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Tecnologias da

Esperança Um estudo sobre


o Futuro do Trabalho
Índice
1. INTRODUÇÃO

2. PASSADO
O Pendurado

3. PRESENTE
A Torre
O Julgamento
A Roda da Fortuna

4. FUTURO
O Mundo

5. CONCLUSÃO

6. BIBLIOGRAFIA

7. CRÉDITO DAS IMAGENS


O título do livro de estréia de Cesare Pavese, um dos
autores italianos mais importantes do século XX, traz
uma máxima do senso comum que quase todo mundo
deve concordar:


Trabalhar
Cansa

Não só autores consagrados e pensadores reconhecidos, mas também
os mais diversos perfis de pessoas vivem e sofrem no dia a dia os pra-
zeres e agruras do universo do trabalho. Por isso, no estudo da GNT de
2020/2021, buscamos trazer uma pluralidade de vozes que dê conta de
transmitir os desafios que as pessoas vivenciam para ganhar o pão de
cada dia e quais são os caminhos possíveis para se chegar a um futuro
do trabalho inclusivo e sustentável para a sociedade e para o planeta.

Mas é claro, trabalho não é só sobre o que as pessoas dizem, também


é sobre pagar boletos… E nesse sentido não está fácil para ninguém.
A economia está instável e desde meados de 2014 parece que o tem-
po parou. Vemos altos índices de desemprego e não está em um bom
momento para se negar trabalho. A flexibilização veio com força sob a
forma de redução dos direitos dos trabalhadores, novas políticas de
austeridade do Estado e novas formas de contratação.

Segundo Jonathan Crary, o atual sistema econômico mundial impõe


progressivamente um ritmo de vida sem pausas, calcado na lógica de
produtividade. Tornar nossas horas as mais úteis possível é o gran-
de imperativo contemporâneo. Já não há mais separação clara entre
trabalho e lazer, precisamos (e muitas vezes queremos) estar sempre
conectados. Para Crary, o sono seria a última fronteira a ser conquis-
tada, um espaço de tempo a ser transformado em algo rentável.
A pandemia do novo coronavírus trouxe mudanças significativas no
mundo do trabalho, antecipando tendências que vinham sendo grada-
tivamente implantadas como o home office e a seleção de profissio-
nais de forma totalmente online. Muitos trabalhadores mal remunera-
dos, cujos salários estagnaram diante do declínio do poder sindical e
de uma mudança nas relações de emprego, provavelmente verão sua
renda ser corroída ainda mais à medida que as fileiras dos desempre-
gados aumentam.

Susan Hayter, consultora técnica sênior sobre o futuro do trabalho


na Organização Internacional do Trabalho (OIT) ressalta que, histori-
camente, choques econômicos, pandemias e guerras exacerbaram a
desigualdade. E a grande questão agora é se haverá crescente insta-
bilidade política e social ou a busca por princípios de solidariedade e
tomada de decisão democrática que levem mercados e locais de traba-
lho na direção da igualdade.

O medo e a desconfiança estão cada vez mais latentes, deixando o futu-


ro cada vez mais incerto. Nesse cenário conturbado, como ver o futuro
a partir de tantas flutuações? Para dar conta desse desafio, o jeito foi
apelar para a única tecnologia capaz de dar respostas precisas sobre
o futuro… o Tarô!

Ao longo deste estudo vamos usar esta tecnologia para ler o que as
cartas nos contam sobre o Passado e Presente do trabalho e, final-
mente, chegarmos em caminhos e ferramentas para construirmos um
futuro desejável da nossa relação com o trabalho, indo além disso, um
futuro desejável em sociedade.
O Pendurado
A
carta que nos ajuda a resgatar como
construímos historicamente nossa
relação com o Trabalho é a carta
do Pendurado. O Enforcado ou Pendurado,
representa o auto-sacrifício e a busca por
reconhecimento, questões que estão intrin-
secamente ligadas à gênese do conceito de
Trabalho.

Como nos conta a letróloga Rita Von Hunty:

“ A palavra trabalho se origina da palavra


Tripalium, algo como 3 paus. O tripalium era um
instrumento de tortura utilizado durante o Império
Romano, composto de 3 estacas de madeira nas
quais alguém era amarrado e torturado. O tripalium
era um instrumento para o qual as pessoas que

"
não conseguiam pagar impostos iam.

Para além da etimologia da palavra, uma


definição que nos ajuda a pensar o conceito
de trabalho é a do geógrafo David Harvey.
Para ele, o trabalho reflete o processo de

transformação
das coisas
pela ação
humana.
Essa transformação anula o valor de uso existente e
cria um valor de uso alternativo. Ou seja, a essência
do trabalho está no processo de transformação.

Mas bem antes de chegarmos a essa definição, a ideia


de Trabalho passou por várias outras transforma-
ções. Vamos entender através de uma linha do tempo.

O trabalho é

ADÃO Bíblia uma punição divina!


E EVA

Reforma …a salvação!
1517 Protestante
…emprego e perícia!
…a nossa identidade!

~ Revolução …rotina e burocracia!


1800 Industrial …compromisso, lealdade e confiança!

~ Novo …produtividade e flexibilidade!


1960 Capitalismo
…amadorização!
…humanização e desumanização!

~ Revolução …serviço e digitalização!


1980 Digital
…produção de dados!
…consumer centric!

~ Plataformização …serviço e digitalização!


2010 +Pandemia
…produção de dados!
…consumer centric!

O que podemos constatar, chegando aos dias de hoje, é que muitas


vezes diversos desses discursos sobre o que é trabalho e sua im-
portância na vidas das pessoas se misturam e convivem, deixando
mais complexa a experiência vivida pelos indivíduos na sua relação
com a esfera produtiva.
O que
nos mostra
O Pendurado?
Como aprendizado, a carta do Pendurado nos con-
vida a refletir sobre como ao longo do tempo, o tra-
balho foi ficando cada vez menos sobre colaboração,
confiança e lealdade. E mais simplesmente sobre a
gestão da vida. Como fazer para trazer o significado
do trabalho de volta ao trabalhador, é algo que preci-
samos descobrir.
A Torre
A
primeira carta que vai nos ajudar a enten-
der o presente é "A Torre". Seu significado
é o desmantelamento de falsas estruturas
e a libertação das ilusões. Ela é perfeita para dire-
cionar nosso olhar para aquele lugar que não que-
remos ver. Para além óbvio. Através da Torre, vamos
tentar entender a fundo como o mundo do trabalho
está estruturado hoje. Entender a realidade é essen-
cial para que tenhamos ferramentas para pensar o
futuro que queremos :)

Quando levamos nosso olhar para o mundo do traba-


lho notamos que não param de pipocar termos como
a tal da gig economy (economia dos bicos), flexibiliza-
ção e uberização - mas a verdade é que para muita
gente a informalidade e a economia dos bicos sempre
foi a regra.
Pensa no Ronaldo, ex-segurança que agora é motorista
particular e nos finais de semana dirige para aplicativo.

Ou na Cida, que foi empregada doméstica depois de ser


vendedora ambulante e hoje é cuidadora de idosos.

Na Isis, que antes era manicure, que hoje é diarista e


está terminando o curso de técnica de enfermagem.
Ela também é revendedora de cosméticos para uma
grande empresa, e está sempre vendendo produtos
para as colegas do curso, para as filhas da patroa,
para as vizinhas e também comprando algumas coi-
sinhas para uso pessoal.

Pois é. Essa realidade é tão comum no Brasil, que a


socióloga Vera Telles cunhou nos anos 2000 um con-
ceito próprio para endereçar o fenômeno: a chama-
da “viração”.
O QUE
É VIRAÇÃO?
É a adesão de forma instável e sempre transitória às
mais diversas ocupações e atividades como meio de
sobrevivência. É um constantemente agarrar-se às
oportunidades, como forma de “se virar”!

Ela é marcada pela alta rotatividade de trabalho, pela


combinação de diferentes bicos passageiros e per-
manentes, e pelo constante trânsito entre o traba-
lho formal e informal - que por vezes podem também
existir simultaneamente.

É algo que as estatísticas não mostram nem conta-


bilizam, mas é constitutivo do mercado de trabalho
brasileiro desde sua formação. Está presente em es-
pecial dentre os trabalhadores de baixa qualificação
e rendimento.

Isso significa que a flexibilização então sempre exis-


tiu? Ela certamente não é novidade. Mas vamos voltar
um pouquinho para entender como chegamos aqui.
HERANÇA
DA ESCRAVIDÃO
Para entender direito essa história temos que olhar
para formação do Brasil, que se deu através do colo-
nialismo e, principalmente, da escravidão.
Precisamos considerar, para termos um conheci-
mento sobre as raízes históricas do mercado de tra-
balho do país, que até 1888 a economia baseava-se
na escravidão.

