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CONFIABILIDADE HUMANA APLICADA AO REPARO DE BOMBAS

CENTRÍFUGAS

Sérgio Roberto Feitosa Guedes (1)


Cesar Figueiredo Pimentel (2)
Celso Luiz Figueirôa Filho (3)
Antonio Roberto Lima (4)

Resumo

Este trabalho é o resultado das conclusões de um grupo de especialistas em


manutenção, o qual necessitou desenvolver várias abordagens de análise para
reduzir as quebras e aumentar a disponibilidade das bombas, o equipamento mais
numeroso em uma planta de refino de petróleo. Na unidade em análise deste
trabalho (UN-Petrobras-RLAM) as bombas chegaram a representar 15,51 % do total
das perdas de processamento nos últimos 4 anos e 60,05% no orçamento da
gerência de Equipamentos Dinâmicos do ano de 2008. Diante destes dados a UN-
RLAM optou em avaliar o processo de reparo de bombas centrifugas a luz da
confiabilidade humana visando identificar e solucionar os aspectos que
influenciavam no tempo e na qualidade do reparo dos equipamentos. O fundamento
teve como centro o equipamento, a bomba, e dele partiram as interpretações dos
processos e tarefas envolvidos. Este enfoque permitiu vislumbrar os aspectos de
Confiabilidade Humana em várias áreas distintas. Entre as saídas do trabalho,
transformadas em ações, o sucesso nos resultados das ações em Confiabilidade
Humana já são significativos e representam uma nova filosofia de reparar os
equipamentos. A adoção de uma nova metodologia de reparo destes equipamentos
contribuiu para a redução das bombas críticas indisponíveis de 19 (set/2008) para 8
(fev/2009); nas perdas de processamento , que caíram para 1,85% em 2009; na
redução de 48% dos custos de manutenção associado ao reparo quando
comparado os meses de Janeiro/2009 e Janeiro/2008; num curso teórico de
bombas, com o conteúdo voltado para os conceitos utilizados nas tarefas, para
executantes e assistência técnica; e num curso prático de aperfeiçoamento e
avaliação das habilidades envolvidas na execução do reparo.

1. INTRODUÇÃO
A confiabilidade e continuidade operacional das unidades de processo passam,
entre outros aspectos, pela qualidade da operação e manutenção das bombas
centrífugas, como também pela adequação destes equipamentos às condições de
operação.

Ambiente

A Refinaria Landulpho Alves de Mataripe (UN-RLAM) é primeira unidade de


processamento de petróleo do país, sendo construída sob a gestão do Conselho

(2) Consultor - Petrobras – Refinaria Landulfo Alves (2) Gerente Confiabilidade Petrobras – Refinaria Landulfo
Alves (3) Consultor – SENAI-CIMATEC - BA; (3) Técnico Manutenção - Petrobras – Refinaria Landulfo Alves
Nacional do Petróleo (CNP), e entrou em operação em setembro de 1950
processando 1.000 barris/dia. Posteriormente com a criação da Petrobras em 1954
foi incorporada ao sistema. Nestes 59 anos de existência a unidade passou por
várias modernizações e ampliações que resultou na segunda maior refinaria do país
em processamento e complexidade. Entre outros produtos a UN-RLAM é detentora
de 14,48% da capacidade de processamento de petróleo e 15,28% da capacidade
de craqueamento do sistema Petrobras. Além da produção de gasolina, diesel,
GLP, QAV, querosene e propeno, a UN-RLAM ainda é responsável pela produção
produtos de alto valor agregado a exemplo de óleo lubrificante e parafina.

O departamento de manutenção está organizado de forma centralizada e dividido


em 4 gerências especialistas. As gerências são Equipamentos Dinâmicos (ED),
Equipamentos Estáticos(EE), Elétrica e Instrumentação (EI) e Planejamento de
Manutenção (PM). O objeto deste artigo foi desenvolvido na gerência Equipamentos
Dinâmicos que é responsável pela manutenção preventiva, preditva e corretiva de
4013 equipamentos, sendo que as bombas representam 30 % deste total, isto é
1200.

