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Introdução aos Números Complexos

Universidade do Estado do Pará


Métodos Matemáticos da Física Teórica
Prof. Andrey Gomes Martins
Como os números complexos são usados na Física?
• Vamos relembrar um problema muito conhecido e Mecânica Clássica: o
oscilador harmônico simples, cuja equação diferencial (2ª Lei de Newton) é
dada por:

𝑑2 𝑥(𝑡)
𝑚 2
= −𝑘𝑥(𝑡) (1)
𝑑𝑡
Ou ainda, na forma padrão:

𝑑2 𝑥(𝑡) 𝑘
2
+ 𝑥 𝑡 =0 (2)
𝑑𝑡 𝑚
• O método de solução para esse tipo de problema (EDO linear, de segunda
ordem, com coeficientes constantes) consiste em supor que existam
soluções da forma:

𝑥 𝑡 = 𝑒 𝜆𝑡 (3)
onde 𝜆 é um numero a ser determinado.

• Para determinar o parâmetro 𝜆 nós substituímos (3) em (2) e obtemos:

2
𝑘 𝜆𝑡
𝜆 + 𝑒 =0 (4)
𝑚
• Analisando a equação (4) e notando que a função exponencial nunca se
anula, concluímos que:

2
𝑘
𝜆 + =0 (5)
𝑚

• Sabemos que a equação (5) não admite soluções no conjunto dos números
reais, pois não existe número real tal que, quando elevado ao quadrado,
𝑘
seja capaz de anular o número positivo .
𝑚
• Portanto, temos 2 opções: primeira é desistir de buscar soluções do tipo
(3). A segunda opção é tentar manter tais soluções, e buscar um significado
para o 𝜆 que satisfaz a equação (5).
• Certamente, se optarmos pela manutenção de tais soluções, devemos
abdicar de trabalhar unicamente com números reais.
• Para descobrir um pouco mais sobre a matemática dessas soluções, vamos
admitir que se possa operar com tais objetos, como se fossem de fato
números, e ver onde isso nos leva.
• Trabalhando segundo as regras usuais com a qual estamos habituados,
teremos:
𝑘
2
𝜆 =− (6)
𝑚
de modo que:
𝑘
𝜆± = ± − (7)
𝑚
• Note que há 2 soluções na equação (7), cada uma correspondendo a um
sinal (±).
• Aplicando mais uma propriedade d multiplicação de números:
𝑘
𝜆± = ± −1 (8)
𝑚
• Note que, de certa forma, conseguimos isolar o ponto nevrálgico do nosso
problema: o símbolo −1 carrega toda a estranheza das soluções 𝜆± . Todo
os outros elementos da equação (8) não velhos conhecidos.
• A propriedade essencial desse “número” é a seguinte:

2
−1 = −1 (9)
• Os matemáticos introduziram um símbolo específico para representar esse
novo número:
𝑖 = −1 (10)
Uma brevíssima nota histórica
Solução (Tartaglia)
• Esse novo número foi chamado pelos matemáticos de unidade imaginária.
• Usando a unidade imaginária como gerador, podemos construir o conjunto
dos números imaginários, ou seja, os números da forma

𝜔 = 𝑏𝑖, (11)
onde 𝑏 ∈ ℝ.

• OBS: o número imaginário definido em (11) é simplesmente isso: o número


real 𝑏 é escrito próximo à unidade imaginária, representando um produto.
• Cabe ainda notar que esse produto é comutativo, ou seja, 𝑏𝑖 = 𝑖𝑏.
• Os números complexos são construídos a partir de um número real e um
número imaginário, por meio da soma:

𝑧 = 𝑎 + 𝑏𝑖 (12)
• É natural perguntar: o que significa essa “soma” de um número real com
um número imaginário?
• O fato é que essa expressão não é redutível ou simplificável. As partes real
(Re 𝑧 = 𝑎) e imaginária (Im 𝑧 = 𝑏) de 𝑧 permanecem independentes
uma da outra, mas, juntas, elas determinam univocamente o 𝑧.

