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A BIOGEOGRAFIA DO CERRADO EM CONCOMITÂNCIA COM SUA


HISTÓRIA ECONÔMICA E SUAS PERSPECTIVAS PARA O FUTURO

Miguel F. FELIPPE e Tatiana Ap. R. SOUZA


e-mail: felippegeo@yahoo.com.br
Instituto de Geociências/UFMG

Abstract
Nowadays Cerrado is the object of most of all science fields. It has been focused
not only by geography, but also by most of the other field. There is a world wild concern
about the loss of biodiversity of this biome, because science community doesn’t know a
great part of this fitogeographic dominium that has already been lost. Surrounded by
particularities, it is a common agreement that there is a late but urgent necessity to
preserve what is still living and to try to revert, or at least to minimize, the happened losses.
For this, at fist, is important to know what Cerrado is and why it is being so attacked for
hundred years. The present paper is a try to accomplish these objects and expand the
subject to the futures perspectives to this Brazilian biome. The methodology used was the
consult of bibliographic sources and discussion between the authors so that they could
form their own opinions on the subject.

Key words: Biogeography; Cerrado; economic history; environment; future perspectives;


maintainable development.

Resumo
O Cerrado é, hoje, objeto de inúmeros estudos, não só da Geografia, mas das
ciências de uma forma geral. Há uma preocupação mundial quanto à perda da
biodiversidade deste bioma pelo fato de que muito do que já foi perdido e muito do que
ainda o é não é conhecido pela ciência. Cercado de particularidades, é de acordo geral
que há uma necessidade tardiamente urgente de preservar o que ainda resta e tentar
reverter, ou pelo menos minimizar, as perdas ocorridas. Para isso é necessário,
primeiramente, saber o que vem a ser o “Cerrado” e por que ele vem sendo tão agredido
por centenas de anos. O presente artigo visa cumprir esse papel e ainda expandir o
assunto às perspectivas futuras para esse bioma brasileiro. A metodologia utilizada foi a
consulta a fontes bibliográficas e discussões entre os autores para que esses pudessem
formar suas próprias opiniões sobre o assunto.

Palavras-chave: Biogeografia; Cerrado; desenvolvimento sustentável; história econômica;


meio ambiente; perspectivas futuras.

INTRODUÇÃO

Sempre que se estuda o bioma do Cerrado fica-se com um sentimento de


frustração. Tanto já foi perdido sem mesmo ter sido conhecido. Isso faz emergir uma
questão crucial para esse tipo de estudo: quais são as reais possibilidades, levando em
consideração os quesitos econômico, social e, evidentemente, ambiental, de manutenção
do Cerrado?
A população brasileira, de um modo geral, tem um conceito intrínseco para

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“Cerrado”, mas estará certa? Se não, o que seria o Cerrado, então? Eis o início do
caminho para uma discussão mais aprofundada. Mas não se pode parar aí. Sabe-se que
este é um dos biomas mais devastados do Brasil, mas por quê? Qual o grande “vilão”
histórico do Cerrado? Volta-se, então, para a primeira questão: o passado é imutável, logo,
o que se pode fazer no presente para o futuro? Há possibilidades de se reverter o quadro
atual deste bioma? A discussão do artigo transcorre, basicamente, por essas indagações.
É impossível ter-se uma noção verdadeira do Cerrado através de um estudo que
passe por apenas campo de estudo. A Geografia é uma ciência transversal (BERTRAND,
2002) e a biogeografia culmina nesse conceito. Dessa forma, é a partir dela que o Cerrado
será descrito, da forma mais clara possível, para que se possa saber, cientificamente, o
que, afinal, é esse bioma. Sua formação e suas características serão usadas, então, como
base para essa explicação, de forma que, a partir delas, os conceitos científicos sejam
empregados.
A história econômica do Brasil aparece como o caminho mais direto para o
entendimento da situação atual do Cerrado, apontando as condições e a dinâmica
econômica do bioma nos cinco séculos após a chegada dos Europeus à América e,
inclusive, as características das sociedades anteriores a essa ocupação.
Extrapolando todos os conceitos de transdisciplinaridade (BERTRAND, 2002), a
última parte do artigo é destinada a uma análise do futuro do Cerrado em duas
perspectivas: a primeira seria uma continuação do que está ocorrendo hoje, uma
manutenção da mentalidade atual, e a segunda uma busca por sustentabilidade no
desenvolvimento que ocorre no bioma, associado a artifícios de conscientização ecológica
da população. Dessa forma pode-se tirar conclusões claras (através de propostas de
manejo) de como será amanhã.
Mais que responder às questões indagadas, a intensão deste artigo é dar
embasamento científico para que se possa refletir e, a partir daí, começar a, não só pensar
nas soluções, mas colocá-las em prática. Quanto mais os leitores discordarem das
opiniões e conclusões a que os autores chegaram, mais próximo de serem alcançados
estarão os objetivos deste trabalho. Por mais que o Governo e as empresas privadas
tenham uma importância ímpar no assunto, é da sociedade civil o papel de cobrar e fazer
algo para mudar o panorama apocalíptico que se apresenta.

A BIOGEOGRAFIA DO CERRADO

No princípio, quando ainda “flutuava” sobre as águas oceânicas um único bloco


continental que se convencionou chamar de Pangéia, havia um intenso trânsito dos seres
que já existiam por todo o continente, pelo fato de serem relativamente poucas as barreiras
geográficas. No início do Cretáceo já havia surgido um grande limitador a essas
migrações; o continente havia se divido em dois grandes blocos de terra, a Laurásia ao
norte e a Gondwana ao sul. Começam a surgir, então diferenças consideráveis entre os

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seres setentrionais e meridionais, separados pela massa de água que havia


surgido entre os dois grandes continentes. No fim da Era Mesozóica já há uma distância
que impede a migração terrestre, mesmo longitudinalmente.
Eis que começa a Era Cenozóica e, em seu período Terciário, movimentos
tectônicos formam a Cordilheira dos Andes e soerguem o Planalto Central Brasileiro, a
partir daí, os rios que tinham a drenagem endorréica, modificaram seu curso e passaram a
correr em uma drenagem exorréica, gerando mudanças consideravelmente importantes
para a região. O clima então se modifica, deixa de ter a característica desértica que
possuía no final do Cretáceo; o solo se empobrece, passando a ter poucos nutrientes
(oligotrofia). Estão reunidas há 35 milhões de anos (BARBOSA, 2003) as características
essenciais para a formação do mais antigo dos ambientes da Terra e que ainda existe (ao
[1]
menos resquícios) até hoje: o Cerrado .
Dessa forma, pode-se considerar que o Cerrado já atingiu o seu clímax evolutivo,
já alcançou o seu máximo de especialização, representado por suas plantas facilmente
associadas ao bioma por suas características. Assim, a perda de sua biodiversidade é
irreversível. Uma área de Cerrado degradada não tem mais o potencial de recuperação
que tem uma área da Floresta Amazônica, por exemplo. Isso porque enquanto o primeiro
já passou por sua fase de formação e clímax, estando hoje em sua fase de decadência; a
segunda ainda está em fase de formação (3 mil anos) com as características físicas
necessárias para sua reconstituição existentes, o que não é mais o caso do Cerrado. Ou
seja, em um espaço curto de tempo (pensando no tempo geológico) este bioma deixaria
de existir mesmo sem a interferência humana, o que a ação antrópica fez foi acelerar o
processo.
Originalmente o Cerrado ocupava uma área de mais de 2 milhões de Km² no
coração do País, o que correspondia a, aproximadamente, 25% do território Brasileiro,
abrangendo os estados do Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Piauí, Maranhão,
Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Distrito Federal e Rondônia, em uma
forma nuclear, e, de forma isolada, os estados do Pará, Roraima e Amapá.
Sua diversidade pode ser verificada pela sua abrangência físico-territorial e pelos
climas aos quais o bioma encontra-se associado, passando desde a Amazônia cálido-
úmida, pelo Brasil Central sazonalmente seco e úmido e o Nordeste cálido-seco (FERRI,
1980); a precipitação varia entre 1200 e 2000 mm (ANAIS DO VII SIMPÓSIO SOBRE O
CERRADO: ESTRATÉGIAS DE UTILIZAÇÃO, 1997), muito irregularmente na maioria do
território, passando por duas estações características: uma estação seca (de abril a
[2]
setembro) e uma chuvosa (de outubro a março) .

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Fig. 1 – Mapa identificando a área original do Cerrado (desenhado pelos autores).

