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A LÓGICADA CURA PSICANAL~TICA

JACQUES-ALAIN
MILLER
(Paris)

Temos como prática - n30 que isto signifique ser fazendo afagos; pode-se sair fazendo reverências,
Liiiia prática boa ou má - propor, no final das Jornadas prometendo voltar: e pode-se sair com perda e estron-
do Campo Freudiano na Espanha, o tema de trabalho do, mandando passear ou iiiandando ao diabo. Pocle-se
para o ano seguinte. Nio há razão para alterarmos o sair, sobretudo, demasiado cedo mas também deinasia-
uso neste ano. Não há razão para que eu resista a que do tarde e talvez, no momento exato. Mas existe ver-
a série prossiga através de niiin, apesar de detestar isto. dadeiramente esse iiioinento?
I'roponlio o seguinte: que a clínica psicanalítica cla Existe a saída precipitada que nào é forçosaiiiente
posiç5o feminina, que supostamente tratamos, tenha uma interrupção ou uin abono de análise. Embora exis-
continuidade com um estudo da lógica da cura. tani análises abortadas, existem saídas por aborto.
Existe para tanto uma razão circunstancial e outra Poder-se-ia afirmar, inclusive, que a boa saída se pre-
de fundo. cipite sempre. E certainente existe também a saída
A priiiieira é o teiiia d o próximo Encontro deiiiorada, atrasada sempre i i i i i pouco mais, a saída
Internacional de 1994: "A conclusão da cura". E o impossí\;el.
terino "conclus~o"me fez pensar muito. Enibora utilize- Em resumo, existe muita variedade. E é o desejo de
mos com frequência, há algtim tempo, a expressào obter. sobre este propósito, uin grande número de pro-
"final de análise, ela ine parece insatisfatória. Pareceu- postas coiiio as que podeiii reunir uma comunidade táo
iiie de imediato que fosse preferível opor a "entrada", a ampla como a do Campo Preudiano, o que me sugeriu
"saída de análise''. Pareceu-~iieestranho, inclusive, já o subtítulo de "variedades da saída de análise. Espero,
que falamos com gosto de "entrada", nâo utilizarinos portanto, que o Encontro Internacional de Riris de 1994
"s;iícla". E é claro que existem muitas maneiras de sair nos permita reunir propostas sobre toda sorte de saídas.
de ~ i n nanálise. No título, porém, destaqiiei unia modalidade parti-
1)ode-se sair para entrar de novo. E além d o iiiais, é cular: a conclusâo da análise. O termo saída abre iim
o que se Faz depois de cada sessão de análise, passado leque fenomenológico muito extenso e diversificaclo,
uiii tempo variável entre duas sessões. Às vezes enquanto que a palavra conclusão tem o efeito de acen-
soiuente uiiias horasl às vezes u~iidia, talvez três; lima tuar o aspecto lógico d o final de análise. Convoca a
semana, tim mês ... toniá-10 - no sent;do quase imtemático do termo, como
Pode-se sair d o consultório de um analista para se diz de uma operaqào - coiiio um resultado determi-
entrar no d e outro. É o que se chama reanálise: /a nado por condições anteriores. Quais seriam as condi-
réanalyscl o novo episódio, o giro suplementar. E ções que determina111a conclusâo de uma análise?
poderíamos nos perguntar o que espera o sujeito, eiii Podemos concel~eressa conclusâo determinada pela
cada caso, mudando assini o suporte d e sua análise, estrutura d o sujeito analisante - e: sem dúvida, neni
iiiuclando o lugar a que se dirige, mudando o Outro ou todas sâo possíveis por isso - pela forma do sintoma;
mudando o objeto. Às vezes, pode-se sair d o con- pela frase do fantasiiia oii pela fase de elahora@o CIO
sultório de um analista para ir se queixar a outro e con- fantasma; pelo modo coiiio foi a entrada em :inálise;
tinuar depois, apesar de tudo, com o primeiro. Às pela diregào da cura; pela estratégia da transferência e
vezes, pode-se fazer isso durante muito tempo. até pela tática, acertada ou não, de uma interpretação,
Pode-se sair d e uma análise batendo a porta ou pois) em determinados casos, o final de análise é a con-

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clusão de uma interpretação, feliz ou infeliz, do analista. \~ocêssaem cla psicanálise para entrar em outros discur-
Digainos, genericatnente, que possamos chamar a sos, para encontrar-se em outras estruturas discursivas.
Iógica da cura aquilo que cleterinina sua conclusão. Nesse sentido, a estrutura discursiva do analista não
Com efeito, isto pode ser entendido eiii dois sentidos. é transformável ou só o é às custas de sair do domínio
Por um lado, ein iiin sentido particiilar, ou seja?a Iógica no qual se inscreve normalinente. E por essa razão nào
do caso e sua direção. I'or outro lado, no sentido da está feita para forinalizar o curso, o percurso de unia
Iógica geral que se cleriva cla própria psicanálise, do análise. É unia estrutiira estática que não permite,
que chamamos sua técnica, de seu artifício especial. enquanto tal o11 pelo inenos tal como h c a n nos pro-
Essa Iógica geral cla cura resulta do semblante com que porcionou, forinalizar o percurso de tiiiia análise.
organizamos os ditos do analisante, coin a condição de Oferece-nos o inarco, por assim dizer, mas não permite
não nos esquecerilios de que este semblante, o da téc- formalizar a trajetória do analisante no percurso da
nica analítica, teiii seu suporte naquela estnitura lógica. análise; nào perinite falar de entrada: nem de saída,
.Na psicanálise, diz lacanl confia-se, e com razão, nem de conclusio.
na estrutura Iógica porque ela nunca perde seus direi- Para conseguir forinalizar o percurso de uma análise
tos.. Esra frase implica, por outra parte. eni que se con- é necessária Lima estmhir;i Iógica - várias talvez - que
fie nela de iiianeira ger:~l,inclusive quando se a nào inclua o fator teinporal e que admira transformaçòes
conhece ou inesiiio quando se téin, sol~rea psicanálise, internas no domínio considerado.
