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DIREITO AUTORAL

DIREITOS PATRIMONIAIS
DE AUTOR*
Sydney Limeira Sanches

RESUMO

Considera a obra intelectual como fruto do


esforço criativo capaz de proporcionar ao criador
o proveito econômico decorrente de suas
criações de espírito.
Define direitos morais e patrimoniais, sinalizando
para as divergências existentes entre ambos, bem
como seus respectivos reflexos em relação à
pessoa do criador.
Manifesta-se no sentido de que o direito exclusivo
do autor para dispor economicamente sobre suas
criações intelectuais encontra-se consagrado no
art. 5º, inc. XXVII, da Carta Magna, cujo conteúdo
é o seguinte: aos autores pertence o direito
exclusivo de utilização, publicação ou reprodução
de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo
tempo que a lei fixar.
Ao final, ressalta que o sistema legislativo
brasileiro aboliu a tutela administrativa do
ordenamento legal referente ao tema, conferindo
diretamente aos criadores e aos titulares de
direitos autorais a gestão sobre seus direitos.

PALAVRAS-CHAVE
Direitos – patrimoniais, morais e autorais; art.
5º, XXVII, da Constituição Federal; direito
fundamental; Lei n. 9.610/98 – Lei dos Direitos
Autorais; criação intelectual.

__________________________________________________________________________________________________________________
* Conferência proferida no "Seminário sobre Direito Autoral", realizado pelo Centro de Estudos Judiciários, nos dias 17 e 18 de março de 2003, no
Centro Cultural Justiça Federal, Rio de Janeiro - RJ.

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INTRODUÇÃO indo-se a ele a faculdade exclusiva lei, sendo obrigatória a interpretação
de autorizar ou proibir o uso de suas estrita dessas limitações.

