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PAUL-LAURENT ASSOUN

Coleção Tudo é História


(Biografia)
FREUD & NIETZSCHE
(lrcmd, Pensador da Cultura Fricdrich Nietzsche SEMELHANÇAS E DESSEMELHANÇAS
llcnaro Mezan Scarlett Manon

Genealogia da Moral Sigmund Freud


l1ricdrich N ietzsche' A conquisto do proibido
Renato Mezan Tradução:
Nietzsche
María Lúcia Pereira
Dos forças córmicor aos valorer
humanos
Scarlctt Marton Revisão técnica da tradução:
Paulo Cesar Souza
Sigmund Freud e o Gabinete do
Dr. Lacan
Pctcr Gay e ou tros
2~ edição
A Vingança da Esfinge
Emaios de psicanálise
Renato Mezan

editora brasiliense
Copyright © by Presses Universitaires de France, 1980
Título original em francês: Freud et Nietzsche
Nenhuma parte desta publlcação pode ser gravada,
armazenada em sistemas eletrônicos, fotocopiada,
reproduzida por meios mecanicos ou outros quaisquer
sem autorização prévia do editor.

ISBN: 85-11-12053-X
Primeira edição, 1989
2~ edição, 1991

Indicação editorial: Paulo César Souza


Copydesk: Rosemary C. Machado
Revisão: Maurício Bichara e Carmem T. S. Costa
Capa: Ettore Bottini

NOTA DO AUTOR

IP
Rua da Consolaç'lio, 2697
01416 São Paulo SP
Em relação a todas as referências às obras de Nietzsche e de
Freud na presente obra, remetemos, por um lado, aos Siimtliche
W erke in zwolf Biinden de Friedrich Nietzsche, A-lfred Krõner
Verlag, Stuttgart (1964)~ por outro lado, aos Gesammelte Werke
de Sigmund Freud, Imago Publishing Co., Londres (1948), 18
Fone (011) 280-1222 - Fax 881-9980 volumes. As citações de Nietzsche e Freud serão, pórtanto, acom-
Telex: (11) 33271 DBLM BR panhadas respectivamente das letras SW e GW, seguidas da men-
IMPRESSO NO BRASIL ção do tomo e da página.
SUMÁRIO

Introdução 9

Primeira Parte
NOTA DA TRADUTORA
Freud e Nietzsche
Na~traduç·ão das citações foram utilizadas as seguintes edi- 1. Freud frente a Nietzsche:
ções de obras de Nietzsche: Assim Falou Zaratustra, trad. Mário gênese de um encontro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
da Silva, Ed. Berttand Brasil; Obras Incompletas, Coleção "Os 2. Nietzsche no discurso freudiano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68
Pensadores", sefeção de textos de Gérard Lebrun, tradução e notas
- de Rubens Rodrigues Torres Filho, Ed. Abril, O Crepúsculo dos
ídolos, trad. Artur Morão, Edições i0/Martins Fontes; Ecce Homo, Segunda Parte
traducão e notas de Paulo César Souza, Ed. Max Limonad; A Nietzsche e Freud
Gene;fogia da Moral, trad. Paulo César Souza, Ed. Brasiliense.
Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87
As citacões de outras obras foram traduzidas do texto francês do
autor e' cotejadas com o original alemão, sempre que foi possível Livro Primeiro
localizá-las. O mesmo procedimento foi adotado ao traduzir as Os fundamentos
citações de Freud. Para a terminologia freudiana, recorreu-se qua- 1. Instinto e pulsão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93
se sempre ao Vocabulário de Psicanálise, de J. Laplanche e J.·B. 2. Psicologia nietzschiana e psicanálise freudiana . . . . . . . . 126
Pontalis, Ed. Martins Fontes. 3. Princípios pulsionais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 148
8 PAUL-LAURENT ASSOUN

Livro Segundo
Os temas
1. Amor e sexualidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 169
2. Inconsciente e consciência . . . . . . . . . . . . . • . . . . . . . . . . . 185
3. O sonho e o simbolismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 204 INTRODUÇÃO
Livro Terceiro
Os problemas
L Neurose e moralidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 227
2. Cultura e civilização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 259
3. A terapêutica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 283

Conclusão . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 299
lodice temático . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 311

FREUD "E" NIETZSCHE


PROBLEMATICA DE UMA CONJUNÇÃO

"Freud e Nietzsche". Esta conjunção foi percebida e autoriza-


da há muito tempo, a bem dizer desde a origem da psicanálise,
desde que foram descobertas ressonâncias de uma obra e de um
verbo na outra. 1 Como não perceber, pelo menos intuitivamente,
até que ponto tal ou qual enunciado nietzschiano "soa freudia-
no"? Por isso se teceu sem cessar o fio dessa analogia, a ponto
de fazer dela um lugar-comum. Essa tentação já é em si mesma
um fato que une, mesmo contra sua vontade, o fundador da psi-
canálise a este grande "precursor".
O fio da analogia, porém, por mais obstinadamente tecido que
seja, está por isso mesmo mais fino, de tanto ser, como a obra de
Penélope, eternamente desfeito e refeito. J! preciso decididamente
passar da analogia ao confronto de fundo que ela indica, mas que
serviu com muita freqüência para eludir. Quanto mais o tema
nietzscheo-freudiano se impõe como um requisito, mais parecem
ter hesitado em explicitá-lo, seja porque a analogia pareceu bas-
IU PAUL-LAURENT ASSOUN INTRODUÇÃO 11

taJ--Se a si mesmá, em suas virtudes ao mesmo tempo vastas e gio. Quando Freud encontra a figura de Fl'ieddch Nietzsche, sente
vagas de sugestão, seja porque um discurso eclético teria se adap- efetivamente, apesar de dar impressão de aplicar a ele a lei comum
tado à vagueza desta aproximação, a fim de aí tra)llar simílitudes aplicável à gentinha filosofante, que está tratando com algo dife-
t·etóricas. l'ente de uma atualização qualquer e não privilegiada desta. E se
Quanto a nós, propomo-nos a explicitar decididamente o con- ele tivesse sido tentado a eludir este privilégio, outros se encar-
teúdo e o sentido desta conjunção, que, longe de se bastar, produz regariam de induzi-lo com insistência,4 se é verdade que os alcovi-
um enxame de problemas e constitui por si só um problema. Que teiros nunca foram tão zelosos quanto entre Freud e esse filósofo.
pensar do sintagma sedutor, porém impressionista: "Freud e Nie- Nada mais revelador, desse ponto de vista, que a comparação
tzsche"? Como interpL'etar rigorosamente a conjunção? Questão da relação de Freud com essas duas figuras que são Schopenhauer
ainda mals oportuna porque Nietzsche, num de seus últimos afo- e Nietzsche. Schopenhauer ocupa o centro daquilo que havíamos
rismos, sugeria ulila hermenêutica da conjunção, interpretando ,chamado de "topografia filosófica freudiana" .5 No seio dessa
certos "e" "fa111igerados", como por exemplo, "Goethe e Schiller" " galáxia", Nietzsche ocupa apenas a posição de primeiro satélite
ou "Schopenhauer e von Hartmann 1'. 2 Que teria ele pensado desta, e não poderia disputar com Schopenhauer sua função de centro
forjada pó~co depois de sua advertência: "Nietzsche e Freud"? solar, por razões históricas e ideológicas profundas que colocamos
Partitemos do princípio de que se pode legitimamente suspei- em evidência.6
tar de famigerada toda conjunção de nomes próprios que se satis- Esse é, sem dúvida, se abordarmos a escolha do objeto filosó-
faça com º. eco sedutor, sem relacioná-lo à línguagem menos pon- fico freudiano em sua positividade, o primeiro lugar de Nietzsche.
tual das problemáticas que, simultaneamente, tornaram possível El~ apareceria bem perto do foco schopenhaueriano, desviando ·
o eco e permitem dissipar seus prestígios e equívocos. os eflúvios e virtudes para seu benefício. Nietzsche seria, de certo
Isto supõe, em primeiro lugar, expor o confronto Nietzsche- modo, um duplo brilhante de Schopenhauer aos olhos de Freud.
Freud, tornado naturalmente possível retrospectivamente pelo se- Do ponto de vista de certo modo doméstico de Freud usuário dos
gundo tetmo, dentro dó contexto global da relação do fundador filósofos, Nietzsche viria portanto exatamente atrás de Schopen-
dà psicanálise com a filosofia e os filósofos, com respeito ao qual hauer, e Freud o acolheria com uma fraternidade jovial, isto é,
éle faz sentido.. Nesta primeira perspectiva, falsearíamos de ime- numa paternidade comum do mestre de Frankfurt. Para Freud,
diato a questão das relações Nietzsche-Freud, isolando-as da rela- portanto, o uso de Nietzsche parece mediado por Schopenhauer,
ção de certo modo genérica de Freud com os filósofos e com a que melhor se presta às necessidades imediatas do seu uso. Eis
coisa filosófica e~ geral. Lembrnnça tão mais necessária aqui, em por que, num certo sentido, a relação específica com Nietzsche
sua própria evidência, porque o prestígio do precursor teve por não traz nenhuma modificação substancial ao regime geral da
· efeito a ilusão do tête•à-tête. Contra esta prevenção, é preciso relação com a filosofia e se encontra inserida neste regime, sub-
lembrar que Freud aborda Nietzsche filósofo com o aspecto exte- metendo-se ao estatuto geral sem infringi-lo nem alterá-lo.
rior e a postura que o definem em face da realidade filosófica. Enquanto, porém, a relação com Schopenhauer vale antes de
Eis por que o presente estudo se destaca necessariamente do ante- mais nada como documento do investimento filosófico freudiano,
t'iôr, onde apresentávamos esta postura em sua unidade complexa a relação com Nietzsche vale por si só, além mesmo do que expli-
e em sua coerência ambivalente. 3 cita Freud, vista através da dimensão que as problemáticas poste-
Porém, se esta condição prévia fornece um pano de fundo riores deram aos patceiros.7 Independentemente dos desejos de
indispensável, não esgota em absoluto a questão específica abor- Fteud, e a despeito dele, forjou-se uma espécie de cumplicidade
dada aqui. Dentro desta segunda perspectiva, deve-se restituir a entre a psicanálise e Nietzsche, que força, sem julgar antecipada-
Nietzsche, sem antecipar o resultado da investigação, seu yrivilé- mente a analogia, a questioná-los em sincronia. Eis por que, se a
12 PAUL-LAURENT ASSOUN INTRODUÇÃO 13

relação com Schopenhauer é primária com respeito à relação posi- i1p6s O Nascimento da Tragédia, são publicadas no ano em que o
tiva de Freud com os filósofos, tornando secundária de facto a jovem Freud entra na Faculdade de Medicina de Viena (1873).
relação com Nietzsche, esta adquire um alcance de outra ordem: Freud torna-se médico no momento em que ·Nietzsche descobre
ela compromete até a identidade do projeto freudiano, que acha o acontecimento essencial - a revelação do eterno retomo -
ocasião de se definir por posição e oposição, portanto em paren- que decidirá sua filosof.ia (1881-1882).
tesco com este projeto filosófico privilegiado que, não por acaso, Quando a filosofia <le Nietzsche entra em seu período decisivo
parece invadir sem cessar o terreno psicanalítico. ele produção, em meados dos anos 80, Freud está na fase de ten-
Para nós, portanto, rec01·rentemente, a relação com Nietzsche lnlivas laboriosas. A viagem a Paris ao encontro de Charcot é
confirma ser privilegiada e em última análise a mais rica de contemporânea ao evangelho nietzschiano, Zaratustra (1885-1886).
sentido. Ainda convirá abordar a relação em sua idiossincrasia Nietzsche chega à crise final no momento em que Freud apenas
histórica, sem prevenir qualquer confusão entre nosso interesse e começa a gestar a psicanálise, via correspondência com Fliess
o . de Freud, o que teria por efeito falsificador de imediato o (1887-1889) . Quando Nietzsche sofre seu colapso mental, Freud,
confronto. Para seguir exaustivamente o confronto objetivo das aos 38 anos, está em crise de identidade .
problemáticas, convém portanto vê-lo desprender-se do que está f: no período de sobrevivência física de Nietzsche que se rea-
visivelmen·te em jogo para Freud e para a consciênc.ia histórica, liza o nascimento da psicanálise. Quando Nietzsche morre, A
mesmo tendo que recorrer aos textos p!lra levar a explicitação Interpretação dos Sonhos acaba de ser publicada, enquanto termi-
a cabo. na precisamente a correspondência com Fliess, que libera Freud
A conjunção "Freud e Nietzsche" é, na verdade, antes de mais e marca-lhe o acesso à própria identidade (1901). Alguns meses
nada um ai'tefato histórico. Entendemos que ele foi forjado como após a morte do filósofo é que se forma o primeiro grupo psica-
produto de cetta elaboração. Portanto, antes de colocar a questão nalítico (1902). Freud tem então 46 anos.
teórica de fundo, trata-se de um problema que mantém sua obje- Estes poucos pontos de referência bastam para ver que, cro-
tividade de contexto hi"stórico. nologicamente, Nietzsche e Freud são bem contemporâneos, po-
A melhor introdução ao problema é então uma descrição da rém, enquanto o primeh-o se expressa desde os 30 anos, Freud
gênese daquilo que tornou possível e impôs a conjunção e o só se torna ele mesmo aos 40, no momento em que Nietzsche
paralelismo ·enfre esses dois nomes próprios. Trata-se, na verdade, colocou um ponto final em sua obra. Quanto a Freud, desenvol-
antes de mais nadá, do encontro entre duas realidades bem pre- verá a sua por quatro decênios após o desaparecimento de Niet-
cisas, o movimento psicanalítico e aqueles que se tornaram volun- zsche, o que oculta, de certo modo, sua contemporaneidade. A
tariamente testa·menteiros de Nietzsche. obra de Nietzsche, porém, desconhecida por tanto tempo, só é
descoberta no final dos anos 80, quando do nascimento da psi-
ESTRANHA CONTEMPORANEIDADE canálise. O caso objetivo da história quer que no início do novo
século sejam descobertos, portanto, a psicanálise e o fenômeno
~ impressionante avaliar o fosso que a consciência histórica Nietzsche.
cavou entre Nietzsche e Freud que, em última análise, são con- Este é, na verdade, o primeiro dado histórico a ser conside-
temporâneos. Alguns pontos de referência traduzem esta contem- rado ao nos prepararmos para compreendei· como o conhecimen·
poraneidade. to de Nietzsche virá até Freud e como se tornará possível uma
Nietzsche é doze anos mais velho que Freud.8 Quando ele aproximação entre Nietzsche e Freud.
é nomeado professor de filologia em Basiléia, Freud ainda não Exceto alguns sinais precursores,9 só no início -dos anos 90 e
começou seus estudos de medicina. As primeiras Extemporâneas, na virada do século é que toma forma o movimento de desco-
14 PAUL-LAURENT ASSOUN INTRODUÇÃO 15

bcrta da obra de Nietzsche, na própria Alemanha. Mas como O Nietzsche-Archiv, seus Amigos e Jnimigos, 16 representa o ambí-
com Schopenhauei', ao grande silêncio sucede a moda que intro- guo papel de um estado-maior, aliás energicamente controvertido.
duz o nome de Nietzsche nas controvérsias do mundo intelectual. 1º Frente a ele; corrente proveniente de Basiléia e de Franz
Este falatório é que levará o nome de Nietzsche até Freud. Não é Overbeck esboça visão oposta de Nietzsche, que encontrará em
por acaso, realmente, que termos nietzschianos aparecem neste 1908, na obra de Carl-Albrecht Bernouilli, 17 importante formu-
momento na correspondência entre Freud e Fliess,11 sem que este lação. Assim, quem quisesse se familiarizar, na época da psicaná-
primeiro vestígio implique uma informação real: a terminologia lise nascente, com a vida e a obra de Nietzsche, deveria se dirigir
nietzschiana se espalha bastante facilmente no vocabulário da aos trabalhos de Raoul Richter,18 de Richard M. Meyer,19 ott
intellígentsia da época caracterizando mesmo certo pedantismo mesmo de Ernst Bertram.20 Estas contribuições, porém, podem
de salão. interferir em nosso propósito apenas como pano de fundo do
A grande onda da descoberta situa-se entre 1894 - data da conhecimento geral de Nietzsche, humo sobre ·o qual florescerão
publicação da biografia de Lou Salomé, 12 logo seguida da de as relações de Freud e Nietzsche, mas que o próprio Freud se
Elísabeth Fõrster-Nietzsche (1896-1904) 13 - e 1913 - término recusa a explorar.
da publicação das Gesammelte Werke (Obras reunidas), iniciada Este fato é preciso levar em conta, como complemento negativo
em 1899,' com a publicação do décimo nono volume. 14 Fato sim- da explosão da difusão de Nietzsche contemporâneo de Freud,
bólico: no mesmo .momento em que Signiund Freud faz sua entra- que não perde uma oportunidade de declarar solenemente que
da no campo científico, que começa a formular com a Traum- não o leu. Por ora, simplesmente apontemos aqui essas declarações
deutung (A interpretação dos sonhos),.- lançada em Viena, coloca-se que analisaremos mais tarde.21
a pedra inaugural da consagração literária da obra nietzschiana, Em 1908 Freud declara com um pouco mais 9-e clareza que
com o início da publicação das famosas Gesammelte Werke, vin- "não conhece a obra de Nietzsche".22 Se à época era impossível
culando o terminus a quo freudiano ao termínus ad quem nie- não conhecer o nome de Nietzsche, cuja ressonância estava no
tzschiano. · apogeu, deve-se compreender que ele não o leu nem estudou, o
que confirma uma declaração, contemporânea em que observa que
Mas se Nietzsche conquista assim seu monumento, ele apare-
"nunca conseguiu estudar Nietzsche". Não que jamais tenha tido
ce primeiro como problemática numa polê.rqica que, por causa
nas mãos um volume de Nietzsche, mas, de acordo com suas pró-
de sua própria im1ã, assume uin aspecto escolástico. Para colocar prias palavras, não conseguiu "ir além de meia página" em suas
em seus termos de origem o contexto do encontro entre Nietzsche tentati:vas de ler Nietzsche.23
e Freud, convém, de fato, lembrar que esta obra que desenvolve A mesma declaração em 1914: " Eu .. . me recusei o grande
daí para a frente seu texto, se oferece à leitura, torna-se então prazer proporcionado pela leitura de Níetzsche''.24 Desta vez,
objeto de um conflito de propriedade, antes mesmo que sett autor portanto, isto toma forma de penitência voluntária, que chega ao
esteja morto. No início do século, todo contato com a obra de mesmo resultado de privação. Utna última confirmação em 1925,
Nietzsche passa necessariamente pela intermediação de Elisabeth onde afirma que "evitou por muito tempo" 25 Nietzsche. Teremos
Forster-Nietzsche,15 animadora da fundação Nietzsche-Archiv, que que investigar as motivações desta abstinência ou penitência, seja
patrocina ativamente a publicação das Obras Completas, assim ela fortuita ou voluntária; mas este é pelo menos fato que estabe-
como a edição de bolso (Taschenausgabe) (1910-1913), que nos lece limite estrito à função de Freud enquanto l.eitor de Nietzsche.
anos que antecedem a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) :e fato, contudo, que se firmou relação duradoura entre eles
ga t'ante exçepcional difusão ao texto. Este Nietzsch~Archiv, cuja e que há um discurso de Freud sobre Nietzsche e um intercâm-
hislóri.a Elisabeth escreveu em 1907 com o significativo título de bio entre os dois pensamentos que faeud não nega. Se este, por-
16 PAUL-LAURENT ASSOUN INTRODUÇÃO 17

tanto, não está senão incompletamente ligado ao conhecimento que será definido como "um moralista que se distingue, é bem
direto da obra filosófica, impõe-se que tal intercâmbio venha de verdade, por um espírito de uma acuidade pouco comum".29 Por
outros canais que, por sua vez, devem ser examinados - pois outro lado, assinala-se "o contraste entre seu comportamento na
constituem a relação historicamente determinada de Freud com vida cotidiana e o tema principal de suas obras" ,30 ou seja, a
Nietzsche - e integrados como condição prévia positiva a qual- oposição entre a tristeza de seu caráter e a embriaguez dionisíaca
quer exame da questão dessa mesma relação. que impregna sua obra. O relevo desse contraste tem por objeti-
Antes, portanto, de especular sobre as relações entre as obras vo induzir uma interpretação psicologista do caso Nietzsche -
em si mesmas26 in abstracto, temos que circunscrever os teares isto é, um esclarecimento do conteúdo da obra pela vivência do
que teceram entre Freud e Nietzsche esta relação ao mesmo tempo homem.
negada e insistente. Aí os signos da "crônica freudo-nietzschiana" Esta interpretação equivale, por um lado, a considerar em
assumem considerável importância, se é verdade que os aconte- Nietzsche o psicólogo da moralidade; por outro lado, a fazer
cimentos, ainda que sob anódina aparência de anedotas, tramam a com que se volte contra o próprio Nietzsche homem, como obje-
imagem destas relações, esboçando sua idiossincrasia histórica. ção à sua empreitada, um diagnóstico psicanalítico: "É interes-
Pois bem, no período que delimitamos como inaugural da rela- sante notar que Nietzsche discerniu o essencial na psicologia do
ção, dois acontecimentos maiores e ao mesmo tempo disc1'etos outro, mas não conseguiu enxergar que seus próprios ideais cor-
fixam esta crônica. Temos que sondá-los para oomeçar a escre- respondiam a seus desejos irrealizados". Hitschmann acaba, por
vê-la e descobrir seu sentido profundo, ao mesmo tempo mani- este caminho, aproximando a teoria nietzschiana do ideal ascé-
festo e oculto pela singularidade dos 5'-Contecimentos. ticô e o ascetismo sexual do homem Nietzsche: "Submetendo o .
ideal ascétjco à crítica e a uma interpretação psicológica, preco-
O "CASO NIETZSCHE" nizando uma vida sem .coações e sem considerações, ele rejeita as
NAS QUARTAS-FEIRAS PSICANALITICAS (1) circunstâncias nas quais foi forçado a viver. A vida do próprio
Nietzsche não é senão ascética; sua tendência ao ascetismo está
Que Nietzsche esteja regularmente implicado na reflexão do relacionada à sua admiração por Schopenhauer".31
primeiro círcul~ analítico é o que prova sua aparição na ordem Isto resulta numa interpretação filosoficamente reducionista:
do dia das famosas quartas-feiras da Sociedade Psicanalítica de "Nietzsche rejeitou o ideal ascético quando admitiu que, na ver-
Viena, por duas vezes, no ano de 1908. O princípio dessas reu- dade, enganaca a vida e enganal'a a si próprio. Assim, as idéias
niões era ouvir uma conferência seguida de uma discussão global, subjetivas de um filósofo podem ser explicadas por traços e expe-
durante a qual Freud naturalmente tinha a oportunidade de tomar riências pessoais dele, o que se deduz muito bem da Genealogia
· posição. Preciosos documentos sobre os pólos de interesse sema- da Moral".32 É curioso observar que Hitschmann fazia assim
nais dos primeiros analistas - naquele período de arroteamento um uso literal e meio mecânico de uma idéia cara ao próprio
entusiástico de um novo campo27 - e, no que nos diz respeito, Nietzsche, segundo a qual "toda grande filosofia, até hoje, foi a
sobre a apreensão do fenômeno Nietzsche pelo movimento psica- confissão de seu autor e (ele tenha ou não querido e observado)
nalítico na origem. constitui suas Memórias" .33
De fato, em 1.º de abril de 1908, Hitschmann propõe uma Estamos às voltas aí, portanto, não com uma leitura filosófica
leitura comentada da terceira dissertação da Genealogia da Moral de Nietzsche, mas com um exercício de patografia, ao qual o
dedicada ao tema: "Do ideal ascético''. Segundo a minuta redi- texto filosófico serve de suporte como documento. Por isso, se a
p;ida por Rank, 28 conhecemos as idéias desenvolvidas sobre Nietzs- contribuição de Hitschmann para a compreensão das idéias de
cho naquela ocasião. !! recusado o título de filósofo a Nietzsche Nietzsche é decepcionante., ele expressa bem que a relação com
'
18 PAUL-LAURENT ASSOUN INTRODUÇÃO 19

Nietzsche é mediana, para a psicanálise, a partir desse momento, de mais nada em sua relação singular com a filosofia, cuja natu-
pela patografia, isto é, pelo estudo da estrutura patológica subja- reza abstrata lhe é tão antipática que finalmente renunciou a
cente a uma produção filosófica ou artística. estudá-la" .4º O que é anunciar de saída que só poderia tratar-se,
É interessante verificar, aliás, que a discussão que se segue dá para Freud, de um discurso - sobre Nietzsche, neste caso -
lugar a uma controvérsia. Para Sadger, "Nietzsche é o exemplo analítico.
típico de um sujei.to tarado", e ele encontra sintomas histéricos No que se refere a Nietzsche em particular, a declaração de
em seus precoces "estados epileptóídes sem perda de consciên- Freud é clara: Ele não conhece a obra de Nietzsche. Mas isto
cia" .34 Outros, ao contrário, protestam contra este enfoque redu- não significa falta de interesse; muito ao contrário, suas "tenta-
cionista e enfatizam a dívida da psicanálise para com algumas de tivas ocasionais de lê-lo foram sufocadas por um excesso de
suas idéias. Adler é o primeiro a declarar resolutamente: "De interesse".41 Freud nos informa aqui, portanto, que tentou por
todos os filósofos importantes que nos legaram alguma coisa, várias vezes percorrer Nietzsche, sem conseguir ficar de posse
Nietzsche é o mais próximo de nossa maneira de pensar".35 Por de um conhecimento global dele. Conforme estratégia estranha,
outro lado, "ele evoca argumentos que falam contra a vincula- cujo mecanismo desmontamos em outra obra,42 o interesse, por-
ção da filosofia a uma única neurose: o filósofo é demasiado tanto, é que desencadeia em Freud uma reação de recuo em fa:e
complexo é a técnica filosófica está por essência ligada a algo da especulação. Adverte-nos, porém, de que sua singular relaçao
completamente diferente".36 Não é por · acaso que Nietzsche, com Nietzsche não é senão o eco de sua singular relação com
enquanto filósofo, encontra em Adler um apologista. É conhe- a coisa filosófica.
cido o pap·e1 que ele representa para,o pensamento próprio de ·No que se refere às antecipações, tende a anotá-las sem re- ·
Adler: mas aqui se supõe que este fala em nome do movimento
ceio levando-se em conta seus contatos com a própria obra, porém
analítico e coloca Nietzsche "numa linha que vai de Schope-
neg; a influência: "Apesar das semelhanças qu_e muitos ~ev~n-
nhauer a Freud" . Além do mais, como Graf, 37 ele atribui a
taram entre Nietzsche e ele, Freud pode garantu· que as 1dé1as
Nietzsche um dom particular de auto-análise: "A obra de Nietzs-
de Nietzsche não tiveram influência sobre seus trabalhos" ,43
che contém observações que lembram aquelas que o paciente faz
Conseqüência natural, a partir do momento em que ele garan~e
quando a terapia progrediu muito e ele está em condições de
não o haver lido! Mas é sabido que, para Freud, não se podena
analisar as correntezas profundas de sua alma".
insistir demais neste ponto, que implica toda a dialética com os
Também Fedem · afirma que "Nietzsche está tão próximo de filósofos. 44 Como que para confirmá-lo, Freud lembra "o que
nossas idéias que só nos resta perguntar o que lhe teria esca- Nietzsche não reconheceu", ou seja, "o infantilismo e o deslo-
pado. Ele antecipou, por intuição, certas idéias de Freud."38
camento" .45
Esta é portanto a dupla face de Njetzsche dentro do movi· Sobre este ponto, Freud mostra-se notavelmente mais pruden-
menta analítico: por um lado, precursor distinto; por outro, caso te que os outros participantes. A abundância de elementos de
patográfico eminente.3~ Referencial teórico e objeto de diagnós- diagnóstico levantados por Sadger, Graf, Adler, Federn, Rank,
tico. Stekel contrasta com a sobriedade de Freud. Este se contenta em
Isto nos permite situar bem melhor a posição de Freud sobre cumprimentar Hitschmann por ter levantado "alguns probl~mas
estes do.is pontos que definem a problemática do discurso psica- interessantes" referentes à "psicologia do homem Nietzsche", aos
nalítico sobre Nietzsche. "fatores da constituição psicossexual" que "fazem um filósofo" e
Quando chega sua vez de falar, Freud começa por aproveitar à "dete,·minação subjetiva dos sistemas filosóficos, aparentemente
para emitir um de seus comunicados estereotipados sobre a filo- tão objetivos", limitando-se a desejar um estudo _da ~nf!~ência
sofia em geral: ''O Prof. Freud", transcreve a ata, "insiste antes das " impressões infantis" sobre " as gi-andes reabzaçoes , e a
?.O PAUL-LAURENT ASSOUN INTRODUÇÃO 21

observar a precocidade dos questionamentos do jovem Nietzs- IHiutler, ele comece sua intervenção declarando que "gostaria de
che sobre o mal. ler ouvido hoje um psiquiatra" .52 "A discussão", observa ele,
Aí se encerra a intervenção de Freud, que traduz a prudência " teria sido simples: Nietzsche era paralítico." Reconhece-se a
de seu discurso sobre Nietzsche, tanto em nível filosófico quanto tese em curso, à qual Mõbius concedera títulos de legitimidade.
psicográfico. Esta curiosa observação, que dá a impressão de transferir o
diagnóstico sobre Nietzsche para o plano psiquiátrico, deve ser
O "CASO NIETZSCHE" entendida em dois sentidos: por um lado, o caso Nietzsche deve
NAS QUARTAS-FEIRAS PSICANALlTICAS (2) 11er tratado primeiro no plano psiquiátrico, se se adota a tese da
pnralisia, antes de especular em todas as direções, 53 mas, por
Mas a sombra de Nietzsche estava certamente no ar, visto outro lado, os psiquiatras, através deste diagnóstico, livram-se
que, alguns meses depois, em 28 de outubro de 1908, ele cons- com uma simples palavra do que constitui o problema próprio
titui o objeto de nova conferência, quando de uma quarta-feira do homem Nietzsche. Assim Freud concorda que "a euforia está
da Sociedade de Viena. Desta vez, a patografia vem nitidamente extremamente desenvolvida etc." ,54 mas acrescenta que "isto se-
para primeiro plano, já que Hautler falou de Ecce Homo, ser- ria realmente simplificar demais o problema". Especialmente "é
vindo a autobiografia, aí, de documento,~6 de resto praticamente bastante contestável responsabilizar a paralisia pelo conteúdo de
parafraseado pelo conferencista e pontuado de observações psi- Ecce Homo": Freud, contra os esforços para encontrar traços de
canalíticas. loucura na obra de Nietzsche, toma em 1888 (ano que antece-
Esta nova exposição sobre Nietzsche provoca reações análogas deu o colapso nervoso do filósofo) posição muito clar.a: "Nos
nos participantes: Friedmann e Frey retomam o Leitmotiv do casos em que a paralisia atingiu grandes espíritos; coisas extraor-
precursor: ''Sem conhecer a teoria de Freud, Nietzsche sentiu e dinárias foram realizadas pouco antes da doença (Maupassant).
antecipou muitas coisas. dela",47 enquanto se vai além do diagnós- A prova de que este trabalho de Nietzsche é plenamente válido
tico psicanalítico. e deve ser levado a sério é a preservação da maestria da forma." 55
Freud, desta vez, parece mais eloqüente. Mas centraliza sua Esta relativização do diagnóstico psiquiátrico é seguida do
exposição na psicografia e na questão do diagnóstico da doença que se pode considerar um esboço da psicografia nietzschiana.56
de Nietzsche. Para entender a importância desta abordagem, é Não obstante a concisão do texto, produto de intervenção rápida
preciso lembrar que "o caso Nietzsche" torna-se objeto de impor- (e resumida), pode-se enxergar aí o precioso embrião do que
tante e sensacional literatura na época, como espécime bastante teria contido monografia freudiana sobre o caso Nietzsche. Re-
. adequado da grande questão que a psicopatologia se coloca; a cordemos que Freud chama de "psicografia da personalidade"
das relações entre gênio e loucura. 48 Na Alemanha, Paul Mõbius a análise que permite circunscrever a identidade do sujeito pro-
apresentara, no ano da morte de Nietzsche, importante síntese dutor de uma obra através dos "elementos de afetividade", dos
sobre as relações entre "psiquiatria e história literária",49 antes " complexos dependentes dos instintos" e do "estudo das trans-
de aplicá-la a monografias, dentre as quais a de Nietzsche,5° na formações e dos resultados finais que decorrem destas forças
qual ele sistematizava a hipótese da paralisia geral progressiva. instintivas."57 Ora, Freud jamais produziu qualquer psicografia
Não se deve ignotar que é neste preciso contexto que se vem de uma personalidade filosófica: este curto relatório é um rarís-
a falar de Nietzsche durante as quartas-feiras (somente oito anos simo esboço disso.
após a morte física de Nietzsche). Não foi por acaso que Hitsch- Aí não há senão elementos, na medida em que Freud verifica:
inann evocou Mõbius em sua i ntervenção. 51 Quanto a Freud, é "trnta-se de uma pessoa cujas premissas são desconhecidas (so-
e mpreensível que, não sem uma certa indelicadeza para com bre a qual nos faltam informações prévias)",58 o que faz com
22 PAUL-LAURENT ASSOUN INTRODUÇÃO 23

que ele continue inedutivelmente a ser "uma personalidade minha obra; explicam sua gênese - e pensam tê-la rebatido
enigmática". Freud, porém, ressalta a fixação materna e o com- suficientemente."64 Este testemunho é duplamente interessante.
plexo paterno em Nietzsche59 e o papel de Cristo como fantasia Por um lado, vemos que a tendência a se observar o homem
adolescente, assim como seu narcisismo fundf!mental, relacionado Nietzsche para explicar a obra é uma constante,. desde a ~rige~,
a suas tendências hornossexuais. 60 do discurso sobre Nietzsche; de sorte que o discurso ps1canah-
O essencial de sua idiossincrasia, entretanto, reside no de- tico o prolonga à sua maneira. Tendência esta naturalmente agra-
senvolvimento paralelo e inverso da doença e da lucidez. Freud vada pelo colapso mental que vinculou a questão da obra à
considera a doença "a causa de todos os elementos perturba- do "caso".
dores no quadro (de sua personalidade)", Graças a seu narci- Mas, por outro lado, vislumbramos como o discu.rs~ analítico,
sismo, no entanto, ele consegue "explorar as camadas do seu ego principalmente o de Freud, permite ultrapassar os limites de um
com grande perspicácia" e fazer "uma série de esplêndidas des- discurso centrado em sua personalidade, se é verdade que o
cobertas na própria pessoa". O que está em jogo aqui é a fa. recurso ao homem não serve para "rebater" a obra mas sim
mosa "percepção endopsíquica" que Freud coloca na base do para esclarecer suas condições pulsiona~s. Nest.e s,e~tido o d!s-
conhecim~nto mítico-filosófico.61 A raiz pulsional de Nietzsche curso analítico sobre Nietzsche, por mais embnonano que se3a,
"psicólogo" estaria no desenvolvimento da percepção endopsí-
permite dar corpo à necessidade que o discurso dos "críticos"
A

quica alimentada pelo narcisismo sob o efeito reativo da doença.


entrevia ao desviá-lo, esclarecendo a obra por sua genese, sem
Por este ~aminho, Freud atribui a Nietzsche o título reivindi-
cado por ele próprio de "primeiro psicótogo'.' ,62 na medida que, fazer com que uma desabone insidiosamente a outra. Talvez
através do diagnóstico, a homenagem se faz vibrante: "O grau somente Freud estivesse em condições de explicar_ a ligação .sem
de introspecção atingido por Nietzsche não foi atingido por nin- cair no reducionismo de uma "chave" que, ao permitir abrir a
guém antes dele, e sem dúvida nunca mais o será". Jones, atento obra, mataria o seu texto.
às modulações da fala· freudiana, comenta: "Aí está, sem dúvi- Deve-se notar, por um lado, que o diagnóstico de Freud não
da, um belo cumprimento saído da boca do primeiro explorador se pronuncia a favor de uma neurose: "Não há indícios de sofri-
do inconscient~",63 que é, aliás, avaro em cumprimentos. A saga- mento neurótico", verifica ele. E, por outro lado, ele sempre
cidade nietzschiana se situaria, assim, nos confins da introspec- recorre ao diagnóstico psiquiátrico, não minimizando em abso-
ção e da projeção, na medida que, progredindo a doença, luto "o papel que representa a paralisia ~a vid~ de Nietz~che~'.
"Nietzsche nãó. se contenta em discernir conexões exatas; ele A ponto de esboçar, para concluir seu diagnóstico, uma ltgaçao
projeta para o exterior, como uma exigência de vida (Leben-
entre paralisia e aptidão para a auto-análise: "O processo de
sanforderung), o que descobriu sobre sua própria pessoa", uni-
,,frouxamento devido à paralisia é que o tornou capaz - extraor-
versalizando assim sua experiência. Daí a gênese da obra: "É
assim que nascem os produtos desconcertantes, mas no fundo dinária realização - de passar através de todas as_ camada~ e
corretos, das reflexões nietzschianas." discernir as pulsões que estão na ba~e (de qual~uer coisa:; A.ss;,~;
ele colocou sua disposição paralítica a serviço da c1encta .
Pouco antes do colapso, Nietzsche lançara o opróbio contra
Surpreendente sugestão que vincularia a viagem geneal?gica de
a tendência •dos críticos, que estavam começando a descobri-ia, a
se centrarem em seus problemas pessoais em detrimento de sua Nietzsche ao caminho da dissolução, selando a temporahdade da
obra: "O que lhes interessa não é o que digo; mas o fato de obra e a da doença, a tal ponto que o originário, enquanto busca,
ser eu a dizê-lo, e a razão pela qual sou justamente eu quem nasceria de um afrouxamento patológico, gerador de uma inte-
vim a dizê-lo. . . Julgam-me para não terem que se- ocupar com ligibilidade de Trieb.
24 PAUL-LAURENT ASSOUN INTRODUÇÃO 25

Mas não há apenas um diagnóstico clínico neste denso texto. ilw1 11110s anteriores. Surge a idéia de que é imprescindível uma
Ft•cud reafirma aí, em termos ainda mais expressivos que na Delegam então a dois "deputados" que vão até a irmã de
v 1,1 1111,
vez anterior, sua relação de leitor com Nietzsche: "Freud gos- ~lkll.t,chc para prestar, em nome da psicanálise, uma home~a-
taria de observar que ele nunca conseguiu estudar Nietzsche: 1-wu1 uo grande pensador de Weimar. Jones r~corda sun:ana-
em parte por causa da semelhança que suas descobertas intui- 11K111 to este episódio, que marca época nos anais freudo-metzs-
tivas têm com nossas árduas pesquisas, e em parte devido à 1 11l11nos : ' 'Sachs e eu aproveitamos nossa estada em \Veimar
riqueza de conteúdo de suas obras, o que sempre impediu Freud p111•11 irmos ver a sra. Fê:irster-Nietzsche, irmã .e biógrafa do
de ir além de meia página em suas tentativas de lei: Nietzsche" .66 H11111de escritor. Sachs falou-lhe de nosso Congresso e das seme-
Dupla razão estranhamente cumulativa, procedente do temor de 1lu1t1ças existentes entre certas idéias de Freud e as d~ seu
ler Nietzsche, do medo de produzir um curto-circuito no parto llwll ro itmão" ,11 Não se poderia deixar passar a oportumdade
da verdade analítica, como é explicitado em outra parte,67 e do de atribuir àquele precursor comprovado e reconhecido uma
temor de ser afogado pela inflação especulativa. Dupla desculpa t•Hpécic de confirmação de reconhecimento, junto a sua intér-
para não acompanhar Nietzsche naquela viagem cuja impor- p, etc at1torizada (senão a mais autorizada) e oficial, que Jones
tância e interesse Freud acaba todavia de mostrar, com um L•voca como investida de uma função, "irmã e biógrafa"!
desenvolvimento que supõe certa familiaridade. Mas podemos No que, então, pôde consistir a entrevista? Jones a evoca
considerarmo-nos inteirados, se tomarmos Freud ao pé da letra: uuma frase bem curta: tratou-se do Congresso e "das seme-
ele nunca leu mais que meia página de Nietzsche. É verdade llrnnças ( .. . ) entre certas idéias de Freud e certas idéias de
que este talvez seja o espaço ocupad9 por algum aforismo con• Nietz.sche". Jâ que se evocavam estas famosas semelhanças, era .
tundente e inolvidável: mais do que o bastante para penetrar preciso mesmo informar disso a parte aparent;lda. Os, ter111;0s
em Nietzsche !68 ·
usados por Jones são significativos: eles correspondem a estrita
fot'in ulação freudiana das afinidades filosóficas e não pressu-
ENCONTRO DE WEIMAR: põem nada além de uma constatação de analogia.
A CRóNICA NIETZSCHEO-FREUDIANA Jones não nos informa sobre a resposta da interessa.da, o ,que
parece indicar que a entrevista foi breve. E podena ser de
Em 1911, quando do Congresso de Psicanálise de Weimar, outro modo?
ocorreu um importante acontecimento na história das relações
Antes de mais nada, a psicanálise enquanto conteúdo teórico
entre Nietzsche e a psicanálise.
devia ser-lhe pouco familiar e suspeita por sua origem. Sua
Nos dias 2 t' e 22 de setembro de 1911, o Congresso se reu-
upreoiação de Freud podia ser um pouco ofusc~_da pelo .con-
. niu em Weimar, que acontece ser a capital dos estudos nietzs-
tcx.lo anti-semita. Seu falecido marido, Bernhard Forster,72 tivera
chianos. Aí, com efeito, Elisabeth Fê:irster-Nietzsche mantinha
seu estado-maior. Onze anos depois da morte do irmão, a quem papel ativo na campanha de 1881, durante a qual f?ram colhi-
assistira durante a sobrevivência física,69 ela geria a obra dele das 250.000 assinaturas pedindo a Bismarck para mterromper
com plena consciência de seu direito de propriedade. ,, imigração judaica para a Alemanha, e ela própria com!'arti-
Eis então, por um acaso histórico e geográfico, que as bases lhava das idéias dele antes de se tornar uma fervorosa emula
freudianas instalam sua sede na cidadela nietzschiana, nos mes- do hitlcrismo. Eis então a mensagem que lhe levavam os dois
mos locais onde Nietzsche passara seus últimos anos, num lugar deputados daquela " ciência judaica" : que ela. a~mitisse, u~
que, simbolicamente, também guardava as marcas do grande parentesco com a cara filosofia de seu nobre u:mao. Anuncio
°
Goethe. 7 Como vimos, já se tratara de Nietzsche nos simpósios que deve deixá-la no mínimo cheia de reservas.
INTRODUÇÃO 27
PAUL-LAURENT ASSOUN

Isto não é tudo: a visita dos dois emissários coincidiu com a M\c ulo, a uma aproximação oficial, e a entrevista não teve
notícia de que Lou Andreas-Salomé estava em Weimar. De fato 1 Oll'lOqüências.
foí por ocasião deste congresso que ela estabeleceu efetivament; Mas. do lado freudiano, que significava, então, esse passo?
contato com Freud.73 O ra, entre as duas mulheres reinava uma 1. preciso enxergar nesta homenagem tão marcante uma notável
velha ~ r~de rivalidade, cujo motivo era Friedrich Nietzsche. t xcoçno à política geral de desconfiança em relação aos sistemas

Uma nvahdade que datava de uns trinta anos, desde aquele ano 1ilosóficos?
de 1882 em que tivera início o curioso jdílio entre Nietzsche e l)e fato, é preciso dar a este episódio sua dimensão exata.
Lou. Motivo visivelmente afetivo: ela vira aquela estrangeira ltlllbOl'a ele seja valioso como registro para uma crônica freudo-
penetrar na tão restrita intimidade - ciumentamente mantida nlt.!tzschi ana, convém não valorizá-lo demais, mas principalmente
por ela própria - de seu irmão; provocar uma de suas raras cuptar nesta oportunidade elementos de compreensão sobre a
paixões e depois instalar-se em Tautenburgo.7'4 Ela assistira aos aLitude freudiana em relação a Nietzsche.
efeitos . noci~os, sobre o irmão, da degradação de suas relações Observamos antes de mais nada o aspecto conjuntural. Con-
e depois estimulara o ressentimento de Nietzsche. Após a morte rildcrando-se o ambiente que Elisabeth criara em Weimar, seria
me~tal do ir~ão, e desde antes de seu desaparecimento físico, hem difícil furtar-se a um procedimento tradicional. "A vilá
porem, o · moti vo da xi validade se repetira no plano filosófico SllberbliGk (sede dos Arquivos Nietzsche, onde Nietzsche vivera
qua1~do Lou lançou a biografia dele, .em 1894, disputando ~ suus últimos anos) tornava-se rapidamente o ponto de encontro
partll' daquele momento com sua irmã e "hagiógrafa" o direito de tudo o que a Alemanha possuía em termos de artistas, escri-
de propriedade sobre a verdade nietzschiana. toi-es e poetas de algum renome. . . A peregrinação a \Veimar
A ~heg~da da inimiga despertaria,·· como se pode prever, mui- era obrigatória para todos os admiradores de Nietzsche na Ale-
tas amm~s1~ade:s. Estab~leceu-se a partir de então uma deplorá- manha, e número crescente de estrangeiros cultos· subia a colina
vel associaçao entre a imagem abominada de Lou Salomé e 0 · - de Z ara tus tr a" .71
para apresentar suas h omenagens a' uma
movimento analítico, por transferência de afeto negativo de uma Esta "estava determinada a promovei' um movimento Nietzs-
representação a outra! Peters evoca justamente este contexto: che" . Por isso " ela recebia todas as tardes de sábado e concedia
"Lou, é claro, evitava cuidadosamente sua grande adversária. audiências aos admiradores de Nietzsche".78 Não recebera ela a
E.la deve ter-se divertido quando soube que dois dos mais pró- visita de dignatários persas êmulos de Zaratustra , de professores
ximos colaboradores de Freud visitaram Elisabeth e lhe disse- americanos, de estudantes indianos e de eruditos japoneses?
1
ram que seu célebre içmão havia antecipado inúmeros achados Deputados desta ciência nova que se batizava "psicanálise ' só
de Freud. Conhecendo o vindento anti-semitismo de Elisabeth fizeram ocupar um lugat nesta ciranda heteróclita que se dan-
Lou podia vê-la torturar-se com a idéia de que O nome d~ çava em volta de Nietzsche.
irmão estivesse associado ao de Freud."75 Esta atinge de fato seu apogeu nos anos que antecedem a
~.sta não era seguramente uma recomendação que poderia guerra mundial, quando se assistirá ao desenvolv_imento de . um
facilitar os contatos. Elisabeth podia mesmo suspeitar aí de ve rdadeiro "culto de Nietzsche" .79 Visitar os Arqmvos ou assmar
malévola intervenção da rival: "Iria ela enlamear o nome de o livro de ouro não supunha, aliás, obediência nietzschiana : isto
seu irmão, associando-o à psicanálise?".76 Os dois mensageiros era, em última análise, a expressão de um r itual através do qual
foram portanto recebidos bem fríamente, como se fossem mani- a intelligentsia reconhecia o valor "Nietzsche", no local onde
festações d~ duplo demônio da ciência judaica e da intrigante ele era reverenciado.
Lou, aproximadas numa Cttmp!icidade misteriosa e inquietante! Peters lembra seu contexto objetivo: " O nome de Nletzsche
Como se vê, o contexto quase não se p restava, no começo do foi citado amiúde em discussões oficiosas durante o Congresso
28 PAUL-LAURENT ASSOUN INTRODUÇÃO 29

de Weimar. Geralmente todo mundo sabia que a irmã de Nietzs- 110 fina lmente esta relação se acomodasse melhor à sua política
che, Elisabeth, morava na cidade e era a enérgica diretora dos c in face de Nietzsche que um contrato mais íntimo, ou até
Arquivos Nietzsche, fundados por ela".80 Trata-se portanto de 111esmo evitá-lo. Era mesmo com esta fachada que convinha
objeti~ar por meio de uma pequena apresentação oficial aquilo c.mtíio abordar suas relações.
que ~ª? passava de alusões oficiosas: mas precisamente o aspec- Mas por trás desta fachada, que reduz a questão a um inter-
to, ~f retal da delegaçã~ !imita. ~eu sentido. ~imples contato diplo- uilmbio diplomático entre duas instituições, existe, todavia, a
mat1co com o santuano oftc1al, que esta longe de exprimir, realidade do nietzscheísmo vivo que faz frutificar, para Freud,
a~esar d~ sua pretensão exclusivista, a efervescência do primeiro iutimamente, e sob a influência de certos membros de seu cí~-
nietzsche1smo, que explode a partir desta época. A brevidade culo mais chegado, a idéia das afiµidades eletivas entre os d?ts
do "comunicado" final de Jones é portanto finalmente justifi- homens e os dois pensamentos. Existe, por outro lado, aquilo
cada por aquilo que é uma formalidade: algo como uma troca tiue Freud diz de Nietzsche, ele que afirmou não havê-lo lido.
de informações.
Agora, portanto, é em direção ao encontro pessoal ~e ~Freud . e
Tu~o ~eva ª. crer que não houve decepção, porque quase não Nietzsche que convém orientar-se, 83 pois esta é a condtçao prévia
se havia investido nesse passo, simples prolongamento das Atas. para abordar o confronto sistemático dos temas e dos pensa-
do Congr~sso. A entrevista, em sua fria objetividade, bastou-se mentos.84
a si mesma: portanto:. não ponto de pa.rtida para algum pacto
entre freudianos e nietzschianos, mas simplesmente ponto de
contato, ~testado das similitudes, a_~iás não referendado pela NOTAS
outra parte.
Não vejamos . nis~o, portanto, nenhum termo de compromisso, t. V., adiante Introdução e o capítulo 1 da ptímeir~ parle. A ,.

2. ln: O Crepúsculo do ídolos, "Incursões de um ext~rnporane"...,


nem mesmo uma infração do grande princípio freudiano de aforismo 16, que denuncia o filísteísmo alemão; "Outra coisa_ que _nao
abs~inência filosófica. ~ justamente neste mesmo Congresso de posso ouvir é um famigerado 'e' (berücht~gtes. 'und'): os al~maes ~•zem
Weimar que Freud manifesta sua frieza para com a tentativa de 'Goethe e Schiller', receio que eles digam Schiller e Goethe .. . Existem
interpretação hegelianizante da psicanálise por Putnam. É a pro- 'e' ainda piores; escutei com meus próprios ouvidos, é bem verdade ~u~
pósito disto qtJe Jones, que faz as vezes de delegado, declara: somente entre professores universitários: 'Schopenhauer e Hartmann •
(SW, VIU, 141). .
"A maiotia de nós não via a necessidade de adotar uma dou- 3. Freud, la Philosophie et les Philosophes, PUF, 1976. Pode-~e consi-
trina filosófica particular, qualquer que fosse ela".81 Principalmen- derar O presente trabalho como seqüência direta desta obra. lnd1ciiremos
te Hegel, se po9eria dizer, mas Nietzsche também não. cm cada ponto a correlação entre ambos, a fim de ressaltar esse prolon-
. ~est~ o significad? _do ~contecimento, li~itado porém pre- gamento.
4. V., infra, os mediadores, pp. 17 e ss. e pp. 46 e ss.
ciso . Nietzsche é o umco filósofo contemporaneo a ser objeto 5. Op. cit., pp. 136-7.
de s~melhante manifestação de respeitosa simpatia por parte do 6. Op. cit., z.• parte, cap. V, pp. 205 e ss. .
movimento analítico oficial, quando de sua institucionalização. 1. o que explica o destino que reservamos ~ ~tetzsche_ no quadro
. O ~ato, por seu caráter ao mesmo tempo insólito e natural, geral da investigação sobre Freud e os filósof~s, indicando s1mpl:smente
sua presença na obra anterior, enquanto o regime ger~J da relaç~o freu-
s1mbol~za a relação oficial, a~ mesmo tempo exterior e meio diana com os filósofos se aplica ai: deste ponto de. vista, a r~laçao_ com
obsequiosa, que Freud tolerou com a Escola de Nietzsche. Apesar Nietzsche confirma o esquema global. Em contrapartida, o ~as~ pa:ticular
de sua pouca atração pela irmã do mestre - à qual, em parti- ele Nietzsche merece ser destacado e tratado à parte, pois implica um
cular, ele lança alguns dardos 82 - , dirige-se a ela como à auto- confron to global das problemf;Íticas. Nesse sentido, a primeira parte . da
presente obra prolonga a abordagem experimentada na ~bra anterior,
l'idade de certo modo administrativa da nietzscheologia, como
nplicando-se a Nietzsche, enquanto a segunda parte quest10na as duas
30 PAUL-LAURENT ASSOUN INTRODUÇÃO 31

1>1·oblcmtíticas independentemente da leitu ra imediata de Freud (infra, 11 l,h11~vcl, IZclições francesa, inglesa e americana são previstas, tendência
pp. 87 e ss.).
,1111 111I1111c seu ,mge durante a guerra: foram vendidos 11.000 exemplares
8. 1844• 1856.
t ,11,1/11~/m , em menos de seis semanas, e 40.000 no ano de 1917!
9. V., principalmente, o início da celebridade de Nietzsche e seus l ti /)(m N/e/zsche•Archiv, seine Freunde und Feinde. Encontra-se numa
~on_tatos com Georg Brandes, na primavera de 1888. Segundo Ha1évy, 1,11 1111111 llc l9 JO, Níetzsches Wer.ke und das Nietzsche-Archiv, publicada
fo1 durante os mesmos meses, por uma singular coincidência, que pegou , 111 f ,111vlR , um relatório dos h·abalhos da fundação, documento da
fogo .no cérebro dele e na massa, até então incerta, do público." (Nietzsche, 1111,11,,110 wcimariana" (Andler, Nietzsche, Sa vie e/ sa Pensée, t. II, p. 8,
p. 528).
11 1J
10.. V. Bianquis, Genevieve. Nietzsche en France, pesquisa premiada 11 , f.'r1111z Overbeck und Friedrich Nietzsche, Iene, 2 vo)s., 1908.
pela Nietzsche Gesselschaft, 1928 (publicada em 1929).
IH, tirllJclrich Nietzsche, sein Leben und sein Werk, 1903.
11. V., infra, p. 43, a carta de 21 de setembro de 1897. Num manus- l'I, /lr/aâl'ich Nietzsche, sein Leben und seine Werke, 1913.
crito datado de 31 de maio de 1897, Freud usa o termo "super-homem"·
v. p. 79, infra. ' •o. Niutzsche, Versuch einer Mythologie, 1919.
; 1. V, , ln/ra, 1.• parte, caps. I e II, p. 40 e pp. 68 e ss.
12. Friedrich Nietzsche in seinen Werken, Wie.n. 0,o, :,icssiío da Sociedade Psicanalítica de Viena de l.º de abril de 1908.
13, Das Leben Friedrich Nietzsches, Leipzig, t. I, 1896; t. II, t, 1897 ; l 11 l , ..1 /1rc111iers Psychanalystes, Gallimard, t. I, p. 372.
1. II, 2, 1904. Obra relançada em versão reduzida em 1912 e 1914
(2 tomos), 'l, S11ssilo da Sociedade Psicanalítica de Viena de 28 de outubro de
t•KJK 111: 0 /J, cit., t. II, p. 36.
14. Lançada em Leipzig pelo editor Naumann.
1,1, OW, X, 53, ln: História do Movimento Psicanalítico.
15. Desde antes da Primeira Guen-a Mundial, o domíni~ de Elisabeth
J'I, OW, XIV, 86, ln: Selbstdarstellung ("Estudo Autobiográfico").
sobre a gestão da obra do irmão é consumado por um processo irresistível.
lll, V. 2.' parte.
Em 1893, ~la fez Peter Gast desistir de suas pretensões em relação à
obra do irmão - podendo usá•la mais tarde~ depois da renúncia voluntária • J, Publicados em francês com o título Les Premiers Psychanalystes,
de Koegel. Ela moveu um processo de intenção permanente contra Wm1/1•s (la /<1 Société Psychanalytique de Vienne, Gallímar~, t. l: 1906-1908;
Overbeck, acusando-o finalmente de haver perdido o manuscrito de 1 11. tt/UB-1910 (Trad. fr. 1976, 1978 e 1979).
A Vontade de Poder, inacabado, até sua morte, em 1908. Nesta data, ela ZB, Otto Rank, secretário da Sociedade, era encarregado de registrar
consegue a exclusividade da propriedade literária das obras de seu irmão "'' -o-~i'lcs. Sobre o importante papel de Rank entre Nietzsche e Freud,
inclusive da correspondência dele, graças a uma decisão do tribunal d; v, 111/l'tt, PP· 47-52.
lena proibindo a publicação de todo e qualquer trecho da correspondência }I), Op. cit., t. 1, Minuta n. 75, p. 368.
particular sem a autorização do autor, o que impediu Bernouilli de publi- m. Op. cit., p. 369.
car, no segundo· volume do seu trabalho (supra, p. 18, n. 2), cartas H , l litschma.nn toma o termo ao pé da letra, já que precisa que "não
importantes de Gast ·a Overbeck (em 1895, ela havia retirado de sua ~llhll de .nenhuma relação (sexual) dele com uma mulher, exceto uma
mãe os direitos à propriedade literária sobre as obrns do filho). Em 23 1 11~1011111 vis ita a prostitutas" (Ibid.).
de maio de 190~, foi oficialmente reconhecida a existência de uma 12.o,,. cit., pp. 369-70.
Fundação Nietzsche, instituição científica e cultural sem fins luarativos, rt A lém do Bem e do Mal, 1.' parte, af. 6, SW, VIII, 12.
. que recebera generosa doação do mecenas sueco Thiel. Stt,, Op. cit., p. 370. Sadger chega a sugerir que a f!er;e?moral (Moral
No que se refere à difusão das obras de Nietzsche, lembremos que, ,1111 Nonhorcs) está relacionada com o fato de ele ser o uruco homem da
enquanto o filósofo era vivo, a tiragem delas não atingia mil exemplares. l 11J11tlin". (lbid.)
V. as disputas de Elisabeth com os editores de seu irmão, em 1891 .. 1'i. O p. cit., ibid. Sobre o sentído de Nietzsche para Adler, V,, infra,
Schmeitzner declarou ter colocado em liquidação os exemplares não 1111 ,14 11 ,5.
vendidos. Naumann enumera 2,800 exemplares vendidos em 6.200 impres- 11.l. Op. cit., pp. 370-1. • • .
sos para quatro obras, A Genealogia, Além do Bem e do Mal, O Caso 'I'/, "Suos obras constituem um autotratamento. Op. c1t., p. 371.
Wagner e O Crepúsculo, e N ietzsche ficava devedor. O balanço de Fritzs- 'l!!. Op. cit., p. 372. . . .
che, o terceiro editor de Nietzsche, não era mais satisfatório. Em 1893, 'W, Depois de Freud, também intervém Ra.nk, que ms1ste n~ !mpor-
muda ludo: Naumann anuncia a Elisabeth um afluxo de pedidos de escritos 1niH'l n, parn ele, "da pulsão sádica (masoquista) e sua re~ressao , que
de Ni.ctzsche que requer uma edição das obras e uma b iografia . O mon- vm Jflc•nrln o duplo aspecto de seu caráter atestado pelos b16graf?~: p~r
lunlc dos direitos autorais sobre os primeiros volumes puhlicados foi 11 111 lodo, "sua fineza, cortesia e meiguice"; por outro, "sua glonhcaçao
32
INTRODUÇÃO 33
PAUL-LAURENT ASSOUN
l lnlévy, Dan iel. Nietzsche, p. 526). Pera uma abordagem psicanalítica da
da crueldade e do espfrito de vingança• (sic). O dom de autoterapia seria
purolisin geral, v. Ferenczi e Hollos, Zur Psychoanalyse der paral)'tischen
explicado por uma transferência interiorizante. Op. cit., pp. 373-4.
<luistesstürung. Beihefte zur internalen Zeitsschrift f ür Psychoanalyse. Nr. 5.
40. Op. cit., p. 372. .
55. Observemos que n isso Freud se opunha à tese dominan te que se
41. Sobl'c estas tenta tivas, v., infra, p. 40.
Inclinava à interpretação de uma patologia precoce em Nietzsche (Cf.
42. V. Freud, la Philosophie et les Philosophes, passim.
M<ll>i us, Hildebrandt. Podach). V. Landsberg, Paul-Louis, • Essai d' lnter•
43. Comparar esta declaração com os enunciados posteriores. V., infra,
p1·ctntion de la Maladie Mentale de Nietzsche", 1934, in: Probl~mes du
1.• parle, cap. li, pp. 68-70.
44. V. o papel da referência filosófica enquanto intuição antecipadora l'orsonnallsme, 1952, pp. 194-7.
e legitimadora, .analisada em nossa obra, 2.ª parte, pp. 125 e ss. 56. V., infra, no episódio Arnold Zweig, as objeções finais de Freud
11 ~cmelhante empreitada, pp. 42-44.
45. Op. cit., p. 373.
46. Les Premiers PsychaMlystes, l. II, Minuta n. 56, pp. 30 e ss. 57. l n: O Interesse da Psicanálise, GW, VIJI, 407. Sobre o princípio
~ti veram presentes Adler, Deutsch, Fedem, Hollerung, Joachirn, Rank, d11 patologia filosófica, v. Freud, la Phifosophie et Jes Philosophes,
Rie, Sadger e Steekel. Ecce Homo, texto canônico da hagiografia weima- pp. 84 e ss.
riana, acabara de ser reeditado, naquele ano de 1908, em edição de 58. Objeção básica reafirmada até 1934, v .., infra, p. 43.
lu xo, de tiragem limitada. 59. "Em sua infância, uma coisa predomina: ele perdeu o pai muito
47. Op. cit.• p. 34. Jovem e cresceu numa família de mulheres ( ... ) Em sua autobiografia,
48. No mesmo momento,. no 1ructo do século, eram lançados os Nietzsche mata o pai mais uma vez.• (lbid. ).
trabalhós de Augustin Cabanês, na França, de G.M. Gould, nos Estados 60. "Completamente afastado da vida pela doença, ele se volta para
Unidos, e, princ ipalmente, de Paul Mobius, na Alemanha. Sobre esta o único objeto de pesquisa que lhe resta e do qual, como homossexual,
moda, v. a exposição de Grmek , Histoire des Recherches sur les Relations está, de qualquer modo, mais próximo: o ego. E começa, assim, com
entre Génie et Folie (Histór ia das Pesquisas sobre as Relações entre grande perspicácia - com percepção por assim dizer endopsíquica - a
Gênio é Loucura), reproduzida na Revue d'Histoira des Sciences, t. XV, explorar as camadas do seu ego " (pp. 44-5).
n. 1, 1962. 61. V. a carta a Fliess, de 12 de dezembro de 1897, e à Psychopatholo-
49. Psychiàtrie und Literaturgeschichte, Leipzig, 1901. gic de la Vie Quotidienne (Freud, frl Philosophie et les Philosophes, l.ª
50. De fato, Mobius é que tornou público o diagnóstico de paralisia purtc, li vro II). O valo r de Nietzsche estaria no fato de ele exprimir proto-
geral progre.,siva em s.ua monografia publicada em 1901, em Wiesbaden, tipicamente o mecan ismo da filosofia, que consistia em projetar • para o
Ober das Pathologische Nietzsche. Na época, os boletins médicos das exterior como uma exigência de vida (Lebe,isanforderung) o que descobriu
casas de saúde de lena e Basiléia ainda não es tavam publicados: só o sobre sua própr ia pessoa• (p. 36). Comparar com a gê11ese dos "mitos
serirun em 1930, em Heidelberg, por Podach, i11: Nietzsches Z usammen- cndopsíquicos": • A obscura percepção interna, pelo sujeito, de seu próprio
bruch. Observemos que Elisabeth Fôrster-Nietzsche se opôs a esta tese, uparelho psíquico, provoca ilusões que, naturalmente, são projetadas para
iri : Dereinsame N/-etzsclte (1914) e até em 1932 (Cohen , P. e Forster-Nietzs- íora (0 Nascimento da Psicandlise, p. 210) ".
che, E. Um Nietzsches Untergang). V. também, Hildebrandt, Karl. Gesun- 62. Sobre o sentido da fó rmula de Humano, Demasiado Humano, v.,
dheit und Kra!1kheit i,i Nietzsches Leben und Werk, 1926. infra, 2.• parte, pp. 131 e ss.
51. Op. cit., t. l , p. 368. 63. Vida e O bra de Sigmund Freud, t. II, p. 365.
52. Op. c/f., t. II, p. 35. 64. Texto de Vontade de Poder, datável de 1887 (XIV, 2.• parte,
53. Ver a diversidade dos d iagnósticos, quando das duas sessões, que § 227, ed. Krõner; trnd. fr . Bianquist, G., t. II, p. 61, § 159).
vão da neurose obsessiva à paranóia. 65. Op. cit., p. 37.
54. Alusão ao estado de euforia que, de acordo com o diagnóstico 66. Op. cit., p. 36. Sobre estas tentativas, v., infra, p. 43.
psiq uiátrico, precede a crise de paralisia cerebral. De fato, durante as 67. V., infra, pp. 69-70. ,,;
semanas que antecedem seu colapso, Nietzsche exprime par ticular vivên- 68. V. alguns desses aforismos, infra, cap. II.
cia de bem-estar, que culmina por volta de outubro de 1888, três meses 69. Após a perma nência de Nietzsche em sanatórios, ele v~veu. em
an tes da crise de 3 de janeiro de 1889 (Cf. a antologia feita por Jaspers, Naumburg. Após a morte da mãe em 1897, graças a Meta von Sahs, viveu
Ka rl. Nietzsche, 1." Uvro, Gallimard, col. "Te!", p. 104). V., também, a numa vila que sue irmã comprou em seu .nome perto de Weimar (para os
eufoi:ia que se segue à cr ise: Overbeck encontrou Nietzsche • cm seu de talhes do cnso, v. Peters, H . F. Nietzsche et sa Soeur Elisabeth, cap. 18,
q uarto mobiliado (em Turim), cantando, gritando sua glória, martelando
• La villa Silberblick ", pp. 234 e ss.).
o piano com os cotovelos para acompanhar seus brados e rugidos" (ln:
PAUL-LAURENT ASSOUN

70. Goethe viveu em Weimar (1776•1832), onde manteve o precioso


circulo (do qual, segundo Nietzsche, participou sua avó) graças ao duque
Kurl-/\uguste de Weimar. Elisabeth sonhava converter o duque Wilhelm-
1\rncst ao culto de Nietzsche, Goethe moderno (cf. a autobiografia redigida
por Nietzsche, no fim da vida, para Georg Brandes).
7 1. Op. cit., t. II, p. 90.
72. Bernhard Forster, discípulo de Wagner, conheceu Elisabeth em
13ayreuth, casou-se com ela em 1883 e levou-a para o Paraguai, onde dirigia
uma colônia alemã que pretendia regenerar a Alemanha, a Nueva Germa-
11ia. Acabou se suicidando em 1889, depois do fracasso financeiro da
empresa. V. Peters, op. cit., principalmente a segunda parte, pp. 147 e ss.
Nietzsche nunca apreciou muito o cunhado.
73. Ela lhe foi apresentada por Bjerre. V., in/rc,, pp. 46-51, sobre o
papel de Lou, mediadora de Nietzsche. PRIMEIRA PARTE
74. t durante esta estadia no santuário de Nietzsche, no verão de
1882, que culminou a aven tura deles, cujos avatares são conhecidos (Cf. o
Lebensrückblick de Lou e Peters, H. F. Ma Soeur, Mon Spouse (Minha
frmã, Minha Esposa), Galllmard, 2.• parte, pp, 79 e ss.).
75. Peters, H. F. Ma Soeur, Mon Épouse, Gallimard, p. 275.
FREUD E NIETZSCHE
76. Peters, ibid. ·
77. Peters, H. F. Nietzsche et sa Soeur Elisabeth, p. 248.
78. Peters, op. cit., p. 282. ..
79. V. Peters, op. cit., cap. 22, pp. 280 e ss. Os funerais de Nietzsche
foram muito solenes e, em 192'4, considerou-se a possibilidade da cons-
trução de um monumento e de um estádio olímpico!
80. Op. cit., pp. 274-5.
81. Op. cit., t: 11, p , 90. V. a análise do episódio Putnam em nossa
obra anterior, pp. 46-9.
82. Sob a forma de diagnóstico, na sessão da Sociedade Psicanalítica
de Viena,. de l.º de abril de 1908: "A irmã de Nietzsche lem bra-lhe aqueles
pacientes que . se prepararam (a cada sessão psicanalítica) a fim de evitar
que algo de imprevisto venha à baila• (Op. cit., p. 373). Esta é a caracte-
rização da atitude defensiva e dogmática da interpretação da escola
weimariana, com a qual, pouco depois, ele travava relações diplomáticas.
83. V. 1.' parte: "Freud e Nietzsche".
84. V. 2.• parte: • Nietzsche e Freud".
1.

FREUD FRENTE A NIETZSCHE:


GÊNESE DE UM ENCONTRO

Acabo exatamente de pegar as obras de


Nietzsche, onde encontrarei, espero, pala-
vras para muitas coisas que permanecem
mudas em mim .. .
FREUD

DE UMA TRESVALORAÇÃO A OUTRA

Ao chegar ao fim de sua obra, Nietzsche escreve, como que


para exprimir seu sentido e seu termo: "Turim, 30 de setembro
de 1888, dia em que o primeiro livro da Tresvaloração de todos
os valores foi concluído" . 1
Ao chegar ao ponto crítico onde se revela o impasse de sua
teoria das neuroses, pela descoberta da fabulação na cena de
sedução, Freud escreve a Fliess de Viena, em 21 de setembro
de 1897: "Não acredito mais em minha neurotica* ( ... ) Nesta
derrocada geral de todos o~ valores, só a psicologia permanece
intacta. O sonho conserva certamente seu valor, e cada vez dou
mais importância a meus primeiros passos na metapsicologia."2
Assim, a menos de uma década de distância, ao expressar a
crise decisiva donde sairá a psicanálise, em plena gestação de
seu "filho ideal, filho problema", que ele batiza de metapsico-
logia, na hora em que se encontra na pista da teoria fundadora

* Hist6.tias contadas pelos pacientes neuróticos. (N.T.)


