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FICHA DE AVALIAÇÃO FORMATIVA 2 1.

Livro do desassossego
NOME:   N.º:   TURMA:   DATA:

GRUPO I
Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

A
Leia o texto. Se necessário, consulte a nota.

Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um livramento, aquelas frases
simples de Caeiro, na referência natural ao que resulta do pequeno tamanho da sua aldeia. Dali, diz ele,
porque é pequena, pode ver­‑se mais do mundo do que da cidade; e por isso a aldeia é maior que a
cidade…
5 «Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.»
Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam­‑me de toda a
metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua
estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estre‑
10 mece no corpo todo.

«Sou do tamanho do que vejo!» Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos,
ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. «Sou do tamanho do que vejo!»
Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se refletem
nele, e, assim, em certo modo, ali estão.
15 E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objetiva dos céus todos com uma segurança
que me dá vontade de morrer cantando. «Sou do tamanho do que vejo!» E o vago luar, inteiramente meu,
começa a estragar de vago o azul meio­‑negro do horizonte.
Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria ignorada, de dizer palavras aos
mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade vasta aos grandes espaços da matéria vazia.
20 Mas recolho­‑me e abrando. «Sou do tamanho do que vejo!» E a frase fica­‑me sendo a alma inteira,
encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz
indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer.

Bernardo Soares/Fernando Pessoa, Livro do desassossego.


edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Tinta­‑da­‑ China, 2014.

NOTA
«Porque eu sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura.» (linhas 5 e 6) — versos do poema vii
de O guardador de rebanhos, de Alberto Caeiro.

1 Caracterize o posicionamento do sujeito de enunciação perante a vida, tendo em conta os três



parágrafos iniciais. Comprove com elementos textuais.

2 Considere a afirmação «sou do tamanho do que vejo!» (linha 5).



2.1 Comente a repetição desta frase ao longo do texto.

3 Explicite o sentido do último parágrafo do texto.




ENTRE NÓS E AS PALAVRAS  •  Português  •  12.o ano  •  Material fotocopiável  •  © Santillana 29


UNIDADE

B
1 Leia o texto. Se necessário, consulte a nota.
Fernando Pessoa

Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de inverno, em Turim, que é quase tão frio
como S. Petersburgo — entende­‑se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira
cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o
quintal.
5 Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de
Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infân‑
cia nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões: pois
tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois
hei de dar­‑lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar
10 e sentir se há de fazer crónica.

[…]
São 17 deste mês de julho, ano de graça de 1843, uma segunda­‑feira, dia sem nota e de boa estreia.
Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço. […]
Também são chegados os outros companheiros: o sino dá o último rebate. Partimos.
15 Numa regata de vapores o nosso barco não ganhava decerto o prémio. […]
Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pitoresco anfiteatro de Lisboa
oriental, que é, vista de fora, a mais bela e grandiosa parte da cidade, a mais característica, e onde, aqui e ali,
algumas raras feições se percebem, ou mais exatamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das
crónicas. Da Fundição para baixo tudo é prosaico e burguês, chato, vulgar e sensabor como um período da
20 Dedução cronológica, aqui e ali assoprado numa tentativa ao grandioso do mau gosto, como alguma oitava

menos rasteira do Oriente.


Assim o povo, que tem sempre melhor gosto e mais puro do que essa escuma descorada que anda ao
de cima das populações, e que se chama a si mesma por excelência a Sociedade, os seus passeios favoritos
são a Madre de Deus e o Beato e Xabregas e Marvila e as hortas de Chelas. A um lado a imensa majestade
25 do Tejo em sua maior extensão e poder, que ali mais parece um pequeno mar mediterrâneo; do outro a

frescura das hortas e a sombra das árvores, palácios, mosteiros, sítios consagrados todos a recordações
grandes ou queridas. Que outra saída tem Lisboa que se compare em beleza com esta? Tirado Belém,
nenhuma. E ainda assim, Belém é mais árido.
Já saudámos Alhandra, a toireira; Vila Franca, a que foi de Xira, e depois da Restauração, e depois outra
30 vez de Xira, quando a tal restauração caiu, como a todas as restaurações sempre sucede e há de suceder,

em ódio e execração tal que nem uma pobre vila a quis para sobrenome.
— A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar a gente de um governo de
patuscos, que é o mais odioso e engulhoso dos governos possíveis.
É a reflexão com que um dos nossos companheiros de viagem acudiu ao princípio de ponderação que
35 eu ia involuntariamente fazendo a respeito de Vila Franca.

