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GIOVANI SIQUEIRA MONTEIRO

O DESENHO COMO ELEMENTO GRÁFICO NA CRIAÇÃO DA ROUPA

Belém
2002
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GIOVANI SIQUEIRA MONTEIRO

O DESENHO COMO ELEMENTO GRÁFICO NA CRIAÇÃO DA ROUPA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de


Educação Artística – Habilitação Desenho, da Universidade da
Amazônia, como requisito parcial e final para a obtenção do grau
de Licenciatura Plena, orientado pelo Prof. Msc. Neder Roberto
Charone.

Belém
2002
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GIOVANI SIQUEIRA MONTEIRO

O DESENHO COMO ELEMENTO GRÁFICO NA CRIAÇÃO DA ROUPA

Avaliado por:

_______________________________________
Orientador Prof. Msc. Neder Roberto Charone

_______________________________________
Profª Ms. Janice Shirley Lima Moreira

_______________________________________
Prof. Esp. Jorge Eiró

_______________________________________
Profª Ms. Alda Dantas

Data: ______/______/______

Belém
2002
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Primeiramente a Deus, por ter me concedido força e perseverança


para concluir mais esta etapa em minha vida.

A minha mãe “Leny”, que sempre esteve do meu lado nos


momentos difíceis de minha vida de estudante.

Ao meu Orientador e amigo Neder Roberto Charone, com quem


aprendi muito.

Ao meu amigo Paulo Sérgio Souza, que além de me ajudar na


etapa final deste trabalho, sempre me incentivou a terminar este
curso; hoje ele não é mais um amigo, mas sim um irmão. Não
posso esquecer também de minha amiga Maria do Carmo Nassar
Mácola, uma confidente nas horas de desabafo estudantil.

Aos meus colegas da turma 4EAV1/02 do Curso de Educação


Artística, assim como também os professores, em particular a Profª
Janice Shirley Lima, Erivaldo Araújo Jr., Ana Del Tabor e Jorge
Eiró, todos sempre interessados e curiosos em relação a este
trabalho, e ao supervisor de TCC, Prof. Roberto Bibas Fialho,
sempre dedicado e preocupado na resolução dos problemas.
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MONTEIRO, Giovani Siqueira. O desenho como elemento gráfico na criação da roupa. Trabalho de Conclusão
de Curso. Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas. Universidade da Amazônia. 2002.

RESUMO

O Desenho como elemento gráfico na criação da roupa parte do questionamento de que existe sempre o momento da
escrita gráfica para o registro da idéia enquanto momento cristalizador de uma vontade. Parte de um estudo centrado na
História da Arte, identificando em algumas obrasde arte escolhidas, a presença de elementos da linguagem plástica
visual, como a composição, as linhas, as texturas e as cores de maneira marcante do qual não as percebemos. Busca
também uma significação para a roupa como tema e motivo no cotidiano de maneira a apontar retornos nos movimentos
da moda de determinados elementos empregados no decorrer da história e uso das roupas, até esta ser transformada
e exigir um design exclusivo.

PALAVRAS-CHAVE: Desenho, moda, história da roupa.


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SUMÁRIO

LISTA DE FIGURAS.................................................................................................................................................
APRESENTAÇÃO .................................................................................................................................................... 08

CAPÍTULO I: COM QUE ROUPA EU VOU ?....................................................................................................... 10


1.1 ESCLARECENDO CONCEITOS E CATEGORIAS ............................................................................................ 13
1.2 O DESENHO COMO GRAFISMO ...................................................................................................................... 16

CAPÍTULO II: A TRAJETÓRIA DA ROUPA E DA MODA ATRAVÉS DA ARTE ................................................... 19

CAPÍTULO III: COSTURANDO O DESENHO E FUXICANDO COM A ROUPA .................................................... 37


3.1 DESENHANDO E CRIANDO ............................................................................................................................. 40
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................................................................ 46

GLOSSÁRIO 50
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APRESENTAÇÃO
perspectiva da elaboração deste trabalho, busca no sentido de apresentarmos o Desenho como elemento gráfico
principal e integrante na criação de uma roupa, e logo esta chegando a ponto de se transformar em Moda.
Com uma abordagem partindo do contexto histórico, das imagens registradas na História da Arte, onde no
conteúdo, a roupa se faz presente, fazemos um apanhado de momentos para que possamos explicitar a idéia de que há
um desenho intencional para a criação de uma roupa, e com isso caracterizando um estilo.
Esta investigação, parte de experiências e reflexões pessoais, sobre o desenho enquanto “escrita” de uma idéia e
por isso mantém caráter experimental tanto na busca do registro gráfico como no emprego de materiais na montagem
da peça.
No desenvolvimento do trabalho, documentamos e mostramos a técnica aliada a teoria, trazendo em seu
conteúdo, os variados processos de formação e criação da roupa através do desenho.
Com o objetivo de fazermos uma abordagem sobre este processo de criação, analisamos alguns métodos
estilizados por artistas, no decorrer da História da arte, e ainda por profissionais e estilistas ligados ao mundo da Moda.
Na primeira parte deste trabalho, mostrarei de que forma a idéia surgiu e o que me levou a pesquisar como a
roupa sai do papel e vai para plano tridimensional através do tecido; em seguida no segundo capítulo, o trabalho aborda
a trajetória da roupa e da moda através dos tempos, usando a Arte como embasamento para tal. Por final, no terceiro
capítulo, revelo uma experimentação prática aliada ao aprendizado na universidade mostrando o processo pelo qual o
desenho transforma-se em roupa e logo em Moda.
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“Além da transformação dos quadros em meros objetos de


decoração, ocorrem no século XX múltiplas ações e movimentos
que provam o interesse recíproco entre os mundos da arte e da
moda”

Florence Müller
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CAPÍTULO I: COM QUE ROUPA EU VOU?

Diz o ditado popular que a roupa é a nossa segunda pele.


Ao volvermos nossos olhos e pensamento para as origens do homem, podemos nos recordar de que, quando
este no jardim do Éden, após comer o fruto proibido, percebeu que estava nu e por vergonha, procurou proteger-se com
uma folha de parreira – estava criada a idéia da roupa.
Nos dicionários encontramos conceituações no sentido de ser uma peça de tecido envolvente do corpo humano e
adequada a determinadas situações. Em nosso cotidiano, empregamos subtítulos para a palavra roupa em suas mais
infinitas conotações como roupa de baixo, roupas de domingo, roupa de cama, roupa de festa, roupa do dia-a-dia, roupa
velha para uma comida, e até na música, ela foi notada, sendo tema para diversos gêneros.
Também percebemos que, o ser humano após a invenção da escrita, busca sempre outras formas gráfico-visuais
como meio de comunicação de uma idéia, e é quando aparece o desenho enquanto forma intencional de registro e
expressão dessa idéia. Assim, entendo que ao estudar a roupa pelo viés da História da Arte, faz-se imprescindível
buscar a união do desenho face ser este o momento zero da criação e registro gráfico de uma roupa.
Considerando o cotidiano da vida moderna, percebemos que há situações que nos remetem a usar indumentárias
específicas estabelecidas pelo código social como por exemplo o casamento, um funeral, um baile, uma festa de quinze
anos, um baile carnavalesco e até uma festa Rave ou punck. Isto sempre me fez pensar sobre a técnica do “construir”
uma roupa.
Sempre fui curioso em tratando-se de roupa e moda. Lembro que minha mãe que é costureira e até hoje trabalha
com ajuste de roupas, possuía uma máquina de costura, no qual eu a via e aprendia como uma roupa é elaborada.
Aquilo sempre aguçou minha curiosidade, o modo como um pedaço de tecido transforma-se em roupa, e como através
de moldes de desenho a roupa nasce.
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Antes achava que tudo isso acontecia sem métrica, sem modelagem, sem suporte ou ponto de partida. Em meio
a esta curiosidade, meu modo de vestir também foi se modificando. Modificava minhas roupas com pedaços de tecido,
transformando uma simples camiseta em uma peça única e diferente. Logo depois, comecei minha vida profissional
trabalhando em uma loja de roupas. A marca da roupa, que é o símbolo que a distingue das demais, era uma das mais
bem conceituadas do mercado, lá tive o suporte que precisava para entender melhor o significado da palavra Moda.
Como desde criança trocava a bola pelo lápis e papel, sempre gostei de pintar e desenhar. Costumava também a
ler revistas especializadas em desenho, e logo fiz essa relação com a moda.
O trabalho em uma loja de marca é algo muito gratificante, você aprende a lidar com os mais diversos tipos e
estilos de roupa existentes. Aprende também sobre conceito, comportamento, tendências, o certo e o errado em
tratando-se de moda.
As pessoas que trabalham com moda ou com algo relacionado a ela, também são influenciadas. Fotógrafos,
estilistas, modelos, manequins, produtores de moda, vendedores e gerentes. Todo esse aparato de pessoas, relaciona
o conceito ao meio social, ao cotidiano da sociedade e ao mundo real da moda.
No sudeste do país, acontece anualmente a semana da moda, mais propriamente no estado de São Paulo, o qual
é um dos principais pólos de moda do Brasil. O acontecimento conta com a participação de várias griffes de roupa,
assim como também, lança novos estilistas na área da moda. O mais importante deste evento, é que ele retrata toda a
proposta brasileira em relação ao que se deve vestir. Sempre fiquei atento para estes eventos, procurando informações
precisas a respeito deste universo que está em constante mutação. É bom ressaltar que uma griffe de roupas sempre
trabalha com propostas e conceitos inovadores, e ao mesmo tempo sempre procura se inspirar em acontecimentos ou
pessoas que estão em evidência, ou às vezes procuram inspiração em décadas passadas, fazendo um estilo retrô, ou
seja, antigo. A proposta das coleções de roupas, ou seja, o conjunto num todo, é quase que a mesma: levar informação
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para o mundo atual, tratando a humanidade como cobaia para o que se deve ou não usar, experimentando as pessoas
e suas respectivas reações ao que se está se passando no momento.
Mas não só de propostas e conceito é feita a moda. O desenho é de suma importância, pois ele também vai estar
presente na idealização e na formação de uma roupa, além de se apresentar em estampas ou cortes: Geométricos,
assimétricos, simétricos, florais e abstratos. Eles assumem um papel importante neste aparato. Logo, refletindo sobre a
sociedade contemporânea que, fundamentou e sistematizou a criação de objetos através da ciência enquanto produção
de bens de consumo. Podemos ter um design de moda?
Quando ingressei na faculdade, percebi que minha habilidade em relação ao desenho poderia ser aprimorada,
logo, minha relação com a moda também poderia evoluir. O modo de entender as modelagens e cortes, ficariam mais
fáceis e com um olhar mais técnico. O que sempre me aguçou a curiosidade, é o fato de que, para se construir uma
roupa, passasse primeiro pelo desenho, esse é o ponto de partida. Como nasce a roupa através do desenho.
Este é o principal motivo que me levou a atentar para descobrir como de fato isto acontece. Na verdade é quase
que uma incógnita, o meio pelo qual isso ocorre, a forma que se transpõe um desenho no papel, para outro plano, que
no caso seria o tecido e depois a roupa. Este processo, nos dias atuais, já é considerado como uma verdadeira obra de
arte. A alta costura é um exemplo de arte, e os costureiros ou estilistas, já são chamados de artistas no modo de vestir.
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1.1 ESCLARECENDO CONCEITOS E CATEGORIAS

