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J. J.

Gremmelmaier

Amaná

Primeira Edição

Curitiba / Paraná
Edição do Autor
2012

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier

Autor: J. J. Gremmelmaier
Edição do Autor
Ano: 2012
Obra: Amaná

CIP – Brasil – Catalogado na Fonte

Gremmelmaier, João Jose

Amaná, Contos Indígenas, -- 18 pg. / João Jose


Gremmelmaier / Curitiba, Pr. / Edição do Autor / 2012

1. Literatura Brasileira – Conto – Infantil - I - Titulo

85 – 0000 CDD – 978.000

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier

Amaná

Jota começou a falar de contos infantis, e obvio, Amaná


entra em suas pretensões de escrever, pois começou a
perguntar a um, a outro, e ninguém lhe dava a resposta
que queria:
— Já ouviu falar de Amaná?
As bases deste livro rápido urgiram em uma conversa
entre João, sua Filha Fernanda, o estudioso alemão
Helmut, e a tradução de livros referente a cultura dos
Índios Brasileiros em Frances, Alemão, para falarmos de
Amaná.

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier

É uma pretensão minha de falar de uma Deusa,


sou eu a chamando de Deusa, não os indígenas
locais, a única na cultura dos índios locais, a criadora
de tudo, Amaná!
Queria agradecer a Fernanda Diniz, pelos
relatos traduzidos do Frances, obtidos na biblioteca
de Sorbone, queria agradecer a Helmut Dieter,
alemão de nascença, mas no Brasil a mais de 20
anos, que vem com os textos em Alemão, me
permitindo ter uma ideia de como pensavam os
índios antes da Catequização forçada dos Jesuítas no
Brasil.
Por último, quero pedir desculpas aos Religiosos
que sentirem-se ofendidos, já que até hoje não
entendem, que direito a credo, é diferente de ser um
demônio, que assim como eles podem ser cristãos,
os indígenas tinham direito a seguir sua deusa, se
considerar que quem criou deuses como Tupã,
foram os jesuítas, quem criou um falso seus não
foram os Índios, a adoração a Deus Lua nunca
existiu entre eles, desculpa, mas a Pascoa Cristã-
Judaica, é baseada na lua, e isto não os tornou
adoradores da Lua, se não entendem de cultura
Indígena, não falem sobre o que não entendem.

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier
Prólogo
Este texto, vai tentar desmistificar o que se tornou mito depois
da semana de arte moderna de 1922, o mito pelo qual, transformou
e adulterou toda nossa cultura, a existência dos índios, a cultura
deles, a visão distorcida da classe media e alta que viviam em
grandes capitais como Rio e São Paulo, então este texto parte do
pressuposto de desmontar o que você acredita que era o índio
brasileiro. Tenho de dizer que quando li os primeiros relatos dos
textos franceses sobre o índio brasileiro, fiquei descrente da
autenticidade, tive de ler e reler, tive de reconstruir, me imaginar lá,
pois fazem mais de 500 anos que os Europeus transformaram o
Índio em um preguiçoso, e é incrível como o povo absorve lendas e
as transformam em real.
E o pensamento deste obra, aconteceu ao acaso, quando ouvia
uma apresentação de comemoração de 80 anos do grupo
Caprichoso, em Parintins, imagine o fato, pois aconteceu, você
lendo um texto traduzido por sua filha, do francês, dos anais dos
documentos transcritos dos primeiros índios que eles tiveram
contato no nordeste, afirmando depois de umas 50 paginas, que
Tupã era invenção dos Jesuítas, e se depara com uma canção como
se fosse representação de uma cultura indígena, homenageando o
Deus Tupã. Talvez para a maioria das pessoas, não lhe passasse
verificar, transformar em uma historia, ela sempre me chama de
extremista mesmo, mas pode contar, depois disto, requereu quase
dois anos lendo coisas referente aos indígenas brasileiros, estranho
o que os Jesuítas transformaram a historia dos índios, incrível o que
fizemos com eles, com a assinatura de um Deus. Foi esta
constatação que fez surgir alguns temas que pretendo contar. Estas
poucas linhas, mas tentando ser sucinto, em algo que requer muito
estudo.
J.J.Gremmelmaier

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier

Vou tentar fazer explanações curtas, e dinâmicas,


em contos e falas rápidas, até ganhar estrutura de
historia.

