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Universidade Federal de Santa Catarina

Antropologia Jurídica

SPAREMBERGER, Raquel Fabiana Lopes; KRETZMANN, Carolina Giordani. In: COLAÇO, Thaís
Luzia. Elementos da Antropologia Jurídica. Páginas 97-127.

Capítulo 5 - ANTROPOLOGIA, MULTICULTURALISMO E DIREITO: O


Reconhecimento da Identidade das Comunidades Tradicionais no Brasil

"[...] os Estados não possuem uma composição homogênea e, com isso, o reconhecimento e a
tutela de todos os grupos presentes em sua formação é imprescindível para que a dignidade
humana seja realmente protegida e respeitada." (p. 97).

Antropologia Jurídica, Multiculturalismo e Reconhecimento da Identidade Cultural no Brasil


Atualmente, a antropologia jurídica da maior importância a temas como o papelada a
cultura, do poder e da história, focando seus estudos naquelas minorias étnicas e no processo
de globalização econômico e cultural. Segundo Rouland, a antropologia jurídica é um
instrumento de conhecimento, que mostra que o direito tem histórias as quais podem estar
nos lugares mais inesperados.
A questão multicultural é própria dos países de população heterogênea, que possuem
minorias exploradas, descriminadas e que foram, por muito tempo, sujeitas a um processos de
assimilação a uma cultura dominante. De acordo com Joaquin Abellán, existem dois tipos
principais de multiculturalismo, que podem ser diferenciados como:
1) O que exige o reconhecimento igualitário entre as diferentes culturas, defende o
fim das discriminações culturais e busca uma sociedade com uma cultura política
compartilhada. Nesse tipo, valoriza-se o pluralismo cultural e o direito individual
de participação livre em cada cultura.
2) O que é mais associado ao relativismo cultural, propondo o reconhecimento e
proteção dos diferentes grupos culturais como sujeitos próprios de direito
coletivo, ou seja, entidades culturais que possuem direito em si mesmas.
O multiculturalismo é fortemente associado à projetos emanciparíeis e contra-
hegemônicos, principalmente por exigir, diferentemente do pluralismo jurídico, o tratamento
igualitário além do reconhecimento cultural.
É sabido que no Brasil sempre houveram conflitos interétnicos, entre as tribos
indígenas. Entretanto, como declara Darcy Ribeiro, a situação muda completamente com a
chegada do europeu dominador e irreconciliável. Através das pestes, da disputa territorial e
pelas riquezas, da escravização dos índios e negros e da mercantilização do seu trabalho, o
homem branco foi denegrindo a cultura étnica das minorias e impondo a sua, forçosamente.
Os índios que aqui viviam sofriam práticas de integração, de modo que a sua situação como
"índios" fosse apenas temporária.
“Essa multiplicidade étnica e cultura é por vezes ignorada pelo Estado, que é morta
ineficiente no desenvolvimento de políticas públicas em prol desses grupos. Em nome da
garantia de liberdade e igualdade de todos os indivíduos, o que ocorre é a cegueira do Estado
diante da diferença, dos direitos coletivos de grupos que merecem atenção e respeito" (p.
103).
É necessário, porém, que o respeito à dignidade humana seja garantido ao indivíduo
enquanto membro de um coletivo cultural. “A cultura diferenciada dos povos indígenas
confirma a existência de concepções de direito e justiça muito diferentes das sociedades
ocidentais, existindo regras internas que devem ser respeitadas por todos os membros do
grupo e, da mesma forma, julgamentos e punições conforme regras próprias para quem não
segue o Direito interno” (p.104).

