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TEORIA DAS TENSÕES


TEORIA DA S TENSÕES 51

3.1 INTRODUÇÃO

No estudo das estruturas reticuladas determinam -se esforços internos em peças lineares.
No entanto, no estudo da resistência de um corpo não são os esforços que interessa con-
siderar, mas sim as tensões. Os esforços internos são as forças e os m omentos resultantes
das distribuições de tensões atuantes nas secções transversais das peças lineares. Por outro
lado, o comportamento mecânico dos m ateriais é expresso através de leis (as leis constitutivas)
que envolvem as tensões nos materiais. Torna-se, p ortanto, indispensável estudar a teoria
das tensões.

3.2 CONCEITO DE TENSÃO. VETOR DAS TENSÕES

Considere-se um corpo V, eventualmente submetido à ação de forças exteriores, em equi-


líbrio, e suponha-se que este é dividido em duas partes vl e v2 separadas pela superficie de
corteS, como se representa na Figura 3. l .a). Admite-se que a ação de uma parte do corpo
sobre a outra pode ser assimilada a forças distribuídas por unidade de área na superficie
de corte, isto é, que o estado de equilíbrio ou de m ovimento de uma parte do corpo não
se altera devido ao corte se se substituir a ação da outra p arte por um conjunto de forças
distribuídas na superficie de corte (Figura 3. l.b).

(a) (b)

Figura 3.1
Considere-se agora uma das partes do corpo, V1 , e um elemento de superficie, /j.S, cen-
trado num ponto P da superficie de corte e designe-se por fi o versor normal ao elemento
de superficie dirigido para o exterior de V1 (Figura 3.2). Seja jj.p a resultante das forças
distribuídas atuantes sobre /j. S . Admite-se que à medida que /j.S tende para zero, o quoci-
ente jj.p / jj.S tende para um limite bem definido em intensidade, direção e sentido, o qual
é independente do modo como /j.S tende para zero e se designa por vetor das tensões ii:
52 CONCEITO DE TE NSÃ O. VETOR DAS TENSOES

- ~::,.f
CJ = lim - - (3.1 )
~S -+ 0 6.5

Figura 3.2

Admite-se, ainda, que o vetor ã assim definido não depende da superficie de corte 5 , isto
é, que não se altera se em vez de 5 se consid erar outra qúalquer superficie de corte com a
mesma normal fi em P (Figura 3.3). No entanto, o vetor ã poderia ser ou tro se a direção
da normal não se mantivesse.

Figura 3.3

Considere-se agora a outra parte, V2 , do corpo e o mesmo elemento de superficie, 6.5,


centrado no mesmo ponto P da superficie de corte (Figura 3.4). Em virtude do princípio
da ação e da reação, as forças por unidade de área exercidas por vl sobre v2 através de 5
têm a mesma intensidade, a m esma direção e o sentido contrário das forças exercidas por
v2 sobre vl através de 5, pelo que o vetor das tensões atuante nesta face do elemento de
superficie 6.5 é
;;(P,-ii) = -;J (P,ii) . (3.2)
TEORIA D AS TE N SOES 53

-fi

- 6.F

Figura 3.4

Assim, o vetor das tensões num ponto P não depende só do elemento de superficie 6.8
centrado em P ; é necessário ainda indicar em que face do elemento se pretende determinar
o vetor das tensões. Cada face de um elemento de superficie designa-se por faceta. Cada
elemento de superficie tem, portanto, duas facetas que podem ser caraterizadas por um
versar normal dirigido para_ quem a observe. O vetor das tensões é, portanto, função do
ponto P de S e da normal fi a S nesse ponto, isto é, iJ = iJ(P,ií) . Faceta é, então, o nome
dado ao par (P, fi). No seguimento deste texto, abrevia-se iJ(P,ií) para iJ(fi) .

À componente do vetor das tensões iJ(ií) segundo a normal à faceta (Figura 3.5) dá-se o
nome de tensão normal an , a qual é dada por

an = aCn) .fi. (3. 3)

A tensão normal diz-se de tração se for positiva e diz-se de compressão no caso contrário. À
componente de iJ(fi) no plano da faceta (Figura 3.5) dá-se o nome de tensão tangencial, cujo
módulo T é dado por

(3.4)

Cada uma destas componentes tem a dimensão de força por unidade de área, pelo que a
unidade de tensão no Sistema Internacional é o pascal (l Pa = l N/m 2 ) .
54 CONCEITO DE TENSÃO. VETOR DAS TENSOES

iJ(ii)

Figura 3.5

Considere-se agora, destacado do interior do corpo, um prisma de dimensões infinitesimais


e faces perpendiculares aos eixos coordenados. Designe-se por iJ( e;) o vetor das tensões
atuante na faceta perpendicular ao eixo Xi com normal unitária exterior orientada segundo
o sentido positivo desse eixo (Figura 3.6 a) e designem-se por CJij (j = 1, 2, 3) as suas
componentes segundo os eixos coordenados como ilustrado na Figura 3.6 (b), isto é,

ac ~l l = e1 + CJ12 e2 + Cf13 e3
CJn

aCez) =CJ21 ê'1 + CJ22 ê'2 + CJ23 e3 (3 .5)


{
ace J = Cf31 e1 + Cf32 e2 + Cf33 e3
3

ou, simplesmente,
(3.6)

A equação (3.5) pode ser escrita ainda na forma matricial

CJ13] {e1}
Cf23 ~2 ) (3.7)
CJ33 e3

em que o elemento genérico da matriz representa a componente segundo o eixo x 1


CJi j

do vetor das tensões atuante na faceta perpendicular ao eixo X i e cuja normal exterior
é dirigida segundo o sentido positivo desse eixo. As componentes diagonais desta matriz
representam tensões normais enquanto as componentes não diagonais representam tensões
tangenciais.
TEORIA DAS TE N SÕES .1.1

0"22

(a) (b)

Figura 3.6

3.3 EQUAÇÃO FUNDAMENTAL DA ANÁLISE DE TENSÕES. TENSOR DAS


TENSÕES

Considere-se, destacado do interior do corpo e centrado num dado ponto P, um tetrae-


dro de dimensões infinitesimais, de tal forma que se possa supor que o vetor das tensões
atuante em cada uma das suas faces é constante e que se possa desprezar a resultante das
forças volúmicas face às resultantes das forças de superficie. Admita-se que o tetraedro se
localiza no primeiro octante relativamente ao sistema de eixos coordenados, em que três
das suas faces têm versores normais exteriores orientados segundo o sentido negativo dos
eixos coordenados e a quarta face tem verso r normal exterior fi com componentes positivas
(Figura 3. 7). Designando por dS a área da face de normal fi, as áreas dSi , i = 1, 2, 3, das
restantes faces do tetraedro obtêm-se projetanto dS sobre o plano normal ao eixo Xi e são
dadas por