A decisão por estudar a roupa como trabalho de conclusão de curso, provocou algumas angústias, em relação à
identificação dos termos a serem empregados neste estudo. Assim no decorrer das pesquisas alguns termos
usualmente empregados, possuem sentido conotativo numa tentativa, numa relação de aproximação entre o termo e o
objeto, como “linguagem figurada”. (CHALHUB, São Paulo, 1991)
A História da Arte não é a história da roupa, porém se compreendemos que a Arte é o repositório de produções
estéticas, poéticas, documentais de seu tempo, esta nos servirá de ponto gerador do estudo. Aqui fica claro, que não
tomaremos as técnicas expressivas de Arte como elemento de investigação, porém o conteúdo por ela mostrado,
elegido como categoria para o estudo.
Buscando-se conceituação para o termo MODA, encontramos na Estatística uma possível compreensão para ela.
Nela denomina-se MODA, para a função de freqüência que passa por um máximo. Na sociologia encontramos
conceituação “de ser um fenômeno social ou cultural que consiste na mudança periódica de estilo, de caráter mais ou
menos coercitivo, cuja finalidade se explica pela necessidade de conquistar ou manter determinada posição social”
(BUENO, 1968, p. 820).
Na estatística isso é determinado através de um gráfico, provocado por um questionário buscando encontrar/
identificar uma maior aderência dos investigados por um determinado objeto/ação. Dentre as várias alternativas de
resposta, haverá uma incidência de considerável número de respostas que provocará um acúmulo em certo intervalo
do gráfico e a isso denominou-se de Moda.
Em sentido conotativo, acredito ser este um dos sentidos aplicáveis a massificação para o uso de determinados
estilos das roupas.
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Quanto ao sentido conotativo dito pela Sociologia, não podemos esquecer a publicidade e propaganda que nos
induz a adquirir certos bens de consumo, com a denotação de ascendermos ou participarmos de uma classe social
eletrizada culturalmente e financeiramente. A propaganda mostrando pessoas felizes, saudáveis, elegantes, bem
vestidas nos injeta a necessidade de sermos/ termos algo igual. Até mesmo por que, através da moda, nos igualamos
pelo menos na aparência.
Para não misturar os sentidos, optamos por conceituar roupa, indumentária, e traje, a fim de facilitar a
compreensão de como foi utilizado nesta pesquisa. Para Roupa concebemos a significação para peças do vestuário que
tenha o sentido de proteger, agasalhar e cobrir. Para Indumentária, tudo o que diz respeito ao vestuário e sua história,
em relação a épocas ou povos, pois é comum empregar esta palavra, para designar o vestir, para caracterizar de um
personagem de teatro, cabendo também aqui, as fantasias para o carnaval. Para significar Traje, conceituamos como
sendo um vestuário específico, de maneira a caracterizar/identificar uma profissão, região ou país.
No universo deste estudo, fechou-se a visão sobre o objetivo maior com o intuito de agilizar as ações. A principal
finalidade seria a de mostrar a criação de uma roupa através do desenho, como forma de cristalizar uma idéia – o
desenho antes de ser roupa, é uma criação artística e gráfica.
Buscaram-se fundamentos na pesquisa qualitativa de caráter experimental, como ato componente de um
estudo de caso por “caracterizar-se como uma observação detalhada de um contexto [...] ou de um acontecimento
específico“ (BOGDAM & BELÉM, 1994, p. 89). Neste sentido, a maneira como se legitima e aprende os
conhecimentos, pois a,

Abordagem qualitativa parte do fundamento de que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito [...] onde
este sujeito observador é parte integrante do processo de conhecimento e interpreta os fenômenos atribuindo-lhes um
significado, enquanto objeto de estudo [...] cheio de significação que os sujeitos concretos criam em suas ações com
ele”. (CHIZZOTTI, 1995, p. 79)
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Desta maneira, buscamos a possibilidade de iniciar caminhos de como a criação se transpõe do papel para o
tecido, unindo a vivência e o cotidiano e os conhecimentos determinados pela Academia, sem, contudo esquecer que, a
formação artística que recebemos indica também a possibilidade de seguir uma nova rota do design que é o design do
produto, o design de moda. È válido ressaltar que apesar de citar o Design como uma rota do produto, este trabalho não
usa o mesmo como fonte principal, mas sim,como citação.

1.2 O DESENHO COMO GRAFISMO

Através dos tempos o Desenho tem passado por várias designações, seja fora ou dentro de seu contexto
etmonológico. Abordar o significado da palavra Desenho seria algo de extenso e infinito, e logo não chegaríamos a um
só significado. Nos dicionários, o mesmo está designado como sendo uma representação por meio de linhas ou figuras;
para nos determos ao que queremos mostrar, designamos dois tipos de Desenhos como discursos gráficos, seja este
Visual ou Verbal. O que vem a ser o discurso gráfico verbal e visual? O discurso gráfico-visual, nos diz respeito aos
objetos que montam a cultura material. Já nos discurso gráfico-verbal, é aquele que se vale de linguagens escritas para
tratar ou relacionar as coisas da cultura das idéias e do comportamento humano.
Logo, podemos verificar que é a linguagem do desenho que define ambos os discursos, e não só as linguagens
escritas que formam as ideografias, mas também as formas de tudo o que os humanos produzem, fabricam, realizam
para entender seus desejos, vontades e necessidade. Porém, para podermos propor a expressão discurso gráfico,
tivemos que ampliar as denotações do termo discurso, conotando-o como algo pertencente a todo o universo de
linguagem, inclusive a do desenho, e não apenas à peça oratória proferida em público ou escrita como se tivesse de o
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ser. Como comenta Gomes (1998, p.103): ”O discurso gráfico passa a ser qualquer manifestação que se vale de
recursos lingüísticos para uma exposição realizada com raciocínio, discernimento, método e criatividade“.
Em tratando-se de discurso gráfico-visual, nossa base de interesse neste trabalho, podemos sugerir que o
desenhador deve agir como um profissional cuja tarefa é desmontar tudo que encontra ao seu redor, pois só assim ele
poderá montar, construir os produtos por ele vistos a partir de uma nova lógica. Em outras palavras, quando um
desenhista, ou desenhador, observa um objeto e, por exemplo, o percebeu como plano, longo e horizontal, esse
profissional deverá ter a imediata vontade de mudar este mesmo objeto, pelo menos, para o curvo, curto e vertical.

