Você está na página 1de 16

UNIDADE 01

Literatura Portuguesa II UNIDADE 01 AULA 01

Edilane Rodrigues Bento Moreira


Kelly Sheila I. C. Aires
Raísa Maia

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

A produção literária do
Realismo/Naturalismo
português

1 Objetivos da aprendizagem

„„ Destacar as características gerais do


movimento realista português;
„„ Apresentar os principais nomes do
movimento realista em Portugal;
„„ Exibir estilos particulares de escritores realistas portugueses.
A produção literária do Realismo/Naturalismo português

2 Começando a história

Olá, pessoal! Para iniciar as discussões e compreender as razões do nascimento


e aplicação do movimento realista em terras portuguesas, faz-se necessária uma
breve orientação sobre o contexto histórico de Portugal no século XIX.

É fundamental apontar, inicialmente, as manifestações em prol de uma nova


perspectiva literária, por meio das ações da chamada Geração de 70, entremeadas
por determinadas transformações políticas e econômicas. A Geração de 70,
formada por artistas já desde o decênio anterior, assistia à solidificação do
Liberalismo em Portugal, isto é, a propagação de certos ideais, como a liberdade
de religião, o livre comércio e a propriedade privada, por exemplo. O ideal de
progresso tornava-se a bandeira de luta, tanto nos meios sociais quanto no âmbito
artístico. Contudo, vale salientar que, diante de uma visão progressista da nação
e de certa prosperidade – que alguns irão afirmar como apenas passageira –, as
instituições e a população, especialmente a agrária, sentiram a estagnação da
nação portuguesa frente aos demais países europeus.

De acordo com alguns teóricos da literatura, foi com um grupo de jovens


artistas que os sinais de uma renovação da literatura portuguesa começaram
a despontar, por meio da conhecida Questão Coimbrã, em que estudantes e
escritores de Coimbra reuniram-se em defesa de uma nova posição artística.
Somada à Questão Coimbrã, indispensável também é a menção às Conferências
Democráticas e ao Cenáculo, pequenos grupos de discussão e planejamento
artístico que, bebendo nas águas das discussões Europa afora, incluíam Portugal
no roteiro dos debates. Sublinhamos que o projeto das Conferências não era
restrito a exposições de caráter artístico, ou melhor, o intuito das Conferências não
era apenas dialogar sobre os rumos da arte portuguesa, mas também envolvia
projetos de transformações sociais, morais e políticas do povo.

Assim, em tais projetos de transformações estéticas e sociais, encontramos


alguns nomes, como o de Eça de Queirós, Antero de Quental, Oliveira Martins,
etc. Autores que, percebendo as oscilações do contexto em que estão inseridos,
lançam, em Portugal, uma nova forma de ver e construir os textos artísticos
que, agora, deixam de lado a tonalidade de enaltecimento e romantismo, do
momento estético anterior, e partem, então, para uma perspectiva que defendia
uma linguagem coerente à vida do homem, em sua verdadeira essência.

12
AULA 01

3 Tecendo conhecimento

Se é possível alcançar uma máxima do pensamento realista/naturalista, podemos


afirmar que o ideal de representação por meio da observação dos fatos e da
experiência dos fenômenos, semelhante ao trabalho dos cientistas no exame da
matéria, aproxima-se do tópico nodal do movimento. Contudo, para entender as
inovações propostas pelos escritores realistas, faz-se necessária a inter-relação
com o Romantismo, modelo estético anterior ao surgimento e consolidação do
Realismo. Segundo os produtores desse movimento, os textos românticos, em
suas representações, não analisam a figura do homem, ou seja, não eram fiéis à
natureza das pessoas e, assim, inventavam indivíduos distanciados da realidade.
Sobre esse assunto, podemos recorrer ao artigo Idealismo e Realismo, presente
na 1ª edição de O Crime do Padre Amaro, selecionado por Abdala Júnior em
antologia, numa tentativa de ilustrar os então novos procedimentos artísticos.
Segue abaixo o trecho:
Ora aqui tens, meu caro concidadão: supõe que tu queres
ter na tua sala a imagem de Napoleão I passando os Alpes
[...]. Que fazes tu? Chamas dois pintores: um que é idealista
e que vem com sua grenha, o seu casaco de veludo e o seu
chapéu de aba larga, e o outro é realista, e que vem, como
tu, de chapéu alto, com a sua caixa de tintas debaixo do
braço. [...] O pintor idealista arregaça as mangas e brocha-te
imediatamente este quadro: um pícaro de montanha; sobre
este píncaro, um cavalo de proporções heroicas do cavalo
de Fídias, empinado; sobre esse cavalo, premindo-lhe as
ilhargas, Napoleão, de braços e pernas nuas, como um César
romano, com uma coroa de louros na cabeça. Em volta,
nuvens [...]. Durante esse tempo, o pintor realista, tendo
lido a história, consultado as crônicas do tempo, estudado
as paisagens dos Alpes, os uniformes da época, etc., deixou
na tua parede o seguinte quadro: sobre um céu triste, um
caminho escabroso de serra; por ele, resfolgando e retesando
os músculos, sobe uma mula; sobre a mula, Bonaparte,
abafado em peles, com um barrete de lontra e óculos azuis
por causa da reverberação da neve, viaja, doente e derreado.
(ABDALA JÚNIOR, 2007, p. 15).