idéias diferentes clas de I.;icen e seus alunos. Mas Lacan O teinpo é coinparí\:el com a estrutura Iógica? É unia
supõe, forinula, que na psicanálise, se confia sempre pergunta que temos de considerar. O teinpo, o tempo
na estrutura Iógica. que clecorre, parece difícil de se integrar nela na medi-
Em psicanálise de que estrutura lógica se [rara? Esta da ein que a lógica inclui, em si mesina, um efeito redu-
é a verdadeira pergunta. Que necessidade de discurso tor da temporalidade, como de eternização ou de seini-
está operando já na ;issociação livre? É preciso dar-se ternporalidade. Utn efeito, inclusive, de instanraneidade,
conta, em priiiieiro lugar, de qiie é necessário distinguir, coino se todos os raciocínios ocorressem no mesmo
segundo acreclito; essa estnitura Iógica da estrutura de momento e somente nossa clebiliclade psicológica nos
linguagem que é a do inconsciente. A estrutura de lin- 011rig;isse a introcluzir a verdade Iógica no tempo.
guagem perinite várias estrutiirasde discurso. Tal coino E, por outro lado, Lacan somente introduziu o tem-
Lacan articuloii: procluz, por permutação circular, esata- po no raciocínio às custas de uni sofisma, de iim racio-
mente quatro estnituras de discurso na iiiedi&a em que cínio que não é válido logicamente e que além disso,
foi formalizada coino um conjunto de quatro lugares e nào se pode efetuar senão ~otiloeleinento da intersub-
quatro terinos. Chiiiiainos cle quatro discursos às quatro jetividade. Lacan obteve assim, o que poderíamos
permutações da estrutura de linguagem, que Lacan cliaiiiar uma estrutiira Iógica do teinpo, de um tempo
denoiiiinou, enquanto discurso, como a estrutura do não cronológico, inas epistêinico, um tempo nâo
discurso do mestre - dito assim pelos escoliastas. hoinogéneo eiii virtude do processo de saber que se
A outra dessas estriitiiras discursivas: Lacan chamou cuiiipre em sua dimensão.
discurso do analista. Então, etii uin sentido, a estnitura E isto o permititi distinguir em três partes algo que a
Iógica da qual se trata na cura e na psicanálise, é a maioria de vocês conheceni: o instante de ver, o tempo
estrutura discursiva chamada "discurso do analista". de compreender e o niomento cle concluir.
Mas, isto é tudo? Tudo dessa estrutiira Iógica é a e'tni- I'rimeiro uiii tempo instantâneo, a fulguraçio. o
tura discursiva que cliainainos discurso do analista? relâinpago. Uin teinpo profundamente não discursivo a
Parece-me qiie não é assim, mesmo porque essa ponto de, para caracterizá-lo, Lacan ter recorrido à
estiutura de discurso é iiiióvel, em certo sentido estáti- visâo e não ao discurso. Falamos cle instante de \:er,
ca . É suscetível de trrinsforin;ição, certamente, liias as iiiais além cla história, para assinalar que estamos aí,
transformações qiie podem ativá-la fazem-na sair do nos limites do cliscurso.
marco da psicanálise. Se. por perinutação, vocês trans- Em segundo lugar, o teinpo para compreender. É de
forrnain o que Lac:in cliaiiia "discurso do analista", duração indeteniiinacla, mas tem que se produzir. Tal
como figura no sofisma lacaniano, depende das capaci- obtétn-se mais e mais símbolos numa sucessâo tal de
dades intelectuais de cada um que, nessa narrativa, são cifras das quais não se vê o fini.
consideradas homogêneas. Supõe-se tão inteligentes ou Por outro lado, pode-se dizer que, graças aos com-
tio torpes, uns e outros, os três personagens da história putadores, o fator tempo foi se fazendo cada vez mais
lacaniana. presente e material nos cálculos. Por exemplo, na
Eni terceiro lugar. o período conclusivo que acaba dii~nuiçàodo tempo necessário para realizar as ope-
sempre por precipitar-se. O que Lacan destaca na estm- raçòes. Há uma dezena de anos, tornou-se mais visível,
tura lógica do tempo epistêmico, do tempo de saber é material e tangível nos cálculos.
que o período conclusi\~ose precipita sempre, se pre- Mas o tempo já estava presente nos objetos
cipita sempre estmturalmente na medida em que a con- matemáticos sob o aspecto da ordenação. Por exemplo,
clusão é tributária do ato. Como se esse tempo se con- na simples sucessào de nútneros inteiros naturais:
cluísse no instante de atuar, respondendo assiiii ao 1,2,3,4,5... e assim por diante. Podemos considerar que
instante de ver. esta sucessão já inclui um elemento temporal e que,
Eni outras palavras, a conclusão não ê um novo além do tnais, resulta ser apropriada para representar-
instante de ver. Não é a contemplação de uma verdade mos a série da associação livre. Pois uma análise pode-
mas o momento de atuar, de passar ao ato, na inedida ria ser representada por uma única e longa frase: ou
em que a certeza da conclusão se antecipa a realizagâo. uma única e longa sucessão de frases: completamente
E portanto, no tempo lógico: a conclusãci é da ordem ajustadas (indexáveis) à Sucessão dos núiiieros inteiros
da verificação ein seu sentido estrito, o de fazer ser ver- naturais.
dade. Nào existe verdade que se adquira independente- E! por outra parte, isto se manifestou quando os psi-
mente do ato por fazer. canalistas norte-americanos: com o intuito de penetrar
É possível, então - é uma hipótese - que o curso de nos segredos da psicanálise, começaram a fazer
uma análise tenha a estnitura do tenlpo lógico. É pos- gravaçòes de todas as sessòes de uin paciente. Pode-
sível que a instauração do Sujeito Suposto Saber, que a mos ver assim: como se acuniula, se materializa o sig-
imposição do significante, da significação do S.S.S.: seja nificante que! efetivamente, poderia transcrever-se
da ordem do instante de ver. E é possí\;el que o autén- numa sucessão dessa ordem.
tico final de análise seja sempre um moinento de con- Por isto, embora Lacan tenlia nos dado a estrutura
cluir com a precipitaçâo que necessariamente inclui. discursiva do analista, parece-me que cabe continuar se
Como se trata de um programa de trabalho não pre- ocupando das sucessòes, das séries' das sequências e;
tendo afirmá-lo, falo com total insegurança, emito esta mais detidamente, a propósito do curso da análise. E
hipótese para propor que a estudemos no marco de gostaria de assinalar que, sem dúvida alguma, durante
nossa investigação sobre a conclusão da ci~ra. toda sua reflexão sobre a psicanálise, Lacan se ocupou
Mas nao temos que considerar somente a estrutura das sucessões e das sequências.
