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Sistemas de Comunicação Óptica

Introdução

Desde que o mundo é mundo, nunca, nós os seres humanos, havíamos passado por tamanho
volume de mudanças em nossas vidas, atingindo atividades como produção, comércio, serviços,
ensino, entretenimento, pesquisas e assim por diante. Enfim, todas as atividades humanas estão
passando por brutais transformações, afetando a oferta de empregos, o perfil dos profissionais
solicitados pelo mercado de trabalho, o mercado de produtos oferecidos e procurados, as relações
humanas, as trabalhistas, as estruturas familiares, e, com isto, são criadas novas situações sociais,
políticas, econômicas, militares e quaisquer outras que sejam pensadas.
Por que tudo isto? Poderíamos dizer que a resposta estaria na tecnologia disponível no
mundo atual. A famosa terceira onda de Alvin Toffler, a onda do conhecimento. Mas, dentro dela, há
um agente propulsor de grandes transformações: a comunicação. E a consideramos não de forma
isolada, mas ligada à maneira como é gerada, processada e transmitida. Hoje, não apenas o
conhecimento, mas também a informação, virou um produto, uma ferramenta e um agente de
transformação. Nesta seção, vamos dispensar alguma atenção à idéia da comunicação enquanto um
sistema de comunicação, com ênfase para a tecnologia óptica.
Deixando de lado qualquer definição de cunho acadêmico, vamos definir o que é
comunicação como um processo de interação entre dois sistemas ou dois seres. Processo este que
contém alguns elementos tais como:

- informação
- código
- lógica
- veículo.

Para os seres humanos os seus cinco sentidos são as janelas de comunicação com tudo e
todos à sua volta. Tendo o som (ondas sonoras) como veículo, somos capazes de emitir palavras que
são um código no qual uma lógica estabelecida permite que um significado, ou semântica, parta de
alguém para outrem. É a comunicação auditiva, com a qual já podemos ver quais são os elementos
básicos de um sistema de comunicação:

- Emissor (Boca)

- Meio (Ar)

- Receptor (Ouvido)
2 Comunicações Ópticas

Antes do emissor há um elemento que elabora a codificação, no caso o cérebro humano, o


mesmo que na outra extremidade realiza a função de decodificador da informação recebida.
Comunicar significa levar informações transmitidas a partir de uma fonte e compreendidas em seu
destino.
Duas pessoas dialogando pode ser configurado como um sistema de comunicação. Primeiro,
um sistema de comunicação sonora, pois é o som o veículo que transporta as palavras, as quais
contendo um código, levam, em si, a informação transmitida. Duas pessoas conversando também
podem ser consideradas como um sistema óptico, pelo menos no que se refere a parte da
comunicação que é feita pela visão; logo, baseando-se naquilo que é transmitido pela luz. Se a
conversa fosse inteiramente por sinais, como ocorre entre duas pessoas surdas, teríamos um sistema
puramente óptico.

Quero
comprar
uma TV

Amigo!
quero comprar
uma TV.

Fig.(1.1-0) – Ilustração de uma comunicação auditiva.

Os meios de comunicação encontrados na história do homem sempre apresentaram uma


estreita correlação com as sociedades envolvidas, sendo o seu grau de complexidade intimamente
relacionado com a complexidade delas. Partindo dos meios próprios do seu corpo, como a fala, e
usando os seus cinco sentidos o homem teve exemplos básicos de sistemas de interação com o
mundo onde vivia; daí a sistemas artificialmente criados foi um passo.
O nome sistema de comunicação óptica traz em si a idéia de comunicar, o que é uma
necessidade básica do ser humano. Antes de qualquer consideração sobre projeto de sistemas
ópticos, devemos em primeiro lugar considerar o que é um sistema de comunicação óptica. Neste
capítulo vamos estudá-lo, analisando a sua estrutura básica, seus elementos fundamentais, a saber:
fonte de luz, meio de transmissão e fotodetector, é certo que outros elementos, como: conectores,
acopladores, WDMs, amplificadores à fibra dopada com Érbio ou Túlio, aparecem a cada instante.
Tais elementos trazem consigo diferentes formas de interferência no projeto de um sistema de
comunicação óptica, sua estrutura, seu desempenho e os tipos de serviços a serem disponibilizados
por meio dele.

1 - Um pouco de história
O uso das comunicações ópticas é sempre sugerido como uma grande tecnologia,
definitivamente conquistada nas últimas duas décadas. Entretanto, já na década de quarenta,
engenheiros e cientistas “sonhavam” com o uso de ondas eletromagnéticas de pequeno comprimento
de onda, abaixo de milímetros (microondas), em comunicação. Este sonho teve início com a
efetivação da telegrafia sem fio, quando a invenção do físico italiano Guglielmo Marconi se
transformou numa realidade prática.

F. D. Nunes
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Conquanto seja uma realidade tecnológica


da geração atual, as comunicações ópticas em última
análise são uma velha opção dos seres humanos, a
começar pelo uso do sentido da visão. Afora este
exemplo trivial há referências a outras tecnologias
além da “simples” visão no dia a dia. Livros fazem
referências ao sistema inventado por Chappe, na
França em 1791, usualmente
chamado de semáforo. O semáforo formava
um sistema de linhas de torres de comunicação,
distribuídas ao longo de caminhos entre locais a se
comunicarem. Nestas linhas, existiam torres que
possuíam um sistema de dois braços pivotados,
como ilustra a fig.(1.1-1). Operadores destes braços
enviavam mensagens através de sinais codificados
que eram observados e reproduzidos na torre
posterior. Com isto os sinais eram passados adiante
sendo, segundo alguns, o primeiro sistema de
comunicações de alta velocidade da história da
humanidade. Sua taxa de transmissão seria algo
menor do que 1 bit/s e alcançava distâncias da
Fig.(1.1-1) - Ilustração de uma torre com um
ordem de quilômetros. Particularmente entre Lile e semáforo para comunicação visual.
Paris, distantes de 230 km, uma transmissão levava
algo como quinze minutos.
Entretanto, por essa forma a sofisticação dos semáforos, podemos dizer que outros povos,
não considerados tão avançados quanto os franceses, usavam a visão como receptor de sinais
emitidos a partir de pontos distantes. Como os índios da América do Norte que transmitiam
informação através de sinais de fumaça, um verdadeiro sistema de comunicação óptica. Ou, indo
mais para trás na história humana, sabemos que Políbio transmitia informações usando uma matriz
com as letras gregas, na qual as letras eram escolhidas uma a uma com o uso de duas tochas, como
ilustra a fig.(1.1-2). Consta que com tal sistema se comunicou ao governo em Atenas a vitória dos
gregos na ilha de Creta.
Com o invento do telégrafo em 1835, pelo
americano Samuel F. B. Morse, o Semáforo
rapidamente desapareceu e o uso de sinalização para
comunicação ficou reduzido a um uso marginal. A
comunicação com bandeiras na marinha é, ou foi, um
exemplo de meio óptico de comunicação que foi α β χ δ ε
substituído pelo telégrafo dando início à era das
comunicações elétricas.
φ γ η ι ϕ
A palavra telégrafo se origina das palavras
gregas tele, significando distante, e grafos,
significando escrita. Assim sendo, seu nome indica κ λ µ ν ο
um sistema de escrita à distância. A primeira
transmissão se deu em 1839, da cidade de Baltimore
até Washington e a mensagem foi: “What hath Gods π θ ρ σ τ
wrought!”.
Com o telégrafo se iniciou uma era
fundamental das comunicações modernas, usando-se υ ϖ ξ ζ ω
sinais elétricos transportados via fios metálicos. Era
um sistema de transmissão digital, usando dois
dígitos, representados por um bit curto e um bit Fig.(1.1-2) - Matriz de letras usada por Políbio
longo, ou um ponto e um traço que constituí o código para transmissão de mensagens.
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Morse. O telégrafo transmitia a taxas em torno de 10 bits/s, alcançando distâncias de até 1000 km
com o uso de estações repetidoras.
O telefone, inventado por Graham Bell, aparece em 1886, dando início aos sistemas
analógicos de transmissão, também de caráter elétrico. Tal sistema foi, sem dúvida um elemento de
fantástico impacto tecnológico, mudando crucialmente os hábitos sociais, mercadológicos e outros
aspectos mais da vida humana, no século XX. As constantes demandas por maiores volumes de
interconexões telefônicas promoveu o desenvolvimento dos sistemas implantados, incluindo-se nisto
o aparecimento dos cabos coaxiais em substituição aos de pares de fios, em aplicações requerendo
maiores taxas de transmissão, como por exemplo a transmissão de sinais de TV. Já em 1940
apareceu o primeiro sistema de comunicação operando com cabo coaxial, transmitindo 300 canais
de voz, ou um de TV, com uma banda de 3 MHz.
Porém os cabos coaxiais têm o limitante de aumentarem as suas perdas com o aumento da
freqüência do sinal. Isto se torna mais grave para freqüências acima de 10 MHz. Não é de se
estranhar, pois o aparecimento de meios de transmissão com maiores freqüências, como foi o
aparecimento das microondas por volta do final dos anos quarenta. Em 1948 apareceu o primeiro
sistema comercial de microondas, operando a 4 GHz e permitindo taxas da ordem de 100 Mb/s.
Antes, e durante a segunda Guerra Mundial, já estavam sendo investigados, a nível
experimental e de cunho militar, sistemas de comunicação usando luz incoerente com altas taxas de
transmissão de informação. Tais sistemas usavam parabolóides refletores e fotomultiplicadoras.
Entretanto, as ondas eletromagnéticas no espectro do rádio, propagando-se na atmosfera, ainda eram
a grande opção das comunicações.
A década de cinqüenta trouxe o início da Eletrônica do Estado Sólido, primeiro com os
dispositivos discretos e depois com os integrados, os famosos CI’s. Era uma dramática mudança
tecnológica, inicialmente desapercebida por muitos. Na década de sessenta a tecnologia dos sistemas
de microondas, baseados em válvulas e componentes de guia de ondas, já era uma realidade
consolidada. Entre os novos desafios procurados, estava o uso dos dispositivos de microondas a
semicondutor e circuito integrado e a tentativa de se tornar prática a existência de guias ópticos.
Vários tipos de estruturas de guias de ondas foram propostos, baseados em lentes, espelhos, e outros
elementos.
O uso de guias dielétricos já estava sendo discutido, como, por exemplo, os guias dielétricos ocos.
Embora o uso de fibras de vidro já ocorresse desde a década de cinqüenta, com os feixes de fibras
(bundles) para uso em medicina, até meados de década dos sessenta poucos consideravam possível a
aplicação de fibras de vidro como guias ópticos para sistemas de comunicação. Um dos principais
motivos estava nos altíssimos valores das perdas ópticas dos vidros existentes, capazes de atingir
1000 dB/km de atenuação na transmissão de luz. Tal perda era algo tão grande que a quantidade de
energia necessária para se transmitir apenas um fóton, de comprimento de onda igual a um
micrômetro, ao longo de um quilômetro, seria igual a 2 x1081 Joules. Considerando que a produção
mundial de energia elétria à época era de 3x1020 Joules, seria necessário um armazenamento, sem
perdas, por um período de 1061 anos a fim de que, transformada em luz de comprimento de onda já
especificado, houvesse apenas um fóton após um quilômetro de fibra. Assim, quando Kao defendeu
a idéia de que as fibras de vidro viriam a ser um meio de comunicação, ele foi considerado um
maluco!
No início da década dos anos setenta, quando Kapron e outros pesquisadores da Corning
Glass Works, anunciaram fibras de vidro com perdas de 20 dB/km, começou a ficar claro, enfim,
serem elas um meio promissor para uso em comunicação como guias de sinais ópticos. Não apenas
com avanços na qualidade dos vidros, mas também, no processo de fabricação das fibras, o método
CVD (Chemical Vapor Deposition), as perdas das fibras foram reduzidas a 7 dB/km em 1973
(Corning Glass Works). Em 1973, a Bell Laboratories, com o processo MCVD (Modified Chemical
Vapor Deposition), obteve fibras com 2,5 dB/km. Este processo se tornou padrão na fabricação de
fibras nos anos seguintes. De 1974 a 1975 novos avanços ocorreram, realizados por várias empresas
nos Estados Unidos e no Japão, e as perdas das fibras ópticas foram reduzidas a algo entre 2,0 e 1,5
dB/km. No final dos anos setenta a Ibaki Electrical Communication Laboratory e a Fujikura Cable
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Works reportaram fibras com perdas de 0,47 dB/km, quando operadas com luz de 1,2 µm.
Atualmente, perdas abaixo de 0,1 dB/km são uma realidade para fibras operando em 1,33 e 1,55 µm.
Também, na década de sessenta, as fontes de luz não estavam apropriadamente preparadas
para funcionar em um sistema como conhecemos hoje. Por outro lado, no início desta década surgia
o domínio de um processo de geração de luz que seria fundamental para a viabilização das
comunicações via processos ópticos. A geração de luz coerente. Primeiro foi o MASER (Microwave
ou Molecular Amplification by Stimulated Emission of Radiation), inventado pelo físico americano
Charles H. Townes e cooperadores. Em segundo lugar veio o LASER (Light Amplification by
Stimulated Emission of Radiation), cuja possibilidade de construção foi mostrado por Townes e A.
L. Schawlow. O primeiro laser foi construído por T. H. Maiman, em 1960, usando um bastão de
rubi. Os lasers de semicondutor apareceram por volta de 1962 quando Keyes e Quist, do Lincoln
Laboratory, anunciaram na Solid-State Device Reaserch Conference, em julho de 1962, a operação
de um dispositivo eletroluminescente de GaAs, funcionando a 77 0K, e capaz de emitir luz com
quase 100% de eficiência quântica. Em setembro de 1962, Hall e colaboradores observaram,
definitivamente, a emissão de luz coerente por uma junção p-n de GaAs diretamente polarizada e
operando a 77 0K. Passando dos lasers de homojunção para os lasers de heteroestrutura dupla,
inventado pelo físico russo Zh. I. Alferov do Ioffe Institute em Lenigrado, os lasers de
semicondutores se tornaram comerciais no início dos anos oitenta. Alferov Foi, recentemente
laureado com o prêmio Nobel em física.

2 – Sistema de Comunicação
Um sistema de comunicação, como vimos, é uma linha de conexão entre dois pontos, através
da qual fazemos com que uma informação se desloque de um dos pontos ao outro. Isto é feito via
uma onda portadora, nos casos padrões de comunicação. A maneira através da qual se transmite a
informação é usando-se um código que contém uma semântica, ou significado. Este código escreve
na onda a mensagem por meio da variação de uma variável física que a onda possui. A sua
intensidade, ou a amplitude do campo, sua freqüência, fase, ou polarização são exemplos de
variáveis físicas que podem ser usadas para a codificação desejada. Isto é feito no ponto de partida
da transmissão sendo traduzido do outro lado na recepção (ou detecção) do sinal. Este processo de se
escrever a mensagem é chamado de modulação da onda.
Entretanto, pode-se transmitir mais de uma mensagem no mesmo enlace. Isto exige que se
identifique cada uma das mensagens a fim de poderem ser corretamente separadas na recepção. Tal
identificação é feita, também, manipulando-se uma das propriedades físicas da onda. Este esquema
de mistura de mensagens num enlace se chama de multiplexação.
O direcionamento das mensagens através do sistema de comunicação é feito por meio de
elementos do circuito como os acopladores e chaveadores, sobre os quais iremos comentar adiante.

2-1 – Sistema Básico de Comunicação Óptica


Um sistema de comunicação óptica é aquele que tem como portadora dos sinais ondas
eletromagnéticas no espectro óptico. Este, como mostra a fig.(1.2-3), está contido no intervalo de
freqüências que vai desde a região do infravermelho longínquo (≈100 µm), passando pela faixa de
luz visível (0,39 a 0,77 µm), e terminando no domínio do ultravioleta (0,05 µm).
Embora possamos adentrar em muitos detalhes técnicos advindos das especificidades
encontradas no âmbito prático, um sistema óptico tem uma amostra básica na nossa vida diária:
quando olhamos para alguém entre nós, visualmente, podemos levar e receber informação. O que
manda informação é o emissor, o que recebe é o receptor, e a luz é o elemento de transporte das
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informações. Para completar podemos dizer que a atmosfera foi o meio físico usado para a
transmissão das ondas luminosas que carregou a informação. Neste exemplo simples, podemos
caracterizar o sistema de duas pessoas como um sistema de configuração ponto-a-ponto. Caso
houvesse inúmeras pessoas falando entre si, tal sistema se transformaria em um sistema multi-ponto.
Assim sendo, muitas especificidades poderão ser consideradas de forma a dar diferentes
nomes e definições aos sistemas de comunicação. Por exemplo, para pessoas próximas o sistema
seria de curta distância, enquanto pessoas distantes dariam lugar a um sistema de longa distância,
ficando em aberto a questão de quão perto ou quão próximo elas deveriam estar para caracterizar o
que foi chamado de curta e longa distância.
Se a informação fosse transmitida através de sinais como os obtidos com duas bandeiras,
semelhante ao que se faz (ou fazia) entre navios, a comunicação poderia ser classificada de digital.
Já com os movimentos contínuos do corpo a melhor classificação seria de um sistema analógico.
Enfim, muito mais detalhes, que requerem outras definições, poderão ser sugeridas ou necessárias.
O processo de comunicação é simples, em princípio. A fonte de informação gera uma
mensagem, que será transmitida até o receptor pelo meio de transmissão. No caso de duas pessoas
conversando, como foi mostrado na fig.(1.2-1), esse meio é o ar e a mensagem é transmitida através
de ondas sonoras. A evolução tecnológica permitiu sofisticar os sistemas de comunicação com
objetivo de eliminar barreiras como distância, ausência e outras mais. Nos sistemas ópticos de nosso
interesse as fibras ópticas são o meio de transmissão de informações. Resumindo o que acabamos de
descrever, um sistema de comunicação óptica pode ter, como configuração básica, aquela que está
indicada na fig.(1.2-2), sendo, obviamente, uma configuração ponto-a-ponto. Nela, vamos encontrar
os três elementos básicos que compõem um sistema de comunicação, a saber:

1 - Transmissor
2 - Meio de transmissão
3 - Receptor

Blá, blá, blá,


patati, patatá !

Transmissor Receptor

Meio Físico

Entrada Saída
Processamento Transmissor Processamento
de Receptor de
de Sinal de Sinal
Sinal Sinal

Modulação Demodulação
Multiplexação Demultiplexação
Codificação Decodificação

Fig.(1.2-1) – Duas pessoas se comunicando demonstrando a configuração básica de um sistema de comunicação e um


esquema mais detalhado de um sistema. F. D. Nunes
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2-2 – Parâmetros Característicos de um Sistema de Comunicação


Óptica

Todo sistema de comunicação tem características importantes, que agem diretamente sobre a
performance do mesmo, as quais provocam distinção entre as diversas tecnologias de transmissão
existentes e levam ao predomínio de umas sobre as outras, conforme a aplicação. Abaixo são listadas
as características relevantes aos sistemas de comunicação.

 Ondas

Na maioria dos sistemas de comunicação existentes, o sinal que se propaga no meio físico é
transportado por meio de ondas, sejam sonoras, luminosas ou outra qualquer. O papel do transmissor
é transformar a mensagem em ondas e a do receptor o processo inverso. Dependendo do sistema que
esteja sendo considerado, a onda usada pode ser de um ou outro tipo, como por exemplo: a sonora,
no caso das duas pessoas que estão conversando, ou luminosa, no caso da projeção de um filme para
pessoas em um auditório.
As ondas sonoras são vibrações mecânicas que se propagam no ar, precisando do meio como
suporte para a sua propagação. Já as ondas eletromagnéticas (luz) não precisam de um meio físico
para propagar, podendo propagar até mesmo no vácuo.
Assim, as ondas eletromagnéticas têm características físicas totalmente diferentes das ondas
sonoras, já que elas são variações de campos elétrico e magnético os quais, se induzindo
mutuamente, propagam-se tanto no vácuo, quanto no ar ou qualquer outro meio dielétrico (não
condutor) como o vidro com o qual são feitas as fibras ópticas usada no sistema de comunicação
óptica padrão.
As ondas eletromagnéticas são conhecidas por nomes familiares, como raios X, microondas, ondas
de rádio AM, FM, ondas de TV, infravermelho, luz visível, etc. O que caracteriza cada tipo de onda
eletromagnética é a sua freqüência. A fig.(1.2-3) apresenta o espectro das ondas eletromagnéticas, no

Entrada Processamento Processamento Saída


de de Sinal Transmissor Receptor de
de Sinal
Sinal Sinal

Fibra
Conectores Demodulação
Modulação
Multiplexação Splices Demultiplexação
Codificação Decodificação

Fig.(1.2-2) – Sistema de comunicação óptica.


qual se encontram as ondas que pertencem ao espectro óptico usado nos atuais sistemas de
comunicação óptica.

 Freqüência e Comprimento de Onda

Ainda que as ondas possam ter características físicas completamente distintas, elas são regidas por
algumas regras comuns, bem como certos parâmetros fundamentais. Um deles é a freqüência das
vibrações, ou seja, o número de vibrações por unidade de tempo. O tempo em que ocorre uma
vibração é o que se chama de período da onda.
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Por outro lado, o que estamos


falando para o tempo também é válido
para o espaço, de forma que podemos amplitude

definir um período espacial,


denominado comprimento de onda. Tal
período define o comprimento da
distância entre dois pontos na qual período período
ocorre uma vibração no espaço. A Fig.(1.2-4) – Ilustração de uma onda harmônica, na qual estão
fig.(1.2-4) apresenta uma onda indicadas duas situações de períodos.
harmônica com a indicação da sua
amplitude e do seu período (temporal
ou espacial). A seguir apresentamos alguns parâmetros que são fundamentais na caracterização de
ondas.

- velocidade da onda v
- período T
- comprimento da onda λ
- freqüência da onda ν
- amplitude A

Sabemos que a amplitude A da onda está diretamente relacionada à potência do sinal. A


velocidade v com que a onda se propaga varia de acordo com o meio de transmissão. No vácuo, por
exemplo, a velocidade de propagação de qualquer onda eletromagnética (onda de rádio microondas,
raios X, infravermelho), é constante e igual a 300.000 km/s (3x108 m/s), a velocidade da luz no
vácuo.

Sistemas de Comunicação Óptica


Ge
InGaAsP Si
InGaAsP

GaAlAs
GaAs

1,6 1,5 1,4 1,3 1,2 1,1 1,0 0,9 0,8 0,7 0,6

700 nm
Vermelho
Rádiofrequências
400 nm
Violeta Raios Gama
Ondas Ondas Micro Ondas
Áudio, Ondas Longas VHF UHF Infravermelho Ultravioleta Raios X Raios Cósmicos
Médias Curtas Ondas mm

0 10 2 10 3 10 4 10 6 10 8 10 10 10 12 10 14 10 16 10 20
3000 km 30 m 300 m 3 km 3 cm 0,3 mm 3 µ m 30 nm 0,3 nm 3 pm

Fig.(1.2-3) – Ilustração do espectro de ondas eletromagnéticas, sendo evidenciada a região de comunicações ópticas por
fibra óptica e outros intervalos concernentes a outros tipos de sistemas, como por exemplo o rádio e as microondas.

Exemplo (1.2-1) – Calcular a freqüência de uma onda cujo comprimento de onda é de 1,5 µm.

Solução:

Lembrando que a velocidade pode ser calculada como a distância percorrida em um período
dividido pelo intervalo de tempo correspondente a este período podemos escrever que a velocidade
da onda é dada por:
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Sistemas de Comunicação Óptica 9

λ
v= = λν (1.2-1)
T

v 3x108
ν= = = 2 x1014 Hz ou 200 THz
λ 1,5x10 −6

Esta freqüência determina a banda de transmissão disponível para esta onda. Quanto maior
for a freqüência, maior será a banda disponível. Se fizéssemos o mesmo cálculo para o caso de uma
onda na faixa de microondas, com um comprimento de onda de 1,5 mm, obteríamos para a
freqüência um valor igual a 200 GHz, ou seja mil vezes menor do que a que acabamos de calcular.
Logo, a microonda pode transportar mil vezes menos informação do que a onda no infravermelho.
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 Banda Passante

A banda passante de um sistema de comunicação é a capacidade em volume de informação,


que um meio de transmissão pode transferir entre os elementos em comunicação. Logicamente,
quanto maior a banda passante de um sistema, mais informações podem ser transmitidas. Fazendo-se
uma analogia com um sistema de canalização de água, dutos com maior diâmetro permitem que mais
água passe de um ponto a outro. A unidade de medição de uma banda de transmissão de um sistema
é a dimensão da faixa de freqüência (Hz, KHz, MHz,...) que o sistema dispõe, no caso analógico; no
caso de um sistema digital, é a quantidade de bits por segundo ( Kb/s, Mb/s,...) que o sistema dispõe
para o envio de sinais digitais.
Devemos salientar que o conceito de banda passante de um sistema não deve ser aplicado
apenas a um dos seus elementos. Como, por exemplo, a fibra óptica em um enlace óptico. Antes, o
conceito de banda passante deve ser aplicado a todo o sistema de comunicação uma vez que um meio
físico com alta banda passante pode ser limitado pela capacidade de outro elemento do enlace, como
por exemplo a do transmissor ou a do receptor. Assim sendo, a visão com que devamos considerar a
banda passante de um sistema deve ser, obrigatoriamente, sistêmica e não setorizada. Com isto se
deve alertar quanto ao excessivo enfoque que se dá à fibra óptica em um sistema de comunicação,
muitas vezes em detrimento de análises mais acuradas com relação aos demais elementos do sistema.

 Potência e Atenuação

Quando um sinal é colocado num meio de transmissão, ele tem uma determinada potência na
saída do transmissor. Já os meios físicos, por diversas razões, levam, em maior ou menor escala, a
atenuar potência óptica da onda portadora do sinal original.
Tomando o exemplo das pessoas conversando, alguém berrando estará transmitindo com
maior potência do que alguém sussurrando. Mesmo assim, se as pessoas estiverem muito distantes
uma da outra, o sinal com alta potência (voz alta) pode não ser escutado pelo ouvinte; já que a
atenuação é sempre função da distância entre o emissor e o receptor.
Em um sistema óptico, o mesmo raciocínio é feito, dizendo-se que a luz saindo de um
emissor vai sendo reduzida ao longo da fibra, num processo que chamamos de perda de potência ou
atenuação.

 Degradação

Além da atenuação, que é uma redução da potência do sinal, o sinal transmitido nunca é o
mesmo quando recebido, pois o meio de transmissão sempre tende, em maior ou menor grau, a
10 Comunicações Ópticas

contaminar o sinal original com ruídos espúrios. Um avião que esteja passando próximos daqueles
que estão conversando, pode impossibilitar a comunicação entre eles, o que seria um exemplo
extremo. Em menor grau poderia impedir o perfeito discernimento das palavras pronunciadas por
quem estiver falando.

3 – Modulação
Em um sistema de comunicação, inclusive os
ópticos, o sistema é definido a partir da variável que
sofre a alteração com a qual se realiza a codificação E

da mensagem. O campo elétrico da onda H


e
eletromagnética usada, seja de baixa freqüência
(ondas de rádio) ou de alta freqüência (ondas
ópticas), é uma das variáveis que podem ser
manipuladas para a realização da modulação. Seja o
campo elétrico E(t) de uma portadora em um ponto P
do espaço:

E( t ) = E o sen(ωt + φ)e (1.3-1) Fig.(1.3-1) – Ilustração de uma onda harmônica, sendo


onde Eo é a intensidade do campo, ω a sua freqüência indicados os campos elétrico e magnético, bem como a
direção do campo elétrico por meio do versor e.
angular, φ uma fase, e e é o versor que define a
direção deste campo elétrico no espaço.
As variáveis de modulação, usando-se uma onda eletromagnética, podem ser a amplitude do
campo, a freqüência ou a fase, e mesmo a polarização. Usualmente, a modulação é feita com as
seguintes variáveis:

AM Modulação de Amplitude (Amplitude Modulation)

PM Modulação de Fase (Phase Modulation)

FM Modulação de Freqüência (Frequency Modulation)

A fig.(1.3-2) ilustra os tipos de modulação com a amplitude do campo.


Uma outra variável usada é a intensidade (ou potência) do campo óptico. A maioria dos
sistemas comerciais de comunicação óptica usam a modulação de intensidade, fazendo-se a variação
da intensidade de luz do transmissor óptico através da variação da corrente elétrica que passa pelo

(a)

(b)

(c)

Fig.(1.3-2) – Ilustração de uma onda sem modulação (a), com modulação


em amplitude de campo (b) e em freqüência (c).

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Sistemas de Comunicação Óptica 11

dispositivo.
Além disto, pode-se escolher diferentes formatos de modulação, como:

Analógico

Digital

Pulsado

A modulação por código de pulso, denominada no jargão prático de PCM (Pulse Code Modulation)
é de essencial importância nos sistemas de transmissão óptica. A seguir faremos um breve
comentário sobre este tipo de modulação.

3-1 – Modulação PCM


Para analisarmos como se procede a modulação PCM, tomemos um sinal de voz, que é um
sinal analógico. Sobre tal sinal é feita uma amostragem da sua intensidade com uma periodicidade
que segue o Critério de Nyquist, segundo o qual a freqüência de amostragem deve ser maior ou igual
a duas vezes a largura de banda do sinal a ser transmitido. Este procedimento está ilustrado, a seguir,
na fig.(1.3-3).
Desta forma um sinal de voz, com 4 KHz de banda, deverá ser amostrado com uma
freqüência mínima de 8 KHz, ou seja, uma amostragem a cada 125 µs. Cada valor do sinal
amostrado será escrito em um código binário, bits do tipo 0 e 1, com o qual se formarão as palavras,
os bytes, que transportarão os sinais de voz. Escrevendo-se os diferentes níveis de sinal de
amostragem com palavras de 8 bits, o que determina 28=256 níveis diferentes, teremos que a
transmissão do canal de voz será feita a 64 Kbit/s; ou seja 8 bits para cada 8000 amostras por
segundo do sinal de voz.

Sinal
4KHz

8000
Amostra
amostras

Sinal
64 Kb/s PCM

tempo

Fig.(1.3-3) – Ilustração do tratamento PCM de um sinal de voz em um canal de 4KHz.

No caso da modulação de intensidade o bit 0 significará ausência de luz, o emissor


desligado, e o bit 1 o oposto. O nível de intensidade do bit 0 não precisa ser obrigatoriamente nulo,
senão um dado nível de referência (nível baixo) acima do qual o bit passará a ser o 1 (nível alto). Em
face da primeira colocação, podemos chamar este tipo de modulação de OOK (on-off keying).
Existem outros tipos de modulação, nas quais o bit é escrito com variação de freqüência (FSK –
12 Comunicações Ópticas

Bit 1 Bit 0 Bit 1

Intensidade
OOK-M I

FSK-M I

t
FSK
Campo t

PSK
t

Fig.(1.3-4) – Exemplos de diversos tipos de modulação binária.


Frequency Shift Keying) ou de fase (PSK – Phase Shift Keying). A fig.(1.3-4) ilustra o que acabamos
de dizer.

A modulação OOK admite dois padrões distintos, a saber:

Sem retorno ao zero NZR (NonReturn to Zero)


com retorno ao zero RZ (Return to Zero),

como mostra a fig.(1.3-5). O NZR é em geral usado em face do fato de estar associado com ele uma
largura de banda menor, enquanto o segundo se tem aplicado a sistemas do tipo solitônico; aqueles
em que o sinal é transportado por sólitons.

NRZ

RZ

Fig.(1.3-5) – Representação dos formatos de modulação


por pulsos; NRZ e RZ.

4 – Multiplexação
O que se define por multiplexação é a transmissão e recepção de vários sinais distintos
através de um mesmo enlace. Como parte do procedimento de multiplexação, cada sinal recebe um
rótulo, ou identificação, de modo a ser destinguido dos demais na fase de demodulação. A fig.(1.4-1)
ilustra o que estamos dizendo.
Há dois sistemas básicos de multiplexação, a saber:

FDM Multiplexação por Divisão de Freqüência


(Frequency Division Multiplexing)

TDM Multiplexação por Divisão de Tempo


F. D. Nunes
Sistemas de Comunicação Óptica 13

(Time Division Multiplexing)


Sinal Sinal

1 1
2 2
3 3
Demulti 4
4 Multiplexador Transmissor Receptor plexador

N N

Fibra
Conectores
Splices

Fig.(1.4-1) – Sistema de comunicação multiplexado.

No caso da multiplexação FDM, há no sistema de recepção a separação dos diferentes sinais


por meio de filtros de freqüência, os quais separam as diferentes portadoras. Já no caso da
multiplexação TDM, a separação de sinais é feita por diferentes portas de tempo seqüenciadas, de
acordo com a seqüência dos sinais.
A multiplexação TDM é aquela de uso amplo, multiplexando grande número de canais de
voz em um fluxo de bits seqüenciados, como se pode ver um exemplo na fig.(1.4-2). Nela temos seis
canais de voz multiplexados no tempo.
O conceito da multiplexação
TDM foi concebido para se estabelecer canal 6 1 2 3 4 5 6 1
a hierarquia CDH (Comercial Digital
Hierarchy), havendo diferenças entre
as versões européia e aquela adotada
pelos Estados Unidos e o Japão. No
caso europeu a versão CDH foi
concebida para 30 canais de voz, t
resultando em uma composição de Fig.(1.4-2) – Seis canais de voz multiplexados em tempo.
2048 Mb/s, enquanto que caso dos
Estados Unidos, e toda a América do Norte, o padrão foi de 24 canais resultando em 1544 Mb/s.
Abaixo se vê um quadro com as características de um frame TDM adotado na América do Norte.
Este tipo de hierarquia também é designada por hierarquia DS-1. Considerando-se que um canal de
voz opera a 64 Kb/s, vê-se que a taxa total de canal padrão difere do produto de canais pela taxa de

TDM – Form ato (1) D S1


• Transm issão de Voz
 24 canais m ultiplexados
 Cada canal isere 8 bits no fram e
 Sinais de voz digitalizados em PCM , 8000 am ostras/seg (8000 fram es/seg)
 193 bits/fram e (24canaisx8bits+1bit/fram e)
 1 fram e a cada 125 m s levando a 1.544 Mbps
 Cada canal tem uma palavra PCM de 7 bits + 1 bit de sinalização

193-bit Frame (1,25x10 -6 seg)

F 12345678 12345678 12345678

framing dados - sinalização


14 Comunicações Ópticas

SONET SDH/SDM Mb/s Canais


OC-1 51,84 672
OC-3 STM-1 155,52 2.016
OC-12 STM-4 622,08 8064
OC-48 STM-16 2.488,32 32.256
OC-192 STM-64 9.953,28 129.024

Tab.(1.4-1) - Hierarquias de sistemas digitais de comunicação síncronos.


um canal. Esta diferença se deve ao fato de que há a necessidade de haver alguns bits adicionais de
controle para a execução de operações de demultiplexação.
Outros níveis de hierarquia foram criados a partir da SD-1, gerando-se múltiplos desta
primeira. A hierarquia SD-2, por exemplo, corresponde à hierarquia SD-1 vezes quatro, resultando
em 8448 Mb/s na versão européia e 6312 Mb/s na versão americana e japonesa. Outros níveis
hierárquicos seguem o mesmo procedimento de múltiplos do padrão SD-1.
Com o advento das comunicações ópticas no início dos anos oitenta, houve uma quebra de
padronagem de multiplexação, passando a existir a necessidade de se estabelecer um novo padrão.
Este veio a se chamar de SONET (Synchronous Optical Network) e passou depois a ser designado
por SDH (Synchronous Digital Hierarchy). Tal hierarquia define a estrutura que comporta a
transmissão de sinais digitais do tipo TDM. Tal como a CDH, a SDH tem uma taxa mínima que é de
51,84 Mb/s, a partir da qual se obtém os demais níveis através de múltiplos desta taxa básica. Por
exemplo a SDH-3 teria uma taxa de 3 vezes 51,84, que corresponde a 155,52 Mb/s. Esta última
define a taxa básica do que se chama de hierarquia STM (Synchronous Transport Module). A tabela
(1.4-1) apresenta uma lista de níveis hierárquicos SDH, juntamente com a sua designação
correspondente para o caso de portadoras ópticas (OC – Optical Carrier). Desde 1990 que se opera
sistemas ópticos com hierarquias STM-16 (OC-48) e sistemas com STM-64 também são realidades.
A busca por bandas maiores de transmissão, capazes de incorporar as crescentes demandas
de serviços solicitados pelo mercado e oferecidos pelos fabricantes de equipamentos, levaram ao
surgimento de uma nova opção de multiplexação, a já conhecida ATM (Asynchronous Transfer
Mode).
No caso dos sistemas ópticos, um novo tipo de multiplexação aparece, a chamada
multiplexação WDM (Wavelength Division Multiplexing). Neste caso, cada sinal é transmitido por
um comprimento de onda diferente, oriundo de diferentes fontes.
A multiplexação, bem como a demultiplexação em comprimento de onda, é feita por meio de
um acoplador óptico, um dispositivo passivo sobre o qual falaremos. Podemos também dizer que a
multiplexação WDM é um caso da FDM, desde que consideremos que multiplexar em comprimento
de onda é também multiplexar em freqüência.

5– Componentes de um Sistema de Comunicação


Pelo que acabamos de analisar, podemos determinar quais os componentes básicos de um
sistema de comunicação óptica. Como vimos, o transmissor é o elemento que dá início ao processo
de transporte das informações.
O elemento transmissor é aquele que transforma os sinais a serem transmitidos, normalmente
de caráter elétrico, em sinais de natureza óptica. Assim sendo, nos transmissores, deixando-se de
lado todo o aparato eletrônico de fornecimento de potência elétrica e modulação, o laser é o

F. D. Nunes
Sistemas de Comunicação Óptica 15

COMPONENTE FUNÇÃO

Conectores Unir opticamente elementos de um enlace (laser-fibra)

Acopladores Servir como um derivador óptico

WDM's Realizar a multiplexação de sinais em comprimento de


onda

Reduzir ou eliminar o efeito de alargamento de pulsos


Compensadores de ópticos devido ao efeito de dispersão do meio de
Dispersão transmissão

Amplificadores Amplificar o sinal óptico usando meios ópticos (fibra


Ópticos dopada com érbio)

Tab. (1.5-1) – Componentes ópticos de um sistema de comunicações.

elemento responsável em transformar os sinais elétricos, a serem transmitidos, em sinais ópticos.


Adiante, faremos algumas considerações sobre este dispositivo.
O segundo componente de um sistema de comunicação óptica é o meio físico no qual as
ondas irão viajar, carregando as informações e todo o aparato lógico de controle, identificação de
sinais e outros mais. O estado atual da arte nos leva de imediato a dizer que este elemento é a fibra
óptica, sobre a qual discutiremos mais tarde. Por outro lado, devemos desde já dizer que um enlace
óptico não obrigatoriamente necessita de uma fibra óptica. A nossa comunicação com aparelhos de
televisão, com o objetivo de realizarmos o controle do aparelho, é feita usando-se transmissores de
infravermelho, logo é um processo de comunicação óptica. No caso, o meio de comunicação
dispensa o uso de fios, quer sejam metálicos, ou de vidro, e a transmissão ocorre através da
atmosfera. Podemos esperar muita novidade para o futuro neste tipo de sistema, o de comunicação
óptica via atmosfera.
O elemento final (para não dizer terminal) do sistema é o receptor, que no caso óptico tem como
elemento básico o fotodetector. Ele é o dispositivo que transforma o sinal óptico em elétrico e este
em sonoro, ou outro qualquer que se faça necessário.
Em sistemas mais complexos de comunicação óptica, outros elementos ópticos são
requisitados e adicionados, como, por exemplo, aqueles que estão indicados na tab.(1.5-1).
Inicialmente iremos considerar um sistema básico e analisaremos as características e propriedades
fundamentais de cada um destes elementos básicos, em capítulos posteriores. É claro, que eles são,
apenas, o mínimo requerido para a formação de um sistema de comunicação, e muitos outros
elementos podem se fazer necessário dependendo de que sistema estejamos falando. Componentes
como: conectores, acopladores, WDMs, enfim uma série vasta de dispositivos e componentes, são
exemplo disto. Esta série de novos componentes aumenta a cada dia com as exigências advindas não
só das especificidades dos próprios sistemas, mas, também, em decorrência dos novos requerimentos
de serviços solicitados pelos usuários ou oferecidos pelos fornecedores de meios de comunicação.

6 – Enlaces Ópticos
A seguir, consideraremos alguns tipos de enlaces ópticos, onde algumas particularidades são
comentadas. Sistemas ópticos de comunicação são sistemas em que as mensagens são convertidas
em sinais luminosos e transmitidas em um meio como uma fibra óptica. Deve-se, no entanto, se
chamar à atenção o fato das fibras ópticas não serem eficientes na transmissão de qualquer tipo de
luz, ou seja, luz com qualquer comprimento de onda.
16 Comunicações Ópticas

O comportamento de uma fibra


1,4800
dependerá do material com o qual ela é feita.
Por exemplo, as fibras plásticas operam de
 λ dn 
modo conveniente na faixa de comprimentos 1,4750 N = n 1 − 
 n dλ 
de onda em torno de 0,65 µm, região de luz SiO2
vermelha. Para outras fibras, a luz deverá ter Mallitson
1,4700
comprimentos de onda maiores que a luz
visível, começando a partir de 0,85 µm, que é
infravermelho. Por essa razão, dependendo da 1,4650
fibra há comprimentos de onda (ou
freqüência) em que a transmissão dos sinais
pode ser realizada de uma forma mais efetiva 1,46000,5 0,7 0,9 1,1 1,3 1,5 1,7
e isto define as chamadas janelas ópticas. λ(µm)
Uma janela é a faixa em torno de um dado Fig.(1.6-2) – Índice de grupo do vidro em função do
comprimento de onda na qual o sistema irá comprimento de onda da luz propagante.
operar. Nos sistemas de comunicação atuais
temos três janelas, a saber: 0,85 µm, 1,30 µm e 1,55 µm. A fig.(1.6-1) nos mostra o coeficiente de
atenuação de uma fibra de vidro, nas versões mono e multímodo, em função do comprimento de
onda. Como se vê na figura existe um mínimo de atenuação para uma luz cujo comprimento de onda
seja 1,55 µm. Isso indica que, nesse comprimento de onda, a luz trafega na fibra com menores
perdas. Entretanto a atenuação não é a única propriedade determinante na escolha do comprimento
de onda. Outra propriedade importante é a dispersão, responsável pela velocidade de propagação do
modo e dos diferentes comprimentos de onda que o compõem. Devido a diferenças de velocidade de
propagação, um pacote de informação, um bit para exemplificar, termina se alargando, degradando a
relação sinal-ruído e prejudicando a detecção do sinal. A principal propriedade do material com o
qual é feita a fibra óptica, responsável pela dispersão, é o índice de refração. A fig.(1.6-2) mostra o
índice de grupo, que seria o índice de refração efetivo, percebido por um pacote de onda. Como se
vê, o índice de grupo varia com o comprimento de onda e apresenta um mínimo para o comprimento
de onda de 1,3 µm. Portanto, no que concerne à dispersão, o melhor comprimento de onda será 1,3
µm, e não 1,55 µm, comprimento para o qual a atenuação seria mínima.
A própria estrutura da fibra pode ser manipulada a fim de ajustar as suas propriedades de
atenuação e dispersão às necessidades dos enlaces feitos com elas. É o caso de se passar de uma fibra
constituída de núcleo e casca, apenas, para uma outra em que há mais do que essas duas regiões,
levando-se com tal artifício a que a dispersão do modo propagante se situe exatamente em 1,55 µm,
coincidindo pois com a menor atenuação do sinal, produzida por esse comprimento de onda. São as
chamadas fibras de dispersão deslocada. A escolha do comprimento de onda é tema de uma
discussão mais profunda do que estamos fazendo aqui.
Quanto aos elementos básicos de um sistema de comunicação óptica, a fig.(1.6-3) ilustra os

3
Coeficiente de Atenuação (dB/km)

Fibra Multimodo 0H
Espalhamento Absorção
Rayleigh Infravermelho
1

0,3 Fibra Monomodo

0,1
0,6 0,8 1,0 1,2 1,4 1,6
Comprimento de Onda (µm)
Fig.(1.6-1) – Coeficiente de atenuação de fibras de vidro em função do comprimento de onda da
luz propagante.São indicados os diversos mecanismos de atenuação de uma fibra de vidro.
F. D. Nunes
Sistemas de Comunicação Óptica 17

destacando as partes em que o sistema tem o predomínio da eletrônica e da óptica, que passaremos a
chamar de fotônica. O termo fotônica passará a designar a tecnologia em que o fóton é a ferramenta
básica, assim como eletrônica é a tecnologia em que a ferramenta básica é o elétron.Entretanto esta
separação, acima indicada, deverá sofrer mudanças na medida em que novos dispositivos vão sendo
incorporados aos sistemas de comunicação, como, por exemplo, a parte de modulação tornando-se
de caráter predominantemente fotônico. O uso de efeitos como o eletroóptico, e outros inclusos no
escopo da Óptica Não-Linear, na modulação de sinal, trazem esse horizonte tecnológico aos nossos
olhos.

informação de entrada informação de saída

codificador decodificador

modulador amplificador
componentes eletrônicos

fonte óptica fibra óptica detetor óptico

transmissor receptor
componentes ópticos

Fig.(1.6-3) - Diagrama em blocos de um sistema de comunicação óptico.

7 – Vantagens dos Sistemas de Comunicação Óptica


A utilização de fibras ópticas em sistemas de comunicação é algo bastante recente. As
primeiras implantações aconteceram na década de setenta estando, ultimamente, a substituir outros
meios, em especial o cobre, devido a benefícios reais em sua utilização. A seguir vamos enfatizar
oito vantagens na utilização de sistemas de comunicação à fibra óptica.

1. Volume de informação transmitida

As fibras, comparadas a outros meios de transmissão, oferecem uma banda passante muito
superior ao que é necessário para as aplicações atuais. As fibras comuns utilizadas em sistema de
cabeamento para redes de computadores (multimodo, 62,5/125µm) têm uma largura de banda
mínima de 160 MHz/Km em um comprimento de onda de 0,85 µm ou 500 MHz/Km em 1,30 µm.
A figura de mérito MHz/Km fornece a informação da banda disponível a partir do tamanho do
enlace. Para tanto basta se dividir o valor dado pelo comprimento do enlace. Com os valores
fornecidos, se vê que a largura de banda para um enlace óptico de 100 m é superior a 1 GHz. O
comprimento de 100 m foi tomado por ser um valor característico para enlaces a par trançado ou
cabos metálicos coaxiais. Com as fibras monomodo de alto desempenho utilizadas em sistemas de

telefonia de longa distância, a largura de banda é essencialmente infinita, isto é, a capacidade de


transmissão de informação dessas fibras é muito maior do que a eletrônica atual pode explorar. A
fig.(1.7-1) nos mostra a comparação entre as bandas disponíveis para diversos meios de transmissão
usados em redes locais. Para efeito de comparação se apresenta na figura o desempenho de cabos
UTP categoria 5. Hoje, cabos de categoria superior, de categoria 6, possuem desempenho capaz de
fornecer bandas acima de 350 MHz.
O desenvolvimento de novas tecnologias adequadas a transmissão integrada de dados, voz e
imagens, brevemente, no real sentido da palavra, esgotará a capacidade de transmissão dos cabos de
18 Comunicações Ópticas

cobre e as fibras assumirão importância


singular. Obviamente, há todo um esforço de 1000 Largura de banda disponível para a janela de 1300 nm
pesquisadores no sentido de aumentar o tempo
útil de vida das redes metálicas, ainda mais em 800 Banda para 100 m
face do elevado valor imobilizado nelas, afinal
cobre é um metal que não pode ser considerado 600
barato. MHz
Apenas para termos uma boa idéia da 400

necessidade de um sistema capaz de transmitir Largura de banda disponível para a janela de 850 nm
grandes volumes de informação, consideremos 200

os dados da fig.(1.7-2) na qual vemos, desde


1850 a evolução da quantidade de informação 0
10 Base F 16 Mbs FDDI ATM ATM ATM
que é transmitida pelos sistemas que vêm sendo Token 155 Mbs 622 Mbs 1,2 Gbs

desenvolvidos. Uma medida do nível de


informação, denominada como figura de Fig.(1.7-1) – Bandas disponíveis para diversos meios de
transmissão utilizados em redes locais.
mérito, é aquela expressa em (bit/s)-km.

2. Baixa perda
1015

Amplificadores
1012 Ópticos

Sistemas
109 Ópticos
BL
(Bit/s)-km
106
Microondas
Cabo
Coaxial
103
Telefone
Telégrafo
1
1850 1900 1950 2000

Fig.(1.7-2) – Evolução do número de bits por segundo-km, a partir de 1850 até o presente.

As fibras ópticas oferecem baixa perda da potência óptica que transmitem, o que significa
que possibilitam maiores distâncias de transmissão. Mais uma vez a comparação com o cobre é
importante. Numa rede de dados, o limite recomendado para os enlaces de cobre é de 100m, ao passo
que com fibras multimodo o comprimento chega aos 2.000 m.
Uma das principais desvantagens do cabo de cobre é que as perdas aumentam com a
freqüência do sinal. Isso significa que altas taxas de transmissão tendem a aumentar as perdas de

 1965 - 1000 dB/Km

 1974 - 4,0 dB/Km (0,85 µm)


1,1 dB/Km (1,10 µm)

☺ 1979 - 0,2 dB/Km (1,55 µm)

Fig.(1.7-3) - Evolução da atenuação das fibras ópticas entre 1965 e 1979.


F. D. Nunes
Sistemas de Comunicação Óptica 19

potência e diminuir as distâncias de transmissão. Já nas fibras ópticas, as perdas não mudam com a
taxa do sinal, variando apenas com o comprimento de onda de operação. A fig. (1.7-3) fornece
valores sobre a evolução das perdas em uma fibra óptica entre os anos de 1965 e 1979. Vemos que
em 1965 a atenuação de sinal em uma fibra óptica, 1000 dB/Km reduzia a sua utilização, em
sistemas práticos ao nível do sonho ou mesmo do impossível. O exemplo (1.7-1) nos mostra a razão
desta aparente impossibilidade.
Hoje, em laboratório, se busca perdas abaixo de centésimos, ou mesmo da ordem de
milésimos de decibéis por quilômetro, o que permitiria substanciais aumento dos comprimentos dos
enlaces a serem projetados e postos em operação, independentemente do uso de amplificadores
ópticos.

3. Imunidade eletromagnética

Algumas estimativas mostram que 60% das causas de falhas em redes de computadores
baseadas em cabos de cobre são causadas por problemas de cabeamento como crosstalk,
descasamentos de impedância e susceptibilidade a ruídos eletromagnéticos. Esses problemas tornam
o processo de instalação de cabos categoria 5 mais delicado.
Como as fibras são construídas com material dielétrico, portanto não condutor de
eletricidade, são imunes à interferência eletromagnética. Elas não causam crosstalk, o que é um
grande limitante na tecnologia de cabos de cobre, e podem ser utilizadas em ambientes de alta
exposição eletromagnética como fábricas, geradores de energia elétrica, próximas às linhas de
transmissão elétrica e locais com alta probabilidade de incidência de raios.

4. Menor peso

Cabos de fibras ópticas pesam menos que cabos de cobre. Um cabo óptico dúplex é 20% a
50% mais leve que um cabo categoria 5 com 4 pares e por isso são mais fáceis de instalar. Para
termos uma melhor idéia, quanto as questões de peso, podemos dizer que um cabo óptico de 6,3 mm
de diâmetro, possuindo uma fibra óptica multimodo, possui capacidade equivalente a um cabo
metálico de 7,6 cm de diâmetro, contendo 900 pares metálicos. Enquanto o cabo óptico pesaria uns
3 quilos e meio o metálico pesaria algo próximo a 100 quilos. Isto viabiliza o uso de fibras em
ambientes em que peso é crucial, tais como aviões, navios, satélites, por exemplo.

5. Menor tamanho

Cabos ópticos têm seções transversais menores que os cabos de cobre que eles substituem.
Usando novamente a comparação com os cabos categoria 5, cabos ópticos usam em média 15%
menos espaço. Se considerarmos as questões de instalações prediais, principalmente quanto se trata
de reforma, as fibras ópticas têm mais condições de serem usadas do que os cabos metálicos, por
exigirem dutos muito menores.

6. Segurança

Por ser um meio dielétrico, as fibras não conduzem eletricidade e não são suscetíveis a
problemas que possam gerar centelhas. Tão pouco elas passam por problemas como levar tensão
elétrica aos equipamentos aos quais estejam conectadas, como poderia ocorrer com cabos metálicos.
Além disso, têm um grau de imunidade ao fogo similar ao dos cabos metálicos atendendo
aos padrões internacionais, inclusive para utilização interna.
20 Comunicações Ópticas

7. Segurança das informações

Quando estamos falando do sigilo com que as transmissões de informação podem ser feitas,
as fibras ópticas também apresentam muitas vantagens em comparação com os cabos metálicos.
Conquanto seja fácil se grampear um fio metálico, o mesmo não ocorre com as fibras ópticas. Não
que não se possa extrair informação de uma fibra, como quando se usa o telefone óptico de campo.
Mas, dificilmente isto ocorrerá sem que se perceba a queda de sinal, acusando as atitudes de invasão
do meio de comunicação. Se nenhuma dobradura for feita em uma fibra, neste caso elas não irradiam
energia eletromagnética e as emissões não podem ser interceptadas. Portanto, as fibras ópticas são
um meio mais seguro quanto à confidencialidade das informações transmitidas.

8. Menor valor agregado

Quanto a valor agregado é notório que os cabos metálicos, feitos com cobre ou mesmo
alumínio, possuem alto valor comercial. Já os cabos ópticos não possuem tal valor agregado, ou seja,
não conseguem ser vendidos ou revendidos, pelo menos convencionalmente, após furtados. Com isto
é menor a probabilidade de roubo dos cabos ópticos, afora requererem um menor investimento em
infra-estrutura de segurança.
Para finalizar esta parte, estão apresentadas na tab.(1.7-1) comparações entre as
características de cabos metálicos e ópticos. Nela, vemos que os cabos ópticos têm características
muito superiores aos metálicos no campo prático das aplicações. Não é, pois, sem razão que os
sistemas a fibra óptica estão substituindo os metálicos nos meios comerciais.

8 – As Cinco Gerações de Sistemas Ópticos


A seguir vamos dar uma pincelada sobre a evolução dos sistemas ópticos de comunicação, a
partir dos primeiros sistemas, direcionados à telefonia. Como veremos no desenrolar da descrição,
pelo menos cinco gerações de sistemas podem ser contabilizadas ao longo destas quase duas décadas
de utilização de sistemas de comunicação óptica.

Fibra
Cobre Multimodo Monom
odo
Largura de banda 100 MHz 1 GHz > 100 GHz
(100 m)
Distância de 100 m 2.000 m 40.000 m
transmissão
Imunidade não sim sim
Eletromagnética
Crosstalk sim não não
Potencial de sim não não
aterramento
Peso mais pesado mais leve mais leve
Tamanho maior menor menor
Valor agregado sim não não

Tab.(1.7-1) – Dados comparativos entre cabos metálicos e a fibra óptica.


F. D. Nunes
Sistemas de Comunicação Óptica 21

8-1 – A Primeira Geração de Sistemas Ópticos


A primeira geração de sistemas ópticos surgiu no início dos anos oitenta, usando lasers de
GaAlAs-GaAs operando na janela de 0,80 µm, ou melhor dizendo na faixa de 0,80 a 0,85 µm, e
fibras multimodo de SiO2. Tais sistemas usavam na detecção de sinal detetores de Si e operavam a
taxas de até 50 Mb/s, perfazendo enlaces sem repetidor com comprimentos de até 10 Km. Tais
características superavam em muito aquelas apresentadas por sistemas a cabos coaxiais.

8-2 – A Segunda Geração de Sistemas Ópticos


A segunda geração de sistemas apareceu no final dos anos oitenta quando se tornaram
comerciais os lasers operando na janela de 1,30 µm (1,29 a 1,33 µm), com os quais duas vantagens
foram obtidas. A redução das perdas na fibra a níveis abaixo de 1 dB/Km (com valor típico de 0,5
dB/Km) e um mínimo na dispersão cromática, originada na dependência do índice de refração com o
comprimento de onda. Tais lasers eram feitos com um novo material o InP e suas ligas InGaAsP,
enquanto os detetores, para esta janela de transmissão, eram feitos de Ge ou InGaAs. O limite estava
no desempenho de dispersão das fibras multimodo, já que a dispersão modal era elevada, levando à
degradação dos sinais. Por volta de 1981 os laboratórios já realizavam experiências com fibras
monomodo, as quais com apenas um modo propagante tinha eliminada a questão da dispersão
modal. Já em 1987 estava em operação o primeiro sistema monomodo na janela de 1,30 µm, com
taxas de 1,7 Gb/s e repetidores com espaçamento de até 50 Km. Com atenuação de 0,5 dB/Km as
fibras monomodo não permitiam maiores avanços quanto o comprimento dos enlaces. Isto só seria
alcançado na década de noventa com o uso de lasers de InGaAsP na janela de 1,55 µm.

8-3 – A Terceira Geração de Sistemas Ópticos


A terceira geração de sistemas de comunicação se tornou possível apenas nos anos noventa,
quando os lasers de InGaAsP na janela de 1,55 µm, com espectro de emissão do tipo monomodo
longitudinal, se tornaram comerciais. Os lasers padrões da época, emitiam luz com um espectro do
tipo multimodo, muitos modos longitudinais na cavidade, como veremos adiante, produzindo um
efeito de degradação do sinal para distâncias da ordem de centena de quilômetros a taxas acima de
alguns gigabits por segundo. Nessa nova janela, as fibras de SiO2, dopadas com Germânio,
apresentam um mínimo de atenuação em torno de 0,2 dB/Km, conquanto a dispersão permanece um
pouco maior do que aquela da janela de 1,30 µm. Isto pode ser ultrapassado com o advento das fibras
de dispersão deslocada, com as quais a dispersão para modos propagantes na janela de 1,55 ficam
abaixo da dispersão das fibras monomodo operando na janela de 1,30 µm. Neste contexto, já em
1985 se havia demonstrado em laboratório a possibilidade de se operar sistemas ópticos a taxas de 4
Gbit/s com enlaces de até 100 Km. Desta forma, em 1990 apareceram os sistemas comerciais na
janela de 1,55 µm operando a taxas de 2,5 Gb/s, chegando a até taxas em torno de 10 Gb/s e
comprimentos de enlaces entre 60 a 70 Km. Comprimentos maiores degradavam o sinal de forma
que apenas os sistemas com detecção homodina ou heterodina podiam permitir aumentos de
desempenho dos receptores a ponto de suplantarem os problemas de degradação existentes.
Entretanto, mesmo com boas demonstrações em laboratório do seu potencial, as detecções coerentes
não puderam se tornar uma nova opção comercial em face dos amplificadores de fibra dopada com
Érbio. Estes surgiram no final dos anos oitenta (1989) e deram lugar a uma nova geração de sistemas
de comunicação.

8-4 – A Quarta Geração de Sistemas Ópticos


22 Comunicações Ópticas

A quarta geração de sistemas ópticos veio a conjugação de dois elementos que apareceram
comercialmente no início dos anos noventa: os multiplexadores em comprimento de onda,
conhecidos como WDM (Wavelength Division Multiplexing) e os amplificadores ópticos feitos com
fibra dopada com érbio. Enquanto os primeiros permitiam o envio de vários comprimentos de onda
em uma mesma fibra, permitindo a transmissão paralela de sinais, o segundo elemento permitia a
amplificação periódica (60 a 100 Km entre amplificadores) dos sinais emitidos em 1,55 µm, ao
longo dos enlaces. No início da década de noventa, experimentos laboratoriais mostraram (1991) que
sistemas com o uso de amplificadores ópticos permitiam transmissões a taxas de 2,5Gb/s em enlaces
com comprimento de 21.000 Km, e 5 Gb/s a distâncias de 14.000 Km. Com isto se demonstrou a
viabilidade de sistemas transoceânicos e em 1996 entrou em operação o cabo transpacífico TPC-5.

8-5 – A Quinta Geração de Sistemas Ópticos


A quinta geração de sistemas de comunicação óptica veio com o advento das transmissões
com sólitons, com o que o efeito de alargamento dos pulsos, oriundo da dispersão das fibras, é
reduzido a níveis muito baixos, permitindo que haja transmissão até 4000 Km sem problema de
degradação da recepção do sinal. Um sóliton é uma estrutura propagante que se forma, em face da
interação não linear da onda eletromagnética com o meio onde está propagando, que preserva a sua
forma enquanto se desloca no meio. Concebido em 1973, só em 1988 foi demonstrado a
possibilidade prática da transmissão de sinais. Em 1994, se tem transmissões com sólitons ao longo
de 35.000 Km a taxas de 10 Gb/s e 24.000 Km a taxas de 5 Gb/s. Em 1996, usando a técnica de
recirculating-loop, foram feitas transmissões de sólitons em um enlace de 9400 Km a uma taxa de 70
Gb/s multiplexando-se, em comprimento de onda, 7 canais de 10 Gb/s.

9 – Tipos de Enlaces Ópticos


Nesta seção consideraremos alguns tipos de sistemas ópticos para comunicação. Cada um
deles atende a determinadas demandas de serviços, possuindo diferenças, muitas das quais são
aparentes. Uma análise mais profunda mostrará a tendência deles fazerem parte de um todo, senão
unificado, pelo menos embricado, havendo interpenetrações nas suas áreas de atendimento ao
usuário final e dando lugar à ocupação de mercados em princípio pertencentes a outro setor.

9-1 – Enlaces Ópticos para Telefonia


O início dos enlaces ópticos para comunicação se deu pelos sistemas correspondentes a
troncos de telefonia, fazendo a interligação entre as centrais telefônicas interurbanas, sendo pois
sistemas ponto-a-ponto. Tais sistemas operam em modo digital de grande capacidade podendo se
estender de alguns quilômetros até centenas ou mesmo milhares de quilômetros.
Em face da alta capacidade de transmissão das fibras, o comprimento do enlace sem
repetidores e outras vantagens fizeram dos enlaces ópticos o meio preferido para os sistemas de
telefonia, inclusive pelas possibilidades de ampliação da gama de serviços. Citamos dados e imagem
para exemplificar.
Já em 1985, o Japão estava usando um tronco nacional, a fibra óptica, com um comprimento
de 3400 Km, interligando diversas cidade nipônicas a uma taxa de transmissão de 400 Mbps. Neste
caso, havia repetidores a cada 40 Km de distância.

F. D. Nunes
Sistemas de Comunicação Óptica 23

Hoje, aqui no Brasil, temos enlaces deste porte, operando a taxas de 2,5 Gbps. Um exemplo
disto são vários enlaces urbanos, em diversas cidades brasileiras, ou ainda a rota Rio de Janeiro-São
Paulo da Embratel que opera a 10 Gbps, multiplexada a 2,5 Gbps em quatro comprimentos de onda.

9-2 – Enlaces Ópticos para Sistemas RDSI


Com o surgimento de componentes como os acopladores, capazes de permitir a realização de
derivações ópticas, abriu-se a oportunidade para que sistemas mais complexos pudessem ser
concebidos e projetados. Uma possibilidade seria não apenas a conexão entre centrais, mas a
conexão de pontos intermediários ao enlace entre as centrais. Daí, a se pensar na ligação do sistema
telefônico ao usuário final foi uma conseqüência natural. Se incluirmos a larga banda da fibra
também é natural se buscar a ampliação do leque de serviços, saindo da telefonia pura e simples para
o oferecimento de shopping, TV a cabo, Internet, WEB, vídeo conferência e assim por diante. Daí se
chegar ao que se passou a chamar de Rede Digital de Serviços Integrados (RDSI). Quando lemos
integrados, já percebemos o que está neste contexto, a união de vários tipos de serviços, antes
realizados de modo separado, por empresas muitas vezes distintas.
A cidade de Biarritz , na França, tornou-se em um laboratório na experimentação do uso dos
serviços integrados. Outros casos semelhantes apareceram, como o sistema BIGFON na Alemanha,
o INS em Tóquio (1984) e o VIVID da AT&T nos Estados Unidos (1985). Hoje, os sistemas RDSI
são uma realidade sonhada por qualquer usuário de comunicações.

9-3 - CATV – Televisão a Cabo


Outro sistema de comunicação óptica que cresce com ímpeto é o da transmissão de sinais de
TV via fibras ópticas. Tendo um dos primeiros sistemas instalados em 1976, em Hasting na
Inglaterra, um circuito de 1,4 Km, atendendo 34.000 assinantes, esses sistemas têm crescido bastante
motivados por razões como a qualidade dos sinais, imunes a ruídos (como os famosos fantasmas dos
sistemas convencionais), afora o grau de exigência dos usuários e aspectos como as possibilidades de
expansão de negócios agregados aos da distribuição de sinal de TV. Por exemplo vídeo-shopping,
WEB e outros.
Novamente, vem a questão do embricamento de diferentes tecnologias e mercados de
comunicação moldando os sistemas e suas vocações. E isto tem reflexo imediato nos projetos dos
sistemas. Para posicionar a questão, citaríamos a questão do padrão de confiabilidade que os sinais
de CATV devem ter se, efetivamente, quiserem ser competitivos com os sistemas tradicionais. No
Brasil, não é novidade o padrão TELEBRÁS, procurado por países vizinhos em busca de normas e
padrões de procedimentos.

9-4 - Sistemas Submarinos


Os sistemas de transmissão a fibra, embora tenham começado em terra firme, logo passaram
a ocupar a parte líquida do globo, como parte integrante da rede internacional de telecomunicações; à
semelhança do que já havia ocorrido no passado com os sistemas de telegrafia. Dado às condições
agressivas do meio, às longas distâncias, às dificuldades de manutenção e outras características, os
sistemas submarinos se constituem num capítulo à parte entre todos os tipos de sistemas existentes.
Operando com comprimentos de onda de 1,55 µm, trabalham com sistemas
repetidores, com distâncias entre si da ordem de 100 Km e fazem uso de sistemas de amplificação
óptica com fibras dopadas com Érbio.
O primeiro cabo óptico submarino transatlântico, associado ao sistema TAT-8, entrou em
operação em 1988, conectando os Estados Unidos da América do Norte à Europa e elevando o nível
24 Comunicações Ópticas

de circuitos de voz para 20.000. Proposto em 1980, ele conecta Tuckerton (New Jersey) a
Widemouth na Inglaterra e Penmarch na França. Esse sistema tem um comprimento superior a 7500
Km, com repetidores a uma distância média de 60 Km, num total de 125 repetidores e é composto de
dois sub-sistemas de transmissão digital a 280 Mb/s.
Entre os Estados Unidos e a Europa foi instalado pela AT&T, em 1991, o TAT-9, operando com
lasers DFB (Distributed FeedBack) de InGaAsP na janela de 1,55 µm. A taxa de transmissão deste
sistema é de 560 Mb/s, possuindo algo em torno de 80.000 canais de voz, unindo de um lado os
Estados Unidos e o Canadá e do outro lado a Inglaterra, a França e a Espanha. O enlace possui
repetidores alocados ao longo do seu percurso, com uma distância de 100 Km entre eles, e sendo
alimentados com linhas de alta tensão.
Um outro cabo a ser citado é aquele da AT&T e a KDD do Japão, formando um enlace que
usa os amplificadores com fibras dopadas com Érbio, constituindo repetidores distanciados entre si
de 40 Km. Este sistema opera com 600.000 canais de voz.
Aqui no Brasil, temos o cabo submarino que vem da América Central e entra por Fortaleza indo até o
sul do país, de onde se interliga com outros cabos formando uma malha como mostra a fig.(1.9-1).
Este sistema trabalha a 10 Gb/s, usando a janela de 1,55 µm.

10 – Os quatro mitos da fibra óptica


Toda tecnologia recentemente introduzida vem acompanhada de preconceitos, esperanças
infundadas, enfim de uma aura de mitos prós e contras, naturais da situação de desconhecimento, ou

USA
México Bermuda
Flórida

Guatemala Columbus II
Jamaica

Americas I
Venezuela
Colômbia Europa
Equador Manaus Belem
Peru Fortaleza
Brasil Recife

Bolívia
S. Paulo Rio de Janeiro
Chile Paraguai
Nova Zelândia
Pacific Transit Argentina
Uruguai
Unisur India Atlantic

Fig.(1.9-1) – Distribuição de cabos ópticos internacionais nas Américas.


ignorância, que em média atinge os que já são seus usuários, ou são usuários potenciais. O mesmo
ocorreu com as fibras ópticas fazendo com que, apesar da indiscutível superioridade tecnológica,
alguns fatores concretos atrasassem a implantação das fibras nos sistemas de comunicação. Vamos, a
seguir apresentar alguns desses mitos que atrasaram, ou ainda atrasam, o uso da fibra óptica em

F. D. Nunes
Sistemas de Comunicação Óptica 25

diversos setores. E entre eles não estão apenas o da comunicação tradicional, a telefonia, mas o de
redes em edifícios, condomínios, fábricas e tantos outros.

I. Fibras são frágeis

As evidências experimentais mostram que uma fibra óptica tem resistência à tração maior do
que os filamentos de cobre, ou aço, do mesmo diâmetro. A fibra é flexível e resistente à maior parte
dos elementos corrosivos que atacam os cabos de cobre. Cabos ópticos podem suportar forças de
puxamento 6 vezes maiores do que as recomendadas para os cabos de cobre categoria 5. De fato,
esses cabos podem ser ainda mais frágeis que as fibras, pois se instalados com curvas em excesso ou
com filamentos desenrolados em demasia nos conectores podem degradar, a ponto de não mais
atender os requerimentos de certificação de categoria 5.

II. Fibras são rígidas e difíceis de trabalhar

É difícil trabalhar com as fibras. Este mito vem dos primeiros dias dos conectores ópticos.
Eles eram difíceis de usar, tinham muitas partes pequenas e demandavam instaladores especializados
(e pacientes). Era necessário usar epóxi, curar, cortar e polir, e as tecnologias para fazer essas tarefas
também eram primitivas. Os conectores de hoje são práticos, têm poucas partes e os instaladores
utilizam máquinas de polimento e fornos para cura. Também existem os conectores sem epóxi e
cordões com cabos pré-terminados, o que torna o trabalho fácil e rápido. Já há conectores com
perdas tão baixas quanto uma emenda óptica feita com uma máquina de fusão.

III. Fibras são caras

Os cabos ópticos e também os componentes necessários à implementação de sistemas de


cabeamento têm custo similar aos dos sistemas de cabos categoria 5. O custo de puxamento dos
cabos é o mesmo e o tempo para fazer as terminações é próximo ao usual para cabos metálicos.
Por outro lado, apesar dos custos dos componentes e cabos serem similares, os serviços de
instalação das fibras são mais caros, principalmente porque exigem uma mão-de-obra de maior nível,
No entanto, este encarecimento, também se dá pelo fato de ainda existirem menos empresas
especializadas em tecnologia óptica. À medida em que fica mais fácil trabalhar com as fibras e a
tecnologia se dissemina, os custos de instalação tendem a diminuir. Se considerarmos outros fatores
como obsolescência e maior confiabilidade, os custos serão francamente menores ao longo do tempo
desta forma, não seria inteligente assumir como premissa que uma instalação óptica terá um custo
superior a uma instalação com cabos de cobre. É recomendável fazer sempre as duas análises.

IV. Fibras não devem ser usadas no desktop

Se falássemos no mundo das comunicações veríamos interessantes fenômenos. Tomemos o


que se passou a chamar de convergência tecnológica. “Antigamente”, e isto significa menos de uma
década (1980-1990), havia uma clara separação entre os serviços de telefonia, comunicação de
dados, entretenimento (rádio e TV Broad-Casting), serviços classificados e ficamos por aí para não
complicarmos muito. Hoje, as coisas estão se apresentando de uma forma bem diferente, ainda mais
com o advento das TV’s por assinatura, as famosas TV’s a cabo, ou via satélite com as antenas
parabólicas. Estas já de tamanho reduzido com 60 centímetros de diâmetro, sendo portáteis e de fácil
locomoção. Se antes o número de canais oferecidos era um pouco mais de uma dezena (13 canais)
hoje temos quase duas centenas e a previsão é chegarmos à casa dos milhares no próximo século.
Um próximo já tão próximo que o atual cheira a coisa passada.
Assim, os famosos “Back-Bones”, estabelecidos por empresas como a Embratel, a Rede
Globo, a Abril Cultural e outras, passam a terem de ser reorientados. Afinal, a TV a cabo que chega
26 Comunicações Ópticas

às nossas casas não só nos traz Outras Variedade de


imagem, mas voz, serviços Multimídia 3% Aplicações
(shopping, classificados e etc.…), e 18 % 30 %

por que não dados, ou mesmo


telefonia? O que eram antes grupos
distintos de tecnologia, já não o são
mais. Aumento Conexões
Se aditarmos a tudo isso a LAN
21 %
Internet, aí é que temos panos para Cliente/Servidor
as mangas. Se a imprensa trouxe a 22 %
comunicação de um para muitos, a
Internet trouxe a comunicação de Fig.(1.10-1) – Fatores que demandam aumento da banda em LAN's.
muitos para muitos. Criaram-se as
infovias e, com elas, maiores
requerimentos quanto a volume e taxa de transmissão de informação. É natural chegarmos à
multiplicidade de serviços, aumento e diversificação nas interações humanas, maior aproximação dos
pontos geográficos (senão sua quase anulação). Já é fato serem realizados serviços de digitação e
similares em países como a Índia, para empresas na Europa, por exemplo. É o uso de mão-de-obra
mais barata, aproveitando-se o fuso horário e os recursos das redes de comunicação informatizadas,
afora as vantagens de ordem fiscal, trabalhista, e outras, para as empresas contratantes.
Una-se a Internet aos serviços de TV e teremos o mundo dentro de casa sem separação entre
o entretenimento, os bancos de dados, os serviços classificados de oportunidade de trabalho e assim
por diante. Com essas redes acopladas aos setores produtivos, muita coisa será feita fora das
empresas, ou dos edifícios antes dedicados a determinados setores, quer sejam administrativos, de
projeto, de marketing ou mesmo pessoal.
Mesmo com tudo isto, em redes de dados e telefonia prediais, ainda é prática comum não se
avaliar a implantação de fibras para usuários finais sob o argumento de que é uma solução cara e
desnecessária. No entanto, historicamente, as soluções de alto desempenho para redes de
computadores chegaram rapidamente a seu limite (Token-Ring 4 e 16 Mbps, FDDI 100 Mbps). As
empresas começam a demandar tecnologias que integram dados, voz e imagens num único meio,
para aplicações multimídia, como videoconferência e sistemas de workgroup computing de alta
produtividade. A perspectiva de implantação dessas tecnologias é uma realidade atual e a
implantação de fibras até o desktop pode ser uma decisão inteligente e estratégica.
Assim sendo, se faz necessário uma reavaliação dos paradigmas de concepção de sistemas, e
desta forma os projetos devem seguir novas direções, inclusive porque não se deve projetar as coisas
para ontem ou hoje. Deve-se projetar visando-se o amanhã, e é nisto que reside uma das grandes
dificuldades (de se projetar, enxergar, pelo menos um pouco, o amanhã).

12 – Topologias de Enlaces Ópticos

 Quando queremos interligar as partes que devem estar em comunicação, as linhas de


comunicação e os pontos de conexão estabelecem uma malha, ou rede, de comunicação que
apresenta uma forma, ou noutras palavras uma topologia. Uma ligação ponto-a-ponto como
ocorre entre duas centrais dá lugar a uma topologia do tipo barramento. Se a este barramento
forem conectados outros pontos de comunicação, então, teremos um barramento multiponto.
Uma boa adaptação entre a topologia da rede, os serviços a serem prestados, a rede lógica a ser
implantada, e detalhes como meio ambiente, tipo de usuários, afora outros, é uma ação
fundamental para a criação de um projeto de qualidade. Na fig.(1.12-1) estão ilustrados alguns
tipos de topologia de redes, a saber: ponto a ponto, barramento, árvore, estrela e anel. Cada uma
dessas topologias tem as suas vantagens e desvantagens, dependendo do tipo de aplicação a ser

F. D. Nunes
Sistemas de Comunicação Óptica 27

feita e outras nuances que envolvem os aspectos lógicos do sistema, confiabilidade e outros
mais.

12.1 – Detalhes sobre os enlaces


Ponto a Ponto

Barramento Árvore

Estrela Anel

Fig.(1.12-1) – Diferentes tipos de topologias.

O objetivo de um enlace, ou de uma rede de comunicação, é conectar pontos para que eles se
comuniquem. Essas ligações se dão com dois tipos de aproximações, a saber:

- ponto a ponto fixo


- rotas com entroncamentos, conexões e derivações

Ponto a Ponto - FIXO

1 Circuito - FIXO a
2 b
3 c
1→a
2→b
3→c
n ...... N
n→N
Fig.(1.12-2) – Enlaces fixos, ponto a ponto e WDM, com a tabela de conexão.

Um enlace ponto a ponto fixo é aquele em que não permite a realização de mudanças do caminho
pelo qual fluem as informações; não há pois flexibilidade. Mesmo que haja o envolvimento de
requisitos como dispositivos WDM o enlace será dito fixo caso a conexão entre os pontos seja
28 Comunicações Ópticas

definido e imutável. Na fig.(1.12-2) vemos que embora seja aparentemente multiponto o enlace é
um conjunto de muitos enlaces ponto a ponto, conforme a tabela de conexão dado na figura.
Caso o enlace seja flexível qualquer ponto pode ser conectado a qualquer ponto. Na
fig.(1.12-3) vemos um conector estrela e um enlace com barramento no qual há a presença de
multiplexadores add-drop (ADM) que realizam as funções de inserir e retirar diferentes pontos de
conexão. O barramento com os ADM podem ser considerados como um conector estrela, como
indica o quadrado tracejado da fig.(1.12-3).

ADM

Fig.(1.12-3) – Enlaces flexíveis com conector estrela e barramento com multiplexadores add-drop
(ADM). O quadrado tracejado indica que o barramento com os ADM são equivalentes a um
conector estrela.

Como parte da qualidade de serviços do enlace (QoS) existe a necessidade de que o


enlace não sofra solução de continuidade da sua operabilidade. Daí vem a necessidade de que na
falha de um nó ou a queda de um link o sistema permaneça em operação. Em um enlace ponto a
ponto como aquele da fig.(1.12-2) se faz necessário a existência de uma rota alternativa pela qual
flua o trafego de informação no caso de haver problema na rota original. A fig.(1.12-4) ilustra rotas
alternativas para os enlaces apresentados. Óbvio que em um único cabo óptico se pode ter uma fibra
como uma rota alternativa de uma outra em uso, entretanto a proteção quanto à integridade da
conexão é maior caso a rota alternativa seja outra, fisicamente falando.

1 Circuito - FIXO a
2 b
3 c
1→a
2→b
n 3→c N
...... ADM
n→N

Fig.(1.12-4) – Enlaces com recorrência.

F. D. Nunes
Sistemas de Comunicação Óptica 29

11 – Dados sôbre comunicações ópticas hoje


Para considerarmos os enlaces ópticos atuais tomemos o desenvolvimento deles ao longo
dos últimos vinte anos, como mostra a Tab.(11.1-1) O que vemos nesta tabela são os eventos que
ancoraram o desenvolvimento dos enlaces ópticos; Podemos perceber os avanços alcançados
observando alguns dos índices nela apresentados. Vejamos a distância entre repetidores que passou
de 7 para 640 quilômetros, um fator de quase cem vezes.

km
Entre
Janela Bit/s Bit/s Rege
Óptica Por Por Canais de nerado
Sistema Ano Fibra (nm) Canais Canal Fibra Voz/Fibra res
FT3 1980 MM 820 1 45 Mb/s 45 Mb/s 672 7
FT3C 1983 MM 820 1 90 Mb/s 90 Mb/s 1.344 7
FTG-417 1985 SM 1300 1 417 Mb/s 417 Mb/s 6.048 50
FTG-1,7 1987 SM 1300 1 1,7 Gb/s 1,7 Gb/s 24.192 50
FTG-1,7 WDM 1989 SM 1300/1500 2 1,7 Gb/s 3,4 Gb/s 48.384 50
FT-2000 1992 SM 1300 1 2,5 Gb/s 2,5 Gb/s 32.156 50
FT-2000 WDM SM 1300/1500 2 2,5 Gb/s 5,0 Gb/s 64.120 50
NGLN 1995 SM 1550 8 2,5 Gb/s 20 Gb/s 258.000 360
NGLN II 1997 SM 1550 16 2,5 Gb/s 40 Gb/s 516.000 360
WAVESTAR® 80 2,5 Gb/s 200 Gb/s 2.580.000 640
400G 1999 SM 1550 40 10 Gb/s 400 Gb/s 5.160.000 640

Tab.(11.1-1) – Histórico dos sistemas de comunicação óptica.

Apenas para não deixar desapercebido, se observa que os primeiros enlaces foram baseados
em transmissores de Arseneto de Gálio, na janela de 820 nm. Já em 1985 os sistemas introduziram a
janela óptica em 1300 nm, com os lasers de InGaAsP.

1014
Bits/s

1013
ETDM – Electronic Time Division Multiplexing
OTDM – Optical Time Division Multiplexing
POL – Polarization Division Multiplexing
1012 WDM – Wavelength Division Multiplexing

Experimental
1011 Monocanal ETDM
Monocanal OTDM
1010 Multicanal WDM
WDM
WDM+POL/OTDM
109

Comercial
Monocanal ETDM
108
Multicanal WDM

107
1980 84 88 92 96 2000

Fig.(11.1-1) – Evolução da capacidade de transmissão de informação em sistemas de comunicação óptica


com diferentes tecnologias.
30 Comunicações Ópticas

A quantidade de informação transmitida em uma única fibra, em bit/s, mostra um salto de 45


Mb/s para 400 Gb/s, algo em torno de dez vezes; nesse caso um aumento ocorrido por conta da
tecnologia WDM (Wavelength Division Multiplexing) que foi disponibilizada a partir de 1989.
Graças a ela cada fibra pôde ser multiplicada pelo número de comprimentos de onda multiplexados.
No momento atual, em laboratório, o número deles chega a 1022, como foi anunciado pela Bell
Labs. Em canais de voz há um fator de quase oito mil vezes entre os idos de 1980 e a situação vinte
anos depois. Pode-se ver a também a explosão de comunicação nessas últimas duas décadas na
fig.(11.1-1).
Nela são apresentados dados sobre a capacidade de transmissão dos sistemas experimentais
e comerciais em bits/s. Observa-se com clareza que a capacidade de transmissão oriunda da camada
eletrônica, expressa na tecnologia ETDM (Electronic Time Division Multiplexing), não acompanha
o crescimento imprimido pela camada óptica e expressa na tecnologia WDM. Isso se verifica nos
âmbitos comercial e experimental. O gargalo da tecnologia ETDM se encontra na velocidade de
processamento dos circuitos integrados (CI’s). Os computadores sofrem do mesmo problema das
telecomunicações. As demandas por capacidade de processamento são empurradas pelas solicitações
de mercado e puxadas pelos avanços tecnológicos apresentados pelos sistemas comercializados.
Esses ao chegarem aos usuários levam-nos a atividades e usos que findam por exigirem mais
capacidade de processamento. Assim, a demanda pela capacidade de transmissão cresce a taxas de
100 vezes em cada década, contra um crescimento da velocidade global de processamento em torno
de 10 vezes.
Na figura se vê que a introdução da tecnologia WDM cria uma transição no volume de
informação transmitida (bits/s), por volta de 1995, mudando a derivada de crescimento dessas taxas
de transmissão. Já no caso da tecnologia ETDM se observa por volta de 1985, dez anos antes do
impacto WDM mencionado, uma transição no sentido oposto com expressiva queda na taxa de
crescimento da sua capacidade de transmissão. Percebe-se, também que mesmo a nível comercial as
taxas de transmissão alcançaram a era do terabit/s (1012 bit/s), deixando para traz a era do gigabit/s
(109 bit/s). Isso significa que em uma única fibra óptica, um fio da grossura de um fio de cabelo, se
pode transmitir 20 milhões de canais de dados de 56 kbit/s, ou 40 milhões de canais de voz digital
ou 500.000 canais de TV comprimidos. Sistemas comerciais operando em 1,2 terabit/s, em uma
única fibra, ganharam a capacidade de transmitir algo em torno de 36.000 volumes de enciclopédias
em apenas um segundo. É um cenário de mundo que soa ao da fantasia; contudo realidade
disponível.
Um outro fator a ser considerado é quanto aos aspectos econômicos que temos nesse
contexto atual. Segundo a regra de Dixon e Clapp o custo de um canal de voz decresce com a raiz
quadrada da capacidade do sistema. Tomando os dados da Tab.(11.1-1) ou da fig.(11.1-1) podemos
dizer que há um crescimento da capacidade de transmissão dos sistemas em algo em torno de 100
vezes a cada dez anos. Isso significa um queda do custo de canal de voz de 10 vezes a cada dez anos
(!).
O fator distância, como vimos, é um fator cada vez menos influente, mudando o conceito do
tipo de ligação. Só para termos uma referência, a tecnologia digital nos Estados Unidos se iniciou
comercialmente em 1962 com os hoje conhecidos enlaces T1, baseados em pares trançados de
cobre. Carregando 24 canais de voz, cada um de 64 kbit/s totalizando uma taxa de 1,544 Mbit/s, eles
requeriam regeneradores a cada 2 km. No início da década dos oitenta, com os sistemas T4M, as
taxas subiram para 274 Mbit/s com regeneradores a cada milha (1,6 km). Comparemos com as
distâncias entre regeneradores ópticos, inicialmente de 50 km na janela de 1300 nm, atingindo hoje
centenas de quilômetros. Se a ligação é local ou de longa distância a diferença em custo tende a ser
nenhuma. E para termos noção das facilidades disponibilizadas, é só se considerar alguém na
Internet; com um simples clique no mouse se tem em segundos a informação vinda de qualquer
ponto do globo. Isso leva o mundo da idéia do onda para a idéia do quando.
Na atual conjuntura, embalado por gerações sempre mais potentes de computadores, e que
mais e mais fazem parte dos sistemas de comunicação, o tráfico de dados cresce e se torna
dominante sobre o de voz. O custo do serviço de comunicação de voz se torna o de menor valor e o
F. D. Nunes
Sistemas de Comunicação Óptica 31

de dados tornando-se dominante começa a orientar os fornecedores de serviços a cobrarem seus


serviços na base de x bits/s. Tudo parece indicar que voz será, senão sem custo, quase um bônus
dentro do uso dos demais serviços, entre os quais Internet, vídeo, música, ensino, tele-saúde e quem
sabe mais o que? A fig.(11.1-3) nos mostra o número de anos que diferentes serviços de
telecomunicação levaram para atingir 50 milhões de usuários. Com facilidade se percebe a
disparidade de tempo entre voz e Internet.
Face a essas extraordinárias demandas, se presencia nos dias atuais a uma taxa de instalação
de cabos ópticos que chega impressionantes 5.000 quilômetros de fibra por hora. Também
impressiona seu custo, mormente quando se considerada quão elevado é o nível de tecnologia nela
contido, tanto nos materiais quanto nos processos. Destarte as fibras serem um produto de alto
conteúdo tecnológico elas custam em torno de US$ 0,05 o metro, ou 50 US$ o quilômetro.
A importante novidade tecnológica do WDM, como vimos anteriormente, trouxe um
importante avanço na capacidade dos sistemas de longa distância; principalmente quando vemos essa
tecnologia aliada à da amplificação óptica. Sua designação por DWDM, onde o D significa Denso,
mostra a quantidade de canais de comunicação que estão sendo disponibilizados. Muito bem usada
nos enlaces cujas características são ponto-a-ponto, a tecnologia WDM teve de esperar por seu
momento, quando as limitações da taxa de transmissão dos sistemas digitais TDM, e os
amplificadores ópticos, fizeram dela uma opção economicamente viável. Econômica no sentido
inclusive tornar desnecessário investimentos de bilhões de dólares dos provedores de serviços na
disponibilização de novas fibras, inclusive pelo esgotamento de banda das fibras já instaladas. Junte-
se a isso, também a aceleração no tempo de resposta desses provedores às demandas de serviços do
mercado, gerando novas fontes de receita para um mesmo capital investido em rede.