38 PAUL-LAURENT ASSOUN FREUD FRENTE A NIETZSCHE: .. . 39

do desejo, Freud reencontra espontaneamente em sua pena a ll1t1ttl11 uo "interesse" que uma representação provoca. -S então
expressão pela qual Nietzsche denominara seu projeto. O sim- ,, 11111111uação do afeto que por deslocamento vai produzir, por
ples fato de a linguagem nietzschiana, mesmo que pela virtude 111111rli\11'0ncia, o transtorno das intensidades que, por sua vez,
da metáfora, impor-se para denominar este cataclisma donde sairá , ,ti tldo1·minat a mudança global da fisionomia do sonho, cuja
um discurso novo, simboliza uma afinidade de . procedimentos. 111 /iltrt1rieclade Freud assinala na fór.mula anterior.
Indica o interesse em questionar a convergência e a divergência /\ 1101cmos, em todo caso, que a expressão principal da axio-
dessa tresvaloração dos valores na psicologia, à qual Sigmund h1~l11 nlclzschiana serve para exprimir espontaneamente em Freud
Freud ligou seu nome, com aquela que Friedrich Nietzsche con- u, 111udnnças essenciais, aquela dos "valores teóricos" e aquela
sumiu por sua crítica da moral. dw1 "vulores psíquicos". Como se deu então este empréstimo
Isto supõe, porém, além da aproximação objetiva da psica- 111• li11gt1agem?
nálise e do nietzscheísmo evocada na introdução, remontar à
origem da relação pessoal do homem Freud com Nietzsche, que J Ml'U ÊSTIMO DE LINGUAGEM PARA DIZER O INDIZÍVEL
este cruzamento de linguagens materializa.
Freud aprecia bastante esta metáfora axiológica de tom nietzs- A partir do final do século, constituem-se círculos nietzschia-
chiano para empregá-Ia na mesma época na teoria do sonho. no11 nn Alemanha, como em Berlim, onde leciona Fliess, o círculo
Examinando o "trabalho do sonho" através de seus "meios de dn qual faz parte Koegel, futuro diretor dos Arquivos Nietzsche
representação" ,3 Freud ·passa a tratar da relação entre o pensa- 1 11tro 1894 e 1897.6 Pois bem, descobrimos numa carta a Wilhelm
1

mento do sonho e seu conteúdo. Ora, ao chegar nisso, observa t•licss a prova de que Freud, no início do século, era um da-
notável contraste entre a "intensidade sensível" ou "vivacidade" qttclcs que se interessavam por Nietzsche. Em 1.º de fevereiro
das imagens do sonho e a "intensid~de psíquica dos elementos de l 900, Freud conclui uma longa missiva a Fliess confiando-
correspondentes no pensamento do sonho" ou seu "valor psí- lhc: "Acabo exatamente de pegar as obras de Nietzsche onde
quico" (psychische W ertigkeit) .4 Chega então a afirmar: "A 1 noontrarei, espero, palavras para muitas coisas que permane-
intensidade destes elementos nada tem a ver com a intensidade r~m .mudas em mim (die Worte für vieles, was in mir stumm
daqueles; acontece de haver entre o material onírico (Traumma- hloibt) , ma$ ainda não abri o livro. No momento, estou pregui-
terial) e · o sonho uma completa "tresvaloração de (todos) os 1,:oso demais.''7
valores psíquicos" (Umwertung der psychischen Wertigkeiten). Documento precioso, tomado como testemunho espontâneo,
Em outras palavras: "Enquanto o trabalho do sonho se rea- 110 fluxo da confidência familiar. Encontramos nele esta notável
liza, a intensidade psíquica das idéias e das representações que fórmula: Freud se dirige a Nietzsche na esperança de aí encon-
passam por ele se transporta para outras que, a meu ver, não trar palavras para muitas coisas que permanecem mudas nele.
têm direito algum (Anspruch) a semelhante acentuação (Beto- Isto exprime bem mais sugestivamente que os comunicados ofi-
nunq)."5 Trata-se aí do deslocamento (Traumverschiebung) que cl11is posteriores8 o sentido do primeiro investimento pessoal de
Freud batiza também de "transmutaç'ão dos valores psíquicos". l•rcud em Nietzsche. Ele pressente neste uma linguagem que lhe
Esta é a caracterização de todo o trabalho de deformação e de diz respeito profundamente, mas por meio do paradoxo de que
obscuridade que define a linguagem do sonho. Assim, Freud não o que Nietzsche diz supostamente expressa o que, em Freu~,
encontra melhor expressão que a nietzschiana para caracterizar pormanece obstinadamente mudo. Toda a estranheza da relaçao
este processo maior do trabalho do inconsciente onírico. reside nis~o.
Isto, no entanto, é apenas uma metáfora: o que Freud chama Freud vai em direção a Nietzsche para nele encontrar a lin-
de "valor psíquico" (Wertigkeit, e não Wert) é sua intensidade guagem de seu próprio indizível, o que explica que ela ficará
40 PAUL-LAURENT ASSOUN 41
FREUD FRENTE A NIETZSCHE: ...

sempre em seu umbral. Entende-se melhor o que ele declara um vocabulário de inspiração nietzschiana que se mostra em sua
pouco mais tarde, que não conseguiu lê-lo por mais de meia con cspondência com Fliess. A partir daí, o que podia parecer
9
página. l! no episódio mencionado nesta carta que ele está um simples empréstimo traduz, se levarmos em conta a vibração
pen~ando particularmente, sem dúvida. Porém a "preguiça", da tardia confissão a Zweig, uma vel'dadeira idealização que
~~tt~ :vocada para adiar a leitura, dissimula a complexidade da compromete paradoxalmente a identificação: "Ele representava
1111b1çao. Ela traduz o recuo diante de uma ação tão contradi- para mim uma nobreza que estava fora de meu alcance", acres-
tória quanto aquela do mudo que tentaria ler para aprender a centa o Freud de 1934. Tentação superada a partir deste mo-
falar! Nietzsche com certeza não poderia preencher, para Freud, mento, como aquela que diz respeito à coisa filosófica em geral;
este papel de monitor. porém a confissão traduz, ademais, a precocidade de um inte-
E~tend:·se ~elhor, nesta perspectiva, o misto de admiração, resse personalizado por Friedrich Nietzsche. Coisa notável mes-
atraçao e mqu1etude de Freud ante Nietzsche, e sua obstinação mo: a imagem evocada de Nietzsche encobre, nesta época, a
em não lê~Io, "por excesso de interesse». 10 Leitura sempre adiada, imagem daquela Itália que tanto atrai Freud e o investe do mesmo
para o dia em que aquelas inúmeras coisas importantes que prestígio ambivalente, aquele de "uma nobreza fora do alcance". 15
pern:a.necem mudas se pusessem a dizer-se. Mas aí é que está A expressão parece uma resposta por negação ao evangelho
o v:1c10so, se é verdade que, para ler Nietzsche, Freud tem de Zaratustra: "Eis por que, irmãos, é preciso uma nova no-
que mudar de linguagem!
breza. . . Pois são necessários muitos nobres para que haja uma
nobrezal"16 Freud não se considera um bom apóstolo para se-
PRIMEIRO INTERMEDIARIO: .PANETH melhante empreitada e se conforma com isso.
h preciso, aliás, retificar as . indicações de Fr:eud, cuja me-
Numa carta de l.º de maio de 1934 a Arnold Zweigº há uma mória se revela, aqui, aproximativa. t em Nice, no final do mês
informação preciosa sobre a atração do jovem Freud por Nietzs- de dezembro de 1883, que Paneth conhece Nietzsche. Isto pode
che: "Na minha· juventude", diz ele a propósito de Nietzsche ser estabelecido graças à correspondência de Paneth: em 15 de
" e1e representava para mim uma nobreza que estava fora do,
dezembm de 1883, Paneth escrevia à sua mulher que Nietzsche
meu alcance. Um amigo meu, o Dr. Paneth, veio a conhecê-lo lhe enviara seu cartão de visita, após ter sabido que ele estava
na Engaélina e costumava me escrever muitas co.isas a respeito procurando contatá-lo; Paneth diz estar "impaciente para co-
<lele. Mais tarde ainda minha atitude em relação a ele perma- nhecê-lo", acrescentando que "ele não é assim tão inabordável
neceu quase a mesma." 12 Eis então revelado o esboço de uma quanto dizem". Em 17 de dezembro ele diz ter ido em vão à
ligação inâireta mas forte entre Freud, acercando-se de sua obra casa de Nietzsche. Finalmente, em 26 de dezembro: "Voltei a
- Jones o situa por volta de 1885 - 13 e Nietzsche, filósofo Nice e finalmente pude ver Nietzsche". Parece que se criou uma
itinerante concluindo a sua naquela Engadina que é seu cenário real '8impatia entre Paneth e Nietzsche, a tal ponto que de
natural. Ligação viva e de certo modo personalizada, já que imediato Paneth confia: ''Ele foi extremamente amável, não
emana de um homem que viveu por perto de Nietzsche em existe nele o menor traço de ênfase ou de ares proféticos, como
carne e osso. eu temia pela sua última carta. Ao contrário, mostrou-se muito
foseph Paneth era um dos mais caros amigos de Freud, e simples e natural . . . Depois me contou sem a menor afetação
faleceu prematuramente em 1890, 14 quando Nietzsche sucumbiu e sem nenhuma vaidade que continuava a se sentir investido de
à demência. É portanto de Paneth que ele recebe os ecos do uma missão e que queria, doravante, ( . .. ) elaborar a obra que
ú~timo Nietz~che, aquele da tresvaloração dos valores. B pro- trazia em si. .. Ele me contou sua vida." Em 3 de janeiro de
vavel que seJa por este canal que ele vem a investir um certo 1884, após um novo passeio com Nietzsche, Paneth diz ainda
PAUL-LAURENT ASSOUN FREUD FRENTE A NIETZSCHE: ... 43 '

tol' " tido seis horas de conversa bastante animada", acrescentan- dados sejam insuficientes, impõe-se a circunspeção, e ninguém des-
do que "tudo o que ele dizia era expresso com muita simplici• confia mais de uma reconstituição arbitrária, ainda que brilhante e
dade". Segue-se uma frase que introduz a palavra "nobreza": sedutora, do que Freud. Além do mais, a doença de Nietzsche é
"Sua abordagem é simples e despretenciosa, marcada pela no- uma trama intrincada: "O senhor deveria tentar saber", aconselha
breza e pela dignidade."17 Pode-se julgar, por estes excertos, o ele a Zweig, "se existem dados suficientes para semelhante
tom das cartas de Paneth que apresentaram na mesma ocasião quadro ... Mas com Friedrich Nietzsche, existe algo que vai além
a pessoa de Nietzsche a seu amigo Freud. Trata-se do Nietzsche do usual. Há também uma doença, o que é mais difícil de explicar
que havia escrito as duas primeiras partes do Zaratustra e que e reconstituir; quer dizer, existem sem dúvida processos psíquicos
se preparava para dar início à terceira (ver a carta citada de que se desencadeiam de determinada maneira, mas nem sempre,
3 de janeiro de 1884). na base deles, estão motivações psíquicas ; e tentar penetrá-las
seria correr o risco de cometer graves erros."22 Freud confirma
EPISóDIO ARNOLD ZWEIG então sua desconfiança em relação à interpretação puramente
O IMPOSS!VEL DISCURSO SOBRE NlETZSCHE psicogenética da doença de Nietzsche.
Como Zweig persistiu no projeto e lhe pediu sugestões quan-
No fim da vida, Freud teve oportunidade de novamente tomar to à vida de Nietzsche, Freud respondeu-lhe em 15 de julho de
posição sobre o caso Nietzsche. Foi Arnold Zweig 18 quem a for- 1934: "O senhor superestima meus conhecimentos sobre Nietzs-
neceu: "Em abril de 1934", conta Jones, "Arnold Zweig infor- che; não posso transmitir-lhe nada de útil."23 Além disso, desta
mou a Freud que tencionava escrever um livro sobre o colapso vez formula verdadeira negação a uma psicografia de Nietzsche:
mental de Nietzsche e lhe enviou o primeiro rascunho. Freud "A meu ver, dois fatos proíbem a abordagem do problema
o teria aconselhado a renunciar ao projeto, embora admitindo Nietzsche. Em primeiro lugar, não se pode enxergar através de
não saber com precisão por quais razões."19 Este episódio é uma pessoa se não se conhece a sua constituição sexual, e a
ainda mais interessante porque, para dar satisfação à consulta de Nietzsche é um completo enigmà.24 Em segundo lugar, ele
de Zweig, Freud chega a explicitar suas razões para não escre- sofria de uma doença grave e, após longo período de sintomas
ver, ele _próprio, uma psicografia de Nietzsche. preliminares, manifestou-se uma paralisia geral." Este diagnós-
Na carta .de 11 de maio de 1934, onde formula as condições tico tradicional é o segundo motivo de hesitação: "Com uma
que deveriam submeter tal empreitada, insiste antes de mais paralisia geral, os conflitos passam a segundo plano na etiolo-
nada na. exigência de veracidade: "Quando •se trata de uma gia". A doença psico-orgânica barra assim, literalmente, o acesso
pessoa de nosso tempo, cuja influência é ainda tão viva quanto aos conflitos de Nietzsche.25 A posição final de Freud sobre o
a de Friedrich Nietzsche, uma pintura de sua pessoa e de seu caso Nietzsche é portanto deliberadamente agnóstica: o homem
destino deveria seguir as mesmas regras da de um quadro: isto Nietzsche ficaria inedutivelmente fechado à análise por dupla
é, por mais elaborada que seja a concepção deste, a semelhança muralha: seus segredos e uma doença psico-orgânica.
não deixa de ser o ponto essencial."2º Primeiro, portanto, a reali- Aí estão as razões comprovadas pelas quais não podia haver
dade histórica, tanto Freud parece desconfiar do "romance" esta monografia completa de Freud sobre o caso Nietzsche com
histórico: "Que faríamos de· um Friedrich Nietzsche imaginá- a qual poderíamos sonhar. Mas existe uma razão a mais, afetiva
rio?"21 A primeira exigência é, pois, de ordem positiva; é preciso desta vez, que Freud confessa na carta anterior a Zweig. Após
arrolar os fa tos: "Já que o sujeito não pode posar para o artista, haver enumerado os obstáculos etiológicos, acrescenta com aquela
só resta a este último acumular tantos dados que ele só terá que honestidade que, nele, combina com um desconhecimento lúcído:
completá-los dando provas de penetrante compreensão". Caso os "Eu não saberia dizer se estas são as verdadeiras razões de mi-
44 PAUL-LAURENT ASSOUN FREUD FRENTE A NIETZSCHE: •.. 45

nha oposiçao a seu projeto. Pode ser que a maneira pela qual q11c a estratégia paradoxal de Adler equivalia a servir-se de
o senhor me compara com ele tenha algo a ver com isso." 26 i-nlcgorias de obediência ou de to_m ni~tzschian~ para .romper
Assim, existe aí uma recusa de identificação, que Freud associa, .-otn o fundamento pulsional da psicanálise freudiana. Nietzsche
mais uma vez, à sua juventude: "Na minha juventude, ele m:rvia objetivamente - no conflito decisivo da década de 1910,
representava para mim uma nobreza". Freud sugere assim que, quando a diferença freudiana emerge c_onflitualmente - ~ar~
no limiar da psicografia de Nietzsche filósofo, algo mais que 11c3ar à libido suas pretensões em pro:~ito de um outro prm~i-
as dificuldades técnicas o detém: algo que ocorra do lado do pio, por reativação do eixo da agress1v1dade. Quando anuncia,
ideal do Ego e do saber. 27 portanto, que se está preparado para "executar contra ele (Adler)
11 vingança da deusa Libido ofendida", º Freud realmente não
Acrescentemos que Freud postula uma continuidade de sua 3
atitude perante Nietzsche: "Também mais tarde", afh-ma ele, podia ignorar que a linguagem nietzschiana fora usada para a
"minha atitude em relação a ele permaneceu quase a mesma." (:)f cnsa!
31
Pode-se supor, contudo, que esta atitude, sistematizada a poste- Esta circunstância só podia confirmar a desconfiança de
riori, seguiu as vicissitudes da postura freudiana ante a fiJosofia28 Freud em relação a este referencial, maleável como todo refe-
e foi notadamente influenciada pelos problemas ocasionados
l'encial filosófico, que servia, seja como for, para amortecer o
pelo uso de Nietzsche dentro do movimento analítico. choque da mensagem analítica e para evitar a etiologia sexual.
Foi assim que, nas mãos ele Adler, Freud pôde ver Nietzsche
lançado contra sua grande tese da etiologia sexual. Ao se voltar para o outro grande cismático, C. G. Jung, Freud
..
deparava novamente com o nome de Nietzsche em jog~. Tal .
NIETZSCHE NAS MÃOS DOS DEFENSORES DA LIBIDO fato pode ser julgado ao vivo, acompanhando•s: a~ mamfest~-
ções sobre Nietzsche na importante correspondenc1a dos dots
A defecção de Adler afetou a seu modo a relação de Freud homens, antes do rompimento.
com Nietzsche.. Na verdade, a "psicologia individual e compa- Entre 1907 e 1912, Jung evoca Nietzsche seja para fazer
rada" de A d ler referira-se de maneira privilegiada a uma termi- mencão a determinada terapêutica que associa a teoria freudiana
nologia nietzscbiana. A teoria do inconsciente como Kunstgriff à fil~sofia nietzschiana,32 seja para associar o dionisíaco à sexua-
(artifício) da inferioridade dos órgãos conferia uma espécie de lidade,33 seja para recomendar Lou Salomé.34 ~m . todas as vezes,
garantia às -análises nietzschianas. No grande debate de fevereiro Freud deixa a alusão passar sem dar-lhe contmu1dade. Um f~to
de 1911, que deveria culminar no rompimento, a "vontade de simbólico: no momento decisivo da crise, em 1912, Jung cita
poder" nietzschiana é oposta à Jibido freudiana numa alterna- zaratustra para reivindicar a autonomia do discípul_o dizendo
tiva polêmica, na ocasião mesma em que o movimento analítico que "a gente é ingrato com um mestr;, quand~ contmu~ ~ ser
se confrontava mais intensivamente com Nietzsche.29 apenas O aluno."35 Nietzsche terá en_tao !ornecido ~o d1sc1pulo
Fica bastante evidente que profunda divergência separava os dissidente a linguagem de sua emanc1paçao! Ademais, o mestre
universos adleriano e nietzschiano e que os empréstimos de interpreta isto como um perigo mortal para a ps~canálise. Esta
Adler não hipotecavam as teorias do próprio Nietzsche, tão dis- é também a única ocasião em que Freud pronuncia o nome de
tante se acha uma teoria da supercompensação da natureza da Nietzsche nesta troca de cartas: para manifestar sua "aprova-
Wílle zur Macht nietzschiana, tanta distância existe entre a ção" à "necessária independência intelectual" e à "cita?ão de
anódina astúcia do neurótico, segundo Adler, e a fragmentação Nietzsche" que a sustenta, mas também para negar ter feito uso
elo querer nietzschiano. Quando muito, a convergência era pos- alguma vez que fosse de "tentativas de repressão intelectual."36
sível por uma temática comum, aquela da psicologia do desmas- Freud, portanto, só aceita a identificação com Zaratustra para
cctt•amento (Entlarvungspsychologíe) . Não deixa de ser verdade negar sua função de mestre.
16 PAUL-LAURENT ASSOUN FREUD FRENTE A NIETZSCHE: ... 47

Observ_emos simplesmente que Nietzsche intetvém entre Freud Na mente dos observadores, Lou Andreas-Salomé era o elo
e Jung se1~ ~ co~o um primeiro passo do discípulo, ao qual res- natural entre os dois homens. Jones resume bem esta opinião:
P?n~e o sdencto do mestre, seja como evangelho da revolta do " Diziam que ela se ligara aos maiores homens dos séculos XIX
d1sc1pu_lo. contra o mestre, seja enfim como referencial de sua e XX: Nietzsche e Freud."37 E o próprio Freud reforçava esta
obra d1ss1dente - conforme indica o uso das noções nietzscbia- idéia, já que "falava dela como único elo real entre Nietzsche e
nas na obra junguiana. ele". -e o que indica a homenagem que lhe prestoli, por ocasião
de sua morte, numa carta, datada de t1 de fevereiro de 19::57,
LOU SALOMÉ, ELO NATURAL ENTRE NIETZSCHE E FREUD a Arnold Zweig, conhecedor da.s coisas nietzschianas e zelador
da aproximação entre os dois pensamentos.38 Elo vivo, já que
A in~estigaJão não seria completa, porém, se não levássemos
ela conheceu os dois homens com trinta anos de distância. 39
em cons1deraçao, para confirmar a relação freudiana com Nietzs-
che, a ~º?.tribuição_ d_aqueles que puderam manter positivamente Contrariando, no entanto, com esta versão, tudo se passa co-
nele a 1de1a das afm1dades nietzschianas, a ponto de contribuir mo se Nietzsche não tivesse intervindo ativamente na relação
para confeccionar a imagem que ele construiu de Nietzsche· entre Lou e Freud, de sorte .q ue esta parece quase não ter feito
aquel:s que, enquanto ele se recusa a lê-lo, lêem-no para ele ; progredir o conhecimento de Nietzsche por Freud. Nietzsche
mantem acesa sua antiga flama por uma nobreza inacessível parece o deus oculto, .sem dúvida tacitamente onipresente em
.É conhecida a imp•-rtância dos intercessores na relação· de seu comércio, se se levar em conta o julgamento final de Freud,
Freud c~m ~~ filósofos, mas nunca, sem dúvida, os mediadores mas cujo nome aparece rara e sobriamente. Assim, quando c\tado
foram tao d1bgentes quanto etitre Ni~tzsche e Freud. Este sofre nominalmente na correspondência, é sempre um pouco como
~erdadeiro bombardeiro de solicitações nietzschianas: à sua volta, algo exterior, como quand~ Freud, numa carta. de 1932, apro-
!1terabnente encontra Nietzsche em toda parte, tendo que reiterar veita uma alusão de- Lou para declarar: "Muitas vezes me irritei
incessantemente o ato de furtar-se a isso. ao ouvir mencionarem sttas relações com Nietzsche num sentido
. ~em contar os ~nalistas em contato com Nietzsche que, nas que lhe era claramente hostil e que não podia em absoluto cor-
seç?es ~e qua:ta-fe1ra, vimos rivalizar em cultura nietzschiana, responder à realidade"; 40 ou como quando Freud, em 1934,
~ais tr~s mediad?res representam papel ativo neste trabalho de propõe a ela que banque a "conselheira" de Arnold Zweíg,
t1 atamento ~ de informação: que estava trabalhando num estudo sobre Nietzsche, recebendo
- Como conexão pessoal, do homem Nietzsche ao homem aliás uma recusa horrorizada. 41 Assim , se Lou foi o "único elo
Freud: Lou Salomé. real" entre Nietzsche e Freud, um contrato tácito parecia impor
- Cómo conexão literária, tecendo artística e sutilmente que isto fosse evocado o menos possível.
uma analogia entre as duas obras: Thomas Mann. O real benefício deste elo para as relações Nietzsche-Freud
Como conexão filosófica , mantida pelos filósofos admiti- manifestar-se de maneira bem mais viva no tal episódio familiar
dos n~ círc~lo freudiano, dentre os quais é oportuno distinguir em que Lou é invocada como testemunha de uma reação de
o analista filósofo que efetuou a aproximação mais sistemática Freud em relação ao homem que ela conheceu. :É principalmente
entre as duas problemáticas: Otto Rank. este que ela evoca em seu Journal d'une Année (Diário de um
~esta então avaliar, seguindo-se estes três graus de aproxi- Ano). na famosa discussão sobre sua defesa de Freud frente à
maçao, a parte que cada um destes três grandes mediadores filosofia, de 23 de fevereiro de 1913,42 "seu pavor diante do
~·epresent~u n~ aproximação freudo-nietzschiana e calcular seu Lebensgedícht (poesia da vida) que teve que ler justamente nas
impacto, 1media_to ou sutil, sobre Freud, e o uso que pode fazer composições de Nietzsche". Esta anedota relatada em sua bio-
dele quem deseJa levar a termo o confronto assim esboçado. grafia por Lou Andreas-Salomé exprime vivamente, por sua
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J)l'Ópría espontaneidade, aquilo que, em termos de caráter, por Sem erigir como concepção de mundo esta reação momentâ-
nssim dizer, separava Freud de Nietzsche na percepção -da vida. 11cn, quando Freud tem disposição para a bdncadeil'a, existe aí
"Um dia, ele havia recebido pouco antes de minha vÍsita• o 11111 indício da desconfiança de Freud em relação a todo excesso
flino à Vida de Nietzsche: era minha Oração à Vida esc.ritp em d(; Scltwiirmerei (sentimentalismo), que o leva a adotar como
Zurique, que Nietzsche musicara, modificando-a um pouco. Aqui- im lídoto espontâneo o ceticismo materialista meio chão do
lo não era muito do agrado de Freud. Ele, que se expressava /\ ufkldrer (iluminista). Existe aí uma rect~sa_ a d:ix~r-se. ~n~a~ar
com tanta sobriedade, não podia sentir o entusiasmo ·exagerado pela exaltação e um apelo materialista a unanenc~a flSlologt:a
do qual se usa e abusa quando se é jovem e inexperiente. De contra as tentações da embriaguez. Eis o que detem Freud as
humor leve, alegre e cordial, leu para mim em voz alta os portas do templo de Dioniso!
últimos versos:
Mas é preciso ir mais longe. Não há em Freud, fora de seus
ocessos prosaicos, uma verdadeira teoria do sofr~~~nto~ Ele não
"Pensar, viver durante milênios
<:ncontrou na neurose e nas reflexões sobre a c1v1ltzaçao aquele
Mergulhar nisso tudo o que possuis! limite absoluto que o leva a dizer que não entrou_ no pl_ano_ da
Se já não podes me dar felicidade
Criação que o homem seja feliz?47 Co~o uma teona do m~tmto
Pois bem - ainda tens a tua dor ... "
ignoraria essa questão extrema do sofnmento, nexus da vida e
da morte? No entanto, se isso deve ser levado em conta, ~a
Ele fechou o livro e bateu com ele no braço da poltrona: valorização da dor - muito antes o limite negativo do princíp~o
"Não, você sabe! Não concprdo! Um . bom resfriado crônico de prazer. Deste ponto de vista, não poderia haver amor doloris, ·
bastaria para me curar de tais desejos! "43
principalmente na época em ~ue se si~ua, ~ste. texto, na. qu~l
Este Hino à Vida tem toda uma história que confirma o anti- ainda não se tratava de um alem do pnnc1p10 de prazer 1mph-
go idílio de Nietzsche e Lou-Salomé - e, sem dúvida, para cando uma pulsão de roorte.48
ela é simbólico que ele dê oportunidade a um sarcasmo de
Eis por que o Hino à Vida não pertence ao g~ne_ro_ poético
Freud . Mas este poema que Lou, como que para justificar a
apreciado por Freud: ele prefere visivelment~ o mt1m1smo d~
derdsão de Freud, apresenta como um pecado da juventude,
cativará verdadeiramente Nietzsche. Ele sem dúvida se consi~ Heine ou O sóbrio lirismo de Goethe. Uma diferença de sensi-
derava seu éo-autor, depois de sua relação com Lou.44 Esta efusão bilidade que já traça uma linha divisória e~t~e Niet_z~che e
do sentimento vital, onde se mescla o amor fati, atinge uma Freud, aquela gue distingue o grito do murmuno, o d1t1rambo
glorificação existencial do sofrimento, como forma de adesão à da elegia, o trágico do chiste. Em vão procuraremos em Freud um
vida, em cima do modelo da relação amorosa. E é neste sentido hino, seja à Vida, à Morte ou ao Inconsciente.
que, em Ecce Homo, ele evoca com emoção o último verso do Existe aí uma diferença idiossincrásica que se expressa tam-
qual Freud caçoa. 45 bém pelo contraste entre o culto à música inseparável do nietzs-
A reação de Freud pode parecer elementar e, em suma, fácil: cheísmo e a "aversão" pessoal de Freud pela música.49
ele se recusa a entrar no jogo do entusiasm0 e opõe a ele, meio Pode-se sem dúvida moderar a oposição das sensibilidades
cinicamente, uma concepção toda prosaica da dor - pois não observando que a exaltação romântica exa.sper~ pelo_ menos do
há dúvida de que o sofrimento metafísico se opõe foto coe/o mesmo modo Nietzsche, que desferiu muitas mvecttvas contra
(diametralmente) à dor consecutiva a um resfriado! Nisto ele .se 0 romantismo. Em toda a sua obra, vê nele o sintoma da "bar-
inspira no poeta evocado por Wilhelm Busch, cuja dor de dentes bárie moderna" de uma época de "esgotamento nervoso" ao
bastava para interromper os mais sublimes devaneios.46 mesmo tempo que de "superexcitação nervosa", e concebe sua
50
PAUL-LAURENT ASSOUN
FREUD FRENTE A NIETZSCHE: ... 51
obra como luta contra o romantismo. E precisamente porque vê
nele uma caricatura da verdadeira expressão do instinto que ele , 10 dos grandes desejos dos quais Nietzs-
batiza de " dionlsismo". 1,, 11 1lul hnsla para ~u.ra- á A' reside sem dúvida uma das
1
11 p11 11 l1mmcnlc, e mcttr v~d·. i_ asia Onde a alma nietzs-
Só Freud, por sua vez, não distingue um do outro: em deter- 1 d tais de sua t ,ossmcr .
lililiv, un amen
11111 ~e d ilata, a alma
f reu d'ia.na "se restr inge ao buraco
minada expressão dionisíaca que entusiasma Nietzsche, Freud
só enxerga um certo romantismo duvidoso e melo ridículo. E, 111 11,, do mo lar.. ,,55
além desta divergência particular de apreciação (que Lou não
contesta), Freud se revela1·á pouco acessível ao verdadeiro dio- I lltlh l A.\' MANN, ARAUTO E MEDIADOR DAS OBRAS
nisismo: algo, ai, fica mudo nele. O mal--entendido é portanto
bastante revelador.
'11•1 l ,ou Salomé tem ~
háb. 1 discrição de não ultrapassar sua
Não que Freud seja impermeável a um certo caráter trágico i t nistas da aproximação entre
elos mais ativos pro ago 930
do sofritnento, mas este é, nele, desativado por uma forma de 111111,1 11,
' um freudiana
t,•tll(Íticas . . tzsch'a
e me t t18'
desde os anos 1925-1 ,
humor. Para apreciar devidamente o sentido de sua reação d iante
11 1 l'l11mrns Mann. artir do ensaio "Freud e o
do hino nietzschiano, é preciso ver que ele reage com um espí- d sel' depreend'd 1o a P , ·
rito heiniano. Não é por acaso que Freud aprecfo tanto a poesia 1 ,tu po e " 9) S6 concebido como um comenlano
de .Helne: o que ele encontra nela é um "lirismo satírico e aris- /', 11w1w11to Moderno (192 ' 'ado Humano e de Aurora,
d 1 11111 aforismo de Humano,_Demas1 cultura s1 Freud é int!'o-
tofanesco". 5º A maioria das poesias de Heine, na verdade, anula . a nova relaçao com a · )
pelo sarcasmo o efeito das cores mais agudas : "Não existe dor •1111 1nnunc1a um "explorador d as profundezas (Tiefenforscher d e
tão grande que não suponha Úma pitada de ridículo, e isto não d111• c o como . . " situado "na linhagem de escritores os
significa diminuí-la , mas dar-lhe uma nova grandeza."51 p,1t•cílogo do mstínto , . . d filósofos críticos ou arque6-
' i ulos XIX e XX - htStona ~resa,lismo a;· intelectualismo, ao
E portanto como êmulo de Heine e de Busch que Freud reage se opõem ao rac10n , , . d é
muito precisamente aqui em face do lirismo dionisíaco. O que l111<u•1 - que esmo tempo ao espmto o s -
Adler diz de Reine se aplica maravilhosamente a Freud, e revela
l l11i,:,icismo, numa palavra, ao m xrx:•58
o do século Esta
llllo XVIII e mesmo talvez um . poucna 1'de'1·a de que ele faz
o sentido de sua evocação do resfriado como antídoto humo- 'd f d de baseia-se
rístico do sofrimento existencial: "O humor, no momento em 11rll11cllcução de t en 1 a 1 do noturno da natureza e da
1 e "acentuam o a ·
que encara uma realidade, já vê seu limite certo, sua supressão 11,11 to daque es qu d deiramente determinante e cna-
11111111" enquanto element~. ver T~omas Mann põe em revelo duas
iminente, sua destinação segura. . . O humor anima o pensa-
mento qt,1e sabe que toda idealidade nobre é condicionada por dor da vida. Mas de _ime iatto l ento irracional: por um lado,
,,. . m relaçao a es e e em . o-
uma realidade material grosseira, e o próprio pensamento por 1•·,11•,fü,g1as, e , . lt' defende sua primazia, prec
imagens grosseiras . . . E ele contempla esta fragilidade (do mun- ,•~tu família de espmtos o ,~u iva, d volta ao noturno, à pré-
. o mesmo a gran e .
do) com um sorriso onde passa um enternecimento."52 ui1ando por i~s. ida"· . r outro lado, esclarece-o c1en-
c:unscifü1cia on_gmal da } h her:orkehren) . Trata-se portanto de
Entende-se que isto não impedirá Freud de set· sensível a
outras53expressões da dor em Nietzsche, de quem conhece outros ti(icamente \wtsse~ch~ft \ sta de exaltação através de um r~co-
1ntperar a atitude trrac1ona . . 1 ão irredutível, mas obieto
hinos. A exemplo de Heine, porém, que também é apreciado 11 1 • ento deste elemento irrac1ona ' n
po.r Nietzsche, alguma coisa nele desativa o abandono às dores lCctm · · - o científica. .
abissais, pela virtude da caçoada, mesmo que -de seu própt'io clc uma nova mvesttgaça . d Thomas Mann con$1ste, a
54 Toda a argumentação do ensaio de . enfoques procedem sem
sofrimento. Neste sentido ele é i11capaz daquelas longas viagens , ncer que estes 01s
pnt•tlr dai, em conve o tempo reacionária (como
irracional adentro, tanto q ue a simples lembrança da realidade
contradição de uma vontad~ a~ ~es:mo vontade de progresso
volta à origem) e revoluc1on na,
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cond_iciona~a por u_ma volta às fon tes. Ele distingue, portanto, a Nu mc11te de Mann, Freud e Nietzsche estão estreitamente
cons1deraçao freudiana do irracional da "vontade anti-idealista oh 1• por intermédio do terceiro termo, Schopenhauer, seu fí-
e a~ti-intelectua~ ( . .. ) de romper a primazia do espírito e da •111 lnvorito. 66 Não é por acaso que, em sua famosa homena-
razao, de depreciá-la como a mais estéril das ilusões, e de restabe- 67
111 110 fundador da psicanálise, em 1936, ele o caracteriza
lecer triunfalmente, em seu direjto vital primitivo, as forças das , 1, 1 l11clo-se a estes dois associados: " um espírito independente,
trevas e as profundezas abissais, o instinto, o irracional."59 11111 homem e um cavaleiro, sombrio de fisionomia severa' , como

. Fre_ud sur~~ po2·tanto . co~o uma espécie de antídoto para a li 111 Nietzsche de Schopenhauer."68
suspeita glortficaçao do mac1ona]: sua especificidade provém do 1•11r outl'o lado, descarta a idéia de uma influência direta:
;,ato _de ele aplicar. UI~ dispositivo racional a um objeto irracional: •,11111lt1 nd Freud , o fundador da psicanálise ( ... ), percorreu o
O mteresse de c1ent1sta que Freud sente pela esfera afetiva não .1111 11 cominho de sua pesquisa sozinho, e totalmente indepen-
degenera em glorificação de seu objeto às custas da esfera inte- di 11 lt: , unicamente como médico e observador da natureza ( . .. ).
l~ctual. Se~ anti-raci~nalismo equivale a compreender a superio- tfoo conheceu Nietzsche, cuja obra é totalmente sulcada, como
~1da~e afehva e dommante do instinto sobre o espírito; mas não qttt• por relâmpagos, por antecipações de pontos de vista freu-
implica uma prosternação de admiração diante desta superiori- 111t111os." 69 Mann afirma entretanto: "No que diz respeito ao amor
dade, a u~1a caçoada do espírito. . . seu 'interesse' pelo instinto 111,lu vct'dade concebida como verdade psicológica, este amor cuja
não é servil, negador do espírito por um conservadorismo de sua 11101'111 tem como eixo a aceitação sem resistência da verdade, ele
natureza; ela concorre para a vitória revolucionária da razão e 1k1 iva da nobre escola de Nietzsche, em quem, de fato, a identi-
do esp írito, prevista para o fututo ."60 ,lndc do conceito de verdade psicológica, do cientista e do psic6-
~ neste contexto que Thomas Mann ressalta as afinidades l11go, salta aos olhos." 70 .
de Freud com o romantismo alemão e com o próprio Nietzsche: Uma idéia importante para essa intelligentsia literária atraída
ele considera, _aliás, que o desconhecimento de Freud da litera- pl·ln psicanálise no entre-guerras: Nietzsche e Freud são irresis-
tura "aumentou o impacto de sua mensagem."6 1 }! que ele " per- 1lvolmente aproximados, antes mesmo do conteúdo das obras,
correu sozi'.1ho o duro caminho de sua descoberta, sozinho e pelo princípio desta determinação de verdade, deste sapere aude
totalmçnte independente, unicamente como médico e observador (" ousar saber") psicológico q ue fazem deles os verdadeiros
da natureza." Abordou, portanto, o irracional por seu caminho Aufkléirer modernos. Não é por acaso que Stefan Zweig coloca
fundamentalmente científico. As relações com Nietzsche são como epígrafe de seu ensaio sobre Freud o aforismo nietzschiano:
apresen~adas como simples "afi nidades inconscientes". "Ele não " Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito?
conheceu Nietzsche'', afirma Mann, "em cuja obrn abundam, por Cada vez mais isto tornou, para mim, a verdadeira medida dos
toda parte, como relâmpagos (blitzha/i), antecipação (Finsichten) valores."71
de Freud."62 ,
Thomas Mann acrescenta a esta primeira e fundamental afini-
. ~ssim, encontramos em Thomas Mann esta representação tra- dade a identidade do "sentido da doença ( ... ) como meio de
d1c1onal de um Nietzsche precursor de Freud, mas este texto é Atingir o conhecimento.''72 Outra idéia essencial na literatura
notável porq ue Freud é aí inocentado de "todo abuso reacioná- freudo-nietzschiana, e à qual o próprio Freud dava crédito: '1'.l o
r~o" do irr~~ionalismo moderno, por sua recusa a "cantar a poe- gênio autoterapêutico que embasa a obra nietzschiana abre ca-
sia do espmto envolto em trevas, exaltado voltado para O pas- minho à psicanálise freudiana.
sado"63 - o que permite paradoxalment~ evocar o Nietzsche No q ue se refere ao conteúdo doutrinal, Mann insiste signifi-
voltairiano64 do início dos anos 1880 (aquele das Luzes) e, ao cativamente sobretudo na ligação de Freud com Schopenhauer ,
mesmo tempo, reservar à psicanálise a abordagem pelo saber.6s apresentando Freud como o "verdadeiro filho do século de Sebo-
54
PAUL-LAURENT ASSOUN
FREUD FRENTE A NIETZSCHE: ... 55
penhauer" e insistindo no "estre' t
lução e aquela de Schopenhauer.'~7~ 6arentesco_ entre _sua revo- 1111111t11110 divino de sua idéia, mas preferindo ao relâmpago de
Freud são atrelados a uma p t 'd d uanto a isso, Nietzsche e ulmhunos corrosivos a elaboração rigorosa e sistemática do gi-
, .
a naturahstica passagem de S h
a em1 a e comum - O
h
• ·r·
que JUsh 1ca 1••t11lc1iCO edifício empírico-científico de sua técnica de desmas-
psicanálise, como para um ,; op~n auer. ~ de Nietzsche para a 1 ,11rm1 e11to. " 81 Assim ganha crédito no ambiente filosófico pró-
conhecimento" 7s Schope h mun o familiar" e "território de 11 111) da psicanálise a idéia de uma coalescência dos projetos,
. n auer, porém fornece a Tb
o ref erencial metafísico estável e . , d' ornas Mann Nl!'ltchc e Freud usando dois caminhos diferentes - um, dis-
e Freud lhe fornecem as ve te t prunor tal, enquanto Nietzsche , upti vo e aforístico, outro metódico e científico - para delimi-
rí1,tica psicológica em perpétr n es com~lementares de uma heu- l1111·m a mesma terra incognita. Arriscando-se a situar, como
T ua construçao
homas Mann representa enfim rn : 111111,wanger, a diferença em nível antropológico: "O caráter
que leva irresistivelmente de' N' t , h arav11bosamente -O caminho , lworosamente naturaiista, empírico-construtivo do homo natura
b rar. que suas Reflexões de 1e zsc Jt e a Freud 76 E
. .
.
preciso 1em- l11·11diu110 o distingue, mais que a oposição entre Eros e Vontade
" • . . um apo tico foram co d 1 til' poder, do homo natura de Nietzsche".82
premio Nietzsche" em 1919 77 roa as pe o
de Elisabeth, satisfeita com 0 ' " ºdiqut lhe v~Ieu ª,s felicitações Mas é com Otto Rank que se sistematiza a aproximação. Como
se exprimia Dez anos de . ra ca ismo anstocratico" que aí vimos em nossa investigação anterior, Rank é quem lida mais
. pois, como se viu Tho M
tava a obra de Freud antes d , . mas ann exal- 111lvamente com os filósofos, dentro do movimento analítico.83
finaJ. Assim se encontrava tec~/r~star-l_he a vibrante homenagem nl'llças à sua sólida cultura filosófica, ele não se contenta com
casadas numa associação tena • : a conJu~ção das duas temáticas, vugns aproximações culturais, mas discerne as estruturas de in-
títulos de nobreza. Assim Freie! r qu~. a ltte:atur~ outorgava seus 1rligibilidade que ligam Freud aos sistemas filosóficos. Apaixo-
ao mesmo te ece 1ª da mtelligentsia literária 1111do por Schopenhauer e Freud, ele baseará sua própria diferença,
mpo que uma homenage . . '
aproximação com Nietzsche. m, o imperativo. de uma 11 partir de sua dissidência com Freud, após 1924, numa sur-
prt:endente reinterpretação das contribuições psicanalíticas à luz
NIETZSCHEO-FREUDISMO· do nietzscheísmo,84 completando uma corrente nietzschiano-freu-
DE OTTO GROSSA OTTO RANK dinna que se manifestara desde antes da guerra, com Otto Gross.85
Desde 1926 Rank baseia sua crítica da terapia freudiana na
Restam aqueles que procura . . 1civindicação de uma "terapia da vontade", como se vê em Von-
relação. m pensar s1stematicamente esta tctcle e Psicoterapia. 86 Ora, isto não deixa de ser uma referência
11 Nietzsche. Ele vai até basear a "experiência terapêutica" no
. Desde. 1924, Charles Baudouin sustenta
ha7ão precisa entre a temática nietzschian va a t~se ~~ uma fi- confronto de duas vontades, a do analista e a do analisado, en-
W1tt~Js, seu primeiro biógrafo assinai ~9 e a psicanahse,78 que contrando no tratamento o esquema nietzschiano do confronto
propoe-se a aproximação t , '. ava. Em torno de Freud, <lils vontades. Esta "psicologia da vontade" se coloca portanto
Pfister que em 1927 obse eoncaFcom Nietzsche. Como Oskar hOb o patrocínio de Nietzsche, como o único que aceitou se ins-
. ·- ' ' rva a reud que sua . - b 1nlar nesta perspectiva.87
re1ig1ao fora expressa por N' t h pos1çao so re a
Como, principalmente L d . B' . •e zsc e sem que ele b so Rank sustenta, assim, que "a psicologia de Freud é tudo ex-
sou esse.
ximo de Nietzsche q~e ut wb1gl mswanger, o filósofo mais pró- ceto uma doutrina da vontade" e recorre explicitamente a Nietzs-
. • es a e ece estreito par 1 l .
pro1etos. Num texto de 1936 a e o entre os dois che para admitir a necessidade de uma " reabilitação da von-
numa homenagem solene É· que resume a contribuição de Freud litde",88 entendendo-a como "uma organização, positiva e diretora,
pletando não menos radi~al mswa?ger o apresenta como "com- o uma integração do ego que usatn as tendências instintivas de
e apaixonadamente que Nietzsche o urna maneira construtiva - ao mesmo temp_o que as inibem e
56
PAUL-LAURENT ASSOUN
FREUD FRENTE A NIETZSCHE:.·· 57
89
as controlam. " Guardemos portanto como revelador este apelo
à vontade criadora e positiva, construtiva e integradora (contrn 1111l11c11ciada Pelo mundo exterior, mas procura modificá-lo ati-
o desejo freudiano, definido como uma vontade evanescente e
extenuada) que recorre a Nietzsche. v11111onto. . • d' - de u m pon to de vi'sta da ativi-
Anotemos esta re1vm icaça0 f dador do recu rso
:e na90 obra maior de sua filosofia , Volonté du Bonheur · d' 'd !'dade como un
il111lc criadora da m iv1 ua id onto de vista que se vale
'
(1929), que Rank propõe um modelo de articulação entre a , ,111tra Freud e compleme~tan ~o dao P t de" o "tipo criador "
psicanálise e filosofia nietzchiana. Pode-se considerá-lo o primeiro h d "psicologia a von a .
grande modelo de construção freudo-nie lzschiana. Pela primeira
, li• Nlclzs: e, . e_ uma " m ser dotado de uma aptidão (. • •)
tlL· Rnnk e defuudo co~o .u . elementares visando uma cria-
vez, na verdade, as contribu ições de Nietzsche e Freud, das quais p11r11 utilizar os fatores mstfmtivul os i'deal que guia e domina
Rank também se alimentou, acham-se integradas numa síntese { , • ( ) para orm ar um 1·
ambiciosa, conduzida com a sistematicidade de uma Weltans- i,:nu v? untarw . . . d criadora no sentido da persona I·
i 1msc1entemente esta vontad e lv1·mento considerável do ego
chauung. Este é portanto um documento precioso para nosso 1 ,, e supõe um esenvo
propósito, já que Rank exibe com determinação a força de con- doe e ," o .• qu , d r·
do " 93 o ego e e m1 como "o r epresentante tem-
'do .
iomo. ena d f rca. c6srruca
. pr1m1ttva.
. . . ,,94 É , precisa Rank, "o vigor
~
vergência dos pensamentos, arriscando-se a polarizá-la para as
necessidades do próprio projeto. Não há dúvida de que este puráno
1 l f ça pnmttwa represen ta d a n o indivíduo que chamamos
a or . .
F d
ousado amálgama não pode ser, p9r natureza, do agrado de Freud. e cs ta d or" Como se ve" a rea b'l't 1 laça-o da criatividade, que reu
. d' 'd
Tem-se, porém, p recisamente a í o modelo realizado de uma sín- von a e. ' 1 , t mbém aquela da m 1v1 ua-
rcrin ignorado funda~rº.: ;entedaees~ iritualidade contra o bioló-
tese q ue supera alegremente a prudente representação das "seme-
lidade contra a espec1 ic1 ª.te e . t· aduzir contra o determinismo
lhanças" parciais para abrangér os pensamentos numa ambiciosa . D modo ele perm1 e rem r , .
"visão de mundo". [sto não ocorre sem um reajuste recíproco das g1 co. esse .
freudiano do inconsciente, um_a e t oria da d' liberdade consciente
teorias, que vale justamente como revelador das divergências que ue alicerça a revisão terapButica do frcu ismo. . - ,
Rank pretende superar. Quanto a isso, a tentativa de Rank nos q verdade a considerar neurose e cnaçao a~tís-
parece preciosa: ele indica, por seu esforço para completar Freud Rank chega na . ., 1 grada" e outra bem-sucedida,
com Nietzsche, as correspondências e os hiatos entre os dois lica como duas versões,A uma ~o:/aparece finalmente como uma
pensam~ntos.
d me smo processo. nem d
e um I d .d mas que procede a mesma
espécie de obra de_ arte ma suce ~ a . cípio da terapêutica seria
Rank se apresenta como um freudiano que evoluiu no sentido aspiração hipertrofiada d o ego. p rm ela da criação
li agem da neurose naqu •
portanto converter a ~g~ I t , o que faz com que, segundo
de uma reabilitação do aspecto criador da personalidade: "Es-
tive p rirn,eiro inteiramente sob a influência da psicologia materia- em cima do modelo arhshco. s o e a for a criadora da
lista de Freud , e é em termos de biologia mecanista, conforme a Rank, Freud não po~sa realme:: pen;a:onseguÍnte, o sentido
s ua ideologia das ciências naturais, que expus minha concepção arte. O recurso a N1etzs:he_. to ' o:o de vista estético contra
91
de gênio criador." Ele cita como motivo de sua separação do
convergente de uma refedrenc'.at aod~ conhecimento científico em
naturalismo freudiano a descoberta da "criação do próprio indi- a dominação do ponto e vis a
víduo", do "ato criador do homem'192 por ocasião da descoberta
do papel determinante do "trauma do nascimento". O princípio Freud. " . ntra o roblema da moralidade, isto
Assim, a terapeutlca e?,co " dapvontade de onde procede a
de complemento que Rank exige em face do ponto de v ista freu- , "b " ou mau '
diano é , portanto, a especificação de seu naturalismo por um é do catater om ·t a Rank numa grande recn-
' - d lpa Isto é que pernu e ' bl
ponto de vista da "criação" entendida como a "potência indepen- questao a cu . d fdo da pl'ogressão do pro ema
pitulação, interpretar to o o s::s~do por Nietzsche. A Scho-
dente" do "mundo intramental", que não se contenta em ser
de Schopenhauer a, ~reu:,
penhnuer cabe o mento e aver
6
objetivado o caráter mau da
58
PAUL-LAURENT ASSOUN
FREUD FRENTE A NIETZSCHE: ... 59
vontade, a Nietzsche o de haver separado "a vontade d bl
d· l " M o pro ema que está em jogo no fundo. Talvez realmente Nietzsche e Freud
~ cu pa •. as com Freud se voltada a uma concepção pessi- se encontrem, para melhor se separarem, nesta questão-chave que
~tsta, r~~lt~a~a na "pulsão de morte", aparentada ao ponto de Rank expressa em sua linguagem como a da "origem e da impor-
vista or~gmar10 de Schopenhauer - que requereria uma última tância psicológica da vontade"; um a explorando via abordagem
conversao que Rank reivindica. Chega-se, portanto, através deste psicológica, outro via crítica da moralidade. Rank, por sua vez,
problema-chave, a uma curiosa "quadrilha" que toma f
de t . a orma fazendo-os convergir na terapêutica, atribuindo a esta a tarefa de
um_a quar a proporc1onal. Rank pretende ser para Freud "justificar a vontade".
0
que Nietzsche foi para Schopenhauer.
Esta é finalmente sua dupJa importância: historicamente, como
Co12_1 efeit~: "Nietzsche reage pela afirmação de vontade à artesão da mais importante sistematização do nietzscheo-freudis-
negaçao n? sistema de Schopenhauer; assim também a teoria de mo; didaticamente, para nosso propósito, como catalisador da
Fre~d _esta, por sua vez, contra Nietzsche, como uma volta ao aproximação e revelador útil para indicar os locais onde se dá o
pess1m1s~o e a um niilismo quase schopenhauerianos. Não duvido encontro, na investigação que faremos sobre a articulação deta-
de que m_mha psicologia da vontade ( ... ) seja, por sua vez, uma Jhada dos temas. Ele pode de fato reivindicar este papel de indi-
res~osta a concepção freudiana da vontade má".9S Rank define cador, tanto como êmulo da psicanálise discípulo de Nietzsche,
assim claramente o seu papel: ele será O "Nietzsche d p d •'96 quanto como representante do nietzscheísmo junto a Freud, e
I t - d e reu .
s o nao eve, entretanto, ser e11tendido como uma regressão ao contra ele.
p_onto de v,ista nietzschiano dentro do esquema progressivo enun-
ciado: se Rank entroniza Nietzsche como tendo sido "até Assim se apresenta o complexo processo que define a atitude
o • · · , 1 ,, 97 . agora
_ umco .ps1co ogo , declara· não menos expressamente que ele de Freud perante Nietzsche durante mais de meio século. Proces-
nao pod.1a resolvei:~º ~roblema colocado "porque para isso era so sinuoso e muJtidimensional, mas que se organiza numa coe-
nece~sána a _ex~enenc1a analítica",98 e O repreende firmemente rência contraditória cujos componentes foram reconstituídos por
por 1?trod~z1r clandestinamente ( ... ) uma escala de valores nós.
na ps1colog1a.''99
Encontra-se na origem um vínculo pessoal, simultaneamente
_Rank. recusa portanto qualquer confusão dos gêneros. Parte da indireto e ambivalente, que se expressa por um empréstimo de
pst~ologia e se atém a ela: antes de ser uma questão ético-axio- linguagens e, ao mesmo tempo, por um distanciamento que se
lógica, a vontade é para ele um "dado psicológico". A maneira traduzirá por uma espécie de interdito, tendo por objeto a leitura
co~~ fomlUla a questão epistemológica, porém traduz seu aspec- de Nietzsche e mesmo a escritura relativa a Nietzsche. Em cima
to etzco-?1etafísico: "Primeiramente, de onde ;em (a vontade) e desta matriz de vínculo pessoal se tecerá o trabalho dos interces-
como ela se desenvolveu no homem? Depojs, em seguida, por que sores e mediadores que constroem o nietzscheo-freudismo, ao
devemos condená-1~ como má ou justificá-la como boa, ao invés de mesmo tempo mito, produto da história das idéias, exigência e
reconhecermos e afumarmos seu car?ter necessário?"too até mesmo sistema. De sorte que, para Freud, se apresenta como
_A questão_ rankiana traduz maravilhosamente, por seu caráter imperativo de aproximação este vínculo que ele se esforçava para
~usto, assum1~0 como tal, ~ encontro de duas questões e de duas exorcizar. ·
lmguagens ormndas respectivamente de Nietzsche e de Freud o E preciso que nos voltemos agora para o que Freud diz de
fato de que não se possa agir sem contradição no explosivo po~to Nietzsche em sua obra, para procurar por este lado a materiali-
~e encontro ~essas duas linguagens remete à apreciação do pro- dade desta relação cuja história reconstituímos.
Jeto do próprio Rank: o essencial é que ele elucida e indica
0
ponto de encontro dos dois campos e materializa sem dúvida
0
60
PAUL-LAURENT ASSOUN
FREUD FRENTE A NIETZSCH E: ... 61
NOTAS
11. Cartas de Paneth à sua mulher, reproduzidas por Bernouilli, Carl
1. Esta é a fórmula datada do ,\lh1ccht. Franz Overbeck und Friedrich Nietzsche, 1908, t. 1, pp. 358-60,

ração de todos os valores! ... • (S; '~:;'r


V., também, o aforismo 62 de O A t pr~logo de Crepúsculo dos Ido/os
"A datar de hoje? Tresvalo:
7enlte de Niet2sche, o primeiro livr~ d ' 283). Este livro constitui, na
, , .- 111 francês, in: Nietzsche Devant ses Contemporai,1s (Niet:,..sche Diante
,tt ,cus Con1emporâneos), textos reunidos e publicados por Bianquis, Gene•
~lbvi:. Ed. du Rocher, 1959, pp. 112-5.
t tu o Tresvaloraç-ão de Tod e uma obra que deveria ler
de 1888, pelo título A Vont:~e°~eV~ores, substituído, a partir do ve~:i 18. Arnold Zweig (1887-1968), escritor correspondente de Freud desde
l'IJ7, refugiado na Palestina em 1933, terminou seus dias em Berlim
2.• parte, livro UI, cap. III, pp. 295 :~:'· Sobre este conceito, v., infra, 1 >clden tal. Sua reflexão sobre Nietzsche se insere no contexto de sua resis•
2. O curioso é que a tradu - f . ti'11cia ideológica ao uso que os nazistas estavam começando a fazer dele,
contentando-se em falar em "d;ªº :ncesa omite a menção dos valores
chanalyse [O Nascimento da Psi:.t~~ a geral" (La Naissance de la p;y'
traduz completamente, sem elucid:: r:e!•c:- ~93). J?nes'. em contrapal'tid'a:
1 11111 o aval de Elisabeth Nietzsche.
19. Op. cit., t. Ili, p. 217.
20. Citado por Jones, op. cit., t. III, p. 516.
p. 391) e descobre a.í uma "paráfras _pçao ru_:1ológrca (Op, cit., t. 1
21. Op. cit., p. 517. Freud cita a esse respeito o trabalho de Podach,
tacamos a expressão no texto de / ded Nietzsche (n. 1). Nós é que des:
3. GW II-III . reu . quo contém as últimas informações sobre o caso Nietzsche (V. nota n. 50).
4 O , . ' p. 315, in: Traumdeutung J\ ~sinalemos uma analogia entre Nietzsche e Moisés, que se instaura na-
' p, Clt., p, 335. • quela ocusião na mente de Freud. Realmente, numa carta de 30 de setem•
5. GW, IJ-lll, 667 in· Ober d T bro de 1934, lembran do o início de seu trabalho sobre Moisés e o Mono-
6. Sobre Koegel, v~r ~ ob d e; rau,n ("Sobl'e os Sonhos'). tulsmo, ele declara: 'Meu livro tem por título: O Homem Moisés, Romance
e pp. 196-233. ra e eters sobre E. Nietzsche, pp. 178 e ss. /Jist6rico (com mais justiça que seu romance sobre Nietzsche)· (Corres-
7. ~sta carta n iío figura na antolo . . JJDndance, 1873-1939, Ga1limard, pp. 458-9). Em outras palavras, Freud
mas é citada por Max Schur in1 L g1a La Naissance de la Psychanalyse concebe Moisés como o seu Nietzsche ...
na Vida de Freud) p 248 v' a Mort dans la Vie de Freud (A M • .
8 .. • · · . na p. 646 d I b orte 22. Nisto Freud é fiel à sua posição formulada um quarto de século
. V., infra, pp. 69-70, e supra 15es a o ra o texto alemão inédito. antes sobre a mesma questão (V., supra, pp. 16-7). Freud acrescenta, aliás:
9. Supra, p. 24. • p. •
"De qualquer modo, se não se é especialista, os detuihes de uma doença
10. Supra, p. 20.
apresentam bem pouco interesse.• Esta é ainda uma maneira de fazer o
J l. Sobre Zweig
12 C't d • v. p. 35 e nota n. 102. problema descer voluntariamente para o pfono técnico: decididamente, •o
• J a o por Tones op cit caso Nietzsche" é um caso para ' especialistas", uma questão de facto
pondance de Freud, p. 51,7. . ., t. III, em seus Extraits de la Corres- (interpretação da paralisia) anterior a qualquer especulação, mesmo que
IJ. Op. cit., ibid., n. 1. Pol'm . psicanalítica.
Pou~~ês, Guy de. Nietzsche en 1,:7;~r~~,;;'gb)l'e o circuito de Nietzsche, v.
23. Citado por Jones, t. III, p. 217.
. . E a ele que Freud faz al ~ .
:n1g~ Josef", GW, Il-lII, p. 486tª; ?ª /nterpretação dos Sonhos ("Meu 24. Como rcfoJ'ço, Freud evoca a hipótese: "Dizem mesmo que era
F~~hftr~ para ajudá-lo a se casar, .e ; 1e~ e/uem lhe adian tou somas em um homossexual passivo e que pegara sua sífilis num bordel de homens
JSto ogia de Viena, como rofe . reud sucedeu no Instituto de na Itália". Boato sobre o qual ele não se pronuncia: ·t verdade: quien
Morreu de tu_berculose. p ssor-ass1stente (demonstrador) em 1882. sabe?" Já em 1908, Freud e os outros anolistas vienenses encoravam este
IS. A parx:ão pelo l tál'1 , fato, na sessão de quarta-feira, 28 de outubro: "Não há dúvida de uma
J•
se u~na e freudiana. A bem cfuer
ª e urn traço. comum das sensibilidades nietz- certa anomalia sexual. Jung afirma ter informação de que Nietzsche
atr~1. J! conhecido o amor de Freud po;cm, não é a mesma Itália que .os contraiu sífilis num bordel homossexual; isto não tem importância no
mutto._ Cf. Pourtalês, op. cit., p 143·p -~ Roma: que Nietzsche não aprecia caso." (Minutas, op. cif., II, p. 35). Em 1934, o que Jung disse passou a
uma cidade detestável", qu an d~ de . :ra Nietzsche, a Cidade.Eterna é ser "dizem", mas Jung parece ser um dos que deram crédito a esta hipótese
con~asta com o deslumbramento de ;ua d reve estada aí em 1883. O que dentro do movimento analítico.
paga, é verdade - ao descobrir Ro reu - exclusivamente ante a Roma 25. Exisle, portanto, para Freud, um patológico bruto: "Ignoro se
Duronte o período em que se recusa a m_a em 1901, após longa J1esitação os escritores estão autorizados a mudar os fatos patológicos brutos; eu o
quem Jhe. fala deste país. Paneth é u vradgem à Itália, Freud aprecia muit~ ignoro", acrescenta ele. "Em geral não se trata de pessoas muito dóceis."
16. L1v. III, Das Velh m esses. Não se pode ser mais prudente na psicografia.
as e Novas Tábuas, § 11, SW, VI, 224.
26. Carta de 11 de maio de 1934, ibid.
63
FREUD FRENTE A NIETZSCHE: · · ·
62 PAUL-LAURENT ASSOUN

27. Na carta de 15 de julho, ele declara não acreditar na "metade do 37. Op. cit., t. 11, p. 188. 243
que Zwcig escreveu sobre isso em seu Balanço". Trata-se do Balanço do 38. Citado por Jone~, t. }11, p. 882-t883 e Freud em 1911.
Judaísmo Alemão: Um Ensaio, que contém vibrante elogio de Freud. 39. Lou conheceu ~1etz.sche em 1 dance avec Sigmund Freud, Galli·
Comparar com as fónnulas identiíicatórias dirigidas aos mestres de 40. Andréas..Salome, Lou. ~or~es~~;2 Numa carta de 4 de maio, Lou
Freud (Brücke e consertes): "Helmholz meu ídolo". Para Freud, porém, mnrd p. 245, carta de 8 de ma~o e M. ,,·as "por causa de alguns
o ideal científico é regulador, é possível aproximar-se dele. enquanto o • 'd d d publicar suas emo 1 , •
uvocava a necess1 a e e .. • (Tbid P 244). T rata-se d a ofensiva
filósofo (aqui, Nietzsche) contém em si uma nobreza inacessível, estando tsclarecimentos ':ferentes ~ .~1ctz~:~:mente ~on~ra Lou, contestando todos
num outro lugar, talvez fictício. Por volta de 1885, cm todo caso, os dois q ue Elisabeth N1etzsch~ dm_g1ra nhecidos de seu irmão, campanha que
ideais puderam coexistir em Freud. os fatos alegados P7los ~nltgos c; as Mulheres do seu Tempo, em que ela
28. Na verdade, Freud sempre superestimou a continuidade de sua Ida dar em seu escrito Nietzsche . 1 Na mesma missiva, Freud
mn aventureira vu gar. • h
relas;ão com os filósofos, e sempre reduziu seu interesse à anodinia de uma upresentava Lou como u . de Lou e a incitava à réplica: A . ~en ~ra
atração de juventude (V. Freud, la Philosophie et les Philosophes, p . 15). tomava claramente o partido . de mulher· mas não vai enEun
29. E neste mesmo momento (1911), todavia, que é prestada a home- deixou passar tudo ?orque. é ~~:?~ra;m dúvida,' desde o episódio de
nagem oficial a Nietzsche em Weimar e que Adler abandona o movimento defender-se da maneira mais. 1~g d. Freud sobre a irmã de Nietzsche se
psicanalítico. 19 11 (V., supra, p. 26), a opm1ao e
30. Carta a Oskar Pfister, de 26 de fevereiro de 1911, Correspondance, degradara mais . ai .n da. . . e por ms1s . . tAenc1·a de zweig • que Freud faz
p. 86. 41. -e, altás, sem pxazei . mo se viu ele desaprovava. Em
um proieto que, co , d Z .
31, Isto não passa, é verdade, de uma linguagem. Man~s Sperber, esta gestão a f avor de , . "Um amigo querido, Arnol we1g,
seguidor de Adler, assinalou acertadamente a diferença de categorias: a
"vontade de poder" adleriana é bem anódina em relação àquela de Nietz-
sche (Al/red Adler et la Psychologie lndividuelle, Gallimard, pp. 122·6).
o autor de Grisha, quer ad1vm r
16 de maio de 1934, ele lhe .~c~v1a. apresentar um Nietzsche" (notar o
e seria uma conselheira incomparável,
tom cético). "Ele sabe que a sen 1ora . {pio desaconsethei•o a ocupar-se
A substituição da sexualidade pela agressividade é, contudo, reveladora mas a senhora quer sê-lo? Eu, P.ºr prm~ se 'pode dizer é que ele não ~
em si: v., infra, 2.• parte, pp. 171 e ·ss. disso• (Op. cit., p. 250). O m[~~ºei\o de maio: "Esta participação. e
32. Freud, Sigmund e Jung, C.-G. Correspondance, trad. fr., Gallimard, nnima a aceitar. Resposta de L d'z respeito e por menor que seJa,
· sável no que me 1 ' ·d·· 1
1. 1, carta 46 J. de ;25 de setembro de 1907; •o Dr. Gross me disse que absolutamente rmp~n - se deve tocar nisso: rejeito esta ' eia ~n
ele se livrava imediatamente da transferência em relação ao médico, trans- impossível. Por mim, .nao. uem de direito com a maior energia e
formando pessoas _em imoralistas sexuais. . . O estado verdadeiramente horror. Peço-lhe q~e diga isso a qh tem razão em desaconselhá-lo com
saudável para o neurótico é a imoralidade sexual. Assim, ele associa você definitivamente. Aliás, como ºN:etn ohre, • (pp 250- 1). Assim, Freud e Lou
. t ro1·elo ,e zsc . .
a Nietzsche" (pp. 143-4). Gross (1877-1919), assistente de Kraepcl io em insistência sobre es e P em ocupar-se de N'1etzsche! A •
Muniq ue, representa assim uma forma de terapia mista (freudo-nietzschia- são cúmplices na recus.a nnée (1912-1911), p. 338. Sobre a importanc1a
na), variedade a ser comparada a tentativas de terapia freudo-schopen- 42. V. o Jou;,nat: ~nePtilosophie et les Philosophes, PP· 18-9.
haueriana, como a de Juliusberger (Cf. Freud, la Philosophie et les Philo- deste texto, ver ,. reu .' ª . PUF . 170.
sophes, pp. 182-3) . V., também, o ponto de vista de Rank, infra, pp. 55•58. 4 :; . Lebensruckblick, Ma vie,de Lou ' ~ , 1. d Oração à Vida. Enlu-
1nt1tu a o .
33. Carta 170 J, de 25 de dezembro de 1909: • Eu lhe diria de bom 44. Trata-se de um ?ºema de sua própria sensibilidade e 0
grado muitàs coisas a respeito de Dioniso . . . Nietzsche me parece ter siasmou Nietzsche, q~1e viu_ nele od ecom minha memória•' dizia ele em
suspeitado de uma boa parte de tudo isto. • (Op. cit., t. I, p. 364) Sobre .
musicou. "Ele um d1a sera canta o e
este ponto, v., infra, 2.' parte, liv. II, cap. II. 1888 (SW, VIII , 372). e notado porque corre um mal-
34. Carla 291 J, de 2 de janeiro de 1912: "A sra. Lou ( . . . ), por suas 45. "O texto - sej~ express~~e~:~ombrosa ';nspiração de uma jovem
relações com Nietzsche, tem uma reputação literária que não é de se jogar entendido a respeito - nao é meu. • de a srta Lou Salomé. Quem
- antinha am1za , ·
fora· (Op. cit., t. II, p. 242). V., infra, p. 46. russa com quem cntao ~ . alavras do poema perceberá por que eu
35. Ca.rta 303 J, de 3 de março de 1912: "Deixo Zaratustra falar por S
ouber .extrair sentido das ultimas p d ( "ssA) A dor não é vista como
. . 1 têm gran czn gro " · · da
mim •, diz Jung (Op. cit., t. li, p. 259), citando o último capítulo do livro O dlS. tingui e adm1re1: e as tne dar pois bem. am
. 'd d ·11 niio tens para •
1, "Da Virtude Dadivosa·, 3 (SW, Vl , 83-4), que contém o famoso: objeção à vida: 'Se fe 1c1 a e I SW vm 372). Freud não é daquel:s
1
• Agora, eu vos mando perder-vos e achar-vos a vós mesmos; e somente tens a tua dor .. , •• (Ecce Homo, . d , últimos' versos deste poema • ' cuia
depois que todos me tiverdes renegado, eu voltarei a vós.• "capazes de perceber o sentido os
36. Carta 304 F, de 5 de março de 1912, op. cit., t. II, p. 260. "grandeza• é maior que ele.
64 PAUL-LAURENT ASSOUN
FREUD FRENTE A NIETZSCHE: ... 65'
46. V. Bussh, Wilhelm. Balduin Bahlamm. Busch (1832-1908) era um
humorista muito apteciado pot Freud. 11). Op. cit., p. 127.
tit), Op. cit., pp. 141-2.
47. GW, 434, O Mal-estar na Civilização. Sobre o sentido schopen-
haueriano desta passagem, ver Freud, la Phílosophie et les Philosophes, 11 1. Op. cit., p. 143.
p. 201. 11:l. E~te é literalmente o vocabulário freudiano. V., infra, cap. II,
48. Cf. a "reviravolta" de 1920. 1,1, ri<J70.
49. Este é o termo usado por Jones (Op. cit., t. L, p. 20): "A conheci- 111 Op. cit., p. 149. d y lt ·
díssima aversão deste último pela música constitui uma de suas partícula• 114 • Snbe-se que Humano, Demasiado Humano é dedica o a o atre.
ridades." Esta aversão assume formas agudas: ao entrar num local onde tii: .epreciso observar, entretanto, a reação m_oderada de Freud, que
se encontrasse uma orquestra, Freud "não tardava a tapar os ouvidos para , 1,~urn ·rt1omas Mann por· tê-lo ligado _ao romantismo.1 · d " • ·
não ouvi-Ia• (lbid.). Uma carta de Roma, de 22 de setembro de 1907, 66. y ., principalmente, a introduçao à sua anto og1a as paginas
informa que o barulho das orquestras incomoda Freud (citado por Jones, liitudols de Schopenhauer•. . V .
op. cit., t. li, pp. 39-40). Numa carta de 22 de setembro de 1912, a fones, (j7 Trata-se do discut'$o pronunciado perante a Akademts~he. erem
ele anota, como um fato alheio à sua natureza, que "a música fere os 1th M~dizinische Psychologie, em 8 de maio de 1936, e depois lt?o por
ouvidos de certas pessoas" (Jbid., p. 101). No início de seu estudo sobre o 11,,u(I cm 24 de junho. Ele é intitulado Freud e o Fut~ro, reproduzido em
Moisés de Michelangelo, Freud dá uma razão desta fobia musical: a con- 11 ,mcõs em Freud. Jugements et Témoignages (Freud. Jutzos e testemunhos),
dição primordial da fruição artística é poder •contemplar longamente" ,1111C1Jcutado por Jaccard, Roland. PUF, PP~ 15 e ss.).d d Dü O Cava-
as obras de arte para "entendê-las à (sua) maneira", isto é, para "perceber 68. O . cit., p. 18. Existe aí uma alusao ao qu~ ro ~ re~,
de que modo elas produzem efeito•, o que vale para • as obras literárias 1 P orle cuJ· a importância na iconologia metzsch1ana fot mostrada
1 M
e as obras plásticas ". "Quando não 'posso fazer assim, por exemplo, com a'
, lftlUertram,
l!tlt ,
Ernst. Nietzsche. Essai de M ytholog1e.
· Mann assegura a trans•
.
a música, sou quase incapaz de desfrutá-la. Uma disposição racionalista ,11IMNílO deste símbolo nietzschiano a Freud.
ou talvez analítica luta em mi111 contra a emoção, quando não consigo 69. Op. cit., p. 17.
saber por que estou comovido, nem o que me emociona" (GW, X, 172). 70. Op. cit., pp. 18-9.
Aí está, em todo caso, um traço nitidamente diferencial da idiossincrasia 71. ln La Guérison par l'Esprit, trad. fr., 1940, p. 223.
nietzschiana.
72. Op. cit., pp. 19-20.
50. V. o estudo de Andler, Charles. La Poésie de Heine, 1948, p. 89,
73. V., supra, p. 22.
que publicou a ·primeira súmula sobre Nietzsche em francês, Nietzsche,
74. Op. cit., p. 22.
sa Vie et sa Pensée (Nietzsche, Vida e Pensamento). Nietzsche também
apreciava muito Heine, mas com outra sensibilidade, acentuando nele o 75. Op. cit., p. 26. · h ( !ta
dionisisplo, enquanto Freud é mais sensível ao que Adler chama de • aristo- 76 Thomas Mann se interessou muito cedo por N1etzsç_ e. 1iº\vo.
1, 5e conheceu a psicanálise por volta de 1925. V,·
Le1bnc '. ouis.
fanesco" heineano. A propósito da influência deste aspecto de Heíne sobre
Marx, v. nosso Marx et la Répétition Historique (Marx e a Repetição ~••~,o~!!s\.1ann et Nietzsche. Êtudes et té":oignage~, ~11 ~mqua~ten:•,~tu<::;
Histórica), pp. 71 e ss. tudos e Testemunhos do CinqüeVntenpá·nok), 1~:1e~ho;:;~:~:n und die
51. Adler, op. cit., p. 72. NI hé nes 1950 PP 221 e ss. ., me , .
ctzsc en , ' · último romance Doutor
52. Op. cit., p. 19l.
53. V., infra, p, 79. ~ verdade que se trata de uma espécie de diagnós-
/'11yc!toanalyse, 1973. Obtservern~:n
/laustus, Mann represen ou o
q1: ~:tz::~e através do pe~onagem
tico. Adden Leverkühn. 'd I ô l
77 Trata-se de um prêmio de 5.000 marcos ofereci o pe o e nsu
54. V. a atitude de Freud ern relação à sua própria doença.
55. Segundo a expressão de Busch, ili: Balduin Bahlamm, citada por
l nssen. ao melhor livro escrito dentro do espírito ni_etz~chiano, no:nt:tf
,Ín grande ofensiva pró-nietzschlana logo após a Primeira Gue;a N' ut~ 1~ ·
Freud em Introdução ao Narcisismo (II), GW, X, 148-9.
56. Cf. o. volume de ensaios publicado por Aubier-Flammarion, Observemos que o título remete à fórmula_ de,~cc! Homo, on de ;hzsc :
pp. 106 e ss. · · " rimeiro alemão antlpohttco . O nome e orna
1/C
Munn define comono 1º1·vrpo de ouro• da Vila Silberblick: ele fez pessoalmente,
aparece
57. Humano, Demasiado Humano, 1, 26, SW, IH, 39-40: "O progresso
como reação". Aurora, III, 197, SW, IV, 165-7: "A Hostilidade dos Ale- 1iortanto, a peregrinação a Weimar. . .
mães contra a Ilustração •. 78 Nietzsche as F.orerunner in Psychoanalys1s, m: Contempo~ary
58. Op. cit., p. 115. Studies. /Jy Charles Baudoin, Londres, 1924. Aí também se vê o uso Jun-
guiano de Nietzsche.
66 PAUL-LAURENT ASSOUN FREUD FRENTE A NIETZSCHE:.,. 67

19. Freud, cap. XV. A aproximação é feita a propósito do Super•


homem; v., infra, pp. 77 e 288.
,,.,, o,,. cit., p . 43.
1111 Acrescentando, entretanto:
• . _ , •
A teoria de Freud nao. é uma. repe~I·
80. Correspondance de Sigmund Freud avec le Pasteur Pfister, carta ~-•' ,ln ccorla, parente muito próxima, de Schopenhauer; ~mha P.s1colog1~
de 24 de novembro de 1927, p. 169. 111 vunlnde tampouco é repetição do 'vontade de poder de Nietzsche.
8 l. La Conception Freudienne de L 1-Jomme à la Lumiere de l'Anthro• 1111 IJ • il.
pologie. ln: Discours, Parcours et Freud (Discurso, Percurso e Freud), li / , O /1· cit., p. 42.
Gallimard, p. 203. Observemos que foi Otto Binswanger, tio do filósofo, •Ili. 01', cit., p. 43.
que tratou de Nietzsche em lena. 1111. Op. cit., p. 44.
82. Op. cit., p. 210, n. 2, 100. lbid.
83. Freud, la Philosophfe et les Philosophes, p. 181.
84. A partir de O Trauma do Nascimento, Rank se afasta de Freud.
Observemos que Freud encontrava Nietzsche diante dele como referencial
de uma dissidência, como na época das controvérsias com Adler. V., supra,
p. 44.
85. Otto Gross, que participou do movimento analítico desde a origem,
era ao mesmo tempo considerado original e encarado com desconfiança
por Freud (Cf. correspondência com Jung). Sua finalidade confessa, por
volta de 1913, era combinar a técnica freudiana com os conceitos nietz-
schianos concebidos como suporte de uma Weltanschauung revolucionária
e anarquista, o que o levava a apresentar o freudismo em seus escritos
como a aplicação científica das -intuições nictzschianas. As teses de Oross
se expressaram cm relação com a espantosa filosofia anarquizante do
• Círculo Cósmico•, grupo de intelectuais em busca de uma renovação da
Kult·ur pela mulher e o "Gruppe Tat· ou • Aktion Gruppe" de Schwaking,
movimento ativista. Em ensaios publicados em Aktion, Gross apresenta
solidariamente Ô pensamento nietzschiano e a psicanálise como o princípio
de uma filosofia da revolução. Em seus E/eitos da Comunidade sobre o
Indivíduo, Freud é apresentado como o autêntico continuador de Nietzsche,
ambos· minando, através de suas teorias, os fundamentos do Estado con•
servador. Tem-se, portanto, em Gross o representante de um anarquismo
revolucionário que professa um credo nietzscheo-freudiano. Entende-se,
pois, a desconfiança de Freud em face deste Reich nietzschiano, apresen•
tando-sé como mediador para um casamento da psicanálise com Nietzsche,
assim como Reich entre a psicanálise e Marx, para gerar uma visão de
mundo revolucionária (sobre a homologia do mecanismo, v. Marx et la
Répétition Historique, p. 174, n. 3 e ss.).
86. Volonté et Psychotérapie (Vontade e Psicoterapia), Payot, pp. 21-6.
87. Op. cit. , p. 27. V. a menção da exceção Nietzsche, p. 28.
88. Op. cit., p. 30
89. Op. cit., p. 139, nota.
90. O título original era W ahrlreit und Wirklichkeit (Verdade e Reali•
dade), traduzido para o francês, Ed. Stock.
91. Op, cit., pp. 17-8.
92. Op. cit., p. 18.
93. Op. cit., p. 20.
94. Op. cit., p. 21.
NIETZSCHE NO DISCURSO FREUDIANO 69

2. 111MKlt1 freudiana.3 Desse modo, Freud indica então o sentido


1, h·l tura que ele deseja que se leve a cabo, para quem quer
Nula· o caminho que vai de Nietzsche à psicanálise.

