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Condutividade Hidráulica -

teste de furo de trado em presença de lençol freático

11 . CONDUTIVIDADE HIDRÁULICA -
TESTE DE FURO DE TRADO EM
PRESENÇA DE LENÇOL FREÁTICO

O teste mede a condutividade hidráulica foi de fundamental importância, tendo em vista que
horizontal de camadas de solo situadas em os testes de laboratório não fornecem valores
presença de lençol freático, cujos valores são apropriados para fins de projetos de drenagem
empregados principalmente no cálculo de subsuperficial por que as amostras medidas são
espaçamento entre drenos. pequenas e em geral fragmentadas, sendo assim
alteradas características importantes como
Um furo de trado é feito até penetrar em profun- estrutura e consistência, que exercem grande
didade suficiente na camada da qual se quer medir influência na permeabilidade do meio poroso.
a condutividade hidráulica. Durante o preparo do
furo é feita uma descrição sucinta do perfil do solo. O método de teste de furo de trado em presença
de lençol freático foi idealizado por Diserens (6),
A condução do teste, após a estabilização do em 1934, tendo sido posteriormente aperfeiçoado
lençol freático e remoção da água é rápida, por pesquisadores como Hooghoudt, Kirkhan, Van
podendo ter duração mínima de cerce de 30 Bavel, Ernst e Jonson.
segundos, para solos de textura leve e muito
permeáveis e de um máximo de 36 horas para solos Valores de condutividade hidráulica obtidos por
argilosos e muito consistentes. meio deste método (2) são em geral aproximados
dos valores computados a partir de medidas de
É um teste prático, rápido e de baixo custo, sendo vazões de drenos, o que indica que o método é
necessário no máximo duas pessoas para a sua bastante confiável, sendo uma das maneiras mais
condução. simples e práticas de se medir a condutividade
hidráulica de uma camada de solo "in loco". Muita
O equipamento utilizado na sua condução é experiência já foi acumulada por meio da
simples e de fácil preparo e transporte. condução de milhares deste tipo de teste.

É indicado nos estudos de drenagem de áreas que


l. Introdução apresentem o lençol freático situado próximo da
superfície do terreno.
Muitos avanços tem sido feitos no que se refere às
leis de fluxo de fluidos através de meio poroso. Propicia a obtenção da condutividade hidráulica
horizontal de camadas de solo situadas em
Sob o ponto de vista da engenharia, o problema presença de lençol freático.
principal reside em aplicar os princípios teóricos
na medição da condutividade hidráulica dos solos Os valores obtidos refletem a condutividade
com fins de empregar os valores obtidos na projeção hidráulica da camada de solo que se estende desde
de sistemas apropriados de drenagem subterrânea. a superfície estática do lençol freático até o fundo
do furo, quando este se assenta sobre o imper-
O desenvolvimento de um método de campo para meável, ou desde a superfície do lençol até um
medir condutividade hidráulica em presença de pouco abaixo do fundo do furo de trado, quando o
lençol freático prático e ao mesmo tempo confiável impermeável se situa em profundidade inferior.

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Drenagem como Instrumento de Dessalinização e
Prevenção da Salinização de Solos

Os valores de condutividade hidráulica obtidos por caso, inclui (7) o perfil abrangendo a zona das
meio deste método são utilizados principalmente raízes e as diversas camadas ou formações
no cálculo de espaçamento entre drenos, podendo geológicas.
também ser utilizados em estudos de perdas de
água provenientes dos canais de irrigação. Geralmente a escolha dos locais de testes é feita
"a priori" após a análise dos dados de perfis do solo
O equipamento utilizado na condução do teste é da área e o conhecimento do posicionamento do
muito simples de preparar e de baixo custo. Para a lençol freático.
sua condução são geralmente necessários dois
homens. O período de duração de um teste vai Praticamente não existem limitações no que se
depender das características da camada testada, refere ao acesso de materiais á área do teste, tendo
podendo em casos de camadas bastante permeá- em vista que este é bastante simples, podendo ser
veis ser de um mínimo de 60 segundos e de um todo transportado por um só homem.
máximo de 36 horas em solos muito adensados
(consistentes) ou solos muito argilosos, principal-
mente naqueles com predominância de argila 2:1, 3. Profundidade, espessura
como é o caso dos vertissolos. da camada e número de testes

