, produzindo um corpo de
conhecimentos que dialoga com a comunidade e que tem impacto efetivo na vida das pessoas
(inclusive na forma de se conceber o humano, a saúde e outros temas) emana uma natureza
política em várias instâncias, como qualquer instituição.
Uma trajetória vivida tem um impacto cultural, proporciona uma apropriação, respostas e
diálogos em aberto com a cultura material, com temas sociais e eminentemente políticos. Qualquer
informação que repercuta em ações concretas no mundo, a exemplo de vários dos resultados
das pesquisas do ICB, tem também nuances de natureza moral de maior ou menor magnitude,
sobre as quais buscamos apresentar aqui, como um convite à identificação, estranhamento, e
reflexão sobre o ethos e a economia moral que fazem parte da cultura científica do ICB.

143
ENTREVISTAS
CASSALI, Geovanni Dantas. Depoimento [maio 2016]. Entrevistadoras: Rita de Cássia Marques e
Jéssica Bley Silva. Belo Horizonte, 13 de maio de 2016. Entrevista concedida ao projeto Memória
e História Científica do ICB.
CISALPINO, Eduardo. Depoimento [dezembro 2014] Entrevistadoras: Rita de Cássia Marques e
Ana Carolina Vimieiro Gomes. Belo Horizonte, 01 de dezembro de 2014. Entrevista concedida
ao projeto Memória e História Científica do ICB.
COELHO, Paulo Zech. Depoimento [fevereiro de 2016]. Entrevistadoras: Ana Carolina Vimieiro
Gomes e Rita de Cássia Marques. Belo Horizonte, 16 de fevereiro de 2016. Entrevista concedida
ao projeto Memória e História Científica do ICB.
DINIZ, Carlos R. Entrevista concedida a Angelo Machado e Roberto Barros de Carvalho,
publicada em maio de 1993 na revista Ciência Hoje e que compõe o livro Cientistas do Brasil, 1998.
GAZZINELLI, Giovanni. Depoimento [fevereiro de 2015]. Entrevistadoras: Rita de Cássia Marques
e Ana Carolina Vimieiro Gomes. Belo Horizonte, 27 de fevereiro de 2015. Entrevista concedida
ao projeto Memória e História Científica do ICB.
GODINHO, Hugo Pereira. Depoimento [abril de 2015]. Entrevistadoras: Rita de Cássia Marques
e Ana Carolina Vimieiro Gomes. Belo Horizonte, 03 de abril de 2015. Entrevista concedida ao
projeto Memória e História Científica do ICB.
LINARDI, Pedro. Depoimento [dezembro de 2015]. Entrevistadora: Rita de Cássia Marques.
Belo Horizonte, 05 de dezembro de 2015. Entrevista concedida ao projeto Memória e História
Científica do ICB.
MACHADO, Angelo Barbosa Monteiro. Depoimento [julho de 2015]. Entrevistadoras: Rita de
Cássia Marques, Ana Carolina Vimeiro Gomes. Belo Horizonte, 07 de janeiro de 2015. Entrevista
concedida ao projeto Memória e História Científica do ICB.
NEVES, David Pereira. Depoimento [julho 2015]. Entrevistadora: Ana Carolina Vimieiro Gomes.
Belo Horizonte, 09 de julho de 2015. Entrevista concedida ao projeto Memória e História
Científica do ICB.
NICOLI, Jacques Robert. Depoimento (junho de 2016). Entrevistadora: Rita de Cássia Marques.
Belo Horizonte, 30 de junho de 2016. Entrevista concedida ao projeto Memória e História
Científica do ICB.
PENA, Sérgio Danilo. Depoimento [Abril de 2016]. Entrevistadoras: Ana Carolina Vimieiro
Gomes e Rita de Cássia Marques. Belo Horizonte, 30 de abril de 2016. Entrevista concedida ao
projeto Memória e História Científica do ICB.
VAZ, Nelson Monteiro. Depoimento [outubro de 2015. Entrevistadoras: Ana Carolina Vimieiro
Gomes e Rita de Cássia Marques. Belo Horizonte, 23 de outubro de 2015. Entrevista concedida
ao projeto Memória e História Científica do ICB.

144
VIEIRA, Ênio Cardillo, Depoimento [Abril de 2015]. Entrevistadoras: Rita de Cássia Marques
e Paloma Porto. Belo Horizonte, 14 de abril de 2015. Entrevista concedida ao projeto Memória
e História Científica do ICB.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ATKINSON-GROSJEAN, J; FAIRLEY, C. Moral Economies in Science: From Ideal to Pragmatic.
Minerva, 2009.
DINIZ, Carlos R. Entrevista concedida a Angelo Machado e Roberto Barros de Carvalho. In:
SBPC, Cientistas do Brasil: depoimentos. p.119, 1998.
DASTON, Lorraine. “The Moral Economy of Science.” Osiris, v. 10, pp. 2–24. JSTOR, www.jstor.
org/stable/301910, 1995.
FONSECA. M. A. A Constituição de Valores de “Ciência e Cultura” no Brasil: 1948-1988. Tese
de Doutorado, 2012.
KRATHWOHL, David. R. Methods of educational an social science research: an integrated
approach. White Plains: Longman Publishing group, 1993.
MERTON, Robert K. The Ethos of Science (1942) In: MERTON, Robert K. On social structure
and science. Ed. Piotr Sztompka. Chigaco: Univ. Chicago Press, 1996.
OLIVEIRA, B. J.; FONSECA, M. A. Variações sobre a “cultura científica” em quatro autores
brasileiros. Hist. cienc. saúde-Manguinhos. v. 22, n. 2 .Rio de Janeiro, abr./jun. 2015.  
RASMUSSEN, Nicolas. The moral economy of drug company-medical scientist collaboration
in interwar America. Social Studies of Science, 34. 2004.
SBPC, Cientistas do Brasil: depoimentos, 1998.
TAUBER, Alfred I. Is biology a political Science? BioScience, v. 49, n. 6, 1999.
ZIMAN, John. Real science: what it is, and what it means. Cambridge: Cambridge University
Press, 2000.

145
Capítulo 4
50 50
50
50
50 50
50
50
Os “modos de conhecer” e fazer ciência do Instituto
de Ciências Biológicas

Ana Carolina Vimieiro Gomes

TERRÍVEL contra o INSETO


Combate às doenças transmitidas pelo Aedes aegypti tem nova estratégia:
vacina desenvolvida no ICB que mata o mosquito ou compromete seu
ciclo reprodutivo
(Boletim UFMG, 23 de abril de 2018)

Em 23 de abril de 2018, o Boletim da UFMG noticiou em sua reportagem de capa mais uma
importante e inovadora pesquisa desenvolvida no ICB: “Morte ao Mosquito”. A matéria, na página
5, versa sobre uma vacina que “em vez de imunizar contra doenças, ela mata o transmissor”, ou
seja, uma vacina “para combater o Aedes aegypti”, inseto responsável pela transmissão de várias
doenças como dengue, zika, febre amarela, etc. Aliás, a notícia é providencial em um momento
de surto de febre amarela nos primeiros meses de 2018. Segundo o coordenador da pesquisa,
o Prof. Rodolfo Giunchetti, as formulações da vacina contêm proteínas relacionadas à vida do
inseto e que gerariam a produção de anticorpos contra essas proteínas no indivíduo vacinado. A
matéria destaca a relação da pesquisa com a formação de estudantes de pós-graduação, o caráter
interdisciplinar e interinstitucional do projeto, a publicação a ser produzida e o depósito de
patentes decorrido da pesquisa e, como decorrência, o seu potencial de se tornar biotecnologia
com aplicação e comercialização em larga escala, de acordo com o novo Marco Legal brasileiro
de Ciência, Tecnologia e Inovação (Lei 13.243/16).
Tal tipo de matéria recente apontando desenvolvimentos técnico-científicos tão atuais e
potencialmente inovadores nos instiga a explorar historicamente os processos de produção de
conhecimento estruturantes da cultura científica do ICB, ao longo dos seus 50 anos de história.
O que a maioria das pessoas não sabe é que esse padrão de pesquisa é fruto de toda uma tradição
de fazer ciência desenvolvida desde antes da constituição formal do Instituto e que envolve:
grupos integrados, temas partilhados e a cultura de pesquisa molecular nas ciências da vida.
Este capítulo tem como objetivo discutir os “modos de conhecer” que foram marcantes
na história científica do ICB/UFMG. Compreendemos o “modo de conhecer” como várias
camadas de conhecimento que convivem, se transformam, se sobrepõem e se desenvolvem ao
longo do tempo. Evidentemente, cada momento é marcado por um paradigma específico que

149
orienta o desenvolvimento científico pelos grupos de pesquisadores mundo afora; porém isso
não suprime o caráter local das pesquisas, além da presença e interação com outras formas
de conhecimento em jogo em um dado contexto científico e institucional (Pickstone, 2000).
Outro ponto importante é que analisar os “modos de conhecer” também envolve os “modos
de fazer”, ou seja, a dimensão prática da ciência e implica ter em conta seus instrumentos e
aspectos técnico-científicos (como a aplicação e mercantilização das inovações produzidas).
A partir dessa concepção, procuraremos demonstrar como a ciência de laboratório, orientada
pelo primado da biologia molecular, tornou-se ao longo dos anos o principal modo de conhecer
do ICB; porém, reconhecemos que, em interação a esse modo de conhecer e fazer, coexistiram
simultaneamente diferentes camadas de saber e fazer ciência, tais como o colecionismo, a
taxonomia, o trabalho de campo, estudos clínicos, desenvolvimento de tecnologias biomédicas
e patentes - técnicas de diagnóstico, vacinas, propriedades farmacológicas, medicamentos –,
informatização e constituição de banco de dados com informações biológicas, para citar os
principais.
Mosquitos, vacinas, doenças endêmicas, proteínas, colaborações intra e interinstitucionais,
patentes são então palavras-chave, extraídas da reportagem do Boletim da UFMG acima referida,
que nos servem de ponto de partida para uma incursão em alguns dos aspectos centrais da
história científica e de algumas características dos modos de conhecer da cultura científica do
ICB. Identificamos que o desenvolvimento científico do Instituto ocorreu atrelado ao processo
de molecularização das ciências da vida, modelo e concepção científica orientadores da maioria
das investigações em biologia e biomedicina na segunda metade do século XX. Outra marca
da ciência do ICB é a integração dos grupos de pesquisa dos vários departamentos e campos
de conhecimento em torno de temas de investigação partilhados e relacionados a questões
de interesse para o cenário mineiro e nacional como: doença de chagas, esquistossomose,
leishmaniose e venenos, por exemplo. O ICB desde o início de suas atividades acadêmicas,
sempre manifestou uma vocação tecnocientífica e para a inovação: uma pesquisa básica vigorosa
explicitamente preocupada com a inovação biotecnológica e a aplicação dos conhecimentos,
visando solucionar problemas práticos de interesse da sociedade, sobretudo na área da saúde
pública (Santos et.al., 2013). Mas nada dessas atividades seriam efetivas se os pesquisadores não
agissem para fazer o conhecimento circular – intra, inter e extra-institucionalmente: a promoção
de encontros de pesquisa e de eventos; as visitas de pesquisadores estrangeiros e parcerias de
pesquisa interinstitucionais; participação em sociedades e associações científicas; publicações
numerosas; criação de revistas científicas, permitiram que as pesquisas do ICB adquirissem
visibilidade perante os seus pares e a sociedade mais ampla.

1- Molecularização, tecnologia e a cultura material do ICB


Em abril de 1953 a revista científica Nature publicou o artigo científico que se tornou um marco
na história das ciências biológicas e biomédicas da segunda metade do século XX: “Molecular
Structure of Nucleic Acids: A Structure for Deoxyribose Nucleic Acidos”, qual seja, o artigo sobre a
atualmente famosa dupla hélice que estrutura o DNA, de autoria de James Watson e Francis Crick

150
da Universidade de Cambridge. No anos seguintes, o
trabalho de Watson e Crick tornou-se considerado ponto
de partida para a remodelação da biologia e um dos
fatores para a conclusão do processo de laboratorização
da biomedicina. A dupla hélice (Figura 1 – a dupla
hélice do artigo original) é por isso tida como ícone da
emergência da biologia molecular moderna, cuja imagem
até mesmo adentrou o imaginário social sobre a ciência
nesse período, a partir de representações em esculturas,
nas artes visuais, brinquedos etc. Na sequência dessa
investigação sobre a estrutura do DNA proveio várias
frentes de pesquisa sendo as mais conhecidas delas o
código genético e a síntese de proteínas, e, desde os
anos 1970, desenvolvimentos técnicos, como a técnica
do DNA recombinante e a clonagem, o sequenciamento
gênico, a engenharia genética, etc. Muitas dessas técnicas
alimentam hoje toda uma indústria biotecnológica em
várias partes do mundo.
A dupla hélice materializa, portanto, uma gama
de significativas transformações nas ciências da vida
e biomédicas acontecidas no século XX, com maior
proeminência a partir da II Guerra Mundial, em campos
de conhecimento como a química orgânica, química
fisiológica, biofísica, bioquímica etc. e que, com o passar dos anos, levaram a uma Figura 1: O modelo
visão molecular dos fenômenos da vida e a todo um conjunto de práticas científicas da dupla hélice que se
tornou icônico para a
centradas nas moléculas. Mas a molecularização não se reduz ao estudo do DNA e representação da estrutura
da biologia molecular. Ela é também devedora dos estudos empreendidos nos anos do DNA. (Watson e Crick,
1950 sobre a relação entre a estrutura e a função molecular na hemoglobina normal e 1953: p.737)

anormal (como na anemia falciforme), por exemplo (Chaderevien, 1998). As moléculas


passaram a aparecer em diferentes pontos de vista da pesquisa biológica e biomédica:
como objetos científicos a serem caracterizados e analisados; instrumentos a serem
usados no estudo dos processos moleculares; indicadores de fenômenos orgânicos e
clínicos; ou como fenômenos biológicos por si. O processo de “molecularização”1 das
pesquisas biomédicas – e sua institucionalização e disciplinarização nos anos 1950 e
1960 – forjou novas conexões entre o laboratório, a pesquisa clínica e a indústria com
o propósito de identificar, produzir, fazer circular e usar as moléculas na pesquisa
e inovação (Chadarevien e Kamminga, 2005). Hoje em dia nossa compreensão

1 O termo “molecularização” refere-se a todo um processo de formação de redes feitas de alianças


estratégicas, intra e extra científicas, orientadas em direção à categorização e ao emprego das mo-
léculas nas ciências da vida (Chadarevien, 2002).

151
científica sobre a vida, a saúde e a doença, bem como, em outro plano, as concepções sobre a
nutrição ou a produção de vários medicamentos dependem dos conhecimentos a partir de uma
visão molecular dos fenômenos da vida (Chaderevian, 2002).
Todas essas transformações nos modos de conhecer das ciências da vida foram beneficiadas
pelas condições históricas da ciência do pós-guerra, ou melhor, do período da Guerra-Fria
(Wang, 1999): um momento de redefinições do papel da ciência na sociedade que acarretou em
ampliação dos investimentos em pesquisas, com destaque para a segurança nacional e a interação
entre a biologia e a medicina; um forte movimento de internacionalização da ciência; renovado
papel para o estado como empreendedor científico; mais aproximações entre a pesquisa de
laboratório e a clínica (chamada de biomedicalização); levando a um novo sistema de relações
entre ciência, tecnologia e indústria, que, com o passar dos anos, acabou por também fomentar
os empreendimentos biomédicos da chamada era da “Big Science”, ou seja, a coletivização das
pesquisas a partir de grandes redes e empreendimentos científicos e da ciência pós-acadêmica,
ou seja, voltada para o mercado. É nesse contexto, por exemplo, que se processa o chamado
“milagre terapêutico” com o desenvolvimento de pesquisas em drogas (como as magic bullets)
para tuberculose, como a penicilina, câncer e doenças cardiovasculares, dentre outras doenças
(Quirke and Gaudillière, 2008; Löwy, 2011). A Fundação Rockefeller, a Organização Mundial
de Saúde, a National Institute of Health (NIH) nos EUA, por exemplo, foram instituições
determinantes no financiamento de grandes pesquisas e da formação técnico-científica, para
cientistas de vários países, de acordo com esses novos modelos para as ciências da vida (Kay,
1993). A segunda metade do século XX marca, portanto, o crescimento de pesquisas biológicas
e biomédicas complexas, caracterizadas pela homogeneização e circulação internacional de
métodos e técnicas laboratoriais usadas para o estudo dos fenômenos orgânicos mais importantes
e na investigação das doenças. Cabe ressaltar que os cientistas de países Latino-Americanos não
estiveram à margem desse processo e foram partícipes na trama de circulação técnico-científica
do período (Mateos e Soares-Díaz, 2012; Souza e Santos, 2014).
O desenvolvimento científico e a própria institucionalização do ICB, independente do
departamento ou do campo de conhecimento, conectaram-se diretamente com tais transformações
nos modos de conhecer das ciências da vida do período. Em alguns campos de conhecimento
biológicos e biomédicos, como a bioquímica, biofísica, genética, citologia, imunologia a
centralidade das moléculas é evidente. Em outros como a morfologia, parasitologia, microbiologia,
zoologia e botânica essa associação, quando aparece, não é tão autoevidente ou parece ter
ocorrido de modo mais tardio, sobretudo a partir do desenvolvimento da genômica desde os
anos 1990. Porém, o que vale para a presente análise é pensar a presença das moléculas seja
como objeto, instrumento, indicadores biológicos ou fenômenos orgânicos em si nas pesquisas
desenvolvidas no ICB. Seguindo esse raciocínio, podemos perceber uma presença significativa
da “molecularização” no processo de desenvolvimento científico do instituto ao longo dos seus
50 anos.
Como exposto no capítulo 5, vários dos pesquisadores de destaque do ICB, e que advogaram
pela criação de um instituto de ciências básicas desde meados da década de 1960, tiveram a sua

152
formação científica em instituições no exterior em fins da década de 1950 e ao longo dos anos
1960, a maioria financiados por agências internacionais, como a Fundação Rockefeller. Angelo
Machado, Carlos Ribeiro Diniz, Ênio Cardillo, Lineu Freire-Maia, Hugo Godinho, Giovanni
Gazzinelli, Marcos Mares-Guia, Conceição Ribeiro da Silva Machado, para citar alguns, são bons
exemplos de pesquisadores, da primeira geração formadora do ICB, que tiveram treinamento
científico em instituições norte-americanas e de acordo com os modelos de pesquisa experimental
do período, incluindo a perspectiva molecular e biotecnológica. Um indício da relevância
desse treinamento científico no estrangeiro dentro do olhar molecular para os fenômenos da
vida pode ser observado no relato de Carlos Ribeiro Diniz do Departamento de Bioquímica e
Imunologia, sobre a sua experiência nos EUA, nos anos 1960:
Quando estava em Ribeirão Preto, o Harry Miller, um dos diretores da Fundação Rockefeller, que eu
já conhecia, me ofereceu uma bolsa e fui trabalhar na Universidade de Wisconsin, interessado num
campo muito novo: o efeito dos hormônios estrógenos no estímulo do crescimento celular. Fiquei
em Wisconsin durante quase dois anos e fiz muitas coisas, aprendi muito. Recebi uma proposta
de trabalho cuja hipótese podia ou não estar correta, mas resolvi arriscar. Durante um ano e meio
tentei entender a origem do anel insaturado da molécula dos hormônios estrógenos e não obtive
resultado algum. Foi um negócio heroico: montei métodos analíticos rigorosos para testar a hipótese,
usando isótopos radioativos, e não deu em nada. Pouco depois, na Suíça, Reichstein resolveria
o quebra-cabeça. Como tinha mais algum tempo para ficar, decidi fazer um curso de cultivo de
células na Universidade de Nova Iorque, com a ideia de, voltando ao Brasil, usar a técnica para
estudar o T. cruzi. Minha intenção, em última instância, era encontrar um agente terapêutico.
(Diniz, 1993; grifo meu)2

O Prof. Ênio Cardillo, em entrevista, também nos aponta para a relevância do treinamento
científico em bioquímica nos EUA, já em proximidade a uma perspectiva molecular: “lá [na
Tulane University] eu trabalhei com a biossíntese de ácido fólico, que é uma vitamina. Foi a
minha tese de doutorado, foi até publicada no Journal of Biological Chemistry. E... E quando...
No estudo com síntese de ácido fólico... Com ácido fólico, eu que tomei conhecimento dos
animais isentos de germes” (Cardilho, 2015).
Cabe ressaltar que todos esses pesquisadores, ao voltarem ao Brasil, acabaram por constituir
seus grupos de pesquisa e contribuir com a criação e o desenvolvimento dos cursos de pós-
graduação do ICB, como é o caso da pioneira bioquímica já em 1968 – o que favoreceu a formação
científica de várias gerações de pesquisadores, que, com os anos, vieram a ser o sustentáculo da
hoje reconhecida excelência científica do Instituto e que se espraiaram por outras instituições
no Brasil e exterior.
Outro bom exemplo de praticante desse modelo de pesquisa – mas de uma geração anterior,
proveniente do curso de História Natural da Faculdade de Filosofia é Giorgio Schreiber (1905-
1975). O naturalista Schreiber era italiano de Trieste e, judeu, veio ao Brasil em 1940 fugido
2 Entrevista a Angelo Machado e Roberto Barros de Carvalho. Ver: http://www.canalciencia.ibict.br/notaveis/
livros/carlos_ribeiro_diniz_12.html
Acesso em: 29 mai. 2018.

153
das políticas fascistas de Mussolini. Antes de vir a Belo Horizonte em 1948, Giorgio Schreiber
atuou na USP e no Instituto Butantã, onde teve contato com figuras importantes do cenário
científico brasileiro da época, como o geneticista André Dreyfus (1897-1952) e o imunologista
Otto Bier (1906-1985) (Carvalho, 1975). No curso de História Natural da antiga FAFI da já
Universidade Federal de Minas Gerais, Schreiber foi professor de Zoologia  em regime de
dedicação exclusiva paga pela CAPES. Junto com Braz Pellegrino, foi responsável pela criação
do Instituto de Biologia Geral (criado em 1948), que foi um local de intensa atividade e produção
científica em biologia e biomedicina ao longo dos anos 1950  em colaboração com o “Instituto
Agronômico do Estado”, o “Instituto Oswaldo Cruz” de Belo Horizonte (ou Centro de Pesquisas
de Belo Horizonte, atual Instituto René Rachou) e o “Instituto de Endemias Rurais” (INERu)
(Braz Pellegrino, UFMG Arquivo Institucional do ICB, Caixa 1, Envelope 1 Doc. 1, 1957). Aliás,
foi a partir desse grupo de pesquisadores da FAFI, que emergiu, já em 1957, uma solicitação para
que o Instituto de Biologia fosse tornado um órgão científico da Universidade, ligado à reitoria,
e não da Unidade FAFI, para ser, sobretudo, um lugar aglutinador das pesquisa biológicas, e
com autonomia financeira e acadêmica (Braz Pellegrino, UFMG Arquivo Institucional do ICB,
Caixa 1, Envelope 1 e Doc. 2, 1957).
Schreiber também foi beneficiário dos recursos da Fundação Rockefeller, nos anos 1950 até
início dos anos 1960, para desenvolver estudos sobre citologia quantitativa e DNA de animais
como moluscos e mosquitos. (Letters of Giorgio Schreiber to Harry Miller, Rockefeller Archive
Center RF, 1.3, 305, 35, 306) . Há evidência de que alunos seus também foram fellows e receberam
recursos para qualificação acadêmica nos EUA, como é o caso da pesquisadora Ita Abramof
que, em 1964, foi contemplada com bolsa para treinamento em microscopia eletrônica para
citologia experimental na Harvard Medical School. Porém ela teve a bolsa rescindida e não
chegou a realizar o treinamento devido a problemas pessoais. As pesquisas de Schreiber na
UFMG foram sempre centradas no campo da citologia e da citogenética como mapeamento
de cromossomos, volume nuclear, cariometria de células vegetais, cariotipagem de mosquitos
anófeles e barbeiros, além de também ter colaborado com os estudos sobre a esquistossomose,
pela citogenética em caramujos (Carvalho, 1975). Muitos atribuem à Giorgio Schreiber o título
de “pai” da genética na UFMG. Aliás, é nesse ambiente investigativo já voltado para a pesquisa
molecular, que o geneticista Theodosius Dobzhansky, em viagem de pesquisa ao Brasil, visita
Belo Horizonte convidado por Schreiber e Braz Pellegrino para lecionar seminários sobre seus
trabalhos com as Drosophilas para o curso de História Natural (Dobzhansky, 1980, p. 185).

154
Foto 1: O professor Giorgio Schreiber em sua mesa de trabalho no Departamento de Biologia Geral do ICB, s/d.3

Figura 2: Fellowship Card da Fundação Rockefeller com informações sobre a pesquisadora Ita Rebeca Kaiserman
Abramof. Detalhe para a observação sobre o treinamento no uso do microscópio eletrônico.
Fonte: Abramof, Ita Rebeca Kaiserman (Brazil). RAC, RF, RG10.2, FA426, B8.

3 Ver: https://www.ufmg.br/80anos/ic_prof_giorgio.htm Acesso 29 de maio de 2018. Ver: https://www.ufmg.


br/80anos/ic_prof_giorgio.htm Acesso 29 de maio de 2018.

155
Em decorrência das políticas de modernização conservadora das Universidades Brasileiras
na Ditadura Militar (Motta, 2014) e das transformações institucionais decorrentes da Reforma
Universitária de 1968 – com a definitiva criação dos institutos centrais de ciências básicas,
conforme modelo de ensino universitário norte-americano – algumas das condições de pesquisa
científica vislumbradas, anos antes, pelos pesquisadores do Instituto de Biologia Geral da FAFI
passaram a se tornar possíveis. A nova configuração institucional de ensino superior, orientada
para também ser um lócus aglutinador de pesquisas básicas, favoreceu o desenvolvimento de
um “modo de conhecer” direcionado para a biomedicina e a “molecularização” dos fenômenos
da vida. Os relatórios dos vários Departamentos do ICB mostram-nos a penetração dos estudos
moleculares nas agendas científicas dos seus professores: nos temas e linhas de pesquisa, nos
projetos e nas publicações4.
O Departamento de Biologia Geral, nos anos 1970, sob influência de Giorgio Schreiber
e seus estudos em citogenética, nos aponta intensa atividade de pesquisa experimental numa
perspectiva molecular. DNA, cromossomos, oxaminiquina, colchicina, 59Fe (isótopo de ferro),
são mais exemplos de objetos investigativos de acordo com esse modelo que aparecem nas
publicações dos seus pesquisadores. Já nos anos 1980, as linhas de pesquisa tornaram-se melhor
definidas no Departamento e junto à citogenética – então a partir das pesquisas do Prof. Delson
Vale – são confirmadas linhas específicas em genética e genética molecular, sob liderança de
Edmar Chartone e Humberto de Carvalho, além da ecologia, liderada por José Rabelo Freitas.
Nesse universo investigativo, podemos destacar as iniciativas de estudos sobre genética de
microrganismos como bactérias e fungos, genética vegetal e polimorfismos moleculares em
estudos com isoenzimas (Relatório do Departamento de Biologia Geral, UFMG, Arquivo
Institucional do ICB, Caixa 23, 1973, 1975, 1986).
Na Bioquímica e Imunologia o olhar molecular dominou a maioria das pesquisas desde
antes do início das atividades acadêmicas em torno do ICB. Não foi à toa que o primeiro
Programa de Pós-Graduação do ICB foi em bioquímica, criado em 1968. As moléculas foram,
sobretudo, objetos de pesquisa per si ou instrumentos para a compreensão de fenômenos
orgânicos específicos em pesquisas sobre esquistossomose, venenos, doença de chagas etc.
Destacam-se os estudos sobre proteínas realizados pelo grupo liderado por Marcos Mares Guia,
em especial enzimas como a tripsina, e sobre nutrição em animais, como a dos caramujos B.
glabata, no caso do grupo do Prof. Ênio Cardillo.
Nesses anos iniciais de atividade científica do ICB, a molecularização é menos evidente
ou pouco presente em vários outros departamentos. Mesmo assim, é possível observar que as
moléculas foram protagonistas, por exemplo, nas pesquisas do Laboratório de Polipeptídeos,
em especial com o tema da bradicinina e da calicreína, sob liderança do prof. Wilson Beraldo
da Fisiologia; ou nos estudos em biofísica molecular por parte do Prof. Ibrahim Heneine; ou
ainda no âmbito do Departamento de Microbiologia, com os primeiros estudos sobre Interferon
4 Só foi possível efetuar um levantamento mais de conteúdo nos relatórios departamentais disponíveis do Arquivo
Institucional Secretaria Geral do ICB para alguns anos da década de 1970 e 1980. A partir de 1991, sob orientação
da CPPD, os relatórios tornaram-se menos qualitativos e, em contrapartida, mais burocráticos e voltados para a
quantificação da produtividade acadêmica.