Anteriormente, com base nessa idéia, começamos a desmontar graficamente o discurso verbal, a fim de deixá-lo
com significado apenas no ponto gramatical.
Ter noção de como nos orientamos no plano é o segredo para fazer um bom uso dos elementos da linguagem
do desenho. Um bom discurso visual deve, tecnicamente, estruturar bem nos planos as grafias de imagens sonoras ou
visuais. Logo, podemos concluir que para se dar sentido, seja formal e funcionalmente, a essas imagens, é necessário
compreender a ordem gráfica aplicada. Por isso, cada configuração e forma gráfica têm dupla estrutura espacial, onde
as duas estruturas ocupam a mesma área física e perfazem a mesma totalidade visual e ainda coexistem no espaço
da forma, mas não coincidem nas qualificações.
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Todos os seres humanos são desenhadores. Tudo que fazemos quase sempre é desenhar, pois o desenho é a base de
toda a atividade humana. A planificação e normalização de todo o ato dirigido a uma meta desejada e previsível constitui
um processo de desenho. (...) Desenhar é compor um poema épico, realizar um mural, pintar uma obra prima, compor
um concerto. Porém desenhar é também limpar e reorganizar a escrivaninha de um escritório, arrancar um dente
quebrado, fazer uma torta de maçã, escolher um dos postos do batetor em uma partida de beisebol e educar uma
criança (...) Desenho é o esforço consciente para se estabelecer uma ordem significativa.

Hermman Blume
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CAPÍTULO II: A TRAJETÓRIA DA ROUPA E DA MODA ATRAVÉS DA ARTE

