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Revista Classica, v. 29, n. 1, p.

29-48, 2016 29

A mulher na Magna Grécia:


um “objeto” de valor

Sandra Ferreira dos Santos* * Doutora em


Arqueologia pela
Universidade Federal
do Rio de Janeiro.
Resumo: Uma questão que tem sido motivo de grandes debates no
estudo das colônias gregas do sul da Itália trata da formação dos grupos
de imigrantes gregos que se dirigiram para esta região, no movimento
que se convencionou chamar de colonização grega. Observando-se as
fontes, parece mais razoável considerar que os homens que para lá se
dirigiram se casassem com mulheres nativas, realizando, assim, alianças
com a população local. As alianças matrimoniais, bastante comuns no
mundo grego, tornaram-se, na Magna Grécia, uma política de manutenção
e consolidação do poder pelos tiranos da região, e uma forma bastante
eficaz de legitimação da permanência e da descendência dos gregos que
chegavam. Esta questão é fundamental, na medida em que desejamos
pensar sobre a importância das mulheres na formação da identidade do
grupo e na legitimação política e social dos gregos que se estabeleceram
no sul da Itália.
Palavras-chave: casamento; mulheres; Magna Grécia; identidade;
legitimação.

Women in Magna Graecia: a valuable “object”


Abstract: An issue that has been the subject of much debate in the
study of the Greek colonies of southern Italy, involves the formation of
groups of Greek immigrants who arrived in this region in the movement
that came to be called the Greek colonization. Considering the sources,
it seems more reasonable to assume that the men who went there, got
married to the native women, performing as well, alliances with the local
population. Matrimonial alliances, quite common in the Greek world,
became, in Magna Grecia, a policy of maintenance and consolidation
of power by tyrants in the region, and a very effective way to legitimize
the permanence and the offspring of the arriving Greeks. This question
is crucial, as we want to think about the importance of women in group
identity formation and political and social legitimacy of the Greeks who
settled in southern Italy.
Keywords: marriage; women; Magna Grecia; identity; legitimation.
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Introdução

O estudo da Grécia Antiga e de suas colônias, apesar do tanto que já se falou sobre
o assunto, é repleto de indagações. Muito do que se afirmou no início dos estudos
sobre este mundo cultural que tanto nos influenciou, e ainda influencia, esteve
fortemente ligado a mentalidades do período em que as pesquisas foram feitas e ao lugar de
fala dos próprios pesquisadores. As mulheres, que durante longo tempo foram excluídas da
História, não tiveram seu papel favorecido por aqueles que começaram a analisar as fontes
relacionadas à Grécia. Usando basicamente fontes escritas – todas produzidas por homens
da elite letrada – se tornou senso comum afirmar a inferioridade das mulheres gregas.
Felizmente essa injustiça tem sido reparada ao longo do tempo, em especial, após o início
dos estudos de gênero, que vieram demonstrar que há um outro lado da História.
Na Grécia Antiga, o papel social da mulher estava irremediavelmente ligado ao
casamento e à religião. As mulheres não tinham participação política direta. Esses fatos,
inegáveis, é certo, não significam, entretanto, que as mulheres gregas tivessem uma posição
social inferior. O casamento era uma instituição fundamental para aquela sociedade, uma vez
que garantia a descendência legítima, a cidadania dos filhos e a manutenção da propriedade.
Além disso, a religião grega não era tratada com uma esfera da vida em separado, mas estava
profundamente entranhada em todos os aspectos da vida. Nada se fazia sem a realização
de rituais propiciatórios e como forma de agradar aos deuses, além de terem a religião e os
mitos como importante forma de manutenção dos valores e de identidades. Se na política as
mulheres gregas não possuíam participação direta, sua influência indireta é também inegável
e documentada em várias fontes, inclusive escritas. Vemos, assim, que de fato existe um
outro lado nesta história.
No caso específico da Magna Grécia – região composta por cidades colonizadas pelos
gregos no sul da Itália e Sicília – a situação das mulheres era bastante semelhante. Entretanto,
alguns fatos têm colocado questões muito específicas relacionadas à importância das mulheres
desta região do mundo grego. Ao estudarmos a iconografia dos vasos gregos e magnogrecos
do final do século V a.C. e início do século IV a.C., observamos que a quantidade de imagens
retratando mulheres aumentou de forma acentuada neste período. Nos vasos provenientes
da Magna Grécia, em especial, há uma profusão destas imagens que estão bastante ligadas ao
universo religioso e ao casamento. Apesar de os vasos gregos do mesmo período também
apresentarem cenas nas quais as mulheres realizavam tarefas da vida cotidiana e dentro do
universo feminino do gineceu, aqueles provenientes da Magna Grécia chamam a atenção
pela quantidade bastante maior em que essas imagens se apresentam e pela presença de
elementos pictóricos diferentes daqueles da Grécia. Além disso, não só muitos mais vasos
pintados têm temática feminina, como esta temática está muito mais profundamente ligada
a rituais relacionados ao casamento e à fertilidade. O que significaria essa quantidade tão
maior de imagens relacionadas a estes temas? Será que na Magna Grécia o casamento e o
papel das mulheres eram mais importantes do que nas cidades mãe da Grécia?
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Através da análise e da comparação entre as imagens presentes nos vasos gregos e


magnogrecos (italiotas) do final do século V e início do século IV a.C., podemos identificar
semelhanças e diferenças no papel social da mulher nesta duas regiões pertencentes a
um mesmo mundo cultural. As fontes escritas também auxiliam no embasamento dessas
percepções e no entendimento da construção dos gêneros nesta região e na legitimação dos
seus espaços, realizada pelas instituições sociais.
O uso do casamento como forma de dominação e o esquema de violência simbólica
presente nesta sociedade podem nos indicar o papel social esperado das mulheres, mas, ao
mesmo tempo, revelam seu poder e sua importância. Esta análise também pretende destacar
a percepção da dominação como processo instável, que envolve negociações em torno de
posições sociais e políticas estratégicas.