Para a condução do teste basta fazer um furo até a Profundidade total do furo
profundidade desejada com o uso de trado manual,
perfurando na zona do lençol freático e na camada A profundidade do furo vai depender das caracterís-
da qual se deseja obter o valor da condutividade ticas das camadas do perfil do solo que se deseja
hidráulica. testar, como espessura, profundidade e distribuição
destas. Se o solo for homogêneo em todo o perfil,
Após a estabilização do lençol freático, a altura como é geralmente o caso de latossolos, basta
da lâmina de água é medida e a quase totalidade tradar aproximadamente 70 cm em zona de lençol.
desta é removida do furo. A ascensão do nível de Para solos heterogêneos, é necessário fazer furos
água no furo de trado é medida utilizando-se uma a diferentes profundidades para se determinar a
bóia fixada a um suporte (trena de aço, fita lisa, condutividade hidráulica de cada camada.
etc) onde as distâncias entre leituras em função
do tempo são lidas ou marcadas. Com base nas Para o cálculo de espaçamento entre drenos, os
leituras e empregando fórmulas e nomógrafos testes são comumente conduzidos em camadas
calcula-se o valor da condutividade hidráulica. situadas entre 0,80 e 2,0m de profundidade.

No presente trabalho inclui-se desenho com Para profundidades superiores a 6,0m, a condução
detalhamento de um novo equipamento para a deste tipo de teste é muito trabalhosa, devendo
condução deste tipo de teste. então ser substituído pelo teste de piezômetro.

Espessura da zona de teste


2. Escolha de locais para
a condução de testes É um valor que vai depender principalmente da
textura do material a ser testado.
Na escolha dos locais para condução dos testes é
importante o conhecimento de informações de solo Se o material apresentar características de ser
e geologia, bem como da profundidade do lençol muito permeável, a base do furo de trado deve
freático e fontes de recarga. O termo solo, neste estar no máximo a 90m abaixo da superfície do

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lençol. Em geral, a escavação de 30 a 50m em 4. Material necessário


zona de lençol é suficiente para camadas que
apresentem altos valores de condutividade Para locação do teste, preparo do furo de trado
hidráulica, devido ao pequeno intervalo de tempo e descrição do perfil
para se fazer as leituras.
• mapa da área em escala apropriada para o nível
Número de testes de estudos desejado;
• Prancheta escolar;
É bastante difícil definir qual deve ser o número • ficha de descrição do perfil (pode ser dispensá-
de testes a ser conduzido em uma área, o que vai vel);
depender dos tipos e uniformidade das unidades • enxada;
de solos, bem como da extensão da área a ser • trados de 3 e 4 polegadas de diâmetro para solos
estudada. Para uma seleção eficaz do número de de textura média, leve e pesada, acompanhados
testes a ser conduzido é importante que sejam de haste (manivela) e extensões;
conhecidos "a priori" as características dos solos. • martelo de borracha;
• trena de aço de 3,0m;
O número de testes vai depender também do nível • Capas protetoras de tubo rosqueadas e "bailer"
de estudo a ser conduzido. Geralmente um mínimo de metal para tradagem em camadas instáveis e
de 2 a 3 testes por horizonte ou camada de solo saturadas. As capas podem ser de tubo plástico de
que apresentem características similares pode ser parede espessa para permitir conexão sem uso de
suficiente, desde que os resultados não sejam luva. Seu diâmetro interno deve ser ligeiramente
discrepantes. superior ao diâmetro externo do "bailer", o qual é
empregado como trado. O corpo do "bailer" poderá
Para estudos detalhados, visando a implantação ser de 80cm, tendo na parte superior encaixe para
de sistema de drenagem é aconselhável conduzir ser conectado com a haste ou extensões.
uma média de l teste por hectare (6).
Para a condução do teste
Em geral existem variações nos valores de
condutividade hidráulica obtidos para um mesmo • "Bailer" que, para furo feito com trado de 3",
tipo de solo, mesmo para testes conduzidos em pode ser preparado utilizando tubo de plástico
pontos situados próximos, donde conclui-se ser rígido e parede delgada, DN50, com 2,0m de
necessária a condução de vários testes em uma comprimento, o qual deve ter em sua parte inferior
mesma unidade de solo ou em uma mesma uma válvula que facilite ao máximo a entrada de
camada, com fins de estimar-se um valor médio água quando o tubo é introduzido no furo de trado.
de "K" que represente a ordem de magnitude da O "bailer" deve ser capaz de remover toda a água
condutividade hidráulica de cada camada testada. desejada em no máximo duas operações.
É importante que seja obtido um valor médio de • cronômetro ou relógio de pulso;
condutitividade hidráulica para cada tipo de • ficha de computação do teste;
camada de solo. • sistema medidor de ascensão do lençol, que pode
ser composto de suporte com roldana onde é presa
uma fita registradora contendo em uma extremi-
dade uma bóia que no momento do teste é jogada
no fundo do furo de trado. Na outra extremidade,
a fita é ligada a um contrapeso, conforme Fig.1.