Especificamente para as bombas centrifugas a gerência de Equipamentos


Dinâmicos mantém um plano de manutenção preditva baseado na monitoração de
vibração on-line, para as bombas críticas, monitoração off-line para o restante, um
sistema de lubrificação automática por névoa para 80% e convencional para as
demais, e inspeção das variáveis vitais das bombas críticas pelos operadores uma
vez por turno. Para execução das intervenções nesses equipamentos a ED dispõe
de uma equipe própria de execução, como também de um contrato com empresa
especializada na atividade, sendo que este último representa 70% da força de
trabalho.

2. OBJETIVO

Este artigo tem como finalidade apresentar o desenvolvimento de uma metodologia


de reparo em bombas centrífugas, baseado nos conceitos de confiabilidade
humana, visando o aumento da qualidade dos serviços de manutenção, trazendo
impactos positivos nas perdas de produção, no tempo de reparo, no consumo de
sobressalente e na quantidade de equipamentos indisponíveis.

3. JUSTIFICATIVA
Criação do GT Bombas

Tomando como referencia o ano de 2005 a UN-RLAM experimentou três anos


consecutivos de aumento de perdas de processamento devido a bombas
centrífugas. Os aumentos foram 24% em 2006, 87% em 2007 e 51% 2008,
tomando como base o ano de 2005. Os custos relacionados com as bombas
centrífugas foram 22% maiores em 2008 tendo com referencia o ano de 2007. Estes
resultados foram determinantes para a criação de um grupo de trabalho visando à
identificação das causas da evolução das falhas, como também propor as ações de
correção para as causas identificadas.

O Grupo de Trabalho foi composto de três gerentes, um do ED, um da operação e o


coordenador de Confiabilidade da UN-RLAM, um engenheiro e um técnico
especialistas em equipamentos dinâmicos e um operador. A formação do grupo,
patrocinada diretamente pelo Gerente Geral da UN-RLAM, continha em si conceitos
diretamente relacionados com a confiabilidade dos equipamentos. Esta formatação
possibilitou ao grupo ir além dos aspectos tecnicista do equipamento, permitindo
uma análise aprofundada das diversas dimensões, técnicas, humanas e gerenciais
envolvidas na operação e manutenção das bombas centrífugas.

O GT foi criado em janeiro de 2007 e teve suas atividades encerradas em março de


2008, perfazendo um total de 15 meses, sendo que as ações propostas pelo grupo
foram distribuídas nas diversas estruturas organizacionais envolvidas na
confiabilidade das bombas centrifugas. O acompanhamento sistemático da
evolução da implantação das ações propostas é realizado pela coordenação de
confiabilidade da UN-RLAM.

4. MODELO DE ANÁLISE
Com a equipe montada e pelo seu perfil multidisciplinar o GT optou em desenvolver
uma abordagem abrangente da confiabilidade em bombas centrífugas. Esta
abordagem é fruto do sucesso parcial de outras iniciativas que possuíam uma visão
tecnicista do assunto, produzindo ações corretivas concentradas na alteração física
dos equipamentos. A visão sistêmica adotada pelo grupo permitiu o
aprofundamento das questões, principalmente relacionado com o comportamento
humano na interação deste com o sistema.

4.1 O Desenvolvimento do Modelo

Com a nova abordagem sai do centro dos questionamentos o equipamento e entra


a falha, na perspectiva de se identificar quais os fatores, técnicos e humanos, que
possuem influência na recorrência de falhas das bombas centrifugas, explicitado na
figura 1.

Pode-se perceber que os fatores identificados no lado direito abordam os aspectos


da interação homem-máquina da operação e da manutenção do equipamento.
Aspectos como competência, procedimentos e ferramentas que garantem a
qualidade da interação homem-máquina foram alvo de avaliação do grupo.

