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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS

Campus POÇOS DE CALDAS

Iago Santos Pires de Sousa Ghazi

O USO DE MICRODOSES COM ENFOQUE NO LSD: Revisão Histórica,


Terapêutica e Experimental.

2021
Iago Santos Pires de Sousa Ghazi

O USO DE MICRODOSES COM ENFOQUE NO LSD: Revisão Histórica,


Terapêutica e Experimental.

Projeto de Pesquisa relacionado a


disciplina de Modelos de Investigação Científica
em consonância com a matéria de Estágio
Obrigatório em Práticas Investigativas,
ministrada pela Prof.ª Dra. Maria José Viana
Marinho de Mattos do curso de Psicologia da
PUC Minas - Poços de Caldas.

2021
“Se podemos dizer que a neurociência teve um
‘começo’, pode-se argumentar que ocorreu em 1954, com a
ideia de que a ação do LSD pode estar relacionada aos
seus efeitos no sistema serotonérgico do cérebro.”
(David Nichols)
SUMÁRIO

1. INTRUDUÇÃO...................................................................................................... 1
2. PROBLEMA/HIPÓTESE....................................................................................... 1
3. OBJETIVOS.......................................................................................................... 2
4. JUSTIFICATIVA.................................................................................................... 2
5. REFERENCIAL TEÓRICO.................................................................................... 3
5.1 DEFINIÇÃO, EFEITOS E SINTOMAS PRODUZIDOS PELO LSD..................... 3
5.2.1 EFEITOS DO LSD NO CÉREBRO................................................................... 3
5.2.2 USO DE MICRODOSES................................................................................... 5
5.2 BREVE HISTÓRICO E PARALELO COM OUTRAS SUBSTÂNCIAS................. 6
5.3 EFEITOS PSICOLÓGICOS DO LSD SEGUNDO HOFFMANN.......................... 7
5.4 MERCADO DO LSD............................................................................................ 9
5.5 OUTROS EXPÉRIMENTOS FEITOS NA ÉPOCA............................................... 9
5.6 USO CLÍNICO DE LSD...................................................................................... 11
5.7 ESTUDO DE CASOS........................................................................................ 12
6. METOLOGIA..................................................................................................... 14
7. DISCUSSÃO..................................................................................................... 15
8. CONCLUSÃO................................................................................................... 16

REFERÊNCIAS.............................................................................................. 17
1

1. INTRODUÇÃO

Esse artigo busca mapear de forma geral, com base em estudos experimentais,
relação do uso de microdoses de ácido lisérgico com a melhora psicológica e
comportamental de indivíduos saudáveis e patológicos, onde como forma de
contextualização, será contada a história da composição do LSD e desenvolvimento
da terapia com o uso de microdoses, por fim, sendo exemplificada com a revisão de
dois casos, relatos de usos e por fim, serão discutidas todas essas relações e algumas
de suas possibilidades.
O uso de microdoses pode abranger diversas substâncias psicodélicas, como o
próprio dietilamida do ácido lisérgico (LSD), a psilocibina (presente em alguns
cogumelos psicoativos) e a mescalina, dentre outras.
O Ácido Lisérgico é uma substância psicoativa estimulante que em sua grande
maioria, é usada de forma recreativa, porém, de uns anos pra cá, os estudos
relacionados à terapia com LSD retomaram sua força. E mesmo que não como outras
substâncias, se tornou recorrente – principalmente nos Estados Unidos – o consumo
de microdoses diárias com objetivo de ampliar os sentidos em uma rotina específica
de cada um. A microdosagem de psicodélicos é a prática do uso de substâncias com
ação sublimiar de drogas psicodélicas serotoninérgicas, com o objetivo de aperfeiçoar
a criatividade, aumentar o nível de energia física, equilíbrio emocional, aumento do
desempenho de tarefas, de solução de problemas e até tratar de patologias – como A
esquizofrenia e a depressão (SHEMBERG, 2016). Visto isso, se faz necessária a
discussão das motivações e efeitos causados pelo uso de microdoses, assim podendo
buscar outras alternativas de tratamento para nós, sujeitos dos quais vivemos uma
ditadura farmacêutica. A qual demoniza e veta diversos tipos de substâncias
medicinais, justamente por conta do preconceito construído em torno de uma
sociedade refém dessa situação.

2.PROBLEMA/HIPÓTESE

Tendo em vista o aumento alarmante dos sintomas de depressão e ansiedade,


assim como os sentimentos de angústia, falta de criatividade, desânimo, dentre vários
outros, se vê necessária a oferta de outras formas terapêuticas auxiliares na resolução
desses problemas, sejam eles psicológicos e/ou físicos.
2

Justamente por esse fato, o LSD é relembrado como um ótimo potencializador


medicinal em alguns estudos, o que traz a nós o questionamento de: até que ponto o
uso de microdoses de LSD pode auxiliar na terapia ou até em uma melhora pessoal?

3. OBJETIVOS

3.1 OBJETIVO GERAL

Investigar a utilização de microdoses e contextualizar a ação do LSD em


tratamentos psicológicos, compreendendo as variáveis, as questões fisiológicas e
subjetivas de cada pessoa da qual optou ou pode vir a se interessar pelo uso
terapêutico de psicodélicos.