Através dos tempos, os motivos pelo qual a roupa tenha sido criada são muitos, dentre eles o relato do Gênesis,
de que o uso das roupas deveu-se ao pudor ou ao respeito, e até mesmo ao fato de serem usadas como forma de
ambição, riqueza e magia protetora.
As civilizações antigas, nomeadas como a base da humanidade, foram as grandes colaboradoras para que de
fato a roupa surgisse. As grandes culturas e seus povos surgiram nos vales férteis do Rio Eufrates e Nilo, ou seja, em
regiões tropicais de clima quente, onde a proteção contra o frio não pode ter sido o principal fator para a criação e uso
de roupas.Civilizações como a Egípcia e a Mesopotâmia, deixaram de ser as precursoras no critério de criação de
vestimentas. Estudos feitos por geólogos e arqueólogos constataram que na região central da Europa, na era
paleolítica, o homem primitivo já usava um tipo de vestimenta para se proteger do grande frio. Talvez o motivo principal
e verdadeiro do surgimento da roupa, tenha sido mesmo o combate ao frio, pois encontramos em Laver (2001, p. 7), a
justificativa que: “Ao longo da História não houve muita variação quanto a esse aspecto, e é possível encontrar tipos
intermediários. Talvez a distinção mais útil seja estabelecida pelos antropólogos, entre traje “tropical” e “ártico””.
O homem das cavernas vivenciou isso e com o uso de seu instinto percebeu uma forma de proteção nas peles e
principalmente de alimento nos animais.
Porém o uso de peles apresentava vários problemas, dentre eles o fato de não dar flexibilidade para se
movimentar, ou até mesmo por que não proporcionar a cobertura do corpo totalmente. Ainda havia a questão de que
quando seca, a pele ficava dura e logo se deteriorava. Portanto era necessário descobrir uma maneira de torná-la
maleável e mais durável; com isso as peles passaram a ser mastigadas e batidas nas pedras várias vezes, até ficarem
maleáveis no ponto de uso.
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As técnicas primitivas para tecer começaram a ser descobertas e aprimoradas. Os materiais variavam de fibras
de amimais até vegetais. Com a descoberta da lã de ovelha, houve então avanço neste aspecto após a tecitura dos fios.
Os povos passaram a confeccionar suas próprias vestimentas. Depois de prontas, tais peças consistiam na forma de
pequeno retângulo de pano, usado em volta da cintura, fazendo assim uma espécie do que na verdade hoje
conhecemos como saia. Mais tarde, outro quadrado de pano era atado e traspassados nos ombros e preso por pedaços
de ossos pontiagudos. Roupas drapejadas usadas como referencial social, tiveram um avanço significativo na arte da
roupa, de modo a tornar possível a produção de retângulos de tecido em dimensões adequadas para tal finalidade. Um
exemplo deste fato, é o que encontramos nas estátuas sumérias, no qual as roupas aparecem com feitas em camadas,
em vários folhos, com uma textura sobreposta e diferente, como mostra a figura abaixo. (LAVER, 2001, p.14): “Na
verdade, roupas drapejadas eram a marca de civilização. As que acompanhavam as formas do corpo eram
consideradas “bárbaras”, e os romanos, em certa época, chegaram a condenar à morte quem usasse”.
A transição das peles de animais para o tecido não foi assim tão simples; houve infinitas variações e várias
utilizações de outros materiais. Povos como os Assírios e Babilônios acrescentavam raízes e tufos de palha em seus
tecidos, além de criarem franjas em suas vestes. Tal inovação era usada por ambos os sexos. Com o passar dos
tempos, mantas e túnicas foram elaboradas e usadas pelos Persas e Medas para burlar o frio.
Havia pouca diferença entre trajes masculinos e femininos, exceto quanto ao manto que as mulheres usavam,
que eram mais amplos e compridos. No vale quente do Nilo, a vestimenta egípcia era composta de um quadrado de
pano que era muito mais leve e sumário do que da Assíria e Babilônia. As pessoas das classes egípcias mais baixas e
os escravos dos palácios andavam quase ou completamente nus. O uso de roupas era também uma divisão e ao
mesmo tempo uma espécie de distinção de classes.
Felizmente sabemos muito sobre a vestimenta do Egito antigo através de estatuetas e pinturas em paredes que,
graças ao clima extremamente seco, foram preservadas em grandes quantidades, como podemos ver na figura abaixo,
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os egípcios possuíam uma variedade de roupas para várias ocasiões, o corte diagonal das saias e tangas eram o
grande feito deste estilo de vestuário, davam à roupa uma forma única. Podemos identificar este estilo de vestimenta
nas figuras abaixo.
Tomando-se a vestimenta como ponto de partida, há períodos interessantes retratados por desenhos em
afrescos Cretences no qual a roupa dos homens resumia-se em um pequeno retângulo de pano chamado de Tanga,
uma espécie de avental que cobre o corpo desde o ventre até as coxas, e a das mulheres se caracterizavam por uma
série de camadas de pano, com cintura bem apertada e uma outra peça que se ajustava ao corpo na altura dos ombros
e terminava nos seios. Os Cretences tinham paixão por cores, talvez tenham sido os descobridores do uso das tintas e
pigmentos. Através de raízes, terras coloridas, folhas e frutas, conseguiram um considerável número de cores como o
vermelho, roxo, amarelo e azul.
Na Grécia antiga, a roupa não possuía uma forma em si. Era composta por retângulos de tecidos finos e com
vários tamanhos, dobrados sobre o corpo, sem cortes ou costuras. Haviam variações consideráveis na maneira de
ajustá-los ao corpo, mas as linhas essenciais permaneciam as mesmas. O Quiton, nome dado a uma das vestimentas
gregas, era preso por alfinetes ou broches de ouro, e normalmente usado com um cordão ou cinto feito de tiras de
couro em volta da cintura (ver figura abaixo). Em relação à cor, as roupas gregas também eram bastante coloridas,
sendo que as classes mais altas, usavam as cores fortes, como vermelho, amarelo, marrom e azul e as classes baixas e
pobres utilizavam tecidos destoados ou crus, totalmente sem cor ou até mesmo brancos. Na realidade, nota-se que era
mais uma forma de distinção de classes sociais.
Roma teve sua participação criando a Toga romana, que consistia em um grande círculo de tecido, podendo ser leve
ou pesado. Em outra versão, a Toga poderia ser também feita a partir de um grande retângulo, formando uma capa.
Esse tipo de vestimenta era usado principalmente por homens, enquanto que as mulheres usavam uma veste longa e
justa, sem cinto, com meia manga, e às vezes com uma abertura nas costas fechado por fitas. Os tecidos variavam
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entre o linho e o algodão, e finalmente para os ricos, a seda importada do oriente. As cores preferidas dos romanos
eram o vermelho, amarelo, azul e o preto para as ocasiões de luto. Os trajes romanos em sua maioria, ainda eram
ornamentados por bordados e franjas douradas. A figura abaixo de um afresco romano, nos revela o modo que os
tecidos eram enrolados no corpo.
Com a queda do império romano, os povos bárbaros tomaram conta da Europa, fazendo assim uma total
mudança na vida das pessoas. As vestes também foram modificadas; túnicas de tecidos pesados, emendadas com
pedaços de couro e calções largos, faziam parte do modo de vestir do povo bárbaro. Certamente que esta ficou sendo a
vestimenta característica dos homens naquela época, pois ainda podemos acrescentar as botas de couro, as capas com
placas de metal e as ataduras enroladas nas pernas, fazendo assim a proteção contra o frio. Para as mulheres, sabe-se
pouco, mas em geral usavam uma túnica longa chamada de Stola, adornada com faixas bordadas e uma espécie de
lenço chamado de Palla, que era drapejado em volta dos ombros. Parece que nem os homens e nem as mulheres
usavam chapéus, o que existia era uma espécie de lenço, comprido que ia da cabeça aos pés. Por baixo usava-se um
Chinó pequeno, um tipo de cabeleira postiça, que aumentava o volume dos cabelos.
No império Bizantino, as roupas sofreram uma transformação passiva, ou seja, algumas mudaram em relação ao
corte e outras mudaram em relação aos tecidos, que passaram a ser importados do oriente. As túnicas passaram a ter
mangas bordadas nas extremidades, eram usados rubis e pedras preciosas, além do tecido brocado e em sua maioria
pintados á mão. Desenhos de elefantes, flores e pássaros eram o grande ponto desta veste.
Na dinastia Anglo-Saxônica, os reis e rainhas, também eram simplórios em relação às roupas. Usavam túnicas
curtas, ficando as pernas descobertas e ao mesmo tempo cobertas com uma espécie de tira de tecido fino, chamado de
Grevas. As mulheres, em particular, usavam uma camisola grande e longa e por cima uma sobre-túnica, formando um
manto. Os cabelos eram cobertos por um véu comprido. Como mostram as figuras abaixo, os véus eram usados
cobrindo-se toda a cabeça, e o Chinó era composto por várias tranças até formarem um nó.
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No Renascimento, a moda das vestes e as formas de arte, em geral, nunca haviam sido totalmente aceitas na
Itália, e em meados do século XV, os hábitos italianos já divergiam consideravelmente do restante da Europa Medieval.
Os penteados, por exemplo, eram envoltos em véus, enquanto que na Itália eram mais naturais e soltos ao vento,
menos formais, acreditamos no modelo apresentado por Rafael Sanzio, ou seja, na sua obra Primavera. Nas roupas, as
mangas dos vestidos eram destacáveis e ornamentadas, um reflexo no fluxo produzido pela prosperidade mercantil das
cidades italianas. Na maioria das vezes, as vestes eram retratadas em esboços ou pinturas em telas de artistas
renascentistas, uma espécie de protótipo do estilismo. Como comenta Laver (2001, p. 86): “Mas, na maior parte, esses
artistas pintaram indivíduos eminentes em suas roupas mais pomposas, os pintores da época já faziam algo parecido
com o estilismo”.
Na Europa Medieval a moda das roupas era extremamente extravagante e bufante, tanto para os homens quanto
para as mulheres. Túnicas com peles de animais, como a raposa, cores fortes, bordados, becas caindo em pregas até
o chão, ou com a cintura apertada, faziam o sucesso neste estilo. Mangas justas e ao mesmo tempo amplas; plumas de
avestruz nos cabelos e chapéus. Nasce o Gibão, com um corte trapezoidal e reto, peça masculina que poderia chegar
até os joelhos, como um sobretudo. Os tecidos prediletos desta fase eram o veludo, o cetim importado da China e o
pano-de-ouro, este último confeccionado com fios de ouro entrelaçados nas tramas de linho ou chantung.
Em meados do meio do século XVI, tudo mudou. A influência espanhola estava em seu ápice, e com isso o
domínio da moda européia num todo, com suas formas fantásticas e cores vibrantes, deram lugar para a moda daquele
país. Com uma forma extremamente ajustada ao corpo e cores sombrias que iam do azul royal escuro ao preto, os
espanhóis marcaram sua presença nesta fase. O acolchoado entra com toda força e em todos os modelos de roupas.
Nos Gibões e nas meias com a finalidade de encorpá-los eliminando todas as dobras; este enchimento era feito de lã ou
crina de cavalo. Em sua maioria provocava o desconforto e coceira para quem usava. Laver (2001, p. 90) afirma que:
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“Não era só na cor, ou ausência dela, que a nova moda era diferente daquela geração anterior.Havia uma
diferença real no corte”.
O Rufo, uma espécie de franzido ou pregas, é outro elemento “hierárquico” nas roupas, as mulheres usavam com
leves diferenças das roupas masculinas. Este Rufo consistia em uma grande gola que separava o pescoço do restante
da roupa. O mesmo representava um privilégio dos ricos aristocratas.
A rigidez que marcou as roupas masculinas no final do século XVI, foi ainda mais acentuada nas roupas
femininas. O corpete usado pelas mulheres, formava a frente da blusa e era endurecido com tela engomada ou papelão
e mantido no lugar por barbatanas freqüentemente feitas de madeira, e portanto não flexíveis. Outra moda marcante