A topografia da região é predominantemente planáltica, plana e suave-ondulada,


passando pelos chapadões centrais da América do Sul e pelos baixos chapadões da
Amazônia (AB’SÁBER, 1967). Seus solos são primordialmente de três tipos: latossolos
(46%), podzolícos (15,1%) e areias quartzosas em geral (15,2%). De uma maneira ou de
outra, os solos do Cerrado sofrem oligotrofia, são ácidos (graças aos alumino-silicatos) e
aluminotóxicos, podendo-se verificar que “o pH e a concentração de íons alumínio são,
portanto, intensamente correlacionados” (GOODLAND e FERRI, 1979. p 139).
Hidrologicamente, o Cerrado mostra-se como o reservatório hídrico da América do
Sul, em termos populares, é a caixa d’água do sub-continente. Berço das nascentes de
importantes afluentes, sub-afluentes e tributários das maiores bacias da América, é o frágil
mantedor desses sistemas hidrológicos. É no Cerrado que nascem vários tributários da
margem direita (Xingu, Madeira e Teles Pires) do maior rio do mundo, o Amazonas; é no
Cerrado que nascem os dois principais rios da importante bacia do Tocantins-Araguaia; é
no Cerrado que nascem os rios (Paranaíba e Grande) que formarão o mais importante rio
(economicamente) do País, o Paraná; é no Cerrado que nasce o Rio da Integração
Nacional, o São Francisco.
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Isso tudo porque o cerrado abriga três grandes aqüíferos em suas terras: Guarani
[3]
(Botucatu – considerado o maior do mundo), Urucuia e Bambuí . Esses aqüíferos é que
são responsáveis pela alimentação das nascentes dos rios que corre a partir do Cerrado.
Se a água vem ganhando importância a cada dia, o que dizer dessa abundância (relativa)
do Cerrado. Esses aqüíferos, além de serem os responsáveis pelas nascentes, são
também de extrema importância na recarga e na descarga dos rios, já que os lençóis
freáticos acumulam água por dois anos, no máximo, e os aqüíferos por muito tempo.
No entanto, vem ocorrendo uma exploração irregular dos aqüíferos através de
poços artesianos e irrigações (pivô central); associando-se isso à cultura de grãos, que
atrapalha a infiltração das águas pluviométricas, há um terrível índice de que os aqüíferos
não vêm sendo recarregados, abaixando seus níveis, matando as nascentes; mas de 300
rios do Cerrado secaram nos últimos 10 anos, o que reafirma a fragilidade desse sistema.
Contudo, o que mais caracteriza e representa o bioma é sua vegetação.
Visivelmente atípica, é de uma beleza rara devido a suas formas tortuosas que, às vezes,
é confundida com pequena biodiversidade. Muitos ainda pensam que o Cerrado é uma
área de pastagem natural com algumas árvores esparsas. Pensamento aterrorizante, mas
foi sobre ele que se desenvolveu a economia brasileira na região.
Para caracterizar a vegetação do cerrado, é importante, em primeiro lugar, deixar
claro que esta é uma floresta de cabeça para baixo (BARBOSA, 1996, 2003), ou seja,
muitas vezes a sua biomassa subterrânea é maior que a aérea. Não é difícil de se
imaginar isso, posto que há uma predominância de solos profundos e uma alternância de
umidade nas estações. Suas folhas são coriáceas, “envernizadas”, ou revestida de pêlos;
seus galhos são tortuosos, seu súber é espesso. Tais características levam a crer em um
xeromorfismo da vegetação do Cerrado, pensamento um tanto quanto errôneo.
O xeromorfismo é característico de regiões secas, é uma nomenclatura usada para
as plantas que sofrem com a escassez hídrica e, por isso, precisam adaptar-se as
condições da região. O Cerrado, apesar de ter um clima sazonalmente seco e úmido, não
apresenta falta de água. Algumas características comprovam isto (FERRI, 1980): a) o solo
é muito úmido, porém profundo; b) as raízes são profundas, capazes de captar a água
armazenada no solo durante todo o ano; c) as espécies não mostram sofrimento por falta
de água como, por exemplo, parênquimas aqüíferos; c) os estômatos permanecem abertos
durante todo o ano, ou seja, a evapotranspiração é relativamente constante. Tais
características levam a uma conclusão lógica: “não é a água que realmente impede o
surgimento de vegetação mais exuberante onde quer que exista Cerrado” (FERRI, op. cit.
p. 57); “a umidade não é um fator limitante para essa vegetação” (GOODLAND, 1979. p.
146). Se não é a água, o que faz a vegetação do bioma ser caracterizada por esse
pseudoxeromorfismo?
Há duas principais teorias para responder essa questão; ambas, no entanto
convergem para um mesmo ponto: o solo do Cerrado. Para Ferri (1980) há uma ausência
severa de nutrientes no solo da região, essenciais para o desenvolvimento da vida

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botânica. Essa escassez natural desregula certos funcionamentos das plantas


gerando uma superprodução de esclerênquima. É devido a esse distúrbio que as plantas
demonstram tais características. O fator limitante, então, da vegetação do Cerrado seria a
falta de nutrientes no solo. Por isso, não há xeromorfismo no Cerrado e sim um
“escleromorfismo oligotrófico” (FERRI, op. cit.)
Goodland (1979) tem uma visão um pouco diferente. Para ele o fator limitante é a
presença de íons, tóxicos às plantas, de alumínio. Ele comprova que o
pseudoxeromorfismo é diretamente proporcional à quantidade de íons aluminotóxicos no
solo, ou seja, quanto mais alumínio, mais caracterizadamente pseudoxeromórfica é a
vegetação. O nome desse fenômeno é “xeromorfismo aluminotóxico” (GOODLAND, op.
cit.).
Apesar de diferentes, as duas teorias não se contrapõem, pelo contrário, se
consideradas de forma mais genérica, levam há um mesmo fator limitante que é o solo;
seja por ele ser oligotrófico, seja por ele ser aluminotóxico. O importante é que isso deixa
claro que a vegetação do Cerrado em nada se caracteriza pela escassez de água, como
poderia-se creditar à Caatinga no Nordeste do Brasil.
Após caracterizar o bioma, faz-se necessário apresentar seus sub-ambientes.
Segundo Goodland (1969) há um gradiente fisionômico que respeita algumas variáveis
que dividem o Cerrado em campo sujo, campo cerrado, cerrado (strictu sensu) e cerradão.
Para outros autores (SCHIAVINI e ARAÚJO, 1989; BARBOSA, 1996) ainda pode-se
encontrar matas (mesofíticas) e campo úmido e vereda.
Essas variáveis foram medidas por Goodland (1979) e, dessa forma, caracterizou-
se cada sub-ambiente. O dossel médio, em porcentagem, indica um aumento do campo
sujo (1%) em direção ao cerradão (46%), isso mostra, de certa forma, a biomassa da
vegetação que aumenta, também, na mesma direção. Outra variação de mesma natureza
e de certa forma relacionada com as duas primeiras é a altura das árvores, em média 3
metros no campo sujo e 35 metros no cerradão (podendo alcançar quase 100 metros). O
recobrimento do solo (médio), também em porcentagem, tem uma variação um pouco
diferenciada, é de 65% no campo sujo, 67% no campo cerrado, 55% no cerrado (strictu
sensu) e 35% no cerradão. Isso se explica pela relação herbáceo-arbórea que se dá em
cada estrato. No entanto, o que talvez mais diferencie os sub-ambientes em uma primeira
observação é o número de árvores, bem como sua densidade. Esse último dado aumenta
de, em média, 849 no campo sujo para 3215 árvores por hectare no cerradão, podendo
este, em alguns locais, atingir a densidade de 5000 árvores por hectare.
Quanto ao solo de cada estrato, o dado mais relevante é a porcentagem de
matéria orgânica. Essa é de 3,2 no campo sujo, 3,3 no campo cerrado e no cerrado (strictu
sensu), chegando a 4% no cerradão. Dessa mesma forma variam as concentrações de
Carbono, Nitrogênio, Potássio e íons Fósforo, elementos essenciais à nutrição das plantas.
A saturação de alumínio, ao contrário, decresce em direção ao cerradão; ela é de 58,2%
no campo sujo e 34,6% naquela sub-região. Esses dados mostram que mesmo na região

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de menor concentração de alumínio (cerradão), esse índice é grande. O pH do


[4]
solo, contudo, não varia muito, permanecendo um pouco ácido em todas as regiões .
A importância desses dados é que eles mostram que a variação dos ambientes
dentro do Cerrado é uma função do solo. Isso confirma as teorias citadas acima de Ferri
(1980) e Goodland (1979), já que é visível que o escleromorfismo oligotrófico e o
xeromorfismo aluminotóxico decresce do campo sujo para o cerradão, assim como a
saturação de alumínio e em função inversa aos nutrientes (Carbono, Nitrogênio, Potássio e
Fósforo).
Mostra-se necessário, após essa diferenciação quantitativa, fazer uma
caracterização qualitativa aos estratos, inclusive os que não foram citados
quantitativamente (matas e campos úmidos), começando por eles.
As matas mesofíticas são encontradas em duas posições topográficas distintas:
Mata de Galeria e Mata de Encosta. Apresentam um alto teor de umidade relativa,
possuindo abundância de epífitas, pteridófitas, briófitas e algas. Há uma densa cobertura
arbórea o que gera sombreamento e que inibe o crescimento de um estrato herbáceo-
graminoso. As Matas de Galeria e de Encosta são, fisionomicamente, idênticas, o que as
diferencia é a posição em que estão localizadas. Por serem regiões mais úmidas e, muitas
vezes, próximas a cursos de água, as matas foram intensamente ocupadas por terras de
cultivo, restando pouco inalterado, hoje.
Os campos úmidos e as veredas se localizam em áreas de afloramento do lençol
freático. É uma vegetação predominantemente herbáceo-graminosa, como raros arbustos.
Os solos são hidromórficos e mal drenados, geralmente ácidos. As veredas são os
ecossistemas mais frágeis do cerrado, apresentando-se como uma maternidade da fauna
do bioma; felizmente é o ambiente mais preservado, mas infelizmente, mesmo assim, só
existe 16% hoje (BARBOSA, 2003).
As regiões de campo sujo caracterizam-se pela quase total ausência de árvores;
geralmente aparecem em áreas de solos rasos ou em formação, apesar de também ser
encontrado em áreas de Latossolo, profundo e bem drenado. O estrato rasteiro,
abundante, forma um tapete contínuo com relativamente alto, já o estrato arbustivo é
esparso. Em algumas áreas onde ocorre o campo sujo hoje é verificada a possibilidade de
ele, um dia, ter sido Cerrado (strictu sensu).
O campo cerrado é uma vegetação tipicamente xeromórfica, semelhante ao
Cerrado, distingui-se dele quanto ao espaçamento do estrato arbóreo, sendo o Campo
Cerrado muito mais aberto que o primeiro. Pode ser considerado uma formação
fisionômica de transição entre o Cerrado e o Campo Sujo (SCHIAVINI e ARAÚJO, 1989).
O estrato arbóreo ocupa cerca de 20% dessa vegetação, o que demonstra a
predominância do estrato herbáceo-graminoso. Os campos (sujos ou cerrados) já foram
quase todos extintos por grandes lavouras. As áreas agora desocupadas são dominadas
por gramíneas exógenas e mostram-se futuros desertos.
O cerrado (strictu sensu) é a vegetação mais abundante do bioma. Tipicamente

