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O valor e o custo da electricidade produzida por sistemas Solares

(Fotovoltaicos)

(Levelised Cost of Electricity – LCOE, incentivos, política energética)

por

Manuel Collares Pereira – (Titular da Cátedra Energias Renováveis da Universidade de Évora), Presidente da
Direcção do IPES

António Joyce – (Investigador Principal do LNEG) membro do Conselho Estratégico e Científico do IPES

Pedro Cunha Reis – (Engenheiro EFACEC), Membro da Direcção do IPES

Março de 2016
Índice
Sumário Executivo ......................................................................................................................... 3
I. O valor acrescentado do fotovoltaico ..................................................................................... 5
I.1. Introdução...................................................................................................................... 5
I.2. O valor acrescentado da electricidade solar (electricidade renovável) ............................ 6
I.3. Ainda o Dec. Lei 225/2007 .............................................................................................. 8
II. O custo da electricidade renovável (Levelised Cost of Electricity - LCOE)............................... 10
II.1. Introdução.................................................................................................................... 10
II.2. Algumas definições ....................................................................................................... 12
II.3. O caso dos Sistemas Fotovoltaicos ................................................................................ 15
II.4. O caso do gás natural ................................................................................................... 19
III. Discussão e Conclusões .................................................................................................... 22
IV. Referências ...................................................................................................................... 27

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Sumário Executivo

Descarbonizar a economia é um dos objectivos essenciais para o cumprimento dos compromissos


COP21. A área da energia é a que mais contribui para introdução de carbono na atmosfera, dada a
enorme dependência que a economia tem do recurso a combustíveis fósseis. São necessárias
tecnologias limpas, as das Energias Renováveis.

Neste breve estudo pretende-se apresentar e discutir algumas condicionantes à introdução destas
novas tecnologias para a produção de electricidade - em particular as do solar - desenvolvendo
alguns pontos de vista, muitas vezes ignorados, quando se entra de forma cega numa
discussão/comparação de custos sem se reconhecer que, regra geral, não se está a falar de
realidades directamente comparáveis.

São dois os grandes motivos para esta divergência:

- Há um valor acrescentado significativo que as tecnologias renováveis, como o fotovoltaico,


trazem sobre a produção fóssil convencional; ignorar este valor acrescentado, distorce o mercado
a favor da manutenção do “status quo” o que, no limite, prejudica os consumidores

- A contabilização do MWh renovável, logo também a do PV, é feita com base no cálculo do LCOE
(Levelized Cost of Electricity), enquanto o custo do MWh de origem fóssil convencional é feito
apenas com base no custo do combustível utilizado, duas realidades inteiramente diferentes e que
não deveriam ser legitimamente comparáveis.

O valor acrescentado resulta de uma longa lista de vantagens das energias renováveis e que
incluem factores como: serem fontes de energia limpas, não contribuírem para o efeito de estufa,
não necessitarem de ser importadas, com impacte sobre a balança de pagamentos, gerarem
emprego e movimentarem a economia à escala local de forma muito significativa, terem o
potencial de poder envolver indústria nacional de forma considerável, quando correspondem a
produção descentralizada, de reduzirem as perdas nas redes de transporte e distribuição, serem
responsáveis pelo que se apelida de MOE (Merit Order Effect), isto é, têm o potencial de
reduzirem o custo do mix convencional quando estão presentes.

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Os cálculos que se apresentam mostram que esta valorização tem hoje um valor bem superior a
20 €/MWh e pode e deve ser tida em conta na definição de qualquer tarifa, sem que isso se possa
entender como um subsídio.

Os cálculos do LCOE mostram que os valores de hoje tornam o PV praticamente nivelado


(paridade) com os custos pagos pelos consumidores, nos sectores comercial e residencial, pelo
que a actual lei do autoconsumo, concebida para apenas permitir um mínimo de PV
descentralizado, deveria evoluir para dar lugar a uma situação de “net metering” equilibrado que
já não necessita hoje de uma definição de tarifa especial para a viabilizar.

Os mesmos cálculos para o sector de produção mostram que a situação do cálculo do LCOE para o
PV pode, hoje, conduzir a valores que se aproximam dos 71 €/MWh. Estes valores são muito
semelhantes e mesmo inferiores (depende da deriva da energia que se considere) aos que se
obtêm para uma central a gás natural, quando se calcula o seu LCOE, mas estão ainda muito longe
de um custo de ~53 €/MWh que se obtém só com os preços de combustível para a mesma central
a gás.

Argumenta-se que, no sector de produção, a política a adoptar necessita de duas condições: (1)
fixar a tarifa para o MWh durante o tempo de vida da central, (2) considerar uma bonificação que
resulta do valor acrescentado do PV, sem que isso possa ser considerado um subsídio.

A conclusão final é a de que uma politica energética que contemple os vários aspectos acima
referidos, será um dos principias ingredientes para permitir a Portugal cumprir os seus
compromissos no âmbito do COP21, descarbonizando de forma importante a sua economia e
colocando o país na situação de garantir hoje energia barata a longo prazo para os seus cidadãos.

Com a hídrica e a eólica, com o PV em produção descentralizada e com a produção centralizada a


partir de centrais Termosolares (CSP com armazenamento), Portugal poderá atingir níveis de
produção renovável da ordem de 100% e até vir a exportar energia eléctrica para a União
Europeia.

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I. O valor acrescentado do fotovoltaico
I.1. Introdução

As Energias Renováveis já desempenham um papel muito importante no fornecimento de


electricidade em Portugal. A hidroelectricidade e a energia eólica atingem valores superiores a
52% do total energia eléctrica no nosso país, em anos de hidraulicidade média ou superior [1]. A
hidroelectricidade tem uma presença de muitas dezenas de anos no sector e um custo de
produção baixo associado. A energia eólica é muito mais recente, tendo percorrido um percurso
de expansão muito acentuado na última dezena de anos, ajudada por uma tarifa de compra da
energia produzida, com um valor bonificado, que permitiu criar e desenvolver o mercado. Este
valor foi baixando com o tempo, à medida que a potencia instalada foi aumentando. E pode dizer-
se que esta é uma história de grande sucesso porque a tarifa a que hoje a rede compra a
eletricidade eólica é definida em leilão e com valores já muito próximos do custo do “mix”
convencional (valor OMIE). Para além de termos, em média, um quarto do nosso consumo com
origem eólica, esta é uma contribuição significativa para a fixação do custo de produção a longo
prazo (15 a 20 anos) e através de uma fonte de energia limpa.

