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1ª Edição

São Paulo
2011
Título original
O quarto ponteiro

Copyright Giostri Editora Ltda., São Paulo, 2011

Reservam-se os direitos desta edição à:


GIOSTRI EDITORA LTDA
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Vila Mariana — SP
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São Paulo — SP — República Federativa do Brasil.


Impresso no Brasil

ISBN: 978-85-60157-76-1
CDD: B869-4

Coordenação editorial: Alex Giostri


Revisão de texto: Agripino Dabrenfa
Capa: Renato Souza Sá
Diagramação: Letícia Nascimento

CIP — Brasil. Catálogo na fonte. SP


Câmara Brasileira do Livro (CBL)

Vega, David
O quarto ponteiro — David Vega
1ª Ed. São Paulo: GIOSTRI, 2011
1 — Ensaios brasileiros
2 — História
3 — Sociologia

1º título: O quarto ponteiro

1ª Edição 
Giostri Editora LTDA.
A todos aqueles que de alguma maneira, direta
ou indiretamente, passaram em minha vida; aos
opositores que em muito colaboraram para meu
senso crítico; aos amores ferozes que oscilam em
cada fragmento de memória que me vem; aos amigos
verdadeiros que em silêncio me apoiaram nos tempos
turbulentos, e eufóricos gritantes celebraram ao meu
lado grandes momentos de felicidade.
Aos meus pais, às discussões em casa, às mentiras
que eu disse, às verdades também, aos elogios que
fiz, aos pedidos de desculpa que dei, às brincadei-
ras na infância, aos exemplos e contra-exemplos, aos
meus admiradores e aos que me nutrem ódio mortal,
às minhas aventuras e desventuras...
Enfim, ao caldeirão instável que continua a ferver
essa confusão que é viver.
“Se seus sapatos estão limpos, é sinal
de que sua alma não está bem asseada.”

Charles Bukowski
SUMÁRIO

Apresentação ................................................. 11
Sobre Escrever................................................ 13
O Quarto Ponteiro............................................ 15
O Cavaleiro da Triste Figura ............................... 18
Amiga ............................................................ 19
Rebelião dos Podrões ....................................... 20
A Árvore da Vida ............................................. 22
A Mulher que Chora ......................................... 25
Individualismo .................................................. 28
Rainha do Vácuo ............................................. 29
Súditos do Bezerro de Ouro............................... 30
A Triste Rejeição e Ausência de Nosso Pai .......... 32
América Hispânica ........................................... 38
Hoje, como Ontem ........................................... 40
Ocidente Feroz ................................................ 42
Lusitânia ........................................................ 43
Athena ........................................................... 45
Professora do Amor......................................... 46
Desabafo de um Educador ................................ 49
Ao Mestre com Carinho.................................... 52
Laboratório para Utopia .................................... 55
Carta de um Mortal à Deusa Mulher .................. 57
Cegueira ........................................................ 59
Juventude de Ferro .......................................... 61
Flor de “Lins”................................................... 63

9
o quarto ponteiro
Marrocos ....................................................... 65
Individualismo parte 2 ...................................... 67
O Caminhoneiro do Infinito ................................. 69
Dama de Negro ............................................... 72
Os Invencíveis .................................................. 75
Tranquei ......................................................... 79
Fantasmas ..................................................... 83
Adiós abuela, adiós jamón, adiós mi amor... Adiós
España! .......................................................... 87
Passeio dos Tristes .......................................... 90
Versos à Revolução Cubana .............................. 95
Marciano e Capeta .......................................... 98
Moça dos Olhos Flamengos ............................... 101
Retratos......................................................... 106
Sobre a Implantação do Marxismo no Poder ........ 108
O Pudor ......................................................... 109
Isaac Giourgopolos ........................................... 113
Feliz Ano Novo................................................. 117
O Cavaleiro da Triste Figura Encontra a Paz Final .. 118

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David Vega
APRESENTAÇÃO

O livro não tem a intenção de ser uma projeção de outros, já


incorporados na denominação “legalista” ou “amena” referente
ao véu invisível gigantesco que mascara os anseios naturais,
instintivos e milenares enraizados no ser humano.
Esta é a minha reação, sendo eu um representante modesto
dos filhos do meio da história, vivendo na era dos extremos,
da multidão banal e indiferente, ou melhor, como registram as
fontes “aceitas” — Era Digital. Da qual nós cidadãos amargam
na ditadura do “politicamente correto”, tempos estes em que
a clareza e a nobreza do caráter dão cadeia, e a farsa da
politicagem, medalhas.
As crônicas que se seguem não foram criadas para serem
políticas e/ou ideológicas, e sim críticas, discursivas, filosófi-
cas e instrutivas. Por mais que muitos possam vir a se indig-
nar, devido o contraste de seus estilos (algumas românticas,
tiradas de um mar de pétalas, e outras grotescas e apocalíp-
ticas, tiradas da privada de um banheiro público), justamente
farão que o leitor perceba, mesmo que em seu mais profundo
inconsciente, que a beleza está presente em qualquer ambien-
te, nas coisas mais simples da vida, o fundo do poço e sua
decadência encantam às vezes muito mais do que o glamour
de uma vitória cheia de méritos.
Deixo bem claro que a razão de tê-las reunidas nesta
obra foi justamente a “estrutura de ideias” que se aparecem,
fundamentais de cada época, naturais de cada geração e
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o quarto ponteiro
suas circunstâncias (embora eu continue a buscar as tais
“ideias” dessa geração vigente, e só encontre cada vez mais
uma alienação avassaladora). A memória não pode seguir um
padrão. O pragmatismo dos sentimentos se tornara algo clichê
nas tantas recriações convencionais, é o maior indício do fim
de nossa literatura, arde feito as chicotadas desse pelourinho,
vindo por parte de nosso público atual, carregado de condutas
e crenças, chamado “aprovação”.
Por fim, dedico estas memórias aos espíritos dos indomáveis.
Que os homens de valor que já partiram saiam de seus túmulos e
melhorem a profusão de ricos implementos; desperdiçada, ridicu-
larizada, pisoteada ou simplesmente abandonada, pela abundante
estupidez das massas de “zumbis” vivos.
O autor.

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David Vega
SOBRE ESCREVER

Escrever um livro é estar naqueles 10 minutos com a


cabeça no travesseiro esperando chegar o sono. Nossa
mente oscila de ideia em ideia: imagens, vozes e sensações
giram feito um furacão na velocidade da luz tornando quase
impossível captá-las, subitamente se você tenta reformular
todas em um conceito único, resta-lhe o caos da mente lesada
por uma sonolência absurda que o faz desistir de organizar
suas vivências ainda frescas na memória e te entregas ao sono
profundo. Adormecido, quando chegam os sonhos, comparo
estes aos capítulos da obra após ser editada, e seu significado
dá-se através da interpretação dos leitores.

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o quarto ponteiro
O QUARTO PONTEIRO

Há no mundo um mistério, nem mesmo a voracidade do


homem consegue tragar. Totalmente relacionado ao sonho,
a memória trabalha em conjunto com os órgãos de nosso
organismo.
Se pensarmos em nossas vidas como um relógio, cabe-
ria muito bem dizer que o ponteiro dos segundos é o nosso
consciente que funciona baseado na percepção de pessoas
e detalhes ao redor, o dos minutos, seria o pré-consciente,
ele avança mais lentamente movido pela percepção, porém
15
o quarto ponteiro
somente às vezes oscila alguma imagem, voz, ou mesmo um
cheiro, juntos, eles carregam nas costas o pesado subcons-
ciente, representado pelo ponteiro das horas, o principal que
nos define e nos impõe limitações, remorso, orgulho, condu-
tas, sem nem mesmo termos consciência disso.

Os homens livres, a meu ver, são aqueles que abando-


naram o comodismo de atribuir aos deuses a responsabi-
lidade da vida, e passaram a desenvolver um olhar interno,
estudando os fenômenos que a constituíam neles mesmos.
Ouso ainda incluir mais um instrumento nessa estrutura, um
suposto quarto ponteiro invisível que funciona igual a uma
engrenagem, mas que nem mesmo os grandes gênios são
capazes de provar a sua existência, quando muito avaliá-lo.

Em tempos como os atuais, voltado para o resultado e a


satisfação imediata, tentar dialogar com o abstrato se torna
impossível frente às tarefas concretas que parecem ser
as únicas de verdadeira importância. Indivíduos que não se
contentam com o circunstancial atravessam um oceano de
sangue, de águas turbulentas contidas no quarto ponteiro que
mesmo assim nos faz encantar com as coisas mais simples do
mundo, com a eterna busca de compreensão de nossa curta
jornada aqui na terra.

O que você irá fazer? Não há nada. O tempo o abandonou,


sem a possibilidade de um retorno. O ponteiro dá suas voltas
e você vai perecer. Mudar-se para algo novo agora é tarde
demais, está te matando. Não pare de pensar, aproveite, mas
não irá durar, a mão do capeta vai te puxar, e isso é maravilhoso.
Se afogar no próprio vômito é se livrar da rédea puxada pelo
comum, o mediano provou ser falho, destrua, vandalize, a
merda do sistema.
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David Vega
Aquele relógio adverte, os ponteiros não param, clamam,
e você ainda insiste desafiá-los. Seus olhos estão cegos, mas
pode ver as pétalas se desprenderem e atingirem o chão. Ele
é um hino em louvor da fantasia, num mundo onde não há lugar
para a bondade e a pureza; terá que usar da poética da alma
para destruir os seus alicerces.
Logo o quarto ponteiro cravará em seu peito. E se não esti-
ver preparado desista, pois os que por ele foram feridos estão
no sanatório, escrevem na calçada, acompanhados por uma
garrafa de cachaça, pela solidão; resta-lhes o esquecimento
das massas.

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o quarto ponteiro
O CAVALEIRO DA TRISTE FIGURA

“(...) A sorte vem nos guiando melhor do que


poderíamos desejar — disse Don Quixote, segurando
seu cavalo. — Vê meu fiel Sancho: diante de nós estão
mais de trinta insolentes gigantes a quem penso dar
combate e matar um por um. Com seus despojos
iniciaremos nossa riqueza, além de arrancar essas
sementes ruins da face da terra. Essa é a ordem
divina que devemos cumprir.”
Cervantes, Miguel — Don Quijote de la Mancha

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David Vega
AMIGA

És muda para a leiga compreensão humana de teus anseios,


mas posso garantir que reconhecemos teu nobre serviço de
lealdade e sentimento interior, que transparece pelos seus olhos
meigos de “amiga”.
Como estão errados os humanos!
Em atribuir pejorativamente sua honrada espécie aos mal-
feitores, em dizer que ladram aqueles possuidores de palavras
sem fundamentos. Quem me dera um dia me casar com uma
fêmea como foste tu, companheira de todos os momentos, na
alegria e na tristeza, que me amasse como tu me amaste, que
me levantasse e conduzisse meu caminhar, afastando meus me-
dos internos em um mundo cruel, como fazias quando agarrado
em tua calda aprendi a dar meus primeiros passinhos.
Excelente guerreira e majestosa rainha líder do exército
canino da nobreza, que mascarada feito uma heroína, como o
ranger solitário, trouxeste a paz e a justiça. Foi terrível vê-la
partir, mas me conforta a doce lembrança de teu correr por
entre os verdes e floridos campos de minha infância, o uivar
de loba solitária, chamando pelos deuses que hoje te abriga.
Em espírito, sei que ainda me protege e, quem sabe nesse
belo paraíso eu possa reencontrá-la e retribuir toda tua vida de
dedicação e devoção à minha espécie...
Querida e verdadeira,
Amiga.

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o quarto ponteiro
REBELIÃO DOS PODRÕES

A censura é junto do pecado o genocídio mais brutal e de-


vastador, mutila o espírito e acorrenta a vida. Para mim o que é
censurado, modelado, preparado, ensaiado… redigido de acordo
com o permitido, com a constituição, o chamado “belo”, perde
o amor e o ódio que deveriam ter, pois é estas duas últimas, o
berço do que chamamos LIBERDADE!

Tente comer aquela gostosa que lhe impõe limites e barreiras


em quase tudo. Seria melhor encarar a gordinha de cabelo ruim
que, com o calor das genitais, nos leva ao delírio, o desenho feito
em nosso corpo pela sua língua expande a mente e nos torna
deuses por frações momentâneas; a sacanagem, pela carne ou
amor, nos leva aos portões do paraíso, e se para muitos o inferno
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David Vega
é isso, as diabas que me aguardem, incendiarei ainda mais as
trevas com meus delírios de permissividade e êxtase.
A podridão me incita, é uma deusa da qual serei eternamente
seu servo fiel. Porque não tem nada melhor do que ficar pelado
e cuspir no chão, boicotar o banho e pronunciar obscenidades de
peito estufado.
É preferível viver no terceiro mundo e ser livre do que ser
cativeiro do luxo, pessoas politicamente corretas são tão de-
testáveis quanto uma namorada que só transa se for de luzes
apagadas. A sua vergonha trancafia a vontade, que grita e a faz
derreter, mas mesmo assim a maldita mão opressora consciên-
cia segura a rédea, rouba a liberdade do prazer, não é diferente
dos que sorriem e xingam no íntimo.
Estamos em um mundo tão faminto de afeto e sinceridade,
tão pobre de criatividade, em que o registro não condiz com a
realidade, em que se uniformiza formas curvas e o abstrato se
perde feito uma água que desce ralo abaixo, padronizam até os
pensamentos, elegem o comportamento. Sai fora meu irmão,
livre-se desse sofrimento!
Sem bases na unha, sem clareamento dentário, molamben-
tos e imbecis, somos nós os legionários, da centúria dos politi-
camente incorretos. Se ser “civilizado” é adoecer na depressão
e alimentar um câncer traiçoeiro, viver na ditadura do silêncio
acreditando ser “livre”, me apresento sem máscara diante de
vossa senhoria, ó dono da verdade...

— Prazer, eu sou um selvagem.

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o quarto ponteiro
A ÁRVORE DA VIDA

Durante o levante sublevado das tropas do General Franco,


em 1936, os pequenos agrupamentos políticos que compunham
a frente popular começaram a recrutar “voluntários” das
aldeias sob seu controle. Esses homens eram profissionais
liberais: artesãos, camponeses e pequenos comerciantes que
logo tiveram que trocar suas ferramentas por fuzis e granadas.
Em Valência, Eduardo Rincón era o sapateiro de um povoado
nos arredores da cidade. Alguns de seus compadres já haviam
recebido a ordem de se apresentarem na junta mais próxima
de alistamento, ele que ainda tinha um filho pequeno para
criar pensou em alguma saída em que não o impedisse de
continuar com seu oficio e ao mesmo tempo não o levasse para
o paredón como desertor.

Numa certa manhã, caminhou com uma corda que tinha um


nó de forca e pediu para Manuelito, seu filho, subir em uma
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David Vega
macieira que se encontrava à beira de um riacho e amarrá-la
em um de seus galhos, dos quais não produziam frutos há anos.
Laçou os dois pés juntos e pendurou-se de cabeça para baixo
durante três noites, até o anoitecer do quarto dia. O sangue de
seu corpo descera para a cabeça provocando fortes tonturas e
o mal funcionamento de alguns órgãos. No dia da avaliação mé-
dica militar, recebeu um carimbo de dispensa por invalidez, pois
seu fígado já não funcionava da devida maneira. Passada uma
semana seus órgãos voltaram ao normal e o sangue a penetrar
em cada canto não preenchido.
Rincón não foi enviado ao front, sua luta na guerra era co-
lar a sola das botas dos milicianos que voltavam mortos para
serem reaproveitadas pelos novos recrutas. Pregou a sola da
alpargata do açougueiro, que antes de viver nas trincheiras foi
seu vizinho, costurou a jaqueta de couro do capitão, que antes
de possuir essa patente foi o professor de Manuelito, e apro-
veitou os cadarços das chuteiras com buracos de bala, feito
uma peneira, do antigo atacante do Valência Futebol Clube, seu
time. A cada par de botas que recebia, vinha em sua memória
a imagem da macieira que lhe salvara a vida, talvez pudesse
ela devolver a vida a esses homens, não fosse ela, talvez seria
as suas botas mais um par que chegaria, encontrado na lama
como pertences de um indigente e enviado a seu filho, que seria
mais um órfão da aldeia.
Terminada a guerra, Rincón nunca mais foi visto, dizem que
se tornara um homem sem memória e emigrara para a Améri-
ca. Os legionários nacionalistas quando tomaram seu pueblo
encontraram uma cidade fantasma, onde a maioria da população
residia no cemitério. Vasculhando o local, um soldado de reco-
nhecimento correu em direção do restante do batalhão:

— Estou rico! Estou rico! — gritava eufórico.


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o quarto ponteiro
O coronel sem entender, perguntou:

— Encontraste algum tesouro?

— Não! Mas o solo desse vilarejo é abençoado! Se eu plantar


algumas pesetas, terei uma árvore de dinheiro!

Todos caíram na gargalhada.

— Como podes afirmar tal coisa com tamanha certeza?

— O sapateiro local plantou um par de botas e ali nasceu uma


árvore de sapatos!

Cruzando o riacho de pedra, ali encontraram uma macieira


repleta de pares de botas penduradas em seus galhos.