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uma vegetação savânica, é constituída por arbustos e um estrato herbáceo-


graminoso denso. É o estrato que melhor apresenta as características do Cerrado. Ocupa,
primordialmente, áreas de solo distrófico, ácido, profundo e bem drenado. Essas regiões,
por possuírem um solo muito ruim para a agricultura, não foram intensamente devastadas
por essa atividade; foram devastadas por carvoarias, que usam de seu estrato arbóreo-
arbustivo para fazer um carvão de alta qualidade usado na fabricação do aço em
siderurgias.
O cerradão é uma vegetação úmida, com árvores altas e com cobertura herbáceo-
graminosa variável de acordo com a maior ou menor sombreamento. Ainda, como estrato
intermediário, encontra-se um grande número de arbustos. Mostra-se, assim, se aproximar
das vegetações florestais, mas não é por dois motivos básicos. “Na floresta, o diâmetro
médio (das árvores) seria pelo menos o dobro do que o cerradão apresenta (...) e a
densidade seria 5 vezes maior” (GOODLAND, 1979. p. 77-78). O cerradão, devido a sua
maior quantidade de matéria orgânica no solo, já foi todo destruído para a formação de
lavouras e pastagens, sendo que, hoje, já não existe mais (BARBOSA, 2003).
Apresentando o Cerrado, pode-se começar uma discussão sobre seus problemas
históricos e atuais, identificando-os, um a um, e indicando as formas e intensidade de
degradação de todos para, então, propor formas de manejo do bioma, região por região,
para que se consiga sustentabilidade no seu desenvolvimento.
Apesar do papel ser um ótimo guia para o entendimento da biogeografia do
Cerrado, os autores concordam que sem uma atividade de campo (seja em nível primário,
secundário, ou terciário) fica difícil para se tornar intrínseca a idéia correta do que o bioma
representa, não só para a população que lá vive, mas para todo o planeta Terra.

Fig. 2 – A destruição do Cerrado: 1960 (desenhado pelos autores).

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Fig. 3 – A destruição do Cerrado: 1988 (desenhado pelos autores).

HISTÓRIA ECONÔMICA DO CERRADO

Desde o início de sua ocupação pelos homens primitivos, datado de 11 milhões de


anos a.C., até aproximadamente meados do século XX, o Cerrado manteve sua singular
biodiversidade relativamente preservada, apresentando alterações pouco significativas em
sua estrutura original. Nas últimas cinco décadas, ao contrário de todo o período anterior, a
ocupação deste bioma vem ocorrendo de forma destruidora, acelerada e alarmante.
O início dessa mudança tão brusca no modo de usar e ocupar a região do Cerrado
relaciona-se com a fase desenvolvimentista pela qual passava o País. Em prol da
modernidade, tudo era permitido. É o que se pode chamar de "Economia de
Fronteira" (COLBY, 1990), paradigma no qual a questão ecológica é subordinada à
economia. Nessa percepção, não há consciência da importância e dependência de um
equilíbrio ecológico, e, portanto, nenhuma preocupação em preservar.
Mas atualmente algumas opiniões pessimistas frente às ameaças de um colapso
ecológico, dentre as quais a consideração de um quadro irreversível no que diz respeito à
sobrevivência do Cerrado, permite uma reação a essa economia tradicional, fazendo surgir
um outro paradigma, ainda em menores proporções, denominado "Ecologia
Radical" (COLBY, op. cit.). Seus defensores acreditam que a solução está na adoção de
uma política de crescimento zero, com a relação homem-natureza sendo biocêntrica.
Essa analogia entre ecologia e economia reforça a idéia de que concepções
econômicas, sendo elas desenvolvimentistas ou de não-crescimento, interferem
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diretamente na forma de ocupação do ambiente natural.


A análise da história econômica do Cerrado vem remeter justamente aos efeitos e
impactos das principais atividades desenvolvidas em seu território, buscando uma relação
de causa entre essas e a destruição presenciada nos tempos atuais.

Os Ameríndios

Estudos feitos sobre os primeiros povos do Cerrado relata que espécies humanas já
viviam nesse ecossistema a cerca de 13 mil anos atrás (BARBOSA, 1996).
A porta de entrada desse homem primitivo na América foi o estreito de Bering, local
por onde ele passou da Sibéria para o Alasca. Em seu novo local de habitação, sua
economia baseava-se na coleta e na caça da mega fauna existente. Porém, com o fim da
Glaciação houve o início da extinção dos animais de grande porte. O aumento da umidade
sobre a Amazônia fez com que os refúgios florestais avançassem sobre o Cerrado, e com
isso houvesse uma onda migratória de animais na mesma direção. O homem,
possivelmente seguindo os animais, chegou ao Cerrado e encontrou neste local um
verdadeiro paraíso: água de boa qualidade, abrigos naturais, fauna variada e a vegetação
com o maior número de frutos do planeta. Todos esses fatores ocasionaram um aumento
demográfico da população humana.
Para Schmitz (2003), os pioneiros do Cerrado no Planalto Central ocupavam um
conjunto de abrigos com bastante intensidade, contradizendo a expectativa de que eles, a
maior parte do tempo, vagariam pelo território sem ponto de amarração. Certamente eram
populações compostas por poucas famílias, que tinham um lugar bem identificado por
acidentes geográficos, pinturas e gravuras, no qual permaneceram por muito tempo,
servindo de referência. Em outros lugares do planalto a permanência nos sítios foi menor,
ou porque não existiam grandes coberturas rochosas que os abrigassem, ou porque os
recursos que buscavam estavam mais distribuídos no espaço. "Nesses lugares o conceito
de nomadismo parece mais aplicável" (BARBOSA, 2003).
Vários aspectos ambientais do Cerrado favoreceram a fixação humana. O ciclo
climático constante, associado à fauna vasta, e aspectos da paisagem ricos em abrigos
naturais, com maior oferta de frutos durante o ano inteiro que os demais sistemas
biogeográficos da América do Sul, teriam permitido a acomodação e planejamento do o
homem primitivo neste bioma (BARBOSA, 1998, STEVAUX, 2001).
Posteriormente às gerações desses grupos caçadores/coletores, que utilizavam os
recursos do Cerrado de acordo com suas necessidades, surgiram os grupos indígenas
horticultores ceramitas. Ainda não se sabe como nem quando se instalaram os cultivos na
região.

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Fig. 4 – Sítios arqueológicos antigos nas savanas tropicais: 1. Alto Sucuriú, MS; 2. Serranópolis, 3. Rio do
Peixe; 4. Caiapônia, 5. Uruaçu, 6. formadores do rio Tocantins, GO; 7. Rio Paraná, 8. UHE Serra da Mesa,
TO; 9. Serra do Cipó, 10. Varzelândia, 11. Vale do Peruaçu, MG; 12. Serra Geral, BA; 13. Itaparica, 14. Bom
Jardim, PE; 15. Rio Açu, 16. Litoral, RN; 17. São Raimundo Nonato, PI.
Fonte: Schmitz, P. I."Os primeiros povoadores do Cerrado". In: Arqueologia, 2003. (desenhado pelos
autores)

Provavelmente, esses indígenas cultivadores não surgiram nessa área, "porque as


diversas tradições tecnológicas até agora estudadas pertencem a horizontes mais amplos
e as datas mais altas para horticultores já instalados se encontram fora da região. Faz
exceção a Tradição Uru, que até agora só conhecida no oeste de Goiás, mas que
certamente ultrapassa os seus limites em direção a Mato Grosso" (BARBOSA, 2003).
Possivelmente, foi a migração de grupos horticultores que trouxe os cultivos.
Para Barbosa (2003, op. cit.), os sistemas agrícolas desenvolvidos pelos índios
como os de Goiás, assim como em outras áreas do mundo, foram resultado de um longo
processo de experiências, coletas, cultivos e domesticação. Mas se desconhece ao certo
como ocorreu de fato essa transição no centro do Brasil. O grupo de horticultores mais
antigo encontrado na região até agora é o Fase Pindorama, que já tem cerâmica ao menos
desde 500 anos antes de Cristo. Depois aparecem as Tradições Aratu/Sapucaí, a Una, a
Uru e a Tupi-guarani.

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Essas Tradições exploraram diferentes regiões (BARBOSA, op. cit.). Da Tradição


Aratu/Sapucaí pertencem os primeiros aldeões conhecidos. Seus domínios encontram-se
nos baixos das Serras do Centro-Sul e leste de Goiás, nas áreas férteis onde,
conseqüentemente, instalaram uma economia fortemente dependente de cultivos, mas
sem deixarem de explorar os frutos do Cerrado, de caçar e pescar. Seus cultivos eram
baseados em tubérculos e milho.
A Tradição Una, por sua vez, colonizou vales geralmente pouco férteis, com
predominância de Cerrado, habitando em abrigos e grutas naturais e tendo em sua
economia uma forte associação entre os cultivos (com predominância do milho), a caça e a
coleta. Imagina-se que essa população distribuiu-se em pequenas sociedades, mais aptas
a explorar os recursos diversificados no seu ponto de instalação: o rio próximo, a pequena
mata de galeria, o cerrado e muitas vezes o campo no alto do chapadão.
A Tradição Uru chega, mais tarde ao centro-oeste do Estado. Estes avançavam ao
longo dos rios, alcançando terras mais baixas e desenvolvendo a pesca. Mais
recentemente aparece a Tradição Tupi-guarani, com um certo domínio sobre o Vale do
Paranaíba. Este grupo também tem aldeias dispersas na bacia do Alto Araguaia, mas
aparentemente sem muita autonomia, convivendo às vezes na mesma aldeia com grupos
horticultores de outras Tradições.
A Tradição Una, com menos domínio sobre as áreas abertas, se comprime numa
faixa entre estes (Uru e Tupi-guarani) e as populações coletoras-cultivadoras do planalto
meridional, tradicionalmente conhecidas por suas aldeias de casas subterrâneas.
(BARBOSA, op. cit.)
Talvez com exceção do Tupi-guarani, os representantes das outras Tradições
viveram no território durante séculos sem muita movimentação, como numa terra que era
deles e sem maiores mudanças, a não ser as normais adaptações de fronteiras. Isso até o
dia em que chega à região o homem branco, destruindo os povos indígenas que ali
habitavam. Têm-se o fim do período de preservação das 550 gerações indígenas que
habitaram o Cerrado (BARBOSA, op. cit.).
A Ocupação Do Homem Branco E Suas Primeiras Atividades Econômicas
Desenvolvidas Em Áreas De Cerrado

O século XVI é marcado pelo início da colonização européia em território brasileiro.