No Brasil escravista do início


do século XIX, os escravizados
representavam mais da
metade da população do país!

A abolição da escravatura se deu sem nenhuma po-


lítica de Estado de inclusão social ou econômica, dei-
xando à própria sorte pessoas que até então tinham
vivido em regime de escravidão, arrancadas de sua
história e cultura e separadas de suas redes e fa-
mílias. Com isso, o Brasil passou de um mercado de
trabalho escravocrata para um formalmente livre,
mas manteve todas as virtualidades do escravismo
na nova situação.

O que vemos hoje é que a escravidão continua pro-


jetando suas sombras. As ocupações que eram dos
escravos, hoje são ainda ocupadas pelos herdeiros
diretos da escravidão. É o caso da empregada do-
méstica e do entregador de compras de supermer-
cado, para citar alguns exemplos.

O que vemos no Brasil, portanto, é que a informalida-


de sempre foi uma realidade, em especial para pes-
soas negras e de classes mais baixas.
MAS ENTÃO
QUAL É
A NOVIDADE?

Hoje estamos vendo a generalização da in-


formalidade e da precariedade para um es-
trato da população que tinha um emprego
formal: as classes médias e com grau mais
alto de escolaridade.

"
Tínhamos a ideia da classe
média como algo sólido, e hoje
ela se tornou algo instável.

"
ALI S S A QUAR T

Com o enfraquecimento dos sindicatos e o


avanço da riqueza dos 1% mais ricos, vamos
vendo a flexibilização tomar formas mais
sofisticadas e ganhando novas maneiras de
gestão, organização e controle do trabalho.
Em 2017, pela primeira vez
na história do país, o número
de pessoas que trabalham
sem carteira assinada e
por conta própria superou
o contingente das que traba-
lham com carteira assinada.

ANO Número de pessoas Número de pessoas Número


com carteira assinada sem carteira assinada de trabalhadores
(mil pessoas) (mil pessoas) por conta própria

2012 34.752 10.907 20.508

2013 35.889 10.657 21.167

2014 36.350 10.420 21.637

2015 35.268 9.975 22.790

2016 33.894 10.457 22.021

2017 33.237 11.056 23.110

2018 32.942 11.488 23.775

2019 33.213 11.500 24.141


Fonte: IBGE, 2019
E não é por mera coincidência que tal marca foi atin-
gida no mesmo ano em que se aprovou a reforma
trabalhista, que introduziu mudanças profundas na
organização do trabalho - dentre as quais a chancela
para facilitação de contratação de autônomos.

Mas quando a gente fala que o número de pessoas


que trabalham por conta própria aumentou, isso sig-
nifica que temos mais empreendedores?

A questão é que quando falamos desse novo tipo de


empreendedor, estamos falando na verdade de pes-
soas que trabalham por conta própria e assumem
todos os custos e riscos da sua atividade sem nenhu-
ma proteção trabalhista. E estamos falando de mui-
ta gente. Para se ter uma noção, hoje o número de
pessoas trabalhando via aplicativos supera a maior
empregadora do país, que é a empresa dos Correios.

Maior empregador
direto do Brasil:
104 mil funcionários
diretos nos Correios
Fonte: Correios, 2019

“Colaboradores”
de apps: 4 milhões
Fonte: Estadão Conteúdo , 2019
Essa nova faceta da precarização, que também pode
ser chamada de plataformização ou uberização, tem
algumas características específicas. Vamos passar
por algumas características principais que marcam o
conceito, e veremos que muitas estão longe de ser no-
vidade ou de ser exclusivas do trabalho por plataforma.

Em primeiro lugar, podemos observar que há uma in-


distinção entre o que é trabalho e o que não é traba-
lho e também entre o que é local de trabalho e não é.
As esferas vão se dissolvendo.

Aquele motorista ou entregador de aplicativo que está


disponível para o trabalho e esperando uma chamada
– enquanto ele espera ele está trabalhando?

E as funcionárias de uma empresa, quando rece-


bem um e-mail de trabalho no celular fora do horário
de expediente?

A resposta não é simples. E nos leva a outra pergunta:


precisamos estar sempre à disposição?

A próxima característica da uberização é que o tra-


balhador passa a ser just in time, ou seja: sempre
a postos para o próximo job. Ele trabalha de acordo
com a demanda do mercado e é remunerado exata-
mente pelo que produz. Se precisar, é acionado, se
não, fica esperando. Isso é viabilizado pelo Isso é via-
bilizado pelo gerenciamento algoritmico.

Isso nos leva ao próximo ponto, a transferência de


custos e riscos para o trabalhador. Ele tem que li-
dar com os custos de todos os instrumentos que vai
precisar utilizar para o trabalho, incluindo compra
de equipamentos, manutenção, reparos e arcar com
possíveis perdas.
Para entender melhor esses custos, vamos olhar mais de perto o caso
dos entregadores bike boys. A “Pesquisa do Perfil dos Entregadores
Ciclistas de Aplicativo”, conduzida pela Associação Aliança Bike em
2019, mostrou que apenas 5% dos entregadores não realizaram ne-
nhum investimento para iniciar a prestação de serviços. Ainda:

• 27% tiveram despesas com conserto ou manutenção;


• 31% compraram uma bicicleta;
• 59% alteraram o plano de dados do celular;
• 67% precisaram comprar a mochila térmica que armazena os
produtos a serem entregues.

Parte dos entrevistados (16%) também alegou ter realizado despesas


em relação a acessórios para bicicleta (ex: farol, lanternas de ilumina-
ção, capacete, capa de chuva, bateria portátil, etc).

Estes são os custos, mas quais são os riscos? Bom, com a eliminação de
todos os direitos e segurança do trabalho e proteções, o trabalhador
uberizado não tem nenhuma garantia de retorno destes investimentos
e não sabe nem mesmo quanto vai receber no final do mês. Sem vínculo
empregatício, as proteções trabalhistas, como licença médica, licença
maternidade, direito à aposentadoria, não se aplicam a ele.
E ELE É CHEFE
DE SI MESMO?

A Ludmila Abílio, socióloga e referência nacional quando o tema é ube-


rização, vai dizer que na verdade ele é um autogerente subordinado.
Ele é gerente de si mesmo, mas suas decisões são limitadas, já que
ele é inteiramente subordinado às regras da empresa. É a Plataforma
que define o preço e controla todo o processo, inclusive se o trabalha-
dor é chamado ou não, e pode até aplicar punições. O que se vê é que
as regras das empresas-aplicativo muitas vezes não são claras para
esses colaboradores.

Algo semelhante acontece com os influenciadores digitais, nesta que é


hoje a “carreira” mais desejada por crianças. Pesquisa realizada pela
Lego em 2019 investigou o que crianças de 8 a 12 anos querem ser
quando crescer e descobriu que YouTubers e vlogueiros foram as
respostas campeãs. No entanto, quem busca viver disso, por vezes se
depara com vídeos que floparam, ou que não são classificados como
monetizáveis - após horas de dedicação e planejamento.

O que vemos nesses casos é uma multidão de milhões de pessoas tra-


balhando para uma empresa, sem configurar relações de trabalho,
mas que são subordinadas a ela. O termo utilizado para nomear essa
situação é o Crowdsourcing.

O termo foi cunhado em 2008, pelo jornalista Jeff Howe. O outsour-


cing, em português terceirização, teria chegado ao seu novo estágio e
a crowd, multidão, passou a se constituir como a nova fonte das ter-
ceirizações. Navegando na celebração da economia compartilhada,
o autor desvendava a enorme transferência de trabalho das empre-
sas para os usuários navegantes do ciberespaço. Dentro do contexto
da plataformização, o crowdsourcing aparece como uma forma de dis-
persar o trabalho enquanto mantém o controle sobre ele.
Em suma, Ludmila vai afirmar que o trabalhador uberizado não possui
capital e nem os meios de produção. Ele tem apenas os instrumentos
de trabalho - quando os tem. Os meios de produção, neste caso, são a
própria plataforma e o gerenciamento algoritmo. Ou seja, o poder de
controlar e determinar todas as regras de trabalho.

Ok, já entendemos que tem muita treta por aí. Mas isso significa que es-
ses trabalhadores são infelizes? Que querem voltar ao mercado formal
e trabalhar das 8h às 17h? Não necessariamente.