Mas eu não tenho ódio nenhum a Vila Franca, nem a esse famoso círio que lá foi fazer a velha monar‑
quia. Era uma coisa que estava na ordem das coisas, e que por força havia de suceder. Este necessário e
inevitável reviramento por que vai passando o mundo, há de levar muito tempo, há de ser contrastado por
muita reação antes de completar­‑se…

Almeida Garrett, Viagens na minha terra, Capítulo I,


edição crítica de Ofélia Paiva Monteiro, Lisboa, INCM, 2010 [1846] (com supressões).

NOTA
Xavier de Maistre (linha 3) — alusão ao popular opúsculo Viagem à volta do meu quarto, redigido enquanto este autor francês
se encontrava em prisão domiciliária, em Turim.

4 Explicite o projeto de deambulação geográfica e de escrita do narrador.




5 Faça um levantamento dos aspetos do excerto que apontam para o carácter deambulatório

e para a dimensão reflexiva e crítica da obra a que pertence.

30 ENTRE NÓS E AS PALAVRAS  •  Português  •  12.o ano  •  Material fotocopiável  •  © Santillana


GRUPO II
1.2
Nas respostas aos itens de escolha múltipla, selecione a opção correta.

Livro do desassossego
Escreva, na folha de respostas, o número do item e a letra que identifica a opção escolhida.

Leia o texto.

Ficou conhecido como o «boom latino­‑americano»: no fim da década de 1960, o mundo da cultura
ocidental apaixonou­‑se pela cena literária da América Latina. A faísca desse fulgurante entusiasmo foi a
publicação do livro Cem anos de solidão, obra­‑prima indiscutível do escritor colombiano Gabriel García
Márquez. No entanto, García Márquez foi apenas a face mais visível de um movimento literário pleno de
5 vitalidade, que atravessou a segunda metade do século xx.

É a geometria pessoal deste movimento que o livro de António Mega Ferreira, Viagens à ficção hispano­
‑americana (Arranha­‑Céus, 2015), procura dar a conhecer — a intenção foi abordar o fenómeno mais numa
perspetiva pessoal do que com qualquer pretensão académica. A obra teve a sua génese num conjunto de
palestras proferidas por Mega Ferreira em Lisboa, integradas na programação de âmbito cultural do El Corte
10 Inglés.

Vamos à viagem: a deambulação literária divide­‑se em dez capítulos. Cada um deles visita um escritor,
examinando a sua vida e obra de forma integrada e abrangente. Na primeira parte, «Vistas dos trópicos ao
amanhecer», observamos alguns escritores dos trópicos, facetas diferentes do chamado «realismo mágico».
Começa­‑se por Juan Rulfo, pedra angular de todo o movimento — com uma interessante análise do estilo
15 inovador e vanguardista do autor. Volta­‑se, depois, o olhar para outros vultos, como o já citado García Már‑

quez, Mario Vargas Llosa ou Alejo Carpentier.


Sendo o «realismo mágico» apenas uma das faces deste movimento, a segunda parte do livro — «As
margens do rio de la Plata» — desloca os holofotes para a Argentina e o Uruguai, onde os protagonistas são
o genial Jorge Luis Borges, o seu grande amigo Bioy Casares e também Julio Cortázar e Juan Carlos Onetti.
20 Representam, cada um à sua maneira, uma outra vertente literária: são escritores urbanos, eruditos e deli‑

beradamente não realistas, construtores de universos intelectualmente fascinantes e complexos.