NIETZSCHE l'ATUTO DE NIETZSCHE


1, / ,\
i 1'1'0/JOGRAFIA FJLOSóFICA FREUDIANA
NO DISCURSO
FREUDIANO l~xuminemos primeiramente os textos em que Freud de certo
11111!10 investe Nietzsche, oficialmente, de sua função de prc-
' 1111,01'.

rtm 1914, na História do Movimento Psicanalítico, Nietzsche


, 1111.:ncionado em seu devido lugar entre os grandes antecipado-
,, das teses psicanalíticas, exatamente depois de Schopenhauer. 4
l'rmos aí uma situação simbólica: Nietzsche representa, na galáxia
1ilo66flca de Freud, o papel de satélite do filósofo de Frankfurt.
l'crcmos que discernir, portanto, no recurso a Nietzsche, o que
l 11:1. as vezes de redundância da influência schopenhaueriana, do
que traduz sua eficácia própria. 5
Em ~posição_ à ambiciosa síntese dos discursos que pregam 0 Temos, contudo, a impressão de que o tabu filosôfico está sobre-
e~umenismo_ metzscheo-freudiano, o discurso freudiano sobre dulcnninado no uso particular de Nietzsche, já que Freud faz
Nietzsche revela-se notavelmente econômico e pontual. Nietzsche 1•1tu estranha declaração. "Mais tarde me privei (versagt) do gran-
ap~rece na obra freudiana sob a forma de curtas referências. 8 d1: prazer que a obra de Nietzsche proporciona, coro a motivação
ass1~ que geralmente se dá a presença filosófica em Freud Apa- consciente de que eu não queria me ver impedido, na elaboração
re?temente imprevisíveis, breves, estereotipadas, 1 as referê;cias a dus impressões fornecidas pela psicanálise, por nenhuma repre-
Ni.etzsc~e. rompem periodicamente a continuidade do discurso 11cntação exterior" (Erwartungsvorstellung) .6 Nietzsche é portanto
ps1canahtico. objeto de uma retenção de interesse particularmente determinada
. Coino, Pº! outro lado, Freud diz ter lido muito pouco de (plenamente consciente), proporcional à fruição (Senuss) que dela
t:hetzsche, nao nos resta senão interpretar essas pistas, que cons- seria extraída.
tituem a forma mais precisa da presença nietzsclúana em Freud. Se esta declaração, como as anteriores,7 confirma o limite do
~chamo-nos de posse de uma dezena de a]usões2 diferentes. Elu- conhecimento da obra nietzschiana por Freud, confirma também
<:1dando, po~ém, e~tas alusões em seu contexto e remontando à o privilégio da ligação entre os dois pensamentos, visto que, de
sua fon~e metzschiana, correndo o risco de precisá-la d acordo com o raciocínio paradoxal de Freud, o imperativo da
Freud e ta . . s quan o
t aproxtma~1vament~ s~u ~eferenciaJ, podemos esperar abstinência da leitura filosófica é tão mais rigoroso e voluntário,
ver_ esboçar-se uma tecle de md1caçoes preciosas sobre os pólos quanto é grande o perigo de submissão. Isto implica reconhecer
de interesse que levavam Freud elll direção à temática nietzschiana que a afinidade com Nietzsche é particularmente rica em poten-
.S~bemos ~ue estas referências preenchem uma função de in~ cialidades, o que legitima as mais enérgicas medidas qe defesa.
tmçao antec1padora e legitimadora da descoberta psicanalítica na Este é, portanto, o estranho e profundo vínculo que ligará Freud
70 PAUL-LAURENT ASSOUN NIETZSCHE NO DISCURSO FREUDIANO 71

a ~ietzsche: colocado à distância, com determinação, este estran- 'l'RAUMDEUTUNG: A TEORIA DO SONHO
geiro supostamente quase conhecido voltará a assediar a verdade
psicanalítica como sua sombra. Assim é a mescla inextricável de Vejamos então o que são essas Ahnungen und Finsichten, como
afinidade e alteridade mantida pelo próprio Freud, que uma aná- o própdo Freud as menciona ao longo de sua obra.
lise das relações entre Freud e Nietzsche tem por delicada tarefa A fim de delimitar o regime do referencial nietzschiano na
desenredar. oconomia da obra freudiana, convém apontar com precisão as
O segundo grande texto de esclarecimento, a Selbstdarstellung (JCorrências do nome de Nietzsche no texto freudiano, aprender
(Estudo Autobiográfico, 1925), confirma a versão de 1914. E, a !leu contexto e sentido, através da função para a qual Nietzsche é
famosa passagem onde Freud afirma ter evitado cuidadosamente requisitado e interpelado por Freud.
aproximar-se da filosofia, e depois assinala as "extensas concor- ~ na Interpretação dos Sonhos que o nome de Nietzsche apa-
dâncias" com Schopenhauer. Nela, a posição de Nietzsche é mais rece. No capítulo VII, dedicado à "psicologia dos progressos
u_ma_ vez simbólica: seu nome é de certo modo evocado por asso- onfricos", no momento em que vai concluir sobre a regressão,
~iaç?o_ ao de Schol:.enhauer: 8 "Nietzsche, o outro filósofo cujas Freud evoca Nietzsche. Não se trata, portanto, simplesmente de
mtmçoes e percepçoes (Ahnungen und Finsichten) muitas vezes urna daquelas referências históricas de segunda mão que abundam
coincidem de modo surpreendente com os resultados penosamente no histórico do primeiro capítulo. 10 O desenvolvimento de Freud
conquistados pela psicanálise; eu evitei justamente por isso (ge- está aí na fase de generalização meio audaciosa, que ele se per-
rade darum); certamente me importava menos com a prioridade mite após longas páginas de minuciosas análises técnicas.
que com a preservação de minha imparcialidade (Vnbefangen- Na verdade, acaba de especificar os aspectos do processo l'e-
heit)."9 gressivo dele distinguindo os aspectos tópico, temporal e formal.
Fica, assim, confirmado: Parece, no entanto, não querer concluir sem confiar uma 1'im-
pressão" geral e insistente que se depreenderia de experiência
1. Que Nietzsche é associado a Schopenhauer; é de certo modo
dos sonhos e das neuroses: "O fato de sonhar (Traumen) seria
u_m _o_utro Schopenhauer (der andere Philosoph) - o que não
uma espécie de regressão às mais precoces relações do sonhador,
s1gmf~ca que sua importância seja secundária. Seu uso por Freud,
uma revivescência (Wiedererleben) de sua infância; noções pul-
toda:1a, é em princípio medido por uma filiação, de sorte que,
sionais (Trieregungen) passadas que o dominaram a modos de
refermdo-se a Nietzsche, Freud tem sempre a sensação de refe-
expressão (Ausdrucksweisen) passados dos quais ele dispunha." 11
rir-se a uma família de pensamento familiar, tanto quanto à
Impressão esta que confirma, entre outros fatos, a famosa lei de
filosofia nietzschiana por seu caráter de exclusividade e ruptura.
recapitulação do desenvolvimento filogenético pela ontogênese:
2. Que a freqüência das antecipações nietzschianas, sua acuida- " Por trás desta infância individual, podemos esperar dar uma
de e alcance não deixam Freud indiferente. Resta nesta evocação espiada na infância filogenética, no desenvolvimento da espécie
algo da admiração pela "adivinhação" de Nietzsche, antecipador humana, do qual o desenvolvimento do indivíduo não é, na ver-
genial. Tais antecipações, contudo, são precisamente da ordem da dade, senão a repetição abreviada influenciada pelas circunstân-
pré-ciência e da percepção ~ isto porque Freud tem o cuidado cias fortuitas da vida".
de lhe opor mais wna vez a "dificuldade" do trabalho científico Há aqui também, ao mesmo tempo, um piscar de olhos para
que as autenticou. Nietzsche: "Pressentimos (ahnen) a que ponto são _exatas as
3. Que Freud evitou mesmo ler Nietzsche, preocupado com palavras de Friedrich Nietzsche, segundo as quais no sonho per-
a própria ingenuidade, condição de sua imparcialidade - o que dura (fortübt) uma época primitiva da humanidade, que quase
limita seu conhecimento da obra. não se pode atingir 'por via direta', e podemos esperar chegar,
72 PAUL-LAURENT ASSOUN
NIETZSCHE NO DISCURSO FREUDIANO 73
pela análise dos sonhos, ao conhecimento da herança arcaica do
homem, a discernir o que é psíquicamente inato (das seelisch tica, "de que uma resistência se opõe à rememoração de .~mpres-
Angeborene) nele". Esta é, portanto, a idéia que Freud admite t,ões penosas, à representação de pensamentos penosos . ~ra,
precisa uma nota, se uma série de autores o_bservou este efeito,
compartilhar com Nietzsche: a concepção do sonho como acesso
privilegiado às "antigüidades da alma", legado pré-histórico e 6 incontestavelmente a Nietzsche que os méritos devem se;· con-
filogenético cuja pista seria o sedimento ontogênico. Esta seria cedidos: "Porém ninguém dentre nós represe~tou o fe~omeno
0 sua prova psicçlógica de maneira tão. exaustiva (ersch?pfend)
uma daquelas fecundas intuições pelas quais Nietzsche teria per-
0 ao mesmo tempo tão expressiva (eindrucksvoll) ~t~ant? ~1etzsche
cebido o que a "ciência dos sonhos" teria vindo confirmar expe-
rimentalmente. cm seus aforismos: "'Fiz isso' diz minha memoria. Nao po~so
ter feito isso', diz meu orgulho, e permanece inflexível. Por fim,
Aqui, Freud cita Nietzsche visivelmente de memória e sem
indicar a referência. Na verdade, trata-se de uma passagem do a memória cede.'*
0
13. aforismo de Humano, Demasiado Humano, no qual Nietz- Desta vez Freud é preciso: ele indica que se trata do aforis~~
sche declara: " No sonho continua a agir em n6s aquela parte 68, que se encontra ,na quarta parte de Além do Be1:7-_e do Mal:
arcaica da humanidade, pois ele é o fundamento sobre o qual a S alor para Freud é indical' com extrema conc1sao, pela vir-
eu vdo aforismo-relâmpago,
lude ' , . 16~1co
o fundament? ps1co . (Psycho-
razão superior se desenvolveu, e ainda se desenvolve em cada
12 logische Begründung) de um fenômen~, mais expressivamente que
homem." Vê-se que Freud ,usou aspas com certa desenvoltura,
pois só a primeira parte da frase se enconti:a no texto de origem uma extensa literatura sobl'e a questao.
- e mesmo sua disposição está um pouco modificada, o que Este aforismo goza de prestígio e aprovação particulares jun:?
confirma que ele cita de ·memória. Quanto à seqüência da frase a Freud. Em sua colocação sobre Nietzsche em 1908, nuu:ia sessao
sobre o conhecimento indireto que o sonho fornece, ela não está de quarta-feira,16 é nisto que. ele está. pensando ao elogiar a e~-
em absoluto no texto de Nietzsche, roas tem por função, na lem- cepcional perspicácia psicológica de Nietzsche. Ma~ º. que é m~ts
brança de Freud, resumir a idéia efetivamente expressa por extraordinário é que a experiência clínica lhe restituirá o aforis-
Nietzsche iogo depois: "O sonho nos transpo.rta a longínquos mo. Em 1907 Ernst Lehrs, "o homem dos ratos",. durante u~a
estados da civilização e nos dá um meio de melhor compreendê- sessão lembrará o aforismo em questão para traduzu :eu pr6pr10
los .." Pelo menos a idéia está de acordo com o pensamento nietzs- conflito. Evocando uma ação criminosa "onde ele nao se ~ec~
chiano sobre a questão. nhece mas que se lembra pertinentemente de h~~er cometido
Como se vê, Freud, sobre este ponto preciso, reconheceu em cita Nietzsche para traduzir o conflito entre memoria e vontade.17
Nietzsche uma idéia análoga e a utilizava condensando excessi- Q ·t acão surpreendente: Nietzsche insinuado entre Freud e
vaménte a formulação, para que ela preencha sua função de uepaciente,
seu si u , por iniciativa do propno
, • paciente,
· ge bi'/det (homem
reflexo antecipador. Nós, que procuramos confrontar as concep- culto) distinto. Mas O mais curioso é que, ante~ de entra_r em
ções de Freud e de Nietzsche, teremos que detalhar onde Freud álise Lehrs havia no mínimo folheado a Psicopatologia da
não detalha, e remeter esta observação ao conjunto da teoria ~~da éotidiana. Sem que Freud desconfiasse disso, é i::ortanto
nietzschiana de sonho.13 em sua própria obra que ele teve a opol'ttt~ida~e _de reg1~trar ~
aforismo e de devolvê-lo a ele por uma 1roma mcons~1ente.1
"PSICOPATOLOGIA DA VIDA COTIDIANA": A MEMORIA Seja como for, 0 fato de a neurose conseguir. pensar-se a s1 mesma
110 aforismo nietzschiano ilustra de modo inesperado o alcance

Numa nota da Psicopatologia da Vida Cotidiana, Nietzsche é psicológico que Freud lhe atribuía: a tal P?nto que o verbo
evocado, em relação com a idéia, imposta pela experiência analí- nietzschiano se insh\ua entre Freud e seu obJeto. Isto sela sim-
bolicamente o comércio dos dois pensamentos.
74 PAUL-LAURENT ASSOUN NIETZSCHE NO DISCURSO FREUDIANO 75

, ~xistem, porém, motivações de conteúdo mais precisas susce- t to,. dl 1. ele, fê-lo entender que o hino de Nietzsche Antes que
1

~1~:1s ~e fundamentar o encontro de Freud e de Nietzsche nesta ,,,/ n,wponte dá expressão à mesma nostalgia".22
1~e1a. E que,_ paradoxalmente, esta idéia é inconscientemente 00• l q 1f11 :1e do quarto texto contido na terceira parte de Assim
piada por ~1etzsche de Schopenhauer, cuja psicologia, sabe-se, / 1/,,11 1/,(lratustra, que tem este nome. De fato, encontra-se aí
Freud _aprecia bastante. Em O Mundo como Vontade e Repre- 111111 r~116cie de hino ao despertar da natureza, ao Céu puro en-
sentafªº• ~chopenbauer esclarece o mecanismo da loucura pelo p111111~1 imagem da inocência e do grande "Sim". Por isso a
c~nfl.1to oriundo da vontade e do intelecto com base na repug- 1111 11~1,Hom de Zaratustra se resume a esta benção do "céu acaso",

nanc1a do o~gulho: "Lembremo-nos com que repugnância pensa- , , 11 Inocência", "céu exuberância". O momento anterior ao
mos nas coisas que ferem fortemente nossos interesses nosso 11 1111·1· do sol simboliza "o Sim enorme e sem limite", antes que

orgulhoA e nossos desejos, com que dificuldade decidímo-nos , 11h11m as nuvens mediadoras.23
submete-las ao exame preciso e sério de nosso intelecto com que 1 curioso que Freud evoque este hino ao céu a propósito do
facilidade, ao contrário, nos afastamos bruscamente deÍas."19 Se 11!1111 paterno do sol, já que, se nos referimos à idéia nietzschiana,
baseado nesta recusa, o espírito rompe "o fio da memória", ~ 1 11 1111scer do sol que interrompe o gozo da inocência de antes
lo~cura se estabelece. Esta traduz "a repugnância da vontade em ,111 11urora. O Céu é aqui, portanto, o símbolo inimigo do Sol,
de1~ar acontecer o que lhe é contrário à luz do intelecto" a 1l111holizando o complexo paterno em seus valores de deslumbra-
ponto de submeter a memórja. 1111•11lo. Na verdade ele tem em mente uma idéia transparente que
Encontraremos portanto em Schopenhauer uma análise apro- l111põe a aproximação: como lembra numa nota, " Nietzsche tam-
24
fundada do mecanismo que Nietzsche resume em sua fórmula: l11•1i1 perdeu o pai ainda criança." Este é um ponto sobre o
b, pois, inegavelmente a Schopenhauer que cabe a paternidade qttul haviam insistido na qual'ta-feira da Socjedade de Viena
da idéia, e Nietzsche plagia espontaneamente uma obra da qual dedicada a Ecce Homo e Freud se lembra disso aquí.2 5 A admi-
ele tanto se alimentou. 20 Mas ele a dota de uma expressão que 1 ução sagrada de Zaratustra ante o sublime da Natureza tradu-
concentra em três frases um longo diálogo. Isto nos previne, no 1lrin, pois, seu complexo paterno, busca sublimada do pai desa-
entanto, de que temos que procurar as implicações desta fórmula pnrccido.26
tão expressiva na concepção global da memória e do recalque Mais urna vez a aproximação é bem rápida: Freud guardou,
que •aí está contida.21 da leitura do texto, a exaltação do sublime natural e pode, por-
tanto, passar por cima da oposição do Céu e do .Sol - essencial,
"O c~so SCHREBER": o SJMBOLO SOLAR DO PAI todavia, no sentido do texto - para apreender o documento, a
11nalogia entre o sentimento neurótico do mi.to cósmico e sua
expressão poética. A poesia filosófica concede então sua lingua-
A próxima aparição de Nietzsche na obra freudiana confirma
sua implicação na clínica. "É no estudo sobre Schreber Obser- gem à neurose, que é por si só a expressão ontogenética de mitos
vações Psicanalíticas sobre um Caso de Paran6ia descrito auto- (ilogenéticos .21
biograficamente (1911), que ele é evocado. ' É com este espírito que Freud :,e dirige à linguagem de Nietzs-
Fr~ud está examinando o elo simbólico entre o pai e O sol. che e a considera preciosa: ela expressa em toda a sua profun-
Para ilustrar a relação entre as "fantasias neuróticas" e os "mitos didade a dimensão cósmica da vivência ontogenética. Por isso,
cós~icos", faz alusão a um doente seu que, tendo "perdido se a aproximação não se detém no detalhe do conteúdo, também
muito cedo o pai, tentava reencontrá-lo em tudo o que, na natu- não é uma citação banal: N ietzsche não é uma simples referência
reza, _é gra?de e sublime." Aí intervém a aproximação com Nietzs- cultural para Freud. Estes poucos fragmentos de Nietzsche que
che, induzida, como se vê, pela mais viva experiência clínica: ele conhece estão presentes nele de maneira suficientemente viva
76 PAUL-LAURBNT ASSOUN NIETZSCHE NO DISCURSO FREUDIANO 77

para que sejam realizados sob o efeito de uma analogia induzida 111111 l' II expressiva a um tipo. A ponto de poder servir de guia
pela experiência clínica . É que, independentemente do diagnóstico 11 11 u 11 pesquisa futura, como um verdadeiro quadro nosográfico.
sobre o caso Nietzsche em sua patologia própria, uma relacão 1 1, 11 d não está longe de propor designar como "complexo do
privilegiada liga sua expressão poética à linguagem das prof~n- 1 tl1ol11oso pálido" o tipo de criminoso por culpa. Este texto da
dezas - o que leva naturalmente "a psicologia das profundezas" p1hrn.:ira parte de Assim Falou Zaratustra30 ainda ~erve, portanto,
a ler-se nele. ,h, documento clínico, fornecendo, desta vez, um mstrumento de
O uso deste texto por Freud limita-se a isto. Além deste uso, 11 11cralização nosográfica.
porém, o texto encobre um significado que envolve toda a con- l<rcud, mais uma vez, não pede mais que isso. Mas não é por
cepção de moral e de culpa. Sem saber, Freud encontrava aí 111 uso que ele encontra os caminhos da teoria da culpa, designando
uma das matérias essenciais com a qual se confronta a teoria das w,•dm o problema, que teremos que encarar, do sentido da teoria
neuroses. Teremos então que relê-lo nesta perspectiva de con- ilu criminoso em geral em Nietzsche.31
fronto.2ij

"i 'SICOLOGIA COLETIVA E ANALISE DO EGO":


"SOBRE ALGUNS TIPOS DE CARACTERES...": O SUPER-HOMEM
CRIME E CULPA
No capítulo X da Psicologia das Massas e Análise do Ego
No final de um peque~o escrito de 1915, Alguns Tipos de ( 19 . 1) encontra-se uma referência a um conceito maior de Nietzs-
Caráter Encontrados no Traba{ho Psicanalítico, como conclusão t'11e. O Ubermensch é evocado, mas num contexto aparentemente
de um desenvolvimento sobre "os criminosos por sentimento de desconcertante.
culpa", é notificada uma nova analogia com Nietzsche. Ao descrever "a multidão e a horda primitiva" ele chega a
"Em seguida um amigo me fez observar, sobre este ponto, oproximar "o pai da horda primitiva" do Sup~r-Homem nietzs-
que o 'criminoso por sentimento de culpa' também era conhecido chiano: "No princípio da história da humamdade, ele era o
de Nietzsche. A pré-existência do sentimento de culpa e a utili- .
Super-homem que N1etzsc l1e so, esperava no f ut uro.. »32
A •

zação do ato (Verwendung der Tat) para racionalizá-lo é encon- No que se baseia então esta surpreendente equivalencia entre
trado de maneira brilhante no discurso de Zaratustra: "Do pálido o Pai coletivo original e o Super-homem? Estaríamos tentados a
criminoso". Deixemos à pesquisa futura a função de decidir pensar que a aproximação é arbitrária e envolve apenas o nome
quantos criminosos devem contar entre esses "pálidos".29 cio Super-homem. Freud nos indica no contexto, porém, um ponto
Encontramos aqui as características da intervencão de Nietzs- comum: o superdesenvolvimento do Ego.
che no discurso freudiano: ela se coloca como co~clusão de um Na origem, o pai da horda ~rimitiva goza, _ror o~,osiç~o _à
desenvolvimento preciso, para dar-lhe sua dimensão de certo repressão da multidão, de uma liberdade excepc10nal: Os indi-
modo típica; neste caso, a pálida silhueta do criminoso culpado víduos da multidão estavam tão unidos quanto os encontramos
serve para fixar num tipo a psicografia evocada exatamente antes. hoje, mas o pai da horda primitiva era livr~." Segue-se uma
Nietzsche aparece aqui não fortuitamente, mas como o retratista descricão desta liberdade que induz a analogia com o Super-
daquilo que de outro modo teria continuado a ser um tipo abs- home~: "Seus atos intelectuais, mesmo no estado isolado (in der
trato. Belo encontro da tipologia freudiana e da tipologia do Vereinzelung), eram fortes e independentes, sua vontade não
sentido nietzschiano como dupla determinação! Por outro lado, tinha necessidade de ser reforçada pela dos outros". Na verdade,
as mesmas características são atribuídas à intervencão de Nietzs- 0 pai original goza, na origem, da prerrogativa suprema da au-
che: contundente, brilhante; entendemos que el~ confere sua tarquia que Nietzsche atribui ao Super-homem do futuro.
79
78 PAUL-LAURENT ASSOUN NIETZSCHE NO DISCURSO FREUDIANO

Esta autarquia, contudo, encobre em Freud uma realidade prc 1mr que Freud não espera nem deseja a vinda de um Super-
cisa: o desenvolvimento soberano de uma forma de narcisismo ! ,111r 111 •••
hipertrofiado: "Seu Ego tinha poucos vínculos libidinais, não . ç-ao como se vê introduz um confronto essen-
1 >tlll uprox1ma , ' .. d ·· con
gostava de ninguém além de si mesmo e s6 gostava dos outros 1111 Nobre o sentido da origem do narc1S1smo, ecmvo no -
na medida em que atendiam suas necessidades. Seu Ego dava aos l111111 u de Freud e Nietzsche.34 .
objetos apenas o estritamente necessário". Através disso, a ana, . - d Pai e do Super-homem existe
logia com o Super-homem mostra-se bastante reveladora: por um llt: fnto, nesta aproximaçao o. , Ih ºdé' à qual
logia fortuita· e uma ve a 1 ,a
lado, porque contém o princípio de uma interpretação freudiana 111 111 mnis que uma ana d · f la em 1921 talvez
do Super-homem; e, por outro, porque pet'mite situar o sentido 1111ud se apega. Na verdade, quan o a ormuto de sécul~ antes
·do de que quase um quar '
paradoxal da equivalência ao Pai original. 111111 tcnh a esqueci ' . d d d 31 de maio
li n havia formulado. Num manu~cnto ata o e -
Em primeiro lugar, vemos que o livre exercício da vontade de 1,.. 1897 e dirigido a Fliess, n idéia e o nome do_ super hdomem
poder tem imediatamente, para Freud, o sentido de uma relação ' . . t a Freud para concluir uma e suas
11lu1zschiano haviam-se iropos O d af' , e "o incesto
a-objetal, onde pelo menos a relação de objeto é particularmente · - t ológicas Freu uma 81 qu
111 lmciras expos1çoes e o l. . t' a civilização teve
frouxa e depurada. Ser independente (unabhangig) significa para , foto anti-social ao qua • para ex1s ir, .
ele ser relativamente líberado do investimento objetal. Ora, sabe- • um . pouco" 35 Neste ponto preciso, ele acres-
1111c renunciar pouco a ·
mos que o desenvolvimento inverso da libido do Ego e da libido , ••1tta: "O oposto é o •super-h ornem'., .
do objeto caracteriza o narcisismo. " Quanto mais uma absorve, . ~ e Freud esboça sua
Assim nesta primeira formu1açao em qu • . .
mais a outra se empobrece", explicava o ensaio sobre o 11arci- , . d . Tzaça-o e dos instintos, a referencia nietzs-
Krnnde teoria a civi 1 • compro-
sismo.33 Se imaginamos então "um investimento originário da
l hiana especüica à teoria do super-h?mem (as _aspalsa ºpor muito
libido do Ego, a partir da qual ela é transferida posteriormente - d e· a não fortmta e se vmcu
aos objetos, mas que, fundamentalmente, persiste e se comporta vnm) impoe-se e man ir l - de 1921 é
à ua teoria etnológica. De sorte que a a usao .
em relação aos investimentos de objetos como o corpo de um ~~~~evi:escência dela: ao invés_ de ser improvisada, relaciona-se
protozoário em relação aos pseudópodes que se desprenderam
li uma antiga conexão de reflexao. .
dele", encontramos uma surpreendente expressão deste desenvol-
vimento exorbitante da libido do Ego que caracteriza a super- As duas alusões se esclarecem mutuamente, portanto. ~A a~~~m
, luz do desenvolvimento de Psicologia das Massas e ~ ,se
humanidade. que a b ção de 1897 assume significado preciso e
Mas entendemos ao mesmo tempo o sentido profundo da opo- do ?~º a _reve medn r·
fam1liar: o incesto e me u
ma das extremidades da moral cole-
. · tremi-
sição que faz com que Freud situe na origem este privilégio sobe-
• a da proibição e o super-homem s1mbohza a outra ex
rano do narcisismo primário que Nietzsche localiza no futuro. 11va, ' d d . , eia da massa ao
A hipótese de um "pai primitivo" ou <le um "super-homem" dade. O incesto expressa na ver a e :o:;~nsimboliza o prin-
deixa de ter importância em si mesma: o que interessa é que o
. í • do prazer enquanto o super-
pnnc pio ' d. ão cujo homólogo freudiano será o
tipo acabado do mais integral narcisismo concebível para o homem cípio do prazer sem me ,aç , . T tem e Tabu
se refere, em Freud, a utn antes interrompido e caduco, enquan- chefe da horda surgido entre os dois textos, em o
to ele é reativado em Nietzsche como o / im vivo para o qual tende (1912-1913). . d l - d
legitimamente o devir. Em outras palavras, o super-homem reali- Assim torna-se compreensível a importância a re aç~~ e
za aquele narcisismo que se esboçava naquela suprema indife- Freud co:U a teoria do super-homem, pois exibe, enqua,nto opo~
rença pelo outro que caracterizava o amo, enquanto o assassinato . -o" o conflito dos instintos e da lei humana que esta no cern
s1ça , dº d k lt 36 Quando ele observa no
do Pai pronuncia também a sentença de morte do narcisismo - da ética e da teoria freu iana e u ur.
80 PAUL-LAURENT ASSOUN NIETZSCHE NO DISCURSO FREUDIANO 8-1

Moisés de Michelangelo "algo de... sobre-humano",37 Freud asso- 111 rto pslcológico - o que une nominalmente o no~e (ni~tzs:hia-
cia à figura da Lei o tributo nietzschiano.38 uu) 0 a coisa (freudiana) . Por isso é que Freud nao deixara de
"O EGO E O ID'' 11 111IJl'l.í-lo toda vez que evocar sua descoberta.
NIETZSCHE ENTRE FREUD E GRODDECK
o próprio Freud aventa a hipótese do empréstimo do termo e~
ih• Nietzsche e a propõe em carta a Groddeck, no ~atal de _19_22,
O senhor pegou o es (Iiterari_ame_nte, nao asso~iahva-
11 Penso que

. No momento em que, no quadro de sua segunda tópica, Freud


Hll'lllC) de Nietzsche"41 e pede-lhe autonzaçao para menct~ná•!?
mtroduz o conceito de Id (Es),* em 1923, lembra-se que, antes
mesmo que Groddeck institua o uso do conceito, Nietzsche o 1,111 o Ego e O Jd: "Posso também usá-lo as.sim :m ~eu escrito? •
1 111 por que, nos textos de Freud, a apro~111:aça~ cucunscreve-se
teria inaugurado. No texto em que ele consagra a denominação,
1111 plano terminológico: limitando o empresttmo a pala~ra, Freud
como referência a Groddeck, tem o cuidado de precisar numa
nota: "O próprio Gtoddeck seguiu o exemplo de Nietzsche, no
dl•ixa de lado a questão mais interessante: a da analo~ta de ~!1-
lm1do dos próprios conceitos. Esta é, no fu~do? a úntca ocas1ao
~ual esta partícula gramatical é empregada para o que há de
11111 que Nietzsche intervém na correspondenc1a entre ~reud e
unpessoal e de necessariamente submisso à natureza, de certo
modo, em nosso ser". 39 <lJ'oddeck. Enquanto Groddeck fala habitualmente de N1etz~c~e
i·om outros,42 é preciso notar que com Freud el~ é posto tacita
E ele nada mais acrescenta, ,considerando este us~ consagrado. porém firmemente fora da jogada. Quan~o mmto sabe-se que
Vaga lembrança de leitura ou impressão insistente, Freud concebe t,rnddeck aprovou a sugestão de Freud_, Já que n~~a carta de
então um certo uso, por Nietzsche, desta expressão, para desig• 19:29 a outro correspondente ele admite . a pro~os1t~, daquele
nar, segundo seus termos, ..âas unpersõnliche und sozusagen Na- "ulgo que se compõe de consciente e de mco~sc1ente~ que ele
turnotwendige in unserem Wesen".
"chamou de es, por referência a Nietzsche, e por raz?es de co-
Encontramos declaração analógica na teFceira das Novas Con- modidade".43 Em Groddeck, Freud enco~trava, t?dav1a, alguém
ferências lnt,:odutórias à Psicanálise, em 1932. Nietzsche volta a ligado a Nietzsche por afinidades p~ssoais:. o pa1 :;e Grodde~k
ser associado à introdução do Es: "Baseando-nos no uso do ter- t.cda conhecido e até mesmo influenciado Nietzsche ~ o pró~no
mo (Spranchgebrauch) em Nietzsche e na instigação de G. Grod- Groddeck visita o túmulo de Nietzsche em companhia de Ehs~-
deck,. nós o chamaremos doravante de ES". 4º Vê-se, pela própria beth Fõrster-Nietzsche a partir de 1904.45 Mas Freud. parecia
forma desta frase, que a intervenção léxica de Nietzsche teve por impor tacitamente, àqueles que haviam estado perto de Nietzsche,
efeito substantivar o "pronome impessoal", "particulannente apro- 0 silêncio: a sorte de Groddeck não foi diferente da de Lou
priadQ para exprimir o caráter essencial desta província psíquica,
Salomé. •iA • s
sua alteridade ao Ego (Ichfremdheit)". Como sucede tão amiúde Para O que pretendemos, teremos que romper este s1 enc10. e
com Freud, Nietzsche intervém inscrevendo pela força do verbo Freud, por sua vez, só quer conservar a ressonância da ~alavra,
uma determinação essencial (I-iauptcharakter) que a investigação é preciso levantar a questão do conte~do: e~ que n~ed~~~• na
psicanalítica encontra pela experimentação clínica. Graças à ino- concepção nietzschiana do instinto e do mconsc1ente, o id e ante-
vação lingüística de Nietzsche, segundo Freud es passou a ser Es, cipado"? Este é um dos principais pontos do confronto,46
nominando assim instância à qual a tópica vem dar conteúdo

* A tradução literal do alemão es seria "isso•; é o pronome pessoal BALANÇO DOS ECOS NIETZSCHIANOS EM FREUD
ne~tro,. na terceira pessoa do singular (i~, em inglês). O equivalente
latmo, 1d, é o termo usado nas versões de Freud em português. O mesmo Vê-se que, apesar de disparatados, os ecos nietzschianos re1;11e-
vale para o pronome ich ("eu"), traduzido como ·ego". (N.R.T.) tem, como que por reflexo, a temas de fundo: o s~nho, o confhto,
83
NIETZSCHE NO DISCURSO FREUDIANO
82 PAUL-LAURENT ASSOUN
6, GW, X, 53.
a neurose, a criminalidade e a culpa, o Super-homem e o Pai, o 1. Supra, pp. 19 e 24, . através da teoria da sexualidade e do
id e a pulsão. Por isso mesmo atingimos o limite daquilo que R, Schopenhauer é aí citado
Freud pode nos dizer sobre a relação da psicanálise com o pensa• ,ruulquc.
mento nietzschiano. Ele não nos indica como sistematizar o con• 9. GW, XlV, _86. . d nhos de Schopenhauer faz, em compen-
10. A referência à teona os so
fronto temático, contentando-se em apontar, conforme suas asso- "~,·no, parte deste histórico, GW, ll-lll, 39·
ciações, os ecos possíveis. Enfim, se indica alguns, importantíssi- 11. GW, 11-III, 554.
mos, cala-se ou não percebe muitos outros, essenciais. 12 sw, m, 2s-6.
13·. V., Infra, 2.• parte, liv. II, cap. 111, P· 216.
Logo, é chegado o momento de abordar o confronto das temá- 14, GW, IV, 162, n. 2.
ticas conforme a ordem sistemática que se depreende destas duas 15, SW, VII, 78.
obras monumentais, Partindo, como anunciamos, da visão de 16, Supra, p. 22.
Freud em sua especificidade, temos agora, nos havendo servido 17. GW, VII, _407f. 1 de Freud por esta Psicopatologia, que foi um
dele como de um indicador indispensável, de inverter o eixo da 18.· Lebrs ouvira a ar
tios mais lidos escritos de FreXudX.Xll V o estudo do texto em Freud, la
investigação, ou, em outras palavras, inverter o sentido da con- 19. Suplementos do cap. · ·
junção.47 Ao tratarmos de "Freud e Nietzsche" na parte anterior, l'/1//osophie et les Philosophes. . d b de 1865 em que Nietz-
centramos a relação no pólo freudiano que o interpreta em seu a partir do dia e outu ro ,
20. Sabe-se que, . Sebo enhauer no livreiro Rohn, em
contexto e para suas problemáticas do momento. Temos agora 11Che encontrou a obra-pr1ma_ de p de es antoso, portanto, no fato
que tratar do contrário da questão, ou seja, '·'Nietzsche e Freud", l,eipzig, impregnou-se dela. Nao há nada idéia ~e uma obra da qual ele
de ele reformular es pontaneamente uma
quer dizer, apresentar um.• paralelismo entre as duas temáticas~ está literalmente impregnado.
através de suas respectivas lógicas, que nos revelará deste modo 21. Infra, 2.• parte, PP· 234-6.
o sentido fundamental dos ecos anteriores, inserindo-os num con- 22 GW, Vlll, 290. · 6d' d 3 • parte
23: SW, VI, 180-4. Trata-se do quarto ep1s ,o a . .
fronto ordenado que se coloca em condições de esclarecê-lo exaus-
24. GW, Vlll, 290, n. 2.
tivamente. ·
25. V., supra, n. 59.
;~: ~~~:: ~• :a;:r da "lei biogenéticn fundamental" em Nietzsche e
NOTAS Freud, v., infra, PP• 207-8 e p. 259·
28. I nfra, 2.ª parte.
1. V. a análise do regime geral da referência filos6flca em Freud, 29. ºswW, v~• ~~~ 1. Este texto é analisado na nossa 2." parte, P· 245.
cuja referência nietzschlana não passa de um caso particular, in: Freud, la 30. , ,
Philosophie et les Philosophes, pp. 125 e ss. 31. Infra, 2." parte.
2. O conjunto dessas referências é analisado no presente capítulo. 32 . GW, Xlll, 138, (cap. X).
As principais referências da correspondência são usadas no decorrer da 33. GW, X, 141.
presente obra. 34. Infra, 2." Pª!1e. . N" xado à carta 64, de 31 de maio de
3. V. nossa obra anterior, pp. 133 e ss., e 2.ª parte, passim. 35 T rata-se do Mnnuscnto , ane
4. Trata-se do texto em que Freud admite a antecipação schopenhaue- 1897, i~: O Nascimento da Psicanálise, p. 186.
riana do recalque. Este texto é estudado em Freud, la Phílosophie et !es 36. V., infra, pp. ~62-5. a1 Vbermenschliches (1914), que indica a
Philosophes, pp. 181 e ss. 37. Nova ocorrência d~ P a~a W X 198).
5. Pode-se, assim, comparar o presente capítulo com o cap. IV da inflexão do vocabulário nietzschiano (G s~nh~r imaginou•' escreve Freud
2.ª parte de Freud, la Philosophie et !es Philosophes, pp. 177-205: "Freud 38. "Não sou o superbho~em1!ii;. ~elo menos ele representa o papel
e Schopenhauer", a fim de confrontar a fisionomia dos dois referenciais a Ferenczi, em 6 de outu ro e . . "filhos"
no discurso freudiano e de ler aí a correspondência das temáticas e dos de Pai da horda primitiva para seus primeiros .
empréstimos.
84
PAUL-LAURENT ASSOUN
39. GW, XIII, 251.
40. GW, XV, 79.

Moi. 41. Correspondência


Gallimard, p. 94. Frcud-Groddeck, in: Groddeck, Georg. Ça e/

42. Por exemplo, a seu irmão Carl (op. cit., p. 135) ou ao filósofo
Vaihinger (v., infra, n. 44).
43. Carta, de 11 de junho de 1929, "a um paciente médico". Op. cit.,
p. 167.

44. V. o interessante documento que é a resposta de Groddeck a Han1


Vaihingcr, que escreveu Nietzsche coma Fil6sofo e questionou Groddeck
a respeito de possível influência de seu pai, Carl Theodor Groddeck, autor
de uma dissertação de doutorado: A · Doença Democrática, Nova Espécie
de Loucura (1850), sobre Nietzsche. Reproduzido em Ça et Moí, pp. 170
e ss. (carta de 8 de maio de 1930).
45. "Quando, em 1904, visitei com a sra. Forster-Nietzsche o túmulo SEGUNDA PARTE
de Nietzsche, ela me contou que, na noite da véspera, Gersdorff, amigo de
Nietzsche, fora visitlÍ-la e falara durante três horas, sem parar, da sra.
Koberstein" (avó de Groddeck). Op. cit., p. 171. Assim, existe um laço
quase famlliar entre os dois clãs. Elisabeth reservava aos familiares a visita
ao túmulo de Nietzsche em Rõcken. Com Groddeck, Freud caía, portanto,
NIETZSCHE E FREUD
mais uma vez, numa conexão nietzschiana viva, sem explorá-la realmente.
46. V., infra, pp. 198 e ss.
47. De acordo com o procedimento anunciado supra, p. 29.
INTRODUÇÃO
Para um confronto temático:
método e problemas

Confrontar duas temáticas traz considerável série de problemas


do método. Dois objetos discursivos não se comparam natural-
111cnte, visto que constituem, por si só, seu próprio espaço e não
poderiam projetar-se instantaneamente num espaço comum. Este
11tio passaria de um artifício onde os objetos seriam falsificados
de imediato - o que constitui o vício de todo procedimento
11 11alógico. Temos então que, paradoxalmente, construir o espaço
do confronto, levando a bom termo a explicação das aproximações.
Em outras palavras, não se trata de situar-se de chofre do
ponto de vista de um ou de outro, tratando as contribuições
de Nietzsche como as de um "precursor de Freud", cujo deplorá-
vel efeito seria avaliar Nietzsche em relação a uma lei exterior
~ sua identidade, fazendo de Freud a verdade de Nietzsche. Tam-
bém não se trata, porém, inversamente, de colocar-se do ponto
de vista nietzschiano, como uma espécie de ,desafio, avaliando a
psicanálise por antecipação - o que equivaleria estimar a con-
tribuição freudiana por um enfoque nietzschiano, colocando assim
a lei em Nietzsche. Temos então que ir de um para outro, ser-
vindo-nos respectivamente de um e de outro como limites recí-
88
PAUL-LAURENT ASSOUN
INTRODUÇÃO 89
procos, em virtude dos quais pode aparecer este espaço (perspoc
tive) comum, que não é um dado mas sim uma resultante co11, • 1 considerado, e e1e só assume seu
' ,111c·xto no corpo noc1ona dimento global que o suben-
flitu al. Eis por que instalaremos um "vai-e-vem" dialético que, 11 111111udo se relacionado ao proce dmiração ante os ecos para
cada nível dado (tema, noção), definirá as problemáticas nietzs 1 'l'l•rnos então que superar a a que o mais importante
chiana e freudiana, exibindo ao mesmo tempo - em sucessão •' d t Parece-nos
,1111111· as diferenças e ~m.d to modo estt'Uturais dos res-
cronológica mas em simultaneidade lógica - a realização e n · dos regi·mes
11
i. ' ull:rur as correspon dências
1 e cer
diferenças funcionais
superação freudiana de determinada virtualidade, presente em itvw; textos, para ler ne es as
Freud, e a resistência à "superação" na qual se manifesta a idios-
1
sincrasia nietzsclúana . Como cada problemática se define por
,w ,~1t11ais envolvid~. 1' uma estrutura de ordem on~e
1, 10 supõe, todavrn, l_oca ~ar Assim determinado aspecto a
seu devir, teremos, enfim, para cada nível de análise considerado,
' 11111 uma apare~te dessunetr~ elem;nto de análise_ que Freud
de retraçar o sentido da gênese em Nietzsche e em Freud, para
i 11111 l lcn nietzsch1ana c~n.tém izada : temos que evitar ~u;11en-
esclarecer
logo. 2 reciprocamente as gêneses de um nível nocional homó-
h ,1 in tegrar a uma lematíca ~r~::che roas acentuá-la o suf1c1ente
1 li li linportãncia disto e~ Nr e vi~ível. Inversamente, o que é
A

E aí, precisamente, que reside o problema mais delicado: o da (fUe a correspo11denc1a


validade das homologias e da decupagem suscetível de organizar, ,,I' 11u,~tico
11 em N1etzsc
• he pode iqu
passar so b a forma de elemento
além das analogias, uma ordem estabelecida, algo como uma ana-
tomia e uma fisiologia comparadas das temáticas. 11111111<.lo em Freud. . um uzzle de elementos A
e ~mas
l!stamos, portant_o, diante d~ncro!a e com independenc1a, _à
Vimos com que judiciosa desenvoltura Freud safou-se disto:
contentou-se em apontar com o dedo os pontos onde poderiam ,
1110
tomos que "'':°"~~!:parc'1almente
,1111ncira de um pa eo
: reconstituirsemelhantes,
paulatinam:nte q~~::
os
ser pinçados os motivos nietzchianos no pano de fundo psicana- •·u1ueletos a par t'ir de ossos
d são· de um mesmo• tipo,• mas que
. se
Htico, sem deter-se para explicitar nem problematizar a filiação "º sabe que, de certo mo o, . ão específicos. Ainda mais que
em suas alusões oficiais. Nietzsche é interpelado aqui pura e sim- l1111;ciam em princí~ios ~e organ:Jem revelar-se ilusórias em_ re~-
plesmente como Vortreter (precursor) da verdade psicanalítica, ' semelhanças mais ev1dent~s p - f' ais ' enquanto determma o
11 , • , • s de orgamzaçao m
como antecipação legitimadora - o que constitui a arbitrarie- cito aos prmc1~10 . rofundo isomorfismo. .
dade estabelecida da estratégia analítica, mas que leva objetiva- l'lcruento an6dmo md~z p . análise freudiana, alén:1 d1s~o,
mente· a subestimar sua problemática sui generis e se expõe ao A filosofia nietzschrnna e a ps1c_ tematicidade.4 Os prmcíp1os
mesmo tempo a superestimar sua contribuição, já que é a própria recusam energicame~te, amba~n:i::i~s dentro de e por um pro-
seara psicanaütica que permite que se dê a tal intuição um valor diretores são produzidos e an ue só podemos fixar num corte
significante que nem sempre lhe pertence por pleno direito. 3 Deste cesso de constituição permanfenl te: q que procederemos, indo dos
tal mor o og1a
modo Freud pinça, como sugerimos, os pontos de união onde
pode desenrolar-se o duplo tecido temático. Ele o faz desordenada-
lateral.
fundamentoss e
a uma
aos temas
6 e depois aos problemas.
7

mente, porém, ao sabor da descoberta e da utilidade psicanalíticas.


Pois bem, não basta verificar analogias e antecipações: convém
criar condições para um diálogo, num mesmo terreno, onde as
problemáticas são determinadas de modo sutilmente convergente
e divergente. Nietzsche e Freud estão freqüentemente em condição
de dizer quase a mesma coisa, mas nem sempre sobre a mesma
coisa. O que dá o sentido total a determinado enunciado teótico é
90 PAUL-LAURENT ASSOUN

vista nietzschiano como 1·eveladol' de algo notoriamente não pensado 0111


Freud, o que preenche uma espécie de papel pel'verso em relação li
instituição da lei analítica (v., infra, passim). Correndo o risco de reativm1,
em segundo grau, uma interpretação analítica dos enunciados nietzschianos,
2. A fisionomia típica de um nível de análise ou de um capítulo 6,
portanto, a seguinte: a) gênese da problemática nietzachiana; b) gtnesc
da problemática freudiana - sobre o mesmo tema; c} estado do problemu,
tanto quanto à forma de colocação da questão, quanto à resposta dada.
Esquema complicado, pela multiplicação dos subtemas e pela necessidade,
em semelhante contexto, de iniciar o confronto por Freud, invertendo n
ordem diacrônica em favor de determinada exigência temática.
3. V., principalmente, as armadilhas da linguagem: determinada pala- LJVRO PRIMEIRO
vra comum ao vocabulário de Nietzsche e de Freud encobre considerável
diferença de conteúdo e de regime do conceito; enquanto alguma outra
analogia de conteúdo surpreendente se expressa por terminologia muito
diferente. Eis por que, se se deve acompanhar as analogias denotadas pela
termínologia, também se deve desmanchar os vínculos onde eles não estão
explicitamente indicado8, se é verdade que a relação de Nietzsche e Freud,
os FUNDAMENTOS
em seus momentos mais importantes, revela-se anamórficà, isto é, só
aparece a uma certa distância, que supera as deformações.
4. Nietzsche destrói pela expressão aforística a ilusão do sistema.
Cf. a fórmula mais clara, em O crep1ísculo dos ídolos: • Desconfio de
todos os sistemáticos (systernatik&n) e os evito. A vontade de sistema é
urna falta de lealdade" (rechtsschaf/enheit}, "Máximas e Dardos", (§ 26,
SW, Vlll, 84). Aurora já advertia: "Cuidado com os sistemáticos!" e
denunciava sua "comédia" (§ 318, SW, IV, 222). Em outra parte, ele
classifica de "puerilidade" o projeto de "construir sistemas" (SW, X, 423).
Freud concorda com Nietzsche quando este diagnostica na ·vontade de
sistema• (Wille Vum System) uma • doença de caráter" própria dos filó-
sofos (SW, X, 377). Para Freud, o "sistema· é característico da • visão de
mundo" '(Weltanschauung): já que é urna ciência em devir, a psicanálise
não aspira nem à totalização, nem à sistematização (cf. Freud, la Philo-
sophie ct les Pliilosophes, pp. 45 e ss.): "O que a psicanálise evita cuidado-
samente ser" é, precisamente, "um sistema" (GW, X, 96). Por motivos
diferentes; Nietzsche e Freud recusam fundamentalmente o rótulo de
•sistemas·. Eis por que confrontaremos duas gêneses.
5. Livro J.
6, Livro II.
7. Livro 111.
1.

INSTINTO
E PULSÃO

A. filosofia de Nietzsche pode ser abordada em sua literalidade


1 0 1110 uma filosofia ,do instinto. A psicanálise freudiana, por sua
vc1., atribui um papel fundador ao instinto ou pulsão.1 Isto cons-
titui o ponto de união natural para um confronto dos dois enfo-
ques. Mas é preciso entender-se sobre este ponto de partida. Não
e trata de prejulgar a natureza dos projetos nietzschiano e freu-
diono definindo-os como teorias do instinto. Tomaremos este
ronceito como referencial e marco, baseando-nos na consideração
de que este é, nos dois discursos que analisamos, o termo-encru-
:úlhada, comprovado por extraordinária freqüência de ocorrências
lnnto em Nietzsche quanto em Freud.2 Não pressupomos, tam-
pouco, que se trate de um mesmo referencial semântico, já que
são precisamente os respectivos conteúdos deste referencial que
nos propomos a elucidar. Nós nos co11tentaremos, como ponto de
partida, com a homon{mia literal: os termos Trieb e Instinkt
preenchem um papel discursivo e funcional central tanto em
Nietzsche como em Freud.
O estatuto desses conceitos reside no fato de eles designarem
mais uma função dentro do discurso e um objetivo conceitua! que
94
PAUL-LAURENT ASSOUN INSTINTO E PULSÃO 95

uma unida~e semântica que se possa circunscrever de imediato. podemos apontar na aula inaugural em Basiiéia sobre Homero
Q~anto mais o conteúdo se verifica indeterminado em sua gene- ,, a Filologia Clássica, em 1869. A filologia é aí representada
ralidade, no entanto, mais as distinções que ele favorece são m ino um misto ou agregado heterogêneo de "instintos científicos
~recisas e determinantes. Procuraremos então compreender O sen- t• ótico-estéticos totalmente disparatados", em seguida "reunidos
tido deste referencial semântico, observando os efeitos conceituais lll)~ uma denominação comum", que cria "uma espécie de monar-
a que ele se presta respectivamente em Nietzsche e em Freud. ç1ui11 aparente".4 •
Em outras palavras, compreender o que quer dizer o termo "ins- Este primeiro emprego notável na obra de Nietzsche é reve-
tinto" é, antes de mais nada, entender para que ele serve na estra- h1dor daquele regime que se estabelece por muito tempo. O uso
tégia demonstrativa que o requer. lunugural do termo Triebe formula, de uma só vez, várias idéias:
. Acontece que, na verdade, recuamos ante a tentativa de defi- mestras que Nietzsche vinculará, de certo modo para sempre, a
nir o que queria dizer o termo, principalmente em Nietzsche. Em ldóia de instinto.
Freud, o conceito é mais bem circunscrito, porém reina conside- • Em primeiro lugar, os instintos se apresentam em feixes: o
rável indeterminação sobre a função teórica da problemática do que predomina neles é uma diversidade fervilhante, que faz_ com
instinto na economia conceitua! freudiana. Para esclarecer simul- ,1ue Nietzsche evoque freqüentemente os instintos na modalidade
taneamente estas duas questões, convém, a nosso ver, acompa- do etc.
nhar em sua complexidade o regime conceituai do uso dos con-
• Aqui, é bem verdade, suas espécies estão circunscritas e
cei!os: A compree!1são ~o conce!to de instinto elucida-se a pos- tlonominadas: distinguem-se os dois eixos maiores de sua genea-
teriori pela extensao variada porem coerente de sua acepção, nos
contextos em que ele é requerido. logia: · científico, de um lado, ético-esté~ico, de outro. A cate~';
rização dos instintos faz-se então a partir de sua fo~ma de ativi-
O ~ue o conceito quer dizer talvez signifique menos que aquilo
dade ou de expressão. Existe um instinto específico operando na
que Nietzsche e Freud querem dizer respectivamente através do
ciência, na ética, na arte: os instintos nietzschianos apresentam-se
termo. Mai; isto s_upõe uma investigação sobre a gênese do uso
como outros tantos pequenos demônios que animam as atividades
d~ termo e do_~nceito. Na verdade, é em seu devir3 que o con-
humanas. Existe um instinto por atividade humana, um pouco
ce1~0 se constro1 como ferramenta teórica: portanto é aí que temos
como - na crença animista - havia um espírito em cada objeto.
mais chan~ de apreender seu sentido. Através do uso progres-
Anotemos este -caráter inumerável dos instintos em Nietzsche,
sivo do termo, discerniremos fenomenologicamente o que Nietzs-
pelo menos na origem: há instintos por toda parte, como havia,
che e" Pr~u~ _c~~ocam nele respectivamente, a fim de chegar a p,\ra Heráclito, deuses por toda parte, pelo menos em toda parte
uma defu~1çao comparada deste conceito maior em Nietzsche
e em Freud. onde sucede algo de certa importância.
Por isso mesri10, enfim, tomaremos como ponto de partida do • Também não é por acaso que esta evocação inicial da idéia
desenvolvimento de nossas problemáticas a noção que tem preci- de instinto esteja ligada a algo misto. Toda atividade conside-
•Samente por função nomear a origem, elemento primário que rada unitária, a começar por aquela filologia que Nietzsche pra-
fundamenta a investigação e inaugura por conseguinte a pesquisa. tica, revela-se· um mar de instintos mantidos juntos (zusammen-
getan). A realidade é portanto atrib~ída a esta div?rsidade c?n•
O INSTINTO EM NIETZSCHE: Oitante de instintos, remetendo a umdade à categoria de aparen-
O CONCEITO EM SUA ORIGEM cia. Assim, sob a denominação tranqüilamente unitária de. "fi~o-
logia", Nietzsche descobre uma diversidade heterogênea _de ~nstm-
. ~ssinalaremos, a título pelo menos simbólico, o primeiro uso 10 s, cada qual p1·essionando para um lado. Esta localizaça? ~e
oficial do termo instinto no discurso nietzschiano, aquele que uma dosagem impura que refuta a homogeneidade da substancia
96
PACJL.LAURENT ASSOUN
INSTINTO E PULSÃO 97
está ligada à função do instinto no discurso nietzschiano. Ele se
revela como uma aparência a encobrir complexa combinação de ,11tiJ1los que animam as atividades, refere-~e aqui a 1:m motor
instintos mantidos juntos à força. 11111tlumental. Desta vez, a profundidade (T1efe) é que e a carac-
Este fato é explicado pe]o vínculo historicamente estabelecido 11 1{, 1ica atribuída. O Trieb é associado a uma f~rça que ag e
entre filologia e pedagogia; o afã pedagógico obrigou a efetuar ttblérraneamente
·• no mconscien
• • d é aque
te d os povos . O .Instmkt .d . 1a
uma "seleção de elementos edificantes". O que caracteriza esta ln 1111H calma e contínua que age com -ª
perentdade a vi a,. o
_combinação artificial é que seus componentes são ao mesmo tem- l'tlt1lJ é a irrupção dinâmica. Ambos sao os suportes e mototes
po aglomerados e inconciliáveis. Tem-se a imagem de um corpo 1 f'l'ilger und Hebel) das aparências. _
cujos componentes estão presos numa unidade que não é uma 11 portanto a prática filológica de Nietzsche que. o poe no
fusão. Daí o estado de guerra que são obrigados a declarar-se os : 1 d s instintos sob três aspectos complementares : porque
111111111 10 o , . . h t . A eos pro
instintos elementares obrigados a coexistir. Nietzsche, neste senti- 1 , evela a acão subterrânea dos mstmtos e e1oge11 ' -
do, fala da "hostilidade de instintos fundamentais mantidos juntos ~; ,::c~~t:s de registros científico, ético e estético; porque _ela. des~
(zusammengefassten) sob o nome de filologia, e no entanto não i nbre em si seu objeto natural, a linguagem enquanto m~tmto,
fundidos". 5
tllrt ue ela apreende, enfim, através da lingua~e_m, as. ,orças
Observemos que os instintos são evocados como os átomos de :111,li~1tivas específicas e coletivas, em ação na hist~ria.. O filologo,
Demócrito, unidades reais de todas as coisas, e a unidade como Jltll' estes ;rês aspectos, está em comércio com os mstmt~s, aq~e-
a convenção que serve para denominar uma aparência subjetiva. 11'•1 q ue ele atualiza com seu conhecimento, aquele~A q~e ~e :::a:
Esta é a finalidade da filologia: conseguir "a contrafação total e a ' lllll sua pesquisa, aqueles que ele trata com sua ci;,n~ia. o "
redução à unidade de instintos·· fundamentais originalmente hostis lw-afincias diversas, o instinto define ~º:tanto o s~ ~e~;~ ' ~
e apenas reunidos (zusammengebrachten) pela força". 6 O regime ubjcto e bs propósitos da filologia. Tnphce entr?da _nos 10ª ora
anárquico dos instintos é esclarecido por aquela metáfora do cres- lót'os1 . t'm ti'vo" (in der Werkstiitte des lnstznktiven).
do ms
cimento oblíquo (Verwachsen). A alternativa é, portanto, formu- A penetração filológica nos laboratói'ios do instinto enc~ntra
Jada: ou crescimento harmonioso do Trieb, etimologicamente 11111 objeto privilegiado: a consciência grega. ~ notáv~l que Nietzs-
pressão; ou tornar-se-um (Einswerden) artificial, negação da pres- 1 1 ' a aborde antes mesmo do escrito sobre a tragédia grega, pela
são. Ter~mos que buscar a origem desta concepção que se apre- iç
11ucstão '
homérica ligada desde Wolf à f 1·t0 1ogia
· .clássica ·11 Pode-
.
senta de imediato no uso nietzschiano do termo, a partir do mo-
mento em que ele o utiliza. 7 1110s ver isto no escrito • so bre H ~ mero
. , 12 onde
. Nietzsche
1 "13 A examma
. T-
11 instinto de combate que "o gemo grego fez va er . ctvi i
Paralelamente, e no mesmo texto, é introduzido o termo t il ·10 homérica é então abordada como sendo a q~e f~z valer
I nstinkt. A filologia é apresentada como "um fragmento de ciên- cuilten lassen) este instinto .(Trieb) fundamental do er!s. Nlietzdsch.e
cia da natureza", na mesma proporção em que ''busca sondar . a genta. l'dade da ação14política de um Temrstoc es en-
l 11'.r. assim 1
(ergr.ünden) o mai.s profundo instinto do homem, o instinto da vnr desse instinto fundamental.
fala" (Sprachinstinkt). 8 Em outra parte Triebe e Instinkte são
produzidos concorrentemente; "Os grandes instintos das massas D do N 'tetzsche desemboca na famosa teoria dual do
esse mo , d T 'd' D fato
(Masseninstinkte), os instintos populares inconscientes (Volker- Instinto que é formulada em O Nascimento a rage ia. e .'
triebe)" aparecem como "os verdadeiros suportes e motores da ul;scrvamos no primeiro esboço da obra sobre. Homero as pn-
soidisant história universal". 9 mciras formttlações ,desta teoria.
A primeira ocorrência justifica o emprego de instinkt para O Kunsttrieb, protótipo do instinto,. é apreendido Aa partir
designar uma faculdade fundamental: ao invés dos pequenos de- desse momento como atividade informativa, como s~l veAem s~a
vçl'são apolínea. É um momento importante, na sut1 genese o
98
PAUL-LAURENT ASSOUN INSTINTO E PULSÃO 99
conceito, aquele _em que o instinto é apreendido como linguagem, 11111 lir de então centrada no exame dos malefícios de um tipo espe-
t~mando _cor?o literalmente na realidade. Daí a evocação demiúr- ' lul de instinto: o Erkenntnistrieb (instinto de conhecimento).26
g'.ca do. msttnto. apolíneo: "O indivíduo: o instinto apolíneo a
Aí está um novo momento lógico (cronologicamente inserido
~1f~r~nc1ar, a crtar formas e por meio disso - visivelmente _
15 1111 11nterior) da gênese da temática centrada no instinto. B o
md1v1duos". O instinto é definido como "forca inconsciente
11111111cnto em que Nietzsche põe-se a forjar decididamente termos
formadora de formas" que transparece na criação, artística.16 Ou
, 1111postos por meio de seu Trieb. 1!, aliás, procedimento revela-
~el?or: as formas visíveis são os "órgãos" dos quais se serve
0 ol111' do regime do conceito em Nietzsche esta labilidade com a
mstrnto, que ele cria para deixar-se ver como sofrimento perma-
nt 17 O · · ,p111l, pegado a um outro termo, ele dá nome a um novo instinto
ne e. mstmto como poder (Macht) manifesta-se material- li itue teremos que interpretar) . Os Triebe parecem a partir de
mente.
, 111 10 dotados, no discurso de Nietzsche, de um modo de repro-
_ É assim que o apolíneo e o dionisíaco devem ser entendidos: 1h1çrio cissiparitário.27
sao "p~deres_ artísticos" que "jon-am da própria natureza".18 Ora) Se esta variedade de espécie que é o Erkenntnistrieb é privi-
e_stes sao os mstrumentos de satisfação imediatos do instinto esté- h w11tla nesse estágio da gênese, é porque ele representa o destino
tico da natureza. Em outras palavras, o instinto estético deriva da " 1111 raditório de um instinto voltado contra sua fonte: a vida,
~atureza; melhor ainda: a natureza é o sujeito do instinto esté- , 111 própria instância da physis. A hipertrofia deste instinto é, por-
tico. Neste sentido, a concep~ão primeira do instinto em Nietzsche 1,rn1 0, um sintoma eminentemente patológico do regime do instin-
é il:egavelme~te naturalista: o que se expressa pelo instinto não é h 1: " O instinto de conhecimento desmesurado, insaciável ( ... )
se~ao a frórria natureza ... O objeto de O Nascimento da Tragédia 11111 sinal (Zeichen) de que a vida envelheceu". 28 Este indicador
é saber ate que ponto e altura estes instintos estéticos da natu- 11 111 uma degenerescência geral da economia instintiva. "Os instin-
reza se desenvolveram entre os gregos". 19 Em outro lugar ele 1111 cm geral também ficaram fracos (matt) e não puxam mais a
evoca "aqueles instintos artísticos onipotentes na natureza".20 11 doa do indivíduo". Mas isto nos informa sobre o instinto enquan-
Apolo e D ioniso simbolizam, portanto, dojs diferentes destinos 111 1al: ele tende a esta falta de medida, que não é senão sua
desta mesma fonte, que não é senão a própria Natureza. ~ n 1ui1u-afirmação. O instinto estético é que deve fornecer o remédio
0
se~ti~o ~róprio que se deve tomar a imagem da duplicidade dos 11111•11 o reequilíbrio do organismo global.
dois mstmtos fundamentais em analogia com "a dualidade dos O instinto de conhecimento obriga então a levar em conta esta
21
sexos" na geração. O próprio Sócrates, identmcado como nega- k i lia compensação na totalidade instintiva. A patologia nietzs-
- d·. 22é 1lil11 na do instinto a partir daí pensada em termos de hipo e
çao . o mstmto, apresentado como. o destino oposto e inverso
deste instinto e finalmente inserido na história do mesmo instinto hlpordesenvolvimento dos instintos parciais em relação à _tota~i-
fundamental trágico, a título de "forma a bem dizer debilitadà d11dc. A arte serve precisamente para restabelecer o equ1líbno
"domando" o bulímico instinto de conhecimento.
de transfigui-ação do socratismo da ciência orientada para a
'd "23 I . Pni:alelamente, porém, encontramos nesse texto uma relativi-
v1 a . sto expnme caráter essencial do instinto, de realizar-se
111çüo da própria noção de instinto. Nietzsche se questiona sobre
até_e~ suas negações. Quando, porém, ele se realiza efetivamente,
defm1do como "a força criadora-afirmativa".24 11 11cntido da invenção do instinto pelo homem: "O homem só
,hwcobre bem lentamente o quanto o mundo é infinitamente com-
. O texto da mesma época, intitulado O Filósofo (Arte e Conhe- 11llcado (. ..). Ele parte de si próprio, o resultado mais tardio,
cimento),25 exprime ainda mais claramente o estatuto do instinto , 1•011cebe as forças origin,ais da mesma maneira como isto sucede
neste m~mento da filosofia nietzschiana. O eixo dominante é , 11 \ sua consciência ( ...). Assim, pensa haver explicado alguma
0
da oposição entre ciência e vida . A análise de Nietzsche fica a 111h10 com a palavra "instinto" e situa de bom grado as ações de
lOO PAUL-LAURENT ASSOUN
INSTINTO E PULSÃO 101
finalidade inconsciente no devir original das coisas".29 Eis um
fragmento importante para nosso objetivo, onde Nietzsche relata 1wrdido um paraíso de saúde. Porém esta mesma juventude tam-
a gênese da idéia de instinto. Esta filosofia que postula a todo
ii111n adivinha, com o instinto curativo da mesma natureza, como
r to paraisa , pode ser novamente ganh"34 o .
instante instintos operando na realidade humana percebe simul•
taneamente sua natureza antropomórfica. Muito naturalmente, isto leva Nietzsche a formular sua con-
1 r pção pedagógica, que é no fundo o denominador co~um. de
A

Nietzsche chega mesmo a dizer que, com o instinto, não so _,111s intervenções anteriores. Elas explodem nas conferenc1~s feitas
explica nada : "Com o instinto (lnstinkt) não se dá um passo à
1, 111 l3asiléia em 1872, Sobre o Futuro de Nossos Estabelecimentos
frente para explicar a conformidade com os fins (Zweckmiissig- ri,, /i nsino. Este feroz processo contra o sistema educacional reca-
keit), pois esses instintos, precisamente, já são o resultado de. pro- plt ula todos os níveis da crítica anterior: primazia dos "instintos
cessos mantidos há um tempo infinitamente longo", 3º O caráte11 t lcntíficos", negação da "verdadeira cultura",35 em benefício da
original do instinto, portanto, é, de certo modo, uma ilusão, h11(b,hie do gosto e da erudição estéril.
efeito de uma ingênua analogia entre o pensamento tardio do Mas um outro elemento essencial se precisa: a crítica do Esta-
homem e as forças originais (Urkrafle). É preciso, ao contrário, do. O Estado é que impõe a canalização, para seu benefício, de
conceber o instinto como o produto de processos, bem mais que l118lintos utilitários, às custas de "aniquilar os instintos que não
como um início imediato. Correlativamente, não basta pronun- 36 A barbá-
1111contram em seus desígnios seu emprego imediato".
ciar a palavra mágica instinto para explicar a natureza das forças 1lc é então requisitada pelo Estado, apoiada pelo sentido histórico
em ação: é preciso mostrar em ação os processos que o levaram
a termo. o pelas ciências da natureza. .
Ora este último elemento confirma a inspiração naturabsta
Uma vez atingido ·este grau de aprofundamento do conceito, ' "O que esta, per-
1,oral. O que é col)lprovado por esta passagei:n:
as Considerações Extemporâneas fazem dele uso polêmico. Vemos tlido ( ... ) (é) a compreensão instintiva e verdadeira da natureza:
aí, com efeito, o processo do filisteu, em quem se encarna a nega- 1>m seu lugar instituiu-se um hábil cálculo· (Berechnen) e um
ção do ."instinto inquietamente criador do artista", 31 na primeira engodo (Überlisten) da nature~a" .~7 O que funciona aq~i ~ a opo-
Extemporânea. O desenvolvimento hipertrofiado do sentido histó- Hição da physis, geradora de mstmtos fecundos e au!ent1c~s, ao
rico é decifrado como um sintoma patológico da civilização. 11niverso do arbitrário (Willkür) com suas formas v1s de inten-
Nietzsche postula a existência de um "instinto histórico".32 A cionalidade. A política dá a forma final a esta anti-physis, que
própria relação com o passado depende de um instinto. Mas ll'aduz a regressão do instinto verdadeiro a um baixo cálculo, da
entregue a si mesmo ele é destruidor, esgotando as fontes do ofetividade à mentira e ao engodo.
presente. Convém, pois, equilibrá-lo, mais uma vez, por um Através das formas históricas e culturais de devir dos instintos,
"instinto construtor" que mantém a história a serviço da vida. ó então a nature~a que se degrada; através do remédio esperado,
Quanto à concepção de instinto que isto supõe, assinalemos esta ó a natureza que se repara.
crítica essencial: "Pela história'', diagnostica Nietzsche, ''implan-
tamos um novo hábito, um novo instinto, uma nova natureza,
A PULSÃO EM FREUD: A ORIGEM DO CONCEITO
de sorte que a primeira natureza resseca e cai".33 Contra esta
patologia, é preciso trocar de pele, o que supõe a volta a algo
como uma primeira natureza, alterada. Se é verdade que Freud só atribui explícito papel explicativo
ao conceito de Trieb a partir de 1905,38 isto não impede qu.e
A conotação naturalista aparece na conclusão: "O mal é ter-
encontremos em ação, implicitamente, desde os anos de nasci-
rível e, no entanto, se a juventude não possuísse o dom clarivi-
mento da teoria psicanalítica, um instrumental conceitua] que
dente da natureza, ninguém saberia que isto é um mal e que foi
implica uma temática e uma terminologia do instinto. Para apreen-
102 PAUL-LAURENT ASSOUN INSTINTO E PULSÃO 103

der a origem e a gênese desta temática é necessário, portanto, 11 11111


ncurônico vê-se obrigado a renunciar à sua tendência origi-
entender que papel representa a idéia nas primeiras formulaçõca 11 ,1 h Inércia, isto é, à sua tendência ao nível == O. Ele deve apren-
freudianas. h 1 11 suportar uma quantidade armazen~~a \?n) que baste para
O Esboço de uma Psicologia Científica (1896) é um documen ,111· íoicr as exigências de um ato específico. .
to de primeira categoria sobre este ponto, já que Freud testa nele A exigência geral de descarga, porém, em vez de abolu·-se, se
suas ferramentas conceituais.39 A representação eoergetista inspl 111111
tifica: "Conforme a maneira como ela o faz, contudo, a mesma
rada nas "ciências naturais" implica a consideração dos "preces 1, uiJGncia persiste sob a forma modificada de um e:forço p_ara
sos psíquicos como estados quantitativamente determinados de 11
,nulcr a quantidade num nível tão baixo quanto possivel e evitar
partículas materiais distinguíveis" 40 do sistema nervoso, isto é, quulquer elevação, isto é, para manter este nível constante". t o
de neurônios. Pois bem, caberão duas funções ao "sistema neu- 1,,111dpio de constância. . .
rônico''. Uma função primária de descarga das excitações, como l~atn representação global da economia neur-ônt~a determma na
o reflexo que torna possível a adaptação ao mundo exterior. Esta ,ott,1cm O estatuto das pulsões na economia ps1covital.
função primária está ligada geneticamente à "excitabilidade pro- Observemos, em primeiro lugar, que s~~ ponto de ~artida é a
toplásmica geral", estando o próprio sistema neurônico ligado à , ,.cllução neurônica, correlativa da excitabilidade orgâruca ou pro-
"superfície externa irritável do protoplasma".41 Esta função é " ·,.,. o conceito básico portanto, para o Freud de 1895,
tnp l11Sffih,... ' • · bT
que faz do principío de inércia o princípio fundamental da eco- r II excitação. Somente num segundo tempo (ló_g1co), a excita _1 1-
nomia nervosa: segundo ele, os neurônios tendem a livrar-se das ,lndc geral cinde-se em dois níveis, com o surgunento_ das exc1ta-
quantidades voltando ao "níyel = O". Mcs do tipo endógeno: ora, o foco gerador é constituíd,? pelos
Circunstância essencial, todavia, vai ponderar a aplicação inte- ~tlNlintos fundamentais, ou melhor, "as células do· corpo , su~s-
gral do princípio de inércia: "À medida que cresce a complexi- 11ulo somático, cuja expressão vital são os instintos fund~1menta1s.
dade interna do organismo, o sistema neurônico recebe estímulos Os gastos normais da economia doméstica do organismo (sa:
provenientes dos próprios elementos somáticos, estímulos endó- 1
1,ifoção das necessidades vitais) obriga~ a u~ entesoura~ent~.
genos que também tendem a descarregar-se. Eles nascem nas célu- ª?
,ln{ uma estase, que constitui contravençao f_uncio_:1 al prmcíp10
las do corpo e provocam as grandes necessidades: a fome, a res- \llrctor. A manutenção da excitação num mvel tao baixo quan~o
piração, a sexualidade. Observemos que a emergência dos instin- fKJss{vel é, contudo, uma espécie de homenage~ que o orga~ts-
tos fundamentais está estreitamente acoplada aos estímulos endó- 1110 ainda presta ao princípio geral, comprometido entre a lei e
genos do organismo. Ora, esta emergência tem por efeito mode- 1111condições específicas.
rar a aplicação do princípio geral de inércia. Vemos que entrada discreta os instintos fazem na re~resenta-
Esta segunda fonte de excitações requer uma segunda função: çno freudiana do psiquismo. Longe de ser aquela forma tnunfan!e
"O organismo não pode escapar a elas como faz com os estímulos de positividade vital ligada espontaneamente ao termo, eles sao
externos; não está em condições de empregar a sua quantidade upcnas O requisito somático que obriga a moderar, sem em ca~o
(Q) para fugir delas. As excitações só cessam se condições bem ulgum questioná-la novamente, a tendência geral à he1;1?rrag1a
determinadas forem realizadas no mundo exterior ( .. .)". Econo- energética. Nesta corrente irreversível de perda enerJetic~,. os
micamente, -esta nova exigência traduz-se pela especificação do Instintos não são em absoluto os princípios _de constr~çao eficien-
princípio de inércia: "Para executar o ato (. , .), é preciso um tes a antiposição saudável da vida. No sentido pró~no, aparecem
esforço independente das quantidades endógenas e geralmente coi~o capítulos de investimentos imprevist_os na 0~1gem, no" exe~-
maior que elas, já que o indjvíduo é submetido a certas condições c(cio puro e simples do princípio de inércia; dep01s, como débi-
que podemos chamar de urgência da vida. Por conseguinte, o sis- tos" na economia cotidiana do sistema nervoso. Estamos longe
104 PAUL-LAURENT ASSOUN INSTINTO E PULSÃO 105

da Ag~nerosa ri_quez~ do i_nstinto nietzschiano. O sistema psioo- tHl metafísicamente, ele parece autovalorizar-se como expressão
orgamco freudiano e crorucamente deficitário: quanto aos instin- vl!nl. Em Freud ele não é em absoluto dotado desta virtude na
tos, ao invés de enriquecê-lo eles lhe impõem uma avareza con- ,1rigcm. O instinto é bem menos princípio que dado e condição:
juntural e limitada. ~. tomando eptretanto a palavra no sentido forte, uma circuns-
Assim, os instintos só aparecem como pontilhados sobre a linha //111cia do sistema nervoso, ele mesmo decifrado em cima do mo-
div~s6_ria ~ue .pass! at~avés do universo neurônico e que obriga rll!lo da matéria. Na verdade, é a raiz do " impulso que mantém
a d1stmgu1r entre o sistema voltado para o exterior" e "o siste- ioda atividade física",43 mas é, paradoxalmente, um impulso que
ma que fica sem contato com o mundo exterior". O primeiro 11tio cria: este impetus é como um dado, importante em si, certa-
t~ndo "por tarefa descarregar tão rápido quanto possível as quan- mente, mas que só é exercido em relação às leis gerais do siste-
t1dades que assaltam os neurônios"; o segundo só recebendo ma psicofisiológico.
quantidades "dos elementos celu]ares do interior do corpo" (e dos A volta à origem da concepção freudiana permite antecipar a
42 l:l)lranha contradança das noções de pulsão (Trieb) e de excitação
n;~rô,~i~s). Eles designam~ aquilo que requer uma "ação espe-
cifica , isto é, uma resoluçao duradoura da tensão oriunda das (l?eiz), que domina a economia conceituai posterior.
excitações endógenas que vêm complicar o esquema da inércia. Na origem, como vimos, é à excitação que cabe o papel expli-
Esta representação entrópica do sistema nervoso é fundamen- cntivo central; a emergência da pulsão, porém, a partir dos Três
talmente f,isicalista. Observemos que esta tendência incoercível a Jinsaíos, deslocará esta fuoção: é como se a palavra Trieb esti-
esvaziar-se, característica dos elementos nervosos, equivale a vol- vesse investida da função princeps que cabia anteriormente à
tar.ªº :stado bru~o.~!ª é a -·conseqüência obrigatória da própria pulavra Reiz. Não obstante, sua relação continua confusa:
exc1taçao. A exc1tab1hdade, reconhecida desde Haller como a a) No sentido estrito, a excitação é uma da& determinantes
car?~terís~ica do ser vivo, não poderia ser, para Freud como para da pulsão: o estado ,de tensão localizada como fonte é que requer
a f1S1olog1a do seu tempo, nad? além de uma redundância ener- 11 pressão pulsional cuja meta é justamente pôr fim a este estado
gética que tende a ser abolida, uma repetição de certo modo de tensão, satisfazendo-o através de um objeto.
supérllua. da matéria sensível. E verdade que a matéria é simul- b) A pulsão, elemento constitutivo do sistema psico-orgânico,
tanea~ente objeto de um deciframento do tipo energético: mas ó definida como o representante psíquico da excitação (endó-
preci~ament_e este energetismo possibilita um fisicalismo rigoroso. gcna).44
A untversalidade do princípio de inétcia é a expressão deste ener- c) A pulsão é investida da função que coubera em outra parte
getismo fisicalista. n excitação: neste caso, ela é que é representada no psiquismo
Sobre o fundo desta perda física, a ordem orgânica requer vía afetos e representações.45
uma retenção bastante limitada. O organismo propriamente dito Eis então três figuras das relações pulsão/excitação-: a pulsão
com seu cortejo, de resto também limitado, de instintos, nã~ ó ao mesmo tempo modo de satisfação - resposta da excitação,
requer em abso!uto derrogação. Ele intrnduz uma cláusula suple- englobando-a como uma variável; representante psíquico da exci-
mentar que obnga a reescrever o princípio de inércia como prin- tação; enfim, um outro nome para excitação. São formulações que
cípio de constância. vão da distinção à identificação passando pela representação!
. De imediato, a concepção freudiana, por seu fisicalismo, pre- Esta ambigüidade é esclarecida pela gênese dos termos. Na
vme uma concepção organicista do instinto. O instinto em seu origem, a excítação, sendo de natureza neurônica, remetia indisso-
uso positivo, como em Nietzsche, é por si só a proclamação de ciavelmente a uma teoria do organismo e a uma concepção do
uma or-dem vital própria: é a voz imperiosa do organismo como psiquismo: a excitabilidade era na verdade a propriedade mais
realidade sui generis. Eis por que, antes de ser valorizado ética geral do organismo e a excitação a modalidade funcional do sis-
106 PAUL-LAURENT ASSOUN INSTINTO E PULSÃO 107

tema nervoso ideativo. Era portanto um dado objetivo, com o Pulsões e Destinos das Pulsões, Freud a definirá como a "instân-
peso que a ótica fisicalista dava a esta noção de objetividade. cia motriz" (motorisches Moment) da pulsão, "a soma de força
Correlativamente, o instinto não tinha valor explicativo: provedor ou a quantidade de exigência de trabalho que ela representa".47
de um certo tipo de excitações, ele representava o papel de uma A pressão se define então como um excesso de trabalho psíquico:
condição. cm termos econômicos, é um excedente imposto ao aparelho
Elevado à categoria de princípio explicativo, .o instinto vai psíquico.
relegar por sua vez a excitação à categoria de condição. Esta e, através desta "propriedade geral dos instintos" que se pode
inversão de ponto de vista se exprime pelo lugar ocupado pela npreender sua natureza efetiva em Freud. O contra-senso mais
noção de pressão psíquica. Emergindo como ordem de realidade caracterizado na interpretação do termo pressão seria colocar nele
própria, o psicólogo requer repensar a identificação imediata um primum movens criador. Paradoxalmente, ao invés de insistir
psíquico/somático - o que é comprovado pelo surgimento de no aumento de energia que representa e produz o instinto, Freud
uma temática da responsabilidade e, por conseguinte, do signi- o define como exigência, imposta do exterior, de produzir um
ficado.46 excesso de trabalho. Como não encontrar nesta idéia uma forma
Mas um ponto de vista não exclui o óutro. Na medida em que rejuvenescida, em plenà elaboração metapsicológica, do velho
não se opera uma obsolescência dos pontos de vista epistemo- princípio de inércia? Na realidade, para usar uma linguagem
lógicos, a excitaç.ã o manteve em Freud o prestígio de objetividade antropomórfica, é a contragosto que o psiquismo produz: é esta
que ela possuía, a despeito da mudança de sua função etiológica. obrigação penosa que a pressão instintiva notifica. S verdade que
Eis por q ue ela se desdobra pas figuras diversas da variável e do o prazer é sua gratificação, mas somente através de um esforço
representado fundamental, até às vezes usurpar a função da pul- é que o sistema psíquico sai de sua letargia natural.
são, até a quase-sinonímia. O Drang, portanto, não tem nada dessa afirmação explosiva
Desta curiosa "quadrilha" entre as noções, que não chega à de si que se poderia colocar nele, seguindo desse modo as indica-
confusão - visto que a versão b de representatividade prevalece ções da história semântica que se liga ao Sturm: longe de ser o
amplamente-, devemos, contudo, reter mensagem essencial rela- desencadear orgiástico de uma tempestade, ele se apresenta como
tiva à natureza do Trieb freudiano. Ele não prevalecerá a partir um pesado abalo da letargia psíquica, uma notificação do que
da múdança de rumo de 1905, como temática organicista e vita- l,á a jazer para quem preferiria não fazer nada. Em contrapar-
lista que romperia com a temática anterior a ponto de diferir· tida, é preciso imediatamente evitar conferir a esta representação
dela todo coelo. A pulsão conservará algo da natureza da exci- um tom afetivo inverso: a pressão não é penosa e tampouco gozo
tação (no sentido do ano de 1895), na medida em que herda sua l•nquanto pressão. E precisamente, como se vê em Nietzsche, a
função. Sem prejulgar, em absoluto, a descontinuidade das pro- criatividade imanente do instinto desemboca diretamente na exal-
blemáticas, que não é demasiado insistente, este fato obriga a se tnção do sofrimento trágico desde a origem, como amor fati
buscar o conteúdo do conceito freudiano num caminho diferente (muor ao destino).
de seu homólogo nietzschiano, referindo-o à sua origem. A origem Na idéia de exigência (Anforderung) deve-se ver apenas um
fisícalista da construção conceituai freudiana parece imunizar de requisito econômico, funcional e impessoal. A pressão é chama-
uma vez por todas o conceito de Trieb que recebe sua herança, dn para preencher uma falta. Ativa, de todo modo (enquanto
contra toda predominância da conotação vitalista. ''instância motriz"), ela é, num outro. sentido, fundamentalmente
Isto pode ser visto através desta noção aparentemente miste- passiva, já que deixa sua intervenção ser determi~ad_a por u~
riosa de pressão (Drang) que serve para caracterizar antes de 11contecimento negativo que afeta o sistema econom1co. Ela e
mais nada a pulsão. Na exposição metapsicológica elaborada, n mvocada para que proporcione o excedente que falta em relação
108 PAUL-LAURENT ASSOUN INSTINTO E PULSÃO 109

à economia global. Está, pois, associada a uma tarefa de preen, llll.: rário, principalmente no século anterior. O conteúdo desta
chimento.
1111çi.ío é tributário dos sedimentos semânticos que se acumularam
A pressão pulsional se manifesta bem menos como manifesta, 11 1(.1 , A palavra Trieb floresceu na língua alemã no momento do
ção de sua própria produtividade que como resultante de um mais ,111rm und Drung: ela designa o motor que age na realidaq.e
a ser _fornecido à depressão energética que a cri~. A pressão nã0 l1111nana e exige ser vertido em discurso poético. Neste primeiro
é senao_ o verso desse menos, acontecimento econômico negativo, 1 ut ido, portanto, é um termo ligado à estética.