O nome do titulo desta conversa informal é Amaná,


mas vamos falar de seus filhos, da crença de
algumas tribos, do pouco que sobrou destas
crenças.
Vamos falar da criação dos Pajés, explicar o que as
vezes não se fala sobre a cultura indígena, da
influencia dos Brancos na sua cultura e no que
chamamos de Cultura Indígena atual, mas em texto
leve e espero que objetivo.

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier

Primeira Parte

Estamos em um campo, em Curitiba, de frente a


um lago, o pequeno Pedro
pergunta para sua mãe Irá;

— Mãe, como era aquele


conto que me falava, sobre
Amaná!

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier
A senhora sorri, abraça o filho agora com 12
anos;

— Filho,
estas terras um
dia foram de
seguidores da
grande Deusa,
ainda estranho
ter nascido em
uma época que
tudo já tem
dono, que as
terras não são
mais livres, tem
proprietário ou são reservas de uma nação!
Nascemos em um mundo que tudo tem dono, nada a
conquistar, a não ser nossa própria historia a contar,
descobrir nossas origens, escolher por nós seguir
nossa Deusa.

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— Seus pais a seguiam?

— Não, há
muito é proibido
falar dela nestas
terras!

— Como
proibido?

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— Amaná para
os povos locais,
era a fonte de
energia que tudo
gerou!

— Como fonte de
Energia?

A senhora, cabelos
negros longos, olha o lago pensando em como
explicar isto.

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— Para o
povo destas terras
filho, a força
sempre foi algo
com tom
feminino, pois a
energia que tudo
fez, era tido como
um ser sem sexo,
mas que gerou
dois grandes
filhos, e para os
nativos, quem gerava era a mãe, então era um ser
sem conotação de sexo, mas que era respeitado
como as geradoras de vida, alguns povos a
chamavam de Jurupari, os colonizadores a
transformaram, mudando seu sexo, a transformando
em um Demônio, matando todo cacique que falava
dela.

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— Por que disto mãe,


por que foram tão cruéis?

— Muitos falam
em direito a crença
hoje, mas na época ou
se era cristão, ou se
convertia ou morria,
no caso uma deusa
criadora de tudo, os
Jesuítas tiveram a
função de a
transformar em algo
ruim, e criaram deuses
como Tupã!
— Não entendi, Tupã não é crença indígena?

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— Não, foi
criado pelos Jesuítas
para contrapor em
poder Amaná, mais
para confundir do
que para qualquer
outro fim! Então é
fácil dizer hoje que
os locais seguiam
falsos Deuses,
quando os que os
criavam, eram os próprios Jesuítas. Estranho para
onde vai esta cultura da dor, do medo ao Deus, eles
se dizem cultos e religiosos, e tem medo de seu Deus,
nunca entendi fé por medo, para mim isto nunca foi
fé, é como respeito ao mais forte, não é verdadeiro, é
apenas medo, ou dar poder ao filho de Amaná.

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— Mas como é esta
Deusa?

— Deixar claro
que os povos desta
terra não tinham esta
noção, a palavra Deus
era estranha a eles,
pois as forças
naturais eles
compreendiam, mas
não adoravam como
Deuses, respeitavam
como forças, dizer
que eles adoravam a
Deuses da Natureza é
não compreender o que eles sentiam!

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier

— Não entendi mãe?


Eles não adoravam a lua?

— Esta confusão
vem de uma época
quando a igreja baseada
em Roma, dizia que a
terra era achatada, se
negava a influencia da
lua nas marés, negava-
se muitas coisas, então
todos os que entendiam
sobre época de plantio,
baseada na lua e nas
estações do ano, foram
tachados de acreditarem
em Deuses Pagãos, mas eles acreditavam em seus
olhos, e na existência de forças que ajudavam
quando feito na hora certa, no momento certo, eles

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier
não estavam adorando um Deus, estavam Cultivando
a Terra, estavam aprendendo e passando aos seus
filhos conhecimento, hoje se chamaria de técnicas e
ciências de plantio, na época, Bruxaria, Paganismo, e
tudo isto os homens da fé perseguiam como sendo
Demônios!

— E como eles
explicavam as marés mãe?

— Cada um tinha uma


explicação, não lembro bem
disto, mas não esquece que
para eles, os mares acabavam
em buracos sem fundo!

