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ENSAIO | ESSAY

ALIMENTAÇÃO NA GESTAÇÃO E PUERPÉRIO | 245

Alimentação na gestação e puerpério

Feeding in pregnancy and postpartum

Mirian Ribeiro BAIÃO1


Suely Ferreira DESLANDES 2

RESUMO

Os preceitos científicos para uma alimentação saudável são bastante difundidos e reconhecidos como essenciais
às demandas nutricionais da gestação e dos eventos a ela relacionados, como o puerpério e a lactação, e visam
principalmente, à saúde do binômio mãe-filho. Por outro lado, as práticas alimentares de mulheres durante o
ciclo gravídico-puerperal podem ser influenciadas por outras lógicas. Este artigo é um ensaio teórico que
pretende refletir sobre a dinâmica da dimensão sociocultural e das relações sociais nas práticas alimentares de
gestantes e puérperas. Procura avançar no entendimento da alimentação para além de uma leitura estritamente
nutricional, biológica, majoritariamente interpretada sob a perspectiva bioestatística. Destaca a importância
de abordar as questões que permeiam a alimentação por uma ótica interdisciplinar, que permita conjugar
saberes fundamentados nas Ciências Sociais e na Biomedicina, a fim de repensar políticas públicas e requalificar
a prática assistencial prestada a esse grupo.
Termos de indexação: antropologia da alimentação; conduta na alimentação; gravidez; hábitos alimentares;
puerpério.

ABSTRACT

The scientific precepts for healthy eating have been widely divulged and are recognized as essential to the
nutritional demands of pregnancy and its related events, such as postpartum and breastfeeding, aiming
mainly at the health of the mother-child binomial. On the other hand, the eating habits of women during the
pregnancy-postpartum cycle may be influenced by other logic. This article is a theoretical essay that aims to
reflect on the dynamics of the socio-cultural dimension and on social relationships with respect to the eating
habits of pregnant and postpartum women. It also aims to enhance the understanding of feeding beyond a
strict nutritional and biological observation, in greater part interpreted from the bio-statistical perspective. It
highlights the importance of approaching questions related to feeding from an interdisciplinary point of view,
which allows for the conjugation of knowledge based on the Social Sciences and Biomedicine, in order to
review public policies and improve the practice of assistance offered specifically to this group.
Indexing terms: eating anthropology; feeding behavior; pregnancy; food habits; puerperium.

1
Doutoranda, Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e da Mulher, Instituto Fernandes Figueira, Fundação
Osvaldo Cruz. Av. Rui Barbosa, 716, 2º andar, Flamengo, 22250-020, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Correspondência
para/Correspondence to: M.R. BAIÃO.
2
Programa de Pós-Graduação Saúde da Criança e da Mulher, Instituto Fernandes Figueira, Fundação Osvaldo Cruz. Rio de
Janeiro, RJ, Brasil.

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INTRODUÇÃO midos da dieta, quando considerados “fortes” e


