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Justiça Federal da 1ª Região

PJe - Processo Judicial Eletrônico

25/10/2021

Número: 0000732-10.2019.4.01.3602
Classe: AÇÃO PENAL - PROCEDIMENTO ORDINÁRIO
Órgão julgador: 1ª Vara Federal Cível e Criminal da SSJ de Rondonópolis-MT
Última distribuição : 05/07/2019
Valor da causa: R$ 0,00
Processo referência: 0000732-10.2019.4.01.3602
Assuntos: Crimes de Responsabilidade
Objeto do processo: 4506920194013602
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? NÃO
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? NÃO
Partes Procurador/Terceiro vinculado
Ministério Público Federal (Procuradoria) (AUTOR)
Polícia Federal no Estado de Mato Grosso (PROCESSOS
CRIMINAIS) (AUTORIDADE)
ONDANIR BORTOLINI (REU) ULLI BAPTISTELLA BARBIERI (ADVOGADO)
ZAID ARBID (ADVOGADO)
FABIANO DALLA VALLE (REU) JOIFER ALEX CARAFFINI (ADVOGADO)
DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO (REU) CARLOS HENRIQUE ALVES RODRIGUES (ADVOGADO
DATIVO)
VICTOR GUILHERME MOYA (ADVOGADO)
ODECI TEREZINHA DALLA VALLE (REU) JOIFER ALEX CARAFFINI (ADVOGADO)
Ministério Público Federal (Procuradoria) (FISCAL DA LEI)
EBENEZER ALVES PAULINO (TESTEMUNHA)
PEDRO BARBOSA DA SILVA (TESTEMUNHA)
BRUNO COSTA DE TOLEDO (TESTEMUNHA)
Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
74510 25/10/2021 18:36 Sentença Tipo D Sentença Tipo D
4997
Subseção Judiciária de Rondonópolis-MT
1ª Vara Federal Cível e Criminal da SSJ de Rondonópolis-MT

PROCESSO PENAL 0000732-10.2019.4.01.3602

AUTOR: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

RÉUS: ONDANIR BORTOLINI, ODECI TEREZINHA DALLA VALLE, FABIANO DALLA


VALLE e DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO.

S E N T E N Ç A - Tipo D
(servindo como MANDADO, CARTA PRECATÓRIA e OFÍCIO)

1. RELATÓRIO

O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL ofereceu denúncia em que imputa a


ONDANIR BORTOLINI, ODECI TEREZINHA DALLA VALLE, FABIANO DALLA VALLE
e DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO a prática do crime tipificado no artigo 1º, inciso
I, do Decreto-Lei 201/67.

A narrativa da inicial é a seguinte:

Extrai-se das peças informativas em anexo que ONDANIR BORTOLINI, ODECI TEREZINHA
DALLA VALLE, DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO e FABIANO DALLA VALLE, agindo de
modo livre e consciente e de comum acordo, entre o ano de 2007 e de 2015, desviaram R$
56.560,00 (cinquenta e seis mil e quinhentos e sessenta reais) em favor da empresa Produtiva
Construção Civil LTDA — EPP (CNPJ/MF N° 07.547.502/0001-86) durante a execução de
serviços de construção de escola na prefeitura municipal de ltiquira/MT.

O município de ltiquira/MT celebrou com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação —


FNDE o Convênio n° 830484/2007 em 31/12/2007 com vigência de 540 dias, a partir da sua
assinatura, no valor de R$ 707.070,71 (setecentos e sete mil, setenta reais e setenta e um
centavos) para a construção de escola para a educação básica - Projeto Padrão FNDE
(PROINFÂNCIA), dos quais R$ 700.000,00 (setecentos mil) referem-se a recursos do FNDE e
R$ 7.070,71 (sete mil, setenta reais e setenta e um centavos) de recursos municipais.

O Convênio n° 830484/2007 foi aditado duas vezes. O primeiro termo aditivo teve como objeto a
prorrogação da vigência do Convênio por 300 dias a partir de 12/12/2009, vencendo em
7/10/2010. O segundo termo aditivo também teve como objeto a prorrogação do Convênio por
180 dias a partir de 8/10/2010, vencendo em 5/4/2011.

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Em 5/6/2009, a Controladoria Geral da União produziu o Relatório de Demandas Especiais n°
00190.030022/2007-99 e constatou diversas irregularidades na obra em comento, as quais
foram confirmadas pela perícia que confeccionou o Laudo 099/2012 - UTEC/DPF/ROO/MT.

O Laudo de Perícia Federal Criminal constatou cinco irregularidades. A primeira conclusão foi
no sentido que o Plano de Trabalho no valor de R$ 950.254,19 (novecentos e cinquenta mil,
duzentos e cinquenta e quatro reais e dezenove centavos), datado de 2/6/2008, não é o Plano
de Trabalho apresentado previamente ao FNDE pela municipalidade de Itiquira para a
celebração do Convênio n° 830484/2007, tendo em vista que o Convênio n° 830484/2007 é
datado de 31/12/2007 com valor de R$ 707.070,71.

Constatou-se também que os originais das notas fiscais de n° 0083 e 0095 relativas,
respectivamente, à quarta e quinta medição, continuavam sem apresentar o devido atesto dos
serviços executados, conforme constatação relatada pela CGU.

Considerando a vistoria realizada em 21/6/2012, os peritos calcularam em R$ 77.244,87 (a


preços de junho/2008) os serviços pagos e não executados no âmbito do contrato n° 100/2008.
Em valores corrigidos para o mês de junho de 2012 pelo INPC/IBGE, os serviços não
executados e pagos indevidamente correspondem à quantia de R$ 95.748,25. Em valores
corrigidos para o dia 2/7/2012 pela Taxa SELIC, os serviços não executados e pagos
indevidamente correspondem à quantia de R$ 116.486,07.

Ademais, os peritos constataram divergência entre o Projeto Básico Padrão do FNDE e o


Projeto Básico que balizou a proposta de preços e a planilha de custos da contratada.

Saliente-se que o então prefeito municipal, ONDANIR BORTOLINI, a então tesoureira, ODECI
TEREZINHA DALLA VALLE, bem como o então secretário de Administração e Finanças,
FABIANO DALLA VALLE, eram responsáveis pela execução financeira do Convênio n°
830484/2007.

O FNDE, em 5/5/2016, após consultar o Sistema Integrado de Monitoramento, Execução e


Controle do Ministério da Educação — SIMEC, verificou que a obra supra mencionada se
encontra 91,92% de avanço físico, o que significa que resta 8,08% para finalizá-la.

Conclui-se, dessa forma, que R$ 56.560,00 (cinquenta e seis mil e quinhentos e sessenta reais),
ou seja, 8,08% do valor da obra foi desviado em favor da empresa Produtiva Construção Civil
LTDA.

Assim agindo, o ora deputado estadual ONDANIR BORTOLINI, ODECI TEREZINHA DALLA
VALLE, DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO e FABIANO DALLA VALLE incorreram nas
sanções do art.Art. V, incisos 1 do Decreto- Lei n° 201/67, verbis.

Art. 11 São crimes de responsabilidade dos Prefeitos Municipal, sujeitos ao julgamento do Poder Judiciário,
independentemente do pronunciamento da Câmara dos Vereadores:

I - apropriar-se de bens ou rendas públicas, ou desviá-los em proveito próprio ou alheio;

§ 1° Os crimes definidos nêste artigo são de ação pública, punidos os dos itens 1 e II. com a Pena de
reclusão, de dois a doze anos, e os demais, com a pena de detenção, de três meses a três anos.

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§ 2° A condenação definitiva em qualquer dos crimes definidos neste artigo, acarreta a perda de cargo e a
inabilitação, pelo prazo de cinco anos, para o exercício de cargo ou função pública, eletivo ou de
nomeação. sem prejuízo da reparação civil do dano causado ao patrimônio público ou particular.

O IPL n. 0072/2014-4-DPF/ROO/MT foi inicialmente distribuído perante o


Tribunal Regional Federal da 1ª Região sob o n. 0047182-26.2014.4.01.0000, uma vez
que o investigado ONDANIR BORTOLINI exercia, à época dos fatos investigados, o cargo
de Prefeito Municipal de Itiquira/MT (mandato de 2005 a 2008), e, desde a época da
instauração do IPL (2014), o cargo de deputado estadual, função pública que exerce até
os dias atuais (legislatura de 01/02/2019 a 31/01/2023).

Oferecida a denúncia, determinou-se a notificação dos denunciados para


apresentação de resposta prévia (pág. 108 do id 174103878).

Os denunciados ODECI e FABIANO foram notificados em 11/04/2017 (págs.


131 e 133 do id 174103878) e se manifestaram às págs. 178/187 do id 174103878, por
meio de advogado constituído (procurações às págs. 223/224 do id 174103878),
requerendo a rejeição da denúncia por inépcia manifesta.

Por sua vez, DENILSON e ONDANIR foram notificados em 27/04/2017 (pág.


146 do id 174103878) e 16/05/2017 (pág. 152 do id 174103878), respectivamente, não
tendo apresentado defesa prévia no prazo legal (pág. 155 do id 174103878). Por essa
razão, nomeou-se defensora dativa (pág. 161 do id 174103878), a qual apresentou
defesa às págs. 166/174 do id 174103878, pela qual alegou, igualmente, inépcia da
denúncia e pugnou pelo arquivamento do IPL.

Na sequência, antes de se deliberar sobre o recebimento da denúncia, o


Procurador Regional da República atuante no feito requereu o declínio de competência à
primeira instância, em razão do precedente jurisprudencial fixado por questão de ordem
no bojo da Ação Penal n. 937 do STF (227/232 do id 174103878). Diante disso, decisão
monocrática da lavra da Desembargadora Mônica Sifuentes, acolhendo a manifestação
ministerial, declinou da competência para o processo e julgamento da causa em favor do
juízo desta subseção judiciária (págs. 234/235 do id 174103878).

Recebidos os autos, este juízo, antes de decidir sobre o acolhimento da


competência e o recebimento de denúncia, determinou a abertura de vistas ao MPF para
esclarecer questões atinentes à fixação da competência, ao tempo e modo da prática
delitiva, aspectos concernentes à prescrição e, caso quisesse, para que aditasse a peça
vestibular, adequando às exigências dos art. 41 e 395 do CPP (decisão de págs. 248/252
do id 174103878).

0 Ministério Público Federal, por sua vez, manifestou-se às págs. 257/271 do


id 174103878, prestando os esclarecimentos necessários e aditando a denúncia, de que
cumpre destacar o seguinte:

II - BREVE RESUMO DOS FATOS RELEVANTES

O presente inquérito policial teve origem em razão de o Relatório de Demandas Especiais


00190.030022/2007-99, remetido pela CGU, ter constatado dano ao erário no bojo do Convênio
n° 830484/2007 (SIAFI 603204) firmado entre o Fundo Nacional de Desenvolvimento da

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Educação e a Prefeitura Municipal de Itiquira/MT, à época governada pelo Prefeito ONDANIR
BORTOLINI. Tal pacto tinha como objeto a construção de escola infantil (PROINFANCIA) no
valor global de R$ 950.257,19, sendo somente R$ 7.070,71 a título de contrapartida.

A empresa vencedora da licitação na modalidade Tomada de Preços n° 005/2008 foi a


Produtiva Construção Civil Ltda., CNPJ n° 07.547.502/0001-86, de responsabilidade de
DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO, tendo firmado o Contrato n° 100/2008 para a execução
do aludido Convênio.

O Relatório da CGU apontou, entre outras, as seguintes constatações:

i) divergências entre o valor global previsto no Termo de Convênio e o constante no Plano de


Trabalho e Projeto Executivo da Obra;

ii) pagamento indevido das 4ª e 5ª medições sem o devido atesto da execução da despesa;

iii) pagamentos indevidos à contratada por serviços não executados;

iv) movimentação financeira irregular de recursos do FNDE; e

v) divergências entre o Projeto Básico Padrão do FNDE e o Projeto Básico que balizou a
proposta de preços e a planilha de custos da contratada.

Extrai-se dos autos que o então Secretário de Administração e Finanças FABIANO DALLA
VALLE (filho de Odeci e sobrinho de Ondanir) era o responsável pela execução financeira do
Convênio, e que os pagamentos indevidos à empresa contratada, de responsabilidade de
DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO, foram feitos por meio de cheques emitidos por
ONDANIR BORTOLINI e pela Tesoureira da Prefeitura à época ODECI TEREZINHA DALLA
VALLE (irmã de Ondanir), razão pelo qual estes figuram como demandados da denúncia.

No decorrer da execução contratual, restou apurado um dano na monta de R$ 77.244,87 em


valores históricos.

Vale registrar, ainda, a existência de uma Ação Civil Pública por Improbidade em face dos
mesmos requeridos. Trata-se do processo n° 5232-32.2013.4.01.3602, o qual também tramita
perante a Subseção Judiciária de Rondonópolis e se encontra conclusa para sentença.

[...]

IV - DO TEMPO E MODO DAS PRÁTICAS DELITIVAS E DO ADITAMENTO DA DENÚNCIA

A inicial oferecida às fls. 02-A/02-D, ao descrever os fatos ilícitos, individualizou parcialmente as


condutas dos acusados, razão pela qual, frente aos comandos dos arts. 41 e 395 do CPP,
promove-se a ratificação, inclusão e retificações, na denúncia oferecida pela PRR 1ª (fls.
2A/2D), em especial das narrativas, com base nos elementos informativos carreados aos autos,
nos termos seguintes:

Com efeito, verificou-se a prática perpetrada pelos denunciados do delito de crime de


responsabilidade na execução do Contrato n° 100/2008, relacionados ao Convênio nº
830484/2007 (SIAFI 603204). A saber, nessa época, a gestão do município era realizada pelo

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Prefeito Municipal ONDANIR BORTOLINI, tendo como Tesoureira ODECI TEREZINHA DALLA
VALLE (irmã do então Prefeito) e como Secretário de Administração e Finanças FABIANO
DALLA VALLE (sobrinho do então Prefeito e filho da Tesoureira mencionada). Já a empresa
contratada era administrada por DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO e de propriedade dele.