Para alguns, não há muita opção. Para outros, a plataformização e a in-


formalidade podem ainda parecer a alternativa menos pior. A despeito
do que vimos, essa vida por conta própria ainda dá a alguns trabalha-
dores certa sensação de liberdade para organizar o seu trabalho da
forma que melhor lhe convém. Além, é claro, do sentimento de ser seu
próprio patrão.
ENTÃO COMO
FICAMOS?

Com poucas garantias legais, com o achatamento


da classe média e com a generalização das caracte-
rísticas da uberização, o que vemos é que cada vez
mais a precariedade pode atingir todos os setores.
Mesmo aqueles serviços que ainda estão sob a ló-
gica da perícia: médicos, advogados, trabalhadores
intelectuais diversos.

Precisamos olhar para todos esses processos com


mais senso crítico e de forma menos naturalizada.
Entender como estão se estruturando as relações
de trabalho permite que pensemos o que queremos
para o futuro.

Chegando ao final desse capítulo, a reflexão que fica


é: como combater a lógica da flexibilização que se ge-
neraliza cada vez mais e aprofunda as desigualdades?
O Julgamento
A
segunda carta que nos convida a pensar o presente é
a carta do julgamento! E ela vai nos ajudar a entender
questões de gênero. Vamos começar nos perguntando:
ainda existe isso de trabalho de homem e trabalho de mulher?

A carta do Julgamento representa o olhar sobre o certo e o


errado e quais são as transformações necessárias. Muito
propício também falar de julgamento quando se trata das mu-
lheres, uma vez que elas são as mais julgadas pela sociedade
em suas ações.
O QUE NÃO VAI BEM
NO TRABALHO DAS
MULHERES?

É difícil pensar em uma rotina comum a todas as mulheres porque mu-


lheres não são um grupo homogêneo de pessoas. Quando pensamos
em uma mulher, precisamos entender as diversas questões sociais
e estruturais que vão atravessar a sua realidade, como classe, raça,
idade, se ela mora no centro ou na periferia, na capital ou no interior,
na região sul, centro-oeste ou norte, se tem ou não tem família, pode-
ríamos continuar para sempre. Mas ao olhar de perto para as rotinas
dessas diferentes mulheres possíveis e reais, há algo que elas têm em
comum. Todas são de alguma forma responsáveis pelo trabalho repro-
dutivo. Seja em suas casas ou por vezes até mesmo reproduzindo esse
comportamento nos seus locais de trabalho.

Mas o que é o trabalho reprodutivo? É o trabalho com a reprodução


da vida. Cuidar dos filhos, cuidar da alimentação, cuidar da limpeza,
cuidar dos idosos, cuidar dos enfermos. O que chamamos de trabalho
reprodutivo é um trabalho de gestão da vida. No entanto, muitas vezes
não é nem visto como trabalho.

Mas o que faz as mulheres serem as responsáveis por esse conjunto


de atividades? Uma tendência biológica? Uma vontade altruísta? Nada
disso. A explicação nada tem a ver com a biologia ou mesmo com a ca-
pacidade biológica de gerar filhos.
“ O que faz as mulheres serem
responsáveis pelo conjunto de atividades
reprodutivas é um movimento social
da naturalização de que essas
são tarefas 'de mulheres'.
S I LV IA F E DE R ICI ,
filósofa e escritora "

Esse trabalho foi socialmente transformado em um atributo natural da


psique e personalidade femininas. Ele foi transformado em uma neces-
sidade interna, uma aspiração supostamente vinda das profundezas
da natureza feminina, em vez de reconhecido como trabalho.

Às vezes soa como um disco quebrado falar sobre o tal "trabalho de mu-
lher", já que não é de hoje que mulheres atuam no mercado de trabalho
seja ele qual for e, mais do que isso, hoje temos alguns grandes exem-
plos de mulheres ocupando espaços representativos em empresas.

Mas quando a gente aumenta a lente, é difícil não perceber as barrei-


ras e expectativas que ainda são colocadas às mulheres no desempe-
nho de suas funções. O trabalho doméstico cabe significativamente às
mulheres e, para além do ambiente privado, percebemos uma certa
miopia da sociedade em aceitar mulheres ocupando cargos de lideran-
ça, que por serem de chefia, contrastam bastante com o que é imagina-
do como “lugar de mulher”.

Se compararmos a casa com uma grande empresa, veremos que, na


grande maioria dos casos, são elas que planejam, organizam, antevê-
em possíveis falhas ou problemas e têm em conta todos os detalhes
e a interação das partes. Mas além desse trabalho de planejamento,
as mulheres também são as que colocam a mão na massa: cozinham,
limpam, cuidam dos outros, colocam a máquina de lavar roupa para
funcionar, fazem as compras ou tiram o lixo.

A intelectual Lélia Gonzalez chama a atenção ainda para o fato de que


muitas vezes essas atividades são imateriais e não quantificáveis, en-
volvendo inclusive relações de afeto, como o “preocupar-se com...”.
Em 2018, as mulheres
dedicaram, em média,
21,3 horas por semana
com afazeres domésticos
e cuidado de pessoas – Mesmo trabalhando fora,
o dobro do que os homens a mulher cumpria
gastaram com 8,2 horas a mais em
as mesmas tarefas. obrigações domésticas
que o homem
também ocupado.
Fonte: PNAD Contínua, 2018

Fonte: PNAD Contínua, 2018

Três em cada
10 pessoas no Brasil
admitem que se sentem
desconfortáveis em ter
uma mulher como chefe.

Fonte: Ipsos 2019

O que esses dados nos ajudam a observar é que o "lugar da mulher" se


expandiu para o mercado de trabalho - formal e informal. Mas o "lugar
dos homens" não entrou para dentro das casas para a reprodução da
vida. Este lugar continua caindo quase que integralmente nas costas
das mulheres, sem que seja reconhecido como trabalho!

O conceito de divisão sexual do trabalho nos ajuda a entender isso me-


lhor. Trata-se, como explica a socióloga e pesquisadora Helena Hirata,
de uma divisão do trabalho social decorrente das relações sociais en-
tre os sexos.

A divisão sexual do trabalho historicamente separa o que seriam “tra-


balhos de homens” e “trabalhos de mulheres”, e estabelece que os
trabalhos de homens “valem” mais do que os trabalhos das mulheres,
criando uma hierarquia.
AS MULHERES
ENTRARAM
PELA PORTA
DOS FUNDOS
DO TRABALHO

Algumas das manifestações da divisão sexual do trabalho


podem ser observadas na diferença salarial entre homens e
mulheres, no afunilamento hierárquico dentro das maiores
empresas do país e em como as atividades majoritariamente
desempenhadas por mulheres são as relacionadas ao cuida-
do, sendo também as mais desvalorizadas.
A presença feminina
nas empresas sofre
um afunilamento a medida
em que a hierarquia sobe

Conselho de Administração 11,0%

Quadro Executivo 13,6 %

Gerência 31,3 %

Supervisão 38,8 %
Sob a perspectiva
Quadro Funcional 35,5 % de raça, as mulheres
negras são apenas
Trainees 42,6 % 1,6% da gerência
e 0,4% do quadro
Estagiários 58,9 % executivo.

Aprendizes 55,9 % Fonte: Instituo Ethos

Soma-se a isto o fato de que em momentos de crise as mulhe-


res são expulsas mais rapidamente do mercado de trabalho.
As políticas de austeridade do Estado acabam por recair so-
bre as mulheres - essencialmente mulheres negras, que se
esticam para conciliar as lógicas do mercado e do cuidado
da vida. Por um lado, a pressão das políticas de austeridade
joga a reprodução ainda mais para a família, concentrando
em mulheres mesmo alguns aspectos que as políticas públi-
cas haviam incorporado em alguma medida (por exemplo, a
creche). Por outro lado, os empregos das mulheres são fre-
quentemente os mais vulneráveis.
Mulheres são
maioria nas pessoas
subocupadas (53,1%)

Fonte: Pnad contínua, 2019

No Brasil, 47,8%
das mulheres negras
têm trabalho informal

Fonte: Síntese dos indicadores


sociais do IBGE

No total de subutilização
da força de trabalho,
que alcançou 28,3 milhões
de pessoas no primeiro
trimestre, as mulheres
compuseram a
maioria (54,5%).

Fonte: Pnad Contínua, 2019

Mulheres são maioria


nas pessoas
desocupadas (52,6%)

Fonte: Pnad Contínua, 2019

Um total de 7 milhões
de mulheres deixaram
o mercado de trabalho
no início da pandemia.
SE É TRABALHO,
QUANTO VALE?