(3.8)

O equilíbrio estático das forças atuantes no tetraedro exprime-se por:


56 EQUAÇÃO FUNDAM ENTAL DA ANÁLISE DE TENSOES. TE N SOR DAS TE NS OES

(f( -êa)

Figura 3.7

Substituindo (3.8) em (3.9), e atendendo a (3.2), obtém-se-

(3.10)

Substituindo (3.6) em (3.10), obtém-se


~ (n) ~
u = O'ijniej, (3.11 )

pelo que as componentes de (f (n) são dadas por

(3.12)

A equação (3.12), designada por equaçãojúndamental da análise de tensões ou.formula de Cauchy, é


perfeitamente geral e poderia ter sido obtida com base no equilíbrio de tetraedros situados
noutros octantes que não o primeiro. Dado que as grandezas u)n) e ni são as componen-
tes de dois vetores, é possível concluir, através da lei do quociente, que as grandezas O'ij

são as componentes de um tensor de 2." ordem designado por tensor das tensões. As nove
componentes do tensor das tensões num dado ponto P do corpo são as componentes dos
três vetores das tensões atuantes em três elementos de superficie ortogonais entre si, que se
intersetam em P e definem completamente o estado de tensão nesse ponto (Figura 3.6).

Na Figura 3.8 indicam-se os sentidos convencionados como positivos das componentes de


tensão: as componentes positivas têm o sentido positivo dos eixos coordenados se atuarem
TEORI A DAS TE N SÕES 57

em facetas positivas, isto é, em facetas cuj as normais exteriores estejam também orientadas
no sentido positivo dos eixos coordenados; têm o sentido negativo dos eixos coordenados se
atuarem em facetas negativas, isto é, em facetas cujas normais exteriores estejam também
orientadas no sentido negativo dos eixos coordenados. U ma forma simples de não esquecer
esta convenção é recordar a regra dos sinais: positivo vezes positivo é positivo e negativo
vezes negativo é positivo; assim, p or exemplo, uma componente de tensão será positiva se
tiver o sentido negativo numa faceta negativa.

"'
Figura 3.8

3.4 EQUAÇÕES DE EQUILÍBRIO

Na Mecânica dos Meios Contínuos consideram-se, usualmente, dois tipos de forças exte-
riores atuantes num corpo: as .forças de massa ou volúmicas, distribuídas no interior do corpo,
com densidade de distribuição volúmica Fe as forças de superficie, distribuídas na su-
perficie exterior do corpo, com densidade de distribuição superficial F(Figura 3. 9). Por
exemplo, pertencem ao primeiro grupo a força da gravidade e ao segundo grupo as forças
de contacto entre corpos.
58 EQUAÇÕES DE EQUILÍBRIO

Figura 3.9

3.4.1 EQUILÍBRIO NA FRONTEIRA DO CORPO


Dado que o vetor força exterior por unidade de área prescrita em cada ponto da superficie
do corpo é, por definição, o vetor das tensões nesse ponto, obtém-se a partir da fórmula
de Cauchy (3 .12) que, num ponto da fronteira do corpo onde as componentes do versar
normal dirigido para o exterior do corpo são ni, as componentes a ij do tensor das tensões
estarão em equilíbrio com as forças exteriores tj se se verificar

(3. 13)

3.4.2 EQUILÍBRIO NO INTERIOR DO CORPO


Considere-se destacado do interior do corpo um prisma de faces perpendiculares aos eixos
coordenados e com dimensões infinitesimais dx i , dx 2 e dx 3 segundo XI , X2 e X3, respeti-
vamente. Na Figura 3.10 representam-se as forças de massa e as componentes de tensão
atuantes nas diferentes faces deste prisma infinitesimal. Admite-se que estas componentes
são contínuas e têm primeiras derivadas contínuas.

A equação de equilíbrio estático de forças segundo a direção XI é

(au + dau) dx2 dx 3 - au dx2 dx3 + (a 2I + da2I) dxi dx3 - a2I dx i dx3
+ (a 3I + da3I) dxi dx2 - a 3I dxi dx2 + h dxi dx2 dx3 = O
<=? ( au + : \ I dxi) dx2 dx3 - au dx2 dx3 + ( a2I + a:-:2I dx2) dxi dx3
- a2I dx i dx3 + (a3I + -8a3I
8
dx3) dxi dx2- a3I dxi dx2 +h dxi dx 2 dx3 = O,
X3
TEORIA DAS TENSÚES 59

. ,. _---- {

. I
..,._ --- {
o-22

,- ---- - --- - - - - ---------r-----.

/
/
/
/
/
/ / 1T31

/
/
/
. ,. _---- (
/ 1T32
/

Figura 3.10

donde se obtém

Da mesma forma, obtém-se a partir das restantes equações de equilíbrio de forças

pelo que as três equações de equilíbrio podem ser escritas, utilizando notação indicial e a
convenção de soma, na forma

lTi j ,i + fj = o. (3.1 4)
60 EQUAÇÕES DE EQUIL ÍBRIO

A equação de equilíbrio estático de momen tos segundo uma direção paralela a x 3 passando
no centroide do prisma é dada por

( a12 +:
12
1
dx1) dx2 dx3
1
d~
- ( a 21 + :
21
2
dx2)

dx1 dx2
+ a12 dx2 dx3 2 - a21 dx1 dx3 2 = O,
donde se obtém, no limite, quando dx 1 ---+ O, dx2 ---+ O e dx3 ---+ O,

As restantes equações de equilíbrio de momentos conduzem à conclusão de que o tensor


das tensões é simétrico, isto é,
(3. 15)

As equações de equilíbrio (3.14) e (3. 15) podem ser obtidas, alternativamente, utilizando
o teorema da divergência ou de Gauss (ver Apêndice A.4) e a fórmula de Cauchy. As-
sim, considere-se destacada do interior do corpo uma porção arbitrária de volume V com
fronteira S . A resultante das forças atuantes em V é

f +f [ dV CJ(n) dS , (3. 16)


v s
pelo que as três equações de equilíbrio estático de forças são

f
v
fj dV + f
s
a)nl dS = O. (3.17)

Substituindo (3.12) em (3. 17) e utilizando o teorem a da divergência, obtém-se, sucessiva-


mente,

f fJ dV +f a ij n i dS = O
v s
ç;, f
v
fj dV + f
v
a iJ,i dV = O

{=} f
v
fJ + a ij ,i dV = O.