A
obra intelectual é o fruto do criações, impedindo ou suspenden-
esforço criativo capaz de pro- do a utilização não-autorizada. 1.3 O EXERCÍCIO E O ROL DOS
porcionar ao criador o proveito Torna-se, pois, imperativo que DIREITOS PATRIMONIAIS
econômico decorrente de suas cria- caberá consulta prévia ao criador para
ções de espírito. Dessa forma, nada qualquer exploração econômica da No Brasil, o direito do criador
mais natural do que garantir ao cria- sua obra intelectual, já que, unido à está consagrado como direito funda-
dor todos os elementos necessários sua criação, somente do autor será mental, inscrito no inc. XXVII do art.
para a utilização patrimonial de suas extraída a sua exclusiva vontade para 5o da Carta Política, por meio do qual
obras. o uso de sua obra. o autor tem o direito exclusivo de uti-
A circulação de bens intelec- lização, publicação ou reprodução de
tuais depende de organização norma- 1.2 CARACTERÍSTICAS suas obras, transmissível aos herdei-
tiva, a fim de permitir o justo e corre- ros pelo tempo que a lei fixar.
to acesso a tais bens intelectuais, Divergem os direitos patrimo- Do dispositivo constitucional
sem prejuízo ou esbulho aos direitos niais dos direitos morais particular- nasce o direito exclusivo do autor para
dos criadores. mente pela possibilidade de o cria- dispor economicamente de suas cria-
Tais bens imateriais produzem dor da obra livremente dispor daque-
riqueza e contribuem para o desen- les. Enquanto os direitos morais en-
volvimento econômico do País. A tí- contram-se permanentemente inves-
tulo de curiosidade, conforme recen- tidos na pessoa do criador, os direi-
te pesquisa realizada pela Secretaria tos patrimoniais refletem a face eco-
de Desenvolvimento Econômico do nômica da criação.
Estado do Rio de Janeiro, podemos A Lei de Direitos Autorais, logo
afirmar que os direitos autorais e os no seu art. 3o, confere aos direitos A incompreensão dos
seus produtos resultantes respondem autorais a qualidade de bens móveis,
por cerca de 5% do PIB do Rio de exatamente para permitir, dentro dos agentes econômicos que
Janeiro, o que representa algo em limites fixados pela Lei, a possibili- dependem das obras
torno de R$ 5 bilhões, movimentando
recursos e empregando mais do que
dade do autor explorar a sua obra.
Os direitos patrimoniais possu-
intelectuais para o
a famosa indústria naval no Rio de em as seguintes características bá- movimento de suas
Janeiro.
Toda essa riqueza decorre do
sicas:
a) alienabilidade, traduzida na
atividades com os
trabalho do criador e dele depende faculdade do autor em negociar com direitos intelectuais no
todo o processo de produção intelec- terceiros os seus direitos, autorizan- Brasil é notória e
tual. Assim, garantir aos autores o do, licenciando, concedendo ou ce-
efetivo exercício dos seus direitos dendo a utilização de suas criações; decorre, em parte, de
patrimoniais é entender que para a b) temporalidade, que se ba- nossa frágil organização
existência de um expressivo trabalho seia no interesse da criação intelec-
criativo é necessário um conjunto de tual pela coletividade em sua integra- social, fato que dificulta
regras que proteja os criadores inte- ção nas características culturais de para os criadores o
lectuais. um país, delimitando, portanto, ao
O impensável desestímulo à autor e aos seus sucessores o exer- exercício dos seus
criação empobrece as características cício temporal dos direitos patri- direitos patrimoniais.
culturais de um país e promove ain- moniais;
da o seu esvaziamento econômico. c) prescritibilidade, ou seja, a
perda do direito de ação em razão de
1 DOS DIREITOS PATRIMONIAIS lapso temporal;
d) limitação espacial, já que as
1.1 ASPECTOS GERAIS modalidades de utilização das obras
intelectuais são independentes entre
Como dito, os direitos patri- si, não havendo a hipótese de uma ções intelectuais, cujo princípio inse-
moniais permitem aos criadores a autorização abranger modalidade de re-se na Lei de Regência, no seu art.
geração de proventos em seu benefí- direito não-contratada; 28, que ensina o seguinte: cabe ao
cio. São, portanto, aqueles referentes e) limitação negocial, posto autor o direito exclusivo de utilizar, fruir
à utilização econômica da obra, ma- que, observadas as condições de e dispor da obra literária, artística ou
nifestada sob qualquer forma ou pro- cada negócio jurídico, o seu propósi- científica. Ou seja, somente com ex-
cesso. to deverá receber leitura restritiva, pressa manifestação do autor, ou do
Conforme ensina Carlos Alberto permanecendo sob a gestão do au- titular dos direitos patrimoniais, po-
Bittar, os direitos patrimoniais consis- tor as modalidades de direitos não- derá haver o uso legítimo da criação
tem em um conjunto de prerrogativas envolvidas na negociação ou os usos intelectual.
de cunho pecuniário que, nascidas novos não-previstos; e Os direitos patrimoniais apre-
também com a criação da obra, ma- f) limitações ao seu exercício, sentam-se como gênero dos direitos
nifestam-se, em concreto com a sua a fim de atender à função social e econômicos do autor.
comunicação ao público1. A explora- pública das obras intelectuais, cujas Assim, os direitos patrimoniais
ção econômica da obra é conferida exceções ocorrem em casos especi- manifestam-se tantas quantas forem
com exclusividade ao criador, atribu- ais e devidamente catalogados em as formas de utilização das obras in-