Em outras palavras, a sociedade empurrou para as


mulheres essa atribuição de lidar com a vulnerabi-
lidade dos seres humanos e suas necessidades, ao
mesmo tempo, desvalorizou essa responsabilidade,
destituindo dela o reconhecimento enquanto traba-
lho, como se fosse algo natural da mulher. Isso ocul-
ta seu nexo econômico com a produção.

Explicamos: estudos apontam que o trabalho repro-


dutivo não remunerado executado por mulheres
e meninas equivale hoje globalmente a no mínimo
10.8 trilhões de dólares por ano! Sim, são 12,5 bi-
lhões de horas trabalhadas gratuitamente. (Fonte:
OXFAM, 2020)

A falta de reconhecimento e de remuneração signifi-


ca que nem as empresas nem o Estado precisam adi-
cionar aos salários e aos benefícios dos funcionários
o valor de tudo aquilo que é feito gratuitamente no
âmbito do lar - como refeições, cuidados com filhos,
idosos e enfermos, limpeza, etc.

Assim, a reprodução de seres humanos é na reali-


dade o fundamento de todo sistema político e econô-
mico de nossa sociedade, e a imensa quantidade de
trabalho doméstico remunerado e não-remunerado,
realizado por mulheres dentro de casa, é o que man-
tém o mundo em movimento.
O futuro do trabalho precisa
romper com a dicotomia
entre trabalho produtivo
e reprodutivo e entendê-los
como interdependentes.

É essa relação de dependência que o mundo conseguiu alie-


nar, como se não dependêssemos dessas mulheres. É como
se o trabalho reprodutivo fosse tão desvalorizado que parece
que qualquer um pode fazer, parece dispensável, e tanto não
é que existe um contingente de mulheres mal pagas (quando
pagas ) para realizá-los.

Dentro do contexto da pandemia, quando tudo parou, o invisível


passou a ganhar certa visibilidade. Com a louça empilhando,
o pó acumulando e as crianças precisando de cuidados, tor-
nou-se evidente a importância do trabalho reprodutivo para
a manutenção da vida. Mas mais uma vez foram as mulheres
que se esticaram para conciliar as demandas do mercado
de trabalho com as demandas da casa, e a sobrecarga delas
aumentou muito. Com creches fechadas, a participação das
mulheres no mercado de trabalho reduziu drasticamente.
QUEM SÃO
AS MULHERES
QUE ABREM
A CIDADE?

Além do trabalho reprodutivo não remunerado, existe


também aquele que é sub-remunerado e feito longe
dos olhos das classes média e alta. É trabalho daque-
las que a cientista política Françoise Verges chama
de as mulheres que abrem a cidade.

São as milhares de mulheres, geralmente negras, que


moram nas periferias das cidades. Todos os dias elas
acordam cedo e atravessam grandes deslocamentos
para garantir a limpeza e organização dos espaços
que são necessários pra vida funcionar: hospitais,
escolas, universidades, escritórios, comércios, aca-
demias, bancos, etc. Esse trabalho, indispensável
para a garantia da vida cotidiana, permanece invisí-
vel e anonimizado em uniformes.

Ao mesmo tempo há as mulheres que chegam cedo


em casas de famílias para cuidar das tarefas do lar
e assim garantir que outras mulheres, geralmente
brancas e de classes mais altas, possam se libertar
destas atividades domésticas.

Assim, a sociedade inteira é sustentada por esses


trabalhos que ocorrem majoritariamente sob con-
dições precárias, com baixa remuneração e social-
mente desvalorizados, sem dar amparo social para
essas mulheres.
O que chama a atenção a partir da terceirização do trabalho reprodutivo

é que este
trabalho não
tem só gênero,
mas tem
classe e raça.

Destituídas de condições mínimas de reprodução


da vida, as mulheres, principalmente as negras e de
classes baixas, se vêem diante de escolhas trágicas
no mundo do trabalho. As únicas portas que perma-
necem abertas são as dos trabalhos precarizados,
onde se combinam a informalidade, riscos à saúde,
invisibilidade, baixos salários, violência e sexismo.

“ O trabalho doméstico é uma


das principais formas de inserção
das mulheres negras no mercado
de trabalho e esse trabalho
marca uma experiência
da escravidão persistente.

LÉ LIA G ON Z ALE Z ,
antropóloga, professora e ativista. "
O que faz com que essas mulheres negras sejam designadas para es-
sas funções também não é um “lugar natural” mas sim a dimensão his-
tórica da escravidão, como já vimos no capítulo anterior. Para que haja
uma reconfiguração, é preciso uma quebra de ciclo.

“ Minha avó foi doméstica,


minha mãe foi doméstica,
eu fui doméstica.
O trabalho doméstico
não pode ser a única condição
da mulher preta.

PR E TA R AR A ,
Historiadora e Rapper "

Chegando ao fim deste capítulo, entendemos toda a importân-


cia do trabalho realizado por mulheres. Um trabalho invisibili-
zado e desvalorizado, mas que é essencial para a engrenagem
do sistema se mover. O que a carta do Julgamento nos leva a
refletir é sobre

como visibilizar
e valorizar
o trabalho marcado
por gênero e raça?
A Roda da Fortuna
U
m assunto que não poderia faltar quando falamos do
futuro do trabalho: tecnologia e automação. Alguns es-
pecialistas como Peter Frase, autor do livro 4 futuros,
apontam para a automação como responsável por uma Crise
da Abundância. Em que muito trabalho será realizado com um
contingente mínimo de mão de obra humana. Mas será que os
robôs vão mesmo roubar nossos empregos?
A RODA
DA FORTUNA
A carta que nos ajuda a responder essa pergunta é A Roda da
Fortuna, que representa obviamente a abundância, o sucesso,
a fortuna, mas também nos convida a perguntarmos quem ou o
que faz essa roda girar.

O que está além


da superfície da
automação?
Nosso imaginário sobre inteligência artificial está recheado
de cabeças robôs humanóides que vão roubar nossos empre-
gos e realizar todo tipo de tarefa para nós e no nosso lugar.

Essa preocupação não deixa de ter um fundo de verdade, afi-


nal segundo relatório do Fórum Econômico Mundial a pande-
mia de Covid-19 acelerou a chegada do futuro do mercado de
trabalho e pode resultar em até 85 milhões de vagas a menos
em 5 anos devido à automação.

No Brasil as empresas relatam digitalização de processos da


rotina de trabalho e a criação de oportunidades de trabalho
remoto, além de aceleração na automação de tarefas, requa-
lificação de funções (52%) e mudanças temporárias nas fun-
ções de empregados (40%). 68% relataram ter mudado de es-
tratégia devido à pandemia.
GHOST WORK –
O OUTRO LADO DA
DISCUSSÃO SOBRE
AUTOMAÇÃO

Embora as discussões estejam em torno de robôs e


pessoas perdendo seus empregos, pouco se fala so-
bre a multidão de trabalhadores invisíveis que fazem
exatamente o contrário…

“ Falamos de robôs e perda


de empregos, mas não falamos
da multidão trabalhando para
as máquinas e no lugar delas.

MAR Y L . G R A Y ,
antropóloga.
"
A antropóloga Mary L. Gray estuda um fenômeno cha-
mado “Trabalhadores Fantasma" ou "Ghost Workers".
Trata-se de um enorme contingente de trabalhado-
res precarizados que é contratado para tarefas de
forma automática através de plataformas como a
Amazon Mechanical Turk, por exemplo.
Esses trabalhadores realizam micro-tasks, como por exemplo filtrar
conteúdos nas redes sociais. Todos os conteúdos impróprios que você
não vê nas suas redes provavelmente alguém viu para deletar. Ou mais
recentemente eles também chegaram nas macro-tasks, como é o caso
por exemplo da empresa Santa Transmedia, que permite contratar
profissionais de qualquer etapa da produção de conteúdo audiovisual
através de uma plataforma.

Essas relações acontecem via API (Application Programming Interface).


Uma API permite que aconteça troca de informações entre dois ou mais
sistemas que operam em linguagens diferentes. Através das APIs um
programador solicitante pode criar uma tarefa e incluí-la em seu algo-
ritmo sem que para isso tenha que ver nenhuma informação de quem
vai executá-la. Sexo, localização, idade e experiência anterior de traba-
lho são desconhecidos. Do outro lado da plataforma, os trabalhadores
também não têm informações sobre o solicitante além da descrição
da tarefa. A gama de tarefas pode ser infinita e pode mudar de um dia
para o outro.