perigosos para a saúde da mãe e da criança.
A gestação e os eventos a ela relacionados, Também favorece a exclusão de alimentos o
como puerpério e lactação, são marcados por
emprego do princípio da analogia, como, por
profundas mudanças que interferem na vida da
exemplo, ingestão de ovos e nascimento de um
mulher. As mais reconhecidas são as modificações
bebê calvo; pata de caranguejo e malformação
relacionadas ao corpo, sua fisiologia e meta-
das pernas; consumo de abacaxi e surgimento de
bolismo. Sob o ponto de vista da biomedicina, é
manchas na pele da criança8.
inegável que são fases de maior vulnerabilidade
e de grandes demandas que requerem prioridade Muitas pessoas em diferentes sociedades
na assistência. ainda crêem que os desejos da gestante precisam
O perfil de morbidade das gestantes se ser atendidos, caso contrário a criança nascerá
caracteriza pela dualidade do estado de saúde e com alguma marca; que a coloração de alguns
nutrição. De um lado, o baixo peso materno e as alimentos pode manchar a pele do bebê e que
carências específicas de micronutrientes, podendo alimentos “quentes” podem provocar aborto9.
resultar em baixo peso ao nascer, e, de outro, o Assim, em diversas culturas, uma mulher que
sobrepeso e a obesidade, que muitas vezes transgrida as normas pode se tornar responsável
associam-se ao desenvolvimento do diabetes pelo surgimento de malformação fetal, de defeitos
gestacional e/ou síndrome hipertensiva da simples ou doenças na criança8,9.
gravidez, com conseqüências para a saúde Do ponto de vista científico, é possível
materna e do concepto¹. observar a adoção de dietas monótonas,
No Brasil, a assistência pré-natal inclui o qualitativamente insuficientes para o crescimento
acompanhamento e o monitoramento do ganho e desenvolvimento fetal.
de peso gestacional e prevê orientações nutri- Em resumo, no que se refere à alimen-
cionais voltadas às mulheres no período que vai
tação, é possível evidenciar a presença de
da gravidez à amamentação².
significados a partir de dois tipos de lógica: a
A ciência da Nutrição se ocupa em adequar sociocultural e o conhecimento científico. Embora
as recomendações nutricionais às necessidades de cercada por uma racionalidade técnico-científica,
nutrientes dos indivíduos nas diversas fases do ciclo sobretudo por meio do contato com o discurso
da vida. Porém, estudos realizados em diferentes biomédico na assistência pré-natal, as crenças,
regiões do Brasil revelam que as práticas alimen-
os valores, os gostos, as prescrições e interdições
tares de mulheres, mesmo em estados fisiológicos
alimentares têm grande importância para muitas
de grande importância, sob o ponto de vista
mulheres grávidas e puérperas em várias culturas.
nutricional, tais como gestação, puerpério e
lactação, são permeadas por crenças, prescrições Ao identificar a alimentação como um
e proibições3-7. sistema complexo que transcende a questão
nutricional, e a gestação e o puerpério, períodos
Desse modo, o conhecimento científico
(traduzido na prescrição dietética) e as práticas especialmente importantes sob o enfoque do
culturais podem estar em oposição, o que coloca atendimento às exacerbadas demandas nutri-
a mulher diante de duas lógicas distintas. Os cionais, este artigo é um ensaio teórico que
preceitos científicos tornam-se impotentes diante procura refletir e discutir a alimentação e as
de algumas interdições e prescrições, particular- práticas alimentares na gravidez e no puerpério,
mente associadas aos valores culturais e ao fundamentado, principalmente, em estudos que
simbolismo dos alimentos. Com isso, legumes, utilizaram as ciências sociais em saúde como
frutas, ovos, peixes e carnes costumam ser supri- referencial teórico e/ou método.

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Para deflagrar esta reflexão, duas das condições socioeconômicas e antropo-


