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Bicicleta à chuva

O Jaime carrega um enorme segredo: um grupo de rufias, os Alcaides, toma conta da sua vida de
muitas maneiras, deixando-lhe o corpo e a mente com marcas difíceis de apagar.
O seu líder luta para conseguir ser importante naquele bairro tão complicado...
Um dia, o Jaime vê uma bicicleta antiga encostada a um muro de pedras, e desenha-a.
Cai uma chuva miudinha, mas o dono da bicicleta, o Joaquim, não se incomoda com isso, e interessa-
se por aquele desenhador.
Nasce assim uma amizade capaz de revolucionar a vida do Jaime e de muitos outros…



Jaime
Conheço de cor o muro que fica em frente à paragem de autocarro, com hera a passar de
dentro para fora, como se fosse uma cascata congelada. Naquela tarde, ao ver uma bicicleta ali
encostada, deu-me logo vontade de a desenhar. Costumo ficar sozinho a espera do autocarro.
Detesto correr que nem um maluco para apanhar o das quatro e dez, como fazem todos os outros.
Talvez seja porque sou muito pesado, ou então porque nao tenho grande vontade de perder, todos
os dias!, a corrida aos lugares sentados. Os meus amigos queixam-se sempre:
— Vá lá, Jaime, despacha-te! — grita o Sebastian.
— Sigam, gosto mais de ir no outro...
— Oh, és mesmo aborrecido! — Este é o queixume da Teresa, que usa sempre umas
palavras mais especiais.
E vejo-os correr e entrar no autocarro, que quase fica a deitar alunos pelos vidros! Acabo
por regressar a casa no outro, o das quatro e trinta e dois.
Nessa tarde, foi tudo igual. Não, houve algumas diferenças, mais precisamente, duas: estava
a cair uma chuva miudinha, «molha-tolos», como diz a minha mãe, e deixaram uma bicicleta
encostada ao muro.
A bicicleta era daquelas a que o meu pai chama «pasteleiras». Nao tinha mudanças, nem
pinturas modernas, nada disso. Era tão verde como a hera e tão velha como o muro. Ficava linda,
ali. Agarrei no bloco e no lápis, desenhei-a com uma facilidade que até me assustou, e fiquei
muito contente com o resultado.
— Estás a desenhar a minha bicicleta?!
Dei um salto no banco, assustei-me mesmo.
— Hum... estou. Algum problema?
— Não, não. Achei grata. — Estendeu-me a mão: — Joaquim.
— Jaime — disse eu, numa ginástica incrível para não atirar com o bloco e o lápis ao chão,
enquanto entalava a mochila entre as pernas e tentava levantar-me.
— Ficas sempre muito tempo aqui, não é? Já te topei mais vezes.
— Prefiro ir no segundo autocarro.
— Eu ando de bicicleta.
— Mesmo quando chove?
— Mesmo quando chove, sim. Dá-me outra liberdade.
— Acredito — respondi eu, só para fazer conversa, custa-me sempre quando fico calado
sem saber o que dizer. Mas ele não parava de olhar para o bloco.
— Hum... Deixa ver.
Passei-lhe o desenho, coisa que teria muita dificuldade em fazer com qualquer pessoa.
Contudo, foi imediato. A cara dele não me era estranha, mas não o reconheci logo.
— Gosto! Tens jeito, pá...
E, sem mais nada, o Joaquim despediu-se já a atravessar a rua, montou na bicicleta
molhada, sem se importar com isso, e pedalou com uma agilidade incrível. Fiquei a magicar.

Bicicleta à chuva 2
Nunca o encontrei na escola, e, pensando bem, também não parece ter idade para lá andar. Seria
da secundária? Tentei lembrar-me onde o tinha visto, sem sucesso. O autocarro chegou e eu
entrei.
O meu coração começou a bater mais depressa.
Era mesmo difícil escolher entre ir com todos os outros no primeiro transporte ou sozinho
no segundo. Se fosse no primeiro, arriscava-me a que muitos deles assistissem ao que me
acontecia depois (e iriam gozar-me, claro está). Se fizesse como de costume, apanhando o
segundo, saindo na minha paragem ou na anterior (tanto fazia) teria de aguentar sempre o mesmo,
sempre sozinho e sempre calado. Olhei de novo para o desenho. Guardei-o entre os manuais
escolares, para não se estragar. Ainda suspirei fundo, mas assim que carreguei no botão para sair,
já não controlava a respiração.

Valdomiro
— Olha quem lá vem! — gritou o Cassius.
Primeiro empurrão. O miúdo pôs logo um ar de vítima. Segundo empurrão.
— Então, pá, não te aguentas nas pernas? — Não me respondeu. — Estou a falar contigo,
não te aguentas nas pernas?
O Xistinho pregou-lhe uma rasteira, foi parar ao chão em dois segundos. Não parávamos de
rir.
Eu ficava sempre irritado por ele nao se defender. Todos os dias a mesma cena, nunca deu
luta. Parecia um bicho-de-conta enrolado. Dei-lhe um pontapé, o Cassius imitou-me logo. Ao
miúdo, só faltava chorar, o que seria mesmo muito divertido, mas parecia que não íamos ter essa
sorte.
A mochila abriu-se e eu apanhei um caderno. Nesse momento, sim, o miúdo queria impedir
que eu lhe mexesse nas coisas. Abri aquilo, estava cheio de desenhos. Se eram dele, não eram
maus. Ele estava fora de si, tentando reaver tudo.
— Vamos embora — ordenei, atirando-lhe o caderno sem me preocupar se ia ou não parar
ao chão. — Este Banholas é um chato.
Deixámo-lo de joelhos, a arrecadar as coisas na mochila. Só parámos de rir quando
estávamos longe.
— És o rei, Valdomiro! — disse o Xistinho.
— O rei — concordou o Cassius. Eu não respondi.

Jaime
— Quero leite com chocolate, Jaime, pode ser? — A Luizinha estava tao pedinchona como
nas outras tardes. — Aconteceu alguma coisa?

Bicicleta à chuva 3
A minha irmã pode ter só 9 anos, menos três do que eu, mas percebe mais de mim do que
eu sei Iá…
— Não aconteceu nada, tonta. Vá, bebe Iá o leite. Já sabes que a mãe não quer que ponhas
chocolate, depois ficas sem fome para o jantar. Tens trabalhos para fazer? Traz a mochila para a
sala, mexe-te!
Estive a ajudá-la, embora pouco. Ao contrário de mim, a Luizinha tem uma memória
incrível e adora tudo o que se relacione com aulas. Raio da miúda, a quem sairá? Ao pai não é,
desistiu da escola no 3.°ciclo. Talvez à mãe, que é uma croma na contabilidade.
Quando eu quis avançar no resumo do texto para Português, as coisas começaram a
complicar-se. Não conseguia mexer bem o braço esquerdo. Não era só a dor, eram os músculos
descontrolados, como se fosse velho e tremesse sem parar. Já estava com certeza com mais uma
bola arroxeada perto do cotovelo.
— Porque é que a tua mão está assim, toda tremeliques? — perguntou logo a Luizinha, com
a testa franzida e a imitar-me.
— Já acabaste a composição? Então, acaba. Deixa-te de parvoíces.
Voltou aos trabalhos. Ainda bem! Só que, volta e meia, punha-se a estremecer, ria-se um
bocadinho, e depois continuava a inventar uma história onde teriam de entrar seis palavras
impostas, tao diferentes umas das outras como esfera e podre. Podre estava eu... Tinha de me
defender melhor, para não me baterem no braço esquerdo. Não sabiam que era canhoto, o que
tornava tudo mais fácil.
Fácil? Havia alguma coisa fácil nos regressos a casa? Nada, nadinha...

Valdomiro
— Valdomiro! Oh, Valdomiro!
— Que foi?
— O jantar?
— Não sei, pai. A mãe ainda nao veto.
— Faz tu! Tenho fome.
— Não há nada no frigorífico, a mãe deve ter ido comprar...
Deixou-se ficar no sofá, que já tinha um buraco no sítio onde ele se sentava todo o santo dia
a dizer mal do governo e de ter sido despedido. A Emília saiu do quarto. Vinha arranjada como se
fosse para uma festa e perfumada. Deu um beijo rápido ao meu pai, ignorou-me como se eu fosse
mais uma parede e disse que voltava tarde.
— Tem cuidado contigo, filha...
Deu-me logo vontade de disparatar, mas não adiantava. A Emília, com mais três anos do
que eu, trabalhava num supermercado como caixa, e não admitia conversas. Ia mudando de

Bicicleta à chuva 4
namorados consoante as semanas. Nunca os trazia lá a casa, e ainda bem! Ali era só para dormir e
comer, mais nada.
Quando a mãe chegou, vinha carregada e estoirada. Ajudei-a a pôr tudo na despensa, mas o
meu pai não a largava: era tarde, ele tinha fome, ela não sabia tratar da casa em condições, e mais
um ror de coisas sem sentido. Tudo isto era gritado, nada de falinhas mansas. Eu e a minha mãe
trocamos um olhar cúmplice, discreto, para não piorar as coisas, e ficámos a tratar da refeição.
Não podíamos falar enquanto comíamos, o meu pai não deixava, por isso conversávamos na
cozinha.
— A tua irmã saiu?
— Hum, hum...
— Nunca me ajuda.
— Deixa estar, mãe, assim escusamos de a ouvir dizer parvoíces.
— Não gosto que fales assim da Emília, Valdomiro.
— Já sei, mas ela irrita-me.
— Foste às aulas?

Não respondi.
A minha mãe insistia naquela treta de estudar e ser gente, como se adiantasse para alguma
coisa aturar professores e matérias. Ela encobriu a preocupação, como sempre, e felizmente não
insistiu mais.
Fiquei a vê-la arranjar os legumes para a sopa, encostado à bancada da cozinha. Olhei para
o relógio, a fazer contas de cabeça. Os Alcaides patrulhavam a zona a partir das dez, e já eram
nove e um quarto.
— Dá cá isso, que eu corto — pedi, a ver se a coisa se despachava.
Aceitou e foi tratar do arroz. Não podia dar um mau exemplo e chegar atrasado. Mas ficava
sempre um bocado angustiado por deixá-la sozinha com o meu pai ao serão. Nunca sabia o que
podia acontecer.

Jaime
— Chegaste cedíssimo! — concluiu a Teresa, quando me encontrou junto a porta da sala de
E.V. — Inspirado?
É uma miúda muito querida, a Teresa. Se há alguém que capaz de elogiar os meus desenhos
e imaginar que vou ser um pintor famoso, é ela. Bom, a Teresa e o professor Adalberto. Gosto
tanto das aulas dele! Não lhe interessa o programa, o que ele quer ver-nos a criar novas imagens,
outras formas de «ver o mundo». É uma expressão um bocado antiquada, mas o stor está sempre
a repeti-la.

Bicicleta à chuva 5
— Bom dia! — Chegou o Sebastian, o mestre da boa-disposição e do sorriso. — Já sabem a
novidade?
— Vais contá-la agora mesmo, não estamos nada preocupados com a nossa ignorância —
brinquei eu, porque gosto de o ver assim entusiasmado.
— Nem mais! A nossa equipa de andebol vai defrontar os betinhos do Colégio de Lagoa...
Ganhamos de certeza.
— Lagoa? Isso é no Algarve? — quis saber a Teresa.
— É, devem ser uns preguiçosos, daqueles que só sabem ir para a praia.
— Olha que não sei — avisei ouvi dizer que eram muito bons!
— Estás a gozar comigo, Jaime, não estás? Ou são mesmo bons...?
Claro que estava a gozar, não percebo nada de andebol. Só que, quando o Sebastian se
assusta, abre muito os olhos, e eu e a Teresa partimo-nos a rir. Entretanto, o professor Adalberto
chegou e a minha aula preferida ia começar.
Gosto muito de desenhar, e o stor acha que tenho talento. Quando o oiço, quase consigo
acreditar que sim! Dá-me sempre conselhos específicos, para eu continuar a melhorar, é
fantástico. E não é que o stor queria contar comigo para um projeto?
Havia a hipótese de criar um logótipo novo para a autarquia, todos os munícipes podiam
concorrer, inclusivamente as escolas. Os professores de E.V. e de informática achavam que se
podia fazer uma espécie de concurso interno (com propostas de professores e alunos) para depois
se enviar a melhor. Não me parecia que eu pudesse competir com os professores, mas ia
experimentar, disso tinha a certeza.
— Tenho de te mostrar tudo, acho que vais mesmo querer participar. E se falássemos
melhor na sexta, no fim das aulas? Tens muito jeito, és supertrabalhador, apetecia-me que, pelo
menos, pensasses nisto.
— Obrigado! Sim, eu gostava muito de tentar!
Fiquei numa agitação que nem imaginam... Na sexta-feira logo me diria coisas mais
concretas.
As outras aulas passaram a correr, porque me sentia entusiasmado com a ideia. Contudo,
assim que as aulas acabaram, começou o momento mais difícil do dia... Deixei que o primeiro
autocarro partisse sem mim, arrastando o passo, indiferente às reclamações dos meus amigos.
Fiquei a retocar o desenho da bicicleta do Joaquim, que estava iluminada pelo sol. Entrei, por
fim, no segundo autocarro.

Valdomiro
— Valdomiro, é hoje?
— Que carraça, Xistinho, já sabes que sim.

Bicicleta à chuva 6
— Quem foi que disse aquilo do desenho? — perguntou o Cassius, desconfiado.
— O que é que isso interessa, vamos lá saber?
— Nada, nada. Tu lá sabes.
— Exato, eu sei e chega. E vi o caderno, ou já te esqueceste disso?
Tinha de os manter na ordem. Quem mandava nos Alcaides era eu. Não podia haver
dúvidas nem opiniões. Mesmo assim, havia partes que eu não controlava. Uma delas era o raio do
miúdo. Mais uma vez, estava atrasado, não tinha vindo no primeiro autocarro. Devia fazer de
propósito, mas nós chegávamos bem para ele.
Passou uma rapariga toda aperaltada e fizemos um escarcéu! Ela encolheu os ombros, mas
de certeza ouviu-nos rir. Na verdade, até apressou o passo. Afinal, estava com medo ou estava-se
nas tintas para nós?
— Eheh, ficou brava — riu o Cassius.
— Quem é? — perguntei.
— Acho que vive na rua de cima, mas não tenho a certeza.
— É da rua de cima, é — confirmou o Xistinho. — Sempre toda gira…
Pois, isso já eu tinha percebido. Estava fartinho de saber que vivia na rua de cima, claro,
não queria era mostrar que andava de roda dela. Nunca olhava para mim. Nem para mim, nem
para os outros dois, não nos ligava nenhuma. E eu não via forma de lhe falar...

Jaime
Lá estavam os três, à minha espera, como sempre. A mochila tapava-me o braço esquerdo.
Queria protegê-lo dos pontapés, esperando que nenhum deles percebesse que sou canhoto. Isto
tinha começado há três semanas e meia, e não me parecia possível acabar. Chamam-se, a si
mesmos, Os Alcaides. O Valdomiro é o líder do grupo, isso percebi logo no primeiro dia em que
me apanharam. Não gosta de ser posto em causa e quer ter sempre a última palavra. Já os outros
dois, o Cassius e o Xistinho, são mais daqueles que fazem o que o chefe manda. O Cassius (o
nome deve vir do pugilista Cassius Clay) resolve tudo a pancada, por isso basta que o chefe lhe
diga «dá cabo dele!» e os murros começam. O Xistinho parece-me mais medroso, e nunca me dá
pontapés com tanta força como os outros dois.
Porque me batiam? Não sabia. Devia ter feito qualquer coisa mal, só podia ter sido isso. Se
calhar, ofendi-os por uma razão qualquer. A verdade é que esperavam por mim todos os dias,
naquela rua entre a paragem de autocarro e a minha casa, para me gozarem ou me baterem. Nem
sei o que dói mais.
Eu podia dar a volta, já me lembrara disso muitas vezes. Mas iriam seguir-me, e do outro
lado havia mais pessoas, não queria que vissem que não me sei defender. Ali, pelo menos,
ninguém assistia...