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David Vega
A MULHER QUE CHORA

Em março de 2004 fui à mostra “Picasso, na Oca”, que


ocorreu no salão do Parque do Ibirapuera. Lá se reuniram es-
tudantes em excursões escolares; as professoras reclamavam
da correria da criançada, intelectuais e jornalistas aproveita-
vam para acrescentar seus backgrounds em virtude da deman-
da do público sedento de vontade do saber. Alguns monitores
25
o quarto ponteiro
que levavam o crachá do evento acabaram por se tornar secun-
dários, devido o texto decorativo e cansativo referente às obras
do pintor andaluz.

O surrealismo era abandonado a cada corredor que atraves-


sava. As poucas obras de Dali que me vinham à memória se
perdiam em toda confusão do cubismo, suas confusas formas
me fizeram filosofar, pensava na vida como um amontoado de
memórias umas sobre as outras, igual quando a gente deita a
cabeça no travesseiro antes de chegar o sono. A corrente das
telas enfileiradas, repletas de dedos desproporcionais às mãos
e cabeças maiores do que o tórax era como os fatos ocorridos
no passado, às vezes de repercussões que hoje não passam de
acontecimentos irrelevantes.

Quando meu grupo chegou a uma pintura reservada para o


“gran finale” a expressão de curiosidade de todos tornara-se o
espanto coletivo, mesclado com um encanto obscuro daquela
imagem. Os olhos se encheram de lágrimas bem como os de
Dora, a amada de Picasso que inspirou o quadro “A mulher que
chora” pertencente ao mural Guernica. Durante a Guerra Civil,
tantas bombas caíram sobre os povoados bascos que a popu-
lação vivia com o rosto coberto de poeira e riscos se formavam
ao escorrer as lágrimas das vítimas do horror. Quase 70 anos
depois essa pintura ainda emociona e choca qualquer um que se
aproxima de suas cores e traços entrelaçados.

Terminada a sessão, saí do salão com o mesmo grupo que


me acompanhava na exposição. Aguardando num ponto de ôni-
bus, avistei uma mulher indígena com o rosto sujo de carvão
chorando enquanto amamentava o filho, rodeada de esmolas.
As pessoas continuaram a comentar sobre o quadro sem nun-
ca terem notado a presença da pobre bugre que amamentava
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David Vega
de barriga vazia. Todos aqueles prédios metálicos à sua volta
eram surreais e confusos para seus olhos, assim como era toda
aquela gente amontoada e os automóveis, para lá e para cá que
compõem a paisagem urbana em pequenos fragmentos entrela-
çados, como em um quadro cubista.

27
o quarto ponteiro
INDIVIDUALISMO

Aquele jovem documentarista escocês, decepcionado após


gravar um longa-metragem composto com entrevistas de refu-
giados do massacre de Ruanda, em 1994, era motivo de indig-
nação pelos jornalistas que o entrevistaram.

Jornalista — Mas como pode se arrepender de fazer algo tão


belo pela humanidade?
Documentarista — Se o meu documentário vai ao ar nos
principais telejornais do mundo, as pessoas irão dizer: “Nossa,
que horror!” e depois voltar a comer o jantar. Para que tentar
comover o mundo, introduzindo culpa nos cidadãos, se estes
nada irão fazer?
Jornalista — Mas não espere que as pessoas larguem tudo
que construíram ao longo de uma vida ou abandonem seu em-
prego e família para fazer algo, as exigências da sociedade os
tornam assim, não creio que sejam tão individualistas!
Documentarista — Sabe companheiro, quando eu frequentava
um curso de legítima defesa no meu país, o instrutor em uma das
aulas ensinava como as mulheres deviam pedir por ajuda em caso
de estupro. No ato da abordagem jamais devem dizer “socorro”,
isso afasta a população que por instinto pretende se salvar, e sim
devem gritar “incêndio”, assim os demais correm em sua direção
para ver o que está acontecendo.

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David Vega
RAINHA DO VÁCUO

E lá estava ela! Linda e loira, seus dentes brancos pareciam


o sorriso de uma propaganda da Colgate, o cheiro doce de seu
perfume acalmava o arder das narinas provocado pelo odor da
urina e fezes dos mendigos e cachorros magrelos. O caminhar
rebolado invencível de salto alto que acorrentava qualquer ma-
cho viril era capaz de devolver por instantes a vitalidade a um
velho de 90 anos. Toda sujeira da calçada se desaparecia à
sua volta, a fachada do morro era tão pequena diante de seu
olhar... Ela devia ter 1,65, mas parecia mais alta. Não pelo sal-
to, aquele ar superior... Bela moça do bairro; tinha o pescoço
rodeado de pérolas, nas mãos diamantes, na bolsa dólares,
na barriga caviar, nos lábios batom, nos olhos lápis negro, no
cabelo escova progressiva, na cabeça o vazio, o nada.

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o quarto ponteiro
SÚDITOS DO BEZERRO DE OURO

As tábuas de Moisés destruíram o bezerro de ouro, como


raios que dividem o solo,

dos danados a maldição eterna e os santificados elitistas da


podridão da terra.

Temos um deus egocêntrico, assim como a maior


manifestação selvagem humana; egoísta e individualista. Apenas
quem crê em sua divindade está salvo; queimem e destruam a
adoração alheia, promovam a exclusão! Abandonem seus ídolos
humanos, eles são como ti! Ah! Mas o perfeito senhor não pode
dar conta do espírito de macaco, então que santos surjam,
claro, que adoremos humanos...

Criemos uma legião de padres e pastores que protegerão o


reinado, como os cães da Guarda Vermelha e da Gestapo.

Salvação? Não! Escravidão! Pecadores irão pagar! Pobres,


deverão se contentar, ricos, agradeçam, pois a sorte apenas
nessa vida irá chegar. É pecado saquear, mas a vida eu posso
roubar!

Um pai que ama de verdade dá e não espera nada em troca,


a felicidade de seus filhos o fortifica, e não sufoca!

Que magnífica invenção! Ao invés de acorrentar as pernas,


assim faremos com a imaginação.

Malditos pagãos, filhos de Tupã e do deus do trovão! Saiam


da escuridão e beijem minhas mãos!
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David Vega
Filósofos calhordas, iluministas hipócritas, quem são
vocês para me questionarem? Tomem guerras e terremotos
em troca!
Também são meus filhos os dinossauros, mas no livro sa-
grado me esqueci de mencioná-los.
Politeístas estão errados, o único Deus verdadeiro sou eu,
mas também adorem minha mãe, meus discípulos e criados.
Semi-deuses não existem, mas na terra para salvá-los meu
filho enviei, ardam bruxas e druídas, sou misericordioso, sem
sombra de dúvida.
Inventem um responsável pela maldade, alguém deve pagar,
contra Lúcifer iremos guerrear.
Aceito minha criação da maneira que ela nascer, ah! Mas
fico puto quando para o ateísmo/agnosticismo a vejo perder. Sou
democrata, sob a minha guarda.
Súditos do bezerro maldito, se ousarem me contrariar, meus
soldados angelicais estarão de licença, quando o fogo do Apo-
calipse chegar.

31
o quarto ponteiro
A TRISTE REJEIÇÃO E AUSÊNCIA DE NOSSO PAI

Há um grande ausente nessa crise vigente que assola o mun-


do, alguém a quem muitos esperam muito, mas não faz nada e
nem aparece para dar um parecer: DEUS. Pergunto-me como
é possível que o ser Todo Poderoso permaneça passivo frente
à desgraça de tanto milhões de pessoas que perderam seus
trabalhos e que se veem atoladas em uma situação de esmola
e desespero.
“Eu sou o que era, o que é e o que há de vir”, disse Yhavé no
Apocalipse. De seu poder e milagres nos tempos antigos da fé
da bíblia, mas há séculos o Supremo Criador guarda silêncio.
Não disse nenhuma palavra sobre as atrocidades que vimos ao
longo do século XX, nem sobre as consequências dessa crise
atual. Quando você se omite também é responsável.
Aí está o sofrimento dos enfermos terminais, de quem
perdeu a batalha contra o câncer, dos que sobrevivem graças
aos meios artificiais. Suas dores resultam também em um
testemunho que se aproxima mais da veracidade em relação
aos que invocam a ciência frente aos que invocam a teologia
escolástica para demonstrar a existência de um suposto Deus.
E falando “Nele”, se pegarmos a fundo a história antropo-
lógica do homem ocidental, nós veremos que tudo isso é uma
mescla de diversas crenças já existentes desde o politeísmo e
paganismo grego, romano, celta, germânico e sei lá mais o que,
adaptada aos princípios cristãos para assim facilitar a domi-
nação dos camponeses pagãos que se submetiam à opressão
32
David Vega
do império romano de Constantino. O nosso Natal tem origens
pagãs; muitos dos santos têm sua mesma representação celta
(sim, celta, de “pecadores” bruxos druídas que mexiam caldei-
rões e faziam magia contida em livros, atitude hoje condenada
pelos soldados de Cristo), sem contar a semelhança da história
de Jesus com a de Hércules ou com a de Thor; uma humana
engravidar de um deus, a Virgem Maria não tem diferença para
qualquer outra mulher geradora de “semi-deuses” de qualquer
outra religião pagã.
Os apóstolos cristãos se aproveitavam das brechas das
outras religiões e as distorciam propositadamente para incluir
aquele povo sob dominação nos parâmetros da nova religião
emergente, vinda do estrangeiro, de uma província distante no
Oriente Médio que em nada tinha a ver com a cultura que rei-
nava na Europa.
O próprio termo “Cristo”, incorporado ao nome de Jesus de
Nazaré, é de origem grega e significa “unido”.
A difusão do cristianismo trouxe — como era de se espe-
rar — um confronto incessante entre a fé e a razão. O apóstolo
Paulo foi o primeiro a enfrentar essa questão. Habilitado para tal
função, apesar de judeu era cidadão romano e educou-se numa
sociedade helenística. Como narra o livro Atos, do Novo Testa-
mento: “Atenienses, tudo indica que sois de uma religiosidade
sem igual (...) Encontrei inclusive um altar com a inscrição: Ao
Deus desconhecido. Pois bem, justamente aqui estou para vos
comunicar que este Deus que adorais sem conhecer, é o mesmo
que fez o mundo e tudo que nele existe (...)”.
É triste ver o quanto foi pisoteada a filosofia grega, a de-
mocracia ateniense, o militarismo e romantismo exacerbado
dos espartanos, a conduta de bravura germânica, a liberdade
e igualdade entre homens e mulheres celtas, após a imposição
33
o quarto ponteiro
dessa religião que nada mais faz do que tornar-nos acomodados
e sem perspectiva nenhuma na vida, aceitar uma condição de
miséria e oração a um ser que nos colocou nesse infortúnio.
Não, sinto muito, mas Deus não pode existir em um mundo
onde estamos indefesos ante um mal que nos cerca e joga seus
dados contra nós. A única prova consistente de mantermos a
esperança no sobrenatural são as misérias e injustiças que
reinam no nosso planeta. Prova disso é a mentalidade de uns
habitantes do primeiro mundo; livres, evoluídos e possuidores
de propriedade na sua maneira de ver o mundo, em relação a
uns muitos ingênuos, famintos e ainda participantes de grandes
massas de ignorantes crentes do terceiro mundo.
Muitos filósofos acreditaram no progresso da razão e da
moral ética, uma fé que resulta patética à luz das suas con-
tradições de um sistema incapaz de dar um mínimo sentido à
vida humana. Racionalmente falando, eu acho que Deus deve ser
esquizofrênico, pois tem que atender todos os dias aos pedidos
de 6 bilhões de macacos.
Depositamos nossas esperanças em Deus, mas este conti-
nua guardando um silêncio que está ao ponto de fazer estourar
nossos ouvidos. Ou o Todo Poderoso é uma ficção, ou está tão
cansado de nós, que não nos escuta.
Nosso pecado original é a eleger como única verdade a mais
absoluta incerteza, e abandonar a única certeza de nosso pre-
sente e nosso esforço atual para construir um futuro melhor.
Que juízo final é esse que tanto tememos? Que nos punem de
viver. Ninguém jamais poderá ser julgado de ser feliz! Até quando
iremos continuar sobrepondo a fé da realidade?
A terra tem aproximadamente 100 bilhões de anos, o homo
sapiens existe há uns 100 milhões, as religiões num geral não
34
David Vega
passam de alguns milênios, então, como podemos ser os únicos
donos da verdade, se nossa crença tem apenas 2.000 anos?

Ao redor do globo, pela História, vemos a hipocrisia daqueles


que matam em nome de seus criadores, sejam eles de qualquer
cultura ou povo. Os bispos na América Latina apoiaram san-
grentas ditaduras militares; na Europa, os santificados se alia-
ram ao nazi-fascismo; na URSS, cristãos ortodoxos pisotearam
o que vinham condenando há décadas anteriores e se aliaram
aos inquisidores de Stálin que executaram mais de 50 milhões
de vidas humanas; em Israel, os filhos de Sião ferem a suposta
bondade de Yahvé e fazem reinar os maléficos planos de Azazel,
quando demonstram sua eterna ganância pelo ouro, ou imposi-
ção à força nos territórios da faixa de Gaza através da explosão
de algum míssil teleguiado; na Palestina, o alcorão foi trocado
pela cimitarra e pelo sangue, pelo apedrejamento de suas belas
mulheres e execução de milhares de vidas inocentes, quando
enviam suas crianças ao front, repletas de bombas presas ao
corpo; na Ásia, o ensinamento de Sidarta Buda foi descartado e
hoje a meditação de seus filhos se dá através das rajadas de AK
47 pelas montanhas do Tibete até as portas da China e do Ne-
pal, toda sabedoria de seus líderes espirituais hoje repousa nos
laboratórios de urânio da Coreia do Norte, da Rússia, da Índia
e dos EUA, cheios de gigantes projéteis compostos de átomos
esperando aniquilar toda existência da terra.

Pelas ruas das periferias da America do Sul e da África, uma


legião de vigaristas de terno e gravata pregam as sábias e belas
palavras do filho do criador que veio nos salvar do materialismo,
da arrogância, da eterna estupidez humana. Estes políticos e
mentirosos falsos bispos as manipulam e atrofiam o cérebro
dos fracos, daqueles que por sua condição lastimável não pu-
deram evoluir como humanos e acabam acreditando em suas
35
o quarto ponteiro
malvadas palavras mascaradas de amor e bondade, palavras
estas que lhes tiram o humilde dinheirinho suado que seria para
colocar o alimento na mesa.
Constroem-se canais de TV, templos banhados a ouro, dízi-
mos parcelados no cartão de crédito ou de débito, máfias que
se escondem por detrás de políticos corruptos que desviam o
dinheiro da educação e da saúde, que oram para o Todo Po-
deroso antes de meter a mão naquele capital que seria para
comprar um novo aparelho médico de alguma UTI dos hospitais
públicos, que possivelmente salvaria mais uma vida, ou para
remunerar descentemente um professor, que salvaria a vida de
mais um traficante de drogas executado pela polícia no futuro.
Relata o evangelista Mateus: indagaram de Jesus quem ha-
veria de se salvar.
Para surpresa dos que o interrogaram, ele não respondeu
que seriam aqueles que vivem batendo no peito e proclamando o
nome de Deus.
Nem disse que seriam aqueles que vão à missa ou ao culto
todos os domingos.
Nem disse que seriam aqueles que se julgam donos da doutri-
na cristã e se arvoram em juízes de seus semelhantes.
Livre-se da maneira que o homem enxerga a Deus e acredite
no seu instinto, na sua moral, no universo, na natureza, no amor
que tem por sua mulher e filhos, na sua índole! Seja bom e não
condene o próximo por este não estar “salvo” e não crer na mes-
ma visão de mundo que tem. Tenha uma personalidade própria e
não uma atribuída pelos demais. Não rotule seu modo interpre-
tar essa maravilha que nos foi presenteada, que enxergamos ao
abrir os olhos e sentimos ao inspirar uma flor e degustamos ao
saborear um alimento.
36
David Vega
Antes de muitos me acusarem de ser um pagão a serviço do
satânico e tudo mais, eu deixo uma frase escrita por Leon Tolstoi:
“Se descreveres o mundo tal como é, não haverá em tuas
palavras senão muitas mentiras e nenhuma verdade”.

Texto inspirado nas cartas agnósticas que fazem


uma junção antológica de Wittgenstein, Kant,
David Hune, Matt Dilahunt e Toni Capilla.

37
o quarto ponteiro
AMÉRICA HISPÂNICA

Desde as Carolinas, até a terra do fogo existia


extensão divina marcada ao norte pelo sol ardente,
e ao sul encoberta por planícies argentinas
foste o refúgio dos condenados,
amaldiçoados pela danação do diabo
que a serviço da “santificação”, pelos padres foram profanados.
Homens rejeitados, que daqui fizeram sua pátria, calados
com ódio ensanguentado o devolveram aos carrascos,
grito dos rebelados!

38
David Vega
Vingança dos conquistados!
Que purificaram seus filhos excluídos,
despidos, caminhando pelo deserto
o deus Cabeça-de-Vaca e seus aliados,
pela “cruz” natureza nasceu,
a cultura da mescla.
Da criança cara de lua e olhos verdes floresta
ganância de Cortez e bravura asteca;
no sangue que hoje corre em suas veias
e furioso berra: “Sou filho de Atahualpa”.
Mas ainda assim, confuso, faz o sinal da cruz
porque ambos: Cristo e Kukulkan, foram filhos da luz!
Essa é uma terra de riquezas traiçoeiras
Belezas que encantam, como as cores das serpentes,
dos pássaros tagarelas e cigarras cantantes.
Édem terrestre transformado em mármore ardente
fez de seu dogma a permissividade, a servidão,
dada por mãos cobertas de sangue
trazidas da África à corrente,
conduzidas pela perdição e maldade,
escuras, pálidas, caboclas, nativas…
Novo mundo da crueldade, que maravilha!
De seu solo fértil eu vim,
E abaixo dele irei sumir, gerando assim,
em seu limpo e esplendoroso céu, uma nova estrela.

