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A Noticia (RJ) - 1894 a 1916:

Ano 1898\Edição 00249 (1): CRÍTICA/ RESENHA LITERÁRIA - TOMO II(!) - “Chronica
Litteraria”, de J. dos Santos.

CHRONICA LITTERARIA

O segundo volume do Dr. Joaquim Nabuco sobre a vida do seu illustre pae leva os
acontecimentos até a dissolução do Gabinete de Olinda, em 1866.
Para os que se comprazem em conhecer os bastidores da politica e lembrar o que foi a do
imperio, o volume ha de ser interessantissimo – tanto mais interessante quanto é n’elle que se
relatam os antecedentes e preliminares da guerra do Paraguay.
Não ha necessidade de elogiar qualidades de estylo em um escriptor como o Dr. Joaquim
Nabuco, que desmente o defeito geralmente attribuidos aos oradores de escreverem menos bem do
que fallam.
O qu nunca se poderá saber é a verdade bem verdadeira de certas minucias referidas. O livro
é um testemunho – testemunho, queremos crêl-o, sincero e valioso; mas ao lado d’elle ha de certo
outros, contestando-o, refutando-o… É o que acontece a todas as Historias e, sobretudo, a todas as
memorias. Tem, por força, um cunho evidente de parcialidade – e isto sejam quaes forem os habitos
de serenidade e justiça de quem as escreve.
O simples facto do auctor eleger um ponto de vista para d’ahi descrever tudo mais condul-o
fatalmente a uma deformação especial dos objectos vistos unicamente debaixo de um certo ângulo
visual.
Pois que o livro do Dr. Joaquim Nabuco tem como fim especial descrever a vida e feitos de
seu illustre pae, d’elle tudo parte, a elle tudo volta nas descripções feitas. D’ahi a sensação de que
elle foi o eixo da politica brazileira, o homem em torno do qual tu lo mais gravitava.
Esta sensação não póde ser inteiramente exacta. Nenhuma democracia tolera por muito
tempo acção tão soberana por parte de um único homem. A democracia brazileira, então mais
incerta, mais mal educado do que hoje, não podia, portanto, ter chegado a este resultado.
Estas observações não tendem a amesquinhar o merito do senador Nabuco. Pelo contrario.
Quanto maior fosse a sua superioridade, menos lhe seria possível conservar-se à frente da politica
por largo tempo. De quando em quando, teria de ceder o passo a colligações interesseiras e sem
outro intuito além da ambição do poder.
A mim, quando se me falla com grandes elogios de certos politicos da monarchia, tidos e
havidos como grandes homens, acontece-me frquentemente perguntar que lei, que documento
deixaram, documento perduravel da sua extraordinaria capacidade. E em regra é apenas a allegação
de escaramuças parlamentars, de questões eleitoraes - que se ouve em resposta.
Esse não é, porém, o caso para homens como Nabuco, como Rio Branco e poucos outros. O
livro do Dr. Joaquim Nabuco justifica-se por conseguinte plenamente.
Uma cousa deve fazer pena aos homens da Republica quando leem, quando pensam nos
factos da monarchia. Hontem, como hoje, a massa fluctuante dos adherentes sempre orientados para
o sol nascente era grande. Havia, porém, então um nucleo firme de partidarios liberaes, dos
partidarios conservadores, que não transigiam. Agora já não se vê mais isto. Ainda ha pouco, um
celebre documento politico chamou a attenção para o facto, e com razão.
Essa fluctuação universal de consciências, que só o Poder consegue orientar, é um
symptoma triste de abaixamento dos caracteres…
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A maioria dos brazileiros a idéa de que os portuguezes tiveram uma Guerra d’Africa em
1895 parecerá um caso levemente comico. Por aqui, nós nunca tomamos a serio o Gungunhana –
cujo nome augmenta ainda a sensação de ridículo, quando o ouvimos elevar ás alturas de um grande
rei guerreiro.
Não obstante, tudo isto é talvez injusto. O que nos illude é a perspectiva: os factos passaram-
se tão longe, esse maldito regulo negro achou um nome tão gaiato, que para nós, familiarisados com
termos africanos, isso nos sôa como um trecho de conversa de pretos minas, de taboleiro á cabeça…
Antonio Ennes, o primoroso e erudito escriptor portuguez, acaba, todavia, de escrever um
bello volume a este respeito. N’elle se descrevem minuciosamente, em forma de memorias, todas as
peripecias d’essa lucta, realmente obscura e insignificante-se a compararmos ás grandes guerras –
mas, de facto, cheia de rasgos de valor, de lances de patriotismo.
É, quando a gente os lê, contados por uma penna como a de Antonio Ennes, tem então
consciência da injustiça que fazia! Não ha guerras pequenas e grandes só pela massa de homens que
n’ellas estiveram empenhados. Grande é toda aquella em que foram grandes os feitos de valor, em
que todos os combatentes correram risco de vida, em que salvaram um metro, um palmo, uma
pollegada de terreno da patria! E isto fizeram os que se bateram na Africa em 1895.
O perigo do soldado de um grande exercito luctando de accôrdo com as leis da guerra, om
inimigos civilisados, é de certo muito menor que o perigo de outro soldado europeu luctando com
selvagens que não hesitam na escolha dos meios de acção. Era a situação dos portuguezes.
Quando nós fallamos no combate da Armação, de 9 de fevereiro de 94, não hesitam todos
aquelles, que sabem como os factos se passaram, em achar que a designação não é excessiva.
De longe, porém, esse minusculo episodio de uma guerra civil, cujos combatentes, tanto de
um lado como de outro, estavam tão mal armados e adestrados, deve afigurar-se sem importância.
Combate – parecerá uma amplificação enorme de uma briga sem valor…
Não houve alli combate regular. Foi até, se assim o querem, um “rolo”, um grande rolo
heroico, em que os feitos de bravura igualaram e excederam os maiores que póde referir a Historia:
porque afinal os meios de morrer são menos numerosos do que parece…. Mas todo esse thesouro de
feitos de valentia, só porque foi um accidente e guerra civil, passará dentro em pouco ao rol dos
factos pouco lembrados, obscuros e minimos.
Não importa! - Não importa também que se exaggere um pouco o valor da guerra d’Africa.
Leiam portuguezes o livro de Antonio Ennes e participarão das emoções e aventuras dos seus
bravos compatriotas. Ha na obra o palpitanto interesse de tudo que é vivido: e o escriptor teve tão
larga parte nos factos, que soube transmittir-lhes extremo calor e intensidade.
É um bello livro.