No bojo do Relatório da Controladoria Geral da União (CGU) n° 00190.030022/2007-99,


constatou-se que o percentual de obra paga à empresa construtora não se compatibilizava com
o índice de execução física verificada in loco, de modo que o desembolso financeiro foi feito
sem a efetiva contrapartida de execução contratual, a qual ficava sob a supervisão de FABIANO
DALLA VALLE.

Deveras, as notas fiscais referentes às 4ª e 5ª medições (de n° 0083 e 0095, datadas de


10/09/2008 e 17/12/2008, respectivamente, e que, juntas, totalizaram R$ 225.000,00) não foram
atestadas pelo engenheiro responsável pelo acompanhamento da execução da obra, no entanto
foram emitidos indevidamente cheques assinalados pelo Prefeito ONDANIR BORTOLINI e pela
Tesoureira ODECI TEREZINHA DALLA VALLE, tendo como beneficiária a empresa contratada,
de propriedade e sob a responsabilidade de DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO, recebedora
de valores a maior, no exercício de 2008, considerados os preços contratuais estabelecidos.

Ademais, no bojo do Laudo de Perícia Criminal Federal n° 099/2012 - UTEC/DPF/ROO/MT,


restaram efetivamente consignadas as divergências de valores pagos a maior até a 5ª medição
da obra objeto do contrato. Deveras, os peritos calcularam cm R$ 77.244,87 (a preços de
junho/2008) os valores desembolsados além da respectiva contrapartida de execução no âmbito
do Contrato n° 100/2008, revelando um evidente desequilíbrio físico-financeiro da obra nesse
montante.

O então Prefeito, à época em seu último ano de mandato, ao assim agir, juntamente com
ODECI TEREZINHA DALLA VALLE e FABIANO DALLA VALLE, efetivamente desviaram renda
pública em favor da empresa Produtiva Construção Civil Ltda. Com efeito, os valores
desembolsados a maior entre os meses de setembro e dezembro de 2008, os quais somam R$
77.244,87 se deram sem a devida contrapartida e sem atesto de engenheiro responsável
momentos antes do término da gestão municipal, incorrendo, portanto, no delito tipificado no art.
1°, I, do Decreto-Lei n°201/1967.

É inegável que tais irregularidades na execução da obra foram praticadas com liame subjetivo
do sócio e único administrador dessa empresa, DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO, pois
este ciente das ilicitudes e pendências (quantitativas e qualitativas) nos serviços prestados,
recebeu os valores indevidos e pagos a maior, concretizando o desvio de recursos públicos em
proveito próprio, iniciado pelos demais denunciados.

Houve, portanto, a efetiva incorporação dos valores auferidos ao patrimônio da entidade


contratada sem a contraprestação devida, valendo de forma livre e consciente da condições de
agentes públicos dos outros denunciados, de modo que DENILSON incorreu, também, no delito
tipificado no art. 1°, I, do Decreto-Lei n° 201/1967, c/c art. 29 do Código Penal.

Registre-se, ainda, que os assuntos financeiros das obras do município de Itiquira/MT eram, de
fato, tratados com FABIANO DALLA VALLE e ODECI TEREZENHA DALLA VALLE, os quais
tinham pleno conhecimento das irregularidades existentes na execução do Convênio n°
830484/2007 (SIAFI 603204), firmado entre o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação

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e a Prefeitura Municipal de Itiquira/MT, evidenciado pela ausência de condutas para regularizá-
los e pela corroboração na efetiva execução desse desvio de recursos públicos em proveito
alheio.

Além do mais, ONDANIR confirmou a existência de irregularidades no tocante à obra e valeu-se


de inconsistente justificativa, desprovido de qualquer registro prévio, no sentido de que os
pagamentos a maior foram realizados em razão de um suposto equívoco na execução do
Projeto Executivo da Obra (fls. 140/142).

Nessa esteira, independentemente da alegação de suposto equívoco na execução do Projeto


Executivo da Obra, fato é que o Prefeito municipal à época, em seu último ano de mandato, no
penúltimo quadrimestre, firmou contrato e assumiu deliberadamente obrigação financeira (na
monta de R$ 950.254,19, dos quais R$ 940.751,65 ficariam a cargo do FNDE) com a empresa
Produtiva Construção Civil Ltda. em 05/07/2008, em favorecimento desta, possuindo mera
expectativa de complementação mediante termo aditivo da diferença, uma vez que o Convênio
originalmente previa a transferência de recursos de apenas R$ 700.000,00 por parte do FNDE.

Em razão da conduta ilícita acima descrita, não havia saldo suficiente para o pagamento da
contratada por parte da Prefeitura municipal, o que levou à paralisação da obra em diversos
momentos, ocasionando consideráveis prejuízos à população beneficiária dos serviços
educacionais.

Com efeito, conforme consta do Relatório de Demandas Especiais da CGU, em 14/04/2009 foi
feita vistoria in loco, tendo sido informado que a obra ficou paralisada entre o fim de dezembro
de 2008 e o início de abril de 2009, sendo que o percentual de execução física da obra era de
apenas 63%, quando já havia sido feito o pagamento de 73,35% em dezembro de 2008. Como
se vê, portanto, a obra restou suspensa ainda durante a gestão do requerido e mesmo diante de
pagamentos excedentes, realizados no fim da gestão do Prefeito ONDANIR BORTOLINI, tendo,
inclusive, ocasionado o adiamento do início das atividades escolares.

Ademais, por corolário das condutas dos denunciados, o Prefeito buscou da nova gestão
promoveu regularização mediante a continuidade da execução e o pagamento da obra,
dificultada pela as ilicitudes e pendências apontadas acima. Isso porque, mesmo após o término
do contrato, que se deu em dezembro de 2014, nota-se que somente 91,90% da obra havia sido
devidamente executada até abril de 2016, enquanto que os valores a cargo do FNDE haviam
sido repassados em sua integralidade (vide extrato juntado às fis. 258/259-verso).

Daí se pode concluir que o percentual de execução que restava para a obra ser executada em
sua completude corresponde a 8,08%, os quais, em valores financeiros históricos,
correspondem a aproximadamente R$ 76.012,73 (8,08% de R$ 940.751,65, valor transferido
pelo FNDE com vistas a honrar com o Convênio objeto dos autos). Tais verbas, com efeito,
guardam estrita aproximação com o valor de dano ao erário federal que já havia sido calculado,
nos idos de 2012, pela Polícia Federal no Laudo Pericial n° 099/2012 — UTEC/DPF/ROOÍMT
(fis. 84/98).

[...]

VI— DAS CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS e AGRAVANTES

No que diz respeito ao grau de culpabilidade, deve ela ser considerada desfavorável aos

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denunciados frente presença de dispares outras circunstâncias judiciais, nos termos da da
doutrina e jurisprudência. Vejamos:

[...]

Especificamente no tocante ao denunciado ONDANIR BORTOLINI, vale tecer alguns


comentários quanto às circunstâncias judiciais, agravantes e causas de aumento de pena que,
em tese, poderiam elevar a pena do delito tipificado no art. 1º do Decreto-Lei 201/67 superior ao
triplo do mínimo legal, em patamar suficiente para impedir a prescrição retroativa.

Com efeito, há demasiado desvalor nas circunstâncias do crime, pois à época, ONDANIR
exercia a função de Prefeito, figura de maior representatividade no âmbito do município, tendo
sido reeleito para a gestão 2004-2008 com quase 70% dos votos válidos. Trata-se de um papel
altamente relevante na comunidade local, cujas elevadas responsabilidades demandam e
evidenciam uma conduta diferenciada com vistas zelar pela escorreita aplicação das verbas
públicas em favor dos cidadãos, especialmente aquelas destinadas à educação (no caso dos
autos), o que não se deu. Em razão disso, o grau de reprovabilidade de sua conduta deve ser
valorada com maior grau ante os demais denunciados. Deve, ainda, ser considerado, para
tanto, o concurso de 4 agentes infratores com vistas a viabilizar a perpetração do crime.

Há de se ponderar, também, a personalidade negativa do denunciado até o momento do futuro


e possível decreto condenatório, nos termos da jurisprudência do TRF1, pois é inúmera a
quantidade de inquéritos policiais e ações penais em que ONDANIR figura como investigado e
réu. Tais fatos evidenciam que o denunciado ostenta um provável caráter voltado à prática de
infrações penais.

Deveras, uma simples consulta em sítios de busca na internet é possível constatar a enorme
quantidade de notícias amplamente divulgadas de fatos delituosos envolvendo o seu nome,
especialmente relacionados a lavagem de capitais, corrupção ativa, corrupção passiva,
peculatos, crimes eleitorais, entre outros. Sem contar a existência de ações civis de
improbidades administrativas que o requerido também responde perante as justiças federal e
estadual. Nesse sentido:

[...]

Importa, ainda, tecer esclarecimentos acerca das conjunturas de tempo e local em que se deu o
cometimento do fato delitivo, bem como aos instrumentos utilizados para tanto. A saber, mister
recordar que tal crime de responsabilidade foi perpetrado já no fim do mandato do ex-Prefeito
acusado, de modo que este detinha conhecimento de que tais desvios gerariam repercussões
negativas para a gestão seguinte e afetariam a credibilidade e a respeitabilidade do alcaide
sucessor perante a população e à Prefeitura, o que fatalmente ocorreu.

As consequências do crime, as quais envolvem o conjunto de efeitos danosos ocasionados em


desfavor especialmente da coletividade, também devem ser valoradas negativamente cm face
dos denunciados. A saber, conforme se vê nos autos, a obra objeto do contrato, que envolvia a
construção de unidade escolar de educação infantil, tinha como previsão de término a data de
05/04/2011, porém sua inauguração se deu muito depois disso. A rigor, a inauguração da obra
somente se deu em agosto de 2015, de modo que o desvio das verbas destinadas à aludida
construção ocasionaram um atraso de mais de 4 (quatro) anos. Tal delito, em verdade, não teve
como consequência apenas a dilapidação do patrimônio público, mas gerou, também, efeitos

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negativos à comunidade, especialmente às centenas de crianças as quais tiveram tolhidos,
durante 4 anos, seus direitos de acesso à educação, constitucionalmente garantida e de
fundamental importância.

Outra consequência desse ilícito é o considerável montante a título de dano ao erário


constatado, o qual atualizado com base na taxa SELIC chega a valores aproximados de R$
225.000,00 (duzentos e vinte cinco mil reais), desprezando acréscimos legais de juros. Elevada
e significativa quantia deve também ser considerada para maior reprovação das condutas dos
acusados.

No que tange às agravantes relacionadas ao concurso de pessoas, os incisos I e III do art. 62


do CP aduzem que a pena será agravada em relação ao agente que organiza e dirige as
condutas dos demais agentes, bem como instiga ou determina a cometer o crime alguém sujeito
a sua autoridade. Com efeito, na qualidade de Prefeito, de chefe do Poder Executivo Municipal,
ONDANIR, valendo-se de sua autoridade, induziu, ou, na pior das hipóteses, determinou que
ODECI TEREZINHA e FABIANO DALLA VALE, seus subordinados, concorressem com o delito
do art. 1º, inciso I, do Decreto-Lei 201/67, para o desvio de recurso público em proveito de
DENILSON.

Ademais, não se pode ignorar o cometimento do crime com abuso de poder ou violação de
dever inerente a cargo público por parte dos réus ONDANIR BORTOLINI, ODECI TEREZINHA e
FABIANO DALLA VALE, pois estes, muito além de se valeram de suas condições de agentes
públicos para agirem com clara violação às regras de Direito Público, especialmente aos
regramentos estabelecidos no bojo da execução dos contratos firmados com a Administração
Pública, utilizaram-se de funções de direção e confiança, cada qual dentro de suas respectivas
atribuições, para, assim, beneficiarem um terceiro em detrimento da comunidade usuária do
serviço público educacional.

No tocante aos denunciados ODECI TEREZINHA DALLA VALLE e FABIANO DALLA VALLE, os
quais também exerciam o munus público à época do delito, nas qualidades de servidores
municipais nomeados (tesoureira e secretário de finanças, respectivamente), a eles também
devem ser consideradas, para fins de exasperação da pena em tese aplicada com eventual
condenação, o grau de culpabilidade, as circunstâncias do crime e suas consequências.

A culpabilidade de ambos, ademais, deve ser valorada negativamente em razão de que, no


exercício de cargo comissionado (no caso de FABIANO) e de natureza política (no caso de
ODECI), e também por serem parentes do prefeito reeleito com esmagadora maioria dos votos
dos cidadãos locais, destes denunciados se esperava que portassem com estrita probidade e
lisura na gestão dos bens pertences ao erário municipal, fazendo valer e honrar a confiança
depositada no parente representante do executivo. Porém, agiram de modo diverso: trataram a
coisa pública com absoluto descaso e indiferença.

Frente ao concurso de agentes para perpetração do crime ora imputado, comunica-se a todos
os denunciados o desvalor das circunstâncias e consequências do crime, bem como da
culpabilidade, ressaltando - em relação a DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO - que este foi o
beneficiário direto dos valores desviados do Contrato n° 100/2008, em momentos distintos,
decorrente do Convênio firmado entre o FNDE e a Prefeitura de Itiquira/MT, o que demonstra
um alto do grau de reprovabilidade.

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Por fim, vale enfatizar que os denunciados ONDANIR, FABIANO e ODECI agiram de maneira
similar em relação aos demais convênios fiscalizados pela CGU, também objetos do Relatório
de Demandas Especiais nº 00190.030022/2007-99 (fls. 09/52). As situações irregulares
apontadas dizem respeito a inúmeras falhas nos contratos licitatórios firmados com uma outra
empresa de engenharia, chamada TRIPOLO, em que restaram constatados favorecimentos da
aludida entidade em diversas ocasiões. Frisem-se os consideráveis danos causados ao erário
na monta de R$ 690.053,03 (em valor, históricos) em razão do Convênio TT-153/2005 firmado.

Deveras, como bem se vê, esses três acusados agiram com deliberado menosprezo e
menoscabo com a coisa pública, visto que as irregularidades constatadas não se deram
somente no bojo do Contrato n° 100/2008, mas em diversos outros que também foram objetos
de auditoria por parte da Controladoria Geral da União - CGU.”

Diante disso, acolheu-se o declínio de competência e a denúncia foi


recebida em 04/07/2019 (págs. 273/277 do id 174103878).