39
o quarto ponteiro
HOJE, COMO ONTEM

Olhe para trás e poderá ver


um reflexo sem igual
do que nosso povo é capaz de fazer.

Esta Ibéria que nasceu


protegida pelo Sol
assombrando o mudo hoje, como ontem,
sem jamais perecer.

Resistência ao invasor
que amparado na traição
sua presença sempre quis impor.

Dura luta sem quartel


em Lepanto e na distante Filipinas em Baler
Las Navas de Tolosa
o espírito de toda uma nação
Mil batalhas para libertar
A tirania de Tenochtitlan,
muito sangue a derramar,
mas sempre a vontade de vencer
pensam que tudo se acabou,
mas sabe que não
Voltaremos a atacar!

De novo há de se mostrar
que seguimos sendo igual
valentes e ferozes de uma só vez.

40
David Vega
Sobre a neve ou no mar
no Alcázar ou em Bailén
Covadonga ou Trafalgar.

No império em Ultramar
Onde o sol nunca se pôs
Nosso povo demonstrou
na luta um grande valor
Não parar… até conquistar!

(Inspirado na Ode: “Hoy, como ayer”)

41
o quarto ponteiro
OCIDENTE FEROZ

O sangrento reino da Hungria foi o último bastião


a proteger das hordas de “turbantes” os cristãos;
Praticantes da crueldade e usura…
Foram esses mesmos fanáticos de Alá,
que em 1492 por nossas terras estiveram pela cobiça,
Don Pelayo e El Cid com nossos bravos filhos por 800 anos
salvaram a Península,
Coração do ocidente, da mãe Europa, e foi ali, nos campos
esverdeados da Hungria,
engrandecidos, onde resistiram os bravos,
assim como antes fizeram com os hunos,
mongóis e mercenários asiáticos,
salvadores da opressão dos turcos
varreram a injustiça forasteira
levando as cimitarras à fogueira;
glorioso ocidente imbatível, nos proteja sempre,
baixo suas majestosas bandeiras.

42
David Vega
LUSITÂNIA

Gloriosa Lusitânia,
a ferro e fogo foste construída,
divindades e paganismo são dádivas de seu ventre,
cristianismo é a raiz de sua alma.
Ó Lusitânia, és a mais ocidental das Hispânias
A mais brutal das chamas que ardem, sim
ardem no coração de teus filhos
marcam a terra com sangue e honra,
ressuscita a fúria de Viriato e as peregrinações Endovélicas,
as mais bravas legiões romanas,
as mais lindas rainhas visigóticas,
a maior sabedoria moura e audácia de Fernão de Magalhães,
43
o quarto ponteiro
majestosas caravelas cruzaram os mares
e ramos de tua cultura deixaste,
nações, impérios e potências ultramares.

Filhos, primos e irmãos somos de ti, terra querida,


seguidores de Camões, Gil Vicente, Fernando Pessoa e Saramago,
lágrimas de Amália Rodrigues, e servos leais de sua realeza:
os Bourbons e Bragança.
Somos aqueles que ao olhar a cruz Lusa,
embriagamo-nos de esperança,
guiados pela Santa Sé em Lisboa, e educados
na cidade estudantil de Coimbra,
ó minha Hispânia, minha Ibéria, minha Lusitânia... meu Portugal!
pioneira marítima, um dos primeiros
países-estado do velho continente,
de uma mocidade sem igual, que cala as armas com os cravos
e rosas de seu solo imortal.
Nunca esqueceis suas raízes.
Nós, brasileiros, colonos africanos ou provinciais
que habitam as portas de Macau e Timor Leste, seja qualquer
lusitano, ao redor de sua esfera armilar, nunca esqueceremos,

Salve a mãe pátria, Portugal!

44
David Vega
ATHENA

A representação humana da divindade “sabedoria” não pode-


ria estar em outra mortal que não fosse tu, bela rainha que se
intitula Athena.
Para mim é a intersecção do belo e o culto, tão perfeito e
raro em seres terrestres, que se fez predominar o fenótipo ide-
alizador de Vênus de Mileto, ao invés da concha, saiu da sala de
aula levando a empolgação do “aprender” daquele menino arteiro;
demônio disfarçado sob uma carcaça angelical.
Sem saber havia feito de você a minha inspiração, minha
deusa-guerreira particular que admirei e assim farei por toda a
eternidade. Foi você quem fez desse rapazinho um homem e pelo
resto de meus dias serei grato, lamento as armadilhas do desti-
no, mas me conforta compreender que há diferentes formas de
amar e de todas elas pude desfrutar ao seu lado; com imensa
alegria, através da máscara “amizade” assim continuarei podendo
fazer valer a promessa que jamais ficará ao vento:
Desde sempre te amei,
Para sempre te amarei, Athena.

45
o quarto ponteiro
PROFESSORA DO AMOR

Aos 31 anos ela nunca amou, nenhum outro homem jamais a


fizera cair no abismo de prazer da manifestação animal que ainda
carregamos, chegara às beiradas desse poço profundo, mas foi
comigo que se jogou de mãos dadas. Rendeu longos quatro anos,
ou melhor, séculos, pois para a gente o tempo era aquele que
sonhávamos viver.
A professora de Literatura ainda parecia ser alguém em uma
posição muito distante, sendo eu um moleque magricela de 16 anos
que ainda se deslumbrava com o fato de rodar a cidade inteira de
metrô, aprontando com os amigos. Embora eu fosse seu “subor-
dinado”, nunca me convenceu seu ar elegante e superior de dama
culta diante da classe, era ela a minha Vênus com sabedoria de
Athena, adorava questionar os conceitos para alfinetá-la, ou sair no
meio de alguma outra aula esperando cruzar com ela no corredor.
Escondíamos uma paixão que era barrada pelo senso comum
da sociedade, pela normalidade de relacionamentos e uniformida-
de de idades, mas era algo tão intenso, que não pode durar, logo
rompeu as grades da consciência e se entregou ao chamado do
coração que parecia gritar e me fazer perder o chão com aquela
meiga professora do colégio.
Às escuras, iniciamos um relacionamento, uma história que
parece tirada de um romance épico, igual os que ela nos ensi-
nava. A encontrava nos fins de semana em um kit net antigo da
Marechal Deodoro, e hipócritas durante a semana mostrávamos
nossos sorrisos de cúmplices quando entrava na sala.
46
David Vega
— Bom dia, Don Quixote — me provocava.

— Bom dia, Dulcinéia — retrucava.

Chega ser impossível explicar com as palavras que compõem


o vocabulário humano nossa reciprocidade exagerada, quase
inexistente se tento comparar a uma paixão comum. Fazíamos
amor da hora que acordávamos até o anoitecer, e quando não
estávamos unidos em um só corpo, durante o banho eu a ensa-
boava, deslizava minhas mãos para os lugares mais eloquentes
de minha sanidade, que ao lado dela, estava ameaçada por uma
loucura psicopata, tudo aquilo que é possível numa relação já não
bastava, queria eu entrar inteiro dentro de seu corpo esplêndido
e explorar cada espaço, até chegar à sua mente e implantar de
uma vez a ideia de que a amava mais do que a mim próprio.

Não sobrava tempo nem de realizar algum programa comum,


como costumam os demais casais, poucas vezes fomos ao cine-
ma, se viajávamos, quase deixávamos de ir aos passeios típicos,
não que não quiséssemos, mas era impossível largar um do ou-
tro, passávamos o dia inteiro na cama se amando, igual nas mui-
tas vezes naquele colchão rasgado, vendo o lençol improvisado de
cortina no nosso ninho de amor. Para a gente, ali era um palácio,
mesmo tendo uma estação de trem do subúrbio e prédios antigos
como paisagem, ouvindo o ruído do encanamento velho ou o ge-
mido de algum outro casal no apartamento vizinho e a torneira do
chuveiro dando choque ao tentar ligá-lo; eu era capaz de largar o
conforto do lar e ir morar ali com ela, que por vezes chorava após
se entregar ao gozo tão sincero de um amor verdadeiro.

Esse amor lírico me assombra até os dias atuais com porções


de delírios raivosos, nas vezes que a sonho perder para outro,
seguido de surtos ainda mais raivosos, quando desperto e me de-
47
o quarto ponteiro
paro com a realidade opressora, que em um momento de minha
vida me fez distanciar daquela que nenhum outro em pleno juízo
ousaria contrariar. Devido causas naturais e meio óbvias da es-
túpida natureza humana, de tentar “viver” uma suposta felicidade
imposta pela sociedade, que muita das vezes não é a sua própria,
eu fugi, corri para longe e abandonei a única mulher que me amou
de verdade até então, tirando minha própria mãe.
Troquei-a pela voz do diabo que me induzia explorar horizontes
dessa vida, que seria impossível ao lado dela; eu precisava mo-
chilar e conquistar o mundo, quebrar a cara, me levantar, tentar
de novo, e ela pagar a conta de água e luz no fim do mês. Quando
se é jovem, as coisas comuns de uma vida segura, de uma car-
reira profissional, não são de relevância, minha alma de cigano
precisava passar fome e frio em algum gueto da Europa, ou ser
pisoteada na America do Norte.
Após acordar da inocência e iniciar na vida madura, percebi o
quanto fui feliz e o como estava errado e certo de partir, me per-
gunto como teria sido se eu assim não tivesse feito; impossível
saber a resposta, mas ainda falo com ela em meus sonhos, igual
quando tocava lira por entre as flores e me beijava naquele lindo
dia de sol, quando a vi pela primeira vez.
Vejo em qualquer outra mulher sua face, bem de relance, e
sinto às vezes em qualquer outro lugar que exploro a sua presen-
ça, que me faz cochichar baixinho, pra mim mesmo:

— Bom dia, Don Quixote...

48
David Vega
DESABAFO DE UM EDUCADOR

“No Brasil, o fundo do poço é apenas uma etapa.”


Veríssimo

Em um período da minha vida me aventurei a ser professor,


confesso que não foi lá dos piores ofícios que já tive (tirando o
salário). E não podia deixar de incluir uma nota que seja, nesse
caldeirão de memórias, algo bem clichê e repetitivo mesmo, que
ouvimos em conversas paralelas no ônibus ou na fila do banco.

Fato é que na Terra Brasilis, nunca existiu e não existirá uma


política de desenvolvimento efetiva!

Não podemos colocar o carro diante dos bois, tomemos de


exemplo outras pátrias que antes de investir em capital fixo,
priorizaram a mão de obra qualificando-a. Educação competen-
te e eficaz, não apenas instalações que se perdem no vazio do
conteúdo. Não saímos da merda porque sempre se deu mais im-
portância para o fato de se obter estatísticas elevadas; muitas
até que não condizem com a realidade, do que o resultado em si.
De que adianta não sei quantos mil novos formandos, se todos
juntos não dão um realmente “modelado” e “instruído”. É engra-
çado ver a quantidade de recepcionistas, garçons, garis, que
possuem formação acadêmica... Ninguém parece ter senso críti-
co ultimamente, são apenas pau mandados que realizam alguma
função, sem nem saber para que serve, e sem nem perguntar
ao menos, “pra que/por que”. Digo isso me referindo a todas as
áreas e classes, desde os operários ao diretor-chefe de compras
49
o quarto ponteiro
de alguma multinacional, que se tiver de fazer algo que foge do
seu padrão, não consegue avançar em nenhum passo.
Vivemos em um país que historicamente nunca valorizou o
saber; a cultura é pisoteada pela abundante estupidez materia-
lista de muitos seres invertebrados que acham que ter valor é
ocupar uma certa posição na sociedade, mesmo sem possuir
capacidade para tal função. Uma sociedade débil onde é bonito
ser feio. Digo: “A felicidade não consiste em ter tudo,
mas sim, saber aproveitar aquilo de bom que as coi-
sas te proporcionam”.
Esse é um país de seres que podem ser comparados aos
animais, o viver, para a grande população brasileira, é apenas se
alimentar e dormir, para os que possuem condições, acrescesse
o lazer, não entendem que existem ideais ou paixões intangíveis
que estão muito além do “se satisfazer” a um curto prazo.
Quando estive na Europa, desde o taxista, o porteiro, o faxi-
neiro ao Primeiro Ministro, parece haver um sentimento único
que valoriza sua cultura, sua língua, preserva sua história, e não
me venha dizer que nossa realidade é fruto da opressão colonia-
lista e blábláblá, porque a Austrália, até mesmo a Argentina, o
Uruguai, o Chile, as comunidades interioranas do Rio Grande do
Sul, Santa Catarina e Paraná, bem como era nossa antiga São
Paulo, desmentem o mito de que estamos atolados em bosta
devido um erro histórico de 500 anos atrás.
Sob a opressão do Império Romano, o velho mundo foi esma-
gado por milênios, durante os conflitos mundiais do século XX
não sobrou um edifício em pé; estamos falando de poucas déca-
das atrás e não meio milênio de descaso, corrupção e violação
pela infinita arrogância de quem possui algum cargo administra-
tivo nesse país, do ódio mortal das fileiras de carneiros, ou me-
lhor, porcos e hienas que compõem as massas, à uma suposta
50
David Vega
“elite” que nada mais faz do que acordar as 5 da manhã, ralar o
dia todo e deixar de viver pra economizar uns trocados, prevendo
os dias terríveis da incerteza do amanhã, uma vez que são aban-
donados pela política pública. Uns 10% desse país trabalha para
sustentar os outros 90% que só reclamam e não se mexem,
esperando que tudo caia do céu. Se tem uma classe odiada por
aqui, é a classe média, enquanto já se provou em outras partes
do globo que os melhores países são aqueles que fortaleceram a
classe operária, qualificando-a, e não os que possuem um abis-
mo entre o topo e a base da pirâmide.
Uma minoria insignificante, porém de peso, herda as gordas
aposentadorias dos bisavós e mama uma vida inteira o suor de
muitos que trabalham e sustentam esse “projeto de nação”, essa
tentativa de se criar um “povo”, que resultou em seres alienígenas
que trocam tudo na vida por 5 minutos de risada e embriaguez,
que não ensinam seus filhos a ganharem o pão, mas a estuprar,
matar, se prostituir, roubar, mentir e omitir, ferindo a comunidade
e a moral inteira, desse quintal do terceiro mundo. Os únicos
culpados desse caos que nos rodeia, somos nós mesmos, pelo
pacifismo, pelo descaso e negação, de não querer ver o que está
acontecendo, pelo individualismo aterrorizador que possuímos,
ao fingir não ver a desgraça do nosso vizinho, rezando para que
não nos aconteça o mesmo.
Bom, o ciclo não muda, e se continuarmos assim, não irá
mudar por um bom tempo, na sala de aula, o professor finge que
ensina, o aluno finge que aprende.
Na vida, o funcionário finge que trabalha, e o empregador,
que paga.

51
o quarto ponteiro
AO MESTRE COM CARINHO

Lembro-me daquele velho professor de mãos trêmulas e


barba por fazer, com paletó de linho remendado, endividado
por financiar do próprio bolso os cenários históricos que me
transportava a uma dimensão paralela, uma espécie de máquina
do tempo, muito melhor do que qualquer estúdio de Hollywood,
incrementado com seu discurso mágico na sala de aula da
humilde escola do bairro, junto dos efeitos especiais da nossa
imaginação, ali reinava o improviso, a tampa da lata de lixo
virava escudo, o jornal nosso elmo, e a velha antena de rádio que
utilizava nas aulas, chegou a ser a Tizona, espada de El Cid, ou
até mesmo a Escalibur do rei Arthur.

Fiquei sabendo que estava em uma depressão profunda por


não conseguir despertar na juventude seu ânimo de nobre sol-
dado do conhecimento, uma mocidade que ele tanto sonhou,
simplesmente matou a vida que o velho mestre tanto se de-
dicou, por insistirem continuar no supérfluo. Afundou-se no
aguardente junto de mais uma meia dúzia de indigentes, inve-
jando-os, por serem livres da consciência do “pecado” opressor
da indiferença.

Seus poucos alunos quando crianças o amavam, mas hoje


estão ocupados demais para lembrarem o esforço que fizera,
a “maturidade”, o ingresso na vida útil os mudara da água para
o vinho. “A juventude está morta, ninguém mais sonha” — dizia
— Temos uma juventude composta de zumbis descerebrados.
52
David Vega
Maldito velho desdentado! Todos os professores são bas-
tardos! De que adiantou suas aulas ridículas, seus teatrinhos
amadores, seu discurso perigosíssimo que nos fazia sonhar e
acreditar na humanidade? O seu amor ao conhecimento?
Devo concordar em partes, no fracasso de suas palavras,
carregadas de entusiasmo e honestidade, de um tom inocen-
te, sincero, que nos deram confiança e o privilégio de nos
tornarmos sonhadores, afastando-nos do êxito da sociedade
contemporânea.
Aquele maldito plantou uma semente em nosso interior, inde-
sejável para a bestialidade humana, pelo pragmatismo de uma
sociedade baseada nas leis de mercado, sem nem olhar para
dentro do ser humano. Graças a você, mestre, hoje eu sou um
excluído, moral e socialmente, devido à sua lavagem cerebral, e
furioso estou a te cobrar:

— Você está me devendo muito, cretino!