80

70

60

50

Anos 40
30

20

10

0
Telefone Rádio TV PC WWW
Fig.(11.1-3) - Anos para atingir 50 milhões de usuários para diferentes serviços.

Os sistemas de comunicação caminham na direção de redes não apenas de muito volume de


informação e pequenos atrasos; eles também avançam na direção de serem flexíveis, independentes
de distância, distributíveis, e geridos pelo comprimento de onda. Isso demanda por avanços em
elementos indispensáveis a uma rede desse tipo. São componentes tais como: filtros e acopladores
sintonizáveis em comprimento de onda, lasers sintonizáveis, acopladores estrela, multiplexadores
add-drop (ADM) com escolha de comprimento de onda e outros que poderiam fazer essa lista longa.
Novamente as vistas se voltam para a tecnologia WDM, agora dentro do âmbito metropolitano. Os
sistemas já denunciam a sua rápida incorporação às redes entre centrais e de acesso. A fig.(11.1-4)
32 Comunicações Ópticas

ilustra possíveis enlaces ópticos com WDM. Nela vemos acima uma rede ponto-a-ponto fig(11.1-4.a)
característica de enlaces longos, com comprimentos de centenas de quilômetros entre seus terminais.
Na figura do meio fig.(11.1-4.b) se pode observar um esquema em que os ADM (Add/Drop
Multiplexer) realizam uma função importante; a de derivar a rede principal e descarregar o tráfego
em alguns pontos intermediários.

WDM ponto-a-ponto
DWDM FA FA DWDM
- Alta capacidade de transmissão

WDM Rede Multiponto


Compartilhamento entre múltiplos nós
Acesso passivo de canais de comprimento de onda

DWDM FA FA DWDM

DW
DM

Conector Estrela fotônico e WADM


FA
WDM reconfigurável e Rede Multiponto FA
- Conecção automática
- Ajuste flexível de largura de banda
- Rede auto restabelecida
FA

Fig.(11.1-4) - Exemplos de enlaces ópticos e sua evolução para redes fotônicas.

Nesse caso todos os comprimentos de onda do trecho principal são descarregados. Na figura
de baixo fig(11.1-4.c) se vê a representação de uma rede com a inclusão de elementos como WADM
(Wavelength Add/Drop Multiplexer) capazes de realizar a retirada e a inclusão de comprimentos de
onda especificados, reduzindo os altos custos da eletrônica necessária quando todos os comprimentos
de onda são indiscriminadamente retirados ou inclusos.
Comentários quanto aos ganhos de conectividade dessa última rede comentada são
desnecessários pois os dados já falam por si próprios. Também temos a inclusão de conectores
estrelas capazes de realizar a requerida distribuição dos comprimentos de onda que trafegam na rede.
Entretanto, há de se considerar que o caminho não está todo pronto, uma vez que as redes
metropolitanas têm significativas diferenças em relação às de longa distância e ponto-a-ponto. Redes
metropolitanas são fortemente impulsionadas pelo tráfico de dados, com fortes necessidades de
distribuição de sinais e com apelos por equipamentos como roteadores IP, chaveadores ATM
(Asynchronous Transfer Mode) transparentes a canais OC-48 ou (STM-16). A isso se alia o fato de
que o tráfego de dados requer equipamentos orientados à multiplexação estatística ao invés de TDM,
a qual predomina nos ADM’s das atuais redes SONET (Synchronous Optical Network) ou SDH
(Synchronous Digital Hierarchy). Bem se sabe que a tecnologia TDM foi criada para ser de alta
eficiência em serviços de voz com canais de 64 kbit/s. No caso dos serviços de dados envolvendo
multiplexação estatística ela não é a melhor opção. Inclusive para melhorar o desempenho
econômico das empresas prestadoras de serviço, ainda mais quando estão diante de um cenário de
intensa competitividade que finda por reduzir as margens dos produtos vendidos. A fig.(11.1-5)
mostra de que forma o mercado de telecomunicação mundial tem se modificado no período de 1995
a 2000. Na figura são apresentadas as percentagens do tráfego internacional correspondendo a

F. D. Nunes
Sistemas de Comunicação Óptica 33

90

80

70

60

50

40

30

20

10

0
1990 1995 1998 2005

N. Operadoras 4 14 29 48
Competição 35 46 74 85
Monopólio 65 54 36 15

Fig.(11.1-5) – Percentagem do tráfego internacional de telefone aberto para competição


(Fonte UIT).

monopólio e competitividade. Também é mostrado o número de países que permite mais de uma
prestadora de serviço.
Redes DWDM podem coexistir com as redes SONET e SDH e mesmo as mais antigas FOT
(Fiber Optic Terminals) operadas com protocolos assíncronos Outro ponto interessante a ser
observado para o caso das redes metropolitanas é a mudança das necessidades dos usuários. Elas,
antigamente muito ligadas a voz e alguns serviços de dados, buscam hoje uma ampla oferta de
serviços e com qualidade assegurada. O mesmo pode ser dito de usuários domésticos que também
passam a usar diferentes serviços: TV digital, Internet e outros que estão aparecendo. É um novo
mundo o das comunicações!
Qual o limite para as fibras? Haverá? O limite de transmissão de uma fibra está associado a
dois fatores básicos. Um é a largura total da banda espectral das fibras, algo em torno de 50 THz,
para as fibras de sílica. Outro fator é a ocorrência dos efeitos lineares que as fibras desse material
apresentam.
A medida da quantidade de informação que pode ser transmitida em uma fibra pode ser
calculada a partir do teorema de Shannon. Segundo esse teorema, a capacidade de um canal é dada
pela expressão:

 S
C = B log 2 1 + 
 N (11.1.1)

onde: C é a capacidade do canal, B é a sua largura de banda, S é a potência do sinal e N o nível de


ruído. A expressão de Shannon se aplica para canais de resposta linear com ruídos aditivos. Quanto à
banda disponível ela será determinada pela banda de amplificadores existentes. Como será
comentado adiante, cos amplificadores atuais, os quais incluem os de Érbio e Raman, e outros terra-
raras que poderão ser usados – Túlio é um exemplo – permite se estimar a banda disponível como
sendo a banda da própria fibra de sílica, algo em torno de 400 nm (1.200 a 1.600 nm) ou 50 THz.
Quanto à relação potência do sinal versus ruído os sistemas existentes têm seu valor definido pelos
amplificadores ópticos dado ao ruído devido à emissão espontânea. Caso seja requerido, uma TEB
de pelo menos 10-9, o valor dessa relação é da ordem de 100. Substituindo-se tais valores na
eq.(11.1.1), encontramos:

C = 50 log 2 (1 + 100) ≈ 50x 6,7 = 335 (11.1.2)


34 Comunicações Ópticas

de modo que há uma capacidade de transmissão em torno de 350 Tb/s.


A relação C/B é definida como eficiência espectral do canal, sendo uma figura de capacidade
de transmissão desse canal. Dentro das condições em que se calculou essa grandeza segundo
Shannon, obteremos 6,7 Tb/s/Hz. Nos sistemas comerciais, nos quais é usada BASK (Binary
Amplitude Shift Keying) a eficiência espectral chega a 0,4 Tb/s/Hz. No caso de se usar uma única
polarização, a eficiência espectral usando BASK é de 1 Tb/s/Hz, mostrando que ainda há de se
melhorar as técnicas de codificação com o fim de se chegar ao limite da capacidade de um canal.
Não é difícil percebermos na eq.(11.1.2) que aumentando-se a potência do sinal se poderia
aumentar a capacidade do sinal. Entretanto esse aumento de potência, como já ocorre nos sistemas
atuais, leva o sistema a ser não linear, e as condições de Shannon não mais são respeitadas. Dessa
forma, a distorção dos sinais provenientes dos efeitos não lineares encontrados nas fibras de SiO2
são um limitante ao aumento da capacidade de informação transmitida. Entre esses efeitos,
discutidos adiante, vamos encontrar FWM (Four Wave Mixing) ou Mistura de Quatro Ondas, Auto
Modulação de Fase, Modulação Cruzada de Fase, ligados aos efeitos lineares descritos pelo termo de
terceira ordem da susceptibilidade elétrica do material. Essa é uma área em desenvolvimento e novos
resultados estão por vir.

13 – Que Impactos nos Trazem os Enlaces Ópticos?


Que impactos trazem os enlaces ópticos na vida humana? Não é uma pergunta de fácil
resposta conquanto já se possa ter vários aspectos em conta. Pelo que vimos anteriormente, um
primeiro aspecto, quanto aos enlaces ópticos é a sua capacidade de transmissão de elevados volumes
de informação e as suas altas taxas de transmissão. Com tais possibilidades as fibras trazem uma
nova realidade de serviços a serem disponibilizados a todos nós.
Todos sabemos que um dos setores de maior capacidade de geração de emprego é o da
construção civil. Mas, que tipo de edifícios, sejam casas, edifícios comerciais ou residenciais,
hospitalares, hoteleiros ou industriais, estamos falando? Pensar em edifícios como salas e quartos,
banheiros e cozinhas, garagens e despensas, a serem ocupados por pouco ou muita gente, é uma
visão bastante limitada do assunto. Principalmente dentro deste cenário social, econômico e
tecnológico, ora sendo vivenciado.
Socialmente atingimos a situação de um mundo muito complexo, pelo menos muito mais do
que há algumas décadas atrás. Tanto pelo número de pessoas quanto pelos seus sistemas de
distribuição de elementos básicos (água, luz, alimentos), exigências educacionais, requisitos de
saúde, facilidades de transporte, abundância de comunicação e informação. Sem esgotar a lista de
complexidades, elas são um exemplo da complexidade social, aos quais se agregam as distorções
sociais, as exigências de mercado e outros mais.
Economicamente o cenário não é menos complexo. Temos um mundo de grande número de
micro, pequenas e médias empresas, todas imersas em um ambiente de megaempresas, várias
transnacionais. Há uma intensa competitividade entre as empresas, rápidas transformações
tecnológicas, fluxos financeiros ágeis, rápidos e fluidos. Os investidores resmungam com insistentes
clamores por lucros que justifiquem e dêem segurança aos seus investimentos.
Tecnologicamente o cenário é um mar de novidades em ascendente grau de sofisticação e
mudanças aceleradamente emergentes. O espectro de atividades atingidas é amplo, não havendo uma
que não tenha impactos a apresentar. Em particular há a microeletrônica, a informática e as
telecomunicações. Juntas elas provocaram um frenesi de produtos, possibilidades de ações, de
serviços e criação de novos mercados.
É, exatamente, este conteúdo tecnológico que finda por alterar as relações entre usuários e os
edifícios em geral. Uma sala comercial, que antes seria apenas um consultório, hoje, com os recursos
da telemedicina, se transforma numa pequena clínica. Ou vira uma empresa de propagando e design.
Um quarto de hotel deixa de ser apenas um local de repouso de um turista e passa a ser também seu
F. D. Nunes
Sistemas de Comunicação Óptica 35

escritório longe de casa, ao qual ele se conecta por meio do seu laptop, palmtop, ou um pingo de top
de tão compacto. Médicos poderão acompanhar parâmetros importantes dos seus pacientes a partir
dos seus consultórios, e por que não das suas residências.
Com a TV por assinatura uma sala virou um mundo de imagens, e além de diversão serviços.
Shopping, classificados, cursos, e ... Quem sabe o que mais virá? O certo é que o tamanho de uma
tela de TV ligada á multiplicidade de acessos de uma Internet, dando lugar a uma WEBTV, não
deixa dúvidas quanto aqueles que a assistem terão para ver, pesquisar, e exigir interatividade. Com
isso se pergunta: preciso ir ao banco? Ou ir às compras, ou mesmo a uma aula? Não é difícil
vislumbrar que quartos se transformarão em classes particulares, salas em lojas, e uma empolgante
sucessão de associações.
Mantendo tais coisas na mente olhemos para os edifícios e casas existentes em nossa cidade.
Muitos deles estão nascendo obsoletos, sem infraestrutura para o mundo da lógica, da comunicação
remota, do comando distante, da rede de informações. E, em muitos casos, a deficiência começa na
ausência de requisitos mínimos, tais como: terra elétrico, tomadas tripolares, cabeamento lógico e
por aí vai. Em geral, oriundos da falta de um melhor nível de informação com conteúdo estratégico
dos homens de negócios da construção civil, levando-os a enxergar as novas oportunidades de
competitividade e o entendimento das possibilidades de novas fontes de recursos financeiros. Por
exemplo, basta ver que um edifício comercial, mais do que uma prateleira de salas é um
concentrador de tráfego de informação. E como tal, há uma série de serviços a serem explorados.
A telecomunicação, incluindo nela a Internet, e por conseqüência o conceito de redes de
comunicação e de computadores, prescreve, numa visão de futuro (afinal ninguém constrói para o
passado), a existência de uma plataforma de telecomunicação a ser explorada como fonte de
comodidade, de serviços e, portanto, criadora de um diferencial de competitividade do
empreendimento. Considerando os serviços que podem ser, hoje, disponibilizados pelos
equipamentos de telecomunicação, edifícios, ou condomínios, são palco de serviços de
telecomunicação a serem prestados para serem geradores de receita a quem explorá-los. Nesse
contexto precisa ser considerado o uso dos computadores em todos os tipos de domicílios, e com isso
toda a tecnologia de redes de computadores assume um papel indispensável à consecução de diversas
atividades, tanto profissionais quanto educacionais e outras mais. Mesmo nos lares os computadores
passam a ser instrumento aplicado em tarefas que passam pelos estudos dos filhos e chegam até às
tarefas profissionais dos pais. Se considerarmos edifícios comerciais muito pouco precisa ser dito
sobre o papel das redes de computadores. O que ainda fica a desejar é a perfeita visão das
possibilidades de exploração de serviços que podem ser prestados às comunidades existentes nos
edifícios, em conjunto com os de telecomunicação. Correio de voz, propaganda, acesso a
informações, banco de dados, homebanking, homedesk, e outras mais como compartilhamento de
infraestrutura (hardware e software), tarifação e aquelas ainda por vir.
A automação predial é mais um elemento tecnológico de importância. Com ela se possibilita a
realização de diversas ações de controle, inspeção, acionamento, as quais se destinam a providenciar, pelo
menos, três elementos fundamentais: segurança, economia e conforto. Tais elementos assumem, cada dia, um
papel importante nas nossas vidas uma vez que inúmeras tarefas passam a ser realizadas por máquinas (lavar
pratos, lavar roupas, forno de microondas,...), as interferências entre as pessoas se intensificou (acidentes,
intrusão, ...) e as necessidades de uma nova dinâmica de vida exigem novas formas de realizar as tarefas mais
simples do dia a dia.
2

Propagação da Luz em Meios


Homogêneos

Introdução
O meio físico básico de um sistema de comunicação óptico é a fibra óptica. Existem outros
meios que poderão ser usados, como a atmosfera ou mesmo um líquido. Ele é o elemento no qual a
luz irá propagar transportando o sinal que contém a informação. No caso das fibras ópticas, a
grande vantagem é a sua capacidade de confinar a radiação em uma região do espaço, impedindo
assim que a luz se espalhe pelo espaço afora, desperdiçando energia. Ela serve de conexão entre os
pontos de partida (transmissor) e chegada (receptor) do sinal durante a transmissão.

2.1- Onda
Para entendermos a propagação de uma onda precisamos primeiro saber: o que é uma
onda? Uma onda é uma perturbação que propaga em um meio. É como a ola em um campo de
futebol. A princípio estão todos parados, então uma linha de pessoas, desde o primeiro até o último
degrau da arquibancada, se levanta. A seguir, o pessoal que se levantou se abaixa enquanto uma
linha de pessoas sentadas ao lado daqueles que estavam em pé se levanta. Imagine-se que este
senta-levanta vai se repetindo, em um dos sentidos da arquibancada. Considerando-se que todos
estavam sentados e quietos, o senta-levanta é uma perturbação que avança em um dos sentidos da
arquibancada, terminando por dar a volta por todo o campo. Algo semelhante é uma pedra que cai
numa superfície de um lago que está absolutamente quieta. Ao tocar na água, a pedra provoca um
movimento no líquido, elevando-o e baixando-o, na forma de um círculo que avança pelo lago.
Estes são exemplos de perturbações que podem ser caracterizados como movimentos ondulatórios.
Tomemos um exemplo bem palpável na
prática, o caso de uma corda estirada no chão corda parada
sobre a qual se exerce um rápido puxão para
cima. Sabemos que se forma um pulso nesta
corda, o qual rola, ou melhor dizendo, propaga corda com pulso
ao longo dela. A fig.(2.1-1) ilustra o que
estamos comentando.
Uma pergunta cabível seria: podemos
descrever este efeito matematicamente? A
resposta é obviamente sim, e a seguir Fig.(2.1-1) – Pulso propagando numa corda.
38 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

mostraremos como se fazer isto.


Para descrevermos a propagação de uma onda sobre uma corda precisaremos considerar
duas coisas básicas, a saber:

- descrever as tensões na corda


- usar a Segunda e a Terceira lei de Newton
x

T(z+∆z)
θ’ Tx(z + ∆z)
Tz (z)
Tz(z +∆z)
Tx(z) θ
T(z)

z z+∆z z

Fig.(2.1-2) – Diagrama das tensões entre dois pontos de uma corda em movimento.

A descrição das tensões na corda, como ilustra a fig.(2.1-2) nos leva às seguintes equações:

Tz (z + ∆z) − Tz ( z) = 0 (2.1-1)

Tx ( z + ∆z) − Tx ( z) = ∆m.a x (2.1-2)

A eq.(2.1-1) nos informa que não havendo movimento da corda ao longo de z, a força
resultante nesta direção deve ser nula. Já a eq.(2.1-2) nos diz que a força resultante na direção x,
direção na qual a corda foi sacudida e se movimenta, é igual à massa do segmento de corda, vezes a
sua aceleração em x (Segunda lei de Newton).
Usando-se a decomposição das tensões nas extremidades do segmento usado e aplicando a
Terceira Lei de Newton (T(z)=T(z+∆z) ), dado que cosθ’=cosθ(z +∆z), a eq.(2.1-1) pode ser escrita
na forma:

T cos θ(z + ∆z) − T cos θ(z) = 0 (2.1-3)

Fazendo-se o mesmo com a eq.(2.1-2) chegamos a:

T sen θ(z + ∆z) − T sen θ( z) = ∆m.a x (2.1-4)

A massa do segmento de corda pode ser calculada através da equação

∆m = µ∆l ≈ µ∆z (2.1-5)

onde ∆l é o tamanho do segmento de corda, e que pode ser aproximado por ∆z, na medida em que
as inclinações na corda sejam pequenas.
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 39

A aceleração ax, experimentada pelo segmento de corda ao longo da direção x, é calculada a


partir da sua definição, isto é:

∂2 X
ax = (2.1-6)
∂t 2

A derivada é parcial porque o deslocamento X ao longo de x também depende de z, pois


varia ao longo da corda em cada instante t.
Combinando-se as eqs.(2.1-4) e (2.1-5) com a eq.(2.1-6) teremos:

∂2 X
T (sen θ(z + ∆z) − sen θ(z)) = µ. ∆z (2.1-7)
∂t 2

Tomando-se a aproximação dos senos pelas tangentes, já que os ângulos são pequenos, podemos
escrever:

 ∂ 
sen θ(z + ∆z) − sen θ(z) = tgθ(z + ∆z) − tgθ( z) = dtg(θ) =  tgθ ∆z
 ∂z 

o que nos leva a eq.(2.1-7) à forma:

∂ µ ∂2 X
tgθ = (2.1-8)
∂z T ∂t 2

Como tgθ=∂X/∂z, poderemos escrever a eq.(2.1-8) como segue:

∂2 X µ ∂2 X
− =0 (2.1-9)
∂z 2 T ∂t 2

Esta equação diferencial, chamada de equação de onda, será aquela que descreverá o
movimento das pares da corda que sofreu uma sacudidela para cima provocando o pulso
propagante.
A solução da equação diferencial, obtida para a corda, tem como solução uma função cujo
argumento deverá do tipo z±vt, uma vez que temos pulsos que podem propagar tanto para a direita
como para a esquerda. Deste modo, em qualquer instante a posição de qualquer parte da corda em
movimento (o pulso por exemplo) será z=z’+vt, quando estiver propagando para a direita, ou
z=z’-vt quando estiver propagando para a esquerda. Com isto o pulso será descrito por uma função
do tipo

X=X(z±vt) (2.1-10)

Verifiquemos qual condição deve ser satisfeita por X(z±vt) para que ela seja solução da
equação de onda na corda. Se X(z±vt) é solução da equação de onda, deve satisfazer à eq.(2.1-9) e a
condição procurada é obtida calculando-se as derivadas necessárias e substituindo-as na referida
equação. Chamando z±vt=u , as primeiras derivadas serão:
40 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

∂X ∂X ∂u ∂X
= = (2.1-11)
∂z ∂u ∂z ∂u

∂X ∂X ∂u ∂X
= = ±v (2.1-12)
∂t ∂u ∂t ∂u

Quanto às derivadas segunda:

∂2 X ∂2 X ∂2 X ∂2 X
= e = v2 (2.1-13)
∂z 2 ∂u 2 ∂t 2 ∂u 2

Substituindo-se estes resultados na eq.(2.1-11), tem-se:

µ 2 ∂2 X
(1 − v ) =0 ∀ u, X ≠ 0 (2.1-14)
T ∂u 2

T
o que exige: v = (2.1-15)
µ

Em conseqüência, para que X(z±vt) seja solução da equação de ondas, a onda sobre a corda
deverá se propagar com a velocidade dada pela eq.(2.1-15), dependendo portanto da tensão aplicada
sobre a corda e da densidade da corda. Tomando um violão nas mãos podemos começar a
experimentar um caso prático do que acabamos de calcular.
Nos caso apresentado acima temos que as ondas propagam por conta de um meio físico que
sofre perturbação, a corda. Entretanto, no caso da luz, as ondas são as ondas eletromagnéticas, as
quais diferem das que acabamos de comentar porque elas não precisam de um meio físico como
suporte para a sua propagação. Isto é assim porque as ondas eletromagnéticas se constituem de um
processo de indução mútua entre os campos elétrico e magnético. Em um dado ponto do espaço, se
o campo elétrico ali presente variar no tempo, ao redor do ponto se cria uma circuitação de campo
magnético

Lei de Ampère-Maxwell –

d ∂E
∫ B • dl = µ ∫ J • ds + ε µ
Γ
o
S
o o
dt ∫S
E • ds ∇xB = µ o J + ε oµ o
∂t
.

Nos pontos em volta, onde existem campo magnético, como estes campos são variáveis no tempo,
eles induzem uma circuitação de campo elétrico

Lei de Faraday -

d ∂B
∫ E • dl = − dt ∫ B • ds
Γ S
∇xE = -
∂t
.
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 41

Desta forma, a presença de ambos os campos vai se espalhando pelo espaço afora, fazendo com que
haja o processo de propagação.
Tomando o caso de ondas eletromagnéticas, que é o nosso caso de interesse em óptica,
podemos dizer que os campos que constituem a onda podem ser descritos por expressões como as
que são dadas nas eqs.(2.1-16) e (2.1-17), caso consideremos uma onda plana propagando ao longo
da direção z com velocidade v.

∂2E ∂ 2E
= ε οµ ο (2.1-16)
∂z 2 ∂t 2

Se procedermos para o campo magnético de modo análogo ao que foi feito com o campo elétrico, se
chega a:

∂2B ∂2B
= ε οµ ο (2.1-17)
∂z 2 ∂t 2

Eles são na verdade descritos por uma


equação, chamada de equação de onda,
iremos apenas deixar a menção. Como se vê z+vt
as expressões têm a mesma forma para
ambos os campos.
z-vt
E=E(z±vt) (2.1-18)
Fig.(2.1-3) - Propagação de uma perturbação que se
constitui numa onda.

B=B(z±vt) (2.1-19)

A fig.(2.1-3) mostra um pulso se deslocando nos dois sentidos do eixo z. Com ela podemos
perceber que o campo numa dada posição z irá estar presente numa posição (z±vt) depois que se
passa um tempo t, no qual ele está viajando com velocidade v. O sinal (-) refere-se a ondas se
propagando no sentido positivo do eixo dos z, enquanto o sinal (+), à propagação no sentido oposto.
É possível se mostrar que a velocidade de propagação será dada por:

1
v= (2.1-20)
εµ

Em conseqüência, para que E(z±vt) seja solução da equação de ondas, a onda


eletromagnética deverá se propagar com a velocidade dada pela eq.(2.1-20). No vácuo este valor
será:

4π 1
v=c= = 10 7 • 9 • 10 9 = 3x10 8 m / s (2.1-21)
µ o 4πε o

Este é o valor experimentalmente verificado da velocidade da luz no vácuo e é normalmente


designado por c. Aqui ele foi obtido, teoricamente, a partir das constantes características das
propriedades elétrica e magnética deste meio.
42 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

O argumento das funções, dadas nas eqs.(2.1-16) e (2.1-17), possui uma parte descrevendo
a dependência espacial da onda, e outra a temporal. Consideremos o caso particular das ondas
harmônicas, dadas na forma:

E = E o sen[ k( z ± vt )] = E o sen[( kz ± ωt )] (2.1-22)

B = Bo sen[ k ( z ± vt )] = Bo sen[( kz ± ωt )] (2.1-23)

onde definimos: ω = kv (2.1.24)

sendo ω a freqüência angular da onda e k é chamado de constante de propagação.

Vamos pontuar aqui que uma onda tem três partes importantes, a saber:

a - Intensidade - (Eo)

b - Fase - (kz±ωt)

c - Orientação espacial dos campos (polarização)

2.1-1- Intensidade de uma Onda


A intensidade de uma onda determina a potência que está sendo transportada pela onda. A
densidade de energia associada a um campo elétrico é dada por:

1
u E = εo E2 (2.1-25)
2

enquanto a parte associada ao campo magnético é dada por:

1 2
uM = B (2.1-26)
2µ o

Como E=cB resulta que essas duas densidades são iguais, e a densidade total de energia associada a
uma onda eletromagnética, é:

1 1
u = u E + u M = εoE2 + B2 = ε o E 2 (2.1-27)
2 2µ o

A intensidade de uma onda eletromagnética será pois:

I = cε o E 2 (2.1-28)

Como E e B são sempre ortogonais entre si, podemos dizer que o vetor ExB tem a direção de
propagação da onda.
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 43

Sendo ExB = EB s = E2/c s, o vetor S definido por:

S = ExH = c2εo (ExB) (2.1-29)

É chamado de vetor de Poynting, que tem como módulo S o valor da intensidade da onda
eletromagnética, a direção e o sentido iguais aos da propagação desta onda.

Exemplo (2.1-1) - Calcular o valor médio do vetor de Poynting para o caso de uma onda
harmônica, em um determinado ponto fixo do espaço.

Solução:

No caso de uma onda harmônica, se tem:

S = c 2 ε o E o B o sen 2 (kz ± ωt) (2.1-30)

Consideremos um ponto fixo do espaço, que definiremos como z=z0, a equação acima nos
dá os valores instantâneos do vetor de Poynting. Entretanto, na prática, são os valores médios os
que têm interesse. O valor médio 〈S〉 de S será calculando usando-se a definição

1 T
< S >=
T 0∫
S dt

1 T
< S >= cε o E o2 sen 2 ( kz o ± ωt )dt

T 0

com o que obtemos:

1 1 T 1 T 
< S >= cε o E o2 ∫
 t − 0cos[2(kz o ± ωt) ] dt
T 2 0 2 
1
< S >= cε o E o2 (2.1-31)
2

Afora energia, podemos mostrar que uma onda transporta momento p. A Mecânica
Relativística nos informa que a energia ε de uma partícula é dada por:

ε = p 2 c 2 + m o2 c 4 (2.1-32)

Associando-se uma onda eletromagnética a uma partícula chamada fóton, cuja massa de repouso
(mo) é nula, o momento associado a ela será:

ε
p= (2.1-33)
c

A energia e o momento de um fóton são calculados com as expressões:


44 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

ε = hν = hω (2.1-34)

p = hk (2.1-35)
A polarização dos campos está vinculada à orientação do campo elétrico (ou magnético) no
espaço. Esta orientação define o que chamamos de polarização de uma onda e afeta muitos
fenômenos como a reflexão e a refração.

2.1.2 - Fase de Uma Onda


A fase é um elemento fundamental no entendimento de vários fenômenos, como, por
exemplo, a interferência de ondas. A fase é o argumento da função que descreve uma onda. Como
já comentamos, a fase de uma onda é composta de dois termos, um espacial e outro temporal. De
fato não é algo simples a visualização conjunta das variações no espaço e no tempo. Desta forma a
maneira mais funcional de analisar a fase é fazê-lo separadamente quanto a um e outro,
respectivamente. Para simplificar mais ainda façamos uso de ondas harmônicas.
Para analisarmos a fase vamos fazer o seguinte: somar 2π ao argumento da função, o que
não altera o valor da intensidade de campo da onda. Ao fazermos este incremento de fase, não
determinamos se a sua origem seria oriunda da parte espacial ou temporal. Logo, a variação de fase
de 2π tanto poderá ser no valor de z, quanto de t. Seja a variação de fase de origem temporal.
Consideremos então que estejamos num dado instante de tempo t. Após um intervalo de tempo T, a
fase, como um todo, foi alterada de 2π, daí podemos escrever:

E = E o sen[kz ± ω( t + T )] = E o sen[kz ± ωt + ωT ] = E o sen[kz ± ωt + 2π]

Neste caso, ωT=2π, ou ω=2π/T, e chegamos a:


ω= = 2πν (2.1-36)
T

Portanto, podemos dizer que o intervalo de tempo T que mantém inalterada uma onda harmônica é
chamado de período da onda. Aqui chamaremos T de período temporal por razões que ficarão
claras adiante. A eq.(2.1-34) define a relação que deve existir entre período, freqüência angular ω e
freqüência ν.
Tomemos agora, a variação de fase igual a 2π como sendo originada na parte espacial da
fase. Desta forma, consideraremos a onda em um dado ponto z e, no mesmo instante, o ponto (z+λ),
tal que este deslocamento espacial gere a variação de fase citada. Daí poderemos escrever:

E = E o sen[k (z + λ ) ± ωt ] = E o sen[kz ± ωt + kλ ] = E o sen[kz ± ωt + 2π]

Disto vem, kλ=2π e chegamos a:


k= (2.1-37)
λ

Portanto, chegamos ao seguinte fato, existe um período espacial dado pôr λ, à semelhança
de um período temporal já discutido. A eq.(2.1-37) define a relação entre o módulo do vetor de
propagação e este período espacial, normalmente chamado de comprimento de onda.
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 45

Isto evidencia que as partes espacial e temporal de uma onda participam em pé de


igualdade, ou seja, tanto é possível haver alteração de uma onda através do passar do tempo quanto
através da mudança de posição no espaço. A mudança de uma onda no tempo é algo muito comum
em eletrônica, pôr exemplo. Já a mudança de fase no espaço é algo próprio da óptica. Assim sendo,
em eletrônica se faz a modulação de sinal no tempo, enquanto em óptica se pode modular não
apenas no tempo, mas também no espaço.
Desta forma, as ondas harmônicas serão descritas pôr funções do tipo:

E = E o sen (kz ± ωt ) (2.1-38)

onde E representa o campo elétrico da onda eletromagnética.


O caso discutido acima é o das ondas planas, para as quais a direção de propagação é única,
estando ao longo do eixo z. No caso geral de três direções, é fácil se induzir que as ondas planas
podem ser descritas por:

( )
E = E o sen k x x + k y y + k z z ± ωt = E o sen(k • r ± ωt ) (2.1-39)

Neste caso, o vetor k= kxi + kyj + kzk, define a direção de propagação e é chamado de vetor de
propagação e o vetor r= xi + yj + zk chamado vetor posição. Como se vê acima, no caso de uma
onda eletromagnética propagando no espaço, há três componentes espaciais e uma temporal,
indicando que em óptica se possui quatro canais de modulação em vez de um só, como em
eletrônica. Logo, a onda eletromagnética propagará no meio, com o qual interage, com velocidade:

1
v= (2.1-40)
εµ

Aqui, poderemos definir o conceito de índice de refração absoluto n, através da razão:

c εµ
n= = (2.1-41)
v ε oµ o

Tomando-se a definição:

ε/εo = εr e µ/µo = µr ,

onde εr e µr são a constante dielétrica relativa e a permeabilidade relativa do meio, respectivamente,


segue que:

n = εrµr (2.1-42)

Em geral, para a maioria das substâncias de interesse em óptica, se tem µr~1. Logo:

n ≈ εr (2.1-43)

2.1-3 - Polarização de uma Onda Eletromagnética


46 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

Quando apresentamos a equação de uma onda eletromagnética plana, não foi feita nenhuma
suposição quanto a orientação dos campos elétrico e magnético. Para a onda propagando ao longo
de z poderíamos ter suposto que o elétrico estivesse orientado na direção x e o magnético na direção
y. Nenhuma modificação no resultado adviria caso as orientações dos campos fossem trocadas. No
espaço vazio não há uma direção privilegiada, a não ser aquela definida pela direção de propagação
da onda. Assim sendo, podemos utilizar ondas com ambas orientações dos campos, desde que eles
estejam perpendicularmente dispostos entre si e com a direção de propagação, tendo o mesmo
significado físico.
Entretanto, quando uma onda está se
propagando em um meio e vai de encontro a uma
superfície de separação entre ele e o outro meio, y y
com características ópticas diversas, a situação é
outra. No caso, no ponto de incidência, esta E B
interface cria uma distinção entre as duas B E
possíveis direções de orientação dos campos. Isto
ocorre em face das distintas condições de -x x
continuidade a que eles ficam sujeitos na k k
interface, as quais dependem da orientação deles z z
em relação àquela superfície. Isto leva à
necessidade de se definir a orientação dos Fig.(2.1-4) - Representação gráfica da orientação de
campos segundo um sistema de referência, duas soluções possíveis para a equação de onda.
estabelecendo-se assim o conceito de
polarização de uma onda eletromagnética.
Com isto, estamos exigindo um tratamento vetorial para o campo eletromagnético.
Portanto, a equação de onda tem duas soluções possíveis, que diferem por estarem os campos
rotacionados, entre si, de π/2 como indica a fig.(2.1-4).
As duas soluções são linearmente independentes e, como tal, combinações lineares delas
fornecem outras soluções possíveis da equação de onda. Nas soluções básicas, acima comentadas,
os campos oscilam ao longo de uma linha reta e dizemos que a onda é linearmente polarizada.
Vejamos agora, quais novos tipos de soluções podem advir destas combinações lineares.
Tomemos duas soluções linearmente independentes do tipo:

El=Eocos(kz-ωt)i (2.1-44)

E2=Eocos(kz-ωt+δ)j (2.1-45)

A combinação E=aE1+ bE2, levará a:

E = aE o cos(kz - ωt )i + bE o cos(kz - ωt + δ )j

Desta forma,

E = Exi + E y j (2.1-46)

será uma nova solução da equação de onda, onde definimos:

Ey=bE0cos(kz-ωt+δ)

Ex=aE0cos(kz-ωt)
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 47

Os valores instantâneos das componentes do campo elétrico em qualquer ponto do espaço


descrevem uma equação paramétrica da curva plana a qual determina o tipo de polarização de uma
onda eletromagnética.
Fixando Ex e Ey em z=0, teremos

Ey=bE0cos(ωt+δ) (2.1-47)

Ex=aE0cos(ωt) (2.1-48)

Portanto em um período de oscilação, a ponta do vetor E descreverá uma trajetória que será descrita
pelas componentes Ex e Ey.

CASO 1
E
Para δ=±mπ (m=0,1,2..) a eq.(2.1-47) ficará:
Ey

Ey=±bE0cos(ωt) θ
e
Ex=aE0cos(ωt) Ex
Fig.(2.1-5) - Polarização linear.
onde temos o sinal (+) para m=0,2,4,... e (-) para m=1,3,5...

Desta maneira, a trajetória será dada pela equação:

b
Ey = ± Ex (2.1-49)
a

Portanto a ponta do vetor campo elétrico oscila ao logo de uma reta, cuja orientação no
espaço é dada pelo ângulo θ que ele forma com o eixo dos x. Como neste caso tgθ= ±b/a que é uma
constante. A reta formará com o eixo dos x (no qual oscila a componente Ex do campo resultante)
um ângulo θ igual a

b
θ = tg −1   (2.1-50)
a

Quando b=a a reta estará orientada segundo um ângulo


de 45o em relação ao eixo dos x, caso m=0,2,4,...(2n),
e 135o caso m=1,3,5,...(2n+1). E
θ
CASO 2

Para δ=±mπ/2 (m=1,3,5...) a eq.(2.1-45) ficará:

Ey=±bEosen(ωt) (2.1-51)
Ex=aEocos(ωt) Fig.(2.1-6) – Polarização elíptica.
(2.1-52)

e a trajetória será dada pela equação:


48 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

Ex2 E y2
+ =1 (2.1-53)
a 2 E o2 b 2 E o2

Sabendo que tgθ = Ey/Ex = (b/a). Neste caso, a ponta do vetor descreverá uma elipse e o campo é
dito elipticamente polarizado. A excentricidade e da elipse
descrita é calculada com a expressão:
E
1/ 2
2 2
b −a θ
e= (2.1-54)
a

A elipse, acima descrita, tem seus eixos (maior e menor)


coincidentes com aqueles do sistema de referência (x,y) e θ
diferente de ωt. Quando a=b, a excentricidade será nula,
como se vê na eq.(2.1-54), e a elipse se reduzirá a uma Fig.(2.1-7) – Polarização circular.
circunferência. Fazendo-se a=b na eq.(2.1-53), teremos:

Ex2 + Ey2 = a2(E0)2 (2.1-55)

expressão correspondente a de uma circunferência. Neste caso, a onda é dita circularmente


polarizada. Podemos ter a polarização circular na luz emitida por gases nos quais estão ocorrendo
transições radiativas entre os níveis de energia.

CASO 3

Para δ≠±mπ/2 e reescrevendo as eqs. (2.1-47) e (2.1-48),


E
temos:
θ

Ey=bE0cos(ωt+δ)

Ex=aEocos(ωt)

A trajetória será dada pela equação abaixo: Fig.(2.1-8) – Polarização elíptica.

2 2 2
 Ex   ExEy   E 
  − 2  cos δ +  y  = sen 2 δ (2.1-56)
 aE   abE   bE 
 o   o   o 

Este é o caso geral da polarização elíptica (Fig.2.1-8), sabendo-se que o seu eixo maior é o
que está inclinado. A luz emitida por leds e lasers de semicondutor tem uma polarização elíptica.

2.2 – Dispersão de uma Onda Eletromagnética na Matéria

Uma característica importante da matéria se refere à sua forma de interação com uma onda
eletromagnética. Tal característica é determinada por vários tipos de processos de interação e neste
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 49

texto não temos o objetivo de exauri-los. Vamos, ao invés disto, considerar um dos casos, de fácil
visualização e que nos trará as informações que precisaremos obter. Uma delas é o efeito de retardo
que a propagação de uma onda eletromagnética tem quando propaga na matéria. Este efeito é
conhecido como a dispersão do meio e é uma das características de importância no tratamento da
propagação da luz em um meio físico que é usado para o transporte de informação, como é o caso
de uma fibra óptica.
Vamos considerar o efeito de polarização eletrônica que ocorre devido à interação de um
campo elétrico com um átomo, iteração esta que causa deformação na nuvem eletrônica atômica. A
fig.(2.2-1) ilustra o que acabamos de mencionar.
Analisaremos agora para um átomo simples como o de hidrogênio.

E=0 E≠0

- - +
+

Fig.(2.2-1) - Ilustração da deformação produzida em uma nuvem eletrônica devido a ação de um campo elétrico
externo.

Consideremos o átomo como sendo uma nuvem eletrônica esférica envolvendo o seu
núcleo. Sob a ação de um campo elétrico externo, ocorre um deslocamento tanto da nuvem
eletrônica quanto do núcleo, separando os centros de cargas positivas e negativas. Assim sendo,
surge um pequeno dipolo elétrico p e uma força restauradora. Esta última, oriunda da atração entre
as cargas, tende a trazer o sistema ao seu estado inicial. Assumiremos que essa força seja do tipo
F = -Kx, sendo x a distância dos centros de carga positiva (núcleo) e negativa (elétron).
Se o campo fosse constante, a condição de equilíbrio das forças envolvidas seria:

e
− eE − Kx = 0 ∴ x = − E (2.2-1)
K

A magnitude do momento de dipolo elétrico será:

e2
p = −ex = E (2.2-2)
K

Se fizermos K = mω 2o , onde m é a massa do elétron e ωo uma freqüência natural associada ao


sistema, teremos:
e2
p= E = αeεo E (2.2-3)
mω o2

onde
50 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

e2
αe = é a polarizabilidade eletrônica.
mε o ω o2

________________________________________________________________________________

EXEMPLO(2.2-1) - Estimar o valor da freqüência natural de um átomo de hidrogênio, usando a lei


de Gauss.

Solução

Para resolvermos o problema proposto, vamos considerar o seguinte modelo para o átomo
de hidrogênio. Assumiremos que o elétron seja representado por uma nuvem de carga, distribuída
uniformemente numa esfera de raio R, centrada no núcleo em x=0. A força de atração entre o
núcleo e a distribuição eletrônica, mantém a nuvem eletrônica em sua forma estável. Com a ação do
campo externo, a nuvem se afastará da posição de equilíbrio e surgirá uma força que tenderá a
trazê-la à posição estável anterior.
Seja x a distância dos centros de cargas (positiva e negativa), na nova situação de equilíbrio.
Nesta situação, a força do campo será igual à força Coulombiana que tende a trazer as cargas às
suas posições sem a presença do campo elétrico. No nosso modelo, a força de restauração,
conforme a lei de Gauss, será exercida pela fração de carga δq que não envolve o próton, sendo
aquela localizada na esfera de raio x, indicada na Fig.(2.2-2). A fração de carga, fora deste volume,
não produz força sobre o próton porque o campo elétrico, gerado por ela sobre a carga, é nulo.
Então :

4 
δq = ρ πx 3  (2.2-4)
 3 

−e
Como ρ = , vem
4
πR 3
3

 x3 
δq = −e  (2.2-5)
 R3 
 

A força Coulombiana Fc, entre a fração de carga negativa e o próton será pois :

E=0 E≠0

R x

Fig.(2.2-2) - Distribuição esquemática das cargas em um átomo de hidrogênio sem e com a aplicação de campo
elétrico externo.
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 51

− e2 x3 1  e2 
Fc = = − x (2.2-6)
4πε o R 3 x 2  4πε o R 3 

Como se vê, a força tem um sinal negativo por ser de atração, e varia linearmente com a distância
entre os centros de cargas. Logo, ela é do tipo F=-Kx, onde :

e2
K= (2.2-7)
4πε o R 3

Para estimarmos o valor de K, tomemos o valor de R igual ao raio da órbita do estado


fundamental do átomo de hidrogênio, que é aproximadamente igual a 0,5 Å, logo, o valor de K
será:

K=
(1,60 ⋅10 −19 )2 ⋅ (9 ⋅109 ) = 1,84 ⋅103 (N / m)
(0,5 ⋅10 −10 )3
Como a força de restauração é do tipo oscilador harmônico (F = -Kx), podemos pensar que
o átomo de hidrogênio é tal que sua nuvem eletrônica poderá oscilar como uma mola. Neste caso, o
átomo terá uma freqüência natural de oscilação dada por ωo = (K/m)1/2. Para os valores de K e da
massa do elétron, vem :

1/ 2
K 
ωo =   = 4,49 ⋅ 1016 rad / s
m

Valores experimentais indicam um valor de ωo igual a 2,1.1016 rad/s, mostrando que,


embora nosso modelo seja bastante simples, ele reproduz, razoavelmente bem, o valor experimental
acima mencionado. No espectro óptico, o ωo calculado corresponde a uma freqüência de 7,15.1015
Hz, a qual se situa no intervalo de luz ultravioleta.
Uma grandeza importante que pode ser estimada é a distância entre os centros de carga
quando o átomo está a ação de um campo elétrico. Tomando a condição de equilíbrio do sistema de
cargas do átomo imerso em um campo elétrico E, temos:

− e2
x = −e.E
4πε o R 3

Logo :

 4πε o R 3 
x = E (2.2-8)
 e 
 

onde usamos a eq.(2.2-7). O resultado mostra que o deslocamento é proporcional ao campo elétrico
aplicado.
Se a intensidade do campo for igual a 106 V/m, um valor significativamente alto, teremos:
52 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

x=
(0,5.10 −10 ) .10 6
3
−17
(9.109 )(. 1,6.10 −19 ) = 8,68.10 m
Tal deslocamento é 1,72.106 vezes menor do que o raio do átomo de hidrogênio. Portanto,
mesmo campos intensos como o que consideramos, ainda alteram muito pouco a estrutura atômica.
No ex.(2.2-1), foi estimada a freqüência natural ωo de um átomo de hidrogênio e verificou-
se que seu valor corresponde a algo da ordem de 1016 Hz, correspondendo à faixa do ultravioleta.
Consideremos que a quantidade de dipolos pôr unidade de volume, seja n. Disto segue que a
magnitude P da polarização total é dada por:

P = np

ne 2
P= E = χe εoE (2.2-9)
mωo2

onde χ e = nα e é a susceptibilidade elétrica estática do meio:

ne 2
χe =
mω o2 ε o
(
= 3,19 ⋅ 10 3 ) ωn2 (2.2-10)
o

A permissividade elétrica, é dada por:

ε = (1 + χ e )ε o (2.2-11)

Sendo a permissividade elétrica, estática no caso, será:

 n 
ε = 1 + 3,19 ⋅10 3 2 ε o (2.2-12)
 ω o 

Dado que D=εE, teremos:

 n 
, ⋅103 2  ε o E
D = 1 + 319 (2.2-13)
 ωo 

onde ε é chamada de constante dielétrica.

2.2-2 – Dispersão Dinâmica de um Meio


Para continuarmos a nossa análise sobre a interação de uma onda eletromagnética com um
meio vamos considerar, por simplicidade, que o meio seja um gás de átomos de hidrogênio. Para
estudarmos um caso dinâmico, vamos considerar que o campo elétrico que atua sobre o meio seja
harmônico, do tipo E=Eocosωt. A equação para o movimento da nuvem eletrônica será obtida a
partir da segunda lei de Newton:
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 53

ma = FE + FR (2.2-14)
2 2
Nela, m é a massa do elétron, a aceleração (a=d x/dt ) e os termos da direita determinam a
resultante das forças que atuam sobre a nuvem, a saber: a força causada pelo campo externo
(FE = -eEocosωt) e a força de restauração (FR= -Kx). A eq.(2.2-14) poderá ser escrita na forma:

d2x
m = − Kx − eE o cos ωt (2.2-15)
dt 2

Mais uma vez vamos definir K = mω o2 , sendo ωo a freqüência natural do sistema. Logo, a
eq.(2.2-15) será re-escrita na forma:

d2x eE o
+ ωo2 x = − cos ωt
2 m
dt

A solução desta equação diferencial é

x = A cos ωt (2.2-16)

Derivando-se a solução apresentada, e substituindo-se o resultado na anterior, pode-se determinar o


valor da constante A. Com isto a solução terá a seguinte forma:

e
x=− (2.2-17)
(
m ω o2 − ω2 ) E o cos ωt
Logo o movimento da nuvem eletrônica será harmônica e com a mesma freqüência do campo
externo. Com tal movimento, o dipolo elétrico induzido será:

e2 e2
p = −ex = E o cos ωt = E = αeεo E (2.2-18)
(
m ωo2 − ω 2 ) ( )
m ωo2 − ω 2 ε o

e2
onde: α e = α e (ω) =
( )
m ω o2 − ω 2 ε o

é a polarizabilidade elétrica dinâmica.

A susceptibilidade elétrica do sistema, agora dinâmica, será:

ne 2
χe = (2.2-19)
(
m ωo2 − ω 2 ε o )
A permissividade elétrica dinâmica é obtida como conseqüência imediata da equação
anterior, através da eq. (2.2-11). Ela será:
54 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

 ne 2   3,19 ⋅ 10 3 n 
ε = 1 +  ε o = 1 + ε o (2.2-20)
(
 m ωo2 − ω 2 ε o  )  (
ωo2 − ω 2  )
Como mostra a fig.(2.2-3), ωo é uma freqüência de ressonância do átomo de hidrogênio. O
caso foi estudado com uma aproximação muito simples, pois um átomo deve ser estudado através
da mecânica quântica e não da mecânica newtoniana ou clássica. Contudo, ele serve como
introdução e apresenta resultados gerais verdadeiros.
Vamos então ressaltar aqui um resultado muito importante. Quando o campo elétrico atuar
sobre o átomo este se polarizará, tornando-se um dipolo elétrico que oscila com a mesma freqüência
do campo. Desta forma cada átomo funciona como uma antena, irradiando ondas eletromagnéticas
com a mesma freqüência do campo que atua sobre ele. Assim podemos vislumbrar que a
propagação de uma onda eletromagnética na matéria se dá com o campo elétrico da onda
transferindo energia para os átomos. Estes funcionam como antenas que emitem na mesma
freqüência do campo, devolvendo a energia recebida ao campo eletromagnético. Este processo de
receber e reemitir a onda, faz com que, em média haja uma velocidade de propagação menor do que
quando não há átomos no meio.
Para complementar a nossa discussão sobre a dispersão dinâmica de um meio vamos
discutir a polarização de um átomo de hidrogênio sob a ação de um campo elétrico externo, levando
em consideração os efeitos da emissão de radiação, quando as cargas são aceleradas. Anteriormente,
foi ana1isado o caso de um átomo de hidrogênio sob a ação de um campo elétrico, não havendo
sido considerado nenhum efeito de amortecimento do movimento oscilatório das suas cargas. Como
sabemos, cargas elétricas ao serem aceleradas emitem radiação eletromagnética. No
eletromagnetismo clássico, não há restrições e toda carga acelerada emite radiação. Assim sendo, o
elétron ao sofrer uma ação externa, acelerando-o, emite radiação. Isto causa um efeito de freio na
oscilação. Vamos representar isto, adicionando à eq.(2.2.15) um termo tipo -γ(dx/dt). Na verdade
estamos usando a idéia clássica de amortecimento do movimento de um corpo em um meio viscoso.
A equação do movimento ficará:

d2x dx
m = − Kx − γ − eE o e iϖt (2.2-21)
dt 2 dt

Usando-se mais uma vez a definição K = mω o2 temos,

d2x γ dx eE
+ + ω o2 x = − o e iωt (2.2-22)
dt 2 m dt m

A solução de tal equação é:

e
− 
m
x (t ) = x o e iωt = E o e iωt (2.2-23)
( )  γω 
ωo2 − ω 2 + i 
m

onde a barra sobre as letras, indica que as grandezas são complexas.


A posição da nuvem eletrônica, será dada pela parte real da eq. (2.2-23). Esta equação
poderá ser manuseada algebricamente e escrita na forma:
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 55

e
− 
m  2  γω 
x (t ) = 2  ω o − ω(2
− i ) m
 
iωt iφ iωt
  E o e = x o e e (2.2-24)
 γω  
(ω 2
o −ω )
2 2
+ 
m

onde:

 x' ' 
φ = tg −1  o 
 (2-2-25)
 x' o 

Assim sendo, a nuvem eletrônica se move com a mesma freqüência do campo externo, mas,
agora o seu movimento apresenta uma diferença de fase φ em relação ao campo externo aplicado.
Por outro lado, a amplitude do movimento xo é calculada através da expressão:

x o = x ′o2 + x ′o′ 2 (2.2-26)

onde
e
− 
x ′o = m
2
(ωo2 − ω2 )E o (2.2-27)
(ωo2 − ω ) 2 2  γω 
+ 
m

 e 
 
x ′o′ = m  γω 
(2.2-28)
 E o 2
2 2  γω  
m 
(2
ωo − ω +
 m 
)

Usando as eqs.(2.2-27) e (2.2-28) na eq.(2.2-25), obtemos:

ε(ω)

εo

ε (0)

ωο ω
Fig.(2.2-3) - Comportamento da constante dielétrlca em função da freqüência do campo elétrico externo
aplicado ao átomo de hidrogênio.
56 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

  γω  
 −  
−1  m 
φ = tg   (2.2-29)
2 2
 ω o − ω 
 

Já dissemos que o movimento da nuvem eletrônica ocorre com uma defasagem φ em


relação à vibração do campo externo. É interessante se observar que γ = 0 leva a φ = 0, indicando
que o movimento da nuvem só ocorre em fase com o campo caso não haja o efeito de emissão, que
atua como um freio eletromagnético.
Seguindo os mesmos procedimentos adotados na eq.(2.2-18), podemos calcular a
polarização do meio. O dipolo induzido será dado pôr:

p = −e x

 e2   e2 
   
m  m
p= E o e iωt = E (2.2-30)
 γω   γω 
(ω 2
o −ω 2
) + i  (ω 2
o −ω 2
) + i 
m m

Nesta situação o momento de dipolo elétrico é uma grandeza complexa. Em termos práticos
o valor mensurável do momento de dipolo elétrico será dado pela parte real da eq.(2.2-30).
Tomando a densidade volumétrica de momentos de dipolos elétricos como sendo n, obtemos para a
polarização do meio.

 ne 2 
 
 m 
 
P= E o e iωt = Po e iφ e iωt (2.2-31)
 γω 
(ω 2
o )
− ω 2 + i 
m

onde:

 ne 2 
 
 m 
P'o = 2
ωo2 − ω2 E o ( ) (2.2-32)
 γω 
( 2
ωo2 − ω2 +   )
m

 ne 2 
−  
 m  γω 

P' ' o =  E o 2
(2.2-33)
  m
γω
(ω 2
o −ω 2 2
) + 
m
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 57

e φ já é conhecido. O valor mensurável da polarização do meio, será dado pela sua parte real dada
pela eq.(2.2-32).
A susceptibilidade χ e poderá ser facilmente obtida a partir da substituição da eq.(2.2-31) na
equação abaixo.

P = χ eεo E (2.2-34)

 ne 2
  ne 2 
   
 mε o
  mε o   2  γω  
χe =   =  
2  (
ω o − ω 2 − i   ) (2.2-35)
( )
 γω 
ωo2 − ω 2 + i  ω 2 − ω 2 2 +  γω  
m
  o ( )  m 
m

Como já fizemos anteriormente, podemos aqui definir a constante dielétrica complexa na forma:

ε = ε'−iε' ' (2.2-36)

  ne 2    ne 2 
     
  mε o    mε o 
ε = 1 +  
2
(
ω o2 − ω 2 )
ε o − i
   γω 
 
2  m
(2.2-37)

 ( )
2  γω 
ω o2 − ω 2 +  
m

 ( 2
) 
ωo2 − ω 2 +  
γω
m

 

Como se observa nas expressões obtidas para a constante dielétrica não existe mais aquela
descontinuidade para ω=ωo, verificada no caso sem a irradiação de energia pela nuvem. Facilmente
vemos que o termo de amortecimento é o responsável pôr isto. A razão física para este resultado,
pode ser entendida da seguinte forma: quanto maior for a amplitude das oscilações x(t), em face de

,
ε,
ε (0) ε,,

ωο ω
Fig.(2.2-4) - Gráfico das partes real e imaginária da constante dielétrica em unidades arbitrárias.
58 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

ω → ω o , maiores serão a energia e a aceleração a serem alcançadas pela carga. No caso, é a perda
de energia que a nuvem sofre, em face da irradiação de ondas eletromagnéticas (classicamente), que
impede que o movimento tenha uma amplitude que tenda para infinito quando ω=ω o. A fig.(2.2-4)
ilustra o comportamento das partes real e imaginária da constante dielétrica conforme calculamos
na eq.(2.2-29).
Como a constante dielétrica obtida é complexa, o índice de refração dela decorrente
também o será, isto é: n = n + iK . A parte real (n) do índice de refração determina a velocidade de
propagação de uma onda, enquanto a parte imaginária (K) a atenuação (ou amplificação) que a onda
experimenta no meio.
Na fig.(2.2-5) é apresentado o
índice de refração do GaAs em função
da energia dos fótons e vários valores de
concentração de dopantes do tipo
doador. Observa-se que próximo ao
valor da energia referente à banda
proibida, o índice de refração apresenta
uma característica ressonante, como
discutimos anteriormente. Esta
característica se torna mais proeminente
à medida em que o semicondutor tem
uma menor concentração de impurezas
(no=5,9x1017 cm-3).
Já que falamos de energia do
meio e do campo, vamos calcular a
potência W envolvida na interação Fig. (2.2-5) – Curva do índice de refração do GaAs em
entre eles. Ela será calculada a partir da função da energia dos fótons.
expressão:

dP d
W=E = E o cos ω [Po (cos(ωt + φ) + i sen(ωt + φ))] (2.2-38)
dt dt

A eq.(2.2-38) poderá ser re-escrita na forma:

W = E o Po ω[− sen(ωt + φ) cos ωt + i cos(ωt + φ) cos ωt ] (2.2-39)

A potência complexa nos lembra os resultados obtidos num circuito RC de corrente


alternada, para o qual há uma parte real correspondente à dissipação de energia, e uma imaginária,
correspondendo ao armazenamento de energia elétrica nos elementos capacitivos. Esta potência não
dissipada é chamada de reativa, sendo trocada entre a fonte e os elementos reativos (capacitores).
Dessa forma, podemos entender que a energia transportada pelo campo elétrico da onda
eletromagnética realiza, na sua interação com a matéria do meio, dois tipos de fenômenos. O

R
Impedância

Z ωC
V(t)=V osen(ω t) X=1/ jω

R
Fig.(2.2-6) – Circuito RC e Gráfico das partes real e imaginára da impedância.
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 59

primeiro, é o de troca de energia com a matéria, o que leva ao efeito denominado de dispersão, e
está relacionado com a dinâmica de propagação da onda no meio. Podemos mentalizar que a
propagação é provocado pela cessão de energia do campo elétrico para este meio que reemite tal
energia na forma de onda eletromagnética na mesma freqüência. Desta forma se estabelece a
velocidade com que uma onda monocromática se propaga, levando à velocidade de fase. Se
considerarmos que este processo de troca depende da freqüência da onda, ou seja, depende do seu
comprimento de onda, temos a origem do índice de refração depender do comprimento de onda da
radiação. Este processo, sem perda ou ganho de energia pelos dois parceiros, meio e campo
eletromagnético, é denominado de um processo paramétrico.
O efeito da dispersão leva a um retardo na propagação da onda eletromagnética dentro deste
meio. Tal atraso depende da freqüência da onda, e termina sendo responsável pelo alargamento de
uma pulso óptico que esteja propagando no meio. A razão está no fato de que um pulso óptico é um
pacote de onda, e este contém uma faixa de freqüências ópticas. Ao propagar, haverá diferença de
velocidades de propagação entre tais freqüências e o pulso se alargará.
O segundo, é o efeito em que há perda de energia, já que o campo eletromagnético entrega
energia ao meio que finda pôr dissipá-la, ou seja, entregando ao meio externo (banho térmico)
originando a parte imaginária da constante dielétrica calculada acima. Este efeito é chamado de
absorção, e é um dos que causam a atenuação da onda eletromagnética à medida que ela propaga
num meio. Para finalizar diremos que, em certas condições, como a que ocorre com a inversão de
população em um laser, é possível se provocar um fluxo de energia do meio para o campo
eletromagnético. Isto é o efeito da amplificação óptica.

ATENUAÇÃO

energia

MATÉRIA
energia
CAMPO
DISPERSÃO

energia

MEIO AMBIENTE

Fig. (2.2-7) – Esquema das relações de troca de energia entre o campo propagante, a matéria e o meio-ambiente.

2.3 - Velocidades de Fase e de Grupo


Uma onda harmônica perfeita, sen(kz-ωt) possui uma velocidade de propagação cujo valor
se obtém através da fase, dada pela razão ω/k. Assim a velocidade v=ω/k é chamada de velocidade
de fase.
Pela própria definição de uma onda harmônica, podemos induzir que ela é uma abstração
sem realidade física no campo prático. A começar pelo fato de uma onda distribuída infinitamente
60 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

ao longo de uma dada direção. Qualquer fonte geradora de luz, na verdade, emite radiação em
pulsos ou trens de ondas. Em determinadas condições, eles podem formar um conjunto de trens com
um comportamento próximo a uma onda harmônica.
Tomando-se em consideração um desses pulsos, veremos que ele é uma onda cuja
amplitude não é constante, pelo próprio fato de ter início e fim; tanto no espaço quanto no tempo. O
pulso então está longe de ser uma onda harmônica perfeita. Entretanto, sabemos que ele pode ser
descrito como uma combinação linear de ondas harmônicas, através da conhecida análise de
Fourrier. Assim, estudar uma onda real pode ser estudar um conjunto de ondas harmônicas.
Como vimos anteriormente, a velocidade de uma onda eletromagnética é função do índice
de refração, em face do efeito de dispersão existente nos meios físicos. Vamos analisar o caso
simples de uma onda resultante da combinação de duas ondas harmônicas de freqüências ω e ω',
tais que ω=ω'+∆ω.

E1 = E o sen(kz − ωt ) e E 2 = E o sen(k ′z − ω′t )

A onda resultante da soma das duas será:

E = E1 + E 2 = E o [sen(kz − ωt ) + sen (k ′z − ω′t )]

 ξ + η  ξ − η
Usando-se a relação trigonométrica: sen ξ + sen η = 2 sen  cos  , temos:
 2   2 

 (k + k ′)z − (ω + ω′)t   (k − k ′)z − (ω − ω′)t 


E = 2E o sen  . cos   (2.3-1)
 2   2 

Usando as condições ∆k«k e ∆ω«ω, bem como considerando o meio sem singularidades quanto à
dispersão, podemos escrever: k+k'≅2k e ω+ω'≅2ω. A equação (2.3-1) ficará:

  ∆kz − ∆ωt 
E =  2E o cos  sen(kz − ωt )
  2 

A fig.(2.3-1) apresenta o gráfico de uma onda deste tipo. O resultado é uma onda de amplitude
modulada, dada por :

 ∆kz − ∆ωt 
2E o cos 
 2 

vg

Fig.(2.3-1) - Onda resultante da soma de duas ondas harmônicas


de constantes de propagação e freqüências muito próximas.
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 61

A amplitude, por si só, é um movimento ondulatório cuja velocidade de propagação é:

∆ω
vg = (2.3-2)
∆k

Como vemos na fig.(2.3-1), a onda é constituída de uma seqüência de grupos formados pela
modulação da amplitude. Cada grupo desse se desloca com a velocidade dada pela eq.(2.3-2), sendo
por isto chamada de velocidade de grupo (do pacote).
Se considerarmos uma mistura de ondas com diferenças infinitesimais em k e ω:


vg = (2.3-3)
dk

Como kv = ω e v é função da freqüência, devido ao índice de refração do meio, podemos obter


uma relação entre v e vg. Derivando-se a relação kv=ω em relação a k, temos:

dv dω
v+k = = vg
dk dk

e
 dv   dv  dω  dv
v g = v + k  = v + k   = v+k vg
dk
   d ω  dk  d ω

da qual, isolando-se vg, vem:

v v
vg = = (2.3-4)
dv ω dv
1− k 1−
dω v dω

Sendo v = c / n devido ao efeito de dispersão, onde n=n(ω), temos:

dv c dn v dn
=− =−
dω 2 dω n dω
n

Substituindo-se este resultado na eq.(2.3-4), obtemos:

v
vg = (2.3-5)
ω dn
1+
n dω

A eq. (2.3-5) poderá ser reescrita como:

c c
vg = = (2.3-6)
 ω dn  N(ω)
n 1 + 
 n dω 

onde:
62 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

 ω dn 
N(ω) = n 1 +  (2.3-7)
 n dω 
dn
Desta forma a velocidade de grupo é 〈0

calculada de forma semelhante à de fase,
diferenciando-se por se usar um índice de
refração efetivo N(ω), chamado de índice de
dn
grupo, ao invés do índice do material n(ω). O dω
〉0
índice de refração efetivo incorpora o índice
do meio e um termo no qual está contida a
sua dependência com a freqüência
dn
(ω/n)(dn/dω). Ou, em outras palavras, ele dω
〉0
contém a dispersão do meio.
Da eq.(2.3-6) salientamos duas
situações. A primeira, quando (dn/dω)>0; a
velocidade de grupo é menor que a de fase e a Fig.(2.3-2) – Curva de dispersão.
dispersão do meio é dita NORMAL. A
segunda, quando (dn/dω)<0; a velocidade de
grupo é maior que a de fase e a dispersão do meio é ANÔMALA. Neste caso, dependendo do valor
da derivada (dn/dω), vg pode até ser maior que a da luz no meio. Nos casos de dispersão anômala
nos quais vg>c, mesmo a velocidade de grupo perde o sentido físico.
Na maioria das vezes o índice de refração é dado em termos de comprimento de onda λ, isto
é n = n (λ). Assim a velocidade de grupo é expressa como:

c c
vg = = (2.3-8)
 λ dn  N(λ )
n 1 − 
 n dλ 
onde

 λ dn 
N(λ) = n 1 −  (2.3-9)
 n dλ 

1,4800  λ dn  SiO2
N = n 1 − 
 n dλ  Mallitson
1,4750
1,4700
1,4650

n(λ) 1,4600 Ge(7,9%) - SiO2(92,1%)


1,4550 Kobayashi
SiO2
1,4500 Mallitson
1,4450
1,4400
0,6 0,7 0,8 0,9 1,0 1,1 1,2 1,3 1,4 1,5 1,6
λ(µm)
Fig.(2.3-3) – Índice de refração e de grupo da sílica pura (SiO2), e seu índice de refração
dopada com Ge. A figura indica o mínimo de dispersão da sílica pura.
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 63

conforme mostraremos no exemplo (2.6-1).


A fig.(2.3-3) apresenta o índice de refração do SiO2 puro e dopado com germânio. Este
último é usado na manufatura do núcleo da fibra óptica. Na mesma figura se apresenta o índice de
grupo do SiO2 puro. Facilmente se percebe a diferença de valores em relação ao do índice de
refração puro. Um detalhe de suma é o mínimo que os valores de N(λ) apresentam, situado em
torno de 1,30µm. Os vidros usados na confecção das fibras usualmente empregadas nos sistemas de
comunicação óptica têm um mínimo para o índice de grupo em λ=1,312 µm.

____________________________________________________________________________

EXEMPLO (2.3-1) - Calcular as velocidades de fase e de grupo de uma onda eletromagnética que
esteja propagando no LiNbO3 e tenha comprimento de onda igual a 1,33 µm.

Solução

Vamos considerar como direção de propagação a do eixo ordinário do LiNbO3. Para tal direção, a
dependência do índice de refração n(λ) com o comprimento de onda será aproximada pela
expressão:
 
23, 4028λ 2  1 
n 2(λ)=-18,5854+ 2 = -18,5854+23,4028   (2.3.-10)
λ − 0,0070  1 − 0,0070 
 
 λ2 

onde λ é dado em microns. Iremos simplificar um pouco mais a eq.(2.3-10), conforme é mostrado a
seguir:

0,1638
n 2 (λ) ≅ 4,8174+ (2.3-11)
λ2

para o que usamos (1-x)-1≈(1+x), válida quando x«1. A raiz quadrada de n2(λ) nos levará a:

0,0373
n(λ) ≈ 2,1949+ (2.3-12)
λ2

e usamos a aproximação (1+x)1/2≅(l+x/2), válida quando x«1. Usando-se a eq.(2.3-12) podemos


calcular o índice de refração do LiNbO3 para λ= 1.33 µm. Teremos:

0,0373
n(λ) = 2,1949+ = 2,2160
1,33 2

Com ele podemos calcular a velocidade de fase de uma onda eletromagnética, através de:

ω c 3.108
vf = = = = 1,35x108 m / seg
k n (λ ) 2,2160

Quanto à velocidade de grupo:


64 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

dω v
vg = =
dk 1 + ω dn (ω)
n (ω) dω

Antes porém, vamos transformar a relação do índice de refração com a freqüência para uma relação
com o comprimento de onda. Para isto faremos:

dn (ω) dn (λ ) dλ
= (2.3-13)
dω dλ dω

Sendo ω= 2πc/λ, segue:

dλ λ2
=− (2.3- 14)
dω 2πc

Substituindo-se a eq.(2.3-14) na eq.(2.3-13) podemos escrever:

ω dn(ω )  2 πc  1  dn( λ )   λ2  λ dn( λ )


=   − =− (2.3-15)
n(ω ) dω  λ  n( λ )  dλ   2 πc  n( λ ) dλ

Empregando-se este resultado na expressão para a velocidade de grupo, teremos:

v c
vg = = (2.3-16)
λ ∂n (λ )  λ dn 
1− n 1 − 
n (λ ) ∂λ  n dλ 
onde

 λ dn 
N(λ) = n 1 − 
 n dλ 

Como conhecemos a relação entre n e λ, calcularemos a derivada dn(λ)/dλ; encontraremos.

dn (λ ) 0,0373 0,0746
= −2 3
=− (2.3-17)
dλ λ λ3

A substituição da eq.(2.3-17) na eq.(2.3-16) nos levará a:

v 1,35 ⋅10 8
vg = = = 1,30 ⋅10 8 m / seg
0 ,0746 0,0746
1+ 1+
n (λ )λ2 2,2160 ⋅1,33 2

e o índice de refração efetivo, contendo o efeito de dispersão cromática N(1,33), é igual a 2,2582. É,
pois, maior do que n(1,33)=2,2160. Portanto, a velocidade de grupo menor do que a de fase.
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 65

2.4 – Propagação de Pulsos


Vamos discutir como propaga um pulso de luz. Como já dissemos, uma onda harmônica é
uma abstração já que de fato não existe. Conquanto seja uma boa aproximação. Para discutir a
propagação de um pulso precisaremos dar uma revisão em análise de Fourier.
Consideremos um pacote de ondas propagando-se numa dada direção e descrito por um
campo elétrico descrito por uma função genérica E(z;t). Consideremos, também, que o meio de
propagação possui uma lei de dispersão genérica do tipo ω=ω(k). Dentro destas suposições
podemos escrever:

1 +∞ i[kz −ω(k )t ]
2π ∫−∞
E(z; t ) = A(k )e dk (2.4- 1)

Vale salientar o fato de ω(k) ser uma função par, ou seja, ω(k) = ω(-k), uma vez que w não deve
mudar de valor se a onda está se propagando num ou outro sentido do eixo dos z. A amplitude A(k)
pode ser encontrada tomando-se a transformada inversa de E(z;t) para t=0. Encontraremos:

1 +∞ ik ′z 1 +∞ +∞ i (k − k′ )z
∫ E(z;0)e
2π − ∞
dz = ∫
2π −∞
A(k )dk ∫
−∞
e dz

como:

1 +∞ i( k − k′ ) z
2π ∫−∞
e dz = δ( k − k ′) (2.4-2)

1 +∞ ikz
A(k ) = ∫ E(z;0)e
2π − ∞
dz (2.4-3)

onde trocamos k' por k.

2.4-1 – Exemplos de Pulsos Propagantes

Função Impulso

Se no instante t=0, E(z,0) fosse um pulso do tipo

E(z,0) = 2πδ(z − z o ) ,

A(k) seria uma função harmônica, no espaço dos k' s, do tipo:

A(k ) = e ikz o

Ou seja, se o pulso tem dimensão espacial ∆z nula, a função A(k), por ser uma função harmônica,
tem uma dimensão ∆k infinita no espaço dos k's.
66 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

Função Harmônica

Seja, agora, um exemplo no qual, no instante t=0, E(z;0) é uma onda harmônica. Neste
caso, A(k) seria dado por:
A(k ) = 2πδ(k − k o )

e ocorreria o oposto do caso anterior, ou seja, quando ∆z=∞ tem-se ∆k=0.

Pulso Retangular

Para um pulso quadrado do tipo:

E o − z o < z < z o


E(z;0) = 
0 z > zo

obteríamos:

1 z0 E o  e ikz o − e −ikz o  Eo 2
A(k ) =

∫−z0
E o e ikz dz = 
2π  ik
=

 2π k
sen kz o

A função A(k) é uma função simétrica de k, sendo localizada no espaço dos k' s, com seu valor
máximo em k=0 como mostra a fig.(2.4-2). Tomando-se ∆k, como sendo a distancia entre os dois
pontos simétricos mais próximos do valor máximo, nos quais a função se anula, obtemos:


∆k = (2.4- 4)
z0

de forma que, neste caso, para o qual ∆z=2zo, ∆z. ∆k=4π.


zo

Fig.(2.4-2) - Representação da função A(k) referente a um pulso quadrado no espaço.


Propagação da Luz em Meios Homogêneos 67

As funções analizadas nos ensinam que as


localizações das funções E(z,0) e A(k), nos seus
respectivos espaços, guardam uma relação finita.
Assim sendo, um pulso real, emitido por uma fonte
de luz (por exemplo: uma antena, um elétron, um
átomo), cujo comprimento é finito (∆z), não será
uma onda harmônica pura. Entretanto, a função que
o descreve poderá ser tratada como uma
combinação destas ondas, com um espectro de
constantes de propagação contidos no intervalo ∆k
determinado pela relação const./∆z. O mesmo w
ocorre entre o tempo e a freqüência e, Fig.(2.4-3) - Representação de um pulso gaussiano.
consequentemente, para o produto ∆ω∆t.

Gaussiano

Vamos considerar um pulso do tipo gaussiano, na forma:

2 2
E(z;0) = e − z / 2L (2.4-5)

Ou seja, um pulso distribuído no espaço com uma forma Gaussiana, como mostra a fig. (2.4-3).
Para uma função de onda genérica do tipo:

1 +∞ i[kz −ω(k )t ]
2π ∫−∞
E(z; t ) = A (k )e dk

A amplitude A(k), como já sabemos, poderá ser descrita em função de E(z;0) por meio da
transformada inversa de Fourier
:
1 +∞ −ik 1 +∞ −ikz − z 2 / 2 L2
A (k ) =
2 π −∞ ∫
e E (z;0 )dz =
2π − ∞
e e dz ∫ (2.4-6)

Tomando-se

z2 1 2 L2 k 2
ikz + =
2 L2 2 L2
z + iL2
k +
2
( )

2 2 2 2
e− L k /2 +∞ ( )
− z + iL2 k / 2 L2 e − L k /2
A( k ) =


−∞
e dz =

2π L

vem:

(
A( k ) = e − L k
2 2
/2
)L (2.4-7)
Substituindo-se este resultado na equação genérica E(z;t), teremos:
68 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

L +∞ − L2 k 2 / 2 i[kz −ω(k )t ]
E(z; t ) = ∫ e
2π − ∞
e dk

Vamos supor por simplicidade que ω(k) seja do tipo:

(
ω(k ) = ω o 1 + a 2 k 2 ) (2.4-8)

Onde ωo é uma freqüência constante, enquanto a é um parâmetro que mede a extensão da


região em k na qual os efeitos dispersivos são importantes. Nestas condições. ao se propagar o pulso
será descrito por:

L + ∞ − L2 k 2 / 2 i[kz −ω(k )t ]
E (z; t ) =
2π ∫ −∞
e e dk (2.4-9)

A integral pode ser escrita na forma

 z2 
− 
L
e −iωo t e 
(
 4 L2 / 2+iω a 2 t )  + ∞ − ru 2
E(z; t ) =

o 
∫−∞
e du

 L2    z 
sendo r =  + iω o a 2 t e u =  k − i 2  
 2    L + i2ω o a 2 t  

A integral a ser resolvida é a integral de Gauss e o resultado será:

 z2 
− 
e 
(
 4 L2 / 2 +iω a 2 t
o ) 

E(z; t ) = e −iωo t (2.4-10)
(L2
/ 2 + iω o a t 2 1/ 2
)
A intensidade o, que é proporcional a |E|2, será:

 z2 
− 
E
2
=
1
e 
(
 4 L2 / 2+iω a 2 t
o ) 
 (2.4-11)
(
L2 / 4 + ω o2 a 4 t 2
1/ 2
)
ou
 z2 
− 
W t 2
 ( ) 
I ( z; t ) = I ( t )e (2.4-12)
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 69

Como vemos na eq.(2.4-12), a intensidade da distribuição gaussiana varia no tempo segundo a


expressão:

Io
I (t ) = (2.4-13)
(L
2
/ 4 + ω o2 a 4 t 2)1/ 2

sendo Io uma constante, representando a intensidade da onda para z=0 e t=0. A largura da
distribuição gaussiana também no tempo segundo a expressão:

2 1/ 2
 
 2ω o a 2 t  
w( t) = L 1 +   (2.4-14)
  L  
 

Observamos que o pulso mantém uma característica gaussiana, embora a sua intensidade e largura
variem com o tempo e a posição, como ilustra a fig. (2.4-4).

2
 2ω o a 2 t 
Para   <<1 a largura é praticamente constante e igual a L.
 L 

2
 2ω o a 2 t 
Para   >> 1 a largura varia linearmente com o tempo, conforme w( t) = 2ω o a 2 t .
 L 

A velocidade com a qual o pulso se propaga pode ser calculada como segue abaixo. Consideremos
ω(k) como uma função genérica de k. Ela pode ser expandida numa série de Taylor do tipo:

ω( k ) = ω( k o ) +
∂ω ∂2ω ( k − k o ) 2 +L
(k − k o ) + (2.4-15)
∂k ko ∂k 2 ko
2

Fig. (2.4-4) - Representação de um pulso gaussiano propagando-se num meio dispersivo.


70 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

Sendo X uma função suave de k, como em geral são os casos de interesse, pode-se considerar:

∂ω
ω( k ) = ω( k o ) + (k − k o ) (2.4-16)
∂k ko

onde desprezamos as derivadas de ordem igual ou superior à segunda. A velocidade de grupo vg


será:

∂ω
vg = (2.4-17)
∂k ko

Usando-se as eqs.(2.4-8) e (2.4-17) temos como velocidade de grupo do pulso em estudo:

v g = 2ω o a 2 k o (2.4-18)

 ω(k o ) − ωo 
Neste caso a 2 =  
 ω k2 
 o 

Para finalizar é interessante observar o termo não gaussiano da eq. (2.4-27), considerando-o como a
medida da intensidade. Vemos que ele diminui com o passar do tempo à medida que o pulso se
alarga. Desta forma a energia transportada pelo pulso permanece constante, uma vez que não há
geração, absorção ou outro efeito (espalhamento) provocando a sua redução.

2.5 – Sinais
Consideremos aqui um elemento importante nas telecomunicações, o sinal. Sinal pode ser
dito como tudo o que possibilita conhecer, reconhecer, ou prever alguma coisa. Para comunicação
os sinais são muito importantes, pois com eles podemos transmitir informações, uma ação
fundamental em um mundo da sociedade da informação. Ele pode ser gerado pela variação
temporal de uma grandeza física como uma onda eletromagnética, a tensão elétrica ou pressão
acústica. Assim fazendo se pode escrever um conteúdo lógico, uma palavra ou algo que contém
uma informação e que possa ser reconhecida e apreendida. Isso é feito por meio dos processos de
modulação existentes ou que ainda venham a ser criados. Vamos denominar, nesta sessão, um sinal
por ϑ(t). Um sinal muito simples é uma onda senoidal, como segue:

ϑ( t ) = A o sen(ωo t ) (2.5.1)

O sinal tem amplitude e freqüência constantes. Um sinal genérico pode ser escrito na forma:

ϑ( t ) = A( t )senω( t ) (2.5.2)

vendo-se a existência de variações temporais, tanto da amplitude quanto da freqüência, e devendo


ser lembrado que A(t) e ω(t) são funções arbitrárias do tempo. Elas dependerão das variações, ou
frases, impostas pela modulação envolvendo a amplitude, ou a fase, ou ambas.
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 71

Há vantagens em se usar a forma complexa:

ϑ( t ) = A( t )e −iϕ( t ) = ϑ r ( t ) + iϑ( t ) i (2.5.3)

sendo o sinal prático a parte real de ϑ(t).

2.5-1 – Energia do sinal


Nesta sessão faremos uma pergunta: quanta energia é demandada para se gerar um sinal,
ou quanto de energia esta contida nele? Para respondermos essa resposta para uma onda
eletromagnética tomemos o resultado da sessão (2.1-1), segundo o qual a densidade de energia de
uma onda eletromagnética é dada pelo módulo ao quadrado do campo elétrico, conforme o vetor de
Poynting. Se estivéssemos tratando de uma onda acústica a densidade de energia seria dada pelo
quadrado da pressão. No caso de um sinal, o módulo ao quadrado de ϑ(t) nos fornece a energia por
unidade de tempo (densidade de energia). Desse modo, a energia total contida no sinal será dada
por:

2
U= ∫ ϑ(t) dt (2.5.4)

Sinais possuindo energia finita podem ser normalizados para que a energia total seja unitária, sem
que haja perda de generalidade.

2.5-1 – Densidade de energia do sinal


Nesta considerar a descrição a questão de um sinal possui uma dependência na freqüência
possuindo uma composição de freqüências ou uma composição espectral. Como vimos na sessão
(2.2-), a propriedade de dispersão de um meio, onde uma onda propaga, depende da freqüência
dessa onda. Isso pode ser traduzido em termos de uma dependência no comprimento de onda da
radiação, mas, nesta discussão, iremos no ater à dependência na freqüência.
Na natureza, a representação de um sinal pode ser feita por meio de uma transformada de
Fourier, como vimos na sessão (2.4), onde se tratou de propagação de pulsos. Essa poderosa
ferramenta de análise será a plicada aqui para descrever um sinal ϑ(t). Ela será:

1 iωt
2π ∫
ϑ( t ) = S(ω)e dω (2.5.5)

onde S(ω) é obtida por meio da transformada inversa:

1
S(ω) =
2π ∫
ϑ( t )e − iωt dt (2.5.6)

A função S(ω) é conhecida como a distribuição espectral de ϑ(t). As duas funções ϑ(t) e S(ω) são
relacionadas de modo único e podemos nos referir à função S(ω) como o sinal no domínio das
freqüências, ou no espaço das freqüências.
Como se faz com o sinal ϑ(t), às vezes é vantajoso se descrever a função espectral por meio
de uma expressão complexa do tipo:
72 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

S(ω) = B(ω)e iϕ(ω) (2.5.7)

sendo B(ω) chamado de amplitude espectral e ϕ(ω) a fase espectral, não vindo a serem a amplitude
e a fase do sinal.
Usando-se a distribuição espectral de ϑ(t), também se pode descrever a energia total de um
sinal. Ou seja:

2 2

U = ϑ( t ) dt = S(ω) dω∫ (2.5.8)

A demonstração desse fato pode ser feita tomando-se a eq.(2.5.5) e substituindo-se na eq.(2.5.4)
com o que se obtém:

2  1 1 

U = ϑ( t ) dt =  S* (ω′)e − iωt dω′
∫ S(ω)e iωt dω dt
∫ ∫ (2.5.9)
 2π 2π 

A eq.(2.5.9) nos leva a:

2  1 i (ω− ω′) t 

U = ϑ( t ) dt = ∫ ∫  2π ∫ e dt S* (ω′)S(ω)dω′dω = *
∫ ∫ S (ω′)S(ω)δ(ω′ − ω)dω′dω (2.5.10)

Usando, na eq.(2.5.10) a definição da função Delta de Dirac:

1
δ(ω′ − ω) = ei (ω− ω′) t dt
∫ (2.5.11)

Se obtém:

2 2

U = ϑ( t ) dt = S(ω) dω∫
Essa identidade é conhecida como teorema de Parceval ou de Rayleigh.