156
desenvolvidos pelo virologista Romain Rolland Golgher (1937-2012). Na botânica a presença
de um olhar molecular pode ser inferida nos investimentos em pesquisas sobre a fixação de
nitrogênio no solo e o processo de fotossíntese de várias plantas locais.
Podemos afirmar que os anos 1980, já numa atmosfera de redemocratização, marcaram
a consolidação dos grupos de pesquisa dos diversos departamentos, com melhorias na
infraestrutura, maior financiamento, ampliação do quadro docente e diversificação dos temas
de pesquisa. Obviamente, com o passar dos anos, essas transformações implicaram em uma
complexificação cada vez maior nos modos de conhecer e fazer ciência no ICB. E isso incluiu
um maior número de pesquisas orientadas pelo paradigma molecular, muitas seguindo as
linhas investigativas do início das atividades do ICB. Em 1986, o Departamento de Bioquímica
e Imunologia elencou em seu relatório cerca de 60 projetos relacionados a diversas linhas de
pesquisa interdisciplinares, dentre elas a gnotobiologia (estudos experimentais em animais
livres de germens), enzimologia, imunologia e imunoquímica, neuroquímica, etc. Aparece
também a linha em biotecnologia além da biologia molecular e a “genética bioquímica humana”
coordenada pelo pesquisador Sérgio Danilo Pena. Nesse amplo universo de pesquisas, chamam a
atenção a consolidação dos vários grupos de pesquisadores e a ampliação de projetos anteriores
de acordo com os modelos moleculares em temas como calicreínas, isoenzimas em doença de
chagas, anticorpos monoclonais, imunoglobulinas, polimorfismos genéticos no DNA humano.
Muitos deles partilhados com pesquisadores de outros departamentos e grupos de pesquisa
dentro e fora do ICB (UFMG Arquivo Institucional do ICB – Relatório do Departamento de
Bioquímica Caixa 23, 1986).
Desse modo, essa mesma tendência de expansão pode ser constatada em vários departamentos.
O Departamento de Farmacologia destacava o desenvolvimento de 27 projetos de pesquisa no
relatório do ano de 1986. O Departamento de Fisiologia e Biofísica listou 31 projetos. Já no de
Botânica foram 33, no de Morfologia 38, Microbiologia 41, Parasitologia 92, Patologia 05 e o
de Zoologia 07 projetos sem e com financiamentos nacionais e internacionais. Dentro de um
numeroso e variado espectro de empreendimentos investigativos realizados pelos professores do
ICB, independente do campo de conhecimento, a centralidade das moléculas continuou presente
em diversos estudos sobre genética molecular e DNA; peptídeos como renina-angiotensina,
calicreína-tripsina, polímeros; enzimas proteolíticas; histoquímica; imunoglobulinas, clonagem
de cepas de parasitos; para citar alguns temas recorrentes e procedimentos experimentais
notadamente empreendidos a partir dos anos 1980.
Aqui já vale chamar a atenção para a interface biotecnológica e as promessas de aplicação
dos empreendimentos investigativos segundo uma cultura de pesquisa molecular. Tal é o caso das
pesquisas realizadas pelo virologista Romain Rolland Golgher sobre o Interferon. A introdução de
moléculas reguladoras do sistema imunológico humano no tratamento do câncer (imunoterapia),
como é o caso Interferon, foi vista como uma grande inovação biotecnológica no início dos anos
1980 (Löwy, 2005). Os estudos sobre o uso do Interferon como um potencial agente antitumor
iniciou-se nos anos 1970. Contudo, havia o problema da escassez da substância e a dificuldade
de se ter fontes naturais, pois ela é espécie-específica (interferon humano só pode ser usado em

157
humanos) (Löwy, 2005). Ao acompanhar tal tendência de pesquisas internacionais, sobretudo
pela sua interlocução científica com pesquisadores dos EUA e Europa, Golgher desenvolveu
em seu laboratório uma técnica para sintetizar o Interferon, a partir da infecção na placenta
humana com vírus de galinha, para ser utilizado no tratamento de câncer de pele, após estudos
clínicos. Aliás, em meados dos anos 1990, tal pesquisa gerou registro de várias patentes. A nova
técnica foi noticiada na imprensa como uma promessa de tratamento e pelo seu potencial de
barateamento na produção da substância feita a partir da placenta (previa-se que cada placenta
poderia fabricar 800mL de Interferon). Até então a produção industrial de tal substância estava
sob domínio mercadológico dos laboratórios norte-americanos e das sofisticadas técnicas de
engenharia genética. Com essa técnica proposta pelo Prof. Golgher, prometia-se que o interferon
poderia ser produzido no próprio país e com baixos custos (UFMG, Arquivo Institucional do
ICB, Caixa 10, recortes de jornal, sem data).
Como no caso dos estudos sobre o interferon, podem ser destacados vários outros
empreendimentos investigativos desse tipo no ICB, desde os anos 1970. Entretanto, o que vale
aqui registrar é que, com o passar dos anos, foi se firmando um modo de conhecer e fazer ciência,
que teve como base uma rede de cientistas, práticas de pesquisa e conhecimentos biológicos
e biomédicos na qual as moléculas circularam como objeto científico comum. Uma rede que
envolvia conformações laboratoriais especiais e alianças estratégicas entre os pesquisadores e
instituições de apoio à pesquisa e empresas, do país e do exterior, com isso, fazendo as pesquisas
moleculares portarem um valor simbólico de cientificidade renovada para as ciências da vida
praticada no ICB, mas sempre ligadas a temas de interesse da sociedade mineira e brasileira.
Uma cultura de pesquisa molecular exigia que os laboratórios fossem munidos de uma
estrutura material particular, que era acima de tudo cara e complexa. As ciências da vida na
segunda metade do século XX são marcadas pela introdução de inovações tecnológicas nas suas
práticas de experimentação laboratorial. Várias dessas inovações eram aparatos de pesquisas
de outros campos de conhecimento, como a física ou química. Grande parte do conhecimento
biológico e biomédico, desde a segunda metade do século XX, tem sido condicionado pelo uso
de aparatos tecnológicos sofisticados: microscópio eletrônico, micrótomos, ultracentrífugas,
aparelhos de eletroforese, cromatógrafos, contadores de isótopos, espectroscópios, cristalografia,
dentre outros. Quando analisamos os pedidos de equipamentos para melhoria da infraestrutura
de ensino prático e pesquisa de alguns dos departamentos do ICB –, conforme convênios
entre o Ministério da Educação brasileiro e governos estrangeiros como a República Popular
da Hungria (RPH) e a República Democrática Alemã (RDA), de 1987 e 1985, respectivamente,
observamos a presença de vários desses aparatos nas listas de solicitações, tais como equipamento
de eletroforese, ultracentrífugas, cromatógrafos, microscópios, vidrarias etc. (UFMG, Arquivo
Institucional do ICB, caixa 40, Convênio Premesu RDA, Convênio MEC/RPH). Percebe-se
que no contexto da Guerra Fria, os pesquisadores do ICB souberam aproveitar dos recursos
de pesquisa disponíveis no Brasil para instrumentalizar seus laboratórios – recursos que eram
decorrentes das disputas por influência política e cultural nos países do Terceiro Mundo, seja
a partir das agências norte-americanas (NIH, OMS, Fundação Rockefeller), ou, como nesse

158
caso, também dos incentivos vindos dos países do bloco
comunista.5
As novas tecnologias e as técnicas experimentais
delas decorrentes fizeram disponíveis novas formas de
fazer pesquisa e visualizar o organismo (Rasmussen, 1997):
ao redefinirem padrões de evidência e explicação dos
fenômenos orgânicos e ao mudarem as questões científicas
– cada vez mais voltadas para o universo intracelular,
molecular, físico-químico e microrgânico –, que, por
sua vez, acabaram por também transformar as técnicas
de experimentação. Um exemplo é a eletroforese, que é
uma técnica, aperfeiçoada desde o período pós-guerra,
para separar proteínas e moléculas de DNA e RNA.
Observamos que o equipamento para eletroforese fez
parte do instrumental experimental de vários laboratórios
e pesquisas do ICB desde a sua criação. Como é o caso
do laboratório de estudos sobre Leishmaniose. A Figura
2 traz a representação de um resultado de pesquisa
sobre proteínas semipurificadas do Leishvacin (vacina
desenvolvida pelo grupo de pesquisa do Prof. Wilson Mayrink) em que se buscou Figura 2: Resultado de
pesquisa sobre imunidade
observar processos de indução de imunidade protetora contra Leishmaniose com a vacina para
Tegumentar Americana (Nascimento, 1993). leishmaniose, utilizando-se
a técnica da eletroforese
Dada essa centralidade do uso de todo um instrumental tecnológico, não é à toa que
(Mayrink, 1996).
nos anos 1980, mais precisamente em 1987, é criado no ICB um centro de microscopia
eletrônica (CEMEL), como órgão complementar, para uso da suas comunidades
de pesquisadores – que, aliás, deu origem ao atual CAPI (Centro de Aquisição e
Processamento de Imagens), oficializado em 2013, e composto pelo que há de mais
sofisticado em termos de tecnologia de produção de imagens científicas. A história
da microscopia eletrônica na biologia corre em paralelo e conflui com o contexto de
desenvolvimento de uma cultura de pesquisa molecular. Um bom exemplo é a biologia
celular, que, após os anos 1980, passa de um tradição citológica a uma perspectiva
cada vez mais molecular, como na citogenética (Serpente, 2011). A introdução de
uma maior precisão do microscópio eletrônico (milésimo de mícron (mµ) em relação
ao microscópio ótico que é de um mícron, µ) nos diferentes subcampos da biologia
possibilitou novos conhecimentos em função de uma observação mais minuciosa
(mais proximal) e de caráter tridimensional dos componentes orgânicos. Essa nova
forma de visualização foi decorrente do controle das características e da interpretação
das imagens por parte das comunidades de pesquisadores. As imagens adquiriram
novos significados científicos envolvendo: aspectos estéticos (parâmetros de estilo e

5 Sobre a trama dos financiamento de pesquisa do ICB: Ver capítulo 05.

159
Figura 3: Formas qualidade da imagem); epistemológicos (capacidade de percepção e identificação dos
tripomastigotas
sanguineas do
fenômenos orgânicos); sociais (infraestrutura institucional, treinamento do olhar e
Trypanosoma cruzii práticas padronizadas) (Rasmussen, 1997). A título de comparação, a Figura 3 ilustra
em microscopia ótica; os diferentes padrões de evidência na descrição morfológica do Trypanosoma cruzi
(A) Tripomastigota e
(B) amastigotas de T. a partir do microscopia ótica, microscopia eletrônica de varredura e microscopia
cruzi em microscopia eletrônica de transmissão.
eletrônica de varredura; A introdução dessas novas técnicas de microscopia eletrônica exigia não só a
(A,B) Cinetoplasto
(DNA mitocondrial aquisição da mais sofisticada aparelhagem – o CEMEL contava com microscópios
condensado) de transmissão e varredura (Zeiss), ultramicrótomos, ultracentrífugas, apararelhos
arredondado das formas
de secagem, navalhas de diamante e câmara escura para revelação e ampliação
tripostigotas do T. cruzi
em microscopia de das fotografias; mas o treinamento dos técnicos e pesquisadores para manusear o
transmissão. equipamento, orientar o olhar, fazer as perguntas e interpretar as imagens. Ora, em
(Carvalho, 2007)6
qualquer forma de produção de conhecimento é necessário ter uma “disposição à
percepção direcionada”, ou seja, “somente após muitas vivências, talvez após uma
formação prévia, adquire-se a capacidade de perceber, de maneira imediata, um
sentido, uma forma e uma unidade fechada” dos fenômenos naturais (Fleck, 2010,
p. 142). A própria funcionária do CEMEL, na ocasião Ivete Bozi, era uma das pessoas
capacitadas a processar o material biológico para a realização da microscopia (Boletim
do ICB, março de 1994). Nessa direção, podemos também constatar que foram
ministrados várias edições de “Cursos de treinamento em Microscopia Eletrônica”
na Faculdade de Medicina, também dirigidos para o público de estudantes e
pesquisadores do ICB (Boletim Informativo do ICB, junho de 1969, novembro de
1972), ou após a criação do CEMEL, disciplinas oferecidas pela Pós-Graduação em
Morfologia de microscopia eletrônica de transmissão e de varredura liderados pela
Profa. Conceição Machado (Boletim do ICB, março de 1994).
As sofisticadas e dispendiosas práticas científicas segundo uma cultura de
pesquisa molecular demandaram a concepção de condições institucionais especiais,
com o intuito de se otimizar o uso compartilhado das tecnologias e dos recursos
instrumentais por parte dos vários grupos de pesquisadores e estudantes de
pós-graduação. Em 1984, o então diretor do ICB Edward Félix da Silva propôs a

6 In: Portal de Chagas, Fiocruz: http://chagas.fiocruz.br/organizacao-estrutural/# Acesso 18 de


junho de 2018.

160
implantação de um Centro de Processamento de Dados para o
Núcleo de Pós-Graduação, apoiado pela CAPES, com estrutura
operacional para a realização das pesquisas, composta de:
centro de processamento de dados; setor de documentação, com
laboratório de desenho e de fotografia; hialotécnica; serviço de
ótica e eletrônica; serviço gráfico; biotério e; secretaria e serviço
de datilografia (UFMG, Arquivo Institucional do ICB, caixa 22,
Projeto de Implantação do Centro de Processamento de Dados,
1985). A posterior instituição de órgão complementares como o
CEMEL e de um biotério central também podem ser encaradas
como tentativas de proporcionar condições institucionais com
espaços e infraestrutura de usos comuns. Cândido Coimbra,
do Departamento de Fisiologia, destaca a relevância dessas
iniciativas de partilha de espaço e infraestrutura para o
desenvolvimento das pesquisas em anos recentes:
Então assim, isso que eu chamo de crescimento interno né, mas isso demanda muita Foto 3: Técnico
Rubens Miranda,
energia, uma organização diferente a gente tem que reestruturar então se antes
da neurobiologia,
nós tínhamos um laboratório que era assim, quando eu cheguei cada um tinha seu no Laboratório de
laboratório seu escritório, não sei o quê. Agora eles são compartilhados né. Então você Morfologia.
entra, você vai encontrar aqui com uns quatro docentes, você vai entrar aqui na frente Fonte: UFMG-Arquivo
Institucional do ICB,
e são mais cinco docentes, então são laboratórios grandes mas abertos e gerenciados
caixa 45.
por mais docentes que trabalham na mesma área. Então isso você economiza espaço.
(Coimbra, 2017).

Importante chamar a atenção que as condições institucionais de infraestrutura


de pesquisa não eram de uso comum unicamente para o desenvolvimento das
pesquisas, mas eram fundamentais para a realização das aulas práticas. O relato do
servidor aposentado do ICB, o Sr. Darcy Santos, que por muitos anos trabalhou no
laboratório de fisiologia, nos indicia como funcionavam tais aulas práticas, neste
caso, com experimentação em animais. A citação é longa, mas merece atenção:
Cardiovascular, respiratório, digestivo. Você imagina, eu junto com os alunos, sob a
supervisão de algum professor, que estava dando aquela aula prática, você encontrar
o... A vesícula biliar, o colédoco, canular, o aluno injetar substância, por exemplo, ácido
clorídrico a X por cento e ele ver aquela secreção biliar que ele estava provocando
mediante aquele procedimento que a gente estava fazendo. Então você notava que os
olhos deles estavam brilhando, eles trabalhavam com muito mais afinco do que com
um gato, que era muito usado na parte de neurofisiologia, essa massa que, até pouco
tempo, talvez ela nem viu mas deve ter conhecido, aquela massa que era feita para
moldar dentadura, e essa coisa, eles pegam um acrílico, não era o acrílico de hoje,
um anterior aí a gente via, derretia o acrílico, punha uma cânula, num hemisfério

161
cerebral lá, aí o aluno participava daquilo. Punha uma agulha lá dentro, prendia na calota óssea
do cão aquela massa e, periodicamente, no decorrer da aula, além do cão receber drogas, cortisol,
um monte de coisa, ele também tinha estimulações elétrica, que era o próprio aluno que regulava,
ou eu, a intensidade daquilo, aí ele contraía as patas e tal. Ai vinha a grita que surgiu, anos depois,
que eu acho altamente demagógico, que os animais eram manipulados por nós, com crueldade. O
que não era verdade. Eles eram profundamente sedados de modo a não sentirem dor durante os
procedimentos. Quem dera se muito irmão nosso que vai para um PA desse hoje, um que é tudo
assim correndo, sem condição nenhuma de material, os cães eram mais bem tratados, os gatos, os
coelhos, tenho certeza, do que muito irmão nosso que hoje é atendido nessas clínicas, entre aspas,
que nós temos aí. O animal era sedado, o cuidado maior que o professor Beraldo pregava o tempo
todo: “ô, Darcy, mantenha a vigilância no reflexo para o período de nictitante, palpebrácea”, se
você fizesse assim no cachorro e ele piscasse, paralisava tudo, eu ia preparar a anestesia e fazia uma
injeção lenta para não perder o animal, podia injetar além do que estava necessitando, então nós
fazíamos com toda técnica com todo o cuidado de manipulação com animais de sangue quente e
ultrassensíveis, não é? Então, agora na minha saída, eu fiquei muito triste com essa grita que surgiu
de trabalhar com o animal. Eu, sem petulância nenhuma, eu afirmo, assim, com o pé no chão,
com a minha prática que eu não consigo entender um médico que nunca pôs a mão em um cão,
de uma psicóloga que nunca fez um treinamento com rato, ou com um animal maior, um coelho,
que aí tinha um fator, e tem até hoje, é o famoso dó do animal, nojo do animal, ou qualquer um
deles, e esse excesso de pena, vamos falar assim, dó, eu acho que exagerou muito. Então eu não
consigo entender uma psicóloga que nunca colocou esse animal num labirinto usando determinada
droga  para ele achar onde que ele vai e tal, amanhã no ser humano ela vai ter isso para tanto o
psicólogo quanto a psicóloga eles vão ter que ter esse treinamento anterior para ele saber estudar o
comportamento de um paciente. Muito bem. Voltando, sem fugir demais do que eu já tô fugindo,
para o que vocês querem ouvir, hoje eu vejo essa grita aí de não poder usar animal, esse pessoal que
podia ter tanta coisa para ele canalizarem esse sentimento de pena deles, como criança abandonada,
escravizada com o trabalho, eles dão maior bronca, é capaz de entrar ali no canil e soltar os cães
todos. (Santos, 2014).

162
Foto 4: Microscópio
eletrônico pertencente ao
CEMEL/ ICB.
Aqui desvela-se mais uma
característica da cultura
científica do ICB, presente
desde o momento de sua
idealização: “o princípio
básico é a não duplicação
dos meios para fins
idênticos”, como destacado
por Angelo Machado
(Machado, 2015). Porém
esse valor institucional não
se reduziu apenas à uma
questão de infraestrutura e
esteve refletido na interação
entre os pesquisadores e
na transversalidade das
próprias temáticas de
pesquisa do ICB.

(UFMG, Arquivo
Institucional do ICB,
caixa 45)

163
Doenças negligenciadas e saúde global

João Nunes
The University of York

Nos últimos anos, tornou-se comum falar de “doenças tropicais negligenciadas” (DTNs)
para designar um conjunto de doenças associadas a condições de pobreza e acesso limitado
a cuidados de saúde em ambientes tropicais e subtropicais. A Organização Mundial de Saúde
(OMS) inclui nesse conjunto 20 grupos de doenças incluindo leishmaniose, úlcera de Buruli,
dengue, chikungunya, hanseníase, filariose linfática, doença de Chagas, oncocercose, tracoma
e envenenamento por picada de cobra, entre outras.1 Em 2012, o enfrentamento a estas doenças
recebeu um impulso significativo com a Declaração de Londres, na qual companhias farmacêuticas,
doadores, países com DTNs endêmicas e organizações não-governamentais se comprometeram
a controlar ou erradicar dez doenças e a melhorar a vida de um bilhão de pessoas direta ou
indiretamente afetadas. Em 2015, as DTNs foram incluídas nos Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável, sendo reconhecido que o seu impacto é transversal a outros objetivos relacionados
com a saúde.
Dado o aumento de reconhecimento, atenção política e investimento, faz sentido continuar a
falar de negligência? O caso das doenças negligenciadas é revelador da forma limitada e superficial
como a negligência é entendida na saúde global. Compreender o âmbito da negligência, e os
processos através dos quais é reproduzida, é essencial para enfrentar os problemas políticos e
econômicos que subjazem a estas doenças, que acentuam os seus impactos e contribuem para
a sua perpetuação.
O foco em ‘doenças’ específicas é redutor por obscurecer a associação entre DTNs e outras
doenças e agravos. Existe uma grande comorbidade entre DTNs e HIV, malária e doenças não
infecciosas. A esquistossomose (uma DTN) está associada a cerca de 60 mil mortes anuais
causadas por cânceres resultantes de infecções por parasitas trematódeos.2 Segundo a OMS,

1 World Health Organization, Neglected Tropical Diseases, [http://www.who.int/neglected_diseases/diseases/


en/], Acesso: 3 mai. 2018.
2 Molyneux, David H et al (2017) “Neglected tropical diseases: progress towards addressing the chronic pandemic”,
The Lancet, v. 389, Issue 10066, pp.312-325.

164
a cisticercose (outra DTN) está associada a cerca de 30% dos casos de epilepsia Figura 1: Cercária de
em países em desenvolvimento.3 As DTNs, por serem altamente incapacitadoras e Schistosoma mansoni.
Fonte: UFMG,
estigmatizantes, estão também associadas a doenças do foro psicológico. A rede de Arquivo Institucional
associações e comorbidades das DTNs precisa ser plenamente reconhecida. Não se do ICB, caixa 45.
trata simplesmente de um conjunto de doenças passível de ser reduzido a uma lista,
mas antes de um cenário complexo de insalubridade em determinadas regiões do
mundo que implica soluções abrangentes e estruturais.
Reduzir a negligência a doenças específicas desvia ainda as atenções dos
determinantes dessas doenças, ou seja, das condições facilitadoras de transmissão
e inibidoras de uma resposta efetiva. Por exemplo, a inexistência de infraestruturas
de saneamento e de abastecimento de água potável é amplamente reconhecida na
comunidade científica como uma das principais causas de DTNs. Este consenso ainda
não se traduziu numa vontade política para a resolução do problema. A questão dos
determinantes é porém mais ampla, ao se relacionar com questões de planejamento
urbano e ordenamento territorial, com a falta de informação e educação em saúde e
com a inexistência de sistemas de saúde robustos. Subjacentes a estas questões está a
economia. As DTNs são doenças resultantes de pobreza, que por sua vez reproduz
vulnerabilidade ao constituir um entrave a uma resposta eficaz. As DTNs são, elas
mesmas, multiplicadoras das condições de pobreza, ao incapacitarem e dificultarem
3 World Health Organization, First ever licensed vaccine and anthelmintic against the major cause
of epilepsy in the developing world, [http://www.who.int/neglected_diseases/news/First-licensed-
vaccine-and-anthelmintic-against-epilepsy/en/], acesso: 4 mai. 2018.

165
Figura 2: O barbeiro a escolarização, por exemplo. Em suma, as doenças negligenciadas levantam questões
transmissor da importantes acerca de justiça em nível nacional e global. Estas questões não se
Doença de Chagas.
coadunam com os habituais ciclos eleitorais e de prestação de contas, que tendem a
Fonte: UFMG,
Arquivo Institucional privilegiar o curto prazo e os resultados imediatamente observáveis e quantificáveis.
do ICB, caixa 45. O enfoque redutor em doenças específicas, quando ocorre em detrimento
de um olhar abrangente e estrutural sobre os determinantes das mesmas, revela a
ambiguidade da negligência na saúde global. Para superar a negligência não basta
dar atenção a uma determinada doença. A qualidade desta atenção importa, ou seja,
a doença deve ser entendida e enfrentada no contexto de uma ecologia de doença
abrangente. É possível que uma doença continue negligenciada se a importância
dos seus determinantes não é reconhecida ou alvo de intervenção - mesmo que
essa doença consiga atrair uma grande atenção política e midiática. Exemplos
são as recentes epidemias de Ebola e Zika, consideradas emergências sanitárias
internacionais mas abordadas de forma bastante restrita (o Ebola como uma epidemia
racializada e alvo de esforços de contenção, a Zika como um problema de mosquitos
e alvo de medidas de controle vetorial) e sem a atenção devida aos determinantes
e ao contexto econômico e político.
A ambiguidade da negligência é reveladora de clivagens profundas na saúde
global. Ainda que a governança global da saúde seja caracterizada pela multiplicidade
de atores, visões e agendas, é possível identificar tendências dominantes. Neste
contexto, desde a década de 80 do século passado, a saúde global tem sofrido a

166
influência de uma ideologia econômica neoliberal, assente na desregulação, na redução do papel
estatal e em programas de ajustamento estrutural. O resultado tem sido o enfraquecimento
de sistemas públicos de saúde em muitos países, uma crescente privatização e comodificação,
e em geral um esvaziamento da ideia de saúde enquanto bem público e coletivo. Ao mesmo
tempo, a saúde global tem sofrido com a preponderância de um paradigma biomédico assente
na procura de soluções tecnológicas e farmacológicas. Investimento em medicamentos, vacinas
e inovações tecnológicas é sem dúvida importante e tem contribuído para salvar muitas vidas.
No entanto, a saúde pública não pode ser reduzida a uma questão meramente técnica, uma
vez que tem dimensões profundamente políticas e econômicas. Neste contexto, uma tendência
preocupante na saúde global é a prioridade, visibilidade e enormes recursos dados a projetos
(‘verticais’) de erradicação e controle de doenças específicas, quando são acompanhados de uma
secundarização e desmonte de programas abrangentes (‘horizontais’) voltados para a atenção
primária e para os determinantes da saúde e doença. Esta tendência é um exemplo cabal de
como a negligência pode persistir mesmo quando recursos imensos estão sendo mobilizados.
Reconhecer o caráter político dos fenômenos de saúde e doença implica também reconhecer
a dimensão relacional da negligência. A negligência diz respeito não só à presença de entidades
biológicas (as doenças propriamente ditas) e a intervenções ou inações ao nível dos determinantes.
Para além disso, a negligência é o resultado de relações políticas. Determinados grupos (definidos
não só em termos de localização geográfica, mas também por gênero, classe, raça, orientação
sexual ou idade) são colocados numa situação de vulnerabilidade sistemática a determinadas
doenças, ou impossibilitados de aceder a cuidados de saúde adequados bem como a redes de
apoio para responder a estes agravos. A negligência em saúde não acontece simplesmente  ela é
causada e provocada por ações e omissões políticas. Ela resulta da subordinação de certos grupos,
da precarização das suas condições de vida e da sua representação enquanto grupos de menor
importância. A negligência reproduz-se através de processos políticos, econômicos e culturais,
com as suas raízes em dinâmicas históricas, através dos quais determinados grupos são colocados
fora da esfera de responsabilidade, solidariedade e preocupação da comunidade internacional
e dos principais atores da saúde global. Em vez de doenças negligenciadas deveríamos antes
falar de populações negligenciadas.