desta época e ao mesmo tempo popular foi à criação do “Farthingale Cilindro“, vulgarmente chamado de rolo, que na
verdade era uma anágua feita na forma de um cone com arcos de arames. Era feito de um rolo de tecido acolchoado
em forma de salsicha, sendo as duas extremidades presas na frente com fitas. Os trajes masculinos passaram a
apresentar maior variedade. A capa era indispensável, usada pendurada ou em torno dos ombros. Laver (2001, p. 99)
comenta que: ”Os trajes masculinos também passaram a apresentar maior variedade.O gibão ainda era a peça principal
no guarda-roupa de um cavalheiro, mas sobre ele podia ser usada a jaqueta, freqüentemente sem mangas”.
Tal influência persistiu no século seguinte pricipalmente no abandono do Gibão acolchoado e no alargamento das
mangas; os Rufos também diminuíram na França e na Inglaterra, mas continuaram a aumentar de tamanho na Holanda.
Na corte de Henrique VI, os cortesãos continuaram a usar a seda, porém com menos adornos de fios de ouro e
prata.
No século XVIII, as formas básicas das roupas, como largura das mangas e o comprimento ficaram maiores, para
saias e para calças masculinas. O prestígio da corte de Versalhes havia provocado uma febre em toda a Europa em
tratando-se de moda. Em 1680, adotou-se a peruca, que ao mesmo tempo era cara e incômoda. Laver (2001, p. 128)
descreve que: ”Ela era impraticável para qualquer atividade vigorosa, e os soldados logo desenvolveram a peruca de
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“campanha”. Continuava a ter os cachos, porém arrumados em três mechas, uma atrás e uma de cada lado do rosto,
sendo as pontas viradas para cima e amarradas em um nó”.
Os anos finais do reinado de Luis XIV foram marcados por uma formalidade nas roupas, que eram pesadas e
desconfortáveis, mas sua morte em 1715 deu início a uma nova era. Com reação a tudo que o Rei Sol significava, as
roupas passaram a ser mais leves e fluídas, principalmente as femininas. Os vestidos eram aumentados por arcos
feitos de galhos de salgueiro, dando volume e conforto.
Em 1770 houve uma alteração na roupa feminina, que pode ser resumida como uma transição dos arcos para um
tipo de anquinhas. O corpete começou a ser estufado formando uma espécie de papo de pombo. Nas roupas
masculinas, a busca da simplicidade significava o abandono das roupas francesas da corte e a aceitação das roupas
camponesas inglesas. No final do século XVIII as linhas gerais das roupas estavam estabelecidas: para as mulheres,
uma versão do que veio a ser conhecido como o vestido Império que era na verdade um vestido com característica
trapezoidal, preso abaixo dos seios e descendo aberto para baixo, para os homens, um traje que já podemos
reconhecer como o tipicamente inglês, ou seja, calças coladas até os joelhos, com grandes calções por cima. As duas
modas, feminina e masculina, apresentaram poucas variações em toda a Europa.
Quando em 1800, a França e a Inglaterra, ditavam a moda, o traje aceito era uma espécie de camisola, chegando
até os tornozelos, porém muito decotada, mesmo durante o dia. Havia uma grande paixão pelos Xales, e os Rufos
voltaram à cena. Os Xales a princípio, vinham de Caximira, na Índia, mas a guerra com a Inglaterra dificultou a
importação pela França, que, portanto, começaram a fabricar seus próprios Xales. Com a expedição de Napoleão
Bonaparte ao Egito, nasce a moda dos turbantes, sendo também usados na Inglaterra.
Os costumes ingleses estavam em alta, durante o dia usavam-se calções justos por dentro das botas e meias de
seda com escarpins. Calças muito largas também eram comuns, mais tarde esse tipo de calça se chamaria de
“cossacas”.
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Um colarinho também era o auge do momento, a ele deu-se o nome de Dândi; usado sob a camisa e virado para
fora, dando um toque altamente classudo a roupa. Também se usava o Stock, uma espécie de faixa dura preta
abotoada atrás, complementando o Dândi e tornado-o mais inconfortável. O uso de espadas havia sido abolido, mas as
bengalas estavam em total ascensão. Era extremamente elegante ver um homem usando bengala em plena avenida.
Em 1822, a grande virada foi na roupa feminina, que teve o espartilho como seu grande inovador e o mesmo não
poderia fazer falta em seu guarda-roupa. O efeito da cintura fina poderia ser aumentado tornando a saia maior e as
mangas mais fofas. As saias eram mais amplas, com babados e bordados, além de possuírem um número maior de
estamparias.
Após a década de 1840, que foi marcada pela escassez, chega então a década de 1850, cheia de prosperidade
e revoluções por toda a Europa. Surgem exposições apresentando novas tecnologias, e com as fábricas tomando o
pulso e a frente. Os industriais causam controvérsias, implantando a máquina a vapor e muito mais tarde a eletricidade.
A máquina a vapor provocou um certo grau de pobreza na população, como também doenças de origem respiratória –
era a Revolução Industrial. Isso fez com que também chegasse na elaboração de roupas daquela época; as vestes
começaram a tomar um rumo, a saia, por exemplo foi ficando mais rodada com um número grande de anáguas, com
isso também veio um peso insuportável. Logo, em 1856, essas anáguas foram substituídas por uma armação de arco
mais leve ou até mesmo pelas “crinolinas de armação”.
Surgem os estilistas ou um pré-estilista, que eram uma espécie de consultores de vestes, ou seja, uma pessoa
humilde que visitava as mulheres em suas casas, fazendo uma forma de consultoria e mostrando as tendências da
época, como tecidos novos e modelos revolucionários. Em meados da década de 1870, as “anquinhas”, que tratava-se
de um acessório usado pelas mulheres (ver figura), feito com arcos envergados para prolongarem as nádegas, havia
desaparecido. As saias ainda eram cheias e fartas, com uma altura estranha na parte traseira. Porém os vestidos
possuíam uma cauda bastante longa, fazendo a roupa ficar mais fina e bonita. Mesmo assim as saias ainda eram
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motivo de reclamação em virtude de dificultarem os movimentos. Em 1880, os trajes masculinos eram comuns e
simples, mostrando pouca diferença do que nos anos anteriores. O Fraque era usado somente à noite ou em ocasiões
especiais; para o dia usava-se uma sobrecasaca ou jaquetas com calças justas ou semijustas.
Em 1884, era comum ver as roupas da época retratadas nas telas de Renoir, este, era bastante realista quanto
ao modo comum de se vestir. Começaram também a nascer os trajes feitos especialmente para o esporte como o
ciclismo, ou até mesmo para os esportes marítimos. No final de 1895, a bicicleta tornava-se popular, e todos queriam
andar confortavelmente; logo as roupas começaram a ser pensadas de modo a facilitar, principalmente as mulheres a
andar na mesma.
O período que vai do início do século 20 ao princípio da primeira Guerra Mundial é chamado na Inglaterra, de era
eduardiana, apesar de o rei ter morrido em 1910. A moda sempre era um reflexo da época. Tanto na França como na
Inglaterra, a moda era feita com muito luxo e ostentação. Tudo era maior que o natural, inclusive o busto das mulheres.
Havia um grande gasto em tratando-se de festas com pessoas finamente vestidas; todos queriam mostrar seu poder
aquisitivo, e isso se demonstrava também através da roupa que se usava.
Surgem as rendas, enfeitando vestidos e pallas. Quem não podia comprar renda verdadeira, recorria ao crochê
irlandês, que era feito artesanalmente com lã e provocava quase que o mesmo efeito das rendas verdadeiras, feitas
com fios de seda. Os decotes eram extravagantes e havia uma loucura pelas plumas. Em 1908 a silhueta feminina
começou a mudar, deixou de ser comportada para ser um pouco mais extravagante. Em 1913, é criado o decote V,
causando sensação no público masculino. Após a guerra, em 1919, a moda retomou seu ritmo, a saia ampla que
atravessara a guerra, foi substituída pela linha “Barril”, com um efeito tubular. Abaixo na obra de Georges Seurat
podemos verificar as anquinhas usadas pelas mulheres e as roupas de passeio masculinas.
Em 1925, para escândalo de muitos, chega a saia curta. Foram condenadas no púlpito na Europa e América, e o
arcebispo de Nápoles chegou a anunciar que o recém-ocorrido terremoto em Amalfi, cidade italiana, se devia à ira de
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Deus contra uma saia extremamente curta que apenas cobria os joelhos. Em Utah, Estados Unidos, foi decretada uma
lei que previa prisão e multa para quem usasse nas ruas saias com o comprimento inferior a oito centímetros acima dos
tornozelos. Em Ohio, outro estado americano, meninas acima de quatorze anos, também não podiam usar saias curtas.
Na verdade, o que ocorre é uma repulsa a favor do pudor e contra o comportamento feminino da época. Tudo em
vão, pois um novo tipo de mulher nascia, talvez no sentido de emancipação e da liberdade aos costumes arcaicos da
sociedade época. O novo ideal erótico era também andrógino, as moças procuravam ter a aparência de rapazes. Os
cabelos eram curtos e as roupas secas e mais ajustadas ao corpo.
Nesta época, em Paris, surgem novos nomes ligados à moda, Coco Chanel foi uma das que na década de 20 fez
sucesso ao atingir o público feminino com muitas particularidades no modo de vestir. Em seus desenhos, Chanel
procurava usar as formas retas, secas, sem muitos detalhes, seus protótipos revelam essa singularidade em seus
desenhos. Com a chegada de uma mulher à frente de novos conceitos, a mesma foi ganhando espaço na sociedade.
Madame Chanel era amiga de vários artistas da época, dentre eles Pablo Picasso e Stravinski; logo ela não era apenas
uma estilista, uma mulher que criava moda e conceitos, mas sim uma pessoa influente que também procurava estar
acompanhando o que estava acontecendo em termos de arte. A moda então passou a evoluir e a acompanhar a arte, e
tendo a mesma também como inspiração.
Concordamos com Laver (2001, p. 235) quando afirma que: “A função da moda é mudar, e no final dos anos 20,
era claro que um novo estilo estava para ser criado.As saias encurtaram-se ao máximo (não tanto quanto na década de
60, é claro) 1927”.
Não era do interesse de todos que as saias fossem curtas. Quem gostou desta nova moda foram os fabricantes
de meia de seda, seus lucros aumentaram consideravelmente. Nas corridas de cavalos, no qual a alta sociedade se
encontrava, era comum ver mulheres com elementos masculinos nas roupas, aliás, essas corridas serviam mesmo para
as pessoas verem o que de atual estava-se usando para a hora matutina.
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Não há, contudo paralelo exato entre a moda do início da década de 1930 e aquela de um século antes, pois a
cintura não passou a ser apertada, e as linhas gerais das saias passaram a ser perpendiculares. Os ombros passaram a
ser largos e os quadris estreitos, tornando assim o ideal de mulher para aquela época. A atriz Greta Garbo tornou-se
ícone nesta forma de vestir, fazendo sucesso entre os homens.Nesta mesma época, a ênfase foi para o decote atrás do
vestido; fendas imensas eram vistas em vestidos luxuosos. As costas das moças ficavam extremamente nuas, e a parte
de baixo da roupa, que ia da cintura até os joelhos, acentuava pela primeira vez a forma das nádegas.
Encontramos em Palomino (2002, p. 55) a afirmação de que: “A imagem da moda é a da estrela Hollywoodiana.
Desde a época áurea do cinema mudo, as telas fornecem não apenas padrões, mas modelos, aspirações para moças
em todo mundo”.
As linhas principais das roupas femininas no início da década de 30 podem ser rapidamente resumidas. Os
vestidos eram justos e retos, sendo às vezes mais largos nos ombros do que nos quadris.
Quando indícios da Segunda Guerra Mundial começaram a nascer, tornou-se óbvio que a silhueta da moça
estava começando a se modificar. O romantismo estava em alta, enquanto Hitler também.Houve um estilo camponês
tentando se firmar, ao mesmo tempo tentou-se voltar aos espartilhos. Para os homens, as roupas continuaram
