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HUGH H.

BENSON
e colaboradores

Platão

Tradução: Vera Porto Carrero

Introdução: Traduzida por Antonio Carlos Maia


1ª. Edição brasileira — 1993
© Copyright The University of Chicago» Chicago, Il, U.S.A.
CiP-Brasil, Catalogação na fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

D837m
Dreyfus, Hubert L.
Michel Foucault, uma trajetória filosófica; (para além do estruturalismo e da
hermenêutica)/ Hubert Dreyfus, Paul Rabinow; tradução de Vera Porto
Carreto. Rio de Janeiro; Forense Universitária, 1995.
Tradução de: Michel Foucault beyond structuralism and hermeneutcs ISBN
85-218-0158-0
l. Foucault, Michel, 1926-1984. 2. Filosofia francesa.
I. Rabirow, Paul. II. Título. II. Série
95-1445 CDD194
CDU 1(44)

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deste livro, de qualquer forma ou por qualquer meio eletrônico ou mecânico, inclusive
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(Lei no. 5.988 de 14.12.73).

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Editoração Eletrônica: Delta Line

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Largo de São Francisco,20 — 01005-010 São Paulo — SP — Tel.: (011) 604-2005

Impresso no Brasil
Printed in Brazil
Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

CHARLES M. YOUNG
Autores Professor de Filosofia da Universidade de
Claremont. Autor de vários artigos sobre
HUGH H. BENSON (ORG.) Platão e Aristóteles, está atualmente
Professor e Chefe do Departamento de preparando uma monografia sobre virtude e
Filosofia na Universidade de Oklahoma; foi virtudes em Aristóteles, bem como
Samuel Roberts Noble Presidential Professor trabalhando no módulo sobre o livro V da
de 2000 a 2004. E o editor de Ensaios sobre a Ética Nicomaqueia de Aristóteles dentro do
Filosofia de Sócrates (1992) e autor de Projeto Archelogos.
Sabedoria Socrático (2000), bem como de
vários artigos sobre a filosofia de Sócrates, CHRISTOPHER JANAWAY
Platão e Aristóteles. Professor de Filosofia na Universidade de
Southampton. E autor de Imagens de
A. A. LONG Excelência: A Crítica de Platão às Artes e
Professor de Línguas Clássicas e Irving Stone publicou largamente na área de estética. Suas
Professor de Literatura na Universidade da outras publicações incluem Simesmo e
Califórnia, Berkeley. Suas obras mais recentes Mundo na Filosofia de Schopenhauer (1989),
incluem Estudos Estóicos (1996) e Epicteto: Schopenhauer: Uma introdução Muito breve
Um Guia Estóico e Socrático à Vida (2002). (2002) e Lendo Estética e Filosofia da Arte
Como editor e colaborador publicou O Guia (Blackwell, 2006).
de Cambridge à Primeira Filosofia Grega
(1999). CHRISTOPHER ROWE
Professor de Grego na Universidade de
C. D. C. REEVE Durham. Obteve um Cargo Professoral de
Professor de Filosofia com distinção Delta Pesquisa Pessoal do Fundo Leverhulme de
Kappa Epsilon na Universidade da Carolina do 1999 a 2004 e foi coeditor da Phronesis
Norte em Chapei Hill. E autor de Confusões de (Leiden) de 1997 a 2003. E autor de
Amor (2005) e Conhecimento Substancial: a comentários a vários diálogos de Platão e
Metafísica de Aristóteles (2000). Seu livro editou, com Malcolm Schofield, A História de
Reis-Filósofos: O Argumento da República de Cambridge do Pensamento Político Grego e
Platão será reimpresso em 2006. Romano (2000). Realizou a tradução de Ética
Nicomaqueia de Aristóteles (que deverá
CHARLES KAHN acompanhar um comentário filosófico por
Professor de Filosofia da Universidade da Sarah Broadie, 2001), editou Novas
Pennsylvania. E autor de Anaxlmenes e as Perspectivas sobre Platão com Julia Annas
Origens da Cosmologia Grega (1960), O Verbo (2002) e, com Terry Penner, escreveu uma
'Ser' em Grego Antigo (1973; reimpresso com monografia sobre o Lísis de Platão (2005).
nova introdução, 2003), A Arte e Pensamento
de Heráclito (1979), Platão e o Diálogo CHRISTOPHER SHIELDS
Socrático (1996) e Pitágoras e os Pitagóricos Membro Tutor da Lady Margaret Hall e Leitor
(2001). Universitário na Universidade de Oxford. E

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Benson Benson

autor de vários livros, incluindo Ordem na como pesquisador no Instituto de Pesquisa


Multiplicidade, Filosofia Clássica: Uma em Humanidades da Universidade de
Introdução Contemporânea (2003) e Wisconsin, no Centro para Estudos Helênicos
Aristóteles (no prelo), bem como coautor, em Washington (capital), no Instituto para
com Robert Pasnau, de A Filosofia de Thomas Estudos Avançados em Princeton e no Centro
de Aquino (2003). Atuou como editor do Guia de Filosofia e Política Social da Universidade
Blackwell à Filosofia Antiga (Blackwell, 2003) Estadual de Bowling Green. E autor de
e de O Manual de Oxford sobre Aristóteles (no Aristóteles: Política Ve VI (1999) e coeditor,
prelo). com Fred D. Miller Jr., do Guia à Leitura da
Política de Aristóteles (Blackwell, 1991).
CYNTHIA FREELAND
Professora e Chefe do Departamento de DAVI D SEDLEY
Filosofia na Universidade de Houston. Professor Laurence de Filosofia Antiga na
Escreveu artigos sobre a filosofia antiga e é Universidade de Cambridge. E autor, com A.
editora de Interpretações Feministas de A. Long, de Filósofos Helenísticos (1987),
Aristóteles (1998). Sua área de interesse Lucrécio e a Transformação da Sabedoria
também abrange estética; seus livros incluem Grega (1998), O Crátilo de Platão (2003) e A
Filosofia e Filme (coeditado com Thomas Maiêutica do Platonismo: Texto e Subtexto no
Wartenberg, 1995), O Nueo Morto-Vivo: 0 Teeteto de Platão, e editor de O Guia de
Mal e a Atração do Horror (1999) e Mas é Cambridge à Filosofia Grega e Romana
Arte? (2001). (2003). Ele foi Professor Sather na
Universidade da Califórnia em Berkeley em
DANIEL DEVEREUX 2004 e atualmente edita os Oxford Studies in
Professor de Filosofia na Universidade de Ancient Philosophy.
Virgínia. E autor de artigos sobre a filosofia de
Sócrates, ética e metafísica de Platão, ética e DEBORAH K. W. MODRAK
teoria da substância de Aristóteles. Professora de Filosofia na Universidade de
Contribuiu com o capítulo: “Platão: Rochester. E autora de dois livros, A Teoria da
Metafísica”, para o Guia Blackwell à Leitura Linguagem e do Significado de Aristóteles
da Filosofia Antiga (2003). Seu trabalho mais (2001) e Aristóteles: O Poder da Percepção
recente foca-se no desenvolvimento da ética (1987). Escreveu também numerosos artigos
de Platão. sobre temas da filosofia da mente, teorias de
cognição e linguagem e epistemologia grega
DAVI D KEYT antiga.
Foi por muitos anos Professor de Filosofia na
Universidade de Washington em Seattle. DEBRA NAILS
Também atuou como professor na Professora de Filosofia na Universidade
Universidade de Cornell, na Universidade de Estadual de Michigan. E autora de A Gente de
Hong Kong, na Universidade de Princeton e Platão: Uma Prosopografia de Platão e Outros
nos campi de Los Angeles e de Irvine da Socráticos (2002), Agora, Academia e a
Universidade da Califórnia, bem como atuou Conduta da Filosofia (1995), bem como de

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artigos sobre Sócrates e Platão em várias e Justiça: Platão, Aristóteles e os Modernos


revistas e coletâneas. Escreve também sobre (Blackwell, 2001; edição grega: 2006) e editor
Spinoza e mantém trabalho de investigação do Guia Blackwell à Leitura da República de
para o Comitê de Defesa dos Direitos Platão (Blackwell, 2006).
Profissionais dos Filósofos para a Associação
Americana de Filosofia e para a Associação MARK L. MCPHERRAN
Americana de Professores Universitários. Professor de Filosofia na Universidade do
Maine em Farmington. E autor de A Religião
FRED D. MILLER JR. de Sócrates (1996; ed. em brochura: 1999),
Professor de Filosofia e Diretor Executivo do editor de Sabedoria, Ignorância e Virtude:
Centro de Filosofia e Política Social na Novos Ensaios nos Estudos Socráticos (1997),
Universidade Estadual de Bowling Green. E Reconhecimento, Recordação e Realidade:
autor de Natureza, Justiça e Direitos na Novos Ensaios sobre a Epistemologia e
Política de Aristóteles (1995), coeditor, com Metafísica de Platão (1999) e numerosos
David Keyt, do Guia à Leitura da Política de artigos sobre Sócrates, Platão e o ceticismo
Aristóteles (Blackwell, 1991) e editor, em antigo.
associação com Carrie-Ann Khan, de Uma
História da Filosofia do Direito dos Gregos MARY LOUISE GILL
Antigos à Escolástica (2006). Publicou muitos Professora de Filosofia e Línguas Clássicas na
artigos sobre a filosofia antiga e sobre a Universidade Brown. Ela é autora de “Método
filosofia moral e política. Foi Presidente da e metafísica no Sofista e no Político de Platão”
Sociedade de Filosofia Grega Antiga de 1998 na Enciclopédia Stanford de Filosofia (2205),
até 2004. Aristóteles e a Substância: O Paradoxo da
Unidade (1989) e Platão: Parmêmides –
GARETH B. MATTHEWS introdução e cotradução (1996). Ela é
Professor Emérito de Filosofia na coeditora do Guia à Leitura da Filosofia
Universidade de Massachusetts em Amherst. Antiga (Blackwell, 2006).
Ensinou anteriormente na Universidade da
Virgínia e na Universidade de Minnesota. E MARY MARGARET MCCABE
autor de numerosos livros e artigos sobre Professora de Filosofia Antiga no King’s
filosofia antiga e medieval, incluindo College de Londres. E autora de Platão e a
Perplexidade Socrática e a Natureza da Punição (1981), Indivíduos em Platão (1994) e
Filosofia (1999) e Agostinho (Blackwell, 2005). Platão e seus Predecessores: A Dramatização
da Razão. E também a editora geral da série
GERASIMOS SANTAS Estudos nos Diálogos de Platão da Editora
Professor de Filosofia na Universidade da Universitária de Cambridge. Nos anos 2005-8
Califórnia em Irvine. E autor de Sócrates; foi membro pesquisadora principal do Fundo
Filosofia nos Primeiros Diálogos de Platão Leverhulme.
(1979; edição grega; 1997; edição italiana:
2003), Platão e Freud: Duas Teorias do Amor MICHAEL FEREJOHN
(Blackwell, 1988; edição italiana: 1990), Bem Professor Associado de Filosofia na

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Universidade Duke. Foi professor visitante da Universidades de Michigan e Utah. E autor de


Universidade de Pittsburgh e da Universidade Conhecimento e Realidade segundo Platão
de Tufts; foi membro da Faculdade de Mellon (1976), Um Guia à Leitura da República de
da Universidade de Harvard. Ferejohn é o Platão (1979) e Indivíduo e Conflito na Ética
autor de As Origens da Ciência Aristotélica Grega (2002).
(1991), bem como de numerosos artigos
sobre a primeira ética e metafísica platônicas, R. M. DANCY
a metafísica, a epistemologia e a filosofia da Professor de Filosofia na Universidade
ciência aristotélica. Atualmente, prepara um Estadual da Flórida. E autor de Sentido e
livro sobre o lugar da definição na Contradição: Um Estudo em Aristóteles
epistemologia antiga. (1975), Dois Estudos sobre a Primeira
Academia (1991), Platão e a Introdução das
MICHAEL J. WHITE Formas (2004) e editor de Kant e Crítica
Professor de Filosofia e Direito na (1993).
Universidade Estadual do Arizona. Seus livros
incluem Agência e Integralidade: Temas SARA AHBEL-RAPPE
Filosóficos nas Discussões Antigas sobre Professora Associada de Línguas Clássicas na
Determinismo e Responsabilidade (1985), O Universidade de Michigan. E autora de Lendo
Contínuo e o Discreto: Teorias Físicas Antigas o Neoplatonismo (2000) e co-editora do Guia
em uma Perspectiva Contemporânea (1992), Blackwell à Leitura de Sócrates (Blackwell,
Partidário ou Neutro? (1997) e Filosofia 2006).
Política: Uma Introdução Histórica (2003). SUSAN SAUVÉ MEYER
Colaborou recentemente com o Guia de Obteve o título de doutora em filosofia na
Cambridge de leitura dos Estóicos (2003). Universidade de Cornell em 1987; ensinou na
Universidade de Harvard antes de entrar na
NICHOLAS D. SMITH Faculdade de Filosofia da Universidade da
Professor James F. Miller de Humanidades, Pennsylvania em 1994, onde é agora
Chefe do Departamento de Filosofia e Diretor Professora Associada. Seu trabalho atual tem
dos Estudos Clássicos na Faculdade Lewis e por foco a ética grega e romana e está no
Clark em Portland, Oregon. Suas publicações momento finalizando um livro, Ética Antiga.
com Thomas C. Brickhouse incluem: Sócrates
no Julgamento (1989), O Sócrates de Platão TERRY PENNER
(1994), O Julgamento e Execução de Sócrates: Professor Emérito de Filosofia e foi Professor
Fontes e Controvérsias (2002) e O Manual Afiliado de Línguas Clássicas na Universidade
Filosófico da Routledge sobre Platão e o de Wisconsin – Madison. Na primavera de
Julgamento de Sócrates (2004). 2005 foi Pesquisador Visitante A. G. Leventis
de Grego na Universidade de Edinburgh.
NICHOLAS WHITE Escreveu numerosos artigos sobre Sócrates, a
Professor de Filosofia e Professor de Línguas psicologia da ação de Platão e sobre a teoria
Clássicas na Universidade da Califórnia em das formas de Platão, bem como o livro A
Irvine. Foi Professor de Filosofia nas Ascensão do Nominalismo (1987) e, com

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Christopher Rowe, o livro Lísis de Platão


(2005).

THOMAS C. BRICKHOUSE
Professor de Filosofia no Lynchburg College e
co-autor (com N. D. Smith) de quatro livros e
numerosos artigos sobre a filosofia de
Sócrates. Escreveu também sobre Platão e
Aristóteles.

WILLIAM J. PRIOR
Professor de Filosofia na Universidade de
Santa Clara. Obteve seu título de doutor na
Universidade do Texas em Austin em 1975. E
autor de Unidade e Desenvolvimento na
Metafísica de Platão (1985) e Virtude e
Conhecimento (1991), editor de Sócrates:
Avaliações Críticas (4 volumes, 1996) e de
numerosos artigos sobre filosofia grega. Está
atualmente trabalhando sobre o problema
socrático e sobre a cosmologia grega.

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Prefácio como um reflexo da profundidade dos


textos e doutrinas individuais
Os ensaios reunidos neste livro são platônicas e, consequentemente, dos
guiados por quatro objetivos. diversos modos de os abordar.
Primeiro, estão dirigidos a temas da
Segundo, esta obra tem por
filosofia platônica antes que a
objetivo apresentar uma variedade de
diálogos platônicos particulares. O
perspectivas sobre o
pressuposto desta obra é que se
desenvolvimento filosófico de Platão.
aborda com proveito Platão ao se
Por conta da abordagem orientada
considerar de que forma posições
por temas (oposta a uma orientação
defendidas em um diálogo podem ser
por diálogos), o debate acerca do
comparadas e contrastadas a posições
desenvolvimento filosófico de Platão
defendidas em outros diálogos. Cada
é particularmente saliente. Se Platão
autor teve a liberdade de pôr em
trata um tema em um diálogo (ou em
prática este pressuposto como achava
um grupo de diálogos)
apropriado. Alguns preferiram
diferentemente do que em outros, é
concentrar-se primordialmente em
natural perguntar-se se esta diferença
um diálogo, observando de passagem
deve ser explicada por uma mudança
como o tema é tratado em outros
de contexto, uma mudança de ênfase
diálogos (p. ex., N. White), enquanto
ou uma mudança na posição de
outros autores preferiram pôr um
Platão. Se a mudança de posição
foco mais abrangente em seus ensaios
parece ser a melhor explicação, é
(p. ex., McPherran). Contudo, um
então natural perguntar-se qual
pressuposto comum a todos os
posição Platão sustentou
ensaios é que é apropriado, e mesmo
primeiramente e, deste modo, indicar
necessário, perguntar-se se Platão
seu desenvolvimento filosófico sobre
trata o tema em questão de modo
este tema. Aqui nos vimos envolvidos
consistente ao longo de sua obra. Isso
no debate atual entre os estudiosos
ocasionou, inevitavelmente,
que veem os diálogos de Platão como
repetição e imbricação de um ensaio
refletindo seu desenvolvimento
em outro. O mesmo texto ou doutrina
filosófico e os que veem os diálogos
platônica por vezes é explorado em
como desenvolvendo aspectos,
função de temas diferentes. Tal
detalhes e matizes de uma posição
repetição, todavia, deve ser encarada
filosófica única ao longo de toda a

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obra. Nos ensaios que seguem, alguns relevância filosófica em oposição à


autores defendem um relevância histórica ou filológica. Esta
desenvolvimentismo assaz robusto (p. distinção é, obviamente, vaga e
ex., McPherran, Penner e Ferejohn), potencialmente enganadora, mas o
enquanto outros parecem defender foco foi filosofia – não história ou
uma versão mais moderada (p. ex., filologia. Consequentemente, estou
Rowe) e outros ainda parecem seguro de que os temas escolhidos
oferecer interpretações refletem os vieses de nossa época (e,
desenvolvimentistas e não sem dúvida, meus próprios vieses). Tal
desenvolvimentistas (p. ex., Modrack) reflexo é, a meu ver, inevitável.
ou parecem adotar uma interpretação Porém, ele também fará, espero, com
unitária (p. ex., McCabe, Janaway e que a coleção seja atraente a muitas
Long). Quando os autores se referem pessoas com interesses na filosofia
aos três grupos cronológicos nos quais atual.
frequentemente se pensou que os
diálogos de Platão se dividem, eles Quarto, foi pedido aos autores
tipicamente têm em mente os dos ensaios deste livro que
seguintes agrupamentos: diálogos escrevessem seus textos de modo
precoces (Apologia, Carmides, Críton, acessível ao leitor iniciante ou ao não
Eutidemo, Eutifro, Górgias, Hípias especializado; contudo, de um modo
Maior, Hípias Menor, Íon, Laques, que também fizesse avançar a
Lísis, Menexeno, Mênon, Protágoras), discussão especializada. Há sempre,
diálogos médios (Crátilo, Parmênides, suponho, uma tensão entre erudição
Fédon, Fedro, República, Banquete, séria e acessibilidade, mas os autores
Teeteto) e diálogos tardios (Crítias, devem ser elogiados por sua
Leis, Filebo, Político, Sofista, Timeu). habilidade em navegar em tais águas.
Porém, a obra como tal não Consequentemente, os ensaios
pressupõe que os diálogos são devem interessar tanto os leitores
corretamente vistos como tendo sido que leem Platão pela primeira vez
compostos nesta ordem nem sustenta como também aos estudiosos que
uma abordagem desenvolvimentista dedicaram uma boa parte de sua vida
ou unitária de Platão. adulta a pesquisar suas profundezas
internas. Para este fim, os próprios
Terceiro, os temas foram autores fizeram as traduções das
selecionados com uma atenção à passagens centrais ou usaram as

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traduções presentes em Plato: fazendo muito do trabalho pesado e


salvando-me de erros graves.
Complete Works, editado por J. M. Cooper Finalmente, não posso deixar de
(Indianápolis, Hackett 1997), que se tornaram
agradecer a Ann, Thomas e Michael
em nossa época as traduções de referência
para estudiosos e iniciantes. por me ajudarem a lembrar onde
estão as minhas prioridades.
Por fim, gostaria de exprimir
minha sincera estima pelos eminentes
estudiosos que contribuíram com os
ensaios que seguem. Eu tenho estima
por sua paciência com minhas
instruções por vezes confusas e por
meus frequentes atrasos, pela
generosidade ao aceitar escrever para
esta obra e deixar de lado a tentação
de notas numerosas, pela elegância
ao responder aos meus comentários
por vezes obtusos e, especialmente,
pela habilidade filosófica e erudita
para compor os ensaios que seguem.
Em um sentido muito literal, este livro
não é meu, mas deles. Gostaria de
agradecer especialmente a Mary
Louise Gill e M. M. McCabe pelo
encorajamento que me deram em
momentos de incerteza, desespero e
exasperação. Obrigado também a
Nick Bellorini, Jennifer Hunt, Gillian
Kane, Kelvin Matthews, Mary Dortch e
à equipe da Editora Blackwell pelo
apoio, conselho e paciência. Meus
alunos Elliot Welch e Rusty Jones
também contribuíram de modo
inestimável a este empreendimento,

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resposta ............................................... 79
Sumário
A aporia socrática ................................. 81
Autores ....................................................... 4 O paradoxo da escrita ........................... 82

Prefácio....................................................... 9 Drama e a dimensão ética ..................... 84


As limitações do ético ........................... 86
Sumário .................................................... 12
O diálogo silente da alma ...................... 89
1. A vida de Platão de Atenas .................... 14
A reflexão e seu conteúdo..................... 93
A juventude de Platão em Atenas ......... 15
Notas .................................................... 94
A primeira viagem de Platão à Sicília e a
fundação da Academia.......................... 20 Referências e leitura complementar ...... 95

As expedições de Platão na Sicília em 5. O Elenchus socrático.............................. 97


favor de Díon e da filosofia ................... 24 6. Definições platônicas e formas............. 118
Os últimos anos de Platão ..................... 30
7. O método da dialética de Platão .......... 140
Referências e leitura complementar...... 31
Parte II .................................................... 162
2. Interpretando Platão ............................. 33
8. A ignorância socrática .......................... 163
Referências e leitura complementar...... 52
9. Platão e a reminiscência ...................... 186
3. O problema Socrático ............................ 54
10. Platão: uma teoria da percepção ou um
A fidedignidade das fontes.................... 55
aceno à sensação?................................... 209
O que as fontes nos dizem a respeito de
Sócrates................................................ 60
O problema das doutrinas de Sócrates .. 63
Nota ..................................................... 70
Referências e leitura complementar...... 70
Parte I ....................................................... 72
O MÉTODO PLATÔNICO E A FORMA DE
DIÁLOGO ................................................... 72
4. A forma e os diálogos platônicos............ 73
Discussões diretas................................. 73
Quadros e encartes............................... 75
Ficção e relato ...................................... 77
Sócrates a propósito de questão e

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Abreviaturas usadas neste livro Ep. Cartas


Euthd. Eutidemo
Euthphr. Eutifro
ARISTÓTELES Grg. Górgias
APo Segundos Analíticos Hp.Ma. Hípias Maior
Cot. Categorias La. Laques
de An. De Anima Lg. Leis
EE Ética Eudêmia Men. Mênon
EN Ética Nicomaqueia Phd. Fédon
Int. Da Interpretação Phdr. Fedro
Metaph. Metafísica Phlb. Filebo
Ph. Física Plt. Político
Poet. Poética Prm. Parmênides
Pol. Política Prt. Protágoras
SE Refutações Sofisticas R. República
Top. Tópicos Smp. Banquete
Sph. Sofista
AGOSTINHO Tht. Teeteto
DCD A Cidade de Deus Ti. Timeu
VII Sétima Carta
DIÓGENES LAÉRCIO
DL Vidas dos Filósofos Eminentes PLUTARCO
Per. Péricles
DIONÍSIO (PSEUDO-DIONÍSIO)
CH Hierarquia Celeste PORFÍRIO
MT Teologia Mística Abst. Da Abstinência
VP Vida de Pitágoras
HESÍODO
Th. Teogonia PROCLO
Op. Os Trabalhos e os Dias In pr. Eucl. Comentário ao primeiro livro de Euclides
HOMERO SEXTO EMPÍRICO
II. Ilíada M. Contra os matemáticos
Od. Odisséia
XENOFONTE
JÂMBLICO Mem. Memorabilia
DM Sobre os Mistérios dos Egípcios HG História Grega
PÍNDARO
N. Odes Nemeias
O. Odes Olímpicas

PLATÃO
Ap. Apologia
Chrm. Carmides
Cro. Crátilo
Cri. Críton

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1. A vida de Platão de feita na medida do bibliotecário


alexandrino Apolodoro, que dividiu as
Atenas vidas dos antigos em quatro períodos
de vinte anos, com uma akmê na
DEBRA NAILS idade de 40 anos.2 Por este esquema,
Platão nasceu devidamente em 427,
Platão morreu no primeiro ano da encontra Sócrates quando tinha 20
centésima oitava Olimpíada, no anos (e Sócrates tinha 60), funda a
décimo terceiro ano do reinado de Academia aos 40, viaja para a Sicília
Filipe da Macedônia – 347 a.C. pela aos 60 e morre na idade de 80. Ampla
contagem contemporânea – e foi evidência refuta a bela cadência.
enterrado na Academia.1 A reputação
do filósofo era tão venerável e tão Platão de Colito, filho de Aríston
difundida que uma mitologia foi – pois este era o seu nome legal, com
inevitável e prolongada: Platão teve o qual tinha direito de cidadania
como genitor Apolo e nasceu da ateniense e que será escrito nas listas
virgem PerictÍone; nasceu no sétimo tribais – nasceu em 424/3, quarto
dia do mês de Targelião, no dia de filho de Aríston de Colito, filho de
aniversário de Apolo, e as abelhas do Arístocles, e de PerictÍone, filha de
Monte Himeto puseram mel na boca Gláucon; Aríston e PerictÍone haviam
no bebê recém-nascido. Platônicos na se casado em 432. Deixando de lado
Renascença celebravam o nascimento origens divinas remotas, ambos os
de Platão em 7 de novembro, no pais tinham ascendentes que os
mesmo dia em que sua morte era ligavam aos arcontes atenienses dos
lembrada. Em seu O Filho de Apolo, de séculos sétimo e sexto e, no caso de
1929, Woodbridge escreve no início: PerictÍone, a parentesco com Sólon, o
“a exigência da história para que sábio legislador (Ti. 20e1). Aríston e
sejamos precisos vem de encontro à sua jovem família provavelmente
exigência de admiração para que estavam entre os primeiros
sejamos justos. Presos entre as duas, colonizadores de Egina que
os biógrafos de Platão têm escrito não mantinham a cidadania ateniense,
a vida de um homem, mas tributos a quando Atenas expulsou os nativos de
um gênio”. Gênio certamente ele era, Egina em 431 (Tucídides 2.27).
mas ele merece mais do que um Quando Aríston faleceu, por volta do
tributo e mais do que uma vita padrão nascimento de Platão, a lei ateniense

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proibia a independência legal da A juventude de Platão em Atenas


mulher, de modo que PerictÍone foi
dada em casamento ao irmão de sua Quando Platão era um menino com
mãe, Pirilampo, um viúvo que tinha idade suficiente para prestar alguma
sido recentemente ferido na batalha atenção à vida política que afetava
de Délio. Casamentos entre tios e sua família, a cidade de Atenas estava
sobrinhas, assim como entre primos enredada na Guerra do Peloponeso,
de primeiro grau, eram comuns e provocando e sofrendo uma
úteis em Atenas, preservando antes sequência horripilante de desastres.
que dividindo as propriedades Em 416, quando Platão tinha cerca de
familiares. O pai adotivo de Platão, 8 anos e a Paz de Nícias, assinada
Pirilampo, tinha sido amigo íntimo de entre Atenas e Esparta em 421, tinha
Péricles (Plutarco, Per. 13.10) e várias fracassado completamente, Atenas
vezes embaixador na Pérsia (Chrm. comportou-se com uma crueldade
158a2-6); trouxe à família pelo menos desconhecida em relação a Melos,
um filho, Demos (Grg. 481d5, 513c7), servindo-se dos argumentos “o-
cujo nome significa “povo”: um poder-faz-o-direito” que terão eco no
tributo à democracia sob a égide da Trasímaco da República I (Tucídides
qual Pirilampo floresceu na vida 5.84-116). No ano seguinte, quando a
pública. Quando Pirilampo e cidade embarcou na catastrófica
PerictÍone tiveram outro filho, expedição à Sicília, um grupo político
fizeram o que havia de mais oligárquico destruiu, à noite, os
convencional, dando-lhe o nome de bustos da cidade, insultando o deus
seu avô, Antifonte (Prm. 126bl-9). da viagem e dando início a uma
Assim, Platão cresceu em uma família histeria supersticiosa que levou à
de pelo menos seis crianças, sendo execução sumária, prisão ou exílio de
ele o número cinco: um enteado, uma cidadãos acusados de sacrilégio,
irmã, dois irmãos e um meio-irmão. inclusive membros da família de
Pirilampo morreu por volta de 413, Platão. Um dos três comandantes da
mas o filho mais velho de Aríston, frota, o carismático Alcibíades, estava
Adimanto, já tinha então idade entre os acusados, e uma
suficiente, cerca de 19 anos, para consequência terrível da histeria em
tornar-se guardião (kurios) de sua massa de Atenas foi o abandono, por
mãe. parte de Alcibíades, da expedição e
sua traição à cidade. Com a derrota

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total de Atenas na Sicília em 413, enquanto as mulheres permaneciam