Identidade, Diferença e Reconhecimento


Para Charles Taylor, identidade é “a maneira como uma pessoa se define, como é que
as suas características fundamentais fazem dela um ser humano”. Nesse contexto, o
reconhecimento é essencial para formar a identidade de um indivíduo. Um reconhecimento
incorreto, além de faltar com o respeito devido, subjuga e marca o ser humano de forma cruel.
Castells separa as definições de identidade e do papel desempenhado pelos indivíduos
na sociedade. Nas suas próprias palavras, “enquanto os papéis são definidos por normas das
instituições e organizações sociais, as identidades são originadas pelos próprios atores sociais e
são construídas por meio de processos de individualização”(p.106).
Semprini define diferença como um processo social e humano, que é influenciado pelo
processo histórico. Já se sabe que a identidade é marcada pela diferença, que é o que
evidência o choque cultural. A identidade única e diferenciada é aquela que deve ser
respeitada e preservada, não assimilada e oprimida. É este também um dos defeitos da atual
democracia, que trata igualmente os desiguais, desconsiderando as diferentes identidades.

Conceito de Comunidades Tradicionais: O Que e Quem São?


Derani reconhece cinco elementos identificadores de uma comunidade tradicional: 1)
propriedade comunal; 2) produção voltada para dentro; 3) distribuição comunitária do
trabalho não-assalariado; 4) tecnologia desenvolvida e transmitida por processo comunitário e
5) transmissão de conhecimento e propriedade. Além disso, com base nos estudos de Diegues
e Arruda, podes-se extrair como características também: 1) dependência dos recursos naturais
para a sobrevivência; 2) ocupação de um mesmo território por várias gerações; 3) grande
importância a símbolos, mitos e rituais e 4) autoidentificação.
Diegues e Arruda ainda afirmam que “a identidade dos povos indígenas é definida de
forma mais clara que a identidade da população não-indígena, pois aqueles têm reconhecidos
o direito histórico a seus territórios quando do estabelecimento de áreas indígenas no Brasil”
(p.112).

Comunidades Tradicionais, Sustentabilidade e a Proteção do Patrimônio Biológico e Cultural


Existe um claro contraponto entre comunidades tradicionais e a sociedade ocidental
quando se trata da sociobiodiversidade. Enquanto para as primeiras ela representa a
sobrevivência material, a preservação dos costumes e a herança cultural dos antepassados,
para a segunda a vê como um instrumento de pesquisa e crescimento econômico. Nesse
contrasta, fica evidente que quem se prejudica são as comunidades, que perdem em
diversidade, valorização do ser humano e biodiversidade, em nome da soberania econômica
dos países ricos.
“Pode-se reconhecer nas comunidades tradicionais uma capacidade de auto-
organização, que só foi possível graças à riqueza da biodiversidade presente em seus
territórios. Quando essa biodiversidade é vista como um objeto, fonte de matéria prima para
as multinacionais, além da ameaça à biodiversidade, ocorre a ameaça à auto-organização das
comunidades e, consequentemente, uma dependência maior da intervenção estatal, tanto no
desenvolvimento de políticas em benefício dessas comunidades, quanto na necessidade de
proteção jurídica, uma vez que as relações sociais, econômicas e culturais são alteradas e
podem modificar o modo de vida tradicionalmente desenvolvido” (p.118).
A Convenção sobre Diversidade Biológica reconheceu que a preservação da
diversidade biológica está interligada ao modo de vida das comunidades tradicionais.
Entretanto, apesar deste e do reconhecimento dos direitos socioambientais na Constituição
Federal de 1988, não existe um sistema de proteção legal eficaz quando se trata de garantir e
preservar os direitos das comunidades tradicionais.

Multiculturalismo, Emancipação e Cidadania


Santos e Nunes rejeitam a política de integração, afirmando que elas negam os direitos
coletivos das comunidades tradicionais. Na visão dos autores, deve-se “defender a igualdade
sempre que a diferença gerar inferioridade, e defender a diferença sempre que a igualdade
implicar descaracterização”, sem jamais subjugar e tentar assimilar a cultura desses povos à
cultura soberana vigente.
Embora ainda seja fundamental o papel do Estado na garantia e na instituição dos
direitos de cidadania, a concepção clássica desta não é o suficiente para as comunidades
tradicionais. Seria necessária a ampliação da noção de democracia, de soliedariedade e
participação social para garantir a emancipação e inclusão desses povos.

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