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier
— Como eles
acreditavam nisto? Não
pensavam que se fosse
assim a agua teria corrido
toda para lá!

— Filho, para você,


noções como ser natural as
coisas caírem, e ficarem
presas a um planeta, por
uma lei da Gravidade, a
mesma lei lhe induz que a
agua cairia toda, eles não
tinham, o que parece
natural hoje, era assustador para eles, um planeta
esférico, determinaria que uma hora estaria ele de
ponta cabeça, e cairia!

— Eles não sabiam da


Gravidade?

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier

— A teoria da gravidade
é de 1784, muito antes disto
haviam proibido falar de
Amaná nestas terras!

A senhora olhava a água, pega uma pedra a


beira e arremessa sobre o lago, a mesma salta duas
vezes e afunda.

— Mas Amaná era uma força criadora,


entendida pelos nativos desta terra como uma força
feminina, acreditava-se que em cada ser do sexo
feminino, seja ele animal ou humano, mesmo nas
plantas que geravam frutos, para os indígenas, seres
femininos, tinha um pedaço de Amaná!

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— Eles acreditavam que


em cada ser feminino tinha um
pedaço desta força, — o
menino pareceu parar para
pensar – esta fonte de energia como a senhora falou?

— Sim, mais um
motivo de perseguição, pois
embora eles afirmem que o
Deus deles não tem sexo,
eles impõem uma imagem
masculina a seu Deus, e na
crença deles, o homem veio
antes da mulher, somente
nas religiões derivadas do
Judaísmo, que se acha normal o homem vir antes da
mulher!
— Não entendi mãe?
— Filho, já ouviu muitas vezes, o termo, quem
veio antes, o ovo ou a galinha?
— Sim, nunca vão descobrir, pelo jeito!

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— Por que nunca ninguém perguntou quem veio


antes, o ovo ou o galo?

— Por que ele não bota


ovo!

— A pergunta é bem
para induzir que o ovo veio
antes, pois somente assim
um ser do sexo masculino
nasceria antes, mas a
resposta é mais complexa, se
viesse apenas um ovo, o ser
nasceria e não deixaria
descendentes, todo ser que
acha que o homem veio antes, deveria se perguntar
por que Deus faria algo assim?

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— Acha que as forças são


mais fortes nas mulheres?

— Não estamos falando


dos músculos filho, os
nativos desta terra não se
viam como superiores aos
demais seres, viviam em
harmonia com eles,
respeitavam eles, mas
levamos azar na invasão
europeia!
— Azar?
— Toda a cultura foi roubada ou distorcida, não
tiveram nem o respeito de contar a verdade, os
relatos em Português, matam os Deuses reais e
avançam ao futuro como se a invenção dos Jesuítas
fosse a crença local!

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier
O menino olha para a mãe e fala;

— Mas a senhora ainda


sabe a história!

— Filho, tive sorte,


quem mais contou sobre
nossa cultura, foram livros
Franceses, Holandeses e
Alemães, o ultimo traduzindo
testos dos dois primeiros,
quando tiveram invasões em
nossas terras!
— Então os portugueses
nunca contaram a verdadeira história dos nativos do
Brasil?
— É só ler um pouco filho, mas Amaná ainda é
uma história que pretendo contar a meus netos!

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier
O menino sorriu abraçando a mãe.

— Filho, Amaná nos ensina a respeitar o todo


que fazemos parte, respeitar primeiro seu corpo,
depois o meio que o cerca, os seres a sua volta,
entendendo, que você faz parte disto, em harmonia
com o meio, vai sorrir mais, viver melhor, ter amigos
e seus filhos o respeitarão,

— Lembra filho, quando contava aquelas


Histórias?

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier

— Lembro mãe, gostava


da forma que contava sobre os
filhos de Amaná! – O menino
lembra da estória e continua –
Contava sobre Tamusi e Yolokantamulu, irmãos
gêmeos, iguais na aparência mas totalmente opostos
nos sentimentos, Tamusi, representava o justo, o
bom, o lado que todos tentavam alcançar,
Yolokantamulu, o ser que era a parte negativa, o lado
que todo ser desta terra tentava se deixar levar, o
lado negativo, preguiçoso, invejoso, com todos os
seus males, lembra que enquanto um fazia de tudo
para que os nativos estivessem bem, sempre
Yolokantamulu tentava destruir esta felicidade. —
Lembro, a dualidade do bem e do mal, do produtivo e
do improdutivo, do correto e do errado, todas as
tantas estórias que falava de cada um puxando para
um lado.