2.6 - Tempo de Atraso em um Meio Físico


Como vimos, as velocidades de fase e de grupo dependem do comprimento de onda da
radiação eletromagnética. Desta forma podemos introduzir um conceito muito importante do ponto
de vista prático: o tempo de atraso. Tempo de atraso corresponde ao tempo gasto por um pacote de
onda eletromagnética para percorrer uma dada distância L.
Dessa maneira, para que um modo percorra uma distância L o tempo consumido será dado
por:

L LN
τ= = (2.6-1)
vg c

e com o uso das eqs.(2.3-7) e (2.3-9) , teremos:


Propagação da Luz em Meios Homogêneos 73

nL  ω dn  nL  λ dn 
τ= 1 + = 1 −  (2.6-2)
c  n dω  c  n dλ 

Em termos práticos, o tratamento da dispersão é feito usando-se a dependência do tempo de


atraso com o comprimento de onda ao invés da freqüência, de modo que a partir daqui, adotaremos
o mesmo procedimento. De posse da eq.(2.6-2) se pode calcular o tempo de atraso por unidade de
comprimento (T), em geral expresso em unidades de ps/km, e que será dado por:

τ
T= (2.6-3)
L

n  λ dn 
T= 1 −  (2.6-4)
c  n dλ 

Desta forma, caso se esteja usando um pulso de luz para a transmissão de informação em
um meio material qualquer, este pulso sofrerá um alargamento no tempo (ou no espaço), advindo da
dependência de τ, ou T, com o comprimento de onda.
Por ser limitado em tempo, o pulso de luz é formado por uma faixa de freqüências, ou
comprimentos de onda, na sua composição espectral. Desta maneira, conquanto as diversas
freqüências que compõem o pulso sejam emitidas de um ponto ao mesmo tempo, à medida que o
pulso propaga as diferentes freqüências irão se separando no espaço, por conta da dependência da
L
t=0 t=
vg

∆t L

Fig. (2.6-1) – Ilustração da propagação de um pulso óptico onde se vê a sua distribuição espectral. Fica claro o
alargamento do pulso e a conseqüente redução de intensidade porque a área do pulso, representando a energia do
pulso permanece constante.
velocidade de grupo de cada comprimento de onda formante do pulso com a sua freqüência. Esta
dependência, neste caso, ocorre por intermédio da dependência índice de refração (ou do índice de
grupo) com a freqüência (ou comprimento de onda). Este efeito de atraso se rotula como sendo
dispersão cromática, já que depende do comprimento de onda, ou de uma certa forma da cor da luz.
A fig.(2.6-1) ilustra a propagação de um pulso óptico, estando indicada a distribuição
espectral e o alargamento do pulso devido aos retardos que cada freqüência sofre devido ao efeito
da variação do índice de refração com o comprimento de onda (dispersão cromática).
Podemos estimar o alargamento do pulso pela separação entre os pulsos com comprimento
de onda central λ e λ +∆λ. Usando-se a eq.(2.6-1) teremos:
74 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

∂  L 
∆λ = L ∂  N ∆λ =  1 ∂N L∆λ
∆τ = (2.6-5)
∂λ  v g 
 ∂λ  c   c ∂λ 

de modo que teremos:

∆τ = D λ L∆λ (2.6-6)

onde
1 ∂N
Dλ = (2.6-7)
c ∂λ

é chamado de coeficiente de dispersão, sendo, em geral, expresso em unidades de ps/nm-km. Na


eq.(2.6-6) foi usado o módulo de Dλ para que o alargamento seja obtido como uma grandeza
positiva. O coeficiente de dispersão por sua vez pode ser positivo ou negativo. No primeiro caso se
diz que há uma dispersão normal, enquanto no segundo caso se diz que a dispersão é anômala,
exatamente como se discutiu na seção (2.3).
No caso da dispersão de origem cromática, usando-se as eq. (2.6-7) e (2.3-9), teremos:

1 ∂   λ dn 
Dλ = n 1 −  (2.6-8)
c ∂λ   n dλ 

1  ∂n  λ dn  ∂ 2n 
Dλ =  1 − −λ 2  (2.6-9)
c  ∂λ  n dλ  dλ 

λ ∂ 2n 1  2 ∂2n 
Dλ = − → Dλ = − λ

x109
2 
(ps/nm - km ) (2.6-10)
c dλ2 λc  dλ 

EXEMPLO (2.6-1) – Calcular a dispersão cromática sofrida por uma onda eletromagnética que
esteja propagando no LiNbO3 e tenha comprimento de onda igual a 1.33 µm.

Solução

Fazendo as mesmas considerações que no exemplo (2.3-1), chegaremos a:

0,0373
n(λ) ≈ 2,1949+ (2.6-11)
λ2

A dispersão cromática é dada pela eq.(2.6-10), devendo-se assim, calcular inicialmente as derivadas
a seguir:

dn 0 ,0746
=− (2.6-12)
dλ λ3
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 75

d2n 0 ,2238
2
= (2.6-13)
dλ λ4

Portanto,

λ ∂ 2n 1,33 0,2238
Dλ = − 2
=− 8 4
= 3,17 x10−10 ps / nm − km (2.6-14)
c dλ 3x10 (1,33)
76 Propagação da Luz em Meios Homogêneos

2.7 - Exercícios

1 – Calcular a expressão da onda em uma corda, considerando que o ângulo de inclinação da corda
não pode ser considerado pequeno de forma genérica.

2 – A banda proibida do GaAs é de 1,48 eV e de uma liga de InGaAsP é de 0,95. Estime o


comprimento de onda de operação de lasers feitos com tais materiais.

3 – Obtenha a expansão de Fourier da onda


cujo campo elétrico é dado por:

E o ( t − T) para 0 ≤ t ≤ T
E ( z, t ) =  Eo
E o ( t − T) para T ≤ t ≤ 2T
T t
-Eo
como ilustra fig.(2.7-1) ao lado. Fora dos
limites dados a função se repete
periodicamente. Compare com a expansão de Fig.(2.7-1) – Ilustração de uma onda do tipo triangular.
um pulso retangular e veja que relação existe
entre eles.

4 – Obtenha a propagação de um pulso gaussiano descrevendo a sua evolução no tempo e no espaço


por meio da velocidade de grupo e do seu “centro de massa”.

5 – A Tab.(2.7-1) apresenta os coeficientes da expressão de Sellmeier

B
n= A+ + Dλ2 (2.7-1)
2
λ +C

da L-Treonina, um aminoácido biaxial.

Axis A B C D

nx 2.2735 16.661,9 37.235,7 -8.948x10-10


L-TREONINA

ny 2.4846 20.480,0 14.979,1 -8.227x10-9


nz
2.5030 21.773,4 6.854,3 -5.647x10-9

Calcular as velocidades de fase e de grupo para uma onda propagando ao longo do eixo principal z
com o campo elétrico orientado segundo a direção da bissetriz dos eixos x e y.
Propagação da Luz em Meios Homogêneos 77

6 – Qual seria o atraso sofrido por um pulso óptico retangular, propagando em um guia metálico
para ambas as possíveis polarizações TE eTM.

7 – Considere a expressão de Sellmeier dada na eq.(2.7.2), cujos coeficientes estão A1=0.68698290,


A2=0,44479505, A3=0,79073512, λ1=0,78087582, λ2=0,11551840, λ3=10.436628. Esses valores
correspondem a vidro (SiO2) dopado com 7% de GeO2.

3
A i λ2
n 2 (λ ) = 1 + ∑
i =1 λ2 − λ2i
(2.7.2)

a – Calcule o índice de grupo desse vidro.

b – Calcule os parâmetros de um pulso gaussiano que propaga nesse vidro, tais como: velocidade de
grupo, freqüência instantânea, coeficiente de dispersão.

8 – O índice de refração da sílica fundida, no intervalo de 0,5 µm a 1,6 µm pode ser descrito pela
expressão:

0,003
n (λ) = 1,451 − 0,003λ2 + sendo λ expresso em microns.
λ2

a – Calcular o índice de grupo para λ=1,30 e 1,55 µm.


b – Calcular o alargamento de um pulso cujo comprimento de onda de pico seja 1,55 µm e uma
largura espectral de 10 nm.

9 – Um material vítreo fluoretado tem a seguinte expressão para descrever o índice de refração:

A B
n (λ) = C + Dλ2 + Eλ4 + +
λ4 λ2
onde:

Ax106 Bx103 C Dx103 Ex106


7,67742 2,16195 1,42969 -1,28304 -5,35487

Calcular a velocidade de fase e de grupo de uma onda eletromagnética propagando nesse material,
cujo comprimento de onda seja 1,33 µm.
4
Guiando a Luz

Introdução
Neste capítulo vamos analisar um dos mais importantes componentes ópticos existentes, o
guia de ondas eletromagnéticas. Com ele, passou a ser possível se confinar a luz numa região
limitada do espaço, fazendo-a propagar ao longo do dispositivo segundo caminhos pré-determinados
e permitindo a possibilidade da transmissão de sinais luminosos de modo similar ao que se faz em
eletrônica com fios metálicos. É o que vamos encontrar em uma fibra óptica, um guia de forma
cilíndrica, feito de vidro, e que faz o papel de um fio metálico. Além do mais, passou a ser possível
também se processar o sinal das guias que conduzem a radiação através de processos de alteração
das propriedades de guiamento. A integração destes componentes a outros componentes ópticos
alarga em muito o escopo das suas aplicações, dando lugar a um novo ramo da engenharia - o da
Fotônica. Portanto se faz necessário dispensarmos alguma atenção a estes componentes de um
sistema de comunicação, o guia de ondas.

4.1 – Entendendo o Guiamento da Luz com o Guia Metálico Planar


Nesta seção, o nosso objetivo é entender o que é e como funciona um guia de ondas. Como o
nome diz, um guia de ondas é um elemento capaz de confinar a luz no seu interior levando-a a
propagar ao longo de uma dada direção, chamada de direção longitudinal. A fig.(4.1-1) ilustra o
guiamento da luz em um guia de ondas, como
uma fibra óptica. Para entendermos o
funcionamento de um guia de ondas, se faz
necessário entender qual é o significado do
processo físico chamado guiamento da luz, ou
seja, o processo através do qual a luz entra em
um guia de ondas e consegue propagar no seu
interior.
O guia mais simples que poderíamos
falar seria um guia plano constituído de dois
espelhos dispostos de forma paralela entre si.
Imaginemos que neste arranjo de espelhos entre
um feixe de luz, com raios paralelos, por um
dos seus lados. Para facilitar a visualização a
fig.(4.1-2) mostra o arranjo mencionado com o
raio de luz penetrando entre os espelhos por um Fig.(4.1-1) - Guiamento de luz em um guia (fibra óptica).
80 Guiando a Luz

dos seus lados, o esquerdo no caso da figura. Os


raios estão contidos no plano x-z. Através de x MODOS TE
múltiplas reflexões este feixe avança para a
direita, podendo sair pelo lado oposto ao que
entrou.
O processo através do qual a luz fica
aprisionada entre os dois espelhos pela reflexão é
chamado de confinamento, e ele é um do dois y z
processos físicos importantes para que possa Fig.(4.1-2) – Representação de um guia planar feito com
haver o guiamento da luz. Entretanto, ele só, sem dois espelhos planos. Na figura vemos os raios de luz se
o segundo, não conduz ao guiamento. Ou seja, a deslocando ao longo do guia devido a reflexões em ambos
luz pode entrar por um dos lados do guia, ser os espelhos, estando o campo elétrico orientado
confinada, mas não sair do outro lado. Isto, paralelamente a estes.
também, dependerá do outro processo físico, que
é a interferência entre as ondas que estão sendo confinadas pelo guia. Vejamos em que condições é
possível luz entrar em um dos lados do guia, ser confinada e sair do lado oposto, para que haja de
fato um guia de ondas.
Observando-se a fig.(4.1-3), se vê um dos raios de luz com a indicação do seu vetor de onda
que é designado por k. Este vetor tem duas componentes kz e kx. Vamos seguir um dos raios do feixe
de luz entrando pelo lado esquerdo. Após a reflexão no espelho superior o raio de luz muda de
direção propagando-se para baixo de forma que o vetor de onda passará a ter componentes kz e -kx, já
que a componente kx trocou de sinal por conta da reflexão. Após a segunda reflexão, no espelho de
baixo, os componentes do vetor de propagação voltam a ser kz e kx. E assim será, sucessivamente,
enquanto o raio de luz avançar na direção z (longitudinal), uma vez que a componente kz não troca
de sinal.
Em um dado ponto P, indicado na fig.(4.l-3), vemos que dois raios de luz estão se cruzando:
o raio, um feixe de luz refletido no espelho superior e outro vindo de uma reflexão no espelho
inferior. Desta forma no ponto P há dois campos elétricos, de maneira que o campo elétrico total é a
soma destes dois. Diremos que estes campos se superpõem e portanto estão dando lugar ao
fenômeno da interferência. Aqui encontramos o segundo elemento chave da propagação da luz em
um guia de ondas, a interferência das ondas que estão propagando dentro dele. Como sabemos,

x=a

P
k a

x=0

Fig.(4.1-3) – Diagrama de raios de luz penetrando e propagando em um guia metálico planar, sendo indicada a
dimensão do guia, o vetor de propagação k. O ponto P, indicado na figura, mostra a interseção entre dois raios de luz
propagando em sentidos opostos na direção transversal do guia (x).

podemos ter na interferência dos dois campos duas situações extremas: a construtiva e a destrutiva.
Nesta última os campos se anulam e somem. Isto nos indica que precisamos entender como a.
interferência afeta o guiamento de luz em um guia.
Vamos dizer que as ondas de campo elétrico são do tipo harmônico, ou seja:

E = E o sen(k x x + k y y − ωt ) (4.1-1)
Sistemas de Comunicação Óptica 81

Assim sendo, as duas ondas no ponto P, possuindo os vetores de propagação (kz,kx) para a onda que
está subindo em x e (kz,-kx) para a onda que está descendo, serão descritos por:

E = E 1sen(k x x + k z z − ωt ) k=(kx,kz)
(4.1-2)
E ′ = E 2 sen(-k x x + k z z − ωt ) k=(-kx,kz)

O efeito total delas é obtida pela superposição das duas ondas:

E r = E + E ′ = E 1sen(k x x + k z z − ωt ) + E 2 sen(-k x x + k z z − ωt ) (4.l -3)

Consideremos que a luz é totalmente refletida pelos espelhos metálicos. Temos, então, que em x=0 e
x=a, o campo total deverá ser nulo. Em um metal, a radiação de fato evanesce ao longe de uma
distancia δ a partir da superfície, cujo valor para freqüências ópticas é muito pequeno.

• x=0

Para x=0, a eq.(4.1-3) ficará:

E r = (E1 + E 2 )sen(k z z − ωt ) (4.l -4)

A validade desta condição, para qualquer instante e posição ao longo de z, exige que E1=-E2=Eo, o
que nos permite escrever:

E r = E o [sen(k x x + k z z − ωt ) − sen(-k x x + k z z − ωt )] (4.l -5)

Esta equação poderá ser escrita de uma outra forma, usando-se a expressão trigonométrica:

1  1 
sen α − sen φ = 2 sen  (α − φ) cos  (α + φ)
 2   2 

com ela a eq.(4.1-5) será escrita na forma:

E r = −( 2E o senk x x )[cos(k z z − ωt )] (4. l -6)

• x=a

Além da condição de campo nulo para x=0, também devemos ter E=0 para x=a. Esta última
condição leva a eq.(4.1-6) a

( 2E o senk x a )[cos(k z z − ωt )] = 0 (4. l -7)

Tal condição ocorrendo para todo e qualquer valor de z e t, requererá que o termo senkxa seja nulo, já
que Eo=0 significa a ausência do campo propagante. Daí, vem:


kxa=mπ kx = m=1,2,3,... (4.1-8)
a
82 Guiando a Luz

Como vemos, enquanto kz não tem, aparentemente, nenhuma restrição, os valores permitidos de kx
são discretos por conta da limitação espacial determinada pelos espelhos e a necessidade de uma
interferência construtiva. Cada um desse valores de kx, oriundo de um valor de m, corresponde a um
modo transversal do guia (modo de vibração). A partir deste ponto usaremos a designação kz=β que
é a constante de propagação do modo.
O resultado obtido, expresso nas eqs. (4.l-4) e (4.l-5), nos mostra que a propagação do feixe
devido às reflexões e interferências (como no ponto P) pode ser descrita como sendo o resultado da
propagação de duas ondas:

- uma propagando-se ao longo de z e descrita por cos(ωt-βz),


e
- uma segunda onda, esta estacionária (senkxx), na direção perpendicular aos
espelhos.

Desta maneira, um modo é uma estrutura de luz possuindo uma distribuição na direção
transversal do guia que propaga ao longo da sua direção longitudinal. Esta estrutura se forma por
meio dos dois fenômenos já apresentados, o confinamento e a interferência construtiva entre os raios
de luz.

A fig.(4.1-3) mostra a distribuição espacial da intensidade de campo elétrico entre os


espelhos que formam o guia metálico e a distribuição espacial da intensidade de luz, correspondente,
numa visão de frente para a saída do guia. Como se vê, os dois modos possuem diferenças nas suas
Vista Lateral do Guia Intensidade de luz
x Vista Frontal
x=a
m=1
m=1
z

x=0

x
x=a
m=2
z m=2

x=0

Fig.(4.1-3) – A figura da esquerda mostra a distribuição de campo dos dois primeiros modos de propagação de
um guia metálico planar. À direita está intensidade de luz dos mesmos modos numa vista frontal do guia.
distribuições espaciais e portanto nas intensidades de luz dentro do guia. Estas distribuições de
intensidade de luz são as estruturas de luz que propagam ao longo da direção longitudinal do guia.

4.1-1– Dispersão do Guia Metálico


A seguir iremos discutir a propagação dos modos de um guia metálico em maiores detalhes,
onde obteremos as suas propriedades cinéticas. Veremos que, também os valores de β, são restritos
como os de kx. Para iniciar a nossa análise tomemos a relação

k 2 = k 2z + k 2x , (4.1-9)
Sistemas de Comunicação Óptica 83

Usando os valores possíveis de kx, obtemos:

2
m2π2 nω  mcπ 
β = k2 − = 1−   (4.1-10)
a2 c  naω 

A eq.(4.1-10) é uma relação muito importante por determinar a relação de dispersão do guia, ou
seja a relação β(ω) entre a constante de propagação do modo e a freqüência da onda. A seguir
veremos algo sobre isto. Antes, porém, é interessante se entender qual o significado geométrico dos
diferentes valores de β, conforme é dado na eq. (4.1-10). Para visualizarmos isto, observemos a
fig.(4.1-5) na qual temos a representação gráfica dos vetores de propagação k em função das suas
componentes kx=mπ/a e β. Isto é feito tomando-se uma circunferência cujo raio é igual ao módulo de
k. Na abcissa temos os valores de β, enquanto na ordenada temos os valores de kx, os quais são
discretos tendo valor unitário igual a π/a.

Fig.(4.1-4) – Ilustração da correspondência entre as distribuições espaciais dos modos e um guia metálico
planar e as inclinações dos raios de luz.

Vemos, na figura, que os diferentes valores de m (m=1,2,3...), resultando nos kx dos diversos
modos do guia, determinam diferentes valores de
kx
β. Para cada valor de m há um valor de kx=mπ/a, e
consequentemente um ângulo de inclinação αm, 3π/a
com o qual o raio de luz do modo incide sobre a
superfície do espelho. Desta forma, cada modo do k 2π/a
guia possui uma distribuição de luz na direção π/a
αµ
transversal à direção de propagação e a esta
distribuição está associada uma inclinação do raio β
de luz (ou do vetor k). Para o valor de π/a, se
percebe na figura que a partir de um certo valor de
m (m=4 no caso da figura), não há nenhum valor
de β que possa existir, já que kx seria maior do que
o próprio k, o que é fisicamente impossível. Isto
caracteriza uma situação especial do guia que
analizaremos adiante quando estudarmos as Fig.(4.1-5) – Representação gráfica das componentes do
vetor de propagação k de uma onda em um guia metálico
condições de corte de um guia. planar.
A eq. (4.1-10) pode ser escrita na forma
β m=nmko, sendo nm dado por
84 Guiando a Luz

 2
 mλ  
n m = n 1 −   (4.1-11)
  2na  
 

e designado como o índice de refração efetivo do modo m.

• Velocidade de Fase

A onda propagante no guia tem uma velocidade de fase vf dada por:

ω k c
vf = =   v = (4. l -12)
β β nm

Como k>β, pois β é uma componente de k, temos que vf>v . Consequentemente, a velocidade de fase
de uma onda guiada é maior do que a de fase v=ω/k, com a qual ela se propagaria, sem
confinamento, em um meio igual ao que constitui o núcleo do guia. Caso o meio entre os espelhos do
guia seja o vácuo, teremos n=1 e nm<1 para qualquer valor de m. Nestas condições vf>c (!?) o que
pode parecer um problema uma vez que nenhuma velocidade poderia superar a da luz no vácuo.
Entretanto, nenhum problema com os princípios físicos ocorre uma vez que a velocidade de fase não
tem significado físico!

• Velocidade de Grupo

Outra velocidade importante, de fato a mais importante do ponto de vista prático, é a


velocidade de grupo a qual informa com que velocidade um modo propaga no guia. Usando-se a
definição dada na eq.(3.7-3), obtemos:

dω  β  2 β
vg = =  v = v (4.1-13)
dβ  ω  k

e vemos nela a necessidade da relação de dispersão do guia, dada na eq.(4.1-13). Como,


obrigatoriamente, temos β<k., é inevitável que vg<v.
Com a eq.(4.1-11) podemos mostrar que:

dω c
vg = = (4.1-14)
dβ N m

onde

 λ ∂n m 
N m = n m 1 −  (4.1-15)
 n m ∂λ 

onde Nm é chamado de índice efetivo de grupo do modo m


Sabemos que se uma onda propaga em um meio material ela sofre um retardo por conta da
interação da luz com o meio. Tanto que a velocidade de propagação depende do índice de refração.
Com o resultado obtido na eq.(4.1-12) podemos dizer que cada modo do guia enxerga um índice de
Sistemas de Comunicação Óptica 85

refração próprio. Vejamos que caso tenhamos vácuo (ausência de material) dentro do guia, o que
levaria a um índice de refração n=l, Nm ainda assim existirá, sendo Nm>l e fazendo,
consequentemente, vg<c.
Tal análise nos leva a concluir que, mesmo não havendo nenhum material no núcleo do guia
de onda, ele ainda assim se comporta como se houvesse um meio dispersivo no seu interior. Ou seja
os modos que propagam num guia estão sujeitos a um efeito de atraso pois têm velocidade menor do
que a da luz no vácuo. Este efeito chamado de dispersão é causado pelo próprio guia,
independentemente da existência de material no seu interior.

• Número de Modos

Usando-se a eq.(4.1-11) podemos calcular o número de modos M que podem propagar no guia
metálico planar. Obviamente, este número dependerá dos parâmetros do guia bem como da
radiação. Já que nm deve ser positivo, o termo (mλο/2na) precisa ser menor do que um. Assim sendo,
dados os valores do comprimento de onda, índice de refração do meio e tamanho do guia, o maior
valor de M é aquele (Mλο/2na)=1. Com isto, temos:

2na
M= (4.1-16)
λo

Como o valor de M dado na eq.(4.1-16) pode não ser inteiro, o número de modos é dado pela parte
inteira de M. Por exemplo, se M fosse igual a 5,92, o número de modos seria 5, pois os valores de m
devem ser inteiros, começando por m=1.
Se queremos que o guia seja monomodo, precisamos que (λο/2na)=1, fazendo com que M=1
seja o maior valor permitido de m. Como λο/n=λ é o comprimento de onda no meio que constitui o
guia, vemos que o guia será monomodo quando o tamanho do guia for a metade do comprimento de
onda da luz que está propagando nele.
Um resultado importante que obtemos aqui é quanto à definição de guia mono (M=1) ou
multimodo (M≥2). Primeiro, devemos salientar que ele é chamado de multimodo se houver pelo
menos dois modos, ou mais. Uma segunda coisa a se considerar é que não há um guia mono ou
multimodo por construção. O comportamento mono ou multimodo do guia dependerá do
comprimento de onda com o qual o ele está sendo operado, porque importa não apenas o valor de a
mas a relação λ/a. Assim que um guia monomodo para um dado comprimento de onda poderá vir a
ser multimodo caso se mude o comprimento de onda da luz propagando no guia.
Fica claro, observando-se a eq.(4.1-11), que diminuindo-se o valor da espessura do guia (a),
aumenta-se o valor de λο/2na o que obriga a reduzir o maior valor possível de m. Logo, dado um
comprimento de onda, a redução do tamanho do guia é o caminho para que o guia venha a ser
monomodo.
No caso deste guia metálico, para um dado comprimento de onda, a redução do tamanho do guia
pode provocar a não existência de nenhum modo no guia.

• Freqüência de Corte

Outra propriedade importante é obtida examinando-se o fato de β ser, sempre, um número real.
Deste modo a onda no guia será do tipo propagante. Assim, através da eq.(4.l-8), propagantes
existem caso seja satisfeita a condição:

mcπ mπ v
= ≤1 (4.1-17)
naω a ω
86 Guiando a Luz

Logo, se a onda é propagante, sempre deverá ser satisfeita a condição:

mπv mv 2a c 2a
ω≥ ou ν≥ ou λ≤ = (4.1-18)
a 2a m v mn

onde n=c/v é o índice de refração do meio. Portanto, apenas as freqüências satisfazendo à condição
(4.1-18) podem propagar no guia metálico planar em estudo. Cada modo possível terá uma
freqüência igual a νc=mv/2a, abaixo da qual a propagação é impossível. Tal valor de νc é chamado de
freqüência de corte do modo. Logo, guias de ondas atuam como filtros de freqüências (ou
comprimentos de onda).

EXEMPLO(4.1-1) – Mostre que a velocidade de propagação de um modo m, em um guia metálico


planar, é dada por (c/n)cosαm, onde αm é o ângulo formado entre o raio de luz referente ao modo m e
a superfície dos espelhos.

Solução:

Para resolvermos o problema consideremos a fig.(4.1-6) na qual vemos um raio de luz


associado ao modo m em propagação dentro do guia metálico planar. Podemos dizer que a
velocidade de propagação do modo é dada pela distância percorrida na direção da propagação
(direção z) zm dividida pelo tempo gasto tm. As duas grandezas citadas são calculadas por:

z m = L m cos α m (4.1-19)

Lm n
tm = = Lm (4.1-20)
v c

Com isto podemos dizer que:

L cos α m cos α m
vm = v m = v cos α m = c (4.1-21)
Lm n

Como, também é verdade que cosαm=β/k, a eq.(4.1-21) poderá ser re-escrita na forma:

β
vm = v (4.1-22)
k

Lm
vm
αm

Lmcos αm

Fig.(4.1-6) – Raios de luz do modo m propagando no guia metálico planar.


Sistemas de Comunicação Óptica 87

Comparando o resultado obtido com a eq.(4.1-13) percebemos que a velocidade obtida é exatamente
a velocidade de grupo. Isto comprova que a velocidade calculada se refere àquela com a qual o modo
avança ao longo do guia.

EXEMPLO(4.1-2) - Dois espelhos paralelos têm uma separação a = 0.75µm formando um guia de
ondas. Encontre a relação de dispersão ωxβ, supondo que o interior do guia está vazio.

Solução

Antes de iniciarmos a solução do problema, vamos fazer um comentário sobre os espelhos.


Eles poderão ser constituídos de duas lâminas metálicas ou dois filmes metálicos depositados em um
substrato, como, por exemplo, lâminas de vidro. Em ambos os casos eles são opticamente polidos,
ou, numa linguagem vulgar, lisos. Por isso devemos entender que as irregularidades (riscos,
saliências, afundamentos, etc.) nas superfícies metálicas, têm dimensões muito menores que o
comprimento de onda da radiação sob confinamento.
A relação de dispersão é obtida através da eq. (4. l -8), onde substituímos k pela expressão
k=ω/c, pois n=1. Disto resulta:

2
2 m 2π2 8 2 2 314
. 
ω=c β + = 3 ⋅ 10 β +m  
a2  0.75 ⋅ 10 
−6

ou

ω = 3 ⋅10 8 β 2 + 1,75 ⋅1013 m 2

Com esta última equação podemos traçar as curvas de dispersão apresentadas na fig.(4.1-6).
Como se pode ver na figura, há uma faixa de freqüências (faixa escura da figura) dentro da qual não
há possibilidade de existir qualquer modo propagante. Ou seja, para os valores de freqüência daquela
faixa, os valores de k são menores do que kx=π/a. Neste caso não pode existir um valor de β que seja
real, bastando se observar a eq.( 4.1-10).
As curvas da fig.(4.1-6) determinam as duas velocidades já discutidas, de fase e de grupo. A
primeira é a relação entre os valores de ω e β comectados pelas curvas, enquanto a segunda vem da
derivada ∂ω/∂β, sendo pois a inclinação da curva para um dado valor de A linha tracejada da curva
indica a relação de dispersão correspondente a uma onda propagando no espaço livre.
________________________________________________________________________________

4.1-2 - Tempo de Atraso em um Guia Metálico Planar


Após a discussão da dispersão de um guia, podemos passar à discussão do tempo de atraso
referente aos modos. Tempo de atraso como já foi discutido no cap.2 é o tempo gasto por um pacote
de onda eletromagnética para percorrer uma dada distância L. Um modo pode ser considerado como
um pacote de onda, possuindo pois uma velocidade de grupo.
Dessa maneira, para que um modo percorra uma distância L o tempo consumido será dado
por:
88 Guiando a Luz

10
a = 0 ,7 5 µ m
8
m =5
6 4
ω /c
(x1 0 6 s -1) 3
4
2
2 1

0
0 2 4 6 8 10
β ( x 1 0 2 m -1 )

Fig.(4.1-6) – Dependência entre a freqüência da luz propagante e a constante de propagação do modo para um
guia metálico com0,75 µm de espessura. A faixa escura mostra a região de freqüencias dentro da qual não pode
haver propagação de modos.

L LN m
τm = = (4.1-23)
v gm c

e com o uso da eq.(4.1-15), teremos:

Ln m  λ ∂n m 
τm = 1 −  (4.1-24)
c  n m ∂λ 

Já se vê na eq.(4.1-24) que o tempo de atraso para cada modo é diferente dos demais, já que depende
do número que quantifica os modos (m).
Desta forma, caso se esteja usando um guia multimodo para a transmissão de pulsos de luz,
como o pulso será transportado pelos diferentes modos do guia, conquanto partam ao mesmo tempo,
à medida que propagam vão se separando no espaço, logo também no tempo. Este efeito de atraso se
rotula como sendo dispersão modal, que é diferente da dispersão cromática já discutida no cap.2. De
fato as duas se somam, caso o guia metálico contenha algum material entre os espelhos.
De posse da eq.(4.1-24) se pode calcular o tempo de atraso por unidade de comprimento (T),
em geral expresso em unidades de ps/km, e que será dado por:

n  λ ∂n m 
Tm = m 1 −  (4.1-25)
c  n m ∂λ 

Da mesma forma como foi feito no cap.2, quando foi discutida a questão da dispersão
cromática, também aqui faremos a discussão sobre o coeficiente de dispersão correspondente ao guia
metálico. Tomando-se a eq.(4.1-18) podemos dizer que se a luz que propaga no guia tem uma largura
espectral ∆λ, poderemos dizer que o alargamento de um pulso óptico com uma composição
multimodal, será calculado por:

∂  1  L ∂N
σt = L = (4.1-26)
∂λ  v g  c ∂λ

Usando-se a eq.(4.1-23) chegamos a:


Sistemas de Comunicação Óptica 89

L
t = 0 t =
vg

∆t L

m=0 m=1 m =2

Fig.(4.1-7) - Ilustração do alargamento de um pulso óptico devido à diferença de velocidade de propagação dos
diferentes modos envolvidos na transmissão do pulso. A área clara no pulso no tempo t=L/vg mostra o tamanho do
alargamento sofrido por ele.

1 ∂   λ ∂n m 
σ tm = n m 1 −  (4.1-27)
c ∂λ   n m ∂λ 

Usando a eq.(4.1-**) podemos calcular a derivada em λ e obter:

2
λ ∂ nm
σ tm = − (4.1-28)
c ∂λ2

A fig. (4.1-7) ilustra o alargamento e um pulso óptico que é transmitido em um guia multimodo,
causado pela diferença de propagação dos modos.

4.2 - Guia Metálico - Óptica Ondulatória


Antes de estudar guias de ondas formados por variações espaciais do índice de refração,
vamos avançar um pouco mais em guias formados pelos espelhos planos paralelos. Consideraremos
que o metal dos espelhos tenha uma condutividade infinita. Agora, vamos partir da solução da
equação de ondas (3.2-1) e levaremos em conta o aspecto vetorial dos campos elétrico e magnético.
Tomemos em consideração duas possíveis configurações de campo, designadas por TE e
TM. Na primeira o campo elétrico está orientado de modo paralelo à superfície metálica, enquanto
na segunda é o campo magnético aquele que está orientado de forma paralela a esta superfície. Antes
de analisarmos cada um destes casos, vamos deixar estabelecidas as condições de contorno a serem
respeitadas pelos campos nas superfícies metálicas.
De uma forma geral as condições são:

E⊥=σ/ε (σ=densidade superficial de carga)

E =0

B⊥=0
90 Guiando a Luz

B = i (i= corrente por unidade de comprimento)

onde ⊥ e  identificam, respectivamente, as componentes dos campos perpendiculares e paralelos às


superfícies.

4.2.1 - Modos TE
Estudaremos primeiro a configuracão TE para a qual, segundo a fig(4.1-1), E=Ej. Pelas leis
de Maxwell, o campo de indução magnética B terá duas componentes a saber: Bz e By
A equações de ondas para os campos elétrico e magnético serão:

∂ 2E ∂ 2E ∂ 2E 1 ∂ 2E
+ + − =0 (4.2-1)
∂x 2 ∂y 2 ∂z 2 v 2 ∂t 2

∂ 2B ∂ 2B ∂ 2B 1 ∂ 2B
+ + − =0 (4.2-2)
∂x 2 ∂y 2 ∂z 2 v 2 ∂t 2

Para solucionarmos o problema, precisaremos resolver apenas a eq. (4.2-l). O campo de indução
magnética é obtido a partir da lei de Faraday.
A solução da eq.(4.2-1) pode ser feita utilizando-se o método da separação das variáveis, se
gundo o qual a solução será decomposto em duas partes: a espacial e a temporal. Com isto temos que
o campo será dado por:

E ( x , y, z , t ) = E ( x , y, z ) T ( t ) (4.2-3)

Substituindo-se a eq.(4.2-3) na eq.(4.2-1) encontraremos:

 ∂ 2E ∂ 2E ∂ 2E  E ∂ 2T
T + + − =0
 ∂x 2 ∂y 2 ∂z 2  v 2 ∂t 2
 

onde suprimimos as variáveis do argumento para simplificar a notação. Dividindo-se a equação


acima por ET temos

 1  ∂ 2 E ∂ 2 E ∂ 2 E   1 1 ∂ 2 T 
  + +  −  =0
 E  ∂x 2 ∂y 2 ∂z 2   v 2 T ∂t 2 

Pelo método da separação das variáveis teremos a igualdade entre os termos dos colchetes, devendo
ser eles iguais a uma mesma constante, chamada de constante de separação das variáveis.
Chamando esta constante por -ω2, encontraremos as seguintes equações:

d 2T
+ ω2T = 0
2
dt

e
Sistemas de Comunicação Óptica 91

 ∂2E ∂2E ∂2E 


 + +  + k 2E = 0
 ∂x 2 ∂y 2 ∂z 2 
 

onde se definiu

ω = kv

A eq.(4.1-**) tem solução harmônica a do tipo:

T ( t ) = To e ±iωt

Como k= nko, para um meio de índice de refração n, temos:

∂2E ∂2E ∂2E


2
+ 2
+ 2
+ n 2 k o2 E = 0 (4.2-4)
∂x ∂y ∂z

A solução da equação (4.2-4) pode ser obtida, também, através do método da separação de
variáveis, com o qual teremos:

E ( x, y, z) = X ( x )Y ( y) Z(z)

onde as funções X, Y e Z descrevem o campo, segundo as direções x, y e z, respectivamente.


Substituindo-se na eq.(4.2-4) temos:

d2X d2Y d2Z


YZ + XZ + XY + n 2 k o2 XYZ = 0
dx 2 dy 2 dz 2

dividindo-se esta equação por XYZ, temos:

1 d2X 1 d2Y 1 d2Z


2
+ 2
+ 2
+ n 2 k o2 = 0
X dx Y dy Z dz

Como o campo elétrico se propaga ao longo de z, sofre a ação dos espelhos ao longo da direção x e
não tem nenhuma dependência ao longo de y, temos:

d2Y
=0
dy 2

1 d2Z  1 d2X 
= −  + n 2 k o2  = −β 2 ≡ cte
Z dz 2  2
 X dx 

Daí temos duas equações a resolver:

d2Z
+ β2Z = 0
dz 2
e
92 Guiando a Luz

d2X
2
+ q 2X = 0 (4.5-6)
dx

com

(
q 2 = n 2 k o2 − β 2 ) (4.2-7)

As soluções das eqs.(4.2-5) e (4.2-6) serão:

Z(z ) = Ae iβz + Be − iβz (4.2-7)

X(z ) = Ce iqx + De − iqx (4.2-8)

Estas são as soluções gerais. Entretanto, algumas operações ainda devem ser feitas para chegarmos à
solução final do problema. Quais? Primeiro temos de considerar as condições de contorno do
problema envolvendo as duas direções, z e x.

• Solução Z(z)

Para o caso que estamos resolvendo, a luz está se propagando ao longo de z no sentido
positivo do eixo. Logo, só podemos ter β=kz positivo e a solução será:

Z( z) = Ae iβz (4.2 -9)

Neste caso a parte temporal deverá ser e-iωt.

• Solução X(x)

As reflexões nos espelhos, como sabemos, fazem as ondas se propagarem em x, tanto no


sentido positivo quanto negativo. Logo, são possíveis as condições kx>0 e kx<0. Além disso temos de
respeitar às condições: X(0)=X(a)=0. Então, usando-se a eq.(4.2-8), encontramos:

para x=0 C+D=0 (4.2-10)

para x=a Ce iqa + De − iqa = 0 (4.2-11)

As eqs.(4.2-10) e (4.2-11) levam às seguintes relações:

D = −C

(e iqa
)
− e − iqa = 2i sen qa = 0

Esta última relação impõe ao valores de q uma condição quantizadora, qual seja
Sistemas de Comunicação Óptica 93


qa=mπ ou q= com m=1,2,3,...
a

A fim de já introduzirmos o conceito de modo fundamental, definido em geral para m=0, vamos
redefinir a condição de quantização dos modos para:

q=
(m + 1)π agora com m=0, 1, 2, 3, ...
a

A solução para x será, pois:

X(x ) = 2iC sen(qx ) = X o sen(qx ) (9-2-12)

onde chamamos: Xo=2iC.


Pelo que foi visto, anteriormente: Z(z )X(x ) = Z o X o sen (qx )e iβz e a solução total será:

E y (x, z, t ) = Z o X o sen(qx )e iβz e −iωt = E o sen(qx )e i (βz −ωt ) (4.2-13)

A onda que se propaga ao longo de z é dada aqui por: e (


i βz − ωt )
. A solução mais geral é a
combinação linear das duas soluções possíveis

[ ] [
E y (x, z, t ) = E o sen(qx )e i (βz − ωt ) + E o sen(qx )e i (βz − ωt ) ] = [E e (

o
i β z − ωt )
]
+ E o∗ e −i (βz − ωt ) sen (qx )

com o símbolo * indicando que estamos tomando o complexo conjugado da grandeza no qual ele se
encontra. Um número complexo como Eo pode ser escrito na forma:

E o = E o e iθ

Logo:

[ ]
E y = E o sen(qx ) e i (βz −ωt + θ ) + e −i (βz −ωt + θ ) = 2E o sen(qx ) cos(βz − ωt + θ)

O valor de θ que pode ser escolhido arbitráriamente uma vez que se trata de uma fase global da onda.
Portanto o seu valor será escolhido de modo que cos(βz-ωt+θ)=cos(βz-ωt). sem haver maiores
implicações sobre a generalidade da solução. Daí, teremos:

E y (x, z, t ) = −2E o sen(qx ) cos(βz − ωt ) (4.2- 14)

Este resultado é igual àquele da eq.(4.1-4), obtido através de uma análise geométrica da trajetória dos
raios,e sob duas imposições:a existência de interferência construtiva entre o raio e a condição de
contorno dos campos elétricos serem nulos nos espelhos do guia.
Obtidas as soluções para o campo elétrico, poderemos calcular o campo de indução
magnética, usando a Lei de Faraday. Tomando a eq.(4.2-14),faremos:

∂  ∂E ∂E 

∂t
[ ]
(B x i + B z k )e iωt = ∇xE =  − y i + y k e iωt
 ∂z ∂x 
94 Guiando a Luz

igualando os termos de versores homônimos, e integrando no tempo, com as variáveis de espaço


mantidas constantes, vem:

β
Bx = − E o sen (qx ) cos(β z − ωt )
ω
q
B z = − E o cos(qx ) sen(βz − ωt )
ω

4.2-2 - Modos TM
Na configuração TM, a eq.(4.2-2) é resolvida de modo análogo ao que foi feito para a
equação do campo elétrico no caso TE. Basta tomarmos a equação de onda com o campo de indução
magnética substituindo o campo elétrico e as diferenças de resultados advém das condições de
contorno nos espelhos. Fica para o leitor o desenvolvimento dos cálculos. Tomando-se:

B = B y j = B o sen (qx ) cos(βz − ωt )j

e com a Lei de Ampére-Maxwell, chega-se às expressões das componentes do campo elétrico:

βc 2
Ex = B o sen(qx ) cos(β z − ωt ) (4.2-13)
ω
qc 2
Ez = B o cos(qx ) sen (β z − ωt ) (4.2-14)
ω

TE TM
Ex 0 βc 2
B o sen(qx ) cos(β x − ωt ) 0
ω
Ey E0sen(qx)cos(βz-ωt)
qc 2
B o cos(qx ) sen(β x − ωt )
Ez 0 ω
Bx β 0
− E o sen(qx ) cos(βz − ωt )
ω
By 0 0
q
Bz − E o cos(qx ) sen(βz − ωt ) B o sen (qx ) cos(β z − ωt )
ω
2
π 2 2  (m + 1)π 
onde: q m = ( m + 1) ; m = 0,1,2... ....... e β m2 = (nk o ) − q 2m = (nk o ) −  
a  a 

Tab.(4.2-1) - Solução dos modos TE e TM para um guia metálico planar.

A condição de contorno, para o campo elétrico nas superfícies metálicas do guia, obrigam a fazermos
Ez=0 para x=0 e x=a, levando a uma mesma equação de autovalores para os modos TM, qual seja:

π
q = (m + 1) m=0, 1, 2, 3, ... (4.2-15)
a
Sistemas de Comunicação Óptica 95

A Tab.(4.2-1) apresenta um resumo de tudo que foi discutido acima. Nela encontraremos as
expressões das componentes dos campos elétrico e magnético para as configurações TE e TM,
referentes ao guia metálico planar. Na tabela também estão apresentadas as constantes de propagação
longitudinal (β) e transversal (q) dos modos.

4.5 - Guia Dielétrico Laminar - Óptica Geométrica


No caso de um guia formado por espelhos, é fácil entendermos (ou aceitarmos) o fenômeno
do confinamento da radiação entre as paredes do guia. Afinal, elas são dois espelhos e, refletindo a
radiação, provocam o confinamento. No caso atual pode não parecer tão fácil se entender como a
radiação é confinada. Afinal, não há mais os espelhos do guia metálico. Entretanto, a capacidade dos
espelhos refletirem a radiação, com a qual compreendemos o fenômeno do confinamento da
radiação, permanece para o caso do guia dielétrico.
Para isso, lembremos que neste guia há casca meio 1
duas interfaces de separação entre meios n1
de índices de refração diferentes. Nelas αi
ocorre uma descontinuidade dos índice
de refração e, como tal, cada interface a meio 2
núcleo n2
tem a capacidade de refletir a radiação,
eletromagnética através do processo
reflexão total. Esta capacidade de meio 3
reflexão, como sabemos, depende do casca n3
ângulo de incidência da radiação e dos
valores dos índices de refração dos Fig.(4.5-1) - Guia de onda dielétrico constituido de duas regiões
meios envolvidos. Em geral a básicas núcleo e casca. Na figura está indicado um raio de luz
refletividade é parcial, indicando que sofrendo reflexão total.
uma porção de energia sairia do guia, perdendo-se espaço afora. No entanto, caso a luz incida de um
meio de índice de refração maior (nn) para outro de menor valor (nc),e com um ângulo de incidência
igual ou maior do que o ângulo critico θc, ela será totalmente refletida. Tal ângulo critico é
determinado pela Segunda lei de Snell que leva a:

n 
θ c = sen −1  c  (4.5-1)
 nn 

Desta maneira, mesmo não sendo um espelho metálico, é possível haver a reflexão total da radiação
na interface entre os dois meios dielétricos. Com tal reflexão o confinamento da radiação
eletromagnética em um guia, construído com materiais dielétricos, é perfeitamente possível. Mas só
a reflexão total não garante a existência de um modo propagante no guia, também se exige um
processo adequado de interferência construtiva da radiação em constante reflexão total dentro dele,
como ocorre em um guia metálico planar.

Exemplo (4.5-1) - Calcular o maior ângulo de incidência de um raio de modo que seja refletido
totalmente na interface núcleo-casca.

Solução:

Para solucionar o problema vamos primeiramente considerar a fig.(4.5-2) na qual poderemos


visualizar a situação de um raio de luz que penetra no guia nas condições de reflexão total na
interface núcleo-casca.
96 Guiando a Luz

De princípio podemos dizer que, de acôrdo com a


casca meio 1
segunda lei de Snell, a refração na entrada do guia
n1
nos leva à expressão:
θc
n m sen θ a = n n sen θ1 (4.5-2) θ1 meio 2
núcleo n2
a θ
sendo nm o índice de refração do meio externo ao
guia.
Como o raio de luz está na condição de meio 3
n3
reflexão total na interface núcleo-casca, podemos casca
dizer que a segunda lei Snell nos permite escrever a Fig.(4.5-2) - Raio de luz incidindo na entrada do guia
relação: na condição de reflexão total na interface núcleo-casca.

nc
sen θ c =
nn

que é a eq.(4.5-1). Por outro lado, os ângulos θ1 e θc são complementares de modo que senθ1=cosθc,
o que nos permite escrever:

nn 1
sen θ a = 1 − cos 2 θ1 = n 2n − n c2 (4.5-3)
nm nm

e temos pois

 n2 −n2 
 n c 
θ a = sen −1   (4.5-4)
 nm 
 

O ângulo θa é conhecido como abertura numérica do guia de ondas, e o seu significado é


aquele do enunciado do problema. Para fixação de valores a fig.(4.5-3) apresenta o comportamento
da abertura numérica em função da
10
diferença entre os índices de refração do
núcleo e da casca. Os valores da figura
foram calculados para nn=1,46 e diferentes 8
valores do índice de refração do meio nm=1,0
nm=1,5
externo nm. nm=2,0
6
Em termos práticos, a abertura θa
numérica informa qual a abertura angular do (graus)
pincel de luz que o guia é capaz de ser 4
acoplado com o guia. Como sabemos, na nn=1,46
prática, as fontes de luz emitem sua radiação 2
preenchendo um certo ângulo sólido. As
lâmpadas de filamento comuns, iluminam
0
em quase todas as direções, conquanto a 0,000 0,005 0,010 0,015 0,020
intensidade luminosa possa variar coma (
n n − nc )
orientação angular. Já em um laser de
semicondutor a luz é emitida segundo um Fig.(4.5-3) - Abertura numérica de um guia dielétrico laminar
simétrico, em função da diferença entre os índices de refração do
cone de base elíptica, com ângulos de núcleo e da casca, e para diferentes valores de índice de refração
algumas dezenas de graus. Assim sendo, se do meio externo ao guia. O valor de nn usado nos cálculos está
queremos acoplar a luz de uma dessas fontes indicado na figura.
Sistemas de Comunicação Óptica 97

com o guia que estamos estudando, a eficiência deste acoplamento dependerá da abertura angular de
emissão da fonte e da abertura numérica do guia. No estudo de fibras ópticas voltaremos ao assunto
da abertura numérica de um guia de ondas.
________________________________________________________________________________

4.5-1 - Solução Geométrica do Guia Dielétrico Laminar


Para entendermos em que condições a luz pode propagar em um guia dielétrico planar
simétrico, na forma de um modo deste guia, vamos usar, primeiramente, o tratamento da Óptica
Geométrica. Vamos refazer o que fizemos no caso de um guia formado por espelhos. Tomemos a
fig.(4.5-4), na qual está ilustrado um guia dielétrico simétrico. O índice de refração da lâmina central
(núcleo do guia) é nn e a das adjacentes (camadas confinadas) tem o mesmo valor de índice de
refração nc.
Consideremos um raio luminoso, designado por I, incidindo com um angulo de incidência αi
em relação à superfície. Seja αi tal que o seu complementar θi para os meios nn e nc, seja maior do
que o ângulo critico θc. Tomemos também um segundo raio designado por II, paralelo ao raio I, e
com mesmo ângulo de incidência αi.
Como está visível na fig.(4.5-1), quando o raio I, atingir a interface em y = a, o segundo raio

meio 1
A B n1

αi
Raio I
meio 2
a C n2
Raio II
αi
E
D d1 meio 3
d2 n3

Fig.(4.5-4) - Ilustração da propagação de dois raios de luz em um guia dielétrico laminar

(II) ainda se encontra a uma distância CB da interface. Quando este raio atingir a interface supra
mencionada, o raio I já terá atingido a outra interface no ponto E. No ponto A, local da primeira
reflexão do raio I, ele e o raio II estavam sobre uma mesma frente de fase, fato que volta a se repetir
quando o primeiro raio se encontra no ponto E, após a segunda reflexão.
Então vem a pergunta. Qual a condição a ser satisfeita pelos dois raios em discussão, a fim
de que ambos pertençam à mesma frente de onda ? Isto significa dizer: os dois raios pertencem a um
mesmo modo. Para responder a esta pergunta, vamos acompanhar os eventos a partir da frente AD
até a BE .

Raio I - (reflete em A) + (percorre a distância AE ) + (reflete em E)

Raio II - (percorre a distância CB )

Com isto podemos calcular as mudanças de fase sofridas por ambos os raios na região hachurada da
fig.(4.5-4). A cada reflexão ocorre uma mudança de fase cujo valor é dado pelo
98 Guiando a Luz

coeficiente de reflexão R = R0eiφ . A variação de fase está contida no termo φ. Cada caminho óptico,
percorrido pelas ondas, introduz uma alteração de fase. Elas podem ser calculadas por:

a
n n k o AE = n n k o (4.5-1)
sen α i

n n k o C B = n n k o AB cos α i = n n k o (d 2 − d 1 ) cos α i (4.5 -2)

Desde que
a  1 
AB = (d 2 − d 1 ) = − atgα i = a  − tgα i  (4.5 -3)
tgα  tgα 
e
 1 
n n k o C B = n n k o a  − tgα i  cos α i (4.5-4)
 tgα 

a diferença de fase δ, entre os dois raios, será:

 1    1  
δ = n n k o a + 2φ − n n k o a  − tgα i  cos α i  (4.5-5)
 sen α i    tgα  

Se eles pertencem à mesma frente de onda, δ deve ser sempre igual a 2mπ (m=0, 1,2,...),
i ( 2 mπ )
pois e = 1 . Com isto escreveremos:

 1  1  
n n k oa  −  − tgα i  cos α i  + 2φ = 2mπ (4.5-6)
 sen α i  tgα  

Como:

1  1  1 cos 2 α i − sen 2 α i
−  − tgα i  cos α i = − cos α i = 2 sen α i (4.5-7)
sen α i  tgα  sen α i sen α i cos α i

temos :

φ = mπ − n n k o a sen α i (4.5-8)

Entretanto, a fase φ depende da polarização do campo incidente. Assim haverá dois possíveis valores
para esta grandeza, a saber:

 1 
φ TE = −2tg −1 
(
 β 2 − n c2 k o2 )2  para os modos TE (4.5-9)
1
 2 2
(
 n n k o − β
2
)2 
Sistemas de Comunicação Óptica 99

 2 2 1

φ TM −1 (
n β − n c2 k o2
= −2 tg  c2
) 2
 para os modos TM (4.5-10)
nn 2 2 1 
 (
n n k o − β2 ) 2 

Façamos as seguintes definições:

β = n n k o cos α i (4.5-11)

1
(
q = n 2n k o2 − β 2 ) 2 = n n k o sen α i (4.5-11)

1 1
(
p = β 2 − n c2 k o2 ) = [(n
2 2
n )
− n c2 k o2 − q 2 ]
2 (4.5-12)

Com elas temos que

[
p 2 + q 2 = (n 2n − n c2 )k o2 − q 2 ] (4.5-13)

Substituindo-se as eqs.(4.5-11) e (4.5-12) nas eqs. (4.5-9) e (4.5-10) teremos

p
φ TE = −2 tg −1  
q 
e
 n c2 p 
−1
φ TM = −2tg  2 
nn q

Usando estas duas equações na eq.(4.5-8) obtemos as condições que determinam a propagação de
um modo do guia dielétrico para as configurações TE e TM. Elas serão:

p
tg(qa − mπ) = tg(qa ) = (TE) (4.5-14)
q

n 2c  p 
tg(qa − mπ) = tg(qa ) =   (TM) (4.5-15)
n 2n  q 

Quando é par (m=0,2,4...) tg(qa-mπ)=tg(qa), enquanto quando m é ímpar (m=1,3,5...)


teremos tg(qa-mπ)=-ctg(qa). Desta forma tanto os modos do tipo TE quanto TM possuiem dois sub-
conjuntos de modos, normalmente designados por modos pares para o caso de valores pares de m e
modos ímpares para o outro caso.
As eqs.(4.5-14) e (5.5-15) são chamadas de equações transcendentais uma vez que não há
forma direta de resolvê-las a não ser por meios numéricos. Para resolvê-las, se expressa p em função
de q, usando-se a eq.(4.5-12), fazendo a equação ter apenas uma variável, no caso o q. Resolvendo-
as se obtem quais os possíveis valores de q são permitidos para o guia. Cada um destes valores
corresponde a um modo guiado. De posse dos valores de q se pode calcular os outros parâmetros
modais p e β. A tab.(4.5-1) apresenta as equações transcendentais dos modos pares e ímpares
referentes às configurações TE e TM.
100 Guiando a Luz

No caso do guia planar dielétrico, antes de estudarmos as questões de dispersão e tempo de


atraso, vamos realizar a análise ondulatória.

PAR ÍMPAR
p p
TE tg (qa ) = − ctg(qa ) =
q q
n c2  p  n c2  p 
TM tg (qa ) =   − ctg (qa ) =  
n 2n  q  n 2n  q 

Tab.(4.5-1) – Equações transcendentais dos modos pares e ímpares nas configurações TE e TM.

Exemplo: Obter a velocidade de grupo para um modo de um guia laminar dielétrico a partir da
eq.(4.5-8).

Solução:

Tomando-se a eq.(4.5-8) vamos escrevê-la na forma

n o2 ω 2
a − β 2 = mπ − φ (4.5-16)
2
c

usando-se a eq.(4.5-11). Sabendo-se que φ é uma função de ω, derivemos a eq.(4.5-16) de modo que
obteremos:

n o2 dω
ω −β
c 2 dβ  ∂φ ∂φ dω 
a = − +  (4.5-17)
n o2 ω 2 2  ∂β ∂ω dβ 
2
−β
c

Um certo tratamento algébrico nos permite escrever

β ∂φ
a −
q ∂β
vg = (4.5-18)
2
a no ∂φ
ω+
q c 2 ∂ω

Tomando-se as eqs.(4.5-11) e (4.5-12) podemos escrever a eq.(4.5-18) na forma:

∂φ
atgθ i −
∂β
vg = (4.5-19)
a sec θ i ∂φ
+
c / no ∂ω
Sistemas de Comunicação Óptica 101

Faremos as seguintes definições:


∂φ
= − ∆z (4.5-20)
∂β

∂φ
= ∆τ (4.5-21)
∂ω

Com a eq.(4.5-??) podemos escrever

atgθ i + ∆z
vg = (4.5-22)
a sec θ i
+ ∆τ
c / no

Que interpretação podemos dar ao resultado obtido? Observemos a fig.(4.5-5) Nela vemos que a
trajetória de um raio de luz sofrendo reflexão na interface entre o núcleo e a casca deveria avançar
em z de uma distância Lo, enquanto o tempo consumido neste avanço seria asecθi/(c/no), que é o
tempo de subida do raio da interface inferior até a superior. Isto levaria a uma velocidade de grupo
dada por:

atgθ i
vg = (4.5-23)
a sec θ i
c / no

Mas isto se diferencia do resultado obtido anteriormente. Observamos que o comprimento percorrido
ao longo de z está acrescido de um
∆a
acréscimo ∆z e também o tempo
αi
consumido tem um acréscimo ∆τ. Isto
θi
pode ser entendido como se a reflexão a
total tenha ocorrido não na interface mas
em um ponto P além da interface, como se
o raio penetrasse ∆a casca adentro. É uma
antecipação, obtida no âmbito da óptica L ∆z
geométrica, da existência do efeito do L ef
tunelamento fotônico que analizaremos
adiante na análise ondulatória do Fig.(4.5-5) – Trajetória do raio de luz de um modo em umguia
guiamento da luz em um guia dielétrico dielétrico planar. Nela fica indicado o percurso efetivo na direção
planar. longitudinal.

4.6 - Guia Dielétrico Laminar – Óptica Ondulatória


Porque resolvermos o guia dielétrico com a Óptica Ondulatória? Esta é uma pergunta que
devemos responder antes de fazermos esse esforço matemático. Em primeiro lugar, a solução do guia
dielétrico, no enfoque da Óptica Geométrica, não permite que se obtenha determinados detalhes de
importância prática, como, por exemplo, a questão da distribuição espacial dos modos. Esta, como
veremos, mostrará a existência de luz além da interface núcleo-casca, o que é de fundamental
importância do ponto de vista prático.
Muitas vezes achamos que a luz está contida dentro do núcleo e pensamos não haver luz na
casca. Esta falha de visualização surge a partir da análise geométrica quando usamos a famosa
102 Guiando a Luz

figurinha da reflexão total, a fig.(4.5-5). Devido a tal visualização, somos, operacionalmente,


tentados a pensar que a preservação física do núcleo do guia é o que importa, já que é lá que a luz
está. E isto é falso, pois a luz se espalha na casca. Aliás! a casca faz parte do guia, e sem ela, só com
um núcleo, não há o guia de ondas.

4.6-1 - Solução Ondulatória do Guia Dielétrico Laminar


Vamos discutir o guia de ondas formado por camadas de material dielétrico, usando a
equação de ondas. Em um guia laminar dielétrico o índice de refração tem os seguintes valores:

n c x ≤ -a

n(x) = n n -a < x < a
n x≥a
 c

Analisaremos a solução ondulatória do guia para o caso dos modos TE. Segundo o sistema de
coordenadas apresentado na fig.(4.6-1), teremos:

E=Ej (4.6-1)

A equação de ondas para o campo elétrico x


será:

∂2 E ∂2 E a nc
2
+ 2
+ n 2 k 2o E = 0 (4.6-2)
∂x ∂z E
y -a nn
onde ∂2E/∂y2=0, porque a onda se propaga ao z
longo de z e só há variação do índice de n c

refração ao longo de x. Será assumido que a


solução terá uma dependência temporal Fig.(4.6-1) – Ilustração de um guia dielétrico planar e o
harmônica e a equação de onda, portanto, sistema de coordenadas usado para a orientação do campo
ficará: elétrico de um modo TE.

∂ 2E ∂ 2E
+ + n 2 k o2 E = 0 (4.6-3)
∂x 2 ∂z 2

Neste caso, como n é uma função de x, teremos de resolver a equação de onda (4.6-3) para as três
regiões x≤-a,-a<x<a, x≥a. Isto nos dará:

∂ 2E ∂ 2E
2
+ 2 + n c2 k o2 E = 0 x≤-a (4.6-4)
∂x ∂z

∂ 2E ∂ 2E
2
+ 2 + n o2 k o2 E = 0 -a<x<-a (4.6-5 )
∂x ∂z

∂ 2E ∂ 2E
2
+ 2 + n c2 k o2 E = 0 x≥a (4.6-6)
∂x ∂z
Sistemas de Comunicação Óptica 103

Pelo método de separação da variáveis, teremos: E(x,y)=X(x)Z(z). A dependência em z, como já se


sabe, será do tipo:

Z ( z ) = Z o e iβ z (4.6-7)

Substituindo-se a eq.(4.6-7) nas equações do campo (eqs.(4.6-4) a (4.6-6)), teremos:

∂ 2X
∂x 2
( )
+ n c2 k o2 − β 2 X = 0 x≤-a (4.6-8)

∂ 2X
∂x 2
( )
+ n 2n k o2 − β 2 X = 0 -a<x<-a (4.6-9)

∂ 2X
∂x 2
( )
+ n c2 k o2 − β 2 X = 0 x≥a (4.6-10)

Como o indice de refração tem uma variação simétrica, as soluções para essas equações poderão ser
de dois tipos: pares, para as quais X(x)=X(-x), e ímpares quando X(x)=-X(-x). Tal circunstância de
modos pares e ímpares já foi observada na solução geométrica. As pares serão do tipo:

X( x ) = Ae px + Be − px x≤-a (4.6-11)

X ( x ) = C cos(qx ) -a<x<-a (4.6-12)

X( x ) = De px + Ee − px x≥a (4.6-13)

enquanto as impares serão:

X( x ) = Ae px + Be − px x≤-a (4.6-14)

X ( x ) = C sen(qx ) -a<x<-a (4.6-15)

X( x ) = De px + Ee − px x≥a (4.6-16)

 Soluções pares

Se queremos um campo confinado na região central do guia, os coeficientes B e D deverão


ser nulos. Senão. quando x→±∞ o campo tenderá para infinito. Assim sendo, as expressões ficarão:

X( x ) = Ae px x≤-a (4.6-17)

X ( x ) = C cos(qx ) -a<x<-a (4.6-18)


104 Guiando a Luz

X( x ) = Ee − px x≥a (4.6-19)

Para que este conjunto de equações seja uma solução possível do problema, vamos substituí-
lo na equação de ondas e verificar que condições os parâmetros p, q e β deverão satisfazer as
eqs.(4.5-11) a (4.5-13), apresentadas anteriormente. Por outro lado, as soluções deverão ser tais que,
tanto o campo elétrico quanto as suas derivadas, sejam contínuos nas interfaces x=+a. Estas duas
condições nos darão:

Ae − pa = C cos qa (4.6-23)
− pa
Ee = C cos qa (4.6-24)
Ape − pa = Cq sen qa (4.6-25)
Epe − pa = Cq sen qa (4.6-26)

Disto, resulta a condição A=E. Quadrando e somando as eqs.(4.6-23) e (4.6-24), obtemos a relação
entre os coeficientes A e C:

qe pa qe pa
A = (−1) u C = (−1) u C (4.6-27)
p2 + q2 n 2n − n c2

onde u=(m/2) para os modos pares. O mesmo resultado é obtido para os modos ímpares fazendo-se
u=(m-1)/2. O valor do sinal está ligado ao quadrante da solução Dividindo-se a segunda pela
primeira, segue:

p (n 2n + n c2 )k o2 a 2 − q 2 a 2
tg (qa ) = = (4.6-28)
q qa

Pela eq.(4.6-28), podemos observar que o parâmetro q só poderá assumir os valores obtidos
com a solução desta equação transcendental. Cada um dos valores corresponde a um modo de
propagação, como já obtivemos na análise geométrica. A fig.(4.6-3) apresenta as funções da eq.(4.6-
28) envolvidas na equação transcendental que determina os valores de q que são soluções pares do
guia dielétrico planar, as quais são
encontradas nos quadrantes ímpares. Na
mesma figura estão as funções que I II III IV V VI
determinam as soluções ímpares, obtidas
resolvendo-se a eq.(4.6-37), estas, obtidas p
nos quadrantes pares. q
As figs.(4.6-4) apresentam a tg(qa)
distribuição dos modos pares referentes a
m=0 (fundamental) e m=2. Nelas a região
escura indica o núcleo do guia laminar;
conforme se vê, os modos não estão
contidos dentro do núcleo mas se 0 π/2 π 3π/2 2π 5π/2 3π
espalham fora deste. Ou seja, conquanto qa/2
haja reflexão total nas interfaces entre o
núcleo e a casca do guia, o campo tunela Fig.(4.6-3) – Solução gráfica dos modos pares Os círculos
para fora o primeiro. indicam onde as funções se cruzam determinando os valores de q que
são solução das equações transcedentais.
Sistemas de Comunicação Óptica 105

 Soluções ímpares

Para as soluções impares teremos B=D=0, devido a convergência do campo quando x→±∞.
Além disso obtemos também as já conhecidas relações para q, p e β. As condições de contorno nas

m =0 m =2

Fig.(4.6-4) – Distribuição da intensidade dos campos dos modos pares de um guia de onda
laminar. A região escura indica o núcleo do guia.

interfaces nos darão:

Ae − pa = −C sen qa (4.6-33)
− pa
Ee = C sen qa (4.6-34)
− pa
Ape = Cq cos qa (4.6-35)
− pa
Epe = Cq cos qa (4.6-36)

Disto, resulta a condição A=-E e a equação transcendental:

p (n 2n + n c2 )k o2 a 2 − q 2 a 2
ctg (qa ) = − = − (4.6-37)
q qa

Resolvendo-a se obtém os valores de q referentes aos modos que podem propagar no guia bem como
outros dois parâmetros, a saber: p e β. A fig.(4.6-5) apresenta a solução gráfica dos modos ímpares,
estando indicados os pontos de intersecção entre as funções -ctg(qa) e (q/p) que compões a equação
transcendental. Apenas está apresentada a pare
positiva da função cotangente, pois esta é a
I II III IV V VI
parte que interseciona com a função (q/p) que
corresponde ao lado direito da função
p
transcendental.
q
Na fig.(4.6-6) está graficada a
distribuição de campo do primeiro modo
impar, m=1. Como se pode ver nesta figura, ao -ctg(qa)

contrário dos pares, o modo ímpar se anula no


ponto x=0. Outro fato é que o número de
pontos regulares (máximos e mínimos) é par,
0 π /2 π 3 π /2 2π 5 π /2 3π
no caso dois, enquanto nos modos pares há um
número ímpar de pontos regulares; isto pode qa/2
ser visto com facilidade observando-se a fig. Fig.(4.6-5) – Solução gráfica dos modos ímpares.
(4.6-5).
106 Guiando a Luz

m = 1

Fig.(4.6-6) – Distribuição da intensidade do campo do primeiro modo ímpar de um guia de onda laminar. A
região escura indica o núcleo do guia e a linha tracejada indica o meio do núcleo.

4.6-1 – Tunelamento Fotônico


Faz-se necessário se comentar o sentido do parâmetro p que surgiu nas soluções
apresentadas. Tal parâmetro se refere à parte da solução que está fora do núcleo, portanto
correspondente à penetração de luz na casca ao longo do guia. Observemos a fig.(4.6-7), na qual
estão apresentados a distribuição de campo dos modos par m=0 e ímpar m=1, bem como as
intensidades correspondentes de luz numa secção transversal do guia (visão frontal), por exemplo na
saída do guia. Podemos, mais uma vez perceber que um modo guiado é uma estrutura de campo
eletromagnético que não se encontra apenas dentro do núcleo do guia, mas também fora dele (na
casca).
A penetração de luz na casca, além da sua interface com o núcleo, é chamada de tunelamento
fotônico e tem um comportamento evanescente, quantificado pelo decaimento exponencial da
intensidade de campo na casca do guia. Dado ao comportamento exponencial do campo dentro da
casca, o comprimento da penetração pode ser medido usando-se como valor da penetração a
distância para a qual o campo decai de seu valor na interface entre o núcleo e a casca (A) até o valor
igual a (Ae-1). Tomando a solução na casca (eq.(4.6.17)) deduz-se que tal distância é dada por L=1/p.
Portanto quanto menor for p maior será esta penetração. Para visualizarmos o que acabamos de
comentar vamos considerar o modo par m=0 como mostra a fig.(4.6-7). Na figura a ilustração torna
bem visível o iluminamento do guia pelo campo do modo e a penetração da luz na casca.

VISÃO LATERAL VISÃO FRONTAL VISÃO LATERAL VISÃO FRONTAL

casca casca

núcleo núcleo

casca casca
Intensidade Intensidade

MODO PAR m=0 MODO ÍMPAR m=1

Fig.(4.6-7) – Distribuição de campo na direção transvesrsal e intensidade de luz na saída do guia para os modos par (m=0)
e ímpar (m=1).
Sistemas de Comunicação Óptica 107

Uma aplicação prática desses


conhecimentos de tunelamento fotônico pode
ser no uso do guia como um sensor. Tomemos,
para exemplificar, o guia que estamos 1
x= Aepx
analisando, Consideremos também, que em um p
dado momento, por alguma razão cuja origem A
não iremos apreciar aqui, ocorra uma variação
Ae-1 cos(qx)
de índice de refração fora do núcleo. Entretanto,
dentro de uma pequena região próxima à
interface núcleo-camada =]alcançada pela parte
Ae-px
do modo que se propaga na região exterior ao
núcleo. Embora seja o rabo do modo que entra
em contato com a perturbação fora do núcleo,
todo o modo poderá detectar tal variação. E isto
provocará alterações nele como um todo. Por
exemplo, levando-o a ter espalhamento de luz Fig.(4.6-7) – Distribuição de campo modal para m=0 junto
com a ilustração da intensidade de luz no guia (visão frontal).
na região próximo à perturbação. Com isto, Estão indicadas as soluções na casca e núcleo do guia, os
haverá lançamento de luz guiada fora do guia e valores do campo na interface núcleo-casca e a umaa
conseqüente queda na intensidade de luz que se distância x=1/p. As setas indicam a penetraçÃo da luz na
estava obtendo na extremidade oposta à de casca do guia.
lançamento.

4.7 – Guiamento com Perfis Graduais de Índice de Refração


Nesta seção vamos analisar a propagação de ondas em meios nos quais o índice de refração
varia no espaço, fazendo com que o meio seja chamado não-homogêneo. Um exemplo disto é o caso
de estradas em dias de muito calor. Ao olharmos a estrada adiante do carro nos parece que o céu está
refletido no asfalto, o que nos dá a impressão de um espelho. A fig.(4.7-1) ilustra este fato cuja
explicação está na variação espacial do índice de refração do ar. Devido à incidência da luz solar
sobre o asfalto, ou qualquer chão que aqueça, forma-se um gradiente decrescente de temperatura de
baixo para cima. Quanto mais quente o ar menos denso ele é, significando que há uma menor
quantidade de átomos por unidade de volume.
Relembrando as discussões do cap.2, é fácil
percebermos que menor será índice de
refração do ar aquecido. Desta forma, o índice
de refração do ar terá um gradiente de valores
que seguirá o da sua temperatura. Com isto os
raios de luz que vêm do céu com a imagem da
nuvem, conforme a fig.(4.7-1) percorrerão
uma trajetória curvilínea terminando por se
deslocar para cima. Com isto, os olhos do
observador, exergando em linha reta, terão
diante de si uma imagem do céu que
aparentemente se reflete no chão. A miragem Fig.(4.7-1) - Efeito miragem vista em um dia quente.
está formada.

4.7-1 – Trajetória de um Raio de Luz


Quando analisamos as ondas eletromagnéticas, definimos conceitos como frente de onda e
vetor de propagação. Como vimos, uma frente de onda é o lugar geométrico dos pontos com uma
108 Guiando a Luz

mesma fase (k•r-ωt), a qual forma uma superfície no espaço. Em cada parte desta superfície, há um
vetor de propagação k, à qual é perpendicular. Tal vetor aponta para a direção de propagação da
onda, naquele ponto, mostrando para onde ela está se deslocando.
Em um meio homogêneo e isotrópico, os raios de luz serão linhas retas, como indica a
fig.(4.7-2) para o caso de ondas planas e esféricas.

FRENTE DE Frente de Onda FRENTE DE


ONDA PLANA Local geométrico ONDA ESFÉRICA
ão
dos pontos com a
E E aç
mesma fase ag
k op
k Pr
E de
ç ão
re
Di

B
k
Di
re
çã
o
de
Pr
o pa
ga
çã
o

Fig.(4.7-2) - Raios de luz em um meio homogêneo e isotrópico de ondas planas e esféricas.

E se houver uma mudança abrupta de meio óptico? Digamos, passando de um meio com índice de
refração n1 para outro com índice de refração n2. Neste caso, na interface de separação entre eles, a
onda sofrerá uma mudança na direção de propagação. O mesmo se dará com o raio luminoso,
conforme o efeito da refração da luz. A intensidade da mudança e direção, conforme a lei de Snell,
dependerá dos ângulos de incidência bem como dos índices de refração dos meios. Contudo, em cada
meio o movimento é retilíneo.
Resta perguntar, o que ocorre caso o meio seja isotrópico mas não homogêneo? Ou seja, o
índice de refração varia espacialmente sendo uma função da posição dos pontos nos quais a onda
esteja sendo considerada. Nestes casos, a mudança da direção de propagação ocorre como se em
cada ponto houvesse uma refração do raio, ocasionando mudanças na sua rota. Consequentemente, o
raio de luz não descreverá mais uma
trajetória retilínea mas, curvilínea. Daí
vem a pergunta: como determinar essa t+d t
trajetória? É o que passaremos a analisar. t A A’
Tomemos uma frente de onda
evoluindo no espaço por um intervalo de
tempo infinitesimal dt. Sejam A e A',
dois pontos correspondentes a um
mesmo vetor de propagação, estando o Σ Σ’
primeiro na superfície ∑ e outro em ∑',
como indica a fig.(4.7-3). Sendo dt, o Fig.(4.7-3) - Frente de onda em duas posições separadas por um
tempo levado pela frente de onda para se intervalo de tempo infinitesimal com pontos correspondentes ao
mesmo vetor de propagação.
deslocar de ∑ a ∑', podemos escrever:

dl n
dt = = dl (4.7-1)
ν c

sendo dl é a distancia entre A e A’, ν a velocidade da luz no meio e n o seu índice de refração. Como
esta última grandeza varia ponto a ponto e dt é o mesmo para os pontos correspondentes do tipo AA',
o valor de dl varia de modo inversamente proporcional à variação de n. Podemos escrever a eq.(4.7-
1) na forma
Sistemas de Comunicação Óptica 109

cdt≡dS ≡ ndl (4.7-2)

O comprimento dS é chamado de comprimento óptico. Entre dois pontos quaisquer (Po,P) o


comprimento óptico será dado por:

P P
S= ∫P cdt = ∫P ndl
o o
(4.7-3)

Não é difícil de percebermos que o comprimento óptico pode ser interpretado como aquele
comprimento que é percorrido pela luz, em unidades do seu comprimento de onda no meio.
Tomemos uma superfície de onda ∑ num instante t e após um intervalo dt. Esta última
designaremos por ∑' . A separação entre elas é dl, cujo valor varia no espaço conforme a variação do
índice de refração. Entretanto, o comprimento percorrido, em medidas de comprimento de onda
(cdt), é o mesmo para qualquer posição considerada. Se a onda se originou num dado instante to=0
podemos afirmar que em qualquer instante:

P P
S( x, y, z) = ∫P cdt = ∫P ndl = const.
o o
(4.7-4)

para todos os pontos da superfície de onda. Assim, a função S(x,y,z)=const. representa a superfície
referente à frente de onda. Para entendermos isto, imaginemos que a superfície de onda S se originou
num ponto O do espaço. Seja t=0 o momento da formação da superfície Assim, como numa bolha de
sabão em expansão, ela vai se dilatando concomitantemente com o avanço da onda. Num dado
instante t, a integral,

p( x , y, z )
S(x , y, z ) = ∫
0
n ( x , y, z)dl = const. (4.7-5)

Explicado qualitativamente o
efeito miragem, vamos aprofundar a nossa θi
análise a fim de termos conseqüências θ2 z
quantitativas. Faremos isto analisando a n1 θ3
trajetória de um raio de luz propagando-se n2 θ4
em um meio cujo índice de refração varia n3 θ5
n(x) n4
espacialmente de forma estratificada, como
n5
indica a fig.(4.7-4). Vamos considerar que
o raio de luz esteja contido no plano nn
perpendicular às lâminas de índice de
x
refração. Consideremos também que o raio
de luz esteja incidindo no meio
estratificado com um ângulo de inclinação Fig.(4.7-4) - Representação de um meio estratificado laminar.
θi=θo.
Para fins de cálculo, imaginemos
que esse meio esteja dividido em camadas, infinitesimais, representadas na fig.(4.7-4) de forma
ampla para facilitar o entendimento. Aplicando-se a Segunda lei de Snell, podemos dizer que, na
primeira camada estratificada, o feixe é refratado formando um angulo θ1 com a normal. Na segunda
camada ele é novamente refratado de forma que chega à terceira com um angulo θ2 com a normal e
assim por diante. Isto nos levaria às seguintes condições:

n osenθo = n1senθ1
110 Guiando a Luz

n1senθ1 = n 2senθ 2
n n −1senθ n −1 = n n senθ n

O que nos permite escrever:

n ( x )senθ( x ) = n o senθ o = γ = const. (4.7-6)

A trajetória do feixe pode ser descrita por uma função do tipo x=f(z). Em qualquer ponto, a
inclinação da trajetória, em relação ao eixo z, é obtida com via a derivada df(z)/dz. Em relação à
normal o angulo será θ e pode ser relacionado com a derivada da função y=f(z) por:

 dx  π 
  = tg − θ  = ctgθ (4.7-7)
 dz  2 

dx
Logo: dz = (4.7-8)
ctgθ

Integrando-se esta última equação, segue:

x dx
z = zo + ∫x o ctgθ
(4.7-9)

Pela definição de ctg podemos escrever:

x dx
z = zo + ∫x0 1
(4.7-10)
−1
sen 2θ

e usando a eq.(4.7-6) obtemos:

x γdx
z = zo + ∫
xo 1
(4.7-11)
(n (x )
2
)
− γ2 2

É importante observarmos que a condição n(x)= γ na eq.(4.7-16) nos levara a senθ(x)= 1 e,


consequentemente, θ(x)=π/2. Ou seja, o seu complementar, que é o ângulo que o raio forma com a
horizontal (eixo z) se torna igual a zero. O ponto x=xt no qual isto ocorre é chamado de ponto de
retorno (turning point), pois nele o raio muda de sentido de propagação no eixo x, "voltando"
trocando o sentido da sua propagação ao longo da direção x. Além deste ponto xt não é permitida a
propagação do raio. Isto é constatado observando-se que o ponto de retorno é o ponto em que o
radicando na eq.(4.7-16) se anula e para valores de x>xt os valores de z seriam imaginários puros.
Logo, não havendo uma trajetória real. Aqui vemos a explicação quantitativa da mudança de direção
sofrida pelos raios de luz que vinham do sol, passando a se deslocar de baixo para cima, como foi
discutido no caso da miragem da fig.(4.7-1).

4.7-1 – Guiamento com Perfil Parabólico de Índice de Refração


Sistemas de Comunicação Óptica 111

Obtido o resultado acima, vamos aplicá-lo a um meio cujo índice de refração varie
parabolicamente. Em outras palavreas, seja um meio cujo índice de refração tenha a seguinte depen
dência espacial, ao longo de uma direção x:

n 2 (x ) = n o2 − a 2 x 2 (4.7-19)

Logo, o índice de refração tem um valor máximo em x=0. O parâmetro a mede a intensidade da
variação de n com x. Substituindo-se a eq.(4.7-19) na eq.(4.7-18), vem:

x dx γ x dx
z = zo + γ ∫xo 1
= zo + 1 ∫
x0 1
(( )
n o2 − γ 2 − a 2 x 2 2 ) ( )
n o2 − γ 2 2   a2  2 2
1 −  2 x 
2 
  n o − γ  

Fazendo-se a transformação de variáveis:

1
a
x = senα ∴ dx =
(n 2
o − γ2 )
2
cos αdα
1
a
(
n o2 )
− γ2 2

teremos:

α
γ α cos αdα
z = zo + ∫ 1
= zo + γ α
α a αo
αo
(1 − sen α )
2 2

e
    
γ  −1  ax  − sen −1  ax o 
z = z o + sen 1 
(4.7-20)
a  2 1   2
  n o − γ
2
( )
2 
 (
 n o − γ
2
)
2 


Supondo-se como condições iniciais: zo=0 e xo=0, a expressão da trajetória x=x(z) fica:

n o2 − γ 2 a 
x= 2
sen z  (4.7-21)
a γ 

Como indica a fig.(4.7-7), a trajetória do feixe, no caso de um meio com índice de refração
parabólico, estará limitada a uma certa região do espaço enquanto ele avança na direção z. A
trajetória será senoidal estando o feixe confinado espacialmente numa região de tamanho D igual ao
dobro da amplitude da trajetória. Logo:

1
 n2 − γ2  2
D = 2 o 2  (4.7-22)
 a 

O período espacial da trajetória P será:


112 Guiando a Luz


Pe = (4.7-23)
a

O caso em discussão é análogo ao de um meio como uma fibra óptica.

n(x)

θi P
αi
2D
z

Fig.(4.7-7) - Trajetória de um raio de luz num meio com perfil de índice de refração parabólico

Exemplo: Calcular a trajetória do raio de luz em um meio cujo índice de refração varia na forma
n ( x ) = n o + δ sec h 2 ( x ) , o qual está apresentado na fig.(4.7-8).

Solução:

Considerando o perfil de índice de refração dado pela expressão dada no enunciado


poderemos escrever:

n 2 ( x ) ≈ n o2 + 2δn o sec h 2 ( x )

a eq.(4.7.11) nos dará a trajetória desejada. Encontraremos:

x γdx γ x dx
z = zo + ∫
xo 1
= zo +
γ 2
− n o2

xo
 2δn o2  1
(4.7.24)
 2 x 2   −1
 n o + 2δn o2 sec h 2   − γ 2   γ 2 − n o2 
 σ    cosh 2  x 
σ

Tomando a relação cosh2(x)-senh2(x)=1, re-escreveremos a eq.(4.7-24) na forma:

Fig.(4.7-8) – Perfil de índice de refração confinante.


Sistemas de Comunicação Óptica 113

x
cosh dx
γ x
σ
z = zo +
2
− n o2

xo
 2δn o  x
(4.7.25)
 − senh 2  
γ
 2 − 1
γ −n 2   
σ
 o 

A integral da eq.(4.7.25) pode ser realizada com a transformação:

x  2δn o   x  dx  2δn 


senh  =  2 2  − 1 senu → cosh   =  2 o2  − 1 cos udu (4.7.26)
 γ −n 
σ  o  σ σ  γ −n o 

nos leva a:

γσ x cos udu γσ x
z = zo +
γ 2 − n o2

xo
1 − sen 2 (u )
= zo +
γ 2 − n o2
∫ du
xo
(4.7.27)

Portanto, a trajetória é descrita pela equação:

x
  
γσ arcsen γ 2 −n o2  x 
z = zo +   senh   (4.7.28)
 2  2 2
2
 γ − no   n o +2δn o − γ  σ 
xo

 1  x  1 x  
z = z o + Ωarcsen  senh  − arcsen  senh o   (4.7.29)
 A  σ  A  σ  

onde

n o2 +2δn o − γ 2
A= (4.7.30)
γ 2 − n o2
e
γσ
Ω= (4.7.31)
γ − n o2
2

Logo vem:

  z − zo x  
x = σ senh −1 A sen  + arcsenh o   (4.7.32)
  Ω  σ  

Outra forma de escrever a eq.(4.6.29) pode ser obtida escrevendo o senh-1(y) na forma:

senh ( y) = ln  y + 1 + y 2  (4.7.33)
 

Isso leva a:
114 Guiando a Luz

 2 
  z − zo  x    z − zo  x   
x = σ ln Asen  + arcsenh o  + 1 + Asen  + arcsenh o     (4.7.34)
  Ω  σ    Ω  σ    
  


A fig.(4.7-x) mostra o tipo de trajetória do


raio de luz segundo a eq.(4.7.33).
Um problema interessante é quanto
a condição necessária para que haja
propagação. Isso requer do termo Ω a
condição dele ser real, o que ocorrerá caso
(γ-no)≥0. Usando a eq.(4.7.6) teremos a
condição:

(n o + δ(x,0)) senθo (x,0) − n o ≥ 0 ou

1
senθ o ( x,0) ≥
 δ( x ,0) 
1 + 
 n o 

onde δ(x,0) é a variação do índice de refração acima do valor de no (índice de refração para x=±∞)
no ponto em que o raio de luz penetra no meio estratificado, formando um ângulo θο(x,0) com a
direção perpendicular à direção de propagação. Se tomarmos o ângulo complementar a θο(x,0), a ser
denominado por a e que será o ângulo formado com a direção ao longo do meio (perpendicular à
direção da estratificação) a condição será:

 
 
 1 
α ( x ,0) ≤ 90 −
  δ( x,0)  
 1 + 
  n o  

A figura mostra a dependência desse ângulo com a relação δ(x,0)/no.