Dado que esta relação deve ser verificada para todo e qualquer volume V , obtém-se, final-
m ente,
(3.1 8)
TEOR I A DA S TENSÕES 61

Por outro lado, designando por x o vetor posição, o momento resultante das forças atuantes
em V em relação à origem é

fx
v
x f dV + x x aun dS ,f
s
(3.19)

pelo que as três equações de equilíbrio estático de momentos são

f eklj Xt f1 dV + f eklj Xt <Y


(n ) -
1 dS - O. (3.20)
v s
Substituindo (3.12) em (3.20) e utilizando o teorema da divergência, obtém-se, sucessiva-
mente,

f
v
eklj Xt f 1 dV + f
s
eklj Xt <Yijni dS = O

<=? f eklj Xt fJ dV +f ( eklj Xt <Yij),i dV = 0


v v
<=? f
v
eklj Xl f1 + eklj Xt ,i <Yij + eklj Xl <Yij,i dV = 0. (3.21)

Substituindo (3.18) em (3.21 ), e· atendendo a que Xt ,i = bli, obtém-se

f
v
eklj Óti <Yij dV = O.

Dado que esta relação deve ser verificada para todo e qualquer volume V, obtém-se

e, finalmente,
<712 = <721

<723 = <732
{
<731 = <71 3
ou
(3.22)

Em virtude da condição de simetria (3.15), somente seis das componentes do tensor das
tensões são independentes. No entanto, dado que as equações de equilíbrio em cada ponto,
no interior (3.14) ou na fronteira (3.13) do corpo, são apenas três, a determinação das
seis componentes independentes do tensor das tensões num ponto de um corpo sujeito à
ação de forças exteriores conhecidas é um problema estaticamente indeterminado. Dado um
62 PROPRIEDADES DO ESTADO DE TE NS ÃO NU M PO N TO

campo de forças exteriores, existe, portanto, uma infinidade de campos de tensões que o
equilibram. A diferença entre dois campos de tensões que equilibram o mesmo campo de
forças exteriores equilibra um campo de forças exteriores nulas. Designa-se por estado de
coação um campo de tensões que equilibra forças exteriores nulas. No entanto, cada campo
de tensões é equilibrado por um único conjunto de forças exteriores. Em particular, um
campo de tensões com componentes nulas é equilibrado por um campo de forças exteriores
também nulas.

3.5 PROPRIEDADES DO ESTADO DE TENSÃO NUM PONTO

3.5.1 LEI DE TRANSFORMAÇÃO TENSORIAL


Sejam definidos, num dado ponto O tomado para origem, dois referenciais ortonormados
(x 1 , x 2 , xg) e (x~, x~, x~ ) . Sendo o tensor das tensões um tensor de 2." ordem, as suas
componentes obedecem à lei de transformação (2.23)

(3.23)

e à lei de transformação inversa (2.25)

(3.24)

em que CJij são as componentes do tensor das tensões no primeiro referencial, CJ~j são as
componentes no segundo referencial e Aij são as componentes da matriz de transformação
de coordenadas. As equações (3.23) e (3.24) podem, alternativamente, escrever-se na forma
matricial
[CY'] = [AJT [CY] [A] ou [cr] = [A] [cr'J [A]T , (3.25)

em que [A] é a matriz de transformação de coordenadas de componentes A ij .

3.5.2 TENSÕES PRINCIPAIS E DIREÇÕES PRINCIPAIS DE TENSÃO


Dado que o tensor das tensões é um tensor de 2.a ordem simétrico, existem sempre três
direções ortogonais entre si (x 1, xn, x m), designadas por direções principais de tensão,
relativamente às quais a matriz das componentes do tensor se apresenta sob a forma de

l
uma matriz diagonal:
CJI o
[cr] = ~ o .
[
o CJm

As componentes da diagonal desta matriz designam-se por tensões principais e, fisicamente,


cada uma das tensões principais é uma tensão normal atuante num plano principal. Num
TEORIA D AS TE NS OES 63

plano principal, o vetor das tensões é normal ao plano não tendo, portanto, componente
tangencial (Figura 3.11 ).

A determinação das tensões principais e das direções principais de tensão pode ser efe-
tuada analiticamente (ver Secção 2 .8.1 ) ou, nos casos planos, graficamente, recorrendo à
circunferência de Mohr (ver Secção 2.8.3).

xm

Figura 3.11

3.6 ESTADOS PARTICULARES DE TENSÃO

i) Estado de tensão uniforme

Um estado de tensão num corpo diz-se uniforme se as componentes do tensor das tensões
forem constantes em todo o corpo.

ii) Estado de tensão triplo

Um estado de tensão num ponto de um corpo diz-se triplo quando todas as tensões princi-
pais nesse ponto são diferentes de zero.
64 REPR ESENTAÇAO DE MOHR DO ESTADO DE T E NSAO NUM PONTO

iii) Estado de tensão duplo. Estado plano de tensão

Um estado de tensão num ponto de um corpo diz-se duplo quando uma das tensões princi-
pais nesse ponto é nula.

Se se verificar um estado de tensão duplo em todos os pontos do corpo e se a direção


correspondente à tensão principal nula for também a mesma em todos os pontos do corpo,
diz-se que o estado de tensão instalado no corpo é um estado plano de tensão.

iv) Estado de tensão simples

Um estado de tensão num ponto de um corpo diz-se simples quando só uma das tensões
principais nesse ponto é diferente de zero.

v) Estado de tensão tangencial simples

Um estado de tensão num ponto de um corpo diz-se tangencial simples quando todas as
componentes do tensor das tensões nesse ponto são nulas, com exceção de uma das com-
ponentes tangenciais.

vi) Estado de tensão isotrópico

Um estado de tensão num ponto de um corpo diz-se isotrópico se as três tensões principais
forem iguais. Neste caso, a circunferência de Mohr das tensões reduz-se a um ponto.

