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TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL

DO ESTADO DA GUANABARA

O Partido Trabalhista Nacional, Seção do Estado da


Guanabara, solicita o registro dos nomes dos Srs. Alziro
Zarur e Hélio Damasceno, como candidatos a Governador
e Vice-Governador do Estado da Guanabara.

EMENTA

Inelegibilidade de candidato a Gover-


nador de Estado - Lei n.o 4.738, de
15 de julho de 1965: art. 1.0, n.o 11,
letra e, c/ c o n.o I, letra n. Exercício de
cargo ou função de direção em emprêsa
concessionária de serviço público -
radiodifusão - sujeita ao contrôle da
União, até três meses antes das eleições.
Admissibilidade e procedência de im-
pugnação tempestivamente apresenta-
da pelo Ministério Público.
Apreciação de provas, indíces e cir-
cunstâncias.
Inadmissibilidade de registro isolado
de candidato a Vice-Governador. Voto
vencido.
Rev. Dir. Públ. e Ciência Politica - Wo Lle Jalleiro - Vol VIlI nQ 3 - Set./Dez. 1965
- 132-

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos êstes autos do processo


r.. o 177/65, em que se apresentam, para registro, pelo
Partido Trabalhista Nacional, Seção do Estado da Guana-
bara, os nomes dos Srs. Alziro Zarur e Hélio Damasceno,
como Candidatos a Governador e Vice-Governador do
Estado, nas eleições de 3 de outubro próximo:

PRELIMINARMENTE

Considerando que o edital para impugnação ao re-


gistro dos candidatos foi publicado no Diário Oficial do
dia 5 de agôsto de 1965;

Considerando que essa publicação, conforme infor-


mação da Secretaria do Tribunal, foi feita como retificação
a edital anterior, na conformidade e observância do dis-
posto no § 1.0 do art. 7.° da Lei n.o 4.738 de 1965;

Considerando qUe a Impugnação da Douta Procura-


doria Regional Eleitoral foi apresentada aos autos a 10
de agôsto de 1965, ou seja ao têrmo final do prazo da lei;

Considerando que até então inexistiam as "Instruções


do E. Tribunal Superior Eleitoral para o Pleito de 3 de
outubro de 1965", que são de 10 de agôsto;

Considerando que mesmo que a impugnação em cau-


sa fôsse realmente intempestiva, tal fato não subtrairia ao
exame, no processo, das provas e circunstâncias do mesmo
constantes, ainda que não alegadas pelas partes, ex vi, do
art. 11 da Lei n.o 4.738/65.

o Tribunal rejeita a preliminar de intempestividade


levantada pelo argüido.
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NO MÉRITO

Considerando que a Impugnação da D. Procuradoria


Regional Eleitoral fundou-se, expressamente, na Lei
n.o 4.738, de 15 de julho de 1965, art. 1.0, n.O lI, letra c
combinado com o n.O I, letra n;
Considerando que, segundo os dispositivos legais in-
vocados, são inelegíveis, para Governador e Vice-Gover-
nador, os que tenham exercido, até três meses antes da
eleição, cargo ou função de direção nas emprêsa~ públicas,
nas entidades autárquicas, nas emprêsas concessionárias
de serviço público ou em organização da União, ou sujeitas
a seu contrôle;
Considerando que a radiodifusão sonora é um serviço
público que compete, de forma exclusiva, à União explorar
diretamente ou mediante autorização ou concessão, por
iôrça do que determina o art. 5.°, n.O IlI, da Constituição
federal;
Considerando que o imperativo mandamento cons-
titucional sintoniza com a melhor conceituação doutriná-
ria da matéria e com ambos se afina a legislação ordinária
em vigor, através de definições pertinentes (Lei n.o 4.117,
de 27 de agôsto de 1962, que instituiu o Código Brasileiro
de Telecomunicações, e Decreto n.o 52.026 de 20 de maio
de 1963, que aprovou o Regulamento Geral para execução
dessa lei);
Considerando que a Rádio Mundial S. A. tem tôdas
AS características técnicas e legais de uma concessionária
de serviço de radiodifusão;
Considerando que, como tal, dita rádio é expressa-
mente tida e reconhecida pelo CONTEL - Conselho Na-
cional de Telecomunicações;
Considerando que a Rádio Mundial S. A. é mesmo,
para todos os fins e efeitos, uma emprêsa privada, conces-
sionária dos serviços de radiOdifusão, nesta Cidade do Rio
de Janeiro, Estado da Guanabara, conforme o Decreto
Re\". Oir. I'ubl. e Ciência I'ulitica - Rio de Janeiro - Vul. VIII. n? 3 - Sct./Oez. 1965
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n.O 34.901, de 6 de janeiro de 1954, cujo prazo de con-


cessão foi prorrogado por lei até 1972;
Considerando que o Candidato Alziro Zarur é o maior
acionista, o Diretor-Presidente e o Superintendente dessa
rádio desde 15 de junho de 1957;
Considerando que o licenciamento do candidato
dêsses cargos e funções - formalizada em ata da reunião
de diretores, datada de 28 de julho de 1965, mas desacom-
panhada de qualquer ato publicitário de divulgação que
a autenticasse e legitimasse no tempo - não foi sequer
comunicado ao órgão estatal fiscalizador e controlador de
suas atividades, ou seja o CONTEL - Conselho Nacional
de Telecomunicações;
Considerando que essa ata apresenta indícios
veemente simulação, face ao objetivo nela colimado, como
se depreende do exame e da análise das circunstâncias que
cercaram a sua lavratura;
Considerando que, nesse sentido, concluiu a perícia
feita na própria rádio, cujo laudo acha-se no bôjo dos
autos;
Considerando que mesmo se válida e aceitável fôsse
o licenciamento do candidato de suas funções e cargos de
direção na sociedade anônima, não se desligou êle das ati-
vidades radiofônicas, utilizando-se delas, ainda e sempre,
de maneira exclusiva e permanente;
Considerando que, mesmo se a~sim não fôsse, o can-
didato praticou, em datas recentes, inequívocos atos de
gerência e administração na emprêsa, emitindo cheques
e dispondo de parte das rendas sociais em favor de fun-
cionários de entidade congênere;
Considerando que, não obstante o pretenso e suposto
licenciamento, a situação do candidato continuou inalte-
rável à frente da concessionária, sem solução alguma de
continuidade, inclusive porque continuou a perceber, por
interposto pessoa, os proventos dos seus cargos e de suas
funções; ,
Re\'. Dir, públ. e Ciência Política - Rio de Janeiro - \'01. \"llJ. n9 :) - Set./De7. 1%:,
-135 -

Considerando que da inelegibilidade do candidato


a Governador decorre o impedimento do candidato a Vice-
Governador, Sr. Hélio Damasceno, de vez que a Consti-
tuição federal, no art. 81, § 4.°, com a redação dada pela
Emenda constitucional n.o 9, aplicável às eleições esta-
duais, ex vi do art. 2.° da Emenda constitucional n.o 13,
.e já agora reproduzido no art. 91 do nôvo Código Eleitoral,
exige o registro conjunto dos dois candidatos em chapa
única e indivisível;
Considerando, finalmente, que os fundamentos das
conclusões do Tribunal estão amplamente expostos no re-
latório e nos votos proferidos no julgamento, constantes
das notas taquigráficas e que serão juntas ao processo,
como determina o art. 273, § 2.° do Código Eleitoral -
Acordam, em razão do exposto, os Juízes do Tribunal
Regional Eleitoral do Estado da Guanabara, reunidos em
Conselho, imediatamente após o julgamento, em rejeitar,
por votação unânime, a preliminar de intempestividade
levantada pelo argüido e, no mérito, por maioria de votos,
admitir e provar a impugnação apresentada pela Douta
Procuradoria Regional Eleitoral, julgando inelegível, para
o Govêrno do Estado, o candidato do Partido Trabalhista
Nacional, Sr. Alziro Zarur e, via de conseqüência, indeferir
o pedido de registro do candidato a Vice-Governador
Sr. Hélio Damasceno, ex vi do princípio da unidade do
registro para os dois cargos eletivos.
Rio de Janeiro, GB., em 26 de agôsto de 1965.
Oscar Tenório, Presidente; Laudo de Almeida
Camargo, Relator; Ivan Lopes Ribeiro, Membro;
João Coelho Branco, Membro; Milton Bar-
cellos, Membro; Eduardo Jara, Membro, ven-
cido. De acôrdo com as notas taquigráficas;
Edmundo Lins Neto, Membro;
Fui presente:
Eduardo Bahouth, Procurador Regional.
R<\'. ['ir [',,111. < Ci~nci3 Política - Rio li< Janeiro - \·,,1 \'111 nu 1 - -;d ID"z, 196:,
- 136-

TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DO ESTADO


DA GUANABARA

Partido Socialista Brasileiro - Seção do Estado


da Guanabara - O Presidente solicita o registro dos
nomes do Marechal Henrique Baptista Duff1es Teixeira
Lott e do Deputado Rubens Berardo Carneiro da Cunha
corno candidatos a Governador e Vice-Governador do
Estado da Guanabara.

EMENTA

1 . Inelegibilidade - Segundo o
§ 1.0 do art. 7.° da Lei nY 4.738, de
15-7-1965, o direito de argüir inelegi-
bilidade é privativo dos partidos e do
Ministério Público.

2 . Argüição de inconstitucionalidade
do art. 4.° da Lei nY 4.738, de
15-7-1965, por ofensivo não só do
art. 139, n.o lI, letra e, da Constituição,
corno também do art. 2.° da Emenda
constitucional n.o 14 - Improce-
dência.

3. Transferência de domicílio eleito-


ral com fundamento na faculdade con-
tida no § 3.° do art. 33 do antigo
Código Eleitoral e no parágrafo único
do art. 42 do nôvo Código - A trans-
ferência constitui ato jurídico perfeito,
situação jurídica definitiva revestida
de res judicata, de vez que foi deferida
por decisão do Juízo do nôvo domicí-
lio, decisão que é irrecorrível para o
eleitor transferido. (Res. n.o 5.235,
}<\:\" Dir. Publ. t: Ciência Política - Hin de j:lnciro - \"01. \"111 n" 3 __ o ~t;'t.,{fJ~/. IUI!:I
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art. 21, § 2.° e Cód. Eleitoral, art. 57,


§ 2.°) e irretratável durante um ano
(Cód. art. 55, § 1.0, II; antigo Cód.,
art. 39, § 2.°), e que foi confirmada
pelo T . R . E ., ao negar provimento a
recurso de partido político.

4 . Cancelamento r e sul t a n t e da
transferência de domicílio eleitoral -
Constitui, no Juízo de origem, simples
exequatur da decisão prolatada no
Juízo do nôvo domicílio, não se justi-
ficando a formação de processo con-
traditório - Distinção expressa nos
arts. 59, 71 e 77 do nôvo Código Elei-
toral.
5 . Inelegibilidade para o cargo de
Governador de Estado com fundamen-
to na letra e do item II do art. 139 d8
Constituição, acrescido pela Emenda
n.O 14, e que foi reafirmada no art. 4.°
da Lei n.O 4.738, de 15-7-65.
- Em face do que dispõe a referida
norma constitucional, é inelegível ao
cargo de Governador de um Estado-
membro que, ao tempo da eleição, não
tiver nêle domicílio eleitoral e por pe-
ríodo mínimo de quatro anos.

6 . Inadmissibilidade de r e g i s t r o
isolado de candidato a Vice-Governa-
dor - Do indeferimento por inelegibi-
lidade do registro do candidato a Go-
vernador decorre, ipso facto atque jura,
o indeferimento· do candidato apresen-
tado para Vice-Governador, ante o
princípio de chapa única e indivisível
PC'\' Dir. PullJ L' CiL'n..:i:i l'lli!l:ic! Hio dl' J;IIleirn - rol \'111. n'! J - Ser. 'Dez. lYü5
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estatuído no art. 81, § 4.°, aplicável às


eleições estaduais, ex vi do art. 2.° da
Emenda n.o 13 e rearfirmado no art. 91
do nôvo Código Eleitoral.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos êstes autos de Processo


11.° 131/65, em que o Partido Socialista Brasileiro, Seção
do Estado da Guanabara, requer o registro dos nomes do
Marechal Henrique Baptista Duffles Teixeira Lott e do
Deput.do Rubens Berardo Carneiro da Cunha como can-
didatos a Governador e Vice-Governador na eleição de 3
de outubro próximo:
1 . Preliminarmente, nega o Tribunal provimento
ao recurso interposto pelo eleitor Ràmulo de Avelar, com
base na letra d do inciso XXI do art. 16 do Regimento
Interno, contra o despacho do Relator que indeferiu sua
argüição de inelegibilidade à candidatura do Marechal
Henrique Lott. E assim decide, porque o direito de impug-
nação, segundo dispõe o § 1.0 do art. 7.° da Lei n.o 4.738,
de 15-7-65, cem vigência irrestrita à data do despacho,
é privativo dos partidos políticos e do Ministério Público.
2 . Quanto às duas argüições de inconstitucionali-
dade do art. 4.0 da Lei n.o 4.378, de 15-7-65, suscitadas
pelos dois candidatos e pelos dois partidos, na contestação
à impugnação do Ministério Público, decide também o
Tribunal rejeitá-las.
Não há falar em conflito do referido dispositivo legal
com o art. 139, II, e, da Constituição, se êle se limitou a
reafirmar e mesmo reproduzir êsse nôvo mandamento
consti tucional.
Não há, ainda. falar em oposição da lei com o art. 2.°
da Emenda n.o 14, dando que, como se disse, ela tem sua
fonte límpida e única no art. 1.0 da mesma Emenda cons-
titucional.
Rt"\'. l)ir. I'útll lo: l'il'JII:i~1 l'ulític3 - I~in dI: Janeiro - \'01 \'111. n Q ] - Se! /11t'7. P)fJ~
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As argUlçoes sem consistência jurídica conduziriam


à absurdeza de considerar inconstitucional princípio ins-
crito na própria Constituição.
3 . A argüição de inelegibilidade da candidatura
do Marechal Henrique Baptista Duffles Teixeira Lott
funda-se na letra e da alínea II do art. 139 da Constitui-
ção federal, acrescida a êsse dispositivo constitucional pelo
art. 1.0 da Emenda n.o 14, de 3-6-65, e que foi reafirmada
no art. 4.° da Lei n.o 4.738, de 15-7-65.
Reza a nova norma constitucional que é inelegível
para Governador e Vice-Governador

"quem, à data da eleição, não contar,


pelo menos, quatro anos de domicílio
eleitoral."

Dois são, assim, os requisitos que a Constituição


exige dos candidatos à Govemança e Vice-Govemança:
1.0 - ter domicílio eleitoral no Estado; 2.° - que êsse
domicílio eleitoral, à data da eleição, seja, no mínimo, de
quatro anos.
É necessário, portanto, que o candidato tenha pre-
sentemente, ao registrar-se, domicílio eleitoral no Estado
e que, em 3 de outubro próximo, data da eleição, êsse do-
micílio existente já perfaça, pelo menos, quatro anos de
vigência.
Nada importa que o candidato tenha tido, em qual-
quer tempo anterior, domicílio eleitoral no Estado por
quatro ou mais anos. se não o tem nem o possa ter na
época da eleição.
Essa interpretação literal é a que se concilia com a
interpretação lógica, firmada na ratio legis, já que o cons-
tituinte e o legislador ordinário se inspiraram no objetivo
de exigir que o candidato tivesse vinculação atual e efetiv~
com a vida política do Estado-membro, que almeja dirigir.
R~\'. Dir. P.'bJ t- Cj~llci:t Pnlitic.1 - Hio dr: I:mt'Írn - VoI VIII n°:-1 - Sd./OC'7. 19r.:.
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Ora, o Marechal Henrique Lott não satisfez o requi-


sito da Constituição, porque, como está amplamente pro-
vado nos autos, em 22 de junho último, requereu, do
próprio punho, a transferência de seu título de eleitor da
6. a Zona Eleitoral dêste Estado para a 38.a Zona Eleitoral
do município de Teresópolis, Estado do Rio de Janeiro,
pedido que foi deferido por decisão do Juiz dessa cidade
fluminense.
O Marechal Henrique Lott foi inscrito sob o
n.o 17.882, como eleitor da 68. a Seção da 38.a Zona de
Teresópolis, assinou a nova fôlha de votação e recebeu
pessoalmente o nôvo título, passando, do próprio punho,
o respectivo recibo.
A seu turno, o Df. Juiz da 6. a Zona Eleitoral dêste
Estado, Zona de origem, cumpriu as determinações do
art. 23 da Resolução n.o 5.235 do Tribunal Superior Elei-
toral, incorporada no art. 59 do nôvo Código Eleitoral,
ordenando o cancelamento da inscrição do eleitor trans-
ferido e a remessa da antiga fôlha individual de votaçãc
ao Juiz requisitante, tendo comunicado a êste Tribun9.1
o c:f'celamento.
No cancelamento por transferência só cabem ao Juiz
de origem essas providências complementares de exe-
quatur da decisão prolatada pelo Juiz competente para
conhecer e julgar a transferência, não tendo lugar a for-
mação de processo contraditório, que só tem lugar no can-
celamento por exclusão, ex vi do que dispunha o art. 32
da Resolução n.o 5.235 e dispõe o art. 77 do nôvo
Código, e nas hipóteses enumeradas, respectivamente, nos
arts. 25 e 71.
A decisão do Juiz de Teresópolis, que deferiu a trans-
ferência era irrecorrível para o eleitor transferido. (Res.
n.o 5.235, art. 21, § 2.°; Cód. Eleitoral, art. 57, § 2.°.)
Certo é, todavia, que o Egrégio Tribunal Regional
Eleitoral do Estado do Rio de Janeiro, em acórdão
unânime de 2 1 do corrente, prolatado no Processo
R,,\·. Dir. !'ti"l. " Cieacia Politica - Rio de Janeiro - \·01. VIII. n" J - ~d./[)C7 19t;5
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n.O 9.098/65, negou provimento ao recurso, em que o


candidato pretendia desistir da transferênca, e também
ao recurso, em que o Partido Socialista Brasileiro preten-
dia anular a mesma.
A transferência é, em verdade, irretratável e irrevo-
gável, porque, só decorrido o prazo de um ano da inscrição
t:m Teresópolis, poderá o candidato pleitear a mudança
de domidlio eleitoral. (Código de 1950, art. 39, § .2.°;
Código de 1965, art. 55, § 1.0, n.O lI.)
A inequívoca manifestação de vontade feita pelo
Marechal Henrique Lott e sancionada por decisão judicial
constitui ato jurídico perfeito e acabado, situação jurídica
definitiva com feição genérica de coisa julgada, porque as
decisões dos Tribunais Regionais Eleitorais, em regra, são
terminativas.
Transferindo voluntàriamente seu domicílio eleitoral
para o Estado do Rio de Janeiro, criou o Marechal Henri-
que Lott obstáculo constitucional intransponível à sua can-
didatura ao govêrno da Guanabara, em face da inelegibili-
dade estatuída pela Emenda n.o 14.
4 . Da inelegibilidade do candidato a Governador
decorre o impedimento constitucional ao registro do can-
didato Deputado Rubens Berardo a Vice-Governador, de
vez que a Constituição, no art. 81, § 4.°, com a redação
dada pela Emenda n.o 9, aplicável às eleições estaduais,
ex vi do art. 2.° da Emenda n.o 13, e já reproduzido no
art. 91 do nôvo Código Eleitoral, exige o registro conjunto
dos dois candidatos, em chapa única e indivisível. O nome
do candidato a Vice-Governador poderá ser apreciado, na
hipótese de outra indicação válida de candidato a Go-
vernador.
5 . Os fundamentos das conclusões do Tribunal
estão largamente expostos nos votos proferidos no julga-
mento constantes das notas taquigráficas e que serão jun-
tas ao processo, como determina o art. 273, § 2.°, do
Código Eleitoral.
Rt\". Dir. I'úbl. t Ciência Politica - Rio de Janeiro - Vol. VIII. 09 3 - Set./Dez. 1965
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6 . Acordam, em razão do exposto, os Juízes do
Tribunal Regional Eleitoral, preliminarmente, negar pro-
vimento ao recurso interposto pelo eleitor Dr. Rômulo
de Avelar, por votação únânime; rejeitar, 'também em de-
cisão unânime, as duas argüições de inconstitucionalidade
do art. 4.° da Lei n.o 4.738, de 15 de julho de 1965, susci-
tadas pelos candidatos e pelos partidos; no mérito, inde-
ferir os pedidos de registro dos candidatos Marechal Hen-
rique Baptista Duffles Teixeira Lott e Deputado Rubens
Berardo Carneiro da Cunha, formulados pelos Partidos
Trabalhista Brasileiro e Socialista Brasileiro, julgando-se,
assim, procedente a impugnação apresentada pelo Minis-
tério Público, sendo que o Jurista Edmundo Lins Neto
admitiu a impugnação apenas em relação ao cargo de
Governador, mantendo o pedido de registro do candidato
a Vice-Governador.
Rio de Janeiro, Gb., em 24 de agôsto de 1965.
As) - Oscar Tenório, Presidente; As) - João
Coelho Branco, Relator; As) - Milton Bar-
cellos, Membro; As) - Eduardo Jara, Mem-
bro; As) - Edmundo Lins Neto, Membro, ven-
cido em parte; As) - Laudo de Almeida Ca-
margo, Membro; As) - Ivan Lopes Ribeiro,
Membro.
Visto: As) - Eduardo Bahouth, Procurador Re-
gional.