Segundo Gray, o trabalho humano que movimenta muitos aplicativos


de telefones celulares, sites e sistemas de inteligência artificial, pode
ser difícil de ver - na verdade, muitas vezes é escondido intencional-
mente. Conforme observado anteriormente, graças às interfaces de
programação de aplicativos (APIs), os trabalhadores são representa-
dos como uma sequência de letras e números em vez de um nome e
um rosto. Nesta zona desumanizada, poucas empresas que vendem
trabalho fantasma têm ideia de quem compõe sua força de trabalho.
Parte desse apagamento pode ser atribuído à logística. A multidão é
muito grande para ver rostos individuais, pode-se dizer. Mas é impor-
tante não ignorar o fato de que o apagamento é um recurso proposital,
e não um bug errante da economia do trabalho fantasma.
QUANDO VOCÊ
NAVEGA NO YOU-
TUBE ESTÁ
TRABALHANDO
PARA O GOOGLE?
Além dos trabalhos via API, podemos falar
ainda do colonialismo de dados, campo de
estudos do sociólogo Nick Coldry. Ele expli-
ca como nossos dados e interações sociais
são monetizados sem nosso consentimento
explícito, tornando-se outra faceta do extra-
tivismo contemporâneo.
FIM DO
TRABALHO OU
FIM DO EMPREGO?

Olhando para esses fenômenos contemporâ-


neos do universo do trabalho, uma pergun-
ta importante para nos fazermos é se esta-
mos vivendo o fim do trabalho humano ou se
na verdade estamos falando sobre o fim do
emprego de tempo integral e de longo prazo
como padrão cultural e também a pedra an-
gular da estabilidade da vida da classe média.

Uma nuance importante sobre automação é


também não esquecer, como falamos no ca-
pítulo sobre trabalho produtivo e reproduti-
vo, que o trabalho do cuidado está entre os
muitos que estão muito longe da esfera da
automatização.

Em uma visão positiva, existe a possibilida-


de de, no longo-termo, em um mundo com
menos trabalho e sem a possibilidade da
contribuição social pela via econômica, pre-
cisarmos entender conjuntamente quais
trabalhos são importantes. Quando esse
momento chegar, pode ser que haja uma va-
lorização desses trabalhos. Os robôs, além
de não estarem preparados para uma gama
infinita de situações, não têm custo acessí-
vel para a maior parte da população.
O que
nos mostra
a Roda da
Fortuna?
A carta da roda da fortuna vem nos mostrar que a
tecnologia não é neutra e que o trabalho humano não
está no fim. Ao invés de obsolescência humana, de-
veríamos falar sobre como estamos cada vez mais
geridos por máquinas a serviço de grandes corpora-
ções e longe do bem comum.
Bom, mas se o trabalho humano não vai acabar tão
cedo, como devolver a humanidade a essa atividade
essencial para a manutenção da sociedade?

A antropóloga estudiosa do "ghost work", em 5 anos


entrevistando pessoas que trabalham nessas ativi-
dades, descobriu uma coisa em comum a todas elas…

a esperança.

“Elas esperam usar trabalhos sob


demanda para controlar quando
trabalham, com quem trabalham
e quais tarefas assumem.
Elas esperam ficar perto de suas
famílias. Elas esperam evitar
longas viagens e ambientes de
trabalho hostis. E elas esperam
ganhar uma experiência que
atualize seu currículo ou abra uma
porta para novas possibilidades.

MAR Y L . G R A Y ,
antropóloga.
"
Essa observação da antropóloga sobre a
esperança causa algumas controvérsias.

Baruch Spinoza, se pegasse uma máquina


do tempo e se transportasse para os dias de
hoje, diria que a pior coisa que as pessoas
podem fazer se quiserem mobilizar sua po-
tência de pensar e agir, é ter esperança.
Para ele, ser livre é estarmos cientes do tipo de bar-
reiras e obstáculos que nos atravessam, para poder-
mos aproveitar ao máximo nossa potência de pensar
e agir, livres de qualquer esperança ilusória. Segun-
do sua teoria, a esperança e o seu "irmão", o medo,
como alegrias e tristezas instáveis, só fazem diminuir
a nossa potência de pensar e agir.

“ A esperança diminui
nossa potência

"
de pensar e agir.

B AR UCH S PI NO Z A

" Para a nossa sorte, podemos imaginar tam-


Não há mudança bém, que na mesma máquina do tempo pegou
sem sonho, assim como carona um outro pensador, um pouco mais
não há sonho sem esperança. jovenzinho, um senhor chamado Paulo Freire.
É preciso educar

"
a esperança. Ele olha para a esperança com olhos um
pouco mais esperançosos. Para Freire, a
PAU LO F R E I R E esperança é o motor da mudança e pode ser
inclusive considerado um ato político. Ao
contrário do que diz Spinoza, mas ao mesmo
tempo, de forma um pouco convergente, ele
fala que é preciso educar a esperança.

Para concluir as mensagens que a tecno-


logia milenar do Tarô tem a compartilhar
sobre o universo do trabalho, vamos abrir
finalmente a carta do futuro, a carta que
representa o Mundo.
O Mundo
O
mundo representa o fim de um ciclo, uma
pausa na vida antes do próximo grande ciclo
recomeçando com o tolo. Também nos conta
sobre a importância de compartilhar conhecimento.

Quais são as tecnologias que podem construir o


futuro que desejamos?
TECNOLOGIAS DA
ESPERANÇA

Embora a gente tenha a tendência de pensar em tec- Tec•no•lo•gi•a


nologia só do ponto de vista de algoritmos, máquinas (pl: tecnologias)
e robôs, existem muitas outras ideias, métodos e mo- sf
dos de pensar que se encaixam no conceito de tecno-
logias e que queremos trazer como viabilizadoras de Técnicas, habilidades,
um futuro desejável. Vamos falar agora nessas téc- métodos e processos
nicas que, como nos mostra Paulo Freire, podem nos usados na produção de
ajudar a reeducar o olhar, reeducar a esperança. bens ou serviços, ou na
realização de objetivos.
Todo o processo que dá visibilidade, mostrando as
nuances, as rugas, é uma forma de enxergar, pen-
sar sobre. Vivemos um contexto de desumanização
do outro, invisibilização do trabalho, então ficamos
indiferentes. Indiferentes às desigualdades, às rela-
ções de poder, ao trabalho precarizado, ao trabalho
generificado e racializado, entre tantas outras mani-
festações que acabam naturalizadas.

“ É necessário
reconhecer a
estranheza das coisas

"
para mudar.

F L ÁV IA R IO S ,
Socióloga
Ao longo do estudo, abrimos várias cartas
que nos permitiram ver as tretas do mundo
do trabalho.

O PENDURADO
Os valores de colaboração,
confiança e lealdade
devem ser recuperados.
O trabalhador deve
se reconectar com o fruto
de seu trabalho.

A JUSTIÇA
A separação entre trabalho
produtivo e reprodutivo
é falsa e invisibiliza ocupações
pautadas por gênero e raça.

A TORRE
A lógica da flexibilização
não rompe com as estruturas,
mas sim aprofunda
as desigualdades. Isso
diz respeito a todos nós.
A RODA DA FORTUNA
A tecnologia não é neutra e o trabalho
humano não está no fim. Estamos sendo
geridos por máquinas a serviço de
grandes big techs e longe do bem comum.

O MUNDO
O futuro do trabalho vem das
tecnologias da esperança.

O que nos lembra Martha Nussbaum sobre


essas tretas é que a maior parte dos dilemas
trágicos não é causada por um destino im-
placável ou por necessidades incontornáveis:
é causada pela má organização humana.

“ A maior parte dos dilemas trágicos


não é causada por um destino
implacável ou por necessidades
incontornáveis: é causada pela má
organização humana. O grande
filósofo Hegel pedia que, ao nos
depararmos com casos assim,
nos perguntássemos: de que modo
o mundo poderia ser diferente para
que pudéssemos evitar esse conflito?

MAR T HA N U S S B AU M ,
Filósofa
"
QUAIS SÃO
AS TECNOLOGIAS
QUE PODEM
EDUCAR
A ESPERANÇA?

Bom, e quais são essas tecnologias? Quais os mé-


todos e modos de pensar que podem nos ajudar a
educar a esperança? Estamos trazendo as tecnolo-
gias aqui para você na fala de algumas pessoas que
olham para o presente e o futuro de uma forma muito
especial e inspiradora.
1 Tecnologias
Solidárias

Um ótimo exemplo que nos ajuda a entender as tecno-


logias solidárias, que também podem ser chamadas
de Cooperativismo, é a história da Nelsa Nespolo, uma
das especialistas ouvidas para esse estudo. Ela fun-
dou em 1996 a Justa Trama, uma cooperativa têxtil.