No outro extremo da figura estão explicitados os fatores que definem a qualidade do


ambiente em que a operação e manutenção destes equipamentos são realizadas,
isto é, determinam o quão este ambiente é propicio ou não a introdução de erros
pelos atores do lado direito da figura, operadores e oficiais de manutenção.
4.2 Resultados da Análise do GT de Bombas

Nesta perspectiva foram abordados os assuntos abaixo com suas linhas de ação.
• Processo. Foram avaliados quão estáveis são as unidades processos, de
forma a propiciar ao operador um ambiente em que as intervenções sejam
precedidas de uma análise profunda da condição operacional. Uma planta
em que os alarmes, malhas de controle abertas e eventos anormais ocorrem
com freqüência, aumenta a chance de erros humanos, pois solicitam do
operador excessivas intervenções na planta. As ações identificadas para a
promoção da disciplina operacional de operação das unidades, estão listadas
abaixo.
o Gestão dos Processos Operacionais (GPO). Desenvolvimento de
software que monitora a performance, on-line, de variáveis de
processo quanto à: manutenção dos seus valores dentro dos limites
operacionais; e a violação destes limites. Identificadas como críticas e
vitais, estão distribuídas nas dimensões: Segurança de Processo,
Confiabilidade Operacional, Otimização e Resultado.

Figura 1: Modelo de análise de confiabilidade em bombas centrífuga


o Ronda Operacional. Foi sistematizado o registro da rotina de
verificação das variáveis críticas de processo que estão disponíveis
apenas no campo, realizada pelo operador. São armazenadas em
software específico que compara valores, gerando alertas de correção
das anormalidades. Desta forma é possível avaliar a realização da
ronda em todos os turnos, as anormalidades e o tratamento das
mesmas.
• Projeto. Nesta dimensão foi avaliada a influência do ambiente na
performance humana, identificando os projetos dos equipamentos e sistemas
com grande potencial de induzir os oficiais de manutenção ao erro. As
atividades abaixo explicitam a análise, porém devido à necessidade de
investimentos as soluções são de médio e longo prazo.
o Selos mecânicos tipo componente. Este tipo de selo exige do
mecânico a realização de uma quantidade excessiva de medidas para
que o selo seja montado corretamente. Isto propicia um ambiente
suscetível a erros tanto na seqüência de montagem dos componentes
do selo quanto na medição em si dos espaços entre estes. A opção foi
adotar um programa de modernização de selagem com selos tipo
cartucho em que a montagem ocorre independente do equipamento
propiciando testes de aceitação.
o Requalificação de estoque. Foi desenvolvido um programa de
requalificação de 6000 sobressalentes com os principais fabricantes
de bombas e acionadores. Esta ação visa disponibilizar
sobressalentes originais minimizando a carga de análise e correção de
itens a serem substituídos durante o reparo.
• Gestão. Neste aspecto foi analisado como as estruturas organizacionais
promovem a cultura da confiabilidade na UN-RLAM. A principal ação
decorrente desta avaliação foi à reestruturação do modelo de gestão da
confiabilidade com a implantação das células de integridade de
equipamentos e as células de disciplina operacional. Este dois pilares,
integridade e disciplina operacional, são a base da garantia da confiabilidade
de bombas.
• Operação. Aqui foi avaliado o programa de desenvolvimento de competência
dos operadores para a operação das plantas dentro dos seus limites de
projeto. Outro aspecto verificado foi à qualidade dos procedimentos utilizados
na operação das bombas centrifugas. Destas análises foram identificadas,
entre outras, as seguintes ações:
o Desenvolvimento de Competência. Desenvolvimento de um curso
focado nos fenômenos mais comuns vivenciado pela operação com
grande potencial de falha para as bombas.
o Procedimentos. Desenvolvimento dos procedimentos de operação
das bombas centrifugas baseado nas boas práticas de operação e na
experiência acumulada dos operadores. Nestes procedimentos estão
sendo empregados os conceitos de confiabilidade humana.
• Manutenção. Aqui foi avaliado o programa de desenvolvimento de
competência dos mecânicos e lubrificadores para as intervenções nos
equipamentos, como também as práticas utilizadas atualmente nestas
intervenções. Este enfoque avançou fortemente no conceito de confiabilidade
humana e é o que será detalhado neste trabalho.