Bicicleta à chuva 7
O primeiro pontapé veio do Cassius, mas, estranhamente, o Valdomiro mandou-o parar.
— Calma, calma, que eu não dei ordens para nada!
— Desculpa aí, Valdomiro, pensei que...
— Aqui, quem pensa sou eu! — Virando-se para mim, disparou: — Disseram-me que tu és
o tal Jaime que faz desenhos, é isso?
Congelei de pavor. Lembrei-me de muita coisa e nenhuma das hipóteses tinha um final
feliz! Achei que até me podiam aleijar a mão para sempre, mas isso já foi um exagero, claro está,
era o meu cérebro a fritar ideias!
— Sou...
— Queres continuar a apanhar todos os dias ou trabalhas para nós?
— Eu?
— Sim, puto estúpido, está aqui mais alguém?
Os outros dois riram-se de mim.
— Trabalhar para vocês, como?
— Responde! Queres apanhar mais, ou trabalhas para nós?
— Anda, responde — ameaçou o Cassius.
— Precisam de mim para que?
— Responde primeiro!
O grito vinha acompanhado de um punho fechado que não hesitaria em dar cabo da minha
cara.
— Está bem, está bem — supliquei. — Eu trabalho para vocês!
— Muito bem! Estamos combinados. Não te esqueças do que acabaste de prometer —
lembrou o Valdomiro, fazendo uma espécie de vénia e deixando-me passar.
Nunca corri tanto na minha vida, juro que não. Fugi a toda a velocidade, enquanto os ouvia
trocar da minha figura.
— Olha como o Batoca corre!
— Hei, Banholas, cuidado que ainda cais!
Não me interessava, queria era chegar a casa depressa.

Valdomiro
— Viram como o Batoca tremeu? Espetáculo! — O Xistinho estava excitadíssimo com a
cena.
— Porque é que não lhe batemos mais, Valdomiro?
— Calados, foi o que eu decidi e não há cá perguntas!
Respondi desta forma para não ter de explicar nada. Não era assim que se fazia? Lá em
casa, pelo menos, era. Não interessava se a minha mãe chegava cansada, ou se o cão do vizinho

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ladrava, ou mesmo se o vizinho ladrava connosco — porque embirrava sempre com qualquer
coisa. Era o meu pai quem mandava e, para todos os outros, a solução era ficar de bico calado.
Nunca foi fácil, a vida em minha casa. O pai bebia sempre no regresso do emprego, quando
ainda trabalhava numa oficina de bicicletas e motoretas. Era limpinho — metade do que ganhava,
ou até mais, ia logo para as cervejas e cigarros no café do Chico. Vinha depois todo bazófias, de
passo incerto, mas nunca falhava uma estalada, fosse em mim ou na minha mãe. Por isso, bico
calado para não criar mais confusões. À minha irmã nunca bateu, o que me deixava doente por
dentro. Era a menina dos olhos dele, não havia cá cenas com ela. Por causa disso, a Emília ficou
com um feitio danado, julgando sempre ser mais importante do que todos os outros juntos.
Detestava a minha irmã…
Agora, como o meu pai estava desempregado, a coisa piorara. O dinheiro que ficava no
café do Chico fazia mesmo falta para o resto. A minha mãe queixava-se mais, as estaladas
duplicavam. So a donzela escapava, como é óbvio, e nunca lhe faltava dinheiro para nada.
Pudera, como já trabalhava, tinha lá as contas dela. A verdade é que nunca deu um tostão para a
casa.
— Achas que ele vai fazer o que queremos? — perguntou o Cassius, com certeza já a
imaginar represálias.
— Era só o que faltava, não cumprir! Deixa isso comigo, sei o que estou a fazer.
— Claro, claro, desculpa aí, Valdomiro.
Sabia? Acho que não. Também me atrapalhava a ideia de não conseguir do miúdo o que
queríamos, mas cada coisa a seu tempo.
— Vamos patrulhar a nossa zona? — sugeriu o Xistinho.
— Vamos.
E lá fomos, como sempre. Na nossa zona, o rei era eu!

II

Jaime
— Estava a ver que nunca mais chegavas — resmungou a Teresa, quando entrei, atrasado e
a correr. — O Frederico está cheio de febre, não vem.
— A sério?! Ontem não se notava nada...
— Pois não. Mas o pior é que ouvi uns zunzuns, parece que vamos ter teste surpresa a
Português. E ele é o delegado de turma, o nosso sindicalista!
— Estou tramado, então. Ainda nem acabei de ler o livro!
— Que cena, Jaime! É tão fininho!

Bicicleta à chuva 9
Encolhi os ombros. Bem sabia que o texto até era pequeno e giro de ler, mas distraía-me
com imensa facilidade. Bastava lembrar-me dos Alcaides e ficava logo com a cabeça na lua, ou
melhor, no inferno. Se contasse para alguma coisa, podia mostrar à stora as ilustrações que fizera
da parte já lida, nisso ia muito adiantado.
Sentámo-nos, como de costume, um ao lado do outro. À nossa frente, o lugar do Frederico
vazio. Olhei para a professora e desconfiei logo do sorriso quase trocista. Era mesmo verdade,
íamos ter um teste surpresa, mas não sobre o livro. Gramatica, disse ela, indiferente aos nossos
protestos.
Tive de fazer um enorme esforço para me concentrar nas perguntas. Talvez conseguisse
safar-me se lesse tudo com atenção. A minha mãe diz que a Gramática é intuitiva, que sabemos
logo se o que escrevemos está certo ou não pela forma como soa. Não me parece... Quando
entreguei o teste, só tinha uma certeza: andava mesmo a estudar pouco!
Começar o dia assim era desastroso, mas eu até nem me podia queixar muito. Quando
percebemos, eu e a Teresa, que o Sebastian estava em pânico, deixei de me afligir. É que o
Sebastian, sendo filho de um português e de uma inglesa, sempre estudou fora e aterrou na nossa
querida turma do 6.° C de paraquedas, em setembro.
— Acho que só fiz asneiras — gemeu, enquanto consultava à pressa os apontamentos. —
Pronto, já sei que falhei aquela do mais-que-perfeito.
— Deixa isso, Sebastian, tu tens desconto por vires de Inglaterra, nós é que estamos mal —
sossegou-o a Teresa. — Isso é o passado do passado, não é?
— Olhem, quem está passado sou eu — desabafei, pois nem me tinha apercebido de uma
pergunta com aquele tempo verbal. — Ou melhor, para ver se passo o ano, tenho de me organizar
melhor... Dizem que o 7.°ano puxa por nós, não é? Então, já vou a arrastar pelo chão!
A Teresa riu-se, achava grata às minhas tendências dramáticas, como ela dizia. Seria que,
se lhe contasse o que me acontecia todos os dias no regresso a casa, a Teresa me ajudava? Mas
ajudar como?!
— A penny for your thoughts... — disse-me o Sebastian, divertido. — O que se passa
contigo? Andas assim meio esquisito.
— Não vês que nem sequer dei pelo perfeito-mais-que-sei-lá-o-quê? Não acredito que dê
para positiva, é só isso.
— Hum... Não é por causa do teste, já percebi — avisou o meu colega, de dedo em riste no
meu nariz. — Vais acabar por contar.
— In your dreams, baby... — brinquei, desesperado. — Andas a ver muitos filmes.
— Deixem-se de coisas — pediu a Teresa, já com a cabeça na aula de ginástica. —
Despachem-se! Hoje estão mesmo lentos, vocês dois. Pelo menos, agora não há testes... Mas, se
me põem a correr à volta do ginásio com este frio, juro que morro.

Bicicleta à chuva 10
Passados quinze minutos, andávamos mesmo a esfalfar-nos nas oito voltas obrigatórias a
contornar o ginásio. Quem é que inventou o aquecimento nas aulas de Educação Física?
Valdomiro
— O que vem a ser esta barulheira toda, hein?
— Estão em obras no andar de baixo — informei, já a pegar no casaco para sair dali para
fora. — Não podemos despejar água na cozinha.
— Isso é que era bom! Em minha casa, ninguém manda.
Saí. Não adiantava nada repetir a informação e estava danado comigo mesmo. Se não
tivesse dito nada ao meu pai, ele nem iria à cozinha toda a manhã. Depois de o ter avisado, bom,
o mais provável era abrir a torneira só para chatear os vizinhos de baixo.
O Cassius e o Xistinho já estavam à minha espera. Tínhamos combinado dar uma volta
maior, para ver se conseguíamos ganhar terreno aos Trogloditas, mas aqueles tipos pareciam
adivinhar estas coisas, cortaram-nos o caminho. Ainda medimos forças, mas eles eram mais
fortes, não valia a pena andar ao murro.
Passamos pela mercearia do senhor António e roubámos umas maçãs, para entreter o
estômago e a frustração, mas ele nem refilou. Ficou para lá a falar sozinho, não interessava ouvir.
Um carro todo novinho parou. Baixou o vidro a perguntar onde ficava a Junta de Freguesia.
Levei tempo a dizer o que ele queria, para manter a pose, mas o Cassius já estava preparado para
a assinatura dos Alcaides. Assim que o bólide arrancou, um risco feito com as chaves deu-lhe
cabo da porta. Quando visse, ia-se passar... Muito nos rimos!
O dia nem estava a correr nada mal.

Jaime
Gosto muito da dona Madalena, a assistente operacional do Bloco D. Segundo ela, já devia
estar quase a reformar-se, mas esse dia nunca mais chega. Arranja sempre assuntos de conversa, e
isso é um grande alivio, porque sou mais do género calado do que falador. Fui para perto dela,
enquanto esperava pelo professor Adalberto, na sexta-feira ao fim da tarde. Como de costume,
começou a contar-me notícias dos netos e da horta que tem no quintal, passando de um tema para
o outro com muita facilidade. Ri-me, como sempre. Às vezes, parece-me que podia ilustrar
aquelas histórias, com os netos plantados no meio das couves, regados com doces, daqueles que
só a dona Madalena sabe cozinhar. Ou então, imaginá-la à mesa com todos os legumes...
Como o professor Adalberto nunca mais chegava, e eu começava a pensar nas horas a que a
Luizinha saía do ATL, olhei para o relógio. Claro que, no mesmo instante, me lembrei dos
Alcaides e do estranho pedido da véspera.
Devo ter feito uma expressão qualquer preocupada, porque a dona Madalena apanhou-me
logo:

Bicicleta à chuva 11
— Andas sempre muito apoquentado, Jaime, que eu já te conheço bem. — Apoquentado,
que palavra mais engraçada! — Passa-se alguma coisa? Filho, tu podes contar-me tudo!
— Eu sei, dona Madalena, eu sei — respondi, tentando sorrir. — É que tenho de ir buscar a
minha irmã e o stor nunca mais chega...
— Não é só isso, Jaime, não estejas a disfarçar. Ouve uma coisa: tens aqui uma amiga,
percebeste? Uma amiga verdadeira.
Aquela conversa deixou-me confortado. Não me apetecia contar a quem quer que fosse o
que se passava no regresso a casa, mas saber que tinha amigos ajudava-me muito. Ia responder-
lhe isso mesmo, ou algo parecido, quando o professor Adalberto chegou. Sorri-lhe e ela despediu-
se de nós sem disfarçar um olhar de quem diz: tens aqui uma amiga verdadeira, não te esqueças.
— São estas as exigências — ia explicando o professor Adalberto, mostrando-me o que
fora enviado pelo município. — Se pensares bem, nem é nada de complicado. O logótipo terá de
conter estas três áreas de ação: a indústria, o turismo de uma forma geral e os parques florestais
em particular. O que achas?
— Apetece-me começar já a pensar nisto — confessei, meio a rir, meio sério. — O stor
depois nem precisa de enviar o meu, o importante é mesmo experimentar.
— Como te disse, todos na escola podem concorrer, e vamos estar em pé de igualdade:
alunos e professores. As candidaturas vão ser anónimas, o que interessa é que ganhe o melhor!
Não te esqueças de respeitar as dimensões e possibilidade de leitura do desenho: tem de ser
legível em tamanho muito pequeno e funcionar em grande. Toma, leva isto tudo, eu já guardei
para mim.
Nas minhas mãos, um bocado suadas por causa da excitação, repousavam agora os papéis
relativos ao logótipo e ao concurso interno da escola. Saí bem mais tarde do que o costume. Nem
o autocarro das quatro e meia iria apanhar.

Valdomiro
Olhei para o relógio e percebi que não era só eu a estar irritado.
— O parvalhão não vem? — atirou o Cassius.
— Ninguém falta a um encontro com os Alcaides.
— Se não for o puto certo, o que lhe fazemos, Valdomiro? — O Xistinho massacrava-me
sempre com perguntas.
— Tenho tudo pensado, não te preocupes.
Devia ser verdade o que me tinham dito, ninguém quer dar informações erradas aos
Alcaides. O meu plano era genial e agora só precisávamos de por o Badocha a trabalhar como
devia ser. Os minutos foram passando e eu já começava a espumar. A sorte foi ter aparecido
aquela miúda. Víamo-la quase todos os dias. Ate fiquei entusiasmado — e se ela andasse a fazer

Bicicleta à chuva 12
de propósito? De certeza que não era pelos lindos olhos do Xistinho, que parecia um rato de
esgoto medroso. Também não devia ser pelo Cassius, que não escondia que era bruto como tudo.
Na volta, andava a fazer-se a mim...
Eles dois atiraram as bocas do costume, mas eu fiquei calado. Estranhamente, a miúda
virou a cara e olhou diretamente para mim. Cruzei os braços, como se achasse tudo uma seca
monumental. Ela sacudiu o cabelo e seguiu caminho.
Talvez o Cassius e o Xistinho não tivessem dado por nada, mas eu fiquei com o coração aos
pulos. Ameacei dar um pontapé num rafeiro que ia a passar, e o desgraçado fugiu a sete pés. Ao
fundo da rua, o autocarro. Já não era sem tempo.

Jaime
Cheguei a paragem meia hora depois do que nos outros dias. Por sorte, a Luizinha tinha um
ensaio extra qualquer lá no ATL: iam ter uma apresentação no sábado num lar de idosos e a
professora de ballet achava que ainda não estavam prontos.
O coração já estava descontrolado desde que carregara no STOP, mas isso não era de
estranhar. Avancei pela rua.
Sabia que, mesmo sem os ver ao longe, os Alcaides iriam aparecer.
E não me enganei.
— Julguei que tinhas aprendido a lição e que me ias obedecer — disparou o Valdomiro,
num tom muito mais agressivo do que era costume. — Queres apanhar ainda mais, e?
— Atrasei-me na escola...
— Isso nao me interessa! Aceitaste trabalhar para nós, tens de cumprir.
— Eu sei, eu sei, mas ainda não me explicaste o que é para fazer.
— Não sejas convencido! — ameaçou o Cassius, chegando a cara dele à minha. — Quem é
que manda aqui, hã?
Eu não disse nada. Tinha o coração a saltar-me pela boca. Por muito estranho que isso
possa parecer, sentia que preferia apanhar pancada do que obedecer ao Valdomiro. O Cassius
empurrou-me à bruta, desequilibrei-me e caí redondo no chão.
— Ele nem para cair serve — comentou o Xistinho.
— Caluda! Levanta-te.
Obedeci, bem mais depressa do que pensei ser capaz.
— Mostra-me os teus desenhos.
Um arrepio percorreu-me a espinha sem autorização. Iriam rasgar tudo? E se encontrassem
os papéis com as indicações do logotipo e mos roubassem? Como poderia eu explicar que não os
tinha? Foi com as mãos a tremer que retirei o bloco da mochila e o passei ao Valdomiro. As
folhas eram passadas sem pressa, enquanto eu tentava controlar a respiração, sem grande sucesso.

Bicicleta à chuva 13
— Parece que serve para desenhar! — concluiu o Valdomiro, atirando o bloco para os meus
pés. — Amanhã, às quatro e dez, esperamos-te aqui, ouviste? Temos um trabalhinho para ti. —
Mas amanha é sábado — argumentei, imaginando já a confusão que seria ter de mentir em casa
para vir à rua.
— Para os Alcaides, não existem sábados, nem domingos, nem feriados. Entendido?
Amanhã, quatro e dez, e com material. Sem aviso, o Valdomiro virou-me as costas e avançou
pela rua, enquanto o Xistinho o seguia. Apenas o Cassius permaneceu junto a mim, e eu sabia
porquê. Um murro no estômago obrigou-me a dobrar o corpo ao meio, enquanto ele se afastava e
gritava:
— Isto foi porque te atrasaste. Aconselho-te a não repetir a brincadeira amanhã.
Ouvi o barulho de uma travagem de bicicleta em derrapagem. Quando levantei os olhos,
tinha o Joaquim ao meu lado.
— O que foi?
— Nada, nada, estou só maldisposto...
— Deixa-te de tretas, Jaime. Eu vi o que aquele parvalhão te fez. O que querem de ti os
Alcaides?
— Tu conhece-los?
— Se conheço os Alcaides? Toda a gente aqui na zona os conhece. — Pareceu-me que
estava exasperado. — Não foi a primeira vez, pois não?
Olhei para o Joaquim. Já me conseguia endireitar, e ele apanhou a minha mochila e o bloco
do chão. Como é que eu podia negar o óbvio? Ele era mais velho do que eu, ia descobrir tudo
num instante. Ainda espiei o fundo da rua, com receio de ver os Alcaides a observar-nos, mas o
Joaquim cortou logo as minhas hesitações:
— Diz-me lá: há quanto tempo?
— Umas três semanas...
— E já fizeste alguma coisa?
— Como assim?
— Queixaste-te a alguém?
— Não faças isso, por favor, ainda vai ser pior!
O Joaquim não respondeu logo, mas algo na sua cara acabava de mudar.
— Anda, vou contigo até à tua porta.
Ainda lhe agarrei no braço, tentando travá-lo. Não que quisesse impedi-lo de andar, mas
porque precisava de o convencer a manter-se calado.
— Não te preocupes, não conto nada a ninguém — disse-me, sem me olhar.
Caminhámos em silêncio até ao meu prédio e despedimo-nos com um aperto de mão.
Quando fechei a porta de casa, sentia-me mesmo esquisito.