Durante esse período, a ocupação concentrou-se em maiores proporções na região
litorânea, onde se cultivava o açúcar.
Fatores econômicos impulsionaram a penetração do homem branco no interior do
País, chegando, posteriormente, à região do Cerrado. O primeiro desses fatores foi o
Bandeirantismo.

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Fig. 5 - Mapa identificando a rota das principais Bandeiras em área de Cerrado


(desenhado pelos autores)

As povoações que se estabeleceram em São Paulo de Piratininga (fundada em


1554) não tinham perspectivas de enriquecimento. "O Bandeirantismo foi fruto social de
uma região marginalizada, de escassos recursos". Suas ações se orientaram no sentido de
tirar proveito das brechas que a economia colonial oferecia (como a caça aos índios) e na
busca por metais e pedras preciosas (DAVIDOFF, 1982).
Os Bandeirantes caçavam, pescavam, coletavam mel e frutos, extraíam palmito e
ainda saqueavam as plantações indígenas. Preferiam entrar no sertão andando, a fim de
conhecer o território. Pode-se considerar que o maior dano das Bandeiras nesse período
foi sua feição despovoadora. Deu-se início o caos entre os povos indígenas que habitavam
os sertões. Promoveu-se a destruição das aldeias, violentação das mulheres, morte por
doenças desconhecidas. A extinção ou a fuga destes foram as conseqüências (BARBOSA,
2003).
Enquanto os Bandeirantes se expandiam pela porção Centro-Sul do Brasil, no
nordeste ocorria, já há tempos, um forte desenvolvimento do açúcar nas zonas de
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Engenho. Essa ocupação promoveu uma grande demanda por alimentação na


região. A criação de gado bovino veio suprir essa necessidade dos trabalhadores,
representando, inicialmente, uma atividade complementar. Posteriormente, conflitos entre
os criadores e lavradores promoveram a penetração dos currais pelo interior. É nesse
momento que a pecuária pode ser vista como um fator de povoamento do sertão
(SIMONSEN, 1969).
O gado cavalar nesse período também ganha importância na penetração nos
sertões. Não havendo estradas de rodagem, o cavalo exercia singular função na evolução
econômico-social, tornando-se um meio de condução indispensável. Daí a preocupação
com sua criação no Brasil (SIMONSEN, op. cit.).
Essa expansão da pecuária pelo interior brasileiro atingiu, durante os dois primeiros
séculos da colonização brasileira, poucas extensões de Cerrado. Em sua expansão, o
gado chegou ao Maranhão, Piauí, ocupando também largas faixas dos sertões baianos. A
invasão dos currais também atingiu o interior mineiro, através da subida do rio São
Francisco, passou pelos vales do Tocantins e Araguaia. Mais tarde, a pecuária atuou
dando um importante apoio à Mineração. (Fig. 4)
Esta última, por sua vez, representou um forte fator de ocupação do sertão. A
descoberta de ouro no Brasil ocorre nos fins do século XVII, em interiores afastados e
pouco habitados. A população dessas regiões, a princípio, era insuficiente para o
desenvolvimento da mineração, e as zonas, de difícil acesso e sem recursos alimentares.
Porém, com a fascinação da notícia da descoberta, decorridos os primeiros 25 anos, já se
concentrava no Centro-Sul mais de 50% dos habitantes existentes no País em 1700.
Assim, foram abertas as primeiras estradas do sertão e construídas as primeiras cidades
do interior (SIMONSEN, op. cit.).

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Fig. 6 - Mapa mostrando a expansão da Pecuária pelo Cerrado


(desenhado pelos autores)

Sabe-se que as primeiras descobertas em áreas brasileiras foram do chamado


"ouro de aluvião". O processo de exploração deste iniciou-se nas areias e nos cascalhos
dos rios. Os mineradores utilizavam-se de grandes pratos, pequenas gamelas ou bateias
para extrair o material aurífero. Também costumavam desviar os cursos dos rios, ou
separar trechos de seus leitos por uma ensecadeira parcial, unida a uma das margens,
para retirar o cascalho. Utilizavam ainda a cavadeira e o almocrafe no desprendimento
deste (SIMONSEN, op. cit.).
Para a extração mineral em profundidade, construíam-se poços e galerias nos seios
dos morros, mas de pouca fundura e comprimento, dada a insuficiência de processos de
escoamento, drenagem e ventilação de que se dispunha.

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Fig. 5 - Região Aurífera nos Domínios do Cerrado


(desenhado pelos autores)

Com relação aos impactos dessa atividade para o Cerrado e todas as demais áreas
onde se desenvolveu a mineração no século XVIII, pode-se dizer que os mais significativos
estão relacionados aos recursos hídricos. A remoção das margens e encostas dos rios,
assim como de camadas em seus leitos, provocaram assoreamento e erosão tão intensos
que, em alguns casos, chegaram a impossibilitar a própria extração do ouro rio abaixo.
O apogeu da produção brasileira ocorreu por volta de 1760, declinando rapidamente
após esta data, devido ao esgotamento das jazidas (SIMONSEN, op. cit.).
Com o fim da mineração, o empobrecimento da região foi inevitável, assim como
também o foi a emigração. O Cerrado passou a ser ocupado pela criação de gado,
atividade que já era desenvolvida no local, responsável por abastecer os mineradores.
Além da Pecuária, desenvolveu-se também agricultura de subsistência.
Assim, com o passar dos anos, a região permanece praticamente isolada das áreas
mais populosas e economicamente desenvolvidas do Brasil.

A Expansão Agropecuária do Século XX


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Até bem pouco tempo atrás as áreas do Sistema Biogeográfico dos Cerrados não
eram valorizadas, e por isso, muito pouco habitadas. Segundo Barbosa (2003), as suas
áreas mais ocupadas eram restritas ao subsistema de matas, áreas florestadas do
sistema, que estão quase sempre associadas à melhor fertilidade natural. As demais
áreas, que constituem as maiores dos sistemas, como o subsistema do cerrado (strictu
sensu), do campo, das veredas e ambientes alagadiços, eram ocupadas por um criatório
extensivo, que tinha como suporte as pastagens nativas.
Como testemunhou Azis Ab'Saber, em 1946, durante sua primeira viagem ao
Cerrado, as terras da região "obedeciam o mesmo padrão de ocupação de 200 anos atrás.
(...) Poucos fazendeiros mantinham uma meia dúzia de cabeças de gado magro em
enormes extensões de terra. Alguns agricultores cultivavam pequenas lavouras às
margens dos rios" (BDT). A escassa população do Cerrado dependia do Sudeste para a
maior parte de seu abastecimento alimentar. A região não era vista como área de potencial
agrário. (BTD)
O contraste dessa descrição com a situação observada nos dias atuais é enorme.
Hoje o Cerrado representa uma das áreas de maior potencial agrícola do País. Mas como
ocorreu tamanha evolução?
A construção de Goiânia (1933) e posteriormente de Brasília (1960), vieram a
contribuir muito para a modificação dos fatores até então estruturados (BARBOSA, 2003).
As duas cidades foram planejadas no sentido de promover a ocupação do interior do País,
que se encontrava até este momento praticamente despovoado.
O ímpeto desenvolvimentista da época, associado à intenção de gerar uma
integração entre esta região e o restante do País, se fez perceber nas obras que se
seguiram. Paralelamente à construção da nova Capital, modernas rodovias são
construídas e asfaltadas, destacando-se a rodovia BR-153 que corta longitudinalmente
todo o Estado de Goiás, ligando-o ao Norte e ao Sul do país; a BR-020 em direção ao
Nordeste, e a BR-040 ligando-o ao Sudeste. A instalação da nova Capital e a implantação
da malha viária estimulam a vinda de migrantes de todo o país para a região (Valec -
Engenharia, Construções e Ferrovias S. A.,1999).
No final dos anos 60 o Brasil, segundo Delgado (1985), é marcado por um período
de intensa urbanização, crescente demanda por produtos agrícolas, e por modificações
das suas exportações.
Assim, inicia-se um alto investimento do Governo Federal na pesquisa agrônoma,
através da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), entre outros, como a
Empresa Goiana de Pesquisa Agropecuária (Emgopa). Os resultados obtidos a partir de
meados da década de 1960 transformaram os solos do Cerrado, de baixa fertilidade
natural, em áreas de agricultura comercial - mecanizada - altamente produtiva, através da
correção de acidez e da adubação química. A topografia predominantemente plana do
Cerrado, facilitando a mecanização, associada à precipitação pluvial bem marcada em