Citado (pág. 294 do id 174103878), o réu DENILSON DE OLIVEIRA


GRACIANO apresentou resposta à acusação (págs. 147/149 do id 174123351), através
de defensor dativo (pág. 100 do id 174123351), protestando por provar sua inocência no
decorrer da instrução processual. Arrolou a mesma testemunha indicada na denúncia e,
também, o Delegado de Polícia Federal Bruno Costa de Toledo.

De igual modo, citados (pág. 98 do id 174123351), os réus ODECI


TEREZINHA DALLA VALLE e FABIANO DALLA VALLE apresentaram resposta à
acusação (págs. 299/306 do id 174103878) através de advogado constituído (págs.
223/224 do id 174103878), aduzindo inépcia da denúncia, ausência de prejuízo ao erário
público, bem como arrolando a testemunha Silvana Maria Rossoni Souza.

Por fim, citado (pág. 310 do id 174103878), o réu ONDANIR BORTOLINI


apresentou resposta à acusação (págs. 02/10 do id 174103881) e documentos (págs.
12/253 do id 174103881 e ids 174103889, 174123346 e págs. 01/93 do id 174123351),
através de advogado constituído (pág. 146 do id 174123351), arguindo inépcia da
denúncia, falta de justa causa, e ausência de crime, em razão da conclusão da obra
pública, embora ocorrida após o término de sua gestão na Prefeitura. Arrolou como
testemunhas Silvana Maria Rossoni, Márcio Martinazzo, Ebenezer Alves Paulino e Pedro
Barbosa da Silva.

Rejeitadas as preliminares aventadas pelas defesas (decisão de id


187186429), o feito prosseguiu com a instrução probatória, na qual foram inquiridas a
testemunha comum Guerino Aquilino Netto, o informante Marcio Martinazzo e as
testemunhas de defesa Silvana Maria Rossoni, Bruno Costa de Toledo (id 347252346) e
Ebenezer Alves Paulino, e interrogados os réus ONDANIR BORTOLINI, ODECI
TEREZINHA DALLA VALLE e DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO (id 397001938). A
defesa de ONDANIR BORTOLINI desistiu da oitiva de Pedro Barbosa da Silva (id
347252346).

Na referida assentada, realizada em 09/12/2020, o acusado FABIANO


DALLA VALLE foi absolvido sumariamente, nos termos do art. 397, III, do CPP, uma
vez que o fato narrado, em relação ao referido denunciado, não constitui crime, dada sua

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atipicidade (id 397001938).

Determinou-se, ainda, o traslado de peças referidas pela sentença proferida


nos autos da Ação Civil Pública 0005232-32.2013.4.01.3602, o que foi concretizado nos
ids 398487924, 398487925 e 398487926.

Na fase do art. 402 do Código de Processo Penal, as partes não fizeram


requerimentos.

Folhas de antecedentes e certidões criminais às págs. 15/24 do id


236824368, 13/19 do id 236824369, 21/25 do id 236824370, 13/17 e 60/61 do id
236824371, ids 396693877, 396693879, 396693883 e 396693887.

O MPF, em alegações finais, após manifestar a concordância com a


absolvição de FABIANO DALLA VALLE e esclarecer que, em virtude da gravidade das
condutas praticadas e da lesão perpetrada contra o interesse público, deixou de propor
acordo de não persecução penal aos demais réus, reiterou, por entender demonstradas
materialidade e autoria delitiva, o pedido de condenação dos acusados ONDANIR
BORTOLINI, ODECI TEREZINHA DALLA VALLE e DENILSON DE OLIVEIRA
GRACIANO nas penas do art. 1º, I, do Decreto-Lei 201/67, na forma do art. 29 do Código
Penal, bem como ao dever de repararem o dano causado à Administração Pública, a ser
atualizado até a data do efetivo pagamento (id 410921889).

A defesa de ONDANIR BORTOLINI repisou a preliminar de inépcia da


denúncia, por ausência da descrição da conduta individual do acusado e por se limitar a
imputar a ele o fato delituoso exclusivamente por ocupar o cargo de prefeito à época, e,
no mérito, requereu sua absolvição, sob o argumento de ausência de prejuízo ao erário,
uma vez que a escola, em que pese o atraso, foi efetivamente entregue aos cidadãos do
município quando o réu não era mais o gestor municipal (id 541737418).

Por seu turno, a defesa de ODECI TEREZINHA DALLA VALLE novamente


arguiu a preliminar de inépcia da denúncia, porquanto a peça inicial não teria descrito ou
narrado, ainda que sucintamente, a conduta delitiva pratica pela ré e que o fato de ter
participado, na condição de tesoureira, da execução orçamentária ou financeira da obra
licitada não a tornaria cúmplice de irregularidades. No mérito, argumentou que inexistiria
qualquer prejuízo ao erário público em decorrência da obra relativa ao Convênio
830484/2007, a qual teria sido licitada, executada, concluída e entregue, e cujos recursos
teriam sido utilizados adequadamente, de acordo com os aportes e cronograma
financeiros (id 702618497).

Finalmente, a defesa de DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO, em suas


alegações finais, pugnou pela absolvição do acusado, porque estaria ausente o dolo de
desviar numerário em proveito próprio ou alheio, sequer existindo prejuízo ao erário em
razão da obra conveniada, superfaturamento ou enriquecimento ilícito, uma vez que a
obra fora concluída e entregue ao Poder Público Municipal de Itiquira/MT, tendo sido
sanadas todas as irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas da União. Alegou,
por fim, que teria ocorrido apenas o atraso nas obras, o que não poderia ser atribuído ao
réu, em face dos entraves burocráticos comuns (id 703681479).

É o relatório.

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2. FUNDAMENTAÇÃO

2.1. Da preliminar de inépcia da denúncia.

Prima facie, em reiteração às decisões de págs. 273/277 do id 174103878 e


de id 187186429, impõe-se a rejeição da preliminar de inépcia da denúncia, novamente
veiculada em alegações finais pelas defesas técnicas de ONDANIR BORTOLINI e ODECI
TEREZINHA DALLA VALLE, sob os argumentos de que não haveria descrição da
conduta individual do acusado, o qual teria sido implicado no fato delituoso
exclusivamente por ocupar o cargo de prefeito municipal à época, e de que a peça inicial
não teria descrito ou narrado, ainda que sucintamente, a conduta delitiva praticada pela
ré.

Os parâmetros legais para a admissão da acusação estão descritos nos


artigos 41 e 395 do CPP. O primeiro, de conteúdo positivo, enumera os requisitos formais
da peça acusatória. Com efeito, a denúncia ou queixa que não contêm a exposição do
fato criminoso, com todas as suas circunstâncias, além da classificação do crime, impede
o exercício da ampla defesa, na medida em que submete o acusado à persecução penal,
privando-o do contexto sobre o qual se desenvolverá a relação processual.

Já o art. 395 do CPP, de conteúdo negativo, estipula que o libelo acusatório


não pode incorrer nas impropriedades a que se reporta, quais sejam, a inépcia da
denúncia, a falta de pressuposto processual ou condição da ação e a falta de justa causa
para o exercício da ação penal.

Entretanto, as descrições imputativas realizadas na denúncia (págs. 3/9 do id


174058371) e no aditamento realizado pelo MPF às págs. 257/271 do id 174103878, além
de serem suficientes para dar a conhecer às defesas os fatos atribuídos aos réus,
também se encontram amparadas por diversos elementos de provas acostadas aos
autos, sobretudo da documentação juntada às págs. 14/194 do id 174058371, o que aliás
se demonstrará na fundamentação abaixo.

As condutas de cada um dos réus, particularmente as condutas de ONDANIR


e ODECI, foram clara e adequadamente descritas pelo Parquet federal, consoante se lê
das págs. 257/271 do id 174103878, in verbis:

“Com efeito, verificou-se a prática perpetrada pelos denunciados do delito de crime de


responsabilidade na execução do Contrato n° 100/2008, relacionados ao Convênio nº
830484/2007 (SIAFI 603204). A saber, nessa época, a gestão do município era realizada pelo
Prefeito Municipal ONDANIR BORTOLINI, tendo como Tesoureira ODECI TEREZINHA DALLA
VALLE (irmã do então Prefeito) e como Secretário de Administração e Finanças FABIANO
DALLA VALLE (sobrinho do então Prefeito e filho da Tesoureira mencionada). Já a empresa
contratada era administrada por DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO e de propriedade dele.

No bojo do Relatório da Controladoria Geral da União (CGU) n° 00190.030022/2007-99,


constatou-se que o percentual de obra paga à empresa construtora não se compatibilizava com
o índice de execução física verificada in loco, de modo que o desembolso financeiro foi feito
sem a efetiva contrapartida de execução contratual, a qual ficava sob a supervisão de FABIANO
DALLA VALLE.

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Deveras, as notas fiscais referentes às 4ª e 5ª medições (de n° 0083 e 0095, datadas de
10/09/2008 e 17/12/2008, respectivamente, e que, juntas, totalizaram R$ 225.000,00) não foram
atestadas pelo engenheiro responsável pelo acompanhamento da execução da obra, no entanto
foram emitidos indevidamente cheques assinalados pelo Prefeito ONDANIR BORTOLINI e pela
Tesoureira ODECI TEREZINHA DALLA VALLE, tendo como beneficiária a empresa contratada,
de propriedade e sob a responsabilidade de DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO, recebedora
de valores a maior, no exercício de 2008, considerados os preços contratuais estabelecidos.

Ademais, no bojo do Laudo de Perícia Criminal Federal n° 099/2012 - UTEC/DPF/ROO/MT,


restaram efetivamente consignadas as divergências de valores pagos a maior até a 5ª medição
da obra objeto do contrato. Deveras, os peritos calcularam cm R$ 77.244,87 (a preços de
junho/2008) os valores desembolsados além da respectiva contrapartida de execução no âmbito
do Contrato n° 100/2008, revelando um evidente desequilíbrio físico-financeiro da obra nesse
montante.

O então Prefeito, à época em seu último ano de mandato, ao assim agir, juntamente com
ODECI TEREZINHA DALLA VALLE e FABIANO DALLA VALLE, efetivamente desviaram renda
pública em favor da empresa Produtiva Construção Civil Ltda. Com efeito, os valores
desembolsados a maior entre os meses de setembro e dezembro de 2008, os quais somam R$
77.244,87 se deram sem a devida contrapartida e sem atesto de engenheiro responsável
momentos antes do término da gestão municipal, incorrendo, portanto, no delito tipificado no art.
1°, I, do Decreto-Lei n°201/1967.

É inegável que tais irregularidades na execução da obra foram praticadas com liame subjetivo
do sócio e único administrador dessa empresa, DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO, pois
este ciente das ilicitudes e pendências (quantitativas e qualitativas) nos serviços prestados,
recebeu os valores indevidos e pagos a maior, concretizando o desvio de recursos públicos em
proveito próprio, iniciado pelos demais denunciados.

Houve, portanto, a efetiva incorporação dos valores auferidos ao patrimônio da entidade


contratada sem a contraprestação devida, valendo de forma livre e consciente da condições de
agentes públicos dos outros denunciados, de modo que DENILSON incorreu, também, no delito
tipificado no art. 1°, I, do Decreto-Lei n° 201/1967, c/c art. 29 do Código Penal.

Registre-se, ainda, que os assuntos financeiros das obras do município de Itiquira/MT eram, de
fato, tratados com FABIANO DALLA VALLE e ODECI TEREZENHA DALLA VALLE, os quais
tinham pleno conhecimento das irregularidades existentes na execução do Convênio n°
830484/2007 (SIAFI 603204), firmado entre o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação
e a Prefeitura Municipal de Itiquira/MT, evidenciado pela ausência de condutas para regularizá-
los e pela corroboração na efetiva execução desse desvio de recursos públicos em proveito
alheio.

Além do mais, ONDANIR confirmou a existência de irregularidades no tocante à obra e valeu-se


de inconsistente justificativa, desprovido de qualquer registro prévio, no sentido de que os
pagamentos a maior foram realizados em razão de um suposto equívoco na execução do
Projeto Executivo da Obra (fls. 140/142).

Nessa esteira, independentemente da alegação de suposto equívoco na execução do Projeto


Executivo da Obra, fato é que o Prefeito municipal à época, em seu último ano de mandato, no

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penúltimo quadrimestre, firmou contrato e assumiu deliberadamente obrigação financeira (na
monta de R$ 950.254,19, dos quais R$ 940.751,65 ficariam a cargo do FNDE) com a empresa
Produtiva Construção Civil Ltda. em 05/07/2008, em favorecimento desta, possuindo mera
expectativa de complementação mediante termo aditivo da diferença, uma vez que o Convênio
originalmente previa a transferência de recursos de apenas R$ 700.000,00 por parte do FNDE.

Em razão da conduta ilícita acima descrita, não havia saldo suficiente para o pagamento da
contratada por parte da Prefeitura municipal, o que levou à paralisação da obra em diversos
momentos, ocasionando consideráveis prejuízos à população beneficiária dos serviços
educacionais.

Com efeito, conforme consta do Relatório de Demandas Especiais da CGU, em 14/04/2009 foi
feita vistoria in loco, tendo sido informado que a obra ficou paralisada entre o fim de dezembro
de 2008 e o início de abril de 2009, sendo que o percentual de execução física da obra era de
apenas 63%, quando já havia sido feito o pagamento de 73,35% em dezembro de 2008. Como
se vê, portanto, a obra restou suspensa ainda durante a gestão do requerido e mesmo diante de
pagamentos excedentes, realizados no fim da gestão do Prefeito ONDANIR BORTOLINI, tendo,
inclusive, ocasionado o adiamento do início das atividades escolares.

Ademais, por corolário das condutas dos denunciados, o Prefeito buscou da nova gestão
promoveu regularização mediante a continuidade da execução e o pagamento da obra,
dificultada pela as ilicitudes e pendências apontadas acima. Isso porque, mesmo após o término
do contrato, que se deu em dezembro de 2014, nota-se que somente 91,90% da obra havia sido
devidamente executada até abril de 2016, enquanto que os valores a cargo do FNDE haviam
sido repassados em sua integralidade (vide extrato juntado às fis. 258/259-verso).