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É mais comum o uso de trena de aço de 2 a 3m galvanizado de 1/2 polegada previamente


de comprimento, onde em uma de suas extremi- preparadas para este fim com aproximadamente
dades é fixada uma bóia no momento do teste, 1,20m de comprimento
enquanto que a caixa na qual esta é enrolada fica • tubo tela protetor - é necessário o uso de tela
presa a um suporte (Fig.2). Os valores são lidos à protetora de paredes de furo de trado somente para
medida que esta se desloca em movimento vertical testes em solos instáveis. A tela deve ter diâmetro
ascendente. ligeiramente superior ao diâmetro de escavação
do trado, tendo em vista que o trado trabalhará
Pode-se também usar uma peça rígida presa a uma dentro desta. À medida que o furo vai sendo
bóia onde a ascensão do lençol em função do tempo escavado, a tela vai sendo pressionada para o seu
é marcada na mesma, a medida que esta se eleva, interior e portanto a espessura da parede da tela
tendo um ponto como referência fixa. tubo deve ser mínima. A área de fluxo da tela
protetora ou tubo perfurado protetor deve ser de
Detalhes sobre os sistemas de medição são dados no mínimo 10% de sua área total (8). Isto pode ser
no Capítulo 6: obtido fazendo-se em torno de 350 cortes por metro
linear de tubo, utilizando serra de 2mm e corte de
• lanterna - pode ser necessária para observações 2,5cm de comprimento. O ideal é adquirir tubo
no interior do furo e auxiliar na medição do seu tela apropriado;
diâmetro; • escarificador de parede de furo de trado - para
• lona protetora contra ventos fortes - pode ser solos muito argilosos ou argilo siltosos, a sua
necessária sua utilização como quebra-vento para utilização pode facilitar o fluxo da água para o
testes em regiões onde a velocidade dos ventos interior do furo, tendo em vista que o seu uso visa
seja muito intensa de modo a perturbar a condução eliminar superfícies de vedação provocadas pelo
do teste. A lona é presa a estacas de cano atrito do trado com o solo.

Fig. 1 - Esquema do sistema utilizado pelo U.S.Bureau of Reclamation em corte e vista de cima.

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Fig. 2 - Vista esquemática do sistema de medição de ascensão do lençol onde é utilizada trena de aço.

No seu preparo podem ser utilizados dois pedaços tratar-se de variável importante na computação
de escova presos a um suporte que se adapte à da condutividade hidráulica.
haste do trado.
Um medidor de diâmetro pode ser improvisado
Pode-se também utilizar um cilindro de madeira utilizando-se o princípio de abertura empregado
confinado dentro de um pedaço de tubo de metal em compassos. Para isso, pode-se utilizar duas
com perfurações (Figura 3), com aproximadamente chapas que deverão ter as extremidades de contato
9cm de diâmetro e 7,5cm de comprimento (1). com o solo achatadas para aumentar a sua base
de contato, evitando assim a penetração destas
Em seguida, prendem-se cabeças de pregos nº 18, pontas no solo e conseqüentemente a obtenção
com folga entre o cilindro de madeira e as paredes de informações errôneas.
internas do tubo, com as pontas projetando-se para
fora. O conjunto é preso a um suporte adaptável à
haste de trado; 5. Preparo do furo
de trado e descrição do perfil de solo
• medidor de diâmetro de furo de trado - o uso do
medidor é dispensável quando se utilizam trados Em uma primeira etapa faz-se um furo de trado
cujos diâmetros dos furos produzidos são conheci- para descrever o perfil do solo e anotar as
dos. Geralmente, isto ocorre quando se trabalha profundidades da barreira e do lençol, após a sua
com os mesmos trados. Deve-se observar o fato de estabilização. A seguir é feito outro furo para a
que com o uso prolongado do trado, as lâminas se realização do teste, utilizando-se preferencial-
desgastam, reduzindo o diâmetro dos furos por eles mente trados de 3 polegadas de diâmetro nominal,
feitos. Quando não se sabe previamente qual o que podem ser do tipo holandês ou Riverside. Em
diâmetro do furo feito, este deve ser medido, por solos argilosos ou material mais consistente, é