CÓPIA DAS NOTAS TAQUIGRÁFICAS DA SESSÃO


EXTRAORDINÁRIA DO T R I B UNA L REGIONAL
ELEITORAL DO ESTADO DA GUANABARA, REALI-
ZADA NO DIA 26 DE AGÔSTO DE 1965 ......... .
... .... . . . . . . . . . . ... . . . . . . .. .... . . ........ ..
O Des. Presidente - O Tribunal vai julgar o Pro-
cesso n.o 117/65, de registro dos candidatos Alziro Zarur
e Hélio Damasceno aos cargos, respectivamente, de Go-
R.v, Dir, I'úbl. • Ci~ncia Politica ~ Hio ..t. Jan<iro ~ \'01. \'111. n Q :l _. S<l./[Jez. 1965
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vernador e Vice-Governador do Estado da Guanabara.


Ê requerente o Partido Trabalhista Nacional, Seção da
Guanabara, sendo Relator o Dr. Laudo de Almeida Ca-
margo.
Há advogados para êste feito?
(Anunciam-se os advogados Dr. Oscar Steven-
son e Dr. Pedro Otto. Reis Lopes).
Com a palavra o Relator, para fazer o relatório.
O Dr. Laudo de Almeida Camargo - Sr. Presidente,
meus colegas, o Partido Trabalhista Nacional, Seção do
Estado da Guanabara, solicitou, perante êste Tribunal, o
registro dos cidadãos Alziro Zarur e Hélio Damasceno,
como candidatos a Governador e a Vice-Governador do
Estado nas eleições de 3 de outubro de 1965.
O pedido apresentou-se acompanhado dos seguintes
documentos: a) Cópia autêntica da Ata da Convenção
do Partido Trabalhista Nacional, Seção do Estado da Gua-
nabara, realizada em 27 de julho de 1965, indicando os
nomes dos Srs. Alziro Zarur e Hélio Damasceno como
candidatos do Partido à Governança e Vice-Governança
do Estado, respectivamente (fls. 3-4); b) Fotocópia do
título de eleitor de Alziro Zarur, inscrito sob n.o 16.799
na 20. a Zona Eleitoral desta Cidade (fls. 5); c) Autoriza-
ção do mesmo para registro de sua candidatura neste Tri-
bunal (fls. 6); d) Fotocópia do título de eleitor de Hélio
Santos Damasceno, inscrito sob n.O 20.687 na 4. a Zona
Elei toral desta Cidade (fls. 7); e) Autorização do mesmo
para registro de sua candidatura neste Tribunal (fls. 8);
f) Comunicação da escolha dos candidatos pela Seção de
Partido ao seu Diretório Nacional (fls. 9); g) Resposta
do Diretório Nacional do Partido ao seu Diretório Estadual
(fls. 10); h) Convocação, pelo Diário Oficial (Seção I)
de 26 de julho de 1965, pág. 15.121, para uma Conven-
ção Estadual Extraordinária do Partido (fls. 11); i) Cópia
autêntica do Livro de Presença a essa Convenção, reali-
zada a 27 de julho de 1965 (fls. 12-13); j) Convocações,
R.v. Dir. publ. e Ci':ncia Politica - Rio de Janeiro - \'01. VIII. n~ 3 - Sel./Dez. 1965
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para essa Convenção, aos Diretórios da 2. a , 4.a , 8. a , 9. a ,


10.a , l1. a , 14.a , 17.a , 19.. a , 20. a , 21.a e 22. a Zonas Eleito-
rais (fls. 14 a 26); k) Declaração de Bens de Alziro Zarur
(fls. 29) e de sua espôsa, D.a Iracy Zarur (fls. 30); 1)
Idem de Hélio Damasceno e de sua espôsa (fls. 31); m)
Fôlhas corridas dêsses candidatos, no Instituto Félix Pa-
checo da Secretaria de Segurança Pública do Estado da
Guanabara (fls. 32 e 33); n) Cópia autêntica da Ata da
Reunião do Diretório Nacional do PTN, homologando as
candidaturas escolhidas pela Convenção Estadual do
Partido.
O requerimento de registro foi protocolado na Seção
de Comunicações, dêste Tribunal, sob o n.o 117, em 28
de julho de 1965 e motivou a publicação do edital de
fls. 35, no Diário Oficial, Parte lU, de 5 de agôsto de
1965 - pág. 10.472.
A D. Procuradoria Regional Eleitoral da Guanabara,
de fls. 44 a 49, com vistas no art. 1.0, item I, alínea m,
in fine, da Lei n.o 4.738, de 15 de julho de 1965, c/c o
art. 1.° item lI, alínea e da mesma - que estabeleceu
novos casos de inelegibilidade, com fundamento no art. 2.°
da Emenda constitucional n.o 14 - argüiu a inelegibi-
lidade do candidato Alziro Zarur ao cargo de Governador
do Estado da Guanabara, face ao impedimento decorrente
da sua condição de Diretor-Presidente e Superintendente
de uma organização concessionária de serviço público e
sujeita ao contrôle da União, qual seja a Rádio Mundial
S. A., desta Cidade.
Dita impugnação lastreou-se nos § § 1.0 e 5.° do
art. 7.° do retrocitado diploma legal e tem por nulo e
imprestável o documento exibido pelo candidato, como
prova de interrupção do exercício do cargo de direção na
emprêsa, isto é, a ata da reunião de diretoria datada de
28 de junho de 1965, quando ainda não vigia o impedi-
mento legal, somente apresentada a êste Tribunal em 10
de agôsto seguinte (fls. 39) desacompanhada de prova sa-
fie,'. Dir. Ptibl. e Ciência Politic" - Rio de Janeiro - 1'01. \'111. n' :l - Set IDez, 1965
-145 -

tisfatória do seu efetivo implemento àquela data pretérita.


Por via de conseqüência, "também inaceitável o pedido
quanto ao candidato a Vice-Governador, pelo princípio
legal da unicidade de registro para os dois cargos eletivos".
Acostada à impugnação, veio a certidão de fls. 50/51,
do Diretor-Geral do DENTEL, do Conselho Nacional de
Telecomunicações.
O candidato Alziro Zarur, pessoalmente e com a assis-
tência do Partido Trabalhista Nacional - após ter sido
encaminhado aos autos um exemplar dos estatutos da
Rádio Mundial S. A. (fls. 56/57) - formalizou contra-
riedade àquela argüição, de fls. 65 a 71, levantando, com
os documentos de fls. 74/75, a preliminar de que dita
"argüição é nula pleno jure, de vez que enunciada a des-
tempo". A seu ver, no dia 2 de agósto de 1965 "fóra le-
vado à publicidade, no Diário Oficial, o pedido de regis-
tro da candidatura do suplicante", do quando então pas-
sariam a correr os cinco dias permissivos da impugnação,
a qual, todavia, só veio a lume no dia dez seguinte.
No mérito, a defesa se acastela em tórno da inexis-
tência de serviço público suscetível da concessão, no caso
da Rádio Mundial S. A., que não estaria, além, sob con-
iróle da União, senão apenas sob fiscalização do Conselho
Nacional de Telecomunicações (CONTEL). Mesmo se
assim não fósse, o candidato, ad cautelarn, já se houvera
licenció.do, por cento e vinte dias, a partir de 1.0 de julho
de 1965, do seu cargo na Presidência e Superintendência
da Rádio Mundial S. A. E quanto à remuneração perti-
nente, que ainda continua a perceber, deve-a à generosi-
dade do seu substituto.
A requerimento da impugnante (fls. 59) proce-
deu-se, com a assistência dos espertos das partes, a um
exame pericial na escrita da Rádio Mundial S. A., de que
resultaram os laudos da impugnante, de fls. 106 e 109, e
do impugnado de fls. 118, 119 e 129, assim como os ofí-
cios-respostas de fls. 100 (Banco do Estado da Guanabara
Rc\' Dir. Puhl. e Ci2ncia P(dltiCJ - Hio Lle J':1I1eirt) -- rtd \ 1I1 n v ::> - SCt./DC7. 19/;:;
-146 -
S. A), de fls. 101 (Banco de Crédito Real de Minas Gerais
S. A), de fls. 102 (Banco Andrade Arnaud S. A) e de
fls. 103 (Banco Ribeiro Junqueira S. A).
De fls. 132 a fls. 139 as alegações finais do impug-
aado e, de fls. 140 a 145 as do impugnante.
Permiti, a requerimento do impugnado, a juntada
por linha do parecer do Dr. Clemenceau Luiz de Azevedo
Marques.
Houve conformidade do processo às normas legais e
às instruções do Egrégio Tribunal Superior Eleitoral.
É o relatório.

o Des. Presidente -- Está feito o relatório.


Concedo a pal8.vra ao Professor Oscar Stevenson,
pelo prazo da lei.
O Dr. Pedro Otto Reis Lopes - Sr. Presidente, de-
sejo ponderar que o Professor Oscar Stevenson falará pos-
teriormente.

ODes. Presider.te - Pelo Partido Trabalhista Nacio-


nal, tem a palavra o Dr. Pedro OUo Reis Lopes.
(O advogado, Dr. Pedro OUo Reis Lopes, em susten-
tação oral, levanta a preliminar do não conhecimento da
argüição de inelegibilidade, levántada pela Procuradoria.
No caso de assim não entender o Tribunal, no mérito, pode
seja repelida a impugnação.)
(Termina sua oração o advogado Otto Reis Lopes.)
(U sa da palavra para fazer a sustentação oral, pele
impugnado, o Professor Oscar Stevenson.)
(Conclui sua oração o Professor Oscar Stevenson.)
O Des. Presidente - Com a palavra o Dr. Procura-
dor Regional para proferir o seu Parecer.
Hc.:\' lJir. púhl. L' Ci~'lIcia Política - f<io Jt Jal1L'iru -- \'ul. \'111. n'.' ] -- ~d./lh:L. 1~IJ:;
-147 -

o Dr. Procurador Regional- Exm.o Sr. Presidente,


Egrégios Julgadores, ilustres Advogados, prezado amigo
Dr. Oscar Stevenson.
A Procuradoria Regional, nos julgamentos que vem
fazendo por ocasião do registro de cada candidato, está
tomando na devida consideração a alta missão que lhe foi
confiada, qual seja a de examinar o enquadramento do
candidato diante das condições de inelegibilidade. Sobre-
tudo nesta fase da vida brasileira, num esfôrço do aper-
feiçoamento do regime democrático, torna-se imprescindí-
vel a escrupulosa verificação das condições exigidas para
o candidato e, sobretudo, as restrições impostas, ou sejam
as dependentes de inelegibilidade. Estas estão claramente
enumeradas na lei, não comportam interpretação. Ou o
candidato se enquadra dentro delas ou não. E a matéria,
aO lado da interpretação jurídica, se cinge só e só ao estudo
da prova. A apreciação da prova dos presentes autos leva
à convicção de que o candidato Alziro Zarur não se afastou
efetivamente da gerência de uma organização dependente
de Govêrno - examinaremos adiante essa conclusão.
O candidato em causa, eu sei e todos sabem, é um
cidadão de grandes serviços de benemerência, porém, sob
o ponto de vista legal, afastou-se S. s.a da lei e por isso
mesmo contrariando-a, me obriga a ser contra o registro
de sua candidatura. O eminente advogado Df. Oscar Ste-
venson, ao iniciar a sua brilhante, como são tôdas as suas
orações brilhantes, trouxe a êste caso o conhecimento de
que fala-se a vontade que o julgamento dêste Tribunal
seria de 6 x O. É um mero palpite, dir-se-á. É possível
que não seja, dizem outros. Mas para mim que nunca
me pronunciei a êste respeito, deve dizer que, em se tra-
tando de matéra tão líquida, tão certa, tão incontestável,
espero ser êste o resultado. Afirmo a todos, sob palavra,
que a nenhum dos ilustres juízes desta Casa me dirigi no
sentido de solicitar um pronunóamento favorável à minha
tese. Por isso, estou à vontade, seguro que estou da honra
dos ilustres magistrados que compõem esta Casa que sa-
ReI' Dir. I'úbl. e Ciência I'olilic" -' I<io de Janeiru- \,,1. \111 n', J ~ So!./Oel 19ti:i
-148 -
berão fazer justiça à Justiça que aqui se faz sempre com
intuito único, o da afirmação da lei ...
O fundamento do nosso pedido consistiu na argüição
de inelegibilidade, do candidato Alziro Zarur, na Lei
n.o 4.738, de 15-7-65 que, ao estabelecer casos de inele-
gibilidade com fundamento no art. 2.° da Emenda cons-
titucional n.o 14, dispõe no seu art. 1.0, item I, alínea m,
o seguinte:
"Art. 1.0 - Além dos que estejam compreendidos
nos casos previstos nos artigos 138, 139 e 140 da Cons-
tituição federal, cem as modificações das Emendas cons-
titucionais ns. 9 e 14, são inelegíveis:
I - Para Presidente e Vice-Presidente da Repú-
blica:

m) os que tenham exercido, até 3 ( três) meses


antes da eleição, cargo ou função de direção de emprêsas
públicas, nas entidades autárquicas, nas emprêsas conces-
sionárias de serviço público, ou em organizações da União,
ou sujeitas ao seu contrôle."
Por outro lado, diz êsse mesmo art. 1.0 da Lei
n.o 4.738, no seu item lI, que são inelegíveis:
"lI - Para Governador e Vic2-Governador:

d) no que lhes fôr aplicável, por identidade de si-


tuação, os inelegíveis a que se referem as alíneas a a t do
n.o I dêste artigo."
O exercício de cargo ou função de direção de enti-
dade sujeita 20 contrôle da União, segundo as disposições
precitadas, constituem impedimento inarredável ao regis-
tro de candidaturas aos cargos eletivos de Governador e
11<\' [lir. I'úhl. e Ciência Política ~ Rio tle Janeiro ~ \'01. \'111. nu :l ~ Sd./UCl. 1%"
- 149-

Vice-Governador, quando os respectivos candidatos forem


ocupantes daqueles cargos de direção a menos que, os mes-
mos, em tempo hábil, hajam promovido a competente de-
sincompatibilização.
O argüido, em sua contestação, levantou a preliminar
de intempestividade da argüição de inelegibilidade apre-
sentada por esta Procuradoria, sob o pretexto de que teria
expirado o prazo hábil para impugnação.
Então, alega que o seu têrmo inicial seria a data do
primeiro edital, publicado a 2 do corrente e não a do se-
gundo edital, cuja publicação ocorreu a 5.
Pediria os autos, ao eminente Relator.
(Os autos são levados ao Dr. Procurador Regional.)
O primeiro edital, Senhores Juízes, fôra publicado
com base na Resolução n.O 7.007, do Tribunal Superior
Eleitoral, que dava o prazo de dois dias para impugnação,
e foi publicado equivocadamente, porque verificado o en-
gano, pois a Lei n.o 4.738 regulava, especificamente, a
matéria.
Foi expedido edital, no qual, expressamente, ficou
indicado que qualquer impugnação a essas candidaturas,
nos têrmos da Lei n.o 4.738, de 15-7-65, deveria ser apre-
sentada no prazo de cinco dias, a partir da publicação do
edital. Cinco dias dêste último edital e não do edital an-
terior, equivocadamente publicado de data de dois.
Publicado o edital de 5 de agôsto, com base na Lei
n.O 4.738, oportuno, por conseguinte, a argüição de ine!e-
gibilidade oferecida a 10, sendo de esclarecer que as ins-
truções restringindo os prazos da lei de inelegibilidades,
aprovadas pelo Tribunal Superior Eleitoral, só foram dadas
a divulgação a 11 do corrente.
Ainda que admitíssemos por absurdo fôsse a argüição
de inelegibilidade intempestiva, caberia a esta Procurado-
ria ressaltar o disposto no § 1.0, do art. 11 da lei de inele-
gibilidades, que assim dispõe:
Rév Dir. Públ. e Ciência Politica - Rio de Janeiro - V,,1 VIII n° 3 - ~d IDez. 1965
-150 -