perguntas tornam-se centrais: quais são as métricas14. Essas situações demonstram que o
principais relações sociais, lógicas culturais que estado nutricional, como objeto de estudo, exige
podem influenciar as práticas alimentares de ser investigado para além do entendimento de
gestantes e puérperas? Há, efetivamente, espaço sua extensão, buscando a compreensão em sua
na assistência para instituir a discussão e reflexão profundidade e complexidade.
sobre essas questões e, assim, possibilitar uma Estudos têm demonstrado um padrão
orientação nutricional mais comprometida com a inadequado no consumo alimentar dos brasi-
valorização do patrimônio cultural alimentar das leiros11,15-18, caracterizado pela alta densidade
mulheres grávidas e das parturientes? energética, com altos teores de gorduras e
O estudo parte do pressuposto de que tais açúcares simples, em detrimento de carboidratos
relações, interações, regras e lógicas socioculturais complexos e fibras. A associação demonstrada por
são ignoradas nas orientações nutricionais voltadas métodos quantitativos entre dieta e doenças,
às mulheres no ciclo gravídico-puerperal. A especialmente as crônicas, vem motivando o setor
reflexão desenvolvida busca contribuir com uma da saúde a intervir com mudanças nos padrões
prática assistencial com potencial de articular a de consumo alimentar18.
lógica da ciência com outras lógicas que também
Os hábitos de consumo representam
pertencem ao mundo do vivido, redimensionando
somente uma dimensão do “espaço social ali-
o olhar para o tema alimentação na gestação e
mentar” 19, devendo ser estudados em sua
puerpério, além de suscitar um repensar sobre
totalidade, o que significa investigar não somente
políticas públicas e prática assistencial, indicando
o registro de quantidades e freqüências dos
a necessidade da adequação cultural das ações
alimentos consumidos, mas as formas de cozinhar
voltadas a esse grupo.
e de consumir20. Os inquéritos realizados por meio
de estudos epidemiológicos deixam de contemplar
Alimentação: conexões entre a uma compreensão pautada nos aspectos
biologia, a cultura e a sociabilidade socioculturais presentes em cada comunidade no
tempo e no espaço.
O quadro da má nutrição, que era caracte- Oliveira & Thébaud-Mony 21 entendem que
rizado pela magreza, nanismo e menor resistência as avaliações de consumo alimentar deveriam
às infecções, tem sido modificado pelo aumento considerar fatores socioculturais e nutricionais
da prevalência do sobrepeso10,11. Para Claude reveladores das várias dimensões presentes nas
Fischler, citado por Sorcinelli12, não é mais o medo necessidades dos indivíduos, das suas formas de
das privações, da falta de alimentos, nem a
adaptação e de apropriação do modelo domi-
obsessão pelo abastecimento que preocupam o
nante, das suas formas de resistência, da adoção
homem ocidental, mas a abundância, isto é, o
de novos alimentos ou preparações e manutenção
conflito e a insegurança causados pelo medo dos
de hábitos e práticas tradicionais, assim como de
exageros alimentares e pelo problema da escolha
dos alimentos. Porém, em locais onde há escassez suas representações e estratégias de sobrevivência
ou dificuldade de acesso aos alimentos por parte face à oferta.
da população, devido a situações de pobreza, o Embora se reconheça que a indispo-
temor da fome ainda é uma realidade. nibilidade de alimentos possa provocar carências,
É possível, também, encontrar num mesmo a abundância não garante um estado nutricional
contexto de privação social, desnutrição e adequado, em função do componente comporta-
obesidade13, e, ainda, a carência de micronu- mental que determina a seleção, o preparo e a
trientes pode se manifestar independentemente ingestão alimentar14.

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Deve-se ressaltar que uma associação O consumo alimentar está relacionado às


