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JESUS CRISTO É DEUS?

CONFERÊNCIAS SOBRE A DIVINDADE DE JESUS CRISTO


JOSÉ ANTÔNIO DE LABURU, S. J.
1966

***

Primeira Conferência
DESPREOCUPAÇÃO RELIGIOSA 

Senhores!

Que ânsia de viver palpita no homem!

Quanta preocupação pelos problemas da vida!

Problema internacional  gravíssimo: desarmamento, intercâmbio comercial. Problema nacional:produção, orçamento,


etc... Problema familiar: emprego, manutenção do lar, futuro dos filhos. Problema individual:  trabalho, doença...
Haverá aqui um só homem que não seja. atormentado por qualquer preocupação?
Quantas preocupações científicas! A constituição da matéria! Problemas psíquicos... o enigma da psicose; problemas
histológicos... Qual será a patogenia do câncer? Problemas químicos... históricos...
Os problemas da Bolsa e da técnica industrial...
Como esses problemas inquietam os homens! Como absorvem sua atividade! O mundo se agita como um possesso!
Terei, por acaso, que me alongar para dizer que o mundo se acha profundamente preocupado com o problema do
existir?

E o problema religioso? Como contrastam com aquelas preocupações a despreocupação religiosa e o descuido pelo
problema religioso!

Para muitos ele nem existe. Não tomam conhecimento dele, nem lhe dão a menor importância... É assunto
ultrapassado, que não merece atenção!

Quantos o desprezam... e quantos o odeiam! Não conheceis, senhores, pessoas que desprezam e até odeiam o
problema religioso?

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Dirigindo-me aos homens — a grande vantagem de dirigir-me a homens é poder falar ao seu característico, a
inteligência — desejava, simplesmente, à maneira de introdução, fazer umas reflexões sobre essa terrível
despreocupação religiosa. Convido-os, senhores, não a ouvir, mas a pensar, a se voltar para o interior de si mesmos e
a meditar.

***

Homens dotados de inteligência; homens em pleno uso da razão — os senhores os conhecem, quem sabe algum
deles está aqui, não sei onde — este preocupado com as investigações do seu laboratório, e com o seu comércio;
aquele, absorvido pelos seus negócios; um terceiro, aborrecido por não ter com que se preocupar, homens, enfim, que
dão de ombros, que adotam um ar de suficiência e dizem depreciativamente: "O problema religioso? Não me interessa
absolutamente; deixa-me completamente indiferente. Se fosse um problema material ou de valores, se fosse..."

É este ser humano que eu desejaria fazer pensar. Homem que está aqui. Homem que poderia estar e não está: pensa!

És homem? Compreendes aquilo que dizes? Que não te interessa o problema religioso, que não te preocupas com
ele? Então? Julgas que por não te interessar o problema, ele deixa de existir? Teríamos um meio muito cômodo de
nos descartarmos dos grandes problemas que nos fustigam.

Se, por não nos interessarem, os problemas desaparecessem, que meio esplêndido para que a tuberculose e o
câncer, problemas da Humanidade e da Medicina, deixassem de existir!

Para que ligas antituberculosas, para que a luta anticancerosa, para que tantos laboratórios, tantas investigações,
tantos homens de saber que empregam sua ciência e sua vida no estudo dos problemas desencadeados pela
tuberculose e pelo câncer?

Se, por falta do interesse de alguns, desaparecessem os problemas, como seriam fáceis as suas soluções!
Sacudiríamos os ombros e perguntaríamos: "E a mim, que importam o câncer e a tuberculose?" E acabariam por
encanto os flagelos da Humanidade.

Homem: raciocina, pensa...

Se o bacilo de Koch, de 1,5 a 3,5 micra de comprimento e de 0,3 a 0,5 micra de largura, deixasse de existir apenas
porque sacodes os ombros e não queres nele pensar, se a celulinha cancerosa prossegue, impertérrita, a sua
luxuriante proliferação, sem se deter diante de qualquer obstáculo apesar de teu desinteresse por ela, o problema, que
é essencialmente problema, deixaria de existir porque não lhe dás atenção?

Se és humano, não podes deixar de lado o problema religioso, nem despreocupar-te e desinteressar-te dele.

É próprio do homem, digno de sê-lo, investigar os grandes problemas, dedicar-lhes essa atenção serena e grave, que
todo homem sério sabe conceder, durante sua vida, a problemas de menor envergadura. Senhores, pensemos...

***

A omissão é uma atitude passiva.

Não és o tipo de homem que sacode os ombros.

És o tipo que julga possuir um temperamento indômito, rebelde. És moço e algo palpita em teu interior.

E com temperamento de homem rebelde e de homem que vibra, como exprime bem tua personalidade esta frase que
te enche todo, impregnando-te totalmente: "Eu sou livre para pensar o que quiser... e não quero aprisionar meu
pensamento com dogmas!"

Ah! E como te empolgas ao dizer isto!

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E com que ênfase repete o jovem que se julga consciente: "Livre; cada um é livre para pensar o que quiser!"... diz e
torna a dizer.

E aquele que jamais ouviu se desfazerem as falácias do entendimento, que tantos danos estão causando, aquele que
não está acostumado ao rigor da lógica, ouve que é livre, e repete "eu sou livre"... e o operário inconsciente vai
repetindo como eco: "livre... livre"...

Gostaria de estar a tua frente, de olhar-te fixamente, de alto a baixo, sem pestanejar e dizer: "Olha-me bem, fita-me...
E agora, ouve-me! Livre para pensar o que quiser? Isto é falso!

— Então eu não sou livre?...

— Ouve-me. Não és livre para pensar o que quiseres.

Além disso, advirto-te de que irás compreender perfeitamente que não és livre para pensar segundo o teu capricho.

Eis aqui a prova da minha afirmação.

— Diga-me, dois e dois quanto são?

Espera, eu mesmo vou responder: "dois e dois são quatro".

Não tens liberdade para afirmar que são três ou cinco. Tens que dizer-me, queiras ou não queiras, que dois e dois são
quatro.

Ouve-me bem, doutor, tu que constantemente clamas por uma ampla liberdade de idéias: que dirias se eu pedisse tua
assinatura, mas seriamente falando, observa bem, para, de acordo com o teu critério de "ampla liberdade de idéias",
obter permissão para a criação de uma cátedra de Fisiologia em que se ensinasse que o órgão da visão é o coração e
o da digestão os olhos?

Ouço-te dizendo: "Mas isto é um despautério. Nego meu consentimento a semelhante absurdo".

Pois eu pergunto: por que é despautério? Por que é absurdo?

— "Porque essas afirmações, para as quais pedes a minha assinatura, são falsas!"

— Falsas?! E que significa falso?

— Que não é verdade".

— E por que uma coisa não é verdade?

— "Porque não é uma realidade objetiva".

— Ah!... Agora sim, deste uma boa resposta.

Tu que exigias "ampla liberdade de idéias", tu mesmo não consentes seja dito que o coração é o órgão da visão, e que
o da digestão, são os olhos. E afirmas não poder consentir em tal afirmação porque a realidade objetiva não é essa, e
sair da objetividade é falsidade.

Eis aqui o obstáculo da "liberdade de pensar": a realidade objetiva. Eis aqui o aprisionamento da "ampla liberdade de
pensar".

A razão tem que se unir à realidade objetiva, pois querer transpor o fosso dessa realidade não é liberdade e sim
loucura.

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Isso é ser louco, pois louco é o que finge um "eu" e um mundo fora da realidade objetiva.

O sábio, ao contrário, é aquele que mais desvenda e mais se amolda à realidade objetiva.

Cajal[1] não é Cajal porque procurou dar largas à sua imaginação e encerrou-se num laboratório para sonhar
livremente e, assim, formar, arbitrariamente e sem peias, o conceito do neurônio e das relações entre as células
nervosas; ou porque teve a idéia de descobrir e estabelecer a estrutura do córtex cerebral e da retina. Não.
Cajal é Cajal, porque pacientemente investigou a constituição celular e histológica, e, à força de trabalho e de estudo,
chegou a descobri-la.

Cajal é quem é na Histologia porque, pacientemente, ano por ano, corte por corte, microtomia por microtomia,
observação por observação, desenhou e anotou, chegando a surpreender a realidade objetiva para apresentá-la ao
mundo. Por isso Cajal é quem é.

Medita sobre tudo isto.

Todos os grandes progressos científicos, sejam biológicos, químicos ou físicos, têm, como fundamento, sérios estudos
da realidade objetiva, de onde nasceram suas leis e os seus integrantes.

O médico que melhor souber adaptar-se à realidade objetiva duma patogenia, será o melhor médico. O histologista
que melhor souber adaptar-se à realidade objetiva dos tecidos, será o melhor histologista. Não o que fantasia, não o
que inventa, não o que é livre.

E isto porque a liberdade racional está presa à realidade objetiva. Prisão, aliás, que não oprime, mas que eleva.

Não me oprime, senhores, ter que afirmar que os olhos são o órgão da visão e não o estômago. Não me oprime ter
que afirmar que Buenos Aires fica às margens do Prata. Não me oprime ter que afirmar que Cícero foi um orador e
Napoleão um guerreiro.

Isto é a liberdade, nobre sujeição à realidade objetiva.

Somos obrigados a dizê-lo, tu e eu.

E se tenho que afirmá-lo, não sou livre.

Não e mil vezes não.

"Eu sou livre para pensar o que quero", é um absurdo científico.

A liberdade racional está encadeada pelo objetivo. E a acomodação intelectual ao objetivo é a verdade. E a verdade
jamais tortura a razão.

***

Padre, poderá alguém dizer-me, a realidade objetiva em dois e dois são quatro, e em que os olhos são o órgão da
visão e não o coração, eu admito, porque a vejo e a entendo; mas... no dogma religioso há coisas que não vejo nem
entendo... francamente, não o admito.

Então, aquilo que não vês nem entendes, não admites? Não existe para ti?

Sabes o que é a eletricidade? Sabes o que é a matéria? Sabes o que é a vida?

Vamos, dize depressa e assim serás o homem mais célebre do mundo.

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Não sabes? Não é o único a ignorá-lo. Na verdade nenhum homem compreende o que é a vida, a matéria; e repara
bem, presta atenção, todos os homens, e tu com eles, admitem a existência da matéria e da vida, embora nada
entendam sobre a matéria e sobre a vida. Compreendeste?

Por acaso sabes — que paradoxo! — o que é morrer?

Em aulas de Citologia, quando se trata do problema da morte, indaga-se freqüentemente se é ele um problema de
protoplasma, ou um problema do núcleo ou um problema do micélio, ou um problema, de colóides!

Uma interrogação imensa! Ninguém sabe o que é morrer e mais de 100.000 homens vão-se diariamente deste mundo.
Perceberás que ninguém entende o que é viver e ninguém entende o que é morrer e, não obstante, existe a vida,
ceifada pela morte?

É natural; mesquinhos seríamos se apenas existisse aquilo que compreendemos. Nada, absolutamente, existiria, pois
não há coisa cuja essência conheçamos.

Não sabemos o que é a vida celular, e a célula vive com seus milhares de múltiplas evoluções.

Não sabemos o que é a matéria e aí estão as massas solares e estelares, com seus volumes e suas velocidades
assombrosas.

E tu te refugias no "eu não entendo" para negar o dogma religioso!

Pobre compreensão humana! Não sei se estás percebendo a soberba de insano que tal subterfúgio supõe no homem!

***

Mas existe, ainda, outro tipo de homem, aquele que afirma: "não quero discutir", tipo muito em voga, respeitoso, bem
posto, fino, educado.

— "Padre — diz-me ele — por técnica e por ideologia, só admito o tangível, o experimentável. Fui educado na
Alemanha e, de acordo com minha formação intelectual, só aceito o que realmente possa tocar ou chegar a comprovar
experimentalmente".

Este não nega: impõe condições. Enquanto não tocar... enquanto não experimentar... Quando tocar, então sim.

Realmente? Terei que ser áspero e duro contigo, mas não por querer-te mal. O cirurgião, na sala operatória, é duro:
corta e abre, mas não corta e abre como um assassino, para cravar um punhal. Corta para curar. Neste momento,
quero assim proceder contigo, homem que me escutas.

Rogo-te que me perdoes a pergunta que vou fazer-te: bem sabe Deus que não é para importunar-te.

O nome de tua mãe... qual é? Dize-me, como se chama tua mãe?

Todos vós lembrais de um nome, de uma fisionomia.

Tua mãe. Como se chama ela?... E a tua?... E a tua?...

Como conservais em vosso coração e em vossa mente a imagem de vossa mãe!

Como vos lembrais de algumas de suas palavras! O que acontece é que daqueles conselhos que ouvistes, afastou-
vos a existência... A recordação de vossa mãe, esta sim, vós a tendes bem profunda!

E, agora, um momento.

É esta tua mãe? Ela é mesmo tua mãe? Como podes saber? Viste-a, por acaso? Tocaste nela?

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— "Padre!"

— Sim?

— "Minha mãe é uma santa!"

— Muito bem! Mas que queres dizer com isso?

— "Minha mãe me enganaria? E não saberia, realmente, se me deu a luz ou não?"

— E daí?

— "Disse-me ser minha mãe. E com ela, meu pai, meus parentes, meus conhecidos, todos afirmaram ser ela minha
mãe. E podiam saber o que me afirmavam, pois não posso imaginar que, bons como são, quisessem enganar-me".

Não raciocinas mal. Esta é tua mãe, porque outros assim te disseram. Repara bem: nem tu nem ninguém possui outro
fundamento para saber quem é a própria mãe, senão o que te disseram. Assim como tu, esteve e estará todo o gênero
humano.

O ser mais querido do homem, a mãe, é uma realidade que não foi vista pelo homem, que não a pode tornar a
experimentar; é uma realidade admitida pela totalidade de gênero humano "porque assim o disseram".

Há instantes dizia que raciocinavas bem. Afirmaram-te não qualquer um, mas sim os que estavam cientes do que
afirmavam e de quem não tens motivo para acreditar poderem enganar-te.

Eram testemunhas verdadeiras e dignas de fé.

Como é razoável crer em quem possui conhecimento e veracidade!

Acreditas que esta mulher é tua mãe, acreditas que este homem é teu pai através do testemunho baseado na ciência
e na verdade.

Acreditas na situação dos povos situados entre paralelos e meridianos, baseado na ciência e na veracidade dos que o
afirmam, embora nada disso houvesses comprovado.

Acreditas na existência de determinados corpos, nas massas estelares, baseado na ciência e na veracidade dos que
procederam a estudos espectrográficos, mas que nem todos pessoalmente comprovaram.

Para que continuar? Acreditas nos quilômetros quadrados que a Ásia e a África possuem e nos habitantes que vivem
na América.

Homens que aqui estão, que provavelmente não fizeram pessoalmente a medição dos quilômetros quadrados de
vossa Pátria, mas que acreditais porque assim vos afirmaram, um dia, os agrimensores, ter ela tantos quilômetros
quadrados... Homens que aqui estão, médicos que jamais viram as camadas retinianas, mas que por havê-las
estudado em autor famoso, nelas acreditam por ter esse autor ciência e veracidade... Químicos que aqui estão, que
não descobriram a fórmula da cafeína, mas que a consideram boa, por provirem de um homem de ciência e
autoridade...

A Humanidade toda sabe que acreditamos, que acreditamos, mas que exigimos ciência e veracidade. Não
acreditamos no papelucho indocumentado de dez centavos, acreditamos na obra razoável, porque prova ser séria por
sua ciência e veracidade.

E fazemos muito bem em acreditar. É o mais razoável. Ademais, é o único possível. Se não se admitisse o testemunho
alheio, a vida seria impossível.

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Tu, porém, não admites um testemunho qualquer; não acreditas, sem mais nem menos, em todas as afirmações. E
ages, por isso, muito bem.

Para admitir um" testemunho, exiges ciência e veracidade.

De nada vale o testemunho se quem o afirma não sabe o que diz ou se lhe falta veracidade.

Mas se, ao contrário, possui, conhecimento e veracidade, o mais razoável é acreditar naquilo que ele afirma.

E se é razoável acreditar em quem tem conhecimento e é verdadeiro, dize-me, não será muito mais lógico acreditar
naquele que possui a Ciência Infinita e é a Infinita Verdade? É esta e não outra a conduta do crente: crer na Infinita
Sabedoria e na Infinita Verdade.

O que é preciso é ter certeza de que Deus falou, para poder n'Ele acreditar.

Não é suficiente ter apenas probabilidade, por maior que esta seja.

Quando te dispuseste, homem que me escuta, a investigar se Deus, Infinita Sabedoria e Infinita Verdade, falou?

Queria ter-te mais próximo a mim, para perguntar-te: já fizeste alguma vez na vida tal investigação? Responda-me.
Depressa. Melhor dizendo: responde a ti mesmo.

A fé te diz: "Abre os olhos, investiga com toda a seriedade e com espírito de crítica, se Deus falou". Quando, após
séria e profunda pesquisa, te convenceres de que Deus falou, não mais dirás que acreditar não é coisa razoável.

Quando prudentemente não possas duvidar de que Deus haja manifestado algo, o mais lógico será dares
assentimento firmíssimo a essa autoridade de Deus, infinita na Ciência e na Verdade!
É isto o que faz o crente.

Crer na autoridade de Deus que falou, crer com certeza, sem a menor dúvida prudente de que, na verdadeira
realidade, Deus falou a nós.

***

Repito minha pergunta.

Já te puseste seriamente, com toda diligência e sinceridade, a investigar se é ou não verdade que algo foi revelado por
Deus?

Isso deves sabê-lo melhor que eu.

És médico? Quantos anos de estudo para colar grau: seis no curso secundário, sete na escola superior. Depois a
especialização; mais tarde, ainda, estudos no estrangeiro e finalmente, já contas com uns trinta e tantos anos de
prática, não em Medicina, mas só numa parcela — tua especialidade da Medicina.

E se eu te pedisse para, dentro do assunto de tua especialidade, escreveres um sério trabalho de investigação para
uma dessas revistas internacionais, dessas que só publicam o mais seleto da investigação científica, tu te lançarias ao
trabalho?

Já ouço tua resposta: "Agora é impossível realizar tal trabalho. Estou assoberbado em minha clínica; apenas tenho
tempo para ler o que há de mais importante nas revistas profissionais. Um trabalho verdadeiramente sério, exigiria o
conhecimento de tudo aquilo que foi publicado recentemente sobre a matéria, além do manuseio de trabalhos e
bibliografia em revistas mais cotadas na minha profissão. Sem fazer tudo isto seria imprudência arriscar-me à tarefa
que me pede".

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Foi ótima tua resposta. Ela revela um homem sério, que sabe que sem um estudo profundo, sem um vasto
conhecimento bibliográfico, somente espíritos vazios e superficiais atreveriam a formular afirmações no domínio
científico.

E se isto acontece com o especialista, no âmbito de sua especialidade, que sucederia se se tratasse de outro ramo da
Medicina que ele não cultiva, ou pior ainda, se o trabalho versasse sobre uma ciência da qual ele só conhecesse o
nome e a existência!

Com que prudência se procede no campo de que agora falo! Ninguém, ninguém arrisca o crédito do seu nome e da
sua reputação científica atrevendo-se a afirmar algo em ciência sem um profundo estudo e uma sólida informação
bibliográfica!

Em contraposição, como contrasta esta conduta equilibrada com a que geralmente é usada no problema religioso!

Sobre religião todos falam, todos discutem, todos afirmam ou negam, todos dogmatizam.