Deve por não me ensinar a mentir e levar vantagem, por me


fazer acreditar nas pessoas e em seus potenciais, idealizando
um futuro para a humanidade, seu esforço complicou minha vida
quando hoje me pego nos momentos de ira em que vomito críti-
cas construtivas, ou quando me ameaçam por eu “saber demais”,
conhecendo meus próprios direitos, por ser rejeitado na socie-
dade quando me recuso respeitar uma lei baseada em pilares
anticonstitucionais que nos rouba a liberdade, por eu não ser
mais um entregue a multidão hipnotizada que se contenta com o
carro do ano e a TV a cabo, por eu desejar ser alienado passando
por cima de todos meus conceitos, acreditando evitar o doloroso
sofrimento que paira sobre os homens diferentes, por eu ter me
encantado com sua matéria na escola e descobrir que nada adian-
ta encher os olhos de lágrimas ouvindo alguma canção de nossos
53
o quarto ponteiro
antepassados, se a carteira vazia faz de mim um ridicularizado
idealista, um Policarpo Quaresma da “era digital”.
Ao escrever essas linhas, esmurro a mesa, grito de ódio,
desejo vingança lembrando seu carisma, sua doce expressão
de amigo, e recebo outro castigo que mesmo distante está me
aplicando: o reconhecimento frente meu orgulho, sufocado de
emoção formulo sua dívida para com a geração que ensinastes:
Você nos deve por nos tornar verdadeiros homens de
bem. E quem me dera se o mundo fosse composto de
bastardos assim.

Muito obrigado!

Ao mestre, com carinho.

54
David Vega
LABORATÓRIO PARA UTOPIA

Um professor de economia na universidade Texas Tech disse


que ele nunca reprovou um só aluno antes, mas tinha, uma vez,
reprovado uma classe inteira.
Esta classe em particular tinha insistido que o socialismo
realmente funcionava: ninguém seria pobre e ninguém seria rico,
tudo seria igualitário e “justo”.
O professor então disse: — Ok, vamos fazer um experimento
socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas
notas nas provas.
Todas as notas seriam concedidas com base na média da
classe, e, portanto, seriam “justas”. Isso quis dizer que todos
receberiam as mesmas notas, o que significou que ninguém
seria reprovado. Isso também quis dizer, claro, que ninguém
receberia um “A”...
Depois que a média das primeiras provas foram confirma-
das, todos receberam “B”. Quem estudou com dedicação ficou
indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito
felizes com o resultado.
Quando a segunda prova foi aplicada, os preguiçosos es-
tudaram ainda menos — eles esperavam tirar notas boas de
qualquer forma. Aqueles que tinham estudado bastante no início
resolveram que eles também se aproveitariam do trem da ale-
gria das notas. Portanto, agindo contra suas tendências, eles
copiaram os hábitos dos preguiçosos. Como um resultado, a
segunda média das provas foi “D”. E ninguém gostou.
55
o quarto ponteiro
Depois da terceira prova, a média geral foi um “F”.
As notas não voltaram a patamares mais altos, mas as de-
savenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões pas-
saram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe. A
busca por “justiça” dos alunos tinha sido a principal causa das
reclamações, inimizades e senso de injustiça que passaram a
fazer parte daquela turma. No final das contas, ninguém queria
mais estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os
alunos repetiram o ano... Para sua total surpresa.
O professor explicou que o experimento socialista tinha falha-
do porque ele foi baseado no menor esforço possível da parte de
seus participantes. Preguiça e mágoas foi seu resultado. Sempre
haveria fracasso na situação a partir da qual o experimento tinha
começado.
“Quando a recompensa é grande”, ele disse, “o esforço pelo
sucesso é grande, pelo menos para alguns de nós... Mas quando
o governo elimina recompensas ao tirar as coisas dos outros sem
seu consentimento para dar aos outros que não batalharam, o
fracasso será inevitável.”
“É impossível levar o pobre à prosperidade através de
legislações que punem os ricos pela prosperidade. Cada
pessoa que recebe sem trabalhar, outra pessoa deve
trabalhar sem receber. Isso faz metade da população
entender que não precisa trabalhar, pois a outra metade
irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que
não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira
metade, então chegamos ao começo do fim de uma
nação. É impossível multiplicar riqueza a dividindo.”

Portal Educacional de Sociologia Paulista

56
David Vega
CARTA DE UM MORTAL À DEUSA MULHER

Doces bocas de mel, delicada e macia a pele que te abriga,

imensidão de traços e formas que modelam um universo de


esculturas divinas.

Olhares profundos, reluzente brilho imortal do paraíso.

Seus cabelos são cascatas do ouro mais puro, ou castanhas


que abrigam o fruto do amor.

És tu mulher, criação sagrada, guardiãs de Zeus, deusas da


beleza e da sabedoria, rainhas Valquírias no Valhalla, grandes e
negros olhos de princesas persas, por detrás de véus de seda,
seja em qual cultura for, qualquer lugar desse globo, martelam e
judiam da simples e monótona vida de nós mortais.

Mas que honra ser um mortal! E poder apreciar seu conjunto,


ó senhoras amazonas. É um pecado não te amar, mulher! Repúdio
e desprezo para quem ignora sua presença no plano terrestre.
Vós sois a essência que a vida precisa.

Tu geras a vida que se manifesta por gerações milenares,


sempre destinadas a te louvar. Deusas incas da Fertilidade,
Damas ibéricas de Elche, Mulher Mãe, Esposa, Irmã... MULHER.

És a própria poesia parnasiana, ou a paz inigualável clérica;


Afrodite, Vênus, Cleópatra, Virgem Maria, Joana D’Arc, Isabel de
Castilha e tantas outras que escreveram nossa História e conti-
nuam registrar nosso legado com a mais alta honra, formando
um feroz incêndio que chamo “viver”.
57
o quarto ponteiro
Vem de ti nosso alimento, antes mesmo do ar penetrar em
nosso interior. Que privilegiados somos por poder te amar!
Em seu corpo esplêndido, deliramos ao percorrer as curvas
que te formam, embriagamo-nos com sua essência vitalícia que
afoga a fraca estrutura de nós mortais. Queremos estar abri-
gados em teus seios repletos de amor, compaixão, carinho e
compreensão, e quem sabe poder desfrutar de sua seiva mesmo
após a morte, pois o paraíso, és tu, MULHER!
Não há vitória gloriosa ou derrota humilhante, sem o
testemunho de uma mulher.

58
David Vega
CEGUEIRA

Como é espantosa a cegueira que paira sobre a humanida-


de, saliente de uma maneira jamais vista nesses anos de minha
época; violenta, castigando até os homens que possuem um olho
apenas; visão unilateral dos fatos, lançados pelas lentes de seres
que diria não apenas “senhores teorias de um único tiro”, mas
que assim agem com finalidades específicas.
Desde muito cedo atualmente estamos desenvolvendo cata-
rata, doença típica da velhice. Ah! Apenas visivelmente ela se
nota na velhice meu colega, mas a nossa retina é encoberta de
mesmice e alienação por décadas! Não se preocupem, a geração
de nossos avós também foi cega, bem como as anteriores, até
chegar na época de Júlio César.
A diferença é que naqueles tempos o mal da cegueira não
tinha cura, e mesmo que alguém encontrasse, este receberia
severa punição.
Tolice pensar que nos dias de hoje a cegueira é combatida. O
colírio existe, o problema é que muitos não utilizam e preferem
se esconder por detrás de óculos escuros, fingindo serem cegos.
Quem tem o poder de não se infectar pela cegueira, adotou um
método um tanto estratégico, dizem combater aquela cegueira
da geração de nossos antepassados, mas distribuem “tapa-
olhos” em prol da visão que lhes interessa, no máximo, oferecem
a bengala, para o cão guia devemos nos virar.
Todos passaram a “olhar”, mas jamais “ver”. Afirmo nobres
companheiros, que se eu pudesse transplantar a minha córnea
59
o quarto ponteiro
para uma grande maioria, assim o faria, como Odin, ao entregar
seu olho para humanidade, presenteando-a com a sabedoria.
Quando o anseio da alma se sobrepor, nenhuma lágrima sairá
de nossos olhos, já vai ser tarde demais, nem mesmo transplante
irá adiantar, pois na terra da cegueira, aquele rei que tinha um
olho deixou-se matar, e o “olho que tudo vê”, raios de fogo pela
população passou a despejar.

60
David Vega
JUVENTUDE DE FERRO

Incrível juventude indomável, marcada pelos rastros das botas


feitos na lama, e pelos pendões estampados na pele,
nutridores do amor e ódio incondicional,
justiceiros na luta do bem contra o mal,
jamais se rebelaram sem causa, a rebelião em si, já é uma causa.

61
o quarto ponteiro
Por mais que o motivo não seja claro, vós sim sois humanos de
verdade, sem condutas ou máscara,
teu camarada repousa detrás das “grades democráticas”,
teu coração pulsa e gritas frente à politicalha!
GRITE! O SILÊNCIO MATA!

Foda-se os hipócritas humanistas de terno e gravata!


Louvemos a cerveja, a gargalhada e a bofetada!
Sejamos viris, sempre jovens da classe operária,
cabelos ao vento, moicanos ou cabeças raspadas,
pois quem nasceu para ser guerreiro, no escritório não fica sentado,
antes morto ao teu lado, do que traidor milionário.
Mas pense muito, colega revolucionário,
muitos estão a espreitá-lo,
a alienação é pelo sistema desejado;
confiamos em ti, jovem de coração bravo,
que sua honra seja a fidelidade;
a pátria, a família, a justiça... a sua vontade,
a revolta a sua verdade!

Não condenem a juventude de ferro, pois de tempos em tempos,


Será ela que trará a liberdade.

62
David Vega
FLOR DE “LINS”

Maldita certeza que o destino voltou a pregar sobre minha


“gana”, meu anseio de olhar de menino que crê, sim, crê ainda
no amor mesmo distante de consegui-lo. Mesmo tendo empres-
tado chama de sua verdade, naquele quarto de motel barato
da “Lins de Vasconcelos”, que ardeu por apenas uma semana.
Ah! Mas que belos momentos tivemos, se tudo fosse como um
filme, eu voltaria a repeti-lo incansavelmente.

Foste tu bela amiga, com seu carinho tão nobre, que devol-
veu a imaginação inocente do quixotesco viajante, perdida após
o amadurecimento no bombardeio da vida real, amordaçastes
minhas cansativas palavras em tese de acadêmico entediante
com um “cala boca” sensual, seguido de um beijo que mais pare-
ceu um poema, escrito com a seiva e o cheiro esplêndido de teu
conjunto ardente, nas noites que ao seu lado conheci o paraíso.

Por que tem que ser assim? Quando partistes foi como ves-
tir uma fantasia da hipocrisia, sorria para ti vendo seu comboio
se distanciar e gritava por dentro. Só de pensar que voltará a
ser de outro, deitado na cama, deixa marcas de açoite quando
desperto e encaro a realidade. Mas não se engane linda Flor de
“Lins”, como em um conto idealizo buscar-te, roubá-la e fugir
para as mais distantes planícies que habitam minha imagina-
ção, para os lugares exóticos ao redor do mundo que sonhamos
conhecer, onde poderei me acalmar por sempre, assim como
quando sinto seu cheiro na camisa que esquecestes.
63
o quarto ponteiro
Certeza? Sei que tivemos por frações de segundos, por si-
lêncios súbitos, mas ainda irei reverter essa realidade cruel,
fazendo um amor eterno, uma amizade verdadeira, um nome
que martela...
Camila, Camila, Camila...

64
David Vega
MARROCOS

Certa vez estava fumando um cigarro no parque, sem com-


promissos ou pensamentos, aí vi um casal de crianças que
brigava por um saco de balas de juba; a mãe chamava a aten-
ção desses dois irmãos que pareciam se odiar nesse momento
de fúria. O menino loirinho puxava o saco para seu lado e a
bonequinha de cachinhos gritava com o rosto todo vermelho
puxando-o para o seu. Fiquei ali imóvel esperando ver no que
dava e como previsto, o saco rasgou espalhando as balas de
juba para todos os cantos, as crianças choravam e o chão pas-
sou a ser uma salada de cores.
Nunca me esqueci dessa imagem, hoje a relaciono com uma
gravura que ilustrava meu livro de História, ainda no ginásio.
O cartaz era da época do colonialismo na África, já se aproxi-
mando da data da 1ª Grande Guerra; nela, uma lebre tinha cada
pata sendo puxada para um canto com o mapa da Europa por
detrás. Um homem representando a Espanha ficava com as ore-
lhas, as patas dianteiras eram puxadas para o lado da França, e
as traseiras se esticavam até a Alemanha. Essa charge repre-
sentava a situação do Marrocos, no caso, a “lebre”, na época.
Aquela nação brava, devido sua localização geográfica, foi pal-
co de diversas batalhas entre povos que tentaram tê-la sobre seu
controle. Desde fenícios, persas e berberes, legiões romanas e
cartaginesas em guerras púnicas, invasores visigodos e suevos...
As areias quentes cobrem as ruínas de pedra sob um sol
escaldante que se estende até o Saara, quando tropas de Abd-
65
o quarto ponteiro
El-Krim conquistaram os saaruís, unificando as tribos da Áfri-
ca branca. Nem mesmo a Legião Estrangeira, nem o grande
poder de Cristo foram páreos para os filhos de Alá.
Derrotados em terras estrangeiras pela opressão da Inqui-
sição, desde a Ibéria às portas das ilhas italianas do mediterrâ-
neo, muito de seus costumes e cultura deixaram, o encanto da
mouraria no Algarve e a melancolia dos gitanos pelas noites
de cantoria da mulher andaluza, as diferentes nações/tribos
marroquinas nunca deixaram se dominar em casa e hoje essas
grandes potências europeias que a disputaram choram feito
aquelas duas crianças que vi no parque, a ONU chama a aten-
ção como aquela mãe desesperada mediando o conflito de seus
filhos e seus clãs de imigrantes se encontram pelos quatro can-
tos do planeta, mesclando seus rostos amorenados entre povos
de todas as cores, feito aquelas balinhas de juba espalhadas.

66
David Vega
INDIVIDUALISMO PARTE 2

Estava aquele velho barrigudo escutando o noticiário das 8h,


em sua poltrona engordurada e com restos de pipoca entre a
divisória das almofadas.
“Cerca de 30 civis foram mortos por um erro de arti-
lharia norte-americana no Iraque, somando com as bai-
xas militares, os mortos em Bagdad só nesse mês de
março já ultrapassaram a cifra dos 50”. — anunciava a
repórter.

— Bom, são apenas números! — pensou o sedentário homem


em frente ao televisor. Abriu mais uma lata de cerveja.

“Os sobreviventes se amontoam nas filas de desabri-


gados, são centenas de crianças órfãs sem leite, de-
zenas de homens mutilados, faltam leitos em hospitais
e segundo o embaixador da ONU na cidade, eles estão
proibidos de deixar as fronteiras (...)”

— Pois é... A situação está complicada, mas ainda assim


não é o fim do mundo, eles terão outra chance, isso aí é apenas
estatística mal feita — dizia a si mesmo o acomodado senhor,
enquanto levava a boca sua cerveja estupidamente gelada.

“Economistas dizem que devido o ataque, o preço


do galão de petróleo disparou, subiu cerca de 20% do
previsto, a gasolina e o diesel irão aumentar drastica-
mente pela terceira vez esse ano”.
67
o quarto ponteiro
Subitamente, o velho espirrou cerveja para todos os cantos e
não parava de tossir desesperadamente.

— Amor, você está bem? — perguntou sua esposa de avental.

E ele esbravejou sedento de ódio:

— Isso é um absurdo! Realmente estamos no fim dos tempos!

68
David Vega
O CAMINHONEIRO DO INFINITO

Pisava forte no acelerador aquele gordo barbudo que tinha


o braço musculoso igual ao do Silvester Stallone, com a tatua-
gem de coração e nele a frase “Amor de Mãe” numa faixa que
o rodeava.

No rádio tocava uma saudosa moda de viola de Tonico e Tino-


co que o fazia lembrar do gosto da feijoada de sábado que sua
mãezinha fazia, ainda lá em Cuiabá, e quando o vizinho chegava
para prosear com seu pai, aproveitando-se do horário do almo-
ço, sempre acabava sendo convidado pra ficar.

Sua Scanea havia atravessado pontes suspensas por cordas


e desfiladeiros por onde passavam águas enfurecidas, abria tri-
lhas entre as mais densas selvas e transportava todo tipo de
materiais: pedras, cascalho, terra vermelha do plantio, tijolos,
café, soja e carvão. Naquela cabine diversos baús já se conecta-
ram, ela fez também o papel de uma locomotiva para transportar
batalhões de soldados armados até os dentes nos tempos de
guerra, nos tempos de paz levou cavalos majestosos, dinossau-
ros, viaturas de polícia, animais abatidos do frigorífico, na cons-
trução teve uma betoneira que girava fazendo cimento e chegou
até ser blindada para ser usada como carro forte.

