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Caminhos da Linguística Histórica – Parte I

Nesta primeira parte do livro, Mattos e Silva (2008) apresenta três orientações da
Linguística Histórica intralinguística/intrassistêmica: a teoria neogramática, o
estruturalismo diacrônico e o gerativismo diacrônico. A autora explica que estas
abordagens se deram em momentos diferentes do século XIX. Em um primeiro
momento surge a teoria neogramática, depois o estruturalismo diacrônico e por último,
o gerativismo diacrônico.

A teoria neogramática parte do pressuposto de que a língua é um fenômeno


concretizado no indivíduo, que por mecanismos biofisiopsicológicos internos, é
responsável pela mudança nas línguas. O estruturalismo diacrônico, por sua vez, a
entende como um sistema abstrato que é compartilhado por toda uma comunidade,
generalizando-a por meio dos usos, mas também trazendo um fator intrínseco para a
mudança. Para o gerativismo diacrônico, a mudança se dá na socialização do indivíduo,
após ter adquirido previamente a capacidade de articular a linguagem.

Seja como for, todas as abordagens centram-se no indivíduo, justificando a


mudança linguística por caracteres intrassistêmicos. Mattos e Silva (2008) relembra as
primeiras pesquisas feitas em análise linguística, que se preocupavam em encontrar o
grau de parentesco entre línguas distantes entre si através da comparação língua a
língua, o que não levou à criação de uma teoria robusta da mudança.

Outras pesquisas, como a de Verner, demonstraram que, ao menos, existem


processos diferentes de mudança, que não há uma regularidade na mudança linguística,
entendem que a mudança é gradual, por isso mesmo inconsciente para seus
interlocutores. Assim, houve também estudos, como o de Schuchardt, sobre a variação
linguística no espaço, que apontaram as diferentes direções da mudança, rejeitando as
abstrações generalizantes dos neogramáticos e adotando a perspectiva de que “cada
palavra tem sua história”.

Segundo a autora, ao constatar-se isto, abandonou-se os termos muito rígidos


para se referir à mudança linguísica, como adstrato, substrato e superestrato,
emprestados da geologia. Passou-se a falar de contato linguístico e interferências, já que
a mudança responderia a fatores de natureza diversa e complexa. Deste modo, a partir
do século XX, os estudos sincrônicos tomaram o lugar dos estudos diacrônicos.
De acordo com Mattos e Silva (2008), as chamadas leis fonéticas ganharam
outro tom, sendo denominadas correspondências fonéticas ou tendências. Mas, ainda
houve publicações de gramáticas neogramáticas neste início de século, como a
gramática Houaiss por exemplo. A autora menciona o caráter vanguardista de Mattoso
Câmara Jr., um estruturalista que reconheceu a história da língua e da linguística ao
confirmar a existência de uma “regularidade” na “irregularidade” da mudança.

Os estruturalistas, de modo geral, como Saussure, excluíram a mudança de seu


objeto de estudo, por considerarem a língua como sistema abstrato, ao qual não compete
analisar irregularidades que surgem na fala, na parole. Foi a partir de Saussure que
surgiu a primeira escola funcionalista do Círculo de Praga, que, com essa visão, instituiu
a teoria fonológica e estendeu o método estrutural ao estudo histórico da língua.

Segundo Mattos e Silva (2008), esses linguistas acreditavam que as noções de


estrutura e função são indissociáveis e, por sua vez, compreendiam a língua como um
objeto de caráter estrutural e funcional. A autora explica um dos argumentos essenciais
do seu maior representante, Roman Jakobson, que apresentava uma visão teleológica da
língua, na qual todos os mecanismos concorriam para a recuperação do equilíbrio e da
harmonia do sistema. Assim, ele descreve mecanismos como o da fonologização, um
elemento que não era fonema passa a ser; a desfonologização, o fenômeno inverso e a
refonologização ou transfonologização, a mudança de posição de um fonema no
sistema.