Bicicleta à chuva 14
Valdomiro
Só consegui livrar-me dos outros dois perto da meia-noite, antes disso ia dar nas vistas. Mas
não queria voltar para casa, isso não. A Emília insistira com a mãe para a ajudar a pintar o cabelo
com madeixas azuis, e eu não tinha paciência para aquelas coisas. O apartamento parecia
raquítico quando a minha irmã passava o serão em casa.
Não sabia bem como fazer, mas meti pela rua de cima. Podia ser que a sorte estivesse a cair
para o meu lado e tropeçasse nela. Nem de propósito, encontrei-a na conversa com mais duas, no
muro da igreja.
Encostei-me ao portão. Puxei de um cigarro, mas não para fumar, era só para dar estilo.
Não cheguei a acendê-lo, fiquei a brincar com aquilo nos dedos, de perna dobrada de encontro à
parede. Ela percebeu logo que eu estava ali por ela, mas não reagiu. Volta e meia, olhava para
mim.
Encontrava sempre a minha atenção nela. Depois, comecei a achar que estava a fazer-me de
parvo, porque não havia meio de ela sair de ao pé das outras, por isso, arranquei de regresso à
minha rua.
Ouvi uns passos atrás de mim, mas fingi que não tinha dado por nada. Obriguei-a a chamar-
me a atenção.
— Hei, tu aí!
Virei-me.
— Estás a falar comigo?
— Claro que estou a falar contigo.
Parei e ela pôs-se ao meu lado, sem falar. Recomecei a andar e ela acompanhou-me. De
repente, disse:
— Sou a Clara.
— OK.
— E tu?
— Valdomiro.
— Que raio de nome...
— Se não gostas, paciência.
Calou-se. Eu não tinha grande vontade de dizer mais nada. Detesto o meu nome! Mas tinha
de ser eu a tomar a iniciativa, não podia deixar tudo nas mãos dela:
— Queres ir tomar qualquer coisa? Estou cheio de sede.
— Na boa... Vamos, então.
Não aconteceu nada de especial. Conversámos, só isso. Mas eu tinha razão, a Clara queria
que eu reparasse nela. E não era nada parva. Sabia dos Alcaides. Sabia sobretudo que eu era o

Bicicleta à chuva 15
chefe. Quando nos despedimos, deu-me um beijo na cara. Não retribuí, para não parecer mal.
Voltei para casa com uma sensação esquisita por todo o corpo.

Jaime
Acordei muito tarde, naquele sábado. Todos os meus planos, que incluíam levantar-me
cedo, despachar os estudos, rever tudo o que o professor Adalberto me tinha dado e arrumar o
material de desenho de forma discreta na mochila pequena, já não podiam ser cumpridos. Quando
saí do quarto, encontrei um papel no chão, mesmo onde eu não poderia deixar de ver: «Estavas a
dormir tão bem que não te acordei. Fui com a Luizinha ao lar. Voltamos para almoçar já com
comida pronta! Beijinhos, mãe». Ao lado, um smile gigantesco feito pela minha irmã. Calculei
que o pai andasse nos seus biscates de fim de semana, pois aproveita o sábado para isso. É pintor
de profissão. Não pintor de quadros, como eu gostava de ser; é pintor de casas, e aos sábados
arranja pequenos trabalhos que ajudam as nossas finanças.
Engoli um iogurte à pressa e fui logo arranjar a mochila. Isso não poderia deixar para
depois. Certamente iríamos almoçar tarde, e precisava de uma boa desculpa para sair às quatro.
Tomei banho a seguir e fiz de conta que a cama estava feita a preceito, para a minha mãe não se
passar... Ainda abri o livro de História, mas não conseguia decorar uma única linha. Resolvi pôr a
mesa, para adiantar serviço. O pai vem sempre almoçar connosco, mesmo se o sábado for
inteirinho de trabalho. Estava a acabar de pousar os copos, quando ouvi as chaves na porta. A
casa mudou de um silêncio que me enervava para uma algazarra impressionante. — Mano!
Fomos um sucesso! — gritou a Luizinha, dando uma pirueta no meio do corredor. — E havia lá
uns assim como tu, a tremer...
Lá estava ela, de novo, imitando o meu braço.
— Que disparate, filha, como o Jaime! Não sei onde tens a cabeça...
Que sorte! Foi por muito pouco que a minha irmã não falou demais. Os sacos do
supermercado não escondiam o cheiro do frango assado, e agarrei nessa ideia e desviei as
atenções para a fome que, na verdade, não tinha. Logo a seguir, chegou o pai. A Luizinha, sem
parar, recomeçou a contar a atuação no lar da terceira idade e como tinham sido aplaudidas com
entusiasmo. O meu pai só se ria. Acho que ele sentia pena por não poder assistir a estas coisas,
mas nunca se queixava.
De tanto olhar para o relógio, acabei por chamar a atenção da minha mãe.
— Hoje é sábado, Jaime, para quê tanta preocupação com as horas?
— É que combinei ir ter com o Sebastian ao posto de turismo. Ele vai ajudar-me a pensar
em ideias para o tal logótipo...
Detesto mentir, senti-me mesmo mal, mas não podia contar a verdade.
— O Sebastian é o inglês, não é? — quis saber a minha irmã.

Bicicleta à chuva 16
— É.
— E gosta de desenhar?
— Não... Quer dizer... Gosta do que eu desenho, só isso.
— Que simpático — comentou a minha mãe, enquanto eu fazia contas de cabeça, tentando
lembrar-me se o Sebastian me tinha dito alguma coisa sobre o fim de semana. Acabei por me
recordar que ele teria a festa de anos do irmão, ou qualquer coisa parecida, talvez não aparecesse
na rua longe de mim…
Enfim, quem queria estar longe de mim era mesmo eu!

III

Jaime
Tudo preparado, mochila ao ombro, porta da rua aberta, depois das despedidas rápidas para
não ter de mentir mais, e eis que toca o telefone da minha mãe.
— Olá, querida... Não acredito, a sério?... Sobe, sobe, claro que dá jeito!
Quando a vi desligar e sorrir daquela maneira, percebi que alguma coisa estava a correr mal
para o meu lado e comecei a descer as escadas numa pressa danada. Contudo, de nada serviu. —
Jaime? Não te vás embora, a tia Graça vem aí com os meninos.
— Mas o Sebastian está à minha espera, mãe!
— Telefona a avisar que não vais, despacha-te. Olha, aí estão eles!
E estavam, de facto — os meus tios e os gémeos minúsculos, que insistiam em subir as
escadas sem ajuda, o que lhes atrasava a escalada. Cumprimentei-os como sempre, não queria
que desconfiassem de nada, mas tinha um pânico esquisitíssimo a tomar conta de mim.
— Tia, vou só dar um recado a um amigo e volto logo — tentei, sem qualquer convicção.
— Pode ser?
— Oh, Jaime, que pena. Não nos podemos demorar, é só mesmo uma visita rápida. E os
gémeos adoram-te!
Conseguem imaginar o meu dilema? Pois, foi assim: ia-me encurralado entre o que me
apetecia fazer, e que era ficar com os tios, e o que tinha mesmo de fazer, ou seja, chegar a horas
ao encontro com os Alcaides. Quem ganhou a batalha? A família, pois a minha mãe não me deu
tréguas e insistiu que eu não precisava nada de ir ter com o colega.
Passou uma hora e meia, entre conversas e brincadeiras com os minorcas, enquanto a
Luizinha voltava a repetir toda a odisseia do espetáculo no lar, completamente em transe. Eu não
conseguia dizer nada, mas os meus tios já sabem que sou mais para o calado, nem estranharam.
Poderia ter ido ter com os Alcaides às seis, mas tinha a certeza de que já não me esperavam.

Bicicleta à chuva 17
O resto do dia foi passado em aflição total. A noite, em pesadelos. O domingo, que devia
ser de estudo, foi todo consumido pela preocupação. O que me esperaria na segunda?

Valdomiro
— Se o apanho, desfaço-o em bocados! — rosnou o Cassius.
— Logo lhe damos a lição — adverti, para manter aqueles dois controlados. — Alguém o
viu na rua?
— Nada, parece que nem saiu — esclareceu o Xistinho.
— Ninguém faz isto aos Alcaides.
Eu estava furioso.
Se o miúdo tivesse aparecido naquele instante, era eu quem o desfazia.
O dia tinha começado mal, com o meu pai a pegar-se com a minha mãe por causa de uma
camisa qualquer. Não tinha paciência para o aturar, só pensava em sair dali de vez. Depois,
aquilo. Apetecia-me partir qualquer coisa. Agarrei numa pedra e atirei-a contra um táxi que ia a
passar. Ainda ouvi uns palavrões, mas nem parou. Tinha sido melhor se lhe conseguido partir um
vidro.
Ia ser um sábado mesmo virado do avesso.

Jaime
— Acharam fácil? — perguntou a Teresa, a quem todos os testes, sejam de que disciplina
forem, nunca parecem complicados. — Vou ter boa nota, de certeza...
— Nunca tens má nota — comentou o Sebastian, no gozo. — Por acaso, nem me pareceu
assim difícil, não.
Permaneci calado. Quantas vezes relera eu toda a matéria? Imensas. A quantas perguntas
respondera eu com confiança? Quase nenhuma. As minhas notas iam caindo, a cada semana, e eu
não sabia como dar a volta ao problema.
— E a ti? — quis saber o Sebastian. — Mais ou menos?
— Sim, mais ou menos...
Batemos as mãos no ar, embora por razões diferentes. O Sebastian ainda se atrapalhava
com a escrita em português, por isso achava sempre que não fazia nada de jeito; eu tinha a certeza
de ter mentido mais uma vez, pois o teste fora um desastre.
— Tu andas mesmo esquisito — comentou a Teresa. — O que se passa, Jaime?
— Não se passa nada, não te ponhas com coisas. Falhei perguntas parvas e não me apetece
falar mais nisso.
— Pronto, pronto... Livra, andas com um humor horroroso!
— Desculpa.

Bicicleta à chuva 18
Custava-me que a Teresa pensasse que estava a ficar com mau feitio. Só não sabia como
dar a volta a isto. Os Alcaides preenchiam-me os pensamentos, e, agora que sabia que fizera
asneira da grossa, não conseguia acalmar-me por dentro.
O dia foi-se arrastando devagar, talvez para não me atirar para o confronto muito depressa.
Mas, na minha cabeça, não entrava nada do que os professores diziam, nada, e os intervalos, que
costumam ser para mim um momento descontraído, pareciam-me um suplício, porque a Teresa
queria, à viva força, animar-me. Raio de dia!

Valdomiro
— Julguei que não vinhas — disse a Clara.
— Não posso demorar — respondi-lhe, para não lhe dar muita trela. — O que foi?
— Nada, queria só ver-te.
Não fazia ideia do que fazer a seguir. Mostrar-me interessado ou sacudi-la?
— O que se passa, Valdomiro?
— Nada que te interesse, tivemos uns problemazitos, tudo se resolve.
— Acredito...
Gostava de a ver sorrir, mas sentia-me a amolecer. Não conseguia manter a postura do
costume. Resolvi retribuir o sorriso, a Clara ficou satisfeita.
— Queres vir ao cinema hoje à noite?
Com que dinheiro?, pensei logo.
— Vais ver alguma coisa de jeito?
— Ia com a minha amiga, mas ela adoeceu. Ofereceram-lhe os bilhetes num inquérito
qualquer, uma cena assim publicitária, estás a ver? Alinhas?
— Ainda não me disseste que filme é.
— E isso interessa?
Percebi naquele instante que não, não interessava mesmo nada. Respondi-lhe de forma
seca. Não queria que a Clara achasse que podia mandar em mim. Combinamos a hora. Comecei a
afastar-me, mas, na esquina, resolvi olhar para trás. Ela permanecia no mesmo sítio. Acenei-lhe.
Atirou-me um beijo pelo ar.

Jaime
Cheguei à paragem antes do segundo autocarro. Não conseguia controlar as emoções, tinha
um suor estranho a colar a t-shirt ao tronco, a boca seca, tudo fora de sítio. A única coisa que me
sossegou foi a bicicleta verde encostada ao muro, mesmo ao lado de outra, ainda mais velha e
mais pasteleira, vermelha. Ficavam de tal forma contrastantes, naquele verde e vermelho de
encontro ao muro, que retirei o meu bloco da mochila e tentei guardar aquele instante em

Bicicleta à chuva 19
desenhos. Fora a única coisa de jeito, pensava eu, que me acontecera num dia que só podia ter um
final desastroso.
Já estava quase a acabar o esboço quando o Joaquim apareceu. Sorriu para mim, bem-
disposto, e eu agradeci-lhe em pensamento por não ter puxado o assunto Alcaides.
— A rabiscar bicicletas?
— Sim, olha. — Mostrei-lhe a junção das duas. — Ficam mesmo bem, assim ao lado uma
da outra.
— Ainda bem que gostas, porque a vermelha é para tu usares.
— O quê?
— Trouxe a vermelha para ti. Podes deixá-la onde quiseres, ninguéns rouba estes trastes
antigos. Experimenta! Até te vai fazer bem.
Ri-me. Era evidente que o Joaquim se referia aos quilos que tenho a mais, mas não me
magoei com a frase dele.
— Estás à espera de quê? Experimenta, vá!
Não me fiz rogado. Montei na bicicleta, experimentei umas pedaladas, um bocado aos
ziguezagues porque há séculos que não andava, e, quando dei por mim, estava a avançar na rua,
seguido pelo Joaquim.
— Serve?
— Então não serve? É excelente, obrigado! É tua?
— Não, parvo, é tua.
Travei. Não fazia sentido aceitar uma bicicleta de um, digamos assim, quase estranho. O
Joaquim travou mesmo ao lado, mas depois teve de se pôr à minha frente, pois vinha lá o
autocarro que me devia levar para casa. Ia gritando para trás, enquanto pedalava:
— Não compliques as coisas. O senhor António tem muitas lá na arrecadação.
— O senhor António da mercearia?
— Sim, é lá que eu trabalho.
— A sério?
O Joaquim já não me respondeu, pois acelerara, e eu, para não ficar muito para trás, imitei-
o. Ultrapassámos o autocarro, confesso que isso me deu algum gozo, e chegámos à minha rua
muito depressa.
O Joaquim gostava mesmo de travar em derrapagem, e foi o que fez. Depois, desmontou,
eu também, e, com um aperto de mão, despediu-se e seguiu para a mercearia com a bicicleta
verde pela mão.
— Então, e esta?
— É tua, Jaime, és surdo? O senhor António sabe, podes agradecer-lhe.

Bicicleta à chuva 20
Notei que, enquanto andava, o Joaquim observava os Alcaides, que acabavam de aparecer
perto da minha porta. Sem qualquer palavra trocada, vi que batiam em retirada e dobravam a
esquina, de mãos nos bolsos, talvez com algum rancor no olhar. Desapareceram.
Fiquei dividido, mas tomei a decisão certa. Entrei na mercearia do senhor António e
agradeci-lhe o empréstimo da bicicleta.
— Oh, Jaime, nem digas disparates! Considera-a tua. Tenho muito gosto nisso, não te
esqueças que te conheço desde que eras assim. — Uma mão a um metro do chão simbolizava a
minha altura quando nos mudámos para ali. — O Joaquim é que tem a culpa, adora esses chaços
e gosta de lhes dar uso. Olha, se quiseres, atá a podes deixar aqui ao lado da loja, escusas de ir
para casa com isto às costas.
— Nem sei como lhe agradecer, senhor António.
— Deixa-te disso, rapaz, gosto muito da tua família. E até é um favor que me fazes, que
detesto ver coisas a apodrecerem sem uso.
Troquei um sorriso com o Joaquim, despedi-me e cheguei a casa mesmo a tempo de receber
a Luizinha que saía do carro da mãe da amiga, que a traz muitas vezes. Subimos. Eu sentia-me
muito cansado. Pudera, havia duas noites que não dormia nada de jeito e passara o dia em
aflições.
E não conseguia perceber o interesse do Joaquim por mim. Havia ali qualquer coisa por
explicar, e não sabia como descobrir as respostas.