do tempo Iógico, quando se trata de tornar lógica a O primeiro exemplo que nos vem à cabeça, coiiio
cura analítica. Com efeito: não faltam objetos niatemáti- leitores de Lacan, é o seminário ".4 carta roubada".
cos que em si mesmos incluem um eleinento dinâmico, Nesse texto Lacan constrói séries com dois símbolos,
um esquema de produção apropriado para, pelo (+) e (-1: que poderiam ser .quaisquer outros símbolos
menos, simular a dimensão temporal. opostos entre si, suscetíveis de individualizar-se uni em
I'ara comepr pelo mais simples, bastaria pensar no relaçio ao outro. E lembro-lhes seu ponto de partida,
núiiiero a todo mundo o aprende na escola para cal-
; uma série de tipo aleatório, como a que poderíamos
cular a circunferência do círculo. Esse número equivale, obter com o lançamento de uma moeda, "cara ou
no geral e para as necessidades comuns, a 3,1416. Mas, coroa". Isto pode ser escrito continuamente como uma
coiiio vocês sabem, é Lttn níimero enorme, com todo sequência de símbolos ordenados sucessivamente
uin desenvolvimento possível para calcular cifras sem segundo um vetor temporal.
que se possa cliegar a um final. De vez em quando, Trata-se, portanto, de-uma série ao acaso e que, de
coma ajuda de computadores cada vez mais potentes) uina maneira mais refinada quanto a ordem inateináti-

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ca, chamaríamos de uiiia sequéncia sem lei. É unia Significa que clepois de a, somente pode vir a ou P.
sequência sem lei, na medida em que teiii somente Sigaiiios P. Depois de P só pode vir y ou 6 ; depois de
uma condição: que eiii cada lugar só exista um mais ou y só pode vir B ou a, enquanto que depois de 6 só
uni menos. Mais ou inenos, [+,-I, este seria o voca- pode vir y ou 6 podendo continuar até o infinito.
bulário utilizado para forinar a sequéncia. Em cada
lugar r i o existe iii;iis que uin oii outro, ficando excluí-
do um terceiro. Se a iiioeda cai sobre a beirada, não se
anota o lançamento, é anulado. Respeitanios, portanto,
o princípio do terceiro excluído. Não se é sempre tão
bern educado, mas, nesta sequência, respeitamos o
princípio do terceiro excluíclo.
Entãol como vocês sabe~n,todo o artifício de Iacan
consiste eiii construir, a partir dessa sucessão elementar
e aleatória, sein lei, sucessões de uma ordem muito
maior. Isto é suficiente para dar uma lei. Enquanto que na
Vou escrever n;i loiiw o novo vocabulário que va- primeira série, tal coiiio nós a constmíinos com (+) e (-1,
nios utilizar. O primeiro é simplesmente cara ou coroa: qualquer símbolo pode vir depois de qualquer outro,
[+:-I, e a partir dele pocleiiios constniir qualquer série na série de a, p, y, 6, não pode \;ir qualquer sírnl>olo
de símbolos segundo a queda da moeda. A construçào depois de qualquer outro. Quando um deles está num
de Lacan consiste ein um princípio, e a partir dessa lugar, não pode li;i\~erqualquer outro depois. A escolha
série sem lei, ao acaso, iiiostrar quão rapidamente se se vê: cle algiiiii iiiodo, forçada pelo próprio programa.
define uina lei. Com isto, teinos o exeinplo de uma estrutura Iógica
Para tanto ampliamos nosso vocal>ulário>tomando que, conforiiie Lacan nos ensinou, pode ser colocada
em conta não um síinl>olo único, mas dois de cada vez. em forma de grafo. O grafo é uiiia representação para
É a simplificação que faço. Consideraiiios dois símbolos essa estrutura lógica. I'odeinos, então, representá-la
ao mesmo tempo, consideranios os conjuntos: (+/+I, faciliiiente coin quatro pontos em forma de losango
(+/-)!(-/+) e (-/-) e dainos a cada uiii deles uma letra Depois tle a sempre vem uiii a o11 talvez um B; depois
coino nome. Assiin, c+/+) vamos chamar de a; a (+/-)h de p pode vir uiii y e a este pode vir um P, que por sua
(-/+)y , e (-/-)6. I'ortiinto, temos uiii novo vocab~ilário vez pocle seguir uiii 6. .Depois de 6 pode \:ir um y ou
que de~uoude ser o que era, [+,-I para ser [a,p, y, 61. inclusive um 6 e clepois de y pode vir um a.
E 'comprovamos nele a eiiiergéncia de leis que nos
fazem sair do acaso; significa que constmímos. a partir
do acaso uina necessidade. Qual?
O que pode vir depois cle a? Se a é (+/+) podemos
pôr em terceiro lugar (-) ou (+), o que significa que
depois de (+/+) poclenios pór ou inclusive (+/+I.
De acordo?

Esse é o esquema elementar que vocês podeni


encontrar, com uma construção bastante sofisticada,
mais complexa, nos kcrits cle I.acan e que é o exemplo
Tomemos os dois priineiros símbolos: (+/+I. inais siinples de uina estrutura Iógica em forma de
Chainamos de a, o síiiitmlo seguinte pode ser (-1 ou (+I, grafo. Poder-se-ia dizer, inclusi\,e, que este grafo, este
ao acaso. iYeste moinento, teinos necessariainente para esquema, é o ;ilgoritnio da sequéncia. É um algorittiio
começar. um (+)! seguido por um (-1 ou por um (+I. no sentido que explica como se constrói a sequência,
mesmo que seja evidenre que não determine necessa- fim desenvolvido de análise que se conclui neste ponto
riamente todos os pontos da mesliia. Temos aí uma superior que Lacan chamou S(&.
sequência que não carece de lei. Sua lei é este algorit-
mo, mas; ao inesiiio tempo, não é uma sequência com-
pletamente deterininada. É uma sequência semi-deter-
minada na qual existem certas coisas impossíveis e,
além disso, cena possibilidade, certa margem de esco-
lha. Uma sequência completamente determinada é, por
exemplo, a que se pode obter por recorrência dizendo
que vamos forinar uma sucessão tle números de
iiianeira que o sucessor será o predecessor mais uiii.