20
no

15

α
α 10
(graus)

5
δ
0
0 0,01 0,02 0,03 0,04 0,05
δ(x,0)/no
Fig.(4.7-9) -
Sistemas de Comunicação Óptica 115

Por outro lado no termo A satisfaz sempre a relação


γ ≤ no 1+ ≈ no + δ
no

pois n

4.7-2 - Tempo de Trânsito em um Meio com Perfil Parabólico de


Índice de Refração
Analisada a questão da superfície ou frente de onda, bem como da trajetória de um raio de
luz, passemos agora à questão: que tempo este raio levará para percorrer a distância entre dois pontos
Po e P, da sua trajetória? Este tempo é chamado de tempo de trânsito(T). A eq.(4.7-2) nos permite
escrever:

1 P
τ= ∫
c Po
n (x , y, z )dl (4.7-24)

Para o caso de índices de refração dependentes de uma só direção, como o ex.(4.7-2), a eq.(4.7-24)
será:

1 P 1 P
τ=
c ∫ n (x )dl = cγ ∫
Po Po
n 2 (x )dz (4.7-25)

obtida quando usamos a relação

dz ndz n
dl = = = dz .
cos θ n cos θ γ

O cálculo do tempo de trânsito de um raio em um meio estratificado, unidimensional, do tipo


parabólico, pode ser feito substituindo-se a eq.(4.7-19) na eq.(4.7-2). Com isto, o tempo de trânsito,
entre dois pontos Po e P, será dado por:

1 P
τ=
cγ ∫ P0
(n o2 − a 2 x 2 )dz

Em face da dependência x=x(z), para um meio parabólico, de acordo com condições iniciais
xo=zo=0, temos:

 n 2 − γ 2   az 
x =  o 2 sen  (4.7-27)
 a   γ 

Usando-se esta relação entre x e z na expressão do índice de refração, vem:

 az 
( )
n 2 (x ) = n o2 − n o2 − γ 2 sen 2  
 γ 
116 Guiando a Luz

e o tempo de trânsito é dado por:

1 z   az 
∫ n − (n )
2 2
τ= o o − γ 2 sen 2  dz (4.7-28)
cγ 0
 γ 

Integrando-se a eq.(4.7-28) vem:

1  2 γ 2 2  2a  
τ= ( 2
 no + γ z +
2cγ 
)2a
( )
n o − γ sen z  (4.7-28)
 γ 

Embora interessante, a eq.(4.7-28) não nos permite uma comparação entre os tempos
envolvendo raios com diferentes condições de lançamento (γ=nosenθo). Será mais útil compararmos
os tempos referentes a um percurso entre dois pontos como, por exemplo, um período espacial Pe.
Chamando o tempo de trânsito em um período Pe por τp, e usando a eq.(4.7-23), temos:

n o2 π   γ  
2
1  2 2 2γ 
τ=
2cγ 
(
n o + γ ) π = 1 +  
a  ca   n o 
 (4.7-29)
 

2γπ
pois o termo com o seno se anula para z = Pe = .
a
n o2 π
Como τ p =
ca
( 1 + sen 2 θ o )
no caso em que θ(0) é próximo de 90o, temos senθ≈1 e podemos usar a aproximação para-axial
(dl∼dz), para a qual:

2n o2 π
τp =
ca

O resultado indica que o tempo de trânsito é independente da condição de lançamento, significando


dizer que raios com diferentes trajetórias terão o mesmo tempo de trânsito. Vale à pena ressaltar que,
mesmo para um meio parabólico, isto é um resultado aproximado. Não é verdadeira a afirmação,
segundo a qual, os tempos de trânsito são sempre os mesmos para os raios de luz nele se propagando.
Para efeito de comparação, calculemos a diferença percentual entre os tempos de trânsito de dois
raios um lançado a 0o e outro a θ . Encontramos:

τ(0 ) − τ(θ)
δτ p (θ) = .100 = sen 2 θ(0)
τ(0)

Se 2θ=5o, δτp (θ)≅0,2%, aparentando pouca diferença. Mas se levarmos em conta que isto se dá em
um único período espacial, podemos perceber que ela pode ser expressiva para longos percursos.
Entenda-se por longos, percursos com muitos comprimentos de onda.

________________________________________________________________________________

Exemplo (4.7-1) - Calcular o tempo de trânsito de um raio de luz em um meio com perfil parabólico
de índice de refração.
Sistemas de Comunicação Óptica 117

Solução:

Agora, vamos obter valores, usando aqueles dados do ex.(4.7-1). Teremos

a2=10-2µm-2=1010m-2

n o2 = 2,25
2,25 ⋅ 3,14
τp = = 2,36 ⋅10 −13 s = 0,24 ps
3 ⋅10 8 ⋅10 5

Conhecendo-se o período espacial Pe podemos calcular a velocidade média com a qual o raio se
desloca em z. Ela será:

P 1,64 ⋅ 10 −5
v= e = = 6,93 ⋅ 10 7 m/s
τ p 2,36 ⋅ 10 − 13

Apliquemos nossos resultados à situação deste componente optoeletrônico passivo.


Tomemos como material a Sílica (SiO2), com um índice de refração no= 1,50 e tendo uma variação
de 10-2 a cada mícron que se afaste do eixo x=0. Usando a eq.(4.7-19) obtemos:

n 2 − n (y = 1µm ) 1.50 − 1.49


a2 = o = = 1.1010 m −2 = 10 − 2 µm − 2
x 2
10 − 6
( )
2

O valor de γ poderá ser calculado a partir da eq.(4.7-15). Suponhamos que o angulo de incidência
seja ae 10o. Logo:

γ =no sen(10°)=1,5.0,1736=2,61.10-1

Com esse resultado, para θo= 10°

 n 2 − β2

D = 2 o


= 2
(
1.5 2 − 2,61 ⋅ 10 −1
2
)= 29,54µm

 a2 10 − 2
 

O período espacial da trajetória P dado na eq.(4.7-23) nos leva ao seguinte resultado:

. −1 .314
2.2,6110 .
Pe = = 16 ,4µm
10 −1
118 Guiando a Luz

4.8 - Exercícios
1 – Considere um guia metálico planar no qual a distância entre os espelhos é de 1 µm e ele está
cheio de metano. Seja λ=1,55 µm o comprimento de onda nele propagando.

a – Calcular os campos dos modos TE e TM que podem propagar em um guia planar metálico.
Compare o resultado com o caso do guia estar apenas com ar.

b – Calcular a velocidade de grupo dos modos.

2 – Calcular o fator de confinamento do guia simétrico.

3 – Considere a expressão de Sellmeier dada abaixo, cujos coeficientes estão A1=0.69681388, λ1=0.

3
A i λ21
n (λ ) = 1 + ∑λ
i =1
2
− λ22
Sistemas de Comunicação Óptica 119

a – Calcular os valores de ∆z e ∆Φ, cujas expressões estão dadas na eq.(4.5.20) e (4.5.21).

4 – Calcule a velocidade de propagação de cada modo do problema anterior sem dielétrico. Em um


guia desses, até que distância um sinal digital de 100 MBit/s poderia trafegar sem violar a condição
de que o bit não deve ser alargado de 25% do seu tamanho?

5 – Construa um guia planar dielétrico, simétrico, com uma lâmina de plástico cujo índice de
refração é de 1,48. Seja de 0,5 µm a espessura da lâmina de plástico e considere que a radiação é de
850 nm.

a – Calcule o número de modos TE.

b – Calcule a distribuição de intensidade luminosa dos dois modos de mais baixa ordem.

c – Determine com que espessura esse guia ficaria monomodo.

d – Calcule a velocidade de propagação do monomodo obtido no item anterior

6 –. Resolva o problema anterior considerando que o guia é formado por um núcleo e uma casca
ambos de SiO2. Seja o guia tal que a espessura do núcleo é de 1 µm e o comprimento de onda da
radiação seja 1300 nm. Consideremos que o núcleo é dopado com germânio, de forma que os índices
de refração sejam obtidos a partir dos dados da fig. (2.5.2).

7 – Calcular o tempo de trânsito de pulso que propague em um meio estratificado, unidimensional do


tipo dado abaixo:

x
n 2 (x ) = n o2 − δ sec h 2  
σ
onde no=1,50, δ=0,01 e σ=2 µm-1, ao se deslocar de 1 quilômetro

8 – Mostre, a partir das equações de Maxwell, que os campos de um guia de ondas podem ser
decompostos em componentes transversais e longitudinais, sendo obtidas, com elas, as seguintes
equações de onda para o guia:

∂E t
∇ t xΕ t = ±iωµH z e ∇ t xΕ z + k × = ±iωµH t
∂z
∂H t
∇ t xH t = m iωεE z e ∇ t × H z + k × = miωεE t
∂z

onde salientamos que os campos têm dependência temporal harmônica (e±iωt) e os campos são dados
por E=Et+Ez e H=Ht+Hz. As componentes rotuladas com a letra z são as componentes longitudinais,
estando orientadas na direção de propagação z. Relembramos que ε e µ são a permissividade elétrica
e a permeabilidade magnética do meio, respectivamente.
4
Contando Fótons

Introdução
Quando estamos falando de intensidade de luz, ou de tensão em um fio, ou outras grandezas
físicas, nós as consideramos como algo contínuo. Quando falamos em medir sinais ópticos, temos de
alterar um pouco o nosso conceito de valores contínuos para assumir a idéia de valores discretos. É o
mundo dos quanta, o mundo quântico. E medir um sinal é exatamente fazermos médias quânticas.
São estes valores médios que correspondem ao que estamos medindo. Destas idéias surgem
conceitos como a TEB e por isto se faz necessários tecermos considerações sobre este tópico.

4.1 - Energia e Momento de uma Onda Eletromagnética

A densidade de energia associada a um campo elétrico é dada por:

1
ε e = ε o E2 (4.1-1)
2

enquanto a parte associada ao campo magnético é dada por:

1 2
εm = B (4.1-2)
2µ o

Como E=cB resulta que essas duas densidades são iguais, e a densidade total de energia associada a
uma onda eletromagnética, é:

1 1 2
ε= ε e+ ε m= ε o E 2 + B = εo E 2 (4.1-3)
2 2µo

A intensidade de uma onda eletromagnética será pois:

I = ε o cE 2 (4.1-4)

O termo intensidade de uma onda eletromagnética, que em princípio significa a quantidade de


energia que atravessa uma dada área por unidade de tempo, não é a maneira mais correta de se
chamar I. De fato deveria ser chamado de irradiância, designando a potência por unidade de área. O
termo intensidade é reservado para se determinar à potência por unidade de ângulo sólido.
120 Contando Fótons

Para complementar veremos que, no caso de meios isotrópicos, E e B são sempre ortogonais
entre si podemos dizer que o vetor ExB tem a direção de propagação da onda. Sendo ExB=EB=E2/c,
o vetor S definido por:

S=c2εoExB=ExH (4.1-5)

tem como módulo S o valor da intensidade da onda eletromagnética e a direção e o sentido, iguais
aos da propagação desta onda. Ele é chamado de vetor de Poynting.

EXEMPLO (4.1-1) - Calcular o valor médio do vetor de Poynting para o caso de uma onda
harmônica, em um determinado ponto fixo do espaço.

Solução

No caso de uma onda harmônica, se tem: S=c2εoEoBosen2 (kz±ωt). Consideremos um ponto fixo do
espaço, que definiremos como z=z0. Temos que:

S=c2εoEoBosen2(kz±ωt)

A equação acima nos dá os valores instantâneos do vetor de Poynting. Entretanto, na prática, são os
valores médios os que têm interesse. O valor médio 〈S〉 de S será

1 T 1 1 T 1 T  1
< S >= cε o E o2
T 0 ∫
sen 2 (kz o ± ωt )dt = cε o E o2  +∫
T 2 0 2 0
cos[2( kz o ± ωt )]dt  = cε o E o2
 2
e assim sendo, o valor médio do vetor de Poynting, denotando o fluxo médio de energia, será:

1
< S >= cε o E o2 (4.1-6)
2

sendo proporcional ao quadrado da amplitude do campo elétrico da onda.

4.1-1 – A Visão Quântica de uma Onda Eletromagnética

Afora energia, podemos mostrar que uma onda transporta momento. A Mecânica
Relativística nos informa que a energia de uma partícula (ou ente físico) é dada por:

U 2 = p 2 c2 + m20 c4 (4.1-7)

Numa visão quântica, ao invés de considerarmos a luz como uma onda, a consideraremos
como partículas, possuidoras de energia. Desta forma, quânticamente, associa-se a uma onda
eletromagnética um ente físico chamado fóton, cuja massa de repouso (m0) é nula, e portanto sua
energia será:

U = pc (4.1-8)
Sistemas de Comunicação Óptica 121

Sendo uma partícula, deverá carregar consigo momento. A partir da eq.(4.1-8) podemos calcular o
momento transportado por um fóton p=U/c. Com isto podemos calcular a densidade de momento
(momento por unidade de volume) associado ao fóton ou uma onda eletromagnética. Ela será:

E ε oE2
p= = = ε o ExB
c c

Logo, o vetor: p=εo(ExB)

pode ser definido como o vetor momento por unidade de volume. Ele tem como módulo a densidade
de momento transportado por uma onda eletromagnética, sendo a sua direção e sentido aqueles nos
quais tal transporte se dá.
Desta forma, podemos dizer que uma onda eletromagnética carrega energia e momento,
possuindo características de partícula ao mesmo tempo em que possui características de onda. Isto é
o que se passou a ser o famoso paradoxo partícula-onda. Os efeitos Compton e Fotoelétrico
trouxeram evidências experimentais para a conclusão de que a luz tem características corpusculares.

4.2- Fluxo de Fótons

Um feixe de luz que incide em um (detector), ou viaja em um meio qualquer, pode ser
encarado como um fluxo de energia luminosa. Este fluxo, numa primeira visão pode parecer um fluir
contínuo e de energia, como um fluido em um duto conforme se vê na fig.(4.2-1(a)). Entretanto, uma
outra visão também precisa ser considerada, a de que o feixe de luz é um fluxo de partículas, os
fótons também indicado na fig.(4.2-1(b)) na figura . A primeira forma de encarar o feixe de luz é a
visão clássica e, a segunda, a quântica. Na primeira visão, há a idéia de que um feixe de luz
corresponde a uma passagem contínua de energia enquanto no segundo há aspectos discretos das
partículas. Neste caso, há, outro ponto a ser considerado qual seja a natureza aleatória que
acompanha o número de fótons que passa em uma seção de corte do feixe.
Ou seja, quando realizamos a contagem dos fótons que viajam em um feixe de luz, mesmo
que a intensidade luminosa média seja constante fig.(4.2-1(c)), a intensidade instantânea é variável
fig.(4.2-1(d)) e o número de fótons contado ao longo do tempo apresentará um comportamento

(a)

(b)

(c) Intensidade Média Constante

t
(d) Intensidade Instantânea

(e) Fluxo de Fótons t

Fig.(4.2-1) – Intensidade óptica de um feixe, de valor constante, e o número de fótons correspondente onde se vê a
sua distribuição aleatória
122 Contando Fótons

aleatório, como está ilustrado na fig.(4.2-1(e)). Esta aleatoriedade verificada no tempo também é
observada espacialmente. Isto pode ser verificado fazendo-se a foto de um objeto. No caso, a
superfície do filme é exposta ao fluxo de fótons. Caso as fotos sejam feitas iluminando-se o objeto
fotografado à luz de intensidades cada vez menores, e se verificará que os fótons começam a perder
nitidez. Elas vão tomando uma aparência granulada, indicando que há regiões sensibilizadas por
fótons e outras, onde a sensibilização não ocorreu por falta de incidência destas partículas, as quais
estão, evidentemente, sem imagem.
Assim sendo, quando medimos uma dada intensidade de luz, estamos medindo um certo
número de fótons. De uma maneira mais precisa, diremos que medimos um número médio de fótons.

________________________________________________________________________________

Exemplo (4.2-1) - Calcule o número de fótons em um feixe de luz cuja intensidade é 1nW/cm2 e tem
comprimento de onda igual a 1,3µm.

Solução:

A intensidade I de um feixe é dada por:

1nJ
I= s 2
1cm

Sabe-se que a energia de um fóton e seu comprimento de onda estão relacionados pela expressão

1,24
ε(eV) = (4.2-1)
λ (µm)

Esta relação vem da energia do fóton ser dada por ε=hν, onde h é a conhecida constante de Planck
(h=6,626.10-34 Js) e ν a freqüência, e da relação entre freqüência e o comprimento de onda ser ν=c/λ.
O fator 1,24 vem quando se transforma Joule em elétron-volt (1eV=6.602.10-19J). Logo, se o
comprimento de onda da luz é de 1,3µm, a energia ε dos fótons em eletron volts será:

1,24
ε= ≈ 0,95 eV
1,3

Sendo 1eV = 1,602.10-19 J, temos que no feixe o número de fótons de energia hν, por unidade de área
e de tempo, será:

1.10 −9
Φ= −19
= 6,57.10 9 fótons/cm 2 s
0,95.1,60.10

onde o número de fótons é a razão entre a energia total que atravessa a área por unidade de tempo e a
energia de um dos fótons. Com isto diremos que, em média, durante cada segundo 6,57x109 fótons
atravessam 1 cm2 de área. Se o diâmetro do feixe for de 3mm, teremos o seguinte número médio de
fótons por segundo:
Sistemas de Comunicação Óptica 123

πD 2 3,14.10−2
n =Φ = 6,57.109 = 4,46.107 fótons / s
4 4

Portanto, num intervalo de tempo igual a 1ns


passam em média 0,464 fótons, ou seja,
aproximadamente meio fóton. E pode? De fato fótons 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
são contados em unidades e, desta forma o que isto
quer dizer é que a cada 2 ns passa em média 1 fóton.
Se o intervalo de tempo de medida for de
10ns, 5 fótons serão detectados em média. Vem mais
uma pergunta: de que forma os 5 fótons serão
detectados? A cada 2 segundos um fóton? A resposta é
não. E para entendermos o que se quer dizer, vamos
dividir os 10ns em intervalos de 1ns, como mostra a
fig. (4.2-2). ...................................................
De fato os fótons podem estar distribuídos de
várias formas nas 10 janelas de tempo com 1ns de
duração. Nessas possíveis distribuições pode haver um
ou mais pares de duas janelas contíguas sem se Fig(4.2-2) – Exemplos de como cinco fótons podem
detectar um fóton. Entretanto para todas as se distribuir em 10 janelas de tempo.
distribuições de fótons nos 10ns darão uma média de 5
fótons. Obviamente quanto maior o número de médias mais precisa será a medida. Adiante, na seção
(4.3-1) iremos estudar como tratar estatisticamente o que acabamos de discutir.
Com um objetivo de termos uma idéia de valores referente a número de fótons por unidade
de área, a Tab.(4.2-1) apresenta algumas densidades médias de fótons correspondentes à luz em
certos ambientes ou de algumas fontes.

Fontes Fótons/cm2s

Luz das estrelas 106

Luar 108

Crepúsculo 1010

Dia ensolarado 1014

Laser (HeNe) (10mW, feixe com diâmetro de 1022


20 µm)

Tab.(4.2-1) – Fontes de luz e o número de fótons referente à quantidade de por elas


emitida.
________________________________________________________________________________

4.3 – A Natureza Aleatória dos Fótons

Dissemos que o número de fótons que atravessa uma dada área (a do detector por exemplo)
varia aleatoriamente no tempo, mesmo que a intensidade I(r,t) seja constante. A detecção de fótons é
algo que é descrita por leis probabilísticas, segundo as quais a probabilidade de um fóton ser
124 Contando Fótons

detectado em um ponto do espaço – localizado pelo vetor posição r – no instante t, é proporcional a


I(r,t).
No caso de um feixe de fótons, I(r,t) determina o número de fótons que atravessa numa dada
área por unidade de tempo Φ(r,t). O comportamento aleatório do fluxo de fótons, ou seja, o
comportamento das flutuações, serão determinados pelo tipo de fonte que emite os fótons, processos
intermediários durante a propagação e na própria detecção. Portanto, diremos que a natureza dos
fótons é tal que o seu número em um fluxo é imprevisível, ficando por conta da natureza da fonte
que os emite de forma aleatória, o meio no qual propaga e do sistema de detecção.
Uma conseqüência prática do que acabamos de dizer é que a detecção de fótons em um
sistema de comunicação é susceptível a erros. Ou seja, onde se esperaria um certo número de fótons
pode se ter ausência deles. Se o número de fótons representasse um bit 1, teríamos detectado um bit
0 (ausência de fótons). Logo, poderá haver erros de detecção, independentemente do detector usado
ser perfeito. É um erro, devido ao caráter inerente aos fótons de serem aleatoriamente emitidos pelas
fontes. Um laser por exemplo emite fótons com muito menor aleatoriedade do que um led. Adiante
veremos as conseqüências disto.

c3 2
(∆E ν ) = hν E ν + Ey
8πν 2 V
A interpretação de Einstein para o resultado obtido foi considerar o primeiro termo como as flutuações das
partículas clássicas, enquanto o segundo termo foi interpretado por ele como as flutuações das ondas clássicas.
Nessa interpretação, dada em 1909, foi concebido que as flutuações da luz têm duas componentes distintos:
uma componente do tipo onda e outra do tipo partícula.

4.3-1 – Estatísticas de Fótons

Como sabemos, fazer uma estatística é descrever as variáveis por meios probabilísticos. As
probabilidades são basicamente obtidas contando número de eventos desejados e todos aqueles que
são possíveis e a probabilidade será a razão entre estes números. Para facilitarmos o entendimento da
estatística dos fótons vamos considerar inicialmente o seguinte problema. Tenho uma moeda e a
arremesso um certo número N de vezes. Vem a pergunta: quantas vezes terei cara (ou coroa)? A
Tab.(4.3-1) nos mostra os possíveis eventos que podem ocorrer quando arremesso uma moeda.
Tomaremos a probabilidade de se ter cara igual a p e de se ter coroa q, embora saibamos que
p=q=0,4. Segundo o que dissemos anteriormente, a probabilidade de ocorrer uma cara (ou coroa) em
um arremessos é a razão entre o número de casos desejados, um (que é dar cara), e o número de
casos possíveis, dois (dar cara ou coroa). Daí a probabilidade de dar cara ou coroa ser ½. A Tab.(4.3-
1) mostra como será o cálculo das probabilidades de se ter um dado número de caras (n) em um dado
número de arremesso (N). Nesta tabela, para evitar complicações de excesso de informação, estão
construídas algumas situações apenas; a) não se ter cara e b) se ter uma cara em vários arremessos
(até quatro). Com isto se construiu a probabilidade conjunta dos eventos.
Por exemplo, a probabilidade de não se ter cara em três arremessos é q3. Sendo q a probabilidade de
ocorrer coroa em cada um dos arremessos, a probabilidade de ocorrer coroa em todos os três
arremessos é o produto das probabilidades de ocorrer coroa em cada evento. Logo: a probabilidade
será q.q.q=q3, já que os eventos são independentes. Já a probabilidade de se ter 1 cara em três
arremessos é dada pela soma de três possibilidades. Dar cara no primeiro, ou no segundo, ou no
terceiro arremesso. Em cada uma dessas situações a probabilidade conjunta será ocorrer cara em um
dos eventos e coroa nos outros dois. Desta forma temos que a probabilidade de se ter uma cara em
três arremessos será 3.p.q.q=3pq2.
Sistemas de Comunicação Óptica 125

N
1 2 3 4
n

q q q q q q q q q q
0
q q2 q3 q4

p p q p q q p q q q
q p q p q q p q q
1 q q p q q p q
q q q p
p 2pq 3pq2 4pq 3

Tab.(4.3-1) – Tabela do evento ocorrer n caras em N arremessos

Podemos construir uma nova tabela, na qual temos as probabilidades para cada caso. Isto
está exposto na Tab. (4.3-2). De uma forma geral, para n<N, a probabilidade correspondente a se ter
n eventos ocorrendo em N tentativas será por:

p(n ) = C nN p n q N − n n = 0,1,2,3... (4.3-1)

Ou seja, a probabilidade de ocorrer n eventos e N tentativas é igual ao produto das probabilidades de


ocorrer o evento especificado (dar cara) n vezes e não ocorrê-lo no instante das tentativas (N-n)
vezes um fator ( C nN ) que indica quantas são as possíveis distribuições de n casos em um total de N
tentativas.
Se considerarmos que a probabilidade de não ocorrer o evento seja q=1-p, algo do tipo Sim –
Não ou Cara-Coroa, a eq. (4.3-1) ficará

1 2 3 4 m N

0 q q2 q3 q4 .......... qm .............

1 p 2pq 3pq2 4pq3 .......... Npqm-1 .............

2 0 p2 3p2q 6p2q2 .......... Cn2p2qm-2 .............

3 0 0 p4 4p3q .......... Cn2p3qm-3 .............

4 0 0 0 p4 .......... Cn2p4qm-4 .............

.......... .......... .......... .......... .......... .......... ............. .............

n 0 0 0 0 Cn2p2qm-n .............

Tab.(4.3-2) – Tabela de distribuição de probabilidades para ocorrer n eventos


em N tentativas.
126 Contando Fótons

N!
p( n ) = p n (1 − p) N − n (4.3-2)
n!( N − n )!

Exemplo (4.3-1) – Mostre que a distribuição de probabilidade, dada na eq.(4.3-2), é normalizada.

Solução

Uma distribuição ser normalizada significa dizer que a probabilidade de se ter qualquer um dos
eventos possíveis é 100%, ou seja igual a 6. Isto significa dizer que entre todos os possíveis eventos,
um certamente ocorrerá. Isto pode ser traduzido matematicamente da seguinte forma:

N N
N!
∑ p( n ) = ∑
n =0 n = 0 n! ( N − n )!
p n (1 − p) N − n = 1 (4.3-3)

Ocorre que

N
N!
∑ n!( N − n)! p
n =0
n
q N − n = (p + q) N (4.3-4)

é a conhecida expansão binomial. Vemos que a eq.(4.3-3) é exatamente à expansão binomial desde
que façamos q=1-p. Daí se chamar a distribuição de probabilidade dada na eq.(4.3-2) de distribuição
binomial. Como p+q=1, por definição, temos que o resultado da somatória na eq.(4.3-3) será
exatamente igual 1 e, portanto, a distribuição é normalizada.
________________________________________________________________________________

Voltando à questão da detecção de um fóton, considere que isto ocorre no intervalo de tempo
T/N e é um evento do tipo sim-não, e que, portanto, obedece à distribuição binomial. A
probabilidade p de acontecer um fóton em t=T/N é dada por

n
p=
N

Com isto a eq. (4.3-2) ficará:

n N −n
N! n  n
p( n ) =   1 −  (4.3-5)
n! ( N − n )!  N   N

Quando o número de tentativas é muito grande, ou o intervalo de t=T/N é muito pequeno,


podemos tomar o limite quando N tende a infinito. Isto leva a:

 N! 
lim  n  =1
N → ∞ N ( N − n )!
 
N−n
 n
lim 1 −  = e− n
N→∞ 
 N
Sistemas de Comunicação Óptica 127

Daí a eq. (4.3-5) será reduzida à expressão:

n n −n
p( n ) = e n = 0,1,2,3... (4.3-6)
n!

Nesta forma a distribuição de probabilidade é conhecida como distribuição de Poisson. Esta


distribuição de probabilidade está apresentada na fig.(4.1-3) para diferentes valores médios n .

Fig.(4.1-3) – Distribuição de Poisson para diferentes valores de número médio n.

Para valores de n tais que seja satisfeita a condição n»1, se torna válida a aproximação de
Stirling, segundo a qual:

n!= 2πn n n e − n (4.3.7)

Com tal aproximação na eq.(4.3.6) segue a seguinte expressão:

− ( n + δn +1 / 2)
n n  n + δn 
p( n ) = 1 +  e δn n = 0,1,2,3... (4.3.8)
2πn  n 

Quando o valor médio tende a infinito (muito grande, na prática), podemos realizar o seguinte limite:

− ( n + δn +1 / 2)
 δn  2
lim 1 +  = e − (δn + δn ) / 2n
(4.3.9)
n → ∞ n 

onde escrevemos n = n + δn e com o qual podemos escrever


− ( n + δn + 1 / 2 )
 δn  2
lim 1 +  ≈ e − (δn ) / 2n
(4.3.10)
n → ∞ n 

Com este resultado, a eq.(4.3.8) pode ser escrita na for:


1 2
p ( δn ) = e − (δn / 2 n ) (4.3.11)
2πn
128 Contando Fótons

O resultado é que, para altos valores do número médio de fótons, as flutuações do número de fótons
se aproxima de uma distribuição Gaussiana. Essas flutuações ocorrem em torno do valor médio com
uma meia largura igual a n .

4.3-2 – Valor Médio e Variância da Distribuição de Poisson

Duas grandezas estatísticas de suma importância são: o valor médio de uma variável
estatística e a sua variância.
O valor do número médio n de eventos é, por definição, dado por:

n = ∑ np(n ) (4.3-12)
n =0

Usando-se a distribuição de Poisson, na eq.(4.3-12), teremos:


n n −n ∞ n n
n = ∑n e =∑ e −n
n =0 n! n =1 ( n − 1)!

equação que pode ser escrita na forma:


n n −1 − n ∞ n
n
n = n∑ e = n ∑ e− n = n (4.3-13)
n =1 ( n − 1)! n = 0 n!

uma vez que a distribuição de Poisson, que é um caso particular da binomial (N=∞), é normalizada e
conseqüentemente


n n −n

n = 0 n!
e =1

A variância, é definida por:

σ 2n = (n − n ) 2 (4.3-14)

sendo pois a média do quadrado do desvio do valor médio. Esta grandeza informa qual é a flutuação
esperada do valor de n em torno do valor médio. Usando a definição de médias teremos:

σ 2n = (n − n ) 2 = n 2 − 2nn + n 2 = n 2 − n 2 (4.3-10)
Para calculá-lo completamente precisamos calcular n 2 . Para fazermos isto usemos a definição de
valor médio:


nn −n ∞ nn
n2 = ∑n
n =1
2
n!
e = ∑ n
n =1 ( n − 1)!
e−n (4.3-15)

Como
Sistemas de Comunicação Óptica 129

n n −1 1 1 1
= + = +
(n − 1)! (n − 1)! (n − 1)! (n − 2)! (n − 1)!

a eq.(4.3-10) pode ser re-escrita na forma:


nn ∞
nn
n2 = ∑ e −n + ∑ e −n
n =2 ( n − 2)! n =1 ( n − 1)!

que por sua vez é igual a:


n n −2 −n ∞
n n −1 − n
n2 = n2∑ e + n∑ e
n = 2 ( n − 2)! n =1 ( n − 1)!

Como:


n n −2 −n ∞
n n −n
n2∑ e = n2∑ e = n2
n=2 ( n − 2 )! n =0 n !
e

n n −1 − n ∞
n n −n
n∑ e = n∑ e =n
n =1 ( n − 1)! n = 0 n!

Portanto,

n2 = n2 + n (4.3-17)

Substituindo-se este resultado na eq.(4.3-10) teremos

σ 2n = n 2 − n 2 = n 2 + n − n 2 = n (4.3-18)

Esse resultado é uma característica importante de uma distribuição poissoniana, a que a variância
seja igual ao seu valor médio.

4.3-3 – Fótons de um Emissor Incoerente

No caso de um emissor incoerente como um LED, os fótons obedecerão a uma estatística


diferente daquela de Poisson; obedecerá à estatística de luz térmica. Este tipo de luz pode ser
visualizada como a luz que é emitida por um corpo negro em equilíbrio térmico, sendo os fótons
emitidos em pacotes (quantum) de energia, cujo valor é igual a hν. Esta condição pode ser criada
mantendo-se uma caixa metálica com suas paredes a uma temperatura T (K), de modo que os fótons
emitidos são modos de oscilação desta caixa. A energia de cada modo é uma variável aleatória cujo
valor é um múltiplo (n=0,1,2,3...) de uma energia fundamental de ε =hν, O número inteiro n rotula
os modos da cavidade. Nas condições de equilíbrio térmico a distribuição de probabilidade que
descreve as possíveis energias de um dos modos da cavidade é a de Boltzmann, segundo a qual:
130 Contando Fótons

εn

K BT
p(ε n ) = Ae (4.3-19)

onde KB é chamada de constante de Boltzmann (KB=1,34.10-23J/K), A é uma constante, a constante


de normalização da distribuição, que é dada por:

A = (1 − e − u ) (4.3-20)

(vide Ex.(4.3-2)), onde u=hν, definição que usaremos daqui por diante nesta seção.

________________________________________________________________________________

Exemplo (4.3-2) – Normalize a distribuição de uma fonte de luz térmica.

Solução

A condição de normalização estabelece que


εn
∞ ∞ −
∑ p(εn ) = ∑ Ae K BT
=1 (4.3-21)
n =0 n =0

Como a energia de cada modo é dada por εn=nhν a condição de normalização ficará:

εn nhν
∞ ∞ − ∞ −

∑ p(ε n ) =∑ Ae
n =0 n =0
K BT
= ∑ Ae
n =0
K BT
=1 (4.3-22)

Usando-se a definição hν/KBT=u, a eq.(2.2-22) será re-escrita na forma:

∞ ∞

∑ p(ε n ) =A∑ e −nu = 1


n =0 n =0
(4.3-23)

Como:


1
∑e
n =0
− nu
= 1 + e − u + e − 2 u + e −3u + .... =
1 − e −u
(4.3-24)

já que a soma é igual a de uma progressão geométrica de razão e-u. Desta forma, usando-se a eq.(4.3-
24) na eq.(4.3-23) vem que

A = (1 − e − u ) (4.3-25)

e teremos

p(n ) = (1 − e − u )e − nu (4.3-26)

Esta distribuição é também conhecida por distribuição de Bose-Einstein ou distribuição geométrica


Sistemas de Comunicação Óptica 131

4.3-4 – Valor Médio e Variância da Distribuição de Luz Térmica

Para calcularmos o valor médio de n, segundo uma distribuição de Bose-Einstein,


tomaremos a definição de valor médio, dada na eq.(4.3-7), com a qual:


n = ∑ n (1 − e
n =0
−u
)e − nu (4.3-27)

Como:


∂ ∞ −nu
∑ ne
n =0
− nu
=− ∑
∂u n = 0
e (4.3-28)

a eq.(4.3-28) levará a:

∂ e−u 1
n = n = −(1 − e −u ) (1 − e −u ) = = (4.3-29)
∂u 1 − e −u e u − 1

Como sabemos, para se calcular a variância teremos de calcular a média de n2. Novamente,
usando a definição de valor médio de uma grandeza vem:

∞ ∞
∂2 ∞
n2 = ∑
n =0
n 2 (1 − e − u )e −nu = (1 − e −u ) ∑
n =0
n 2 e −nu = (1 − e −u )
∂u 2
∑e
n =0
− nu
(4.3-30)

De posse da eq.(4.3-24), a eq. (4.3-30) ficará escrita na forma:

∂2 ∞
(1 − e − u ) 2 e − u + e − u 2(1 − e − u )e − u
n 2 = (1 − e − u )
∂u 2

n =0
e −nu = (1 − e −u )
(1 − e −u ) 4
(4.3-31)

Tomando o resultado da eq.(4.3-29), a eq.(4.3-31) poderá ser escrita na forma:

n 2 = n + 2n 2 (4.3-32)

Com a definição de variância, vide eq.(4.3-9), e a eq.(4.3-32), teremos:

2
σ2 = n 2 − n = n + 2n 2 − n 2 = n (1 + n ) (4.3-33)

________________________________________________________________________________

Exemplo (4.3-3) – Escrever a distribuição de probabilidade de Bose-Einstein, usando a expressão do


valor médio n .
Solução

O valor médio de n, dado pela eq.(4.3-29), o que nos permite escrever:

1+ n
eu = (4.3-34)
n
132 Contando Fótons

1,0
0
0,1 5
1
0
0
p(n 0,0
0, 1
) 1
1
0,0
0
0,0
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 1
0
n
Fig.(4.3-4) – Distribuição de Bose-Einstein em função de n para diferentes valores de n .

A distribuição de probabilidade de Bose-Einstein é dada pela equação:

n
−u − nu (1 − e − u )
p(n ) = (1 − e )e =
(e u ) n

o que nos permite escrever

n
−u − nu (1 − e − u )  1  n 
p(n ) = (1 − e )e = =   (4.3-35)
(e u ) n  1 + n  1 + n 

4.4 – O processo de Absorção da luz

Em se tratando de luz poderíamos dizer que ninguém vê a luz. Ou ninguém conta fótons
diretamente. Essa afirmação estranha se deve ao fato de que o ato de ver é um processamento do
cérebro estimulado por impulsos elétricos gerados pela interação da luz com o nervo óptico, no qual
se gera uma corrente elétrica responsável pelo estímulo do cérebro. No caso da contagem dos fótons
o processo também é indireto, uma vez que a contagem se dá via a corrente elétrica gerada no

elétron
fóton
fóton

i(t)
elétron V
i(t)
A

Fig.(4.4-1) – Esquema de geração de corrente com o iluminamento de uma superfície emissora de elétron e na figura à
direita a descrição de como o elétron é emitido com a absorção de um fóton devendo para isso ultrapassar uma barreira de
potencial (função trabalho).
Sistemas de Comunicação Óptica 133

fotodetector. Ou seja, contamos elétrons e associamos o número de elétrons contados ao número de


fótons. Assim surge a inevitável pergunta: e como se gera a corrente? Há vários tipos desses
detectores. Pode ser uma superfície fotoemissora. Nela, a incidência de um fóton faz com que um
elétron absorva sua energia hν (ou hω) e salte a barreira de potencial que a separa do meio exterior
onde será livre, podendo ser arrastada por um campo elétrico dando lugar a uma corrente elétrica,
como ilustra a fig.(4.4-1).
Sendo a corrente lida no amperímetro dada por:

 q( t )   n ( t )e 
i( t ) = lim  = lim  (4.4.1)
∆t →0  ∆t  ∆t → 0  ∆t 
 

onde a carga q(t), que passou pela secção de área onde se efetua a medida, entre os instantes t e t+∆t,
corresponde a um número n de elétrons cuja carga é e. Portanto a medida da corrente indica quantos
elétrons são contados no tempo da medida. Por sua vez, cada elétrons foi gerado pela absorção de um
fóton. A figura à direita da fig.(4.4-1) mostra a absorção de um fóton por um elétron fazendo-o
ultrapassar a barreira de potencial V (função trabalho) e sair para o ambiente externo onde um
campo entre a superfície e o catodo, vistos na figura à esquerda, o fará ser recolhido para circular no
circuito e ser contado no amperímetro. Dessa forma contando os elétrons estaremos contando os
fótons, conquanto devamos considerar que há uma eficiência η indicando não haver um elétron
gerado para cada fóton incidente na superfície emissora. Ao invés, apenas uma fração dos fótons que
chegam à superfície são convertidos em elétrons face à sua absorção. Em um fotodiodo, um outro
tipo de fotodetector, como veremos no cap. 8, a contagem de fótons é feita também contando os
elétrons gerados pela absorção dos primeiros.
Assim sendo, consideremos a descrição dessa interação entre fótons e matéria. Há duas
maneiras consagradas de se fazer tal descrição: a semi-clássica e a quântica. Na semi-clássica os
fótons são descritos classicamente como ondas eletromagnéticas enquanto os elétrons, ou portadores,
serão descritos quanticamente. Neste caso, os elétrons na matéria ocupam estados quânticos, para os
quais há níveis de energia, transitando entre tais estados, ou níveis, quando absorvem a energia de
um fóton. Na descrição quântica, tanto os fótons como os elétrons são tratados quanticamente.
Consideraremos o tratamento semi-clássico.

4.4-1 – Descrição semi-clássica

Seja um sistema físico, por exemplo um átomo. Caso esse átomo esteja sem nenhuma
interação com um agente externo, uma onda eletromagnética, por exemplo, ele terá um
Hamiltoneano, Ho, que satisfará à equação de autor valor:

Ηo n = Εn n (4.4.2)

Esse sistema poderá entrar em interação com uma onda eletromagnética, levando-o a um estado
diferente do anterior que chamaremos de estado excitado, como ilustra a fig. (4.4-1). Esse estado
excitado corresponde à situação em que o sistema detecta a radiação, nessa interação a excitação do
sistema se dá com o desaparecimento de um fóton. Uma das questões que pode ser levantada seria:
em que condições essa transição é induzida pela excitação externa? A resposta virá com a análise do
sistema perturbado, para o qual o Hamiltoneano deixou de ser Ho para ser H.
Assumamos que a Hamiltoneano modificada seja:

Η = Η o + Η i (t ) (4.4.3)
134 Contando Fótons

Átomo livre Átomo interagindo com uma excitação externa

Fig. (4.4-1) – A figura ilustra um átomo sem interação com um agente externo, uma onda eletromagnética, por
exemplo, e interagindo com ela e por isto apresentando alterações físicas.

Usando a Hamiltoneana perturbada, a nova equação de autor valor será :

∂ n; t
Η n ; t = ih (4.4.4)
∂t

ou

∂ n; t
[Η o + Η i ( t )] n; t = ih (4.4.5)
∂t

Nesta equação, além do rótulo do estado (n), foi introduzido a letra t para indicar a dependência
temporal do vetor. Em qualquer instante t, podemos expandir |〉 termos do conjunto completo de
vetores {|n〉}. Isto nos leva a:


n; t = ∑ a n (t) n e− E t / h n (4.4.6)
n =0

Desta forma

∞ ∞ ∞
(Η o + Η i )∑ a n (t ) n e −iE n t / h = ih∑ a& n ( t ) n e −iE n t / h + ∑ a n ( t )E n n e −iE n t / h (4.4.7)
n =0 n =0 n =0

Usando a eq.(4.6.2), a eq.(4.6.7) pode ser escrita na forma:

∞ ∞

∑a
n =0
n ( t )H i n e −iE n t / h = ih ∑ a&
n =0
n (t) n e −iE n t / h (4.4.8)

onde a& = da dt . Fazendo-se o produto escalar da eq.(4.4.8) pelo vetor |k〉, levando em conta a sua
dependência temporal, vem:

∞ ∞


n =0
a n ( t ) k H i n e − i ( E n − E k ) t / h = ih ∑ a&
n =0
n (t) k n e −i ( E n − E k ) t / h (4.4.9)
Sistemas de Comunicação Óptica 135

Levando-se em conta a propriedade de ortonormalidade dos vetores que pertencem a um espaço


completo

i
a& k = − ∑
h n =0
a n ( t )Η i (t )kn eiωkn t (4.4.10)

onde definimos

Ek − En
ωkn = (4.4.11)
h

A definição do valor da constante, que define o


valor do coeficiente de ordem zero, pode ser k
feito através da condição inicial, para a qual
iremos supor que, no instante t=0, quando a
perturbação começa a atuar, o sistema está num m
dos estados vários que compõem o conjunto
completo de soluções não perturbadas. Vide
fig.(10.1-2). Nela vemos que o sistema está em
um estado m, transitando, devido à perturbação
externa, para um outro estado k. Como se vê, a
perturbação não é forte, o suficiente, para
alterar o sistema de forma a mudar os seus t=0 t≠0
Evolução do sistema
estados, apenas sacudí-lo e fazê-lo mudar de com a perturbação
situação por meio da transição entre os estados
existentes. Por conta disso podemos escrever:
O coeficiente de primeira ordem pode
Fig.(4.4-2) – Ilustração da transição de estados de um
ser obtido integrando-se a eq.(4.4.10) levando sistema sob a ação de uma perturbação externa.
a:

i t
a (k1) (t ) = − [Η′km (t′)]eiωkm t′dt′
∫ (4.4.12)
h 0

onde usamos o fato de ak=0 para valores de k tais que k≠m. Com a solução de primeira ordem se
pode chegar à solução de segunda ordem, e assim por diante. Quanto maior o grau de precisão
desejarmos da nossa solução mais termos são necessários. Para uma vasta quantidade de casos, basta
que obtenhamos apenas a primeira aproximação, o que torna o método em pauta bastante útil e de
dificuldade reduzida.

Perturbações Harmônicas

Um caso muito especial de tipos de perturbação é a perturbação harmônica:

e
Η i (t ) = − pˆ ⋅ A(r, t ) (4.4.13)
m

onde A(r,t) é o potencial vetor e é dado por:

A(r, t ) = V (r )e − iωt + V * (r )e iωt (4.4.14)


136 Contando Fótons

A quebra da Hamiltoneana perturbativa nessa duas partes garante que ela seja hermitiana.
Substituindo-se a eq. (4.4.14) na eq. (4.4.12) virá:

ie
k pˆ m ⋅  V (r )e i (ωkm −ω)t′ dt ′ + (r )e i (ωkm + ω )t′ dt ′
t t
a (k1) (t ) = − ∫ ∫V
*
(4.4.15)
hm 0 0 

onde usamos a notação: Hkm=〈kHi(t)m〉. Integrando-se a eq.(4.4.15) vem:

ie  t ′ 
a (k1) (t ) = − k pˆ m ⋅  V (r )ei (ωkm − ω)t dt′
∫ (4.4.16)
hm  0 

ie  i(ωkm − ω) t − 1 
a (k1) (t ) = − ( k pˆ m ⋅ V(r) ) e 

hm  ωkm − ω 

Considerando a eq.(4.4.16) podemos ver que módulo ao quadrado dos coeficientes an(t) fornecem a
probabilidade de um dado estado do conjunto base, formado pelos vetores |n〉eiEnt/h, ser encontrado
no estado perturbado, em um dado instante de tempo t. Assim tomemos o módulo ao quadrado de
ak(1). Teremos

2 i ( ω − ω) t
2  e  2  e km − 1  e −i(ωkm − ω) t − 1 
a (k1) (t ) =   k pˆ m ⋅ V (r )  (4.4.17)
 hm   ωkm − ω  ωkm − ω 
  

o que nos leva a:

2 iut −iut  2
2  e  22 − e − e  e  2 1 − cos ut 
a (k1) =   k pˆ m ⋅ V (r )  2
 =   k pˆ m ⋅ V (r )   (4.4.18)
 hm   u   hm   u2 
sendo

u = (ω km ± ω) (4.4.19)

Podemos transformar a eq.(10.2-4), fazendo uso da identidade (1-cosx)=2sen2(x/2), e obtermos:

2  2 
2  e  2 2  sen (ut / 2) 
a (k1) =  k pˆ m ⋅ e V(r ) (4.4.20)
 u 2 
 hm 
 ( ) 2 

onde usamos V(r,t)=V(r,t)e Observando-se esta nova expressão, obtida podemos perceber que o
termo do colchete pode ser identificado com a função sinc(x)=sen(x)/x, a qual está graficada na
fig.(4.4-2). Isto é obtido na eq.(4.4.20) dividindo-se ambos os lados da expressão por t. Na fig.(10-2-
1) está graficada a função sinc(u). Substituindo-se a expressão de u na eq.(10.2-6) encontraremos:

2  2 t 
a (k1) 2  sen (ωkm ± ω)  
 e  2 2  2 
=  k pˆ m ⋅ e V(r )  (4.4.21)
t  hm   [(ω ± ω)]2 t 
 km
 2 
Sistemas de Comunicação Óptica 137

Considerando que o tempo transcorrido em uma medida é muito maior do que o tempo das
transições envolvidas no processo em análise, podemos fazer uma aproximação muito proveitosa, em
face das simplificações que acarreta. Ela corresponde a aproximarmos o tempo t como sendo um
intervalo de duração infinita. Como é sabido, o limite dado abaixo

 1 sen 2 αu 
lim   = δ( u ) (4.4.22)
α→∞ π αu 2 

a eq.(4.4.22) nos levará a:

2
 e  2 2
τ=  k pˆ m ⋅ e V(r ) δ(ωkm ± ω) (4.4.23)
 hm 

onde τ será denominada de probabilidade de 1,0


taxa de transição. Por isto podemos entender
que, se o sistema estava no estado k o módulo 0,8
ao quadrado de ak(1) nos mede a probabilidade
de sair do estado k para o estado m, transição
0,6
que está indicada no elemento de matriz Hkm.
Essa probabilidade de transição dividida pelo sinc(u)
tempo da medida nos dá a probabilidade por 0,4
unidade de tempo de que ocorra a transição, daí
o significado acima citado. 0,2
Algo importante a ser chamado à
atenção é quanto à distribuição de Dirac que
0,0
está presente na equação (4.4.3). Ela informa -6π -4π -2π 0 2π 4π 6π
que a energia da perturbação, definida por u

hω, deve ser igual à diferença dos níveis de Fig.(4.4-3) – Gráfico da função sinc(u).
energia entre os estados envolvidos na transição
(Ek-Em). Com isto podemos separar dois casos:

E km − hω = (E k − E m ) − hω = 0 → E k = E m + hω (4.4.24)

nos quais temos a energia do estado final (m) descrita a partir da energia do estado inicial (k) e da
energia movimentada pela perturbação. O primeiro caso mostra que o nível do estado para o qual o

Absorção Emissão

Fig.(4.4-3) – Representação das transições entre os níveis de energia de um sistema sob a ação de uma
perturbação externa, estando indicadas os processos de absorção, à esquerda, e emissão à direita.
138 Contando Fótons

sistema, ou ente físico, transita tem uma energia igual à do estado inicial mais a energia da
perturbação. Isto caracteriza que houve uma absorção de energia por parte do sistema. Já no
segundo caso, vemos que a energia do estado final é a energia do estado inicial menos a energia da
perturbação, e neste caso podemos interpretar como tendo havido uma emissão de energia pelo
sistema, devido à perturbação. A fig.(10.2-2) ilustra o que acabamos de comentar.
Em muitos casos as transições não se dão entre níveis e sim entre bandas de energia. Nesses
casos teremos de tratar as transições entre níveis dentro dessas faixas de energia. Portanto a eq.
(4.4.23) deverá receber um termo σ(E) que descreve a densidade de estados existentes na faixa de
energia envolvida nas transições. Além do mais há uma função resposta, que a denominaremos por
g(E), responsável pela descrição . Com isso teremos

2
 e  ∞ 2 2
τ=
 h m

 0 ∫
ρ(E )g (E) E k pˆ E m ⋅ e V(r ) δ(E k − E m − hω)dE (4.4.25)

Considerando-se a delta de Dirac, e que Ek=Em+hω, teremos:

 e  2 2
τ =   2 πhρ(E m + hω)g( E m + hω) E m + hω pˆ E m ⋅ e  I (r, t ) (4.4.26)
 hm  

Esse resultado nos leva a dizermos que a probabilidade de transição, que pode ser interpretada como
probabilidade de absorção de um fóton, ou probabilidade de fotodetecção, em intervalo de tempo ∆t,
pode ser dada por:

P ( t )∆t ≈ γI (r, t ) ∆t = ηP(r, t )∆t (4.4.27)

onde γ significa a eficiência do fotodetector para a intensidade óptica I(r,t), o mesmo sucedendo para
o termo η quando se utiliza a potência luminosa em lugar da intensidade óptica P(r,t).

4.4-1 – Descrição quântica

A descrição quântica da interação entre um campo eletromagnético e a matéria se dá levando em


conta ambos, campo e matéria, descritos quânticamente. Nesse caso o campo é descrito como um
operador descrito por operadores quânticos, no caso os operadores de criação (a+) e destruição (a) e
é dado por:

Ê = iω
1
2Vε oω
[
âei (k • r − iωt ) − â + e −i (k • r − iωt ) ] ?????????? (4.4.4)

Nesta equação k é o vetor propagação, ω a freqüência angular e V o volume de quantização. A


descrição do operador campo elétrico por meio dos operadores de criação e destruição está
intimamente ligada ao fato do campo elétrico é uma onda harmônica. Dessa forma, como uma
oscilação eles podem ser tratados como um oscilador harmônico observando, pois, a mesma
descrição deste ente físico.
Os operadores de criação e destruição respeitam a seguinte regra de comutação:

[â, â ]= [ââ
+ +
]
− â + â = h (4.4.5)
Sistemas de Comunicação Óptica 139

Os operadores de criação e destruição têm auto estados n com os quais se tem:

â + n − 1 = nh n (4.4.6)

â n + 1 = (n + 1)h n (4.4.7)

Um novo operador pode ser criado com os operadores criação e destruição, na medida em que temos:

( )
â + â n = nh â + n − 1 = nh ( )
nh n = nh n (4.4.8)

Consequentemente:

 â + â 
 n =nn (4.4.9)
 h 
 

e definimos

n̂ n = n n (4.4.10)

onde

â + â
n̂ ≡ (4.4.11)
h

é chamado de operador ocupação, uma vez que o seu autovalor fornece o valor do número do
estado, que é o número de hω existente naquele estado.
Não é difícil se mostrar que n̂ comuta com o Hamiltoneano e portanto têm o mesmo
autovetor, ou seja:

Ĥ n = ε n n (4.4.12)

n̂ n = n n (4.4.13)

Como

 â + â 1   1
H = hω +  = hω n̂ +  (4.4.14)
 h 2   2
 

quando o autovalor de n̂ for n=0, a energia será a do estado fundamental que será εo=hω/2. Também
é fácil de se perceber que o espectro de energia do oscilador será:

 1
ε n =  n + hω (4.4.15)
 2

Campos descritos na forma acima feita possuem um comportamento estatístico que podemos
obter através do seu valor médio e variância. Se tomarmos o valor médio do campo encontraremos:
140 Contando Fótons

n Ê n = iω
1
2Vεo ω
[
n â n ei(k • r − iωt ) − n â + n e − i(k •r − iωt ) ] (4.4.16)

Considerando-se as eqs. (4.4.6) e (4.4.7) encontraremos:

n Ê n = 0 (4.4.17)

uma vez que

n â n = nh n n − 1 = 0 (4.4.18)
e
n â + n = (n + 1)h n n + 1 = 0 (4.4.19)

pois os elementos de matriz, acima apresentados, envolvem estados ortogonais, isto é:

n m = δ m, n .

Dessa forma, o valor médio do campo é nulo indicando que a descrição atual revela um
comportamento diverso do clássico. Afinal, o campo elétrico neste caso quântico existe ou não? De
fato existe, e para vermos tal fato consideremos o valor médio do quadrado do campo elétrico.

ω
2
nE n =
2Vε o
(
n ââ + n + n â + â n − n ââ n e − i 2( k • r − ωt ) + n â + â + n e − i 2( k • r − ωt ) ) (4.4.20)

Como se tem

n ââ n = n â + â + n = 0

a equação (4.4.20) ficará:

ω ω
2
nE n =
2 Vε o
(
n ââ + n + n â + â n = )
2 Vε o
(
n ââ + + â + â n ) (4.4.21)

em face da regra de comutação expressa na eq.(4.4.5), se tem

( )
ââ + + â + â = ââ + + h + ââ + = 2ââ + + h (4.4.22)

Por outro lado, lembrando da eq.(4.4.11), teremos:

2
nE n =
ω
(2 n hn̂ n + h n n ) = ω (2nh + h ) = hω  n + 1  (4.4.23)
2Vε o 2Vε o Vε o  2

Vemos com o resultado apresentado na eq.(4.4.23) que embora o valor médio do campo elétrico seja
nulo, o valor médio do seu quadrado não é nulo e expressa a energia associada a esse campo.
A mesma análise poderá ser feita com o número de fótons. Se considerarmos um campo
elétrico em um dado estado α a probabilidade P(n) de se encontrar n fótons neste estado é dada por:
Sistemas de Comunicação Óptica 141

2
P(n ) = n α (4.4.24)

Se o estado considerado é um auto estado m do operador n̂ , tal probabilidade será:

2
P ( m) = n m = δ m, n (4.4.25)

De fato precisamos analisar os momentos da distribuição de probabilidade, ao invés dela própria.


Considerando o valor médio e a variância, neste caso, encontraremos:

n̂ = α n̂ α (4.4.26)
e
(∆n )2 = (n̂ − n̂ )2 = α n̂ 2 α − ( α n̂ α )2 (4.4.27)

Caso o estado α seja um auto estado o operador n̂ , os resultados referentes às eqs. (4.4.26) e
(4.4.27) serão:

n̂ = m (4.4.28)
e
(∆n )2 = (n̂ − n̂ )2 =0 (4.4.29)

Como se vê, esse caso corresponde a um campo com um número (m) definido de fótons, sem
ocorrência de flutuação, pois a variância é nula. Do ponto de vista prático, um campo nessa situação
analisada seria tal que ao ser detectado por um fotodetector, sendo ele perfeito, nenhum ruído
existiria. Este resultado não concorda com o resultado obtido por uma descrição semi-clássica
analisada anteriormente.

4.5 – Estados Coerentes

A descrição quântica apresentada anteriormente, por meio de auto-estados do operador n̂ nos


levou a um desencontro com a descrição semi-clássica. Ela não é a única descrição possível para o
campo eletromagnético, havendo um outro conjunto de estados quânticos, a saber: os estados
coerentes. Tais estados são auto-estados do operador destruição â, ou seja:

â ξ = ξ ξ (4.4.30)

sendo ξ um número complexo pelo fato de â não ser um operador hermitiano. Os estados coerentes
são descritos por meio da expressão:

2
− ξ /2 ξn
ξ =e ∑ n!
n (4.4.31)
n

Observamos que os estados coerentes são obtidos por meio de uma mistura de estados do operador
n̂ , e têm um aspecto super interessante de permitirem uma descrição mais próxima de uma onda
142 Contando Fótons

eletromagnética clássica. Por exemplo, se o campo eletromagnético for descrito por estados
coerentes, o seu valor esperado será:

Ê = E o cos(k • r − ωt ) (4.4.32)

Nessa descrição de estados coerentes, a probabilidade de se encontrar n fótons é dada por:

2
2 −ξ /2
2
ξm
P( n ) = n ξ = ne ∑ m (4.4.33)
m m!

Dessa expressão vem:

2 2
2
−ξ /2 ξm −ξ /2
2
ξm 2 2m
−ξ ξ
P(n ) = e ∑ nm =e ∑ δn,m = e
m!
(4.4.34)
m m! m m!

sendo pois uma distribuição de probabilidade poissoniana. Em face disto, para estados coerentes, a
distribuição de probabilidade dos fótons terá como média e variância:

â + â 1
ξ n̂ ξ = ξ ξ = ξ â + â ξ (4.4.35)
h h

Isso nos leva a:

2 2
ξm+ n ξm + n
−ξ −ξ
e e
ξ n̂ ξ =
h ∑∑ m! n!
n â + â m =
h ∑∑ m! n!
n â + â m (4.4.36)
m n m n

Relembrando das eqs. (4.4.6) e (4.4.7), a eq. (4.4.36) nos leva a:

2
 −ξ2 
ξm+ n
−ξ
e e 2n 
ξ n̂ ξ = ∑∑ m! n!
hmδ n , m = n
n!

ξ  = nP(n ) = n̂ ∑ (4.4.37)
n   n
h m n 

Já a variância será dada por:

2
α (∆n )2 α = α n̂ ( n̂ − 1) α + n̂ − n̂ (4.4.38)

Uma vez que já se calculou o valor médio do operador ocupação, calculemos o primeiro termo da
eq.(4.4.38)

∞ ∞ 2 n+m
α
∑∑e
−α
α n̂ ( n̂ − 1) α = n n̂ (n̂ − 1) m (4.4.39)
n = 0m = 0 n! m!

portanto
Sistemas de Comunicação Óptica 143

∞ ∞ 2 n+m ∞ 2 2n
α α
∑∑ ∑
−α −α
α n̂ ( n̂ − 1) α = e m(m − 1) n m = e n ( n − 1) (4.4.40)
n = 0m = 0 n! m! n =0
n!

uma vez que n m = δ n , m

Com o resultado obtido se mostra que a variância de n̂ será:

∞ 2 2n ∞ 2 2( n − 2 )
α 4 −α α 4 2
∑e ∑
−α
α n̂ ( n̂ − 1) α = n (n − 1) = α e = α = n̂ (4.4.41)
n =0
n! n =0
( n − 2)!

Usando esse resultado na eq.(4.4.nn), teremos:

ξ (∆n̂ )2 ξ = n̂ (4.4.42)

Esses resultados, eqs.(4.4.37) e (4.4.38), nos mostram que a distribuição referente aos estados
coerentes possui um comportamento de uma distribuição Poisson, em acordo com a descrição semi.-
clássica.

_________________________________________________________________________________________

Exemplo(4.4.1) – Calcular o valor esperado (ou médio) do operador campo elétrico na descrição de
estados coerentes.

Solução

Tomemos o valor médio do operador, segundo a sua definição na eq.(4.4.16)

α Ê α = iω
1
2Vε o ω
[
α â α ei (k • r − iωt ) − α â + α e −i (k • r − iωt ) ] (4.4.43)

a qual será escrita, para simplificação da expressão, na forma:

[
α Ê α = K α â α − K* α â + α ] (4.4.44)

Como, por definição:

α â α = α α α e α â + α = α* α α

teremos

[
α Ê α = Kα α α − K *α* α α ] (4.4.44)

1
α Ê α = iω
2Vε o ω
[
a e iϕ e i (k •r −iωt ) − a e −iϕ e −i (k •r −iωt ) ] (4.4.45)
144 Contando Fótons

onde descrevemos o autovalor de â de uma forma complexa, como, de fato, ele é. Através de
manipulação algébrica simples se obtém:

αh
α Ê α = sen (k • r − ωt + ϕ) (4.4.46)
2Vε o ω

Sendo ϕ uma fase, ela poderá ser escolhida de forma a se escrever a eq.(4.4.46) na forma:

α Ê α = E o cos(k • r − ωt ) (4.4.47)

Com isso, se chega ao resultado desejado, segundo o qual, descrevendo o campo elétrico segundo os
estados coerentes se chega a uma descrição compatível com a descrição clássica e semi-clássica.
_________________________________________________________________________________

4.5 – Probabilidade de fotodetecção

Nesta seção vamos calcular a probabilidade com que podemos detectar um dado número de
fótons, num dado intervalo de tempo ∆t. Para fazermos isto vamos considerar as seguintes hipóteses:

1- A emissão de cada elétron é um evento aleatório e a probabilidade P(t) de um elétron ser


emitido entre os instantes t e t+∆t é dada por:

P( t )∆t = γI (r , t )∆t = ηP(r, t )∆t (4.4.1)

onde I(t) é a intensidade e P(t) a potência luminosa.

2- Podemos escolher o intervalo ∆t suficientemente pequeno para que no máximo ocorra


emissão de um único elétron;

3- O número de fotoemissões em intervalos de tempo sem intersecção são estatisticamente


independentes.

Além de considerarmos o número de fotodetecções em um intervalo ∆t, precisamos na


prática calcular o mesmo número em um intervalo de tempo entre t e t+T, sendo T não
necessariamente menor do que o tempo de coerência da luz. Consideremos, por enquanto, que haja
variação da potência, ou intensidade, luminosa conquanto que não façamos o mesmo quanto às
flutuações nessas grandezas. Com isso estamos afirmando não haver mais do que um possível evento
entre os muitos que constituem o ensemble. Consideraremos tais multiplicidade de eventos adiante.
Dentro dessas suposições, e dividindo-se o intervalo de tempo T em um número muito grande de
intervalos ∆t tão pequenos que ηP(r,t) ∆t«1 e nos fornece a probabilidade do número de detecções de
fótons no intervalo diferencial. O número médio de detecções em T será dado pela soma dos valores
médios em cada um dos intervalos diferenciais de tempo o que nos leva a escrever:

t +T

n = η P(r, t ′)dt ′
t
(4.4.2)
Sistemas de Comunicação Óptica 145

Obtido o valor médio de n, e considerando que os eventos de fotodetecção sejam independentes,


podemos dizer que a probabilidade P(n,t,T) precisa ser poissoniana, conforme a eq.(4.3.6) em n e
parametrizada por 〈n〉. Assim podemos escrever:

n
1  t +T  − η∫tt + T P(r, t ′)dt ′
P( n , t , T ) = η
n!  t
P∫(r , t ′) dt ′  e

(4.4.3)

Conquanto a estrutura probabilística seja poissoniana, ela só se mantém enquanto as variações de


P(r,t) (ou I(r,t)) varie deterministicamente porem sem que exista qualquer aleatoriedade. Isso
significa que não há ensemble sobre o qual se deva realizar uma média.

4.4-1 – Probabilidade de fotodetecção com campos flutuantes

Agora, que chegamos a saber como calcular a probabilidade P(n,t,T) sem flutuações,
passemos para a situação na qual há campos flutuantes. Para deduzirmos a probabilidade adequada
tomemos a eq.(4.4.3) referente a uma única realização. Em havendo flutuações, do ponto de vista
estatístico, há um ensemble, ou conjunto, das diversas possibilidades de eventos probabilísticos.
Neste caso a probabilidade P(n,t,T) com flutuações será obtida se fizermos uma média sobre o
resultado da eq.(4.4.3) relativa a um único evento. Isto nos fornece:

W n −W
PW ( n, t , T ) = e (4.4.4)
n!
onde
t +T

W = η P( t ′)dt ′
t
(4.4.3)

Observando-se a eq.(4.4.4) vemos que a probabilidade PW(n,t,T) é dependente da grandeza W, que


passa a ser uma nova variável aleatória e essa dependência de PW(n,t,T) em W faz dela uma
probabilidade condicionada P(nW). Como variável aleatória, W tem uma densidade de
probabilidade p(W) que informa a probabilidade de W estar entre W e W+dW. Dessa forma a
probabilidade de se ter n fotoemissões será dada por:

∞ W n −W  ∞
P( n , t , T ) =
0 ∫ 
P(n W )p( W )dW =
0  n!
 

e  p( W )dW (4.4.4)

Com essa probabilidade calculemos o valor médio e a variância do número de detecções de


fotons. O valor médio será:

∞ ∞ ∞  Wn 
n = ∑ nP(n, t, T) =∫ ∑ n 0 n!
e − W  p( W )dW

(4.4.5)
n =1  n =1

A eq.(4.4.5) nos leva a:

∞  ∞  W n −1 − W  ∞
n = ∫ ∑
W   ∫
e  p( W )dW = Wp( W )dW = W (4.4.6)
 n =1  ( n − 1)!
0 0


Já para calcularmos a variância usaremos:


146 Contando Fótons

2
(∆n )2 = n (n − 1) + n − n (4.4.7)

revelando a necessidade de se calcular a média de n(n-1), como segue:

∞ ∞ ∞  W n − W 
n (n − 1) = ∑ n (n − 1)P(n , t , T) = ∫ ∑ 0
 n (n − 1)
 n!
e  p( W )dW (4.4.8)
n =2  n =2 
Dessa equação vem:

∞  ∞  W n − 2 − W  ∞
n (n − 1) = ∫ ∑
W 2   e  p( W )dW = ∫ W 2 p( W )dW = W 2 (4.4.9)
 n =2  (n − 2)!
0 0


Substituindo-se as eqs.(4.4.6) e (4.4.7) na eq.(4.4.9) encontraremos:

(∆n )2 = n + W2 − W ( 2
) = n + (∆W ) 2
(4.4.8)

Como se vê na eq.(4.4.8) a variância tem dois termos os quais indicam o resultado de Einstein; o
primeiro termo 〈n〉 pode ser interpretado como a flutuação devido caráter corpuscular da luz
enquanto o segundo termo corresponde às flutuações devido ao caráter ondulatório. As flutuações
corpusculares são responsáveis pelo ruído balístico.
Outro fato interessante é que conquanto a probabilidade aparente um comportamento
poissoniano na probabilidade condicionada, o mesmo não se verifica quando à probabilidade P(n).
Como se vê na eq.(4.4.8) a variância não é igual ao valor médio 〈n〉, uma característica da
distribuição de probabilidade de Poisson. Isso só ocorreria caso p(n)=δ(W-〈W〉), pois a eq.(4.4.4)

n
∞ ∞ W n −W  W
∫ ∫
− W
P( n , t , T ) = P(n W )p( W )dW =  
0 0  n! e δ( W − W )dW = n! e (4.4.9)
 

Isto é, a probabilidade P(n) é poissoniana, fato comprovado pelo fato de

( ∆W ) = 2
W2 − W
2
=0 (4.4.10)

fazendo com que

(∆n )2 = n (4.4.11)

o que é uma característica de uma distribuição de Poisson.

4.5 – A estatística da fotocorrente

O cálculo da fotocorrente pode ser iniciado tomando a soma de impulsos referentes a cada
elétron gerado, levando a:


i( t ) = ∑X
n =0
n h(t − n∆t ) (4.4.1)
Sistemas de Comunicação Óptica 147

Como se vê, a fotocorrente em um dado instante t é a superposição de pulsos de correntes representados pela
função resposta h(t-n∆t) e Xn é uma variável cujo valor pode ser 0 ou 1, seguindo a hipótese de fazermos um
intervalo de tempo tão pequeno de modo que só há um ou nenhum fóton. A fig.(4.6.1) ilustra a geração de
elétrons a partir de um fluxo de fótons dando lugar a uma série de pulsos de corrente, os quais se somam para
formar a fotocorrente medida. Os valores de Xn acontecem segundo uma probabilidade dada por:

1 p
Xn =  (4.4.2)
0 (1 - p)

segundo a qual, o pulso de corrente, decorrente da absorção de um fóton, ou existirá, ou não existirá.
Para descrevermos estatisticamente a fotocorrente precisaremos calcular seu valor médio e sua
variância. Calculemos o valor médio de i(t), como se mostra na eq.(4.4.3).


∞ 
i( t ) = ∑X
n =0
n h(t ∑
− n∆t ) =  h ( t − n∆t ) X n
 n =0 
(4.4.3)

O valor médio de Xn é calculado como segue:

X n = px1 + 0 x (1 − p) = p (4.4.4)

levando o valor médio de i(t) a:



i( t ) = ∑ ph(t − n∆t )
n =0
(4.4.5)

Para calcularmos a variância precisaremos, antes, calcular o valor médio do quadrado de i(t). Tal valor é dado
por:

∞ ∞ ∞ ∞
i 2 (t) = ∑∑n =0 m = 0
X n h ( t − n∆t )X m h ( t − m∆t ) = ∑∑ h(t − n∆t)h(t − m∆t) X
n =0 m = 0
nXm (4.4.6)

Aqui teremos de distinguir duas situações diferentes, quando n=m, correspondendo a um mesmo pulso, e n≠m
correspondendo a participação de pulsos diferentes. Nesse caso a eq.(4.4.6) será escrita na forma:


i 2 (t) = ∑h
n =m
2
( t − m∆t ) X 2m + ∑ h (t − n∆t )h (t − m∆t ) X
n ≠0
nXm (4.4.7)

fótons

fotoelétrons

pulsos de corrente

i(t) ∆i 2
corrente elétrica

t
148 Contando Fótons

Tomando-se as médias existentes na eq.(4.4.7), vem:

X 2m = ∑X 2
m p( X m ) =12 p + 0 2 (1 − p) = p (4.4.8)

XnXm = ∑X n X m p( X n , X m ) =1x1x (pp ) + 0 x 0x ((1 − p)(1 − p) ) +


(4.4.9)
+ 1x 0x (p(1 − p) ) + 0 x1x ((1 − p) p ) = p 2

Substituindo esses resultados na eq.(6.4.7), encontraremos:

∞ ∞
i 2 (t) = ∑
n =0
ph 2 ( t − m∆t ) + ∑ p h (t − n∆t )h (t − m∆t )
n ≠0
2
(4.4.10)

Tomando a probabilidade p, dada por p=γP∆t, e fazendo o limite ∆t→0, encontraremos:

∞ 2 ∞ ∞
i 2 ( t ) = ηP ∫0
h 2 ( t )dt + (ηP ) ∫ 0 ∫
h ( t ′)dt ′ h ( t ′′)dt ′′
0
(4.4.11)

Lembrando que


∫ h(t )dt = e
0
(e = carga do elétron) (4.4.12)

uma vez que o impulso de corrente corresponde à absorção de um fóton, significando a geração de um elétron,
poderemos escrever a eq.(4.4.11) como segue:



2
i 2 ( t ) = (eηP ) + ηP h 2 ( t )dt (4.4.13)
0

Nesse mesmo espírito poderemos dizer que o valor médio de i(t) será:



i( t ) = ηP h ( t )dt = eηP
0
(4.4.14)

Tomando a definição da variância de i(t) segue:

(∆i(t ))2 (
= i 2 − i 2 = (eηP ) + ηP

2
) ∫

0
h 2 ( t )dt  − (eηP ) = ηP

2

0

h 2 ( t )dt (4.4.15)

Definindo


2
1 ∞ 1 0 h ( t )dt

2
∆f = 2 h ( t )dt = 2
(4.4.16)
2e 0 2 ∞ 
 0h ( t ) dt∫

onde se usou a eq.(4.4.12), as eqs.(4.4.13) e (4.4.15) podem ser escritas como segue abaixo.

2
i 2 ( t ) = (eηP ) + 2e 2 ηP∆f (4.4.17)

(∆i(t ))2 (
= i2 − i
2
) = (eηP) + ηP∫ 2 ∞

0
2
h 2 ( t )dt −(eηP ) = 2e 2ηP∆f (4.4.18)
Sistemas de Comunicação Óptica 149

De posse do valor médio de i(t) e sua variância, se pode definir a relação sinal ruído (RSR). Lembremo-nos
da definição da relação sinal ruído (eq. (4.4.1)):

(números médio de fótons) 2


RSR =
var iância

podendo, também ser escrito como segue:

Potência Média do Sinal


RSR = (4.4.19)
Potência Total de Ruído

Com ela vemos que, embora um ruído tenha valor médio nulo, ele interfere na detecção por conta da
incerteza que introduz no processo de contagem dos fótons, fato traduzido no denominador pela
variância. Por isso podemos dizer que a relação sinal ruído pode ser escrita como: A potência média
do sinal será dada por:

Potência Média do Sinal = (RP ) (4.4.2)

significando o valor de fotocorrente gerada ao quadrado. Vemos que R é a responsividade do


fotodetector e P a potência que chega a esse dispositivo, de modo que o produto RP determina o
valor da fotocorrente. Por outro lado, a potência total de ruído é dada pelo valor médio quadrático da
corrente geradora de ruído.

RSR =
( i(t ) )2 =
(eηP )2 (4.4.20)
(∆i(t ))2 2e 2 ηP∆f

Lembrando que a responsividade é dada por R=ηe/hν a eq.(4.4.20) pode ser escrita na forma:

2
 eη  2
  (P )
h
RSR =  
ν
=
(RP )2 = I 2 (4.4.21)
 eη  2e(RP )∆f 2eI∆f
2e  P∆f
 hν 

onde usamos I=RP.


Se tivermos, entre as contribuições para o ruído total do sistema de detecção, fontes independentes
então se pode tomar como variância total da corrente fotogerada a soma das diversas variâncias existentes. Isto
nos leva a escrever

RSR =
(RP )2 (4.4.22)
∑i
k
2
k

resultado a ser usado adiante.

4.6 – Sensibilidade de um Receptor Ideal – Caso Digital

A sensibilidade de um receptor ideal para a detecção de fótons, em um sistema de


comunicação on-off, é definida como a energia óptica mínima (ou o número médio de fótons
150 Contando Fótons

mínimo) por bit para que a detecção satisfaça a uma dada taxa de erro por bit (TEB). Ao
considerarmos que o receptor é ideal, estamos dizendo que o receptor não tem nenhuma fonte de
ruído. Consideramos que os bits 0 e 1 do sistema on-off representam dois estados, a saber:

Bit 0 – ausência de fótons ( n = 0 )


Bit 1 – presença de fótons ( n ≠ 0 )

falarmos em taxa de erro precisamos calcular qual o erro de se errar qualquer um dos dois bits.
Chamemos p0 a probabilidade de se errar na detecção do bit 0 e p1 a de se errar a do bit 4. Errar na
detecção do bit 0 é se detectar pelo menos 1 fóton quando deveria haver a ausência de Ao fótons.
Consideremos que a luz usada seja a de um laser. Os fótons da luz emitida por um laser são
probabilisticamente descritos pela distribuição de Poisson. Logo, a probabilidade de se ter 1 fóton
(p(1)) quando n =0 será nula. Já o caso de se ter zero fóton (p(0)) quando n ≠0 será:

n 0 −n
p ( 0) = e = e −n (4.6.1)
0!

Desta forma, a probabilidade média de se errar um bit, será:

1
TEB = (p 0 + p1 ) = 1 e n (4.6.2)
2 2

A TEB aceitável em um sistema de comunicação é, hoje, 10-9. Isto é, um bit errado em 109 bits
detectados. Com esta definição da TEB podemos determinar qual o número médio de fótons por bit.
Primeiro consideraremos que o número médio de fótons recebidos em um bit 1 seja n e
zero para o bit 0. Se os bits 0 e 1 são identicamente transmitidos o número médio de fótons entre os
bits 1 e 0, será n / 2 .
Com isto vem

1 2 na 1
10 −9 = e , logo teremos: n a = (9 ln10 − ln 2) = 10 fótons/bit
2 2

Desta forma, para que um receptor ideal funcione com uma TEB= 10-9 é preciso que haja em média
10 fótons por bit. E podemos perceber que, mesmo com um receptor ideal há a possibilidade de
haver erro na detecção dos bits em conseqüência da natureza aleatória do número de fótons emitidos
por uma fonte. A fig (4.6.1) ilustra o que vem a ser um erro de detecção de um bit .
Se na fótons de energia hv definem a sensibilidade requerida de um receptor ideal, a energia
correspondente a este número de fótons é ε = na hv. Sendo B0 a taxa de bits transmitidos (bits/s), a
potência referida para a detecção será pois,

n a hν
Pa = = n a hν B o (4.6.3)
1
Bo
ou
Pa
na = (4.6.4)
hν B o
________________________________________________________________________________

Exemplo (4.6-1) – Determinar a sensibilidade de um receptor ideal em dBm.


Sistemas de Comunicação Óptica 151

Solução

Por definição, uma dada potência P é dada um dBm por

 P 
y(dBm) = 10 log 
 1mW 

A sensibilidade de um receptor ideal, operando em um sistema com uma taxa de transmissão


Bo, é dada pela eq. (4.6.3). Chamando a sensibilidade de um receptor ideal em dBm por Ps , teremos:

 n hν 
Ps = 10 log a −3 Bo  (4.6.5)
 10 

A eq. (4.6.5) mostra que aumenta a taxa de transmissão, mantendo-se a sensibilidade do receptor,
caso na ou a TEB seja constante.
________________________________________________________________________________

4.6 - Relação Sinal-Ruído

Já nos familiarizamos neste capítulo ao caráter aleatório do número de fótons em um feixe de


luz, o que exigiu um tratamento estatístico na descrição da ação de detectá-los. Como conseqüência
vimos que, há uma probabilidade de erro na detecção de bits em um sistema de comunicação. Este
caráter estatístico na natureza dos fótons nos leva à necessidade de se definir estatisticamente uma
grandeza importante, a relação sinal-ruído (RSR). Definiremos:

(números médio de fótons) 2


RSR = (4.6.1)
var iância

Para um laser, o número médio de fótons é n e a variância também é igual a n . Com isto,

n2
RSR = =n (4.6.2)
n

Portanto a RSR de um sistema que


usa um laser como fonte de luz, poderá ser
aumentada com o aumento da potência óptica.
Para o caso de uma fonte do tipo LED, que é
considerado como uma fonte térmica, já 1 0 1 00 1 0 1 1 0 00 1
calculamos que para um número médio n de
fótons emitidos, a variância é igual a n + n2 .
Com isto, temos que para um led a RSR será:

n2 n
RSR = 2
= (4.6.3)
n+n 1+ n
1 0 0 00 1 0 1 1 0 00 1
sendo sempre menor do que 1. Assim não bit errado
adianta aumentar a potência óptica de um led
com o fim de se melhorar a RSR. Fig.(4.6.1) - Representação de uma seqüência de bits
detectados com erro.
152 Contando Fótons
Sistemas de Comunicação Óptica 153

4.7 - Exercícios

1 – Uma distribuição de Bose-Einstein ocorre quando não é possível se distinguir as possíveis


distribuições de sucessos. Ou seja, não há uma ordenação como aquela feita para se obter a
distribuição normal.

a – Mostre que a probabilidade pN(n) de se encontrar n sucessos em N tentativas para a distribuição


de Bose-Einstein é dada por:

p N (n ) = Kp n (1 − p) N −n

onde p é a distribuição de se obter um sucesso.

b – Mostre que no limite em que N→∞ a distribuição de Bose-Einstein fica igual a:

p
p(n ) = (1 − η)η n , sendo η =
1− p

2 – Tome a distribuição normal e considere que N→∞ e p→0 de modo que pN→α.

a – Mostre que nessas condições

α n e −α
p N →∞ ( n ) = p ( n ) =
n!

b – Calcule o valor médio dessa distribuição e mostre que α é o valor médio da distribuição,
complementando a nossa informação de que a distribuição é a de Poisson.

3 – Qual o fluxo de fótons emitidos por um laser cuja potência é de 3 dBm, tendo uma largura
espectral de 2 nm e um comprimento de onda de pico de 1,33 µm? Qual diferença faria caso a
distribuição espectral fosse descrita por uma lorentziana com a mesma largura e tendo o mesmo
comprimento de onda de pico?.

4 – Calcule a relação sinal ruído (RSR) caso a distribuição de probabilidade de se obter n fótons em
uma medida seja uma gaussiana.

5 – Porque os valores em dBm da potência do sinal de uma fonte (laser ou led), ou da sensibilidade
de um fotodetector, pode ser somado com os valores em dB das perdas de um enlace óptico? Mostre
isso numericamente.
6

Fontes Ópticas para Comunicação


Neste capítulo vamos levar em consideração os dispositivos responsáveis pelo início do
processo de comunicação, os transmissores do sinal que contem a informação. Os transmissores
possuem um componente fundamental que é o emissor de luz, do qual, em muito, depende a
performance de um sistema de comunicação decorrente de diversas propriedades que a luz emitida
por eles tem. Por exemplo, a largura espectral, os ruídos (gorgeio é um deles), e outras propriedades,
como a coerência, fazem dos emissores de luz um elemento que precisa ser conhecido para que se
possa realizar uma boa concepção sistêmica.
Dois componentes ópticos são básicos entre os emissores de luz: o led e o laser, sendo o
primeiro um emissor de luz incoerente, enquanto o segundo de luz coerente. Na maioria dos sistemas
ópticos de comunicação em uso, a modulação é feita diretamente sobre esses dispositivos, a partir da
eletrônica que realiza a modulação.
Para o futuro, espera-se mudanças na estrutura dos transmissores em decorrência das
elevadas taxas de modulação que passam a exigir outros meios de modulação. O uso do efeito eletro-
óptico é um exemplo de um método de modulação; em tais casos os lasers são elementos de
fornecimento de potência óptica.

6.1 – Geração de luz


Antes de falarmos nas fontes de luz usadas em sistemas de comunicação óptica relembremos
que a geração de luz, ou emissão de fótons é um processo físico pelo qual um meio material (gás,
líquido ou semicondutor) após ser levado para um nível de energia mais alto, retorna a um nível de
energia mais baixo se desfazendo da diferença de energia emitindo fótons. Precisamos, pois, entender
como um meio pode ser levado a um nível de energia mais alto, o que ocorre recebendo energia
externa. Como fazer um pedaço de vidro, ou um semicondutor, ganhar energia para ficar num estado
de mais alta energia e se desfazer do excesso é o que iremos discutir a seguir.
O processo de entrega de um determinado tipo de energia ao meio opticamente ativo, como
um gás, chama-se excitação. A excitação é o processo pelo qual os elementos constituintes da matéria
(átomos, moléculas, etc.), ao receberem energia externa, passam do estado de energia (Εj), para o de
energia(Ef) (Εf>Εi). Neste estado se diz que o elemento está no estado excitado. Este processo é o que
vamos encontrar nas lâmpadas de gás néon, nas quais, por meio de uma descarga elétrica o gás é
excitado a ponto de poder emitir luz. Neste caso é a energia elétrica a energia externa cedida aos
átomos do gás. A partir dele, o elemento volta a um estado de mais baixa energia, como já sabemos,
emitindo um fóton de energia hν=(Εf-Εi). Este processo contrário ao da excitação que é o da transição
do estado de maior para menor energia pode se dar de duas maneiras:

- espontâneo

- estimulado
156 Fontes Ópticas para Comunicação

No processo espontâneo, como denuncia seu nome, a transição se dá sem que seja necessária a
interferência de qualquer agente externo ao sistema. Sendo um processo sem a ação externa, cada
transição espontânea de um elemento físico (um elétron em um átomo), se dá de modo independente à
dos outros elementos do sistema. Isto resulta na emissão de fótons de uma maneira aleatória,
produzindo uma luz sem coerência. Ou seja, a luz gerada espontâneamente tem um comportamento tal
que as diferenças de fases de ondas em um mesmo ponto do espaço, ou do tempo, variam
aleatoriamente. E o mesmo se dá entre ondas em pontos e instantes diferentes. Disto resulta que o
efeito de interferência entre ondas de luz espontâneamente gerada não produz efeitos de interferência.
Basta olhar uma sala iluminada com a luz solar, ou de uma lâmpada, ou qualquer fonte de luz
incoerente.
No caso da emissão estimulada, como também o nome anuncia, a transição do elemento
excitado, voltando ao estado de menor energia, se dá por meio de uma interação entre ele e um fóton
que sobre ele incida. Este fóton, para usar uma expressão de linguagem mais simplificada, força a
transição do elemento do nível de mais alta energia para um nível de mais baixa energia. E isto ocorre
sempre que a diferença de energia entre os estados seja exatamente igual à energia do fóton; ou seja
hν=(Εj-Εj). Assim, após a interação, haverá dois fótons, o incidente e o gerado pela transição, sendo
este último uma cópia xerox do primeiro, ou noutras palavras um clone do primeiro. Com a
designação de clone estamos dizendo que o fóton gerado tem a mesma energia do fóton indutor, a
mesma polarização e a mesma constante de propagação. Isto faz com que os dois fótons tenham a
mesma fase. Com isto podemos dizer que os dois têm forte correlação entre si. Como estes dois fótons
podem gerar outros dois, e os quatro, que passaram a existir, mais quatro, e assim por diante de tal
forma que ocorre um processo de geração de luz em cascata. Este processo finda, por estabelecer uma
população de fótons com forte correlação, ou seja: eles são coerentes. Com isto estamos dizendo que
os fótons têm a mesma energia, polarização e direção de propagação daquele que estimulou a
transição. Tal coerência dá à luz propriedades muito importantes quanto a diversos tipos de aplicações.
O fato de serem coerentes permite que sejam produzidos padrões de interferência com ela, possuindo
distribuições espaciais definidas. Com isto se pode produzir uma imagem que é o efeito obtido numa
holografia.
Não é difícil se perceber que, havendo fótons gerados espontâneamente em um meio, é
possível se gerar estimuladamente fótons a partir da ação destes primeiros sobre o sistema onde se
encontram. Na fig.(6.1-1) está apresentada uma ilustração sobre o que se acabou de dizer, vendo-se a
excitação, quando o sistema passa para um nível de energia mais alto, e as duas possíveis
recombinações que geram luz. Nessa figura se vê um fóton, gerado em um átomo localizado em um
ponto A do espaço, e propagando no meio, indo induzir uma transição estimulada em outro átomo
localizado em um ponto B. Podemos dizer que os fótons espontâneamente gerados serão um motor de
arranque para a geração estimulada de fótons.
Sistema Ópticamente Ativo

Ponto A Ponto B

E3 E3 E3 E3
E2 E2 E2 E2
Energia

E1 E1 E1 Fóton E1 Fótons

Antes da excitação Excitado Após a recombinação Após a recombinação


espontânea estimulada
Fig.(6.1-1) – Ilustração dos processos de excitação e das recombinações espontânea e estimulada de um
sistema (átomo, semicondutor,...) opticamente ativo.
Sistemas de Comunicação Óptica 157

A emissão estimulada é o tipo característico de emissão de um laser, ao contrário de um led


cuja emissão característica é a espontânea. Por isto é que a radiação de um laser é coerente. Adiante
quando discutirmos como funciona um laser veremos como eles operam e de que forma haverá
coerência na sua luz. Já aqui podemos distinguir essas duas fontes básica, lasers e leds, as quais se
distinguem pela característica de coerência da luz que emitem.