"O Juiz formará sua cOllvicção pela livre apreciação


da prova, atendendo aos fatos e circunstâncias ccnstantes
do processo, ainda que não alegados pelas partes."
Não vou a tanto. Nem isso se torna necessário.
Para mostrar o equívoco em que incidiu a Secretaria
dêste Egrégio Tribunal fizemos um requerimento ao emi-
nente Relator, nos seguintes têrmos:
"A Procuradoria Regional Eleitoral, para fins de di-
reito. vem requerer a V. Exa. mande a Secretaria informar
ao pé desta, que, revendo os autos do registro da candi-
datura do Sr. Alziro Zarur para o cargo de Governador
do Estado da Guanabara, qual a razão por que foram feitas
as publicações de fls. 74 e 75 do Edital para a argüição
de inelegibilidade da referida candidatura sendo que a
primeira delas tem a data de 2.° e a segunda de 5, ambas
do mesmo mês em curso."
E a resposta qual foi? Parece que os ilustres advC"-
gados não quiseram ler, porque querem impressionar o seu
público. A resposta foi a seguinte:
"Exm.o Sr. Dr. Juiz Relator:
Cumprindo o respeitável despacho exarado pelo
Exm.O Sr. Df. Juiz Relator, a fim de atender requerimento
do Dr. Procurador Regional, tenho a honra de esclarecer
qUe a primeira publicação do edital foi feita nos têrmos
da Resolução n.O 7.007, do Egrégio Tribunal Superior
Eleitoral; a segunda fei feita como retificação, conside-
rando o disposto no § 1.0 do art. 7.° da Lei n.o 4.738, de
15-7-65.
Parece que é suficiente para pôr abaixo, para pôr por
terra, o argumento inicial, relativo à argüição de intempes-
tividade do pedido.
Agora, eminentes Juízes, há uma matéria relevante,
qual seja a da radiodifusão. Se a radiodifusão é um serviço
público ou não. Mostramos nos autos que se trata, efeti-
- 151-

vamente, de um serviço público. Depois dos autos como


que encerrados, o eminente Jurista Clemenceau Luiz de
Azevedo Marques trouxe à colação da matéria um parecer
judicioso, inteligente, no sentido de mostrar que a radio-
difusão não é serviço público.
Lamentamos, também, ter que discordar do ilustre
e eminente Jurista, e o fazemos com base na lei, com base
em entendimentos de Juristas de tão boa categoria como
a de S. Ex. a, para mostrar a esta Casa que não há menor
dúvida, que não pode pairar a menor dúvida de que a
radiodifusão é um serviço público. Está estabelecido na
Constituição e nas leis complementares. Primeiramente,
cabe notar, como já assinalado nos autos, que o caráter de
serviço público, direto ou concedido, é atribuído à radio-
difusão pela própria Constituição federal, que assim o qua-
lifica o seu art. 5.°, n.o 12.
Escreve o eminente Ministro do Supremo Tribunal
Federal, A. Gonçalves de Oliveira. cem a autoridade,
também, de antigo Consultor-Geral da República e de Con-
sultor Jurídico do Ministério da Viação, ao qual pertencem,
especificamente, os assuntos de telecomunicações:
"No exame dessa importante questão, não se pode
deixar de assinalar que a radiodifusão constitui Serviço
Público e serviço público da maior relevância, competindo,
como compete à União, por expresso mandamento de
ordem constitucional, explorar, diretamente ou mediante
autorização ou concessão, tais serviços" (Const. fedo art.
5.°, item XII) (A. Gonçalves de Oliveira - Pareceres do
Consultor-Geral da República - voI. 1, pág. 491).
O mesmo eminente Ministro do Supremo Tribunal
Federal, repetindo, aliás, o que é tranqüilo na doutrina e
na jurisprudência brasileiras, tornou a declarar, em nôvo
parecer emitido, não como Ministro, senhores, mas como
Consultor-Geral da República:
"Como Serviço Público, o rádio é instrumento de go-
vêrno, no seu primordial escopo de assegurar a ordem e
R,'\', Dir, Púlll. e Ciência P"Jitica - Rio de Janeiro - \',,1. \'111 nu:I -- ~d/Dez, 1965
- 152-

propulsionar o progresso do País" (Revista de Direito


Administrativo, voI. 55, pág. 368).
Sempre se reconheceu à União a qualidade de Poder
Concedente dos serviços públicos de radicdifusão, a tal
ponto que diversos atos regulamentares se referem a essa
característica, como, por exemplo, na Portaria n.o 899, de
9 de outubro de 1956, do Sr. Ministr.o da Viação, na qual
se lê, entre seus consideranda:
"considerando que o serviço de radiodifm:ão é ser-
viço (Constituição federal, art. 5.°, item XII), de finali-
dade educacional;
considerando que, mesmo concedido, não perde o ser-
viço de radiodifusão o seu caráter de serviço público;"
Um dos mais autorizados administrativistas brasilei-
ros, Seabra Fagundes, tomando por base o preceito consti-
tucional, alude ao "monopólio outorgado à União" para
explorar ou conceder o serviço de radiodifusão (Revista
de Direito Administrativo, voI. 65, pág. 51).
Outro dos mais acatados juristas nacionais, Carlos
Medeiros Silva, que tanto dignificou a Procuradoria-Geral
da República, declara esfàticamente:

"No Brasil, a radiodifusão é um Serviço Público que


à União cabe explorar diretamente ou mediante autoriza-
ção ou concessão" (ReT;ista Forense, voI. 181, pág. 72).
E, no mesmo trabalho, abonando-se em citação de
trabalho especializado sôbre a matéria, mostra a distinção
entre o sistema publicístico brasileiro e o de outros países,
como os Estados Unidos, que consideram a radiodifusão
como atividade privada. Reforça a sua inconteste autori-
dade com as opiniões, em igual sentido de Antão de Mo-
raes, Tancredo Neves e Gonçalves de Oliveira. l\l[as o Tri-
bunal de Contas da União também, senhores. considera
a radiodifusão como serviço público da Un;ão, sujeitando
a registro os contratos de conces~ão. O Ministro RlIh~ I'
- 153-

Rosa, em exaustivo e notável voto, esgotou o estudo da


questão no direito brasileiro e comparado, concluindo no
sentido de que "o serviço de radiodifusão constitui um ser-
viço público a cujo exercício ninguém tem direito sub-
jetivo". Mostra que, qualquer que seja a forma de sua
exploração, continua sempre a ser um serviço público
(Ruben Rosa, Rê:vista de Direito Administrativo, voI. 49,
pág.233).
Com essa comprovação do óbvio, mediante a palavra
de mestres de Direito Público, com experiência direta na
matéria, torna-se irrecusável que a natureza de serviço
público da radiodifusão é norma imposta pela Constitui-
ção, que tanto o legislador como o intérprete têm o dever
de observar.
É inócuo, assim, que se pretenda atribuir ao Código
Brasileiro de Telecomunicações uma interpretação con-
trária à Constituição.
Nada há, porém, nesse Cód:go que exclua os serviços
de radiodifusão do conceito geral de serviço público.
O art. 5.°, alínea d, refere-se apenas a sep"iço de radiodi-
fusão como uma das formas de telecomunicações, sem lhe
negar a qualidade de serviço público, tanto mais que não
distingue a sua exploração direta ou a sua concessão.
Muito ac contrário, diz a lei claramente, no art. 10,
que a radiodifusão é serviço pública, quando aludindo às
exceções ao princípio da exploração direta dos serviços
públicos de telecomunicações (entre as quais a de con-
cessão), acrescenta:

"inclusive quanto aos de radiodifusão."

Através dessa forma elíptica, de uso literário comum,


está o legislador a dizer,
"inclusive quanto aos (serviços públicos) de radio-
difusão."
- 154-

Sei que estou me tornando um tanto prolixo, talvez


cacête. mas é matéria sobretudo relevante, que implica,
para nós, no desenvolvimento de outro raciocínio, para
nos trazen,ffi à convicção de levar a V. Exas., eminentes
magistrados, a certeza do que vamos afirmar: a impossi-
bilidade do candidato obter o seu registro.
O outro argumento de que não há concessão de ser-
viço público sem a percepção de tarifas não tem base dou-
trinária ou legal.
A Constituição não impõe, como forma de remunera-
ção do concessionário, o recebimento de tarifas dos usuá-
rios do serviço. Determina, apenas, no art. 151, parágrafo
único, quando existentes, ficam sujeitas à fiscalização e
revisão do Poder Concedente.
o Estado pode adotar outra modalidade de custeio
do serviço público concedido, além da fixação de tarifas.
Tanto pode subvencionar o serviço, reduzindo o preço a
ser cobrado dos usuários ou consumidores, como pode atri-
buir ao concessionáro outra fonte de receita que atenda ao
custo do ~e!"viço e ao lucro do concessionário.
No caso das concessões de radiodifusão seria impra-
ticável pretender imputar aos usuários incertos e intermi-
tentes o pagamento de uma tarifa. Adota-se, assim, tradi-
cionalmente, inclusive nos países que exercem o mono·
pólio direto do serviço, o regime financeiro que lhe é pe-
culiar, mediante a retribuição pelos que se utilizam dêsse
veículo de comunicação com o público.
Acresce, finalmente, salientar que, para caracterizar
a inelegibilidade, não é mister que se aprofunde o debate
sôbre a natureza jurídica da concessão de radiodifusão.
Ainda que se admitisse, apenas para argumentar, o
argumento de que o serviço público, uma vez concedido,
deixaria de o ser, restaria de pé a proibição, porque a em-
prêsa conces~ionária estará, de qualquer forma, sôbre o
confrô]e da União. ~

Rt:\' Pir. Púld c Cic.nci:1 P(díticI - Hio de Janeiro - Vol. \'111. nY 3 - Sd /[J.:I 19t"\:1
- 155-

Êsse contrôle se manifesta não sàmente através da


fiscalização permanente, como ainda pelo poder norma-
tivo que faculta ao Estado concedente ditar normas obri-
gatórias de serviço, o poder disciplinar exercido sôbre as
emprêsas e a faculdade de rever as concessões, podendo
mesmo extingui-las.
Contestando o que não foi afirmado, diz ainda o pa-
recer que o diretor de emprêsa de radiodifusão não exerce
cargo ou função pública. Também não o exerce qualquer
outro administrador de emprêsa concessionária de serviço
público, que é, por definição, uma pessoa de direito privado.
Mas, para a lei eleitoral, essa forma de gestão basta
para produzir a inelegibilidade, quando desempenhada nos
três meses anteriores à eleição.
Não podendo negar a evidência de que o Sr. Alziro
Zarur praticou atos característicos de gestão e adminis-
tração da Rádio Mundial, pretende o parecer, a título de
defesa, imputar-lhe responsabilidade penal e civil pretex-
tando que os cheques que assinou e as doações que fêz
foram atos nulos, que não obrigam à sociedade.
Da tribuna, também, o eminente advogado repetiu
êsse mesmo argumento, dando-lhe ênfase, o que, a nosso
ver, mostra exatamente o contrário e deixa mal a quem
está pretendendo o registro da sua candidatura.
É inútil, porém, a tentativa desesperada de explica-
ção que, para negar o exercício do cargo, prefere admitir
o dolo.
Continuando a ser. como não deixou jamais de ser,
Diretor-Presidente. apenas em suposto regime de licença,
é claro que os atos praticados obrigam à sociedade e cons-
tituem ato voluntário de desistência da licença, pela
reassunção efetiva do exercício da Presidência.
Eminentes julgadores: acabo de receber um do-
cumento oficial, de grande valia, do Departamento Na-
cional de Telecomunicações, sôbre o tema em debate até
- 156-

agora. O documento é o mais expressivo, qual seja o de


que é a Rádio Mundial uma concessão de serviço público.
Vejo-me na contingência de ler o documento para deixar
mais do que justificado, para deixar provado de modo irre-
torquível que a Rádio Mundial é concessionária de ser-
viço público.

Diz o Departamento Nacional de Telecomunicações:

"O Diretor-Geral do DENTEL, do Conselho Nacio-


nal de Telecomunicações, atendendo pedido verbal for-
mulado pelo Procurador Regional Eleitoral neste Estado,

Certifica que a Rádio Mundial S. A, inicialmente


constituída pelos ex-funcionários da Rádio Clube do
Brasil S. A, com sede nesta cidade e com fundamento nus
arts. (16 e 18) dezesseis e dezoito, do Decreto número
vinte e um mil cento e onze (21.111), de primeiro de
março de mil novecentos e trinta e dois (1932), combi-
nado com os artigos terceiro e quarto do Decreto número
vinte e nove mil setecentos e oitenta e três (29.783), de
dez€:1ove (19) de julho de mil novecentos e cinqüenta
e um (1951), requereu concessão para estabelecer e ex-
plorar uma estação radiodifusora nesta cidade, em onda
média, na freqüência de oitocentos e sessenta (860) qui-
lociclos pertencentes à P. R. A 3.; que o Decreto número
trinta e três mil quatrocentos e dezoito (33.418), de vinte
(20) de junho de mil novecentos e cinqüénta e três
(1953), publicado no Diário Oficial da União de três
(3) de agôsto de mil novecentos e cinqüenta e três
( 1953), assinado pelo Excelentíssimo Senhor Presidente
da República e referendado pelo Senhor Ministro dos Ne-
gócios da Viação: "fica rescindida a concessão outorgada
à Rádio Clube do Brasil SI A pelo Decreto número mil
trezentos e quarenta e três (1.343); de quatro (4) de
janeiro de mil novecentos e trinta e sete (1937), e prorro-
gado pelo Decreto número vinte e nove mil e duzentos e
trinta e três (29.233), ele vinte e seis (26) de janeiro
- 157-

de mil novecentos e cinqüenta e um. ( 1951), para explorar


nesta capital o serviço de radiodifusão "artigo primeiro
(1.0) do Decreto número trinta e três mil, quatrocentos
e dezoito (33.418) ; que a Rádio Mundial S. A. obteve
pelo Decreto número trinta e quatro mil novecentos e wn
(34.901), de seis (6) de janeIro de mil novecentos e cin-
qüenta e quatro (19::>4), publicada no Diário Oficial da
União, concessão (Constituição federal, artigo quinto,
(5.°), (12.°) (décimo segundo) para estabelecer uma ra-
diodifusora na cidade do Rio de Janeiro, "artigo primeiro
( 1.0) fica outorgada concessão à Rádio Mundial S. A., nos
têrmos do artigo (11) onze, do Decreto número vinte e
quatro mil seiscentos e cinqüenta e cinco (24.655), de
onze (11) de julho de mil novecentos e trinta e quatro
(1934), para estabelecer, na cidade do Rio de Janeiro,
Distrito Federal, na conformidade do disposto no artigo
quarto (4.°), do Decreto número vinte e nove mil sete-
centos e oitenta e três (29.783), de dezenove (19) de
julho de mil novecentos e cinqüenta e um (1951), sem
direito de exclusividade, uma estação radiodifusora de on-
das médias, destinada a executar serviço de radiodifusão";
Parágrafo único. O contrato decorrente desta concessão
obedecerá às cláusulas que com êste baixam, assinados pelo
Ministro de Estado dos Negócios da Viação e Obras PÚ-
blicas e deverá ser assinado dentro de sessenta (60) dias
a contar da data da publicação dêste Decreto no Diário
Oficial, sob pena de ser considerada nula a concessão; que
o têrmo de contrato celebrado com a Rádio Mundial S. A.
da estação radiodifusora de ondas médias foi publicado no
Diário Oficial da União de quatro (4) de fevereiro de
mil novecentos e cinqüenta e quatro (1954); que, pelo
Despacho do Senhor Ministro da Viação e Obras Públicas,
publicado no Diário Oficial da União, foram aprovados os
atos legais decorrentes de transferência de ações; que, em
conseqüência, o Senhor Alziro Elias David Zarur passou
a ser o maior acionista da entidade com vinte e cinco mil
setecentos e trinta (25.730) ações que, as concessões são
outorgadas por decreto, acompanhado de cláusulas que
H<r [lir. I'ilbl. e Ciência Politica .- Hio de jan"irlJ - y,,1. VIII. nv 3 - Set./Dez. 19G5
- 158-

regulam ônus e vantagens a serem convencionadas em


contrato; que, a outorga de concessão é prerrogativa do
Presidente da República; que, as concessões não têm ca-
ráter de exclusividade; que os prazos das concessões serão
de dez (10) anos para o serviço de radiodifusão sonora
e de quinze anos para o de televisão; que, o artigo quinto
(5.°) do Decreto cinqüenta e dois mil setecentos e noventa
e cinco (52.795), de trinta e um (31) de outubro de mil
novecentos e sessenta e três (1963) (Regulamento dos
Serviços de Radiodifusão), assim define o que seja con-
cessão: "concessão é a autorização outorgada p210 poder
competente a entidades executoras de serviço de radiodi-
fusão sonora de caráter nacional ou regional e de televi-
são"; que o Decreto número cinqüenta e doÍ!:, mil setecen-
tos e noventa e cinco de trinta e um (31) de outubro de
mil novecentos e sessenta e três (1963) (Regulamento
cios Serviços de Radiodifusão), assim define o que seja per-
missão é a autorização outorgada pelo poder competente
à entidade para execução de serviços de radiodifusão de
caráter local"; que as permissões para execução de serviço
de radiodifusão são dadas por Portaria do Presidente do
Conselho Nacional de Telecomunicações e não têm caráter
de exclusividade e são outorgadas a emissoras cem potên-
cia de até duzentos e cinqüenta (250) watts; que a Rádio
Mundial S. A. pelas características t~cnicas apontadas com
potência de cinqüenta (50) quilowatts, é uma concessio-
nária de serviço de radiodifusão.
É portanto tão patente e tão forte essa radiodifusora,
que vou lar para os eminentes magistrados o que, a respei-
to dela, diz o meu prezado amigo e hoje dirigente da Rádic
Mundial o Dr. Léo Pires Pinto.
O eminente Relator, aguçado, muito aguçado, o que
não ocorre com o humilde Procurador, com assento neste
Tribunal, enxergando muito mais longe que eu nessa ques-
tão atinente à concessão e permissibilidade fêz uma per-
gunta ao Dr. Léo Pires Pinto que foi respondida nestes
têrmos:
Ht:\" Dir. Públ. t;' Ci2l1c:a Política _. Hio Je Jandro ~ \"ui. \"111. n''> :~ -- Sd./UL'l. lYti:J
- 159-

"que o depoente desde que participa da direção de


rádio sabe que esta é a primeira vez que o impugnado se
licenciou da mesma jamais tendo também tirado férias
digo gozado férias; que a tôrre de transmissão da Rádio
Mundial é a maior do Brasil, sendo que a da Rádio Farrou-
pilha dizem ser um pouco mais alta mas ela ascende sôbrê
uma elevação que a Rádio Mundial tem 50 Kw o que a
torna uma das mais potentes da América do Sul pelo seu
reridimento de som; que por ser a Rádio pioneira digo de
prefixo pioneiro do Brasil dispõe ela de canal livre inter-
nacional e mantém uma posição privilegiada no Dial dos
aparelhos radiofônicos por isso em qualquer do mundo em
onde longas ou de 860 quilociclos ela é ouvida satisfato-
riamente."
Por aí se vê, em confronto com a certidão que acabo
de ler a êste Egrégio Tribunal que a matéria é da maior
relevância e sem a menor sombra de dúvida se verifica
que a concessão refere-se a um canal que pode irradiar
para fora dos limites do Brasil, numa potencialidade ini-
gualada, capaz de transmitir o que se quer e o que não
se quer, sujeita, necessàriamente, ao contrôle do Govêrno.
A lei de inelegibilidade exige que o administrador
deixe de fato e de direito o exercício do cargo, para que não
tenha nenhuma influência nem direta nem indiretamente
na sua administração.
É o que significam as palavras "os que tenham exer-
cido até três meses antes da eleição, cargo ou função de
direção nas emprêsas concessionárias de serviço público".
A expressão "tenha exercido" não significa que tenha
suspendido, o que é próprio da licença. A licença como se
sabe é a suspensão temporária do exercício do cargo ou
função. "Tenham exercido" é expressão que significa o mes-
mo que tenham ocupado, hajam dirigido que se encontra
na mesma lei, na letra n e na letra p, em contraposição
à expressão "tenham se afastado do exercício das funções,
R<y Dir. I'úlll e Ciência Polítíca - I!ío tle jao<Írn -- \"01. \"111. n" J - SeI/Dez. 1965
-160 -

que se encontra, por exemplo, na letra b, n.o lI, do art. 1.0,


da aludida lei.
"Afastado do exercício" é licença, mas "tenham exer-
cido", "tenham ocupado", "hajam dirigido", são expressões
que significam o mesmo que "depois de cessadas as fun-
ções", conforme se lê na letra s do n.o I, art. 1.0 da mencio-
nada lei, isto é, saído, exonerado e perdido o lugar.
Portanto, se o candidato somente se licenciou do
exercício do cargo, do mesmo não se afastou de direito
conforme exige a lei.
O meu tempo está findado e vou-se apressando no
sentido de dar ao Tribunal uma idéia mais exata da ma-
téria, não obstante minhas áridas palavras.
Outro ponto capital que foi abordado da tribuna é
o que se refere: à perícia realizada nos livros e documentos
da Rádio Mundial S. A, prova cabal da simulação do
afastamento do Sr. Alziro Zarur da direção da emprêsa.
Inicialmente o perito salienta a prova indiciária da
lavratura apressada da nova ata da diretoria, sôbre assunto
que não lhe era pertinente, qual seja a de reforma de esta-
tutos, com o evidente propósito de tent2r legitimar, no
tempo, a ata anterior.
Vou mostrar nos autos. Foi absolutamente possível
apurar-se, pela perícia, que o Sr. Alziro Zarur, no período
de desincompatibilização, assinou, na qualidade de diretor
da sociedade, cheques emitidos contra o Banco do Estado
da Guanabara e Banco de Crédito Real de Minas Gerais.
Não vou ler o documento, porque os próprios advo-
gados não contestam o fato. Que importa que a importân-
cia do cheque seja de 80 mil ou 100 mil cruzeiros? O que
importa é que invalidou o seu afastamento. Continuou a
agir, a perpetuar-se na emprêsa. Continuou a ter função,
aquela função que não podia ter.
Além disso, com o documento de fls. 112 do processo,
praticou, em 28 de julho último, ato especial de adminis-
i~cY Llir. púbJ. t: Ci0ncia Política - Hin UI.! jant:iro - \"ul. \"111 n Y :3 - Sd./[)cz. lYti5
-161-