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— Filho, os filhos de
Amaná sempre foram a
forma dos nativos
entenderem se estavam em
um caminho de felicidade ou
de desgraça, então a noção
de ser supremo deles,
mostrava que tanto o bem
quanto o mal esta contido no reino de Amaná, eles
não separavam um lugar bom no céu e um ruim no
inferno, eles acreditavam que tudo era o mesmo
reino, e que qualquer ser, poderia sair de um lado
ruim e ir para o bom.
— Acha que eles
acreditavam que tudo era
regido por uma força maior, as
vezes fico na duvida mãe se
eles estavam tão adiantados
nos pensamentos assim, os
professores tentam nos induzir a imagem preguiçosa
dos nativos desta terra. Fico olhando a diferença,
entre o que me conta e o que as vezes tenho de
escrever para passar de ano mãe!
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— Filho, tem de
distinguir o que a sociedade
conta do que é real!

— Como assim mãe?


— Quem lhe disse, que
cidades são melhores que
campo?
— Ninguém diz isto mãe!
— Verdade, eles induzem que lá não tem
estrutura, escola, hospitais, não tem internet, não
tem asfalto bom para chegar, que não tem
supermercado perto, que existem bichos, como
cobra, eles não dizem que a cidade é melhor, eles
dizem que o campo é bom, temos de plantar arvores,
que temos de preservar a Amazônia, a cultura dos

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indígenas, mas desculpe, eles falam de uma forma a
ninguém ir para lá!
— Mas eles estão
mentindo?
— Faltando com a
verdade, pois lá tem escola, não
as com computadores, com
internet, tem escola com
cadernos e livros, onde as pessoas tem de procurar
nos livros os assuntos, não
digitar no Google o assunto e
ela sair pronta em segundos.
— Mas isto é a
modernidade mãe!
— E quem disse que a
modernidade é boa filho?
Eles te induzem cada dia
mais comer coisas com
conservantes, com açúcar, com sal, quem precisa
disto para ser feliz!
— Acho que todos mãe!
— Então eles nunca serão felizes, pois quando
eles terminarem de comprar algo, em algum lugar
estão lançando outras 100 coisas que ele não tem

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ainda, quando eles acharem que são livres, estarão
presos a regimes alimentares para reduzir colesterol,
açúcar no sangue, depressão, pois estas doenças são
novas, menos de 50 anos, e matam mais do que
picada de cobra!
— Mas acha que devemos
viver como os índios ao norte
do país?
— Não filho, aquilo
também é saudável, as pessoas
defendem a ideia de se manter
tradições, manter tradições não é se manter na era
da pedra!
— Então o que podemos fazer mãe?
— Filho, o ser indígena
tem de aprender a conviver,
a trabalhar, a cultivar, a
prosperar, deve aceitar as
leis, como alguns dizem
querer fazer parte, mas
querem manter os antigos
caciques, é como se
estivéssemos obrigando os
descendentes de português
ainda seguir o rei, a força, por lei, tudo mudou, não
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estamos mais em 1500, as reservas indígenas neste
país são controladas por órgãos federais, como se
fossem reservas naturais onde nada se pode fazer,
esta na hora do índio assumir suas terras, e
responder por elas, não para uma Funai, e sim, para
o estado a qual faz parte, para a nação que os
permitiu chegar até aqui!
— Mas acha que Amaná
seria a favor disto?
— A força criadora, quer o
ser evoluindo e preservando,
mas não vejo futuro em uma
humanidade que vive para o
consumo filho!
— Porque não mãe?
— Filho, Amaná,
pregava que a terra tudo
provem ao homem, mas o
homem, não quer mais
saúde, não quer mais paz,
não quer mais responder a
um Deus, eles querem
computadores, querem
sanduiches gordurosos,

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querem carros rápidos para ficarem em
congestionamentos, querem armas para manter a
sua paz, nem que acabando com a felicidade de uma
família inteira.
O pequeno Pedro olha para o lago e fala;
— Tem razão mãe, não estamos prontos para
um Deus que nos daria o que precisamos, e não o
que queremos!
— As vezes temos de falar mais sobre isto filho,
lhe deixar uma parte de nossa cultura.