Contudo foi havendo e continuam a haver várias vozes discordantes da ideia da bonificação
artificial da tarifa e da distorção que isso terá introduzido no mercado, algumas querendo mesmo
induzir no consumidor uma reacção contra as Energias Renováveis, dando a entender que os
preços elevados que hoje o consumidor paga seriam causados por isso.

Não é o objectivo deste breve estudo contra-argumentar que essa responsabilização das
Renováveis pelo elevado preço que pagamos pela electricidade, não faz sentido, mesmo sem
colocar no outro prato da balança as inúmeras vantagens, para o ambiente, financeiras e para a
economia que esse caminho de incentivos trouxe para o país.

O que se pretende é apresentar e discutir esta questão dos incentivos à introdução de novas
tecnologias para a produção de electricidade - em particular as do solar, desenvolvendo outros
pontos de vista, muitas vezes ignorados, quando se entra de forma cega numa
discussão/comparação de custos sem perceber que, regra geral, não se está a falar de coisas
directamente comparáveis. E encontrar o valor acrescentado de tecnologias como o fotovoltaico

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trazem sobre a produção fóssil convencional, que a valorização cega não contempla, distorcendo o
mercado a favor da manutenção do “status quo” e, no fundo, prejudicando os consumidores.

Neste estudo vamos apresentar alguns aspectos principais que pesam na definição do custo do
fotovoltaico (o calculo do LCOE) mas, antes porém, vamos referir alguns aspectos que influem no
que apelidamos de valor acrescentado do fotovoltaico e que, como proporemos, deverá também
fazer parte da solução do problema da competitividade da energia solar.

I.2. O valor acrescentado da electricidade solar (electricidade renovável)

São vários os atributos da electricidade solar que lhe conferem um valor acrescentado. Entre eles:

- A electricidade solar é limpa em contraste com a electricidade produzida por via fóssil; os
impactes ambientais associados à energia fóssil – externalidades – não são internalizados nos
custos de produção através dos combustíveis fósseis 1

- A produção renovável reduz a necessidade de importação de combustíveis, reduz a dependência


energética e aumenta a segurança de abastecimento

- Evita o investimento associado a novos meios de produção convencionais e os custos associados


à operação e manutenção dos mesmos

- Reduz, na medida em que parte da produção solar é descentralizada, as perdas em rede


associadas ao transporte e distribuição da produção centralizada convencional que se substitui
pela produção solar

Temos legislação [2] que procura contabilizar estes vários valores acrescentados, com uma
fórmula que permite valorizá-los para a definição da tarifa a que se deveria comprar a produção.
Essa filosofia parece ter-se perdido entretanto, mas continha alguns dos ingredientes para uma

1
Idem para as externalidades associadas à energia nuclear: tratamento e deposição de resíduos,
custos de desmantelamento, custos relacionados com acidentes, embora este não seja um
problema nacional.

6
valorização correcta. Pelo menos já deveria ter sido suficiente para impor que a tarifa a que é paga
a electricidade introduzida na rede pelos produtores fotovoltaicos ao abrigo da actual lei do
autoconsumo [3] fosse superior ao valor do OMIE. Ao contrário a referida lei definiu que fosse o
valor do OMIE, multiplicado por um coeficiente menor que 1 (0.90). Uma injúria, acrescida de
insulto!

Neste breve estudo pretende-se introduzir a ideia por detrás de um outro valor acrescentado à
energia solar fotovoltaica, o que resulta do que hoje se chama “Merit Order Effect” (MOE) [4].

Na referência [4] parte-se da constatação que o na Europa Central e do Leste as Energias


Renováveis contribuíram para que o preço de retalho da electricidade fosse o mais baixo de
sempre nos últimos anos. O estudo foi feito com dados de oito anos, para a Alemanha, Áustria,
França, Itália e Suíça.

O MOE resulta numa pressão para redução dos preços provocada pelas ER quando são injectadas
na rede. Na ausência de tecnologias de armazenamento, as ER são injectadas na rede quando são
produzidas, pelo que cada fornecedor, depois de estimar o que vai ser a procura a que tem de
responder, compra electricidade de acordo com essas estimativas, dando preferência às
alternativas que tenham um custo marginal sucessivamente mais baixo em cada momento. Dito
de outra forma, se a contribuição renovável não estivesse presente, o mix de cada momento, para
definir o preço spot, teria um valor igual ou superior!!

O estudo feito em [4] mostra que, no caso do fotovoltaico, nestes países, este efeito já vale, em
média, entre 1.5 e 2 €/MWh. E quanto mais fotovoltaico houver, mais valerá.

Este estudo não se propõe calcular o efeito do MOE do fotovoltaico (ou da outra eólica, por
exemplo) em Portugal. Apenas pretende chamar a atenção para o efeito e afirmar que ele
constitui um valor acrescentado que merece ser contabilizado e que permitirá definir tarifas mais
altas para electricidade produzida pelo fotovoltaico, não mais baixas como hoje acontece.

Esta questão do valor acrescentado permite também afirmar que a questão da “paridade com a
rede”, paridade aqui entendida ao nível da produção, será atingida antes de o fotovoltaico poder
competir ao nível OMIE. Paridade com os valores praticados ao consumidor ao nível da

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distribuição, essa já é atingida hoje e, não fossem as restrições subjacentes à lei do autoconsumo,
o PV estaria já a ser muito mais utilizado.

Ou não será assim?

Na realidade a questão é um pouco mais complexa e depende do que quer dizer “custo da
electricidade” discutido em seguida.