Ano 1899\Edição 00235 (1): CRÍTICA/ RESENHA LITERÁRIA - TOMO III(!) - “Chronica
Litteraria”, de J. dos Santos.

CHRONICA LITTERARIA (trecho)

O terceiro e ultimo volume da obra de Joaquim Nabuco – Um estadista do imperio –


completa a biographia de seu illustre pae: vem de 1866 a 1878.
Não é, todavia, na simples biographia d’esse homem de estado que está o interesse da obra.
Ella constitue uma verdadeira historia politica da monarchia. Cada escriptor, tanto os que se dizem,
como os que se julgam mais imparciaes, julgam os factos historicos debaixo de um ângulo especial;
do que se póde chamar a equação pessoal de cada um. Succede, porém, que a maioria dos leitores
desconhece geralmente qual a orientação politica e philosophica do auctor. D’ahi ás vezes o deixar-
se illudir pelo que lhe parece imparcialidade e é apenas uma parcialidade não sabida, um velho
preconceito que ellle desconhece.
Com o livro de Joaquim Nabuco não succederá isso. Trata-se de um homem eminente, cujo
papel saliente na vida publica, permittio a todos estudarem as suas convicções sociaes e philophicas.
De mais elle próprio se adianta a dizer-nos, desde o titulo da obra, em que ponto de vista se
collocou para estudar os acontecimentos. Ninguem, portanto, se póde illudir.
É bom, porém, dizer que se foi atravez da biographia de seu pae que Nabuco vio toda a
historia politica do tempo d’elle, não o fez uma especia de mesca do coche, principal actor e auctor
de quanto se praticou. É certo que se póz em plena luz o biographado, mas não esqueceu tambem os
homens do seu tempo, que se salientaram mais, tanto ou menos do que elle – mas que tiveram parte
nas responsabilidades da época.
O numero de documentos compulsados e citados por Joaquim Nabuco é consideravel.
Sua obra ficará, de certo, como o maior monumento da historia politica do Brazil durante o
imperio.