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Fig. 3 - Desenho esquemático do escarificador em planta e corte

aconselhável (5) escavar primeiro com o trado de 6. Condução do teste


3 polegadas e depois com o trado de 4" ou trado
de 2"e a seguir de 3", visando diminuir a fricção e Após a perfuração do furo de trado até a profun-
a conseqüente vedação parcial das paredes internas didade desejada e tendo descrito o perfil, deixa-
do furo. se que o nível de água dentro do poço equilibre
com o nível estático do lençol freático. Em solos
O furo deve seguir um eixo vertical, para evitar o de média a alta condutividade hidráulica uma
surgimento de problemas no momento da condução espera de 10 a 30 minutos é suficiente. Para solos
do teste. As lâminas cortantes ou as pontas do trado com permeabilidade da ordem de 0,10 m/dia, são
devem fazer o corte com um diâmetro ligeiramente necessárias algumas horas para o lençol atingir a
superior ao do corpo deste para evitar o alisamento estabilização.
e a conseqüente vedação das paredes do furo,
facilitando também os trabalhos de tradagens. Quando muitos testes precisam ser feitos em uma
mesma área, é boa prática fazer-se a tradagem,
Devem ser empregados trados apropriados para descrever o perfil, escarificar as paredes do furo,
cada camada de solo a ser perfurada, existindo se necessário, e a seguir drenar a água uma ou
trados para textura leve, média e pesada. duas vezes. Essa retirada da água tem como
finalidade reduzir uma possível obstrução parcial
A terra deve ser disposta sobre a superfície do dos poros das paredes do furo. A seguir trada-se
terreno preferencialmente em camadas que em outro ponto, seguindo-se o mesmo roteiro e
representem cada 30cm de escavação. Em seguida, assim sucessivamente. Em outra etapa de serviço
são anotadas a profundidade, a cor, a textura, a conduz-se os testes.
consistência, presença de mosqueado e concre-
ções para cada camada, devendo ser registrada Antes de remover a água do furo de trado, o
qualquer informação julgada de importância para equipamento de medição deve ser instalado em
a interpretação dos resultados a serem obtidos. uma posição apropriada, devendo estar pronto para

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que a bóia seja jogada no interior do furo o mais Vantagens