As relações de gênero na Grécia Antiga e a importância do casamento


O conceito de gênero é uma categoria que tem sido profundamente estudada nas
duas últimas décadas.1 Mas ainda mais importante que a sua definição é percebermos que

1
Vários pesquisadores, inclusive nomes que se tornaram referência no assunto, como Jane Flax e Joan
Scott discutiram o conceito de gênero. Este conceito foi cunhado a partir do final dos anos 70 e início
dos 80, fruto deste debate, como uma forma de abordar a questão, negando a justificativa biológica,
binária, tendo sido desenvolvido particularmente na cultura anglo-saxônica. É um conceito ainda
em construção, em aberto, com problematizações infinitas que atravessam disciplinas num diálogo
entre o movimento social, o feminismo e a academia, no qual o debate sobre a cotidianeidade ganha
presença inevitável. A utilização da categoria de gênero expõe a preocupação em desnaturalizar as
identidades sexuais, a divisão sexual do trabalho e as relações desiguais entre homens e mulheres.
Trata-se da tentativa de romper com explicações essencialistas acerca da posição de subordinação
das mulheres em diferentes sociedades. Sendo assim, “gênero” refere-se a uma construção social do
sexo (cf. Oliveira, 2001, p. 31)
Em fins da mesma década, a historiadora norte-americana Joan Scott trazia à tona
preocupações similares, ao mesmo tempo em que enfatizava a importância da noção de gênero. As
grandes preocupações destes pesquisadores estava no caráter fundamentalmente social das distinções
baseadas no sexo, procurando afastar o fantasma da naturalização; na precisão emprestada à ideia de
assimetria e de hierarquia nas relações entre homens e mulheres, incorporando a dimensão das relações
de poder; no relevo ao aspecto relacional entre as mulheres e os homens, ou seja, de que nenhuma
compreensão de qualquer um dos dois poderia existir através de um estudo que os considerasse
totalmente em separado, aspecto essencial para descobrir a amplitude dos papéis sexuais e do simbolismo
sexual nas várias sociedades e épocas e no seu sentido e na forma como funcionavam para manter a
ordem social e para mudá-la (cf. Scott, 1994, p. 11-12; Soihet; Pedro, 2007, p. 91).
Para Joan Scott (1994, p. 12), gênero é o saber sobre a diferença sexual. Alves (2004, p. 7)
afirma que o conceito de gênero deve ser entendido enquanto uma construção social das diferenças
sexuais. Silva (2008, p. 75) alerta que não existe um consenso sobre o conceito e demonstra que a
palavra é usada de quatro formas principais: como sinônimo de sexo ou de mulher; para denominar
as relações sociais estabelecidas entre homens e mulheres; como as diferenças culturais sobre o que
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são as relações de gênero que transformam os indivíduos em homens e mulheres – algo em


permanente construção na relação com o mundo – e que isso se dá por meio de vivências. As
identidades – masculina e feminina – são construídas socialmente e o significado de gênero
refere-se a todas as necessidades práticas, crenças e representações sociais que surgem entre
os membros de um grupo de pessoas com base na interpretação e na avaliação feita entre
homens e mulheres. Esta diferenciação se dá não apenas na divisão dos compromissos em
uma determinada sociedade e em um espaço de tempo definido, mas, sobretudo, em relação
à identidade e às complexas formas de interações entre homens e mulheres2.
Na Grécia Antiga, a construção destas relações se deu por meio de uma configuração
social que legitimava uma posição secundária da mulher em diversos aspectos, fossem
relacionados à vida pública ou à vida privada.3 Neste sentido, em muitas situações, a mulher
era tipificada como incapaz, necessitando, portanto, da tutela masculina. Muitas das fontes
que ajudaram a construir a imagem e a posição secundária da mulher eram possuidoras
de grande poder de persuasão e de convencimento, como a religião, a família e o suporte
doutrinário dos principais pensadores daquele tempo. A mitologia, em especial, veiculava
inúmeros mitos nos quais a mulher, em seu “estado selvagem”, era mostrada como perigosa
e danosa para a humanidade. Assim, era considerado um elemento fraco e impotente para
responder por si às ameaças que a cercavam e de manter suas escolhas nos casos em que
estas fugiam à norma social. Para “domar” uma mulher, era necessário casá-la assim que

é “naturalmente” característico do feminino ou do masculino, e como uma categoria de análise sem


uma “essência fixada”.
Maria Clara Medina (1998, p. 20) resume a controvérsia: gênero “es una construcción social
que puede variar de acuerdo a los debates teóricos que la involucran”. Assim, para os que partilham
do chamado paradigma iluminista, gênero é, fundamentalmente, a construção cultural de um dado
natural, os sexos, ou as relações sociais estabelecidas entre eles. Na perspectiva pós-moderna, gênero
é uma categoria de análise sem essência fixada (cf. Flax, 1991, p. 221), que é, ao mesmo tempo, vazia
e transbordante (cf. Scott 1994, p. 289). Ou seja, os pesquisadores que utilizam esta categoria não
adotam, a priori, definições fechadas, mas buscam verificar como as diferenças corporais perceptíveis
ganham e geram significados, e como estas significações são negadas, alteradas ou até eliminadas
pelos grupos sociais em diferentes espaços e tempos (Scott, 1994, p.13).
2
Oliveira, 2001, p. 33; Rocha-Sánchez e Díaz-Loving, 2005, p. 42.
3
Sourvinou-Inwood afirmou de forma bastante perspicaz que esta inferiorização da mulher nem
sempre se dava em relação ao aspecto público e/ou político da pólis, como é comumente considerado.
E afirmou: “Existe a ideia fundamental de que, como muitas sociedades tradicionais mediterrâneas,
aquela dos gregos era separada em esferas pública e privada, ou esfera doméstica; a primeira era o
mundo dos homens, a última era o das mulheres. Uma versão dessa abordagem da relação entre o
gênero e as esferas pública e privada articula uma oposição, de acordo com a qual enquanto na vida
doméstica, masculino e feminino tinham posições complementares, na esfera pública masculino e
feminino estavam separados, sendo opostos e desiguais. Isto implica que eles eram iguais na esfera
privada. Ao contrário, discuto que enquanto em uma esfera particular da vida pública, a religião, as
mulheres eram complementares e iguais aos homens, na vida privada, no oîkos, elas eram desiguais e
subordinadas ao chefe de família, até mesmo nos assuntos religiosos” (Sourvinou-Inwood, 1995, p. 113.)
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estivesse biologicamente pronta para isso, pois somente sob a tutela masculina a mulher
estaria protegida dela mesma e não se tornaria um perigo para a sociedade.
Por estas características, a aquisição do gênero socialmente construído pode ser
considerada como um problema político na Grécia Antiga. O discurso masculino, construído
no plano simbólico, buscou tornar naturais as desigualdades sociais de gênero, legitimando
as divisões sexual e social do trabalho, os diferentes comportamentos sexuais e reprodutivos,
bem como uma menor inserção social, cultural e política das mulheres na sociedade da época.4
O dimorfismo cultural é a transposição das diferenças biológicas para o plano da cultura,
estabelecendo-se oposições homólogas que são ancoradas em dicotomias e que atribuem
características positivas aos homens e negativas às mulheres. São estabelecidos significados
ao sexo e à natureza, tomando-se o masculino como referência paradigmática e o feminino
como polaridade deficiente e estigmatizada. Como exemplo do pensamento dos gregos
sobre este assunto, o matemático Pitágoras no século VI a.C. afirmou: Há um princípio bom,
que criou a ordem, a luz e o homem; e um princípio mau, que criou o caos, as trevas e a mulher.5
A questão da formação dos gêneros na Grécia Antiga é fundamental para o
entendimento da condição feminina nesta sociedade e deve ser vislumbrada de forma ampla.
A relação entre os gêneros e os saberes sobre as diferenças sexuais constituem estas mesmas
relações e são constituídos por elas, isto é, os significados dados às diferenças sexuais estão
presentes nas relações sociais de formas diversas e as influenciam de maneiras distintas.
Além disso, a questão relacional do gênero é uma forma primária de relação significante de
poder, isto é, funciona como uma espécie de matriz para dar significado a outras relações
de poder além das existentes entre homens e mulheres. Perceber como estas relações
foram representadas e articuladas com outros fenômenos e instituições, portanto, ajudará a
compreender como funcionaram para legitimar as relações de dominação,6 considerando que
discursos e práticas transformados em habitus têm enorme força na criação e na perpetuação
de identidades.
Para as mulheres da Grécia e de suas colônias, o mundo girava em torno do casamento.
Ser esposa e mãe era seu papel social e cumprir este destino era o comportamento esperado
delas. Desde muito cedo, as meninas eram preparadas para esse momento e realizavam uma
série de rituais que propiciassem um bom casamento em termos de fertilidade e abundância.
Casar uma mulher no mundo grego, entretanto, era um negócio entre homens, que poderia
trazer benefícios para as famílias envolvidas, mas no qual a noiva era, em geral, um objeto
mudo na transação. Apesar de seu consentimento ser necessário, sua preferência não era
considerada fundamental para a realização do acordo matrimonial. Em consequência, o
casamento na Grécia – e, como veremos posteriormente, particularmente na Magna Grécia
– tinha um sentido político claro, dado que a reprodução legítima do sistema se efetuava
mediante esta instituição. O controle do corpo da mulher e da sexualidade feminina, cuja
vigilância estava a cargo dos parentes mais próximos, se converteu em um fator central

