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FICHA TÉCNICA

Revisão Geral
Emerson Bruno Oliveira Freitas

Emerson Bruno O. Freitas Revisão/Diagramação dos Esquemas


Emerson Bruno Oliveira Freitas

Série Preparação Permanente Atualizações


Emerson Bruno Oliveira Freitas

DIREITO
CONSTITUCIONAL
Atualizada até a EC nº 106/2020
Teoria Completa, Comentada e Esquematizada
FREITAS, Emerson Bruno Oliveira;
Direito Constitucional / Emerson Bruno Oliveira Freitas - Série Preparação Permanente
Fascículo 3: Direitos e Deveres Individuais e Coletivos (Art. 5º, I a XXXVII)
– Belo Horizonte: Editora Atualizar, 2020.

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Direitos e Deveres Individuais


e Coletivos - Parte 01
(Art. 5º, I a XXXVII, CF88) Esta obra não pode ser reproduzida, no todo ou em parte, por qualquer forma ou meio, sem a expressa autorização
dos autores e da editora.

IMPRESSO NO BRASIL - PRINTED IN BRAZIL

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SUMÁRIO
3. DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS (ART. 5, CF/88)................................................... 5
1 - INTRODUÇÃO................................................................................................................................................... 5
2 – COMENTÁRIOS AOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS (ART. 5º)................................ 6
2.1 - Direito à vida (art. 5º, caput).................................................................................................................... 7
2.2 – Princípio da igualdade (art. 5º, caput e I)............................................................................................... 8
Igualdade Formal x Igualdade Material.................................................................................................9
2.3 – Princípio da Legalidade.......................................................................................................................... 9
Princípio da Legalidade x Princípio da Reserva Legal.......................................................................... 10
2.4 – Proibição à Tortura e ao Tratamento Desumano.................................................................................... 10
2.5 – Direito de Manifestação do Pensamento................................................................................................ 11
2.6 – Liberdade Filosófica, Política e Religiosa............................................................................................... 12
Escusa de Consciência........................................................................................................................13
2.7 – Livre Expressão da Atividade Intelectual, Artística, Científica e de Comunicação................................. 13
2.8 – Inviolabilidade da Intimidade, da Vida Privada, da Honra e da Imagem................................................ 14
2.9 – Asilo Inviolável........................................................................................................................................ 15
2.10 – Inviolabilidade de Correspondência..................................................................................................... 16
2.11 – Livre Exercício Profissional................................................................................................................... 17
2.12 – Acesso à Informação e Sigilo da Fonte................................................................................................ 18
2.13 – Liberdade de Locomoção..................................................................................................................... 19
2.14 – Reunião pacífica, sem armas e em locais abertos ao público.............................................................. 19
2.15 – Liberdade de Associação..................................................................................................................... 21
Associação x Reunião..........................................................................................................................22
Representação Processual vs. Substituição Processual...................................................................... 23
2.16 – Direito de Propriedade.......................................................................................................................... 23
2.17 – Desapropriação.................................................................................................................................... 24
2.18 – Requisição Administrativa..................................................................................................................... 25
2.19 – Impenhorabilidade da Pequena Propriedade Rural.............................................................................. 25
2.20 – Direitos Autorais................................................................................................................................... 26
2.21 – Direitos Autorais sobre obras coletivas................................................................................................ 26
2.22 – Propriedade Intelectual........................................................................................................................ 27
2.23 – Direito de Herança............................................................................................................................... 27
2.24 – Sucessão de Bens de Estrangeiros..................................................................................................... 27
2.25 – Da Defesa do Consumidor................................................................................................................... 28
2.26 – Acesso a informações dos órgãos públicos......................................................................................... 28
2.27 – Direito de Petição e Obtenção de Certidões........................................................................................ 29
2.28 – Acesso à Justiça.................................................................................................................................. 30
2.29 – Direito Adquirido, Ato Jurídico Perfeito e Coisa Julgada...................................................................... 31
2.30 – Princípio do Juízo Natural..................................................................................................................... 31
Sala Virtual de Estudos - Direito Constitucional Prof. Emerson Bruno - Fascículo 3 - Direitos e Deveres Individuais e Coletivos (Art. 5º, CF88)

humano, com finalidade básica de respeito à dignidade, por meio de sua proteção contra o
arbítrio do poder estatal e estabelecimento de condições mínimas de vida e desenvolvimento
da personalidade humana.”1
3. DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS

2 – Comentários aos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos (Art. 5º)


E COLETIVOS (ART. 5, CF/88)
1 - Introdução “Art. 5º: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos bra-
sileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igual-
A análise dos direitos e garantias fundamentais é matéria importante para estudantes, profissionais do dade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:”
Direito e para todos aqueles que vivem na República Federativa do Brasil. Estão ligados a necessidade de um
Estado Democrático de Direito limitar o poder do Estado com a instituição de garantias, direitos e liberdades Destinatários
fundamentais para cada indivíduo.
Além de declarar os limites de atuação do Estado frente aos indivíduos, protegendo-os do atropelo arbi- Segundo o texto do artigo, são destinatários explícitos dos direitos e deveres individuais e coletivos os
trário do próprio Estado, o art. 5º da Constituição institui os limites dos direitos e garantias individuais entre os brasileiros (natos ou naturalizados) e os estrangeiros residentes no país. Contudo, a aplicação do art. 5º da
próprios indivíduos, de modo que o direito de um termina no início do direito e garantia individual do outro. As- Constituição possui alcance mais abrangente, havendo destinatários implícitos. Sua interpretação é extensiva,
sim, institui-se um vedadeiro pacto social, no qual todos possuem direitos e gartantias individuais declaradas, abrangendo qualquer pessoa que esteja sob o império do ordenamento jurídico brasileiro, inclusive os estran-
mas que não podem se sobrepor ao dever de respeito individual e coletivo do direito de todos. Em resumo, geiros não residentes. Nos comentários de Vicente Paulo e Marcelo Alexandrino.
declaram-se direitos e garantias individuais, mas para que todos possam respeitar e conviver harmoniosa-
mente com os direitos e deveres de todos. Ao instituir os limites de atuação do Estado e regular os direitos “O texto do caput do art. 5º somente assegura esses direitos, de forma expressa, aos ‘brasileiros e
e deveres individuais e coletivos, a Constituição delimita regras básicas para uma harmoniosa e necessária estrangeiros residentes no país’. Há consenso, entretanto, pela própria natureza de tais direitos, que
convivência social. Dessa forma, os direitos e garantias fundamentais não podem ser interpretados de forma eles valem igualmente para os estrangeiros que se encontrem em território nacional, submetidos às
absoluta ou incondicionada. leis brasileiras, sejam eles residentes ou não no Brasil.2”
Exemplo: todos possuem direito individual à proteção de sua honra e imagem (art. 5º, X), bem como de
inviolabilidade de suas comunicações (art. 5º, XII). Porém, diante do direito coletivo de obter informações de Na lição da Profª. Marcelle Machado de Souza, em obra anterior e conjunta por essa mesma editora:
interesse público, a imagem de uma pessoa pode ser gravada de forma secreta por um interlocutor e exposta
em rede nacional de TV durante a exibição de uma reportagem ivestigativa que objetiva comprovar um ilícito “Apesar de a interpretação literal desse artigo trazer a ideia de que os destinatários da proteção
penal. constitucional são apenas os brasileiros (natos e naturalizados) e os estrangeiros residentes, nesse
Nessa situação, a proteção individual da honra e da imagem do infrator não pode se sobrepor ao interes- ponto o legislador constituinte disse menos do que gostaria. A interpretação mais adequada ao pre-
se público de exposição jornalística do fato. Afinal, os direitos individuais não são absolutos ou incondicona- sente texto é a extensiva, no sentido de que todos, sem distinção de qualquer natureza, são desti-
dos quando confrontados com o interesse público. natários da proteção constitucional e, em especial, da proteção dos direitos e deveres individuais e
coletivos uma vez que tais direitos e garantias foram criados para proteger a dignidade da pessoa
Paciente denunciado por falsidade ideológica, consubstanciada em exigir quantia em dinheiro humana, sendo que “pessoa humana” é um conceito dotado de universalidade. Portanto, a proteção
para inserir falsa informação de excesso de contingente em certificado de dispensa de incor- constitucional que ora se verifica tem caráter universal, abrange a todos, brasileiros ou estrangeiros,
poração. Gravação clandestina realizada pelo alistando, a pedido de emissora de televisão, residentes ou não e inclui, ainda, as pessoas jurídicas em tudo que com elas for compatível. Assim,
que levou as imagens ao ar em todo o território nacional por meio de conhecido programa o regime jurídico das liberdades públicas protege tanto as pessoas naturais, brasileiros ou estrangei-
jornalístico. (...) A questão posta não é de inviolabilidade das comunicações, e sim da proteção ros no território nacional, como também as pessoas jurídicas, pois têm direito, entre outros, à exis-
da privacidade e da própria honra, que não constitui direito absoluto, devendo ceder em prol tência, à segurança, à propriedade, à proteção tributária e aos remédios constitucionais.3”
do interesse público. [HC 87.341, rel. min. Eros Grau, j. 7-2-2006, 1ª T, DJ de 3-3-2006.] = RHC
108.156, rel. min. Luiz Fux, j. 28-6-2011, 1ª T, DJE de 10-8-2011 Outro não é o posicionamento do Supremo Tribunal Federal.

A instituição de direitos e garantias fundamentais não se sobrepõe à supremacia do interesse público “O súdito estrangeiro, mesmo aquele sem domicílio no Brasil, tem direito a todas as prerrogati-
quando com este confrontado. Ao contrário, ocorrendo o choque entre o interesse privado e o interesse públi- vas básicas que lhe assegurem a preservação do status libertatis e a observância, pelo Poder
co, a supremacia do interesse público sobre o privado irá se estabelecer. Na lição da Profª. Marcelle Machado Público, da cláusula constitucional do due process. O  súdito estrangeiro, mesmo o não domici-
de Souza, os direitos e garantias fundamentais. liado no Brasil, tem plena legitimidade para impetrar o remédio constitucional do habeas cor-
pus, em ordem a tornar efetivo, nas hipóteses de persecução penal, o direito subjetivo, de
“Nasceram para reduzir a ação do Estado aos limites impostos pela Constituição sem, contudo, des- que também é titular, à observância e ao integral respeito, por parte do Estado, das prer-
conhecerem a subordinação do indivíduo ao Estado, como garantia de que eles operem dentro dos rogativas que compõem e dão significado à cláusula do devido processo legal. A  condi-
limites impostos pelo Direito. Os direitos fundamentais não surgiram de uma só tacada e não foram ção jurídica de não nacional do Brasil e a circunstância de o réu estrangeiro não possuir
desde sempre disciplinados à exaustão. Eles surgiram paulatinamente com o decorrer da história domicílio em nosso País não legitimam a adoção, contra tal acusado, de qualquer tratamento
e como consequência das conquistas políticas angariadas passo a passo pelo homem. Assim, os 1 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.
2 ALEXANDRINO, Marcelo; PAULO, Vicente. Direito Constitucional Descomplicado. 4ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 2009.
direitos humanos fundamentais são o conjunto institucionalizado de direitos e garantias do ser 3 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.

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arbitrário ou discriminatório. Precedentes. Impõe-se, ao Judiciário, o dever de assegurar, mesmo Nas palavras de Alexandre de Moraes, “o início da mais preciosa garantia individual deverá seguir um
ao réu estrangeiro sem domicílio no Brasil, os direitos básicos que resultam do postulado do devido critério biológico e não jurídico”5.
processo legal, notadamente as prerrogativas inerentes à garantia da ampla defesa, à garantia do Sobre o tema, importante foi a decisão do Supremo Tribunal Federal no julgamento da ADI 3.510, que
contraditório, à igualdade entre as partes perante o juiz natural e à garantia de imparcialidade do declarou a constitucionalidade do art. 5º da Lei de Biossegurança (Lei 11.105/2005), por entender que as
magistrado processante.” (HC 94.016, Rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 16-9-2008, Segunda pesquisas com células­­tronco embrionárias não violam o direito à vida ou o princípio da dignidade da pessoa
Turma, DJE de 27-2-2009.) humana.