Nesse momento: ao aplicar como algoritmo o que
Frege chamou a funfào de sucessor, obtereinos E esse grafo explica também as relações que iiian-
1,2,3,4,5. têm o fantasma: o sintoma: a posigão do analista, a piil-
Na sucessão cle números inteiros naturais obtidos são? o desejo etc: sem imitar o curso de uma análise,
por recorrência - existe; desde já, muita coisa por pre- por assim dizer. É uma estmtura Iógica que, segundo
cisar do ponto de vista lógico, a esse propósito, mas é creio? compreende o fator teiiiporal. Simplesmente
simples de compreender, apesar d e tudo - nessa porque o grafo inclui uin percurso que nos permite dis-
sucessão temos unia sequência completamente tleter- tinguir. em particular, uma conclusão em curto-circuito
iiunada. Depois de 3 não podemos pôr 18, tenios que e uina verdadeira conclusão.
pôr 4 e depois 5. Esta é uma seqiiência completainente Finaliiiente, vamos ver o terceiro exemplo. Em sua
determinada por seu algoritmo. A sequência dos lançzi- "Proposição de 67": Lacan assimila o Sujeito Suposto
iiientos da moeda era completamente casual e a nossa Saber, isto é, a própria transferência: a um algoritmo
está entre as duas, entre a aiisência cle lei e a deterini- que prescreve a lei de uma sequência. Nessa "l'ropo-
nação coinpleta. sição" Lacan faz um paralelismo, como Freud por outra
Notemos, então, que depois que nós a construímos, parte, entre a entrada e o fin:il de análise e tenta fazer
inclusive depois de ter construído outras mais corn- ver como a estrutura daentrada eiii análise determina
plexas, iacan utilizou, em seguida, esta sequência para estritamente a estrutura do final. Além disso, Lacan r i o
construir: a partir dela, o que chamou "o grafo do dese- está longe, de juntar o próprio analista a uma cadeia de
jo". Estrutura Iógica, com efeito, em que supoinos letras. E, no nioinento em que faz do S.S.S. uiii algorit-
explicar a experitncia analítica. Ora, o que Lacan cons- mo, recorda seu grafo com uina frase que pode parecer
tmiu! e tem a ver com essa estmtura, é uma modifi- enigmática tal como a diz: ,'recordenios o guia que meu
cação coiii a qual fez o grafo do desejo que vocês co- grafo dá à análise.. Significa que o próprio Lican rela-
nhecem É tima estrutura Iógica em forma de grafo e ciona a constru~ãode seu grafo do desejo, feito dez
que inclui certo algoritmo. anos antes, coin esse ponto de vista algorítmico so'bre a
A esse respeito, confiar na estrutura Iógica nos leva, experiência analítica. E é o niesmo momento eiii que,
por exemplo, a este grafo que indica certo percurso da segundo cliz, nota a identidade do algoriuno da trans-
análise. Indica, ein particular, que ter acesso à zona ferência coin o agalma platónico.
superior depende do ponto (A): podendo o sujeito ser Uma das dificuldades, portanto, que teria cle ser
enviado, em curto-circuito, a uin fiin que não é o ade- explorada ao longo do Encontro Internacional, seria a
quado. Portanto, esse grafo apresenta um percurso que de construir sequências que nos foram úreis na expe-
segue uina estmtura Iógica - e um grafo que serviti de riência analítica: que nos perniitirain formalizar seu per-
referência a iacan durante anos para a direção da cura curso. Evidentemente, a proposição de Lacan e seu
- e nos &i a seqiiência de uma conclusão possível. algoritino não são inteiramente satisfatórios porque pre-
Essencialmente inclui duas: ou uma conclusão em cisamente um algoritmo é a lei de uma série. Eiii outras
curto-circuito que termina em uma identificação, ou um palavras, é um estrutura estática em que tampouco está
explicitamente dado o princípio de detenção da princípio de detenção, a emergência da função do
sequência regulada por esse algoritnio. objeto a. Dado que acirra o mistério a esse respeito,
Se o examinarmos bem, poderemos partir c10 ponto temos que admitir.
seguinte. Se aceitarmos fonnalizar de outra maneira o Como é que depois do tempo de falar que segue o
S.S.S. ou modificar a formalizaçào de Lacan, poderenios instante de ver. da "instauração da transferência", o
considerar com efeito o algoritmo de S.S.S.,da seguinte momento de concluir permite, no lugar de S.S.S.: o
forma: a articulação entre o significante da transferência surgiinento do objeto a ? O saber suposto se esgota?
e um significante qualquer, a articulação entre dois sig- Temos que supor que o saber inconsciente se acaba e
nificantes dos q~iaiso segundo é qyalquer. Escrevo, que, depois de chegar ao fundo do poço, temos que
então: (S...Sq) e o coloco entre parênteses para indicar deter? Temos que supor que o saber tinha se acabado?
a relação de articulaçião entre dois significantes a qual Temos que supor, e segundo quais leis, que se inicia
representa a menor frase. A menor palavra, a menor uin processo transfinito? Temos que pensar que é a
frase, a articulaçião entre duas frases, podem formalizar- relação do sujeito com o S.S.S. o que esgota? Deixo isso
se segundo dois significantes ligados pelos três pontos. para exaine
O algoritmo S.S.S. significa a função de artic~ilação Assinalo, no entanto, que esse paralelismo entre o
entre estes dois significantes: f ( ...
~Si) que nos dá a S.S.S. e o objeto a se encontra na estnitura estática do
articulação do significante, S, coin uiii efeito de signifi- discurso do analista sob a forma da escritura.
cação especial que se chama S.S.S.. Portanto, ~itilizoa
fórmula lacaniana da metoníinia para escrevê-lo.
Igualmente esse S.S.S., como seu nome indica. é um
efeito de significação que corre sob a czideia signifi-
cante, assim escrevo (-) entre parênteses e ponlio no
outro lado três s que são a abre\:iatura de S.S.S.: I'ortanto, deveinos supor, no curso de uma análise,
que a elaboração de saber prossegue de forma paralela
i constriição do fantasma fundamental.