4
Alves, 2004, p. 4.
5
Pitágoras apud Beauvoir, 1997, p. 6.
6
Scott, 1990, p. 86; Silva, 2008, p. 79-80.
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para a sociedade; não é por outro motivo que a virtude mais elogiada nas mulheres era a
sōphrosýne, ou seja, a temperança, o autocontrole, a moderação e, sobretudo, a contenção do
desejo sexual. Este modelo de mulher, criado pelo homem e amplamente difundido pela
literatura, pela arte e por valores sociais, implantou-se progressivamente na subjetividade
pelos constantes, complexos e minuciosos mecanismos de socialização que se iniciavam na
infância e prosseguiam até o fim da vida da mulher, evoluindo de acordo com as etapas da
vida feminina, ligadas à fertilidade e à reprodução. A negação voluntária deste modelo era
considerada como conduta desviante e rechaçada pela sociedade.
Mas qual era, de fato, a importância do casamento no mundo grego? Seria ele uma
esfera inferior ao universo masculino da guerra e da honra? Segundo Xenofonte em sua obra
Econômico,7 não. Homem e mulher eram complementares e necessitavam um do outro para
prosperarem. Cada um possuía sua esfera de atuação e se completava. O casamento dentro de
uma sociedade como a grega tinha fundamental importância. Além de garantir a “produção”
de novos guerreiros e cidadãos, a descendência legítima garantida pelo casamento levava à
permanência da propriedade dentro da família, sem divisões. Garantia também as honras
fúnebres aos pais – fator de extrema importância dentro das crenças dos gregos – além ser
essencial para determinar a cidadania dos filhos. Somente pais e mães cidadãos/nativos
poderiam passar a cidadania aos filhos. Além destas questões de ordem prática, as mulheres
casadas também eram responsáveis por uma série de atos religiosos que pretendiam garantir
a fertilidade dos campos, animais e mulheres, ou seja, a perpetuação da vida.
Este momento da vida feminina, no entanto, foi apropriado e controlado pelos
homens. Sem que deixassem transparecer a importância da mulher para a sociedade,
criaram uma abstração de inferioridade em torno do papel feminino e garantiram que as
mulheres aprendessem a agir da maneira que lhes fosse mais conveniente. Porque, conforme
afirmou Bourdieu,8 existe certo grau de participação feminina em sua própria subordinação,
pois qualquer dominação que não seja feita a partir da limitação da liberdade física total
(enclausuramento forçado ou prisão) requer certo grau de consentimento da vítima para que
se realize e permaneça. De acordo com Bourdieu, esta violência somente triunfa se aquele(a)
que a sofre contribui para a sua eficácia; ela só o submete na medida em que ele (ela) é
predisposto por um aprendizado anterior a reconhecê-la. Há na dominação masculina e no
modo como é imposta e vivenciada, o exemplo por excelência desta submissão paradoxal,
resultante daquilo que eu chamo de violência simbólica, violência suave, insensível, invisível
às suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas
da comunicação e do conhecimento, ou, mais precisamente, do desconhecimento, do
reconhecimento, ou, em última instância, do sentimento.
A dominação simbólica se exerce em nome do princípio simbólico conhecido e
reconhecido tanto pelo dominante quanto pelo dominado.9 A naturalização destes conceitos
se embrenha nas mente e eles passam a ser vistos, também pelas mulheres, como algo natural

7
Xenofonte, Econômico, VII. Tradução de Anna Lia de Almeida Prado (1999).
8
Bourdieu, 2000, p. 10
9
Bourdieu, 2000, p. 7-8.
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e, portanto, imutável. Além disso, Bourdieu também considerou que é quando a mulher
entra no mercado dos bens simbólicos, representado pelas alianças matrimoniais, que a
dominação se instaura e se perpetua. A lei fundamental deste mercado é que as mulheres
nele são tratadas como objetos que circulam de baixo para cima. O princípio da inferioridade
e da exclusão da mulher, que o sistema mítico-ritual ratifica e amplia, a ponto de fazer dele
o princípio de divisão de todo o universo, não é mais que a dissimetria fundamental, a do
sujeito e do objeto, do agente e do instrumento, instaurada entre o homem e a mulher no
terreno das trocas simbólicas, das relações de produção e reprodução do capital simbólico,
cujo dispositivo central é o mercado matrimonial, que estão na base de toda a ordem social:
as mulheres só podem aí ser vistas como objetos, ou melhor, como símbolos cujo sentido
se constitui fora delas e cuja função é contribuir para a perpetuação ou o aumento do capital
simbólico em poder dos homens.10
No entanto, é preciso ressaltar que o casamento grego na Antiguidade apresentava
um duplo significado. Primeiro, como já dissemos, era um instrumento de violência simbólica
contra a mulher, uma vez que projetava a sua anulação como persona, sua desaparição no
espaço privado, sua “morte” política e sua submissão a um senhor. Mas, em segundo lugar,
para a mulher o casamento instituía também – e contraditoriamente – um ponto de partida
para sua projeção social. Pois a possibilidade de ação e de reviravolta, a possibilidade de
peripécias contra um poder dominante, ruidoso, violento, é dada justamente pela legitimidade
do lugar social e público ocupado pela esposa na sociedade grega. Tomando a constatação
de Bourdieu de que as armas do fraco são armas fracas, pode-se contra-argumentar, com
o auxílio do próprio Bourdieu, que as “armas fracas” são fracas precisamente porque
construídas como tal. O que dizer, então, quando os fracos têm, efetivamente, armas fortes,
como o poder de legitimar a presença de seus próprios maridos e de garantir a cidadania
dos filhos, tido pelas mulheres da Magna Grécia?
Assim, o ponto de honra, essa forma peculiar de sentido do jogo que se adquire
pela submissão prolongada às regularidades e às regras da economia de bens simbólicos, é
o princípio do sistema de estratégias de reprodução pelas quais os homens, detentores do
monopólio dos instrumentos de produção e de reprodução do capital simbólico, visam a
assegurar a conservação ou o aumento deste capital: estratégias de fecundidade, estratégias
matrimoniais, estratégias educativas, estratégias econômicas, estratégias de sucessão, todas
elas orientadas no sentido de transmissão dos poderes e dos privilégios herdados.11 Esse
poder e estes privilégios, entretanto, para serem conseguidos e legitimados, necessitavam
das mulheres. Na Magna Grécia, eram elas que detinham, efetivamente, esta capacidade.
Mesmo que seu lugar social não ameaçasse a ordem vigente, ainda que elas nem mesmo
tivessem o interesse de derrubar este poder masculino, esse empoderamento não proposital,
mas inegável, certamente foi percebido pelas mulheres da Magna Grécia. Não foram poucas
aquelas que, através dele, se projetaram para além das figuras dos seus maridos.