tração e foi mais longe - de caráter oneroso para a so-


ciedade, pois nêle faz doação aos funcionários da Rádio
Mayrink Veiga "por inteiro da renda publicitária conse-
guida para êsse horário, e sem qualquer despesa de qual-
quer natureza".
Vou ler o documento, porque êste tem a maior valia:
"Ilmo. Sr.
Presidente do Sindicato dos Radialistas
José Benedito de Assis
Nesta
Saudações.
Tenho a grata satisfação de comunicar a V. s.a que,
dentro dos mesmos sentimentos que irmanam a família
radialista nacional, e como testemunho da nossa solidarie-
dade aos dignos funcionários da Rádio Mayrink Veiga,
nessa hora difícil que atravessam, a Rádio Mundial resol-
veu incluir em suas transmissões de segunda a sábado, das
15 sà 15,30 horas, um "Horário da Mayrink."
Durante êsse tempo, os microfones da Rádio Mundial
estarão à disposição da PRA-9, que poderão ser ocupados
por seus artistas e locutores, cabendo-lhes por inteiro, a
renda publicitária conseguida para êSEe horário, e sem
qualquer despesa, de qualquer natureza.
O gesto da Rádio Mundial nada mais significa do que
um movimento de compreensão humana, indo em auxílio
daqueles que, por circunstâncias supervenientes, estão pri-
vados, no momento, de seu ganha-pão.
Peço ao ilustre presidente, comunicar-se com os com-
panheiros da PRA-9, pedindo-Ihes que enviem um repre-
sentante à Rádio Mundial, para um melhor entendimento."
Vê-se por aí, iniludivelmente, que o Sr. Alziro Zarur
voltou a funcionar como diretor, dirigente, gerente da em-
prêsa da qual havia se afastado no dia 1.0 de julho.
Re\" IJir. Públ. e Ci~ncla Política I?io de Jandrn ~- \'ld. \.,,!. n" :3 - Set./Dez. 1965
-162 -
Ora, isso seria permissível face à lei de inelegibili-
dade? Isso se compreenderia dentro da Emenda constitu-
cional n.o 14? É iniludível, senhores. É injustificável qual-
quer atitude que venha no sentido de mostrar que êste
documento foi dado, não pelo diretor, pelo gerente, mas
pelo radialista do ano.
O Des. Milton Barcellos - V. Ex. a pode informar-se
a data do documento?
O Dr. Procurador Regional - 28 de julho. Muito
depois da desincompatibilidade do Sr. Alziro Zarur. Muito
depois. Poder-se-ia, até, dizer-se que o problema dos che-
ques não estava com esta data, confrontando-se a data
com a lei de inelegibilidades, mas esta é de 28 de julho.
O que interessa aos ilustres advogados é mostrarem que
o documento não é valioso, mas foi feito no sentido de
boa amizade, de boa camaradagem e por um homem que
era o radialista do ano. Mas, radialista do ano agindo como
se fôsse diretor da emprêsa?
Diante da prova coligida, conclui-se:
a) que a Rádio Mundial S. A. é uma emprêsa con-
cessionária de serviço público de radiodifusão;
b) que o Sr. Alzido Zarur, não obstante a simulada
licença, praticou atos efetivos de administração da So-
ciedade como seu Diretor-Presidente, que é e não dei-
xou de ser, de fato e de direito;
c) conseqüentemente, o Sr. Alziro Zarur é inelegí-
vel para o cargo de Governador do Estado da Guanabara,
por haver, dentro dos três meses anteriores ao pleito de
3 de outubro, exercido cargo de direção e emprêsa ou
organização concessionária de serviço público, sujeita ao
contrôle da União Federal.
Nessa conformidade, a Procuradoria Regional Elei-
toral, renovando os têrmos da argüição oferecida, requer
seja declarada a inelegibilidade de um homem que, todos
Rev. Dir. Públ. e Ciência Politica - Rio de Janeiro - Vol. \'111. n" 3 - Set./Ilez, 196::;
- 163-

nós sabemos, é magnânimo, é bom; mas vê-se esta Pro-


curadoria Regional na contingência de impugnar a can-
didatura do Sr. Alziro Zarur, em decorrência, negado o
registro requerido pelo Partido Trabalhista Nacional.
Finalmente, considerando, Senhor Presidente, o prin-
cípio de unicidade e indivizibilidade de chapa consagrado
pela recente legislação eleitoral, que impede o registro au-
tônomo e isolado do candidato, a Vice-Governador, requer,
ainda, a denegação do pedido, quanto ao Sr. Hélio Da-
masceno.
O Dr. Edmundo Lins Neto - Senhor Presidente,
pela ordem.
O Des. Milton Barcellos - Pela ordem, Senhor Pre-
sidente.
O Des. Presidente - O Dr. Edmundo Lins ...
O Des. Milton Barcellos - Peço a palavra, pela or-
dem, para pedir a suspensão da sessão para descanso e
reexame da prova apresentada, porque ainda vamos votar.
O Des. Presidente - Qual é a questão de ordem do
Dr. Edmundo Lins Neto?
O Dr. Edmundo Lins Neto - Levanto uma questão
de ordem, Senhor Presidente: o ilustre Dr. Procurador
Regional trouxe à coleção um documento nôvo. De acôr-
do com a lei, sôbre êsse documento terão que falar as
partes.
Proponho, então, ao Tribunal se de acôrdo estiver que
se suspenda a sessão por dez minutos, a fim dos quais, se
os ilustres advogados o quiserem, examinem êsse documen-
to e, se não abrirem mão do direito de sôbre êle falarem,
que se dá a palavra a ambos, por cinco minutos para
cada um, a fim de se manifestarem sôbre o mesmo.
É esta a minha proposta.
O Sr .. Presidente - Com a palavra o Prof. Oscar
Stevenson, sôbre a questão de ordem.
Rev. Dir. Públ. c Ciência Política - Rio de Janeiro - \"01. VIII. n" 3 - Set./Dez. 1!l65
-164 -

o
Dr. Oscar Stevenson - Senhor Presidente, é para
falar sóbre a questão de ordem?
O Des. Presidente - O ilustre jurista Edmundo Lins
Neto apresentou uma questão de ordem, no sentido da
audiência das partes, sóbre o documento lido pelo ilustre
Dr. Procurador Regional: entende S. Ex. a que, se os ilus-
tres advogados quiserem ler o documento, a Presidência
marcará prazo para que falem da tribuna sóbre o mesmo.
O Dr. Oscar Stevenson - Fico muito grato a Suas
Excelências, por que nós, da defesa, não conhecemos êsse
documento. Aliás, Senhor Presidente, desejaria, até, de
início, suscitar uma questão de ordem que é esta: diz a
disposição do Regimento desta Córte inSIgne que, do jul-
gamento, primeiro falarão as partes. Na hipótese, pare-
ce-me que o primeiro que deveria falar seria o Dr. Pro-
curador Regional, que é parte; porém, como é tradição
antiga desta Córte, não suscitei a questão de ordem. Ago-
ra, Senhor Presidente, entendo que nós, da defesa, deve-
ríamos ter a palavra, para podermos fazer uma simples
declaração, porque, entre as conseqüências afirmadas pelo
Dr. Procurador Regional, está esta, de que nós admitimos
um dolo da parte do Sr. Alziro Zarur. Agora há o do-
cumento.
Nessas condições, se Vossa Excelência quiser fixar
um prazo para que examinemos, mesmo de relance, essa
documentação ficaremos profundamente penhorados e ao
m.esmo tempo rendemos nossa homenagem de gratidão
a Vossas Excelências, por esta questão de ordem e de pro-
funda justiça.
O Des. Presidente - A Presidência concede o prazo
de quinze minutos para que os eminentes advogados exa-
minem o documento e, a seguir, dará a palavra aos emi-
nentes advogados.

(Está suspensa a sessão, por vinte minutos.)


Hov Dir. l'úbl. e Ciência Politica - Hio de ):llleiro-- \',,1. \"111. nu :l -- ~,d. Do. IV';:,
-165 -

o Des. Presidente - Está reaberta a sessão.


Vou conceder a palavra ao eminente Professor Os-
car Stevenson, pelo prazo de cinco minutos e, por igual
prazo, ao advogado Otto Reis Lopes.
O Professor Oscar Stevenson - Pediria a V. Ex. a, Sr.
Presidente, que mantivesse a mesma ordem em que fala-
mos, inicialmente.
O Des. Presidente - Pois não.
Lamento, agora, divergir do eminente Mestre, Pro-
fessor Stevenson, em relação ao desdobramento das obje-
ções ao que disse o ilustre Procurador Regional. Parece
que a matéria foi superada.

S. Ex. a, em ato de confiança, me procurou, no meu


Gabinete e disse que queria argüir o problema relativa-
mente à interpretação do Regimento; desde, porém, que
não fêz a argüição, no momento próprio, entendo que a
matéria está superada. Em sendo assim, os ilustres advo-
gados irão falar apenas sôbre o documento.

Com a palavra o ilustre advogado.


(Ocupa a tribuna o Dr. Otto Reis Lopes, sustentando
que o documento apresentado pela Douta Procuradoria
vem, exatamente, corroborar com o ponto de vista que êle
defende.)
O Des. Presidente - Com a palavra o Professor Os-
car Stevenson.
O Prol. Oscar Stevenson - Sr. Presidente, pediria
a
a V. Ex. me fizesse presente aquêle documento.
(O documento é entregue ao Prof. Oscar Stevenson.:;
(O ilustre advogado sustenta, oralmente, que o do-
c-wnento apresentado em nada invalida a tese defendida
<:m favor do candidato.)
R<,' Dir. Públ. e Ci,'ncio P"litk.1 - Rio ,1e )oneiro - \'01. "111. nO 3 - Sét./Dez, 1965
-166 -

o Des. Presidente -
Sugiro ao eminente Relator que
o documento seja junto por linha ao processo, em face
dos debates que se registraram, se estiverem de acôrdo
os ilustres membros dêste Tribunal.
(Pausa.)
Está deferido.
Vai ser julgada a premissa da inelegibilidade, isto é,
a premissa levantada pelo Dr. Procurador Regional.
O Dr. Laudo de Almeida Camargo - Sr. Presidente,
permita-me apenas que faça, antes da apreciação da pre-
liminar, o que uma boa ortcdoxia me obriga a enunciar:
Formalmente, o requerimento de registro em pauta
apresenta-se satisfatório, instruído que foi com tôda a do-
cumentação que lhe era pertinente.
Quanto à matéria controvertida na impugnação de
que foi alvo o candidato Alziro Zarur, cumpre ponderar
o que se segue.
O argüido, em sua defesa, levanta a preliminar de
que a impugnação lhe fôra endereçada a destempo, por isso
que o têrmo inicial do respectivo prazo decorreria da data
do edital publicado a 2 do corrente (fls. 74) e não do
edital cuja publicação teve lugar no dia 5 seguinte.
Tenho, como inaceitável, essa preliminar.
Deveras, a informação de fls. 114v., da Secretaria
dêste Tribunal, esclarece:
"que a primeira publicação do edital foi feita nos
têrmos da Resolução n.o 7.007 do Egrégio Tribunal Su-
perior Eleitoral; a segunda foi feita, como retificação, con-
siderando o disposto no § 1.0, do art. 7.°, da Lei n.o 4.738,
de 15-7-965."
Vale dizer: constatando-se o equívoco da primeira
publicação, procedeu-se logo à segunda, como retificação e
conformidade à Lei que veio regular diversamente a
matéria.
Rtv Dir. Púhl. c Ciência Política - Río Je Janeiro - \"01. \"111. n'! :1 - ~d.!Dez 19ti5
-167 -

Nesse nôvo o acertado edital, de fls. 75. sem neces-


sidade alguma de referência expressa ao anterior, ficou
indicado que
"qualquer impugnação a essas candidaturas, nos têr-
da Lei n.O 4.738, de 15-7-65, deverá ser apresentada no
prazo de cinco dias, a partir da publicação dêste."
E, em verdade, a impugnação de fls. 44, usque 49,
foi apresentada no 5.° dia do prazo iniciado a 5, ou seja
no dia 10 de agôsto de 1965, têrmo final do mesmo.
Nem se diga que as "Instruções do Egrégio Tribu-
nal Superior Eleitoral para o Pleito de 3 de Outubro de
1965" recomendam, no § 2.° do artigo, que a iniciativa
das argüições de inelegibilidades deve ser feita no prazo
de dois dias da afixação do edital, pôsto que, no caso ver-
tente, à época ainda inexistiam tais "Instruções", que são
de 10 de agôsto, divulgadas a 11. -
No mesmo que assim não fôsse, isto é, que tivésse-
mos em pauta uma impugnação realmente intempestiva,
a matéria porventura nela argüida, dela emergente ou
nela referida poderia e deveria ser cbjeto de apreciação,
exame e deliberação, no processo de registro, por fôrça
do disposto no § 1.0 do art. 11 da Lei n.O 4.738/65, que
dispõe:
"O Juiz formará a sua convicção pela livre aprecia-
ção das provas, atendendo aos fatos e circunstâncias do
processo, ainda que não alegados pelas partes."
Por outras palavras: a ausência de impugnação não
subtrai ao Juiz a livre e ampla apreciação da situação
dos candidatos face à Lei de Inelegibilidades, nem, a lor-
tiori, confere a(:s candidatos a certeza e a garantia de seu
automático registro.
Estas as razões que me levam a rejeitar a preliminar.
O Des. Presidente - O ilustre Relator rejeita a pre-
liminar de argüição de intempestividade. Concede a pa-
lavra o Dr. Ivan Lopes Ribeiro.
R<v. Dir. púiJl. < Ciência Politica - Hio de Janeiro - \'01. \"111 n" 3 - SeI/Dez. 1965
-168 -
o Dr. Ivan Lopes Ribeiro - Sr. Presidente, de cer-
to modo tomei parte no episódio trazido como preliminar.
Estava na Secretaria desta Casa quando a funcioná-
ria encarregada de expedir os editais me fêz uma consulta
a respeito do edital que teria sido inicialmente levado à
publicação. Então, expliquei: se êsse edital invocava uma
Resolução e a matéria estava contida no Código Eleitoral,
evidentemente que o edital não estava certo; impondo-se,
em conseqüência, a retificação do mesmo. E o meu ponto
de vista naquela ocasião se baseou em que o edital invo-
cava uma Resolução. Então as partes iriam procurar nessa
Resolução a solução do problema tratado no edital. 1\1as,
em verdade, a solução estava no Código Eleitoral. Assim,
as partes deveriam ter ciência em que lei iriam encontrar
a matéria.
Com êstes argumentos e ainda mais invocando o
fato de que o Tribunal não está adstrito à impugnação de
um partido ou da Procuradoria, podendo, mesmo de ofí-
cio, proclamar qualquer resultado da sua convicção, des-
prezo a preliminar de todo irrelevante.
O Des. Presidente - O Dr. Ivan Lopes Ribeiro des-
preza a preliminar.
Com a palavra o Desembargador João Coelho Branco
ODes. .loão Coelho Branco - Sr. Presidente, o can-
didato argüido, em sua contestação, suscita a preliminar
de intempestividade da argüição apresentada pelo Minis-
tério Público, alegando ter sido manifestada fora do prazo
1ee-aI.
No processo, segundo informacão da secretaria. foi
o11blicado, no Diário Oficial de 2-8-65, edital, fixando em
48 horas o prazo para oferecimento da impugnação.
Verificando, porém, que a Lei n.o 4.738. de 15-7-65,
expressamente, prescreve, no ~ 1.0 do art. 7.°, que "cabe-
rá aos nartidos políticos ou ao Ministério Público, no pra-
zo de 5 (cinco) dias, contados da publicação do reque-
-169 -

rimento de registro do candidato, a iniciativa das argüi-


ções de inelegibilidade",
fêz a secretaria publicar, no Diário Oficial de 5-8-65,
nôvo edital, obediente ao referido prazo legal de cinco
dias para conhecimento dos interessados.
Oferecendo, como ofereceu, o Ministério Público a
argüição de inelegibilidade em 10 de agôsto, estava dentro
do qüinqüídio fixado na lei e anunciado nesse edital.
Não há pretender que o prazo começasse a fluir do
primeiro edital que, errôneamente, fixou o prazo contra
a lei, razão por que se declara no segundo que
"qualquer impugnação a essas candidaturas, nos têr-
mos da Lei n.o 4.738, de 15 de julho de 1965, deverá ser
apresentada no prazo de cinco dias, a partir da publicação
dêste."
Essa pretensão é tanto mais inadmissível quanto é
certo que nesse edital nenhuma referência ou remissão
se faz ao anterior, publicado contra legem, e, tomando
~anhecimento do segundo edital publicado com respeito
8 lei, não eram partidos políticos e Ministério Público obri-
gados a ter ciência ou conhecimento da publicação do
anterior contendo o vício apontado e reconhecido.
Não há ignorar, como estatui o art. 178, n.o IV, do
Código do Processo Civil, que um dos requisitos da
citação edital é a determinação do prazo. Mas não tem
cabimento a determinação do prazo por Juiz ou Tribunal,
quando está êle fixado na lei.
Diz Couture que a primeira classificação dos pra-
zos judiciais é a de que os divide segundo sua origem:
prazos legais, concedidos por lei, sem interferência do
Juiz ou das Partes; prazos judiciais, concedidos pelo Juiz.
em virtude de disposições ou permissão da lei; prazos con-
vencionais, os que se concedem reciprocamente as par-
tes quando a lei admitir. (Fundamentos deI Derecho
Procesal Civil, 3. a ed., 1964, n.o 111, pág. 175. PalIares,
Dicionário de Derecho Procesal Civil, 3.a ed., 1960,
pág. 533.)
- 170-

Mas, como assinala Pontes de Miranda, com a cos·


tumeira precisão técnica, a ordem do processo, no tempo,
não pode ser discricional, se já é legaI: "se há períodos de-
terminados, dentro dos quais se hão de praticar certos
atos processuais, diz-se que se obedeceu, na legislação pro-
cessual, ao princípio da ordenação legal; se a lei não pre·
viu êsse encadeamento temporal, permitiu a ordenação ar-
bitrária, isto é, deixou que regesse o princípio da ordena-
ção discriciGnaI. (Comentários ao Código do Processo Ci-
vil, 2. a ed., T. I, 1958, pág. 297.)
É a aplicação de um dos princípios gerais informa-
deres da teoria prazal, (\ princípio da inalterabilidade, que
se desdobra nos da improrrogabilidade e irredutibilidade,
por fôrça do qual os prazos estabelecidos pela lei, ou fi-
xados pelo juiz, na falta de prescrição legal, não podem,
em regra, ser ampliados nem restringidos. (J cão Bonu-
má, Direito Processual Civil, 1942, voI. 2.°, ns. 151 e 154,
págs. 50 e 57.)
Rejeito, Senhor Presidente, a argüição preliminar de
intempestividade.
O Des. Presidente - ODes. João Coelho Branco
despreza a argüição.
Como vota o Des. Milton Barcellos?
O Des. Milton Barcellos - Senhor Presidente, en-
tendo que o edital foi publicado para conhecimento dos
interessados; e os interessados são: os partidos políticos
e o Ministério Público.
Dir-se-á: o edital foi publicado com defeito porque
se baseou em lei diversa da que deveria ser. Mas esta
restrição que se verifica no primeiro edital, dela deveria
ter reclamado o Partido ou o Ministério Público, que es-
tava sofrendo uma capitis diminutio no seu direito legal
de impugnação. Mas, não.
Ocorreu, segundo o meu eminente colega Ivan Lo-
pes Ribeiro, relatou, que a funcionária ao mostrar a S.
R<\' IJir. 1'''''1 e Cicllci:t !'olitica - Wo lIe Janeiro - Vol. VIII. n" :l - Se! IlJo 19ti~
- 171-