Falei há pouco que havia uma razão circunstancial e
Assim voltaria a escrever o algoritnio de S.S.S. outra de fundo para passar da posição feminina à Iógi-
segundo a proposição de I.acan. Emprego esta escritu- c;i da cura. E desenvolvi até o momento: a razão cir-
ra, no fundo, para tentar forirializar o que nio figura cunstancial. Creio, a panir do ponto em que estamos,
nesta proposição: ou seja: um esquema de final de poder justificar uma razão de fundo para passar da
análise: seu princípio de cletenção: clínica da posição feminina à Iógica da cura. Lacan
colocou eiii evidência, com efeito, que há que se pas-
sar pela Iógica para situar a posição feminina. Portanto,
indo ern direção ao exame da Iógica da cura sonios
fieis, segundo creio, a urna Iógica profunda da reflexão
Segundo a indicaçjo que Lacan nos clá: parece que psicanalítica.
este final poderia ser escrito segundo a fórinula d;i A propósito da posiçào feminina, Freud e Lacan
metáfora - e é pelo que escrevi (+) entre parénteses no estão, ao iiiesmo tempo, muito próximos e muito dis-
lugar de (-) - como uma emergência, não mais da sig- tantes. Qual é o ponto de partida de Freud ou: ao
nificação de S.S.S.)mas do objeto a. I'onanto, tenro for- iiienos, o que nos dá o fio de sua posição? Poderíainos
malizar as indicações de Lacan sobre o final de análise dizer, talvez, que é uma fenomenologia da percepfâo.
para fazer ver nelas' o paralelisino coiii o algoritmo de :Freud enfatizou uma fenomenologia da percepção da
partida. Isto diz, de algunia maneira, que uiiia série em forma do corpo. Uma fenoinenologia do corpo ima-
que se produz o S.S.S., a série da experiência analítica: ,ginário a panir do qual se pode dizer que a pessoa o
a sucessão das sessões de uma análise, ein qiie se tem ou não o tem. E não podemos negar tampouco
acaba por engendrar o S.S.S.?termina por dar, como que a experiência psicanalítica nos dirige nesse sentido;
que a visão dos órgãos genitais é, para a criança, de feminina, é propriamente a experiência da perda do
uma importância decisiva total. Os testemunhos, a esse objeto de amor.
propósito, são inúineros e! além disso, temos tambéin Se buscássemos uma definição freudiana, podería-
as declarações do pequeno Hans, que, lógico perfeito, mos tal\:ez dizer que a posiçâo feminina do sujeito é
supunha até o momento de sua experiência traumática, aquela em que a perda do objeto de amor equivale à
que os seres humanos estavain dotados de pênis. No castraçâo. E que, de uma maneira geral, o sujeito em
fundo, ;idotou a expressão lógica ,,para rodo x phi de x.8 posição feminina experimenta essa perda de uina
pondo talvez a letra cp minúscula para indicação da maneira muito mais catastrófica que o sujeito viril, para
imagem fálica possível de observar. Até que encontra quem, no fundo; o mais precioso, no inconsciente, está
alguéin, até que nota a existência de um ser que con- sobre seu corpo. Não digo que seja seu corpo porque é
tradiz essa universalidade. Encontra, portanto, um ser uma parte muito especial e que, em certo sentido, está
segundo o qual se pode dizer que existe pelo menos fora dele. Mas, para o sujeito viril, o mais precioso está
um que não tem esta propriedade, que n i o tem esse no seu corpo, portanto e nesse sentido, não pode
atributo e: portanto: @ Neste sentido,
i. o valor que experimentar a perda do objeto cle amor de uma
damos a cpx é a função freudiana que se decifra: ter ou maneira tão catastrófica como o sujeito em posição
não ter. feminina. Evidentemente, é inais fácil coin Lacan
Escrevi cpx, a função freudiana cuja única signifi- porque existe, sabemos disso, homens que morrem de
cação é a de ter pênis e, portanto, com lima barra em amor e: nesse sentido, temos que dizer que são sujeitos
cima @, quer dizer, não ter. E, neste momento, segun- ein posição feminina.
do o texto do pequeno Hans, podemos escre\;er sua Mas existe outra coisa por trás do que Freud assi-
fórmula: Vxcpx. Depois ele encontra um ser que não nala como " o sujeito em posição Feminina sofre" ou
tem: 3 x P . Isto já nos permite assinalar que o ser que .obtém prazer coin o sofrimento.. É o tema que Colette
se põe nesse lugar é a mãe ou a mulher ein todo caso; Soler tratou esta manhã e, evidenteiiiente constitui uin
não é o pai imaginário precisamente. probleni;~económico. O problema é essencialiiiente: se
Creio que o que orientou a leitura de Freud foi essa a libido é viril. O que quer dizer .a libido é viril. para
fenomenologia, a prevalência do corpo iniaginário e a Freud? Se a libido é essencialmente afirmaçào? 'pos-
esse respeito há certamente uma clínica freudiana da sessão, prazer positivo, existe, entào, um paradoxo
posição feminina, uma clínica do Penisneid Portanto, a 'econômico do prazer no sofriniento.
clínica de um ser que sofre da falta em ter. A clínica de Mas taiiibém o reverso do assunto é o ciclo do pra-
um ser que sofre: sem mais. É também a clínica de uin zer positivo, propriamente fisiológico, sempre mais
ser que se queixa e em quem a reivindicação se eter- curto que o ciclo de dor. Significa que o prazer se
niza de algum modo. É a clínica também de um ser acaba niini ciclo curto enquanto que a dor pode se
que disfarça, que oculta a falta. E, portanto, há unia prolongar por muito mais tempo. É o que Lacan alude
clínica dos disfarces, dos enganos, que perinitem a esse a propósito de "Kant com Sade", dizendo: .a experiên-
ser apaziguar a ferida dessa falta. cia fisiológica o demonstra..