167
2- Temas partilhados, grupos de pesquisa integrados e a circulação
de conhecimento do ICB
Mas foi um período bom, minha filha nasceu lá... Quando a gente voltou eu encontrei o José Pelegrino
no... navio, e ele me convenceu a trabalhar com Schistosoma, ajudou a comprar coisa, de modo
que nessa linha aplicada a gente trabalha muito também em..., porque quando eu falo em Pineal
é mais a enervação da Pineal, é.... o simpático ali. A gente descobriu algumas coisas da enervação
que serve para todas as terminações do simpático.... Noradrenalina, é.... (Machado, 07/01/2015)

Angelo Machado ao rememorar a sua formação científica nos EUA no campo da anatomia
e seus estudos sobre a glândula Pineal e neuroanatomia cita, inadvertidamente, um encontro
com o Prof. José Pellegrino na sua volta ao Brasil. Pellegrino o convencia a desenvolver estudos
no tema da esquistossomose, justapostos às suas pesquisas sobre neuroanatomia. Estudos,
a seu ver, aplicados. Estudos que, no nosso ponto de vista, indiciam a integração dos vários
pesquisadores do ICB numa agenda de investigação em torno de temas de pesquisa comuns:
doenças endêmicas e negligenciáveis, venenos e substâncias tóxicas. Esquistossomose, doença
de chagas (e as tripanossomíases), malária e leishmaniose foram temas recorrentes que, em
alguma medida, atravessaram e congregaram, implícita ou explicitamente, as diversas linhas de
pesquisa do instituto. Questões da clínica médica e de saúde pública, de interesse da sociedade
brasileira e mineira, a serem tratados pelas abordagens laboratoriais da biomedicina e, em várias
ocasiões, segundo o ponto de vista molecular. Eis aqui mais uma característica dos modos de
conhecer e fazer ciência do ICB.
Novamente vale chamar a atenção para o contexto macrossocial e internacional do período
de desenvolvimento científico do ICB. Saúde e desenvolvimento econômico e social estavam
na ordem do dia na política internacional, a partir de fins dos anos 1950, sobretudo naquelas
ações e políticas dirigidas para os então chamados países de Terceiro Mundo. A Guerra Fria
foi para esses países, como no caso dos Latino-Americanos, um componente central para o
desenvolvimento de regimes científicos, médicos e de saúde pública, cuja influência perdura até
o presente (Magalhães, 2016). Tal influência pode ser observada, por exemplo, em campanhas
internacionais de erradicação de doenças, epidêmicas e endêmicas – como malária, febre
amarela etc., que indiciam a importância estratégica de algumas regiões latino-americanas para
os EUA; preocupações com o crescimento populacional e a concepção de inovações técnicas e
nas ciências sociais visando reverter tal tendência; investimentos na “modernização” e gestão
dos recursos naturais e humanos, visando maior desenvolvimento econômico e visibilidade das
culturas locais. Aqui estão incluídos mecanismos de financiamento de pesquisas e na formação
de cientistas e de uma expertise local, além do estímulo ao envolvimento de agentes desses
países com agências culturais e científicas internacionais (dentre elas Fundação Rockefeller,
Banco Mundial, USAID, OMS, OPAS, OEA, etc.). Ora, mesmo antes da instituição do ICB, os
seus principais pesquisadores beneficiaram-se e até jogaram com tais circunstâncias políticas
com o intuito de favorecer os seus interesses e as condições científicas locais. Não foi ao acaso
que, estrategicamente, vários deles, independente do campo científico ou do departamento,

168
investiram em pesquisas básicas e aplicadas sobre doenças endêmicas e negligenciáveis. Portanto,
percebe-se a dedicação a temas apelativos para as agendas de saúde e desenvolvimento e uma
das estratégias foi integrar os diversos pesquisadores do instituto em torno de temas centrais.
Tal é o caso da esquistossomose que, conforme relatado por Naftale Katz “é uma doença de
pobreza, de condição socioeconômica, especificamente, entendeu? Então, por isso que ela é
negligenciada, como todas as doenças que são [...]”(Katz, 2015).
Um dos principais grupos de pesquisa do ICB a produzir ciência aproveitando-se das condições
proporcionadas por essas circunstâncias históricas foi o GIDE (Grupo Interdepartamental de
Estudos sobre a Esquistossomose). O GIDE foi criado em 1969 e teve como primeiro coordenador
o Prof. José Pellegrino do Departamento de Parasitologia. Era uma iniciativa dos pesquisadores do
Departamento de Biologia Geral e de Parasitologia. O GIDE a partir de 1971 tinha um colegiado,
designado pelo diretor do ICB, composto no início pelos professores Giovanni Gazzinelli,
Leógenes Horácio Pereira, Angelo Machado, José Rabelo de Freitas, Paulo Zech Coelho. O
grupo foi pensado para ser um centro de referência na pesquisa básica e aplicada no campo da
esquistossomose, visando coordenar as várias iniciativas de investigação já em curso no ICB
e na UFMG e promover o “entrosamento entre os trabalhos” para, com isso, proporcionar a
“planificação e concentração de esforços visando o melhor conhecimento de aspectos básicos
relacionados à esquistossomose” (UFMG, Arquivo Institucional do ICB, Ofício de Criação do
GIDE, Caixa GIDE, 1969, p.1). Isso nos indica um esforço de integração dos grupos de pesquisa
alinhavada pelo desenvolvimento de estudos transversais no campo da esquistossomose.
O GIDE iniciou suas atividades na FAFI e, após a mudança para o prédio do ICB no
campus, ocupava um enorme espaço no Bloco Q3, onde eram abrigados biotério e laboratórios
dos pesquisadores do grupo. Uma função importante atribuída ao GIDE foi promover o
intercâmbio com pesquisadores brasileiros e estrangeiros e conseguir recursos para desenvolver
os programas de pesquisas no ICB. Um dos seus parceiros mais importantes foi o INERu
(Instituto de Endemias Rurais), com a articulação e colaboração efetiva do pesquisador Naftale
Katz. Já nos anos iniciais, o grupo captou recursos de importantes instituições estrangeiras,
como a OMS e a US Army, por meio do Walter Reed Army Institute of Research, para pesquisa
de vacinação em esquistossomose. As investigações também eram alimentadas por convênios
com laboratórios estrangeiros para o teste de drogas esquistossomicidas e moluscocidas. Como
destacado na entrevista do Prof. Paulo Zech Coelho os pesquisadores do GIDE chegaram a testar
cerca de 10% das drogas esquistossomicidas em comercialização nos principais laboratórios
internacionais. Paulo Zech Coelho assim rememora os ensaios com as drogas:
Na época que ele começou a trabalhar não tinha uma droga eficiente ainda, que fosse boa para tratar
a doença. Tinha os antimoniais, que eram extremamente tóxicos, e toda droga que foi desenvolvida
para esquistossomose, das que foram colocadas no comércio para uso na clínica, tiveram estágio
de testes lá no laboratório do Dr. Pellegrino. O camundongo e hamster eram usados e são eles os
modelos experimentais nos quais a gente fazia a triagem dos compostos num sistema de triagem
em massa. A gente tinha também uma criação de macacos do gênero Cebus, que é o macaco prego
que constituía o modelo pré-clínico para testar as drogas antes dos ensaios clínicos em humanos.

169
Depois vinha a parte toxicológica, ensaio clínico e vai por aí. Então todas as drogas foram avaliadas
pelo grupo em um determinado momento do processo. Em algumas, na fase inicial outras na fase
final do desenvolvimento. Então a Oxamniquina, o praziquantel e várias outras, com o Ambilhar
passaram por testes no laboratório do Dr. Pellegrino. O Hycanthone também, na época chamado
comercialmente de Etrenol. (Coelho, 2016)

Naftale Katz também relata a relação do Gide com o teste de drogas, mas para a US Army,
explicada pelo contexto histórico da Guerra do Vietnã (1959-1975), onde vários soldados
americanos eram acometidos por doenças endêmicas:
Então, era importante para o exército americano desenvolver drogas ou preventivas ou curativas,
que nenhuma das duas tinham. E isso também envolveu uma quantidade de dinheiro absurda. E
aí é interessante que na década de 60, também, o [Walter [Reed]] vem para cá e procura ele para
fazer teste em massa de produtos. Mas o controle seria americano. Eles mandariam um coronel-
médico, não é? O pesquisador para tomar conta do negócio. E eu convenci o Pellegrino a não
aceitar. [...]”(Katz, 2015).

O exército americano parece ter sido atraído por uma técnica desenvolvida por José Pellegrino
nos anos 1960 para a avaliação dos efeitos das drogas na esquistossomose. A técnica consistiu:
Essa... chama holograma, método do holograma. O quê que é isso? A fêmea do [shistosoma] põe
o ovo em primeiro estágio e esse ovo leva sete dias para amadurecer, para ficar maduro e depois
ele pode ficar até doze dias no intestino, e depois pode sair nas fezes ou no [...], ou ficar preso no
intestino. O quê que o Pellegrino bolou? Distinguindo um ovo de primeiro, segundo, terceiro e
quarto maduro, ele viu o seguinte: quando ele dava uma droga, que a droga era ativa, a droga
interrompia a postura. Então, se ele examinasse o intestino dos camundongos, ele sabia se a droga
foi ativa ou não foi e mais ou menos quando que foi, se levou um dia para ser ativa, dois, três...
Esse é o método do holograma, que ele publica em 65, e quando... ele já estava no Brasil, porque
ele volta em 62... quando ele volta, ele já vai para a esquistossomose, por isso que eu acho que ele
já tinha isso na cabeça (...) (Katz, 2015).

Entretanto, esses estudos de José Pellegrino não consistiram na única frente de investigação no
ICB. O potencial de estudos em torno desse tema também esteve em vários outros pesquisadores
de diferentes campos de conhecimento. Por isso o caráter interdepartamental e interinstitucional
do grupo. Quando da criação do GIDE, em 1969, eram 20 os pesquisadores do ICB a desenvolver
projetos de pesquisa básica e aplicada relacionados à esquistossomose (UFMG, Arquivo
Institucional do ICB, Ofício de Criação do GIDE, Caixa GIDE, 1969, p. 2-3). A Figura 4, a partir
do ciclo biológico do parasito, mostra essas várias frentes de pesquisa, dos vários departamentos
e grupos de pesquisadores, em curso quando da criação do GIDE. A esquistossomose pode ser
então considerada o que o historiador da ciência Hans-Jörg Rheimberger (1997) chama de objeto
epistêmico: objetos científicos, usados nas pesquisas e partilhados por vários campos científicos,
que, apesar de delimitados segundo interesses específicos de investigação, são abertos, geradores
de questionamentos e complexos. Podem ser processos, fenômenos ou coisas. Sua complexidade

170
aumenta com o escrutínio científico, ao invés de se reduzir a partir do desenvolvimento dos
conhecimentos. No decorrer dos estudos, adquirem novas propriedades e mudam aquelas
já existentes. No presente caso, isso pode ser percebido justamente a partir do processo de
complexificação das investigações ao longo do tempo, em decorrência, sobretudo, do uso das
abordagens da biologia molecular nos estudos em esquistossomose.
Tal dinâmica científica de grupos integrados em torno de um tema partilhado, o qual,
com isso, se torna objeto epistêmico, se ampliou ao longo dos anos, envolvendo cada vez mais
colaborações interinstitucionais e intergrupos de pesquisa. Aliás, existiu um programa de
apoio a pesquisas em doenças endêmicas financiado pelo CNPq para pesquisas interligadas e
interinstitucionais, o Programa Integrado de Doenças Endêmicas, em que vários pesquisadores do
ICB aparecem como atuantes em estudos sobre doença de Chagas, esquistossomose, leishmaniose
e malária (UFMG, Arquivo Institucional do ICB Caixa 38, CNPq, Programa Integrado de
Doenças Endêmicas, 1977). Para se ter uma noção da dimensão dessa comunidade científica
às voltas da investigação sobre esquistossomose, em 2000, só na UFMG, eram mais de 50
pesquisadores, a maioria de diferentes departamentos do ICB, mas também incluindo vários
da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Farmácia, além da Fiocruz e outras universidades
como a de Ouro Preto, Pernambuco, Viçosa etc. (UFMG, Arquivo Institucional do ICB Caixa
GIDE, 2000). Entretanto, com a morte precoce do Prof. José Pellegrino, o GIDE teve algumas
de suas atividades prejudicadas, devido à falta do seu principal articulador. E, com o passar dos
anos, em razão das querelas de disputa pelo espaço físico exclusivamente reservado ao GIDE
no bloco Q3, o grupo acabou extinto em princípio dos anos 2000 (Coelho, 2016).

171
172
do GIDE em 1969.
quando da criação
realizadas no ICB
esquistossomose
investigação em
várias frentes de
Schistossoma e as
biológico do
Figura 4: Ciclo
José Pellegrino (Parasitologia)
Estudos sobre imunodiagnóstico e
Amélia Dulce de Carvalho (Morfologia) terapêutica experimental da
Histoquímica de polissacarídeos, esquistossomose.
proteínas e enzimas da B.Glabrata

Carlos Ribeiro Diniz (Bioquímica)


José Rabelo Freitas (Biologia geral) Estudos sobre vacinação na Francisco Juarez Ramalho Pinto (Imunologia)
Estudos sobre a ecologia dos hospedeiros esquistossomose Estudo farmacológico do comportamento da
intermediários doS. Mansoni. cercaria do S. Mansoni

Ibrahim Heneine (Biofísica) Giovanni Gazzinelli (Bioquímica)


Estudo do metabolismo de ferro na B. Mecanismo de penetração da cercária do
Glabrata S. Mansoni no hospedeiro definitivo
e fatores que governam a sua
transformação em esquitossomulo
Armando Gil de Almeida Neves (Bioquímica)
Estudo da estrutura da hemoglobina da B.
Glabrata
Leógenes Horácio Pereira (Parasitologia)
Estudos sobre os esquistossômulos do S.
Ênio Cardillo Vieira (Bioquímica) mansoni.
Estudos sobre a cultura de B.Glabrata em
condições axêmicas

José Noronha Perez (Microbiologia)


Lair Rennó (Botânica) Estudos sobre a imunidade de tipo
Estudos de algas do gênero Chara com retardado na esquistossomose.
atividade moluscocída

Angelo Machado e Conceição Machado


(Morfologia)
Estudo histoquímico da glândula vitelínea
e mecanismo de formação do ovo do S.
Mansoni. Lucyr Jones Antunes (Imunologia)
Estudos sobre aimunização e
Giorgio Schreiber (Biologia Geral) transplantes de esquistossomas
Estudos de citologia quantitativa nas
diversas fases evolutivas do S. Mansoni
O Instituto de Ciências Biológicas e a OMS

Ana Carolina Durães Vaz de Melo Barreto

Figura 1: Uma ds
publicações do
pesquisador José
Pellegrino em co-autoria
com o imunologista
Lucyr Antunes na OMS.
Fonte: Bulletin of World
Health Organization,
1966.

173
Em 9 de março de 1966, o professor Giorgio Schreiber, do departamento de Biologia Geral,
recebeu uma carta do chefe da Comissão de Especialistas em Controle de Vetores da Organização
Mundial da Saúde. A carta em questão se tratava de uma resposta a outra missiva, enviada
pelo professor no dia 26 de fevereiro do mesmo ano. Na resposta, o Dr. R. Pal pedia desculpas
ao professor Schreiber pelo atraso na publicação de um estudo sobre genética de vetores de
sua autoria, mas que o problema já havia sido solucionado e o trabalho seria publicado em
breve. Também informou que a OMS se encontrava muito satisfeita com os estudos sobre os
triatomíneos – besouros transmissores da doença de Chagas – e aguardavam pelos resultados
dos estudos com os exemplares que possuía na coleção do seu insetário. Concluindo a carta, o
professor Pal indaga ao professor Schreiber quando iria começar o funcionamento do Instituto de
Ciências Biológicas que ele havia mencionado, que a Organização Mundial da Saúde apreciaria
gentilmente se o professor Schreiber pudesse enviar mais informações sobre o citado Instituto
e que se colocava à disposição para auxiliar futuramente com o trabalho.
Esta troca de correspondências entre o professor Giorgio Schreiber e a Organização Mundial
da Saúde ilustra o interesse da OMS em institutos de pesquisa como o ICB. Ao longo dos anos,
podemos ver várias interações entre a Organização e o Instituto de Ciências Biológicas, tais como
de professores e pesquisadores do ICB que publicaram no “Boletim da Organização Mundial da
Saúde”  publicação oficial da OMS , participações destes mesmos pesquisadores em eventos
e estudos estruturados pela Organização e financiamento de pesquisas realizadas dentro do
Instituto. Nos arquivos do ICB, podemos encontrar vários exemplos da parceria entre a OMS e
o instituto, tais como: a pesquisa para o desenvolvimento da vacina contra a Leishmaniose, que
teve financiamento da Organização Mundial da Saúde; financiamento de pesquisas do GIDE 
Grupo Interdepartamental de Estudos sobre Esquistossomose; convênios dos departamentos
com a OMS (como o departamento de Bioquímica) e professores atuando em conjunto com a
Organização, como o professor do departamento de Parasitologia, José Pellegrino.
Também era recorrente a participação de pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas
em publicações e atividades vinculadas à Organização Mundial da Saúde. Talvez o melhor
exemplo desta situação seja o já citado professor e pesquisador José Pellegrino, figura importante
na consolidação do ICB. Pellegrino era consultor científico da Organização Mundial da Saúde na
área de Esquistossomose e seus estudos eram frequentemente vistos no Boletim da Organização
Mundial da Saúde, muitas vezes financiados com recursos da própria OMS. José Pellegrino
publicou 28 artigos no Boletim da OMS. O artigo “Serological diagnosis of Schistosoma mansoni
infection”, publicado no volume 35 do ano de 1966, informa que a pesquisa desenvolvida e
relatada neste estudo foi realizada no Instituto de Ciências Biológicas e financiada em partes
pela Organização Mundial da Saúde. Outro artigo, intitulado “Correlation between worm burden
and schistosome pigment in the liver of mice experimentally infected with Schistosoma mansoni” e
presente no volume 39 do ano de 1968, consiste em uma parceria entre Pellegrino e pesquisadores
porto-riquenhos organizada pela Organização Mundial da Saúde. Tem-se ainda trabalhos
publicados no Boletim que foram realizados com empréstimos de recursos e instalações cedidas

174
pelo professor Pellegrino, como é visto no artigo “Molluscicidal activity of trifenmorph in field
trials”, presente no volume 49 do ano de 1949 e escrito por pesquisadores do Rio de Janeiro.
Além de Pellegrino, o Instituto de Ciências Biológicas foi local de trabalho de outros
pesquisadores que se fizeram presentes nas pesquisas e publicações coordenadas pela Organização
Mundial da Saúde. O professor Marcello de Vasconcellos Coelho, que ocupou os cargos de
diretor-geral do ICB e reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, foi convidado pela OMS
em 1977 para participar da primeira reunião do Grupo de Trabalho em Leishmanioses, realizada
em dezembro do mesmo ano em Genebra, na Suíça. Os pesquisadores do departamento de
Biologia Geral, professor José Rabelo de Freitas e professor Humberto Coelho de Carvalho,
foram alguns dos pesquisadores brasileiros com presença frequente nas páginas do Boletim
da Organização Mundial da Saúde, assim como os já citados Schreiber, Pellegrino e Coelho.
Sendo uma das diversas agências financiadoras que atuaram junto ao Instituto de Ciências
Biológicas, a Organização Mundial da Saúde foi responsável por custear pesquisas e remunerar
cientistas dentro do ICB, desta forma tendo um papel importante no desenvolvimento dos
trabalhos realizados ali e na sua trajetória enquanto um relevante instituto produtor de
conhecimento científico em temas de saúde pública, no cenário nacional e internacional.

175
Foto 5: Mulheres A circulação da ciência do ICB
do curso de História
Natural no laboratório Muitas outras iniciativas de pesquisas integradas em torno de objetos epistêmicos
de zoologia, junto ao
Prof. Jenner Procópio
podem ser identificadas na história científica do ICB. Tal é o caso dos estudos
Alvarenga à esquerda, sobre doença de Chagas e tripanossomíases, liderados por Zigman Brenner e seu
s/d. Conforme grupo de pesquisa em parasitologia (Kropf et. al., 2003)7, o estudo de venenos ou
identificação do próprio
Jenner Alvarenga: a bradicinina, pelos grupos em torno de Carlos Ribeiro Diniz, da bioquímica e do
Mary Barbosa, Celeida prof. Wilson Beraldo, da fisiologia ou ainda os estudos sobre leishmaniose liderados
Vasconcelos, Léa B, pelo Prof. Wilson Mayrink.
Vany Purri, Sônia Lage.
Entretanto, o que vale atentar aqui é que tais iniciativas integrativas não seriam
Fonte: UFMG, Arquivo bem-sucedidas se os pesquisadores do ICB não tivessem agido para fazer circular
Institucional do ICB ,
Acervo Pessoal Jenner os conhecimentos e suas práticas científicas. O trânsito do conhecimento, intra e
Procópio Alvarenga. extrainstitucional, intra e extraciência, é central para a afirmação das comunidades
científicas e para a legitimação do conhecimento perante os pares e a sociedade
como um todo. Na verdade, a circulação em diversas instâncias de saber e extratos
da sociedade é uma das condições primordiais para o conhecimento transformar-se
(Fleck, 2010). A circulação transcorre mediante diversas ações, tais como: parcerias
institucionais, eventos científicos, envolvimento com associações e sociedades
científicas, criação de periódicos, publicações para os pares e para o público leigo,
além das ações de divulgação científica.

7 Sobre a atuação científica de Zigman Brenner em doenças de Chagas ver Simone Kropf et. al.
2003 “ Inovando a tradição: Zigman Brener e a parasitologia no Brasil”.

176
Nos anos iniciais das atividades acadêmicas do ICB, mais precisamente em 1971 Foto 6: 1º Encontro de
Pesquisa do ICB, 1971.
e 1972, foram organizados dois eventos, que podemos considerar uma das formas
de integração entre os seus grupos de pesquisa e de circulação dos estudos: I e II Fonte: UFMG, Arquivo
Institucional do ICB,
Encontro de Pesquisa do ICB. Outras três edições só voltaram a ocorrer nos anos caixa 45.
1990. No I Encontro, conforme pode ser observado nos resumos, 190 trabalhos
foram apresentados, sendo o Departamento de Parasitologia e Zoologia o que mais
teve trabalhos apresentados, num total de 79, seguido do de Bioquímica com 27
trabalhos. A adesão dos pesquisadores pode ser portanto considerada como muito
significativa. Incluindo mulheres, sendo possível identificar, pelo nome, cerca de 17
mulheres participantes como pesquisadoras principais a apresentar seus trabalhos:
Cleusa Graça da Fonseca, Eliana Barroso Castanheira, Jane Faria Schreiber, Theresa
Meluci Cavenaghi, Ione Avellar de Senna, Maria Celeste Henriques, Maria Luiza
Tupynamba, Sônia Calixto, Maria das Dores Ferreira, Maria de Lourdes Pereira
Petrilho, Amélia Dulce Villela de Carvalho, Conceição Machado, Antoniana Krettli,
Cléa de Andrade Chiari, Maria Deane, Maria Norma Melo, Vitória Margarida Brant
Pinto. As temáticas eram variadas e englobaram praticamente todo o universo
temático das investigações lá empreendidas: desde estudos hormonais, ensino de
genética, citogenética de hemípteros e anófeles, esquistossomose, ecologia dos
caramujos, veneno de cobra, nutrição de B. glabrata, cinética enzimática, vegetação
do cerrado, anatomia vegetal, ensino de fisiologia, polipeptídeos, interferon dentre

177
Figura 6: Recorte
do jornal Estado de
Minas guardado pelo
Prof. Jenner Alvarenga
noticiando a criação da
Sociedade Mineira de
Naturalistas em 1956.
Fonte: UFMG, Arquivo
Institucional do ICB
Acervo Jenner Procópio
Alvarenga.

Foto 7- XIII Congresso


Brasileiro de Anatomia
e IV Congresso Luso-
brasileiro de Anatomia,
realizado em Belo
Horizonte, em 1981.
Fonte: UFMG, Arquivo
Institucional do ICB
Arquivo Institucional
Secretaria Geral do ICB,
caixa 45.

178
muitos outros temas. Também eram informadas as fontes de financiamento dos estudos (UFMG,
Arquivo Institucional do ICB, Caixa 36, Caderno de Resumos I Encontro de Pesquisa do ICB,
1971).
O II Encontro de Pesquisa do ICB foi organizado pelo Núcleo de Assessoramento à Pesquisa
(NAPq) do instituto, que tinha como presidente o professor Marcos Mares-Guia. Um fato curioso
sobre essa edição do encontro é que ele foi anunciado como “parte dos comemorativos dos cento
e cinquenta anos da independência” do Brasil – talvez uma prestação de contas simbólica em
relação ao contexto de celebração nacionalista da Ditadura Militar. Na apresentação dos objetivos
do evento, podemos perceber a iniciativa de se promover a integração e “o entrosamento dos
cientistas” e, conforme palavras da organização, contribuir para “a melhoria dos padrões de
pesquisa do Instituto” (UFMG, Arquivo Institucional do ICB, Caixa 36 Caderno de Resumos
II Encontro de Pesquisa do ICB, 1972, p. 2). Com o evento, pretendia-se informar as linhas de
pesquisa em andamento e discutir os projetos; discutir os problemas na realização das pesquisas
e encontrar soluções; avaliar o estado dos cursos de pós-graduação. Percebe-se um esforço de
se empreender uma dinâmica de circulação intramuros dos conhecimentos produzidos no
ICB. De acordo com esses propósitos, o II Encontro foi então pensado e organizado para a
apresentação das linhas e eixos de pesquisa dos grupos e não simplesmente dos projetos como
no caso da primeira inciativa.
Notadamente, os esforços de fazer os conhecimentos circularem não se reduziram a uma
dinâmica intrainstitucional. Os pesquisadores do ICB transitavam mundo afora, através da
realização de cursos de qualificação científica ou da participação em incontáveis congressos e
simpósios nacionais e internacionais ao longo dos 50 anos de atividades acadêmicas. Eles também
organizaram inúmeros eventos de caráter regional, nacional e internacional nas dependências do
Instituto. É do mesmo modo notório o envolvimento dos pesquisadores do ICB em associações
e sociedades científicas, seja como atuantes na SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso
da Ciência) ou nas comunidades específicas relacionadas às diversas especialidades biológicas
e biomédicas. Vários pesquisadores do ICB foram instituídos membros associados e titulares
da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Ou no âmbito regional na Sociedade Mineira de
Naturalistas, nascida em 1956, da iniciativa de vários dos professores da FAFI . Além é claro da
atuação nas agências de fomento à pesquisa CNPq, FAPEMIG (aliás criada por iniciativa do Prof.
Marcos Mares-Guia em conjunto com o Prof. Carlos Diniz e Wilson Beiraldo), FINEP, CAPES
etc. Vale destacar que o ICB também foi um lócus de circulação de pessoas, recebendo a visita
de pesquisadores brasileiros e estrangeiros para acompanhar as atividades dos laboratórios,
realizar conferências, palestras e cursos ou firmar convênios de pesquisa. Conforme relatório
do ICB de 1970, por exemplo, foram cerca 13 pesquisadores estrangeiros, sobretudo dos EUA
a visitar os departamentos. Visitas que sempre foram muito frequentes ao longo dos anos de
atividades acadêmicas do instituto.

