Você está na página 1de 7

Universidade Federal do Ceará

Departamento: Faculdade de Educação – FACED


Disciplina: Estudos Sócio histórico e Culturais da Educação Brasileira
Graduação em Química Licenciatura

Docente: Dr. Hildemar Luiz Rech


Discente: Vivian Stephanie Ferreira Rodrigues

Resenha do livro: “A escola não é uma empresa: o neoliberalismo em ataque ao ensino


público” de Christian Laval

Fortaleza - CE
2020.2
Educar vai além do processo de transmitir um conhecimento, educar é orientar,
formar, aprender e ensinar, é trocar saberes e com isso moldar um bom ser humano. Ao
frequentar o ambiente escolar, é iniciada a convivência com pessoas que possuem um dia a
dia diferente, que passam por situações diversas. Sendo assim, surge um processo de
assimilar, conhecer e compreender como essas diferentes realidades funcionam. Sabendo
disso, pode-se definir a educação como o processo de ensino e aprendizagem de
desenvolvimento do ser humano. Dessa forma, analisa-se a escola como espaço sociocultural,
compreendendo-a na ótica da cultura que leva em conta a dimensão do dinamismo, do
fazer-se cotidiano, levado a efeito por seres humanos concretos, sujeitos sociais e históricos.
Enxergar a escola como espaço sociocultural implica resgatar o papel dos sujeitos
na trama social que a constitui enquanto instituição. Assim, a instituição escolar até a década
de 80 era pensada nos marcos das análises macroestruturais, isto é, eram analisados os efeitos
produzidos na escola, pelas principais estruturas de relações sociais, definindo a estrutura
escolar e exercendo influências sobre o comportamento dos sujeitos sociais que ali atuam.
Desse modo, entende-se que a educação escolar é veiculada por uma instituição de ensino e
trata-se de uma peça chave na montagem que toda sociedade precisa para ser, existir e
conviver.
A partir dos anos 80, a problemática da reforma e reestruturação do Estado
constituiu um tema central do debate político que está na origem de medidas políticas e
legislativas que afetam a administração pública em geral e, consequentemente, a educação. É
o caso, por exemplo: da descentralização; privatização; da autonomia das escolas; da livre
escolha da escola pelos pais; do reforço de procedimentos de avaliação e prestação de contas;
da diversificação da oferta escolar (cada “público” sua escola); da contratualização da gestão
escolar e da prestação de determinados serviços;
Nesse contexto, são discutidas e aplicadas medidas políticas e administrativas na
educação que alteraram os modos de regulação dos poderes públicos no sistema escolar,
muitas vezes com recurso a dispositivos de mercado. Estas medidas podem obedecer e serem
justificadas em função de critérios de modernização, desburocratização e combate à
“ineficiência” do Estado. Nesse sentido, pode haver a substituição desses poderes públicos
por entidades privadas, constituindo, dessa forma, um campo privilegiado da intervenção do
Estado, seguindo a ideologia neoliberal e neoconservador na qual é preciso “libertar a
sociedade” do controle do Estado através da privatização.
Segundo o professor e sociólogo Petras (1997), o modelo liberal articulado ao
modo de produção capitalista desempenha a função ideológica de influenciar modos de
pensar e conduzir politicamente nações do mundo todo. Disseminando a ideologia filosófica e
política do liberalismo e impregnando nas sociedades seus princípios, não poderia deixar de
implicar-se também sobre a educação. Dessa maneira, entende-se que o liberalismo e o
neoliberalismo não podem ser compreendidos apenas como ideologias de sustentação e
justificação do capitalismo e do capitalismo avançado, respectivamente, é mais pertinente
compreendê-los como formas de vida, como maneiras de ser e de estar no mundo.
Por este motivo, o sociólogo Christian Laval discute rigorosamente sobre a crise
de autenticidade da escola em tempos de avanço neoliberal colocando em questão os valores
embutidos atualmente na educação, como “inovação” e “eficiência”. Em sua obra “A escola
não é uma empresa”, Laval faz um diagnóstico geral das mudanças nos sistemas educacionais
influenciadas pelo neoliberalismo escolar e mostra como alguns órgãos pressionam os
sistemas de educação nacionais a fazer com que as instituições de ensino e os profissionais
que nelas trabalham se moldem às necessidades do capitalismo contemporâneo.
Ademais, para Christian Laval o capitalismo é a expressão da história, das
metamorfoses, das crises e das lutas que a transformam constantemente. Diante disso, o
neoliberalismo vem transformando cada vez mais o capitalismo, resultando na modificação
das sociedades. Laval reforça que o neoliberalismo deixa de ser apenas uma ideologia, um
tipo de política econômica, e se torna um sistema normativo que ampliou suas influências no
mundo inteiro. Com isso, a “governamentalidade” neoliberal seria um regime de condutas
centrado na temporalidade do capitalismo “naturalizado”.