Muitos super-heróis já guiaram aquele volante, o Capitão


América quando ia combater pela justiça na cidade repleta de
gângsters e o Aquaman quando ele se transformava em subma-
rino na banheira. Não importava, tudo era válido para o veículo
69
o quarto ponteiro
que corria mais rápido que um guepardo e realizava qualquer
transporte incrivelmente sempre dentro do prazo, pontual e tão
eficiente, que subestimou a utilidade de um avião, pois também
ia de um país a outro em frações de segundos, para aqueles que
podem achar um absurdo, acreditem ou não, esse caminhão até
a órbita terrestre atravessara, flutuando no espaço transpor-
tou de tudo que possa existir para as galáxias mais distantes,
mesmo estando o homem sem descobri-las ainda, mapeá-las ou
fincarem placas pelo caminho indicando a quilometragem.
Ele era magnífico, voava, nunca acabava a gasolina, mesmo
com sua estrutura sendo feita de madeira e suas rodas de
plástico, ganhou vários campeonatos de fórmula truck, quando
encontrava outro veículo podia se comunicar, em todos idiomas
falados pelo ser humano! Participando de diálogos sem limites,
onde a realidade não se interferia ou a imposição da professora
nas quintas-feiras, quando era o dia das crianças levarem seus
brinquedos na escola.
Aquele condutor robusto e concentrado na viagem, cuspia
através da janela ao lado do volante quando estava em veloci-
dade, igual Pedro e Bino no seriado da TV, ou então, comprava
uma bebida do vendedor ambulante no trânsito infernal de vés-
pera de feriado, assim como seu pai fazia quando o levava para
viajar, ainda garoto.
Abastecia em postos, que pareciam uma cidade, mas, na
verdade, o que mais encantava eram as viagens à noite, rodeado
de luzes pela rodovia, o barulho de ar comprimido do freio e as
rodas suspensas que engrandeciam o coração daquele caminho-
neiro, a grandiosidade daquele meio de transporte o realizava,
nada mais importava, nem mesmo o banho ou a fome, o rangido
do motor que imaginava era reproduzido com a boca, o ensurde-
cendo, a ponto de quase não ouvir o chamado:
70
David Vega
— Carlinhos! Vem comer, tá na mesa!

Como em um passe de mágica, aquele caminhoneiro barbudo


de quase dois metros quadrados era um garoto mirradinho dos
tênis desamarrados. Deixou o caminhão de madeira com terra
do jardim na carroceria por cima dos soldadinhos verdes espa-
lhados pela grama. Teve que interromper uma missão secreta
que decidiria o futuro da humanidade para almoçar. Desapontado
chegou à mesa, a mãe mandou se lavar enquanto servia uma
porção de feijoada generosa para aquele vizinho enxerido que
surpreso lhe perguntou:

— Olá rapazinho! O que vai ser quando crescer?

Carlinhos estava mais do que certo.

— Caminhoneiro.

71
o quarto ponteiro
DAMA DE NEGRO

Sempre que por algum motivo vou ao bairro da Bela Vista, sinto
na garganta uma leve lembrança do pigarro matinal que eu cuspia
após uma noite de viagens imaculadas ao lado de uma musa um
tanto esquizofrênica, que me encantava com seu jeito de encarar
a vida, andando de bairro em bairro na boêmia parte antiga da
cidade paulistana, nas cantinas italianas do Bixiga ou nas vilas de
casas da zona leste. Conheci todos os tipos de pulgueiros e mo-
quifos na calada da madrugada, ao lado dessa carcamana que
também tinha um pezinho na cozinha de nativo: era ela a mescla
de uma índia-cabocla com um napolitano; produzindo aquela moça
linda de olhos verdes, cabelos negros lisos e pele cor de oliva.
Dificultava abrir a janela de pino enferrujado e pitar meu fumo de
corda debruçado no parapeito, vendo seu filho Bartollo de seis anos
jogar bola com a molecada, descalços, sujos e felizes, enquanto a
bela dama de vestido negro, com seu ar gótico, acariciava minhas
partes íntimas. Com ela, eu realizei minhas mais audaciosas e
exóticas fantasias, aprendi a controlar um envolvimento natural,
devido o carinho mútuo, que podia ver em seus olhos misteriosos,
pisoteado pelo seu gênio forte e insistência inexplicável que
tínhamos em jamais assumir nossa relação.

— Você é um caso, meu companheiro “porção única”, depois não


me venha com cobrança. — Me dizia baixinho no ouvido mordendo
minha orelha, que tortura! — Os homens não valem uma pinga —
continuava — Mas gosto de você por ser novinho, vejo a empolgação
e a sinceridade que muitos depois de ganharem dinheiro esquecem.
72
David Vega
Calado eu não podia me defender, tanto eu tinha a lhe dizer,
mas me sentia impotente em desabafar meus sentimentos,
com medo de estragar o que era tão perfeito. Amiga, mãe e
irmã ela havia sido, cuidava de mim em todos os aspectos e
reconhecia que meu carinho por seu filho Bartollo ultrapassa-
va a cifra de uns tantos machões que tentaram tomá-la. Nem
mesmo o pai do garoto aguentava aquele coração selvagem,
tão puro e leal à vida, tão livre, tornando sua passagem nessa
nossa existência uma epopeia, desmentindo os que insistem
rotular o que muitas vezes nem precisa ser comentado: o cora-
ção era sua verdade, o prazer sua conduta.

Ninguém jamais a segurou, eu cheguei perto, competindo


com homens de classe alta, doutorados e de vidas estáveis, que
podiam proporcionar a vida dos sonhos de qualquer uma, sendo
eles da mesma idade da minha musa, que se aproximava dos 30
enquanto eu acabava de sair da “crise dos 21”. Que ingênuos to-
dos! Não se podia compará-la às demais, ela preferia caminhar
quilômetros admirando a caótica paisagem urbana e filosofando
sobre o comportamento humano, do que sentar em algum res-
taurante de luxo, ela preferia correr riscos se aventurando em
relações sexuais loucas e ardentes nos locais públicos, do que
ter aquela vidinha rotineira; trocava qualquer joia por uma boa
sessão de risadas falando mal dos demais, isso me deslum-
brava, pois minha inocência e fulgor de jovem sonhador, minha
simplicidade de garoto andarilho, sem nenhum puto no bolso,
era mais valorizada do que qualquer bem material e posição
profissional dos homens “institucionalizados”.

— A vida é feita de momentos mágicos abstratos e im-


previsíveis, não de planos e cativeiros da matéria — sorria
enquanto tragava de um aguardente, com as pernas sensu-
73
o quarto ponteiro
ais à mostra, seu vestido preto todo amarrotado, sentada na
calçada, com a maquiagem negra borrada, pronunciando sua
apaixonada risada sincera.

Ela foi o carma da minha vida, que me sequestrava da moral


legalista, do senso comum, foi a causadora de uma rebelião
interna entre duas vontades que tentavam se sobrepor; um
lado sério que esperava engajar-se em uma carreira de futuro,
e outro livre, que trocaria todas oportunidades para viver de
filosofia e sexo, nas cantorias perambulando com a pele pálida
de madrugar, vagando sem rumo abrigado por luzes de neon;
éramos sós, mas nos restava uma enorme cumplicidade, sem-
pre fomos unidos pela desilusão. Ensinei-a ser séria quando
necessário e a sorrir o resto do tempo, e me disse que se
pegava sorrindo o tempo todo.
O cheiro de mofo das pensões baratas ainda não saiu de mi-
nhas narinas, se intensifica enquanto termino de escrever esse
parágrafo, me vem à memória aqueles olhos que incendiavam
minhas noites, seu generoso corpo de formas inexistentes quase,
seu suspiro profundo entregue ao prazer idealizado por qualquer
um que queira amar de verdade, sua fidelidade selvagem de moça
índia jamais domesticada, seu gênio forte de italiano carrancu-
do... Suas lágrimas ao me abraçar, quando depois de um longo
período que me distanciei entrei em uma cantina napolitana e ali a
vi, casada, triste, passando pano em uma mesa, naquela vidinha
tão comum que a fez entregar seu Bartollo a um futuro de certe-
zas, e certificar-se de sua antiga intuição:
“A felicidade se vai, do momento que os planos se sobrepõem
sua verdade”.

74
David Vega
OS INVENCÍVEIS

“A amizade perfeita é a dos homens que são bons e


afins na virtude, pois esses desejam igualmente bem um
ao outro enquanto bons, e são bons em si mesmos. Ora,
os que desejam bem aos seus amigos por eles mesmos
são os mais verdadeiramente amigos, porque o fazem
em razão da sua própria natureza e não acidentalmente”.
Aristóteles

— Consolo de cu é rola! — disse Helder à professora de


Ética, a velha Sra. Maria Luiza de uns 70 anos que o mandou
para fora da aula.

O amigo magricela saiu às gargalhadas, a classe ficou es-


pantada, as meninas metidas incomodadas e o restante do
nosso grupo às risadas. Foi aquela senhorinha de óculos e
1,50m de altura que nos amaldiçoou nos anos do colégio, por
estarmos fora do seu regulamento de ensino. Naquela aula ela
tentou demonstrar que a chave para resolver os problemas era
seguir as ordens dos superiores, quaisquer que fossem, ensi-
nou que a riqueza ou recompensa vem para aqueles que res-
peitam os conceitos, repousam a faca ao lado direito do prato
na hora da refeição e conseguem segurar a risada na missa.
Contraditória, estando ela toda a vida exercendo a mesma fun-
ção, que era justamente ensinar sobre aqueles que realizaram
grandes feitos, em outras palavras: quebraram as regras.
A frase de meu colega gerou quase sua expulsão e uma reunião
do diretor com seus pais.
75
o quarto ponteiro
Até hoje às vezes nos reunimos em alguma noite de
sábado, quando a agenda permite, e relembramos aqueles
tempos. Comparecem Danilo, Rafinha, Pires, Feufo, Demo,
nosso pobre amigo humilhado e mais uns tantos que por vezes
nos encontram.

Com os camaradas daquela antiga “gangue”, grandiosa e in-


vencível feito os topetes e as tatuagens que escondíamos dos
nossos pais, eu disse mais palavrões do que a média mundial,
de hora em hora alguém peidava, arrotava, colaborava para fa-
zer transbordar o copo de cuspe na mesa deplorável repleta de
latas de cerveja, restos de comida da semana passada e cinzei-
ros cheios. Enquanto outros grupos de jovens moralistas poliam
seus egos e escovavam seus paletós, nós voltávamos uma fita
pornô no vídeo-cassete e cobiçávamos a vizinha de calcinha no
apartamento do prédio vizinho; enquanto outros falavam de di-
nheiro e exalavam sua arrogância, a gente contava como foi a
chupeta feita por aquela “mina” no último andar da escola ou
como era sortudo aquele fortão filho da puta do time da classe,
que “catava” todas.

A competição é natural do ser humano e todos garotos de


dezesseis anos gostam de contar vantagens, nós assim fazí-
amos não em um tom de prepotência, mas de humor, o apoio
mútuo entre nosso mundinho particular, entre aquele universo
próprio composto por uma legião de “vagabundos” criticados
pelos educadores, seres quase que possuidores de um “autis-
mo comum”, era protegido com a vida, sem deixar algum outro
entrar para o círculo, confidentes sempre, nossos problemas
individuais não já não eram mais problema de quem os pos-
suía, mas envolvia cada um, havia necessidade de dividi-los
com o grupo que participava ativamente da questão com um
senso crítico incrível.
76
David Vega
No intervalo das aulas os mauricinhos se vangloriavam dos
tênis que possuíam, e nós do tamanho do pinto no banheiro.
Nos dias que frequentávamos a escola, aprendemos a fazer
nós de gravata, a dizer “sim senhor”, a delatar um colega que
colava na prova, a mentir sobre o dever de casa e que era
necessário fazer se possível o impossível em prol do beneficio
próprio. Aprendemos que quem bebe não presta e quem não
trabalha é bandido.

Nos dias que matamos aula aprendemos a flertar com aquela


gata que passeava de cachorro, a confortar um camarada des-
consolado, a brigar com um cara mais alto, a passar por baixo
da catraca do ônibus, falar mal dos almofadinhas assexuados
que nos detestavam, a lançar pratos e garrafas vazias na aveni-
da, a furtar um mercado, pedir esmolas, falsificar a identidade
para entrar no bordel, que os solos de Toni Iommi são bem mais
empolgantes do que as óperas de Puccini, conseguimos sair cor-
rendo diversas vezes do bar sem pagar a conta, a chorar pela
derrota do time do coração e a segurar a dor da cacetada dos
policiais. Aprendi o que é uma amizade verdadeira e que quem
tem caráter não é aquele que fala o que os outros querem es-
cutar. Descobrimos que ninguém vai pro inferno por contar uma
mentirinha em casa para se livrar da surra, quem anda com o
cabelo curto se dá melhor em uma briga e que a pegada de jeito
na mulher, pelo quadril descendo a mão para as nádegas, bem
como o beijo a força depositando quase a língua inteira em sua
boca, a deixa mais molhada e seu mamilo mais duro, do que
palavras não honestas jogadas ao vento.

Éramos sujos, na cabeça caspa e por debaixo da calça rasgada,


a mesma cueca quase uma semana. Não nos chamávamos pelo
sobrenome de família, mas de otário, bicha, cusão e arrombado.
Nos olhos o brilho da sinceridade, o ânimo juvenil e no coração o
77
o quarto ponteiro
desejo da verdade. Jamais precisamos da sociedade e de acordo
com nossos educadores, ela não precisava da gente. Excluídos
e solitários, nunca cobiçamos o relógio que o outro tinha ou
um carro no aniversário de 18 anos. Não ligávamos se alguém
estava devendo, mas nos enfurecíamos se o colega não nos
acompanhava nas doses de pinga. Não cobrávamos por algum
serviço ou favor prestado, mas sim pela presença do amigo
querido no bar ao nosso lado.
Hoje aqui sentado, sinto o coração saltar ao lembrar desse
bando tão procurado. Desses bandidos que hoje são ótimos pais,
maridos carinhosos e profissionais realizados. Mas ao mesmo
tempo me pergunto se a voz da maioria, daquilo que é para ser
o “óbvio”, realmente faz jus à verdade, pois aqueles garotos de
minha época que seguiram os conselhos da velha Sra. Maria
Luiza, vestiram terno, respeitaram as regras e usaram o cabelo
penteado, hoje são pais mal amados, empregados frustrados e
maridos traídos.

78
David Vega
TRANQUEI

Nem havia chegado o final de semana e minha mão já tremia


imaginando o gole de cerveja gelado rodeado pelas últimas figu-
ras grotescas que habitavam o centro movimentado da maior
cidade da América Latina.

O telefone não parava de tocar e eu sem poder me mover na


cama, finalmente decidi atender.

— Fala Chedid! Tava dormindo, né? Foi mal! Você está “tran-
cado” hoje? — dizia uma voz murmurando do outro lado da linha.

— Sei lá, talvez pela parte da tarde, eu te confirmo e você


chama os “bois pretos”. — respondi.

Despedimos-nos e desde então fiquei a tarde toda acompa-


nhando os passos de meus pais, procurando alguma desculpa
para indagar se iriam realmente viajar naquele fim de semana.
Por sorte, avistei as coisas arrumadas perto da porta.

“Tranquei, a casa é nossa”, assim gritava um detento quan-


do tomou através de uma rebelião a antiga casa de detenção,
o Carandiru, antes de acontecer o famoso massacre de 1992.
Como admiradores dos internos rejeitados, dos esquemas de
estelionato de muitos e o palavreado de malandro dos bandidos
que repetíamos uns com os outros, apelidamos as reuniões
que fazíamos em algum apartamento vazio, sem os pais, com
essa frase épica.
79
o quarto ponteiro
A galera do Chedid, como era chamada, ou os espíritos de
porco que comprovavam o velho ditado: “Boi preto anda com boi
preto”, jamais desejaram estar a sós para conspirar ou fazer
qualquer coisa que fosse de tão grave. Adorávamos ficar fuman-
do cigarros deitados na cama, sem tomar banho, jogar ovos no
prédio da frente, cuspir nas pessoas que passavam na rua, con-
tar nossas aventuras sexuais exagerando, como sempre, zombar
dos demais colegas e professores da escola, ver os programas
de auditório e criticar toda e qualquer pessoa que ali fosse en-
trevistada, nós abaixávamos todo o volume da TV e ficávamos
dublando os personagens de algum filme, quando aparecia um
casal debatendo em alguma cena, falávamos coisas do tipo:

— Ei, você quer comer meu rabo? (imitando uma voz feminina)

— Adoraria, pena que você não limpa o cu! (forçando a voz


para ficar mais grave)

— Mete na frente então...

— Mas você está menstruada! Porra! Se eu meto no cu meu


pau sai cheio de merda, se meto na boceta sai cheio de sangue,
prefiro ir pro banheiro bater uma punheta.

Todos caíam na gargalhada feito um bando de retardados. Mas


é fato, que não trocávamos isso por qualquer balada, qualquer
outra atividade da qual não estaríamos sendo nós mesmos, da
qual julgávamos ser enganação de que estaríamos nos divertindo.
Ali se testava nossos conceitos éticos durante as várias en-
quetes que pronunciávamos por horas e horas:

— Você daria a bunda por 1 milhão de dólares?


80
David Vega
— Você aceitaria beber um copo com vômito, merda e mijo
pra ganhar cerveja e cigarro a hora que quiser e de graça, por
2 anos?

— O que você prefere; pegar AIDS, torturar uma pessoa até


a morte ou cometer um aborto?

— Escolha uma dessas: Prefere que seja divulgado na escola


inteira uma foto sua cagando, que seus pais cheguem em casa
e peguem você comendo sua cachorra ou ter que comer a Hebe
Camargo?

Se alguém escolhia nenhuma das opções, logo retrucávamos


nervosos:

— Você tem que escolher uma delas, não vale responder


“nenhuma das alternativas”.