179
Figura 7: Capa do volume
II da Revista Arquivos do
Museu de História Natural.

Figura 8: Capa do
primeiro número da revista
Oréades de 1970.
180
Entretanto, o meio mais poderoso de se fazer o conhecimento circular são as publicações. E
aqui vale constatar a produção científica abundante e qualificada dos pesquisadores do Instituto.
A começar pela existência de publicações de revistas no próprio ICB, tais como: os Arquivos do
Museu de História Natural, iniciada em 1974 (Figura 7), para a divulgação dos resultados das
pesquisas em Ciências Biológicas (numa perspectiva ampla aos moldes da tradição da História
Natural); a Oréades (nome em homenagem às ninfas dos campos e montanhas)8, revista do
Departamento de Botânica, publicada nas décadas de 1970 e 1980, dirigida pelo prof. Lair Rennó
(Figura 8) e; a revista Lundiana, criada em 1980 (publicada em 1980 e 1982), mas com publicações
regulares a partir de 2002, voltada para a divulgação dos estudos sobre biodiversidade.
O ICB, por meio de seus relatórios departamentais anuais, sempre fez questão de listar e
destacar para fazer visível a sua vasta produção científica: livros, capítulos, apostilas, manuais,
artigos publicados e artigos em vias de publicação. No plano dos livros didáticos, manuais e
apostilas – nos primeiros anos de atividades acadêmicas era comum que os próprios professores
produzissem o material de ensino – o conhecimento já tido como estabelecido era sintetizado
para ser ensinado (Fleck, 2010). Pesquisadores do ICB como Humberto de Carvalho e David
Neves, livros didáticos que figuraram por muitos anos como referência para a formação científica
e ensino da genética e da parasitologia, em vários dos cursos de graduação ministrados no
ICB: “Fundamentos de genética e evolução” (1980); Parasitologia Humana (primeira edição
1974, pela editora Atheneu, com mais de 10 edições em diferentes editoras), respectivamente.
Humberto de Carvalho já produzia livros didáticos na área da genética desde meados dos anos
1960, como o “Genética Programada” e “Genética: perguntas e respostas”. Outras disciplinas
também tiveram livros didáticos especialmente publicados por professores do ICB pela editora
Atheneu: Bioquímica Celular de Enio Cardilo Vieira, Giovanni Gazzinelli e Marcos Mares-Guia;
Química Fisiológica organizados por Enio Cardilo Vieira e Giovanni Gazzinelli, Anatomia
humana básica, por Jota Dangelo e Carlo Américo Fattini, de Neuroanatomia por Angelo
Machado. Além do livro Fisiologia de autoria do Prof. Wilson Beraldo publicado em 1968, pela
Imprensa Universitária.

181
Figura 9: Pedidos
de separata de
artigos publicados
pelo prof. Linardi
sobre suas pesquisas
em ectoparasitos
(Documentos Pessoais
Pedro Marcos Linardi).

182
No entanto, nos periódicos é que a ciência, ainda provisória, incerta e controversa, fomentava
os conhecimentos novos e as discussões entre os especialistas (Fleck, 2010). Ora, foi e tem sido,
entretanto, nos periódicos que o conhecimento mais amplamente transitou (e transita), garantindo
maior visibilidade aos trabalhos desenvolvidos no ICB. A busca por publicações de impacto
também pode ser visto como um valor a ser cultivado pela comunidade de pesquisadores do
ICB. Em 1988, por exemplo, o Departamento de Bioquímica e Imunologia relatava a publicação
de 9 trabalhos em revistas internacionais e 13 nacionais. Foram 3 capítulos de livros e 11 relatórios
técnicos. O Departamento de Parasitologia, por seu turno, alimentado pela intensa atividade do
GIDE, apontou no ano de 1988, 30 artigos em revistas nacionais, 12 internacionais e 14 aceitos
para publicação. Uma evidência de que essas publicações atingiam a comunidade científica
internacional é a presença de vários trabalhos realizados no instituto em esquistossomose, por
pesquisadores do GIDE, no Schisto Packet, publicação da Edna McConnel Clark Foundation,
prefaciado pelo diretor da Fundação Rockefeller, Kenneth Warren (Director of Health Science
of Rockefeller Foundation), que compilava vários trabalhos no tema publicados em revistas e
subtraídos de base de dados e bancos de informações científicas norte-americanas (UFMG,
Arquivo Institucional do ICB, Caixa 3, Schisto Packet II, 1977). De 1968 a 2012 foram mais de
12 mil artigos publicados pelos pesquisadores. Em 2012, o número de artigos publicados no
ICB correspondeu a cerca de 29% da produção da UFMG e a 7% dos artigos publicados na área
biomédica (Santos et.al., 2013). Vale também destacar a presença de estudos realizados no ICB ou
de pesquisas com participação e coautoria de pesquisadores do instituto que foram publicadas
nos anos recentes em periódicos de renome no cenário científico internacional atual, tal como
na revista Plos (Public Library of Science).
Os próprios pesquisadores do ICB tinham uma noção dos leitores dos seus artigos. Uma vez
publicados, os artigos proporcionavam a construção de toda uma ampla rede de comunicação
científica. Até os anos 1990, desde muito antes do advento dos bancos de dados e informações
científicas da internet, era muito comum o envio de cartões postais – a maioria com referências
às instituições de vínculo – , em que os pesquisadores solicitavam aos autores uma separata
dos artigos então publicados em revistas especializadas, sobretudo aquelas de difícil acesso
nas bibliotecas. Os autores sempre recebiam das revistas em que o artigo foi publicado uma
cota de separatas a serem distribuídas aos colegas e pares interessados. Mais do que um meio
de divulgação, essa troca de postais por artigos era também um meio de se costurar redes de
pesquisadores em torno do mesmo tema de pesquisa e, com isso, fazer o conhecimento circular.
Tal é o caso do Prof. Pedro Linardi do Departamento de Parasitologia, cujos estudos sobre
ectoparasitos publicados em revistas nacionais e internacionais nos anos 1980 receberam vários
pedidos de separatas, que foram prontamente atendidos por ele (Figura 9).

183
3- Biotecnologia e inovação no ICB: ciência básica como ciência
aplicada?
“Enquanto algumas pesquisas investigaram milhares de moléculas, testando cada uma em
laboratório, essa pode começar com as três encontradas na análise de componentes do genoma
da bactéria Corybacterium diphtheriae, causadora da doença”, explica o professor Vasco Azevedo,
orientador do trabalho de doutorado que gerou tese defendida em março, no Instituto de Ciências
Biológicas (ICB). Com base em estudo comparativo entre linhagens do genoma sequenciado
da bactéria, Syed Jamal propõe a formulação de fármacos para tratar pacientes acometidos pela
difteria. (Boletim UFMG, 23 de abril de 2018)

Na mesma edição Boletim UFMG que iniciamos o presente capítulo, de 23 de abril de


2018, mas na página 4, aparece a divulgação de mais uma pesquisa básica realizada no ICB,
fruto de uma tese de doutoramento, tendo como horizonte o desenvolvimento de tecnologias
terapêuticas contra doenças infectocontagiosas. O alvo agora é a difteria. Os procedimentos
científicos estão ancorados na cultura de pesquisa molecular e biotecnológica. Neste caso, uma
pesquisa de acordo com a genômica, o grande modelo que orienta as pesquisas em ciências da
vida na atualidade. Abordagem então suplementada pelos métodos da bioinformática e os seus
testes de computador para a “mineração de dados” visando a identificação de proteínas. Com a
recorrência da divulgação de mais uma pesquisa de caráter biotecnológico para a comunidade
acadêmica da UFMG, fica aqui outra vez evidente um valor central dos modos de conhecer do
ICB: “pesquisa básica com aplicação do conhecimento para solucionar problemas de interesse
da sociedade”(Santos et. al., 2013).
Propõe-se aqui, entretanto, uma leitura histórica mais complexa. Desde os anos 1970 e
1980, as ciências da vida são justamente marcadas pelo que se denomina “tecnociência”, ou seja,
quando a ciência é produzida para e dirigida pela tecnologia (Latour, 2000). Nesse novo cenário,
entretanto, não se trata apenas da fusão entre ciência e tecnologia. Ou, ao contrário, de distingui-
las e colocá-las em polos opostos: ciência x tecnologia, ciência básica x ciência aplicada. No
nosso presente, percebemos facilmente o quanto elas são inseparáveis. Tampouco esse fenômeno
se explica a partir de uma concepção linear clássica de desenvolvimento científico: pesquisa
que leva ao conhecimento, que produz tecnologia e aplicação, que proporciona o progresso da
sociedade (Castellfranchi, 2008, p.7-9). A arena biotecnológica desse novo contexto histórico das
ciências da vida trouxe mais um elemento: o entrelaçamento entre ciência, tecnologia e mercado.
Ciência pós-acadêmica, alguns sentenciam. Cientistas seriam desde então empreendedores. É
também o momento em que a biologia e a biomedicina adentram os grandes empreendimentos
de pesquisa da chamada Big Science, como é o caso da genômica, mas agora com colaborações e
redes científicas em escala global. É o encontro da cultura de pesquisa molecular com o mundo
mercadológico, tais como pode-se perceber no protagonismo das indústrias farmacêuticas nas
pesquisas biomédicas, como no caso da dita ciência pós-acadêmica (Bud, 1991; Rasmussen, 2014).
Os anos 1970 viram aparecer a técnica do DNA recombinante, com a criação de sequências
gênicas artificiais, pela qual novos organismos podem surgir pela reprogramação gênica planejada

184
Figura 10: Professor Fabrício Santos em reportagem na revista National Geographic Brasil sobre a sua participação,
como coordenador, na América Latina, do Projeto Genográfico de coleta de amostras de saliva para análise de DNA,
visando o mapeamento da ancestralidade genética e migrações de várias populações mundiais no passado.
Fonte: National Geographic Brazil, maio de 2005, p. [136]. National Geographic Virtual Library, http://tinyurl.galegroup.
com/tinyurl/AEtAP8. Accessed: 12 June 2019.

185
pelo cientista (Castellfranchi, 2008). Nos anos seguintes, biólogos, por meio de técnicas da
engenharia genética, passaram então a manipular e mover peças de DNA de um lugar a outro
numa corrida em busca de drogas (“Gene Jockeys”), proteínas, produzidas pela clonagem de
genes humanos em micróbios ou outas células que têm a capacidade de crescer em ambientes
artificiais. Tal é o caso do clone de insulina humana, produzido em bactérias (Escherichia coli)
(Rasmussen, 2014). A corrida pelo sequenciamento e mapeamento do genoma humano, iniciado
em fins dos anos 1980, também inscrever-se-ia nesse perfil de pesquisa biotecnológica.
Ora, tradicionalmente, os modos de conhecer no ICB sempre envolveram um horizonte de
aplicação e, com isso, em vários campos de pesquisa, um viés biotecnológico. É, desse modo,
fomentado por essa tradição nos seus modos de conhecer, que em 2003 iniciou-se no ICB o
Programa de Pós-Graduação em Bioinformática, interunidades (envolvendo a engenharia e
a computação), apoiado pelo projeto de desenvolvimento científico estratégico BIOMICRO-
Capes. O foco temático está na análise de sequências de DNA e proteínas, o estudo de estruturas
tridimensionais de moléculas, a visualização e análise computacional de imagens e sinais
biológicos9. Esse tipo de empreendimento técnico-científico da bioinformática permite, por
exemplo, que dados de pesquisas do ICB possam ser facilmente inseridos nas diversas coleções
de dados biológicos dos BioBanks internacionais, como é o caso de algumas coleções botânicas
sob guarda do Centro de Coleções Taxonômicas do ICB10. Ao longo dos 50 anos de existência
do instituto, podemos elencar nos programas de pós-graduação dezenas de iniciativas nessa
direção biotecnológica.
Não foi à toa que gestou-se dentro do ICB a empresa Biobrás (Bioquímica do Brasil S.A.). A
Biobrás foi fundada em 1975 pelo Prof. Marcos Luiz dos Mares Guia (1935-2002) (em sociedade
com o empresário Guilherme Emrich), que também foi o seu diretor científico. Ela é tida como
a primeira empresa brasileira de biotecnologia. A fábrica era baseada na cidade de Montes
Claros no norte de Minas Gerais e foi financiada pela Superintendência de Desenvolvimento
do Nordeste (Sudene). Inicialmente a Biobrás produzia enzimas industriais, logo passando à
produção de insulina sintética extraída de pâncreas animal, a partir de um acordo comercial
com a empresa multinacional farmacêutica norte-americana Lilly. Nos anos 1990, a Biobrás em
colaboração de pesquisas com a UNB, USP e Escola Paulista de Medicina desenvolveu a sua
própria tecnologia de engenharia genética e passou a produzir insulina humana recombinante,
sendo a terceira empresa do mundo a dominar a técnica de produção desse tipo de produto
biológico (Motoyama, 2004, p.437; Boletim UFMG, Especial SBPC, março 2017). Em 2000, vale
destacar, a Biobrás obteve patente da insulina sintética. Em 2002, ano da morte de Mares-Guia,
a empresa foi vendida para a dinamarquesa Novo Nordisk.
Aqui cabe destacar o papel de Mares-Guia como empreendedor, mas coordenado com a
sua atuação na esfera de políticas públicas de ciência e tecnologia – foi presidente do CNPq,
da Sociedade Brasileira de Biotecnologia e do Conselho Curador da Fapemig – o que pode ser
9 Ver: http://www.pgbioinfo.icb.ufmg.br/apres.php
http://www.capes.gov.br/bolsas/premios/49-cooperacao-internacional/2211-biomicro
A:cesso 13 jul. 2018
10 http://splink.cria.org.br/manager/detail?setlang=pt&resource=BHCB

186
aqui interpretado como uma estratégia típica de cientistas-empreendedores para fazer coincidir
as suas pesquisas científicas com os interesses comerciais e a influência de sua perspectiva
técnico-científica no mercado biotecnológico brasileiro (Rasmussen, 2014). A propósito, em
1982, Marcos Mares-Guia foi um dos coordenadores da Comissão e Grupo de Assessoramento
que elaborou e redigiu a proposta do Programa Nacional de Biotecnologia (Pronab) do CNPq
(Arquivo Institucional Secretaria Geral do ICB, Acervo Marcos Mares-Guia, Resolução executiva
CNPq n. 069/82), em áreas estratégicas como energia, agricultura e saúde. No caso da saúde
os alvos prioritários de investimento eram dirigidos a pesquisas, em universidades e empresas,
que tivessem como objetivo produzir biomoléculas necessárias para o diagnóstico, terapêutica e
controle de doenças, o que envolvia o enfoque em temas como: polipeptídios, vacinas, antissoros,
enzimas e detecção de microrganismos patogênicos. Além é claro do desenvolvimento de técnicas
biomédicas por meio da engenharia genética ((Arquivo Institucional Secretaria Geral do ICB,
Acervo Marcos Mares Guia, Resolução executiva CNPq n. 069/82).
Um dos pesquisadores de uma geração seguinte a também personificar uma representação de
cientista empreendedor, que concilia atividades acadêmicas na universidade e empresa, é o
reconhecido geneticista Sérgio Danilo Pena. Aliás, Sérgio Pena transferiu-se da Universidade
de McGill para a UFMG, em meados dos anos 1980, persuadido por Marcos Mares-Guia e
Carlos Diniz:
Em 1979, houve o congresso Latino-Americano de bioquímica, que foi em Toronto. [...] Bem, conversei
com ele lá em Toronto e ele insistiu para eu vir fazer concurso aqui na UFMG. O professor Carlos
Diniz era vivo naquela época e era uma pessoa super influente. Aí então eu vim ao Brasil e fiz o
concurso na bioquímica em 1980, já para professor adjunto. Eu passei no concurso e ai eu tranquei,
como se fala... pedi suspensão da contratação e voltei para o Canadá para preparar a mudança.
Finalmente, eu vim para cá em 82, 1982, depois de um ano e meio me preparando. Quando eu vim,
eu trouxe equipamento e mais um monte de coisas e montei meu laboratório aqui na UFMG. Lá
no Canadá eu fazia muita pesquisa e, eu tive um problema de adaptação, demorou algum tempo.
(Pena, 2016)

Logo após instalar-se na UFMG, com toda a infraestrutura laboratorial trazida do Canadá,
Sérgio Pena inicia as suas atividades de pesquisa e atuação na formação de pós-graduandos,
além de, em paralelo, ter criado uma das primeiras empresas do Brasil de testes genéticos de
diagnósticos; o que, segundo ele, não era visto na época com bons olhos pela comunidade
científica local:
“E demorei um pouco para engrenar porque peguei alunos de pós-graduação no começo, mas a
pesquisa... aí finalmente lá para 86 eu já estava com bons alunos e a pesquisa começou a deslanchar
e nesse ínterim... eu sou 40 horas, não sou dedicação exclusiva, eu tenho um laboratório chamado
GENE, que eu montei quando eu cheguei...., Na época essa atividades paralelas não eram vistas
tão bem como hoje em dia, onde falamos de interação universidade/empresa.” (Pena, 2016).

187
Foto 8: O Prof. Wilson Outro relato muito significativo é o do Prof. Nicoli, que destaca a interface
Mayrink em seu
biotecnológica e abertura ao mercado de suas pesquisas em gnotobiologia:
laboratório
Fonte: UFMG, Tem que ressaltar que a UFMG é o único lugar abaixo do Equador onde esses animais são
CEDECOM, Foto Ana
disponíveis. É, portanto, um atrativo. Depois da fase de adaptação e dos estudos iniciais
Coimbra, 1992.
mais básicos sobre a microbiota, começamos a trabalhar com uma parte mais aplicada
no caso o estudo e desenvolvimento de probióticos. Para isto escolhemos microrganismos
de microbiota normal que após seleção poderiam ser disponibilizados para indústrias
brasileiras. Nós tivemos já vários contratos de pesquisas encomendadas com empresas,
como a Merck S.A (Rio de Janeiro, RJ), Christian Hansen Lab. (Dinamarca)e a Geyer
Medicamentos (Porto Alegre, PR). Atualmente nós temos um contrato com a Natura
Cosméticos (São Paulo, SP). Os probióticos foram inicialmente isolados da microbiota
gastrointestinal para ser usados no tratamento ou prevenção de distúrbios digestivos.
Contudo, estamos utilizando esses bioterapêuticos também para outros lugares do
corpo que não seja o intestino. Já temos, por exemplo, microrganismos probióticos
para tratamento de infecções vaginais, e a Natura está interessada em alguns dos
nossos isolados para infecções cutâneas e dermatologia. Os contratos com empresas
foram muito importantes para sobrevida do laboratório em épocas onde os auxílios
governamentais (CNPq, FAPEMIG) eram escassos. Com este tipo de parceria, todo
mundo fica feliz [risos] (Nicoli,2016)

Ora, inevitavelmente, em sincronia com as condições históricas mundiais das


ciências da vida na era pós-acadêmica, uma cultura de pesquisa segundo o ponto
de vista molecular e com horizonte técnico-científico acabaria por gestar no ICB a

188
abertura de alguns dos seus pesquisadores ao mundo mercadológico, até mesmo
como uma das possibilidades de se fazer ciência localmente com recursos abundantes
e de acordo com padrões e exigências internacionais.
Muitas outras iniciativas de investigações com o horizonte de aplicação dos
conhecimentos poderiam ser aqui destacadas. Para além do universo de pesquisa
molecular, podemos destacar os estudos aplicados sobre ectoparasitos, em especial, os
piolhos, coordenados pelo Prof. Pedro Linardi, visando levantamento da incidência
e áreas afetadas em Belo Horizonte pelo parasita para a sua exterminação – em um
projeto extensionista. Há que se destacar também estudos sobre levedura e probióticos,
do campo da microbiologia e os vários estudos ecológicos sobre impactos ambientais

Figura 11: Ilustração


da evolução do quadro
clínico de um dos
pacientes acometidos
por Leishmaniose e que
recebeu tratamento com
imunoterapia em ensaio
clínico realizado pelo
setor de leishmaniose
do Departamento de
Parasitologia (Mayrink,
1996).

189
e conservação do meio ambiente, como foi o caso daqueles realizados na bacia hidrográfica da
Pampulha ou na do Rio das Velhas. Voltando ao contexto científico biomédico, já foi referido
acima o caso das pesquisas com o Interferon e o tratamento de câncer de pele, no Laboratório
de Vírus ligado ao Departamento de Microbiologia. Constatamos também os testes de drogas
pelo GIDE e também as iniciativas de se desenvolver uma vacina contra a esquistossomose.
Os esforços para produzir uma vacina contra a Leishmaniose Tegumentar Americana
também conformam uma trama de pesquisa aplicada, coordenada pelo Prof. Wilson Mayrink
do setor de Leishmaniose do Departamento de Parasitologia, cujos ensaios na fase clínica
obtiveram repercussão acadêmica dentro e fora ICB, sobretudo nos anos 1990, mas que não
chegaram ao último estágio dos empreendimentos tecnocientíficos: que é ter a sua produção
em massa e utilização como medida terapêutica adotada em políticas de saúde pública. Desde
os anos 1930, a busca por medidas de indução de proteção contra a leishmaniose cutânea, com
o emprego de extratos obtidos de organismos vivos ou mortos, passou a ser parte da agenda
de pesquisa de parasitologistas e sanitaristas brasileiros. Tal é o caso do parasitologista Samuel
Pessoa que desenvolveu ensaios clínicos de imunização numa população endêmica de São Paulo,
empregando extratos de promastigostas mortos como antígenos. Essas tentativas serviram de
base para o desenvolvimento desde os anos 1970 de vários ensaios clínicos (em Minas Gerais,
Espírito Santos e Manaus), pelo grupo de pesquisadores em torno do Prof. Wilson Mayrink
(incluindo: Carlos Alberto da Costa, Maria Norma Melo, Marilene Michalick, Paul Williams,
Evaldo Nascimento, Odair Genaro, Marco Victor Hermeto) para induzir resposta imunocelular
no homem a partir de preparações contendo protozoários mortos (com concentração proteica
maior do que aquelas nos estudos de Samuel Pessoa) e com uma vacina polivalente. Os principais
resultados demonstraram uma capacidade de induzir resposta imunológica em cerca de 78%
das pessoas vacinadas, com uma taxa de proteção de 50% no caso da vacina monovalente. A
Figura 11, mostra a evolução do quadro clínico de um dos pacientes acometidos pela doença e
que receberam tratamento com imunoterapia conforme protocolo de pesquisa clínica (BCG +
Leishvacine) sugerido pelos pesquisadores do Setor de Leishmaniose do ICB (Mayrink, 1996).
Como sequência das atividades de pesquisa biotecnológica já naquela época, o desenvolvimento
da vacina e os procedimentos de sua produção renderam o registro de uma patente em 1997
(PI9700830-3). Mesmo antes disso, diante do potencial dos resultados obtidos, em 1989, a
tecnologia de produção da vacina antileishmaniose foi transferida do ICB para a Biobrás, que
ficou responsável pela sua produção industrial. A vacina industrial passou então a ser denominada
de Leishvacine, cujo nível de resposta imunológica e proteção era comparável àquele obtido
pela vacina produzida em condições laboratoriais, atraindo o investimento da OMS (além da
Finep, Fapemig, CNPq, Banco Mundial, etc.) e a parceria de pesquisa com a Fiocruz, para o
desenvolvimento da sua padronização e avaliar sua capacidade de imunização a longo prazo
(Mayrink, 1996). Entretanto, a Leishvacine ficou como uma promessa. Os resultados dos vários
ensaios clínicos não indicaram uma proteção total e, consequentemente, não foram suficientes
para que a vacina contra leishmaniose tegumentar americana – doença associada à pobreza

190
e endêmica em ambientes tropicais e subtropicais – se tornasse um produto biotecnológico
economicamente viável, a ser comercializado em larga escala na profilaxia da doença.
Todo esse universo de iniciativas biotecnológicas foi favorecido por um conjunto de
transformações nos significados e na legislação internacional e nacional para o registro de
patentes. Um marco importante, de 1980, foi a aprovação pelo Supremo Tribunal dos EUA do
registro como propriedade intelectual de uma bactéria geneticamente modificada para degradar
petróleo. Desde então um produto vivente passou a ser considerado uma invenção humana.
Plantas transgênicas tornaram-se patenteáveis. Organismos multicelulares, incluindo-se animais,
manipulados pelas técnicas biotecnológicas, passaram a ser invenções patenteáveis. Produtos da
engenharia genética como genes, trechos de DNA e animais transgênicos tornaram-se patentes
e passíveis de comercialização. Mais do que uma transformação legislativa e operacional, tem-
se, de forma concomitante, uma mudança epistemológica nas ciências da vida que permite a
manipulação da vida e dos organismos vivos segundo interesses mercadológicos. Muda-se com
isso os limites do que é produto do homem ou da natureza, e, com isso, o que é patenteável ou
não (Castellfranchi, 2008).
Outro marco importante nos EUA é a aprovação da lei Bayh-Dole Patent and Trademark
Laws Amendment, permitindo que universidades e laboratórios públicos ou projetos financiados
com recursos públicos pudessem patentear e comercializar os produtos de suas pesquisas,
delegando os direitos de exploração comercial exclusiva a determinadas empresas. A racionalidade
econômica adentra o cenário da produção de conhecimento científico (Castellfranchi, 2008, p.
66). As universidades norte-americanas abraçam a propriedade intelectual privada e seguem
se afastando da pesquisa com interesse unicamente público (Metlay, 2006). No Brasil é de
1996 a lei da Propriedade Industrial (Lei n. 9279), que sintonizou a legislação brasileira aos
requisitos da Trip Agreement (Trade-Related Aspects of Intelectual Property Rights) propostos
pela OMC – que introduz a lei de propriedade intelectual no cenário comercial internacional,
e na qual o país aderiu já em 1994. Mesmo antes desse marco o Brasil já tinha um Instituto
Nacional de Propriedade Industrial, criado em 1970, e um código de propriedade industrial, cuja
primeira versão data de 1945. Mas é nos anos 2000 que o país vê valorizada a ideia de inovação,
acompanhada de uma série de políticas públicas e legislações para fomentar o desenvolvimento
tecnológico; como é o caso da Lei de Inovação Tecnológica (n. 10.793) de 2004, que estabelece os
termos de interação ciência e mercado, visando ao desenvolvimento tecnológico e à transferência
de tecnologias para empresas. A legislação brasileira mais recente e atualizada para a inovação
e propriedade intelectual dos produtos científicos é o Marco Legal de Ciência Tecnologia e
Inovação (n. 13.243) de 2016.11 Importante ressaltar que no período de 1996 a 2012, inúmeros
pesquisadores do ICB, em variados campos de conhecimento biomédicos, depositaram cerca
de 177 pedidos de patentes em escritórios de patentes nacionais e internacionais, a maioria a
partir dos anos 2000, o que indica a consolidação no ICB de uma cultura de pesquisa aplicada
e cada vez mais próxima à atual perspectiva tecnocientífica: ciência, tecnologia e mercado.

11 Sobre Propriedade Industrial e desenvolvimento tecnológico no Brasil ver Machado e Freitas (2016).
https://www.inovacao.unicamp.br/artigo/20-anos-da-lei-de-propriedade-industrial-do-brasil-acoes-do-inpi-
-para-mudanca-de-cenario/.
191
CONCLUSÃO

O presente capítulo procurou demonstrar como os modos de conhecer e fazer ciência


no ICB podem ser vistos como expressão de uma cultura científica particular e que marca o
desenvolvimento científico da instituição ao longo de seus 50 anos. Foi possível observar a
penetração de uma cultura de pesquisa molecular, em que uma prática de pesquisa experimental,
laboratorial, biotecnológica, com olhar reducionista sobre o organismo e baseada numa cultura
material cara e tecnicamente sofisticada tornou-se o principal modelo científico a orientar a
produção científica da maioria dos seus pesquisadores. Porém, vale ressaltar que essa não é uma
orientação epistemológica consensual. Como nos chama a atenção o prof. Nelson Vaz, para
sua visão sobre o peso do instrumental científico nas ciências da vida e, baseado no cientista
Humberto Maturana, sua opinião sobre a importância de uma visão mais holística do organismo
como modelo para os estudos imunológicos:
Então algumas pessoas se tornam jockeys de máquinas, e fazem coisas porque a máquina é poderosa e
só podem fazer isso com essa máquina. É claro que as máquinas são importantes no desenvolvimento,
mas eu se tivesse que avaliar uma porcentagem da importância, poria aí uns 10%. Acho que 90% é
realmente heurístico. É a liberdade de criação, é confiança que a pessoa percebe que tem de pensar.
De desenvolver seu próprio pensamento. E é preciso uma abertura para isso. (...) Para o Maturana,
um sistema é qualquer coisa que você destaque, e onde você destaca partes, os componentes. Quer
dizer, você pode tratar uma cadeira como sistema: tem encosto, assento, pés — componentes. Passa a
ser um sistema então. Os imunologistas usam o sistema imune. Se ele é um sistema imune ele é um
conjunto de coisas conectadas umas às outras. E a coisa mais incrível da imunologia desses sistemas
é a diversidade de componentes. São milhões. Milhões de componentes diferentes. É uma forma
especial de genética, você não herda isso dos seus pais, é um negócio que você tem que fazer de novo,
tem que construir sua individualidade você mesma. E tem N evidências de que se esse conjunto é
o que mantém você saudável — a doença é um desconjuntamento. Quer dizer, quando essa coisa
se desintegra. Eu sei exatamente a maneira pela qual ela se desintegra, inclusive sugestões como
reintegrar, reconectar esse negócio e …O único método novo que apareceu novo na imunologia foi
injetar globulina em altíssimas doses nos doentes e de vez em quando funciona. De vez em quando
dá certo e cura o lúpus, cura perda de plaquetas, cura da noite para o dia. Mas, noventa casos em
100 não funcionam. Então, isso não sabe o quê que é. E é porque a gente não estudou essas regras
de conexão, nas regras de como é que … (Vaz, 2015)

O regime de pesquisa hegemônico nas ciências da vida da segunda metade do século


XX acabou por forjar, localmente e de acordo com a realidade científica brasileira, outros

192
conjuntos de valores nos modos de conhecer dos pesquisadores do instituto. A necessidade
de se ter grupos de pesquisa integrados em torno de temas de investigação transversais e com
pós-graduações que partilham recursos humanos e financeiros e condições de infraestrutura
comuns funcionou, nos anos iniciais das suas atividades acadêmicas, como uma das principais
estratégias institucionais para fomentar o desenvolvimento científico do ICB, sobretudo nos
anos 1970 e 1980. Dinâmica que, com o passar dos anos, começou a ser ameaçada diante da
valorização de uma ciência cada vez mais especializada, reducionista, hierarquizada e sustentada
pelas tramas de poder em torno dos grupos donos das maiores verbas de pesquisa e com maior
número de publicações (Vaz, 2015).
Por fim, vale destacar uma cultura de pesquisa biotecnológica no ICB, presente desde os
seus primeiros anos de funcionamento. Tradição que se intensificou nos anos mais recentes
com a abertura de vários de seus cientistas, agora também vistos como empreendedores, aos
valores dos modos de conhecer da tecnociência, refletida não apenas na prática de uma ciência
básica conectada à aplicação dos conhecimentos e preocupada com a inovação (pelo numeroso
depósito de patentes), mas também tendo como horizonte a incorporação dos conhecimentos
pelo mercado das empresas de biotecnologia.