Daí se pode concluir que o percentual de execução que restava para a obra ser executada em
sua completude corresponde a 8,08%, os quais, em valores financeiros históricos,
correspondem a aproximadamente R$ 76.012,73 (8,08% de R$ 940.751,65, valor transferido
pelo FNDE com vistas a honrar com o Convênio objeto dos autos). Tais verbas, com efeito,
guardam estrita aproximação com o valor de dano ao erário federal que já havia sido calculado,
nos idos de 2012, pela Polícia Federal no Laudo Pericial n° 099/2012 — UTEC/DPF/ROOÍMT
(fis. 84/98).”

Não subsiste dúvida, por conseguinte, quanto aos fatos imputados, de


maneira individualizada, a ONDANIR BORTOLINI e ODECI TEREZINHA DALLA VALLE,
de modo a viabilizar o exercício pleno tanto da defesa técnica como da autodefesa, não
havendo falar em cerceamento do exercício defensivo tampouco de inépcia da inicial
acusatória e de seu aditamento.

Isso posto, passa-se à análise do mérito.

2.2. Da materialidade e autoria delitivas.

Ressai dos autos que, em 31/12/2007, a Prefeitura de Itiquira/MT firmou com


o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação – FNDE o Convênio n. 830484/2007
(págs. 240 do id 174123346 até a pág. 7 do id 174123351), que tinha por objeto a
construção de escola infantil consoante projeto padrão do FNDE (PROINFÂNCIA), no
valor global de R$ 950.254,19, dos quais R$ 7.070,71 caberiam a título de contrapartida
ao município, com vigência até 22/06/2009 (pág. 9 do id 174123351).

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A referida obra foi licitada mediante a realização da Tomada de Preços n.
005/2008 (edital às págs. 62/110 do id 174103889), culminando com a celebração em
05/07/2008 do Contrato n. 100/2008 entre a Prefeitura de Itiquira/MT e a empresa
PRODUTIVA CONSTRUÇÃO CIVIL LTDA. (CNPJ 07.547.502/0001/86), de propriedade
do réu DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO, no valor de R$ 933.811,30 (cópia do
referido contrato administrativo às págs. 157/169 do id 174103889). A ordem de serviço
para início da obra foi emitida no mesmo dia da assinatura da pactuação (05/07/2008 –
pág. 3 do id 174123346).

Entretanto, de acordo com o Relatório de Demandas Especiais da CGU n.


00190.030022/2007-99 (no id 174103872), a Prefeitura de Itiquira/MT, que naquele
momento tinha por prefeito municipal o ora acusado ONDANIR BORTOLINI e, como
tesoureira, a ré ODECI TEREZINHA DALLA VALLE, efetuou, no período de 23/07 a
17/12/2008 (interregno de pouco menos de 6 meses), pagamentos que totalizaram R$
685.000,00 à empresa de DENILSON, o que correspondia a 73,35% do total contratado,
consoante a seguinte planilha:

Como se vê da planilha, extraída do referido relatório, os pagamentos


relativos às medições quarta (4ª) e quinta (5ª) foram efetuados sem que houvesse os
necessários atestos do engenheiro responsável, Guerino Aquilino Neto, nas respectivas
notas fiscais (NFs 0083 e 0095).

Nesse sentido, o Laudo de Perícia Criminal Federal (Engenharia) n.


099/2012-UTEC/DPF/ROO/MT, de págs. 96/110 de id 174058371, registrou os seguintes
arremates:

“Os signatários encontraram cópias de 05 (cinco) notas fiscais emitidas pela empresa
Produtiva Construção Civil Ltda (documentos descritos no item x da seção II - MATERIAL)
relativas ao contrato n° 100/2008 (documento descrito no item iii da seção II - MATERIAL)
celebrado por essa empresa com a Prefeitura Municipal de Itiquira/MT visando a construção de
escola infantil na Rua João Batista Vidotti. Tais notas fiscais estão detalhadas na tabela 01.

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Observa-se que foram pagos 73,35% do valor contratual (R$ 685.000,00 de um total de R$
933.811,30), sendo que a última nota fiscal foi emitida em dezembro de 2008. Segundo consta
em documentação disponibilizada pela Prefeitura Municipal de Itiquira, quando da realização da
vistoria de local, as duas últimas medições realizadas na obra contratada por meio da tomada
de preço n° 05/2008 são as de número quatro e cinco que, por sua vez, deram causa à emissão
das notas fiscais n° 0083 e 0095 da empresa Produtiva. Cópias das planilhas da 4ª e 5ª
medição dos serviços encontram-se no anexo A do presente laudo.

Na visita realizada à Prefeitura Municipal de Itiquira quando da vistoria de local (em


21/06/2012), os peritos também verificaram que os originais das notas fiscais de n° 0083 e
0095 relativas, respectivamente, à 4 e 5ª medição, não apresentavam o devido atesto dos
serviços executados. As figuras 01 e 02 mostram essas notas fiscais em fotos obtidas
pelos signatários nessa data (21/06/2012), na sede da Prefeitura Municipal de Itiquira.”

Diversamente das demais notas fiscais que constam dos autos (págs. 56/59 e
66/70 do id 174103881, verifica-se das cópias das Notas Fiscais 0083 e 0095 emitidas
pela PRODUTIVA CONSTRUÇÃO CIVIL LTDA., juntadas às págs. 60/64 do id
174103881, que de fato elas não possuíam o exigido atesto (“Atestamos que os serviços
foram executados em”) assinado pelo engenheiro Guerino Aquilino Netto, CREA/MT
8.874/VD, confiram-se:

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O engenheiro civil Guerino Aquilino Netto, em suas declarações policiais
(págs. 139/141 do id 174058371), asseverou “que realmente não atestou a quarta e
quinta medição da obra, e não sabe explicar porque houve o pagamento por parte
da prefeitura; QUE afirma que pelo que sabe, o pagamento somente é realizado depois
da medição ser atestada pelo engenheiro responsável pela obra”.

Em juízo, ouvido como testemunha comum, Guerino Aquilino Netto declarou,


em síntese, que é servidor do Município de Itiquira/MT desde 2001/2002, exercendo a
função de engenheiro civil; que, nesse cargo, atende demandas relativas à engenharia
civil, como fiscalizar obras públicas de responsabilidade do município e atender aos
munícipes quanto à análise e aprovação de obras particulares; que chegou a compor
comissões de licitação para fins de atender questões relativas à engenharia civil; que se
recorda que o fato em questão dizia respeito a obra do FNDE, a partir de projeto
elaborado pela Universidade de Brasília; que fiscalizou essa obra desde a formalização
do convênio até a terceira medição; que, ao fiscalizar, verificava o que estava construído,
tirava dúvidas e acompanhava o desempenho da empresa contratada; que a função do
fiscal é acompanhar o cumprimento das fases da construção; que se recorda das
medições feitas na obra; que também se recorda que em 2 das medições não houve
efetiva fiscalização da obra e que, mesmo assim houve pagamento; que soube,
tempos depois, que o Município tinha feito os pagamentos sem as medições da
obra; que não era normal, em Itiquira/MT, pagamentos sem que houvesse as medições

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das obras e não sabe a razão por que isso ocorreu; que o procedimento é o atesto do
servidor antes da realização dos pagamentos; que soube também, inclusive por
fiscalizações exercidas pelo FNDE, acerca de pagamentos feitos, nesse caso, sem a
efetiva execução do serviço; que acredita que foi o setor contábil, em fases posteriores
à engenharia civil, que procedeu a esses pagamentos; que a alteração do projeto básico
ocorreu no início da proposta, em virtude de solicitação do próprio FNDE para adequação
de quantitativos, a qual foi realizada pela Associação Mato-grossense de Municípios –
AMM; a AMM presta assessoria aos municípios, uma vez que conta com profissionais que
atuam ante a deficiência das estruturas dos municípios, a exemplo do ocorre em
Itiquira/MT, em que há apenas o depoente como engenheiro; que, após a medição, o
atesto era fornecido à contabilidade ou administração municipal; que havia um “tudo junto
e misturado” na administração municipal; que ONDANIR era o prefeito à época; que,
assim como o prefeito, ODECI tinha acesso a todos os servidores; que era fácil o acesso
a ONDANIR e ODECI; que simplesmente entregava os procedimentos realizados pelo
setor de engenharia ao setor de contabilidade, o qual realizava os procedimentos
subsequentes; que o prefeito NININHO [ONDANIR] participava dos acontecimentos,
embora não houvesse formalizações; que ligava direta e informalmente ao Prefeito
e se comunicava com os secretários para tratar sobre obras; que confirma que
fornecia ao Prefeito e aos secretários informações acerca do andamento das obras,
de forma que todos participavam; que os gestores tinham conhecimento, por meio
das medições, do que era necessário para realização de pagamentos; que não se
recorda da fiscalização da CGU; que sabe que houve a fiscalização por meio de
documentações; que a obra passou um bom tempo paralisada; que a obra foi concluída e
está funcionando; que não atuou na finalização dessa obra; que já adentrou a escola,
embora não na condição de engenheiro ou fiscal, e entende que ela atende ao que se
destina.

Em que pese a inexistência das formalidades administrativas indispensáveis


à liquidação (atestos), o então prefeito ONDANIR e a tesoureira ODECI emitiram cheques
em favor da empresa de DENILSON, cujos montantes foram, respectivamente, de R$
100.000,00 e R$ 125.000,00, em clara violação ao quanto exigido pelos arts. 62 e 63 da
Lei 4.320/64, que expressamente preveem as condições para pagamentos de despesas:

Art. 62. O pagamento da despesa só será efetuado quando ordenado após sua regular
liquidação.

Art. 63. A liquidação da despesa consiste na verificação do direito adquirido pelo credor tendo
por base os títulos e documentos comprobatórios do respectivo crédito.

§ 1° Essa verificação tem por fim apurar:

I - a origem e o objeto do que se deve pagar;

II - a importância exata a pagar;

III - a quem se deve pagar a importância, para extinguir a obrigação.

§ 2º A liquidação da despesa por fornecimentos feitos ou serviços prestados terá por base:

I - o contrato, ajuste ou acôrdo respectivo;

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II - a nota de empenho;

III - os comprovantes da entrega de material ou da prestação efetiva do serviço.

Ora, consta do Contrato de Prestação de Serviço, firmado com a empresa de


DENILSON, a cláusula oitava – Das condições de pagamento – cujo enunciado é o
seguinte: “O pagamento será efetuado à empresa contratada no prazo de até 15
(quinze) dias corridos, de acordo com o Cronograma Físico-Financeiro aprovado pela
Comissão Permanente de Licitação quando da fase de licitação de Tomada de Preços n°
005/2008, contados da data de emissão das medições e dos Termos de
Recebimento Provisório e/ou Definitivo pela comissão fiscalizadora e do
competente atesto nos documentos de cobrança” (págs. 157/169 do id 174103889).

Contudo, às págs. 32/41 do id 174103881, constata-se que as notas de


pagamento de despesas orçamentárias, nos valores de R$ 100.000,00 (dividido em
pagamentos de R$ 30.000,00, R$ 50.000,00 e R$ 20.000,00) e de R$ 125.000,00
(dividido em pagamentos de R$ 100.000,00 e R$ 25.000,00), relativas às notas fiscais
0083 e 0095, tiveram seus pagamentos autorizados pessoalmente pelo prefeito
ONDANIR BORTOLINI e pela tesoureira ODECI TEREZINHA DALLA VALLE, os quais
também assinaram os cheques e a autorização de transferência entre contas emitidos
nas datas de 10/09, 24/09, 03/10, 17/12 e 24/12/2008 em favor da empresa de
DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO, conforme se vê das págs. 76/80 do id 174103881.

Sublinhe-se, ainda, que, diferentemente das medições anteriores (págs. 5/73


do id 174123346), o acervo probatório evidencia que a 4ª e a 5ª medições não foram
assinadas pelo acusado ONDANIR (págs. 74/119 do id 174123346), do que se infere
que ele dolosamente, à míngua das respectivas medições e atestos do engenheiro
responsável, autorizou pagamento de despesas que não tinham qualquer lastro
administrativo a comprovar a respectiva execução da obra.

O codenunciado FABIANO DALLA VALLE, filho de ODECI e sobrinho de


ONDANIR, que ocupou o cargo de Secretário de Administração e Finanças da Prefeitura
de Itiquira/MT até março de 2008, afirmou em sede inquisitorial “QUE em relação as
irregularidades apontadas pela CGU, fls. 18 do relatório em que a CGU apontou a
pagamento de medições sem o devido atesto da execução da despesa, o declarante
afirma que realmente foram realizados pagamentos haja vista que prefeitura já
conhecia a idoneidade da empresa e não se recorda por qual motivo o engenheiro
não atestou a obra, mas que a obra já tinha sido executada, por isso houve o
pagamento” (págs. 136/137 do id 1740058371).

De seu turno, a testemunha de defesa Ebenézer Alves Paulino descreveu a


este juízo que foi contador do Município de Itiquira/MT até janeiro de 2009; que tem
conhecimento do convênio firmado com o FNDE para construção de uma escola Pró-
Infância em Itiquira/MT; que o convênio foi aprovado e vieram os recursos para a
construção da unidade escolar; que, ao final de 2008, foi licenciado do Município de
Itiquira/MT, e se recorda que a obra da escola estava avançada e esperava liberação de
recursos do convênio para sua conclusão, inclusive com aditamento e liberação de
recursos do FNDE e contrapartida do município; que, à época, ODECI era chefe de
gabinete; que o procedimento, em caso de obras públicas, é a emissão de nota

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fiscal baseada em uma medição; que a medição é conferida pelo engenheiro da
prefeitura e atesta se a execução corresponde à nota fiscal; depois do atesto do
engenheiro, a contadoria do município procede à liquidação, efetuando o
pagamento; em cada etapa da obra, ocorre uma medição; que se faz necessário
passar por essas fases para posterior liquidação e pagamento; que, como contador
do município de Itiquira/MT, estava subordinado ao Secretário de Finanças, o réu
FABIANO; que conversava com ODECI sempre que necessário sobre o trabalho
desenvolvido ali; que, nesse período, a contabilidade foi exercida pelo depoente; que não
vê a possibilidade de liquidação sem que haja o atesto de medição; que, em janeiro
de 2009, presenciou movimentação na obra, embora não saiba dizer o que estava sendo
feito, e não havia sido finalizada; que não se recorda da sujeição de novo plano de
trabalho perante o FNDE.