Relatividade “O Magno Texto Federal não dispõe sobre o início da vida humana ou o preciso instante em que ela
começa. Não faz de todo e qualquer estádio da vida humana um autonomizado bem jurídico, mas
Outro ponto importante é a compreensão de que os direitos e garantias fundamentais não são ABSOLUTOS. da vida que já é própria de uma concreta pessoa, porque nativiva (teoria ‘natalista’, em contraposi-
São garantidos pela Constituição, mas nos termos por ela própria definida. Dessa forma, o texto constitucional ção às teorias ‘concepcionista’ ou da ‘personalidade condicional’). E, quando se reporta a ‘direitos
institui condições e limites para o exercício dos direitos e garantias constitucionais, relativizando sua interpretação da pessoa humana’ e até a ‘direitos e garantias individuais’ como cláusula pétrea, está falando de
e aplicação. Uma prova inconteste da relativização dos direitos e garantias fundamentais é o próprio direito à vida. direitos e garantias do indivíduo -pessoa, que se faz destinatário dos direitos fundamentais ‘à vida,
Existe direito mais importante do que o direito à vida? Claro que não. Contudo, nem mesmo ele será absoluto, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade’, entre outros direitos e garantias igualmente
pois a própria Constituição estabelece a possibilidade de sua relativização com a aplicação da pena de morte distinguidos com o timbre da fundamentalidade (como direito à saúde e ao planejamento familiar).
em caso de guerra declarada. Caso a interpretação do direito à vida fosse a de um direito absoluto, não haveria Mutismo constitucional hermeneuticamente significante de transpasse de poder normativo para a
qualquer hipótese de pena de morte no Brasil. legislação ordinária. A potencialidade de algo para se tornar pessoa humana já é meritória o bas-
Sobre o tema, encontra-se abaixo a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal: tante para acobertá-la, infraconstitucionalmente, contra tentativas levianas ou frívolas de obstar sua
natural continuidade fisiológica. Mas as três realidades não se confundem: o embrião é o embrião, o
Os direitos e garantias individuais não têm caráter absoluto. Não há, no sistema constitucional bra- feto é o feto e a pessoa humana é a pessoa humana. Donde não existir pessoa humana embrioná-
sileiro, direitos ou garantias que se revistam de caráter absoluto, mesmo porque razões de relevante ria, mas embrião de pessoa humana. O embrião referido na Lei de Biossegurança (in vitro apenas)
interesse público ou exigências derivadas do princípio de convivência das liberdades legitimam, ainda não é uma vida a caminho de outra vida virginalmente nova, porquanto lhe faltam possibilidades de
que excepcionalmente, a adoção, por parte dos órgãos estatais, de medidas restritivas das prerrogati- ganhar as primeiras terminações nervosas, sem as quais o ser humano não tem factibilidade como
vas individuais ou coletivas, desde que respeitados os termos estabelecidos pela própria Constituição. projeto de vida autônoma e inrepetível. O direito infraconstitucional protege por modo variado cada
O estatuto constitucional das liberdades públicas, ao delinear o regime jurídico a que estas estão su- etapa do desenvolvimento biológico do ser humano. Os momentos da vida humana anteriores ao
jeitas – e considerado o substrato ético que as informa – permite que sobre elas incidam limitações de nascimento devem ser objeto de proteção pelo direito comum. O embrião pré-implanto é um bem a
ordem jurídica, destinadas, de um lado, a proteger a integridade do interesse social e, de outro, a asse- ser protegido, mas não uma pessoa no sentido biográfico a que se refere a Constituição.” (ADI 3.510,
gurar a coexistência harmoniosa das liberdades, pois nenhum direito ou garantia pode ser exercido em Rel. Min. Ayres Britto, julgamento em 29-5-2008, Plenário, DJE de 28-5-2010.)
detrimento da ordem pública ou com desrespeito aos direitos e garantias de terceiros.” (MS 23.452, Rel.
Min. Celso de Mello, julgamento em 16-9-1999, Plenário, DJ de 12-5-2000.) Vide: HC 103.236, Rel. Min. Outro ponto de destaque sobre o direito à vida encontra-se exposto na obra de Vicente Paulo e Marcelo
Gilmar Mendes, julgamento em 14-6-2010, Segunda Turma, DJE de 3-9-2010.” Alexandrino.

Outra não é a conclusão da Prof.ª Marcelle Machado de Souza: “Não se resume o direito à vida, entretanto, ao mero direito à sobrevivência física. Lembrando que o
Brasil tem como fundamento a dignidade da pessoa humana, resulta claro que o direito fundamental
“Dessa forma, não há direitos e garantias fundamentais que possam ser considerados como absolutos em apreço abrange o direito a uma existência digna, tanto sob o aspecto espiritual, quanto material
e que possam sempre valer como uma máxima a ser aplicada aos casos concretos, independentemen- (garantia do mínimo necessário a uma existência digna, corolário do Estado Democrático). Portanto,
te da consideração de outras circunstâncias ou outros valores constitucionais.4” o direito individual fundamental à vida possui duplo aspecto: sob o prisma biológico traduz o direito
à integridade física e psíquica (desdobrando-se no direito à saúde, na vedação à pena de morte, na
2.1 - Direito à vida (art. 5º, caput) proibição do aborto etc.); em sentido mais amplo, significa o direito a condições materiais e espiri-
tuais mínimas necessárias a uma existência condigna à natureza humana.6”
“Art. 5º: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasi-
leiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igual- 2.2 – Princípio da igualdade (art. 5º, caput e I)
dade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:”
“Art. 5º: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos bra-
Naturalmente, o direito à vida é o mais importante de todos os direitos fundamentais. Afinal, é a partir sileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igual-
dele que o indivíduo consegue ser o titular de todos os outros direitos. Trata-se de um direito elementar, intrín- dade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
seco à condição ser humano. Segundo a doutrina e a jurisprudência pátria, o direito à vida se inicia dentro do
útero com a fecundação do óvulo pelo espermatozoide. Assim, a Constituição protege a vida de forma geral, I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição”.
inclusive uterina.

5 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 17ª. Ed. São Paulo: Atlas, 2007.
4 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012. 6 ALEXANDRINO, Marcelo; PAULO, Vicente. Direito Constitucional Descomplicado. 4ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 2009.

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Inicialmente, o princípio da igualdade confere um tratamento isonômico e formal dos indivíduos perante “No tocante aos particulares, legalidade quer dizer que apenas a lei tem legitimidade para criar obri-
a lei. Entretanto, não basta a aplicação de uma igualdade meramente formal. A vida em sociedade é compos- gações de fazer (positivas) ou de não fazer (negativas) e onde a lei não dispuser sobre obrigação
ta de desigualdades reais, na medida que nenhum indivíduo ou grupo social são idênticos uns aos outros. A alguma é dado ao particular fazer o que bem entender, ou seja, não havendo qualquer proibição
pluralidade e a diversidade são características humanas, presentes em qualquer corpo social. Dessa forma, disposta em lei, o particular está livre para agir, vigorando nesse ponto o princípio da autonomia da
o princípio da igualdade ou da isonomia, deve ser entendido em dois aspectos: uma igualdade formal e uma vontade”9.
igualdade material.
No âmbito do Poder Público não se pode ter a mesma interpretação do princípio da legalidade. Não pre-
Igualdade Formal x Igualdade Material pondera a liberdade, mas a necessidade de estrito cumprimento do disposto em lei. A atuação do Estado de-
pende da Lei, não lhe sendo facultado uma conduta distinta daquela legalmente prevista.
Igualdade formal é a igualdade perante a lei, perante o Direito instituído de forma abstrata e geral pelo É verdade que em determinadas situações a lei faculta ao Estado uma atuação discricionária. Porém,
Legislador. “Apesar de os indivíduos serem essencialmente diferentes, a igualdade vem dizer que são todos não se trata de uma exceção ou relativização do princípio da legalidade para a Administração Pública. Afinal,
iguais, ao menos formalmente iguais. Sendo assim, na lei e perante a lei, nas relações jurídicas que estabe- a discricionariedade é fruto da própria lei, capaz de definir os contornos de atuação da atividade administrati-
lecem com o Estado e também entre si, os indivíduos devem ser tratados de uma maneira formalmente igual, va. Comparando as distintas interpretações para o princípio da legalidade, ensinam Vicente Paulo e Marcelo
sem distinção de qualquer natureza, seja por critérios de sexo, raça, origem, religião, entre outros”7. A igual- Alexandrino:
dade formal está revestida de um respeito e de uma garantia à aplicação e interpretação impessoal da leis,
sem distinções de qualquer natureza. Contudo, se os indivíduos são, na realidade, materialmente diferentes, “O enunciado desse inciso II do art. 5º veicula a noção mais genérica do princípio da legalidade. No
a aplicação exclusiva da igualdade formal seria a promotora da manutenção ou do aumento das próprias desi- que respeita aos particulares, tem ele como corolário a afirmação de que somente a lei pode criar
gualdades, visto que manteria ou, até mesmo, acirraria relações naturalmente desiguais. obrigações e, por outro lado, a asserção de que a inexistência da lei proibitiva de determinada conduta
Assim, conforme lição de Rui Barbosa, é preciso tratar os desiguais de forma desigual, na medida de suas implica ser ela permitida. Relativamente ao Poder Público, outro é o conteúdo do princípio da legalida-
desigualdades. Trata-se da busca por uma igualdade real, uma igualdade material. de. Sendo ele a consagração da ideia de que o Estado se sujeita às leis e, ao mesmo tempo, de que
governar é atividade cuja realização exige a edição de leis (governo sub lege e per lege), tem como
“Como na essência os indivíduos são mesmo diferentes, por exemplo diferentes no sexo, na origem, corolário a confirmação de que o Poder Público não pode atuar, nem contrariamente às leis, nem na
na idade, na nacionalidade, na cor, na religião, a igualdade também deve ser entendida sob o ponto ausência de lei. Não se exclui, aqui, a possibilidade de atividade discricionária pela Administração
de vista material, buscando, pois, a antiga máxima de “tratar os iguais de forma igual e os desiguais Pública, mas a discricionariedade não é, em nenhuma hipótese, atividade desenvolvida na ausência
de forma desigual”, observando, no entanto, a medida e a proporção dessa desigualdade. Nesse da lei, e sim atuação nos limites da lei, quando esta deixa alguma margem para a Administração
aspecto, igualdade não quer dizer simplesmente proibição de diferenças, igualdade na CF/88 traduz agir conforme critérios de oportunidade e conveniência, repita-se, segundo os parâmetros genéricos
uma proibição de diferenças arbitrárias, desiguais e injustas, pois sempre que dentro de um critério de estabelecidos na lei. O princípio da legalidade, especificamente no que concerne à Administração
razoabilidade e de proporcionalidade um tratamento diferenciado for necessário, adequado e de bom Pública, é reiterado no caput do art. 37 da Constituição.10”
senso, esse tratamento deve ser aplicado ao caso concreto.8”
Princípio da Legalidade x Princípio da Reserva Legal
A igualdade material está expressa em diversos dispositivos constitucionais, dentre eles, a própria dis-
posição de que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”, MAS, NOS TERMOS DA CONSTI- Conforme lição da Prof.ª Marcelle Machado de Souza, tratam-se de princípios diferentes.
TUIÇÃO. Cite-se, por exemplo, a diferença nos prazos para a licença maternidade e a licença paternidade. A
primeira tem o prazo constitucional de 120 dias e a segunda de 05 dias. Assim, aos olhos do legislador cons- “Não há de se confundir ambos os princípios. O primeiro, também chamado de legalidade estrita,
tituinte, o nascimento de uma criança tem efeitos desiguais para trabalhadoras e trabalhadores, demandando veicula uma ordem genérica, segundo a qual a criação ou a modificação de direitos ou obrigações
um tratamento diferenciado por parte do ordenamento jurídico, conforme o destinatário da licença (mulheres depende de espécie jurídica regularmente produzida, na conformidade com o processo legislativo
ou homens). Outro exemplo são as regras diferenciadas para a aposentadoria, que também possuem prazos constitucional. O princípio da reserva legal é de conteúdo específico e ocorre sempre que a Consti-
constitucionalmente distintos para mulheres e homens. tuição Federal se refere a determinado tema e atribui a sua regulamentação aos termos da lei ou à
forma da lei, como, por exemplo no art. 7º, I, XI e XXI; art. 5º, LXI, entre outros.11”
2.3 – Princípio da Legalidade
2.4 – Proibição à Tortura e ao Tratamento Desumano
“II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”.
“III – ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante”.
Nenhum particular está obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. Dessa
forma, prepondera a liberdade de conduta. Afinal, se não é proibido, é permitido, e; se não existe uma con- Segundo a Lei 9.455/97,
duta ou comportamento obrigatório previsto em lei, qualquer conduta ou comportamento pode ser exercido.
Portanto, se não existe uma placa proibindo o estacionamento de um veículo junto à guia da calçada, poderá o Art. 1º Constitui crime de tortura:
motorista ali estacionar, e; se a lei não determinar a conversão obrigatória à direita em um cruzamento, poderá I - constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento físico
o motorista convergir à direita ou à esquerda, desde que não o faça na contra-mão da pista de rolamento, visto ou mental:
ser proibido. 9 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.
7 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012. 10 ALEXANDRINO, Marcelo; PAULO, Vicente. Direito Constitucional Descomplicado. 4ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 2009.
8 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012. 11 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.