Valdomiro
— O que fazemos, Valdomiro?
— Que raio de pergunta, Xistinho! O que foi?
— O Joaquim é amigo do puto, não viste?
— Vi, qual é o problema? Chegamos bem para ele.
— Eles são só dois, nós somos três — lembrou o Cassius, dando murros na palma da sua
mão. — É só ter oportunidade e eu...
— Calado, ninguém faz nada sem eu autorizar — gritei.
A frustração estava a dar cabo de mim. Logo o Joaquim, dos Fantasmas, logo ele! Tinha-se
deixado de andar nos grupos, agora ia fazer de guarda-costas?! Mas os outros dois não podiam
perceber o que eu estava a sentir. Achavam o Joaquim um palerma, andava a trabalhar feito burro
de carga na mercearia do senhor António.
— Hoje à noite vou ao cinema — avisei, para disfarçar.
— Ui! Andas com a miúda?! — O Cassius, mais velho do que o Xistinho, percebia melhor
estas coisas. — Grande avanço.
— Não sei se ando, vou ver.

Bicicleta à chuva 21
Ficaram os dois a mandar bocas e eu afastei-me. Sentia-me a fervilhar por dentro. Cheguei
a casa e só me apetecia embirrar com alguém. Enfiei-me no quarto e pus a música aos berros.

Jaime
— A sério? — O meu pai estava tão admirado quanto eu. — Que simpático!
— O senhor António é uma joia — lembrou a minha mãe. — Careiro, às vezes, mas uma
joia. E é verdade, sempre nos demos muito bem com ele. Só te peço que tenhas cuidado contigo e
com a bicicleta, filho, que os carros as vezes são perigosos.
— O rapaz sabe o que faz... Dou uma palavrinha ao senhor António amanhã.
Fiquei a rir-me dos meus pais. A mãe é sempre muito protetora; o pai quer que
experimentemos coisas, está sempre a empurrar-nos para novos desafios.
— Jaime, achas que ele tem uma para mim?
Claro que a Luizinha não podia deixar passar aquele acontecimento sem, pelo menos, tentar
a sua sorte. Lá lhe expliquei que não fazia ideia, enquanto o pai lhe ralhou, porque tem uma que
era de uns primos, com rodinhas de lado e tudo, e nunca quer andar. A minha irmã calou-se logo.
— Mas quem é esse Joaquim, filho? — quis saber a minha mãe.
— Conheci-o na paragem de autocarro, estava a desenhar a bicicleta que ele usa, que é
verde. Vou mostrar-vos.
Saí da mesa, fui buscar o bloco e abri na página onde se encontrava o primeiro desenho. O
meu pai viu aquele, mas não resistiu a folhear o resto.
— Raça de miúdo... Tens mesmo jeito para isto!
— Ele tem muito orgulho nos meus rabiscos.
— Eu também metia conversa contigo se visse isto.
— Oh, pai...
— A sério! E que tal vai aquilo do logotipo?
Comecei a explicar as minhas ideias, mas estava tudo muito no início. No fundo, o fim de
semana fora para mim um pesadelo, em muitos aspetos. O mais engraçado foi perceber que,
enquanto falava, ia ficando com as ideias mais claras para o desenho. Coisas que acontecem...

IV

Jaime
Chegar de bicicleta à escola provocou logo muita confusão. Além dos comentários de gozo
da malta do costume, porque sou redondo e sem grande jeito para cenas desportistas, houve
outros mais simpáticos, sobretudo dos meus amigos.

Bicicleta à chuva 22
— Onde é que desencantaste uma coisa tão velha?! Nem mudanças tem! Estás numa onda
de past revisiting! — brincou o Sebastian. — Marvelous!
— É tão gira! Tão…tão... cota!
— Ó Teresa, deixa-te de tretas.
— Mas é mesmo, Jaime. É uma bicicleta do tempo dos nossos avós, pelo menos! E
funciona bem?
— Claro que funciona bem! Dantes eram todas assim — expliquei.
— Revisiting the past, no doubt...
— Pronto, agora deu em tradutor simultâneo...
Deixa-me experimentar. E lá deixei a Teresa ziguezaguear, tal como eu fizera no dia
anterior. Queixou-se logo de que era muito pesada. Pudera! Está habituada a usar mudanças, e
uma pasteleira não tem, por definição, mudanças ou, se for mais modernaça, três: normal, para
subir e para descer. Aquela nem isso tinha.

O toque interrompeu a nossa conversa, e deixei a bicicleta junto do senhor José, que é o
porteiro da escola. Não sei se se interessou por ela, acho que não. Nunca quer saber de nada, é só
completamente obsessivo no controlo dos cartões de quem entra e sai. Mas eu tinha a certeza de
que ninguém tocaria na minha pasteleira enquanto estivesse ao pé dele.
Antes de entrar no pavilhão, ainda olhei para o portão. Sentia uma felicidade incrível por ter
aquela bicicleta, essa era a mais pura das verdades.

Valdomiro
Não passava daquele dia. O miúdo ia saber que não se brincava com os Alcaides. Já me
tinha irritado com os outros dois, sempre a fazerem perguntas sobre o cinema. Não lhes ia contar
nada, era só o que faltava.
Tudo aquilo que se passava dentro de mim tinha agora um alvo: dar cabo do rapaz para ter
a certeza de que percebia quem mandava.
Havia uma enorme confusão na minha cabeça. Ao chegar a casa, encontrara a minha mãe a
chorar na cozinha. Não me contou nada, mas era fácil de perceber o que tinha acontecido, porque
havia marcas novas nos braços. Tudo o que de bom acontecera no cinema, entre mim e a Clara,
perdeu-se naquele instante.
O remorso estrangulava-me a garganta, era sempre pior quando eu não estava em casa.
Não conseguia bater no meu pai, nem era isso que a mãe esperava de mim, mas a revolta
crescia de tal forma que me sentia cego de raiva.
O miúdo ia saber que não se brincava com os Alcaides.

Bicicleta à chuva 23
Jaime
Pedalar, sem pressa, até casa, pareceu-me, naquela tarde, uma espécie de privilégio. Sabia-
me bem o vento na cara, o não ter de ir em nenhum autocarro — sentia-me livre. Mais importante
ainda era poder utilizar o nervoso, que começava a querer dominar-me, nos pedais. Claro que
tinha receio de encontrar os Alcaides, só não teria se fosse parvo!, mas conseguia esbater a aflição
pedalando com mais força.
Contudo, e como seria de prever, assim que entrei na minha rua, encontrei-os. Olhei à volta,
tentando encontrar o Joaquim por perto, mas nada. Era capaz de andar a fazer algum trabalho
longe da mercearia.
— Escusas de procurar o teu amiguinho, que não o encontras — disparou o Cassius, num
tom que só se poderia classificar como ameaçador.
— Faltaste no sábado — atirou o Valdomiro, segurando o guiador da bicicleta, de onde eu
ainda nem sequer tinha desmontado. — Não se falta aos compromissos com os Alcaides.
— Desculpem, mas apareceram familiares...
— Caluda! — rosnou o chefe, pregando-me uma bofetada. Desequilibrei-me e ele
empurrou a bicicleta para me fazer cair ao chão. — Levanta-te!
Foi o que fiz, o mais depressa que pude, mas as pernas não me facilitavam a tarefa. O
coração já estava quase a sair-me pela boca e imaginava os pontapés que viriam a seguir. Mas, e
isso poderia a vantagem, estávamos muito perto do meu prédio, e havia sempre gente a passar.

— Vem connosco.
Podia ter argumentado? Não me parece...
A bicicleta ficou ali, caída no passeio, o que me deixou logo aflito, e eles rebocaram-me,
foi mesmo isso!, para um beco. Nem o Cassius, nem o Xistinho, hesitaram. Os pontapés vieram
com uma força diferente, talvez misturados com pedaços de raiva, senti que eles tinham razão.
Sim, era estúpido pensar assim, mas senti que merecia — faltara ao combinado. O Valdomiro deu
o golpe final, que deixou quase sem respirar, porque me apanhou a barriga. Fiquei de gatas no
chão.
— Levanta-te!
Tentei, mas não fui suficientemente rápido, por isso os outros dois içaram-me para a
posição que queriam. A respiração ainda não estava normal, sentia-me a desmaiar, mas o
Valdomiro nem me deu tempo para esse luxo.
— Estás a ver isto?
Tentei focar o olhar. Reconheci de imediato os papéis da autarquia, do concurso de
logótipos que o meu professor me mostrara.
— Queremos concorrer e ganhar, ouviste?

Bicicleta à chuva 24
— Mas eu...
— Estás proibido de dizer mais um mas que seja, ouviste?
Claro que ouvi, o Valdomiro gritava com a cara quase colada à minha.
— Toma!
Enfiando os papéis nas minhas mãos, viraram-me as costas e desapareceram. Logo que me
vi sozinho, percebi que, naquele dia, a dor dos pontapés era bem pior do que nos outros. Andei
até à bicicleta tentando não chamar as atenções de ninguém. Agarrei nela e olhei em volta para
ver se não havia testemunhas. Pareceu-me que não. Entrei na mercearia, cumprimentei o senhor
António e arrumei a bicicleta na parte lateral, como me sugerira.
— Ó rapaz, pareces-me meio coxo, caíste?
— Não me diga nada, espalhei-me quase à porta de casa!
Muito se riu o merceeiro, e eu com ele, porque foi um alívio conseguir justificar as dores.
— Alguma ferida?
— Não, só umas amolgadelas...
— Isso passa num instante — rematou o senhor António, começando de seguida a atender
uma cliente acabadinha de entrar. Por detrás dela, surgiu o Joaquim. — Olha lá! O teu amigo já
se espetou, logo no primeiro dia...
— Segundo — brinquei eu —, no segundo.
O olhar do Joaquim disse-me tudo. Não estava a acreditar na mentira, sabia que eu voltara a
encontrar os Alcaides, mas respeitava-me o suficiente para nada dizer em frente ao senhor
António. Deu-me só um aperto de mão mais forte do que o habitual e, sem trocarmos uma
palavra que fosse, começou a arrumar caixotes.

Valdomiro
— Conta-me o que se passa, Valdomiro, vá lá...
A Clara insistia, e eu não sabia bem o que lhe dizer. O barulho do café incomodava-me. Ela
sabia que eu liderava os Alcaides, isso era ponto assente, pois passara muitas vezes por nós.
Contudo, eu sentia que, se lhe contasse o que tinha acontecido nas últimas horas, podia perdê-la.
Que grande trapalhada! Afinal, por que raio me fora envolver com uma miúda?! Ainda para mais,
atiradiça!
— O que queres de mim?
A pergunta saiu-me mesmo bruta, mas a Clara nem pestanejou.
— Vais pôr-te com cenas, é? Ou achas que, se falares com a tua namorada dos teus
problemas, passas a ser um cobarde?
— Ninguém disse que eu tinha problemas. E ninguém disse, que eu saiba, que éramos
namorados.

Bicicleta à chuva 25
— Ai, não? Que engraçado, pensei que sim.
Não gostei do tom de gozo que pôs na voz. Entretanto, a mão dela, que estava na minha,
escapou-se. Isso afligiu-me.
— É muita coisa ao mesmo tempo, não ias perceber — disse-lhe, sem cuidado.
— Pois, parece que não.
Levantou-se e, sem dizer mais nada, começou a afastar-se. E eu, estúpido, não fui atrás
dela.
— Não queres tomar qualquer coisa para as dores?
— Acho que não, mãe. Nao foi assim tao grave.
— Mas estás a mexer-te com tanta dificuldade... Deixa-me ver as nódoas negras.
— Não!
A resposta saiu-me tão bruta, tão exagerada, que a minha mãe ficou chocada. E eu lembrei-
me de uma coisa, assim de repente. Tenho doze anos, podia não querer mostrar o corpo, essas
coisas, por isso, justifiquei-me:
— Não sou nenhum bebe, mãe.
— Pois, estou a ver que não. Promete-me que, se ficares aflito de noite, me dizes, pode ser?
Pelo menos, isso...
— Está bem, está bem. Mas não te preocupes, foi só uma queda de treta.
Vi que saía do meu quarto preocupada. Arrependi-me tanto de ter sido bruto... Mas não
podia deixar que visse as nódoas negras acumuladas. A minha mãe não é parva, ia perceber tudo
num instante.
Apaguei a luz, mas o sono estava a quilómetros de distância. Como iria eu resolver o
assunto? Criando dois logótipos? Isso até me parecia possível, mas ganhar o concurso era uma
impossibilidade concreta. Quantos designers estariam a concorrer? Só lá na escola, entre os
professores, deviam ser dois ou três. Eu não tinha qualquer hipótese de vencer o concurso e não
fazia ideia de como poderia explicar isso aos Alcaides.
Também me estava sempre a lembrar da expressão do Joaquim, daquele aperto de mão,
quase a dizer-me «eu sei o que aconteceu». Teria também sido vítima dos Alcaides? Não, ele era
mais velho. Mas eles conheciam-no, pelo menos respeitavam-no de alguma maneira, ou estaria eu
a sonhar com coisas que não existiam?
Passei a noite em sobressalto. Não sei quanto tempo dormi, mas a sensação que tive ao
acordar foi de não ter descansado nada. Doía-me tudo, sobretudo o tronco, mas fui para a escola
de bicicleta, disso não queria abdicar.
Enquanto pedalava, e isso passou a ser muito comum ao andar de um lado para o outro,
surgiram-me ideias para desenhos. Que espetáculo! Mesmo quase a chegar a escola, e como era a

Bicicleta à chuva 26
descer, ganhei velocidade e travei em derrapagem, como faz o Joaquim. Que sensação tão gira!
Claro que me ia enfiando no muro, agora a sério, mas ninguém viu. Tinha de treinar mais.
Valdomiro
— Vai buscar cervejas e tabaco, Valdomiro.
— Já bebeste a tua conta e eu não sou teu criado.
A bofetada veio certeira. Nem me mexi.
— Ninguém perguntou a tua opinião. Faz o que te digo!
— Não.
Outra bofetada. Agarrei-lhe no braço.
— Não sou teu criado — repeti.
Uma estranha sensação apoderou-se de mim. E se lhe batesse? Seria mais do que merecido.
A porta abriu-se, vinha lá a Emília. O meu pai soltou-se e foi ter com a menina dos seus
olhos. Ela trata-o sempre mal, mas ele nem nota. Eu saí, batendo com a porta. Precisava de
encontrar a Clara.

Jaime
— Conta! Como vão os desenhos para a autarquia?
Lá estava o professor Adalberto, sempre entusiasta. Mas, naquela manhã, não conseguia
produzir o sorriso que o professor merecia, e isso custou-me.
— Ouve, Jaime, não fiques aflito! É muito natural que, com um prazo fixo e uma
encomenda concreta, as ideias pareçam mais fugidias. Tudo isso é normal. Mas eu sei que tu és
capaz. Não te esqueças de que o importante é participar. Não deixes que a vontade de ganhar te
atrapalhe as ideias.
Deu-me uma palmada amigável no ombro esquerdo, que me doeu bastante porque acertou
numa nódoa negra. Deixou-me ali, a braços com a impossível proeza que os Alcaides me
exigiam: vencer o concurso. A Teresa apareceu logo de seguida.
— Não tens nada para nos mostrar? — O Sebastian juntara-se a nós. — Estamos mortos de
curiosidade!
— Deves ter passado o fim de semana inteirinho a desenhar...
— Por acaso não. Apareceram uns primos, foi uma confusão. Mas já tenho imensas ideias.
—E não estava a mentir... — Isto de andar de bicicleta é incrível, fico com a cabeça cheia de
rabiscos.
— Eh, pá! Só mesmo tu podias dizer uma frase tão parva como essa — gozou o Sebastian.
— Mind full of scribbles...
— É um artista — comentou a Teresa, como se eu sofresse de uma doença incurável. — E
não pões esses rabiscos, ou lá o que é, no bloquinho? Não te esqueces depois?