Esparta recomeçou a guerra. Platão discretamente no interior das casas.
devia ter 12 anos quando Atenas Na companhia de seus irmãos, Platão
perdeu seu império por causa da era então provavelmente uma jovem
revolta de seus aliados; 13 anos, criança quando conheceu Sócrates.
quando a democracia foi, por breve Tanto o Lísis, que se passa no início da
período, derrubada pela oligarquia primavera de 409, quando Platão
dos Quatrocentos e quando o teria 15 anos, quando o Eutidemo,
exército, ainda sob direção dos que se passa alguns anos mais tarde,
democratas, persuadiu Alcibíades a fornecem uma visão dos anos
retomar e a comandá-lo novamente; escolares de Platão, já que as
14 anos, quando a democracia foi personagens jovens destes diálogos
restaurada; 15 anos, quando seus eram exatos coetâneos de Platão na
irmãos mais velhos, Adimanto e vida real. Lísis de Exone, acerca de
Gláucon, lutaram bravamente na quem temos a sorte de possuir
batalha de Megara (R. 368a3). evidência contemporânea para
corroborar, independente dos
A despeito da guerra e das diálogos de Platão, provavelmente
turbulências, Platão e seus irmãos permaneceu um amigo íntimo do
teriam recebido uma educação filósofo, pois sabemos que chegou a
formal em ginástica e música, mas por ser avô, tendo pelo menos 60 anos
“música” devemos entender os quando morreu.
domínios de todas as Musas: não
somente dança, lírica, épica e música O diálogo Eutidemo, que se passa
instrumental, mas também leitura, no momento em que Platão estaria
escritura, aritmética, geometria, ele próprio pensando a respeito de
história, astronomia e mais ainda. A suas perspectivas de formação, ilustra
condução informal de um menino à a moda educacional da época: a
vida cívica ateniense era transferência pretendida da
responsabilidade fundamentalmente excelência (aretê, também traduzida
do irmão mais velho da família. Como por “virtude”) do professor ao
se vê no Laques e no Carmides, um estudante. A educação mais refinada
jovem era socializado por seu pai, por em Atenas no final do quinto século
seus irmãos mais velhos ou pelo tutor, era dominada por sofistas, residentes
os quais ele acompanhava na cidade – estrangeiros que obtiveram fama e

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riqueza professando técnicas de Estes eram os últimos anos antes


persuasão e exposição, platitudes da derrota de Atenas para Esparta em
revestidas de alto estilo retórico, o 404, quando a Assembleia prestava
tipo de habilidades que poderia cada vez menos atenção às leis
ajudar os jovens a se tornarem escritas e agia cada vez mais irracional
excelentes qua exitosos na vida e emocionalmente, e em busca de
pública por falar com eficácia na vingança. Um Platão mais velho
Assembleia ateniense (ekklêsia) e nos distinguirá entre democracia legal e
tribunais. Mesmo os mais respeitáveis ilegal (Pít. 302dl-303b5) com boa
dentre eles – Górgias de Leontino e razão. Contudo, as tradições eram
Protágoras de Abdera, que aparecem mantidas quanto aos distritos ou
em diálogos homônimos (ver a demos de votação, 139 dos quais
representação por Sócrates de estavam em Atenas. A cidadania era
Protágoras no Teeteto) – são passada estritamente de pai para
representados, contudo, como tendo filho, de modo que os filhos do
feito ofício pífio ao transferir qualquer falecido Aríston, quando chegam aos
excelência que tivessem, pois seus dezoito anos, são apresentados aos
estudantes parecem sempre ter cidadãos de Colito em cerimônias de
dificuldade em reter e defender o que dokimasia, após as quais estariam
seus professores professavam. No inteiramente emancipados. Foi no
Eutidemo, dois sofistas de caráter ano seguinte à dokimasia de Platão
questionável alegam ser capazes de que Sócrates tentou sem sucesso
tornar qualquer homem bom impedir que a Assembleia levasse a
chamando-o à filosofia e à excelência julgamento e condenasse
(274d7-275al), mas sua produção é inconstitucionalmente seis generais,
nada menos que um uso hilário de entre os quais o filho de Péricles e
falácias com vistas a enganar seus Aspásia, sob a acusação de não terem
respondentes. O final do diálogo (a assegurado o recolhimento dos
partir de 304b6) é uma lembrança corpos após a vitória na batalha naval
grave de que, no tempo do de Arginusa, em 406. Nos dois anos
amadurecimento de Platão, os seguintes à sua cerimônia, Platão terá
atenienses estavam cada vez mais atuado em companhia de seus
desconfiados dos sofistas, retóricos, camaradas de demo em uma milícia
oradores e filósofos, igualmente. da cidade, embora confinado ao
serviço dentro dos limites da Ática.

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Mais tarde, quando chamado, terá órbita de Sócrates, personagens dos


servido em outros lugares. Tanto pela diálogos Protágoras e Carmides, que
lei quanto pelo costume, era tiveram papel proeminente na vida
necessária maior maturidade para pública ateniense: Crítias, o primo
participar em vários outros aspectos mais velho de segundo grau de Platão
da vida cívica. Um cidadão deveria ter (o primo mais velho de PerictÍone) e
20 anos para entrar na vida pública Carmides (o irmão mais jovem de
sem se tornar objeto de derrisão, e 30 PerictÍone), que estava sob a tutela de
anos para que seu nome entrasse nas Crítias. Ambos estavam entre os
loterias que determinavam o cinquenta e um homens em quem
Conselho ateniense (boulê), os júris e Platão depositava grande esperança
os arcontes, e para que pudesse ser em 404, quando, depois dos fracassos
eleito general e se esperasse que se e dos excessos da democracia por
casasse. vezes ilegal, a derrota de Atenas para
Esparta levou à eleição dos Trinta,
Quando Platão chegou à encarregados de formular uma
maturidade, naturalmente imaginou constituição pós-democrática que
para si próprio uma vida nos assuntos faria a cidade retomar aos princípios
públicos, como diz em uma carta de governo da pátrios politeia, a
escrita em 354/3 (VII. 342b9). A constituição ancestral de Atenas.
autenticidade da carta foi por certo Crítias era um dos líderes dos Trinta e
tempo muito discutida, mas mesmo Carmides era um dos Dez chefes
seus detratores concedem que seu municipais do Pireu; os Onze chefes
autor, se não tiver sido Platão, era municipais da Atenas urbana
íntimo do filósofo, possuindo completavam o total de cinquenta e
conhecimento de primeira mão dos um. Embora Platão tenha sido
eventos relatados. Muitos dos imediatamente chamado para
detalhes da carta são esmiuçados e participar da administração, ele era
corroborados por historiadores ainda jovem (VII. 324d4) e postergou
contemporâneos da Grécia e da Sicília a decisão, participando de perto e
e seu estilo – diferentemente de esperando testemunhar o retomo de
outras carta desta série – é similar ao Atenas à justiça sob a nova liderança.
das Leis e Epínomis (Ledger 1989: 148-
51).3 A família de Platão em sentido Os Trinta o desapontaram
mais largo já incluía dois homens na amargamente; contudo, ao tentar

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implicar Sócrates na captura do acusação de terem apoiado a


general democrata Leon de Salâmis democracia (Xenofonte, HG 2.4.8-10;
para execução sumária. Platão diz Diodoro Sículo 14.32.5). O acordo
desta oligarquia que ela fez o governo teve vida curta: assim que os
da democracia anterior parecer, por espartanos tiveram sua atenção
comparação, uma época áurea desviada para uma guerra com Élis, os
(VII.324d6-325a5). Segundo oligarcas começaram a alugar
Xenofonte de Erquia, o projeto da mercenários; Atenas retaliou
constituição era continuamente anexando Elêusis e matando todos os
postergado (HG 2.3.11), e Isócrates de simpatizantes remanescentes da
Erquia descreve os Trinta como tendo oligarquia no início da primavera de
rapidamente caído em abusos e em 401.
excessos de autoridade, executando
sumariamente 1.500 cidadãos e Assim como em outras
levando outros 5.000 ao Pireu durante revoluções que saíram fora de
nove meses no poder (Aeropagiticus controle, o nível geral de desordem
67). Porém, os democratas no exílio tornou os atos de retaliação muito
puderam reagrupar-se em File, de fáceis de serem perpetrados e a
onde, em 403, voltaram a entrar no violência muito fácil de infligir sem
Pireu e enfrentaram as forças dos punição. Contudo, os democratas que
Trinta na batalha de Muniquia, onde retornaram, segundo o relato de
Crítias e Carmides foram mortos. Após Platão, mostraram aparente
meses de mais levantes, a democracia contenção durante este período de
foi restaurada. Apesar de uma anistia revoluções (VII. 325bl-5). E mesmo, se
negociada com arbitragem de Esparta os diálogos com datas de drama
em 403/2 para reduzir casos de variando entre 402 e 399
vingança na sequência imediata da (especialmente o Mênon, Teeteto,
guerra civil, a confusão continuou. Eutifro e Fédor) podem ser tomados
Uma cláusula do acordo de como fontes para os tipos de conversa
reconciliação dizia que todos os que Platão experimentou, quando
simpatizantes da oligarquia tinha pouco mais de 20 anos, na
remanescentes teriam seu próprio companhia de Sócrates, então pelo
governo em Elêusis, que eles teriam menos algumas coisas da vida
previamente assegurado para si ao ateniense tinham voltado ao normal.
pôr à morte a população sob a Talvez por isso Platão descreva como

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tendo sido “por sorte” (VII.325b5-6) Neste momento, ou logo depois,


que Anito e Lícon, cujo amigo Leon Platão determinou-se a fazer sua
Sócrates tinha anteriormente se contribuição à vida pública como um
recusado a entregar aos Trinta, educador. Ele devia, neste papel,
conseguiram montar um processo suplantar os sofistas e retóricos
contra Sócrates por impiedade e itinerantes, que estiveram por tanto
obtiveram ganho de causa em sua tempo à frente da alta educação
proposição de pena de morte. Para ateniense.
Platão, este evento devastador, bem
como sua opinião sobre que a ordem A primeira viagem de Platão à Sicília
ateniense estava deteriorando-se em e a fundação da Academia
um caos, puseram um fim ao desejo
de ser politicamente ativo que se Após a execução de Sócrates, Platão
reacendeu brevemente nele com a permaneceu em Atenas por talvez
restauração da democracia (VII. três anos. Durante este tempo, ele
325a7-bl). Embora continuasse a passou a conviver com Crátilo,
considerar como ainda poderia seguidor de Heráclito, e com
realizar uma melhora nas leis e na vida Hermógenes, meio-irmão bastardo
pública em geral, com o tempo ele se do célebre Cállias de Alopece, que
deu conta que todo Estado existente gastou uma fortuna com sofistas (veja
sofria de mau governo e de leis quase Cra., Prt. e Ap.). Então, com a idade de
insanáveis, tendo sido forçado, lá pela 28 anos em 396, Platão residiu por um
metade dos seus vinte anos, a admitir período em Megara, distante meio
que, sem “reta filosofia”, se é incapaz dia de caminhada de Atenas, em
de companhia de Euclides e de outros
socráticos, na busca de matemática e
Determinar o que é a justiça na polis ou filosofia (Hermodoro, citado em
no indivíduo. Os males sofridos pela Diógenes Laércio 3.6-2-6). Indicações
humanidade não cessarão até que ou
duvidosas de outras viagens
bem os filósofos genuínos e
verdadeiros governem a polis, ou bem aparecem somente em fontes tardias.
os governantes nas poleis, por alguma
graça divina, se tornem Quando alcança 30 anos em 394,
verdadeiramente filósofos. (VII.326a5- espera-se de Platão que se estabeleça
b4; cf. R. V 473cll-e2)
como proprietário e, embora não haja
nenhuma indicação neste sentido,

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que se case (apesar de Leis IV 721a-e muro da cidade, na margem oriental


e VI. 772d). Nunca esteve entre os do rio Cefiso. O sobrinho de Platão,
cidadãos mais ricos de Atenas, mas as Eurimédon, outro executor, possuía
rendas provenientes de suas as propriedades adjacentes ao norte e
propriedades agrícolas fora dos ao leste. Embora o demo de Platão
muros da cidade parecem ter sido fosse Colito, dentro dos muros da
adequadas para suas necessidades cidade havia três irmãos com os quais
pessoais e para obrigações familiares devia dividir a propriedade de Aríston,
como dotes e funerais. O e as leis de sucessão visavam a manter
financiamento da Academia, ainda a intactas as propriedades.
ser fundada, era provavelmente Normalmente, a ausência de um
complementado por doações; que as testamento requeria uma divisão dos
finanças da Academia eram distintas bens da propriedade (terras em
das contas pessoais de Platão é cultivo, estruturas, rebanhos, metais
atestado pela ausência de menção da preciosos, dinheiro, etc.) em partes
Academia no testamento de Platão. iguais; quando se estava de acordo
Platão tinha uma propriedade no que eram iguais, os irmãos podiam
demo dos Ifistíadas, cerca de 10 km sortear ou escolher a herança
ao norte-nordeste do antigo muro da (MacDowell, 1978, p. 93).
cidade e 2 km das margens do rio
Cefíso, uma propriedade que Mais ou menos na mesma época
provavelmente ele herdou (seu em que estava estabelecendo-se,
testamento não menciona nenhuma Platão e os matemáticos Teeteto de
soma paga por ela). A propriedade Sunio, então com 19 anos e que
pode ser localizada com precisão morrerá cinco anos mais tarde,
porque Platão a descreve como Árquitas de Tarento, um pitagórico,
limitada ao sul pelo templo de teórico da música e líder político
Hércules, tendo sido descoberto em esclarecido, que permanecerá
1926 um de seus marcos de pedra. próximo de Platão durante sua vida,
Platão viria a comprar outro terreno, Leodamas de Taso e talvez Neoclides
no demo dos Eresidas, de Calímaco, (Proclo, citado em Euclides,
um executor nomeado no seu Elementos 66.16) passaram a
testamento, de outro modo encontrar-se na parte nordeste
desconhecido; sua localização era urbana de Atenas no bosque do herói
aproximadamente 3 km ao norte do Hecademo, entre os rios Cefiso e

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Erídano, com vistas a continuar seus II-V do nosso texto atual da República
estudos. Espeusipo de Mirrino, filho – foi publicada antes de 391, quando
de Potone, irmã de Platão, uniu-se ao Ecclesiazusae, a ousada peça de
grupo por volta de 390. O número de Aristófanes, parodiou seus elementos
nomes de matemáticos presentes em centrais (Thesleff 1982: 102-10). A
uma lista originalmente compilada Apologia, uma primeira versão do
por Eudemo na última parte do século Górgias, e o que é agora República I,
quarto a.C. é uma forte indicação que estava provavelmente também entre
o grupo de estudiosos amigos cresceu os diálogos que foram publicados
firmemente nos primeiros anos. É neste primeiro grupo. De tempos em
somente quando Eudoxo de Cnido tempos, Fedro e Lísis foram
chega, no meio dos anos 380, que considerados como também aí
Eudemo reconhece formalmente uma figurando – sobretudo em tradições
Academia. O bosque que iria mais fora da filosofia analítica anglo-
tarde ser a Academia, todavia, tinha americana desde a década de 1950.
um ginásio e amplos espaços abertos Há evidência abundante de revisão
frequentados por jovens intelectuais em vários diálogos, um obstáculo
– e não salas de aula ou anfiteatros insuperável para uma análise
para conferência. computacional definitiva do estilo de
Platão e, portanto, para a certeza
Platão já gozava de celebridade acerca da ordem em que os diálogos
fora de Atenas por volta de 385, foram escritos, exceção feita as
quando foi convidado à corte do últimos (Ledger 1989: 148-51).
tirano de Sicília, Dionísio I, que Contudo, a impressão de três
convidava regularmente atenienses períodos maiores em sua produção,
célebres ao seu palácio real com limites cinzentos, persiste na
fortificado em Ortigia, a península maior parte das tradições de
que se lança no porto de Siracusa. Isto interpretação (Nails, 1995, p. 97-114).
é uma indicação cogente que, ao lado
de seus estudos matemáticos e Platão nos diz que tinha quase 40
filosóficos, Platão tinha começado a anos quando viajou para a Itália, onde
escrever diálogos que eram copiados provavelmente visitou Árquitas em
e difundidos. Há evidência substancial Tarento, e para a Sicília, onde foi
que uma proto-República – que hospedado por Dionísio I, tirano de
compreendia a maior parte dos livros Siracusa. A viagem foi memorável, a

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despeito do desgosto de Platão pela eram seus manuais, e os métodos


tirania e pela sensualidade decadente filosóficos exemplificados neles
que encontrou. Não tinha nenhuma constituem o brilhante legado de
intimidade com o tirano (muito Platão. Fundada após o retorno de
semelhante ao tirano da República Platão da Sicília em 383 e com uma
IX), mas encontrou Díon, o jovem sucessão contínua até 79 a.C., a
cunhado de Dionísio. Eis aqui um Academia é, por vezes, considerada a
jovem de 20 anos, admirável, ainda progenitora da universidade
que austero, pronto para aprender o moderna, embora Isócrates tivesse
que quer que Platão considerasse que estabelecido uma escola permanente
pudesse ajudá-lo a obter a “liberdade para retórica em Atenas em 390. O
sob as melhores leis” para o povo da programa da Academia, baseado na
Sicília (VII. 324b 1-2). Sua amizade – matemática e na busca do
renovada com as visitas de Díon à conhecimento científico – antes que
Grécia – durará trinta anos (VII. em seu fechamento – tornou-a a
324a5-7). Fontes tardias (Diodoro primeira em seu tipo. Porém, o que
Sículo, Plutarco, Diógenes Laércio) pode significar sua “fundação”?
nos dão diferentes detalhes a respeito Presumivelmente, a Academia tornou
do final da primeira viagem de Platão público seu interesse em receber
à Sicília, embora concordem todas estudantes, embora não houvesse
que a fala franca de Platão irritou a tal taxas. Membros que estudaram
ponto o tirano que ele foi posto de juntos por alguns anos estavam agora
volta em um navio e vendido como talvez prontos para partilhar o que
escravo. Quando foi comprado e haviam aprendido e aplicar seu
posto em liberdade por Aníceres de conhecimento em novas áreas. A
Cirene, no relato de Diógenes, os Academia continuou a atrair filhos de
amigos de Platão tentaram devolver o líderes políticos, que estavam mais
dinheiro, mas Aníceres o recusou e interessados em governar do que
comprou para Platão um jardim no estudar matemática, que era um pré-
bosque de Hecademo. requisito, mas todo início é turvo e é
difícil não importar de modo
A Academia – um centro anacrônico categorias atuais
ateniense para estudos avançados, (professor, aluno) – como, em outros
reunindo homens e mulheres de todo séculos, “mestre” e “discípulo” se
o mundo grego –, os diálogos, que impuseram. De qualquer modo,

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Platão parece ter passado o período Platão não desejava retornar


que vai de 383 a 366 em relativa quando chamado de volta a Siracusa
calma, estudando, discutindo, por Dionísio II em 366. O velho
escrevendo e contribuindo, de modo Dionísio morrera em 367, logo após
geral, para a educação na Academia. É ter sabido que sua peça, O Resgate de
a este período também que se atribui Heitor, tinha recebido o primeiro
a maior produção dos diálogos de prêmio no festival das Lenaias em
Platão e que os membros e as Atenas. Apesar de sua reputação
atividades da Academia começaram a como erudito e culto, ele não se
ser ridicularizados no teatro cômico preocupou com a educação de seu
de Atenas. Deve-se notar a chegada filho e herdeiro. Quando criança,
de Aristóteles de Estagira em 367; os DÍoniso II passou a maior parte do
fragmentos dos diálogos escritos por tempo sem contato com o pai,
Aristóteles sugerem que era típico dos ocupado em fabricar brinquedos de
membros da Academia exercitar-se madeira, mas, quando chamado à
em escritos deste gênero. presença dele, ele era inspecionado
em busca de armas escondidas como
As expedições de Platão na Sicília em todo aquele que tinha uma audiência
favor de Díon e da filosofia com o tirano. Adulto por volta dos 30
anos quando chamou Platão, o jovem
Na Carta VII, Platão descreve Dionísio tinha casado com a sua meia-
minuciosamente suas viagens irmã paterna, Sofrosine, com quem
subsequentes para a Sicília. O breve teve um filho, e que recentemente
sumário a seguir pode ser de interesse tinha recebido a cidadania honorária
tendo-se em mente a imagem do ateniense. Enquanto isso, Díon casou
filósofo do Teeteto, objeto de derrisão com sua sobrinha, Arete, filha do
por ser perfeitamente inapto em velho tirano, e tinha um filho de sete
assuntos práticos (172c3-177c2); anos, de modo que Díon era cunhado
Platão se mostra como inocente no e por vezes conselheiro do novo
exterior, manipulado em toda tirano.
ocasião, completamente
incompetente para ajudar seu amigo, Díon, a pedido de quem o
ainda mais para tornar o governante chamado tinha sido feito, teve
um filósofo. dificuldade para superar a relutância
de Platão em viajar para Siracusa. Ele

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insistiu com vários argumentos, débito em relação ao seu primeiro


inclusive com a paixão do jovem anfitrião pesava mais que suas
tirano pela filosofia e pela educação presentes responsabilidades na
em geral. Platão não menciona se Academia, uma dupla razão mostrou-
tinha lembrança do adolescente se finalmente decisiva: seria
Dionísio em sua primeira visita, vergonhoso aos olhos do próprio
declarando somente que as paixões Platão e uma traição à filosofia caso se
de um jovem podem mudar mostrasse, ao final, um homem de
radicalmente. Díon insistiu, exortando palavras que se acovardava diante dos
Platão a ajudá-lo a influenciar Dionísio atos. Platão por fim embarcou, no
II, argumentando inter alia que a início da estação de navegação de
morte do velho tirano poderia ser 366, para uma segunda viagem à
aquele “destino divino” necessário Sicília.
para que enfim se realizasse a
felicidade de um povo livre sob boas Facções dentro da corte real
leis, que havia algumas outras pessoas suspeitaram desde o início de Díon e
em Siracusa que esposavam opiniões Platão, imaginando que o objetivo
corretas, que seus jovens sobrinhos secreto deste era colocar a Sicília,
necessitavam igualmente de então em guerra contra Cartago, sob
treinamento em filosofia e que o novo o controle de Díon. No intuito de
tirano poderia ser levado à verdadeira testar a influência do filósofo, fizeram
filosofia por Díon com a ajuda de com que o hábil Filisto, um historiador
Platão, da mesma maneira como banido pelo antigo tirano, fosse
aquele fora levado à verdadeira chamado de volta do exílio. Após
filosofia por este, efetuando, deste alguns meses durante os quais Platão
modo, reformas e pondo fim aos e Díon tentaram incessantemente
males longamente sofridos pelo povo. tornar a vida de moderação e
Além disso, Díon acrescentou, se sabedoria atrativa a Dionísio, que eles
Platão não viesse, homens piores consideraram não sem habilidades
estavam ansiosos para realizarem a (VII. 338d7), Filisto convenceu
educação do jovem tirano. Confiando Dionísio que Díon estava
mais no caráter firme e nas intenções secretamente negociando a paz com
de Díon do que na esperança de ter Cartago. Díon foi deportado
sucesso com Dionísio, temendo pela sumariamente para a Itália, separado
segurança de Díon, sentindo que o de sua mulher, filho e parte de sua

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propriedade lhe foi retirada. Os Atenas, onde havia comprado uma


amigos de Díon temeram retaliação, propriedade; a cidade serviu-lhe de
mas o tirano – cioso de sua reputação base e lhe permitiu estudar na
no estrangeiro e da necessidade de Academia e fazer amizade com
aplacar os que apoiavam Díon – Espeusipo. Porém, ele viajou por toda
pretensamente pediu a Platão para a Grécia, tendo sido recebido
ficar, ao mesmo tempo em que se calorosamente em Corinto e em
assegurava que não fugiria, Esparta, onde recebeu a cidadania
instalando-o no interior de sua honorária. Quando Dionísio mandou
fortaleza (VII. 329dl-330a2). Platão chamar Platão – mas não Díon – em
insistiu no projeto de educação e até 361 e Díon implorou para que Platão
estabeleceu relações entre Dionísio e fosse, pois tinha escutado que
Árquitas e outros tarentinos. Dionísio, Dionísio tinha desenvolvido uma
porém, que se ligou a Platão, impressionante paixão pela filosofia
permaneceu invejoso da alta (VII. 338b6-7). Então Platão recusou,
consideração que Platão tinha por irritando a ambos ao alegar idade
Díon. Dionísio buscava provecta. Havia rumores
desesperadamente o elogio de provenientes da Sicília que Árquitas,
Platão, mas não trabalhava em busca certos amigos de Díon e muitos
da sabedoria, que era o único outros haviam dado a Dionísio o gosto
caminho para obtê-lo. Platão serviu- pelas discussões filosóficas. Quando
se de todas as ocasiões para persuadir uma segunda chamada chegou,
Dionísio a lhe permitir voltar para Platão percebeu nela a ambição
Atenas, o que resultou finalmente em zelosa (philotimos) de não ser trazida
um acordo: Platão prometeu que, à luz sua ignorância da filosofia; e
caso Dionísio o chamasse, assim como Platão recusou-se novamente a
a Díon, após ter-se assegurado da paz retornar à Sicília. Quando uma
com Cartago, ambos voltariam. terceira chamada chegou, trazida por
Nestes termos, Platão partiu de modo vários conhecidos sicilianos de Platão,
publicamente amigável e Dionísio entre os quais Arquedemo, ligado a
retirou as restrições postas quanto ao Árquitas, o siciliano Dionísio pensou
recebimento por parte de Díon de que Platão a teria em alta conta. Não
ganhos de sua propriedade. somente vieram com uma trirreme
para facilitar a viagem de Platão, mas
Díon, entretanto, viajou para também Dionísio escreveu uma longa

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carta, dizendo que os negócios de das propriedades de Díon; em


Díon, caso Platão viesse, seriam consequência, Platão anunciou,
determinados como Platão quisesse, irritado, que voltaria a Atenas, tendo
mas que, se não viesse, Platão não intenção de embarcar em qualquer
gostaria do desfecho a ser dado barco no porto. Dionísio, cioso de sua
quanto à propriedade e à pessoa de reputação, rogou-lhe que ficasse e,
Díon. Neste ínterim, os conhecidos vendo que não conseguiria persuadir
atenienses de Platão lhe pediam o irritado filósofo, ofereceu-se a
vivamente para que fosse cuidar ele próprio da passagem de
imediatamente e cartas chegavam da Platão. Contudo, ele encolerizou
Itália e da Sicília com novos Platão ainda mais no dia seguinte, ao
argumentos – Árquitas relatava que prometer que, se Platão ficasse
importantes assuntos de Estado entre durante o inverno, Díon receberia
Tarento e Sicília dependiam da volta excelentes propostas, que ele
de Platão. Como antes, a decisão de detalhou, na primavera. Platão, sem
Platão foi que seria uma traição a confiar nestas promessas, passou a
Díon e a seus anfitriões de Tarento se noite considerando várias
não fosse; quanto à traição à filosofia, alternativas e se deu conta que já
desta vez Platão considerou tinha levado um xeque-mate. Aceitou
(cegamente, como diria mais tarde: ficar sob uma condição: que Díon
VII. 340a2) que talvez Dionísio, tendo ficasse a par das propostas de modo
agora discorrido com tantos homens que o acordo pudesse ser feito. Não
acerca de temas filosóficos e tendo somente a estipulação não fui
ficado sob a influência deles, de fato honrada, como tampouco as
pudesse ter abraçado a melhor vida. propostas foram discriminadas: assim
Pelo menos, Platão iria descobrir a que o porto foi fechado e Platão não
verdade. podia mais escapar da ilha, Dionísio
vendeu as propriedades de Díon.
Ficou claro, após sua primeira
conversa, que Dionísio não tinha Em evento decisivo, porém,
nenhum interesse em discutir envolvendo Heraclides, amigo de
filosofia; na verdade, o tirano Díon e líder da facção democrática em
anunciou que ele já sabia o que Siracusa, tudo mudou. Ele foi acusado
importava saber. Ademais, ele de fracassar quanto ao pagamento de
cancelou o pagamento dos ganhos mercenários e fugiu para proteger sua

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Hugh H. PLATÃO
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vida, juntando-se a Díon. Uma desembarcou em Olímpia e se


inscrição do santuário de Asclépio em encontrou com Díon nos jogos,
Epidauro os honra juntamente relatando-lhe a notícia de mais uma
Inscriptiones Graecae IV2 95.39-40). intransigência do tirano: de fato,
Neste ínterim, Dionísio prometeu a Platão fracassara em realizar algo
outros líderes democratas excelentes digno de nota em favor de Díon ou da
condições para Heraclides, se voltasse filosofia durante os sete anos de
para ser julgado, e ocorreu que Platão desventura na Sicília (VIL 350d4-5). A
serviu de testemunha do juramento primeira reação de Díon foi clamar
quanto à promessa do tirano. por vingança, querendo que os
Quando, no dia seguinte, o tirano já amigos, a família de Platão e o próprio
parecia estar quebrando a palavra, velho filósofo se unissem a ele. Platão
Platão invocou prontamente a tinha vários argumentos para recusar
promessa que testemunhou na e ofereceu em troca seu auxílio no
véspera, a qual o tirano prontamente caso de Díon e Dionísio desejarem ser
negou, aguilhoando Platão amigos e fazer bem um ao outro. Isso
novamente. Tomando a ação de nunca ocorreu, embora as ações
Platão como um ato de preferir Díon posteriores de Díon mostrem que seu
contra ele próprio, Dionísio desejo de vingança tinha-se
transportou Platão para fora das extinguido antes da liberação de
muralhas, à casa de Arquedemo, na Siracusa, uma missão que ele
área da cidade em que ficavam os perseguiu “preferindo sofrer o que é
mercenários do tirano. ímpio a causá-lo” (VII. 351c6-7).