Tradu~mdo uma falta ela é antes de mais nada seu sinal em A palavra instinto teve assim seu emprego generalizado e. valo-
seguida sua resposta, cujo destino é abolir-se com sua satisf;ção, , 1,11<lo ao mesmo tempo que um outro termo, súbita e paralela-
É apenas corno intervalo entre uma falta a ser preenchida e umn 1111•11le sobredeterminado: a palavra gênio. Esta contemporanei-
falta preenchida, que ela encontra sua força de afirmacão, oillO• il11rll.) n ão é fortuita: na verdade, seus destinos estão entrelaçados.
logicamente precária. • 11 p i:oblema pré-romântico, na esfera estética, é indissociavel-
. Agora_ que estã~ f~nomenologicamente circunscritos os respct' 1111•11tc aquele do gênio e do instinto. Pois bem, pudemos deter-
h~os regimes do 1~1stmto nietzschiano e da pulsão freudiana 1111 111li 111 r que a palavra gênio aparece na Alemanha por volta de
ongem, podemos 01rcunscrever sua natureza e sua função e com 1r,o, nas polêmicas em torno de Klopstock e nos tratados dos
p~r~-l?s. Isto ainda supõe, no entanto, apreender sua orige111 ul1-111 dzadores da filosofia popular; 49 importados assim da Fran-
h1stonca. ' 1, 0 conceito e a palavra evoluirão progressivamente para se
Na verdade Freud e Nietzsche não inventam naturalmento 11 11 111· no último quarto do século XVIII em sua conotação pré-
tenno e o conceito; encontram-no na bagagem intelectual (h 1 ' ,111/l ntica. Acontece que o conteúdo semântico do Genius, nesta
pensamento do século XIX que é, também, a conclusão de u1t1n , 1 11t"il'ormação, passa do racionalismo e do intelectualismo a uma
48
longa maturação. Este conceito, cujo uso fixou-se no disotll'Ull t, 111111 de irracionalismo e de sentimentalismo: aí ele encontrà a
d~s .naturalistas no sé~ulo XVIII, mostrou-se eminentemente poli• 1111 i:;emãntica do Trieb.
sem1co. Por co·nsegumte, Várias camadas de sentido se havin111 \ concepção da estética francesa ligava o gênio ao ingenium,
depositado sucessivamente sobre O próprio termo, quando N11 , 1, ,,ldade de penetração universalmente difundida ainda que de
tzsche e Freud se apoderam dele. No entanto, 0 uso que Nietz11d11 1 on•ira desigual, e que supunha a vigilância do entendimento;
e Freud, cada qual a seu modo, fazem do termo revela-se sig11itl , 1 ~mcepção alemã posterior, o Genius passa a ser "um gênio
cativamente diferencial. O exame dos referenciais históricos c~ II• 1 nul, o deus que vos assiste e vos conduz" .50 Assim é que
estão na base do seu uso. respectivamente em Nietzsche e 1111 t, 11 11111 a defini-lo eletivamente pelo instinto, como instinto. Atra-
Freud, permite esclarecer o que um e outro aí colocam, inse1'iu1h, d u retumbante controvérsia sobre o gênio e as regras, colo-
o regime do conceito na problemática histórica que se conijh 11111 ' 1• a questão da domesticação do instinto assim ide~tif~ca~o,
,u11) se vê em Mendelssohn e Lessing. 51 Esta concepçao mstm-
PARADIGMA HISTóRICO DO INSTINTO NIETZSCHIAN(!) 1, 1 111 sob a influência vinda da França (Rousseau) e sobretudo
1 , 111glaterra (Young), triunfa na Alemanha com Hamann e
A primeira concepção n.ietzschiana de instinto forma,iw • , 1 l i 1.lm·, no último quarto do século XVIII.
fontes históricas determinad as, que devem ser Iembradai; 11111 1 ,1 1re os grandes teóricos, Genius e Trieb estão doravante asso-
que se entenda o conteúdo original do conceito e sua cvol\1~ 1, 11,11 como o alfabeto da concepção estética. B esta concepção
na obra nietzschiana.
1 , herda o jovem Nietzsche, aluno do colégio de Pforta, onde
O núcleo da noção vem do pré-romantismo alemão. ~)1111111I h , viam precedido - fato simbólico - Klopstock, Schlegel e
Nietzsche manipula o termo, ele já foi generalizado pelo 11 ,111s. Não é por acaso que, na carta-disser tação de 1861, incluí-
110
PAUL-LAURENT ASSOUN INSTINTO E PULSÃO 111

da em suas notas biográficas, pode-se ler um vibrante ditiramb11 • O papel probatório da noção de Trieb na esfera estética:
de HõlderJin, cujo parentesco de alma com Schiller é observado pn111 superar o dualismo kantiano das faculdades que SchiJler
Realmente, é em Schiller e Hõlderlin que Nietzsche encontra 0 11 . dos mstm
1111111 sua teona . . t os.s3
delineamentos de sua teoria do Kunsttrieb.
liuta tríplice característica passa dir~tamente para o u:o nie-
Toda a antropologia schilleriana, como se depreende das Carta~ 1 id iiuno do conceito, que ele torna literalmente das maos de
sobre a Educação Estética, concentra-se na oposição de dois instiu 1 ltl ller.
tos fundamentais: o Sachtrieb e o Formtrieb. A primeira tendên,
1lolderlin, discípulo predileto de Schiller esegundo ídolo ~o
eia leva o homem em direção ao sensível, à realidade· o outvo
jllVt'lll Nietzsche em Pforta, é que retorna esteuso em sua teona
em direção à forma. Esta dualidade deriva da dualidad; antrope-
lógica primária da pessoa (das Bleibende) e de seus estados cam•
ilo ''gênio, artístico e formador" (Kunst-und ~ildungs_trieb). Ele
11 dufine significativamente como "um verdadeno servtço que os
biantes. Os dois Triebe correspondem, portanto, a duas funções:
IH lllWns prestam à natureza". 54 É ~recisamente. neste para?oxo
realizar a pessoa, o si mesmo (Sachtrieb), e dar forma à realidade
quu f!õlderlin baseia sua interpretaça.o da tragédt~. Capta-se.ª~ o
dos estados (Formatrieb). Estes dois instintos são simultaneamente
duplo caráter da concepção nietzschtana: natura~1sta, ela defme
antagônicos e complementares. Antagônicos porque um exige n
11 urte como Trieb derivado da natureza; mas, sun~lt~neamente,
multiplicação das experiências, o outro a perenidade da pessoa
, onccbe-o como resposta à natureza que o faz emergir JUS~ame~te
ante o mundo sensível; mas complementares, pois é por sua ação
w mo arte. Este é exatamente o duplo aspecto do Ku:zsttrreb me-
recíproca (Wechselwirkung) que se realiza a harmonia da uni•
dade e da diversidade. tnichiano. A leitura de Hipérion e de Empédocles impregnou-o
pn:cocemente disto. 55
Só que é preciso um terceiro termo para que a açã0 recíproca
alcance sua plena fecundidade, sem que um instinto invada o Realmente, portanto, é na concepção pré-romãnti,:-a qm~ N!e-
território do outro e triunfe sobre seu protagonista. Aí intervém 1,sche se inspira para o núcJeo semântico de sua noçao de mstm-
o Spieltrieb, instinto lúdico no qual o homem experimenta simul- lti. Por oposição ao enervamento ro11;1_ânti~, que ~ão ultrapassa o
taneamente sua liberdade e sua existência, no qual se dissolve a i•~lodo de e.xcitação,s6 Schiller e Holderlm. continuam a ser os
dualidade da sensibilidade e da razão que a dualidade primária profetas da vitalidade autêntica do Kunsttrieb.
havia ·aberto. O Spieltrieb unifica o mundo e a vida, por um lado, A esta primeira camada semântica, porém, junta-se outra me-
e a forma e a lei, pot outro, na figura viva (lebende Gestalt) que nos visível, mas que tem que ser mencionada, se se quer_ apreen-
não é senão a beleza. d\lr a dosagem exata de Trieb em Nietzsche. Ele leu mmto ~do
Se ê verdade que "é muito grande a influência de Schiller",52 11 quele filho de pastor que rompeu com seus dogmas para te~-
este modelo é que contém em germe a teoria nietzschiana do dcr-se à evidência fecunda dos instintos: Ralph Waldo Emerson. 1
instinto. Além <las profundas diferenças posteriores, é aí que se Em Emerson, há a mística das Forças Eternas da t:Jatu:eza,
estabelecem os elementos genéticos da concepção do instinto que t•m nome das quais ele combate todo dogma e todo rac1ona~1smo
nos interessam aqui. Observaremos, com efeito: ~ ·ido. Desde a origem do "transcendentalismo", a re~erênc1a ao
• A tendência a criar instintos fundamentais por livre junção lr~stinto representa um papel determinante: é o me10 para se
do Trieb: é com Schiller que se legitima esta prática, fato lingüís- cn~ontrar O sentido imediato do mundo, a l~i de ~cordo do homero
tico revelador do novo regime conceituai. interiot e da natureza. O instinto emersomano e o ~co da fec~n-
• O lugar central da idéia de conflito na concepção dual, e cfdade da Natureza na individualidade humana. Existe, no trzeb
depois trina dos Triebe: antagonismo e exigência de harmonia n:etzschiano, algo daquele misterioso "senti~o ~lativo'.' 58 que libe•
fazem parte do regime do instinto. ro a evidência da aparência, aquém da med1açao rao1onal.

\
112 PAUL-LAURENT AS$0UN
INSTINTO E PULSÃO 113

. Não é, contudo, apenas este imediatismo que Emerson lega a


Jlinalmente, a concepção nietzschiana de instinto deve muito
Nietzsche. Sua força e sedução vêm do fato de que ele se serve
i)quela de Richard Wagner, antes mesmo que este conheça Scho•
do instinto como uma anna em uma obra fundamental: Crítica do
pl!nbauer.62 Na Obra de Arte do Futuro é introduzido o conceito
Tempo Presente. Este pregador, que deixou a batina,s9 prega
0 i l'lltral de Lebenstrieb: "Em tudo o que existe", escreve Wagner,
Ev~~~elho do, j_nstinto em face dos ídolos do tempo presente: a
"i) elemento mais poderoso é o instinto vital; ele é a força irr~-
rehg1ao, a pohtica e o Estado, a história. A referência ao instinto
~li,Lível que reúne as condições nas quais surgiram_ os seres, ~m-
tem por função desmascarar a aparência e O engano. Emerson
11rndos ou inanimados".63 Nesta época, Wagner situa essencial-
~o~trou a '."ietzsche a função devastadora e purificadora do
111u11te este instinto primordial no nível dos povos, como motor
m~t_mto. Ass1?1•. nã? é por ~caso que desde 1862, em sua primeira
1rvolucionário. O Lebenstrieb é o instinto em sua generalidade
cnt1c_a do cnstiamsmo, Nietzsche cita Emerson e viaja com os
Ensaios do mestre americano na mala. l'unclamental: é o Urtrieb.
A concepção wagneriana também é nitidamente naturalista
Podemos concordar com o julgamento de Charles Andler quan- 111,;ste instinto fundamental se expressa a Natur como poder. Esta
do ele declara que "Ralph Waldo Emerson foi um daqueles auto- 1• no mesmo tempo a substância cósmica em sua unidade e potên-
res amados, cujo pensamento Nietzsche absorveu a ponto de du, fecundidade inesgotável e sempre renovada, e o elemento
nunca mais distingui-lo do seu".6º .É nesta freqüência assídua original em sua simplicidade e inocência.64 ~eu car~te~ ~undamen-
~ue ele contrai esta labilidade da referência a uma temática fostin- l11l é a necessidade. Para Wagner, a necessidade s1gmfica funda-
tiva. Com o instinto emersoniano, entretanto, o conceito assume mentalmente autenticidade: é o campo do Unwillkür (não arbi-
~ma conotação ética e polêmica que especifica a conotação esté- f t•tlrio ou efetivo), que se opõe ao campo do Willkür (artificial).
tic~. Ora, a pa_rtir das Extemporâneas esse registro passa ao pri- 1•:sta oposição essencial é um elemento caracter~stico da concep-
meuo plano. E mesmo verdade que as Extemporâneas asseme- ~•ílo nietzschiana do instinto: o Trieb talvez s~ ~ef~na m~l~or
lham-se pela forma ao ensaio emersoniano ou ao panfleto carly- i.;omo Unwaillkür, termo significativo em sua propna 1mprec1sao.
liano:6i têm ~ mesma função intempestiva de denúncia das fic- Na verdade, o conjunto da.s acepções anteriores é recapitulado
ções ético-científicas e de apelo à regeneração, contando com uma 11csta idéia. A melhor maneira de definir o Trieb é pelo que não
espécie de regeneração baseada no eterno presente de uma natu- 1í o artificial o arbitrário, o fictício ou o infundado: ele tem por
re~a enc~rnada pel~ força das grandes individualidades represen- f~mção invo~r uma Wirlclichkeit (realidade) que se distingue
tativas, figuras eleitas das forças originais.
do não-natural, do não-efetivo.
Percebe-se então o que o instinto emersoniano acrescenta ao Na estética wagneriana, o instinto vital remete ao poder cria-
Trieb schilleriano para especificar o uso que Nietzsche faz da dor autêntico da natureza e opõe-se violenta e desordenadamente
temática instintiva. O fundo comum é seguramente naturalísta _ ri moda, à indústria, à arte falsa, às instituições sociais, sinais
e como poderia ser de outro modo, para uma filosofia dos instin- do reinado da inteligência abstrata característi~a da decadência
tos? Junta-se a ele, porém, um alcance crítico que lhe dá todo 0 - onde ele coincide com Burckhardt. Esta se define na ver-
seu alcance ético. O idealismo de Emerson, alimentado por Platão dade como o momento em que "desaparece o vínculo da neces-
e Swedenborg, apresenta afinidades eletivas com o de Nietzsche sidade" e "reina uma atbitratiedade sem limites".
o colore de idealidade a idéia de instinto. De fato, o conceit;
O apelo ao poder original <la natureza representa, portanto,
nietzschiano de instinto combina a referência à originalidade vital
o papel de instrumento de regeneração. A_ o~ra d~ art~ do
com a idealidade: daí seu caráter estético-ético. A referência a
futuro é aquela que deve dar corpo a estes mstmtos im~en?s~s
uma norma de autenticidade naturalizante serve de instrumento
de desmistificação. que fazem a al,ltenticidade do homem. Vemos coroo o. mstmtl-
vismo wagneriano desemboca, como será o caso de Nietzsche,
114 PAUL-LAURENT ASSOUN
INSTINTO E PULSÃO 115

e pela mesma lógica, numa teoria da civilização: "A natureza, do anatomia e fisiologia bastam, todavia, para curar esta ten-
a natureza humana, anunciará a lei às suas duas irmãs, cultura e
civilização: na medida em que estou contida em vós, podereis 111ção lírica.
viver e expandir-vos; na medida em que não o estou, morre- Esta conversão implica escolha determinante na concepção
reis."65 tlc instinto: este não tem mais por função exaltar o poder da
No princípio, Wagner usa o sensualismo feuerbachiano para Natur, a partir do momento em que o organismo é concebido
embasar sua teoria do Lebenstrieb. Na verdade, ela se baseia como um sistema de forças, no qual se trata de encontrar o
na primazia e na fecundidade da sensibilidade (Sinnlichkeit) : o modo de ação específico através do método físico-matemático. A
materialismo sensualista feuerbachiano servirá de arma contra pl'ópria idéia de instinto fica suspeita se leva, a _crer, por~ sua
o racionalismo hegeliano. Depois de 1854, Wagner traduzirá sua carga teleológica, que existem forças não reduttvets à atraçao _e
temática na linguagem da teoria schopenhaueriana: o termo ri repulsão.68 Não pode haver concepção mais fisicalísta. A partir
Unwillkür, mal empregado, decretará ele em 1871, deve na daí, Freud opta por um reducionismo antiteleológí_co: De modo
verdade chamar-se "Vontade", e ( ... ) o termo W illkür carac-
que, quando a pulsão for reconhecida de ple~o d1re1to,_ s~mpre
teriza a Vontade influenciada e guiada pela reflexão, o que
chamamos de Vontade representativa." 66 De fato, o Unwillkür lhe será atribuído este índice físico que prevme sua h1postase.
não é, substancialmente, senão o querer-viver de Schopenhauer. A inspiração pré-romântica, que não deixa Freud indiferente,
Esta equivalência dos registros, porém, não abole sua distinção: será curiosamente reintroduzida no nível mitológico para deno-
em todo caso, é notável que Nietzsche inclua em sua concepção mina~ as pulsões fundamentais, quando se tem que f~lar. em
de instinto a especificação wagneriana. Em sua primeira con- termos de principios.69 Entende-se agora por que ~ m~tmto,
cepção de instinto, as oposições determinantes que Wagner fixou apesar de sua função determinante, faz uma entrada tao discreta
acham-se presentes. Talvez fosse o caso de atribuir maior impor-
tância ao componente wagneriano que ao componente schopen- no modelo explicativo freudiano. Nietzsche e Fr~ud pr~lo~gam
haueriano. Mesmo em pleno período schopenhaueriano, Nietzs- respectivamente todo um outro destino do conceito de mstmto.
che fala mais freqüentemente e com mais boa vontade em ter- A origem imediata da concepção freudiana de instinto é,
mos de instintos que em termos de vontade. ~ verdade que o portanto, menos plural: ela se ali~:nta !nteira1:1ente do modelo
querer-viver é a raiz do instinto, mas é como se a manifestação fisicalista que O discurso anatomo-f1s1olog1sta foqou, d~ He_lmholz
prevalecesse sobre o princípio. a Brücke.70 o instinto, nele, acha-se estreitamente msendo no
sistema material de forças que define o organismo. Aparece nele,
PARADIGMA HISTóRICO DA PULSÃO FREUDIANA o uma realidade residual e diferencial dentro de
por tanto , Com
um sistema físico, segundo o esquema anteriormente ana isa o.
r d
Voltando a Freud, constatamos desde o início uma rápida
evolução que o conduz do entusiasmo por uma certa naturphilo- Não há dúvida de que o regime romântico d? ~o~ce~to tam-
, • Freud mas num procedimento s1gmf1cat1vo, ele
6em a ti·ngm
sophie_ panteísta inspirada em Goethe a uma forma de materia- ' ' r
lismo que se converte finalmente numa concepção científica do não lhe atribui em seu primeiro modelo nenhum valor exp_1ca-
universo, codificada na fisiologia de seus mestres vienenses. l! tivo. A palavra força (Kraft), particularm:nte,_ mud~ radical-
simbólico que Freud declare haver optado pela medicina após mente de alcance quando se passa da acepçao metzschiana para
ter ouvido o poema de Goethe que exalta o poder criador e a freudiana: punção criadora de matéria num caso, noutro ela
reparador universal da Natureza. 67 Alguns anos de aprendizado se traduz por um gasto.
INSTINTO E PULSÃO 117
116 PAUL-LAURENT ASSOUN
>
DEFINIÇÃO DIFERENCIAL DO INSTINTO NIETZSCHIANO NOTAS
E DA PULSÃO FREUDIANA
t. Sobre O conteúdo e o sentido da distinçã~ de flistinkt e Trieb em
Nietzsche, v., Infra, neste capítulo, e, em Freud, infra, cap. 2.
Isto permite que se produza, enfim, uma definição compa- 2. Ele literalmente pulula em Nietzsche, enqua11:to está rcgulan_ne~t~
rada dos termos. Para Nietzsche, assim como para Freud, o presente em Freud, quando sua função o exige. V., mJra, sobre o s1gmfl-
instinto é uma pressão que vale como força, que se origina cado desta diferença de regime semântico.
numa natureza dotada de sensibilidade e irritabilidade e que 3. Este devir do conceito é escandido de acordo co~ três m?mentos,
visa à consecução de um fim, no qual se realiza sua objeti- que correspondem aos três capítulos deste livro 1, ou seJa, em N1et~sche:
t.•) 0 regime dos anos 1869-1876; 2.º) o regime ~o~ an?s 1878 e segwntes;
vidade. 3.º) 0 regime dos anos 1883-1888. Em Freud, d1stmg1.11mos paralelame~te:
Enquanto o instinto nietzschiano, porém, é originalmente 1.º) 0 regime do ano de 1895 (antes da introdução literal de . uma ter~mo•
criativo, o instinto freudiano se assemelha a uma espécie de logia pulsional); 2.º} o regime inaugura~o em .190~, com a mtroduça~ _do
termo; 3.º) o tegiroe correspondente à s1stemat1zaçao de uma problematica
secreção energética: eles se alimentam, portanto, em dois mo- do instinto, com o dualismo pulsional e sua evolução, em 1910-1920. Esta
delos tão diferentes quanto o querer-viver romântico e a inércia localização torna possível um estudo comp~rado da g:nese_ das duas pr?•
fechneriana, de natureza fundamentalmente entrópica. blemáticas do instinto. Trata-se, aliás, de momentos ~óg1cos, aos quais
a localização cronológica serve de suporte, mas que exprimem gl_:>balme~te
Esta diferença de natureza e de origem tem uma conseqüência
0 movimento geral do pensamento nietzschiano e da construçao teóric~
maior: de imediato, o instinto em Nietzsche serve para valorizar freudiana, cuja temática do instinto é, por isso, mesmo um revelador pn-
ou desçlassificar uma real~pade, do ponto de vista ético-estético. v'ilegíado. . ..
Em Freud, o instinto conota bem menos um valor do que denota 4. SW, I, 3.4, Trata-se da Antrittsvorlesung, pronunciada em fe~ere1ro
uma função. Daí seu teor positivo, como requisito epistemo- de 1869, em Basiléia, quando Nietzsche toma posse· de sua cadeira de
pi-ofessor extraordinário de filosofia clássica.
lógico.
5. SW, I, 5.
Assim, se em ambos o instinto está igualmente onipresente 6. SW, I, 8.
no homem, é, para Nietzsche, à maneira de participação numa 7. V., infra, pp. 109 e ss.
efusão cósmica, e, para Freud, como exigência - no sentido 8. SW, I, 3.
de necessidade de um sistema material, requisito negativo - 9. sw, I, 15-6.
tão universal quanto minimum. Isto remete, em última análise, 10. SW, I, 22.
11. Wolf, Friedrich August. Prolegomena ad Homerum. Com est~ obra,
a uma diferença na concepção de objetividade, pois o instinto 1795 Wolf (1759-1824) dá à filologia alemã seu monumento, hxando
nietzschiano, como seu análogo pré-romântico e schopenhaueria- : : paradigma do qual também participa o jovem filósofo Nietzsche.
no, realiza seu objeto no sentido forte em que o dota de efeti- 12. Homers Wettka.mpf.
vidade (verwecklichen), uma Natar que ele atualiza. O instinto 13. SW, I, 238·9.
freudiano, como seu modelo fisicalista, deriva sua necessidade 14. SW, l, 241.
do fato de objetivar uma carência. 15. Fragmento 5, in: SW, I, 249.
16. SW, I, 250.
Por trás da homonímia, discerne-se então clara divergência 17. SW, I, 251.
de pressupostos. Em Nietzsche, o instinto revela uma Natur 18. SW, I, 52. O Nascimento da Tragédia.
19. SW, I , 53, sublinhado por Nietzsche.
cuja virtude "criadora-afirmativa" vale como exigência de rege·
neraçãoi em Freud, a pulsão desvenda uma natureza material e
20. sw, 1, 61.
21. SW, I, 47. Esta é a primeira ftase da o~ra. Sobre o ~entido deste
lacunar submetida a uma investigação descritiva e positiva. Uma texto, na concepção geral da sexualidade em Nietzsche, v., infra, p. 177
dupla figura bem diferente de "naturalismos". e ss.
119
INSTINTO E PULSÃO
118 PAUL-LAURENT ASSOUN
29 O Livro do Filósofo, p. 94. Ilusão antropomórfica, . diagnos~ica
22. SW, I, 116 e ss. Sócrates é definido como uma "natureza complr . e o homem • tome os efeitos dos mais complica·
1
tamente anormal· (p. 118). Vocabulário teratológico que confirma a acc1, ,t',', /::i~::~i~:0 !,ª:::iie;~0 cérebro, por efeitos idênticos aos da origem•·
ção naturalista. Trata-se de uma "monstruosidade por falta", que emprca111
sua "força natural" às ·maiores forças instintivas". 10. SW, X, 64.
23. SW, I, 182. l i. SW, 11, 13. este que analisa toda a segunda Extemporânea.
32. SW, II, 153. E
24. SW, I, 118.
33. SW, II, 125.
25. Fragmentos que datam de 1872, reproduzidos na antologia O 34. SW, II, 190·1. •
Livro do Filósofo e in: SW, X , 29-91. 35 . SW, II, 437 (2.ª conferênc_1a).
26. Sobre o instinto de conhecimento, em Nietzsche, v., infra, pp. 184 36 . SW, II, 462 (3.ª conferência).
e ss., o confronto com seus homólogos freudianos. S6 o encaramos aqui 37. SW, II, 470-1.
como um momento do primeiro regime geral do conceito de instinto. 38. V., infra, cap. 2, PP· 135 e ss. d. . Fliess e reproduzido em
27. Pode-se evocar este trabalho cissiparitário, colocando lado a lado 39 Tex:to encontrado na correspon encia com . PUF
os compostos formados por Nietzsche com o conceito de Trieb. Este sobre-
vôo possibilita que se veja desdobrar de maneira st:rpreendente o campo
1,, ·.
Nmssance
de la Pychanalyse (O Nascimento da Psicanálise), ,
llll, 313 e ss.
de ação deste conceito-desinência na obra de Nietzsche: wissenschaftlichc 40. Op. cit., p. 315.
und llsthetisch-ethische Triebe; kiinstlerische Volkstriebe; Kunsttrieb: dlo-
nysische Triebe; politische Triebe; logische T riebe; metaphysische Triebe; 41. Op. ci_t., p. 31~reud chega mesmo a distinguir dois tipos de neu-
Erkenntnistrieb; Wissenstrieb; Welttrieb; Einheitstrieb; Kulturtrieb; Trieb 42. Op. c1t., p. 3. . t das funções exógena e endógena.
,ônios encarregados, respectivarnen e, "força ... derivada dos ins•
n ach Erkenntnis; Wahrheitslrieb; agonale Trieb; Trieb der Weltbildung; h cud designa, assim, mais precisamente, esta
Spieltrieb; philosophische Trieb; Trieb zur Metapherbildung; Fundamental• ,lutos• que é "â vontade".
tricb; Trieb nach Glauben an die Wahrheit, hochste Triebe; Trieb zur
Lüge; Trieb zur Wissenschaft; Trieb zur Gerechtlichkeit; analytische Trieb; 43. Op. cit., p. 336. . GW V 67) Pulsões e Desti-
44. Posição observada nos Três Ensa!os .< ' .' ·ál' . (GW XVIll,
Bautrieb; Massentriebe; Lebenstriebe; Trieb zum klassischen Altertum; - (GW, X , 214) e o Compendio de Ps1can ise ,
egoistische Triebe; unegoistische Triebe; Naturtrieb; Nachtrieb; Gesellig• 11 os das P
· u1soes
keitstrieb; Trieb nach Auszeichnung; Trieb nach Leben; Trieb nach Ruhe; '/O). 45. Ver o ensaio metapsicológico sobre O Recalque, GW, X, 254-5.
Trieb nach .A.nhãng]ichkeit und Fürsorge; Grundtriebe; Erbtriebe; soziale
46. V., infra, p. 139.
Triebe; Triebe der Redlichkeit; Trieb der Ar t-Erhaltung; Aneignungstrieb;
Unterwerfungstrieb; kritische Triebe; intellektuelle Trieb; schlimme Triebe; 47 GW, X, 214-5. 1 de :~~~ário
· t'nto mas
48. Tá que Nietzsche e Freud não inventam o concedto
Trieb zu strafen; Tríeb zum Zwccke, zum Hõheren, Ferneren, Vielfachren; . b . t lectual do pensamento mo erno , ,
Selbsterhaltungstrieb; Trieb des Geistes; Eigentumtrieb; Oberwãltigungs- 0 encontram na agagem m e f dele recordar o estado d.a
.
para {1xar a genealocria
.,.. do uso que este az último • quarto do séc. X IX •
trieb; anzweiíclnde T rieb; verneinde Trieb; abwartende Trieb; sammelnde
Trieb; auflosende Trieb: esta lista, aliás não exaustiva, mostra com que Idéia no momento em que dele_ se ~podera~, n~ séc XV III com Buffon.
prodigaiidade Nietzsche cria instintos, juntando um Trieb a um termo ou O termo se impõe ~a pr1me1rn meta e /da aÍma dos 'animais que a
designando um adjetivo para ele. Se nem todos têm a mesma importância Na verdade, ~oi ~ prop6s1to do velh~ P{°~~e a reílexão inaugurada na
ou a mesma dignidade, todos atualizam a onipotência da ins tintualldade, temática do mstmto tornou-se poss ve . -o 'amais fora formulada
fundo comum inesgotável, donde eles saem por uma espécie de geração Antigüidade grega, com A~stóteles, t~ré:~ :;~~rotlemática do instinto,
espontânea. Pode-se opor a eles o pequeno grupo de termos que, em enquanto tal. Para apreen er o se? i o d uilo que se opunha à indivi-
Freud, expressam a pulsionalidade: Partialtrieb; Selbsterhaltungstrieb; é instrutivo entender• _ante~ de mais na_ ~{ ai~ corno o • instinto •.
Sexualtrieb; lchtrieb; Todestriebe; Lebenstriebe; Bemãchtigunstrieb; dualização e à ~enom~naç:f. de um !:vé~ do estoicismo e do hipocratis-
Aggressionslrieb; Destruktionstrieb (aos quais se acrescentam alguns em- Na perspecttva anstot b1c~ q~e, Id de Média a diferença de natureza
pregos conjun tu rais). Este grupo é ainda hierarquizado conforme os níveis mo, prolonga-se até os um ra~ a do/ animais ~ão é problematizada. A
explicativos em que eles intervêm (v., infra, caps. II-III). Freud evoca entre a alma humana e a a a centramos em Aristóteles, dispensa a
mesmo o Herdentrieb (instinto gregário) para recusá-lo (Psicanálíse e Teoria hierarquia trina das. al~ns, _qu~ en . - que abarc~ria as noções poste-
da Libido, GW, XIII, 232) ou relativizá-lo (Psícologia Coletiva e Análise busca de um princípio btná!'º e o~os1ç:s:nte observar que a escolástica
do Ego, GW, XIII, 129). riores de Inteligência e lnshnto. f. inter d 'gnidade da alma humana com
lomi.sta é que, preocupada em proteger a '
28. SW, X, 45.
120 PAUL-LAURENT ASSOUN
INSTINTO E PULSÃO 121
a cortina da diferença de princípio, assegurando-lhe natureza distintiva
con·elata da imortalidade, empenha-se em hierarquizar as faculdades. (i) 1icham conveniente prescindir da palavra, mesmo tendo que postular a
esquema aristotélico lega à concepção escolástica o antropomorfismo funda- tlxistência de uma realidade que responda a ela. _
mental, que leva a conceber sempre a alma dos animais como que exer- o que impede o uso generalizado do termo é a concJusao que s~ p~de-
cendo um tipo de juízo isomorfo ao juízo humano (ainda que num registro l'ln tirar dele, de um abismo entre a inteligência humana e o ms!t~~o
diferente). Santo Tomás atribui aos animais uma faculdade própria que · 1: 0 sensualts'mo se alia ao intelectualismo
111111118 • para combater esta • ideia

evita a confusão com o juízo humano: ele a chama estimativa. Esta facul- que a palavra poderia dar a entender. Assim, se a palavra constitui o
dade combina curiosamente o aspecto não intelectualista do juízo antropo- ohjeto de um art.igo da Encyclopédie, o au tor, Leroy, autor. também de
morfo e o mistério do futuro conceito de instinto. Este virá, com efeito, a urna Lettre sur l'Jnstinct, recusa a oposição que. o te1'mo poderia favo:~r.
ocupar o lugar e preencher a função do conceito moderno de instinto. Lc,roy denuncia, a partir deste momento, a polissemia d? termo: . ssa
pulavra é uma daquelas das quais mais se abusou 7 que mais pronunc1ara_m
O mecanismo cartesiano oporá a esta concepção a representação de
tt()m compreendê-la. Todo mundo consente em designar dess: modo o p~m-
um automatismo animal. Sendo a idéia de uma alma dos animais remetida
olpio que dirige os animais em suas ações ; mas ~ad~ ~m, a _sua maneira,
à categoria de ficyão, a idéia, correlata, fica por isso desacreditada. A
configuração das figuras e dos movimentos recusa toda noção de impetus. determina a natureza ou fixa a extensão deste prmc1pio~ Estao d~ acordo
A oposição homem/animal fica mais radical, porém esta dualidade não Kobre a palavra, mas as idéias que vinculam a ela sao essencialmente
passa mais por dois tipos de juízos, correlatos de dois tipos de alma: ela diferentes." . .
resulta um caso particular da dualidade metafísica alma/corpo. A confusão podia, no entanto, reduzir-se a u~a ~lternatlva: ou ~ ~~s-
li nto era um "começo de conhecimento", embora privado de refle.x~o e
A concepção cartesiana não suprime a representação oposta, mas a ndquirido por experiêncía lógica, como pensava prin~ipa~ent_e Condillac;
marginaliza: ela será responsabilizada pelo animismo, sob suas formas 1 dava nome a um princípio especial rival da mtehgênc1a. t ~í que
variadas, e elevada a doutrina, pela medicina neo-hipocrátíca e stahliana. ~;~a:e:e, na Inglaterra e na Alemanha, um regime distinto do conceito na
Esta é a situação geral l)O momento em que Buffon vai instituciona- Ft·nnça. hi tá · ar o
lizar o tenno: ou o insti!ltO é pensado, como o efeito particular de um Observa-se, na Alemanha, tendência muito prec?ce ª- po~ s~
tipo de alma, ou recusado como motor especial; nos dois casos, é negado conceito em princípio, sendo a conseqüência disto uma' mflaçao de ~~tmtos.
como princípío. Neste sentido, as concepções animista e mecanicista refor- Isto pode ser visto principalmente em H. S. Reimar,. que, em suas . .serva•
çam-se paradoxalmente para economizar um princípio autógeno. O aconte- çiJes Físicas e Morais sobre o Instinto dos Animais (17~0), ~ultip~ca ao
cimento decisivo que Buffon encarna é a necessidade finalmente sentida Infinito os instintos, instituindo um uso selvagem do conceito, nao hesitan~o
de postular um princípio próprio, apto a dar conta da "economia anúnal". 0111 postular tanto instintos guanto atividades ou modos de comporta~en º;
S precisamente a descoberta desta economia especifica, enquanto ordem de llsta tentação estava, aliás, no destino do conceito. Na Franç~, porem, .e
rea~dade geradora de uma ordem de racionalidade - uma ciência de " · • t contida pelas exigências das ciências naturais, ~s quais
prov1sonamen e d rd d .· cipal
natureza animal -, que exige a individualização de um princípio motor, <.:uvier dá seu método. A partir desse momento, a • ua 1 a e pun.
que quer, por conseguinte, ser denominado. O instinto deixa de ser uma Instinto/inteligência é fürnda. Cuvier lí~a o desenvolvm~ento proporcional
ficção inútil, como pensavam os cartesianos, a partir do momento em que clns duas faculdades à escala taxonôm1ca dos seres vivos, segundo sua
a economia animal emerge como algo diferente de urna extensão indiferente uurncterística anatomo-funcional. . . _
da física; ou, então, se existe uma física animal, o instinto é seu novo Curiosamente esta dualidade adquirida liga-se a uma mspiraçao ~ec~-
princípio. Isto não é, porém, uma reativação pura e simples do velho ani- nicista na tradicã~ cartesiana. Em Cuvier, o instínto compara o.s am~a1~
mismo. O instinto não é um princtpio abstrato: ele é lido no comporta- 11 "sonâmbulos< mas este é um princípio específico. Aqu_?le que c~ntribu1
mento animal, como a expressão de sua teleologia imanente. Se o instinto mais que qualquer outro para vulgadzar esta tese no seculo XI~ , Fl?u•
é requisitado, portanto, é para dar nome a esse telos funcional que o natu- n.ms, discípulo de Cuvier, resume, em 1841, ?nd~ ~e :hegou com ~so:. A
ralismo buffoniano permite exibir. · leta oposição separa o instinto da mteltgencaa. Tudo, no mstmto,
6mais
cegocomp . , ·a, e• e1e r1vO, condicional
. 11genc1
necessário e invariável; n1do, na mte _ . .e
O naturalismo do século XVIII, contudo, herda do cartesianísmo irre-
dutível desconfiança. :e como se o instinto ainda fosse um hóspede incô- modifi~ável •. Isto é expressar com bastante clareza que a concepçao mstin-
modo, que é preciso receber bem, como postulado da economia animal, lunlista chegara a uma fixidez comprovada. _ .
mas ao qual convém dar a entender que poderia ser despachado. Em Não é por acaso que, no âmbito de sua concepçao transformista, La-
Réaumur, o termo não aparece originalmente, mas num trabalho sobre moi·ck , desde o m· ício
· do século XIX • opunha-se nao menos . claramente tà
insetos onde, poste..riormcnte, se imporia mais. Isto significa que ainda hípóstase de um princípio chamado instinto. Para ele, ~es1gnava-se por, es e
wrmo um fenômeno dinâmico: a aquisição de um hábito, pela emergencia
INSTINTO E PULSÃO 123
122 PAUL-LAURENT ASSOUN
tlnrtir de Buffon, superando o duplo obstáculo do animismo antropomór-
d~ n~vas_ ne~si~ad_es, resultantes de mudanças circunstanciais. A oposi- llco e do mecanismo cartesiano.
çao mtchgênc1a/mstmto dissolve-se, então, novamente, mas desta vez na - Desde sua introdução, o termo é assinalado como polissémico, pela
escala dos se:es vivos, adaptada à dinâmica da adaptação. Embora esta diversidade dos fenômenos que constituem suas referências semânticas.
contestação nao tenha afetado o progresso da temática do instinto flores• - A concepção que embasa a problemática do instinto continua, por
ce~t~ no século XIX, convém assinalar esta separação, que, em' última muito tempo, a ser flxista: o evolucionismo, tentativa de dinamiz;ar o
analise, ameaça toda a teoria do instinto de uma tentação flxista. 1once ito, encontra nele conotação fixista que resistirá a seu uso.
. ~ rev~luç_ão darwinista, última etapa da complexa gênese que conduz - Nascido numa problemótico integrada às ciências naturais, o termo
a 1dé1~ ~e mstmto até o local onde Nietzsche e Freud a receberão. modifica tende rapidamente a ultrapassar este âmbito inicial, que garantia ao con·
~el~ ult ima vez, e de modo decisivo, a problemática conceitual onde 0 , eito a circunscrição de sua extensão. O desenfreado processo de metaforí•
msti~t~ está . coi_nprometido. Sua contribuição sobre este ponto preciso 111çiio ~ que difunde o conceito nas esferas ideológicas excêntricas ao
consistiu em indicar a maneira de superar a antinomia entre uma co discurso inicial dos naturalistas: principalmente a ética e a estética.
a fix1s
ç~o . t.ª d o 1._nst1_nto
. (na linh a de Cuvier) e uma concepção transformista,
ncep-
49. V. Grappin, Pierre. La Théorie du Génle dans le Préclassicisme
sem teoria do ms.t1~to (na perspectiva de Lamarck). O instinto darwinista Allemand, PUF, 1952, principalmente o cap. III.
aparec~ como atividade que se modilica sob a influência das variações 50. Op. cit., p. 119.
determmadas pela seleção natural. 51. V. Grappin, op. cit., cap. IV.
Com o ?ª~wlnismo, a idéia proteiforme de instinto muda então de 52. Andler, Charles. Nietzsche, sa Vie et sa Pensée, t. I (Les Précur•
for~~ pela ultima vez, mas é para alcançar, desta feita, a categoria de ~~urs), p. 43.
aptidao, conectada com a dinâmica da evolução. 53. Pode-se apreender com muita precisão o regime e a função do con•
Pode-se julgar, por esta evocação da gênese do conceito de instinto , cito de Trieb nas Cartas Estéticas de Schíller. A palavra aparece na qu arta
que camadas de_ sentido depositaram-se sucessivamente sobre O p r6pri~ 1"ria, onde é dito que "para que se possa contar com uma conduta moral
term?'. quando Nietzsche e Freu(l vão apoderar-se dele. Antes de utilizá-lo, do homem, com tanta certeza quanto com efeitos físicos, é p reciso que a
mod1f1cando•o profundamente em relação à função que vão fazê-lo preen• 1,1ti ral tenha, nele, se tornado natureza e que, por seus it)stintos, o homem
cher em suas problemáticas próprias, é esta herança confusa que assumirão, IA sejo levado a agir como só um caráter moral pode íazê-lo sempre· (p .
apenas pelo fato de que estas camadas semânticas permanecerão coladas à 117). O instinto representa, portanto, o papel de um verdadeiro esquema,
ferramenta conceituai, vestígios de seus antigos usos. A limpeza de uma 110 dotar de sensibilidade o caráter moral. Este é, pois, o rem6dio para a
ferr~enta con'Ceitu~l não é anterior a seu novo uso: o sentido é que se /111rbárle, que consiste em ridicularizar a natureza e em sacrificar o natural
mod1í1ca p~lo pró~r•o uso. Este paga, contudo, inevitavelmente, a dívida 11m si aos princípios da arte; mas não se deve desembocar no sacrifício dos
~~e ~ontra1 a . partir do mom,e?to em que se apossa de um conceito que l'tlnclpios da ar te à natureza, o que se chama selvageria. Sendo o civilizado
!ª foi usado: mteg~ar os vestig10s deste uso ao novo é, para uma herança 11c1uele que • faz da natureza uma amiga·, respeitando sua liberdade, o
mtelectual, a maneira de pagar as despesas ideológicas de sucessão l111tinto constitui o laço sagrado entre natureza e moral. Eis por que,
Assim, o duplo erro, a nosso ver, seria, por um lado, ignorar ·0 peso 1 ontra a selvageria e a barbárie, duplo sintoma da decadência moderna, a
~esta herança; por o~tro, comparar imediatamente todo uso de uma temá• r1 lucoçiío estética conta com os instintos, ao mesmo tempo que os eleva,
!1ca. a S'eus usos anteno_res. E~ outr~s palavras, o lugar central da noção de ult ra passando o estúdio informal (selvagem) dos blinder Triebe (instintos
mstmto nas problemáticas me tzsch1ana e freudiana não autoriza em abso• 1 rgos) (p. 123) que exprimem • a violência cega da naturez.a •.
~uto, a rotulá-las de "irracionalistas•. Este empréstimo não as for~ a entrar Na oitava carta, este papel se precisa : Schiller ressalta aí que, para
1pso facto na grande família das teorias do Instinto. Mas não deixa de ser 111ccncher sua função de verdade, a razão deve virar vontade, isto é, força
~erdade que, ao mobilizar o termo, situam.se em relação a esta problemá- (Kra/t) , o que supõe que "ela estabeleça como seu representante, no campo
t1c~, ~construída com o pensamento filosófico, e que só se calcula sui. contri- !IM aparências, um instinto; pois os instintos", precisa Schiller, "são as
bu17ao se relacionada principalmente à gênese do conceito no século e 1\nlcns forças motrizes no mundo sensível" (p. 129). Esta é então a pri·
meio que o precede. tt11,1t·n definição dos instintos como einzigen bewegenden Kriifte in der
f?eve-se, ~ortanto, ter em roente o balanço desta história da palavra ,•111p/inden Welt. Pode•se, portanto, concebê-los como verdadeiros esquemas
e da idéia, a hm de preparar-se para entender a herança e sua transgressão III0l0res.
e ver emergir uma nova função na economia de um conceito rotulad~ l! no início da décima segunda carta, todavia, ao introduzir a famosa
noutro tempo e espaço: 1ll•tlnção, que Schiller produz a definição nominal. Trata-se de forças
• - A_ problemática centrada no conceito e conotada pelo termo instinto <Kriifte) que • como nos impelem a realizar seu objeto, são chamadas
fo1 constituída no século XVIII, no discurso dos naturalistas franceses, a
125
tNSTlN'IO E PULSÃO
124 PAUL-LAURENT ASSOUN uão inesgotável é sua
onstrou quão forte ela é, q
1 • 1:..
.-~ta natureza dem d ( ) •
ndequadamente de instintos · (p. 167). Preciosa definição de um concolto exnpre renova a · · · ·
1 undidnde produtora s Obras
aparentemente tão impressionista: os fastintos são die Krii/te, die uns a11
ó5, Op. ci_t., p. 31. 3 4 introdução aos 3,• e 4.º vols. das .
treiben, ihr Obiekt zu verwicklichen. Combinada com a formação anterior.
pode-se dizer que se trata de uma pressão que traduz em móvel a neceSlll 66 Op. c1t., III, PP· e ' B
67: Tones, op. c(t., l, 31. Este é o objetivo, a p artir de 1845, da er-
dade no homem, cuja finalidade é ficar efetivo em nós, adquirindo sua 68. Tones, op. c1t., l , 45,
objetividade através dos móveis anteriores. 1 Physikalischc Gcsellscliaft.
Schiller distingue, assim, dois instintos fundamentais: o que tendo • uu r . V infra cap. III, p. 151. . os à nossa obra Introduction
tomar atual aquilo que é necessário nele, dando-lhe materialidade sensível, 67~· p~~a a a~álise deste modelo, remetCcemm efeito é impressionante o
e o instinto que tende a submeter à lei necessária o que está fora dele, · . d· e Ed.- Payot.
/'f>J1istémolog1e Freu ienn '.
· ' . • t hiano de
[ilosófica do conceito n1e zsc .
impondo formas por ele - ou seja, o instinto sensível e o instinto formal . , 1 entre a sobredetcnmnaça~ . F d - o que não lhe suprime
,.,111rns e . - •entíhca em reu . if con-
Esta distinção permite a apreensão dos critérios essenciais que servem to e sua neutrahzaçao c1 . bo dá-la no plano c1ent ico,
111111 11 • ~~ mas obnga a a r
para caracterizar os instintos enquanto tais. Em primeiro lugar, a fonte, 1 ,,11, sobredetermma.,...o,
que consiste no tipo de existência, física ou racional. A fonte é, portanto, h11 me o desejo de Freud.
a Existenz, modal idade existencial da Natur humana. Em segundo lugar, a
esfera de extensão (Gebiet) - limites cio homem finito ou infinidade: tratn
da extensão fenomenal, esfera de aplicação do aspecto da Natureza humana
concernida. Em terceiro lugar, o papel ou a função - inserção da matéria
ou libertação do homem, que constitui sua teleologia. Por 6ltimo, o ob;eto,
um exigindo a mudança da realidade e outro a imutabilidade da forma,
um criando "casos" (Fãlle), outro leis (Gesetze).
Schiller p ostula, ao mesmo tempo, uma distinção desses dois tipos de
instintos e uma reciprocidade (Wechselwirkung) de tipo de atividade
(Wirksamkeit) . Isto é que toma po'ssfvel e necessário um terceiro, o lnstin•
to de jogo (Spieltrieb) (p . 191), que limita reciprocamente os dois tipos de
instintos, que aspiram respectivamente à receptividade do objeto e à sua
· produção (v. a décima quarta carta). Temos aí o instinto supremo, na
medida em que ele combina, como duas modalidades de sua realidade, a
aptidão para o goio do objeto e a independência em relação ao mesmo. O
fim estético do instinto revela-se assim: ele tem por função exibir a possi•
bilidade do móvel, como síntese do determinismo sensível e da liberdade
moral.
54. Cf, carta de 4 de junho de 1799 a seu irmão.
55. Andler, op. cit., p. 69.
56. Ibid,
57. Op. cit., pp. 340 e ss.
58. Expressão newmaniana, mas de inspiração emersoniana, para
designar o conhecimento sensível e intuitivo do imediato.
59. Op. cit., p. 340.
60. Op. cit., p. 340.
61. Comparar o estilo das Extemporaneas com o das Caracterfsticas
ou dos Sinais dos Tempos.
62. O encontro só se deu em 1854. V. Gans, E. ruchard Wagner et la
Pensée Schopenhauerienne, pp. 17 e ss.
63. Oesammelte Schriften und Dichtungen, III, 68.
64. Op. cit., p. 36, V. L'Art et la Révolution, trad. ír., Ed. Opale, p.
PSICOLOGIA NIETZSCHIANA E PSICANÁLISE.. . 127
2.
1ft >MOLOGIA DAS "PSICO-ANALISES":
1 Mln'AFORA OU/MICA

fl ora quem quer confrontar a psicologia nietzschiana com a


PSICOLOGIA I' lcunálise freudiana, visando a determinar suas natureza e fun-
1,1io respectivas, uma metáfora comum pode servir de ponto de
NIETZSCHIANA 1,~lcl'ência: a da química. Existe aí mais que uma imagem: sua
E 111 11pria insistência indica que é preciso enxergar aí um verda-
1lrlro indício sobre a natureza epistêmica da "análise do espí-
PSICANÁLISE dtu" baseada na teoria das pulsões.
FREUDIANA A analogia se impõe com o advento do projeto psicológico.
1, pl'eciso ver uma indicação significativa no fato de que o
pdmeiro aforismo de Humano, Demasiado Humano se intitula:
"Ouímica dos conceitos e dos sentimentos".2 Trata-se dos "sen-
llrncntos morais, religiosos, estéticos, assim como se todas as
1•1raoções (Regungen) que sentimos nas grandes e pequenas rela-
i,ocs da civilização e da sociedade, e mesmo na solidão."3 Aco-
111cte as "questões relativas à origem e aos começos." l!, portanto,
Após ter apreendido O • , • 111110 genealogia, mas à maneira própria da química, que trata
entendem pelo termo inst. ~ue, ong1nalmentét Nietzsche e Freud
tlu origem dos corpos e de suas transformações, que negligencia
rio, convém irrvestigar a ';o;m~ued lhes serve_ de objetivo primá- pol' natureza a metafísica.
correlatamente para questionar / a~reensao que se constitui
objeto. 0
uncionamento e as leis deste 12 notável, aliás, que em 1872 Nietzsche falava das "trans-
íormações químicas da natureza inorgânica" como de "processos
urt istas" ou "papéis miméticos que uma força representa", mas
Num certo momento Nietzs h d,
sua hermenêutica dos in~tintos·
e batiza a si mesmo de "o
~I; ~• re~lr_nente, um título à
: . a 1~entü1ca como psicologia
dl) tal modo que ela pode representar vários. 4 Esta plasticidade
111.·tística é a que ele decifra daí em diante na natureza viva e
vez, só concebe a ps,·ca 't· Pt'imeiro ps1c6Jogo " · p reu d , por sua humana, isto é, ético-estética. As unidades atômicas são seus
na ,se como aquel h l'Onceitos (Begrijfe) e sentimentos (Empfindungen).
~ c1en_c1a ermenêutica
•A •

das J?Ulsões, cujo regime teórico .


}elamente. ª metap icolog1a descreve para-
5
Uma reflexão do Nachlass,* feita na época de Aurora, dá-nos
Interessante indicação sobre a ligação da química intelectual com
A psicologia nietzschiana e a . ár uma teoria química (no sentido próprio) do ser vivo: "No mundo
portanto as formas de . ~s1can ise freud iana constituem químico reina a mais viva percepção da diversidade das forças.
apreensao respecf .
para tornar possível um saber d . . ivamente mfonnadas Mas um protoplasma, enquanto diversidade de forças químicas,
- d
luçao o mstmto _ 0 que -
o estatuto do conceito de . . supoe a evo- tem uma percepção global imprecisa e indeterminada de um
à categoria de objeto de b rnstinto, doravante promovido objeto estranho," 5 Esta fragmentação do campo da vivência de-
por tanto, que deve ser es~:b:rJee'dde diagnóstico. E a este nível,
ci o o confronto. 1 • Nachlass: espólio literário; conjunto dos fragmentos deixados por
Nietzsche. (N.R.T.)
128
PAUL-LAURENT ASSOUN
PSICOLOGJA NIETZSCHIANA E PSICANÁLISE... 129
verá ser levada em consideração por uma espécie de "psicoqul
mica", ou, tomando-se o termo em sua generalidade autên1k 11 1111111'l!za e leva para seu laboratório? Porque semelhante ana-
uma "psico-análise"! 111 é, de um ponto de vista importante, realmente consistente.
, h 1,intomas e manifestações mórbidas do doente são, como to-
Um estranho aforismo chegará a ligar a ação sobre a mo111I
à "modificação da constituição química do corpo".6 A conall lti• us suas atividades psíquicas, de natureza altamente com-
tuição ideativa, entretanto, é que visa a transformar a químlc-n t•lt ,rn; os elementos destas combinações são, em última instância,
das representações: estas são, aHás, forças análogas às forçri 11 111oções pulsionais (Triebregungen) ."11 A psicanálise, portanto,
corporais que se refratam nelas. h'Lllmpõe combinações, reduz os conglemorados de sintomas a
11'1 elementos constitutivos, os movimentos pulsionais, átomos
Atravessando A Genealogia da Moral, a inspiração químk11
,111 química mental, "assim como o químico separa o elemento
figura assim explicitamente em A Vontade de Poder. Por um
lumlnmental de um sal, o elemento químico no qual ele se
lado, a química7 demonstra que " não existe nada que não scjn
1111 nura irreconhecível na combinação com outros elementos."
transformável": ela, que estuda o fluxo e a transformação d11~
qualidades, figuta o devir universal que serve de meio fragmon Vê-se que aí existe mais que uma imagem. 12 Freud deseja
tado à Wi/le zur Macht. Por outro lado, representa um tipo dr vl~ivclmente fundamentar a analogia; ele classifica de "justifi-
ordem em devir que excede toda legalidade - no que podr 111d11" (berechtigt) "a comparação da atividade médica psicoa-
servir de deciframento para as " relações de força". "Evito", 11111f1ica com o trabalho químico". 13 Tem, entretanto, o cuidado
escreve Nietzsche neste sentido, "falar em 'leis' químicas: islu ,h• precisar que "a comparação com a análise química encontra
tem um ressaibo moral. Tr.ata-se antes do estabelecimento abso ,,ui; limites no fato de que, na vida psíquica, temos que operar
luto de relações de forças" (Machtverhaltnissen) .8 , um aspirações que supõem uma compulsão à unificação e à
Pode-se considerar que ocorreu, conforme a especificação do 111Hilo", de sorte que, apenas isolado, o elemento t~nde a recons-
projeto nietzschiano, um deslize na maneira <le conceber a na- 1ltII il· nova síntese.14
tureza e o sentido desta química moral, na medjda em que 011 fsto equivale a dinamizar o esquema químico: a química
átomos-representações fotam mais e mais dinamizados em forças, p11h:1ional é uma química das forças. Seus elementos são na ver-
numa perspectiva boscovitchiana.9 Assinalemos, contudo, para ilude dotados de uma tendência própria: a anáUse encontra então
nosso propósito, a perenidade da referência química, que serve 11 limite da tendência imanente à síntese, mas ela deve precisa-
para identificar o projeto analítico e dinâmico. 111c11te levar até este limite a exigência epistêmica, que é de
Se nos voltamos para Freud, parece que a referência à qaí. 11ntureza fundamentalmente analítica. -
mica preenche um papel princeps não menos explícito. A referência à química, fora da definição da "psicoanálise",
O próprio termo "Psychoanalyse", introduzido em 1896 para 1·~tú onipresente em Freud.
designar a identidade da investigação freudiana, suplantando Uma passagem da Introdução do Narcisismo fundamenta
definitivamente os termos análise psíquica ou psicológica,'º é muito curiosamente a aproximação: "Devemos lembrar que todas
forjado por analogia com a análise química. Isto é o que Freud 1111 nossas concepções psicológicas provisórias devem ser um dia
formula com _precisão, num escrito de 1918, Caminhos da Te- 1::11ubelecidas no solo dos substratos orgânicos. Parece então
rapia PsicafU1lítica: "O trabalho pelo qual fazemos chegar ,) Vl)rossímil que haja substâncias e processos químicos particulares
consciência do doente o conteúdo psíquico recalcado é po1· nós que produzem os efeitos da sexualidade e permitem a perpetua-
chamado de psicanálise. Por que 'análise', que significa decom- t;no da vida individual na da espécie. l! esta verossimilhança que
posição, desagregação e faz pensar numa analogia com o traba- devemos levar em consideração, substituindo as substâncias quí-
lho do químico em cima das substâncias que ele encontra na micas particulares por forças psíquicas particulares." 15 Este texto
t1>sencial significa claramente que os elementos psíquicos que
128
PAUL-LAURENT ASSOUN
PSICOLOGIA NIETZSCHIANA E PSICANALISE... 129
verá ser levada em conside -
mica", ou, tomando-se o t r~çao por uma espéci_e de "pskn11 111rcza e leva para seu laboratório? Porque semelhante ana-
uma " ps1co-a11álise"!
. ermo em sua genera ll d ade autê1111
,1111 6, de um ponto de vista importante, realmente consistente.

à
ym ~s.tranho aforismo chegará a li ar
modificação da constitu· -
-
, _g a açao sobre a
1, 1dntomas e manifestações mórbidas do doente são, como to-
111111 1•• ns suas atividades psíquicas, de natureza altamente com-
tu · - 'd ·
tçao i eativa entretanto içao, qu1m1ca
. do corpo "6 . A 001111 1 htllll i os elementos destas combinações são, em última instância,
das ' ' e que visa a transf
representações: estas são 1" f ormar a qui'.11111 111oções pulsionais (Triebregungen) ." 11 A psicanálise, portanto,
corporais que se refratam neÍas~ rns, orças análogas às foi\ ,1 rumpõe combinações, reduz os conglemorados de sintomas a
. Atravessando A Genealo ia da . . w, elementos constitutivos, os movimentos pulsionais, átomos
figura assim explicitamente g A ,~oral, a mspuação quím1l• ,11 química mental, "assim como o químico separa o elemento
!ado, a química demonstra e:; " - ont~de de Poder. Por 11111 l1111damental de um sal, o elemento químico no qual ele .se
transformáveI" ·7 ela q q d nao existe nada que não ~OJ" 1t11•1111ra irreconhecível na combinação com outros elementos."
. · , ue estu a O flux · ,.
qualidades, figura o devir . o e a transformacão chi Vê-se que aí existe mais que uma imagem. 12 Freud deseja
tado à Wille zur Macht puntversal que serve de meio ft:agme11
· or outro lado vhdvelmente fundamentar a analogia; ele classifica de "j4stifi-
ordem em devir que d . ' representa um tipo d 11ttfa " (berechtigt) "a comparação da atividade médica psicoa-
• . exce e toda legalid d
servir de deciframento para a " - a e - no que p0dl' 11tilítica com o trabalho químico" .13 Tem, entretanto, o cuidado
escreve Nietzsche neste 'd s "relaçoes de força". "Evito'' tio precisar que "a comparação com a análise química encontra
te senti o, falar em 'J . , , '
m um ressaiba moral. Trata-se . eis quunicas: istu •ous limites no fato de q ue, na vida psíquica, temos que operar
luto de relações de forças" (M rtes ~? e~tabelecimento abso l om aspiTações que supõem uma compulsão à unificação e à
Pode-se COhsid ac tverhaltnissen) .ª
. erar que ocorreu f fusão", de sorte que, apenas isolado, o elemento tende .a recons-
proJeto nietzschiano, um deslize ;a con or~e a especificação do tituir nova síntese.14
tureza e o sentido desta quími maneira de conceber a na. Isto equivale a dinamizar o esquema químico: a química
átomos-representacões for ~a mor~!, na medida em que os
• am mais e ma1s d' · d · Jrnlsional é uma química das forças. Seus elementos são na ver-
numa petspectiva boscovitchiana 9 • mam1za os em forças, dade dotados de uma tendência própria: a análise encontra então
nosso propósito, a perenidade d . Afss;n~lemos, contudo, para o limite da tendência imanente à síntese, mas ela deve precisa-
P ara iden t;.c• Hicar o projeto anal'f
a re erenc1a quínf
d' tca, que serve
S t ico e
A •
tnam1co mente levar até este limite a exigên~a epistêmica, que é de
. e nos voltamos para Freud . natureza fundamentalmente analítica.
mica preenche um papel . . ' pa~ece que a referência à quí- A referência à química, fora da definição da "psicoanãlise",
0 próprio termo "P phnnceps nao menos explicito.
.
d es1gnar syc oanalyse" int d 'd está onipresente em Freud.
a identidade d . . ' - ro uz1 o em 1896 para Uma passagem da Introdução do Narcisismo fundamenta
def · ·
_m1tivamente os termos anáiis
ª mvestigaçao , .
freud·
tana, suplantando muito curiosamente a aproximação: "Devemos lembrar que todas
forJado por analogia com a anális: ps1_qu_1ca ou psiwl6gica, io é as nossas concepções psicológicas provisórias devem ser um dia
formula com precisão . qu1m1ca. Isto é o que Freud
. p . . ' num escnto de 1918 C . estabelecidas no solo dos substratos orgânicos. Parece então
rap1a stcanalitica: "O trabalho , . aminhos da Te- verossímil que haja substâncias e processos químicos particulares
consciência do doente o conteúdo pe~o ~ual fazemos chegar à que produzem os efeitos da sexualidade e permitem a perpetua-
chamado de psicanálise p 'ps1q_U1co recalcado é por nós
· - desagregação e · fa or que análise' ' que significa · • . decom- ção da vida individual na da espécie. É esta verossimilhança que
pos1çao, devemos levar em consideração, substituindo as substâncias quí-
lho do químico em cima ~fse:s~ t~u~a analogia com o traba- micas particulares por forças psíquicas particulares."15 Este texto
u s ancias que ele encontrá na
essencial sig!)ifica claramente que os elementos psíquicos que
130 PAUL-LAURENT ASSOUN PSICOLOGIA NIETZSCHI ANA E PSICANÁLISE ... 131

constituem o objeto da psicanálise não passam de substitutos O INSTINTO COMO OBJETO PSICOLóGICO
provis~rios dos elementos básicos de uma química futura que EM NIETZSCHE
ocupa_na o seu l~g~r. A_ analo?ia da psicanálise com a química
é derivada, em ultima instância, do fato de que já na -investl- Com Humano, Demasiado Humano, inaugura-se um novo
ga~ão a_nalític~ do psiquismo fotervém a química da qual 11 regime conceituai do instinto. A própria obra, "monumen to de
ps1canáltse seria a propedêutica. uma crise" ,2º constitui, segundo o próprio Nietzsche, um corte
cm relação à produção anterior. O que, no entanto, interessa
À luz desta advertência, tem-se que interpretar stricto sensu observar aqui é como o termo instinto é associado a um novo
as declarações de Freud relativas à aproximação científica dn contexto. Deparamos com uma insidiosa dificuldade ligada ao
psicanálise e da química. Assim, em Psicanálise e Teoria da estatuto do próprio conceito: a inovação no uso do termo difi-
Libido, o caráter da psicanálise como "ciência empírica" é afir- cilmente se distingue da espantosa perenidade da p rópria temá-
mado em relação com "a física ou a química". 16 Isto é o que tica. Convém estar atento quanto a isso, pois, por pouco que o
ele repetirá até o Esboço de Psicanálise, onde se ditá que "os conteúdo do conceito pareça mudado, o uso que o sustenta
P:º~essos de que se ocupa (a psicanálise) são em si tão incognos- impõe uma inflexão notável que afeta em última análise o pró-
c1ve1s quanto os das outras ciências, físicas ou químicas."17 prio conteúdo: seu acesso à categoria de objeto psicológico.
Assim, tanto Nietzsche quanto Freud consideram-se químicos E neste momento que .o discurso nietzschlano é reivindicado
e, além do mais, com a consciência de manipular substâncias como aquele de um psicólogo-historiador dos sentimentos mo-
explosivas. B edificante fazer com que se ouça o eco de uma rais: a "observação psicol6gica"21 apresenta-se como "uma quí-
declaração de Nietzsche numa declaração de Freud, enunciando mica das representações e dos sentimentos morais, religiosos,
novamente, como numa repetição, a mesma idéia. cstéticos."22 Esta abordagem "moralista" do humano traduz-se
por uma nova modalidade posicional da crítica. A partir deste
Lê-se em Miscelânea de Opiniões e Sentenças, de Nietzsche: momento, o discurso nietzschiano se apresenta ostensivamente
"A utilidade que traz em si a busca incondicional do verda- como uma análise que pretende ser fria e serena. Esta mudança
deiro é incessante e novamente demonstrada ao cêntuplo, de reivindicada da atitude crítica é o indício de uma transformação
so:te _q ~e se deve suportar as coisas nocivas triviais e raras que da relação com a realidade: emerge uma nova categoria, a do
o md1v1duo pode ter que suportar por ela sem vacilar. Não se Menschliches. O conjunto dos fenômenos humanos aparece co-
pode evitar que o químico, nos seus experimentos, se envenene mo o material de observação e de diagnóstico que constitui o
e se queime de vez em quando."l~
objeto de uma avaliação fria.
Lê-se nas Observações Sobre o Amor de Transferência de O diagnóstico muda assim o modo de intervenção. :E como
Freud: "O psicanalista sabe que trabalha com forças explo; ivas bC o conjunto dos elementos da crítica anterior, ao reunir-se,
e que deve operar com o mesmo escrúpulo e a mesma consciên- se relacionasse com uma esfera antropológica imanente, consti-
cia que o químico. Mas quando é que um químico foi proibido, tuindo o objeto de uma "ciência" da moral. Isto, porém, às
por causa do efeito delas, de lidar com substâncias explosivas custas de uma mudança de plano cuja importância deve ser
indispensáveis, por causa de seu caráter perigoso?"19 acentuada, pois afeta o estatuto do instinto.
. Esta . é a anál_ise profunda do psicanalista e do psicólogo O que O Nascimento da Tragédia, as Extemporc2neas e o
metzsch1ano, mampuladores daquelas substâncias explosivas que conjunto das produções da época anterior apreendiam eram as
são os Triebregungen. Agora, temos que confrontar a natureza manifestações na ciência e na arte, na civilização e na história,
dessas substâncias. das forças originais que derivam em última análise da natur.
_ _ _Ec, - - - - -

132
PAUL-LAURENT ASSOUN
PSICOLOGIA NIETZSCHIANA E PSICANALISE... 133
A realidade humana era abo d d
q~e se manifestam atravess:n~o~a atr:és d~s fo?s instintu11l1 forom encontradas por um método severo" .24 Daí seu gosto pela
diante, é a camada das "re ' p - assim d1zer. Daí cm "111te de aguçar uma máxima", isto é, a observação psicológica.
emerge em primeiro fano· pr~se~taçoes - e sentimentos" que A que se refere, entretanto, esta observação, senão a um
desta psyché, objeto de u~a os . in~tJ~tos sao abordados atravd1 t10111plexo material de representações, sob as quais ela descobre
é doravante reivindicado E ps1co og1a:. eis_ por que este termo o trabalho do instinto simples, que consiste em "aproximar-se
Entendamos . . m suma, o mstmto se " humaniza''. do algo ou desviar-se de algo", acompanhado, necessariamente,
- que a realidade humana é J •
nao só atravessado pelos instintos . o Pano imanente, do "sentimento de querer o vantajoso (das Forderliche), de evitar
do trabalho dos instintos N- natur~ts, .mas espaços próprio u prejudicial" (das Schadliche), o que supõe " uma espécie de
ceder da natureza mas .d ao que os instintos cessem de pro- npreciação pelo conhecimento do valor da meta".25 Aí está o
- , oravante entre fo d
expressao, emerge uma estrutura. ' "f t hO co gera or e li fulo antropológico simples e primordial, que se assemelha muito

çãq naturalista, sem abolir-se ~ ::. o umano". A conota- no amor-próprio de La Rochefoucauld. Porque, como dirá Nietzs-
nante antropopsicológica. ' p if1ca-se por uma determi• che mais tarde, "o egoísmo não é um princípio, é o único e
Discernimos agora a mescla d . . exclusivo fato ." 26
dade da problemática nietzsch. e continuidade e descontinul- Tudo parte daí. Pode-se reconstituir o conjunto da realidade
em 1876-1878. De um lad iana,. no contexto que se instala psicológica a partir deste instinto egoísta, desdobrado em instin-
se encaixa naturalmente o, o conJunto das análises anteriores to altruísta (unegoistisches Trieb ),27 embora, como ele dirá mais
na nova psicologia, d
mu dou a postura teórica A 'ti ' e outro, porém tnrde, "as palavras 'instinto altruísta' soam a meus ouvidos
da de vivência e de h;b't cn ca centra-se doravante na cama~ romo 'ferro de madeira.' •>2S O próprio instinto social não é
tência e forneceu um: 1 o moral huma~o que tomou consis- 6Cnão uma extensão do instinto de conservação individual. "Por
nietzschiana. nova homogeneidade à investigação ouns relações com outros homens, o homem adquire uma nova
Observa-se assim o estreitamento d - . espécie de prazer além daquelas sensações de prazer que extrai
em torno da dupla instinto egoísta/· a ~uestao- geral do instinto t.le si mesmo; desse modo ele amplia de maneira sensível o
nhece-se aí a contribuição mstinto nao egoísta. Reco- campo do prazer em geral.' 129
da trndição moralista fra~c~::a esta nov~ concepção de instinto, Percebe-se a conseqüência moral desta primazia do princípio
cauld. Neste último realm t ' em particular de La Rochefou- Instintivo: "Todas as 'más' ações são motivadas pelo instinto
permite decifrar int~iramen~: e, oi:damor-próprio é a chave que de conservação, ou, mais exatamente, pela aspiração ao prazer
altruísmo. A nova abordagemª ~ a mh'oral, sob a máscara do u pela fuga ao desprazer do indivíduo; ora, sendo motivadas,
·á
tir em descobrir no jogo d ruetzsc 1ana do instinto
· · consis-
A •
elas não são más."3º Revela-se a nova função do conceito de
timentos, comportamentos) oast ·ªbarlhenc1as psíquicas (idéias, sen- instinto pela passagem da questão da moral e da sociabilidade
de instintos. 1
ª a O desta dupla fu ndamental para o primeiro plano.
Em que consiste precisamente o t b 1 ? Uma das conseqüências desta evolução é o relativo esgota-
f:i 1:f·.
• •
compreender que ele inverte o métod~a Prtme1~0. é preciso mento da inflação dos instintos. E como se Nietzsche centrasse
parte do "homem atual" 'd d o rco trad1c1onal, que provisoriamente sua investigação na dupla fundamental egoís-
• ..J cons1 era O como et .
cons1uera, por conseguinte . . a erna veritas, e mo/altruísmo, ou melhor, no princípio único da conservação de
como fatos imutáveis "d ' hos ms~ntos daquele homem tardio si (o instinto não egoísta sendo já uma derivação dele), que lhe
. a umamdade" 23 A . 1 .
rica postula, ao contrário o devir d' 1 E ps1co ogia hist6- permite questionar a multiplicidade instintual como outras tantas
absolutas", pondera as ,: ra ica . m face das "verdades expressões desta realidade fundamental . O incontável rebanho dos
pequ~nas verdades sem aparência, que
instintos cinde-se em· instintos egoístas e não egoístas: isto for-
134 PAUL-LAURENT ASSOUN
PSICOLOGrA NIETZSCHIANA E PSICANALISE... 135
nccc ao psicólogo da moralidade um fio condutor na investi,
gação da economia dos instintos. ültima instância toda atividade psíquica é desencadeado pela
!! assim que aparece, na esteira da psicologia recém-instau- representação atual da ação. Bem mais aparentemente, portanto,
rada, a idéia-metáfora de Nachtrieb (literalmente, "rebento pos, com a psicologia e a ética de Theodo1· Fechner, que postulava
terior"; de maneira figurada: instinto derivado). de modo parecido um "princípio de prazer da ação".
Isto pode ser julgado pelas ocorrências do termo em O Anda• É verdade que Nietzsche, como psicólogo do instinto, põe em
rilho e sua Sombra. "O instinto que consiste em querer ter evidência, na esteira de La Rochefoucauld, a relação da ação
apenas certezas neste campo (das coisas primeiras e últimas) é com a representação do interesse imediatamente percebido, mas
um Nachtrieb religioso, nada mais - uma forma disfarçada e relaciona deste modo a abordagem psicológica com uma filosofia
aparentemente cética da 'necessidade metafísica.' " 3 L "Exaltar a hedonista da ação humana, onde Freud só postula um princípio
origem é o Nachitrieb meta/isico que ressurge na concepção da funcional que ele induz da observação clínica.
história."32 "A vaidade como Nachtrieb de um estado não so- Por outro lado, o destino do princípio de prazer freudiano
cial. "33 Nesta repetição do termo revela-se a intuição de um é se especificar como princípio de realidade, por aceitação do
instinto que "dá cria" ott faz brotos florescerem (Schosslinge).34 desvio imposto pelo real à exigência princeps de satisfação. Isto
A psicologia deverá reconhecer, portanto, a ação do instint0 é economicamente traduzido pela transformação da energia livre
através de seus brotos ou rebentos posteriores, metafísicos, reli- em energia ligada. Em Nietzsche, a realidade é aqui somente
giosos ou sociais. Parecido. com o botânico ou o jardin~iro que aquilo que propicia ao prazer egoísta oportunidades de gratifi-
reconhece a ação subterrânea das plantas; a dificuldade, porém, car-se mascarando-se.
advém precisamente do fato de que o instinto fundamental é
uma planta que não mostra a si mesma, mas só através de PULSÃO, UNIDADE METAPSICOLóGICA EM FREUD
rebentos. 35
Aqui se impõe o confronto deste postulado hedonista da Em 1905, em seus Três Ensaios sobre a Sexualidade, o con-
psicologia nietzchiana com o que pode parecer legitimamente ceito de instinto é introduzido por Freud como conceito etioló-
seu homólogo na psicanálise freudiana, ou seja, o princípio de gico. Tomemos nota desta defasagem entre a origem da escritura
prazer (Lustprinzip), em virtude do qual a meta principal da teórica e a adoção do conceito: enquanto o Trieb funciona desde
atividade psíquica consiste em evitar o desprazer e em propor- a origem em Niezsche, como se fosse contemporâneo do projeto
cionar-se prazer. Reconhecido como o princípio essencial de teórico e servisse de imediato para exprimi-lo, em Freud de-
"funcionamento da vida psíquica", com o princípio de realidade corre um importante espaço de tempo36 antes que o concejto
que é sua especificação, a partir de 1911, ele está presente na adquira um papel central explícito.
economia freudiana, todavia, desde a origem. O aparelho psí- É muito mais necessário, portanto, apreender -0 regime e a
quico na verdade é orientado por aquela tática do impedimento função do termo e do conceito no momento em que ele é
da tensão, enquanto introduz um transtorno econômico. introduzido.
Examinada mais <le perto, contudo, a analogia revela uma
Ao contrário de Nietzsche, Freud dá uma definição do termo:
diferença de natureza entre os dois princípios. Em Nietzsche, o
"Pelo termo 'pulsão' só podemos entender, antes de mais nada,
hedõnismo insti-ntivista consiste em relacionar toda modalidade de
o representante psíquico (psychische Reprãsentanz) de uma fonte
ação e de expressão humanas com esta finalidade única e posi-
de excitação intra-somática que corre de modo contínuo (konti-
tiva que é o prazer-interesse. O princípio de prazer freudiano
nuierlisch fliessenden, innersomatischen Reizquelle), diferente-
enuncia mais precisamente que o prazer que determina em
mente de uma 'excitação' (Reiz) que é produzida por excitantes
136
PAUL-LAURENT ASSOUN
PSICOLOGIA NIETZSCHIANA E PSICANALISE... 137
descontínuos e exteriores (verei, l
Erregungen)."31 1Ze te und von aussen kommendc 111ividade encerra seu pequeno instinto, sua alma demoníaca
Para entender esta defini - o . pessoal e intransferível. Em Freud, o Partialtrieb remete a uma
é in troduzida. ça , todavia, convém ver corno efo lulalidade finita que encontra sua base no espaço somático.
Freud parte da oposição biol' . . Assim "o que distingue as pulsões umas das outras e as dota

hvo (Trieb nach Nahrungsauf e:c t


l?gos, entre instinto sexual (G og~:, ~sto _é, adotada pelos bi6-
tstneb) e instinto nutl'i,
põe aplicar ao instinto sexual na tme ou_ fome (Hunger).38 Pro
de propriedades específicas é sua relação com suas fontes somá-
t lcas e com suas finalidades. A fonte da pulsão é um processo
existente num 6rgão e o fim próximo da pulsão consiste no
começando a ser então d'f ; .dermo científico libido que está 11pnziguamento desta excitação de órgão."4º O que limita o nú-
esta libido existe desde a '. uf~ l. o. A -tese freudian a ser á que mero de pulsões parciais é o n úmero de zonas erógenas ligadas,
·- in une.ia e nao tem f . por sua vez, às regiões somáticas, até mesmo aos 6rgãos. Estas
a uruao sexual. Sua demonstra ã por im 1mediat0
na p atologia, isto é, nos desvio o, por_ém, centra-se de imediato formam "um aparelho genital secundário" (Nebenapparate) :41
objeto e à finalidade da _ s (Abirrungen) relacionados ao us pulsões parciais são, portanto, reconduzidas em última instân-
pu1sao sexual e de ·
e neuroses. Só após ter feito .~ _POIS nas perversões cia àquele espaço to pológico específico. Assim, toda pulsão se
poderá ser definida. Não se tr::;e ~tmeráno é que a pulsão liga a um referencial topol6gico, com um objeto correlato (oral,
fortuita de exposição · esta p .· . a1d somente de uma ordem nnal); e, quando uma pulsão se caracteriza por sua finalidade,
d t . umaz1a a patolog· ,
o es atuto freudiano do T .· b E . Ia e reveladorn Freud se esforça para lhe atribuir um referencial somático.42
p atológica ,do objeto e da 'jfn;1id=~er1me11ta~do a vari~bilidadc Essa unidade do conjunto é assegurada pela primazia da pul·
conhecer a natureza e a f - d e _se esta em condições de são genital que íntegra o conjunto das pulsões parciais: neste
unçao o Tneb .
. Observemos, com efeito F . momento, "uma nova finalidade sex ual é dada, para cuja rea-
ce1to biológico de Geschle;//s~e. b re1d partiu apenas do con- lização todas as pulsões parciais colaboram, enquanto as zonas
noção transformou-se em cone~~~ . . travé:. da patologia, esta crógenas submetem-se à primazia da zona genital." 43 A evolução
mudança do conceito deu-se g psicanalitico de Trieb. Esta da libido tem então por efeito diluir a multiplicidade das pul-
o d I- . raças a um conceito . t d'' . sões: unindo-se em tomo da zona privilegiada (genital), a par-
e pu sao parcial (Partialtriebe) . de - ln erme iario,
mo tempo sobre o fato de ue é ~ ve-se entao_refletir ao mes- cialização se dilui. O agir parcial das pulsões converte-se pro-
se anuncia primeiramente n~ d ' nquanto parcial que a pulsão gressivamente em agir-junto (z~sammen wirken); isto significa
o mecanismo do desvio a . iscurso freudiano. E com razão: que, na parcialização, existe em germe a idéia de uma d ivisão
da pulsão: então at1·avés cd1onda e:sencialmente o estado parcial do trabalho.
' o estmo patOJ, · d
propriedade de parcialização é o~ico a pulsão, esta Entre a "perversidade polimórfica" da criança e a sexuali-
duzi-lo. que o anuncia e obriga a intro- dade integrada da genitalidade normal, existe a relação de um
Lembramo-nos que partimos tamb, todo parcializado com outro todo coordenado, mesmo que a
instintos para acompanha d' em de uma diversidade dos parcialização possa sobreviver à coordenação ou se reativar na
tos.39 De imediato contu~oº e itscurso freudiano sobre os instin- regressão.
. sugere uma dife-
. '
rença importante. Em Nietz , h s a aproximação
. ~ verdade também que Freud às vezes insiste no caráter
pluralidade pura é que su s~rie~ um~ d:vers1dade ilimitada, uma anárquico das pulsões parciais : elas parecem dotadas de um
diversidade limitada por n gt . o u~stmto; em Freud, é uma conatus. Parecem operar cada uma por si, sem a menor preo-
parcialização de um todo a _ure~a, visto que se anuncia como cupação com as demais. Existe, porém, em Freud uma espécie
observar aquela tendênc· mstmtu~L._ Em Nietzsche pudemos de astúcia da libido que faz com que as individualidades pulsio-
ia caractenstica à cissiparidade: cada
nais ajam inconscientemente para a coesão do conjunto.
1:,8 PAUL-LAURENT ASSOUN PS\COLOGIA NIETZSCHlANA E PSICANÁLISE.. . 139

l)e onde vem então esta tendência à - nização progressiva, escandido por tipos de organização sucessi-
vém a função da libido Por t d coesao? "É a í que inter- vos. O que se impõe é uma teor ia forte da organização.
fon te comum que é a libido , q ue 1º as as pulsões decorrem da
' , e que e as devem r · · A partir de então é fixada a concepção definitiva, como se
comum, como os rios que se lan . . eumr-se nesta fonte vê em Psicanálise e Teoria da Libido (1923): "O instinto sexual,
lfm texto de 1908 d' 1 çam rnev1tavelmente no mar
iz caramente· deve f 1 . cuja exteriorização dinâmica na vida psíquica pode ser chamada
se:xt.1ais no plural' poi·s " um exame anal't'
· -se ª· ar em instintos 'libido', é composto de pulsões parciais, nas quais pode nova·
sexual é composta de vários com l ico ensm~ que a pulsão
mente se decompor e que se unem progressivamente em orga-
O adjetivo "parciais" d ponentes, de pulsoes parciais."44
· eve, portanto ser e t d'd 1 . nizações determinadas ( ... ). As pulsões parciais particulares
como "partes". ' n en o, literalmente,
tendem primeiramente, independentemente umas das outras, à
satisfação, mas no decorrer do desenvolvimento vão se tornando
Em suas Conferências Freud diz ue " . 41
ça se esgota na atividade d e umaq séne .ª vida sexual da crian-
de puls-
cada vez mais unificadas, centradas." Sem jamais reduzir a
que procuram conseguir prazer ind d oes parciais pluralidade inicial das pulsões parciais, Freud tendeu a norma-
o1.1tras."4S Mais tarde ele íns· t fepen entemente umas das lizar a evolução, pela generalização da noção de organização.
• is e no ato de que el "
nicam entre si numa certa med'd Trata-se menos de uma passagem de uma diversidade pura a
1 ª que uma puls- as se comu• ·
uma organização do que de uma gênese de níveis de organização.
de uma certa fonte erógena d ' f · ao proveniente
refot ço de uma pulsão pareia{º e o~·necer sua intensidade ao Pode-se extrair desta investigação informações preciosas sobre
qt.te a satisfação de uma pulsã~r:v~mt:,nt~ de u~a ':utra fonte, a concepção freudiana do instinto. A pulsão parcial colocou o
outra." u s I u1 a sat1sfaçao de uma problema da unidade da pulsão. Pois bem, pode-se concluir que
Freud, ao contrário de Nietzsche, não coloca cQmo primária a
Esta tendência alternada a ressaltar . diversidade pura das pulsões. O princípio segundo o q_ual não
sões pal'ciais, ora sua unif - dora a autonomia das pul-
. icaçao, tra uz uma ce t h . - é preciso multiplicar os instintos .em vão está no cerne da con·
que, manifestando-se na teoria da O • ~ a es1taçao cepção freudiana. Ele se expressa, por um lado, pela recusa a
sando. Na verdade o que ainda f lrt1gem, se continuará preci-
't d ' a a a Freud em 1905 é postular um instinto por atividade humana: o espaço somático
conce1 o e uma organização J'b'd' 1
vergência das pulsões parciais i J ma que fund_amente a con-
° ordenado segundo as necessidades e prazeres que nele se inserem
faz as vezes de limite; por outro lado, a idéia de organização
A idéia de .organização estav:;ara uma cooperaçao não fortuita.
desde a origem mas e' corno mFesmdo presente implicitamente introduz um princípio de unificação que obriga a identificar a
, se reu para 'f diversidade não diluída como regressiva.
noinía própria das pulsões a . . • mam estar a auto•
que chamaríamos de uma fe:~1a1sf, optasse provisoriamente pelo
na raca da organizacão l1'b'd' 1
o · . 1 ma. INSTINTO E PSIQUE
Jogo das pulsões parciais conti d .
gern: o triunfo das pulsões genitais ~ua u e~org~mzado na ?~i- Psicologia nietzschiana e psicanálise freudiana deparam final-
de ordem de facto. Só em 191346 F q. e unpoe uma espec1e mente com a questão: como conceber a relação entre instinto
organização _pré-genital, 8 propósito ~:ud ;n~roduz o conceito de e psique? Tem-se aí um importante ponto de apoio para o con•
que cada estádio se apresenta co pu_ sao anal. . Dele resulta fronto das concepções nietzcbiana e freudiana sobre esta questão
nal, caracterizado pela predomin; º .u~ tipo <le unidade pulsio-
essencial.
atribuída a uma zona erógena O nc~a e uma at~vidade sexual Nietzsche enfrenta esta mesma questão a partir do momento
é que esta predominância cr1· . q e Fre_ud precisa, doravante, em que mobiliza a idéia de instinto. Vimos, no entanto, que ele
. . a uma organização - · As .
a pareia11zação está relacionad a a um processo propna. sim,
geral de orga- a resolve primeiro no sentido organicista. O instinto é efetiva-
140
PAUL-LAURENT ASSOUN
PSICOLOGIA N IETZSCHIANA E PSICANÁLISE... 141
mente, para Nietzsche, um dado múlti J .
gerador que é a natureza p . p o proveniente do fo1 n ,;oilnção para o psíquico" (Reiz für das Psychische).so Mais
6 d . or conseguinte a vi A d

s po e ser um reflexo desse dad A . ,A • vencia o insll11111 p1 ecisnmente, a pulsão aparece como "o representante psíquico
não são nada além de modaJid d o. v1venc1a e o agir hum111111 <111.ychischer Repriisentant) das excitações oriundas do interior
instintual primitivo se feno a el~ segundo as quais esse dnd11 do corpo e que alcançam o psiquismo."51
.
d er1va em parte da heranca do
mena 1za Esta con
. . 48
- d f
cepçao e lnfd11
• conceito. r,. coino se o motivo psíquico, sintoma terminal do· processo
A _evolução desta concepção nietzsch . , . 11rgfi nico em Nietzsche, portanto, devesse sofrer, em Freud, uma
ª p d
sutil conscientização da • A • iana, porem, va1 ma1·c111
unportancia do e!em t í
111ccliação representativa.
o emos esquematizar para mel/ r en o ps quico A definição de instinto assim construída por Freud distingue-
de um deslizamento temático N 1or ex~ ic~r o q ue não passou Ao pela parte atribuída ao elemento psíquico. A pulsão é defi-
é concebido como a coisa em ·s· u~/nme1ro tempo, o instinto 11/da por uma realidade psíquica - em relação com uma outra
nhaueriano: ele estende su f1, ana oga ao querer-viver schopc
'f a es era e sua influ A •
1cnlidade, de natureza somática. Esta relação é de representação.
m estação, natural e humana A . . encia a toda m11• l'ode-se exprimi-la dizendo que esta concepção é mista, o que
instinto trocado em miúdos: . teahdade humana não é senüu llá a entender a famosa [órmula de Freud, produzida imediata-
B ver <lade que há inautenticidade •. 1ncnte após a definição: "Pulsão é, assim, um conceito do limite
dos instintos, mas esta é a dife e. aut~nhc_1dade na f am(lin
vidade "natural". Só refletindo r:i;: ax1ol6g1ca_ inerente à objetl•
ração, e pl"incipalmente pela emer ê:ci:s dmodal1da~e_s désta sepa.
(•ntre o psíquico e o somático" (Abgrenzung des Seelischen von
Korperlichen) .52 Mas disto resulta que o que constitui a pulsão
6 o elemento psíquico - a pulsão é o representante psíquico - ,
presente, é que o deslizamento seg d,. ~ u~a critica do tempo estando o elemento somático presente no instinto de maneira
o motor objetivo mas a e a, o instinto continua a ser constituinte, porém delegada.
instinto: ela se de~loca por~:/ ª~ t~r~a-se a do _ser-agido pelo A natureza da pulsão freudiana, por conseguinte, é esclare-
que é a questão do :'humano?: : ª 0 d~ q~estao da vivência, cida pela compreensão da função de representação em ação.
do Menschliches é marcada po . emergencia desta dimensão Que significa precisamente a idéia de representação do somático?
-
vaçao. O ra, numa concep - r uma t .nova atença-o dad a a, motJ.. l)e fato, a partir do momento em que se penetra na noção de
?1ºtivação. O determinanteç::b~;.uralis!a fura,_ não se trata da representação, percebe-se sua polissemia. Esta se anuncia antes
Jetada da realidade instintiva. J ~vo. nao e s~nao a sombra pro- de mais nada por uma considerável ambigüidade, que se refere
ao homem pelo impetus que 'o ~o;.e,s eNmotivos são conferidos lls instâncias do processo de representação. Na primeira formu-
no início, definia os instintos c e lll~.. esse sentido Nietzsche, lação, os termos parecem claros. O representante é psíquico; o
gens (Bilderdenken) que f" I orno um pensamento em ima- representado é orgânico; a pulsão é a soma oµ a relação dos
. _ e em motivo 49 Ama mente (zu/etzt) se transforma em
exc1taçao A
dois. É como se esta relação problemática, mas inteligível, ficas-
cológica" equivale a i~sisf emergencia de um_a abordagem "psi- se embaralhada quando Freud empreende sua expJicitação me-
do processo, quer dizer au a no a~pecto termmal, motivacional, tnpsicológica.
Entende-se também, no 'entanf:nha-Io em sua lógi~a simbólica. Em Pulsões e Destinos das Pulsões, dez anos mais tarde,
é apenas funcional: o núcleo d que ~sta auton~m1a da psique inteiramo-nos de que "a pulsão" se apresenta como um conceito-
na organicidade do instinto e reali?ade continua localizado limite entre psíquico e somático, já que ela continua a ser " a
Q d F ' que o motivo apenas manifesta
uan o reud tenta uma def' . - . medida da exigência de trabalho que é imposta ao psíquico em
ceito de pulsão tende p iruçao metapsicológica do con- conseqüência de sua ligação com o corporal."53 E retomada aqui
' , or s ua vez a d" ti •
de excitação. Numa primeira . , - is " ngu1-1o do conceito a idéia de limite, mas a pulsão é que é o representante que tem
aprox1maçao, a pulsão seria uma por função, por conseguinte, representar as excitações somáticas.
142 143
PAUL-LAURENT ASSOUN PSICOLOGIA NIETZSCHIANA E PSICANÁLISE ...