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a) com o fim de obter informação, declaração ou confissão da vítima ou de terceira pessoa; ou instituições. Assim, sob o pretexto de liberdade de expressão, não pode um indivíduo incitar o racismo em
b) para provocar ação ou omissão de natureza criminosa; redes sociais, pois a liberdade de pensamento e expressão não pode ser o escudo protetor de uma conduta
c) em razão de discriminação racial ou religiosa; ilícita. Daí a vedação ao anonimato. Na lição da Prof.ª Marcelle Machado de Souza, em obra conjunta e ante-
rior publicada por essa mesma editora:
II - submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave amea-
ça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou medida de caráter “Todos têm o direito de manifestar seu pensamento, sua opinião sobre determinada situação, fato,
preventivo. pessoa, instituição, entre outros, englobando a proteção constitucional o direito de expressão, de ler,
de ouvir, de assistir. Em outras palavras, é o direito de uma pessoa dizer o que quer, de quem qui-
Nos dizeres da Convenção das Nações Unidas contra a Tortura: ser, da maneira como quiser, no local em que quiser. No entanto, a Constituição exige que a pessoa
que exerça esse direito se identifique, para impedir que tal exercício seja fonte de leviandade ou de
“Para fins da presente Convenção, o termo “tortura” designa qualquer acto pelo qual dores ou sofrimen- utilização irresponsável. O anonimato, que impediria a identificação do autor para fins de respon-
tos agudos, físicos ou mentais, são infligidos intencionalmente a uma pessoa a fim de obter, dela ou sabilidade, está proibido com o intuito justamente de evitar manifestações fúteis, infundadas, cuja
de terceira pessoa, informações ou confissões; de castigá-la por ato que ela ou terceira pessoa tenha finalidade seja desrespeitar vida privada, a intimidade ou a honra de outrem.13”
cometido ou seja suspeita de Ter cometido; de intimidar ou coagir esta pessoa ou outras pessoas; ou
por qualquer motivo baseado em discriminação de qualquer natureza; quando tais dores ou sofrimentos Dessa forma, ciente da autoria do pensamento manifestado, aquele que se sentir prejudicado poderá
são infligidos por um funcionário público ou outra pessoa no exercício de funções públicas, ou por sua exercitar o seu o direito de resposta, proporcional ao agravo causado, além de promover ações judiciais que
instigação, ou com o seu consentimento ou aquiescência. Não se considerará como tortura as dores ou objetivem uma indenização pelo dano material, moral ou à sua imagem.
sofrimentos que sejam consequência unicamente de sanções legítimas, ou que sejam inerentes a tais Por fim, resta salientar que o direito de resposta deve ser exercido com proporcionalidade e que, tanto
sanções ou delas decorram. O presente artigo não será interpretado de maneira a restringir qualquer o direito de resposta, quanto o direito à indenização por danos materiais, morais e/ou à imagem, abrangem
instrumento internacional ou legislação nacional que contenha ou possa conter dispositivos de alcance pessoas físicas e jurídicas.
mais amplo.”
“O direito de resposta está orientado pelo critério da proporcionalidade, isto é, a resposta deve ser
Sendo a dignidade da pessoa humana um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, nosso assegurada no mesmo meio de comunicação em que o agravo foi veiculado, e deve ter o mesmo
ordenamento jurídico não tolera a prática da tortura ou de tratamento desumano (contrário à condição de destaque e a mesma duração (se em meio sonoro ou audiovisual) ou tamanho (se em meio escrito).
pessoa humana) ou degradante (que diminui a dignidade) do ser humano. Deve-se ressaltar que o direito de resposta não afasta o direito à indenização. O direito de resposta
Por fim, resta lembrar que o crime de tortura é inafiançável e insuscetível de graça ou anistia, con- e o direito à indenização por danos morais e materiais - anote-se que essas indenizações são cumu-
forme veremos adiante no art. 5º, XLIII. láveis - aplicam-se tanto às pessoas físicas quanto às pessoas jurídicas que sejam ofendidas pela
expressão indevida de juízos ou opiniões.14”
2.5 – Direito de Manifestação do Pensamento
2.6 – Liberdade Filosófica, Política e Religiosa
“IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”;
“V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano ma- “VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cul-
terial, moral ou à imagem”. tos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”;
“VII – é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e
A liberdade de manifestação do pensamento é o direito que temos para exprimir ideias, pensamentos e militares de internação coletiva”;
opiniões sobre qualquer coisa, fato ou pessoa, seja de forma escrita ou verbal. Vivemos em um Estado De-
mocrático de Direito, que tem como um de seus fundamentos o pluralismo político. Assim, possuímos liber- Como o pluralismo político é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, vigora entre nós a
dade de expressão, tendo em vista nossas convicções políticas, ideológicas, religiosas, filosóficas e culturais, liberdade de consciência ou de crença. Assim, a Constituição assegura aos indivíduos o direito de não praticar
dentre outras. Conforme lição de Alexandre de Moraes, “a proteção constitucional engloba não só o direito de atos contrários às suas convicções religiosas, filosóficas ou políticas.
se expressar, oralmente, ou por escrito, mas também o direito de ouvir, assistir e ler”12. Assegura, até mesmo, No plano religioso, importa perceber que o Brasil é um Estado laico, desprovido de religião ou crença
o direito de criticar. oficial. Dessa forma, respeita e protege todas as crenças, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos
e protegendo seus locais e liturgias.
“A liberdade de expressão constitui-se em direito fundamental do cidadão, envolvendo o pensamen- Assim, não pode o Estado privilegiar uma religião em detrimento de outra, muito menos perseguir ou in-
to, a exposição de fatos atuais ou históricos e a crítica.” (HC 83.125, Rel. Min. Marco Aurélio, julga- centivar hostilidades contra qualquer prática religiosa. Ao contrário, deve garantir as condições para que cada
mento em 16-9-2003, Primeira Turma, DJ de 7-11-2003.) uma se desenvolva e divulgue sua fé livremente.
Contudo, como nenhum direito fundamental é absoluto, o direito ao livre exercício dos cultos religiosos
Contudo, a liberdade de expressão não é uma garantia constitucional absoluta, visto que está condicio- não é irrestrito, incondicionado.
nada aos limites morais e jurídicos traçados pela própria Constituição e pelo restante do ordenamento jurídico. Naturalmente, qualquer templo ou local de culto deve observar o princípio da legalidade, desenvolvendo
O direito de manifestação do pensamento não abriga manifestações de conteúdo imoral ou ilícitos. Re- atividades lícitas e respeitando o direito de todos que ali vivam ou estejam.
clama seu exercício de maneira respeitosa e harmoniosa para com os demais indivíduos, pessoas jurídicas
13 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.
12 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 17ª. Ed. São Paulo: Atlas, 2007. 14 ALEXANDRINO, Marcelo; PAULO, Vicente. Direito Constitucional Descomplicado. 4ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 2009.

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Exemplo é o direito ao silêncio e ao repouso noturno, sobretudo nas áreas de restrição sonora, tais como Censura é a submissão prévia de conteúdos literários, artísticos ou audiovisuais aos órgãos estatais,
nas proximidades de hospitais, asilos e casas de saúde. A liberdade religiosa não pode ser um argumento com o objetivo de obter uma permissão para que sejam exibidos ao público em geral.
para afrontar os direitos daqueles que não participam ou comungam daquela crença ou fé. A Constituição não admite qualquer forma de censura, seja ela de natureza política, ideológica ou artís-
Como corolário à liberdade de crença e ausência de uma religião oficial, incumbe também ao Estado criar tica. Contudo, isso não impede o poder público de regulamentar a exibição de conteúdos, classificando-os
as condições para que todas as religiões e credos prestem assistência religiosa e espiritual nas entidades de quanto à faixa etária apropriada e seus respectivos horários de exibição.
internação coletiva, sejam elas civis ou militares. Assim, em penitenciárias, quartéis, hospitais, asilos ou sa- Portanto, a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação está assegurada,
natórios existem espaços ecumênicos, capazes de concretizar o dispositivo constitucional previsto no inciso mas de modo que a sua excessiva ou imprópria manifestação não prejudique os direitos ou valores de uma
VII do art. 5º da Constituição. parcela da sociedade, como por exemplo, os menores.
Por fim, da mesma forma que se proíbe a censura, não se tolera a exigência de licença para o funciona-
Escusa de Consciência mento da imprensa ou para a circulação de suas publicações.

“VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou 2.8 – Inviolabilidade da Intimidade, da Vida Privada, da Honra e da Imagem
política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir
prestação alternativa, fixada em lei”. “X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurando o
direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”.
A escusa de consciência significa que ninguém está obrigado a cumprir uma obrigação legal a todos im-
posta, caso esta represente uma afronta às suas convicções religiosas, ideológicas ou políticas. Em resumo, O art. 5º, X, da CF, constitui uma garantia à privacidade dos indivíduos, protegendo sua intimidade e sua
a Constituição ampara a negativa do indivíduo, respeitando sua convicção, mas exigindo que se cumpra uma vida privada. Caso ocorra uma violação de qualquer dos direitos assegurados acima, poderá o prejudicado
alternativa fixada em lei. Assim, somente poderá ser exercido o direito de escusa de consciência, caso a obri- pleitear indenização pelo dano material ou moral decorrente da violação. Contudo, conforme observam Vi-
gação admita uma prestação alternativa. Não a admitindo, todos precisarão cumpri-la, mesmo aqueles que cente Paulo e Marcelo Alexandrino:
considerem sua realização uma afronta às suas convicções religiosas, filosóficas ou política.
Nesse sentido, importante é o alerta feito pela Prof.ª Marcelle Machado de Souza: “A indenização, na hipótese de violação a um desses bens da pessoa, poderá ser cumulativa, vale
dizer, poderá ser reconhecido o direito à indenização pelo dano material e moral, simultaneamente,
“ATENÇÃO: Nesse ponto, observamos a atuação do princípio da reserva legal onde a CF/88 fala “... se a situação ensejar. Segundo o Supremo Tribunal Federal, para a condenação por dano moral
prestação alternativa, fixada em lei”, não havendo, pois, amparo constitucional para obrigação alter- não se exige a ocorrência de ofensa à reputação do indivíduo. No entendimento da Corte Supre-
nativa criada por ato administrativo, por ordem judicial, por determinação do Ministério Público, por ma, a mera publicação não consentida de fotografias gera o direito à indenização por dano moral,
ordem policial ou por determinação de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).15” independentemente de ocorrência de ofensa à reputação da pessoa, porquanto, o uso indevido da
imagem, de regra, causa desconforto, aborrecimento ou constrangimento ao fotografado, que deve
Por fim, resta lembrar que o não cumprimento da obrigação legal a todos imposta e, também, o des- ser reparado”16.
cumprimento da prestação alternativa definida em lei, acarreta a privação de direitos, com a suspensão dos
direitos políticos. Na lição da Prof.ª Marcelle Machado de Souza, em obra anterior e conjunta publicada por essa mesma
editora:
“CF/88: Art. 15. É vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão só se dará nos
casos de: “A proteção constitucional ora consagrada com o respectivo direito à indenização refere-se tanto a
IV - recusa de cumprir obrigação a todos imposta ou prestação alternativa, nos termos do art. 5º, VIII;” pessoas naturais quanto a pessoas jurídicas, abrangendo, inclusive, a necessária proteção à pró-
pria imagem frente aos meios de comunicação em massa (televisão, rádio, jornais, revistas, etc.)
Assim, lembre-se: e, observando, ainda, que as mencionadas indenizações podem ser cumulativas. É imprescindível
que a manifestação do pensamento, a criação, a expressão, a informação e a livre divulgação dos
Descumprimento da Obrigação Geral fatos, de acordo com o disposto no artigo 5º, XIV, CR/88, sejam interpretadas em conjunto com a
+ inviolabilidade à honra e à vida privada do artigo 5º, X, CR/88, bem como com a proteção da ima-
Descumprimento da Obrigação Alternativa gem, sob pena de responsabilização do agente divulgador por danos materiais e morais (Art. 5º, V
= e X, CR/88). Assim, a proteção constitucional à informação é relativa, havendo a necessidade de
Suspensão dos Direitos Políticos. distinguir o que deve ser divulgado, como as informações de fatos de interesse público, do que se
enquadra, por exemplo, em vulneração de condutas íntimas e pessoais, protegidas pela inviolabili-
dade à vida privada, e que não podem ser devassadas de forma vexatória ou humilhante.17”
2.7 – Livre Expressão da Atividade Intelectual, Artística, Científica e de Comunicação
Mas, e no tocante às personalidades públicas? Qual deve ser a extensão do direito à inviolabilidade?
“IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente Conforme lição de Alexandre de Moraes,
de censura ou licença”.

16 ALEXANDRINO, Marcelo; PAULO, Vicente. Direito Constitucional Descomplicado. 4ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 2009.
15 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012. 17 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.

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“Em se tratando de personalidades públicas, o campo de interseção entre fatos de interesse público e 2.10 – Inviolabilidade de Correspondência
a vulneração de condutas íntimas e pessoais é muito grande. Nesses casos, a interpretação constitu-
cional ao direito de informação deve ser alargada, ao passo que a interpretação no que tange à vida “XII – é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das co-
privada e à intimidade deve ser restringida, pois por opção pessoal as chamadas ‘pessoas públicas’, municações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei
tais como políticos, atletas profissionais, artistas, entre outros, colocaram-se em posição de maior des- estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal”.
taque e interesse social. Todavia, mesmo em relação a essas pessoas públicas, a proteção constitu-
cional à vida privada, intimidade, dignidade e honra permanece intangível, não havendo possibilidade Numa interpretação literal, adotada de forma errônea por algumas bancas examinadoras e ao arrepio
de ferimento por parte de informações que não apresentem nenhuma relação com o interesse público da melhor doutrina e jurisprudência, somente as comunicações telefônicas poderiam ser objeto de violação
ou social, ou, ainda, com as funções exercidas por elas, fazendo com que os responsáveis por essas do seu conteúdo (interceptação da conversa), desde que por ORDEM JUDICIAL e para fins de investigação
informações sejam integralmente responsabilizados.18” criminal e instrução processual penal. Porém, essa não deve ser a interpretação real. A regra é a inviolabi-
lidade da correspondência, das comunicações telegráficas, de dados telefônicos. Contudo, em último caso,
2.9 – Asilo Inviolável por ordem judicial e quando não for possível a prova da prática delituosa por outros meios investigativos ou
processuais penais, a violação de todas as formas de comunicação será admitida.
“XI – a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do A interpretação acima, de cunho mais sistemático e teleológico, tem o objetivo de “salvaguardar o interes-
morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, se público e impedir que a proteção ao sigilo seja utilizada como incentivo à prática de atividades ilícitas”20. Não é
por determinação judicial”. outro, o posicionamento do Supremo Tribunal Federal.

No âmbito da interpretação constitucional, o termo “casa” deve ser entendido como sinônimo de pro- “Sigilo de dados. Quebra. Indícios. Embora a regra seja a privacidade, mostra-se possível o
priedade privada. Dessa forma, inclui não apenas a moradia, ou seja, a residência definitiva de uma pessoa, acesso a dados sigilosos, para o efeito de inquérito ou persecução criminais e por ordem
mas, também, todo e qualquer outro local privado que ocupe, inclusive profissionalmente. Assim, consultó- judicial, ante indícios de prática criminosa.” (HC 89.083, Rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 19-
rios, escritórios, quartos de hotéis e outras dependências privadas encontram-se abrangidas pela expressão. 8-2008, Primeira Turma, DJE de 6-2-2009.)
Trata-se de uma proteção constitucional consagrada às pessoas físicas e jurídicas, ninguém podendo
adentrar no domicílio inviolável, salvo nas hipóteses previstas. Assim, somente é possível violar a proprieda- “Conforme disposto no inciso XII do art. 5º da CF, a regra é a privacidade quanto à correspon-
de privada, sem o consentimento de seu proprietário ou possuidor, nas seguintes hipóteses. dência, às comunicações telegráficas, aos dados e às comunicações, ficando a exceção – a
quebra do sigilo – submetida ao crivo de órgão equidistante – o Judiciário – e, mesmo assim, para
A) DURANTE A NOITE: B) DURANTE O DIA: efeito de investigação criminal ou instrução processual penal. (...) Conflita com a Carta da Repú-
- EM CASO DE FLAGRANTE DELITO; - EM CASO DE FLAGRANTE DELITO; blica norma legal atribuindo à Receita Federal – parte na relação jurídico-tributária – o afastamento
- EM CASO DE DESASTRE; - EM CASO DE DESASTRE; do sigilo de dados relativos ao contribuinte.” (RE 389.808, Rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em
- PARA PRESTAR SOCORRO. - PARA PRESTAR SOCORRO 15-12-2010, Plenário, DJE de 10-5-2011.)
- POR ORDEM JUDICIAL.
D D S (Delito + Desastre + Socorro) D D S O (Delito + Desastre + Socorro + Ordem Judicial) Assim, por DECISÃO JUDICIAL é que será possível a obtenção de provas e informações constantes de
correspondências, dados, comunicações telegráficas ou telefônicas dos envolvidos (indiciados ou réus). Con-
Para o conceito de dia deve ser conjugado o critério de tempo com o critério físico-astronômico. A tudo, a decisão precisa ser FUNDAMENTADA, sob pena de nulidade e ilicitude das provas obtidas.
conjunção dos dois critérios permitiria, por exemplo, a violação do domicílio às 18h30 durante a vigência do
horário de verão, pois ainda não seria noite. Assim, o conceito de dia abrangeria o intervalo entre a aurora “São consideradas ilícitas as provas produzidas a partir da quebra dos sigilos fiscal, bancário e tele-
(nascer do sol) e o crepúsculo (pôr do sol). fônico, sem a devida fundamentação.” (...) “Ressaltou-se que a regra seria a inviolabilidade do sigi-
Na observação de Marcelle Machado de Souza: lo das correspondências, das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas
(CF, art. 5º, XII), o que visa, em última análise, a resguardar também direito constitucional à intimi-
“ATENÇÃO: dade (art. 5º, X). E, somente se justificaria a sua mitigação quando razões de interesse público,
1 - A possibilidade de violação constitucional por determinação judicial só existe durante o dia e não há devidamente fundamentadas por ordem judicial, demonstrassem a conveniência de sua violação
que se falar em determinação do Ministério Público, em ordem de Comissão Parlamentar de Inquéri- para fins de promover a investigação criminal ou instrução processual penal. No caso, o magistrado
to, em determinação policial ou previsão legal, pois trata-se, nesse caso, de reserva jurisdicional, uma de primeiro grau não apontara fatos concretos que justificassem a real necessidade da que-
competência exclusiva do Poder Judiciário. bra desses sigilos, mas apenas se reportara aos argumentos deduzidos pelo Ministério Público.
Asseverou-se, ademais, que a Constituição veda expressamente, no seu art. 5º, LVI, o uso da prova
2 - Questão dia / noite: para José Afonso da Silva, considera-se dia o período de 6h às 18h. Para obtida ilicitamente nos processos judiciais, no intuito precípuo de tutelar os direitos fundamentais dos
Alexandre de Morais deve ser adotado o critério misto que prevê a possibilidade de invasão domi- atingidos pela persecução penal.” (HC 96.056, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 28-6-2011,
ciliar com autorização judicial mesmo após às 18h, desde que ainda não seja noite (ex: horário de Segunda Turma, Informativo 633.)
verão), ou seja, seria utilizado um critério mais físico-astronômico considerando dia o período entre
a aurora e o crepúsculo.19”
18 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 17ª. Ed. São Paulo: Atlas, 2007.
19 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012. 20 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012