3.7 REPRESENTAÇÃO DE MOHR DO ESTADO DE TENSÃO NUM PONTO.


CIRCUNFERÊNCIA DE MOHR DAS TENSÕES. TRI-CIRCUNFERÊNCIA
DE MOHR DAS TENSÕES

No caso de ser a priori conhecida uma direção principal de tensão, é possível estudar o
estado de tensão em facetas cuja normal é perpendicular a essa direção principal conhecida
através da circuriferência de Mohr (ver Exemplo 3.2). Considere-se, então, um sistema de eixos
(x 1 , x 2 , x 3 ) com origem num certo ponto P eque um dos eixos do sistema (por exemplo,
x 3 ) coincide com um dos eixos principais (por exemplo, xm). Nestas condições, o plano
que contém os eixos (x 1 , x 2 ) contém também os eixos (x 1, xn). O tensor das tensões no
ponto P referido aos eixos (x 1 , x 2 ) tem a form a
TEOR I A D AS TE N SÕES 65

Na Figura 3.12 representa-se a correspondente circunferência de Mohr traçada de acordo


com as regras enunciadas na Secção 2.8.3 e admitindo que an > a22 e que a12 < O.

a1
A

o I

Figura 3.12

A circunferência é desenhada num plano utilizando um sistema de eixos cujas abcissas


representam tensões normais e cuj as ordenadas representam tensões tangenciais. As co-
ordenadas dos pontos da circunferência representam , portanto, o valor da tensão normal
e da tensão tangencial atuantes em todas as facetas cuja normal é perpendicular a xm.
Conclui-se, assim, que o vetor que une a origem do sistema de eixos com um ponto da
circunferência é igual ao vetor das tensões atuante na faceta representada por esse ponto
e que o ângulo que esse vetor forma com o eixo das abcissas é igual ao ângulo que o vetor
das tensões forma com a normal à face ta. Na Figura 3.12 representa-se o vetor das tensões
(vetor Õl) atuante na faceta representada pelo ponto 1, isto é, na faceta cuj a normal tem
o sentido do eixo x1, e o respetivo ângulo (a ) que o vetor das tensões forma com a normal
à faceta.

As abcissas dos pontos I e II representam as tensões principais no plano (x 1 , x 2 ), que cor-


respondem aos valores extremos das tensões normais atuantes em facetas cuj a normal é
66 R EPRES E NTAÇÃ O DE MO HR DO ESTA DO DE TE NSÃO NUM PO N TO

perpendicular a Xm e cujo valor é dado por:

O"r = OC +R = O" n + 0"22 +


2

O"n-
- OC - R -- O"n +
2
0"22
-

0 ângulo 8, de que OS eixos principais (xr, Xn) estão rodados relativamente aos eixos (x1,
x 2 ), é metade do ângulo formado pelos raios vetores Cl e CI e é dado por
tg(2B) = 20"r2 '
O"n - 0"22
e o sentido de rotação é o oposto ao sentido de rotação na circunferência de Mohr.

Os pontos A e B (Figura 3.12), nos quais a tangente à circunferência é horizontal, re-


presentam as tensões nas facetas cuja normal é perpendicular a x m e em que as tensões
tangenciais são máximas, de valor
O"r - O"n
Tmax ==
2
As normais a estas facetas formam ângulos de 45° com as direções principais de tensão
(Figura 3.13).

xrr

)j 45°

xr

/~
Tmax
45°
A

Figura 3.13
T E O RI A DAS T E NS6 E S 67

No caso de estados triplos de tensão, também é possível usar uma representação gráfica
plana do estado de tensão referida a dois eixos que continuam a ser o eixo das tensões
normais e o eixo das tensões tangenciais e que se designa por tri-circunferência de Mohr.
Considere-se, então, definido num determinado p onto P de um corpo, um estado de tensão
triplo e sej am ar, an e am as resp etivas tensões principais ordenadas por forma a satisfazer

(3.26)

M arcam-se sobre o eixo das tensões normais os pontos I, II e III com abcissas, respeti-
vamente, iguais a ar , au e am e traçam-se três circunferências: uma de centro em Crrr e
que passa pelos p ontos I e II, outra de centro em C 1 e que passa pelos pontos II e III e
uma terceira, exterior às duas primeiras, de centro em Cn e que passa pelos pontos I e III
(Figura 3.1 4).

T 1'

' iJ(n)
--- -- ----- - ,- -

I an

au

Figura 3.14
68 R EPRESENTAÇÃO DE MO HR DO E STA D O D E TENSÃO NU M PONTO

Pode demonstrar-se que:

o o estado de tensão (an, T) em qualquer faceta centrada num dado ponto Pé cara-
terizado por um ponto na área entre as circunferências interiores e a circunferência
exterior (Figura 3. 14) ou sobre as circunferências limite, isto é, o vetor das tensões
iJ (ii) de componentes (an, T), atuante em qualquer faceta com versor normal n cen-
trada no ponto no qual se está a estudar o estado de tensão, é um vetor que une a
origem do sistema de eixos com um ponto na área entre as circunferências interiores
e a circunferência exterior ou sobre as circunferências limite (Figura 3.14);

o o estado de tensão (an, T) em facetas centradas no ponto P perpendiculares a um


plano principal é caraterizado por um ponto sobre uma das circunferências, po-
dendo, por conseguinte, utilizar-se a circunferência de Mohr dos estados de tensão
duplos; por exemplo, o estado de tensão em facetas centradas no ponto P perpendi-
culares ao plano principal (I, II), isto é, em facetas cuj o versor normal n é perpendi-
cular a x m, é caraterizado por um ponto sobre a circunferência de centro em Cm,
sendo, portanto, independente do valor de am . Em geral, pontos sobre a circunfe-
rência de centro em Ci (i = I, 11, Ill) caraterizam o estado de tensão em facetas cujo
verso r normal n é perpendicular a Xi (i = I, 11, Ill).

Conclui-se ainda que:

o a tensão normal máxima coincide com a tensão principal a 1 e verifica-se em facetas


perpendiculares à direção principal x 1 e a tensão normal mínima coincide com a
tensão principal am e verifica-se em facetas perpendiculares à direção principal xm;

o a tensão tangencial máxima tem o valor

e verifica-se em facetas perpendiculares ao plano (x 1, xm) cuj as normais fazem ân-


gulos de 45° com as direções principais x 1 e xm (Figura 3. 15) representadas pelos
pontos 1' e 3' na circunferência exterior.
TEORI A DAS TENSÕES 69

Xm

X~

45° Tmax
~
xr

45°

A.
Figura 3.15

Exemplo 3.1. Um estado de tensão referido a um referencial (x1, x2 , x3 ) é dado por:

' [ 100
[cr] = -~0
- 50
120
- 40
-H (MPa) .

a) Represente um elemento de volume, orientado segundo os eixos, com as tensões que


o atuam.