Ex. a o edital, verificou que o edital estava errado. Então,


fêz-se êsse nôvo edital sem no conhecimento das auto-
ridades superiores.
A impugnação, assim, foi oferecida fora do prazo le-
gal porque o digno Procurador poderia ter reclamado a
restrição imposta no seu prazo de impugnação, prazo ine-
xorável, prazo fatal, que a segunda publicação não pode-
ria dilatar.
De modo que acolho a preliminar.
a Des. Presidente - O Des. Milton Barcellos aco-
lhe a preliminar.
Como vota o Dr. Eduardo Jara?
a Dr. Eduardo lara - Senhor Presidente, o que a
Secretaria fêz foi retificar o seu próprio êrro, fazendo apli-
car a Lei n.o 4.738, que fixa aquêle prazo de cinco dias.
Daí deveria contar o prazo para o Ministério Público. Re-
jeito a preliminar.
a Des. Presidente - Como vota o Jurista Edmundo
Lins Neto?
a
Dr. Edmundo Lins Neto - Senhor Presidente,
ainda que intempestiva fôsse a impugnação - não con-
cordo data venia com o eminente Des. Milton Barcello~
- tenho a preliminar como inócua: a matéria é de or-
dem pública e poderá ser conhecida até de ofício pelo
Tribunal.
Assim, acompanho o Relator.
a Des. Milton Barcellos - Sr. Presidente, um es-
clarecimento: meu voto não terá maior valor porque a
maioria está em sentido contrário. Assim, acompanho
também o Relator, aderindo à maioria.
a Des. Presidente - Foi rejeitada a argüição de in-
tempestividade relativa à impugnação apresentada pelo
Ministério Público; votação unânime. Esta é a preliminar.
Re\', Dir, públ. e Ciência I'nlitica -- Rio de Janeiro - \'01 \'111 n'! 3 - SeI.![)"" 19115
- 172-

No mérito, com a palavra o ilustre Relator para


proferir seu voto.
O Dr. Laudo de Almeida Camargo - Sr. Presiden-
te, a Lei n.o 4.738, de 15-7-65, vinda a lume no Diário
Oficial (Seção I - Parte I) de 19 seguinte, às págs.
6.762-6.763, dispõe:
"Art. 1.0 - Além dos que estejam compreendidos
nos casos previstos nos artigos 138, 139 e 140 da Cons-
tituição federal, com as modificações das Emendas cons-
titucionais ns. 9 e 14, são inelegíveis:
II - Para Governador e Vice-Governador: e) no
que lhes fôr aplicável, por identidade de situação, os ine-
legíveis a que se referem as alíneas a a t do n.o I dêste
artigo."
A alínea m do n.o I dêsse artigo reza:
"cs que tenham exercido, até 3 (três) meses antes
da eleição, cargo ou função de direção nas emprêsas pú-
blicas, nas entidades autárquicas, nas emprêsas concessio-
llárias de serviço público ou em organização da União, ou
sujeitos ao seu contrôle."
Visando obter a declaração judicial da inelegibilida-
de ao candidato Alziro Zarur, apresentado pelo Partido
Trabalhista Nacional ao Govêrno do Estado da Guana-
bara, a D. Procuradoria Regional Eleitoral procurou si-
tuá-lo em meio aos dispositivos legais retrotranscritos,
porquanto ainda no exercício do cargo de Diretor-Presi-
dente e Superintendente da Rádio Mundial S.A. durante
o interregno proibitivo.
Vejamos da adequação e validade do enquadramen-
to legal pretendido.
A Constituição federal determina, em seu artigo 5.°,
n.O XII, que compete à União:
"explorar, diretamente ou mediante autorização ou
concessão, os serviços de telégrafos, de radiocomunicação,
de radiodifusão, de telefones interestaduais e interna cio-
Ih·\, I>ir. Pu!>!. c Ci~'ncia Polític3 - Rio de J.1T1c::iro - \'01. \'111. n" :~ - Sd /[)t:7 19 f 1:)
-173 -

nals, de navegação aérea e de vias férreas que liguem


portos marítimos a fronteiras nacionais ou transponham
os limites de um Estado."
Êsse dispositivo que, pràticamente, repete o artigo
5.°, n.O VIII da Constituição de 1934, e o art. 15 n.o VIII
da Carta de 1937, deixa patente e extreme de dúvida que
à União Federal toca, com exclusividade, a exploração dos
tipos de telecomunicações, permitindo-se-Ihe, no entanto,
autorizar ou conceder.
ThemistocIes Cavalcanti, preleciona em tôrno do dis-
positivo em foco, bordando apreciáveis considerações sô-
bre a exata significação do têrmo concessão utilizado nesse
texto constitucional (Constituição Federal Comentada. voI.
I, págs. 72 e 84).
De boa indicação ainda, no pertinente, o artigo de
Jean Rivero, Professor na Faculdade de Direito de Poi~
tiers, sôbre noções de serviço público e regime de conces-
são na evolução do Direito Administrativo, aparecido na
nossa Revista de Direito Administrativo, voI. 49/44.
O Ministro Rubem Rosa, em extenso e erudito voto
no Tribunal de Contas da União (Revista de Direito Admi-
nistrativo, voI. 49/233), invocando, superiormente, o ser-
viço de radiodifusão como serviço público, submetido a
intensa fiscalização e regulação por parte da Administra·
ção, assevera:
"A radiodifusão, modalidade de radiocomunicação no
mundo moderno, constitui um serviço público explorado
pelo Estado.
A legislação anterior à Constituição de 46 já aco-
lhera o princípio de {{exclusiva" competência da União em
relação aos serviços de radiocomunicação nos territórios,
nas águas e no espaço aéreo nacionais (Decreto 20.047,
de 27-5-31, art. 1.0, n.o 21.111, de 1.0 de março de 1932,
no art. 4.°)."
O eminente Ministro Antônio Gonçalves de Olivei-
ra, como Consultor-Geral da República, versou, por mais
Rt\', Dir. Públ. e Ci2ncia Política - Rio de Janeiro - \'01. VIII, n Q 3 - Set./Dez, 1965
- 174-

de uma feita, a matéria, situando sempre o rádio como


um serviço público, "um instrumento do govêrno, no seu
primordial escopo de assegurar a ordem e propulsionar o
progresso do país. A renovação da concessão é que de-
pende exclusivamente do Presidente da República" (Re-
vista de Direito Administrativo, voI. 55/367).
Em parecer inserto na Revista de Direito Adminis-
trativo, voI. 47/448, o mesmo então ilustre Consultor-Ge-
ral da República, abordando o "contróle administrativo da
radiodifusão", assim se manifesta:
" ... não se pode deixar de sssinalar que a radiodi-
fusão constitui serviço público e serviço público de maior
relevância, competindo, como compete, à União, por ex-
presso mandamento constitucional, explorar diretamente
ou mediante autorização ou concessão tais serviços (Cons-
tituição federal, art. 5.0 n.o XII)."
Ainda, por oportuno, permitimo-nos reproduzir de
substancioso parecer do eminente magistrado de hoje, as
conceituações seguintes, a propósito da "administração pú-
blica como poder concedente" (Revista de Direito Admi-
nistrativo, voI. 47 /448-449) :
~. Em recente publicação da UNESCO, informam
Fernand Terrou e Lucien Solal que, ncs difErentes países,
o rádio é serviço público ou constitui monopólio do Esta-
do, como na Inglaterra, que o executa por intermédio da
Bri tish Broadcasting Corporation (BBC ), ou é delegado
a emprêsas particulares, das quais, porém, a Administra-
ção Pública tem o contróle. Os Estados Unidos, a cujo
sistema estamos filiados, adotaram o regime da plurali-
dade de emprêsas, apartando-se, nesse particular, do mo-
dêlo inglês. Nesse regime de delegação de serviço, em
que o contróle das emprêsas pelo poder concedente é asse-
gurado, existe, até mesmo, censura prévia das irradiações.
Temos visto, escrever os citados autores, que os podêres
da autoridade que outorga a concessão pressupõem um di-
reito de cont!'óle prévio das emissões (rigth to prior con-
R.v. Vir. Publ. e Ciência Politic<I - Rio d. J"nciro - \'01 \"111. n'.' :l - Sel/lJez. 1%5
-175 -

trol 01 the broadcasts). Exemplos tais se colhem nos di-


versos sistemas. Êste poder de contrôle pode resultar da
forma jurídica da emprêsa radiofônica, ainda que não cla-
ramente estipulado nos textos da concessão. Se a emprê-
sa está constituída sob a forma de um serviço público, o
poder hierárquico ou poder de tutela administrativa pode
exercer-se pela forma de um contrôle prévio das emissões,
sem que seja necessária uma autorização expressa, no ins-
trumento respectivo. De fora parte o contrôle prévio, os
regulamentos sôbre concessões permitem à autoridade go-
vernamental ou administrativa a proibição de certas irra-
diações (to lorbid certain broadcasts). Êsse poder tem
apoio, inclusive, na regulamentação internacional, especial-
mente no art. 29 da Convenção Internacional de Teleco-
municaçeõs de Atlantic City, de 1947."
"Ao Estado, em verdade, como ensina ]eze, é que
compete organizar o serviço público. A concessão é sim-
ples delegação; ela não muda a natureza do serviço, que
continua serviço público" (Les Principes Généraux du
Droit Adminis tra til, 3. a ed., voI. 2.°, págs. 5-6).
"É que, como em obra recente, escreve André de Lau-
badere, a concessão é simples modo de gestão do serviço pú-
blico; a teoria da concessão gira em tôrno dêsse princípio
cardeal, a saber, que o serviço, pôsto que concedido, per-
manece como serviço público, sujeito às autoridades ad-
ministrativas - "quoique concedé, le service reste un ser-
vice public" (Droit Administratif, 1953, pág. 589 )."
O saudoso Dr. Odilon Braga, em relatório submetido
à Comissão especial incumbida pelo então Ministro da
Justiça, Prof. Francisco Campos, de elaborar o antepro-
jeto de lei sôbre a fiscalização e revisão das tarifas dos
serviços públicos explorados por concessão (in Revista de
Direito Administrativo, sob o título "Serviços Públicos
Concedidos", voI. 7, págs. 39-40) anotou as seguintes po-
sições:
"Os Srs. Anhaia Melo, Alves de Souza, Bilac Pinto
e Plínio Branco foram peremptórios quando, em sua "De-
Rev, Dir. Púhl. e Ci,;ncio Politica - Rio de !c~eiro - \'01. VIII. nO 3 - Set./Dez. 1965
-176 -

daração de Princípios", advertiram que ditos serviços não


são "negócios privados" e "que todos os que nêles se em-
penham são agentes públicos, exercendo uma função do
Estado" (item I). Não contentes com isso, escreveram:
"A concessão é uma delegação e não um abandono da au-
toridade. O Estado se reserva os podêres de intervenção,
contrôle e direção" (item lI)."
Diz ainda:
"1 - A Concessão é delegação de poder público. 2 -
O serviço público concedido é serviço público. .. 3 - O
poder público concede o serviço dentro de limites de tem-
po e de espaço sujeitos exclusivamente à sua aprecia-
ção. .. 6 - O direito do concessionário abrange, limi-
tando-se tanto, a integridade, recuperação e remuneração
do capital que emprega no serviço. 7 - O investimento
do concessionário se equipara a um empréstimo público
com direitos e obrigações especiais."

Nas suas observações de réplica aos Srs. Anhaia Melo,


Alves de Souza, Bilac Pinto e Plínio Branco, dis~e o Sr.
Miranda Carvalho que aceitava, sem restrições, o princí-
pio contido no primeiro item da "Declaração de Princí-
pios", formulada por aquêles colegas, a saber, que o su-
primento dos serviços em causa é uma função do Estado,
que "pode ser exercida diretamente, em regime de eco-
nomia mista, ou por delegação mediante concessão," não
sendo, pois, "negócios privados", visto "que todos os que
nêles se empenham são agente públicos, exercendo uma
função do Estado".
Na mesma singradura, vai Se abra Fagundes no seu
erudito trabalho "O regime legal do rádio e da televisão
em face da Constituição federal" (in Revista de Direita
Administrativo, voI. 65, págs. 49 a 63).
Serviço público pois, exclusivo da União, assim cons-
titucionalmente consignado. Pertence à União e pode ser
por ela diretamente explorado ou a outrem outorgado por
Rc\', Dir, Públ. e Ciência Política - Hio de Janeiro -- \'01. VIII. n'·' 3 - Set./rlcz, 19ti~
-177 -

concessão, o qual, destarte, passa a exercer novel função


pública delegada, como um concessionário de serviço
público.
A Lei n.o 4.117, de 27 de agôsto de 1962, que ins-
tituiu o Código Brasileiro de Telecomunicações, em seu
art. 10, como não poderia deixar de fazer, renova a com-
petência privativa da União na manutenção e exploração
direta ou fiscalização nos serviços de telecomunicações por
ela concedidos, autorizados ou permitidos.
E, no seu art. 32, que os serviços de radiodifusão se-
rão executados diretamente pela União ou através de con-
cessão, autorização ou permissão.
O Regulamento Geral para execução dessa lei, apro-
vado pelo Decreto n.O 52.026, de 20 de maio de 1963,
no Título lU "Das Definições", fixa, dentre outros, os se-
guintes significados legais:
"1.0) - Autorização - é o ato pelo qual o Poder
Público competente concede ou permite a pessoas físicas
ou jurídicas de direito público ou privado, a faculdade de
executarem ou explorar em seu nome e por conta própria
serviços de telecomunicações, durante um determinado
prazo."
"4.°) - Concessão - é a autorização outorgada
pelo poder competente a entidades executoras de serviços
de telecomunicações, de radiodifusão sonora de caráter na-
cional ou regional e de televisão."
"15.°) - Estação radiodifusora local - é aquela
que por suas características técnicas" se destina a servir
a uma única localidade (cidade, vila ou povoado)."
"16.°) - Estação radiodifusora nacional- é aque-
la que por suas características técnicas se destina a servir
a mais uma região, utilizando canal exclusivo do País."
"17.°) - Estação radiodifusora regional - é aque-
la qUe por suas características técnicas de destina a servir
Re\' [)ir. Pub!. ~ Ciência Pn!itica -- Hin de );lnt'irl) -- "oI. \"111. n 9 3 ~ Set./Dez. 19fi5
178 -

a uma determinada região (mais de uma localidade) sem


utilizar canal exclusivo do País."
"23.°) - Permissão - é a autorização outorgada
pelo poder competente a pessoas físicas ou jurídicas para
execução dos seguintes serviços:
- Radiodifusão de caráter local, não incluindo o
de televisão;
Público Restrito;
Limitado Interior;
Radioamador;
- Especial."

"56.°) - Telecomunicação - é tôda transmissão.


emissão ou recepção de símbolos, caracteres, sinais, escri-
tos, imagens, sons ou informações de qualquer natureza,
por fio, rádio, eletricidade, meios óticos ou qualquer outro
processo eletromagnético."
Logo a seguir, no art. 7.°, o mesmo Regulamento
esclarece, outra vez, que compete privativamente à União
explorar diretamente ou mediante concessão "o serviço de
radiofonia sonora" (regional ou nacional) - letra "C".
Por conseguinte, tanto pela Carta Magna, como pelos
textos da Lei especial e do Regulamento, de construções
e fixações de ordem técnica, é certo e indubitáve! que
êsses serviços de telecomunicações são serviços públicos,
de competência exclusiva da União, a quem é dado con-
ceder seu uso e exploração.
Aliás, a situação da Rádio Mundial S. A, como con-
cessionária de serviço público, é explicitada pelo próprio
CONTEL, Conselho Nacional de Telecomunicações, no
atestado de fls. EJ-EC, em que relaciona o grande elenco
de atribuições de fiscalização e contrôle que sôbre ela
exerce, o teor do disposto n Código Brasileiro de Tele-
comunicações, in verbis:
Re\'. Dir. públ. e Ciência Política - Rio ue );1I1eiro - \"01. \"111. n'! :l -" Sel./[Jez. 19/;"
- 179-

" Rádio Mundial S. A, emprêsa concessionarla


dos serviços de radiodifusão, nesta Cidade do Rio de J a-
neiro, conforme Decreto n.o 34.901, de 6-1-1964, com
prazo de concessão prorrogado por lei até 1972."

E tão é exato que a Rádio Mundial S. A. não é uma


simples permissionária (sit.uação que diz respeito apenas
a radiodifusora de caráter local, peculiar a cidade do in-
terior de menos de 100 mil habitantes, com potência de
100 a 250 watts), mas uma autêntica concessionária, que
o seu Diretor-Tesoureiro, em depoimento tomado neste
Tribunal, declarou, a fls. 96v: "que a tôrre de transmis-
sões da Rádio Mundial S. A é a maior do Brasil, sendo
que a da Rádio Farroupilha dizem ser um pouco mais
alta, mas êle ascende de sôbre uma elevação; que a Rá-
dio Mundial tem 50 Kw e que a torna uma das mais po-
tentes da América do Sul. .. pelo seu rendimento de
som; que, por ser a rádio de prefixo pioneiro do Brasil,
dispõe ela de canal livre internacional e mantém uma po-
sição privilegiada no "dial" dos aparelhos radiofônicos; por
isso, em qualquer parte do mundo, em ondas longas ou de
860 quilocic1os, ela é ouvida satisfatoriamente".