3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

- Abordar o contexto histórico do uso de LSD na terapia, suas consequências sociais


e psicológicas.
- Trazer os efeitos causados pelo LSD no sujeito.
- Identificar por meio de estudos e relatos a eficácia do uso clínico de algumas
substâncias, mas com enfoque no LSD e suas contradições, benefícios e malefícios
identificados.
- Ressaltar a importância da identificação de potenciais auxiliares na terapia.
- Trazer questionamentos em relação a eficácia e possibilidade do uso.

4. JUSTIFICATIVA

Justifica-se o tema de estudo de “O Uso de Microdoses com Enfoque no LSD:


Revisão Histórica, Terapêutica E Experimental” pela necessidade farmacêutica de
novos recursos de tratamento e aprimoramento psicológico, se vê de grande
importância o estudo de novas formas e substâncias que possam auxiliar os sujeitos
em suas vidas. E principalmente, abolir essas questões antigas de preconceito que
apenas nos prejudicam.
Podemos ver por exemplo, o avanço da utilização de Cannabis Medicinal, a
qual por ser uma droga estimulante, como a psilocibina, pode auxiliar no tratamento
3

de patologias psicológicas e até na melhora pessoal do indivíduo. Por isso, é válido o


estudo do LSD, pelo fato de que quanto mais opções de tratamento eficazes, melhor
poderemos lidar com as situações em que a vida nos impõe.

5. REFERENCIAL TEÓRICO

5.1 DENIFIÇÃO, EFEITOS E SINTOMAS PRODUZIDOS PELO LSD.


O LSD – acrônimo de Lysergsäurediethylamid, palavra alemã para a dietilamida
do ácido lisérgico – é uma das mais potentes substâncias sintéticas alucinógenas, a
qual não se limita somente ao uso recreativo da substância, mas também pode ser
usado de forma terapêutica pelo uso de microdoses do ácido (SCHEMBERG, 2016).
Uma dose moderada de LSD (75-150 microgramas) pode desencadear
mudanças no pensamento, humor e sentidos. Altera de uma forma significante o
estado de consciência e gera alterações da sensopercepção, produzindo ilusões e
distorções da realidade. Além disso, produz distorção de percepções, altera a
perspectiva geométrica, a percepção das cores e dos sons, enquanto os sentidos do
tato se tornam mais intensos (HUTTEN, 2020).
Os efeitos variam de usuário para usuário, de acordo com o estado mental, do
ambiente e do contexto geral que ele se encontra. Sendo assim, o sujeito por vezes
pode experimentar estados de euforia e excitação ou episódios de depressão, ilusões
assustadoras, sentimentos de pânico e sensações de deformação do corpo, cujo
popularmente se nomearia uma bad trip, a qual significa uma espécie de “viagem ruim”
ou uma experiência negativa do consumo da droga (SELBMAN, 2020).

5.1.1. EFEITOS DO LSD NO CÉREBRO.

A revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos


(Proceeedings of the National Academy of Sciences), em 2016, fez um estudo
observando as alterações causadas pelo LSD no cérebro humano e como a
substância ativa determinadas regiões do cérebro, enquanto reduz a função de outras.
Para o estudo foram reunidos vinte voluntários saudáveis, que já tiveram
experiências com a droga anteriormente – por medidas de segurança dos próprios
indivíduos – utilizando um scanner cerebral e diversas técnicas de obtenção de
imagem cerebral, como por exemplo a imagem por ressonância magnética funcional
4

(FMRI) e a magnetoencefalografia (MEG) nos participantes que foram divididos em os


que receberam uma dose de 75 μg e os que receberam uma substância placebo
(BURGIERMAN, 2016).
Segundo os pesquisadores,
durante os efeitos do ácido lisérgico o
usuário é induzido a fragilidade do seu
senso de self, mesmo sua consciência
permanecendo intacta, seu ego se
mostra de certa forma desconstruído
naquele momento. Nossos cérebros se
Figura 1 - A imagem mostra a diferença entre um córtex visual
tornam mais restritos e divididos à normal (à esquerda) e o de um cérebro sob o efeito do LSD (à
direita). (Reprodução: R. Carhart-Harris/Imperial College
medida que nos desenvolvemos desde London)

a infância até a maioridade, podemos nos tornar mais focados e rígidos em nossos
pensamentos à medida que amadurecemos. Dentro de muitas maneiras, o cérebro
sob influência de LSD se assemelha muito ao estado de nossos cérebros quando
crianças: livres e sem restrições, o que faz muito sentido quando é considerada a
natureza emocional e imaginativa da mente de uma criança (CARHART-HARRIS,
2016). O que pra nós psicólogos, no tratamento terapêutico, pode ser de muito bom
uso.
"Nossos resultados sugerem que este efeito está subjacente ao
estado profundamente alterado de consciência que as pessoas
costumam descrever durante uma experiência de LSD. Também está
relacionado ao que as pessoas às vezes chamam de 'dissolução do
ego', que significa que o sentido normal do eu é quebrado e substituído
por um senso de reconexão consigo mesmo, com os outros e com o
mundo natural. Esta experiência às vezes é enquadrada de uma forma
religiosa ou espiritual - e parece estar associado a melhorias no bem-
estar após o os efeitos da droga diminuírem.” (CARHART-HARRIS,
2016).