mecânica entre estado nutricional e comporta- crenças que foram construídas por uma sociedade
mento alimentar pode fazer recair sobre o ao longo de sua história, as quais nem sempre
indivíduo a culpabilização por suas escolhas. No estão ajustadas à ciência e à razão e, como
entanto, pouco se sabe sobre as diferentes razões conseqüência, inúmeros programas que visavam
que desencadeiam a escolha dos alimentos. mudar hábitos alimentares fracassaram, por des-
Conforme defende Murrieta22, “... os considerar preceitos e proibições religiosas, bem
processos de escolhas alimentares são o resultado como a cultura alimentar local25.
da interação dialética entre as estruturas habituais No entendimento de Lima26, as classes
do cotidiano, os ciclos ecológicos dos recursos sociais apresentam conteúdos socioculturais
naturais, a dinâmica político-econômica dos específicos que revelam não só os hábitos
mercados locais e regionais e as representações alimentares e os modos de conceber os alimentos,
de classe e preferências individuais” (p.41). Não mas as concepções e percepções sobre a vida num
apenas escolhemos o que comemos, mas também dado momento histórico.
o quanto, onde, como, quando e com quem,
De acordo com Poulain & Proença19,20 o
constituindo práticas alimentares diversificadas que
se relacionam às representações coletivas, ao “fato social alimentar” engloba as práticas
imaginário social, às crenças de um grupo e às alimentares e as representações sociais, revela-
suas práticas sociais23. doras de questões particulares e subjetivas de cada
indivíduo e cada grupo social. Constitui-se um novo
A prática clínica reconhece as influências
campo de pesquisa, que se abre na interface das
culturais sobre o estado nutricional dos indivíduos,
ciências da Nutrição e das leituras socioantro-
que pode ser afetado de duas maneiras: por meio
pológicas da alimentação. Tem como objeto de
da exclusão de alimentos fontes de nutrientes
estudo a compreensão das escolhas alimentares
essenciais, se esses forem classificados como
e necessita, para o seu desenvolvimento, das
impróprios; e/ou do estímulo ao consumo de
colaborações pluri e transdisciplinares.
alimentos considerados prejudiciais à saúde pela
ciência da Nutrição9. Evidencia-se, portanto, uma
leitura limitada que enfatiza uma interferência Ampliando o olhar: a mulher e a
negativa da cultura sobre as condutas alimentares. alimentação
Os aspectos culturais e simbólicos presentes na
alimentação e, sobretudo, nas práticas alimentares A associação das mulheres com a comida
são, freqüentemente, traduzidos como ignorância e com o cozinhar, e dos homens com o trabalho
ou falta de informação. Sob essa ótica, as fora do domicílio e com a política, tem sido objeto
inadequações podem ser corrigidas pelo maior de uma importante literatura dedicada à relação
acesso ao conhecimento técnico-científico, que da comida com o gênero, com temáticas que se
vem sendo cumprido pela educação nutricional, relacionam com imagem corporal, domesticidade,
que visa transformar hábitos alimentares liberação das mulheres e identidade de gênero27.
inadequados14. Desde o século XIX as melhores condições
Promover a educação nutricional como de alimentação na Europa exerceram influência
uma intervenção capaz de transformar hábitos tem sobre a regulação hormonal feminina, anteci-
se revelado uma tarefa pouco eficaz, o que leva pando a menarca e retardando o surgimento da
a crer que o entendimento sobre o processo menopausa, com conseqüente aumento do
histórico e sobre os aspectos simbólicos da período de fertilidade. Porém, a ração alimentar
alimentação deveria estar contido nas orientações, destinada aos homens foi sempre bem maior do
as quais precisam compatibilizar a racionalidade que a das mulheres, mesmo em períodos de
técnico-científica e a cultura24. gravidez e lactação, o que as tornava propor-