É a partir desse discurso que surge o termo “escola neoliberal” que designa um
certo modelo escolar que considera a educação como um bem essencialmente privado cujo
valor é, antes de tudo, econômico. As reformas liberais da educação são guiadas pelo papel
crescente do saber na atividade econômica e pelas restrições impostas pela competição
sistemática das economias. Essas reformas pressionam, em escala mundial, para a
descentralização, para a padronização dos métodos e dos conteúdos, para o novo
"gerenciamento" das escolas e para a "profissionalização" dos professores. Tal fator, modifica
a análise escolar onde seu centro de gravidade era não somente no valor profissional, mas
também no valor social, cultural e político do saber.
Esse novo modelo escolar e educativo que tende a se impor está fundamentado na
sujeição mais direta da escola à razão econômica. Devido a isso, surgem medidas como as
provas padronizadas que incentivam a competição, criando um ambiente onde existe a
necessidade de se destacar, e ideias como as de capital humano, de competências e
habilidades que se prestam a atender mais os interesses do mercado que à formação dos
estudantes, criando, dessa forma, futuros cidadãos com aptidões para o mercado de produção,
mas que deixam a desejar no tocante de criticidade.
As organizações internacionais de ideologia liberal, acompanhadas pela maior
parte dos governos de países desenvolvidos, propulsionaram essa concepção da escola,
fizeram da competitividade uma proposição que se admite como verdadeira, mesmo se
indemonstrável, dominante dos sistemas educativos: "A competitividade econômica é também
a competitividade do sistema educativo”. Um exemplo disso é o desenvolvimento de um
sistema de ensino pré-universitário unificado, em que o sistema escolar convence o aluno de
que é necessário competir para atingir altos escalões, e de que seu destino social depende
sobretudo de sua natureza individual. Essa exigência do novo capitalismo de mobilizar em seu
favor a potência de individuação de cada um é uma das expressões do exercício do que
Foucault (1979) chama de governamentalidade neoliberal.
Com o ensino técnico e profissional, a universidade é diretamente afetada por essa
ideologia. A universidade deve relacionar sistematicamente a formação e sua finalidade
seguindo as necessidades do mercado. Em decorrência disso, a organização completa dos
cursos é comandada pela ideia de que todo diploma universitário é um diploma profissional.
Nesse domínio, permanece a questão de saber se a universidade é feita para distribuir uma
formação muito especializada e ajustada às necessidades das empresas ou se ela não estaria
mais no seu papel de uma formação geral, permitindo uma maior autonomia na vida.
Uma disciplina tecnológica ou geral, dessa forma, não é considerada o conteúdo
dos saberes que deve importar para os professores, mas a percepção e a avaliação da utilidade
profissional dos cursos aos olhos das exigências requeridas pelo mundo econômico. Além
disso, essa profissionalização da educação como um todo atém-se a um duplo imperativo
formulado pelas empresas em que de um lado o conhecimento deve estar no centro da
reorganização do trabalho, o que passa pelo aumento do nível escolar de todos os
trabalhadores enquanto de um outro lado, são esperadas dos trabalhadores uma maior eficácia
e uma inalar "flexibilidade". Esta eficácia e flexibilidade esperadas dos trabalhadores pelas
empresas está diretamente relacionada com o constante processo de mudanças no mercado de
trabalho atualmente. Mudanças estas que acontecem para que haja evolução contínua não só
para empresa e profissionais, mas também para os clientes, que estão sempre em busca de
soluções inovadoras para sanar suas necessidades.
Além disso, a escola neoliberal introduz uma enunciação de metas educativas,
com o comparativismo escolar e o estabelecimento de hierarquias em função da eficácia
conseguida, que causa a marginalização de todos os projetos educativos que incidam em
conteúdos culturais e valores que não estão conectados com o desempenho de postos de
trabalho que usufruem de conhecimento social. Visto isso, a ideologia neoliberal pode afetar
também o estudo de disciplinas e cursos em escolas e universidades ao banalizar o ensino das
ciências humanas nesses ambientes, uma vez que tais ciências não atendem aos interesses
direto do mercado capital. Os cursos e disciplinas que abordam as ciências sociais, tanto em
escolas quanto em universidades, levam em consideração o saber humanitário no qual o
principal objetivo é a compreensão dos estudantes à ascensão cultural e social, contrário ao
que a ideologia neoliberal defende. Por essa razão, vê-se maior interesse em cursos e
disciplinas que favoreçam os interesses do capitalismo avançado, com uma educação
padronizada que prepara profissionais para trabalharem em indústrias ou empresas.
Entretanto, mesmo que seja necessário defender a universalidade das legitimações