5. A CONFIABILIDADE HUMANA
Sob a expressão Falha Humana cabem muitas linhas de pensamento em nosso
mundo moderno. Segue rápida revisão e as linhas de aplicação nas tarefas de
manutenção que foram determinantes no desenvolvimento deste trabalho.

5.1 Abordagens Tradicionais

Tradicionalmente o primeiro ataque para reduzir as falhas humanas é mudar,


direcionar ou selecionar o comportamento humano para uma determinada tarefa. As
medidas vão de mudança cultural e conscientização para o problema, treinamentos
constantes, criação de procedimentos padronizando a forma de agir e escolha do
perfil pessoal para a tarefa específica.

São ações em busca de um “ajustamento” do comportamento humano a uma


realidade de tarefa, uma solução usada desde os primórdios da revolução industrial.

Desenvolvida principalmente na Indústria de Energia Nuclear, com o objetivo de


avaliar o risco da planta, a expressão Confiabilidade Humana foi concebida da
mesma forma que confiabilidade de sistemas, uma probabilidade de sucesso/ falha.
Muitos métodos foram desenvolvidos para obter um valor para cada tarefa
específica, e usou-se principalmente dos simuladores para obterem estes dados. [1]
[2]

Da mesma forma que a confiabilidade de sistemas, usam-se as técnicas de árvore e


falhas e de árvores de eventos para realizar a análise. Estas técnicas buscam um
valor qualitativo, e a experiência no seu uso levou a um conhecimento maior.
Apesar de muito usada inicialmente, encontrar um valor de uma falha humana
específica é meramente uma referência para se preencher uma análise em que o
homem é participante de um sistema maior, e é bastante criticado pelas disciplinas
fora da engenharia. [3] [4]

5.2. O Estudo da Falha Humana na Manutenção

O Primeiro segmento a tratar o assunto falha humana de maneira cientifica foi a


indústria nuclear. Como a operação representava uma quantidade maior de falhas
humanas, um enfoque grande foi dado a esta área.

O Transporte Aéreo aparece logo em seguida no estudo sobre o assunto. Como as


ações sobre as falhas de tripulações já haviam avançado muito, buscou-se outras
fontes de risco. Neste ponto ficou evidente a falhas de manutenção. O Acidente na
Aloha Airlines no Havaí 1989 foi um marco para o governo americano estabelecer
novas políticas para o estudo da falha humana na manutenção de aeronaves,
posteriormente acompanhado por vários países com tráfego aéreo significativo. [5]
5.3. Soluções para Aumentar a Confiabilidade Humana na manutenção

Apesar de várias visões não há consenso sobre um método que seja capaz de
agrupar todas as questões envolvidas na complexidade do desempenho humano
em uma tarefa. Mas muitas ações podem ser tomadas, particularmente se falamos
em falhas humanas na manutenção de equipamentos.

Na área de petróleo existe a referência da API 770 (versão Fev 2001) [6], que
resume as suas linhas de ação, como se segue:
• Boas Práticas de Engenharia de Fatores Humanos no projeto;
• Uso de Procedimentos bem Desenhados no lugar dos procedimentos
tradicionais no estilo narrativo;
• Reprojeto das Interfaces Homem/Máquina;
• Redefinição da sinalização de válvulas.

No caso da aviação, para reduzir as falhas de manutenção, o governo dos USA


estabeleceu as seguintes estratégias: [5] [7]
• Identificar os eventos mais comuns e suas causas criando bancos de dados;
• Melhoria da Qualidade dos procedimentos escritos – adequação ao usuário;
• Avaliações sobre as necessidades para formação de mecânicos e inspetores;
• Avaliação do ambiente de trabalho – cultura de segurança;
• Desenvolvimento de interfaces homem-máquina de auxílio à manutenção;
• Desenvolvimento do MRM – Gerenciamento dos Recursos de Manutenção.

Em comum o redesenho de procedimentos adequado aos usuários é percebido nas


duas análises como importante fator no desempenho na manutenção de
equipamentos. As linhas de ação de correção propostas pelo governo Americano
coincidiram com as demandas identificadas pelo GT. Este fato reforçou a adoção da
confiabilidade humana principalmente nos seguintes temas:

• Redesenho dos procedimentos;


• Identificação das necessidades da formação dos mecânicos;
• Redefinição dos papeis dos executantes e técnicos de manutenção.