rapidamente possível após a retirada da água. É • É o método mais simples no que se refere ao
essencial diminuir ao máximo o espaço de tempo transporte do material e à instalação do teste.
entre a remoção da água e o início das leituras,
com fins de diminuir a influência da curvatura do Desvantagens
lençol nas imediações do furo, principalmente para • Em presença de ventos fortes o método é
testes em camadas muito permeáveis (Figura 4). problemático, o que pode ser evitado instalando
protetor de ventos;
Podem ser utilizados vários sistemas para medir a • Para profundidades de testes abaixo de 2m da
velocidade de ascensão da água no furo de trado. superfície do terreno é pouco apropriado.
Apresenta-se 2 sistemas de condução, sendo que
a opção de escolha vai depender das condições
gerais de trabalho e facilidade de preparo do 6.2. Método que utiliza
material. Ambos apresentam vantagens e desvan- fita lisa para registro
tagens que devem ser consideradas.
É o sistema utilizado pelo U.S.Bureau of Recla-
mation. Consiste de tripés do tipo utilizado como
6.1. Método que emprega trena de aço suporte de aparelhos de topografia. Uma tábua de
aproximadamente 30cm de comprimento por 10cm
É comumente utilizado no Reino dos Países Baixos. de largura e 5cm de espessura é presa na mesa do
Consiste de um suporte de ferro cilíndrico e tripé por meio de um parafuso rosqueado situado
pontiagudo medindo em torno de 5Ocm de em uma de suas extremidades. Na outra extremi-
comprimento por l,5cm de diâmetro que é dade são feitas duas cavidades, sendo que uma
introduzido no solo próximo ao furo. Na extremida- serve para fixar uma pequena roda de nylon que
de superior deve ter uma fenda no sentido vertical pode ser do tipo usado em pés de cadeira, por sobre
e um parafuso para prender a ponta do braço ajus- a qual a fita se desloca, e a outra serve para
tável que nela é introduzida no momento do teste. encaixar um cronômetro no momento do teste. A
fita deve ter no mínimo l,50m de comprimento e,
O braço móvel desloca-se no sentido horizontal e no máximo, 1cm de largura (o que também
contém um encaixe para fixar o invólucro de uma depende da largura da roda de nylon), devendo o
trena de aço e um orifício guia que ao mesmo material ser resistente e fácil de ser riscado.
tempo serve de referência para as leituras e por
onde a trena passa. O braço deve ser de chapa Em uma das extremidades da fita é fixado um frasco
resistente com 25cm de comprimento por 2,5cm de plástico de 6 a 8cm de diâmetro por meio de
de largura e aproximadamente 2mm de espessura. barbante ou fio de nylon. Este frasco funcionará
Na ponta da trena é fixada uma bóia de frasco como bóia e deverá ter a forma cilíndrica e a parte
plástico ou isopor com um peso na parte inferior, superior não angulosa. Esta forma é para diminuir
a qual é jogada dentro do furo após a retirada da possível atrito do frasco bóia com as paredes do
água. A bóia deve ter a parte superior bem furo à medida que esta se eleva movida pela
abaulada para diminuir o atrito com o terreno ascensão do lençol freático. A bóia deverá ser
quando é elevada pela água. A medida que a trena ligeiramente mais pesada na sua parte inferior (o
sobe, faz-se as leituras (fazendo marcas na trena que pode ser feito adicionando-se areia ou um
com caneta de ponta poroso, tinta lavável), fixando- pouco de água no seu interior) ou ainda, da forma
se previamente um intervalo de tempo. permanente, com a fixação de um pouco de arga-

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Fig. 4 - Desenho esquemático mostrando que o valor da condutividade hidráulica diminui a medida que o teste se
prolonga. Neste caso Σ∆
Σ∆Y = ¼ Yo.

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massa para provocar a sua queda no furo sempre inclusive ser feitas as leituras e anotações, por
em posição vertical. Na outra extremidade da fita um único operador. Para maior conveniência o
prende-se um contra-peso que pode ser idêntico intervalo de leitura é previamente fixado, o que é
ao que serve de bóia, devendo no entanto ser feito em função do conhecimento da camada a
ligeiramente mais leve que este. Desta forma a ser testada. No fim de cada intervalo são feitas
fita se mantém esticada durante todo o teste e ao marcas na trena ou fita, dependendo do sistema
mesmo tempo fica sensível a qualquer movimento de registro utilizado, até se observar que o intervalo
da água no furo de trado. entre estas vão se tornando menores.

As marcações na fita são feitas em relação a um Em função deste encurtamento, que representa uma
ponto fixo, situado na direção do suporte do eixo redução da vazão de entrada de água no furo,
da roda. (Figura 4) suspende-se a tomada de leituras, dando
esta fase por encerrada. O inicio de redução do
Vantagens: intervalo entre as marcas coincide em geral com
• os resultados são bastante precisos; uma altura de recuperação de água no furo
• pode ser utilizado para testes em camadas correspondente a aproximadamente 25% da altura
profundas. total da lâmina d'água removida, ou seja, se for
Desvantagens: retirada uma lâmina de 40cm (Yo = 40), 25% da
• o material é mais difícil de ser transportado; altura total retirada corresponderá 10cm. As
• é afetado por ventos, o que pode ser superado anotações que vão até este ponto são consideradas
com a instalação de quebra-ventos. confiáveis. Esta faixa varia em função do diâmetro
efetivo do trado usado, sendo que para furos de
A Figura 5 mostra desenho esquemático do sistema. 8cm de diâmetro esse valor pode ir a 30%,
enquanto que para diâmetros maiores que l2cm
Em ambos os métodos é, em geral, necessária a essa altura deve ser menor que 25%. Na Figura 5
atuação de dois homens experientes. é apresentado desenho esquemático da zona de
teste.
A confiabilidade dos resultados é maior quando
são utilizados, na computação da condutividade Observa-se que geralmente há uma discrepância
hidráulica, resultados de leituras provenientes da do primeiro intervalo em relação aos demais após
recuperação da altura da lâmina de água do poço a retirada da água do furo, sendo praticamente
até a metade da altura original da água ou valor inevitável porque a bóia ao cair provoca agitação
H. Os intervalos de leituras dependem da permea- da água por certo período de tempo.
bilidade da camada testada, geralmente variando
de 5 a 30 segundos. Caso sejam observados espaços irregulares durante
o período de leituras ou após o seu término, o teste
Imediatamente após a retirada da água por uma deve ser repetido, bastando para isso esperar que
pessoa, a outra desloca rapidamente em movi- o lençol freático se estabilize.
mento horizontal a parte móvel do sistema medidor
para a direção do eixo do furo. Instantaneamente 7. Cálculo da condutividade hidráulica
a bóia é liberada, caindo no seu interior. Nesse
momento é feita a primeira leitura ao mesmo Tendo-se a profundidade total do furo (D) e a pro-
tempo que se inicia a cronometragem. Em fundidade da barreira em relação à superfície do
camadas de baixa condutividade hidráulica estas terreno, obtém-se a profundidade da barreira em
operações podem ser mais demoradas, podendo relação ao fundo do furo (S), conforme Figura 6.