I.3. Ainda o Dec. Lei 225/2007

Antes de avançar para a discussão desta questão, é instrutivo fazer ainda alguns comentários
sobre o DL 225/2007

A fórmula complexa e já referida acima continha ainda um coeficiente Z, função do recurso


endógeno e tecnologia cujo valor (tipicamente maior que 1) era atribuído para ajustar o resultado
da fórmula ao estado de desenvolvimento de cada tecnologia e designadamente aos valores que
deveria ter a tarifa para conferir competitividade no mercado a cada forma de energia renovável.
Isto é, com Z=1 o resultado para a tarifa procurava apenas contabilizar os efeitos de valor
acrescentado directo contemplados em matéria de garantia de potência (factor fixo), emissões de
CO2 evitadas (factor ambiental), e perdas evitadas na rede e centrais de distribuição. Um valor> 1
para Z, conferia a necessária competitividade aos correspondentes investimentos do momento.

Não se pretende neste escrito discutir os efeitos benéficos, mas também negativos, desta
abordagem à qual faltou uma outra, a da introdução de um plano claro de redução do valor de Z
em cada caso, acompanhando a evolução (redução) dos custos de investimento e O&M, da
tecnologia do fotovoltaico. Esta abordagem substanciou críticas negativas de excesso de
subsidiação, que só não foi tão prejudicial como se diz, porque, apesar de tudo, a potência
instalada foi pequena. E mexeu-se no mercado, gerando experiência e negócio e educando o
consumidor para as etapas seguintes deste sector.

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Tabela 1 - Cálculo da tarifa (formula do DL 225/2007)

VRDm=[KMHOm×[PF (VRD)m+PV (VRD)m]+PA (VRD)m×Z]×IPCm-1/IPCref x 1/(1 – LEV)

Variável Fórmula Unidade Significado


Rm 77.067,65 €/mês Remuneração aplicável ao mês m
Tarifa média 5,6 cent/kWh
924.811,81 € Estimativa grosseira anual

KMHOm 1,235 Coeficiente facultativo que modula os valores PF(R)m e PV(R)m em função do posto horário em que a energia foi fornecida
PF(R)m 2479,99 Parcela fixa de remuneração aplicável a centrais renováveis no mês m
PV(R)m 49500,00 Parcela variável de remuneração aplicável a centrais renováveis no mês m
PA(R)m 10175,00 Parcela ambiental de remuneração aplicável a centrais renováveis no mês m PA (VRD)m=ECE (U)ref×CCRref×ECRm
Z 1 Coeficiente que traduz as características específicas do recurso endógeno e tecnologia utilizada
IPC(m-1) 100 - Indíce de preços ao consumidor, sem habitação e no continente, no mês m-1
IPC(ref) 100 - Indíce de preços ao consumidor, sem habitação e no continente, em Dezembro de 1998
LEV 0,035 Representa as perdas na rede e nas centrais de distribuição evitadas pela central renovável
KMHOpc 1,25 Factor que representa a modulação correspondente a horas de cheia e ponta
KMHOv 0,65 Factor que representa a modulação correspondente a horas de vazio
ECRpc,m 1.340.625 kWh Energia produzida nas horas de ponta e cheia no mês m (Inv: 8-22h; Ver: 9-23h)
ECRpv,m 34.375 kWh Energia produzida nas horas de vazio no mês m (Inv: 22-8h; Ver: 23-9h)
ECRm 1.375.000 kWh Energia total produzida no mês m
COEFpot,m 0,239 - Traduz a contribuição da central no mês m para a garantia de potência proporcionada à rede pública
POTmed,m 1909,722 kW Potência média disponibilizada pela central no mês m, em kW
PF(U)ref 5,44 €/kWp Valor unitário de referência para PF(R)m
POTdec 10.000 kW Potência da central declarada no acto de licenciamento
PV(U)ref 0,036 € Valor unitário de referência
ECE(U)ref 0,00002 €/gr Valor unitário de referência para as emissões de CO2 evitadas pela central
CCRref 370 gr/kWh Montante unitário de emissões de CO2 da central de referência

Produção de energia
1.650 kWh/kW Produtividade Anual Estimada, por potência instalada
16.500.000 kWh Produtividade Anual Estimada
97,5% Percentagem da produção em horas fora de vazio
2,5% Percentagem da produção em horas de vazio
O exercício interessante e útil para este estudo é o de se utilizar a fórmula para se perceber a
ordem de grandeza de alguns dos efeitos acima referidos. A Tabela 1 é auto explicativa das
hipóteses que faz para o cálculo no Cenário Base, e tem como resultado uma tarifa de 56 €/MWh,
quando se considera Z=1 e 370 g/ kWh de emissões para o mix convencional de referência e um
valor de 20 €/ton para a penalização de CO2 emitido.

Ora o actual mix é um emissor muito mais forte de CO2 por unidade de energia produzida, já que
predomina de forma esmagadora o carvão na produção térmica, com uma produção de CO2 por
kWh quase três vezes superior [10]. Por outro lado, é interessante perceber o impacte que terá
um futuro mercado de CO2 evitado (um dos caminhos que se prevê para o cumprimento do
COP21), com uma valorização de 40 €/ton em vez de 20 €/ton considerado no DL 225.

1. A alteração das emissões evitadas de CO2 do valor de referência da fórmula de 370 g/kWh
para 975 g/kWh [10]. Esta alteração eleva a tarifa para 69 €/MWh;

2. A modificação do valor da fórmula de 20 €/ton CO2 para 40 €/ton CO2 eleva o valor da
tarifa para 64 €/MWh.

Observa-se assim que a consideração destes efeitos de valor acrescentado elevam o valor da tarifa
de referência de aproximadamente 13 €/MWh num caso e 8 €/MWh no outro, ilustrando de
forma quantitativa os comentários feitos sobre a importância que estes aspectos têm e
justificando que sejam considerados.

II. O custo da electricidade renovável (Levelised Cost of Electricity -


LCOE)

II.1. Introdução

Há uma grande diferença entre as energias renováveis e as energias ditas convencionais: o seu
custo é sobretudo um custo de investimento em equipamento capaz de converter a energia solar
ou eólica em electricidade, contrastando com a situação da energia convencional em que, para
além do investimento inicial num equipamento de transformação, se exige a compra contínua, no
tempo, do combustível cuja energia química ou física se transforma em eléctrica.