10
Bourdieu, 2000, p. 55.
11
Bourdieu, 2000, p. 62.
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A Magna Grécia
A região conhecida como Magna Grécia, onde foram encontrados os vasos que
estudamos neste trabalho, compreende o sul da Itália e a Sicília, regiões que, ao longo de
vários séculos foram ocupadas, de forma pacífica ou não, por populações originalmente
gregas. Este movimento migratório, que ficou conhecido como colonização grega, teve suas
particularidades em relação a outros movimentos coloniais. É necessário, portanto, tecer
algumas considerações sobre a expressão “colonização”. Os gregos, em um determinado
momento e por inúmeros motivos, passaram a ocupar as terras do território hoje conhecido
como Itália, fundando ou ocupando cidades que passaram a seguir, de uma forma ou de
outra, a cultura grega. Este fenômeno – que se desenvolveu em alguns lugares a partir da
violência, em outros, a partir da interação com os povos nativos – foi denominado pelos
estudiosos antigos colonização grega. No entanto, o termo colonização está encharcado de
significados ligados ao movimento de colonização europeia, ocorrido a partir do século XV
da nossa era e que possui características muito distintas do processo grego.
Segundo alguns historiadores,12 seria, portanto, mais correto considerar este fenômeno
como uma transferência de população, uma vez que as cidades que se constituiam no sul da
Itália eram independentes de suas áreas de origem e a ligação entre elas era, basicamente,
de ordem cultural. A própria palavra utilizada pelos gregos – apoikía – e que traduzimos
como “colônia” – significa simplesmente estar longe de casa e não indica qualquer tipo de
domínio colonial como o entendido nas colonizações das épocas moderna e contemporânea.
A colonização grega na Itália, que é normalmente datada de inícios do século
VIII a.C, possui várias hipóteses para sua explicação. A primeira delas foi a necessidade de
terras para a agricultura,13 sendo esta vista como a principal explicação para o movimento
de colonização grega. A procura por novas áreas comerciais também é bastante plausível,
considerando que os gregos, já neste período, realizavam intensas trocas comerciais com
variadas regiões.14 Sem dúvida, havia a necessidade de matérias primas e de comercializar
produtos manufaturados, além de podermos considerar ainda a atração pela aventura e pela
descoberta presente em grupos ligados ao mar.
Ao chegar a estas novas terras, os colonizadores eram politicamente independentes de
sua cidade-mãe e formavam novas cidades-estado independentes. No entanto, mantinham-se
os laços de sangue, religião e, podemos estar certos, de comércio.15
Não nos cabe aqui discutir a forma – pacífica ou não – deste contato, mas sim que,
qualquer que tenha sido a forma encontrada nos diversos locais, o contato entre gregos
e população nativa ocorreu e se estabilizou, levando a uma união de culturas e interesses

12
Greco, 2005, p. 135; Hirata, 2009, p. 38-40.
13
Woodhead, 1972, p. 31-32.
14
Dunbabin, 1948, p. 7; Moscati, 1987, p. 13.
15
Boardman, 1986, p. 172.
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que transformou não só os povos nativos, como os próprios gregos, visto que algumas das
populações da região não eram de modo algum mais atrasadas ou inferiores aos gregos.16
Apesar da influência mútua, a cultura grega se sobressaiu – ou por ser a cultura do
colonizador ou por parecer mais interessante aos grupos locais. Nas áreas que estiveram
abertas a esta influência grega, não ocorreram mudanças somente no aspecto político, mas,
em uma escala muito maior, em toda a esfera cultural. Algumas das áreas envolvidas adotaram
o alfabeto grego e, em muitos casos, também a língua. Junto com a adoção da ideia de pólis
grega, suas manifestações externas também foram retomadas – como arte e arquitetura.
Isso não significa, entretanto, que as populações nativas abandonaram sua cultura. Este não
foi um processo unilateral. Segundo Funke,17 pode-se considerar que ocorreu um modelo
dinâmico de osmose cultural, criando várias formas intermediárias de vida cultural ao longo
do caminho.
Desta forma, podemos afirmar que, mesmo que os gregos tenham exercido uma
influência preponderante no ambiente circundante, não ficaram imunes à influência local.
Esta influência é percebida em uma série de elaborações e interpretações mais livres e
desenvolvimentos maiores do que seria possível na própria Grécia. Neste campo, se incluem,
certamente, as representações dos vasos de cerâmica, que apresentam, nesta região, uma
maior variedade de temas e de possibilidades do que propriamente na Grécia,18 em especial
no que se refere ao universo feminino.