FONTES
UFMG, Arquivo Institucional do Instituto de Ciências Biológicas
Caixa 1, Envelope 1, documentos 1 e 2.
Caixa 3, Schisto Packet II, 1977.
Caixa 10, recortes de jornal, sem datas.
Caixa 22, Projeto de Implantação do Centro de Processamento de Dados, 1985.
Caixa 23, Relatórios do Departamento de Biologia Geral.
Caixa 23, Relatórios do Departamento de Bioquímica.
Caixa 36, Caderno de Resumos I Encontro de Pesquisa do ICB, 1971.
Caixa 36, Caderno de Resumos II Encontro de Pesquisa do ICB, 1972
Caixa 38, CNPq, Programa Integrado de Doenças Endêmicas, 1977.
Caixa 40, Convênio Premesu, República Democrática da Alemanha, 1985.
Caixa 40, Melhoria de Infraestrutura de ensino e pesquisa no ICB/UFMG através do Convênio
MEC/República Popular da Hungria, 1987.
Caixa GIDE, Ofício de Criação do GIDE, 1969.
Acervo Marcos Mares Guia, Resolução executiva CNPq n. 069/82.
Documentos Pessoais Pedro Marcos Linardi.
Boletim Informativo do ICB.
Pinheiro, Wladimir. Boletim do ICB, ano VII, n. 1, março de 1994.

193
Boletim Informativo UFMG.
ARAÚJO, Ana Rita. Terrível contra o inseto. Boletim UFMG, n. 2014, p. .5, 23 de abril de 2018.
ARAÚJO, Ana Rita. Garimpando proteínas. Boletim UFMG, n. 2014, 23 de abril de 2018. p.4.
Dois pioneiros da pesquisa. Boletim UFMG, Especial SBPC, Ano 43, março de 2017.
Rockefeller Archive Center
Letters of Giorgio Schreiber to Harry Miller, Rockefeller Archive Center RF, 1.3, 305, 35, 306
Fellowship Recorder Ita Rebeca K. Abramof. Rockefeller Archive Center, RF, FA 426, 8.

Entrevistas
MACHADO, Angelo Barbosa Monteiro. Depoimento [julho de 2015]. Entrevistadoras: Rita de
Cássia Marques, Ana Carolina Vimeiro Gomes. Belo Horizonte, 07 de janeiro de 2015. Entrevista
concedida ao projeto Memória e História Científica do ICB.
COELHO, Paulo Zech. Depoimento [fevereiro de 2016]. Entrevistadoras: Ana Carolina Vimieiro
Gomes e Rita de Cássia Marques. Belo Horizonte, 16 de fevereiro de 2016. Entrevista concedida
ao projeto Memória e História Científica do ICB.
Entrevista Sérgio Danilo Pena, 03 de abril de 2016.
COIMBRA, Cândido. Depoimento [março de 2017]. Entrevistadora: Rita de Cássia Marques.
Belo Horizonte, 09 de março de 2017. Entrevista concedida ao projeto Memória e História
Científica do ICB.
DINIZ, Carlos Ribeiro. Entrevista a Angelo Machado e Roberto Barros de Carvalho. In: Canal
Ciência. IBICT. Maio de 1993.
http://www.canalciencia.ibict.br/notaveis/livros/carlos_ribeiro_diniz_12.html
Acesso em: 29 mai. 2018.
KATZ, Naftale. Depoimento [março de 2015]. Entrevistadoras: Rita de Cássia Marques,
Paloma Porto, Ana Carolina Vimieiro Gomes. Belo Horizonte, 06 de março de 2015. Entrevista
concedida ao projeto Memória e História Científica do ICB.
NICOLI, Jacques Robert. Depoimento (junho de 2016). Entrevistadora: Rita de Cássia Marques.
Belo Horizonte, 30 de junho de 2016. Entrevista concedida ao projeto Memória e História
Científica do ICB.
SANTOS, Darcy Ferreira. Depoimento [outubro de 2015]. Entrevistadora: Rita de Cássia Marques.
Belo Horizonte, 14 de outubro de 2015. Entrevista concedida ao projeto Memória e História
Científica do ICB.
VAZ, Nelson Monteiro. Depoimento [outubro de 2015. Entrevistadoras: Ana Carolina Vimieiro
Gomes e Rita de Cássia Marques. Belo Horizonte, 23 de outubro de 2015. Entrevista concedida
ao projeto Memória e História Científica do ICB.

194
VIEIRA, Ênio Cardillo. Depoimento [Abril de 2015]. Entrevistadoras: Rita de Cássia Marques
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196
Capítulo 5
50 50
50
50
50 50
50
50
Em nome da “neutralidade”:
as dinâmicas nas políticas de financiamento
científico no ICB

Paloma Porto

Uma das formas costumeiras de legitimar o discurso da neutralidade da ciência e do cientista


é desvincular a atividade científica dos processos sociais mais gerais. É uma tentativa de separar
o conteúdo cognitivo – e seus elementos estruturantes – das dinâmicas políticas, econômicas e
culturais. Preocupa-se em isentar o processo de desenvolvimento do conhecimento de valores
externos, que possam demonstrar qualquer conflito de interesse. Segue a tática da fleuma, à
maneira de Michel de Certeau1, e partilha a linguagem da indiferença, da “ingenuidade”, da
esquiva, como também da retórica positiva, sem juízo de valor; traduz-se no comportamento
do cientista em uma escolha consciente, que Alexei Kojevnikov (2004) chamou de “polidez”.
Neste capítulo, partimos da ideia de que decisões (e omissões) na política científica deter-
minam o curso de disciplinas e de instituições de ensino e pesquisa. Afinal, o fazer científico
envolve não só a relação entre o cientista e o seu objeto, mas também o permanente diálogo
entre distintos atores: pares, Estado, imprensa, opinião pública, movimentos sociais, agências de
fomento. Vários órgãos de financiamento atuaram no ICB ao longo dos seus 50 anos de existên-
cia, sejam eles públicos ou privados, nacionais ou internacionais, filantrópicas ou empresariais.
Alguns, inclusive, foram criados pelos próprios pesquisadores do instituto. Entretanto, um
fator em comum caracteriza as ações desses órgãos: maximizar retornos sociais, econômicos e
políticos a partir da ciência. E é este fator que situa o ICB dentro da lógica do que se pode cha-
mar de Política Científica e Tecnologia no fomento à pesquisa. Compreendemos essa “categoria
analítica” como um pacto entre ciência e Estado, no qual a ciência se torna uma ferramenta
importante de poder (Abir-Am, 1982, p. 342), especialmente após a Segunda Guerra Mundial
(Salomon, 1977; Velho, 2011).

1 Parto da ideia do historiador francês Michel de Certeau, segundo a qual a tática joga com as ocasiões, é dependente
das circunstâncias e do tempo, é improviso. Táticas são formas de sobrevivência dentro de um sistema dominante,
é o “movimento dentro do campo de visão do inimigo, [...] e no espaço por ele controlado” (Certeau, 1994, p. 100).

199
Apesar do ICB ter sido criado às vésperas da edição do Ato Institucional nº 5 de 1968, o
famoso AI-5 (momento mais autoritário desde o golpe de 1964), o governo militar de Artur
Costa e Silva não só retomou a pauta desenvolvimentista, como também investiu na expansão
das agências federais de financiamentos e dos acordos com órgãos internacionais, o que atendia
às demandas antigas da comunidade científica. Porém, foi preciso negociar. Naquele momento,
os critérios que garantiam custeio às práticas científicas foram buscados em áreas consideradas
estratégicas ao Estado. Para tanto, a ação das agências se deu de duas formas, imbricadas entre
si: no “quê” e no “como” financiar. A primeira, foi direcionada na ênfase do conteúdo cogniti-
vo da ciência e focado em soluções biotecnológicas; a segunda, serviu à formação de recursos
humanos, à estrutura, à logística, aos meios para execução materializados em concessões de
bolsas de pesquisa, financiamento de projetos, aumento salarial, compra de equipamentos para
laboratórios, assim como aquisição de livros e periódicos científicos de grande prestígio para
as bibliotecas.
Como parte do movimento de criação, estruturação e consolidação do ICB passou, de
maneira decisiva, pelas agências de fomento, o objetivo desse capítulo é narrar a história de
tais agências e o papel que elas tiveram no desenvolvimento da prática científica no ICB, tendo
como pano de fundo as dinâmicas políticas da Ditadura Militar Brasileira e da Guerra Fria,
uma vez que o acirramento da bipolaridade entre países capitalistas e socialistas influenciou
no financiamento científico internacional no Brasil.
O tema é delicado, em especial pelas batalhas entre as memórias construídas pelos próprios
cientistas2 em torno desse contexto que, em grande parte, variam entre as narrativas binárias:
resistência versus colaboração. Decerto, o engajamento político figurou como um problema
para a comunidade científica. Prejudicou a carreira acadêmica de muitos profissionais e alterou
o cenário de desenvolvimento da própria ciência (Freire Jr. et al, 2009, p. 480). Se nos debates
em torno da modernização do ensino superior na década de 1960, por exemplo, o arcaísmo das
universidades pareceu ser um consenso entre os projetos em disputa, muitas vezes, o engaja-
mento político esteve atrelado aos valores liberais de produtividade e eficiência; em outras, à
universidade popular e crítica, pauta mais de esquerda (Motta, 2014, p. 67).
Mesmo os docentes que evitaram endossar, criticar ou propor abertamente pautas reformis-
tas, fizeram tomando uma posição. Com efeito, a esquiva já se configura como uma tomada de
posição. Ao negarem “fazer política” no cotidiano de suas atividades e se apegarem à bancada,
ao laboratório, os cientistas não se tornam isentos. Ou numa linguagem da historiografia das
ciências, não reafirmam a demarcação do que é “interno” e o que é “externo” à ciência nesse
embate. Pelo contrário, a não tomada de posição é acompanhada de uma virada pragmática
de adaptação, que dilui a rigidez dessa fronteira. Outras formas de práticas políticas podem ser
apreendidas nesse período, em que os pesquisadores agenciaram instituições visando adquirir
recursos para o desenvolvimento das suas pesquisas, mesmo no período de regime autoritário
– contrastando com a ideia de Karl Popper (1974) de que a ciência só pode se desenvolver em
ambientes democráticos. Trata-se da “tradução de interesses” (Latour, 2000), em que os cien-

2 Para um exemplo no campo da física brasileira, ver texto de Olival Freire Júnior (2007, p. 2).

200
tistas construíram programas de pesquisa suficientemente abertos para permitir a inclusão de
outros interesses, com a “imparcialidade” da ciência dando-lhes cobertura.
Portanto, partimos da hipótese de que alguns dos cientistas do ICB exploraram a conjuntura
política para fazer andar suas agendas de pesquisa. Argumento, ainda, que esses foram possíveis
em nome de um conceito caro à ciência moderna: a neutralidade, como podemos apreender no
relato do professor Giovanni Gazzinelli sobre o desenvolvimento da ciência durante o período
da ditadura militar brasileira:
Umas das coisas que ajudou é que adicionaram uma verba que mandavam para o laboratório.
Então, no tempo da ditadura, vinha a CAPES mandava com verba própria. Você não tinha que
pedir muito, sabe? Mas realmente eu nunca fui influenciado por essa política, eu nunca entrei no
meio de político, não dava bola para ditadura nem para democracia, só via meu trabalho. [...]
Gostava do laboratório e cumpria, eu nunca fui um cidadão muito eficiente. Eu sempre fui pes-
quisador. [...] Mas eu não entrava em política, não discutia política, nada. Minha única atividade
na escola foi ciência e professor. Eu dava aula e fazia ciência, mais nada. Política eu ignorava
completamente. Aqueles movimentos estudantis eu nunca participei. Eu fui sempre meio ingênuo.
[risos] (Gazzinelli, entrevista em 27 de fevereiro de 2015).

Embora não se possa ignorar que a fala de Gazzinelli se liga, provavelmente, mais a con-
vicções puristas da ciência do que a uma postura propriamente antipolítica, seu relato é exem-
plar dos usos da “neutralidade” da ciência. Desse modo, esse capítulo pretende se configurar
como uma análise das formas pelas quais a comunidade científica do ICB – em sua construção
identitária ao longo dos seus 50 anos de existência – urdiu o seu objeto em meio às dinâmicas
políticas em que estava imersa.

201
As ciências biomédicas e a Guerra Fria

Marcos Cueto
Casa de Oswaldo Cruz

Figura 1: Relatório da
Fundação Rockefeller
onde fala que a partir
de 1953 eles não irão
mais financiar pessoas
conhecidamente
comunistas. O
documento mostra
o efeito da ofensiva
macarthista e resultado
da pressão da Comissão
Cox-Reece sobre
agências filantrópicas
nos EUA.
Fonte: ANNUAL
REPORT, The
Foundation Rockefeller,
1953. Disponível
em: https://assets.
rockefellerfoundation.
org/app/
uploads/20150530122207/
Annual-Report-1953.
pdf . Acesso em: 02 nov.
2018.

202
Há alguns anos, os historiadores da ciência têm prestado especial atenção à relação entre
o contexto político e a ciência durante a segunda metade do século XX. Nesse contexto, as
duas superpotências do planeta – União Soviética e Estados Unidos – se enfrentaram em uma
corrida armamentista e ideológica que quase resultou em uma terceira Guerra Mundial. Para
a maioria dos historiadores este período é conhecido como Guerra Fria e cobre aproximada-
mente o período que vai de 1948, quando começou um distanciamento aberto entre as duas
antigas aliadas da Segunda Guerra Mundial, até 1989 quando cai o muro de Berlim e se inicia
o fim do comunismo na Europa Ocidental. O estudo da relação entre ciências biomédicas e a
Guerra Fria permitiu explorar as distintas maneiras em que a ciência e a autoridade científica
se criam, se aceitam e se difundem. Por exemplo, historiadores da medicina discutem em que
medida as ciências desses anos eram ou não um instrumento das geopolíticas norte-americanas
ou soviéticas.
Como em todo o período histórico há mudanças e continuidades. Uma mudança funda-
mental para as ciências biomédicas da América Latina foi a intensificação de um processo de
“norte-americanização”. Ele se ilustra no seguinte contraste: no início do século XX funcio-
nários da Fundação Rockefeller visitaram várias faculdades de medicina latino-americanas
e se assustaram porque a maioria dos livros estava em francês. Depois de alguns anos de um
crescente número de bolsas e doações da Rockefeller para a América Latina, a situação mu-
dou. Por volta dos anos 1950, funcionários da Rockefeller voltaram a visitar essas faculdades
e se alegraram ao ver que a maioria dos livros nas bibliotecas estava em inglês. O inglês havia
desbancado o francês como o novo Latim das ciências biomédicas. Outra mudança impor-
tante em nível mundial foi a integração do laboratório com a clínica, sobretudo, a partir dos
primeiros estudos dos anos 1950 sobre a dupla hélice do ácido desoxirribonucleico (DNA) e a
obliteração de perspectivas sociais na prática médica. Esta foi uma mudança que coincidiu com
uma continuidade. A importância que a genética, a biologia molecular e a biofísica adquiriu na
América Latina esteve associada à promessa de compreender melhor as populações locais em
esforços que, com sutileza, tiveram às vezes um matiz racista parecido com a eugenia da década
de 1920. Outra mudança importante foi a retórica ideológica de legitimação científica em um
período marcado pelos esforços dos governos norte-americanos em conter a disseminação do
comunismo. A esta retórica aderiram os governos desenvolvimentistas Latino-Americanos para
os quais a modernização requeria investimentos em todos os campos da ciência, inclusive as
ciências biomédicas, que eram consideradas vitais para a formação de profissionais de saúde e
para a proteção sanitária da população.
As principais continuidades foram a intensificação de processos que podem se remontar
a começos do século XX. Em primeiro lugar, um inesgotável e desmedido otimismo que as
ciências, e em especial as ciências biomédicas, iam resolver boa parte dos problemas sociais.
Em segundo lugar, a suposição que as ciências biomédicas se desenvolviam graças à imitação
de instituições e paradigmas gerados em polos modernos localizados em países industrializa-
dos. Nessa pirâmide, às vezes, apenas eram reconhecidos cientistas que não trabalhavam nas
metrópoles (como o fisiologista argentino Bernardo Houssay que ganhou o prêmio Nobel de

203
Fisiologia e Medicina em 1947, mas que por quase toda a sua vida se queixou que seus estudos
não eram suficientemente citados no exterior). Complementarmente, a especialização em
subdisciplinas da biomedicina que tomaram vida própria e o surgimento de sociedades biomé-
dicas, assim como das revistas acadêmicas (em número superior às do começo do século XX),
converteram-se em cenários centrais tanto para a confirmação como para o questionamento
de hierarquias científicas.
A saúde Latino-Americana do período posterior à Segunda Guerra Mundial também foi
alimentada de otimismo e desenvolvimentismo da Guerra Fria. Grandiosas e custosas campa-
nhas de controle e erradicação das enfermidades infecciosas – que poucas vezes alcançaram
seus objetivos – foram parte de um ideal civilizatório para integrar os mercados urbanos às
sociedades rurais. No entanto, a dinâmica dessas campanhas sanitárias não estiveram sempre
impregnadas desse ideal como o demonstram vários trabalhos sobre a erradicação da varíola.
A erradicação dessa doença, graças à generalização da vacinação, só foi conseguida nos anos
1980 (a única doença eliminada pela ação humana). Diferentes estudos revelam a relativa au-
tonomia de um grupo de médicos especialistas que, desde a Organização Mundial de Saúde
(criada em 1948), trabalharam contra a varíola, apesar de um dos subprodutos biopolíticos mais
negativos da campanha: laboratórios dos EUA e da URSS conservaram as últimas amostras
de vírus por seu possível uso como uma arma biológica e se negaram a destruí-los, apesar do
clamor científico generalizado.
Atualmente os estudos históricos sobre as ciências biomédicas e a Guerra Fria enfatizam a
investigação sobre os atores locais e intermediários na gestão, tradução e recriação do conhe-
cimento. Esses atores que tiveram que trabalhar na adversidade, com poucos recursos institu-
cionais e humanos e pressupostos limitados, não apenas comunicavam-se com seus mentores
nas metrópoles, mas também com outros colegas de países em desenvolvimento parecidos
com os seus. Esses estudos estão transcendendo os marcos tradicionais e reescrevendo as his-
tórias dos centros científicos metropolitanos, porque historiadores dos países industrializados
não prestaram atenção às dimensões internacionais das ciências que estudavam e ignoraram
a comunicação científica Sul-Sul. Além disso, as novas investigações têm compreendido o
papel crucial que tiveram instituições que há alguns anos foram consideradas provincianas e
marginais. Desse modo, tem sido mostrado que nem toda instituição científica da “periferia”
é periférica na ciência.
As ciências biomédicas durante a Guerra Fria enriqueceram e marcaram a história das
instituições e dos países, assim como as esperanças e desilusões dos indivíduos.

204
Foto 1: Microscópio eletrônico doado pela Fundação Rockefeller à Faculdade de Medicina da
UFMG na década de 1960.
Fonte: UFMG, CEMEMOR, Faculdade de Medicina.

205
Foto 1- Professor 1. O ideal da cooperação como estratégia política
Giovanni Gazzinelli
em uma apresentação
no III Encontro The most obvious program opportunity of any sort at the moment in Brazil, is in
Anual da Sociedade connection with personnel training in the basic preclinical departments of medi-
Brasileira de Bioquímica,
cine schools. This, not supported of medical research per se, not general support of
Caxambu, 1974.
a medical faculty, I think should be the basic objective of program for the next few
Fonte: Coleção Pessoal
years. This objective may be sought in two ways: by fellowships for training abroad
Giovanni Gazzinelli.
and by training in Brazil. [...] The program could be administered by CAPES on a
cooperative basis, with advantage to both agencies. (Robert Briggs Watson, First
Memorandum on the Development of Rockefeller Foundation Program in South
America,3 1 September 1954)

Foi na década de 1950 que uma das instituições que mais difundiu a ideia
de cooperação, a Fundação Rockefeller, propôs um programa de treinamento de
professores de escolas médicas em ciências básicas. O momento no Brasil, a que
se refere Robert Briggs Watson, está conectado à expansão da política de ciência
e tecnologia, com a criação da CAPES e do CNPq pelo governo Vargas, e às boas
relações entre Brasil e Estados Unidos. Os arranjos que desembocaram na criação
do ICB foram feitos a partir dessa ideia de cooperação. Esse primeiro momento
não deve ser obliterado, tratado como uma “pré-história” do instituto, ou como um
projeto de filantropia científica “solidário”. A documentação acessada em arquivos
nacionais e norte-americanos permite apreender que a criação do instituto e o seu
devir foi mais que isso, que envolveu um processo mais complexo. Foi uma expres-
206
são dos esforços entre capital intelectual, recursos econômicos internacionais e uma agenda
desenvolvimentista brasileira. Esta fase, de intensa relação com os norte-americanos, influenciou
alguns propósitos para o ICB e marcou sua identidade institucional. Conformou características
de ensino e pesquisa científica que não foram abandonadas facilmente ao longo da sua história.
Embora hoje a influência da Fundação Rockefeller escape às memórias construídas em torno
do ICB, ela representou um dos principais pontos de uma rede política e epistemológica que
situou o ICB na confluência de várias disciplinas pré-clínicas. Estimulou tendências cognitivas
de escala micro nas pesquisas científicas, com ênfase no manejo de equipamentos modernos e
espaços laboratoriais. O amálgama entre as ciências básicas e a guinada ao paradigma da mo-
lecularização da ciência produziu uma encruzilhada institucional, constituindo-se em um dos
seus pontos fortes, mas também em uma fonte de agitação e de crítica. Decerto um contraste,
se olharmos para a Faculdade de Medicina de Belo Horizonte desde a sua fundação em 1911 até
a década de 1950, onde essa dinâmica científica foi pouco expressiva.
Não ignoramos, cabe ressaltar, que o ensino médico nesta instituição, inspirado na Faculdade
de Medicina do Rio de Janeiro, já contava com disciplinas científico-laboratoriais em seu arranjo
curricular. No entanto, de forma geral, a pesquisa básica ocupava um lugar secundário e era
considerada a “cozinha” das cadeiras clínicas (Paixão, 1995, p. 226). A falta de reconhecimento
em termos de mérito médico-científico serviu aos planos da Fundação Rockefeller, a partir da
década de 1950, em financiar a sua modernização, tentando transformá-la em uma Rockefeller’s
School, a exemplo do que aconteceu na Escola Paulista de Medicina (Marinho, 2004, p. 152).
Caso semelhante pode ser mapeado na Escola de Veterinária. Reconhecida por suas pre-
ocupações com a produção de alimentos e desenvolvimentos científicos que atendiam ao setor
agropecuário de Minas Gerais, as pesquisas básicas também ocupavam lugar secundário.
Recebeu grande volume de financiamento da Fundação Rockefeller desde a década de 1940,
quando ainda era vinculada à Escola Superior de Agronomia e Veterinária (ESAV) e após a sua
federalização e incorporação à Universidade de Minas Gerais em 1961 (Meneses, 2012, p. 117-134).
O lugar onde a pesquisa básica em áreas biológicas acontecia de maneira sistemática era
a Faculdade de Filosofia (FAFI). Giorgio Schreiber, na cátedra de Zoologia, e Braz Pellegrino,
na cátedra de Biologia Geral, são os nomes tradicionalmente ligados a essa fase. Diante desse
quadro disperso na UMG, cabe destacar a pouca interação científica entre os lócus de pesquisa
biológica, que coloca em evidência uma questão da ordem do dia: a tradição bacharelesca e
universalista das faculdades brasileiras, orientada pelo regime de cátedras. Um aglomerado de
áreas de saber encerradas em si, dentro de um sistema de poder que, por vezes, restringia a
produção de conhecimento e a circulação de ideias. Arcaísmo que engessava a interdisciplina-
ridade nas pesquisas científicas e legitimava a existência de cátedras “dedicadas à mesma área
em diferentes faculdades” de uma mesma instituição, a famosa “duplicação de meios para fins
idênticos” (Motta, 2014, p. 67), elevando os custos em um contexto de escassos financiamentos
à ciência no Brasil.
Em meados do século XX, relatos sobre os problemas de estrutura básica foram recor-
rentes entre os lócus de pesquisa biomédica e biológica da UFMG. Uma das dificuldades das
universidades brasileiras em criar novos laboratórios e equipar os já existentes estava ligada
207
à gestão orçamentária, uma vez que antigos catedráticos, muitas vezes, ocupavam cargos de
direção em suas faculdades e recebiam repasses financeiros diretamente do governo federal,
sem precisar necessariamente responder por seus gastos à reitoria (Motta, 2014, p. 67). Assim,
a solução acionada foi a de pedir auxílio às fundações norte-americanas, como a Rockefeller e
a Guggenheim. Na medicina da UMG, a ideia partiu do prof. Americano Freire, que não con-
seguiu apoio suficiente da Congregação e teve sua proposta sufocada por vozes que defendiam
o nacionalismo na ciência de um lado, e pelo argumento da falta de um programa de pesquisa
consistente de outro (Ata da 6ª Sessão ordinária, 25 de agosto de 1945, p. 104).
Na FAFI, a iniciativa foi do prof. Schreiber ao escrever diretamente para Harry Miller Jr.,
figura central da Fundação Rockefeller no Brasil, para solicitar a compra de periódicos científicos
(de áreas biológicas e genéticas), assim como auxílio financeiro individual, para que pudesse
manter contato com centros de pesquisa de referência (Carta de Schreiber para Miller, 9 de
julho de 1948, RAC, RF, RG 1.2, S305, B34, F305). Iniciativa interessante, porque o prof. Schreiber
não obteve sucesso neste momento por dois motivos que serão decisivos para o devir do ICB:
primeiro, pelo alto custo de aquisição de periódicos tão específicos para servir, aparentemen-
te, a um ou dois pesquisadores (o próprio Schreiber e seu assistente José Pellegrino), os quais
não tinham perspectivas concretas de obter financiamento sistemático que mantivesse suas
assinaturas ao longo dos anos; e segundo, por seu pedido de auxílio financeiro para viagens
ter sido feito de forma individual e não institucional, ou seja, apoiado em um programa de
pesquisa com pouca representatividade orgânica. A resposta foi categórica, “foundation grant
are normally on a cooperative basis” (Carta de Miller para Schreiber, 27 de julho de1948, RAC,
RF, RG 1.2, S305, B34, F305). Aproveito, então, para perguntar: quais foram as estratégias dos
cientistas para obter financiamento da Fundação Rockefeller?
Para respondê-la, começaremos por conectar o caso do prof. Schreiber a um quadro con-
textual maior. Não se trata aqui de lançar mão do “mito das origens” dos que primeiramente
tiveram acesso aos recursos da Fundação Rockefeller. A busca deste texto não é pelos “pionei-
ros” desses movimentos, até porque este caso não foi o primeiro. O pedido do prof. Schreiber
é significativo pela sucessão de acontecimentos após a primeira carta.
Até a Segunda Guerra Mundial, o fomento à ciência não era prioridade em políticas pú-
blicas sistemáticas do governo dos Estados Unidos, empresários e fundações filantrópicas eram
os principais agentes financiadores de pesquisa. Um dos maiores entusiastas do paradigma da
biologia molecular, o matemático Warren Weaver, propõe a reformulação de um programa da
Fundação Rockefeller para aplicações de técnicas quantitativas da matemática, da física e da
química aos problemas biológicos (Fosdick, 1957, p. 192). A expansão desse programa da Division
of Natural Sciences em todo o mundo continuou contemplando a seleção de líderes científicos a
serem financiados, mas o interesse em domínios científicos específicos, considerados estratégicos
para a Fundação, foi o critério preponderante (Weaver, 1933, p. 76). Entre as décadas de 1940
e 1950, o seu desenvolvimento na América do Sul ficou sob os auspícios de Harry Miller Jr.,
responsável por identificar potenciais “talentos” para desenvolver pesquisas em ciências básicas,
notadamente nas ciências da vida, assentadas no modelo de excelência científica norte-america-