informais, ou seja, passaram a ser mais despojadas, mais simples, o que já se notava desde o final da Primeira Guerra
Mundial.Após o Armistício a sobrecasaca tornou-se raridade. O terno passou a ser usado habitualmente, mas depois de
1922, ficou mais curto e não possuía abertura atrás. O colete perdeu o seu lugar para o jaquetão, porém no final da
década de 20, era moda usar os paletós abertos com os coletes abotoados a amostra.
De certa forma a guerra veio a contribuir nesta fase, pois algumas peças de roupa eram inspiradas em uniformes
militares. Esta talvez tenha sido a única contribuição da guerra para a moda. As calças masculinas foram transformadas
para o maior conforto e praticidade.
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Segundo Laver (2001, p. 250): “A mudança principal em meados da década de 20 foi na largura das calças, as
chamadas Oxford bags. Acredita-se que elas tiveram origem nas calças extremamente largas, feitas de tecido de toalha,
usadas sobre os shorts por estudantes que praticavam remo”.
As variações quanto ás formas básicas das roupas, tais como mangas, comprimentos, larguras não eram muitas.
Havia uma ligeira mudança nas cores das roupas, assim como também no corte, à volta dos modelos inspirados nos
uniformes militares, isso se pode obter como uma referência ao transtorno que a guerra causara, e deixado algo de
proveitoso como inspiração, até as mulheres aderiram a este feito. Os chapéus eram de feltro, imitando os guardas. Os
cabelos eram comportados até os ombros, formando pequenos cachos e ondas.
Em 1945, uma exposição chamada “Le théâtre de la mode”, no Musée des Arts Décoratifs, com o apoio dos
principais costureiros parisienses, inclusive Balenciaga, Balmain, Dior, Givenchy e Jacques Fath, demonstrou o quanto
eles e o governo estavam empenhados em estabelecer a indústria da moda e da alta costura na Europa.
Laver (2001, p. 255) afirma que: “Paris novamente se transformou no centro da moda, mas a Inglaterra e, mais ainda, os
Estados Unidos já haviam começado a criar suas próprias indústrias de moda, cada vez mais independentes”.
O mercado de roupa e moda começou a se expandir. Escolas de estilismo surgem com o objetivo de formar
novos costureiros, e ao mesmo tempo uma outra ciência procura surgir, direcionada para o design das formas, com uma
proposta para a funcionalidade e modernidade dos objetos. Depois da crise com a guerra, a moda tomou um rumo de
nostalgia e luxo.Para os homens, o estilo eduardiano havia voltado. Christian Dior lança o vestido Trapézio, que em seu
corte principal, lembram uma forma geométrica, fazendo e dando ênfase para a juventude da época, que nesta fase,
estava no auge e queria usar o que de atual existia. Fora de Paris acontecia uma revolução entre as jovens, que não
queriam usar a moda açucarada de suas mães. Piet Mondian também foi fonte de inspiração para estilistas da época,
seu estilo e convenções diferenciadas e uma famosa obra sua foi parar nas roupas de Yves Saint Laurent.
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Um estilo popular nascia sob a mira do “estudante de arte” da época, aliás, este era a antítese do mundo e da
moda vigente. A demanda das roupas jovens era grande e avançava em um rápido espaço de tempo; Mary Quant abriu
sua loja Bazaar, em uma das mais movimentadas ruas de Londres, fazendo assim com que a moda jovem fosse vista
por bons olhos.
A indústria do Prêt-à-Porter, que na verdade quer dizer roupa feita em grande escala, surge criando roupas em
série e dando um salto para a produção em massa. Este feito foi grande nos Estados Unidos, com o sportswear, linha
de roupas feitas para o esporte. Na Itália, Emílio Pucci, produzia peças avulsas e versáteis, sendo as mesmas de cores
vivas, fortes e com estampas arrojadas.
Chegada à década de 1960, os jovens reinam absolutos, em atitudes, em comportamento e em consumo em
relação á moda; os modelos de roupa mudavam como camaleões, fazendo com que os fabricantes ficassem loucos e
produzissem estoques novos a cada seis meses enquanto que as lojas eram procuradas quase que diariamente.
Segundo Palomino (2002, p. 59): “Os adolescentes, então, já têm condições de trabalhar àquela época. Com seu
próprio dinheiro, querem roupas e objetos que atendam a suas necessidades, e não mais a moda antiga dos anos 50. É
uma nova geração de consumidores”.
Para o estilista da década de 60, o corpo era o carro chefe da questão. A corrida espacial entre Estados Unidos
e Rússia, provocou uma febre de roupas arrojadas e revolucionárias. A mistura de tecidos com fibras sintéticas e
derivadas do petróleo, obteve uma grande aceitação. O corpo passou a ser uma tela humana no qual qualquer humor,
idéia ou proposta poderia ser idealizada ou pintada. As roupas de baixo haviam sido adaptadas, as calcinhas ficaram
menores e surge a minissaia batizada de saint-Tropez.
Laver (2001, p. 265) nos comenta que: “Confortáveis e práticas, continuaram populares muito tempo depois do
desaparecimento da minissaia. Mas o slogan “queime o sutiã” foi pouco ouvido.A maioria das mulheres achava que
precisava dos sutiãs e passou a usar os modelos naturais produzidos pelas fábricas de lingerie”.
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Paco Rabanne chegou e rompeu barreiras com suas roupas feitas de pequenas placas de metal e argolas,
fazendo referência á corrida espacial. Discos de plástico eram inovadores e as mocinhas da época adoravam ser
futuristas. Na América, Oscar de La Renta e Anne Klein, produziam tanto os modelos tradicionais, quanto os modelos
jovens, favorecendo a todos. Todo tipo de roupa acompanhava uma maquilagem especial, assim como também
acessórios e bijuterias; que em sua maioria eram vendidas em grandes magazines.
No final da década de 60 e início de 1970, uma mudança ocorre. As pessoas, os jovens queriam paz e amor e
não á guerra.
Todos queriam estar aliados á natureza e ser de certa forma Hippies. Tecidos fluídos de puro algodão, com
estampas florais e motivos campestres surgem com toda força. O natural está na moda. Flores do campo enfeitam
chapéus de palha e cabelos encaracolados; rendas e anáguas voltam á cena.Laura Ashley e seus chifons fazem
sucesso. A Índia estava em alta com todo seu exotismo; até os Beatlles, cantores do momento, haviam aderido a esta
moda.
O jeans chega com toda sua versatilidade. Criando por Levi Strauss, para uso exclusivo dos mineradores
americanos em forma de calças, em 1873, este tecido, torna-se o grande feito do momento.Jaquetas, camisas, calças e
macacões, marcam presença. As mulheres procuram vestir-se iguais aos homens; não há mais uma diferença, e ambos
os sexos trocam as roupas. Surge o estilo Unisex. Não existe mais o masculino e o feminino.Todos usam o que lhes
convém.
Um dos fenômenos mais interessantes da década de 70 foi à passagem das roupas e penteados Punk. O Rock
paulera, estilo de música feito por grandes bandas e cantores, influencia esta geração, e logo a moda.Calvin Klein e
Ralph Lauren lideram a moda do momento nos Estados Unidos. O uso intenso do corte enviesado e o mínimo de
costuras deram interação sutil entre o corpo e o tecido. Este é a proposta do momento, quanto mais simples, melhor. Às
vezes, pode-se fazer um estilo retrô, voltando ao que se usava antigamente e misturando-se ambos os estilos e
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maneiras.Em outras formas, procura-se avançar no tempo, propondo algo cibernético, ou seja, futurista, além do nosso
tempo atual. Mas a moda é única e ao mesmo tempo é todas.
Assim com a Arte, a Moda pode ter várias abordagens, subjetivas e paradoxais, levando sempre em conta seu
caráter “artístico”. Como na Arte, a moda também é mutante, sempre está arriscada a sofrer influências e renovações,
sempre corre também o risco de acertar e errar.
Na moda, a simplicidade às vezes não funciona, ao contrário da Arte, onde o exagero e o simples desfilam juntos
em todos os aspectos. Muitas vezes, uma imagem é reforçada ou tratada de modo mais extravagante ou incomum para
que as idéias sejam mais explicitadas, ou mesmo para produzir uma boa qualidade para tal imagem.
A moda é na verdade um sistema que acompanha o vestuário e o tempo, integrando o simples do dia-a-dia a um
contexto político, social e cultural. Logo, podemos constatar que a moda não é simplesmente acompanhar as tendências
do que se usa em determinada época, mas sim, moda é muito mais do que roupa, é acompanhar todo um aparato de
linguagens e conceitos no qual serve como reflexo das sociedades à volta.
Enriquecer ou modificar a aparência corporal através de ornamentos respondia, primitivamente, à necessidade
primária de proteção frente ao desconhecido e inexplicável. Com o passar do tempo, contudo, os elementos de adorno
adquiriram uma função predominante decorativa e simbólica. Foram se repropondo ciclicamente enquanto arquétipos
que fundamentam a cultura humana. Ao escolhermos um vestido, por exemplo, em detrimento de um tailleur ou
agasalho, estamos optando por encarar determinada faceta de quem somos ou gostaríamos de ser. Estamos, enfim,
redigindo nossas próprias falas no cenário cotidiano, permitindo que a segunda realidade interfira sobre a primeira. No
vaivém dos cabides e das nossas escolhas entre esse ou aquele traje, emitimos sinais cujo eco é ensurdecedor. Mas
moda inclui mais do que roupas: o vestir é o que as pessoas fazem com seus corpos para manter, gerenciar ou alterar a
aparência.
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Palomino (2002, p. 15) afirma que: “Hoje em dia, talvez estejamos acostumados a um sistema que opera a moda
num âmbito de desfiles, modismos, tendências. Mas nem sempre foi assim. E, ao pensar em nosso mundo globalizado,
a moda não é universal”.
Mas nem toda moda está conectada com leituras políticas ou sociais, simplesmente por que as pessoas às vezes
usam coisas sem motivo, daí o caráter volátil da moda, logo, podemos verificar que o significado social da moda está
confinado ao fato de quem usa o quem em determinado momento, e não por que se usa.
A moda possui, entre outras facetas singulares: a busca pela individualidade e a necessidade de integração
social.
Observamos que a moda se disponibiliza como ferramenta, ou procedimento, ou ainda a delimitação,
hipotatização e ritualização que ocorrem freqüentemente. Três modalidades de combate são mais evidentes: produção
de editoriais e catálogos (delimitação), geração de novas tendências (hipotatização) e promoção de desfiles
(ritualização).
Já no caso dos desfiles percebemos uma ritualização. É comum terem apresentação linear e previsível, jamais
testando a situação real de uso da roupa (como sair de um carro ou entrar num avião): trata-se de uma simulação de
uso. Todavia, são eles o espaço segrado da moda, um jogo de representação que hipnotiza a platéia com a
exacerbação de uma idéia do estilista e um recorte do mundo.
Como uma espécie de ópera da moda, os desfiles tornam-se a ignição para o consumo de um conceito, que se
efetiva na comercialização de itens de preço inferior ao das roupas apresentadas. Tendências, por sua vez, são
hipotatizadoras. Orquestram uma hierarquia de adoção e obsolescência: diferentes opções são introduzidas em
substituição às anteriores em regime cíclico cada vez mais veloz.
Palomino (2002, p. 65) afirma que: “Começamos década, século e milênio, mas, ao contrário do que se pensava
nos anos 60, não estávamos vestidos de astronauta”.
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O desenho destas roupas, a forma como são elaboradas, também sofrem uma mudança, seja no corte, na
maneira de usar, na elaboração, no tecido, ou seja, muda em todos os aspectos, colocando o conforto e preço em
primeiro plano.
A moda é universal, mutante e com personalidade própria. Sempre acompanhará o tempo e suas
transformações, sempre será um reflexo do que se vive no momento. Logo, podemos ver a moda como um dispositivo
social caracterizado por uma temporalidade particularmente breve, por reviravoltas mais ou menos fantasiosas, podendo
por isso afetar esferas muito mais diversas da vida coletiva.