O cérebro normalmente é consistido por redes independentes que executam


funções especializadas separadas, como visão, movimento e audição – bem como
coisas mais complexas como a atenção, o que sob o efeito do LSD, essa separação
se quebra, o que gera um cérebro mais integrado ou unificado (CARHART-HARRIS,
2016).
“O mecanismo de ação do LSD ainda não foi totalmente comprovado.
Sabe-se da sua atuação em receptores serotoninérgicos 5-HT2A, 5-HT2C e
5-HT1A, mas acredita-se que ele atue em vários outros subtipos de
receptores de serotonina. Existem estudos que tentam explicar a participação
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da ativação de receptores 5-HT2A na liberação de glutamato e a ação do LSD


em receptores α2 adrenérgicos.” (NISHIMURA, 2007).

Assim, em casos de microdoses, é perceptível a diferença do efeito justamente


pelo fato de se tratarem de doses mínimas do ácido, que nesse caso, serviria como
auxiliar cognitivo, podendo estimular a criatividade, o poder cognitivo e até o humor
(HUTTEN, 2020).

5.1.2 O USO DE MICRODOSES

O uso de microdoses de LSD tem forte potencial medicinal para atender


pacientes vítimas de traumas, justamente pela droga ter o poder de enfraquecer a
chamada “rede de modo padrão” – uma série de conexões no cérebro as quais
estruturam aquilo que consideramos como nosso estado “ordinário” de consciência.
Essa “rede” é fortíssima em indivíduos que tiveram grandes traumas ou que sofrem
de depressão, a qual está diretamente relacionada a plasticidade do cérebro – a
capacidade do cérebro de se remodelar diante de estímulos ambientais, ou seja, de
certa forma a plasticidade neural significa que o ser humano pode se adaptar diante
de suas vivências e necessidades, formando novas conexões a cada momento, como
um caminho na montanha é feito por um pastor e seu rebanho. Quanto mais rígida
essa rede, mais rígido é nosso sistema nervoso, ou seja, menos plástico
(SCHENBERG, 2016).
Segundo um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Basel, da
Suíça, e da Universidade de Maastricht, na Holanda, nos voluntários (24 pessoas no
total) que tomaram doses de 5 μg (microgramas), houve um aumento no poder de
foco, o grupo afirmou estar se sentindo “mais amigável” após a dose. Os que tomaram
a dose de 10 μg, alegaram se sentirem “mais conscientes”. Enquanto o grupo que
recebeu a dose de 20 μg teve uma melhora significativa no humor, mas também
apresentou sinais de confusão e ansiedade.
A escritora Ayelet Waldman apresentou também relatos do uso de microdoses
de LSD com o objetivo de diminuir sua depressão e ansiedade e afirma que logo após
o primeiro uso já pode perceber a diferença e ainda relata que conforme o tempo, sua
depressão se esvaiu. Ainda coloca que sua mente se movimentava de maneira rápida,
mas não imprevisível, com uma espécie de concentração muito agradável a qual
mudou sua maneira de escrever (HELLER, 2017).
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Um artigo publicado na revista norte-americana Look de setembro de 1959,


com o título "The curious story behind the new Cary Grant" ("A curiosa história por trás
do novo Cary Grant"), relata que em uma renomada clínica da Califórnia, o ator Cary
Grant havia recebido uma dose de LSD para um tratamento psicoterapêutico. Grant
informou ao jornalista da revista que por toda sua vida havia buscado pela paz interior.
O yoga, o hipnotismo e o misticismo não conseguiram transformá-lo em um novo
homem, mas dizia que agora, depois de três fracassos matrimoniais, sentia que podia
amar de verdade e fazer uma mulher feliz.
A ideia da terapia com o uso de ácido lisérgico se baseia no “desligue” dessa
rede de modo-padrão, aumentando temporariamente a plasticidade do cérebro e
moldando a mente para resolver problemas psiquiátricos ou até levando uma maior
disposição de aprendizado cognitivo (SCHENBERG, 2016).

5.2 BREVE HISTÓRICO E PARALELO COM OUTRAS SUBSTÂNCIAS

A dietilamida do ácido lisérgico (LSD) é um derivado


do alcalóide do fungo Claviceps purpúrea (GRAEFF, 1989).
Albert Hoffmann foi o químico do qual a sintetizou,
conhecida como LSD. Trabalhou no laboratório de
pesquisas químico farmacêuticas da empresa Sandoz
(lembrem desse nome), onde trabalhou com pesquisas de
substâncias naturais. E por conta disso, retomou os estudos
não terminadas de alcalóides do esporão de centeio, o qual Figura 2 – Foto do cientista
Albert Hoffmann.
segundo H.H Dale, haviam um grande potencial de
aplicação como antagonistas da adrenalina no sistema nervoso central. A ergotamina
se destacou por sua eficácia na hemostasia de partos e contra a enxaqueca. Mas foi
“substituída” pelo esporão de centeio, justamente também por ser um alcalóide solúvel
em água (NISHIMURA, 2007).
A primeira sintetização de ácido lisérgico se deu nos meados da década de 30,
com Hoffmann, o qual teve o objetivo de obter um composto estimulante para a
circulação e respiração, mas não houve interesse dos farmacêuticos e médicos da
época, o que causou no esquecimento da substância por 5 anos (NISHIMURA, 2007).
Em 1943, Hoffmann repete a síntese do ácido, obtendo algumas substâncias
do composto e após ter algumas sensações diferentes após o trabalho – como
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percepções alteradas, incômoda tranquilidade – e ao chegar em casa, com os olhos