Ao explicar sobre a referida deficiência administrativa, ODECI demonstrou de


maneira clara o elemento subjetivo, ao reconhecer perante a autoridade policial que de
fato “houve o pagamento da quarta e quinta medição sem o atesto do engenheiro
responsável, porque naquela época a empresa apresentava a medição que era atestada
pelo engenheiro, e naquele período houve uma ausência temporária do engenheiro,
sendo que a empresa necessitava do pagamento da obra, haja vista que o serviço já tinha
sido executado; QUE não sabe dizer qual foi o motivo da ausência do engenheiro”,
conforme termo de declarações de págs. 132/133 do id 174058371.

No interrogatório prestado a este juízo, a ré ODECI disse que, relativamente


ao empenho da obra, na medida em que chegavam as medições era realizada a
liquidação parcial relativa à fase da obra que era concluída; assim, para a tesouraria,
chegava a liquidação com a nota fiscal; que usava apenas a liquidação feita pela
contabilidade para executar o pagamento e emitir o cheque; que a medição ficava
anexa ao empenho, junto à contabilidade; o atesto deveria estar na medição; a nota
fiscal vinha para tesouraria junto com a liquidação, para ser emitido o cheque; a
medição ficava no setor contábil; que liberou o pagamento à vista da liquidação, que era o
documento contábil utilizado para liberação do pagamento; que não lembra se viu a
medição; que provavelmente respondeu o que consta de sua declaração feita à polícia (“
a declarante confirma que houve o pagamento da quarta e quinta medição sem o atesto
do engenheiro responsável, porque naquela época a empresa apresentava a medição
que era atestada pelo engenheiro, e naquele período houve uma ausência temporária do
engenheiro, sendo que a empresa necessitava do pagamento da obra, haja vista que o
serviço já tinha sido executado”), porque deve ter ocorrido de fato o que declarou; que
não vê danos ao erário nessa irregularidade; que, sim, quem assinou os cheques
foram a ré e o prefeito da época (ONDANIR); que assinou mediante o documento
contábil e a medição ficou no setor contábil, sem o atesto, provavelmente porque o
engenheiro não estava presente no momento; que não sabe por que ONDANIR citou,
em seu depoimento policial, que “realmente houve irregularidades em relação a esta obra
” e que “esse pagamento se deu na ausência do engenheiro responsável”; que ONDANIR
buscava saber sobre o andamento das obras; que, pelo que se lembra, a medição
foi feita pelo engenheiro da prefeitura e faltou apenas o carimbo e o atesto dele;
que exerceu o cargo de tesoureira do Município de Itiquira/MT de 2006 a 2008; que, na
hierarquia, seu cargo era ligado diretamente ao prefeito; que mantinha relação
profissional com FABIANO; que ambos tratavam de questões com o prefeito; que, ao
chegar à tesouraria, a nota fiscal de engenharia não continha o atesto, que geralmente

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constava da medição, que, por sua vez, ficava anexa ao empenho; que, para emitir a
liquidação, o setor de contabilidade fazia a verificação do atesto; que não tinha outra
experiência como tesoureira antes de assumir o cargo em Itiquira/MT; que não se recorda
de ter feito curso específico do cargo; que os fatos narrados na denúncia ocorreram
durante a execução da obra; que a obra está pronta e funcionando normalmente; que a
obra ficou de 2009 a 2012 parada e foi retomada em 2013; que a orientação que
recebeu é de que, com a liquidação, já havia ocorrido a conferência do cumprimento da
obrigação.

Embora ODECI sustente que os atestos do engenheiro fiscal seriam apostos


nas medições, que ficariam retidas em outro setor (a contabilidade), de modo que
exerceria confiança na prévia análise daquele setor contábil, que lhe forneceria apenas as
notas de liquidação e as notas fiscais, o acervo probatório, sobretudo as cópias das notas
fiscais emitidas pela empresa contratada (juntadas às págs. 56/70 do id 174103881)
demonstram, de maneira bastante clara, que os atestos eram realizados nas próprias
notas fiscais encaminhadas pela contadoria à tesouraria, de modo que não subsiste o
argumento da ré de que desconheceria a referida irregularidade.

Nesse contexto, saliente-se que ODECI, além de tesoureira, era membro da


Comissão Permanente de Licitação do Município de Itiquira/MT, nos termos da portaria
acostada às págs. 59/60 do id 174103889, do que se extrai a clara e inequívoca ciência
do dever funcional, sediado na lei e no contrato administrativo, de conferência acerca do
efetivo adimplemento da obrigação pela empresa contratada como condição inafastável
para consecução da liquidação e do pagamento.

Quanto à atuação direta e pessoal de ODECI, corrobora o relato da


testemunha Guerino Aquilino Netto o depoimento do empresário Francisco Marino
Fernandes, às págs. 125/127 do id 174058371, que em sede policial confirmou que
tratava diretamente com ODECI a respeito de assuntos financeiros das obras realizadas
em Itiquira/MT.

A ilicitude perpetrada por ODECI e ONDANIR se mostra assaz flagrante


diante da constatação feita pela CGU, em vistoria in loco, realizada em 14/04/2009, às
obras da construção da escola infantil, localizada na Rua João Batista Vidotti, ao lado da
Câmara de Vereadores de Itiquira/MT, no sentido de que

“3) O percentual de obra medida e paga à construtora (73,35%) não se compatibiliza com
o índice de execução física verificado ‘in loco’ por esta fiscalização, tendo em vista a
constatação dos seguintes serviços pagos, porém não executados:

3.1 Item 04.01.710 (Revestimento Interno - Paredes) da Planilha de Medição. Cerâmica 20x20 -
R$ 25.610,91 e Rejuntamento de cerâmica 20x20 - R$ 4.508,29;

3.2 Item 04.01.720 (Revestimento Externo - Paredes e Fachadas) da Planilha de Medição.


Cerâmica 10x10 - R$ 25.409,47 e Rejuntamento de cerâmica 10x10 - R$ 4.469,92;

3.3 Item 04.01.730 (Pavimentação) da Planilha de Medição. Cerâmica - R$ 746,64,


rejuntamento de cerâmica - R$ 162,72, cimento desempenado - R$ 10.936,90, granitina - R$
19.301,85 e calha de concreto com grelhas - R$ 1.600,06;

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3.4 Totalizando-se os serviços pagos, porém não executados, constata-se a ocorrência de
pagamentos indevidos à contratada de R$ 92.746,76. Em decorrência disso, o percentual
de execução física da obra, em 14.04.2009, era de 63%, enquanto que percentual de
execução financeira era de 73,35%.”

De igual modo, os peritos criminais federais, em visita in loco à obra em


21/06/2012, mais de 3 anos depois da fiscalização realizada pela CGU, ao cotejarem os
serviços efetivamente executados e aqueles pagos à empresa contratada, calcularam em
R$ 116.486,07 (correspondente ao valor de 77.244,87 corrigido para o dia 02/07/2012
pela taxa SELIC) os serviços não executados e pagos indevidamente por ONDANIR e
ODECI à empresa de DENILSON, veja-se:

As constatações, levantamentos e medições realizadas pelos signatários durante a vistoria


permitiram identificar várias características da obra e quantificar diversos serviços executados,
possibilitando confrontá-los com os quantitativos medidos/pagos pela Prefeitura de ltiquira/MT
até a 5ª medição (última medição feita pela prefeitura Municipal, conforme informação obtida
durante a realização do exame de local). Ressalta-se que em razão da inviabilidade operacional
de quantificar os serviços enterrados e/ou embutidos em pisos/paredes, os signatários não
fizeram o seu cotejo com as quantidades medidas/pagas.

Dentre os serviços medidos/pagos até a 5ª medição, passíveis de cotejo, os signatários


observaram algumas divergências. Tais divergências estão consignadas na tabela 02,
onde são calculados os valores pagos a maior considerando os preços contratuais [...]

Dentre as divergências constatadas, destaca-se o item de revestimento externo (04.01


.720 na tabela 02). Os signatários constataram a execução de 256,77 m² dê cerâmica
10x10 e seu respectivo rejuntamento, sendo que o contrato n° 100/2008 previa a execução
de 460,27 m². Entretanto, foram medidos e pagos a execução de 959,21 m², mais que o
dobro do previsto originalmente na planilha do contrato, sem ter sido celebrado qualquer
aditivo contratual para fundamentar tal alteração de quantitativo de serviços.

A partir da tabela 02 verifica-se que diversos serviços foram pagos indevidamente pela
Prefeitura Municipal de ltiquira/MT. Considerando a vistoria realizada em 21/06/2012, os
peritos calcularam em R$ 77.244,87 (a preços de junho/2008) os serviços pagos e não
executados no âmbito do contrato n° 100/2008.

Em valores corrigidos para o mês de junho de 2012 pelo INPC/IBGE (Índice Nacional de Preços
ao Consumidor - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), utilizando-se a calculadora do
cidadão do sítio eletrônico do Banco Central (www.bcb.gov.br), os serviços não realizados e
pagos indevidamente correspondem à quantia de R$ 95.748,25.

Em valores corrigidos para o dia 02/07/2012 pela Taxa SELIC (taxa média apurada no Sistema
Especial de Liquidação e de Custódia do Banco Central do Brasil), utilizando-se a calculadora
do cidadão do sítio eletrônico do Banco Central (www.bcb.gov.br), os serviços não realizados e
pagos indevidamente correspondem à quantia de R$ 116.486,07.

Sublinhe-se que, a par da ausência de atesto do engenheiro responsável nas


notas fiscais relativas às medições quarta e quinta, a materialidade e o elemento subjetivo
da conduta dos três réus também se escancara no fato de que ONDANIR e ODECI
realizaram pagamento à empresa de DENILSON de montante de ao menos R$

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116.000,00 (atualizado) sem que houvesse de fato a execução física da obra
correspondente, a evidenciar o desvio de renda pública, praticado pelos gestores
municipais, em proveito alheio (do empresário contratado).

Deveras, ONDANIR BORTOLINI, em seu depoimento à Polícia Federal em


15/04/2010, admitiu as irregularidades na execução da obra e justificou que o pagamento
foi feito na ausência do engenheiro responsável porque a empresa contratada cometera
equívoco na execução da fundação e gastara boa parte dos recursos que deveriam ser
destinados a outros itens da obra, nos seguintes termos (págs. 152/154 do id
174058371):

“QUE em relação a construção da Escola Infantil - Projeto Padrão FNDE (21/26), o declarante
afirma que realmente houve irregularidades em relação a esta obra; QUE explica que essa
obra foi iniciada no fim do mandato do declarante e que o projeto foi elaborado pela
Universidade Federal de Brasília, inicialmente orçado em R$ 1.350.000,00 e que houve uma
alteração realizada pelo FNDE no projeto, onde foram cortados vários itens do projeto original,
entre eles a fundação a qual seria construídas com estacas, reduzindo o valor do projeto para
R$950.000,00; QUE na execução da obra, a empresa executou por equívoco a fundação
do projeto original, gastando boa parte do recurso que deveria ser utilizado em outros
itens da obra; QUE além disso, o pagamento foi realizado conforme a planilha do projeto
original; QUE esse pagamento se deu na ausência do engenheiro responsável; QUE por
esses motivos expostos a obra ficou prejudicada na sua conclusão, mas que o declarante
ficou responsável e está acompanhando todas as obras no município de Itiquira, as quais foram
iniciadas em sua administração e que neste momento a escola já encontra-se em fase de
conclusão e com seu orçamento adequado as valores propostos pelo FNDE”

Entretanto, os autos evidenciam que, no findar do ano de 2008, quando


terminou o mandato de ONDANIR BORTOLINI, os pagamentos indevidos relativos às
medições 4ª e 5ª, nos valores de R$ 100.000,00 (em 17/12/2008) e de R$ 125.000,00 (em
24/12/2008), ensejaram o zeramento do saldo vinculado ao convênio em questão,
consoante se nota dos extratos bancários de págs. 88/103 do id 174103681, em que pese
a inexecução satisfatória da obra da escola, a qual possuía execução física de apenas
63% naquele momento.

Dito de outro modo: ONDANIR, no apagar das luzes de sua gestão,


procedeu, com auxílio de ODECI, à transferência do valor integral do montante
depositado na conta vinculado ao convênio em favor da empresa de DENILSON, mesmo
ciente da inexecução da obra pública, a caracterizar indubitavelmente a prática de crime
de responsabilidade do prefeito.

Ao ser interrogado, ONDANIR afirmou que o fato ocorreu no final de 2007,


quando foi procurado pela senadora Serys, que lhe falou sobre um recurso do governo
federal para a construção de escola Pró-Infância e lhe questionou se havia interesse em
trazê-la para o município; que o projeto inicial era de R$ 1.350.000,00 e foi reduzido para
R$ 900.000,00, sendo R$ 700.000,00 de responsabilidade do governo federal e R$
200.000,00 de contrapartida do município; que, tão logo apresentado o projeto, como
havia apenas um ano do mandato a cumprir, foi feita logo a licitação da obra; na
execução da obra, o projeto previa a fundação com estacas, o que foi executado;
entretanto, houve um problema com todos os projetos, porque o valor da obra estava

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muito aquém do valor conveniado; que, foi feita a readequação do projeto, com a
remoção das estacas da fundação e de vigas de uma área aberta; entretanto, a fundação
já havia sido executada e o valor teve que ser glosado, em virtude da readequação; que
preferiu que o contrato não fosse aditado, para que pudesse concluir a obra; que
houve obras em outros municípios que custaram R$ 1.900.000,00 e R$ 1.600.000,00,
mas que em Itiquira custou apenas R$ 900.000,00; que foi feita, ainda, uma devolução de
aproximadamente R$ 100.000,00 que restaram na conta do convênio; que a alteração do
projeto não foi feita pelo município, mas pelo FNDE, para adequação nacional do projeto;
que acompanhou o projeto e o que ocorreu foi isso; que, como gestor, o pagamento
já chegava da tesouraria, mediante empenho e liquidação, para que o cheque fosse
assinado e o pagamento fosse efetuado; que não tem conhecimento de que o
pagamento foi feito sem medição; que, pelo que se recorda, FABIANO, nesse período,
era tesoureiro; que ODECI era chefe de gabinete; que acredita que, em alguns períodos,
ODECI pode ter exercido a função de tesoureira; que o engenheiro, à época, era
Guerino e ele fazia o acompanhamento das obras e das medições; que o
procedimento é esse: da engenharia ia para a contadoria e depois para a tesouraria,
para liquidação; que, então, da tesouraria vinham a liquidação, o empenho e os
cheques para serem assinados para realização do pagamento; que a parte técnica
era feita pelos setores e pelo administrativo e chegava apenas para o prefeito
assinar o cheque; que a obra teve um impasse no decorrer da execução, porque foi
necessário readequar o projeto, mas, como a obra estava adiantada, a fundação já havia
sido executada, e disso adveio o problema; que a obra ficou paralisada durante um
período; que o governo federal, então, aditivou todos os convênios; que pretendeu não
aditivar a conta e foi devolvido o valor de aproximadamente R$ 100.000,00; que o
pagamento da quarta e quinta medições foi feita enquanto ainda era prefeito; que
se tratava de uma medição provisória, e não definitiva; que acompanhou todas as
obras até o final, mesmo depois do fim de seu mandado; que, quanto às medições,
acredita que, em virtude da alteração do projeto e da planilha, alguns itens que
tinham sido pagos, foram excluídos da planilha e os valores ficaram discrepantes;
que não foi autorizado pagar nada além do que estava executado; que a obra ficou
paralisada ainda durante sua gestão; que esteve na obra depois de concluída e que tem
bom padrão de qualidade, porque prezava por isso.