A situação convencional é uma situação muito diferente e o custo da energia convencional com a
qual se compara sempre a do fotovoltaico, é, sobretudo, o resultado directo do custo do próprio
combustível. Isto é, fazemos uma comparação de “peras com maçãs”.

Quanto ao fotovoltaico, um sistema gerador de energia eléctrica que poderá funcionar, ainda com
rendimento aceitável, até aos 25 anos, a forma que temos de fazer as contas aos custos da energia
produzida, terá que ter em conta a produção que foi capaz de realizar no seu tempo de vida, o
investimento inicial feito e os gastos com operação e manutenção do equipamento. A forma
rigorosa de fazer este cálculo (LCOE) explica-se no capítulo seguinte. Nesta introdução, o que se
pretende sublinhar é que, para comparar com a electricidade convencional, se deveria fazer
exactamente a mesma coisa, para termos uma comparação de “peras com peras”.

A comparação feita nestes termos obrigaria a calcular o LCOE da energia convencional e este
resultaria, sem dúvida, num valor muito mais elevado que o valor spot do mercado neste
momento. A principal razão tem que ver com o facto de se lidar com combustíveis que são finitos,
cujo valor, por essa razão, é hoje muito menor que dentro de 10 ou de 20 anos Embora,
temporariamente, os valores do mercado possam descer (como, por exemplo, se está a passar
com o petróleo) a tendência futura só pode ser de subida, por razões de fundo, estruturais2.

Que deriva (percentagem da subida do seu custo acima da inflação) do custo da energia se deveria
usar? Qualquer valor, desde que positivo em média, faria o custo da eletricidade tornar-se

2
Exemplo: o petróleo tem apresentado recentemente uma tendência de descida, mas isso deve-se a razões
circunstanciais, de política (preservação da hegemonia e controlo por um ou dois países produtores), de crise económica
associada a uma redução de procura, logo a um excesso de oferta, de exploração de novos tipos de petróleo (shale oil-
petróleo não convencional), sem sustentabilidade e sem regras sobre os impactos ambientais na extracção, reforço da
presença de países como o Irão com o levantamento do embargo, etc. São razões circunstanciais que tenderão a
desaparecer e fazer os custos do petróleo subir.

Esta referência ao petróleo é feita a título de exemplo, pois cada vez menos se usa petróleo para a produção de
electricidade. O ponto é o de que há cada vez menos petróleo convencional, o custo do não convencional é muito mais
alto (o shale oil está barato, mas não é tão abundante e só custa menos porque não se contabilizam os custos dos
impactos referidos anteriormente)

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significativamente mais alto daqui a 10 ou 20 anos, enquanto para o fotovoltaico, o que
calculamos hoje, mantem-se constante para qualquer desses períodos!

Contudo, para o fotovoltaico (e para a eólica) estamos condenados a fazer o cálculo do LCOE.
Assim é importante que se defina com clareza o que é (as definições usadas por todos devem ser a
as mesma para estes efeitos de comparação). É o que se fará no próximo capítulo.

II.2. Algumas definições

O custo da electricidade produzida durante o tempo de vida de uma unidade produtora de energia
eléctrica, seja ela de origem Renovável ou não, normalmente designado por Levelized Cost Of
Electricity, com a sigla LCOE, é hoje o principal indicador que permite comparar tecnologias
renováveis de produção de electricidade. É também este indicador que se usa para comparar com
os custos da energia eléctrica convencional, pelo que se revela essencial para se tomarem
decisões quer ao nível do Investimento, nomeadamente por entidades bancárias, quer ao nível
das políticas públicas no sector energético.

Basicamente este indicador calcula os custos totais de um sistema produtor de energia eléctrica
durante o tempo de vida do sistema, incluindo os custos do Investimento (CAPEX) e os custos de
Manutenção e Operação (OPEX) e compara esse custo com a estimativa da electricidade que o
sistema irá produzir durante o mesmo período.

Em termos matemáticos a sua expressão é dada por:



1
LCOE

1

com:

t - Tempo em anos

12
n - Tempo de vida do sistema

r - Taxa de Desconto

It - Investimento inicial em t=1 ou de substituição num ano específico (CAPEX)

Mt - Custo de Operação e Manutenção (OPEX) no ano t

Bt - Custo de Energia Auxiliar no ano t

Et – Estimativa da Energia Eléctrica produzida no ano t.

O LCOE é um custo antecipado e para a sua determinação é importante, não só a especificação


correta dos custos de Investimento e de Manutenção e da taxa de desconto mas também o
conhecimento da estimativa da Energia Eléctrica produzida em cada ano. Torna-se por isso
necessário conhecer com rigor o desempenho do sistema e também como esse desempenho varia
ao longo do tempo de vida do sistema.

O tempo de vida de um sistema é um parâmetro que depende da tecnologia envolvida, do local


onde a mesma é instalada, pois situações agressivas do ponto de vista ambiental (por exemplo a
proximidade do Mar, ou instalações sujeitas a forte agressão por tempestades de areias ou de
poeiras, ou outras…) diminuem fortemente o tempo de vida de uma instalação. Em geral e para o
caso dos sistemas Fotovoltaicos os tempos de vida actualmente considerados para instalações
sem grandes problemas de desgaste ambiental, variam entre os 20 e os 25 anos, aceitando-se que
com uma manutenção adequada e para efeitos de cálculo se possa utilizar um período de 25 anos.

O Custo do Investimento inicial (CAPEX) e dos Investimentos de substituição deverão ser obtidos
de acordo com a dimensão dos sistemas e dependem fortemente do mercado pelo que um
particular cuidado deverá ser tomado para a obtenção dos mesmos.

O custo anual da Operação e Manutenção do sistema (OPEX) é em geral considerado como uma
percentagem do Investimento inicial. Por exemplo nos Sistema Fotovoltaicos é comum a utilização
de uma taxa de cerca de 1% do Investimento Inicial para aqueles custos.