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Entretanto, conforme a própria jurisprudência do STF, existe uma exceção no tocante à necessidade de prescinde de controle. Constitui, ademais, manifestação artística protegida pela garantia da liberda-
ordem judicial para a violação da correspondência. Trata-se da comunicação epistolar de presos e detentos do de de expressão.” (RE 414.426, Rel. Min. Ellen Gracie, julgamento em 1º-8-2011, Plenário, DJE de
sistema prisional. 10-10-2011.) No mesmo sentido: RE 509.409, Rel. Min. Celso de Mello, decisão monocrática, julga-
mento em 31-8-2011, DJE de 8-9-2011.”
“A administração penitenciária, com fundamento em razões de segurança pública, de disciplina pri-
sional ou de preservação da ordem jurídica, pode, sempre excepcionalmente, e desde que respeitada “O jornalismo é uma profissão diferenciada por sua estreita vinculação ao pleno exercício das liberda-
a norma inscrita no art. 41, parágrafo único, da Lei 7.210/1984, proceder à interceptação da corres- des de expressão e de informação. O jornalismo é a própria manifestação e difusão do pensamento
pondência remetida pelos sentenciados, eis que a cláusula tutelar da inviolabilidade do sigilo epistolar e da informação de forma contínua, profissional e remunerada. Os jornalistas são aquelas pessoas
não pode constituir instrumento de salvaguarda de práticas ilícitas.” (HC 70.814, Rel. Min. Celso de que se dedicam profissionalmente ao exercício pleno da liberdade de expressão. O jornalismo e a
Mello, julgamento em 1º-3-1994, Primeira Turma, DJ de 24-6-1994.) liberdade de expressão, portanto, são atividades que estão imbricadas por sua própria natureza e não
podem ser pensadas e tratadas de forma separada. Isso implica, logicamente, que a interpretação
Por fim, quando um dos interlocutores é o responsável pela escuta ou interceptação do conteúdo de conversa, do art. 5º, XIII, da Constituição, na hipótese da profissão de jornalista, se faça, impreterivelmente,
não há que se falar em afronta ao art. 5º, XII, sob a alegação de ausência de ordem judicial. Não se trata de inter- em conjunto com os preceitos do art. 5º, IV, IX, XIV, e do art. 220 da Constituição, que asseguram as
ceptação telefônica ou violação do sigilo das comunicações. liberdades de expressão,de informação e de comunicação em geral. (...) No campo da profissão de
jornalista, não há espaço para a regulação estatal quanto às qualificações profissionais. O art. 5º, IV,
“Alegação de ofensa ao art. 5º, XII, LIV e LVI, da CF. Recurso extraordinário que afirma a existên- IX, XIV,ve o art. 220 não autorizam o controle, por parte do Estado, quanto ao acesso e exercício da
cia de interceptação telefônica ilícita porque efetivada por terceiros. Conversa gravada por um dos profissão de jornalista. Qualquer tipo de controle desse tipo, que interfira na liberdade profissional
interlocutores. Precedentes do STF. Agravo regimental improvido. Alegação de existência de prova no momento do próprio acesso à atividade jornalística, configura, ao fim e ao cabo, controle prévio
ilícita, porquanto a interceptação telefônica teria sido realizada sem autorização judicial. Não há inter- que, em verdade, caracteriza censura prévia das liberdades de expressão e de informação, expres-
ceptação telefônica quando a conversa é gravada por um dos interlocutores, ainda que com a ajuda samente vedada pelo art. 5º, IX, da Constituição. A impossibilidade do estabelecimento de controles
de um repórter.” (RE 453.562AgR, Rel. Min. Joaquim Barbosa, julgamento em 23-9-2008, Segunda estatais sobre a profissão jornalística leva à conclusão de que não pode o Estado criar uma ordem
Turma, DJE de 28-11-2008.) ou um conselho profissional (autarquia) para a fiscalização desse tipo de profissão. O exercício do
poder de polícia do Estado é vedado nesse campo em que imperam as liberdades de expressão e de
2.11 – Livre Exercício Profissional informação. Jurisprudência do STF: Rp 930, Rel. p/ o ac. Min. Rodrigues Alckmin, DJ de 2-9-1977.”
(RE 511.961, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 17-6-2009, Plenário, DJE de 13-11-2009.)
“XIII – é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profis-
sionais que a lei estabelecer”. 2.12 – Acesso à Informação e Sigilo da Fonte

Como mencionado anteriormente no tópico “classificação e aplicabilidade das normas constitucionais”, o "XIV – é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando neces-
dispositivo acima é uma norma constitucional de eficácia contida. Em regra, vigora a liberdade para o exercício sário ao exercício profissional”.
de qualquer ofício ou profissão, sem a necessidade de exigência ou regulamentação legal. Contudo, para de-
terminadas atividades, a lei poderá instituir as qualificações e os requisitos que julgar necessários, adequando Trata-se do direito de acesso à informação, tanto para informar, quanto para ser informado. Mas, como
e restringindo o exercício daquele ofício ou profissão aos ditames da legislação regulamentadora. todo direito fundamental, o direito de acesso à informação não é irrestrito, incondicionado ou absoluto.

“Não havendo lei regulamentando uma determinada profissão, trabalho ou ofício, qualquer pessoa, a “A proteção constitucional à informação é relativa, estendendo-se à informação de interesse público
qualquer tempo, e de qualquer forma, pode exercê-la como, por exemplo, as atividades do artesão, e coibindo a vulnerabilidade de condutas íntimas e pessoais, protegidas pelo direito à intimidade e
do marceneiro, do carnavalesco ou do detetive particular. Ao contrário, diante de uma lei que estabe- privacidade. A proteção constitucional não alcança as informações falsas, errôneas, não comprova-
leça uma qualificação profissional específica e pontual, somente aquele que atender ao exigido pela das ou levianamente divulgadas. Assim, a informação, que não se confunde com opinião, deve ser
lei poderá exercer o trabalho, o ofício ou a profissão, como em casos, por exemplo, de advogados, clara, objetiva e isenta.22”
médicos, engenheiros e pilotos de avião. A fiscalização sobre a regularidade do exercício e da qua-
lificação profissional compete ao Estado, às entidades de classe e às associações profissionais21”. No mesmo sentido lecionam Vicente Paulo e Marcelo Alexandrino:

Contudo, a regra é a liberdade para o exercício de uma profissão, somente sendo possível e cabível a lei “Consoante afirmado acima, o direito fundamental de acesso à informação, como ocorre com todos
regulamentadora quando presentes interesses de ordem pública e social. Assim, nem toda profissão poderá os demais, não é absoluto. Ele se refere, essencialmente, a informações que possam ser de interes-
ser objeto de regulamentação. Não foi outro o posicionamento do Supremo Tribunal Federal, ao julgar a regu- se público ou geral, não cabendo dele cogitar quando se trate de informações que digam respeito
lamentação das profissões de músico e de jornalista no Brasil. exclusivamente à intimidade e à vida privada do indivíduo, as quais são objeto de proteção consti-
tucional expressa (art. 5º, X). Por outras palavras, todos tem o direito de acesso a informações que
“Nem todos os ofícios ou profissões podem ser condicionadas ao cumprimento de condições legais possam ser de interesse geral, mas não existe um direito de acesso a informações que só interes-
para o seu exercício. A  regra é a liberdade. Apenas quando houver potencial lesivo na atividade sem à esfera privada de determinada pessoa.23”
é que pode ser exigida inscrição em conselho de fiscalização profissional. A atividade de músico
22 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012
21 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012 23 ALEXANDRINO, Marcelo; PAULO, Vicente. Direito Constitucional Descomplicado. 4ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 2009.

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Quanto ao sigilo da fonte, trata-se de resguardo fundamental para o exercício de determinadas profis- Dessa forma, NÃO EXISTE qualquer necessidade de AUTORIZAÇÃO por parte do Estado, mas, tão
sões (advocacia, jornalismo, psicologia, psiquiatria, dentre outras). Afinal, o sigilo é inerente ao exercício da somente, de uma comunicação à autoridade competente. O comunicado se mostra necessário para evitar a
atividade desenvolvida, não estando o profissional obrigado a revelar as informações obtidas no exercício da utilização concomitante de um mesmo espaço público por grupos ou eventos diversos. Assim, a comunica-
profissão. Contudo, importante é o alerta da Profª. Marcelle Machado de Souza: ção tem o objetivo de organizar o exercício do direito, de modo que possa ser melhor exercido por todos o
interessados.
“O sigilo ou anonimato da fonte não configura uma exceção à vedação do anonimato prevista no art. Mas, e se o direito for exercido para se manifestar a favor de uma descriminalização? Ou seja, contra a
5º, IV da CF/88, pois para toda e qualquer manifestação do pensamento, verbal ou escrita, é impres- definção de uma conduta, hoje, considerada criminosa? Por exemplo, uma marcha a favor da descriminaliza-
cindível a identificação. A fonte pode até ser sigilosa e ser mantida no anonimato, mas aquele que ção da machonha? Segundo entendimento do STF, não só é possível, como a Constituição garante a realiza-
divulga a informação deve ser devidamente identificado e responsabilizar-se por ela.24” ção da marcha, e do direito de reunião, desde que previamente comunicada à autoridade competente.

No mesmo sentido é o posicionamento de Alexandre de Moraes: “Por entender que o exercício dos direitos fundamentais de reunião e de livre manifestação do
pensamento devem ser garantidos a todas as pessoas, o Plenário julgou procedente pedido
“A CR/88 ao proclamar a inviolabilidade do sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional formulado em ação de descumprimento de preceito fundamental para dar, ao art. 287 do CP, com
tem como fim garantir a toda a sociedade uma ampla e total divulgação de fatos e notícias de interesse efeito vinculante, interpretação conforme a Constituição, de forma a excluir qualquer exege-
público, auxiliando, inclusive, a fiscalização da gestão da coisa pública e pretendendo evitar as arbitra- se que possa ensejar a criminalização da defesa da legalização das drogas, ou de qualquer
riedades do Poder Público, o que seria proporcionado pela restrição do acesso às informações. Desta substância entorpecente específica, inclusive através de manifestações e eventos públicos.
feita, a livre divulgação de informações, resguardando-se devidamente o sigilo da fonte, surge como (...) Destacou-se estar em jogo a proteção às liberdades individuais de reunião e de manifestação do
corolário da garantia constitucional do livre acesso à informação, sendo uma dupla garantia ao Estado pensamento. Em passo seguinte, assinalou-se que a liberdade de reunião, enquanto direito -meio,
Democrático de Direito ao passo que abrange a proteção à liberdade de imprensa e a proteção ao aces- seria instrumento viabilizador da liberdade de expressão e qualificar-se-ia como elemento apto a
so das informações pela sociedade.25” propiciar a ativa participação da sociedade civil na vida política do Estado. A praça pública, desse
modo, desde que respeitado o direto de reunião, passaria a ser o espaço, por excelência, para o
2.13 – Liberdade de Locomoção debate. E, nesse sentido, salientou-se que esta Corte, há muito, firmara compromisso com a pre-
servação da integridade das liberdades fundamentais contra o arbítrio do Estado. Realçou-se que a
“XV – é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos reunião, para merecer a proteção constitucional, deveria ser pacífica, ou seja, sem armas, violência
termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens”. ou incitação ao ódio ou à discriminação. Ademais, essa liberdade seria constituída por cinco elemen-
tos: pessoal, temporal, intencional, espacial e formal. Ponderou-se que, embora esse direito possa
Trata-se do direito de livre deslocamento pelo território nacional, podendo qualquer indivíduo nele entrar, ser restringido em períodos de crise institucional, ao Estado não seria permitido, em período de
sair ou permanecer com os seus respectivos bens em tempos de paz. Assim, a lesão ou ameaça de lesão ao normalidade, inibir essa garantia, frustrar -lhe os objetivos ou inviabilizá-la com medidas restritivas.
direito previsto, legitima qualquer pessoa a impetrar habeas corpus como forma de coibir ou evitar a afronta à Apontou-se, ademais, que as minorias também titularizariam o direito de reunião. Observou-se que
liberdade de locomoção, que é conferida a qualquer pessoa em território nacional (brasileiros e estrangeiros). isso evidenciaria a função contra majoritária do STF no Estado Democrático de Direito. Frisou-se,
Contudo, conforme já mencionado inúmeras vezes, nenhum direito fundamental é absoluto ou incondi- nessa contextura, que os grupos majoritários não poderiam submeter, à hegemonia de sua vonta-
cionado. Assim, em tempos de guerra ou durante a decretação de Estado de Sítio (art. 139, I), a liberdade de, a eficácia de direitos fundamentais, especialmente tendo em conta uma concepção material de
de locomoção poderá sofrer restrições, como, por exemplo, através da instituição de um “toque de recolher”, democracia constitucional. (...) Concluiu-se que a defesa, em espaços públicos, da legalização das
medida capaz de proibir a circulação de pessoas em espaços públicos durante o horário determinado. drogas ou de proposta abolicionista a outro tipo penal, não significaria ilícito penal, mas, ao contrá-
rio, representaria o exercício legítimo do direito à livre manifestação do pensamento, propiciada pelo
2.14 – Reunião pacífica, sem armas e em locais abertos ao público exercício do direito de reunião.” (ADPF 187, Rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 15-6-2011, Ple-
nário, Informativo 631.)
“XVI – todos podem reunir se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, indepen-
dentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o Diante do exposto, “o direito de reunião apresenta-se, ao mesmo tempo, como um direito individual em
mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”; relação a cada um dos participantes e um direito coletivo no tocante ao seu exercício conjunto, sendo uma ma-
nifestação coletiva da liberdade de expressão capaz de ensejar a livre discussão de ideias e sua publicidade.26”
O direito previsto acima assegura a liberdade de encontro e de reunião das pessoas em espaços de cir- Assim, conforme o próprio entendimento do STF, são elementos da liberdade de reunião:
culação pública (ruas, praças, parques, praias, etc.). Para o seu exercício é necessário que: Caráter pessoal e coletivo (pluralidade de partes): um direito ao mesmo tempo pessoal, mas também
1) a reunião seja pacífica e sem armas; coletivo, visto que as pessoas reunidas possuem finalidades e objetivos comuns.
2) a reunião seja para fins lícitos; Caráter temporal: o tempo deve ser limitado, não pode ser uma ocupação permanente, mas episódica e tem-
3) a reunião não frustre outra, marcada para o mesmo local, dia e horário; porária do espaço público.
4) o exercício do direito de reunião naquele espaço, dia e horário seja, SIMPLESMENTE, comunicado À Intenção (finalidade): precisa ter finalidade lícita. Como visto acima, se manifestar à favor da descriminaliza-
AUTORIDADE COMPENTENTE. ção das drogas não se trata de uma apologia criminosa, mas uma finalidade lícita.
Espacial (lugar): em logradouro ou espaço de livre circulação pública, mesmo que seja um percurso móvel
(caminhada ou passeata).
24 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012
25 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 17ª. Ed. São Paulo: Atlas, 2007. 26 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012