6. METODOLOGIA

Visando abordar os três temas acima identificados adotou-se um estudo completo


da tarefa, reparo de bombas, colocando no centro o executante. Para tanto foram
adotadas as seguintes técnicas:
• Análise de Tarefa (“Task Analisys”) com foco na identificação dos requisitos
necessários a bom desempenho da tarefa pelo executante;
• CARMAN (Consensus based Approach to Risk Management) com foco no
desenvolvimento de procedimentos compatíveis com os executantes. [8]
6.1 Análise de Tarefa

Para compreender melhor os requisitos necessários para a realização de uma


tarefa com sucesso e desenvolver procedimentos adequados com a realidade, um
método de análise da tarefa precisa ser aplicado.

Kirwan (1993) [9], em seu livro resume diversas técnicas sobre a análise de tarefa
mostrando as abordagens mais próximas dos modelos de engenharia sobre o
assunto. Já Leplat et all (1990) [10] e Guerin et all (1997) [11], com uma abordagem
filosófica sobre o tema ergonomia, chama a atenção para os processos
demandados ao executante no desempenho da tarefa pelos diversos agentes
envolvidos, fato este não percebido pelas técnicas descritas por Kriwam. Neste
trabalho optou-se por uma combinação das duas visões, de forma a obter o máximo
de informações das observações da tarefa.

Com este objetivo foi analisado todos os agentes envolvidos, internos ou externos a
tarefa (como a tecnologia e a Supervisão) e internos ou externos à organização
(como as políticas da empresa e o fabricante do equipamento), que possuíam
impactos direto na qualidade da execução da tarefa.

6.2 Desenvolvimento de Procedimentos

Em seu trabalho sobre procedimentos escritos em ambientes de alto risco, Embrey


(2006) [8] aborda um aspecto que trata sobre a dificuldade nos métodos de traduzir
a realidade da tarefa, que ele conclui ser a razão pela qual os procedimentos
escritos não são usados.

Embrey (2006) discute que um dos grandes problemas que afetam a produtividade
na área operacional da indústria e dos serviços é a não aceitação dos
procedimentos na rotina. Assim, ele realizou enquete no Reino Unido, e os motivos
seriam: as pessoas preferem se basear na sua própria habilidade/ experiência não
aceitando o que outros preparam através de procedimentos; outras tantas pessoas
assumem saber qual é o procedimento, portanto, não precisam segui-lo à risca; por
outro lado, na enquete as pessoas afirmam que se o procedimento for seguido à
risca pode não ser feito no tempo e, finalmente; as pessoas não são avisadas sobre
a existência destes novos procedimentos.

Para tratar o problema sobre qual o tipo e formato de documento escrito, Embrey
(2006) propõe um método, chamado de CARMAN (Consensus based Approach to
Risk Management), levando as práticas de trabalho, as tarefas reais, como base
para alimentar o gerenciamento dos riscos. Os grupos de trabalho buscam escrever
um procedimento com as melhores práticas, trazendo a experiência do campo para
análise e desenvolvimento de procedimentos da tarefa.

Usando como referência o CARMAN os procedimentos foram redesenhados nos


aspectos técnicos e no tipo de documento, onde a metodologia sugere três níveis, a
saber: Procedimento Passo a Passo; Auxílios a Memória; e desenvolvimento de
habilidade, onde não é necessário documento escrito. Já para os aspectos
ergonômicos da interação homem/documento foram usados os check-list existentes
nos diversos livros sobre o assunto falha humana [5]. A linha mestra foi: ‘Mais vale
uma imagem do que 1000 palavras’ – procedimento deve ser bem Pictorial!

Em parceira com o SENAI-CIMATEC e com a consultoria da RPBC/MI/ED a UN-


RLAM, aplicou a metodologia de análise de tarefa (Task Analysis) para identificar os
documentos, os conhecimentos, as habilidades necessárias aos executantes e aos
membros da assistência técnica envolvidos nas manutenções dos equipamentos.