Se Platão tinha sido antes um Platão manteve-se informado das


prisioneiro virtual, ele agora estava tratativas de seu amigo e continuou a
em perigo: remadores mercenários fornecer-lhe conselho durante os três
atenienses contaram-lhe que alguns anos para angariar os fundos
deles estavam planejando matá-lo, de necessários e para alistar mercenários
modo que Platão passou a enviar secretamente até que Díon pôde,
desesperadamente pedidos de ajuda. finalmente, embarcar em 357,
Por meio da intercessão de Árquitas, deixando a Espeusipo sua
um barco tarentino foi enviado em propriedade em Atenas. Parece que
sua busca. Porém, Platão não membros da Academia tinham muita
retomou para Atenas. Ele esperança em um governante-

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Hugh H. PLATÃO
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filósofo: Platão os descreveu como entre seus respectivos seguidores.


“empurrando-o” a uma terceira Heraclides e Díon foram obrigados a
viagem (VII. 339d8-el), e pelo menos fazer repetidas tentativas de pôr seus
um membro, Timônides de Leucas, seguidores em uma mesma direção.
acompanhou a expedição no intuito Dois turbulentos anos se passaram
de fazer um relato para Espeusipo e até que Ortígia ficou finalmente
para a História. Heraclides ficou de aberta no verão de 354; a separação
trazer tropas adicionais e trirremes. A de onze anos entre Díon e sua família
expedição de Díon, incluindo trinta terminou e a assembleia dos cidadãos
sicilianos exilados, chegou quando o pôde debater temas internos:
exército estava fora da cidade, de redistribuição da terra e da
modo que Díon pôde entrar sem propriedade e se deveria haver ou não
encontrar resistência e foi aclamado um Conselho. No espaço de alguns
como o libertador dos gregos da meses, porém, Heraclides foi
Sicília. Foi eleito general e obteve o assassinado por seguidores de Díon,
apoio da Siracusa inteira – exceto da ele mesmo tendo sido assassinado por
fortaleza do tirano em Otígia, onde a um ateniense, Calipo, que o havia
esposa e o filho de Díon estavam recebido amigavelmente e o
retidos. hospedado em 366 e o acompanhara
à Sicília. Calipo, que não tinha, Platão
Dionísio simulou uma abdicação, insiste, nenhuma conexão com a
mas mandou seu exército atacar Academia, declarou-se
enquanto negociava os detalhes: imediatamente tirano. Platão,
houve outros engodos e escaramuças escrevendo seis anos após o encontro
militares que deram a Díon uma em Olímpia e algumas semanas ou
reputação de heroísmo. Quando meses após a morte de Díon, compara
Heraclides chegou com vinte seu amigo de trinta anos a um piloto
trirremes adicionais e com 1.500 que antecipa corretamente uma
mercenários, houve inicialmente uma tempestade, mas subestima sua força
cooperação. Contudo, a amizade se de destruição: “que eram perversos
deteriorou, em função da nomeação os homens que o puseram por terra,
oficial de Heraclides como general, ele sabia, mas não a extensão de sua
pela fuga pelo mar do tirano sob a ignorância, de sua depravação e
guarda deste e porque ele era mais avidez” (VII. 351d7-e2).
popular do que Díon, causando lutas

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Os últimos anos de Platão de tempos em tempos estabelecidas


durante os quase quarenta anos de
Após 360, Platão permaneceu em liderança de Platão. Além dos que já
Atenas, onde ocorreu um certo foram mencionados – Aristóteles,
número de mudanças em sua família Eudoxo, Timônides e Espeusipo – há
e na florescente Academia. Uma das duas mulheres entre os mais notáveis,
letras com menor credencial de Axioteia de Fliunte e Lastênia de
autenticidade menciona que duas Mantineia; o historiador Heraclides
sobrinhas morreram, levando Platão, de Ponto; o biógrafo Hermodoro de
por volta de 365, a aceitar a Siracusa; Filipe de Mende, também
responsabilidade parcial de quatro conhecido como Filipe de Opus,
sobrinhas-netas, de menos de um ano provável editor das últimas obras de
à idade de casamento – que em Platão; e Xenócrates de Calcedônia,
Atenas significava um ano após a que sucederá a Espeusipo.
puberdade. A mais velha estava para
se casar com Espeusipo, então no Devemos rejeitar a imagem
início dos quarenta anos e em vias de padrão do velho Platão consagrando
ser o segundo da Academia (XIII. seus anos tranquilos a burilar seu
361c7-e5). A mãe de Platão havia estilo no Timeu-Crítias, Sofista,
morrido algum tempo depois de 365, Político, Filebo, Leis e Carta VII, pois
mas sua irmã Potone e pelo menos esta imagem é tão irrealista quanto
um de seus irmãos tinham casado e desnecessária. Embora estas obras
tido filhos e netos. Um “menino” partilhem características estilísticas
Adimanto, provavelmente neto do incontroversas do ponto de vista
irmão de Platão de mesmo nome, estatístico que mostram que foram
teve como herança a propriedade de escritas ou editadas por uma única
Platão. O velho Platão estava pessoa, o Epínomis, que foi
secundado também por colegas na incontrovertidamente escrito e
Academia: muitos nomes de seus publicado após a morte de Platão,
associados nos foram transmitidos. possui, porém, a reconhecível prosa
Havia um registro detalhado na enfatuada daqueles outros, sugerindo
última década da vida de Platão e a que Platão se valeu do auxílio de um
sucessão dos líderes da Academia foi escriba, cuja responsabilidade
preservada; portanto, é razoável consistia em reformular as produções
supor que listas de estudantes eram da Academia no estilo adotado pela

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Hugh H. PLATÃO
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Academia. Diz-se “produções” porque da realidade e do conhecimento e


há boas razões para supor que a acerca do sentido de teses obscuras
Academia de Platão funcionava como feitas por personagens nos diálogos
as outras instituições antigas (p. ex., (Cherniss 1945). Devemos rejeitar
as escolas de Hipócrates e de estas imagens por conta de uma razão
Aristóteles, os pitagóricos epistemológica forte. Platão
helenísticos) ao elaborar projetos de
escrita em colaboração. As Leis são permanece sempre convencido que o
que é admitido por crença, de segunda
um diálogo quase que certamente
mão, seja de outros ou de livros, nunca
resultado de um esforço coletivo, com equivale a um estado cognitivo válido;
um argumento dialético contínuo o conhecimento deve ser obtido pelos
limitado fundamentalmente aos esforços da própria pessoa. Platão
livros I-II e deixado incompleto busca antes estimular o pensamento
que transmitir doutrinas. (Annas,
quando do falecimento de Platão
1996, p. 1.190)
(Nails e Thesleff 2003). Um pequeno
número de breves passagens da Referências e leitura complementar
República parece ter sido alterado
também pela mão do editor, Annas, J. (1996). Plato. In S. Hornblower and
sugerindo que este grande diálogo A. Spawforth (eds.) Oxford Classical
encontrou sua presente forma Dictionary (pp. 1190-3). Oxford: Oxford
somente muito tarde na vida de University Press.
Platão. Cherniss, H. F. (1945). The Riddle of the Early
Academy. Berkeley: University of Califórnia
Similarmente, devemos rejeitar a Press.
imagem de um Platão que educa Davies, J. K. (.1971). Athenian Propertied
iniciados oralmente ou que ministra Families 600-300 BC. Oxford: Clarendon
Press.
conferências doutrinais (embora
Aristoxeno atribua a Aristóteles uma Jacoby, F. (1902). Apollodors Chronik. Berlin:
anedota acerca da conferência sobre Weidmann.
o bem, Harmônica 30-1). Em Ledger, G. R. (1989). Re-Counting Plato: A
fragmentos que nos foram Computer Analysis of Plato’s Style. Oxford:
Oxford University Press.
transmitidos, os colegas de Platão não
apelam ao que o mestre disse, MacDowell, D. M. (1978). The Law in Classical
embora manifestem uma Athens. Ithaca, NY: Cornell University Press.
discordância sadia acerca da natureza Nails, D. (1995). Agora, Academy, and the

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Hugh H. PLATÃO
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Conduct of Philosophy. Dordrecht: Kluwer. 1. Muitos leitores resistem a serem


soterrados pelas exceções, qualificações,
______(2002). The People of Plato: A
citações e comentários laterais que são
Prosopography of Plato and Other Socratics.
necessários para um relato completo;
Indianapolis: Hackett.
para argumentos mais matizados e mais
Nails, D. e Thesleff, H. (2003). Early academic abrangentes, bem como para uma
editing: Plato’s Laws. In S. Scolnicov and L. avaliação das fontes, ver Nails (2002),
Brisson (eds.) Plato’s Laws: From Theory into incluindo os verbetes sobre Platão e
Practice (pp. 14-29). Sankt Augustin: todas as outras pessoas mencionadas
Academia. aqui.
2. O livro de Taylor, Plato the Man and his
Randall, J. H., Jr. (1970). Plato: Dramatist
Works, foi editado inicialmente em 1927
ofthe Life of Reason. New York: Columbia
e seguiu de perto o modelo alexandrino.
University Press.
Ryle (1966) e Randall (1970)
Riginos, A. S. (1976). Platônica: The questionaram a assim contada história de
Anecdotes Conceming the Life and Writings Apolodoro, mas não fizeram uma
of Plato. Leiden: Brill. reavaliação da evidência disponível.
3. A carta é endereçada à família e aos
Ryle, G. (1966). Plato’s Progress. Cambridge:
amigos de Díon. Somente no caso de
Cambridge University Press.
outras cartas, o testamento e alguns
Taylor, A. E. (1956). Plato: The Man and his poucos epigramas atribuídos a Platão
Work. Cleveland: World. serem autênticos é que haverá
informação autobiográfica suplementar a
Thesleff, H. (1967). Studies in the Styles of
Plato. Helsinki: Suomalaisen Kirjallisuuden respeito de Platão.
Kirjapaino.
______(1982). Studies in Platonic Chronology.
Helsinki: Societas Scientiarum Fennica.
Westlake, H. D. (1994). Dion and Timoleon. In
D. M. Lewis et al. (eds.) The Cambridge
Ancient History, vol. 6: The Fourth Century BC
(pp. 693-722). Cambridge: Cambridge
University Press.
Woodbridge, F. J. E. (1929). The Son of Apollo:
Themes of Plato. Boston: Houghton Mifflin.

NOTAS

Todas as traduções são do autor, a menos


que haja outra indicação.

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Hugh H. PLATÃO
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2. Interpretando Platão em Atenas.) Temos de nos perguntar


onde, se acaso em algum lugar,
CHRISTOPHER ROWE encontramos a autêntica voz do autor
– e esta é uma questão longe de ser
É um dado que Platão era um filósofo respondida facilmente, na medida em
e qualquer outra coisa que também que a personagem central na maioria
tenha sido: por exemplo, o maior dos diálogos, Sócrates, tipicamente
expoente da prosa escrita grega ou sugere que as ideias que defende vêm
um escritor de dramas de primeira propriamente de outras fontes:
ordem – um papel cuja importância meramente um “alguém disse” ou
para o presente contexto ficará algum indivíduo nomeado, como a
imediatamente visível. O trabalho de sacerdotisa Diotima no Banquete
interpretar qualquer (com raras (provavelmente ela mesma uma
exceções) outro filósofo é mais fácil ficção), ou ele sugere que são ideias
do que interpretar Platão. A principal somente provisórias. (Sobre este
razão disso – se for razoável supor tópico, veja, entre outros, Klagge e
também que ele está preocupado em Smith 1992; Press, 2000.) Acrescente-
comunicar-se com os outros e não se a isso que um número importante
está escrevendo meramente para si de diálogos termina, pelo menos
próprio – é que sempre se dirige a seu superficialmente, em aporia ou
leitor de um modo indireto: impasse, e não é difícil de ver por que
concebendo diálogos, isto é, alguns intérpretes, antigos e
conversas sob a forma de drama, nas modernos, propuseram que Platão
quais jamais aparece como uma não tinha propostas definitivas para
personagem. (Algumas cartas nos fazer, não tinha conclusões próprias
foram transmitidas sob seu nome, das para propor a seus leitores: ou bem,
quais uma somente – a sétima – tem como os céticos antigos platônicos
bastante chance de ser genuína. (acadêmicos) sugeriram, porque ele
Porém, mesmo que tenha sido escrita próprio era realmente um cético, cuja
por Platão, pouco nos ajudaria; não mensagem era que devíamos
teríamos nem mesmo sabido com procurar a verdade sem nenhuma
base nesta carta que Platão escreveu expectativa de encontrar algo melhor
diálogos, menos ainda como do que o meramente provável, ou
interpretá-lo.) (Ver 1: A Vida de Platão bem porque seu objetivo máximo ou
principal era o de nos encorajar a

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Hugh H. PLATÃO
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fazer filosofia e pensar coisas por nós somente como um termo útil para
mesmos antes que supor que contrastar com “cético”. Poucos
podemos encontrar o que precisamos leitores modernos tratariam Platão
em outros ou em livros. A última como de fato um “dogmático” por
perspectiva é a visão mais congênere conta das descrições explícitas do
aos naturais sucessores céticos processo filosófico que se encontra
modernos, os intérpretes educados nos diálogos.) O último tipo de leitura
na tradição analítica. é certamente atraente caso, por
exemplo, alguém se concentra nos
Contudo, se olharmos à inteira tipos de ideias que parecem ter sido
história da interpretação de Platão, os defendidas pelos sucessores
diálogos têm mais frequentemente imediatos de Platão na direção da
sido lidos como a fonte de um Academia, Espeusipo e Xenócrates. O
conjunto de teses altamente que poderia ser mais natural do que
significativas e conectadas acerca da supor que estavam seguindo os passos
existência e da natureza humana e de Platão e que suas perspectivas
acerca do mundo em geral, eram na realidade muito similares às
sustentadas com uma firmeza que de Platão, somente expressas de
cético algum poderia aceitar como modo mais explícito e direto, e não
justificada. Ou bem – assim mais escondidas por trás de diálogos
sustentaram seus leitores mais de ficção?
numerosos, na maior parte
“neoplatônicos” – estas teses estão lá Deve-se dizer de saída que a
em Platão para serem lidas, pelo balança de probabilidade parece
intérprete exímio, de cada e de todos estar do lado do tipo de interpretação
os diálogos, ou bem (em uma variante “dogmática” ou “doutrinal” antes que
relativamente recente deste mesmo do lado de sua contraparte “cética”.
modo “dogmático” de interpretação), Há simplesmente muitas ocasiões nos
elas se escondem por trás por diálogos em que mesmo Sócrates não
próprios diálogos, na forma do que somente parece comprometer-se
Aristóteles chamava “doutrinas não com ideias positivas (tanto quanto se
escritas”; para esta última compromete com algo), mas também
perspectiva, deve-se consultar, por não oferece razão para as rejeitar:
exemplo, Kramer, 1959; Szlezák, 1985; acerca da inconfiabilidade das
2004. (“Dogmático” é usado aqui avaliações ordinárias do que é bom e

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ruim; acerca da importância para menor apreensão dela.


todos os homens do conhecimento e
da “virtude”, isto é, as várias Todavia, interpretações
“virtudes” como justiça, coragem e “dogmáticas” não são certamente a
“moderação” ou “autocontrole” (isto única alternativa à leitura cética: e até
é, sôphrosunê, tradicionalmente parecerá a muitos, mesmo entre
traduzido, de modo pouco útil, por aqueles que não são eles próprios
“temperança”); acerca da leitores céticos, que tomam muita
necessidade que temos nós, homens, coisa por suposto. Primeiro, há
de nos assemelhar aos deuses, os aqueles, principalmente teóricos
quais Sócrates tipicamente toma por literários de tom pós-moderno, que
conhecedores ideais, e assim por protestarão que tal modo de tomar
diante. Embora não haja aqui muito Platão, se for avançado como o modo
que seja de fato incompatível com um certo de o tomar (como no presente
tipo moderado de ceticismo – contexto ele é certamente tomado),
Acadêmico? –, mesmo assim a leitura pressupõe ilegitimamente a
cética parecerá provavelmente à realização de um projeto que, por sua
maioria dos leitores como pondo a própria natureza, é irrealizável:
ênfase de modo muito errado. Ainda recuperar a verdade a respeito de
que sejam importantes as Platão, como se houvesse um modo
qualificações que se ligam aos (que único que Platão ou seus textos ou
parecem ser) resultados dos diálogos, qualquer coisa realmente são. Pouco
somos fortemente encorajados, pelo importa – devido especialmente a
modo como foram escritos os estes séculos de interpretação
diálogos, a supor que estes resultados “dogmática” – que o nome de Platão
importam mais ao autor – ou pelo tenha se tornado sinônimo deste tipo
menos à sua personagem Sócrates – de erro (chame-o de “essencialismo”
do que as qualificações a eles ligadas; e Platão será o essencialista por
se a verdade nos é, em última excelência), a ele também se deve
instância, inacessível, Platão todavia permitir ter muitas vozes. Isso não
continuamente sugere (de um modo depende tanto da dificuldade de
que um cético certamente não recuperar a intenção de um autor,
poderia fazer) que podemos nos que não somente está morto, mas que
aproximar em um maior ou menor parece ter deliberadamente evitado
grau da verdade, obter uma maior ou nos dizer o que pensava; é antes que

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textos em geral são assim. (Para uma mesmo grupo de interlocutores. O


versão mais sutil e matizada da Timeu e o Crítias fazem parte de um
abordagem que descrevo aqui, grosso grupo do mesmo modo que o grupo
modo, ver Blondell, 2002.) Teeteto-Sofista-Político e o Timeu
parece referir-se a uma conversa
Eis a fraqueza da objeção dos pós- ocorrida muito similar à representada
modernos: se estão em última na República, embora os
instância baseando-se na tese não interlocutores – Sócrates à parte –
demonstrada que nenhum texto é sejam diferentes. (O Timeu e o Crítias
unívoco, então, a menos que a tese foram evidentemente concebidos de
seja meramente trivial, eles estão modo a serem completados com um
pressupondo coisas demais. Talvez Hermócrates, ao passo que o Político
seja impossível esclarecer devia ser seguido por um Filósofo.)
inteiramente os textos literários e Estes, porém, são exceção: a regra
talvez não devamos querer esclarecê- geral, sobre os trinta (ou quase)
los inteiramente, mas por que não diálogos genuínos, é que cada um
poderia ser diferente com textos inicia de um ponto novo e usualmente
filosóficos – inclusive com textos com um interlocutor ou um conjunto
filosóficos altamente literários? de interlocutores diferente; por vezes
o próprio Sócrates é suplantado no
Muito mais ameaçadora para papel de principal locutor. Platão não
todo tipo de interpretação precisava escrever assim, já que a
“dogmática” é a acusação que ela princípio poderia ter escrito todos os
pressupõe que o intérprete está diálogos como uma série de
autorizado a ler cada diálogo à luz dos conversas conectadas entre o mesmo
outros, quando os diálogos (assim elenco ou similar, com referências
reza o argumento) raramente nos entre eles para trás e mesmo para
convidam a fazer tal coisa, visto que frente. É nosso dever – assim se pode
eles são na maioria dos casos dizer (ver especialmente Grote, 1865)
artefatos independentes. – reconhecer esta característica
Ocasionalmente, como com o fundamental da obra de Platão,
Teeteto, o Sofista ou o Político, os sobretudo porque ao desprezá-la
diálogos formam uma série, com cada abrimos o flanco à acusação de tomar
discussão sucessiva referindo-se partido na questão
explicitamente à anterior com o reconhecidamente controversa sobre

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se há ou não algo como um sistema abandonando o que veio a lhe parecer


unificado contido no interior dos como posições insustentáveis; em
diálogos. outros, refinando o que tinha sido
posto anteriormente de modo mais
Deve-se dizer, de todo modo, que cru, e assim por diante. Esta
a tentativa de aplicar uma abordagem abordagem “desenvolvimentista” à
consistentemente “unitária” às obras interpretação de Platão tornou-se
de Platão cai imediatamente em padrão desde a década de 1950 ou
dificuldades de monta. Intérpretes antes, pelo menos no mundo de
antigos, de todas as perspectivas, língua inglesa e se solidificou em uma
tendiam simplesmente a assumir que tese particular sobre a carreira
Platão estava sempre dizendo a intelectual de Platão. A tese é que ele
mesma coisa (o que quer que começou escrevendo diálogos
estivesse dizendo) e podiam manter “socráticos” (ou “primeiros”),
esta posição simplesmente por imitando os métodos e as
ignorar as partes que poderiam preocupações de seu mestre
parecer estar dizendo algo diferente Sócrates, das quais ele então se
para um tipo de leitor diferente e liberou, nos diálogos “médios”,
talvez mais exigente. Porém, o introduzindo algumas de suas ideias
problema é que Platão mais características, especialmente
frequentemente parece de fato dizer na metafísica (refiro-me aqui,
– faz sua(s) personagem(ns) sobretudo, obviamente à sua “teoria
principal(is) dizer – coisas diferentes das formas”); porém, em seu período
em lugares diferentes e, na verdade, “último”, ele finalmente tomou
não raramente parece se contradizer. distância de suas construções
Para lidar com este tipo de problema, “médias” otimistas em direção a um
uma das respostas modernas mais tipo de reflexão mais sóbria. Visto
comuns consiste em supor que o desta maneira,
pensamento de Platão passou por “desenvolvimentismo” é tanto uma
desenvolvimentos importantes: isto estratégia para manter um tipo de
é, que ele mudou de opinião a abordagem “unitária”, ou pelo menos
propósito de pontos-chave (e, na unificadora, quanto é uma alternativa
verdade, é a expectativa moderna de a ela. Isto é, “desenvolvimentismo”
um filósofo em contraste com a pressupõe a mesma licença para
antiga), em alguns casos interpretar um diálogo descolado de

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outro ou de outros, exceto que esta Ao mesmo tempo, a abordagem


licença ficou agora mais restrita ou “desenvolvimentista” – ou pelo
localizada (lendo entre os diálogos menos o tipo de versão padrão do
que ocorrem dentro de um período, “desenvolvimentismo” que se
mas em geral não entre diálogos que descreveu – tem suas próprias
caem em períodos diferentes). E fraquezas. Uma primeira objeção, e
assim como a leitura “dogmática” tem talvez a mais importante, é que
inicialmente maior plausibilidade do parece psicologicamente implausível
que a leitura “cética”, já porque temas que Platão dê as costas
e ideias positivos reaparecem em intelectualmente a Sócrates (isto é,
diferentes diálogos, assim também a nos diálogos “médios”) e mesmo
abordagem “desenvolvimentista” assim continue a usá-lo como sua
parece inicialmente mais plausível do principal personagem – para
que a pura abordagem “unitária”, introduzir precisamente as ideias que
simplesmente porque leva em conta o estão substituindo as suas (de
modo como a recorrência pode Sócrates). É possível encontrar vários
parecer vir de mãos dadas com a modos para atenuar este problema,
reformulação – e mesmo do modo mas ele permanece todavia um
como temas e ideias, ao invés de problema. Uma segunda objeção à
reaparecerem, podem de fato abordagem padrão
desaparecer de cena. (Para certos “desenvolvimentista” é que ela
gostos, o que estou dizendo agora enfatiza demasiadamente as
pode bem parecer levar pouco em diferenças entre os três grupos de
conta a forma dramática ou, mais diálogos; uma terceira é que a divisão
geralmente, literária: veja em grupos é ela própria incerta e
anteriormente. Junto com muitos sujeita a controvérsias.
intérpretes de Platão, no momento
fala-se como se o diálogo dramático Um exemplo da segunda objeção
fosse meramente outro modo de é Kahn 1996, que argumenta que os
fazer o que poderia ter sido feito “primeiros” diálogos são mais bem
mediante um monólogo. Estas lidos como preparando em algum
questões serão mais uma vez tratadas sentido o caminho e representando
em breve.) (Ver 4: A Forma e os parte do mesmo projeto que a
Diálogos Platônicos). República, por quintessência o diálogo
“médio” para aqueles que acreditam

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em um Platão “médio” e Ocorre que três diálogos nos


metafísicamente renovado. Mais quais as formas platônicas parecem
adiante se proporá uma leitura que é, figurar – Fédon, Banquete e Crátilo –
de certo modo, uma imagem pertencem de fato, segundo a melhor
especular da de Kahn, mas que tem o evidência estilométrica, ao primeiro
mesmo efeito de reduzir o fosso entre grupo de diálogos (este é o terceiro
os períodos “primeiro” e tipo de objeção à leitura padrão
(supostamente) “médio”. Quanto à “desenvolvimentista” dos diálogos, a
divisão entre “médio” e “último”, a saber, que ao final das contas não
maioria dos que trabalham sobre os temos boas razões para aceitar a
diálogos políticos de Platão divisão dos diálogos de que depende;
provavelmente concorda agora que a ver Kahn, 2002.) (“Estilometria” é o
República (“médio”) e as Leis estudo das marcas identificadoras do
(“último” e de fato último de todos os estilo de um autor, em especial de
diálogos) podem muito bem ter sido marcas das quais se pode presumir
escritos ao mesmo tempo em relação que era inconsciente; se tais marcas
a todo o “desenvolvimento” no variam entre obras ou grupos de
pensamento político que pode ser obras, uma explicação possível é que
identificado entre eles (ver Laks, as obras em questão foram escritas
1990). E está longe de ser claro o que em períodos diferentes. Pode-se
são as “formas” ou como exatamente comparar “períodos” diferentes na
sua introdução muda o cenário produção de um pintor ou um
filosófico (este ponto será retomado compositor.) Assim, se a estilometria
em seguida) (ver 12: As Formas e as tem algum valor e se diferenças
Ciências em Sócrates e Platão); estilísticas indicam aqui diálogos
contudo, de acordo com a versão da escritos em diferentes períodos,
hipótese “desenvolvimentista” em alguns dos supostos diálogos
questão, é provavelmente o marcador “médios” são “primeiros”.
individual mais importante da
mudança do período “primeiro” / Obviamente, mudanças
“socrático” para o “médio” (ver significativas no pensamento de
Vlastos, 1991 e mais adiante; para um Platão não precisam coincidir com
tratamento mais sutil: Fine, 2003, p. mudanças em seu estilo de escrever.
298; contra, Rowe, 2005). Contudo, os assim ditos diálogos
“médios” padrão, incluindo aqueles

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três estilisticamente mais recentes, produzem), esta diferença estilística


são, como um grupo, marcadamente maior deixa de ser apoio forte à
diferentes dos diálogos “primeiros” defesa “desenvolvimentista”, na
em termos de estrutura e, acima de medida em que esta defesa é
tudo, de ambição. Somente um dos concebida em termos de conteúdo.
diálogos que a visão Antes, a adesão de Platão à escala
“desenvolvimentista” padrão tende a maior (no caso da República, a uma
colocar antes do período “médio”, a escala monumental) pode sugerir
saber, o Górgias, está escrito no uma mudança em sua atitude face à
mesmo tipo de escala do que os audiência – e/ou em sua visão do tipo
grandes (assim ditos) “médios” de audiência a que deve se dirigir:
diálogos como a República – à qual o talvez uma audiência maior e menos
Górgias é comparável também em especializada, uma vez que as obras
outros aspectos, ainda que, maiores tendem a ser mais acessíveis
diferentemente da República, não e inteligíveis, pelo menos em certo
contenha nenhuma menção às nível, do que as mais curtas.
formas (supostamente do “período
médio”). Diálogos “primeiros”, A este ponto se retomará em
“socráticos” como o Eutifro, o breve. Pretende-se aqui meramente
Carmides ou o Lísis, em contraste, sugerir, sem argumentar em seu
tendem a ser curtos e a terminar em favor, uma versão alternativa e algo
impasse. Assim, alguma coisa a atenuada da abordagem
respeito do “estilo” de Platão nos “desenvolvimentista”: uma versão
(assim ditos) diálogos “médios” que é, na verdade, em alguns
parece ser diferente, embora não se aspectos, tão atenuada que pode
mostre no nível das análises parecer, ao final, dificilmente
microscópicas dos estilometristas. distinguível de uma visão “unitária”
Todavia, se o maior tipo de diferença moderada.
estilística em questão – o grande
tamanho das construções envolvidas A versão padrão do
– não corresponde a uma mudança “desenvolvimentismo” vê vários tipos
clara, e claramente relevante, em de mudança, nem sempre conectadas,
termos de conteúdo (aqui refere-se que ocorrem no pensamento que
novamente à questão acerca da Platão está pronto para pôr na boca de
diferença que as “formas” sua personagem Sócrates nos diálogos

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“médios” (ver especialmente Vlastos, imaginar a subsequente longa história


