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O VENDEDOR

TEMA IV | ÉTICA OU FILOSOFIA MORAL

Título: O vendedor
Realização: Asghar Farhadi
Género: Drama/Thriller
Duração: 125’
Origem/Data: Irão/França, 2016
(p. 194)

Depois do visionamento atento do filme O vendedor responde às questões que se seguem:

1. Quem são Emad e Rama?

2. Que acontecimento marca o desenrolar do filme?

3. Como avaliaria Stuart Mill a agressão de que Rana foi alvo? Porquê?

4. Como avaliaria Kant a agressão de que Rana foi alvo? Porquê?

5. A busca de Emad pela identidade do agressor tem para Kant valor moral? Porquê?

6. A ação de Emad quando identifica o agressor tem para Stuart Mill valor moral? Porquê?

7. Considerando os momentos finais do filme que objeção podemos fazer à ética kantiana?
Porquê?
O VENDEDOR
TEMA IV | ÉTICA OU FILOSOFIA MORAL

Cenários de resposta
1. Emad e Rana são um casal da classe média iraniana que vive em Teerão. Durante o dia, Emad é professor
de literatura numa de ensino secundário só para rapazes; de noite, é ator e encenador. Rana é atriz. Estão a
ensaiar Morte de um caixeiro-viajante, de Arthur Miller. Porque o prédio onde moravam ameaça ruir e os
moradores foram evacuados, Emad e Rana têm de mudar de casa de um momento para o outro e vão
instalar-se num apartamento cedido por um colega da companhia de teatro.

2. Nos primeiros dias no novo apartamento, enquanto está a tomar duche, Rana é surpreendida e
sexualmente agredida por um estranho, a quem abre a porta pensando tratar-se de Emad. A mulher,
derrotada pela vergonha e pelos valores da sua tradição cultural, decide não apresentar queixa à polícia.

3. Stuart Mill consideraria a ação do agressor como claramente imoral, errada. Para Mill, consequencialista,
o critério para avaliar a moralidade de uma ação é o princípio da utilidade ou da maior felicidade, segundo o
qual uma ação será correta se, e só se, promover imparcialmente a maior felicidade agregada (prazer e
ausência de dor). A ação do agressor de Rana está em contradição com este princípio. Não só não
maximizou a felicidade (prazer), como promoveu dor para todos os envolvidos, de Rana, antes de todos, a si
próprio.

4. Kant consideraria a ação do agressor como igualmente imoral, errada. De acordo com Kant,
deontologista, a violação de alguém é uma ação contra o dever incondicional de não maltratar pessoas.
Instrumentalizar Rana, usando-a como um mero meio ao serviço dos seus fins, como faz o agressor, é
desrespeitar a autonomia de Rana, pois obriga-a a fazer o que não quer. Além disso, a máxima do agressor
não pode ser universalizada, sem que se derrote a si mesma. Não resiste, por isso, ao critério kantiano para
avaliar a moralidade de uma ação, o imperativo categórico: age apenas segundo uma máxima tal que
possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal.

5. Emad lança-se na busca pela identidade do agressor, motivado pela humilhação e pelo desejo de
vingança, mais do ultraje que ele próprio experimenta do que por solidariedade com Rana. Para cumprir os
seus intentos, mente e usa várias pessoas como meros instrumentos para os seus fins, nomeadamente um
aluno cujo pai trabalha na divisão de trânsito da polícia. Age, assim, em função de inclinações e desejos e
não, exclusivamente, do dever. A sua ação não é racional e não tem, por isso, para Kant, qualquer valor
moral. Ainda que o motivo não fosse a preservação da sua honra ou o desejo de vingança, mas sim a
solidariedade e compaixão em relação a Rana, continuaríamos a estar perante uma busca desprovida de
qualquer valor moral. A máxima da ação não seria o imperativo moral ou categórico, mas um imperativo
hipotético, condicional.

6. Não. Enquanto agente moral, Emad está, para Mill, sob a obrigação ética de fazer escolhas que,
ponderadas todas as alternativas possíveis ou conhecidas, resultem na maior felicidade total agregada,
considerando imparcialmente o bem-estar de todos aqueles que serão afetados pelos seus atos. A felicidade
que conta não é apenas a sua, mas a de todas as pessoas envolvidas: além da sua, a de Rana, a do
agressor e a dos membros da família deste. A intenção de Emad é humilhar o agressor perante a família
(algo que na cultura iraniana é considerado pior que qualquer punição física) e não provocar sua a morte,
mas o que importa, para Mill, não são as intenções ou caráter de Emad, e sim o resultado ou consequência
da sua ação e esse traduz-se em dor para todos os envolvidos, incluindo para si próprio. Emad, em
momento algum pondera imparcialmente a maior felicidade agregada e avalia as consequências dos seus
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atos. A sua ação ignora os interesses e desejos alheios, nomeadamente de Rana. É egoísta e, portanto,
contra o dever.

7. Kant defende que a única motivação apropriada para a ação moral é o sentido do dever. Agimos
moralmente quando agimos racional e desinteressadamente. Isto significa que são excluídas da moralidade
todas as ações realizadas por motivos não racionais sobre os quais não temos necessariamente controlo. No
final, Rana age movida pela emoção. Não quer nem a humilhação pública nem o sofrimento e a morte do
seu agressor e procura evitá-los. De acordo com Kant, a sua ação não tem qualquer valor moral. Muitas
pessoas discordariam desta avaliação.

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