Enquanto antes era a rela - nica. Assim é, na verdade, o estatuto da pulsão: é do tipo mani-
ela é reduzida a um dos tçao representante/representado, ngm11
f f' ermos. A nuança é ao festante-manifestado.
n tma - já que se continua a d' mesmo tempo Entende-se por que Freud fingiu não escolher entre os dois
representante _ e considerá •~er que ~ pulsão consiste nu
1
~ mais que O deJegado psíq~~ ~~s a rulsao, desde então, nhu 1)bstáculos. A função do conceito é que manifesta sua ambigüi-
d1.1de: portanto, ela não podia ser suprimida. O que não impede
e de natureza orgânica. . rea idade representada, qur
que seja "res~lvida", tanto pela manutenção da ambivalência,
Parece mesmo que est d 1Jnunciada, quanto por uma primazia de fato atribuída ao ponto
tos de Freud de pref a ~eg~n a v_ersão prevaleceu nos ese11
A

, erencta a versao primária de vista psicológico mantido como dominante - sendo o ponto de
ele tenha achado conveniente d' t' . ' mas sem qUti vista orgânico mantido como recessivo, isto é, secundarizado mas
Schreber ele declara. "C b is mgu1-los. Na monografia sob1·t•
. . • once emos a pulsão . 1160 suprimido pura e simplesmente.
1tm1te do somático e do psi . como o conceito Deste confronto resulta o problema da representatividade da
í • qmco, vemos nela 0
ps quico de forças orgânicas "54 M lh . representante pulsão, que está no cerne da elaboração da análise pulsional
modifica, dez anos depois a . . _e or. ª:nda: quando Freud
freudiana, enquanto em Nietzsche ela é teor izada enquanto tal.
esta concepção tl'iunfa E~ ~;i;eira ;d~çao dos Três Ensaios,
1 É que a psicologia nietzschiana, baseada numa concepção
formulação oficial é c~nfi'rmad 'lno , ~ oço de Psicanálise, n
- a pe a u 1t,ma ve . "EI ( organicista dos instintos, pensa o motivo psíquico como um re-
soes) representam as representações . z. as as pul- flexo. Eis por que, conelatamente, a psicologia, acentuando a
quica. "ss cor_pora1s para a vida psí,
ubordagem pela vertente subjetiva da motivação, não poderia ser
À margem desta interpreta ão d colocada como autônoma em relação à teoria dos instintos. Em
outrn. Desta vez é ao segu d ç t ' contu o, Freud confirma uma
' n o ermo que a J- , Freud, em contrapartida, a metapsicologia pode muito bem ser
Ela é representada no psiquismo d . plu sao e comparada. colocada como "mitologia"56 das pulsões, sem comprometer a
tação e afeto. por ms e ementos: represe11.
psicanálise como investigação dos efeitos dos sentidos psíquicos.
Há, neS ta dupla virtualidade inter · Existe aí uma diferença que remete ao estatuto do corpo e
de uma questão essencial o f pretativa da pulsão, o índice tia coisa em si. Em Nietzsche, o motivo aparec.e como a lingua-
constitutiva da pulsão. , ipo de correlação psíquico-somática
gem em imagens do corpo: ao psicólogo cabe a infinita tarefa
Não é por acaso que Freud -sem re . . . ,. de revelar, pela virtude fugidia ao aforismo, psicológica e moral,
zilhada entre os dois registros· est~· , ms,~te. na 1de1a de encru- as protuberâncias do corpo instintivo que se mascara sem parar.
terminação. As duas conce - . e mais_ Justa em sua inde- Em Freud, existe uma lógica associativa da representação psí-
pçoes extremas sao na v d d 1
cad as entre parênteses pela 1.d,. d . . . er a e co o- quica que torna possível um saber indireto porém objetivo da
• _ eia e conce1to-hm1te:
A concepçao organicista da l - f pulsão.57
-somático, remeteria o psíquico , pu sao: azendo dela um dado Eis por que, havendo partido de uma homologia dos projetos
outras palavras,- a pulsão s . a categoria ~e superestrutura. Em indicados pela referência química, temos que concluir por uma
. . ena uma espécie de cois • .
em s1, que ficaria de certo mod . d'f a orgamca distinção dos objetos e da forma posicional que os leva em
quico que a delegaria no . . o m l erente ~o processo psí- consideração.58
seri_a tão extrínseco quanto p;~~~s:~~ Seu destJ~o .psíquico lhe
naltzação em relação a uma A • em aparenc1a a fenome-
• A _ . essencrn.
por efeito reduzir a pulsão a um
realidade ela é que se ma if t
ret
concepçao psicologista da ui - I
sao, fe ? contrário, teria
exo ps1qu1co, enquanto, na
' n es ª e~ sua efetividade quase orgâ-
144
PAUL-LAURBNT ASSOUN
PSICOLOGIA NrETZSCHIANA E PSICANALISE.•. 145
NOTAS
"'gundo modelo. Consumada a ruptura de Bayreuth, o primeiro modelo
. . 1. Este nível corresponde ort MI estiola: então é que os moralistas franceses, a começar por La Rochefou-
tn~anto (v., supra, n. 248), a~ 1:nes:~o~ ao segundo regime do conceito da 1 uuld, fornecem novo conteúdo adaptado à nova função do conceito. Na
sa er que o leva em conta. empo que ao estudo da forma dt 11u;sma medida em que • a ação de La Rochefoucauld sobre Nietzsche ( ... )
2 , SW, III, 15.
3 - SW, III, 16.
foi um choque brevíssimo, porém decisivo• , pode-se detem:tlnar ao vivo
•c11 impacto na gênese da idéia (Andler, op. cit., l, p . 190).
4. SW, X, 56.
5 - SW, X I, 107. A descrição de amor-próprio que abre Reflexões ou Sentenças e Máxi-
11111s Morais revela-se notável característica do trieb nietzschiano e de seus
6 · SW, XI, 280 (ln- •s
1882-1888), § 831. . ystcmentwürfe und PIÍine aus den J h efeitos sobre a moralidade, como demonstra II reflexão I da edição de 1665.
7. SW, IX, 122. a ren", Este é o primum move11s de toda realidade humana, o princípio de
!<lentidade íntima que é simultaneamente princípio de alienação: "Ele torna
:· SW, IX, 425, § 630. os homens idólatras de si mesmos; e os tornaria os tiranos dos outros se
. Sabemos do interesse de N' u fortuna lhes desse meios para isso.• Não é por acaso que ele é hiposta-
Boscovitch (1711-1787). Cf. A/é d1etzsche pela física do jesuíta dálm
10. Estes sã m o Bem e do Mal (§ 12) (SW ata 1lndo, como o id ou o isto que rege toda atividade humana. Este isto é
(1894) o os termos empregad0:1 em A P, • • , VII, 19). Investido de verdadeira caracteriologia. E-lhe atribuída hiperatividade febril,
· s s1coneuroses de Defesa egoísmo radical: "Ele jamais repousa fora de si e só se detém em assuntos
l l. GW, X II, 184. ulheios como as abelhas sobre as flores, para extrair deles o que lhe é
12. Sobre a base episte ló . próprio."
eJ:>is têmico da psicanálise ~o g1ca deste recurso à química, como model Principalmente, é comparado a uma potência maquiavélica, que se
dtenne (1.' parte, cap. II): . nossa lntroduction à l'Epistémo/ogie Freu~ moscara iRcessantemente: "Nada é mais impetuoso que seus desejos, nada
13· GW, XII, 185.
1Ho oculto quanto seus desígnios, nada mais h ábil que suas con dutos. • A
14· aw, xrr. 186. evocação de proteifol'midade do amor-próprio passará literalmente no Trieb
15. GW, X, 143-4. nletzschiaoo: "Suas flexibilidades não podem se representar, suas trans•
16· GW, XIII, 229.
formações superam as das meta.morfoses e seus refinamentos aqueles da
17. GW, XVII, 80. química.• Não se pode sondar a profundeza nem penetrar nas trevas de
18. sw, III, 2, 17 (af. 13). ~cus abismos. A li ele está a salvo dos olhos mais penetrantes, faz mil voltas
19. GW, X, 320. e l'eviravoltas insensíveis.
20. Esta é a expressão de E H Com isso fica evidenciado o caráter inconsciente do amor-próprio,
2 1. SW, III, 49, § 35. cce omo, SW, IX, 359.
instinto fundamental, baseado no conhecimento de si próprio ou na auto-
22. SW, III, 16.
111istificação: "Ali ele está a salvo dos olhos mais penetrantes•. Por conse-
2J. sw, 111, 17, § 2. guinte: • Ali é muitas vezes invisível a si mesmo, ali ele concebe, alimenta
24. lbid., § 3.
25· SW, III, 45, § 32. e foz crescer, sem o saber, um grande número de afeições e ódios; e forma
26· ln: La Vofo té d nlguns tão monstruosos que, quando os põe para fora, desconhece-os, e
· niío pode tomar a decisão de confessá-los.• O amor-próprio assume, então,
p. 125, § 265). n e Puissance, outono de 1883 (trad. Blanquis, I,
27. Op. cit,
o lugar do querer-viver na função de grande enganador : "Desta noite que
o encobre nascem as ridículas convicções que ele tem de -si mesmo; daí
28. SW, III, 69, § 57 _
provêm seus erros, ignorâncias, grosserias e tolices a seu próprio respeito;
29. SW, III, 87, § 98.
da i lhe vem a crença de que seus sentimentos estão mortos, quando estão
30. SW, III, 88, § 99 _
apenas adormecidos, imagina não mais ter vontade de correr enquanto
3 1. SW, III, 177, § 16. descansa, e pensa ter perdido todos os gostos que saciou."
32- SW, III, 167 § 3 .
33· SW, III, 191,' título ' do § Mas o amol"próprio tem, debaixo de sua cegueira, a mesma infalível
34 Expre -
31· lucidez que o Trieb nietzschiano: "Porém esta densa escuridão que o es-
35. É /ásaol usada no § 31, ibid. conde de si mesmo não impede que ele veja perfeitamente o que está fora
. no ve que o instinto . t hi
próprio ou do interesse d~ La Roc~:r~:cc ªfº herde _C3racleres do amor•
au d, a partir da emergência do
dele, no que ele é semelhante a nossos olhos, que descobrem tudo, e são
cegos apenas a si próprios. Na verdade, nos seus maiores interesses e
cm seus negócios mais importantes, onde a violência de seus desejos exige
147
NA E PSICANAUSE. · ·
14() PAUL-LAURENT ASSOUN PSlCOLOGlA NIETZSCHIA
. p 1 ~ s e Destinos das Pulsões.
toda a sua atenção, ele vê, sente, ouve, imagina, desconfia, penetra, adivl, 50. GW, X, 211, in: u soe
nha tudo, de modo que se fica tentado a acreditar que cada paixão su11 51. GW, 214.
tem uma espécie de magia própria. • 52. GW, V, 67.
Nele, a viscosidade combina com a labilidade: "Nada é mais íntimo 53. GW, X, 214.
e forte que seus apegoo, que ele tenta romper inutilmente ao ver as extr(). 54. GW, vm. 311. .
mas desgraças que os ameaçam. No entanto, às vezes faz, em pouco tempo 55 . GW, XVIl, 70 (cap. 11). G
. . "Por Que a uerra.
? " (l 932). V., também, zn:

e sem esforço algum, o que não pôde fazer em muitos anos.• Aí é que so 56. GW, XVl, 22, '"· I
estabelece o nexus do amor-próprio ou do Instinto com o Desejo: • Poder- Novas Conferincias, a de n. XX:Xd l . b ca numa hermenêutica da moral,
. Nietzsche esem o . f )
se-ia concluir bastante provavelmente que é por ele mesmo que seus desejos 57. Eis por que -~ eia terapêutica (v., '" 'ª '
são acesos, mais do que pela beleza e pelo mérito dos objetos; que seu llnquanto ~reud pretend~;:;o;:"nietzschiana poderá da: a J:~:ss~~je~~
gosto é o preço que os realça e o adorno que os embeleza; que é atrás
P:~ ~:º\:!:~:::
58. Eis por que. a . . indo-se quanto ao estatu o . . r-
de si mesmo que ele corre, e que só faz o que quer quando faz alguma
coisa.• Assim se encontra enu.nciado o narcisismo fundamental do ins-
1111tecipar aP;~;~~h~~
e de sua con .
:~:~~ade: ele colhe
. ão dispõe de uma teo11a
1
1:~iv~~!~e.
tinto. íície dos lnstmtos, mas n
A descl'içiio do amor-próprio é concluída em La Rochefoucauld pela
evocação de sua turbulência: o • amor-próprio não passa de uma grande e
longa agitação•, que, como o mar, • acha no fluxo e refluxo de suas ondas
contínuas fiel expressão da sucessão turbulenta de seus pensamentos e de
seus eternos movimentos •. A chave desta turbulência é a coincidentia
oppositorurn: • Ele é todos os contrários: é imperioso e obediente, sincero
e diSliimulado, misericordioso e cruel, tímido e audacioso.• Isto exprime um
caráter essencial do instinto: sua tendência a emancipar-se da contradição,
recebendo em si todos os contrários, como tantas figu ras de sua realidade
proteíforme. Daí também sua perversidade fundamental : • Ele é bizarro,
inconstante de inconstância", achando seu prazer nos objetos, nos usoo mais
inusitados. Em outras palayras, o pr.incípio de identidade e de não contra-
dição lhe é alheio por natureza: • S6 se preocupa em ser e, contanto que
seja, consente em ser seu inimigo•. Isto expressa de modo notável a união
das forças de vida e morte que operam no Tr/eb.
A conseqüência prática essencial é a falta de sociabilidade do instinto;
o outro é ao mesmo tempo obstáculo e meio, nunca fim .
.36. V., supra, pp. 90 e ss.
37. GW, V, 67 (in: Pulsões e Destinos).
38. GW, V, 33-4.
39. Supra, pp. 84 e ss.
40. GW, V, 67.
41. GW, V, 68. Idéia quase anatômica, ligada à primazia do espaço.
42. Assim, a musculatura para a pulsão de domínio, v., infra, p. 236.
43. GW, V, 108.
44. GW, VII, 150. Die •kulturelle" Sexualmoral und die moderne
Nervositat.
45. GW, XI, 327.
%. A predisposição à neurose obsessiva.
47. GW, XIII, 220.
48. V., supra, pp. 98 e ss., e nota 48.
49. Texto datado de 1872, in: O Livro do Fifósofo, p. 117.
PRINCI PIOS PULSIONAIS 149

3. AS PULSôES FUNDAMENTAIS:
FOME E AUTOCONSERVAÇÃO EM FREUD E EM NIETZSCHE

Deve-se atribuir importância decisiva, na gênese da teoria


PRINC1PIOS freudiana das pulsões,1 ao .momento em que se formula a exi-
gência de pulsões fundamentais.
PULSIONAIS Na verdade, com todo rigor, no momento em que Fr~ud intro-
duz o conceito de pulsão, em 1905, nada requer especialmente
uma dualidade. Freud assinala em sua exposição dois tipos de
pulsão, a nutritiva e a sexual; centra sua investigação essencial-
mente na segunda, observando na oportunidade a relação delas.
Nada ainda implica, todavia, que o psiquismo seja estruturado
exclusivamente, quando muito eletivamente, em terno destes dois
tipos determinados de pulsão. e num segundo tempo, entre 1905
e 1910, que será dado esse passo decisivo. Na verdade, é em
1910, num escrito técnico sobre a histeria, que aparece uma
nova formulação.2
O confronto dos princípios das duas con - ~ • O contexto é revelador: é a propósito do conflito psíquico
completo sem o estudo do f d cepçoes nao seria que é introduzida pela primeira vez a idéia de dualismo pulsio-
:e
coro~da, tanto em Nietzsche quanto a e~
cepçao dos fundamen tos pulsionais.
~::i~ia
das pulsões), em seu ápic:. : :::t~s ~a Tri~blehre (dot~trina
das pulsoes é
. , por uma con-
nal que estará ligada até o final à Trieblehre. notável que
esta teoria pulsional faça sua entrada no discurso freudiano
ntravés de um ponto muito particular de psicopatologia. Tendo
Esta se desdobra em duas direções· explicado a interrupção da visão de origem psíquica pela contra-
• Por um lado a plurafd 1 d d · - dição entre representantes recalcados e o conceito sintético do
. : ~ as p~lso~s particulares remete
em última instân~ia a
ordenam a organização
sões fundamentais" é
:r~nc p1_0s p~ls1ona1s qu~ comandam e
reg~e e toda pulsao. Estas "pul-
" Ego", Freud se pergunta a que deve ser atribuída esta contra-
riedade (Gegensatz) que envolve o recalque. S aí que intervém
11 dualidade pulsional. As pulsões procurariam se fazer valer
, .
fic10 · que constituem a pedra de t d d'
pulsional inteiro e revelam s . - . oque o e t- pela animação das representações adaptadas a seus próprios
• p ua onentaçao
or outro lado, cada pulsão pa ti 1 . fins: portanto, a vida representacional (Vorstellungsleben) é que
se alimenta num fo . . r cu ar, enquanto moção, constituiria o medium das pulsões. As pulsões, porém, existem
. . co que constitui sua fonte U t . d
mst10tos precisa necessariamente deste focus o;ig' ma_ eona os essencialmente através da oposição: "Estas pulsões não se supor-
as moções se alimentam É d. . marius no qual tam umas às outras; chegam freqüentemente a um conflito de
Este é, ortanto . isto. ~ue é feita a matéria pulsional.
ernu·t· pli , o duplo cnterio determinante que nos vai interesses; as oposições das representações não passam, portanto,
P ir ava ar as duas concepç~ N da expressão dos combates entre as pulsões particulares."3 Neste
regressão ao nexus onde se oes. .ª. verdade, chegamos por conflito geral, enfim, destaca-se um conflito que deve ser privi-
e do freudismo como esboça a d1s1unção do nietzscheismo
- respostas à questão: no que co11sis·te o legiado em virtude de seu valor etiológico: "De uma importância
Ser d a pu1.sao?
muito particular para nossa tentativa de explicação é a inegável
oposição das pulsões que têm por fim a sexualidade, a obtenção
PRlNCf PlOS PULSIONAIS 151
150 PAUL-LAURENT ASSOUN
primeiros objetos apoiados nos valores reconhecidos pelas pul-
do prazer sexual, e outras que têm por fim a autoconservaçOu t,1>es do Ego", é por estas que deve ser .i niciado o exame do
(Selbsterhaltung) do indivíduo, as pulsões do Ego (lchtrieben)."• dualismo pulsional.
. Freud retraduz imediatamente em princípios esta oposição É. bastante revelador, para levar a cabo o confronto das
invocando
d a autoridade de Schiller·· "Podemos e1ass1'f'1car d'l! '/'rieblehren nietzschianas, questionar o estatuto - em Nietzsche
acor o com os termos do poeta todas as pulsões orgânicas qut• - das pulsões que, no primeiro dualismo pulsional, cumprem
agem em nossa mente como 'Fome' ou como 'Amo • (H ti função de pulsões fundamentais em Freud . E, em primeiro
od L · b ) " 0 r ungor
er te e . . - recalque patogênico provém então da intole lugar:
rável c_:>ntrad1çao entre os interesses pulsionais do Ego e as Que sucede ent.io com a pulsão de autoconservação ou de
pretensoes das pulsões sexuais. 7
fome que, como vimos, indica o eixo do dualismo? Ela existe
. Este texto marca uma mudança de rumo na concepção freu- mesmo, desde a origem, na panóplia instintual do homem. A
d~ana d~ pulsão, na_ m~~ida em que as pulsões começam a sex partir de Humano, Demasiado Humano, contudo, adquire um
h1postasiad~~ em prmc1p1os duais em torno dos quais se estru, posto central. Enquanto outro nome do "instinto _egoísta" ou
tura o coniunto da vida psíquica. Não é por acaso que neste do "amor-próprio", tomado no sentido forte, aparece como o
momento, a referê~cia poética surge irresistivelmente n~ pena primeiro motor do fazer humano. Todas as ações humanas, além
de ~re~d. Em ~enttdo contrário, porém, é preciso observar 11 de sua divisão em "boas" ou "más", são submetidas à juris-
1~odestia des~a 1?trodução. O que leva a privilegiar estes d 0 is dição deste princípio que consiste na "aspiração ao prazer" e
tipos de pulsao e o papel etiológico que elas preenchem e para na "fuga ao desprazer do indivíduo" .8 Nietzsche chega mesmo
o qual _devem _ser pri:'ilegiadas. Em relação a isto, é significativo a dizer que "fazer o mal, não por instinto de conservação, mas
que ~r:ud nao . dedique ao primeiro dualismo pulsional utna por represália (Vergeltung) é a conseqüência de um juízo falso
exp~siçao especia~ e autônoma: ele parece encontrá-lo em seu e por isso mesmo igualmente inocente." f- o poder em estado
cammho, como hipótese etiológica, a partir de uma "indu - " natural, que o próprio Estado herda, o u o princípio do interesse
sobre uma questão muito precisa do material psícopatoló~f:0 • bem compreendido.
É, portanto'. como u?1 evento tão revolucionário quanto discreto Assistimos, no entanto, a urna evolução clara e espetacular
que ~ dualismo se introduz, e depois se impõe na Triebleh do estatuto deste instinto de autoconservação em Nietzsche. Esta
freudiana. ' re
se consuma em A Gaia Ciência, onde um aforismo declara:
O que não impede que, para satisfazer a um requisito técni- " Querer conservar a si mesmo é a expressão de uma situação
co: Freud _rec~rra a uma distinção que, não por acaso, é de de miséria ou aflição (Notlage), uma restrição do instinto vital
ongen~ scht!len~na.s Como se a acepção romântica do conceito fundamental propriamente dito (Einschriinkung des eigentlichen
de !rteb -: efi~azmente neutralizada por Freud, no nível das Lebensgrundtriebes) que tende à extensão do poder (Machter-
opçoes puls10na1s,
, 1 por uma teorização científica6 _ se 1mpu-
· weiterung) e, nesta vontade, questiona bem amiúde a autocon·
se~se ª? mve global da Trieblehre para exprimir seu aspecto servação e o sacrifício."9 O que era o instint~ fundamental
m1tol6g1co. torna-se então uma redução do instinto fundamental, doravante
Ademais, ao contrário da representação pansexualista pode-se localiz.ado na extensão de poder.
no_tar, 1ue o ~m~r se define diferencialmente em reÍação ao A evolução é tão clara que Nietzsche chega mesmo a diagnos-
prmcip1~ a~t~ntm1c~, a Fome ou a autoconservação. Esta é mes- ticar uma deficiência do instinto entre os seus teóricos : ''Que
m~ ~ prmc1p10 puls1onal primário, já que o Amor só se satisfaz se considere sintomático que certos filósofos, como por exemplo
ong:nalmente apoiado (Anlehnung) nas pulsões de autoconser- o tísico Spinoza, vissem, tivessem que ver, num assim-chamado
vaçao. Se é verdade que "as pulsões sexuais encontram seus
153 ,1
PRlNC1Pl0S PULSIONAlS
152 PAUL-LAURENT ASSOUN
111nllnico."12 Isto significa que existe alguma força que age antes
instinto
eram de conserva_ção O pnnct,pio
hom .· , . decisivo - ·
preci ens em situação de miséria "lº R . Justamente po1·q11 Mie: " Antes de tudo algo vivo quer dar livre curso (auslassen)
t d oso _para nosso propósito esta .d Aegi~tremos como al11 1 11 ,ua força." Isto equivale a postular a originalidade da vontade
o . a teoria passada e vindoura d a vertenc1a que serve p111 1 1\u poder: "A própria vida é a vontade de poder: a autoconser-
peito ao próprio Freud! a autoconservação, pois diz rc• vnçüo não é senão uma de suas conseqüências indiretas e uma li
1,
. Como, entretanto, por trás . . chia mais freqüentes."
Não se trata,
~
portanto, de negar a importância do instinto de 1
científica fornecida pelo darw· d~sta teona se esconde a garantl11
mo te mismo Ni etz h d · , .
mpo a uma contestação do , . í . se e á m1c10 ao m~ ~onservação na econ01nia do ser vivo, mas é preciso, ao mesmo 1
na verdade, aparece como o a· prrnc pio darwinista. Darwin 1cmpo, tomar cuidado para não tomar o efeito, embora roais
conservação' como ele mente p"d i moderno
· · ,, dos partidár1·os do auto ' 11 cqüente e manifesto, pela causa ou princípio primordial trata-se
mana. Chega mesmo a fazer d;1s1~0. ~a natureza viva e hu i\11 interpretação da própria vida. Nietzsche chega a desclassificar
de desamparo material dos cien . d_a1 v.:1msmo o eco da situa í\o 11 nutoconservaç.ão em nome do "princípio de economia dos prin-
~do nele sua visão da vida istas ,og!eses que teriam pr!j, dpios": é inútil ficar às voltas com um prindpio teleológico
,1upérfluol Mais uma vez Spinoza é acusado, já ·que à sua incon-
a 1et~c~e formula uma outra.' .. int~ est~ concepção de vidu
;usérta, mas a profusão (Vberfl q) e rema na natureza não é •cqüência é que se deveria a generalização do princípio, ele, sem
at__absurdo. A luta pela vida é uss ' a prodigalidade, de modo dúvida, o inimigo das causas finais. Na verdade, esta redução
1
. apenas uma exceção, uma res•
btnçao momentânea do q uerer-v1ver· dos princípios prepara o "golpe de Estado" da Vontade de poder
atentes visam onde quer ue . ', os grandes e pequenos com, qLtC vai concentrar paulatinamente todos os poderes. -e. corn este '
aodpoder, conforme a vont~de ~eJa adprcponderância, à extensão fim que Nietzsche destitui o poderoso rival que é o instinto de 1 1

ta eE da vida."11 . ew~'
e po er, que é precisament conse1-vação de si mesmo. Este é o sentido da declaração de 13 Za-
rntustra: "Prefiro aqueles que não querem conservar-se."
. sta concepção está inscrita no d 'f Um aforismo de O Crepúsculo dos ídolos enuncia utn "anti-
or:em, em Nietzsche: a intuicão /c1 .r~ento do instinto desde a
: a exuberância - eis por , ioms aca é aquela da profusão l)arwin": "No tocante à íamosa 'luta pela vida', parece-me, por
1

e emyobrecimento. Durante m4::: qualquer limitação do instinto ngora, mais afirmada do que provada. Ocorre, mas como exceção;
~eP?ªº. tropical do instinto estev~º ;empo, no entanto, esta con- o aspecto global da vida não é o estado de necessidade, a situação 1

e lllStmto de conservação. A co e_ ª:ºr?o com uma primazia de fome, mas antes a riqueza, a abundância, até mesmo 14a dila- 1

che num momento decisivo· a cr1:tt~adtçdao e percebida por Nietzs pidação absurda - onde se luta, luta-se pelo poder." Uma

- é lógica e cronolo
conserv açao · 1. 1ca a p nmazia
· • do instinto de· palavra resume o sentido da intervenção de Nietzsche: "Não ie i,
trodução da vontade d d g1camente contemporânea d . deve confundir Malthus com a natureza".
cessidade.
E' e po er: ela a exige traduzindo suaa ne- 111- Um curto fragmento contemporâneo de A Vontade de Poder '11'
o reafirma com concisão: "A 'luta pela vida' designa uma situação ·1l il
1s P?r que Nietzsche, até o finl - . excepcional. A ,:egra é, antes, a luta pelo poder, pelo 'mais' e
?portumdade de negar ao instinto ' nao vai deixar passar uma 15
~-:Upremacia, estabelecendo assimde co~s:rv~ção suas pretensões 'melhor' e 'mais rápido' e 'mais freqüente' ." A relativização .1'
1 e!ente, que vai revelar cada a ~x1genc1a de um princí io do princípio de autoconservação baseia-se então na oposição ao 1

••;o a Wille zur Macht. vez maw clan1mente não ser ou~ro Kampf ums Dasein darwiniano do Karnpf um Macht nietzschiano.
'Eis a verdadeira conclusão sobre a questão. 11

. . m Além do Bem e do Mal , ·l


f1s1ologistas deveriam refletir ant: d;do ~ aviso roais claro: "Os Pois bem, a posição nietzschiana sobre a pulsão de fome (Hun- 'li'
conservação, como um mstinto
. . s e af(ka
trmar o instinto
. dedoauto• ger) segue significativamente as mesroas flutuações.
cardeal r d'ma1en Trieb) ser 1 \1; li
,,11
11
_.,_
154
PAUL-LAURENT ASSOUN
PRINC!PIOS PULSIONAIS 155
~ apetite é a modalid d ..
deciframen to do in f a e pnvilegiada -s ob a l Vl/JA E MORTE EM FREUD E EM NIETZSCHE
"leis de nutri ão" s tnt~. ~orno se vê ainda em qua se fn,
cessidades nutr ~?s instin tos: estes se af Aurora, exl•rr Como se sabe, porém, o dualismo pulsional modificou-se em
tos".16 Ass· tl ~vas às q uais as experiê . tt~am por suas "11
tm, nao s6 a f nc1as iornecem " 1· 1, cud a partir de 1920. A descoberta do narcisismo e de suas
mental, mas é deste ome é uma aUvidade ins . . a tm " 1t>11seqüências, desde 1914, havia virtualmen te minado o princí-
insdtintual. O instinto :º!~irqma
.
ue o~orre a identificaç~~t,J~ qfund• pio de oposição entre pulsões sexuais e pulsões do Ego, apresen-
mo o adeq d exigindo se 1· ut•1r, l1111do a fórmula de um investimento sexual no próprio Ego: o
ua o de satisfação. u a imento, que é ,.~ u
1111Lo-erotismo, portanLo, perturba fundamentalmente o critério
Mas c_o~ a evolução do en
::;utntv~, sem aboJir-s/ s/:~,:~t°- de Nietzsche, este
"~- ~m aJuste rico em signi[• d VIza. A Vontade de Potl
esqur de distinção.
O princípio de auloconscrvação perde, por conseguinte, sua
ao e possível" d I ica o de nosso ,, função princeps. Ele é englobado no novo dualismo das pulsões
prime. • ec ara Nietzsche " . ponto de vis111 de vida e das pulsões de morte que se impõem a partir de Além
iro móvel, como tam ' considerar a fome
pouco a aut 0 como do Princípio do Prazer. Seu estatuto, aliás, não deixa de ser
o pr·irue1ro
.
argumento é . .
conservação "17
. pl'Oblemático, começando Freud por apresentá-lo como um d esvio
ma não p d que a atividade O • • para a morte. Autoconservar-se q uereria dizer apenas "morrer à
" . o e ser derivada de um r1ginal do protoplas
po,s ele absorv 1 a vontade de aut sua maneira".21 Finalmente, ele relaciona as pulsões do Ego com
vação »1s O e oucamente, mais do que . . . oconservação,
. . erro seria julgar a f ex:ig1r1a sua conser- as p ulsões de vida.
; ;::~: ~omplexos, por este mod~~~• Aqut diz respeito aos orga. Assim Freud, no segundo dualismo, relativiza a idéia de auto-
e uma forma d . . ome é portanto " conservação como o Nietzsche da etapa final. Sua divergência,
expressão da d' . - e instinto especializada . a ex- porém, vai se restaurar neste segundo nível. Na verdade, trata-se
. . iv1sao do trabalho ck . e tardia, uma
que vigie de cima" A f
cebid .
um 111stinto m ·
orne, pois não é . . a1s e1evado
agora de saber o que um e outro entendem por Vida e Morte.
a como a conseqüência d ' orig~nal: deve ser "con- Os termos indicam claramente que chegamos regressivamente
como a conseqüência de u e uma subalimentação" ist é perto do termo de nosso confronto do conceito de instinto, se é
dominadora.19 in a vontade de poder q - ' , o .•
verdade que o instinto é concebido coroo pressão vital e que a
ue nao e mais
Em outras palavras· "N- questão ontológica derradeira de uma teoria do instinto diz res-
d e uma perd 6 . ao se trata em ab l peito ao fundo no q ual ele se alimenta, ou seja: que e ntender
trabalho, dep~;. s mais tarde, em conseqüê~~-utod da ~efaração por Vida e Morte?
alcanca is que a vontade de ia a d1v1são do
de d~m~/º:. outros. caminhos sua satisiao~er ,tenha aprendido a Para compreender isto, é preciso partir da famosa represen-
fome à açao .<Ane1gnungsbedür/nis) do çao e _que a necessidade tação freudiana da bola protoplásmica assediada pelo afluxo de
dênci~ a"e~ss1dade de substituição do q~;gaf n.1srno ~ reduzida à excitações externas, cuja resistência aumentaria progressivamen te
a tmen tar-se pre h 01 perdido" A t até que se expandisse o espaço entre dois estados de morte. A
autoconservação - ~nc endo uma falta t . en- vida, portanto, não é senão aquilo que torna possível o adiamento
afirmação d ' nao poderia definir a vid • ou t & face da
e poder Não , a, que é antes d t d do retomo ao estado inorgânico. Esta caracterização expletiva e
c~nservar, sustentando-se e, portanto, primeiro p rocuran~ u o restritiva do processo vital não pode nos surpreender s e a re la-
~tvo: neste estádio, a vida qj~e to organismo exterioriza seu ºsese cionamos com o esquema energético de que Freud partiu desde
J ocorreu antes não é sena-o emf' uma_ pré-história; ora, r- 1896 (ver retro). Conforme o esquema entrópico, a vida aparece
a a trmaçao do pod 20 o que como uma tendência à perda superada.
er.
li
1

157
PRl NClPIOS PULSIONAIS
156 PAUL-LAURENT ASSOUN
li
vincula O destino da
Formulada em termos positivos, a vida consiste, para Freud, da pulsão consistir na pulsão de morte, e
em "provocar e manter a coesão das partes da substância viva." 22 libido ao da m?rte. . ara Nietzsche?
No que consiste a v:da ~
1
A partir deste momento, a autoconservação é um aspecto desta . d e oponha ao saber: uma
tendência geral, ao Lado das pulsões sexuais. Fome e Amo1• 1! revelador que, de imediato,/ v1 :e~unda Extemporânea, "é 1
11
acham-se, portanto, englobadas na família das pulsões de vida. vida regida pelo saber' co~oed. !Zt a portanto a vida é decifrada
Quando tende a confundir as pulsões de vida com seu protótipo ' 'd , ,.zs De im ia o, ' 1 . d 1
muito menos vi a. . l'ca que sejam va on za as
mitológico, Eros, Freud acentua seu aspecto ativo: "A finalidade cm termos de intensidade , o que imp i nifestar "a verdadeira 'I
de Eros é estabelecer unidades sempre maiores, logo, conservar: f as como que a ma . é 1
algumas de suas or~ '. 'da" o que implica que a vida_ um
é a ligação (Bindung)."23 Seria, contudo, um erro conceber este vida"' aquela que é mais v1 d' toda e qualquer minoraçao.
trabalho de ligação como criador. Originalmente, Freud opunha "mais" que conv6m pr_eserva~ ·1e - A vida não é senão o que
a energia livre ou móvel, que flui para a descarga o mais ime- . r ás, e~tá ligada ,,z6
A vida, ª; a 1 usao. .
Estas duas características se ~~-
diatamente possível, à energia ligada (gebundene Energia), cujo "quer a ilusao (Tauscliung). ital em ziguezague: A 1
t - de um processo v
movimento para a descarga é travado. Isto implica que o processo binam na represen aça0
A •
. 1 da mais alta importanc1a
de descarga é bem primário e que o "elo" é apenas derivado. vida consiste em momentos partJcu ares palavras. "As épocas da
. t valos ,,,_, Em outras . d ) tre
De maneira correlata, a ligação vital não é uma atividade de- e de inúmeros in er · , d de latência (Stillstan es en 1
miúi1gica criadora de ordem ou harmonia: é um retardamento vida são a~ueles breves ~en~a~:teigen und absteigen) ."zs
uma elevaçao e uma ~ue a . or sua vez, é a de uma i
eficiente e provisório da energia livre. Não existe, portanto, ne-
A intuição nietzschiana da vida, P te a vida é colocada
nhum vitalismo triunfante: viver quase não passa, para Freud, f - Por um lado, rea1roen ' " t
de evitar morrer. Toda ligação vital não passa de um desliga- insondável pro usao. .. dliche)·i9 por outro, o . aspec o 1

como impenetrável (Unergru~ _ 'é O estado de necessidade


mento (Entbindung) inibido. A "intenção maior de Eros" é mes-
mo "unir e ligar", mas isto se assemelha demais a um trabalho global (Gesam~t-aspe_ct) da ,~~d~:iª: referência ao Lebensgefühl:
de Penélope: ele passa o tempo todo a cerzir um tecido que (Notlage) mas stm a riqu'7~ª· o rico em vida a enriquece."31 Esta 1,

desfia sem parar sob o efeito da pulsão de mot-te. Esta intenção "0 pobre em vida a debilita, . é to que "nosso grau de
. . ontoloma se cer 'S ,, l,
é contrariada incessantemente pela finalidade da "outra pulsão" é uma verdadeira ax10- o· .d' d ' ' "32 Ou então: ' er r
. l dá a medi a o ser . ál" li 1
que é "romper as relações, logo, destruir as coisas". sentimento v1ta nos . " 'd ,, 33 Em última an 1se, a
. -o do conceito v1 a . 'd -o é
coroo generat12aça f . ação da vida; a v1 a na
Agora, porém, que está claro que a vida se define pela mot·te, no - o de ser não passa da roeta oriz . 'li
1

il
é preciso evitar representar Tânatos como um princípio demo- ça
senão o ser sem a spas . , o que cbama1110s " v1·da" 1

níaco e investi-lo do poder positivo que teve de ser recusado à Se se procurar defini-la, ver-se:a i ue um processo de ali-
1\
vida. Trata-se de uma espécie de inclinação natural que se opõe é "uma pluralidade de forç1:s, lig~,v~d:'teve 5er definida como
menos à . vida, apesar das fórmulas mitológicas que dramatizam ,,34 ou entao: a d f s" i 1
mentação comuro. de estabelecimento e orça .
seu conflito, que não a desmente permanentemente, pelos fenô- urna forma duradoura de proc~sso: ue desembocará " numa fixa-
menos de repetição e de agressividade. Na verdade, a vontade de po er q 1:1
, .d , "3S
Neste sentido, Freud pode afirmar finalmente que toda pulsão ça-o do conceito d e vi a , 't de vida perde sua auto- 1
, . ento O conce1 o ,
é, enquanto tal, pulsão de morte. A ponto de "o princípio de A partir deste mom ' 'dO de que tudo o que contem
.
nomia em Ntetzsc e, h no duplo senti
d d e de que a vonta e de d
prazer parecer estar na verdade a serviço das pulsões de morte",24 1 'ii
. . d pela vontade e po er .d "
representando a exigência da libido. Esta conclusão, cujo para- a vida é assumi o . . erdadeito "além da v1 a .
doxo é esclarecido pela origem energética, faz então o ser· final poder serve para defm1r um v
11

,1
~
159
158 l>AUL-LAURENT ASSOUN PRINC1PJOS PULSIONAIS

"Em todo lugar onde encontrei algo vivo", afirma Nietzsche, Finalmente a morte, relacionada ao registro da. vontade de
' l d de uma economia orgânica, sabendo
" encontrei vontade de poder."36 E algo mais que coincidêncin: poder torna-se reve a ora , - d ro ser
"A própria vida é vontade de pode.r." 37 Ou ainda, a vida só é •deterioração e a inutilização parciais dos orgaos po e
ctue ~ ... dí io de um aumento de força e de um enca-
"vida enquanto vontade de poder." 38 O que pode ser escrito de cons1deradas o m c f . _ " · a morte é portanto, relacionada
diversas formas, ou seja: "A vida é especificamente uma vontade minhamento para a per e1çao : ; arece sempre
de acumulação da força."39 Ou então: "A vida é apenas um caso ~ "condições de uma verdadeira progressao, que ap . .
11s d d' - ara o poder mais const·
particular da vontade de poder."4º Ou ainda isto: "A vida é u sob a forma de vontade e e ireçao .P .
expressão das formas de crescimento do poder."41 derável" •46
Por outro lado, porém, por uma reviravolta final, a vontade . , to a trí lice figura da morte em - Nietzsc~e:
de poder define uma superação que torna necessário o além dn Assim e, portan ' P , . 0 na avaliaçao ascética,
vida enquanto tal. Só a Wille zur Macht, nesta própria superação, acontecimento natural, do t~u:s~au::~~!t Quanto a isso, a idéia
não é senão a vida em seu movimento necessário enquanto tende condição do progresso ª f. lh . à su~ própria concepção da
de uma pulsão de morte ica a eia d f mar
a superar-se a si mesma: imanência radical. . 'd ções precisas· por um la o, trans or
Fica visível desse modo a heterogeneidade das concepções de vida, por duas. c~;:~ ;~sitivo seria o. sintoma de uma con~e~ção
vida que operam em Nietzsche e em Freud. Uma é profusão e a mo:te em ~nn rte está mesmo presente mttma-
asoét1ca da vtda; por ~utro, a mo alcular a qualidade da vida;
infinidade, outra capacidade de ligação limitadora; uma é poder,
mente na vida, mas so dserve pa~a.dc de que representa a pulsão
outra necessidade; uma valorizadora, outra funcional. A tal pon- • 1·1da de crônica e recess1v1 at
to que Nietzsche poderia diagnosticar, na concepção freudiana de à virtua _ idéia nietzschiana do
de morte freudiana se opoe, portan o, a
vida, sintomas de reatividade e debilidade! progressus zur grosserer Macht.
Isto pode ser confirmado por um exame da concepção de morte
em Nietzsche.
LIBIDO E VONTADE DE PODER
O que impressiona globalmente na maneira como Nietzsche
aborda a morte é sua recusa a colocá-la como um problema: ela f t do conteúdo da Trieblehre para
aparece como um dado natural transformável em ação pelo suicí- Se leyarmos agora o con r:~a divergência significativa: Freud
dio, definido a princípio como um recurso legítimo, sendo a morte a sua forma, notaremos u~: resentação dualista, indispensável à
voluntária apreendida, dentro da inspiração schopenhaueriana, sempre se ateve a uma p d' órcio entre as duas
como verdadeiro ato vital.42 Por isso, a morte aparece de imediato sua t~ria do co~flito, ex;t~c~:~ ~~:t~~en:;ção quando da fase
inserida num registro ético, até mesmo casuístico. Fora deste espécies de pulsao. À P? d l' 41 Freud desconfiou de todo

ponto de vista, a morte é valorizada como reverso dionisíaco da de transição entre ~s. dois u: i::º%.onismo que se encaminha a
monismo. Ao contrano, é pa~ 1 - é o motor fundamen-
vida, a extrema existência a costear a morte, sem que esta inter-
venha como p rincípio específico. º
síntese nietzschiana .. conflito, tn~ ed;ª;oder é que vai fornecer
tal da dinâmica puls1o~al,. a .von_ a ed ulsões Eis por que não
Realmente, Nietzsche só concebe a morte como "diminuição · í io global e d1scnmmattvo as P · d
de forças" no sentido fis iológico. Com Zaratustra é que vai apa- o prmc p . , . s pulsionais como em Freu ' mas
recer a polêmica temática contra os "pregadores da morte"43 que há contradição entre os P.rmc1p:o da vontade de poder e sua ne-
contrariedade entre a aftrmaçao
pregam a "renúncia à vida", " tísicos da alma", que "mal nascem
gação como vontade de nada. .
já aprendem a morrer".44 Zaratustrn opõe a esta morte envene- ' er untarmos a que princípio equivale o
nadora da vida a "morte livre", "realização", "estímulo" e " pro-
messa" para os vivos,45 a "morte rápida". pa~Í :~if;::~~~od;~~n~mi~a pulsional em Nietzsche e em Freud,
PRJNC1PIOS PULSIONAIS 161
160 PAUL-LAURENT ASSOUN

veremos surgir notável homolog· f . neuróticas e psicóticas deveria consistir em exprimir· todos os
poder e a libido. la unc1onal entre a vontade ~h•
rcnômenos considerados e os processos inferidos nos termos 52
da
Graças à intervenção deste princí . . - economia libidinal (in den Terminis der Libidoôkonomie)."
se vincula na dinâm1'ca n'et h' pio, a mflaçao dos instht ln O registro libidinal cede portanto sua linguagem à explicação
' · i zsc iana a um · í · ,.
tornando-se todo instinto em ' lf ' . prmc ~10 umf~cud1t1 . psicanalítica : todo· enunciado relativo à fenomenalidade psíquica
ticular da Wille zur Macht p ul luna análise, a ltnguagem )líll deveria poder reduzir-se a ele e traduzir-se nele. Este poder etio-
. . ara e amente em Freud t d "
pu Is1011al equivale a consumir lib'd , , o a m 0<,' 1111 lógico é que fundamenta o valor sintético da explicação pela
p· 1 o.
ica fina lmente visível que libid libido, com aquilo a que, em última análise, todo fenômeno de-
tam um papel homólogo em F : e v~ntade de poder repres~,, veria poder se relacionar - o que lhe dá sua aparência de prin-
Para entender o sentido det re~ e Nd1etzsche, respectivame1111• cípio e sua paradoxal indeterminação quanto à definição, como
ermmante esta homolog· ,.
antes de mais nada mostrá-Ia atrav' d . ia, conv1.111 1,endo aquilo por que tudo se define, inclusive a pulsão, da qual
introduzem os conceitos. es os enunciados essenciais qur ela é a matéria-prima energética, tecido no qual as próprias pul-
Em primeiro lugar, a libido se a sões, elementos primordiais, são recortadas. :É isso, também, que

::::::~o"~:::.:i:"p:~;::-:.. E~EFº;,:~:r:.,'°::i~'~
gem dos Três Ensaios
4
d l . .. e ser visto na pass11
fu ndamenta a necessidade de passar pelo "caminho da especula-
ção" para dar prosseguimento a uma teoria da libido.
Ao nos voltarmos agora para o texto de Além do Bem e do
"Estabele ,· !:º e e e JUst1Í1ca a introdução da noção1
cemos o conceito de libido en t f Mal onde Nietzsche evoca a vontade de poder, encontramos a
variável (quantitativveréinderlichen kr~~)an o orça q u_antitatlvo afirmação solene deste caráter englobante do princípio, baseado
(messen) os processos e as transformações (Vque .. poden; medir, num mesmo caráter' quantitativo: a Wille zur Macht é na verdade
z_ungen) no campo da excitação sexual "48 E ~rgange un Um~et• designada como o termo que permite determinar sem equívoco
t1vo -é confirmado co · s e aspecto quanhtn• (univocamente, eindeutig) toda força atuante (alle wirkende
mo central na definição posterior· "L.b'd 6
~ma expres~ão derivada da teoria da afetividade Ch; l t o Kraft). 53 Este é, em outros termos, o outro nome da energia, mas
s1m a energ1a considerada como um . . ~amos as, especificado e qualificado : aquilo no que todo fenômeno humano
titative Grosse) de det . d ª g!andeza quantitativa (quatz.- é talhado. Aquilo cujas transformações, divisões e deslocamentos
rável atualmente 1e':11m~ as pulsoes - embora não mensu- (parafraseando as fórmulas freudianas relativas à libido) podem
como amor."49 - reaciona as com tudo o que se pode entender
fazer as vezes de explicação global, ao mesmo tempo sintética e
Freud, no entanto, tem o cuidado d d' . . variada: aquilo, portanto, de que se alimentam os diagnósticos
qualitativo· "Porém d' t' . e IStlngmr nela um aspecto do psicólogo nietzschiano.
. · 1s mgu1mos esta libido .
pa:tic_ular da energia que está supostamente na' /ºr duma ongem Entende-se, também, por que a especulação se impõe igualmente
ps1qu1cos em geral e lhe em ase os processos aqui. Este princípio é, à semelhança da libido freudiana, ao mes-
qualitativo"·so não' , - prestam.o~ assim também um caráter mo tempo um dado postulado e .um ideal regulador. '8 revelador
, e senao a especificação sexual b .
d istinguir
E t d l
a "energia Iibidinal d
,
1 que o riga a
e qua quer outra energia psíquica" que, neste texto programático, Nietzsche faça dele uma exigência
condicional, uma necessidade a ser promovida: "Supondo-se que
sua s"produ
e up o- carater é que confe
. . re_ à 1·b
1·.l'd O sua função etiológica:·
se possa reduzir todas as funções orgânicas a esta vontade de
çao, aumento e ,d1mmu1ção, divisão e d 1
que devem oferecer-nos possibilidades de e r ~es ocamento é poder, toda nossa vida instintiva (gesamtes Triebleben) como um
nômenos psicossexuais observados 11SJ s
tanto, é que possibilitam com .
xr 1caro para os fe-.
uas rans armações, por-
desenvolvimento e uma ramificaçã.o (Ausgestaltung und Verzwei-
nd gung) de uma forma fundamental (Grundform) do querer ·- isto
psíquica: "A tarefa d pre~ er to_d~ ª fenomenabilidade
e uma teoria da libido das perturbações
é, da vontade de poder, conforme minha proposição; .supondo-se
1

162
PAUL-LAURENT ASSOUN
PRINC1PIOS PULSIONAIS 163 •
que se possa reduzir todas as fun õ A •

de poder e também encont Jç es orgamcas a esta vo11t111I ,11tlma definição dela: " Os instintos são órgãos superiores, no
. rar nc a a solução d bl 10111ido que atribuo a estas palavras; ações, sentimentos e estados
procriação e da nutrição é o pro emu da
. · - um problema - ter'
prov~do por isso mesmo o direito de de . iamos 11111,1111 llo sensação emaranhados que se organizam, se alimentam" ,57
te univocamente: vontade de poder ,, E term111ar .toda força atun11 1·01110 outras tantas metamorfoses significativas da Wille zur
!
da qual se incumbe a grande s' t . . sta precisamente a tnrd1 Macht, ''expressões e metáforas de uma mesma vontade ineren te 1

se organiza em tomo dessa .~ es~ 7 aca ada de Nietzsche: t•I


de Além do Bem e do Mal. ex1genc1a ormulada no parágrafo H•
11 todos os fenômenos: a vontade de poder." Os instintos são, ,.
portanto, aqueles "juízos baseados em experiências anteriores", 1

O confronto destes dois texto f d d


''lionsações de força ou de fraqueza."58
mente que se fale em homol . sf un. a ores permite efetlvn Isto tem por conseqüência a recusa definitiva do teleologismo i
que funcionam, em cada econº;~a unc10~al dos dois conceltu1, dn noção, ainda virtual no utilitarismo da concepção anterior.
A libido em Freud a vontade d conce1tual,. no mesmo nfv1•I Assim Nietzsche acaba por afirmar que "os instintos não podem
,[ 1

tidas da função pri~ceps· exibir e pode~· e?1. Nietzsche são itw,·~ colocar-se do ponto de vista da utilidade.'' Ao invés de sel' eco-
tico e qualificado ao me~mo t um pnnc1p10. explicativo enera~ 11Cimico e previdente, " ao agir, ele sacrifi ca força e outros ins-
junto da fenomenalidade antr:p~rig51ue permite subsumir o COII
1ca. tintos." Assim se aperfeiçoa o mecanismo da concepção nietzs- •
1sto, contudo, situa a divergência f I d . , . chiana, que faz as vezes de antídoto para a carga romântica
doutrinas pulsionais se é ve d d ma e p nnc1p10 das dun1 H
Inicial.
pios heterogêneos: p'or um ~a~oe q~e ~e. tratam de dois princ!
t d
ou ro, e prazer. Esta divergência é
, prmc1p10 de domina -
., . çao, pm
11 notável que o advento da vontade de poder afete a concepção
cificada na investigação que que seta tematicamente espc hedonista e o estatuto da felicidade. Enquanto as primeiras for- li 1

· . se segue. Observamos t d mulações colocavam a felicidade na percepçã-0 do intemporal,s9


e f eito .ético maior desta d1've
. rgência.
. ' con u o, o
na razão60 ou na "rapidez do sentir e do pensar", ele é doravante
Assim como a libido a vontade de d relacionado ao poder. À pergunta: "Que é felicidade?", o Anti-
interpretativo: daí cm diante tud , p~ ~r vale como principio
nandi: "Os m · _ ' . 0 c l'e acionado à libido domi• cristo responde: "O sentimento do fato de que o poder aumenta,
ov1mentos sao sm tomas de que uma resistência é vencida."61 Em outras palavras: "A
são ~intomas: por trás de ambos d, os pensamentos .também
felicidade é uma aparência auxiliar (Begleiterscheinung) para a (
dese10 fundamental é a vontade d!ºd;m.os d~};ctar dese1os, e o
liberação de sua força."62 Assim, a "felicidade" não é, doravante, 1
vras - hipótese quase fisioló ica· "O minar. .Em outras pala,
senão a sombra projetada do poder, como aumento de poder ou
vid~ no homem é a vontade Je ~der.'~~e., é m~1s bem _desenvo/. descarga de força, o que Nietzsche designa coroo "uma organi-
aquilo que dá unidade d P. Esta e concebida como ,,
como o " ma. f d aos es~Jos. Nietzsche a define mesmo zação feliz".
is orte e todos os instintos" "
ago~a d irigiu toda evolução orgânica" Ét~º aquele q ue até Eis por que as últimas formulações de Nietzsche relativizam a L

sentido: " Todo significado é vontade d. e ,~ue drena todo felici dade e seus penegíricos. Nietzsche diagnostica no discurso
tade de poder é o intérprete su r ~ poder. _Mas se a von- sobre a "felicidade suprema" a aspiração ao sono dos seres alque-
p rocesso orga" nico
· - p emo, e na medida em que "o brados e doentes.63 Nega a universalidade da tendência eudemo-
pressupoe uma t · ·d d •
tínua. "56 a tv1 a e tn.terpretativa con- nista: "O homem não quer a 'felicidade164 - não é esse o seu
Pode-se ver a partir deste r desejo real". O que é o mesmo que dizer: "A meta não é a 'I

dade inicial o instinto a nt.omdento o que se torna nossa uni- felicidade, mas sim a sensação de poder" (Machtgefühl).65 Conse- 1.

d e poder se' torna O fato-princí


• par tr o momen to em
. . d. . que a vontade qüência: "Liberdade significa que os instintos viris, os jubilosos
pio pnmor ial. Nietzsche dá uma instintos de guerra e de vitória predominam sobre outr os instintos,

!I

1
1,

164 PAUL-LAURENT ASSOUN PRINC 1PIOS PULSIONAIS 165 1,,

por exemplo, sobre os de 'felicidade' " 66 - palavra que, doravante, nnsiléia e lena: o apetite bulimico de Nietuche nos primeiros meses de
aparecerá entre aspas. uua doença, que • exige comida sem parar " (p. 119). "Come com excelente 1
npetite " (p . 122), ·o paciente come geralmente muito depressa" (p. 140). 1
Isto equivale a dizer que o Super-homem, superando a Vidn, Esta forma de exaltação manfaca pode ser relacionada ao problema da re-
(1

supera sua própria vontade de felicidade. Equivale a dizer que flexão sobre nutrição e poder em Nietzsche, revelando suas formas reces•
a vontade de poder nietzschiana é um verdadeiro além do prill• aivas.
1
cípio da felicidade, como a pulsão de morte freudiana é um além 21. GW, XIII, 41.
I•
do princípio do prazer. No eco invertido destas duas fórmulao 22. GW, X III, 66, n. 1.
23. CompDndio de psicanálise, GW, XVII, 71.
se calcula o sentido final da divergência das teorias do instinto.
24. GW, XIII, 69. 1

25. SW, II, 156, § 7.


NOTAS 26. SW, III, 4. 1

27. SW, III, 329.


l. Na ordem do confronto, partimos de Freud, desta vez, jú que nele 28. SW, III, 266.
o dualismo pulsional é uma exigência funcional explícita. 29. SW, VI, 116, in: Assim Falou Zaratustra.
2. A Perturbação Psicogi!nica da Visão na Concepção Psicanalítica. 30, SW, VIlI, 139, in: O Crepúsculo dos Jdotos. ~.
3. GW, VIII, 97.
4. GW, VIII, 97-8.
31. SW, IX, 37, in: A V ontade d e Poder. •
32. SW, IX, 339.
5. Conferir a fórmula de Sch iller, no poema Os Sábios (Die W elt•
33. SW, I X, 396. 1

weisen): • ~sperando que a filosofia sustente o edifício d o mundo, a natu•


reza mantem sua engrenagem através da fome e do amor.• 34. SW, IX, 433.
1l;
6. V., supra, p. 132. 35. SW, IX, 419,
7. Sobre a questão da sexualidade, v. o confronto infra, nota 2. 36.sw, vr. 124: 1
8. V. cap. II. 37. SW, VII, 20 e 200; 1X, 46 e 184; XI, 307. .,

9. Liv. V, § 349, SW, V, 247. 38. SW, IX, 432.


10. SW, V, 247-8, 39. SW, IX, 467.
11. SW, V, 248. 40. SW, IX, 468.
12. SW, VHI, 139. 41. SW, IX, 476.
13. Liv. III, Das velhas e novas tábuas, § 6, SW, VI, 221. 42. V., principalmente, H umano, Demasiado Humano, li, 80; •o Via• ,:
14. SW, VlII, 139 ("Incursões de um Extemporâneo", § 14). jante e sua Sombra•, § 185. \

15. SW, XI, 109 ("Conhecimento. Natureza, Homem•,§ 291). 43. SW, VI, 46.
16. SW, XI, 437, § 652. 44, SW, VI, 47.
1
17. Liv. Ili, § 652, SW, IX, 437. 45. SW, :YI, 77.
18. § 651 , SW, IX, 436-7. 46. • A Genealogia da Mo ra1•, 2.' dissertação,§ 12, SW, VII, :sio.
19. § 652, SW, IX, 437. 47. Sob o efeito de Jung. V. Psicanálise e Teoria da Libido, GW, l
20. e
preciso aproximar esta teoria da Fome à estranha preocupação XIII, pp. 230-1. 1 1

com questões culinárias que se man ifesta cm Nietzsche nos últimos meses 48. Numa passagem acrescentada em 1915, GW, V, 118. 1
de sua vida lúcida: cf., principalmente, as considerações de Ecce Homo 49. Psicologia da Massa e Análise do Ego, GW, XIII, 98. 1
11
ª.
sobre arte de comer bem ("Por que sou tão esperto ", § t , SW, VI H, 50. GW, V, 118.
314-8): Uma outra questão me interessa bem mais (que a questão religiosa) 51. GW, V, 118. :,1(
e_ da qu al depende mais a salvação d a humanidade do que· de uma curio- 52. GW, V, 119.
sidade qualqu?r de teólogos: é a questão da alimentação. Ela pode ser 53. SW, VII, 48.
for~ulada assim ( . . . ): 'Como você deve se alimentar para alcançar o 54. SW, XI, 95 ("Conhecimento. Natureza. H omem•, § 246).
máximo de sua força, de sua virtude ( ... )?'". Hildebrandt suspeitou que 55. SW, XI, 244.
houvesse um 6intoma patológíco nesta preocupação (v. a discussão de 56. SW, IX, 433.
Padach, pp. 33-5). Assinalemos um fato confi11nado pelos relatórios de 51. SW, XI, 116.
1 1
166
PAUL-LAURENT' ASSOUN
58. La Volo11té de p !&a
(§ 393), . u nce (A Vontade de Poder), tr. fr., 1, ,, 11
59. SW, II, 102.
60. SW, Il, .595.
61. sw,
vm, 192.
62. SW, VIII, 288.
63, SW, X, 243.
64. SW, IX, 302.
65. SW, XI, 242.
66 · sw, vm, 160 in· O
Extemporâneo•, § 38. , . Crepú:;culo dos ídolos, º Incursões do u,

LIVRO SEGUNDO

OS TEMAS

Agora que se acha ínstalado o edifício pulsional ,que estrutura


os discursos freudiano e nietzschiano em sua especificidade, é
possível prosseguir o confronto das temáticas que derivam destes
princípios pulsionais.
Esta temática se desenvolve segundo o eixo tríplice que chamou
a atenção dos leitores de Nietzsche e de Freud. A psicanálise
freudiana é na verdade definida através das teorias da sexualidade,
através do inconsciente e através da interpretação dos sonhos.
Em relação a estes três temas-chaves, Nietzsche apareceu como
um singular "precursor''. 1 Considerados em relação aos princípios
que os sustentam, estes temas podem ser agora reexaminados, a
fim de ver como a diferença Nietzsche-Freud, tomada ao nível
dos princípios, se atualiza e se precisa.
1.

AMOR
E
SEXUALIDADE

O confronto das Trieblehren nietzscheo-freudianas .revelou,


tanto na questão das pulsões fundamentais, quanto a da libido,
a importância da sexualidade como revelador diferencial.2 Devé-se
ver agora como esta escolha diferencial no nível dos princípios
influi no estatuto da sexualidade enquanto tal.