A descrição acima, com a analogia da pintura, tenta explicar as dessemelhanças


entre as formas de arte que criavam projeções em cima de uma dada realidade,
como forma de representação, e o modo de representação realista, que estaria
comprometido com a averiguação e fidelidade aos eventos observados. Nota-se,
no exemplo acima, que uma pintura de Napoleão Bonaparte pode apresentar
elementos contrastantes a depender da forma de representação. Uma ilustração
13
A produção literária do Realismo/Naturalismo português

pautada em moldes idealizados tende a uma apresentação reforçada de adornos,


projeções e especulação, isto é, a criatividade do artista vai além do que dispõe a
própria realidade ou história dos fatos. Uma ilustração realista, ao contrário, como
é exemplificada acima, preocupa-se com a verossimilhança da representação
em relação aos fenômenos descritos. Dessa forma, se, para o artista idealista, a
figura de Napoleão mereceria uma representação elevada, diante da importância
desse homem para a história, para o artista realista, a representação do mesmo
homem deveria ser fidedigna aos registros históricos sobre o acontecimento
retratado, privilegiando a verificação dos fatos exibidos.

Inseridos nessa nova visão de representação artística, certos ficcionistas alcançam


destaque pela eficiência literária consoante ao movimento, enquanto outros
ainda desenvolvem obras que visam a uma prosa doutrinária, em defesa das
novas perspectivas artísticas, além, é claro, dos poetas, que fazem uma poética
vasta, mas que se unificam por meio de uma visão questionadora do mundo.
Entre os prosadores, podemos destacar Ramalho Ortigão e Oliveira Martins,
como exemplos daquela prosa realista e doutrinária; e Eça de Queirós, que vai
além da doutrinação do movimento e traz críticas à realidade portuguesa, por
meio, essencialmente, de ironias.

É importante marcar que a tal prosa doutrinária foi produzida tendo em vista
as constantes exigências e imposições dos projetos reformistas, que, ao longo
do período realista da literatura, postulavam projetos que necessitavam ser
propagados e cultivados. Sobre a obra doutrinária do escritor Ramalho Ortigão,
Massaud Moisés chegou a afirmar:
Essa “farpa” reflete cristalinamente o espírito e os desígnios de
Ramalho Ortigão. De um lado, observe-se a vernaculidade e
a limpeza da expressão, que parece brotar espontaneamente
da pena do escritor, sem descambar jamais para a enganosa
prosa jornalística, e que mantém o tônus das ideias num nível
quase de ensaio. De outro, note-se que a linguagem guarda
os intuitos sadios e morigerantes de Ramalho, evidentes a
cada linha do artigo: o folhetinista não ataca com azedume,
nem procura compensar-se psicologicamente agredindo o
fadista; somente analisa, com objetividade e precisão, uma
perigosa chaga social, perigosa ao menos no seu tempo.
Ramalho prega a regeneração dos costumes pela extinção
daqueles que infestavam o ar e impediam a outrem de respirar
livremente, e em momento nenhum desce ao escárnio ou à
biliosa ostentação de ira ou de ódio. (MOISÉS, 2006, p. 380).