7. ESTUDO DE CASO
Em parceira com o SENAI-CIMATEC e com a consultoria da RPBC/MI/ED a UN-
RLAM, aplicou a metodologia de análise de tarefa (Task Analysis) para identificar os
documentos, os conhecimentos, as habilidades necessárias aos executantes e aos
membros da assistência técnica envolvidos nas manutenções dos equipamentos.

O equipamento escolhido para iniciar o trabalho foi a bomba “back pull out”, figura 2,
na tarefa de manutenção corretiva já que este tipo de equipamento concentra mais
de 60% das intervenções em bombas centrífugas na unidade estudada.

Figura 2. Configuração típica de uma bomba “back-pull-out”. Fonte. API 610 10º
Edição.
A tabela abaixo explicita as etapas desenvolvidas pela equipe e os tempos
estimados de realização. Em negrito estão as atividades que mais impactaram
positivamente na reestruturação da forma de intervenção nas bombas centrífugas.
Tabela 1
7.1 A realidade da Tarefa
Um dos primeiros diferenciais foi a avaliação, presencial e por entrevista, das
tarefas desenvolvidas pelos mecânicos nas unidades e nas oficinas. Nesta
avaliação foi possível identificar as condições de realização das tarefas, os
instrumentos e os procedimentos, como também os conhecimentos e as habilidades
necessárias.

Já nesta avaliação foi possível identificar uma incompatibilidade entre o nível de


precisão das medidas, centésimo de milímetro, com as posições de medição,
principalmente as executadas no campo. Outro ganho desta etapa foi o aumento
significativo da relação de confiança entre os executantes e supervisores com o GT,
já que o tratamento do assunto estava se dando no nível e com os atores que
efetivamente participam do processo.

Os aspectos observados nesta etapa forem:


• Análise baseada na MEDIÇÃO - 83 PONTOS de Medição
• Uso de vários TIPOS de Instrumentos, com escalas diferentes;
• Métodos de Medição inadequados para garantir Repetitibilidade e Exatidão;
• Erros evidentes de uso do instrumento de medida;
• Registro das medidas muitas vezes feito posteriormente;
• Muitas dúvidas entre executantes do local exato de medição.

7.2 O mapeamento das tarefas e seus requisitos


A aplicação da análise de tarefa, “Task Analisys”, permitiu uma avaliação profunda
dos requisitos necessários para a realização da tarefa com qualidade. O reparo de
uma bomba centrífuga pode ser resumido nos passos descritos na figura 3. Durante
as discussões, nas primeiras reuniões e entrevistas ficou claro que a Cultura de
trabalho nesta indústria tinha um foco no DIAGNÓSTICO e REPARO. A
preocupação era garantir que não houvessem erros durante a montagem, fazendo
com que se perdesse tempo nesta etapa. Isto era devido a toda a tramitação
burocrática para compra de materiais e pagamento de serviços a contratada. O
tempo e a energia envolvidas nestas etapas colocava menos foco em etapas onde
geralmente aparecem falhas humanas, MONTAGEM e INSTALAÇÃO.

Figura 3. Principais passos para reparo de uma bomba centrífuga.


Baseado no período de observação das atividades desenvolvidas pelos mecânicos
e dos requisitos técnicos do processo de reparo destes equipamentos foi possível
elaborar uma análise de tarefa completa da atividade (exemplo na figura 4).

Figura 4. Exemplo da Análise de Tarefa, “Task Analisys”.


Este mapeamento foi peça fundamental para a determinação das ações de melhoria
nos procedimentos de execução, nos métodos de medição e instrumentos
utilizados, no desenvolvimento de competência e por fim nos papéis dos
executantes e dos técnicos de manutenção.
• Procedimentos de Execução. Fazendo uma análise da perspectiva dos
executantes observou-se que os padrões existentes não contribuíam para
auxiliá-lo no desenvolvimento de suas atividades. Os antigos padrões eram
excessivamente dissertativos, com linguagem pouco amigável, sem destacar
os itens críticos de sucesso das atividades. Para identificar quais as
atividades são passiveis de uso de suporte escrito, usou-se a método
CARMAN, que resultou na figura 5.
Figura 5. Identificação das tarefas que necessitam de procedimentos.