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Fig.5 - Desenho esquemático da zona de teste

H = altura total do lençol - nível estático (cm).


C = profundidade total do furo.
Yo = lâmina de água que corresponde à distância entre a primeira marca feita com a bóia no nível
estático e à segunda marca do nível mínimo após remoção da água (cm).

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Para o caso específico de estudos de camadas intervalos de tempo entre as leituras. (ver Fig. 6)
ou horizontes de solo, barreira é toda camada que
restringe o movimento vertical da água no solo. A próxima etapa consiste em calcular os valores
de Y, Y/r e H/r. De posse destes valores e
De acordo com o U.S.Bureau of Reclamation conhecendo-se a distância do fundo do furo à
(5),"barreira é toda camada cuja condutividade barreira, obtém-se diretamente a condutividade
hidráulica é igual ou inferior a 1/5 da condutivi- hidráulica em metros por dia, empregando-se a
dade hidráulica média das camadas superiores." fórmula onde o valor da constante "C" é obtido
utilizando-se um dos nomogramas de Ernst
O U.S.Soil Conservation Service (4) assume que, apresentado por Millar (3), para as condições S=0
para que uma camada se constitua em barreira, a ou S>1/2 H conforme Figuras 7 e 8. O valor de C
sua condutividade hidráulica deve ser inferior a 1/ é uma função de Y, H, r e S.
10 da condutividade hidráulica do material que
sobre esta se assenta. Van Beers (6) assume que Existem gráficos específicos preparados por Ernst
barreira é toda camada cuja permeabilidade se para furos de raio igual a 4 e 6cm e também para
situa em torno de 1/10 da permeabilidade das as condições de S = O e S>1/2H (6). Estes não são
camadas que a ela se sobrepõe. apresentados porque dificilmente trabalha-se com
trados que perfurem exatamente nesse diâmetro e
Quando a seleção dos locais de condução de tes- também porque os nomogramas apresentados
tes, feita com base nos estudos pedológicos e satisfazem plenamente.
geológicos da área, em geral a barreira já é
conhecida antes do teste. É no entanto necessário O manual de drenagem do U.S.Bureau of Reclama-
fazer um furo de trado com fins de checagem, tion (5) também apresenta nomogramas para
quando houver indicação de que esta camada obtenção do valor C, que são 100 vezes maiores
encontra-se próxima daquela a ser testada. Quando que aqueles apresentados nos nomogramas de Ernst.
não se tem informações que possibilitem uma Dessa forma, a condutividade hidráulica é obtida
estimativa da possível presença de barreira, deve- diretamente em pés/dia, quando o valor "C" é
se fazer um furo de trado que ultrapasse a multiplicado por , sendo !y em pés e !t em
profundidade da camada a ser testada até no segundos.
mínimo de 0,5H.
Apresenta-se, a título de ilustração, (Figura 9) um
Da condução do teste obtém-se os valores de altura modelo de ficha de computação utilizado pelo U.S.
total da lâmina de água removida do furo (Yo) bem Bureau of Reclamation. Nela são anotadas as
como os valores das distâncias entre leituras, em distâncias entre leituras e os tempos correspon-
função de um tempo prefixado, que são anotados dentes, ficando assim registradas todas as
na ficha de computação do teste. informações.