Todo o desenho circunscreve os valores da cultura material do seu


desenhador, assim como inscreve a qualidade das idéias e do
comportamento da sociedade para a qual ele foi desenhado.
Luis Granixeiro
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CAPÍTULO lll: COSTURANDO O DESENHO E FUXICANDO COM A ROUPA

Criar, idealizar, tirar do papel para o tecido, transformou-se no maior de todos os desafios. Fazer uma roupa, por
completo, era algo que até então não havia feito. Transformar uma camiseta básica em algo diferente, mudando apenas
pequenos detalhes, isso era fácil, mas a proporção em que o trabalho de conclusão de curso começou e ser elaborado,
sentiu-se uma necessidade de mostrar a produção e o processo pelo qual uma roupa passa assim que é desenhada e
sai do plano bidimensional para o tridimensional.
Desenhar intencionalmente é diferente de algo que é proposto, feito para uma finalidade. Acredito que Leonardo
Da Vinci já o fazia quando desenhava fantasias para nobres em Milão. Fazer, criar uma roupa com uma intenção,
direcionada para tal finalidade, é bem diferente.
Com uma proposta e uma idéia a ser colocada em prática, comecei este processo de criação no qual deveria
possuir um direcionamento, pois o fazer por fazer não estava em questão, mas sim o fazer com um objetivo e um
conceito.
Inicialmente, surge a idéia, uma roupa diferente, algo não muito convencional. O desenho surge primeiro, em
forma de esboços e propostas. Erros e acertos são inevitáveis, e nesse acertar e errar, uma infinidade de folhas de
papel são usadas. Além disso, quando tal idéia surge, é necessário logo pensar nos adereços a serem usados, tais
como, enfeites, bordados, cortes e modelos diferentes.
No desenho, tenho total habilidade, mas na seqüência que se dá ao fazer, ou seja, tirar do papel e ir para o
tecido, confesso que senti uma certa dificuldade; o que fazer?
È nessas horas que recorremos aos amigos mais próximos e mais inteligentes, como uma terceira voz, com uma
compreensão prático-teórica formidável, recebi ajuda deste amigo.
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Iniciamos este longo processo, baseados em revistas de moda, tais como Manequim, Moda Cláudia e Noivas.
Tais revistas, são o maior exemplo de como o desenho é usado antes do processo de criação que uma roupa deve
passar, e logo esta transformar-se me moda. Várias consultas foram feitas, discutidas e elaboradas. Inicialmente,
pensamos em elaborar 10 (dez) looks, ou seja, dez modelos de roupas diferentes, levando sempre em consideração as
propostas e conceitos a serem expostos e feitos. Tecidos foram estudados, sobreposições discutidas, os modos de
costuras, que são variados, todo este aparato foi seguida.
A proposta para este trabalho de como uma roupa sai do papel e vai para o tecido, começou quando houve uma
inspiração, um desejo de criar algo diferente e novo. Pensou-se na possibilidade de serem criadas peças de roupa com
o uso de tecidos opcionais e recicláveis, e ainda dando ênfase para os tecidos regionais, saindo do usual como a seda,
algodão, shantung ou tafetá.
Os modelos começaram a ser feitos, ou seja, desenhados. Inúmeras propostas e desenhos foram elaborados.
Desenhar uma roupa, é diferente de se desenhar um objeto ou uma paisagem. Nada pode ser muito imaginário, nem
tudo pode ser surreal e extravagante, pois quando o desenho sair do papel para o tecido, erros poderão ser detectados
e com isso a roupa por final não terá um conceito e uma proposta.
Aprender a distinguir corretamente as formas, proporções, cores, textura, movimento, expressões e simplicidade
das linhas conduzindo a um estudo profundo da anatomia humana, todos esses processos, deveríamos fazer.
Desenvolver a técnica do traçado da anatomia, despertar a sensibilidade de expressar e buscar sempre um bom visual
(estética do trabalho).
Com isso, fortalecemos a flexibilidade nos traços do desenho de moda. Desenvolvemos as técnicas que ajudam a
expressão de um estilo. Desenvolvemos a capacidade de descriminar os estímulos visuais a fim de se obter nitidez e
expressão na forma e no caimento dos tecidos. Reproduzimos a percepção de transparência com os materiais citados,
transmitindo, soluções visuais leves, elegantes e sutis. Desenvolvemos a simplicidade das linhas criamos uma
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manifestação visual havendo compreensão imediata em harmonia e equilíbrio, aprendendo sempre com o movimento
da anatomia humana.
Conhecer os instrumentos, começando a compreender a linguagem do desenho técnico; obter noções de
diagramação e legendas; valorizar a importância do desenho como instrumento de informação, trabalhar exercícios que
destacam o uso e manuseio dos equipamentos (esquadro e compasso), estes foram nossos pressupostos para
iniciarmos a parte prática do trabalho.
Aprender a lidar com croquis, colar posições e roupas, estudar todos os tipos físicos em ocasiões especiais.
Demonstrar detalhes de uma ficha técnica e o trabalho com curva francesa.
A representação dos principais modelos de roupas dentro dos padrões de estilismo industrial (planificação).
Através de desenho de observação da figura humana; Estudo e interpretação do caimento diferenciado dos tecidos e o
movimento das roupas; Interpretação de referências fotográficas aplicadas ao Desenho de Moda.
Aprendemos com isso que na indumentária deve-se refletir harmonia e coerência entre cores e tecidos. Noções
de conjunto e composição formado pelos diferentes itens que integram o vestuário. Descobrir como definir um estilo e
aprender a identificar os tecidos, modelos e padronagens que favoreçam os tipos físicos. A escolha do traje certo para
cada ocasião.
Com isso demos forma às cores primárias, secundárias e terciárias. Expressamos a criatividade nas cores frias e
quentes. Desenvolvendo o psicológico para sempre haver uma harmonia.
Trabalhamos com cores, exercitando a criatividade no desenvolvimento de estampas, bem como saber adaptá-
las para os vários segmentos. Roda de cores; Círculo cromático; Cartela de cores.
Conseguimos através de teorias e do uso de materiais os conceitos de luz, sombra, assim como a importância
dos traços na apresentação dos projetos de coleção.
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3.1 DESENHANDO E CRIANDO


Para e criação e elaboração das roupas, usamos como referência, os variados estilos de roupas de períodos
diferentes da história; ou seja, para compor um dos looks, desmembramos o mesmo, em uma única peça, formada por
peças de várias épocas, mesclando e contrastando cada proposta para a mesma não se desvirtuar.
Reduzimos o número de roupas de 10 para 5 (trajes) a serem elaborados.
Selecionamos referências roupas de períodos que vão do antigo Egito, até os dias de hoje. Por exemplo:

*Para a criação do primeiro modelo de roupa, procuramos inspiração em dois momentos da história da roupa, como a
década de 1970 e nas tangas egípcias de corte diagonal. Este modelo foi idealizado para o uso em ocasiões informais.

- Saia - A saia foi inspirada na forma geométrica de um triângulo isósceles, além do modelo das tangas usadas pelos
antigos egípcios.

- Blusa – A blusa foi inspirada nas mini-blusas usadas por mulheres na década de 1970. Tal peça tem como suporte de
criação, a junção de duas formas geométricas, ou seja , um quadrado, para a parte do corpo; e dois círculos para a
composição das mangas. Detalhes e adereços feitos com fitas e fuxicos. De cor vermelho, a blusa ainda possui uma
grande variedade de cores primárias e secundárias.

Para este traje, utilizamos o manequim nº 36 como referencial de uso. Os tecidos usados foram o Crepe, para a
blusa, e o Veludo para a saia.
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*Para a criação do segundo modelo de roupa, criamos um vestido, no qual procuramos nos inspirar nos modelos
simétricos e retos de Coco Chanel, usados no início dos anos 20. Ainda no mesmo modelo, para a estampa, obtivemos
a referência de Piet Mondrian, na composição de cores quentes e frias e na ausência de cor, como o preto e o branco.

- Vestido – O vestido foi elaborado a partir de uma forma geométrica cilíndrica. Com o corte reto e simétrico. A estampa
partindo de uma das obras de Piet Mondrian.
Para este modelo, usamos o manequim de nº 38 para referencial de uso. O tecido é leve (linho). Este modelo foi
idealizado para o uso formal.