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níveis adequados, com grande estabilidade do clima, transformaram o Cerrado em


uma área de grande potencial agrícola.
Além da alteração no que diz respeito à fertilidade do solo, com a utilização do
calcário e a introdução do arado e dos sistemas mecânicos de desmatamento, houve
também a substituição das pastagens nativas por espécies estrangeiras, fato este que
modificou radicalmente o quadro pastoril (BARBOSA, 2003).
Os impactos ao meio ambiente causados por esse novo modelo de ocupação são
muitos. Incluem-se entre esses o empobrecimento genético, empobrecimento dos
ecossistemas, a destruição da vegetação natural, a propagação de ervas exóticas, a
extinção da fauna nativa, a diminuição e compactação dos mananciais hídricos , a
compactação e erosão dos solos, a contaminação química das águas e da biota, a
proliferação de doenças desconhecidas... Sem contar na demanda de energia, que exige a
formação de grandes reservatórios e usinas geradoras, acarretando entropias de alcance
natural e social (BARBOSA, op. cit.).
Visado agora como uma área de indiscutível potencialidade, o Cerrado ganha
incentivos econômicos, através de políticas governamentais, para ampliar sua fronteira
agrícola. "Entre 1970 e o início da década de 80, o crédito subsidiado constituiu-se no pilar
da política agrícola no Brasil, sendo que os agricultores modernos e politicamente mais
influentes foram os que mais se beneficiaram dela" (BDT).
Em 1975 é criado o Programa para Desenvolvimento do Cerrado, o POLOCENTRO.
Tratava-se de um Programa de linhas de crédito fundiário, de investimento e de custeio a
taxas de juros fixadas em níveis muito reduzidos e sem correção monetária. Ele foi bem
sucedido em induzir a expansão da agricultura comercial no Cerrado. "Estima-se que entre
1975 e 1980, o programa tenha sido responsável pela incorporação direta de cerca de 2,4
milhões de hectares à agricultura" (BDT). O programa fixou como meta que 60% da área
explorada pelas fazendas fossem cultivadas com lavouras, sendo o restante destinado a
pastagens plantadas.
Em 1976, tem-se início o Programa Cooperativo Nipo-brasileiro para o
Desenvolvimento do Cerrado, o PROCEDER. Criado para promover o assentamento de
agricultores experientes do Sudeste e Sul do país na região do Cerrado, o programa é
financiado com empréstimos da Agência Japonesa de Cooperação e Desenvolvimento
Internacional (JICA). O principal instrumento do PRODECER é o crédito supervisionado,
que prevê empréstimos fundiários, de investimento, de cobertura de despesas
operacionais e de subsistência do mutuário. O PRODECER não é um programa
governamental, mas sim administrado por organização de direito privado, dirigida
conjuntamente por executivos brasileiros e japoneses.
Com os incentivos na formação de pastagens plantadas e de lavoura comercial,
várias culturas ganham expansão significativa no Cerrado. As lavouras mais importantes
da região são soja, milho, arroz, café, feijão e mandioca. A soja foi a cultura que
experimentou maior incremento. O milho representa 16% da produção nacional; o arroz,

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13%, o café, 8%; o feijão, 11% e a mandioca, 5%.


A produção de milho passou de 2,6 para 4,9 milhões de toneladas entre 1985 e
1994. Enquanto a produção cresceu 1,9 vezes a área cultivada expandiu-se apenas 1,2
vezes. Já o arroz sofreu queda de 2 para 1 milhão de toneladas entre 1985 e 1990, mas
cresceu em 1994 para 1,8 milhões. A produtividade do arroz no Cerrado é baixa, e não
consegue competir com o arroz irrigado do Rio Grande do Sul. Além disso, as novas
técnicas de formação de pastagens plantadas no Cerrado dispensam o ciclo prévio de
plantio de arroz. Com relação à produção de feijão, esta foi irregular, passando de 187 mil
toneladas em 1985 para 331 mil em 1994 (BDT).
Mas sem dúvidas, a sojicultura é a que mais vem se desenvolvendo na região,
promovendo modificações econômicas, políticas, sociais e ambientais. Virtualmente
inexistente na década de 60, hoje ela representa cerca de um quarto da produção nacional
de grãos. Desde a década de 70 a soja vem se alastrando pela região. No período de
1985-94, a produção dobrou de 4,1 para 8,8 milhões de toneladas, havendo um
significativo ganho em produtividade, já que a área cresceu 1,8 vezes, enquanto que a
produção mais que dobrou (BDT). E segundo dados da WWF, o Cerrado hoje corresponde
por 45% dessa produção, que é de 32 milhões de toneladas.
Muitos são os impactos ambientais gerados pelas lavouras em áreas de Cerrado.
"No município de Uberlândia, Baccaro (1994; SHIKI, 1977) encontrou nada menos que 173
voçorocas ativas e 13 estabilizadas. Na bacia do ribeirão Uberabinha (Uberlândia)
Schneider (In: SHIKI, 1997) aponta um preocupante avanço da cultura de soja sobre os
covoais: dos 30 mil hectares formados por veredas, covoais e matas de, em 1964, o
plantio consorciado de soja-milho já havia ressecado, em 1994, um quinto do total. No Alto
Paranaíba (MG), nos municípios de Monte Carmelo, Romaria e Nova Ponte, área de
implantação do PRODECER I (Plano de Desenvolvimento do Cerrado) Baccaro localizou
duas voçorocas na bacia do córrego Divisa e a descaracterização completa de
'murundus' (reservatórios naturais de água) em função das culturas anuais (BACCARO et
al., 1997). " (In: PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO -
PNUD – PROJETO BRA/94/016 - Contrato n. 139/98)
Outro problema ambiental da agricultura no Cerrado é a intensidade do uso de
fertilizantes químicos, e sobretudo agrotóxicos, que acabam por poluir as bacias
hidrográficas abastecidas pelos rios da região.
O Cerrado também é hoje uma importante região onde se desenvolve a Pecuária, e
fazendas de criação extensiva e baixa produtividade coexistem com estabelecimentos
modernos e eficientes. O crescimento da bovinocultura na região foi substancial, passando
de 16,6 milhões de cabeças em 1970 para 38 milhões em 1985 (representando cerca de
um terço do rebanho nacional), a uma taxa média anual de 3,6%. Este crescimento foi
acompanhado por um avanço espetacular das pastagens plantadas que passaram de 8,7
milhões de hectares em 1970 para 31 milhões em 1985 (BDT).
Dentre os problemas causados por essa atividade está o fato de que "nada menos

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que 80% das pastagens plantadas nos Cerrados brasileiros apresentam algum tipo
de degradação, segundo a estimativa de Ailton Barcelos (1996, apud Shiki, 1997)". Nas
situações de degradação de pastagens, os solos apresentam "sinais de desertificação,
sobretudo em solos areno-quartzosos, não raras vezes densamente povoados de
cupinzeiros e tomados por plantas infestantes como o assa-peixe, o capim amargoso, a
vassourinha do curral, entre outros. Ravinas e voçorocas começam a fazer parte de uma
paisagem outrora homogênea das gramíneas dominantes. Com a escassez de forragens,
as áreas de pasto começam a se estender para dentro das matas de galeria, das veredas
e dos covoais, afetando o sistema hídrico dos cerrados. Em algumas regiões, pode-se
observar o secamento de riachos e ribeirões no período das estiagem, o que tem levado
muitos pecuaristas ao recurso da construção de açudes de reserva de água (SHIKI,
1997:149)" (In: PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO -
PNUD – PROJETO BRA/94/016 - Contrato n. 139/98).
Esta presente História Econômica do Cerrado, por fim, vem apenas confirmar que o
quadro alarmante que se presencia hoje neste bioma teve início com a ocupação do
homem branco na região, onde, a partir daí "quinze gerações mutilaram o ambiente que
550 preservaram" (BARBOSA, 2003). Mas sua destruição de fato se deu quase que
totalmente nas últimas cinco décadas. Movido por um ímpeto econômico avassalador, o
homem chegou, desmatou, poluiu e se enriqueceu. Esqueceu-se apenas de olhar para
esse mesmo ambiente que lhe fornecia seus lucros e ver que, a cada dia, este aclamava
mais e mais pela sobrevivência. Chega a ser assustador pensar que toda essa
biodiversidade se encontra ameaçada por uma fronteira agrícola que insiste em se
estender. E o pior: o principal agente responsável por toda a degradação deste bioma é
também o único capaz de salvá-lo. Mas uma mudança é possível e esperada. Basta
apenas que esse mesmo homem que destrói pare e pense que sem o Cerrado, ele pode
não estar entre os sobreviventes do novo meio que se instalará.

AS PERSPECTIVAS FUTURAS

Uma visão panorâmica do bioma Cerrado já foi dada; um breve histórico sobre sua
ocupação econômica também; faz-se, agora, necessária, a discussão sobre seu futuro. É
importante frisar que o ponto central de toda discussão é o Cerrado, o que não impede que
as propostas apresentadas aqui sejam aplicáveis em outros ambientes, desde que
estudadas antecipadamente.
A questão das perspectivas futuras diverge-se por dois caminhos muitos distintos.
Um deles possui infinitas possibilidades. É o caminho da mudança da mentalidade a qual
existe, hoje, vigente na sociedade e na economia mundial. Justamente por estar
embasado na “mudança” possui várias possibilidades de ser implantado, mas todas
esbarram no problema da falta de vontade de quem mais prejudica. O outro caminho é o
da manutenção do paradigma econômico-social existente hoje. Esse caminho mostra-se

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como o mais fácil a ser seguido, mas o mais catastrófico, também.