Por estar alguns meses atrasado na leitura das suas revistas, um médico julgava imprudência publicar um estudo de
alta investigação. No entanto, com que ênfase e petulância tu, médico, tocas no problema religioso e lanças, uma após
outra, as mais audazes afirmações! Se tu te recolhesses em ti mesmo e, num quarto de minuto fizesses um exame de
consciência, ver-te-ias obrigado a dizer: "sou um farsante".

Esta minha atitude é séria?

É ela digna de um homem? E no entanto, os que assim procedem com o problema religioso, são os mesmos que, nas
questões científicas, são tão cautelosos e circunspectos.

Tu, operário, atreves-te a dogmatizar sobre problemas de cálculo diferencial e integral?

E tu, negociante ou industrial, acaso podes falar sobre o papel das mitocôndrias? E vós, advogado, engenheiro,
arquiteto, tereis coragem de dissertar e discutir a respeito do neurotropismo e das neurobionas?

Respondei. Respondei a vós mesmos!

E diante de tua resposta, a minha pergunta: Tu que dogmatizas sobre questões religiosas, negando e afirmando a teu
bel-prazer, quanto tempo estudaste religião?

Sabemos muito bem o que julgar de médicos e engenheiros que estudaram medicina e engenharia através de jornais,
revistas ou romances.

E tu, quanto estudaste sobre religião?

Que sabes de exegese? De hermenêutica?

Nem tais nomes sabes repetir, pois ignoras o que significam. Mas mesmo assim continuas dogmatizando sobre
religião!

Sabes quais são os tratados de Teologia?


A Teologia é integrada pela Propedêutica,  com seus tratados de Religião  e de Ecclesia.
* Teologia dogmática:  a positiva  e a escolástica.
* Teologia Bíblica ou Escriturística.
* Teologia Patrística.
* Teologia Prática, com a Moral e a Ascética.
* Direito Canônico.
* História Eclesiástica.

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Sabias isto? Mas isto é apenas títulos dos ramos da Teologia, títulos que não te transfundem a idéia da matéria que
cada um deles contém.

Para teres uma idéia da amplitude do assunto, basta saberes que só da Teologia Patrística, a ediçãoMigne (Paris)
contém 221 volumes de Padres Latinos e 161 de Padres gregos. A Berolinense(Berlim), 34 volumes de Padres gregos
(só dos três primeiros séculos, e ainda não está terminada). A Vindebonense (Viena), 65 volumes dos Padres latinos
(dos seis primeiros séculos). A Oriental,  de Paris, 72 volumes dos Padres armênios, sírios e coptas (e ainda não está
terminada).
Sobre a Teologia Escriturística  posso esclarecer-te que só na Biblioteca do Instituto Bíblico, de Roma, existem mais de
90.000 volumes de sua especialidade e mais de 300 revistas periódicas.
A respeito do progresso geral da Teologia dá uma idéia o Catálogo de Vogelsang segundo o qual somente na
Alemanha apareceram mais de 100 revistas de alta teologia.

Sabias algo a respeito? Estudaste, através dessa bibliografia, o problema religioso?

Não quero induzir-te a nada... dize-me mesmo o que deves pensar de ti próprio.

***

Se és sério, pois assim te considero, verificarás não poder despreocupar-te do problema religioso, pois as
despreocupações não têm o poder de fazer desaparecer as realidades objetivas.

Se és sério, verificarás que não possuis liberdade de pensar a teu bel-prazer, mas sim que a verdade te junge à
realidade objetiva.

Se és um homem sério, verificarás que existem, em tua vida, realidades cuja compreensão e entendimento te
escapam.

Se és sério, verificarás que nem tua própria mãe sabes quem seja, a não ser porque acreditas nos que te disseram
quem era ela.

Se és sério, compreenderás quão lógico é dar crédito a uma pessoa que tem ciência e veracidade em seus
testemunhos.

Se és sério verás como é racional investigar, com diligência e profundidade, se Deus realmente revelou algo aos
homens!

E se és sério, terás que confessar que a atitude mais racional deste mundo é, se Deus disse algo aos homens,
acreditar em sua mensagem, infinitamente digna de ser crida, por ser a Infinita Sabedoria, que não se pode enganar, e
a Infinita Verdade, que não pode enganar.

Não desejas ocupar-te com o problema religioso? Não quererás investigá-lo seriamente? Então, não ages
racionalmente ...

Mas, ouve-me, se a celulinha cancerosa e a infinitesimal bactéria não desaparecem porque não lhes prestas atenção,
Deus e sua mensagem deixarão de ter existência porque com eles não te preocupas?

Se és um homem, deixo-te com tuas meditações.

Mais de dois mil homens aqui se acotovelam. Convido-vos, a todos, à meditação. Compreendo perfeitamente o estado
espiritual de todos; por isso, não me indignarei contra ninguém.

Disse Santo Agostinho que árduo lhe foi o caminho para a verdade[2].
Enfureçam-se consigo próprio, continuou Santo Agostinho, aqueles que ignoram quão penoso é encontrar a verdade
como difícil é evitar o erro. Eu, acrescenta Agostinho — e eu também o poderia repetir aqui — eu, que tantas vezes

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jogado de um lugar para outro, de engano em engano, de erro em erro, pude avaliar quanto custa encontrar a
verdade, mas, eu, contra vós, jamais me encolarizarei. Oxalá pudesse conduzir-me convosco — fala Agostinho —
como se portaram comigo aqueles que, com tanta paciência e amor, me suportaram quando, cego e raivoso, vivia
mergulhado no erro.

***

Finalizo, abrindo o Evangelho.

Saindo, certa vez, de Jerico, Jesus Cristo teve sua atenção voltada para um cego que, esmolando junto à estrada e
tendo ouvido falar em Jesus de Nazaré, começara a clamar; "Jesus, filho de Davi, tem compaixão de mim".

Ordenou Jesus Cristo que o trouxessem, e quando o cego, mundado de alegria, aproximou-se, perguntou-lhe o
Senhor:

— Que desejas que eu te faça?

— Mestre, devolve-me a visão, quero ver.

— Vê, respondeu Jesus, tua fé te salvou.

E nesse mesmo instante o cego viu e acompanhou Jesus pelos caminhos.

Desejaria que quando tu te recolhesses, recordando esse cego, a quem Jesus Cristo devolveu a visão, apagasses tua
lâmpada, já que te sentiras invadido pelo medo de ti mesmo, e murmurasses: "Jesus Cristo, eu quisera ver": Asseguro-
te que verás.

Jesus Cristo é sempre o mesmo. Aquele que devolveu a visão ao cego.

Noutra ocasião, caminhando Jesus Cristo por uma estrada, foi abordado por um leproso que, envergonhado,
ocultando com andrajos sua carne ulcerada e podre, lhe rogou: "Se quisesses..." E Jesus Cristo simplesmente
murmurou "quero" e no mesmo instante o leproso se viu limpo.

Há a lepra do corpo e há a lepra da alma. Aproximai-vos de Jesus Cristo: é o único que cura lepra.

Segunda Conferência
JESUS CRISTO NA PROFECIA
 

Senhores!

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É próprio de todo homem prudente estudar e investigar "com seriedade qualquer problema que se lhe apresente. Mas,
se para esse estudo exige-se crítica e seriedade, mais seriedade e crítica deve ser exigida na abordagem de problema
religioso.

É próprio da criatura consciente de seus atos, não se deixar levar por cargas afetivas próprias do psiquismo inferior,
mas sim utilizar a qualidade essencial do homem, a inteligência, aplicando-a, com seriedade crítica e científica, na
investigação da verdade.

Procedamos seriamente, não com essa leviandade que causa calafrios, muito própria do homem que, já pela maneira
de apresentar-se e, ainda mais, pelo próprio tom de voz, claramente revela, mesmo ao jejuno em psicologia, sua carga
afetiva.

"Padre..." e formula uma pergunta de religião.

Após dez minutos de conversa, ei-lo que se despede: "O senhor não me convence..."

Fico pensando: "Que diria um professor da Faculdade de Medicina se alguém, completamente ignorante das coisas da
Medicina certo dia o chamasse de lado e lhe pedisse: "Queria que o senhor, em dez minutos, me esclarecesse sobre a
Medicina..."

— Em dez minutos?! Após muitos anos de estudos sérios, chegamos à conclusão de que pouco ou nada sabemos de
Medicina. E em dez minutos?

Poderemos julgar com seriedade, senhores, um homem que pretende ventilar questões de tal transcendência em dez
minutos ou em quatro conferências?

Não, senhores; minha aspiração é muito mais modesta. Somente pretendo ser o suficiente discreto para apontar às
suas inteligências, com toda seriedade, problemas que provoquem esta reflexão de um homem sério: "Ignorava tudo
isso. Vou estudar a matéria".

Se consigo tal desiderato, haverei conseguido muito. Não pretendo, entretanto, convencer-vos. Desejo apenas que
estudeis.

***

Suponho desejarmos, todos nós, encontrar a verdade. Se, de antemão, há quem deseje excluir de seu ânimo a
vontade sincera de achar a verdade, a ele não me dirijo.

Volto-me aos que anelam fundear no porto da Verdade.

Mas, onde está a verdade no problema religioso?

Poderemos, com segurança,, navegando pelo mar da vida, revolvido pelos furacões das paixões, sacudido pelos
agitados vagalhões das tendências e cruzado por vertiginosas correntes de doutrinas, depararmo-nos com o porto da
Verdade Religiosa?

Quantos que me ouvem já navegaram pelos mares reais do globo, de costa a costa ou de continente a continente, em
viagens de cabotagem ou transatlânticas...

O barco que o Atlântico atravessa, obedecendo à rota certa, prefixada, pode servir-nos de imagem fiel e de modelo
para encontrarmos, navegando pelos mares da vida, o porto da Verdade.

O barco que navega pelo Atlântico tem um rumo traçado, não navega à deriva, porque se à deriva navegasse, jamais
atingiria o porto de seu destino, situado além, no outro continente.

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Existe um técnico nesse navio, um técnico acompanhado por muitos outros, cujo número aumentará quanto maior for
a categoria dessa embarcação e quanto mais transcendente for a viagem.

Na ponte de comando, capitão e pilotos têm, à disposição, a carta de marear e a bússola perfeita, isolada de
quaisquer e estranhas influências magnéticas. Ali, nas horas de guarda, fazem cálculos e observações...

Juntos, em reuniões oficiais e obrigatórias, capitão e pilotos conferem seus dados e suas observações... determinam
exatamente a posição do navio na imensidão dos mares.

A carta de marear à vista determina a precisa posição do barco. Eles sabem onde se encontram. O porto está a tantas
milhas; o rumo certo é este.

Ainda não se avista a costa, mas ela está próxima. Eis o momento da arribada.
O capitão permanece na ponte de comando.

Tal posição, tal velocidade... Olha a costa... À direita, um farol deve surgir... Observa. Observam. É noite escura.

Além, na vastidão escura... uma cintilação; mais atenção; outra vez...

Eis o farol esperado. Além, desenha-se a costa.

Entre a tripulação e os passageiros exclama-se "Costa! Costa!"

Esse, porém, não é o farol do porto.

Este possui características diferentes de luz e o período de cintilações também é outro.

Recomeça-se a navegar, de olhos fixos na costa.

Perscruta-se. Sim, é aquele. Luz mais potente...

Observam-se atentamente as características de luz e do período de cintilações. Exato, tudo certo. Sim, esse é o farol
do porto.

A majestosa nave sulca as águas. Entre as infinitas direções em que pode navegar pelo Atlântico; entre os infinitos
pontos em que podia haver ancorado, o barco, de maneira precisa e justa, entra em seu porto de destino. As âncoras
fundam-se nas águas. Viagem feliz! Chegou ao porto do seu destino.

***

Quantos de vós que me ouvis navegais à deriva das paixões e ao ulular do furacão das doutrinas!

À deriva e à mercê do furacão nem o barco que navega pelo Atlântico chega a seu ancoradouro.

Reiteradas observações procedidas pelos técnicos, bússola, carta de marear à frente e mão firme no leme são
indispensáveis para evitar a rota incerta.

Na carta de marear com duas coordenadas — longitude e latitude — paralelos e meridianos, localiza-se
matematicamente a situação do porto. Não há outra maneira de bem navegar.

Cintilações do farol, regulares, precisas, peculiares, concretizam os dados do mapa de navegar.

Obedecem-se aos dados do mapa de navegação? São essas as cintilações próprias de determinado farol? Sim? Que
ninguém duvide. Esse é o porto.

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Se alguém, navegando em demanda do porto da Verdade, deparar com coordenadas que mostram, com precisão
(duas são suficientes para isso) as balizas dum porto; se reconhecer as cintilações precisas peculiares do farol
indicando-o, não há que duvidar: navegue nessa direção; ancore nesse porto. É o porto da Verdade.

Existência e Autenticidade do Plano


 

Desenvolvamos diante de nós um plano que, por sua precisão e origem, e por estar elaborado precisamente para
balizar o porto da Verdade, devemos estudar com cuidado.

Se tal plano fosse posterior à vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, não teria o valor demonstrativo que possui.

Se tal plano fosse de data desconhecida, poder-se-ia falar em falsificação.

Aqui está, entretanto, a força probatória, de todo ineludível, que possuem as indicações contidas nesse plano.

Séculos anteriores à vinda de Jesus Cristo, encontrava-se esse plano total e detalhadamente delineado. E estava ele
custodiado precisamente pelos inimigos originários do Cristianismo.

Fato criticamente certo. Séculos antes da vinda de Jesus Cristo, tinham os judeus, em suas Escrituras, uma série de
vaticínios concretos, de características específicas, concernentes ao Messias que eles aguardavam — o Legado
Divino — o Filho de Deus.

Antes dos Samaritanos se separarem dos judeus (722 antes de Cristo) fato certo era a admissão, por parte dos
judeus, dos vaticínios fundamentais (no Pentateuco) relativos ao Messias.

A versão do Antigo Testamento, elaborada pelos 70, do hebreu ao grego, terminou, aproximadamente, dois séculos
antes de Jesus Cristo, pois já em 130, antes de Cristo, era encontrada no Egito. Nessa versão dos 70 encontram-se os
vaticínios messiânicos íntegros, tal como atualmente os lemos.

Durante onze séculos, século sucedendo a século, foram vaticinadas as peculiaridades do Legado Divino, umas,
através de um Profeta, as demais pelos outros.

Cinco séculos (no final do século V), antes de sua vinda, terminada se encontrava a descrição dos traços do Messias.

Ninguém tem o direito de duvidar da genuidade de tais vaticínios.

Antes da vinda de Jesus Cristo, possuía-os a Sinagoga. Ainda atualmente essa mesma Sinagoga os conserva
intactos, mercê de providencial e sapientíssima disposição de Deus.

"Propterea autem judaei sunt, ut libros nostros portent ad confusionem suam. Quando enim volumus ostendere
prophetatum Chistum, proferimus paganis istas litteras. Et ne forte dicant duri ad fidem, quia nos illas christiani
composuimus, et cum Evangelio, quod praedicamus, finxerimus prophetas: hinc eos convincimus, quia omnes ipsae
litterae, quibus Christus prophetatus est, apud judaeos sunt, omnes ipsas litteras habent judaei. Proferimus codices ab
inimicis, ut confundamus alios inimicos... Codicem portat judaeus, unde credat christianus. Librarii nostri facti sunt.
quomodo solent servi post dominos codices ferre, ut illi portando deficiant, illi legendo proficiant..."[3].
Como comenta bem Santo Agostinho esse excerto! "Não nós, mas os judeus, são os conservadores desses livros que
são nossos. Quando queremos demonstrar que Jesus Cristo foi profetizado, apresentamos esses livros aos pagãos. E
a fim de que os obstinados em não crer não viessem dizer-nos que tais livros foram por nós compostos e adaptados
ao acontecido, agindo, assim, como falsificadores, "hinc eos convincimus", precisamente por isso podemos convencê-
los, com evidência, de que tal não é assim, porque todos esses livros em que Jesus Cristo está profetizado "apud
judaeos sunt", todos estavam, séculos antes da vinda de Cristo, em poder dos judeus: eles são seus guardiões".

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Apresentamo-lhes os códices que nossos inimigos possuem, para com eles confundir outros inimigos. "Codicem portat
judaeus, und credat christianus". O judeu leva o códice para que o cristão creia. "Librarii nostri facti sunt..."

Eles são os nossos arquivistas. E os documentos que conservam para nós remontam de quinze séculos, antes da
vinda de Jesus Cristo, até cinco séculos antes da sua chegada. Bela imagem a que Santo Agostinho acrescenta:
quando o escravo está sustentando o livro para que o senhor o leia, o pobre servo segura o livro, mas não pode lê-lo,
porque o segura por trás; é o senhor quem o lê.

Eles, os judeus, conservam para nós os escritos que, durante onze séculos consecutivos iam enfeixando os vaticínios
do futuro Messias. Todos esses vaticínios — feito histórico inegável em ciência — todos estavam já publicados séculos
antes da vinda de Cristo.

Conteúdo desse plano


 

Alguns vaticínios são de um Profeta, outros, de outro; estes foram redatados num local, aqueles noutro; uns versam
uma matéria, outros, outra...

Cada Profeta descreve um  traço ou uma  circunstância do Messias vindouro.


Cada Profeta o anuncia solenemente.

E todos esses traços fragmentários e separados convergem para um ponto concreto: a Pessoa íntegra do Messias.

Vaticínios no período patriarcal, judicial, no período real, no profético.

Foi anunciado: virá o Messias e nascerá da estirpe de Abraão[4].


E descenderá de Isaac[5] e, dentre os filhos de Isaac, outro vaticínio anuncia que descenderá de Jacó[6]; e outro novo
vaticínio determina que, das doze tribos procedentes dos filhos de Jacó descenderá da tribo de Judá[7]; e, finalmente,
outra profecia indica, concretamente, que, dentre as numerosas famílias da tribo de Judá nascerá o Messias da família
de Davi[8].
"Não cessará o poder supremo da tribo de Judá enquanto não vier o Messias[9], predisse categoricamente Jacó.
Daniel, em termos concretos de tempo, predisse que, ao findar setenta  semanas (de anos) dar-se-ia a prevaricação
do povo judeu, sobrevindo a morte do Messias. "Será morto o CRISTO e o povo que o há de negar, não será mais
seu. E um povo, com seu capitão, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário; e o seu fim será uma ruína total e,
depois do fim da guerra, ali se implantará a desolação. E (o Cristo) confirmará a sua (nova) aliança... com muitos"[10].
Quantas recordações da Igreja, senhores!

Quando todos estavam mergulhados em tristeza porque, ao voltarem do cativeiro de Babilônia, encontraram o seu
primeiro templo, o de Salomão, destruído e destroçado o seu povo[11], Ageu consolou-os, anunciando-lhes que um
novo templo, embora menos suntuoso que o de Salomão, será mais glorioso que o primeiro, pois nele penetrará o
Messias.
Malaquias[12] confirmou a predição dizendo que o Messias viria para o segundo templo e, após sua vinda,
permaneceria para sempre destruído o templo.
Miquéias[13] observou que o local em que nasceria o Messias chama-se Belém.
Isaías[14] predisse que o Messias doutrinaria especialmente na Galiléia, tratando os pecadores com benignidade e
mansidão.
Zacarias[15] predisse a venda do Messias por trinta moedas e que o traidor as lançaria no templo, e com elas se
compraria uma olaria.
Isaías, contrariando a crença do povo judeu sobre o Messias, predisse que:

a) o Messias iria ser apontado como malfeitor e entre eles colocado[16].


b) que haveria de ser condenado à morte[17].
c) que haveriam de açoitá-lo, esbofeteá-lo e nele escarrar[18].
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E essas cenas da Paixão do Messias, estão — pela sua transcendência — expostas com tal firmeza de detalhe que,
assim como causam espanto, inundam a alma de luz. Vejamos.