208
no e, especialmente, no ideal de cooperação. Concepção que estava para além da simples ideia
de colaboração entre pesquisadores em compartilhar ferramentas experimentais. O objetivo
era fazer prosperar a cooperação transdisciplinar, com ênfase no gerenciamento de projetos
de grupos: “grupo dos isótopos” ou “grupo das proteínas”, por exemplo. O empreendimento
científico deixa de exaltar o virtuosismo individual e passa a valorizar os “cooperative individu-
alists”, cientistas com capacidade gerencial (Kay, 1993, p. 7) e dedicação exclusiva.
Assim, podemos perceber que esse modelo de empreendimento científico passava ao lar-
go do “acanhado ambiente científico das Minas Gerais do final dos anos quarenta” (Carvalho,
1975, p. 123). Porém, a resposta de Harry Miller ao prof. Schreiber não encerrou a questão. Ela
delineou o “caminho das pedras”. E essa foi uma das estratégias utilizadas: construir programas
de pesquisa transdisciplinares em domínios científicos específicos, conectando departamentos,
faculdades e outros centros de pesquisa. Ao longo de nove anos (1948-1956), Schreiber e Braz
Pellegrino costuraram uma rede cooperativa de pesquisa que ficou conhecida como o “grupo
da citogenética” da UMG. Parafraseando Jean-Paul Gaudillière (1996, p. 420), ao dar ênfase no
caráter cooperativo, nosso objetivo não é provar o óbvio – a saber, que a ciência é um esforço
coletivo –, mas apontar que formas de trabalho compartilhadas reduziram as incertezas cien-
tíficas e adaptaram respostas localmente legítimas aos desafios experimentais e institucionais.
Portanto, para Schreiber, foi preciso estabelecer linhas investigativas dentro de um pro-
grama maior, regulamentar a parceria com outros institutos de pesquisa, articular bolsas de
estudo com o recém-criado CNPq e publicar artigos. A cada fato novo, cartas eram enviadas
por Scheiber a Miller, na intenção de deixá-lo informado sobre os seus passos, formando assim
um conjunto epistolar que, analisadas em conjunto, dão sentido a várias práticas desses atores.
Fatos que pareciam soltos no tempo, agora ganham novos contornos. Um deles diz respeito ao
requerimento de tornar o Instituto de Biologia da FAFI em órgão ligado diretamente à reitoria,
estratégia reconhecidamente acionada para dotar o instituto de maior autonomia financeira e
acadêmica. A própria palavra “instituto” tem essa conotação, como um lugar com vocação a
pesquisas científicas e autônomas (Celeste Filho, 2006), aspecto mobilizado na solicitação feita
por Braz Pellegrino:
deve[ria] poder entregar-se à pesquisa pura, sem restrições de ordem prática ou profissional”, como
também ser colocado em “situação equidistante das Faculdades às quais poderia servir, e ligado
diretamente à Reitoria como uma unidade neutra a serviço do ensino e da pesquisa” (Pellegrino,
1957, UFMG, Arquivo Institucional do ICB, cx. 1, env. 1, p. 8, grifos nossos).

A neutralidade da ciência foi acionada no momento em que se precisou convencer da


importância da autonomia dos cientistas da área básica, aos olhos dos dirigentes locais. Serviu
também para argumentar com Harry Miller que o instituto representaria uma encruzilhada
epistemológica, tão recomendada pela Fundação Rockefeller. Em carta direcionada à Nova
York, Braz Pellegrino remete aos trustes:
In relation to the question asked by Dr. Miller about the reorganization the Instituto of Biology, we
can relate the present situation as follow:

209
Foto 2- Laboratório de The request of Prof. Braz Pellegrino for the transference of the Institute from the Faculty
Anatomia na Faculdade
of Philosophy to the administration of the Rectory of the University of Minas Gerais,
de Medicina da UFMG,
aproximadamente 1960. has been approved by the ‘Congregação’ of this Faculty on Dec. 23th. The process is now
Legenda original: in the hand of the Rector and must be approved by ‘Conselho Universitário’. We hope
Canto de um dos that this approvation will be given during the month of January 1958.
laboratórios de pesquisa
em Anatomia onde A special budget has been asked to the Ministry of Education for the 1958, and a defi-
estudos microscópicos nitive budget of the University. We hope that with this new budget it would be possible
têm sido realizados to provide for the “full time” of the staff and for appointments of research workers and
principalmente em
neuro anatomia. enlargment of technical equipments.
Equipamentos [...] A new research worker (Dr. A. Mibielli de Carvalho) actually working in the
de pesquisa e
ensino modernos physiological department of the Veterinary School (URMG) with Professor Willwerth,
permitiram um grande will appointed by our Faculty in order to teach General and Compative Physiology
desenvolvimento do
in the curriculum of the Nat. History courses and colaborate with Professor Schreiber
Departamento em anos
recentes. in his plan of cytophotometric research for the endocrinological side of this plans in
Fonte: RAC, RF, RG the Institute of Biology.
Photographs, S305A, As soon as possible we will give more precise information about the systematization.
FA003, B64, F1455.
(tradução livre) Thanking once more for the valuable help that the Rockefeller Foundation will give
to the researches of the Institute of Biology, we ask to give our personal greeting to
Dr. Miller also (Braz Pellegrino to Miller, RAC, January 3 1957, RAC, RF, RG 1.2,
S305, B34, F305).

Outro foco de força em se criar um instituto autônomo veio de professores das


áreas básicas da Faculdade de Medicina, que foram financiados por outro programa
210
Foto 3- Laboratório de Fisiologia na Faculdade de Medicina, aproximadamente 1960. Detalhe para o Prof . Lineu Freire-
Maia ao fundo, do Departamento de Fisiologia, que foi bolsista (fellow) da Fundação Rockefeller, por 12 meses, em 1963.
Legenda original: Durante os três últimos anos, o Departamento de Fisiologia, da Escola de Medicina, Belo Horizonte,
Brasil, tem tido muito interesse em polipeptídeos que afetam os músculos lisos e os vasos sanguíneos como a bradicinina
e a substância U. O aspecto moderno da fisiologia das reações antígeno-anticorpo e a participação de novas substâncias
ativas além da histamina no mecanismo da anafilaxia está sob intensa investigação. A foto acima mostra três investigadores
discutindo os resultados de um ensaio com histamina no sangue de porquinhos da índia naturalmente estimulados.
Fonte: RAC, RF, RG Photographs, S305A, FA003, B64, F1455. (tradução livre).

da Fundação Rockefeller na década de 1950. Voltado especificamente à modernização da edu-


cação em escolas médicas da América Latina, esse novo programa foi concebido pela divisão
de Medical Education and Public Health (MEPH) e orquestrado por Robert Briggs Watson a
partir de 1954, em cooperação com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (CAPES). Formulado aos moldes do que Robert Watson havia desenvolvido na Índia
em anos anteriores, tinha o objetivo de enviar, no período de 3 a 5 anos vários professores de
escolas médicas para treinamento em escolas médicas no exterior4, tanto para formação em áreas
pré-clínicas, como para o aperfeiçoamento da língua inglesa e, consequentemente, desenvolver
o ensino de ciências básicas nas escolas médicas do Brasil com o retorno desses profissionais.
Semelhante ao empreendimento científico da Division of Natural Sciences, o programa da
Medical Education and Public Health pretendia identificar professores com perfil gerencial e
de liderança que pudessem transformar suas áreas de pesquisa em centros de excelência a ser-
viço da formação de profissionais de todo o país. Na visão dos agentes da fundação, “the three
departments of medical school that have outstanding leadership in their professors and unusual
competence in subordinate staff are those of Anatomy, Pathology and Biochemistry” (Univ. of Minas
211
Gerais, RAC, RF, RG1.2, S305, B10, F92, p. 2). Liberato João Affonso Di Dio, da anatomia, apesar
de recém concursado, Luigi Bogliolo, da anatomia patológica e José Baeta Viana (ex-fellow da
Fundação Rockefeller na década de 1920), na bioquímica foram os professores identificados
com esse perfil gerencial e fizeram redes coesas de pesquisa. As formas do financiamento desse
programa consistiam em: o sistema de concessão de bolsas no exterior; a implementação e
consolidação do regime de trabalho de dedicação exclusiva; e, em cooperação com o programa
da Division of Natural Sciences, financiar a estrutura de laboratórios e bibliotecas.
O sistema de concessão de bolsas funcionava da seguinte maneira: ou o professor apre-
sentava a sua candidatura individualmente, ou a própria faculdade de medicina indicava os
nomes. Havia uma avaliação feita pelo representante do programa da Fundação Rockefeller
juntamente com a CAPES. Além de toda estrutura física e influência científica que a Fundação
Rockefeller legou à UFMG, das quais falamos até agora, convém perguntar: porque é importante
falar desse programa de modernização do ensino médico para entendermos a conformação do
ICB? Dois motivos interessam: primeiro, porque foi por meio desse financiamento de bolsas
de estudo no exterior que um grupo de professores/pesquisadores foi para os Estados Unidos,
para ter uma formação biomédica e voltou reforçando a ideia dos Institutos Básicos na UFMG.
A experiência que essas pessoas tiveram nos Estados Unidos reforçou a pauta da implemen-
tação do regime de dedicação exclusiva e do ensino das ciências básicas, o que se desdobra na
criação do ICB. Aliás, é nesta atmosfera de debates sobre a reforma universitária da década de
1960 que um terceiro programa da Fundação Rockefeller entra em ação na UFMG, em 1967.
O University Development Program (UDP), foi coordenado por Ralph Kirby Davidson e tinha
o objetivo de assessorar a tentativa de implementação dos Institutos Centrais, tema abordado
no capítulo 2. Segundo, porque no acordo entre os norte-americanos e a CAPES, a Fundação
Rockefeller tinha poder de veto sobre os nomes dos candidatos à bolsa. Não se trata de um
simples veto por questões do âmbito cognitivo da ciência, mas um veto por questões políticas
e ideológicas, que o contexto histórico da Guerra Fria possibilitou. Mas não anteciparei essa
segunda faceta do programa por agora. Por enquanto, retomarei o fio narrativo enfocando o
quanto a experiência dos professores bolsistas no exterior contribuiu para que advogassem a
criação de um instituto de ciências básicas.
Dos vários bolsistas no âmbito desse programa chefiado por Robert Watson, apenas
Washington Luiz Tafuri, da área da patologia, foi pra Europa. Tafuri foi estudar no Max Planck
Institute for Brain, em Munique na Alemanha, instituição de grande destaque no cenário
científico internacional. Os demais professores foram para os Estados Unidos e alguns, após
o treinamento básico, conseguiram bolsas de outras agências e instituições norte-americanas
para terminar o doutorado, como foi o caso, por exemplo, de Marcos Luiz dos Mares-Guia, que
pelo seu ótimo desempenho no curso básico de bioquímica, conseguiu uma bolsa do National
Institutes of Health (NIH) – complexo científico ligado ao departamento de saúde do governo
americano – para desenvolver uma pesquisa de doutorado em Enzimologia na Universidade
de Tulane. Após a Segunda Guerra Mundial, com o advento da Big Science (que detalharei mais
adiante), o NIH recebeu muito financiamento do setor industrial, em especial da indústria de

212
fármacos, tornando-se uma das mais robustas instituições de pesquisa biomédica do mundo
(Cantor, 2015).
Impulsionado também pelo ideal da cooperação, o NIH fomentou pesquisas em várias
escolas de medicina nos Estados Unidos, onde o modelo flexneriano de ensino médico estava
consolidado em sistema de universidades e em programas educacionais com rigor científi-
co. O que ficou conhecido como Relatório Flexner, encomendado a Abraham Flexner pela
Fundação Carnegie e publicado em 1910, avalia inúmeras escolas médicas nos Estados Unidos
e no Canadá e propõe reformas para que seja possível alcançar uma boa formação profissional,
como a “divisão do currículo em um ciclo básico de dois anos, realizado no laboratório, seguido
de um ciclo clínico de mais dois anos, realizado no hospital” (Pagliosa; Da Ros, 2008, p. 496).
Além disso: recomenda maior rigor na admissão de alunos, turmas reduzidas e o sistema de
dedicação exclusiva para os professores. Existe um grande debate da historiografia sobre a
originalidade de suas propostas (Kemp & Edler, 2004), porém o impacto de seu relatório na
reforma do ensino médico norte-americano e em outros países é um consenso. Portanto, são
seria exagero afirmar que a formação de vários professores da faculdade de medicina da UMG
contribuiu para advogarem a criação de um instituto de ciências básicas.
Uma poderosa combinação de fatores: a proeminência da área biológica derivada da abun-
dância de financiamento entre o final dos anos 1950 e toda a década de 1960; a nova organização
de produzir conhecimento de natureza transdisciplinar em seus programas científicos com ênfase
na pesquisa cooperativa; e a influência norte-americana na formação de seus professores foi de
fundamental importância para o projeto de criação do ICB estivesse pronto no momento que
as ações da reforma universitária ganharam contornos práticos. Mas em especial, esses fatores
marcaram a identidade institucional do ICB e o seu devir.

2. “Ciência Darwiniana”: as marcas ideológicas


Estão sendo estudados no Ministério da Educação novos critérios para se conceder bolsas de estudos
para pós-graduação e doutorado no exterior. O critério ideológico será eliminatório. Se não passar
por este, não avançará para os seguintes. Também está em discussão a possibilidade de interromper
algumas bolsas já concedidas e com alunos em plena atividade usando o mesmo critério. O problema
é como fazer isso sem rasgar contratos. (O Globo, 06 de janeiro de 2019).

A nota publicada pelo jornal O Globo, chegou ao meio acadêmico como um rastilho de
pólvora, inflamando um debate que circula no meio político e social e trazendo alguns cânones
da ciência para a sabatina em arena pública. Mesmo com algumas entidades científicas emitindo
notas de repúdio quanto a uma possível “censura na pesquisa”, as repercussões não ficaram res-
tritas aos especialistas e aos tradicionais meios de comunicação. Milhares de pessoas, por meio
de contas em redes sociais como Twitter, Facebook, Instagram, WhatsApp etc., influenciadas
pelos algoritmos ou não, emitiram opiniões públicas sobre o caso. Na era da post-truth – es-
colhida como a palavra do ano pelo Dicionário Oxford em 2016 – nem a ciência escapa a essa

213
conjuntura, “na qual o objetivo e o racional perdem peso diante do emocional ou da vontade
de sustentar crenças” (Llorente, 2017, p. 9, grifo nosso).
Diante das mais variadas opiniões pulverizadas na internet sobre o caso, uma nos pareceu
oportuna para o debate que propomos neste tópico. No mesmo dia em que a nota do jornalista
Ascânio Seleme (2019) foi publicada, uma página no Facebook chamada “Imagem & História
2.0”, utilizando-se de uma curiosa alegoria, indaga:
Se você puser um sapo em uma panela, enchê-la com água e a colocar no fogo, vai perceber que o
sapo se ajusta à temperatura da água, permanece lá dentro e continua se ajustando quanto maior
for o calor. Quando a água está perto do ponto de fervura o sapo tenta saltar para fora, mas não
consegue porque está muito cansado devido a tantos ajustes que teve que fazer, e morre. Alguns
diriam que o que matou o sapo foi a água fervendo.... o que o matou, na verdade, foi a sua inca-
pacidade de decidir quando agir. Os primeiros sinais da censura estão surgindo. Vamos aceitar ou
agir? (Imagem & História 2.0, 6 de janeiro de 2019).

Como a pergunta/problema do historiador é ensejada pelo tempo presente, casos recentes


como este contribui para as condições de possibilidade de perguntarmos: quais foram os critérios
exigidos pelas agências de fomento aos pesquisadores do ICB? Quais foram as suas (re)ações
diante de tais critérios? Triagem ideológica para a concessão de financiamento à pesquisa pode
parecer uma grande novidade aos olhos de uma geração cientificista e globalizada do pós-1989,
momento em que a queda do muro de Berlim põe um fim oficial à Guerra Fria. No entanto,
dentre muitos argumentos, a retórica comunista é algo recorrente na histórica dos séculos XX e
XXI, guardadas as devidas particularidades no tempo e no espaço. No Brasil, do Plano Cohen em
1937 ao Golpe Civil-Militar de 1964, o “perigo vermelho” foi argumento decisivo “para justificar
os respectivos golpes políticos”, bem como “para convencer a sociedade (ao menos parte dela)
da necessidade de medidas repressivas contra a esquerda” (Motta, 2000, p. 7).
No âmbito da ciência, enquanto a União Soviética, sobretudo em seu período stalinista,
assumia o financiamento da ciência como função estratégica do Estado e o seu controle, com
visível perda de liberdade acadêmica (Graham, 1967, pp. 32­79), intelectuais norte-americanos
defendiam que a racionalização que permeava o capitalismo produzia uma ciência diferente
de outros tipos de sociedade (MERTON, 1970, pp. 142­143). Mesmo admitindo uma relativa
plausibilidade da interferência de demandas técnicas, econômicas e militares na produção do
conhecimento, a ciência só teria sucesso se praticada com autonomia, salvaguardada por insti-
tuições que não atrapalhassem o seu “avanço”. Trata-se da ideia de “ciência pura”, posicionada
estrategicamente como um valor intrínseco ao desenvolvimento do conhecimento e como
argumento para classificar de “extremista” qualquer hipótese contrária, especialmente a de
cunho marxista (Merton, 2013, pp. 81­91). Contudo, a despeito dos embates ideológicos entre
ciência “planificada” e ciência “autônoma”, concordamos com Ávila de que havia um consenso,
também ideológico, em torno do cientificismo, pois “nenhuma agenda política poderia vingar
(talvez sequer ser concebida) sem o apelo à autoridade da ciência” (Ávila, 2015, p. 80).

214
A polarização ideológica alcançou escala global após a Segunda Guerra Mundial e reverberou
na pressão política em cima de fundações filantrópicas, que possuíam isenção fiscal sobre suas
atividades de fomento de qualquer natureza, por possíveis apoios e financiamentos à organi-
zações e indivíduos, dentro e fora dos Estados Unidos, suspeitos de atividades antiamericanas
e/ou comunistas5. A Fundação Rockefeller, pressionada pela “ofensiva macartista” (1949-1954)
e pela Comissão Especial para Investigar as Fundações com Isenção de Impostos, conhecida
como Cox-Reece (1952-1953) (Mueller, 2013), foi submetida a uma “sabatina” pública de todos
os grants concedidos desde a sua criação em 1913. Como resultado, houve a incorporação em
1953 da “abstenção” política de financiar pessoas conhecidamente comunistas às suas normas
de concessão de grants, bem expressa em seu relatório anual:
The Foundation refrains as a matter of policy from making grants to known Communists. This
rests upon two elements, the clearly expressed public policies of the United States, within which we
operate, and the increasing assaults by Communism upon science and scholarship which would
lead us, on intellectual grounds alone, to withhold support (Rockefeller Foundation, Annual
Report, 1953, p. 27).

Além de deixar claro o seu alinhamento com as regras das políticas públicas do país em
que opera, a Fundação Rockefeller demarca o seu critério ideológico dentro do seu processo
de financiamento de pesquisa e concessões de bolsas de estudos, a partir de 1953. Essa nova
prerrogativa no modo de financiar ciência teve solo fértil nas condições históricas do Brasil. É
importante lembrar que a força do anticomunismo no Brasil viveu períodos de oscilação, mas
esteve sempre ligada ao crescimento e a influência do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e
da esquerda em geral (Motta, 2000, p. 7). Robert Watson, ao aportar no Rio de Janeiro com a
missão de chefiar o programa de modernização da educação médica, encontra um ambiente
relativamente democrático e o PCB, que tinha sido proscrito em 1947, ainda era alvo de per-
seguições. Contudo, o que mais nos interessa entender desse contexto é que, assim como nos
demais países da América Latina, os partidos comunistas reuniam um grande número de
professores universitários, cientistas e indivíduos que pertenciam às elites intelectuais, dentre
eles, pesquisadores voltados para a área de parasitologia médica.
Dentre as mais variadas áreas do conhecimento financiadas pela Fundação Rockefeller ao
longo da sua história, a parasitologia foi um grande destaque. Programas de combate à ancilosto-
míase constam, inclusive, como os pioneiros da fundação e todo um saber-fazer norte-americano
em saúde pública foi sendo consolidado ao longo dos anos na área de parasitologia. Ao passo
que os interesses da Fundação Rockefeller se deslocaram e o financiamento das ciências básicas
ganharam mais força a partir dos anos 1950, a parasitologia clássica não só deixou de ser uma
área estratégica, como passou a ser um “pesadelo” para a instituição. Para alguns parasitologis-
tas da época, as doenças endêmicas rurais eram provenientes das condições socioeconômica
locais, e a esquistossomose, por exemplo, era considerada “uma doença de pobreza” (Naftale
5 Cabe ressaltar, que a prática “antiamericana”, nesse contexto, possuía um sentido mais amplo, por exemplo,
qualquer atividade que fosse contra a segregação racial no sul dos Estados Unidos gerava algum tipo de incômodo
e suspeita.

215
Katz, 2015). Além disso, o papel da medicina pública estaria “indissociável da reforma agrária
e da luta contra o latifúndio e, num plano ampliado, da transformação social rumo ao socia-
lismo”, como pensava o famoso catedrático em parasitologia da USP, Samuel Barnsley Pessoa
(Hochman, 2014, p. 27). Portanto, no tocante a esta área, o programa da Medical Education and
Public Health comandado por Robert Watson, vinculou seu financiamento aos aspectos labora-
toriais do ensino e pesquisa em doenças parasitárias. Interessava o olhar citológico, histológico,
bioquímico, fisiológico, anatomopatológico, farmacológico, biofísico sobre as doenças, por
exemplo, como descreve Robert Watson em seus diários, em relação ao prof. José Pellegrino:
The other possibility is Dr. José Pellegrio. [...] He wants a fellowship to go to Tulane for formal trai-
ning in general parasitology. I doubt that he would get as much there, or elsewhere in the States,
as he could get in Santiago with Prof. Amador Neghme. And I question whether we would be
justified in giving him further training in parasitology. He might be diverted to microbiology and
be a good investment for a fellowship in this field (Watson, 1954, RAC, RF, RG12, FA394, B495, p.
111, grifo nosso).

Young José Pellegrino waited upon me at the hotel before dinner to urge once again his case for a
fellowship for parasitology studies in the States his third effort. He is a nice young man and I have
tried without success to discourage him. We cannot consider a fellowship on the basis of his work
in parasitology (Watson, 1954, RAC, RF, RG12, FA394, B495, p. 114).

A recorrente negativa ao financiamento de José Pellegrino para estudar parasitologia nos


Estados Unidos reflete, não só as transformações epistemológicas em marcha nessa área do
conhecimento, mas também a face ideológica do financiamento pela Fundação. Articulado em
cooperação com a CAPES, órgão vinculado ao Ministério da Educação, a Fundação Rockefeller
tinha poder de veto nas concessões de bolsas, como fica claro no trecho a seguir:
[...] The CAPES Project will be considered at the October meeting of the Executive Committee.
In respect to this project the question was raised as to the relationship and responsibility of The
Rockefeller Foundation representative to the selection process. Under the terminology used in the
docket item and correspondence, it is my understanding that all selections would be made with the
concurrence of the representative, who is yourself. This would mean that The Rockefeller Foundation
has actually a veto power. The question was asked whether any Brazilian university would be
prepared to certify that its nominations for such fellowships were known (not to be) communists.
I would like your further comment on this aspect, and if my impression is correct that we in fact
have veto power in the selection of candidates, does this carry any enhanced responsibility that
would give us serious difficulty in any way? (Carta de John C. Bugher a Robert Briggs Watson,
10 de outubro de 1955 (RF, RG1.2, S305, FA387, B10, F92, grifo nosso).

A parasitologia tradicional passou a ser vista como ultrapassada cientificamente e inadequada


politicamente pelos norte-americanos. Longe de ser comunista, Pellegrino era um pesquisador
renomado da Doença de Chagas, com bastante notoriedade pelas experiências com inseticidas
junto ao “barbeiro” no interior de Minas Gerais desde o final da década de 1940. Vinculado ao

216
Departamento de Saúde Estadual e ao Centro de Estudos e Profilaxia da Moléstia de Chagas
(CEPMC) do Instituto Oswaldo Cruz, publicou um número extenso de trabalhos em periódicos
importantes, vários em colaboração com Emmanuel Dias e Francisco Laranja. Pellegrino era
também vinculado ao Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERu) do Ministério
da Saúde, criado em 1956 pelo governo Juscelino Kubitschek (Kropf, 2009 p. 443). Porém,
pesquisava em área do conhecimento que a Fundação Rockefeller não estava mais disposta a
financiar, mesmo com todo o seu brilhantismo.
O caso mais emblemático da retórica comunista como critério ideológico para financia-
mento na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte teve início com a nomeação do professor
Amílcar Vianna Martins, vinculado ao Departamento de Parasitologia, para ocupar o cargo de
diretor do Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERu). Com sua nomeação, Amílcar
Martins teve que se afastar das suas atividades junto à faculdade pelo tempo em que ficaria
no DENERu e uma vaga de professor substituto foi aberta para a parasitologia. No entanto, o
imbróglio começou com a possível ida do professor catedrático em parasitologia médica da
USP Samuel Barnsley Pessoa, conhecidamente comunista, para ocupar o lugar de Amílcar
Vianna Martins. Ainda em 1952, Samuel Pessoa havia se envolvido no episódio da denúncia
de que os Estados Unidos teriam utilizado armas biológicas durante a Guerra da Coreia, caso
de grande polêmica durante a Guerra Fria. Participou da International Scientific Commission
for the Investigation of the Facts Concerning Bacterial Warfare in Korea and China (ISC) que,
após investigação, confirmou a denúncia (Hochman, 2015, p. 428). Somado a isso, o seu posi-
cionamento enfático contra a possibilidade de resolução de problemas sanitários e patológicos
pelos capitalistas brasileiros foi crucial para que se tornasse pessoa não grata pela Fundação
Rockefeller. A possível ida de Samuel Pessoa para o Departamento da de Parasitologia da UMG
causou um clima de tensão, como relata Robert Watson:

217
Figura 1: Carta de Robert B. Watson para John C. Bugher, 25 de junho de 1956. Detalhe para o parecer contrário da
Fundação Rockefeller sobre a ida de Samuel Pessoa para substituir Amílcar Vianna Martins no departamento de
Parasitologia da Faculdade de Medicina da UFMG.
Fonte: RAC, RF, RG1.2, S305, FA387, B10, F92

218
This question has been raised with me within the past two days by an official of the Government
of Brazil, in connection with the possible placement of Dr. Samuel Pessoa in the medical School at
Belo Horizonte. I may add here, that in a telephone conversation today, with the dean of this school,
he told us that the faculty majority is strongly against this placement. There seems to be some fear
that we might feel that such a placement might invalidate the large appropriation we made to the
medical school (Carta de Robert B. Watson para John C. Bugher, 25 de junho de 1956, RAC, RF,
RG1.2, S305, FA387, B10, F92).