BROS E DIONISO

Em que consiste o estatuto da sexualidade na visão nietzschiana


da economia dos instintos?
Não é por acaso que O Nascimento da Tragédia começa pela
imagem da dualidade dos sexos na geração, como que simboli-
zando a dualidade estética do apolíneo e do dionisíaco.3 A sexua-
lidade presentifica de maneira exemplar a cosmologia do querer-
viver. É no nível do princípio de vida que ela deve ser localizada,
e não no do desejo cego, que um texto contemporâneo nos diz
ser "sinal de baixeza" (Gemeinheit).4
Com o advento de Huma·no, Demasiado Humano, a sexualidade
é tomada, conforme a redução geral ao plano imanente do natu-
170
PAUL-LAURENT ASSOUN
ralista, como variedade d AMOR E SEXUALIDADE 171
lações sexuais são e"ocad e p razer (Lust) interind ividual A•
. • as como ex I d . • ,
espé c1e de prazer" q . . emp o a aquisição da " Absim, solta de seu substrato imediatamente orgânico, a sexua-
' ue O md1víduo f m, l11l11dc será inserida na economia global do homem. Assim é que
com seus congêneres, e "ampt· d a~ quando trava co111111
sensaça- d 1ª e maneira
o e prazer em gQral" s N . s f I
ens ve o campo ti• Nietzsche se encaminhará para uma p erspectiva onde a sexuali-
ego!sta, a atração sexu;l fa~ p~rt~m;ersof regido pelo pri11L'f1•1 1l11tlc estende seu domínio bem além de sua jurisdição como ins-
ego1smo. as ormas extensivos il 111110 especial : é o famoso aforismo de Além do Bem e do Mal,
Com Aurora, surge um no . 1111dc Freud podia achar um eco sedutor: " O grau e a natureza
p~o~le~a rnoral. Erguendo-se C:ºn Jater~~se p~la sexualidade co,1111 il11 sexualidade de um homem atingem os cumes mais altos de
cr1~t1an1srno, Nietzsche reafirma tra ah dsata_mzação ou Eros" /ll l1 ,cu espírito."11 Na mesma perspectiva, Nietzsche fala de "amor
saçoes sexuais têm I seu e orusmo: "Em s1· ~l'xual sublimado", como de um fenômeno cultural caracterizado.
d a go em comum
e e adoração, pois aq ui um ser h com
ser h uman o para seu p róprio ra~:ano
ª;ª: , as ~1·11
sensações de pied111h
o bem a um out111
Esta teoria da sublimação é formulada com esp antosa precisão
nu época de Aurora: este texto, que figura no Nachlass, exige
encontram arranjos tão benévol p r - n ao é sempre que ' 1,cr examinado de perto para o confronto com Freud: "Qu and o
esta que se vem ca luniar e corr~~= na~reza! E é p recisame1111 um instinto se torna intelectual", escreve Nietzsche, " adqu ire um
Por trás deste p razer t pe a ma consciênciaf''6 novo nome, um novo atrativo e uma nova avaliação. Ele é muitas
· l , no entanto t bal'-- vezes oposto ao instinto do mais antigo grau como seu contrário
::1ª '. qu: é uma fa talidade. Um fra ' ra ,ui um instinto cspc
A ilusao do insrinto sexual , gmento contemporâneo dec!aru ( . . . ) . Inúmeros instintos, como, por exemplo, o instinto sexual,
semp . e uma rede que são suscetíveis de um grande refinamento (Verfeinerung) pelo
. re se conserta novamente sozinha " 7 . . ' quan do se rompe,
o cwdado de distinguir Eros da .. - Nietzsche, p orém, tom• intelecto (amor pela h umanidade ( ... ). Platão pensa qu e o amor
que ~ " instinto sexual não estfrocnaçao: Chega mesmo a dizer pelo conhecimento e a filosofia são um instinto sexual sublimado).
procriação": esta n ão é ne~ssanamente relacionado h Ao lado, permanece em pé sua velha e d ireta ação."12 Esta é uma
.. ~ . nem sua "i t - ,,
quenc1a necessária"· no má . n ençao ' nem sua "cons.. maneira de aperfeiçoar o instinto e de torná-lo útil. ~ preciso
um d · ' ximo a cons ·· • · .. entender, portanto, a sublimação do instinto sexual como um
. a mo alidade de satisfação d , . . equenc1a ocasional dt·
tin to sexual é concebido o. . o instinto sexual. E que o ins• tratamento de refinamento pelo intelecto, que torna possível sua
gador da "igualdade geral pe td N~etzsch e como "anti-social" e ne reutilização para tarefas mais " elevadas". e principalmente "sob
humanos". Ele é que parado/ /gualdade de valor entre os seres a influência do cristianismo" que "o instinto sexual sublimou-se
]idades, "o tipo da pa,'.v_ 'rnt• ~ mente, relaciona duas ind1'v1'd em amor" .13
. "'ªº 1 1v1dual" "O . . ua-
~o sentido da individuação."s Po . tn~tmto sexual caminha O Crepúsculo dos ídolos o reafirma: "Apenas o cristianismo,
a sepai-açâo dos sexos não e' f d r conseguinte, pode dizer que com seu ressentimento básico contra a vida, é que fez da sexua-
é q é . un amentaI"· 0 " •
ue constitutivo da sexuaJ'd d . prazer individual" lidade algo impuro", enquanto " para os gregos o símbolo sexual
é essencialmente sexual". i a e, enquanto "a procriação não era o símbolo venerável em si, o verdadeiro sentido profundo
O ~~radoxo é que a espécie se re interior a toda a piedade antiga."14 Os " mistérios da sexualidade"
tetos: A humanidade se extin uiria produ~ gr~ças à ausência de têm, entre os gregos, a fun ção de revelação pagã do "eterno
vesse um caráter tão cego . g . se o tosnnto sexual não ti- retomo da v ida". Ecce Homo fala, nesse sentido, da "perene guerra
Em si, sua satisfação n ão ~ :: p revidente, apressado, impensado dos sexos",15 denuncia o envenenamento da natureza no amor
da espécie. ,,9 i;; por uma m:nti em ab~oluto Jigada à propagaçã~ sexual por todo "idealismo" 16 e o desp rezo pela vida sexual, toda
um dever. to ra moral que se quer fazer dela mancha desta pela idéia de "impureza" como "o verdadeiro
crime contra a vida, o verdadeiro pecado contra > Espírito Santo
d a vida."
173
AMOR E SEXUALIDADE
172 PAUL-LAURBNT ASSOUN
e se gasta na concepção de obras
" ~ uma única e mesma força qu , . d força »23
Resta determinar o lugar do instinto sexual na filosofi n fh1•I
da Vontade de Poder.
d~ arte e no ato sexual: existe uma espéec1e e ' ltim~ instância da
t unidade prov m em u
Um texto anterior já havia relacionado o instinto· sexunl • Adivinha-se que es ª . d t. deste espírito que Nietzsche
do poder. E en to . . í ta
"sede de poder" : "A excitação sexual, quando sobe, mnnttm fonte comum . . ria da embriaguez d1onis aca: es . •
uma tensão (Spannung) que é descarregada na sensação de potlr, i'cinterpreta sua pn~:1ra teoualidade e a volúpia" .14 A analogia
(Gefühl der Macht): queremos dominar (Herrschen); um ulnnl é dito literalmente, e a ~ex b -o a sombra projetada da
, se precisa. aro as sa l -
do homem mais sensual, a decadência do instinto sexual se m11nl primitiva, porem, d
f t por conseguinte sua re açao
festa pelo relaxamento (Nachlass) da sede de poder (Durst nm 11 Wille zur Macht, ~ ~ue u~,;:;~;os elevados da vida", é q~e
Macht): a conservação e a nutrição e muitas vezes o prazer di,, orgânica . Na cond1çao de b . ez e a excitação sexual' estao
''o sentido religioso de em n agu
comer apresentam-se como substitutos (Ersatz) ." 11 Entende-se 0111 d s" 2s
que sentido o fato de que na Antigüidade "a sexualidade tenhn " admiravelmente coordena o . . ldade um da-
, a embriaguez e a crue ,
sido venerada religiosamente" 18 vale como sintoma de saúde dn A pulsão sexua.t ~• ~ mo em ue O homem chega àquele es-
civilização antiga. Não é por acaso que um dos primeiríssimos eso1I queles estados priv1leg1.~dos ) e ie plenitude nas coisas.26
tos de Nietzsche tenha sido dedicado ao princípio de luta (Wutt tado de l ucidez (Verklarung . al" que se prod1.1z esta sen·
kampf) em Homero: o instinto sexual é colocado como Wettkam!J/, -e, " principalmente no amo! se_xu t z consigo "a extraor-
· - de reahzaçao, que rn
cujo fim não é senão o devir e a vida. 19 Em todo lugar em que sação de per f e1çao ou - d der" Tem-se que observar,
- de sua sensacao e po ·
ele é negligenciado ou subestimado deve-se temer uma enfermidade dinári_a extensao - d; erfeição se traduz menos por uma
do poder. todavia, que esta sensaçao p hi to de uma falta que como
Assim, deve-se observar que o instinto sexual não sofreu umn satisfação consecutiva ao pr~,enc dmepnrof usão Ela deriva ·de um
relativização tão clara quanto o instinto de conservação na evo, uma •unpressao - de "riqueza.. e dee este é sobrecarregado
· ("ºb
u er la-
lução decisiva de Nietzsche. Po.r isso, ele não usurpa o poder dn estado do "sistema cete~raJ1 : sensação origiástica é, portanto,
vontade de poder, mas esta se revela de maneira privilegiada nele. den) pelas forças sexuais. cesso que de uma igualdade:
mais percepçao en- dógena de
. um ex \' por um transbord amento
t um importante indicador (Zeichen) da cessação da sede de ou antes, a igualdade consigo se rea iza
poder: se ela fica aqu ém das formas mais elevadas, onde a Wille
zur Macht se eleva acima da pr6pria vida, a sexualidade manifes- da energia cerebral. N' t che sobre a sexualidade: de·
ta as formas de certo modo incorporadas ao devir vital da dinâ- Esta é a última palavra de l ie zs matiza de certo modo a
mica do querer. cifrada como superfluidade, et ad esJ tpoder: nela se encontram
A Vontade de Poder recapitula assim os diversos níveis de economia fundamental da v~n a ~ de pelos limites da vida, os
intervenção do instinto sexual na realidade humana. seus caracteres, refratados, e. ver a ' .d 28
quais esta, em última instância, transgn e.
Função de sublimação: "Piedade e amor pela humanidade
como desenvolvimento (Entwicklung) do instin_to sexual"2º (ética).
" O dese;o de arte e de beleza é um desejo indireto dos arroubos
do instinto sexual que ele comunica ao cérebro"21 (estética). A EROS E LIBIDO
correlação entre arte e sexualidade é fortissim.amente marcada: . b a sexualidade se abre a partir do mo-
" Os artistas, se valem alguma coisa, são (também corporalmente) O discurso freudiano. so re a definição restritiva da sexualidade
fortemente constituídos, prolixos, animais poderosos, sensuais; mento em que Freud d1sc~te d r dade infantil exposta nos
sem um certo reaquecimento do sistema sexual não pode haver pela genitalidade. A t~ona. ª ~exu~~ psicol6gica, que se tornou
Três Ensaios obriga a d1ssoctar a unç
nenhum RafaeJ."22 Nietzsche é, noutra parte, ainda mais explícito:
-11 --•--7 - -

174
PAUL-LAURENT ASSOUN
AMOR E SEXUALIDADE 175 1

possível na puberdade da af 'd d .


bem, o que singulariz; a se~·; ~li~a~ p~é-gem.tal da_ libJdo. 1101 protótipo das pulsões de vida, sem esgotá-lo: Eros, que se opõe ao
caracteres: relação de a oio na e ~fant1l consiste em 111 princípio de morte. Esta hipótese dá ao Eros freud iano um aspecto
existência de zonas eróge~as . ( ~ pu_lsoes de autoconse1'vac;n111 dcmiúrgico que poderia fazê-lo passar por um primo mítico de
três caracteres se implicam .; pnmaz,a d~ auto-erotismo,29 F,;r, l)ioniso.
cia[,30 e que é se apoiando, J . que! : pulsao é, por natureza, 11111 Mas Eros não é senão a libjdo: simplesmente, "a libido de '1',l
- nas pu soes de autocons -
pu lsao original (oral) perde seu b. etvaçao quu " nossas pulsões sexuais coincidiria com o Eros dos poetas e filó- 1
sexualidade permanece marcad o Jt:to ef~e torna auto-erótic11 , /\ hOÍos" .34 Freud o apresenta mesmo como uma mudança termi- 11
d. a a e o im na couce - f
iana, por esta origem auto-erótica ' pçao 11·11 nológica: doravante, é preciso dizer Eros onde se falava em li- li'
escolha de objeto pela med' _ d ' mes':1~ quando se fl z<w 11 1

1açao o narcisismo 3 1 hido,35 justificando a adoção de um termo g1·ego por uma pru- ll
que o Ego se torna objeto erótico. , momento ,1111 dência em relação à força sugestiva do termo. Existe, realmente,
Por isso, a idéia de se
pliada pela relacão
rd d ê .
xua I a e - v -se cons1deravelmente 11111
como indica a conotação platônica, uma carga semântica de idea- '

lidade que poderia sublimar o termo libido, cuja conotação é, ao


exercício da funç, ão ~:m .ª c?n~epçao "popular:",32 ligando-a n11 contrário, "materialista" .36
plOcnaçao O termo libido 1
mente para evitar esta restri ão c~ 0 . . serve prcc "" Na verdade, a libido continua a ser o conceito maior do ponto
o termo "sexualidade" 8 sei e~ ~1. nsc_o, ahás, ~e ª?ando11111
de vista explicativo, do ponto de vista econômico, simbolizando o
de maneira surpreendente que ~rac,.'cd10 8:_n1tal. Admite inclusiv,
. l . , n a nao estamos de pos e 11 Eros os efeitos da sexualidade do ponto de vista dinâmico, no
um sina universalmente reconhecid . . s ômbito da última teoria do conflito. Além do mais, Eros serve
certeza a natureza sexual de um r~c: qu,: le1·1~1ta af~rmar co111
dizer. portanto, que a sexualidad/é sso F Ndao hesitamos o111
para exibir uma classe genérica de pulsões que o engloba, como
modalidade eminente das pulsões de vida.
1

cida -- por mais detetm'n d , para reu ' uma desconhc 1


1 a a que seja _ se é d d Tanto em Nietzsche como em Freud, portanto, a sexualidade
1 1
nenhum critério psicológico a t' d ver a e qul'
processo determinado O sex gl réan l ~ permite atribuí-la a 11111 não encobre a função fisiológica, mas é abordada em suas pro- 1

· ua entao o que li blemáticas simbólicas, daí sua tradução mitológica comum. Mas
genital, mas J'á está ali no "pra 1 l d se rea za com u
. , zer oca os órgão ,, E 6 isto s6 possibilita fixar melhor a divergência. i
aplicação do princípio biogenético se undo s . sta li
um processo de desenvolvimento d~ . g o qual o produto dt· Em Nietzsche, a sexualidade serve para comprovar de maneira
eia, da existência do própr·,o nva, em seu modo de existên eminente a explosão dionisíaca dos instintos. Em Freud, serve para
processo Em última · t· .
sexual não é então nem o res lt d d. ms ancta, o explicar fenômenos de vivência em sua maior parte conflituais.
1
'w
seu início (pré.genital) mas 8 pu óa _? ,~ P:º~.esso (genital), nom Eis por que, correlatamente, o Eros como emissário de Dioniso 1,1
' r p1 ia razao do processo
O papel determinante da sexualidade em Freud é. é em Nietzsche uma arma contra o ascetismo cristão, entre outros.
~a~to, paradox~1~ente, de sua indeterminação e nãO::~:i~:vf~~' Seu hedonismo assume, neste sentido, um alcance polêmico. Em 1~
e. porque a libido encontra sem . . Freud, paradoxalmente, não se encontrará o equivalente desta li
é que ela com cessar um pnncíp10 antagônico valorização. Eros é um deus saudável e simpático, mas jamais
prova seu poder na vida sf . N-
çonflito parn uma libido . é P. quica. ao havel'lu sublimado enquanto tal, nem valorizado. 11 um adversário de
pura. como altendade que ela t d
seu poder, como contradi ão - - ra Ui', Tânatos: eficiente, mas não é invencível. E também a libido que,
de realidade. ç as pulsoes opostas o u ao princípio em seus tormentos de desenvolvimento, produz a neurose; de
Com a eme ~ · d sorte que ela é evocada, como conceito explicativo, numa perspec-
fine através d~en~1a , ~ se~nd~ ~ualismo, a sexualidade se redc- Liva patogenética, enquanto Nietzsche a evoca como antídoto sal-
pnnc1p10 m1tolog1co, que se apresenta como o
vador no âmbito de sua reabilitação do Corpo.

1
r
177
AMOR E SEXUALIDADE
176 p AUL-LAURENT ASSOUN
111do, insaciável ( ...) é um sinal (Zeichen) de que a vida ficou
A sexualidade é, por sua vez d . v,·lha : é grande o perigo de que os indivíduos fiquem ruins
que a dilui irresistivelmente o q , r1:ada da vontade de 1,udr '
nomia: é, finalmente, ape;as aue 1:1ta esse~cialmente sun 11u1 11 w ldecht), por ele seu interesse fica fortemente preso aos objetos
39
Macht. Em Freud, se Eros serve som ra ?r.oietada da Wilh• '" do conhecimento, quaisquer que sejam eles" . Este hiperdesen-
ser o alfa e o ômega da aventura p:ra ex1b1r a Vida, contl111111 " volvimento traduz um declínio geral de qualidade: "Os instintos
p d umana. ,,,n geral também ficaram fracos (matt) e não deixam mais a
o e-se ver especificar-se esta d. A • 16dea curta ao indivíduo". Nietzsche, aliás, está pensando em
notavelmente análoga: a da ativid~;:genc1a sobr~ uma teJnáliL u 1Hut icular no alemão cujo " instinto de conhecimento ilimitado é
no qual se faz sentir o pode d 1 - de conhecimento, ten•cw, 40
da , r a pu sao em su f 1,onseqüência de uma vida indigente" . .
- se e verdade que este " d a orma subllmn Um outro fragmento arrisca uma analogia que assume um valor
afinidade entre amor e conhe . amor e conhecimento" reveh1 11
cimento. purticular para o confronto com Freud: "O instinto de conheci-
mento sem discernimento", escreve Nietzsche, "é semelhante ao
41
INSTINTO DE CONHECIM Instinto sexual cego, sinal de baixeza" .
ENTRE A LIBIDO E O POD~~TO E PULSÃO DE SABER: Mais uma vez, o remédio é proposto por referência à civilização
grega: os filósofos gregos se distinguem dos modernos porque
. B~m cedo aparece na problem, r d . . "domam o instinto de conhecimento",42 enquanto estes 43
são afo-
v1legiada, a do instinto de con a .1ca o mstmto uma questão pvl gados por um instinto de conhecimento "desatado" , no sentido
cebe-se, a partir do enun . d hdecunen.to (Erkenntnistrieb).31 P"I' próprio e figurado. A palavra de ordem seria então: "Domínio
· eia o a teona d · · ... 44
o sentido desta escolha· o . t· d o instinto nietzschiano (Bandigung) do instinto de conhecimento" . É tal a superiori-
Id . ms mto e e h . , '
a o, a volta do instinto contra sua fo t on. ec1mento e, por ttlll dade do "filósofo do_conhecimento trágico" que ele põe 45 "o co-
t:mpo, ele expressa o poder do insti:t• ~ ;71da; porém, ao mesmo nhecimento a serviço da vida", graças à expressão estética·. Este
c1;111ento resulta ser; por ele d o, lª que o próprio conhe• é também o segredo do Renascimento italiano, que Burckhardt
Ei~ p.or que o Erkenntnistrieb :Jes:dente da pressão instintiva,
A
acaba de revelar a Nietzsche.
prmc1palmente) é evocado us sucedaneos (Wissentrieb A Filosofia na Epoca Trágica· dos Gregos precisa esta concep-
N' concorrentement d . •
ietzsche: como negação mortal d . e nos o1s registros em ção: "0 instinto de saber não dominado é, em si, tão bárbaro
doença) e como manifestação do ~ vida \º.
conhecimento como quanto o ódio ao saber (Wissenshass) (...) os gregos por seu
Em O N . po er gener1co do instinto
respeito à vida ( ...) dominaram o instinto de saber, em46si insa-
- ascimento da Tragédia S, , .
naçao do instinto de conhec· ' ocrates aparece como a encar- ciável - pois logo queriam viver aquilo que aprendiam" . Inver-
. . imento como t' d samente, é este instinto cego de conhecimento e seus rebentos
qua1 este mstmto
. ' monstru osamente' dese ol 'd ipo e . homem no
os outros. Simultaneamente p é d nvo v1 o, eclipsou todos (erudição e barbárie do gosto) que cultivam os ginásios modernos
~quilo que transparece atr~vé~r :e~te esponta .um~ admiração por cuja crítica Nietzsche faz em conferências da mesma época. Tanto
força natural como só voraz mstmto lógico esta é verdade que, como diz um esboço da mesma inspiração, "o
' encontramos p '
surpres.a, nas maiores forças instintiva ,', ara "noss~ .horrorizada prazer de pensar não demonstra um desejo de verdade".
que amma esta busca do sab 38
er.
s ' este prod1g10so motor" As duas primeiras Considerações Extemparâneas também de•
nunciam os malefícios do instinto de conhecimento, através do
Na coletânea de fragmentos . . filistinismo científico encarnado por D. F. Strauss. Para o "mé-
tagem do instinto de conhec· mtltulada O Fil6sofo, a desmon-
tica. A'1 e·' que encontramos imento
as f, é operada
I d e maneira
· s1stemá-
. dico da civilização" ,47 porém, em que Nietzsche se tomou, o bisto-
· ormu as ma· • riador é que parece materializar melhor os malefícios deste instin-
unc1onamento e sentido "O . . is precisas sobre seu
f . mstmto de conhecimento d esmesu-

1,

,,,
179
178 PAUL-LAURENT ASSOUN AMOR E SEXUALIDADE
r.1
1
fto tentregue. a si mesmo · A• 1upertrofta
. . . do sei t' d h' , . Na mesma obra, Nietzsche observa que, paradoxalmente, um 1

es a o efeito negativo do . t' 1 i o tstonco muul 1TO fundamental sobre a natureza do conhecer é que o faz pro-
. ms mto de conhecimento.
wcdir: aquele de Spinoza, para quem o saber seria "algo desin-
O dese10 de saber e de conhecer é li
por uma hipertrofia da mem6 . naturalmente acompa11h11ch, wrcssado ( ...) no que os maus instintos do homem não partici-
. na e por um d I' · d poriam absolutamente". 53 Não é por acaso que, neste nível da
li-

e~quecimento. O instinto histórico de . ec_m1~ a função th 11


cimento e produz os mesmos .f . nva d~ mstmto de co11hr 1coria, intervém freqüentemente o nome de Spinoza: é ele que,
de q , ., e e1tos destrutivos· "V 1 . l'r
. ue a c1encia começa a reinar sob . . ; ang onam i, mnrcando o conhecimento como o selo da alegria, mas ao mesmo
assim dQlninada , não vale thuito ª,
te v1d~ ( ...) uma vidh tempo considerando-o desinteressado, indica a implicação instin-
traz em germe menos v1·da . d' porque e muito menos vidu i 1ual do instinto de conhecimento no momento em que ele se nega 1 1
- vm oura que ·ct d
nao pelo saber, mas pelo instinto . v1 a e . outrora, regicl • como passional. Simultaneamente, o instinto de conhecimento é 1,.
O . 'I e por poderosas ilusões" 48 caracterizado como instinto de apropriação (Eigentumstrieb) à
ps1co ogo de Humano Demasiado H . 54
mente o instinto de conh~ . umano encontra natuvnl maneira do instinto de caça e de nutrição.
h Ih .p cimento na psicdg f . .
o em. arece justamente " . ra ia mstmtual du Depreende-se, portanto, desta análise, que o instinto de conhe-
subsistir como motivos praze~:e d'~ c~~hdec1me_n_t-0 só pode deixnr cimento depende de um motor mais fundamental. Em Além do
entendemos por isso " . 1 teu a e, ut1hdade e pena"49 _ Bem e do Mal, ao examinar a motivação do filósofo, Nietzsche
o autentico conh ~ ·
aquele do "psicólogo". A artir d ecunento antropológico, declara: "Não creio que um 'instinto de conhecimento' (Trieb
co~hecímento, anteriormeot: sintom:st~ momen.to,. o instinto de zw· Erkenntnis) seja o pai da filosofia, mas que um outro instinto,
obJeto de uma análise psicoló . . e_ decadencia, passa a ser aqui. ou em toda parte, serviu-se do conhecimento 55(e do desconhe-
p . gtca mais rigorosa.
arece assim que o sábio cimento!) unicamente como de um instrumento" . Como aquele
único de verdade, é na realid~~: ~.';tende ater-se. a seu instinto do sábio, o instinto de conhecimento filosófico explode numa
pos:o d~ "um complicado entrela e um metal t~puro", com- miríade de instintos, "gênios inspiradores", que "cultivaram todos,
muito d1versos".so Trata-se então ·Jamento de m6ve1s e atrações un,a vez, a filosofia". t na medida em que cada instinto tende

tada por uma multidão de


f
rente uniformidade do mono-inst' te ostrar e m ação, sob a apa-
m ua_ Js~o, uma dinâmica alimen-
a dominar que ele "aspira a filosofar" . O que é identificado como
instinto de conhecimento não é portanto. 'literalmente, senãó a
o instinto de conhecimento ~:q~en.~s ~nstmtos (Triebchen). Assim, vontade de poder do instinto dominante.
sob a ação da análise psicol6 . es1 du e s:p~rando-se de si mesmo
g1ca e a q u1m1ca das re re - ' Este não é, todavia, uma simples ficção: Nietzsche concorda,
Aurora apresenta o instinto do . . p sentaçoes. logo depois, que entre os sábios "pode existir realmente algo como
à_ fruição de "uma ilusão forte sóf~~~ec1mento como obstáculo um instinto de conhecimento, algo como uma peq1.1ena mola de
1 ª , em que consiste a feli-
cidade bárbara.si ' relógio independente que, com bastante corda, trabalha valente-
1
mente sem que os instintos reunidos do sábio participem essen-
Esta perspectiva desemboca no d. 6 .
o conhecer, ao invés de se ia~ st1co de A Gaia Ciência: cialmente disso". Em outras palavras, o instinto de conhecimento 1
oposto aos instintos é a r, na reahdade, algo essencialmente tem por destino alternativo decompor-se na dinâmica dos instin- J

entre si. s2 :É, mais p;ecisa!::~: ~ma certa relação dos instintos
rentes e contraditórios do riso' d um_resultado dos instintos dife-
tos que o carregam ou funcionar à parte, mas como um mecanis-
mo autônomo que não implica os verdadeiros "intel'esses".
1
.
se pronunciam e deliberam b' a piedade, da maldição". Estes O Erkermtnistrieb, portanto, divide-se finalmente, em Nietzsche, 11
. t l' so re um aconteci t
men <:, enquanto a
A •

me igencta, que parece decidir s6 . . numa rotina paralela, algo como um "complexo" ou hábito ino-
que resulta do debate dos . . ' teg,stra a soluçao ponderada 1

mstmtos. fensivo. de um lado, numa expressão derivada da vontade de poder


i; 1

1
\ 1l ·
1
180
PAUL-LAURENT ASSOUN
AMOR E SEXUALIDADE 181
espiritual (geistige Wille zur Macht)· d
sainento é novamente reduzido " ' e o~tro, enquanto o pr" xualidade", embora "suas relações com a vida· sexual sejam impor-
U af . a uma relaçao entre os insl'inlo
- m or1smo de A Vontade de Poder f . . tantíssimas".
laçao sobre a questão do E k . . o10ece a última for'"'' O Wisstrieb acarreta, portanto, um problema de identificação.
. ' r enntmstrreb· " O s . .
coo h ec1mento deve ser red .d . . . oposto mstrnto ,1 De onde procede esta pulsão não sexual intimamente ligada à
de doniinação".56 Eis en ~zd1 o a um instinto de aproprlaçd,J t pulsão sexual? "Sua atividade (Tun) exprime, por um lado, um
termo que acaba sendo unc1a a em sua pureza 1
J d a evo ução de 11111 modo sublimado de domínio (Bemiich tigung), p or outro lado, ela
. 'f co oca o entre aspas po. N·
s~gru tear que ele só faz refratar f . . t tetzsche, p11r11 ll'nbalha com a energia do prazer da visão (Schaul ust)". Combina,
de poder. Ao mesmo tem o o~ orma mtelectual da von toch portanto, uma exjgência de domínio com um voyeurismo intelec-
da qual sai, por desenvol R , p tém, apresenta-se como a 1•111 tual. O que leva a saber provém, pois, da pulsão de domínio e é
(sen t'd v1mento, toda forma d nl .
t o, memória etc.). A última l e _co 1ec1mo11111 ol.imentado pelo prazer ligado à visão.
nhecimento tende a vincula pba avra sobre o instinto de "''
do f t o sa er ao poder p I . " Freud está de acordo com Nietzsche ao ligar esta pulsão, de
q uerer re ratado na pulsão instintiva. ' e a mst«m1111 resto associada ao n ascimento da inteligência, a um fenômeno
patológico. Nas considerações teóricas q ue acompanham o estu-
Este instinto de saber u N '
a sua obra parece ter sid; :n~et;sc;e denuncia ao longo de tod' do sobre "O Homem dos Ratos", Freud obser va que se encontrá
gação sobre a sexualidade infant~ r; ~ tºr Fre,ud_ em sua investi
regularmente na história das neuroses obsessivas "a aparição e o
uma oportunidade de ver as d . s a om~nun1a, no entanto, r recalq ue precoce da pulsão sexual de ver e de saber".58 Daí o
- a um mesmo ob. t
re1açao uas concepçoes se a·1v1.d.nem principal sintoma de ruminação mental (Grübeln): " O próprio
Je o. 0111
processo de pensamento é sexualizado, enquanto o prazer sexual
No segundo dos Três Ensa . que gerahnente se relaciona ao conteúdo do pensar é •dirigido para
sex?alidade infanli!, Freud ob;~:v:obre ~ Sexualidade·, dedicado h o próprio ato de pensamento e a satisfação sentida ao atingir um
a vida sexual da criança a tin que_ na mesma época em qur resultado cogitativo é como uma satisfação sexual".
ao quinto ano, ocorrem os ri::í stu pn meiro ~~ogeu, do terceiro
mos à pulsão de sabet ou d~ e p ~s de u_ma atividade q ue atribuí,
O hiperdesenvolvimento disfuncional da pulsão de conhecer
se baseia, portanto, em Freud, numa função substitutiva da satis-
Freud tem o cuidado d P squisa (W,ss-oder Forschertrieb)" ,.,
. e acrescentar que " - , . · fação sexual - assim como, em Nietzsche, trad uz uma pet·turba-
n ~, mas prá tico", q ue traz esta J - nao ~ um mteressc teó ção <la vida e uma recusa da pulsão vital. Observemos, contudo,
Esfinge sexual é que sustenta este ~u s~o te6nca: o enigma d11 que Nietzsche fala em Wissentrieb, onde Freud usa o termo
vivo mteresse.
Ao introduzir esta idéia O , Wisstrieb : N ietzsche denuncia a predominância da tendência ao
que "a pulsão de saber não': ;em, Freud precisa imediatamente saber; Freud estuda o superdesenvolvimento da tendência ao saber.
tes pulsionais elementares" Ro e sher contad~ entre os componen- ~ verdade que, nos dois casos, o q ue está implicado é o desejo
. . • econ ecemos 81 0 · , .
no d a limitação das pulsões E prmc1p10 freudia. imperioso de saber: é aí que se encontra o conceito freudiano
trieb e o Erkenntnistrieb co~sti~~anto e~ ~ietzsche o Wissen- de Wissbegierde, que seria muito bem traduzido pela expressão
Freud tem o cuidado de h. . ~ um mstmt~ em si mesmos, libido sciendi. ~ literalmente o saber como objeto de concuspis-
Wisstrieb não é, portanto umie~art~u1zar o~ níveis pulsionais. O cência. No sentido mais restrito, é um sinônimo de Wisstrieb .
.., , ms mto autonomo· - ,
sa.? no mesmo sentido das pulsões sex . . nao e uma pul- Na quarta das Cinco Lições de Psicanálise, Freud assinala .que
Nao se poderia entretanto f ,. 1 ua~s ou de autoconservação. o desejo de saber se destaca da forma ativa do prazer de ver,
simplesmente: ;le não pod~ az~:,º pbot J~so derivar delas pura e enquanto a forma passiva do prazer de ver (Schaulust) dá origem
se1 su metido exclusivamente à se-
à exibição artística e dramática. 59 Para Freud, por conseguinte,
182 PAUL-LAURENT- ASSOUN AMOR E SEXUALIDADE 183