fechados, porque a luz o incomodava, passavam pela sua cabeça diversas imagens
geométricas, com cores intensas como num caleidoscópio. Nesse mesmo ano, ele
resolveu tomar uma dose de 250 μg. Na qual ele pode descrever as mesmas
sensações, só que mais intensas. Teve que ser levado para casa pelo seu assistente
de bicicleta, onde teve a sensação de que tudo ao seu redor se movimentava e a
bicicleta estava parada. Hoje, esse dia é conhecido como o “Bicycle Day” – Dia da
Bicicleta (NISHIMURA, 2007).

5.3 EFEITOS PSICOLÓGICOS DO LSD SEGUNDO HOFFMANN.

Após a sintetização do ácido lisérgico, Albert Hoffmann contou um pouco de


sua experiência extremamente intensa com o ácido e mais do que ninguém, pode
descrever de maneira precisa os efeitos da substância e isso se deve justamente pelo
fato de que esse experimento foi feito com o uso mais puro do ácido lisérgico e assim
ele descreve:

[...] Custava-me muitíssimo falar claramente, e pedi a meu colaborador,


que estava inteirado do meu experimento, que me acompanhasse até em
casa. Na viagem de bicicleta [...] Tudo oscilava em meu campo visual, e
estava distorcido como num espelho ondulado. Também tive a sensação que
a bicicleta não se movia. [...] Apesar de tudo cheguei em casa são e salvo e
como um último esforço pedi ao meu acompanhante que chamasse nosso
médico da família e que pedisse leite aos vizinhos. Apesar de meu estado de
confusão embriagada por momentos podia pensar clara e objetivamente: leite
como desintoxicante não específico. A tontura e sensação de desmaio que
sentia às vezes voltaram tão fortes, que não pude me manter em pé e tive
que me encostar num sofá. Minha harmonia havia agora se transformado em
algo aterrador. Tudo que havia na casa estava girando, e os objetos e móveis
familiares adotaram formas grotescas e ameaçadoras. Se moviam sem
cessar, como animados, cheios de um desassossego interior. Apenas
reconheci a vizinha que me trouxe o leite - no curso da noite bebi mais de
dois litros. Não era a senhora R., e sim uma bruxa malvada e arteira com uma
careta cheia de cores. Mas pior ainda que estas mudanças exteriores eram
as mudanças que sentia em mim mesmo, em minha natureza íntima. Todos
os meus esforços de minha vontade em deter o desmonoramento do mundo
exterior e a dissolução do meu eu pareciam infrutíferos. [...] Cogitei um medo
de haver enlouquecido. Havia me metido em outro mundo, em outro quarto
em outro tempo. Meu corpo parecia insensível, sem vida, estranho. Estava
morrendo? Era transitório? Por momentos acreditei estar fora de meu corpo
e reconhecia claramente, como um observador externo, toda a tragédia de
minha situação. [...] Entenderia alguma vez que eu não havia atuado
irreflexiva e irresponsavelmente, e sim que havia experimentado com suma
prudência e de nenhum modo poderia prever semelhante fim? [...] Coberto
de amarga ironia que se entrecruzava com a reflexão de que esta dietilamida
de ácido lisérgico que eu havia posto no mundo era a que agora me obrigava
a abandoná-lo prematuramente. Quando o médico chegou, eu havia
superado o ponto mais alto da crise. Meu colaborador explicou meu
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experimento, pois eu mesmo ainda não estava em condições de formar uma


oração coerente. Depois de haver tentado apontar meu estado físico
presumidamente ameaçado de morte, o médico balançou desconcertado a
cabeça, porque fora umas pupilas muito dilatadas não pode comprovar
sintomas anormais. Por isso, tão pouco me administrou medicamentos, me
levou ao dormitório e ficou me observando ao lado da cama. Lentamente
voltava de um mundo estranho a minha realidade cotidiana familiar. O susto
foi passando e deu lugar a uma sensação de felicidade e agradecimento
crescentes a medida que retornavam um sentir e pensar normais e acreditava
na certeza de que havia escapado definitivamente do perigo da loucura.
Agora comecei a gozar pouco a pouco de um indescritível jogo de cores e
formas que se prolongavam por trás de meus olhos fechados. Penetravam
em mim umas formações coloridas, fantásticas, que mudavam como um
caleidoscópio, em círculos e espirais, que se abriam e fechavam, se movendo
em muitas cores, reordenando-se e entrecruzando-se em um fluxo
incessante. O mais estranho é que todas as percepções acústicas, como o
ruído de uma maçaneta ou de um automóvel que passava, se transformavam
em sensações ópticas. Cada som gerava sua imagem correspondente em
forma e cor. [...] logo dormi exausto e despertei pela manhã seguinte
reanimado e com a cabeça tranquila, apesar de fisicamente ainda um pouco
cansado. Percorreu-me uma sensação de bem-estar e vida nova. O café da
manhã tinha um sabor muito bom, um verdadeiro prazer. Quando mais tarde
saí para o jardim, naquela hora, depois de uma chuva de primavera, brilhava
o sol, tudo brilhava e refulgia uma luz viva. O mundo parecia recém-criado.
Todos os meus sentidos vibravam em um estado de máxima sensibilidade
que se manteve por todo o dia (HOFFMAN, 1991, p. 31-33, tradução feita por
NISHIMURA).