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telectuais, o que significa dizer que o i) emprego de sistemas óticos, lidade temporal. Por conta de concei-
rol de modalidades de uso das cria- fios telefônicos ou não, cabos de qual- tos inteligentemente bem concebidos,
ções não estão sujeitos a numerus quer tipo e meios de comunicação os dispositivos da Convenção de
clausus. similares que venham a ser adotados; Berna de 1886, revista em 1971, con-
Conquanto as legislações so- j) exposição de obras de artes tinuam sendo referenciais para qual-
bre a matéria tenham por costume plásticas e figurativas; quer legislação.
elencar os distintos direitos patri- IX - a inclusão em base de da- As três grandes espécies de
moniais, isso não passa de uma dos, o armazenamento em computa- modalidades de exploração da obra,
exemplificação da manifestação dos dor, a microfilmagem e as demais fundadas em princípios gerais, todas
direitos patrimoniais, como forma de formas de arquivamento do gênero; incorporadas ao ordenamento legal
facilitar o entendimento sobre a ma- X - quaisquer outras modalida- brasileiro, são:
téria. des de utilização existentes ou que a) os direitos de comunicação
A nossa Lei de Regência se- venham a ser inventadas. ao público;
gue o mesmo princípio e não esgota Dois detalhes da Lei confirmam b) os direitos de reprodução; e
todas as prerrogativas do criador e, o caráter meramente exemplificativo c) os direitos de seqüência.
no seu art. 29, em caráter meramente do rol de modalidades desfilado pelo Os direitos de comunicação ao
exemplificativo, determina que, art. 29, a expressão “tais como”, ao público, conforme o inc. VI do art. 5o
verbis: final do caput, e o inc. X que torna da Lei n. 9.610/98, englobam todo ato
Art. 29. Depende de autoriza- obrigatório a autorização prévia e ex- o qual a obra é colocada ao alcance
ção prévia e expressa do autor a uti- pressa do autor perante quaisquer do público, por qualquer meio ou pro-
lização da obra, por quaisquer mo- outras modalidades de uso da obra. cedimento e que não consista na re-
dalidades, tais como: Os direitos patrimoniais estão produção de exemplares.
I - a reprodução parcial ou in- regulados nos arts. 28 ao 45 da Lei Dentre as suas manifestações
tegral; de Direitos Autorais, por meio dos mais usuais encontram-se a repre-
II - a edição; quais obtêm-se suas diretrizes, den- sentação cênica, a execução públi-
III - a adaptação, o arranjo tre as quais verificamos as caracte- ca de obras musicais, a exibição de
musical e quaisquer outras transfor- rísticas acima apontadas. obras audiovisuais, a radiodifusão e
mações; Nesse elenco de normas, veri- a transmissão sob qualquer meio ou
IV - a tradução para qualquer ficamos que a Lei nacional delimita o processo.
idioma; exercício dos direitos patrimoniais de O direito de reprodução é a fa-
V - a inclusão em fonograma autor ao fixar, no seu art. 41, o prazo culdade do autor em realizar um ou
ou produção audiovisual; de proteção legal de 70 anos, conta- mais exemplares de sua criação de
VI - a distribuição, quando não dos de 1o de janeiro do ano subse- forma material que, no caso da lei bra-
intrínseca ao contrato firmado pelo qüente ao de seu falecimento, obede- sileira, inclui, ainda, qualquer arma-
autor com terceiros para uso ou ex- cida a ordem sucessória da lei civil, zenamento permanente ou temporá-
ploração da obra; após o qual a obra ingressa em domí- rio por meios eletrônicos (art. 5o , VI).
VII - a distribuição para oferta nio público, ressalvando que, no caso Os direitos de reprodução se
de obras ou produções mediante da obra em co-autoria, o seu ingresso manifestam, por exemplo, na fixação
cabo, fibra ótica, satélite, ondas ou no domínio público se dará no prazo de obras em gravações (fonogramas)
qualquer outro sistema que permita de 70 anos a contar após a morte do e em obras audiovisuais, na repro-
ao usuário realizar a seleção da obra último dos co-autores (art. 42). grafia, na reprodução de esculturas,
ou produção para percebê-la em um A regulamentação dos direitos fotografias, obras pictóricas, na dis-
tempo e lugar previamente determi- patrimoniais visa a assegurar aos cri- tribuição ou no armazenamento ele-
nados por quem formula a demanda, adores legítimas condições para o trônico.
e nos casos em que o acesso às proveito econômico da utilização da Os direitos de seqüência, ou
obras ou produções se faça por qual- obra intelectual. Ainda que não seja droite de suite, consistem na partici-
quer sistema que importe em paga- possível prever e catalogar todas as pação do autor nos desdobramentos
mento pelo usuário; formas de utilização das obras, po- econômicos de sua criação. Na lei
VIII - a utilização, direta ou in- demos destacar e sem prejuízo do brasileira, o art. 38 confere ao autor
direta, da obra literária, artística ou princípio geral da publicação, três de obras de arte ou manuscritos que
científica, mediante: grandes e amplas espécies de mo- seus originais alienados, quando re-
a) representação, recitação ou dalidades de uso das criações inte- vendidos, destaquem 5% sobre o
declamação; lectuais, as quais, diante de seu lar- aumento do preço, a título de remu-
b) execução musical; go espectro de absorção, possuem neração em benefício do autor. A Lei
c) emprego de alto-falante ou condições de abrigar os novos usos, de Regência destaca que, caso o
de sistemas análogos; impedindo que as legislações dos autor não receba o respectivo direito
d) radiodifusão sonora ou países se tornem rapidamente ultra- de seqüência no ato da revenda, o
televisiva; passadas. vendedor ou o leiloeiro ficará como
e) captação de transmissão de A conceituação ampla e gené- depositário.
radiodifusão em locais de freqüência rica, em companhia da jurisprudên- Registre-se que, apesar do
coletiva; cia, oferecem condições para os cri- expresso dispositivo legal, desconhe-
f) sonorização ambiental; adores assegurarem o exercício do cemos o exercício do direito de se-
g) a exibição audiovisual, cine- conteúdo do seu direito e de suas qüência no Brasil.
matográfica ou por processo asseme- prerrogativas legais. Dentro desses princípios ge-
lhado; Essas características são as rais, estarão resguardadas as prerro-
h) emprego de satélites artifi- adotadas pelas convenções interna- gativas dos titulares de direitos auto-
ciais; cionais e garantem a sua aplicabi- rais diante das novas tecnologias. A