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A Taxa de Desconto é o parâmetro utilizado na análise de Investimentos e permite actualizar os
preços numa análise do tipo Cash Flow (cálculo do Valor Actualizado Líquido - VAL ou o cálculo da
Taxa Interna de Rentabilidade - TIR). Quanto maior for o risco de um Investimento maior é a Taxa
de Desconto atribuída. As Taxas de Desconto são por isso variáveis de acordo com a evolução da
economia. Em geral é utilizado hoje um valor mínimo entre 6.0 a 7.0 %.

O custo da Energia Auxiliar deverá ser considerado sempre que sistemas produtores tenham, ou
um consumo de energia eléctrica residual como, por exemplo, nos sistemas Fotovoltaicos com
seguimento do movimento aparente do Sol, ou o consumo de energias fósseis como é o caso das
centrais termoeléctricas convencionais ou ainda os consumos de combustíveis em unidades de
backup como por exemplo existem nos sistemas Híbridos Solar Termoeléctrico/Gás.

A estimativa da Energia Elétrica produzida durante o tempo de vida vai depender de uma análise
da produção de energia elétrica pela tecnologia em análise e também da forma como essa
produção varia ao longo dos anos sendo que, em geral, existirá uma diminuição da produção ao
longo da vida útil do sistema. No caso dos sistemas Fotovoltaicos essa diminuição é tipicamente
entre 0.5 % a 1% do valor estimado para a produção inicial.

Tendo disponíveis os dados referidos é possível obter o valor do LCOE para qualquer tecnologia de
produção de energia eléctrica através de uma folha de cálculo simples de que, na Figura 1, se
mostra um exemplo desenvolvido no Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG). Na folha
referida, para além dos dados de entrada correspondentes aos parâmetros assinalados
anteriormente, é feito o cálculo da expressão do LCOE contabilizando para cada ano de
funcionamento do sistema, quer os custos quer as produções de energia. O valor final do LCOE,
expresso em €/MWh, é mostrado no canto superior direito da folha.

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Figura 1 - Exemplo de folha de cálculo para o LCOE de um Sistema Fotovoltaico (LCOE). (Fonte: LNEG).

II.3. O caso dos Sistemas Fotovoltaicos

O desenvolvimento dos sistemas Solar Fotovoltaicos tem sido fruto de uma combinação de
desenvolvimento da tecnologia e de abertura e aumento de instalações em novos mercados. Entre
2008 e 2012 o custo a nível mundial dos módulos Fotovoltaicos foi dividido por 5.

De facto a tecnologia Fotovoltaica tem ao longo das últimas décadas assistido a uma descida
constante dos preços (exceptuando uma ou outra anomalia) a qual se pode verificar nas
designadas Learning Curves como, por exemplo, a do custo dos sistemas baseados na tecnologia
do Silício cristalino, dominante do mercado PV.

Na Figura 2, extraída do Relatório “Medium –Term Renewable Energy Market Report 2015”
(MTRMR) [5] produzido pela Agência Internacional de Energia, pode ver-se essa Learning Curve
para o custo médio da tecnologia que utiliza os dados disponíveis ente 1976 e 2014
(aproximadamente 40 anos).

Os custos projectados para o futuro por esta curva, que se podem ver na parte direita do gráfico,
estão de acordo com o desenvolvimento da tecnologia PV assumido no cenário de aumento de 2 C
ͦ
(2DS) do Relatório “Energy Technology Perspectives 2014” (ETP2014) [6] também da Agência
Internacional de Energia.

15
Estes custos dependem no entanto da região e local onde a instalação é feita (o custo é diferente
em Portugal do da Alemanha, do da China ou do dos Estados Unidos) e também do sector de
mercado da instalação considerando-se em geral tês sectores de mercado para os sistemas ligados
à rede:

• Centrais Produtoras (Utilities), instalados no terreno (com ou sem seguimento, com ou


sem concentração) e com potências acima de 1 MW.
• Mercado Comercial instalados no terreno ou numa cobertura como por exemplo as
grandes superfícies e centros comerciais, com potências entre 20 kW e 1 MW.
• Mercado Residencial em geral instalados e coberturas de edifícios e com potências 20 kW.

À medida que o custo dos sistemas Fotovoltaicos baixa tem-se verificado um aumento da quota de
mercado do sector das Centrais Produtoras.

Este setor está em Portugal associada à produção em regime especial (PRE) enquanto os sectores
Comercial e Residencial estão associados à Lei do Autoconsumo (DL 153/2014) que neste
momento ainda não tem 1 ano de aplicação concreta. Tipicamente o custo dos módulos não difere
muito para os vários sectores de mercado estando a diferença basicamente no custo dos outros
componentes (BOS) que para o sector das Centrais Produtoras pode representar 65 % do custo
total enquanto no sector residencial poderá representar 85 % daquele custo.

Figura 2 - Learning Curve para o valor médio de venda de sistemas PV baseados em Silício cristalino.
(Fonte: MTRMR).

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Em termos dos diferentes sectores de mercado os investimentos em sistemas Fotovoltaicos
tiveram a evolução que se mostra na Figura 3.

Figura 3 - Custo do Investimento em sistemas PV nos três sectores considerados (Centrais Produtoras,
Comercial e Residencial). (Fonte: MTRMR)

Embora sempre com tendência decrescente verifica-se uma grande dispersão dos valores de
acordo com a região do mundo com a China a Índia e a Alemanha apresentando sempre os valores
mais baixos. Em termos da referência global (curva a castanho) os Investimentos em Euros para
cada um dos sectores em 2015 são aproximadamente de 1.2 €/Wp, 2.3 €/Wp e 2.9 €/Wp.

Quanto ao tempo de vida dos sistemas Fotovoltaicos o valor normalmente assumido é de 20 anos
embora também, mais recentemente, se assuma para este efeito uma longevidade superior, até
25 anos.