Assim, como relatado, é evidente que pós as sensações de pânico causadas


pela alta quantidade e pureza do ácido – como ansiedade e alucinações visuais e
auditivas –, Hoffmann pode experimentar sensações leves de bem estar e
sensibilidade. Fato que se deve a pequena quantidade de ácido lisérgico presente em
seu corpo, efeito do qual em uma dose de 250 microgramas dura em média de 12 a
15 horas, ou seja, o cientista não experimentou pouco ácido, mas sim, pode
experienciar grandemente os efeitos do LSD. O que mostra a nós que se o LSD for
usado na terapia, não será de maneira nenhuma com altas doses e sim com
microdoses, justamente para aproveitar os efeitos estimulantes psicológicos positivos
presentes na substância, sem que se haja confusão mental ou até estados
extremamente alterados de consciência.

Hoffmann, desenvolveu o LSD com o objetivo restrito de utilização médica,


porém, os primeiros a usarem foram escritores, músicos, pintores e pessoas
interessadas nas ciências do espírito. Assim, com a popularização indireta da
substância, foram gerados novos impulsos às investigações religiosas e míticas, os
quais teólogos e filósofos buscavam entender a relação das “visões” causadas por
LSD com as experiências míticas espontâneas (HOFFMAN, 1991).
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5.4 MERCADO DO LSD

Em 1947, a empresa Sandoz (mencionada anteriormente), disponibilizou o


Delysid, um remédio que tem como princípio ativo o LSD, para investigações no
campo de psiquiatria (NISHIMURA, 2007).
Entre 1964-1966, a publicidade alcançou o topo, tanto no que se refere às
descrições entusiastas de fanáticos pelas drogas e hippies sobre a ação do LSD,
quanto às informações sobre desgraças, colapsos psíquicos, crimes, homicídios e
suicídios de pessoas sob os seus efeitos. Em 1966, a Sandoz resolveu congelar o
fornecimento de LSD e logo após, muitos laboratórios pararam muitas pesquisas por
questões burocráticas. A má reputação do LSD – que chegou a ser chamada de
“droga da loucura” – o abuso, as desgraças e até crimes ocorridos em decorrência
dessa utilização, fizeram com que os médicos abandonassem na prática psiquiátrica
(MANGINI, 1998).
A divulgação da ideia de que só precisaria usar o LSD para mudar sua vida,
levou a difusão da auto-administração da droga, o que é muito complicado. Mesmo
publicações sobre os perigos da utilização não foram suficientes para diminuir essa
“epidemia”. Com o uso praticado por leigos, que sem conhecer exatamente os efeitos
e sem vigilância médica, começaram a aparecer as bad trips (viagens ruins), as quais
conduziam a um estado de confusão e pânico (NISHIMURA, 2007).
Com o tempo, o abuso de LSD diminuiu e o conhecimento pelos usuários sobre
as bad trips causadas pelo ácido podem ter contribuído para a queda de seu uso
(HOFFMAN, 1991).
Hoje em dia, a Norvatis – sucessora da Sandoz – ainda tem liderança na
produção de alcalóides do ergot – que são toxinas potentes que ocorrem no centeio,
no trigo e no tricale. A produção anual desses alcalóides, está estimada em 5-8
toneladas de ergopeptídeos (peptídios dos alcalóides do ergot) e 10-15 Ton de ácido
lisérgico (SCHIFF JUNIOR, 2006).

5.5 OUTROS EXPERIMENTOS FEITOS NA ÉPOCA

As investigações sobre o ácido lisérgico e outros alcalóides do esporão


continuaram. Foram feitas diversas buscas de derivados químicos, mas nenhum se
10