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Caráter formal: a realização do evento (desfile, passeata, comício, manifestação) precisa ser formalmente A pluralidade, a finalidade lícita e a ausência de caráter paramilitar também são considerados requisitos
COMUNICADA à autoridade competente. para a constituição das associações.
Por fim, caso o direito de reunião seja arbitrariamente lesado ou ameaçado de lesão, o remédico consti-
tucional cabível é o MANDADO DE SEGURANÇA. Não se trata de afronta à liberdade de locomoção, mas ao Associação x Reunião
direito líquido e certo de se reunir pacificamente e sem armas nos logradouros públicos. Afinal, a finalidade
principal não é a livre locomoção das pessoas que participam do ato (meio), mas o direito de se reunirem e de Associação Reunião
se manifestarem no espaço público. Permanente e contínua; Temporária, ocasional e eventual;
Poder adquirir personalidade jurídica; Nunca terá personalidade jurídica;
2.15 – Liberdade de Associação Direção única (presidente e diretores, conforme estatuto). Pode possuir múltiplos líderes e direção.

“XVII – é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar”;
“XVIII - a criação de associações e, na forma da lei, a de cooperativas independem de autorização,
“XX – ninguém poderá ser compelido a associar-se ou a permanecer associado”;
sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento”;

Trata-se de um direito coletivo, pois mesmo que caiba a cada associado a liberdade associativa (asso-
A criação de associações e cooperativas independe de autorização do Poder Público, que também não
ciar-se ou não), uma associação é necessariamente uma pluralidade de pessoas reunidas institucionalmente
poderá interferir nas gestões das respectivas entidades.
com vistas a alcançar um fim comum.
Contudo, uma cooperativa está sujeita a regras especiais de fiscalização, devendo sua gestão seguir os
São exemplos: a associação de moradores de bairro, a associação de donas de casa, a associação de
parâmetros legais de atuação, tais como:
aposentados, dentre tantas outras.

- a criação de um Conselho Fiscal;


“As associações pressupõem coligação de pessoas, mas se diferenciam das meras reuniões, trata-
das em tópico precedente, porque aquelas tem caráter de permanência, de continuidade, ao passo
- a não remuneração de cargos de comando;
que estas são sempre temporárias, ocasionais, eventuais. Ademais, as reuniões nunca são entida-
des personificadas, enquanto as associações tem possibilidade de adquirir personalidade jurídica.27”
- a reaplicação dos excedentes financeiros nos objetivos da cooperativa.

“As associações tratadas nesses incisos devem ser entendidas em sentido amplo, abrangendo in-
“A interferência estatal na constituição ou no funcionamento de uma associação, cooperativa, parti-
clusive os partidos políticos e as entidades sindicais” (...). “A liberdade de associação envolve quatro
do político ou sindicato acarreta responsabilização penal (abuso de autoridade), político-administra-
direitos: a) criar associação (e cooperativas, na forma da lei); b) aderir a qualquer associação, pois
tiva e civil. No entanto, a fiscalização se difere da interferência ou intervenção, sendo que o Poder
ninguém será obrigado a associar-se; c) desligar-se da associação, pois ninguém será obrigado a
Público não só pode como deve fiscalizar o funcionamento e o exercício das atividades dessas en-
permanecer associado; d) dissolver espontaneamente a associação, já que não se pode compelir a
tidades associativas.30”
associação a existir.28”

Outro ponto importante e recorrente em provas e concursos é a questão da SUSPENSÃO e da DISSO-


São características (elementos) das associações:
LUÇÃO das associações. Conforme o texto constitucional:

- pluralidade de participantes: duas ou mais pessoas;


“XIX - as associações só poderão ser compulsoriamente dissolvidas ou ter suas atividades suspen-
sas por decisão judicial, exigindo-se, no primeiro caso, o trânsito em julgado”;
- tempo caráter de permanência e continuidade;

Assim:
- finalidade lícita: a natureza e os fins de atuação da associação precisam ser lícitos (associação filan-
trópica, associação de empresários, associação sindical, associação política, etc).
- a Supensão Compulsória da Associação pode ser feita por qualquer decisão judicial. Por exem-
plo, uma decisão liminar proferida por um juiz de 1ª instância (1º grau).
- ausência de caráter paramilitar.

- a Dissolução (Extinção) Compulsória da Associação requer decisão judicial transitada em


“Associação paramilitar é aquela em que as pessoas que dela participam, reunindo-se com ou sem
julgado.
armas, são conduzidas ao adestramento, ao manejo de armas ou são submetidas a rígidas regras
hierárquicas, aproximando-se, por isso, de uma facção militar. A existência de um ou alguns desses
Contudo, conforme a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, a suspensão ou a dissolução compul-
requisitos pode indicar a existência de associação de caráter paramilitar. Assim, a CF/88 determinou
sória de uma associação deve ter por fundamento a atuação ilícita da associação.
que forças militares são exclusivas do Poder Público”29.

“Cabe enfatizar, neste ponto, que as normas inscritas no art. 5º, XVII a XXI, da atual CF protegem
as associações, inclusive as sociedades, da atuação eventualmente arbitrária do legislador e do
27 PAULO, Vicente; ALEXANDRINO, Marcelo. Direito Constitucional Descomplicado. Rio de Janeiro: Impetus, 2007..
28 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.
29 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012. 30 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.

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administrador, eis que somente o Poder Judiciário, por meio de processo regular, poderá de- A função social da propriedade encontra-se definida pela própria Constituição.
cretar a suspensão ou a dissolução compulsória das associações. Mesmo a atuação judicial
encontra uma limitação constitucional: apenas as associações que persigam fins ilícitos pode- “CF/88: Art. 182, § 2º A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências
rão ser compulsoriamente dissolvidas ou suspensas. Atos emanados do Executivo ou do Legis- fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor.”
lativo, que provoquem a compulsória suspensão ou dissolução de associações, mesmo as que pos-
suam fins ilícitos, serão inconstitucionais.” (ADI 3.045, voto do Rel. Min. Celso de Mello, julgamento “CF/88: Art. 186. A função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente,
em 10-8-2005, Plenário, DJ de 1º-6-2007.) segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos:
I - aproveitamento racional e adequado;
Representação Processual vs. Substituição Processual II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente;
III - observância das disposições que regulam as relações de trabalho;
“XXI – as entidades associativas, quando expressamente autorizadas, têm legitimidade para repre- IV - exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores.”
sentar seus filiados, judicial ou extrajudicialmente”.
2.17 – Desapropriação
As associações podem defender seus filiados judicial ou extrajudicialmente (administrativamente), desde
que expressamente autorizadas pelos próprios associados, seja no momento da associação, ou mesmo, pos- “XXIV – a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade públi-
teriormente. Além disso, é importante não confundir o instituto da representação processual (art. 5º, XXI) dos ca, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos
associados com sua substituição processual (art. 5º, LXX, b), visto que ambas as hipóteses estão previstas. previstos nesta Constituição”.

“O artigo 5º, XXI da CF/88 aborda regra processual que confere legitimidade “ad causam” para que as Como visto anteriormente, o direito de propriedade não é um direito incondicionado e absoluto. Assim,
associações defendam em juízo o direito de seus associados. Nessa hipótese genérica, temos o caso poderá ocorrer a desapropriação da propriedade privada, transferido-a para o domínio do poder publico. Uma
de representação processual, sendo, pois, indispensável a autorização expressa e específica para desapropriação pode ser :
atuação da associação, podendo essa autorização ser firmada individualmente ou em assembleia dos
associados. No entanto, o artigo 5º, LXX da CF/88 menciona também a possibilidade de uma asso- • por necessidade pública (situações de emergência, nas quais a desapropriação é imprescindível);
ciação representar o direito de seus associados no mandado de segurança coletivo, mas nesse caso
temos o instituto da substituição processual, no qual a associação defende em nome próprio direito • por utilidade pública (conveniente para a Administração Pública, mas não imprescindível), ou;
alheio, não se exigindo, portanto, a autorização expressa e específica dos associados para a impetra-
ção dessa ação coletiva, bastando para tanto a autorização genérica constante dos atos constitutivos • por não atender sua função social (desapropriação sanção, para sua utilização de forma mais
da associação.31” adequada ao interesse social).

2.16 – Direito de Propriedade “O Poder Público pode, observadas as condições jurídicas, determinar a transferência compulsória
da propriedade particular para o patrimônio público. A desapropriação é, pois, uma forma originária
“XXII – é garantido o direito de propriedade”; de aquisição de propriedade pelo Estado envolvendo um processo administrativo pelo qual o Poder
“XXIII – a propriedade atenderá sua função social”. Público, mediante prévia declaração de necessidade pública, utilidade pública ou interesse social,
impõe ao proprietário a perda de um bem, substituindo-o em seu patrimônio por uma justa indeni-
A livre iniciativa é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. Assim, o sistema econômico zação. Através da desapropriação, o Estado está apto a superar os obstáculos decorrentes da pro-
adotado pelo Brasil é o capitalismo, que tem como uma de suas características mais importantes o direito de priedade privada para a realização de obras e serviços públicos como, por exemplo, a criação de
propriedade. O direito de usar, gozar, fruir e dispor da coisa, bem como impedir que outra pessoa possa dis- reservas ambientais e a construção de rodovias.33”
por da coisa que é sua. Contudo, o direito de propriedade não é absoluto, pois a função social da propriedade
deve ser respeitada. Além do exposto anteriormente, a desapropriação requer:

“Função social: Enseja caracterizar a concepção social que a propriedade privada deve atender; dá à • que a indenização seja prévia (paga em dinheiro ou em títulos públicos);
propriedade um atributo coletivo, não apenas individual; a propriedade não é um direito que se exerce
apenas pelo dono de alguma coisa, mas também como esse dono o exerce em relação a terceiros; • que a indenização seja justa: o valor a ser pago pela desapropriação deve corresponder ao valor
além de um direito da pessoa, a propriedade é também um encargo contra essa, que fica constitucio- de mercado, de modo a não promover o enriquecimento ilícito do Poder Público.
nalmente obrigada a retribuir ao grupo social um benefício pela manutenção e uso da propriedade; é
preciso que a propriedade não seja mero objeto de valorização especulativa, produzindo, direta ou indi- • que o pagamento da indenização seja em dinheiro, exceto na desapropriação-sanção e na expro-
retamente, benefícios à comunidade.32” priação, chamada por alguns autores de desapropriação confiscatória.