O Messias será despojado de sua túnica, dividida, pelo sorteio, entre os soldados[19].
Não se predisse apenas a morte do Messias, mas até o modo pelo qual seria morto, com mãos e pés transpassados
por cravos[20].
No suplício da cruz, sofreria ele o tormento da sede, a língua ressecada como uma telha (que imagem tão viva a da
telha secada ao sol abrasador do Oriente!), colada ao paladar[21]. Para aliviá-lo da sede, apresentar-lhe-iam uma
esponja embebida em vinagre[22].
Todos quanto o viam cravado na cruz iam escarnecer dele e, arreganhando os lábios e meneando a cabeça, diziam:
"Esperou no Senhor: livre-o, salve-o agora, se é que o ama"[23].
Completando a cena, disse Zacarias "que permaneceriam a olhar o cadáver aqueles mesmos que o haviam
atravessado com suas lanças"[24].
Predições, senhores, concretas; concretas no tempo, concretas no espaço, concretas no fato.
Não são meras conjeturas, nem enunciados equívocos, vagos e imprecisos.

São predições à distância de séculos. A duração histórica da instituição pré-profetismo em Israel abrangeu o espaço
de muitos séculos, e todos os traços da figura estavam concluídos antes da finalização do Século V antes do Messias.

Não são predições a curto prazo, em que talvez se pudesse prever com visos de probabilidade.

Predições sobre complicadíssimos e múltiplos acontecimentos, em cuja realização teriam que intervir um sem número
de vontades humanas, ainda inexistentes, que só haveriam de intervir na História após o fluir de muitos séculos.

Não predições na ordem comum das coisas dependentes de causas necessárias, como terremotos e cataclismos.

Predições contra todo o pensar e o sentir dos judeus, tais como a destruição do templo, o fim de sua religião, a
vocação dos gentios, as ignomínias que o Messias sofreria, e a maneira pela qual se verificaria a esperada redenção.

Predições de tal sorte banhadas de doutrina que não há, atualmente, racionalista sério e científico que não reconheça
que suas idéias e os preceitos, por sua sabedoria e elevação, superam em absoluto todas as doutrinas de qualquer
povo, mesmo dentre os mais cultos dos gentios. Índice, senhores, de sua origem e exclusão do inconsciente
charlatanismo.

Predições não raro em contradição com as próprias idéias do profeta[25].


Predições de Profetas que receberam o dom do vaticínio contra a própria vontade[26]; pois conheciam e temiam os
males que, por isso, haveriam de sofrer.
Predições em que, como se observa meridianamente, se elimina o fator afetivo, ao qual se poderia atribuir a aceitação
dos desejos do profeta como revelações divinas.

Predições que, se houvessem sido fruto da mente dos profetas jamais  teriam sido cumpridas, muito menos todas as
predições de todos os profetas no mesmo e único personagem a que se referiam.
 

Realização do conteúdo do plano


Essas predições concretas, senhores, proclamadas séculos antes de sua realização, ao dealbar do tempo preciso e
prefixado, cumpriram-se exatíssima e plenamente.

E da estirpe de Abraão descendeu Isaac, e da estirpe de Isaac descendeu Jacó, e da estirpe de Jacó descendeu a
tribo de Judá, e da família de Davi ... tudo exatamente como previsto por Daniel cinco séculos antes... Deixou de existir
o cetro de Judá, como anunciara Jacó, e na insignificante povoação de Belém,  tal como predissera Miquéias, nasceu
Nosso Senhor Jesus Cristo, numa precisão de cronologia e local absoluta.
E... Jesus Cristo entrou no segundo templo, como o predisse Ageu, templo esse que, após a vinda de Jesus Cristo,
permaneceu arruinado e derruído, como o profetizou Malaquias.

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E... Galiléia transformou-se no sítio principal de suas pregações; e... acolheu a Adúltera, a Samaritana, Zaqueu,
Madalena e o Ladrão... com aquela mesma benignidade por Ele descrita no Pai do filho pródigo e no Bom Pastor, tal
como predissera Isaías oito séculos atrás.

Profetizaram-se com abundância de detalhes os momentos culminantes da vida do Messias, a fim de tornar-se
inconfundível — com a mais rigorosa certeza que se possa imaginar — a pessoa do Legado Divino.

E tal multiplicidade, e tal minuciosidade de pormenores tiveram, em JESUS CRISTO NOSSO SENHOR fidelíssimo
cumprimento na 70.a semana de anos, segundo profetizara Daniel; após haver sido vendido por 30 moedas, como o
predissera Zacarias; apontado como malfeitor, condenado à morte a pedido do povo, açoitado, esbofeteado, cuspido
como, oito séculos antes, o assinalara Isaías em suas profecias; despojado de sua túnica, que os algozes dividiram
pela sorte dos dados; cravadas suas mãos e pés no lenho do suplício; atormentado pela secura ("tenho sede!",
exclamava), mas saciado pelo vinagre; escarnecido e insultado pelo povo, ao desfalecer nas vascas da agonia... como
fora previsto, minuciosamente, ponto por ponto, nos Salmos, morria Jesus Cristo Nosso Senhor, cujo corpo lanceado,
já cadáver, como Zacarias o vaticinara, foi enterrado no sepulcro de um homem opulento, José de Arimatéia, como
Isaías o consignara.
***

Predições indubitáveis, de rigorosa exatidão histórica.

Seu cumprimento foi exatíssimo; tão rigorosamente fiel que, se por acaso não existisse a prova autêntica da sua
veracidade, conservada e custodiada pela religião judaica, desde muitos séculos antes dos fatos, as predições
pareceriam antes cópias fidelíssimas do original histórico do que meros vaticínios.

Reflexionemos, senhores, sobre todos esses fatos indiscutíveis: a existência e o cumprimento dessas predições.

***

Tão categóricas, tão afirmativas, tão abundantes, tão ricas nos mínimos detalhes, cumpridas com a mais fiel exatidão
no fluir de séculos após séculos e no momento preciso por elas assinalado, tais predições jamais poderiam ser fruto
da inteligência humana, nem qualquer homem sério e de crítica científica atrever-se-ia a assim supor.

Ao homem de estudo, ao homem que reflete, que é preciso na ciência, jamais será necessário ponderar a dificuldade
da previsão.

Quão difícil, senhores, é predizer!

É evidente que não aludo a uma predição do gênero "vamos ver se dá certo", a um predizer puramente conjectural, e
aventuroso. Vaticinar dessa forma é muito fácil, mas esse prognóstico longe está da predição precisa,
categoricamente afirmada e matematicamente cumprida da profecia.

Predizer, senhores... que dificuldade! Claro está que não falo de um predizer enfático e presunçoso, que anuncia em
vão, sem que o acontecimento anunciado seja transformado na realidade predita.

Predizer! Mesmo os fenômenos meteorológicos, ferreamente concatenados em suas causas, são impossíveis de, pelo
entendimento humano, serem preditos, com longa ou curta antecedência, com exatidão de temperatura, direção e
velocidade do vento... milímetros de pluviômetro. Predições com séculos de antecedência seriam, em Meteorologia, o
que é o Calendário Saragocence em ciências exatas.

Haverá aqui alguém, senhores, que seriamente, possa informar-me que tempo fará em tal dia e tal hora de 1968? Há
alguém que me diga que tempo teremos em tal dia e tal hora de 1969?

Há alguém aqui que possa me dizer quantos milímetros exatamente cairão no pluviômetro num determinado dia?
Predizer, senhores! Prestai atenção! E isto em Meteorologia, em que os fenômenos, todos eles já estão contidos em

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causas naturais. Tudo quanto vai acontecer provém de causas determinantes, que atualmente existem. Mesmo assim,
quão penoso é predizer estas coisas!

Predizer! Predizer, nos fenômenos sísmicos o local do movimento, a designação do epicentro, a intensidade do
terremoto, suas conseqüências, e predizê-lo com segurança e com certeza de realização, a séculos de distância, nem
sequer de dias nem de horas, mas de séculos, é superior à compreensão científica da inteligência humana.

Oh! Se no espaço de um dia fosse possível predizer os terremotos, não aconteceriam as desgraças ocasionadas pelo
de Messina, pelo do Japão, pelo da Califórnia.

Senhores, difícil é a previsão. Reparai: as causas dos abalos terrestres, todas as que desencadeiam comoções e
terremotos, são atualmente conhecidas, e no desenvolvimento dessas causas está precisamente contido o terremoto.
Pois apesar de tudo isso, ao entendimento humano... que difícil é predizer!

Predizer! Predizer o sexo de um futuro ser, suas tendências, seus estados nosológicos, com sua etiologia exata, com
sua sintomatologia e seu prognóstico, dizei-me vós que sois médicos, se tal predição seria própria do homem de
ciência que, cem vezes na vida, é impotente para predizer, embora auxiliado por todos os modernos meios de
diagnóstico, a evolução da enfermidade sobre a qual se debruça. Predições neste domínio seriam predições de
cartomante que "deita as cartas" ou de ciganas que, observando as linhas da mão, "tiram a sorte". Quem isto
predissesse com tanta segurança e tanta seriedade... tanto mais néscio seria.

Predizer! Quão difícil, senhores, senão impossível, o profetizar categórico, sério, concreto, com matemática realização
da predição, mesmo quando se trata de fenômeno como os meteorológicos, os sísmicos, não poucas vezes os
patológicos, que são fenômenos cuja existência está ferreamente contida em suas causas atualmente conhecidas! E
se tal predizer é impossível ao entendimento humano, que se dirá da predição de futuros dependentes da vontade
humana, futuros não fèrreamente contidos em suas causas, como a chuva ou o frio que vamos ter amanhã?

Predizer, onde a vontade humana intervém!

Se sobre nós mesmos impossível é predizer o que faremos daqui a tal hora ou dentro de quatro anos! Antes de mais
nada, viveremos tal dia como hoje, dentro de quatro anos? Não morreu ninguém, repentinamente, de angina péctoris?

As chamadas leis estatísticas  jamais predisseram fatos concretos,  determinados o local, o tempo e as pessoas.


Expressam apenas, segundo o cálculo das probabilidades — nada mais queprobabilidades  — alguns acontecimentos
humanos.
Nunca, com o auxílio de leis estatísticas, poder-se-á predizer que "no ano de 1969 haverá no mundo tal
número exato  — e não pouco mais ou menos — de homicídios; que o primeiro desse ano dar-se-á em tal lugar, em tal
rua, de tal maneira, cometido por tal pessoa... o segundo... o milésimo..."
Com antecedência de anos, quanto mais de séculos, como é árduo predizer, com exatidão, fenômenos dependentes
da vontade humana (e sobretudo quando entra em jogo um sem número de vontades) e predizê-los com pormenores
precisos, concretos e múltiplos; escusado é intentar provar, senhores, que, em ciência pura, tudo isso é absurdo.
Estou diante de um auditório culto, capaz de compreender esta palpitante verdade, sem necessidade de que eu entre
em detalhes.

Ninguém que possua seriedade científica atrever-se-á a supor que a inteligência humana possa vaticinar, com
absoluta exatidão, através dos séculos, acontecimentos que dependam do múltiplo concurso de vontades humanas.

***

Estas previsões, com as notas de afirmação categórica, determinação concreta e exata, cumprimento de precisão
absoluta são próprias somente àquele entendimento que, por ser Infinito, está presente em todos os tempos e
perscruta o futuro livre, ainda inexistente, mas que terá realidade física em seu tempo.
Pertence unicamente a Deus o poder de predizer o futuro livre, com séculos de antecedência e com afirmação
absoluta, determinação precisa e cumprimento exato de tudo quanto foi predito. Vemos isso com evidência.

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Predições — no plural — predições — mais de trinta  foram aqui expostas — feitas durante onze séculos,
por vários  profetas, de traços e de detalhes tão minuciosos e pormenorizados quantovariadíssimos  em seu conteúdo,
e todas elas perfeita e pontualmente cumpridas, exatamente como foram profetizadas, na Pessoa a quem se referem,
somente a Deus podiam ter como Autor.
***

E se Deus é o Autor dessas profecias contidas nas Escrituras, bem podemos guiar-nos por elas na obtenção da
verdade.

Com elas aos nossos olhos, naveguemos em busca do porto da Verdade.

Duas coordenadas na carta de marear são suficientes para que a posição de um determinado porto seja fixada.

Mais de 30 coordenadas, que coincidem, com a mais exata das precisões, na Pessoa de Jesus Cristo — com as
características que acabamos de estudar — podem deixar-nos mais que convictos de que Jesus Cristo é a Verdade.

Duas coordenadas, latitude e longitude, cintilações de luz do farol, assinalam o porto para o qual o barco navega,
servindo de guia fidelíssimo para que nele e com segurança a âncora seja lançada.

Cintilações de luz divina, emitidas durante onze séculos, assinalando a Jesus Cristo — Legado Divino — Filho de
Deus — com segurança podem conduzir-nos a Ele, porto da Verdade Religiosa.

Quando a Ele chegarmos, ouçamos de seus divinos lábios: "Ego sum veritas", "Eu sou a Verdade".

As credenciais entregues por Deus a seu Filho são de tal natureza, por sua multiplicidade e clarividência, que acalma
a curiosidade mais escrupulosa.

Além do mais, elas evidenciam a má fé dos que, cegos por vontade própria, obstinam-se a não considerá-las, nem
admiti-las.

***

Por isso, o mesmo Jesus Cristo argumentava com os judeus que admitiam as escrituras do Antigo Testamento e que
acreditavam fossem elas inspiradas por Deus, no sentido de convencê-los de que, fundados precisamente nelas,
cressem em seu Messianismo e o recebessem como enviado de Deus, seu Pai.

"Examinais as Escrituras porque julgais ter nelas a vida eterna e illae sunt;  e elas são as que dão testemunho de
mim"[27].
Examinai também, senhores, os vaticínios com que nas Escrituras se indicam as características do Legado Divino;
observai como todos coincidem e se realizam na pessoa de Jesus Cristo. Que Ele vos ilumine a fim de que a verdade
e a inegável crítica histórica — dos vaticínios e do seu cumprimento em Jesus Cristo — vos faça murmurar como à
Samaritana: "Scio quia Messias venit".

***

Homem que me escuta: procuras sinceramente o porto da Verdade?

Vê a coincidência da latitude e da longitude, verifica as cintilações do farol; dirige o rumo de tua vida; leme firme, proa
ao porto e... âncora! Chegou o momento final, o momento culminante da sinceridade.

"Quem é o Messias?" perguntou a Jesus Cristo a Samaritana.

E Jesus redargüiu: "Sou eu, o mesmo que fala contigo".

Quem é a Verdade? indaga o homem sério. Ouçamos a resposta do mesmo Jesus Cristo: "Sou eu. O mesmo de que
falam as Profecias.".
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Que ele vos faça, com a graça divina, aceitar, livre e sobrenaturalmente, o Enviado de Deus, que é a luz, o caminho e
a verdade. Oxalá possam todos repetir com Felipe quando encontrou Natanael: "Quem scripsit Moyses in lege et
prophetae, invenimus Jesum"[28]. "Encontramos Aquele de quem os profetas escreveram — Jesus".
***

Eis aí, senhores, o problema. Quisera que todos, muito serenos, meditassem a respeito. Dei-lhes a orientação sobre o
plano para encontrar a Verdade. Cumpri o meu encargo: "Jesus Cristo na Profecia".

Terceira Conferência
JESUS CRISTO NA HISTÓRIA
Senhores!

Estudaremos agora Jesus CRisto emoldurado no quadro real da História.

Estava predita a Pessoa do Messias.

E Este se apresenta ao mundo. "Lux venit in mundum".

Pleno de luz e de verdade. — A Verdade e a Luz.

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Quisera, senhores, que tivéssemos agora os olhos da alma bem abertos e que as trevas ou nuvens de paixões não
obumbrassem a refulgente claridade em que se envolve a pessoa histórica de Jesus Cristo.

Abri vossos olhos, dissipai as trevas de perturbadoras afetividades; somente isso é suficiente. A Verdade, a Luz, vos
iluminará.

***

Surge Jesus Cristo em pleno quadro da História.

Nascido no tempo de Augusto, morto no de Tibério, viveu Jesus Cristo na mesma época histórica que Filon, o judeu,
que TITO LÍVIO, que Sêneca, que Virgílio.

Sua vida pública desenrolou-se inteiramente entre essas figuras históricas.

"No ano décimo-quinto do império de Tibério César, governando Pôncio Pilatos a Judéia, sendo Herodes tetrarca da
Galiléia... ao tempo dos sumo-sacerdotes Anas e Caifás..." faz Jesus Cristo sua primeira aparição pública.

Não se trata de Jesus Cristo, a figura lendária, vaga, que se oculta entre as sombras dos tempos pré-históricos e vive
em lugares desconhecidos e fantásticos.

Eis, senhores, a realidade histórica, concreta, em tempo, em lugar, em obras.

A figura de Jesus é viva, tangível, realíssima. Tão real e tão viva que um recente apóstata da Fé não teve outra
alternativa senão escrever: "Jesus vivo trata com os vivos; o mundo que vê agitar-se em redor é um mundo real; as
figuras que aí se desenham, têm o relevo da existência e dos caracteres individuais; a vida invade tudo e, com a vida,
a verdade da representação histórica"[29].
Podemos, pois, abordar o estudo de sua Pessoa com a mesma crítica e rigorosidade histórica com que se pode
estudar qualquer problema histórico de qualquer outra disciplina.

AS FONTES HISTÓRICAS PARA O ESTUDO DE JESUS CRISTO


 

Quais as fontes críticas em que podemos estudar esse personagem vivo, histórico?

Senhores, um pouco de psicologia.

Seria muito lógico. Conceder valor histórico às fontes sobre a Pessoa de Jesus Cristo não convinha, de modo algum,
aos que se recusavam aceitar as conclusões que delas defluíam.

Seria muito lógico. Se se concedesse valor histórico aos Evangelhos, não se podia deixar de aceitar seu conteúdo
como, de resto, de qualquer documento histórico, e tal conteúdo não era de grata aceitação.

Seria muito lógico. Relegavam-se os Evangelhos para épocas muito posteriores àquelas em que se diziam escritos e
já não haveria mais ninguém molestado por seu conteúdo.

Seria muito lógico. Dava-se-lhes uma data de composição posterior a 150 de nossa era. Assim se resolveriam todas
as dificuldades. Nem seus autores são os que encabeçam o título dos Evangelhos, nem seu conteúdo é o da evolução
de um ideal profundamente desejado pelos cristãos. Os Evangelhos não eram relatos históricos. Eram escritos
posteriores em mais de um século dos fatos que narram; fatos que, longe de serem realidades, eram afetividade do
coração do povo crente.

Tudo isto seria muito lógico, senhores, mas não seria científico.

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Seria muito lógico, dadas as grandes cargas afetivas de que provinham. Isto sim, partia da afetividade, não da razão,
não do estudo sereno e imparcial.

***

E com que febril atividade, com que ardor empreendeu-se o estudo crítico-histórico dos Evangelhos! Como foram
analisados e esmiuçados nestes últimos cinqüenta anos — com todo esse rigor e escrúpulo, que são próprios da
Ciência — através de todos esses métodos usados na elucidação da autenticidade histórica dum documento!

E esses estudos procedidos por racionalistas, com a finalidade de apaziguar suas cargas afetivas, obrigou um grande
expoente do racionalismo alemão a indagar, diante dos resultados: "Trabalhamos cinqüenta anos febrilmente para
extrair pedras da cantaria que sirvam de pedestal à Igreja Católica?"