No excerto acima, Massaud Moisés chama a atenção para a modalidade da


escrita de Ramalho Ortigão. O português, mesmo mantendo o estilo realista de
observação e crítica aos fatos, não se perde num discurso que poderia tender à
14
AULA 01

crítica barata. O texto referido por Moisés é denominado de As Farpas, folhetins


mensais presentes nos jornais portugueses e que tinham como função discutir
as problemáticas sociais do país1. Contudo, como frisou o crítico, Ramalho
Ortigão não cede à linguagem jornalística, seus textos exibem uma linguagem
limpa, com uma vernaculidade organizada com esmero, mas sem excessos,
aproximando da naturalidade de um texto ensaístico. Ortigão, como era de
esperar, escreve tendo em vista as mazelas da vida pública portuguesa. Seus
textos, conforme pregavam os artistas realistas, analisam com objetividade e
precisão tais fenômenos, contudo, sem se deixar levar por mensagens carregadas
de ira ou mero escárnio. Esse tipo de prosa doutrinária, que tinha como função
destrinchar e levar a público as dificuldades do povo e as reflexões de progresso
social e artístico, teve outros adeptos além de Ramalho Ortigão.

Oliveira Martins é outro nome que se encontra vinculado ao movimento realista


e, especialmente, de uma prosa com efeitos de retrato social. Sobre a composição
realista de Martins, Saraiva e Lopes afirmaram:
Oliveira Martins quis fazer das suas obras históricas, além
de uma exposição concatenada de ideias ou de factos, uma
verdadeira ressurreição de mundos desaparecidos. Para
isso, evitou em tais obras a exposição discursiva e adaptou
o processo da sucessão de quadros, referentes cada qual a
um acontecimento relatado de forma pitoresca, com grande
abundância de cores e pormenores e com reconstituições
psicológicas de personagens. O mesmo objetivo o levou a
usar largamente de símbolos: um homem simboliza toda
uma série complexa de factos, às vezes de maneira bem
artificiosa [...]. Oliveira Martins compôs assim verdadeiros
poemas em prosa, organização de um mundo íntimo. As
personagens e os acontecimentos são notas ou motivos
neste fluir musical, vogando na sua corrente, aglomerados
no movimento geral, e não ligados por nexos resultantes
da sua própria realidade. De fato, essas personagens e esses
acontecimentos são “símbolos”, “sombras levantadas pelos
ventos sábios do destino”, segundo uma sua expressão.
(SARAIVA; LOPES, 1978, p. 901).

Assim, podemos afirmar que os textos realistas de Oliveira Martins tentam resgatar
um conjunto da história social do homem, como afirmam os críticos acima. O
ideal de uma sociedade sem classes, advinda por meio de uma evolução social,
tornaria a sociedade uma associação de indivíduos livres. Nota-se, portanto, que
o rigor científico dos textos realistas chega ao ponto de acompanhar o processo
de historiografia. Dessa forma, os textos realistas convocam até mesmo dos
registros históricos ou econômicos às suas reflexões.
1 Eça de Queirós também contribuiu com textos em As Farpas, juntamente com Ortigão.
15
A produção literária do Realismo/Naturalismo português

Oliveira Martins se destaca, nesse contexto, pelo fato de seus textos reunirem
qualidade literária juntamente com o trabalho historiográfico. Torna-se importante
salientar, contudo, que, por mais que seja bem sucedido o entrelaçamento
de literatura e história, arte e ciência, Martins obtém projeção de destaque,
especialmente, no âmbito literário. Além desse fato, deve ser lembrado que a
concepção de ciência e história utilizada por Martins, em grande parte de seus
textos, é alicerçada em discussões teóricas do evolucionismo.

Sendo assim, em obras como História da Civilização Ibérica, é possível perceber


discussões evolucionistas dos homens e das nações, em que as culturas sempre
se transformam e são resultado de um constante processo evolutivo. Todo esse
arcabouço histórico, contudo, conforme mencionam Saraiva e Lopes, é disposto
por meio de uma linguagem que se assemelha à linguagem poética, em virtude
de seus torneios estilísticos, os quais são permeados de discursos detalhistas,
pormenorizados, ressaltando as cores e as reconstituições psicológicas dos
personagens apresentados.