Desapropriação-sanção: a propriedade não atende sua função social.


31 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.
32 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012. 33 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.

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Art. 182, §4º, III da CF/88 (indenização por títulos da dívida pública) desta para o pagamento de dívidas seria o mesmo que condenar o pequeno colono à fome e à mar-
Art. 184 da CF/88 (indenização por títulos da dívida agrária) ginalização das favelas nas cidades. Para isso, o constituinte fixou que a pequena propriedade rural
não é penhorável.34”
Expropriação (desapropriação confiscatória): a propriedade é utilizada para práticas ilícitas.
Contudo, conforme cobrança frequente em provas e concursos:
Art. 243 da CF/88, (não há indenização nos casos de terras nas quais sejam cultivadas plantas
psicotrópicas).
• a PROPRIEDADE RURAL deve ser PEQUENA e TRABALHADA PELA FAMÍLIA nos termos da Lei
“CF/88: Art. 243. As propriedades rurais e urbanas de qualquer região do País onde forem localiza- (Lei 4504/64 – Estatuto da Terra);
das culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou a exploração de trabalho escravo na forma da lei se-
rão expropriadas e destinadas à reforma agrária e a programas de habitação popular, sem qualquer “Art. 4º Para os efeitos desta Lei, definem-se:
indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei, observado, no que
II - “Propriedade Familiar”, o imóvel rural que, direta e pessoalmente explorado pelo agricultor e sua
couber, o disposto no art. 5º.(Redação dada pela Emenda Constitucional nº 81, de 2014)
família, lhes absorva toda a força de trabalho, garantindo-lhes a subsistência e o progresso social
Parágrafo único. Todo e qualquer bem de valor econômico apreendido em decorrência do tráfico ilíci-
e econômico, com área máxima fixada para cada região e tipo de exploração, e eventualmente
to de entorpecentes e drogas afins e da exploração de trabalho escravo será confiscado e reverterá
trabalho com a ajuda de terceiros;”
a fundo especial com destinação específica, na forma da lei. (Redação pela Emenda Constitucional
nº 81, de 2014) • A dívida/financiamento deve ser adquirida em razão da atividade produtiva. Exemplo: a compra de
um trator, o financiamento da safra, etc.
2.18 – Requisição Administrativa

“XXV – no caso de iminente perigo público, a autoridade competente poderá usar de propriedade 2.20 – Direitos Autorais
particular, assegurada ao proprietário indenização ulterior, se houver dano”.
“XXVII – aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas
A requisição administrativa não é uma desapropriação, mas um ato administrativo excepcional, no qual obras, transmissível aos herdeiros, pelo tempo que a lei fixar”.
o poder público requisita (determina) a utilização provisória de uma propriedade por razões de iminente pe-
rigo público. Na requisição administrativa não ocorre a transferência da propriedade, visto ser uma utilização O objetivo é proteger a propriedade intelectual e imaterial dos autores com relação aos direitos morais
temporária pelo Poder Público. Contudo, caso ocorra algum dano à propriedade em virtude da requisição ad- e patrimoniais sobre as obras criadas. Os direitos autorais “são considerados bens móveis e podem ser alie-
ministrativa, deverá o Estado indenizar o proprietário. nados, doados, cedidos ou locados, ressaltando que a permissão para a utilização de criações artísticas por
É o caso de uma perseguição policial, no qual a autoridade policial pode fazer uso de um automóvel terceiros é direito do autor.35”
particular para perseguir o fugitivo. Ao final da operação, caso existam avarias no automóvel, deverá o Poder Os direitos autorais pertencem ao autor por tempo indeterminado e, após sua morte, aos herdeiros pelo
Público indenizar o proprietário. tempo que lei fixar. Este prazo encontra-se, atualmente, regulado pela Lei 9.610/98:

Requisição X Desapropriação “Lei 9.610/98: Art. 41. Os direitos patrimoniais do autor perduram por setenta anos contados de 1°
de janeiro do ano subsequente ao de seu falecimento, obedecida a ordem sucessória da lei civil.
Requisição Desapropriação Parágrafo único. Aplica-se às obras póstumas o prazo de proteção a que alude o caput deste artigo.”
Para bens e serviços; Para bens;
Trata-se de uso da propriedade; Trata-se de aquisição da propriedade;
Para necessidades transitórias; Para necessidades permanentes da coletividade;
2.21 – Direitos Autorais sobre obras coletivas
Indenização posterior e se houver dano. Indenização prévia, justa e em dinheiro, exceto quando a
propriedade não atende sua função social. “XXVIII – são assegurados, nos termos da lei:
a) a proteção às participações individuais em obras coletivas e à reprodução da imagem e voz hu-
manas, inclusive nas atividades desportivas;
2.19 – Impenhorabilidade da Pequena Propriedade Rural b) o direito de fiscalização do aproveitamento econômico das obras que criarem ou de que participa-
rem aos criadores, aos intérpretes e às respectivas representações sindicais e associativas”.
“XXVI – a pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que trabalhada pela família, não
será objeto de penhora para pagamento de débitos decorrentes de sua atividade produtiva, dispondo Trata-se de uma proteção para obras coletivas, tais como novelas, filmes, peças de teatro, jogos de fute-
a lei sobre os meios de financiar o seu desenvolvimento”. bol, etc. Conforme definição da Lei 9.610/98, obra coletiva é aquela “criada por iniciativa, organização e res-
ponsabilidade de uma pessoa física ou jurídica, que a publica sob seu nome ou marca e que é constituída pela
A pequena propriedade rural goza de impenhorabilidade em face do não pagamento de financiamentos participação de diferentes autores, cujas contribuições se fundem numa criação autônoma (art. 5º, VIII, h)”.
obtidos em razão da sua atividade produtiva. Sobre o assunto, comum é o questionamento sobre o chamado “Direito de Arena”. Trata-se de uma
consequência natural, decorrente da produção da obra coletiva. Como sua produção é conjunta e coletiva, a
“Tem o intuito de apoiar o desenvolvimento rural no país, evitando, assim, o superpovoamento das ci-
34 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.
dades. Como o pequeno proprietário subsiste do que colhe e produz em sua terra, tolerar a penhora 35 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.

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participação financeira no resultado da exploração econômica da obra deve ser proporcional à participação O dispositivo em análise representa uma exceção à soberania jurídica do Estado brasileiro, na medida
de cada um. O direito de arena está presente, por exemplo, nas atividades desportivas, regulado pelo art. 42 em que admite a aplicação da lei estrangeira em territoróiro nacional, desde que mais favorável ao herdeiros
da Lei 9.615/98.
“A soberania jurídica de um Estado se revela na possibilidade e na prerrogativa de apenas aplicar a
Art. 42. Pertence às entidades de prática desportiva o direito de arena, consistente na prerrogativa sua própria legislação no seu território. O reconhecimento da possibilidade de aplicação, em territó-
exclusiva de negociar, autorizar ou proibir a captação, a fixação, a emissão, a transmissão, a retrans- rio brasileiro, de legislação estrangeira, configura exceção a este postulado. A presente norma visa
missão ou a reprodução de imagens, por qualquer meio ou processo, de espetáculo desportivo de proteger os herdeiros brasileiros em relação à sucessão de bens de estrangeiros situados no país,
que participem. (Redação dada pela Lei nº 12.395, de 2011). determinando a aplicação da lei mais favorável.
Duas situações:
Por fim, garante o texto constitucional o direito de “fiscalização do aproveitamento econômico das obras 1) Se a lei nacional do “de cujus” estrangeiro domiciliado no Brasil for mais favorável ao cônjuge supérstite
que criarem ou de que participarem”, seja individualmente ou através das associações, entidades ou sindica- ou aos filhos brasileiros será aplicado o ordenamento jurídico do Estado de origem do estrangeiro (critério
tos. Como exemplo, cite-se o ECAD - Escritório Central de Arrecadação e Distribuição que, administrado por do “jus patriae”).
nove associações de gestão coletiva musical​, é o responsável pela proteção, fiscalização e arredação dos 2) Se o “de cujus” estrangeiro não for domiciliado no Brasil, nem o seu estatuto pessoal mais favorável ao côn-
direitos autorais decorrentes da exploração econômica da produção musical de seus associados. juge supérstite ou aos filhos brasileiros, a sucessão dos bens localizados em território brasileiro será regida
pelo direito brasileiro (critério do “fórum rei sitae”).38”
2.22 – Propriedade Intelectual
2.25 – Da Defesa do Consumidor
“XXIX – a lei assegurará aos autores de inventos industriais privilégio temporário para sua utiliza-
ção, bem como proteção às criações industriais, à propriedade das marcas, aos nomes de empresas “XXXII – o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor:”
e a outros signos distintivos, tendo em vista o interesse social e o desenvolvimento tecnológico e
econômico do país”. Segundo o texto constitucional, a defesa do consumidor é um direito fundamental, bem como um dos prin-
cípios da ordem econômica. Com vistas a regulamentar a proteção e defesa do consumidor e garantir a croncre-
Este direito fundamental encontra-se regulado pela Lei 9.279/96, que, assim como os direitos autorais, tização do citado princípio, foi aprovado em 1990 a Lei 8.078 - o Código de Defesa do Consumidor. Este define
considera a propriedade intelectual um bem móvel. consumidor como:

“A lei garante o uso exclusivo dos inventos industriais, por tempo determinado, aos seus criadores. “Lei 8.078/90 - Art. 2° Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou
Essa garantia se efetiva por meio do registro da patente (vigora pelo prazo de 20 anos) ou do modelo serviço como destinatário final.
de utilidade (vigora pelo prazo de 15 anos). Assim, pode ser patenteável a invenção que seja novi- Parágrafo único. Equipara-se ao consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, que
dade, uma atividade inventiva que tenha aplicação industrial e também pode ser apenas quan- haja intervindo nas relações de consumo.”
do a invenção resulta em melhoria funcional em seu uso ou fabricação, o que é denominado
modelo de utilidade. A proteção também é estendida às marcas (sinais distintivos visualmente 2.26 – Acesso a informações dos órgãos públicos
perceptíveis), que são adquiridas como propriedade mediante o efetivo registro, cujo prazo para
uso exclusivo assegurado em todo território nacional é de 10 anos, prorrogável por períodos “XXXIII – todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou
iguais ou sucessivos.36” de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade,
ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado”.
2.23 – Direito de Herança
O dispositivo afirma o Princípio da Publicidade dos Atos de Governo. Aqui, o que a Constituição pre-
“XXX – é garantido o direito de herança”. tende garantir é a publicidade e a transparência como a regra para os atos de governo. Afinal, qualquer pessoa
poderá pleitear informações de interesse particular ou de interesse coletivo/geral das repartições públicas.
O direito à herança é uma decorrência do direito de propriedade, sendo seu estudo comum ao Direito
Civil. Entende-se por herança, “o conjunto de direitos e deveres que se transmitem aos herdeiros legítimos e “(...) esse direito ao recebimento de informações está inserido em um regime democrático e é próprio
testamentários”37. do modelo republicano, por ser um instrumento indispensável na fiscalização e responsabilização
do governo. Diante desse princípio, o requerente pode postular informações em que tenha interesse
2.24 – Sucessão de Bens de Estrangeiros particular, mas também pode fazê-lo em relação àquelas em que tenha interesse remoto, posto que
interessem à coletividade, à sociedade.39”
“XXXI – a sucessão de bens de estrangeiros situados no País será regulada pela lei brasileira em
benefício do cônjuge ou dos filhos brasileiros, sempre que não lhes seja mais favorável a lei pessoal Dessa forma, qualquer pessoa (física ou jurídica) tem assegurado o direito de receber dos órgãos públi-
do de cujus”; cos informações de cunho particular ou coletivo. Nesse sentido, um cidadão pode tanto solicitar à prefeitura
informações relativas ao seu imóvel (interesse particular), bem como informações de interesse coletivo ou

36 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012. 38 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.
37 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012. 39 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.