As imagens dos vasos


Uma das mais importantes fontes de estudo sobre a Grécia e a Magna Grécia é
a iconografia dos vasos cerâmicos. De longe, a cerâmica decorada se constitui no tipo
documental que, resistindo ao tempo, contribuiu com um maior número de exemplares
disponíveis aos estudos. Somente da iconografia ática, chegaram até nós mais de 50.000
vasos decorados com figuras negras e figuras vermelhas produzidos entre os séculos VII
e IV a.C.19. Para Bérard,20 a imagem não era somente popular na Antiguidade, ela era uma
produção de massa, de grande difusão, utilizada e vista largamente por toda a população.
Os vasos gregos e magnogrecos, que serviam de suporte às representações imagéticas,
prestavam-se a vários usos, desde o transporte de mercadorias, como o vinho e o azeite
de oliva, até o uso doméstico, como copos, vasos de água, panelas e vasos de perfume ou
cosméticos, inserindo-se em vários contextos da vida cotidiana. Juntamente a esses produtos,
transportavam também ideias, conceitos e valores que eram transmitidos pelas representações
pictóricas e que deveriam ser dirigidos aos grupos que os utilizavam.21

16
Boardman, 2006, p. 94-97; Guzzo, 1990, p. 132-133; Lomas, 1993, p. 21-23.
17
Funke, 2006, p. 156-159.
18
Moscati, 1987, p. 19.
19
Beard, 2000, p. 15.
20
Bérard, 1983, p. 6.
21
Cerqueira, 2012, p. 87.
38 Revista Classica, v. 29, n. 1, p. 29-48, 2016

Realizando uma comparação entre os vasos propriamente gregos e os italiotas,


percebemos que os elementos presentes na iconografia são basicamente os mesmos, mas as
proporções relativas a estes elementos determinam diferenças consideráveis entre os vasos
gregos e aqueles provenientes do sul da Itália. Com efeito, entre todos os temas evocados,
as desproporções são mais evidentes com as cenas relacionadas às mulheres, ao casamento
e aos rituais propiciatórios para este momento, que na região da Magna Grécia apresentam
uma frequência e uma insistência extrema. Outro aspecto interessante das imagens dos vasos
italiotas com representações femininas é que nestes as mulheres são sempre figuras ativas na
ação. Elas raramente aparecem como figuras secundárias ou somente observando a ação dos
homens, como acontece nos vasos gregos. Na grande maioria das vezes, a ação central da
imagem é realizada pela mulher ou ela aparece lado a lado com um homem, realizando uma
ação em conjunto. Naturalmente, não é possível considerar estas imagens como cenas reais,
mas elas, certamente, indicam formas de representação e lugares sociais, valores e símbolos
que demonstram o lugar de cada um dos participantes na sociedade.

Quem são as mulheres dos vasos?


Uma das questões que tem sido motivo de grandes debates entre os pesquisadores
trata da formação dos grupos de imigrantes que se dirigiram para o território que passou a
se chamar Magna Grécia. Das cidades que vieram a formar colônias gregas no sul da Itália,
saíram grupos que tinham a intenção de estabelecer seu lar em outro local. Estes grupos
seriam formados por famílias inteiras ou somente por homens? Os homens que iam sozinhos
encontravam suas esposas entre as mulheres locais ou buscavam suas companheiras em suas
cidades de origem? Para Boardman,22 Izzi23 e Moscati,24 parece mais razoável que os homens
se casassem com mulheres nativas, realizando, assim, alianças com a população local.
Conforme dito anteriormente, as populações encontradas pelos gregos não eram,
em sua maioria, menos avançadas social e politicamente do que eles, sendo bastante razoável
pensar em acertos e acordos matrimoniais com a intenção de legitimar a presença dos homens
gregos na região ocupada. Principalmente quando a incorporação dos gregos se deu de forma
pacífica, os acordos matrimoniais parecem ter sido uma solução bastante adequada para
realizar alianças com os grupos da elite local. Assim, é provável que os grupos que saíam
da Grécia fossem formados basicamente por homens – artesãos, mercadores, fazendeiros
e escravos – sendo as mulheres locais incorporadas ao grupo com base nestes acordos.25
Esta informação é importante para o entendimento sobre os grupos que ocuparam
a Itália e sobre as mulheres que eram figuradas nos vasos. Apesar de terem aderido ao
modo de vida e à cultura grega, as mulheres locais preservaram sua cultura. Esta se mesclou
com a cultura grega e os modos de ser das mulheres da região da Magna Grécia podem

22
Boardman, 1986, p. 172.
23
Izzi, 2009, p. 18-19.
24
Moscati, 1987, p. 14.
25
Carratelli, 1996, p. 145.
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ter particularidades em relação às mulheres da Grécia. Se mesmo entre as populações


originalmente gregas há diferenças, também devemos considerar este aspecto em relação à
população da Magna Grécia.
Mas por que era importante para os gregos casarem-se com mulheres nativas?
Além da facilidade da presença das mulheres na região, agilizando os contatos, os acordos
matrimoniais serviam para selar compromissos com os chefes locais ou moradores nativos,
ajudavam na formação da identidade do grupo e na legitimação política e social dos gregos
que chegavam. As uniões entre homens gregos e mulheres locais legitimavam a descendência,
a participação e a permanência grega no local. A prova de que este aspecto era fundamental
está na documentação que demonstra que a prática dos acordos matrimoniais não era
incomum na Magna Grécia e foi utilizada durante toda a história da região, inclusive pelos
próprios governantes. Dionísio I (430 – 367 a.C.), tirano de Siracusa, por exemplo, se utilizava
de uma “política matrimonial” como forma de legitimação para sua política expansionista,
oferecendo mulheres da elite siracusana como esposas para governantes de localidades com
as quais desejava firmar acordos.26 Muitas das mulheres usadas por Dionísio em seu plano
expansionista já eram até mesmo casadas, servindo como objetos de troca e de formação
de alianças visando o poder político. O próprio Dionísio I casou-se com uma mulher de
família ilustre da elite de Siracusa.27
Na verdade, não foi somente Dionísio I que se valeu desta estratégia de manutenção
e consolidação de poder, não só político, mas também simbólico. No início do século V a.C.,
as duas tiranias mais poderosas do mundo grego eram a de Gélon de Siracusa e a de Téron
de Agrigento, ambas na Magna Grécia. Não por acaso, Gélon se casou com a filha de Téron.
Depois da morte de Gélon, seu irmão Polizalos se casou com essa mesma mulher e Hieron,
outro irmão de Gélon, se casou com a neta de Téron. Este último, por sua vez, se casou
com a filha de Polizalos. Assim, no início do séc. V, os principais poderes tirânicos da Sicília
se encontram harmonizados por meio de alianças matrimoniais que também estabeleciam
relações de dependência entre os chefes. Esta questão teve importantes desdobramentos
na história política da ilha.28 Considerando que estas estratégias não eram usadas somente
pelos governantes, mas pela população em geral, desde os tempos da chegada dos gregos
na região, podemos perceber o poder simbólico e o papel nada secundário dado à mulher
na Magna Grécia, apesar de ser vítima de políticas tão violentas e absurdas como estas. Sem
dúvida alguma as mulheres eram utilizadas como objetos de troca, mas não existe acordo
quando o “objeto” de troca não possui qualquer valor. Somente se troca poder por outra
fonte de poder.
Para Antonaccio,29 além dos fatores já apontados, o casamento inter-racial entre
gregos e mulheres nativas foi recentemente encarado como um importante agente da
helenização, que pode ser demonstrada pelos objetos encontrados em enterramentos