A linguagem de Martins, portanto, não se estagna no discurso histórico discursivo,


mas se projeta, enquanto discurso literário, por meio de uma construção, como
foi dito acima, semelhante a uma sucessão de quadros, chamando a atenção
para cada acontecimento relatado, de forma quase pictórica.

Somando, então, traços estilísticos de Ramalho Ortigão, em sua prosa doutrinária


e de crítica social, e as marcas composicionais de Oliveira Martins, que concilia arte
e ciência em seus escritos, torna-se indispensável, numa tentativa de apresentar
uma unidade às discussões realistas portuguesas, a menção ao nome de Eça de
Queirós, o maior expoente desse movimento literário em terras lusas.

Com Eça, o leitor se depara com críticas às instituições burguesas solidificadas em


bases românticas, além de percepções em defesa do racionalismo e cientificismo,
em detrimento, por exemplo, de antigas doutrinas, como as da igreja católica
que, em diversos momentos, são dispostas pelos narradores queirosianos por
meio de um olhar irônico, revelando a suposta insustentabilidade de antigas
instituições num mundo voltado para o progresso e para o cientificismo. Vejamos
os pontos discutidos por Saraiva e Lopes na obra de Eça de Queirós:
A família aparece viciada pela sua defeituosa constituição [...],
pela ausência de ampla vida social das mulheres, vítimas de
uma educação que as abandona espiritualmente à literatura
romântica, criando nelas o horror à atividade e o gosto
da evasão, origem das aventuras extraconjugais. O clero,
segundo Eça, está desvirtuado por uma defeituosa educação
de seminário, que originaria recalcamentos e um modo de
ser hipócrita, convertendo a religião num condimento de
16
AULA 01

vícios secretos, numa exploração hábil de nevroses, e em


conjunto, servindo a ordem estabelecida, isto é, o estrato
dirigente, representado n’O Crime do Padre Amaro pelo
conde de Ribamar. A política reduz-se a uma intriga de
indivíduos cujos traços fundamentais são a ignorância, a
estupidez e uma menos que mediocridade moral. (SARAIVA;
LOPES, 1978, p. 975).

Cada uma das obras de Eça tenta abarcar alguns aspectos vistos como típicos
da sociedade portuguesa oitocentista. As bases frágeis da formação familiar, a
insustentável formação clerical, a situação de alienação da mulher no século XIX
são tópicos de discussão em seus romances. O livro citado por Saraiva e Lopes,
O Crime do Padre Amaro, é uma amostra de como o escritor português trabalha
os tipos sociais e a constituição das famílias portuguesas.

Ambientado em Leiria, a trama do romance desenvolve-se a partir da paixão de


Amélia, moça ingênua, educada sob os moldes tradicionalistas e religiosos da
época, e o padre Amaro, recém-chegado na cidade. Diante da impossibilidade
de viver às claras essa paixão, em virtude do título de Amaro, os jovens decidem
viver uma relação em segredo. Os encontros amorosos entre Amaro e Amélia
acabam resultando numa gravidez indesejada que, por sua vez, causa a morte
da própria personagem. A discussão levantada pelo romance gira em torno da
incompatibilidade da personalidade do jovem Amaro para o cargo que ocupa,
sendo, portanto, sua atividade exercida não por vocação, mas por uma conjuntura
social que, naturalmente, enviava jovens para o seminário, tendo em vista a
futura ordenação sacerdotal.

Em Eça também é possível perceber mais um dos ensinamentos realistas, como,


por exemplo, a relação entre o espaço físico, isto é, as cidades, as convivências
e o caráter e a formação dos homens. Tal interação almeja exibir como podem
tornar-se variáveis os estados e a moral dos personagens apresentados. Vejamos
um trecho abaixo do romance O Crime do Padre Amaro:

Amaro nessa manhã mandou à pressa chamar a Dionísia, apenas recebeu


o seu correio. Mas a matrona que estava no mercado veio tarde, quando
ele à volta da missa acabava de almoçar. Amaro queria saber ao certo
e imediatamente para quando estava a coisa... — O bom sucesso da
pequena?... Entre quinze a vinte dias... Por que, há novidade? Havia; e o
pároco leu-lhe então em confidência uma carta que tinha ao lado. Era do
cônego, que escrevia da Vieira, dizendo “que a S. Joaneira tinha já trinta

17
A produção literária do Realismo/Naturalismo português

banhos e queria voltar! Eu, acrescentava, perco quase todas as semanas


três, quatro banhos, de propósito para os espaçar e dar tempo, porque
cá a minha mulher já sabe que eu sem os meus cinquenta não vai. Ora já
tenho quarenta, veja lá você. Demais por aqui começa a fazer frio deveras.
Já se tem retirado muita gente. Mande-me pois dizer pela volta do correio
em que estado estão as coisas”. E num post-scriptum dizia: “Tem você
pensado que destino se há-de dar ao fruto?”