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cionalmente mais atingidas por carências do marido e dos filhos e não o seu próprio
nutricionais, principalmente hipovitaminoses, gosto31.
revelando características de um modelo alimentar Murrieta22, na Ilha de Ituqui, no Pará, obser-
baseado na discriminação da mulher - cuja função vou que a alimentação é servida primeiramente
primordial era a reprodução -, significando um aos homens, “como na maior parte das socieda-
estado de inferioridade social12. des camponesas latino-americanas” (p.68). Além
Para Valeri28, a tensa oposição entre os disso, o autor comenta que as partes mais
gêneros se reflete em muitos sistemas alimentares, valorizadas do peixe, um alimento considerado
pois os alimentos, freqüentemente, são divididos especial na região, eram destinadas aos homens
em alimentos de homens, de mulheres e e a cauda e as porções espinhosas ficavam para
“neutros” e, ainda, as práticas alimentares costu- as mulheres, que acabavam por desenvolver
mam estar associadas a qualquer tipo de relação preferência por essas partes.
estabelecida entre homens e mulheres. O autor Na visão de Freitas13, é devido às relações
cita o exemplo de Tanga (Nova Irlanda) para assimétricas de gênero que se instauram na
diferentes significados nas seguintes situações: se organização doméstico-familiar que cabe às
um homem e uma mulher comem juntos, se o mulheres a menor parte ou aquilo que sobra da
marido recusa a comida preparada pela mulher e alimentação dos filhos, o que pode estar
se a mulher aceita a comida de outro homem contribuindo com a mortalidade materna e infantil
podem significar aproximação, separação e no Brasil como um reflexo da má nutrição.
adultério, respectivamente. Ainda para o mesmo
Ainda em muitas culturas a mulher pode
autor, em algumas sociedades a comensalidade
ser considerada impura, especialmente no período
entre homem e mulher é proibida, salvo em
da menstruação, e fica proibida de cozinhar para
situações de orgia, sendo a alimentação, muitas os homens, pois a impureza pode ser transmitida
vezes, identificada com a cópula, revelando uma pelos alimentos que recebem influências da
ligação entre o ato de comer e o ato sexual. pessoa que os cozinhou28.
Comumente, em quase todas as socieda- Em Itapuá, Pará, Motta-Maués5 verificou
des do ocidente, tem sido atribuída à mulher a que as proibições alimentares durante a mens-
responsabilidade pela seleção, preparo e distri- truação dizem respeito a um contexto de
buição dos alimentos no interior da família, além categorizações mais amplo, referente à reima dos
do cuidado com os filhos, o que vem justificando alimentos, que são classificados como “reimosos”
a educação nutricional destinada às mães29, ou “mansos” (“não reimosos”). Os critérios
consideradas, na maioria das vezes, responsáveis utilizados para essa classificação levam em conta
pelos agravos nutricionais das crianças. três questões: a) o alimento em si, antes de ser
Em um estudo no semi-árido baiano, sobre preparado para o consumo; b) o estado da pessoa
que vai prepará-lo; c) o modo de preparo do
estratégias alimentares de sobrevivência, Assis
alimento. Nessa comunidade, a mulher
et al.30 apontam que a escolha das mulheres como
menstruada também fica impedida de comer
informantes justificou-se por serem elas que
alimentos “reimosos”. Ela não ingere, enquanto
“tradicionalmente elaboram e preparam os
dura o fluxo, frutas ácidas, “travosas” (caju,
alimentos, cuidando de repor a força de trabalho taperebá, tamarindo, etc.) e gordurosas (abacate,
masculina, dos seus próprios corpos e da piquiá, uxi, umari, etc.). A proibição dessas frutas
alimentação da criança” (p.162). No entanto, previne as “doenças do ventre”, tais como: a
embora sejam responsáveis pelo preparo dos “suspensão” (quando o sangue menstrual “sobe
alimentos, as mulheres normalmente realizam essa pra cabeça”, podendo a mulher ficar louca ou
tarefa levando em consideração somente o gosto até mesmo morrer); as “flores brancas” (conhe-