expedidas pela escola para resistir à fragmentação, acrescida por uma oferta de formação
profissional, é necessário também defender a autonomia da escola em face de um
neoliberalismo que considera que todas as instituições, inclusive as públicas, devem ser
colocadas a serviço da máquina econômica em detrimento de qualquer outra finalidade.
Defender a necessidade de uma cultura técnica não significa necessariamente a subordinação
às exigências das empresas, pelo contrário, muitas técnicas e saberes não apresentam apenas
destinação profissional, mas têm hoje em dia um uso social muito extenso.
Trazendo esses conceitos para uma perspectiva brasileira, percebe-se que a taxa
de admissão nas universidades no Brasil é inferior quando comparada com as de outros
países. Em contrapartida, apesar das medidas governamentais tomadas pelo Governo Lula
para ampliar igualitariamente o ensino através de um sistema de cotas raciais e sociais, o
índice de desigualdade social no Brasil é muito superior ao de outros países. Essa mesma
situação ocorre em todos os níveis de ensino, seja ele privado ou público. Tem-se que o
sistema educacional brasileiro é um dos mais neoliberais existentes, dessa maneira, afirma-se
que o Brasil chegou primeiramente ao estágio do capitalismo escolar e universitário
caracterizado pela intervenção direta e maciça do capital no ensino.
Outro fator importante a se enfatizar é que a educação se trata de um fenômeno
cultural, isto é, acontece em todos os lugares e de diferentes maneiras. Ela reflete a sociedade
em que ocorre, portanto, em sociedades tribais, por exemplo, ela é comunitária e igualitária; já
em nossa sociedade capitalista é específica, individualista e desigual. Diante disso, a educação
muitas vezes pode estar a serviço das classes dominantes como ocorre em uma escola regida
pelas orientações neoliberais, mas também pode ser considerada propulsora para o
crescimento, integração efetiva na sociedade e emancipação da pessoa.
Em suma, conduzindo uma reflexão acerca do cenário educacional brasileiro
sabe-se que, constitucionalmente, existe uma concepção liberal da educação, que por sua vez
influencia na administração, organização e gestão escolar. No discurso neoliberal, a educação
deixa de ser parte do campo social para ingressar no mercado, funcionando à sua semelhança
e cumprindo os seus interesses. O neoliberalismo, portanto, aborda a escola no âmbito do
mercado e das técnicas de gerenciamento, esvaziando, assim, o conteúdo político da
cidadania. Em vista disso, essa ideologia neoliberal enxerga alunos e pais de alunos como
consumidores, atrelando a educação escolar à preparação para o trabalho e a pesquisa
acadêmica ao imperativo do mercado.
Como consequência a política neoliberal atrelada ao sistema educacional, o
aumento da pobreza e da exclusão conduzem à conformação de sociedades estruturalmente
divididas nas quais, necessariamente, o acesso às instituições educacionais de qualidade e a
permanência nas mesmas tende a transformar-se em um privilégio do qual apenas as minorias
possuem acesso. Nessa perspectiva, enquanto as elites possuem o privilégio de uma formação
completa e abrangente, as classes populares são destinadas à aprendizagem de saberes básicos
e elementares, necessários aos ofícios que irão exercer no mundo do trabalho.
A educação regida pelas orientações neoliberais busca fortalecer o sistema
capitalista e manter privilégios elitistas no controle das decisões do país. Por este motivo, os
governos neoliberais têm tornado o país cada vez mais pobre, excludente e desigual. Em
contrapartida, ocorre um processo de resistência por meio de lutas em defesa sistemática da
educação pública, gratuita e de qualidade que venha incorporar as políticas públicas
educacionais para o país. Por ser o reflexo do nível de desenvolvimento da própria sociedade,
o debate acerca da educação é fundamental e deve ser problematizada.
Destarte, à face do exposto nota-se a extrema importância da sociedade se manter
ativa na luta contra um sistema de exclusão social que quebra as bases de sustentação
democrática do direito à educação como pré-requisito básico para a conquista de uma
sociedade igualitária. De maneira semelhante, com o intuito de propagar um sistema
educacional mais inclusivo e democrático, faz-se necessário que haja também uma
intensificação dos investimentos na educação que pode se iniciar a partir da ampliação de
programas educacionais.
Referências:

FOUCAULT, Michel. Nascimento da Biopolítica. Curso dado no Collège de France (1978 -


1979). São Paulo: Martins Fontes, 2008.

LAVAL, Christian. A escola não é uma empresa: o neoliberalismo em ataque ao ensino


público. Boitempo Editorial, 2019.

PETRAS, J. Os Fundamentos do Neoliberalismo. OURIQUES, N. D. RAMPINELLI, W. J.


(Orgs). No Fio da Navalha: Crítica das Reformas Neoliberais de FHC. São Paulo: Xamã,
1997.

Você também pode gostar