Nesses muitos “tranqueis” que tivemos, muitas coisas posso


listar, tendo altos e baixos que metaforizam o sentimento de viver.
Nos dias de glória, já contabilizamos mais de 20 garotas que
chamamos para embebedar, escolhíamos rapidamente qual que-
ríamos e já pegávamos na mão pra proteger dos olhos de algum
outro que tentasse chegar, sempre algum companheiro deixava
a sala e levava uma pro quarto, mas tinha que ser rápido, pois
logo era interrompido com os gritos do outro que batia na porta:

— Ei Chedid, acaba logo aí, porque bebemos demais e se eu


esperar muito a minha mina vai apagar!

Mais de uma vez tive de ficar limpando manchas de sangue no


lençol, antes de colocar pra lavar, para que minha mãe não ficas-
se sabendo que no seu leito alguma outra teve o hímen rompido.
81
o quarto ponteiro
A vizinha de baixo, uma senhora de mais de sessenta anos,
preferia ver o capeta na sua frente do que aguentar a gente. Gra-
ças aos nossos “tranqueis” ela conhecia todas as gírias da mole-
cada, sem nunca ter saído de casa, também todas as faixas dos
álbuns do The Doors, do Ramones, do Black Sabbath ou
do Iron Maiden que eram tocadas no volume máximo acordan-
do a vizinhança inteira. Quando se podia ouvir o interfone tocando,
após o pedido do porteiro para maneirar no barulho, pairava um
silêncio, meia hora depois tudo começava de novo.
Nos dias de fracasso, ficávamos presos pela madrugada sem
cigarro ou bebida, vagando pela rua atrás de algum estabeleci-
mento aberto, sem sorte, acabávamos voltando e falando sobre
futebol ou conceitos filosóficos, lutando contra o próprio sono e
não deixando o colega dormir, obrigando-o a participar da conversa
mesmo estando ele pescando e com os olhos da cor de uma cereja.
Engraçado é ver hoje, todos esses marmanjos fazendo exa-
tamente a mesma coisa, largam suas esposas quando conse-
guem, dando uma fugidinha dos filhos, para se encontrar nova-
mente no apartamento de alguém, quando a mulher deste está
na casa da mãe ou dobrou o plantão no hospital, avisando que
só volta no dia seguinte.
Falamos de trabalho, rentabilidades de investimentos ban-
cários, salário ou sobre a situação político-econômica do país,
por dentro de uma nuvem de fumaça, também ainda gostamos
de levantar a bunda e peidar, esperando provocar a risada dos
demais, brindamos ao lembrar de alguma namorada da adoles-
cência e nos abraçamos forte ao ir embora, pois já não é mais
todo fim de semana que dá para ficar “trancado”. Sorridentes,
voltamos para nossas famílias com a certeza de que um dia,
estaremos fazendo a mesma coisa, todos, já com netos, ponte
de safena, reumatismo e cabelos grisalhos.

82
David Vega
FANTASMAS

Desde pequeno fui assombrado por fantasmas dos quais


muitos ainda não pude me libertar. Sem talento nenhum para o
esporte ou para a matemática, me afundei nas letras cedo e cresci
acompanhado de amigos como Monteiro Lobato, Jack London,
Mark Twain e Saint Exupéry, bem como acompanhei as aventuras
de Tin-Tin e Milú ao redor do globo, sonhando em ser como
seu criador Hergé. Na adolescência, meus amigos imaginários:
Hemingway, Jack Kerouac e Bukowski, vinham me saudar quando
entediado eu não arranjava alguma garota ou vandalizava algum
carro na rua com meus amigos de carne e osso.

Ainda criança, os “heterônimos” que falavam comigo eram tão


reais que me habituei com sua presença. Falava sozinho, des-
crevia suas roupas e gestos, inclusive o gingado de caminhar de
quase todos. Apesar de ser pouco viajado naqueles tempos, eu
conhecia cada canto do planeta, sem nunca ter saído do estado.

Podia ser Indiana Jones perdido no Amazonas atrás da lendá-


ria Atlântida, seguindo o velho diário do explorador inglês Percy
Harrison Fawcett, viajei pelo céu no cachorro branco gigante do
filme “História Sem Fim”, cheguei a ser Allan Quartermain ro-
deado de canibais famintos quando estava em busca das minas
do rei Salomão. Em momentos que me embriagava de justiça,
imaginava-me sendo o Zorro apontando a espada no pescoço
do diretor da escola, como se ele fosse o Capitão Monaste-
rio do seriado antigo dos anos 50. Era sempre assim: eu salta-
va do balcão da entrada da escola virando uma pirueta, duelava
83
o quarto ponteiro
com 6 homens ao mesmo tempo, depois lançava o chicote no
parapeito da janela do 3º andar e me balançava até a quadra
de esportes. Os alunos vibravam; finalmente o salvador os li-
bertaria da opressão, então, o inspetor gordo, igual o sargento
Garcia, era pisoteado na cabeça, em frações de segundos eu
estava atrás dele dando uma alfinetada na sua bunda com a
ponta da espada. Por fim, eu subia a escada que dava na sala
da diretoria me esquivando das balas de mosquete da guarda
real e invadia a cabine do comandante, ou melhor, do diretor.
Apontava a espada para seu pescoço e dizia:

— Agora estamos livres, a sala 205 não é mais colônia da Es-


panha, diga ao rei que vocês têm três dias para sumirem daqui.

Fazia um “Z” ferindo sua cara e pulava para meu corcel


Tornado, que me aguardava do lado de fora, no caminho, Tatia-
na, a mais bela filha dos colonos, suspirava a me ver roubando-
a na garupa do cavalo e galopando beijando-a por entre uma
multidão de alunos que gritavam:

— Zorro! Zorro! Zorro!

Sempre era interrompida minha história com a voz da Sra.


Vânia, professora de matemática:

— Saia do mundo da lua e volte à realidade, quero que respon-


da: “Um ciclista percorreu 5,024 km. Sabendo que as rodas da
bicicleta deram 2.000 voltas, podemos afirmar que o diâmetro
das rodas é de?”

Gaguejando eu sempre chutava errado e era zombado.

Após a aula, ao caminhar pra casa, ocupava a mente com


outras aventuras. Era eu o carismático capitão da Wehrmacht,
84
David Vega
Smith Hobus, personagem que havia criado junto de seu fiel
sargento Feldman, que imaginava sendo meu amigo Leonardo.
Estávamos indo completar mais uma perigosíssima missão
atrás das linhas inimigas, nos dias de inverno, eu via São Paulo
como sendo uma Stalingrado; os arranha-céus estariam todos
bombardeados e pegando fogo, exatamente igual nas fotos do
livro de História. Pelos escombros os russos embriagados de
vodka nos atiravam granadas, ordenava meus homens enga-
tilhar os fuzis, podia escutar o ruído de suas mãos trêmulas
puxando o ferrolho e introduzindo o pente de balas, eles con-
fiavam em mim, pois tinha sido condecorado com a cruz de
ferro no começo da guerra, quando era um oficial subalterno
do Afrika Korps pelos desertos do norte da África.
Perdi a conta de quantas vezes fui ferido com metralha, os
ingleses me arrancaram um olho, por isso usava um tapa-olhos
de pirata e nesse mesmo ataque, perdi o antebraço, ainda es-
tava me adaptando à prótese de ferro que tinha posto no lugar.
No meu cantil eu levava aguardente e fumava cachimbo.
Já se aproximando de casa, a missão foi um sucesso, apenas
duas baixas, enterramos os corpos dos companheiros e fizemos
a saudação de braço direito estendido. Meu quarto era o Quartel
General, onde eu abria um caderno velho e escrevia as aventuras
desses meus “fantasmas” que criava todos os dias.
Durante o banho, eu já tinha comido todas as gostosas da TV,
da escola e da rua, quando a lembrança de seus corpos e rostos
estava ainda fresca na memória. Inclusive já fiz orgia com várias
de uma só vez; da TV, da classe e do prédio. Lembro-me que até
criei uma mulher perfeita, tinha a cara da Tatiana, os peitos da
Danielle Winits e a bunda de uma vizinha; uma beleza surreal!
Mas toda essa putaria não durava mais que três minutos, logo
depois, passada a sacanagem, eu me tornava um lobo do mar
85
o quarto ponteiro
enfrentando a tempestade que havia destruído meu veleiro ou
era o Gene Kelly em “Cantando na Chuva”.
Os fantasmas de hoje, estando eu agora no mundo dos adul-
tos, não duelam mais com um exército inteiro, nem escapam
de armadilhas mortais pela selva, nunca foram carismáticos
ao ponto de serem amados por séculos, a admiração que as
pessoas têm pelos fantasmas dos adultos acaba no momento
em que suas contas bancárias também acabam. A fidelidade de
suas belas donzelas vai embora quando algum outro “fantasma”
mais jovem e mais bem sucedido aparece.
Aos nossos antigos fantasmas ficou o esquecimento, e para
os quixotescos que ainda ousam admirar os fantasmas da infân-
cia, resta rejeição. Em um mundo de pessoas comuns, precisa-
mos criar seres humanos perfeitos e louco é aquele que não tem
consigo a companhia de fantasmas incríveis como eles.

86
David Vega
ADIÓS ABUELA, ADIÓS JAMÓN, ADIÓS MI AMOR...
ADIÓS ESPAÑA!

Pisei finalmente outra vez na terra de meus ancestrais, res-


gatei uma parte de minha história enterrada por debaixo das
pedras medievais das vielas e subidas estreitas com paredes
de azulejo de Toledo ou Lisboa, do frio intenso de Santiago de
Compostela que assoviava seu vento junto do cantar das gaitas
solistas dos peregrinos.

Saí de Leon, depois de encontrar primos e tios que em mui-


to lembravam os amigos familiares de casa, os mesmos tre-
jeitos, cortes de cabelo, os rostos eram todos iguais: mesmo
nariz, orelha, bocas e expressões, a mesma voz grave de meu
pai e o caminhar cocho que tenho, pendendo a perna direita. Vi
o local onde meu abuelo viveu e morreu, veterano no exército
franquista, criou nove filhos após os turbulentos anos da Guerra
Civil, causadores da vontade que fez meu velho abandonar seu
passado e sua família por melhores oportunidades na distante
América do Sul, terra onde nasci e acolheu meus patrícios de
uma maneira contraditória; por vezes hostil, por vezes amável.

Sentado neste trem AVE, um dos mais rápidos e moder-


nos da Europa, fico imaginando como eram as carruagens e
a Maria-fumaça que levava os primeiros imigrantes galegos e
maragatos ao porto de La Coruña, antes de povoarem as terras
do novo mundo. Meu destino, Madrid, o antigo centrão da Ibéria
que fora criado para ser a nova capital do “velho mundo” durante
os anos de glória de Carlos V.
87
o quarto ponteiro
O sol agradável derretia a neve estirada nas planícies fero-
zes que por muito tempo habitaram meu subconsciente, desde
meus sete anos quando estive por solo europeu pela última vez.
Naqueles tempos, eu havia deixado o odor da fumaça, os pas-
seios com Scott; um cão mastín de meu tio caçula e as gulosei-
mas que com poucas pesetas me enchiam os bolsos.
Hoje deixo a noite fria do Barrio Úmido e as bebedeiras pela
curiosa calle que se chama La Rua, desfrutadas por mim e
meus novos companheiros, as deliciosas tapas acompanhadas
das cañas de cerveza, me deliciava ainda mais saber que
não me cobravam nenhum centavo pelas porções de cortesia, se
entusiasmavam ao receber um irmão vindo da colônia.
Deixo minha abuela e suas lágrimas que transmitiam a dor
de não ter acompanhado o crescimento de um neto, mesclada
com a alegria de ver em meus olhos, grandes e castanhos, um
brilho semelhante que carregava meu pai nos anos 70 quando
deixou a sua casa paterna para que nunca mais regressasse.
Deixo a hospitalidade ibérica, as viúvas que mesmo após
décadas do falecimento de seus maridos ainda se vestem de
negro, os senhores de boina com seus charutos fedorentos que
continuam discutindo divergências políticas como se ainda esti-
véssemos na Revolução dos anos 30, a cantoria acompanhada
de uma orquestra de trombetas e castanholas do pasodoble
— El Gato Montés — que me fazia imaginar a época de
glória das corridas de touros, de Juan Belmonte e Joselito el
Gallo, as pontes romanas, a tortilla, o mosto, a murcilla,
o jamón e os chorizos, as sopas de ajos... tudo isso se
distancia novamente, feito minha vaga lembrança da infância,
quando aqui estive.
Passam as estações de trem, Sahún, Villada, Valladolid, até
Madrid tem chão, mas por favor, peço que não se apague a doce
88
David Vega
sensação de fazê-la sorrir e tê-la em meus braços, Sara, mais
uma paixão minha que outra vez por uma peça do destino, fez-
me cair de amores por uma representante de tudo aquilo que
sempre condenei: uma policial.
Vi Sara com o clássico chapéu da Guardia Civil na foto que
ela tinha em sua estante, uma mulher de sangre caliente e
um temperamento terrível, bem típico dos espanhóis, mas que
me fervia e fazia delirar naquele inconfortável sofá, quando pas-
samos as mais perfeitas noites de prazer e por onde observáva-
mos cair neve diante de um tubo de calefação, sonhando, rindo e
amedrontados da certeza do fim.
Escrito no diário de David Vega, às 05h25min do dia
11 de janeiro de 2010, última vez que esteve na Espanha.

89
o quarto ponteiro
PASSEIO DOS TRISTES

Em nossos anos de garoto o futuro era tão brilhante diante


de nossos olhos, toda criança daquele quarteirão podia ser
incluída na liberdade radiante que existia no ar, durante os
anos 80 e início dos 90. Ninguém parecia ter alguma distinção,
e não importava se seu pai era desempregado ou se teria a
oportunidade de ir à faculdade, qualquer um de nós roubava
madeira juntos para construir um “forte” na árvore, quem
dissesse “casinha na árvore” ou “clubinho” levava dois socos no
braço, pois isso seria coisa de bicha.

Tinha dois balanços improvisados naquela mangueira que


já não dava frutos há anos, um era feito com uma bóia velha
que precisava ser enchida toda vez que a usávamos, pois os
remendos não davam conta de segurar o vazamento, e o outro
de madeira, que quando utilizados juntos, enrolavam suas
cordas um no outro, questão de segundos depois começavam
a se desenrolar e girávamos ao ponto de quase vomitar, até
nos chocarmos e cada um cair para um canto e ficar estirado
na grama macia, rindo. Enquanto isso, a árvore se chacoalhava
porque um terceiro garoto estava dentro do “forte” de madeira
com alguma revista playboy, também roubada, do quarto do
caseiro ou negociada com os garotos mais velhos por alguns
trocados, estes também furtados, da bolsa de alguma mãe.