Estima-se então o valor de ∆Y, que em geral, A primeira leitura neste caso foi desprezada por
corresponde a 1/4 de Yo. Este valor é indicativo problemas de precisão de medição, devendo-se
do ponto onde os espaços entre as leituras evitar que isto aconteça.
começam a se tornar mais próximos um do outro.
Toma-se um determinado número de espaços a Apresenta-se também ficha de computação da
partir da primeira leitura ou marcação, que somados condutividade hidráulica (Figura 6) contendo
resultem em um valor próximo do valor de ∆Y valores obtidos em um teste realizado em material
estimado. Assim obtém-se o ∆Y medido e, como de alta permeabilidade. A mesma ficha contém
conseqüência o valor de ∆t que é a soma dos desenho esquemático do teste.

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FICHA DE CÁLCULO DA CONDUTIVIDADE HIDRÁULICA


Teste de Furo de Trado em Presença de Lençol Freático

Projeto: J. Márcio ________ Data: __ / Junho / 86 Teste nº: 02


Locação: 68m dreno noroeste e 3 m limite sudoeste
Executor : Manuel J. Batista
Profundidade da Barreira: ____desc. m

Fig. 6 - Ficha de campo para computação do valor K

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Quando não existem nomogramas disponíveis, A condutividade hidráulica é calculada para cada
podem ser usadas fórmulas para a computação camada em ordem de condução dos testes. A
da condutividade hidráulica; entretanto, o emprego condutividade hidráulica calculada para cada teste
dos nomogramas apresentados é mais prático do consecutivo representaria um valor médio de con-
que o cálculo feito através de fórmulas. Os dutividade hidráulica de toda a camada, desde a
resultados obtidos com uso dos nomogramas são superfície estática do lençol até a profundidade
também mais precisos, com uma margem de erro total do furo em cada teste. A permeabilidade de
de no máximo 5% enquanto que, com o uso de cada camada individual ou de diferentes trechos de
fórmulas, este pode ser de até 20%, razão pela uma mesma camada é obtida através da fórmula:
qual a apresentação das fórmulas torna-se
dispensável.
Kn.x= condutividade hidráulica a ser obtida - m/
Nas medições da altura da lâmina d'água (H) e do dia;
raio do furo (r) devem ser tomados cuidados Kn= condutividade hidráulica obtida na seqüência
especiais. Erros de 1 cm, no valor de H, quando de teste - m/dia;
este for de 50cm (6) podem causar diferenças de dn= espessura da camada em ordem de condução
2% no valor da condutividade hidráulica (K). Para do teste - m;
o caso do raio do furo de trado, qualquer erro pode Dn= profundidade total do teste em ordem de
ser bastante significativo, tendo em vista que dife- condução, tomando como referência o nível
rença de apenas 1 cm na medição pode causar estático do lençol freático - m;
erros na obtenção do valor da condutividade n = número do teste;
hidráulica da ordem de 20%. x = ordem de seqüência de testes.

Se for obtido algum resultado negativo, o teste


8. Testes em diferentes deve ser conduzido novamente. Se o fenômeno se
camadas de um mesmo perfil repetir, este teste então deverá ser substituído por
teste de piezômetro.
Muitas vezes é necessário obter-se a condutividade
hidráulica de diversas camadas de um mesmo
perfil. Com isso pode-se saber qual a variação de 9. Limitações quanto ao uso do teste
permeabilidade em função da localização do teste
no perfil de solo, conduzindo-se o teste de furo de Para camadas sob condições artesianas os
trado em diferentes profundidades. No entanto, resultados não são validos.
para testes em camadas mais profundas, o método
de piezômetro se adapta melhor. O resultado pode ser inteiramente mascarado se
na camada testada houver um horizonte de
Os testes podem ser conduzidos a diferentes material arenoso incrustado.
profundidades e em um mesmo furo ou em furos
de trado diferentes, desde que bastante próximos. Não pode ser conduzido se o lençol freático estiver
Para testes em um mesmo furo (Figura 10), a no mesmo nível do terreno ou superior a este.
tradagem é inicialmente feita até uma distância
de no máximo 7,5 a 10 cm da camada imediata- Em camadas profundas o teste é muito difícil de
mente inferior. Conduzido o teste, o furo é então ser conduzido, como por exemplo, camadas a
perfurado até a próxima camada observando a 6,0m.
mesma distância e assim sucessivamente até a
última camada a ser testada.