Antes de criar a cooperativa, Nelsa passava por muitos


dos problemas que acompanhamos ao longo do estudo.
Ela estava sempre trabalhando, sem tempo para a fa-
mília, sem tempo para si. Tinha que aceitar essas condi-
ções pois lhe diziam que “se não quer, tem quem queira”.
Seu trabalho era precarizado e ela não sentia conexão
com o que fazia. Via as mulheres ganhando menos que
os homens e sempre em dupla jornada de trabalho.

Ela estava infeliz


e completamente
alienada de seu
trabalho!
A saída que a Nelsa encontrou foi pelo cooperati-
vismo. Através da autogestão da cooperativa todos
podiam decidir juntos questões muito importantes
como o valor justo para remunerar cada etapa da
produção, como não gerar mais resíduos, o valor
que poderia ser cobrado para que as consumidoras
conseguissem pagar pelas roupas e quais práticas
poderiam ser desenvolvidas para que todos na coo-
perativa estivessem sempre cuidados.

As características da cooperativa apresentam alter-


nativas ao que está em voga no presente: a dissolu-
ção da relação patrão-empregado. Ainda que com
poucos recursos, é possível se aproximar da figura
do empreendedor, e não do trabalho "uberizado" ou
precarizado. “Cooperação” pode não ser uma pala-
vra pop como “empreendedorismo”, mas ressignifi-
cá-la é essencial.

O cooperados
têm flexibilidade
acomodando
seus interesses
e as diversas
esferas da vida.
Muitas iniciativas de cooperativas são de mulheres e para mu-
lheres e que, portanto, se voltam às suas necessidades. Ainda
assim é importante ressaltar que todos possuem liberdades,
mas também responsabilidades. Há um forte senso de coleti-
vidade e também de comunidade e solidariedade: não é cada
um por si, criam-se laços. E essa cooperação ajuda as pesso-
as a se conectarem.

A cooperativa também é guiada pela sustentabilidade, há in-


centivo de práticas, produção e consumos saudáveis e não
prejudiciais ao meio ambiente. Há uma visão mais global tanto
do empreendimento quanto da sociedade. Há uma atuação em
várias frentes – não apenas interna, mas em articulação com
a sociedade e com o entorno.

Com todas essas características busca-se um retorno de um


sentido para o trabalho: entende-se os processos e o valor que
aquele trabalho tem para toda uma comunidade – é mais do que
um trabalho, é uma visão de mundo e uma forma de viver. A Nelsa
acredita que é um trabalho que realmente dignifica as pessoas.

BANCOS
COMUNITÁRIOS

As cooperativas não são apenas de trabalho, mas também po-


dem ser de crédito. Um dos pontos fortes da economia soli-
dária são os bancos comunitários. Pertencem à comunidade
local, fazem a autogestão como se fossem uma cooperativa.
E ajudam o dinheiro a ficar dentro da comunidade.

Os bancos solidários realizam empréstimos para a comuni-


dade e ajudam a desenvolvê-la, a desenvolver o comércio local
e através de uma moeda própria fazem com que o dinheiro
circule dentro da própria comunidade.
Há mais de 103 moedas
sociais circulando no
país que mobilizaram
R$ 42 milhões em
transações (2015-2018)
A Melanie Shellito é fundadora de uma empresa de
branding chamada Artezen. E também diretora de uma
cooperativa de alimentos em Ilinois. Ela acredita que
mesmo que você não faça parte de uma cooperativa,
ainda é possível colaborar com esse modelo:

"
Cooperativas podem proporcionar
estabilidade econômica em uma comunidade
ao mesmo tempo que protegem os empregos
de terceirização e cortes. Temos que começar
a estar dispostas a pagar um preço justo
pelo que consumimos. O modelo de cooperativa
nos dá a oportunidade de criar
uma mudança social valiosa.

M E L AN I E S H E LLI T O
"
Tecnologias 2
Periféricas
As tecnologias periféricas ou da quebrada,
por sua vez, partem dos moldes do coope-
rativismo ao propor soluções da quebra-
da para a quebrada. Um personagem que
nos ajuda a entender essa tecnologia mui-
to bem é o Thiago Vinícius. Nascido e criado
em Campo Limpo, zona sul de São Paulo, ele "
é um exemplo de empreendedor que utiliza
das tecnologias da quebrada para melhorar
a vida de sua comunidade. Uber não é colaborativismo.
AirBnb não é colaborativismo.
Fazem parte das iniciativas da empresa dele, Quando você está vendo uma
a Agencia Solano trindade, a coalizão de em- favela você está vendo economia
preendedores negros, um programa de Talks solidária. Eu, minha mãe e minha
inspirado no TED mas com DNA da comuni- comunidade ocupamos
dade, o Armazém Organicamente, que co- a economia. Criamos um banco
com moeda própria.

"
mercializa produtos orgânicos de produto-
res locais, um espaço de coworking e outros
T H IAG O V I N ICI U S
negócios que apostam no poder colaborativo Agencia Solano Trindade
da periferia como catalizador de mudanças.

Para a socióloga argentina Maristella


Svampa, essas iniciativas mostram como na
"
ausência do Estado, as comunidades criam É preciso recordar que,
novas alternativas de sobreviver. historicamente, nossos
territórios periféricos
são fábricas de solidariedade.
Situados fora do mercado formal
e em face da ausência do Estado,
grande parte dos setores
populares teve de se desenvolver
e reproduzir mediante estruturas
geridas de cooperação.

MAR I S T E LL A S VAM PA
Socióloga Argentina "
PARAISÓPOLIS
E COVID-19

Essas fábricas de solidariedade foram vistas, por


exemplo, na favela de Paraisópolis, na zona sul de São
Paulo, durante a pandemia do novo coronavírus. O es-
forço dos moradores foi determinante.

Iniciativas como a ação Adote Uma Diarista, o mutirão


para produção de marmitas, a eleição de presidentes
de rua e a parceira com o G10 das Favelas têm sido
algumas das formas da comunidade se mobilizar para
combater os problemas decorrentes da pandemia,
para os quais auxílios do Estado não estão presentes.

"
Quando a estrutura do Estado
falta, são as tecnologias sociais
que garantem a manutenção
da vida na comunidade.

E LI Z AN DR A CE R QU E I R A ,
Presidente da Associação de Mulheres
de Paraisópolis
"
Algoritmos 3
para Pessoas

E é claro que, se estamos falando de tecno-


logias, é fundamental pensar em como os al-
goritmos podem usar seu poder em prol do
bem comum.

A tecnologia vem ensaiando substituir os


humanos faz mais tempo do que a gente
imagina. Do que se tratam essas imagens
e o que elas têm a ver com tecnologia? É o
Mechanical Turk. Um robô jogador de xa-
drez do século XVIII que viajou pela Euro-
pa e impressionou muita gente derrotando
membros proeminentes da sociedade.

O que ninguém sabia é que dentro dessa


máquina na verdade se escondia um mestre
de xadrez, se fazendo passar por uma má-
quina. Agora, mais de 2 séculos depois, essa
engenhoca serviu para inspirar o nome de
uma famosa plataforma de ghost work, a
Amazon Mechanical Turk.
Outro fato curioso: o que será que esses mapas estão mostrando?
No primeiro mapa vemos navios e rotas marítimas que traziam africa-
nos capturados como força de trabalho escravizada para a Europa e
suas colônias. É uma representação do mercantilismo e do colonialismo.
No segundo mapa vemos as TICs (tecnologias de informação e comu-
nicação) que movem a força de trabalho como dados entre muitos dos
mesmos lugares no presente.

Esses exemplos servem para nos lembrar de como o trabalho humano


é invisibilizado pelos algoritmos. Seja nas plataformas, seja no uso de
nossos dados.
DESMISTIFICAR
NOSSO
IMAGINÁRIO
SOBRE
ALGORITMOS

"
Precisamos desmistificar
nosso imaginário sobre algoritmos.
Algoritmos não são neutros. São opiniões
em forma de código. Nós, cientistas
de dados, não devemos ser juízes
e sim tradutores das discussões
que acontecem na sociedade.

C AT H Y O ' N E AL ,
Cientista de Dados e Ativista
"
VISIBILIZAR
E COMBATER
AS PRÁTICAS
INJUSTAS

Além disso, precisamos visibilizar e combater as prá-


ticas injustas. Joy Buolamwini, assistente de pesqui-
sa no Media Lab do MIT e fundadora da Algorithmic
Justice League, conta no documentário Coded Bias,
sobre como sua pesquisa sobre discriminação racial
em software de reconhecimento facial vem ajudando
a mudar práticas das principais empresas que detém
essas tecnologias.