Porque, senhores, eis o resultado a que atingiram sérios trabalhos, críticas da mais exata investigação:

Pelo método das citações descobriram-se citações dos Evangelhos em escritos autênticos anteriores a 150, anteriores
ao ano 100 da nossa era... citações ipsis-litteris dos quatro Livros Sagrados. No fragmento do manuscrito chamado
Muratoriano, estudado por Wieseler e Herz, entre outros, é dado como certeza que já em 142, sob Pio I, existia o
catálogo dos livros canônicos, dentre os quais figuravam os Evangelhos.
E o manuscrito Códice Sinaitico não é mais que cópia do texto grego dos Evangelhos, usado pela Igreja antes de
findar o Século I.
A lógica, impulsionada pelas cargas afetivas, anelava que os Evangelhos houvessem sido escritos após o 150, mas a
crítica, cientificamente serena, os encontra copiados  em citações antes do ano 100...
Pelo método das traduções...
Naturalmente, operário que me escuta, se alguém traduz um livro, tal livro traduzido é anterior à tradução.

Possuímos traduções. A Vetus Italica,  que é a versão latina dos Evangelhos, e a Peschito, que constitui a sua versão
síria, foram elaboradas anteriormente a 150, a primeira, e a segunda em fins do Século I.
Logo, se algumas das versões são do Século I, os Evangelhos — em que pese serem apontados, pela lógica afetiva,
como posteriores a 150 — são certamente anteriores ao Século II.

Pelo método polêmico,  teremos, senhores, que já no Século II redigiam-se libelos contra os hereges, nos quais se os
argüia recorrendo aos Evangelhos, o que não deixa de ser uma suposição de sua existência.
Supõe, além disso, uma vez que se argumentava com o que os próprios hereges concediam, que já nessa época,
eles, os hereges, admitiam a autenticidade dos Evangelhos. Pois que se assim não fosse, bastaria que os referidos
hereges redargüissem que os ensinamentos dos Evangelhos não lhes diziam respeito.

A lógica afetiva supôs os Evangelhos escritos quando convinha a seus desejos.

Mas a ciência séria, com multiplicidade de argumentos de valor estritamente crítico, conclui pela genuinidade dos
Evangelhos, escritos no Século I pelos autores que neles figuram.

O próprio Renan viu-se compelido a confessar: "Em suma, admito como autênticos os quatro Evangelhos
canônicos"[30].
Aliás, toda a crítica racionalista de valor, com Harnack à frente, não pôde conceder menos, confundida pela Ciência:
"O caráter absolutamente único dos Evangelhos é, hoje em dia, universalmente reconhecido pela crítica".

Tão certo é em ciência o valor histórico dos Evangelhos, que Streeter, o grande crítico inglês, afirma, em seus estudos
de literatura clássica, que aqueles Livros são os que, falando de modo crítico, detém a mais privilegiada posição que
existe.

E o mais seguro dos críticos de textos do Século XIX, Hort, resume suas investigações de vinte e cinco anos, resume
Hort seus estudos de vinte e cinco anos, repito, e os de seu colega Westcott, com estas frases textuais: "As sete
oitavas partes do conteúdo verbal  do Novo Testamento não admitem dúvida alguma. A última parte consiste,

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preliminarmente, em modificações na ordem das palavras ou em variantes sem significação. De fato, as variantes que
atingem à substância do texto são tão poucas, que podem ser avaliadas em menos da milésima parte do texto".
Senhores! É de admirar que, entre a quantidade inumerável de códices, versões e cópias dos Evangelhos, em todo o
orbe, ainda mesmo quanto à materialidade  das palavras, não seja objeto de dúvida a concordância de sete oitavas
partes do texto e que a parte restante constitua apenas variantes da ordem dessas mesmas palavras. Admira,
senhores, que através de tantos copistas e em tão variadas línguas, as variantes entre códices e versões do mundo
todo não atinjam a mais do que a milésima parte do texto evangélico.
Quem poderia exigir tanta precisão e exatidão histórica nas fontes para o estudo de Jesus Cristo?

Convém refletir, senhores, sobre a circunstância de não serem de hoje as traduções ou cópias dos Evangelhos. São
elas da época dos papiros quando, então, os amanuenses que as redigiam, enviavam os Evangelhos para a Síria,
para a Grécia, para a Palestina, para a África... Fácil é avaliar o valor dessa prova, reflexionando como homens de
hoje que dispõem de máquinas de imprimir que produzem um sem número de cópias exatamente iguais.

Autênticos e genuínos, foram os Evangelhos escritos pela geração em que se desenrolaram os fatos que narram,
geração essa que teria podido, ao lê-los, recusar seu conteúdo como inexato, mas nunca o fez.

Transparentes e simples, sem ocultar fraquezas e erros dos Apóstolos, nem humilhações e ignomínias de Jesus
Cristo, assim são os Evangelhos. Redigidos por testemunhas oculares, como Mateus e João, como Marcos,
amanuense de Pedro, como Lucas, o fidelíssimo investigador e crítico relator do que narra. Selados com o testemunho
dos tormentos e do martírio sofridos por seus autores, os Evangelhos — segundo o estudo mais crítico-científico feito,
através dos anos de investigação, por homens alheios a seu ideal religioso — são as fontes críticas irrecusáveis que
nos colocam, com absoluta segurança científica, em contato com a Pessoa e a obra de Jesus Cristo.

Ninguém pode duvidar de seu conteúdo, se essa dúvida for prudente e racional. Sim, porque


duvidarimprudente  e irracionalmente  é possível...
Creio, senhores, que nenhum dos que aqui estão são dos que querem proceder imprudentemente, nem dos que
querem ser irracionais.

***

Vejamos nos referidos documentos, fontes de historicidade autêntica, quem é Jesus Cristo.

Jesus Cristo manifestou-se com insuperável claridade, dizendo categoricamente quem é...

Anunciava-se a vinda do Legado Divino, do Filho de Deus.

Em Jesus Cristo se cumpririam todos os vaticínios ficando, destarte, indubitavelmente designado quem era; agora,
porém, não são os profetas, senão Ele mesmo que se manifesta e se revela à Humanidade.

O fato central histórico na vida de Jesus Cristo é a sua afirmação categórica, repetida privativamente, em público e
diante do tribunal, de que era Ele o Filho de Deus.

"Tu credis in Filium Dei?", perguntou ele ao ceguinho de nascença, a quem acabara de dar a visão. "Crês no Filho de
Deus?" Ele respondeu afirmando: "Quem é, Senhor, para que creia n'Ele?" E tornou Jesus: "Viste-o (fazia só um
instante que ele podia ver) e é este mesmo que fala contigo"[31].
O Filho de Deus revela-se tanto à Samaritana como ao cego. Jesus Cristo não faz distinção de almas.

Falava Jesus Cristo, certo dia, a uma pobre mulher da Samaria, mulher desencaminhada, por quem sentira
compaixão. Lembrai-vos de que vos disse que, em 722, após haverem se separado dos judeus, os samaritanos
levaram as profecias e as conservaram consigo. Por isso, a Samaritana falou a Jesus Cristo: "Já sei que virá o
Messias, a quem chamam Cristo. Quando ele vier, tudo nos ensinará".

Redargüiu, então, Jesus Cristo solenemente: "Sou eu, o mesmo que está falando contigo". E a Samaritana,
prostrando-se por terra, adorou-o. Isto ocorreu entre ambos.

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E em público, senhores, que magnífica confissão a sua! "O Pai e eu somos um". E compreenderam-no tão bem os que
o ouviam em público que, por isso, quiseram apedrejá-lo!

Que diálogo!

— "Tenho-vos mostrado muitas obras boas: por qual destas obras me apedrejais?"

— "Não é por causa de nenhuma obra boa que te apedrejamos, mas pela blasfêmia e porque sendo tu um simples
homem, te fazes Deus!"[32].
Aqui quiseram apedrejá-lo, mas após o discurso que pronunciou, diante dos escribas e fariseus, ao acabar de curar o
paralítico na piscina probática, quiseram matá-lo, porque "dizia que seu Pai era Deus, fazendo-se igual a Deus"[33].
E toda sua vida pública é uma contínua afirmação de sua divina filiação, uma prova constante de sua mensagem.

Diante do tribunal, no momento mais solene de sua vida, conjura-o o Sumo Sacerdote, em nome de Deus vivo, a dizer,
de uma vez por todas e claramente (quantas e quantas vezes já o dissera!): "Tu és o Cristo, Filho de Deus bendito?"

Com a mesma clareza que, durante sua pregação evangélica, pleno de majestade e domínio, embora manietado,
sempre manteve, respondeu, categoricamente, ao Supremo Tribunal Eclesiástico: "Ego sum". "Eu o sou"[34].
E por havê-lo dito e reiterado categoricamente sua filiação divina, precisamente por essa razão, condenaram-no à
morte. "Nós temos uma lei e, segundo ela, deves morrer porque te fizeste Filho de Deus"[35].
Bem decisiva é, ante a História, a reiterada afirmação de Jesus Cristo, de que Ele é o Filho de Deus.

***

E tão históricas quanto essa afirmação, são as provas que Jesus Cristo aduziu para demonstrá-la.

Razões tinha Jesus Cristo por tudo quanto se via, em sua Pessoa, de santidade e de verdade, por tudo quanto os
Profetas haviam predito do Messias, e que o podiam ver inteiramente cumprido n'Ele, para que cressem n'Ele. Mas, "si
mihi non vultis credere", "se em Mim não quereis acreditar", dizia a seus adversários, "operibus credite", crêde em
minhas obras"[36].
***

As obras de Jesus Cristo! Plenas de realidade, inconfundíveis, infalsificáveis.

Justíssimo é que o entendimento humano queira provas da realidade afirmada por Jesus Cristo.

Não é próprio do homem razoável crer sem provas.

Pedi provas, e provas positivas, das que não possais racionalmente duvidar, das que não possam ser falsificadas.
Quando, porém, oferecem-vos essas provas com todo o rigor crítico possível, não procedeis racionalmente se as
recusais por apriorismos afetivos.

— Padre, dê-me uma prova clara, uma prova para um operário. Padre, uma prova para um comerciante... Padre," sou
um homem metido em negócios; eu sou arquiteto... Padre, não me dê essa prova... que não compreendo. Padre, sou
médico e cuido da parte material do homem; não me apresente uma prova de excelência, de agudeza de espírito
porque...

— Fazeis muito bem em solicitar provas ao vosso alcance. Pedis uma prova que seja palpável, pedis uma prova
manifesta, que conste ser, sem tergiversação possível, uma prova irrecusável.

Exigis provas, exigis.

Provas sensíveis, tangíveis, não provas de difícil compreensão para este ou aquele privilegiado entendimento.
Provas manifestas e absolutamente fora do curso natural e ordinário.
Provas em que a desproporção real entre a causa e o efeito salte à vista.

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Provas que, pela maneira plena de dignidade com que são realizadas, excluem o charlatanismo e tudo quanto tenda a
favorecer o orgulho, o exibicionismo e os bastardos interesses do lucro.
Provas relacionadas com algo de transcendência  vital, de verdadeiro interesse, não ligeirezas e puerilidades
nigromânticas e de manifesta vacuidade.
Provas em que a pessoa que as produz por sua honorabilidade, virtude, seriedade, seja a sua garantia.
Está em vós exigir essas provas, para possuirdes um fundamento sólido em vossa crença.

***

E como Jesus Cristo se mostra magnífico em oferecer provas inconcussas de suas afirmações!

Magnífico em suas provas é Jesus Cristo. Provas da historicidade crítica mais absoluta. Provas totalmente positivas,
sensíveis, tangíveis, de manifesta superação do poder das causas naturais, absolutamente fora do comum e do geral,
plenas de dignidade e da transcendência mais vital.

Magnífico nas provas é Jesus Cristo!

Ah! Senhores! Quando Jesus Cristo resolve apor o seu selo!

Há firmas que podem ser falsificadas. Para isso existem os falsificadores.

Mas quando Jesus Cristo põe-se a selar, usa de um sinal que ninguém possa falsificar! Como Jesus Cristo o faz
bem!...

Contam-se, nos quatro Evangelhos, nada menos que 41 dessas provas; 24 em São Mateus, 22 em SÃO Marcos, 24
em São Lucas e 9 em São João, num total de 41 provas diferentes, sendo, as demais, repetidas.

Provas que constituem a substância mesma dos Evangelhos.

Provas de tal maneira distribuídas nos Evangelhos que, em crítica científica é absolutamente impossível qualquer
interpolação; porque os antecedentes e conseqüentes de tais provas — a razão pela qual se fazem os milagres e a
doutrina que, na oportunidade, Jesus Cristo explicou — estão todos no Evangelho.
Todo o Evangelho, senhores, é como que antecedente e conseqüente das provas — os milagres — que Jesus cristo
ofereceu de sua Pessoa.

Todo o Evangelho. E, senhores, o Evangelho todo, em plena crítica, sob o critério científico mais rigoroso, é um
documento histórico de tamanho valor que, segundo a confissão até mesmo dos não católicos, mas especialistas na
matéria, não existe outro livro, na literatura antiga, que possua já não digo iguais, mas nem mesmo longínquas provas
a favor de sua historicidade.

Jesus Cristo é magnífico no oferecimento de provas.

Quarenta e uma vezes as apresenta, fundadas na mais rigorosa crítica histórica.

Selecionemos algumas...

***

Certa vez Jesus Cristo ergueu os olhos e viu uma turba que viera ao seu encontro e, compadecido desses homens,
pois estavam como ovelhas sem pastor, acolheu-os e principiou a doutriná-los; começou a pregar-lhes. Eram muitos,
mais de 5.000, sem contar multidão de mulheres e crianças.

Aqueles homens, entusiasmados pela predica de Jesus Cristo — Oh! sim, se eu vos pudesse falar como falava Jesus
Cristo — seguiram-no durante o dia todo, sem um pedaço de pão para mastigar.

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Quando a tarde desceu, ao avançar das horas, aproximaram-se os discípulos dizendo: "Estamos num deserto e faz-se
tarde; deixa ir essa gente, para que demandando as aldeias, compre de comer"[37].
Mas Jesus disse-lhes: "Não têm necessidade de ir. Dai-lhes de comer".

Dirigindo-se depois a Felipe perguntou-lhe: "Onde compraremos o pão para dar de comer a essa gente? Quantos pães
tens?"[38].
André, o irmão de Simão Pedro, respondeu: "Há aqui um jovem que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que
é isto para tanta gente?"

Redargüiu-lhe Jesus: "Traze-o aqui". E acrescentou, numa ordem: "Faze com que vão se sentando sobre a relva, por
grupos".

E, de acordo com o que foi ordenado, fizeram com que todos se sentassem em grupos de cem ou de cinqüenta.

Tomou, então, Jesus, os cinco pães e os dois peixes, benzeu-os à maneira oriental e mandou que seus discípulos os
distribuíssem...

Ah! pseudocientista, que, com ironia, e desdém exclamas para desvirtuar os fatos: "Sugestão! Sugestão! Quem sabe
até onde chega a sugestão?"

Pseudocientífico! O lamentável não é te perderes, mas que te percas por vontade; o lamentável é que,
voluntariamente, não queiras refletir; o lamentável é que não só te perdes como arrastas outros infelizes em tua
perdição, abusando de tua autoridade pseudocientífica.

Encarcera-se aquele que envenena com drogas e estupefacientes, mas não se condena quem envenena as almas,
que é mais que o corpo.

Pseudocientista! Como Jesus Cristo ensina bem! Ensina e sela sua doutrinação de maneira infalsificável!

Repartem-se pães. Repartem-se pães. Sugestão! 5.000 homens que comem, 5.000 homens que se fartam. Sugestão!
Oh! protervia humana! Acreditam-se nas ridicularias e no noticiário dos jornais e quando Jesus Cristo exibe o seu
selo... sugestão!

Sugestão sobre 5.000 homens — e acrescentem-se ainda, as mulheres e as crianças — que não julgam ver, mas que
pegam, comem e se fartam!... Como é irrecusável o selo de Jesus Cristo! ... E manda que se recolham os fragmentos
das sobras de pão, com as quais se enchem doze enormes cestos!

"Jesus Cristo, ordenas que se recolham os pedaços de pão? Mas que falta fazem essas migalhas, quando
multiplicaste os cinco pães?"

Ah! senhores, nenhuma falta faziam a Jesus Cristo as sobras de pão, mas a mim foi muito bom que Ele mandasse
recolhê-las.

Começaram a repartir cinco  pães, deles comeram 5.000 homens, sem contar as mulheres e as crianças, e ainda
sobraram, senhores, doze cestos do resto desses pães.
Com que razão argumenta Jesus Cristo: se não credes em Mim, crêde em minhas obras!

***

Que imenso pecado o daquele que cospe em Jesus Cristo e atira à sua face: "Não acredito em ti!"

Senhores, como é indestrutível o selo de Jesus Cristo! ...

Existem médicos por aqui? Diz o médico: sugestão!

Eu pergunto: desejava saber o que é sugestão... Que será a sugestão?


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Há aqui algum psiquiatra? Que será a sugestão?

O mecanismo interno que se designa com oito letras: sugestão!

Mas, espera, aí vem Jesus Cristo a caminho de Jerusalém, e dele aproximam-se dez leprosos.

Haverá aqui médicos que conhecem o bacilo de Hansen e os módulos cancerosos e a degeneração dos tecidos?

A técnica atual do Século XX, à força de investigar em tantos centros, chegou a observar que talvez, pelo azeite de
"chaulmogra" devidamente administrado, se obtenha certa remissão e cura condicional da lepra. Tratamento
dolorosíssimo, prolongado e... não eficaz.

Eis que vem Jesus Cristo e dele aproximam-se os leprosos, aqueles que não podiam apresentar-se em público, mas
que tiveram coragem para aproximar-se do Mestre, com essa confiança que somente Jesus Cristo inspirava.

Chega o leproso, ocultando as chagas em sua carne e, uma vez diante d'Ele, diz-lhe: "Senhor, se queres poderás
limpar-me"[39].
Resposta de Jesus Cristo: "Quero! Fica limpo!"

E no mesmo instante aquela carne podre tornou-se completamente limpa, sadia como corpo de recém-nascido...
Sugestão?

E esse foi um dos muitos casos de leprosos que Jesus Cristo curou de maneira semelhante.

Haverá quem queira arriscar-se ao ridículo afirmando que a lepra é curável por sugestão?

Senhores! Como prova Jesus Cristo!

***

Há alguém aqui que conheça Medicina Legal? Qual a prova certa para determinar-se a morte real, distinguindo-a da
aparente?

Reparai, senhores; o certo em ciência, o indiscutível é isto: onde há putrefação não existe vida. Célula putrefata, célula
morta. O putrefato não vive. Protoplasma desintegrado, núcleo desintegrado, estado coloidal transformado em estado
de gel..., morte!

Em ciência tal é indiscutível: putrefação, morte!

Lázaro, da Betânia, encontra-se gravemente enfermo. Suas irmãs mandam contar a Jesus Cristo. Esse, porém,
atrasa-se em atender ao chamado e chega ao lar do amigo quatro dias após o seu sepultamento[40].
Dizem a Jesus: "Se houvesses estado aqui, Lázaro nosso irmão não morreria", o que equivale a dizer-lhe: Por que o
deixaste morrer?

Deixou-o morrer, senhores, para bem selar a prova de sua divindade.

"Senhor, disse-lhe Marta, Senhor, repete Maria, se houvesses estado aqui, meu irmão não teria morrido".

Chora Marta, Maria desmancha-se em lágrimas, os judeus que tinham ido até o sepulcro, choram também, e Jesus,
diante daquela cena de dor e ternura, deixa entrever a imensa suavidade de seu coração... e cai em pranto.