26
Izzi, 2009, p. 48-49 e 56.
27
Izzi, 2009, p. 20-23.
28
Gernet, 1980, p. 299‑312.
29
Antonaccio, 2001, p. 126.
40 Revista Classica, v. 29, n. 1, p. 29-48, 2016

mistos, com artefatos ou inscrições bilíngues. Sendo a identidade grega vista como essencial
para esta sociedade, o casamento com mulheres locais também ajudaria na expansão desta
identidade – através das mulheres – para a população local. No entanto, o ponto que a meu
ver é fundamental é que, para os gregos, a cidadania era passada através do parentesco.
Os homens gregos que chegaram às novas terras não eram nascidos ali, nem possuíam
parentesco com os fundadores míticos destas cidades, mas a mulheres sim. Elas, portanto,
legitimariam a cidadania dos filhos nascidos daqueles casamentos, passando-se, assim, o
poder através das mulheres.
Para Gernet,30 a política matrimonial dos tiranos magnogrecos era uma problemática
bastante significativa, visto que se tratava de um processo intencional, sistemático e bastante
bem orquestrado. A ideia era, de fato, difundida e utilizada sem qualquer cerimônia. Dionísio
I, já citado anteriormente, se casou várias vezes, sempre com filhas de personagens do
“primeiro escalão” das cidades que desejava controlar ou influenciar. Mesmo suas filhas,
Dionísio as casou com personagens importantes, criando e mantendo uma rede de poder
que chegava até ele. Muitos destes casamentos foram, inclusive, interfamiliares.
No caso dos tiranos, este sistema garantia a manutenção do poder, uma paz relativa e
um certo equilíbrio na região. Esse sistema de alianças matrimoniais foi utilizado não somente
pelos tiranos e pelos grupos da elite, mas era comum na região em todos os segmentos
sociais. Na verdade, ele estava presente também nas lendas de fundação das cidades da
Magna Grécia, que estabeleciam a importância da linhagem materna.31
Para compreendermos um pouco melhor a importância da identidade para os gregos
e suas implicações políticas na região da Magna Grécia será útil analisarmos mais de perto
o conceito de helenidade.

A importância da identidade helênica na Magna Grécia


Na história da Grécia, a questão da identidade é sempre considerada como
fundamental. Os gregos sempre viram com cuidado aqueles que eram diferentes e
procuraram manter sua identidade linguística, cultural e religiosa da melhor forma possível.
Povo orgulhoso de suas qualidades, os gregos procuraram sempre passar sua cultura para
os povos com os quais tiveram contato. Mas o que era, afinal, ser grego? O que marcava
essa identidade?
Jonathan Hall32 preferiu tentar determinar os elementos da etnicidade grega sem
recorrer a elementos como linguagem, religião ou cultura, pois acredita que a mera existência
objetiva dos mesmos não irá por si só desencadear uma consciência étnica. Além disso,
segundo ele, se a intenção é fornecer uma definição de aplicabilidade universal, nenhum
desses índices sozinho é necessário ou suficiente para definir um grupo étnico.33 Isso não

30
Gernet, 1980, p. 299-302.
31
Gernet, 1980, p. 304-305.
32
Hall, 2002.
33
Hall, 2002, p. 10-12.
Revista Classica, v. 29, n. 1, p. 29-48, 2016 41

significa que Hall negue que membros de um grupo étnico possam considerar a linguagem,
a religião ou a cultura como uma importante – talvez a mais importante – dimensão da
sua identidade. Entretanto, esses índices são extremamente variáveis em cada contexto. Se
procurarmos um critério mais universal para a expressão subjetiva de afinidade étnica, Hall
sugere que este esteja na adoção de uma noção de um suposto parentesco e na consciência de uma
herança histórica comum, que é quase invariavelmente associado com uma linhagem específica e
um território anterior real ou imaginado. Para fundamentar sua opinião, Hall se volta para
a evidência literária antiga, e procura demonstrar que, enquanto a linguagem (dialetos), os
rituais religiosos e os costumes estavam associados a grupos específicos na Antiguidade
grega, parece frequentemente haver uma coincidência: esses índices se tornam secundários
diante dos apelos predicados pela noção de syngéneia (parentesco). Grupos como os dórios
ou jônios baseavam seu parentesco em dois pontos principais: um território primordial e
líderes epônimos (reais ou míticos). A expressão arquetípica da etnicidade intra-helênica,
segundo Hall, demonstra a existência de uma genealogia, segundo a qual os grupos percebiam
a sua descendência do herói étnico e expressavam, em um nível metafórico, como os grupos
étnicos intra-helênicos viam tanto sua consanguinidade quanto suas relações de parentesco
mais distantes com outros grupos gregos.34 Além disso, por conta de a identidade ser
um fator que se apresenta em confrontação com aquele que é diverso, ou, como afirma
Jones,35 ser “essencialmente uma consciência da diferença”, Hall considera que a etnicidade
frequentemente emerge no contexto de migração, conquista ou apropriação de recursos por
um grupo em detrimento de outro.36 Nesse sentido, o grupo étnico é, em outras palavras,
uma “comunidade imaginária (ou imaginada)” cujos constituintes “nunca conhecerão seus
membros comuns, nem saberão, ou ouvirão falar deles; no entanto, na mente de cada um
existe a imagem de sua comunhão”.37
Podemos pensar, portanto, que a presença dos gregos na Magna Grécia e o seu
contato com os povos indígenas favoreceram fortemente a identidade grega. Estar em um
local distante da terra natal, em contato com pessoas diferentes, deve ter sido difícil para
os imigrantes gregos. Como não gostavam muito dos que eram diferentes, era preciso
transformá-los em gregos também! E assim eles fizeram ou tentaram, da melhor forma
possível, especialmente porque se os nativos (ou as nativas, mais especificamente) – que
tinham ligações de parentesco com os fundadores míticos daquelas terras – se unissem
àqueles que chegavam, esses também – e seus filhos – seriam herdeiros legítimos da região.
Principalmente a descendência que surgiria teria seus direitos garantidos a todo o arcabouço
cultural grego, mas também seria herdeira legítima da terra em que estavam, herança esta
passada por suas mães.
Os acordos matrimoniais eram, portanto, não só um excelente negócio – visto do
ponto de vista econômico e político – mas também essencial para garantir a identidade, a

34
Hall, 2002, p. 15.
35
Jones, 1997, p. 94.
36
Hall, 2002, p. 9-12.
37
Hall, 2002, p. 16.
42 Revista Classica, v. 29, n. 1, p. 29-48, 2016

permanência e a legitimidade dos gregos e seus descendentes naquela região. A importância


do casamento para a sociedade grega já é bastante conhecida. No entanto, ao pensarmos
nas demais questões envolvidas quando nos referimos aos grupos de imigrantes e seus
descendentes na região da Magna Grécia, ele nos parece ainda mais fundamental. Não são
gratuitas, portanto, as inúmeras imagens que se apresentam nos vasos italiotas e que fazem
referência ao casamento. Se, na Grécia, esse papel social deveria ser ensinado e inculcado como
natural para as mulheres, na Magna Grécia isso deveria ser aceito sem qualquer contestação.
Mas, se como disse Bourdieu,38 para que a dominação exista ela precisa ser aceita e
naturalizada também pelo dominado, o fato de serem usadas como objetos de troca dava às
mulheres, como vimos, um certo poder simbólico também, que em alguns casos resultou
em poder real, negociado, dividido e conquistado.