Bicicleta à chuva 27
— Ó, Teresa, então como é que o desgraçado vai desenhar enquanto pedala? És mesmo
desmiolada! Espalhava-se logo...
— Podia desenhar quando chegasse aos sítios, sei lá!
Mantiveram-se a falar de mim, dos meus desenhos, da minha bicicleta pasteleira, enquanto
eu tentava organizar as minhas tarefas. Fazia contas aos dias do prazo, ao medo da fúria dos
Alcaides, e as ideias para o logótipo.
— Hey! — gritou o Sebastian, acenando a mão em frente aos meus olhos. — Andas mesmo
na lua, tu! Queres ou não?
— Quero o quê?
— Artista — tornou a Teresa.
— Se queres ir até ao bar, Jaime. Não vais comer nada agora?
— Não, não. Vão vocês, tenho de anotar aqui umas coisas...
— Excelente! Ganhei! Eu não te disse que ele punha tudo no bloco?
E afastaram-se, continuando a discutir se aponto ou não as ideias no bloco, se a bicicleta faz
isto ou aquilo aos desenhos que invento, e por aí fora. Eu permaneci ali, meio anestesiado com
muitas imagens de desfechos, todas elas catastróficas, para tudo o que me acontecia.

Jaime
Assim que entrei na minha rua, vi que o Joaquim me esperava, encostado ao meu prédio.
Perto dele, o carrinho de metal onde ele põe as mercearias que leva as clientes mais idosas do
meu lado do bairro, o sul. Ao vê-lo ali, o meu coração começou a sossegar: nessa tarde, não teria
de sofrer com os pontapés dos Alcaides.
Deixei a bicicleta de encontro à floreira, e cumprimentei-o. Sem grandes sorrisos, o
Joaquim disse-me apenas:
— Podemos falar, ou estas ocupado?
— Podemos falar, sim, a minha irmã só chega daqui a uma hora. O que foi?
O Joaquim não é rapaz de muitas conversas. Começou a caminhar, passeio fora, e eu imitei-
o, de mochila às costas. Dobramos a esquina, e afastamo-nos do meu prédio, sempre sem falar.
Quando dobramos a segunda esquina, percebi para onde me levava. Ao fundo, num emaranhado
de prédios degradados, começava o bairro forte, onde sempre imaginei que viviam os Alcaides.
Parando de andar, o Joaquim encostou-se a uma parede, e eu fiz o mesmo.
— Eu vivo ali — disparou. — Os Alcaides, como calculas, são meus vizinhos. Agora
existem os Alcaides e os Trogloditas, dantes existiam outros, como os Fantasmas. Eu era um

Bicicleta à chuva 28
deles. Tinha a tua idade quando entrei para o grupo, mais ou menos. Achávamos que
mandávamos no mundo inteiro.
Tudo aquilo foi dito com uma pressa que obrigava as frases a saírem agarradas umas às
outras. Não me assustei, nada disso. Parecia-me só que o meu cérebro tinha ficado sem
capacidade para perceber. Havia perguntas à luta com aquelas frases acabadas de ouvir. Senti que
ouvia algo que já sabia sem saber, o que não era lógico. Além disso, não conseguia imaginar o
Joaquim, aquele Joaquim, o ajudante da mercearia, o meu amigo da bicicleta, a fazer parte de um
gangue.
— Não é fácil viver ali — continuou. — Os adultos não são grande exemplo, como podes
imaginar. Há muitos filhos sem os pais por perto, passam o dia sozinhos. Pobreza, isso nem é
preciso dizer, vê-se à légua. Pouca educação e falta de respeito pelos outros existe às pazadas,
mas disso já tu sabes.
Não conseguia dizer nada, porque as perguntas avolumavam-se dentro da minha cabeça. De
certa forma, tudo se encaixava e desencaixava à mesma velocidade. Mas tinha de saber:
— Também batias em pessoas? Não consigo imaginar-te a...
— Ora, Jaime, é tão fácil! Ali, ou se faz parte de um grupo, ou se sofre todos os dias nas
mãos dele. E não são so os Alcaides e os Trogloditas, há mais, só que andam noutras zonas. O teu
prédio pertence, digamos assim, aos Alcaides.
— Mas batias...?
O Joaquim desencostou-se e ficou mesmo à minha frente. Contou-me então que, para
conseguir pertencer ao grupo, aos Fantasmas, teve de dar uma sova num miúdo que não pertencia
a nenhum. Disse-me que eu lhe fazia lembrar aquele miúdo, talvez por ser assim calado. Nunca
mais se esqueceu do dia em que o «desfez», como diziam. Mas, depois disso, e de ter sido aceite
no grupo, deixou de ser apanhado pelos mais velhos, que antes lhe batiam ou roubavam o
dinheiro do almoço. Era uma questão de sobrevivência, explicou. Pagava-se a violência com
violência, muito simplesmente; recebia-se proteção em troca de ser mais um no grupo.
— E ainda pertences aos Fantasmas...?
— Claro que não.
Para mim, não era nada clara aquela resposta. Imaginava que devia ser muito difícil sair.
Pelo menos, nas séries de televisão era assim.
— O senhor António ajudou-me. É uma espécie de pai. Insistiu para que morasse com ele e
tudo, mas não quero atrapalhar-lhe a vida. Ganho o meu dinheiro e, qualquer dia, consigo alugar
um quarto noutra zona. Para já, vivo ali.
— Como é que ele soube que...
— Foi num dia muito parecido com os teus, apareceu quando estávamos a... trabalhar. —
Era óbvio que o trabalho era bater em alguém, enquanto desfaziam alguém. — Eu não batia, só

Bicicleta à chuva 29
se me obrigassem. O senhor António achou que me podia convencer a ser diferente, não me
perguntes porquê. E conseguiu. É por isso que estou aqui contigo. Talvez sejamos capazes de
mudar as coisas.
Um olhar de relance para o meu relógio interrompeu a conversa. A Luizinha chegava dali a
dez minutos, nao me podia atrasar. Fizemos o caminho inverso, novamente em silêncio. SO
quando se despediu, o Joaquim falou:
— Não te preocupes mais com os Alcaides. Para tudo, há uma solução...

Valdomiro
Talvez tivesse contado tudo depressa demais, mas foi como me saiu. A Clara ficou calada.
Nas mãos, um pacote de açúcar era remexido sem dó. Estávamos no mesmo café, com o mesmo
barulho, tudo me fazia confusão.
— És muito mais complicado do que eu julgava. — Este comentário deixou-me sem
esperanças, o namoro não ia recomeçar. — Mas eu gosto de ti.
Fiquei baralhado. Não disse mais nada porque não me ocorreu nada de jeito para pôr em
cima da mesa.
— Não estás a pensar bater no teu pai, pois não?
— Claro que não. — Estava a mentir, porque a paciência começava a esgotar-se, mas eu
sabia que a Clara já adivinhara a minha vontade de lhe pagar na mesma moeda. — As coisas
estão piores porque ele está desempregado.
— Mas esse miúdo também não tem culpa...
— Talvez seja melhor não te meteres nos assuntos dos Alcaides — avisei. — Foi para isso
que vieste? Para me dares ordens?
— Não sejas parvo, Valdomiro, e deixa-te de cenas. Se calhar, não é boa ideia andarmos
juntos. Eu não quero isto... «Assuntos dos Alcaides»? O que vais fazer a seguir? Bater-me, como
o teu pai faz à tua mãe? Por favor, não me tomes por parva.
E levantou-se outra vez, saiu de novo. Dei um murro no pacote de açúcar que ficou na
mesa. Dei cabo dele. Afinal, quem acabava de ser desfeito era eu!

Jaime
— Andas tão pensativo, filho, o que se passa?
As mães devem ter um sistema qualquer de deteção de problemas em filhos, não há outra
forma de explicar isto. Mas estaria eu pronto para lhe contar tudo? Pareceu-me que não. Pior,
pareceu-me que, se lhe contasse tudo, me proibiria de falar com o Joaquim, e eu não queria que
isso acontecesse.

Bicicleta à chuva 30
— O que achas deste? — desconversei, mostrando à minha mãe um dos logótipos que
rascunhara no meu bloco.
— Hum... Fico sempre maravilhada com as tuas ideias. Acho tão interessante!
— E deste, gostas?
— Fizeste dois?!
Olhava, ora para um, ora para outro. Era fácil perceber que a minha mãe não conseguia
decidir de qual gostava mais. Sorri.
— Mostra! — pediu a Luizinha, largando o lápis sobre o caderno e esticando-se por cima
da mesa.
— Eu prefiro este!
— Pois, é como eu — decidiu-se a minha mãe. — Mas o outro também está espetacular.
Nao tenho a certeza... Não podes concorrer com os dois?
— Com os dois?! — disfarcei eu, de forma um pouco atabalhoada. Só podia mentir: — Não
me tinha lembrado disso. Se calhar, sim. Vou perguntou ao professor Adalberto, ele deve saber.
— Mas não me respondeste, Jaime. Andas preocupado com alguma coisa?
— Dah, mãe! — gritou a Luizinha. — É um concurso! E o mano quer ganhar!
Tenho de ganhar, pensei eu.
— O importante é participar — comentei, achando já aquela frase bem pindérica, muito
batida e quase antiquada. — Mas era bom ganhar, era... — disse-lhes, para ver se apagava as
aflições da minha mãe em relação a mim.
— És tão querido, filhote!
— Ai, não sejas lamechas, mãe, vá…
Ainda levei um beijo no cabelo, mais um abraço que me doeu horrores, e fiquei a pensar.
No bairro do Joaquim, o do norte, os miúdos passavam os dias sozinhos. Não devia ser fácil ter
juízo, imaginei, nada fácil mesmo! Isso, misturado com revolta, dava... Pois, dava complicações.

Valdomiro
— Está na hora — disse o Xistinho, nervoso como um cavalo de corrida.
— Ele vai pagá-las! — O Cassius tremia por antecipação.
Pareciam varados com a hipótese de se vingarem, e tudo por causa do Joaquim. Tinham
razão, aquilo também me irritava e muito. Eu já não sabia bem o que me apetecia fazer. Talvez
começar por pôr o meu pai na ordem, ou reconquistar a Clara, o que seria bastante improvável, ou
então dar uma sova naquele miúdo para derreter tudo o que sentia.
— Vamos. Sempre quero ver se hoje se atrasa.
— Gostei do desdém que moldou a minha frase. — E o Joaquim pode aparecer, não vai
valer de nada!

Bicicleta à chuva 31
— Passa a fantasma num ápice — gozou o Cassius.
— Está na hora! — repetiu o Xistinho, tomando a dianteira.
Pois estava, mas na hora de fazer o quê?

Jaime
— Tinhas de arranjar um polícia, era?! Queixinhas!
O murro que apanhei, em cheio no nariz, fez-me cambalear. Achei estranho, normalmente
os Alcaides não me batiam com aquela violência na cara.
— Alto, e para o baile! — gritou o Valdomiro ao Cassius, puxando-o para trás. — Não
estamos nada satisfeitos com o que fizeste.
— Não estão satisfeitos com quê? — ouvi a voz do Joaquim dizer, mesmo atrás de mim.
Não me virei, congelei. — Fui eu que me ofereci para o proteger de vocês, o Jaime não me pediu
nada. Afinal, o que se passa?

Horas antes, eu contara ao Joaquim a cena dos logótipos. Depois daquela sua revelação, que
me deixara arrasado, tinha de abrir o jogo e contar tudo o resto. Até já lhe mostrara os rascunhos.
E quando vi surgir os Alcaides, naquela tarde, achei que não me iam bater, porque eu tinha coisas
para lhes mostrar. Mas enganei-me, pelos vistos.
O Cassius estava furioso com o facto de o Joaquim se ter posto do meu lado.
— Fizemos-lhe uma encomenda, e este grande paspalho...
— Chama-se Jaime — cortou o Joaquim.
— Não deixa de ser paspalho por isso! Tudo bem, o menino Jaime tem de nos fazer uma
coisa e não há meio de trabalhar.
— Mas eu posso mostrar-vos...
— O Jaime não vai mostrar nada enquanto vocês não mostrarem respeito por ele.
Engoli em seco. O Joaquim nao parecia estar a brincar e era maior do que eles. Contudo,
fazendo as contas, éramos um e meio — porque sou demasiado pesado e lento para lhes fazer
frente — contra três. E era isso que queríamos? Andar à pancada?!
À minha frente, travava-se uma luta de olhares furiosos. Nenhum dos dois desistia, nem o
Joaquim, nem o Valdomiro. E consegui ver, nesse instante, o Joaquim antigo, consegui vê-lo
naquele olhar. Isso assustou-me.
Foi o Valdomiro a desistir primeiro. Fazendo um sorriso forçado, enquanto pegava num
cigarro, virou-se para mim:
— Já tens algumas ideias?
Depois de hesitar, e nao conseguindo ler na expressão do Joaquim se podia ou não mostrar
os papéis, fiz um esforço para perceber: estava a respeitar-me? Achei que sim, por isso, abri a

Bicicleta à chuva 32
mochila e, com as mãos a tremer, passei-lhe o bloco para as mãos. Os outros dois, sobretudo o
Xistinho, espreitavam por cirna dos ombros do chefe.
— Qual é o melhor?
— Não sei, juro que não sei.
— Porque fizeste dois?
— Bem... na minha escola... quer dizer... Tenho de entregar um na escola.
— Mas nós queremos o que vai ganhar! — reivindicou o Xistinho.
— Mas eu não sei se consigo ganhar! Aliás, tenho quase a certeza de que não sou capaz de
ganhar nada!
Um ambiente gelado caiu sobre nós. Para os Alcaides, isso não era uma opção. Não
conseguiria explicar-lhes que, por toda a autarquia, havia pessoas a desenhar logótipos. As
minhas hipóteses eram quase nulas.
— Estão acabados? — quis saber o Valdomiro.
— Acabados?! Claro que não! São só esboços...
— Quando acabares, nos escolhemos um.
— Isso só vai acontecer se eu deixar — avisou o Joaquim, numa voz tranquila.
— Mas quem é que me dá ordens? — irritou-se o Valdomiro.
— Eu não sou, de certeza — respondeu o meu amigo, sem vacilar. — Mas, para terem os
desenhos do Jaime, vão ter de dar alguma coisa em troca, e parece-me que ajudarem no que vos
quero propor é um preço justo.
— Preço?!
Preço?!, repeti eu em pensamento, sem perceber o que se passava.
— Para poderem ficar com um destes desenhos, vão ter de me ajudar a organizar uma
corrida de bicicletas no bairro, juntando os lados norte e sul. Pensei em várias provas pequenas ou
uma maior. Só pasteleiras, nada de mudanças e bicicletas finas. Vocês terão de me ajudar, se
quiserem os desenhos do Jaime. Percebido? É uma troca justa, parece-me.
Não foram só os Alcaides que ficaram admirados, eu também. Permanecemos, incrédulos, à
espera de explicações, mas o Joaquim já nos virava as costas, dizendo:
— Sexta-feira, à mesma hora. Trago tudo pensado.
A seguir, é só executar. — Depois, parando e virando-se, perguntou-me: — Não vens?
Fui, claro que fui!

Valdomiro
— Valdomiro, então, meu?!
— Então, o quê, Cassius?
— Deixas que te falem assim?

Bicicleta à chuva 33
— Assim como? É um bom negócio.
O Xistinho esfregava o nariz de nervoso. Eu bem sentia que o Cassius me queria pôr em
maus lençóis, mas não ia ser capaz.
— Mas nós...
— Nós queríamos um desenho para ganhar a porcaria do concurso, não era? Vamos tê-lo,
qual é a dúvida?
— Mas vamos organizar aquela coisa da corrida de pasteleiras?
— Quem é que manda aqui, afinal? — Já estava a ficar irritado com as perguntas do
Cassius. Bastou levantar-lhe a voz, acalmou-se logo. — Nem é uma ma ideia.
Os olhos do Xistinho saltavam entre mim e o Cassius.
— Mais alguma pergunta?
— Não, Valdomiro, já percebi.
Como eu me senti mal com aquilo. Já nem me dava gozo pô-los na ordem. Tinha o
estômago torcido. Claro que me custara ver o Joaquim a impor-nos as regras! Só que, enquanto o
ouvia, recordava-me das palavras da Clara, a dizer que o miúdo não tinha culpa e mais não sei o
quê. Estava dividido!
— O que é uma pasteleira...?
Desmanchei-me a rir com a pergunta do Xistinho. Dei-lhe um encontrão, e o Cassius
acabou também a rir. A tensão começava a aliviar.
— Temos de te ensinar tudo, é?
— «O que é uma pasteleira...?» — imitou o Cassius, enquanto eu explicava. — «O que é...?
O que é?»