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Segunda Parte

Acho que aqui tenho de explicar um pouco, na


cultura Indígena, Amaná é um dos nomes do ser
maior, mas quando os Europeus chegaram a América,
numa sociedade onde a mulher era tida como
inferior, a cultura a uma deusa, Mãe de todos,
geradora de toda a vida, entre elas, Tamusi e
Yolokantamulu, que eram a interpretação deles para
a dualidade do bem e do mal, que um não existia sem
o outro, muito mais profunda que a religião dos
Europeus na época, já seria motivo para matar quem
falava dela, mas imagine ainda na interpretação que
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eles tinham, que todos os seres femininos, eram em
parte representação de Amaná, pois tinham em parte
seu poder, o de gerar vida.

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— Vamos falar de Tamusi e


Yolokantamulu mãe?

— Sim filho, deixa eu


me apresentar ao leitor,
meu nome é Irá, um nome
muito comum entre os
meus, vou falar de dois
filhos da representação
maior, nossa origem, nossa
força inicial, Amaná.
— Tomasi, o filho
primeiro de Amaná, filho
que lhe representava o avanço, a colheita boa, o bom
tempo, as coisas boas, mas não esqueça filho, as
coisas boas para nós, não o que achamos bom, pois
hoje o Abá está querendo coisas que não lhe servem
para nada, e culpam seus deuses por não lhes darem
isto.

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— Yolokantamulu é o
negar de Tamusi pelo medo,
um vazio que surgia no índio
quando se deixava tomar
pelo medo, ele desandava e
tirava as forças do Abá, mas
o poder de Yolokantamulu é o medo. As vezes sinto
isto em pessoas que se dizem religiosos, eles temem
que não o aceitemos como são, que não entremos na
igreja eles, temem a Deus por isto o seguem, eles
estão mais no caminho de Yolokantamulu, e nem
sabem.
— Tomasi é a certeza
que estamos em terras que
Amaná impera, nos provendo
tudo, Tomasi tem no símbolo
o mel, os índios acreditavam
que era um ser na forma de
um ser que veio dos braços e
Amaná, uma fêmea que
surgia do mel, provendo a
polinização, as frutas, as flores, as riquezas na terra.
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— Yolokantamulu é o
medo, quando um índio
paralisava diante de um
Jaguar (onças variadas), este
era uma das representações
de Yolokantamulu, então
este ser representava a
morte quando se deixa de
acreditar, de ir em frente, de
enfrentar as coisas do
mundo de Amaná, se acreditava que um verdadeiro
Abá (homem), não temia os felinos, pois eles eram
parte da natureza, e os mesmos realmente evitavam
os acampamentos dos Abás, os respeitando.
— Tomasi é tido como
o defensor da fartura, das
coisas boas, mas ele tinha
muitas representações, que
foram sendo adulteradas,
uma delas, a força das
aguas, que quando usada
com inteligência, era
sempre um símbolo de
Tamusi, de sua irmã quando
apenas usada através do descuido, da preguiça.
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— Quando um Abá
formava sua família e
instalava muito a beira de um
rio, se acreditava que ele
estava dando forças a
Yolokantamulu, pois traria a
sua casa, os medos do rio,
como as serpentes e jacarés, a violência do rio em
dias mais tumultuado.
— Conta sobre aquela
historia de seres entre o bem e
o mal mãe.
— Entre os seres que os
Abás
respeitavam da natureza,
existiam os que eram parte
de Tamusi e os que faziam
parte de Yolokantamulu, dai
vem as forças inferiores, mas
em parte, a interpretação
delas foram adulteradas
todas para Deuses pagãos
pelos Jesuítas, então foram transformadas em
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Demônios. Talvez não entenda, mas tanto a Serpente
que na cultura Indígena representava Yolokantamulu,
quando a Abelha Rainha, representando a
fecundação, eram representações femininas.
— Na cultura Indígena,
existia os Saci, nada haver
com Monteiro Lobato, eram
a representação entre
Yolokantamulu e Tamusi, é
uma representação de
pequenos pássaros, na
forma de guerreiros, que
faziam muitas travessuras,
mas eles estavam entre o
bem e o mal. Diziam-se os Abás seres que também
estavam nesta linha, entre o bem e o mal, tentando
aprender com os dois lados, o verdadeiro caminho
para Amaná.
— Porque disto mãe?
— Pois os pássaros
cantavam antes do amanhecer,
anunciando Tamusi, e se
alvoroçavam anunciando
Yolokantamulu, ao anoitecer.
Os humanos sabiam que as beiras dos rios eram
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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier
perigosas a noite, e mesmo assim se aventuravam
em fazer suas cabanas sobre as águas, assim como as
aves, somos seres entre as duas forças, a de Tamusi,
e a de Yolokantamulu.