b) Calcule a tensão normal e tangencial numa faceta cuja normal faz ângulos de 45° e
60° com os eixos x 1 e x 2 , respetivamente.

c) Represente um elemento de volume (com as tensões que o atuam) orientado segundo


os eixos (x~ , x~ , x~ ), que se obtêm de (x1, x2 , x3) por uma rotação de 30° no sentido
direto em torno do eixo X2.
70 REPRESENTAÇÃO DE MOHR DO ESTADO DE TE NSÃO NUM PO NT O

Resolução: a) Num elemento de volume atuam as tensões indicadas no esquema:

40

120 (MPa)

50

~o
40

b) Conhecidos os ângulos que a normal à faceta faz com os eixos x1 e x2, tem-se n1

cos 45°, n 2 = cos 60° e n 3 é determinado sabendo que fi tem norma unitária:

Admitindo que n3 = +1/2, obtém-se a partir de (3.12) o vetor das tensões iJ(fi) atuante
nesta faceta

(]'(fi)} [100 -50


o~
{ (]'~~)(n)
;;Cnl - 50 {vÍ2/2} {45.71}
= = 120 - 40 1/2 = 4.64 (MPa).
(]'3
O - 40 o 1/2 -20
Os valores da tensão normal e da tensão tangencial nesta faceta são obtidos a partir das
respetivas definições (3.3) e (3.4):

~~ }
2
O'n = ;;Cn) .fi = { 45.71 4.64 - 20 } { = 24.6 MPa,
1/2
TEORIA D AS TE N SÕES 71

c) A matriz de transformação do referencial (x 1 , x 2 , x 3 ) para o referencial (x~, x~, x~) tem


a forma
_, _, _,
el e2 e3
-1- -1- -1-
êl --+ cos 30°
cos 90°
cos 90°
cos 0°
cos60°
[A] =
[v'3/2 o
O
1/2 ]
~/2
ê2 --+ cos 90° 1
ê3 --+ cos 120° cos 90° cos 30° - 1/2 o
pelo que, atendendo à lei de transformação (3.25), as componentes do tensor das tensões
neste ponto no referencial (x~, x~, x~) são dadas por

75 -23 .3
43 .3 ]
[cr'] = [A]T [cr] [A] = - 23.3 120 -59.6 (MPa).
[
43.3 - 59.6 25

Num elemento de volum e orientado segundo os eL'(OS (x~, x~, x~), atuam as tensões indi-
cadas no esquema:

x'3

25

59~43.3 (MPa)

x'2


72 REPRESENTAÇÃO DE MOHR DO ESTADO DE TENSÃO NUM PONTO

Exemplo 3.2. Considere um estado tridimensional de tensão referido a uma direção prin-
cipal de tensão x3:

o
Mostre que o vetor das tensões em facetas paralelas a x 3 é independente de u 33 .

Resolução: Em facetas paralelas à direção principal de tensão x 3 , o vetor normal à faceta


é perpendicular a x 3 , tendo apenas componentes segundo XI e segundo x 2 iguais a ni e
n 2 , respetivamente. A partir de (3. 12), obtém-se o correspondente vetor das tensões (J(ii)

atuante nesta faceta

o
o qual só tem componentes no plano perpendicular à direção principal conhecida e é inde-
pendente da respetiva tensão principal u3 3 . É por esta razão que a análise das tensões num
plano perpendicular a uma direção principal pode ser feita pela circunferência de Mohr
dos estados planos.

X2
X2
0"22 i0"22
__.ui2
____.0"I2

r ._1
O"I2

r~I
0"11 ~

~33
XI
._ XI

1
X3


Exemplo 3.3. Num cubo elementar destacado dum corpo submetido a uma solicitação,
atuam as tensões indicadas no esquema. Determine:
TEORIA D A S TE N SOES 73

30

(MP a)
'
'

a) As tensões principais analítica e graficamente.

b) A orientação das normais às facetas onde atuam as tensões principais.

c) As componentes de tensão numa faceta igualmente inclinada sobre as três faces do


cubo, a qual interseta as faces do cubo segundo as retas a traço interrompido.

Resolução: a) A matriz das componentes do estado de tensão referido ao referencial (x 1 ,


xz, x3 ) é dada por:

~
30 10
[cr] = 10 30 ] (MPa).
[
o o -30
Resolução analítica: Os respetivos invariantes são