6.2 – O que são Leds?


Um led, é o dispositivo cujo nome vem da contração das palavras Light Emitting Diode.
Desta maneira, o nome led nos informa que o dispositivo se trata de um diodo, em geral feito de
semicondutor, que emite luz. Embora sejam feitos principalmente de semicondutor, já há leds feitos
de outros materiais, como os polímeros.
Como funciona um led? Para entendermos o funcionamento de um led tomemos, em
primeiro lugar, um diodo de homojunção de GaAs.
O nome homojunção indica que este dispositivo é
feito de um só material (GaAs, GaP, etc...).
Atualmente já se faz leds de outros materiais como I n p
polímeros e substâncias orgânicas. A fig. (6.2-1)
ilustra um diodo de homojunção, estando
apresentada a distribuição espacial das bandas de
valência e condução. Região
n ativa p
Os leds de homojunção são feitos εc
elétrons
difundindo-se Zn em um substrato n de GaAs hν
ν =(εc− εv)
(como mostra a fig.(6.2-2). Ao se polarizar tais
diodos com tensão direta, ocorre a difusão dos
I
εv buracos
portadores majoritários de uma região para outra,
onde obviamente serão portadores minoritários, d
como ilustra a fig.(6.2-1). Assim, em torno da
junção do laser, surge uma região com elétrons na Fig.(6.2-1) – Led de homojunção com a ilustração
banda de condução e buracos na banda de valência. da estrutura de bandas no espaço, dentro do
Esta região é chamada de região ativa do dispositivo
dispositivo, aquela que funciona emitindo luz.
A geração da luz ocorrerá porque na região ativa há elétrons na banda de condução e buracos
(estados vazios) na banda de valência, caracterizando o estado de excitação com estados de maior
energia com elétrons e de menor com buracos. Isso também é chamado de inversão de população.
Um elétron da banda de condução pode transitar para um estados vazio da banda de valência,
recombinando-se com um buracos e emitindo um fóton de energia hν igual à diferença (Ec-Ev) entre
as energias do elétron na banda de condução e a do buraco na banda de valência. A recombinação
dos portadores de forma espontânea (sem ação externa), sob o regime de inversão de população, dá
lugar à geração de luz pelo processo chamado de recombinação espontânea.
Nesse caso, a luz gerada é incoerente,
Difusão ou seja, os fótons nos leds, são
gerados aleatoriamente e propagam-se
GaAs-p em qualquer direção do espaço sem
terem nenhuma correlação entre si.
O nome led de homojunção,
GaAs-n GaAs-n GaAs-n também chamada de homoestrutura, é
usado quando apenas um tipo de
Fig.(6.2-2) – Esquema de difusão de aceitadores (Zn), dopante p, material participa da estrutura do
na formação de um diodo homojunção de GaAs. dispositivo. Quando os leds são feitos
com a união de diferentes materiais os
158 Fontes Ópticas para Comunicação

leds são ditos leds de heteroestrutura. Tais dispositivos são manufaturados de modo que a região
ativa de um material (GaAs ou InP) fica ladeada por camadas de materiais diferentes, constituídos de
ligas envolvendo o material da região ativa (GaAlAs ou InGaAsP). A manufatura dessas camadas de
diferentes materiais é feita usando-se processos diferentes daquele da difusão, no qual a difusão de
um dopante cria uma região eletricamente diferente das demais. Nas heteroestruturas há o
crescimento, ou cristalização, de diferentes camadas sobre um material inicial chamado de substrato.
Há vários métodos de crescimento de camadas entre os quais podemos citar o LPE (Liquid Phase
Epitaxy), MOCVD (Metal Organic Chemical Vapor Deposition), MBE ( Molecular Beam Epitaxy).
A fig.(6.2-3) mostra camadas de heteroestruturas de GaAs e InP. Quando as ligas estão presentes em
um dos lados da região ativa a estrutura é dita heteroestrutura simples (fig.(6.2-3(a)) e de ambos os
lados dupla (fig.(6.2-3(b)). Por questões de melhor desempenho, os leds (e lasers como veremos
adiante) passaram a ser feitos com heteroestrutura dupla.

GaAs - p+ InP-p+

(a) GaAlAs - p InGaAsP - p+


GaAlAs - n- InGaAsP - n-

GaAs-n InP - n

GaAs - p+ InP - p+
(b) GaAlAs - p InGaAsP - p
GaAlAs - n- InGaAsP - n-
GaAlAs - n InGaAsP - n
GaAs - n InP - n

Fig.(6.2-3) – Camadas epitaxiais que constituem um led de heteroestrutura dupla.

A razão para se usar as heteroestruturas foi causada pela necessidade de se reduzir as


correntes de operação dos lasers. No caso das homojunções o tamanho da região ativa é definida pelo
comprimento de difusão dos portadores minoritários, atingindo dimensões da ordem de vários
microns (3-5 µm). Com isto, as correntes necessárias à geração de luz atingiam a faixa de até ampère
o que gerava muito calor na junção e reduzia a capacidade dos dispositivos emitirem luz, senão
eliminando a emissão. Com o desenvolvimento das técnicas do crescimento epitaxial foi possível se
reduzir a dimensão da região ativa e
conseqüentemente as densidades da
corrente de operação de um led e aquelas elétrons
requeridas para se obter o regime lasing dos
lasers. As técnicas de crescimento epitaxial
foram as que permitiram a formação de
buracos
camadas cristalinas de diversos materiais
fótons
sobre um substrato. Assim, foi possível se
fazer estruturas como aquelas que estão x
indicadas na fig. (6.2-3), para as quais a
distribuição espacial das estruturas de
Fig. (6.2-4) – Distribuição espacial das bandas numa
bandas está indicada na fig.(6.2-4).
heteroestrutura dupla, sendo indicadas as recombinações de
Nas heteroestruturas, feitas com as elétrons que geram luz na região ativa.
famílias de GaAs e InP, há a criação de
barreiras de potencial que limitam a região
onde os portadores são injetados e impedidos de difundir. A região ativa passou então a ter um
Sistemas de Comunicação Óptica 159

tamanho controlado, permitindo-se que houvesse o aumento da densidade de portadores na região


ativa. Isto permitia a obtenção dos mesmos níveis de intensidade luminosa com menores valores de
corrente, e por conseqüência menor aquecimento do dispositivo. Tendo menor aquecimento, havia
maiores vantagens quanto ao escoamento térmico, reduzindo-se os gradientes de temperatura nas
regiões próximos à junção e por conseqüência aumentando-se a confiabilidade do dispositivo e
outras vantagens mais.

6.2-2 – O espectro da luz dos leds


A luz emitida por um led não tem uma única freqüência, porém uma faixa de freqüências
como mostra a fig.(6.2-5). Essa distribuição espectral da luz de um led advém do fato de tanto os
elétrons quantos os buracos, que se envolvem em recombinação radiativa, estarem distribuídos em
faixas de energia. Os elétrons na banda de condução e os buracos na banda de valência. Desta forma,
o espectro emitido terá uma distribuição de freqüências, como ilustra a fig.(6.2-5). O espectro, inicia-
se com energias em torno da energia da banda proibida (Eg) e se
estende alguns meV acima deste valor, acompanhando a faixa de estados com elétrons na banda de
condução e buracos na banda de valência.
A fig.(6.2-6), apresenta o espectro
de leds feitos com diferentes materiais
semicondutores. Como se vê, os espectros
se estendem por uma larga faixa de
comprimentos de onda que vai desde o
violeta até o infravermelho próximo. Esta
última faixa de comprimentos de onda é 1 ,2 8 1 ,3 0 1 ,3 4
aquela na qual se situam os componentes C o m p rim e n to de O n d a ( µ m )

usados em comunicação. Os leds das outras


faixas são usados em sinalização, e outros
propósitos. Fig(6.2-5) – Espectro de recombinação espontânea de um led
Outro fato relevante a se considerar de InGaAsP.
é a incoerência da luz emitida por um led. Com a incoerência, a fase da luz emitida, quer espacial,
quer temporalmente, é aleatória. Isso ocorre porque a emissão da luz vem por meio do processo de
recombinação espontânea dos portadores. Tal processo, por natureza, é aleatório e por essa razão é
que a luz emitida é incoerente, em oposição ao que acontece nos laser, como veremos adiante, nos
quais a luz emitida é coerente em decorrência de ser a recombinação estimulada o processo básico de
geração de luz.
Laranja
GaAs.35 P.65
Infravermelho próximo
Amarelo
GaAs.14 P.86 Vermelho In.72 Ga.28As.60P.40
Violeta GaAs.60 P.40
GaN Verde
Vermelho GaAs In.83 Ga.17As.34P.56
GaPN
GaP-ZnO

0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1,0 1,1 1,2 1,3
Comprimento de onda (µm)

Fig. (6.2-6) – Espectro de leds em vários comprimentos de ondas.


160 Fontes Ópticas para Comunicação

6.2-3 – A estrutura dos leds


Os leds sendo um diodo de semicondutor têm, em geral, o formato de um paralelepípedo,
sendo as superfícies superior e inferior usadas para que sejam feitos os contatos elétricos necessários
à injeção de corrente elétrica. Conquanto possa haver várias estruturas, iremos aqui analisar as duas
mais conhecidas. A fig.(6.2-7), nos mostra a ilustração da primeira dessas estruturas. Na vista
tridimensional dessa figura, vemos o contato elétrico na face superior e o volume na região ativa
onde se gera a luz pela recombinação de elétrons e buracos. Neste tipo de led não se produz um fluxo
de corrente ao longo de toda a região ativa, pois haverá problema de realimentação óptica e o led
passaria a ter a estrutura de um laser como veremos adiante. Com isso se procura eliminar possíveis
não linearidades no comportamento da relação intensidade de luz versus corrente elétrica,
indesejável para muitas aplicações.
Outro tipo de estrutura, I
chamada de estrutura burrus, está
apresentada na fig.(6.2-9). Nela
vemos que o led tem um buraco Vista tridimensional
desde a superfície até próximo à z
região ativa de tal forma que a luz é Lu
I
gerada emerge do dispositivo por
esta abertura na parte superior.
A estrutura burrus tem a
vantagem do feixe de luz ser mais Vista lateral Região Ativa Luz
direcional do que o da estrutura de
emissão lateral. Isto por que neste
último caso a luz emerge de uma Fig.(6.2-7) – Ilustração de um led de emissão lateral, com as vistas
área cujas dimensões são da ordem tridimensional e lateral. Nesta última se pode perceber como a injeção de
de dx =1 µm e dy=10 µm. Tomando- portadores se dá apenas em uma faixa limitada da região ativa.
se em conta o efeito da difração
temos que há uma abertura angular do feixe que é calculada por

λ λ
θx = e θy = (6.2-1)
dx dy

permitindo se dizer que para λ=1,55 µm há uma abertura angular de 57 graus para a dimensão menor
e 9 graus para a maior. Assim o feixe emitido sai do dispositivo de forma muito elíptica, tendo uma
grande abertura angular. Já no caso da
estrutura burrus, pode-se fazer um buraco
para a saída da luz com um diâmetro, de por I Luz
exemplo, de 50 µm. Com tal dimensão a
abertura angular é algo em torno de 2 graus, Vista tridimensional
tendo forma circular na sua secção
transversal. Por outro lado, o led com
estrutura de emissão lateral apresenta maior I I
potência luminosa do que o de estrutura
burrus.
Luz

Há, no entanto o inconveniente de


que para níveis mais elevados de injeção de
portadores a dependência da intensidade Vista lateral Região
Ativa
luminosa com a corrente se torna supra-
linear. Essa perda de linearidade, aqui
referida, advém da baixa, porem não
inexistente, existência de amplificação de
Fig.(6.2-9) – Ilustração de um led de estrutura burrus.
Sistemas de Comunicação Óptica 161

luz na região ativa. A região sem injeção de portadores, localizada parte anterior à região ativa (vide
figura (6.2-7)), não permite se desenvolver a realimentação óptica. Esta é provocada pela interface
dessa região, sem injeção, com o meio externo, a qual funciona como um espelho cuja reflectância é
cerca de 32%. A região sem injeção absorve fortemente a radiação emitida na região ativa e que
propaga na direção do espelho anterior fazendo com que ocorra uma forte atenuação que extingue a
luz. Obviamente, por não receber injeção, não há inversão de população e apenas pode ocorrer
absorção. Assim sendo a luz que penetra na região absorvedora fica impedida de viajar até o espelho
e voltar para a região ativa, provocando a realimentação mencionada.
Em ambas as estruturas pode haver a colocação de micro lentes a fim de se obter melhor
acoplamento da luz emitida com a fibra óptica que transportará o sinal óptico. Isso será discutido na
próxima seção quando os assuntos de acoplamento da luz de um led com uma fibra serão discutidos.

6.2-4 – Acoplamento led-fibra


Vamos nesta seção dedicar alguma atenção ao acoplamento entre um led e uma fibra óptica.
A eficiência do acoplamento será chamado de ηa e é definida como sendo a razão entre a potência
luminosa introduzida na fibra e a potência de luz emitida pelo componente. O valor de ηa poderá ser
estimado usando-se a expressão:

θa θa
∫ I (θ⊥ )dθ⊥ ∫o I (θ// )dθ//
ηa = (1 − R ) π0/ 2 (6.2-2)
π/2
∫0 I ( θ ⊥ ) d θ ⊥ ∫o I (θ// )dθ//
Nesta expressão, R é a reflectância de Fresnel da superfície da fibra, de modo que (1-R) expressa a
fração de luz transmitida para dentro da fibra. O valor de R para os casos mais comuns é de 4x10-2, e
θa é a metade do ângulo de aceitação da fibra. I(θ⊥) e I(θ//) são, as distribuições de intensidades,
respectivamente, segundo as direções perpendicular e paralela à junção do led.
Tomando-se uma distribuição Lambertiana para ambas as direções, poderemos escrever:

θa θa

ηa = (1 − R )
∫0 cos θdθ ∫0 cos θdθ = (1 − R ) sen 2 θ (6.2-3)
π/2 π/2 a
∫0 cos θd θ ∫0 cos θd θ

onde usamos I(θ⊥) =I(θ//)=Iocosθ, sendo Io a intensidade máxima da distribuição de luz. A fig.(6.2-
10) mostra a distribuição angular da luz emitida por um led a qual é Lambertiana. Como sen2θa=NA
é a abertura numérica da fibra, podemos escrever:

η a = (1 − R )AN 2 (6.2-4)

Para uma fibra com AN=0.2, que é o caso de uma fibra padrão de índice de refração gradual, o valor
da eficiência de acoplamento será de 6.8%, algo em torno de 0,4dB. Para tais níveis de eficiência,
um led com 10 mW de potência emitida, terá na ponta da fibra uma potência disponível de 380 µW.
Como vemos eficiência é bastante baixa, e para aumentá-la se requer o uso de artifícios como
acoplar micro lentes ao dispositivo ou transformar a ponta da fibra clivada em uma lente, usando
técnicas de ataque químico preferencial. Com isto se consegue aumentar a abertura numérica da
fibra, tornando o acoplamento mais eficiente.
162 Fontes Ópticas para Comunicação

-20
0
20

-40
40

-60
60

-80
80

LED
Fig.(6.2-10) – Distribuição angular da luz emitida por um led.

6.2-5 – Resposta em freqüência dos leds


Um parâmetro de importância prática é a reposta em freqüência dos leds, a qual informa a
resposta no tempo da emissão de luz do dispositivo à modulação criada pela corrente de injeção. Tal
resposta é função do tempo de recombinação dos portadores (elétron-buraco). Ou seja, depois de
injetados, os portadores levam algum tempo para recombinarem fazendo com que se gere a luz e se
efetue o fluxo de portadores (a corrente elétrica).
Vale à pena salientar que os materiais usados na confecção dos dispositivos aplicados nos
sistemas de comunicação são de banda proibida direta. Neles as recombinações são diretas, sem
envolvimento de fônons, para as quais o taxa total das recombinações radiativas espontâneas é
calculada pela expressão:

R = Bnp (6.2-5)

onde, B é chamado de coeficiente de recombinação, n é a concentração de elétrons e p a de buracos.


O valor desse coeficiente depende do tipo de transição que ocorre.
A taxa total de recombinações (R) define o tempo de recombinação radiativa τ através da
relação:

∆n ∆n
τ= = (6.2-6)
R Bnp

sendo ∆n o excesso de portadores injetados e adicionados aos já existentes no próprio material antes
da injeção de portadores, cuja densidade designaremos de no. A expressão (6.2-7) nos mostra que o
tempo médio dos portadores é dados pela razão entre o número de portadores por unidade de volume
pelo número total de recombinações que ocorrem por unidade de volume e de tempo. Cada uma
dessas recombinações faz desaparecer um elétron da banda de condução.
Se tomarmos um material do tipo P, temos que P~NA (NA concentração de aceitadores) e
∆n~n (pois ∆n«no). Nesse contexto:

1
τ= (6.2-8)
BN A

Em tal circunstância o tempo de recombinação τ será tanto menor quanto maior o nível de dopagem.
E, quanto menor for τ, maiores serão as taxas de modulação aceitas pelo dispositivo. Para
dispositivos fabricados com material não dopado τ será inversamente proporcional a ∆p e se tornará
Sistemas de Comunicação Óptica 163

tão menor quanto maior for a densidade de corrente elétrica, permitindo mais altas taxas de
modulação.
Por outro lado, o aumento de dopagem leva a um indesejável alargamento do espectro de
emissão em decorrência da criação de estados dentro da banda proibida próximo aos seus pontos
regulares. A partir de uma certa dopagem estes estados levam a uma extensão das bandas em um
contínuo de estados, que avança dentro da banda proibida. Tais estados são chamados de caudas das
bandas e fazem com que hajam recombinações entre níveis de energia menor do que a banda
proibida do material não dopado.
Para um dispositivo que já possui uma largura de espectro de emissão indesejavelmente
larga, isto vem a piorar as características de emissão. Com este comentário se quer dizer que o
aumento do nível de dopagem terá limites quanto aos seus efeitos benéficos, como via de regra
ocorre com tudo na natureza. O limite da dopagem estará ligado ao da solubilidade do dopante no
semicondutor que recebe. Além disto, o aumento excessivo de dopagem levará à criação de centros
de recombinação não radiativos, devido aos defeitos que gera, como clusters e outros.
De posse do tempo de recombinação dos portadores é possível se determinar o
comportamento temporal da população de elétrons na região ativa de um led. Basta tomarmos a
equação de taxas:

dn J n
= − (6.2-9)
dt ed τ

válida a partir do início do pulso de corrente. Segundo ela, a variação no tempo da concentração de
elétrons é dada pela diferença entre a concentração de elétrons que adentra na região ativa (J/ed) e
aqueles que dela saem por meio da recombinação espontânea (n/τ). Esta equação nos leva a:


n (t ) =
ed
(
1 − e −t / τ ) (6.2-10)

O valor estacionário da densidade de elétrons será dada por:


n= (6.2-11)
ed

sendo:

τ - tempo de recombinação dos portadores


e - carga de electrón
d - espessura da região ativa

Como vemos, quanto menor o valor de d, maior será a concentração de portadores disponíveis para a
geração de luz para um mesmo nível de injeção. Para o final do pulso de corrente, a equação das
taxas será a eq.(6.2-9) para a qual façamos J=0. Dela virá:

Jτ − t / τ
n (t ) = e (6.2-12)
ed

A fig.(6.2-11) apresenta o comportamento da concentração de portadores em função do tempo em


um led. Como a emissão de luz acompanha a concentração de portadores, segundo a eq.(6.2-5),
vemos que as eqs.(6.2-10) e (6.2-12) nos revelam o comportamento da luz emitida por um led em
função do tempo.
164 Fontes Ópticas para Comunicação

Corrente

Densidade de
Portadores

Fig.(6.2-11) – Comportamento da densidade de portadores de um led para pulsos retangulares de corrente elétrica.

Se o led estiver sob modulação de freqüência angular ω, a sua resposta óptica pode ser
calculada através da expressão:

I (0)
I (ω) = (6.2-13)
1 + ω2 τ 2

onde I(0)=I(ω=0), ω sendo a freqüência angular do sinal e τ o tempo de resposta do led, calculado a
partir da eq.(6.2-6). A fig.(6.1-10) nos mostra a resposta relativa de um led pouco dopado em função
da freqüência de modulação. Como 1,0

podemos verificar nesta figura, a 0,8

resposta relativa do dispositivo 0,6

aumenta á medida que a corrente de


0,4
operação se eleva, conseqüência da P (ω)
sua baixa dopagem. Conforme a PDC
(u.a.)
análise da eq.(6.6.6), para pequenos 0,2
valores de NA o tempo de
recombinação é aproximadamente
dependente do inverso de (J)1/6. A 20 50 100 200
freqüência de corte é definida como Freqüência de Modulação (MHz)
aquela para a qual o sinal cai de
3dB. Fig.(6.2-10) - Resposta relativa I(ω)/IDC de um led com região ativa
pouco dopada em função da freqüência de modulação

6.3 – O que é um laser?


O que é um laser? Este dispositivo também é um emissor de luz, e seu nome vem de uma
sigla criada pela contração das palavras: Light Amplification by Stimulated Emition of Radiation
(LASER). Comenta-se que ele deveria ter sido chamado de LOSER (Light Oscilation by Stimulated
Emition of Radiation). Entretanto, o nome, por ser pouco feliz, pois poderia ser confundido com a
pronúncia da palavra perdedor (Looser), foi abandonado. No caso de nosso interesse, vamos nos
concentrar nos lasers de diodo feitos com semicondutor por serem aqueles usados nos sistemas de
comunicação.
Um fato relevante quanto aos lasers, como fonte de luz, é a geração de luz coerente
decorrente do processo de emissão estimulada.
Sistemas de Comunicação Óptica 165

6.3.1 – Como se gera luz nos lasers?


Genericamente falando, um laser é um sistema constituído de dois componentes básicos, a
saber:
- um meio opticamente ativo
- uma cavidade óptica ressonante.

A fig.(6.3-1) ilustra os componentes básicos de um laser vendo-se o meio óptico ativo e o guia de
Espelhos

Meio Óptico Ativo

Guia de Ondas
Recombinação Recombinação
Espontânea Espontimulada

Cavidade=Guia+Espelho

Fig. (6.3-1) - Esquemas de um laser onde se mostra os seus constituintes


principais: meio opticamente ativo, guia de ondas e espelhos.

ondas com os espelhos, formando uma cavidade. O primeiro elemento, o meio opticamente ativo, é
aquele no qual se gera radiação eletromagnética (luz). Tal meio pode ser constituído de uma
substância gasosa, líquida ou sólida. A tab.(6.3-1) lista exemplos de tais substâncias, e em um meio
constituído dessas substâncias ocorre a transformação de energia de um determinado tipo em energia
luminosa. Um exemplo disso são as lâmpadas de gás usadas em letreiros luminosos. Nelas, através
de uma descarga elétrica no gás, gera-se luz, mostrando a transformação de energia elétrica em
energia luminosa. Como já vimos, ao contrário do processo de excitação, que só se dá com a
absorção de energia externa, a transição do estado de maior para menor energia pode se dar de duas
maneiras: a espontânea e a estimulada. As emissões espontâneas iniciam o processo de geração de
luz na cavidade do laser, e com esta existem as condições para que a geração de luz estimulada
ocorra sendo transição básica para o funcionamento de um laser.
O segundo elemento básico de um laser é a sua cavidade ressonante. O papel da cavidade
ressonante pode ser dividido em dois: o primeiro é confinar a luz gerada pelo meio opticamente ativo
em uma dada região do espaço, ao longo da qual a luz se propaga (este é o papel do guia de ondas); o
segundo é fazer com que nos pontos extremos do guia de ondas, parte da luz nele incidente, saia para
o meio externo (esta é a porção usada para fins práticos) e parte seja refletida de volta ao meio
opticamente ativo. Isto é feito limitando-se o guia com espelhos, dispostos de modo adequado.

ESTADO FÍSICO DO SUBSTÂNCIA


MEIO ÓPTICO

Gasoso N, Ar, K Mistura He-Ne

Líquido Álcool, Cl

Sólido Rubi, GaAs, InP

Tabela (6.1-1) - Exemplos de substâncias em diferentes estados usadas como meios opticamente
ativos em lasers.
166 Fontes Ópticas para Comunicação

A luz que retorna, é a que realimenta o sistema de modo a promover recombinações estimuladas. Aí
está o processo de realimentação produzida pelos espelhos localizados nos extremos do guia e é fácil
de se perceber que o laser é um oscilador óptico.
Observe-se, aqui, que as recombinações espontâneas servem de “ignição” para as estimuladas.
Isso porque as primeiras ocorrem mesmo quando não há fótons no meio, enquanto as segundas não.
Assim, as espontâneas providenciam os fótons necessários para disparar as estimuladas. O processo
de realimentação com a luz é análogo ao de um oscilador eletrônico no qual a realimentação é feita
através de corrente elétrica. No laser é feita com a luz.
Também fica fácil de se perceber que há uma direcionalidade na geração da luz estimulada,
uma das suas propriedades mais conhecidas e que leva à expressão leiga raio laser. A
direcionalidade está ligada à maneira como os fótons são gerados no laser, isto é, através de
recombinações estimuladas por fótons e propagando numa determinada direção definidas pelo guia
de ondas. Fora do laser, a coerência da radiação estabelece a direcionalidade do feixe emitido em
decorrência da interferência que ocorre entre os raios de luz do feixe.

6.3-2 – Um Pouco de História sobre os Lasers


A primeira sugestão para se criar um dispositivo de radiação coerente na faixa do espectro
visível ou infravermelho, foi feita em dezembro de 1958, em um trabalho famoso de A. L. Schawlow
( Bell Telephone Laboratories) e de C. H. Townes (Columbia University).
Em primeiro de novembro de 1962, M. Nathan (IBM), R. N. Hall e seus colaboradores,
simultaneamente, anunciaram a geração de luz coerente, usando diodos de GaAs, operados sob
polarização direta. Nesse caso, a energia entregue ao laser é a elétrica, sendo nele transformada em
eletromagnética. Assim, vieram os primeiros lasers de semicondutor, feitos com uma simples junção
P-N. Por serem feitos de um único material (GaAs) eles foram chamados de laser de homojunção (ou
homoestrutura). Tais componentes funcionavam apenas a temperaturas muito baixas - próximo de
2K - passando depois a serem operados a 77K.
Foi demonstrado, teórica e experimentalmente, que esse tipo de laser não tinha condições de
operar à temperatura ambiente em regime de corrente contínua ou mesmo em regime pulsado a partir
de uma certa freqüência e largura de pulso (duty cicle) devido aos altos níveis de corrente e de
aquecimento. Isso eliminava as possibilidades do componente ser usado comercialmente. A solução
do problema viria com a conquista da tecnologia do crescimento de camadas epitaxiais sobre um
substrato. Zh. I. Alferov foi o pai da nova geração de lasers chamados de heteroestrutura. Neste caso,
os dispositivos eram feitos usando-se camadas de materiais diferentes, superpostas. Com tais
estruturas os lasers passaram a ter as correntes de operação eram reduzidas a níveis que permitiam o
seu uso à temperatura ambiente e regime contínuo. Em face dos fatos acima citados, os lasers usados
nos sistemas atuais de telecomunicação são diodos a semicondutor, em geral pertencendo a duas
grandes famílias de diodos:

- GaAs e suas ligas GaxAl1-xAs


- InP e suas ligas InxGa1-xAsyP1-y

Entre as duas famílias, foi a de GaAs que primeiro existiu, gerando luz com comprimento de
onda na faixa de 0,80 a 0,88 µm. A Segunda família, a de InP, apareceu depois e permitia que se
fabricasse dispositivos numa faixa maior de comprimentos de onda, a saber de 1,0 a 1,6 µm.

6.3-3 – Estruturas dos lasers


Vamos considerar nesta seção os lasers de semicondutores sob o regime de injeção de
portadores com o uso de corrente elétrica como é o caso dos lasers usados em telecomunicação.
Sistemas de Comunicação Óptica 167

Esses lasers operam aplicando-se neles uma tensão direta e fazendo-se fluir pelo dispositivo uma
corrente elétrica. Também é desta maneira que se produz a modulação do dispositivo para se
processar a transmissão de sinal.

Laser de Homojunção
Os lasers de homojunção são basicamente um diodo p-n, feitos difundindo-se Zn em um
substrato tipo N de GaAs (como vimos na fig. (6.2-2). Na fig.(6.3-2) encontramos um esquema de
um laser de homojunção, onde
estão indicadas a variação Junção Região
espacial das bandas e do índice Ativa
de refração formando o guia de (a) I
ondas do laser. Assim em torno
Espelho
da junção do laser, surge uma
região com elétrons na banda
de condução e buracos na elétrons
banda de valência. Esta região (b)
é chamada de região ativa do buracos
laser. A geração da luz ocorrerá Guia de
porque os elétrons da banda de Onda
condução podem transitar para (c)
os estados vazios da banda de
valência. Ou seja, os elétrons
podem se recambiar com os Fig.(6.3-2) - Esquema de um laser de homojunção, onde estão indicadas a
buracos na banda de valência e
variação espacial das bandas e do índice de refração formando o guia de ondas.
emitir um fóton de energia hν
igual à diferença entre as energias dos estados inicial (na banda de condução) e final (na banda de
valência). Ao estado obtido pela polarização direta, no qual há elétrons na banda de condução e
buracos na banda de valência, se chama de inversão de população.
A recombinação espontânea dos portadores sob o regime de inversão de população dá lugar
à geração de luz, neste caso, incoerente ou aleatória. Os fótons, nessa situação, que possuem energias
numa faixa semelhante ao de um led, são gerados aleatoriamente propagando-se em qualquer direção
do espaço. Parte da luz gerada pode ser confinada ao longo da junção devido à variação do índice de
refração que ocorre na transição do GaAs-n para o GaAs-p.
A luz guiada vai de encontro à superfície do diodo, obtida pela clivagem ou corte e
polimento do cristal, formando um espelho de refletividade R. Uma fração de luz sai e o restante é
reinjetada por reflexão na região ativa. Essa
porção é reinjetada na cavidade e a luz já existente
na região ativa, irá causar as transições I
estimuladas dos elétrons que estão na banda da
condução.
Esse processo de realimentação, dadas certas
condições que estudaremos a seguir, levará o
sistema à emissão de luz coerente, e diremos que o
diodo estará em estado lasing. Este estado ocorre a
partir de um valor de corrente chamado limiar. Os
lasers de homojunção no entanto, apresentavam
dois problemas.
Fig. (6.3-3) – Distribuição esquemática de
O primeiro é o fato de terem limiar com filamentos de luz em um laser de homojunção na
densidades de corrente muito altas (50.000 direção paralela à junção.
Amp/cm2). Isto impede o seu uso à temperatura
168 Fontes Ópticas para Comunicação

ambiente face ao aquecimento


excessivo do dispositivo, inibindo o Fila m
en
d e lu t o
I z
lasing. G a As-n
G a As-p
O segundo problema é o fato Óxid o (SiO )
2
Me ta l (Au)
da luz não ser gerada homogeneamente
ao longo da região ativa. Ao contrário,
a luz concentra-se em porções restritas, ec
a lo
r
rd
chamados filamentos. A fig.(6.3-3) ve d
o
so r
mostra como se dispõem tais ab

filamentos ao longo da região ativa,


correspondendo à direção x. Na
maioria dos casos, a luz de filamentos Fig. (6.3-4) - Representação de laser com a canaleta de
diferentes não era coerente entre si,
contato.
indicando que o laser possuía
simultaneamente várias cavidades ressonantes distintas. Para resolver este problema técnico Dyment
e D Asaro propuseram o uso de um escoador de calor (diamante metalizado na época) que fazia um
contato íntimo com o laser. Além disso, introduziram, na direção x, um contato elétrico com fim de
restringir o espaço físico de operação e permitir a formação de apenas um filamento. Para isso, o
contato elétrico era feito através de uma janela, na forma de faixa, aberta numa camada de óxido
(SiO2 por exemplo) depositado sobre uma das faces de contato do laser, como mostra a fig.(6.3-4). O
lado com o isolamento era posto em contato com o escoador de calor. Afora a eliminação de
filamentos, a faixa de contato reduzia a corrente no dispositivo e diminuía a impedância térmica
entre o laser e o escoador. Com essas medidas, os lasers de homojunção chegaram a operar em
regime, até temperaturas em torno de 205K; entretanto, este limite se mostrou insuperável. A
operação de lasers a semicondutor, em regime DC, só foi possível com a introdução dos lasers de
heteroestrutura.

Lasers de Heteroestrutura
Uma das razões dos lasers de homojunção só operarem a altas densidades de corrente estava
no fato da espessura, d, da região ativa ser determinada pelo comprimento de difusão dos portadores.
Algo entre 1 a 3 µm. Com isso, ela era muito espessa para se obter na região ativa uma concentração
de portadores adequada ao seu funcionamento laser. A operação do dispositivo exigia densidades de
corrente tão altas que o aquecimento da junção impedia o seu funcionamento, em conseqüência, do
sobre-aquecimento do dispositivo. Para temperaturas mais altas o nível da corrente limiar era maior
sendo necessário o uso de maiores correntes para a operação lasing. Aumentando-se a corrente se
aumentaria o aquecimento causando um processo incontrolável impedindo a operação do diodo.
Com o desenvolvimento das técnicas do crescimento epitaxial foi possível se reduzir a
dimensão da região ativa e conseqüentemente as densidades da corrente para se obter o regime
lasing. As técnicas de crescimento epitaxial permitem a formação de camadas cristalinas de diversos
materiais sobre um substrato. Assim foi possível se fazer estruturas como aquela ilustrada na fig.
(6.3-5), na qual se vê as distribuições espaciais das bandas de condução e de valência, bem como o
perfil de índice de refração em cada um dos casos. As diferenças das bandas proibidas se devem à
mudança do material das diferentes regiões. Com a variação das bandas proibidas há a criação de
barreiras de potencial que limitam a região onde os portadores são injetados e impedidos de difundir,
como se vê na fig.(6.3-5). A região ativa passou então a ter um tamanho controlado, podendo se
reduzir a corrente limiar e permitir a operação dos lasers à temperatura ambiente.
Deve ser citado que afora a redução da região ativa, com suas conseqüências próprias sobre a
corrente limiar, as heteroestruturas trouxeram também um confinamento da radiação dentro da região
ativa. Lembremos que a eficiência das recombinações estimuladas na região ativa é tanto maior
quanto maior forem nela as concentrações de portadores e fótons. A variação de material com a
Sistemas de Comunicação Óptica 169

conseqüente variação da banda proibida, leva à variação de índice de refração determinando a


formação de um guia de radiação com acentuada capacidade de confinamento.
Particularmente, pela simetria da estrutura, bem visível na fig. (6.3-5), os lasers de HD se
mostram os mais eficientes, apresentando daí menores densidades de corrente limiar que os outros
tipos. Os lasers de heteroestruturas simples (HS), aqueles em que apenas em um dos lados da junção
há material de composição diferente, apresentam densidade de corrente limiar em torno de
5000A/cm2 a 300K e para os de heteroestruturas duplas (HD) chegou a densidades de corrente limiar
abaixo de 2000A/cm2 à mesma temperatura. Estava definida a viabilidade para a aplicação prática
dos lasers de semicondutor. Os lasers HS dado à assimetria apresentam problemas práticos que
eliminaram as suas possibilidades de aplicação prática, ficando os lasers de heteroestrutura dupla e
outras estruturas que vieram depois como os lasers DFB (distributed feedback lasers).

banda de condução banda de condução

região região
ativa ativa
banda de valência
banda de valência

índice de índice de
refração refração

Fig.(6.3-5) - Variação do índice de refração em lasers HS e HD.

6.3-4 - Condição Limiar de um laser


Chama-se de condição limiar, a condição a partir da qual há a emissão laser. No caso dos
lasers operados com corrente esta condição se caracteriza no valor de corrente a partir do qual há
emissão estimulada estável.
Para entendermos um pouco sobre isto consideremos o que ocorre quando uma luz viaja em
um meio opticamente ativo. Um meio opticamente ativo irá absorver esta luz, ou amplificá-la. A
descrição da atenuação da intensidade de luz I, que propaga ao longo de uma direção z se dá pela
expressão:

I ( z ) = I o e − αz (6.3-1)

Isto mostra que a intensidade de luz diminui exponencialmente com a distância. Quanto maior o
coeficiente de absorção, menor distância z=1/α na qual a intensidade se reduz de 1/e. Da eq.(6.3-33)
podemos deduzir que quando o coeficiente de absorção α(hν) de um meio fica negativo, α (hν)<0,
ele passa a amplificar, ou seja a luz passa a aumentar de intensidade ao propagar nele. Neste caso o
coeficiente de absorção α passa a ser chamado de coeficiente de ganho e será representado por g(hν).
Na fig.(6.3-6) estão representadas as variações da intensidade de luz em um meio opticamente ativo
sob as condições de absorção e amplificação.
Na cavidade de um laser, há tanto o processo de amplificação quanto o de atenuação da luz
que nela está propagando e oscilando.
O primeiro, oriundo dos processos de transição entre as bandas, é quantificado pelo
coeficiente de ganho e corresponde ao efeito líquido de transições para cima (absorção) e para baixo
170 Fontes Ópticas para Comunicação

(geração). Assim sendo, nele já estão incluídos os efeitos de absorção devido a transições entre as
bandas de condução e valência.
O segundo, a atenuação é quantificado por um coeficiente de atenuação da cavidade αc que
faz o papel de um coeficiente efetivo de absorção. Neste coeficiente estão quantificados todos os
processos que eliminam fótons dentro da cavidade, inclusive a luz que sai da cavidade para o meio
externo. Neste coeficiente não está incluido o processo ligado ás transições banda-banda, que já está
contabilizado no coeficiente de ganho. Entre os processos que estabelecem a atenuação da luz
oscilando na cavidade estão a absorção de fótons dentro das bandas, a saída de luz pelos espelhos e
qualquer outro que elimine fótons na cavidade.
Uma onda eletromagnética ao se propagar num meio em que há ambos os processos de
ganho e perdas, é descrito na forma:

I ( z) = I o e (g −α c ) z (6.3-2)

onde g representa o coeficiente de ganho, e αc a soma dos processos de eliminação dos fótons. Caso
g> αL, (dIdz)>0 e o meio é capaz de sustentar a amplificação. Na fig.(6.3-1) vimos que o laser é um
meio óptico ativo no qual há um guia de ondas, limitado nas extremidades por dois espelhos com os
quais se forma a cavidade. Neste espelhos parte da radiação sai para o meio externo e o restante
retorna à cavidade em decorrência da
reflexão da radiação nos espelhos. A I(z)
I ( z ) = I o e − αz
quantidade de luz que retorna ao meio Io
por reflexão é uma fração R
(refletividade dos espelhos) daquela α<0 α>0
que incide sobre o espelho. absorção amplificação
Vamos considerar o
comportamento do campo elétrico de
uma onda eletromagnética ao longo da
direção z na qual está propagando na z
cavidade. Em um percurso completo
de ida e volta entre os espelhos,
Fig.(6.3-6) – Comportamento da intensidade de luz para a
suponhamos que o campo em z = 0, propagação sob as condições de atenuação e amplificação.
onde se encontra um dos espelhos,
seja:
~
E(z = 0) = E o e ink oz = E o e ink oz e − Kk oz (6.3-3)

onde ñ=n+iK é o índice de refração complexo do meio, para o qual a parte complexa inclui o efeito
de troca de energia entre o meio e a luz..
O termo (Eoeinkoz) do campo elétrico, associado à parte real de ñ, descreverá a propagação do
campo, enquanto que parte associada à parte imaginária (e-Kkoz) descreverá a amplificação (ou
atenuação).
Se a cavidade tem comprimento L o campo no seu extremo oposto será E0einkl. Devido à
reflexão em z=L, onde se encontra o outro espelho, teremos um campo cuja intensidade é descrita
por r2Eoe iñkoL, e que agora estará propagando no sentido oposto. Este viaja ao longo do guia, indo
atingir indo atingir o espelho z=o , de onde partiu, com uma intensidade r2Eoe2iñkoL. Ali, sofre uma
nova reflexão e começa um novo percurso no sentido positivo do eixo dos z , com intensidade
r1r2E0ei2nkol, em decorrência na segunda reflexão.
Como já dissemos, o laser é um oscilador e em situação estacionária, após um percurso
completo na cavidade, devemos ter um campo elétrico com a mesma intensidade com que iniciou o
percurso. Isto leva à seguinte relação entre os campos de partida e chegada:
Sistemas de Comunicação Óptica 171

E o = r1 r2 E o e i 2 n k o L (6.3-4)

Eliminando-se Eo chegamos a:
_

r1 r2 e i 2 n k o L = 1 (6.3-5)

Tomando-se r1=r1eiφ1 e r2=r2eiφ2, teremos

(r 1 )( )
r2 e −2 Kk o L e i ( 2 nk o L + φ1 + φ 2 ) = 1 (6.3-6)

A eq.(6.3-38) nos leva a duas condições

(r 1 )
r2 e −2 Kk o L = 1 (6.3-7)

2nk o L + φ1 + φ 2 = 2qπ (q=1,2,3,4...) (6.3-8)

para meios como o GaAs (φ1+ φ2)«2nkoL e r1r2≈(R1R2)1/6. Delas decorrem as seguintes
condições:

 1 
− 2Kk o L = ln  (6.3-9)
 R R 
 1 2 
e

2nk o L = 2qπ (q=1,2,3,4...) (6.3-10)

Lembrando que K=α/2ko, as duas equações (6.3-9) e (6.3-10) ficarão escritas na forma:

1  1 

− αc = ln (6.3-11)
L  R 1R 2 

e

 λ
q  = L (6.3-12)
 2n 

No meio opticamente ativo como um laser a luz que está propagando na cavidade deverá Ter um
coeficiente de atenuação efetivo negativo (α<0). Ele será igual a -α=(g-αi), sendo αi a soma das
atenuações dentro da cavidade, excluída a perda devido a luz que sai pelos espelhos. Deste modo
podemos escrever:

1  1 

g = αi + ln (6.3-13)
L  R 1 R 2 

172 Fontes Ópticas para Comunicação

Assim sendo, o lado direito da eq.(6.3-13) contém todas as perdas da cavidade incluindo o termo
(1/L)ln(1/R)1/2 que descreve a perda de luz devido à sua transmissão através dos espelhos.
Resumindo, temos que, para um modo de energia hν atingirá a condição limiar se duas condições
forem satisfeitas.

a - a onda da radiação satisfaça à condição de um número inteiro(q) de meios


comprimentos ser igual ao comprimento da cavidade
b- o ganho g (hν) se iguale às perdas

Cada valor de q define um valor permitido de hν, capaz de oscilar e atingir o lasing. Assim, entre
todos os fótons disponíveis na cavidade do laser, gerados pelas recombinações espontâneas, só
alcançarão o limiar aqueles de energia.

 2 nL 
hν = h   (q=1,2,3,4...) (6.3-14)
 q 

Cada valor de q determina um possível modo, denominado de modo longitudinal, capaz de entrar em
regime lasing na cavidade caso ele tenha ganho óptico suficiente para oscilar satisfazendo à condição
dada acima, a eq.(6.3-13). Quando há mais de um modo oscilante o laser é dito operar em regime
multimodo. A fig.(6.3-7) ilustra a questão do limiar em um laser do ponto de vista espectral. Nela
está apresentado coeficiente de ganho disponível para uma injeção de 1,4x1018cm-3, valor escolhido
de modo arbitrário, apenas para condução do raciocínio e também está indicado um certo valor
arbitrário de perdas. Como vê, este nível de perdas é superado pelo coeficiente de ganho dentro de
uma certa faixa de energia dos fótons. Além disso, está indicado o conjunto discreto de freqüências
que satisfazem a condição (6.3-12).

hc
120 hν = q
2 nL

80
perdas

40
1,4 x 10 18 cm -3
ganho

1,38 1,40 1,42


hν(eV )

Fig.(6.3-7)- Coeficiente de ganho para um nível de injeção de 1,4x1018 cm-3 em função da energia dos fótons para
um dado nível de perdas. A região escurecida mostra onde há ganho para haver oscilação de um modo e acima estão
indicadas quais energias satisfariam a condição da eq.(6.3-12) ou (6.3-13)

Para cada uma dessas energias existe um número inteiro de meios comprimentos de onda se
igualando ao comprimento da cavidade eq.(6.3-12). Assim sendo, os fótons com as energias
discretas, indicadas no gráfico, e que estão na faixa em que o ganho supera as perdas totais da
cavidade, são aqueles para os quais poderá haver oscilação estável na cavidade. Para tais energias
haverá modos oscilando na cavidade. Os modos oscilantes terão intensidades que, via de regra, irão
acompanhar o valor de excesso de ganho sobre as perdas que o modo experimenta. Na fig.(6.3-8)
está apresentado um espectro real de um laser onde se vê os modos longitudinais que ele possui.
Sistemas de Comunicação Óptica 173

InGaAsP

1300 1310
Comprimento de Onda (nm )

Fig.(6.3-8) - Espectro de um laser de InGaAsP, onde se vê os modos


longitudinais.

6.3-5 – Comportamento temporal dos lasers


Nesta seção analisaremos o regime transitório de um laser, conquanto não façamos maiores
referências a ruídos ou não homogeneidade espaciais ou temporais na cavidade do laser. Temos
assim, um laser ideal. Para estudarmos o regime transitório do nosso laser ideal, devemos resolver o
sistema de equações acopladas que descrevem o comportamento temporal das populações de
portadores (n) e fótons (s). Elas são:

dn J n
= − − GS (6.3-15)
dt ed τ
e
dS n
= β + GS − LS (6.3-16)
dt τ

onde o significado de cada termo é o seguinte:

J
- taxa de portadores injetados;
ed
n
- taxa de portadores que se recombinam espontâneamente;
t

GS - taxa de portadores que se recombinam estimuladamente, com ganho óptico do modo G;

β - fração dos fótons gerados espontaneamente que participam do modo oscilante;

LS - taxa de fótons subtraídos do modo por perdas (L) diferentes da absorção banda-banda.

Este sistema de equações é válido apenas para um laser monomodo. No caso de um multimodo
haverá tantas equações de fótons (Si) quantos modos (i) estejam em oscilação na cavidade. Isto torna
o problema muito complexo de ser analisado no escopo deste curso. Entretanto, o resultado global
dos resultados obtidos permitem um bom entendimento do comportamento de um laser. O termo G é
definido como ganho modal e é dado por:
174 Fontes Ópticas para Comunicação

cΓ cΓ
G= g= (an − b) (6.3-17)
ng ng

onde:

cΓ cΓ
A= a e B= bA (6.3-18)
ng ng

sendo o termo Γ indica a fração de potência do modo que está dentro da região ativa. O coeficiente
de ganho, como vimos, está sendo descrito por uma dependência linear com a concentração de
portadores existentes no meio opticamente ativo.
O termo L é calculado por:

cΓ cΓ  1 1 
L= αL =  ln + Γα p ln + (1 − Γ)α plc + α e  (6.3-19)
ng ng  L R 

e pode ser interpretado como sendo o recíproco do tempo de vida (τf) dos fótons na cavidade do
laser. Isto é:

nn
τf = (6.3-20)
cL

Nesta forma estamos tratando os fótons como partículas da forma como fizemos com os elétrons.

Exemplo (6.3-1) - Estimar o tempo de vida dos fótons na cavidade de um laser.

Solução:
O tempo de vida (τf) dos fótons na cavidade de um laser pode ser estimado usando-se a
eq.(6.5-6). Valores típicos dos parâmetros nela envolvidos são:

L=300µm R=0,32 nn=3,4 Γ=0,4

αpln=25cm-1 αplc=10cm-1 αe=5cm-1

Com eles teremos:

1 1
αL = ln  + Γα p ln + (1 − Γ )α plc + α e =
L R
1  1 
= −4
ln  + 0,4 x 25 + (1 − 0,4) x10 + 5 = 59cm −1
300 x10  0,32 

Assim sendo:

nn 3,4
τf = = = 1,92 x10−12 s ≈ 2ps
cL 3x1010 x 59
Sistemas de Comunicação Óptica 175

Os fótons deste laser têm, pois, um tempo de vida de 2 ps, algo três ordens de grandeza menor
que o dos elétrons sob o regime de recombinação espontânea (2ns).

Regime estacionário
Uma situação importante é aquela na qual as derivadas (d/dt), nas eqs.(6.3-15) e (6.3-16) que
descrevem o transitório, são nulas. Com isso elas ficam:

J no
− − GSo = 0 (6.3-21)
ed τ

n
β o + GS o − LS o = 0 (6.3-22)
τ

onde o índice em n e S é usado para S


indicar que estão sendo analizados no
n (estacionário)
regime estacionário. Podemos
estudar facilmente duas situações
bem distintas. J<JL e J>JL onde, JL é a
Região
densidade de corrente limiar. de Emissão
No caso em que J<JL (abaixo Laser
do limiar) não há modos oscilando na
cavidade, de forma que pode-se usar
a aproximação So=0. Para J>JL J
JL
(acima do limiar) a situação muda
pois é desprezível a contribuição
advinda dos fótons espontâneamente Fig.(6.3-8) – Representação gráfica do comportamento estacionário
gerados à população de fótons do das populações de elétrons e fótons na cavidade do laser.
modo oscilante. Desta forma, a eq.(6.3-21) nos dá So»0. Dentro destas aproximações temos que o
comportamento do laser em função da injeção é:


J < JL So ≈ 0 e n o ≈ (6.3-23)
ed

Jτ f B+ L
J > JL So ≈ e no ≈ nL = (6.3-24)
ed A

A fig. (6.3-8) nos indica esquematicamente os comportamentos das populações de elétrons e


fótons em função da intensidade de corrente de excitação, abaixo e acima do seu valor de limiar.
Neste caso temos um comportamento correspondente ao regime estacionário.
Esta curva teórica é a curva usada na prática na determinação do limiar de um laser. Na
fig.(6.3-8) está apresentada a dependência entre a intensidade de luz de um laser e a sua corrente de
excitação. Comparando-se os resultados lá mostrados com a curva teórica da fig.(6.3-8), vemos a boa
concordância na descrição dos eventos que acompanham a emissão lasing.
A fig.(6.3-9) apresenta o comportamento da intensidade de luz em função da corrente
elétrica que flui em um laser de InGaAsP, para diferentes temperaturas. Estas curvas são de grande
valor prático, já que apresenta a partir de que corrente elétrica o laser estará emitindo no regime da
emissão estimulada. Na figura, a corrente limiar é aquela para a qual a intensidade de luz emitida
aumenta abruptamente com a corrente. A partir dessa corrente, como está indicado para o caso em
176 Fontes Ópticas para Comunicação

que T=0oC, se inicia a emissão estimulada do dispositivo. Vendo as outras curvas (25 e 65 oC),
vemos que o aumento de temperatura leva a um aumento no valor da corrente limiar. Tal
comportamento vem do fato do aumento de temperatura reduzir o coeficiente de ganho do meio, e
por isto, levando à necessidade de mais altos níveis de excitação.

250 In G a A s P

200 0 oC

Potência (mW)
150 2 5 oC

6 5 oC
100 C o rre n te
L im ia r
50

0
20 40 60 80 100
C o rre n te ( m A )

Fig.(6.3-9) – Dependência da intensidade de luz em função da corrente de


excitação para diferentes temperaturas.

Regime transitório
Na seção anterior examinamos a situação estacionária. Nesta, iremos analisar a transitória,
novamente de modo aproximado, com o fim de termos respostas analíticas com as quais possamos
visualizar melhor os processos envolvidos. A solução exata deve ser obtida numericamente.
Vamos tomar primeiro a situação abaixo do limiar, na qual a intensidade de luz dentro da
cavidade é muito pequena comparada com a situação acima do limiar. Usando-se esta aproximação
(S≈0) na eq.(6.5-1) temos:

dn J n
= − (6.3-25)
dt ed τ

A eq. (6.3-25) pode ser facilmente integrada nos levando a:

Jτ 
1 − e τ 
−t
n (t ) = (6.3-26)
ed  

e o valor de S(t) é quase constante. Este comportamento abaixo do limiar é o mesmo que o de um
led.
Acima do limiar, o valor de S precisa ser considerado e as equações ficam acopladas. Nestas
condições a solução exata não mais é possível e apenas soluções numéricas podem ser obtidas, a
menos que certas aproximações sejam usadas. Uma delas é a aproximação dos pequenos sinais,
segundo a qual o valor de n(t) e S(t) é calculado para situações em que a excitação variável no tempo
está aditada a uma excitação DC, sendo a variável muito pequena comparada com esta última.
Na aproximação de pequenos sinais faremos:

n ( t ) = n o + δn ( t ) δn(t)<<no (6.3-27)
S( t ) = S o + δS( t ) δS(t)<<So (6.3-28)
Sistemas de Comunicação Óptica 177

Substituindo-se as eqs.(6.3-27) e (6.3-28) nas eqs. (6.3-15) e (6.3-16), após algum algebrismo,
encontraremos:

( )
δn ( t ) = δn (0)e −(ωa −iωo ) t = δn (0)e −ωa t e iωo t (6.3-29)
δS( t ) = δS(0)e −(ωa −iωo ) t = (δS(0)e )e
− ωa t iωo t
(6.3-30)

−ωa t
Temos pois, soluções oscilantes cuja intensidade sofre um amortecimento dado pelo termo e
Usando-se a eqs.(6.3-29) e (6.3-30), nas eqs.(6.3-47) e (6.3-48) pode-se mostrar que

1  J 
ωa =  + 1 (6.3-31)
2τ  J L 

Por sua vez, valendo-se da aproximação [AnL-(B+L)]~0, ωo pode ser escrita na forma:

1/ 2
1  J 
ωo =  − 1 (6.3-32)
ττ f  J L 

Assim, o tempo de amortecimento ta pode ser estimados por:


τa = (6.3-33)
 J 
 + 1
 JL 

enquanto o período das oscilações será:

2π 2π ττ f
τo = = 1/ 2
(6.3-34)
ωo  J 
 − 1
 JL 

Para J=1,2JL, t=2ns e tf=2ps, obtemos τo=0.06 ns ou uma freqüência fo=18 GHz. A fig.(6.3-10)
mostra a evolução de um pulso de luz de um laser, correspondente ao pulso de corrente que está
apresentado na parte de baixo. Na figura se pode ver as oscilações da intensidade de luz no início do
pulso, sendo perceptível que tais oscilações se atenuam desaparecendo após um certo intervalo de
tempo, como mostra a análise teórica que acabamos de executar.

Modulação
Nos resultados obtidos com a solução de pequenos sinais chegamos a uma freqüência de
oscilação ωo. Ela traz implicações sobre a modulação do dispositivo. Imaginemos um laser, operando
i t
em regime DC, a qual é aplicado um sinal com densidade de corrente j=joe ω . Para sinais com ω=ωo
teremos um efeito de ressonância, e disto, resultará distorções no sinal luminoso de saída. Por outro
lado, a eficiência da modulação será mais eficiente quanto mais próximos de ωo seja o valor de ω.
Acima de ωo a eficiência de modulação cai rapidamente à medida que ω aumenta. Para analisarmos
isto, vamos estudar as equações acopladas, tomando-se:
178 Fontes Ópticas para Comunicação

J ( t ) = J + jo e iωt (6.3-35)

e assumindo que:

n ( t ) = n o + δn ( t ) (6.3-36)

S( t ) = S o + δS( t ) (6.3-37)

onde no e So são os valores referentes ao regime estacionário.


Resolvendo-se as equações acopladas, em primeira aproximação, δn(t) e δS(t) serão dados
por:

δn ( t ) = δn o e iωt e δS( t ) = δS o e iωt (6.3-38)

As expressões serão soluções das eqs.(6.3-36) e (6.3-37), caso satisfaçam às eqs (6.3-15) e (6.3-16).
Com isto podemos obter a relação δS(0)/jo, que define a função transferência H(ω) de um laser sob
modulação. Ela será:

2
 J  1
 
H(ω) =
2  JL  ed (6.3-71)
2 2
1  J    J 
   − ω 2  +  + 1 ω 2
 τ f  Jo    J L 

O valor da freqüência de ressonância é obtido a partir da raiz do denominador, um polinômio


do quarto grau em ω. Apenas valores reais e positivos de ω são fisicamente aceitáveis. A fig.(6.3-11)
nos mostra [H(ω)]2 em função da freqüência para diferentes níveis de excitação. Na figura, fica
evidente as freqüências de ressonância do laser, as quais são função do nível de injeção. Caso
estejamos modulando um laser próximo de uma freqüência de ressonância a tendência do dispositivo
é ter uma resposta que apresenta instabilidades. Ou seja, poderá sofrer intensas variações de
intensidade em decorrência da alteração das condições de operação, como por exemplo: flutuações
de corrente ou temperatura. Isto se traduzirá em um excesso de ruído no sinal.

luz

corrente

Fig.(6.3-10) – Comportamento do pulso óptico de um laser sob a ação de um pulso


de corrente, em função do tempo.
Sistemas de Comunicação Óptica 179

10
Resposta à
5 Modulação
0

-5
dB
Io= 80 mA
-10

-15
60 mA
-20 50 mA

-25
1 2 3 4 5 6 7 8

Freqüência de Modulação (GHz)

Fig.(6.3-11) – Resposta de um laser à modulação para diferentes valores de corrente de excitação.

6.3-6 –Finalizando

Nos sistemas atuais, os lasers operam com o comprimento de onda central de, 0,85µm
(GaAs), 1,33µm (InGaAsP) e 1,55µm (InGasP). Afora os lasers há os leds que também operam nas
janelas acima citadas os quais apresentam diferenças bastante grandes em relação aos lasers. A
primeira a ser apontada é que os leds são fontes de luz incoerente enquanto os lasers são fontes de
luz coerente. Isto vai se refletir na pior relação sinal-ruído dos sistemas operados com leds.
Com os lasers a melhora da relação sinal-ruído vem com o aumento de potência óptica
enquanto o mesmo não ocorre com os leds. Outra diferença entre eles está nas características dos
seus espectros. A fig. (6.2-5) mostra os espectros de um led. Comparando-os aos de um laser,
apresentado na fig.(6.3-8) são claras as diferenças entre os seus espectros. Os lasers têm um espectro
que se caracterizam por apresentarem picos de intensidade, correspondendo aos modos longitudinais
que oscilam na cavidade do laser. Já os leds têm um espectro sem tais modos. Outra diferença é a
largura espectral, que é muito menor nos lasers do que nos leds.
As principais características das fontes de luz, para uma análise de projeto, são:

Potência
Velocidade de resposta
Largura de linha
Ruído

Outras características são importantes, como por exemplo, resistência mecânica, dependência da
temperatura do ambiente, confiabilidade, custo. Como se pode ver na fig.(6.2-3), a região ativa está
indicada como sendo constituída de uma liga e não de material puro. Isto ocorre porque, caso se
fizesse a região ativa de material puro, haveria a formação de defeitos na estrutura cristalina próximo
à interface com as camadas feitos com a liga. Tais defeitos são capazes de absorver luz por meio de
processos não radiativos, processos estes que causam aquecimento do semicondutor e de forma mais
acentuada nas circunvizinhanças das interfaces. Isto ocorre porque havendo defeitos estruturais estes
levam as regiões onde estão localizados a absorverem muita potência óptica o que causa sobre
aquecimento local. Com ele vem dilatações estruturais, também locais, que ampliam os defeitos
estruturais levando a maiores absorções de potência óptica que irão ampliar ainda mais os defeitos já
causados. Tal aquecimento produz deformações da rede cristalina que, por sua vez, eleva ainda mais
180 Fontes Ópticas para Comunicação

as absorções não radiativas, logo o aquecimento, e assim por diante causando processos
incontroláveis que inutilizam o dispositivo. Isto é principalmente verdadeiro no caso de lasers nos
quais a densidade de energia óptica é muito elevada podendo superar 1MW/cm2 o que aumenta em
muito a probabilidade da redução do tempo da vida útil do dispositivo.
7
Meio Físico de Transmissão

Introdução
O meio físico básico de um sistema de comunicação óptico é a fibra óptica. Como já foi dito
acima, outros meios poderão ser usados, como a atmosfera ou mesmo um líquido. Ele é o elemento
no qual a luz irá propagar transportando o sinal que contém a informação. No caso das fibras ópticas,
a grande vantagem é a sua capacidade de confinar a radiação em uma região do espaço, impedindo
assim que a luz se espalhe pelo espaço afora, desperdiçando energia. Ela é usada conectando os
pontos de partida (transmissor) e chegada (receptor) do sinal durante a transmissão servindo de
elemento de conexão entre eles.

7.1 – Fibra Óptica

Entre os três elementos básicos de um sistema de comunicação óptica, vamos iniciar nosso
estudo pelo meio físico. A fibra óptica é o meio de transmissão em um sistema de comunicação
óptica. Como já foi dito acima, outros meios poderão ser usados, como a atmosfera ou mesmo um
líquido.
O meio de transmissão é o elemento no qual a luz irá propagar transportando o sinal que
contém a informação. No caso das fibras ópticas, a grande vantagem é a sua capacidade de confinar a
radiação em uma região do espaço, impedindo assim que a luz se espalhe pelo espaço afora,
desperdiçando energia. Ela é usada conectando os pontos de partida (transmissor) e chegada
(receptor) do sinal durante a transmissão servindo de elemento de conexão entre eles.
Uma fibra óptica é um guia de onda de forma cilíndrica. No caso das telecomunicações a
fibra é feita de vidro de alta pureza (SiO2) o nn
qual exibe uma baixa perda óptica. nc
Também pode ser feita de outros materiais,
como os plásticos, apresentando neste caso C A SC A
N ÚC LE O
valores de atenuação mais elevados, mas se
prestando a aplicações específicas em
n
sistemas de automação de pequenas
dimensões (da ordem de metros). Uma
fibra típica é constituída de duas regiões, a
saber: núcleo e casca, como ilustra a
fig.(7.1-1). Na mesma figura está ilustrada
uma fibra chamada de gradual, na qual o
índice de refração varia gradualmente a Fig.(7.1-1) – Representação de fibras bastão
partir de um valor máximo no até um valor (acima) e gradual (abaixo).
Sistemas de Comunicação Óptica 186

menor nc. A descrição da propagação de luz dentro desta fibra pode ser feita por meio de uma
descrição geométrica ou ondulatória Na primeira, usando-se o conceito de raio de luz, a propagação
pode ser entendida como um processo de múltiplas reflexões totais que ocorrem na interface entre o
núcleo e a casca. Estas reflexões totais ocorrem porque o índice de refração do núcleo é maior do que
o da casca, havendo uma diferença percentual
(nn-nc)/nn. A descrição ondulatória, baseada
num tratamento eletromagnético da 107
propagação da luz, é mais completa do que a Egípcios
ondulatória, trazendo informações adicionais
de suma importância para o perfeito 105 Venezianos
entendimento do fenômeno da propagação de
luz no guia. Um dos pontos importantes é a Vidro Óptico
informação de que a luz viaja numa fibra na Atenuação 10 3

db/km
forma de um modo, uma estrutura Fibra Óptica
interferométrica que se forma no guia. 10
Dependendo das condições de construção e
operação de uma fibra, pode haver modos 1
propagantes, cada um deles com uma 0,1
Limite Físico
distribuição particular da luz nas direções Vidros Fluoretados
transversais à direção de propagação. Cada 3000 1000 1900 1966 1979
um destes modos também pode apresentar AC DC

diferenças entre si quanto a outras Fig.(7.1-2) – Levantamento histórico da atenuação dos


propriedades tais como: constante de vidros.
propagação, velocidade de grupo, coeficiente
de atenuação e mesmo polarização.

7.1-2 – VIDRO PARA FIBRA ÓPTICA

Um dos materiais básicos na manufatura de fibras ópticas é o vidro, também chamado de


sílica (SiO2). Ele é um material dielétrico, amorfo (por não ser cristalino), sendo um material básicos
com o qual as fibras são feitas. Embora o uso de fibras de vidro já ocorresse desde a década de
cinqüenta, com os feixes de fibras (bundles) para uso em medicina, até meados de década dos
sessenta poucos consideravam possível a aplicação de fibras de vidro como guias ópticos para
sistemas de comunicação. Um dos principais motivos estava nos altíssimos valores das perdas
ópticas dos vidros existentes, capazes de atingir 7.000 dB/km de atenuação na transmissão de luz.
Tal perda era algo tão grande que a quantidade de energia necessária para se obter apenas um fóton
de comprimento de onda igual a um micrômetro ao longo de um quilômetro seria igual a 2x1081
Joules. Considerando que a produção mundial de energia elétrica à época era de 3x1020 Joules, seria
necessário um armazenamento, sem perdas, por um período de 1061 anos a fim de que, transformada
em luz de comprimento de onda já especificado, houvesse apenas um fóton após um quilômetro de
fibra. Assim, quando Charles K. Kao, um pesquisador da Standard Telecommunications Laboratory,
Inglaterra, defendeu a idéia de que as fibras de vidro viriam a ser um meio de comunicação, ele foi
considerado um maluco! Na fig.(7.1-2) está apresentado um levantamento histórico da atenuação do
vidro, no qual se vê a tremenda redução ocorrida na atenuação do vidro a partir de 1966. Nela está
indicado o limite físico de atenuação, abaixo do qual com os vidros atuais de SiO2 elas não podem
ser reduzidas. Para tanto se fará necessário o uso de outros materiais, com os quais sejam feitos
vidros sintéticos baseados em substâncias fluoretadas.
No início da década dos anos setenta, quando Bob Maurer, Don Keck, Peter Schultz e Frank
Zimar obtiveram na Corning Glass Works fibras de vidro com perdas de 20 dB/km, se tornou viável
se pensar nelas como um meio promissor para uso em comunicação como guias de sinais ópticos.
Sistemas de Comunicação Óptica 187

Não apenas com avanços na qualidade dos vidros, mas também, no processo de fabricação das
fibras, o método CVD (Chemical Vapor Deposition), as perdas das fibras foram reduzidas a 7
dB/km em 1973 (Corning Glass Works). Em 1973, a Bell Laboratories, com o processo MCVD
(Modified Chemical Vapor Deposition), obteve fibras com 2,5 dB/km. Esse processo se tornou
padrão na fabricação de fibras nos anos seguintes. De 1974 a 1975 novos avanços ocorreram,
realizados por várias empresas nos Estados Unidos e no Japão, e as perdas das fibras ópticas foram
reduzidas a algo entre 2,0 e 1,5 dB/km. No final dos anos setenta a Ibaki Electrical Communication
Laboratory e a Fujikura Cable Works reportaram fibras com perdas de 0,47 dB/km, quando
operadas com luz de 1,2 µm. Atualmente, perdas abaixo de 0,1 dB/km são uma realidade para fibras
operando em 1,33 e 1,55 µm.
Ainda hoje, há novidades sendo apresentadas, como as fibras de dispersão deslocada, as
fibras compensadoras de dispersão, as fibras amplificadoras, estas no início, dopadas com Érbio e
mais recentemente com Túlio.

7.1-3 – PLÁSTICO PARA FIBRA ÓPTICA

Mais recentemente apareceram os polímeros, materiais plásticos com os quais são feitas
fibras ópticas, cuja aplicação envolve diferentes áreas, como comunicação, sensoreamento,
automação para citar algumas. Em particular, tais fibras de plástico têm encontrado um forte
potencial no cabeamento estruturado de edifícios e casas. À medida que a fibra se aproxima do
usuário final, a fim de que a banda
disponibilizada a ele chegue às 105 PMMA
elevadas taxas de transmissão, elas
vêm substituindo os famosos cabos 104
UTP, mesmo quando hoje
alcançaram a categoria 6. Entre os 1000 Polímero
plásticos importantes para a Fluoretado
manufatura de fibras ópticas Atenuação 200
encontramos: o PMMA dB/km 50
(polimetacrilato de metila), resina Polímero-Sílica
102
cíclica toda fluoretada (PF), núcleo
de resina não cristalina (Arton), 1 Sílica
núcleo de resina de silicone e
policarbonato (PC). As de 10-1
policarbonato e de resina não 300 500 700 900 1100 1300 1500
cristalina possuem boa resistência Comprimento de Onda (nm)
térmica podendo chegar a operar em
temperaturas de 145 oC e 150 oC, Fig.(7.1-3) – Dados de atenuação de fibras de PMMA, polímero
respectivamente, e têm aplicação fluoretado, polímero-sílica e sílica.
voltada para automobilística.
Na fig.(7.1-3) estão apresentados dados de atenuação de fibras ópticas feitas de PMMA,
polímero com sílica e a sílica pura. Como bem se percebe, as fibras de PMMA apresentam
atenuação bem superior àquela das fibras de sílica. Fundamentalmente, a elevada atenuação do
PMMA advém da absorção de cunho molecular, restringindo a sua utilização a comprimentos de
onda em torno de 650 nm, onde há um mínimo de atenuação, conquanto ainda seja bastante elevado.
Com o advento das fibras de polímeros fluoretados, houve um considerável avanço no sentido de se
obter fibras capazes de serem utilizadas nas faixas convencionais de 1300 e 1550 nm. Experimentos
laboratoriais já demonstraram a possibilidade de se trnasmitir sinais em fibras de plástico a taxas de
11 Gbit/s em distâncias de 100 metros com radiação com comprimento de onda de 1300 nm. Até
Sistemas de Comunicação Óptica 188

mesmo estudos para se estudar a possibilidade de uso de fibras de plástico em WDM já estão em
andamento.
A Tab.(7.1-1) apresenta, para termo de comparação, dados característicos de fibras plásticas de
diferentes tipos e materiais.

Características PMMA-ID PMMA-IG PC(mod)-ID PF

0,2 dB/m 0,15 dB/m 0,3 dB/m 0,05 dB/m


Atenuação 0,8 dB/m
Largura de 20 MHz.km 1,25 GHz.km 20 MHz.km 2 GHz.km*
Banda
Fonte de Luz 660 nm LED 660 nm DL 780 DL 1300 nm DL
156 Mbit/s–100 m 1,25 GHz –100 m 156 Mbit/s–100 m 1,25 Gbit/s–200 m
Taxa – Distância 200 Mbit/s-70 m 200 Mbit/s-70 m 2,5 Gbit/s-200 m
Resistência 85 oC 85 oC 125 oC Desconhecida
Térmica
Preço Médio Alto Baixo Alto
Taxa do Link ~200 Mbit/s Gbit/s Gbit/s Gbit/s
LAN (ATM-LAN) LAN (ATM-LAN) IEEE 1394-a Cabo Drop
Aplicações IEEE 1394-a IEEE 1394-a
Principais

Tab.(7.1-1) – Dados de fibras plásticas de diferentes materiais e tipos. Os dados em negrito são
laboratoriais. (ID – Índice Degrau, IG – Índice Gradual).

Nas telecomunicações, uma das razões da entrada no mercado das fibras de plástico, é por
conta da conectorização ser bastante cara no caso das fibras de vidro, principalmente as
monomodos. Assim sendo, mesmo que as fibras de vidro tenham uma banda bastante ampla (>
1Gbit/s), a sua ida até o consumidor final fica prejudicada por esse detalhe de custo de
conectorização, pelo menos até o dia de hoje. Em decorrência as fibras de vidro, como as usadas nos
sistemas convencionais de telecomunicação, têm sua aplicação voltada para redes de longa distância
e de alta capacidade. Nelas estão as redes públicas ou backbones de prédios comerciais.
Os cabos metálicos de par trançado (UTP – Unshielded Twisted Pair) são bastante usados
em cabeamentos horizontais de escritórios, e mesmo residências, em face do menor custo da sua
conectorização, podendo atender a demandas de taxas de transmissão de 100 Mbit/s, como é o caso
da Fast Ethernet, ou mesmo de 156 Mbit/s, caso das redes ATM (Asynchronous Transfer Mode).
Porem, caso as taxas de transmissão se elevem acima de 100 Mbit/s as coisas mudam. Os cabos
UTP começam a apresentar problemas relacionados à agressão eletromagnética ainda mais quando
há a necessidade de equalização de dados. Com fibras de plástico não surgem tais problemas, elas
são imunes à agressividade eletromagnética, seus conectores são mais baratos e de mais simples
instalação. Por outro lado ainda têm a limitação do tamanho de sua utilização, que fica restrito a
dimensões entre 50 e 100 m. A tab.(7.1-2) apresenta dados comparativos entre enlaces com cabos

UTP-5 FOV-GI FOP


100 Mbit/s~
Taxa de Transmissão 100 Mbit/s 1,2 Gbit/s
400 Mbit/s
Distância 100 m 2 km 50 m
Custo (US$/m) 0,57 1,9 0,47
Custo 6,7 189 19
Transceptor(US$)
Diâmetro Ext. (mm) 5 2-4 2-4
Tipo de Conector RJ-45 FDDI F-07 pn
Flexibilidade Boa MT SMI, RJ-45
EMC Razoável RJ-45,LC MINI-MT

Tab.(7.1-2) – Dados comparativos entre os meios de transmissão de redes em


escritórios e residências.
Sistemas de Comunicação Óptica 189

UTP, fibra de vidro convencional e fibra de plástico.


7.2 – Fibra Óptica
Uma fibra óptica é um guia de onda de forma cilíndrica. No caso das telecomunicações a
fibra é feita de vidro de alta pureza (SiO2) o qual exibe uma baixa perda óptica. Também pode ser
feita de outros materiais, como os plásticos, apresentando neste caso valores de atenuação mais
elevados, mas se prestando a aplicações específicas em sistemas de automação de pequenas
dimensões (da ordem de metros). Uma fibra típica é constituída de duas regiões, a saber: um núcleo
e casca, como ilustra a fig.(5.1-1).Na mesma figura está ilustrada uma fibra chamada de gradual, na
qual o índice de refração varia gradualmente a partir de um valor máximo no até uma valor menor nc.
A descrição da propagação de luz dentro desta fibra pode ser feita por meio de uma descrição
nn
nc
CASCA
NÚCLEO

Fig.(5.1-1) – Representação de fibras bastão (acima) e gradual (abaixo).


geométrica ou ondulatória.

Na primeira, usando-se o conceito de raio de luz, a propagação pode ser entendida como um
processo de múltiplas reflexões totais que ocorrem na interface entre o núcleo e a casca. Estas
reflexões totais ocorrem porque o índice de refração do núcleo é maior do que o da casca, havendo
uma diferença percentual (nn-nc)/nn cujo valor típico fica entre 0,001 e 0,002.
A descrição ondulatória, baseada num tratamento eletromagnético da propagação da luz, é
mais completa do que a ondulatória, trazendo informações adicionais de suma importância para o
perfeito entendimento do fenômeno da propagação de luz no guia. Um dos pontos importantes é a
informação de que a luz viaja numa fibra na
forma de um modo, uma estrutura
interferométrica que se forma no guia. θ1
Dependendo das condições de
construção e operação de uma fibra, pode
haver modos propagantes, cada um deles com
uma distribuição particular da luz nas direções
transversais à direção de propagação. Cada um
destes modos também pode apresentar
diferenças entre si quanto a outras θ2
propriedades tais como: constante de
propagação, velocidade de grupo, coeficiente
de atenuação e mesmo polarização.
Conquanto diferentes, as duas descrições Fig.(5.1-2) – Correspondência entre modos e raios de luz
guardam uma correspondência entre cada propagando em uma fibra óptica
modo e um raio com uma dada inclinação em
Sistemas de Comunicação Óptica 190

relação à interface núcleo-casca. A fig.(5.1-2) ilustra o que acabamos de dizer.


7.2-1 - APROXIMAÇÃO DE GUIAMENTO FRACO
Na maioria dos casos práticos, as fibras ópticas são feitas de tal forma que as variações de
índice de refração são muito pequenas. Mostremos isto para o caso simples de uma fibra degrau, na
qual há apenas um núcleo e uma casca, como indica a Fig.(7.2.1). No caso proposto a fibra apresenta
simetria axial advinda do fato do índice de refração depender apenas do raio da fibra, ou seja:
n=n(ρ). A dependência espacial do índice de refração na fibra degrau é:

n n 0<ρ<a
n= (7.2-1)
n c ρ>a

A determinação dos modos e suas propriedades é feita resolvendo-se a equação de onda


(7.2.2), dada abaixo:

∂ 2E
∇ 2 E + ε oµ o n 2 =0 (7.2-2)
∂t 2

onde E é o campo elétrico, n o índice de refração, εo e µo são, respectivamente, a permissividade


elétrica e permeabilidade magnética do vácuo.
Consideremos o parâmetro ∆=(nn-nc)/nn, sendo nn o índice de refração do núcleo e nc o índice
de refração da casca. Para os valores típicos de índice de refração encontrados em fibras, ∆«1, tendo
∆ um valor entre 10-2 e 10-3. Com isto, os modos confinados nas fibras propagam sob a condição
designada por guiamento fraco [6]. Nas condições de guiamento fraco, é possível se fazer uma
simplificação que reduz em muito a complexidade da equação de onda que resolve o problema dos
modos propagantes na fibra. Em primeiro lugar, as variações de fase nos campos elétrico e
magnético, em face das reflexões totais que ocorrem nas paredes do guia durante o guiamento da
radiação, passam a ter valores muito próximos. Isto significa dizer que para guias com guiamento
fraco, não há efeitos apreciáveis quanto à polarização dos campos. Dentro desta aproximação, sendo
irrelevantes os aspectos de polarização, os modos com polarização ao longo do eixo dos x ou dos y
passam a ser solução dos guias. Nessa aproximação, os dois conjuntos modos linearmente,
provenientes da solução da equação de onda, podem ser aproximados por um modo polarizado
segundo a direção x ou y. As soluções para essas polarizações têm a mesma constante de
propagação, e os modos são batizados com o nome de modos LP (Linearmente Polarizados).
Tomando-se ∇2 em coordenadas cilíndricas, devido à simetria axial da fibra, advinda do fato
do índice de refração depender apenas do raio da fibra, ou seja n=n(ρ), temos:

1 ∂  ∂  1 ∂2 ∂2
∇2 = ρ + + (7.2-3)
ρ ∂ρ  ∂ρ  ρ2 ∂θ2 ∂z 2

A solução da equação de onda (7.2-2), na forma harmônica para o tempo e a direção z, será:

E(ρ, θ, z, t ) = R (ρ)Θ(θ)ei (βz − ωt ) (7.2.4)

onde se está usando o método da separação de variáveis. Substituindo-se a solução (7.2.4) na


eq.(7.2.2) chegamos a:
Sistemas de Comunicação Óptica 191

 d 2 R 1 dR 
ρ2
] + Θ1 ddθΘ = 0
2

R
 2 +
 dρ ρ dρ 
[ 2 2
 + n k −β
2
2
(7.2.5)

da qual se obtém as seguintes equações :

d 2Θ
2
− q 2Θ = 0 (7.2.6)

d 2 R 1 dR  2 2 2 q2 
+ +  n k − β − R = 0 (7.2.7)
dρ 2 ρ dρ  ρ2 

sendo q a constante do método de separação de variáveis, e será um dos rótulos das soluções a serem
encontradas. A equação (7.2.6) tem como solução:

Θ(θ) = Θo e± iqθ q=0,1,2,3,... (7.2.8)

Os valores de q são inteiros a fim de que a solução seja de valor único, satisfazendo à condição:

Θ(θ+2π)=Θ(θ).

A eq.(7.2.8) corresponde a uma solução oscilante, podendo ser desmembrada em dois conjuntos de
soluções, a saber:

sen(qθ) ou cos(qθ)

Já a equação (7.2.7) é a conhecida equação diferencial de Bessel. Ela terá uma solução
independente para cada um dos possíveis valores de q. Desta maneira, as soluções da equação
referente à direção radial serão rotuladas por um número inteiro, como veremos adiante. Nesse
esquema os modos são ditos LPqm, sendo q o índice da solução azimutal e m o índice da solução
radial. Há uma outra forma de se classificar os modos, na qual os modos são classificados como
HEqm, EHqm, TE0m e TM0m. A correspondência entre essa última classificação e a dos modos LPqm é a
seguinte:

LP0m=HE1m

LP1m=HE2m, TM0m

LPqm=HEq+1,m, EHq-1,m (q≥2)

Como o guia bastão apresenta dois índices de refração distintos, nn (ρ<a) e nc (ρ<a) esta
equação deverá ser resolvida para cada região homogênea. Com isto teremos as equações:

d2R 1 dR  U 2 q 2 
+ + − R = 0 ρ<a (7.2.10)
dρ 2 ρ dρ  a 2 ρ 2 
d 2 R 1 dR  W 2 ν 2 
+ − + 2 R = 0 ρ>a (7.2.11)
dρ 2 ρ dρ  a 2 ρ 
Sistemas de Comunicação Óptica 192

onde:

( ) ( )
U 2 = n 2n k o2 − β 2 a 2 e W 2 = β 2 − n c2 k o2 a 2 (7.2-12)

são as constantes transversais de propagação, dentro e fora do núcleo, respectivamente. As soluções


das eqs.(7.2-10) e (7.2-11) serão do tipo:

  Uρ   Uρ 
AJ q  a  + BYq  a  , 0<ρ<a
    
R (ρ) =  (7.2.13)
CK  Wρ  + DI  Wρ  , ρ>a
 q  a  q
 a 

Para haver convergência da solução, e também se ter a continuidade do campo na interface entre o
núcleo e a casca, a solução será:

  Uρ 
 AJ q  
  a  iqθ
e ; ρ<a
 J q (U )
E qm (ρ, θ) =  (7.2-14)
 AK  Wρ 
 q
 a  iqθ
 e ; ρ>a
 K q (W )

Relembrando que a solução exponencial pode ser desmembrada em dois conjuntos de solução,
podemos escrever as soluções na forma:

  Uρ 
 AJq  a  cosqθ
  
  ; ρ<a
 J q (U ) senqθ
E qm (ρ, θ) =  (7.2-15)
 AK  Wρ 
 q
 a  cosqθ ; ρ > a
  
 K q (W ) senqθ

Os números q e m são números inteiros que rotulam os modos guiados, sendo que o primeiro
determina distribuição azimutal dos modos e o segundo a distribuição radial. O valor da constante A
é dado a partir da normalização do campo em função da potência óptica injetada na fibra, para cada
modo em consideração.
Além da continuidade do campo na interface núcleo-casca, a derivada dos campos (∂E/∂ρ)
na mesma interface (ρ=a) precisa ser contínua. Com a solução (7.2-15), essa continuidade leva à
equação:

UJ ′q (U ) WK ′q (W )
= (7.2.16)
J q (U ) K q (W )
Sistemas de Comunicação Óptica 193

Através das identidades:

± UJ′q ( U) = qJ q ( U) − UJ q ±1 ( U) (7.2.17)
± WK′q ( W ) = qK q ( W ) m WK q ±1 ( W ) (7.2.18)

J q +1 ( U) =  2q J q ( U) − J q −1 ( U) (7.2.19)
 U
K q +1 ( W ) =  2q K q ( W ) + K q −1 ( W ) (7.2.20)
 W

a eq.(7.2.16) pode ser re-escrita nas seguintes formas:

UJ q + 1 (U ) WK q + 1 (W )
= (7.2.21)
J q (U ) K q (W )

11
12

Fig.(7.2-2) – Distribuição radial dos dois modos LP de mais baixa ordem de uma fibra degrau para q=0
(LP00 e LP01).

UJ q − 1 (U ) WK q − 1 (W )
=− (7.2.22)
J q (U ) K q (W )

A eq. (7.2.16) nos leva a:

( )
U 2 + W 2 = n 2n − n c2 k o2 a 2 (7.2.23)

Com isso vemos que a eq.(7.2.11) depende apenas de uma variável, U ou W. Resolvendo-se as
equações transcendentais (7.2.21) e (7.2.22), se encontra para cada valor de q o valor de U (ou W) e
Modo HE11 Modo HE12 Modo HE41

Fig.(7.2-3) – Vistas frontais de modos de uma fibra do tipo degrau.


Sistemas de Comunicação Óptica 194

com ele a outra constante transversal de propagação W (ou U). Cada um dos valores determinados
corresponde a um modo de propagação numerado com a letra m.
Na fig.(7.2.2), estão apresentadas as distribuições radiais dos dois modos de mais baixa
ordem de uma fibra degrau, (q=0,m=0) (q=0,m=1). Na fig.(7.2.3), são apresentadas as fotos da
intensidade de luz dos mesmos modos LP00, LP01 e LP30. É interessante se comparar a distribuição da
intensidade com a dos campos calculados a partir da solução da equação de onda para que se perceba
o grau de realidade da descrição teórica.

7.2-2 – PARÂMETROS IMPORTANTES DE UMA FIBRA

Alguns parâmetros são de vital importância prática na definição das características de uma
fibra, a saber: freqüência normalizada (v), abertura numérica (AN), índice de refração efetivo (ne),
constante normalizada de propagação (b), os quais estão definidos abaixo.