Verificada, nestes têrmos, a adequação e a vaEdade


do enquadramento legal pretendido pela D. Procuradoria
Regional Eleitoral, constata-se, por seqüência, que não co-
lhe o esfôrço da defesa do candidato de que "não Ge trata
de serviço público e, portanto, de serviço suscetível de
concessão" (sic) (fls. 68).
Muito pelo contrário e acertadamente: Trata-se de
um serviço público e suscetível de concessão, com que se
acha contemplada a Rádio Mundial S. A. situando-se na
órbita mais próxima do contrôle da outorgante.
14

Extrapolando a assertiva esposada pelo impugnado,


em sua defesa, a fls. 60, pode-se e deve-se afirmar enfà-
ticamente: a Lei Maior atribui à radiodifusão a qualidade
específica de serviço público.
Rev. Dir. Públ. e Ciência Politica - Rio de J;1I1eiro - \'01. \"111 n":! - Set./Dez. 196"
- 180-

Te:1ta a:nàa a contestação do candidato diferenciar


"o significado e o alcance das ações de fiscalização e de
contrôle pela autoridade pública".
Ora, o nítido escopo da lei de inelegibilidade foi ver
planteado, impeditivamente, o candidato que participasse
da direção de emprêsa sob contrôle da União, asúm en-
tendida a fiscalização mais próxima, imediata € direta; de
quem vigia de perto o que é seu e que se traduz em têr-
mos de contrôle.
Evidentemente, que se a lei estivesse prevendo ape-
TIas um contrôle acionário, o têrmo seria impróprio ~ de
má técnica, uma vez que, quando exercido numa sode-
dade por ações, a transmuta naturalmente em sociedade
de economia mista.
Ainda: se a lei substituísse ou acrescentasse, em seu
texto, o vocábulo fiscalização ao têrmo contrôle, estaria
evidentemente alvejando, com múltiplos estilhaços, situa-
ções peculiaríssimas e absurdas, por isso que a fiscaliza-
ção estatal, indo, por exemplo, até os quadrantes do en-
sino e à polimorfia do magistério, estaria envolvendo, em
seus impedimentos e restrições, aquêles que nesse set~ la-
borassem.
O contrôle que a União exerce nas emprêsas conces-
sionárias de serviços públicos é, de tôda a evidência, muito
diverso e muito mais positivo do que aquêles misteres de
íiscalisação que dardeja sôbre os estabelecimentos ban-
cários ou de seguros, nos quais também atua como fiscal,
mas de forma mais remota e mediata do que nas emprê-
sas a que deu a concessão de explorar serviços, que, cons-
titucionalmente, lhe são próprios e exclusivos.
Pela leitura da transcrição de definições regulamen-
tares absorvidas por lei, pela conceituação doutrinária que
repousa no espírito do intérprete e pelo conjunto de cir-
cunstâncias e fatos, não padece a menor dúvida de que
a Rádio Mundial S. A. é uma radiodifusora sonora de ca-
ráter nacional e regional, concessionária de um serviço pú-
liev. [lir. I'úbl. e Ciência I'olitica - Rio li< J"neiro - Vol. VIII. n'.' :! - S,t./L!cz. 19,;5
- 181-

blico, que se acha sob o contrôle da União, situações es-


~as que são exatamente e precisamente aquelas previstas
110 artigo 1.0, item I, alínea m, in fine, da Lei n.o 4.738,
de 1965.
Prejudicada, pois, está qualquer tentativa que se
arme, para a fuga ao anátema legal, em tôrno à projeção
rIa Rádio Mundial S. A., na latitude de uma simples auto-
:-izada ou na longitude de uma mera permissionária.
As precisas definições do Regulamento Geral do Có-
digo de Telecomunicações afastam, por completo, qual-
quer veleidade no assunto, pôs to que certo é que nem
uma nem outra dessas inadequadas situações aproveitam
ao candidato na atual conjuntura.
De qualquer sorte, o têrmo concessão, empregado na
lei, está abrigando, puramente, aquelas duas outras si-
tuações. É evidente que a idéia geradora do texto re-
pousa na mente do legislador, sob o pálio da proibição
àquela que participa da direção de uma concessionária de
serviço público, controlada pela União, para, revestido
dessa condição excepcional, em tempo próximo ou con-
comitante ao pleito, disputá-lo, pública e diretamente,
rumo às governanças e vice-governanças da República ou
do Estado.
Firmada a remanosa conceituação doutrinária, escla-
recido o imperioso mandamento constitucional e revelada
a clara definição legal, é absolutamente certo que a enti-
dade privada, Rádio Mundial S. A., é uma concessionária
de serviço público sob o contrôle da União Federal, por
interrr.:édio do CONTEL-Conselho Nacional de Teleco-
municações.
Cumpre agora seja feito detido e acurado exame do
propósito do legislador em atingir, com a eclosão de ine-
legibilidades, situações concernentes ao exercício de cargo
ou função de direção nas emprêsas concessionárias, se-
gundo os claros ditames do art. 2.° n.o II da Emenda cons-
titucional n.o 14.
Rtl', Oir, públ. e Ciência Politica - Rio de Janeiro - VaI. \'111, n" 3 - Sct./Oez, 1965
-182 -

Parece-nos que o diploma legal em vibração visou


colhêr, na trama e na urdidura de seu contexto, todos
aquêles que, por qualquer título ou sorte, posição ou si-
tuação, tivessem exercido cargo ou funções diretivas nas
emprêsas daquele tipo.
No caso pendente, afirma-se que o candidato, Di-
retor-Presidente e Superintendente da Rádio Mundial
S. A, concessionária de serviço público, acha-se licenciado
de seus cargos desde o dia 1.0 de julho de 1965, data que
coincide com o início dos três meses proibitivos anteriores
ao pleito, por fôrça de resolução tomada em sessão de di·
retoria de 28 de junho de 1965.
Mas, ao que tudo indica, um diretor de emprêsa con-
cessionária que se licencia não deixa, de uma certa forma,
de exercer seu cargo e suas funções, na medida assaz pró-·
fundamente que a Lei de Inelegibilidades penetrou no
lastro moral das situações.
De efeito: um diretor licenciado não deixa de ser
diretor e administrador. Não se desli~a, não se desvincula,
não se afasta, não se aparta, ex radice, da direção da em-
prêsa. Sua presença, sua eminência e sua influência al-
tíssimas Se fazem permanentemente sentir. Sua orienta-
ção é e continua sendo observada, acatada, respeitada e
seguida em todos os negócios e interêsses sociais. Não
sofre a emprêsa, sob qualquer ângulo ou prisma, solução
alguma de continuidade em seus misteres e em seus pro-
pósitos.
Neste passo de voto, poder-se-ia adotar, com pro-
veito e pertinência, a argumentação a respeito expendida
pela douta Procuradoria Regional (fls. 47-48):
"A Lei das Inelegibilidades, porém, exige que o ad-
ministrador deixe de ser administrador, para que não te-
nha nenhuma influência em sua administração, nem dire-
ta, nem indiretamente.
É o que significa com as palavras "os que .tenham
exercido, até 3 meses antes da eleição, cargo ou função
-183 -

de direção nas emprêsas concessionárias do serviço públi-


co", conforme o disposto na letra m do art. 1.0, n.o I, da
Lei n.o 4.738, de 15 de julho de 1965.
A expressão "tenha exercido" não significa que "te-
nha suspendido", o que é próprio da licença. A licença,
como se sabe, é a suspensão temporária do exercício do
cargo ou da função. Tenham exercido é expressão que
significa o mesmo que "tenham ocupado", "hajam dirigi-
do", que se encontra na mesma Lei, na letra n e na letra
p, em contraposição à expressão "tenham se afastado
do exercício das funções", que se encontra p. ex. na letra
b do n.o lI, do art. 1.0 da aludida lei.
"Afastado do exercício" é licença, mas "tenham exer-
cido", "tenham ocupado", "hajam dirigido" são expressões
que signific3.m o mesmo que a expressão "depois de cessa-
das as funções", que se lê na letra a do n.o I do mesmo
. art. 1.0 da aludida lei, isto é, saído, exonerado, perdido o
lugar.
Se o candidato, portanto, somente se licenciou do
exercício do cargo, ou comunicou impedimento durante
três meses para o exercício do cargo, não prova o requi-
sito de não ter exercido três meses antes da eleição o car-
go de presidente ou administrador de uma sociedade con-
cessionária de serviço público, pois que continua na qua-
lidade de administrador. Somente provaria qUe não ti-
nha exercido o cargo nos três meses anteriores à eleição,
se provasse que no dia 30, ou antes do mês de junho, ou
em dia que estivesse três meses antes do dia da elei-
ção, tivesse pedido exoneração do cargo de administrador
da sociedade consessionária do Poder Público, qual é a
que explora serviço de radiodifusão.
Em suma, é da essência dos atos das sociedades anô-
nimas serem publicados para conhecimento de terceiros,
sem o que não podem produzir efeitos, pois, de modo con-
trário, poderiam levar à prática ou manobras lesivas aos
interêsses sociais e principalmente eleitorais."
li"\". Oir. l'ul>l e Ciênci" I'olilic" Hio Je j"neirn - y,,1. YIII. 11" 3 -- Sd/Oez. 1965
-184 -
Ora, um simples licenciamento, deliberado dentro da
economia interna de uma emprêsa privada, sem quaisquer
repercussões perante terceiros, jamais poderia ter o con-
dão de demolir a barreira erigida pela lei positiva. Um
simples ato intestino não significa nem importa em de-
sapossamento de comando ou de gestão efetiva de negó-
cios sociais. Um licenciamento poderá mesmo, em cir-
cunstâncias tais, ser ainda mais atuante e prático, através
de interposta pessoa, do que se apresentar o interessado
ostensivamente revestido de plenitude administrativa, com
suas naturais implicações e responsabilidades. O que a
lei objetiva é colhêr uma situação jurídica de completo
afastamento e total desvinculação; definitiva e oficial subs-
tituição no pâsto. E tudo acompanhado de solenidade.
de manifestações publicitárias de certo efeito, que lhe
dêem subsistência majestática, inequívoca e indubitável,
implantando-a e legitimando-a no tempo.
Por conseguinte, na oportundade da vida à tona da
lei, os diretores licenciados nas emprêsas concessionárias
de serviços públicos, sob contrôle da administração esta-
tal, até 3 meses antes das eleições, são inelegíveis, por
isso que, de algum modo, das mesmas ainda se poderiam
estar beneficiando, em exclusivo interêsse próprio, com
um bem público, na mira de um cargo público de realce
em desigualdade competitiva que a nova lei. em tema de
eleições, visa moralizar.
Na espécie, o impedimento mais avulta, quando se
sabe que o candidato se amálgama, de forma absoluta,
com sua emprêsa, dela dispondo totalmente, seja no setor
àe direção administrativa, seja no contrôle acionário, seja
na utilização da radiofonia plena e integral.
Aliás, o espírito da lei poderia talvez ainda enca-
minhar' sem o paroxismo da heresia, o entendimento da
situação até esta dimensão: - se o candidato e a Rádio
:Mundial S. A., perante o grande público, se ligam a pon-
to de se identificarem e se confundirem, pela projeção in-
lie" Dir, Públ. e Ciência Politica - Rio de Janeiro '- \'01. \'111 ,,":1 -- ~d'nCl, 1'11;,-,
-185 -

vulgar e avassaladora da pessoa natural, que se sobrepõe


dominando, empolgando e detendo a jurídica, mesmo que
de fato e de direito houvesse regular afastamento do ar-
güido de seus cargos específicos na diretoria da sociedade
Rnônima como tal, ainda assim êle estaria exercendo, em
sentido lato, até hoje, até agora, funções de direção na
Rádio, uma vez que só êle e êle orienta e participa de
tôdas as programações, aplicando-as, de modo exclusivo,
em pregações e campanhas pessoais, nestas avultando, no
momento, a político-eleitoral.
Dato sed non concesso, que um licenciamento pre-
térito fôsse forma hábil para subtrair um administm-
dor de emprêsa, candidato potencial a eleições futuras,
à fôrça atrativa da lei limitativa, urge ver, "com olhos de
ver", no caso concreto, da veracidade, idoneidade e lega-
lidade intrínsecas e extrínsecas do modus iaciendi em que
êle se teria consumado, ou seja a ata da reunião da Dire-
toria da Rádio Mundial S. A, de 28 de junho de 1965
(fls. 39 -4 O) , que a im pugnan te tem como im prestáve 1
para o fim colimado, pelos evidentes sinais de simulação
que a iqquinam.
Estabelece o Código Civil Brasileiro:
"Art. 102 - Haverá simulação nos atos jurídicos
em geral:
I) Quando aparentarem conferir ou transmIttr di-
reitos a pessoas diversas das a quem realmente se con-
ferem, ou transmitem.
II) Quando contiverem declaração, confissão, con-
dição. .. ou cláusula não verdadeira.
In) Quando os instrumentos particulares forem
antedatados, ou pás-datados."
Consabido é que da simulação não se pode eXIgIr
prova direta, pois, como já diziam as velhas Ordenações,
"c engano sempre se faz encobertamente" (Livro 3.°, tí-
- 186-

tulo 29 § 25), "o seu propósito procurando as trevas ... "


como completava Belleza dos Santos (A Simulação no
Direito Civil, voI. 11, pág. 164).
Na conhecida definição de Dernburg, "negócios SI-
mulados são os concluídos por aparência".
Adverte o art. 252 do Código de Processo Civil que,
para ser reconhecida, basta que sejam a apontá-la indícios
e circunstâncias "graves, precisas e concordantes", como
quer Carvalho Santos (Código de Processo Civil Interpre-
tado, voI. IH, pág. 405).
Vejc:mos, no caso presente, se existem intuitos frau-
datários, que !Cão as verdadeiras causas motoras das simu-
lações, e quais os indícios veementes, as circunstâncias f Cf
tes e seguras que poderão levar a presumir infalivelmente
a situação alegada, carreando para o espírito do julgador
a certeza necessária a um exato pronunciamento.
o
Partido Trabalhista Nacional encaminhou aos
antas. no dia 10 de agôsto de 1965, o documento de fls.
39/40 da Rádio Mundial S. A, intitulado "Ata da .reunião
da Diretoria de 28 de junho de 1965", onde se lê, em seu
trecho central, o seguinte:
"Com a palavra o Sr. Alziro Zarur, fêz ver aos com-
panheiros de Diretoria, ante a decisão do Trib. Sup. Elei-
toral, na memorável sessão que culminou com o deferi-
mento do pedido de registro do Partido da Boa Vontade,
e que havendo possibilidade de vir a ser candidato ao
Govêrno do Est. da Guanabara, nas eleições que deverão
ser realizadas no próximo dia 3 de outubro e ainda para
que não paire dúvida com relação aos cargos que ocupa
na Rádio Mundial e sua posição de possível candidato no
pleito mencionado, solicitava uma licença, pelo prazo de
cento e vinte (120) dias, a contar de primeiro de julho,
devendo, por fôrça do art. 28, parágrafo único dos Estatu-
tos da Rádio Mundial S. A, ser substituído, durante o pe-
ríodo aludido, pelo Diretor-tesoureiro, Sr. Léo Pires Pinto.
He\' f)ir Puld. L' CIl-llci;t Política Ri!) de' J:tllt'iro - - \'o! \'111 TI'!:~ !"d./I>I.:/ 191)5
-187 -

Pediu a palavra o Diretor-comercial, Sr. José de Segadas


Vianna, para dizer que a rigor não via qualquer incompa-
tibilidade entre os cargos de Diretor-presidente e Supe-
rintendente da Rádio Mundial e a posição de candidato
ao cargo de Governador do Estado. Entretanto, achava
conveniente o afastamento do Sr. Alziro Zarur, caso se con-
cretizasse a sua candidatura, a fim de se evitar possíveis
explorações políticas, uma vez que há interpretações no
sentido de que as estações de rádio podem ser conside-
radas concessionárias de serviços públicos."
Essa ata, todavia, não logra convencer no pertinente
à sua identificação à data, uma vez que, então, não vigindo
ainda o impedimento legal, nato supervenientemente, seria
de ínfima probabilidade a inusitada coincidência que
alguém, que jamais se houvera afast~do da administração
e direção de sua emprêsa, por licença ou férias (vide de-
poimento de fls. 96), viesse inopinadamente a fazê-lo, com
incrível pré-ciência de um fato ainda não ocorrido, sua
única razão de ser.
o desengate da lógica formou o argüido a justificar-se
com uma suposta "cautela prudencial", segundo expressão
típica (fls. 70). Ora, se essa "cautela prudencial" visou
tão longe no futuro, mais garantidora se teria tornado se
nela se circunscrevesse uma eloqüente publicidade, de con-
tornos e relevos explendentes, expressivos e revela dores
de sua implantação no tempo.
É exato, como diz o candidato, que "a lei das socie-
dades por ações (Decreto-lei n.O 2.627, de 26-9-940) não
ordena sejam publicadas as atas das reuniões d~ diretoria
das emprêsas do tipo". Deveras, não prescreve. Mas
também não impede, nem proíbe. E uma publicidade de
caráter cauteloso e prudencial se impunha no caso, uma
vez que ela não tinha efeitos comerciais de rotineira mer-
cância, mas colocar, bem alto e em evidência, uma reali-
dade e uma verdade de que um dia se precisariam vital-
mente valer.
-188 -

Data venia, a in digitada ata, como lábaro de defesa,


parece padecer das funestas conseqüências que tôda prova
excessiva desavisadamente colhe.
Apregoa o argüido, a fls. 70 de sua defesa, que co-
municou o seu afastamento da direção da rádio ao
CONTEL o qual, verbis, "dês se jeito passou a constituir
testemunha formal e peremptória da incensurável desin-
compatibilização do suplicante".
Mas a verdade é bem outra, e a circunstância daí
emergente não lhe favorece.
De efeito: a ata se apresenta como de 28 de junho
de 1965, mas a ccmunicação do fato ao CONTEL só teve
J usar após 5 de agósto de 1965, no afã do candidato con-
testar sua insustentável posição ante a lei vigente, quando
já em franco curso seu processo de registro, por sugestão
do Dr. Ped'ro Otto Reis Lopes, Diretor-Secretário da Rádio
Mundial e ilustre procurador judicial neste processo (vide
depoimento de fls. 95).
Acresce que o CONTEL, através do documento de
fh, 50-53. dt' 9 de agôsto de 1965,
"certifica que, pelos assentamentos dêste Conselho,
o Senhor Alziro Elias David Zarur exerce, na Rádio Mun-
dial S. A, as funções de Diretor-Presidente, de 15 de ju-
nho de 1957".
Vale repetir que, perante o CONTEL, órgão oficial de
fiscalização e contrôle das radiodifusoras, no dia 9 de agôs-
to de 1965, as funções de Diretor-Presidente da Rádio
Mundial S. A ainda eram da responsabilidade exclusiva
do Sr. Alziro Zarur!
Indo além, na .pesquisa dos sinais e dos indícios si-
mulatórios, colhe-se da leitura do laudo do perito Hélio
Pe-:1na, conceituado técnico do Banco do Brasil S. A, que
procedeu a diversos exames na Rádio Mundial S. A, para
a instrução dêste processo, os seguintes trechos expres-
SIVOS:

HL"\', IJir. Púhl. t: Ci':I1da Política - Rio de J:lTldro - \"01. \'111. nl,) :~ -- Sd./De7. 19fi5
-189 -
"Verificando o livro de atas de Reunião da Diretoria,
a fls. 35-verso consta a inscrição da ata de 28-6-65 em
que ficou deliberado o licenciamento do Sr. Alziro Zarur
dos cargos de Presidente e Superintendente daquela em-
prêsa a partir de 1.0 de julho de 1965, encontrando-se c
referido livro em perfeitas condições de uso."
"Todavia, a ata seguinte, registrada às fls. 37, evi-
dencia o propósito, apenas, de dar seqüências e aspecto
normal à ata anterior, que foi objeto de meu exame, isso
porque o assunto ali tratado (proposta de reforma dos
Estatutos pelo Presidente interino, Sr. Léo Pires Pinto)
só deveria merecer atenção quando da presença do seu
Presidente, que além de ser o maior acionista é pratica-
mente o dono da emprêsa, mesmo porque os estatutos de
uma sociedade anônima só podem ser alterados mediante
autorização de uma Assembléia Extraordinária, conforme
dispositivo da Lei de Sociedades Anônimas."
"Outrossim, verifica-se que ao iniciar o registro dessa
última ata, o autor do manuscrito utilizou a mesma caneta
e a mesma tinta da ata anterior (veja a expressão "Ata
de Reunião"), porém, possivelmente alertado, trocou de
caneta e conseqüentemente de tinta, sem razão aparente,
pois até então as expressões iniciais foram manuscritas
normalmente, isto é, sem solução de continuidade na flui-
ção de tinta ao pape1."
"Da mesma forma causa espécie e pequeno prazo
decorrido entre a penúltima ata (28-6) e a última (5-7),
fato nunca ocorrido naquela emprêsa."
Tudo leva, pois, ao convencimento que simulado foi,
no sentido legal do conceito, o pretenso licenciamento do
Sr. Alziro Zarur: aeta simula ta veritatis substantia mutare
non potest.
Apenas ad argumentandum: mesmo considerando a
inexistência de estigmas simulatórios no suposto licencia-
mento do candidato, isto é, que a indigitada ata fôsse real-
mente expressiva da verdade dos fatos, ocorrentes à data
R<\'. Dir. PúbI. e Ciência Política - Rio de Janeiro - VoI. VIII, n 9 3 - Set./Dez. 196::;
- 190-