A terceira e última parte, «O último selvagem», dedica­‑se a escalpelizar um escritor enigmático e inclas‑
sificável: Roberto Bolaño, autor de uma série de perturbantes ficções no virar do século, com livros como
Os detetives selvagens e 2666.
25 A prosa de António Mega Ferreira revela uma genuína paixão pelo tema, com atenção ao pormenor.
Escreve de uma forma acessível, erudita mas não hermética, e descobre aspetos estimulantes para quem
gosta de livros — a obra abre o apetite para a descoberta de muitos dos escritores em questão.
A biografia, o estilo, os efeitos de linguagem e as características pessoais dos autores são matéria para
um aturado mapa literário, onde não falta a relação de muitos deles com os seus precursores: todos tinham
30 lido William Faulkner, James Joyce, Kafka e Proust, aonde iam buscar as «feitiçarias da forma na ficção, a

sinfonia dos pontos de vista, ambiguidades, matizes, tonalidades e perspetivas», como admite Vargas Llosa.
É também analisada a relação do movimento literário com a revolução cubana de Fidel Castro. A uto‑
pia comunista começou por ser uma fonte de esperança para a primeira geração do boom, mas daria len‑
tamente lugar ao desencanto e à dor de muitos escritores, por terem feito fé numa revolução traída pelos
35 próprios mentores.

Viagens à ficção hispano­‑americana é um compêndio indispensável para se perceber a importância


deste movimento no panorama literário mundial. Menção especial para o grafismo apelativo da capa, um
padrão de malaguetas, espelho de um estilo literário de imaginação tórrida e policromática.

Nuno Camões, http://deusmelivro.com/mil­‑folhas/viagens­‑a­‑ficcao­‑hispano­‑americana­‑antonio­‑mega­‑ferreira­‑ 4­‑5­‑2016,


publicado em 4 de junho de 2016; consultado em 30 de setembro de 2016 (com adaptações).

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UNIDADE

1
1 O texto apresenta características específicas

( A) da exposição.
(B) do artigo de opinião.
Fernando Pessoa

(C) da apreciação crítica.


(D) do artigo de divulgação científica.

2
Em Viagens à ficção hispano­‑americana, António Mega Ferreira
(A) dá a sua opinião pessoal sobre a obra­‑prima de Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão,
contextualizando­‑a no panorama da literatura latino­‑americana da segunda metade do século xx.
(B) apresenta relatos de viagens de um importante movimento literário latino­‑americano que atravessou
a segunda metade do século xx.
(C) faz uma antologia de textos dos principais autores da literatura latino­‑americana da segunda metade
do século xx.
(D) apresenta a vida e a obra dos principais autores da literatura latino­‑americana da segunda metade
do século xx.

3 A expressão «mapa literário» (linha 29) aponta para



( A) as nacionalidades comuns aos vários escritores latino­‑americanos referidos na obra.
(B) os locais em que viveram e por que passaram os vários escritores latino­‑americanos referidos
na obra.
(C) as relações entre os vários escritores latino­‑americanos referidos na obra.
(D) as relações entre os vários escritores latino­‑americanos referidos na obra, assim como os autores
que os influenciaram.

4 De acordo com o texto, os autores do «boom latino­‑americano»,



( A) na generalidade, foram indiferentes à utopia comunista.
(B) após a revolução cubana, traíram os mentores da utopia comunista.
(C) em muitos casos, sentiram­‑se desiludidos pela utopia comunista.
(D) participaram ativamente na revolução de Fidel Castro, pelo menos no que diz respeito à primeira
geração de escritores.

5 Em «escalpelizar» (linha 22), recorreu-se a



( A) uma metáfora. (C) uma ironia.
(B) uma hipérbole. (D) um pleonasmo.

6 Com o recurso ao travessão na linha 7, o autor



( A) realça uma ideia.
(B) introduz uma oposição.
(C) explicita o sentido do que afirmou anteriormente.
(D) apresenta um exemplo do que afirmou anteriormente.

7 O último período do primeiro parágrafo (linhas 4 e 5), relativamente à frase anterior, introduz uma

( A) concessão. (C) adição.
(B) alternativa. (D) causa.

8 Identifique o tipo de coesão que assegura o conector «No entanto» (linha 4).


9 Classifique a oração introduzida por «onde não falta a relação de muitos deles com os seus

precursores» (linha 29).