1991, cAp. 2); contudo, como se disse, do platonismo sem isso. Todavia, ao
é a mudança relativa às “formas” – mesmo tempo não é claro que
primeiramente introduzidas, depois diferença isso teria produzido no
(alegadamente) abandonadas ou projeto próprio a Sócrates; ele não
repensadas – que tende a ser parece ter-se preocupado com o
representada como a mudança mais status ontológico das coisas (o bem, o
significativa. Este modo de justo, o belo e assim por diante) que
compreender Platão, com efeito, ele considerava ser de compreensão
começou com Aristóteles, quem crucial, e é bem plausível supor que
primeiro identificou as formas – ou, teria reagido com equanimidade à
falando mais estritamente, a proposta de Platão de as tratar como
“separação” das formas – como o objetos independentes, se é isso em
ponto de ruptura decisivo entre Platão que consiste a “separação”. Que o
e Sócrates: Platão concebeu formas próprio Platão teria esperado uma tal
“separadas”, ao passo que Sócrates reação pode ser sugerido pelo fato
não. (Se “formas” forem universais, mesmo que ele faz Sócrates introduzir
que é o único meio que Aristóteles a “teoria das formas” como algo
tem de as tomar, a diferença familiar ao contexto de suas
consistiria em algo como Platão as discussões filosóficas (embora o
tratando como coisas reais, ao passo argumento até aqui tenha deixado um
que Sócrates as teria tratado como grande ponto de interrogação sobre a
existindo somente em nome ou questão de fazer Sócrates atuar como
somente nas coisas particulares.) proponente de ideias não socráticas:
Agora, já no início de seus escritos, veja-se anteriormente e mais
Aristóteles passou a objetar este lance adiante).
de Platão e obviamente o concebeu
como central: mas não precisamos O que realmente divide Platão de
segui-lo e fazer o mesmo (ver 27: Sócrates, segundo a versão não
Aprendendo sobre Platão com padrão de “desenvolvimentismo” que
Aristóteles). Pode ser que um aqui se advoga, é que Platão passou a
comprometimento com formas conceber os seres humanos como
separadas seja ou se torne um uma combinação permanente de
elemento indispensável no pensa- racional e irracional. A versão padrão
mento de Platão, e mesmo é difícil também reconhece a mesma

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mudança, mas a toma como uma nós e assim todo patamar de


dentre outras, que se deu separada e felicidade que estiver disponível a nós
independentemente à medida que em função das circunstâncias em que
Platão afirma sua independência das nos encontramos. O que nos
ideias e métodos de argumento distingue de cada outro não são
socráticos. A versão preferida, ao nossos caracteres, nossas disposições
invés desta, vê a introdução das ou desejos (pois nosso desejo, ou
partes irracionais da alma – aquele que nos impele quando
argumentadas especificamente no agimos, é sempre o mesmo: do que é
livro IV da República (ver 19: A Alma verdadeiramente bom), mas somente
Platônica, 23: Platão e a Justiça) – (a) o estado de nossas crenças. Erramos,
como a fonte de muitas outras Sócrates insiste, somente porque
mudanças (ver Rowe, 2003) e (b) somos ignorantes, a saber, do que é
como deixando outras partes da nosso verdadeiro bem. Assim, se
posição socrática, em uma extensão pudermos nos corrigir a este respeito,
surpreendente, intocadas. Sócrates iremos inevitavelmente “agir bem”,
manteve-se fiel à visão isto é, tanto ser feliz quanto – porque,
desconcertante, mas – como alguém como Sócrates mantém, agir com
poderia pensar dela – otimista justiça, com coragem e assim por
segundo a qual somos todos diante sempre se mostrará como
fundamentalmente racionais (ver 18: parte de nosso próprio bem – ser
Os Paradoxos Socráticos). (“Sócrates” justos, corajosos e assim por diante.
aqui não é meramente o Sócrates dos Este é o tipo de explicação da ação
diálogos de Platão, mas também, pelo humana extraordinariamente radical
menos em parte, o Sócrates histórico. que subjaz não somente aos assim
O testemunho de Aristóteles é aqui ditos diálogos “socráticos”, mas
importante; veja abaixo e o Capítulo também pelo menos um dos assim
3: O Problema Socrático.) Cada um de chamados diálogos “médios”: o
nós deseja seu próprio bem ou Banquete, no qual,
felicidade, cuja natureza – iniciando surpreendentemente, Sócrates
de onde estamos agora – pode em consegue dar uma extensa descrição
princípio ser descoberto mediante do que se poderia chamar de “amor
reflexão filosófica; isto é, esperamos romântico” sem introduzir uma só vez
determinar mediante reflexão o que é desejos irracionais. (“Amor
verdadeiramente bom e mau para romântico” ou erôs, de seu ponto de

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vista, será somente uma outra condição de seus intelectos:


expressão do desejo humano pelo correspondentemente, será exigido
bem: o que importa é que esteja mais do que argumentação para
dirigido aos objetos certos, isto é, mudar o comportamento dos que se
àqueles que são verdadeiramente comportam de modo não desejado,
belos e bons. Compare com a na medida em que é causado não por
explicação de erôs no Fedro, mera ignorância, mas pelas partes
evidentemente escrito após a irracionais que, por sua natureza, não
República, no qual a estória é estão abertas à razão. (Elas precisarão
dominada pela luta entre o cocheiro de condicionamento ou pelo menos
da razão e seu cavalo branco com o de alguma forma de treinamento do
cavalo negro do apetite e da luxúria.) tipo que é esboçado na República II-
(Ver 20: Eros e Amizade em Platão.) III.) Esta visão da natureza humana,
ou uma variante dela (isto é, uma
No livro IV da República, em visão da psicologia humana que
contraste, Sócrates argumenta pela concede – para usar termos
existência de três partes da alma, uma modernos – que a paixão possa
racional e duas irracionais, as últimas suplantar a razão), é a que opera não
sendo capazes não somente de evitar somente na República, mas também
que o agente leve adiante suas no Fedro, no Timeu, no Político, nas
decisões aparentemente feitas pela Leis – de fato, tanto quanto podemos
parte racional, mas também de dizer, todo diálogo provavelmente
distorcê-la de modo permanente, posterior à República. Em suma,
desviando-a assim de seus projetos Platão parece ter abandonado todo
naturais. Uma das duas partes comprometimento que pode ter tido
irracionais é associada à cólera ou com a visão socrática radical (que a
mais geralmente aos aspectos única causa de errarmos e fazer o que
competitivo-agressivos da existência nos causará dano é um erro
humana; a outra, com nossos intelectual) com a qual estava
impulsos de comida, bebida e sexo. satisfeito para trabalhar nos diálogos
Neste modelo, não vale mais que todo pré-República.
desejo – a saber, todo desejo que leva
à ação – buscar o bem (real), e os Porém, por que então (alguém
seres humanos não são mais poderia perguntar com razoabilidade)
diferenciados meramente pela esta versão da abordagem

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“desenvolvimentista” não é modo que exibe claramente um


vulnerável a exatamente o mesmo desejo de modificar seus leitores. Isto
tipo de objeção como a versão é, ele escreve com evidente
padrão? Como pode Platão fazer convicção. Não é pura elucubração
Sócrates – ainda a personagem acadêmica teórica. Mais ainda: o
principal na República e em forma testemunho de Aristóteles sugere,
inteiramente dominante – avançar sem ambiguidade, que a teoria da
posições que são diametralmente ação que atribui aos diálogos pré-
opostas àquelas que tinha defendido República de fato pertenceu ao
tão entusiasticamente antes, como se Sócrates histórico (que é,
nada tivesse mudado? Talvez, afinal, presumivelmente, pelo menos parte
Sócrates não seja mais do que uma da razão por que Platão faz com que a
marionete de Platão, a qual fará tudo personagem Sócrates perpetuamente
o que seu mestre quiser que ela faça: a sustente nesses diálogos; para
esse deveria ser o tipo de caso que Sócrates, de qualquer modo, não é
mostra por que não deveríamos somente uma opinião possível,
tentar encontrar as convicções de qualquer que seja a verdade sobre seu
Platão por trás do que ele faz suas autor).
personagens dizerem. A personagem
Sócrates – talvez devamos concluir é Assim, a objeção retoma: se o
suposta ser justamente o filósofo Platão da República está de fato
típico a explorar as opções. Neste rejeitando as ideias centrais de
caso, teremos voltado a uma Sócrates, aquelas que ele pôs em sua
variedade do que antes chamei um boca consistentemente nos primeiros
tipo “cético” de interpretação de diálogos, como pode ele continuar a
Platão, um tipo que o faz não se usar despreocupadamente esta
comprometer com nenhuma visão mesma personagem altamente
particular das coisas. peculiar: feio, erótico, sem dinheiro,
descalço (e assim por diante) – ao
Contudo, na República e nos limite de o fazer anunciar e defender
diálogos pós-República, tanto ou mais a rejeição de suas próprias ideias
que nos diálogos anteriores, Platão centrais? A objeção é potente, mas as
frequentemente escreve – faz com opções interpretativas alternativas
que suas personagens (e são tão limitadamente atraentes
especialmente Sócrates) falem de um (leituras “céticas”; pós-modernas ou

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puramente “literárias”, leituras que tem o papel do principal interlocutor


tomam os diálogos como textos – que ninguém faz o mal
essencialmente abertos; tomando os voluntariamente. Isso o incauto leitor
diálogos um por um, e assim por provavelmente não esperava; afinal
diante) que temos uma forte razão de contas, se o diagnóstico de Platão
para esperar poder evitá-la. do erro inclui agora a possibilidade (e
mesmo a probabilidade) que o agente
O ponto crucial, se a objeção foi “vencido pela paixão” ou que teve
deve ser enfrentada, é que Platão suas capacidades de reflexão
deve ter pensado a mudança menos pervertidas por impulsos irracionais,
significativa do que ela parece ser não é certo que tais erros devem ter
para nós. De um modo ou de outro, sido feitos de bom grado, isto é, são
devemos supor que Platão considerou voluntários? Assim, deveriam ser de
a introdução de partes irracionais, acordo com a análise aristotélica; não,
capazes de inverter e/ou perverter a ao que parece, de acordo com a
razão, como um aperfeiçoamento da análise de Platão. Em uma perspectiva
posição de Sócrates – uma posição aristotélica, tratar ações causadas –
que, deve-se dizer, provavelmente direta ou indiretamente – pelas
pareceu tão implausível para uma “paixões” como involuntárias é
audiência antiga como o é para uma simplesmente um erro: qualquer ação
moderna. (Aristóteles certamente a causada pelo que é interno ao agente
considerou como inaceitável.) À deve ter sido desejada pelo agente.
primeira vista isso parece improvável, Porém, a perspectiva de Platão
assim como a introdução de partes mostra-se diferente (que seu aluno
irracionais dificilmente parece deixar Aristóteles a venha ver como um erro
em pé alguma coisa da posição ou não). Para o Platão pós-República,
socrática original: agir do melhor ações feitas sob a influência das
modo não depende somente do partes irracionais e contrárias ao que
estado de nossas crenças; há algo ditaria a razão – em seu estado não
como o caráter; e assim por diante. pervertido – não são propriamente
Porém, isso não é de modo algum a desejadas pelo agente, não mais do
história inteira. Nas Leis, portanto que ações feitas como resultado
próximo do final de sua vida, Platão direto de um erro intelectual não são
ainda está propondo – por meio do desejadas. E isso já nos põe um bom
visitante de Atenas (em Creta) que caminho de volta à posição socrática,

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no centro da qual está precisamente a provindo de uma doença do corpo.


tese que nunca desejamos o que de Compare-se com a posição socrática,
fato não é bom para nós. (Podemos para a qual, como todo desejo que
pensar que o desejamos ou o leva à ação está dirigido ao bem real,
queremos, mas isso é uma outra é impossível que o desejo possa
questão.) distorcer algo: a razão erra por si
mesma ao, por exemplo, reagir com
Caso se aceite tudo isso, creio que demasia a desejos sentidos.) E esta
deixa de ser estranho que Platão faça diferença, sugiro, pareceu menos
Sócrates conduzir a introdução de importante a Platão do que reter
uma alma dividida entre as partes aquela ideia socrática básica segundo
racional e irracional, com a própria a qual estamos todos, como seres
parte irracional sendo capaz de racionais, orientados para o bem real:
estragar tudo. Fora casos de já porque a concepção de Platão do
“fraqueza da vontade” ou akrasia (isto bem real é também (sustento eu)
é, casos nos quais a paixão intervém e ainda idêntica à de Sócrates.
cancela de fato as decisões da razão –
como, alega-se, ocorre nos Esta abordagem tem
popularmente chamados “crimes de vantagens imediatas. Tome-se, por
paixão”), os quais são para Platão, exemplo, como o argumento procede
especula-se, provavelmente muito ao final do livro IV da República: assim
antes a exceção e não a regra, será como ações saudáveis produzem a
sempre o caso que tipicamente saúde no corpo, argumenta Sócrates,
fazemos o que nossa razão dita; a assim também ações justas
diferença efetiva com a posição promovem a justiça na alma. Deve-se
socrática será somente que, ao lado agora (diz ele) voltar à questão
do erro puro intelectual (o qual, no original: a de saber se o que vale a
novo modelo platônico, será visto pena é a justiça ou a injustiça. Porém,
como erros de cálculo meramente Gláucon, seu interlocutor neste
temporários e que mesmo se momento, declara que não é mais
autocorrigem imediatamente), preciso um argumento: claramente,
haverá também erros de raciocínio dado o que Sócrates tinha dito, é a
causados por desejos ou impulsos justiça que é preferível – e Sócrates
irracionais. (É assim que o Timeu pode concorda. Embora este argumento,
falar do erro intelectual como como ele o expõe, possa satisfazer a

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Gláucon, é difícil ver por que deveria alma “saudável” será obviamente
nos satisfazer e, de fado, muitos preferível a vir a ter uma alma “não
leitores modernos se sentiram saudável”.
ludibriados, assim como se sentiram
ludibriados pela afirmação de Visto que nada disso é exprimido,
Sócrates, algumas linhas antes, sobre é improvável que seja o que convence
que a pessoa cujas partes da alma Gláucon: sua adesão ao argumento
fazem, cada uma, o que incumbe a parece ser muito mais superficial
elas – a definição de justiça, neste (podemos supor, por exemplo, que
contexto, que o caracteriza, para não está atraído pela analogia entre
dizê-la peculiar – muito justiça e saúde, especialmente depois
provavelmente será o menos afeito que a injustiça na alma foi associada
do que qualquer outro a cometer ao desvio de bens, roubo de templos,
coisas normalmente consideradas traição, quebra de palavra, adultério e
injustas. A situação, porém, fica assim por diante). Neste caso, como
inteiramente diferente se lermos o em muitos outros, Platão parece
argumento com base no contexto do operar em níveis diferentes, fazendo
tipo de psicologia socrática corrigida Sócrates oferecer a seus
que se acaba de supor que Platão interlocutores e talvez aos seus
tinha em mente, pois a alma próprios leitores que estão no mesmo
“saudável”, nos termos desta nível que os interlocutores de
explicação da alma humana, será Sócrates, um nível – ou pelo menos
exatamente aquela em que um tipo – de argumento que não é o
mesmo que interessaria a ele ou a
a) a razão vê corretamente que a Sócrates. No caso particular em
coisa justa é a melhor coisa a fazer questão, Sócrates de fato tinha dito
e próximo ao início do livro II que ele
b) não há fatores em contraposição, próprio estava satisfeito com os
na forma das partes irracionais argumentos que já tinha desenvolvido
indisciplinadas, que interfiram com no livro I em favor da justiça, como
esta compreensão correta. resposta a Trasímaco, mas diz que,
obviamente, terá de se esforçar para
E, se o que todos os agentes persuadir Gláucon e seu irmão
querem é o máximo bem (para si Adimanto, que se puseram, no início
próprios), então ter e manter uma do livro II, a retomar a defesa da

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injustiça. Os livros II-IV em sua imaginado pensar) não funciona


totalidade são assim concebidos para assim: deve-se conceber as coisas por
convencer outros sobre o que si mesmas. Esta tese é correta até
Sócrates diz satisfatoriamente ter onde pode ir. Porém, ela deixa de lado
dado suficientes razões para um ponto crucial: que o pensamento
acreditar. E se olharmos atentamente platônico e socrático é
para os argumentos nos dois extraordinariamente radical – tão
contextos (livro I e livros II-IV), a radical que, se nos fosse apresentado
diferença que encontramos é que os simples e diretamente, nos pareceria,
argumentos no primeiro se baseiam como seguramente parece a muitos
em premissas socráticas familiares (p. leitores mesmo quando é
ex., que justiça é sabedoria), ao passo desenvolvido, como pura e
que os do segundo não procedem simplesmente falso, e tão obviamente
assim – ou, pelo menos, não na falso que não mereceria a pena de ser
superfície, pois, como se sugeriu, há discutido. Esta parece ser a reação de
razões para supor que aquelas Aristóteles à posição de Sócrates;
premissas socráticas estão aqui Aristóteles acomoda a posição de
escondidas embaixo da superfície, Platão unicamente ao preço de uma
fornecendo a real justificação para o completa revisão (veja
argumento tal como apresentado. anteriormente). Certamente importa
a Platão que se conceba as coisas
Qual é a razão para este tipo de antes que pensar que elas possam ser
estratégia (que penso ser dadas em uma bandeja. Porém, a
extremamente comum em Platão)? verdade é que, se elas fossem dadas
Isso nos conduz à difícil questão do diretamente, provavelmente não se
uso de parte de Platão do diálogo ou, quereria de forma alguma prová-las.
mais geralmente, da forma dramática. Que isto é assim é mostrado pela
Propõe-se frequentemente que uma vontade da maioria dos intérpretes de
das razões por que Platão escreve do supor que Platão se distanciou de
modo como faz, valendo-se do Sócrates (veja anteriormente). Ele fez
diálogo e do drama, é que quer evitar isso, de um modo, mas a tese do
simplesmente afirmar a verdade, presente capítulo é que, no fundo,
como se ela pudesse ser transportada Platão permanece um socrático. Ao
diretamente de uma mente a outra. O mesmo tempo, ele se dá conta da
progresso intelectual (assim é distância que provavelmente o

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separa, a ele e a seu Sócrates, de seu tentar distinguir entre várias coisas
público, e os diálogos tipicamente, se diferentes: Sócrates falando in própria
não exclusivamente, representam persona; Sócrates adotando ou
uma conversa entre duas posições parecendo adotar a posição de uma
bem diferentes: uma conversa ao outra pessoa e Sócrates parecendo
longo da qual o Sócrates de Platão adotar um ponto de vista estrangeiro,
frequentemente parecerá tomar a quando de fato – a se reconstruir o
coloração e as premissas dos outros, argumento – ele mantém o seu ponto
enquanto de fato procura trazê-los à de vista. Acima de tudo, deve-se
sua posição, tanto quanto é possível sempre lembrar que o Sócrates de
trazê-los à sua posição sem uma Platão tem um ponto de vista (ainda
completa mudança de perspectiva. A que sutilmente mude ao longo dos
nova perspectiva envolverá o uso da diálogos, especialmente em relação
mesma linguagem, mas de um modo ao que tem a dizer sobre a ação
bem diferente, de modo que – para humana) e que é sempre provável que
tomar o exemplo mais óbvio – um esteja em jogo – mesmo quando não
conjunto bem diferente de coisas será nos está falando sobre ele. É nosso
denominado “bem” (porque são fracasso em reconhecer isso que
bons, ao passo que o tipo de coisas frequentemente nos leva a supor que
normalmente bem será no máximo há lacunas ou falácias simples
nem bom nem mau). envolvidas em seus argumentos,
quando simplesmente
As variações com que Platão joga compreendemos erradamente as
nesta estratégia são quase tão premissas que está usando (porque
numerosas quanto seus diálogos e esperamos dele que as exprima
não podem ser descritas aqui. Porém, sempre e ele não faz isso).
há certos princípios de leitura que,
aqui se propõem, deverão sempre ser No presente contexto, dada a
mantidos em mente por quem quiser ausência de demonstrações extensas
ler Platão. Primeiro, deve-se sempre sobre a utilidade destas proposições e
estar preparado a seguir o Sócrates de de sua capacidade em iluminar o texto
Platão, ou seus outros interlocutores de Platão, devem ser tomadas como
principais, aonde levam, por mais não mais do que um conjunto de
paradoxais que pareçam seus sugestões para leitura. Ademais, está
resultados. Segundo, deve-se sempre suficientemente claro a partir das

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partes iniciais deste capítulo que ideias substantivas (como o fazem) e


serão profundamente controversas. A travando batalha contra os mesmos
mais controversa será a última tipos de oponentes (como também o
proposição, que o Sócrates de Platão fazem), tanto mais fica difícil deles
ou seus substitutos como principal descolar o autor. Naturalmente,
interlocutor (que falará no todo em poderia, por vezes, escrever, por
nome de Platão) se baseia exemplo, em tom irônico; que ele
tipicamente em um determinado possa adotar uma posição
conjunto de ideias – um “ponto de permanentemente irônica vai além do
vista”, como se chamou, e um que é que se pode crer.
altamente característico – que ele não
se sente obrigado a tomar explícito Propor, como se fez neste
mesmo quando está baseando-se capítulo, que, em essência (a despeito
nele. (Diz-se: “que falará no todo em de certa divergências importantes),
nome de Platão”. Há também aqui Platão permanece socrático o tempo
questões, obviamente. Não se pode todo dificilmente será mais bem
supor, mesmo na abordagem recebido do que a proposta que ele
proposta, que Sócrates ou qualquer tem sempre mais pano na manga do
outra personagem estará sempre que declara e está preparado para
exprimindo a mente do próprio usá-lo. A ideia que os assim ditos
Platão: não somente podem as diálogos “médios” – aquela alegada
personagens de Platão estar constelação de diálogos que anuncia a
argumentando ad hominem, mas “teoria das formas”, centrada na
também podem estar apresentando República – marca a ruptura de Platão
uma perspectiva estritamente com Sócrates está totalmente
limitada, talvez com vistas a um tipo ambientada em percepções
particular de público, e assim por modernas – de língua inglesa – do
diante.) Contudo, os principais corpus e em um sentido se combina
interlocutores – como está implicado bem com a versão do Platão
pela possibilidade mesma de se referir “dogmático”, elaborado com ardor
a eles como tais – nos diálogos pelos neoplatônicos, que predominou
platônicos sempre dominam a desde a morte do filósofo. A
discussão, em maior ou menor identificação de um período primeiro,
extensão, e quanto mais eles ficam socrático, e de um período posterior
mencionando os mesmos tipos de supostamente mais realista e analítico

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pode ser vista precisamente como um simplesmente parecem não fazer


refinamento moderno da abordagem sentido com base no que somente o
cruamente unitária – e texto forneceu; e, segundo, que há
insuficientemente analítica algumas ideias e argumentos que
neoplatônica. Contudo, esta visão insistem em ressurgir, em uma forma
moderna é e sempre foi vulnerável ou em outra.
pelas razões apresentadas; entre elas
se encontram as ambiguidades dos Platão nos é imediatamente
resultados obtidos pelos familiar, porque foi tão fundamental
estilometristas (os diálogos “médios” para o progresso da cultura ocidental,
não formam um grupo e totalmente estranho: quanto mais
estilisticamente unitário) e a falta de perto se olha para ele, tanto mais é
clareza persistente sobre o que se ele capaz de aparecer peculiar e
ganha exatamente, que ganhos Platão estranho. Talvez seja simplesmente
pensara ter feito e o que realmente foi impenetrável para nós. Todavia, as
alterado pela introdução das formas discussões nos diálogos
no (que se costuma chamar) “período frequentemente parecem quase tão
médio”. distantes de tudo com o qual mesmo
seus contemporâneos estavam
Diante de toda esta controvérsia, habituados; na verdade, quando ele
os leitores podem ficar tentados a nos dá um quadro de seus
abandonar qualquer tentativa de ler contemporâneos em confronto com
Platão e, ao invés disso, concentrar-se as suas ideias e as de Sócrates, nós os
somente nos diálogos individuais ou vemos frequentemente
mesmo selecionar passagens ou desconcertados, sem conseguir
contextos com muito jargão – seja compreender. Ou talvez Platão esteja
com vistas a se extasiar com a prosa brincando conosco, seu público; ou
de Platão, seja para analisar os talvez seja meramente extravagante e
argumentos, um por um. Porém, provocador (uma acusação
leitores inteligentes que se frequentemente feita contra seu
aproximam deste modo limitado, de Sócrates). Porém, isso é negado pela
maneira regular, a diferentes partes seriedade seguramente inconfundível
do corpus provavelmente logo – ainda que tipicamente enlaçada a
notarão duas coisas: primeiro, que há um espírito engenhoso – de que estão
muitas coisas no que estão lendo que imbuídos tantos contextos platônicos.

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(Anteriormente referiu-se a convicção Plato, Modem and Ancient (pp. 93-127).


por trás do texto de Platão.) Não há Cambridge, Mass.: Harvard University Press.
outra opção senão continuar a Klagge, J. and Smith, N. (eds.) (1992).
tentativa de delinear os traços da Methods of Interpreting Plato and his
Dialogues. Oxford Studies in Ancient
mentalidade platônica, que isso
Philosophy, supplementary volume. Oxford:
venha a se mostrar como algo que Oxford University Press.
evoluiu no tempo ou, como agora se
Krãmer, H. J. (1959). Arete bei Platon und
prefere, que permaneceu nos Aristóteles. Heidelberg: C. Winter.
elementos mais fundamentais fiel às
Laks, A. (1990). Legislation and demiurgy: on
suas origens. No último caso, os the relationship between Plato’s Republic
neoplatônicos se mostrarão and Laws, Classical Antiquity 9, pp. 209-29.
novamente com razão, em um
Penner, T. and Rowe, C. (2005). Plato: Lysis.
sentido: há algo (mais ou menos) Cambridge: Cambridge University Press.
constante que pode justamente ser
Press, G. A. (ed.) (2000). Who Speaks for
denominado platônico, mesmo que Plato? Studies in Platonic Anonymity.
isso venha a ser antes direto e Lanham, Md.: Rowman and Littlefield.
devendo bem mais a Sócrates do que
Rowe, C. (2002). Comments on Penner (T.
eles pretendiam. Penner, The historical Sócrates and Plato’s
early dialogues: some philosophical
Referências e leitura complementar questions). In J. Armas and C. Rowe (eds.)
New Perspectives on Plato, Modem and
Blondell, R. (2002). The Play of Character in Ancient (pp. 213-25). Cambridge, Mass.:
Plato’s Dialogues. Cambridge: Cambridge Harvard University Press.
University Press. ______(2003). Plato, Sócrates and
Fine, G. (2003) [1984]. Separation. Reimpr. developmentalism. In N. Reshotko (ed.)
em Plato on Knowledge and Forms (cAp. 11). Desire, Identity and Existence: Studies in
Oxford: Oxford University Press. Honour of T. M. Penner (pp. 17-32). Kelowna,
BC, Canada: BPR Publishers.
Grote, G. (1865). Plato and the Other
Companions of Sócrates (3 vols.). London: ______(2005). What difference do forms
John Murray. make for Platonic epistemology? In C. Gill
(ed.) Virtue, Norms, and Objectivity (pp. 215-
Kahn, C. (1996). Plato and the Socratic 32). Oxford: Oxford University Press.
Dialogue: The Philosophical Use ofa Literary
Form. Cambridge: Cambridge University Szlezák, T. (1985). Platon und die
Press. Schriftlichkeit der Philosophie.
Interpretationen zu denfrühen und mittleren
______(2002). On Platonic chronology. In J. Dialogen. Berlin: de Gruyter.
Annas and C. Rowe (eds.) New Perspectives on

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Hugh H. PLATÃO
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______(2004). Das Bild des Dialektikers in


Platons spàten Dialogen (Platon und die
Schriftlichkeit der Philosophie, Teil 2). Berlin:
de Gruyter.
Vlastos, G. (1991). Sócrates: Ironist and Moral
Philosopher. Ithaca, NY: Cornell University
Press; Cambridge: Cambridge University
Press.