Percebe-se que ONDANIR buscou justificar o pagamento feito a maior a


DENILSON, sob o argumento de que o contratado experimentara prejuízo na fundação da
obra pública, por se basear em projeto equivocado, posteriormente readequado pelo
FNDE.

Entretanto, não se acha nos autos qualquer comprovação relativa à


readequação do projeto a cargo do FNDE. Deveras, o que se vê do 9º Termo Aditivo ao
Contrato de Prestação de Serviços n. 100/2008, firmado apenas em 1º/04/2013, é que o
próprio Município de Itiquira/MT realizou a majoração contratual em R$ 77.072,22, “em
função das fundações necessárias para a estabilidade da obra não estarem
contempladas na planilha do projeto e em razão da Contratada haver executado o projeto
da Proinfancia modelo B, a maior, conforme justificativa técnica, o que gerou desequilíbrio
desequilíbrio econômico-financeiro do contrato original” (págs. 195/196 do id 174103889).

Ora, conforme o próprio acusado disse perante este juízo, o referido


município devolveu ao FNDE aproximadamente R$ 120.000,00 de valor que restou na

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conta do convênio, do que se conclui que a manobra administrativa foi efetuada com o
intuito de apenas mascarar o pagamento ilícito feito à empresa de DENILSON no final de
2008, quando a obra avançara tão somente 62% em sua execução.

Por outro lado, o relato do ex-prefeito destoa significativamente do


interrogatório do codenunciado DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO. Isso porque o
empresário afirmou que o erro na execução da fundação da obra foi de sua própria
responsabilidade e de seu mestre de obra, uma vez que plotou o projeto errado e fez
brocas exageradas e que não correspondiam ao projeto Pró-Infância e que a obra lhe deu
prejuízos, porque teve percalços nas compras de materiais e também com a contratação
de mão-de-obra.

O réu DENILSON igualmente disse que a empresa que solicitava as


medições ao setor de engenharia da Prefeitura de Itiquira/MT e que, à vista da aprovação
da execução pelo engenheiro fiscal, encaminhava-se o pagamento ao setor de finanças
do município. Outrossim, relatou que recebeu vários pagamentos, mas que não sabia
relacioná-los às medições, embora acompanhasse diretamente as obras, e que
pessoalmente recebeu todos os pagamentos, feitos em cheques ou por meio de
depósitos.

De tal relato do acusado se apreende o elemento psicológico, uma vez que,


conforme acima longamente explanado, por ocasião dos pagamentos da 4ª e 5ª
medições, além da ausência dos atestos do engenheiro fiscal, constatou-se que parte
considerável da obra relativa à 5ª medição sequer havia sido executada pela empresa
contratada, o que significa dizer que DENILSON, que pessoalmente acompanhava a obra
pública, solicitou as medições e, conquanto não houvesse a aprovação do setor de
engenharia e ciente de que parte da obra não estava de fato concluída, ainda assim
recebeu, dolosamente, os pagamentos ilícitos, em detrimento do erário público.

Malgrado negue a conduta delitiva em juízo, o dolo de ONDANIR também se


mostra no fato de que, durante sua gestão, o Relatório de Demandas Especiais da CGU
n. 00190.030022/2007-99 (págs. 22/63 do id 174058371) também constatou conduta
semelhante, a saber, pagamentos efetuados a empresas sem a devida prestação de
serviços (contraprestação) nos seguintes convênios:

a) Convênio TT-153/2005, conforme se vê no item 2.2.1.1.4;

b) Convênio FNDE 842210/2006, conforme item 3.1.2, em que também foi


contratada a empresa PRODUTIVA CONSTRUÇÃO CIVIL LTDA.,
pertencente a DENILSON, e na qual o Termo de Recebimento Definitivo
da Obra não foi assinado pelo engenheiro civil responsável, o que
denota o mesmo modus operandi;

c) Convênio n. 3773/2005, conforme item 3.2.5.

Acrescente-se, ainda, que ONDANIR continuou acompanhando as obras


mesmo depois do fim de seu mandado como prefeito de Itiquira/MT, o que igualmente
denota o elemento subjetivo. Ora, se assim procedia mesmo após o término de seu
mandato, muito mais deveria o fazer enquanto era prefeito do município, o que também
foi confirmado pela corré ODECI em seu interrogatório, segundo a qual ONDANIR sempre

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acompanhou pessoalmente o andamento das obras.

Observe-se, ainda, que os demais pagamentos feitos à empresa de


DENILSON ocorreram somente 5 anos depois, a partir de 10/04/2013, sendo que o
último pagamento se deu na data remota de 05/12/2014 (no valor de R$ 27.673,32),
conforme págs. 81/86 do id 174103881.

A Nota Técnica 119/2014 do FNDE, de 19/11/2014, registrou que a última


vistoria cadastrada pelo fiscal da obra, realizada em 24/10/2014, informou que, naquele
momento, o percentual de execução física atingira, então, 91,41%, e que a execução
financeira estava no patamar de 86,23% (págs. 11/13 do id 174103878).

No depoimento prestado à autoridade policial em 25/02/2015, DENILSON


disse que, naquele momento, a obra se encontrava em fase final com previsão de entrega
em 30 dias (pág. 44 do id 174103878).

Em informações prestadas às págs. 68 e 98/99 do id 174103878, o FNDE


relatou que “de acordo com a vistoria do fiscal do município inserida no SIMEC em
24/04/2015 a obra encontra-se com percentual de 91,92% executado. Importante
registrar, que o contrato firmado entre o município e a empresa Produtiva Construção Civil
Ltda - Epp expirou em 20/12/2014, de acordo com dados informados no SIMEC”, ao
passo que o Município de Itiquira/MT reportou que a inauguração da obra ocorrera
somente em 21/08/2015 (ofício de pág. 75 do id 174103878 e de pág. 89 do id
174123351).

Diante disso, se mostra completamente destituída de fundamento fático e


jurídico a alegação, amiúde sustentada pelas defesas técnicas, de que não se
vislumbraria prejuízo ao patrimônio público, porquanto a obra teria sido concluída e
entregue ao Município de Itiquira/MT, tal como previsto no convênio firmado com o FNDE.

A uma, porque, consoante a jurisprudência dos tribunais federais, a


conclusão posterior da obra desviada não afasta o crime, por se tratar de delito formal e
que se consuma com o desvio, in casu concretizado mediante a compensação, por
DENILSON, dos cheques emitidos por ONDANIR e ODECI na conta vinculada ao
convênio, a exemplo dos seguintes arestos:

PROCESSO PENAL E PENAL. APELAÇÃO CRIMINAL. EX-PREFEITO. CRIME DE


RESPONSABILIDADE. ART. 1º, I, DO DECRETO-LEI Nº 201/1967. DESVIO DE VALORES DE
CONVÊNIO FIRMADO ENTRE MUNÍCIPIO E O MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE.
PRESCRIÇÃO EM RELAÇÃO AO CORRÉU SEPTUAGENÁRIO. AUTORIA E
MATERIALIDADE. DEMONSTRAÇÃO. ELEMENTO SUBJETIVO. CONFIGURAÇÃO.
ABOLVIÇÃO REVERTIDA. CONSEQUÊNCIAS NEGATIVAS DO CRIME. ARREPENDIMENTO
POSTERIOR PRESENTE. APELAÇÃO DO MPF PARCIALMENTE PROVIDA. 1. [...] 3. O réu,
na condição de prefeito do Município de José de Freitas/PI, responsável direto pela execução e
fiscalização do Convênio nº. 052/1999, celebrado entre municipalidade e o MMA/SRH, desviou
dolosamente verbas federais da finalidade específica para a qual deveriam ser
empregadas, posto que quando da vistoria in loco, apesar de recebidas e dadas como
executadas, as obras ainda não estavam concluídas. 4. O crime do art. 1º, I, Dec. Lei n.
201/1967 é delito formal. Precedentes. O desvio teve início com a homologação de obra

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não executada, passando pela autorização do pagamento indevido, consumando-se no
momento em que a empresa do corréu José Humberto Demes recebeu valores sem que
tivesse efetivamente executado a obra para a qual foi contratada. 5. A posterior
conclusão da obra ou a eventual restituição de valores antes do recebimento da
denúncia, não retira a natureza ilícita do crime, mas tão somente lhe minoram as
consequências negativas, nos termos do art. 16 do Código Penal, reconhecendo-se o
chamado arrependimento posterior. 6. A aprovação de contas do convênio, com
ressalvas, não importa em exclusão do crime, pois a instância administrativa não vincula
a instância penal. 7. Negativas as consequências do crime, pois a população local foi
claramente prejudicada, correndo iminente perigo de vida ao ter que tirar água dos poços com
baldes, ante a execução inadequada do convênio que previa a instalação de bombas d'água
para as comunidades do município de José de Freitas/PI. 8. Declarada a extinção da
punibilidade do réu Pedro Humberto Demes pela prescrição (art. 107, IV c/c art. 109, II c/c art.
115, todos do Código Penal) e, dado provimento parcial à apelação do MPF para condenar o
réu RICARDO SILVA CAMARÇO pelo crime do art. 1º, inciso I do Dec. Lei nº 201/1967, à pena
de 02 anos, 03 meses e 22 dias de reclusão. (ACR 0004220-94.2006.4.01.4000, JUIZ
FEDERAL MARLLON SOUSA, TRF1 - TERCEIRA TURMA, e-DJF1 06/12/2019 PAG.)

PENAL E PROCESSUAL PENAL. CRIME DE RESPONSABILIDADE PRATICADO POR EX-


PREFEITO. VERBAS REPASSADAS À PREFEITURA PELA FUNASA ATRAVÉS DE
CONVÊNIO. OBRAS DO PROJETO NÃO CONLUÍDAS. DESVIO DE RENDAS PÚBLICAS
(ART. 1º, I, §§ 1º e 2º, DO DECRETO-LEI Nº 201/67). AUTORIA E MATERIALIDADE
COMPROVADAS. CONDENAÇÃO QUE SE CONFIRMA. IMPROVIMENTO DO APELO DA
DEFESA. 1. Caracterizada a prática do delito ínsito no Art. 1º, I, §§ 1º e 2º, do Decreto-Lei nº
201/67, pelo titular do Poder Executivo Municipal quando este deixa de realizar no prazo
estipulado as obras objeto de convênio firmado entre a FUNASA e a Prefeitura, apesar de
sacado da conta corrente (aberta para fim específico) o valor total da verba recebida; 2.
Comprovada nos autos a materialidade, bem como a autoria, do delito em questão através da
farta prova documental acostada aos autos, além das vistorias realizadas na localidade e os
depoimentos de testemunhas em Juízo, é de se manter a condenação imposta ao réu na
sentença; 3. Não socorre o acusado o argumento de que obras foram concluídas em
momento posterior e, portanto, inexistiria prejuízo aos cofres públicos, uma vez que o
término dos serviços ocorrera muito depois do prazo estipulado, durante o mandato do
sucessor do acusado na referida Prefeitura, o que demonstra que esta finalização não fora
efetivada com a verba proveniente do Convênio em questão e nem com recursos do acusado; 1.
Apelação improvida. (PROCESSO: 200405000413302, APELAÇÃO CRIMINAL,
DESEMBARGADOR FEDERAL PAULO ROBERTO DE OLIVEIRA LIMA, 3ª TURMA,
JULGAMENTO: 13/11/2008, PUBLICAÇÃO: 28/11/2008)

A duas, porquanto tanto o dano ao erário público como o prejuízo à


sociedade efetivamente ocorreram.

Com efeito, os autos revelam que a Prefeitura de Itiquira/MT promoveu, em


1º/04/2013, o 9º Termo Aditivo ao Contrato de Prestação de Serviços firmado com a
PRODUTIVA CONSTRUÇÃO CIVIL LTDA – EPP, de propriedade do réu DENILSON,
para majorar o valor original do contrato em R$ 77.072,22 (págs. 195/196 do id
174103889), montante que corresponde ao prejuízo apontado pelo Laudo de Perícia
Criminal Federal 099/2012 (às págs. 96/111 do id 174058371), conforme a seguinte
descrição:

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“A partir da tabela 02 verifica-se que diversos serviços foram pagos indevidamente pela
Prefeitura Municipal de ltiquira/MT. Considerando a vistoria realizada em 21/06/2012, os
peritos calcularam em R$ 77.244,87 (a preços de junho/2008) os serviços pagos e não
executados no âmbito do contrato n° 100/2008.”

Patente, ademais, o dano causado aos cidadãos de Itiquira/MT,


especialmente a centenas de crianças/alunos, porquanto a má gestão de ONDANIR e a
ausência de recursos vinculados ao convênio paralisaram a obra da escola infantil
durante os anos de 2009 a 2012, como relatado pela ré ODECI em juízo, vindo a ser
concluída tão somente em 21/08/2015, mais de 5 anos depois do prazo conveniado.