𝑧 = Re 𝑧 + Im 𝑧 𝑖 (13)
Soma (adição) de números complexos
• Entendendo os números complexos como uma extensão dos números
reais, vamos estudar as propriedades algébricas desses números.
• Sejam 𝑧1 e 𝑧2 dois números complexos. Escrevemos:
𝑧1 = 𝑎1 + 𝑏1 𝑖 e 𝑧2 = 𝑎2 + 𝑏2 𝑖 (14)
• Vamos tentar calcular a soma 𝑧1 + 𝑧2 seguindo a lógica de operar com
esses números tomando por base as propriedades do números reais
(comutatividade da soma e do produto, associatividade da soma e do
produto, distributividade):

𝑧1 + 𝑧2 = 𝑎1 + 𝑏1 𝑖 + 𝑎2 + 𝑏2 𝑖 (15)
• A coisa natural a fazer é agrupar os termos que têm o 𝑖 como fator e os que
não têm. Ao fazer isso, obtemos:

𝑧1 + 𝑧2 = 𝑎1 + 𝑎2 + 𝑏1 + 𝑏2 𝑖 (16)
• Portanto, a soma de números complexos é processada dessa maneira:
somamos separadamente as partes reais e as partes imaginária dos
numero complexos originais, dando origem às partes real e imaginária da
soma.
• A subtração segue, naturalmente, passos análogos, ou seja:

𝑧1 − 𝑧2 = 𝑎1 − 𝑎2 + 𝑏1 − 𝑏2 𝑖 (17)
Multiplicação de números complexos
• Vamos encontrar a expressão do produto entre dois números complexos,
adotando como base as propriedades dos números reais. Temos:
𝑧1 = 𝑎1 + 𝑏1 𝑖 e 𝑧2 = 𝑎2 + 𝑏2 𝑖
• Daí:
𝑧1 𝑧2 = 𝑎1 + 𝑏1 𝑖 𝑎2 + 𝑏2 𝑖 (18)
• Usando a distributividade:

𝑧1 𝑧2 = 𝑎1 𝑎2 + 𝑎1 𝑏2 𝑖 + 𝑏1 𝑖𝑎2 + 𝑏1 𝑖𝑏2 𝑖 (19)


• Agora, usando a comutatividade:

𝑧1 𝑧2 = 𝑎1 𝑎2 + 𝑎1 𝑏2 𝑖 + 𝑏1 𝑎2 𝑖 + 𝑏1 𝑏2 𝑖 2 (20)
• Finalmente, usando a propriedade essencial da unidade imaginária 𝑖 2 = −1 , e
posteriormente agrupando a parcelas reais e as imaginárias:

𝑧1 𝑧2 = 𝑎1 𝑎2 − 𝑏1 𝑏2 + 𝑎1 𝑏2 + 𝑏1 𝑎2 𝑖 (21)
• Talvez cause estranheza o fato de que as partes real (Re 𝑧 = 𝑎) e
imaginária (Im 𝑧 = 𝑏) do número complexo 𝑧 (da equação (12)) não se
misturam. Pode parecer que estamos tentando unir 2 coisas incompatíveis.

• Porém, é instrutivo compararmos essa situação com outra muito familiar: o


caso dos vetores no plano euclidiano. Suponhamos que 𝑣Ԧ represente um
vetor bidimensional que possua componentes 𝑣𝑋 e 𝑣𝑌 em um sistema de
coordenadas cartesianas. Nesse caso, temos a seguinte decomposição:

𝑣Ԧ = 𝑣𝑋 𝑖Ƹ + 𝑣𝑌 𝑗Ƹ (22)
• Nesse exemplo ambas as componentes cartesianas carregam informação
sobre o vetor 𝑣,Ԧ e estão em pé de igualdade, cada uma contribuindo para
determinar de modo unívoco o vetor 𝑣. Ԧ
• Convém recordar também que os vetores da base cartesiana são
ortogonais um ao outro, isto é, 𝑖Ƹ ∙ 𝑗Ƹ = 0, mostrando que é impossível
escrever 𝑖Ƹ em função de 𝑗Ƹ (e vice-versa).
• Note a semelhança com o caso dos números complexos. Parece razoável
interpretar as partes real e imaginaria do numero complexo 𝑧 introduzido
em (12) como componentes de um vetor! Mas, nesse caso, quais são os
análogos de 𝑖Ƹ e 𝑗Ƹ ?
• Certamente, por tudo que já foi dito, você perceberá que a unidade
imaginária 𝑖 é um sério candidato. Quem mais terá esse papel?
Inspecionando novamente a equação (12), vemos que:

𝑧 = 𝑎 + 𝑏𝑖 = 𝑎1 + 𝑏𝑖 (23)

• Portanto, os candidatos a “vetores da base” do conjunto dos números


complexos são a unidade dos reais e a unidade imaginária. Nesse sentido,
poderemos esperar que os números 1 e 𝑖 sejam ortogonais entre si
(perpendiculares um ao outro), em um sentido geométrico, de modo
análogo ao perpendicularismo de 𝑖Ƹ e 𝑗.Ƹ
Representação geométrica dos números complexos
• Desenvolvendo as consequências das ideias apresentadas até aqui, somos
levados a introduzir uma representam geométrica para os números
complexos, o chamado plano complexo, também conhecido como digrama
de Argand-Gauss.
𝐼𝑚
𝑎 = 𝑅𝑒(𝑧)
𝑧 𝑏 = 𝐼𝑚(𝑧)
𝑏