prazer de conhecimento distingue-se do pl'azer sensível estétic11 é o ser da pulsão, enquanto, em relação ao confronto, ela deve ser abor-
pelo caráter ativo da pulsão em ação. dada como •tema".
Em seu estudo sobre Leonardo da Vinci, Freud enuncia um11 3 § 1 SW, I, 47 · · · f t d
4: ln: 'o Livro do Filósofo, p. 40, § 20 (por analogia com o ms mo e
lei de deciframento deste tipo de instinto: no caso em que, 1111 conhecimento). ·
imagem caracterial de um sujeito, um único instinto se achn 5. Cap. II, § 98, SW, UI, 87.
desenvolvido com força e intensidade superdesenvolvídas, como o 6. Liv. I, § 76, SW, IV, 66.
7. SW, X, 290.
desejo de saber em Leonardo, deve-se postular que este instinto
8. SW, X, 294.
superpotente (überstark) surgiu na primeira infância do sujeito r 9. SW, X, 298.
que deve sua soberania (Oberherrschaft) sobre os demais a estu to. SW, X, 304.
função representativa da pulsão sexual. Freud precisa, aliás, qu1: 11. Cap. IV, § 75, SW, VII, 79.
este superdesenvolvimento tem os mesmos efeitos nos casos en1 12. SW, XI, 49.
13. Além do Bem e do Mal, cap. V, § 189, SW, VJI, 99.
que o instinto superdesenvolvido é bem diferente da pulsão de
14. "O que devo aos antigos", § 4, SW, VIII, 181.
saber ou de pesquisar (Forschertrieb) .60 O que não impede qu1:, 15. "Por que escrevo livros tão bons", § 5, SW, VIII, 344.
não por acaso, seja este tipo de pulsão que dê lugar ao enunciado 16. Op. cit., p. 345.
desta lei do superdesenvolvimento compensatório, e que é nesll' 11 . swt x1, 149.
terreno que os enunciados de Freud mais se assemelham aos dl' 18. SW, XI, 340.
Nietzsche. 19. SW, XI, 461.
20, SW, IX, 185.
O imperialismo particular do instinto de conhecimento deve-se 21. SW, IX, 540.
ao fatÇ> de ser, conforme a expressão de um texto posterior, ''um 22. SW, IX, 550.
rebento da pulsão de domínio (Bemachtigungstrieb) sublimnêln 23. SW, IX, 536.
e elevado ao plano intelectual" .61 24. SW, XI, 534.
25. Op. cit., p. 535.
Sobre este ponto em particular, vemos bem como as análise11 26. Op. cit., p. 536.
nietzschiana e freudiana produzem temática notavelmente con:vo11 27 Op. cit., z
t t
gente, decifrando este campo comum com o auxílio de dois pri11
p. 539. d
2s: Observemos a curiosa influência de certas pass_agens . e ara ra
como crítica do conformismo sexual: assim, Ernst Th1el, f~turo ben e1tor
t~
cípios interpretativos distintos.
dos Nietzsche-Archiv, tirou, dTe pbassag~ns
mento (Das Velhas e Novas ~ ua.s, iv.
~:t~ª;:t:::
, • .
~~~~~ica~v: ;as:;
. ) Sente,
NOTAS . mper seus compromissos con1uga1s (cf. Peters, op. cit., pp. 271 2
10 pd
1 audácia das ressonâncias eróticas de Zaratustra. o e-se
se, em gera , :lamente relacionado aos ~lementos do diagnóstico psican~-
I. Esta temática constitui, portanto, o centro do confronto, pois alimon
tou as mais espetaculares analogias percebidas retrospectivamente entn•
Freud e Nietzsche, mas também porque tem por função, em nossa investi
~
fí~::iv(::p~:.r~p. 15-9) vestígio de elementos erótic~s obsessivos t
de Nietzsche, após seu colapso: o pr~eiro relatório .~aumann . :e :~~:
~elí~10

gação global, assegurar a passagem das bases das problemáticas (liv. J) N


suas aplicações tliv. III). Isto significa que procuraremos elucidar o 0011•
teúdo da filiação para dissipar a profunda ambigüidade da própria idóln
b ·va· "Não pára de pedir mulheres (Podacb, op. c1t., p. ~19), g
~ ~~~ri~ do sanatório de lena, de 2 de dezembro de }889: Pretende
visto esta noite mulherezinhas completamente loucas (Podach, p. 14 .
;r
de "precursor" e de antecipação, arrolando os elementos deste paralclll Cf. a evocaçao - d as filhas
• do deserto na quarta parte de Zaratustr.a.
O exame de cada tema exige que se atravesse toda sua evolução na problt• 29. GW, V, 83.
mática nietzschiana e freudiana.
30. V., supra, PP• 136-9 . .. 19 1():.1914
2. Realmente, apontamos a libido como princípio pulsional e as puls&M 31 Momento correspondente à introdução do narc1s1smo, em . ·
sexuais como pulsões fundamentais (liv. I, cap. 3), esperando abordii,ln 32: Ampliação que recorre a Platão. V. Freud, la Philosoph1e et 1es
como tema aqui: é que, precisamente do ponto de vista freudiano, a llbidt1 Philosophes, pp. 146-50.
184 PAUL-LAURENT ASSOUN

33. Con/erhlcias introdut6rias ~ Psicanálise, XX, GW, XI, 331. .2.


34. Além do Princípio do Prazer, GW, XIII, 54.
35. Uma nota de 1925, da Traumdewung, que anuncia esta equiva14n
eia declarando que "a psicanálise emprega agora correntemente• a palnvr11
• sexual" "no sentido de Eros" (GW, II, III, 167).
36. Cf. a advertência de Psicologia das Massas e Análise do Ego. O11p
IV, 1921, no exato momento em que a terminologia de Eros começa a prr
INCONSCIENTE
valecer {GW, XIII, 99). Nesta passagem, ele desconfia que • os termos m11l1
distintos (vornehmeren) Eros e erótico" compensam a carga negativa dll
E
sexualidade como "algo que envergonha a natureza humana e a rebal:it11'
A equivalência do uso é, portanto, tolerável. mas é uma facilidade retórh111
CONSClSNCIA
não inocente, pois "começa-se a ceder nas palavras e depois acaba-se at'
dendo na coisa•. Pois bem, a libido designa mais adequadamente a coi~,.
enquanto com Eros &e corre o risco de cootentar"se com palavras. Esta ~
uma advertência a toda erótica sublim.adora, inclusive, em certa m edidn, •
de Nietzsche.
37. Já localizamos este instin to especial no vasto r ebanho nietzschlano
dos instintos (supra, pp. 92-9) e assinalamos seu p apel na gênese do con
ceito (pp. 99-100). Mas aqui ele aparece com um privilégio que permlt11
fundamentar sua importância,
38. SW, I, 119.
39. SW, X, 45.
40. Ibid., pp. 45•6.
41. O Filósofo, trad. fr., p. 41; Beck, § 20.
r d d ha sua linguagem no incons-
Se é verdade que a sexua i a e ª~eve prosseguir o diálogo de
42. SW, X, 47.
43. SW, X, 50 e 52.
ciente, é sobre este novo ::ma :ae maneira de apreender como a
44. SW, X, 53. Nietzsche e Freud. É tam e~-u sique colocada em nível prin-
45. SW, X, 50. questão da rela7ão entre pu sao t:: do i~consciente, tradução psí-
46.sw, I, 265. cipal,1 se atualiza sobre a ques a
47. V., infra, liv. III, cap. II. quica da pulsão.
48. SW, II, 156.
49. SW, III, 47, I, § 34.
50. SW, III, 207, V, § 252. O INCONSCIENTE
51. SW, IV, 256, liv. V, § 429. NA FILOSOFIA DE NIETZSCHE
52. SW, V, 219, liv. IV, § 333.
53. SW, V, 247.
Homero e a Filologia Clássica,
Desde a au~a ina~gural ~obre Ao evocar a questão homérica,
54. SW, XI, 165.
55. SW, VII, 12, cap. I , § 6. intervém a idé1a de mc~?sc1e:~:~ação intelectual (Einsicht). nos
56. SW, V, 288. Nietzsche observa que a p A do instinto e do consciente
51. GW, V, 95. Laboratórios totalmente heterogeneosl h. érico" 2 Observemos
58. GW, VII, 460. . d 1 ar o prob ema om .
desloca a maneira e co ~c . - -se à de consciente: é o roes-
59. GW, XIII, 46.
aqui que a noção de Instinkdtives opoet neamente umá equivalência
60. GW, VIII, 144. . é postula a espon a . é
e•
61. GW, VIII, 450 A predisposição à neurose obsessiva"). V ., i11/rt1 , mo que d 12er que . ·~ . O i·nstinto é aquilo que •
. . a1· d de e a mconsc1enc1a.
pp. 249-51. entre a rnstmtu t. a 1 1 mento do in-consciente. Por outro
por natureza, decifráve no e e
186 PAUL-LAURENT ASSOUN INCONSCIENTE E CONSCitNCIA 187

lado, instin:iv~-i~conscien_te e consciente constituem dois registrni Assim, em O Nascimento da Tragédia, parece que o dionisis-
~u ordens s1mctnc~ e radicalmente opostos: estes contrários co 111, mo dá livre curso aos poderes do instintivo e do inconsciente,
titu,em ~u~s. m~dahdades incompatíveis de tratamento _ dní 1, enquanto o apolinismo o pondera pelas exigências da forma , por
t~rmo s1gnif1catrvo Werkstiitte (oficfoas, laboratórios) _ subnw onde transparece a consciência: "A dialética", diz Nietzsche neste
t1~0s a um deciframento respectivamente oposto. Entre e.stes doi1, sentido, "comporta um elemento otimista, que celebra seu triunfo
gener~s, .ne~Jmm metabasis eis alto genos é tolerável. Eis por C)Ul' em cada raciocínio e que só pode respirar na fria claridade da
sua .d1sttnçao, coi:n todas as suas conseqüências, é O ponto de• consciência". 5 Vemos, portanto, a fria claridade da consciência
paruda metodológ1co da filologia tal como é concebida por Nier,~ associar-se aos valores apolíneos e socráticos em face da calorosa
eh~, a come~ar pel_a famosa questão homérica que é seu revelado,, opacidade do trágico dionisíaco. A forma clarifica, na medida em
A_ falta d~ d1scern1mento mortal em filologia consiste em confun que organiza: por isso, é associada ao consciente. Ao contrário,
d1r os dois registros, reduzindo um ao outro. o desencadeamento dos poderes instintivos desenvolve-se de ma·
Este ponto de p~rtida_ da posição nietzschiana pesa sobre O qw· neira privilegiada no inconsciente.
se segue ~ ele: '?1~te a1 u~ requisito princeps, o de dar col'po, O inconsciente não é, porém, a bem .dizer, um conceito central
em s~a d1fer~nciahdade propria, ao registro do instintivo. Poli, de O Nascimento da Tragédi'a (na mesma qualidade que o instin-
bem, isto_ ~ammha la~o a lado com a consideração de sua modall to ou a inteligência): quer dizer que ele designa menos uma cate-
~ade posicional própria, a in-consciência. Eis então O inconscieJth• goria própria que a projeção dos fenômenos dionisíacos. Mais que
ms~alad~ d~ c~ofre no âmago da temática nietzschiana, com u o Inconsciente, o ser inconsciente do instintivo é o que Nietzsche
registro mstmtivo q ue é precisamente seu cerne. O inconsc·" t valoriza.
' t · • , lvll l'
~• ~es e prnneuo. sentido, a propriedade mais caracterizante do Por outro lado, é como que designando a identidade _e a dinâ-
mst~nto, seu pred1camento universal, e, em última instância, S!.lll mica dos povos (Volker) que o inconsciente se afirma em Nietzs-
equivalente, seu outro nome. che. Ele remete a uma identidade coletiva cuja riqueza secreta ele
. Cab~ obser~at·, ~odavia, no uso nietzschiano do termo, que 11 traduz. E es·te inconsciente popular que Nietzsche descobre em
mconsc1ente nao é imediatamente hipostasiado em princípio, m,·~ ação na epopéia homérica, na tragédia grega; quando dá início à
mo que ele tenha a função de princípio. sua crítica dos tempos presentes, é sobre esta pedra de toque que
Que o inconsci~nte faça as vezes de princípio é, no prolon~u ele julgará a saúde de uma civilização. A hipertrofia da memória,
men:,o da perspe~tiva schopenhaueriana e como elemento da oon ligada ao sentido histórico dos modernos, caminha lado a lado
cepçao pre-freud1ana d? inconsciente,3 um caráter constituinte. (l com a primazia dos valores de consciência. Inversamente, o gran-
re~ensea~ento e a análise das ocorrências do termo na obra nüw, 41 de povo grego, que sabe esquecer tão oportunamente, oculta um
ch1ana nao_ re:'elam, no entanto, a tendência, de tipo hartmaniano1•• inconsciente vigoroso. A memória histórica está associada à cons-
a. substancializar o Inco~sci~nte erigindo-o em princípio prhnoi ciência, assim como a função de esquecimento exprime o incons•
dtal_: s~berana~ente explicativo. Em outras palavras, a deteiml ciente. Não é por acaso que a segunda Extemporél,nea começa com
naçao mcon_sc1ent~ está oni.presente, isto é, implicada em todh a evocação do rebanho, imagem acoplada da inconsciência e da
lugar onde mtervem. o registro instintivo, mas é como se e.IA "' inocência.6 Não é por acaso que Nietzsche, crítico dos ginásios
despr~ndesse _deste para erigir-se em hypokeimenon. Poder-se 1,1 alemães, opõe ao filistinismo cientifícista, apegado a falsos valores
resurnll' esta impressão geral que se depreende da economia tlu de translucidez, "esta salutar inconsciência, este .sono <lo povo
termo na obra nietzschiana, dizendo que existe inconsciente \ 'Ili que se dá a saúde".7 Ela se opõe à palavra de ordem da cultura
toda parte, na realidade humana e natural, mas que não .se enoou popular - "Sê consciente!" - como autêntico "meio de salvação
tra o Inconsciente à parte, nem em alguma parte. da civilização".
188
PAULLAURENT ASSOUN
INCONSCIENTE E CONscrnNCIA 189
, Assim se ligam, na pena de N' tz h
snude e inconsciente· assim co '.: s~ e, doença e consciêncln, cimento no cerne da realidade humana e universaliza o incons-
'~º de libertação, s:rá ass;ciad:sc~e~~•a, ao invés de ser sinônl• ciente como linguagem deste desconhecimento crônico.
ciente será investido de vi t d . godo, enquanto o incons
tsein). t u es curativas (heilsame Uunbewus1,' Isto equivale, porém, como antes, a negar à consciência sua
pretensão ao título de princípio. Supõe inverter a relação cons-
Com o advento do projeto sic 16 . - . ciente/ inconsciente constitutiva do desconhecimento; o que se dá
te acha-se modificada a p o g1co, a funçao do mconscien, originalmente com o primeiro não é senão o mais superficial, que
- o mesmo tempo q {
vençao. Se, como diz Hum D . ue seu n vel de inter- mascara o verdadeiro princípio. B nesta ótica que Nietzsche dará
é um d'1v,'duum 8 isto é . aano, emas,ado · Humano, o zn . div,duu
' . início a uma luta contra o consciencialismo. 11 Nietzsche não dei-
111
.
ti - ' , 0 cop1amento de um i tin' t
mo vaçoes com as quais el ns o egoísta e dr xará passar um texto importante sem operar esta inversão. Vê-se,
e o oculta o inco · ,
no nexus deste dividuum O h
·
'
ornem ama
nsc1ente e colocado
·
uluz do que precede, o sentido desses esclarecimentos. A primazia
amor desvairado mas age co . ª. si mesmo com um atribuída ao consciente é o principal sinal da estrutura do desco-
m , . m motivações que m
esmo este motor primo d' I N . ascaram para si nhecimento. Compromete, portanto, toda uma antropologia que
moralista intervém no pr:C~a . l a esteira de La Rochefoucauld, o é preciso atingir e recusa através disso.
a significar, mascarando-se1s0Elugar edm q~e o amor-próprio pass11 Das duas posições anteriores, é prêciso ter em mente duas exi-
'ê , • e con uz unp· d
c1 nc1a o móvel inconscie t ie osamente à com;. gências que se superpõem: por um lado, recusar a ilusão do
ciente. Neste sentido é n e,Irecusando por isso o motivo cons- desconhecimento; por outro, pensar a Husão como o próprio ser.
" que e e é desmistificad
as cores mais magníficas" as " é . . or, revelan90 sob Isto é o que explica que o inconsciente, linguagem da ilusão, seja,
zadas" que elas revestem.!> mat nas vis, até mesmo despre- alternativa ou simultaneamente, usado por Nietzsche para denun-
ciar a ilusão ou valorizá-la, e, em ambos os casos, para exibi-la.
Vê-se no que a intervençã d . .
perspectiva anterior ele desi ~a o tnconsc1ente se modificou. Nn Correlatamente, o inconsciente será pensado como· máscara e
to, revelado no trá~ico: se;ia va o modo, de inerência do instJn. meio de salvação, oposto à consciência como máscara e doença.
da existência escuro El para valorizar o autêntico modo Na época de Aurora e de A Gaia Ciência é que esta concepção
' · ,s por que ele era d.d é fixada.
mente, n o inconsciente de apreen I o anonimo•
da natureza no homem dumí povo, até mesmo como instâ11cl11 t'Conhece-te a ti mesmo", diz um aforismo, "isto é toda a ciên-
· • - a suas virtudes salv d cia".12 Mas precisamente esta ciência tem por condição prévia a
mconsc1ente designa a brecha . t . d' . a oras. Agoro o
Ele é menos efusão que dissi tn ~a-1,:1 ~~1dual do ideal à natureza. experiência do não-consciente em seu poder próprio. O autoconhe-
Demas . iado Humano O And ~luhaçao. Neste sentido, Humano, cimento supõe tornar-se consciente da subordinação do consciente
Opmtoes
. ·- e Sentenças, sond an o e sua . Sombra, M'isceIAanea d,, ao inconsciente. Uma aforismo de A Gaia Ciência é que o enun-
C d e • am as mamfestações d . . cia com a precisão de uma concepção amadurecida por muito
a a a1or1smo, sentença ou máx' o mconsc1entc,
nlfestações. ima aponta um aspecto dessas mu tempo: "A consciência é o último e mais tardio desenvolvimento
do orgânjco e, pol' conseguinte, também o que há de menos aca-
A~ inconsciente é, ainda aí, menos u . . bado e menos forte" .13
cronico do agir humano a . - . m pnncípio que o regime
Consciência e inconsciente são julgados, portanto, em relação
o querer e o agir, o verd~deZ~8: t~c~ssanten:iente reativada entro
a um sistema orgânico em devir, ao qual estão relacionados como
na sempre a ilusão, mas a r ee ~ a so, o d1to e o calado. DesJg.
dois momentos. No interior deste desenvolvimento (Entwicklung),
comportamento moral- Quepo hnd1da doravante na imanência du
a consciência aparece como uma aquisição tardia. Pois bem, con-
. d'1ferente do que. crê f
coisa . faça incessan temente uin 11
omem
.sistindo o sentido de desenvolvimento do sistema orgânico numa
azer, e1s o que institui o desconhc
adaptação crescente q ue caminha lado a lado com um afrouxa-
191
lNCONSClE.l\TE E CONSCl tNCIA
190 PAUL-LAURENT ASSOUN
11gora. a maior parte da vida se passa para nós sem este espelho -
~ento da estrutura morfoló .
na do organismo está tambf i:ª•
o Jue vem mais tarde na hi 1
Atingimos aí o cerne d . ~m _ecrescente perfeição.14
,. mesmo certamente de nossa vida pensante , sentinte, desejante,
por mais ofensivo que isto possa soar para um filósofo mais
representada como um a orgamzaçã
a f~s10log1ah •nietzschianu. Ela devc velho". Em resumo, "a consciência é supérflua nas coisas essen-
, ui ,
v1~c o c~nservador dos instintos" ~s tr~rquica cujo centro t• ' ' dnis (Hauptsache)".
Nietzsche chega mesmo a supor que a consciência só se desen-
~e~:conscl1ent~. E só na periferia, ·subor~· qude deve ser -colocnd
ser ocalizada a co •A • ma a ao centro 6 volveu sob a pressão da "necessidade de se comunicar", conse-
de fo é nsc1enc1a Toda p t b • t!U cutiva à vida socia\. Por conseguinte, "o pensamento que se torna
. , rças geradora de patologi~- " D er ur_ ação desta rclu~A
mumeros equívocos que fazem . o consciente é que nasL~• consciente não é senão sua parte mais ínfima, digall\OS, a mais
pereçam mais ced d com que um animal u h !,llperficial, a pior: pois só existe aquele pensamento consciente
se o "re ul d " _o o ~ue o necessário".16 E , m omi:-111 que ocorre em palavras, isto é, em sinais de interctitnbio" .w Por-
pod g" a or mconsc,ente não fosse "C m o~tras palav"
er?so que a consciência a h .d ao excessivamente lllhl tanto, "a consciência não pertence realmente à existência indi-
pecadilho: a menor idéia se;ia tn~;~• ade sucumbiria ao mc111, vidual do homem, mas não à sua natureza comum e àquela do
, cbanho" .11 A partir do momento em que é traduzido pela cons-
f consciência, portantoé u a .-
acabada: ;;',ª !~Ji:!"t'•tardia
t 11 ciência, o pensamento perde sua realidade individual e pessoal,
~:an7s~!"'; nem 00 que ., reduz-se a uma aproximação específica que a falseia irreversivel- 12
A . , º:
salutar, pois, que ela se·a" . , um perigo parn u
mente. Eis por que "o aumento da consciência é um perigo" .
SSJm e o inconsciente: o tirano J_ so~1damente tiranizada".'
é a representação correta do orgp;o.v1denctal do organismo. A~1111 Este é um texto fundamental onde se percebe que o acesso à
O de h . nismo. individualidade, para Nietzsche, passa pelo inconsciente, lingua-
scon ec1mento geral co . gem não-falsificadora do foco instintal. Isto é que constitui seu
uma grandeza constante, à qua~s~:te te~ t_omar a consciência pu,
valor próprio. "B, preciso observar, no entanto, que neste texto o
mo, o_nde se deveria falar em inte~ r; u_1 a unidade do organi
inconsciente está presente in absentia: o consciente é o único
:::~;n;ialis~~• é preciso restituir à ~::::~- ~ôotra este ilusótiu recusado. O inconsciente está oniprese'i~ implicitamente como
. . e vanavel, reservando , 1 nc1a seu papel sub01
função de regulador instintivo. B que Nietzsc.li~.nâo deseja deter-
mconsc,ente. Aí está a reviravol~ t1tulo de constante ao instit1l1J
minar demais, com o risco de empobrecê-la, esta outra esfera que
ca, a verdade_ira revolução copémt saluta.r ~a matemática orgfinl
o consciente não esgota. Basta sugerir que o inconsciente designa
que .º consciente gira em tom ca q~e tara com que se descubr.1
aquela região onde ocorrem as "coisas essenciais" da realidade
exprime af com notável clarezao do mconscienle.18 Nietzsche u
humana. Onde a consciência começa a falar, o essencial já aconte-

;~~::~-;,~:ti:x~~': :u:m:::
. Ao voltar ao "problema d

der
em que medida.poderíamos
bem
emento em que .. ,
. • A 1
;;d;",;7:!~~•mq:e po1~tt·
começamos a compreon
ee r
ceu - e se perdeu ou se mascarou.
Pelo mesmo movimento Nietzsche descobre, em ação na cons-
ciência, a mais profunda atividade do instinto. Em Além do Bem
a .ele". .19 eorno prova, clt• e do Mal, não p0r acaso é a propósito do filósofo que ele procede
evoca aq•Aui· .ª f is1ologia
·• escapar
e a história d
a esta demonstração. Jâ no texto anterior de A Gaia Ciência,
:a't°;:c~:•a é/pen~s um predicadoo~ã~rnn:;:~ ~~ulta-disto qur evocara a filosofia tradicional que sofre ao ver rebatidas as pre-
e a açao: " Poderíamo an o e nao univc,
querer, recordar; poderíamos ;gualms, com efeito, pensar, senti, tensões do consciente. É <}Ue o consciencialismo, para Nietzsche
a pala • ente ' · , • e também para Freud, é o pecado fi.losófico: o filósofo-~ o arte-
dno ' vra: e, a despeito disso, não se . agir. em todo se11tido são do consciente, e a atividade filosofante, a suprema pretensão
s entrass~ na consciência' ... A . r!a i:irectso_que tudo isbo
da atividade consciente. Eis por que Nietzsche diagnostica: " Deve-
que, por assrrn dizer, se visse num ~!:1: o.te~ae,sen~ assimpossível semt
q_ue, aind
193
INCONSCIENTE e CONSCil':.NClA
192 PAUL-LAURENT ASSOUN
1 o novo que supõe a conscientização,
se incluir a maior parte do pensamento consciente entre flS 1111 f . na verdade, a prov.a d~ a g - 31 D eve-se então concluir, par-
dades instintivas, até mesmo o pensamento filosófico ( ...): ' com t> que isto implica . e_ ten:%mpete ao inconsciente e refu-
consciente' não se opõe em algum sentido deci sivo ao que é 111 11 ttndo d isso, que a perfe1ça~ ~ " de que "a consciência é o esta-
1or como falsa a "pressupos1?ªº t 'rio· " A intensidade da
tivo - em sua maior parte o pensamento consciente de u111 Ili • " 32, Muito ao con ra • .
sofo é secretamente guiado e colocado em certas trilhas poi• • , cio elevado, superior . l - ·nversa com a labilidade (Leichte-
i.:onsciência se acha em re aça~ 1_ b al" 33
instintos". 23 . d d da transm1ssao cere r .
l
rei) e a ce en a e - à b' t' 1·dade dos " preten-
Isto não põe novamente em questão a oposição dos rc11h,11 pretensao o 1e iv
consciente/instintivo, mas ind ica, ao contrário, a conseqUén, 1 lsto equivale a ri::us~r ! ual se baseia a auto-observação
~os" fatos de consc1enc1a, na q d deira questão é a do tor-
natural disto: a primazia do instintivo ( de acordo com a 11'1111 - Eis por que a ver a - d
fisiológica anterior) implica a derivação, em última análise, de 1 nu a introspecçao. . d ) Se a consciência nao po e

m1r-se-consc1en te (Bewusstwer en •
.. d'ca deve-se colocar a cons-
a partir daquele. O que equivale a afirmar que não existe r 1111 · azia q· ue_ ela re1vm
d" 1 •·ca do organismo
.
ciente puro: este é habitado pelo fostintivo, que nele colocu, d preten der a prun A que ª
. - relaçao com a 1nam1 . , . é
certo modo, algo de in-consciente. ciencia1izaçao em consciente aquilo que, em pnnc1p10,
requer e a dosa: só se torna . om a ultrapassagem deste
Como precisará A Genealogia da Moral, a consciência h111111 sentido como útil.35 A patolog1a começa c
na se assemelha a uma câmara estreita, 24 uma brecha precárir, 11
umbral de consciência. - - portanto um trata-
" atividade maquinal" cujo motor não é senão o Instinktives. 1,1, . · rzaçao supoe •
O processo de consc1enc1a 1 t' açã~ de adaptação, q ue
implica principalmente a fragmentação da consciência, 1'edu111I" . 1.r· ção de esquema 1z ,
a um "amontoado de afetos". 25 Pica, portanto, entendido q111 mcnto de s1mp 1 ica . , d d . nterior". Em outras pa1a-
cipressa a "{enomenaltdade o ~unto él um fenômeno finàl . uma
atividade principal do organismo (Haupttiitigkeit) é inconsclenlr
vras, ",tudo o que se tornacLconscd1e,~ 3~ Percebe-se aí o sentido da
"A consciência só aparece habitualmente quando o todo quu, M• - - o é causa e na a .
bordinar-se a um todo mais elev~do" . Esta atividade p.rincep,, 111 conc\usao, e na . d onsciência: ao negar-lhe esta pre-
mifica-se, pois, em toda atividade, e até no pensar mais conscil111t última teoria nietzsch1ana .ª c. é transferida para a Wille
_ f ·a-se-lhe a eficácia, que . . A •

Nietzsche sempre encontra a metáfora da superfície (ObN f/,1 lcnsao sua, rc u . e vê-se precisar-se a tns1stenc1a nos
che) para caracterizar a consciência:27 o inconsciente é aprese111ml11
então correlatamente como o fundo ou o interior. Ele figura, nnl
zur Macht. P?r consegumt ê• valor indicativo precioso pelo
dados inconscientes: estes t m um d nada· logo a vontade de 1
1
foto de o consciente não ser causa ef. 1 ' ,
sentido, a coisa em si. Coloca-se a partir deste momento a qm•,1111, 'l . ·nstância a causa ma .
1
de seu estatuto em A Vontade de Poder. Quando se edlfücn 11 poder é, em u tima
.
:~ .
onsc1enc1a é conce 1 a
b'd como "processo" \
síntese fi nal, qual é o lugar ocupado nela pelo inconsciente? Por consegumte, a e d - das sensacões ex.ternas, centra-
Encontramos aí, primeiramente, o diagnóstico conhecido: "'\ que, estimulado pela c?°l. e,~ª:tiológico p~r aprofundamento e
consciência exprime urn estado pessoal imperfeito e muitas v r:11 se paulatinamente no in iv~ / 1 deve ser compreendida uma
doentio", enquanto "todo agir perfeito é justamente inconscll,111, intel'iorização.3" Neste senti o, ': ª. total" Toda vida conscien•
. d ".processo orgao1co . -
e involuntário".28 :É preciso, portanto, denunciar como errôtwn ,, vez relaciona a ao d . nada a servico da elevaçao
te "trabalha portanto antes e mals d" q.u e "~a enorme mul-
idéia segundo a qual "o valor de uma ação deve depender do que • .g) 3s o que quer 1zer , .
chega à consciência ".29 Ou melhor, "o tornar-se consciente 6 11111 vital (Le bensteigerun : . de um organismo, a parte
sinal (Zeichen) do fato de que · a verdadeira moralidade, isto , , liplicidade dos aco~tec1mento~;n;e:;~~as um meio entre outros".
a certeza instintiva da ação vai para o diabo" .30 A moraUduut· , que se torna consciente em n 'd r que a consciência, cujo papel
aqui, o exemplo de uma lei fisiológica fundamental: "Em tmh, N.1etzscb e ch e ga mesmo a cons1 era . , fluo" este1a . ' 'dest'inad'a
é secundário, " quase indiferente e super •
tornar-se consciente exprime-se um mal-estar do organismo." h t11
·- ~

194
PAUL-LAURENT ASSOUN
a desaparecer e a d lNCONSCIENTE E CONSCltNClA 195
cient ar lugar a urn aut ·
e por essência.39 O . . . omaasmo perfeito" J11
senão f, que significa 1 1 v11lor (Wertausgangpunkt), isto é, satisfazer a ex1genc1a prin-
" uma ormação intermediária e ar~mente que: l'I , ,, ,,,: u "necessidade de uma posição axiológica objetiva". 49
o mundo exterior" é e precária. Nossa i/
eia superior" 1 , que a desenvo/veu.4-0 Longe d n .~'111, 11crcebe-se por isso mesmo por que o inconsciente é mais algo
E , e a e apenas "um . e ser n 111 ,111, está em jogo do que um conceito central em Nietzsche. Ele
_ntend damos que ela se <f,,.,.., __, . meio de comunicab//ldn1I 1
cias . -~ ..11 ,01veu co rncontra de certo modo no caminho do problema capital, con-
u , a _comunicação (Verkehr)· ela - m? resultante dt111 t • 1lh lona-o, mas em segundo grau. Eis por que o substantivo Unbe- 1

m orgao de direção do organi~mo. nao e, portanto, o 101111 " ~


•••11~stsein é relativamente raro em Nietzsche: o inconsciente inter-
A t~ria da vontade de d . ~11111 com bem mais freqüência como adjetivo, predicado de pro- ~ I
1

dos ps1c6Jogos e filo'sof po er denuncia, pois o "erro ' c•,~o. que como princípio. A oposição básica é aquela entre cons-
d I os que erig ' cn1111 1 c l~ncia ou consciente (Bewusstheit) e instintivo; depois, entre
1

a c areza e consid " em a consciência c


modalidade inferio;r~; a representação não evident;:~,~111 ,li 1 • CJnsciência e vo ntade (de poder) . Assim é que ele pode escrever
afirmar q representação" • 2 C . o 111 1111c "deve haver uma mescla de consciência e de querer em todo 1
'A _ue este é senão o on ·. ontra isso é p1r, i
consc1enc1a, enquanto " p to de vista unilateral da ,cr orgânico complexo".5º Na primeira oposição, a consciência é ., 1 1

deste modo to o que se afasta de no PI ó1111 111bordioada ao instintivo, na segunda, significa que "a meta não
. rna-se obscuro d ssa conscic'.lut •• 1
perfeitamente claro" E , . po e, por isso mesmo . /. uma melhoria da consciência", mas sim " uma elevação do J
vista do . sta reviravolta co , se1 om poder".5' Nos dois casos, porém, o inconsciente é uma condição
consciênci!~,ereEr, leva a recusar "a i~sen::ndada pel~ ponto li
. sta ora é a superestimaçiJ , Importante , mas apenas como algo que está em jogo.
verdade que " . co Iocada como supe'rfL o '• No p rimeiro caso, o inconsciente indica a determinação instin-
ª maior massa de · ua - tanro
com a consciência"-43 movimentos não tem nad8 f tiva; no segundo, manifesta o valor fundamental. Ele traduz, por-
sendo . ' ora como doença " a llrrr tanto, a ação das forças essenciais, mas como projeção das forças
d d essencialmen te condicionad - a degradação da vltl• 1

ed e erro da consciência".« Oraª pefJ_a e:,c-traordinária capaoirh, originais (instinto, querer, poder). Ele é o ponto nodal onde a
da e que. "T0 d
·' en rm ' com
· 0 f.1eçao- se é v consciência se dissolve sem parar, e onde o valor instintual se
• os os nossos
~e _superfície: por trás del motivos conscientes são enô f cr origina e alça vôo. É neste sentido duplo um intervalo poderosa-
mstrntos ( ...) a 1 t es se esconde o comb t d menoa mente revelador, como o indício de q ue algo essencial está em
u a pelo poder (K, ª e e nossu~
outras palavras: " O que eh ampf um die Gewalt)" .cs E jogo para a realidade h umana. A importância dos processos incons-
é senão um rneio pelo qual amamos de 'consciente' e 'espu-'·t· ' • 111 cientes no homem manifesta neste sentido sua natureza real, que 1

senf d é , um combat 1 0 nilo


1 o, 'um órgão igual e quer ser mantido" 46 N é o instinto e o querer. e também, contudo, seu ponto limite:
"há no hom ao estômago" 47 E , . · esrc- "A vontade de poder: tornar-se consciente do querer-viver (. . .)'?2
tituem seu c:rpmo~~~ tas 'consciências' quan;o es: u!urna análiec,
. nc1as que cons- indica Nietzsche num projeto de 1888. Por isso a vontade de
poder dá-se simultaneamente com o princípio do inconsciente,
Pode-se concluir, portanto ou seja, sua necessidade e sua superação, pois, enquanto querer ,
presente desde a o . , que a desvalorização do
ela é o inconsciente do querer-viver e de seu tornar-se consciente.
de um a valorizacão r~!e~m Ni:tzsche, torna ao fin al c~nscie~dte,
contradan a d , p er: o mconsciente , . . senti o
vontade d~ po~i":
~o-~sciente re!ativizado e ::~0
consciente" b . ng1 a em u/tzma ratio A
1
~r;;f
1 ~do nesta
na o e uma
A TóPTCA DO INCONSCIENTE EM FREUD
. ase1a-se em tíltima . . recusa do "mundo :,
urna ax-1ologia, de que ele não poadnáhsel no fato, redibit6rio para Com Freud, o inconsciente deixa de ser um princípio: constitui
eva er como o objeto de uma condificação metapsicológica, no duplo ponto de
ponto resolutório
. vista tópico e dinâmico.

f:I
1
196
PAUL-LAURENT ASSOUN
INCONSCI ENTE. E CONSCrnNCIA 197
D .· .
o p11me1ro ponto de vista é p . d' 1
que reconheçam a existência 'de :uno,~ ,1a pa~~ Freud !a;,0 1 , senão o conteúdo do sistema inconsciente. O recalque "propria-
aparelho psíquico dotad 0 d m sistema ou instândn 111cnte dito", no entanto, como ação é precedido de um tempo de
.
f unc1onalmente e características pr6p · di ,
das outras 53 p . n as e st111p111 1•c1to modo passivo de "recalque originário", pelo qual se cons-
dent1·-0 da ótica pré-freud' . dor isso, enquanto se pode 1111 titui um conteúdo recusado que vai, a partir de então, exercer
iana, e um a outro d
por metáfora em ft'eud O • • grau e consclt11 11111a alteração mecânica e requerer a reativação do recalque. Daí
lariza de seus' co-sistemas ( mc?nsc1ente como sistema se 111 l' lll diante, o trabalho inconsciente se manifesta pelo retorno do
consciente pré-co · ) .
o que é metáfora espacial em N' ' nsc1ente . Ets pop ''" 1·ccalcado, através do qual o conteúdo procura ressurgir. Este
estruturada, ficção de saber enc:~tzsche torna-se em Freud hllth esquema implica uma reatividade fundamental do inconsciente que
narnento do psiquismo como "I tregada, de_ representar o Íllm 11 contrasta com seu homólogo nietzschiano.
D ugar ps1qu1co"
o segundo ponto de vista a ala . : Esta diferença é confirmada pelo ponto de vista econômico,
ção design.ar um tipo de roc~ss p ~ra _mconsc1cnte tem po1• 11111 por meio do qual é anematada a representação metapsicológica.
ções conflituais. Na verd~de d os ps1qu1c~s específicos e do li ln O inconsciente freudiano é caracterizado economicamente como
quico inconsciente os "conte: d eve~ s~r situados no sistemn I' ' " processo primário", o que supõe que as representações deixem
u os ps1qu1cos" -
acesso ao sistema pré-consciente . que nao pudera111 ' • passar a energia psíquica, por oposição ao "processo secundári<:?'',
d • . -consciente De mod
e mconscrente é derivada lite 1 · o que a 11<'\ , curacterístico do sistema pré-consciente-consciente, onde a energia
constitui a ação psíquica f d ra mente daquela de recalque. 1, ,,. psíquica está primeiro ligada, antes de passar de uma representa-
um sistema inconsciente Eumnbamental que requer funcionalml.l11h ção a outra.
t . · ora o recalcado não
amente o inconsciente o rec l esgote com11I Vê-se que a realidade econômica do inconsciente apenas expri-
Ist - ' a que serve para defini-lo
o se poe claramente à conce - . . . me o princípio o riginário da economia freudiana. t em suma a
te, atualização da positividade d pç_ao ~1etzsch1ana de inconsolt·11 peculiaridade mais privativa - ausência de obstáculo e de · aber-
· t'
ins mto se caracterizaria mesm o instinto · O regim e reativo . 1h,
tura - que serve para descaracterizar o inconsciente. Entramos,
que: precisamente porém traotpor u~ processo análogo ao l'ocul finalmente, nas antípodas da valorização nietzschiana do incons-
d . . , , a-se a1 da patolo . . h
o m stmto, da q uai a moralidad d , . . g1a n1etzsc lt111 1 ciente, como linguagem direta do instinto.
Freud o recalque serve par d . e a ricas ilustrações.s4 Orn, 1' 111
Isto também nos possibilita entender que, em Nietzsche, o
sua realidade. dinâmica "'a es1g~aJmro processo inconsciente ,~111
. • e essenc1a ente inc . inconsciente não é, a bem dizer, um conceito psicológico, já que
prod. uz1do pelo recalque· aí . ºd . . onscrente o que , a representação caracteriza em sentido próprio a consciência e
clínica freudiana. . tes, e a principal contribuição Ju
indica por isso mesmo seus limites. O inconsciente orgânico nie-
Neste sentido Freud pode . tzscbiano é muito mais rico, porque transcende toda representa-
recalque é a ped;a an la mesmo afu-mar que "a teoda Jti tividade: é apenas a projeção da coisa em si, instinto e depois
psicanálise",55 É mes: r que serve de_ base a todo o edifício <111
. . o processo mmor que - vontade de poder. Em Freud, ao contrário, o inconsciente designa
consc1ênc1a com o inconsciente P . rege a relaçao chi um certo regime de representação (processo primário). Assim, a
- · or isso coloca-se nec ·
a . questao da representatividade, da ~ssaname111<• pulsão pode denominar a coisa em si: o inconsciente, q ue é sua
N ietzsche se esquiva.S6 Mas é com re qu,al, como vimos aci11111 , linguagem, designa uma esfera representativa acessível a uma
fronto, o sentido desta d'f P ens1vel, neste nível do co11 investigação psicológica e clínica. A este preço, o conceito deixa
r crença.
Em Freud, os conteúdos chamados . . de ser simplesmente descritivo ou demasiado conotativo, para
sentantes das pulsões. Ora, o recai ue ~?consc1~ntes são os reprt• passar a ser explicativo. Quando muito, portanto, Freud está filia-
te, aos represen tantes-representa -q . iz resp~lto, especificamo11 do a uma tradição, originária de Schopenhauer e q ue culmina com
. çoes. a matéria do i·ecalque oiio Nietzsche, por haver denunciado a redução "consciencialista" do
198
PAUL-LAURENT ASSOUN
INCONSCIENTE B CONSCitNCIA 199
psiquismo: mas ist-0 só atua como incita ão a
à categoria de conceito explicativo. ç p ra q ue tcnl111 • 11 privilégio do Ego, como "o que existe de não pessoal e por
11••ilm dizer de necessário por natureza em nosso ser",61 ele é
O IDE O SI MESMO 111rnb6m um "caos" que limita o Superego.
Existe mesmo uma conotação naturalista da idéia de Id como
Se, pois, a sexualidade e o inconsciente em F . d h 1111crvatório pulsional, mas é como se Freud desativasse esta idéia
nada a . ' reu • li i1 '
d ·1 ver com o princípio, coloca-se o problema da n11t111 !utente de natureza por uma desçríção dos processos e dos efeitos,
aqui o que ~reud designa como Id na segunda tópica, ul1 i , 1 que acarreta dependência unicamente funcional. Em Nietzsche o
parece possuir uma natureza, ao invés de caracte . p 51 mesmo é imediatiimente valorizado na medida em que serve
t d d • nzar umu 1 11 para alegar a autenticidade do corpo, ultima ratio da consciência
ura ou_ e - es1gnar processos, como anteriormente. ImpfR• ,,
a ~pr~~tmaçao com aquilo que, em Nietzsche, apresenta-se i 1 " 1cduzida à categoria de artifício. " 'Eu' - dizes; e te ufanas
prmc1p10: o Selb~t nietzschiano se comporta, na verdade, dL• 1111 1 desta palavra. Mas ainda maior e no que não queres acreditar -
notavelmente analogo ao Es freudiano E é . t f . ó teu corpo e sua grande razã-0: ela não diz 'Eu', mas faz o Eu
F · is o que 01 pero f1hl ( . ..). Por trás dos teus pensamentos e sentjmentos ( ...) há um
por reud como analogia maior, como se viu ..57
ttoberano poderoso, um sábio desconhecido que se chama 'Si
O Si mesmo (Soi) forma com O Eu um par h 61 mesmo'. Ele mora no teu corpo, é teu corpo". 62 O Si mesmo é,
freud' Id E I om ogo 110 1,
ian~ -. go. sto é traduzido principalmente pelo u11u il portanto, a identidade corporal do indivíduo, que é também domi-
um vdo~a. uláno antropomórfico para descrever suas reioçôt·~ 1 nação (Herrschaft) e materializa a vontade de poder, sendo o
sem uv1da, na passagem de Zaratustra que melhor b corpo a criação da vontade (Herrschaftsgebilde). Ele é, pois, a
·sso A · ., perco em,
i • ss1ste-se a um dia.logo: "Teu 'Si mesmo zomba d verdade do Eu, decifrada ao mesmo tempo como poder e sa-
e de seus altiv2s pulos ( ...) O Si mesmo diz ou Eu·º .~ut, i
li bedoria. ·
.sente dor!' Então o Eu sente dor ( ) o s·
•A ···
d:
1 mesmo 1z ao 1 11
R
111
Entende-se agora em que sentido a concepção nietzschiana é
gora, sente prazer!' Então o Eu sente prazer".58 A · ,1 fundamentalmente fisiológica e somática no sentido lato. O Id,
mesmo está t · A • . ss1m, 11 , 11
' nes a mstãnc,a, presente por trás da consc·. . 1 mesmo que preencha uma função comparável com respeito ao
q ual " sen t'd , • .. -
L o e espmto sao apenas os "brinquedo "· "EI
1enc111 t 11
na e é também o amo do Eu" O . s . . e govi,r Ego, não é, contudo, o Corpo, entidade que não possui estatuto
"o r ·t d E . . . s1 mesmo é caracterizado co11111 cm Freud. Ele é a raiz da pulsão que, por si s6, é limite do
im1 e o u e o inspu-ador de suas idéias". somático e do psíquico. Assim, seu efeito não exprime uma teleo-
Id ;ªl"ª~~erização _esta que corresponderia literalmente, aliás, uu logia providencial - enquanto o Corpo é decifrado em Nietzsche
reu iano, razao pela qual a analog1·a só pod· . como Providência material; quando muito, pode-se dizer que ele
ró · p 1a 1mpor-s<: 111~ é "aberto em sua extremidade voltada para o somático".63 E,
p pr10 reud. Observemos que em O Ego e o Id .
e " ,,
P rego soprar seus mandamentos ao Ego para dat-ll1e ouve-se o Su embora tudo dependa dele, não quer nada - "ele não promove
e t d
sua de e dA . " . . n en (l i
p n enc1a: seJa assim", "não .seJ·a assim" 59 o - ..t nenhuma vontade geral"; 64 embora toda ordem proceda dele, "não
e

Eg d' • • u entao e n tem organização" em si; embora dê o ser a toda moção psíquica,
º. ~ue se m?e ao Id para impor-se a seu amor no Ideal do
:go. Olha, voce pode me amar, pareço-me muito com o objeto" M revela-se de uma vacuidade notável.
que o Ego vive sob uma dupla dependência· uma s1·1e . : Assim , se o Id parece comportar-se de maneira análoga ao Si
q ue vem do Id. b . · , nc1osn ,
' outra, ver ahzada -que provém da i'nstaA . mesmo, remete a uma realidade completamente diferente. I sto
ral O Jd , ' ncia mc1
.. e mesmo, portanto, o motor do Ego a título de foco é traduzido pelo fato de que em Nietzsche o Si mesmo forma
puls1onal, mas é apanhado na relação com a le1· Se l um par exclusivo com o Eu, drenando todo dever-ser autêntico,
• se vo ta contrn
enquanto em Freud o Superego impõe seu modo específico de
201
INCONSCIENT E B CONSCU~NCIA
200 PAUL-LAURENT ASSOUN
. - révia de uma substância desaparece to;,ª;~
dominação. Desde o início àa obra de Nietzsche, o apolo 11 "h11jeito" ' a condiçao p "crítica do conceito de causa '
Selbst é um imperativo: " Deves querer um Si mesmo",6 S 1 1 111cnte. Isto remete mesmo~ a ~ma
, d L da substancia-causa. . e
declara guerra àqueles q ue negam o corpo, privando-se da i.nlv• ,,uaves aque a " 'sujeito' não é uma cmsa qu
ção pela grande sabedoria do Corpo. O Superego seda 11po1111 É saudável compreender queC o . o N'1etzsche se inscreve,
. _ f' ão" om 1ss , d
portanto , uma doença, u ma infecção da sabedoria do Corpo: , 1 111,c mas uma sunp1e:s icç .' . 1· mo filosófico no qual Freu
' ele consc1enc1a 1s .
por q ue ele seda mais um sintoma patológico que uma instfint'111t "º fundo, contra aqu .
. ê . à teoria ps1c
. anal1't·1ca do inconsciente.
11

Entende-se, por conseguinte, que o Eu só pode repercu1l1 • vê o [oco de res1st nc~a d b tancialismo abre caminho para
ordem do Si mesmo interpretando-o ao m ínimo: é que ele exp1l111 Toda a crítica nietzsch1ana o su s
a norma vital do instinto. Em Freud existe um trabalho sui ganr·,, 1:l'eud. o ue está em jogo na crítica , no in!~-
das formações reativas. Por outro lado, o Eu s6 -tem salvação Convém lembrar tamb~m q_ N- é por acaso que a cntl-
unir-se à sabedoria do seu Si mesmo. Em Freud, ele continua rior do próprio projeto metzsdch1~nto. daª;ille zur Macht. Ao des-
a ser um problema que é ao mesmo tempo uma exigência: "V. 11
. d do ponto e vis a . •to é atingida a noçao
ca é sistematiza a
- de
, . a crença no su1e1 • t
Es war (onde ld era) soJI Ich werden (Ego deve tornar-so)''"" truir como f act1c1a l , d . ada I sto tem, portan o,
" " da qual e a e eriv .
Dever (sollen) realmente cultural.67 " realidade'' ' de ser ' . - d que "o grau de nosso
J0r contrapart1
'da posi'fva a afirmaçao e ' '
os dá "a medida do ser '
Em outras palavras, a sabedoria do Eu é, para Nietzsche, t•~•u, I 1 , " ,
nhecer seu verdadeiro amo: emanação do Corpo-Si próprio, o 1 11 sentimento de vi a e 'd de poder ' e que n t·d d
l' dade de toda rea i a e.
' ,, E t é portanto, a rea 1 d'
tem por única vocação autêntica ser absorvido pelo princípio ti , da 'realidade . s a ' " . 'to" está portanto destinada a iag-
qual ele procede por natu reza : tem que ser submerso na corrcnl A crítica da ficçã~ do ~u1e1 nossa crença usa nos momentos
que o produziu. Que contraste, finalmente, com a imagem {11n1 nosticar nele "a tenninolog1a, queto de i·ealidade" . A hipótese de
• l do senttmen
diana do aterro: o Id aterrado como o Zuyderzee, mas por frn, de nosso mais e eva 1 do sentimento de d omm10 , ·
mentos,68 seria investido. Movimento inverso da re-fusão ni1:11,- identidade .~ qu: nasce t ~a:. ~:;i~, se Nietzsche afirma que
chiana. e de ident1ftcaçao da rea t uitos estados semelhantes,
''o 'su1'eito' é a ficção segundo a q ua m b trato" é para acentuar
. t de um mesmo su s • d "
cm nós, seriam o ef e1 o . ''cientidade' d esses esta os .
SU/EITO E ILUSÃO " , é que .criamos a t W 'li
o fato de que nos d . ao criativismo d a t e zur
O fenomenismo serve aqui e_ ap~~~ibilidade do "sujeito". apenas
Nietzsche baseia sua crítica da " superestimação do conscienlr'
Macht enquanto em Freud a imp l as se Freud e Nietzsche
numa crítica da ilusão substancialista do "sujeito", que assu1111 '
denota uma carencia.
• . Em outras pa . avr ' . "
d 'déia de " sujeito ' su s-
b
toda a sua dimensão na última filosofia. l ente na crínca a i
encontram-se notave m 't' a é bem diferente: enquanto.,
Esta está naturalmente centrada numa crítica do Cogito CEll'h• . d tino desta crt te d
trato consciente, o es 'eito faz-se sentir o poder-vonta e,
siano : "Ele é pensado: portan to, existe um sujeito pensante'', ,
em um, sobre as rµínas do s~J . que Freud acabará chamando
no que vai dar a argumentação de Descartes. Isto equivale, tod , tro ela não passa de carencia,
via, a colocar como "verdadeira a priori" nossa crença no con no ou ,, n
de " pulsão de morte .
ceilo de substancia: dizer que, se existe pensamento, também devi
haver algo "que pensa'', não é mais que uma maneira de fot·mu NOTAS
lar, própria a nosso hábito gramatical, que supõe para todo alu
1. V., supra, PP· 13843 ·
um sujeito que age.69 Ora, "é um erro de observação acteditn, Philosophie el tes PhiCosoplies,
2. SW, 1, 22. la
que sou eu que 'faço' isto, que 'sofro' isto, que 'tenho' isto, qw• 3. Sobre este ponto, v. Freud,
'possuo' tal qualidade". Ao contrário, se renunciamos à alma, nu {l[l, 189-90.
202 203
PAUL.LAURENT ASSOUN 1NCONSCIENTE E CONSCI8NCIA
4. Op. cit., p. 2 19 n
5 , SW, I, 123, § 14..
1. 42. Jbid ., § 52, p. 361.
6. sw, li, 105. 43. § 676, SW, IX, 452.
7. SW, II, 451. 44. lbid., p. 451.
45. •conhecimento, Natureza, Homem•, no tempo de Aurora, SW, 98,
8. § 57, SW, II, 69.
9. § 1, sw, IJ, 16, ~ 256.
10. ~ a este Nietzsche da 46. lbid., § 255, p. 98.
(v., supra, p. 35), Entlarvu11gspsychologie a que Adler se 1'0f1 11 47. lbid., § 318, p. 116.
11 B 1·
. a izamos assim a . . 48. lbid., § 343, p. 126.
49. A Vontade de Poder, liv. Ili,§ 707, SW, IX, 477.
logo l~~ :;:,utv'ª;:hi~o~;Aphit::~:~ap~~;~~~!:e:~pcpo~~c3ie.nte. V. seu homi 50. SW, Xl , 106, § 279.
13 L' ' • m. urora I § 48 ..,_
• IV. I, § 11, sw V 4..' • . 51. SW, lX, 481, § 711.
52. SW, XI, 308. Trata-se do fºn~o 7 de um plano de A Vontade de
14. Id eia
,. que coex·•.;te' e ' ;1.,. .
cebe a evolução como ~ m N1e_tzsche, com um anti-dar . . l'oder, in: "Systemwürfe urid Plane",§ 880.
da vontade de poder desaparecimento dos melhores t ~m1sm? que ct111 53. Este , é o objetivo do ensaio meta psicológico sobre o inconsciente.
. 15. A G . e· . . e nunfara na teo111 54i·V./ infra, liv. Ill, cap. I.
aia 1ênc1a Jiv r §
16. Op. cit., ibid. ' . ' 11, SW, V, 42. 55. Selbstdarstellung, cap. tll, GW, XIV, 55.
11. lbid. 56. V., supra, pp. 138 e ss.
57. Supra, p. 80.
18. Nisto ele prepara nota 58. Dos Desprezadores do Corpo, SW, VI, 35 .
apresentando-se como o CoPérruco
v_elmente
d ª. reviravolta que Freud exprcs~n
59. ow, xm, 262, o Ego e o Id , § m.
19. A Gaia CiOncia r V a psique.
20. Op. cit., p. 2s4'. ,v. ' § 354, sw, v, 253. 60. ow, xm, 258, § m .
61. GW, Xlll, 251; v., supra, p. 80. Definiç.ão que também poderia
21. Op. cít., p, 255.
22.Op. cit., p. 25 6 _ ser aplicada ao selbst nietzschiano.
23.Cap. I, § 3, SW VII 9 62. SW, VI, 35.
63. GW, XV, 80, Novas Conferências, XXI.
24.3.• diss., § 18, SW,
v'11 • 380
64. GW, XV, 80, Novas Conferências, XXXI.
25.ln; "Observações Psicoló . . • 65. Miscelélnea de Opiniões e Sentenças, § 366, SW, 111, 154.
Hun;a6~º1~-d:;~z:t~• § 732, SW,g;~~7o~º tempo de Humano, Demasiado 66. Esta é a fórmula que encerra a XXXI das Novas Conferências,
115, SW,
27 p
XI, 54. ecunento, Natureza, Homem·, no tem d
po e Aurora A GW, XV, 86.
67. V., infra, sobre a teoria da cultura, pp. 262 e ss.
VIII , 3.31.or exemplo, in Ecce Homo' •por que sou tão sáb' • • 68. No mesmo lugar, Freud, com efeito, atribui, como finalidade dos
28. Vontade ele Poder r J io ' § 9, SW, esforços terapêuticos, transformar a organização do Ego • a fim de que ele
29. Op. cit., llv. II, §, 2 ~;·
30. Op. cit., liv. II, § 423,
iw
§
28
9, SW, IX, 204.
' IX, 205.
possa apropriar-se de novos fragmentos de Id ", acrescentando: "Esta é Uf!lª
tarefo que cabe à civilização, assim como o aterro do Zuyderzee".
31. Op. cit., Hv. II, § 440 • ::• IX, 289. 69. Vont.ade de Poder, T. I , liv. l , § 147.
32. Op. cit., li v. II § 434' S ' IX, 308. 70. Op. cit.
33. Op. cit., liv. n' § 43 ' W, JX, 303. 7l. V. Freud, /e1 Philosophie et les Philosophcs, pp. 23•4.
i2\~
34. Op. cit., liv. IIÍ § 4
35. Op. cit., liv. III' § 505,
IX, 307-8. 72. V., supra, pp. 156 e 163.

36. Op. c~t., liv. m: f:•


§ 478:
, IX, 331.
IX, 347.
37. Op. c,t., liv. III § 504 sw' IX, 334.
38. Op. cit., liv. m: § 67/ , IX, 346.
39. Op. cit., liv. m § 52 / ~~· IX, 450.
40. Jbid., § 524 p. , _ • , IX, 358.
3 9
41. Ibid., p. 36Ó. :, .
O SONHO E O SIMBOLISMO 205
3. rn uma aptidão apresentada por Nietzsche como pertinente ao
1:nbedal antropológico: "Nosso ser mais íntimo, o fundo comum
(genieinsame Untergrund) de nós com todos experimenta em si
o sonho como um prazer profundo e uma feliz necessidade."2
OSONHO Apolo figura a deificação "desta feliz necessidade da expe-
E riência onírica". Em outras palavras, com este nome é elevado
h categoria de valor estético aquilo que é experimentado (no
O SIMBOLISMO sentido quase fisiológico) no prazer do sonhador. Com isso é
consagrado "o mundo interior da imaginação", cuja instância
privilegiada é o sonho. Vê-se o vínculo estreito que se estabelece
desde a origem, em Nietzsche, entre o sonho e a arte. Trata-se
de muito mais que analogia: o sonho é a necessidade experimen-
tnda que encontra na expressão estética (essencialmente plástica)
seu órgão e sua linguagem.
O sonho é, portanto, muito naturalmente valorizado como
vestíbulo da criação estética, e até mesmo como expressão da
bela existência. "A profunda consciência da natureza compassiva
e saudável no sono e no sonho é ao mesmo tempo o homólogo
O inconscient
" I" e, em seu valo · b • simbólico do dom de profecia e das artes em geral, pelas quais
rea no sonho Nã , r s1m ólico, acha sua
em Nietzsch . o e por acaso que este te expre,1111111 a ·vida é tomada possível e digna de ser vivida.''3
e como em F ma propic· t
Precisamente, porém, não se trata de qualquer tipo de cria-
confront~ temático passa, ;~~t~~t~esenlvoivimentos essen~~~itn:,:
se recapitula nele. , pe o sonho e de certo rnod1i ção estética, mas sim daquela onde predomina o elemento formal
e figurativo que está ligado ao sonho. Aí encontraremos em ação "o
princípio de individuação", que organiza· a diversidade impondo-
CONCEPÇÃO APOLINEA DO SONHO lhe o limite da medida, cuja unidade é precisamente a forma. A
"efetivii:fade do sonho" é, portanto, o acesso, pelo brilho da
Já na primeira grande O b . sensação, à aparência. 4
Tragédia O sonh ra nietzschiana o u . Na tragédia grega, o elemento onírico apolíneo tém por efeito
' o representa u • nascimento du
caracterizar O " d m pape{ essencial EI traduzir o "estado" do artista, isto é, "sua unidade com o subs-
em face d mun o estético" originário d : , e_ serve p111•11
d . , ? mundo estético da b . o prmc1p10 apolínco trato íntimo do universo" nas imagens oníricas simbólicas deste.5
o prmc1p10 dionisíaco.' O so hem /iaguez (Rausch) originárl~ O elemento representativo ordenador, portanto, é que pondera a
termos desta pro.iosição, cujo ~e~en~of~ttanto, um dos quntro falta de medida dionisíaca, elaborando-a pela forma. Neste pri-
Os "mundos do sonho" b . v1mento é a obra toda . meiro uso do conceito, o registro do sonho opõe-se, pois, ao da
artes plásticas e da poesia. a "bas1eiam-se na idéia principal da• embriaguez: está ligado a uma expressão formal da variedade.
remete à f · - · e a aparência" E " Eis por que Nietzsche faz paradoxalmente de Apolo, deus da luz,
.
O artrsta ru1çao conseguida na "co . sta, por sua vez deus do sonho: nas trevas propícias, onde se institui "o estado
a f' mpreensã d· ,,
, po ineo, praticante da bela a a A o iteta da forma" .

de sonho apolíneo, o mundo do dia se vela e um novo mundo
p renc1a e da forma, exp/b,
mais claro, mais compreensível, mais tangível e todavia mais
206
PAUL-LAURENT ASSOUN
O SONHO E O SIMBOLISMO 207
semelhante a b
uma som ra se oferece a nossos
nente mudança. "6 o]hos em pem111 real; aqui se acha a origem de toda metafísica." Sem o sonho
Esta concepção leva a uma inve - d . . não teria havido a oportunidade de uma cisão do mundo (Scheid-
benefício do segundo termo· "E~~ao o eixo v1gília/ sonho, l'111 ung der Welt). A decomposição em alma e corpo (Zerlegung in
metades da vida a parte d . ora, seguramente, das dun• Seele und L eib) está igualmente ligada à mais antiga concepção
, esperta e a parte sonhad .
nos parP,ça incomparavelmente ref , . . a, a Pntnci1 u de sonho, assim como a hipótese de um invólucro corporal da
apreciável, mais digna de s J? 'denve1, mrus impor tante, m11f1 alma; esta é, portanto, a origem de toda crença nos espíritos e
. er v1v1 a até mesmo .
eu gostaria, apesar de todas as ê, . apenas v1vidn, também, provavelmente, da crença nos deuses.
tar precisamente uma aprec1·aç_ap~r nc1as de paradoxo, de adl1111, O sonho é, portanto, evocado aqui como a experiência arcaica
quele f und o cheio de mistérioaodeinversa do sonho . em f avor cln que, no inconsciente primitivo, fundou a crença metafísica num
aparência."' Assim ao invé d nossoh ser, do qual somos li outro mundo. Esta hipótese deve ser tomada no sentido realista:
aparência, um me;or grau ~e e o son o c_onstituir, enquanto o sonhar primitivo é o processo que trabalha o mundo real reve-
exprime, segundo Nietzsche sua ser ~em. rela~ao à ~alidade, elr> lando uma brecha nele. e pela distância entre a vivência onírica
, homem niio são senão as ;parê:::.::;cia, C~Jas manifestações cfo e a vivência desperta que se introduz a ficção metafísica típica do
• torno. do qual gravita a realidade hu~;a nucleo de verdade em outro mundo, graças ao processo de Scheidung/ Zerlegung (cisão/
Po1s bem, em última instância . : . decomposição) .
ao fato de constituir a aparên . /ste pnvtl~gio do sonho deve-se Pela mediação do sonho, a crítica nietzschiana da metafísica
é aparência, o sonho o é e eia a aparêncta.8 Como a realidade encontra seu fundamento antropológico. A conclusão do aforismo
como "satisfação ainda mm _segi.l1ndod grau: neste sentido, ele vafo indica-o claramente: "O morto continua a viver, pois ele aparece
~ . ais e eva a da asp· - .
aparenc1a" (suchen nach dem S he' ) rraçao universal h vivo no sonho: assim se raciocinou antigamente, ao longo de
N t . . e m. inúmeros séculos." 8 visível que Nietzsche toma emprestada esta
es e pr1me1ro uso da idéia de sonh .
mente um princípio estético e uma o, _este_designa conjunta. hipótese a uma das mais célebres teorias contemporâneas da
trata ao mesmo tempo do h expenência concreta: aí se origem da crença religiosa .10
d o sonho como atividade cot'd' son o como modo de ,
E ·- ser metafísico e Mais adiante, dois aforismos desenvolvem a hipótese ontoge-
1og1a. e metafísica caracteriza um i iana
. sta umao ínf d
ima e psico• nética formulada naquele primeiro: vemos precisar-se neles a
que se seguem à ruptura de B usohqu~ será superado. Nas obrns articulação entre a crítica metafísica que permite que a psicologia
ficar novamente atento à at· . 'davreut.d , e. como se N'ie t zsch e fosse nietzschiana seja colocada de um lado, e a teoria do sonho, de
positivas: daí como veremo1vs1 a e onfn:a em suas características outro. Este desenvolvimento se opera em duas direções: determi-
dor. Isto não' quer dizer ' sua t d atença o a' f'1s10 · 1og1a • do sonha-
nação da relação entre "sonho e civilização" ,11 análise da "lógica
conceito vá desaparecei- log'o con u o, 'dque a aura metafísica do do sonho".12
· · em segm a mas que ,
Jogo vai deslocar-se, enquanto uma ~ . . o que esta em A hipótese haeckeliana segundo a qual "a ontogênese recapitula
riência onírica vai desenvolver-se A ª ?ahse . un~nente da expe- a filogênese" recebe aí livre curso.13 Observando que "a função
portará também uma Traum/eh . ( ps_1colog1a metzschiana com- do cérebro mais lesada pelo sono é a memória", Niet2sche acres-
N d . . re teoria do sonho)
. um os primeiros aforismos de Huma : centa em seguida que ela não descansa, contudo, mas é levada
Nietzsche liga a ilusão metafísica . ~~• I:emas;ado Humano, a um "estado de imperfeição análogo àquilo que ela pôde ter sido
neste sentido em "mau e t d' à expenencia on1l'ica. Ele fala nos primeiros tempos da humanidade em cada um, de dia e
, , .
A experiência ' n en imento do sonho" 9 ,
orurica é referid . durante a vigília".14 Em outras palavras, o cérebro humano da
etnológica: "No sonho o h a a uma verdadeira hipótese humanidade atual regrediria a um modo de atividade arcaico assi-
grosseira e elementar, aprin~em pensahva, nas eras da civilização milável à humanidade primitiva, reencontrando na atividade oní-
er a con ecer um segundo mundo
rica noturna a atividade desper ta primitiva. Dificilmente se pode
209
O SONHO E O SIMBOLISMO
208 PAUL-LAURENT ASSOUN
t or pressuposto a crença incon-
representaç6es no sonh o, que em p te as situaç6e~
extt'air mais claramente as conseqüências do princípio ontogent
tico. O sonho é uma viagem de volta diária às origens mentuiN
r
dicional na rea i 8 ,
d de delas lembra-nos novamen
' al a alucinação era extraordinaria-
da espécie, através da memória, faculdade em ação neste proccsl! 1 da humanidade anterior, na qu tem os de comu•
mente freqüente e se apode~av~. de tero~os e1~ son: e no sonho
regressivo. Os termos imperfeição e retomo-regressão (zurüok
bringen) comprovam a conotação evolucionista desta concepção.
A atividade cerebral onírica de um indivíduo em um momento dt1
nidades inteiras: de povos. 10
execl~ta~~! ~
819
:e~~:;f:s;;::~s~m) da humanidade
uma ;:: sem contradição, atribuir clareza ~o
evolução recapitula aquela da espécie no momento correspondente, anterior. N1etzsc~e p l ' b de descrever: a representaçao
IJ. a confusao e e aca a .
nos limites do sonho. so nb o, Cl . d' arate que é percebido como ev1-
. · a é precisamente um isp {•
Nietzsche esboça, por conseguinte, uma análise comparada d11 omn c r .-
, d de alucinação. A percepção on rica
lógica onírica individual evoluída e da lógica desperta específicn dente. Ora, esta e a e m1ça~ f osa fórmula de Taine, uma
é, neste sentido, parafrasean o a am
arcaica: "Arbitrária e confusa, como é, ela confunde (verwechseil)
constantemente as coisas com base nas similitudes mais fugazc:i: alucinação vertadeir~. t sche procede a uma verdadeira análise
mas com a mesma arbitrariedade e a mesma confusão é que ON Sobre esta ase, . ie z , ·co ,ndicando que convém tomar
povos forjavam (dichten) suas m itologias e ainda agora os viu
jantes costumam obser var a que ponto o selvagem tem inclinaçilu
:~1;é
1. · 16~:ªletra
· do mecamsmo onm , ,....
a idéia de função cerebral que ele coloca no ponto
d · t' d de sua teoria do sonho. .
ao esq uecimento; como sua mente , após uma breve tensão dn e par i a .d , ma teoria das impressões cenestés1cas.
memória, começa a oscilar de um lado para o outro e, por u111 Seu ponto de parti a .~ u sistema nervoso está continuamen-
simples relaxamento, produz mentiras e absurdo. Parecemo-no" "No sono'~, o~serpv~rel~úl~op~~~ fatores internos."'1 Segue-se uma
todos, porém, com aquele selvagem no sonho; o reconhecimento te em exc1taçao · . â · os que povoam
- d , triplos acontecimentos mtra-org me d
defeituoso e a assimilação errônea (schlechte Wiedererken11e11 evocaçao os mu . d Deste murmúrio endógeno, resultado a
und irrtümliche Gleichsetzen) são a causa do r aciocínio defeituoso o corpo adormec: o. ·menta do sangue e da posição dos
de que nos tornamos culpados no sonho: de sorte que, à chll'II atividade dos 6rga?,s, do m ~~~os ara O espírito, de se espantar
membros, nascem c:m ~
0
rememoração de um sonho, apavoramo-nos por contermos em nós ' P,t ão".'s Eis o que permite
tanta loucura."15
A analogia entre o sonhador civilizado e o selvagem desperto
~ei~}~s:~~h:s e~:~~~a:i::a e;~ ~;presentaíç~o d8~ 5~~,i;sas das
. d t isto é das presum veis c .
leva a termo a hipótese evolucionista: natureza defeituosa du sensações assim esp~r as, h ' e"nese psicofisiológica do sonho.
Lógica onírica é aproximada da deficitária economia psíquica do Es ta é ' segundo N1etzsc e, a d
g d . •
.dentificar as causas as exc1-
selvagem, que se esgota a curto prazo e dissipa-se em seguida h I:. a atividad~ cere~ral que ten. ea: ~s afecções dos órgãos. Obser-
menor tensão. A energia psíquica em ação no sonho é portanto tações propnoceptivas c_onsdecut1v forma de atividade intelectual,
assimilada a uma atividade paupérrima, à maneira de uma mofo q e se trata entao e uma . h )
vemos u . d . f ·or e reflexa: o espírito aspira (sue en
dotada de fraquíssimas possibilidades de ação que se afrouxa t'
produz fragmentos de movimentos que não conseguem se orgu,
nizar em seqüências coerentes. O que significa claramente que,
t
mas de certo mo o m e_n , de onde emanam as excitações que
a saber o que _se .Pª _ssn, ~sto co o Com este fim , ele emite uma
percebe do propno mtenor o t rp ~ "uma crença, acompanhada
para Nietzsche, a lógica onírica é degr adante e recessiva. Es111 "hipótese" (H ypothese) qu~ se orn (bildlichen Vorstellimg) e de
~
curta viagem loucura adentro deixa uma impressão inquietante de uma representação em imagens
. (A d' ht ng)" Esta busca espontanea as
d
no sonhador desper to. uma inv:nção poética us te u: ar~medo de investigação cien-
A breve loucura onírica reproduz a alucinação primitiva, modo causas nao passa, portanto, de f urada Dai a afinidade
de percepção arcaico dos tempos em que o desejo se distinguiu tífica: a hipóte~e passa a serbuma
da forma onírica com a o ra po l •
.~t~;~ ..1; ima~inação excitada"
imperfeitamente da realidade: "A perfeita clareza de todas u11
' 'j

211
210 PAUL-LAURENT ASSOUN O SONHO E O SIMBOLISMO

estiliza a sensação. :E. aí que aparece sua função simbolizanlr A atividade onírica comprova um aprendiza~o da. espécie:
Nietzsche apóia sua concepção no material de exemplos conhl' "O pensar em sonho (Traumdenken) é•nos agora tão fácil porque
ciclos: lençóis transformados em serpentes, sons transformados cm fomos precisamente tão bem treinados, nos imensos períodos_ de
dobres de sinos ou tiros de canhão. - da humanidade nesta forma de explicação fantasiosa
evo1uçao • "22 E lt
:E. neste sentido que Nietzsche fala de "lógica do sonho", 1~ e barata, a partir de uma primeira idéia qualquer . sta_vo a
Esta tem a forma de inferência científica, mas o espírito induto, a formas imediatas de pensamento tem mesmo uma funçao ':-
do sonhador "sempre erra o alvo". Ele dá provas de uma tenll' creativa: "Nesta mesma proporção, o sonho é uma rec~eaçao
ridade que contrasta com o espírito em estado de vigília, "resc, (Erholung) para O cérebro que, durante o di~, tem que ~atlsf azer
vado, prudente e cético em relação às hipóteses". Nietzsohl', as exigências mais severas de pensar, como sao estabelec1das pela
porém, precisamente se questiona sobre esta surpreendente rcau civilização superior." O sonho, nesta nova definição, tem a função
l~ção na aberração: ele se pergunta a que se deve que "a primohn de um tratamento, fora das repressões da sociedade, dentro da
hipótese baste para a explicação de um sentimento". A que ar zona protegida da permissividade.
<leve que o mesmo espírito, exigente na vigília, considere 11 A presença do sonho no homem tem, a p~rtir ~este momento,
primeira razão que lhe ocorra como a melhor e acredite de imr significado de um monumento d_a for1?a irra~!onal d? pensa•
0
diato na verdade proposta, tome-a como certa, a partir do um mento dentro mesmo do pensar lógico (diurno): A p~rt1r_ desses
mento em que ele sonha? fenômenos, podemos concluir quão tardiamente o mais r1~oros~
:E. aí que intervém novamente a teoria ontogenética: "Penau pensar lógico, a busca severa de um~ ca~sa e_ de um e~e1to_ fot
que como ainda agora o homem raciocina no sonho, assim raolu desenvolvida, se nossas funções rac1on~1~ e mtelec~a!s . ainda
cinava a humanidade em estado de vigília durante séculos: u agora se apoderam daquelas formas primitivas do raciocm10 3
e se
primeira causa que se apresentava ao espírito para explicar ol11u vivemos cerca de metade de nossa vida nes_te es_tado.''2- O sonho
que necessitava de uma explicação lhe bastava e valia como ver serve visivelmente, aqui, para negar ao racion_alismo_ suas ~rete_n-
dade." O testemunho atual dos viajantes é novamente evocudh sões a reduzir a atividade psíquica a suas mamfestaçoes rac1ona1s.
para embasar essa teoria. Apreendemos aí claramente a articulnçlln Ao tema da atividade regressiva em ação no sonho, acrescen-
da teoria ontogenética do sonho com a idéia nietzschiana de umn ta-se assim uma valorização daquilo que leva a pensar o so~ho,
lógica do sonho. Esta atualiza um regime intelectual infantil dn independentemente do puro pensar racional - º.que,? _aproxuna,
humanidade. de um novo ponto de vista, da atividade estética: 1 ambém o
Nietzsche aplica esta teoria ao pé da letra, ao ponto de fozo1 poeta, 0 artista, supõe em seus sentimentos e estados causas ~ue
- - em absoluto as verdadeiras; ele se recorda, nesta medida,
do sonho do civilizado atual um instrumento etnológico: " Nu na0 sa0 dA 1 " s hos
sonho continua a agir em nós aquela parte antiga da humanidade, da humanidade antiga e pode ajudar-nos a compreen e- a • on_
pois ele é o fundamento sobre o qual a razão superior se desen e obras de arte apare~m juntos como documentos arqueológicos
volveu e ainda se desenvolve em cada homem: o sonho nu~ do pensar original, c~mo a ~upla linguag~m pela qual ele se
transporta a distantes estados da civilização humana e nos colooo atualiza até na humanidade viva.
nas mãos um meio de entendê-los melhor.' 12º O sonho individunl Um curto aforismo de Miscelânea de Opiniões e Senten~as
é, portanto, o vestígio de um patrimônio coletivo arcaico. Por mostra O sentido de revelação imediata que contém a hermeneu-
isso mesmo vê-se seu valor: ele permite que seja exibido o fundu tica do sonho: " Interpretar conforme o sonho. O que às vezes
mento sobre o qual se estabeleceu o desenvolvimento da mzflo não se sabe nem se sente em estado de vigília (. 124 • •), o sonho
superior. Vimos anteriormente que este é um dos textos de Niet1K no-lo ensina de maneira absolutamente inequí~~ca.' Qual, .Pº:
che que mais impressionaram Freud.21 rém, a natureza daquilo que assim se revela? Nietzsche o precisa.
212
PAUL-LAURBNT ASSOUN
''Se se te b O SONHO E O SIMBOLISMO 2 13
m ºª ou má consciê ·
no terreno da culpa qt, nlc1a em relação a alguém ,, J'
E e se co oca a • , , 111 cln atividade onírica, ela se transforma em Nietzsche, como se
n1 outras palavras o mensagem do sonho
manei · d' ' que se mostra · vê aqui, em detrimento do sonho. Assim, a analogia que destaca
rel - ra une iata e evidente, é a verd d -~ n u. e, ~bserve111u~. 1 o encadeamento simbólico do sonho, com a finalidade de aumen-
e ;:~!;os ou_tros_. O sonho é, portant~ ;~a d~~os1ção mor11J , "' tur sugestivamente seu sentido criativo, é revertida por Nietzsche.
1 go, um mstrumento de dd ra_ ietzsche mo1·11JI ' " Ele observa mesmo os encadeamentos simbólicos. mas para reser-
seu ugar nesta "miscelânea de o ~e~- a e. Eis por q ue ele 1, '"
o momento a ser explo d . pu11oes e sentenças"· o so 1 vá-los para os casos em que "por exceção, são bem sucedidos e
, . . ra o e mte. d · n 111 perfeitos". Na maior parte do tempo, são abortos que não chegam
pr6pr10 su1e1to cai a m, tpreta o, onde aos oll1 1
co é • . ' ascara de s d. . ' 011 1 11 a termo.
m reio mterind ividual uas 1spos1ções íntim11u
N e ,
o atorisma q ue ele d di
• " • m, t preciso anotar esta relativização do juízo nietzschiano sobre
Sombra' 2$ Nietzsche formula e ca ao sonho em O And 'Ih a criatividade onírica: sua tendência crônica ao aborto e sua
de representa u . an o e Ili/ 1 função de substituto recolocam-na em seu lugar subordinado. A
- ma analogia entre d ·
são cadeia _çobes ~ a narrativa literária· "N a ca eia onf111a11 plena criação estética não é uma criação em sonho. As belas
s s1m óllcas de ce . . ossos sonhos (
u11;d B_ilde:,kelten), no lugar d:ª~; ~1!1agens ~symbolische Sze;,;,,,' tapeçarias simbólicas dos sonhos provocam portanto em Nietzsche
um mfato de admiração e condescendência, como se o engenho
:~~~tiva. Encontramos nesta defi~~~rsod11terário em forma d,
J~ ice que Freud atribuir-~ tçao os sonhos o cará ali gasto fosse suspeito de produzir apenas falsas aparências.
e figuração. Ademais a anªaª1oºg~onho: associatividade, simbol1'snt1c<, Na verdade, esta concepção assume todo seu sentido se referida
d e um l ' · ' ia com a . 1 à concepção evolucionista subjacente a ela, e que encontrou sua
a og1ca de associa,,;;o ír' narrativa sugere a l'dól
comum r- on 1ca que . 11 formulação exatamente antes, nos textos de Humano, Demasiado
com a criação estética se a1irnenta numa fon,,,
Esta analogia, contudo te . . Humano que analisamos. A ficção poética remete, por sua afini•
sche: é como se a energi~ e::: u~ sentido particular para Nieti dade com o sonho, a seu uso arcaico, na mitologia, Encontramos
seu uso estético. Neste sentido aça~ n? sonho fosse desviada de aí, portanto, o caráte1· arbitrário e confuso. O termo unvollkommen
dos sonhos, que "modif ' ele insiste na audácia d . , .. (inacabada) deve ligar-se mais radic.almente à noção de Unvollk-
(Erlebni . icam (umschreiben) a . emiu1g1cn ommenheit (imperfeição) atl'ibuída como sua característica ao
, . sse) ou nossas expectativas ou s coisas que vivemos
a u d ac1a e uma •- , nossos negó · estado originário da hwnanidade. I! desta que procede o aspecto
se prec1sao poeticas tais q . c10s, com um11 lacunar e defeituoso do encadeamento onírico.
mpre nos espantamos a n . ue em seguida, pela ma h
nossos sonhos" Esta f osso respei to quando nos le1nb . n ã, Um longo aforismo de Aurora retoma a questão do sonho. A
d · per ormance •. 1amos de teoria fisiológica anterior é retomada: os sonhos são apresentados
cin:i: arremedo_ da verdadeira cr~::~caE~o entanto, não passa
como " interpretações de nossas excitações nervosas (Nervenreize)
.1 a analogia com uma ob - . . is por que Nietzsche
demasiado senso estético servaçao irônica: "Consu . d urante o sono, mas interpretações muito livres, muito arbitrá-
•om t- nos sonhos _ é . mimos rias" das af ecções endógenas.26 Depois, porém, a reflexão de
V os ao pobres dele." e por isso que, de d ia
, _Esta _frase espirituosa indica . ' Nietzsche progrediu. Surgiu uma questão nova: por que "este
logi~a simbólica do sonho Nietz~~~, fascinado por momentos pela texto que permanece em geral de uma noite para outra é comen-
~;~ esperdício. O sonho, ,neste con;e; concebe, no entanto, como tado de maneira tão diferente"? Por que "a razão inventiva
" h:/;usltrada, porque mutilada. No
i ua mente o sonho é
m!~• par,ece-nos uma obra de
mo ugar ele observa
(dichtende Vernunf t) representa para si ontem e hoje causas tão
diferentes para estas mesmas excitações nervosas"?
ob!"a malfeita" (Pfuscher um ~rabaJho mal acabado" ou " que € um momento importante na gênese da concepção nietzschia·
analogia sonho/obra de ar~:'!:':~· E~quant~ freqüentement~m= na do sonho, aquele em que ele considera problemática uma
para va lorizar o valor estético concepção demasiado bem encerrada. Parece-lhe abstrata a colo-
cação em evidência da lógica d,) sonho como modo de explicação,
214
PAUL-LAURENT ASSOUN
O SONHO E O SIMBOLISMO 215
enquanto não se determinou o rinc' . .
nova questão porém b . p 1p10 a ela sub1acente. F•,111 pretação da vida sonhada", que ela é "menos poética e desabrida",
sonho a uma 'teotia cioºs:~g=e~t~assar da teoria do mecanismo de, é para acrescentar imediatamente que "nossos instintos em estado
da atividade onírica Ora , , o, em_suma, do como ao porquil de vigília não fazem nada além de interpretar as excitações nervo-
sonho encontra a te~ri'a do•se· a1t'· precisamente, que a teorin tl11 sas e estabelecer suas 'causas' de acordo com sua necessidade".
ms mtos.
Na verdade, os instintos q As aspas indicam que as causas ditas reais não são menos suspeitas
na vida do ho ue procuram sem cessar satisfazei , de irrealidade que as causas presumíveis e t-eputadas como fictí-
. mem encontram no sonho um me.10 d 1·
N ietzsche representa O rebanh d . . e rea tzaçuu cias em sonho. Por conseguinte, "não existe diferença essencial
permanentemente em busca do ,,º~ mstmtos como esfaímado11 ' entre vigília e sonho": há diferença apenas de graus de liberdade
dia, não encontram pastagem e~at·ªf mento": quando, durante o no processo interpretativo. A lógica desperta se distingue pelo
-
Sao , ~ 1s azem-se no palco do
antes de mais nada "o . t· . . son 110 coeficiente um pouco mais elevado de repressões, de pontos opos-
s ms 1ntos considerados • ,,
contrariamente a seus homólogos fí . morais Qlll' , tos à liberdade da interpretação, que r ecebe livre curso no sonho.
. f s1cos, como a fome
sa ti s azer-se por esta via subst't t' . D , , poc10111 A partir deste momento, o sonho é menos uma ilhota arcaica
desta vez assumindo a forma d: u IV~- ª: ~ma nova definiçíio,
têm precisamente por valor e se~~d iagnost1co: "Nossos sonhoN
num mundo real, que a expressão pura da ilusão universal que é
o estofo do ser. A esfera da experiência (Erleben.) parece então
esta falta de alimento durante o di: .~ lºm~ensa~ até certo grnu influenciar a esfera do imaginar (Erdichten): o sonho atesta sua
forma poética responde a esta fun ã. . ~?, oca~ao ~o .~onho cm confusão.
tungen) permitem qu'e os instinto; o. as. imagmaçoes_ (Erdioh Chegamos ao momento do pensamento de Nietzsche em que
espaço de jogo (Spielraum) e mora1s se proporcionem um a relativização dos valores morais começa a fazer sentir seus
que faz a diferença de tonalid ~mad descarga (Entladung). I sto é efeitos radicais de desrealização ontológica. O estatuto do sonho
ou tro (travessura ternura a e os sonhos de um dia para o é seu índice maior: enquanto anteriormente ele permitia servir-se
objetos do sonho'. ' aventura) e a variedade correlata dos de um núcleo de ilusão e de irracional que rivalizava com uma
Por trás da razão inventiva que . esfera de realidade e de racionalidade, doravante a fronteira va-
o sujeito exclusivo do sonho ; parecia, nos text~s anteriores, cila. De repente, o campo de legislação do sonho estende-se ao
de Nietzsche um "ponto*", d~farece, segundo a bomta expressiio essencial: " Nossos juízos e apreciações morais não passam de
' , t erente a cada noite· é • .
que, d aquela vez, "quel'ia satisfazer-se . o I? shnto imagens e de fantasias (Bilder und Plumtasien.) a propósito de
restaurar-se, descarregar-se"· a uele , ocupar-se, exercitar-se, um processo fisiológico que desconhecemos, uma espécie de língua
instintos acha-se " no . 'f q que, na maré contínua do1J convencionada para designar certas excitações nervosas"; "a pre-
' mais orte do seu fluxo" 21 C d
empresta sua linguagem ao instinto de 1 - . a a ~onho tensa consciência não é senão o comentário mais ou menos fanta-
economia geral dos fluxos instintivos P_ an!a~ naqu_ela noite na sioso de um texto desconhecido, talvez incognoscível, mas sen-
suas virtudes ao eleito a fim de f ' e a tlh a zao mventtva empresto tido." O sonho assume, a partir daí, um significado mais decisivo
ornecer- e sua Jingu
ser representado no sentido ín•: agem, para e menos específico: serve para exibir não mais apenas um vestígio
E umo.
sse texto mar ca a evolução da - no coração do homem civilizado, mas o modo geral de iner ência
sonJ10 sob outro ponto d . t concepçao níetzschiana do ao mundo e a relação com os valores. O que se passa no sonho
A . e vis a: aquele da refação com . íJ'
nter10rmente, Nietzsche insistira na di t' - d a v1g ia. poderia muito bem ser a chave do q ue se passa em todo aconte-
e onírico: agora, ele tende a marcar a s/1ç~o . os planos desperto cimento humano: o enxerto arbitrário de um sentido numa exci-
confirma que "a ·d d _ ontimudade deles. Se ele tação fisiológica. A lógica do sonho poderia mesmo ser isomorfa
VI a esperta nao tem aquela liberdade de inter-
à da moralidade, isto é, do modo de estar no mundo.
* N. 1'. Aquele que, no teatro, "soprava" as falas A partir daí, sua importância é redobrada: laboratório do
para os atores. sentido estético, parece, ademais, laboratório da próp,ria ética.
217
O SONHO E O SIMBOLISMO
216 PAUL~LAURBNT ASSOUN
no sonho. Deste ponto de vista, Nietzsche vai ao encontro do
Esta implicação d~ sonho na ue - procedimento freudiano, imputando o sonho ao homem, reinserin·
aforismo dedicado na mesm : stao da moral conf irma-sc 1111
Nietzsche recu;a numa a o t' ao_ sonho e à responsabilidud, do-o no continmtm psíquico para encontrar em seguida suas leis.
Paradoxalmente, são aqueles mesmos que se inocentam muito
sonho: "Quereis se; responseáxc .amaçao, a tese da inocênoii1 tlt,
h veis em tudo I Apen facilmente de sua responsabilidade em relação a seus sonhos que
son os é que não quereis sê-lol ''28 Co . as para vosso, desconhecem o determinismo deles. Nietzsche determina a mesma
levado a restituir aos sonhad ntr.a esta denegação ele ,
resistência do orgulho e do sentimento de poder ao reconhecet·
que implica a colocação em :vre1'ds Aa ~rodp nedade do seu sonho, o
"Q . enc1a e sua funç- ' o sentido dos sonhos, por um lado, a verdade determinista, de
ue miserável fraqueza .. ao expressivo
Nada é mais vosso própri~ b~ue (~~nsequente . falta de coragem! outro: dupla ferida que afeta as mesmas faculdades.
é mais vossa obrai Maté . f m igen) que vossos sonhos! N11d11 Nietzsche se aferra a partir deste momento à idéia de que
· na, orma duraçã t existe um sentido do sonho, que algo que não deve ser i'gnorado
nessas comédias sois totalment 6, ' ,. o, a ores, espectadorc1,
está em jogo nele. Isto é o que exprime um brevíssimo aforismo
Além. d'isso, porém, Nietzsche
· e v desconf
s. d . da Gaia Ciência: "Sonhos. - Não se sonha ou, então, se se
recusa, uma resistência baseada . ta e que haJa, neat11 sonha, é de modo interessante."3 l O que quer dizer que existe um
inconfessa de si próprio se ex no sentimento de que uma pal'll'
.,, pressa no sonho· "E , . interesse inerente à atividade onírica enquanto tal, porque não
aqui , acrescenta ele " que t d . · e prec1samenk é em vão que o espírito põe-se a sonhar: ele se expressa, aí, de
mesmos". Daí a tendência a s e?, es :mor e vergonha ,de VÓH
maneira motivada. Não é um desperdício de energia, mas um
fazendo dela uma fatalidade i:deiv::~ a culpa. des~a paternidade
que a referência a Edipo ·11npo -e p e~te de st. Nao é por acaso investimento sempre lucrativo no plano simbólico.
., . -se aqui· "Ed · . Se ele lembra este princípio, é para dar a atividade onírica
Jª sabia
_ extrair consolo do pensamento de · que1po, nado sábio
d ~dipo ' como exemplo à atividade desperta. Nesse sentido, deve-.se pensar
re1açao ao que sonhamos' C 1 . a po emos em como se sonha, coro a mesma exigência: "Deve-se aprender a
maioria dos homens deve ;sta~nc uo,. a par tir deste fato, que li
veis. Se fosse de outro d consciente de ter sonhos abominá• estar assim em estado de vigília: ou não estar, ou então estar de
mo o, quanto se pod · maneira interessante." O "espírito livre", do qual falava Humano,
em avor do orgulho d h ena ter explorado
f o ornem sua poesia not 1" . Demasiado Humano, pretende estar positivamente desperto. Para-
so nho permanece análogo a uma f . . urn~. Assun, o doxalmente, seu modelo deve ser o sonhador. O pior é o estado
algo muito mais importante n d ant~1.a poética (D1chterei), mas
a pressão equívoca dos inst~ otr em t_ica se mescla a esta forma: de sonolência sem imagens, que crê poder-se permitir aquele que
.f m os servmdo-se da b 1 A •
está em estado de vigilla.
para d1s arçar seus desejos.29 e a aparencrn Esta breve máxima do sonhador para uso do velador indica
Após haver imputado deliberadamen discretamente a função adquirida pelo sonho na ética de A Gaia
sabilidade pelos sonhos dele N' . hte aos sonhadores a respon-
rindo, contudo à tese dete s,. . ietzdsc e encerra o aforismo ade- Ciência.
' rnumsta o sonho· "D Na filosofia de Nietzsche, o sonho encontra, portanto, um
que o sábio :Édipo tinha razão quanto a f · evo ac~·escentar significado ativo. Não só objeto da psicologia, mas modo de
realmente responsáveis por nossos nh o ato de que nao somos transmissão da verdade. Zaratustra se serve do sonho para enun-
nossa vigília - e quanto ao fato d so .os - m~s tamp?uco por ciar "o grande Meio-dia" ,32 No arsenal das formas da profecia
trio tem por pai e mãe o or ulho e que a. doutrma do livre arbí-
O e na economia dos graus de verdade, o sonho tem uma função
und Machtgefühl) do home!i " 30 e sentunento de poder (Stolz
preciosa: permite antecipar a verdade, que sofre co~_tinuamente
Não existe, de modo algum· contrad' - por não poder sel' j á dita. O anúncio incessantementé retardado
na irresponsabilidade e em afirmar o ; çao e?1. denunciar a crença pode realizar-se no sonho, aparência na qual se fundem o real
a ser afirmada uma vez resolutament eter~1smo: ch ega mesmo
se apreender o mecanis~o de alg d e, ~ ideia de que é possível
e o possível. O sonho será, portanto, uma das formas da profecia.
o e s1 mesmo que se expressa
219
O SO'l'-IHO E O SIMBOLISMO

218 PAUL-LAURENT ASSOUN • t'odo sonho nosso é a interpretação (Auslegung) do sentimento


,hllético (Gesa,nt-ge/ühl ) cm causas possfveis; • em verdade de
Adivinha-se
livro de Assimesta função do sonho na I • • tnl modo que um estado"só é, a princípio, 36consciente, se a cadeia
Males" 33 t Falou Zaratustra d iarrattva, nu h ,
como ;eu ~'~omhsonho ~contecldo ;o r~iarsodnho sobre ·l"O 1 u1usal descoberta entrou na consciência."
n o matmal" a aurora· M.as acon1ece que toda a teoria psicofisiológica do sonho ba·
que a aurora i·nv e1osa
. ve· · ' na fronteira temporal .dC) l' 11 li .ela-se numa teoria da "experiência in\erior", esta, acrescenta
navegador à vela . to interromper: "O me o 1111 't NicttSChe, "consiste em que se busque e se ,epresente urna causa
cioso como as bo;t!i"º e'."barcação, meio lufa~ sonho, utuh,,' pura a excitação dos centros nervosos - e cm que a primeira
encontrou, ho· ~;'••. ,mpaciente como Ia ~e vuntu, • li eousa encontrada enU~ na consciência: esta causa não é de modo
é o privilégio~~ ;:;,enc,a e vagar para pis~r •kao ,.,, , "1 ulgwn adequada à verdadeira causa, é uma tentativa sobre a base
tem pare ele f o, que fa, dele o ór ã o mundo?"" 1 1
das 'experiências internas' de antanho, isto é, da memória, Porém
vagar que p;rm~;: da temporalidade, as gvi:t~~ re~elação .fnum n memória também mantém o hábito das velhas interp1~tações,
do". m pesar o mundo coloca11do-se es "alé
e pac1011cI u
isto é, da causalidade errônea, de modo que a 'experiência interna'
Zaratustra fala d m do 11 111 11 ainda tem que carregar em si as conseqüênci>s de todas as antigas
e benéfico que o h~b~;i~onho como de um princí .
e propõe-se a "1'm't, l u. ele lhe testemunha

t=
p10 enge11h1, " ficções causais falsas".
• - ,. 1
a- o em 1 reconhec'd No momento final da filosofia nietzscbiana, quando o fenome·
,çao . Esta é a li.- peno dia" para " t nmrntt nalismo deve ser radicalizado para fazer tábua rasa da ditadura
1
para aquele que ,:º sonho, revelar o mu~:0'":, sua mclho, da vontade de poder, o sonho retoma então suas caracterlsticas,
transitável em ô mpo, ponderável p mensurfiVt 1
_J iI v o, para . , ara um bo mas nwn nivel superior, seu papel é manifestar a legalidade deste
uec radores". O ue asas vigorosas, decifrável m pesnd<11'
saber fazer E" q O sonhador faz O h • para divino mundo interior (lnnenwefO que exibe a condição Interna de toda
evangelho. . is por que o sonho será, um a odmem, desperto
as ltnguas d dcv,
percepção do mundo
Neste contexto . é retomada, nun> dos último• lr-entos
é que
m aforisma de Alé o novu onde se cristaJiZOU o pensamento de Nietzsche, a oposição do
U
continuidade sonh / . 11; do Bem e do MaJ3S
sonho na próp,ia
pondo que o .
~i;•g~,a para defender esta
a esperta. "O que v·
vivamos a •, d
7tom_a •
unçao ativa do
1vemos e nh
•=' " apolíneo
São determinadas
31
e do díonisfaco.
duas pulsões derivadas ,espectivamente dos
geral de nossa alm d m1u e, pertence final m so o, su• dois princípios, que são, por sua vez, a e,pressão do poder da

~~r :!'
mente' vivida· a, a mesma maneira ue mente à economlu natureza na arte humana: uma na visão, outra na orgia, Niet,:sche
tomos de mai; somos m~is ricos ~u ~~~!quer coisa 'real- precisa que elas são representadas de forma debilitada na vida
e mesmo nos mom meoo~ e l,camos, finahn po~rcs, necessl• normal, uma no sonho e outra na embriaguez. Enquanto a ero·
um pouco a risi entos ma,s serenos de no ente,_~ luz do dia briaguez remete à paixão, o sonho é associado aos valores da
nhos." Exist{ ai :n~::~ pelos hábitos origi:d:Pt'º desperto, visão, da união e da poesia. Esta é a última definição do sonho:
.do sonho até a vi A •do prolongamento d . e nossos so- a forma representativa, na escala cotidiana, da compulsão à visão
doméstica do esp;~:•~ 0 0 comportamento de~p=t'"! originado (Zwang ,ur Visinn) que deriva da forma apollnea da expressão ,
onfr,cas, estas se f umano comporta assim os. economia na arte humana, do poder da natureza (Naturgewalt).
Não há por qu.'"ªm em disposições reais ,::~ manifestações Com estes últimos textos, fecha-se o drculo: o sonho preenche
redigir as notas de se espantar de que em sua .ª ma: até u fim, em Nietzsche, as vicissitudes que acompanhamos, a
e~paço considerável : Vonhtade do Poder, Niet!t:of1a final, ao dupla !unção de principio estético (eco do princípio ap0llneo) e
dtano do "feno .º son o. Este aparece c e e reserve um de princípio psicológico (manilestação do mundo interior): de•
intitulado, Nie::;;hsmo do mundo interio/m~ o rfev~lador coti-
e retoma em substânc1a . a. gênese
o a onsmo assim
do sonho.
220
PAUL-LAURENT ASSOUN
O SONHO E O SIMBOLISMO 221
1~
!
bai,co dessas duas .
humana. mstâncias, ele está no cerne d
a experiêl111 1, O sonho aparece, a partir daí, como um regime energético
regulado, centrado na livre circulação da energia (primária) ao
longo das cadeias associativas vinculando as representações em
O SONHO E SUA lN1'ERPRETA
O OBJETO ONIRICO E'M ÇAO: ligação com os efeitos. Por conseguinte, torna-se possível um estu-
FREUD do positivo do trabalho de deformação pelo qual os materiais
(principalmente restos diurnos) são tratados. É o papel, principal·
A investigação anterior mos . mente, dos procedimentos de deslocamento e de condensação, cuja
temática nietzschiana do h trou a importância e a riqueza 1 1
p son o que ab . e 11 técnica só pode ser cercada na medida em que são relacionados
que reud vai manifestar p ela ~tivi re ca~ho para o intere.q~r com o processo primário.42
por outro lado que a b d dade onfnca. Mostra tamb.-:
1 ' a or agem . tzs hi , om, A partir deste momento, deve-se atribuir a maior importância
aq~e a ~~ inconsciente e da sexua . rue c ana se situa, comu à afirmação de Freud segundo a qual o essencial do sonho con•
caçao fisiológica e da val . - lid~de,. no duplo limite da expJI
, on zaçao msf f . siste no trabalho que se realiza nele, bem mais que no próprio
caso, e estético, na inspiração româ ~ tn 1v1sta, cujo eixo, nestt• conte(1do que remete a algum "misterioso inconsciente".43 Isto
A T nuca.
. raumdeutung freudiana id , . sjgoifica que, em Freud, o sonho é muito diferente do reflexo
~ 1etzsche, enquanto re rod - ent1fica a atividade onírica como imediato do inconsciente (o que ainda é para Nietzsche): não é ;,
filogenética. Aí reside z!sm uçao na ~ntogênese de uma herança senão aquele tratamento, de resto não criador, mas sim mecânico, ,1

de elaboração do sonho"39 .
%
i:~:tecir,ações oficialmen;; :~:J~:º! primeira parte, uma
as em Freud o tra-
que elabora o conteúdo latente como conteúdo manifesto. Deste
modo é fundado algo que estava fora de propósito antes de Freud,
co?1o conjunto das modalidades é est~dado, por ele mesmo, ou seja, uma "ciência (interpretativa) do sonho" (Traumdeutung), u
pnnceps do sonho como " 1· pel~s quais é realizada a fu nção que se impõe na medida em que o sonho é uma atividade autô-
de " elementos de ~rigem i:!a~t~~•~1º de um desejo",40 a partir noma regida por uma técnica. Poderíamos afirmar, em última aná-
A p art'd'
ir ru' o sonho não é . 1 · lise, que a profunda originalidade de Freud é ter emancipado o
o que liga o indivíduo à vida ~~~ esmente um documento sobre sonho do Inconsciente, quer dizer, haver tratado o sonho como
ra~amente pensado no plano o:: 1:1~al da espécie: ele é delibe- um trabalho sui generis, abordável como produtor de efeitos de- 1

se10 individual. Eis por qu b geruco, como linguagem do de- terminados e interpretáveis, e não como reflexo de um Incons-
e:13 absoluto uma interpretaçeãoºsi::;e~os, Nietzsche não elabora ciente. O que não é nada além da seqüência de procedimentos '
sao do desejo: no máximo ele d-?1~~ª do sonho corno expres- que se estende até a elaboração secundária, pela qual o sonho é
qu~ localizamos o que une 'o son~otvm a n~ tradição romântica finalmen te remanejado como roteiro co~rente e inteligível. 1

ma1~,. para ele, uma nova prova de ao ~e~e10: mas isto é muito Isto equivale a dizer que aquilo que, em Nietzsche, não deixa
de ser uma temática do sonho toma-se, em Freud, uma teoria da 'I
g~nenco. Em Freud emerge a idéia d~artic1paç~o no inconsciente
v1dual a se exprimir na lin , ~ma lógica do desejo indi- atividade onírica como espécime da atividade psíquica incons-
. guagem omnca. ciente. Eis por que, em Nietzsche, é de imediato valorizado este-
EIS por que a análise dos . il ' I
é inseparável da elaboração me~ms_mos do " trabalho" do sonho ticamente um "mundo do sonho", enquanto em Freud trata-se de 'I

precisamente a idéia de me ap~1cológica do inconsciente l! um material que fundamenta a explicação e o diagnóstico.44


d . processo primário . Um problema determinante da questão do sonho permite con·
o regIStro do inconsciente à l d que opera a passagem
teoria acoplada da atividade que~ o. sonho e torna possível uma cluir o confronto: é o estatuto da imagem, correlato da exigência
haver uma teoria estética da aºn°aJoc~ inconsciente, o~de só podia de figuração e de figurabilidade (Rücksicht auf Darstellbarkeit).
gia entre sonho e inconsciente. e notável que Freud coloque esta exigência em relação com o
fenômeno geral de regressão (ao mesmo tempo t6pica, formal e

'
'1
222
PAUL-LAURENT ASSOUN
O SONHO E O SIMBOLISMO 223
temporal). Esta é condicionada J •
s~cessão das excitações do pólo ~: a m~e.rsão, durante o 1101111 ,1
9. Este é o título do § 5, do cap. l , SW, JII, 19.
çao. Isto significa claramente mot!lidade ao pólo du JJ1 ,, 1 10. Precisamente em 1872 é publicada a obra em que Edward Burnett
fun damen_talmente regressivo en{~re~d~maa~em tem um ,•11111111 l'ylor sustenta a tese animista sobre a origem da religião prometida a uma