123
Drenagem como Instrumento de Dessalinização e
Prevenção da Salinização de Solos

Em camadas formadas de material rochoso ou O equipamento utilizado na sua condução é


cascalhento, o teste é impraticável, devido às bastante prático, simples e de baixo custo.
dificuldades de tradagem e a obtenção de um furo
de diâmetro uniforme. Dependendo do material a ser testado, uma equipe
de 2 homens pode preparar o furo de trado,
descrever o perfil, conduzir o teste e computar o
10. Conclusões valor da condutividade hidráulica em período
inferior a uma hora.
O teste fornece valores bastante confiáveis da
condutividade hidráulica lateral do solo, sendo a O número de testes a serem conduzidos em uma
maneira mais adequada de se obter estes valores área vai depender das condições pedológicas e
para camadas de solo em presença de lençol geológicas desta, bem como do nível de estudo
freático e situadas em profundidades menores que requerido.
6,0m.
É importante que sejam obtidos valores médios
É mais comumente empregado para obtenção do representativos da condutividade hidráulica dos
valor "K" em camadas situadas em torno de l,5m. diversos tipos de solo ou camadas de solo de uma
área, tendo em vista que os valores podem variar
É utilizado em praticamente todo estudo de muito, mesmo para pontos situados próximos uns
drenagem subterrânea a nível de implantação de dos outros em uma mesma camada. É essencial
drenos, sendo o teste mais importante para este não se basear em valores pontuais, mas em valores
fim. Em estudos a nível de viabilidade de implan- médios de condutividade hidráulica.
tação de projeto de irrigação e drenagem é também
bastante importante.

124
Condutividade Hidráulica -
teste de furo de trado em presença de lençol freático

Fig.7 - Nomograma para obtenção do valor C para cálculo da condutividade hidráulica em presença de lençol
freático.

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Drenagem como Instrumento de Dessalinização e
Prevenção da Salinização de Solos

Fig. 8 - Nomograma para obtenção do valor C para cálculo da condutividade hidráulica em presença de lençol
freático

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Condutividade Hidráulica -
teste de furo de trado em presença de lençol freático

FURO NÚMERO E-4 LOCAL: Sample Farm

EXECUTOR: A.P.B. DATA: 08 outubro de 1974

FURO COM TELA X SEM TELA DIÂMETRO DO FURO 4 POLEGADAS

0 - 11 pés - Marrom claro, franco arenoso (SL), r=0,167 pés


friável, não plástico, granular. úmido até 5 pés. D=9,0 pés
Tudo indica que possui boa condutividade
hidráulica. W=4,8 pés
H=4,2 pés
0 - 12 pés - Argila cinza azulada, (C) plástico, sem Yo=3,15 pés
estrutura. Tudo indica que é impedimento. 0,8Yo=2,52 pés

TEMPO ∆t Yn ∆y
SEGUNDOS Yn = = 2,82 pés
0 - - -
13 13 3,15 Yo ∆Y = = 0,11 pés
23 10 3,04 0,11
33 10 2,93 0,11 ∆t = 10 segundos
43 10 2,82 0,11 H
= = 25,15
53 10 2,70 0,12 r
63 10 2,59 0,11 Yn
0,8Yo 73 10 2,49 0,10 = = 16,89
r
83 10 2.40 0,09 C = 390 ( do nomograma )
93 10 2,31 0,09
K=C = 4,3 pés/dia

NOTA: A primeira leitura foi desprezada por problemas de medição

Fig. 9 - Dados e computação de condutividade hidráulica em teste de furo de trado em presença de lençol
freático, segundo o U.S.Bureau.

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Drenagem como Instrumento de Dessalinização e
Prevenção da Salinização de Solos

Fig. 10 - Exemplo de cálculo da condutividade hidráulica de camadas específicas de solo, segundo o U.S.Bureau
of Reclamation. Os valores são apresentados nas unidades originais.

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Condutividade Hidráulica -
teste de furo de trado em presença de lençol freático

Bibliografia

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129

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