— Mais vinte dias, menos vinte dias, repetiu a Dionísia.

E Amaro ali mesmo escreveu a resposta ao cônego, que a Dionísia devia


levar ao correio: “A coisa pode estar pronta daqui a vinte dias. Suspenda
por todo o modo a volta da mãe! Isso de modo nenhum! Diga-lhe que
a pequena não escreve nem vai, porque a excelentíssima mana passa
sempre adoentada”.

E traçando a perna:

— E agora, Dionísia, como diz o nosso cônego, que destino se há-de dar
ao fruto?

A matrona arregalou os olhos de surpresa:

— Eu pensei que o senhor pároco tinha arranjado tudo... Que se ia dar


acriança a criar fora da terra...

— Está claro, está claro, interrompeu o pároco com impaciência. Se a criança


nascer viva é evidente que se há-de dar a criar, e que há-de ser fora da
terra... Mas aí é que está! Quem há-de ser a ama? É isso que eu quero que
você me arranje. Vai sendo tempo...

A Dionísia pareceu muito embaraçada. Nunca gostara de inculcar amas [...].


Mas a Dionísia procurava ainda, arranhando devagar o queixo. Também
sabia de outra. Essa morava para o lado da Barrosa, a boa distância... Criava
em casa, era o seu ofício... Mas nessa nem falar!

— Mulher fraca, doente?

A Dionísia chegou-se ao pároco, e baixando a voz:

— Ai, menino, eu não gosto de acusar ninguém. Mas, está provado, é uma

tecedeira de anjos!

18
AULA 01

— Uma quê?

— Uma tecedeira de anjos!

— O que é isso? Que significa isso? Perguntou o pároco.

A Dionísia gaguejou-lhe uma explicação. Eram mulheres que recebiam


crianças a criar em casa. E sem exceção as crianças morriam... Como tinha
havido uma muito conhecida que era tecedeira, e as criancinhas iam para
o Céu... Daí é que vinha o nome.

— Então as crianças morrem sempre?

— Sem falhar.

É possível perceber, nesse recorte da narrativa, em primeiro lugar, que Amélia,


estando já grávida do fruto daquele amor proibido, ainda esconde a sua gravidez
de todos, inclusive escondendo de sua própria mãe. Amaro, buscando uma
solução para tal questão, uma vez que não poderia se expor e comprometer
sua ordem, vê uma possibilidade de resolução no conselho dado por Dionísia.
Sua confidente revela que há mulheres na província que recebem bebês não
desejados pela família. Contudo, a “ama” que Dionísia comenta com Amaro
possui uma determinada reputação, pois costumava ser conhecida como uma
“tecedeira de anjos”, isto é, as crianças que chegam para seus “cuidados” não
resistiam muito tempo e logo “virariam anjos”. É válido sublinhar, nesse trecho
aqui transcrito, que Amaro não aparenta grandes feições de arrependimento
dos seus atos, os quais seriam considerados impuros pela Igreja; além disso, o
protagonista do romance que, inicialmente nega a entrega de seu filho à tecedeira
de anjos, acaba por fazê-lo. A crítica social expressa em O Crime do Padre Amaro,
mas também no conjunto da obra queirosiana, costuma vir aliada a um tom
irônico, deixando à mercê do leitor as sugestões da fragilidade dos princípios e
da moral dos homens, especialmente daqueles que costumam ser apontados
como exemplares numa comunidade, como seria o caso do personagem Amaro.

Sobre esse tema, Saraiva e Lopes ainda comentam:


Eça de Queirós insiste nos problemas estritamente culturais,
como a literatura e a educação: uma viciosa educação
tradicional e a literatura romântica são as causas dos
desastres de Luísa, como, em parte, dos de Amélia. (SARAIVA;
LOPES, p. 976).