de 28-6-1965, malgrado a inexistência de qualquer publi-


cidade ou comunicação do importante fato a terceiros, má-
xime ao seu órgão fiscalizador, o CONTEL, ainda assim o
licenciamento em hipótese teria sido interrompido e pre-
judicado ante os claros têrmos da lei, pelo efetivo exercício
de cargo e de funções diretivas da sociedade.
A prova definitiva da gestão do candidato à frente
dos interêsses sociais da Rádio Mundial S. A. está na
emissão do cheque n.o 282.018, de Cr$ 80.000 contra o
Banco do Estado da Guanabara S. A., em 16 de julho de
1965 (fls. 100) e do cheque n.o 251.372, de Cr$ 100.000
contra o Banco de Crédito Real de Minas Gerais S. A.,
em 16 de julho de 1965 (fls. 101).
A defesa, a fls. 137 dos autos, empresta à emissão
dêsses dois cheques, pelo apoucado valor dos mesmos fren-
te ao vulto das transações financeiras da Rádio, "aciden-
talidade" e "irrelevância", por terem sido emitidos numa
só data, "três dias antes de iniciado o vigor da lei de ine-
legibilidades", 19 de julho passado (sic). E arremata:
"Em si não provam que Zarur permaneceu no desempenho
da Presidência durante o posterior lapso temporal, come-
çado a 19 de julho."
Ora, o maior ou menor vulto dos cheques emitidos
pelo candidato, como Diretor-Presidente e Superinten-
dente da rádio, não invalidam nem desmerecem a prática
no exercício do cargo e da função. Quanto à sua presença
no tempo, a lei não cuida dessa prática no futuro, mas
retrospectivamente no passado de três meses às eleições,
cobrindo um fluxo de tempo anterior à sua vigência.
No particular, a testemunha Léo Pires Pinto afirma
(fls. 95v):
"Que após o licenciamento do Sr. Alziro Zarur o
mesmo não assinou mais ato nem contrato algum em nome
da emprêsa; que, todavia, não pode garantir tenha o im-
pugnado assinado também algum cheque bancário por-
que não era dos seus hábitos, mas se porventura o fêz
Re\'. Dir. públ. e Ci':nci:J Política - Rio Lle J:Jneirn - \'01 \"111. nO 3 - SeL/Dez 1965
-191 -
isto deve ter ocorrido por descuido, culpa ou responsabi-
lidade do Caixa que, por hipótese, teria procurado outro
diretor na Casa ou fora da Casa para completar a emissão
do cheque, apondo a sua assinatura em seguida à do de-
poente."
Sem entrar na apreciação de tão pobre matéria justi-
ficativa, ressalte-se, apenas, que, na emissão conjunta dos
dois precitados cheques, a assinatura do candidato pre-
cede, antecede, antepõe-se à do mencionado Depoente.
Mas o argüido não só movimentou fundos da socie-
dade, como também dispôs de seus rendimentos.
De magna importância, é o documento de fls. 112,
trazido aos autos pelo Perito Hélio Penna, documento êsse
firmado pelo próprio Sr. Alziro Zarur e endereçado ao
Presidente do Sindicato dos Radialistas. a 28 de julho de
1965, de inexcedível eloqüência:
"Tenho a grata satisfação de comunicar a V. s.a que,
dentro dos mesmos sentimentos que irmanam a família
radialista nacional, e como testemunha da nossa solidarie-
dade aos dignos funcionários da Rádio Mayrink Veiga,
nessa hora difícil que atravessam, a Rádio Mundial re-
solveu incluir em suas transmissões de segunda a sábado,
das 15 às 15,30 horas, um "Horário da Mayrink".
Durante êsse tempo, os microfones da Rádio Mundial
estarão à disposição da PRA-9, que poderão ser ocupados
per seus artistas e locutores, cabendo-lhes por inteiro, a
renda publicitária conseguida para êsse horário, e sem
qualquer despesa, de qualquer natureza.
O gesto da Rádio Mundial nada mais significa do que
um movimento de compreensão humana, indo em auxílio
daqueles que, por circunstâncias supervenientes, estão pri-
vados, no momento, do seu ganha-pão.
Peço ao ilustre presidente, comunicar-se com os com-
panheiros da PRA-9, pedindo-lhes que enviem um repre-
sentante à Rádio Mundial, para um melhor entendimento."
Re,", Di:', Públ. e Ciência Politica - Rio de Janeiro - \'01. \"111, no 3 - Set./Dez, 1965
-192 -
Vê-se, assim, que o argüido praticou, em data re-
cente, ato peculiaríssimo de liberalidade de disposição e
de alta administração da Rádio Mundial S. A, de caráter
assaz oneroso para ela, ato que importou em doação aos
funcionários da Rádio Mayrink Veiga de estimável bem
da Rádio Mundial S. A e que só poderia promanar de
quem se achasse investido e revestido dos mais amplos
podêres e atribuições de gestão numa sociedade anônima.
Nesse aspecto dificultoso da causa, o argüido, em
suas ilustradas alegações finais, restringe-se em admitir o
malsinado ato como oriundo do contrôle acionário de que
é detentor e titular, esquecido talvez que as nossas leis
comerciais não deferem a prática de tal relevantíssimo
senão a uma Diretoria investida de robustos podêres esta-
tutários e à soberania da Assembléia Geral de Acionistas.
Dizer-se que o candidato falou e contratou em nome
da emprêsa, apenas à guisa de deferência e homenagem
que os demais membros da Diretoria "em reunião infor-
mal" (sic) se lhe permitiram prestar como radialista, é,
permisa maxima venia, de indigência que atrita com a
seriedade do julgamento (vide depoimento de fls. 96 e
alegações de fls. 138 in fine e 139 caput.
Demais disso tudo, cumpre pôr em evidência, na en-
grenagem do engenho simulatório, que, com licenciamento
ou sem licenciamento, a posição do impugnado na Rádio
Mundial S. A, permaneceu inalterável e sem solução de
continuidade alguma, seja porque - como é público e
notório - o candidato continua a pontificar de forma
dominante, absorvente e permanente na Rádio Mundial
S. A, tôdas as horas de todos os dias e de tôdas as noites.
seja porque continua a perceber normalmente os rendi-
mentos de seus cargos e de suas funções, não obstante
o engenhoso artifício, armando em tôrno à via oblíqua de
renúncia em seu prol, por parte de quem lhe veio, altruísta
e generosamente, substituir na rádio, e que, em depoi-
mento prestado, neste Tribunal, deixou consignado que os
He,'. Dir, Públ. e Ciência Política - Rio de Janeiro - \',,1. \'111. n" 3 - Sei iD"l. lU.i.'i
-193 -

proventos que recebe são passados ao seu substituto após


os pagamentos do impôsto de renda na fonte, do emprés-
timo compulsório, do recolhimento ao IAPe, isto é, "que
o líquido do recebimento mensal é por êle entregue ao
diretor licenciado" (fls. 95 e 95V), o que patenteia, a
céu aberto, a inalterabilidade, ainda nesse particular, da
posição do Sr. Alziro Zarur como Diretor-Presidente é Su-
perintendente de uma concessionária de serviço público,
onde, após 1.0 de julho de 1965, continuou a praticar
atos positivos de administração.
Por tudo que foi exposto, considerado e pesado,
julgo procedente a impugnação da Douta Procuradoria
Regional Eleitoral, tendo o Sr. Alziro Zarur como inele-
gível, ex vi legis, para o cargo de Governador do Estado
da Guanabara, por haver, comprovadamente, exercido fun~
ções e ocupado cargo de direção, dentro do prazo de três
meses anteriores a 3 de outubro de 1965, na Rádio Mun-
dial S. A., que é uma emprêsa concessionária de serviço
público, sob contrôle da União, motivo pelo qual lhe de-
nego o registro pleiteado pelo Partido Trabalhista Nacio-
nal, Seção do Estado da Guanabara. E uma vez que a
Constituição federal, no seu art. 81, § 4.°, com a redação
dada pela Emenda constitucional n.o 9, aplicável às elei-
ções estaduais, por decorrência do art. 2.° da Emenda
constitucional n.o 13 e já agora reproduzida no art. 91
do nôvo Código Eleitoral, exige o registro conjunto dos
dois candidatos em chapa única e indivisível, denego, por
êsse motivo, o registro do Sr. Hélio Damasceno, como can-
didato a Vice-Governador.
O Des. Presidente - O eminente Relator acolhe a
impugnação oferecida pelo Ministério Público e, portanto,
denega o registro dos candidatos a Governador e Vice-Go-
vernador.
Com a palavra o Des. Ivan Lopes Ribeiro.
O Dr. Ivan Lopes Ribeiro - Senhor Presidente, de-
sejo fazer uma declaração de ordem pessoal antes de en-
Rey l>:r. Públ. e Ciência ['(ditica - [!i" de la"eir" - \',,1. \'111. n" 3 - Set./Dez, 1%5
-194 -
trar no meu direito de votar, a respeito da possibilidade
de registro do candidato.
Recebi do Jurista Clemenceau Luiz de Azevedo Mar-
ques um parecer sôbre a matéria.
Li várias vêzes êste parecer e por dois motivos: pri-
meiro' por se tratar de um trabalho elaborado por um
amigo meu, a quem sempre prestei homenagens nesta
Côrte; e, segundo, porque tem o nobre jurista autoridade
para elaborar parecer sôbre assunto eleitoral.
Entretanto, Senhor Presidente, não destacarei no meu
voto qualquer trecho dêsse brilhante parecer, porque en-
tendo que o juiz só está adstrito a examinar as alegações
das partes e os documentos oferecidos.
Ora, Senhor Presidente, parecer não representa nem
uma coisa nem outra.
Dêsse modo, valorizando o trabalho executado, me
escuso de invocá-lo no voto que proferirei.
Senhor Presidente, a Procuradoria Regional Eleitoral
impugnou o registro do candidato Alziro Zarur, invocando
a lei ordinária que, por autorização da Emenda consti-
tucional n.o 14, criou novos casos de inelegibilidades.
E neste caso, de que se valeu a Procuradoria Regio-
nal para oferecer sua impugnação, diz a lei que é inelegível
o candidato que tenha exercido, até antes de três meses da
data da eleição, cargo de direção em emprêsa concessio-
nária do serviço público.
Ora, Senhor Presidente, na Constituição Brasileira
Comentada, de autoria de Themistocles Cavalcanti, êle
destaca que, nas Constituições anteriores, a radiodifusão
não foi incluída como serviço do poder público. E afirma
que essa inclusão era mesmo desnecessária já que a radio-
difusão representa uma modalidade de radiocomunicação
e tem êste nome quando ela se dirige diretamente ao pú-
blico nas suas tarefas; porém a Constituição atual não dá
Rev. Dir Publ. e Ci~ncia PoJitica - Rio Je Janeiro - Vol. \·111. n Q 3 - Sel.iDez. 1%5
-195 -

margem mais a tal alegação porque o art. 5.°, n.o XII,


declara que constitui serviço público a radiodifusão.
Ora, Senhor Presidente, como disse anteriormente,
duas situações determinam a disposição legal invocada
para impugnção: o exercício do cargo até três meses antes
da eleição e que a emprêsa seja concessionária do serviço
público.
Senhor Presidente, para que o candidato não seja
alcançado pelo dispositivo, é necessário que êle se exonere
do cargo que mantinha na emprêsa, porque o intuito do
legislador foi o de impedir que a influência continuasse a
ser exercida pelo candidato, o que seria fatal, se continuasse
ocupando a função.
Assim, Senhor Presidente, no meu entender, a licença
não põe o candidato a salvo da impugnação da lei, porque
a licença não é mais que uma afirmação de que continua
êle ocupando o cargo.
A intenção do legislador foi afastar o candidato da
emprêsa, mas afastar definitivamente, a fim de que êle
não exercesse pressões em seu benefício. E a licença é uma
afirmação de que o cargo continua a ser ocupado por êle
que, continuaria a manobrar, licenciado, com os podêres
que o cargo lhe faculta.

Então entendo, Senhor Presidente, que a licença não


retira a proibição que a lei estabelece. O legislador teve
a intenção de determinar que o candidato não ocupasse,
no prazo que a lei determina, cargo ou direção na emprêsa.
Admitindo, porém, que a licença pudesse afastar o candi-
dato da implicação da lei, pela prova dos autos, pelos de-
bates, pelos documentos especialmente lidos neste julga-
mento, verifica-se que, de fato, o candidato continua no
exercício de seu cargo, embora juridicamente dêle afas-
tado. Admitindo que a licença o afastasse da proibição
da lei, o legislador não quereria, então, o afastamento sim-
bólico, porque êle entende que haja ingerência do candi-
Rtv. Dir. púl,1. e Ciéncia Política - Rio de ]an<írc -~ \·01. \"111. n Q 3 - Set./Dtz. 1965
-196 -

dato nos destinos, nas funções da emprêsa. Como se viu


dos debates, o candidato, depois de licenciado, assinou che-
ques em nome da emprêsa, demonstrando, assim, de uma
forma inequívoca, que o candidato continua na gerência
dos negócios da emprêsa. Além de assinar os cheques, fêz
muito mais: dirigiu aos radialistas da Rádio Mayrink
Veiga um ofício no sentido de que a Rádio Mundial -
porque êle invoca o nome da Rádio Mundial - estava à
disposição dos radialistas que não estavam percebendo
salários na Rádio Mayrink Veiga, retirada do ar.
Veja, Senhor Presidente, a responsabilidade dêste
oferecimento: ai está a prova esmagadora de que o can-
didato continua de fato, exercendo funções na emprêsa;
e essa prova esmagadora está no raciocínio de que consti-
tuiu até uma tem:=ridade para a emprêsa êsse oferecimento.
Em pleno estado da Revclução, oferecimento desta natu-
reza poderia det.erminar, também, que a Rádio Mundial
fôsse afastada da concessão que lhe fôra dada. Êle pôs em
risco, portanto, a própria vida da Rádio Mundial.
Ora, Senhor Presidente, não posso compreender
prova mais demonstrativa de que, realmente, o candidato
continua dirigindo a emprêsa concessionária.
A segunda parte, Senhor Presidente, da proibição
da lei é que seja a emprêsa concessionária de serviço pú-
blico. Themistocles Cavalcanti, na obra já afirmada, de-
clarou que "concessão e autorização, durante muito tempo,
tiveram a mesma significação". Mas, depois, surgiu a lei,
separando uma situação da outra, a declarar que a con-
cessão se distinguia da permissão pelo fato do poderio da
emprêsa.
Ouvimos, Senhor Presidente, a leitura de documentos
que não foram postos em dúvida, no sentido de que a
Rádio Mundial representa a difusora de maior potência
no Brasil e que sua voz, seu som são ouvidos até fora das
fronteiras da pátria. Quando o govêrno encarrega uma em-
prêsa da exploração de seu serviço público de radiodifu-
R<,·. Dir. Públ. e Ciência Politica - Rio de jandro - Vol. VIII, nO 3 - Sót./Dez. 1965
-197 -

são, a fôrça, a potência da difusora é que constitui urna


c:Jncessão, porque, no mais, Senhor Presidente, a autori-
zação nem sempre tem caráter permanente. Autorização
é o direito dado a pequenas transmissoras de âmbito pu-
ramente local, corno acontece nas irradiações dos grandes
acontecimentos mundiais, em que a difusora retransmite
para 'as emprêsas do âmbito curto o som e a palavra. Foi
a lei, Senhor Presidente, que distinguiu, de forma clara, o
que é concessão e o que é permissão. Se a lei apresenta
distinção, em várias oportunidades, e se os pareceres da-
queles que cuidam do assunto afirmam essa denominação
diferente, não há de ser êste Tribunal que, abandonando
a lei, abandonando o estudo daqueles que examinaram a
questão, não há de ser êste Tribunal - repito - que vai
fazer confusão entre concessão e autorização.
A Rádio Mundial, Senhor Presidente, pela sua po-
tência, pela sua exuberância, representa, realmente, bem
realmente, uma concessão de serviço público de radiodi-
fusão.
Se é uma concessão e se o candidato continuou Di-
retor da concessionária, a meu ver, a licença não o ampara
da proibição da lei; mas, admitindo que o amparo, se êle,
de fato, continua dirigindo, pelos cheques e pela concessão
que fêz à Rádio Mayrink Veiga, é fora de dúvida de que
essa proibição levantada pelo digno Dr. Procurador Re-
gional, na sua impugnação, representa a fiel expressão da
lei. Candidato que dirige ou ocupa cargo de emprêsa con-
cessionária de serviço público, pelo prazo além daquele
que a lei estabelece, não se encontra em condições de ser
registrado.
Acompanho, portanto, as conclusões brilhantes do
eminente Relator, e denego o pedido de registro.
O Des. Presidente - O Dr. Ivan Lopes Ribeiro acom-
panha o Relator, denegando o registro.
Com a palavra o Des. João Coelho Branco, para pro-
ferir o seu voto.
Rev. Dir. Públ. e Ciência Politica - Rio de Janeiro - \"01. \"111. n° 3 - Sd./Dez. 1965
-198 -

oDes. João Coelho Branco - Senhor Presidente, o


Ministério Público argüiu a inelegibilidade do candidato
Alziro Zarur, apresentado pelo Partido Trabalhista Na-
cional, para o cargo el~tivo de Governador do Estado, in-
vocando o princípio inscrito no art. 1.0, item I, alínea m,
e item II, alínea e, da Lei n.o 4.738, de 15 de julho de
1965, que, ao estabelecer novos casos de inelegibiliàade,
r.om fundamento no art. 2.° da Emenda constitucional
n.o 14, prescreve serem inelegíveis para Presidente e Vice-
Presidente da República e também para Governador o
Vice-Governador:
"Os que tenham exercido, até 3 (três) meses antes
da eleição, cargo ou função de direção nas emprêsas pú-
blicas, nas entidades autárquicas, nas emprêsas concessio-
nárias de serviço público, ou em organizações da União, ou
sujeitas ao seu contrôle."
O fundamento racional objetivo da norma proibitiva
tem sua fonte inegável no art. 2.° da Emenda n.o 14, ao
outorgar podêres ao legislador ordinário para estabelecer
inelegibilidades, que preservassem a lisura e normalidade
das eleições, não só contra o abuso do poder econômico,
mas também contra o uso indevido da influência de exer-
cício de cargos ou funções públicas.
Se por serviço público, na definição concisa e precisa
de Villegas Basavilbaso, se entende "tôda atividade direta
ou indireta da administração pública, cujo objetivo é a
satisfação das necessidades coletivas por um procedimento
de direito público" (Derecho Administrativo, 1951,
voI. III, n.o 206, pág. 49), não há como deixar de qua-
lificar a radiodifusão como serviço de natureza pública.
Basta recordar que a Constituição federal, no art. 5.°,
n.o XII, indui na esfera de competência privativa da
União,
"explorar, diretamente ou mediante autorização ou
concessão, os serviços de telégrafos, de radiocomunicação,
Re\'. Dir, publ. e Ciência Politica - Hio de Janeiro - \'01. \'111. nO 3 .- ~d./lJez 19ti5
-199 -

de radiodifusão, de telefones interestaduais e internacio-


nais, de navegação aérea e de vias férreas que liguem
postos marítimos a fronteiras nacionais ou transponham
os limites de um Estado".
Daí dizer o Ministro Antônio Gonçalves de Oliveira,
quando Consultor-Geral da República:
"No exame dessa importante questão, não se pode
deixar de assinalar que a radiodifusão constitui serviço
público e serviço público da maior relevância, competindo,
como compete à União, por expresso mandamento de
ordem constitucional, explorar diretamente, ou mediante
autorização ou concessão, tais serviços (Constituição fe-
deral, art. 5.°, item XII).
Na verdade, o rádio, como técnica de informação das
massas, por sua rapidez, regularidade e atração dos pro-
gramas, tem uma penetração incomparável e, por isso
mesmo, exerCe sôbre a opinião pública, como é notório,
uma influência tão relevante, que o Estado não pode de-
sinteressar-se dos seus serviços.
Por outro lado, as facilidades que o rádio oferece
para as transmissões rápidas e regulares, à grande distân-
cia, fazem do seu serviço um instrumento de informação
cultural e pedagógica de importância sem par, mormente
em país de grande extensão territorial como o nosso.
Atento a êsse fato, bem avisado andou o legislador
constituinte em erigir o rádio em serviço público (Consti-
tuição federal, art. 5.°, XII), dando-lhe a legislação ordi-
nária destinação educacional (Decreto n. ° 2 1.111, de
1932, arts. 11 e 66). (Revista de Direito Administrativo,
voI. 47, pág. 448).
Do mesmo modo, acentuando as elevadas finalidades
sociais, que a Emenda constitucional n.o 14 quer preser-
var, assertava o Ministro Ruben Rosa - Vou apenas acen-
tuar as palavras em que aquêle ilustre membro do Tri-
bunal de Contas da União, depois de dizer:
Rev. Dir. Púhl. e Ciência Politica - Rio ue Janeiro - \"01. \"111. n Q 3 - Set./Dez. 1965
- 200-