Ir = 30 + 30 + (- 30) = 30;

~~~ ~~~ + l o -~o~ + l o -~o~


30 30
Iz =

= 30 X 30 - 10 X 10 + 30 X ( -30) + 30 X (- 30) = -1000;


30 10 o
h = 10 30 0 = (-30) X (30 X 30 - 10 X 10) = -24000.
o o - 30
74 REPRESE NTAÇÃO D E MOHR DO ESTADO DE TE NSÃO NUM P ONTO

A equação caraterística tem a forma


3
+ 30 À 2 + 1000 À - 24000 =O {:::} - (À+ 30) (À 2 - 60 À+ 800) = O,

cuj as raízes são À = -30 V À = 20 V À = 40. Ordenando os valores próprios por ordem
decrescente, tem-se <J1 = 40 MPa, <Jn = 20 MPa e <Jm = - 30 M Pa.

Resolução gráfica: Atendendo à forma da matriz das componentes do estado de tensão


referido ao referencial (x 1 , x 2 , x 3 ), conclui-se que uma das tensões principais é igual a
-30 MPa e que a direção x 3 é direção principal de tensão. Como o estado de tensão em
facetas cuj a normal é perpendicular a uma direção principal de tensão é independente
do valor da correspondente tensão principal, as tensões principais e as direções principais
de tensão no plano (x 1 , x 2 ) podem ser calculadas utilizando a circunferência de Mohr:
marcam-se os pontos l e 2, diametralmente opostos, de coordenadas

Ponto 1 (abcissa: <Ju = 30, ordenada: <J12 = 10);


Ponto 2 (abcissa: <J22 = 30, ordenada: -(}12 = -10):
Os pontos 1 e 2 unem-se por um segmento de reta, definindo assim a posição do centro e
o raio da circunferência:
oc = 30, R= 10.

30

10

III o II I

( -30 ; O)
- 10

2
TEORI A D A S TE N SÕES 75

Respeitando a convenção (3.26), as abcissas dos pontos de interseção da circunferência de


Mohr com o eixo das abcissas definem os valores das tensões principais u 1 e un , sendo a
tensão principal -30 MPa a tensão um:
u 1 = OC +R = 40 MPa, un = OC - R = 20 MPa, um = -30 MPa.
b) O ponto I é obtido a partir do ponto l por rotação de um ângulo 28 = 90° em torno de
C no sentido do movimento dos ponteiros do relógio; então, na realidade, o vetor er obtém-
-se do vetor el por rotação de um ângulo e = 45° no sentido contrário ao do movimento
dos ponteiros do relógio e o vetor eu é perpendicular ao vetor er, como indicado na figura
(o vetor em coincide com e3):

xn xr

c) Numa faceta igualmente inclinada sobre os eixos coordenados, as componentes do verso r


normal são todas iguais a ±1/ v'3. Admitindo que n 1 = n2 = n3 = +1/ J3, obtém-se a

l{
partir de (3 .12) o vetor das tensões iJ ( ii ) atuante nesta faceta

oo 1/ v'3}
1/v3 =
{ 40/v3
40/ v3 } (MPa).
- 30 1/ v3 -30/ v'3
A tensão normal e a tensão tangencial nesta faceta são obtidas a partir das respetivas defi-
nições (3.3) e (3.4):

O"n = iJ(ii) .fi= { 40/J3 40/J3 - 30jJ3 } { ~~~} = 16.7 MPa,


1/ v3
T = ( iJ(ii) .iJ(ii) - u;) 112 = ( ( 40/ v'3) 2 + (40/ v'3) 2 + (-30/ v'3) 2 - 16. 72 ) 112 = 33 MPa .


76 REPRESE N T AÇÃO DE MOHR DO ESTADO DE TE NSÃ O NUM PONTO

Exemplo 3.4. Num ponto duma estrutura conhecem-se as seguintes condições relativa-
mente ao estado de tensão nas três facetas do elemento triangular infinitesimal representado
na figura:

- A tensão normal em AB é nula

- A tensão tangencial em BC é nula e a tensão normal vale 10 MPa com o sentido


indicado.

X2

B
/lOMPo
J X3 30° X1
A
._
T

l(T

Sabendo que se trata dum estado plano de tensão, defina o tensor das tensões referido
aos eixos (x 1 , x 2 , x 3 ) e aos eixos principais de tensão. Represente um elemento orientado
segundo os eixos principais com as tensões que o atuam.

Resolução: A matriz das componentes do estado de tensão referido ao referencial (x 1 ,


x2, X3) é dada por:

U m a vez que o versor normal exterior à faceta BC é fi= cos 60 e1+ cos 30 e2, obtém-se a
partir de (3 .12) o vetor das tensões iJ(ii) atuante na faceta BC

a<nl = {:J::} [~
CT~n)
=
O O
:
o]~ {~~2
1/2 } { T-/3/2 }
= T/2 + ;-/3/2 .
TEORIA DAS TE N SOES 77

As componentes cartesianas deste vetor são conhecidas

-10 cos60° }
iJ(ii) = -10 ~os 30° (MPa),
{

obtendo-se, assim, o sistema de equações

TV3/2 = -5
{ T /2 + a-../3/ 2 = -10 V3/ 2

cuj a solução é T = -10 ../3/3 e a- = -20/3. A matriz das componentes do estado de tensão
referido ao referencial (x 1, x 2, x 3 ) é, então, dada por:

10,;3
o ---
3
o

[CY]= -10,;3
--
20 (MPa),
o
3 3
o o o
pelo que uma das tensões principais é nula e a direção x 3 é direção principal de tensão. Para
calcular as restantes tensões principais e direções principais de tensão, utiliza-se a circun-
ferência de Mohr: marcam-se os pontos 1 e 2, diametralmente opostos, de coordenadas

Ponto 1 (abcissa: o-n = O, ordenada: a-12 = -10 v'3/ 3);

Ponto 2 (abcissa: a- 22 = - 20/3, ordenada: - a- 12 = +10../3/3).

Os pontos 1 e 2 unem-se por um segmento de reta, definindo assim a posição do centro e


o raio da circunferência:
oc = o+ ( -20/3) = - 10 R = J(lo VJ/3) 2 + (10/3)2 = ~o .
2 3 '
Respeitando a convenção (3.26), as abcissas dos pontos de interseção da circunferência de
Mohr com o eixo das abcissas definem os valores das tensões principais a-1 e o-m, sendo a
tensão principal nula a tensão o-n:

a-1 = OC + R = 3.33 MPa, o-n = O, o-m = OC - R= -10 MPa.


78 REPRESE N T AÇÃ O DE MOHR DO ESTA DO DE TENSÃO NU M PO N TO

CJij
-20/3

-1--- 2

10 v'3/ 3
III I

- 10v'3/ 3

O ponto I é obtido a partir do ponto l por rotação dr um ângulo

2B = arcsen ((10v'3/ 3) / R) = 60°

em torno de C no sentido contrário ao do movimento dos ponteiros do relógio; então, na


realidade, o vetor er obtém- se do vetor er por rotação de um ângulo e= 30° no sentido
do movimento dos ponteiros do relógio e o vetor em é perpendicular ao vetor ei, como
indicado na figura (o vetor eir coincide com -€3 ) :

xm

Xr

Na figura seguinte, representa-se um elemento de área orientado segundo os eixos princi-


pais x 1 e x m com as tensões que o atuam:
TEORIA D AS TENS Õ ES 79

Xz
xm

I"'"~ -!O MP'