mostrou tão ativo quando o próprio LSD. O primeiro derivado encontrado foi o 2-
bromo-LSD (BOL), o qual trazia ações antagonistas dos receptores de serotonina no
SNC (HOFFMAN, 1991).
Os primeiros testes foram feitos em pessoas sãs e esquizofrênicas, pelo Dr.
Werner A. Stoll, na clínica psiquiátrica da Universidade de Zurich. Foram utilizadas
doses bem menores que as usadas por Hoffmann em um experimento, mas até ali
não haviam muitas novidades em relação aos efeitos psíquicos para a ciência. A
mescalina, por exemplo, é um alcalóide presente no cacto mexicano Lophophora
williamsii, a qual apresenta um efeito psíquico bem semelhante ao do LSD, porém,
muito menos ativo (HOFFMAN, 1991).
Nos Estados Unidos, o uso de LSD como um alucinógeno se mostrou presente
em uma velocidade incrível, ainda mais com a ajuda do movimento hippie.
E justamente por esse fato, na segunda metade do século XX, após sua
descoberta, houveram diversos programas de estudos relacionados aos efeitos do
LSD na mente humana e até sendo usado para tentativas de interrogatórios e em
controle de mentes (HARRIS, 2016).
Os doutores da Universidade de Harvard em Cambridge, Timothy Leary e
Richard Alpert enviaram estudos a Hoffmann sobre suas descobertas positivas e fez
um pedido para aquela mesma Sandoz, para que enviasse amostras de LSD e
psilocibina, mas o pedido foi cancelado quando descobriram que eles não tinham a
autorização da universidade para seguir com o projeto. Assim, com o passar do tempo,
Leary e Alpert foram exonerados do corpo docente da universidade porque seu projeto
havia perdido o caráter científico, justamente por conta dos testes houvessem se
tornado festas de LSD, e os alunos queriam cada vez mais ser voluntários para terem
acesso a droga. A utilização do LSD se tornou um modismo e seu uso recreativo
alcançou diversas partes do mundo (NISHIMURA, 2007).
Após isso, Leary fundou o centro da Internacional Foundation for Internal
Freedom (IFIF), no México. Mas foi deportado e por sorte ajudado por um milionário
de Nova York, onde fixou a sede da IFIF. Depois, após algumas experiências
religiosas diferentes, fundou uma comunidade, a League for Spiritual Discovery – LSD
(Liga para a Descoberta Espiritual). Por isso, Leary irritou os políticos e a polícia, e foi
preso (UNIVERSITY OF VIRGINA, 1998).
Das pesquisas anteriores, existem dados contraditórios e insuficientes que
dificultam o trabalho dos estudos atuais. Entretanto, hoje ainda existem pesquisadores
11

empenhados em encontrar provas para os usos clínicos do LSD. Se espera que a


droga possa ser útil no tratamento de alcoolismo, da cefaléia em salvas, do transtorno
obsessivo-compulsivo e que possa aliviar o sofrimento em pacientes com câncer
terminal (MANGINI, 1998).

5.6 USO CLÍNCO DE LSD

“Os primeiros estudos realizados entre 1950 e 1970, indicavam que o


LSD aparentava ter propriedades antidepressivas e ansiolíticas. Assim, nos
seus primórdios as qualidades únicas do LSD eram aplicadas em psiquiatria,
principalmente como um adjuvante à psicoterapia, funcionado como um
antidepressivo, ansiolítico e antiaditivo, um auxílio ao tratamento da
esquizofrenia, e ainda como um meio para modelar a psicose. O LSD também
foi estudado como um potenciador da criatividade e resolução de problemas
em voluntários saudáveis, remetendo-nos para a tendência atual da
microdosagem de LSD em indivíduo.” (MORAIS, 2019).

Vistos os módulos passados no presente trabalho, podemos perceber que não


é de hoje que há tentativas de uso clínico de LSD, mesmo que com algumas
frustrantes, por conta do poder de alteração de consciência do ácido, que mesmo em
algumas (várias) vezes a utilização tenha sido distorcida para um viés recreativo,
mostra seu potencial terapêutico que se dá no uso de microdoses da substância.
Guilherme Lemos em seu estudo de “Utilização do LSD Para Tratamento em
Pessoas com Depressão e Transtorno de Ansiedade Generalizada” – o qual vai ser
revisado posteriormente, afirma que o LSD se mostra uma das mais promissoras
substâncias para o tratamento da depressão e se mostrou positivo em relação ao
tratamento de estresse e ansiedade, mas critica a pequena quantidade de estudos e
dados sobre o tema, o que se deve justamente a política legislativa de diversos países,
os quais por criminalizarem a droga – e por adento meu, pelo preconceito construído
em torno do ácido, dificultam a ação dos pesquisadores em realizar experimentos, o
que também ainda atrasa o processo de aprovação.
Assim como a ansiedade e a depressão, o LSD também é bem recomendado
quando falamos de desapego de vícios como o alcoolismo e o tabagismo, segundo
estudos de Anderson, et. al. (2019).
O LSD em microdosagem pode ser utilizado como um instrumento terapêutico
leve, em indivíduos saudáveis que apenas buscam uma melhora de si mesmos.
Porém ao mesmo tempo, é necessário que haja um acompanhamento não só
psicológico, mas como também psiquiátrico, para que se possa constatar a
12

possibilidade e até eficácia do uso da substância no sujeito que deseja utilizar o ácido
lisérgico como estimulante para seu aprimoramento, o que será exemplificado no
próximo tópico.

5.7 ESTUDO DE CASOS

Para o melhor entendimento acerca do tema da utilização clínica de ácido


lisérgico, utilizarei de uma pesquisa revisada recentemente por Guilherme Lemos, de
Polito e Stevenson (2019), publicado na Revista Ibero-Americana de Humanidades,
Ciências e Educação (REASE), onde ele mapeou a utilização de microdoses de LSD
e outras substâncias para o tratamento em pessoas com depressão e transtorno de
ansiedade generalizada.

Substância Nº Total de Dose Unidade de Dose Dose


Relatos Média Media Mínima Máxima
LSD 230 13.5 μg Microgramas 8,5 μg 50 μg
Psilocibina 225 0,3g Gramas 0,1 g 1,5g
Outros 23 - - - -

Tabela 1 - Substâncias e Doses (POLITO E STEVENSON, 2019).