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3. O problema Socrático contemporâneo de Sócrates. Nascido


quinze anos após a morte de Sócrates,
WILLIAM J. PRIOR Aristóteles foi um membro da
Academia de Platão e estava
INTRODUÇÃO presumivelmente habituado com a
literatura antiga e com a tradição
Sócrates é uma das figuras mais acerca de Sócrates. Ele incluiu
famosas e influentes na tradição observações sobre este em seus
intelectual ocidental: mas quem era tratados sistemáticos sobre vários
ele? Entre seus discípulos aspectos da filosofia. O problema
encontravam-se os filósofos mais socrático surge, em parte, das
influentes de seu tempo, aos quais é questões acerca da fidedignidade
atribuída pelos historiadores da destas fontes.
filosofia a fundação de várias escolas;
mas o que ele os ensinou? Estas Vou argumentar a seguir que
questões constituem o “problema conhecemos muita coisa sobre a vida,
socrático”, a tentativa de descobrir o o caráter, os interesses filosóficos e o
indivíduo histórico por trás dos relatos método do Sócrates histórico.
antigos sobre Sócrates e sua filosofia. Infelizmente, esse conhecimento não
vai até o ponto de quais doutrinas, se
Sócrates não escreveu nada. Para alguma, ele professou, o que é
nossa informação, dependemos de justamente o que mais querem saber
quatro fontes principais. A fonte mais os filósofos contemporâneos. A
antiga é a comédia grega, incerteza acerca das doutrinas de
fundamentalmente As Nuvens de Sócrates pode ser rastreada pelas
Aristófanes, encenada em 423 a.C. nossas mais antigas fontes e, de fato,
Dois outros companheiros de pelo retrato de Sócrates em nossa
Sócrates, Platão e Xenofonte, fonte mais importante, Platão.
escreveram copiosamente sobre ele; Sócrates era aparentemente um
seus escritos nos foram transmitidos, mistério até mesmo para seus
ao contrário de tantos outros que companheiros mais íntimos. Vou
também escreveram obras socráticas. começar discutindo o problema da
Diferentemente destes três autores, fidedignidade de nossas fontes; em
uma quarta fonte, Aristóteles, não foi sequência, descreverei o que
podemos extrair com segurança sobre

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Sócrates destas fontes; concluirei com sobre Sócrates.


uma discussão do problema do
ensinamento de Sócrates. Por outro lado, a peça As Nuvens
nos dá informação importante sobre
A fidedignidade das fontes Sócrates. Ela nos diz que ele era uma
figura pública em Atenas e que
O problema socrático surge em parte Aristófanes pensou que o público não
do fato que nenhuma de nossas seria capaz de diferenciar as ideias
fontes tem crédito impecável como dele das dos sofistas e dos filósofos da
biógrafo. A fonte mais antiga de natureza, com os quais estava, na
informação sobre Sócrates é a visão do público, associado. Caso se
comédia grega. A única peça deva dar crédito neste ponto à
completa que possuímos Apologia de Platão, isso se mostra
apresentando Sócrates como um verdadeiro. Platão faz Sócrates citar
protagonista é As Nuvens de esta peça na Apologia (18dl-2.19c2-5)
Aristófanes, a única de nossas fontes como uma das principais fontes de
primárias que data do período em que preconceito contra ele. Aos olhos de
Sócrates vivia. Aristófanes retrata Platão, a peça As Nuvens é, se não um
Sócrates como um “novo intelectual”, retrato acurado de Sócrates, uma
descrente dos deuses da religião fonte importante para a compreensão
grega tradicional e um sofista que popular de Sócrates na parte final do
ensina “argumento injusto” a seus quinto século.
alunos. Estudiosos pensam ter razões
para ignorar ou minimizar a Xenofonte escreveu suas obras
importância do retrato de Sócrates socráticas em parte para defender
feito por Aristófanes. Comédia não é Sócrates das acusações de Aristófanes
biografia; a questão central não era: e outros. Ele escreveu quatro obras
“é verdade?” ou “é justo?”, mas sim: socráticas: Apologia, Memorabilia,
“é engraçado?” O retrato feito por Econômico e Banquete. Xenofonte foi
Aristófanes parece a muitos um companheiro de Sócrates por
estudiosos como um quadro certo tempo (não é claro por quanto
compósito de intelectuais atenienses tempo exatamente) ao longo da
da última parte do século quinto; em última década da vida de Sócrates.
consequência, rejeitaram a ideia que Uma anedota simpática proveniente
ele contenha informação precisa da Antiguidade tardia mostra Sócrates

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procurando-o, perguntando-lhe se práticos (veja, por exemplo, Mem.


sabe onde são encontrados vários II.7). Ele dá conselhos não somente
tipos de comida e terminando por para seus companheiros próximos,
perguntar onde os homens são mas virtualmente para todo aquele
tornados cavalheiros (kalos que encontra, inclusive comandantes
k’agathos, “belo e bom”). Ao ver que de cavalaria e cortesãos. Xenofonte
Xenofonte não pode responder à raramente mostra Sócrates envolvido
questão, Sócrates diz: “siga-me e com o tipo de confrontação
aprenda” (Dl 11.48). Seja ou não antagonista com um interlocutor que
histórica a anedota, ela reflete o é proeminente na obra de Platão.
interesse de Xenofonte em Sócrates: Todavia, ele mostra Sócrates em
ele via Sócrates como alguém que diálogo com sofistas (Antifonte e
tornava seus companheiros “belos e Hípias, em Mem. 1.6, IV4), em busca
bons”. Xenofonte não se associou a de definições (Mem. m.9, IV6) e como
Sócrates para se tornar um filósofo, um devoto de erôs (Banquete 6.8) –
mas para se tornar um cavalheiro. todos aspectos de Sócrates que
Diferentemente de Platão, ele Platão põe em relevo. O Sócrates de
aparentemente não via nenhuma Xenofonte não insiste em sua
dificuldade em se tornar um sem se ignorância, como o de Platão o faz,
tornar o outro. mas evidencia aos seus interlocutores
a ignorância deles como um estágio
Xenofonte queria ansiosamente preliminar de sua educação (Hípias
mostrar que Sócrates era inocente menciona a recusa de Sócrates em
das acusações oficiais apresentadas responder às questões que formula a
em seu julgamento: impiedade e outros em Mem. IV 4.9, mas em geral
corrupção de jovens. Ele dedicou o o Sócrates de Xenofonte está muito à
primeiro capítulo de seus vontade ao declarar sua posição).
Memorabilia para argumentar que
Sócrates era um crente do tipo mais O retrato de Sócrates por
pio e tradicional. Dedicou a maior Xenofonte é valioso por duas razões.
parte dos Memorabilia para mostrar Primeiro, ele corrobora vários
que Sócrates trazia benefícios a cada aspectos do retrato feito por Platão.
um que se associava a ele. O Sócrates Segundo, enfatiza um aspecto da vida
de Xenofonte é primeiramente de Sócrates sobre o qual Platão não se
alguém que fornece conselhos morais concentra: suas relações com os

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discípulos. Platão e Xenofonte ponto de dedicar uma porção


apresentam, ambos, Sócrates como considerável de sua produção literária
um homem que teve discípulos à sua defesa.
devotos e apaixonados; Xenofonte
oferece uma explicação mais extensa Inquestionavelmente, nossa
do que o faz Platão sobre como fonte principal de informação sobre
Sócrates pode ter gerado tal devoção. Sócrates é Platão. Platão tornou-se
Xenofonte escreveu com uma um seguidor de Sócrates e foi um de
intenção polêmica: queria mostrar seus companheiros mais íntimos.
que Sócrates era completamente Diferentemente de Xenofonte, Platão
inocente das acusações lançadas era um filósofo; suas obras enfatizam
contra ele por seus acusadores e pelo a atividade filosófica de Sócrates.
preconceito popular contrário a ele. Como Xenofonte, estava preocupado
Xenofonte foi criticado por ter feito em mostrar que Sócrates não era
Sócrates parecer insosso e não culpado das acusações feitas contra
controverso; Gregory Vastos declarou ele por seus acusadores;
que os atenienses nunca teriam diferentemente dele, ele não atenua
indiciado o Sócrates de Xenofonte os elementos controversos de seu
(Vlastos, 1971a: 3). Xenofonte caráter e método. O Sócrates de
também atribui a Sócrates interesses Platão era um questionador
que só adviriam do próprio infatigável, determinado a revelar
Xenofonte, como ciência militar e para o interlocutor sua ignorância. Ele
administração de propriedades. A também insiste em sua própria
duração e a intimidade de sua ignorância, frequentemente dada
associação com Sócrates foi como explicação de sua recusa a
questionada por estudiosos. Pelo fato responder as questões que formula. A
de não estar interessado despeito desta insistência, o Sócrates
primariamente na filosofia de de Platão sustenta, ocasionalmente,
Sócrates, ele não é nosso melhor posições filosóficas. Ao final do
testemunho sobre o conteúdo desta Górgias (523a-527c), por exemplo,
filosofia. Mesmo assim, considero ele apresenta um relato da
inegável que Xenofonte conhecia e se imortalidade da alma. No Críton (de
associou a Sócrates, que foi inspirado 47c até o final), ele apresenta tanto
por ele e que estava suficientemente uma teoria da ação moral quanto uma
preocupado com sua reputação a defesa da obediência à lei. É um

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problema para os estudiosos os diálogos do primeiro grupo


reconciliar a sustentação por parte de representam as posições do Sócrates
Sócrates destas teorias com sua histórico e não um primeiro estágio
profissão de ignorância (ver o capítulo do pensamento filosófico do próprio
A Ignorância Socrática). Platão (ver o capítulo Interpretando
Platão).
Platão foi um grande filósofo de
próprio punho, um pensador que Para resolver este problema, os
desenvolveu suas próprias respostas estudiosos voltaram-se às obras de
às questões que Sócrates formulava. nossa quarta fonte, Aristóteles. Como
Isso produz uma questão: onde, em foi notado acima, Aristóteles foi um
suas obras, Platão apresenta as membro da Academia durante os
posições de Sócrates e onde últimos vinte anos da vida de Platão.
apresenta as suas próprias? Os Ele deve ter tido a oportunidade de
estudiosos esperavam resolver esta discutir sobre Sócrates com Platão, se
questão dividindo os diálogos de tivesse desejado, e deve ter tido
Platão em três grupos: um primeiro acesso às obras socráticas de outros
grupo, contendo diálogos que (se filósofos que estão hoje perdidas.
argumenta) apresentam um quadro Embora não fosse nascido quando
fiel do Sócrates histórico; um grupo Sócrates morreu, se mundo
intermediário, contendo diálogos que intelectual estava muito mais
representam as posições filosóficas próximo do de Sócrates do que está o
do próprio Platão, e um grupo tardio, nosso. Contudo, os estudiosos
contendo um estágio ulterior do questionaram a fidedignidade geral
desenvolvimento de Platão. Esta de Aristóteles como um historiador
divisão tripartite, porém, foi criticada: da filosofia (para uma avaliação
tanto o fato de pertencer aos negativa, ver Kahn, 1966, p. 79-87;
respectivos grupos quanto a ordem para avaliações mais positivas, ver
dos diálogos em seu interior foram Guthrie, 1971, p. 35-9; Lacey, 1971, p.
questionados (Kahn, 2002). Mesmo 44-8). Pode, porém, ser injusto
que se aceite a agrupamento descrever Aristóteles como um
tripartite dos diálogos e o quadro historiador da filosofia e não como
desenvolvimentista geral que o um filósofo escrevendo sobre outros
acompanha, parece, todavia, que não filósofos. Seu interesse na filosofia era
há razão decisiva para acreditar que sistemático, mas, ao desenvolver suas

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próprias posições, ele fez referência à parte” como fez Platão (Metaph.
às de seus predecessores, inclusive a XIII.4,1078b29-30). Estudiosos
Sócrates. Seu interesse principal ao tomaram esta passagem para marcar
proceder assim era mostrar que, uma distinção crucial entre Platão,
embora pensadores anteriores com sua doutrina das formas
pudessem ter antecipado alguns separadas, e Sócrates. Serviram-se
aspectos de seu pensamento, não o desta distinção para dividir os
levaram à perfeição. Sua tendência de diálogos em estágios de
ver os pensadores anteriores como desenvolvimento: um grupo socrático
prenunciadores de sua própria que não contém a doutrina das
posição gerou questões sobre a formas separadas e um grupo
objetividade de seu relato histórico. platônico posterior que a contém.
Portanto, como no caso de Platão, Todavia, o testemunho de Aristóteles
surge a questão se Aristóteles está gera mais questões do que as
relatando o que Sócrates disse ou o responde. Não é claro o que está
que ele pensava que Sócrates queria atribuindo a Sócrates: uma teoria de
dizer. Finalmente, alguns críticos de universais não separados, como a sua
Aristóteles como uma fonte sobre doutrina (que seria difícil de ser
Sócrates questionaram se havia algo conluiada com a profissão socrática
em seu relato que não se possa traçar de ignorância) ou meramente um
aos diálogos de Platão (Burnet, 1912, interesse metodológico na definição
p. xxiv). universal (ver o capítulo Definições
Platônicas e Formas). O testemunho
Os comentários de Aristóteles de Aristóteles sobre a autoria da
sobre Sócrates se restringem à sua teoria das formas separadas contradiz
filosofia e ele nos fornece várias duas passagens nos diálogos de
informações muito importantes. Vou Platão, nas quais Sócrates reivindica
aqui enfatizar duas. Primeiro, ele ser o autor da teoria: Phd. 100b 1-7 e
confirma o retrato de Platão de Prm. 130b 1-9. Isso levou John Burnet
Sócrates como alguém que e A. E. Taylor, no início do século
professava ignorância (SE 183b6-7). passado, a rejeitar o testemunho de
Segundo, ele nos diz que, embora Aristóteles. A maioria dos estudiosos
Sócrates buscasse definições e ficou do lado de Aristóteles sobre esta
centrasse sua atenção nos universais, questão, mas a tensão entre o retrato
ele não “fez os universais... existirem de Platão de Sócrates e o testemunho

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de Aristóteles é significativa. O era talhador de pedra; Sócrates dizia


testemunho de Aristóteles sobre que sua mãe, Fenarete, era parteira.
Sócrates parece ser mais objetivo que Era casado com Xantipa e teve três
o de Platão e Xenofonte; porém, filhos. Tendo crescido durante a
reflete seus próprios interesses e, época dourada de Atenas, assistiu seu
como não estava baseado em declínio e queda desastrosos na
experiência própria, dependeu, Guerra do Peloponeso (431-404).
inevitavelmente, de fontes Durante esta guerra, serviu no
anteriores, especialmente de Platão. exército ateniense como hoplita
(soldado fortemente armado da
O que as fontes nos dizem a respeito infantaria), uma posição que sugere
de Sócrates certo nível de riqueza familiar. De
acordo com Alcibíades e Laques (tal
Apesar das diferenças de ênfase, como relatado por Platão), ele
nossas fontes são concordantes a demonstrou notável coragem nos
respeito de vários aspectos da vida, campos de batalha. Platão e
dos interesses filosóficos e do método Xenofonte relatam ambos dois
de Sócrates. Quando vão na mesma eventos que atestam a coragem de
direção, temos a melhor evidência Sócrates em outros contextos.
histórica que podemos ter de Primeiro, nos últimos períodos da
Sócrates. Se rejeitarmos esta guerra, quando os atenienses
evidência, não teremos nada em que quiseram julgar em bloco dez
basear nosso relato do Sócrates generais por terem abandonado os
histórico. Quando nossas fontes soldados mortos ou feridos depois da
divergem, talvez não consigamos batalha de Arginusa, Sócrates, que na
reconciliá-las, mas em alguns casos época fazia parte do Conselho, foi o
não precisamos disso: ambos os lados único a recusar a colocar em votação
podem representar aspectos de a moção, pelo motivo (correto) de ser
Sócrates que não devemos descartar. ilegal. Segundo, quando os Trinta
Tiranos, que governaram Atenas em
Nossas fontes nos falam bastante 403-402, ordenaram a Sócrates e a
a respeito da vida de Sócrates. Ele outros que prendessem Leon de
nasceu em Atenas por volta de 469 Salâmis, foi o único do grupo a
a.C. e era um cidadão da cidade, do recusar-se. Ambos os episódios
demo Alopece. Seu pai, Sofronisco, colocaram sua vida em considerável

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perigo. Os episódios mais conhecidos tradicionais atenienses, um “maluco”.


da vida de Sócrates ocorreram em sua A opinião pública o associava a
parte final. Em 399 Sócrates foi Alcibíades, a personagem mais visível
julgado, acusado de impiedade e de da vida pública ateniense na era da
corromper os jovens. Seus acusadores Guerra do Peloponeso, e com Crítias,
eram Meleto, Anito e Lícon. Foi líder dos Trinta desprezado por
declarado culpado e condenado à muitos. Para seus seguidores, era um
morte. Recusou-se a fugir da prisão e homem da mais alta qualidade moral,
morreu bebendo cicuta. Sócrates uma pessoa inspiradora. Platão e
declarava que possuía uma voz divina Xenofonte referem-se a ele como o
que por vezes lhe falava; de acordo homem mais justo de seu tempo.
com Platão, a voz só proibia ações (Platão, Ep. VII.324e e Phd. 118a;
com as quais estava envolvido. Xenofonte, Mem. W.8.)
Mostrou muito interesse e, de acordo
com Platão, tinha grande Esta controvérsia não pode ser
conhecimento da erótica (ver o resolvida apelando-se aos fatos
capítulo Eros e Amizade em Platão). aceitos da vida de Sócrates. Sócrates
era um excêntrico no contexto da vida
Alguns dados que forneci sobre a ateniense; seu manto desfiado e sua
vida de Sócrates, como os que dizem aparência descuidada forneciam
respeito ao seu serviço militar, são objeto para um tratamento cômico.
encontrados em somente uma fonte Mais importante, Crítias e Alcibíades
(no caso, em Platão), mas a maioria se eram seus companheiros; Xenofonte
encontra em mais de uma e Platão tiveram de argumentar que
(principalmente em Platão e ele não era responsável pela conduta
Xenofonte) e não é contradita por deles. Sócrates era associado a
nenhuma. Formam a base de nossa elementos oligárquicos pró-
compreensão histórica de Sócrates e espartanos da vida ateniense e era
são tão seguras quanto algo o pode crítico de pelo menos alguns aspectos
ser em relação a uma personagem da democracia ateniense, como a
histórica. Incerteza acerca de eleição de magistrados por sorteio;
Sócrates invade o quadro quando preferiu morrer a abandonar Atenas
consideramos seu caráter. Para a quando foi condenado. Se pudermos
antiga comédia, Sócrates era um confiar naqueles que melhor o
solapador excêntrico dos valores conheceram, a piedade pessoal de

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Sócrates era exemplar, mas sua Inquestionavelmente, os


disposição de questionar toda crença companheiros de Sócrates eram
tradicional deve ter encorajado atraídos a ele por conta do modo
aqueles que, como Crítias e como levava sua vida. Porém, que
Alcibíades, riam das crenças religiosas explicação teórica da virtude, se acaso
populares. Duas marcas do caráter de há alguma, está por trás de sua
Sócrates parecem fora de conduta? Tem Sócrates algo como
controvérsia e são amplamente uma filosofia moral?
atestadas por nossas fontes antigas:
sua coragem e sua integridade Nossas fontes são concordantes
pessoal. Sócrates demonstrou sua quanto ao fato de Sócrates estar
coragem na guerra e no julgamento e primariamente interessado em
mostrou sua integridade (o que questões morais. São discordantes
Xenofonte chama de liberdade) tanto somente se estava exclusivamente
por se recusar a ensinar em troca de interessado nelas. Aristófanes
dinheiro quanto pela recusa a apresenta Sócrates como um
comprometer seus padrões quando professor do “argumento justo e
sua vida estava em perigo. injusto”, visões rivais da conduta
humana, mas também como um
Sócrates era, sem dúvida, uma investigador científico. Xenofonte nos
pessoa complexa. Não teria podido dá um Sócrates interessado em uma
atrair seguidores do quilate de grande variedade de tópicos,
Xenofonte e Platão se não fosse um incluindo táticas militares e arte de
homem virtuoso, de profunda plantar, assim como a ética; parece
seriedade moral; não teria podido razoável supor, contudo, que os
atrair seguidores como Alcibíades se primeiros dois tópicos representam
não fosse um pouco iconoclasta. Além antes os interesses de Xenofonte que
disso, a virtude de Sócrates deve ter os de Sócrates. Platão e Aristóteles o
parecido algo enigmático mesmo a descrevem como primariamente um
seus admiradores. Era apresentada moralista, mas Aristóteles também
em ações, não em palavras; assim atribui a Sócrates um interesse
como Xenofonte faz Sócrates dizer a teórico na definição e no argumento
Hípias, “demonstro meu indutivo (Metaph. XIII.4, 1078b27-9),
conhecimento da justiça por meio de e Platão atribui a ele teses sobre a
minha conduta” (Mem. IV4.10). alma.

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Todas as nossas fontes ele não sabe, que está procurando


concordam novamente a respeito do tanto quanto seu interlocutor. Esta
método primário de investigação de reivindicação é endossada por
Sócrates: ele filosofava fazendo Aristóteles, mas Aristófanes não a
questões. Sem dúvida, parte da menciona e Xenofonte escreve como
controvérsia sobre as doutrinas de se não fosse verdadeira (embora
Sócrates deriva deste foto de seu tenha a observação de Hípias sobre a
método filosófico. Seja para refutar célebre recusa por parte de Sócrates
um suposto especialista, seja para de dar sua própria posição). É
oferecer um conselho moral a alguém, frequentemente fácil, mesmo quando
o método de Sócrates consistia em Sócrates declara não ter
extrair as teses do interlocutor por conhecimento das respostas a suas
meio de uma série de questões e questões, tratar essa declaração
então as examinar criticamente. como irônica. Esta é a resposta de
Aristófanes encena Sócrates Trasímaco em República I e está
questionando Estrepsíades (Nuvens diretamente ligada a algumas
636-99, 723-90); Aristóteles, como se observações de Alcibíades que vamos
notou anteriormente, diz que examinar a seguir. Assim, embora haja
Sócrates somente questionava os concordância de nossas fontes sobre
outros e se recusava a responder. Este o método de investigação de Sócrates,
método de questionar era tão não há acordo sobre a sinceridade de
característico de Sócrates que deu sua profissão de ignorância que (pelo
origem a um gênero literário, os menos no relato de Platão) está por
sôkratiikoi logoi ou “conversas trás dela.
socráticas” (ver Kahn 1996, p. 1-35). O
“método socrático” é derivado desta O problema das doutrinas de
fonte. Sócrates

É fácil imaginar, quando se está Isto nos leva à nossa questão final,
participando ou assistindo a um aquela que, mais do que qualquer
exame socrático, que Sócrates deve outra, deu origem ao problema
conhecer as respostas das questões socrático. Por mais que saibamos
que faz. Aqui novamente há acerca da vida de Sócrates, seu
desacordo entre as fontes. O Sócrates caráter, seus interesses e seu método,
de Platão insiste reiteradamente que os estudiosos ficarão insatisfeitos, a

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menos que possam determinar quais com os outros, purificando suas almas
– se há alguma – doutrinas filosóficas de modo a estarem prontos para
Sócrates manteve. Aqui novamente, receber o conhecimento (230b-d). A
nossas fontes divergem; mais ainda, descrição que o estrangeiro de Eleia
há conflito internamente à nossa faz é um resumo preciso da atividade
fonte mais significativa, Platão. Nossa de Sócrates tal como descrita nos
incapacidade em responder a esta diálogos primeiros “socráticos”. Nem
questão a respeito da doutrina – vou o estrangeiro de Eleia nem nenhuma
argumentar – deriva desse conflito. outra personagem diz que a pessoa
De nossas fontes, Platão nos oferece assim descrita é Sócrates, mas
o retrato filosoficamente mais rico de dificilmente poderia ser outra.
Sócrates. Não somente nos primeiros Sócrates, neste relato, não é o
diálogos, mas também nas obras proponente de uma doutrina, mas
médias e tardias, Platão retoma alguém que examina as posições dos
sempre e sempre à questão da outros. Se ele tem suas próprias
importância filosófica de Sócrates. crenças, elas não estão em questão,
Três dos retratos platônicos mais pois seu interesse está inteiramente
significativos sobre Sócrates ocorrem ligado à purificação dos outros. Se há
em diálogos geralmente não uma verdade filosófica a ser
considerados pelos estudiosos como aprendida, o Sócrates aqui se limita a
socráticos. preparar o terreno para ela.

O primeiro retrato que vou A grande vantagem deste retrato


considerar ocorre no Sofista, um é que ele é largamente fiel ao método
diálogo tardio. Em uma série de dos diálogos socráticos, se não a todo
tentativas de definir a natureza do o seu conteúdo. Se as doutrinas
sofista, uma personagem nomeada “o socráticas emergem nestes diálogos,
estrangeiro de Eleia” por fim sugere elas o fazem indiretamente, no
que um sofista é alguém que passa contexto do exame de Sócrates das
em exame seus interlocutores no outras pessoas. Uma segunda
intuito de remover deles a falsa vantagem é que dá sentido a um fato
crença que sabem de algo do qual, na histórico relativo aos discípulos de
verdade são ignorantes. Sua intenção Sócrates. Sócrates, como notamos
é fazer com os interlocutores fiquem anteriormente, estava circundado por
irritados com eles próprios e brandos vários filósofos que tinham posições

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muito diferentes. Aristipo propunha a explicação melhor, nesta perspectiva,


tese de que o prazer é o bem e foi o é a que Platão põe na boca de
fundador da escola cirenaica de Sócrates no Teeteto (149a-151d). De
filosofia. A filosofia de Antístenes era acordo com esta história, Sócrates é
o oposto polar da de Aristipo. Símias um parteiro intelectual, ao modo de
e Cebes eram pitagóricos; Euclides sua mãe Fenarete. Ele próprio é
era conhecido por conta de algumas infértil: “a crítica que me é
doutrinas lógicas pouco usuais. Havia comumente feita é que estou sempre
então Platão, com suas posições questionando outras pessoas, mas
construtivas bem demarcadas. Se nunca exprimo minhas próprias
Sócrates não expunha doutrinas, mas posições sobre nada porque não há
somente questionava os outros, é nada em mim”, diz ele, “e isso é bem
fácil entender como uma tal verdadeiro” (150c4-7). A despeito de
variedade de pensadores puderam sua infertilidade, Sócrates pode
decidir associar-se a ele e como eles auxiliar seus companheiros a darem
poderiam ter pensado que suas nascimento a suas ideias. Algumas
respostas às questões postas por ele delas são puro vento; não passam
eram as que teria aprovado. Se o pelo crivo de um exame. De outro
Sócrates histórico possuía e ensinava lado, alguns de seus companheiros
doutrinas positivas, fica menos fácil “descobrem dentro de si uma pletora
entender como pôde ter surgido tal de belas coisas, que eles trazem à luz”
constelação de discípulos. (150d7-8). Sócrates se queixa que
alguns que têm suas ideias expostas
Uma desvantagem do retrato de como puro vento ficam “literalmente
Sócrates como um dialético prontos a morder quando extraio
puramente crítico é que não explica alguma ideia insensata deles” (151c6-
muito bem sua atração exercida sobre 7). Eles não compreendem que sua
jovens como Xenofonte, que não motivação é benevolente. De outro
buscavam em Sócrates instrução lado,
filosófica, mas aconselhamento
prático, conselho sobre como tornar- Com aqueles que se tornam meus
se kalos k’agathos. Para tais jovens, a companheiros é diferente. No início,
alguns podem dar a impressão que são
repetição sem fim da técnica socrática ignorantes e estúpidos, mas, com o
de enrolar seus interlocutores em nós passar do tempo e continuando a me
teria logo perdido seu charme. Uma seguir, todos aqueles que o Deus

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permite fazem progressos – um questionamento de Sócrates, que é


progresso que é surpreendente para essencialmente crítico, pode fazer
outras pessoas e para eles próprios.
Contudo, é evidente que isso não é emergir a verdade da alma de outra
devido a nada que tenham aprendido pessoa. Outro problema é que quase
de mim. (Tht. 150d2-7) não vemos este processo em
operação nos diálogos de Platão. Os
A analogia com a parteira provê interlocutores nos primeiros diálogos,
uma explicação que a passagem do com exceção do escravo no Mênon,
Sofista não faz. Ela explica por que nunca produzem uma concepção que
algumas pessoas teriam de decidir ser sobreviva à crítica de Sócrates e,
companheiros de Sócrates por um quando vemos serem introduzidas
longo período de suas vidas. Sob sua posições filosóficas construtivas, elas
conduta, dão nascimento “a uma parecem todas provir de Sócrates.
pletora de belas coisas” (d7-8) que
descobriram dentro de si próprios. A Apesar da dificuldade de conciliar
linguagem da analogia com a parteira a analogia com a parteira com os
faz lembrar a doutrina da diálogos platônicos, ela forma, junto
reminiscência no Mênon. Nesta obra, com a descrição do “nobre sofista” no
Sócrates sustenta que todos temos a Sofista, um retrato consistente e
verdade dentro de nós mesmos e que altamente atraente do Sócrates
esta verdade pode vir à luz por meio histórico. Ambos os relatos mostram
de seu questionamento crítico (ver o um Sócrates que não dispõe de
capítulo Platão e a Reminiscência). doutrinas filosóficas, mas somente de
um método. Embora este método seja
O Teeteto mantém a visão da crítico em seu procedimento e seja
verdade latente dentro da alma, mas concebido para tornar as pessoas
com a seguinte variação: nem todos conscientes de sua própria ignorância,
estão “grávidos” da verdade. Alguns de acordo com a analogia com a
que o procuram não o estão e ele os parteira ele leva ao descobrimento de
envia a outros professores (151b). crenças verdadeiras, e mesmo de
Mais importante ainda, o próprio sabedoria, na alma de seus
Sócrates é infértil: ele não tem companheiros. Quando aplicamos
conhecimento em sua alma. Um esta analogia ao próprio Platão,
problema com essa analogia é que obtemos a seguinte análise: o método
não é claro exatamente como o refutativo dos primeiros diálogos é a

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contribuição de Sócrates, mas as leitores de Platão e Xenofonte têm,


doutrinas filosóficas positivas que inclusive eu: que sua atração única
podem ser ai encontradas, assim não deve ser explicada em termos de
como nos diálogos posteriores, suas doutrinas, mas em termos de seu
constituem a contribuição de Platão caráter e de seu espírito de pesquisa
(ver o capítulo O Método da Dialética que ele inquestionavelmente
de Platão). É Platão e não Sócrates manifestava. Ele mostra o que está
quem é responsável pela explicação errado com todas as tentativas, das
da natureza e da imortalidade da alma mais antigas às mais recentes, de
encontrada no Górgias e no Mênon, encartar Sócrates na forma
pela teoria que a virtude é “doxográfíca” da história da filosofia,
conhecimento, pela doutrina das a qual entende os filósofos em termos
formas (não separadas) que aparece de suas teorias.
no Eutifro e no Mênon e pela teoria da
obrigação moral e política encontrada Por que, então, não devemos
no Críton. Talvez se pudesse simplesmente declarar que o Sócrates
argumentar que, com a analogia com histórico foi encontrado, e
a parteira, Platão nos dá uma chave encontrado em seu autorretrato em
para a correta interpretação de seus nossa fonte antiga de maior
diálogos (ver Sedley, 2004, p. 37). autoridade, Platão? O problema é que
Platão nos dá um outro retrato, que é
Como disse, acho esse quadro abertamente inconsistente com este
uma explicação muito atraente do primeiro. De acordo com este outro
Sócrates histórico. Ele se acopla ao retrato, Sócrates é qualquer coisa
quadro do Sofista ao mesmo tempo salvo infértil. O retrato é feito por
em que vai além dele e oferece uma Alcibíades no Banquete e é um retrato
explicação do lado positivo da tão vivido e convincente como os
filosofia socrática. Explica este lado outros retratos que vimos. Tendo
positivo e a atração exercida por chegado atrasado na festa de Agatão
Sócrates em seus discípulos sem lhe e bastante embriagado, é pedido a
atribuir nenhuma teoria filosófica. Ele Alcibíades que faça o elogio de
nos mostra um Sócrates cujos Sócrates. Ele começa comparando
discípulos eram filosóficos com as Sócrates a um Sileno – a estátua de
mais divergentes posições. Ele um sátiro que, quando aberta, revela
fortalece uma intuição que muitos ter dentro imagens de deuses (215a-