Eram diferentes as mulheres da Magna Grécia?


É preciso considerar que a grande concentração de imagens de mulheres e seu dia
a dia nos vasos gregos e magnogrecos durante os séculos V e IV a.C. nos indica o lugar da
mulher na sociedade, valores e modelos a elas associados e a possibilidade de que os vasos
tenham sido feitos para o consumo feminino. O aumento da procura por vasos com temas
femininos pelas mulheres pode ter levado a uma maior oferta deste tipo de figuração.39 O
que terá significado esse novo interesse pelo universo feminino? Essa profusão de imagens
pode indicar uma visão mais favorável em relação à mulher ou uma tomada de posição no
que se refere ao consumo dos vasos, agora escolhidos pelas mulheres para seu próprio uso.
Se esta hipótese puder se confirmada, demonstrará uma mudança de hábitos e de atitudes
importante e, quem sabe, um diferente posicionamento feminino na sociedade do sul da Itália.
É possível que, apesar desta violência simbólica que era imposta às mulheres, em
virtude das características especificas da região, houvesse uma visão ligeiramente mais
favorável a elas na Magna Grécia, ou até mesmo o desenvolvimento de um ambiente em
que elas pudessem se representar de forma diversa da Grécia. Essa era uma questão não
somente social, mas também política. Segundo Aristóteles,40 na prática, um cidadão era
definido como aquele cujos pais são cidadãos, ou seja, nascidos de pais e mães cidadãos. Esta
definição, portanto, não poderia se aplicar aos primeiros habitantes ou fundadores de uma
cidade e este problema deveria ser resolvido de alguma forma. A forma encontrada pelos
imigrantes foi a união com as mulheres locais. Políbio também afirmou41 que em Locri –
colônia grega do sul da Itália – somente eram considerados nobres aqueles que descendiam
da linha feminina das (cem) famílias fundadoras, provenientes da pátria mãe. Este fato estaria
vinculado com a lenda de fundação da cidade de Locri, segundo a qual esta teria sido fundada
por mulheres espartanas. A importância do casamento com mulheres “cidadãs” fica clara

38
Bourdieu, 2000, p. 10.
39
Boardman, 1995, p. 219.
40
Aristóteles, Política, III, 5, 6-8.
41
Polybius, Histories, XII 5, 6-8.
Revista Classica, v. 29, n. 1, p. 29-48, 2016 43

nesta passagem. As mulheres de Locri, na verdade, gozavam de alguns direitos impensáveis


na própria Grécia. Em virtude de sua posição não estar vinculada ao âmbito matrimonial ou
religioso, as mulheres locrenses podiam manter a hereditariedade de seus bens e seu próprio
nome de família, mesmo na falta de parentes masculinos.42
Outra colônia grega que tem seu mito de fundação ligado a figuras femininas é
Siracusa, cuja lenda de fundação tem duas versões; ambas, porém, colocam uma mulher
como figura proeminente. A primeira versão, de acordo com o gramático Querobosco de
Constantinopla,43 do século VI d.C, afirma que Siracusa foi fundada por Árquias, que tinha
duas filhas – Syra e Akousa, em homenagem às quais teria nomeado a cidade. A segunda
versão, transmitida por Genésio,44 historiador bizantino do século X d.C., coloca a própria
filha de Árquias como a fundadora da cidade. Não devemos ver como coincidência o fato
de que em Siracusa as mulheres tenham tido uma forte importância, mesmo política.
Algumas mulheres magnogrecas alcançaram posições e papéis bastante significativos.
A esposa do tirano de Gela e de Siracusa, Damarete, teve um papel preponderante até
mesmo na política das cidades. Damarete era filha do déspota de Agrigento, Téron, e se
casou com Gélon para selar uma aliança do tipo ao qual nos temos referido e que foi citada
anteriormente. Damarete, entretanto, não foi uma mulher apagada pelo brilho do marido e,
durante o governo dele, participava e tinha sua voz respeitada. Após a batalha de Himera,
em 480 a.C., atuou na negociação do tratado de paz entre Siracusa e os cartagineses, e impôs
a inclusão de uma cláusula que proibia o sacrifício dos primogênitos ao deus Baal pelos
cartagineses.45 O prestígio desta mulher é atestado por Diodoro Sículo,46 que afirmou que,
em homenagem a sua importante colaboração no andamento do tratado de paz, a cidade
de Cartago lhe ofereceu uma coroa de ouro e Siracusa mandou bater uma moeda com sua
efígie, equivalente a 10 dracmas antigos, conhecida como Damaréteion.

A mulher em outro patamar?


Conclusões
Será, então, que na Magna Grécia, apesar de estar dentro do mundo grego e de
procurar seguir padrões e valores das cidades-mãe, havia um posicionamento mais favorável
às mulheres? Será que, por conta da sua importância ligada à descendência e o pertencimento
ao território, as mulheres na Magna Grécia alcançaram um patamar mais elevado? O fato
de que os homens buscavam controlar as mulheres e mantê-las sob estrito controle já
demonstra que elas eram importantes e valiosas. Esse valor poderia não ser explicitado, mas
estava presente, mais ainda que na própria Grécia. O fato de estarem em outro território e