A carta de Robert Watson também explica a sua atitude em relação a Samuel Pessoa e
vincula seu caso ao de outro professor conhecidamente comunista, Amílcar Vianna Martins,
o que justificaria o não financiamento da fundação ao Departamento de Parasitologia:
My attitude was as follow: that we could no approve the placement of Dr. Pessoa, nor could he
ever expect support from us; but that the placement there could not, per se, invalidate the appro-
priation unless he should become director of the School. I hope this is sound thinking. The fact is,
that there is scarcely a faculty in Brazil, without at least one professor who is probably associated
with communism. We usually have knowledge of these people and take the necessary precautions.
A good exemple is the Professor of Parasitology at Belo Horizonte, Hamilcar Vianna Martins, who
became last week the Director of the Institute for Rural Diseases in the Ministry os Health. He is
a good parasitologist, but we could not consider help to his department because of his position os
leadership in the communist party in Minas Gerais (Carta de Robert B. Watson para John C.
Bugher, 25 de junho de 1956, RAC, RF, RG1.2, S305, FA387, B10, F92).

O medo de perder o grande financiamento da Fundação Rockefeller e de desacelerar todo


o processo de transformação científica e institucional – que de certa forma, os norte-america-
nos mediavam junto ao governo brasileiro, foi determinante para a não aceitação do professor
Samuel Pessoa junto ao Departamento de Parasitologia da UMG e para a aprovação do nome de
René Guimarães Rachou. Isso mostra a estratégia anticomunista dos norte-americanos e uma
estratégia adaptativa dos professores da faculdade frente aos interesses do agente financiador.
Quanto ao professor Pellegrino, a sua estratégia para fazer andar sua agenda de pesquisa
foi alçada em algo que ele já fazia com maestria: teste de drogas para doenças parasitológi-
cas. Dado seu prestígio intelectual, Pellegrino, até então estudioso da Doença de Chagas, foi
convidado pelo laboratório suíço Hoffmann La Roche “com a finalidade de organizar protocolos
destinados ao teste de drogas que seriam desenvolvidas pelo Laboratório La Roche para doenças
parasitárias” (Gazzinelli, 2003, p. 133), juntamente com seu assistente Zigman Brener, estudioso da
esquistossomose. Foi na Suíça que Pellegrino desenvolveu uma técnica de avaliar agentes esquistos-
somicidas e, ao voltar para o Brasil, publicou os resultados de desenvolvimento da técnica chamada
de “holograma”, assim como mudou o seu foco de pesquisas para a esquistossomose. A guinada da
sua agenda de pesquisa também pode ser explicada pelo contexto da Guerra Fria, período em que
grandes laboratórios de fármacos acompanharam meticulosamente os movimentos das organizações
internacionais de saúde.

219
Desde a década de 1950, campanhas verticais de erradicação de doenças ganharam força em
escala global. Segundo Marcos Cueto, três motivos levaram as organizações internacionais de saúde
a promoverem campanhas de erradicação de doenças infecciosas. Primeiro, a segurança nacional:
proteger os próprios norte-americanos em seu território e os que moravam no exterior (2010, p. 40),
além de soldados que estavam lutando na Guerra do Vietnã, região endêmica de doenças parasito-
lógicas. Segundo, pela questão econômica, com o estímulo à indústria de fármacos. E terceiro, pela
questão ideológica, na disputa de hegemonia política e cultural norte-americana nesse contexto de
bipolaridade, uma vez que queriam demonstrar que podiam controlar a disseminação de doenças
pela lógica capitalista (2010, p. 40), e não pelo desenvolvimento de condições igualitárias de saúde,
como defendido pelo bloco socialista.
Pellegrino adaptou suas pesquisas científicas ao ideal da “erradicação” de doenças tão explorado
no contexto da Guerra Fria. Neste momento, não era mais suficiente “combater” as doenças, era
preciso erradicá-las, extirpá-las completamente para que fosse assegurado o crescimento econômico
de países subdesenvolvidos, tidos como presas fáceis para o discurso socialista do período (Cueto
2010; Magalhães, 2016). Segundo o relatório da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS),
pouco antes da criação do ICB, Pellegrino já contava com financiamento da Organização Mundial
da Saúde (OMS), dos laboratórios Hoffmann- La Roche e Pfizer, assim como da Walter Reed Army
Institute of Research (OPAS, 1967, p. 14).
A demanda, nacional e internacional, por estudos que envolvessem a esquistossomose in-
fluenciou a criação do Grupo Interdepartamental de Estudos sobre a Esquistossomose (GIDE) que,
apesar de ser uma iniciativa dos departamentos de Biologia Geral e de Parasitologia, contava com
o capital econômico e intelectual do Departamento de Bioquímica. O relatório da OPAS apontava
com certo entusiasmo para a “orientation of this department to the area of parasitology and parasite
vectors. This is a very well trained group working with many of the newer areas with recently developed
techniques. They enjoy teaching and have a very large program for fellows” (OPAS, 1967, p. 16). Essa
cooperação interdepartamental foi um critério determinante para o financiamento da OPAS a vários
programas de pesquisa do ICB.
Vários professores da bioquímica, como Giovanni Gazzinelli, Marcos Luiz dos Mares Guia,
Eurico Alvarenga Figueiredo, Armando Gil de Almeida Neves, Ênio Cardillo Vieira, entre outros,
orientaram seus programas de pesquisa, em grande maioria, em torno do Schistosoma, uma estratégia
de adequação, tanto ao ideal de cooperação em grandes programas transdisciplinares de pesquisa –
difundida pela Fundação Rockefeller –, como ao direcionamento à temas financiáveis no contexto
da Guerra Fria. Um bom exemplo disso é o relato do professor Ênio Cardillo:
Tive atritos com o Prof. Baeta Vianna. Ele queria que eu voltasse a trabalhar com o iodo. E eu
não queria. [...] Na época, havia um consenso no Departamento, primeiro, de nós não nos disper-
sarmos. [...] E havia uma ideia de nós trabalharmos com esquistossomose. Eu resolvi então, lá
nos Estados Unidos, criar caramujo, estudar a nutrição do caramujo (Vieira, 2015, grifo nosso).

Durante o regime militar brasileiro, um tema de debate recorrente dizia respeito ao finan-
ciamento à pesquisa científica pelo governo federal, no qual os valores liberais aflorados na

220
época consideravam a pesquisa “pura” um “luxo”, diante das condições econômicas em que país
se encontrava, cogitando-se inclusive a extinção da CAPES (Motta, 2014, pp. 72-73). É nesse
contexto de falta de rumos claros que vários professores do ICB iniciam um movimento em
direção da criação da Fundação de Amparo a Pesquisas Parasitológicas (FAMPAR) em 1970.
Na esteira da criação da FAPESP em 1962, várias tentativas de constituir órgãos mineiros de
apoio à pesquisa foram feitas na década de 1960, a exemplo da articulação de professores da
bioquímica com o governo estadual de Magalhães Pinto para a criação da Fundação de Amparo
à Pesquisa (FAP) em 1966 (Pereira, 2012, p. 39).
Ao contrário da FAP, a FAMPAR prosperou e foi responsável pelo financiamento de inú-
meras bolsas e pesquisas do Departamento de Parasitologia do ICB ao longo de sua história.
Sem vínculos formais com a UFMG e com nenhuma instituição pública ou privada, tinha por
finalidade “ajudar os cientistas em suas pesquisas, auxiliar a formação de técnico especializado,
professores pesquisadores e estudantes [...], contribuindo para o aperfeiçoamento e descoberta
no campo da parasitologia no país” (Diário Oficial do Estado, 11 de dezembro de 1971, Fonte:
UFMG, Arquivo Institucional do ICB, Caixa FAPEBIO, s.p.). A FAMPAR também tinha o objetivo
de prestar “assessoria” aos poderes públicos e contava com três tipos de membros: fundador,
associado e benfeitor, este último podendo ser pessoa física e jurídica, o que daria margem para
a entrada de capital privado nas pesquisas parasitológicas. Os membros fundadores e associados
tinham que contribuir com 20% do salário mínimo vigente no ato da inscrição. Em 1997, sob
o argumento da previsão de autonomia universitária e da necessidade da universidade gerar
renda, a FAMPAR estende os seus serviços aos demais departamentos do ICB, alterando seu
nome para FAPEBIO (Fundação de Amparo a Pesquisas em Biologia) e acrescenta aos seus
objetivos a função de “difundir conhecimentos tecnológicos” na área das ciências biológicas
(Boletim do ICB, 1997, Ano XXVIII, n 37, grifo nosso).
Mesmo com a demanda de conter gastos com ensino e pesquisa, durante os governos militares
os números de bolsas de estudo concedidas pelas agências federais aumentaram consideravel-
mente, principalmente em áreas consideradas estratégicas. A retórica da “segurança nacional”
foi utilizada para financiamentos em técnicas aplicáveis aos problemas sociais e para diminuir
a dependência de importação tecnológica do estrangeiro (Motta, 2014). É nesse contexto que
o CNPq lança o Programa Integrado de Doenças Endêmicas, envolvendo a participação de
várias instituições e pesquisadores brasileiros. Outros órgãos foram criados, como por exemplo
o Fundo de Desenvolvimento Técnico e Científico (FUNTEC), ligado ao Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico (BNDE), com a intenção de formar pessoal técnico na pós-gra-
duação para alimentar de mão de obra os projetos de desenvolvimento. Mas foi a expansão da
Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) que mais impactou as universidades e os institutos
de pesquisa, sobretudo com o financiamento de equipamentos e estrutura logística de pesquisa,
como o convênio entre a FINEP e a UFMG, o qual disponibilizou para o ICB entre os anos de
1976 e 1977 o valor de mais de vinte milhões de cruzeiros (UFMG, Arquivo Institucional do
ICB, caixa 93, Convênios-FINEP).

221
O sistemático financiamento de agências e organizações alinhadas com o ideal capitalista
de fazer ciência não impediu os pesquisadores do ICB de estabelecerem convênios com países
comunistas, como a República Democrática Alemã (RDA) em 1985 e a República Popular da
Hungria (RPH) em 1987, para financiamento de equipamentos laboratoriais. (UFMG, Arquivo
Institucional do ICB, caixa 40, Convênio Premesu RDA, Convênio MEC/RPH). O conheci-
do acordo MEC/Leste Europeu foi estabelecido pelo Decreto-Lei 861 de 11 de setembro de
1969, o qual “Autoriza a contratação de empréstimos externos, no valor global equivalente a
U$$30.000.000,00 em moeda-convênio, para aquisição de equipamentos e materiais de ensino
na República Democrática Alemã e República Popular da Hungria, e dá outras providências
(Brasil, 1969). A justificativa da vantagem financeira foi utilizada como argumento para o go-
verno militar brasileiro firmar acordos com países do bloco socialista em plena Guerra Fria.
De forma semelhante, podemos dizer que os pesquisadores do ICB também souberam tirar
vantagem do contexto que estavam imersos.
Diante de todas as tramas políticas e científicas analisadas neste tópico, as adaptações
empreendidas pelos pesquisadores do ICB podem ser resumidas no que Sérgio Danilo Pena
chamou de “pesquisa darwiniana”, ou seja, “no sentido de que nós vamos fazer o que for pos-
sível fazer no Brasil nessas circunstâncias” (Pena, 2016). Antes de passar no concurso para o
Departamento de Bioquímica, Sérgio Pena trabalhava com pesquisas em genética celular. Ao
perceber a dificuldade de financiamento, em que “um dia faltava a célula”, no “outro dia faltava
o isótopo”, Sérgio Pena direcionou sua pesquisa para o estudo do DNA, como relata:
Então não é aquele negócio de eu vou fazer isso custe o que custar, vou ficar dando murro na parede
até eu conseguir fazer um buraco. Não, eu vou já procurar onde já preexistem os buracos na parede
e então eu vou fazer pesquisas naquelas áreas. Você tem que ser flexível, e a pesquisa vai evoluir
por seleção natural, para onde ela pode, para onde os recursos podem (Pena, 2016).

Assim, na transição para o período de democratização do país, Sérgio Pena havia criado um
sistema de estudos de paternidade e criminalística por meio do DNA, que pôde ser replicado ao
Trypanosoma cruzi e Leishmania pela pesquisadora Andréia Macedo, e ao Schistosoma mansoni
pela pesquisadora Glória Franco. Uma vez que os “maiores chagólogos” do mundo estavam
em Belo Horizonte, assim como os estudiosos da esquistossomose, tais pesquisas inscrevem o
grupo do professor Sério Pena na “tradição” pragmática do ICB.

3.1. Cientistas empreendedores: entre o público e o privado


“[...] tive mais sorte que muitos, porque a pessoa que orientou a minha tese veio da indústria. Ele
trabalhava em química orgânica e desenvolvimento de novos compostos numa grande indústria
americana. Ele tinha uma visão de que determinadas coisas tinham uma aplicação. Ele conversava
sobre patente...” (Mares Guia apud Oliveira et. al., 2001, p. 19-20).

Vinte e cinco anos é o tempo que separa a fundação da Biobrás (Bioquímica do Brasil S.A.)
em 1975 da obtenção da patente internacional da insulina sintética, já no alvorecer do ano 2000.

222
Na fala memorialística acima, Marcos Luiz dos Mares Guia relembra a inspiração
que teve, ainda quando fazia seu doutorado nos Estados Unidos, para idealizar a
empresa que se tornaria a maior produtora de insulina sintética da América Latina.
A “sorte” de Mares Guia estava em plena consonância com as transformações po-
líticas, econômicas e científicas no cenário internacional após a Segunda Guerra
Mundial, onde o sistema de pesquisa e desenvolvimento da Big Science estava en-
trelaçado às tensões da Guerra Fria, sobretudo nos Estados Unidos. Não por acaso
que a Fundação Rockefeller financia seu doutorado na Universidade de Tulane sob
orientação de Elliott N. Shaw, bioquímico renomado e de longeva interação com a
indústria farmacêutica americana.
A história de sucesso da Biobrás (Bioquímica do Brasil S.A.) é bastante conhecida,
servindo, inclusive, de estudo de caso em escolas de gestão empresarial no Brasil.
A centralidade da técnica no empreendimento e o impacto da fórmula que abraça
“ciência, tecnologia e mercado” se tornou um dos emblemas da história da empresa
gestada dentro do ICB. As interpretações sobre o perfil de cientista empreendedor de
Mares Guia, sintetizadas na expressão “um homem à frente do seu tempo”, denotam
a primazia da ideia de ciência a-histórica, ciência que comporta valores universais,
a qual o homem imbuído de “genialidade” desvela a natureza. Tais valores foram
gestados desde a Era Moderna e reverberam até hoje no senso comum e em vários
setores da própria comunidade acadêmica. Obviamente, a contribuição original e

Figura 2: Capital
da empresa Biobrás.
Bioquímica do
Brasil.
Fonte: UFMG,
Arquivo
Institucional do
ICB, Acervo Marcos
Mares Guia.

223
transformadora da técnica em enzimas de Mares Guia não pode ser ignorada. Neste texto, a sua
prática científica é alçada como ponto de inflexão, uma abertura para novas práticas dentro do
ICB, mas que traz consigo marcas das dinâmicas contextuais nas quais está inserido.
É a partir dessa percepção que se faz importante compreender os modos de conhecer do
instituto – como exposto no capítulo 4– juntamente com as dinâmicas políticas e financeiras que
deram condições de possibilidade para uma virada pragmática da ciência do ICB. Os modos de
conhecer estarão no horizonte dos questionamentos que levantarei aqui, mas seguirei os fios e
os rastros que os atores percorreram. Qual a influência efetiva que as agências de financiamento
exerceram na virada aplicada e mercadológica da ciência do ICB?
O percurso da Biobrás é feito em vários espaços: geográficos, físicos e imaginários. Seu
enredo se desenrola no interior e ao redor de espaços tradicionalmente separados, cujas fron-
teiras foram diluídas em alguns momentos, erguidas em outros, mas em constante negociação e
ajuste em várias arenas: departamento de bioquímica do ICB, laboratório, comunidade científica
(pares), instâncias administrativas (reitoria), agências de financiamento, mercado e família. Esta
última, representante da arena privada. Dinâmicas de espaço que se expressaram, por exemplo,
nas palavras de Mares Guia:
eu montei o meu escritório lá na universidade, consegui outra sala, adaptei um escritório grande,
onde eu trabalhava misturado; os negócios da universidade e da Biobrás. Como era pesquisa e
desenvolvimento, ia tudo no bolo. Tinha uma linha direta para falar com o nosso escritório aqui
no centro (Mares Guia apud Birchal, 1989, p. 144).

Desta maneira, analisarei as ações dos empreendimentos biotecnológicos dos cientistas do


ICB pela chave analítica da tensão entre o público e o privado. Aproveito, então, para pergun-
tar: quais foram os jogos de acomodação entre os cientistas e a configuração sociopolítica que
potencializou uma “vocação” biotecnológica do ICB?
Se a centralidade da técnica foi importante para o empreendimento, comecemos por ela.
Uma vez que “a Biobrás surgiu de uma interação que houve entre grupos que trabalhavam em
pesquisas com enzimas” no interior da Escola de Medicina (Mares Guia apud Birchal, 1989, p.
138), o laboratório foi um espaço importante porque lá se dava a formação técnica e empírica
dos alunos e dos demais profissionais interessados em bioquímica. Várias escolas da UFMG que
tinham disciplinas de bioquímica na sua grade curricular procuravam o laboratório da medi-
cina para fazer curso, aprender “coisas elementares de matemática e físico-química”, fazendo
com que o laboratório tivesse, em 1965, seis professores da medicina e mais de vinte de outros
cursos trabalhando no mesmo local. Existia um curso montado para o pessoal interno e foi
nesse ambiente e contexto institucional que a estrutura da empresa começou a ser montada.
Uma pós-graduação começa a ser gestada.
Um dos pontos que o discurso memorialístico sobre a Biobrás aponta é a contribuição do
professor do departamento de bioquímica Carlos Ribeiro Diniz na formulação do projeto da
empresa. Por conseguinte, meu ponto de partida é a estratégica investida deste professor em
angariar recursos para viabilizar uma pós-graduação formal em bioquímica junto a Fundação

224
Rockefeller. Isso ocorreu não no âmbito do “Programa de Modernização do Ensino Foto 4:-Encontro de
Médico” chefiado pelo Robert Watson, mas no suporte articulado com o “Programa Bioquímicos, realizado
de Desenvolvimento Universitário” sob os auspícios de Ralph Kirby Davidson, já em Caxambu em
1972. Da esquerda
citado anteriormente neste capítulo. Em relato de 22 de novembro de 1965, Carlos para a direita: Marcos
Diniz demonstra a sua expectativa de começar o ensino de pós-graduação no final Mares Guia, Giovanni
do ano seguinte para treinar pessoas que iriam ministrar aulas no Instituto Central Gazzinelli e Carlos
Ribeiro Diniz.
de Química e de outras áreas e instituições do país. Foi quando Ralph Davidson
Fonte: UFMG, Arquivo
suggested to Dr. Diniz that what he was proposing might possibly done in a transitional Institucional do ICB,
caixa 45.
way, that is, that they organize the Central Institutes and organize the training of the
teachers in the Central Institues and gradually take over all of the first two years of
teaching in the area and the development of the postgraduate teaching and research
rather than develop the postgraduate teaching separately within the existing work
that is going on in the Faculty of Medicine (RAC, RF, RG1.2, FA387, S305A, B11, F99).

O programa de pós-graduação da bioquímica foi o primeiro do ICB, financiado


por agências nacionais como a CAPES e CNPq, mas também por verbas estrangeiras.
Ao passo que Ralph Davidson compromete a Fundação Rockefeller a dar suporte
através do Programa de Desenvolvimento Universitário – o que cobria parte das
despesas com equipamentos de laboratório –, sugestiona Carlos Diniz a procurar
outras agências de fomento. A conversa entre Carlos Diniz e Ralph Davidson fru-
tificou e vinte e quatro dias depois o plano de trabalho foi redigido na intenção de

225
estabelecer convênios com o Banco Internacional de Desenvolvimento (BID) e a CAPES. O
projeto de programa de pós-graduação estava dividido em dois blocos de temas, o que hoje
chamamos de linhas de pesquisa: o primeiro bloco correspondia à “Bioquímica comparada do
Schistosoma mansoni e do seu hospedeiro Autralorbis glabratus”; o segundo bloco, chamava-se
“Estrutura química e estrutura biológica de enzimas proteolíticas e toxinas” e tinha os profes-
sores Carlos Diniz e Marcos Mares Guia como líderes. Não será necessário discorrer sobre a
implementação do sistema de pós-graduação no ICB, tema do capítulo 2. A minha intenção
aqui é apontar como a sua urdidura converge com os planos de estruturar a Biobrás, não como
uma “coincidência fantástica”, nas palavras de Mares Guia, mas como arranjos e jogos de aco-
modação que deram andamento a sua agenda profissional.
Nesta conjuntura, não seria exagero afirmar que a Fundação Rockefeller atuou como
uma seed money na Biobrás – usando uma linguagem do mercado financeiro –, “de maneira
similar aos recursos do CNPq atualmente, oferecendo um subsídio para a transformação em
ciência e tecnologia do conhecimento acumulado nas universidades” (Oliveira et. al., 2001, p. 19).
Carlos Diniz e Marcos Mares Guia eram ex-fellows da Fundação Rockefeller e, bem ao espírito
do pragmatismo da ciência norte-americana do pós-guerra, na pós-graduação de bioquímica
começaram a
“envolver engenheiros, a partir de [19]69. Eu fui na Escola de Engenharia e fiz uma conferência
para os formandos em engenharia química. [...] Convenci vários deles, acho que 6 ou 7, a fazerem
mestrado em bioquímica [...]. Desses, tem três que estão hoje na Biobrás. São diretores ou gerentes
de alto nível. Nós começamos então, a montar uma massa e eu comecei também, de certa forma, a
selecionar, dentro do curso de pós-graduação, indivíduos que eu achava que tinham personalidade
para trabalhar em programas de indústria. [...] Então por essa época ([19]69-[19]70), já estava claro
que nós íamos fazer o negócio” (Mares Guia apud Birchal, 1989, p. 143-144).

A relativa interação com o pessoal da engenharia química pode ser explicada por dois
fatores: primeiro, pela demanda que os outros cursos fora do ICB tinham de aprender bioquí-
mica, ou seja, a importância da área na formação de outros profissionais, em especial os que
iriam trabalhar no setor industrial; segundo, e não menos importante, pela influência das boas
relações que seu irmão proporcionava, como estudante de graduação em engenharia química
que ainda era, no final da década de 1960. Walfrido Silvino dos Mares Guia Neto, sócio do irmão
em outro empreendimento (o cursinho pré-vestibular Pitágoras), foi convidado por Marcos
Mares Guia a entrar no projeto de criar uma “fábrica” de produzir enzimas e logo começou a
fazer estatísticas e circular dentro do departamento de bioquímica.
O sucesso da sociedade no cursinho Pitágoras explica, em parte, esse esquematismo inter-
disciplinar na estruturação da empresa. No entanto, avesso à rotina, Mares Guia não gostava de
atividades pré-estabelecidas, como quem replicava “receitinhas de fora”. Ao fazer uma autoaná-
lise diante do entrevistador, foi taxativo: “eu não sou empresário, eu sou mesmo investigador.
Eu gosto de aplicar as coisas” (Mares Guia apud Birchal, 1989, p. 157). Mares Guia pensava o
seu trabalho de professor e pesquisador em ciência básica como uma atividade amalgamada

226
à aplicação. Firmou sociedade com empresários, familiares, amigos próximos e
convidou mestres e mestrandos da Pós-Graduação para aderir ao que ele mesmo
chamou de “holding incipiente” (Mares Guia apud Birchal, 1989, p. 145). Em suma,
uma atividade inserida na arena pública, que também atendia aos interesses pri-
vados, desenvolvida pelos princípios do mercado. Não se trata de transformar a
ciência “pura” em ciência “aplicada”, mas conformar metodologicamente os modos
de conhecer na lógica prática.
Fato importante para compreensão do ambiente no qual foi forjada a sua visão
prática da ciência foi a sua formação de graduação no Brasil e a stricto sensu nos
Estados Unidos. No Brasil, Marcos Mares Guia fez parte do grupo seleto de jovens
pesquisadores – apelidado de “Química Mineiral” –, que foram alunos do Prof.
José Baeta Viana, entusiasta do “espírito científico” e um dos responsáveis pela
disseminação do american method na Faculdade de Medicina da UMG, como men-
cionado anteriormente neste capítulo. Por um longo período em que a ciência não
era prioridade de políticas de investimento do Estado brasileiro, seu programa de
ensino laboratorial foi mantido, em certa medida, com recursos privados, oriundos
da comercialização do Iodobisman, medicamento desenvolvido pelo próprio Baeta
Viana para o tratamento de sífilis. É nesse ambiente que Mares Guia inicia a sua
formação acadêmica, com a firmeza de método e uma inspiração bastante próxima
de conformação da ciência básica na lógica prática: o desenvolvimento de um fár-
maco que gerou lucro. É a partir desse ambiente, também, que sua pós-graduação
foi articulada com a Fundação Rockefeller.

Foto 5: Defesa de
Doutorado Marcos Mares
Guia na Universidade de
Tulane.
Foto: Acervo ICB. Defesa
da tese de doutorado em
enzimologia na Tulane
University of Louisiana.
Disponível em: https://
www.ufmg.br/online/
arquivos/045383.shtml .
Acesso: 02 nov. 2018.

227
Nos Estados Unidos, fez seu treinamento no departamento de bioquímica da Escola de
Medicina da Universidade de Tulane, sob a supervisão do Prof. Willian B. Wendell que, em-
basbacado, escreveu para o alto escalão da Fundação Rockefeller:
MG [Mares Guia] is taking English composition, Phisical Chemistry, Calculus, and Advanced
Biochemistry. He is auditing genetics and the biochemistry seminars. Progress reports thus far
indicate straight “A” in all subjects. This young man is undoubtedly the genius which I was led to
believe he is (Wendell apud Mares Guia, RAC, RF, RG10.2, FA426, B8).

Próximo de terminar a bolsa e o treinamento de dois anos (1960-1962) de Mares Guia,


Wendell recomendou que ele procurasse financiamento da National Institute of Health – NIH
para que pudesse terminar seu doutorado em Enzimologia, sob orientação do Prof. Elliot Shaw.
Foi através desses financiamentos e, em especial, do seu orientador, que Mares Guia teve contato
mais intenso com aplicações de técnicas quantitativas da matemática, da física e da química aos
problemas biológicos e desenvolveu ideias que dariam origem à Biobrás. É importante destacar
que sua pesquisa de doutorado foi financiada por uma instituição privada e outra pública, ao
mesmo tempo em que a ciência assumia um papel central na promoção do progresso social.
Um exemplo bem talhado dessa visão da prática científica foi o programa de escalona-
mento dos processos experimentais, feito por Mares Guia e seu grupo, no qual desenvolveram
técnicas de proporção de acordo com o espaço físico e os insumos disponíveis no laboratório
da universidade. Experimentos projetados para 30, 40 ou 50 litros de material foram feitos em
escalas menores. Dentro do seu grande projeto de produzir enzimas – como chamamos hoje
de “projeto guarda-chuva” –, abrigava as pesquisas de cada mestrando, que tentavam respon-
der a perguntas específicas do grande projeto. Assim, a Biobrás não precisava esperar que uma
“descoberta” virasse um fato científico consolidado, virasse um artigo publicado em periódico
especializado, para só a partir daí lançar mão desse resultado e aplicá-lo na sua empresa. Essa
dinâmica, ao mesmo tempo, alimentava constantemente o desenvolvimento laboratorial da
Biobrás, produzia conhecimento dito “desinteressado” em forma de teses, artigos etc., e formava
profissionais para a indústria e/ou docência. Uma combinação de três resultados que atendia à
ordem pública e privada, na visão dos envolvidos no negócio. E sob essa tríade argumentativa,
uma proposta formal de convênio entre a Biobrás e a Universidade, com o interesse de au-
mentar as proporções dos experimentos no laboratório, foi feita por Mares-Guia. Porém, a sua
visão da prática científica não foi tão bem aceita pelos seus pares acadêmicos e pelas instâncias
administrativas da universidade. Segue o seu relato:
A universidade, naquela época, não tinha qualquer relacionamento com a empresa. Na verdade,
tinha gente que achava o negócio meio sujo. Eu fiz uma proposta de fazer um convênio com a
então incipiente Biobrás, para desenvolvermos na universidade, no laboratório da universidade,
esse processo de escalonamento. Porque tudo que foi feito de desenvolvimento básico de processo
laboratorial, virou tese de mestrado. [...] Mas na hora de fazer a escala maior [...], isso não ia ser
considerado correto. Fiz uma proposta para a universidade, da qual nunca recebi uma resposta

228
formal, mas recebi resposta que não dava, que não tinha nenhuma previsão estatutária, que a uni-
versidade não podia se meter em coisa que dava lucro (Mares Guia apud Birchal, 1989, p. 145-146).