De acordo com Mattos e Silva (2008), Martinet amplia essa discussão,


estabelecendo que a função do fonema é distinguir signos, havendo necessidade de que
se mantivessem distintos para a realização da comunicação. A isto ele chamou de
rendimento funcional, que aponta para uma maior ou menor estabilidade do fonema no
sistema. Ou seja, quanto maior a estabilidade de um fonema no sistema, quanto mais
distintivo ele for, maior sua durabilidade, maior sua resistência à mudança. Martinet
considera ainda os aspectos fonéticos, admitindo que alterações no aparelho fonador
podem ser condição de mudança.

A autora aponta exemplos trazidos por Faraco (2005): as oposições /ts/: /s/:
/dz/ : /z/ eram funcionalmente fracas no latim, determinando seu desaparecimento. No
entanto, Mattos e Silva (2008) critica a abstração e generalização presente nos
argumentos de Martinet. O que a autora elogia é a contribuição metodológica dos
estruturalistas, de não promover a análise de língua isoladamente, mas averiguando cada
elemento do sistema que se relaciona entre si antes, durante e após a mudança.

De modo geral, Mattos e Silva (2008) considera que os estruturalistas


promoveram o mesmo objetivo de reconstrução interna da língua, mas através de
procedimentos teóricos e metodológicos diferentes. A autora destaca, entre os
estruturalistas americanos, o linguista Edward Sapir, que criou a teoria da deriva,
argumentando que a mudança não é nem errática e nem casual, obedece a uma deriva
mais ou menos determinável conforme o sistema ou a estrutura, pois considerava a
língua autossuficiente. Para Sapir, nós é que adaptamos o pensamento e a cultura a este
sistema. Contudo, Mattos e Silva (2008) aponta que Sapir não desenvolveu o método
para explicar o caminho direcionado e apresenta a mesma visão teleológica já criticada
pelos linguistas antes.

Segundo a autora, o gerativismo, apesar de ser, assim como os outros dois, uma
teoria abstrata e formal, apresenta diferenças fundamentais entre os dois outros
modelos. Para Mattos e Silva (2008), tanto os neogramáticos quanto os estruturalistas
viram o sistema como fato social; para os gerativistas, a mudança linguística é a
mudança de regras na gramática.

A autora retoma as discussões anteriores acerca da regularidade das leis


fonéticas e considera este o ponto forte da Linguística Histórica em seu início,
encabeçada pelos neogramáticos. Acrescenta um outro contra-argumento a esta
hipótese, que é a teoria da difusão lexical, ou seja, as mudanças fônicas seriam
difundidas por meio de “camadas do léxico”, que diferentemente da teoria
neogramatical, ocorrem abruptamente ao passo que as mudanças no léxico ocorreriam
gradualmente.

Conforme Mattos e Silva (2008), as dúvidas acerca disto só puderam ser sanadas
através da pesquisa empírica. A autora cita diversas pesquisas realizadas com este
intuito, que culminou na hipótese inatista do gerativismo, diferenciando-o um pouco do
estruturalismo. Em contrapartida, Mattos e Silva (2008) cita Lakoff, que desenvolveu a
teoria de que há uma deriva interna nas línguas que explica certas coincidências ao
longo do tempo, um outro argumento com alto grau de abstração.

Segundo a autora, hoje, o gerativismo trabalha com o conceito de Lightfoot, no


qual ocorreria uma mudança de parâmetro, para o que antes interpretava como reanálise
na teoria padrão ampliada. Nesta nova perspectiva, ocorre uma busca pela gramática
universal (GU), um conjunto de princípios e parâmetros basilares para o
desenvolvimento linguístico da criança e para a representação da capacidade linguística
dos adultos.

Mattos e Silva (2008) diz que este modelo tem levado a uma pesquisa
interlinguística, que resultou no desenvolvimento do conceito de princípio de
dependência da estrutura, uma propriedade básica que permite a faculdade da
linguagem, seria a aliança com a noção de sistema. Segundo essas hipóteses, a
agramaticalidade não faz parte da experiência cognitiva da criança no desenvolvimento
da linguagem. Os desvios são vistos como variantes inovadoras, mas que nunca fogem a
estrutura sistêmica da língua. Deste modo, experiências diferentes fariam emergir
gramáticas diferentes nos indivíduos.

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