Disse Jesus: "Retirai a pedra!"

Marta, a irmã do defunto, diz-lhe: "Senhor, ele já cheira mal, morreu há quatro dias".

Ao retirarem a pedra todos, sem dúvida, haveriam de sentir o nauseabundo odor que se exalaria do sepulcro.

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Ergueu Jesus os olhos para o alto e exclamou: "Pai... Para que todos creiam que Tu me enviaste".

E com aquele mesmo poder com que criou os astros, que em vertiginosa carreira giram pelos espaços, com seus
milhões de quilômetros cúbicos de massa; com aquele poderio de Deus Criador, Jesus Cristo, sereno, digno, em pleno
domínio de Si mesmo, clama com voz forte: "Lázaro, sai para fora!"

Eis Lázaro vivo, não num lugar que se ignora, não diante dum grupo de iniciados por Jesus Cristo, mas em Betânia, à
frente dos judeus que se encontravam em casa de Marta e Maria, inimigos mortais de Jesus Cristo em sua maioria.

Lázaro vive!

Saiu do túmulo o que estava morto, pés e mãos amarrados, o rosto envolto num sudário.

Senhores! É de se perder o juízo!

Parece que ver o cadáver ressuscitado seria suficiente para que todos, arrojados à terra, adorassem Jesus Cristo,
beijassem a fímbria de seu manto e exclamassem: "Creio!"

Tal não aconteceu.

Muitos sim, muitos creram.

Mas, diz o Evangelho que grande parte, não.

Quisera que aqui estivesse, esta noite, um psicólogo famoso, um grande psiquiatra que pudesse explicar-me o influxo
da afetividade na lógica, e ao mesmo tempo observasse como as derivações psíquicas, que antes se acreditava
fossem primordialmente intelectuais, parecem ser, agora, de ordem afetiva.

Como é verdade! Que influência a da afetividade! E por causa dela, como odeiam a Jesus Cristo, com encarniçada
raiva! O que Jesus CRisto dá de melhor, convertem-no no pior.

Os judeus não negam o fato — é por demais palpável — mas, fervendo de ódio diante do prodígio, acodem
pressurosos aos Príncipes dos Sacerdotes, instando em fazer que Jesus Cristo desapareça o quanto antes. "Que
faremos? Esse homem faz muitos milagres". "Se o deixarmos continuar, todos acabarão crendo nele".

Quão tremenda, senhores, é a cegueira afetiva! Como o ódio altera a inteligência!

O prodígio é palpável, não o negam, mas ao invés de se renderem à evidência, tornam-se, por ele, abrasados do ódio
que obscurece a inteligência.

E ouve-se esses judeus murmurar: "Que faremos com este homem? Ele está fazendo prodígios magníficos e, se o
deixarmos continuar, todos acabarão crendo nele!"

Que fazer? Pois crer n'Ele e adorá-lo. O lógico, o conseqüente.

Mas não, senhores, aconteceu o contrário. Deste fato nasceu precisamente o influxo tremendo que determinou a
morte de Nosso Senhor.

Desse fato de amor nasceu o ódio e dessa fonte de vida surgiu o "Temos que levá-lo à morte!"

Tal como hoje! É preciso varrê-lo da sociedade. Tal como hoje!

Quanto podem as cargas afetivas!...

***

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A História se repete, senhores, no fluir dos séculos.

O influxo da paixão sobre a inteligência está, de modo insuperável, descrito na cena do cego de nascença. É a página
mais bela que se escreveu sobre a paixão e a lógica[41].
Saía Jesus Cristo do templo, certo dia; em seu encalço também saíram, bramindo, os fariseus e os escribas, cheias as
mãos de pedras para serem atiradas sobre Ele.

Saiu; e ao sair, percebeu um ceguinho de nascença que pedia uma esmola à porta do templo de Jerusalém.

Jesus Cristo, que acabara de se proclamar a Luz do mundo[42], quis demonstrar, com fatos, que Ele dava a luz ao
mundo — cego de nascença pelas paixões e pela concupiscência — como dava a luz aos olhos do ceguinho que
esperava uma esmola.
Fez Jesus Cristo com o pó do chão e saliva um pouco de barro, com o qual untou os olhos do cego e: "Vê, — disse-lhe
— e banha-te na piscina de Siloé".

E o ceguinho, conduzido por seu guia, foi-se, banhou-se e viu.

O cego não vê, mas crê; o cego caminha até a piscina e o cego recobra a vida dos olhos, que é a luz.

Um cego de nascença! Quantos problemas desencadeia a cegueira de nascença! Cego de nascença... E um pouco de
lama que Jesus coloca em seus olhos, um pouco de água para lavá-los e a visão aparece...

As pessoas observam que um homem enxerga e dizem a si mesmos: "Mas não é este o ceguinho que estava
esmolando no templo?" E indagam: "Ouça, não é você. quem pedia à porta do templo?"

Ele responde afirmativamente...

Ah! senhores, se é que ainda não saboreastes os Evangelhos! Que capítulo, o nono de São João!

E o ceguinho, entusiasmado, acreditando dar uma grande notícia aos escribas e fariseus, lhes disse: "Jesus acaba de
dar-me a visão!"

"Como! Curou-o hoje? Mas hoje é sábado! — o sábado é dia de festa entre os judeus —; aos sábados não se pode
trabalhar; como o curou hoje, sábado?"

Hipócritas! Quanta hipocrisia!

Certo sábado, Jesus Cristo, após haver curado uma mulher, lhes disse: "Estranha dialética a vossa! Por acaso não
dais de comer aos bois aos sábados, para que não morram? É por ventura, esta pobre mulher, de pior condição que
um animal? Se teu boi cai numa fossa num sábado, não chamas teus vizinhos para o ajudarem a retirá-lo dali? É esta
pobre mulher de pior condição que o boi que caiu? Hipócritas!"

Os escribas e fariseus murmuram entre si: "Como foi curá-lo, se é sábado?" Chamam:

— Ouça, como foi isso?

O pobre homem, indagado pela primeira vez, narra:

— Estava à porta do templo e quando Jesus saiu, untou-me os olhos com lama, lavei-os e passei a ver.

— Esse nunca foi cego — redargüiram os fariseus. E para prová-lo, mandem buscar seus pais.

Chegados os pais, perguntaram-lhes:

— Este é seu filho?

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— Sim.

— Ele era cego?

— Desde que nasceu.

— E como é que ele vê?

Os pais, que temiam explicar como o filho passara a enxergar, já que ameaças existiam de expulsão do templo dos
que se confessassem a Jesus Cristo, hesitaram: "Ele já tem idade suficiente para contar-vos. Perguntai a ele".

Procuraram novamente o recém-curado e novamente indagam como se deu a cura.

Farto de tantas indagações, perguntou-lhes o ex-cego: "Por acaso também quereis fazer-vos discípulos d'Ele?"

...!!
Aquelas palavras fizeram explodir os ânimos: "Discípulos desse que nem sequer sabemos de onde vem? Somos
discípulos de Moisés! Nasceste mergulhado no pecado e pretendes ensinar-nos?..."

E o arrojaram fora do templo.

Jesus Cristo, ao saber da expulsão, procura-o e indaga:

— Crês no Filho de Deus?

O mendigo, que reconheceu aquele que o curara, certo de que o que dissesse merecia crédito e confiança, disse:

— Senhor, e quem é esse, para que eu creia nele?

Respondeu-lhe Jesus:

— Já o viste. É o que está falando contigo.

— Creio, Senhor, confessou o cego curado, caindo de joelhos, em adoração.

O ceguinho reconheceu Jesus Cristo. E os escribas e os fariseus fogem voluntariamente da luz, cegando-se,
obstinados pelo ódio.

Aí está retratada, senhores, a psicologia da incredulidade.

***

Senhores, desejais crítica? Quereis ciência? Pois em plena ciência e crítica histórica, deveis admitir a historicidade dos
Evangelhos.

Em suas páginas, constituindo sua essência, depositadas estão algumas das provas apresentadas por Jesus Cristo,
fiadoras de sua missão e de sua Pessoa.

Muitos de vós negais os fatos que não se enquadram nas vossas idéias e nas vossas tendências afetivas! E ainda
alardeais ciência...

Senhores! Isto não é sério, nem sincero. É algo espantoso!

***

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Todo crítico especialista nesta matéria admite as obras de Heródoto e de Tucídides. Pois bem, senhores quem
mencionou Heródoto pela primeira vez, e cem anos após sua morte, foi Aristóteles. E o primeiro a reconhecer como
autênticas as obras de Tucídides foi Cícero, trezentos anos depois do seu desaparecimento.

Considera-se suficiente para que o crítico, exibindo erudição admita Heródoto e Tucídides como autores de tais e tais
obras, o simples depoimento de testemunhas que viveram de cem a trezentos anos posteriormente à sua morte.

Senhores, é de grande proveito observar que aqueles que, nos Evangelhos, fogem da luz, são os mesmos que
admitem, sem a menor hesitação, a vida e a doutrina de Buda. Mas o livro Lalita Vistara,que contém a história de
Buda, é reconhecido, de olhos fechados, por todos os críticos, como do Século I antes de Cristo, isto é, redigido pelo
menos três séculos após a morte de Buda.
A questão, senhores, não é de ciência, mas de fobia.

Disse-o expressamente Strauss: Não querem admitir os Evangelhos, não porque haja razões para isto, mas para não
admitir as conseqüências morais dos mesmos.

Mais — confessa terminantemente Zeller: ainda que tivessem a prova máxima de Jesus Cristo, corroborada por
argumentos de maior força e mais valor, jamais acreditariam nele.

Foi o que aconteceu com os judeus e se passa com os incrédulos de hoje.

E este é o enorme pecado contra o Espírito Santo, do qual o grande perdoador JESUS CRISTO NOSSO SENHOR diz
que "não haverá perdão para quem blasfemar contra o Espírito Santo"[43].
É o pecado de desprezar e caluniar as obras manifestas de Deus.

Isto como se vê, não tem perdão, não porque o pecador, arrependido, não possa obtê-lo, pois Deus perdoa a quem se
arrepende, mas sim porque os que procedem dessa forma fecham para si próprios, da maneira mais absoluta, o
caminho da conversão.

Ah! que dó sentiu Jesus Cristo dessa gente! Ele, que propiciou as máximas garantias em prol da verdade! Quanta
pena lhe causou essa conduta!

Com que dor de coração exclamou Jesus Cristo diante desse tristíssimo proceder: "Se eu não tivesse vindo e não lhes
houvesse falado, não teriam culpa, mas agora não têm desculpa do seu pecado... Se eu não houvesse feito entre eles
tais obras, como nenhum outro as fez, não teriam culpa, mas agora viram-nas e, contudo, aborreceram-me a mim, e
não só a mim, mas também a meu Pai"[44].
"Lux venit in mundum". A luz veio ao mundo...

Bem nítido está no Evangelho tudo quanto se refere à pessoa de Jesus Cristo e a suas obras.

Mas, "amaram os homens mais as trevas do que a luz"...

***

Senhores, roguei ao começar, mantivéssemos bem abertos os olhos da alma, procurando dissipar as trevas das
paixões que perturbam uma visão esclarecida.

E diante de nós apresentou-se Jesus Cristo, com uma realidade histórica baseada em fontes de tal valor crítico que,
no parecer de técnicos especialistas, que contam com anos de minuciosa investigação, não existem, no estudo da
literatura clássica, livros que possuam, historicamente falando, posição mais privilegiada que os Evangelhos.

E tais fontes, de indisputável valor, apresentaram-nos a Jesus Cristo através de declarações claras e diáfanas sobre
sua Pessoa, e com provas, tanto em número como em qualidade, absolutamente convincentes.

Esse é Jesus Cristo na História.

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Quarta Conferência
JESUS CRISTO DIANTE DA CIÊNCIA
 

Senhores!

Diante da História surge Jesus Cristo proclamando-se o Legado Divino, o Filho de Deus.

Diante da História surge Jesus Cristo selando suas afirmações com a autenticidade dos selos privativos e
infalsificáveis de Deus: os milagres.

Se se procedesse com Jesus Cristo como geralmente se procede com os personagens que a História nos mostra,
teríamos, de acordo com a ciência e a crítica escrupulosa, o conceito exato da pessoa de Jesus Cristo, como se afirma
a personalidade de Cícero, Tucídides, Heródoto ...

Mas não é em vão que, atualmente, em Psicologia e Psiquiatria, considera-se como ponto de vital interesse o influxo
da afetividade na lógica; o influxo da afetividade na vontade.

Nos problemas históricos comuns estão ausentes as cargas afetivas. Por isso é fácil ser lógico, sem que a vontade se
desvie.

No problema de Jesus Cristo, entretanto, existem, no máximo da intensidade, grandes cargas afetivas. As fobias,
repugnâncias afetivas à doutrina de Jesus Cristo e suas conseqüências práticas, são de tamanha violência, que
chegam não só a anular e a cegar a inteligência como a abater a vontade.

Senhores, antes de entrar no tema desta conferência, uma reflexão.

Pode-se avaliar o poder de intensidade da luz dum farol quando, apesar de mergulhado na mais espessa névoa, suas
cintilações são vistas de grande distância.

Densíssimas são as névoas afetivas e de preocupações apriorísticas diante das cintilações da pessoa de Jesus Cristo.
As mais densas que existem na Humanidade.
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Em torno dessa luz colocou-se tudo quanto de ódio e de paixão existe no mundo; mas, senhores, se apesar de toda
essa cerração da inteligência, ainda se percebem cintilações de luz intensa, podemos descobrir o poder intrínseco da
luz que Jesus Cristo encerra.

Senhores, vejamos agora o que sabem sobre Jesus Cristo os que abertamente negam ser ele Filho de Deus mas que,
obrigados pela Ciência, não podem deixar de admitir inegável valor histórico às fontes de seu estudo.

Vejamos que conceito formou a Ciência racionalista sobre Jesus Cristo. A Ciência... eles não admitem senão a Ciência
racionalista.

Pois bem, pois bem, diante desses homens de critério único e exclusivo racionalista-materialista, como aparece a
pessoa de Jesus Cristo, estudada por eles de acordo com sua técnica?

Ouçamo-los esta noite. Que eles nos digam quem é Jesus Cristo segundo a Ciência. Sua Ciência.

Vamos, por conseguinte, ver, perante a ciência racionalista pura, perante a refinada supercrítica, perante os que a
priori, a priori,  dizem ser impossível a existência de um homem Deus, o que opina essa mesma ciência sobre Jesus
Cristo.
Não proponham argumentos aos que defendem a priori  ser impossível um homem Deus. Cegos por seus princípios,
negam tudo quanto existe de divindade.
Que há testemunhos? Que são autênticos?... Negam-no a priori.
Para esses, precisamente para esses, quem é Jesus Cristo? Esta noite vamos ouvi-los.

***

Se eu, senhores, vos submetesse, esta noite, as conclusões a que esses investigadores chegaram sobre Jesus Cristo
e, confiado em minha memória, as repetisse aqui, esperaria que todos nelas cressem, não duvidando de minha
veracidade.

Mas, senhores, agradecendo-vos essa confiança em minhas citações, não procederei dessa forma.

Minha memória talvez trocasse palavras que modificariam as idéias dos textos que iria citar. Ou talvez algum de meus
ouvintes pudesse ser assaltado pela dúvida quanto à completa fidelidade das citações.

Por isso, senhores, para minha tranqüilidade absoluta e para a plena garantia de todos, vou esta noite ler-vos
textualmente as conclusões sobre a pessoa de Jesus Cristo dos investigadores racionalistas. E dos investigadores
racionalistas corifeus e chefes de escolas, figuras, portanto, de primeira grandeza.

Não vou citar esses arlequins da Ciência, esses falsificadores, que se cobrem com uma capa rasgada, que não é
ciência, mas mero diletantismo.

O arlequim é para o café, para o jornal.

Os que estudam, como concebem a Jesus Cristo quando o estudam?

E eu, senhores, não considero estudo comprar por cem cruzeiros um livro e devorá-lo numa noite. Não!

Estuda aquele que domina o grego e o hebraico: considero capacitado para esse estudo o que conhece bem a
Filologia, o manuseador de todas as bibliografias referentes a esta matéria e aquele que, assim preparado, dedica a
existência ao estudo.

E esses, senhores, que dizem de Jesus Cristo?

***

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Jesus, para Renan, com "seu perfeito idealismo, é a mais alta regra da vida, a mais destacada e a mais virtuosa. Ele
criou o mundo das almas puras, onde se encontram o que em vão se pede à terra, a perfeita nobreza dos filhos de
Deus, a santidade consumada, a total abstração das mazelas do mundo, a liberdade enfim"[45].
Jesus Cristo é de uma clareza de inteligência, de uma penetração de espírito tão profunda, de uma elevação de idéias
tão sublime que, para Renan, "criou o ensinamento prático mais belo que a Humanidade recebeu"[46].
"Ele concebeu — continua Renan — a verdadeira cidade de Deus, a verdadeira palingenesia, o sermão da montanha,
a apoteose do fraco, o amor do povo, o gosto do pobre, a reabilitação de tudo quanto é humilde, verdadeiro e simples.
Esta reabilitação ele a fez como artista incomparável, com caracteres que durarão eternamente. Cada um de nós lhe é
devedor do que tiver em si de melhor"[47].
"Sente-se por tudo — escreve Loisy, o apóstata modernista — em seus discursos (de Jesus), em seus atos, em suas
dores, não sei que de divino, que eleva Jesus Cristo, não somente por sobre a Humanidade ordinária, mas também
por sobre o mais seleto da Humanidade"[48].
Para Loisy a obra de Jesus Cristo "o Cristianismo, representa incontestavelmente o maior e mais feliz esforço até
agora realizado para elevar moralmente a Humanidade"[49].
E o chefe do racionalismo alemão, o renomado Professor Harnack, que escreve de Jesus Cristo?

Para Harnack, "a grandeza e a força da pregação de Jesus estão em que ela é, ao mesmo tempo, tão simples e tão
rica; tão simples, que está encerrada em cada um dos pensamentos fundamentais por ela expressados, tão rico que
cada um dos seus pensamentos parece inesgotável, dando-nos a impressão de que jamais chegamos ao fundo de
suas sentenças e parábolas".

Atenção, senhores! Se Harnack, com a preparação científica que possuía, reconhece que, embora estudando-as a
fundo, não crê haver chegado ao âmago das sentenças e parábolas de Jesus Cristo, que dirá o diletante?...

E prossegue Harnack: foi Jesus Cristo quem "pôs à luz, pela primeira vez, o valor de cada alma humana e ninguém
pode desfazer o que Ele fez. Qualquer que seja a atitude que, diante de Jesus Cristo, se adote, não se pode deixar de
reconhecer que, na História, foi Ele quem elevou a Humanidade a esta altura"[50].
Quem "se esforçar em conhecer Aquele que trouxe o Evangelho, testemunhará que aqui o divino apareceu com a
pureza com que é possível aparecer na terra"[51].
***

Diante da perfeição moral, da paz harmônica, da conduta delicada, serena, claríssima e plena de humilde majestade
de Jesus Cristo, exclama Harnack: "Que prova de intensa paz e de certeza!"[52].
Ah! Quisera ter aqui uns psicólogos profundos que me dissessem o que pensam do homem que saiba ter paz na alma,
e paz serena, paz de domínio, paz de tranqüilidade, apesar de todas as torturas, de todos os ódios, de todos os
tormentos, inclusive o da crucificação na cruz. Espanta, senhores!