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b). O significado da analogia com encômio:


Sileno é que a aparência externa de
Sócrates contrasta fortemente com a Até mesmo suas ideias e argumentos
são como as estátuas ocas de Sileno.
que existe dentro dele:
Se você escutar seus argumentos, no
início eles lhe darão a impressão de
Para começar, ele é louco por belos
serem totalmente ridículos; estão
garotos; ele os persegue revestidos de roupas tão rudes como
constantemente, perpetuamente as de pele usadas pelos sátiros mais
atordoado. Ele também gosta de dizer vulgares. Ele está sempre às voltas
que é ignorante e que não conhece com burros de carga, ferreiros,
nada. Não é isso exatamente como sapateiros ou coureiros; está sempre
Sileno? Claro que é! Mas tudo isso está
fazendo os mesmos surrados pontos
na superfície, como no exterior das
com as mesmas palavras surradas. Se
estátuas de Sileno. Pergunto-me,
você é bobo ou simplesmente não está
meus companheiros de copo, se vocês acostumado com eles, vai ser difícil
têm alguma ideia de quão sóbrio e não rir de seus argumentos. Porém, se
moderado ele se mostra quando visto os vir quando se abrem como as
do interior... Em público, digo a vocês, estátuas, se você for além da
toda a sua vida é um grande jogo – um
superfície, se dará conta que nenhum
jogo de ironia. Não sei se algum de outro argumento faz sentido. São
vocês já o viu quando está realmente
realmente dignos de um deus, repletos
sério. Uma vez o peguei quando estava de imagens de virtude dentro deles.
aberto como uma estátua de Sileno e São de grande – não, da maior
tive um vislumbre das imagens que ele importância para quem quiser se
guarda escondidas dentro de si; eram tornar verdadeiramente um homem
tão divinas – tão brilhantes e belas,
bom. (Smp. 221d7-222a6)
totalmente fascinantes – que não tive
outra alternativa: tinha somente de
fazer o que ele me dizia. (Smp. 216d2, A analogia com Sileno de
216e-217a2) Alcibíades é uma obra-prima da
descrição do poder de Sócrates, assim
Depois de uma longa e cômica como o era a analogia com a parteira.
descrição de suas tentativas Ela explica por que Sócrates pode
frustradas de seduzir Sócrates, aparecer como uma personagem
combinadas com histórias da digna de tratamento cômico e por
coragem de Sócrates nos campos de que pode ser desconsiderado por
batalha e de um seus lendários interlocutores de módica inteligência.
estados de transe, Alcibíades retoma Ela explica seu confesso interesse
a analogia com Sileno ao final de seu erótico em belos garotos

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adolescentes e ao mesmo tempo sua Sócrates parece ser estéril porque ele
profissão de ignorância, assim como encobre sua fertilidade com uma
casos de ironia (ver o capítulo A máscara de ironia.
Ignorância Socrática). Não tão longe a
ponto de apresentar Sócrates como o Não vejo como resolver este
proponente de doutrinas filosóficas, conflito. Talvez se pudesse
mas diz que ele contém dentro de si argumentar que as duas analogias são
argumentos divinos, de raríssima compatíveis, no sentido em que
sensatez, que são construtivos para o nenhuma nos obriga a atribuir teorias
caráter: conduzem a pessoa ao filosóficas particulares a Sócrates.
verdadeiro bem. “Se você olhar para Tudo o que a analogia com Sileno
dentro dos argumentos de Sócrates”, requer, alguém poderia dizer, é que
diz Alcibíades, “você os verá repletos Sócrates possua argumentos que
de imagens de virtude” e o mesmo é podem ser usados para testar ideias
verdade se você olhar para dentro do filosóficas avançadas por outros.
próprio Sócrates. Assim, a riqueza destes argumentos
reside unicamente no poder que têm
A analogia com a parteira e a com de levar o interlocutor à verdade.
Sileno são poderosas e convincentes, Infelizmente, penso que esta
além de serem encontradas em nossa tentativa malogra. Ela ignora o fato
fonte de maior autoridade sobre o que a analogia com a parteira deve
Sócrates histórico. Porém, não tomar a profissão de Sócrates de
poderiam ser mais inconciliáveis. Uma ignorância como sincera, ao passo que
nos diz que Sócrates é infértil, que faz a analogia com Sileno exige que a
emergir nos outros verdades que ele tomemos como irônica. Também
não possui. A outra nos diz que ele requer o fato que, de acordo com
está repleto de argumentos divinos e Alcibíades, Sócrates, assim como suas
imagens de virtude de um modo que ideias e argumentos, está repleto de
é único entre os homens. Cada imagens divinas de virtude.
imagem explica a característica
central da outra como um tipo de Estamos diante de um “problema
ilusão: de acordo com a analogia com socrático” ao final, porque Platão nos
a parteira, Sócrates parece ser fértil legou duas imagens irreconciliáveis da
porque faz surgir rebentos nos outros; filosofia de Sócrates, imagens que
de acordo com a analogia com Sileno, nossas fontes não nos permitem

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harmonizar. É possível que o Sócrates quais doutrinas filosóficas o Sócrates


histórico fosse o que a analogia com a histórico sustentou, pois, antes de
parteira nos diz que era: um expositor podermos responder a esta questão,
infértil da ignorância humana cujos devemos poder dizer, pelo menos
seguidores, contudo, progrediam em com um alto grau de plausibilidade,
direção à descoberta de verdades que ele sustentou doutrinas. E isso,
filosóficas. É também possível que por causa do conflito entre as
fosse o que a analogia com Sileno nos analogias com a parteira e com Sileno,
diz que era: um irônico contendo não estamos em posição de afirmar.
dentro de si argumentos construtivos
de rara potência e imagens de virtude. Nota
É finalmente possível que fosse uma
mistura inconsistente e paradoxal de As traduções de Platão foram retiradas de J.
M. Cooper (ed.) Plato: Complete Works
ambas (ver o capítulo Os Paradoxos
(Indianápolis: Hackett, 1997).
Socráticos). Não estamos em condição
de resolver este conflito. Nem, Referências e leitura complementar
aparentemente, estavam os
intérpretes antigos de Platão. A Bumet, J. (1912). Introduction. In Plato’s
Academia cética, sob a liderança de Phaedo (pp. ix-lix). Oxford: Clarendon Press.
Carneades e de Arcesilau, tomou o Guthrie, W. K. C. (1971). Sócrates. Cambridge:
Sócrates infértil como seu modelo Cambridge University Press.
filosófico. A Academia Média e os Kahn, C. (1996). Plato and the Socratic
intérpretes neoplatônicos de Platão Dialogue. Cambridge: Cambridge University
viram Sócrates como o filósofo Press.
construtivo descrito por Alcibíades. ______(2002). On Platonic chronology. In J.
Nossa incapacidade de resolver este Annas and C. Rowe (eds.) New Perspectives on
conflito não deve de modo algum Plato, Modem and Ancient (pp. 93-127).
solapar a confiança que temos em Cambridge, Mass.: Harvard University Press.
nosso conhecimento da vida de Lacey, A. R. (1971). Our knowledge of
Sócrates, de seu caráter e de seus Sócrates. In G. Vlastos (ed.) The Philosophy of
Sócrates (pp. 22-49). Garden City, NY:
interesses filosóficos e método, como
Doubleday.
foi delineado na primeira parte deste
texto. Deve, todavia, dar uma pausa a Patzer, A (1987). Der Historische Sokrates.
Darmstadt: Wissenschaftliche
todos os intérpretes que estão Buchgesellschaft.
ansiosos para nos dizer exatamente

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Prior, W J. (1996). Sócrates: Critical


Assessments (4 vols.), vol. 1. London and New
York: Routledge.
Sedley, D. (2004). The Midwife of Platonism.
Oxford: Clarendon Press.
Vlastos, G. (1971a). The paradox of Sócrates.
In G. Vlastos (ed.) The Philosophy of Sócrates
(pp. 1-21). Garden City, NY: Doubleday.
______(ed.) (1971b). The Philosophy of
Sócrates. Garden City, NY: Doubleday.
(1991). Sócrates: Ironist and Moral
Philosopher. Ithaca, NY: Cornell University
Press; Cambridge: Cambridge University
Press.

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Parte I
O MÉTODO
PLATÔNICO E A
FORMA DE DIÁLOGO

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4. A forma e os diálogos mundo. O Mênon refere-se ao


encontro no Górgias e inicia sem
platônicos preâmbulo com um debate entre
Sócrates e Mênon – ele próprio um
MARY MARGARETH MCCABE seguidor de Górgias – sobre a
possibilidade de se ensinar a virtude.
Platão escreveu diálogos. Na verdade, No Eutifro, Sócrates e Eutifro
das obras que nos foram transmitidas, encontram-se bem em frente ao
quase todas dependem, de um modo tribunal, cada um indo para lá: Eutifro
ou de outro, da forma de diálogo. para dar entrada em um processo de
Contudo, pode bem ser o caso que impiedade contra seu pai; Sócrates,
não exista algo como uma única forma para defender-se contra a acusação
de diálogo; ao contrário, Platão usa o de corromper a juventude. O Críton se
diálogo em uma multiplicidade de passa na prisão depois de Sócrates ter
modos. Por que faz isso – inclusive nas sido condenado à morte;
ocasiões em que parece ser menos
bem-sucedido? Qual a relação – se há Sócrates e Críton discutem se ele
alguma – que a forma dos diálogos deveria tentar escapar antes que a
tem com seus objetivos filosóficos? sentença seja levada a termo. O
Crátilo e o Filebo começam ambos no
Discussões diretas meio de um debate acalorado. O
Fedro descreve um encontro entre
Muitos diálogos são discussões Sócrates e Fedro a beira de um regato,
diretas ocorridas em cenários quando debatem sobre o amor, sobre
detalhadamente descritos. No a retórica, sobre a escrita e sobre a
Górgias, Sócrates e Querefonte, vindo alma. (Hípias Maior, Hípias Menor,
do mercado, encontram Cálicles, que Laques, Menexeno, Íon e Alcibíades
acabara de escutar a apresentação são igualmente diretos.)
retórica feita por Górgias.
Desenvolve-se uma discussão em três Estes encontros fazem-se sob a
partes entre Sócrates e Górgias, forma de drama e seu protagonista é
depois entre Sócrates e Pólo e, Sócrates. Porém, o Sofista e o Político
finalmente, entre Sócrates e Cálicles; descrevem uma ocasião em que
o diálogo termina com um grande Sócrates encontrou um estrangeiro de
mito do destino da alma no outro Eleia. Este estrangeiro tem o papel

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condutor e seu interlocutor é, em ex., no sofistico Dissoi Logoi,


cada caso, um jovem e solícito “Argumentos Duplos”, parodiado nas
companheiro de Sócrates. Nuvem de Aristófanes). Platão pode
Similarmente, o papel central do se ter servido instrumentalmente dos
Timeu pertence não a Sócrates, mas diálogos, um modo de apresentar o
ao cosmologista Timeu; o Crítias é um argumento em um formato
discurso de Crítias sobre a história de dramático, apropriado aos
Atlântida. O diálogo As Leis deixa atenienses, entusiastas do teatro.
Sócrates totalmente de lado: é uma Assim, talvez a forma de diálogo seja
conversa entre Clínias, Megilo e o meramente o resultado de forças
Estrangeiro de Atenas, que toma a culturais e, como tal, somente uma
posição de protagonista. matriz na qual são postos alguns
argumentos filosóficos. Seu
À medida que Sócrates vai para propósito, nesta perspectiva, seria o
trás da cena, os próprios diálogos de acalentar o leitor, o de tornar
parecem perder seu caráter aceitável o argumento abstrato, o de
dramático. Eles foram escritos, como aplacar a aridez do discurso filosófico
muitos pensam, na parte final da puro (o que quer que isso seja).
carreira de Platão; talvez a forma de
diálogo se tenha tornado banal. No Esta explicação da relação entre
início, talvez Platão tenha somente filosofia e o modo como é escrita
seguido o exemplo de outros: parece sugere que não há uma função
ter havido uma indústria de escrever filosófica direta da forma de diálogo.
diálogos socráticos no período Porém, a caracterização da forma
seguinte à morte de Sócrates. Ou como correspondendo a um gênero
talvez ele tenha seguido uma tradição (“literário”, “oratório” e assim por
bem diversa, influenciado, sem diante) e do argumento como
dúvida, pelas instituições correspondendo a outro gênero
democráticas da Atenas clássica: a (“filosófico”, “lógico” e assim por
apresentação do pensamento diante) é tendenciosa. Mais ainda,
abstrato alterou-se de um verso parece empurrar Platão para sua
trabalhoso (à moda de Parmênides) própria armadilha, pois Sócrates
ou puro aforismo (à moda de frequentemente ataca a retórica por
Heráclito) em direção a uma substituir a razão em troca de
argumentação com adversários (p. acalanto e persuasão (Grg. 453al-

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461al). Se a forma de um diálogo visa frequentemente tomado como o


a persuadir, quando seus argumentos magnum opus de Platão, seu relato de
se dirigem à razão, toma a forma de muito daquilo tudo para o qual teria
diálogo a parte inaceitável do orador? dirigido sua atenção filosófica.
Toma ela o lado errado na antiga
disputa entre poesia e filosofia (R. Porém, por vezes esta suposição
607b5)? é atacada, na medida em que somos
forçados a reconhecer o modo como
Quadros e encartes o diálogo está composto e a prestar
atenção de modo crítico ao papel
Não tão rápido, porém, pois o uso que exato de Sócrates. Considere um
Platão faz da forma do diálogo é incidente no Protágoras. A maior
menos uniforme do que os exemplos parte do diálogo é narrada por
anteriores podem sugerir – menos Sócrates a um amigo não nomeado. O
uniforme e composto em modos ricos amigo lhe pede para descrever seu
e ressonantes. Considere um grupo encontro na véspera com o grande
diferente de diálogos, cujo cenário é sofista Protágoras. Sócrates aceita
mais complexo do que o anterior. prontamente e conta todo o
demorado encontro. Protágoras
Cinco diálogos (Carmides, Lísis, revela-se um interlocutor manhoso,
Protágoras, Eutidemo e República) relutante a abandonar seu hábito de
são narrados pelo próprio Sócrates; o fazer grandes discursos e comentários
diálogo é a história que ele conta. detalhistas. Sócrates, porém, insiste
Aqui, portanto, um dos protagonistas em uma discussão pautada por
(Sócrates) fala de suas próprias questões e respostas curtas.
contribuições na primeira pessoa. O Protágoras, notável por sua
engajamento com os interlocutores habilidade em dar respostas curtas
parece ainda mais imediato – e as (329b 1-5), aceita a condição de
posições de Sócrates parecem Sócrates, mas logo após recai em
privilegiadas em relação às das outras verborreia. Sócrates reclama:
personagens. Isso poderia tentar-nos
a supor que Sócrates representa Protágoras, tendo a ser um tipo de
Platão; por vezes é fácil supor que o pessoa que tem pouca memória e, se
alguém me fala longamente, tendo a
“eu” na República designa o próprio esquecer o assunto de sua fala. Agora,
autor, neste diálogo que é se eu tivesse dificuldade em escutar e

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você fosse conversar comigo, você como Sócrates. O que, então, fazer
pensaria que seria vantajoso falar mais com a rara referência ao próprio
alto para mim do que para os outros.
De mesmo modo, já que você tombou Platão, no início, quando Fédon,
com uma pessoa que tem pouca recontando a história ao seu amigo
memória, você terá de dar respostas Equecrates, lista os que estavam
curtas se eu devo seguir seu raciocínio. presentes? Muitos socráticos
(Prt. 334c8-d5; tradução de Lombardo eminentes são nomeados – então
e Bell)
Fédon diz: “mas Platão, penso, estava
doente” (59bl0). Ficamos
A observação de Sócrates vem ao
boquiabertos: se Platão estava
final de uma série de pontos acerca do
doente, como devemos tomar este
método e do procedimento, mas sua
relato do que ocorreu? Mas isso é
natureza extraordinária não nos deve
uma história premeditada, uma
passar despercebida: como poderia
elaboração, mesmo uma ficção, não
Sócrates, que pode nos dar um relato
um conjunto de minutas do encontro
aparentemente verbatim do inteiro
na prisão. E isso torna problemática a
encontro, alegar que tem pouca
relação de Platão com Sócrates se,
memória? Há por certo ironia aqui –
diferentemente dos outros socráticos,
mas por quê? A má concatenação
ele não escutou os argumentos finais
entre o relato de Sócrates sobre ele
de seu mestre. É a relação mais
próprio e sua habilidade em narrar a
complexa, menos direta, menos fácil a
história toda chama a atenção a como
ler do que a reprodução de doutrinas
o diálogo está sendo armado: por
escutadas da boca de seu mestre?
quê?
Uma outra característica do drama do
Fédon reitera a questão. O “quadro”
Outros diálogos são
do diálogo é o encontro direto entre
autoconscientes de modo similar.
Fédon e Equecrates, para quem Fédon
Pode-se tomar o Fédon como uma
narra os eventos na prisão. Porém,
tragédia, um relato emocionante do
por duas vezes o quadro interfere na
último dia de Sócrates, de seus
narração. Na primeira vez (88c8-
argumentos sobre a imortalidade da
89a9), o quadro reflete sobre o
alma e da devastação de seus amigos
argumento encartado, quando
no momento de sua morte. O diálogo
Equecrates comenta que ficou
tem um ar pietista e isso de novo pode
convencido por uma objeção à tese de
sugerir que Platão vê a si mesmo
Sócrates que a alma é imortal. Na

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segunda (102a3-bl), depois de uma argumento quanto ao próprio fato


passagem cheia de voltas (e que a discussão é narrada. Há nisto
ardorosamente disputada), um objetivo filosófico?
Equecrates subitamente se declara
satisfeito pela completa clareza do Ficção e relato
argumento de Sócrates. Bom para
Equecrates: porém, os leitores de Considere três casos mais
Platão podem ser menos otimistas – e complicados: Teeteto, Banquete e
a própria interrupção nos surpreende: Parmênides. O Teeteto é um diálogo
por que o quadro subitamente entre Euclides e Térpsion, antevendo
intervém nestes exatos momentos? a morte de Teeteto, ferido em
batalha. Euclides menciona o
As interrupções certamente encontro ocorrido há anos entre
chamam a atenção não somente a Teeteto, então jovem, e Sócrates logo
pontos individuais no argumento, mas antes de sua morte. O próprio
também ao modo no qual o diálogo Euclides não estava presente naquela
está escrito. O mesmo efeito ocorre ocasião, mas Sócrates lhe falou dela.
no Eutidemo, de novo um diálogo no Euclides confessa que, porque ele não
interior de um quadro externo. é capaz de reproduzir de cor a história
Sócrates conta a Críton um encontro de Sócrates (ao contrário de Sócrates,
que tivera na véspera com os irmãos então), ele tem um relato escrito, cuja
sofistas Eutidemo e Dionisodoro precisão ele confirmou com Sócrates.
(Críton estava presente, mas não Ele pôs a conversa em discurso direto
conseguiu escutar o que era dito). de modo a evitar acréscimos do tipo
Aqui, de novo, o quadro irrompe na “e então ele disse” e similares. Esta
discussão narrada (290el), assim que introdução extremamente detalhista
Críton comenta com incredulidade o põe em evidência não somente a
relato de Sócrates de como está reivindicação do diálogo de ser
procedendo o argumento encartado. verídico (Euclides se preocupa muito
Doravante o argumento é com a precisão de seu relato), mas
desenvolvido por um momento no também seu caráter ficcional, ao
quadro como uma discussão direta enfatizar a distância do leitor em
entre Sócrates e Críton. Mais uma vez, relação à ação.
a interrupção chama a atenção tanto
ao momento particular no próprio Compare com o início do

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Banquete e com o do Parmênides, ocorre quando uma história passa de


ambos os quais inserem o diálogo uma pessoa a outra, a não ser
central em uma narrativa detalhista. distorção, exagero e perda de
No Banquete, a história é contada por detalhes vitais?
Apolodoro a um ouvinte não
nomeado, no dia seguinte ao que a Em todos esses casos, se guarda
contou a Gláucon (que havia ouvido a história à distância; sua precisão e
falar dela por Fênix). Apolodoro a seu ponto estão sujeitos à dúvida.
escutou de Aristodemo, que havia Como consequência, a relação entre o
acompanhado Sócrates no banquete quadro e o que é encartado se torna
na casa de Agatão; como Euclides, cada vez mais problemática.
Apolodoro verificou depois os Surpreende ainda mais, então, que,
detalhes com Sócrates. O Parmênides quando cada um destes diálogos
é narrado por Céfalo (a um ouvinte termina, o quadro exterior tenha
não especificado – o leitor?), que foi a desaparecido. O Teeteto termina de
Atenas expressamente para saber a modo inquietante, pois Sócrates vai
respeito do encontro entre Sócrates e ver as acusações que o levarão à
os grandes filósofos eleatas, morte: o que se coaduna de modo
Parmênides e Zenão. Céfalo pergunta revelador com a morte iminente, no
a Adimanto e a Gláucon por quadro, de Teeteto, o promissor
Antifonte, meio-irmão deles, que jovem matemático que se assemelha
aparentemente escutou a história (e a a Sócrates. O Banquete se conclui
aprendeu de cor) de Pitodoro, um quando Sócrates fala para ninguém
amigo de Zenão. Eles vão em busca de mais da festa: eles estão dormindo e
Antifonte, que por fim relata a Sócrates vai embora para suas
história que Pitodoro lhe contara. Em ocupações usuais. O Parmênides –
ambos os diálogos parece que talvez o mais surpreendente de todos
escutamos uma história que está bem – conclui uma densa discussão entre
atestada: repetida, verificada, Parmênides e um jovem (que se
aprendida de cor – embora chama por acaso Aristóteles) com
enfaticamente distanciada de nós por uma contradição:
uma cadeia de narradores. Porém, a
narrativa também tem o efeito Parece que, que o um seja ou não seja,
tanto ele quanto os outros são e não
inverso, pois nos faz hesitar a respeito
são e parecem ser e não ser todo tipo
da verdade do relato. Afinal, o que

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de coisas em todos os modos, com pretendentes ao conhecimento:


respeito a eles próprios e um com o homens políticos (que mostraram que
outro. (JPrm 166c2-5)
nada sabiam), poetas (inspirados ao
dizer a verdade, mas incapazes de a
A isso, surpreendentemente,
explicar) e artesãos (que têm
Aristóteles responde: “pura verdade”.
conhecimento especializado, mas não
Devemos tomar isso como a
conseguem ver suas limitações). Ao
conclusão? E, se essa é a conclusão,
fazer questões a eles, Sócrates pedia
como Parmênides e Aristóteles nos
aos pretendentes para explicar suas
permitem alcançá-la? Como Sócrates,
reivindicações ao conhecimento e em
que está ali sentado, permite que isso
cada caso eles se mostraram
ocorra? Nenhum dos narradores viu
incapazes de dar uma explicação do
isso?
que se supunha que conheciam. Esta
incapacidade de dar uma explicação
Sócrates a propósito de questão e
constituía, aos olhos de Sócrates, um
resposta
fracasso de conhecimento, de modo
Se é difícil estabelecer a relação entre que suas pretensões a serem sábios
o quadro e o encartado, o que dizer fracassavam também. Sócrates
dos próprios diálogos encartados? concluiu que ele era de fato mais
Sócrates explica por que adota o sábio porque somente ele
diálogo no discurso que fez compreendeu que não era sábio.
supostamente em sua própria defesa,
Os pretendentes eram
a Apologia. Ele descreve aos jurados
questionados de modo a dar uma
como obteve a reputação de
explicação do que conheciam e o
sabedoria em Atenas e como as
fracasso deles ficava demonstrado
acusações vieram a ser feitas contra
pelo processo de questão e resposta
ele. Seu amigo Querefonte foi ao
com Sócrates. Sócrates toma o
oráculo de Delfos perguntar se havia
perguntar e responder a questões
alguém mais sábio que Sócrates. O
como de algum modo central à
oráculo respondeu que não havia;
explicação, ao conhecimento e à
Sócrates, ao ouvir este resultado,
sabedoria. Assim, a meio caminho de
ficou intrigado e buscou descobrir o
sua defesa (24c9), ele se imagina
que o oráculo queria dizer (21b3-9).
tendo uma conversa direta com um
Ele questionou vários grupos de
de seus acusadores – Meleto – e o

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exibe como incapaz de explicar com relação à tese original. Tal, na


coerência o que quer dizer ao acusar verdade, é o método com o qual
Sócrates de corromper a juventude. Sócrates é representado usando em
Há um paralelo entre os modos que muitos diálogos: é um modelo para
Sócrates buscava para examinar os um diálogo escrito. O interlocutor
pretendentes a conhecimento e o sugere uma posição sobre um tópico
diálogo direto que nos é pedido ou outro (frequentemente em
imaginar com seu acusador. Este resposta a uma questão feita por
modo de proceder, por sua vez, é Sócrates: “o que é a coragem?”, “o
reproduzido em outros diálogos, nos que é a piedade?”); Sócrates pede-lhe
quais a sequência de questão e uma explicação e eles procedem por
resposta está conectada a um pedido questão e resposta. Para o
de explicação e nos quais o interlocutor, infelizmente, a
interlocutor em diálogo é visto investigação sobre sua tese
fracassar em satisfazer esta exigência normalmente termina em
(p. ex., Euthphr. Ila5-bl; La. 193el-7) dificuldades e o próprio interlocutor
(vero capítulo Definições Platônicas e cai em embaraço, irritação, acusação
Formas). (p. ex., Chrm. 169c3-dl; Men. 70e7-
80b4; Grg. 505cl-d9). Pode-se ver
Perfeitamente justo: a facilmente como Meleto requererá a
investigação filosófica regularmente pena de morte.
busca a explicação perguntando “por
quê?” Similarmente, a sequência de Se é assim que Sócrates pensava
pensamento representada por uma que a filosofia deveria funcionar,
sequência de questões e respostas talvez Platão se sirva da forma de
pode muito bem estar estruturada diálogo para representar o modo
pela relação de explicação. Se um lado socrático de fazer filosofia. Se, porém,
sustenta uma tese e o outro lado a a forma de diálogo nos revela o
questiona, a resposta estará método socrático em operação, como
conectada à tese original como uma isto explica o Parmênides, no qual
explicação o está àquilo que explica. Sócrates é apresentado como jovem,
Se a explicação malogra (ou é em admiração a Parmênides e Zenão
incompleta), a próxima questão – e em silêncio durante a maior parte
ampliará o pedido por explicação e a da obra? Como explica os diálogos
resposta buscará provê-la, ainda em nos quais Sócrates é substituído por

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outros, como o estrangeiro de Eleia, terminavam. Mênon, ao final de uma


ou nos quais os interlocutores sequência de argumento deste tipo,
reclamam da aridez do método queixa-se que Sócrates anestesia as
socrático (sobretudo em Phlb. 20al- pessoas como uma raia (Men. 80a6).
8)? Como, em suma, explica os muitos Pior: impasse pode ser fatal para
modos nos quais os diálogos não qualquer tipo de progresso filosófico.
retratam uma interrogação concisa? Ele desafia Sócrates a mostrar como,
Ainda, é esse retratar tudo o que de uma posição de ignorância,
ocorre mesmo naqueles diálogos nos podemos investigar alguma coisa e
quais Sócrates de fato parece ser como, mesmo que o possamos,
“socrático”? alcançar o fim da investigação (ver o
capítulo A Ignorância Socrática). O
A aporia socrática paradoxo de Mênon sobre a
investigação pode fornecer o modelo
Em diálogos como o Eutifro, Carmides para dois modos bem diferentes de
e Laques, a discussão normalmente interpretar os modos nos quais os
termina em um impasse diálogos normalmente terminam.
argumentativo, em aporia: o
interlocutor (e frequentemente Se, de um lado, até mesmo
Sócrates também) vê-se Sócrates é incapaz de alcançar um fim
impossibilitado de decidir o que dizer para suas investigações, se seu
ou mesmo o que pensar, e a discussão método produz somente resultados
encontra seu término (ver o capítulo negativos, talvez haja um princípio
Interpretando Platão). E é contagioso: geral segundo o qual investigações só
se um dos interlocutores se vê preso, podem ser negativas. Então, o
frequentemente assim se vê também malogro destes diálogos em ir para
o outro (p. ex., Chrm. 169c3-4); além de um impasse pode implicar
Sócrates corretamente conclui que algum tipo de ceticismo: nada pode
ele também nada sabe. Se esses ser conhecido, talvez, ou que nada
diálogos são concebidos como pode ser demonstrado
representações de Sócrates e de seus definitivamente (ver o capítulo O
modos de fazer filosofia, então esses Elenchus Socrático). Se o ceticismo
impasses parecem essenciais a eles, deste tipo é verdadeiro, não pode ser
precisamente porque é neste ponto ele próprio demonstrado (fazer isso
que suas discussões sempre cai em petição de princípio). Ao invés