O cerradão, como já foi dito, já deixou de existir. E os outros sub-ambientes estão
no mesmo caminho; a cada minuto desaparece uma área do Cerrado equivalente a 2,6
campos de futebol (Conservation Internacional of Brazil). Se considerar-se que essa
destruição ocorreu prioritariamente nos últimos 50 anos e que o potencial de degradação
vai se manter constante (apesar dele se mostrar cada dia mais avassalador), pode-se
fazer um cálculo simples que mostra uma previsão, mais que catastrófica, cataclismática:
[5]
todo o Cerrado deixará de existir em menos de 20 anos , ou ficará restrito a pequenas
regiões isoladas de preservação que, com a falta de comunicação e sustentabilidade,
perderão suas características em pouco tempo deixando de representar o bioma.
As conseqüências disso para o ambiente global são bem previsíveis e óbvias.
Segundo já dito acima, 300 rios da região deixaram de existir nos últimos 10 anos. O
motivo é o rebaixamento do lençol freático, ocorrido devido à redução na infiltração das
águas pluviais já que, entre outros motivos, a cobertura vegetal vem sendo retirada
preocupantemente. Isso aumenta o impacto da chuva com o solo, intensificando a erosão
e reduzindo a infiltração, isto se restringindo aos impactos no lençol freáticos, posto que há
muitos outros.
A redução dos lençóis freáticos da região pode causar uma redução no potencial
dos aqüíferos, já que aqueles mantêm estes, o que pode levar a uma escassez relativa de
água na região que já é caracterizada por chuvas irregulares. Com a redução da umidade
[6]
de uma região tão grande e importante, todo o clima mundial seria afetado, posto que a
atmosfera é um fluido e que qualquer interferência, por menor que seja, que ela sofra é
sentida em todo o mundo, em menor ou maior escala, no caso, global.
A redução da pluviosidade numa região caracterizada pela presença de nascentes
de rios que abastecem, entre outras, a bacia amazônica, causaria uma reação em cadeia
afetando não só esta, mas as demais bacias hidrográficas sul-americanas.
Haveria, então, a caracterização da intensificação do aquecimento global, marcado
pela desertificação de muitas áreas já propensas ao fenômeno, devido à queda na
umidade. Fenômenos como “el niño” e “la niña” poder-se-iam intensificar e tornar mais
freqüentes, aumentando os problemas globais a nível climático. A desertificação causaria,
certamente, o surgimento de áreas anacumênicas na superfície terrestre e uma
conseqüente migração de grandes contingentes populacionais para áreas ecumênicas o
que agravaria o fenômeno do crescimento populacional, podendo, aí sim, gerar uma crise
[7]
de superpopulação .
Essas conseqüências foram pensadas em uma escala temporal relativamente
curta e já são suficientemente drásticas para interferir na vida humana no Planeta. Em uma
escala maior fica difícil prever o que pode acontecer, já que mudanças tão drásticas em
tão pouco tempo na Terra provavelmente só ocorreram na extinção dos dinossauros, há
milhões de anos atrás e por eventos naturais. Isso mostra a grandeza da destruição que a
espécie humana impõe ao meio ambiente.

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Por outro lado, como já foi colocado anteriormente, perspectivas no âmbito da


mudança de mentalidade no que diz respeito à ação humana sobre o Cerrado não deixam
de existir. E propostas não faltam.
A nível global, a destruição da natureza em prol de interesses econômicos ocorre a
cada dia em maiores proporções. Esse fato acaba gerando uma preocupação ecológica
muitas vezes relacionada a efeitos "daninhos" como a poluição e a carência de certos
recursos que já atingem populações mundiais. O fato é que esta apreensão faz com que
sejam criados encontros para discussão do assunto, ao mesmo tempo em que propostas
de mudança com o objetivo de preservar o meio ambiente são formuladas. A aplicação
destas no caso do Cerrado é perfeitamente aceitável, sendo inclusive bem-vinda.
O modelo de Desenvolvimento Sustentável, por exemplo, assunto até bastante
comum nos debates atuais, representa uma opção de mudança na forma de atuar sobre a
natureza. A idéia é buscar uma conciliação entre desenvolvimento econômico e
preservação ambiental; tudo visto como uma perspectiva não-egoísta, uma vez que leva
em consideração a sobrevivência das futuras gerações.
Entre suas metas também se enquadra a melhoria da qualidade de vida dos povos.
Por isso é empregado o termo "desenvolvimento", e não "crescimento". A diferença é que
o primeiro além de gerar riqueza tem o objetivo de destribuí-la, considerando o bem-estar
da sociedade e, portanto, a qualidade ambiental. É importante frisar que para se alcançar o
Desenvolvimento Sustentável, a proteção ambiental deve ser entendida como parte
integrante do processo de desenvolvimento, não podendo, portanto, ser considerada
isoladamente.
A proposta mais consistente que existe de como obter o Desenvolvimento
Sustentável é a Agenda 21, principal documento da Rio-92, assinado por 179 países. Além
de um documento em si, de 40 capítulos, ela representa um processo de planejamento
participativo, envolvendo toda a sociedade. O enfoque desse processo de planejamento
não é restrito às questões ligadas à preservação e conservação da natureza, mas sim a
uma proposta que rompe com o desenvolvimento dominante, em que predomina o fator
econômico, dando lugar à sustentabilidade ampliada. Representa, enfim, um plano de
metas ambientais, que para ser alcançado depende de uma associação entre fatores
sociais e ambientais.
Outra proposta já existente que poderia atuar como forma de preservação do
Cerrado é a chamada "valoração de recursos", elaborada pela professora Bertha Becker e
inicialmente pensada para a questão da Amazônia. Segundo sua idéia, atribuindo-se valor
ao meio ambiente, seus recursos naturais passam a competir com as atividades
econômicas desenvolvidas no local, como a pecuária e a soja, e este deixa de ser
destruído.
Essas teorias e idéias citadas são algumas das milhares já existentes para proteger
o ambiente, mas que por enquanto, permanecem apenas no papel, ou possuem aplicação
restrita, em baixas proporções.

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No caso do Cerrado, a mobilização quase que inexistente, ou pelo menos pouco


atuante, em relação à sua preservação, pode ser explicada, já de início, por um fator
crucial: para obter uma Balança Comercial favorável, o Brasil depende muito das
exportações de grãos, como a soja, e o milho; e o Cerrado é o grande produtor dessas
sementes. "Na Constituição Brasileira, os ecossistemas são protegidos por lei, como a
Amazônia, a Caatinga e a Mata Atlântica, mas o Cerrado sequer é mencionado. Isso
porque é fronteira agrícola", afirma o professor Guarino Colli, da Universidade de Brasília
(UnB). Na opinião do mesmo, em função do fator econômico, muitas pessoas fecham os
olhos para os problemas ambientais. Isso tudo associado à falta da consciência ecológica,
impede que ocorram maiores intervenções na destruição deste bioma.
Esse fato, porém, faz surgir a necessidade de se começar a dissertar acerca das
propostas específicas para o caso do Cerrado. Primeiramente, é importante lembrar de
que esse domínio fitogeográfico está consolidado, já atingiu sua maturidade, por isso os
danos nele feito no passado e no presente são irreparáveis. Se existe, hoje, 20% (WWF)
do bioma, a mais otimista das expectativas para o futuro não superará esse número. É
com esse panorama que se deve trabalhar.
A única forma de interromper, então, o avanço da destruição do Cerrado é parar
sua derrubada, seja para a implementação de lavoura, indústria ou cidade. Mas fazer com
isso se verifique é um tanto quanto difícil.
O Cerrado não possui um solo fértil para a agricultura e por muitos anos foi visto
como simples pastagem natural. Com o passar do tempo, as áreas então ocupadas
perderam qualidade econômica e fez-se necessário abrir novas porções de terra para
abrigar as mais diversificadas atividades econômicas. Hoje, o que se vê, são áreas
devastadas para a ampliação da fronteira agrícola que se estende, preocupantemente, até
a hiléia amazônica.
Não há mais necessidade nem possibilidade de devastar o Cerrado! A partir de
agora deve ser feito um mapeamento de toda a região como forma de estudá-la como um
todo e verificar-se, através da análise transdisciplinar de vários especialistas das mais
diversas áreas da ciência, quais as possibilidades de atividade em cada porção de terra do
bioma. Identificando qual a melhor área a ser destinada à agricultura, à pecuária, à
industrialização, à ocupação humana e, por fim, resguardar as áreas ainda preservadas
(mesmo que parcialmente) para a manutenção do bioma.
De um modo geral, dever-se-ia realizar atividades agrícolas em áreas onde a
vegetação nativa já fora derrubada e de solo mais rico em nutrientes, como as antigas
regiões de cerradão; a pecuária em áreas onde o estrato herbáceo seja mais bem
desenvolvido, seja ele natural ou não e em áreas de declividade maior destinando as
outras às plantações, já que as gramíneas e capins são grandes defensores da erosão
(menos eficientes que áreas nativas, mas melhores que as plantações agrícolas de um
modo geral); a industrialização e a ocupação populacional devem ser feitas
cautelosamente e sob fiscalização constante, principalmente em áreas onde o setor

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primário não se adapta bem.


Dessa forma, as atividades realizadas impactarão em menor escala na
biodiversidade, aplicando-se as técnicas de desenvolvimento sustentável e manejo
ecológico. As áreas destinadas à preservação teriam, então, sua manutenção,
asseguradas pelos órgãos públicos. Com isso, não se destruiria mais o bioma; mas só
evitar a derrubada direta não seria o suficiente, há de se fazer ainda mais.
Estas áreas de preservação possuem uma complexidade maior do que aparenta.
Não basta delimitar a área, colocar arame e proibir a entrada dos homens; as coisas não
podem ser feitas arbitrariamente.
Há um processo de especiação muito aceito hoje nas ciências biológicas.
Resumidamente ele prevê que duas populações de indivíduos da mesma espécie, com a
evolução e o processo de seleção natural darwiniano, podem-se transformar em duas
espécies diferentes. O primeiro passo para isso seria a diferenciação dos respectivos
habitats e o surgimento de uma barreira geográfica. Esta impossibilitaria a troca de genes
entre as populações que começam a desenvolver-se paralelamente. Com o passar do
tempo e a falta de comunicabilidade entre as populações, as pressões da seleção natural
seriam exercidas diferentemente de uma para outra, o que resultaria na formação de raças
diferentes, mas que ainda sim poderiam cruzar e gerar descendentes férteis. Se essa
barreira geográfica persistir, as modificações diferenciadas continuariam ocorrendo até o
ponto em que duas espécies diferentes seriam formadas. A partir desse ponto, mesmo que
a barreira geográfica seja rompida, os indivíduos não poderiam mais cruzar e gerar
descendentes férteis.
A analogia com os parques ecológicos não pode ser feita diretamente. Esse
processo de especiação demora muito tempo para concretizar e uma escala tão grande
não é o objeto desse estudo. No entanto esse raciocínio ajuda a construir a idéia de que as
populações estão em constante mudança. A criação de áreas de preservação permanente
geraria uma fragmentação do território do Cerrado e um conseqüente processo
diferenciado de evolução de cada reserva sendo que, quanto mais o tempo passar, mais
haverá a perda das características do Cerrado, isso devido a já citada falta de
comunicabilidade entre as áreas. Esse bioma já é por si só heterogêneo e isso não pode
ser confundido com falta de características próprias, no entanto, o isolamento das áreas
poderia gerar esse processo.
Vê-se, então, a necessidade de criação de áreas de preservação, mas também a
manutenção da comunicabilidade entre elas. A melhor forma de fazer-se isso, acredita-se
hoje, é a implementação de corredores ecológicos interligando essas áreas. Eles
funcionariam como “rodovias” por onde os animais e as plantas poderiam transitar de
forma a trocar genes com a população de outras reservas. Se a fragmentação do território
está diretamente ligada à perda da biodiversidade (MALHEIROS, 2003), os corredores
podem salvar muitas espécies, preservando a biodiversidade do bioma.
Outro problema importante que vem da criação de reservas ecológicas é a questão