O"r = 3. 33 MPa
Xr

Observa-se que a direção principal xm coincide com a direção do versor normal exterior à
faceta B C e que a correspondente tensão principal tem o valor - 1O MPa como esperado,
uma vez que se sabia, dos dados do problema, que a tensão tangencial atuante nesta faceta
era nula.

Os valores de T e a poderiam ser alternativamente obtidos escrevendo as equações de equi-


líbrio de forças do elemento triaJ;J.gular ABC. Admitindo que a esp essura deste elemento
(segundo x 3) é dx 3, obtém-se

X2

B lO M~
60°

J X3 30° X1

A +--
T
c
la
L F1 =O{::? -TAC dx3- lOBC dx 3 cos 60° =O
L Fz = O{::? - TAB dx3 - a AC dx 3 - lO B C dx 3 cos 30° = O.
80 REPRESENTAÇÃO DE MOHR DO ESTADO DE TE NSÃO NUM PONTO

Dado que AC = BCcos30° e AB = BCcos60°, obtém-se T = -lOJ3/3 eu = -20/3 .


Exemplo 3.5. Na placa representada na figura verifica-se, devido a uma dada ação, o
seguinte estado plano de tensão:

X2

a ~
/1
--; r-
c B
b
X1

D A

a) Determine as forças de massa que equilibram o campo de tensões instalado na placa.

b) Determine e represente graficamente uma distribuição de forças por unidade de área


aplicadas à fronteira da placa que equilibre o campo de tensões instalado.

Resolução: a) As forças de massa obtêm-se a partir das equações de equilíbrio no interior


do corpo (3.14) ou (3.18):

0"11 ,1 + 0"21,2 + 0"31 ,3 + h = o 2x1 + ( -2xl) +O+ h = O { h =O


{
0"12,1 + 0"22,2 + 0"32,3 + h = o {::}
{
- 2x2 + 2x2 + O + h = O {::} h =O .
0"13 ,1 + 0"23,2 + 0"33,3 + h = o O+h = O h =O
b) As forças por unidade de área aplicadas à fronteira da placa obtêm-se a partir das equa-
ções de equilíbrio na fronteira do corpo (3.13):

t1 = uun1 + u21n2 + 0"31n3


t2 = u12n1 + u22n2 + 0"32n3
{
t 3 = 0"13n1 + u23n2 + 0"33n3 = O
A fronteira da placa plana é constituída pelas linhas AB, BC, CD e DA. O versar normal
exterior à linha AB coincide com o versor e1 e a equação desta linha é x 1 = a, pelo que
TEO RI A DAS TENS Õ ES 81

as forças por unidade de área nesta fronteira são iguais a

h= o-u lx,=a X 1= a2
{ t2 = 0"121x,=a X 1 = -2ax2

A força segundo x 1 é constante em toda a face A B enquanto a força segundo x2 varia


linearmente na face A B sendo nula no ponto de ordenada nula e máxima nos pontos A e
B que têm ordenada máxima (x 2 = ±b).

O versar normal exterior à linha BC coincide com o versar e2 e a equação desta linha é
x 2 = b, pelo que as forças por unidade de área nesta fronteira são iguais a

t1 = 0"21 lx 2 =b X 1 = -2bxl
{ t2 2
= 0"22lx 2 =b X 1= b

A força segundo é constante em toda a face BC, enquanto a força segundo x 1 varia
X2

linearmente na face BC, sendo nula no ponto de abcissa nula e máxima nos pontos B e C
que têm abcissa máxima (x 1 = ±a).

O versar normal exterior à linha CD coincide com o versar - e1 e a equação desta linha é
x1 = -a, pelo que as forças por unidade de área nesta fronteira são iguais a

t1 = o-ulx:=-a X (- 1) = - a 2
{ t2 = 0"12lx, =-a X ( - 1) = - 2ax2 .

A força segundo x 1 é constante em toda a face C D , enquanto a força segundo x 2 varia


linearmente na face C D , sendo nula no ponto de ordenada nula e máxima nos pontos C
e D que têm ordenada máxima (x 2 = ±b).

O versar normal exterior à linha D A coincide com o versar -e2 e a equação desta linha é
x2 = - b, pelo que as forças por unidade de área nesta fron teira são iguais a

A força segundo x 2 é constante em toda a face DA, enquanto a força segundo x 1 varia
linearmente na face DA, sendo nula no ponto de abcissa nula e máxima nos pontos D e A
que têm abcissa m áxima (x 1 = ±a).

Nas figuras seguintes representam-se esquematicamente as forças por unidade de área apli-
cadas à fronteira segundo as direções x 1 e x2, respetivamente:
82 REPRESENTAÇi\0 DE M OHR DO E S TA D O DE TENSÃO NUM P ONTO

2ab 2ab

2ab 2ab

x2

2ab 2ab

2ab 2ab


Exemplo 3.6. Num determinado ponto da superficie de um corpo verifica-se o seguinte
estado plano de tensão:

0' 11 = 40 MPa, 0' 1 2 = - 20 MPa, 0'2 2 = 80 MPa.

a) Calcule as tensões principais e as direções principais de tensão.

b) Qual a máxima tensão tangencial a que pode ficar submetida uma faceta genérica
no ponto? Qual a tensão normal correspondente?
TEORIA DAS TENSÕES 83

Resolução: a) A m atriz das componentes do estado de tensão é dada por:

~] ~Pa),
40 -20
[u] = -~0 80
[
o
pelo que uma das tensões principais é nula e a direção x 3 é direção principal de tensão. Para
calcular as restantes tensões principais e direções principais de tensão, utiliza-se a circun-
ferência de Mohr: marcam-se os pontos l e 2, diametralmente opostos, de coordenadas

Ponto 1 (abcissa: a 11 = 40, ordenada: a 1 2 = - 20);

Ponto 2 (abcissa: a22 = 80, ordenada: - a12 = +20).


Os pontos 1 e 2 unem-se por um segmento de reta, definindo assim a posição do centro e
o raio da circunferência:

oc = 40 + 80 = 60 R= V20 2 + (80- 60)2 = 28.3.


2 '

80

20
II I

-20

40

Respeitando a convenção (3.26), as abcissas dos pontos de interseção da circunferência de


Mohr com o eixo das abcissas definem os valores das tensões principais ar e an, sendo a
tensão principal nula a tensão arn :

ar= OC +R= 88 .3 MPa, au = OC - R = 31.7 MPa, am = O.


84 REPRESENTAÇÃO DE MOHR DO ESTADO DE TE NSÃO NUM PONTO

O ponto I é obtido a partir do ponto 1 por rotação de um ângulo 2e = 180° -arcsen (20/ R) =
135° em torno de C no sentido contrário ao do movimento dos ponteiros do relógio; en-
tão, na realidade, o vetor ei obtém-se do vetor ê1 por rotação de um ângulo e = 67.5° no
sentido do movimento dos ponteiros do relógio e o vetor eir é perpendicular ao vetor ê1,
como indicado na figura (o vetor êm coincide com ê3 ) :

xn

e= 67.5°

xr

b) Traçando a tri-circunferência de Mohr correspondente ao estado de tensão, conclui-se