"De um só sabemos haver unido a humildade mais profunda e a pureza de vontade mais completa, com a pretensão
de ser mais que todos os profetas que existiram antes dele", acrescenta Harnack[53].
Ouçamos Wernle: "O desconcertante em Jesus é que ele tinha consciência de ser mais que um homem, conservando,
contudo, a mais profunda humildade diante de Deus".

"É totalmente impossível representar-se uma vida espiritual como a de Jesus"[54].


Tal é a perfeição que, na ordem intelectual e moral, encontram em Jesus Cristo os mesmos que não lhe reconhecem a
divindade, que Tyrrell confessa, ao vê-lo tão superior aos demais homens: "Eles queriam ter a Jesus por divino, em
certo sentido... Ele seria Deus à maneira de um sacerdote, de um representante, a manifestação carnal do que Deus
significa para nós... Jesus seria o mais semelhante a Deus entre os homens[55].
Foi o que escreveu recentemente J. Middleton Murry, dizendo que Jesus é o mais divino dos homens[56].
Para Augusto Sabatier, o pai do modernismo francês, Jesus Cristo é a alma mais bela que jamais existiu; sincera,
pura, que conseguiu elevar-se a uma altura a que nunca o homem poderá atingir"[57].
Houve, senhores, na América, um homem que empregou toda a força de sua oratória e de sua ciência em retirar de
Jesus Cristo a divindade, em exibi-lo como simples homem: Channing.

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Pois este homem, senhores, arrastado e obrigado pela evidência histórica em crítica racionalista pura, emite este juízo
sobre Jesus: "Creio que Jesus Cristo é mais que um homem. Os que não lhe atribuem a preexistência (isto é, não o
consideram, por isso, de maneira alguma, simples homem, os que, como ele, negavam-lhe a divindade) mas
estabelecem entre ele e nós profunda diferença... Aceitam, de bom grado, que Jesus Cristo, por sua grandeza e por
sua bondade, supera toda e qualquer perfeição humana"[58]
Wilhelm Bousset, o exegeta talvez mais fora do plano da seriedade, não pode deixar de escrever: "Jesus permanece,
é certo, em relação a nós, a uma distância insuperável ... Não ousamos medir-nos com ele, nem nos colocarmos ao
lado desse herói"[59].
E disse Goethe: "Curvo-me diante de Jesus Cristo como diante da revelação divina do princípio supremo da
moralidade".

E Rousseau chega a dizer: "Se a vida e a morte de Sócrates são as de um sábio, a vida e a morte de Jesus Cristo são
as de um Deus".

Que dizer mais, senhores?

A todos os demais homens é possível superar, mas Jesus Cristo atingiu a tal cúmulo de perfeição intelectual e moral,
possuída em tal pureza e elevação, que Renan confessa lapidarmente: "Jesus Cristo nunca será superado"[60].
Jesus colocado — prossegue Renan — "no mais alto cimo da grandeza humana... superior em tudo aos seus
discípulos... princípio inesgotável de conhecimento moral, a mais alta... Nele se condensa tudo quanto existe de bom e
elevado em nossa natureza"[61].
Afirmação que, antes de Renan, fez expressamente um dos mais encarniçados inimigos do catolicismo, não podendo
fugir à evidência que se lhe impunha, embora contra seus preconceitos e cargas afetivas.

Strauss, a quem me refiro, escreveu estas frases: "Cristo não podia ter sucessor que se lhe avantajasse... Jamais, em
tempo algum, será possível ascender mais alto que ele, nem imaginar-se nada que sequer o iguale".

Tão grandes, embora puramente humanos, aparecem Jesus e sua obra que Renan, em que pese o veneno destilado
insidiosa e pseudocientificamente em seus livros, diante da pressão da realidade, da qual foge em vão, exclama estas
frases dignas certamente de meditação para o incrédulo: "A Igreja, esta grande fundação, foi certamente a obra
pessoal de Jesus. Para ter-se feito adorar até esse ponto, é necessário que ele tenha sido digno de adoração". Notem
os senhores que neste trecho, Renan o concebe unicamente como homem, e acrescenta: "O amor não existe sem um
objeto digno de acendê-lo e nós nada saberíamos de Jesus se não fosse pelo entusiasmo que ele soube inspirar a seu
redor, pelo qual podemos, agora, afirmar ter sido grande e puro. A fé, o entusiasmo, a constância da primeira geração
cristã, não se explicam senão supondo, na origem de todo o movimento, um homem de proporções colossais"[62]).
E ainda diante do cadáver de Jesus, justiçado numa cruz, sente-se tão profundamente a grandeza de Jesus que, não
o crente, mas a chamada ciência racionalista, deixou escritas estas linhas, com as quais dou por terminada a lista dos
testemunhos, que nos mostram o conceito que, diante dessa ciência, gozava a pessoa de Jesus Cristo.

Jesus Cristo morreu; foi justiçado como blasfemo, por afirmar sua filiação divina e, diante de seu cadáver, escreveu
Renan: "Repousa agora em tua glória, nobre iniciador. Tua obra está terminada, tua divindade fundada... Ao preço de
horas de sofrimento, que não chegaram a tocar tua grande alma, adquiriste a mais completa imortalidade. Signo de
nossas contradições, serás a bandeira em torno da qual se travará a mais cruenta batalha. Mil vezes mais vivo, mil
vezes mais amado após tua morte do que durante os dias de tua vida terrestre, hás de chegar a ser a pedra angular
da Humanidade, de tal maneira que, arrancar o teu nome deste mundo, seria sacudi-lo em seus fundamentos. Entre ti
e Deus não há distinção possível. Plenamente vencedor da morte, tomas posse do reino ao qual te hão de seguir, pela
via real que traçaste, séculos de adoradores"[63].
Senhores, peço que mediteis um momento no que acabei de ler: "Tomas posse do reino ao qual te hão de seguir, pela
via real que traçaste, séculos de admiradores"!... Li de maneira a ser entendido?

***

Senhores, eis aí o que a incredulidade mais incrédula, à luz da chamada Ciência, pensa de Jesus Cristo.

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Jesus Cristo é, perante a ciência racionalista, a pessoa histórica de superioridade máxima na Humanidade.

Jesus Cristo é, perante a ciência racionalista, a inteligência mais sublime e mais profunda, da qual recebeu a
Humanidade a doutrina mais prática e mais bela, mais simples e mais rica em conteúdo, mais consoladora e
reabilitadora.

Jesus Cristo é, perante a ciência racionalista, o homem-cume e a flor da Humanidade, que jamais terá quem a supere.
O homem com a consciência exata de sua dignidade sobre-humana aliada à simplicidade e à lhaneza mais sincera.

Jesus Cristo é, perante a ciência racionalista, a pessoa sem o mínimo desequilíbrio entre suas qualidades, todas
sublimes, e em que reina a máxima harmonia intelectual, afetiva, moral.

Jesus Cristo é, perante a Ciência racionalista, a alma mais pura e bela, serena, delicada e plena de luz, de amor e de
verdade.

Jesus Cristo é, perante a Ciência racionalista, aquele em quem se concentra tudo o que há de nobre, puro e elevado
em nossa natureza.

Jesus Cristo é, perante a Ciência racionalista, por todas as sublimes, harmônicas e únicas qualidades que possuiu, a
pedra angular da Humanidade, cuja retirada sacudiria os alicerces do mundo da vida.

Senhores, a Ciência racionalista, investigando seriamente, viu-se obrigada a confessar, através de todos seus grandes
estudiosos de todas suas escolas, que Jesus Cristo é esse que acabais de ouvir. Esse sim. Mas Deus, não.

Esse, sim, senhores. O máximo em sabedoria e moral, o máximo em retidão, o máximo em justiça, o máximo em
verdade. Eis o que concede a ciência racionalista a Jesus Cristo. Mas Deus, não.

***

E como fica tranqüila a Ciência, a racionalista, como que aliviada dum remorso opressor que a perseguia, quando
concede isso a Jesus!

Sim. Se fosse lógica, séria e científica, ela deveria reconhecer que Jesus Cristo é Deus. Mas, tendo que negar-lhe a
divindade contra toda lei de ciência crítico-histórica, cega pelas densas névoas que ela própria, de modo afetivo, foi
criando, não regateia nada do mais sublime que se possa conceber, contanto que não exceda os limites do puramente
humano.

E assim procedendo, os racionalistas como que fazem calar os gritos da verdade histórica que clama: "Não sois
sérios, não sois científicos, não sois autênticos no tratamento do problema mais vital da Humanidade; claudicais diante
de vossos apriorismos. Isso não é Ciência".

E  como que respondendo a essa voz atormentadora, semelhante a horrível pesadelo, respondem: "Deus, não. Mas
em compensação, já confessamos que o maior na ordem intelectual, o maior na ordem moral, o maior na ordem
afetiva, o maior da Humanidade existente e por existir, isso sim, isso é Jesus Cristo".
A troco de negarem que Jesus Cristo é Deus, não lhes importa conceder-lhe o que concedem. Negar, com todas as
forças, que Jesus Cristo seja Deus, mas exaltá-lo como homem até o ideal.

Mas, reparai senhores: é precisamente daquilo que concedem a Jesus Cristo enquanto homem que se conclui, de
maneira intuitiva, ser ele Deus.

Precisamente pelas perfeições que a ciência racionalista atribui a Jesus Cristo, enquanto homem, negando-o ser
Deus; precisamente por essas concessões é que se deduz, claramente, que Jesus Cristo é precisamente Deus.

Vejamos a prova.

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***

Há argumentos difíceis de expor, porque possuem conceitos delicados, que talvez eu não consiga expressar com a
necessária clareza, mas hoje não preciso esforçar-me.

Existem, talvez, aqui pessoas como o motorista que me escuta, o operário, o comerciante metido com seus negócios,
o jovem que vem do comércio ou dos bancos, que poderiam dizer-me: "Padre, não estou habituado a determinados
raciocínios..."

Mas hoje, desde o operário até o intelectual vão entender-me.

Esse Jesus Cristo, senhores, disse que Deus Pai e Ele eram uma e a mesma coisa — que Ele era o Filho de Deus —
que antes de Abraão Ele já tinha existência — que Abraão desejou ver o seu dia — que Ele era maior que Salomão —
que aquele que, por Ele não abandonasse os pais e tudo quanto possuísse, não entraria no reino dos céus — que Ele
tinha todo o poder tanto no céu como na terra — que Ele voltaria para julgar, no dia do juízo final, a Humanidade
toda...

Disse tudo isto repetidas vezes, asseverando, exigindo que acreditassem no que dizia. Disse-o, senhores, quer
particularmente, quer em público. Disse-o, senhores, com tal clareza e tão categoricamente que, por dizê-lo, levaram-
no à cruz.

Eis agora o meu argumento. Ouvi-me um momento; o raciocínio é fulgurante.

Se Jesus Cristo não era o Filho de Deus, se não era maior que Salomão, nem anterior a Abraão, nem possuía todo o
poder no céu e na terra; se não era o Juiz da Humanidade e acreditou nisso,  observai bem, senhores, Jesus Cristo
não passava, então, dum paranóico vulgar. Um infeliz e delirante megalomaníaco. Um tipo digno de um manicômio.
E se não acreditou no que dizia, mas sabendo que não era nem Filho de Deus, nem nada de quanto afirmou, afirmou-
o  e reafirmou-o,  ameaçando de condenação eterna aqueles que não acreditassem em suas palavras, então Jesus
Cristo foi um refinado embusteiro,  Jesus Cristo foi um impostor. Um tipo digno de um cárcere.
Jesus Cristo, senhores, se não foi Deus, como afirmava, foi um louco ou um impostor, foi um delirante ou um
embusteiro.

Evidente como a própria evidência, senhores.

***

Mas, ciência racionalista, que nos disseste, como pura ciência, de Jesus Cristo?

Como insististe, a troco de negar-lhe a divindade, ser Jesus Cristo a inteligência mais sublime e mais profunda, mais
equilibrada e harmônica que já existiu e pode existir no domínio intelectual?

Logo, se a perfeição sublimada, no intelectual, foi Jesus Cristo, não foi ele um delirante, não foi ele um paranóico, não
se enganou.

Como insististe, ciência racionalista, a troco de negar a Jesus Cristo a divindade, haver sido ele a pessoa de moral
mais pura e elevada, a retidão plena de luz e de verdade?

Logo, se a perfeição sublimada, na ordem moral, foi Jesus Cristo, não foi ele um vulgar e refinado impostor ou
embusteiro.

Logo, senhores, se Jesus Cristo não se enganou, e se Jesus Cristo não enganou e se Jesus Cristo, séria e
repetidamente, afirmou ser Deus, Jesus Cristo é Deus.

Deus, ou louco, ou impostor. Eis o dilema.

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Jesus Cristo louco!? Ciência racionalista, repete agora o que concedeste à pessoa intelectual de Jesus Cristo. Fôste,
no entanto, a primeira a confessar que Jesus Cristo não foi um louco.

Impostor Jesus Cristo!? Ciência racionalista, repete agora o que concedeste à pessoa de Jesus Cristo. Foste, no
entanto, a primeira a confessar que Jesus Cristo não foi um impostor.

Deus, ou louco, ou impostor, isso é Jesus Cristo.

Perante a ciência pura racionalista, Jesus Cristo é a suma sabedoria, a suma moral, a suma retidão, a suma verdade.
Logo, não é louco nem impostor.

Deus, ou louco, ou impostor.

Jesus Cristo não é louco nem impostor; logo, senhores, perante a própria ciência racionalista, Jesus Cristo é Deus.

***

Jesus Cristo. Agora sim, Jesus Cristo pode repetir aquela frase que, em vida, saiu de seus augustos lábios: "Mesmo
quando sou eu próprio quem dá testemunho de Mim, o meu testemunho é verdadeiro"[64].
Crêde-me, disse Jesus Cristo, eu sou Deus!

***
Senhores, terminei e convido-vos a pensar.

Falamos, algures, de Jesus Cristo na Profecia e vimos convergir em Jesus Cristo, como em ponto concêntrico,
verificadas e realizadas, todas as profecias no decurso de onze séculos.

Apresentei-vos Jesus Cristo perante a História e recordai-vos de que não existe monumento literário nas obras
clássicas do Universo, que tenha a certeza histórica de que gozam os Evangelhos; recordai-vos do testemunho
autorizado e insuspeito de Westcott em favor dos Evangelhos, afirmando que a alteração que neles pudesse haver
não passaria de uma milésima parte do seu todo.

Vede, hoje, senhores, Jesus Cristo perante a ciência racionalista que, de maneira a não deixar dúvida, conclama a
impossibilidade de ser tido como louco ou como embusteiro.

Donde, a conclusão, senhores... Desejais tirar a conclusão?

***

Quando me encaminhava para aqui, senhores, ocorreu-me uma passagem do Evangelho:

Certo dia, rodeado pelos seus, Jesus Cristo perguntou-lhes: "Que dizem os homens quem eu sou?"

E os discípulos passaram a transmitir-lhes as opiniões que, a Seu respeito, tinham os homens.

Hoje imagino Jesus Cristo repetindo a mesma indagação :

— Que dizem os homens quem eu sou? Que diz a ciência racionalista?

E logo, voltando-se para nós, como fizera aos seus, faz-nos a pergunta definitiva: — E vós, quem dizeis que eu sou?

Senhores, a resposta cabe a vós. Pensai.

Quereis pensar a respeito? Nada mais faço senão descortinar os horizontes. Desejais meditar sobre este problema?

Pensai. Estudai.

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Quinta Conferência
JESUS CRISTO EM SUA OBRA
 

Senhores!

Vimos Jesus Cristo na Profecia, na História e perante a Ciência.

Vejamo-lo hoje em sua Obra.

E como sua Obra é visível e atual, abramos os olhos, encaremo-la e, como homens que somos, reflexionemos a seu
respeito.

A Obra de Jesus Cristo é a Igreja.

***

"E aconteceu que àquele dia, retirou-se Jesus Cristo para o monte, a fim de orar, e ali passou a noite em oração a
Deus. E quando amanheceu, chamou seus discípulos e escolheu, dentre eles, doze, aos quais chamou Apóstolos"[65].
"E enviou-os a pregar o reino de Deus"[66].
Enviou-os a pregar, impondo-lhes a obrigação de fazê-lo assim: "Foi-me dado — disse-lhes — todo o poder no céu e
na terra, "euntes ergo"; por conseguinte, eu, senhor da plenitude do poder no céu e na terra, vos envio: ide e ensinai
todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tudo quanto vos
mandei"[67].
Os Apóstolos, portanto, tinham obrigação de ensinar;  e todas as gentes e nações obrigação de aceitar a sua doutrina.
Escolheu Jesus Cristo os seus Apóstolos, isto é, aqueles que enviaria a pregar sua doutrina e fundar sua Igreja.

E escolheu-os chamando a Si os que quis. "Vocavit ad se quos ipse voluit".

***

Meditemos, senhores, a respeito.

Quem eram os Apóstolos?

Essas doze criaturas, que seguiam a Jesus Cristo e nos quais sua atenção se fixou, quem eram?

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Que condições tinham para cumprir a missão que lhes era imposta?

Possuímos observações sobre eles, esclarecedoras de como eram pessoalmente, além de outras observações sobre
a sua coletividade.

Quem eram esses homens?

Em conjunto, todos, exceção feita talvez de Judas, eram galileus, pobres habitantes de uma região completamente à
margem da Humanidade; ainda mais: desprezada pelos próprios judeus. E dentre os galileus, foram escolhidos os
mais humildes e pouco apreciados. Eram pessoas do povo, trabalhadores rudes e iletrados.

Quem eram esses doze a quem Jesus Cristo outorgou o poder de pregar sua doutrina ao mundo, quem eram,
senhores?

Talvez Natanael e Mateus possuíssem mais instrução, mas nunca a exigida para que pudessem ser considerados
ilustrados; os demais não passavam de pobres pescadores.

Todos imbuídos das idéias religiosas de sua época e de sua região, com um conceito magnífico sobre a pessoa,
domínio e reino do futuro Messias.

Todos com a concepção carnal e mundana dum Messias de origem fabulosa, cheio de poder e majestade exteriores.

Quem eram, em sua psicologia individual, aqueles homens?

Os Evangelhos nos oferecem dados concretos e precisos que mostram quem eram os Apóstolos.

Pedro era fiel, franco, intrépido, valente.

Felipe, dócil, reflexivo, ingênuo, simples.

Natanael-Bartolomeu (?), reto, experiente, instruído, independente.

Mateus, homem de negócios — arrecadador da alfândega — pertencia a uma classe odiada não só em virtude das
violências e abusos que cometia, como também por ser instrumento da dominação estrangeira.

Quem era João? Dono de espírito finíssimo e de aguda observação psicológica, mas simples pescador.

Senhores, quem era Judas? Avaro, intrigante, traidor. Exemplo vivo de como a graça não anula a liberdade. De como
no mais alto da Hierarquia Eclesiástica, pode haver indignos por culpa própria.

Se da ordem individual passamos para a coletiva, poderemos obter uma ficha psicológica dos doze, perfeitamente
exata, pois os Evangelhos enfeixam, descritos com rigorosa fidelidade, os dados caracteriológicos e temperamentais
tanto dos Apóstolos, isoladamente considerados, como do colégio apostólico. Pintam-nos tais como foram. Sem
retoques, sem atenuantes, sem dissimulação de suas falhas.

A veracidade histórica é intuitiva.

Quem, senhores, não sendo veraz, teria dito o que os Evangelhos dizem a propósito dos Apóstolos?

Silenciariam sobre seus defeitos; tê-los-iam pintado irrepreensíveis.

Os Evangelhos, todavia, pintam-nos tal como foram.