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disso, ele só pode ser exemplificado cética, supõe-se também que isso seja
no malogro repetido das passível de generalização: a atividade
investigações filosóficas serem da filosofia está constantemente em
conclusivas. E isso pode ser evolução; inconclusiva, talvez, mas
generalizado: não somente os mesmo assim “a vida que não passa
diálogos “socráticos”, mas também por exame não vale a pena ser vivida”.
outros diálogos também fracassam Isso, assim como a interpretação
em produzir conclusões que sejam cética, repousa sua generalidade no
absolutas ou decisivas. Devemos fato mesmo que os diálogos são
notar – tal interpretação argumenta – multiformes, diferentes, com focos
que cada diálogo, não importa quão que discrepam enormemente uns dos
diferente pode ser um do outro, outros. E trata as questões filosóficas
termina com uma nota de indecisão. discutidas no interior dos diálogos
O Teeteto, por exemplo, depois de como de um modo ou outro
uma investigação exaustiva, malogra secundárias em relação à natureza
em explicar o que é o conhecimento; aberta do fim do processo de as
o Filebo se conclui com o relato discutir. A forma de diálogo, nesta
inacabado da melhor vida; mesmo a interpretação, está no coração da
República assinala seu fracasso em explicação platônica da filosofia.
produzir uma demonstração apelando
ao final ao mito. A forma de diálogo, O paradoxo da escrita
segundo esta interpretação, dá-nos
testemunho de um Platão cético. A natureza aberta do fim nos dá uma
explicação, ademais, de como os
De outro lado, talvez o que é diálogos escritos devem ser lidos. Os
importante seja a própria diálogos, como vimos, não
investigação. Mesmo se o ceticismo reivindicam estar exprimindo as
extremo não for o ponto da forma de opiniões de Platão; ao contrário,
diálogo – afinal de contas, nem tudo exprimem as opiniões das
que é dito ou defendido em um personagens retratadas por Platão. O
diálogo é refutado ou conduzido a um que o leitor deve fazer com tudo isso?
impasse –, a prevalência da aporia A posição do leitor, na verdade, pode
pode sugerir que cada diálogo é de ficar profundamente problemática,
um modo ou de outro “de final não menos porque o que ele lê está
aberto”. Assim como a explicação fixado de modo intratável:

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Você poderia pensar que [as palavras provocar o leitor a pensar por si
escritas] estão falando como se mesmo. Todas as suas características
tivessem alguma compreensão, mas,
se você fez uma questão sobre algo peculiares e incongruências
que foi dito porque você quer ostensivas, então, devem ser
aprender mais, elas continuam a explicadas como armas do arsenal de
significar sempre exatamente a Platão para forçar a reflexão por parte
mesma coisa. Uma vez escrito, todo da pessoa que parece estar
discurso vai por todos os lugares,
atingindo indiscriminadamente os que
completamente fora da ação do
têm entendimento, não menos do que diálogo: aquele que o lê. Se a filosofia
os que não têm nenhum contato com exige discussão e diálogo, a filosofia
o entendimento, e não sabe a quem escrita pode afinal ligar-se a isso de
falar e a quem não falar. E quando é modo indireto – por meio da forma de
criticado e atacado injustamente,
sempre precisa do apoio de seu
diálogo.
gerador: ele sozinho não pode nem
defender-se nem vir em seu próprio Isto explica, então, por que Platão
apoio. (Phdr. 275d7-e5, tradução de não aparece nos diálogos: é para que
Nehamas e Woodruff) possa ganhar distância do que dizem
suas personagens e assim provocar de
As observações de Sócrates são melhor modo um diálogo com seu
paradoxais, obviamente, já que o leitor. Pode até explicar, como foi
ataque à palavra escrita é ele próprio sugerido, aquelas obras nas quais a
escrito em palavras. Porém, muitos forma de diálogo parece se ter
pensaram que o embaraço a respeito tornado uma formalidade vazia.
da escrita presta apoio às estratégias Platão pode fazer com que um diálogo
do autor Platão, à natureza proponha uma tese, mesmo uma tese
enigmática dos argumentos, aos que tem plausibilidade, quando o
encontros e às conclusões que Platão diálogo não ocorre mais (a explicação
apresenta, pois os diálogos, por mais da falsidade no Sofista, por exemplo),
complexos que sejam, exigem sem se comprometer absolutamente
reiteradamente uma interpretação; com sua verdade, sem declarar em
esta forma (esta forma somente?) sua própria voz que sabe que isso é
pode ser suficientemente flexível de verdadeiro. Esta distância que Platão
modo a proporcionar um embate toma das teses defendidas por suas
dialético com seus leitores. Assim, os personagens (lembre-se: no Fédon,
diálogos são inconclusos de modo a Platão estava doente) se ajusta bem

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com o fato de planejar os diálogos renega ele realmente a autoridade? E


com vistas a fazer o leitor pensar por mesmo se o faz, a ideia seguinte que
si próprio e pode salvar obras como o o diálogo tem um fim em aberto
Sofista ou o Político da acusação que explica por que há uma relação
Platão está simplesmente perdendo complexa entre o cenário do diálogo e
sua veia. seu conteúdo?

Mesmo assim, a tese geral que os Drama e a dimensão ética


diálogos têm um fim aberto somente
para provocar ou a tese mais No drama dos diálogos, as
específica que eles criam uma personalidades e os destinos de
distância entre seu autor e suas Sócrates e seus companheiros
conclusões explicam suficientemente ganham vida. Algumas são
a forma de diálogo? Explica o detalhe personagens de comédia – Pródico
intricado dos diálogos ou as emergindo dos lençóis (Prt. 316al-2);
diferenças evidentes na Aristófanes soluçando (Smp. 185c5-
apresentação? Até mesmo a negação 7); a chanchada erótica dos
de autoridade esmaece por vezes. admiradores de Carmides (.Chrm.
Considere, por exemplo, as primeiras 155cl-4). Algumas são personagens de
palavras da República: Sócrates diz tragédia: o julgamento e a morte de
que “desci ontem ao Pireu”. Banal, é Sócrates paira sobre muitos diálogos
claro, e dificilmente causa surpresa, (Apologia, Críton, Fédon, obviamente,
em uma primeira leitura. Porém, se mas também Eutifro, Mênon e
lermos e relermos a República – como mesmo Teeteto); o dúbio Alcibíades;
Platão estava certo em esperar –, nos Teeteto, o talento matemático que
damos conta que a história da descida morre cedo demais. O próprio
é pesadamente significativa. Com Sócrates sugere que há somente uma
efeito, são os filósofos que, tendo tênue distinção entre tragédia e
visto a verdade iluminada pelo bem, comédia (Smp. 223d3-5) e os diálogos
voltam à cidade e governam. Se lhe dão apoio. Estas personagens são
Sócrates está descendo (e se, na retratadas de modo vivido levando
continuação, ele se mostra cheio de um tipo de vida, trivializadas pela
convicções, embora sejam teses que busca de vitória no argumento (os
não podem ser inteiramente irmãos sofistas Eutidemo e
transmitidas aos seus companheiros), Dionisodoro da Eutidemo) ou pela

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atração irrefletida do prazer (Filebo), Isso redunda em uma tese


ou tornadas pensativas, como filosófica forte: o que poderíamos
Sócrates o é, pela filosofia. Se chamar “racionalismo ético”. Nesta
Sócrates estiver correto, é o exame perspectiva, o modo como alguém
representado nos diálogos que vive e sua personagem estão
transcende tragédia e comédia. O diretamente conectados às teses que
ponto, então, dos diálogos talvez seja esta pessoa de fato avança no
o de mostrar a infinita variedade de argumento, mesmo que estas teses se
personagens e o espectro de suas mostrem como não dando apoio à
diferentes respostas à filosofia, o de vida em questão. Esta conexão será
mostrar que a vida que não passa por total. Se a forma de diálogo
um exame não vale a pena ser vivida. representa esta personagem assim e
assado e como envolvida em um
Então, a forma de diálogo tem um argumento acerca, por exemplo, da
propósito ético. O relato apaixonado natureza das relações (p. ex., Phd.
que Platão faz da morte de Sócrates – 74a9-d7) ou na distinção entre
e a impassibilidade de Sócrates frente conhecimento e opinião (p. ex., Men.
à morte – é uma defesa da vida 97a6-98a8) ou no escopo da ontologia
filosófica. Em sentido inverso, as vidas (Prm. 130bl-135c2), a representação
dos que são levados pelo desejo de nega que haja linhas de demarcação
vencer no argumento, qualquer que entre uma parte e outra da filosofia.
seja a verdade da matéria, são de Se argumentos acerca da lógica,
certo modo vazias e sem valor metafísica ou epistemologia estão
(Cálicles, por exemplo, ou Eutidemo). localizados em um contexto que é
Platão os apresenta no intuito de manifestamente ético e se o contexto
insistir sobre a conexão entre como é filosoficamente relevante a estes
vivemos nossas vidas e como as argumentos, então Platão
justificamos, e os retrata em diálogo evidentemente nega que a metafísica
no intuito de perguntar como nossa nada tem a ver com a ética ou a ética
defesa de como vivemos suporta o com a lógica (ver o capítulo
exame por outros. O quadro dos Conhecimento e as Formas em
diálogos, então, é contínuo com o Platão). Esta integração, se puder ser
encartado, instanciando a relação defendida, entre o viver uma vida
entre a vida que é vivida e sua examinada e os argumentos e
justificabilidade. princípios exigidos para isso – entre os

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princípios da ética e os da metafísica, perguntam? São tornados piores


da epistemologia, da lógica – constitui pelas personagens que os
uma tese importante e notável acerca representam os princípios que Platão
da natureza sem fronteiras da já considera como perversos?
filosofia. Sabemos que um princípio é errado –
segundo diria esta perspectiva –
Podemos ver isso em operação somente porque podemos ver que
em algumas discussões, para o seu expoente é o vilão da peça. O
melhor e para o pior. Lísis desenvolve drama da personagem, então, traz
sua perspicácia filosófica de modo embutido os argumentos e suas
que terá importância para suas premissas, dispondo-nos a rejeitá-lo
relações com outros. Protarco no de imediato. A falta de fronteiras
Filebo é levado pelo argumento a ver entre ética, metafísica e o resto seria
que o hedonismo irrefletido, que então somente uma artimanha da
exclui argumento, é insustentável e retórica de Platão.
assim é levado a desistir do
hedonismo que inicialmente expõe. Duas ideias podem aumentar
No Eutidemo, Ctesipo, por demais este desconforto. Primeiro: o que
ansioso para imitar os sofistas, fazer com as personagens que não
termina não sendo senão o clone estão articuladas de um modo ético
deles. No Górgias, Cálicles é rico? A presente explicação nos diz
dominado por sua própria admiração pouco do estrangeiro de Eleia, menos
pelo uso da força, reduzido a uma ainda do jovem Sócrates; pouco do
presença cheia de ódio, em quem, cândido Aristóteles interlocutor de
como Sócrates prevê, Cálicles não Parmênides; pouco, na verdade, dos
concorda com Cálicles. Em casos próprios Zenão e Parmênides. Em
como esses, os diálogos nos mostram consequência, estamos em situação
vidas sendo vividas bem ou difícil para ver como a explicação da
parcamente em função dos princípios falsidade ou mesmo a teoria das
que as governam. Formas é relevante para como bem
viver. Devemos estabelecer algum
As limitações do ético tipo de linha divisória entre os
diálogos que são assim eticamente
Então, porém, estes exemplos não detalhistas e aqueles que não o são?
simplesmente supõem o que Qualquer que seja esta linha divisória,

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é melhor que não seja uma linha Dionisodoro não percebem ao longo
meramente cronológica: o Filebo, de todo o Eutidemo a insinuação de
comumente considerado como tendo Sócrates de que eles estão vazios
sido escrito na parte final da vida de daquilo a que deveríamos aspirar
Platão, é tão eticamente prenhe conhecer. Estes momentos irônicos
quanto se pode querer. não são diretamente representativos
porque eles operam ao
Segundo: esta ênfase no drama contrabalançar o que é representado
talvez não explique a relação entre o com aquilo que o leitor entende o que
quadro e o encartado. Pense na significa. Eles requerem interpretação
prática da ironia (socrática ou para além dos limites do próprio
platônica). Quando Sócrates é – ou é diálogo e fazem isso por meio do
acusado de ser – irônico, algo acerca quadro dramático.
do tom do que é dito ou alguma coisa
estranha no contexto indica que de Outro ponto de detalhe amplia o
algum modo Sócrates está escopo de um diálogo para além dos
escondendo de seu companheiro o confins da conversa representada: as
que realmente pensa (o que quer que conexões (frequentemente
se queira dizer ao afirmar que esta profundas e complexas) que são
personagem ficcional “realmente tecidas entre um diálogo e outro. Em
pensa” alguma coisa). Considere, por Phd. 72e3-73a3, por exemplo, Cebes
exemplo, este engano faz alusão à demonstração da
desconcertante do jovem Carmides reminiscência no Mênon (82b9-86b4).
levando-o a pensar que possui uma O cruzamento de referências serve
folha mágica que o livrará de sua dor não meramente como uma nota de
de cabeça: o leitor, mas não rodapé, mas a um objetivo filosófico
Carmides, pode pensar que talvez mais profundo. Com efeito, Sócrates
curar a dor de cabeça seja trivial em argumenta em seguida em favor da
comparação com a aquisição da teoria da reminiscência por meio de
virtude. Ou lembre-se das ocasiões uma discussão do fenômeno
quando Sócrates exprime surpresa cotidiano do ato de lembrar. Porém, o
extravagante quando alguém detalhamento deste fenômeno é
reivindica ter um saber especializado. imediato ao leitor somente se ele
Eutifro, por exemplo, fica surdo às lembrar a passagem do Mênon que
tiradas de Sócrates; Eutidemo e nos é pedido ter em mente e assim o

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próprio leitor instancia aquele mesmo Isto poderia reduzir a explicação


fenômeno. Na verdade, assim como a da forma de diálogo, contudo, mais
ironia opera nos diálogos uma vez a uma mera generalidade.
permanecendo não compreendida Todos estes estratagemas servem
por seu alvo, assim também estas somente para tornar o leitor um
conexões intertextuais não são para o filósofo ativo, o que quer que isso
interlocutor, mas para o leitor. As seja? São todos os diálogos iguais em
referências densas, por exemplo, à sua provocação de fim aberto, são
autobiografia de “Sócrates” (Phd. todos concebidos para somente nos
96a6-100a7) em uma passagem do pôr em dúvida e em inquietação
Filebo em que o interlocutor, acerca de problemas de cunho
Protarco, demonstra tendências filosófico? Os diálogos difeririam,
socráticas (llal-21d5) nos convida a portanto, de modo a assegurar que,
comparar e a contrastar as se uma dúvida não nos pega, uma
metodologias discutidas nestas duas outra nos pegará; a variedade dos
passagens assim trazidas a exame. O diálogos tem o “efeito metralhadora”
mesmo efeito é obtido pelas páginas de quem anuncia paradoxos
de abertura do Timeu, que ao mesmo insistentemente. Para este fim,
tempo se referem à República e se poderíamos objetar, o tamanho
furtam a uma conexão direta quando excessivo e a complexidade de alguns
o relato que Sócrates dá no Timeu do argumentos (para não mencionar sua
Estado ideal deixa notavelmente de pobreza) ficam gratuitos (por que não
lado a metafísica central da ir ao invés disso diretamente a um
República. As referências cruzadas bom paradoxo? “Estou mentindo”
são inexatas; sua intertextualidade sozinho pode talvez fazer todo o
tem, portanto, um papel trabalho de provocação feito por um
relevantemente crítico e diálogo inteiro). Esta ideia, por sua
comparativo. Ela tem este papel ao vez, serve para descolar toda conexão
transcender o diálogo em questão e direta entre as vidas e os argumentos
ao convidar o leitor a fazer todo o particulares em prol de gerar uma
trabalho duro. Seria um erro, então, dúvida que está em tudo. Pouco
ver o quadro como inerte, uma mera importará, nesta perspectiva, quais
decoração à filosofia representada questões nós formulamos, desde que
dentro dele. sejam filosoficamente perturbadoras,
suficientemente difíceis de serem

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tratadas de modo a nos manter em vista diferentes. A conversa é


pensamento. Há, então, algo a mais a imaginada ocorrer por meio de
ser dito acerca da conexão entre o pergunta e resposta e termina
quadro externo ético dos diálogos e quando a alma (a mente) diz “algo
as coleções variegadas de consistentemente” ou chega a um
argumentos, tópicos, dúvidas, ponto de vista unificado. Possuir um
dificuldades e contra-argumentos que juízo não é somente a escolha
são encontradas dentro do quadro? arbitrária de um ponto de vista: é
obtido por meio de uma interrogação
O diálogo silente da alma interna e por meio de pensar sobre
estes dois pontos de vista.
Se os diálogos são concebidos a nos
fazer pensar, o que isso implica? No Aristóteles retoma isso em sua
Teeteto (também no Phlb. 38c5-e7), descrição da dialética (Metaph.
Sócrates nos brinda com observações 995a24-b4). Aristóteles e Platão
gerais acerca da natureza e da pensam ambos que o jogo entre os
importância do diálogo ao sugerir que dois lados de um caso, entre os dois
pensar é como um diálogo interno pontos de vista, é essencial para fazer
silencioso: progredir nossa compreensão. Como
isso poderia ajudar em nossa
Uma conversa que a alma tem consigo compreensão do uso que Platão faz
mesma acerca dos objetos que está
da forma do diálogo? (Ver o capítulo
considerando... Tenho a impressão
que a alma, quando pensa, está O Método da Dialética de Platão.)
simplesmente desdobrando uma
discussão na qual pergunta a si própria Talvez (como foi sugerido) o elo
questões e as responde, afirma e nega. entre a forma de diálogo e o diálogo
E quando chega a algo definido, seja
silencioso seja psicológico: a forma de
por um processo gradual ou por um
súbito salto, quando ela afirma algo diálogo ecoa ou imita nossos próprios
consistentemente e sem conselho pensamentos, de modo que ao se ler
dividido, chamamos isso de juízo. (77it. algo como isso facilmente será
189e6-190a4, traduzido por Levett e produzido. Porém, explica isso
Burnyeat) completamente as características
prescritivas da conversa filosófica que
Pensar, nesta perspectiva, é uma
a forma de diálogo impõe na natureza
conversa interna entre dois pontos de
da dialética filosófica ali delineada?

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Sócrates regularmente (embora descreve uma conversa que teve, em


nem sempre) insiste na pergunta e outro lugar, com outro homem, que
resposta e ocasionalmente o fazem se revela ser como (ou ser) o próprio
seus interlocutores (Protarco em Sócrates. Assim, imaginamos Sócrates
Phlb. 24d8-e2); trata-se de uma conversando consigo mesmo e somos
característica proeminente do diálogo convidados a inspecionar seus
silencioso da alma. A parte formal do próprios fracassos consigo mesmo.
jogo de questão e reposta aparece em Similarmente, Sócrates adota um
grande medida no exame do escravo ponto de vista diferente como se
no Mênon, concebido para mostrar estivesse em diálogo com Meleto na
que o conhecimento é reminiscência. Ap. 24c9-26a7; com o homem que
No diálogo-quadro, Sócrates e Mênon tem opiniões em R. 476e4-480al3; ou
fazem comentários sobre o diálogo com “a turba” em Prt. 352d4-357e8.
entre Sócrates e o escravo. Sócrates Nestes diálogos dentro de diálogos, a
insiste que somente fez perguntas (e relação entre quadro e encartado
não introduziu conhecimento); no toma-se móvel, de modo que o
caminho, ele induz o menino a ver encartado se torna quadro. Quando
que ele não sabia o que pensava que isso acontece, o próprio quadro
sabia e então o induz a um estado de fornece um lugar para comentário e
estupefação, aporia. Quando, ao reflexão sobre o que ocorre no
final, o menino aporta a resposta diálogo encartado.
correta, Sócrates faz o seguinte
comentário a Mênon: Esta característica ocorre de
modo mais notável nos diálogos
Estas opiniões foram provocadas como (tardios?) cujo estilo convencional
um sonho, mas, se fosse parece ter-se tornado árido e
reiteradamente questionado sobre
estas mesmas questões de vários
expeditivo. Com efeito, eles ainda
modos, você sabe que ao final seu possuem alguns encontros
conhecimento sobre estas coisas seria imaginários vividos embutidos na
tão preciso quanto o de qualquer um. discussão principal: em particular,
(Men. 85c9-dl, traduzido por Grube) três discussões que são imaginadas
ter ocorrido com filósofos
Outras interrogações ocorrem predecessores de Platão, Protágoras,
embutidas em um quadro. No Hípias Heráclito e Parmênides. No Teeteto,
Maior, por exemplo, Sócrates Sócrates imagina Protágoras

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defendendo sua tese relativista Primeiro, é preciso haver um


extrema que “o homem é a medida de processo, uma sequência de respostas
todas as coisas” (152al-179dl) e a questões conectadas. Se o
posteriormente nos brinda com um interlocutor embirra, é muito tímido
encontro imaginário com Heráclito e para responder ou muito arrogante
os defensores do fluxo total (181b8- para prestar atenção, o processo
183b6). No Sofista (244b6-245e2), o quebra. Se o interlocutor mantém
estrangeiro de Eleia se retrata a si uma posição que impossibilita o
mesmo como cometendo o parricídio diálogo, o processo quebra: ele
de seu progenitor filosófico, precisa sustentar mais do que a
Parmênides, que sustentava que tudo primeira resposta à primeira questão.
o que existia era uma única coisa. Em Na verdade, o processo precisa ser de
cada uma destas conversas algum modo contínuo. Considere –
imaginadas, o argumento começa como os diálogos regularmente nos
como pretende continuar: por convidam a fazer – como as questões
pergunta e resposta. Porém, em cada podem estar relacionadas a suas
caso o interlocutor imaginado não respostas e como isso engendra a
consegue manter-se assim porque a pergunta seguinte. Isso ocorre
própria teoria que advoga torna reiteradamente simplesmente
impossíveis a sequência extensa de porque quem pergunta busca
pergunta e resposta e os diferentes entender a posição de quem
pontos de vista que tal sequência responde: as questões dominantes
requer. É para mostrar estas teorias são “o que isso significa?”, “o que
(relativismo, fluxo total, monismo você pensa que”, “o que se segue
forte) como incapazes de se disso?” ou “como isso se coaduna com
engajarem em uma troca dialética o que você disse antes?”
que elas são representadas dentro
dos diálogos em que aparecem; elas Segundo, o processo avança em
nos fornecem um caso paradigmático virtude de algum tipo de contraste
das exigências do diálogo filosófico. entre dois pontos de vista, entre
Ademais, ao serem embutidas em um asserção e negação. Por quê? As
diálogo que as encarta, elas exibem conversas externas esclarecem o
estas exigências à nossa reflexão, a ponto: enquanto o processo continua,
título de foco do comentário no um ponto de vista ainda não
próprio quadro. convenceu o outro; quem questiona

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continua a recusar sua concordância até ele (o diálogo silencioso


até que as respostas o satisfaçam notavelmente não descreve a mente
plenamente. O processo, então, como simplesmente tomando um ou
ocorre entre dois pontos de vista, e é outro lado dos pontos de vista
a sua diferença (devido ou ao fato que apresentados a ela).
as duas visões são diretamente
opostas ou visão não ser convencida Porém, então a correlação entre
pela outra) que fornece sua dinâmica. o diálogo silencioso e o processo
Por vezes, as duas visões ocorrem imaginado, representado,
dentro da conversa representada; por fracassando em ser representado,
vezes, estão embutidas nela; por repudiado, ridicularizado, mas nunca
vezes, ocorrem entre o argumento ignorado nos diálogos platônicos,
encartado e seu quadro, quando o revela-nos uma característica ulterior
próprio quadro faz perguntas sobre o do retrato do diálogo: que o diálogo
que foi dito em se interior (p. ex., retratado seja escrito, falado,
Euthd. 290el- 293a9). encenado ou imaginado, a forma de
diálogo reiteradamente convida a
As próprias exigências, terceiro, refletir sobre os argumentos em
revelam uma suposição subjacente questão. Isto é, os pontos de vista em
que emerge no episódio do escravo: jogo são vistos de dentro, como se
que a compreensão (seja do próprio ocupássemos um dos pontos de vista,
ponto de vista, seja do outro) é tuna mas também são vistos de fora, com a
questão de relacionar em conjunto opinião distanciada do observador, a
todas as coisas em que se acredita, pessoa que (como Sócrates) ainda não
conectando-as com suas razões e está convencida de nenhum ponto de
consequências. Isto é, a compreensão vista, mas reflete sobre seu embate,
ocorre em uma grande rede de crença seu poder explicativo e sua integração
e nunca de modo parcial. É assim que com outros princípios que
o diálogo silencioso culminará em manteríamos. Esta reflexão sobre os
uma única visão, mas somente após o argumentos é oferecida ao leitor de
processo de pergunta e resposta ter Platão mediante a complexidade de
sido levado a termo. Isso é um juízo seu uso da forma de diálogo,
simplesmente porque está baseado mediante a relação entre quadro e o
em razões e se coaduna com o que é encartado. É, ademais, tanto
processo de pensamento que levou uma característica formal da natureza

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da troca dialética quanto é particular Nestes dois casos, os princípios


aos argumentos e discussões sobre os da ética (como viver a melhor vida) se
quais opera a reflexão. conecta com os princípios da
metafísica e da lógica: no primeiro, o
A reflexão e seu conteúdo quadro faz exigências lógicas em uma
tese ética; no segundo, o quadro faz
Esta reflexão da forma de diálogo é exigências éticas e metafísicas em
determinada pelas exigências uma tese lógica. Porém, vemos isso
impostas a ela pelo quadro dos somente em função da distância
diálogos individuais e é, reflexiva entre o diálogo-quadro e o
consequentemente, ampla e variada que ele encarta. Filebo e Dionisodoro
em seu conteúdo. Considere dois tomam ambos posições que não são
exemplos nos quais a relação entre sustentáveis (hedonismo extremo, a
quadro e encartado é essencial para negação sofista da consistência). O
nossa compreensão dos argumentos. quadro, ao comparar a posição
Primeiro: Filebo, no diálogo de insustentável com sua negação em
mesmo nome, esposa uma vida de um embate dialético, mostra somente
extremo hedonismo, esvaziada de quais suposições à posição
razão e pensamento. Porém, uma tal insustentável nos forçará a abandonar
vida não consegue manter uma (identidade pessoal, consistência) e
conversa sobre si própria ou uma que impacto isso teria em nossos
reflexão sobre si. A posição de Filebo objetivos éticos. Isso pode funcionar
se refuta a si mesma se simplesmente em ambas as direções: por vezes, a
tentar falar e ele fica em silêncio antes posição ética é encartada e mostrada
que o diálogo chegue à sua metade no quadro como intolerável (como no
(28b6). Segundo: Dionisodoro Filebo); por vezes, é o quadro que
mantém que a consistência não oferece uma explicação ética do que
importa (Euthd. 287b2-5). Sócrates parece ser neutro no diálogo
não o pode refutar (pois tal refutação encartado (como no Eutidemo). Casos
assumiria que a consistência como esses são exemplos extremos
importa), mas o diálogo torna claro do modo como o racionalismo ético
que sem consistência não temos opera, supondo que os princípios de
nenhuma explicação coerente para lógica e de metafísica prestam apoio à
dar da identidade pessoal nem da vida ética (deve haver uma pessoa que
que uma pessoa deve viver. persiste para que ela tenha uma vida)

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Hugh H. PLATÃO
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e que os princípios de ética prestam drama dos diálogos – estas pessoas


apoio aos de lógica e de metafísica (a nesta situação, lá e naquele momento
consistência tem de ser importante, – torna claro que compreender o que
se queremos ter uma explicação importa em nossas vidas ou, se não
coerente da vida que levamos). É uma importa, o que deveria importar. Que
característica constante da forma de os diálogos reiteradamente malogram
diálogo tornar possível essa inter- faz parte de seu desafio – um desafio
relação dialética entre os princípios que o leitor é convidado a assumir.
fundadores da filosofia e o ato de os Porém, o desafio é formado de modo
trazer ao centro da reflexão. a nos mostrar em que consistiria
aceitá-lo: desenvolver, como o
A forma de diálogo em Platão não diálogo nos convida, um relato
é uniforme nem são seus propósitos sistemático e unificado do que
evidentes ou singulares. Porém, estas estamos tentando compreender – um
são suas virtudes, pois estes diálogos relato que integra os problemas de
nos provocam a refletir sobre o filosofia com a unidade de uma vida.
próprio diálogo: sobre como ele opera No jogo entre os diálogos
e como deveria operar. Ao ler, representados e sua apresentação em
ocupamos a posição de Mênon quadros, Platão formula um relato
observando o exame do escravo ou o sem fronteiras da reflexão que
de Teeteto escutando as conversas constitui a filosofia.
imaginárias de Sócrates com
Protágoras. Estamos fora da ação Notas
mesmo quando podemos concordar
com o que é dito e deste modo Todas as traduções são do próprio autor ou
foram tomadas de J. M. Cooper (ed.) Plato:
podemos pensar sobre como os
Complete Works (Indianápolis: Hackett,
argumentos funcionam. E um tal 1977).
diálogo pode refletir sobre os
princípios do próprio argumento, pois Gostaria de deixar registrado meu
por trás do interesse de Platão na agradecimento às pessoas com as quais tive
forma de diálogo estão sua conversas sobre a conversa platônica quando
estava escrevendo este artigo, especialmente
preocupação em explicar como a
David Galloway, Owen Gower, Verity Harte,
compreensão é formada e controlada, Alex Long, James Warren, bem como minha
bem como sua preocupação em gratidão pelas habilidades exemplares do
mostrar por que isso importa. O editor.