Na mesma linha de visibilizar as práticas injustas, ini-


ciativas como o Workers Observatory e o Turkopti-
con ajudam a metrificar o que está acontecendo com
o trabalho de plataforma.
MUDAR QUEM
PROJETA, QUEM
USA E QUEM
GANHA COM OS
ALGORITMOS

Por último, mas não menos importante, é preciso mu-


dar quem projeta e quem usa as tecnologias. De ou-
tra forma, não será possível mudar as práticas e o
discurso sobre eles. Se Joy Buolamwini não estives-
se trabalhando no MIT com essas tecnologias e não
tivesse visibilidade suficiente para denunciar que
isso estava acontecendo, muitas empresas continua-
riam utilizando tecnologias de reconhecimento facial
indiscriminadamente. Ela é uma mulher negra!

"
Os algoritmos são a linguagem
do século 21. É política, é poder,
é direitos humanos, é cidadania.
É fim e é meio. Tem que andar
em conjunto com todas as outras
causas e pautas, senão estaremos
sempre um passo atrás.

S I LVANA B AH IA ,
Diretora do Olabi e Idealizadora
do PretaLab
"
Muitos são hoje os coletivos e inicia-
tivas independentes que se dedicam
a incluir mulheres e pessoas negras
no mercado de tecnologia. Algumas
delas que podemos citar são:
Pretas Hackers

Maria Lab Preta Lab

Afro Phyton Data Labe

OxenTI Menina Blogueiras Negras

Info Preta Coletivo Nuvem Negra


PLATAFORMIZAÇÃO
DO BEM

E quando as pessoas e comunidades interessadas


tomam para si as tecnologias, muita coisa legal pode
acontecer, como por exemplo a Plataformização do
bem, ou seja, o uso das tecnologias a favor de coope-
rativas justas com os trabalhadores e não a favor da
exploração dos trabalhadores pelas Big Techs.

O Fairbnb é uma plataforma inspirada no Airbnb


mas que pensa na sustentabilidade das comunida-
des anfitriãs. O Means TV é uma plataforma de stre-
aming que funciona como cooperativa e cujos lucros
são distribuídos entre os produtores dos conteúdos.
Urbike e Pedal são iniciativas de entregadores que
remuneram de forma justa os trabalhadores tam-
bém em formato de cooperativa.
4 Capitalismo
das partes
Interessadas

À partir do momento que trazemos essa discussão


para uma outra dinâmica a respeito do uso dos al-
goritmos e como seus desdobramentos acontecem,
entendemos também que é preciso mudar o mercado
como um todo.

Uma das nossas tecnologias de reeducação da espe-


rança vem sido pautada enquanto parte da pergunta:

PARA QUE SERVEM


AFINAL AS EMPRESAS?

Esse questionamento ganha corpo com a revista The


Economist, que indagou a responsabilidade do mer-
cado com a problemática de "promover uma econo-
mia em benefício de todas as partes interessadas" e
pôde se manifestar em iniciativas como as da Busi-
ness Roundtable: uma organização que conta com
muitas das maiores e mais poderosas corporações
americanas.

Ao trazer essa problemática, a Bussiness Roundta-


ble apresentou um modelo de pensamento pautado
nos 3 Ps.
PROFIT, PEOPLE,
PLANET.

Essa tríade, em equilíbrio, é o que a econo-


mista Rebecca Henderson chamou de Capi-
talismo das partes interessadas

"
É hora de reimaginarmos um capitalismo
que seja, além de um mecanismo de prosperidade,
um instrumento de redistribuição de riqueza,
em harmonia com as necessidades
ambientais, com as demandas por justiça social
e pela manutenção da democracia.
R E B E C C A H E N DE R S ON
"
E no meio dessas demandas a serem sanadas, quando pensa-
mos que a precarização vem atingindo cada vez mais pessoas
e que o trabalho das mulheres e das pessoas negras ainda é
muito invisibilizado, tem muito que as empresas podem fazer.
Um caminho possível foi o adotado pela XP, que conta hoje
com 22% de mulheres entre os funcionários. Ao assumir um
compromisso com a equidade de gênero, a empresa adotou
medidas diversas para alcançar sua meta de ter o quadro de
funcionários 50% composto por mulheres e as suas primeiras
medidas tomadas foram:

• Treinamento para lideranças e RH


• Mentoria de carreira
• KPIs de promoções, contratações e remuneração
• Revisão de políticas internas
• Parcerias para desenvolvimento
• Licença maternidade e paternidade estendida
• Possibilidade de trabalho remoto para todos
os colaboradores
Muitas empresas vêm se comprometendo também
com a igualdade racial. O que temos que lembrar é que
sem metas claras, o compromisso corre o risco de
ser só discurso. Iniciativas como movimentos de em-
presas pela equidade racial e os programas de trai-
nee da Magalu e da Bayer são sinais de que o mercado
está se movimentando, mas ainda não é o suficiente.

A nossa análise e as questões das partes interessa-


das nos fazem indagar:

Amamos o que
um grupo pode
oferecer ao invés
de considerarmos
suas subjetividades
e sua história?
E é justamente essa história que nos leva aos desdo-
bramentos da nossa próxima estratégia:
As Tecnologias 5
Ancestrais

Ao longo do nosso estudo, encontramos falas


de muitos trabalhadores sobre suas expe-
riências. E também pelo conhecimento pro-
duzido por muitos pensadores. Talvez a sua
memória identifique facilmente nomes como
os de Paulo Freire e Baruch Spinoza. Ou en-
tão de Lélia Gonzales. Flávia Rios, certo?
"
Epistemicidio é o
Por que é mais fácil lembrarmos de Freire, assassinato das
Spinoza e o que eles teorizaram mas nossa maneiras de conhecer
memória é vaga quando pautamos a teoria e de agir dos povos
da Lélia e de Flávia? Isso é a manifestação africanos promovido
do que entendemos como EPISTEMICÍDIO. pelo poder colonial.
R E NAT O NO G U E R A ,
Filósofo "
Foi justamente esse poder colonial que tirou das pessoas africanas o estatuto de
sujeitos, sem filosofia e sem humanidade. A cultura ocidental foi estruturada nes-
sa dinâmica de uma história única: o privilégio de escolher se um conhecimento
vale ou não, se uma narrativa é certa ou não sempre foi dado ao colonizador.

A historiadora Beatriz Nascimento trata também do epistemicídio, quando diz


que a história do Brasil é escrita por mãos brancas - ou seja, as pessoas negras
são colocadas em certos lugares simbólicos porque pessoas brancas estão es-
crevendo essa história.

E é também através da desumanização das pessoas negras e do apagamento de


sua cultura, história e produção de conhecimento, que é legitimada a sua condi-
ção de subalternidade, manifestada em contextos como:

• Reprodução de valores e condições de trabalho


que vêm desde os tempos de escravidão

• Desmerecimento das capacidades intelectuais
e discurso da meritocracia

Pensadores como:
Angelas Davis,
Abdias do Nacimento,
Achille Mbembe, bell hooks,
Beatriz Nascimento,
Djamila Ribeiro, Flavia Rios,
Franz Fanon, Katiuscia Ribeiro,
Kimberlé Crenshaw,
Lélia Gonzales, Mongobe Ramose,
Patricia Hill Collins,
Renato Noguera, Sueli Carneiro,
entre tantas e tantos outros escreveram e seguem reescrevendo
as histórias das pessoas negras no Brasil e pelo mundo.
E é observando essa história que nos depa-
ramos com a tecnologia da ancestralidade,
como explica a filósofa Katiuscia Ribeiro:

"
Uma sociedade com uma ação comunitária
que pensa nas tecnologias ancestrais como
ferramenta de transformação. E vocês, como
olham para o futuro? Entender quem fomos
nos ajuda a entender quem queremos ser.

K AT I U S CIA R I B E I R O ,
Filósofa "
Justamente quando olhamos para as tecno-
logias ancestrais, temos contato com o con-
ceito de UBUNTU:

U•bun•tu

Filosofia dos Povos Bantus, grupo étnico da


chamada África Subsaariana. Segundo No-
guera, significa ’aquilo que é pertencente
a todos’, ou então "eu sou porque nós so-
mos", e aqui colocamos em contraposição
o entendimento do mundo ocidental, Filoso-
fia do Nós (Pluriversal) e a filosofia africana,
Filosofia do Eu (Universal).

O Ubuntu é apresentado em iniciativas como


a Lab Fantasma, Vale do Dendê e Black Mo-
ney, que agem como uma resposta ao racis-
mo estrutural.
E claro, é importante
ressaltar que o racismo não
é uma invenção nem uma
responsabilidade das pessoas
negras e sim de um sistema
onde vigora um contrato
racial que privilegia
a branquitude. Tomar consciência disso
é o primeiro passo para
assumir um compromisso
com o antirracismo.