A produtividade inicial tem que ver com a localização mas também com o tipo de sistema
instalado. No caso de Portugal pode ser assumida uma produtividade média anual de 1500
kWh/kWp para sistemas fixos, que terá tendência a subir com o desenvolvimento da tecnologia3.
Esta produtividade não é, no entanto, constante ao longo do tempo de vida e os sistemas
Fotovoltaicos apresentam uma taxa degradação da produção devida quer ao envelhecimento dos
próprios módulos quer dos outros componentes dos sistemas.

3
Por exemplo: painéis com melhor rendimento e/ou “performance ratio” do sistema mais elevada; em
sistemas com seguimento, conseguem-se valores mais altos (1-eixo ~20% mais e 2-eixos ~30% mais)

17
Um estudo elaborado pelo National Renewable Energy Laboratory dos Estados Unidos e publicado
em 2011 na revista Progress in Photovoltaics [7], cujas conclusões se reproduzem no gráfico da
Figura 4, aponta para uma taxa de degradação média entre 0.5 % e 1 %/ano; nos cálculos que se
seguem assumimos 0.7%/ano, como representativo do estado médio actual da tecnologia, como
valor a utilizar para a diminuição anual da produtividade dos sistemas.

Figura 4 - Taxa de degradação anual da produtividade de sistemas Fotovoltaicos. (Fonte: Photovoltaic


Degradation Rates—an Analytical Review - DOI: 10.1002/pip.1182)

Tendo em atenção o anteriormente exposto, na Tabela 2 mostram-se os valores obtidos do LCOE


para três sectores de mercado, Centrais Produtoras, comercial e Residencial tendo sido
considerados os seguintes parâmetros:

Tempo de Vida – 25 anos

Taxa de Desconto – 6.5 %

Investimento inicial (CAPEX) variável com o tipo de sector de mercado. Consideraram-se faixas de
custos de 1.0 a 1.2 €/Wp para Centrais Produtoras4, 1.8 a 2.3 €/Wp para o sector Comercial e 2.3 a
2.9 €/Wp para o sector Residencial. Considerou-se também um Investimento de substituição de 30
4
Estes valores têm em conta todos os custos incluindo os estudos a realizar, licenças a obter, custos do
terreno, infraestruturas de ligação à rede, etc

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% do Investimento inicial sensivelmente a meio do período de vida do sistema (por exemplo para
substituição de Inversores).

Custo de Operação e Manutenção (OPEX) – 1% do Investimento Inicial por ano.

Custo de Energia Auxiliar - 0

Estimativa da Energia Eléctrica produzida inicialmente – 1500 kWh/kWp.

Taxa de Degradação da produção de Energia Eléctrica – 0.7 % por ano.

Tabela 2 - Valores de LCOE para sistemas PV nos três sectores de Mercado

Centrais Produtoras [€/MWh] Comercial [€/MWh] Residencial [€/MWh]

71-85 128-163 163-206

Estes valores estão de acordo com aos valores apresentados para estes sectores quer no Relatório
MTRMR [5] quer em Relatórios recentes do MIT [8] e do Fraunhofer ISE [9] que apontam, por
exemplo, para o sector das Centrais Produtoras valores entre 80 e 120 €/MWh.

Como se observa os valores resultantes para o LCOE são muito sensíveis ao valor do investimento
inicial: por exemplo, logrando-se atingir um investimento total de apenas 1 €/Wp , o LCOE
correspondente será de 71 €/MWh, muito abaixo do valor de 85€/MWh que se obtém para o
caso de 1.2 €/Wp

II.4. O caso do gás natural

Como se disse, há uma grande diferença entre as energias renováveis e as energias ditas
convencionais: o seu custo é sobretudo um custo de investimento em equipamento capaz de
converter a energia solar ou eólica em electricidade, contrastando com a situação da energia
convencional em que, para além do investimento inicial num equipamento de transformação, se

19
exige a compra contínua, no tempo, do combustível cuja energia química ou física se transforma
em eléctrica.

Assim, para que a comparação seja equilibrada (“peras com peras”) dever-se-ia fazer um cálculo
do LCOE associado às soluções convencionais. A título de exemplo, e apenas para dar uma ideia da
diferença em ordem de grandeza, procede-se em seguida ao cálculo para uma central a Gás
Natural.

As hipóteses são as seguintes:

- Custo de uma central de GN com ciclo combinado: 0.56 €/We; 52.5% de rendimento de
conversão

- Custo de O&M: 3% /ano do CAPEX.

- Funcionamento da central: 4380 hora/ano5

- Custo do GN: de 25 €/MWht (conteúdo térmico de energia referido a PCS) a 30 €/MWht

- PCI: 9100 kcal/m3

-mesma taxa de desconto que para o PV

Dois cálculos foram feitos, um contabilizando as emissões a 20€/ton de CO2 (com a central
emitindo a 380g/kWh) e outro sem essa contabilização.

O resultado apresenta-se na Tabela 3.

5
Na realidade as centrais a GN em Portugal têm funcionado entre 400 e 800 horas/ano dependendo da
hidraulicidade do ano! (DGEG); se usássemos estes valores o calculo que vamos apresentar daria um
resultado entre 2 a 3 vezes superior!!!

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Tabela 3: LCOE com e sem contabilização de emissões para o caso do GN

Preço do gás (€/MWht) 25 28 30

Preço do gás (€/MWhe) 52 59 63

LCOE (€/MWh) emissões 75 82 86


contabilizadas a 20 €/ton de
CO 2

LCOE (€/MWh) sem 67 74 78


contabilizar emissões

Introduzindo, a título de exemplo, a deriva de energia, isto é, o reflexo da subida anual do custo do
combustível, acima da inflação, obtém-se os valores da Tabela 4, abaixo.

Tabela 4 - Valores de LCOE (a partir de Gás Natural) para diferentes derivas de energia, para o caso sem
contabilização de emissões e custo mais baixo do GN.

Deriva energia anual média 0% 2% 5% 10%

LCOEG [€/MWh] 67 78 100 167

Comentários:

1) Mesmo com uma deriva de 0%, por muito que esta seja improvável a médio e longo prazo, o
LCOE do GN apresenta-se com um valor bem mais elevado que o valor que teria a electricidade
que produz quando se tem apenas em conta o custo do combustível hoje, em Portugal, e se as
centrais funcionassem para produção durante 4400 horas.