"A radiodifusão, modalidade de radiocomunicação no


mundo moderno, constitui um "serviço público" explorado
pelo Estado ... "
continuava,
"As leis de todos os Países frisam que a "função" do
rádio (e, já agora da televisão) é eminentemente educa-
tiva e cultura1."
acrescentando,
"Nada de predomínio de grupos econômico-financei-
ros ou políticos" (Revista de Direito Administrativo, vo1.
49, pág. 234).
o direito público brasileiro, nos limites fixados pelo
citado art. 5.°, n.o XII, da Constituição, adotou o sistema
misto, estatuindo o art. 32 do Código Brasileiro de Comu-
nicações (Lei n.o 4.117, de 27 de agôsto de 1962) que
"os serviços de radiodifusão, nos quais se compreendem
os de televisão, serão executados diretamente pela União
ou através de concessão, autorização ou permissão".
E o Decreto-lei 52.795, de 21-10-63, que regulamen-
tou o Código referido, define e distingue os conceitos de
concessão e permissão e o campo de incidência de uma
e outra, ao estabelecer, no art. 5.°:
"Concessão - É a autorização outorgada pelo poder
competente a entidades executoras de serviços de radiodi-
fusão sonora de caráter nacional ou regional e de televisão."
"Permissão - É a autorização outorgada pelo poder
competente a entidades para a execução de serviço de rá-
diodifusão de caráter loca!."
o que distingue, assim, na conceituação legal, a con-
cessão da permissão é que a primeira é a autorização para
executar serviços de radiodifusão de caráter nacional ou
regional. ao passo que a segunda é a autorização para a
execução de serviços de radiodifusão meramente locais.
- 201-

Vinca mais ainda a lei a diferenciação ao estabelecer


que é do Presidente da República a competência privativa
para a outorga de concessões para a execução de serviços
de rádio e televisão de caráter regional ou nacional, ao
passo que compete ao Conselho Nacional de Telecomuni-
cações (CONTEL) autorizar as mesmas transmissões de
caráter local (Decr. cito arts. 6.0, §§ 1.0 e 2.°, 28 e 32).
Ora, a Rádio Mundial, de que é Diretor-Presidente
o candidato Alziro Zarur, executa, como é público e no-
tório, serviços de radiodifusão de caráter regional e na-
cional, e daí atestar o CONTEL, segundo certidão junta
aos autos, que é ela organização concessionária do poder
público federal.
É incontestável, portanto, que se trata de concessão
de serviço público, que é, justamente, na definição lapidar
de Marcello Caetano, "a transferência, temporária ou re-
solúvel, por uma pessoa coletiva de direito público de
podêres que lhe competem para outra pessoa singular ou
coletiva a fim de esta o exercer por sua conta e risco, mas
no interêsse geral" (Manual de Direito Administrativo,
6. a ed., 1963, pág. 553).
A norma legal invocada como fundamento da argüi-
ção declara a inelegibilidade, para a governança ou vice-
governança do Estado dos
"que tenham exercido, até 3 (três) meses antes da
eleição, cargo ou função de direção nas emprêsas públicas,
nas entidades autárquicas, nas emprêsas concessionárias
de serviço público, ou em organizações da União, ou su-
jeitas ao seu contrôle."
O candidato argüido de inelegibilidade, na espécie,
não contestou a tese de aplicação imediata da norma in-
vocada. E não podia fazê-lo, já que, como advertia Carlos
Maximiliano:
"As leis políticas aplicam-se imediatamente; visto
serem, na essência, normas positivas de interêsse geral;
Rc\·. Dir PL"lhl t' CiL'I1Ci:t Pulitica - r~i(l de Janeiro - \'01. VIII. n° :~ - Sd IDe? 19fi5
- 202-

predomina, em seu caso, o bem presente e futuro do Es-


tado, o qual ordena ou proíbe por um motivo ou fim que
transcende o interêsse dos indivíduos; é mais intensa, na
hipótese, a obrigatoriedade do preceito hodierno; pelo que
o mesmo se apodera logo das relações e. dos fatos ante-
riores e atuais. Há os chamados direitos políticos; mas não
pertencem ao patrimônio de ninguém; a sociedade os dá,
a sociedade pode arrebatá-los. O dogma da irretroatividade
ampara prerrogativas individuais, não - as políticas.
Estas não passam de falculdades; não se considerem di-
reitos adquiridos" (Direito Intertemporal, 2. a ed., 1955,
n.O 280, pág. 326).
Contesta, todavia, o candidato impugnado a incidên-
cia da norma proibitiva de seu registro, alegando que, des-
de 1.0 de julho de 1963, está licenciado do cargo de Di-
retor-Presidente da Rádio Mundial.
Para a inelegibilidade, exige a Lei n.o 4.738, no dis-
positivo invocado, tenha o candidato exercido, nos três
meses anteriores à eleição, cargo ou função de direção nas
emprêsas radiodifusoras.
Sustenta a douta Procuradoria que o licenciamento
do diretor não afasta a inelegibilidade, exigindo a lei o afas-
tamento definitivo da função.
Neste ponto adoto os doutos conceitos expendidos
pelo Dr. Procurador Regional, no seu brilhante e culto
voto.
A questão tornou-se, contudo, irrelevante in casu, de
vez que a prova dos autos, longa e profundamente exami-
nada pelo eminente relator, traz a convicção de que o li-
t:enciamento da direção da emprêsa foi um ato simulado.
Em nosso direito, a simulação, a fraude e, em geral,
todos os atos que invalidamos atos jurídicos podem pro-
var-se por indícios e circunstâncias, consoante dispõe o
art. 252 do Código do Processo Civil. "Se a lei - dizia
Pedro Batista Martins - não admitisse como específica
Rev. Dir. PÚ"!' e Ciellci" Política - Rio ue Janeiro - VoL VIII. n9 3 - Set./Du 19ti5
- 203-

das maquinações dolm:as e dos concílios fraudulentos, a


prova exclusivamente circunstancial ou indiciária, isto é,
se a lei lhe atribuísse mero valor subsidiário, é evidente
que escapariam à ação repressora da justiça precisamente
aquêles casos que, pela sua gravidade, exigem mais
eficaz repressão." (Comentários, 1942, voI. lU, n.o 112,
pág. 143.)
Para testemunhar a simulação do afastamento do
candidato da emissora, se não bastasse a pré-ciência da nor-
ma proibitiva antes de sua sanção, se não bastasse a tardia
comunicação feita ao CONTEL, depois da vigência da lei,
se não bastassem as circunstâncias apontadas pela perícia
no exame de livros, se não bastasse a circunstância de
continuar a receber os vencimentos do cargo pelas mãos
do testa-de-ferro, aí estariam ainda os atos de disposição
da emprêsa, que só o diretor pode praticar, colocando-a,
gratuitamente, a serviço de terceiros e, mais do que tudo,
os atos de continuar a girar com o patrimônio social, emi-
tindo cheques, fazendo pagamentos, dirigindo, enfim, a
concessionária.
Mais do que isso; o que demonstra, sem dúvida, a
continuação do candidato na direção da emprêsa é que
s. s.a, contrariando, justamente, os objetivos da lei, con-
tinua dirigindo, dia e noite, a emprêsa, fazendo propaganda
política sem respeito e obediência ao estabelecido na lei
eleitoral, infringindo, de frente, a proibição legal, por isso
que estamos em face justamente do que a lei proíbe: o
abuso, em fase de eleição, nos três meses que a antecedem,
o abuso do poder político e o abuso, também, do poder
econômico da emissora.
Quando a conduta da parte, mais do que as circuns-
tâncias da causa, produzem a convicção segura de que ela
se serviu de processo indireto para praticar ato simulado
in fraudem legis, isto é, para conseguir um fim proibido
por lei a decisão deve obstar a êsse objetivo anormal.
Dizia Clóvis Bevilacqua, em observação do art. 104,
do Código Civil que "havendo intenção de violar a lei, a si-
Rev :lir. P,';h 1. e Cit~nci;t Pnlit;c! -- F(io dt' .I;!neirn -~ \'01. VIII. n 9 J - Sd /[Jez. 1965
- 204-

mulação é maliciosa, equivale ao dolo, e ninguém pode


ser ouvido alegando o seu próprio dolo, nem dêle tirar
proveito".
E essa conclusão se impõe principalmente em matéria
de direito público, insubordinável à vontade das partes,
máxime quando se expressa eivada de mácula indelével
e com infração de norma constitucional que visa a lisura
e a licitude do direito e do processo eleitorais.
Assim, não se tendo realmente verificado, nem de
fato nem de direito, a desvinculação do candidato, ainda
que temporàriamente, do exercício do cargo de direção na
emprêsa radiodifusora, de que é presidente, incidiu, sem
dúvida, na inelegibilidade estatuída na norma legal in-
vocada.
Estas as razões, Senhor Presidente, pelas quais acom-
panho o voto brilhante, incisivo e decisivo do douto
Relator.
a Des. Presidente - a Des. João Coelho Branco
acompanha o Relator.
a Des. Milton Barcellos como vota?
a Des. Milton Barcellos - Sr. Presidente, caros co-
legas, a tese, nesta altura dos acontecimentos, já não com-
porta maiores divagações, nem citações eruditas, nem
técnicas, se tem a Rádio Mundial capacidade maior ou
menor.
a que se indaga aqui está dentro do formidável tra-
balho executado pelo Procurador Regional que mostra que
a Rádio Mundial tem, no candidato que se apresenta ao
nosso exame, um diretor-presidente que se afastou mo-
mentâneamente da função mas que, apesar disso realisava
atos compatíveis, só compatíveis, com a função de pre-
sidente.
Leu ainda o Dr. Procurador um documento, cujo
exame - para que não ficassem surpreendidos - foi fa-
Rov. Dir. Públ. o Ciência Politica - Rio de Jandro - \"01. \"111. n Q 3 - Sot./Do. 1%5
- 205-
cultac.':> aos advogados do argüido, para que o examinassem
à vontade.
A nova lei eleitoral é, lamentàvelmente, Sr. Presi-
dente, casuística. Ela ê um ferrôlho tremendo que poucas
oportunidades oferece ao juiz para repelir alguns dos seus
postulados.
É a lei. E a lei foi feita para ser cumprida.

Há incompatibilidade! Demonstrou-se que o candi-


dato exerceu cargo de presidente apesar do seu afasta-
mento. Os brilhantes advogados na defesa sustentaram
que, diante da vultosa soma de trinta e oito milhões de
movimento da rádio, os cheques omitidos pelo candidato
eram relativamente insignificantes.
Êsse argumento é o mesmo usado, da potencialidade
da estação.
Basta que tenha sido emitido o cheque, é ato de
administração.
Mas, não satisfeito, êle ainda dirigiu aos radialistas
um ofício, colocando-se portanto em frente ao postulado
legal que o impedia de fazê-lo.
O trabalho da Procuradoria foi brilhantemente con-
testado pelos advogados, procurando contrariá-lo.
l\1:as o Dr. Procurador é qUe traçou a estrada por
onde o juiz mais fàcilmente poderia caminhar, demons-
trando que havia um impedimento legal.
Felizmente, Sr. Presidente, até êste momento, os can-
didatos que aqui têm se apresentado não foram atacados
na sua dignidade pessoal. Louvado seja Nosso Senhor
Jesus Cristo, que colocou êstes homens fora dessas cogita-
ções de torpeza.
É apenas a fria legalidade. A lei é dura, mas é a dura
Iex, para ser cumprida.
Re\" Dir. I'ubl. " Ciência Política - Rio de Jondro 0_- \'01. VIII. n 9 :! - Sel./Dez. 1965
- 206-

Meu voto é acompanhando o Relator.


a Des. Presidente - O Des. Milton Barcellos acom-
panha o Relator.
Como vota o Dr. Eduardo Jara?
a Dr. Eduardo jara - Sr. Presidente, o serviço de
radiodifusão acha caracterizado pelo Decreto n.o 21.111,
de 1-3-1932, e, como transcrito pelo eminente Relator e
pelo Desembargador Coelho Branco, o Ministro Ruben
Rosa observa que sempre se praticou a execução do serviço
de radiodifusão através de autorização administrativa.
A autoridade verifica não só a capacidade técnica,
mas também, a sua instalação e sua idoneidade financeira.
Êsse regime estabelece um sistema de fiscalização impôsto
pela administração, principalmente sob o ponto de vista
técnico, preservando a radiodifusora de intromissões pre-
judiciais. Ela é destinada a ser livremente recebida pelo
público.
Há, dêste modo, uma permissão administrativa, sem
reflexo no orçamento da União. A pessoa jurídica, deten-
tora da emprêsa de rádio, recebe autorização para explo-
rá-la, sem privilégios. Não afasta concorrente e sua du-
ração é por prazo indeterminado. O título de exploração
tem o caráter precário sob a fiscalização, antigamente do
D. C . T ., hoje da CONTEL, segundo a Lei n.o 4.217.
É irrecusável que constitui esta forma de operar um
serviço público mediante condições de contrôle, impostas
pela União, desde a fiscalização até a revogação da ex-
ploração.
Não se olvide, Sr. Presidente, que a Constituição de
46, não esquecida da Constituição de 37, não admitiu ver-
dadeira concorrência de serviço em relação à radiocomu-
nicação.
Há para isso, sempre, uma licença ou autorização
administrativa. Compreende-se importância da manifes-
tação da palavra pelo éter, por isso está sujeita a censura.
Rev. Dir. Púlll. e Ciêllcia Politica - Hio de J.lllciro - \·01. \ 111. 1\" :l -- Sel./Dez. 191;5
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Acrescente-se, após, a permlssao mesmo para o seu fun-
cionamento, a sujeição à esfera de sanção penal. Pode,
também, a sociedade incidir em penalidade administrativa
se por exemplo recebe ou intercepta indevidamente qual-
quer radiocomunicação.
Ruben Rosa é quem assinala ainda: "É dado ao ti-
tular do direito, a juízo da própria administração."
Forçoso, porém, é admitir-se que não se trata de um
serviço em que a administração da l<ádio Mundial executa
sob a forma legal e regularmentar, geral e impessoal, se-
melhante a um agente público. Não. Ela recebe a licença
federal, mas não age pela administração. Dá-lhe permissão
para irradiar e o que se ouve? Músicas religiosas, publici-
dade comercial e esporte.
Aqui convém assinalar que a Constituição de 1946,
no art. j.o quis excluir, totalmente, a esfera da intervenção
estadual. Daí relacionar, no inciso XII, do art. 5.°, matéria
de sua competência privativa.
O legislador tinha presente a lembrança de Jefferson,
em sua carta de quatro de agôsto de 1787, a Edward
Carrington:
"Minha idéia geral seria considerar o Estado como
um só em tudo quanto interesse às nações estrangeiras,
e diversos nos assuntos puramente domésticos. O rádio
nunca pede ser pensamento doméstico; e a nação tôda, e
o mundo todo."
Tem caráter assim, Sr. Presidente, de utilidade pú-
blica, como ponto de partida; todavia, falta-lhe aquêle ca-
ráter da necessidade de imediato ao público e a explora-
ção, mesmo, é mais dirigida ao indivíduo que à sociedade.
Assume o caráter de uma atividade privada, embora par-
ticipe de um serviço de que o público se beneficia.
É, porém, uma atividade privada, sujeita à oferta e à pro-
cura dos radiouvintes e dos interessados na publicidade
comercial.
Rev. Dir. Públ. e Ciência Politica - Rio de Janeiro - Vol. VIII. n Q 3 - Sel./Dez. 1965
- 208-

Ora, tais aspectos apontam o caráter público do ser-


viço, mas não a concessão de um serviço público. De modo,
Sr. Presidente, que data venia dos votos dos eminentes
Desembargadores e Juízes, eu rejeito a impugnação e de-
firo o registro de ambos os candidatos.
O Des. Presidente - O Dr. Eduardo Jara rejeita a
impugnação e defere o registro dos candidatos.
Com a palavra o Dr. Edmundo Lins Neto.
O Dr. Edmundo Lins Neto - Sr. Presidente, ao
brilhante voto do douto Relator e pedindo vênia ao emi-
nente Des. Milton Barcellos, apenas quero fazer uma obser-
vação: é relembrar, aqui, o notável parecer que deu Carlos
Medeiros, quando Procurador-Geral Eleitoral, portanto
um parecer muito importante para o caso e que está pu-
blicado na Revista Forense, voI. 181, pág. 71.
Sabem V. Exas. que o Dr. Carlos Medeiros é
um de nossos mais acatados administrativistas; e a conclu-
são a que chegou S. Exa. é, exatamente, igual à dos autores
aqui citados.
Nada mais tenho a acrescentar, Sr. Presidente, ao
douto e brilhante voto do eminente Relator, e o acompa-
nho, integralmente.
O Des. Presidente - O Dr. Edmundo Lins Neto
acompanha o Relator.
No processo n.O 117/65 o resultado do julgamento
foi o seguinte: - Preliminarmente, foi rejeitada a argüi-
ção de intempestividade da impugnação oferecida pelo
Ministério Público, por votação unânime. No mérito foi
acolhida a impugnação do Ministério Público, negando o'
registro dos candidatos a Governador e Vice-Governador
do Estado da Guanabara, requerido pelo Partido Traba-
lhista Nacional, vencido o Dr. Eduardo Jara, que rejeitava
a impugnação e registrava os candidatos.
A sessão vai ser suspensa para lavratura do acórdão.
H<\' Dir. I'úbl. e Ciência Política - Hio de Janeiro - \'01. \'111. nO 3 - Set,/Dez, 196"
- 209-

(Suspensa a sessão às 18,20 horas.)


(Reaberta a sessão às 19,20.)
O Des. Presidente - Está reaberta a sessão.
O ilustre Relator está autorizado a fazer a leitura
do acórdão, que está assinado por todos os membros do
Tribunal.
O Dr. Laudo de Almeida Camargo - (Faz a leitura
do acórdão de fls.)
O Des. Presidente - Está feita a leitura do acórdão.
Para o efeito da lei está publicado.
Comunico aos eminentes colegas que está encerrada
a sessão.
(Encerrada às 19,45 horas.)
EMENDA CONSTITUCIONAL N.o 11
As Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado
Federal promulgam, nos têrmos do art. 3.° do Ato Insti-
tucional e do art. 217, § 4.°, da Constituição, a seguinte:
Emenda Constitucional N.o 11
"Artigo único - Ao art. 157 da Constituição é acres-
centado um parágrafo, com a redação seguinte, passando
o atual parágrafo único a § 1.0:
"§ 2.° - Nenhuma prestação de serviço de caráter
assistencial ou de benefício compreendido p..a previdência
social poderá ser criada, majorada ou estendida sem a
correspondente fonte de custeio total."
Brasília, 31 de março de 1965.
A MESA DA CAMARA DOS A MESA DO SENADO FEDERAL
DEPUTADOS
Bilac Pinto - Presidente Auro Moura Andrade - Pres'dente
Baptista Ramos - 1.0 Vice-Presidente Camilo Nogueira da Gama - Vice-
Presidente
Mário Gomes - 2.0 Vice-Presidente Dinarte Mariz - 1.0 Secretário
Nilo Coelho - 1.0 Secretário Adalberto Sena - 2.° Secret:irio em
exercício
Henrique La Rocque - 2.° Secretário Cattete Pinheiro - 3.° Secretário
Emílio Gomes - 3.° Secretário em exercício
Guido Mondin 4.0 Secretário
Nogueira d'e Rezende - 4.° Secretário em exercício.

Re,·. Dir. Púhl. e Ciência Politic" - Pio de Jon.:iro - \"01. \"111 n') 3 - Set./Dez. 1965

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