Jaime
— Ora bem, mudando as câmaras de ar a estas, temos aqui sete — contou o senhor
António, tirando o boné e cocando a careca. — As outras duas estão com os travões numa
lástima...
— Contando com a que eu uso, são dez — lembrei.
— Com a minha, onze. Sim, parece-me um bom número — animou-se o Joaquim. Onde
tinham arranjado tantas bicicletas? — Fazemos primeiro uma recolha de fundos para arranjar as
que estão piores. Depois de tudo pronto, sorteia-se quem fica com qual, e temos corrida!
— Anda num alvoroço que eu sei lá... — comentou para mim o senhor António, divertido.
— Já nem posso ouvir falar em bicicletas! Cheira-me que, um dia destes, ainda entrega uma
bicicleta a uma freguesa, em vez de uma couve-portuguesa. Foste tu quem lhe deu esta ideia,
Jaime?
— Eu?! Não, não...

Bicicleta à chuva 34
— Sim, sim, ora essa! — refilou o Joaquim. — Se não fosses tu, mais os teus desenhos,
nunca me passaria pela cabeça organizar esta coisa.
— Só resta saber se resulta... — pensou alto o senhor António.
Ele já estava a par de tudo e juntara-se a mim e ao Joaquim para fazer daquele plano uma
realidade.
— Acho que, se andarem entretidos a treinar para a corrida, vão perceber que há coisas
melhores do que fazer a vida negra aos outros.
— Bem sei, Joaquim, bem sei. Mas oiçam: é uma gota de água num deserto, meus filhos,
não num oceano! Uma gota de água num deserto.
Nós percebíamos as dúvidas do merceeiro. Não era com uma corrida de pasteleiras que se
resolvia o problema dos grupos rivais do bairro norte. Contudo, na cabeça do Joaquim,
estaríamos a abrir uma porta para que, dali em diante, houvesse outras coisas a entreter os miúdos
que passavam tantas horas na rua, entregues a si mesmos.
— Quando fizeres a versão final dos logótipos — começou o Joaquim achas que podes
acrescentar uma roda de bicicleta?
Sorri, feliz. Fui a mochila, retirei o bloco e mostrei-lhe o meu trabalho. Em qualquer uma
das hipóteses, eu tinha desenhado uma roda de bicicleta no canto. Não podia deixar de ser! E
pintá-la-ia de verde, como a do Joaquim. Na verdade, os logótipos até tinham ficado mais giros
assim!
— Grande Jaime! — gritou o Joaquim. Nunca o vira tão bem-disposto, tão falador. — As
vezes, são estas pequenas coisas…
Calou-se e sorriu para o senhor António. Consegui perceber que, de repente, se comovera
com as suas próprias palavras. O que se passaria dentro da cabeça do meu novo amigo? Imaginei-
o a recordar partes difíceis da vida, aquela mão estendida para o ajudar no momento certo.
Sacudindo as memórias, o Joaquim olhou para o relógio:
— Está na hora, vamos lá convencer aqueles tipos: tem de nos ajudar!
— Mas, afinal, para que queriam os Alcaides um logótipo? — quis saber o senhor António.
— A ideia deles é ganhar o concurso. Assim, passam a ser uns heróis, no mínimo. A autarquia,
quando descobrir que a candidatura vem de um grupo de arruaceiros, já não pode voltar atrás.
Não deixa de ser um bom plano — riu-se o Joaquim.
— Mas o teu é melhor! — acrescentei, enquanto nos preparávamos para ir ao encontro dos
Alcaides.

VI

Jaime

Bicicleta à chuva 35
— Espera, espera. Volta atrás — pediu o meu pai, interrompendo-me. — Que história é
essa de to baterem?
— Era por isso que tremias? — lembrou-se a Luizinha. — Já percebi!
— Nunca nos contaste... — admirou-se, ou talvez não, a minha mãe.
O Joaquim aconselhara-me a ter aquela conversa. Com o nariz esfolado, para o qual
inventara uma queda na ginástica que não os convenceu, a pressão para dizer o que se passava
comigo crescia todos os dias.
Por outro lado, estar envolvido na estranha corrida de pasteleiras iria roubar-me bastante
tempo, e eu não teria outra forma de justificar a importância daquela iniciativa para mim e, de
certa forma, para o Joaquim e o senhor António. Os meus pais, incrédulos, não conseguiam
imaginar os dias, semanas!, em que eu fora vítima de agressões seguidas sem lhes dizer nada.
— A minha professora — informou a Luizinha, um pouco à margem do drama que os meus
pais sentiam — diz que as vítimas são sempre pessoas caladas, tímidas. Assim, nunca fazem
queixa. Faz sentido! — A minha irmã é ingénua e, ao mesmo tempo, esperta, capaz de fazer
ligações entre assuntos num ápice. — E tem de ser mais fraquinhas, também, para não magoarem
os agressisores, não, agrididores, não!, os...
— Agressores, Luizinha, diz-se agressores — ajudei.
— É isso! E nós devemos sempre ajudar as vítimas.
A mão do meu pai pousou em cima do ombro da minha irmã, e ela percebeu que era o
momento de se calar.
— Quantas semanas durou isto?
— Não sei, pai, foi quase um mês. Já passou.
Num impulso, a minha mãe levantou a minha t-shirt. Nem tive tempo de contrariar o gesto.
Ficaram à vista os restos das nodoas negras. Puxei de novo a t-shirt para baixo, sem me zangar.
Ela estava quase a chorar, e isso doeu-me muito, como se os Alcaides lhe tivessem batido através
de mim. O meu pai parecia em estado de choque. A Luizinha tinha posto a mão sobre a boca e
depois veio abraçar-me.
Nesse momento, lembrei-me das conversas com o Joaquim, dos jovens da zona norte do
bairro que cresciam sem pais, sem carinho, passando dificuldades, pertencendo a grupos para
conseguirem alguma proteção, ou melhor, alguma espécie de família. A violência era uma forma
de afirmação, mas também uma forma de vida. Foi isso que expliquei aos meus pais. De repente,
e sem saber como, senti-me muito mais velho. Tudo aquilo me fizera ver as coisas de outra
maneira. E aquela corrida de bicicletas, com a imposição de serem as mais simples de todas, para
que não ganhassem os que tinham dinheiro para comprar bicicletas leves e rápidas, passou a ter
uma outra importância para os meus pais. Estariam, estaríamos todos!, envolvidos em algo
positivo.

Bicicleta à chuva 36
— Não adianta andarmos todos engalfinhados — concluí. — Eu sei que foi muito grave o
que me fizeram, mas sinto que devemos, pelo menos, dar-lhes uma nova oportunidade.
— E tens todo o nosso apoio, filho — sossegou-me o meu pai. — Bem sei como era lá na
aldeia. Pancada só puxa pancada. Às vezes, uma coisa pequena pode ser muito importante. E
conta com mais duas bicicletas — acrescentou que os senhores da casa onde ando a pintar a
fachada perguntaram-me se sabia onde se deitavam fora. Trago-as amanhã na carrinha. Abracei-
os. A minha mãe nao conseguiu suster as lagrimas e encheu-me de beijos e carinhos. Nunca
pensara bem nisso, mas agora entendia melhor a declaração dos direitos das crianças — o direito
de crescer numa família, num ambiente protegido.

Valdomiro
Julguei que ela ia mandar-me logo embora, mas, mesmo assim, arrisquei. A Clara
continuava a arranjar as flores. Devíamos andar na escola, pois devíamos, mas era difícil ter
paciência para as aulas e dinheiro para o resto. Ela ajudava na venda das flores, num dos
extremos do mercado. Fiquei encostado a um poste, à espera. Ela deixou-me a secar quase uma
hora. Só depois pediu à chefe:
— Dona Florinda, volto já, pode ser?
— Não te demores...
Caminhámos sem falar até estarmos fora do mercado. Ainda bem, porque aquele cheiro de
couves, peixe e flores dava-me vómitos.
— Livra, que és teimoso. Pensei que já tinhas percebido.
— Queria só contar-te uma coisa.
— Chuta — atirou ela, cruzando os braços e mostrando pouca disponibilidade para grandes
conversas.
Contei-lhe sobre o encontro com o Jaime e o Joaquim. Também lhe expliquei para que
queríamos o logótipo. A ideia tinha sido minha e até me parecia bastante boa. Por fim, perguntei
se, por acaso, arranjava alguma bicicleta daquelas antigas.
— Vieste aqui para me perguntares se te arranjo uma pasteleira para a corrida?
Senti-me ridículo. Que raios, aquela miúda dava-me uma trabalheira dos diabos.
— Não, estou só a meter conversa — disse-lhe sem rodeios. Era verdade. — Mas achei que
ias gostar de saber que não batemos mais no miúdo. Já vi que estou a perder tempo, não estás
interessada em nada disto.
Era a minha vez de a deixar plantada. Quando percebeu que me is embora, ficou mesmo
aflita, nao estava tudo perdido. Virei-lhe as costas, mas sentia-me feliz por dentro.
— Espera ai! — ouvi. Nao esperei. Deixei-a vir atras de mim e puxar-me pela manga. —
Vou ter contigo mais logo?

Bicicleta à chuva 37
— Pode ser — disfarcei.

Jaime
Qualquer pessoa que passasse por nós saberia de imediato que havia uma tensão gigantesca
no ar. O Joaquim, de expressão fechada, tão ao contrário do que eu lhe conhecia, não deixava que
nenhum dos Alcaides tocasse sequer nos dois desenhos que ele segurava nas mãos. O Valdomiro,
que parecia indeciso, observava de soslaio os outros dois. Pareceu-me que estavam sem saber
qual dos dois escolher. Por isso, disparou:
— Qual é o melhor?
— Não sei, não faço ideia. A sério, mesmo que vos quisesse aconselhar, não podia, gosto
dos dois...
— De qualquer forma — interrompeu o Joaquim estás a esquecer-te de uma coisa.
Enquanto não tivermos a certeza de que vocês estão dispostos a organizar connosco a corrida,
nada feito.
Um aceno de cabeça do Valdomiro fez com que o Xistinho largasse a correr, para depois
voltar com uma bicicleta pela mão. Se as nossas pasteleiras pareciam gastas, aquela então... —
Temos quatro destas — informou o Cassius mas precisam de arranjo.
— Alguém sabe arranjar isso? Nós já temos onze.
Eu só percebi o verdadeiro alcance desta pergunta do Joaquim quando o Valdomiro
respondeu.
— O meu pai foi mecânico de bicicletas e motas, é bastante bom, só que está desempregado
há meses.
— Mas tem ferramentas?
— Tem, mas queres que trabalhe de graça para ti, é?
Esta frase foi dita com muita raiva, e tive medo de que o Joaquim se irritasse. De certa
forma, irritou-se, mas controlou-se.
— Nao foi isso que pediste ao Jaime, que trabalhasse para ti de grata?
O Valdomiro cerrou os dentes, pois fora apanhado na sua própria trama.
— Eu pensei em tudo. Vamos angariar fundos para os arranjos. Vai dar para pagar o
trabalho e os materiais. Resta saber se o teu pai quer este trabalho, é uma coisa pequena.
Tremi por dentro. Não tínhamos a certeza de conseguir arranjar dinheiro. Para já, íamos
colocar um cartaz e uma caixinha nos cafés, pastelarias, vendas de jornais e lojas, a pedir uma
contribuição para levar a cabo a iniciativa. Naqueles quarteirões ali em volta, tínhamos contado
trinta e dois sítios. Se cada um rendesse vinte euros, então conseguiríamos seiscentos e quarenta
euros. Chegaria para tudo? Não sabíamos...
Os Alcaides entreolharam-se, e foi, como sempre, o Valdomiro a falar:

Bicicleta à chuva 38
— Aceito. Mas quero o melhor desenho.
— Muito bem, escolhe.
Deu-me vontade de rir. O Joaquim sabia mesmo dar-lhes a volta, e eles caíram no engodo.
Conferenciaram, hesitaram, mas acabaram por levar o meu preferido. Seria o melhor? Talvez
não. Deu-me uma certa pena desligar-me dele. Contudo, por muito estranho que isto vos possa
parecer, também era uma forma de resolver por dentro as marcas dos pontapés e atenuar as
recordações das humilhações sofridas.

Valdomiro
— Ajudas-me ou não?
A minha mãe continuava a estender a roupa. Ouvira tudo o que eu lhe contara sem
comentar, achei até que se sentiu um bocadinho orgulhosa de mim, mas nunca mais dizia nada.
Insisti: — Ajudas-me? Se for eu a perguntar, o pai não vai aceitar.
— Se fosse a tua irmã…
— Não quero meter a Emília nisto.
— Vamos tentar — decidiu a minha mãe, arrumando o cesto das molas e secando as mãos
no avental.
O meu pai estava no seu posto de desempregado, em frente à televisão. Não ia ser simples,
mas lá em casa, nada o era. Pus-me entre ele e o ecrã, barafustou logo. Então, a minha mãe
começou a contar-lhe como ia ser a corrida e como iam angariar o dinheiro. Ele podia até ganhar
uns cobres!
— Quanto é que pagam? De graça, não vou.
— Não é de graça, pai, vamos pagar o teu trabalho. Precisamos de alguém que perceba
mesmo a sério destas bicicletas antigas — informei, para ver se ele se enchia de brios. — Não
achas boa ideia? Tem de ser feito por quem sabe...
Eu imaginava o que estava a provocar aquela demora na resposta: a nossa discussão fora
bem grave e o meu pai não a tinha ainda esquecido.
— Vou pensar. Sai-me da frente, quero ver o programa.
Saí, e a minha mãe piscou-me o olho. Para ela, aquilo era já um sim. Seria? Talvez...

Jaime
— Olha, Jaime, nem sei o que te diga — confessou o professor Adalberto. — Está
estupendo. Onde foste tu arranjar esta maturidade artística...?
Maturidade artística?! Cruzei o olhar com o da Teresa, que acabara de levantar o sobrolho
em transe. O Sebastian fez-me um sinal de «like!» disfarçado, e já estava a sorrir.
— Obrigado, stor, fico mesmo contente. Queria sobretudo que o stor gostasse.

Bicicleta à chuva 39
— Gosto imenso! Vamos formalizar a candidatura. Já tens pseudónimo?
— Fantasmas.
— Fantasmas? No plural? — admirou-se o Sebastian. — Não é melhor no singular?
— Deixem-no escolher — defendeu-me a Teresa. — Qual é o problema? Se é o nome que
o Jaime quer, fica!
— Fica! — concordou o professor. — Vamos digitalizar isto como deve ser. É só o que
falta. Eu não faço parte do júri, como sabes, também concorri. A nossa escola só vai enviar um
logótipo para a autarquia, e quem escolhe o nosso vencedor são os professores da outra escola.
Nós fazemos o mesmo com os trabalhos deles. Assim, é tudo mais transparente.
— Boa sorte aos dois — rematou a Teresa, que sabe sempre o que dizer nestas ocasiões. —
E que ganhe o melhor!
O professor sorriu, divertido.
— Deixem isto comigo, vão para casa sossegados, que o vosso dia já vai longo...
Despedimo-nos dele, estávamos mortinhos por sair da escola. Mas, ainda não tínhamos
chegado ao portão, e já o Sebastian voltava à carga.
— Fantasmas?
— É uma homenagem — expliquei. — Se soubesses porquê, ias perceber.
— Vou perceber, you, porque to vais explicar o que se passa.
— Eu também estou curiosa. Pela tua cara, é importante. E parece-me que está relacionado
com esse nariz espatifado...
Teria eu conseguido fugir-lhes? Claro que sim, não foi o que fiz semanas a fio? Todavia, e
porque gosto muito da Teresa e do Sebastian, achei que chegara o momento de lhes contar tudo.
Custou-me? Imenso. Sobretudo custou-me vê-los tristes por nunca lhes ter dito nada antes.
— Mas não confias em nós? — perguntou a Teresa, quase incrédula. — Isto dura há mais
de um mês?! Nós podíamos ter ajudado...
— Tens de perceber que o Jaime tinha medo de que nos falássemos com alguém, porque
isso podia piorar as coisas...
Esta frase do Sebastian resumia, e bem, as minhas dúvidas e receios. Ele sorriu:
— Tem-se falado tanto disso na escola. Eu só não conseguia entender por que raio as
pessoas escondiam estes abusos, por que razão se calavam, mas, sabendo como tu és, faz-me
sentido... Acho que teria feito o mesmo!
— E esse teu amigo... — disse a Teresa.
— O Joaquim, sim.
— Tens a certeza de que saiu do tal grupo, dos Fantasmas? Não te estás a meter entre
rivais? — Não estou. Quando o conheceres, vais mudar de opinião.
— E agora? Fazes o que eles querem, ou não? Tens dois logótipos?