42
Izzi, 2009, p. 22.
43
Choeroboscos, G. Scholia ad Canon. Theodosii, p. 751, 10.
44
Genesios apud Kaldellis, 1998, p. 56.
45
Izzi, 2009, p. 47.
46
Diodorus Siculus, XI, 26, 3.
44 Revista Classica, v. 29, n. 1, p. 29-48, 2016

pertencerem a uma cultura mista também pode ter influenciado neste posicionamento. Claro
que esta importância não se mostrava visivelmente em termos de valorização e aceitação da
diferença, mas certamente era percebida pelas mulheres, que se utilizaram dela em benefício
próprio.
As fontes do período helenístico, muito próximas do período que tratamos aqui,
dão evidências de que, já em alguns locais, a posição social das mulheres se modificava.
Especialmente nos papiros egípcios vemos as mulheres possuindo propriedades, firmando
contratos e resolvendo seus próprios problemas. Uma mulher grega, neste período,
diferentemente da egípcia, deveria ter um guardião para resolver com ela qualquer transação
oficial, mas, claramente, a presença deste guardião era só uma formalidade. Aqui, o contraste
com a Atenas Clássica é agudo, onde a mulher, de fato, não agia.47
Acima de tudo, ao observar as similaridades entre as atitudes femininas da Grécia e
as do Sul da Itália, não podemos simplesmente assumir que todos os valores ou concepções
culturais tenham persistido no tempo e sido totalmente assimiladas e adotadas em outro
espaço, no qual culturas diversas se encontraram e se influenciaram. É óbvio que existem
semelhanças, pois ambos os espaços participam de um mesmo “mundo” cultural, mas várias
diferenças devem ter existido também, bem como muitas adaptações e diferentes formas.
Apesar de a vida das moças, tanto na Grécia quanto na Magna Grécia, girar em
torno do matrimônio, há evidências iconográficas e escritas de que, na Magna Grécia, as
moças tinham um pouco mais de liberdade do que na Grécia e podiam se dedicar a outras
atividades, mesmo que estas também estivessem ligadas à preparação para o casamento.
Nesta região, por exemplo, elas podiam praticar esportes, o que lhes dava maior espaço de
movimentação do que no caso das moças gregas da elite, que, ao que se sabe, saíam de casa
o mínimo possível, geralmente nos festivais religiosos e sempre acompanhadas. Segundo
Faure,48 as meninas da Magna Grécia, desde jovens, praticavam exercícios físicos com o
objetivo de adquirirem boa saúde e vigor, preparando-se para seu futuro papel de mãe de
família. Para isso, nas colônias havia muitos ginásios e palestras, sugerindo que os exercícios
se realizassem por toda parte.49
Além disso, há evidências de que eram as mulheres da Magna Grécia que ditavam
a moda na Grécia. A riqueza e a beleza das vestes italiotas femininas encantava as mulheres
gregas. Apesar de ser sempre a Grécia quem ditava a moral e os costumes e que designava
o estereótipo da mulher, a Magna Grécia se destacava na beleza de seus ornamentos e
vestimentas. Assim, apesar de se tratar de colônias, de certa forma, talvez ditassem também
comportamentos femininos, uma vez que é atestado que as mulheres italiotas se enfeitavam
mais que as gregas, usando muitos objetos metálicos e joias.50 Este comportamento ia
absolutamente contra a ideia e o costume grego de que as mulheres deveriam ser discretas e
aparecer o mínimo possível. Elas, inclusive, utilizavam ornamentos metálicos que, enquanto

47
Humphreys, 1996, p. 35.
48
Faure, 1995, p. 358-359.
49
Izzi, 2009, p. 79-80.
50
Izzi, 2009, p. 102-104.
Revista Classica, v. 29, n. 1, p. 29-48, 2016 45

elas caminhavam, produziam sons, com funções musical e mágica embutidas. Esses
ornamentos deveriam ser especialmente usados em festividades nas quais estas mulheres
dançassem.51 Nos próprios vasos italiotas podemos verificar esta prática, pois as mulheres
ali se apresentam sempre bastante enfeitadas e usando muitas joias.
Para Izzi,52 esses fatos parecem sugerir que as mulheres das colônias possuíssem
maior autonomia e maior facilidade de movimentação fora da casa do que as mulheres da
Grécia. Este fato pode ter sido especialmente verdadeiro nos séculos IV e III a.C., quando
muitas mudanças ocorreram no mundo grego e em suas imediações. Hallett53 chama a
atenção para o fato de que, na Antiguidade tardia e no período romano, muitas mulheres da
elite assumiram papeis importantes, que antes estavam ligados aos homens, pois a força do
sangue familiar permitiu que elas se tornassem mais ativas relativamente às questões de suas
sociedades. Mesmo em obras ficcionais da Atenas Clássica, como as de Sófocles, aparecem
mulheres que, através da linhagem paterna, se tornam tão poderosas quanto os homens.
Assim como as anteriormente citadas, outras lendas de fundação de cidades gregas na Itália
têm mulheres como protagonistas. Este é o caso da fundação de Marselha, que, segundo a
lenda, teria sido fundada por um grego por ter ele sido escolhido como marido pela filha
do chefe do povo local.54
Com relação às práticas e ao enxoval funerário, na Magna Grécia, por vezes, podemos
encontrar questões interessantes. Por exemplo, em um enterramento feminino, na Lucânia é
possível verificar que alguns objetos ligados ao universo masculino podiam ser usados para
membros femininos da sociedade, como aqueles para abater um animal, para assar e cozinhar
a carne, vasos para servir vinho. Com toda a probabilidade, estes objetos estariam ligados
ao papel de mater familias, construído ao redor da esfera de héstia, a fogueira doméstica,
centro do culto familiar, onde as mulheres eram vistas como competentes e como membros
independentes da sociedade, uma visão não usual sobre a mulher na Grécia.55
Em uma sociedade na qual imaginamos que as mulheres continuassem a ter pouca
liberdade de ação, os fatos mostrados eram, sem dúvida, oportunidades preciosas e podem
indicar uma mudança de paradigmas importante nas relações de gênero na Magna Grécia
durante este período. Se pensarmos na condição das mulheres gregas durante o período
clássico, percebemos que não se trata de pouca coisa. É claro que seria utopia pensarmos
que as mulheres da Magna Grécia gozassem de uma liberdade imensa, que elas pudessem
conduzir sozinhas suas vidas sem qualquer participação masculina e que os tempos haviam
mudado, trazendo ares mais leves para as mulheres.
A violência simbólica estava, sim, presente nas relações de gênero na Grécia Antiga e
em suas colônias, em diversos aspectos da vida e, em especial no casamento, sendo empregada
como forma de manutenção da dominação e da ordem social mantida pelos homens. No

51
Pacciarelli, 2008, p. 119.
52
Izzi, 2009, p. 105-106.
53
Hallett, 1999, p. 27-29.
54
Faure, 1995, p. 265.
55
D’Agostino, 1996, p. 546.
46 Revista Classica, v. 29, n. 1, p. 29-48, 2016

entanto, apesar de ser considerada inferior, de ser domada e dominada pelos homens em
quase todos os momentos da sua vida, a mulher encontrava brechas na dominação para a
sua própria representação e atuação. Aceitar a dominação não significa, necessariamente,
não percebê-la e tampouco não utilizá-la em benefício próprio. Muito diferente da Grécia, as
mulheres das colônias do sul da Itália, de forma consentida ou não, estavam um degrau acima.
Devido às características específicas da região, o lugar destinado pela sociedade italiota às
mulheres não era, de maneira alguma, desprovido de importância e era por meio dele que as
mulheres se representavam. O casamento, assim, tinha um duplo e contraditório significado,
de dominação e de representação, de objetificação e de valorização ao mesmo tempo.

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Recebido em: 24 de dezembro de 2014


Aprovado em: 12 de julho de 2016

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