19
A produção literária do Realismo/Naturalismo português

Em linhas gerais, portanto, percebemos como pode ser vasto o conjunto de


obras e estilos inseridos no Realismo português. Porém, mesmo com tamanha
pluralidade, é possível ver seu denominador comum através das representações
incitadas por um espírito coletivo, que privilegiou a observação dos fatos e do
caráter humano e que, ainda, optou por uma linguagem sóbria, espelhada no
rigor científico. Tal ideal de rigor e observação dos fatos, típicos da prosa realista,
também pode ser identificado na poesia desse período – como veremos em aulas
posteriores –, por meio de nomes como o de Cesário Verde e Antero de Quental.

Exercitando

1) Tendo em vista as reflexões de Saraiva e Moisés sobre a ficção de Oliveira


Martins e Ramalho Ortigão, explique, em um breve comentário, de que
forma os escritores inovaram no âmbito artístico.
2) Escolha um trecho do romance O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós,
que você ache significativo e aponte algumas das perspectivas realistas
vistas nesta aula, como, por exemplo, a ironia, as críticas, o apelo ao detalhe
ou a desmistificação das ações dos personagens.

4 Aprofundando seu conhecimento

Para aqueles estudiosos que almejam uma verificação


mais rápida dos textos literários feitos em Portugal,
é possível perceber, no livro A literatura portuguesa
através dos textos, de Massaud Moisés, uma compilação
de obras e autores de diversas épocas no contexto
português. Salienta-se que tal livro não traz à tona
grandes discussões críticas, servindo, principalmente,
Figura 1
como livro de consulta a algumas obras literárias.

Aos estudantes que gostam de uma referência a mais


no estudo das obras literárias, é válida a pesquisa da
adaptação do livro O Crime do Padre Amaro para o
cinema. O filme com direção de Carlos Carrera pode ser
visto como uma referência aliada às discussões literárias.
Figura 2

20
AULA 01

5 Trocando em miúdos

Como foi visto nesta aula, o movimento realista português deve ser inserido em
um contexto histórico marcado por profundas transformações. A perspectiva
de uma nação mais desenvolvida social e tecnicamente surge em Portugal e
desponta uma série de movimentações no âmbito artístico. A Questão Coimbrã e
as Conferências tornam-se referências para as discussões sobre a comunidade e os
caminhos da literatura portuguesa. Nomes como Ramalho Ortigão configuram a
chamada prosa doutrinária, que tinha como característica marcante a divulgação e
as duras críticas às problemáticas enfrentadas pelo povo português, em discursos
que primavam pela objetividade e pormenorização dos fatos relatados. Oliveira
Martins, como vimos, também é nome de destaque entre os escritores realistas,
e, por sua vez, produz uma obra em que o discurso científico e histórico se unem
a uma forma de linguagem tão descritiva que, segundo autores, assemelha-se
mesmo a uma verdadeira pintura. Como terceiro exemplo de escrita realista,
temos Eça de Queirós, o grande expoente do Realismo português, romancista (e
contista), autor de uma obra referencial para o entendimento desse movimento
literário, pois consegue reunir, nos seus romances, as inovações propostas
por essa nova estética, como a apresentação de personagens tipos, a crítica
ao tradicionalismo romântico e o questionamento dos alicerces da sociedade
burguesa de Portugal.

6 Autoavaliando

a) Após as discussões desta aula, eu consigo estabelecer princípios


do movimento realista português?
b) É possível perceber inovações artísticas nos escritores apresentados
ou eles apenas repetem os seus antecessores?
c) Qual(is) contribuição(ões) esta aula trouxe para a minha formação
literária na condição de (futuro) professor?

21
A produção literária do Realismo/Naturalismo português

Referências

ABDALA JÚNIOR, Benjamin. Literaturas de Língua Portuguesa: marcos e


marcas. São Paulo: Arte & Ciência, 2007.

QUEIRÓS, Eça. O Crime do Padre Amaro. Porto Alegre: L&PM, 2006.

MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa através dos Textos. 32. ed. São
Paulo: Editora Cultrix, 2006.

SARAIVA, António José; LOPES, Oscar. História da Literatura Portuguesa. 10.


ed. Porto: Porto Editora, 1978.

22
AULA 01

23

Você também pode gostar