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Lei de Regência adota essa caracte- He states that the author’s exclusive
rística e ainda agregou novas moda- right to deal economically with his intellectual
lidades de uso, permitindo o ingres- creations is set forth in the article 5th, item XXVII,
of the Brazilian Constitution, whose content is
so e a circulação das criações inte- the following: the exclusive right of use,
lectuais nos meios digitais e nas gran- publication or reproduction of works rests upon
des redes de informação (internet). their authors and is transmissible to their heirs
for the time the law shall establish.
CONCLUSÃO At the end, he emphasizes that the
Brazilian legislative system has abolished the
Por fim, destaque-se que o sis- administrative guardianship of the legal order
related to the theme, giving directly the creators
tema legislativo brasileiro aboliu a tu- and the copyright holders the management
tela administrativa do ordenamento upon their rights.
legal, conferindo diretamente aos cri-
adores e aos titulares de direitos au- KEYWORDS – Patrimonial, moral and
torais a autônoma e solitária gestão copyryght rights; article 5th, XXVII, of the Brazilian
sobre os seus direitos. Constitution; fundamental right; Law n. 9.610/
98 – Copyright Law; intellectual creation.
A incompreensão dos agentes
econômicos que dependem das
obras intelectuais para o movimento
de suas atividades com os direitos
intelectuais no Brasil é notória e de-
corre, em parte, de nossa frágil orga-
nização social, fato que dificulta para
os criadores o exercício dos seus di-
reitos patrimoniais.
A aplicação do texto legal
constitui tarefa de difícil cumprimen-
to pelos criadores, sendo o Judiciá-
rio, numerosas vezes, o único cami-
nho para a realização dos seus direi-
tos.
O aprofundamento sobre a
matéria torna-se, portanto, imperati-
vo. Inserir o tema em universidades
e produzir conhecimento sobre os di-
reitos intelectuais são os meios pe-
los quais poderemos inibir a constante
violação dos direitos autorais.
A iniciativa do Centro de Estu-
dos Judiciários, do Conselho da Jus-
tiça Federal, é um belo exemplo e
comprova a necessidade, cada vez
maior, de se debater e informar so-
bre os direitos intelectuais e seus re-
flexos econômicos no País, especial-
mente entre aqueles que operam com
este ainda incompreendido e fasci-
nante ramo do Direito.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

1 BITTAR, Carlos Alberto. Direito de Autor. 1


ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
1992. p. 46.

ABSTRACT

The author considers the intellectual


literary composition as a gain of the creative
effort which is able to give the creator the
economic profit resulting from his spirit creations.
He defines moral and patrimonial rights,
pointing to the divergences that exist between
both of them, as well as their respective Sydney Limeira Sanches é Advogado no
reflections concerning the creator’s person. Rio de Janeiro/RJ.

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