Eixo Eixo
imaginário real

𝑎 𝑅𝑒
Representação geométrica dos números complexos

𝐼𝑚
𝑎 = 𝑅𝑒(𝑧)
𝑧 𝑏 = 𝐼𝑚(𝑧)
𝑏

𝑎 𝑅𝑒
1

𝑧 = 𝑎1 + 𝑏𝑖 = 𝑎 + 𝑏𝑖
Interpretação geométrica da soma de números complexos
• A soma de números complexos, quando estes são representados como
vetores no plano complexo, apresenta-se de modo similar à adição de
vetores no plano Euclidiano. Vejamos a figura:

𝐼𝑚 𝑧1 + 𝑧2
𝑧1

𝑖
𝑧2
𝑅𝑒
1
Notação de par ordenado para números complexos
• Números complexos podem ser representados por meio da notação de par
ordenado. A regra é simples: dado o número complexo 𝑧 = 𝑎 + 𝑏𝑖, sua
representação como par ordenado é definida por:

𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎
𝑧 = 𝑎 + 𝑏𝑖 𝑎, 𝑏 (24)
• De tudo que foi visto até o momento, podemos já apresentar as
propriedades algébricas dos pares ordenados que representam números
complexos, de acordo com as equações (16) e (21):

𝑎, 𝑏 + 𝑐, 𝑑 = (𝑎 + 𝑐, 𝑏 + 𝑑) (25)

𝑎, 𝑏 𝑐, 𝑑 = (𝑎𝑐 − 𝑏𝑑, 𝑎𝑑 + 𝑏𝑐) (26)


Representação polar dos números complexos
• Partindo da representação geométrica (vetorial) dos números complexos
em um diagrama de Argard-Gauss, é útil adotarmos coordenadas polares
para descrever os números complexos. Vejamos de que forma isso e feito.

𝐼𝑚

𝑧
𝑟= 𝑧
𝐼𝑚 𝑧 = 𝑟 sen 𝜃
𝜃
𝑅𝑒

𝑅𝑒 𝑧 = 𝑟 cos 𝜃
• Daí, podemos escrever:
𝑧 = 𝑟 cos 𝜃 + 𝑟 sen 𝜃 𝑖 (27)
Ou seja:
𝑧 = 𝑟 cos 𝜃 + sen 𝜃 𝑖 (28)
• O número complexo
cos 𝜃 + sen 𝜃 𝑖 (29)
tem propriedades mito específicas, que denunciam sua identidade. Vamos
investigar.
• Em primeiro lugar, vamos calcular a sua derivada (em relação ao ângulo
polar):
𝑑
cos 𝜃 + sen 𝜃 𝑖 = − sen 𝜃 + cos 𝜃 𝑖 (30)
𝑑𝜃
• Ou seja:
𝑑
cos 𝜃 + sen 𝜃 𝑖 = 𝑖 cos 𝜃 + sen 𝜃 𝑖 (31)
𝑑𝜃
• Pelo que se vê na equação (31), esse número complexo tem a propriedade
de que a sua derivada e proporcional a ele mesmo. Sabemos que essa
propriedade, no caso de funções de ℝ em ℝ, define a função exponencial,
isto é,
𝑑𝑒 𝑘𝑥
= 𝑘𝑒 𝑘𝑥 (32)
𝑑𝑥
• Poderíamos, então, ao menos preliminarmente, supor que seja válida a
relação:
𝑒 𝑖𝜃 = cos 𝜃 + sen 𝜃 𝑖 (33)

• Porém, devemos ter o cuidado de lembrar que a função que satisfaz a


propriedade (32) é uma função real da variável real. Será que podemos
estender essa noção para o campo complexo?
• Vamos argumentar por outra via, no sentido de justificar a extensão (33).
• No que segue vamos utilizar expansão em série (de potências, ou de
Taylor),
2 3 4
𝑘𝑥 𝑘𝑥 𝑘𝑥
𝑒 𝑘𝑥 = 1 + 𝑘𝑥 + + + +⋯ (34)
2! 3! 4!
que é válida para o caso da exponencial real.
• Se pudermos estender essa expansão para o caso da exponencial com
expoente imaginário, escreveremos:
2 3 4 5 6
𝑖𝜃 𝑖𝜃 𝑖𝜃 𝑖𝜃 𝑖𝜃 (35)
𝑒 𝑖𝜃 = 1 + 𝑖𝜃 + + + + + ⋯
2! 3! 4! 5! 6!
isto é,
2 3 4 5 6
𝜃 𝜃 𝜃 𝜃 𝜃
𝑒 𝑖𝜃 = 1 + 𝑖𝜃 − −𝑖 + +𝑖 − ⋯ (36)
2! 3! 4! 5! 6!
• Agrupando os termos reais e os termos imaginários:

2 4 6 3 5
𝜃 𝜃 𝜃 𝜃 𝜃
𝑒 𝑖𝜃 = 1 − + − +⋯ +𝑖 𝜃− + +⋯ (37)
2! 4! 6! 3! 5!
• Agora, relembrando as expressões das séries de Taylor das funções sen 𝜃 e
cos 𝜃, isto é,
𝜃3 𝜃5
sen 𝜃 = 𝜃 − + +⋯ (38)
3! 5!
e
𝜃2 𝜃4
cos 𝜃 = 1 − + +⋯ (39)
2! 4!
encontramos
𝑒 𝑖𝜃 = cos 𝜃 + 𝑖 sen 𝜃 (40)
• Finalmente, vamos testar se (33) apresenta as propriedades usuais de uma
exponencial. Por exemplo, vamos verificar que 𝑒 𝑖𝜃 𝑒 𝑖𝜑 = 𝑒 𝑖 𝜃+𝜑 . De fato,
representando esses números por meio da equação (33), encontraremos:

cos 𝜃 + 𝑖 sen 𝜃 cos 𝜑 + 𝑖 sen 𝜑 =


= cos 𝜃 cos 𝜑 − sen 𝜃 sen 𝜑 + 𝑖 cos 𝜃 sen 𝜑 + sen 𝜃 cos 𝜑 (41)
Fazendo uso das identidades trigonométricas

cos 𝜃 + 𝜑 = cos 𝜃 cos 𝜑 − sen 𝜃 sen 𝜑


sen 𝜃 + 𝜑 = cos 𝜃 sen 𝜑 + sen 𝜃 cos 𝜑 (42)
encontramos:

cos 𝜃 + 𝑖 sen 𝜃 cos 𝜑 + 𝑖 sen 𝜑 = cos 𝜃 + 𝜑 + 𝑖 sen 𝜃 + 𝜑 (43)


ou seja:
𝑒 𝑖𝜃 𝑒 𝑖𝜑 = 𝑒 𝑖 𝜃+𝜑 (44)
• Outra propriedade importante da função exponencial é: 𝑒 0 = 1. Usando a
equação (33), encontramos:

𝑒 𝑖0 = cos 0 + 𝑖 sen 0 = 1 + 𝑖0 = 1 (45)


• Portanto, a definição (33) satisfaz a propriedade básica

𝑒0 = 1 (46)
• Outra propriedade é:

𝑖𝜃 −1 (47)
𝑒 = 𝑒 −𝑖𝜃
OBS: Note que

𝑒 −𝑖𝜃 = 𝑒 𝑖 −𝜃
= cos −𝜃 +𝑖 sen −𝜃 = cos 𝜃 − 𝑖 sen 𝜃 (48)
• Para verificar a validade da (47), vamos multiplicar (33) por cos 𝜃 − 𝑖 sen 𝜃:

cos 𝜃 − 𝑖 sen 𝜃 cos 𝜃 + 𝑖 sen 𝜃 = (49)


= cos 2 𝜃 + sen2 𝜃 + 𝑖 cos 𝜃 sen 𝜃 − sen 𝜃 cos 𝜃

1 0
• Portanto, verificamos que

cos 𝜃 − 𝑖 sen 𝜃 cos 𝜃 + 𝑖 sen 𝜃 = 1 (50)


• Analogamente, pode-se verificar diretamente que

cos 𝜃 + 𝑖 sen 𝜃 cos 𝜃 − 𝑖 sen 𝜃 = 1 (51)

implicando que a definição (33) satisfaz a propriedade básica:

𝑒 −𝑖𝜃 𝑒 𝑖𝜃 = 𝑒 𝑖𝜃 𝑒 −𝑖𝜃 = 1 (52)


Fórmula de Euler
• Mediante os fatos e análises feitos acima, somos levados a definir a função
𝑒 𝑖𝜃 por meio da chamada fórmula de Euler, isto é:

𝑒 𝑖𝜃 ≡ cos 𝜃 + 𝑖 sen 𝜃 (53)

• A função definida pela equação (53) incorpora muitas das propriedades


básicas requeridas por qualquer função exponencial, o que justifica a
notação empregada (𝑒 𝑖𝜃 ).
• Utilizando a definição (53) na equação (28), somos levados à expressão da
forma polar do número complexo z:

𝑧 = 𝑟𝑒 𝑖𝜃 (54)
onde 𝑟 e 𝜃 são as coordenadas polares de 𝑧.

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