Freqüência normalizada -

v = n 2n − n c2 k o a (7.2.24)

Abertura numérica -

AN = n 2n − n c2 ≈ n n 2∆ (7.2.25)

Índice de refração efetivo -

ne = β ko (7.2.26)

Constante normalizada de propagação -

b=
(n 2
e − n c2 ) (7.2.27)
(n 2
n − n c2 )

Exemplo (7.2-1) - Calcular a abertura numérica de uma


fibra óptica degrau.
α1 α1
Solução: θ1
θi
Chama-se de abertura numérica o maior ângulo de
incidência de um raio de luz incidente na interface da
secção de corte de uma fibra de modo a ser totalmente
refletido na interface núcleo-casca, como mostra a fig.(7.2- αc
4). θa θ c
Para solucionar o problema vamos primeiramente
considerar a figura superior da fig.(7.2-4) na qual
poderemos visualizar a situação de um raio de luz que Fig.(7.2-4) - Raio de luz incidindo na entrada do guia na
penetra no guia nas condições de reflexão total na interface condição de reflexão total na interface núcleo-casca e na
núcleo-casca, e uma segunda situação, na qual a reflexão na condição crítica.
interface núcleo-casca está na condição limite de ângulo
Sistemas de Comunicação Óptica 195

crítico. A situação na qual a refração na interface núcleo-casca se encontra naquela de ângulo crítico, define o
ângulo de incidência que é nomeado de abertura numérica do guia.
De princípio podemos dizer que, de acordo com a segunda lei de Snell, a refração na entrada do guia
nos leva à expressão:

n m sen θ a = n n sen α1 (7.2.27)

sendo nm o índice de refração do meio externo ao guia.


Na condição do raio de luz estar na condição de reflexão total na interface núcleo-casca, a segunda lei
Snell nos permite escrever a relação:
nc
sen θ c =
nn

Por outro lado, os ângulos α1 e θ1 são complementares de modo que, na condição limite supracitada
senαc=cosθc, o que nos permite escrever:

nn 1
sen θ a = 1 − cos 2 θ1 = n 2n − n c2 (7.2.28)
nm nm

e temos pois

 n2 −n2 
−1  n c 
θ a = sen   (7.2.29)
 nm 
 

O ângulo θa é conhecido como abertura numérica do guia de ondas, e o seu significado é aquele do enunciado
do problema. Em termos práticos, a abertura numérica informa qual a maior ângulo do pincel de luz que é
capaz de ser acoplado ao guia. Como sabemos, na prática, as fontes de luz emitem sua radiação preenchendo
um certo ângulo sólido. As lâmpadas de filamento comuns iluminam em quase todas as direções, conquanto a
intensidade luminosa possa variar com a orientação angular. Já em um laser de semicondutor a luz é emitida
segundo um cone de base elíptica, com ângulos de algumas dezenas de graus. Assim sendo, se queremos
acoplar a luz de uma dessas fontes com o guia que estamos estudando, a eficiência deste acoplamento
dependerá da abertura angular de emissão da fonte e da abertura numérica do guia.

Um outro parâmetro importante é o fator de confinamento, definido por meio da expressão:

Pn
Γ= (7.2.30)
Pn + Pc

onde Pn e Pc significam, respectivamente, as potências do modo localizadas no núcleo e na casca.


Assim, o fator de confinamento dá a fração da luz do modo que está localizada no núcleo da fibra,
em relação a toda a potência do modo.
A potência óptica pode ser calculada por meio da expressão:

a 2π 2
Pn = const.∫ ∫ E rdrdθ (7.2.31)
0 0

∞ 2π 2
Pc = const.∫ ∫ E rdrdθ (7.2.32)
a 0

Usando-se as expressões modais, eq.(7.2.14), se pode escrever:


Sistemas de Comunicação Óptica 196

2 π  cos (qθ) 
2
const. a 2  Ur    dθ
J 2m ( U) ∫0  a  ∫0  sen 2 (qθ) 
Pn = J m   rdr (7.2.33)

2 π  cos (qθ) 
2
const. a 2  Wr    dθ
K 2m ( U) ∫0
Pn = K m  ∫0  2
rdr 
(7.2.34)
 a   sen ( q θ) 

Substituindo-se os resultados das integrais (7.2.33) e (7.2.34) na eq. (7.2.30), e após algum exercício
algébrico, encontrado nas referências fornecidas neste texto, levam a:

1 d (bv) 
Γ=  b+ (7.2.35)
2 dv 

Tal quantidade está graficada na fig.(7.2-6), juntamente com b e d(vb)/dv.

1,0 d(vb)
dv Γ
b
0,6

0,2
0
1 2 3 4
v
Fig.(7.2-6) – Gráfico de b, d(bv)/dv e G, do modo LP01, em função de v.

7.3 – Dispersão em um meio dispersivo

O que é dispersão? A dispersão é, em última análise, aquela propriedade de um meio que


determina qual a velocidade de propagação de uma radiação no seu interior. O assunto foi discutido
no capítulo 2. Vimos que uma onda harmônica viaja com uma velocidade:

v=c/n (7.3.1)

Sendo n o índice de refração do meio.


Se, ao invés de uma onda harmônica, tivermos um pulso óptico, que corresponde a um
pacote de ondas harmônicas, havendo, pois, uma mistura de ondas, vimos no capítulo 2 que tal pulso
viaja com uma velocidade chamada velocidade de grupo, a qual é dada pela expressão:


vg = (7.3.2)
dk

cuja relação com a velocidade de fase, segundo a eq.(2.3-4) é:


Sistemas de Comunicação Óptica 197

v v
vg = = (7.3.3)
dv ω dv
1− k 1−
dω v dω

Levando-se em conta a dependência (7.3.1) se chega a outra forma de se calcular a velocidade de


grupo, feita por meio da expressão:

c c
vg = = (7.3.4)
 ω dn  N(ω)
n 1 + 
 n dω 

onde:

 ω dn   λ dn 
N(ω) = n 1 +  ou N(ω) = n 1 −  (7.3.5)
 n dω   n dλ 

como se obteve na sessão 2.3.


Desta forma a velocidade de grupo é calculada de forma semelhante à de fase, diferenciando-
se por se usar um índice de refração efetivo N(ω), chamado de índice de grupo ao invés do índice do
material n(ω). O índice de grupo incorpora o índice de refração do meio e um termo no qual se
explicita a sua dependência com a freqüência, que é o termo: (ω/n)(dn/dω). Se diz que esse termo,
envolvendo a derivada (dn/dω), contém a dispersão do meio. A fig.(2.3-3) apresenta o índice de
refração do SiO2 puro e dopado com germânio, ambos usados na manufatura de uma fibra degrau,
sendo a casca de vidro não dopado e o núcleo a sílica dopada. Também, nessa mesma figura, se pode
observar o comportamento do índice de grupo referente à sílica não dopada. Facilmente se percebe a
diferença de valores e de comportamento espectral do índice de grupo em relação ao índice de
refração do material correspondente. Um detalhe de suma importância é o mínimo que os valores de
N(λ) apresentam, situado em torno de 1,30. Os vidros usados na confecção das fibras usualmente
usadas nos sistemas de comunicação têm um mínimo para o índice de grupo em λ=1,312 µm.

7.3-1 - Tempo de Atraso em um Meio Dispersivo

Como vimos, as velocidades de fase e de grupo dependem do comprimento de onda da


radiação eletromagnética. Desta forma surge o conceito muito importante do ponto de vista prático: o
tempo de atraso, também discutido no capítulo 2. Como foi demonstrado nesse capítulo, o tempo de
atraso corresponde ao tempo gasto por um pacote de onda eletromagnética para percorrer uma dada
distância L, é dado por:

nL  ω dn  nL  λ dn 
τ= 1 + = 1 −  (7.3.6)
c  n dω  c  n dλ 

Em termos práticos, o tratamento da dispersão é feito usando-se a dependência do tempo de atraso


com o comprimento de onda ao invés da freqüência, de modo que a partir daqui, adotaremos o
mesmo procedimento. De posse da eq.(7.3.6) se pode calcular o tempo de atraso por unidade de
comprimento (T), em geral expresso em unidades de ps/km, e que será dado por:
Sistemas de Comunicação Óptica 198

n  λ dn 
T= 1 −  (7.3.7)
c  n dλ 

Desta forma, caso se esteja usando um pulso de luz para a transmissão de informação em um meio
material qualquer, este pulso sofrerá um alargamento no tempo (ou no espaço), advindo da
dependência de τ, ou T, com o comprimento de onda.
Por ser limitado em tempo, intrinsicamente, o pulso de luz possui uma faixa de freqüências,
ou comprimentos de onda, na sua composição espectral. Desta maneira, conquanto as diversas
freqüências que compõem o pulso sejam emitidas de um ponto ao mesmo tempo, à medida que o
pulso propaga as diferentes freqüências irão se separando no espaço, por conta da dependência da
velocidade de grupo de cada freqüência com a sua freqüência. Esta dependência, neste caso, ocorre
por intermédio da dependência índice de refração (ou do índice de grupo) com a freqüência (ou
comprimento de onda). Este efeito de atraso se rotula como sendo dispersão cromática, já que
depende do comprimento de onda, ou de uma certa forma da cor da luz. A fig.(2.5-4) ilustra a
propagação de um pulso óptico, estando indicada a distribuição espectral e o alargamento do pulso
devido aos retardos que cada freqüência sofre devido ao efeito da variação do índice de refração com
o comprimento de onda (dispersão cromática).
Sendo um pulso suave, aquele no qual a variação da função envelope varia pouco em relação
ao comprimento de onda ou a freqüência, podemos estimar o alargamento do pulso pela separação
entre os pulsos com comprimento de onda central λ e λ +∆λ.

∆τ = D λ L∆λ (7.3.8)

onde

1 ∂N
Dλ = (7.3.9)
c ∂λ

é chamado de coeficiente de dispersão, sendo, em geral, expresso em unidades de ps/nm-km. Na


eq.(7.3.8) foi usado o módulo de Dλ para que o alargamento seja obtido como uma grandeza positiva.
O coeficiente de dispersão por sua vez pode ser positivo ou negativo.
No caso da dispersão de origem cromática, como se mostrou na eq.(2.5.10), a eq.(7.3.9),
fornece:

λ ∂ 2n
Dλ = − (7.3.10)
c dλ2

No caso de uma fibra a dispersão nos fornece informações sobre a velocidade de propagação
dos seus modos. A relação é entre a constante de propagação dos modos β e a freqüência angular ω,
como segue abaixo.

β = β(ω)

Essa relação pode ser expressa usando-se outro par de variáveis, no caso: b e v, definidas nas eqs.
(7.2.18) e (7.2.15), respectivamente. A seguir veremos a razão disto.
Na eq.(7.2.15) se vê que v é proporcional a ω, desde que ko=ω/c. Quanto à outra variável, no
caso b, comecemos tomando em conta a eq.(7.2.18). Com ela podemos escrever:

b=
(n e − n c ) (n e + n c ) ≈ (n e − n c ) (7.3.111)
(n n − n c ) (n n + n c ) (n n − n c )
Sistemas de Comunicação Óptica 199

uma vez que ne≈nn≈nc, e dessa forma (ne+nc)≈(nn+nc)=2nc. Com a eq.(7.2.17) , a eq.(7.3.11) nos leva
a:

b≈
(β − n c k o ) = 1
β−
nc
(7.3.12)
(n n − n c )k o (n n − n c )k o (n n − n c )

1,0

0,8 01 11 21 12
02 22
0,6 03 13 23
b
0,4

0,2

0,0
0 5 10 15 20
v
Fig(7.3-3) – Curvas de dispersão de fibras degrau para vários modos HEqm.
sendo b proporcional a β. Daí se poder analisar a dispersão trocando-se a dependência β=β(ω) pela
relação b=b(v). As curvas obtidas com a relação b(v) são chamadas de curvas de dispersão, e são
bastante conhecidas na prática. Elas são obtidas resolvendo-se a equações transcendentais (eqs.
(7.2.21) e (7.2.22)), nas quais para cada valor de q se obtém um ou mais valores de b para um valor
de v. Cada um dos valores de b corresponde a um modo, pertencendo a uma curva que é rotulada
pelo índice m. Na fig.(7.3-3) estão apresentadas as curvas de dispersão de vários modos de uma fibra
degrau em gráficos b versus v.

7.3-2 - Dispersão em uma Fibra Multimodo

Com sabemos, uma fibra multimodo é aquela na qual se propaga mais de um modo. As
fibras multímodo padrão, com diâmetro típico de 50 µm ou 62,5 µm, possuem muitos modos. Cada
um desses modos propaga com uma velocidade de grupo própria, o que faz com que haja uma
dispersão modal, afora da dispersão cromática (dispersão devido à dependência do índice de refração
com o comprimento de onda da luz). Isto reduz a capacidade de transmissão das fibras multimodo. É
importante, pois, se estimar o alargamento de um pulso de luz que trafega em uma fibra multímodo,
o que é feito calculando-se as velocidades de grupo dos modos fundamental e o de mais alta ordem.
Esse é um cálculo aproximado, contudo produzindo bons resultados uma vez que nn≈nc, fazendo com
que os muitos modos tenham índices de refração efetivos muito próximos, e daí as suas constantes de
propagação. Consideremos, então, maior e a menor dessas constantes para os quais se tem:

ω
βo = nn (7.3.13)
c
ω
βc = n c (7.3.14)
c
Sistemas de Comunicação Óptica 200

t=0 L
t= vg

∆t L

m=2 m=1 m=0


Fig.(7.3-4) - Ilustração do alargamento de um pulso óptico pela diferença de velocidade de propagação dos modos que
o compõem. A área clara no pulso no tempo t=L/vg mostra o alargamento sofrido por ele.
O tempo de propagação entre os modos considerados é calculado dividindo-se o comprimento do
percurso L pela velocidade de grupo de cada modo (dω/dβ). Desse modo se obtém:

dβ o
τo = L (7.3.15)

dβ c
τc = L (7.3.16)

Tomando os resultados acima obtidos, podemos dizer que quando um pulso de luz viaja em uma
fibra multimodo de comprimento L, havendo neste pulso óptico inúmeros modos, ocorre um
alargamento deste pulso como ilustra a fig.(7.3-4). Nela vemos que o pulso hipotético constituído de
três modos do guia. Estando inicialmente juntos, eles se separam.

Chamando de 2στ esse alargamento, ele será calculado por:

 ω  dn dn   n − n c 
2στ = τn − τc = L   n − c  +  n  (7.3.17)
 c  dω dω   c 

Considerando-se que o núcleo e a casca têm, aproximadamente, a mesma dispersão, resulta que a
eq.(7.3.24) se reduzirá a:

L Ln n
στ = (n n − n c ) = ∆ (7.3.18)
2c 2c

Com isto, podemos calcular a que taxa se poderá transmitir sinais em uma fibra multimodo. Usando
a eq.(7.3.18) podemos definir a largura de banda de uma fibra (σf) multimodo através da relação:
Sistemas de Comunicação Óptica 201

10

6
GHz
4
∆=0,01
2 ∆=0,02
∆=0,05
0
0 1 2 3 4 5
Comprimento do Enlace (km)
Fig.(7.3-5) – Banda de uma fibra multímodo em função do comprimento do enlace para diferentes
valores de ∆.

1 c
σf = = (7.3.19)
2πσ τ πLn n ∆

Nesse resultado está embutida a idéia de que a fibra é um componente de resposta linear. Na fig.(7.3-
5) encontramos a largura de banda para fibras multimodo para diferente valores da diferença relativa
de índices de refração entre o núcleo e a casca (∆).
Na prática, um parâmetro importante que se usa é a razão:

στ 1 n
= (n n − n c ) = n ∆ (ps/km), (7.3-20)
L 2c 2c

que é facilmente calculada a partir da eq.(7.3.20). Para uma fibra multimodo com nn=1,46 e ∆=0,01
temos que (στ/L)≈24,3 (ps/km). Este parâmetro define o alargamento de pulso ocorrido por unidade
de comprimento (km) do enlace óptico.
Outro parâmetro de similar importância é o produto:

c
σf L = (7.3.28)
πn n ∆

A fibra com os dados usados no cálculo do atraso específico στ/L, nos fornece σfL=6,54 GHz-km, o
que permite se determinar a banda da fibra para um dado tamanho de enlace.

7.3-2 – Dispersão em uma Fibra Monomodo

A fibra monomodo é por definição uma fibra na qual só há a propagação de um único modo.
Isto é conseguido fazendo-se com que a freqüência normalizada v seja menor do que 2.405, o que
pode ser feito reduzindo-se o raio do núcleo, ou a diferença de índices de refração entre o núcleo e a
casca, ou o valor de ko=2π/λ; o que corresponde a aumentar o comprimento de onda λ da luz injetada
na fibra. Na prática, as fibras monomodo, para operarem nas janelas de 1300 nm e 1550 nm, são
obtidas reduzindo-se o raio do núcleo para um valor em torno de 3 a 5 µm.
Numa fibra monomodo, a dispersão modal, aquela criada pela diferença de velocidade de
grupo entre os modos que propagam no guia, desaparece, pois só há um único modo propagando na
fibra. Entretanto permanece a dispersão cromática e o próprio guiamento surge como fonte de
Sistemas de Comunicação Óptica 202

dispersão. Tanto que, como se discutirá adiante, se pode obter outras duas fontes de dispersão, além
daquela ligada apenas ao material da fibra: a dispersão do guia e a dispersão do perfil. Assim temos
três causas para estabelecer a dispersão de uma fibra monomodo do tipo degrau, a saber:

- Dispersão do material
- Dispersão do guia
- Dispersão do perfil

Para discutirmos as dispersões acima apresentadas vamos considerar o índice de refração


efetivo de um modo da fibra (ne=β/ko) e a constante normalizada de propagação (b). Tomando-se a
eq.(7.2.27), e (7.2.26) escrevemos:

n e2 = bn 2n + (1 − b)n c2 (7.3.29)

sendo nn e nc, os índices de refração do núcleo e da casca, respectivamente. Se define como índice de
grupo, referente a um modo da fibra, à grandeza Ne, por meio da expressão:

dβ d
Ne = = (n e k o ) (7.3.30)
dk o dk o

o que nos leva à expressão:

dn e dn
Ne = n e + ko = ne − λ e (7.3.31)
dk o dλ

Tal expressão é análoga à eq. (7.3.9), que define o índice de grupo de um meio material. A dispersão
como já foi discutida na seção (7.3.1) leva a um alargamento de pulso dado pela eq.(7.3.14).
No caso de uma fibra o mesmo procedimento é válido, ou seja um modo guiado possui um
índice de grupo efetivo Ne que corresponde a um índice de refração efetivo ne. Assim sendo, em uma
fibra óptica o alargamento do pulso στ, é dado por:

στ = Dλ σλ L (7.3.32)

onde

1 ∂N e
Dλ = (7.3.33)
c ∂λ

é chamado de coeficiente de dispersão, sendo, em geral, expresso em unidades de ps/nm-km. Na


eq.(7.3.32) foi usado Dλ sem módulo, como na eq.(7.3.14) pois, no caso das fibras é importante qual
é o sinal da dispersão uma vez que o coeficiente de dispersão pode ser positivo ou negativo. Há
fibras nas quais o coeficiente de dispersão para um dado comprimento de onda é positivo e noutro
comprimento de onda é negativo. Também pode ocorrer que para um mesmo comprimento de onda
duas fibras diferentes podem apresentar coeficientes de dispersão de sinais opostos. Nesses casos,
um a fibra pode ser usada como um elemento de compensação de dispersão de outra. Esse assunto
será discutido um pouco mais a seguir.
A partir da eq.(7.3.32) se pode definir a largura de banda στ de uma fibra mono modo,
usando-se a eq.(7.3.26); isso leva à seguinte expressão para στ:
Sistemas de Comunicação Óptica 203

1 1
σf = = (7.3.34)
2πσ τ 2πD λ σ λ L

Usando-se a eq.(7.3.29) na eq.(7.3.31), se pode obter uma expressão para o índice de grupo,
em função das grandezas fundamentais de uma fibra, a saber: os índices de refração do núcleo e
casca, o raio do núcleo e outras correlatas como as já comentadas b, v e o comprimento de onda da
luz envolvida no guiamento. Em face do intenso e tedioso nível de detalhes algébricos, fugindo do
escopo deste texto, passaremos aos resultados obtidos. Deixamos para o leitor desejoso de maiores
informações o capítulo 7 do livro de M. J. Adams, citado entre as referências no final do texto. Como
resultado dos cálculos, o coeficiente de dispersão de uma fibra é dado por:

Dλ = D m + Dg + D p + Dc (7.3.34)

onde

λ  n nΓ d 2n n n n d 2n c 
Dm =  + (1 − Γ )  (7.3.35)
c  n e dλ2 ne dλ2 

N 2n n n ∆ d 2 (bv)
Dg = v (7.3.36)
cλn e dv 2

d∆  d∆ 
n 2n λ 
dλ  dλ − n  2(Γ − b) + v d (bv) 
2
N
Dp = (7.3.37)
cn e  4∆ n n   dv 2 
 
 
1
Dc = −
λcn ef
[
N 2n 2n n ∆(Γ − b) − N e2 + N 2n Γ + N c2 (1 − Γ) ] (7.3.38)

Cada um desses termos têm a seguinte denominação:

Dm coeficiente de dispersão composta do material


Dg coeficiente de dispersão do guia
Dp coeficiente de dispersão do perfil
Dc coeficiente de dispersão composta

A dispersão composta é desprezível e dessa forma não será levada em consideração, sendo
computados os outros três termos.
Quanto ao significado de cada termo temos:

Dm coeficiente de dispersão composta do material –


Leva em conta a contribuição da dispersão provocada pelos materiais que constituem ao
núcleo e a casca encontrada nas derivadas segunda do índice de refração do núcleo e da
casca. A influência do núcleo é medida pelo fator de confinamento Γ e a influência da casca
é medida pela fração de luz nesta região (1-Γ).

Dg coeficiente de dispersão do guia –


Tem seu efeito vinculado ao guiamento da fibra, traduzido no termo [v d2(bv)/dv2].
Sistemas de Comunicação Óptica 204

Dp coeficiente de dispersãodo perfil –


É um termo da dispersão cuja dependência está fortemente ligada ao termo de variação de índice de
refração entre núcleo e casca ∆.

2
1,4 v d ( bv )
dv 2 d ( bv )
dv
1,0
Γ

b
0,6

0,2

-0,2
1 2 3 4
v
Fig.(7.3-6) - Gráfico de, b d(bv)/dv e Γ, do modo LP01, em função de v.
30
Dg
20
Dm
10 Dg + Dm + Dp
D
0
(ps/nmkm) Dp
-10

-20

-30
1100 1200 1300 1400 1500 1600 1700
Comprimento de onda (nm)
Fig.(7.3-7) – Coeficiente de dispersão de uma fibra
Fig.(7.3-8) – Coeficiente de dispersão do modo fundamental de uma fibra
monomodo, monomodo.
tipo degrau, sendoAsindicados
linhas mais claras
os seguintes
correspondem às diversas componentes de dispersão e a escuracomprimentos
a dispersão total.
de onda: 870, 1312 e 1550 nm.

A fig.(7.3-6) nos mostra o termo vd2(bv)/dv2 em função da freqüência normalizada v, juntamente


20
com os parâmetros d(bv)/dv, Γ e b. Na fig.(7.3-7) está apresentado
0
o coeficiente de dispersão de uma
fibra monomodo, tipo degrau, calculado com os três efeitos -20 considerados não desprezíveis. Nessa
figura estão indicados três comprimentos de onda, referentes

-40 a três janelas de operação, a saber: 870

nm, 1312 nm e 1550 nm. Como se pode perceber, (ps/nmkm)


a dispersão
-60 em 1316 nm é nulo, de modo que
-80
nessa fibra esse comprimento de onda será o ideal para o -100
desempenho do sistema de comunicação,
quanto ao efeito da dispersão. Nos outros dois comprimentos-120 de onda a dispersão provocará efeitos
de alargamento do pulso, restringindo a sua propagação, quer
-140 com um valor negativo (caso da fonte
600
de luz ter comprimento de onda igual a 870 nm) ou positivo (caso da800
fonte 1000
de luz1200 1400 1600
ter comprimento de
Comprimento de Onda (nm)
onda igual a 1550 nm).

Um fato interessante e importante a ser mencionado é quanto a competição entre os três


efeitos de dispersão acima citados. Isso é visto na fig.(7.3-8). Nela são apresentados os coeficientes
de dispersão referentes a cada um dos efeitos supracitados e a soma de todos eles. Na figura estão
indicados os comprimentos de onda nos quais a dispersão do material é nula e a dispersão total
também o é. O primeiro em 13** nm como é característico da sílica. O segundo em 1550 nm,
corresponde a um comprimento de onda maior do que aquele apresentado na fig.(7.3-8), na qual o
coeficiente de dispersão da fibra era nulo em 1312 nm. Nesse segundo caso, o coeficiente de
dispersão é nulo numa importante janela de transmissão óptica qual seja 1500 nm. Tal importância se
Sistemas de Comunicação Óptica 205

deve ao fato de 1550 nm ser o comprimento de onda em que há o mínimo de atenuação, como
veremos adiante, além da disponibilidade de amplificação óptica com as fibras dopadas com Érbio
neste mesmo comprimento de onda. Fibras que reúnem essa propriedade de ter o mínimo de
atenuação em conjunto com a nulidade do coeficiente de dispersão, em 1550 nm, são denominadas
fibras de dispersão deslocada. Essa denominação explicita o deslocamento da dispersão nula da
janela em torno de 1300 nm para 1550 nm. Tal deslocamento é obtido por meio da contribuição da
dispersão do guia. Vemos que o coeficiente de dispersão do guia é positivo na faixa de comprimento
de onda em que o coeficiente de dispersão composta dos materiais é negativo. Isso faz o coeficiente
de dispersão total ter o seu valor nulo levado para comprimentos de onda maiores.
A fim de se ter uma primeira estimativa quanto aos atrasos de uma fibra monomodo,
tomemos um modo cuja luz é a de um laser emitindo em 1300 nm e com uma largura espectral σλ=1
nm (laser monomodo). Consideremos que a fibra tem, na janela de 1300 nm, um coeficiente de
dispersão igual a 1ps/nm-km. Neste caso teremos στ=1ps/km o que corresponde a uma largura de
banda da fibra de 159 GHz-km.

7.3-3 – Dispersão em Fibra Gradual

Para complementar a nossa discussão sobre dispersão, tomaremos o caso de uma fibra de
interesse em alguns sistemas de comunicação óptica, a fibra gradual. No caso de uma fibra gradual o
perfil de índice de refração é dado por:
  r 
2

n n 1 − 2∆   r ≤ a
n (r ) =   a  (7.3-39)

n c r>a

onde a é o raio do núcleo da fibra e ∆≈(nn-nc)/nn, já definida anteriormente. Aqui iremos apenas citar
o resultado quanto ao alargamento de um pulso em uma fibra gradual, e citamos o livro de Saleh
eTeich (vide referências no final) como referência ao leitor que deseje maior grau de
aprofundamento.
No caso dessas fibras o alargamento do pulso é dado por:

Ln n 2
στ = ∆ (7.3-14)
4c

De imediato se percebe que o alargamento do pulso depende do quadrado de (∆/2), enquanto o de


uma fibra multimodo depende de ∆/2. Com isto as fibras graduais produzem alargamentos menores
do que os das fibras multimodo. A razão porque têm menor dispersão advém do fato do efeito de
equalização da velocidade de propagação entre os modos. Uma forma de visualizar esse efeito é
usando-se a noção de raios de luz. Na fig.(7.3-9) encontramos uma descrição gráfica de uma fibra
gradual (parabólica) e da forma como dois modos estão propagando. Cada um deles está
representado por um raio de luz (linha mais clara) sem sofrer reflexões abruptas, por conta da
variação gradual do índice de refração visualizado na figura. Na figura se vê que dos dois raios
Sistemas de Comunicação Óptica 206

desenhados, um está propagando percorrendo trajetórias mais distantes do eixo óptico


(máximo do índice de refração) do que o outro. O primeiro, conquanto percorra um percurso maior,
o faz com velocidade (c/n) que cresce à medida que se afasta do eixo óptico, por conta da redução do
índice de refração. O outro, percorre um percurso de menor comprimento, afastando-se menos do
eixo óptico. Entretanto, esse menor percurso é percorrido com uma velocidade menor, uma vez que
por se afastar menos do eixo óptico o índice de refração decresce menos do que ocorre para o
percurso do primeiro raio comentado. Como conseqüência o percurso percorrido por esse segundo
nn

nc

Fig.(7.3-9) – Representação de uma fibra gradual na qual estão assinalados dois raios de luz com percursos
diferentes por serem referentes a modos diferentes.
raio é feito mais lentamente. No todo o tempo de percurso dos dois finda por ser aproximadamente
iguais o que reduz a dispersão.
Apenas para comparar, tomemos os mesmos valores de nn, e ∆, com o que obteremos
στ/L=0,122 ps/km, o que mostra um alargamento por unidade de comprimento quase duzentas vezes
menor do que aquele produzido por uma fibra multimodo. Esse é um motivo pelo qual as fibras
graduais assumem alguma importância em enlaces ópticos, substituindo as fibras multimodo, dado
ao melhor desempenho da sua dispersão. Isso se restringe ao caso de enlaces locais, pois, quando
comparadas com as fibras monomodo, usadas em enlaces de comprimentos bem maiores, elas não
são competitivas.

7.4 - Atenuação em Fibras

Outro dado de suma importância numa Valores para 1ppm


3,0 V+4
fibra óptica é a atenuação da intensidade de luz
de um modo à medida que ele propaga nela. A 2,5
OH-1
atenuação tem origem em dois processos 2,0 Cr+3
básicos, a saber:
dB/km 1,5 OH-1
Cu+2
- Absorção 1,0 OH-1
Fe+3
0,5
- Espalhamento de luz
0
400 600 800 1000 1200 1400
No primeiro processo ocasionado pela
interação da luz propagante com o material Comprimento de onda (nm)
presente na fibra e que provoca atenuação do Fig.(7.4-1) – Absorção em dB/km causada por
sinal luminoso. Esse processo gerador pode ser diferentes íons para concentrações de 1ppm.
separado em dois tipos de atenuação: intrínsecos
e extrínsecos.
O processo denominado intrínseco explicita a interação da radiação com um ou mais
elementos que participam da constituição do vidro. os átomos que compõem o material da fibra
absorvem a energia dissipando-a para o meio ambiente. O SiO2 é um exemplo básico de um dos
elementos que interagem com a luz causando absorção da luz e por conseqüência atenuação.
Sistemas de Comunicação Óptica 207

Espectralmente essa interação ocorre no infravermelho tendo pouca influência no intervalo de


interesse das telecomunicações, a saber :800 a 900 nm e 1200 a 1500 nm.
Os processos de absorção extrínsica estão ligados a impurezas presentes no vidro, entre os
quais são citados diversos íons: Fe+2, Cr+3, V+4, Cu+2 e OH-7. Na fig.(7.4-1) estão graficados, com
barras nos comprimentos de onda referentes àqueles dos respectivos máximos de absorção, os
valores de absorção desses íons em dB/km. Os valores de absorção correspondem a concentração de
íons de 1ppm (parte por milhão). Em particular se destaca a absorção das hidroxilas OH, para as
quais se há três picos correspondentes aos seguintes comprimentos de onda: 950, 1240 e 1380 nm.
O segundo processo, o espalhamento, é um processo de interação através do qual a energia
eletromagnética é transferida para um átomo, molécula, levando-o a oscilar e re-emitir esta energia.
O mais importante desses efeitos é o espalhamento Rayleigh o qual é causado por não
homogeneidades com dimensões pequenas comparadas com o comprimento de onda da radiação.
Elas são produzidas durante o próprio processo puxamento da fibra quando flutuações de densidade
e de composição se estabelecem. Tais defeitos fazem parte da luz dos modos propagantes na fibra
serem espalhadas, e por isso de confinada essa porção passa a propagar em todas as direções do
espaço. Com isto, aquela fração de luz do modo que foi espalhada sai da condição de guiamento
sendo irradiada para fora da fibra, ou nos casos de fibras multimodo ser transferida para outros
modos. A fig.(7.4-2) ilustra como o processo de espalhamento reduz a intensidade de um modo na
medida em que a luz é irradiada pelo centro espalhador em todas as direções. Isso está indicado, na
fig.(7.4-2), pelos raios de luz nela desenhados, observando-se o ângulo máximo dentro do qual a luz
na fibra é confinada e guiada. No caso de espalhar luz para fora do guia se cria atenuação do modo,
pois a luz perdida para fora do guia reduz a intensidade luminosa do modo.
A dependência espectral do espalhamento Rayleigh pode ser descrita por meio de uma
equação muito simples, a saber:

4
Λ
α ( λ ) = A  (7.4.1)
λ

onde A=1,7 dB/km e Λ=850 nm.

Aqui vamos destacar uma interessante curiosidade


5
sobre o efeito Rayleigh. Ele é o responsável pela cor
azulada do céu. Por depender do inverso da quarta potência 4
Atenuação (dB/km)

do comprimento de onda, a luz visível do sol que é mais


espalhada é a de menor comprimento visível, no caso a luz 3
azul.
2
A inclusão de dopantes na composição do material
do núcleo, conquanto seja necessário a fim de elevar o valor
1
do índice de refração dessa região, também eleva o efeito
do espalhamento Rayleigh. Entre tais dopantes citamos: 0
800 1000 1200 1400
GeO2, P2O5, entre outros.
Comprimento de onda (nm)
Outras causas de espalhamento de luz em uma fibra
vem do encurvamento da fibra, de defeitos na interface
Fig.(7.4-3) – Atenuação decorrente de
entre o núcleo e a casca, ou na variação das dimensões do
espalhamento Rayleigh segundo a eq. (7.4.3)
diâmetro da fibra.

λ Dispersão (ps/nm-km) Atenuação (dB/km)


0,87 -80 1,5
1,312 0 0,3
1,55 +17 0,16

Tab.(7.1-2) – Valores de Coeficiente de dispersão e atenuação para fibras de


SiO2 em três janelas de comprimento de onda.
Sistemas de Comunicação Óptica 208

A fig. (7.4-4) mostra o comportamento espectral da atenuação total de uma fibra óptica de
sílica. Como se pode perceber, a atenuação total apresenta um mínimo absoluto em 1550 nm, uma
das janelas importantes de transmissão de sinais em telecomunicação. A Tab.(7.1-2) apresenta dados
de dispersão e atenuação típicos de uma fibra óptica nas três janelas de operação de sistemas de
comunicação óptica (850, 1300 e 1550 µm).

_________________________________________________________________________________

Exemplo (7.1-1) – Calcular a perda, em dBm, sofrida por um modo ao propagar em um enlace de
comprimento L devido à atenuação da fibra.

Solução

O coeficiente de atenuação α de um meio permite escrever que a intensidade de luz


propagando neste meio é dada por:

I ( z ) = I o e − αz (7.4.2)

ou, como potência:

P(z) = Po e −αz (7.4.3)

onde z é a direção de propagação e α é chamado de coeficiente de absorção tendo como unidade de


medida o recíproco de comprimento. Para enlaces ópticos é interessante expressar o coeficiente de
absorção em termos de km-1, conquanto em outras aplicações, como em Física, ele seja expresso
usualmente em cm-7. Usando a definição de dBm podemos escrever as potencias em z e em z=0, na

Comprimento de onda (nm)


700 800 900 10001100 13001500 2000
10

3 Perda
Espa
Ray lhament
Atenuação (dB/km)

Total
1 leigh o

0,1

0,01
Absorção Absorção
0,03 U.V Infravermelho

0,001
2,0 1,8 1,6 1,4 1,2 1,0 0,8 0,6
Energia do fóton (eV)

Fig.(7.4-2) – Espectro típico de atenuação de fibras de sílica.

Fig.(7.4-2) – Ilustração de espalhamento de luz guiada de um modo por um defeito. Na figura se vê o ângulo
no qual há confinamento da luz e a intensidade dos modos antes e depois do espalhamento.
forma:
Sistemas de Comunicação Óptica 209

 P( z ) 
P(z) = 10 log  (7.4.4)
 1mW 

 P 
Po = 10 log o  (7.4.5)
 1mW 

de forma que a perda em dBm será

 P(z)   P(z)   P(z) 


∆P = P(z) − Po = 10log  −10log  = 10log  (7.4.6)
 1mW   1mW  P
 o 

Se queremos expressar a perda como uma grandeza positiva, basta usarmos a expressão:

 P(z) 
∆P = −10 log 
P
 o 

pois P(z) sendo menor do que Po=P(z=0) o log(P(z)/Po) será negativo.


Uma forma prática de se escrever a atenuação é expressá-la em dBm/km, o que denotaremos
~
por α , de forma que a perda em um enlace de comprimento L é dado simplesmente por α ~ L. Tal
-1
grandeza e o coeficiente de absorção α dado em km são relacionados pelas relações:

~  dBm  = ∆P = − 10 log P(z)  = − 10 log(e − αL ) = 4,34α(km − 1 ) ou


α
 km  L L  P  L
 o 
~ (dBm / km)
α(km −1 ) = 0,230α

Atualmente, estudos estão sendo desenvolvidos no sentido de se obter novos materiais para a
fabricação de fibras ópticas. Um dos materiais mais promissores são os vidros fluoretados, com os
quais se esperam coeficientes de atenuação menores do que 0,01dB/km para radiação
eletromagnética em torno de 2000 e 4000 nm (ou 2 a 4 µm). Tais vidros têm um pico de absorção no
infravermelho longíncuo, acima de 50.000 nm (ou 50 µm). Com isto, podemos ter indicações de
novas janelas com as quais sejam operados os futuros sistemas de comunicação óptica. Nestes casos,
podemos perceber que os enlaces poderão ser estendidos a limites de comprimento muito maiores
que os atuais; basta vermos que 3dB de queda de intensidade ocorrerá em 300 km, contra 15 km para
um sistema atual com perdas de 0,2 dB/km. Infelizmente, tanto tem havido problemas físicos quanto
aos materiais em desenvolvimento quanto aos componente optoeletrônicos operando em
comprimentos de onda em torno de 2000 nm.

7.5 – Tipos de fibras ópticas


Fibras Multimodo

O uso comercial das fibras ópticas exigiu uma evolução contínua das estruturas de fibras
produzidas, buscando-se alcançar características capazes de satisfazer às emergentes necessidades
Sistemas de Comunicação Óptica 210

do mercado. As primeiras fibras usadas eram multímodo, disponibilizadas no final de 1970, e tendo
um núcleo de 50 ou 62,5 µm. As fibras multímodo permitiam taxas de transmissão de 50 Mb/s, com
enlaces de comprimento de até 10 km sem repetidores. As fontes de luz operavam na janela de 800 a
850 nm provenientes de leds e lasers de GaAs-GaAlAs. Para a essa janela óptica as perdas eram de
1,5 dB/km e dispersão de –80 ps/nm-km. Na época os lasers possuíam limite de suas potências
diponíveis, algo como 1mW. Primeiramente usadas para enlaces de longa distância e no
entrocamento entre centrais, as fibras multímodo foram rapidamente substituídas pelas fibras
monomodo cujo núcleo tem diâmetro de 8 a 9 µm.
Fibras Monomodo Padrão

As fibras monomodo possuem uma banda superior à banda da fibra multímodo as quais
passaram a ser usadas em enlaces de redes locais com comprimento máximo de 1 km. Já em 1983
começaram a ser usadas as fibras monomodo operadas com radiação de comprimento de onda na
janela de 1310 nm. Essa radiação era fornecida pelos lasers de ligas quaternárias InGaAsP, em lugar
dos lasers de GaAs-GaAlAs. Com dispersão nula nesse comprimento de onda, e perdas em torno de
0,3 dB/km, as taxas passaram a ser de 1,7 Gb/s e o comprimento dos enlaces, sem repetidor, passou
a alcançar 50 km. A norma da ITU (International Telecommunication Union) para essas fibras,
chamadas fibras padrão, é a G-652.
O aparecimento dos lasers em 1550 nm ocorreu se buscando operar no mínimo da atenuação
de uma fibra de SiO2, com um valor de atenuação de 0,20 dB/km. Um enlace operando nesse
comprimento de onda muito ajudaria quanto ao problema de potência das fontes de luz conquanto a
dispersão dessa nova janela sendo de 17 ps/nm-km limitava a taxa de transmissão a 2,5 Gb/s. Com
lasers monomodo em 1550 nm os enlaces sem repetidor passaram a ter comprimentos de até 70 km.

Fibras de Dispersão Deslocada

Essa alta dispersão levou ao aparecimento de uma nova fibra, a de dispersão deslocada, nas
quais a dispersão é nula em 1550 nm. Essa dispersão nula foi alcançada por meio de um redesenho
do perfil de índice de refração capaz de anular a contribuição da dispersão do material (dispersão
cromática) com a dispersão do guia. As fibras de dispersão deslocada passaram a ser
comercialmente disponíveis a partir de 1985, tendo como norma ITU a G-653.
Uma das coincidências maravilhosas da natureza permitiram que as fibras, operando na
janela de 1550 nm, também pudessem amplificar luz caso fossem dopadas convenientemente com
íons Er3+. Isso deu lugar aos amplificadores de fibras dopadas com érbio o que levou de início à
crença de que as fibras de dispersão deslocada seriam a fibra ideal para telecomunicações.
Posteriormente, com a entrada dos efeitos não lineares essa posição foi revisada. Entretanto tais
fibras foram utilizadas em enlaces submarinos e em quantidades significativas nos backbones
terrestres.
Uma variante da fibra sem dispersão deslocada foi desenvolvida e normalizada pela ITU
G.654, a fibra de baixa atenuação para a janela de 1550. Possuindo uma perda típica menor do que
0,18 dB/km essa fibra tem a desvantagem de ser mais cara do que as demais, restrigindo o seu uso a
enlaces submarinos sem repetidores. Nesse caso seu preço elevado é compensado pela liberação do
uso de dispositivos ativos intermediários.

Fibras de Dispersão Deslocada não Zero

Com o fato dos efeitos não lineares passarem a ser um limitante importante para os enlaces
na terceira janela óptica, principalmente com a elevação dos níveis de potência e a entrada dos
sistemas multiplexados em comprimento de onda. São os enlaces WDM, denominados DWDM
(Dense Wavelength Division Multiplexing) por terem centenas e mesmo milhares de canais,
Sistemas de Comunicação Óptica 211

exigindo que a separação espectral entre eles possa ser tão estreita quanto décimos de nanômetro.
Nesse caso os efeitos não-lineares, como a mistura de quatro ondas (FWM – Four Wave Mixing)
produz sérios problemas de degradação do sinal. Esse fenômeno ocorre a elevados níveis de
densidade óptica (MW/cm2) para os quais se produz a combinação de duas ou três freqüências
(ou comprimentos de ondas) gerando freqüências alienígenas ao enlace como está indicado na
fig.(3.1-2).

Fig.(7.5-1) – Esquema dos comprimentos de onda gerados pelo efeito FWM para duas (esquerda) e
três (direita) componentes primárias.

Nos sistemas DWDM, nos quais os comprimentos de onda dos canais estão igualmente
separados, a mistura de ondas pode criar comprimentos que estão na faixa dos canais existentes.
Se, se considerar que o número de comprimentos de onda FWM cresce geometricamente com o
número de comprimentos de onda primários, e se os campos gerados podem interferir de modo
construtivo ou destrutivo com tais comprimentos primários, o resultado é o comprometimento da
figura de olho e da taxa de2λerro λ
por bit (TEB). Esse efeito
λ2 2λ1+λ2
depende das características de
λ1 λ2 λ3
1−λ2 1
dispersão das fibras, via o casamento de fase das
λ113 λ213 λ223 λ132 λ221 λ231 λ331 o que levou ao
ondas propagantes,
desenvolvimento de fibras com dispersão deslocada não λnula 123 (NZDSF
λ312 λ321– Non Zero Dispersion
Shifted Fibers). O casamento de fase é uma condição que λ λ332
112 leva ao acoplamento dos diferentes
comprimentos para a geração de novos comprimentos. Quando há o casamento de fase, as ondas
propagam com constantes de propagação iguais o que leva ao máximo de eficiência da referida
geração. No caso de haver dispersão zero em 1550 nm, os comprimentos de onda no entorno desse
valor sofrem pesados efeitos ópticos capazes de deteriorar a recepção dos mesmos com qualidade.
Visando reduzir ao máximo esses efeitos lineares se criou as fibras de dispersão deslocada
não nula, citadas internacionalmente como NZDF (Non Zero Dispersion Fiber). Nas fibras NZDF,
a diferença da velocidade de propagação dos seus modos, cada um com um comprimento de onda
central diferente, permite que o FWM seja muito atenuado.
Outros efeitos não-lineares que comprometem o desempenho dos enlaces ópticos são:
Auto-modulação de Fase, Modulação Cruzada de Fase, Espalhamento Estimulado Brillouin e
Raman. Cada um deles traz seus problemas para o desempenho dos enlaces ópticos. Já o efeito
Raman pode ser usado para a construção de amplificadores ópticos possuidores de propriedades
vantajosas. Adiante serão tecidos algum espaço para esses efeitos.
Com as NZDF foi possível se chegar a taxas de modulação de 10 Gb/s operantes em
enlaces de 250 km sem compensação de dispersão. Isso é possível na medida em que as fibras
NZDF possuem um mínimo de dispersão capaz de induzir os efeitos não lineares e tendo um
valor máximo que não permita comprometer o seu desempenho de dispersão.
Outras ações, como o aumento do campo modal das fibras, vêm no sentido de reduzir a
densidade óptica.

Dispersão da polarização modal


Sistemas de Comunicação Óptica 212

Secção de Corte de Fibras

• Circular • Elíptica • Tensionada

Propagação em uma Fibra Perfeita

Polarização x

Polarização y

Propagação em uma Fibra Anisotrópica

Fig.(7.5-2) – Ilustração dos defeitos que produzem anisotropia óptica numa fibra, sendo indicados os eixos
principais. Abaixo a ilustração da separação dos modos de diferentes polarizações pela anisotropia.

Outro problema oriundo das novas taxas de modulação acima de 10 Gbit/s, que faz
necessário esforços de pesquisa e desenvolvimento em fibras, é o caso de efeitos como a dispersão
da polarização modal (PMD – Polarization Mode Dispersion). Um efeito de dispersão que ocorre
em face da birrefrigência decorrente de imperfeições como não circularidade, ou de efeitos
externos como tensões. A fig.(7.5-2) ilustra tais perturbações na fibra. Havendo anisotropia,
surgem eixos principais, seguindo a anisotropia óptica criada, e a fig.(7.5-2) indica, nos casos em
que há anisotropia, os eixos principais do meio perturbado. Uma onda, com polarização
orientada em uma

dessas direções, propaga com um índice de refração diferente em relação àquela com a
polarização orientada segundo o outro eixo principal.
Um modo em uma fibra possui um campo elétrico que gira segundo uma hélice. Assim
sendo, o modo pode ser decomposto em dois modos componentes, cada um com um estado de
polarização orientado segundo um dos eixos principais do meio. Isso resulta em que a fibra,
mesmo monomodo, passa a ser multímodo, pois possui dois modos cada um referente a uma das
possíveis polarizações. Essa diferença de velocidade de propagação também é chamada de atraso
diferencial de grupo, ou DGD (Differential Group Delay), de modo que se encontra ambas as
referências para um mesmo fenômeno PMD ou DGD.
Devido ao fato de cada modo propagante, possuir uma polarização própria e havendo
diferença de propagação entre eles, por conta das diferenças de índice de refração, haverá o
alargamento do pulso óptico. Aquilo que foi descrito aqui não se dá homogeneamente em longos
trechos da fibra. Isso ocorre em pequenos trechos, sendo diferentes entre si de modo aleatório.
Sistemas de Comunicação Óptica 213

A PMD é um fenômeno que sendo aleatório ao longo da fibra é uma variável do enlace
variando temporalmente com a ocorrência de eventos na rede tais como vibrações e tensões; além
de depender da temperatura e comprimento de onda. Os valores instantâneos da PMD se
comportam segundo uma distribuição maxwelliana cujos valores médios aumentam com a raiz
quadrada do comprimento do enlace, como ilustra a fig.(7.5-3). Este valor médio é o que
comumente se refere à PMD da fibra ou do enlace feito com ela. Por tal motivo, a PMD é
quantificada em ps/√km, devendo ter um valor de 0,5 ps/√km para sistemas de alta capacidade de
transmissão digital e analógica.
Uma vez que a PMD varia com o tempo as penalidades infringidas devido a ela também
serão dependentes do tempo e podem ser comparados à queda de sinal em enlaces de microondas.
Para enlaces NRZ, nos quais sejam usadas fontes de ópticas sem gorgeio, as penalidades
destinadas a prevenir a PMD deve ser maior do que 1 dB por mais de 30 minutos por ano. Em
picosegundos a PMD (τPMD) para uma fibra óptica monomodo e outros componentes entre o
emissor e o detector de um enlace deve ser menor do que

140
τ PMD = (7.5.1)
B

sendo B a taxa de modulação em Gbit/s. Isso significa que um enlace operando, por exemplo, a
40 Gbit/s pode suportar uma PMD máxima de 3,5 ps. Observe-se que dentro dessa premissa, um
enlace de 400 km terá um máximo de 3,5 ps de dispersão caso a PMD seja 0,175 ps/√km; esse é
um valor menor do que 0,5 ps/√km e que certamente exige um processo de construção mais
sofisticado do que anteriormente.
Considerando-se que a PMD de uma fibra depende das deformações e tensões, a que
esteja submetida, os valores verdadeiros dessa dispersão são aqueles medidos nas fibras após
serem cabeadas. Neles, as fibras ao serem submetidas aos processos de produção dos cabos,
podem ter suas características modificadas; inclusive para melhor. O mesmo pode se dar depois
da instalação dos cabos quando novas tensões provocando deformações poderão alterar as
propriedades das fibras instaladas.
A dispersão devido à polarização dos modos não causou problemas enquanto as taxas de
modulação ficaram abaixo de 10 Gb/s. A partir dessa taxa, o tamanho dos bits associado à
qualidade da transmissão, caracterizada na TEB (Taxa de Erro por Bit) comercializada, findou
por tornar o alargamento dos pulsos ligado à PMD impossível de ser desprezada. Como
compensar tal dispersão ainda exige uma resposta definitiva. Enfim, o trabalho continua e as
demandas do mercado, como veremos adiante, requerem mais desenvolvimento tecnológico e,
portanto, novas pesquisas.

Distribuição
Maxweliana

Freqüência
Relativa

0 5 10 15 20 25 30
DGD
Fig.(7.5-3) – Histograma da dispersão devido à PMD.
Sistemas de Comunicação Óptica 214

Efeitos não-lineares

Com o advento de enlaces de longo comprimento, com altas capacidades de transmissão, e a


existência dos amplificadores ópticos, se chega ao cenário de altas densidades de potência óptica
nas fibras.
Uma forma de visualizarmos os efeitos não lineares é através da polarização da matéria.
Como é sabido, quando se aplica um campo elétrico a um meio material, a interação desse campo
com os componentes a matéria nele existente (átomos, moléculas ou íons) leva à criação de uma
polarização elétrica. Ela se origina devido a alguns efeitos que ocorrem sobre a matéria. A
separação dos centros das cargas positivas e negativas é um exemplo da origem da polarização da
matéria. A resposta da matéria à ação do campo elétrico se dá de forma linear se o campo tem
uma baixa intensidade. Quando os campos elétricos envolvidos são muito intensos, a polarização
do meio é descrita por:

( )
P = εo χ (1) ⋅ E + χ( 2) : EE + χ (3) M EEE + ... (7.5.2)

sendo εo a permissividade do vácuo e χ(1), χ(2), χ(3) as susceptibilidades de ordem indicada no


parêntese. Caso seja considerado o efeito das polarização do campo propagante as susceptibilidades
precisam ser consideradas na sua forma tensorial. A susceptibilidade linear é aquela responsável
pelos efeitos dominantes na polarização P e cujos efeitos se expressam no índice de refração n e no
coeficiente de absorção α. A susceptibilidade de segunda ordem é responsável pelos efeitos de
geração de segundo harmônico e soma de freqüências. Sendo não nulos para meios sem centros de
inversão a nível molecular, e como SiO2 é simétrica, o efeito de χ(2) não ocorre em geral nas fibras
de vidro. Por outro lado o efeito referente a χ(3) é responsável por efeitos não lineares encontrados
nas fibras de SiO2.
O primeiro efeito linear a ser considerado é o que se origina com χ(3) responsável pela
geração de terceiro harmônico, mistura de quatro ondas e o índice de refração não linear n2. Os
efeitos de geração de terceiro harmônico e mistura de quatro ondas para ocorrer com eficiência
precisam de uma certa condição, o casamento de fase. Nessa condição as ondas geradoras e geradas
propagam com a mesma velocidade. Por isso os efeitos lineares mais encontrados se ligam ao índice
de refração não linear.

2
n ≈ no + n2 E (7.5.3)

Esses efeitos se tornam consideráveis a partir de certos valores de potência e para cada um deles
há um valor chamado de limiar. Em uma fibra de sílica o valor de no=1,46 e n2≈3,2x10-20 m2/W.
Se considerarmos um modo, com área efetiva de 50 µm2, transportando em uma fibra monomodo
uma potência de 100 mW a intensidade resultante é de 2x109 W/m2. Nesse caso a alteração de
índice de refração devido ao efeito devido a χ(3) será:

∆n = n 2I = 3,2x10−20 x 2x109 = 6,4x10−11

Aparentemente essa perturbação seria desprezível, entretanto ela não pode ser desprezível se
considerarmos o comprimento do enlace ao longo do qual se processa a perturbação que vai
sendo acumulada; comprimentos de 10 a 10.000 km são os valores a serem considerados.
Os efeitos sobre o índice de refração podem ser enquadrados em três categorias:

- auto-modulação de fase;
Sistemas de Comunicação Óptica 215

- modulação cruzada de fase;


- mistura de quatro ondas.

Auto-modulação de fase

A auto-modulação de fase é o resultado de um pulso de luz alterar a sua própria fase em


decorrência da variação da intensidade de luz no início e no fim. Isso cria uma variação temporal
do índice de refração que, por sua vez, altera temporalmente a fase da onda criando uma
modulação do pulso. Como conseqüência da modulação produzida a auto-modulação de fase
alarga o espectro óptico do pulso transmitido. Dependendo do alargamento produzido ele pode
afetar o sistema, por exemplo, produzindo a sobreposição de canais DWDM. Além do mais,
combinado com a dispersão cromática a auto-modulação de fase produz o alargamento temporal
do pulso. Os efeitos da auto-modulação podem ser reduzidos ou eliminados por meio do uso de
fibras de dispersão zero ou muito baixa. Uma outra forma de reduzi-lo é o uso de campos modais
mais largos, reduzindo a densidade óptica.
Os efeito da auto-modulação não são apenas maléficos. Ele pode produzir ganhos de
desempenho na medida em que ele interaja com gorgeio do laser e a dispersão positiva de modo a
comprimir os pulsos transmitidos.

Modulação cruzada de fase

A modulação cruzada de fase é um efeito similar ao discutido anteriormente, a auto-


modulação de fase. Enquanto esse último se refere a uma interferência de um canal em si
mesmo, a modulação cruzada se refere à interferência de um canal em outro. Em geral esse tipo
de interferência pode ser chamada de colisão de canais e, em geral, causa o alargamento do
espectro óptico dos canais.
Esse é um efeito complexo. A dispersão cromática, por exemplo, tem um duplo papel no
alcance dos prejuízos causados pó ele no desempenho do enlace. De um lado a dispersão reduz a
modulação cruzada de fase por conta da diferença velocidade de grupo com que cada canal
propaga. Por outro lado, em havendo interação entre os pulsos a dispersão cromática alarga a
potência óptica alarga espectralmente.

Mistura de quatro ondas

Um efeito não linear muito conhecido é o da mistura de quatro ondas (FWM – Four
Wave Mixing). Nele duas ou três freqüências, ou comprimentos de onda, se somam de modo a
gerarem um ou mais freqüências ou comprimentos de ondas ópticos. A fig.(3.1-2) ilustra o que foi
dito. O efeito da mistura de quatro ondas tem seu nome originado no fato de que havendo três
diferentes comprimentos de onda se origina um quarto.
O impacto desse efeito nos enlaces ópticos se dá pela transferência de potência óptica de
um comprimento de onda original para outros comprimentos de onda novos. Nos enlaces
DWDM, nos quais o espaçamento dos canais é fixo a mistura dos comprimentos de onda podem
gerar comprimentos que coincidem com aqueles de outros canais do sistema. Como o número de
comprimentos de onda aumenta geometricamente com o número dos canais originais, e o campo
elétrico dos novos comprimentos pode interferir construtivamente ou destrutivamente com os
comprimentos de onda dos canais em propagação, isso resulta em severa degradação da figura de
olho e da TEB (Taxa de Erro por Bit).
A dispersão cromática exerce um papel importante no efeito da mistura de quatro ondas.
Com ela se pode criar ou destruir o casamento de fase entre os comprimentos de onda geradores
Sistemas de Comunicação Óptica 216

dos novos comprimentos de onda. Caso a fibra em que se opere um sistema DWDM seja a fibra
de dispersão deslocada, com dispersão nula para 1550 nm, ele será severamente afetado quanto
ao número de comprimentos de onda que ele pode transportar. Isso por conta de, em tendo a
velocidade de grupo dos canais muito próximas, o efeito de mistura se torna muito eficiente,
degradando o desempenho do enlace. Daí se usar agora as fibras NZDF, com as quais se tem
uma pequena dispersão em torno de 1550 nm, reduzindo o casamento de fase e, por conseguinte,
a eficiência da mistura de quatro ondas.
Em particular, o efeito de mistura de quatro ondas tem a característica de, uma vez sendo
gerado, não pode ser suprimido por técnicas de equalização.

Espalhamentos estimulados

Afora a modificação do índice de refração há um segundo conjunto de fenômenos


lineares. São os espalhamentos não lineares, os quais se originam da interação da luz propagante
com os modos acústicos ou os modos vibracionais das moléculas do meio. O resultado de tais
interações, sob a condição de altas densidades de potência óptica, é espalhar a luz e deslocar os
comprimentos de onda para valores maiores. O aumento de comprimento de onda indica que
houve redução da energia dos fótons espalhados, isso por conta da cessão de energia para o meio.
São dois os efeitos espalhamentos estimulados a serem considerados: Brillouin e Raman.

Espalhamento Brillouin estimulado

O efeito Brillouin estimulado (SBS – Stimulated Brillouin Scattering) advém da interação


da luz propagante com os modos acústicos do meio. Em face da interação, uma fração da
radiação é redirecionada no sentido oposto ao da propagação original da luz que está interagindo
com o meio. Tal espalhamento reduz a intensidade do sinal afetando a sua recepção.
O limiar do SBS é muito baixo, algo em torno de alguns miliwatts, sendo independente do
número de canais. Tal limiar dependerá da largura de linha da luz propagante e das
características do meio, o vidro da fibra. O efeito SBS tem seu limiar óptico elevado quando
aumenta a largura de linha do sinal; com isso se origina um meio prático de se elevar o limiar
fazendo-se uma modulação do laser com um pequeno sinal senoidal de baixa freqüência.
Portanto, conquanto o SBS seja em potencial o efeito não linear que primeiro criaria problemas
práticos ele é também o mais facilmente neutralizado.

Espalhamento Raman estimulado

O efeito Raman estimulado(SRS – Stimulated Raman Scattering) também se origina da


interação da luz propagante com os modos vibracionais do meio. O efeito Raman espalha luz em
ambos os sentidos, em relação ao da propagação do sinal, podendo-se se eliminar o contra-
propagante com o uso de isoladores ópticos. No caso do SRS o limiar também difere do efeito
SBS, por ser o seu de alto valor, algo como 1 watt. Tal limiar depende do material que compõe o
meio, e de parâmetros como do número de canais, a separação espectral dos canais. Embora seu
limiar seja mais elevado, ele não pode ser manipulado como citado para o caso do SBS.
No caso do efeito Raman, conquanto ele possa ser utilizado para a amplificação de sinais,
o que é positivo para um enlace óptico, ele poderá ser um limitante para a capacidade futura de
tais enlaces. Para que não venha a sê-lo será necessário o desenvolvimento de sofisticadas
técnicas de combate aos seus efeitos danosos.
Sistemas de Comunicação Óptica 217

7.5 –Discussões Finais


Sem dúvida os avanços dos sistemas de comunicação óptica são enormes e impressionam.
Contudo, até por conta deles, criando novos cenários com detalhes inusitados, surgem novos
problemas.
Quanto à sua capacidade de transmissão, as fibras já alcançam, comercialmente, níveis
de 400 Gb/s em uma única fibra, equivalendo ao volume de informação de 12.000 enciclopédias
por segundo. Só isso poderia parecer um nível capaz de levar algum tempo para ser ultrapassado.
Entretanto, ainda assim, tal nível está bem abaixo dos níveis previstos para o futuro, os quais
estão na casa dos terabits por segundo (1012 b/s). Tais capacidades vieram com o uso da
multiplexação em comprimento de onda (WDM), com a qual centenas e mesmo milhares de
comprimentos de onda podem ser injetados em uma única fibra óptica. Cada comprimento de
onda é denominado um canal. Hoje os experimentos incluem cenários como:

- Transmissão de 1,6 Tb/s em um enlace de 400 km, usando 40 canais com taxas de
modulação de 40 Gb/s;
- Transmissão de um único canal á taxa de 160 Gbit/s em um enlace de 300 km,
usando a tecnologia dos semicondutores vigente;
- Transmissão de 1022 canais usando uma única fibra.

Eles atestam o nível de capacidade que se prevê e que traz perguntas como:

- Até onde tal desenvolvimento irá?


- O que fazer com tais níveis de capacidade de transmissão?
- Como as empresas se colocarão diante dos novos cenários de serviços?
- Quanto custarão para os usuários os serviços oferecidos e que valores terão para eles?

Seguramente essas poucas perguntas não esgotarão o leque de questões, algumas delas carregadas
de dúvidas e incertezas.
Por outro lado, as dificuldades e os desafios continuam exigindo novos desenvolvimentos
quanto às fibras e os dispositivos ópticos que comporão os sistemas de comunicação óptica. Ainda
hoje as fibras são elementos fundamentais dos sistemas de comunicação óptica e tema de
pesquisa e desenvolvimento contínuos. Vejamos alguns exemplos disso.

Aumentar a banda espectral

Um exemplo mais recente de desenvolvimento de novas fibras é o das fibras sem o pico de
água localizado em 1380 nm. Removidos tais íons e eliminando-se o pico de absorção em 1385 nm,
visto na fig.(7.5-4), disponibiliza-se a banda entre 1350 a 1450 nm, uma quinta janela óptica a
ser incorporada aos enlaces ópticos. Com ela é possível se adicionar cerca de 125 canais, com
espaçamento de 100 GHz. No todo, com uma banda operacional no intervalo entre 1260 e 1650
nm, se tem 50 THz de banda óptica. Que importância isso pode ter? É importante para os
sistemas WDM de caráter metropolitano. Os enlaces WDM metropolitanos, a fim de serem
viáveis economicamente, precisarão que os diversos componentes ópticos que comporão o sistema
sejam de mais baixo custo. Esse baixo custo requererá que a separação entre os canais seja da
ordem de 10 nm. Isso se traduz em enlaces multiplexados em comprimento de onda denominados
por CWDM (Coarse WDM), ou um WDM grosseiro dado à separação dos canais.
Sistemas de Comunicação Óptica 218

Tal eliminação permite que se estenda a banda operacional da fibra desde 1260 nm até
1650 nm. O limite inferior existe por levar a fibra a deixar de ser monomodo, enquanto o limite
superior é decorrente das perdas de absorção da sílica e daquelas induzidas por encurvamento da
fibra. A primeira janela óptica dos enlaces ópticos estava localizada em torno de 850 nm, operada
com lasers de GaAs. A segunda janela óptica surgiu em torno de 1310 nm (1280 a 1325 nm) com
lasers de InGaAsP, e a terceira janela em torno de 1550 nm (1530 a 1565 nm) também com lasers
de InGaAsP. A janela óptica de 1350 a 1450 nm nunca havia sido utilizada por conta da intensa
absorção dos íons OH-. Uma quarta janela se estabeleceu entre 1565 e 1650 nm cuja importância
está em abrigar a banda L (L-Low) dos amplificadores a fibra.

Atenuação _
OH
dB/km

_
10 _
OH
OH

1,0

0,1
800 1000 1200 1400 1600
Comprimento de onda (nm)
Fig.(7.5-4) – Atenuação espectral de uma fibra de SiO2 onde estão
-
identificados picos de absorção de radicais OH .
Capítulo 7

Amplificadores Ópticos
a Fibra

Introdução

De um elemento, inicialmente, dedicado para ser apenas um meio


de transmissão de sinais, as fibras ópticas passaram a ser também um
insumo para a produção de dispositivos, tanto passivos quanto ativos.
Os acopladores, os filtros ópticos e os amplificadores são exemplo
desses dispositivos. O amplificador óptico é outro dispositivo,
concebido para solucionar os problemas existentes de atenuação. Nos
sistemas de comunicação óptica, em particular os sistemas de grande
comprimento, a limitação por atenuação provoca a necessidade dele ser
operado com a amplificação do sinal degradado. Nos sistemas atuais o
elemento amplificador de sinais é o amplificador óptico feito com fibras
ópticas dopadas com terras raras. Ele tem as características de ser muito
confiável, transparente às taxas de modulação, conquanto a banda
espectral seja carente de expansão.

10.1. – A necessidade dos amplificadores ópticos

Nos sistemas de comunicação óptica o sinal propagante na fibra


sofre dois processos básicos de perturbação: atenuação e dispersão.
Como vimos no capítulo 1 o efeito da dispersão provoca o alargamento
dos pulsos; a atenuação, por sua vez, causa a redução da potência óptica
262 Amplicadores Ópticos a fibra

dos pulsos. Ambos degradam a qualidade da informação podendo


impedir a detecção do sinal, por tornarem tal sinal ilegível.
O alargamento do pulso provoca degrada a recepção do sinal
fazendo com que os pulsos vizinhos se interpenetrem reduzindo a
qualidade da informação transmitida pela redução, ou perda, de
resolução na detecção. Quando um enlace começa a ter tal perda de
resolução, o que leva à perda de informação, se diz que ele é limitado
por dispersão. Já a atenuação causa a degradação da informação
transmitida por meio da queda da intensidade do sinal. Tal queda
resulta em uma incapacidade do sistema de detecção poder extrair a
informação transmitida, ou extraí-la fora dos requisitos de qualidade
estabelecidos, em face das condições da relação sinal-ruído. Isso se
traduz em um aumento de erros na detecção de sinais afetando a taxa de
erros por bit. Neste caso se diz que o sistema é limitado por atenuação.
A limitação por dispersão pode ser superada com o uso de
compensadores de dispersão, como veremos adiante. A limitação por
atenuação é o objeto da nossa atenção aqui, por meio dos
amplificadores ópticos.
Nos sistemas de comunicação óptica, em particular os sistemas de
grande comprimento, como é o caso dos enlaces submarinos, a
limitação por dispersão e atenuação provoca a necessidade do sistema
ser operado com a regeneração dos sinais transmitidos em pontos
periodicamente distribuídos ao longo do enlace. Caso isso se dê por
meio de um sistema de regeneração eletrônico se faz necessário que o
sinal óptico seja convertido em sinal elétrico para ser processado
eletronicamente dando lugar a uma etapa chamada de 3R, nome oriundo
das palavras: Reshaping, Retiming e Ramplification. Assim, 3R
significa um conjunto de processamento do sinal, tais como: filtragem,
amplificação e modulação, para enumerar as mais citadas. Essa
inclusão de uma camada eletrônica no enlace óptico pode ser
visualizada na fig.(5.1-1), na qual se ilustra esquematicamente os
elementos eletrônica de regeneração do sinal óptico.
Nos sistemas atuais, um dispositivo de suma importância é o amplificador óptico, feito com fibras ópticas
dopadas com terras raras. O primeiro desses dispositivos a ser operado comercialmente foi o amplificador com fibra
Sistemas de Comunicação Óptica 263
3+
óptica dopada com érbio (Er ). Ao contrário dos acopladores e WDM’s, que são dispositivos passivos, os
amplificadores ópticos são dispositivos ativos capazes de gerar potência luminosa. Adiante veremos como isso pode
ser feito. Obviamente a potência luminosa aqui referida é aquela da radiação propagante na fibra do enlace e que está
transportando o sinal.

Repetidor

Componentes Componentes Componentes


ópticos eletrônicos ópticos

Fig.(10.1-1) – Esquema de um sistema óptico de comunicação evidenciando a queda do sinal e presença de


um amplificador eletrônico amplificando o mesmo sinal.

10.1.2 – Princípios de funcionamento dos amplificadores ópticos

Para entendermos como funciona um amplificador óptico feito com fibra óptica, temos de trazer à mente
alguns fenômenos físicos básicos. Dois deles são os processos de recombinação espontânea e estimulada.
Recombinação é um processo oposto ao da absorção que gera atenuação nas fibras, como já vimos anteriormente. A
recombinação é um processo oposto, em vez de haver o sumiço de um fóton há o aparecimento de um, emitido por
algum sistema físico (elétron, átomo, molécula,...). Na absorção só pode ocorrer de forma estimulada, ou seja, um
fóton interage com um sistema físico e este absorvendo a energia deste fóton é excitado passando de um nível de
menor para outro de maior energia. Na absorção a energia do fóton precisa ser igual à diferença de energia entre os
estados envolvidos na transição.
Na recombinação, há um sistema em um nível de energia mais alta que emite um fóton ao decair para um
nível de energia mais baixa. A fig.(10.1.2) ilustra os processos das recombinações espontânea e estimulada em um
átomo. Nas emissões espontâneas o sistema físico decai sem nenhuma ação externa. Nas emissões estimuladas não é
assim, o decaimento ocorre porque há um fóton como agente externo que o induz. Tal fóton ao alcançar o sistema
físico provoca a transição forçando o sistema a transitar do nível de mais alta energia, no qual se encontra, para o
nível de mais baixa energia. Nesses casos o fóton emitido é uma cópia xerox do fóton que estimula a transição, sendo
a energia dele igual à diferença de energia entre os níveis envolvidos na transição.
A recombinação estimulada será o processo responsável pela amplificação da luz que transporta a
informação, no caso comprimentos de onda em torno de 1550 nm para amplificadores dopados com Er3+. Para ocorrer
tal recombinação os íons precisam estar no nível de maior energia, para onde vão absorvendo uma segunda radiação,

Emissão Emissão
Espontânea Estimulada
Antes da transição estimulada Depois da transição estimulada

Fig.(10.1-2) – Sub-níveis dos íons de érbio na matriz de sílica.


264 Amplicadores Ópticos a fibra

chamada radiação de bombeio. No caso dos amplificadores de érbio a radiação de bombeio é de 1480 nm. Vejamos,
pois, quais os níveis de energia que os íons de érbio possuem e que participam do processo de amplificação.

10.2 – Os amplificadores de fibra dopadas com Érbio

Os amplificadores ópticos que primeiro apareceram no mercado foram aqueles feitos com fibras de
vidro nas quais o núcleo era dopado com íons de érbio Er3+. Tais íons inseridos na matriz amorfa de vidro possuem
níveis de energia os quais permitem haver o processo de amplificação de sinais ópticos na janela de 1550 nm. Vamos
nesta sessão entender quais são esses níveis disponíveis dos íons de érbio (Er3+) na matriz de sílica que levam à
ocorrência da amplificação óptica do sinal.

Recombinações não radiativas


2H
9/2
514nm 4
4F F3/2
5/2
630nm 4F
715nm 980nm 2 7/2
514nm 790nm H
4S 11/2
3/2
532nm 850nm 4F
9/2
670nm 1140nm
4I
9/2
800nm
4I
11/2
980nm 1680nm
E2 4I
13/2

1480nm 1531nm (comprimento de onda


de emissão)
E1 4I
15/2

Fig.(10.2-1) – Ilustração dos processos de recombinação espontânea e estimulada em um átomo.


No caso das fibras dopadas com érbio, tais átomos estão ionizados (Er3+) dentro da matriz de SiO2. Eles estão
localizados no núcleo com uma concentração de 200 ppm, significando uma concentração de 1025 átomos/cm3. Dentro da matriz
de sílica, os níveis de energia dos íons de érbio se desdobram em sub-níveis por conta do campo elétrico local dos íons vizinhos e
do caráter amorfo da matriz de sílica. A fig.(10.2-1) apresenta alguns dos sub-níveis do érbio nessa matriz. Nela vemos para quais
comprimentos de onda haverá absorção de luz e o comprimento de onda da recombinaçãoentre os sub-níveis 4I13/2 e 4I15/2,
referente à emissão de luz da fibra dopada. Tais níveis serão designados aqui por E2 e E1, correspondentes, respectivamente, a
4
I13/2 e 4I15/2. Apenas entre esses dois níveis ocorre recombinação radiativa (com emissão de fótons), os demais níveis passam por
transições não radiativas (emissão de outras formas de energia – térmica por exemplo), claramente indicadas na figura. Assim
sendo, quando excitados os íons decaem rapidamente até o nível E2 do qual transitam para o nível E1 radiativamente com
eficiência quântica próxima de 1. Entre os níveis E2 e E1 ocorrem as transições espontâneas e estimuladas, sendo estes dois níveis
aqueles responsáveis pela amplificação óptica. Na Fig.(10.2-2) estão indicados os níveis de energia envolvidos nas
transições ligadas ao processo de amplificação óptica, sendo indicadas as energias das absorções mais importantes (
980 e 1480 nm) e os tempos de recombinação espontânea entre os níveis 4I11/2 e 4I13/2 (1 µs) bem como entre os níveis
4
I13/2 e 4I15/2 (10 ms). Como a figura sugere, os ditos níveis de energia são, na verdade, faixas de energia, o que fica
explícito na indicação de que as transições de amplificação se darão numa faixa entre 1520 e 1570 nm. Também se
deve salientar que o tempo de recombinação entre os níveis 4I11/2 e 4I13/2 é quatro ordens de grandeza menor do que
aquele da transição entre 4I13/2 e 4I15/2. A importância disso está no fato do sistema ao ser excitado com a radiação de
980 nm transitar para um nível intermediário 4I13/2 e ali ficar um longo tempo para ser induzido a transitar para o nível
de energia mais baixo. Isso é importante para que haja a recombinação estimulada, e também para as taxas de
transmissão de interesse prático.
Finalmente destacamos os dois possíveis comprimentos de onda para o bombeio, 980 e 1480 nm, dos quais o
de melhor desempenho é o de 980 nm; com 980 nm se pode obter uma inversão completa dos níveis bombeados ao
contrário do comprimento de 1480 nm, sendo também melhor o desempenho do menor comprimento de onda quanto
ao ruído, como veremos adiante. A fig.(10.2-1) mostra que também é possível se usar vários outros comprimentos de
onda para o bombeio, incluindo-se o de 800 nm que seria disponível face à existência de lasers nesse comprimento de
onda. Entretanto, tanto para 800 nm quanto outros comprimentos de ondas menores existe um fenômeno que reduz a
Sistemas de Comunicação Óptica 265
eficiência do bombeio, cujo nome é Estado Excitado de Absorção (ESA – Excited-State Absorption – em inglês).
Como se vê na referida figura, após ser excitado para um dado nível, em face dos múltiplos níveis que o íon de Érbio
oferece no vidro, o elétron naquele nível pode absorver mais um fóton do bombeio indo para um nível de energia
ainda mais alta, quando, para melhor desempenho óptico do sistema, ele deveria o mais rapidamente possível transitar
para o nível intermediário 4I13/2 no qual se dará a recombinação estimulada. A ESA não ocorre para os comprimentos
de onda de 1480 e 980 nm, fazendo deles os comprimentos de onda mais usados na operação dos amplificadores
ópticos de fibras dopadas com Érbio.
4I
11/2

τ ~1µs

4I
13/2
980 nm

1520-1570 nm
τ ~10ms 1480 nm

4I
15/2

recombinação absorção

Fig.(10.2-2) – Níveis de energia envolvidos nas transições


ópticas sendo indicados os tempos de recombinação
espontânea.

10.2.1 – Como são usados os amplificadores de Érbio

Como ocorre com os lasers, um amplificador a fibra requer um nível mínimo de potência óptica de bombeio a
fim de funcionar estimuladamente, para o que se exige a inversão de população. Para entendermos o que é inversão
de população, consideremos os elementos do sistema amplificador, os íons de érbio no caso. Inversão de população é
a situação física na qual, em média no tempo, os íons de érbio estão, predominantemente, em seus níveis de maior
energia. Dali, os íons decaem estimuladamente para amplificar o sinal, conquanto haja recombinação espontânea
simultaneamente. Esta, não causa amplificação do sinal e pode ser considerado um ruído no sistema dado o seu
caráter aleatório, em contraposição ao processo estimulado.
Abaixo de um certo nível de potência, a inversão de população não se estabelece, inclusive porque a emissão
espontânea contribui para isso fazendo os íons excitados decaírem para o seu estado fundamental.

Tal inexistência de uma inversão de população adequada impede que o sinal seja amplificado. À medida que a
potência óptica do bombeio se elevada se chega a um nível de potência capaz de estabelecer uma inversão de
população suficiente ao estabelecimento da amplificação óptica do sinal.
Outro ponto interessante a se chamar à atenção é quanto às linhas nas quais se opera o bombeio dos
amplificadores ópticos. Na prática as linhas mais utilizadas são as de 980 e 1480 nm uma vez que as linhas de menor
comprimento de onda, como 800 nm e outras, possuem a possibilidade de serem absorvidas a partir do nível E2,
dando lugar ao processo de absorção de estados excitados. Na fig.(10.2-1) fica clara a multiplicidade de linhas de
maiores comprimentos onda (linhas desenhadas à direita da linha de recombinação de 1531 nm) responsáveis por essa
absorção que acabamos de mencionar e que reduz a eficiência de bombeio.
266 Amplicadores Ópticos a fibra

F ibra
S inal D opada (E r +3 )
λ=1550 nm Isolador Isolador
S inal
(E ntrada) Ó ptico Ó ptico
(S aída)
WDM

Laser de
B om beio
λ=1480 nm

Fig.(5.1-3) – Esquema de amplificação óptica com fibra dopada com érbio.

Atualmente, podem ser encontrados amplificadores com amplificação tão elevada quanto 40 a 45 dB. Assim
sendo, um amplificador é um elemento do enlace que gera ganho e não perdas, como os outros que analisamos
anteriormente. Quanto a sua faixa óptica de atuação, os amplificadores dopados com érbio operam na faixa de 1530 a
1570 nm

10.2.2 – Aplicações dos amplificadores a fibra

Quanto às suas aplicações, os


amplificadores a fibra apresentam algumas
(a) TX AO RX
opções, as quais estão dispostas na fig. (5.2-1).
Na configuração (a) temos o
amplificador sendo usado com amplificador da
(b) TX AO RX
potência do laser, sendo um booster. Esse uso
pode levar ao aumento do comprimento do
enlace e compensar as perdas advindas da
(c) TX AO RX
divisão do enlace em outras sub-redes.
Na configuração (b) o amplificador
está sendo usado como pré-amplificador do
(d) TX AO AO RX
receptor a fim de melhorar a sua sensibilidade. AO

Na configuração (c) o amplificador é Fig.(5.2-1) – Diferentes configurações de uso dos amplificadores a


usado como um amplificador de linha. Nela ele fibra.
amplifica o sinal que está em trânsito no
enlace. Essa mesma configuração é vista na figura (d), apenas se mencionando que nela há múltiplos estágios de
amplificação, fato que é encontrado em enlaces muito longos (milhares de quilômetros).

10.2.3 – Vantagens e desvantagens dos amplificadores ópticos

O uso de amplificadores ópticos nos enlaces ópticos traz várias vantagens; passemos a enumerá-los.
Sistemas de Comunicação Óptica 267
TRANSPARÊNCIA À TAXA DE TRANSMISSÃO - Os enlaces ópticos que têm seu sinal amplificado opticamente, sem
possuírem conversão opto-elétrica, são transparentes à taxa de transmissão do sistema. O mesmo não se verifica quando há
amplificação com repetidores eletrônicos.

BAIXAS PERDAS DE INSERSÃO - Ao serem conectados ao enlace óptico, os amplificadores produzem reduzidas perdas
devido às emendas ópticas.

BAIXO NÍVEL DE RUÍDO – Quanto ao ruído introduzido no enlace, os amplificadores ópticos são um ponto de
vantagem. O ruído introduzido fica no nível de 3 a 4 dB.

TRANSPARÊNCIA À POLARIZAÇÃO – O ganho obtido com as fibras dopadas com érbio é insensível à
polarização da luz irradiante.

BANDA AMPLIFICADORA – Devido à largura da banda de amplificação das fibras dopadas com érbio, algo em
torno de 40 nm, os amplificadores ópticos podem ser usados em enlaces WDM, nos quais podem estar propagando
até centenas de diferentes comprimentos de onda.

Evidentemente existem algumas desvantagens no uso dos amplificadores a fibra dopada com érbio, das quais
citamos as seguintes:

JANELA ÓPTICA DE AMPLIFICAÇÃO – Os amplificadores de maior uso na atualidade é aquele que opera com
sinais de 1550 nm, deixando de fora a importante janela de 1300 nm. Esforços no sentido de se desenvolver
amplificadores para essa janela de 1300 nm, usando praseodímio, ainda estão em andamento.

POTÊNCIA ÓPTICA DE BOMBEIO – Os amplificadores a fibra requerem níveis de potência na faixa de 50 a 100
mW, o que significa um alto nível de potência de bombeio.

COMPRIMENTOS DE OPERAÇÃO – Com os amplificadores a fibra comprimentos muito pequenos não são
possíveis de ser usados.

10.4 – Modelagem da amplificação dos sinais em fibras dopadas

A fig.(10.1-2) ilustra o processo de amplificação com uma fibra dopada com érbio. Nela vemos que a fibra
recebe duas radiações diferentes, a do sinal (transportadora da informação) e a do bombeio. Essa última excita os íons
da fibra preparando-os para se recombinarem estimuladamente por meio da interação com os fótons do sinal.
Portanto, em um amplificador ele recebe energia de uma radiação (1480 nm) fornecendo energia para uma segunda
radiação, a do sinal (1550 nm). Para se realizar o modelamento vamos definir alguns conceitos importantes.
Consideremos os três processos básicos de transições, a saber:

- absorção de luz (transição 4I15/2 → 4I11/2 )


- recombinação não radiativa (transição 4I11/2 → 4I13/2 )
- geração de luz (transição 4I13/2 → 4I15/2 )

seguindo a seqüência dos eventos que compõem todo o processo de recombinação estimulada, descriminados na
fig.(10.4-1).
268 Amplicadores Ópticos a fibra

(1) (2) (3)

4I 4I 4I
11/2 11/2 11/2

4I
13/2
980 nm 4I
13/2
4I
13/2

1550 nm

4I 4I 4I
15/2 15/2 15/2

absorção transição recombinação


não radiativa estimulada ou
espontânea

Fig.(10.4-1) – As diferentes etapas de transição envolvidas na amplificação óptica com íons de Érbio.

Para se escrever as equações matemáticas partiremos do fato de haver um processo de amplificação de três
níveis, característico do bombeio com 980 nm. A amplificação com o bombeio a 1480 nm, ao contrário do bombeio
anterior, corresponde a um processo de dois níveis. Além disso, consideremos que há NT(ρ) íons de Érbio por
unidade de volume, podendo ter dependência em r, conquanto constante ao longo de z. Outra definição é quanto às
densidades N1(ρ,z) e N2(ρ,z) de estados disponíveis nos níveis 4I15/2 e 4I13/2, tais que:

N1 (ρ, z) + N 2 (ρ, z) ≈ N T (ρ) (10.4.1)

Podemos definir as taxas de variação das populações nos dois níveis mencionados acima. Como NT(ρ) é constante
(dN1(ρ,t)/dt)=-(dN2(ρ,t)/dt), de modo que poderemos descrever o comportamento da amplificação apenas com a taxa
de um dos níveis. Tal taxa será:

dN1  σee I s N  σ I σ I 
= N 2 + 2  −  ab b N1 + as s N1  (10.4.2)
dt  hνs τe   hν b hνs 

onde temos a injeção de íons no estado fundamental no primeiro parênteses e a saída do estado no segundo parêntese.
Neles temos:

I
= número de fotons na energia hν
hv

σee I s
N 2 = número de emissões estimuladas 4I15/2 → 4I13/2 por unidade de volume e de tempo;
hν s
N2
= número de emissões espontâneas 4I13/2 → 4I15/2 por unidade de volume e de tempo;
τe
σab I b
N1 = número de absorções 4I15/2 → 4I11/2 por unidade de volume e de tempo devido ao bombeio;
hν b
σas I s
N1 = número de absorções 4I15/2 → 4I11/2 por unidade de volume e de tempo devido ao sinal.
hν s
Sistemas de Comunicação Óptica 269
Nessas equações encontramos os termos σee, σab, σas, os quais são as seções de choque referentes a cada um dos
processos (emissão e absorção) envolvidos na amplificação. Tais grandezas têm a dimensão de área.
Usando-se a eq.(10.4.2) poderemos escrever:

dN1 N 2 σas I s
= + (γN 2 − N1 ) − σab I b N1 (10.4.3)
dt τe hν s hν b

onde

σee
γ= (10.4.4)
σas

Tomemos a solução estacionária, segundo a qual (dN1/dt)=0.