que a tensão tangencial máxima tem o valor
O"J - o-m
T max = = 44.15 MPa,
2
e verifica-se em facetas perpendiculares ao plano (x 1, xm), cujas normais fazem ângulos de
45° com as direções principais x 1 e xm, que correspondem aos pontos 1' e 3' da circunfe-
rência exterior. A tensão normal nessas ·facetas tem o valor

O"n = o-r + o-m = 44.15 MPa.


2
TEORIA DAS TENS0ES 85

1'

T = ur - um = 44 15 MPa
2 .

O= III I (j i i

3'

- ur +um
un = OCu = = 44.15 MPa
2

O"n = 44.15 MPa


xm

~
45°

XI

45° ~
O"n = 44.15 MPa


86 REPRESE N TAÇÃO DE MOHR DO ESTADO DE TENSÃO NUM PONTO

PROBLEMAS PROPOSTOS
Problema 3.1. Considere o estado de tensão representado na figura que ocorre num
ponto do interior de um corpo. Calcule a tensão normal na faceta BCFG indicada na
figura.

X3

c '
20
G
'

r5 '
' D
'
15
H

5 (MPa)

020
' '
'
X2

F
100 ',',,
'
A B

x1

Problema 3.2. Considere um estado plano de tensão referido aos eixos principais (xr, xu)
do tensor das tensões. Mostre que as componentes de tensão IJn e T numa faceta inclinada
relativamente aos eixos principais, como indicado na figura, são dadas por:

1Jn =
IJI + IJIJ + ( I - IJIJ ) cos 2a
2 2
IJr - IJn
T =-( )sen2ct.
2
R esolva o problema pelos seguintes processos:

a) Com base na fórmula de Cauchy.

b) Pela lei de transformação tensorial.

c) Pelo equilíbrio do triângulo OAB.


TEORIA D A S TE N SOES 87

xn

~~
B

o-r

xr
o A

1""
Problema 3.3. Recorrendo à circunferência de Mohr, mostre que, relativamente ao es-
tado plano de tensão representado na figura, as tensões principais e a resp etiva orientação
são dadas por:

X2
i0"22
X2
____.o-12 xu
[cr] = [o-u 0"12]

.-1
ACJ12
0"12 0"22
I___.cru

T
Problema 3.4. Componha os seguintes estados planos de tensão que se verificam num
mesmo ponto dum corpo:

o-u = 30 MPa o-~ 1 = -30 MPa


0
1. Estado
{
o- 12 = - 50 MPa (J~2 =o
o-22 = 20 MPa o-~ 2 = -50 MPa
88 REPRESENTAÇÃO DE MOHR DO ESTADO DE TE NSÃO NU M PO N TO

sendo o ângulo formado pelos eixos x 1 e x~ igual a 30° no sentido inverso a partir de x 1 .

Problema 3.5. Se a tensão principal mínima for de -lO MPa, calcule a tensão (} 11 e o
ângulo que os eixos principais fazem com os eixos x 1 e x 2 no caso do estado plano repre-
sentado na figura.

i30 MPa

+-----

Problema 3.6. Determine e oriente as tensões principais dos estados de tensão duplos
indicados, conhecidas as tensões normais em três direções:

(}nl = 20 MPa, (} n2 = 10 MPa, (}n3 = -40 MPa

a) a= f3 = 45°
b) a= f3 = 60°.

Problema 3. 7. Designam-se por tensões octaédricas as tensões em facetas igualmente incli-


nadas sobre os três eixos principais de tensão.

a) Determine a tensão tangencial octaédrica em função das tensões principais (}r, (Jrr e
(Jm.
TEORIA D AS TENSOES 89

b) Para o seguinte estado triaxial de tensão ar 40 MPa, an -20 MPa, a nr


-80 MPa, determine:

b 1) A tensão tangencial máxima.


b2) A tensão tangencial octaédrica.

Problema 3.8. Verifique se o estado de tensão definido pelas componentes:

2 ?rX2 ?rX1
au =a sen - b-(1 - sen---;;:--)

2 ?rX1 ?rX2
a22 = b sen ---;;:-- (1 - sen - b-)

7fXl ?rX2
a12 = -a b cos - - cos - -
a b

é um estado de coação do paralelepípedo representado na figura, isto é, é um estado de


tensão que equilibra forças exteriores nulas. '

Problema 3.9. Determine as forças que é necessário aplicar no interior e na fronteira


ABCDE da placa para equilibrar o seguinte campo de tensões:

D .-----~------~c

A
2 3 5 (m)
90 REPRESE N TAÇÃO DE MOHR DO ESTADO DE T EN SÃO N UM PO NTO

Problema 3.10. Para a placa da figura estabeleça as condições de fronteira nas faces AE,
BC e C D necessárias à análise do estado de tensão instalado por ação das forças exteriores
representadas.

n-r-----------------------~E
A

c D

1.0 m 1.0 m

Problema 3.11. Seja o campo de tensões dado por:

Xi em [m] e (Jij em [MPa].

a) Determine o campo de forças de massa que equilibra o campo de tensões.


Admita que se obteve o tensor no ponto P(O, O, 1) (m):

1-
b) D etermme
. a tensao
- normal na f:aceta de norma1n- = e2- 2)3_
e3 .
2
c) Determine as direções e componentes principais de tensão.

d) Escreva a matriz de transformação que traduz a passagem dos eixos (x 1 , x 2 , x3) para
os eixos principais de tensão.

e) Determine a tensão tangencial máxima e diga em que facetas atua.


TEORI A D A S TE N SÕES 91

Problema 3.12. Considere a placa representada na figura

X2

A B

h
P'

I

h
c D

(x3) v h
v 2h
v
X1

'1 '1 '1

cuj o campo de tensões é dado por:

xi X1
x 23 x2
o
2
[cr] = - q h X1 1 [MPa].
x2
o
2 X2

o o o
a) Verifique o equilíbrio no interior da placa (admita que não existem forças de massa).

b) Determine e represente graficamente (em função de q) a distribuição de forças nas


fronteiras C D e AB e verifique que não existem forças aplicadas nos bordos AC e
DE.
No ponto P(h, 2h) e admitindo que q = 10 MPa:

c) Determine as tensões principais e as direções principais de tensão.

d) Determine o valor da tensão tangencial máxima e a orientação das facetas onde esta
atua.
92 REPRESENTAÇÃO DE MOHR DO ESTADO DE TENSÃO NUM PONTO

Problema 3.13. O elemento de área infinitesimal centrado num dado ponto de um corpo
está sujeito às tensões indicadas na figura.

l 12

10 --112 (MPa)

a) Calcule a e Te as componentes do tensor no referencial (x 1 , x 2 , x 3), sabendo que o


estado de tensão neste ponto é duplo.

b) Determine as tensões principais e as direções principais de tensão.

c) Identifique a orientação de todas as facetas com normal no plano (x 1, x2), onde a


tensão normal é nula.

d) Determine o valor da tensão tangencial máxima e a orientação das facetas onde esta
atua.

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