10 Identifique a função sintática desempenhada pelo constituinte «um padrão de malaguetas»



(linhas 37 e 38).

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GRUPO III
1.2
«Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo,

Livro do desassossego
ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre
diferentes, como, afinal, as paisagens são.
Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que
deslocar para sentir.»
Livro do desassossego. Fernando Pessoa,
edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Tinta-da-China, 2014.

Elabore um texto de opinião bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas
palavras, em que defenda um ponto de vista pessoal sobre a ideia exposta no excerto transcrito.
Fundamente o seu ponto de vista recorrendo, no mínimo, a dois argumentos e ilustre cada um deles com,
pelo menos, um exemplo significativo.

Observações:
1. P
 ara efeitos de contagem, considera­‑se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta
integre elementos ligados por hífen (ex.: /opôs­‑se­‑lhe/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente dos
algarismos que o constituam (ex.: /2016/).
2. 
Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados — entre duzentas e trezentas palavras —, há que atender ao seguinte:
— um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;
— um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.

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UNIDADE

1 Correção das Fichas


Fernando Pessoa

FICHA DE AVALIAÇÃO FORMATIVA 2

GRUPO I (Cenários de resposta)


A
1 O eu demonstra, perante a vida, uma atitude passiva e um comportamento interiorizado, reflexivo, como

evidenciam as palavras que abrem o texto — «Releio passivamente, recebendo». Demonstra também
uma necessidade de ânimo e libertação interior, que os versos, as «frases» de Caeiro, apesar da sua
simplicidade e naturalidade (pois «parecem crescer sem vontade que as houvesse dito»), vêm satisfazer:
o eu sente­‑os como «uma inspiração e um livramento». Revela um sentimento de claustrofobia interior,
refletido na pequenez do espaço físico em que o sujeito se encontra — um espaço interior cuja janela dá
para uma «rua estreita», contrastando com o espaço aberto, «o grande céu e os muitos astros», cuja visão
e profundo sentimento de liberdade as palavras de Caeiro proporcionam: «Depois de as ler, chego à
minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor
alado cuja vibração me estremece no corpo todo.»

2
2.1 
As palavras de Caeiro têm uma força axiomática e desencadeiam uma revelação no sujeito de
enunciação. Funcionam como um refrão e assemelham­‑se a um mantra, que, ao ser repetido, dá cada
vez mais força à revelação, fazendo o sujeito vibrar intensamente, numa epifania que o liberta, ilumina
e permite a fusão do eu com o sentido das palavras de Caeiro e com o universo: «Depois de as ler, […]
sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo.»; «Cada vez que penso
esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir
consteladamente o universo.»; «E a frase fica­‑me sendo a alma inteira».

3 Apesar da revelação provocada pelos versos de Caeiro, da ânsia de libertação e da vontade de ser outro

(«Tenho vontade de […] afirmar uma nova personalidade vasta aos grandes espaços da matéria vazia.»),
o entusiasmo desaparece, e o eu regressa à inércia, voltando a ser vago e reflexivo.

B
4 O narrador afirma que vai realizar uma viagem a Santarém e que redigirá uma obra sobre o que «vir

e ouvir» e «pensar e sentir» ao longo desse itinerário, apresentando, por isso, um discurso fragmentado,
de natureza digressiva.

5 O carácter deambulatório relaciona­‑se com a viagem empreendida pelo narrador, que parte de Lisboa

com destino a Santarém: dirige­‑se ao Terreiro do Paço, para, com outros companheiros, apanhar o barco
que subirá o Tejo: «Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço.»
«Partimos. […] Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pitoresco anfiteatro
de Lisboa oriental»; «Já saudámos Alhandra, a toireira; Vila Franca, a que foi de Xira».
Ilustram a dimensão reflexiva e crítica da obra os comentários sobre aquilo que o narrador observa:
sobre os contrastes da cidade de Lisboa — sendo a parte oriental «a mais bela e grandiosa […], a mais
característica», mais próxima a glória do passado nacional, por oposição ao lado ocidental, «chato, vulgar
e sensabor», associado à vida burguesa, exemplo de mau gosto e presunção — e sobre o bom e puro
gosto do povo, por oposição ao das classes mais altas («essa escuma descorada que anda ao de cima
das populações»); sobre Vila Franca, a propósito da qual é feita uma crítica à insurreição política liderada
por D. Miguel em 1823, à participação dos absolutistas na Guerra Civil de 1828­‑1834 e à má governação
(«de um governo de patuscos, que é o mais odioso e engulhoso dos governos possíveis»), concluída
por uma referência às profundas e necessárias transformações que vão ocorrendo no mundo.