Aqui, serão abordados os efeitos em meio a ansiedade generalizada, onde foi


utilizado como instrumento de diagnóstico o DSM-V para ansiedade generalizada, o
qual é um dos critérios mais utilizados para o diagnóstico diferencial de transtorno de
ansiedade – o qual é necessário entender o básico sobre o conceito da patologia, para
melhor compreensão no estudo.
Os participantes foram recrutados em comunidades online relacionadas a
microdosagem. 251 participantes preencheram o questionário inicial, desses, 98
enviaram pelo menos um relato diário e em meio a eles, 63 preencheram o
questionário final do estudo, que usaram drogas além do LSD, as quais se tratam de
microdoses de psilocibina, mescalina orgânica e sintética, 4-HO-MET, DOB, 2-C-C, 2-
C, D, 2-C-E e o LSA.
Trarei apenas a primeira parte do estudo, a qual buscou analisar os
participantes por 6 semanas, enquanto eles preenchiam relatórios diários sobre suas
13

sensações e sentimentos. E que mesmo que conte com o uso de outras substâncias
além do LSD, se faz válido pela alarmante quantidade de relatos de utilização do ácido
e o fato da relação próximas de drogas psicodélicas, como a psilocibina.
Levaram em conta os seguintes quesitos:
“Saúde Mental: Escala de Depressão e Ansiedade; Atenção; Bem-
estar; Atenção Plena, como o paciente responde a cada um dos 15 itens do
MAAS (Mindful Attention Awareness Scale), trata-se de uma escala que mede
a consciência do momento presente do paciente; Experiencias místicas;
Personalidade; Absorção; Criatividade e Agencia, que trata de uma escala
onde o paciente diz se o que ocorreu estava sob o controle dele ou era algo
involuntário. Cada um desses quesitos é composto por uma escala que
possui um protocolo individual.” (LEMOS, 2021)
Em um sentido geral, foi percebido no estudo que a curto prazo, a
microdosagem levou a um aumento imediato em diversas variáveis psicológicas –
como a criatividade, o foco e a felicidade, mas quando falamos de um longo prazo, a
microdosagem levou à melhoria da saúde mental – diminuição de sintomas de
estresse e depressão, porém alterou a capacidade de atenção (LEMOS, 2021).
Ao mesmo tempo, sinais de neuroticismo foram identificadas em uma pequena
parcela do estado, o que segundo Lemos (2021), traz o fato de que os efeitos
observados no estudo não são decorrentes exclusivamente do efeito psicológico do
uso psicodélico, como por exemplo o uso de outras substâncias, o que pode ter
interferido no resultado.
“De maneira geral, o resultado final obtido no estudo foi
evidências de diminuição da depressão e do estresse; diminuição da
divagação mental e aumento do neuroticismo (POLITO e
STEVENSON, 2019). [...] os efeitos benéficos observados sobre os
sintomas de depressão não necessariamente se estendem a
pacientes psiquiátricos, uma vez que o diagnóstico de transtorno de
humor/ansiedade foi um critério de exclusão.” (LEMOS, 2021)

Mas mesmo que na maioria das vezes sejam tratados em estudos apenas
dados de viés patológico e de tratamento específico, podemos ver no artigo de
Anderson et. al (2019), pela análise de teoria fundamentada, o apontamento de outros
807 benefícios codificados da microdosagem de LSD e divididos em 11 categorias.
Onde aparecem o desenvolvimento do humor melhorado (26,6%) que se mostrou em
215 relatórios, em segundo, o foco aprimorado (14,8%) que esteve em 119,5
14

relatórios), a criatividade (12,9%) – 104 relatórios, Autoeficácia (11,3%) – 91,5


relatórios, Energia Aprimorada (10,5%) – 84,5 relatórios, Habilidades Sociais (7,6%)
– 61 relatórios, Benefícios Cognitivos (5,8%) – 47 relatórios, Ansiedade Reduzida
(4,2%) – 34 relatórios, Aprimoramento Fisiológico (3%) – 24 relatórios, Outros
benefícios percebidos (2,2%) – 18 relatórios, ou seja, efeitos que abrangem muito
além de uma patologia, como a depressão. Mas, como apontado no outro estudo, é
preciso estar atento aos efeitos de longo prazo gerados pelo uso da microdosagem,
em especial de LSD, como tratamos nesse presente artigo.

6. METOLOGIA

Esse estudo buscou por meio de uma revisão qualitativa, buscar entender como
o sujeito se comporta frente a certo estímulo. Desenvolvida com base em outros
materiais já elaborados e constituída principalmente de livros e artigos científicos de
estudos antigos e presentes – para possível percepção do panorama geral histórico
da substância, mesmo tratado de forma breve. Textos os quais em certa parte foram
traduzidos para esse estudo, mas em sua maioria, foram encontrados nas pesquisas
de Nishimura (2007), a qual trouxe no artigo usado como base pra essa pesquisa,
diversos apontamentos que acrescidos de pesquisas realizadas com pessoas
saudáveis e patológicas, relatos históricos e experimentais, foi possível mapear e
ressaltar a possibilidade de utilização de microdoses de LSD em curto prazo e seus
benefícios para o sujeito, que acompanhado por um terapeuta e um psiquiatra, poderá
definitivamente – dependendo de sua condição – trazer benefícios para si, em um
cenário onde consideramos como importante o aperfeiçoamento da pessoa, em
paralelo com a relação com o mundo externo.
E justamente por se tratar de um projeto de estudo feito por um estudante, os
apontamentos presentes em sua maioria se dão baseados em dados científicos
comprovados, os quais apropriam a veracidade desse artigo, mas ao mesmo tempo,
é necessário dizer que é extremamente necessário um acompanhamento médico e
psicológico, não sendo devido se basear apenas nesse ou nos artigos presentes no
estudo.
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7. DISCUSSÃO