empobrecida de expressão ps ' . . imagem é umu f11111 11 ~~•reira tão bela, Primitive Culture: Researches into the Development o/
~a regressão geral do sonho1q~~cad e,. ndeste sentido, caraoto1l~th • MylliC1logy, Religion, A rt and Custam, Lond!'es. Tylor afirma que a religião
hpo alucinatório. , n uz1n o a uma experiêncfo ,1 • pl'lmitiva nasce da noção de alma, que o homem se forja pela consideração
110 duas espécies de fatos biológicos: por um lado, o sono, o êxtase, a doença
Correlativame t • u II morte; por outro, os sonhos e as visões, que o levam a se representar
d d n e, a 1magem remete a u . , .
. ª. e sensorial e representativa Este ma e~pec1e de r<JOl!p//1•1 u111 princípio separável, logo distinto do corpQ. O sonho figura, portanto,
a imagem; ambos se comport~m estatu!o vmcula o reonlc:111111 como em Nietzsche, numa problemática e tnológica de "psicologia da crença
exercem uma atração l . como nucleos originários 11111 religiosa·.
vincula o sonho à cen;u;ri;.º ~r!za a vid~ psíquica - o qu 11. TítuJo do § 12, cap. I, SW, III, 23.
12. Título do § 13, cap. I , SW, Ill, 24.
t~ansferência para o recente"tnd:1~. e pernut7 defini-lo como "11 13 . Sobre esta lei, v., infra, p. 259.
títuto reativado. uma cena infantil, como sub 14. SW, III, 23.
Pois bem • eomo vunos
• em N' 15. SW, III, 23-4.
rerne!e a- esta idéia de receptivid;~tz!;h~, se a teoria fisiológlcli 16. Tema caro à concepção romântica do sonho, v., infra.
17. § 13, SW, lll, 24.
valorizaçao da Phantrisie num senti~o e~ ~ prolonga, por unan 18. l bid., p. 25.
e suas cores dionjsfacas ;ervem es!1co. A~sirn, a imago111 19. Esta concepção da "lógica do sonho" tem fortes afinidades com
rente, para_ exibir a exuberân;i:u;a _me~áfora nietzschiana co1 oquela estudada por Schopenhauer, principalmente em seu curioso "Ensaio
ente~d1da h teraimente, ela só tradu~ =tmto, onde, em Freud, sobre a Aparição dos Espíritos• (it1: Parerga et Paraliponema, t. IV, tradu-
gress1vo, e tanto mais significar modo de expressão rc zido nas Memórias sobre as Ci§ncias Ocultas, 1912). Aí Schopenhauer afir•
Do 1vo. ma que o princípio de razão "deve também reger de certo modo os sonhos,
d . mesmo modo, a imagem ex r· a maneira pela qual eles se produzem" (p. 125). • É preciso que haja neces-
ese10 em Freud definid . p ime o estatuto regressivo do
sariamente uma causa que provoque estas formas do sonho " (p. 128). Isto
q~ica_" que busc~ "reinve~ü::~;:atamente ~o~o a "moção ps(. se baseia no fato de que "o cérebro reage a propósito de todas as excitações
çao ligada a uma "exper1'e" . d ge~ mnésica de uma percep- que chegam até ele, de acordo com sua função própria. Esta função con-
nic' t b nc1a e satisfação " 46 D . • siste, antes de mais n ada, em projetar imagens no espaço ( ... ), consiste, em
is a que arra o caminb . . efm1ção meca-
cfpio, e que desliga de uma ºv a qualquer exaltação do desejo-prln seguida, em fazer estas imagens se moverem no tempo e seguindo o fio da
exaltação que Nietzsche prol;; po: todas Fre~d das figuras dest; causalidade, o tempo e a causalidade sendo igualmente as funções da ativi•
ga ª sua maneira. dade que lhe é própria. O cérebro, em toda época, deve falar então so-
mente sua própria Ifngua; ele traduzirá, por conseguinte, também nesta
Hngua aquelas impres&ões fracas que chegam até ele do interior durante seu
NOTAS sono, assim como se se tratasse das impressões fortes e bem distintas que
chegam até ele, em estado de vigília, de fora, pela via regular• (pp. 134-5).
1. § 1, SW, l , 48. Cf. também o ensaio sobre o princípio de razão suficiente. Sobre a influên-
2. lbid., p. 49. cia desta concepção sobre Freud, v. Freud, la Philosophie et les Phílosophes,
3. lbid., p. 50. pp. 179-80.
4. l bid,, p. 48. 20. Ibid., pp. 25-6.
5. § 2, SW, I, 53. 21. V., supra, t.• parte, pp. 71-2.
6 · § 8, SW, l, 89. 22. Ibíd., p. 26.
7. § 4, SW, I, 6J. 23. Ibid., p. 27.
8. lbid., p. 62. 24. § 76, SW, III/2, p. 4-0.
25. § 194, SW, llI /2, pp. 266-7.
26. Liv. II, § 119, SW, IV, 106.
224 P AUL-LAURENT ASSOUN

27, Jbid., p. 107.


28. Liv. IT, § 128, S.W, IV, 111.
29. V. a importância da temática do sonho entre os roml\1111,,
Béguin Albert. L'Ame Roma11tique et le Rêve, 1939. J!. bastanto C1t111I
o interesse de Nietzsche por Jean-Paul, para quem o sonho ó u11111 ,
riência permanente. Cf. Choix de Rêves (Escolha dos Sonhos), put,11
em francês em 1934. O discurso nietzschiano sobre o sonho rcto11111 11
velmente a temática romântica sobre a questão. Sobre a problemóth,111 111 ,
cf., por exemplo, Schubert, G. H. Symbolique du R~ve: "Não ó, eh, "" 1 LIVRO TERCEIRO
algum, a parte mais brilhante de nós mesmos que está atrelad11 11 11,
carro, sob a forma de alma vegetativa, mas sim a parte vergonhosn de '"
próprio ser em farrapos. Só o descobrimos demasiado claramente q111111, I
mesmo por breves instantes, ela se liberta de suas cadeias. Fico nh '"'''
zado quondo, às vezes, percebo em sonho este lado de sombra du 1111111
OS PROBLEMAS
mesmo, sob seu verdadeiro aspecto" (citado por Béguin, p . 116). 0111 1
esta que torturou Tean-Paul. Assinalemos também que Bégui.11 escrevr u 111•
obra em parte para opor à concepção psicanaUtica do sonho uma conuop~~
"mais rica", inspirada precisamente nos românticos (v. p. XVI), indlc11111l11
de passagem, a diversidade das concepções. Neste sentido, Nietzscho 1111•
longa esta oposição.
30. Associação do sonho a edipo literalmente premonitória .. .
31. Liv. lll, § 232, SW, V, 170.
32. Llv. IV, Meio-dia, SW, VI, 205. . , ios que constituem o
33. Liv. III, "Dos Três Males", SW, VI, 206. expostos os princip , , .o
Agora que f oram de fundo ou cenan
34. lbid., p. 207. { to e os temas, pano .
35. Cap. V, § 193, SW, VII, 103. palco de nosso con ron ' h gar à ação dramática pro·
36. Liv. III, § 479, SW, IX, 335. d taca temos que e e ' . á-
no qual ele se es , N dade princ1p1os e tem
37. Liv. JJI, § 798, SW, IX, 534. desenlace a ver ' b
38. V., supra, pp. 70-2. Priamente dita e a seu oblema essenc1a . . \· o diagnóstico so re a

39. Este é o objeto do cap. VI da Traumdeutung, GW, II-III. ticas vão dar num pr 'd l psicologia freudiana das neu-
40. Princípio formulado no final do cap. II e desenvolvido no cap. (])
rea\idade humana, desenvolvi o ~e a b e a "patologia moral".
da Traumder.uung. 61 o nietzsch1ano so r .
41. V. os §§ 1-2 do cap. VI. rases e seu hem og . . da antropologia corres·
42. V. o § 9 do cap. VI da Traumdeutung. . dos mstmtos e l
Esta é a prova da teona d' gnóstico sobre a Ku tur,
43. Mais ainda que na 1'raumdeutung, é em suas Observações sobre a ' também um ia .
Teoria e a Prática da Interpretação dos Sonhos (1923) que Freud coloca em pendente. Encontramos, a1'. . ·1· ça-o como a problemât1ca
evidência esta idéia, GW, XIII, 304. Também na tal nota da Traumdeutung, d teoria da c1v1 iz:a d"
sendo apresenta a a d" 6stico presente, a bem tzer,
ele aconselha que não mais se confunda o sonho com os pensamentos la• . h · te deste 1agn ' · d
tentes, nem com os pensamentos manifestos (GW, II-III, 585, n. 1). que constitui o onzon ·nvestigação que, parttn o
. , qual reconduz uma t d' g
44. V. o § 3 do cap. VI da Traumdeutung. Sobre a ligação com a desde a ongem e a . , dade enfim, que o ia .
regressão, v. GW, II-III, 551-4. d f ms Se e ver '
dos princípios, desven a os . o que devemos buscar
45. Supra, pp. 209-10. ,, ( a é neste terren _
46. ln: Traumdeutung, GW, II-III, 517. nóstico indica a terapeu ic., . - como resposta à questao
·al de nossa mvest1gaçao,
0 termo na t ui
da doença.
1.

NEUROSE
E
MORALIDADE

NOÇôES DE SA0DE"E DE DOENÇA


EM FREUD E EM NIETZSCHE

Se é verdade que se pode falar em uma psicopatologja nietz-


schiana, convém delimitar positivamente, por assim dizer, a -acep-
ção das noções de doença e de saúde em Nietzsche.
Humano, Demasiado Humano já afirma o "valor da doença"
como geradora de "sabedoria", 1 sublinha o ódio aos "conselheiros"
que brota no doente.2 A "utilidade' ' da doença é afirmada deste
modo: ela proporciona "um sentimento extremamente agudo para
o são e o mórbido nas obras e nos atos, os seus e os dos outros":
da( paradoxalmente o "tom de saúde" que se destaca dos escritos
dos doentes, bem mais aptos que a espécie robusta "à filosofia
da saúde, do espírito e da convalescença." 3
A respeito dessa ciência da saúde pela doença, O Andarilho e
sua Sombra já descreve "a fé na doença" que o cristianismo
inoculou no homem. 4 Quando recomenda como sedativo para as
angústias da alma "refletir sobre os benefícios e gentilezas que se
pode fazer aos amigos e inimigos'? Nietzsche alude a algo muito
NEUROSE E MORALIDADE 229
228 PAUL-LAURENT ASSOUN

diferente da caridade: a uma forma de "diversão" que evita 11~ 111 outro: mas esta oposição banal não impede, de modo algum, uma
var o mal pelo remédio, criando o ressentimento. De res10, 11 surpreendente convergência da abordagem psicopatológica, como
doença longa demais embota a compaixão e chega a fazer inf,,111 se todo discurso sobre o normal e o patológico deparasse com
que o doente merece sua doença. 6 No fundo, portanto: "1 1111 a questão do valor e da norma, e aquela, correlata, da inter-
pouco. de sai:írle :1q:ii í! ali é o melhor remédio para o doonu, ' pretação.12 . ,.
Este _dtto espirituoso exprime bem a relatividade das duas noç01 Poder-se-ia dizer, na verdade, que paradoxalmente a 1de1a de
. Simultaneamente, esta relatividade se exprime pela coincid 11 doença, não mais que seu correlato saúde, não constituem cate-
eia da doença como realidade e da idéia de doença: de modo 11111 gorias operatórias em Freud. O que existe, antes de mais nada,
é um conjunto de processos psíquicos suscetíveis de um ce~·to
trata~· do. do:,.nte "nã~. é apenas tratar da doença. t tranqilill,u1
sua 1magmaçao, a hm de que. pelo menos, ele deixe de sol 11 1 regime de funcionamento e de não-fu~ciona~ento. O patol?gico
por suas idéias a propósito da doern,:a",~ como diz Aurora. 11 parece privilegiado por reveJar, pela. d1sfunçao, a !un~1~n~hdade
fundo da doença é, portanto, "a aflição e a miséria da nhrn1 do sistema. Trata-se, de acordo com a formulaçao m1c1al das
(Trübsal_ und Seelen-Elend), que a própria arte não basta p 11 111 "ambições", de "descobrir que forma assume a teoria do f~ncio-
curar.9 E sob estas espécies que o niilismo, doença suprema, tu namento mental, quando nela se introduz a noção de quantidade,
sua entrada no universo nietzschiano, muito antes de ser lcvnd 11 uma espécie de economia das forças nervosas e, em segundo lugar,
· norma 1."n·
· 1og1a
extrair da psicopatologia algum ganho para a ps1co
em conta como tal.
De fato, a primeira ambição é que fundamenta a segunda. Em
. Evitemos, porém, traduzir estas fórmulas dizendo que, p111,1
Nietzsche, toda doença é p:;icológica: deve-se entender si.mplt última instância, o conceito qualitativo de doença desaparece na
medida em que designaria alguma entidade antropomórfica: em
men:e ~ue a doença é uma realidade indissociavelmente orgilnll 11
Freud, a quantidade tem por função pensar a doença em _termos
e ~s1q~1ca - a tal ponto que a doença se_rve para metafoul;,111
sohdanamente a aJma e o corpo. Aurora dá uma definição ck•I" de processos em graus.
A teoria das neuroses se baseia, desde a origem, nesta pre-
nest: s~ntido: "~elo termo doença deve-se entender: uma aprmd
maça~ mtempest1~a d~ velhice, do ódio e dos juízos pessimi11ln tensão quantificante, o que supõe imunizar a id~ia ~e ~sicopato-
- coisas que se 1mpltcam (zueinancler gehoren)." 1º Eis por qut logia de uma conotação valorizante. A neurose ~• prime1ra~ent~,
uma perturbação da economia mental, o _que relattvtza a ru~tmom1a
º. t~mo do_en~a. conduz implicitamente, em Nietzsche, esta p1 u saúde/doença, mas por um caminho diferente d_o de Nietzsche.
c1ssao de significados, ao mesmo tempo somáticos e morais. 11
termo, portanto, deve ser tomado solidariamente num sentitl11 Em Nietzsche, na verdade, os conceitos não deixam de ter uma
estritamente médico de afecção orgânica e na acepção moral. 011dr função valorizadora, por mais variáve~ _que sej_a, enquanto e~
aponta para a idéia de doença mental. Freud eles só denominam figuras descritivas, deixando aos feno-
Assim, quanto mais se aguçar a crítica da moral, na clécmh1 ."nenos processuais a exclusiva funçã? explicativa. ~e, _contudo, o
de 1880, mais a metáfora patológica vai se desenvolver até elev1 11 encontro é possível, é porque em Nietzsche a avahaçao se ~or~a
a noção de doença ao nível de verdadei1'a categoria d; críticn th1 exploradora dos processos e porque em Freud o~e~a uma ava_ltaçao
moral. A declaração de guerra de Zaratustra aos "dClentes" comu que não deixa de agir por não ter que se obJettvar (ver infra).
inimigos do gênero_ humano 11 arremata esta evolução, no tern1o
da qual a doença mveste sua função axiológica de contra-vului PATOLOGIA MORAL
revelador de valores. E DESTINO DAS PULSôES
. ':'ê-se, através de_sta apresentação, a diferença de ponto de vislu
· Deste modo, remetemo-nos à análise nietzschiana da patolo~ia
ongmal da respectiva relação de Nietzsche e de Freud com 11
moral, que se distribui em A Genealogia da Moral sob as espéc1es
doença: discmso axiológico de um lado, discurso explicativo d1•
230
PAUL-LAURENT ASSOUN

do ressentimento da má consc·e· . . NEUROSE E MORALIDADE 231


'
para nosso propósito bem e· i nc1a. e do ideal asce't"1co. Tra1n
. . 1rcunscr1to de apre d Correlativamente, o ressentimento se traduz por uma pertur-
ps1copato/6gica que subi"az a e t di ' . en er a conc<lp~li11
s es agnósticos. bação da economia mental. Na verdade, a superabundância da
Na verdade, é um verdadeiro uad , . força plástica, " modeladora, regeneradora", é que caracteriza a
esboça ao longo dessas três d" q to clínico q ue Nictzi.c 11
ex li . issertações O que no . saúde, tomando possível uma espécie de renovação crônica da
p citar a representação do a arell ; . s tnterci,!!11
esta sintomatologia em b p d 10 ps1qu1co que torna po1mfv1 1 energia. Ao contrário, existe, na patologia do ressentimento, o
U i ' usca aquele " algo m6 b "d " superinvestimento local, logo, superdesenvolvimento da memória.
bdade.
., _ ,1
. ngesunues) 4 que Nietzsche lo fr r l o (0/11111
ca iza no undamento da mo, n Deve-se entender este superdesenvolvimento mnésico como o
efeito inverso e proporcional do subdesenvolvimento funcional da
. O ressentimento (das Ressentiment motricidade. Não é por acaso que Nietzsche chega a comparar o
deira reação, isto é, a ação é proib"d ,! nasce quando " a vcrcln ressentimento à acumulação de "uma perigosa matéria explosiva" .
conversão n uma "vinganç; ima in;ri:"'. 1~ que tem ~r efeito s1111 O sintoma não é senão a modalidade segundo a qual se descarrega
paradoxalmente qua ndo O g_ . . O ressentimento nuscr- a explosão, ao mesmo tempo que faz sua economia. O "oculto"
(T, ) que e privativo · ·b· -
at - toma-se "criador" ( h .. f . - im içao da aç11u (Verstecktes) é a linguagem dominante desta estratégia de defesa.
da relação sujeito-ação-mundo~c ohp erisch). Isto supõe a inversllo Compreendamos, com efeito, que, no caso em que a atividade não
0
"
em termos fisiológicos da • . omem do ressen t·imento precJ1111 esgota pouco a pouco o gasto, como é o caso na patologia do
, s excitações exte · . •
outras palavras: "Sua a ão é nores para agu". .Eru ressentimento, desenvolve-se uma função de memorização-simbo-
caráter "passivo"l6 de ç ' no !undo, uma reação." Da{ o lização que não tinha espaço na saúde. A doença é precisamente
expansão de si pr6pri/u:at°ncepçao de fel~cidade, isto é, du o estado em que "chegamos n nos livr ar de nada" e em que
entorpecimento (Betiiubung) so:~:g;er,re~~nt~,ça~ como "narcose, " todos os acontecimentos deixam marcas" , onde as lembranças
e relaxamento dos membros': I ' sa at ' distensão do ânimo degeneram em "chagas purulentas".
- • nversamente asa 'd .
açao e num crescimento espont· . d ; u_ ~ consiste numn
supoe-, .b asea d a ela pr6pria numaaneos. a1 a ativ1 dad · Não se pode escapar à impressão de que aquilo que Nietzsche
., e q ue 1s10
mento dos instintos regulado 1
. com~ eta certeza de funcion11- teoriza a propósito do ressentimento não é senão o q ue Freud,
res mconsc,entes" desde a origem, teoriza a propósito da neurose enquanto tal. Não
A caracteriologia do ressentimento d , são as analogias externas que nos interessam aqui, mas sim o
esta reatividade primária· "S a1 tra uz em traços de caráter esquema global de deciframento.
· ua ma olha d t ,
ama os refúgios os subterfu' . . e raves, seu espírito
lt.da des ps1quicas
, . , g1os, os caminhos ocult " A
favoritas são "o s"J" . - os. s moda- O conceito básico que possibilita a Freud e Breuer decifrarem
a espera, o momentâneo apeque I encio, o nao-esquecimento, a sintomatologia histérica e proporem sua etiologia é a ab-reação
namento e a h ·Jh - (Abreagieren). Os Estudos sobre a Histeria, como mostra a comu-
tantas expressões do estatuto d . Uilll açao própria":
mento. Tudo procede na ver;:in~te te seu psiquismo, o adia- nicação preliminar, na verdade têm por finalidade "justificar uma
se descarregou imedi~tamente el, o . ~to de que o efeito não extensão do conceito de histeria traumáticai..18 Eles procuram
dese d , , pe a atividade A a a· d , estabelecer, portanto, que " é de reminiscências (Reminiszenzen)
nca ern um mecanismo t6xico. l! . P r r a1, se
mento que Nietzsche evoca . . t
qu_e não pode descarregar-se
deuo foco de infecção que ga h
~:~~::t:. em termos de envenena-
este efeito . pelo qual o
~o motora ena um verda-
que o histérico padece em grande parte." 19 Ora, o q ue faz com
que um acontecimento vivido torne-se ou não uma reminiscência
patogênica depende estreitamente do processo de ab-reação pelo
e, a doença do ressentimento n ua o con3unto .do ps1qu1smo.
· · qual o sujeito descarrega o afeto vinculado a ela. Eis por q ue,
, Assim
que "se instala pennanente~!:,~,; a maneira de um " parasita" para julgar a rememoração, importa, em primeiro lugar, saber se
"o acontecimento desencadeador provocou ou não uma reação
enérgica".20 A reação é definida aqui como "a série de reflexos
233
NEUROSE E MORALIDADE
232 PAUL--LAURENT ASSOUN
. a vítima· "Você mesmo é culpado".
voluntários ou involuntários graças aos quais ( ... ) há d1"11 111 11.n neste nível é pr~cisam:nte h · "a direção (Richtung) do
de afetos, desde as lágrimas até o ato de vingança." · rca precisou N1etzsc e, que ,, d •
1sto nnp t ' • d d " 2s A "causa responsável ' e proie·
ressentimento seia mu 8 ª· . .
Somente quando a reação é travada é que se opel'a II pt• tada passa a ser literalmente mtroietada.
bilidade de seu destino patológico: "Quando esta reação se, 11d111 ' ' r 6 0 nome de "destinos das
travada, o afeto fica vinculado à lembrança.'' Enquanto o 1111J li ~ notável que Freud ana ise so ·ecal ue e da sublimação,26
ao lado do ~
normal consegue, pelo ato, pela palavra ou pelo contexto 111mm l 1 Pulsões" (Triebschicksale},
- o por acaso pai ecem
q fazer parte do meca-
tivo, fazer com que desapareça "o afeto concomitante" (htil{/1 1 dois processos que, na . d
nismo íntimo do ressentimento e a m,
á consciência nas análises
tenden Affek), no neurótico "as representações patogênicaH 111111 1
têm-se em todo o seu frescor e sempre carregadas de emoçuu· nietzschianas. d'
pois ''o desgaste normal devido a uma ab-reação e a uma l'é:IHt•
Freud fala em "retorn_o sobre si mes:;~l~:i:t~7u~:!e:ba:
dução nos estados em que as associações não sejam pertut•bml ,
eigene Person)21 para des1gnard~ _P~·oceessa si próprio erigido assim
lhe é proibido".21 Eis constituída esta memória que não 11<:Ullll . t terior para mg1r-s ,
mais com nada. O Nicht-Vergessen do ressentimento nietiscl1l111111 dona o o bJe o ex _ d 1.- " (Verkehrung ins
em objeto. Fala em "reinversao a pu sao ual a finalidade de
se alimenta na mesma fonte que a Reminiszenz da histeria Í l'tlll
diana: uma perturbação funcional radical impede o processo dt Gegenteil)zs para designar o proces~ºn!:~~o q passando assim da
ab-l'eação. uma pulsão transforma-se ~o seu ~ o fato de que estes dois
atividade à passiv~dade. 1_ns1ste ta~ :~o; a ponto de dificilmente
Como se sabe, a má consciência (schlechte Gewissen) é qu11 procedimentos estao estreitamente iga ú: que o exemplo privi-
constitui o prolongamento e a superação do ressentimento na pnlo . . , . Não é por acaso, et 1m,
serem d 1stmgu1ve1s. . adomasoquismo, enquanto
)ogia nietzschiana. Pois bem, esta passagem ocorre por um p1•c1
Jegiado para exibil' este p:o~esso _seJa o-~ materializar a reinversão
cesso que Nietzsche caracteriza claramente: "Todos os instinto• a passagem do amor ao od10 se1.ve para
que não se descarregam para fora voltam-se (wenden) para dentrn
- isto é o que chamo de interiorização (Verinnerlichung) do material. ,
. . .dade ao ressentimento, e deste a
homem.''22 Esta é a transformação (Verãnderung) radical que vul No processo que vai da attlv1 . se visto seu aprofundamento
criar uma doença aguda e crônica ao mesmo tempo: "O homem •A . é como se se 1ouves d d
má consc1enc1a, . . . - ,, ·mos consumar-se a mu ança e
doente do homem, doente de si mesmo.'>2 3 em espiral. Na "mtenonzaçao_ dv1 t momento a tonalidade sado-
Esta doença radical procede de um entrave ao "instinto de •A . es e
- meta e ob1·eto . A partir
direçao, todo ' o seu s1gnt
. 'f'tca d o
masoquista da má consc1encia assume
liberdade": este é submetido a um tratamento durante o qual ele
se tornou "l~tente à força ( . . . ), reprimido, recuado, encarcerado pulsional.
a assagem do sadismo ao maso-
no íntimo (zurückgedriingte, zurückgetretene, ins Innere eingeker- Na verdade, Freud mos~r~dqude dp v1·01eAncia uma manifestação
kertre), por fim capaz de desafogar-se somente em si mesmo."24 · ma "attv1 a e e ' d
quismo consiste n~ . . . uma outra pessoa toma a
A crueldade, expressa na vingança, no ressentimento converte-se, de poder originariamente dmdg1da pabrat'tuída pela própria pessoa;
a pat"tir de então, em "vontade de torturar a si próprio". Daí o . , abandona a e su s 1 d
como ob3eto, que e 1· uma transformação a meta
surgimento de um novo registro - desinteresse, abnegação, auto- ,
porem, . lt aneamente' se rea
s1mu . , iza
,,z9 _ 0 que requer um ob'Je t0
sacrifício - onde o Si (Selbst) é carrasco e vítima. A culpa é, f
pulsiona1 a 1va
em meta
.
pass1>1a
N
, ·
á consciência, o propno
enfim, que traduz este sofrimento paradoxal minish'ado a si mesmo. para administrar o sofnmfe~to. t a c~mportando-se a partir de
. . é produz o so nmen o, .
Este é o momento em que o Si mesmo se representa como de- suie1to que à . a de um outro repressivo.
vendo expi.ar a dívida simbólica. O que o sacerdote ascético desi.g- então contra si mesmo, mane1r
235
234 PAU L- LA URENT ASSOUN NEUROSE B MORALIDADE

. N' t h "não posso fazer nada,


TEORIA DA MEMóRIA E SUA PATOLOGIA: Se a vivência retoma, precisa ie dzsc e, . da qual tomo
OS TRA ÇOS MNESICOS _ . , ( ) Suce e uma coisa
0 querer nao mtervem · · · . ál _ quem a chama?
-~ . a sucede uma colSa an oga
consc1encia: agor - m "Ego" mas algo como
Além desta notável homologia econômico-dinâmica, podc•M quem a desperta?" Certamente que nao u ,
assinalar importante aproximação tópica, baseada na representa9flu " Id"
do aparelho psíquico que explica a patologia da memória. r um . - aderíamos encontrar' na obra de
essencial, para compreender a teoria nietzschiana da memórlu, Não é por ac:es:ri:~: ::rria per se. Acontece que, ao passar
meditar sobre o aforismo onde ele declara: " Não existe órgilCl Freud, nenhuma . . emória perdeu sua unidade de
da psicologia à psicanáltse, a m esíduos mnésicas (Erínne-
próprio da 'memória'."3º Por isso mesmo é que só se poderia fol111•
em memória entre aspas. A memória é, na verdade, menos umn f
faculdade: não há senão tr~ço\ u ;ão os homólogos daquelas
faculdade específica que uma função difusa cujo substrato é fislu ~,un~~sp;renm~ftiJ~~n~:tg::~: eNietzsche falava e. cuj~ mast
lógico: " Todos os nervos, precisam eles ( ... ), recordam-se de f:r::1:a:e forma o que é convencionalmente designa o pe o
experiências anteriores." Deve-se falar, portanto, numa memóriu
nome de "memória" .
orgânica imanente ao corpo, que se conserva peJos vestígios ner- B cedo contudo, Freud passa a ter necessidade de enc?nt~ar
vosos aí deixados pelas excitações passadas: "Cada palavra, cadu em , 'd d Não é por acaso que a pnmeira
número é o resultado de um processo físico", ao qual não se ~ma ordem pi~= :::s/:e:te:\os Estudos sobre a Riste.ria, _é a
poderia atribuir lugar próprio, pois atua em qualquer parte do unagem que h. h ) A memória dos histéricos
circuito nervoso. Na verdade: "Tudo o que os nervos sentiram de uma estratificação (Se ic . tdung . ordem" 35 os quais só resta
de modo confuso (anorganisiert) continua a viver neles." Encon- lh "arquivos manti os em ,
asseme a-se a . são or anizados segundo uma ordem
tramos mesmo precisamente aqui a articulação entre memória e
inconsciente. A recordação propriamente dita não é senão o mo-
examinar. Esses .arquivo~ . l ·ca Na realidade, o que estra-
tríplice: cronológ~ca, tematica e 1 gi , • . é a existência de um
mento em que a vida latente destas experiências que perduram . . . massa dos traços mnes1cos .
t1hca assim a . . . te "Os extratos periféncos
no inconsciente irrompem na consciência.
" núcleo central" patogêmc~ ~nco~:c~::b~anças) que podem voltar
Há mais ainda: a memória é o eco da vida pulsional. Isto signi-
fica que ela só "observa os feitos dos instintos" .31 Preenche uma
contêm as lembranças ~o~ ei::~ sempre claramente conscientes" ,36
mais facilmente à memo__n~ e do si uismo corresponde à memória
função de revelador das transformações das pulsões em presença
dos objetos. Só nos recordamos literalmente daquilo por que nosso enquanto o cerne pato~emco P J de ser atingida pelo que
propriamente inconsciente, q~.~ s~ po_ "
instinto se acha empenhado ou encontra um "interesse". S6 existe ara então a uma mhltraçao .
memória afetiva, isto é, pulsfonal. F reu d COmp · te /incons·
. (consc1en
1' d de de memórias
Eis por que Nietzsche insiste na necessidade de mudar de con- Poder-se-ia falar em duai a 't d traço mnésico não estivesse
. • amente o conce1 o e .
cepção relativa à memória. O erro seria "postular uma 'alma' que ciente) se, prec1s ' ta ão Melhor seria dizer que
reproduz de modo atemporal, reconhece etc."32 De fato: "O que st
destinado a super?r e a r~,~~::::as~'. Consciente, pré-consciente
foi vivido continua a viver 'em memória'." 33 Isto significa que há os traços se orgamza~ e?1 , ica - ld, Ego e Superego na se-
conservação dos traços mnésicas dos acontecimentos. A memória e inconsciente, na pr.1meira topó .· uer d1'zer de reoime de fun-
f' · - t'1 os de mero na, q ' o-
não poderia ser chamada para testemunhar a perenidade de uma gunda, de 1mrao P é . que permitirão classificá-los.
alma: esta não é senão " a massa de todas as vivências (Erlebnisse), cionamento dos traços mn s1cos, . as dimen-
de toda a vida orgânica, que vivem, se ordenam, .se amoldam " . t mas" ou " instâncias" constituem, portant~, . é
0 s s1s e . d dos arquivos da memória. Assim,
mutuamente, se combatem, se simplificam, se empurram em con- sões ou princípios de_ ar ehm f om que se pense na memória
junto e se transformam em múltiplas unidades." 34 notável que, onde N1etzsc e az c
236 NEUROSE E MORALlDADE 237
PAUL-LAURENT ASSOUN

como pluralidade de unidades que se auto-organizam espont'fllH ,1 TEORIA DA CULPA


mente, Freud subsume a multiplicidade dos traços mnésioo11 , 111 E DA DtVIDA
princípios de ordenação.
. . través de um sentimento de dupla
O modelo da teoria freudiana está na famosa carta de O Ih Esta patologia se esf~ciftca ~ t tanto em Freud qua.\1to em
dezembro de 1896, onde Freud expõe a Fliess: "Nos meus 11 11 conotação, ética e _clinica: e:1s t~almente central. Há, éontud_?,
balhos, parto da hipótese de que nosso mecanismo psíquic0 1111 Nietzsche, uma teona d~ ~ulp ' tg ossível a acepção desta noçao
estabelecido por um processo de estratificação: os materiais pt c que se cercar o mais pos11tvamen e p ntos de convergência e de
sentes na forma de traços mnemônicos são remanejados de tem1111" num e noutro, para determina~ se~soppoonto comum é relacionar-se
. 1· os seu pnme1r , d 1· .
em tempos conforme novas circunstâncias. O que há de essemil11I divergência. Pe o men . 1 . patologia, no sentido e nm-
com uma o 1c't' a que deriva e a ps1co
mente novo na minha teoria é a idéia de que a memória t•~fll
presente não só uma, mas várias vezes, e que ela se compõe d tado anteriormente. . . - clínica comparada
exammar a acepçao
diversas espécies de 'signos'."37 Concepção inédita que a apl'md Temos, portan ~o, qu\etzschiano e freudiano.
mação com a coucepção nietzschiana permite ao menos mod,w111 , da noção nos reg1stros n em N ietzsche, no esquema
se é verdade que a memória se fragmenta igualmtrnte numa s611l1 A culpa faz sentido naturalmente, ósito porém, isolemos
de r.egistros. ,. d ·al Para nosso prop •
geral da cnt1ca a ~01 • . f ·e à culpa enquanto ta1, apa·
A verdadeira originalidade de Freud consiste mais na elabor11 o diagnóstico espec1f1co q~e se te er
ção de uma codificação tópica desta concepção. Esta concepçlt11 nhada -de certo modo clinicamente. lpa está ligada, para
de memória, porém, é mantida até o fim, especificando-se. Nu A
Num aforismo de urora, P arece que a cu(Loben und Tadel n) :
- d louvor e de censura . d
Traumdeutung, ao representar o aparelho psíquico como um ap11 Nietzsche, às noçoes e . d , "necessidade excessiva e
relho refle,m de extremidade dupla, perspectiva e motriz, ele defhH• o 1'uízo de culpa está41 relac1~na ºrtaªnto um meio de provar que
" Este e, po ' · 1 n
a memória como a função de retenção dos vestígios e a relacio1111 censurar e de louvar .' . ando o outro culpado, sei a c~ P,ª. -
com um sistema específico encarregado de registrar as modifico ainda se tem força! sei.~ c~ns1derbém é afirmado o caráter flcttc10
ções. É organizada uma cadeia de sistemas cuja ordem espaclul do-se. Em A Gaia Ciencia tam . , o de valor arbitrário. Seme-
d Jtttz te" Zaratustra ape1a ,aquele
. ada a 1um
representa a ordem temporal de circulação da excitação. Assi111, de toda culpa, re1ac1on
" t
lhantemente, an es qu e o so . espon·a do ' céu naquele pon to de
há uma divisão de trabalho entre dois '!órgãos do aparelho 'd de e de
A

mocenc1 , . l'd d e
psíquico".38 momento de serem a . d ós constrição, fma t a e
Suspensão, enquan. o t "debaixo h va" 42 Trata-se, como tz u m
e n ' d'
Mais tarde, Freud afirma que "a consciência nasce diretamente culpa se condensam, co mo a e u .-se da "inocência do d evtr . "
no lugar <lo vestígio da lembrança", ou, em outras palavras, qut.: ~
aforismo contemporane ' o de convencer
- de inteira 'irresponsab1 1 a e ' e
·1·d d '
"o inexplicável fenômeno do consciente se produz, dentro d() a fim de "ganhar uma sensaçao da censura de todo homem
sistema de percepção, no lugar dos vestígios permanentes,"39 Freud tornar-se independente do l?uvor ec ontra-se em' Nietzsche, antes
se esforça até. o fim, portanto, em pensar este caráter do aparelho e de todo passad o " ,43 Assim'l en ma radical relat1vIZaçao · · - da
psíquico, que, por um lado, "possui o dom ilimitado de recebeJ' mesmo de uma a~álise ~a cu ~~ló~icas e sociais de "louvor" e
novas impressões" e, por outro, "cria de maneira contínua traçoa nação relacionada as noçoes pst
mnemônicos duradouros, senão inalteráveis". É sobre esta espécil,) "censura". diagnosticada como fie-
de prodígio que ainda se constitui a reflexão de Freud em 1929: 1
do tempo a cupa, . , e
Somente num se~un álise genealógica. At aparec
como é possível a conservação, no psiquismo, das impressões, à t'cia vem a ser ob3eto de uma an - 'urídica: "Nesta esfen,,
maneira de um sítio arqueológico ?40 , ' co1oçaça- o em· evidência da conotaçao l
uma
238
PAUL-LAURENT ASSOUN NEUROSE E MORALIDADE 239

a das obrigações, está o foco de or' d . Deus pagando a si próprio, Deus como o único q ue pode redimir
morais: 'culpa', 'consciência' 'd ige~' esse ~undo de com, Ir. o homem daquilo que para o próprio homem se tornou irredi-
Por isso a l ' ever ' sacralidade do dcvm • ' u
, cu pa aponta para a crueldad . 1. . mível - o credor se sacrificando a seu devedor pol' amor (é de se
palavras: "O sentimento de cul a d be_e P~ta a e1. Em o111,,,_ dar crédito?), por amor a seu devedor"? 51
gem ( ... ) na mais a t' . p , .e o r1gaçao pessoal, ICVl' m 1
n iga e pnmordtal relaça~o l Finalmente, só .resta ao sacerdote ascético dar uma forma artís-
entre credor e devedor."45 pessoa , na rulo~11 ,
tica a este sentimento bruto, no pecado (Sünde). Isto consiste
A culpa é assim remetida a um - . •.
reinam a medição e a 1· - Na re1açao Jund1ca arcaica u,111 em arranjar uma causa par a o sofrimento interno. A 'partir de
ava taçao. ão existe cu] / então, o homem "deve buscá-la em si mesmo, em uma dívida,
(S chaden), resultado da relação ent d pa sem prt• ui ,,
und Schuldner) o culpado , re cre ore devedor (GlalJbtp,11 um pedaço do passado, ele deve interpretar a própria dor como
· e portanto " d d um castigo".52 Bastará chamar de "pecado" o sentimento interno.
não reembolsa os emprést' ' f . ' um eve or que 1111o ~,\
contra seu credor" •6 É

?.
•mtos ~!tos ele, como inclusive atw11,1
, por anto, um infrator' aJg ,
Ao contrário, Nietzsche sonhará em Ecce Homo com um
a palavra e o contrato com o todo" D • . ~em qu,e qu~b1,1 "deus que viria à terra" e que "não poderia fazer senão injus-
lei" e o castigo (Strafe) pa . .' at a s1tuaçao de 'foro d' tiça - tomar a si não o castigo, mas a culpa, é que seria divi-
O 1
(8 recher) do compromisso ra cnmmoso (Verbrecher)
da dívida, ' rompo( UI no" .53 E A Vontade de Poder colocará como negação primordial
e saudável: a "luta contra o sentimento de culpa" (ou de dívi-
Nesta perspectiva, Nietzsche che
a qual " o castigo teria a pro . d Jª . ,.
a recusar a Ideia segundu
sentimento de culpa" 41 af pneda e de desper_tar no culpado li
da)54: a física, a metafísica e a psicologia nietzschiana fazem
sentido nesta luta. A tese da "ausência de valor (Wert losigkeit)
men te o castigo é que' mai/~::~;• ao contrári~, q ue "preci1111 objetivo de todo conceito de culpa"55 é realmente o alfa e o
mento ® culpa".4! u o .desenvolvimento do senti ômega da concepção nietzschiana de culpa.
Isto leva a um-; tent t ' , .
a iva precisa de fJlogênese d .dé' . 1 Em Freud o sentimento de culpa é imediatamente relacionado
cu1pa. Coloca na origem "a convie ão de , ~ i Ili t ,, à sexualidade. É na histeria e na neurose obsessiva que Freud
exclusivamente graças aos sac 'f' . ç ~ue ª espec1e subslstt•,
' n tc1os e rea 1tzações dos anc t l descobre, desde os escritos dos anos de 1890, o mecanismo de
e que é preciso pagar-lhes (zurückzahlen)49 . es !'li li, auto-recriminação que "o sujeito dirige a si mesmo por causa
e realizações: reconhece-se portanto uma d' i~;o com sacrifíclo11 daquele gozo sexual antecipado", auxiliado pelo "trabalho psí-
manentemente pol'que os a~tepassad~s n- iv, a que cresce pol'
v'd . ao cessam em sua sob quico inconsciente de transformação e de substituição" .56 Toda
l a como espíritos poderosos, de conceder à t· ' . rc culpa poster io'r deve sua eficiência ao fato de reinvestir o traço
sua força es irpe, em nome dl.l
. ' n~vas vantagens e novos empréstimos."50 mnésico pré-histórico desta experiência de prazer mais ou menos
Assim e esta "espécie de lógica" d dí 'd ativa. Não é por acaso que a neurose obsessiva, onde a experiên-
cada incremento de vida eq . Ih a ~1 a, que faz com que cia foi em parte ativa, é que dá lugar à análise detalhada do
. uiva a a um mchaço d O d'b'
imagem radicalmente inversa da idéia d •~ ,to - schuldgefühf. e aí, na realidade, que o trabalho de interiorização
q ue se ganha é o mesmo ue é devid ,e progre~s~, Ja que o é mais literalmente ativo.
esteja localizada em Deusq su o, te que a d1v1da suprenu1
globalmente. ' premo cre or, que assume a dívida O exagero da "atitute de passividade sexual original" fixa
assim o masoquismo. Não é por acaso que se impõe a aproxi-
Que fazer a partir deste mo t ? A mação, via sentimento de culpa, entre o comportamento obsessivo
é vibrante: Será possível ue enfi me,~ º: re_s~o.sta de Nietzsche (Zwangshandlung) e o ritual religioso (Religionsübung). 57 A reli-
dívida" gere a "impossibi(d d dm a _1~p~s~~b1lidade de pagar o
• - " J a e a penitencia o que ge 'dé' gião dá sua forma sublimada à dívida obsessiva. Assim também
crista: o próprio Deus se s . T d ' ra a I ia "a angústia social" e a consciência de culpa são interpretadas no
. acn tcan o pela culpa dos homens·,

'I
240 241
PAUL-LAURENT ASSOUN NEUROSE E MORALIDADE

âmbito
.b da análise do narcisismo como uma go". O sentimento de culpa, enquanto angústia diante do Superego,
l 1 ido homossexual. A 811 , • • transfer~nrlu ,1 •
' 64
<: apenas uma "variação tópica" da angústia. Finalmente, o
sentimento de culpa. gustia de morte deriva igualmcntr d
sentimento de culpa é abordado por Freud a nível filogenético.
No ensaio metapsicológico sobre . . Não é por acaso que um desenvolvimento excepcionalmente longo
questiona sobre o sent1·d d o inconsc1ente, Freud lhe é dedicado em Mal-estar n.a Civilização, enquanto "percepção,
o a estranh ·- d 65
ci.ência de culpa inconsciente" ss A a uma~ os termos : "eu11 q ue tem o Ego, da vigilância do Superego": é que a Kultur se
refetida à relação dos afetos .d . . expressao só faz sentidt1 baseia naquele "Superego coletivo" (K.ultur-Vber-Ich) que garante
do recalque. Adema1·s Freude aJs representações no mece111 l•111,.. seu controle pela ptodução daqueles sentimentos sociais.
, • co oca que "'
tavel que se pode ver no 1 e totalmente ind11 h1 O que arremata esta concepção onto-filogenética da culpa é
importantes fontes do sentim:onmtpdexo dle Édipo uma das 111111 a famosa parábola do assassinato do Pai que encerra Totem e
T) o e cu pa "59
.e sob a forma de "necessidade d . ·_ " Tabu. O sentimento de culpa seria, portanto, a reprodução, no
que a terapêutica encontra o . e pumçao (Strafbedür/111,,) " plano individual, da culpa derivada da cena originária coletiva
as reações negativas. sentimento de culpai provoc11111h1 e transmitida filogeneticamente: "A sociedade está baseada desde
Notável então numa culpa comum (Mitschuld) relativa ao assassinato
' poré m, e, que Freud sente nece .d d d
.
teoria da culpa. Num estudo de 1 :SI a e e uma novu cometido em comum; a religião, no sentimento de culpa e no
~rové":_ a ~rópria consciência de 9~:j :~ nao_ declarava: "D011,h. arrependimento; a moral, nas necessidades dessa sociedade, por
hses ' ~~o d~zem nada sobre isso?"6t éh:1a1s uma vez, as m1t1 um lado, e na necessidade de expiação (Büssen) gerada pela cons-
uma cicatrização" (Narbenb I·td ) N ga a . compara-Ia co111 ciência de culpa , por outro lado."66 Isto significa claramente que
· l ung a verdade ,
que vai e ucidar esta relação· "Nó . . . ' e a nova tópku o cimento do "contrato social" é a culpa, derivada do "complexo
dentemente em 1919 "' l . ~ a _atribmremos", diz ele prn,
paterno" .
eia moral crítica opo:,e-saeqauoe a mtstadnc1a que, enquanto consciG11
• res o o Ego." f, desta fonte que deriva a família de sentimentos que Nietzs-
De fato, é em O Ego e o /d ue . che rotula como reativos; ou seja, o remorso e o arrependimento
encontra seu texto canônico atravé q d o sentimento de culpo (Reue), "que constituem a reação do Ego num caso determinado
cias d~ Ego" (Abhiingígkeit;n des / h ~ 6;studo ~as "dependSn, 67
é relac1.onada à tensão entre S e s . A partir daí, a culpo de sentimento de culpa".
d' . . o uperego e o Ego a , . Não é por acaso que Nietzsche e Freud chegam a pôr em
1s1unt1vas pulsionais do ld D propos1to chw
nível como "a percepção q~e esseE momento em diante, é deí,i, evídência a importância da dívida (Schuld) . Se esta temática se
Superego (die dieser Kritik ' en~ ~oh corresponde à crítica do torna central em ambos, é.porque a crítica da moral e o diagnós-
lch)."63 A partir desta mat .· n Sptec_.ende Wahmehmung im tico da neurose se cruzam para encontrar esta categoria de dívida.
1 b uz comum msta[am s -
ma ' o sessiva e melancólica d l ' É - e as versoes not·· Não há dúvida de que onde Freud melhor captou a dialética
seu eixo na correspondência d/ ~u 1:ª· . que a culpa encontrou bloqueada da dívida neurótica foi no caso do "Homem dos Ra-
siva, o Ego se levanta co t. s rnst?nc1as. Em sua versão obses-
. fl A n ta o sentimento sof . d S tos" .68 Aí ele encontra, na verdade, a realidade clínica in concreto
111 uencias que continuam des h 'd • ien o o uperego do que está e111 jogo simbolicamente na dívida neurótica. O com-
, . con ec1 as do Ego· n -
l.anco
,. 1
1ca, o Ego não faz . h
mais nen um protesto
, a versao me- plexo roteiro descrito por Freud consiste, para o neurótico, em
vitima, expiatória destinada ao h olocausto e passa a ser a adiar, por uma rede de artimanhas, o reembolso da dívida, mas
Ademais, como a nova func - d
teoria da pulsão de morte a c tº / . .
~1asoqu1smo no âmbito da
uma parte da pulsão de ~orteu '~~ a d qmr~ u~ novo papel, estando
simultaneamente a necessidade da dívida se fort~lece em igual
proporção. Nesta monstruosa ambivalência, o neurótico desen-
volve precisamente a dupla valência da dívida, expressão da
. 1ga a pstqu1camente pelo Supere-
242
.PAUL-LAURENT ASSOUN

exigência do reembolso e de sua iJ , .• NEUROSE E MORALIDADE 243


sanção: pois o próprio da d' 'd ~possibilidade, exposto h ih,,.1
que não a paga e valor C01U1v1 a - ameaçar de sanção o Huj, li Existe aí como que um documento da criminologia nietzschiana,
o sujeito se expõe e padece ~ s;nçao per se - de modo tfllr contribuição a uma ciência em vias de constituição.n Descobre-se
evitar pagá-Ia. _e que a dívidaa:i o{~~· ler que_ pagá-la como f• ,, af uma relativização do Bem e do Mal e uma analogia entre crime,
devedol'. Enquanto a dívida reats o ica. só existe em reJoç1w "" loucura e doença: "Aquele que cai doente agora é vítima do mal
ela persiste tanto quanto o se d e ;xtmgue com sua qult11~ 111, que é o mal de hoje: ele quer fazer mal com aquilo que lhe faz
existência, ser culpado da má r o ev~dor que a mantém « '"
•A
mal. Mas houve em outros tempos um outro Mal e um outro Bem."
E consc1enc1a.
m outras palavras, a dívida vincula o . . Texto dostoievskiano de desafio à concepção limitada e fix.ista da
que constitui a melhor definição de su1e1to a .si mesmo, u moral, que teve por destino ilustrar o imoralista nietzschiano no
fo_rme o duplo sentido da pal culpa. A aproximação, t 1111 que lhe era atribuído ingenuamente de sangrento.
Nietzsche corno um daqueles s· avra ~chuld, é explicitadn /1111 Trata-se, de fato, d a projeção simbólica da iconoclastia axioló-
logia da moral: "O conce1'to m ,glnos et11:11ol6gicos de uma gc11rn gica, aquela que evoca a Sombra que acompanha Zaratustra na
d 'dé' ora . essencial 'c l • ·
a l ta toda material de 'dív'd • "69 E upa tira sua ol'iR1•111 última parte: "Destrocei tudo aquilo que, algum dia, meu coração
neurose desenvolvesse cli . I a . como se a linguagem d,, venerara, derribei lodos os marcos de fronteira e ídolos, deixei-me
nicamente esta anafo . .
o postu1ado econômico: se é ve d d g1a, implicada de dt atrair pelos mais perigosos desejos - em verdade, não há delito
o homem q ue a renúncia a umr',ag e q~; nad~ é mais d ifícil p111u sob re o qual eu não passasse uma vez."73 Criminoso que chega a
clu1·r·· " A bem dizer
· só b ozo Jr1 sent1do", e, preciso
, ou11
esperar a segurança de uma prisão.74
' sa emos trocar uma coisa por outra",
Mas para bem apreender o sentido deste texto que impressio-
CRIME E CASTIGO nou Freud, deve-se lembrar que nele culmina uma temática q ue
EM NIETZSCHE E EM FREUD atravessa toda a obra de Nietzsche, obcecado pela p~rábola do
criminoso.
Agora estamos em cond' - "Nosso crime em relação aos criminosos", já diz Humano,
nietzschiana do criminoso içoes de entender o alcance da teori11 Demasiado Humano, "consiste ,em que o tratamos como o fariam
famosa declaração de Z • q ue chamou a atenção de Freud " patifes."75 8 preciso lembrar que entre as más e as boas ações há
~
d e escandalo, aratustra com · · "
é o melhor doe ' seu tom de provocação e apenas uma diferença de grau, a partir do momento em que elas
Trata d umento sobre a questão 70
·se o texto da prim · . . · são apreciadas conforme a necessidade. Sem dúvida, no entanto,
minoso". Ele se apresenta cor::~ra parte ~ht~ lado " Do pálido c1•l "a completa irresponsabilidade do homem em relação a seus atos
que pode ser interpretada uma pr of1ssao de fé do criminoso e a seu ser é a gota mais amarga que o investigador tem que
l como uma a I · d •
e e expressa o ponto de v1'st d . . po og1a o crime. De foto engolir.'' 76 Percebe-se o sentido da " reabilitação" do criminoso:
l 0 d 0 ponto de vista do ª· r cnmmoso
0 · é
. ' ao inv '
s de considerá• ela está destinada a derrubar o cânone comum, que consiste em
d s JU zes Por isso -
gran eza do crime como . ld .d ' poe crn evidência u "ver na responsabilidade c no dever os títulos de nobreza da
. _ 1gua a e de pe
rea l1zaçao do crime p- . ~ . nsamento e de ato nu humanid ade". Deste modo, a irresponsabilidade aparece na ativi-
· oe em ev1denc1a a f d'
prezo do homem da m· t . . . pro un idade do des- dade onírica: 77 só resta estendê-la aos atos despertos.
. é d • isan iop1a radical d 0 . .
mv s e subordinai· ·o .· crmunoso que 110 Esta reflexão remete ao exame das "virtudes de prejuízo" exi•
cume a algum · . ,
o roubo), o relaciona a seu fim 6 . mot'.;'º condicional (como gidas pelos "agrupamentos sociais" para sua defesa. Pois bem,
~unhal" e do sangue.11 O trá i pr pno, a sede de felicidade do observa O Andarilho e sua Sombra: " Todos os criminosos forçam
impossibilidade Pª~a o . . g co da culpa, todavia, é também Ll a sociedade a voltar a graus de civilização anteriores ao em que
· • "" cnmmoso de s .
• uportar a imagem do crime.
• se encontra no momento em que o crime se rea1iza; eles agem
para trás."78 Esta é a virtude do crime que revela esta potenciali-
244 PAUL-LAURENT ASSOUN NEUROSE E MORALIDADE 245

dade regressiva, T . noso: "O tipo do criminoso é o tipo de homem forte colocado
sociedade. sacn ic10 do homem para atíngir a meta t111 88
em condições desfavoráveis, o homem forte que adoeceu." Se
Aurora lembrava que "o c nmmoso . . dá mui to f .. ele é colocado à margem da socíedade, é porque está desenraizado
a prova d e um autodomín. d , .. requentemcnl1• daquela forma de existência onde é exigido o instinto do homem
uma inteligência excepcion..,;10, e um espmto de sacrifício e dt•
...s, e que mantém esta l'd d forte. É assim "a fórmula da degenerescência fisiológica". Toma-se
ague les que O temem" 19 , s qua 1 a es el11t•i·
" ' para opo-lo a "aquel . . criminoso "aquele que é obrigado a fazer secretamente com tensão
son ho ' muito mais nocivos , h . es intoxicados tli•
l . . ª umamdade Ai ta b' , prolongada, prudência, astúcia, o que melhor pode e mais gostaria
aque e, cr_1mmoso de um possível futuro . " :n em e. evocado de fazer". obrigado a partir de então, para evitar a "anemia", a
sua propna punição" por respeito , l • que dtta pubhcamenlc
Encontramos sobretudo ~ e1 que ele mesmo promulgou.~º voltar sua sensibilidade contra seus instintos - sentindo-se então
o notavel aforismo . "presa da fatalidade" .89 Dostoievski é explicitamente evocado aqui
ataca o "abominável código c .· . 1 em que N1etzsehtt
. itmma com sua b l d como o grande especialista em criminosos, que sabe em que ma-
cee1ro e sua vontade de ' a ança e DllW
opõe um diagnóstico · "A;;mpensar a falta pela pena".s1 Ele lhe deira eles são talhados. ·
logia do criminoso e ·J., d nas começamos a refletir sobre a fisio• Num aforismo de A Vontade de Poder, a importância da teoria
d'f a eparamos com esta 'dA .
i erença essencial entre os . . ev1 encia : não existe do criminoso e sua permanência em Nietzsche se desvendam: "Os
A partir deste momento 1 cr11!1mosos e os doentes mentais."~!! criminosos com os quais Dostoievski convivia no presídio eram
.. , . ' e e exige que se extr~; d 1
quenc1as. terapêuticas ' visand o a uma estratégia d"'ª e e as conse- principalmente naturezas inquebrantáveis; não têm eles cem vezes
com o mteresse do doe t . , e cura em relação mais valor que um Cristo 'quebrantado'?"9º O que reconduz o
men.te, é destacado o cin7s e e dos P7eJ~1zos previsíveis. Paralela• crime ao coração do homem: "Quem de nós, em circunstâncias
têm freqüentado muito as mo_ -o cnmmoso: "Todos aqueles que 91
favoráveis, não teria passado por toda a escala de crimes?" Esta
verificar quão raro é enco pt ns_oe1s· e os presídios se espantam ao
· n rat ª 1 um 'remorso' · , é a glória do criminoso, "homem de coragem" e "violador de
muito mais freqüentemente a t 1. mequ1voco, mas 93
mau e bem-amado "ª3 Tal , nos a gia do querido velho crime contrato",92 que "prospera na época do Renascimento".
· e a estranha " fl' ~ " ' No capítulo de O Ego e o Jd dedicado ao sentimento de culpa,
d esafia as categorias da moral 1 a. içao do criminoso:
e esa sua universalidade encontramos uma frase que resume a posição psicanalítica sobre
Isto leva a opor o crime à co •A • •

ruinoso" diz Alé d nsc1enc1a do criminoso. "O ·i- o crime: "Foi uma surpresa descobrir que uma elevação do senti-
' m o Bem e do Mal " . c1
altura de seu ato· ele o d' . . ' muitas vezes não está à mento de culpa pode fazer do homem um criminoso. Mas é assim
d " · unmu1 e o calunia "ª4 Q mesmo. Em muitos criminosos jovens, deixa-se verificar um pode-
ga os, raramente (são) artistas b . uanto aos advo-
seu cliente o belo horror do seu ~ri~;!;~;te lara virar a favor d0 roso sentimento de culpa, que existe antes da ação, portanto não
dade, entretanto Nietzsche . I . \ isto do lado da socie- como conseqüência, mas como motivo, como se isto houvesse sido
.. ~ . ' · assma a como "u
quencia e de pieguice doent' ,, m ponto de delin- sentido como um alívio (Erleichterung) de poder vincular este
94
ciedade toma partido por a :e1/ moment~ e~ que "a própria so- sentimento de culpa inconsciente a algo real e atual."
em que "punir lhe pare ~ . que a pre1ud1ca, pelo criminoso"
• · ce m1usto ou pelo m 'd,. ' Esta idéia essencial da concepção freudiana do crime já fora
tigo, a obrigação de pu . t· , enos a I eia de cas- desenvolvida no artigo sobre "Os criminosos por sentimento de
. mr azem-na sofrer d- Ih
sintoma da "moral gregária".s6 ' ao- e medo" - culpa": o crime serve paradoxalmente para aliviar o sentimento 95
Assim, em O Crepúsculo dos fd l de culpa "de origem desconhecida", ligando-o a "algo definido" .
aproximado da ficha antropométric: ºJ•
o i:et~·ato de Sócrates será :f: nesta mesma ocasião que Freud menciona que uma tal gênese
96
decadência .87 Aí encontramos e b / cnmm~so pa_ra ilustrar a não era desconhecida de Nietzsche.
s oça a uma t1polog1a do críml-
246
PAUl.,LAURENT ASSOUN 247
NEUROSE E MORALIDADE
CRUELDADE E PIEDADE
EM NlETZSCHE E EM FREUD Zaratustra define o homem como "o mais cruel dos animais", 1º3
que criou para si um céu na terra, inventando o inferno.
É essencial, portanto, "mudar de opinião sobre a crueldade e
Isto n~s remete à temática da crueldade e da piedade.
É preciso destacar a importância d abrir os olhos", como nos convida Além do Bem e do Mal. "Quase
na concepção nietzschiana d h a cruel_dade (Grausamk1•111 tudo a que chamamos 'civilização superior' baseia-se na espiritua-
o ornem e da vida lização e no aprofundamento da crueldade - esta é minha tese;
Ela aparece ligada à conce ã di . ·
mesma crueldade que encont pç o on~sía~a da vida: "Aqucln este 'animal feroz' não foi abatido, ele vive, ele prospera, ele
se encontra também ·na esse· ra~osd na edssenc1a de cada civiliimollu apenas se divinizou. " 104 A referência à tragédia aí faz sentido
nc1a e ca a I' ·- totalmente, de cabo a rabo, na obra nietzschiana: é que a cruel-
má."97 Vemos imediatamente
H .
q:;
geral na natureza do poder (in d N re 1g1ao poderosa e cm
atur lderdMacht)_, que é senw10
a crue a e é o signo do pode,
dade é a mola de sua " dolorosa volúpia".
Assim, Nietzsche nos entrega os delineamentos daquilo que
umano, Demasiado Humano consi ,
de na herança filogenética da . é . ghnara, portanto, a crucld11 pode ser identificado como sua teoria do sadomasoquismo.
'd• . esp c,e umana ve t' . d Observemos em primeiro lugar que os exemplos que voltam
, iossmcrasia arcaica que ela test nh 98 ' s 1g10 e umu
muito rapidamente, no re istro em_u a~ ~foste sentido, opõc•"I' sempre à pena de Nietzsche provêm da psicologia coletiva. Por
piedade (Mitleid) Sua evog _ ético, ª virtude antonímica: 11 outro lado, ele acaba nos fornecendo, neste aforismo, o esboço
aparece atualmen~e como v~c~~ª~r;erve. ~a~a lembrar que o quo de uma teoria ontogenética deste prazer da crueldade: "Aqui é
das origens. Vemos bem isso no f ª. vir u e para a humanidadt• preciso expulsar para bem longe a grosseira psicologia que até há
cado "o gozo da crueldade" a onsmo de Aurora onde é evo pouco só ·sabia ensinar, a propósito da crueldade, que ela nascia
crueldade" d. . . ( Genuss der Grausamkeit) 99 "A do espetáculo do sofrimento alheio: há também um gozo abun-
• iagnostica Nietzsche "pe t ·
gozijos (Festfreude) da humanidad' " r ence ao~ mais antigos rc dante, superabundante no sofrimento próprio, no sofrimento que
humana para suas angústias. No e~ co11_10 recreio_ da comunidad1: se inflige a si próprio105 (sich leidenmachen) ." Nietzsche localiza
voluntário oferecido aos deuses N' pet~ulo antigo do martfrJo af o masoquismo, através da "vivissecção de consciência", em
essencial: "O cruel goza da .' ielzsc e faz pensar num fo to ação em todo ascetismo, inclusive no ato de conhecer, pois, "em
do sentimento de poder (Ma::S /~~{ª?,ª alegria secreta (Kitzel),
do sentimento mais positivo p g Nf~ {) · E, portanto, a refraçíio
todo querer conhecer há pelo menos uma gota de crueldade".
Nietzsche analisa mais adiante as manifestações "desta espécie de
d • d ara 1etzsche· é co d d crueldade do gosto e da consciência intelectual" .106
a m tro ução propriamente d 1't d 0 . . mo, es e antc:i
zur Macht. ª concetto, a projeção da Wil/a e. este destino da crueldade que A Genealogia da Moral estuda
, Eis por que ele a localiza no cerne d em detalhe, e cujo motor é o processo de internaUzação pelo qual
virtudes aparentes descob I a moral. Por trás das "o instinto de crueldade se volta para dentro (sich rückwiirts
A urora, o que age• secretamente·
re, ao ongo de um out
"
f .
_ro a onsmo de wendet) depois de não ter podido descarregar-se (entladen) no
virtude", aquela que vem de . ,} c~ueJdade refinada enquanto exterior". 101
chnung), que tira prazer de ~fm instinl~? de distinção" (Ausze/- Entende-se a partir daí que a crueldade seja catalogada, na
. . " azer ma a outrem d derradeira síntese nietzschiana, ao lado do instinto sexual e da
inveJa, o sentimento de sua impotA . d espertando
. encia e e seu declínio" 100 vingança, entre os "estados nos quais admitimos um esclareci-
Por conseguinte, A Gaia Ci~nci , .
mos de santidade101 e de nece .d d a i!2vocara a crueldade em te1·- mento e uma plenitude nas coisas": ela traduz, pelo regozijo que
à grandeza: "Quem possui a ss1 a de. A crueldade está associada proporciona, uma extensão do sentimento de poder.
tudes e suas considerarões d gran ezda é cruel para com suas vir- E preciso entender, na verdade, que a crueldade propriamente
" e segun a ordem." dita (voltada para o exterior) traduz uma profusão de energia que
248
PAUL-LAURENT ASSOUN
NEUROSE E MORALlDADE 249
exige ser descarregada · "Crueldad é , .
almas tensas e orgulho~as· aquela e o al1VI0 (Erleichterung) d1111 Sobre este aspecto preciso, vemos como se fundamenta o encon-
zas contra si mesmas. Faze~ mal é s que iomete~ sem cessar dure tro entre os dois diagnósticos, mas a que ponto ele se exprime
Apreende-se a part' d 'para e as, motivo de regozijo."'º" de modo diferente. Nietzsche mostra a crueldade dormitando na
' ir este momento a com l 1
crueldade e piedade: "A crueldade d • . . p exa re ação cntt·c piedade sob uma forma sublimada, mas jamais superada, obser-
piedade; a crueldade do sensível é o o msens1v:l é o contrário d11 vando por isso mesmo o duplo reativo, recusando o engano do
que tem piedade 109 E 11 poder mais elevado daquele Mitleiden. A isso ele responde, porém, revertendo a formação rea-
'b' . • · m outras palavras· "Cr ld d é
s1 d tdade deslocada e que s t . ue a e uma sen• tiva e apelando à crueldade como contravalor. I sto resulta, por•
dade que "existem muitos c ~ é.ornou e~pirituaJ.•.•Ho Tanto é ver- tanto, na condenação ética da piedade e na apologia da "boa"
d ema1s • · iu 1s que nao passam d f
para a crueldade" 111 "d e seres raco11 crueldade. Em Freud, basta localizar as formações reativas, a fim
quanto cruel para às veze's poedque eved-s~ ser tão compasslvo de relacionar o afeto a seu processo efetivo: assim, determinado
R . ' , er ser os ois" 112
esummdo: a cmeldade é tomada . . obsessivo, que vive sua agressividade recalcada como efusão sim-
gistros do dado originárfo d ' em Nietzsche, nos dois rc- pática, verá determinada a origem real de seu afeto. Isto tem por
D . . e natureza e de va!ori - , .
o pnme1ro ponto de vista ele _ , . zaçao et1ca. finalidade, em última instância, serenar o afeto e a pulsão que
uma enorme crueldade desde na~ para de repetir que "existo nele se expressa. Uma apologia da crueldade seria, para Freud,
Conseqüência: "Devem _ ª on~em de todo organismo",113 uma espécie de reversão reativa de segundo grau!
os ser tao cruéis quanto c .
mos tornar-nos mais pobres d ompass1vos: evite- Por outro lado, observa-se em ação na economia pulsional, tal
o que a natureza é "114 s· 1
mente, porém, a crueldade a are . . tmu tanea- como Freud a concebe, uma pulsão particular cujo estatuto é
como " remédio (Heilmitte/) ppa ce comolhum sm toma de defesa, específico em muitos sentidos: ele a chama de Bemiichtigungstrieb.
. l • ra o orgu o ferido" us S,
um sina positivo, e convém a . . . . · o que ó Bemiichtigen designa a ação de apoderar-se mobilizando seu poder
des, pois a diferença axiol6iica p~~hr daí, d1st1ng~1r duas cruelda- (Macht); pode-se falar em pulsão de dominação. Para quem está
crueldade das almas más (b.. a)tavessa o conceito: "Existe uma pensando em Nietzsche, ocon-e uma pergunta: a pulsão de domi-
almas vis e pequenas (schtec°!z,er e dtamb~m uma crueldade das nação freudiana não seria algo como o princípio da crueldade, o
E N' er un germger) "116 homólogo freudiano da Wi/le zur Macht? Isto não é senão um
m ietzsche, portanto funciona m . l .
axiológica eotre crueldad; . d d u1to caramente a oposição estimulante que convida ao exame do conceito de pulsão de domi-
"doença hipocondríaca" 111 e P~~ a _e. Esta é assimilada a uma nação; tanto é verdade que, partindo de uma analogia, o confronto
traduz a reatividade étíc - ~~ . mais profundo abismo",118 que das teorias nietzschiana e freudiana a realiza superando-a, pela
"praxis do niilismo" 119 Ao dre ig1olsa: Ela se reduz finalmente i\ descoberta de um nexus num nível totalmente diferente do qual
• 1taneamente por · uma esva onzação
s1mu . da cruelda d e tra d uz-se a analogia era apenas um indício. A questão é, por conseguinte,
Para F d 5
uperva1onzação da piedade apreender a função conceitual da pulsão de dominação na econo-
reu ' a crueldade expressa a . A • • • •

masoquista e a piedade se a re v1venc!a _tipicamente sado- mia do pensamento freudiano par a dar satisfação à analogia que
trás de suas aparências moraÍs ;ema, na ma1ona das vezes, pov se notifica, com o risco de demoli-la.
tendência sádica. Ela se des ' l omo a formação reativa de umt1 A pulsão de dominação faz-se notar, antes de mais nada, por
desejo agressivo recalcado e :~v~/~:/ortanto, como reação a um seu estatuto especial dentro da taxionomia freudiana das pulsões.
Reaktionsbildung aparece . n I o contrário. A piedade como Vimos, na verdade, que a paisagem pulsional freudiana, que não
~iente de força igual, emb!~1sdec~:: ~ contra-inves~ment~ cons- tem a exuberância tropical de seu homólogo nietzschiano, estru-
mconsciente agressivo 120 0 d' çao 0P 0sta, ao mvestimento tura-se segundo duas linhas de crista: a das pulsões fundamentais
vista, tipicamente obse~sivo e ~:~~e te.nto dparece, deste ponto de (Fome/ Amor, Vida/ Morte), por um lado, e a das pulsões parciais
eia moral. reaciona o ao Superego, instân- nas quais a pulsão sexual se troca, por outro lado. A pulsão de
dominação parece distinguir-se por uma atopia excepcional, à
250
PAUL-LAURENT ASSOUN
NEUROSE E MORALIDADE 251
primeira vista. A instância d
permitir uma fluidez que lheª dq~al depende sua jurisdição )11111•, geral, que chamamos precisamente de sadismo, quando a encon-
relativamente independente d e1x~ ~m_a autonomia particul111 tramos a ser"'.iço da função sexual. " 123
estrutura dualista. Deve-se ent::, v1c1s~1tudes da própria gnuulr Vemos esboçar-se o sentido da intervenção da pulsão de domi-
na economia geral das puÍsões? ,Ever nisso _um_a heteronomlu 1111 nl nação: ela tem por função encarregar-se de e significar a atividade
modo O • t sta questao md· d
. ' m eresse de uma clarifica - ~ca, e quulq11r1 pulsional, ou melhor, a pulsão enquanto atividade. Por conseguinte,
aliás, para o confronto com o co ç?o d: seu estatuto, prcclci•11. fica explicado por que Freud não se sente à vontade na manipu-
que se defronta, de certo mod nceito nietzschiano fundam onlnl lação desse tipo de pulsões, pela dualidade latente de sua natureza
o, com ele.
Freud introduz a pulsão de domin - . particular e de sua função geral. Do primeiro ponto de vista, é
sobre as pulsões parciais de vo . açao a partir de reflcxOC', preciso dizer que existem pulsões parciais que podem ser carac-
um lado (Schau- und Zeige/ust :;rismo e de exibicionismo, pu, terizadas pela função de domínio que lhes é própria; do segundo
.~Grau1::san:zkeit Triebe): trata-se, a~f:;• e ~e cruelda~e, por ou1111 ponto de vista, deve-se dizer que existe uma função de domínio
relaçoes tnternas na vida gcn·t l , , mais de tendencias, ouJu• que representa "a pulsão parcial em geral" .
Ambas manifestam o exerc' . ~ a so aparecerão mais tarde" i.11 F.reud sustenta os dois níveis ao mesmo tempo: se a pulsão de
ainda é ilimitada. Ela fun::~a e uma pulsão de dominação ~111• dominação remete mesmo à função de atividade princeps, trata-se,
anteriormente ao desenvol . , portanto, de maneira primitivo pois, de não hipostasiá•la em prindpio. Não se trata de unificar
- v1mento genital e b d '
gaçao considerável ao prin , . , . ' so retu o - derro em tomo de]e todo o psiquismo: eis por que a pulsão de domi-
I' d à c1p10 topologico _ d ,, . . nação freudiana, por sua natureza conceitual, é incomparavel-
iga a s zonas erógenas" É , ' a atividade sexuul
· d' · notavel que
,n ique a existência desta pul - d . ' em 1905, Freud apeno• mente mais modesta em sua extensão que a vontade de poder
"a 'li sao e dominação d · · nietzschiana. S também por que Frelld quer aplicar à pulsão de
ana se psicológica aprofundad d _ .' a InJtmdo que
sucedida". Um adendo de 191/, esta pulsao ainda não foi bem dominação o regime geral das pulsões parciais, o que supõe, con-
" Podemos admitir que a tendê . : que formula uma hipótese: forme a regra topológica, atribuir-lhe um substrato somático, ho-
mólogo das zonas erógenas. Assim é que, num adendo aos Três
dominação e faz sua aparição :~:: ~rueldade d_eriva da pulsão de
Ensaios .. . , em 1915, ele confere um órgão à pulsão de dominação:
os órgãos genitais ainda não . peca da vida sexual em que
a musculatura (a mucosa intestinal servindo de órgão para o ele-
Assim, a pulsão de domin - as,sum1ram seu papel definitivo. ,,,21
. d d
liga açao e ao mesmo te . . mento passivo).
a e modo tanto fnt' mpo or,gmal e estfl
. imo quanto negativo à 'd Desta concepção resulta que o sadismo marca um desenvolvi-
mento importante da vida sexual . . . VI a sexual: ele.
mento mais tardio da pulsão de dominação original, pela união
propriedade, não compete à l~d1c1al, mas que, falando com
sexua 1 ade. desta com um fim sexual. Em Pulsões e Destinos das Pulsões, na
• _1! através da atividade/ passividad - mesma época, a dominação violenta (Oberwiütigung) - que, com
hihdade do conceito de pul - d d e_ das pulsoes que a inteligi- a diminuição e a administração da dor, caracteriza a meta do
. '1 . d
p rtv1 sao e ommação 'd sadismo - implica a pulsão de dominação com o sadismo, o
eg1a o para isso é a neurose b . . progr1 e. O material
regressão à fase sádico-anal. Lê~s:ess1v~, caracterizada por forte Bewiiltigung passa a ser Oberwiiltigung.
Neurose Obsessiva (1 9 l3) ' a~sun, na Predisposição à ~ notável que o advento do segundo dualismo pulsional vá ter
t~rizada ~la "oposição de' t~:~ê:c~;ga;1za_ção pré:genital é carac- por efeito tornar inútil a noção de uma pulsão de dominação
c1as de fun ativo"· ora as . . s e f1m passivo e de tendên- específica. Na verdade, o sadismo não é mais explicitado princi-
e ti . ' pr1metras devem l .
ro smo anal, enquanto as d ser re acionadas ao palmente pelo desenvolvimento de uma pulsão de dominação ori•
dominação. "A atividade seguén as remetem à nossa pulsão de ginal, mas por uma derivação para o objeto da pulsão de morte,
prov m da pulsão de dom·maçao -
em em conseqüência da qual ela "entra a serviço da função sexual" .124
253
NEUROSE E MORALIDADE
252 PAUL-LAURENT ASSOUN
sentido, um dado cuja existência Freud verifica simulando não
Encontramos, portanto, uma Jun ã . poder explicá-lo. 126 Quando ele se coloca do ponto de vista global
parte onde a pulsão de morte e% o de dominação, ativa cm 11111, da história, [az uma verificação análoga: "As tendências morais
do _amor na fase oral até o do1: l~ poder, ~esde sua nprccn 11,' da humanidade, cuja força e importância seria inútil contestar,
genital. Assim também pod mo do . obJeto sexual nu In
pulsão de dominação ~os c:•s;postular a manifestação de 111w1
constituem uma aquisição da história humana e formam, num
grau infelizmente muito variável, o patrimônio hereditário dos
a ex~itação traumática. O ess;1:a~nos onde se trata de domlnn1
d?mmação - se tenha de certo mod n~ entanto, é que a pulsão ih homens de hoje." m
diversos nao são senão manif ~ ragmentado: seus produ111~ Por conseguinte, quando é instado a tomar posição sobre o
nação geral. estaçoes de uma função de do111I problema da ética, sob pressão de alguns de seus interlocutores8
preocupados com a questão, como Oskar Pfister e James Putnam,'2
Freud finalmente se decid"
Prazer (1920), em relação à;•.ª partu. de Além do Principio d1• Freud sempre apresenta o duplo princípio: por um lado, não mis-
turar questões de ética com questões de fato, investigáveis por
p_ulsão de dominação: ele se r:'c:hosa alternativa o~asionada polu
cial e, menos ainda, uma p ulsãosa ~ ~azer dela uma pulsão espt·
abordagem positiva e científica; por outro, não objetivar o que
justamente é natural. por algum postulado especulativo, como
=reud, ~ão existe princípio autóge~~gtal. Isto significa que, um aquele de uma "ordem universa\": 129 a ética, quando muito, é
. e dom1~ação existe, realmente m e pod~r (Macht). A funçhn " uma espécie de código de trânsito para as relações entre os
Jogo puls1onal: o que faz , as constitui detetrninante d1•
f com que ela s · ' homens.'' 13º Quando, enfim, o moralista insiste, Freud sugere que
a iv~ente, como que vinculada à f .~Ja eocon~rada operando por trás da reivindicação das belas almas não seria difícil encon·
ex~hque nada per se. O se und a 1v1. ade pulsmnal, sem quu trar alguma formação reativa contra pulsões inconfessas; enquanto
efeito aplicar ainda mais ri g o duahsmo pulsional teve pol'
a moral se junta à religião, na panóplia dos meios de defesa e de
das pulsões, a jurisdição d;º;~~ ~e~e o princípio de limitação sublimação de que dispõe a humanidade, para acomodar suas
pretensão à secessão de pe ue ao . e !11.orte reduzindo roais n
dentes. Assim é que com oq nos pnnc1p1os pulsionais indepen• pulsões exigentes e impor-lhes sua razão.
Dificilmente é possível estar mais distante da abordagem de
do ~maçao
· - não encontrará
' novo
sua 'd governo
. Puls~onal,
· a pulsão de

mento" (Zusatz) , quando a ~:Í


e dissolvida numa função ge 11 entid~de pr6pn a: será englobada
~u e~tat° requisitada como "suple-
de uma "mãozinha" para dom~::v1ta e?1 gera~ tem necessidade
Nietzsche, contra o qual, como vimos antes, Freud não hesitava
em aplicar o diagnóstico ou a desconfiança que reservava aos
pastores e fi\hos de pastores. Para Nietzsche, na verdade, a mora-
aí, portanto, um elogio do d , . o obJeto. Nao poderia haver lidade é o contrário de um dado pacífico e autônomo.
schiano da crueldade. omm10, a exemplo do elogio nietz- Nietzsche, aliás, tem o cuidado de aproximar, para distingui-
las, as duas abordagens da moralidade, coroo se vê num aforismo
de 1885: "Um moralista é o contrário de um pregador da moral;
é um pensador que encara a moral como suspeita, duvidosa, em
MORALIDADE-DADO E suma, coroo um problema", arriscando-se a acrescentar que
POSTÇô ES DE FREUD E DE~ORA LIDADE-PROBLEMA: 131 "o
SOBRE A MESMA QUESTÃO TETZSCHE moralista, por isso mesmo, é ele próprio um ser suspeito" .
Eis o que permite avaliar a diferença radical de ponto de vista.
. O que é impressionante na . Para Freud - a moral não sendo problemática - quero quer
d1a_nte da moral é, paradoxalme;:1tude geral e pessoal de Freud que fale sobre ela se assemelha a um pregador, inclusive o " mora-
rahdade como problema A ,e, sua recusa em colocar a mo- lista", de modo que, em última instância, todo discurso de e sobre
. mora para F d é
~u, nas ~alavras de Theodor Vi;cbe reu , o que é natural, moral é "suspeito". Para Nietzsche, a verdadeira negação da mo·
o que e moral sempre se entende r,porque_s1 ele aprecia
mesmo bastante,
· ,.125 e.,
ô neste
255
NEUROSE E MORALIDADE
254 PAUL-LAURENT ASSOUN

ralidade consiste numa crítica da moralidade, da qual o mon1li11ln NOTAS


- para quem a moral é o problema - é o instrumento autênll\:o,
L" V § 289, SW, lll/ 1, 231.
"Enxergar e mostrar o problema da moral: esta me parece ser 1·. c1:;. VI, § 299, s~V:_111/1. 26;;nças, § 356, sw. lll/2, 153.
a tarefa nova, a coisa essencial." 132 Para Freud, não é nem o 3. Miscelânea de Oprnioes e ;e;oença, SW, 111/2, 215.
essencial, nem o novo, nem uma tarefa: é o fato mais antigo, a- 011 4. § 78, A Fé na Doença, u11 § 174 SW, Ill/2, 255.
O Andarilho e sua Sombra, - '
pré-histórico, ao mesmo tempo o mais fu ndamental e o mais nn6 5. . 314 sW lll /2, .>19·0.
dino, o mais visível e o rnais implícito. Mostrar a moral, portanto, 6. Op. c1t., § -• , Jll/2 323.
7 Op. cit., § 32:>, SW, ' .
é transgredi-la. Há, também, a diferença de idiossincrasia: "Ní'io
paro", declara Nietzsche, "enquanto não esclareço a imoralidade
8: Liv, l, § 54, S~, IV, t\w IV 207. V. infra, p. 274. Cunoso eco
9. Aurora, Liv. l\_, § 26 ' _ ') d~ que se queixa Freud.
1 d (miséria do coraçao •
de uma coisa. Quando a tenho, sinto meu equilíbrio restabele- da Herzene en • · ·oná•
10 Liv. IV,§ 409. mundos (arriere-mondes), v1s1 .
cido.,"133 A consciência nietzschiana traduz-se por uma hipersen- 11· Os doentes são criadores de t~s do corpo e da terra, dos quais
sibilidade à imoralidade: a moralidade é, portanto, ao contrário . s do. além" (SW, VI, 30!, despreza oresassagem central de Das ye~as e
do sentido freudiano da Lei, o que é menos natural. d
~:ratustra se diz • c::sa ~ d!ii~::l·c~~ ~ma impot!~cia paro. ~ec~::~t et
Eis então a estranha verificação à qual leva um confronto lite- Novas Tábuas, a do ça • Réflexions Critiques sur li Edi·
ral dos encaminhamentos. Por um lado, o que é o cerne da psico-
patologia nietzschiana (a moralidade) é o que constitui o menor
le Pathologique". ln: Revue t
12. V., sobre este ponto, ;o;s;~ropologie Médicale, Les Nouve es 54-6
1978 PP· 25-58, principalmente PP·
tions de l'Univcrsi~é, vol. l , ~-e ~aio de 1895. Op. cit., P· 106.
.

problema para Freud; encontramos, porém, ativamente em ação, 13, Carta a Fhess, de 25
no trabalho-diagnóstico de Nietzsche, a explorar as doenças da 14_ I, § 6 , sw. vn. 2s1.
moralidade, mecanismos notavelmente homólogos àqueles que 15. 1, § 10, SW, Vll. 263.
Freud observa em sua elucidação da lógica pulsional, que lhe 16 _ sw, v n , 265.
17 • sw, vn, 266.
revelou precisamente o estudo das neuroses. l8, GW, 1, 84.
Esta estranha posição invertida sobre uma mesma questão exige l9. GW, 1, 86.
20. GW, 1, 87.
ser pensada como tal. Recusa a analogia imediata entre neurose
21. GW , 11, 9?- ll § 16 SW, Vll, 318.
e moralidade, lembrando que elas se referem a pressupostos hete- 22. Genea ogia, • '
rogêneos; ao mesmo tempo, porém, pode servir para fundamentar, 2 3 SW Vll, 319.
. 11 '§ 17 SW VII, 321.
numa certa proporção, o encontro dos diagnósticos nietzschiano e 24. , ' , Vll 372
freudiano. Na verdade, não pode ser simples acaso se Nietzsche 25. UI, § 15, sw._ das Pulsões, GW, X, 219 e ss.
26. Pul5ões e Desttnos
e Freud encontram e teorizam, cada qual dentro de sua perspec-
tiva, mecanismos homólogos; como se Nietzsche teorizasse como
27. GW, X, 22 º·
2 s. GW, X, 219.
moralidade a neurose no sentido freud iano e como se, em eco, 29. GW, X, 220. de Aurora § 23, SW, XI, 11.
JO. Aforismo do tempo ,
Freud diagnosticasse como neurótico um conflito da moralidade
na inspiração nietzschiana. 31. Ibid., § 25, SW, X/
32 A Vontade de Po er, ' .
li-°v lll § 502, SW, IX, 346.
'
A neurose, "doença do desejo", traduz na realidade o conflito 33·. Op. cit., ibid. de A Vontade de Poder,§ 211, SW, Xl, 111.
fondamental com o proibido, de modo que o neurótico se explica 34. Aforismo da ép~ad H" teria" § 3, OW, l, 292.
fundamentalmente com a moralidade, que emana do conflito ori- 35 _ IV, • Psicoterapia ª is '
36. GW, 1, 293 · · 153-4.
ginal, de natureza edípica. Para explicitar este confli to e esta 37. Carta n. 52. Op. c1t., pp.544-5.
patologia, remetemo-nos ao exame do nível cultural. 38. V. cap. VI. GW, ll-lll,
256
PAUJ...LAURENT ASSOUN
NEUROSE E MORALIDADE 257
39, Além do Princípio de Prazer, § IV, GW, XIII, 25.
40. Mal-estar na Civilização, § l, GW, XIV, 426-9. 79. I , § 50, SW, IV, 47.
41. Liv. II, § 140, SW, IV, 126. 80. 11[, § 187, SW, IV, 154.
42. Parte III, SW, VI, 179. 81. III, § 202, SW, IV, 172.
43. § 688, SW, X I, 218.
82 SW IV, 170-1. . · " SW IV 237
44. A Genealogia da Moral, II, § 6, SW, 294. 83.· .Aurora,
' JV , '11l! j-66 • • Aflição do Crunmoso , , • ·
45. lbid., Ir, § 8, SW, Vll, 300. 84. IV, § 109, SW, VII, 83.
46. l bid., II, § 9, SW, VII, 302. 85. IV, § 110, SW, VII, 83.
47. A Genealogia da Moral, 1l, § 14, SW, VlJ, 314. 86. IV, § 201, SW, VII, 211."
48. lbid., p. 315.
87. "O Problema de Sócrntes '§ 3, Sl~, ;'lll,4~9.SW VIII 167. /11:
49. Literalmente: • pagai' de volta•. 88. "O Criminoso e o ~ue .. lhe 1:. Afim • § • ' '
50. lbid., 11, § 19, SW, VII, 323-4. • [ncursões de um Extemporaneo
51. lbid., II, § 21, SW, VII, 327-8. 89. SW, VIII, 167-8.
52. Ibid. , IH, § 20, SW, VU, 387. 90. II, § 233, SW, IX, 166.
53. SW, VIIJ, 307 ("Por Que Sou Tão Sábio",§ 5). 9 1. SW , IX, 167.
54. Liv. I V, II, § 102 1. Este é o primeiro dos "cinco não• pelos 11 1, 92. m, § 739, SW, IX, 496.
Nietzsche define seu projeto de transmutação. 11 11 93 Jll § 740, SW, IX, 498. 1 d Nietzsche, supra,
55. Aforismo do tempo de A Vontade de Poder, § 687, SW, XI. 2 lll. 94: GW, XIIJ, 2'82. Comparar com . RS fórmu as e
56. • Hereditariedade e Etiologia das Neuroses• (escrito em (1·n11c~,1 p. 238. . .. AI Tipos de Caracteres Encon-
GW, l , 420-1. 95. Tratn-se do ter<:6iro ar_hg~ de . ~uns (IV 19L5-1916),
57. V. cap. seguinte, p. 271. Irados no Tl'abalho Ps1c1rnalft1co ' publicado em 1mag0 '
58. § IH, GW, X, 276. GW, X, 390.
59. Conferências Introdutórias à Psicanálise, n. XXI, GW, XI. 344 96. GW, X, 391. . . artido sobre a questão
60. •o Problema Econômico do Masoquismo•, GW, x nr, 379. Em 1926 Freud teve a oportum~ade d~ ~omd,1r d~ 'to pediu-lhe assim
61. "Uma Criança Está Sendo Espancada",§ V, GW, XIJ, 215. . E ·1 Desenhe1mer JUIZ e irei • ,
62. Cap . V. concreta do casugo: mi e ' • ão sobre a pena de morte.
como a outras personalidades, parn tomar po 5,ç . . R 'k Theodor. O
63. GW, Xlll, 282. · - e essa em seu nome rn • ei
Encontrarem_os sua posiçao xpr p a de Morte. Reproduzido it1: Reik.
64. GW, XIV, 495 (in: O Mal-estar na Civilização, VlII). • Ponto d~ V1!'ª de Fr:,ud sofb,re 1ª91/n . 399-401, especialista na questão
65. lbid. , p . 496. Le Besom d Ai·ouer. [red. t ., , PP
66. GW, IX, 176.
dentro do movimento anulítico. . d Tragédia SW, l , 213.
67. O Mal-estar na Civilização, § VIII, G W, XIV, 496. 97. Aforismo do tempo de O Nascune1110 a '
68. V. a nan·ativa da dívida que dá lugar à grande "apreensão obsCd• 98. li, § 43, sw, Ili, 58.
siva ·, na história da doença, GW, VII, 390 e ss. Pagamenro impossível dn 99. 1, § 18, SW, IV, 22.
dívida contraída pelo pai real e para com o Pai simbólico. 100. r, § 30, SW, IV, 32.
69. Genealogia da Moral, II, § 4, SW, VII, 292. 101. II, § 73, SW, V, 89. _
70. Esta é uma das referências explícitas de ·Freud a uma teoria nietz• l02 l1I § 266, SW, V, lt6.
schiana: v., supra, pp. 76-77. Encontramo-Ia na 1.• parte, SW, vr, 38-41. 103: Pa;te IH, • O Convalescente"•~ SW, VI, 242.
71. SW, VI, 40. 104. Cap. V II, § 229, SW, VII, 15:i.
72. Na verdade, é preciso lembrar que a ciência criminológica se instalo 105. Ibid ., p. 156.
nesta época. 106. ibid., § 230, sw, Vll, 158: ..
73. "A Sombra", SW, VI, 303. . • !mente a 2 • d1ssertuçao.
74. SW, VI, 304. 107, V .. ~rmc1pda • de Humano Demasiado Humano e de Aurora,
108. Aforismo o tempo '
75. Cap. rr, § 66, sw, III, 12.
§ 726 SW, X, 269. § 859 SW X 285
76. Cap. II, § 107, SW, III, 96. 109. Aforismo do tempo de Zaratustra, ' • • .
77. V., supra, pp. 216-7. I IO. Jbid., § 860, SW, X. 285.
78. § l 86, SW, Tll/2, 261. li 1. fbfrl .. § 861, SW, X, 285.
l 12. Jbid., ~ 862, SW, X, 285·
258 PAUL-LAUR ENT ASSOUN

Jl3. Afor!smo do tempo de A Gaia Ciência, § 89, SW, XI, 38.


114. Afor~smo do tempo de Zaratustra, § 570, SW, XI, 199. 2.
115. Af?nsmo do tempo de Aurora, § 455, SW XI 183
116. lb1d., § 789, SW, XI, 260. ' ' ·
117. Humano, Demasiado Humano, II,§ 47, SW, III , 61.
118. Zaratustra, parte IH, sw, VI, 172.
119. Anticristo, § 7, SW, VIII, l9S. CULTURA
120. ª
V .• Jocali_zação dos efeitos reativos na clínica freudiana
12 1. Tres Ensaros sobre a Sexualidade OW v 92 (Z•
122. GW, v, 93-4. ' • ,
. ).
• ensaio .
E
123. GW, VIII, 448. CIVILIZAÇÃO
124. GW, XIII, 58.
125. Ci~ado numa carta a Putnam, de 8 de julho de 1915
l26 lbid
Gallima~d, ln- "L'l n t ro d uchon
PP·: 219.·20. · de la Psythanalyse aux. États-Unls" '

127. Nossa atitude em relação à morte (1915) GW X 3"0 1

~
128. f~lth.eudd fala de bom grado de moral co~ Pfi~te/, p'a;tor
P u t nam, 1 o e pastor. , e ooin
129. Carta a Pfister, de_ 2_4_ de _fevereiro de 1928 (Corresp., pp. 178,9 ,
• b l30. O M~f-est~:. na Ci.111/'.zaçao quaLificará as • diferenças éticas • d)o
em e de mal de 11-re<:usave1s" (§ VI GW XlV 470) v inf 2r.•
131 A Vont d d p d
• . a e ~ o er, trad. fr., ' I, cap. Ili § 224· p.·• 112ra , P• ,,.,,
' · '
132. lb1d., § 231 , p. 115. ' ' · ·
133. A Von.tade de Poder (1887), trad. fr. Blanquis. 1, cap. Ili, § 4,
§ 270, p. t26. T·anto em Nietzsche quanto em Freud existe uma teoria da
civilização (Kultur) que é, ao mesmo tempo, uma teoria da
doença ou do mal-estar da civilização. A partir do momento
em que se percebeu que ela prolongava natural e necessariamente
a teoria da doença individual, não se poderia reduzi-la a ttm
apêndice: nas duas abordagens, este é um momento essencial
e , até mesmo, de certo modo, primordial.

INSTINTO E CULTURA
EM NIETZSCHE E EM FREUD

Basta lembrar que Nietzsche partiu de uma teoria da civili-


zação, por meio de sua teoria da arte grega e sua crítica da
modernidade. Quanto a Freud, se só tarQiamente escreve seu
Mal-estar na Civilização, enfrenta a questão desde o princípio,
a partir do momento em que o .problema da neurose se lhe
apresenta como um cotiflito com os valores instituídos pela
civilização.
260 PAUL-LAURENT ASSOUN CULTURA E. CIVILIZAÇÃO 261

Em Nietzsche e em Freud o f Eis por que a Kultur se define desde a origem pela quali-
problema central aquele d .' . en oque da [(u/tur J'efl clr u d ade dos instintos que, ao expressarem-se nela, lhe con ferem seu
' o mstmto e de sua t' f -
pot'tanto, naturalmente im (' d sa is açao. 1 \Ili ser próprio. Assim, a dualidade conflitual dos instintos apolíneos
longamento e o q ue est l ica ~ na Trieblehre, como seu p1 P
e dionisíacos é que constitui o ser da Kultur grega . Esta repre-
abordam a civilizacão em tee ~ JOgdo ndela. Eis por que umbo
, , imos e O"'nça · . ·1· - sentação tem sua origem distante na tradição herderiana dos
esta apenas doente - el , d ~ . a c1v1 izaçuo ,1 n11 instintos fundamen tais , pelos quais se expressa a autenticidade
a e a oença a partir d
que surge como obscáculo crô . . ' . o momento l ' II• do Volk, especificada pela visão da Weltgeschichte elaborada
Há , . nico a satisfação instintual.
. ' porem, algo mais preciso· det . .111 d 0 . , . por Burckbatdt e que Nietzsche conheceu d esde a origem em
equiparar o problema do instint~ à :~~ ª .P:•~c1p~o pcrmllt Basiléia .1
v•elho pl'incípio neo-d . . . q . e da c1v11Jzaçao - é li Deste modo, toda a análise níetzschiana está centrada no
a1w11usta enunciado . H
gundo o qual a ontogênese d . por eackel e llt' exame dos sintomas e causas desta doença pela qual a saúde
pi tula a fHogênese ou de~:: t envolv1mento individual, rccu
que caracterizava a civilização g1·ega se corrompeu . Sócrates é
lida deliberadamen,te rios d. _vo v1m~nto da espécie, lei qu~ ,1
01s sentidos J'á q d que serve para delimitar e denominar a síndrome: a intrusão da
menta coletivo serve de d ' ue o esenvolvl reflexão na bela totalidade espontânea da polis parece ser a
desenvolvimento individual ocume~ to /a1·a, a inteligibilidade do causa e o sintoma principal dessa decadência (Verfalf), para
medida por ele Em v'rt ,d mads tam em e esclarecido em igual
· 1 u e este pri r · b' . denominar o processo com o vocabulário burckhardtiano. Pro-
belcce-se uma espécie de n nc pro wgenétíco, estu, cesso que se traduz por paulatina debilitação dos instintos fun-
.exus natural e N' 1
Freud, entre os problemas d 1- , m ietzsc 1e como c111 damentais. idéia que se encontra também em Wagner. Isto
a pu sao e da Kultu l d
uma necessidade frresistível. r, acop a os por· equivale a questionar o destino da civilização como expressão
Isto explica que, ao longo do exam
encont~emos aplicações deste princ( i: .
das temáticas anteriores,
~onclu1r o exame da temática Job:r e qu~, para quem que1•
mimética do instinto, através do destino dos instintos, melhor
ainda, como expressão, como refle.xo imediato dos instintos.
E.ntende-se, a pattir daí, no que as Considerações Extempo-
tttua o termo natura l d gl : a. teona da Kultur cons- râneas prolongam O Nascimento da Tragédia. E sta descreveu
. . ' 0 qua o mstmto de ,
constitui a outra extremidade d nh • que partimos, o estado de saúde e as causas de sua alteração; aquelas vão
significativa uma serpente ' esed . ando, numa configuração detalhar os sinais da doença moderna , minando o mito do pro-
' que mor e a , ·
bém o momento do diagnóst. propna cauda. É tam- gresso e classificando as síndromes (filistinismo, historicismo). A
rose e da moralidade. ico que prolonga o exame da neu-
segunda Extemporânea é exemplar ao analisar, a partir da hiper-
Partindo de uma reflexão sobre . T - trofia do sentido histórico, as manifestações da decadência. A
meira meta de Nietzsche é . a c1v1 tzayao grega, a pri- veneração do passado é decifrada como hipotrofia das forças
força do helenismo, símultanea::~~!ª~ as razoes p rof~nd_as d a vitais do presente. Não é por acaso que, paralelamente, Nietzs-
por contraste, a modernidade . d od~lo ~ue permite Jtilgar, che leva sua crítica para o plano da pedagogia, modo de domes-
O
autenticidade da Kultur e 1· _1a, e 11n ed1ato, ele coloca a ticação dos instintos com um fim "cultural".
l m re açao com a forca d . .
ne a se expressa, em contJ'aste com a - : ,,.º i_nstmto que Nietzsche conclui desta crítica que "a cultura é algo mais
que, de modo semelhante traduz u dege~e~escenc,a m oderna que uma decoração da vida" , que é preciso concebê-lo como
portanto, em termos antinômicos d m declmro do instinto. É, "uma nova natureza" , "harmonia entre vida e pensamento. apa-
che decifra a civiliz:acão em f - e ~orça ~ fra~ueza que Nietzs-
rência e vontade" .2
do instinto E: tamb: ' unçao ª cor relaçao com o registro Essa temática atravessa todo o pensamento de Nietzsche. T o-
· em por que ele d f t-
de força e de fraqueza contentando-s e med ~o po~co as n oções da a crítica da moralidade apresenta-se como reflexão sobre os
' e em a1 sua sintomatologia.
262
PAUL-LAURENT ASSOUN
CULTURA E CIVILIZAÇÃO 263

mecan~smo~ da ~ivilização na acomodação dos instintos: 11


11
nealog1a n1etzsch1ana da moral é, neste sentido, fundaim1111 11 1 Vê-se que Freud aborda o problema das __ relações instinto_/
mente uma etnologia, tendendo a resgatar as condições da llllll li civilização, caro a Nietzsche, de um ~1odo d_,t~'.·ent:, q~~ alte1 a
!idade coletiva como instituição para-instintiva. os termos do problema. Nietzsche partia da c1vtl1zaçao p~1 a mos-
trar O destino instintual do qual participa o indivíduo;_ l•r~ud se
Por sua vez. a problemática final de A Vontade de f'orl,, coloca do ponto de vista do que a civilização custa ao 111d1víduo.
estabelece a oposição entre Kult-ur e Zivilisation, 3 postulnnd,,
assim um "antagonismo" entre a primeita - tempo de profU bllu Em outras palavras, a reflexão sobre a possi~ilidade da neu-
rose como intole!'ância do tabu social é que fundamenta uma
e de corrupção - e a segunda - época de "domesticação v11
luntária e forçada", período de intolerância para as na1urc1.11~ teoria da civilização - que Totem e Tâbu desenv_olve alg~ns
artísticas. Por isso a cultura se oporia, por suas finalidades h anos depois - sobre a base do princf~i~ d~ correlaç_ao_ ?nto-ftlo-
civilização como empresa de domes1icação. As grandes épo~m, genética, que permite esclar~c~r a v1venc1a ~o ~nm'.t1vo pel~
da Kultur, para Nietzsche, são aquelas (Antigüidade grega ou experiência analítica do neutot1co. Na etnologia fteud1ana, po1
Renascimento italiano) de sublimação artística dos instintos mui, tanto, 0 essencial é o processo pelo q~al o ind_ivíd~o se_ situa em
vigorosos. relação ao entendimento cultural , CUJO prolót1po e o mcesto, e
explica-se com ele. .
Como se pode entrever por ttma alusão da conespondênci11
com Fliess datada de 1897 ,4 Freud capta, ao mesmo tempo, 11 o mal-estar da civilização é, pois, para Fret1d, antes de ":ª1_s
importância dos instintos na neurose e seu conflito com a civi (í. nada, um mal-estar do indivíduo, ser pulsio1~a_l di~nt~ da ClV!-
zação. A partir daí, a reflexão de Freud sobre a I<.ultur será lização. lsto supõe o postulado, a _título de ~enf1~açao 1~co~t7ste,
centrada na questão patogênica da relação conflitual da pulsão de uma exigência cultural, dcpo1s uma s1tuaça~ do 1~d1vtduo
sexual com a proibição social, através de seu destino neurótico. diante deste dado - o que possibilita a Freud diagnosticar sem
propor refol'ma. . .. _
O texto mais significativo deste ponto de vista é o artigo so•
O encaminhamento de Mal-estar na C1v1l1zaçao _(1~2~) se
bre "A moral sexual 'civilizada' e o nervosismo moderno" (1908).
esclarece assim. Freud parte do contraste entre o pnnc1p10 de
Nele Freud examina o prejuízo (Schaden) que a exigência cultu-
prazer individual e os obstáculos exteriores à felicidade .. Aí _inter-
ral impõe à pulsão sexual dos indivíduos. Procede, então, a um
vêm as neuroses que "ameaçam minar o pequeno quinh~o d_e
exame do dano assim infligido pela civilização, que "é construí-
felicidade conquistado pelo homem civilizado". O neurótico e,
da em cima da repressão das pulsões'? e o "ganho cultural "
por conseguinte, um revelador de que "o homem ~or~a-se neu-
(kulturelle Gewinn) suscetível de lhe servir de "compensação"
rótico porque não consegue suportar o grau de remmcia (Versa-
(Entschadigung) aceitável, 6 no estágio de moral civilizada alcan-
gung) exigido pela sociedade em nome de seu ideal cultural_'' .8
ç:a_do pela sociedade, caracterizada pela instituição da monoga-
Por outro lado, porém, a civilização é um fato que Freud def1~e
mia. Estes termos são significativos do discurso freudiano sobre
como "a totalidade das obras e instituições através das ~ua~s
a cultura: avaliar, numa espécie de "deve e haver·", o que a
nossa vida se distancia daquela de nossos antepassados amma1s
Kultu~ substitui pela pulsão e o que ela lhe custa . Sem negar a
e que servem para dois fins: a proteç_ão do homem contra .ª n~t~
necessidade de uma mediação da pulsão, ele ressalta seus estra-
eza e a regulamentação das relaçoes dos homens ent1e _s1.
gos e conclui perguntando-se "se nossa moral sexual 'civilizada'
~ssim a Kulturversagung é um outro fato: "É impossível n_ao se
vale os sacrifícios que nos impõe",7 prevenindo assim uma con-
dar c~nta ela larga medida em que a civilização se baseia na
denação ética prematura daqueles, perversos e neuróticos, que,
renúncia às pulsões, e a que ponto ela tem como pres_sup~slo a
deficitários e considerando-se lesados. compensam-se por seus
sintomas. não-satisfação (repressão, recalque ou algum outro mec~n~smo)
de poderosas pulsões. •10 Esta é a raiz do mal-estar cronico e
1
264
PAUL-LAURENT ASSOUN 265
CULTURA E CIVILIZAÇÃO
constitucional da civílizacão
Eros e . Tânatos e pelo d'ese' que! ~reud esclarece pela lutn onr,, Freud chega a diagnosticar, através de O mal-estar na Civili•
, nvo v11ncnto da ag • •ct d zação, um antagonismo irredutível entre os dois processos do
o b stacu!o à organização cult ura.
l ress1v1 a e co1111, 14
desenvolvimento individual e do desen volvimento da civilização.
t ª. reto mada da temática de O Futu d - t impossível , portanto, concordar com o preconceito segundo o
fora dito: " Parece que toda civiliza ã ro e uma _I~usao, omh
qual "nossa civilização é o bem mais precioso que podemos
a opressão e a renú ncia aos instin~sº " ~eve ~;r ed~1cadn _sob1 i
adquirir e possui r". 15 A conclusão do ensaio, entretanto, não é
sobre ~ qual se conclui o ensaio de 1929 _A questao dec1siv11"
o ensaio anter,·o·r · "Conseg . e aquela da qual pn1•1t pessimista.
· · tmemos e té . Nela, Freud p ostula simultaneamente um isomorfismo dos de-
fa rdo que é o sacrifício de .' . a que ponto, d1minui 1· tt
homens, reconciliar os home seus mst1otos e q ue é imposto no•, senvolvimentos: "Amb os são de natureza muito semelhante, se é
ns com os s •'f' · que não são processos idênticos, aplicados a objetos diferentes."
16
a ser necessários e compensa' 1 • 1ac1, ic1os que continuarão
· os por e es?" Isto fundamenta um surpreendente " finalismo": "Assim como um
Em termos ma·s · planeta gira em torno do seu eixo evoluindo em tomo do astro
de