Por fim, observe-se que a conclusão da obra pública sequer se deu por
iniciativa dos denunciados, vindo a se concretizar somente na segunda gestão posterior
ao mandato de ONDANIR BORTOLINI.

Nesse sentido, vê-se que, mesmo após a liberação e o depósito do valor


remanescente de R$ 240.751,65 pelo FNDE em 14/11/2012 (pág. 16 do id 174103889),
para complementação do total conveniado, houve sucessivos termos aditivos (do 8º, de
22/03/2013, ao 14º, de 18/06/2015) até a conclusão da obra pública em 21/08/2015, o que
demonstra a dificuldade que a Administração Pública enfrentou para fazer a empresa de
DENILSON executar o restante do serviço objeto do convênio.

Nesse sentido, invocam-se os fundamentos declinados na sentença proferida


por este juízo nos autos da Ação Civil Pública 0005232-32.2013.4.01.3602 (cópia às
págs. 103/135 do id 174123351), os quais apontam para o efetivo dano causado à
municipalidade, bem como para a completa ausência de disposição de DENILSON para
pronta entrega da obra pública, veja-se:

“Sobre as consequências das irregularidades em referência (pagamentos sem o ‘atesto’ das


despesas e por serviços não executados), é de se pontuar que eles não se restringem à
vulneração do princípio da legalidade, diretriz do Estado Democrático de Direito, e à colocação
do patrimônio público em risco.

Deveras, as condutas da ex-tesoureira e do ex-prefeito causaram efetivo dano ao interesse


público, na medida que todos os relatórios de vistorias in loco atestaram que, além dos
pagamentos por serviços não executados, foram feitos pagamentos por serviços prestados em
desacordo com o proieto executivo.

Sobremais, a empresa contratada, depois de receber os pagamentos indevidos, deixou de


envidar esforços para a execução da obra e passou a atuar de forma absolutamente
negligente e relapsa, ora paralisando os serviços, ora disponibilizando poucos recursos
humanos para a sua prestação.

Via de consequência, a distorção entre a execução financeira e física, produzida pela conduta
dos requeridos, tornou-se um problema para os gestores subsequentes, que tiveram que buscar
a reparação do dano num momento em que a empresa adotava postura relapsa e
descompromissada com os deveres assumidos perante a Administração. Ou extinguiam o
contrato, criando um crédito em desfavor da empresa, a ser submetido a um procedimento de
execução árduo, vagaroso e sem garantia de êxito ou toleravam a postura morosa da
contratada em alguma medida, para o fim de garantir a execução dos serviços já remunerados,

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arcando, nesta hipótese, com o prejuízo acarretado pela demora na entrega da obra à
população.

Logo, embora Ondanir não possa ser responsabilizado pelas eventuais falhas das condutas
corretivas adotadas pelos sucessores, não há dúvidas de que contribuiu para as distorções
entre a obra e o projeto contratado e para o atraso de quase 6 (seis) anos para a entrega da
obra. Nesse sentido, as condutas ora analisadas não podem ser enquadradas como meras
irregularidades sanáveis.

[...]

Também resta comprovado o dolo genérico da empresa contratada, tanto ao receber


pagamentos por serviços não executados e por serviços executados irregularmente, quanto por
atrasar indevidamente, e sem qualquer plausível, a correção das inconsistências e a entrega da
obra.

Aliás, diante do acervo documental demonstrando que Denilson de Oliveira Graciano era
sabedor das irregularidades e recebeu as notificações para correção como representante legal
da empresa (fl. 14), pode-se concluir que ele concorreu para a prática do ato de improbidade e
deve ser responsabilizado ao lado da empresa, na forma do artigo 3º da Lei n.9 8.429/92.”

Consigne-se, por oportuno, que, uma vez caracterizado o prejuízo causado


ao erário, o qual ensejou termo aditivo de aumento de mais de R$ 77.000,00 ao contrato
administrativo, a descaracterizar a integral reparação do dano, e ausente a voluntariedade
dos réus, conforme ressaltado acima, não há que se falar em eventual benesse do art. 16
do Código Penal, que prevê o arrependimento posterior como causa geral de diminuição
de pena.

Explicite-se, finalmente, que, de acordo com a interpretação a contrario sensu


do art. 30 do Código Penal, as circunstâncias e as condições de caráter pessoal podem
se comunicar quando elementares do crime.

É o que ocorre no presente caso, dado que a figura típica prevista pelo art. 1º,
I, do Decreto-Lei 201/67 se trata de delito funcional de mão própria, que somente pode
ser praticado por prefeito municipal ou por quem esteja no exercício desse cargo.

Desse modo, a condição pessoal do réu ONDANIR como prefeito à época,


porquanto elementar do crime em foco, evidentemente se comunica aos corréus ODECI e
DENILSON, condição sobre a qual, tal como se extrai dos interrogatórios, tinham plena
ciência.

Por todo o exposto, demonstrados a materialidade, a autoria e o dolo na


prática do crime previsto pelo art. 1º, I, do Decreto-Lei 201/67, haja vista que restou
comprovado que ONDANIR BORTOLINI, na qualidade de Prefeito de Itiquira/MT, e
ODECI TEREZINHA DALLA VALLE, na condição de Tesoureira do referido município,
desviaram, em 17 e 24/12/2008, o valor de R$ 77.244,87 (sem atualização) em proveito
de DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO, proprietário da empresa PRODUTIVA
CONSTRUÇÃO CIVIL LTDA. - EPP, correspondente ao montante não executado, relativo
à 5ª medição da obra, da construção da escola infantil no âmbito do programa Pró-
Infância do FNDE (Convênio 830484/2007), fato sobre o qual os três réus eram

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plenamente cientes, impõe-se a condenação.

2.3. Aspectos atinentes à dosimetria.

1) A culpabilidade de ONDANIR BORTOLINI deve ser censurada com maior


rigor por este juízo. Para além da condição de prefeito, elementar do crime em questão,
constata-se que não se tratava de gestor inexperiente à época, já que fora eleito para o
cargo majoritário em 2000 e posteriormente reeleito, em 2004. Nesse caso, o injusto
penal foi perpetrado durante seu segundo mandato, no oitavo ano em que exercia a
gestão máxima do município de Itiquira/MT, quando dele se esperava postura leal e proba
e escorreita aplicação das verbas públicas.

Nesse sentido, uma vez que o crime de responsabilidade foi perpetrado já no


fim do mandato do ex-prefeito, ONDANIR, por sua experiência, detinha pleno
conhecimento de que os desvios gerariam repercussões negativas para a gestão seguinte
e afetariam a credibilidade e a respeitabilidade do alcaide sucessor perante a população e
a Administração Pública, o que fatalmente ocorreu, conforme o demonstram a
fundamentação acima.

2) Em relação a DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO, que figura como


beneficiário direto dos valores desviados do Contrato n° 100/2008, seu comportamento é
digno de alto grau de reprovabilidade, pois, conforme acima destacado, depois de receber
os pagamentos ilícitos, deixou de envidar esforços para a execução da obra e passou a
atuar de forma absolutamente negligente e relapsa, ora paralisando os serviços, ora
disponibilizando poucos recursos humanos para a sua prestação, a configurar
culpabilidade mais censurável.

3) Igualmente deve ser mais intensa a reprimenda à personalidade negativa


de ONDANIR BORTOLINI, nos termos da jurisprudência do TRF1, pois, como ressaltado
pelo MPF, é inúmera a quantidade de inquéritos policiais e de ações penais em que o réu
figura como investigado e/ou réu, conforme se vê do extenso Relatório de Pesquisa n.
3366/2020 juntado no id 236824371 e seguintes.

Tais fatos evidenciam que ONDANIR BORTOLINI ostenta caráter voltado à


prática de infrações penais, nos termos da manifestação ministerial: “Deveras, uma
simples consulta em sítios de busca na internet é possível constatar a enorme quantidade
de notícias amplamente divulgadas de fatos delituosos envolvendo o seu nome,
especialmente relacionados a lavagem de capitais, corrupção ativa, corrupção passiva,
peculatos, crimes eleitorais, entre outros. Sem contar a existência de ações civis de
improbidades administrativas que o requerido também responde perante as justiças
federal e estadual”.

4) No que tange às circunstâncias, a concorrência de 3 agentes infratores


para perpetração do injusto penal, quando o tipo penal não demanda o concurso
subjetivo, deve ser levada em conta para majoração das penas dos três réus.

5) Ademais, a circunstância de que o desvio operado pelos acusados recaiu


sobre recursos destinados à educação infantil, especificamente para construção de
escola em município pequeno, carente de estrutura educacional de qualidade, revela o
menoscabo dos sentenciados aos valores constitucionais mais valiosos, voltados à

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construção de uma sociedade mais justa e solidária, a qual, como é cediço,
necessariamente passa pela educação das crianças e adolescentes.

6) As consequências do crime também reclamam o incremento das penas-


base dos réus. Deveras, conforme restou demonstrado nestes autos e bem o ressaltou o
Parquet federal, a obra objeto do convênio, consistente na construção de unidade escolar,
tinha como previsão inicial de término o mês de março/2009 (8 meses após assinatura do
contrato administrativo), porém sua inauguração se deu muito depois disso, a saber, em
agosto de 2015, de modo que o desvio das verbas destinadas à aludida construção
ocasionaram atraso inaceitável de mais de 5 anos, em evidente efeito negativo à
comunidade, especialmente às centenas de crianças, que ficaram privadas do acesso à
unidade educacional.

7) Outra consequência ensejadora de agravamento das penas na primeira


fase dosimétrica é o elevado valor de dano causado ao erário, o qual, atualizado com
base na taxa SELIC, monta aproximados R$ 225.000,00, desprezando-se acréscimos
legais de juros, como bem ponderou o MPF.

8) Incide, outrossim, em relação a ONDANIR BORTOLINI, as agravantes


previstas pelo art. 62, incisos I e III, do CP, que prescrevem que a pena será agravada em
relação ao agente que organiza e dirige as condutas dos demais agentes, bem como
instiga ou determina a cometer o crime alguém sujeito à sua autoridade.

No presente caso, os autos demonstraram que ONDANIR acompanhava de


maneira pessoal o avanço das obras públicas realizadas pela Prefeitura de Itiquira/MT,
recebendo informações diretas tanto de ODECI como do engenheiro fiscal Guerino
Aquilino Netto, conforme relatado por ambos em juízo e pelo próprio réu, que também
asseverou que, mesmo após o término do mandato, continuou a acompanhar a obra da
escola infantil até sua conclusão, o que evidencia não só a ascendência hierárquica como
prefeito, mas também a condução da prática delituosa, valendo-se de sua autoridade para
determinar ODECI, sua irmã e subordinada direta, que concorresse com o delito do art.
1º, inciso I, do Decreto-Lei 201/67, para o desvio de recurso público em proveito de
DENILSON.

9) Conquanto não se possa cogitar da aplicação da agravante do art. 62, II, g,


do CP (“ter o agente cometido o crime com abuso de poder ou violação de dever inerente
a cargo”) a ONDANIR, sob pena de dupla valoração da mesma circunstância, que é
inerente ao crime de responsabilidade de prefeito, não se pode ignorar, no que tange
especificamente a ODECI, o cometimento do crime sob a eiva da violação de dever
inerente a cargo público comissionado, pois a ré, além de se valer da condição de agente
pública para claramente violar as normas de direito público, especialmente aos
regramentos estabelecidos no bojo da execução dos contratos firmados com a
Administração Pública, utilizou-se de função de direção e confiança, como tesoureira,
para beneficiar, sob o comando de ONDANIR, particular, em detrimento da comunidade
usuária do serviço público educacional.

2.4. Da inabilitação para o exercício de cargo ou função pública.

O parágrafo segundo do art. 1º do Decreto-Lei 201/67 prescreve que a

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condenação definitiva em qualquer dos crimes previstos no dispositivo legal acarreta a
inabilitação, pelo prazo de 5 anos, para o exercício de cargo ou função pública, eletivo ou
de nomeação, sem prejuízo da reparação civil do dano causado ao patrimônio público.

De igual modo, o art. 92, I, do CP, prevê como efeito não automático da
condenação a perda de cargo, função pública ou mandato eletivo, quando aplicada pena
privativa de liberdade por tempo igual ou superior a 1 ano nos crimes praticados com
abuso de poder ou violação de dever para com a Administração Pública ou quando
aplicada pena privativa de liberdade por tempo superior a 4 anos.

Ocorre, porém, que é pacífico o entendimento esposado pelo STJ no sentido


de que a perda do cargo, função ou mandato só abrange aquele em cujo exercício o
crime foi cometido, e não outro em que eventualmente o réu seja detentor contemporâneo
(HC 482.458/SP, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em
22/10/2019, DJe 05/11/2019).

Entretanto, permito-me, para satisfatória fundamentação e por entender


proporcional e razoável, lançar mão dos mesmos critérios, para fins de decretação da
inabilitação para o exercício de cargo ou função pública, eletivo ou de nomeação. No
presente caso, como abaixo se vê da dosimetria das penas, aos réus ONDANIR
BORTOLINI e ODECI TEREZINHA DALLA VALLE são aplicadas penas privativas de
liberdade superiores a 4 anos. Consigne-se que, mesmo na hipótese de que as penas
fossem inferiores a 4 anos, a natureza do delito em questão é de efetiva violação de
dever para com a Administração Pública, o que, aliás, é propriamente elementar do crime
previsto pelo art. 1º, I, do Decreto-Lei 201/67.

Ora, além do critério objetivo acima, relacionado ao montante da pena e do


caráter funcional do delito em questão, nota-se, outrossim, que a inabilitação para o
exercício de cargo ou função pública que deve recair contra ONDANIR e ODECI também
encontra razão, como extensivamente exposto na fundamentação deste decisum, nas
variadas circunstâncias judiciais desfavoráveis (culpabilidade, personalidade negativa,
circunstâncias e consequências do crime) e à incidência, quanto a ODECI, da agravante
prevista do art. 61, II, g, do CP (violação a dever funcional), e, no que tange a ONDANIR,
da agravante de concurso de pessoas prevista pelo art. 62, incisos I e III, do CP.