*Para o terceiro modelo, criamos a partir de referências obtidas em roupas usadas no século XVIIII e na década de
1960.

- Blusa – Corpete composto por fitas de várias cores, quentes e frias, primárias e secundárias, como vermelho, azul,
amarelo, verde, laranja, lilás. A peça também foi elaborada a partir de uma forma geométrica quadrada.

- Saia – Esta peça foi inspirada nas saias “volta ao mundo”, muito usadas na década de 60. Tem a forma geométrica de
uma circunferência.
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Para este modelo, usamos o manequim de nº 38, e também tecidos leves (Crepe e Algodão). Este modelo pode ser usado em ocasiões

semiformais.*Para o quarto modelo, usamos como referência os saiotes gregos e as blusas Hippyes usadas no
final dos anos 60 e início dos anos 70.

-Saia – A saia possui um corte reto, simétrico, obtendo a forma geométrica de um retângulo; ainda inspira-se nos
saiotes gregos masculinos.

- Blusa – A blusa é uma junção de duas formas geométricas, para as mangas a de um cone, e para o corpo a de um
quadrado. A mesma ainda recebe o toque Hippye Chick, com adereços e estampas inspiradas na cultura paraense.

Para este modelo, usamos também o manequim de nº 38. Os tecidos são variados e leves (Crepe e Tela de algodão).
Este modelo foi idealizado para o uso informal.

*Para a composição do quinto e último modelo, um Vestido de Noiva.

- Saia - Baseada no corte diagonal da Tangas Egípcias e ao mesmo tempo nas roupas usadas por mulheres no início
do século XX, mais propriamente nos anos de vão de 1900 á 1903.

- Corpete – Baseado no corte idealizado por Victor Stiebel no ano de 1953.


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- Busto ou Peito – Constituído de Fuxicos, que na verdade são pequenos pedaços de tecidos de várias padronagens
cortados em círculo e costurados na parte central, formando assim uma espécie de pequena flor. Este estilo de adereço
foi muito usado da década de 1960 e 1970 pelos Hyppies americanos.

- Saia Interna ou Anágua Aparente – Para a construção desta anágua, foi utilizado um tecido chamado Filó, que é
altamente modelar, permitindo dar a parte inferior do vestido, um certo volume. Tomamos como referência, os
suntuosos vestidos das rainhas Britânicas do século XVII, no qual as saias possuíam várias camadas de tecidos.

- Grinalda e Bouquet – Inspirados na cultura paraense, com o uso dos vários elementos regionais que vão do cacho de
açaizeiro ao patchouly.
Para este vestido, utilizamos o manequim nº 38 como referencial, uma vez que este tamanho é uma referência
universal entre as mulheres.

Os tecidos usados para a composição deste vestido foram: (Tule, Crepe de seda, Sarrapilha tratada, Algodão).
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CONCLUSÃO

Quando ingressei na Universidade de artes, percebi que estava trilhando um caminho que iria de uma forma ou de
outra mexer com minha vida pessoal e com minha personalidade. Viver em um país em que a Arte é colocada com uma
das últimas prioridades, nunca me permitiu pensar em não optar pelo curso de artes, pelo contrário, pareceu-me um
desafio a cumprir e ao mesmo tempo levar esta “bandeira” até o fim. É difícil fazer com que as pessoas percebam o
quanto a Arte é importante para a vida delas, é quase que imperceptível atentar para uma simples cadeira por exemplo,
que antes de se tornar um objeto utilitário passou pela prancheta de desenho até se tornar uma “cadeira”. A Arte está
em tudo a nossa volta, seja num carro, numa sala projetada ou numa simples escova de dente, todos esses objetos
tiveram um desenho anterior até se tornar objetos utilitários ou não.
Com a roupa não é diferente. Desenhar um traje é como fazer um filho usando o lápis, o papel e a criatividade. É
assim que os estilistas o fazem, mesmo que estes não possuam a técnica aliada a teoria ou o referencial acadêmico,
mas eles possuem as idéias, a criatividade, são artistas no que fazem. Percebi este processo neste trabalho de
conclusão de curso. Atentei que aquilo que vestimos é tão primordial quanto nossa personalidade, pois também é
através da roupa que conhecemos quem somos e quem são as outra pessoas.
Ao concluir este trabalho, pareceu-me que estava saindo da sala de desenho da faculdade e vestindo uma roupa que
anteriormente havia desenhado. O prazer foi tão grande, que me senti um grande estilista, mostrando minha coleção de
roupas para as principais passarelas do mundo.
O salutar deste processo de quatro anos de vida acadêmica é justamente chegar no final e dizer:
_ Aprendi, criei, desenhei e estou vestindo. Agora vou ensinar ao próximo!
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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ANDERÇON, Jack. Dança. São Paulo: Verbo, 1978.

ARTE Nos Séculos, Vol. I, III, V e VII. São Paulo: Abril Cultural, 1968.

BORDAN & BIKLEM. Investigação Qualitativa em Educação. São Paulo: Porto,1994.

BUENO, Francisco da Silva. Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. Brasília: Ministério da Educação e Cultura 6:
rd. 1968.

CARREIRA, Eduardo. Os Escritos de Leonardo Da Vinci sobre a Arte da pintura. Brasília: Unb, 2000.

CHIZZOTTI, Antonio. Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais. Chutez : São Paulo, 1995.

CHALHUB, Samira. Funções da Linguagem. Saõ Paulo: Ática,1991.

FONTES, Martins. O Livro da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

GOMES, Luiz Vidal Negreiros. Desenhando, um panorama dos sistemas gráficos. Porto Alegre: UFSM, 1999.

LAVER, James. A Roupa e a Moda. São Paulo: Schwarcz, 2001.

MÜLLER, Florence. Arte & moda. São Paulo : Assouline, 2000.

PALOMINO, Erika. A Moda.São Paulo: Publifolha, 2002.


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GLOSSÁRIO

ALGODÃO – Tecido feito com a fibra do mesmo nome.

ANQUINHAS – Ancas postiças; armação de arame para alterar os quadris e entufar as saias das mulheres.

BOUQUET – A armação ou a junção de várias flores, formando um grande cacho. Usualmente usado por noivas.

CHINÓ – Cabeleira postiça localizada na nuca.

CORPETE – Peça de vestuário feminino que se ajusta ao peito; justilho. O mesmo que corpinho.

CHANTUNG – Tecido originário do oriente, de textura rugosa e pesada.

CHIFON – Palavra de origem francesa; o mesmo que tecido fino e ao mesmo tempo amassado.

CREPE DE SEDA – Tecido leve elaborado das fibras mais finas do algodão e da seda.

DRAPEJADO – Dispor de certa maneira as formas de um tecido; pano disposto em grandes pregas.

ESTILISTA – Escritor que tem expressão literária própria; inconfundível, pessoal.

ESTOLA – Peça estreita, terminando por duas partes mais longas, que o padre usa para administrar os sacramentos.

FASHION PLATE- Do inglês, estilo de moda usada no século XVIIII.

FUXICO – Pequena peça feita de pano, elaborada a partir de um círculo, costurado nas bordas e unida no centro.

GRINALDA – Espécie de coroa que prende o véu à cabeça, como uma manta.

GREVAS – Parte da antiga armadura que cobria as pernas; ataduras.


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GIBÃO – Vestidura antiga, que cobria os homens desde o pescoço até à cintura; espécie de casado curto que se vestia
sobre a camisa.

HIPPYE – Movimento de contestação idealizado por jovens norte-americanos no final da década de 1960.

JEANS – Originário do Ingês, fusão de linhas de algodão grosso.

JEANSWEAR – Do inglês, tecido grosso utilizado para a composição de calças. Moda de roupas usadas com a
elaboração deste tecido.

LOOK – Do inglês, olhar, ver. Termo usado atualmente no Brasil para designar um traje.

MANTA – Grande pano de lã, usado sobre os ombros do feitio de um cobertor, que serve para agasalhar; lenço de
abafar; tira de seda ou lã.

PUNK – Movimento surgido na década de oitenta do século vinte, no qual os jovens se vestiam com roupas escuras de
couro e usavam maquilagem pesada; Estilo de música.

PALA – Peça que guarnece a parte ínfero-anterior da barretina ou boné de militares; Palla, palavra derivada da língua
italiana; gola de tecido grosso e largo.

QUITON – Túnica grega; o mesmo que quitão.

RUFO – Enfeites em apanhados ou pregas; franzido; guarnições.

ROCK – Estilo de música americana mundialmente conhecida, surgida nos anos 50.

SARRAPILHA – Trama de fibras naturais originário do sisal; tecido rústico feito para a elaboração de sacos para
guardar cereais.

TAFETÁ – Tecido originário do oriente, pode ser leve ou pesado, cintilante ou opaco.
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TANGA – Espécie de avental com que os selvagens cobriam o corpo desde o ventre até as coxas.

TRAJE – Vestuário habitual; vestuário próprio de uma profissão; vestes; fato; trajo.

TÚNICA – Vestuário antigo longo e ajustado ao corpo; jaqueta militar.

TULE – Tecido leve, feito de algodão, usado geralmente em vestido de noiva.

VELUDO – Tecido macio originário do oriente.