Outro produto desta fase foi a reformulação dos procedimentos de execução, onde
teve o executante como seu principal cliente. Os procedimentos antes de depois da
reformulação estão nas figuras 6 e 7 respectivamente.

Figura 6. Procedimentos Antigos.


Figura 7. Procedimentos Atuais.

• Métodos de medição e os instrumentos utilizados. O processo de medir


requer domínio de METROLOGIA, com seus conceitos associados de
Sensilibilidade, Exatidão, Calibração, Ajuste e Tolerância. ‘Medir Bem’ é uma
habilidade, e que nem todos possuem. O que se observa nas atividades é
que o valor da medida é um referencial para a tomada de decisão. A
definição da condição do equipamento é um conhecimento tácito e de
domínio em ajustes e tolerâncias. Como os reparos eram fundamentados nas
medições e esta era uma fonte de erros significativa, seja pelas condições de
realização ou pela habilidade dos executantes, muitos reparos eram
executados baseados em informações de medições errôneas impactando
diretamente a qualidade, tempo e custo do serviço.

Nas discussões observou-se que havia uma visão diferente quando se


tratava de Grandes Máquinas – enquanto nas bombas se media muito e se
faziam muitas intervenções nas grandes máquinas eram feitos poucos
reparos, até pela dificuldade que isto representa. Apesar das intervenções
nas grandes máquinas serem realizadas de forma cirúrgicas, estas
apresentam alta disponibilidade, mesmo trabalhando em condições severas.
Portanto a medição excessiva nas bombas era uma fonte de erro humano na
determinação e execução da intervenção o escopo do serviço.

O número excessivo de medições acarretava na utilização de vários


instrumentos de medidas em condições ergonomicamente complexas. O
aumento da variabilidade e complexidade dos instrumentos medição,
associados com as habilidades requeridas para a utilização criava-se um
ambiente propício ao erro humano.
Diante do exposto as ações de correção implementadas para minimização do
erro humano nesta etapa foram as seguintes:
o Plano de capacitação dos executantes contendo o desenvolvimento e
aperfeiçoamento dos conhecimentos e das habilidades, principalmente
tarefa de medir.
o Redefinição dos papéis dos executantes e técnicos de manutenção
visando a determinar a função no processo de reparo das bombas.
o Racionalização das medições realizadas e instrumentos utilizados no
processo de reparo dos equipamentos.A Tabela 2 representa o obtido
com a aplicação desta ação de correção. Os executantes passaram a
utilizar apenas o relógio comparador para realizar todas as medidas.

Tabela 2 - Quantidade de medições antes e depois


ETAPA Antes Depois
Remoção 4 0
Desmonta 58 14
Montagem 18 17
Instalação 3 2

TOTAL 83 33
.
• Desenvolvimento de competência. Das observações realizadas nas
práticas de execução, dos requisitos de qualidade técnicas do reparo e dos
cursos de capacitação realizados nos últimos anos, percebeu-se uma lacuna
no desenvolvimento e aperfeiçoamento das habilidades requeridas pelas
tarefas, principalmente aquelas específicas de medição. Foi desenvolvido
em parceria com o SENAI/CIMATEC um curso e disponibilizado para
qualquer empresa que atua no mercado de manutenção de bombas, sendo
exigência contratual para as empresas que atuarem dentro da UN-RLAM.

• Os papéis dos executantes e dos técnicos de manutenção. No processo


percebeu-se que o escopo do serviço, não chegava de forma definida para
os mecânicos. A indefinição do escopo do serviço permitia que os
executantes fizessem a desmontagem completa dos equipamentos, no intuito
de avaliar e corrigir detalhadamente o mesmo visando a garantia da
qualidade do reparo. Esta condição aumentava a quantidade de serviço,
medições, e instrumentos utilizados no reparo. A ação de correção foi o
aperfeiçoamento da utilização das técnicas preditivas e preventivas na
determinação do diagnóstico e definição do escopo do serviço, pelos
técnicos de manutenção mais experientes. Aos mecânicos coube a tarefa de
realizar os reparos conforme os escopos de serviços definidos com a
aplicação das melhores práticas de intervenção.
8. RESULTADOS

A adoção de uma nova metodologia de reparo destes equipamentos contribuiu de


forma direta e/ou indireta para os seguintes resultdos:
• Tempo Médio Para Reparo (TMPR). Redução do TMPR devido a
minimização dos escopos de serviços e racionalização das tarefas de
medição. O gráfico 1 representa a media mensal e acumulado de 12 meses.