O uso de microdoses de LSD, conforme apresentado ao longo do trabalho, se


mostrou bastante eficaz na maioria dos casos estudados. O que nos traz à tona a
necessidade de que sejam feitos mais estudos sobre o a temática, com um primeiro
âmbito principal de conscientização, justamente pelo preconceito imposto ao redor do
tema.
A questão social e legislativa, é a que mais influencia na promoção do uso
dessa terapia alternativa, que por repudiada pela população e o Estado, perde sua
credibilidade, além de criminalizada, o que diminuem e muito a facilitação de adquirir
a dietilamida do ácido lisérgico, principalmente em seus estados mais puros e limpos.
Mesmo que de certa forma os experimentos com microdoses de ácido não
estejam tão em alta, é perceptível até por meio desse estudo, que na década passada,
o número cresceu e cada vez mais o tema vem sendo abordado, o que traz relevância
ao assunto e principalmente tratando-se de modelos de estudo bem estruturados e
até congressos sobre a questão.
Em janeiro de 2006, ocorreu um simpósio sobre LSD na Suíça, chamado
“Problem Child and Wonder Drug” (A Criança Problemática e a Droga Maravilhosa),
contando com a presença do próprio Albert Hoffman como palestrante, que em 11 de
janeiro desse mesmo ano completava 100 anos (EROWID, 2006).
Porém, mesmo com os benefícios do tema sendo abordados cada vez mais, é
necessário ao mesmo tempo estar atento as limitações da utilização de microdoses.
Como por exemplo, o de acesso a droga, justamente pelo fato de que na maioria dos
países, ela ainda é criminalizada. Ainda segregando a utilização do ácido como forma
terapêutica as mais altas classes sociais, pelo motivo apontado acima e
principalmente pela falta de informação relacionadas a outras formas de terapia, o que
ocasiona um apelo direto e restrito às indústrias farmacêuticas, as quais lucram cada
vez mais com a venda de antidepressivos e ansiolíticos com potencial viciante
evidente e prejudicial a nós.
Visto isso, é necessário entender melhor a ação das microdoses no corpo do
indivíduo pelo fato de que assim como qualquer outra substância que consumimos a
qual faz parte de nossa rotina, o efeito do LSD pode tanto uma dependência de hábito,
quanto por um auxiliar nesse mesmo condicionamento de rotina, justamente pelos
estímulantes subliminares presentes na substância, os quais se tratam de estímulos
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produzidos abaixo do limiar da consciência, ou seja, são quaisquer estímulos não


captados no nível de consciência por estar abaixo dos limites sensoriais receptores.
O que pode facilitar essa dinamização e ainda, por esse fato, diminuir as evidências
do potencial viciante do LSD.
O qual pelos seus benefícios cognitivos e psicológicos observados nos casos,
pode vir a se tornar frente ao combate de ansiedade e depressão, assim como
ferramenta terapêutica para pessoas saudáveis

8. CONCLUSÃO

Com base nos dados e estudos trabalhados no presente artigo, como


evidenciado antes e com devida importância, é cada vez mais necessária a retomada
de estudos acerca do tema. Mesmo que haja algum dos artigos revisados nesse texto
e alguns outros pelo mundo da ciência, os quais tem uma boa base científica
comprovada, o uso de microdoses de LSD ainda está em baixo, em uma grande
escada que traz a evidência de medicações em paralelo ao uso terapêutico e mesmo
que conte com uma grande eficácia, o preconceito enraizado em torno do tema
apenas complica a divulgação e realização de estudos que tratam o uso dessa terapia
alternativa as que compõe o corpo científico que defende a terapia psicodélica.
Vê-se necessário a conscientização da população acerca da terapia com o uso
de drogas que para a nossa sociedade são dadas como constitucionalmente ilícitas,
com âmbito a longo prazo de ser possível a viabilização dessa ferramenta. Seja com
o uso de políticas públicas ou de estímulo a participação direta da sociedade com sua
própria saúde, podendo levar a cada um escolher de fato – claro que com
acompanhamento psiquiátrico, a medicação que lhe faz melhor para sua condição.
A que com base nos estudos lidos e estudados, parece gerar melhores
resultados a curto prazo, podendo ser considerado como um facilitador do processo
terapêutico. Justamente, como já falado antes, por conta do seu poder de ação
“inconsciente”. Onde por meio de estímulos psicológicos específicos, se utilizados da
maneira correta, pode trazer uma ótima ferramenta terapêutica.
Por fim, é importante voltar a ressaltar a importância da consulta e intervenção
direta de profissionais da saúde – como psicólogos e psiquiatras – e a utilização de
substâncias confiáveis, para melhor aproveitamento do processo e garantindo a
segurança do paciente, justamente pelos já mencionados efeitos negativos do LSD.
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