Eu era o único garoto da escola que pedia de presente lata


de pregos, facão, corda ou chicote de montaria, enquanto os
demais se deslumbravam com fitas de vídeo-game, eu mal podia
90
David Vega
esperar chegar o Natal pra ganhar aquele chapéu de cowboy
que via na vitrine de uma selaria ou estrear meu laço durante
os passeios a cavalo que fazia nos fins de semana que ia pro
sítio. Nunca nenhuma outra mãe deixou o filho ir até a esquina
ou jogar bola na rua, por causa da violência da cidade. Devido ao
fato de parte da infância eu crescer no campo, eu saia de casa
pela manhã com meus companheiros e voltava tarde, cheio de
lama da cabeça aos pés e com machucados espalhados pelo
corpo, papai me esperava com uma cinta e eu ainda ficava
trancado por uma hora no banheiro. Mas valia a pena! Junto
de meus aventureiros explorei cada perímetro daqueles lotes
de chácaras que pareciam parados no tempo. Ainda podíamos
encontrar casas de barro com telhados de sapê, eremitas que
mal sabiam falar nosso idioma, andar de carrinho de rolimã,
cruzar rios imensos, assar batata doce na fogueira, dar
estilingada em ninhos de marimbondo, depois chegar em casa
com a cara inchada e apanhar novamente, planejando qual seria
a brincadeira do dia seguinte.
Aos dez anos de idade eu conhecia uma realidade que os
garotos criados nos duplex da metrópole jamais sonhavam;
lembro-me da vez que vimos um batizado de macumba na
cachoeira próximo da chacrinha que vivi, me assustava com a
mulher se contorcendo enquanto recebia o espírito, também da
vez que uma vaca estava atolada no brejo, os peões a tentavam
puxar com cordas e ela mugia desesperadamente, inclusive
um cachorrinho mordia sua perna e latia para ajudar removê-
la de lá, sem a possibilidade de algum triunfo, o capataz da
fazenda acabou com seu sofrimento sacando uma espingarda
e disparando entre seus olhos, essa imagem permanece em
minha memória como se tivesse ocorrido ontem. Eu tinha um
cascão na sola dos pés, estava direto com algum arranhão no
braço, na perna, no pescoço ou na cara.
91
o quarto ponteiro
O pai do meu melhor amigo, que era vizinho nosso, estava
sempre bêbado, ele roubava seu revólver 38 escondido numa
gaveta da qual descobrira a chave certa e levava para nos
mostrar. Atirávamos em latas e garrafas de cerveja vazias, eu
gostava de ficar girando a arma no dedo e guardando-a na bainha
do cinto, igual o John Wayne nos filmes. Engraçado, seu pai
nunca notava que o estoque de munição estava se acabando.
Invadíamos as chácaras com piscinas para dar um mergulho
quando os donos não estavam, comia goiaba e caqui no quin-
tal do Sr. Alves, um português bem rabugento que adorávamos
sacanear, pegava o gato pelo rabo e rodava lançando-o longe
gargalhando com meus amigos sádicos, me escondia atrás da
cerca para ver a peituda mulher do Sr. Tonelli estendendo rou-
pa no varal enquanto me masturbava, colocávamos galhos de
árvore na linha do trem e esperávamos que a locomotiva os
esmagasse, o estrondo era ensurdecedor!
Aquela era minha terra de aventuras, igual as que eu lia nos
livros; podia imitar meus heróis, havia casarões abandonados
que acreditávamos serem mal-assombrados, bebia leite de ca-
bra com canela, fazia trilhas na mata em busca de tesouros,
subia em árvores até colocar a cabeça para fora, no topo, ou
junto dos demais garotos, tentava montar algum balão para so-
brevoar a região, inspirado no clássico de Júlio Verne: A Volta
ao Mundo em Oitenta Dias.
Era o mais novo da turma e aprendi tudo o que um homem
deve saber desde cedo. Meu primeiro porre eu devia ter uns
onze anos, comecei a fumar escondido desde os nove, aos qua-
torze eu já me aproveitava das caboclas, lembro-me que tinha
uma ereção invejável, típica da puberdade, e muitas das coisas
que aprendi sobre sexo foram com as mulatas safadas que fu-
giam comigo, dentro da lagoa, no seleiro sendo assistido por
92
David Vega
algum cavalo ou no meio do pasto, quando o pai de alguma delas
caminhava até a casa para pegar mais baldes de água.
Hoje as ruas daquela cidadela estão asfaltadas, os poços
artesianos foram abandonados porque o progresso trouxe o es-
goto e a água encanada que desemboca no rio que costumava
pescar aos domingos, assaltaram a chácara do Sr. Alves no mês
passado e por isso os moradores agora pagam caro para uma
empresa de segurança privada fazer ronda nas ruas, nenhum
garoto sobe mais em árvores, porém são muito habilidosos em
derramar sangue nos jogos de computador.
As crianças de ontem seguiram cada uma um rumo
diferente, o alemãozinho filho de família ucraniana que viva
na chácara do fim da rua mora nos EUA e nunca mais voltou
ao Brasil; o negrinho endiabrado, filho dos caseiros do sítio
da rua de cima, depois que foram mandados embora foi viver
numa favela em Itapevi, a última vez que ouvi falar dele foi no
noticiário da TV, quando levou cerca de 6 facadas por dívida
de droga; a menina sardenta que era minha paixão da infância,
hoje deve ter uns quatro filhos, um de cada pai, sendo que
um deles ela não tem certeza de quem é, seu último marido
não queria saber de trabalhar, tocava guitarra o dia inteiro e
fumava muita maconha; o filho do padeiro morreu de câncer
ano passado; o menino do bairro ao lado que vinha de vez em
quando jogar bola hoje é prefeito do município; o japinha, filho
dos donos da quitanda, conseguiu se formar, tornou-se um
grande empresário e é casado com outro homem; o gordinho
que era zombado pela nossa turma cometeu suicídio depois
que sua esposa o abandonou; a irmã mais velha do ruivinho,
que por sinal está preso, era muito esnobe, menosprezava
todos da região por serem humildes e trabalharem na terra,
hoje ela tem um filho retardado e sente vergonha até de ir à
venda comprar ovos.
93
o quarto ponteiro
Tudo parece como se fosse apenas um passeio matinal,
aqueles que realizamos sem destino. Nada posso dizer sobre
mim no agora, preferia que esses amigos da infância a quem
me refiro me descrevessem, mas garanto que aquele moleque
arteiro que conheceram, se rebela no meu íntimo, sonhando
em voltar aos tempos onde não existia a diferença, realizando
passeios onde não se incluía figuras tristes, aqueles em que
sonhar, rir, apanhar, xingar, chorar, criar... Viver, não era motivo
para se perder o sono.

94
David Vega
VERSOS À REVOLUÇÃO CUBANA

O velho “campesino”, Sr. Guidón não sabia o que era burguesia


nem nunca tinha ouvido falar de monarquia.
Analfabeto de nascença e morte,
desde que Colombo ali aportara,
sua família manteve aquela chácara;
para ele o martelo era aquela ferramenta
que na noite anterior pregara uma prateleira
e a foice, no canavial, era mais eficaz que uma roçadeira.

95
o quarto ponteiro
Com medo do pelotón comandado por aquele vizinho invejoso
que possuía mais terras que ele próprio,
embora nunca as aproveitasse, por ser preguiçoso,
pendurou a bandeira das listras, azuis-brancas,
fazendo representar as ideias vermelhas.

Surpreendido pelo arrogante “comandante”, foi punido


por ter lá umas três ou quatro cabeças de gado
mais magros que os pinheiros de madeira.

Levou uma coronhada, por produzir sua própria manteiga.

“Como são piedosos os homens de meu comandante”


“deixaram-me viver, se na milícia eu disparasse,
mísseis de longo alcance”.

“Pobre Pilar, nunca mais a verei,


Nem mesmo uma foto sua eu guardei”.

Quando tentaram acabar com a vida individual


na Guantánamo Bay,
em tempos que até o sentimento privado foi punido,
às balas das Kalashnikov,
como ocorrera na Rússia com os Romanov,
de vontade usurpada pela usura dos que portavam
as botas esmagadoras da mentirosa comissariada
grande “nova realeza”.

A diferença é natural,
mesmo no mundo “sem classes” existirá o desigual,
ricos no amor e pobres de afeto,
favorecidos pela sorte, danados pelo destino.

A tortura mais desumana é aquela em que


nos alimenta de esperança,
nos faz crer que estamos libertos,
96
David Vega
mas na realidade, o oposto sofremos;
pobre Guidón, ficou sem casa, sem honra,
sem glória!

O contraste era evidente,


entrava em sua boca sorridente,
as lágrimas de seus olhos reluzentes;
em Havana ele tombou,
na barricada do sem chão nem pão,
faminto e abandonado, suas últimas palavras pronunciou,
viva a Revolução!

97
o quarto ponteiro
MARCIANO E CAPETA

Meu vizinho era um velhote com mal de Parkinson que mal


podia se manter em pé. Morava no apartamento 41, era obs-
curo e fedia naftalina. Esse foi um dos meus heróis da infância,
sempre que nos trombávamos no elevador ou no portão daquele
humilde prédio mais antigo do quarteirão, onde morava, ele me
contava alguma de suas aventuras da juventude.
Serviu no 5º batalhão de infantaria com os pracinhas no nor-
te da Itália quando deixou o cafezal de seu pai no interior para
tentar a vida em Santos. Ali foi um pouco de tudo: estivador, car-
teiro e entregou leite para os imigrantes que vinham aos montes
fugindo da guerra na Europa.
Quando Getúlio declarou guerra ao eixo, Renato Marciano se
alistou e disse que fez a cobra fumar: tomou três guarnições
alemãs, fazendo mais de oito oficiais nazistas se renderem dian-
te de sua Colt 45.
Terminada a guerra continuou no exército, nos dias de licença
conheceu sua ex-esposa na época que estudava para ingressar
na polícia secreta, o Deops. Com o golpe de Castelo Branco em
64, foi designado a combater as organizações comunistas que se
encontravam clandestinas do Oiapoque ao Chuí.
Contou-me uma vez de uma missão que mais parecia ter sido
coisa de cinema, polindo suas medalhas e pondo-se ereto dian-
te do retrato que tinha em sua sala, de quando tinha lá seus
25 anos, portando seu uniforme verde-oliva. O fiel parceiro de
Marciano era conhecido como Capeta, um negão de quase dois
metros que antes de ser soldado foi lutador de boxe, era tão
98
David Vega
preto que chegava a brilhar; seus olhos eram meio amarelados,
bem como as palmas da mão e as solas do pé. Um homem que
botava medo a qualquer um ao ser avistado desde longe.

— Capeta era um ótimo comparsa, adorava pegar os guerri-


lheiros e estourar-lhes os tímpanos dando bicas de coturno nos
ouvidos. — me dizia.

Uma vez os dois se disfarçaram de sorveteiros pelo calçadão


de Santos e ali ficaram vendendo picolés, observando todo movi-
mento suspeito às suas voltas. Uma Mercedes negra se aproxi-
mou de um edifício abandonado e uns homens de terno entraram
portando uma maleta. Marciano pediu a Capeta para ficar ali en-
quanto os seguia, entrou na sala em que se reuniam e se deparou
com uma organização que armava uma bomba-relógio dentro de
uma mala. Tirou o revólver e deu ordem de prisão, mas o líder
do bando logo começou a disparar em sua direção. Marciano pu-
lou pela sacada do prédio e caiu no toldo de uma barraquinha
que vendia frutas na calçada, espalhando-as para todos os lados.
Abaixado se protegendo de uma chuva de balas que os guerri-
lheiros lhe disparavam, viu Capeta tirar de dentro do carrinho de
sorvetes, por entre os picolés, uma submetralhadora. O calçadão
da praia tornara-se num campo de batalha.
Terminado o tiroteio, chegaram os reforços, a Mercedes esta-
va toda perfurada com os pneus vazios. Capeta havia sido ferido
na perna e o bando nunca mais foi visto.

— Com certeza os caras os apagaram na cadeia, naquela


época, os bonzinhos levavam choque, e os pilantras, chumbo. —
disse-me

Era incrível escutar as aventuras de Marciano e Capeta, uma


mais emocionante do que a outra, e me perguntava sempre:
99
o quarto ponteiro
Como este homem foi ficar assim? Hoje não passava de um velho
babão rejeitado. A vida dele daria um filme, ou um romance épico
que envolvia perseguições e uma historia de romance, nas vezes
que me contava de seu amor por Neusa, sua ex-mulher, que o
abandonara devido o comportamento violento que herdou no tra-
balho de investigador nos anos da ditadura; chegou a bater nela
e nos filhos diversas vezes, me contava isso com lágrimas nos
olhos, pois todos o abandonaram já fazia mais de 10 anos.
Nunca mais vi Marciano. Sumira da rua e todos no quarteirão
notavam algo de estranho, mas como nunca ligaram para sua
presença, sequer indagaram sobre o seu sumiço.
Um dia quando eu voltava da escola vi sua mulher, Neusa,
com seus filhos e netos. Em frente ao portão, também estava
o carro da funilaria estacionado. Perguntei ao senhor Joaquim,
eletricista do bairro, sobre o ocorrido, e o mesmo me disse que
arrombaram a porta do Sr. Marciano porque os vizinhos do seu
andar reclamavam do mau-cheiro. Ao entrarem no seu quarto,
encontraram-no deitado na cama cheio de moscas e vermes, com
fezes secas grudadas ao corpo misturadas com o cheiro de urina.
Tinha morrido dormindo há pelo menos uma semana. Sr. Joaquim
deu uma risada e finalizou:

— Acredita que quando encontraram o velho, ele estava se-


gurando uma medalha com uma cobra fumando? Sob a cama
tinha um rifle empoeirado todo emperrado e um álbum com vá-
rias fotos preta e branca dele e de um negão com roupa de
soldado. A filha disse que queimaria tudo.

Calado eu não podia pensar em nada, apenas no seu olhar


firme e gestos que fazia com as mãos trêmulas ao me contar
suas histórias e no fim inglório daquele homem que parecia ser
intocável.

100
David Vega
MOÇA DOS OLHOS FLAMENGOS

Sentado naquela poltrona incômoda da classe turística eco-


nômica das linhas aéreas Delta, folheava um guia comprado num
Sebo do velho bairro da Liberdade, do qual seria a última relíquia
de minha pátria por mim guardada nas terras hostis do norte.
Meu destino era a pequena e monótona cidade de Myrtle
Beach, extremo-leste estadunidense, na Carolina do Sul, uma
reunião de vilas e resorts construídos por cima dos pelourinhos
escravistas das plantações de algodão que remontam a Guerra
de Secessão, lugares estes que hoje substituem os barcos a va-
por do Mississipi pelos tratores da construção civil, conduzidos
por mexicanos, cubanos e porto-riquenhos.
Podia ser eu talvez mais um hermano que se destacaria
entre os boriguos e descendentes de Montezuma, ou o vilão vindo
das terras do sul, que estaria dentro do classicismo portenho
ou europeu. Ou também, para os gringos, talvez eu fosse um
vagabundo, um malandro do pandeiro recém-chegado da “terra
dos cariocas”.
Em suma verdade, eu queria refazer os passos de Ponce de
León atrás da fonte da juventude pelos campos da Flórida e pelos
densos pântanos característicos da terra dos red necks, que
guardariam os espíritos dos conquistadores ou dos piratas ingle-
ses. Mas finalmente após quase dez horas de voo, quando pude
me libertar daquele assento torturador, eu aterrizei no país do
“Time is Money” e aprendi que “There’s no time for drea-
ming”. Logo fui recebido pelo esfregão e balde que utilizei como
101
o quarto ponteiro
ferramenta do meu suado trabalho nos primeiros dias de inferno,
aqueles em que meu cérebro ainda se acostumava com a ideia de
falar e entender em inglês o tempo inteiro, me provocando dores
de cabeças intensas após o expediente de trabalho. Conforme
o tempo ia passando, minha fluência crescia e o gerente do ho-
tel, que gostava muito da minha pessoa, me pôs para trabalhar
na recepção. Adorei, não precisava mais ter calos nas mãos de
lustrar o chão e ainda por cima me davam gorjetas. Além disso,
podia praticar inglês escutando histórias de hóspedes que sem
nada para fazer paravam no front desk e tomavam meu tempo.
Nesse período de experiências profissionais em terra es-
trangeira, tive a oportunidade de conhecer pessoas de todas
as partes do planeta: as coroas peruas que faziam o evento
da Mary Kay cosméticos; os jogadores do Boston Red Sox que
ficaram por uma semana. Adorava ver o rosto de todas as cores
das moças que ali vinham se hospedar. Um dia, depois da hora
do almoço, fui fumar um cigarro no estacionamento do resort
e vi uma mulher loira muito sensual com os braços lotados de
compras saindo de um carro.
Can you help me mister? — me perguntou com um sota-
que que não pude perceber de onde.
Lancei o cigarro ao chão e ajudei-a carregar os pacotes até
seu quarto, que era o 308, com vista para o mar. Seu nome era
Sandra Goudrian, tinha uns 25 anos, uma holandesa que estava a
poucos dias por ali fazendo um estágio no banco First Federal,
que ficava no centrinho da cidade (acredito que é um dos únicos
bancos de toda cidade).
Voltando à minha recepção, eu olhava no sistema seu histó-
rico buscando saber se era casada, retirando o máximo de in-
formação possível. Era o elevador abrir a porta que eu virava o
pescoço pra ver se ela descia, quando conversava com alguém,
102
David Vega
próximo ao balcão, eu observava, ela virava em minha direção e
então fingia estar procurando algo ou puxava conversa com minha
colega para disfarçar.

Um dia que eu fechava o caixa e me aprontava para ir embo-


ra, recebi uma chamada de seu quarto para ajustar a antena da
TV que não estava funcionando. Como as camareiras já haviam
ido embora, resolvi eu mesmo passar lá. Chegando no 308, a
porta estava entreaberta e entrei pedindo licença. Não tinha
ninguém lá. A TV estava ligada funcionando perfeitamente, ouvi
a porta bater atrás de mim. Sandra trancou-a e vinha em minha
direção só de baby-doll. Pasmado, fiquei gaguejando e lhe di-
zendo que isso podia render em minha demissão. Ela não estava
nem aí, me jogou na cama e começou a abrir meu cinto, pensei:

“Seja o que Deus quise:, o senhor Norwood não está aqui mes-
mo, amanhã estou de folga, saio de fininho e já era”.

Então me entreguei ao delírio de uma noite quente naquele


hotel 5 estrelas que nunca sonhei um dia pernoitar.

Depois desse ocorrido, passavam os dias e ela me surpreen-


dia, deixava bilhetinho na recepção, pedia pra eu subir e ajustar
o ar condicionado só para me beijar, eu tirava uma casquinha,
mas sempre saia correndo porque no meio do expediente movi-
mentado era impossível dar uma fugidinha. Adorava me provo-
car, e sabia fazer isso muito bem.

Não sei como, em uma folga que eu estava largado na cama


do meu alojamento de empregados, no condomínio River Oaks,
situado no subúrbio pobre repleto de imigrantes ilegais, mães
solteiras e andarilhos que moravam em trailers, lembrava da-
quela nossa noite quando alguém tocou a campainha. Quase
desmaiei: ela havia ido me visitar, mesmo sem jamais eu ter
dado o endereço.
103
o quarto ponteiro
Recebi-a em meu humilde lar e notei em seu rosto um ar de
tristeza. Sandra na realidade, nunca foi amada, seus pais eram
muito severos e cresceu num vilarejo da Holanda que fazia fron-
teira com a Bélgica, onde residem duas etnias rivais. Ela possuía
um pouco das duas, sua mãe era Valona (Wallon) e seu pai era
Flamengo (Flemish). Estava noiva, pois havia sido prometida a
um homem que tinha o dobro de sua idade... Um comerciante
suíço milionário que bajulava muito seu pai.

— Minha família também tem outra origem, meu bisavô era


um judeu de Varsóvia. — disse.