Gráfico 1. TMPR após aplicação da nova metodologia.

• Consumo de mancais. A precisão da definição do escopo de serviço


permitiu intervenções de manutenção mais cirúrgicas recuperando apenas
as regiões que realmente deixaram de desempenhar suas funções. Com
isso a abertura completa do equipamento deixou de ser um padrão de
serviço,. No gráfico 2 é representado o consumo médio mensal e acumulado
de 12 meses de mancais por intervenção.

Gráfico 2. Consumo de mancais por intervenção após aplicação da


metodologia.
• Disponibilidade de Equipamentos. O aumento da produtividade de
manutenção, redução do TMPR, associado com outras ações teve um
impacto direto na disponibilidade das bombas que possuem relação com a
garantia da continuidade operacional das unidades de processo e utilidades,
classificados como VIP´s. O gráfico 3 é representado a disponibilidade dos
equipamentos VIP´s após a aplicação da metodologia.

Gráfico 3. Disponibilidade de bombas VIP´s após aplicação da metodologia.

• Perdas de Processamento. A disponibilidade de equipamentos nas


unidades permitiram a continuidade operacional reduzindo significativamente
as perdas de processamento por bombas. Tomando como referência o ano
de 2005, o gráfico 4 representa a evolução em percentuais das perdas nos
anos de 2006 a 2008 e a projeção de 2009. Os valores de projeção de 2009
demonstram que o nível atual de perda é o melhor dos últimos 4 anos.

Perdas de Processamento devido a Bombas


Referência Ano de 2006

200%

180%

160%

140%

120%

100%

80%

60%

40%

20%

0%
2.005 2.006 2.007 2.008 2.009
BBA/Acumulado 100% 124% 187% 151% 29%

Gráfico 4. Perdas de processamento devido a indisponibilidade de bombas


centrifugas.
• Custo de Intervenção. A racionalização do escopo de serviço, associado
com outras ações de correção, contribuiu para a redução do consumo de
sobressalentes com impacto direto nos custos de manutenção. Tomando
como base o ano de 2007, o gráfico 5 representa a evolução, em
percentuais, da média mensal do custo de manutenção dos anos 2008 e
2009.
Média Mensal de Custo de Manutenção de Bombas
Referência Ano 2007

140,00%

120,00%

100,00%

80,00%

60,00%

40,00%

20,00%

0,00%
2007 2008 2009
Média Mensal 100,00% 122,09% 78,56%

Gráfico 5. Custo Mensal de Intervanção

9. CONCLUSÃO

A contribuição que este trabalho pode trazer vem da experiência no


desenvolvimento deste projeto, no qual a equipe absorveu conceitos fundamentais
sobre os fatores humanos que afetam o desempenho de equipamentos.

Muito se fala sobre o assunto Confiabilidade Humana, mas no mercado nacional as


aplicações na manutenção de equipamentos não são muito conhecidas. A
compreensão de que o domínio deste conhecimento e de suas metodologias de
implantação pode melhorar o desempenho dos equipamentos traz uma nova
dimensão às análises das tarefas de manutenção.

Nesta nova abordagem, onde sai do centro o equipamento e entra a falha, a


perspectiva de envolver os fatores técnicos, humanos e organizacionais demonstrou
identificar os caminhos das ações nos sistemas industriais complexos atuais.

10. REFERÊNCIAS
1. CENTER OR CHEMICAL PROCESS SAFETY. Guidelines for Preventing Human
Error in Process Safety. New York – NY. American Institute of Chemical Engineers,
1994.
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