N 2 σas I s
+ (γN 2 − N1 ) − σab I b N1 = 0
τe hν s hν b

da qual obteremos:

ϕs
Ib +
N2 (1 + γ )
= (10.4.5)
N1 1 + γ ϕ
s
(1 + γ )
onde

I s (ρ, z)
ϕs (ρ, z) = (10.4.6)
Iso
hν s
ϕso = (10.4.7)
σas τ(1 + γ )
I (ρ, z)
ϕb (ρ, z) = b (10.4.8)
I bo
hν b
ϕbo = (10.4.9)
σab τ

10.4.1 – Condição limiar de emissão estimulada

De posse da eq. (10.4.5) vamos verificar a condição na qual o meio dopado com Érbio poderá amplificar a
radiação que transporta o sinal, significando manter um nível de emissão estimulada que supere as perdas do sistema.
Sabemos que em um meio opticamente ativo a intensidade luminosa se propaga ao longo de z na forma:

I s ( z ) = I o e − αz (10.4.10)

Caso α seja positivo o meio será absorvedor, atenuando a intensidade da radiação nele propagante, fato demonstrado
pelo comportamento exponencial de argumento negativo. Contudo, na medida em que α seja negativo a eq.(10.4.10)
270 Amplicadores Ópticos a fibra

mostra um aumento exponencial da intensidade luminosa, situação na qual temos a amplificação óptica. Assim,
poderemos definir a condição limiar, de fronteira, entre as duas situações expostas, como sendo α=0.
Outro ponto a ser comentado se refere à forma como a radiação varia ao longo de z. Poderemos escrever que
a variação de energia ao longo de z, devido à diferença entre a energia gerada e perdida no volume ∆V referente a dz.
Escreveremos:

dI s ( z )
= ( A − G ) I s ( z ) ≡ αI s ( z ) (10.4.11)
dz

cuja solução, para gerações e perdas independentes de z, corresponde à eq.(10.4.10). Caso as perdas sejam maiores do
que o ganho, ou as absorções superem as gerações, α será positivo, e como indica a eq.(10.4.10) a intensidade atenua
ao longo de z. No caso oposto, α será negativo o que leva o argumento da exponencial a ficar positivo, caso no qual a
intensidade aumenta á medida que a luz propaga em z.
Vamos definir quais são as gerações e as perdas em ∆V referente a dz. Elas são:

- GERAÇÕES
- emissão espontânea nas transições 4I13/2 → 4I15/2
- emissão estimulada nas transições 4I13/2 → 4I15/2

- PERDAS
- absorção de fótons do sinal nas transições 4I15/2 → 4I13/2
- perdas de propagação na fibra

Podemos mostra, ver ex. (10.4.1), que os termos referentes à emissão espontânea e às perdas com a propagação na fibra são
desprezíveis, de modo que a eq. (10.4.11) ficará:

dI s (z) σee I s σ I
= N 2 − as s N1 = α A I s (z) (10.4.12)
dz hν s hν s

onde
σ 
α A =  as (N1 − γN 2 ) (10.4.13)
 hνs 
Observamos na eq.(10.4.13) que a situação de amplificação, αA<0, correspondente à inversão de população no
amplificador ocorrerá caso:

(N1 − γN 2 ) < 0 ou γN 2 > N1 (10.4.14)

ficando o limiar da amplificação definida pela condição

γN 2 − N1 = 0 (10.4.15)

Tomando-se a eq.(10.4.12) e (10.4.13) para o sinal teremos:

dI s (z) σee I s σ I
= N 2 − as s N1 = α A I s (z) (10.4.16)
dz hν s hν s

onde
σ 
α A =  as (N1 − γN 2 ) (10.4.17)
 hνs 
Sistemas de Comunicação Óptica 271
Para o bombeio poderemos escrever:

dI b ( z ) σ I
= − abs b N1 = α ab I b (z) (10.4.18)
dz hν b

onde
σ 
α Ab = N1 ab  (10.4.19)
 hν b 

Com as eqs.(10.4.16) e (10.4.18) poderemos descrever como as potências do sinal e do bombeio se comportam
enquanto propagam ao longo de z.

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Exemplo (10.4.1) – Demonstrar que os termos referentes à emissão espontânea (4I13/2 → 4I15/2) e absorção (4I15/2 →
4
I13/2), como foi usado na dedução da eq.(10.4.12) são desprezíveis.

Solução

Tomemos primeiro a emissão espontânea. Como se sabe a emissão espontânea tem uma distribuição angular
isotrópica; ou seja: a emissão ocorre com a mesma probabilidade em todas as direções. Entretanto, a luz amplificada,
além de ser coerente, é confinada como o modo fundamental. Para que a luz espontânea fosse confinada ela deverá
respeitar o ângulo de aceitação no interior da fibra. Se considerarmos que temos uma fibra degrau de índices de
refração do núcleo e da casca iguais a 1,47 e 1,46, respectivamente, o ângulo de aceitação seria:

 1,46 
αaceitação = arcsen  ≈ 6,73 graus
 1,47 

a fração de emissão espontânea acoplada pode ser estimada tomando-se a relação entre o ângulo sólido referente ao
ângulo de aceitação e o ângulo sólido total (4π). Encontraremos:

2π α aceitação

fração acoplada =
∫0 dφ∫
0
senθdθ
= (1 − cos(6,73) ) = 2,07 x10− 6

Portanto a fração de luz acoplada é pequena fração da potência do sinal propagante. Por outro lado, mesmo uma
pequena fração de luz acoplada, em face da amplificação que passa a ter enquanto propaga no meio amplificador
findará por se transformar em uma fonte de ruído do amplificador, e se chama ASE (Amplified Spontaneous
Emission).
Passemos à perda na fibra. Sabemos que uma fibra padrão, a perda para λ=1550 nm é algo como 0,2 dB/km.
Tomando-se a eq.(10.4.10) poderemos escrever:

α(dB / km) 2x10−6


α= = = 4,61x10−11 cm −1
10(log10 e )L 10 x 0,433x10 4

calculemos tomando o centímetro como unidade de comprimento, sendo de 100 metros o comprimento L do
amplificador. Tal valor é acima do comprimento de fibra dopada normalmente usada em um amplificador (5 a 50 m).
Por ser mais do que o necessário, fica evidente que as perdas por propagação (espalhamento, absorções,...) podem ser
desprezíveis diante dos valores das outras grandezas que aparecem na eq.(10.4.11).
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272 Amplicadores Ópticos a fibra

Tomando a eq.(10.4.5), e levando em conta a eq.(10.4.1), com algum algebrismo podemos escrever:

ϕs
ϕb +
(1 + γ )
N 2 (ρ, z) = NT (10.4.20)
1 + ϕb + ϕs
e
γϕs
1+
(1 + γ )
N1 (ρ, z) = NT (10.4.21)
1 + ϕb + ϕs

De posse das eqs.(10.4.16) e (10.4.17) poderemos escrever a expressão (10.4.15) como segue:

 γϕb (ρ, z) − 1 
γN 2 (ρ, z) − N1 (ρ, z) =   N T (ρ) (10.4.22)
1 + ϕb (ρ, z) + ϕs (ρ, z) 

recordando que

I b (ρ, z) I (ρ, z)
ϕb (ρ, z) = , ϕs (ρ, z) = s
I bo Iso
e
hν b hν s
I bo = , I so =
σab τ σas τ(1 + γ )
Da eq.(10.4.18) surge a condição limiar:

1
γI bL (ρ, z) = 1 ou I bL (ρ, z) = I bo (10.4.23)
γ

Será interessante darmos um significado físico para Ibo, dado a sua importância na definição da condição do
limiar da amplificação. Primeiro vemos que a definição do limiar vem através da intensidade do bombeio, ou a
quantidade de energia por unidade de área e de tempo Ib(r,z) necessário para realizar a estimulação da radiação do
sinal ao longo de z. Como γ é adimensional, se vê que ϕbo se refere a uma energia que atravessa uma dada área por
unidade de tempo e que pode ser tomada como uma energia de referência.
Usando-se a expressão (10.4.4) a eq.(10.4.19) pode ser escrita como segue

σas
I b (ρ, z) = I bo (10.4.24)
σee

onde se vê que a relação entre as seções de choque da absorção e da emissão estimulada aumenta ou diminui a
intensidade limiar. Se a absorção tem mais chance de ocorrer, σas> σee, o limiar é maior do que quando ocorre a
situação oposta σee> σas.

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Exemplo (10.4.2) – Estimar o valor do limiar do bombeio para ocorrer amplificação de sinal.
Sistemas de Comunicação Óptica 273
Solução

Consideremos que o bombeio seja feito com radiação de 980 nm para a qual σab=3,0x10-25 m2. O tempo de
recombinação seja de 15 ms.
Para λ=980 nm a energia em eV é:

1,24
ε= = 1,26eV
0,98
hν 1,602.10-19 x 1,26
I bo = = − 25 − 2
= 4,5x107 W / m 2 = 45MW / m 2
σab τ 3,0 x10 1,5x10

O bombeamento limiar pode ser calculado com a eq.(10.4.19), na qual usaremos σee=3,410x10-25 m2 e σas=2,545x10-
25
m2 referentes a um sinal cujo comprimento de onda igual a 1550 nm.

1 2,545
I bL (ρ, z) = I bo = 4,5x107 = 3,36x107 W / m 2
γ 3,410

Considerando que essa intensidade esteja propagando numa fibra padrão com um campo modal de 50 µm2 tal
intensidade corresponde a uma potência de

P = 3,36x107 x5,0x10−11 = 1,68x10−3 W = 1,68mW


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10.5 – Dependência do bombeio e sinal com o comprimento

Outra informação importante se refere à dependência do bombeio e do sinal com o comprimento da região
amplificadora. Essa dependência poder analisada por meio das equações que descrevem a variação da intensidade de
luz dos modos guiados em função de z, entendendo-se por modos guiados os modos referentes ao bombeio e o sinal.

10.5.1 – Aproximação de pequenos sinais

Antes de qualquer solução mais complexa tomaremos um caso simples para servirem de orientação para os casos
mais complexos. Na aproximação de pequenos sinais iremos considerar que a intensidade ϕs da onda do sinal é
desprezível, de modo que a eq.(10.4.21) se reduz a:

1
N1 (ρ, z) = NT (10.5.1)
1 + ϕb

e a eq.(10.4.18) será escrita na forma

dI b (z)  σab 
= − N T  I b (z) (10.5.2)
dz  1 + I b (z) / I bo 

Feita essa primeira aproximação consideremos duas situações limites a saber: Ib(z)« Ibo, Ib(z)~ Ibo e Ib(z)» Ibo.
No primeiro caso podemos escrever

dI b ( z )
= −σab N T I b (z) (10.5.3)
dz
274 Amplicadores Ópticos a fibra

A solução dessa equação diferencial é a trivial

I b (z) ≈ I b (0)e −σab N T z (10.5.4)

Tomando a segunda aproximação Ib~Ibo se chega à seguinte equação diferencial:

−1
dI b (z)  I I (z)   1 1 
= −σab N T  bo b  = −σab N T  +  (10.5.5)
dz I + I
 bo b ( z ) I
 bo I b ( z ) 

donde vem

 1 1 
 + dI b (z) = −σab N T dz (10.5.6)
I
 bo I b ( z ) 

A integração dessa equação diferencial é:

 I ( z)  1
ln  b  + [I b (z) − I b (0)] ≈ −σab NT z (10.5.7)
I ( 0)
 b  bo I

para a condição de contorno [z=0, Ib(z)=Ib(0)] e [z, Ib(z)].


Finalmente, tomemos a última aproximação Ib»Ibo, para a qual a eq.(10.5.2) será:

dI b ( z )
= −σab N T I bo (10.5.8)
dz

segunda a qual

I b (z) ≈ I b (0) − σab N T I bo z (10.5.9)

Resumindo temos:

Ib(z)«Ibo I b (z) ≈ I b (0)e −(σ ab N T )z

 I (z)   I (0)   I (z) 


Ib(z)~Ibo ln  b  +  b   b − 1 ≈ −(σab N T )z
 I b (0)   I bo   I b (0) 

Ib(z)»Ibo I b (z) ≈ I b (0) − (σab N T I bo )z

Nelas vemos o bombeio ser atenuado de forma exponencial para Ib«Ibo, com um coeficiente de absorção dado por
σabNT. No caso extremo oposto Ib»Ibo a atenuação é se dá de forma linear. Já o caso Ib~Ibo o comportamento é uma transição
entre os casos extremos. A análise desses casos serão analisados no ex.(10.5.1).

_________________________________________________________________________________________

Exemplo(10.5.1) – Analisar na aproximação de pequenos sinais os casos discutidos acima para os seguintes dados:
Sistemas de Comunicação Óptica 275
18 -3
NT=5x10 cm
σab=2x10-21 cm2
λ=1550 nm
τ=20 ms
Solução

Antes de calcularmos o comportamento do bombeio ao longo de z, calculemos os termos intermediários:

hν b 1,24 x1,602 x10−19 1 1,24 x1,602 x10−19 1


I bo = = = − 25 − 2
= 3,20x107 W / m 2
σab τ λ(µm) σab τ 1,55 2 x10 x 2 x10
σab N T = 2x10−25 x5x1024 = 1m −1 = 1000km −1

Observamos que o termo σabNT se comporta na solução exponencial, referente ao caso em que Ib(z)«Ibo, faz o papel
de uma absorção cujo valor é de 0,01 cm-1; esse valor em dB corresponde a uma extraordinária atenuação de 4340
dB/km.
Antes de usarmos os valores obtidos vamos transformar as intensidades em potências tomando, uma grandeza
mais condizente com o uso prático. Para fazermos isso usaremos

Pb (z) = A b I b (z )

onde Ab é a área referente ao diâmetro modal. Desse modo, tomando um raio modal ρm=1,5 µm, um valor típico para
este raio, encontraremos a seguinte potência de bombeio:

( )2
Pbo (z) = πρ2m I bo = 3,414 * 1,5x10−6 * 3,20x107 = 0,25mW

Com tais valores as eqs.(10.5.4), (10.5.7) e (10.5.9) ficarão:

Ib(z)«Ibo Pb (z) ≈ 0,025e − z Pb(0)=0,025 mW

 P (z)   0,5   Pb (z) 


Ib(z)~Ibo ln  b  +   − 1 ≈ −z Pb(0)=0,5 mW
 0,5   0,25   0,5 

Ib(z)»Ibo Pb (z) ≈ 2,5 − z Pb(0)=2,5 mW

onde estão indicadas as potências de bombeio injetadas na fibra. Na fig.(10.5.1) estão apresentados os
comportamentos calculados segundo a aproximação de pequenos sinais, conforme os níveis de potência indicadas na
figura. Tais níveis descrevem as três situações analisadas neste exemplo. A curva referente ao caso em que Pb(0)«Pbo,
referente ao comportamento exponencial, foi multiplicada pelo fator 100 para melhor visibilidade no gráfico.
Um melhor entendimento do comportamento da potência de bombeio ao longo de z exigirá uma solução mais
perfeita que a obtida nessa exemplo.
276 Amplicadores Ópticos a fibra

_________________________________________________________________________________

Como já o fizemos no ex.(10.5.1), a partir desse ponto consideremos as eqs.(10.5.1) e (10.5.2) em termos das
potências transportadas pelos modos propagantes do bombeio e do sinal ao invés das intensidades. Tais potências são
dadas por:

Pb (ρ, z) = A b I b (ρ, z ) (10.5.3)

onde Ab é a área modal calculada por meio da expressão

A = πρ2mb (10.5.4)

2,5
(a) P b(0)=0,025 mW
(b) Pb(0)=0,5 mW
2,0 (c) Pb(0)=2,5 mW

1,5
P b (z)
mW (c)
1,0 x100

0,5 (b)
(a)

0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0


z (m)
Fig.(10.5.1) – Comportamento da potência de bombeio em
uma fibra dopada com érbio para os três casos estudados da
aproximação de pequenos sinais.
sendo ρmb o raio modal do bombeio. Considerando que as fibras são monomodo, tomaremos o raio referente ao modo
fundamental

  Uρ 
 A 00J 0  a 
   e - iβ z ; ρ < a
 J 0 (U )
E 00 (ρ, z) =  (10.5.5)
 A K  Wρ 
 00 0  a  -iβz
 e ; ρ>a
 K 0 (W )

onde

U2 + W 2 = v2 (10.5.6)

e
v = n 2n − n c2 k o a (10.5.7)

é a freqüência normalizada. Essa solução considera o meio vítreo desprovido de absorção ou amplificação. Nestes
casos em que há atividade óptica seria necessário se caracterizar opticamente o meio com um índice de refração
complexo n = n + iK de modo que o campo seria do tipo:

E(ρ, θ, z) = E(ρ, θ)e −ink o z = E (ρ, θ)e −i ( n + iK ) k o z = E(ρ, θ)e −ink o ze − Kk o z (10.5.8)
Sistemas de Comunicação Óptica 277

Isso faria com que as equações de onda tivessem um tratamento mais trabalhoso. Por outro lado a parte imaginária do
índice de refração é algumas ordens de grandeza menor do que a parte real, permitindo que o guia seja resolvido
apenas com a parte real do índice de refração e tomando-se a solução completa multiplicando-se a solução transversal
E(ρ,θ) pelo termo propagante conforme a eq.(10.5.8).Quadrando o capo para se ter a intensidade luminosa e
chamando


2Kk o = K=α (10.5.9)
λo
teremos:

I (ρ, θ, z) = I (ρ, θ)e −αz (10.5.10)

Tendo isso em mente, o campo propagante, fundamental (independente de θ) como é o caso de interesse, poderá ser
aproximado por:

I s (ρ, z) = Ps (z)F(ρ) (10.5.11)

I b (ρ, z) = Pb (z)F(ρ) (10.5.12)

sendo a dependência em z descrita por uma função a ser determinada, ao invés da exponencial em z. No caso em
análise, ao contrário de um meio de propriedades homogêneas, a excitação óptica depende de z, fazendo com que o
coeficiente de ganho g=-α seja dependente de z. Tal dependência não é explícita mas depende da solução de
intensidade dos campos.
Os modos podem ser normalizados segundo a potência total PT injetada na fibra, de modo que teremos a
expressão:
∞ 2 2π
∫0 E 00 (ρ) ρdρ ∫ dθ = PT
0
(10.5.9)

Com isso vem:

∞ 2π ∞
Ps (z) = ∫ I s (ρ, z)ρdρ ∫ dθ = 2π∫ I s (ρ, z)ρdρ (10.5.10)
0 0 0

∞ 2π ∞
Pb (z) = ∫ I b (ρ, z)ρdρ∫ dθ = 2π ∫ I b (ρ, z)ρdρ (10.5.11)
0 0 0

para as potências transportadas pelos modos do sinal e do bombeio, respectivamente.

dPs (z) ∞ dI s (ρ, z)


= 2π ∫ ρdρ (10.5.12)
dz 0 dz
e

dPb (z) ∞ dI b (ρ, z)


= 2π ∫ ρ dρ (10.5.13)
dz 0 dz

Usando-se as eqs.(10.5.1) e (10.5.2) teremos:


278 Amplicadores Ópticos a fibra

dPs (z) ∞
= 2πσas ∫ ( γN 2 − N1 ) I s (ρ, z)ρdρ (10.5.14)
dz 0
e

dPb (z) ∞
= −2πσab ∫ N1 (ρ, z) I b (ρ, z)ρdρ (10.5.15)
dz 0

Aqui iremos considerar que a distribuição dos íons de érbio na fibra dopada será constante de ρ=0 a ρ=d, de forma
que as eqs. (10.5.14) e (10.5.15), segundo as eqs.(10.4.17) e (10.4.18) serão escritas como segue:

 P (z) 
 γ b Fb (z ) − 1 
dPs (z) d I po
= 2πσas N T ∫  Ps (z)Fs (ρ )ρdρ (10.5.16)
0  Pb (z) Ps (z)
dz 1+ Fb (ρ ) + Fs (ρ ) 
 I po Iso 
 
γ Ps (z)
1+ Fs (ρ)
dPb (z) d (1 + γ ) Iso
= 2πσab N T ∫ Pb (z)Fb (ρ)ρdρ (10.5.17)
dz 0 Pb (z) Ps (z)
1+ Fb (ρ) + Fs (ρ)
I bo Iso

De posse das eqs.(10.5.16) e (10.5.17) poderemos escrever a expressão (10.4.15) como segue:
10.5.2 – Solução com a aproximação gaussiana

Para se obter a solução para as eqs.(10.5.16) e (10.5.17) é necessário a adoção de um método numérico
computacional. Entretanto é possível se simplificar a solução mesmo numérica adotando-se uma aproximação
gaussiana para a descrição das funções Fs(ρ,z) e Fb(ρ,z). Com tal aproximação se obtém uma expressão mais simples
para ambas as equações citadas. Segundo uma gaussiana, as funções acima destacadas, são aproximadas por:

1 2
Fs / b (ρ) = 2
e− ( ρ / w s / b )
πws / b

Usando a aproximação gaussiana, as integrais (10.5.16) e (10.5.17) podem ser integradas, sendo muito mais simples
quando fazemos a aproximação ws=wb. Isso leva aos seguintes resultados:

d 1 + ζ e − ρ / w b  − (ρ / w )2
dPs (z) 2 ( )2
= − 2 σas N T Pb (z) ∫  
2 e
b ρdρ (10.5.18)
dz wb 0 1 + ξe − (ρ / w b ) 
 
onde:

γ Ps (z)
ξ( z ) = (10.5.19)
1 + γ Pso
P (z) Ps (z)
ζ ( z) = b + (10.5.20)
Pbo Pso
e

Pso = πw s2 I so (10.5.21)
Sistemas de Comunicação Óptica 279

Pbo = πw 2b I bo (10.5.22)

Com a aproximação gaussiana temos a resolver a integral da eq.(10.5.18), cujo resultado é:

d 1 + ζ(z)e− ρ / w b
( )2 
−(ρ / w b )2
∫0 
 
−(ρ / w b )2 
e ρdρ =
1 + ξ( z )e 
(10.5.23)
 ξ(z)  w  2
1 + ζ( z)  ξ(z) w 2
= 1 −  ln + 1 − e−(d / w) 2 
 ζ(z)  2ζ(z)  1 + ζ(z)e−(d / w )  ζ(z) 2 
2

Daí, vem

dPs σas NTPs (z)  Pb (z)  − (d / w ) 2   P (z)   1 + ζ ( z) 



= γ 1 − e  − 1 + γ b  ln
dz ζ(z)  ζ(z)Pbo    ζ(z)Pbo   1 + ζ(z)e−(d / w ) 2 
  
(10.5.24)
e
dPb σ N P ( z)   ξ(z)   1 + ζ(z) 
= − ab T b ξ(z)1 − e−(d / w )  + 1 −
2
 ln  (10.5.25)
dz ζ (z )     ζ(z)   1 + ζ(z)e−(d / w ) 2 
  

Com as eqs.(10.5.24) e (10.5.25) se pode descrever como as potências do sinal e do bombeio se comportam ao longo
de z. Na primeira equação a derivada (dPs/dz) será sempre positiva indicando o crescimento da potência à medida em
que propaga, enquanto na segunda equação será sempre (dPb/dz)<0 indicando atenuação como se espera do bombeio.
Ou seja, à medida que propaga ele atenua por ser absorvido dando lugar à excitação óptica do meio.
Consideremos os seguintes valores para os parâmetros envolvidos nas eqs.(10.4.24) e (10.4.25):

Raio do núcleo – a = 1,64 µm


Raio de dopagem – b =1,64 µm
Tempo de recombinação – τ=12 ms
Seção de choque da absorção do bombeio – σab = 2,17x10-25 m2
Seção de choque da absorção do sinal – σas = 2,57x10-25 m2
Seção de choque da emissão do sinal – σes = 3,41x10-25 m2
Comprimento de onda do bombeio – λ=980 nm
Comprimento de onda do sinal – λ=1550 nm
280 Amplicadores Ópticos a fibra

Com eles, a solução das referidas equações estão


graficadas nas que vêem a seguir. Na fig.(10.5-2) 7
encontramos o comportamento do bombeio com o
comprimento da região percorrida pela radiação
do bombeio. Como se vê há os comportamentos 5 Pb= 7 mW
característicos de uma exponencial para 3 mW de Pb
potência de bombeio incidente, linear para a (mW)
3 5 mW
maior potência de 7 mW, e um comportamento
intermediário para a potência intermediária de 5
mW. Isso segue a análise aproximada para 3 mW
1
pequenos sinais feita anteriormente.
Na fig.(10.5-3) temos o comportamento 0
4
0 1 2 3 5 6 7
do sinal com o comprimento de onda da região de
comprimento da fibra (m)
amplificação. Um fato relevante vem com o fato
de como se comporta a intensidade do Fig.(10.5-2) – Dependência do bombeio com o comprimento
sinal com a potência de bombeio injetada 350
da região percorrida.
no amplificador. Como se vê na figura, 300
para a potência maior de 7 mW até 7 m o Pb= 7 mW
sinal cresce monotônicamente. Para 5 mW 250
o mesmo se dá, entretanto o P 200
comportamento revela um máximo (µW)s
150
indicando o que se observa para uma
5 mW
potência de bombeio ainda menor, como é 100
o caso de 3 mW. Neste caso, a potência do 50
sinal após atingir um máximo de 3 mW
amplificação em torno de 4,5 m sofre 0
0 1 2 3 4 5 6 7
atenuação no comprimento restante a ser comprimento da fibra (m)
propagado. Isso se dá por conta da sua
absorção pelos íons do estado fundamental (E1). Ao
longo da direção de propagação (z) a sua atenuação Fig.(10.5-2) – Dependência do bombeio com o comprimento
da região percorrida.
produz uma redução da inversão de população,
acarretando, a partir de um certo comprimento o efeito inverso da amplificação, a atenuação do sinal. Aí temos como
resultado a existência de um comprimento ótimo de amplificação, o qual depende da fibra dopada e da potência de
bombeio.
Para efeito de projeto de enlaces, há de se considerar as normas sobre os amplificadores, as quais estão
listadas na Tab.(10.5.1).

Assunto Norma
Amplificação Ópticos e correlatos G.662
Perdas de Inserção G.957
Amplificadores com Bombeamento
G.973
Remoto

.Tab.(10.5-1) – Normas relacionadas a amplificadores ópticos e


assuntos correlatos

10.5.3 – Amplificadores com outros íons


Sistemas de Comunicação Óptica 281
Nos sistemas atuais o elemento amplificador de sinais é o amplificador óptico feito com fibras ópticas
dopadas com érbio (Er3+), operando na faixa de 1530 a 1562 nm. Essa faixa é chamada de banda-C, onde a letra C
designa convencional. Esses íons absorvem energia luminosa de comprimento de onda igual a 980 ou 1480 nm,
chamada de bombeio, e repassam essa energia para os fótons do sinal que estão na faixa da banda C. Tais
amplificadores podem suprir níveis de amplificação que ultrapassam os 40 dB (a intensidade do sinal na saída é
10.000 vezes o valor do sinal na entrada).
A aplicação inicial dos amplificadores ópticos foi
em um enlace submarino, mais precisamente em 1994,
1G
um enlace da AT&T Submarine Systems entre Flórida e 4
St. Thomas. Em 1995 já estava funcionando o primeiro 1064 nm
3F
enlace transatlântico usando amplificação óptica, logo 2
3F
seguido pelo enlace trans-pacífico. O uso em enlaces 3
3F
ópticos terrestres de longa distância se espalhou por toda 4
parte. O uso de amplificadores ópticos aumentou 1064 nm 1470 nm
grandemente a capacidade dos sistemas de comunicação 3H
5
óptica, levando-os de alguns gigabites por segundo para 3H
4
algumas centenas. Em laboratório as taxas de terabit por
segundo se tornaram uma rotina. A regulamentação da 1064 nm
ITU é feita nas normas indicadas na Tab.(10.5-1).
3H
Atualmente se está expandindo a banda espectral 6
dos amplificadores de érbio, o que traz a nova geração
desses dispositivos. Uma pequena modificação dos Fig.(10.5-xx) – Esquema de níveis de energia e de bombeio
amplificadores permite que sejam amplificados sinais no do íon Tu em amplificador a fibra.
intervalo de 1570 a 1610 nm, criando-se a banda L (L-Low), sendo o L uma referência aos comprimentos de onda
mais longos dessa nova banda espectral. A combinação das duas bandas C e L dá aos amplificadores uma banda total
da ordem de 10 THz. O que isso significa pode ser exemplificado pelo número de canais de voz ou conexões de
Internet de alta velocidade. Seriam 80 milhões de canais de voz e 5 milhões de conexões de Internet de alto
desempenho. Sem tirar o inequívoco sucesso dos amplificadores de érbio devemos dizer que eles só disponibilizam
80 nm de banda (1530 a 1610 nm). A exploração da banda óptica disponível, indo de 1270 a 1670 nm, portanto 400
nm de banda, permitiria multiplicar por cinco a banda atual.
Esforços estão sendo feitos a fim de se usar outros íons terras-raras. De fato seriam vários terras-raras
passíveis de serem usados em processos de amplificação, tais como: itérbio, olmio, niodímio, prasiodímio samário e
túlio. Afora o érbio, a niodímio também foi de muito interesse 4G
7/2
inicialmente, para a produção de lasers de fibra, podendo ser absorção de
bombeados pela radiação de lasers de GaAs em 800 nm, como estado excitado 1330 nm
mostra a fig.(10.5.x). Afora érbio e niodímio, os mais citados são os 44F5/2
F3/2
amplificadores a fibra dopadas com túlio, praseodímio.
No caso do praseodímio o amplificador opera na faixa de 1330 nm
1280 a 1340 nm. A dificuldade se resume na necessidade do meio ser 4I15/2
um fluoreto e não sílica. Além disso, há o problema do alto nível de 1060 nm
bombeio, algo em torno de 300 mW, bemo como o comprimento de 4I13/2
920 nm
onda da radiação de bombeio requerendo um laser de 1017 nm. 4I11/2
Portanto, fora dos comprimentos de onda populares de bombeio 980
e 1480 nm a tecnologia dos amplificadores de praseodímio é pouco 4I
9/2
bombeio
usada e carece de maiores desenvolvimentos.
Fig.(10.5-x) – Esquema de níveis de energia e de
Quanto aos amplificadores com fibras dopadas com túlio, o
bombeio do íon Nd+3 em um m laser a fibra.
esquema de níveis corresponde a um amplificador a quatro níveis,
como mostra a fig.(10.5.xx). Como se vê o bombeio é feito com uma fonte de 1060 nm, havendo recombinação
estimulada para comprimentos de onda em torno de 1470 nm. Conquanto o comprimento amplificado seja de muito
interesse para sistemas de comunicação óptica, o bombeio não desperta o mesmo interesse.

10.6 – Amplificadores Raman


282 Amplicadores Ópticos a fibra

Além do fato dos amplificadores serem necessários para a amplificação de um sinal, com o advento dos
sistemas WDM, se tornou ainda mais necessário que tais amplificadores pudessem cobrir um intervalo mais largo do
espectro. Na Tab.(10.1-2) estão apresentadas as diferentes janelas ópticas, destacando-se as bandas espectrais
correspondentes, as fibras adequadas e suas aplicações importantes. Nessa tabela se vê a menção de uma banda S (S-
Short) de 1280 a 1350 nm, a qual juntamente com a banda C tem aplicação direcionada para as redes WDM
metropolitanas. No entanto só um tipo de amplificador poderia ter uma banda espectral tão larga quanto essa de 1270
a 1670 nm: os amplificadores Raman, uma nova opção de amplificadores ópticos que começa a ser incorporada aos
sistemas.
Esses amplificadores funcionam independendo do uso de íons na matriz de vidro. No qual ao invés das
propriedades de um íon forasteiro se utiliza as próprias propriedades da sílica. Isso se dá por meio do efeito não linear
conhecido como Espalhamento Raman Estimulado, se gundo o qual caso a intensidade de uma onda propagante na
fibra seja muito intensa (MW/cm2) é possível se
transferir a energia dessa onda para outra de comprimento de onda adequado. Ou, em outras palavras, um fóton de
menor comprimento de onda (maior energia) excita o meio que decai do estado de maior comprimento de onda
(menor energia); a diferença de energia é liberada para o meio por meio de vibrações da matriz de vidro (fônons). A
fig.(10.6.1) ilustra o que acabamos de comentar. As vibrações formam um conjunto de estados de energia muito
próxima, formando uma
Estado
Transitório
Sinal
1580 nm

Bombeio Estados
1480 nm
Relaxação de Vibracionais
Fónons Estado
Fundamental

Fig.(10.6.1) – Ilustração do processo de amplificação via efeito Raman estimlado.

faixa de energias quase contínuas, acima do estado fundamental, como indica a chave na fig. (10.6.1).
O ganho da amplificação Raman de pende da diferença de energia entre o comprimento do bombeio e do
sinal. A fig.(10.6.2) mostra que tipo de comportamento existe entre o ganho e a diferença de comprimento de onda
entre o sinal e o bombeio. Como se vê na figura, o ganho é nulo para uma diferença nula aumentando de forma quase
linear até atingir um máximo para uma diferença de comprimento de onda em torno de 100 a 120 nm, após o que
decai até se anular. Segundo o comportamento da fig.(10.6.2) se pode reconhecer uma banda com uma largura em
torno de 50 nm.

Janela Rótulo Banda Tipo de Aplicação


Óptica (nm) Fibra
Primeira - 820-900 MMF LAN
Segunda S 1280-1350 SMF Único λ
Terceira C 1530-1565 SMF DWDM
Quarta L 1570-1610 DSF DWDM
Quinta - 1350-1450 SMF DWDM
Quinta - 1450-1530 SMF DWDM/MAN
Tab.(3.1-2) – Resumo do uso das bandas espectrais das fibras ópticas.
MMF – Fibra Multímodo, SMF – Fibra Monomodo, DSF – Fibra de Dispersão Deslocada.
Sistemas de Comunicação Óptica 283
Observemos o uso de diferentes comprimentos de onda é
possível desde se ajuste o posicionamento da banda de ganho para
cada um deles por meio da escolha conveniente do comprimento
de onda do bombeio; ou seja, um comprimento de onde uns 100
nm menor que o do sinal em consideração. Disso se conclui que é
possível se usar a própria fibra transmissora dos sinais como
amplificador sobre toda a banda óptica disponível. Para tanto se
Ganho
torna necessária a disponibilidade de potentes lasers de bombeio, (u.a.)
isto findando por ser um dos limitantes dos amplificadores Raman.
Um detalhe interessante quanto a amplificação Raman é
quanto a situação do sentido de propagação das ondas. A
amplificação ocorre tanto para a situação em que o sinal e o
bombeio propagam no mesmo sentido (propagante) quanto em 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180
sentidos contrários (contra-propagante). Há possibilidade de Diferença de comprimento de onda (nm)
existirem sistemas com ambas as situações conquanto haja
algumas vantagens de se usar o esquema contra-propagante como
veremos adiante. Fig.(10.6.2) – Dependência entre o ganho da amplificação
Raman e a diferença de comprimento de onda entre sinal e
bombeio com a linha tracejada indica o comportamento linear.
10.6.1 – Descrição eletromagnética do efeito Raman

O efeito Raman, como já foi comentado a, ocorre em face da interação de caráter não linear entre o campo
eletromagnético e a matéria. Diferentemente do caso linear, quando a polarização do meio é proporcional ao campo
elétrico aplicado, para campos intensos, quando ocorre os efeitos não-lineares, a polarização elétrica da matéria pode
ser em geral descrita por:

(
P = εo χ(1) ⋅ E + χ( 2) : E1E 2 + χ(3) ME1E 2E3 + ... )
onde εo é a permissividade do vácuo, χ(k) é em geral um tensor (tensor susceptibilidade elétrica) de ordem (k+1)
(k=1,2,3...). No caso linear, como já conhecemos, a polarização P escrita na forma:

P = εoχE

nos leva à definição da constante dielétrica ε por meio da expressão:

ε = εo (1 + χ) = ε r + iεi

vendo-se explicitada o caráter complexo da constante dielétrica, oriundo da susceptibilidade elétrica. Esse caráter
complexo se estende ao índice de refração definido como n=(ε/εο)1/2, δο θυε ρεσυλτα:

n = n + iK

sendo a parte real n (índice de refração) responsável pela dispersão cromática do meio e K (coeficiente de extrinção)
responsável pelo efeitos de atenuação (absorção) ou amplificação do meio, facilmente visto na intensidade de uma
onda elétrica:

2
I = E oe −i[( n + iK ) k o z − ωt ] = E o2e − 2 Kk o z = I o e −αz

Quando há efeito não-linear por conta da alta densidade de potência óptica (centenas de KW/cm2 a MW/cm2)
surgem efeitos cuja descrição exige a utilização de outro (ou outros) termo da polarização elétrica. No caso do meio
vítreo de uma fibra o tensor de segunda ordem da susceptibilidade elétrica é nulo, face à existência de centro de
284 Amplicadores Ópticos a fibra

inversão. Sendo simétrica a molécula de SiO2 o tensor χ(2) é nulo. Assim sendo, os efeitos não-lineares em fibras
ópticas começam com o tensor de terceira ordem χ(3). Com esse efeito de terceira ordem da polarização se observa
efeitos como: mistura de quatro ondas (FWM) e índice de refração não linear.
Os efeitos de terceira ordem podem ser divididos em duas classes importantes, a saber: os elásticos e os
inelásticos. No primeiro caso não há troca de energia entre o campo eletromagnético e o meio, sendo ditos processos
paramétricos. No segundo caso, estão aqueles em que há troca de energia, e estão os espalhamentos inelásticos
estimulados. Tais espalhamentos são conhecidos como os espalhamentos Raman e Brillouin, os quais ocorrem por
meio de troca de energia com o meio via fônons. Nesses casos se tem a absorção de um fóton incidente (bombeio)
para se gerar um fóton de energia menor e um fônon de energia e momento apropriados. Tal espalhamento é dito
gerar uma onda Stokes. Já o caso em que o foton aniqüilado tem energia menor do que a daquele que é gerado, e é
chamado de espalhamento anti-Stokes.
O espalhamento Raman provem de interações com fônons ópticos, enquanto o espalhamento Brillouin com
fônons acústicos. A diferença das relações de dispersão de fônons ópticos e acústicos produz diferenças entre os dois
espalhamentos. Nas fibras de vidro o espalhamento Raman se dá tanto com propagação no mesmo sentido das ondas
do bombeio e aquelas geradas, enquanto o Brillouin se dá com propagação em sentidos opostos (contrapropagante).

10.6.1 – Aplicações dos amplificadores Raman

Os amplificadores Raman têm diversas aplicações. Uma das aplicações é o uso deles como compensadores
parciais da atenuação que uma fibra causa sobre o modo propagante. Com isto se pode aumentar a distância entre os
AFDE (Amplificadores com Fibras Dopadas com Érbio) permitindo a redução de custos no sistema.
Os amplificadores Raman podem, também, ser usados em janelas ópticas não atendidas pelos AFDE. Isso é
particularmente importante no caso de enlaces WDM os quais requerem faixas espectrais de amplificação que não
podem ser cobertas unicamente com os amplificadores de Érbio. Os sistemas já implantados podem ser atualizados
com o uso de amplificadores Raman operando em faixas não cobertas pela amplificação a érbio.
Uma aplicação a mais para os amplificadores Raman é na composição de amplificadores híbridos AFDE-
Raman nos quais se obtém uma razoável planicidade, mormente nos casos de espectro largo.
8
Fotodetectores
Fotodetectores

Introdução

O fotodetectores é o elemento que completa o sistema básico de comunicação óptica,


realizando a tarefa da conversão de sinais luminosos em sinais elétricos, os quais podem ser
transformados, por exemplo, em voz. Assim como os lasers e leds, os detectores utilizados nos
sistemas de telecomunicação são diodos, daí também serem chamados de fotodiodos. Neste capítulo
vamos avaliar algumas das propriedades deste dispositivo.
Estes dispositivos são diodos de junção p-n, feitos de três materiais básicos, a saber: Silício,
Germânio e InGaAs, este último uma liga ternária (InAs e GaAs). Quanto aos tipos de detectores
feitos com estes materiais citados, os sistemas de comunicação usam dois: o p-i-n (designaremos por
pin) e o APD (Avalanche PhotoDiode). Adiante discutiremos a ambos os tipos pin e APD.

8.1 – Absorção e geração de pares elétron-buraco

Antes de estudarmos sobre os fotodetetores deveremos entender como se forma um par


elétron-buraco a partir da absorção de fótons em um semicondutor. Desse par formado segue a
geração de corrente elétrica no dispositivo. A fig.(8.1-1) ilustra a absorção de um fóton por um
elétron que está na banda de valência, em um ponto qualquer dentro do semicondutor. Da banda de
valência, às expensas da energia do fóton, o elétron transitará para a banda de condução, ficando um
buraco na banda de valência. Caso haja um campo elétrico na região na qual se gera o par elétron-
buraco, esse par irá se separar. Cada carga, referente ao buraco e ao elétron se moverá em um sentido
próprio, puxada pelo campo elétrico no qual estão presentes. Para que haja a existência de um campo
elétrico na região onde há a geração do par elétron-buraco é que ela se encontra em torno de uma

Energia
Ef

Ef −E
− i = hν
ν

Ei

Fig.(8.1-1) – Ilustração da absorção de um fóton e a transição da banda de valência para a de condução


gerando um par elétron-buraco.
220 Detectores

junção p-n de um diodo semicondutor. Nela há + + + + +


+ +
+ + + + ++

um campo elétrico decorrente da variação de + ++ + +


+ + + ++ +

P
+

N
+
V + +
+ + +

potencial na junção p-n. Esse campo pode ter


+ + + +
+ + +
+ +++
+ +
+ + + +
+ + +

sua intensidade aumentada aplicando-se uma


+ + + +

tensão reversa ao diodo. Com um campo maior I W


haverá uma ação mais efetiva na separação das
cargas e, por conseqüência, aumentar a
V
corrente elétrica para um mesmo fluxo de
fótons. A fig.(8.1-2) ilustra esse fato quando Vo
tal par é gerado na região de depleção de uma
junção p-n na qual existe o campo elétrico
E
proveniente da variação de potencial na junção
p-n. Tal campo elétrico irá produzir a elétron
separação das cargas negativas (elétrons na buraco
banda de condução) e positivas (buracos na Fig.(8.1-2) – Distribuição do potencial em um diodo sob a
aplicação de uma tensão reversa.
banda de valência) provocando a corrente
elétrica necessária ao funcionamento do dispositivo.

8.2 – Detectores pin

Um detector pin é uma junção p-n ladeando uma região fortemente compensada, portanto de
caráter isolante, donde vem o i que se vê no Cam ada Anti-Refletora
(1025 Α - SiO ) hνν
nome da estrutura. A fig.(8.2-1) ilustra uma
2

Contato Metálico

estrutura do tipo pin. Na fig.(8.2-2) está +


p
apresentada uma estrutura de conexão
π
microeletrônica de um diodo fotodetector. Nela n +

se vê o anel de contato elétrico dentro do qual


está a janela de entrada de luz que será detectada
pelo detector.
A detecção realizada pelos detectores SiO 2
ocorre devido ao processo de absorção de fótons
que cria um par elétron-buraco, na junção do Au-Zn

diodo, e com isto dá lugar a uma corrente


elétrica por conta do elevado campo elétrico da Fig.(8.2-1) - Esquema de um fotodetector pin.
junção. Para que haja absorção há a necessidade
dos fótons a serem absorvidos terem energia maior do que a da banda proibida que separa as bandas
de valência e condução. Por esta razão os fotodetectores têm uma resposta que depende do material
de que são feitos bem como do comprimento de onda
detectado.
Na janela de 0,85 µm, correspondente a fontes de
GaAs, os detectores usados são os de Silício. Como se
pode ver na fig.(8.2-3), a banda proibida do Silício está
abaixo da do GaAs, podendo portanto detectar os fótons.
O mesmo não ocorre com as ligas de InGaAsP,
cujas bandas proibidas estão na parte hachureada da
fig.(8.2-3). Nela, há uma faixa que tem a banda proibida
abaixo da do Silício. Desta forma os detectores para a
janela de 1,3 a 1,55 µm é detectada por detectores de
Germânio ou de ligas de InGaAs, cujas bandas proibidas
estão abaixo daquelas das ligas InGaAsP. De fato, os Fig.(8.2-2) – Estrutura microeletrônica de um
detectores de InGaAs são preferidos em relação aos de diodo fotodetector de incidência frontal.
Sistemas de Comunicação Óptica 221

Germânio em face de propriedades como: melhor estabilidade térmica, menor nível de ruído e maior
eficiência quântica diferencial.

2,8 AlP

2,4
GaP AlAs

Banda Proibida (eV)


2,0 AlSb

1,6
GaAs
InP
1,2
Si

0,8 GaSb
Ge
InGaAs
0,4 InAs InSb

0
5,4 5,6 5,8 6,0 6,2 6,4

Fig.(8.2-3) – Bandas proibidas de semicondutores em função dos seus parâmetros de rede.

8.2-1 – Característica IxV de um fotodiodo

Vejamos como é o comportamento IxV de um fotodiodo. A relação entre corrente e tensão é


aquela de um diodo comum, sendo:

( )
i = is eeV / KT − 1 − i f (8.2.1)

sendo is corrente de saturação, V tensão no fotodiodo, if fotocorrente, T a temperatura absoluta, e


carga do elétron e K (K=1,38 x 10-23 J/K) a constante de Boltzmann. Caso não haja incidência de
fótons (I=0) a fotocorrente será nula e a expressão (8.2.1) se reduz à expressão referente a um diodo
i
i

RC
VB

VB Vf Vf1 Vf2 I
iS I=0 -if
V
if I1 -if1
I2>I1 -if2
VB

RC

Fig.(8.2-4) – Curva característica IxV de um fotodiodo sem e com incidência de fótons. A


figura também mostra o circuito elétrico de um fotodiodo.
222 Detectores

comum.

A fig.(8.2-4) mostra a relação IxV de um fotodiodo, na qual consideramos algumas situações do


circuito. A figura mostra três curvas correspondentes a três condições de incidência luminosa I=0, I1
e I2> I1. Com incidência luminosa a curva IxV é deslocada para baixo em função do surgimento d
fotocorrente e de forma que quanto maior for a potência luminosa I maior será a fotocorrente que
circula no circuito. Se houver a resistência de carga, a corrente e a tensão de operação podem ser
encontradas no cruzamento da reta que une os pontos V= -VB e I= -VB/RC e a curva IxV referente à
intensidade luminosa I.
Os fotodiodos operam sob o regime de altas tensões reversas, com o que ocorre o aumento
do campo na região de depleção e da largura dessa região, e a redução da capacitância do dispositivo.
Tais grandezas são dadas pelas expressões:

2e(Vo − V )  1 1 
E=  +  (8.2-2)
ε  NA ND 

2ε(Vo − V )  1 1 
W=  +  (8.2-3)
e  NA ND 

2εe
C= (8.2-4)
 
(Vo − V ) 1 + 1 
 NA ND 

que são obtidas na teoria das junções diodos semicondutores.

8.3 – Parâmetros importantes do fotodetector

Neste capítulo vamos considerar os parâmetros de importância prática de um diodo


fotodetector. Entre eles vamos considerar a fotocorrente, a responsividade e a eficiência quântica.

8.3-1 - Fotocorrrente

Uma variável importante em um fotodetector é a corrente gerada por ele sob a incidência de
fótons no dispositivo. Tal corrente é denominada de fotocorrente. Para se calcular tal corrente é
necessário se somar o número de elétrons na banda de condução gerados pela luz que incide no
dispositivo, os quais irão compor a corrente elétrica que poderá circular no dispositivo. Para
entendermos o processo da fotogeração, consideremos primeiro o comportamento da intensidade
luminosa ao longo da direção de propagação z em um meio cujo coeficiente de absorção α é dada
por:
Sistemas de Comunicação Óptica 223

I (z) = I (0)e −αz (8.3.1)

Na eq.(8.3.1) I(0) é a intensidade luminosa no ponto de entrada da luz e α é o coeficiente de


absorção. Na fig.(8.3-1) temos ilustrado o comportamento da intensidade de luz ao se propagar no
diodo atravessando a junção p-n do dispositivo. A redução de intensidade se dá por conta da
absorção de luz na qual cada fóton absorvido cria um par elétron-buraco, tendo um elétron na banda
de condução. Dividindo-se a intensidade de luz pela energia dos fótons, considerados
monocromáticos aqui, teremos que a intensidade de luz pode ser pensada como o número de fótons
por unidade de área e de tempo que atravessa o diodo.
O cálculo da fotocorrente envolve,
pois, se calcular o número de elétrons levados à
banda de condução, por unidade de tempo. Io
Como cada fóton desaparecido corresponde a
um elétron na banda de condução de maneira I
que a criação desses portadores na banda de
condução corresponde à redução do número de
fótons à medida que a luz propaga. Desse carga
modo, o número dS de fótons desaparecidos
Io(0)= Io(1-R) Io
em um percurso dz é igual ao número de
elétrons gerados dn. Isso é válido sob a n p
condição da eficiência quântica ser cem por
cento. Portanto, o número de elétrons
fotogerados em uma fatia dz de propagação da
luz, por unidade de área e de tempo, é dado Fig.(8.3-1) – Ilustração do comportamento da
intensidade de luz ao penetrar em um fotodiodo.
por:

d  I 
dS =  dz (8.3-2)
dz  hν 

Consideremos que tal geração se dá, primordialmente, ao longo do comprimento W da região de


depleção a qual está muito próxima da interface com o meio externo. Nela a intensidade de luz decai
e se torna desprezível. Integrando-se a eq.(8.3.2) no intervalo (0,W) se tem o total de fotoelétrons
gerados, o qual dividido pela carga do elétron nos dá a densidade de fotocorrente Jf a circular pelo
fotodetetor. Ou seja:

(
e W  d (1 − R ) I oe − αz )dz
hν ∫0 
Jf = − (8.3.3)
dz 

Nessa equação, (1-R) determina a fração dos fótons incidentes que penetrou no fotodetector, sendo
transmitidos para dentro de depleção na qual ocorre a absorção. O sinal negativo na derivada anuncia
que a redução do número de fótons significa o aumento do número de pares elétron-buraco que
participarão da densidade de corrente circulante no dispositivo. Tal equação nos leva a

e W
I o (1 − R )αe − αzdz
hν ∫0
Jf = (8.3.4)

cuja integração resulta na expressão:


224 Detectores

e eλ
J f = Io

( ) (
(1 − R ) 1 − e− αW = I o (1 − R ) 1 − e −αW
hc
) (8.3.5)

onde se usou a relação ν=c/λ. Na eq.(8.2-3) se vê que, para um dado comprimento de onda, a
corrente será tão maior quanto menor seja a refletividade R da superfície do fotodetector e maior seja
o coeficiente de absorção α e a dimensão da região de depleção W. Por definição, Io=Po/A e If=JfA,
onde Po é a potência óptica, levando a eq.(8.3.5) a ser escrita na forma:

e
If = Po

(
(1 − R ) 1 − e− αW ) (8.3.6)

Considerando que haja apenas uma fração g dos fótons efetivamente gera pares de portadores,
contribuindo para a formação da fotocorrente, a eq.(9.3.6) será escrita como segue:


I f = Po

(
(1 − R ) 1 − e − αW ) (8.3.7)

A diminuição da refletividade é feita através da inclusão de uma camada antirefletora na


superfície do semicondutor, o que é feito com um filme de SiO2 ou Si3N4 com uma espessura da
ordem de 1000 angstrons. Na fig.(8.2-1) está apresentada a camada antirefletora que se acabou de
mencionar.
O coeficiente de absorção é uma função do material do qual é feito o fotodetector. No caso
daqueles usados em telecomunicação eles são feitos de Silício e de InGaAs o que determina o valor
do coeficiente de absorção. Na fig. (8.2-3) vemos o valor da banda proibida de vários materiais em
função do parâmetro de rede do semicondutor. A importância desse gráfico está em se ver a relação
entre materiais emissores e detectores de luz. A banda proibida determina a janela óptica do
dispositivo emissor (led ou laser). Por exemplo, na janela de 850 nm o emissor é GaAs. Para esse
comprimento de onda o material usado na detecção é o Si, uma vez que o material com o qual se faz
o detector precisa ter uma banda proibida
10-5
menor do que a radiação emitida pela fonte In0,53Ga0,47As53
emissora. Como se vê na figura o Si tem 0,27pF
uma banda proibida menor do que a do 10-6 T=20 oC (293 K)
GaAs. Para o caso dos emissores de Nd=5x1015 cm-3
InGaAsP, cuja radiação está no intervalo de
I
900 a 1550 nm. O silício não é usado para (Amp)10-7
as fontes de InGaAsP, principalmente para
as fontes que operam em 1300 e 1550 nm. 0,34pF
10-8 Idid+Iger
Para tais fontes são usados detectores feitos 0,5pF
de InGaAs, liga que tem uma banda 1pF Itun VB
proibida abaixo de 0,8 eV (1550 nm). 10-9
10 20 30 40 50 60
Já quanto ao valor de W, o seu Volts
aumento pode se dar elevando-se a tensão
reversa sobre o dispositivo. Por outro lado a Fig.(8.3-2) – Curva IxV de um fotodiodo de InGaAsP, sendo
elevação da tensão reversa traz um indicada a tensão de ruptura.
problema. Acima de um certo valor a tensão reversa começa a existir o tunelamento de elétrons
chegando à tensão de ruptura do diodo. A fig.(8.3-2) apresenta a curva IxV de um fotodetector de
InGaAs, nela vemos que o aumento da tensão reversa leva a mudança dos mecanismos que
estabelecem a corrente no dispositivo. É visto com clareza a participação do processo do
tunelamento de elétrons antecedendo a tensão de ruptura Vb. O tunelamento de elétrons em um
fotodetector é indesejável porque produz corrente elétrica independente da fotogeração o que
degrada a informação.
Sistemas de Comunicação Óptica 225

8.3-2 - Responsividade

Outra grandeza importante, do ponto de vista prático é a responsividade R de um detector.


Esta é definida como a relação entre a fotocorrente gerada no detector e a intensidade de luz que
sobre ele incide. Usando-se a eq.(8.2-5) poderemos escrever:

If eγ eγλ
R= =
I o hν
(
(1 − R ) 1 − e− αW = )
hc
(
(1 − R ) 1 − e −αW ) (8.3-8)

Na fig.(8.3-3) são apresentados de responsividade de detectores de Silício e InGaAs, na qual


se observa com facilidade o intervalo de comprimento de onda em que cada detector é mais eficiente.
Além disto se pode ver a maior responsividade dos fotodetectores de InGaAs.

8.3-2 – Eficiência quântica

Outra grandeza que caracteriza um detector é a sua eficiência quântica, definida pela
expressão:

η=
(If e ) (
= γ (1 − R ) 1 − e − αW ) (8.3-9)
 Io 
 hν 
 

É, pois, uma grandeza que mede a razão entre o número de fotoelétrons gerados e o número de
fótons que os gerou. Detectores de InGaAs apresentam eficiência quântica no intervalo de 0,5 a 0,9.
Usando-se a eq.(8.2-6) na eq.(8.3-8) teremos a seguinte expressão para a responsividade:

ηe e η
R= = λη = λ(µm) (8.3-10)
hν hc 1,24

nesta expressão o comprimento de onda deve ser usado em unidades de micrometros. Os


fotodetectores de InGaAs têm reponsividades de 1 A/W e tempos de resposta de dezenas de ps, o
que corresponde a bandas de 60 GHz.

Exemplo (8.1-1) – Obter a eficiência quântica e responsividade de um fotodetector de Si a ser


operado com um comprimento de 850 nm, para o qual o coeficiente de absorção é de 1000 cm-1.

Solução
O Si tem um índice de refração igual a 3,5 de modo que sem um filme antirefletor a
refletividade será:

2
 3,5 − 1,0 
R =  = 0,31
 3,5 + 1,0 

De posse da refletividade e considerando que a largura da região de depleção seja 20 µm, poderemos
calcular a eficiência do dispositivo. Usando a eq.(8.2-7) encontraremos:

( )
η = (1 − 0,31) 1 − e −0,1x 20 = 0,60
226 Detectores

Esse valor mostra que sessenta e oito por cento dos fótons se transformam em pares elétron-buraco.
Tomando-se a eq.(8.2-8) podemos calcular a responsividade do fotodetector como segue:

0,60
R= 0,85 = 0,41A / W
1,24

Caso se faça o uso de um filme antireflector, o que leva a refletividade a se igualar a zero, a
eficiência passará a ser:

η = 1 − e −0,1x 20 = 0,86

o que aumenta a eficiência para oitenta e seis por cento. Com tal valor a responsividade se eleva para
o seguinte valor:

0,86
R= 0,85 = 0,59A / W
1,24

8.3-3 – Sensibilidade em dBm

Para os sistemas digitais de telecomunicação uma grandeza de medida do desempenho dos


fotodetectores é a sensibilidade por bit detectado, medida em dBm. Ou seja, a sensibilidade é dada
pela potência luminosa que um detector é capaz de detectar em unidades de dBm, ou seja decibéis
tendo 1 miliwatt como referência. A definição da sensibilidade por bit é a seguinte:

 P(mW) 
P (dBm) = 10 log  (8.3-9)
 1mW 

Sensibilidade
Receptor
(fótons/bit)

Detector ideal 10
Si APD 125
Pré-amplificador de Fibra-Er/pin de InGaAs 215
APD InGaAs 500
Pin 6000

Tab.(8.3-1) – Sensibilidades típicas de diversos detectores.

A Tab.(8.3-1) fornece a sensibilidade de diferentes fotodetectores. Nela temos a


sensibilidade de um fotodetector ideal para o qual a sensibilidade é de 10 fótons por bit. A Tab.(8.3-
1) mostra sensibilidades típicas, em número de fótons por bit, de alguns detectores operando em
taxas na faixa de 1Mb/s a 2,5Gb/s.
A sensibilidade por bit tem sua origem na idéia da qualidade da informação expressa na taxa
de erro por bit, definida como a média das probabilidades de se ter uma detecção errada de um bit.
Ela é dada por:
Sistemas de Comunicação Óptica 227

p 0 + p1
TEB = (8.3-10)
2
onde p0 e p1 são, respectivamente, as probabilidades do bit 0 e 1 serem medidos erradamente. Ou
seja, se detectar um bit 1 no lugar de um bit 0 e um bit 0 no lugar de um bit 1, respectivamente.
Como a probabilidade de detectar um bit com n fótons para um número médio de fótons n é dada
por:

n n −n
p( n ) = e n = 0,1,2,3.... (8.3-11)
n!

podemos dizer que a probabilidade de se detectar um fóton para um bit 0, que iremos caracterizar
pelo valor médio de n ser nulo, o que facilmente se depreende da eq.(8.3-11). Já para que se detecte
um bit 0 em um bit 1, para o qual o número médio de fótons é diferente de zero, encontraremos:

n0 −n
p(n ) = e = e−n (8.3-12)
0!

Se vê que a probabilidade é diferente de zero e tão menor quanto for maior a o número médio de
fótons.
De posse do resultado para a probabilidade de se detectar errado cada um dos possíveis bits,
podemos calcular a TEB. A qual dará:

e − n e −2 n b
TEB = = (8.3-13)
2 2

onde nb =n / 2, sendo nb o número médio de fótons por bit 0 ou 1.

1,00 InGaAs
Responsividade (A/W)

0,80

0,60
Si
0,40

0,20

0,00
200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800
Comp. de Onda, nm

Fig.(8.3-3) – Responsividade de fotodetectores de Silício e InGaAs.

Vejamos que dada uma TEB para o sistema, por exemplo 1 bit errado para 109 bits, a
substituição desse valor na eq.(8.3-13) determina o número de fótons necessários para que seja
obtida a qualidade de informação desejada. Fazendo-se tal substituição se obtém:

1
nb = (ln TEB − ln 2) (8.3-14)
2

Para se ter uma TEB=10-9, a eq.(8.2-14) nos leva a


228 Detectores

1
nb = (9 ln10 − ln 2) = 10,01
2

Portanto, para que se tenha uma TEB igual a 10-9 há a necessidade de se disponibilizar no detector
(aqui no caso ideal, pois não há ruído e a eficiência é de 100%) 10 fótons. Se considerarmos que os
fótons são monocromáticos de energia hν=hc/λ ε de posse da taxa de transmissão B, que determina o
tempo do bit no qual chegam os nb fótons, se pode calcular a potência referente a esse número de
fótons. Ele será:

n b hν hcn b B n B
P= = = 1,24 b (8.3.15)
1/ B λ λ (µm)

Na eq.(8.3.15), na última expressão o valor do comprimento de onda deve ser usado em microns.
Para taxas de transmissão de 1 Mbit/s, e com fótons de 1550 nm, a eq.(8.3.15) nos informa que essa
potência é de 1,28 x10-12W. Para traduzirmos essa potência em dBm, se deve usar a expressão:

 P 
P (dBm) = 10 log10  ( −3
 = 10 log10 1x10 P
 1mW 
) (8.3.16)

da qual resulta, aproximadamente, –89dBm. Em sistemas de comunicação podem ser encontrados


detectores com sensibilidades na faixa de –32 a –42 dBm, dependendo da sua aplicação, da TEB
exigida e outros detalhes de projeto.

8.3.4 – Resposta em freqüência

A resposta em freqüência de fotodetector é a grandeza que determina a sua largura de banda


de operação e depende de três fatores primários, a saber:

- tempo de trânsito dos portadores fotogerados na região de depleção;

- constante de tempo RC;

- velocidade de difusão dos portadores gerados fora da região de depleção.

A velocidade de trânsito na região de depleção dependerá da largura W dessa região e da velocidade


com a qual o campo arrasta esses portadores, a velocidade de arrasto (drift velocity) va. Ou seja:

W
τT = (8.3.17)
va

O inverso de τT será uma medida da largura de banda disponível. Pelo visto, quanto menor for W
maior será a banda. Entretanto quanto menor for W menor será a responsividade ou a eficiência
quântica do dispositivo. Temos, pois, um conflito de interesses aí, uma vez que o aumento da banda
vem às custas da redução da intensidade de sinal detectado. Há necessidade de uma solução que
otimize o desempenho do fotodetector como um todo. Um fotodetector de Si com uma região
intrínseca de 20 µm, na qual a velocidade de arrasto é de 105 m/s nos dá um tempo de trânsito de 200
Sistemas de Comunicação Óptica 229

ps. Por sua vez, em um fotodetector de InGaAs, tipo pin, a largura dessa região é algo em torno de 5
µm, para velocidades de arrasto da mesma ordem. Nesse caso o tempo de trânsito é de 50 ps, o que
permite uma largura de banda quatro vezes maior do que aquela do detector de Si.
Além do tempo de trânsito temos a resposta elétrica do diodo, determinada pelo seu valor
RC. A capacitância de um diodo pode ser calculada por:

εA
Cd = (8.3.18)
W

onde ε é a permissividade do semicondutor, A a área da junção e W o comprimento da região de


depleção. Assim o produto RC de um fotodetector será:

εA
RC = R (8.3.19)
W

Considerando-se o tempo de subida (10 a 90%) o tempo de resposta de um fotodetector se amplia e


será:

εA
t d = 2,2R (8.3.20)
W

InP InGaAs InP

energia do banda proibida


fóton

Fig.(8.3.4) – Ilustração dos materiais de um fotodetector de heteroestrutura InP-InGaAs-InP, com a


distribuição espacial das suas bandas proibidas
o que por certo reduz a banda efetiva disponível. De qualquer forma a largura da banda dependerá do
aumento de W o que diminui a capacitância porém, em compensação, aumenta o tempo de trânsito.
Para se reduzir o tempo de trânsito sem se aumentar o tempo de resposta RC se faz necessário se
buscar uma melhora do RC via a diminuição da resistência R do dispositivo. Em geral se busca
compromisso entre essas variáveis como resistência R, largura da região de trânsito W, tempo de
trânsito τΤ e responsividade R, e se adota como solução larguras de depleção com valores entre
1/α e 2/α.
Tomando-se um pin de Si para o qual W=20µm, com uma área de 500 µm2, se obtém uma
capacitância de 4 pF, considerando-se a permissividade elétrica do silício de 105 pF/m. Se a
resistência do dispositivo é 103Ω a largura correspondente é de 40 MHz (td≈9ns). Reduzindo-se R de
dez vezes, R=100Ω se melhoraria a largura de banda, indo ela para 400 MHZ. Entretanto, como já
vimos a redução do comprimento da região de depleção, beneficiando R e τT afeta
desfavoravelmente a responsividade do dispositivo.
230 Detectores

O uso de fotodetectores de heteroestrutura traz vantagens para o desempenho do dispositivo,


aumentando a sua performance. Consideremos um fotodetector de InGaAs, destinado a operar na
faixa de 1300 a 1600 nm. Esse detector terá a liga InGaAs ladeada por camadas de InP, formando
um sanduíche como se vê na fig.(8.3.4). Nas regiões do InP, ficarão os contatos elétricos, em uma
delas a janela óptica e demais partes. Como os fótons a serem detectados têm energia maior do que a
banda proibida do InGaAs e menor do que a do InP,
resulta que eles atravessarão a região do InP, sem
serem absorvidos, e só serão absorvidos na região de
depleção. Isso elimina a participação da fotocorrente
associada com o efeito de difusão dos portadores,
contribuição essa resultante dos pares gerados,
próximos, mas fora da região de depleção.Por ser um
processo lento a retirada do processo de difusão na
formação da fotocorrente melhora o desempenho
quanto a largura de banda do dispositivo.

Fig.(8.3.5) – Circuito RC
Exemplo (8.3.2) – Considerando um fotodetector como
um circuito RC sob o qual se aplica uma tensão degrau de intensidade Vo, no intervalo t=0 a t=T,
calcular a largura de banda desse circuito RC.

Solução

É bem conhecido o comportamento de circuitos elétricos o comportamento da tensão no


capacitor Vc do circuito RC que a fig.(8.3.5) mostra adiante. A tensão é dad por:

(
Vc ( t ) = Vo 1 − e− t / RC ) (8.3.20)

Para calcularmos a largura de banda ∆f desse circuito tomaremos o método do tempo de subida td do
circuito, no caso representativo do diodo. Tomando o critério do tempo de subida teremos de
considerar o intervalo de tempo que o circuito toma para que a tensão, a partir de t=0 suba de 10 a
90% da tensão máxima dada na eq.(8.3.20). Teremos:

t d = RC(ln10 − ln(1 / 0,9) ) = RC ln 9

o que nos leva a:

t d ≈ 2,2RC (8.3.21)

De posse do tempo de subida poderemos calcular a largura de banda do circuito, usando o critério de
3dB. Ela é dada por:

1
∆f = (8.3.22)
2πRC

Substituindo-se o tempo de subida na eq.(8.3.22) chegamos a:


Sistemas de Comunicação Óptica 231

2,2 0,35
∆f = = (8.3.23)
2πt d td

Considerando um fotodiodo de heteroestrutura de InGaAs, com uma região de depleção de 5 µm,


possuindo raio de 100 µm, tomando-se a constante dielétrica como sendo 100pF/m a capacitância do
diodo seria de

Cd =
εA 10−10 x3.14x 10− 4
=
( ) 2
= 6,28x10−13 F / m = 0,63pF / m
W 5x10−6

Se a resistência do diodo é de 100Ω largura de banda do dispositivo de acordo com a eq.(8.3.23)


será:

1 1
∆f = = 2 −13
= 2,54 x109 Hz
2πRC 2 x 3,14 x10 x 6,28x10

O fotodetector com as características apresentadas teria uma banda de 2,54 GHz. Já o seu tempo de
subida seria de:

0,35
td = 9
= 1,38x10−10 s = 138ps
2,54 x10

Vo

t
(
Vc ( t ) = Vo 1 − e − t / RC )
Vc

t
t=0 t=T

Fig.(8.3.6) – Comportamento temporal da tensão degrau de intensidade Vo, aplicada ao circuito RC. e a tensão no
capacitor.

Exemplo (8.3.3) – Obter a função de transferência de um sistema linear.


232 Detectores

Solução

Suponhamos um sistema com comportamento SISTEMA


f(t) g(t)=Kf(t-to)
linear. Nesse caso um pulso de forma f(t) é LINEAR
transmitido através do sistema de modo que a saída
seja um pulso similar ao primeiro, exceto na sua
intensidade. Obviamente esse pulso estará deslocado
no tempo, como mostra a fig.(8.3-7), de modo que f(t)
matematicamente escreveremos:

t
g( t ) = Kf ( t − t o )
to
g(t)
sendo K uma constante.

A análise espectral nos permite escrever que:


t

1 +∞
f ( t )e −iωt dt
2π ∫−∞
F(ω) = (8.3.24)
Fig.(8.3-7) – Sistema linear com as funções do
sinal de entrada e saída deslocados em tempo.
Disso vem

1 +∞
f (t) = ∫ F(ω)eiωt dω (8.3.25)
2π − ∞

Seguindo o mesmo tratamento de Fourier para o sinal na saída g(t) temos que a distribuição espectral
será:

1 +∞
G (ω) = ∫ g( t )e −iωt dt (8.3.26)
2π − ∞

se sabendo que:

1 +∞
g( t ) = ∫ G (ω)eiωt dω (8.3.27)
2π − ∞

Como por hipótese g(t)=Kf(t-to), podemos escrever:

1 +∞ − iω t Ke −iωt o +∞ −iω( t − t o )
2π ∫−∞ ∫−∞ f ( t − t o )e
G (ω) = Kf ( t − t o ) e dt = dt (8.3.28)

Com a transformação (t-to)=u, teremos:

Ke −iωt o +∞ Ke −iωt o +∞
G (ω) = ∫−∞ f (u )e −iωu dt = ∫−∞ f (u )e
− iω u
du = Ke −iωt o F(ω) (8.3.29)
2π 2π

Disso resulta o seguinte resultado:

G (ω) = H (ω)F(ω) (8.3.30)


Sistemas de Comunicação Óptica 233

onde

H(ω) = Ke−iωt o (8.3.31)

é a função de transferência em freqüência do sistema.

1 +∞ K + ∞ iω( t − t o )
∫ H(ω)eiωt dω =
2π ∫−∞
h (t ) = e dω = Kδ( t − t o ) (8.3.32)
2π − ∞

+∞ +∞
g( t ) = ∫ h ( t − τ ) f ( t ) dτ = K ∫ f ( t )δ[( t − t o ) − τ]dt = Kf ( t − t o ) (8.3.33)
−∞ −∞

8.4 – Fotodetectores APD

No caso dos APD, eles operam com uma tensão maior do que aquela de um fotodetector do
tipo pin. Essa tensão maior dos APD’s estabelece um elevado campo elétrico na região de depleção.
Esse elevado campo elétrico da região de depleção permite que elétrons e buracos fotogerados
também produzam pares elétron-buraco via choques. Esse processo pode ser descrito como segue
adiante para o caso de um elétron.
Tomemos um elétron de um par de portadores fotogerados, sob a ação do intenso campo da
região de depleção de um APD. Ele é acelerado, ganhando energia, e ao mesmo tempo ocorrem
choques ao acaso com a rede cristalina (fônons). Esses choques fazem com que a energia dos
elétrons seja limitada a um dado valor máximo de saturação. Alguns desses valores de saturação
podendo ter valores acima do valor da banda proibida do semicondutor. Em fazendo um choque
desse elétron acelerado com um elétron na banda de valência ele ao entregar-lhe energia pode levá-lo
à banda de valência produzindo um novo par elétron-buraco. Os portadores criados, por sua vez,
serão acelerados pelo campo da junção dando lugar a novos processos de geração de pares de
portadores o que finda se dando em um processo do tipo avalanche. O processo descrito para
elétrons teria um similar para os buracos de modo que ambos participam da geração de pares. Esse
efeito multiplicador dá ao APD o papel de amplificador do sinal além da simples detecção. Há, pois,
no APD um ganho de corrente e tais detectores têm a vantagem de proverem ganho antes da
amplificação eletrônica externa. Entretanto trazem a desvantagem de introduzirem maior nível de
ruído e uma resposta temporal menor o que reduzem a sua banda de recepção.
Quanto à estrutura do APD ele também difere do pin por ter uma região p adicional como
mostra a fig.(8.4-1). Nela se vê que a região p está assinalada como aquela em que há a multiplicação
de pares elétron-buraco, sendo a região i (isolante por ser muito pouco dopada) aquela em que há

região de
criação de pares e-b multiplicação

p+ i p n+

Fig.(8.4-1) – Estrutura de fotodetector APD, onde se vê as regiões de geração de pares e de multiplicação de pares.
234 Detectores

predominantemente a geração de pares pelos fótons incidentes.


No caso dos APD’s a responsividade é dada por:

ηe
R APD = MR = M (8.4-1)

Nessa equação temos a responsividade dada como produto do fator de multiplicação M pela
responsividade de caráter óptico R. O valor de M é de fato um valor médio, uma vez que o seu valor
instantâneo flutua no tempo, o que vem a ser uma fonte de ruído.
Com a responsividade dada acima, podemos dizer que a fotocorrente de um APD será:

I f = MRP (8.4.2)

Característica Descrição
A sensibilidade dos fotodiodos APDs é
Sensibilidade bem maior que a dos PINs.
Os APDs são portanto mais caros do que
Custo os PINs por da sua maior complexidade
de fabricação.
Os APDs possuem velocidades de
resposta menores, o que dificulta seu uso
Velocidade de Modulação em sistemas de taxas de modulação
elevadas.
Os APDs apresentam melhor relação
Ruído sinal/ruído, embora possuam um fonte de
ruído a mais (ruído de excesso).
A sensibilidade dos APDs às variações de
Influência da Temperatura temperatura ambiente é maior.
Os PINs requerem circuitos de
polarização mais simples face á sua
menor tensão de operação. Entretanto,
Circuitos de Polarização e precisam utilizar um estágio amplificador
Amplificação projetado com muito critério, devido ao
baixo nível de sinal de saída. Os APDs
requerem circuitos de polarização mais
complexos.
Os PINs são mais lineares que os APDs e
Linearidade por esse motivo são largamente utilizados
em sistemas analógicos.
Os PINs têm um tempo de vida um pouco
Vida útil e Degradação maior do que o dos APDs.

Para comprimentos de onda na janela de 850 nm, os fotodetectores APD de silício operam a uma
tensão típica de 250 V fornecendo um ganho óptico em torno de 100. Já um fotodetector pin do
mesmo material opera na faixa de 10 a 50V Para comprimentos d onda na faixa de 1300 a 1500 nm
os APD’s operam com tensões de 20 a 30 V gerando um ganho típico de 10 a 30. Por sua vez, o
fetodetector pin para a mesma faixa de comprimento de onda opera com tensões entre 5 a 15 V.
A baixo é dado um quadro com comparações entre os fotodiodos PIN e APD
Sistemas de Comunicação Óptica 235

8.5 – Ruído em fotodetectores p-i-n

No processo de detecção de sinais existe um fenômeno de grande importância, qual seja o


ruído no detector. A detecção de sinais se dá pela conversão de energia luminosa em energia elétrica,
ou de uma forma mais adequada a geração de portadores (elétrons e buracos) por meio do
aniquilamento (absorção) de fótons. Desse modo podemos dizer que o processo de detecção é um
processo de contar fótons, por meio da contagem de elétrons, isto traduzido na medição de corrente
elétrica. Quando da medição da corrente gerada pelos fótons que são recebidos pelo detector, a
chamada fotocorrente, há mecanismos que também podem, simultaneamente, gerar outras
contribuições de corrente elétrica, as quais se aditam à fotocorrente. Enquanto a fotocorrente tem um
comportamento temporal que contém a escrita da informação transmitida, o mesmo não se dá com as
outras contribuições de corrente elétrica. Essas contribuições desconexas da fotocorrente findam por
prejudicarem a leitura da informação transmitida e contida no comportamento temporal da
fotocorrente. É como um barulho atrapalhando uma conversa que temos com alguém e portanto essas
contribuições extras de corrente formam um ruído na conversa entre o transmissor e o receptor do
sistema de comunicação.
Há algumas fontes, ou processos, geradoras de ruído, alguns deles sendo listados na Tab.(8.5-1).
Desses ruídos, os mais significativos são os três primeiros tipos da Tab.(8.5-1). Podemos dizer que a
corrente de escuro pode ser tratada como uma componente do ruído balístico. Entretanto por questão
da sua origem neste texto vamos tratá-lo à parte.

TIPO DE RUÍDO ORIGEM

Ruído Balístico (Shot Noise) Natureza discreta dos portadores


Corrente de Escuro Corrente gerada pela geração térmica de portadores
Ruído Térmico (Johnson Noise ou Gerado na carga resistiva que recebe a fotocorrente e
Nyquist Noise) as outras contribuições de corrente
Potência Óptica de Polarização Radiação de fundo

Tab.(8.5-1) – Tipos de ruído e suas origens.

8.5.1 – Ruído Balístico

O ruído balístico ocorre pelo fato de que os elementos participantes da fotodetecção serem
discretos, fótons e elétrons. Tomando os elétrons, podemos dizer que a fotocorrente gerada
corresponde a um fluxo dessas partículas que são aleatoriamente geradas pelo fluxo de fótons que
chegam ao fotodetector. Cada par elétron-buraco gerado corresponde a um fóton que foi absorvido
pelo material. Esse fluxo de fótons contém uma aleatoriedade espacial e temporal que gera pares de
portadores com a mesma característica. Isso quer dizer que mesmo quando a potência luminosa da
fonte, ou daquela que chega ao fotodetector é constante, essa constância se refere ao seu valor médio
no tempo. Instantaneamente o seu valor sofre flutuações. Em outras palavras: mesmo quando o a
média temporal do número de fótons é constante, instantaneamente o número de fótons que entre
pelo dispositivo de detecção flutua aleatoriamente em torno do valor médio.
Por ser um processo aleatório, o ruído balístico tem valor médio nulo. Lembremo-nos da
definição da relação sinal ruído (eq. (5.5.1)):

I2 I2
RSR = = (8.5.21)
(∆i( t ) )2 2eIf ∆f
236 Detectores

CORRENTE DE ESCURO IE

MATERIAL IE
Silício 1-10 nA
Germânio 50-500 nA
InGaAsP 1-20 nA

Tab. (8.5-2) – Valores típicos de corrente de escuro IE para fotodetectores de diferentes


materiais.

Com ela vemos que embora um ruído tenha valor médio nulo ele interfere na detecção por conta da
incerteza que introduz no processo de contagem dos fótons, fato traduzido no denominador pela
variância. Por isso podemos dizer que a relação sinal ruído pode ser escrita como:
No caso do ruído balístico, se têm:

i 2RB = 2eIf ∆f (8.5.3)

onde e é a carga do elétron, I a corrente média gerada pelo fotodetector e ∆f a largura de banda sobre
a qual o ruído está sendo considerado.

8.5.2 – Corrente de Escuro

A corrente de escuro é aquela gerada pelo fotodetector mesmo na ausência de incidência da


potência luminosa. Essa geração de corrente, com o fotodetector no escuro, ocorre porque é possível
elétrons da banda de valência serem guindados à banda de condução por meio de efeito térmico. Ou
seja, por meio de energia térmica KT (K constante de Maxwell-Boltzmann e T temperatura absoluta)
pares de portadores elétron-buraco podem ser gerados. Como facilmente se pode deduzir, a corrente
de escuro ao ser adicionada à fotocorrente funciona como um efeito aleatório que introduz incerteza
na detecção do sinal transmitido, sendo pois um ruído. A Tab.(8.5-2) mostra valores típicos de
correntes de escuro de fotodetectores p-i-n de diferentes materiais.

8.5.3 – Ruído Térmico

O ruído térmico, também denominado por ruído Johnson ou Nyquist, resulta do efeito das
flutuações térmicas sobre o resistor de carga do circuito de detecção. Como se sabe, conquanto o
sistema possa estar a uma temperatura média constante, do ponto de vista macroscópio,
microscopicamente falando ela flutua no tempo e no espaço. Isso acarreta em flutuações na corrente
detectada.
Considerando o teorema de Wiener-Khinchin, se tem que a função de autocorrelação do
sinal is(t) é relacionada à densidade espectral S(ω) por meio da expressão:

∞ iωτ
is ( t )is ( t + τ) = ∫−∞ S(ω)e dω (2.5.12)

onde o símbolo 〈.〉 indica a média das flutuações sobre todo o ensemble. É fácil se verificar que a
variância do ruído é obtida com a eq.(2.5.12) tomando-se τ=0. Ou seja:
Sistemas de Comunicação Óptica 237


is ( t ) 2 = ∫−∞ S(ω)dω (2.5.13)

de modo que

4 hω 
ST (ω) =  hω / KT 
R e −1 

Na região na qual hω«KT, a exponencial pode ser igualada a ehω/KT≈1+hω/KT, de modo que

4KT
ST (ω) ≈
R

Isso é válido desde que KT/h=6,3 THz à temperatura ambiente.

O valor médio das flutuações térmicas é nulo, entretanto o seu valor quadrático médio é dado por:

4KT∆f
i 2RT = (8.5.4)
Rc

onde K é a constante de Boltzmann (K=1,38x10-23J/K), T é a temperatura absoluta do dispositivo, ∆f


a largura de banda da detecção e Rc é a resistência de carga do circuito.
O ruído térmico, como se vê na eq.(8.5.4), não depende da potência óptica que incide no
detector e diminui com a resistência de carga. Entretanto, a estratégia de se reduzir o ruído térmico
com o aumento de Rc fica limitada pelo fato do aumento desta grandeza, em contrapartida, reduzir o
valor da banda disponível, como se vê na eq.(8.3.22).

8.5-4 - Relação Sinal Ruído de um p-i-n

Agora poderemos calcular a relação sinal ruído existente para o dispositivo em análise.
Substituindo-se as eqs. (8.5.3) e (8.5.4) na eq.(8.5.1), e incluindo-se a corrente de escuro na
eq.(8.5.3), teremos:

RSR =
(RP )2 =
(RP )2 (8.5.5)
i 2RB + i 2RT 2e(RP + I E ) + 4KT∆f / R c

Há situações de operação nas quais o ruído dominante pode ser ou o balístico ou o térmico. É
fácil ser ver na eq.(8.5.5) que caso Rc seja muito pequeno, para se ter o aumento da banda do
detector, o ruído térmico pode ser dominante sobre o balístico. Quando um deles é dominante,
dizemos que o fotodetector está operando limitado por aquele que é dominante.
No caso do ruído dominante ser o balístico a eq. (8.6.1) ficará:

RSR =
(RP )2 (8.5.6)
2e(RP + I E )

Se o ruído dominante é o térmico teremos:


238 Detectores

RSR =
(RP )2 R c (8.5.7)
4KT∆f

8.5.6 – Relação entre a TEB e a RSR

A qualidade da qualidade de um sistema digital é fornecida pela taxa de erro por bit já
comentada na seção (8.3-3). É interessante observarmos que a TEB pode ser definida na forma:

bits detectados erradamente no intervalo de tempo ∆t


TEB = (8.5.8)
Total de bits recebidos no intervalo de tempo ∆t

Uma TEB igual a 10-9 nos informa que em 109 bits transmitidos há, em média, um bit errado.
Consideremos que o sistema esteja operando a 100 Mbs e seja a TEB=10-9. Qual o significado
prático disso? Vemos que há 108 bits são detectados em 1s. Se o número de bits errados é de 1 bit em
109, o intervalo médio de tempo no qual esse bit errado será detectado é:

109 (bits)
= 10s
108 (bits / s)

Portanto, para que haja um bit errado se passarão 10 segundos até isso ocorrer. Se a TEB é de 10-6
esse tempo será de 10 milisegundos, o que certamente será muito ruim para certas aplicações. Se a
taxa subir de 100 Mbs para 1 Gbs o intervalo de tempo para ocorrer a detecção de um bit errado
desce de 10 para 1 s mantida a TEB=10-9, o que também piora o desempenho do sistema.
Relembremos a definição da Taxa de Erro por Bit, dada na eq.(8.3.10)

p 0 + p1
TEB =
2

a qual é válida caso as probabilidades de detecção associadas a ambos os bits, 0 e 1 sejam iguais.
Caso não o sejam a expressão fica:

TEB = (P(1)p 0 + P(0)p1 ) (8.5.9)

onde P(0) e P(1) são as probabilidades de serem detectados os bits 0 e 1, respectivamente. Sendo as
probabilidades iguais temos P(0)=P(1)=1/2.
Se os ruídos estão sendo descritos segundo uma estatística gaussiana se pode obter com
facilidade uma expressão para a TEB, calculando-se os termos p0 e p1. Antes de faze-lo, devemos
comentar que o ruído térmico tem um comportamento cuja estatística pode ser bem aproximada pela
gaussiana. Já o ruído balístico que pode ser aproximado pela estatística gaussiana
Se os ruídos estão sendo descritos segundo uma estatística gaussiana se pode obter com
facilidade uma expressão para a TEB, calculando-se os termos p0 e p1. Com tal estatística a relação
entre a TEB e a RSR é dada por:
1  RSR 
TEB = 1 − erf  
 (8.5.9)
2   2 2 

sendo erf(x) a função erro definida por:


Sistemas de Comunicação Óptica 239

2 x − u2
π ∫0
erf ( x ) = e du (8.5.10)

A fig.(8.7-1) mostra a relação TEB versus RSR, esta expressa em dB.


Para valores de x > 3 a função erro pode ser aproximada pela expressão:

1 − x2
erf ( x ) = 1 − e (8.5.11)
πx

e a eq.(8.5.9) será aproximada por:

 RSR 
− 
2 8 
TEB ≈ e  (8.5.12)
πRSR

1
10-1
10-2
10-3
10-4
10-5
10-6
10-7
TEB
10-8
10-9
10-10
10-11
10-12
10-13
10-14
10-15
0 5 10 15 20 25
RSR (dB)

Fig.(8.5-1) – Relação entre TEB e RSR expressa em dB calculada com a eq.(8.7-2).

8.5-5 – Analisando o Ruído e RSR em Fotodetectores p-i-n

Para analisarmos um fotodetector p-i-n, quanto a ruído e RSR, tomemos um fotodetector de


InGaAsp com as características típicas daqueles encontrados no mercado:

Responsividade – 0,7 A/W


Capacitância – 1 pF
Resistência de Carga – 750 Ω
Corrente de Escuro – 1 nA

Para efeito de cálculo consideremos que a banda (∆f) seja de 100 MHz. Consideremos que a potência
óptica que incide no fotodetector é de 500 nW. Essa potência, em dBm, é de:
240 Detectores

 5x10−7 
P (dBm) = 10 log10 
 1x10−3 
( )
 = 10 log10 5x10− 4 = −33dBm (8.5.5)
 

A responsividade do dispositivo (0,7 A/W) leva ao seguinte valor de fotocorrente:

If = RP = 0,7 x5x10−7 = 3,5x10−7 A = 350nA (8.5.6)

Quanto ao ruído que teremos tomemos as diversas contribuições.