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GRUPO II
1.2
1   (C)   2   (D)   3   (D)   4   (C)   5   (A)   6   (C)   7   (A)

Livro do desassossego
8   Coesão interfrásica.

9   Oração subordinada adjetiva relativa explicativa.

10   Modificador apositivo do nome.

GRUPO III
Construção de um texto de opinião que respeite o tema, a estrutura e os limites propostos. Devem respeitar­‑se
as principais características do género textual em causa:
•  explicitação do ponto de vista;
•  clareza e pertinência da perspetiva adotada, dos argumentos desenvolvidos e dos respetivos exemplos;
•  discurso valorativo (juízo de valor explícito ou implícito).

FICHA DE COMPREENSÃO DO ORAL 2


(Duração do debate: 21 minutos [09:20­‑30:00, parte 2])
Transcrição:

Sofia Galvão (jurista): […] Ó Fátima, se me permite, eu gostava de dizer algumas notas rápidas sobre
alguns temas por que fomos passando e que foram ficando assim um bocadinho pendurados…
e eu acho que vale a pena dar ainda alguns contributos. Sobre a globalização, e aqui o Professor
Ricardo Reis decidiu ser mais enfático do que eu tinha sido, e ainda bem, porque enfatizou muito
bem aquilo que enfatizou, eu só queria dar uma nota que me parece importante. É que a
globalização está, entre outros fatores, a mudar completamente o mundo em que vivemos, e uma
das nossas dificuldades tem exatamente a ver com esta mudança. Os nossos velhos quadros são
cada vez mais incapazes de explicar a realidade com a qual temos de viver.
Fátima Campos Ferreira (moderadora): Daí os jovens, naquele inquérito, estarem muito mais a favor
da globalização como um fator de melhoria da sociedade.
Sofia Galvão: Exatamente, há essa diferença. Agora, a globalização faz com que os Estados Unidos
e os seus aliados (os países ricos ocidentais) continuem a ser poderosos e ricos, mas com um
poder e uma riqueza que decresceram significativamente. E os números, aqui, ajudam. Estes
países representavam, em 1990, 64 % do poder de compra mundial. Em 2020, prevê­‑se que
representem 39 % desse poder. Isto é impressionante. E os Estados Unidos caem de 22 % para
19 %. A relação de forças, portanto, altera­‑se completamente. É este sistema, este modelo de
desenvolvimento ocidental, assente numa economia livre e de mercado, que tem feito com que
o PIB per capita tenha aumentado exponencialmente. […] Em geral, no mundo, o PIB per capita
sextuplicou entre 1950 e 2015. […] Globalmente, as coisas evoluíram, e evoluíram positivamente.
Fátima Campos Ferreira: Mas isso significa que a Europa está num beco sem saída?
Sofia Galvão: Não, não significa nada. As saídas têm sido sempre encontradas. E eu acho que aqui
também serão. E, como digo, o caminho tem vindo a ser feito. Os problemas do euro não têm
hoje, de todo, os contornos que tinham quando começaram a ser sentidos. E, repito, a ação do
Banco Central Europeu tem tido aqui um papel fundamental, que representou a compreensão,
a perceção de qualquer coisa. Ainda outra ponta que ficou pendurada — o tal estudo sobre as
desigualdades. Não posso deixar de responder ali ao Dr. Marcos Capitão Ferreira, para discordar
aqui muito claramente. O período de 2009­‑2011 foi um período extremamente gravoso do ponto
de vista do aprofundamento do agravamento das desigualdades em Portugal. […] São os 20 %
mais ricos que foram os menos afetados. Só as classes de rendimentos mais elevados […] têm

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