2) Os valores da Tabela 3, mostram que, ao calcular o LCOE do GN se obtêm valores, em Portugal,


iguais ou comparáveis aos que apresentámos para o fotovoltaico (quando os cálculos se fazem a
4400 horas de funcionamento, o que não acontece, como comentámos: na realidade o calculo do
LCOE do GN, com as poucas horas de funcionamento das centrais, é ainda muito mais elevado).

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3) Deriva: como se observou a propósito do petróleo, os custos dos combustíveis, deverão subir a
10, a 15, a 20 anos de distância. Poderão, no entanto, descer ou manter-se baixos durante algum
tempo, ou até para que os países produtores resistam à penetração crescente das Renováveis,
oferecendo-os a valores tão baixos quanto lhes seja possível. Mas não deixam de ser finitos e, a
largo prazo, de aparecerem com custos mais elevados. Note-se que o limite para estes, não vai
estar no seu desaparecimento. Sem considerar os impactes climáticos, o limite surgirá muito
antes, quando a energia que eles fornecem, estiver abaixo de pelo menos um factor 3 vezes
superior à energia que é necessária para a sua extracção (EROI/EROEI- Energy Return on Energy
Investment) [11]. Hoje, em média mundial, para o petróleo não convencional em todos os
géneros, está-se em torno de uma razão de 1 para 8.

3) Os cálculos feitos acima com um combustível como o carvão, resultariam ainda em maior
diferença, ao contabilizar os diferentes níveis de investimento a fazer incluindo o despoeiramento,
controlo das emissões de SO x, NOx, etc. Ilustra-se bem assim, a situação extraordinariamente
forçada que consiste em exigir ao fotovoltaico, ou à energia eólica que compita directamente com
os valores OMIE, vendendo energia no mercado da electricidade fóssil, como se isso fosse
comparável.

III. Discussão e Conclusões

Como se pode apreciar na Tabela 2, os valores de LCOE do fotovoltaico, para o sector residencial
estão perfeitamente dentro dos valores que o consumidor doméstico paga ao seu fornecedor
(custos fixos e variáveis) pelo que já se fala hoje em paridade com a distribuição ao nível
domestico.

Para situações de consumo comercial a situação caminha, a passos largos para ser idêntica,
mesmo sem os argumentos que apresentámos sobre o valor acrescentado e sobre a diferença
inerente à comparação entre peras e maças a que aludimos.

Assim o alargamento do mercado do fotovoltaico nos sectores residencial e comercial só depende


da adopção de uma simples medida: alteração da lei do autoconsumo para que passe a conter a
condição de operação que normalmente se designa por “net metering”. Esta sugestão poderá
justificar alguma eventual correcção baixando o valor no lado da compra pela rede pelas questões

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que envolvem os gastos que reflectem o uso da rede, depois que se faça um estudo sobre quanto
realmente o PV descentralizado pode penalizar os custos de exploração daquela e que tenha em
conta também as vantagens (por exemplo a estabilidade da rede, a eliminação ou, pelo menos, a
redução das perdas em rede, etc). De qualquer forma a situação de “net metering” deverá estar
associada ao consumo (“net metering” equilibrado) em contraste com uma situação em que os
sistemas individuais viessem a estar sobredimensionados por motivo de negócio.

De qualquer forma, dever-se-ia eliminar de imediato pelo menos a penalização absolutamente


injustificada dos 10% sobre o valor OMIE. 6

Quanto ao sector de produção, e de acordo com o explicado acima, os resultados obtidos por
cálculo do LCOE não podem ser comparados directamente com valores, custos de produção e
outros custos, que não são calculados da mesma forma, já que correspondem, sobretudo, ao valor
atribuído ao conteúdo energético do respectivo combustível, mas o valor do LCOE obtido é
claramente interessante e tem tendência para, nos próximos anos, se aproximar do actual custo
variável de produção de uma central de ciclo combinado.

Esta mesma conclusão pode retirar-se da análise feita em I.3, utilizando os termos da própria
legislação (DL 225/2007) para calcular alguns dos aspectos que apelidámos de valor acrescentado
do PV (e das Renováveis) e obtendo valores superiores a 10 euros/MWh de sobrevalorização
natural da tarifa para questões tão importantes como as do CO2 evitado. Se se considerassem
todos os valores acrescentados referidos (incluindo o MOE) certamente que um valor superior ao
dobro daquele seria alcançado. Procurar-se-á fazer este estudo noutro documento.

Em conclusão: solicita-se ao fotovoltaico que corresponda a um valor de custo demasiado baixo, o


que, aliás, poderá vir a acontecer com o tempo, mas que, assim e entretanto, prejudica a evolução
da sua penetração e, portanto, a disponibilidade no mercado de uma alternativa sustentável e
vantajosa.

Mas e sobretudo, emergem destas considerações, dois aspectos fundamentais, para uma política
energética que pretenda, para o sector de produção fazer a transição para a realidade das

6
Esta lei merece-nos outros reparos, mas que estão fora do âmbito deste estudo.

23
alterações climáticas e para os compromissos COP 21 a exigirem uma descarbonização progressiva
e significativa da economia:

Condição 1:

-As Renováveis, e o PV em particular, necessitam de um valor de tarifa fixo ou mínimo, acordado,


estabelecido, pelo tempo de vida do sistema, já que o seu valor de mercado é calculado e referido
sempre em termos do LCOE, sendo condição fundamental para o financiamento de um projecto
capital intensivo

-Esta condição está em contraste com a situação das centrais convencionais fósseis que são
remuneradas por uma tarifa definida em função de circunstâncias de curto prazo, o custo do
combustível que usam;

- Sugere-se assim a consideração de um valor mínimo de 56 €/MWh, resultante do cálculo do feito


em I.3. Este resultado obtém-se aliás através da fórmula aceite no DL225 e que esteve em vigor no
sector, mas ponderada por um factor z=1, de forma a reflectir o estado de maturidade da
tecnologia e um efeito neutro não multiplicativo dos outros parâmetros.