— Mãe, é por isto que


falam que Saci Pererê não é da
nossa cultura?

— Sim filho, a
representação que você
conhece por Saci Pererê, é
uma criação de Monteiro
Lobato, mas é difícil explicar
isto para quem confundiu a
historia, Saci era um ser que
estava na cultura indígena,
entre amizades entre a Cuca,
e o Curupira, Cuca a
representação do ser que limpava as margens de
todos seres que estavam fracos para continuar, os
devorando, e Curupira, que protegia as florestas e os
animais da floresta.

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier
— Porque deixaram estas
historias se perderem mãe?

— Não vivi aquela época


filho, mas como sempre
repito, está em todos os
livros deles, que as
sociedades indígenas eram
matriarcais, dai lhe pergunto,
qual das tribos atuais, ainda
mantem a senhora mais
velha na representação
maior, eles trocaram por
Chefes, Pajés, apagando a historia para que os
seguidores da Cruz tivessem razão.

— E como era a Cuca mãe?

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier

— Esta é parte da
historia que sei que os
jovens gostam, pois a ligam a
carnificinas, mas não, as
pessoas esquecem que tanto
Yolokantamulu quanto
Tamusi, são representação
de filhas de Amaná, ambas
tem seus filhos, toda a crença dos Abás, baseia-se na
existência da família, então desde os seres
rastejantes aos voadores, dos peixes aos botos, das
arvores aos insetos, existe uma família, e o equilíbrio
está não em manter uma arvore de pé, e sim uma
família de arvores, não me adianta ter uma abelha,
uma serpente, todos são partes de um fluxo, e com
exceção da grande mãe, todos nasciam e morriam,
então se hoje falamos de Tamusi, é da líder dos
Tamusi, se falamos de Yolokantamulu, é de sua líder,
mas desviei o assunto. – Sorri a
senhora.
— Verdade mãe, e como
era a Cuca.

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier
— Normal, uma família
da energia que se entendia
por lado ruim, mas o que mais
me chateia filho, é que
tínhamos uma cultura, que
poderia ter evoluído, chego a
conclusões, e não nos foi
permitido a evolução, mas é
uma família que vive da caça
aos fracos a margem,
limpando as margens, mas uma família que ainda
hoje se encanta pela luz, vejo hoje eles caçarem
jacarés usando algo cruel, apontando uma luz para
eles a noite, o símbolo dos Sacis a noite, a luz própria.
— Mas estes seres eram
inteligentes mãe?
— Filho, o ser humano se
considera inteligente, mas é
apenas arrogância, os
crocodilos estão aqui da época
das grandes aves, quando elas tomaram o mundo, ao
lado dos grandes seres herbívoros, na nossa crença
no passado não existiram os dinossauros, existia um
mundo de criaturas, alguns com penas, rápidos, os

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Amaná 1 – J.J.Gremmelmaier
carnívoros, os herbívoros, de grande tamanho, as
serpentes, os crocodilos e Amaná.
— E não acredita que ouve
uma extinção em massa.

— Nisto a ciência atual


concorda com nós filho,
todos os seres nascem e
morrem, alguns poucos
evoluem, mas em sua
maioria, quando se acham
superiores a tudo, geram
seres gordos, relapsos, e
entram em extinção.
— Mas e Amaná?
— Ainda vive, como os filhos, pois o bem, o mal
e a fecundação, geraram e geram ainda nestas terras
a vida, um dia talvez o ser humano tente acabar com
isto, mas dai será o fim da era dos Abás nesta terra.

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Os dois se abraçam e o menino sorri de
caminhar com sua mãe ao lado de um terreno que
depois de anos, voltava à família.

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