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das queimadas. As queimadas são fenômenos naturais e periódicos em ambientes


de Cerrado, sendo assim, possuem uma grande importância para a manutenção do bioma
(BARBOSA, 2003). Em primeira instância essa afirmação pode parecer contraditória, mas
não é. Na maioria das vezes o nascimento de plantas se dá logo após uma queimada, isso
porque ela deixa o solo com abundância de sais minerais importantes na alimentação das
plantas. Outra importância das queimadas é a manutenção do oligotrofismo do solo do
Cerrado. Sem esse tipo de solo o bioma perde suas características e as queimadas são
úteis nesse sentido. Além disso, as espécies arbóreo-arbustivas do domínio fitogeográfico
possuem súber espesso o que as defende do fogo.
Como há uma cultura no Brasil de que queimada é prejudicial ao meio ambiente,
os parques e reservas impedem esse processo dentro de suas terras. Como o controle do
fogo, quando este é natural, é difícil, a solução seria um manejo, mesmo que artificial, de
forma que as queimadas possam cumprir o seu papel para com o Cerrado. No entanto é
importante saber diferenciar as coisas, o fogo provocado pela coivara ou por outras ações
antrópicas são muito prejudiciais ao meio ambiente, já que acontecem em escala maior e
mais freqüente que as queimadas naturais.
Nesse sentido deveria haver um incentivo considerável do governo, inclusive com
a alocação dos 0,7% do PIB dos países ricos assinados na conferência da ONU que ficou
conhecida como Rio-92 e que nunca chegaram a esse patamar. Nesse caso entra uma
questão política complicada. A verdade é que a corrupção é um outro inimigo potencial da
preservação ambiental. Isso porque muitos dos investimentos na área ambiental não dão
retornos imediatos e, conseqüentemente, a população tem dificuldades de controlar a
alocação desses recursos. Importante é ressaltar que se a conferência do Rio fosse
respeitada haveria muito mais verbas para esse tipo de trabalho.
É uma questão política, também, a falta de fiscalização que existe no Brasil. O
País tem uma legislação ambiental digna da biodiversidade que possui, mas não consegue
colocá-la em prática. Um grande passo seria o respeito às leis de proteção ao meio
ambiente, que, por si só, já são um grande instrumento de preservação.
O pensamento em nível econômico deve ser um pouco mais objetivo, mas por
estar ligado à lucratividade é complicado de ser aplicado. Para isso é necessário que se
saiba que a preservação ambiental não é um fator limitante do lucro, pelo contrário, “68%
dos brasileiros estão dispostos a pagar mais caro por um produto que não agredisse o
meio ambiente” (LOPES, 2002) segundo pesquisas da Confederação Nacional das
Indústrias (CNI) e do Ibope.
Entretanto, muito do que é feito pelas indústrias hoje são processos do tipo “end of
pipe” (final do cano). Ou seja, as indústrias, durante todo o processo produtivo, poluem,
degradam e utilizam-se das formas mais “sujas” de energia e matéria-prima; no final do
processo colocam filtros em suas chaminés ou tratam a água que será despejada nos
cursos d’água e tudo fica como se a empresa fosse a melhor amiga do meio ambiente.
Esse pensamento é do milênio passado. Não se pode considerar que não há

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degradação só porque se colocou um filtro na fábrica, se a poluição está em todo o


processo produtivo. Os cuidados ambientais devem estar desde a extração e aquisição da
matéria prima, até o tratamento dos dejetos, passando pelas fontes de energia a serem
utilizadas.
Um artifício que deve ser usado no controle do governo e da sociedade civil é o
“selo verde”. Devem-se colocar regras para o desenvolvimento industrial e fazê-las serem
seguidas para que determindao produto conquiste o selo verde. Assim o consumidor
poderá dar preferência aos produtos ambientalmente adequados, mostrando que proteção
ambiental e lucro podem andar lado a lado. Este artifício seria baseado, então, na
sustentabilidade e no manejo realizado pelas empresas.
O primeiro passo seria a substituição do uso de recursos não-renováveis por
renováveis. A energia estaria na cabeceira da lista. As indústrias queimam a maior parte
dos combustíveis fósseis mundiais, justamente por isso, são elas as maiores responsáveis
pela emissão de CO2 na atmosfera. O petróleo e o carvão mineral são utilizados em
grande escala e são muito poluentes, agredindo consideravelmente o meio ambiente,
aliás, essa questão vem sendo o mais discutido problema ambiental desde a reunião de
Kyoto em 1997.
Há diversas formas de produção de energia “limpa” que não são exploradas nem
pelos pesquisadores quiçá pelas multinacionais. A energia hidrelétrica, apesar de limpa, é
um privilégio de poucos, o Brasil é um deles. Entretanto, para a construção dos lagos das
represas é necessária a inundação de grandes áreas, o que gera um impacto
considerável.
Outro tipo de energia que se vem ampliando, mas em pequena escala (utilizada,
principalmente em domicílios) é a solar. Eis aí uma forma ótima de produção. O sol já é a
fonte maior de energia do planeta. Na forma luminosa, é absorvida pelas plantas que a
transformam em glicose que serve de alimento para os demais seres vivos. Esse tipo de
energia não agride o meio ambiente de forma alguma, a não ser na produção das placas
absorventes, daí ser um excelente substituto à energia fóssil.
Em algumas regiões do mundo está havendo o aumento da produção de energia
eólica. É também uma solução boa para o meio ambiente, apesar de não ter um potencial
produtivo considerável em muitas regiões do mundo.
No entanto, a forma de produção de energia que se está ampliando em escala
global é a nuclear. Com ela a produtividade é muito alta, apesar do custo também ser alto.
A grande capacidade de produção contrasta com os perigos ambientais e à saúde
humana, mas os governos cada vez mais têm apostado nas usinas nucleares. Essa não é
uma mudança significativa para o meio ambiente, aliás, não se sabe a amplitude que os
danos nucleares podem causar.
O grande problema para a substituição de energias “sujas” para “limpas” é a
interferência na lucratividade. Por isso, deve haver um incentivo de governos, da
sociedade civil e, principalmente, da iniciativa privada para pesquisas com intuito de

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desenvolver melhores formas de produção energética que sejam baratas e,


primordialmente, não sejam poluentes.
É nesse sentido que as pesquisas com o hidrogênio caminham. Ainda com um
custo alto se comparado com as demais energias, esse método é limpo e renovável. A
BMW lançou recentemente um carro movido a hidrogênio e declarou-se financiadora de
pesquisas sobre esse tipo de energia. Ninguém é inocente a ponto de pensar que as
empresas privadas, ou mesmo os governos, farão algo para o meio ambiente se não
houver dinheiro por trás de tudo. Quem conseguir desenvolver e baratear o hidrogênio
como forma de produção de energia, sairá na frente dos outros e colocará muito dinheiro
em seus cofres.
O gás carbônico é um dos componentes naturais da atmosfera terrestre e é
essencial a vida no planeta sendo um dos responsáveis pelo efeito estufa natural. Desde a
Revolução Industrial na Europa a concentração desse gás vem aumentando
consideravelmente e preocupando os especialistas. A intensificação do efeito estufa está
gerando um aquecimento global que, entre outros danos, está causando o derretimento de
geleiras, a elevação do nível médio dos mares e a perda de espécies sensíveis a tais
alterações.
Com a redução da emissão de CO2 na atmosfera (o que prevê o Protocolo de
Kyoto de 1997) esse processo poder-se-ia retrair diminuindo os danos ao meio ambiente.
Daí a importância da substituição de combustíveis fósseis por energias “limpas”.
Quanto à matéria-prima, há um problema muito grande. Na sua extração é perdido
muito material pela impureza que apresentam. Esses dejetos são dispensados poluindo o
ambiente. Dever-se-ia buscar, então, como forma de evitar os danos que causa ao
ambiente sua extração, matérias-primas com maior grau de pureza; sendo assim, maior
será a quantidade aproveitada e menor a quantidade de poluentes e menos será
desperdiçado.
Nessa discussão entram em cena as indústrias de base, grandes poluidoras da
atmosfera e da hidrosfera. No que tange a extração de minérios, por exemplo, o impacto
ambiental local sempre será enorme, mas o impacto global pode variar. É necessário que
se faça esse tipo de atividade, afinal ninguém está disposto a perder o conforto que a
sociedade capitalista conseguiu. Só que há formas de se fazer essa atividade com o
menor impacto possível.
Um passo considerável é o combustível utilizado. Nas siderúrgicas brasileiras de
um modo geral, é utilizado carvão vegetal para aquecer os autofornos. Além de ser muito
poluente, outro problema ainda maior atinge o Cerrado: a derrubada da mata. A vegetação
nativa ainda é usada para se fazer carvão vegetal e isso toma da humanidade uma boa
[8]
parte do Cerrado . Feliz ou infelizmente, as plantações de eucalipto já se espalharam
pelo Cerrado tomando parte considerável do bioma. Dessa forma porque não usar o
eucalipto em vez de mata nativa? Muitas indústrias já utilizam esse caminho tangencial,
mas, mesmo as que o fazem, muitas vezes não conseguem chegar na cifra de 100%. Essa