Eram os doze homens desconfiados, faltos de fé, como aparecem nas tempestades do mar[68].Cheios de espanto,
como se mostraram ao ver o Senhor caminhar sobre as águas[69].

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Orgulhosos de sua dignidade. O caso típico do homem do povo que se engrandece, do homem do povo a quem a
grandeza soergue, fazendo-o julgar-se algo. E como intervinham com Jesus Cristo na pregação, e como intervinham
com Jesus Cristo nos milagres, eles, pobres e rústicos, criam-se investidos da grandeza que d'Ele emanava; por isso,
ao manifestar-se neles essa debilidade própria aos homens do povo, Jesus Cristo viu-se obrigado a retirá-los dos
olhos da turba, obrigando-os a subir numa barca.

Quem eram esses homens? Aqueles humildes que ao se engrandecerem, julgam-se alguma coisa; por isso, quando
as crianças, levadas pelas mães, aproximam-se de Jesus Cristo, atraídas pela Sua bondade divina, eles lhes
interrompem os passos de tal forma, que Jesus Cristo sente-se obrigado a recordar-lhes que precisamente dos
pequeninos é o reino dos céus e lhes diz: "Deixai que as crianças venham até Mim".

São João Crisóstomo assim comenta essa passagem: "Por que os discípulos afastavam as crianças? Para que a sua
dignidade não ficasse diminuída. E que fez, em compensação, Jesus Cristo? Para ensiná-los a proceder com
modéstia e a desprezar o fausto mundano, toma os pequeninos em seus braços e, aconchegando-os ao seu coração,
promete-lhes o reino dos céus".

Quem eram esses homens, senhores? Ambiciosos, mesmo nos instantes mais sublimes, como por ocasião da ceia,
quando, a dois passos da Paixão, resolveram disputar quem seria o maior no reino de Deus[70].
Mas eram, ao mesmo tempo, covardes, pois abandonaram Jesus Cristo ao vê-lo em poder dos inimigos. "Tunc
discipuli omnes, relicto eo, fugerunt"[71].
Quem eram esses homens? Obstinavam-se em esperar um reino de Jesus Cristo pleno de poder terreno e de fausto
mundano, mas não lhes cabia, dentro da visão judaica, mais que um Messias dominador (como sucede conosco, que
sonhamos com um reino de Jesus Cristo, de pompa externa, que não existe). Esperaram por esse Messias dominador
terreno, até a última hora, perguntando ao Senhor no exato momento da Ascensão: "É agora que vais estabelecer o
teu reino?"[72].
Quem eram os Apóstolos? Maledicentes. A maledicência começa por Judas. Quando Madalena, aquela mulher que se
converteu com sinceridade, aquela mulher agradecida e reconhecida a Jesus Cristo, ungiu-lhe os pés, Judas começou
a murmurar — como atualmente, senhores, pois a História se repete —: "Para que esse desperdício? Este bálsamo
podia ser vendido por bom preço e, com o seu produto, serem socorrido os pobres!"

Judas assim dizia não porque se interessasse pela aflição dos humildes, mas porque, sendo depositário da fortuna do
colégio apostólico, apesar de ladrão, gostaria que todo o dinheiro fosse para a bolsa comum, pois com os cofres
abarrotados, maior seria o seu roubo[73].
Como os Evangelhos bem descrevem os Apóstolos! Eram tão ambiciosos que, quando Jesus Cristo confidenciou-lhes
que haveria de, em união com todos, sentar-se num trono, os dois filhos de Zebedeu, Santiago e João, enviaram a
própria mãe ao encontro de Jesus: "Senhor, quando estiveres no teu trono, faze com que um de meus filhos se sente
à tua direita e o outro à tua esquerda..."[74]. Pedro fica relegado a um canto...
Quem eram esses Apóstolos? Homens interessados que, ao ouvirem Jesus referir-se a prêmios, só lhes ocorre
indagar: "Ouve, Senhor, e a nós que vais dar?"[75].
Quem eram? Homens a quem o sofrimento causava repugnância e por cuja cabeça jamais passou a idéia de que
Jesus Cristo haveria de redimi-los com o sofrimento e a morte. Pedro, diante da explícita e categórica afirmação de
Jesus Cristo sobre sua Paixão, replicou-lhe: "Não Senhor; não digas semelhantes coisas". Jesus Cristo viu-se, então,
obrigado a dizer-lhe aquela frase tão dura que se lê no Evangelho: "Retira-te de mim, Satanás; tu serves-me de
escândalo..."[76].
Homens confiados e presunçosos que, ao ouvir a profecia de sua defecção, dizem, primeiro Pedro e depois, em coro,
todos os outros: "Ainda que todos se escandalizassem, eu não..."[77].
Infiel a seu Mestre, o cabeça de todos eles. Recordai-vos todos por que motivo, em que circunstâncias, quantas vezes
e de que modo...[78].
Traidor e vilão, Judas, a troco de trinta moedas, entregou seu Mestre aos inimigos que o crucificaram[79].
Senhores, Jesus Cristo escolheu doze homens para implantar no mundo a obra de sua Igreja.

E aí estão as condições psicológicas dessas criaturas.

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Esses homens, banqueiro que me ouves, não os escolherias para o teu negócio; esses homens que tu, comerciante,
não escolherias para o teu comércio, esses, e precisamente esses, escolheu Jesus Cristo para seus Apóstolos.

Plebeus, incultos, interesseiros, covardes, infiéis ao Senhor, sem trato social algum, sem qualquer poder humano,
pobres homens da Galiléia.

Repito: para teu negócio, tu não os escolherias, pois conheces bem a seleção que é necessário fazer de teus
empregados.

E, não obstante, a esses escolheu Jesus Cristo para fundar sua Igreja.

"Deus escolheu o que é fraco, para confundir o forte".

Os pensamentos de Jesus Cristo não são iguais aos dos homens, nem os caminhos de Jesus Cristo como os
caminhos da prudência humana. "Neque viae vestrae viae meae"[80].
A propósito desse desígnio de Jesus Cristo escreve admiravelmente São Paulo aos coríntios, mostrando-lhes a razão
d'Ele assim proceder: "... as coisas loucas, segundo o mundo, escolheu-as Deus para confundir os sábios; e as coisas
fracas, segundo o mundo, escolheu-as Deus para confundir os fortes; e Deus escolheu as coisas vis e desprezíveis,
segundo o mundo, e aquilo que é como se não fosse, para destruir o que parece que tem ser, para que nenhum
homem se glorie perante Ele"[81].
Esses eram os Apóstolos. Judeus que, porque o eram, mereciam o descrédito e o desprezo dos grandes romanos da
época. Tácito chama-os "taeterrima gens", gente corrompida e torpe.

E para Amiano MaRcelino os judeus eram pessoas mal cheirosas que impestavam pelo corpo e intrigavam pelo
espírito, "foetentium judaeorum et tumultuantium".

E se já não bastasse serem judeus, os Apóstolos eram galileus, da região mais desprezível para os próprios israelitas.
E se já não bastasse serem galileus, eram ainda pobres homens da mais baixa plebe, rudes pescadores em sua
generalidade.

Bem os qualifica São Paulo: eram os néscios do mundo, sem nobreza, desprezíveis, segundo o critério humano, os
que Jesus Cristo escolheu para seus Apóstolos. Seleção por Ele feita com especialíssimo desígnio.

***

Senhores, comecemos a meditar.

Se Jesus Cristo houvesse recrutado seus Apóstolos dentre os oradores romanos — um Cícero, por exemplo, — ou se
da Grécia os houvesse trazido um Demóstenes, ou a Diógenes dentre os seus filósofos; ou se houvesse lançado mão
dos potentados do dinheiro, ou se os tivesse escolhido dentre os generais que comandavam legiões de disciplinados
exércitos... fácil teria sido, senhores, explicar cumpridamente a estabilização e propagação da sua obra!

Ao ouvir-me falar da fundação da Igreja, poderíeis haver-me dito: "Nada mais fácil, com tanto dinheiro de que Ele
dispunha... nada mais fácil, escolhendo oradores que arrastam multidões... nada mais fácil, com exércitos à
retaguarda, comandados pelos melhores generais!..."

Não foi precisamente esse o desígnio de Jesus Cristo na escolha de seus Apóstolos. Precisamente por essa razão
tinham os Apóstolos tão poucos dotes naturais, tão pouca cultura, tão pouco poder, tão pouco dinheiro, tão pouca
influência social!

***

Pode-se, porém, conceber, senhores, que propagandistas tão despidos de grandes dotes, possam conseguir adeptos,
não tanto por suas qualidades, quanto pelas idéias que propagam.

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Não é a força do propagandista: é a força da idéia.

Compreende-se, senhores, compreende-se muito bem, que diante do operário oprimido e reduzido à escravidão,
diante do operário que não tem meios para constituir ou sustentar um lar, nem sequer com as comodidades que têm
os pássaros em seus ninhos; diante do operário que vê o fruto do seu sangue convertido em crapulice e luxúria dos
que o oprimem; diante do operário que, anelando ser feliz, vive oprimido pela dor e pelo trabalho, sem qualquer
vislumbre de felicidade; compreende-se, senhores, que se se acenar a esse operário com um ideal em que se fale, já
não digo de emancipação, mas de subjugar seus opressores; não tanto de salário equitativo, mas de domínio absoluto
das indústrias; não de melhoria de situação, mas de chegar a ser a única classe privilegiada; não de minorar seus
trabalhos mas de viver em pleno gozo da vida; compreende-se, senhores, que essas idéias o comovam, o apaixonem,
o arrastem, o transformem.

Prometer prazer, prometer paixões saciadas, prometer domínio é insuflar novas forças em quem sofre, em quem
trabalha, em quem se encontra em humilhante servidão.

Se eu digo ao operário: "Estás oprimido? deves matar; és pobre? deves ser rico; não tens nada? vou dar-te terras, vais
ser o dono, vais dominar o mundo...", o operário, senhores, acompanha-me, aclama-me..., por que não me seguiria?
Assim se arrasta a Humanidade!

Mas, senhores, esses homens, os Apóstolos, com as qualidades humanas que vimos, apresentam-se ao mundo com
um programa doutrinário muito estranho!

***

A que mundo se apresentam, e com que programa!

A que mundo, senhores!

A um mundo em que o instinto chegara a tal aviltamento e perversão que, no terreno sexual, atingiu, socialmente
falando, o máximo rebaixamento. Sobre toda a satisfação do instinto, sobre perversões nem sequer imaginadas, sobre
o delírio de todas as inversões, chegou-se, não nos países selvagens, mas em pleno Império que legou ao mundo o
Direito, à divinização pública do vício, à divinização do vício com a dedicação de templos públicos àqueles farrapos
humanos já prostituídos em público e eram propostos como exemplo, mantendo-se nos templos a eles dedicados, ritos
iniciatórios em suas perversões.

A podridão. A idolatria do vício pervertido, não só na afetividade, como até na inteligência, que se esboroa aos
pedaços.

Senhores, a que mundo se apresentam os Apóstolos!

Ao mundo dos escravos; de milhões de escravos; de escravos que nossa inteligência não pode nem sequer imaginar
como eram.

O escravo era "res", coisa. Coisa e não homem, coisa à disposição do dono, em tudo, em tudo, em tudo!

Uma coisa como a tua caixa de fósforos, que jogas fora, pisoteias, abandonas, porque é coisa tua. Assim era o
escravo no mundo romano.

Coisa, coisa que nem dos próprios filhos podia dispor; eram eles, como seus descendentes, reses de que o dono
dispõe, seja para vendê-los com lucro ou utilizá-los por prazer, seja para feri-los ou matá-los por diversão e gosto.

A que mundo, senhores, se apresentam os Apóstolos!

Ao mundo que tinha o prazer e o gozo como único fim e única sensação.

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Ao mundo em que nem sequer de nome era conhecido o significado de Caridade.

Ao mundo da divinização, não somente dos vícios, como também das inversões dos vícios.

***

E aqueles homens desprezíveis surgem diante desse mundo... pregando que doutrina!

Senhores, eis o maior paradoxo havido na História.

Ao mundo dos ViRgílios e Ovídios, dos CíceRos e Demóstenes. .. apresentam a doutrina de alguém que morreu
justiçado, pregado numa cruz, escarnecido e atormentado da maneira mais pública e grosseira.

Os homens do povo, senhores, os pescadores, os iletrados vão falar a esse mundo. E o que lhe dizem?

"A doutrina que pregamos é de alguém que morreu justiçado numa cruz. Trazemos a doutrina de alguém que esteve
pregado num madeiro, com o peito rasgado pelas lanças!..."

Observai, senhores, se essas palavras são de atrair multidões...

Que ascendência pode exercer sobre o mundo grego e romano um desconhecido justiçado?

Ao mundo do viver em pleno gozo, de despotismo absoluto, de refinamento do prazer...

A esse mundo apresentaram os Apóstolos, simples e lhanamente, transparente e sem enfeites, a doutrina daquele que
morreu justiçado.

Na ordem intelectual, apresentam uma doutrina com conteúdo de crenças, como da Trindade, da Eucaristia, da
Ressurreição... sobretudo o que a humana razão pode, por si só, compreender.

Na ordem moral, apresentam uma doutrina que é freio e paradeiro de todas as forças instintivas do homem, doutrina
que impõe obrigações das mais árduas.

Doutrina que não promete nenhum lucro terreno. Com a predição de atribulações e perseguições.

Bem-aventurados os pobres de espírito.

Bem-aventurados os mansos.

Bem-aventurados os que choram.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça.

Bem-aventurados os misericordiosos.

Bem-aventurados os limpos de coração.

Bem-aventurados os pacíficos.

Bem-aventurados os que padecem perseguição pela justiça (por serem assim justos)[82].
Estranho programa para arrebatar o mundo a que era proposto.

Mostrar a bem-aventurança na pobreza... aos que cobiçavam e roubavam o alheio!

Mostrar a bem-aventurança na mansidão... aos que se compraziam em descarregar violentamente sua ira!

Mostrar a bem-aventurança na justiça... aos que somente conheciam a opressão do fraco e do escravo!
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Mostrar a bem-aventurança em ser misericordioso... ao mundo que vivia na satisfação da vingança!

Mostrar a bem-aventurança em ter limpo o coração... aos que, no paroxismo do vício e da carne, deificaram até as
perversões do instinto!

Mostrar a bem-aventurança no padecer e na perseguição por viver santa e justamente... aos que fugiam da dor e do
trabalho e atingiram o refinamento do gozo!

Meditai, senhores, se esse é um programa que tem algum motivo para arrastar multidões. Aí têm os senhores a
súmula do conteúdo doutrinal, original de um judeu justiçado, apresentado por vulgares e ignorantes judeus ao mundo
do poder e das letras.

***

Com desprezo transbordante de ódio, foi recebida pelos grandes gênios e talentos do Império, a doutrina do justiçado.

Tácito chamou-a de desoladora superstição, "exitiabilem superstitionem".

Plínio, escrevendo a Trajano, classificou a doutrina cristã de loucura, "amentiam".

Conta-nos Minúcio Félix que o retórico africano, FRontão, tinha o cristianismo por "furiosam opinionem", doutrina
carente de engenho e cultura, indigna dos gregos e dos romanos.

***

Somente desprezo? Foi somente desprezo, senhores, que encontrou essa doutrina e que aguardou seus Apóstolos e
seguidores?

Não, senhores. Desprezo com tormentos. E que tormentos!

Urgia varrê-la do Império. E força e poder detinha o Império em suas mãos, esse Império que, dominando o mundo,
tornou-se seu senhor pelo poder das armas.

Conhecia, então, o Império romano o seu período áureo, trazendo as suas águias imperiais o mundo todo submetido
pela força.

Roma dominou impérios, escravizou raças, aniquilou e subjugou povos aguerridos e ferozes. Por que não iria o
Império reduzir a silêncio aquela pregação estulta e estólida de judeus desprezíveis, ignaros e plebeus?

O Império Romano era o mundo todo. O mundo todo no auge do poder e da glória.

E esse poder, na plenitude de sua força, arremeteu ingente contra o cristianismo que despontava, pregando a doutrina
dum vulgar justiçado que, com sua tendência para a igualdade e a fraternidade entre os homens, e em todo seu
conteúdo doutrinário, repelia o povo que dominava o universo inteiro.

Desencadeou-se, tremenda, a perseguição do ano 64, a mando daquele cujo nome passou à História como sinônimo
de crueldade: NeRo. E durante 249 anos, senhores, com os altos e baixos que acontecem nas tempestades
marítimas, rugiu aquela tormenta de ódio e de dor contra os cristãos.

Corpos de cristãos, embebidos em pez e resina, arderam como tochas para o capricho de NeRo.

Como animais ao matadouro, conduziam-se os cristãos ao Circo e ao Coliseu, para serem atirados às feras.

Domiciano e Diocleciano apuraram o refinamento dos suplícios na dilaceração dos corpos.

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Ninguém negará que a doutrina pregada por pescadores, freio de paixões, sem qualquer promessa alegre para este
mundo terreno, contemplada, numa noite romana, à luz de corpos cristãos transformados em tochas vivas, não era
espetáculo para atrair voluptuosos senadores e elegantes patrícias.

Com a frieza e a energia de quem está acostumado a dispor do comando de inumeráveis exércitos, ordena Tra-jano
que, se o cristão delatado persevera na confissão de sua fé, deve ser morto sem mais delongas, a fim de que esta
gente desprezada não perturbe a ideologia e a vida do império.

Correu sangue em torrentes, sangue de homens no esplendor da virilidade e no ocaso da vida, sangue de crianças,
sangue de mulheres, sangue de moças, como Inês e Cecília, sangue de escravos, sangue de parentes de
imperadores, sangue de magistrados, sangue de militares, de senadores, até de uma legião completa de soldados
tebanos.

Gigantes se erguem contra o Cristianismo: Nero, Domiciano, Setimio Severo, Décio, Diocleciano, Galério; levantam-se,
senhores, Trajano, Caracalla. .. e, em seu poder despótico, transbordante de ódio e de rancor, manejam tridentes de
ferro que rasgam as carnes dos cristãos, com ossos e entranhas à mostra; lançam mão de instrumentos que, com
suas cordas e polés, esticam os membros, que se desconjuntam centímetro a centímetro em todas as articulações;
usam lâminas e bois de bronze feito áscuas, que fazem crepitar a carne dos cristãos, ao morrer assados como
animais; utilizam pez e fogo que transformam corpos em tochas que iluminam orgias de hienas; dispõem de tenazes
que mutilam, laceram, arrancam pedaços dos corpos; usam feras cujas garras fazem as carnes em tiras e cujas
mandíbulas trituram, tal roda de moinho, os corpos dos mártires devorados jorrando sangue, os ossos lambidos e
roídos pelos animais saciados.

Eis o Império Romano disposto a esmagar o Cristianismo! Meios é que não lhe faltam!

Quantos cristãos morreram?

Muitos, muitíssimos, sem número... Já dizia uma inscrição daquela época que os mártires foram tantos, "quorum
nomina Deus scit", que somente Deus conhece o nome de todos eles...

Pensemos, senhores. Reflexionemos.

Existiram doutrinas que dispuseram de todo o ímpeto que as paixões mais fortes da Humanidade encerram, como
bem sabem os que estudaram História da Filosofia — existiram, senhores, existiram... isto é, não existem. Foram, não
são. Passaram, pereceram.

Existiram, senhores, impérios e nações que dispuseram de gênios na Filosofia, de oradores, cuja eloqüência
empolgou multidões, de generais e de exércitos que subjugaram o mundo. Existiram, senhores. Isto é, já não mais
existem. Foram, não são. Passaram, pereceram.