Realmente transparecia um ar oriental naquela beldade di-


vina, me hipnotizava com seus olhos escuros e pequenos, bem
característicos dos gauleses flamengos.
Durante os meses de estágio na área hoteleira, tomei-a
como minha mulher. Coisa melhor não podia ter acontecido. Ti-
vemos experiências únicas, ouvíamos Run to the Hills nas
antigas reservas Cherokees do condomínio que vivia, podia ver
a minha frente o que Bruce Dixon descrevia em seus versos.
Fiz história vivendo na História! Lembrei dos contos de Mickey
Spillane, um dos mestres da literatura policial, Sandra era mi-
nha Sherri Malinou!
Levei-a aos gramados campos de golfe que um dia foram
as Plantations dos estados confederados. Colhíamos amo-
ras murchas que traziam à minha memória a infância no sítio.
Lia para ela Eduardo Galeano com um inglês mal traduzido, o
mesmo que tentei usar entusiasmado ao descrever as belezas
naturais da minha terra natal. Idealizava um Brasil de Gonçal-
ves Dias, contado aos gringos feito um hino. Ali choramos, ali
fizemos amor. O verão úmido do River Oaks me fazia idealizar
Sandra como a criadora de meus frutos, que imaginei em ter
104
David Vega
com ela. Jamais foi apenas uma aventura, era uma parte de
mim encontrada no Atlântico Norte, devolvendo a esperança em
tempos muito difíceis que passei longe das pessoas que amo.
Terminado o verão, ela se foi, nem fui à sua despedida, mas me
contaram que chorava muito no aeroporto, e estou certo que
assim continuou, até os braços de seu noivo em Roterdã. Meus
últimos dias de estágio durante o inverno, mesmo estando na
terra da fonte da juventude, me fizeram sentir um ancião.
Quando terminei os serviços prestados aos irmãos do norte,
fugi de volta para minha pátria como um homem sem passado.
Após um longo tempo, achava que a ferida havia se curado e en-
tão decidi adicioná-la na internet. Por infortúnio era justamente
naquele dia o aniversário de seu noivo. Senti um embrulho no
estômago, mas que logo passou quando vi a atualização de suas
fotos do perfil, em que o coroa suíço mostrava os presentes
que ganhara dela: uma camiseta da seleção brasileira e uma
coletânea de Eduardo Galeano traduzido para o holandês. Sorri
e entre lágrimas desejei que fossem muito felizes, com a tran-
quilidade e certeza que sempre irá me ver através dos versos
por ele lidos, antes de dormir, sentirá o cheiro úmido, o gosto
das amoras, o sabor do tabaco, assim como sinto ao lembrar
de seus olhos escuros de moça flamenga.

105
o quarto ponteiro
RETRATOS

106
David Vega
”A TV dispara imagens que reproduzem o sistema e as vozes
que lhe fazem eco; e não há canto do mundo que ela não alcance.
O planeta inteiro é um vasto subúrbio de Dallas. Nós comemos
emoções importadas como se fossem salsichas em lata, enquan-
to os jovens filhos da televisão, treinados para contemplar a vida
em vez de fazê-la, sacodem os ombros.
Na América Latina, a liberdade de expressão consiste no di-
reito ao resmungo em algum rádio ou em jornais de escassa
circulação. Os livros não precisam ser proibidos pela polícia: os
preços já os proíbem”.
Galeano, Eduardo — El libro de los abrazos, 1991.

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o quarto ponteiro
SOBRE A IMPLANTAÇÃO DO MARXISMO NO PODER

108
David Vega
O PUDOR

A beleza do comportamento antissocial é que ele te afasta das


pessoas rapidamente, e as pessoas em um geral não compre-
endem ou fingem não entender o conceito da sabedoria: quanto
mais aumenta nosso conhecimento, mais evidente fica nossa ig-
norância. Mas para se aumentar o conhecimento, o que devemos
ter em mente além do estímulo e da nossa predisposição, da
força de vontade em ampliar os horizontes?
Em relação ao “conhecer”, eu tinha de incluir um texto sobre
um detalhe existente no íntimo de todos os homens, que por
vezes é coletivizado ou não, podendo favorecer às vezes ao inte-
lecto em casos raros, mas que na maioria das vezes provou ser
um empecilho: o pudor.
O pudor atuante em cada um de nós limita o “criar”, bem
como o “aprender”. Um artista que elabora sua obra baseado
em alguma verdade que a julga como única, ou em uma moral
da qual não consegue se livrar, jamais poderá intrigar o público
que busca por inovações livres do clichê, à recriação incansável
que há nos trabalhos publicados atualmente. É ele a barreira que
determina o “permitido” e o “absurdo”, causa-nos um mal-estar
aterrorizador ao explorar a mente de alguma cultura alheia ou
conduta de seres distintos.
Na Polinésia, como registrou Bronislaw Malinowski no início
do século passado, ao estudar alguns ramos das tribos aboríge-
nes das ilhas do Pacifico sul, o homem teve sua primeira relação
sexual com a mãe e a mulher com o pai, segundo eles, esse seria
109
o quarto ponteiro
o início de um ciclo entregue à vida de dominação e submissão,
e nada melhor do que os seus geradores e criadores, devido à
proximidade e o afeto, para darem o tiro inicial dessa vida ínti-
ma. Na época da colonização, com o contato do homem branco,
para eles, o fato de um britânico ter a sua primeira vez com
um “desconhecido”, mesmo sendo este seu futuro cônjuge, era
inaceitável, bem como era para o puritano inglês uma heresia
sodomista o incesto dos colonizados.

Mas, vejamos:

Será que é um absurdo nós, ocidentais, engajar na vida sexual


com um alguém que não possui nenhum laço consanguíneo?

É mesmo algo digno de condenação alguém ser ensinado e


preparado à vida sexual através dos pais?

Ambos estão certos e ambos estão errados. Tudo isso


depende dos olhos de quem vê, um povo passou milênios
vivendo dessa forma e o outro o mesmo tempo vivendo da
outra maneira. E é claro que existem coisas que podemos
compreender, mas jamais fazer, pois não fomos criados assim e
nossa mente repudia de uma maneira brutal” algo semelhante.
Quando um ocidental age de tal forma, é um doente mental para
os demais, concordo que não é porque devemos trabalhar o
pudor que devemos sair cometendo todo tipo de experiências
“mirabolantes” para dizer que somos livres.

Não somos de uma determinada maneira por não sermos


criados daquela determinada maneira, ninguém é assim sim-
plesmente por nascer. Desde sempre nos é atribuído valores
dos quais muitas vezes se enraízam de uma forma tão forte,
que mesmo ao estudar, conviver em sociedades alheias e com-
preender o contrário, nos impede de expandir a mente. Deixo
de exemplo a religião, a doutrina política, a crença na índole
110
David Vega
própria, a consciência pesada, o orgulho e o ego que ultrapassa
o superego muitas vezes.

É impossível nos livrarmos do instinto animal que se mani-


festa em horas de caos e conservação da espécie, o pudor, a
moral e tudo aquilo em que cremos vai por água abaixo. A prova
disso é a atração por outro alguém estando você comprometi-
do, a traição, a mentira, o assassinato do próximo quando sua
vida está em jogo...

Pois bem, tenha isso em mente ao desenvolver algum projeto,


não introduza coisas do tipo: “Fulano é um pecador...”, “Beltrano
é um pederasta”, “Deus ensinou assim...”, “Cicrano é abençoado”
etc... Pessoas influenciáveis demonstram ser pobres de conheci-
mento e de espírito fraco.

Esse fanatismo ao politicamente correto que paira na atu-


alidade já ultrapassa todos os limites, ninguém parece exalar
seus anseios, vivemos nos reprimindo, pisando em ovos tendo
que sorrir, enquanto ser autêntico, expressar uma opinião seve-
ra sobre outro alguém, pronunciar ideias julgadas “criminosas”,
pode ser o começo de uma visão de mundo revolucionária, algo
construído por você que ninguém mais poderá exigir “direitos au-
torais”. Lembre-se que também é arte fazer de uma bela cagada
um poema, e suas fezes pétalas de flor.

Quando se tenta dialogar com alguém carregado de pudores e


condutas, é muitas vezes igual urinar contra o vento. Dá-se voltas
em círculo e o cão parece não largar o osso, até mesmo se seus
argumentos provam serem mais fracos do que os do opositor.

Trabalhos de valores são aqueles que nos produzem outro


universo, que transmitem uma atmosfera agressiva, realista,
encantadora, talvez, irracional e psicodélica, que faz o leitor dar
um mergulho sem volta no encanto das artes.
111
o quarto ponteiro
O pintor Francisco de Goya certa vez registrou: O sonho da
razão produz monstros, o filósofo nietzsche: “essa razão tirâni-
ca”, mas creio que devemos conciliar as duas coisas; é o eterno
jogo entre a razão (classicismo) e emoção (romantismo). Acho
que nós, pós-modernos, podemos ser os dois ao mesmo tempo,
e não apenas cartesianos.
Há de se evoluir, deixe o barco seguir a correnteza e não
tente guiar seu leme, olhe para dentro de si e liberte-se dos
velhos conceitos transmitidos pela escola, pela igreja, pela fa-
mília. Veja que é um ser pensante e não um papagaio.
É importantíssimo que o autor não deixe transparecer de
uma forma radical seus valores morais, mas sim o que pensa
os personagens por ele criado, a mensagem verdadeira de uma
imagem ou a crítica de alguma canção, sem a repressão de seu
“certo” e “errado”.

112
David Vega
ISAAC GIOURGOPOLOS

A barriga saliente de chope deixava transparecer seus sinais


de meia-idade, apresentava os indícios da calvície e seus pelos do
peito escapavam por cima da camisa meio aberta.
Ridicularizado por seus colegas da mesma faixa-etária, de-
vido sua vestimenta e mentalidade infantil; bermuda, camiseta
com o símbolo do Super-Homem, durante eventos sociais, usava
terno e tênis, a mesma gravata sempre, já com o nó feito, pois
nunca foi capaz de aprender fazê-lo. Falava de histórias em qua-
drinhos e curiosidades como: — Você sabia que o maior órgão
de nosso corpo é a pele?
Para ele todo mundo era filho da puta até que se provasse
o contrário. Era professor do colégio católico conservador da
cidade e creio que não havia sido demitido pelo fato de seu pai
ter sido um dos maiores colaboradores da instituição. Aquele
João ninguém era invisível na comunidade, sem amigos, respei-
to, digno de pena ou sátiras, era o único professor que não tinha
a atenção chamada por atraso; sua ausência era mais agradável
do que o simples fato de terem de olhar para sua figura. Como
eram falsos esses humanos! Falavam da bondade de cristo; en-
sinavam nas aulas a compaixão, contanto que o próximo fosse o
fácil de amar e conviver.
Isaac Giourgopolos era fracassado e depressivo escritor
que buscava inspiração no chá de cogumelo e no LSD. Aos
35 anos nunca terminou uma faculdade. Iniciara dezenas de
cursos sempre parando na metade, trocava por outros que o
113
o quarto ponteiro
mercado exigia. Fumante compulsivo e semi-alcoólatra, possuía
uma coleção de casos amorosos mal resolvidos e apesar da
aparência fanfarrona era um homem muito bonito, tinha muitas
mulheres que estiveram dispostas a abdicar de suas felicidades
para aguentá-lo, mas sempre foi mais importante trancafiar-se
em um quarto e dedicar-se às letras, ele não veio ao mundo
para ser um chefe de família, para perguntar “como foi o seu dia,
querida?”, isso era para os homens comuns, seu dom era uma
maldição que destruía a vida social em prol de algo muito maior.
Começava os relacionamentos só para escrever, as mulheres
eram apenas instrumentos que lhe proporcionavam sensações
e inspirações momentâneas permitindo enriquecer mais alguns
parágrafos. Todo escritor é triste, meio autista, não é fácil
ter de desfazer da felicidade e da interação comum, são lobos
solitários que observam de cima o resto da matilha, ninguém
compreende as viagens conscientes dos artistas, comparadas
às de ácido, o despertar no meio da noite e durante a calada da
madrugada preencher páginas e mais páginas. Nada importa a
saúde mental ou física, sua única gratidão é acordar e ver que
suas mãos ainda estão atadas ao pulso.

Na vida de Isaac tudo sempre foi confuso, incluindo suas ori-


gens étnicas, metade judeu-grego e metade turco, e como seus
rivais ancestrais, suas duas personalidades se odiavam dispu-
tando o domínio total de sua mente ele era esquizofrênico. Às
vezes deixava transparecer um lado marginal e antissocial, ex-
tremamente irônico e pessimista, não conseguia dialogar agra-
davelmente com ninguém por mais de cinco minutos. Expunha
suas opiniões sobre a pena de morte, não era somente a favor,
como também achava que além dos homicidas deveriam ser
incluídas as madames que não limpavam o cocô de cachorro, os
flanelinhas que cobravam para guardar o carro, sua vizinha que
114
David Vega
não separava o lixo, os mendigos que pediam cigarro na rua, as
socialites e os pastores de igreja.
A diretora da escola que lecionava era uma crente convicta
dos programas sociais, da boa conduta, da religião e do espírito
humano, era perfumada e andava cheia de joias, ele a detestava,
para ele não passava de uma mimada e ignorante vagabunda sem
cultura que chegou onde chegou porque abriu as pernas.
“Ah! Algum maluco deve ter emprenhado ela e se
mandou, essa mãe solteira fica se vangloriando do poder
feminino que julga ter, de que não precisa de um homem
pra criar sua filhinha bastarda e por isso fica esfolando
meu cu, me fodo por causa de uma cadela dessas...”.

Giourgopolos ensinava no ginásio, gostava mais da 8ª série


porque segundo ele as meninas já estavam se tornando moças,
inclusive idolatrava uma rebeldezinha metida a roqueira que sen-
tava na primeira fileira; várias vezes teve que controlar as ere-
ções ao olhar suas pernas saindo daquele shorts jeans desfiado.
Certa vez ele escreveu em um dos seus contos:
“Magrinha, cabelos e sobrancelhas morenas, pele clara como
a neve, tem quatorze aninhos, a leve inocência por vezes se perde
no talentoso olhar sedutor de safadinha (...)”.
Após as aulas descarregava o conteúdo acumulado em seus
testículos imaginando talvez sua primeira menstruação, o núme-
ro de sutiãs que já trocara, seus redondos e arrebitados seios a
cada ano pareciam crescer.
“(...) linda menina do sorriso com aparelho, não fosse crime,
não fosse minha aluna, não fosse eu quase o triplo de sua idade,
com a maior satisfação me atreveria a calar a boca dos garotos
frangotes da classe, dos molequões sem nem pêlos pubianos di-
reito, que a cobiçam, e seria eu então o primeiro dos homens a
115
o quarto ponteiro
penetrar na imensidão de gozo por entre aquelas perninhas lisas
e abrir o caminho que seria o maior desejo de qualquer homem
dali por diante; seria eu o Cristovão Colombo desse novo mundo,
e a terra incógnita, seu cabacinho rompido.”
Isaac estourou os miolos em um dia de surto, não conseguia
mais escrever uma linha, as ideias o abandonaram, a menina
de suas fantasias revelou em uma redação que não era mais
virgem, tudo parecia ter sido conspirado fazendo a vida per-
der todo o sentido, mesmo que jamais teve algum dia. Nesse
mesmo dia, queimou todas as histórias que escrevia em uma
agenda velha, mas antes, defecou e urinou em um liquidificador,
bateu tudo e despejou na cara dos que faziam pouco caso de
sua pessoa. Ao entrar na sala da diretora, tirou o pênis para
fora e balançou.

— Não existe inteligência sem bondade! Depois de afundar o


barco, sempre haverá alguém dizendo que sabia como evitar que
ele afundasse! — berrou.

Subitamente veio o silêncio, seguido de um disparo que atra-


vessou seu cérebro, o libertando da opressão humana e ferindo
a hipocrisia dos que ficaram vivos.

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David Vega
FELIZ ANO NOVO

Dirce Vega

É contagem regressiva, 4-3-2-1 — Viva!


O céu se cobre de luz e a esperança se renova.
— Olhe... Fogos, quantos fogos! — gritava um menino.
Sorria, corria, sentia seus pezinhos descalços,
mãos sujas comendo melancia.
Entrou na multidão da praia, o vento soprava em seu rosto,
esbarrava nas pessoas e dizia “Feliz Ano Novo”.
Seu coraçãozinho devia estar batendo forte,
seu copinho ansiava por um abraço
Queria falar... falar...
Ninguém ouvia.
No meio de uma multidão uma criaturinha se sentia tão só.
Estouro dos champanhes, brindes, abraços,
e o momento mágico passou, a multidão se dissipou
somente o mar parecia dizer: “Estou aqui com você”.

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o quarto ponteiro
O CAVALEIRO DA TRISTE FIGURA ENCONTRA A PAZ FINAL

“Antes de morrer, Don Quixote pediu que esqueces-


sem as façanhas de loco e não lessem qualquer livro
de cavalaria, muito menos aquele que, diziam, contava
seus feitos (...)
E assim, no final da tarde, morreu o Engenhoso
Fidalgo Don Quixote de la Mancha, agora, simples-
mente Alonso Quixano, o Bom. Tão bom, tão puro e
tão honesto, que sua vida e sua história trespassarão
os séculos, enaltecendo suas virtudes e louvando sua
loucura.”
Cervantes, Miguel — Don Quijote de la Mancha

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David Vega
Aos quixotescos, advirto:
“Por sermos assim, só a morte nos libertará”.
O autor.

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o quarto ponteiro