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medida é um tanto quanto imediatista, por isso, não suficiente para acabar com os
problemas. A poluição continuaria com a mesma intensidade, mas, pelo menos, o pouco
que falta das matas do Cerrado poderiam ficar de pé. A solução ótima, como já foi dito,
seria a substituição por um tipo de energia “limpa”, não poluente.
Outro importante problema a ser considerado é o das substâncias tóxicas. Muitas
indústrias, como as de celulose, por exemplo, liberam, ao final da cadeia produtiva,
substâncias tóxicas ao meio ambiente e à saúde humana.
No passado, essas substâncias eram armazenadas em barris e jogadas no fundo
do mar. Hoje já se têm notícias de vazamentos causados por esse tipo de recurso.
Ultimamente, as indústrias fazem reservatórios em locais distantes da população humana
e preparados para receber tais produtos. Nesses locais o solo é protegido para que as
substâncias não atinjam o lençol freático, é feito um manejo também da vegetação e da
fauna, bem como dos cursos d’água, mas tudo isso ainda é pouco.
Desde o começo do processo produtivo deve haver uma preocupação com esses
poluentes, de forma que seja minimizada sua atuação na cadeia. Fazendo-se o uso de
matérias-primas mais puras, de energia mais limpa e, principalmente, evitando-se o
desperdício, pode haver uma diminuição considerável dessas substâncias tóxicas no final
da cadeia. Depois de tudo é extremamente necessário que se faça um tratamento dos
dejetos para que eles possuam o mínimo de toxidez possível para que se possa devolver
aos cursos hídricos água tratada e de qualidade.
Esse processo de tratamento de dejetos pode ser muito lucrativo para as
indústrias. A água que foi tratada, mas não foi totalmente despoluída, pode ser usada no
resfriamento de maquinaria. Substâncias que antes seriam jogadas fora podem ser
reutilizadas diminuindo a necessidade de compra das mesmas. Isso sem contar a
economia com futuros danos ambientais e humanos que podem ocorrer, como em
Macacos, Minas Gerais, há poucos anos.
Como pode-se ver, há inúmeros recursos a serem utilizados pelo setor produtivo
para que se diminua a poluição e a degradação do Cerrado. Mas a sociedade civil tem
uma grande participação nesse processo. Ela é responsável pela produção de muito lixo e
consumo de muita energia e água. Mesmo não sendo a grande responsável pelas
condições ambientais do planeta hoje, deve ser analisada com cautela, pois ela é a mais
afetada por tudo isso.
O consumo de água e energia no Brasil, pela população de um modo geral é
grande se comparado com países pobres como ele. Isso se deve ao fato de existir uma
abundância relativa dos dois recursos. Essa idéia é perigosa. Há poucos anos houve uma
crise energética no país devido à falta de capacidade do governo de gerir a energia
produzida e consumida. Essas crises podem acontecer mais freqüentemente caso não
haja preocupação da população em economizar energia elétrica, bem como dos
fabricantes de eletrodomésticos em reduzir o consumo médio de seus aparelhos.
A água tem um problema ainda maior relacionado a ela. O Brasil é um país muito

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heterogêneo no que tange aos recursos hídricos. A região de maior consumo é a


sudeste e por isso mesmo ela tem as águas mais poluídas. Como o tratamento do esgoto
é pífio, a tendência é que as coisas piorem com o passar do tempo. A abundância relativa
de água no Brasil pode ser uma grande armadilha. Uma solução seria tratar todo o esgoto
do país para que não se polua mais as águas, mas isso mostra-se cada vez mais difícil. A
redução do consumo seria um fator essencial e pode ser conquistada apenas acabando-se
com o desperdício. Ou seja, não é preciso afetar o conforto das pessoas para que se
economize água, é só usá-la de forma racional de forma que não haja desperdícios.
O lixo é outro problema grande, principalmente nas grandes metrópoles. A
quantidade de lixo produzida por habitante no Brasil não é muito grande se comparada
com os EUA por exemplo, mas mesmo assim mostra-se preocupante pelo tanto que é
perdido e que poderia ser reciclado. Poucas cidades brasileiras possuem programas de
coleta seletiva de lixo e quase nenhuma de tratamento.
Esquecendo o gás metano que é liberado pelos lixões e que poderia ser utilizado
na produção de energia e fixando-se nos materiais perdidos, um grande problema que é
mostrado é o crescente número de produtos descartáveis. Esse tipo de produto poderia
ser reciclado (garrafas PET, latas de alumínio), mas nem sempre isso acontece. A matéria
orgânica não é um grande problema para o meio ambiente quando comparada com outros,
mas também poderia ter um destino diferente dos lixões, por exemplo, a produção de
adubos orgânicos. Outro fator grave é a dos lixos químicos, principalmente baterias que
também vão para os lixões. Esse tipo de material pode contaminar o ambiente de forma
grave e, por isso, deveria ser recolhido separadamente e destinado às empresas
produtoras. Isso já acontece em alguns locais, no entanto ainda atinge uma pequena parte
da população.
Os lixões por si só são poluentes. Por não possuírem um tratamento adequado são
proliferadores de doenças que atingem sobretudo a população pobre que vivem em seus
arredores. Outro grande problema é do “chorume”, substância tóxica, líquida, que pode
penetrar no solo e atingir o lençol freático contaminando as águas da região.
No entanto os problemas ambientais só seriam resolvidos com uma utópica
mudança de consciência de todos: governantes, industriais, comerciantes, agricultores,
pecuaristas, funcionários públicos, bancários, operários... todos deveriam possuir uma
mentalidade ambiental que ainda não existe. Mas há um caminho de logo prazo para isso:
a educação ambiental.
Hoje os investimentos devem estar grandemente investidos nesse sentido, para
uma alfabetização ambiental da população mundial. A começar pelas crianças, posto que
são o futuro da sociedade, todos devem ser incluídos em eventos organizados seja por
quem for para criar uma mentalidade ecológica nas pessoas.
Um passo importante já foi dado com a inclusão no currículo escolar brasileiro da
educação ambiental, no entanto o que se vê é a educação de um modo geral está em
decadência no país, dessa forma não há base para o desenvolvimento de políticas

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educacionais ambientais interessantes. Uma solução seria a organização de


núcleos ambientais como o descrito em Barros (2002), com a participação de ONG’s, de
ambientalistas e da população em geral. Iniciativas nesse sentido devem ser valorizadas.
Vê-se, então que á uma possibilidade clara de preservação do que resta do
Cerrado, mas não é fácil de ser implementada, posto que atinge todos os setores da
economia além do governo e da sociedade civil. Mesmo assim, algo precisa começar a ser
feito nesse sentido e as propostas apresentadas acima em nada tangem o absurdo, pelo
contrário, são realistas e plausíveis. Entretanto, a possibilidade utópica não deve sair de
mente, pois é ela que dá luz às idéias práticas, por isso é sempre importante saber que foi
o sistema que levou o meio ambiente ao ponto atual e é ele que deve, agora, restituir os
seus erros.

CONCLUSÃO

Muito já foi perdido e nunca mais será recuperado, mas o pouco que ainda resta
está nas mãos de todos e cabe a cada um cuidar bem da parte a qual é responsável para
que as gerações futuras possam conhecer esse ambiente lindo e encantador que é o
Cerrado.
No entanto, a população sozinha e desmobilizada pouco pode fazer. Faz-se,
então, necessária o apoio de ONG’s, dos três níveis de governo (municipal, estadual e
federal), empresas privadas, sejam elas nacionais ou não, ambientalistas, professores e,
sobretudo, organizações internacionais como a ONU. Qualquer ajuda será útil desde que
tenha, verdadeiramente, objetivos ambientais.
O artigo cumpre um papel importante nesse sentido: propõe soluções para o tão
complicado problema que atinge o bioma. Não é intensão dos autores que se pense que
as propostas apresentadas são as melhores existentes, nem que suas aplicabilidades
sejam irrestritas, mas se elas servirem de base para um estudo mais específico e local, já
será uma vitória.
A melhor forma de conseguir a sutentabilidade varia de uma microrregião para
outra, dessa forma devem ser feitos estudos cautelosos e criteriosos sobre cada localidade
para que se consiga atingir as metas propostas. Daí a importância que a sociedade civil
tem na manutenção do Cerrado.
Contudo, só uma mudança na mentalidade consumista vigente no mundo nesse
século XXI poderia gerar os frutos desejados, mas é sabido que, em curto prazo, tal fato é
utópico. Assim, deve-se investir sobretudo em educação ambiental, para que as crianças
de hoje sejam adultos responsáveis amanhã e que saibam, como nunca, cuidar dessa bela
casa de paredes azuis chamada Terra.
Amar o Cerrado é amar a natureza; amar a natureza é amar a Terra; amar a Terra
é amar a vida. Eis o mais bonito de todos os amores aquele que não pede nada em troca;
ama-se, simplesmente, por amar.

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[1]
Somente para comparação, a Mata Atlântica se formou há 7 mil anos e a Amazônia há 3 mil (BARBOSA,
op. cit.).
Enciclopédia Biosfera, N.01, março 2006 ISSN 1809-0583

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A BIOGEOGRAFIA DO CERRADO EM CONCOMITÂNCIA COM SUA HIS... Página 33 de 33

[2]
Características associadas, principalmente, ao “Brasil Central” (AB”SÁBER, 1967), que corresponde à
maior parte do bioma.
[3]
Barbosa (op. cit.) considera o Pantanal como parte do Cerrado.
[4]
Todos esses dados foram retirados de GOODLAND, 1979.
[5]
Essa também é a previsão da WWF.
[6]
Lembrando que só o fato do desmatamento já causa uma queda drástica na umidade devido à redução
da evapotranspiração das plantas, grande responsável pelas chuvas.
[7]
Posto que o que se vive hoje é uma crise de distribuição e não de superpopulação.
[8]
Como já foi dito, destrói-se 2,6 campos de futebol por minuto.

Enciclopédia Biosfera, N.01, março 2006 ISSN 1809-0583

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