E digamos que, de uma nianeira geral, Freud desm- Dito de outro modo, obter prazer com o soFrimento,
ca que o sujeito feminino disfarça (leume) a falta com o como Freud imputa à inulher, é como dizer que a mu-
objeto-seinblante: objeto estandarte semblante, seja este lher é susceiível a iim maior prazer que o homem. Sol,
a crianp, seja o homem. E assinala, também, em sua a forma do masoquismo feniinino: Freud admitiu,
clínica da posição feminina, que o sujeito feminino se descobriu e dissuiiulou ao mesmo tempo, o suplernen-
subtrai (leume) a ela de maneira eletiva, por meio do to de gozo do sujeito feminino. E se o fez sob a forma
amor; que o amor serve especialmente ao sujeito femi- de um pziradoxo é porque a libido freudiana é viril. A
nino para ocultar a falta. Seu valor é, no caso da mu- libido freudiana, seu símbolo ao menos, é viril, en-
lher, completamente diferente do que pode ser para o quanto que o gozo: propriamente dito: é feminino. E é
homem, segundo Freud. Até o ponto de que, na clínica o que Freud viu e desconheceu ao mesmo tempo,
freudiana da posição feminina, a castração, a castração atribuindo à mulher essa propensão, esse gosto pela
dor. Isso não é um paracloxo, salvo se a libido é viril. situável. As tentações de fazer, por exemplo, da vagina
Não o é, se o gozo é feminino. um órgào significantizado - existe a este propósito no
A esse respeitol se nos detivermos no ponto de par- documento de trabalho pág. 61: tiin texto, unia citação
tida de Lacan, nos anos 70, não se trata tanto de uma muito divertida de l'hyllis Greenacre. Vocés podem
fenomenologia do corpo imaginário como do gozo. E encontrá-la em Cuadernos andalz~cesde psicoanálisis
isto tem muitas consequências porque, se partirmos de número 10. IVas apesar destes esforços, tradicionais no
uma fenomenologia do corpo imaginário, a posição caso das psicanalistas mulheres, trata-se de um gozo
feminina estará marcada por um (-1, enquanto que se dificilmente situável porque não vem em elementos
partimos de uma fenomenologia do gozo está marcada discretos, separados. Em outras palavras, que nào é
por um (t), um plus de gozar. E é o homem? ao con- representável segundo a sequência dos números
trário: com seu miserável ciclo do pênis, se posso dizê- inteiros naturais, não é representável como 1,2,3,4,5...
lo assim, quein se encontra afetado por um (-1 e cle Em terinos de série ou de sequência, o gozo feminino
uina maneira notável. tem uma potência superior a do inuinerável. E inclusive
Existe utn ciclo de prazer do órgão peniano. É, ein poderia se dizer que tem a potência do contínuo e nso
seu conjunto, um ciclo curto que conduz rapidamente do enumerável.
o sujeito à hoineostase. Enquanto que o símbolo viril I'ara representá-lo dir-se-ia por exemplo, que é um
está sempre erigido, o órgáo se esgota o imitando, se elemento denso e recorrer, portanto, a uma extensão
posso dizê-lo assim. O ciclo do pênis tem toda sua d o domínio dos números inteiros, ao corpo dos
importância ao ser. de certo modo, uni elemento de números reais. O próprio Lacan tentou atribuir-lhe cena
fisiologia na psicanálise. Não é o mesmo que o corpo coinpacidade em termos topológicos. Podekainos bus-
imaginário, apesar de tiiclo: é o funcionamento fisio- car, através de sua obra, os elementos com os quais
lógico e é a fenoinenologia do gozo. tentaremos dar nome ao que escapa ao caráter discreto
Com efeito, podemos dizer que esse gozo do órgão do gozo masculino. Por exemplo, disse que se tratava
é iim gozo situado, localizado, tópico. l'odeinos dizer de uni gozo contíguo a ele mesnio - o que já foi lem-
que "está aí;' e que é uni gozo discreto. Isto não quer brado nas exposiçòes.
dizer que se produz uni silêncio; "discreto", um gozo Um gozo contíguo é exatamente um gozo que não
que se apresenta fenoinenologicamente em elementos vem em elementos discretos separáveis uns dos outros.
discretos, ein elementos separados. Ein linguística se Como existe entre eles Lima tal ftisão não se pode falar
diz que os sign~ficantessão elementos discretos, isto é, de eleinentos. O resultado, portanto, da estnirura do
separados uns dos outros. Bem, esse gozo do órgáo gozo feminino, estrutura que não tem afinidade coiii o
peniano é um gozo discreto. Ele vem, se apresenta e111 significante, é: particularmente, não poder-se dizê-la.
elementos discretos, enumeráveis segundo a sucessào Quando Lacan formula tratar-se de um gozo que náo
dos números inteiros naturais: 1,2,3.4,5... I)e modo que pode ser dito é a consequência total de afinidade entre
essa estrutura enumerativa se impòe às "trepadas" e o gozo feminino e o significante.
tainbém à enumeração das mulheres. É: além disso, tiin Assim sendo, diz-se de outro modo. Diz-se como?
gozo que tem afinidades com o significante, que fun- Com metáforas de ondas, de invasão, de Iiiar. Com
ciona por siin ou não. O gozo fálico é, em si mesmo, efeito: o eleinento aquático é o elemento niassivo por
uni gozo do significante, ao menos! tein afinidades pro- excelência, no sentido de Damourene e Pichon; massi-
fundas com ele. vo no sentido em que pode se dizer da água. É neces-
Em relação a essas características fenomenológicas sário garrafas para se ter uma água e outra. E a água é
no lado masculino: o gozo feminino não é o gozo do algo que flui e para que venha em elementos discretos
significante. Apresenta-se com características muito temos que ter garrafas, colocá-la aí oii em tonéis. Sein
diferentes e precisamente suplementárias. De certa isso, flui, não vem em elementos discretos. Poderíainos
maneira, o sexo forte, tenclo o gozo como referência: é desenvolver, além disso, as afinidades imaginárias da
o feminino. E não somente por tratar-se de um gozo feminilidade e o eleinento aquático, por exemplo: em
que, apesar das tentações de fazê-lo, não é facilmente Finnetzg~t~zS wake; no grande monólogo de Anna Lívia
Plurabelle, esse eleiiiento aquático flui por todas as de ironia ern relação a Freud. Significa que Lacan admi-
partes. Outrossiin, Gaston Bachelard fez taiiibéiii titi o falo como sítiibolo único da libido, proveniente
grandes clesenvolvimentos enlaçando a feminilidade e a da traclição psicanalítica. No etibinto, por uiii efeito de
água. ironia, fez ver que esse mesmo símbolo, rransfonnado
Porém, o mais correto é dizer, como Lacan, que se em fungo Iógica, era siiscetíuel de efeitos totalmente
trata $e iim gozo que não pode dizer-se, que nâo entra diversos, e até opostos.