Bicicleta à chuva 40
— Tenho... A ideia é...
Os meus amigos podiam ajudar-nos a organizar a corrida de pasteleiras (e, quem sabe, até
participar!). Contei-lhes a condição do Joaquim, do desafio, as combinações. Até lhes mostrei o
desenho que eles escolheram, porque o tinha copiado. Os meus amigos também gostavam mais
daquele!
— Eu já estou a perceber o alcance da ideia do tal Joaquim! — entusiasmou-se a Teresa. —
É genial! Conta connosco. Podemos até angariar fundos em mais lojas, somos mais a controlar.
Que excitação!
Eu e o Sebastian desatámos a rir. Lá estava a Teresa com a cabeça a fervilhar de ideias!
Mas, quando ela está assim, consegue mover montanhas! E nós precisávamos de pôr aquele
projeto a mexer.

Valdomiro
Nada de mãos dadas, nem coisas do género.
O nosso encontro era só isso, um encontro, nada de compromissos. Voltámos a falar no
concurso da autarquia, pelos vistos a coisa interessava à Clara.
— Mas como é que sabes que vais ganhar? Isso é que me está a fazer confusão.
— O miúdo ajeita-se bem.
— Sim, tudo certo, mas pode não ganhar.
— Pelo menos, tentámos.
Encolhi os ombros ao dizer isto, já farto das dúvidas dela. Como é que aquilo acontecera?
A minha vida eram os Alcaides. Agora, começava a ficar um bocado cansado de tudo. Nesse
instante, a Clara pegou na minha mão e fechou-a na dela, encaixadinha. Não comentei, mas
soube-me bem.
— Eu não estou aqui por tu seres o chefe do grupo — avisou.
Fiquei danado! A rapariga era bruxa, ou quê?
— Então? — perguntei, como se não tivesse ligado nenhuma.
— Gosto de ti. — Fez uma pausa e encostou a cabeça no meu ombro. — É isso.
Apeteceu-me dar-lhe um beijo no cabelo, mas depois achei que isso era uma cena de
menino rico. Também era esquisito ela ser tão determinada. Vacilei. Por fim, deixei cair a cabeça
sobre a dela. Talvez corresse bem.

Jaime
O pai apareceu no meu quarto já tarde. Viu que ainda tinha a luz acesa e espreitou. Parecia-
me que andavam muito preocupados comigo, ainda não se tinham apercebido de que, depois de
tudo o que sofrera sozinho, eu estava a entrar numa fase muito diferente.

Bicicleta à chuva 41
Sentou-se na beira da cama, sem saber muito bem o que dizer. Resolvi ajudá-lo:
— Não fiques assim, eu estou bem. — E, como prova disso, levantei o pijama. As marcas
no meu tronco, com a ajuda de umas pomadas que o farmacêutico aconselhara, estavam
finalmente a desaparecer. — Vês? Quase bom!
E estava! Tinha passado por semanas de puro terror, sem contar nada a ninguém. Aguentara
as dores físicas dos pontapés sofridos todos os dias, para além da dor da humilhação. Depois, de
um momento para o outro, conhecera o Joaquim, e os Alcaides haviam feito uma espécie de
encomenda. Nasceram então as versões finais dos logotipos e cada uma seguiu para o seu destino,
enquanto eu, o senhor António, o Joaquim e os meus dois amigos nos tínhamos empenhado em
preparar a corrida de bicicletas antigas com todo o bairro e, claro está, com os Alcaides.
— Eu sei que sim... — disfarçou o meu pai. — Contei aos meus colegas a vossa ideia. Eles
querem ajudar e mandaram isto.
Nas mãos dele, um saco cheio de parafusos, cabos, montes de peças soltas. Remexendo
naquilo tudo, percebemos que eram peças de bicicletas.
— Boa! Isto dá jeito! O pai do Valdomiro vai usá-las de certeza. Sabes que a Teresa
arranjou um folheto para inscrições na corrida? A competição é para todos, norte e sul, o bairro
inteirinho. Como só se pode entrar com pasteleiras, não devem ser muitas pessoas.
— E haverá prémios?
Fiquei atrapalhado. Não nos tínhamos lembrado disso. Se era uma corrida, alguém devia
ganhar, o meu pai estava certo.
— Não pensaram...? — brincou o meu pai. — Mesmo simbólico, tem de haver um prémio
qualquer, não achas?
— Tens razão, tens razão. Que grande maçada... Alguma ideia?
O meu pai ficou calado. Eu também me pus a imaginar o que seria melhor. Mas, de repente,
veio-me à cabeça uma coisa extraordinária! Contei-lhe logo, claro, mas tu, que me estás a ler,
vais ter de esperar para saber. Só te posso dizer que foi uma excelente ideia!

VII

Jaime
— Esta rua é melhor — opinou o Xistinho, todo debruçado sobre o mapa do bairro.
— Mas, se vamos por essa, já não passamos pelo centro comercial — lembrou o
Valdomiro, num tom tranquilo. — Devíamos passar por todas as lojas que andaram a angariar
fundos, não acham?

Bicicleta à chuva 42
— E não atravessamos a rua principal do bairro norte? — O Cassius não gostava de
qualquer rota que deixasse de fora aquela travessia.
— Essa aí, da loja do senhor António, também é obrigatória — acrescentou, empolgado, o
Joaquim.
Que reunião mais estranha! Num barracão do bairro, onde o pai do Valdomiro (o senhor
Valdomiro...) se encontrava a consertar bicicletas, havia uma enorme mesa. De volta dela,
estávamos nós: os Alcaides, o Joaquim, nós três e, ainda, a minha irmã.
Nem sei ao certo como fez a Luizinha para convencer os meus pais a acompanhar-nos, mas
conseguiu! Só faltava o senhor António, que não abandonava a mercearia por nada. O sábado
estava abafado, mas ninguém se sentia incomodado com isso.
— Eu gosto mais da hipótese que o Cassius deu — disse a Teresa, o que foi bastante
positivo para o clima entre os organizadores ser mais ameno. — E sempre é maior, quem ganhar,
vai mesmo esforçar-se! Ainda bem que não vou concorrer!
Rimo-nos. Ela estava disposta a fazer tudo menos... pedalar.
— E o que dizem de a Junta de Freguesia ter cedido, sem custos, este espaço? — disse o
senhor Valdomiro, não parando de trabalhar. — Estão à espera de qualquer coisa em troca, não se
admirem se vos obrigarem a trabalhar para eles!
— Está então decidido — concluiu o Valdomiro filho, não querendo estimular aquela
desconfiança típica do pai. — Passa aí o trajeto a caneta, Banholas.
— Ei!
— Tem calma, Teresa, não me importo.
E não é que não me importava mesmo? Havia, naquele tratamento, um bocadinho de
amizade. Mas o rapaz pediu logo desculpa, enquanto eu, não dando grande relevo à coisa,
passava o marcador pelas ruas escolhidas. Quando acabei, levantei o mapa e todos concordaram:
grande percurso!, em todos os sentidos.
A Teresa já andava de volta das inscrições. Havia oito jovens com bicicleta e vinte e um
sem... Ora, mesmo com todas as que estavam a ser recuperadas, so tínhamos dezassete, e as
inscrições acabavam no domingo. Faltavam-nos, pelo menos, quatro.
— E agora? Não podemos recusar inscrições. — O Sebastian tinha razão. — E para fazer
eliminatórias, fica muito mais complicado.
— Tive uma ideia genial — gritou a Teresa. — Fazemos a eliminatória com jogos
tradicionais.
— Que raio de ideia é essa?! — estranhou o Xistinho. — Tipo quê?
— Corridas de sacos de batatas, ou aquele jogo meio doido em que se leva uma colher de
pau na boca a segurar um ovo... ou...

Bicicleta à chuva 43
— Isso existe? — O Cassius, que provavelmente quereria um jogo ao murro, estava muito
desconfiado. — Não são brincadeiras de raparigas?
— Eu jogava isso em miúdo. E ao pião. Ah, havia outro, o mata!
Estas sugestões, vindas do pai Valdomiro, puseram-nos a pensar. A corrida dos sacos de
batata era fácil de preparar e executar, além de ser muito divertida de ver. A dos ovos rejeitámos
logo, que os tempos eram de crise e não se devia estragar comida.
— Oh, a dos ovos, vá! — pediu a Luizinha.
— Fazemos com bolas de ténis, tenho lá muitas — sugeriu o Xistinho.
Nenhum de nós se atreveu a perguntar porque teria o Xistinho tantas bolas daquelas, mas a
Luizinha já se tinha distraído com outra coisa. Depois de uma votação de braço no ar, ficou
decidido: eliminatória com corrida de sacos de batata; corrida de bicicleta para os apurados. —
Malta, preciso que experimentem mais estas duas!
E lá fomos nós, seguindo as ordens do pai Valdomiro. Experimentámos à vez.
Estávamos a uma semana do dia marcado; e estávamos a três dias de saber os resultados da
competição final dos logotipos. Eu já só tinha um trabalho a concurso, o dos Alcaides, o meu
preferido, porque na minha escola fora escolhido o de um professor, muito giro. Também
estávamos, alguns sem saber, a uma semana de uma grande inauguração...

Valdomiro
— Então?! Abandonas o trabalho e que se lixe? És um irresponsável!
Havia ainda montes de bicicletas por arranjar. Para mim, aquela desculpa de «Ah, hoje
estou cansado» não servia. A mão do meu pai levantou-se logo, mas não chegou a bater-me.
— Não falas assim com o teu pai, ouviste? Respeitinho!
— Eu não tenho de ter qualquer respeito por um homem que, quando lhe arranjam um
trabalho, mesmo sendo um trabalho pequeno, se balda ao combinado.
Não aguentou mais. Ia mesmo bater-me, mas eu segurei-lhe no braço. Já não tinha idade
para aquilo, foi o que senti. Depois, larguei-o à bruta, agarrei no casaco e saí porta fora. Pelo
barulho, acho que ele deu um murro na porta. Não me interessava, já estava quase a sair do
prédio.
Fui pela rua aos pontapés a tudo, ia furibundo. O Xistinho e o Cassius estavam a minha
espera, mas nao disseram nada. Eles bem sabiam como eram as cenas dentro de casa, nas deles
não deviam ser muito diferentes, pensei. Veio-me a ideia a Clara. Nunca a tinha ouvido queixar-
se de nada. Talvez fosse diferente. Talvez... talvez fosse por isso que ela era uma miúda diferente.
Fizemos a nossa patrulha, mas sempre em passo acelerado. Eu não aguentava ir mais
devagar, fervia todo por dentro. Ai de quem se metesse à minha frente. De que valia tentar mudar
as coisas? De nada. O meu pai nunca iria mudar, isso era limpinho.

Bicicleta à chuva 44
Quando chegámos ao barracão, até a corrida me parecia a coisa mais estúpida do mundo,
apetecia-me desistir. E a Clara tinha razão: podíamos nem sequer ganhar nada com a cena do
logótipo. Não podia entrar aos estalos na Junta e exigir um resultado bom para o nosso desenho.
Raio de vida!
Mas ouvi um martelar ritmado. Fiquei quase eufórico, mas nem olhei.
— Como vai, senhor Valdomiro? — saudou o Xistinho.
— Olá, rapazes.
— Sempre a trabalhar! — elogiou o Cassius, só para meter conversa.
Cruzei o olhar com o do meu pai. Nem me parecia furioso. Isso confundiu-me.

Jaime
Quando saí das aulas, encontrei o Joaquim à minha espera, montado na sua bicicleta verde.
Agarrei na minha e segui-o. Não precisávamos de falar muito. A nossa amizade, feita de
surpresas, descobertas e cumplicidades, funcionava bem desta forma.
Pedalámos até à sede da autarquia, onde seriam divulgados os resultados do concurso dos
logótipos. Já não estava preocupado em ganhar ou não, pois sabia que teria zero de hipóteses, e
também já não tinha medo dos Alcaides. A nossa ideia era outra, mas precisávamos de mais uma
ajudinha...
— Entrem, entrem! — pediu o vereador do desporto e juventude. Achei estranho que fosse
tão novo, mas pareceu-me logo muito acessível. — A funcionária disse-me que devia ouvir-vos, e
eu acredito no juízo da dona Fátima.
Quem era a dona Fátima? Uma das clientes do senhor António, sempre pronta a colaborar
em tudo e que, verdade seja dita, nos ouvira discutir a grande surpresa e se lembrara de nos
sugerir aquela conversa.
— Primeiro, queríamos agradecer a cedência do barracão — comecei eu, para o deixar
bem-disposto. — Foi uma enorme ajuda para prepararmos a corrida de bicicletas.
Não foi de propósito, saiu-me assim. O sorriso do Joaquim não me passou despercebido.
— Ora essa! Aquilo está abandonado há muito tempo, como sabem, sempre serve para
alguma coisa. E o que precisam de mim, digam lá? Se estiver ao meu alcance, terei todo o gosto
em apoiar-vos.
— Calculamos que ja saibam quem ganhou o concurso dos logótipos — começou o
Joaquim. — Bom... Sim... Mas não posso dizer-vos.
— Nem precisa! — avancei eu. — Há ai um que foi feito por um dos grupos mais... enfim,
mais complicados do bairro norte, de onde parte a corrida. Lembramo-nos de lhe pedir se nos
deixa fazer uma placa com o desenho para podermos afixá-la no barracão. Não é de certeza o
vencedor!

Bicicleta à chuva 45
O vereador hesitou um bocadinho. Por fim, levantou-se e trouxe dois logótipos.
— Por favor, não digam a ninguém que vos mostrei isto. Ainda é segredo, nem falamos
com os premiados. Ganhou este aqui — disse, mostrando um — e em segundo lugar ficou este
outro. Nem íamos dar dois prémios, mas o júri achou que valia a pena. Não é nenhum destes, pois
não?
Eu estava completamente calado, em choque. O Joaquim deu-me uma palmada nas costas,
enquanto explicava ao vereador:
— Esse segundo lugar foi desenhado aqui por este rapaz! Bem, pá, segundo lugar?!
— Desculpem, desculpem, deve haver aqui algum engano. Este veio com o nome
Alcaides... Até me assustei quando vi! Porque há um grupo que...
— É desse que estávamos a falar... — A minha voz saiu estranhíssima. — Mas é deles...
Quer dizer... Fui eu que o desenhei para eles concorrerem. Ia agora mudar as palavras, para tirar o
nome da autarquia e pôr o nome certo — Alcaides. Queríamos transformar o barracão num sítio
com bicicletas para as pessoas poderem usar. Está a ver? Estamos a pensar numa coisa
comunitária.
A testa do vereador franziu-se, sentia-se confuso.
— Talvez seja melhor contar-lhe o que se passou. — O Joaquim estava disposto a dizer
tudo, mas eu não, tinha medo de que algo corresse mal.
— Espera, Jaime, espera. Continuamos com o plano na mesma, vamos fazer-lhes a
surpresa. Afinal, sempre conseguiram o que queriam...
O vereador, enquanto ouvia a história, espiava as minhas reações. Eu mantinha-me
atordoado, porque sempre gostara mais daquele desenho e, afinal, era mesmo melhor do que o
outro. A certa altura, o vereador falou comigo:
— Não me oponho a colocarem lá a placa, claro que não. Mas devia dizer duas coisas:
primeiro, o nome de quem desenhou o logotipo, porque é justo; depois, devia dizer o prémio,
mesmo sendo o segundo lugar, e com a indicação de que a Junta de Freguesia apoia a iniciativa,
tanto cedendo o barracão como mandando fazer um placard melhor.
— Mas a ideia era que os Alcaides tivessem protagonismo — recordei ao Joaquim. —
Podemos deitar tudo a perder!
— Mas não vai refazer o desenho com o nome deles? Quer mais protagonismo do que isso?
— Jaime, já é uma sorte não andarmos em guerra, nem termos apresentado queixa contra o
grupo. Estamos a ajudá-los a dinamizar uma coisa que os afasta da violência, até demos trabalho
ao pai do Valdomiro e vamos pagar o tempo que gastou a arranjar bicicletas com o dinheiro que
angariámos. E tu? O que ganhas tu com tudo isto?
— Muito! — espantei-me. — Não é óbvio?!

Bicicleta à chuva 46
— Não. Também tens de aprender a respeitar-te, sabes? Acho que tens sido exemplar na
forma como lidas com eles, mas...
— É, a meu ver, uma questão de justiça — interrompeu o vereador. Tanto um como o outro
pareciam implacáveis. — Deixe isso comigo. Vou telefonar-lhes e terei propostas concretas para
vos dizer amanhã. Mas de uma coisa não abdico: que seja feita justiça ao seu e ao vosso esforço,
e ao nosso apoio.