Penso que não é possível compreender, de forma mais equilibrada, o “desconforto” da


situação sem apontar alguns traços do contexto histórico no qual ele emerge. Peço licença ao
leitor para fazer mais uma digressão, pois tão importante quanto perceber a influência das
agências de fomento na conformação da técnica laboratorial, é apontar as condições históricas
que possibilitaram isso acontecer. Compreender a combinação entre o investimento em ciências
básicas e transformações sociopolíticas do período após a Segunda Guerra Mundial e durante
a Guerra Fria poderá nos ajudar a entender os movimentos feitos por Marcos Mares Guia e o
“desconforto” institucional causado pela sua proposta de convênio, por exemplo.
Seu doutorado nos Estados Unidos foi financiado com bolsa da Fundação Rockefeller
entre os anos de 1960 e 1964, momento em que o conhecimento vai se transformando em
mercadoria. Apesar do mal-estar para com a ciência, em decorrência dos horrores da Segunda
Guerra e dos conflitos que se seguiram6, a estratégia política e de crescimento econômico do
governo norte-americano foi de redirecionar toda a sua estrutura científica-militar-industrial
para a criação de “produtos” de bem-estar7. Resumindo em uma pergunta, “como a experiência
acumulada pelos institutos de pesquisa criados para a guerra poderia servir, em tempos de paz,
para incrementar a saúde da Nação, gerar novos empregos e elevar o padrão de vida” (Ávila, 2015,
p. 88)? Questionamento feito pelo presidente Franklin D. Roosevelt ao físico Vannevar Bush e
que gerou o famoso “Relatório Bush” em 1945, intitulado ​Science–The endless frontie, no qual
delineava as novas diretrizes das Políticas de Ciência e Tecnologia naquele país e absorvidas
internacionalmente.
As sugestões de Bush giravam em torno do percurso linear e teleológico da ciência: “bá-
sica”, “aplicada” e que desemborcaria na “tecnologia”, com o Estado financiando diretamente
instituições públicas na produção de conhecimento – capital científico nas palavras de Bush – e
estimulando as iniciativas privadas na absorção desse conteúdo cognitivo, transformando-o em
produto. Ou seja, o Estado financiaria a pesquisa básica, que por sua vez produziria conhe-
cimento livre/desinteressado e a iniciativa privada transformaria esse conhecimento em algo
produtivo, com o Estado garantindo e regulando políticas de mercado para o produto final.
No entanto, Yurij Castelfranchi parece ter razão quando contrapõe o texto de Bush: “no mo-
mento em que o conhecimento passava a ser pensado como capital, também devia passar a ser
6 Segundo Hobsbawm (2006), o sentimento de medo e desconforto tomou conta do mundo após o fim da Segunda
Guerra Mundial frente à capacidade de destruição em massa que a ciência e tecnologia poderiam produzir. Os
acontecimentos que tiveram participação direta de cientistas e engenheiros acenderam um sinal de alerta como
os horrores de Auschwitz e outros campos de concentração; a bomba atômica em Hiroshima; a Crise dos Mísseis
de Cuba; e a denúncia do uso de armas biológicas na Guerra da Coreia.
7 A ideia do papel da ciência no desenvolvimento de “soluções” de problemas sociais foi utilizada para combater
o avanço do comunismo, principalmente em países menos desenvolvidos. A retórica da Guerra Fria impulsionou,
por exemplo, o apoio dos Estados Unidos no pós-guerra em campanhas da OMS de combate à malária (Siddiqi,
1995); a interferência nos órgãos de saúde internacional multilaterais, bilaterais e filantrópicas no desenvolvimento
de programas de cooperação técnica antimalárica (Cueto, 2008); e a produção em larga de vacinas, antibióticos e
inseticidas para fins de controle de doenças (Magalhães, 2016). O capitalismo assume a sua feição mais keynesiana
e as instituições científicas passaram a contar com apoio do Estado na conformação de “produtos científicos”.

229
gerido e apropriado de acordo com a lógica do capital” (Castelfranchi, 2008, p. 35). Um longo
debate emergiu em torno da autoridade da ciência nos Estados Unidos, de quem poderia, ou
não, intervir e legislar sobre a produção de conhecimento. Cientistas reivindicando a completa
autonomia da ciência, de um lado, e a burocracia estatal querendo financiar “áreas estratégicas”
e desejosa de aplicabilidade científica cada vez mais frenética, de outro.
Após cinco anos de negociações políticas no parlamento americano, foi criado um órgão
central de administração da pesquisa científica chamado National Science Foundation (NSF),
sob controle dos próprios cientistas que, nas palavras do historiador da ciência Carlos Alvarez
Maia, evidencia o movimento de “difusão do mito da ciência ‘pura’, no qual a ciência teria um
crescimento dependente só dos seus parâmetros internos”. A estratégia dos cientistas, nessa
demarcação de espaço, foi alçar a luta corporativa “sob o modelo de uma ‘comunidade’: uma
fraternidade de iguais”, sob o corolário de uma “ciência neutra” (Maia, 2013, p. 44-45). Assim,
era preciso “proteger” a “comunidade científica” de elementos externos, para que nada pudesse
atrapalhar o “avanço” da ciência. Movimento conhecido como “mitologia cientificista”.
Apesar de todo o esforço, os arranjos políticos e institucionais propostos pelo Relatório Bush
não foram implementados. Como ressalta Stokes, “a recepção de Science, the endless frontier teve
muito de irônico, pois o plano organizacional de Bush foi derrotado, enquanto sua ideologia
triunfou” (Stokes, 1997, p. 50, grifo meu). A sua visão linear e teleológica da ciência se tornou
hegemônica nas Políticas de Ciência e Tecnologia, tanto nos Estados Unidos como nos países
em desenvolvimento. Ainda nas palavras de Stokes:
“Os cânones de Bush deixaram uma impressão profunda e forneceram o paradigma dominante para
o entendimento da ciência e sua relação com a tecnologia na segunda metade do século XX. Essas
ideias ainda podem ser ouvidas nas comunidades da ciência e da política científica, nos meios de
comunicação, e no público informado. E a liderança dos Estados Unidos na ciência do pós-guerra
lhes deu ampla circulação na comunidade internacional” (Stokes, 1997, p. 4).

A influência do relatório Bush é importante para entender o “desconforto” da proposta


de convênio entre a Biobrás e a universidade pela seguinte razão: por difundir uma “mitologia
cientificista”. Concordo com Yurij Castelfranchi quando analisa que a afirmação de Bush sobre
a separação ideal entre ciência “pura” e “aplicada” foi a “transcrição política de um elemento
fundador (e legitimador) do dispositivo científico moderno” (Castelfranchi, 2008, p. 34, grifo
meu). Há um certo consenso historiográfico de que Bush não trouxe algo de novo em relação
à imagem da ciência, mas a manipulação de argumentos e ideias que já estavam presentes na
“tradição ocidental” de ciência (Hollinger, 1990, p. 902), trazidos à tona no contexto bastante
favorável à sua recepção.
Com as dinâmicas de cooperação científica entre Brasil e Estados Unidos ao longo do século
XX, os “cânones de Bush” ajudaram a cristalizar o ideal dessa “ciência acadêmica”, entendida
como neutra, imune à penetração de valores políticos, culturais e econômicos. Ideal que se en-
raizou na autoimagem dos próprios cientistas e no imaginário social. Ademais, o financiamento
da ciência de base como dever do Estado contribuía não só para o crescimento do bem-estar

230
social, como garantia um certo poder aos próprios cientistas. Afinal, como defendeu Charles
Pierce Snow, a disciplina moral do cientista é a “busca da verdade”, e consequentemente, ele
seria o portador da “certeza do conhecimento”. (Science, 1961, p. 256).
Portanto, mesmo com as transformações aceleradas da década de 1960 e 1970, mesmo
com a ciência sendo pensada cada vez mais como mercadoria e a produção do conhecimento
sendo gradativamente incorporada à produção econômica, a imagem da ciência desinteressada
continuou a ser cultivada no âmbito acadêmico – acionada sempre que preciso – e enraizada
no imaginário social. Assim, diante do “desconforto” institucional com o projeto de produção
de enzimas de Marcos Mares Guia no ICB, naquele momento, a “reputação” da universidade
não poderia ser maculada com um acordo de convênio formal que alimentaria algo que gerasse
lucro, como o da Biobrás.
Da década de 1960 muita coisa mudou, a ciência mudou e o contexto histórico também.
A experiência construída em torno da Biobrás passou a ser vista com outros olhos, mas deixou
uma marca institucional na história do ICB e que está presente até hoje: a relação entre os seus
pesquisadores e o Governo do Estado. Essa característica esteve presente, por exemplo, no
momento da criação da FAPEMIG em meados da década de 1980. Os pesquisadores envolvidos
com a criação da Biobrás, Carlos Ribeiro Diniz e Marcos Mares Guia, por meio de um pedido
formal de recursos ao Governo de Minas Gerais, plantaram a semente para a criação de uma
agência de fomento à pesquisa estadual. Aproveitando que o irmão de Marcos Mares Guia,
Walfrido dos Mares Guia ocupava o cargo de secretário da pasta “Reforma Administrativa e
Desburocratização”, os pesquisadores conseguiram articular tal empreendimento (Delgado,
2006, p. 36). Assim, em agosto de 1985 foi criada a FAPEMIG, sob a influência das relações
entre o público e o privado, com o objetivo de financiar projetos com foco no desenvolvimento
do estado de Minas Gerais, logo se tornou uma das instituições mais importantes no cenário
nacional e uma das principais agências de fomento do ICB, especialmente no desenvolvimento
das biotecnologias.

231
Considerações finais

Este capítulo procurou fazer um panorama geral das dinâmicas de financiamento das pes-
quisas científicas do ICB, ao longo dos seus 50 anos. Tempo histórico denso, que comportou a
complexidade e a velocidade dos acontecimentos políticos, científicos, econômicos e culturais
a partir da segunda metade do século XX. Portanto, foi preciso efetuar os seguintes recortes
temáticos: primeiro, seguimos a trajetória da influência norte-americana na construção do
ideal de cooperação na prática científica; segundo, identificamos como essa influência contri-
buiu na trama ideológica de retórica anticomunista como critério de financiamento, além do
movimento dos pesquisadores que garantiu dar andamento às agendas de pesquisa; e terceiro,
dentro desse movimento, analisamos mais detalhadamente um caso que reuniu o ideal de
cooperação, a trama ideológica e, principalmente, uma marca identitária do ICB, a vocação
biotecnológica. É importante destacar, que o acesso a um novo arcabouço documental, com
fontes salvaguardadas em arquivos norte-americanos, entrelaçadas com documentos locais,
disponibilizados gentilmente pelo próprio ICB, foi fundamental para a operacionalização
metodológica deste texto.
Dado os recortes, as principais questões que procurei responder dizem respeito ao dire-
cionamento às áreas financiáveis do pós-guerra na confluência das ciências básicas, triagem
ideológica e Política de Ciência e Tecnologia. Camadas de narrativas que ora se aproximam, ora
se afastam, mas que intencionalmente se entrelaçam. Foi possível perceber que a emergência
do ICB, como uma encruzilhada de disciplinas pré-clínicas, estava imersa no debate sobre a
autonomia da ciência e no arrefecimento do individualismo científico, em detrimento de pro-
gramas de cooperação. Foi possível apreender que os critérios de financiamento são construídos
historicamente e, mesmo imbuída dos valores da imparcialidade e do mérito científico, esses
valores são politicamente manejados. E por último, que a barreira entre o público e o privado na
ciência foi transposta sob o verniz da resolução de problemas sociais. Como fio condutor, que
amarra de uma ponta à outra a narrativa – e sem perder de vista que a natureza é um elemento
ativo na construção do conhecimento – foi possível demonstrar neste capítulo que as estraté-
gias dos pesquisadores do ICB de conseguirem financiamentos sistemáticos e de inscreverem
o nome do instituto no mapa das grandes instituições de pesquisa biológica do Brasil foi alçada
politicamente em nome da neutralidade da ciência.

232
Posfácio Foto 1- Posse Prof.
Tomaz Aroldo da
Cinquenta anos do ICB: precariedades e lutas Mota Santos para
Diretor do ICB gestão
2010-2014.
Fonte: UFMG,
CEDECOM, Foca
Tomaz Aroldo da Mota Santos Lisboa.
Fevereiro de 2019

Falar de precariedades e de lutas é considerar um importante aspecto dos


cinquenta anos de existência do ICB; eu as vivi como estudante, professor e diretor.
Não foi só o precário que marcou a vida do Instituto, mas acho oportuno falar
disso nesses tempos sombrios.
Entrei no ICB em 1969 como estudante de pós-graduação. Fiz minha tese no
Departamento de Bioquímica e Imunologia sob a orientação do Professor Giovanni
Gazzinelli, que abria, à época, um novo campo de pesquisa no Departamento – o da
“bioquímica e imunologia de doenças parasitárias”; no projeto de tese, coube a mim
investigar aspectos imunológicos da esquistossomose experimental em camundongos.
Os camundongos que usávamos em nossos experimentos vinham todos de
fora do ICB: do GIDE, que funcionava então na Faculdade de Filosofia, na Rua
Carangola; os obtínhamos também dos biotérios da Funed, do Museu de História
Natural, no Horto e, mais tarde, dos biotérios da Faculdade de Medicina da USP/
Ribeirão Preto e do Instituto de Biociências da UFF, em Niterói.
233
Mas não era apenas a falta de animais de experimentação que caracterizava o precário
no início da implantação do ICB; havia outras deficiências. Os departamentos, laboratórios,
salas de aula e de administração do Instituto funcionavam de maneira dispersa nos prédios da
Faculdade de Medicina (principalmente), da Escola de Enfermagem, da Faculdade de Filosofia,
do Museu de História Natural; e algumas vezes, da Escola de Engenharia, na Praça da Estação. A
Biblioteca ficava numa casa alugada na praça Hugo Werneck (praça da Santa Casa) na esquina
com Av. Francisco Sales.
Pensada hoje, seria incompreensível a existência da pós-graduação e da graduação nesse
tempo, com essas precariedades, salvo se considerarmos que incompletudes e insuficiências
surgem junto com o nascimento das instituições. É a partir daí que instituições recém-criadas
podem crescer e se aperfeiçoarem. A qualidade do Instituto e de suas nascentes graduação e
pós-graduação estava principalmente no seu corpo docente, administrativo e técnico. Fazer
boa ciência e bom ensino com meios escassos era o desafio a enfrentar e foi isso o que fizeram
os professores e cientistas que a compunham.
Em 1975 me tornei professor, quando o Instituto já funcionava no prédio atual, e bem
mais tarde, (1990), fui seu diretor.
De quando fui diretor pela primeira vez (1990 a 1994), dentre outros aspectos, lembro dos
sanitários e cantinas em precariedade; equipamentos de ensino e pesquisa escassos e alguns, já
fora de uso; nas trovoadas de fim de ano, da falta de energia no prédio motivada pela interrupção
do funcionamento da envelhecida rede elétrica do Campus, externa ao prédio.
Motivo principal dessas carências: falta de verbas.
Aconselhei-me com a Profa. Conceição Machado, de saudosa memória, então chefe do
Departamento da Morfologia, sobre nossas dificuldades nessa época. Falei-lhe sobre a insu-
ficiência do orçamento. Disse-lhe que procuraria usar o que achava ser meu bom senso para
distribuir entre os Departamentos os escassos recursos de custeio. Disse-me então, Profa.
Conceição: não, não faça isso, Tomaz. Melhor dividirmos o pouco que temos entre nós todos.
Assim o fiz; assim, aprendi a lição.
Já na década atual (de 2010 a 2014), fui de novo diretor do ICB - vinte anos depois da pri-
meira vez. Surgem então outras dificuldades: frota de automóveis envelhecida ou insuficiente;
redes elétrica e hidráulica envelhecidas, insuficientes para o atendimento da demanda crescente
do Instituto; falta de espaço para receber novos professores; elevadores quebrados, etc.
De novo, o mesmo motivo: falta de verbas.
Reagia a isso, como, em situação similar, o fizeram todos os diretores e diretoras que me
precederam ou sucederam (claro, cada qual ao seu modo e circunstância): solicitando recursos
à Administração Central, que nem sempre os tinha. Se existissem e quando chegavam, havia
planos e assim muita coisa foi arrumada; e assim seguimos a vida. A comunidade sempre en-
tendeu as precariedades circunstanciais e foi tolerante com a direção do Instituto. Afinal, não
estamos no céu e nunca estaremos.
Qual a diferença para os tempos atuais?

234
Antes, a falta de recurso nas universidades dependia do orçamento federal e disponibilidade
financeira do governo; era circunstancial, episódica. Assim que possível, a Universidade recu-
perava também seu orçamento e os recursos chegavam até as Unidades. Hoje, isso já não pode
ser feito porque há um limite de gastos definido constitucionalmente (a malfadada emenda 95)
de modo que o governo, mesmo que queira, não pode ultrapassá-lo. Isto é, a falta de recursos
deixou de ser conjuntural e passou a ser estrutural. A carência de recurso fez-se permanente.
Houve algumas precariedades menos dramáticas que a falta de recursos. Por exemplo, o
barulho e a poeira durante a execução de obras de reformas. Mas essas eram boas porque nós
as provocávamos para que as instalações do Instituto ficassem melhores que as anteriores. Ou
seja, barulhos e poeira prenunciavam melhores condições.
No início de minha carreira como professor auxiliar de ensino, lá pela metade da década
de 1970, as dificuldades eram de outra ordem. O Brasil vivia uma ditadura.
Fazia parte de nosso cotidiano a censura implícita ou explícita, em geral de origem externa
ao Instituto e à Universidade. Não podíamos falar de política em sala de aula, mesmo que fosse
política de ciência, política educacional, de desenvolvimento, ou simplesmente política. Notícias
ou rumores, nos chegavam: prisões de estudantes, cassação de professores e servidores (que,
graças à ação dos Professores Marcello Vasconcellos Coelho, Eduardo Osorio Cisalpino, Celso
Vasconcelos Pinheiro, José Henrique Santos, destemidos reitores dessa época), foram poucas
na UFMG, em comparação com as tantas vezes mais que ocorriam em outras universidades.
Os(as) estudantes não podiam entrar nas salas, durante nossas aulas, para darem um recado
do DA; algumas entidades estudantis estavam proscritas – suas reuniões eram realizadas às es-
condidas, onde não fossem vistas ou ouvidas. O sistema de controle político de então conseguia
eventualmente infiltrar algum olheiro.
A grande imprensa não noticiava a repressão; poetas não podiam dizer seus versos e can-
tores não podiam cantar suas canções livremente. Não se podia conversar sem receio, aberta-
mente, num círculo maior de pessoas: poderia haver ali, algum ouvido indiscreto e indesejável.
Lembro-me do jornal do DCE à época, crítico e criativo, a começar pelo nome: “Gol a gol; se
pegar com o pé é dibra”; no fundo, já no nome, driblava a censura.
A censura e a autocensura, alimentadas pelo medo, tornaram precário o fazer universitário
na sua alma: pelas perdas da autonomia e da liberdade acadêmica. Aliás, risco que corremos
nos dias de hoje.
Preocupam-me especialmente as consequências da aprovação do projeto de lei chamado
“escola sem partido”, em tramitação na Câmara dos Deputados.
Esse projeto não trata apenas da interdição do proselitismo político de professores em sala
de aula em favor desse ou daquele partido, como seria razoável. Aliás, as universidades nas
suas normas interditam as manifestações de natureza político-partidárias em suas atividades.
O projeto é de uma lei com efeitos muito mais abrangentes. Cito alguns itens:
“são vedadas em sala de aula, a prática de doutrinação política e ideológica bem como a veicula-
ção de conteúdos ou a realização de atividades que possam estar em conflito com as convicções
religiosas morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes”. Outro: “As Secretarias de Educação

235
contarão com um canal de comunicação destinado ao recebimento de reclamações relacionadas
ao descumprimento desta lei, assegurado o anonimato”. Mais um: “O disposto nesta lei apli-
ca-se no que couber às instituições de ensino superior, respeitado o disposto no artigo 207 da
Constituição Federal”.

Se aprovada pelo Congresso Nacional, esse projeto feito lei será a pá de cal na autonomia
da Universidade e o fim da liberdade acadêmica. Essa lei fará de nossos alunos fiscais ideológi-
cos; vigilantes, censores, delatores anônimos da atividade docente. Algo que não ocorreu nem
mesmo na ditadura, pois esta teve pelo menos o pudor (se assim podemos dizer) de contratar
espiões para se infiltrarem entre os estudantes para desempenhar esse sórdido papel.
Ainda que todos percebamos, há outros aspectos que devem ser assinalados. Por esse projeto
a regulação acadêmica deixa de ser autonomamente exercida pelas instituições escolares para
ser feita pelos pais, que julgarão se os conteúdos veiculados pelos professores, estão ou não em
conflito com suas convicções morais e religiosas.
Supondo que uma parte desses pais se oriente pelos imutáveis textos considerados sagra-
dos por suas respectivas crenças religiosas, também estáticas, então vai demorar para que os
estudantes aprendam (ou não aprenderão na escola) os avanços alcançados pelo conhecimento
humano até os dias de hoje.
Não podendo falar em evolução como o processo que deu às espécies, estaremos atrasados
mais de um século. Se não pudermos falar que a terra é uma esfera no espaço que dá voltas em
torno do sol, o atraso é ainda maior. Que jovens estará a Universidade formando se a eles e
elas for forçada a negar o conhecimento atual e o espírito crítico?
Quanto tempo passará até os estudantes aprenderem que existem microrganismos, que as
doenças têm causa e podem ser tratadas; vai demorar um bocado de tempo para aprenderem os
mecanismos de herança, o DNA e o RNA, a biologia molecular; a Física e seu desenvolvimento,
nem pensar... ainda que usem telefone, assistam TV, ouçam rádio, viajem de avião; os estudantes
não farão ideia do que representaram ciência e tecnologia para o bem-estar da humanidade;
para o homem pisar o solo lunar; para colocar satélites coletando e transmitindo informações
para todo mundo em tempo real. Não compreenderão o funcionamento do WhatsApp e como
este aplicativo pode transmitir mentiras e verdades.
Nossos possíveis vigilantes (ou seus pais), usufruem do progresso propiciado pelo surgi-
mento e desenvolvimento da ciência e da tecnologia, e não entendem os mecanismos de funcio-
namento dos processos culturais, tecnológicos, de melhoria da saúde, do aperfeiçoamento das
sociedades. Não conhecerão Copérnico, Galileu, Lavoisier, Dalton, Niels Bohr, Marie Curie,
Einstein, Mendel, Darwin, Pasteur, Emile Durkheim, Max Weber, Karl Marx, Freud e tantos e
tantos que contribuíram de forma singular para o progresso do conhecimento humano.
Vai passar muito tempo para que saibam que existem vírus que desencadeiam doenças para
as quais há vacinas; vão demorar a saber que existem os vírus HIV, que provocam AIDS – que
não é um castigo divino (doença nenhuma o é); não vão saber de Betinho, de Henfil, de Chico
Mário os geniais irmãos vitimados pelo vírus adquirido em transfusões sanguíneas; não vão
saber de Freddy Mercury, nem da África, nem do Mandela, e cá pra nós, nem da grandeza do

236
presidente brasileiro que tirou mais de 30 milhões de pessoas do mapa da fome. Não saberão do
nosso tempo, do nosso povo atual. Das alegrias e sofrimentos das gentes neste terceiro milênio.
Não imaginarão os riscos do planeta e das futuras gerações: de seres humanos e de outros seres
que conosco compartilham a biosfera.
Sobretudo não aprenderão que a ciência sem censura é a que se faz a partir da dúvida (e
não das certeza), que induz tolerância e que dá base para as sociedades democráticas.
Professores e professoras que, não bastassem sua baixa remuneração, agora estão ameaçados
por delações sob o critério de possíveis conflitos de convicções religiosas ou morais. A um só
tempo se destrói a escola como instituição e o professor, a professora, como instituição – essa
que foi inventada pela humanidade como modo de ensinar aos mais jovens o que as famílias
não sabem ensinar: o que está para além dos muros e das portas de suas casas. O ensino do que
é o mundo e do que é a vida em suas complexidades e plenitude.
Essas precariedades que uma lei pode nos trazer nos levará para um tempo em que o co-
nhecimento será estático, atrasado, dogmático.
Menciono outros aspectos da vida que vivi neste ICB de cinquenta anos.
Houve momento (ali pelos anos 1980) em que os salários eram tão baixos que servidores
dormiam em salas de aula ou em salas administrativas da Universidade para economizar o di-
nheiro da passagem de volta para casa; professores deixavam a Universidade em busca de outras
rendas; ou simplesmente enfrentavam a vida cara e dura permanecendo na dedicação exclusiva.
Não havia sindicato, e a única entidade existente, a Assufemg, era de caráter assistencial.
Com o tempo, isso foi mudando.
No final da década de 1970, havia sido criada a Apubh. A Assufemg passou a exercer tam-
bém funções sindicais, antes da criação do Sindifes. A Andifes, que hoje representa os reitores
e reitoras das universidades federais resultou do desdobramento do Conselho de Reitores das
Universidades brasileiras (CRUB), que congregava todos os reitores brasileiros e representava
todas as universidades públicas e privadas. A partir da criação da Andifes, os interesses das
federais mais claros e específicos passaram a ter interlocutor próprio.
Nesse período, aconteceram as primeiras (e longas) greves. A Andes e a Fasubra foram
fundadas e deram caráter nacional aos movimentos sociais das Universidades federais. Como
um resultado, ainda na ditadura, os salários tiveram um grande aumento por causa da pressão
dessas instituições e movimentos sociais.
Do que disse, há, assim, a precariedade que a gente escolhe, como o barulho e a poeira.
Mas há a precariedade não escolhida, que tolhe. Essa é a que mais fere a Universidade pois nos
condena à perda da autonomia, à falta de liberdade, à falta de projeto.
Isso tudo vi e vivi.
Não só eu. Mas todos da minha geração no ICB e da geração que formou a minha geração
como estudante e como professor.
Estivemos juntos. Gastamos muita voz e giz, juntos. Vivemos inquietações, ansiedades,
sofrimentos junto com nossos estudantes e colegas de trabalho na Universidade – professores,
técnicos e administrativos; e também vitórias e alegrias, diga-se. Ralamos nos laboratórios com

237
nossos companheiros técnicos e técnicas; com os(as) servidores(as) administrativos(as) nas
seções, secretarias, colegiados, nos diversos serviços.
O precário, o insuficiente, o instável, o incompleto, o incômodo, o faltante, o que tolhe,
o que mutila, o que limita, o que censura ensinaram-nos que é juntos que os vivemos, que os
sofremos, que os enfrentamos. Se ao ICB nesses tempos que virão ocorrer o precário, desses
que a gente não escolhe, estejam juntos: esses tempos vão passar.

Vão passar.
Obrigado.

238
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formato: 20cm x 26cm | 244p.
tipologias: Minion Pro, Myriad Pro
papel da capa: Supremo 250g/m2
papel do miolo: Chambril avena 80g/m2

coordenação editorial: Betânia G. Figueiredo


diagramação e capa: Marcela Paim do Carmo
revisão de textos: Cláudia Rajão

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