na ordein simbólic;~.Isso detemiira, por iitn lado, que Vocês conhecem - eni todo caso vou recordá-lo ra-
se censure de propósito e que essa ordein simbólica - pidamente - a maneira como Lacan utiliza essa função
poderia se defender - é feita para conter o gozo feniini- Iógica ao mostrar que permite formar, sendo o caso,
no em seus efeitos de estrago. I'ois é um gozo que não uma totalidade. Nada indica que seja finita ou infinita, a
respeita nada quando se desencadeia, taiiipouco os totalidade pode muito bem ser transfinita. Foi precisa-
semblantes sociais. mente a criação de um número novo que periiiitiu a
Eiii segundo lugar, explica também essa parte Cantor tratar como uni todo a sucessão dos números
importante da clínica da posição feminina: que é o inteiros 1,213,4,í...e assim por diante. Para fazer uiii
recliaço do gozo ein uma mulher. Não se encontra isso todo, Cantor pagou, com a invenqào de uni símbolo
assim, dessa maneira, no hoiiiein. É uin fenômeno chamado de ordem superior, que o aleph-zero que não
totaliiiente decisivo da clínica da posição feminina. se encontra na sucessão de 1,2,3,4,5.
I'ois: dacla sua estrutura, esse gozo pode ser uma No fundo, o que faltou a Freud foi utilizar. ele outra
ameaça para a identidade subjetiva, a identificação e a iiianeira também, o símbolo único que tinha inventado
alienas20 significante. Diferente do que é para o e é o que Lacan mostra ao inscrevê-lo em fórmulas
honiein, em qiieiii, ao contrário, reforça urna identi- distintas. As duas primeiras indicam uma relação totali-
dade. O gozo do que o homein é capaz, o gozo fálico, zada, unificada, do sujeito coiii o gozo; uma posição
reforça as identificações. E creio, portanto, que o ponto relativa a um sujeito, não ultrapassado por ele. E o
de pai~ida,de acordo com a fenornenologia do corpo sujeito eiii posição viril nunca está ultrapassado por
imaginário ou confor~iiea fenomenologia do gozo, e111 seu gozo.
Freud ou em Lacan, conduz a unia inversão dos valores E por outro lado, mas coiii ;i inesma f u n ~ à oLacan
~
em um ou em outro, de acordo com o caso. E que ;i inscreveu uma relação com o gozo não totalizada, não
posiqào feminina se encontra sob o signo de (+I: ein unificada. Então, evidentemente - tenho ainda que
Lacan, enquanto é sol, o signo de (-1em Freud. voltar à lousa - isto inuda muita coisa na represenração
Isto nâo significa que Lacan esqueceu da fenome- que Lacan não nos deu. Nas primeiras fóriiiulas, seja
nologia do corpo imaginário. Concede, de maneira finito ou infinito: não existe prol,lema para representá-
discreta, porém notável, seu lugar na intuniescência e 10: faz-se um círculo para dizer "tiido está aí". E depois
na desinhimescência no ciclo do pênis e vê nisso unia há uni elemento suplementar que é, de alguiiia inanei-

(>
deterininação importante de tal posiçào subjetiva. Idas ra. o próprio traço totalizante.
Lacan expressou alguns dos resultados ele sua investi-
gação na forma de duas estruturas lógicas distintas. E,
para dizer a verdade, poderiani se conceber iários
tipos ele posigòes.
Laain decidiu em 1972 toinar seu ponto ele partida
da significaqào fálica, do órgão niasculino significantiza-
do, isto é, do síinbolo freudiano. E desse símbolo único Mas quando nos ocupamos do lado feiiiinino não
da libido fez uma f u g ã o lógica: Qx. podemos inais representá-lo coiiio um círculo e tain-
Por seu intermédio, Lacan formalizou em princípio $1 pouco seria discutível que pudéssemos representá-lo
Iógica freudiana do complexo de Édipo. Ao iiiesmo tendo uiii círculo dentro dele. o "para todo" não exis-
tempo, utilizou essa função fálica para ter acesso obli- tiria. E foi o que utilizei até o iiiomento coiiio repre-
quarnente ao gozo feminino. E de maneira carregada sentação.

rn
71
parecidos, uni conjunto de V x k . Imaginein, então:
uma caixa em que estão os elementos de um jogo de
"lato": é o conjunto. Vamos tirar uni a um e portanto,
desse modo, introcluziremos o teiiipo. Melhor ainda,
--
uiii conjunto de balas. I'ara coiiiê-Ias é preciso pegar,
As duas fórniulas que Lacan propõe K O x e 3xOx, tirar o papel, segurar uma e olhá-la: é uma bala. Para
não funcionaiii, se as refeririiios a um todo. Se toiiiar- tanto, coloco-a eiii ininlia sequência: Ox, depois pego
mos como referência uni toclo, a prinieir;~fórniula dirá, unx~segunda: continua sendo Ox e permaneço assiin.
simplesiiiente, que nesse todo existe unia parte dife- Tenlio, portanto, o algoritmo da sequência: V x h *para
rente. Quando dizeinos vx@x, implica que há unia todo x phi de x.. Se comprei um;i caixa de I~alasnor-
parte que não é homogêne;~ao resto. Significa que se inalinente não \;ou encontrar dentre elas um pirulito. E,
~itilizarmoso "não todo" eiii referência a essa estrutura inclusive, graças a Canto. posso ter uina caixa infinita
não ganhamos nada de nada, por assini dizer. É o "não de balas, pode haver nela mais balas do que eu possa
todo" errôneo, é o "não todo" da incoiiipletude. coiiier até o fim dos iiieus dias. E isso responcle a lei
VxOx, não existe surpresa. É uma sequência inteira-
inente deteriiiinada.