Valdomiro
Sentei-me no banco, mesmo defronte da mercearia do senhor António. Ele viu-me logo, e
deve ter dito qualquer coisa para dentro, não sei. Passados uns minutos, o Joaquim atravessava a
rua na minha direção.
— Passa-se alguma coisa?
— Tens um minuto?
— Claro.
Fiquei um bocado atrapalhado quando o vi sentar-se ao meu lado. Era mais velho do que eu
uns dois ou três anos, talvez, mas ainda o via como membro dos Fantasmas.
— Gostava que me explicasses como é que um membro dos Fantasmas se torna num
ajudante de merceeiro e, ainda por cima, defensor de meninos ricos.
Riu-se.
— O Jaime é tudo menos um menino rico. Os ricos não vivem nesta zona, e tu sabes disso
muito bem.
— Deixa-te de tretas e responde-me.
— O que queres tu, afinal? Desculpas para seres o chefe dos Alcaides, é? Ou mudaste de
ideias? Sabes muito bem que defendi o Jaime porque sei exatamente o que lhe estavam a fazer. O
puto não tem estaleca para vos fazer frente, e ainda bem. Se queres desistir da corrida, diz já, não
me faças perder tempo.
— Nao é nada disso! Irra, não se pode falar contigo!
O Joaquim ficou mais calmo.
— OK, OK, desculpa.
Hesitei muito, mas tinha de lhe perguntar:
— O que é que tu ganhas com isto?
— Nada. Ganho o mesmo que tu. Isto é muito mais do que eu e tu ganharmos qualquer
coisa. Não és burro, Valdomiro, não te queiras fazer passar por ingénuo.
— E adianta?
— Se não experimentarmos, nunca vamos saber. — Ficou a olhar para os carros que
passavam entre nós e a mercearia. Por fim, disse apenas: — Tenho de ir.

Bicicleta à chuva 47
Vi-o regressar ao trabalho e desaparecer pelo meio dos caixotes. Fiquei ali sentado um
bocado. Nada na minha vida parecia fazer sentido. Ou seria o contrário?
Jaime
Cheguei a casa completamente dividido. Primeiro que tudo, ainda nem conseguia acreditar
que o meu desenho para o logótipo da autarquia tinha sido escolhido para segundo classificado.
Contudo, só imaginava a reação do Valdomiro, ao saber que iam lá pôr o meu nome... Para todos
os efeitos, continuávamos a não ser propriamente amigos.
Contei tudo à Luizinha, não aguentava mais. Ela ficou tão histérica como se eu lhe tivesse
posto uma dose dupla de chocolate no leite, excitada até dizer chega. Nem ligou às minhas
dúvidas, só queria era abraçar-me e dizer a toda a gente.
— Concentra-te nos trabalhos! Já viste essa conta?
— Qual conta? Então, está certo! Três vezes oito, dezoit... Ups! Vinte e quatro, pois é. Que
maravilha, ganhaste!!!
— Não ganhei...
— É igual! Que espetáculo!
— Os trabalhos...
— Está bem, pronto.
Assim que os meus pais chegaram, recomeçou tudo. Fartei-me de rir quando percebi que a
minha mãe estava de lagriminha ao canto do olho. Naquele dia, não me importei, era de alegria.
— Oh, mãe...
— Desculpa, desculpa. Mas depois de tudo o que se passou contigo, sinto que se fez justiça.
— Foi o que disse o vereador. Andam todos obcecados com a justiça!
— É verdade — argumentou a Luizinha, como se já tivesse a minha idade. — Eles
bateram-te muito e tu ainda os ajudaste!, ou já te esqueceste?
— Dito assim... — argumentei. — Mas tenho medo de que fiquem danados com esta coisa
de dizer quem fez o desenho. Pode voltar tudo atrás!
— Sabes, filho? — O meu pai estava mesmo sério. — Se isso acontecer, se a corrida não se
realizar, se deitarem tudo a perder, então não merecem nada de ti, nem do Joaquim, nem de todos
os que tem ajudado nesta vossa iniciativa. Parece-me que será a prova de fogo: ou entenderam a
mensagem e mudam de rumo, ou querem manter-se marginais, e aí terás de os deixar seguir.
— Mas... e se lhe voltam a bater, pai?
— Se isso acontecer, e espero sinceramente que não aconteça, então teremos de fazer
queixa deles à polícia.
Senti o meu estomago dar um salto.
Não podia acreditar nesse cenário, não depois de tudo o que já tinha acontecido. A minha
mãe abraçou-me e avisou que o jantar estaria quente em minutos.

Bicicleta à chuva 48
Eu, naquele momento, fervia!

VIII

Jaime
Ter, logo ao primeiro tempo, aula com o stor Adalberto é sempre fantástico. Acordo cheio
de vontade de voar até à escola! Nesse dia, com a primavera a oferecer manhas mornas, pedalei
bem depressa. Queria dizer-lhe, antes da aula, que o segundo lugar fora um desenho meu, mesmo
se nunca se viesse a saber.
Subi a rampa em esforço. É verdade, já tenho menos barriga desde que ando de bicicleta,
mas aquela rampa é mesmo exagerada. Fiquei ali, numa nervoseira, e o professor só chegou
quando tocou. Fui logo abalroado por todos os alunos e pela curiosidade do Sebastian e da
Teresa.
— Tens coisas para nos contar?
Como é que a Teresa adivinhava estas coisas?
— Ou será que já sabemos? — provocou o Sebastian, virando-me logo as costas.
— Atenção, atenção. Sentem-se, por favor. Tomás, estou à espera. Judite, telemóvel
desligado. — Quando a turma sossegou, o stor disse: — Temos de dar os parabéns ao nosso
Jaime. Chega aqui, rapaz. — Lá fui eu, super aflito. — Vocês sabiam que o Jaime, além de fazer
um desenho para o concurso da nossa escola, fez um outro para um grupo de rapazes do bairro
norte? — Ouviram-se uns sussurros. — É verdade! Mas atenção! Tenho de vos dizer que, com
esse desenho, ganhou o segundo lugar na competição!
Que grande alarido! A turma parecia louca, e os meus dois amigos assobiavam e gritavam
«Bravo!». Estavam super contentes.
— Como é que o stor sabe?
— Porque me chamaram para o júri! O meu trabalho ficou de fora, não te lembras? Percebi
logo que aquele desenho só podia ser teu. Mas os outros jurados foram unânimes, tanto no
primeiro como no segundo prémio. Estou muito orgulhoso de ti e acho que fizeste uma coisa que
poucos fariam. Falou-me o vereador, ontem à noite, a perguntar a minha opinião sobre o teu...
anonimato, chamemos-lhe assim. Eu penso como ele, já chega de segredos.
Mas a turma precisava de ficar sossegada, e, por isso, a conversa acabou ali. No final, a
porta, apenas me deu um abraço e voltou a falar da minha maturidade artística e do meu percurso.
Já no intervalo, a Teresa e o Sebastian bombardearam-me com perguntas, porque queriam
saber o que era aquilo do anonimato de que o professor tinha falado. Imaginei logo que iam dizer
o mesmo e não me enganei.

Bicicleta à chuva 49
— Parecem todos combinados — queixei-me. Mas depois lembrei-me: — Como é que
vocês sabiam?
— Foi o stor. Viemos com ele pela rampa acima. — O Sebastian parecia ligado à corrente,
imparável. — Fantastic!
— Hoje vamos lá ao barracão deixar os sacos de batatas e uns marcos para fazer a corrida
eliminatória — lembrou a Teresa.
— Se tudo correr bem...
— Sabes? Eu acho que vais ficar surpreendido.
— Para o bem ou para o mal, sim, surpreendido — gozou o Sebastian.
— Podemos falar de outra coisa...?

Valdomiro
— Com certeza... Sim, percebi tudo muito hem... ... Tenho de lhe dizer que o desenho é de
um rapaz que se chama Jaime... Exato, do Jaime... Uma placa? Obrigado... Conte connosco... Boa
tarde.
Desliguei o telefone e nem conseguia pensar como devia.
— Parecias um senhor a falar — gozou o meu pai. — Quem era?
— O vereador do desporto. Era da Junta.
— Desembucha, homem, o que foi?
— Parece que o Jaime ficou em segundo lugar no concurso...
Ainda me custava a acreditar no que acabava de dizer. O meu pai riu-se de mim, com
aquele modo trocista que, naquele dia, nem sequer me irritou.
— Isso é tramoia para nos sacarem mais qualquer coisa, vais ver. — Lá vinha a conversa do
costume. — Essa gente dá por um lado e tira pelo outro.

O que estava eu ali em casa a fazer? Saí porta fora. Precisava de contar tudo ao Cassius e ao
Xistinho. Não! Precisava de ir ter com a Clara e contar-lhe primeiro. Não, isso ia deixar os outros
furiosos. Mas não era o que eu queria? Irra!
Corri até ao mercado, chamei-a de parte e sussurrei-lhe a notícia ao ouvido, pedi-lhe
segredo. A Clara sorriu e abraçou-me. Corri feito louco. Onde andavam os Alcaides? Lá estavam
eles, em frente ao barracão, a fazer pontaria a umas latas.

Acalmei o passo. Estudei a pose, nao queria dar a impressão de estar delirante, isso não. Era
difícil. Chamei-os, vieram logo, obedecem-me sempre.
— Ganhámos! — disse-lhes.
— O quê?

Bicicleta à chuva 50
— Não foi bem, mas ganhámos! O desenho do Jaime...

Jaime
— Aí vem ele! — ouvi o Xistinho a gritar, e um arrepio desceu pelas minhas costas abaixo.
— Valdomiro! Cassius! O Batoc... O Jaime já chegou!
Eu não estava sozinho. O Sebastian, a Teresa e o Joaquim vinham comigo, mas posso
assegurar-vos de que o nervoso que tomou conta de mim foi quase igual ao que sentia ao descer
do autocarro, semanas antes.
A mão do Joaquim repousava no meu ombro, não sei se para me tranquilizar ou se para
avisar os Alcaides de que estava pronto para a luta, se fosse o caso. Mas nem isso me fazia ficar
mais calmo.
Quando o Valdomiro veio na minha direção, eu não consegui ver nenhuma expressão
especial nos olhos dele. Os outros dois, atrás, imitavam-no. Quantas vezes já vira eu aquela cena?
Uma mão estendeu-se para mim num gesto a que não consegui reagir bem, pois, primeiro, retrai-
me, achando que ele me ia bater. Mas o Valdomiro esperou que eu me recompusesse, e só então
fui capaz de lhe dar um aperto de mão.
— E não é que ganhaste mesmo aquela coisa?
— Não ganhei...
— Ganhámos! — reivindicou o Xistinho, levando logo uma cotovelada.
— Ganhaste, sim, ganhaste, mas nós também! Parabéns!
— Anda cá, Banholas, grande cromo do desenho! — disse o Cassius, puxando-me para si,
num abraço tosco, talvez por ser incapaz de fazer melhor. — Vão trazer-nos uma placa para
pormos aqui no barracão! Os Alcaides, clube de bicicleta do bairro.
— Ai sim? — perguntei. — Eles disseram-vos isso?
— Quando ligaram para mim, ontem, disseram que tínhamos recebido o segundo prémio.
Avisei-os logo de que o desenho era teu — explicou o Valdomiro. — Somos brutos, mas não
somos parvos.
— Assim é que é! — desabafou a Teresa, finalmente aliviada com a questão. — Nem eu
esperava outra coisa dos Alcaides!
Que grande remate, Teresa, que grande remate... Sucederam-se os apertos de mãos, os
abraços, e a minha querida amiga fez questão de dar beijos sonoros a todos.
— Estava aqui a pensar... — comentou o Cassius. — Talvez devêssemos chamar-nos os
Alcaides Fantasmas, não era?
A pergunta fora feita ao Joaquim, já se vê. Era evidente, para todos nós, que sem o Joaquim
esta história teria tido outro desfecho. O seu papel naquelas conquistas fora importantíssimo. Mas
ele sorriu e desconversou:

Bicicleta à chuva 51
— Isso foi há séculos... Alcaides resulta bem melhor. E temos muito para preparar, ou já se
esqueceram?
Atirámo-nos ao trabalho. Mas havia uma coisa que eu nunca iria esquecer: o papel de uma
bicicleta verde, encostada a um muro, entrelaçada na hera e na minha vida.

Valdomiro
— Abandonar os Alcaides, é isso que queres? — A Clara não me estava a facilitar a tarefa.
— Vais deitar tudo a perder, Valdomiro, logo agora?
— Deitar tudo a perder, como? Não te estou a perceber.
— Detesto quando te armas em burro — desabafou. — Não aprendeste nada com isto?
Achas que o Cassius é capaz de ficar à frente das bicicletas e de fazer daquilo uma cena diferente
para os miúdos da nossa zona? Ou vais pedir ao Xistinho que seja o chefe? O Joaquim não quer,
de certeza, já tem trabalho. Os outros miúdos andam na escola, não é? Podem ajudar, mas não
conseguem assegurar tudo o que é preciso. Tanto esforço para quê, se desistes?
— Não estás a perceber, eu não quero ser o chefe de um grupo como os Alcaides. Farto de
violência estou eu. Quero acabar com isto.
— Exatamente, está na hora de transformar os Alcaides numa outra coisa. E tens de ser tu a
fazer isso.
— Quem te ouvisse até ia pensar que acabaram os problemas todos do bairro e que ficou
tudo em paz. Parece um filme de sábado à tarde. Isso é uma parvoíce...
A Clara sorriu, mas não me respondeu. Também não era preciso. E estava fartinha de saber
que a ideia me assustava. Sempre fui mais de pancada e berros, não era fácil imaginar outra coisa.
O vento ia abanando o cartaz, quase tanto como eu me sentia a abanar.
— Aquilo nao vai aguentar tempo nenhum... — desconversei.
— Não tem importância — respondeu ela, apertando a minha mão nas dela. — É só um
cartaz...
E eu fui capaz de pensar: não tem importância, é só uma mudança. Seria?

Jaime
E é sobre tudo isto que vos falo hoje, uma semana depois da grande corrida em pasteleiras,
com 39 inscritos para 19 bicicletas, dezenas e dezenas de pessoas a assistir, já para não falar no
lanche surpresa que a dona Fátima, a dona Madalena, a minha mãe e o senhor António
combinaram com alguns vizinhos. E, claro, do encontro entre os dois lados do bairro. Até
conhecemos a miúda do Valdomiro, a Clara. Trouxe montes de flores para enfeitar as mesas.
Gostei dela...
Mas vamos por ordem!

Bicicleta à chuva 52
O cartaz que fizemos à pressa ficou horroroso, e voou passado dois dias. Contudo, o
vereador cumpriu a promessa e hoje, no sábado seguinte a corrida, um placard todo janota foi
colocado por cima da porta do barracão. Ao lado da entrada, numa
placa acrílica, está explicado tudo o que o vereador queria, e foi por
isso que muitos ficaram a conhecer-me por todo o bairro.

Quanto às corridas, a eliminatória e a de bicicletas, foram muito


divertidas. Os miúdos mais pequenos ganharam todas as provas dos
sacos de batatas, mas depois não conseguiam chegar com os pés ao
chão, porque as bicicletas eram enormes. Por isso, houve logo uma
professora que inventou uma gincana para eles, e os maiores, que já só
eram 19, podiam fazer toda a prova.

Nesse instante, e isso surpreendeu-nos, o Xistinho e o Cassius,


que se tinham inscrito e queriam, eu sei que queriam!, ganhar, cederam
o seu lugar na prova. Foram muito aplaudidos, ficaram logo todos
inchados.
A prova foi muito renhida, e ganharam dois do bairro norte e um
do bairro sul, mas nenhum dos lados do bairro se importou com isso. Fizemos a festa, e que festa!

Ao fim do dia, quando as pessoas começaram a dispersar, o Joaquim foi buscar a bicicleta
dele e a minha, e convidou-me a fazer o percurso traçado num ritmo tranquilo. Começava a cair
uma chuva miudinha. Achei que iríamos só nós, mas enganei-me.
Uns metros atrás, pedalavam, em grande conversa, mais cinco, e ouvia-se o chiar de uma
bicicleta pequena com rodinhas. Gotas num deserto? Talvez.

Margarida Fonseca Santos


Bicicleta à chuva
Rio de Mouro, Booksmile, 2015

Bicicleta à chuva 53

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