A Doutora em Psicologia Social Lia Vainer Schucman


nos dá uma visão sobre essa questão estruturante
da nossa sociedade:

"
Ao pensarmos nos desdobramentos
do racismo nosso olhar se volta para quem
sofre com a opressão mas dificilmente o
olhar se volta para as estruturas e pessoas
que fazem a manutenção dessa opressão.

LIA VAI N E R S CH UCMAN


"
Bem Viver 6

Por fim, mas não menos importante, precisa-


mos falar sobre as tecnologias do Bem viver.

ESTAMOS CAMINHANDO
PARA O FIM?
De nada adianta a solidariedade dentro das
comunidades e cooperativas, o bom uso dos
algoritmos ou mesmo recuperar a conexão
com a ancestralidade se estivermos próxi-
mos ao fim do mundo.

O total de objetos construídos pela humani-


dade supera pela 1a vez a massa de seres vi-
vos na terra. Estudo na Nature aponta que a
massa antropogênica tem dobrado de tama-
nho a cada 20 anos ao longo do último século.

Pois é, já faz algum tempo que especialistas


tanto das ciências sociais quanto das natu-
rais vêm nos alertando que os impactos que
nós humanos estamos causando no planeta
é tão profundo e irreversível, que estamos
vivemos uma nova era geológica:

o antropoceno.
O QUE É O
ANTROPOCENO?

O antropoceno é marcado por uma ideologia e modo de vi-


ver que pressupõe a separação e hierarquização entre seres
humanos e a natureza. Assim, seres humanos não são vis-
tos como parte integrante da natureza, mas como superiores
a ela. Estamos falando de uma época marcada pela produ-
ção desenfreada em busca do crescimento a qualquer custo,
explorando e transformando a natureza em benefício humano.

Temos agido como se os bens naturais fossem inesgotáveis.


E não paramos para questionar o modo em que estamos viven-
do e as consequências que isso tem para o planeta. Já durante
a Cúpula da Terra, no Rio de Janeiro, em 1992, o então presi-
dente de um dos países mais poderosos do planeta, George H.
W. Bush afirmou “Nosso modo de vida não é negociável”.

Os seres humanos, ao longo da história, sempre causaram


impactos no planeta. Mas a novidade é que atualmente as mu-
danças estão ocorrendo de forma brusca e irreversível, colo-
cando a humanidade toda em risco. Não é à toa que um livro
com o nome “Ideias para adiar o fim do mundo” escrito pelo lí-
der indígena Ailton Krenak, se tornou um dos livros nacionais
mais vendidos no país.

"
A novidade do Antropoceno,
[…] não é apenas uma questão de magnitude,
mas também de velocidade do processo. Tudo indi-
ca que a aceleração das mudanças dificultaria
também a própria possibilidade de adaptação.

MAR I S T E LL A S VAM PA
Socióloga Argentina
"
ABRINDO OS
PARAQUEDAS

Mas como prega o Krenak, nós podemos adiar o fim do mun-


do. A filósofa, bióloga e escritora norte-americana, Donna Ha-
raway, diante deste cenário utiliza o termo "response-ability",
uma espécie de trocadilho para endereçar as virtudes que
precisamos cultivar nesses contextos de urgências: é neces-
sário cultivar a nossa capacidade de responder.

"
We have response-abilities.

D ON NA HAR AWA Y
Filósofa, bióloga e escritora
"

Podíamos achar que nosso modo de vida era inegociável, mas


com a pandemia da Covid-19, por um período, o inimaginável
aconteceu: tudo parou. E alguns resultados foram instantâ-
neos. Com a redução no tráfego de automóveis e a inatividade
de indústrias, houve uma queda considerável da poluição ao
redor do mundo. No norte da Índia, moradores conseguiram
ver o Himalaia – a 200 quilômetros de distância – pela primei-
ra vez em 30 anos, além de também relatarem mais estrelas
visíveis. Especialistas apontam a quarentena como o evento
de maior escala já registrado em termos de redução de emis-
sões industriais.
O QUE É
O BEM VIVER?

É importante lembrar, no entanto, que nem todos os


povos vêm percorrendo esse mesmo caminho, isolan-
do a natureza ou a considerando algo separado, ex-
terno, à serviço do ser humano. Muito pelo contrário.

Para os povos originários, muitas das mazelas que


falamos por aqui sobre o mundo do trabalho não fa-
zem sentido, pois seu modo de vida não envolve sepa-
ração entre a vida e o trabalho, da mesma forma em
que não concebe distinção entre a natureza e o ser
humano. Cuidar da vida inclui a realização de ativida-
des que compreendemos como pertencendo ao mun-
do do trabalho. Estas são realizadas de forma coleti-
va e em comunidade, em sintonia com a natureza.

"
Quando os índios falam que a Terra é nossa mãe,
dizem ‘Eles são tão poéticos, que imagem mais bonita’.
Isso não é poesia, é a nossa vida. Estamos colados
no corpo da Terra. Somos terminal nervoso dela.
Quando alguém fura, machuca ou arranha a Terra,

"
desorganiza o nosso mundo.

AI LT ON K R E NAK
O conceito de Bem Viver surge a partir de
uma pluralidade de cosmovisões indígenas,


e propõe novas formas de relação do ser
humano com a natureza e com outros se- A natureza,
res humanos. ou Pacha Mama, onde se
reproduz e se realiza
Não se trata de uma receita pronta, mas de a vida, tem direito a que
uma mistura complexa e dinâmica envol- se respeite integralmente
vendo a compreensão do que são os seres a sua existência e a manu-
humanos e a natureza. O bem viver rejeita tenção e regeneração
a ideia de um desenvolvimento que equiva- de seus ciclos vitais,
le a crescimento econômico ilimitado, e vai estrutura, funções
em direção a uma economia solidária e sus- e processos evolutivos.
tentável e uma hierarquização igualitária de Toda pessoa, comunidade,
outras avaliações das atividades e dos bens. povoado, ou nacionalidade
poderá exigir da autoridade
Um exemplo da aplicação do conceito do bem pública o cumprimento dos
viver, pode ser visto nas constituições fede- direitos da natureza.

"
rais do Equador e Bolívia que, após séculos
de exclusão, passaram a incorporar a visão Art. 71 da Constituição
dos povos indígenas e a contemplar os direi- da República do Equador
tos da natureza. Com isso, torna-se ilegal qual- de 2008
quer tipo de atividade produtiva que impeça a
regeneração dos ciclos vitais da natureza.

Outra lição que podemos aprender com o bem


viver é a de potencializar o local e o comuni-
tário. Para tanto, devemos olhar justamente
para a economia camponesa, indígena e de
pequenas empresas locais. A Agroecologia, os
Sistemas agroflorestais e o fortalecimento da
Soberania Alimentar são alguns exemplos de
atividades econômicas em consonância com
o tempo da natureza e com a manutenção da
vida no planeta, e que têm muito a nos ensinar.
"
O nosso papel não é o de criar, de cima
para baixo, empresas comunitárias, mas o
de potencializar as redes de produção,
intercâmbio, crédito, conhecimentos tradicio-
nais e inovação a partir da perspectiva local.
PAB LO S OLÓN ,
Ativista Ambiental Boliviano
"
O
lhando para as tecnologias da esperança,
nos deparamos com iniciativas que pensam
a vida e trabalho através de uma perspecti-
va holística, e que tem tudo a ver com o que propõe
o Bem Viver. Quando Krenak diz que "Andamos em
constelação." é sobre isso que ele está falando.

Ao longo do nosso estudo, utilizamos a analogia da


tecnologia milenar do Tarot como um meio provocati-
vo de questionar como muitas pessoas e instituições
pensam no conceito de futuro a partir da adivinha-
ção, como se ele estivesse descolado do que aconte-
ce no nosso dia a dia.

Agora, depois de mergulhar de forma atenta e pro-


funda no mundo contemporâneo do trabalho, gosta-
ríamos de fazer um convite para que ao invés de ten-
tar adivinhar o futuro, possamos olhar atentamente
para o presente.

Abrimos várias cartas que nos alimentam de senso


crítico sobre as tretas que vivemos. E terminamos
trocando a tecnologia do Tarot pelas Tecnologias da
Esperança, que nos trazem energia para construir
um futuro desejável para o trabalho e para o planeta.
Tecnologias
Solidárias
Tecnologias
Periféricas

Algoritmos
para Pessoas Capitalismo
das partes
Interessadas

Tecnologias
Ancestrais
Bem-Viver
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