-- hlas o que aconteceria se eu iiiodificasse uni pouco


E, portanto, nunca pocleríamos escrever 3xOx. Se as cois;is! se coniplicasse um pouco o jogo? Retiro
continuarmos nos referindo a esse esquema: ver-nos- minha caixa infinita cle balas - não Iiá razão para pres-
einos obrigados a escrever ein um lado *isso não é cindir dela - e a ponho de lado, por que nâo?, uma
tudo. e, no outro lado, existe um ao iiienos que não caka infinita de 11oml)ons. E agora vou pegar as I~alas.
responde a phi cle x-. Ile uni lado estão todos os que Inforiiiaiii-iiie porém, o Outro informa-ine de que, em
são "phi" e depois, nessa região
--
grifada, estão os que uin dado momento - eu nâo posso olhar - no lugar da
são "nào plii". E, pondnto, 3xOx, esta fórmula nào se ca~xacle balas, ele pode coloc;ir uina caixa cle Iboin-
pode escrever. bons. Isto é tudo? que ein um dado inomento, ele pode
Conseqiienteinente, o esquema de referência dess;is tirar a caixa de balas e colocar. ein seu lugari a caixa de
fórmulas não é uni esqiienia totalizante em que siiii- l>oiiibons. É: portanto: uma regra, um algoritiiio, um
plesinente se acrescenta lima negação. É o mal "não pouco diferente: nào é assim? O que ocorre entâo?
toclo". E, de fato, somente há uiiia representaçào que Agora, ein cada iiioinento da sequência, pode sair
torna pensável a articulação dessas duas fórmulas. É Ox, ou &k;não posso niais estar seguro, salvo cle que
preciso tirar da cabeça o conjunto clássico ou a classe: o Outro poderá fazer a mudança uina única vez. Vou
pegar I~alas,inas pode ser que ele tenha tirado as I~alas
e deixado em seu lugar, os bombons. A sequência con-
tinua, iii;is cada vez Iiá unia segunda ramificação que
se pocleria fazer e: ;i partir da qual, somente se poderia
comer boiiibons e não balas. Com essa lei, então, r i o
há uiiia única sequência mas uiiia infinidade d e
Temos que passar para a sequência: fora dela não h5 sequéncias diferentes possíveis porque, se vocês
soluçào. Teiiios que passar, aléin do inais, para um tipo querem, cada vez pode ser um ou outro.
especial de sequência que é a sequência cle escolha.
Sendo assim, tomemos iiiiia seqiiência. A mais fácil
para começar. a sequência norinal da que vamos extrair
o conjunto dos todos. É tini conjunto no qual todos são
Suponham agora, então, que o Outro, que me havia iiianecer no infinito. - Talvez seja, por outro lado, pelo
dito aquilo, deixasse para inim as balas. Só existe a laclo que as inulheres vivein mais tempo, pelo menos
caixa cle balas, a caixa de bombons não existe e todo o mais teinpo que os liomens -. E não existe essa
mundo sabe. Portanto, de fato, só tenho a caixa de exceção que engendra o "um" como liiiiite do todo,
balas. Significa que vou continuar comendo balas sem- estainos diante de uiii infinito nào-totalizado; e é pelo
pre, que nunca vou encontrar um boilibom: mas apesar que Ihes digo que a operação de Lacan utilizando o
disso, não posso dizer VxQx. Antes podia fazê-lo; síinbolo freiicliano único é: ao iiiesmo tempo: unia iro-
porque só existia o conjunto de balas. Mas, a partir do nia e uma zombaria eni relação à fórniula de Freud.
momento em que o algoritnio foi modificado - como os Aqui reinos outro "não todo", o "não todo" propria-
fiz ver - se bem que tirando somente balas, não posso iiiente lacaniano que não deve confunclir-se com o
dizer VxQx, porque seinpre é possível que, no monien- "nào todo" da incoinpletude. É uin "não toclo" que se
to seguinte, se trate de uni I~ombom. poderia chamar indecidível porque a fórinula VxQx
Dito de outra iiianeira: não posso dar o algoritino não é falsa: [nas não pode ser decidida neste marco. E
totalizante da sequência porque não o sei. E, ao mestiio a fórmula 3 x G não é falsa mas não pode ser decidida,
tempo, jainais vi iim bomboin. Não há necessidade de não saberemos nunca se é verdadeira oii falsa. Estamos
ver o I~omboiiipara. apesar cle hido, não poder dizer eni suspenso. O excluído é: precisainente, o princípio
VxQx. E, nesse inomento, não é o mesiiio que seja fini- clo terceiro excliiído.
to ou infinito porque, se chego ao fundo da caixa e Pocleinos então deduzir que, nesse niarco, não se
não vi I~ombons,poderei dizer VxQx. Mas se estou em pode ter uiii universo, isto é, uiii todo que faça um. E,
um conjunto infinito permanecerei ein suspenso para portanto, isso responde à posi~ãofeminina, -elas não
seiiipre enll~orasó tenha comido balas . Apesar disto: são todas. ou ainda ,,nenhuma é toda.. E taml~émnunca
continuarei em suspenso pois pode aparecer uin bom- se poderá deinonstrar, a esse propósito, o contrário: que
boiii. Somente esta representação demonstra as cluas aparece no significante, "todo" pode-se dizer. Coiiio
fórinulas da sexuação feminina. Soiiiente assiiii n'io se também se pode aspirar que a potência Iógica do "não
pode dizer VxQx: ainda que não se tenha visto apare- toclo", como Lacan propõe, abuncle no gozo que a femi-
cer nenhum bomboin. niliclade subtrai. A posição feminina a esse respeito, se
Trata-se do mesino no lado masculino? Continuaiiios define coiiio a de um sujeito a quem seu gozo ultrapas-
utilizando o inesmo símbolo, como Freud queria e a sa sempre. o que não é o caso do hoineiii. É o que
experiéncia parece indicar. Mas, inesmo que seja assim I.acan traduz, dizendo que ela nunca é toda para ekc
e 21s duas sequências sejani de fato paralelas? mesmo iiiesnia: como taiiipouco loda para uin hoinein.
que ein ambos os lados só exista Qx, mesmo que se Com o retorno i Iógica da posiçao feminina eiii
encontre o falo ein ambos lados, subjetivamente é dis- Lacan, espero ter conseguido provocar o interesse na
tinto para o sujeito porque o algoritino é totaliliente teoria das sequências que me parece tão necessária
diferente. Isto é o que queria apresentar-lhes eiii ima- para teorizar a Iógica da cura analítica. Permitam-me
gens, embora, sem dúvida, tenho as fór~iiulasque per- que termine com uma citação de Lacan que poderia
mitaiii criar a sequência. iiiarcar: entre nós, uina mudança tle acento: *Na ética
É coinpletaiiiente diferente porque no outro lado. que inaugura o ato analítico, a Iógica governa".
no lado feminino: não há possibilidade de foriiiar o Testo aprexntado nas XJornadas do C a m p Freudiano nn Fspanha, em M á i g ,
todo. Não se pode fazê-lo, estamos obrigados a per- lmcreiro de 1193.

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