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cidas como corrimento) e a “mola” (espécie de No modo de vida urbano circulam fortes
“bicho” gerado no ventre materno). imposições estéticas ao corpo feminino, o que faz
supor que, não raro, mesmo mulheres grávidas
A reima pode justificar ainda, em algumas
passem a evitar de forma mais radical certos
regiões do Brasil, a figura da “mãe-de-leite”, pois,
alimentos que “engordam”, tais como doces,
nos primeiros dias após o parto, a puérpera fica
massas, pães e frituras.
impedida de amamentar porque o leite materno
é considerado “venenoso” ou “reimoso”, configu- Motta-Maués 5 também verificou, em
Itapuá, Pará, que a gravidez pode ser ameaçada
rado pela sua própria coloração amarela5,32.
pelo desenvolvimento da “mola” se a mulher,
As restrições alimentares visam ao quando menstruada, ingerir, numa mesma
equilíbrio do corpo e do espírito22. Como durante refeição, carne com frutos do mar. Para cortar
a menstruação, gestação, puerpério e lactação a o efeito deve-se tomar um copo d’água entre um
mulher e também as pessoas a ela ligadas ficam alimento e outro, sendo essa a única proibição
vulneráveis, existe uma consciência coletiva da que se mantém durante toda a gestação, nesse
necessidade de proteção e prevenção. caso, tanto para a mãe quanto para o pai, pois os
dois precisam evitar totalmente a mistura.
O puerpério, de forma semelhante à
Alimentação, gestação e puerpério:
gestação, é identificado como momento especial
dinâmicas e lógicas socioculturais
ao qual se aplicam algumas regras alimentares.
Na linguagem popular o puerpério é conhecido
Em muitas sociedades as mulheres acre-
como o período do resguardo, pós-parto, dieta,
ditam que, quando estão grávidas, devem
quarentena, durando cerca de quarenta dias e é
modificar a dieta de alguma forma, pois as
repleto de grande significação cultural33,34. No
prescrições e proibições durante esse período
estudo de Chamilco7, as parteiras entrevistadas
visam proteger mãe e filho, e, se não forem
revelaram que “até se completarem os quarenta
respeitadas, podem causar deformações ou danos
dias posteriores ao parto, a mulher está com o pé
físicos no bebê9.
na sepultura” (p.127), ficando submetida a uma
Em um estudo sobre gravidez e mater-
série de prescrições e proibições.
nidade, em grupos urbanos de baixa renda de
Porto Alegre, Paim6 revela que, na gravidez, o Tradicionalmente, a parturiente obedece
corpo se manifesta também quanto a certos a um regime alimentar severo, que visa garantir
alimentos, por meio do desejo ou enjôo, que a recuperação da mãe e a qualidade do leite para
podem variar entre os indivíduos. As mulheres a criança. Canja de galinha, canjica e outros ali-
estudadas enfatizaram que, quando não estavam mentos são usualmente apontados como capazes
grávidas, não apresentavam as mesmas reações de restabelecer a parturiente, mas também de
a determinados alimentos que experimentaram produzir um leite de alto teor nutritivo porque,
durante a gravidez. Normalmente os alimentos segundo as representações, a mãe que não se
mencionados como causadores de desejos eram alimenta adequadamente pode até ter muito leite,
comuns na dieta das mulheres. De maneira mas não satisfaz a criança porque o leite é
semelhante, os alimentos apontados como “fraco”4.
causadores de enjôos faziam parte da alimentação Os itapuaenses, no Pará, crêem que as
rotineira, como carne, feijão, tomate, pimentão, mulheres ficam “estragadas”, ou seja, doentes,
considerados alimentos “fortes”. Em geral, o quando não há resguardo, não podendo mais
aumento da quan-tidade de alimentos consumidos cumprir suas funções como antes. Nessa comu-
durante a gestação foi ressaltado nas falas das nidade, o período não termina ao fim dos quarenta
mulheres. dias após o parto, pois as proibições de alimentos

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e de certas atividades se estendem para o primeiro Castro35 já identificava o puerpério como


ano, em cinco momentos distintos. Nos primeiros um período de restrição alimentar, relatando que,
sete dias a mulher recebe uma alimentação de modo geral, a parturiente precisava esperar
diferente, na freqüência, quantidade e qualidade, pelo menos quarenta dias para comer frutas e só
do que habitualmente é consumido pela popu- uma carne era permitida, a carne de galinha
lação local. São permitidos alimentos, como café, servida com arroz.
pão, bolachas, manteiga, galinha, macarrão, arroz, Em uma maternidade de São Paulo, Vítolo
farinha de mandioca. Geralmente a mulher et al. constataram como crenças expressivas das
36