Ademais, tal efeito da sentença condenatória também decorre do montante


significativo do dano, superior a R$ 225.000,00 (de acordo com virtual atualização com
base na taxa SELIC, sem o cômputo, por ora, dos acréscimos legais de juros), dano esse
oriundo de desvios de recursos públicos do FNDE, destinados à obra consistente de
construção de unidade escolar infantil, cuja prática enseja, por si mesma, dada a
vulneração a valor tão caro – a educação, o anseio social de que gestores públicos
ímprobos sejam alijados do patrimônio estatal.

É assim que também tem se posicionado a jurisprudência do STJ, senão


confira-se:

DIREITO PENAL. HABEAS CORPUS. CRIME DE RESPONSABILIDADE DE PREFEITO.


PERDA DO CARGO E INABILITAÇÃO PARA O SEU EXERCÍCIO. FUNDAMENTAÇÃO
INSUFICIENTE. NÃO-OCORRÊNCIA. 1. A teor do inciso IX do art. 93 da Constituição Federal,

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as decisões judiciais deverão ser motivadas. Na espécie, o efeito da condenação, perda do
cargo e inabilitação para o seu exercício, foi lastreado em dados concretos, a saber,
circunstâncias judiciais desfavoráveis: montante significativo do dano e conduta voltada
contra programa de construção de casas populares. 2. Ordem denegada. (HC 109.587/PR,
Rel. Ministro NILSON NAVES, Rel. p/ Acórdão Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA,
SEXTA TURMA, julgado em 04/11/2008, DJe 19/12/2008)

Por fim, cumpre fixar, como valor mínimo a ser reparado pelo dano causado à
Administração Pública, o valor histórico de R$ 116.486,07, que se reporta à data de
02/07/2012 e foi fixado pelo laudo pericial de págs. 96/111 do id 174058371, o qual
deverá ser atualizado monetariamente até a data do efetivo pagamento, bem como
acrescido de juros e outros acréscimos legais, conforme normas de regência.

3. DISPOSITIVO

Ante o exposto, JULGO PROCEDENTE a pretensão punitiva articulada na


denúncia e CONDENO os acusados ONDANIR BORTOLINI, de alcunha NININHO,
brasileiro, casado, deputado estadual e pecuarista, nascido em 1º/11/1958, natural de
Santo Antônio do Sudoeste/PR, filho de Zefelina Giongo Bortolini e Inocentino Bortolini,
portador do CPF 332.215.709-10 e do RG 05761891 SSP/MT, com endereço profissional
na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, no Centro Político Administrativo, em
Cuiabá/MT, e residente na Avenida Lions Internacional, Edifício Solar do Cerrado, apto.
2202, Vila Aurora, em Rondonópolis/MT, telefone: (66) 99984-9232; ODECI TEREZINHA
DALLA VALLE, brasileira, casada, servidora pública aposentada, nascida aos
02/01/1956, natural de Santo Antônio do Sudoeste/PR, filha de Zefelina Giongo Bortolini e
Inocentino Bortolini, portadora do CPF 371.330.479-34 e do RG 329822 SSP/MT,
residente na Avenida Pedro Campos, 880, Centro, em Itiquira/MT, CEP 78790-000,
telefone: (65) 3491-1454 e (65) 99630-6930; e DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO,
brasileiro, casado, empresário, nascido aos 16/07/1966, natural de Jundiaí do Sul/PR,
filho de Maria Cândida Graciano e Geraldo Graciano, portador do CPF 534.973.509-82 e
do RG 4381262-9 SESP/PR, residente na Avenida General Antônio Tibúrcio, 541, Quadra
14, Lote 10, Monte Líbano, em Rondonópolis/MT, CEP 78710-290, telefone: (66) 99984-
6747, nas penas do artigo 1º, inciso I, do Decreto-Lei 201/1967.

CONDENO os sentenciados, ainda, ao pagamento das custas processuais.

DECRETO a inabilitação, pelo prazo de 5 anos, para o exercício de cargo ou


função pública, eletivo ou por nomeação, de ONDANIR BORTOLINI e ODECI
TEREZINHA DALLA VALLE, com fulcro no art. 1º, § 2º, do Decreto-Lei 201/1967, e no art.
92, I, do Código Penal.

FIXO, nos termos do art. 367, IV, do CPP, como valor mínimo a ser reparado
pelos sentenciados em decorrência do dano causado à Administração Pública, o valor
histórico de R$ 116.486,07, que se reporta à data de 02/07/2012 e foi fixado pelo laudo
pericial de págs. 96/111 do id 174058371, o qual deverá ser atualizado monetariamente
até a data do efetivo pagamento, bem como acrescido de juros e outros acréscimos
legais, conforme normas de regência.

3.1. Dosimetria

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Passo à individualização da pena, conforme os arts. 59 e 68 do Código Penal.

Réu: ONDANIR BORTOLINI

A.a) Circunstâncias Judiciais:

A culpabilidade deve ser censurada com maior rigor, conforme item 2.3.1.
Os antecedentes lhe são favoráveis, conforme folhas de antecedentes e certidões
criminais constantes dos autos. Não há elementos que permitam aferir a conduta social.
Porém, a personalidade do réu, voltada ao crime, deve ensejar o incremento da pena,
consoante item 2.3.3. Os motivos do crime são inerentes à espécie. As circunstâncias e
as consequências devem ser reputadas para a majoração da pena-base, nos termos dos
itens 2.3.4, 2.3.5, 2.3.6 e 2.3.7. Não há o que se valorar no que respeita ao
comportamento da vítima.

Nessa perspectiva, como suficiente e necessária à prevenção e reprovação,


fixo-lhe a pena-base acima do mínimo legal, a saber, em 7 anos de reclusão.

A.b) Circunstâncias agravantes e atenuantes:

Ausentes circunstâncias atenuantes.

Presente a agravante do art. 62, I e III, do CP, conforme item 2.3.8, aumento
a pena, passando a dosá-la em 8 anos e 2 meses de reclusão.

A.c) Causas de aumento ou diminuição de pena:

Não há causas de aumento e/ou diminuição de pena.

A.d) Pena definitiva:

Assim, estabeleço a pena definitiva do réu ONDANIR BORTOLINI em 8


anos e 2 meses de reclusão.

A.e) Regime de cumprimento da pena privativa de liberdade

Para cumprimento, considerando o quantum da pena aplicada, a existência


de várias circunstâncias desfavoráveis e de agravante de concurso de pessoas, bem
como os critérios previstos no art. 33 do Código Penal, fixo o regime inicialmente
fechado.

A.f) Conversão da pena privativa de liberdade em pena restritiva de direitos:

Considerando o montante de pena fixado, superior a quatro anos, bem como


a presença de circunstâncias judiciais negativas, deixo de substituir a pena privativa de
liberdade por pena restritiva de direitos, nos termos do artigo 44, I e III, do Código Penal.

Ré: ODECI TEREZINHA DALLA VALLE

B.a) Circunstâncias Judiciais:

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A culpabilidade é normal ao delito perpetrado. Os antecedentes lhe são
favoráveis, conforme certidões e folhas de antecedentes criminais constantes dos autos.
Não há elementos que permitam aferir a conduta social e a personalidade do agente, não
se podendo considerar a prática isolada do presente crime como indicativa de má
personalidade. Os motivos do crime são inerentes à espécie. As circunstâncias e as
consequências devem ser reputadas para a majoração da pena-base, nos termos dos
itens 2.3.4, 2.3.5, 2.3.6 e 2.3.7. Não há o que se valorar no que respeita ao
comportamento da vítima.

Nessa perspectiva, como suficiente e necessária à prevenção e reprovação,


fixo-lhe a pena-base acima do mínimo legal, a saber, em 4 anos e 6 meses de reclusão.

B.b) Circunstâncias agravantes e atenuantes:

Ausentes circunstâncias atenuantes.

Presente a agravante do art. 61, II, g, do CP, conforme item 2.3.9, aumento a
pena, passando a dosá-la em 5 anos e 3 meses de reclusão.

B.c) Causas de aumento ou diminuição de pena:

Não há causas de aumento e/ou diminuição de pena.

B.d) Pena definitiva:

Assim, estabeleço a pena definitiva da ré ODECI TEREZINHA DALLA


VALLE em 5 anos e 3 meses de reclusão.

B.e) Regime de cumprimento da pena privativa de liberdade

Para cumprimento, considerando o quantum da pena aplicada, a existência


de várias circunstâncias desfavoráveis e de agravante relativa à violação de dever
funcional, bem como os critérios previstos no art. 33 do Código Penal, fixo o regime
inicialmente fechado.

B.f) Conversão da pena privativa de liberdade em pena restritiva de direitos:

Considerando o montante de pena fixado, superior a quatro anos, bem como


a presença de circunstâncias judiciais negativas, deixo de substituir a pena privativa de
liberdade por pena restritiva de direitos, nos termos do artigo 44, I e III, do Código Penal.

Réu: DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO

C.a) Circunstâncias Judiciais:

A culpabilidade deve ser censurada com maior rigor, conforme item 2.3.2.
Os antecedentes lhe são favoráveis, conforme certidões e folhas de antecedentes
criminais constantes dos autos. Não há elementos que permitam aferir a conduta social e
a personalidade do agente, não se podendo considerar a prática isolada do presente
crime como indicativa de má personalidade. Os motivos do crime são inerentes à espécie.

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As circunstâncias e as consequências devem ser reputadas para a majoração da pena-
base, nos termos dos itens 2.3.4, 2.3.5, 2.3.6 e 2.3.7. Não há o que se valorar no que
respeita ao comportamento da vítima.

Nessa perspectiva, como suficiente e necessária à prevenção e reprovação,


fixo-lhe a pena-base acima do mínimo legal, a saber, em 5 anos e 9 meses de reclusão.

C.b) Circunstâncias agravantes e atenuantes:

Não há circunstâncias agravantes e/ou atenuantes.

C.c) Causas de aumento ou diminuição de pena:

Não há causas de aumento e/ou diminuição de pena.

C.d) Pena definitiva:

Assim, estabeleço a pena definitiva do réu DENILSON DE OLIVEIRA


GRACIANO em 5 anos e 9 meses de reclusão.

C.e) Regime de cumprimento da pena privativa de liberdade

Para cumprimento, considerando o quantum da pena aplicada, a existência


de várias circunstâncias desfavoráveis, bem como os critérios previstos no art. 33 do
Código Penal, fixo o regime inicialmente fechado.

C.f) Conversão da pena privativa de liberdade em pena restritiva de direitos:

Considerando o montante de pena fixado, superior a quatro anos, bem como


a presença de circunstâncias judiciais negativas, deixo de substituir a pena privativa de
liberdade por pena restritiva de direitos, nos termos do artigo 44, I e III, do Código Penal.

3.2. Direito de recorrer em liberdade:

Ausentes as condições autorizadoras da decretação da prisão preventiva e à


vista do fato de que os réus permaneceram em liberdade durante todo o trâmite
processual, concedo aos sentenciados o direito de permanecerem em liberdade até o
trânsito em julgado da ação.

3.3. Deliberações finais:

a) Servindo cópia desta sentença como expediente, INTIMEM-SE,


pessoalmente, ONDANIR BORTOLINI, deputado estadual, CPF 332.215.709-10,
residente na Avenida Lions Internacional, Edifício Solar do Cerrado, apto. 2202, Vila
Aurora, em Rondonópolis/MT, com endereço profissional na Assembleia Legislativa de
Mato Grosso, no Centro Político Administrativo, em Cuiabá/MT, telefone: (66) 99984-
9232, e DENILSON DE OLIVEIRA GRACIANO, CPF 534.973.509-82, residente na
Avenida General Antônio Tibúrcio, 541, Quadra 14, Lote 10, Monte Líbano, em
Rondonópolis/MT, CEP 78710-290, telefone: (66) 99984-6747, devendo o oficial de
justiça questionar expressamente aos sentenciados acerca do desejo de recorrer.

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b) Servindo cópia desta sentença como expediente, DEPREQUE-SE ao juízo
da Comarca de Itiquira/MT a intimação pessoal de ODECI TEREZINHA DALLA VALLE,
CPF 371.330.479-34, residente na Avenida Pedro Campos, 880, Centro, em Itiquira/MT,
CEP 78790-000, telefone: (65) 3491-1454 e (65) 99630-6930, devendo o oficial de justiça
questionar expressamente à sentenciada acerca do desejo de recorrer.

c) Em seguida, INTIMEM-SE, pelo sistema, os defensores constituídos,


reiterando-se, à semelhança da decisão de id 628511960, a advertência sobre a
possibilidade de imposição de multa processual na hipótese de abandono do processo,
nos termos do art. 265 do CPP.

d) Após, INTIME-SE o MPF, para ciência da sentença e eventual interposição


de recurso ou para apresentação de contrarrazões recursais.

3.4. Providências após o trânsito em julgado da sentença condenatória:

a) OFICIE-SE ao Município de Itiquira/MT, ao FNDE, à CGU e, na hipótese


de ONDANIR BORTOLINI ainda ocupar o cargo eletivo de deputado estadual, à
Presidência da Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso, para ciência desta
sentença e eventuais providências cabíveis.

b) Lancem-se os nomes dos condenados no rol de culpados.

c) Atualize-se o InfoDiP, para fins do disposto no art. 15, III, da Constituição


(suspensão dos direitos políticos), enquanto durarem os efeitos da condenação;

d) Atualize-se o SINIC/INI.

e) Após, EXPEÇAM-SE as guias de execução definitiva, instruindo-as com as


peças essenciais extraídas dos autos, e providencie-se o necessário para a distribuição
das execuções penais no SEEU, em seguida REMETENDO os autos, se for o caso, para
os juízos dos domicílios dos executados (exceto quanto aos juízos que ainda não
aderiram ao SEEU, caso em que a guia deverá ser remetida por malote digital).

f) Comprovando-se a distribuição das execuções penais no SEEU,


ARQUIVEM-SE estes autos.

Procedam-se às demais diligências e comunicações necessárias.

As respostas de órgão públicos aos expedientes remetidos por este Juízo


poderão ser encaminhadas, caso não se possua cadastro no PJe, para o e-mail
01vara.sesud.roo.mt@trf1.jus.br. Ao responder, favor informar o número do processo e o
Num. id localizado no canto inferior direito deste documento.

Rondonópolis/MT, data e hora da assinatura.

ASSINATURA ELETRÔNICA
JUIZ(A) FEDERAL INDICADO(A) NO RODAPÉ

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