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Sala Virtual de Estudos - Direito Constitucional Prof. Emerson Bruno - Fascículo 3 - Direitos e Deveres Individuais e Coletivos (Art. 5º, CF88)

geral, como por exemplo, o contrato administrativo celebrado entre a prefeitura e a empresa de limpeza urba- No mesmo sentido é o posicionamento da Prof.ª Marcelle Machado de Souza:
na do seu município.
Entretanto, o direito de informação não é absoluto, visto que o poder público, sob o argumento de segu- “Trata-se de instrumento que pode ser utilizado por qualquer pessoa para levar ao conhecimento dos
rança da sociedade e do Estado, poderá restringir o direito de acesso à informação dos cidadãos e das pes- Poderes Públicos fato ilegal ou abusivo, contrário ao interesse público, a fim de que sejam tomadas me-
soas em geral. Na lição da Prof.ª Marcelle Machado de Souza: didas necessárias para sanar a ilegalidade ou se caracteriza, ainda, como instrumento para a defesa
de direitos perante os órgãos do Estado. Sua natureza jurídica é de prerrogativa de cunho democrático-
“Interesse particular: É aquele em que predomina, ou é o único, o interesse da própria pessoa na -participativo. Exige forma escrita, mas é absolutamente informal no que se refere aos seus requisitos e
informação. Subdivide-se em interesse sobre informação da própria pessoa e outros interesses par- pressupostos para apresentação, pois dispensa, inclusive, a representação por advogado. Trata-se de
ticulares. O primeiro é judicialmente defensável por “habeas data” (art. 5º, LXXII). Os demais, pelo direito de pedir, requerer, solicitar no âmbito administrativo e não judicial, assim, o direito de petição
mandado de segurança (art. 5º, LXIX). não se confunde nem substitui o direito de ação.42”

Interesse coletivo: É aquele que diz respeito a um grupo certo e determinado, reconhecível por in- Qualquer pessoa física ou jurídica, nacional ou estrangeira está legitimada ao exercício do direito de petição
teresses comuns. É protegido pelo mandado de segurança. perante os Poderes Públicos, seja junto ao Legislativo, ao Executivo, ao Judiciário, bem como ao Ministério Pú-
blico. Assim, trata-se de uma legitimação universal. No caso de negativa arbitrária e ilegal ao exercício do direito,
Interesse geral: É o interesse de todo o grupo social, sem distinção por segmentos ou setores. É o remédio constitucional a ser manejado pelo interessado é o mandado de segurança.
defensável por mandado de segurança. Quanto ao direito de obter certidões (direito de certidão), trata-se de uma garantia de natureza individual.
Dessa forma, o Poder Público está obrigado a expedir a certidão quando ela se destinar à defesa de direitos ou
Informações não obteníveis: Somente é admitida a não-prestação de informações pelos órgãos esclarecimento de interesse particular ou pessoal do requerente. Assim, sua legitimação é universal, da mesma
públicos quando essa for de natureza sigilosa, imprescindível para a segurança do Estado e da so- forma como ocorre com o direito de petição. Contudo, o remédio constitucional cabível em virtude de lesão a esse
ciedade, como as relativas às Forças Armadas, à segurança nacional, às reservas energéticas e à direito liquido e certo do requerente, não é o mandado de segurança, mas o habeas data. Afinal, trata-se de um
matéria radioativa, por exemplo. Sendo assim, a publicidade dos atos de governo não é um princípio informação de cunho pessoal do interessado.
absoluto.40”
2.28 – Acesso à Justiça
2.27 – Direito de Petição e Obtenção de Certidões
“XXXV – a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”;
“XXXIV – são a todos assegurados, independentemente do pagamento de taxas:
a) o direito de petição aos poderes públicos em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de Trata-se do Princípio Constitucional de Acesso à Justiça, também chamado de Inafastabilidade da
poder; Jurisdição ou, simplesmente, do Direito de Ação. O princípio constitucional da separação dos poderes (art. 2º)
b) a obtenção de certidões em repartições públicas, para defesa de direitos e esclarecimento de consagra ao Poder Judiciário o exercício da jurisdição enquanto sua função típica. Assim, compete ao Judiciário
situações de interesse pessoal”. dizer o Direito de forma concreta, aplicando a lei e demais fontes do Direito à solução dos conflitos que forem
levados ao seu conhecimento.
Trata-se de um direito e ao mesmo tempo de um instrumento para o exercício da cidadania. Afinal, o pe-
ticionamento pode ser para a defesa de direitos de interesse da própria pessoa, bem como para denunciar “Trata-se de princípio relacionado à própria estrutura jurídico-política do Estado brasileiro, especialmen-
e/ou provocar uma ação do Estado no tocante à legalidade ou abuso de poder no desempenho da atividade te no que tange à Separação dos Poderes, consagrando ao Poder Judiciário o monopólio da jurisdição,
administrativa. Porém, é um direito de natureza administrativa (peticionamento administrativo), não se con- a prerrogativa de decidir definitivamente, com força de coisa julgada, sobre as lesões e ameaças de
fundindo com o direito de ação, cujo peticionamento se dá perante os órgãos do Poder Judiciário. Na lição de lesão a direitos.43”
Vicente Paulo e Marcelo Alexandrino:
Legitimados: a legitimação é universal, pois qualquer pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional
“O direito de petição, de natureza eminentemente democrática e informal (não há necessidade de ou estrangeira poderá provocar o poder judiciário em caso de lesão ou ameaça de lesão a direito.
assistência advocatícia), assegura ao indivíduo, ao mesmo tempo, participação política e possibili- No tocante à gratuidade ou não da Justiça, o princípio constitucional de inafastabilidade da jurisdição não
dade de fiscalização na gestão da coisa pública, sendo um meio para tornar efetivo o exercício da impede a cobraça de custas judiciais (taxas judiciárias) por parte do Poder Judiciário. O que não pode ser tolerado
cidadania. É o instrumento de que dispõe qualquer pessoa para levar ao conhecimento dos poderes é a cobrança excessiva, de modo a ser criado um obstáculo capaz de dificultar ou até mesmo impedir o exercício
públicos fato ilegal ou abusivo, contrário ao interesse público, para que sejam adotadas as medidas do direito de ação.
necessárias. Poderá, também, ser o instrumento para a defesa de direitos perante os órgãos do Também é importante perceber que no Brasil não existe, como regra, a jurisdição condicionada ou de curso
Estado.41” forçado. Ou seja, o esgotamento da via administrativa não constitui etapa ou condição para que se provoque o
Poder Judiciário. Assim, aquele que se sentir lesado ou ameaçado de lesão, poderá ingressar com uma ação
judicial, tendo exercido ou não o seu direito de petição, de tentar resolver o seu conflito administrativamente (via
administrativa, por processo administrativo). Contudo, existe uma expressa e única exceção à inexistência da ju-
risdição condicionada ou de curso forçado. Os conflitos desportivos, conforme disposto no art. 217, §1º da CF88.

40 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012. 42 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.
41 PAULO, Vicente; ALEXANDRINO, Marcelo. Direito Constitucional Descomplicado. Rio de Janeiro: Impetus, 2007. 43 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.

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“CF88 - Art. 217, § 1º O Poder Judiciário só admitirá ações relativas à disciplina e às competições Assim, a Constituição não permite a instituição de um juízo ou tribunal de exceção. Ou seja, criado após
desportivas após esgotarem-se as instâncias da justiça desportiva, regulada em lei.” a ocorrência do fato ou crime a ser julgado. Nem mesmo em períodos de instabilidade institucional, como por
exemplo durante a decretação de Estado de Sítio, é permitida a existência de juízos ou tribunais de exceção,
“Assim, no que tange às questões judiciais envolvendo os conflitos oriundos das atividades despor- devendo qualquer pessoa (física ou jurídica, nacional ou estrangeira) ser julgada pela autoridade competente
tivas, o Poder Judiciário só admitirá ações relativas à disciplina e às competições desportivas após previamente definida pelas leis processuais e de organização judiciária.
esgotarem-se as instâncias da justiça desportiva, regulada em lei, tendo a Justiça desportiva o prazo
máximo de sessenta dias, contados da instauração do processo, para proferir sua decisão final. Des- “Encontra-se previsto nos dois incisos supracitados do artigo 5º e significa o seguinte:
sa forma, a Justiça Desportiva tem a atribuição de julgar, exclusivamente, as questões relacionadas - Todos têm direito a um julgamento imparcial, isento, independente e proferido por uma autoridade
à disciplina e às competições desportivas.44” competente para tanto;
- A instauração de qualquer juízo ou Tribunal Especial não previsto na Constituição e, portanto, não
Por fim, registre-se que a Justiça Desportiva é um órgão privado de cunho administrativo para a solução elencado dentre os componentes da estrutura judiciária assentada no art. 92 da CF/88 terá sua exis-
dos conflitos desportivos. Assim, não integra o Poder Judiciário. Exemplo é o STJD - Superior Tribunal de tência, suas decisões e seu funcionamento declarados inconstitucionais por configurarem juízos de
Justiça Desportiva, responsável pelas querelas futebolísticas nas competições organizadas pela Confederação exceção;
Brasileira de Futebol - CBF. - Ficam vedados os juízos extraordinários constituídos após o fato, para o julgamento de determina-
do caso ou pessoa;
2.29 – Direito Adquirido, Ato Jurídico Perfeito e Coisa Julgada - Somente podem prestar jurisdição os órgãos dotados de poder jurisdicional.”46

“XXXVI – a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada”;

Também conhecido como Princípio da Segurança Jurídica ou Princípio da Não-retroatividade das leis.
Neste ponto, o grande objetivo é conferir segurança e estabilidade jurídica às relações pactuadas na so-
ciedade. Dessa forma, a Constituição garante:
- o respeito ao direito adquirido;
- o respeito ao ato jurídico perfeito;
- o respeito à coisa julgada.
Assim, na esfera civil, mesmo com a edição de uma nova lei, os direitos, contratos, atos jurídicos e de-
cisões judiciais que cumpriram seus requisitos de constituição antes da alteração legislativa, permanecem
pactuados e garantidos. Conceituando cada um dos itens acima, ensina a Prof.ª Marcelle Machado de Souza:

“Direito adquirido: Aquele que já se incorporou ao patrimônio e à personalidade de seu titular, pelo
aperfeiçoamento de algum ato que o confere, e do domínio dessa pessoa não pode ser retirado.
Surge em decorrência de um fato lícito, amparado por lei, não podendo ser subtraído de seu titular
pela entrada em vigor de uma lei nova.
Ato Jurídico Perfeito: É o ato que, ao tempo de sua ocorrência, preenche todos os requisitos
exigidos em lei, quais sejam: sujeito capaz, objeto lícito e forma prescrita ou não defesa em lei.
Coisa julgada: É a decisão judicial irrecorrível, contra a qual não cabe mais recurso. Ocorre no
âmbito do processo judicial quando a decisão não for mais passível de impugnação, tornando-se,
pois, imutável.45”

2.30 – Princípio do Juízo Natural

“XXXVII – não haverá juízo ou tribunal de exceção”;


“LIII – ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente”.

No tocante ao exercício da atividade jurisdicional, trata-se de um dos mais importantes princípios consti-
tucionais. A imparcialidade é uma das características essenciais de quem julga, de quem deve dizer o direito
às partes conflituosas. Dessa forma, tendo em vista cada caso concreto, é indispensável a existência de ór-
gãos e autoridades judiciárias preconcebidas e previamente autorizadas. Todas com competências definidas
por lei para o exercício da atividade jurisdicional.

44 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.
45 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012. 46 SOUZA, Marcelle Machado. FREITAS, Emerson Bruno Oliveira. Direito Constitucional. Belho Horizonte. Editora Atualizar, 2012.

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