Existiram, senhores, impérios como o da Síria, que não existe; como o da Pérsia, que não existe; como o do Egito, que
não existe, como o da Grécia, o de Roma... existiram!

E diante dessa lei da História, da caducidade de tudo quanto tem o humano por fundamento, por maior que seja,
apresenta-se este outro fato histórico inegável, de perpetuidade única, e de experiência intuitiva.

***

O fato histórico e intuitivo é, senhores, que a doutrina oferecida pelo Cristianismo que, em suas origens e em seu
conteúdo era um ludibrio e uma irrisão; que a doutrina perseguida com mortes pelo maior poderio que houve sobre a
terra; que a doutrina que, devido a cada uma dessas causas, estava, segundo as leis psicológicas e históricas, fadada
já não digo a desaparecer, mas nem a começar a propagar-se; essa doutrina não somente não desaparece, como
ainda, com vitalidade ímpar no mundo, difunde-se, propaga-se, perpetua-se.

Meditemos, senhores, meditemos. Sejamos homens racionais.

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***

Na própria Roma, onde como luminárias ardiam, empapados em pez, os corpos dos cristãos; onde os cristãos eram
atirados às feras aos centos; onde o sangue cristão corria como rios; ali mesmo o Cristianismo desabrochava pleno de
sobre-humana vitalidade.

Escravos tornavam-se cristãos, abraçando a religião que proibia o ódio e santificava a obediência. Fácil teria sido,
senhores, conquistar prosélitos excitando-os à rebelião e incitando-os à ira pelas vexações recebidas.

Homens livres, dispondo de sinecuras, renunciavam a todas as ilusões duma carreira repleta de honrarias e sustento
da família, para abraçar a religião cristã, que os conduziria à miséria e ao martírio.

Senadores, vinculados à casa dos imperadores por laços de sangue, embora conscientes do que perdiam, e certos da
morte que os esperava, não vacilavam em pronunciar-se publicamente como cristãos.

Soldados, às vezes em legião, como os heróis de Tebas, antes de trair sua fé e cometer idolatria, verteram, cheios de
honra e domínio, o sangue pela fé cristã que amavam e praticavam.

Senhores, encontrava-me esta manhã no Escorial, admirando uma tela do nosso GReco sobre o martírio dos tebanos.
Formavam uma legião. Legião de soldados cristãos que, diante da ameaça dos que querem dobrá-los, respondem, a
uma só voz, não! Serviriam com fidelidade, como jamais se vira, até a morte, o chão que era sua pátria. Até a morte,
mas dobrar-se diante do olhar de Deus, nunca!
Filósofos como IRIneu, no fastígio da vida, desfrutando respeitosa ancianidade, morrem valentemente pela Fé.

Jovens e mulheres, Inês, de treze anos, Cecília, de vinte e um, não temem nem evitam o martírio, quando podiam, só
com um sinal do dedo mínimo, facilmente evitá-lo.

E sob o martírio dos tormentos mais refinados e atrozes, diante da maior tempestade de ódio e de furor jamais vista
pelo mundo, sem propaganda pela cátedra, nem excitantes afetivos que arrastam multidões, porque são realizados
estrepitosa e publicamente, humilde, silenciosa, mas com vitalidade exclusivamente sua, desenvolvia-se a vida cristã.

***

Roma, senhores, atônita, vê surgir das catacumbas, de mais de setenta catacumbas daquela verdadeira cidade
subterrânea, não cristãos isolados, mas uma autêntica Sociedade de milhares de membros, de todas as castas e
posições sociais, de todos os sexos e idades.

No Oriente, a vida cristã difundiu-se com tanta rapidez que, em sua maioria, a população é cristã.

Já em 107, quando no tempo de Trajano, conduziram de Antioquia a Roma, a pé, em penosa peregrinação, cercado
por soldados ferozes como leopardos, o ancião Santo Inácio da Antioquia, para ser martirizado no anfiteatro Flaviano,
ao atravessar a caravana a Síria, a Ásia Menor e a Macedônia, comunidades de cristãos saem à rua para saudá-lo e
recebê-lo. E a cena se repetia por todos os lugares, e com veneração e santa inveja se despedem do mártir seus
irmãos, os cristãos da Laodicéia, da Esmirnia, de Tróia, de Filipos... onde acorriam ao seu encontro, para acolhê-lo.

Na Ásia, na Grécia, na Macedônia, na Itália, na Espanha, na Bretanha, no Norte da África, por todos os lugares, o
Cristianismo se estende e se amplia.

Na Asia Menor, na Frígia, na Capadócia e no Ponto, a maioria da população já era cristã.

Plínio escreve a Trajano, atônito ao ver a multidão de cristãos que encontra no seu governo da Bitinia.
À medida que cresce, o Cristianismo vai dominando as inteligências e os corações, não só dos Flávios, Pompônios,
Acílios e outras mais ilustres famílias do Império, como também dos escravos... com uma propagação tão rápida e tão
firme que, já no Século III, havia no mundo mais de 1500 sedes episcopais.

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"Hesterni sumus et vestra omnia implevimus". Somos de ontem — dizia abertamente Tertuliano, face a face ao
paganismo — somos de ontem e ocupamos tudo quanto é vosso; enchemos as vossas cidades, vossas casas, vossas
ilhas, vossos castelos, municípios, conselhos, acampamentos, tribos, decúrias, o palácio, o senado, o foro; "sola vobis
reliquimus templa", só vos deixamos os templos... os templos vazios. "Para que guerra não estaríamos preparados,
não estaríamos prontos, mesmo com desvantagem de meios, nós que com tanto gosto nos deixamos matar? ...
Mesmo sem armas ou rebeliões, poderíamos lutar convosco; bastaria afastar-nos... Se nos colocássemos de lado,
quedaríeis horrorizados de vossa solidão, de um silêncio que pareceria o espanto de uma cidade morta; teríeis que
procurar em quem mandar"[83].
E tanto se estendeu e se arraigou no mundo a vida cristã, que, como escrevia o chefe do racionalismo alemão, Adolfo
HaRnack, "antes de Constantino, a vitória do Cristianismo estava já decidida" e ConstantIno foi — continua — "o
homem político, avisado e valente, que soube compreender as exigências e tendências religiosas do seu tempo". Sua
genialidade está em ter visto claro e em ter-se antecipado, com golpe certeiro, ao que já era inevitável.
A vitalidade e a difusão, por todo o mundo, do Cristianismo, foi o que obrigou Constantino a declarar a liberdade da
Igreja.

***

"Me attendite, vobis dicit Ecclesia"[84]; escrevia Santo Agostinho no Século IV. Contemplai-me bem, diz-vos a Igreja;
contemplai-me bem até vós, pois ainda que não quiserdes contemplar-me, não poderíeis evitar de ver-me. Os que, em
épocas anteriores, lá na Judéia, viveram, conheceram o Natal, a Paixão, a Ressurreição e a Ascensão de Jesus
Cristo.
Vós, porém, não admitis nada disto, porque não o vistes e, por isso, o recusais. Mas não importa, contemplai-o,
reparai no que tendes agora diante dos olhos e meditai, não sobre as coisas passadas que vos narram, nem sobre as
futuras, que vos predizem, mas sobre as presentes que tendes diante dos olhos. Parece-vos coisa simples e
insignificante? Pensais que não o é ou que é pequeno o milagre divino de que o gênero humano inteiro siga um
Crucificado?

Atentai bem, senhores, queira-se ou não, aí está diante do mundo do Século XX a Obra de Jesus Cristo: a Igreja.

No Império Romano estava o Palatino aí, o Capitólio aqui, os templos e circos acolá, os palácios imperiais adiante... E
agora tudo isso é um cemitério em ruínas. Tudo isso foi, mas agora não é. Símbolo de que toda a grandeza terrena é
perecível e todo o humano, passageiro.

Alemanha e Rússia são recentes... As possessões do Império napoleônico esboroaram-se...

E os cristãos chegaram ao mundo... e o Império Romano não existe, senhores, e a Igreja tem vinte séculos de
existência.

Amam-na alguns; outros a odeiam e a perseguem; mas se a odeiam e a perseguem é porque ela existe.

Porque existe, senhores, porque faz vinte séculos que existe.

***

Um dia disse Jesus Cristo a seu discípulo Pedro: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e os poderes
do inferno jamais prevalecerão contra ela"[85].
Eis aí, senhores, o segredo da vitalidade da difusão extraordinária e da perpetuidade da Obra de Jesus Cristo, a
Igreja.

Como bolhas de sabão que brilham um instante e se desfazem para sempre, assim existiram, na História, os grandes
poderes terrenos que, em seu favor, contavam com a herança do sangue, com o poder de seus exércitos, do dinheiro
e de seus oradores...

Pelo cenário da História desfilou o mundo dos oradores e dos filósofos, dos artistas e dos guerreiros, e por ele
desfilaram os impérios terrenos, cimentados em tudo quanto é grande e tem força e poder no que é humano.
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E o grande milagre da História, senhores, está em que a doutrina de alguém que morreu justiçado na cruz, a doutrina
que contém em si uma ideologia superior a tudo que pode ser compreendido pelo entendimento humano, que gosta
somente de admitir o que é compreensível; a doutrina que impõe obrigações que contrariam as fundamentais
tendências sensitivo-afetivas do homem; a doutrina que nada promete neste mundo, nem no presente, e que prediz
atribulações e perseguições terrenas aos que a abraçam... a doutrina, senhores, que começa a ser propagada por
pobres pescadores, destituídos da mais leve tintura de filosofia e de retórica, produziu o milagre de dominar vinte
séculos de História e ser o centro da Humanidade.

Uma doutrina recebida, quando principiou a despontar, com todo o ódio e toda a oposição do mais vasto Império que
jamais existiu e no momento culminante de seu poderio... Uma doutrina que foi combatida com todos os requintes de
tortura e de dor... tal doutrina, contrariando todas as leis de psicologia da História, continua, não somente vivendo, mas
reinando através de vinte séculos, em milhões e milhões de corações.

Todas as demais instituições, todas, senhores, desapareceram. Somente a Igreja permanece e pode percorrer, um por
um, desde o atual Papa, toda a lista dos Soberanos Pontífices, até chegar ao primeiro, a quem Jesus Cristo disse:
"Sobre esta pedra edificarei minha Igreja e os poderes do inferno jamais prevalecerão contra ela".

***

Atentai bem, senhores, e reflexionai.

Poucos dias após principiarem os Apóstolos "a pregar sobre Jesus Cristo em Jerusalém, perseguiram-nos e
aprisionaram-nos, ordenando-lhes que não tornassem a repetir a pregação. Com que aguda ironia dirigiu-se São
Pedro ao presidente do Tribunal: "Parece-vos certo que atendamos a vós mais que a Jesus Cristo?"[86].
E quando voltam a pregar, tornam a encarcerá-los. Quando se dispunham a torturá-los, um homem, Gamaliel, doutor
da lei, muito estimado pela plebe, assim se dirigiu à multidão de judeus: "Agora aconselho-vos a que não vos metais
com estes homens, e que os deixeis; porque se esta idéia ou esta obra vem dos homens, ela se desfará por si; mas,
se vem de Deus, não a podereis desfazer, por mais empenho que nisso puserdes"[87].
Aí está o segredo. Aí senhores, se acha a chave deste enigma da História.

As obras humanas, por maiores que foram e malgrado todos os meios de que dispuseram, passaram.

A Obra de Jesus Cristo, a Igreja, por mais que haja sido perseguida, presente está em vinte séculos de existência,
porque o que é de Deus, jamais os homens poderão desfazer.

"Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos"[88].
Aqui está, senhores, a única explicação do fato histórico que temos diante de nossos olhos.

Sob o aspecto humano, nada absolutamente existe a favor da perenidade da Obra de Jesus Cristo: nem os homens
que ele escolheu para fundá-la, ignorantes, fracos, desprovidos de recursos de armas, de dinheiro e de ciência nem a
doutrina que propunham, de ideologia superior à que a compreensão podia alcançar, impositiva das mais difíceis
obrigações, por contrárias às tendências vitais sensitivo-afetivas do homem; sem qualquer atrativo presente e terreno,
com promessas certas e resultados tangíveis de perseguições e sofrimentos; nem os 249 anos de perseguição única
em ódio e requintes de padecimentos sofridos no princípio de seu aparecimento; nem as acérrimas impugnações e
veementíssimas perseguições que contra ela se ergueram através das heresias, dos cismas, das apostasias, de seitas
clandestinas, de violência, de calúnias, universal, contínua e encarniçadamente; nem as paixões desenfreadas, nem
os vícios que corroem e corrompem... nada, absolutamente nada, milita a favor da duração da Obra de Jesus Cristo.

Entretanto, senhores, imóvel, serena e plena de majestade e de vitalidade, com a pureza íntegra de sua fé e a unidade
perfeitíssima na disciplina, temos diante de nós a Obra de Jesus Cristo, sua Igreja.

Esse é, senhores, o milagre divino, não pequeno, como o chama Santo Agostinho, milagre atual, mais que presente,
indicando-nos, com meridiana claridade, quem foi Aquele que disse: "Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e os
poderes do Inferno jamais prevalecerão contra ela".

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Precisamente por ser ele Deus, bem se cumpre o que Gamaliel disse aos judeus, em Jerusalém: "Si vero ex Deo est,
non poteritis disolvere illud". Por ser a fundação de um Deus, que lhe prometeu sua assistência e proteção, ela existe
hoje, como ontem, como há vinte séculos.

A predição de Jesus Cristo, feita num momento ao mesmo tempo singelo e solene de sua vida, em que, perante seus
Apóstolos, lá em Cesaréia de Filipo, disse a um pobre homem, o pescador Pedro: "Tu és Pedro e sobre esta pedra
edificarei minha Igreja, e as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela", foi cumprida.

E a Igreja perseguida, maltratada, odiada como nenhuma nos tempos atuais, está viva, cumprindo a augusta missão
do seu Divino Fundador e presente está pelo menos para que a persigam.

Compreendestes, senhores? Terminei.

***

Senhores, com toda a alma, prometo-vos solenemente que, dentro de minha pequenez, jamais, nos dias de
minha existência, quando tiver o Senhor em minhas mãos, jamais, repito, vos esquecerei.
Não conheço pessoalmente muitos de vós, mas aprecio bastante a boa vontade que tivestes, aguardando tantas horas
para ouvir-me.

Dentre vós, muitos haverá que, de há muito, não pisavam as lages de uma igreja; volto a prometer-vos, de coração,
que hei de encomendar-vos, em todos os dias de minha vida, a Deus Nosso Pai, a fim de que voltemos a encontrar-
nos numa eternidade feliz, onde possais dizer: "Padre, bendito o dia em que, falando-me de Jesus Cristo na Profecia,
de Jesus Cristo na História, de Jesus Cristo na Ciência e de Jesus Cristo em sua  Obra, em mim despertaste o desejo
de estudar a Jesus Cristo. Padre, estudei-o. Fui um homem consciente em minha religião".
Deus nos conceda esta Graça.

Muito obrigado e até quando Deus quiser.

[1] Santiago Ramón y Cajal (nascido em Petilla de Aragón (Navarra), a 1 de maio de 1852 - morto emMadri, aos 17 de
outubro de 1934) foi un histólogo espanhol, considerado aragonês onde viveu e se formou, o qual conseguiu o prêmio
Nobel de Medicina em 1906 por descobrir os mecanismos que governam a morfología e os processos conectivos
das células nervosas, uma nova e revolucionária teoria que começou a ser chamada de «doutrina neuronal».
[2] Santo Agostinho, ML, VIII, c. III, 175.
[3] Santo Agostinho, in Ps. LXI, n.º 9.
[4] Gen., XXII, 18; XXVL 4.
[5] Gen., XXVI, 4.
[6] Gen., XXVIII, 14.
[7] Gen., XLIX, 8.
[8] Ps., LXXXVIII, et passim.
[9] Gen., XLIX, 10.
[10] IX, 24-27.
[11] II, 7 sq.
[12] III, 1.
[13] V, 2.
[14] IX, 1-2; XLII, 1 sq.

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[15] XI, 12.
[16] LIII, 12.
[17] LIII, 8
[18] L, 6.
[19] Ps., XXI, 19.
[20] Ps., XXI, 17.
[21] Ps., XXI, 16.
[22] Ps., LXVIII, 22.
[23] Ps., XXI, 7 sq.
[24] Zac, XII, 10.
[25] Natan., II Reg., VII; Isaias, IV Reg., XX, 1-5; Jerem., XLIII.
[26] Amos, III, 8; 14-15; Jerem., XX, 7-9.
[27] João, V, 39 sq.
[28] João, I, 45.
[29] A. Loisy, Le Quatrième Evangile,  Paris, 1903, pág. 72.
[30] Vie de Jesus, pág. 23.
[31] Jo. IX, 36-37.
[32] Jo., X, 30-33.
[33] Jo., V, 18.
[34] Marc, XIV, 61-62.
[35] Jo., XIX, 7.
[36] Jo., X, 38.
[37] Mt, XIV, 17-21.
[38] Jo., VI, 5-14.
[39] Mat., VII — 2-3.
[40] Jo., XI, 1-54.
[41] Jo., IX.
[42] Jo., VIII, 12.
[43] Discours sur le caractere du Christ.
[44] Jo., XV, 22-24.
[45] E. Renan, Vie de Jesus,  14 c. XV, XVII, XX; c. XXVIII.
[46] E. Renan, Vie de Jesus,  pág. 125.
[47] Ibid., pág. 294.
[48] Le Quatrième Evangile,  1903, pág. 72.
[49] La Morale Humaine,  págs. 185-186.
[50] A. Harnack, Das Wesen des christentums, 1901, págs. 33 e 34.
[51] Ibid., págs. 33 e 34.
[52] Ibid., pág. 92.
[53] Ibid., pág. 23.
[54] P. Wernle, Die Augange Unserer Religion,  1901, pág. 25.
[55] Jesus or Christ? Londres, 1909, pág. 15.
[56] Jesus Man of Genius, Londres e Nova Yorque, 1926.
[57] Esquise d'une Philosophie de Ia Réligion d'aprés la psychologie et l´histoire, Paris, 1896. Les Religions d'autorité
et la Réligion de 1'esprit,  Paris, 1903.
[58] Discours sur le caractere de Christ.
[59] Jésus,  trad. franc. da 3." ed. alemã. Tubingen, 1907, pág. 72.
[60] Vie de Jésus, pág. 325.
[61] Ibid., págs. 465, 468, 474.
[62] Vie de Jésus, pág. 463.
[63] Renan, Vie de Jésus,  pág. 440.
[64] Jo, VIII, 13-14.
[65] Luc, VI, 12-13.
[66] Luc, IX, 1-2.
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[67] Mac., XXVIII, 18-20.
[68] Mat, VIII, 23-27; Marc, IV, 36-40; Mat, XIV, 22-34.
[69] Mat., XIV, 26.
[70] Luc., XXII, 24.
[71] Mat., XXVI, 56.
[72] Atos, I, 6.
[73] Mat., XXVI, 8; Jo., XII, 5-6.
[74] Mat, XX, 20-23.
[75] Mat, XIX, 27.
[76] Mat, XVI, 22-23.
[77] Mat., XXVI, 33.
[78] Marc, XIV, 66-72.
[79] Mat., XXVI, 14-16; Jo., XVIII, 2-6.
[80] Isa., LV, 8.
[81] I Cor., I. 27-29.
[82] Mat, V, 3-13.
[83] MI., 1. 462.
[84] Ibid, 40, 176.
[85] Mat, XVI, 18.
[86] Atos, IV, 19.
[87] Atos, V, 38-39.
[88] Mat, XXVIII, 20.

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