Condição 2: Esse valor fixo pode e deve ser completado com o valor acrescentado do MWh
produzido, sem que isso se trate de um subsídio, de forma regressiva. Internalizando, por
exemplo, o factor de mérito referido, a mais-valia ambiental e outros, na justa medida em que o
LCOE se vá reduzindo em função do avanço da tecnologia.

As centrais solares seriam assim remuneradas por um valor fixo, constante ao longo de um
período de tempo, sendo que esse valor constante seria diferente e inferior para novas centrais a
entrar em actividade, na justa medida do respectivo desenvolvimento tecnológico.

A Condição 1 é um mínimo imprescindível, sem a qual não haverá mercado no sector de produção.
Hoje fala-se em abrir o mercado à produção centralizada com PV, mas não é possível que isso
aconteça sem que esta condição se cumpra.

Quanto à Condição 2 é preciso desfazer alguns preconceitos que surgiram por, no passado, se
terem definido tarifas bonificadas (Feed in Tariffs- FIT) de uma forma percepcionada como mais

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arbitrária, para valorizar a energia produzida pelo fotovoltaico, para que se iniciasse, desde logo, a
construção de um mercado próprio, mesmo quando o PV era ainda muito caro.

Como se referiu em I, os valores atribuídos então às tarifas do PV (não só em Portugal) foram


elevados, e sobretudo não previram a espectacular redução de custos na produção que tem sido
possível atingir, e que, assim, não foi acompanhada por um programa bem pensado de
actualização (redução) da remuneração, por forma a acompanhar a evolução tecnológica do
mercado. De qualquer forma, incidiram sobre pequenas potencias instaladas, pelo que o seu
sobrecusto foi de muito pouco impacto, ao contrário do que algumas vozes têm dado a entender.

Contudo, e como se explicou, os valores acrescentados que se podem agregar à energia solar
fotovoltaica e acima referidos, justificam que, ao valor OMIE (ou, melhor ainda, ao valor sugerido
para a Condição 1) se permita acrescentar alguns cêntimos de euro/kWh. Isto é, uma tarifa com
um valor que facilmente poderá incluir pelo menos +2 cêntimos/kWh (20 €/MWh] para repor o
equilíbrio nas condições oferecidas a uns e outros.

Bonificar a tarifa, nestes termos, não pode ser considerado um subsídio!

Uma outra forma de perceber isto é sublinhar o que se passa: a electricidade fóssil está a ser
subsidiada, quando os custos ambientais, por exemplo, não estão a ser contabilizados no custo da
energia ao produtor!

Um estudo detalhado deverá ser realizado para calcular os valores acrescentados associados às
externalidades causadoras das alterações climáticas, à redução da dependência energética, à
redução das importações, ao MOE, para uma quantificação rigorosa quanto possível do valor da
bonificação a conceder.

Isto em simultâneo com o cálculo das LCOE das tecnologias que entram no OMIE, para se perceber
que, provavelmente, há muito que se ultrapassou a paridade com a rede, mesmo ao nível da
produção, em termos de LCOE, se todos os termos forem incluídos no cálculo.

Na realidade a decisão de calcular e aplicar estes resultados é uma das melhores formas de
caminharmos para as exigências que o cumprimento das decisões tomadas em Outubro, em Paris,
(COP21) vai determinar no nosso país.

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E porque nos será muito mais fácil do que a outros países da EU cumprir esses objectivos com
energia renováveis, deveríamos levar mais longe o exercício e cobrar pelo cumprimento das
quotas de outros com maior dificuldade de as cumprirem.

Observação final:

Este breve estudo incidiu sobretudo sobre a solar fotovoltaica (PV). Em estudos subsequentes,
serão abordadas outras tecnologias, em particular a termoeléctrica solar (CSP ou STE). Esta, menos
madura, tem ainda um caminho importante a percorrer para uma redução de custos que a
conduzirá a valores comparáveis com a produção PV. Com a vantagem de conter de forma
intrínseca soluções de armazenamento de energia (hoje já se dimensionam armazenamentos
térmicos para períodos entre 7 e 15 horas à potencial nominal da central) o que lhe confere
verdadeira “despachabilidade”.

Com a hídrica, a eólica, o PV em produção descentralizada e com a produção da termo


electricidade solar centralizada, Portugal poderá atingir níveis de produção renovável da ordem de
100%! E poderá até pensar em exportar energia eléctrica para a UE.

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IV. Referências

[1] APREN – Associação dos Produtores de Energias Renováveis

[2] Decreto-lei 225/2007, DR, 1ª serie, 105, 31/05/2007 e Declaração de Rectificação 71/2007, DR
1ª serie, 141, 24/07/2007

[3] Decreto-lei do autoconsumo – DL 153/2014

[4] H. Gouzerh, S. Orlandi, N. Gourvitch, G. Masson- Quantitative analysis of the Merit Order Effect
From Photovoltaic Production in Key European Countries-

[5] MTRMR -Medium Term Renewable Market Report - International Energy Agency (2015 Edition)

[6] ETP2014 – Energy Technology Perspectives – International Energy Agency (2014 Edition)

[7] “Photovoltaic Degradation Rates - an Analytical Review.” - D. C. Jordan and S. R. Kurtz -


Progress in Photovoltaics - 13 OCT 2011; DOI: 10.1002/pip.1182

[8] “The Future of Solar Energy- an interdisciplinary MIT study”-Energy Initiative – MIT (2015)

[9] Fraunhofer ISE- Annual Report 2014/2015.

[10] Geoffrey P. Hammond, , Jack Spargo - The prospects for coal-fired power plants with carbon
capture and storage: A UK perspective- Energy Conversion and Management, Volume 86, October
2014, Pages- 476-489

[11] Charles S.A. Hall, Stephen Balogh, David J.R. Murphy- “What is the minimum EROI that a
sustainable society must have? “Energies, 2009, 2, 25-47

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