Ruído Balístico -

i 2RB = 2eI∆f = 2x1,6x10−19 x3,5x10−7 x108 = 1,12x10−17 A 2 (8.5.7)

A partir desse valor temos que o rms da corrente de ruído balístico será:

i 2RB = 1,12 x10−17 = 3,35x10−9 A = 3,35nA (8.5.8)

Ruído Térmico -

O cálculo do ruído térmico vem por meio da eq.(8.5.4), com a qual termos:

4KT∆f 4 x1,38x10−23 x 300 x1x108


i 2RT = = = 2,21x10 −15 A 2 (8.5.9)
Rc 750

Com tal valor chegamos ao seguinte rms para a corrente térmica:

i 2RT = 2,21x10−15 A = 4,70x10−8 A = 47nA (8.5.10)

Com os valores obtidos vemos que o ruído térmico com 47 nA é dominante neste caso se
comparado com o ruído balístico (4,72 nA); temos um fator de aproximadamente 15 entre o primeiro
e o segundo. Quanto ao ruído devido à corrente de escuro o mesmo ocorre já que ela é de 1 nA.
Consideremos agora a relação sinal ruído do fotodetector em consideração. Com os valores
disponíveis teremos:

RSR =
( RP )2
=
(3,5x10 )
−7 2
= 55,1 (8.5.11)
2e(RP + I E ) + 4KT∆f / R c 1,12x10−17 + 2,21x10−15
onde desprezamos a corrente de escuro IE. Tal RSR em dB será:

RSR (dB) = 10x log10 (RSR ) = 10x log10 (55,15) = 17,4dB (8.5.12)
Sistemas de Comunicação Óptica 241

Potência Mínima -

Consideremos o caso em pauta, no qual o ruído dominante é o térmico. Nesse caso, qual
seria a potência óptica mínima Pm com a qual o dispositivo de recepção poderia operar? Com a
eq.(8.5.7) poderemos estimar qual seria essa potência mínima para um dado valor de RSR. Ela será:

1  4KT∆f 
Pm =  RSR (8.5.13)
R  Rc 

Para calcularmos a potência mínima desejada nos faltam duas grandezas, quais sejam ∆f e RSR.
Vamos calculá-las.
Sendo o valor de Rc fornecido (750Ω) e a capacitância C=1pF, podemos calcular a banda do
fotodetector em análise. Ela será:

1 1
∆f = = = 212MHz (8.5.14)
2πR cC 2 x 3,14 x 750 x1x10−12

Fazendo uso da eq.(8.5.12) se pode calcular a RSR para um dado valor de TEB. Escolhamos que a
qualidade da recepção seja 10-9. Nesse caso o valor da RSR Sendo, neste caso, R=0,7 A/W e a
RSR=1

8.5-2 – Ruído em fotodetectores APD

Vamos tomar em consideração o caso dos ruído em fotodetetores de avalanche. Nesse caso
temos, em primeiro lugar, de considerar que a fotocorrente é dada por:

If = MRP (8.6.1)

onde M representa o ganho interno do dispositivo. Dessa forma a potência do sinal elétrico será dado
por (MRP)2.
Quanto ao ruído, ele será calculado pelas equações (8.5.3) e (8.5.4). Quanto ao ruído
balístico (eq.(8.5.3)) se deve incluir o termo da corrente de escuro. Além disso, se faz necessário a
inclusão do ganho do APD, o fator de multiplicação M. Essa inclusão se dá como indica a
eq.(8.6.11):

i 2RB = M 2 + x 2e(RP + Ie )∆f (8.6.2)

Como se vê o fator M está elevado a uma potência superior a 2, sendo x uma tradução de excesso de
ruído em relação àquele devido à potência do sinal. Caso haja um APD para o qual x=0, nesse caso
não há excesso de ruído. O valor de x depende do material com o qual é feito o fotodetector de
avalanche sendo dado na Tab.(8.6-1) valores típicos dessa grandeza para diferentes materiais. Como
se vê o germânio é o material de pior desempenho quanto ao excesso de ruído.
242 Detectores

VALORES TÍPICOS DE x
Material X
Si 0,3
Ge 1,0
InGaAs 0,7

Tab.(8.6-1) – Valores típicos de x para APD’s de


diferentes materiais semicondutores.

Quanto ao ruído térmico para os APD’s ele é calculado pela mesma eq.(8.5.4) fazendo com
que a relação sinal ruído seja calculada pela expressão dada abaixo:

(MRP )2
RSR = (8.6.3)
2eM 2 + x (RP + I E ) + 4KT∆f / R c

8.6-2 – Ruído em Fotodetetores de Avalanche

Retomemos a análise quantitativa dos ruídos, agora para um fotodetector APD. Tomemos o
fotodetector de InGaAsp as características, já dadas anteriormente, e a mesma largura de banda de
100 MHz:

Responsividade – 0,7 A/W


Capacitância – 0,5 pF
Resitência de Carga – 750 Ω
Corrente de Escuro – 1 nA

Consideremos que o fator de multiplicação seja M=50 e que haja um ruído de excesso x=0,7. A
corrente do sinal será :

If = MRP = 50 x 0,7 x5x10−7 = 1,75x10−5 A = 17.500nA (8.6.13)

Como se vê, o ganho do APD em muito aumenta a corrente gerada no dispositivo.


Quanto ao ruído que teremos tomemos as diversas contribuições.

Ruído Balístico -

( )
i 2RB = 2x502,7 x1,6x10−19 x 0,7 x5x10−7 + 1x10−9 x1x108 = 4,34x10−13 A 2 (8.6.14)

A partir desse valor temos que o rms da corrente de ruído balístico será:

i 2RB = 4,34x10−13 = 6,60 x10− 7 A = 660nA (8.6.15)

Ruído Térmico -

O cálculo do ruído térmico vem por meio da eq.(8.5.4), com a qual termos:
Sistemas de Comunicação Óptica 243

4KT∆f 4 x1,38x10−23 x 300 x1x108


i 2RT = = = 2,21x10 −15 A 2 (8.6.16)
Rc 750

Com tal valor chegamos ao seguinte rms para a corrente térmica:

i 2RT = 2,21x10−15 A = 4,70x10−8 A = 47nA (8.6.17)

Com os valores obtidos vemos que o ruído dominante nesse caso não é o térmico, mas o
balístico.

Relação Sinal Ruído -

Agora poderemos calcular a relação sinal ruído existente para o dispositivo em análise.
Usando as eqs. (8.6.12) e usando os valores calculados nas eqs.(8.6.13), (8.6.14) e (8.6.16)
encontramos:

RSR =
(1,75x10 )
−5 2
= 702,07 (8.6.18)
4,34x10−13 + 2,21x10−15

Tal RSR em dB será:

RSR (dB) = 10x log10 (RSR ) = 10x log10 (702,07 ) = 28,64dB (8.6.19)

O resultado mostra que o APD analisado melhora de 11 dB a relação sinal ruído em comparação ao
p-i-n discutido anteriormente.

8.7 – Análise sobre ruído

Uma vez definido os tipos de ruído que importam ser considerados em um fotodetector
passemos a fazer uma análise quantitativa sobre a influência desses ruídos sobre o desempenho do
sistema de comunicação óptica.
*
*
*
*
*
8.6-2 – Ruído em Fotodetetores de Avalanche

Retomemos a análise quantitativa dos ruídos, agora para um fotodetector APD. Tomemos o
fotodetector de InGaAsp as características, já dadas anteriormente, e a mesma largura de banda de
100 MHz:

Responsividade – 0,7 A/W


Capacitância – 0,5 pF
Resitência de Carga – 750 Ω
Corrente de Escuro – 1 nA
244 Detectores

Consideremos que o fator de multiplicação seja M=50 e que haja um ruído de excesso x=0,7. A
corrente do sinal será :

If = MRP = 50x 0,7 x 5x10−7 = 1,75x10−5 A = 17.500nA (8.6.13)

Como se vê, o ganho do APD em muito aumenta a corrente gerada no dispositivo.


Quanto ao ruído que teremos tomemos as diversas contribuições.

Ruído Balístico -

( )
i 2RB = 2x502,7 x1,6x10−19 x 0,7 x5x10−7 + 1x10−9 x1x108 = 4,34x10−13 A 2 (8.6.14)

A partir desse valor temos que o rms da corrente de ruído balístico será:

i 2RB = 4,34x10−13 = 6,60 x10− 7 A = 660nA (8.6.15)

Ruído Térmico -

O cálculo do ruído térmico vem por meio da eq.(8.5.4), com a qual termos:

4KT∆f 4 x1,38x10−23 x 300 x1x108


i 2RT = = = 2,21x10 −15 A 2 (8.6.16)
Rc 750

Com tal valor chegamos ao seguinte rms para a corrente térmica:

i 2RT = 2,21x10−15 A = 4,70x10−8 A = 47nA (8.6.17)

Com os valores obtidos vemos que o ruído dominante nesse caso não é o térmico, mas o
balístico.

Relação Sinal Ruído -

Agora poderemos calcular a relação sinal ruído existente para o dispositivo em análise.
Usando as eqs. (8.6.12) e usando os valores calculados nas eqs.(8.6.13), (8.6.14) e (8.6.16)
encontramos:

RSR =
(1,75x10 )
−5 2
= 702,07 (8.6.18)
4,34x10−13 + 2,21x10−15

Tal RSR em dB será:

RSR (dB) = 10x log10 (RSR ) = 10x log10 (702,07 ) = 28,64dB (8.6.19)
Sistemas de Comunicação Óptica 245

O resultado mostra que o APD analisado melhora de 11 dB a relação sinal ruído em comparação ao
p-i-n discutido anteriormente.

8.6.1 – Potência Equivalente de Ruído (NEP)

Uma grandeza interessante para que obtenhamos o valor é a Potência Equivalente de Ruído
(NEP Noise Equivalent Power). Ela serve como uma figura de mérito da capacidade de detecção do
sistema. Sua definição vem da consideração de que a potência mínima detectável seja a potência de
ruído, sendo designado por W/√Hz. Considerando que, no caso de Id ser muito maior do que If,
teremos que PER será dado a partir da eq.(8.6.7), fazendo-se RSR=1, donde teremos:

1 4KT 
RSR =  2eIE +  (8.6.10)
R R c 

8.6.1 – Potência Equivalente de Ruído (NEP)

Uma grandeza interessante para que obtenhamos o valor é a Potência Equivalente de Ruído
(NEP Noise Equivalent Power). Ela serve como uma figura de mérito da capacidade de detecção do
sistema. Sua definição vem da consideração de que a potência mínima detectável seja a potência de
ruído, sendo designado por W/√Hz. Considerando que, no caso de Id ser muito maior do que If,
teremos que PER será dado a partir da eq.(8.6.7), fazendo-se RSR=1, donde teremos:

1 4KT 
RSR =  2eIE +  (8.6.10)
R R c 
_9
Outros Dispositivos

Introdução
Nos enlaces ópticos que constituem sistemas de comunicação, novos dispositivo, além dos
básicos (laser, led, fibra e fotodetetor) já mencionados, anteriormente, outros dispositivos estão
sendo incorporados a eles. Novas funções requeridas pelos sistemas em conexão com os serviços
prestados estão promovendo o uso. É o caso de conectores, acopladores, WDMs, amplificadores de
fibras dopadas com Érbio estão entre os mais conhecidos. Compensadores de dispersão, filtros e
outros estão surgindo e também se tornando comuns. Neste capítulo vamos fazer algumas
considerações sobre eles.

9.1 – Outros Componentes de um Enlace


Além dos componentes básicos que acabamos de estudar temos outros componentes que
fazem parte de um sistema de comunicação. Entre eles destacamos:

- Conector
- Acoplador
- WDM
- Amplificador a Fibra

Tais componentes têm diferenciadas funções em um sistema, entretanto, independente delas,


eles acarretam em mudanças nas características do enlace no que concerne a perdas. Componentes
Ar
Vidro Gel Vidro
etc...
nn nn
nm

Pd
Perda
Pa

Fig. (9.1-1) - Ilustração de perda na conexão de duas fibras.


246 Outros Dispositivos

como os compensadores de dispersão são componentes que afetam as características de dispersão do


enlace. Tais componentes não serão discutidos aqui.

9.2 - Conectores
Os conectores são componentes que
têm como função levar o modo de propagação
de uma fibra a passar para uma outra, ligando
estas duas fibras. Ao ser conectado ele
implicará em uma perda uma vez que dois
meios, as duas fibras, irão estar em contato
havendo interfaces em ambos entre eles e o
meio externo. Com isto, pelo menos devido à
reflexão da luz nestas interfaces, ocorrerá
retorno de parte da luz incidente impedindo o
seu prosseguimento ao longo do enlace e
reduzindo a potência disponível. A fig.(9.2-1)
ilustra o que acabamos de dizer.
A perda em uma conexão, e a idéia é a
Fig.(9.2-1) – Foto de um conector monomodo D4-SPC da
mesma para o caso de uma emenda por solda, XTAL fibras óptica.
pode ser calculada através da expressão:

P 
Pc = −10 log a  (9.2-1)
 Pd 

onde Pa é a potência acoplada e Pd a potência disponível na ponta da fibra pela qual chega a luz.
Como sabemos, entre dois meios de índices de refração diferentes, como é o caso das fibras
(nn) e do meio externo (nm), este composto de ar ou um gel, há uma reflectância igual a

2
 n − nm 
R =  n  (9.2-2)
 nn + nm 

No caso de uma interface vidro (n=1,50) e ar (n=1), a reflectância é de aproximadamente 4%, o que
significa algo próximo a 0,2 dB de perda. Apenas para recordar lembramos que as perdas em dB e
em percentagem podem ser relacionadas por

y(dB) = −10 log[1 − x (%)] (9.2-3)

Outro comentário pertinente, é que há duas interfaces numa conexão mecânica sem contato físico
como vemos na fig.(9.2-2), advindo disto uma perda que é o dobro do que acabamos de estimar para
uma só interface. Basta observar na eq.(9.2-2) que a permuta de índices de refração não alterará o
resultado da reflectância.
Há várias formas de reduzir as perdas em um contato mecânico, como, por exemplo, a
inserção de um gel para eliminar a variação de índice de refração entre as fibras e o meio externo.
Veja na eq.(9.2-2) que quanto menor for a diferença entre os índices de refração da fibra e do meio
menor serão as perdas. Particularmente, se nn fosse igual a nm as perdas seria nulas. Outros aspectos
sobre conectores precisariam ser discutidos, como as questões de contatos com e sem contato físico
Sistemas de Comunicação Óptica 247

entre as fibras, mas isto foge ao objetivo específico desta seção. Há outros aspectos que produzem
perdas em conexões ou emendas, como as que se seguem:

FATORES INTRÍNSECOS

- Diferença entre os diâmetros modais


- Não concentricidade núcleo-casca
- Abertura numérica
- Diferença de materiais das fibras

FATORES EXTRÍNSECOS

- Deslocamento Transversal
- Deslocamento Angular
- Qualidade do Corte das Fibras
- Limpeza das Faces das Fibras
- Regulagem da Máquina de Fusão (no caso de solda)

A Tab.(9.1-1) informa como se calcula algumas dessas perdas citadas.


No caso de emenda por fusão, quando há uma união física das fibras, mesmo assim também
há perda na conexão. Também neste caso é válida a eq.(9.1-1), no sentido em que se entenda a
potência disponível como aquela que chega à emenda pela fibra 1 e a potência acoplada aquela que
atravessa a emenda passando a ser guiada pela outra fibra. O processo que induz a existência de
perdas evidentemente não serão o da reflectância entre duas interfaces. Entretanto há uma ou mais
causas, como aquelas citadas acima, que provocam a existência de perda de intensidade luminosa em
uma emenda feita por fusão. Na prática emendas por fusão apresentam perdas típicas de 0,1 a 0,2 dB.

CAUSA DE PERDA CÁLCULO DA PERDA


 2
Diferença entre Diâmetro dos 2 ω ω  
Modos (ωo1 e ωo1) das Fibras 1 e Pω = −10 log  2 o1 o 2  
2 em Contato
 ωo1 + ωo21  
 
 −d 
Deslocamento Lateral d entre as
PNC = −10 log e ωo 
Fibras de Diâmetro Modal ωo  
 
 AN 2
Diferença entre as Aberturas 2 
Numéricas (AN1 e NA2) das PAN = −10 log   
Fibras 1 e 2  AN1  
 

Tab.(9.1-1) – Exemplos de perdas com as respectivas expressões de cálculo.

9.3 – Acopladores ópticos


Nos enlaces ópticos que constituem sistemas de comunicação, novos dispositivo, além dos
básicos: laser ou led, fibra e fotodetetor, outros dispositivos estão sendo incorporados a eles. Novas
248 Outros Dispositivos

funções requeridas pelos sistemas em conexão com os serviços prestados estão promovendo o uso. É
o caso de acopladores.
Neste capítulo vamos fazer algumas considerações sobre um dos dispositivos bastante usado,
o acoplador óptico. Os acopladores ópticos são dispositivos passivos feitos com a fusão de duas, ou mais
fibras, que permitem o desvio de potência luminosa para uma derivação. Eles são um divisor de feixe
monolítico. A fig.(9.3-1) ilustra como é a estrutura íntima de um acoplador óptico feito com duas fibras. Na
figura se vê as quatro portas do acoplador, numeradas de 1 a 4, sendo 1 a porta de entrada e as portas 2 e 3 as
de saída. A porta 4 é, em geral, uma porta morta, ou seja sem uso. Dessa forma a luz que entra pela porta pode
ter uma fração dela levada a uma porta que está acoplada a uma outra fibra. O princípio de funcionamento do
acoplador será discutido adiante.
O dispositivo ilustrado é feito descascando-se duas fibras que são enlaçadas entre si e fundidas
sob tensão (ou puxadas durante a fusão com uma velocidade constante). Com tal procedimento as
fibras se fundem ao mesmo tempo que se alongam, estrangulando-se. Isso leva os núcleos das fibras
a afinarem na região de estrangulamento e se aproximarem, ou mesmo se acoplando em um só.

1
2
4
3

Fig.(9.3-1) – Ilustração de um acoplador óptico de quatro portas (1, 2, 3 e 4).

9.3-1 – Princípios de funcionamento


Os princípios de funcionamento dos acopladores ópticos serão discutidos nesta seção. Para
iniciar relembremos alguns pontos referentes a guias de onda:
- Como se vê na fig.(9.3-2a), em um guia dielétrico o campo do modo propagante se estende
além do núcleo, invadindo a casca.

- Na fig.(9.3-2b) vemos dois guias iguais àquele da fig.(9.3-2a) formando um sistema de guias
desacoplados. Ou seja, os guias estão tão distantes entre si que o campo de qualquer um
deles não consegue entrar em contato físico com o outro guia.

- Na fig.(9.3-2c) vemos a situação na qual os dois guias estão acoplados. Ou seja, eles estão
próximos entre si o suficiente para que o campo de qualquer um deles consiga entrar em
contato físico com o outro guia. Neste caso, os guias se transformam em um guia único (um
super guia) de dois núcleos.
(a) (b)

(c) (d)

Fig.(9.3-2) – Seqüência de figuras representando um guia único (a), dois guias desacoplados (b) dois
guias acoplados (c) e os modos simétrico e assimétrico de um sistema simétrico de guias acoplados.
Sistemas de Comunicação Óptica 249

- Na fig.(9.3-2d) vemos os dois modos de mais baixa ordem que se formam em um guia de
dois núcleos, a saber: modo simétrico (o da esquerda) e anti-simétrico (o da direita).

Consideremos a situação exibida na fig.(9.3-2d), na qual vemos um modo fundamental de um guia


de um só núcleo (guia padrão) ser injetado em um dos guias do guia de dois núcleos, o qual
passaremos a chamar de guia duplo. Esse modo, conquanto injetado em um dos núcleos do guia
duplo, irá interagir com o outro núcleo. Ou seja, a sua luz penetra o outro núcleo. Tal situação
acontecendo em z=0 está representado na fig.(9.3-3), na qual vemos o modo do guia padrão guiado
pelo guia da esquerda do guia duplo. Nela também estão desenhados, de forma tracejada, os modos
simétrico (fundamental) e anti-simétrico. Por estar no guia da esquerda e interagir com o guia da
direita a descrição do modo do guia padrão terá de ser descrito por uma combinação linear dos
modos do guia duplo. Ela poderá ser como segue:

Ψ (ρ, θ, z) = A(z)ΦS (ρ, θ)e− iβS z + B(z)Φ A (ρ, θ)e− iβ A z (9.3.1)

onde Ψ(ρ,θ,z) representa o modo propagante no guia duplo. Já ΦS(ρ,θ) (modo fundamental do guia
duplo) e ΦA(ρ,θ) (primeiro modo excitado após o fundamental) são os modos simétrico e anti-
simétrico do guia duplo. Os coeficientes A e B são dependentes de z por conta da interação do modo
guiado com ambos os núcleos do guia duplo, o que produz ao longo da propagação mudanças na
combinação como um todo. Dessa forma, o peso com que cada modo existente na combinação linear
participa na composição do modo guiado sofre alteração. No ponto z=0 onde o modo do guia padrão
é injetado a combinação linear deverá ser tal que:

A(0) = A o
B(0) = Bo

fazendo com que a combinação linear reproduza o modo da fibra padrão.

percurso
fase 0 π

Fig.(9.3-3) – Modos simétrico e assimétrico de um guia simétrico duplo


(tracejado) e o modo de um guia de núcleo único (contínuo).

Os modos simétrico e anti-simétrico do guia duplo não possuem a mesma constante de


propagação. Dessa forma, com a propagação do modo excitado, descrito pela combinação linear da
eq.(9.3.1), a diferença das constantes de propagação βS e β A leva à criação de uma diferença de fase
entre os seus respectivos modos. Após um dado comprimento de percurso a diferença de fase chega a
ser π. Nessa situação a combinação linear terá a configuração também descrita na fig.(9.3-3). Como
se vê, a luz estará sendo guiada pelo outro núcleo do guia duplo, situação em que até toda a potência
passa para esse segundo núcleo. Assim, pois, podemos visualizar qualitativamente que a luz irá
250 Outros Dispositivos

transitar de um dos núcleos para o outro, indo e vindo, de forma periódica, à medida que há a
propagação no guia. Obviamente, para valores intermediários de diferença de fase haverá frações
entre 0 e 1 de luz transferida de um dos guias para o outro, dentro do guia duplo.

9.3-2 – Descrição dos guias acoplados


Uma descrição de fácil visualização matemática é
aquela dada pelos guias acoplados. Consideremos que os Guia 1 n (x,y)
2

guias acoplados sejam duas fibras ópticas de perfil (a)


degrau. Antes de considerarmos a equação de onda que
descreve os guias acoplados, definamos o perfil de índice Guia 2
n (x,y)
de refração que correspondente às duas fibras acopladas. 1

Em primeiro lugar tomemos apenas uma fibra, sem a (b)


presença da segunda fibra, como mostra a fig.(9.3-4a).
Para ela o índice de refração na área de secção transversal Guia Duplo n(x,y)
do guia será descrito por n1(x,y) . A segunda fibra, como
é vista na fig.(9.3-4b) terá o seu índice de refração (c)
descrito por n2(x,y). No caso dos dois guias acoplados,
como mostra a fig.(9.3-4c) o perfil de índice de refração Fig.(9.3-4) – Perfis de índices de refração
será descrito por n(x,y). correspondentes (a) e (b) fibras isoladas e
A descrição da propagação da luz nesses guias (c) fibras acopladas formando um acoplador.
acoplados pode ser feita por meio da equação:

∂ 2Ψ
∇ Ψ + 2 + n 2 k o2Ψ = 0
2
t (9.3.2)
∂z

onde

∂2
∇ 2t = ∇ 2 − (9.3.3)
∂z 2

Cada guia do núcleo duplo, satisfaz à seguinte equação de onda:

( )
∇ 2tΦ1 + n12 k o2 − β12 Φ1 = 0 para a fibra 1 (9.3.4)

( )
∇ 2tΦ 2 + n 22 k o2 − β 22 Φ 2 = 0 para a fibra 2 (9.3.5)

Dentro do método que se está usando, a solução dos guias acoplados será dada pela combinação
linear das soluções dos guias isolados. Tomaremos como solução:

Ψ (ρ, θ, z) = A(z)Φ1 (ρ, θ)e−iβ1z + B(z)Φ 2 (ρ, θ)e− iβ 2 z (9.3.6)

Substituindo-se a eq.(9.3.6) na equação de onda (9.3.2) se obtém:

( ) ( )
Ae−1β1z ∇ 2tΦ1 − β12Φ1 − n12 k o2Φ1 + Be −1β 2 z ∇ 2tΦ 2 − β 22Φ 2 − n 22 k o2Φ 2 −
 dA  −1β z  dB  −1β z
− 2iβ1  Φ1e 1 − 2iβ 2  Φ 2e 2 = 0 (9.3.7)
 dz   dz 
Sistemas de Comunicação Óptica 251

Para se chegar à eq.(9.3.7) foram desprezados os termos d2A/dz2 e d2B/dz2, uma vez que A(z) e B(z),
nos casos de interesse, são funções que variam suavemente com z.
Devido ao resultado das eqs. (9.3.4) e (9.3.5), a eq.(9.3.7) se
reduz a:

 dA   dB 
k o2 ∆n12 AΦ1 + k o2 ∆n 22 BΦ 2 e i∆βz − 2iβ1  Φ1 − 2iβ 2  Φ 2 e
− i∆βz
=0 (9.3.8)
 dz  dz
 

onde definimos:

∆n12 = n 2 − n12 (9.3.9)


∆n 22 = n 2 − n 22 (9.3.10)
∆β = β1 − β2 (9.3.11)

Multiplicando-se a eq.(9.3.8) por Φ1∗ e integrando-se sobre toda a área de secção de corte do guia
duplo se obtém:

dA
= −iκ11A(z) − iκ12 Bei∆βz (3.1.12)
dz

sendo

∫∫ Φ ∆n Φ dxdy
* 2
k2 1 1 1
κ11 = o Área
(9.3.13)
2β1 ∫∫ Φ Φ dxdy
*
1 1
Área

∫∫ Φ ∆n Φ dxdy
* 2
k o2 Área
1 2 2
κ12 = (9.3.14)
2β1 ∫∫ Φ Φ dxdy
*
1 1
Área

De modo análogo, multiplicando-se a eq.(9.3.8) por Φ2∗ e integrando-se sobre toda a área de secção
de corte do guia duplo se obtém:

dB
= −iκ 22 B(z) − iκ 21Ae− i∆βz (3.1.15)
dz

sendo

∫∫ Φ ∆n Φ dxdy
* 2
k2 2 2 2
κ 22 = o Área
(9.3.16)
2β2 ∫∫ Φ Φ dxdy
*
2 2
Área

∫∫ Φ ∆n Φ dxdy
* 2
k2 2 1 1
κ 21 = o Área
(9.3.17)
2β 2 ∫∫ Φ Φ dxdy
*
2 2
Área

As eqs.(9.3.12) e (9.3.15) podem ser escritas na forma:


252 Outros Dispositivos

da
= −i(β1 + κ11 )a − iκ12 b (3.1.18)
dz

db
= −i(β 2 + κ 22 )b − iκ 21a (3.1.19)
dz

sendo a(z)=A(z)e-i β1z e b(z)=B(z)e-iβ2z. As eqs.(9.3.18) e (9.3.19) são as equações dos guias acoplados
que constituem o guia duplo. O termo κ11 corresponde à correção sobre a constante de propagação
β1, devido à presença do guia 2. O termo κ22 corresponde à correção sobre a constante de propagação
β2, neste caso, devido à presença do guia 1. Em geral as correções são desprezíveis em relação a β1 e
β2. Caso seja necessário incorporar ambas as correções obtidas, isso é facilmente realizado.
Desprezando-se os termos κ11 e κ22 as eqs. (9.3.12) e (9.3.15) podem ser escritas na forma:

dA
= −iκ12Bei∆βz (3.1.20)
dz
dB
= iκ 21Ae− i∆βz (3.1.21)
dz

Derivando-se (9.3.20) em relação a z e usando-se a eq.(9.3.21) para se eliminar o termo que contém
B, teremos:

d 2A dA
2
− i∆β + κ2A = 0 (3.1.22)
dz dz

cuja solução é:

(
A(z) = ei∆βz / 2 a1eiγz + a 2e − iγz ) (9.3.23)

onde a1 e a2 são constantes a serem definidas e usamos as seguintes definições:

2 ∆β2
2
γ =κ + (9.3.24)
4

κ2 = κ12 κ21 (9.3.25)

A grandeza κ chamada de coeficiente de acoplamento é uma medida da intensidade de interação dos


dois guias, dependendo de parâmetros como a separação dos guias e o comprimento de onda da
radiação propagante.
Substituindo-se a eq.(9.3.23) na eq. (9.3.21) se obtém:

1 − i∆βz / 2  ∆β   ∆β  
B(z) = − e  + γ a1eiγz +  − γ a 2e − iγz  (9.3.26)
κ12  2   2  

Retomando-se à condição inicial: A(0)=Ao e B(0)=0, nos leva a


Sistemas de Comunicação Óptica 253

a1 + a 2 = A o

 ∆β   ∆β  (9.3.27)
 2 + γ a1 +  2 − γ a 2 = 0
   

Resolvendo-se o sistema de equações (9.3.27), encontramos:

∆β ∆β
γ− γ+
a1 = 2 A e a = 2 A (9.3.28)
o 2 o
2γ 2γ

Substituindo-se as expressões das eqs.(9.3.28) nas eqs.(9.3.23) e (9.3.26) podemos escrever:

P1 (z) κ2
= 1 − 2 sen 2 ( γz) (9.3.29)
P1 (0) γ

P2 (z) κ 2
= sen 2 ( γz) (9.3.30)
P1 (0) γ 2

Exploremos algumas características das eqs.(9.3.29) e (9.3.30). Em primeiro lugar temos


que a soma das equações nos informam que:

P1 (z) + P2 (z) = 1 (9.3.31)

Caso as fibras estejam separadas de uma distância muito grande, tal que κ=0, pois elas não
interagem, as eqs.(9.3.29) e (9.3.30) se reduzem a:

P1 (z) = P1 (0) e P2 (z) = 0 (9.3.32)

mostrando só haver luz na fibra inicialmente excitada. Nesse caso, não haverá transferência de
energia dela para a outra fibra e a situação fica imutável ao longo do tempo conforme o cenário dado
nas eqs.(9.3.32).
Quando há casamento de fase, caso em que ∆β=0, as eqs.(9.3.29) e (9.3.30) se transformam
em:

P1 (z) = P1 (0) cos 2 ( κz) (9.3.33)

1
3
P1
P3

P2
P4
2
4
Fig.(3.2-1) – Acoplador com as portas ópticas especificadas e as potências ópticas referentes.
254 Outros Dispositivos

1,0
P1 P2
0,8

P ( z ) 0,6
P ( 0 ) 0,4

0,2

0,0
0 2 4 6 8 10
κz
Fig. (9.3-4) – Variação da potência nos dois guias acoplados do guia duplo em função de κz
para ∆β≠0.

P2 (z) = P1 (0) sen 2 ( κz) (9.3.34)

A fig.(9.3-4) mostra a variação da potência em cada um dos guias acoplados. Como se vê, quando a
potência do guia 1 vai a zero a potência do guia 2 vai ao máximo, e vice-versa. Isso ocorre em face
da condição ∆β=0, caracterizando que ambos os guias têm a mesma constante de propagação.
Observamos com o resultado das eqs.(9.3.33) e (9.3.34) que ao longo da trajetória de
propagação, em posições definidas por:

 1 π
z = m +  m=0,1,2,3... (9.3.35)
 2 κ

toda a potência é totalmente transferida da fibra em que a potência entrou (fibra 1) para a outra fibra.
Com a eq.(9.3.35) se define o que se chama de comprimento de acoplamento LA. Fazendo-se m=0
nessa equação se tem a unidade de comprimento em que toda a potência sofre a transferência
periódica de uma fibra para a outra, o que nos leva a:

π
LA = (9.3.36)

Vemos que quanto mais forte é o 1,0


acoplamento, implicando em valores altos ∆β
= 0,1
∆β
=1
∆β
=3
de κ, menores são os comprimentos de 0,8 2 κ 2 κ 2κ
acoplamento. Isso indica que com mais
freqüência, ao longo da trajetória de 0,6
P (z )
propagação, a luz vai e volta entre os 2
guias. O oposto, menores valores de κ, P(0) 0,4
significando acoplamentos mais fracos,
produzem transferências menos 0,2
freqüentes de potência óptica entre as
fibras. 0,0
0 2 4 6 8 10
Outro ponto a se verificar é κz
quanto ao não casamento de fase. Em não
havendo, a transferência entre os guias se Fig.(9.3-5) – Potência transferida para a fibra 2 em função de
dá de forma incompleta, como se vê na κz para diferentes valores de ∆β/2κ.
fig.(9.3-5), na qual se vê diferentes curvas
de potência na fibra 2 em função de κz, para diferentes valores de ∆β/2κ. Quanto menores forem os
Sistemas de Comunicação Óptica 255

valores de ∆β menores serão as transferências de potência óptica entre as fibras. Além disso, mais
freqüentes são as transferências de potência, fato visível com a diminuição do comprimento de
acoplamento.

9.3.3 – Parâmetros importantes dos acopladores

Consideremos um acoplador com as suas portas ópticas especificadas bem como as potências
ópticas referentes, como mostra a fig.(3.2-1).

Para tais componentes existem alguns parâmetros de importância prática, a saber:

- Razão de Acoplamento (RA)


- Perda Intrínseca (Pi)
- Perda de Inserção (Pc)
- Diretividade (DIR)

As quais são dadas pelas expressões apresentadas abaixo.

 P3 
RA(%) =  100
 P3 + P4 

 P3 
RA(dB) = −10 log  (3.2.37)
P +
 3 4P

P 
Pi = −10 log 4  (9.3.38)
 P1 

 P + P4 
Pi = −10 log 3  (9.3.39)
 P1 

P 
DIR = −10 log 2  (3.2-40)
 P1 

Valores típicos para estes parâmetros dos acopladores, são os seguintes:

RA=3dB, DIR>50dB, Pi<0,5

O valor de 3 dB para a razão de acoplamento significa que em cada porta de saída (portas 3 e 4) sai
metade da potência efetivamente acoplada. Em face da sua popularidade esse acoplador é chamado
de acoplador de 3 dB.
256 Outros Dispositivos

TX RX

RX TX

TX TX

RX RX

Fig.(3.2-3) – Ilustraçãode um sistema bidirecional tradicional acima e com o uso de acopladores ópticos abaixo.

9.3.4 – Novas Topologias de Enlaces com Acopladores


Dispositivos como os acopladores ópticos permitem a realização de derivação de um enlace,
e com isto novas opções topológicas de um enlace podem ser realizadas além da simples ponto a
ponto. Isso cria a possibilidade de distributividade nos enlaces ópticos.
Outra coisa importante é a possibilidade de se fazer um sistema duplex inicialmente montado
com duas fibras óticas em um sistema duplex com uma só fibra. A fig.(3.2-3) ilustra o que acabamos
de dizer. Observe-se que isso permite duplicar a capacidade de um cabo já instalado. Feito com
acopladores de 3 dB o ganho do aumento da capacidade do cabo é obtida às custas de 6 dB de perda
em cada sentido do percurso do enlace.

9.4 – WDM

Outro dispositivo de extrema importância nos enlaces óticos é a WDM. O nome é uma sigla
formada com a primeira letra das palavras Wavelength Division Multiplexing. Antes de avançarmos
consideremos a fig.(4.1-1), na qual vemos um prisma e uma grade de difração. Usemos esses
elementos para clarearmos a idéia do que é um WDM. Como se mostra na figura, quando um feixe,
com diferentes comprimentos de onda, incide em um desses elementos, existe um efeito de
separação espacial desses comprimentos de onda. Esse fato da óptica, que é bem conhecido, pode ter
uma aplicação muito proveitosa com a separação espacial dos diversos comprimentos de onda. Com

λ , λ5
, λ 3, 4
λ 1, λ 2

λ
λ 5
λ 4
λ2 3
λ1

λ 1 ,λ 2 , λ 3, λ 4 , λ 5

λ
λ 5
λ3 4
λ
λ1 2

Fig.(4.1-1) – Ação de um prisma e de uma grade de difração sobre um feixe de luz composto de diferentes
comprimentos de onda.
Sistemas de Comunicação Óptica 257

ela um feixe de luz, com diferentes


comprimentos de onda, pode ser
espacialmente separado nos seus diferentes λ 5

valores e coletados individualmente por um , λ 5


λ
λ 4 fibra 5
,λ 4 3
dispositivo. Esse dispositivo, por exemplo, ,λ
, λ
2
3
λ
2 fibra 4
pode ser um detector ou uma fibra. O λ 1
λ
1
fibra 3
caminho oposto também é verdadeiro, ou
fibra 2
seja, se pode tomar vários raios de luz,
fibra 1
possuindo diferentes comprimentos de onda, e fibra
única
fazê-los se unir em uma única trajetória
formando um único feixe.
Com tais fatos se pode realizar a Fig.(4.1-2) – Acoplamento de vários feixes de
inserção de raios de luz de diferentes comprimentos de onda diferentes em uma só fibra.
comprimentos de onda, provenientes de diferentes fibras, em uma única fibra, como mostra a
fig.(4.1-2). Obviamente, o oposto também é verdadeiro, ou seja, fazer com que a luz, proveniente de
uma única fibra, e composta de diferentes comprimentos de onda, sejam separadas e espacialmente
distribuídas a ponto de que cada comprimento de onda seja injetado em uma fibra própria. Essa ação
corresponde a uma multiplexação em comprimento de onda, uma conseqüência de, no âmbito da
óptica, se modular espacialmente o sinal.
O dispositivo a considerar neste capítulo, o WDM, é um elemento de multiplexação em
comprimento. Ele pode ser feito usando-se fibras ópticas e valendo-se das propriedades espectrais
dos acopladores ópticos, já estudados no capítulo anterior. Segundo tais propriedades, a razão de
acoplamento de um acoplador óptico depende do comprimento de onda da luz, pelo fato do índice de
refração do material depender do comprimento
1.0
de onda, bem como as características do
guiamento. 0.8
Quanto à dependência espectral da
razão de acoplamento de um acoplador, que 0.6

leva a ser um multiplexador de comprimentos P /(P + P ) 0.4 3 3 4

de onda (WDM), ela está exposta na fig.(4.1-3).


Como se pode ver na figura, toda a potência 0.2
correspondente a um modo de comprimento de
0.0
onda igual a 1300 nm está saindo na porta 3. Já 1.10 1.20 1.30 1.40 1.50 1.60 1.70
para um comprimento de onda de 1550 nm, Comprimento de onda (µm)
nenhuma potência estará na mesma porta. Não
sendo consumida dentro do dispositivo, Fig.(4.1-3) – Resposta espectral de um WDM.
conseqüentemente estará na porta oposta (porta 4). Vemos, pois, que o acoplador está funcionando à
semelhança de um prisma feito com fibras. A fig.(4.1-4) ilustra o que realiza um acoplador óptico
usado como um multiplexador de dois feixes de luz de comprimentos de onda diferentes. A radiação
comprimento de comprimento λ1 entra na porta 1 do acoplador e a de comprimento de onda λ2 entra
na porta 2. Após passar pelo acoplador, ambos os feixes sairão pela mesma porta (3). Invertendo-se o
sentido da propagação se pode realizar a demultiplexação de comprimentos de ondas.
Tal comportamento permite que os enlaces ópticos possam ser utilizados de uma forma
muito mais eficiente, na medida em que se pode fazer propagar em uma mesma fibra diversos sinais
de diferentes comprimentos de onda. É como se a fibra fosse multiplicada pelo número de
comprimentos de onda que nela se injeta. Atualmente, já se opera com dezenas de centenas de
comprimentos de onda (> 300).
Obviamente é possível se fazer a multiplexação bidirecional, usando-se o fato de haver os
efeitos de multiplexação e demultiplexação em um WDM. Atualmente, se faz em laboratório, a
multiplexação de várias centenas de comprimentos de ondas. No campo prático, temos este número
bastante reduzido, ficando na casa de algumas dezenas.
A sua utilização se dá como forma de alargar a banda disponível em um sistema de
comunicação óptica. Por exemplo, dezenas de canais de 10 Gb/s podem ser transmitidos em uma
258 Outros Dispositivos

mesma fibra se o espaçamento dos canais ficar restrito a intervalo de 40 a 50 GHz. Por volta de
1996, sistemas com WDM operando a uma capacidade total de 40 Gb/s se tornaram comercialmente
disponíveis. Havia previsões de se ter um enlace transoceânico funcionando a uma taxa de 100 Gb/s
por volta do ano 2000.
Aqui no Brasil temos exemplos de sistemas WDM. O trecho óptico Rio-São Paulo da
Embratel, opera em 10 Gb/s fazendo a multiplexação de 4 canais de 2,5 Gb/s com comprimento de
onda diferentes. Enfim podemos dizer que o uso dos WDM levou ao aparecimento da Quarta
geração de sistemas ópticos de comunicação.
A união dos acopladores com os WDM, permitem a construção de sistemas duplex com
multiplexação de vários comprimentos de onda. Assim sendo, aparecem muitas novidades sistêmicas
com o uso dos acopladores.

1
3
λ1
λ1, λ2
λ2
2
4

Fig.(4.1-4) – Acoplador óptico funcionando como WDM.

9.6 – Outros dispositivos

Com o avanço do uso das fibras em diversas aplicações, chegando ao usuário final - FTTD
(Fiber To The Desk) e FTTH (Fiber To The Home) – além das novas características dos enlaces
quanto a distributividade, banda, confiabilidade e outras mais, amplia-se o uso de dispositivos
baseados em fibra óptica. Tais dispositivos executam diferentes funções tais como modulação,
divisão, filtragem, amplificação, regeneração de sinal, entre outras. Muitas dessas ações, feitas com
dispositivos a fibra, trazem a
vantagem de não ser necessária à
interrupção do enlace óptico, COMPONENTES COMPONENTES
removendo-se o sinal para fora do PASSIVOS ATIVOS
sistema a fim de ser processado. Intensidade Acopladores Amplificadores a fibra
Amplitude Divisores
Nesse caso de ser necessária a Atenuadores
remoção do sinal há diversas Refletores
desvantagens tais como a inclusão Fase Moduladores
de maiores níveis de perdas Deslocadores
ópticas, usar elementos com Polarização Polarizadores
maiores dimensões do que aqueles Divisores de
do âmbito óptico, além de serem, Polarização
via de regra, mais caros e podendo Controladores
criar problemas com a estabilidade Comprimento Filtros
sistêmica. Daí um tremendo de onda WDM
esforço em criar dispositivos Freqüência Deslocadores
ópticos, baseados em fibras, Filtros
capazes de facilmente serem
integrados aos enlaces existentes Tab.(6.1-1) – Classificação e dispositivos a fibra e suas funções.
ou a serem implantados.
Sistemas de Comunicação Óptica 259

Os componentes ópticos, de uma forma ampla, podem ser classificados em duas categorias
básicas: passivos e ativos. Dentro dessas duas categorias eles existem classificações quanto as
funções dos dispositivos, como está apresentado acima na tab.(6.1-1). Nela são citados alguns
dispositivos e suas funções correspondentes. Pelo visto, até aqui ainda há muitos outros por vir.
Neste texto, tratamos apenas de alguns dispositivos mais importantes. Para um leitor com maiores
interesses recomendamos ler as referências dadas na bibliografia.
260 Outros Dispositivos
10
Amplificadores Ópticos
a Fibra

Introdução
De um elemento, inicialmente, dedicado para ser apenas um meio de transmissão de sinais,
as fibras ópticas passaram a ser também um insumo para a produção de dispositivos, tanto passivos
quanto ativos. Os acopladores, os filtros ópticos e os amplificadores são exemplo desses dispositivos.
O amplificador óptico é outro dispositivo, concebido para solucionar os problemas existentes de
atenuação. Nos sistemas de comunicação óptica, em particular os sistemas de grande comprimento, a
limitação por atenuação provoca a necessidade dele ser operado com a amplificação do sinal
degradado. Nos sistemas atuais o elemento amplificador de sinais é o amplificador óptico feito com
fibras ópticas dopadas com terras raras. Ele tem as características de ser muito confiável,
transparente às taxas de modulação, conquanto a banda espectral seja carente de expansão.

10.1. – A necessidade dos amplificadores ópticos

Nos sistemas de comunicação óptica o sinal propagante na fibra sofre dois processos básicos
de perturbação: atenuação e dispersão. Como vimos no capítulo 1 o efeito da dispersão provoca o
alargamento dos pulsos; a atenuação, por sua vez, causa a redução da potência óptica dos pulsos.
Ambos degradam a qualidade da informação podendo impedir a detecção do sinal, por tornarem tal
sinal ilegível.
O alargamento do pulso provoca degrada a recepção do sinal fazendo com que os pulsos
vizinhos se interpenetrem reduzindo a qualidade da informação transmitida pela redução, ou perda,
de resolução na detecção. Quando um enlace começa a ter tal perda de resolução, o que leva à perda
de informação, se diz que ele é limitado por dispersão. Já a atenuação causa a degradação da
informação transmitida por meio da queda da intensidade do sinal. Tal queda resulta em uma
incapacidade do sistema de detecção poder extrair a informação transmitida, ou extraí-la fora dos
requisitos de qualidade estabelecidos, em face das condições da relação sinal-ruído. Isso se traduz
em um aumento de erros na detecção de sinais afetando a taxa de erros por bit. Neste caso se diz que
o sistema é limitado por atenuação.
A limitação por dispersão pode ser superada com o uso de compensadores de dispersão,
como veremos adiante. A limitação por atenuação é o objeto da nossa atenção aqui, por meio dos
amplificadores ópticos.
Nos sistemas de comunicação óptica, em particular os sistemas de grande comprimento,
como é o caso dos enlaces submarinos, a limitação por dispersão e atenuação provoca a necessidade
262 Amplicadores Ópticos a fibra

do sistema ser operado com a regeneração dos sinais transmitidos em pontos periodicamente
distribuídos ao longo do enlace. Caso isso se dê por meio de um sistema de regeneração eletrônico se
faz necessário que o sinal óptico seja convertido em sinal elétrico para ser processado
eletronicamente dando lugar a uma etapa chamada de 3R, nome oriundo das palavras: Reshaping,
Retiming e Ramplification. Assim, 3R significa um conjunto de processamento do sinal, tais como:
filtragem, amplificação e modulação, para enumerar as mais citadas. Essa inclusão de uma camada
eletrônica no enlace óptico pode ser visualizada na fig.(5.1-1), na qual se ilustra esquematicamente
os elementos eletrônica de regeneração do sinal óptico.
Nos sistemas atuais, um dispositivo de suma importância é o amplificador óptico, feito com
fibras ópticas dopadas com terras raras. O primeiro desses dispositivos a ser operado comercialmente
foi o amplificador com fibra óptica dopada com érbio (Er3+). Ao contrário dos acopladores e
WDM’s, que são dispositivos passivos, os amplificadores ópticos são dispositivos ativos capazes de
gerar potência luminosa. Adiante veremos como isso pode ser feito. Obviamente a potência luminosa
aqui referida é aquela da radiação propagante na fibra do enlace e que está transportando o sinal.

Repetidor

Componentes Componentes Componentes


ópticos eletrônicos ópticos

Fig.(10.1-1) – Esquema de um sistema óptico de comunicação evidenciando a queda do sinal e presença de


um amplificador eletrônico amplificando o mesmo sinal.

10.1.2 – Princípios de funcionamento dos amplificadores ópticos

Para entendermos como funciona um amplificador óptico feito com fibra óptica, temos de trazer à
mente alguns fenômenos físicos básicos. Dois deles são os processos de recombinação espontânea e
estimulada. Recombinação é um processo oposto ao da absorção que gera atenuação nas fibras, como já vimos
anteriormente. A recombinação é um processo oposto, em vez de haver o sumiço de um fóton há o
aparecimento de um, emitido por algum sistema físico (elétron, átomo, molécula,...). Na absorção só pode
ocorrer de forma estimulada, ou seja, um fóton interage com um sistema físico e este absorvendo a energia
deste fóton é excitado passando de um nível de menor para outro de maior energia. Na absorção a energia do
fóton precisa ser igual à diferença de energia entre os estados envolvidos na transição.
Na recombinação, há um sistema em um nível de energia mais alta que emite um fóton ao
decair para um nível de energia mais baixa. A fig.(10.1.2) ilustra os processos das recombinações
espontânea e estimulada em um átomo. Nas emissões espontâneas o sistema físico decai sem
nenhuma ação externa. Nas emissões estimuladas não é assim, o decaimento ocorre porque há um
fóton como agente externo que o induz. Tal fóton ao alcançar o sistema físico provoca a transição
forçando o sistema a transitar do nível de mais alta energia, no qual se encontra, para o nível de mais
baixa energia. Nesses casos o fóton emitido é uma cópia xerox do fóton que estimula a transição,
sendo a energia dele igual à diferença de energia entre os níveis envolvidos na transição.
A recombinação estimulada será o processo responsável pela amplificação da luz que
transporta a informação, no caso comprimentos de onda em torno de 1550 nm para amplificadores
dopados com Er3+. Para ocorrer tal recombinação os íons precisam estar no nível de maior energia,
para onde vão absorvendo uma segunda radiação, chamada radiação de bombeio. No caso dos
Sistemas de Comunicação Óptica 263

amplificadores de érbio a radiação de bombeio é de 1480 nm. Vejamos, pois, quais os níveis de
energia que os íons de érbio possuem e que participam do processo de amplificação.

Emissão Emissão
Espontânea Estimulada
Antes da transição estimulada Depois da transição estimulada

Fig.(10.1-2) – Sub-níveis dos íons de érbio na matriz de sílica.

10.2 – Os amplificadores de fibra dopadas com Érbio

Os amplificadores ópticos que primeiro apareceram no mercado foram aqueles feitos


com fibras de vidro nas quais o núcleo era dopado com íons de érbio Er3+. Tais íons inseridos na
matriz amorfa de vidro possuem níveis de energia os quais permitem haver o processo de
amplificação de sinais ópticos na janela de 1550 nm. Vamos nesta sessão entender quais são esses
níveis disponíveis dos íons de érbio (Er3+) na matriz de sílica que levam à ocorrência da amplificação
óptica do sinal.
No caso das fibras dopadas com érbio, tais átomos estão ionizados (Er3+) dentro da matriz de SiO2.
Eles estão localizados no núcleo com uma concentração de 200 ppm, significando uma concentração de 1025
átomos/cm3. Dentro da matriz de sílica, os níveis de energia dos íons de érbio se desdobram em sub-níveis por
conta do campo elétrico local dos íons vizinhos e do caráter amorfo da matriz de sílica. A fig.(10.2-1)
apresenta alguns dos sub-níveis do érbio nessa matriz. Nela vemos para quais comprimentos de onda haverá

Recombinações não radiativas


2H
9/2
514nm 4
4F F3/2
5/2
630nm 4F
715nm 980nm 2 7/2
514nm 790nm H
4S 11/2
3/2
532nm 850nm 4F
9/2
670nm 1140nm
4I
9/2
800nm
4I
11/2
980nm 1680nm
E2 4I
13/2

1480nm 1531nm (comprimento de onda


de emissão)
E1 4I
15/2

Fig.(10.2-1) – Ilustração dos processos de recombinação espontânea e estimulada em um átomo.


absorção de luz e o comprimento de onda da recombinaçãoentre os sub-níveis 4I13/2 e 4I15/2, referente à emissão
264 Amplicadores Ópticos a fibra

de luz da fibra dopada. Tais níveis serão designados aqui por E2 e E1, correspondentes, respectivamente, a 4I13/2
e 4I15/2. Apenas entre esses dois níveis ocorre recombinação radiativa (com emissão de fótons), os demais
níveis passam por transições não radiativas (emissão de outras formas de energia – térmica por exemplo),
claramente indicadas na figura. Assim sendo, quando excitados os íons decaem rapidamente até o nível E2 do
qual transitam para o nível E1 radiativamente com eficiência quântica próxima de 1. Entre os níveis E2 e E1
ocorrem as transições espontâneas e estimuladas, sendo estes dois níveis aqueles responsáveis pela
amplificação óptica. Na Fig.(10.2-2) estão indicados os níveis de energia envolvidos nas transições
ligadas ao processo de amplificação óptica, 4I
11/2
sendo indicadas as energias das absorções mais
importantes ( 980 e 1480 nm) e os tempos de
recombinação espontânea entre os níveis 4I11/2 e τ ~1µs
4 4 4
I13/2 (1 µs) bem como entre os níveis I13/2 e I15/2
(10 µs). Como a figura sugere, os ditos níveis de 4I 980 nm
13/2
energia são, na verdade, faixas de energia, o que
fica explícito na indicação de que as transições 1520-1570 nm
1480 nm
τ ~10ms
de amplificação se darão numa faixa entre 1520 e
1570 nm. Também se deve salientar que o tempo 4I
15/2
de recombinação entre os níveis 4I11/2 e 4I13/2 4I13/2
é quatro ordens de grandeza menor do que aquele recombinação absorção
da transição entre 4I13/2 e 4I15/2. A importância
Fig.(10.2-2) – Níveis de energia envolvidos nas transições
disso está no fato do sistema ao ser excitado com ópticas sendo indicados os tempos de recombinação
a radiação de 980 nm transitar para um nível espontânea.
intermediário 4I13/2 e ali ficar um longo tempo
para ser induzido a transitar para o nível de energia mais baixo. Isso é importante para que haja a
recombinação estimulada, e também para as taxas de transmissão de interesse prático.
Finalmente destacamos os dois possíveis comprimentos de onda para o bombeio, 980 e 1480
nm, dos quais o de melhor desempenho é o de 980 nm; com 980 nm se pode obter uma inversão
completa dos níveis bombeados ao contrário do comprimento de 1480 nm, sendo também melhor o
desempenho do menor comprimento de onda quanto ao ruído, como veremos adiante. A fig.(10.2-1)
mostra que também é possível se usar vários outros comprimentos de onda para o bombeio,
incluindo-se o de 800 nm que seria disponível face à existência de lasers nesse comprimento de
onda. Entretanto, tanto para 800 nm quanto outros comprimentos de ondas menores existe um
fenômeno que reduz a eficiência do bombeio, cujo nome é Estado Excitado de Absorção (ESA –
Excited-State Absorption – em inglês). Como se vê na referida figura, após ser excitado para um
dado nível, em face dos múltiplos níveis que o íon de Érbio oferece no vidro, o elétron naquele nível
pode absorver mais um fóton do bombeio indo para um nível de energia ainda mais alta, quando,
para melhor desempenho óptico do sistema, ele deveria o mais rapidamente possível transitar para o
nível intermediário 4I13/2 no qual se dará a recombinação estimulada. A ESA não ocorre para os
comprimentos de onda de 1480 e 980 nm, fazendo deles os comprimentos de onda mais usados na
operação dos amplificadores ópticos de fibras dopadas com Érbio.

10.2.1 – Como são usados os amplificadores de Érbio

Como ocorre com os lasers, um amplificador a fibra requer um nível mínimo de potência
óptica de bombeio a fim de funcionar estimuladamente, para o que se exige a inversão de população.
Para entendermos o que é inversão de população, consideremos os elementos do sistema
amplificador, os íons de érbio no caso. Inversão de população é a situação física na qual, em média
no tempo, os íons de érbio estão, predominantemente, em seus níveis de maior energia. Dali, os íons
decaem estimuladamente para amplificar o sinal, conquanto haja recombinação espontânea
simultaneamente. Esta, não causa amplificação do sinal e pode ser considerado um ruído no sistema
dado o seu caráter aleatório, em contraposição ao processo estimulado.
Sistemas de Comunicação Óptica 265

Abaixo de um certo nível de potência, a inversão de população não se estabelece, inclusive


porque a emissão espontânea contribui para isso fazendo os íons excitados decaírem para o seu
estado fundamental.

Tal inexistência de uma inversão de população adequada impede que o sinal seja amplificado. À

Fibra
Sinal Dopada (Er+3)
λ=1550 nm Isolador Isolador
Sinal
(Entrada) Óptico Óptico
(Saída)
WDM

Laser de
Bombeio
λ=1480 nm

Fig.(5.1-3) – Esquema de amplificação óptica com fibra dopada com érbio.


medida que a potência óptica do bombeio se elevada se chega a um nível de potência capaz de
estabelecer uma inversão de população suficiente ao estabelecimento da amplificação óptica do sinal.
Outro ponto interessante a se chamar à atenção é quanto às linhas nas quais se opera o
bombeio dos amplificadores ópticos. Na prática as linhas mais utilizadas são as de 980 e 1480 nm
uma vez que as linhas de menor comprimento de onda, como 800 nm e outras, possuem a
possibilidade de serem absorvidas a partir do nível E2, dando lugar ao processo de absorção de
estados excitados. Na fig.(5.1-3) fica clara a multiplicidade de linhas de maiores comprimentos onda
(linhas desenhadas à direita da linha de recombinação de 1531 nm) responsáveis por essa absorção
que acabamos de mencionar e que reduz a eficiência de bombeio.
Atualmente, podem ser encontrados amplificadores com amplificação tão elevada quanto 40
a 45 dB. Assim sendo, um amplificador é um elemento do enlace que gera ganho e não perdas, como
os outros que analisamos anteriormente. Quanto a sua faixa óptica de atuação, os amplificadores
dopados com érbio operam na faixa de 1530 a 1570 nm

10.2.2 – Aplicações dos amplificadores a fibra

Quanto às suas aplicações, os


amplificadores a fibra apresentam
(a) TX AO RX
algumas opções, as quais estão
dispostas na fig. (5.2-1).
Na configuração (a) temos o
(b) TX AO RX
amplificador sendo usado com
amplificador da potência do laser,
sendo um booster. Esse uso pode levar
(c) TX AO RX
ao aumento do comprimento do enlace
e compensar as perdas advindas da
divisão do enlace em outras sub-redes.
(d) TX RX
Na configuração (b) o AO AO AO

amplificador está sendo usado como Fig.(5.2-1) – Diferentes configurações de uso dos amplificadores a
pré-amplificador do receptor a fim de fibra.
melhorar a sua sensibilidade.
266 Amplicadores Ópticos a fibra

Na configuração (c) o amplificador é usado como um amplificador de linha. Nela ele


amplifica o sinal que está em trânsito no enlace. Essa mesma configuração é vista na figura (d),
apenas se mencionando que nela há múltiplos estágios de amplificação, fato que é encontrado em
enlaces muito longos (milhares de quilômetros).

10.2.3 – Vantagens e desvantagens dos amplificadores ópticos

O uso de amplificadores ópticos nos enlaces ópticos traz várias vantagens; passemos a
enumerá-los.

TRANSPARÊNCIA À TAXA DE TRANSMISSÃO - Os enlaces ópticos que têm seu sinal amplificado
opticamente, sem possuírem conversão opto-elétrica, são transparentes à taxa de transmissão do sistema. O
mesmo não se verifica quando há amplificação com repetidores eletrônicos.

BAIXAS PERDAS DE INSERSÃO - Ao serem conectados ao enlace óptico, os amplificadores


produzem reduzidas perdas devido às emendas ópticas.

BAIXO NÍVEL DE RUÍDO – Quanto ao ruído introduzido no enlace, os amplificadores ópticos são
um ponto de vantagem. O ruído introduzido fica no nível de 3 a 4 dB.

TRANSPARÊNCIA À POLARIZAÇÃO – O ganho obtido com as fibras dopadas com érbio é


insensível à polarização da luz irradiante.

BANDA AMPLIFICADORA – Devido à largura da banda de amplificação das fibras dopadas com
érbio, algo em torno de 40 nm, os amplificadores ópticos podem ser usados em enlaces WDM, nos
quais podem estar propagando até centenas de diferentes comprimentos de onda.

Evidentemente existem algumas desvantagens no uso dos amplificadores a fibra dopada com
érbio, das quais citamos as seguintes:

JANELA ÓPTICA DE AMPLIFICAÇÃO – Os amplificadores de maior uso na atualidade é aquele


que opera com sinais de 1550 nm, deixando de fora a importante janela de 1300 nm. Esforços no
sentido de se desenvolver amplificadores para essa janela de 1300 nm, usando praseodímio, ainda
estão em andamento.

POTÊNCIA ÓPTICA DE BOMBEIO – Os amplificadores a fibra requerem níveis de potência na


faixa de 50 a 100 mW, o que significa um alto nível de potência de bombeio.

COMPRIMENTOS DE OPERAÇÃO – Com os amplificadores a fibra comprimentos muito


pequenos não são possíveis de ser usados.

10.4 – Modelagem da amplificação dos sinais em fibras dopadas

A fig.(10.1-2) ilustra o processo de amplificação com uma fibra dopada com érbio. Nela
vemos que a fibra recebe duas radiações diferentes, a do sinal (transportadora da informação) e a do
bombeio. Essa última excita os íons da fibra preparando-os para se recombinarem estimuladamente
por meio da interação com os fótons do sinal. Portanto, em um amplificador ele recebe energia de
uma radiação (1480 nm) fornecendo energia para uma segunda radiação, a do sinal (1550 nm). Para
se realizar o modelamento vamos definir alguns conceitos importantes. Consideremos os três
processos básicos de transições, a saber:
Sistemas de Comunicação Óptica 267

- absorção de luz (transição 4I15/2 → 4I11/2 )


- recombinação não radiativa (transição 4I11/2 → 4I13/2 )
- geração de luz (transição 4I13/2 → 4I15/2 )

seguindo a seqüência dos eventos que compõem todo o processo de recombinação estimulada,
descriminados na fig.(10.4-1).

(1) (2) (3)

4I 4I 4I
11/2 11/2 11/2

4I
13/2
980 nm 4I
13/2
4I
13/2

1550 nm

4I 4I 4I
15/2 15/2 15/2

absorção transição recombinação


não radiativa estimulada ou
espontânea

Fig.(10.4-1) – As diferentes etapas de transição envolvidas na amplificação óptica com íons de Érbio.

Para se escrever as equações matemáticas partiremos do fato de haver um processo de


amplificação de três níveis, característico do bombeio com 980 nm. A amplificação com o bombeio a
1480 nm, ao contrário do bombeio anterior, corresponde a um processo de dois níveis. Além disso,
consideremos que há NT(ρ) íons de Érbio por unidade de volume, podendo ter dependência em r,
conquanto constante ao longo de z. Outra definição é quanto às densidades N1(ρ,z) e N2(ρ,z) de
estados disponíveis nos níveis 4I15/2 e 4I13/2, tais que:

N1 (ρ, z) + N 2 (ρ, z) ≈ N T (ρ) (10.4.1)

Podemos definir as taxas de variação das populações nos dois níveis mencionados acima. Como
NT(ρ) é constante (dN1(ρ,t)/dt)=-(dN2(ρ,t)/dt), de modo que poderemos descrever o comportamento
da amplificação apenas com a taxa de um dos níveis. Tal taxa será:

dN1  σee I s N  σ I σ I 
= N 2 + 2  −  ab b N1 + as s N1  (10.4.2)
dt  hνs τe   hν b hνs 

onde temos a injeção de íons no estado fundamental no primeiro parênteses e a saída do estado no
segundo parêntese. Neles temos:

I
= número de fotons na energia hν
hv

σee I s
N 2 = número de emissões estimuladas 4I15/2 → 4I13/2 por unidade de volume e de tempo;
hν s
268 Amplicadores Ópticos a fibra

N2
= número de emissões espontâneas 4I13/2 → 4I15/2 por unidade de volume e de tempo;
τe
σab I b
N1 = número de absorções 4I15/2 → 4I11/2 por unidade de volume e de tempo devido ao
hν b
bombeio;
σas I s
N1 = número de absorções 4I15/2 → 4I11/2 por unidade de volume e de tempo devido ao sinal.
hν s

Nessas equações encontramos os termos σee, σab, σas, os quais são as seções de choque referentes a
cada um dos processos (emissão e absorção) envolvidos na amplificação. Tais grandezas têm a
dimensão de área.
Usando-se a eq.(10.4.2) poderemos escrever:

dN1 N 2 σas I s
= + (γN 2 − N1 ) − σab I b N1 (10.4.3)
dt τe hν s hν b

onde

σee
γ= (10.4.4)
σas

Tomemos a solução estacionária, segundo a qual (dN1/dt)=0.

N 2 σas I s
+ (γN 2 − N1 ) − σab I b N1 = 0
τe hν s hν b

da qual obteremos:

ϕs
Ib +
N2 (1 + γ )
= (10.4.5)
N1 1 + γ ϕ
s
(1 + γ )
onde

I s (ρ, z)
ϕs (ρ, z) = (10.4.6)
Iso
hν s
ϕso = (10.4.7)
σas τ(1 + γ )
I (ρ, z)
ϕb (ρ, z) = b (10.4.8)
I bo
hν b
ϕbo = (10.4.9)
σab τ
Sistemas de Comunicação Óptica 269

10.4.1 – Condição limiar de emissão estimulada

De posse da eq. (10.4.5) vamos verificar a condição na qual o meio dopado com Érbio
poderá amplificar a radiação que transporta o sinal, significando manter um nível de emissão
estimulada que supere as perdas do sistema. Sabemos que em um meio opticamente ativo a
intensidade luminosa se propaga ao longo de z na forma:

I s ( z ) = I o e − αz (10.4.10)

Caso α seja positivo o meio será absorvedor, atenuando a intensidade da radiação nele propagante,
fato demonstrado pelo comportamento exponencial de argumento negativo. Contudo, na medida em
que α seja negativo a eq.(10.4.10) mostra um aumento exponencial da intensidade luminosa,
situação na qual temos a amplificação óptica. Assim, poderemos definir a condição limiar, de
fronteira, entre as duas situações expostas, como sendo α=0.
Outro ponto a ser comentado se refere à forma como a radiação varia ao longo de z.
Poderemos escrever que a variação de energia ao longo de z, devido à diferença entre a energia
gerada e perdida no volume ∆V referente a dz. Escreveremos:

dI s ( z )
= ( A − G ) I s ( z ) ≡ αI s ( z ) (10.4.11)
dz

cuja solução, para gerações e perdas independentes de z, corresponde à eq.(10.4.10). Caso as perdas
sejam maiores do que o ganho, ou as absorções superem as gerações, α será positivo, e como indica
a eq.(10.4.10) a intensidade atenua ao longo de z. No caso oposto, α será negativo o que leva o
argumento da exponencial a ficar positivo, caso no qual a intensidade aumenta á medida que a luz
propaga em z.
Vamos definir quais são as gerações e as perdas em ∆V referente a dz. Elas são:

- GERAÇÕES
- emissão espontânea nas transições 4I13/2 → 4I15/2
- emissão estimulada nas transições 4I13/2 → 4I15/2

- PERDAS
- absorção de fótons do sinal nas transições 4I15/2 → 4I13/2
- perdas de propagação na fibra

Podemos mostra, ver ex. (10.4.1), que os termos referentes à emissão espontânea e às perdas com a propagação
na fibra são desprezíveis, de modo que a eq. (10.4.11) ficará:

dI s (z) σee I s σ I
= N 2 − as s N1 = α A I s (z) (10.4.12)
dz hν s hν s

onde
σ 
α A =  as (N1 − γN 2 ) (10.4.13)
 hνs 
Observamos na eq.(10.4.13) que a situação de amplificação, αA<0, correspondente à inversão de
população no amplificador ocorrerá caso:

(N1 − γN 2 ) < 0 ou γN 2 > N1 (10.4.14)


270 Amplicadores Ópticos a fibra

ficando o limiar da amplificação definida pela condição

γN 2 − N1 = 0 (10.4.15)

Tomando-se a eq.(10.4.12) e (10.4.13) para o sinal teremos:

dI s (z) σee I s σ I
= N 2 − as s N1 = α A I s (z) (10.4.16)
dz hν s hν s

onde
σ 
α A =  as (N1 − γN 2 ) (10.4.17)
 hνs 

Para o bombeio poderemos escrever:

dI b ( z ) σ I
= − abs b N1 = α ab I b (z) (10.4.18)
dz hν b

onde
σ 
α Ab = N1 ab  (10.4.19)
 hν b 

Com as eqs.(10.4.16) e (10.4.18) poderemos descrever como as potências do sinal e do bombeio se


comportam enquanto propagam ao longo de z.

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Exemplo (10.4.1) – Demonstrar que os termos referentes à emissão espontânea (4I13/2 → 4I15/2) e
absorção (4I15/2 → 4I13/2), como foi usado na dedução da eq.(10.4.12) são desprezíveis.

Solução

Tomemos primeiro a emissão espontânea. Como se sabe a emissão espontânea tem uma
distribuição angular isotrópica; ou seja: a emissão ocorre com a mesma probabilidade em todas as
direções. Entretanto, a luz amplificada, além de ser coerente, é confinada como o modo fundamental.
Para que a luz espontânea fosse confinada ela deverá respeitar o ângulo de aceitação no interior da
fibra. Se considerarmos que temos uma fibra degrau de índices de refração do núcleo e da casca
iguais a 1,47 e 1,46, respectivamente, o ângulo de aceitação seria:

 1,46 
αaceitação = arcsen  ≈ 6,73 graus
 1,47 

a fração de emissão espontânea acoplada pode ser estimada tomando-se a relação entre o ângulo
sólido referente ao ângulo de aceitação e o ângulo sólido total (4π). Encontraremos:
Sistemas de Comunicação Óptica 271

2π α aceitação

fração acoplada =
∫0 dφ∫
0
senθdθ
= (1 − cos(6,73) ) = 2,07 x10− 6

Portanto a fração de luz acoplada é pequena fração da potência do sinal propagante. Por outro lado,
mesmo uma pequena fração de luz acoplada, em face da amplificação que passa a ter enquanto
propaga no meio amplificador findará por se transformar em uma fonte de ruído do amplificador, e
se chama ASE (Amplified Spontaneous Emission).
Passemos à perda na fibra. Sabemos que uma fibra padrão, a perda para λ=1550 nm é algo
como 0,2 dB/km. Tomando-se a eq.(10.4.10) poderemos escrever:

α(dB / km) 2x10−6


α= = = 4,61x10−11 cm −1
10(log10 e )L 10 x 0,433x10 4

calculemos tomando o centímetro como unidade de comprimento, sendo de 100 metros o


comprimento L do amplificador. Tal valor é acima do comprimento de fibra dopada normalmente
usada em um amplificador (5 a 50 m). Por ser mais do que o necessário, fica evidente que as perdas
por propagação (espalhamento, absorções,...) podem ser desprezíveis diante dos valores das outras
grandezas que aparecem na eq.(10.4.11).
_________________________________________________________________________________

Tomando a eq.(10.4.5), e levando em conta a eq.(10.4.1), com algum algebrismo podemos escrever:

ϕs
ϕb +
(1 + γ )
N 2 (ρ, z) = NT (10.4.20)
1 + ϕb + ϕs
e
γϕs
1+
(1 + γ )
N1 (ρ, z) = NT (10.4.21)
1 + ϕb + ϕs

De posse das eqs.(10.4.16) e (10.4.17) poderemos escrever a expressão (10.4.15) como segue:

 γϕb (ρ, z) − 1 
γN 2 (ρ, z) − N1 (ρ, z) =   N T (ρ) (10.4.22)
1 + ϕb (ρ, z) + ϕs (ρ, z) 

recordando que

I b (ρ, z) I (ρ, z)
ϕb (ρ, z) = , ϕs (ρ, z) = s
I bo Iso
e
hν b hν s
I bo = , I so =
σab τ σas τ(1 + γ )
Da eq.(10.4.18) surge a condição limiar:
272 Amplicadores Ópticos a fibra

1
γI bL (ρ, z) = 1 ou I bL (ρ, z) = I bo (10.4.23)
γ

Será interessante darmos um significado físico para Ibo, dado a sua importância na definição
da condição do limiar da amplificação. Primeiro vemos que a definição do limiar vem através da
intensidade do bombeio, ou a quantidade de energia por unidade de área e de tempo Ib(r,z) necessário
para realizar a estimulação da radiação do sinal ao longo de z. Como γ é adimensional, se vê que ϕbo
se refere a uma energia que atravessa uma dada área por unidade de tempo e que pode ser tomada
como uma energia de referência.
Usando-se a expressão (10.4.4) a eq.(10.4.19) pode ser escrita como segue

σas
I b (ρ, z) = I bo (10.4.24)
σee

onde se vê que a relação entre as seções de choque da absorção e da emissão estimulada aumenta ou
diminui a intensidade limiar. Se a absorção tem mais chance de ocorrer, σas> σee, o limiar é maior do
que quando ocorre a situação oposta σee> σas.

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Exemplo (10.4.2) – Estimar o valor do limiar do bombeio para ocorrer amplificação de sinal.

Solução

Consideremos que o bombeio seja feito com radiação de 980 nm para a qual σab=3,0x10-25
m2. O tempo de recombinação seja de 15 ms.
Para λ=980 nm a energia em eV é:

1,24
ε= = 1,26eV
0,98
hν 1,602.10-19 x 1,26
I bo = = − 25 − 2
= 4,5x107 W / m 2 = 45MW / m 2
σab τ 3,0 x10 1,5x10

O bombeamento limiar pode ser calculado com a eq.(10.4.19), na qual usaremos σee=3,410x10-25 m2
e σas=2,545x10-25 m2 referentes a um sinal cujo comprimento de onda igual a 1550 nm.

1 2,545
I bL (ρ, z) = I bo = 4,5x107 = 3,36x107 W / m 2
γ 3,410

Considerando que essa intensidade esteja propagando numa fibra padrão com um campo modal de
50 µm2 tal intensidade corresponde a uma potência de

P = 3,36x107 x5,0x10−11 = 1,68x10−3 W = 1,68mW


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10.5 – Dependência do bombeio e sinal com o comprimento


Sistemas de Comunicação Óptica 273

Outra informação importante se refere à dependência do bombeio e do sinal com o


comprimento da região amplificadora. Essa dependência poder analisada por meio das equações que
descrevem a variação da intensidade de luz dos modos guiados em função de z, entendendo-se por
modos guiados os modos referentes ao bombeio e o sinal.

10.5.1 – Aproximação de pequenos sinais

Antes de qualquer solução mais complexa tomaremos um caso simples para servirem de orientação
para os casos mais complexos. Na aproximação de pequenos sinais iremos considerar que a
intensidade ϕs da onda do sinal é desprezível, de modo que a eq.(10.4.21) se reduz a:

1
N1 (ρ, z) = NT (10.5.1)
1 + ϕb

e a eq.(10.4.18) será escrita na forma

dI b (z)  σab 
= − N T  I b (z) (10.5.2)
dz  1 + I b (z) / I bo 

Feita essa primeira aproximação consideremos duas situações limites a saber: Ib(z)« Ibo, Ib(z)~ Ibo e
Ib(z)» Ibo.
No primeiro caso podemos escrever

dI b ( z )
= −σab N T I b (z) (10.5.3)
dz

A solução dessa equação diferencial é a trivial

I b (z) ≈ I b (0)e −σab N T z


(10.5.4)

Tomando a segunda aproximação Ib~Ibo se chega à seguinte equação diferencial:

−1
dI b (z)  I I (z)   1 1 
= −σab N T  bo b  = −σab N T  +  (10.5.5)
dz  I bo + I b (z)   I bo I b (z) 

donde vem

 1 1 
 + dI b (z) = −σab N T dz (10.5.6)
 I bo I b (z) 

A integração dessa equação diferencial é:

 I ( z)  1
ln  b  + [I b (z) − I b (0)] ≈ −σab NT z (10.5.7)
 I b (0)  I bo
274 Amplicadores Ópticos a fibra

para a condição de contorno [z=0, Ib(z)=Ib(0)] e [z, Ib(z)].


Finalmente, tomemos a última aproximação Ib»Ibo, para a qual a eq.(10.5.2) será:

dI b ( z )
= −σab N T I bo (10.5.8)
dz

segunda a qual

I b (z) ≈ I b (0) − σab N T I bo z (10.5.9)

Resumindo temos:

Ib(z)«Ibo I b (z) ≈ I b (0)e −(σ ab N T )z

 I (z)   I (0)   I (z) 


Ib(z)~Ibo ln  b  +  b   b − 1 ≈ −(σab N T )z
 I b (0)   I bo   I b (0) 

Ib(z)»Ibo I b (z) ≈ I b (0) − (σab N T I bo )z

Nelas vemos o bombeio ser atenuado de forma exponencial para Ib«Ibo, com um coeficiente de
absorção dado por σabNT. No caso extremo oposto Ib»Ibo a atenuação é se dá de forma linear. Já o caso
Ib~Ibo o comportamento é uma transição entre os casos extremos. A análise desses casos serão analisados no
ex.(10.5.1).

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Exemplo(10.5.1) – Analisar na aproximação de pequenos sinais os casos discutidos acima para os


seguintes dados:

NT=5x1018 cm-3
σab=2x10-21 cm2
λ=1550 nm
τ=20 ms
Solução

Antes de calcularmos o comportamento do bombeio ao longo de z, calculemos os termos


intermediários:

hν b 1,24 x1,602 x10−19 1 1,24 x1,602 x10−19 1


I bo = = = − 25 − 2
= 3,20x107 W / m 2
σab τ λ(µm) σab τ 1,55 2 x10 x 2 x10

σab N T = 2x10−25 x5x1024 = 1m −1 = 1000km −1

Observamos que o termo σabNT se comporta na solução exponencial, referente ao caso em que
Ib(z)«Ibo, faz o papel de uma absorção cujo valor é de 0,01 cm-1; esse valor em dB corresponde a
uma extraordinária atenuação de 4340 dB/km.
Sistemas de Comunicação Óptica 275

Antes de usarmos os valores obtidos vamos transformar as intensidades em potências


tomando, uma grandeza mais condizente com o uso prático. Para fazermos isso usaremos

Pb (z) = A b I b (z )

onde Ab é a área referente ao diâmetro modal. Desse modo, tomando um raio modal ρm=1,5 µm, um
valor típico para este raio, encontraremos a seguinte potência de bombeio:

( )2
Pbo (z) = πρ2m I bo = 3,414 * 1,5x10−6 * 3,20x107 = 0,25mW

Com tais valores as eqs.(10.5.4), (10.5.7) e (10.5.9) ficarão:

Ib(z)«Ibo Pb (z) ≈ 0,025e − z Pb(0)=0,025 mW

 P (z)   0,5   Pb (z) 


Ib(z)~Ibo ln  b  +   − 1 ≈ −z Pb(0)=0,5 mW
 0,5   0,25   0,5 

Ib(z)»Ibo Pb (z) ≈ 2,5 − z Pb(0)=2,5 mW

onde estão indicadas as potências de bombeio 2,5


injetadas na fibra. Na fig.(10.5.1) estão (a) P b(0)=0,025 mW
(b) Pb(0)=0,5 mW
apresentados os comportamentos calculados 2,0 (c) Pb(0)=2,5 mW
segundo a aproximação de pequenos sinais,
conforme os níveis de potência indicadas na 1,5
figura. Tais níveis descrevem as três situações P b (z)
mW (c)
analisadas neste exemplo. A curva referente ao 1,0 x100
caso em que Pb(0)«Pbo, referente ao
comportamento exponencial, foi multiplicada 0,5 (b)
pelo fator 100 para melhor visibilidade no (a)
gráfico.
0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0
Um melhor entendimento do z (m)
comportamento da potência de bombeio ao longo Fig.(10.5.1) – Comportamento da potência de bombeio em
de z exigirá uma solução mais perfeita que a uma fibra dopada com érbio para os três casos estudados da
obtida nessa exemplo. aproximação de pequenos sinais.
_________________________________________________________________________________

Como já o fizemos no ex.(10.5.1), a partir desse ponto consideremos as eqs.(10.5.1) e


(10.5.2) em termos das potências transportadas pelos modos propagantes do bombeio e do sinal ao
invés das intensidades. Tais potências são dadas por:

Pb (ρ, z) = A b I b (ρ, z ) (10.5.3)

onde Ab é a área modal calculada por meio da expressão

A = πρ2mb (10.5.4)
sendo ρmb o raio modal do bombeio. Considerando que as fibras são monomodo, tomaremos o raio
referente ao modo fundamental
276 Amplicadores Ópticos a fibra

  Uρ 
 A 00J 0  a 
   e - iβ z ; ρ < a
 J 0 (U )
E 00 (ρ, z) =  (10.5.5)
 A K  Wρ 
 00 0  a  -iβz
 e ; ρ>a
 K 0 (W )

onde

U2 + W 2 = v2 (10.5.6)

e
v = n 2n − n c2 k o a (10.5.7)

é a freqüência normalizada. Essa solução considera o meio vítreo desprovido de absorção ou


amplificação. Nestes casos em que há atividade óptica seria necessário se caracterizar opticamente o
meio com um índice de refração complexo n = n + iK de modo que o campo seria do tipo:

E(ρ, θ, z) = E(ρ, θ)e −ink o z = E (ρ, θ)e −i ( n + iK ) k o z = E(ρ, θ)e −ink o ze − Kk o z (10.5.8)

Isso faria com que as equações de onda tivessem um tratamento mais trabalhoso. Por outro lado a
parte imaginária do índice de refração é algumas ordens de grandeza menor do que a parte real,
permitindo que o guia seja resolvido apenas com a parte real do índice de refração e tomando-se a
solução completa multiplicando-se a solução transversal E(ρ,θ) pelo termo propagante conforme a
eq.(10.5.8).Quadrando o capo para se ter a intensidade luminosa e chamando


2Kk o = K=α (10.5.9)
λo
teremos:

I (ρ, θ, z) = I (ρ, θ)e −αz (10.5.10)

Tendo isso em mente, o campo propagante, fundamental (independente de θ) como é o caso de


interesse, poderá ser aproximado por:

I s (ρ, z) = Ps (z)F(ρ) (10.5.11)

I b (ρ, z) = Pb (z)F(ρ) (10.5.12)

sendo a dependência em z descrita por uma função a ser determinada, ao invés da exponencial em z.
No caso em análise, ao contrário de um meio de propriedades homogêneas, a excitação óptica
depende de z, fazendo com que o coeficiente de ganho g=-α seja dependente de z. Tal dependência
não é explícita mas depende da solução de intensidade dos campos.
______________________________________
Os modos podem ser normalizados segundo a potência total PT injetada na fibra, de modo
que teremos a expressão:
Sistemas de Comunicação Óptica 277

∞ 2 2π
∫0 E 00 (ρ) ρdρ ∫ dθ = PT
0
(10.5.9)

Com isso vem:

∞ 2π ∞
Ps (z) = ∫ I s (ρ, z)ρdρ ∫ dθ = 2π∫ I s (ρ, z)ρdρ (10.5.10)
0 0 0

∞ 2π ∞
Pb (z) = ∫ I b (ρ, z)ρdρ∫ dθ = 2π ∫ I b (ρ, z)ρdρ (10.5.11)
0 0 0

para as potências transportadas pelos modos do sinal e do bombeio, respectivamente.

dPs (z) ∞ dI s (ρ, z)


= 2π ∫ ρdρ (10.5.12)
dz 0 dz
e

dPb (z) ∞ dI b (ρ, z)


= 2π ∫ ρ dρ (10.5.13)
dz 0 dz

Usando-se as eqs.(10.5.1) e (10.5.2) teremos:

dPs (z) ∞
= 2πσas ∫ ( γN 2 − N1 ) I s (ρ, z)ρdρ (10.5.14)
dz 0
e

dPb (z) ∞
= −2πσab ∫ N1 (ρ, z) I b (ρ, z)ρdρ (10.5.15)
dz 0

Aqui iremos considerar que a distribuição dos íons de érbio na fibra dopada será constante de ρ=0 a
ρ=d, de forma que as eqs. (10.5.14) e (10.5.15), segundo as eqs.(10.4.17) e (10.4.18) serão escritas
como segue:

 P (z) 
 γ b Fb (z ) − 1 
dPs (z) d I po
= 2πσas N T ∫  Ps (z)Fs (ρ )ρdρ (10.5.16)
0  Pb (z) Ps (z)
dz 1+ Fb (ρ ) + Fs (ρ ) 
 I po Iso 
 
γ Ps (z)
1+ Fs (ρ)
dPb (z) d (1 + γ ) Iso
= 2πσab N T ∫ Pb (z)Fb (ρ)ρdρ (10.5.17)
dz 0 Pb (z) Ps (z)
1+ Fb (ρ) + Fs (ρ)
I bo Iso

De posse das eqs.(10.5.16) e (10.5.17) poderemos escrever a expressão (10.4.15) como segue:
10.5.2 – Solução com a aproximação gaussiana
278 Amplicadores Ópticos a fibra

Para se obter a solução para as eqs.(10.5.16) e (10.5.17) é necessário a adoção de um método


numérico computacional. Entretanto é possível se simplificar a solução mesmo numérica adotando-
se uma aproximação gaussiana para a descrição das funções Fs(ρ,z) e Fb(ρ,z). Com tal aproximação
se obtém uma expressão mais simples para ambas as equações citadas. Segundo uma gaussiana, as
funções acima destacadas, são aproximadas por:

1 2
Fs / b (ρ) = 2
e− ( ρ / w s / b )
πws / b

Usando a aproximação gaussiana, as integrais (10.5.16) e (10.5.17) podem ser integradas, sendo
muito mais simples quando fazemos a aproximação ws=wb. Isso leva aos seguintes resultados:

d 1 + ζ e − ρ / w b  − (ρ / w )2
dPs (z) 2 ( )2
= − 2 σas N T Pb (z) ∫  
2 e
b ρdρ (10.5.18)
dz wb 0 1 + ξe − (ρ / w b ) 
 
onde:

γ Ps (z)
ξ( z ) = (10.5.19)
1 + γ Pso
P (z) Ps (z)
ζ ( z) = b + (10.5.20)
Pbo Pso
e

Pso = πw s2 I so (10.5.21)

Pbo = πw 2b I bo (10.5.22)

Com a aproximação gaussiana temos a resolver a integral da eq.(10.5.18), cujo resultado é:

d 1 + ζ(z)e− ρ / w b
( )2 
−(ρ / w b )2
∫0 
 
−(ρ / w b )2 
e ρdρ =
1 + ξ( z )e 
(10.5.23)
 ξ(z)  w 2  1 + ζ( z)  ξ(z) w 2
+ 1 − e−(d / w) 2 
= 1 −  ln

 ζ(z)  2ζ(z)  1 + ζ(z)e−(d / w )
2
 ζ(z) 2  

Daí, vem

dPs σas NTPs (z)  Pb (z)  − (d / w ) 2   Pb (z)   1 + ζ ( z) 



= γ 1 − e  
− 1 + γ  ln
dz ζ(z) 