consome uma galinha por dia nessa primeira puérperas a importância de consumir canjica,
semana, dividida entre almoço e jantar. No cerveja preta e leite para auxiliar o aleitamento
segundo período do resguardo, que vai do oitavo materno. Entre os alimentos considerados preju-
ao quadragésimo dia, a dieta inclui “peixinho diciais foram apontados: frutas ácidas, alimentos
bom”, peixe “não reimoso”, de acordo com regras gordurosos, abóbora e pimenta.
a serem seguidas na pesca e no preparo de peixe
Pode-se dizer que, em geral, a gravidez e
pequeno e “magro”. Além do peixe, a mulher
os eventos a ela relacionados não indicam apenas
também pode comer carne bovina, tanto o
o desempenho de uma atividade fisiológica, mas
charque quanto carne fresca, submetida à salga
constituem também acontecimentos culturais que
e preparada de modo igual ao peixe. Do
são experimentados sob uma construção simbólica
quadragésimo primeiro dia ao terceiro mês são
que permeia os indivíduos6.
permitidos peixe fresco “não reimoso” e caran-
guejo, de espécie “não venenosa”. Já no quarto
período (do quarto ao sexto mês) continuam
CONCLUSÃO
proibidos: frutas ácidas e gordurosas, carne de
porco, peixes muito “reimosos” (cação e A gestação e o puerpério são considerados
pacamon). No último, do sétimo ao décimo momentos especiais, tanto pela ciência quanto
segundo mês, permanecem fora da dieta: carne pela cultura. Nesses períodos a mulher está sujeita
de porco, cação e pacamon. Segundo a autora, a determinadas regras baseadas em saberes
devido ao rigor das proibições alimentares, é
diversificados (provenientes da cultura familiar, da
comum que as mulheres se alimentem apenas
cultura de gênero, da cultura biomédica, entre
de mingau de farinha de mandioca, quando há
outros) que nem sempre dialogam entre si, mas
falta de alimentos permitidos para as mesmas5.
que estão intrinsecamente ligados ao modo como
Em Santana do Amapá, durante os pri- as gestantes/puérperas se alimentam e sobre as
meiros sete dias de resguardo, as puérperas são escolhas que fazem.
orientadas a consumir uma dieta especial. O
Dentro do universo cultural de cada grupo
cardápio pode ser resumido em café da manhã
existem leituras diversas que podem se justapor,
com café e bolachas ou pão; um copo de suco ou
leite ou caldo de cana, por volta das nove horas; antagonizar ou interagir, num constante
metade de uma galinha, cozida em bastante movimento. Por um lado, as crenças, proibições,
caldo, arroz e farinha de mandioca no almoço; à prescrições e valores alimentares são considerados
tarde, um lanche semelhante ao das nove; jantar necessários. Por outro, novos referenciais são
igual ao almoço e, antes de dormir, um copo de incorporados das aproximações com o discurso
leite com pão ou bolacha. A comida e o café não médico, das demandas de consumo, e até mesmo
podem ser requentados porque podem causar dor de uma nova estética, pois a cultura é inevita-
de barriga, cólica e infecção. Alimentos “reimo- velmente dinâmica. As interdições e prescrições
sos”, como alguns tipos de peixe e carnes, que cercam a mulher são veiculadas coleti-
também ficam proibidos durante o resguardo7. vamente, geralmente como discursos que visam

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às melhores condições de saúde da mãe e da REFERÊNCIAS


criança.
1. Assis AMO, Santos SMC, Freitas MCS, Santos JM,
Nas últimas décadas, a Nutrição ganhou Silva MCM. O Programa Saúde da Família:
seu estatuto de ciência e passou a intervir na contribuições para uma reflexão sobre a inserção
cultura alimentar, definindo o que devemos comer. do nutricionista na equipe multidisciplinar. Rev
Nutr. 2002; 15(3):255-66.
No entanto, é importante desmistificar os precon-
2. Brasil. Ministério da Saúde. Assistência Pré-natal.
ceitos baseados em argumentos científicos, como
Manual técnico. Brasília; 2000.
o de atribuir à falta de informação e de conheci-
3. Trigo M, Roncada MJ, Stewien GTM, Pereira IMTB.
mento a causa da maioria dos agravos nutricionais. Tabus alimentares em região do norte do Brasil.
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referencial estamos classificando hábitos 4. Daniel JMP, Cravo VZ. O valor social da alimentação.
alimentares como maus ou inadequados? Ou Bol Antropol. 1989; 2(4):69-83.

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tações sobre sexos e práticas médicas na Amazônia
sob o ponto de vista da ciência da Nutrição, quais
(Itapuá/Pará). In: Minayo MCS, Alves PC,
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presentes nas práticas alimentares? Para responder 6. Paim HHS. Marcas no corpo: gravidez e
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menos autoritária e com menos ruídos, 7. Chamilco RAS. Práticas culturais das parteiras
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usuários para com os profissionais da saúde. estudo etnográfico [tese]. Rio de Janeiro: Escola
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Espera-se suscitar a reflexão sobre as ações do Rio de Janeiro; 2004.
que tentam modificar hábitos, atitudes e compor- 8. Rollet C, Morel M-F. Grossesse et accouchement.
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