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Referências e leitura complementar Dialogue: The Philosophical Use of a Literary


Form. Cambridge: Cambridge University
Annas, J. e Rowe, C. (2002). New Perspectives Press.
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Mass.: Harvard University Press. Methods of Interpreting Plato and his
Benson, H. H. (1992). Essays on the Dialogues. Oxford Studies in Ancient
Philosophy of Sócrates. New York: Oxford Philosophy, supplementary volume. Oxford:
University Press. Oxford University Press.

Beversluis, J. (2000). Cross-examining McCabe, M. M. (2000). Plato and his


Sócrates: A Defense of the Interlocutors in Predecessors: The Dramatisation of Reason.
Plato’s Early Dialogues. Cambridge: Cambridge: Cambridge University Press.
Cambridge University Press. Nehamas, A. (1998). The Art of Living:
Blondell, R. (2002). The Play of Character in Socratic Reflections from Plato to Foucault.
Plato’s Dialogues. Cambridge: Cambridge Berkeley: University of Califórnia Press.
Univer- sity Press. Nightingale, A. (1995). Genres in Dialogue:
Burnyeat, M. (1985). Sphinx without a secret? Plato and the Construct of Philosophy.
New York Review of Books, May 30, pp. 30-6. Cambridge: Cambridge University Press.

Cossuta, F. e Narcy, M. (eds.) (2001). La forme Nussbaum, M. (1986). The Fragility of


dialogue chez Platon: évolution et receptions. Goodness: Luck and Ethics in Greek 7Yagedy
Grenoble: J. Millon. and Philosophy. Cambridge: Cambridge
University Press.
Ferrari, G. R. F. (1987). Listening to the
Cicadas: A Study of Plato’s Phaedrus. Press, G. A. (2000). Who Speaks for Plato?
Cambridge: Cambridge University Press. Studies in Platonic Anonymity. Lanham, Md.:
Rowman and Littlefield.
Gadamer, H. (1980). Dialogue and Dialectic:
Eight Hermeneutical Studies of Plato, trans. P Rutherford, R. (1995). The Art of Plato.
C. Smith. New Haven, Conn.: Yale University London: Harvard University Press.
Press. Sayre, K. (1995). Plato’s Literary Garden: How
Gill, C. e McCabe, M. M. (eds.) (1996). Form to Read a Platonic Dialogue. Notre Dame,
and Argument in Late Plato. Oxford: Oxford Ind.: University of Notre Dame Press.
University Press. Sedley, D. (2004). Plato’s Cratylus.
Griswold, C. L. (1988). Platonic Writings, Cambridge: Cambridge University Press.
Platonic Readings. New York: Routledge. Smiley, T. (1995). Philosophical Dialogues:
Hart, R. e Tejera, V (eds.) (1997). Plato’s Plato, Hume, Wittgenstein. Oxford: Oxford
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York: Edwin Mellen. Stokes, M. C. (1986). Plato’s Socratic
Kahn, C. H. (1996). Plato and the Socratic Conversa- tions. London: Johns Hopkins

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Reading Plato, trans. G. Zanker. London:
Taylor and Francis. (Publicação original: 1993)

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5. O Elenchus socrático Socráticos; Platão e o Prazer como o


Bem Humano). Daí ser nosso caminho
CHARLES M. YOUNG à felicidade a remoção da ignorância e
vício de nossas almas e sua
INTRODUÇÃO substituição pela virtude e
conhecimento (ver o capítulo A
Sócrates – se não a própria pessoa, Ignorância Socrática).
então a personagem na maioria dos
diálogos curtos de Platão e, talvez, Quase todos concordam com
também em alguns dos mais longos – esta caracterização da vida e do
estava fadado a algo especial. pensamento de Sócrates, ou com algo
Acreditando que estava agindo sob as similar a isso. Quase ninguém, porém,
instruções de Apoio, o deus do concorda sobre os detalhes. Por que
oráculo em Delfos, Sócrates passava exatamente Sócrates acredita que
seu tempo falando com as pessoas, está agindo sob ordens divinas? Por
tanto pessoas comuns quanto que acredita que Apoio o instruiu a
pensadores mais sofisticados, perguntar às pessoas questões sobre
fazendo-lhes questões sobre a vida como devemos viver nossas vidas? O
humana e como se deve viver. que é a felicidade para ele? O que é a
Quando seus interlocutores se alma para ele? Por que nossa
mostravam incapazes de defender felicidade depende da boa condição
suas opiniões sobre estas questões, dela? Por que ele pensa que as
Sócrates sugeria sua própria agenda virtudes do caráter têm a ver com a
positiva radical em seu lugar. Somos boa condição da alma? A agenda
felizes, pensava ele, quando nossa crítica de Sócrates ao questionar seus
alma está na melhor condição – companheiros está ligada à sua
quando, como acreditava, temos as agenda construtiva acerca das
virtudes do caráter: coragem, virtudes e felicidade? Não existe nada
temperança, piedade e, próximo a um consenso para as
especialmente, justiça. Já que respostas a qualquer uma destas
queremos todos ser felizes, faremos questões.
inevitavelmente o que é virtuoso
somente se soubermos o que é a Tampouco há um consenso
virtude (ver os capítulos Os Paradoxos acerca do que queria Sócrates ao
questionar os outros acerca das

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virtudes do caráter e de como carreira com o sentido de “vergonha”


devemos viver. Uma característica ou “desgraça”, do tipo que
central do exame de Sócrates é, tipicamente ocorre quando se
todavia, comumente identificada por fracassa em um teste atlético ou de
um nome particular hoje em dia: é guerra: “será, pois, uma desgraça
chamado elenchus socrático (elenchus) se Heitor do elmo brilhante
(“refutação”). Mas de novo, os capturar os navios” (.11. XI.314-15).
estudiosos discordam acerca dos Mais tarde, o sentido passou da ideia
detalhes; testemunho disso é uma de vergonha ou de desgraça por si à
coleção de artigos sobre o elenchus ideia dos testes nos quais se incorria
publicada em 2002 (Scott). Eles ou se evitava a vergonha e a desgraça:
discordam sobre o que exatamente “o arco não é um teste (elenchus) para
está envolvido nos argumentos que um homem: é uma arma de covarde”
empregam o elenchus e sobre quais (Eurípides, Hércules 162).
são suas características distintivas, se Subsequentemente, o sentido se
possuir de fato alguma. Discordam expandiu de modo a incluir testes ou
sobre quais passagens nos diálogos de competições outros que os de guerra
Platão envolvem o elenchus e sobre ou de estilo marcial: por exemplo, o
quais diálogos são relevantes para seu teste dos méritos de um poema pela
estudo. Discordam sobre se e como opinião pública (veja, por exemplo,
Sócrates pode obter conclusões Píndaro, N. VIII.20-1). Pela metade do
positivas por meio do elenchus. século V a.C., o termo começou a
Discordam até mesmo se Sócrates de designar comumente qualquer tipo de
fato tinha um método, isto é, se tinha exame da verdadeira natureza de uma
um modo característico de fazer pessoa particular ou de uma coisa
filosofia. E muitos outros pontos de (veja, por exemplo, Esquilo, As
discordância poderiam ser Suplicantes 993). Então a palavra
mencionados. passou a ser usada de modo mais
restrito para o exame do que uma
PRELIMINARES pessoa dizia de verdadeiro ou falso
(veja, por exemplo, Heródoto,
Será útil trazer à mesa parte da História 11.115) ou para o resultado
história do termo “elenchus” e de seu negativo de tal exame (veja, por
verbo cognato “elenchô” (seguindo exemplo, Grg. 473b9-10). Isso nos
Lesher 2002). “Elenchus” começa sua leva a Platão.

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É comum hoje negar que Sócrates elenchou) ao dos oradores forenses


tenha alguma coisa que possa ser (472c2-4). Duas personagens nos
chamado de método que vá além de diálogos fazem menção especial a
seus modos habituais autodeclarados aspectos da técnica argumentativa de
de investigação: pôr à prova Sócrates: Alcibíades (Smp. 221dl-
(exetazô), investigar (skopeô e seus 222a6) e, com desprezo, Cálicles (Grg.
cognatos), questionar (erôtô e seus 491al-3). Por fim, no Sofista, o
cogna- tos), procurar (zêtô e seus estrangeiro de Atenas chama a
cognatos), discorrer (dialegô) e às atenção à “nobre sofistica” que está
vezes examinar ou refutar (elenchô), ligada à “refutação (elenchus) da
etc. seus companheiros. Esta negação crença oca em sua própria sabedoria”
de um método para Sócrates pode (231b5-8); este tipo de sofistica é,
bem estar correta. Porém, os diálogos pelo menos, primo distante do que
socráticos e mesmo alguns outros Sócrates parece estar fazendo, o que
diálogos contêm várias passagens que quer que isso seja. Se então Sócrates
têm de ser levadas em conta quando tem ou não o que nos apressaríamos
se quer chegar a uma conclusão sobre a chamar um “método”, é claro pelos
esta e outras teses similares. Algumas diálogos socráticos que Platão vê a
destas passagens são as seguintes: em condução por parte de Sócrates de
suas observações iniciais na Apologia, seus exames dos outros como em
Sócrates contrasta seu modo de algum sentido especial.
defesa com o de seus acusadores e diz
que irá se servir do mesmo tipo de Uma ilustração relativamente
argumentos que costumava usar no simples de um elenchus ocorre no La.
mercado (17al-18a6). No Críton, 192b9-dll. Nesta passagem, Laques
Sócrates diz que é do tipo de pessoa avança sua definição de coragem:
que decide o que fazer por referência
ao “argumento” ou “princípio” (logos) A. A coragem é perseverança
que lhe parece melhor após (192b9). Sócrates então faz sair
ponderação (46b4-6) e as leis dele uma tese sobre a coragem:
personificadas de Atenas dão como B. A coragem está entre as coisas
razão para o pôr a exame o fato que que são admiráveis e muito belas
ele põe os outros a exame (50c8-9). (192c5-6). Ele também faz
No Górgias, Sócrates contrasta seu emergir duas teses sobre a
modo de argumentar (tropos perseverança:

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C. Perseverança com sabedoria é Sócrates então se assegura da


bela ou admirável e boa (192c9- concordância do interlocutor a outras
10). teses: de (B) até (E). Sócrates então
D. Perseverança com insanidade é infere, com a aceitação do
prejudicial e danosa (192dl-2). interlocutor, que a tese original é
Vem então uma verdade geral falsa: neste caso, (H). A tese original
sobre o que é prejudicial e pode, todavia, sobreviver em uma
danoso: forma qualificada, como aqui, em (I).
E. O tipo de coisa que é prejudicial e Em um elenchus “padrão”, a tese
danosa não é bela ou admirável original, de acordo com Vlastos, não
(192d4-5). Enfim, temos duas tem papel no argumento à parte o
inferências. Visto que: fato de prover Sócrates com um alvo.
F. Perseverança com loucura não é Isto contrasta com o elenchus
bela ou admirável (192d8) e “indireto”, no qual a tese original tem
G. A coragem é uma coisa bela e de fato um papel.
admirável (192d8), Sócrates e
Laques concluem primeiro que: A distinção de Vlastos entre estes
H. Perseverança com loucura não é dois modos de elenchus é espúria. Se
coragem (192d7) e, segundo, que, tivermos um conjunto de teses – R Q
“de acordo com o argumento [de e R, digamos – que implica a negação
Laques]”, de uma tese original do interlocutor,
I. Perseverança sábia é coragem pouco importa, de um ponto de vista
(192dl0- 11). lógico, se este conjunto inclui a tese
original ou não: se a implicação
Presumivelmente, (F) segue de ocorre, então não há nenhuma
(D) e (E); (G) segue de (B); (H), de (F) e situação em que p Q, R e C são todas
(G). Não é claro de onde vem (I). verdadeiras, seja C ou não uma das
teses R Q e R. Assim, seria melhor não
Este argumento exemplifica um distinguir entre dois modos de
padrão que Gregory Vlastos, em um elenchus, mas caracterizar o elenchus
artigo clássico sobre o elenchus simplesmente como um argumento
(Vlastos, 1983; ver também Vlastos, no qual uma tese original do
1994), chamou elenchus “padrão”. interlocutor é rejeitada quando se vê
Inicia com o interlocutor de Sócrates que é inconsistente com outras coisas
afirmando uma tese, aqui (A). nas quais crê o interlocutor.

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APOLOGIA 21B9-23CI: AS “sabedoria humana” vale “pouco ou


ARIGENS DO ELENCHUS nada” (23a6-7). A posse de Sócrates
SOCRÁTICO da “sabedoria humana”, contudo, deu
nascimento ao preconceito contra
O relato de Sócrates na Apologia das ele, assim como o fez parecer ao povo,
origens de sua missão filosófica é apesar de suas negativas, como se
familiar, mas vale a pena examinar realmente ele pensasse que conhecia
certos detalhes aqui. Sócrates inicia algo de importante.
sua defesa contra a acusação de
impiedade chamando a atenção de Sócrates passou a acreditar em sua
sua audiência a um conjunto de “sabedoria humana” por meio de
acusadores “mais antigos” e “mais várias discussões que teve com outras
perigosos”, cujas difamações contra pessoas em um esforço para
ele, Sócrates mantém, criaram uma compreender a afirmação do oráculo
atmosfera de preconceito contra ele de Delfos, segundo o qual ninguém
que seus acusadores atuais, era mais sábio que ele. Ele fez contato
“posteriores”, estão usando para com três diferentes grupos de
benefício próprio ao levantar pessoas: políticos, poetas e artesãos.
acusações contra ele (18a7-19d7). No Teve experiências diferentes com
coração do preconceito, diz-nos, está cada grupo. Suas discussões com os
sua posse do que chama sophia tis políticos revelaram que, embora se
(20d7). Aqui sophia tis deve ser “em pensassem a si mesmos e eram vistos
parte sabedoria”, não “um tipo de por outros como sábios, eles de fato
sabedoria” (como ocorre em, por não o eram (21b9-22a8). Os poetas
exemplo, La. 194d9) – não uma área apresentaram um caso mais
da sabedoria, mas uma compreensão complexo. Em seus poemas, Sócrates
que oferece parte do que oferece a concede, os poetas têm “muitas coisas
sabedoria, sem ser a verdadeira coisa. belas” para dizer, mas, porque não
Com efeito, Sócrates imediatamente conseguem explicá-las
(20d8) identifica sua “em parte adequadamente, Sócrates pensou que
sabedoria” à “sabedoria humana” eles não sabiam as coisas que diziam
(anthrôpinê sophia) e esta se mostra em seus poemas, mas compunham
consistir em saber que não se sabe suas obras por talento natural ou por
nada, em particular que não se sabe inspiração. Além do mais, por causa de
nada “belo e bom” (21d4). De fato, seus talentos poéticos, os poetas

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pensavam que conheciam outras como ele detectou estas diferenças.


coisas, mas de fato eles não as Ele não nos diz isso; portanto, teremos
conheciam (22a8-c8). Os artesãos, por que fazer algumas suposições. Uma
fim, de fato mostraram que sabiam suposição óbvia é que Sócrates
“muitas coisas belas”, mas, por causa submeteu membros dos três grupos
do que conheciam, pensavam que ao tipo de questionamento que nos é
também conheciam outras coisas familiar dos diálogos socráticos e que
importantes (22c8- e5). Como é bem estamos chamando “elenchus”. Esta
conhecido, Sócrates foi embora sugestão é alimentada pelo fato que,
convencido que era mais sábio do que na passagem em discussão, Sócrates
qualquer um com quem tinha usa toda a terminologia, mencionada
conversado. Era mais sábio, contudo, no capítulo precedente, que ele
não porque sabia coisas que eles não regularmente utiliza ao descrever suas
sabiam, mas porque eles pensavam atividades filosóficas; se esta sugestão
que sabiam coisas que de fato eles não estiver correta, então as similaridades
sabiam, ao passo que ele não tinha tal e diferenças que Sócrates observa
pensamento. É nisto que consiste sua devem refletir similaridades e
“sabedoria humana”. Como nos diz: diferenças no modo como seus
interlocutores se saíram quando
O que é provável, senhores, é que o postos a exame. Porém, um elenchus
deus de fato é sábio e que sua resposta
só pode ter dois resultados: ou a tese
no oráculo queria dizer que a sabedo-
ria humana vale pouco ou nada e que, inicial do interlocutor malogra ou ela
quando diz este homem, Sócrates, ele sobrevive. Ela malogra se Sócrates
está servindo-se de meu nome como pode mostrar que é inconsistente com
um exemplo, como se quisesse dizer: outras coisas em que o interlocutor
“o homem entre vocês, mortais, será o
acredita; ela sobrevive se não o puder
mais sábio quem, como Sócrates, com-
preender que sua sabedoria não tem fazer. Sócrates conclui que as pessoas
valor”. (23a5-b4, traduzido por Grube, em todos os três grupos pensam que
ligeiramente modificado) conhecem coisas acerca de certos
objetos que de fato eles não
O que precisamos compreender, conhecem. Já que Sócrates não
para os presentes objetivos, são as conhece nada a respeito destes
similaridades e diferenças epistêmicas objetos, não pode estar inferindo a
que Sócrates sustenta encontrar entre ignorância de seu interlocutor do fato
os três grupos que ele confrontou e que ele, Sócrates, sabe mais. Deve, ao

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contrário, tirar esta inferência do fato sobreviveram ao elenchus enquanto


que seus interlocutores não podem as questões de Sócrates portavam
consistentemente manter suas sobre suas áreas de competência.
alegações de conhecimento. Isto é Podemos ir mais longe: Sócrates
uma suposição razoável: se não posso negava que os poetas conheciam as
defender com consistência minhas coisas belas que diziam com base no
crenças em um domínio, Sócrates está fato que não conseguiam se explicar
correto em concluir que não sei sobre adequadamente. Presumivelmente
o que estou falando neste domínio, teria dito a mesma coisa dos artesãos
mesmo que tampouco ele saiba sobre se eles também fossem incapazes de
o que estou falando. se explicar adequadamente. Assim, é
uma inferência aceitável que os
Isto quanto às similaridades entre os artesãos eram capazes de se explicar
três grupos. E sobre as diferenças? adequadamente sobre questões
Sócrates diz que os poetas têm atinentes às suas áreas de
“muitas coisas belas” a dizer em suas competência. Podemos ir mais longe
composições, mas que eles não ainda: todos os três grupos não
podem explicá-las adequadamente e conseguiram sobreviver ao elenchus
que não conhecem as coisas belas que em certas áreas. Os artesãos passam
recitam. No caso dos artesãos, seu teste dentro de suas áreas de
Sócrates concede que eles conhecem competência. O que dizer dos poetas
as “muitas coisas belas” que têm a quando questionados sobre seus
dizer. É plausível supor que o que os poemas? Passaram a prova ou
artesãos conheciam eram coisas que fracassaram? Se fracassaram, não
entravam no âmbito de suas artes: é haveria diferença entre os poetas e os
isso o que sabem. Porém, Sócrates políticos; Sócrates poderia ter alegado
não teria concedido que os artesãos que os poetas não conheciam o que
conheciam as belas coisas que tinham diziam em suas composições por
a dizer se não tivessem sobrevivido ao conta disso, sem fazer apelo à
seu questionamento sobre estas inabilidade deles a se explicarem.
coisas: como vimos, Sócrates toma o Visto que não faz isso, não é
fracasso em sobreviver ao elenchus implausível supor que os poetas não
como uma prova de ignorância. fracassaram no teste elêntico quando
Portanto, podemos com falavam sobre suas composições.
plausibilidade supor que os artesãos Talvez não fossem capazes de se

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explicar, mas pelo menos não caíam ampará-las, como Grg. 464b2-465a7
em contradições. nos quer fazer acreditar, por exemplo,
acerca da alegação que, enquanto
Que tipo de explicação Sócrates doces são bons com leite e sonhos
pensa que um artesão pode dar e um com café, nenhum é gostoso com
poeta não pode? Seguindo uma pista uísque escocês. Ou pode ser que as
de Grg. 464b2- 465a7, podemos teses dos poetas podem ser
especular com plausibilidade que um adequadamente explicadas, mas não
médico do século quinto, por por seus proponentes, como um sábio
exemplo, tinha uma teoria acerca da idiota pode acreditar que
saúde humana que lhe fornecia 761.838.257.287 x 193.707.721 = 264 –
recursos conceituas para formular 1 sem ser capaz de realizar os cálculos
suas explicações. Poderia pesar, por necessários.
exemplo, que os corpos humanos são
feitos de terra, ar, fogo e água; que os A sugestão que isso é de fato a
seres humanos têm saúde quando o diferença que Sócrates vê entre os
calor, o frio, a umidade e a secura poetas e os artesãos se confirma pelo
associados a estes elementos estão fato que pensa que se deve dar uma
apropriadamente balanceados e explicação alternativa, em termos de
ficam doentes quando não há o talento natural ou inspiração, para a
balanceamento. Assim: “meu habilidade dos poetas em dizer
paciente está febril; isso deve “muitas coisas belas” em suas
significar que sofre de um excesso de composições. Esta é a prática padrão
calor; sangrá-lo retirará o excesso de de Sócrates nos casos em que alguém
calor e restaurará sua saúde”. A tem aparentemente o controle sobre
diferença entre os poetas e os algum assunto, mas não pode
artesãos, segundo esta sugestão, explicar-se adequadamente. Assim,
reside no fato que os artesãos no Górgias (464b2- 465a7), Sócrates
dispõem de uma teoria de amparo, ao alega que a arte de fazer doces não
passo que os poetas não. Por que passa pelo teste de explicação, visto
exatamente os poetas não dispõem que “não tem nenhum discurso sobre
de uma teoria de amparo não fica a natureza do que aplica pelo que
esclarecido. Pode ser que as “muitas aplica, de modo que é incapaz de
coisas belas” que os poetas dizem não exprimir a causa de cada coisa [que
são do tipo a terem uma teoria para faz]” (465a3-5, trad. Zeyl). Porém,

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está pronto, mesmo assim, a chamar Sócrates, não sendo um especialista


a arte de fazer doces uma na área em questão, não tem outra
“habilidade”, reconhecendo que alternativa senão aceitar minha
doceiros podem obter sucesso mais reivindicação de conhecimento.
ou menos regular. Similarmente,
Sócrates não desafia a habilidade de INCONSISTÊNCIA
Íon em dizer “muitas coisas belas”
sobre Homero (Íon 542a5), mas O elenchus, assim, visa a pôr em
questiona se esta habilidade pode ser evidência alegações falsas de
atribuída à posse de Íon de conhecimento ao denunciar os
conhecimento; quando Sócrates pretendentes a conhecimento de
estabelece que não pode ser manterem crenças inconsistentes.
atribuída, ele explica esta habilidade Inconsistência importa, de acordo
atribuindo a Íon um “dom divino” com muitas apresentações do
(542a4). No Mênon, Sócrates atribui a elenchus, porque parece que, se creio
habilidade dos Políticos, em A, B e C e então passo a crer que
adivinhadores, profetas e poetas em A, B e C são inconsistentes, então
acertarem sem terem conhecimento
a uma influência e possessão divina a) pelo menos uma de A, B e C deve
(99bll-100b5). ser falsa e
b) se quero manter minha crença em
Resumindo: Sócrates na Apologia A e minha crença em B, digamos,
distingue três níveis de envolvimento devo abandonar minha crença em
epistêmico. Se alego conhecimento C.
em alguma área, Sócrates alegará que
estou errado em dizer que sei se não Aqui (a) é verdadeiro, mas (b)
posso defender minhas crenças com não. Há pelo menos duas razões para
consistência nesta área. Alegará explicar isso.
também que estou errado em dizer
que sei, ainda que não possa me Em primeiro lugar, posso
acusar de inconsistência em alguma preservar minha crença que A e C são
área, se eu não puder explicar minhas cada uma verdadeira e abandonar
crenças na área de um certo modo. Se minha crença que A, B e C são
posso explicar minhas crenças do inconsistentes. Considere neste
modo correto, todavia, então sentido a refutação da primeira

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tentativa de Carmides em definir a F. Rapidez é mais bela ou mais


temperança em Chrm. 159b5-160d3. admirável do que a calma (160b4-
Carmides avança que: 5). E por vezes suas formulações
são simplesmente estranhas:
A. A temperança é quietude (159b5- G. Rapidez é mais moderada (!) do
6). Sócrates então se assegura do que a calma (159dl0-ll).
acordo de Carmides com: H. A vida calma (!) não é mais
B. A Temperança é uma coisa bela ou moderada do que a vida rápida
admirável (159cl). Sócrates então (160c7-dl). De qualquer modo, a
passa em revista um número de formulação com a qual Sócrates
casos nos quais: embala o argumento é:
C. Fazer coisas rapidamente é mais I. Coisas rápidas não são menos
belo ou mais admirável do que as belas ou admiráveis do que coisas
fazer com quietude (159c3-4, c8-9 calmas (160d2-3), sustentando
etc.). que de (I) e
J. A temperança é uma das coisas
Esta é uma tese que Sócrates belas ou admiráveis, se segue que
apresenta de diversos modos. Em (C) K. Temperança não é calma (160b 7).
Sócrates usa advérbios e adjetivos
comparativos. Em outro lugar, porém, E isto é a negação de (A), a
ele se vale de advérbios e adjetivos definição original de Carmides.
superlativos:
A tese de Sócrates que (I) e (B) são
D. Fazer coisas tão rápido quanto inconsistentes com a definição
possível, não as fazer tão original de Carmides, embora seja
calmamente quanto possível é o afirmada por Sócrates e aceita por
mais belo ou o mais admirável Carmides (160d4), claramente
(160a5-6). Por vezes, ele mistura depende de algo mais sofisticado do
adjetivos superlativos e que o modus ponens, e não é dada a
comparativos: Carmides nenhuma razão, menos
E. As coisas mais rápidas, não as ainda uma boa razão para aceitar a
mais calmas, são o mais belo ou inferência. Ele poderia manter com
mais admirável (159d4-5). Por razoabilidade sua crença que a
vezes, ele utiliza substantivos temperança é calma, mesmo
abstratos: aceitando (B) e (I), alegando que a

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Hugh H. PLATÃO
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inconsistência proposta por Sócrates D. Vai dar outra coisa que 1, 2, 3, 4, 5


não tem efeito ou, pelo menos, que ou 6,
não foi mostrada. Carmides não tem
de abandonar sua definição de e isso é impossível. Portanto, devo
temperança. aceitar todas as três A, B e C, ainda
que reconheça que não possam ser
De eu acreditar em A, B e C, dar- verdadeiras ao mesmo tempo. Para
me conta que A, B e C são dizer a verdade, deveria saber que
inconsistentes, não se segue que devo uma das A, B e C é falsa, mas não
abandonar minha crença em C, caso saberia qual. Então, este é um caso no
queira manter minha crença em A e B. qual aceito A e aceito B, e aceito que
Posso, ao invés disso, abandonar A, B e C são inconsistentes, mas não
minha crença que A, B e C são devo rejeitar C. Ao contrário, devo
inconsistentes. As coisas são de fato também aceitar C.
piores ainda: em certas
circunstâncias, posso crer em A, B e C, A possibilidade que acabo de
crer que A, B e C são inconsistentes e descrever não é, além disso, uma
mesmo assim manter minha crença possibilidade meramente lógica,
nos três A, B e C. Suponha, por especialmente em contextos
exemplo, que estou jogando um dado filosóficos, em que algo como certeza
não viciado. Considere as seguintes é difícil de obter. E mesmo Richard
três suposições: Kraut chamou a atenção há mais de
vinte anos ao fato que Sócrates (nos
A. Vai dar outra coisa que 1 ou 2. diálogos socráticos, incluindo o
B. Vai dar outra coisa que 3 ou 4. Protágoras, no que concerne a este
C. Vai dar outra coisa que 5 ou 6. ponto) acha que tem boas razões para
aceitar todas as seguintes três
Dado que as probabilidades de proposições:
cada uma delas é de 0,67, devo
pensar que é mais provável que cada A. A virtude não pode ser ensinada.
uma ocorra do que não ocorra. B. A virtude é conhecimento.
Porém, devo claramente rejeitar a C. Se a virtude é conhecimento,
conjunção de A, B e C, pois a então a virtude pode ser ensinada,
conjunção consiste no seguinte:
embora reconheça que (A), (B) e (C)

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são inconsistentes (ver Kraut, 1984, p. (C)a (I) são equivalentes entre si e ao
285-8). Mais uma vez, Sócrates sabe supor que (I) e (B) acarretam que a
que pelo menos uma de (A), (B) ou (C) temperança não é calma, sem dar a
deve ser falsa, mas não tem razão Carmides, ou a nós, nenhuma razão
para abandonar nenhuma delas em para aceitar estas suposições que não
particular. são nem um pouco triviais. E, como
muitos já observaram há anos, o ar-
SÓCRATES ESTÁ TRAPACEANDO? gumento de Sócrates se aproveita da
ideia que o contrário de calmo é
Sócrates sustenta conjuntos de rápido, e não, como certamente
crenças que ele próprio sabe que não pretendia Carmides, tumultuoso,
podem ser elas todas verdadeiras. excessivo ou algo similar. É difícil
Porém, ao conduzir o elenchus, ele imaginar que Platão não estava
insiste continuamente para que o consciente de ambos os pontos, é
interlocutor largue a suposição que difícil imaginar que ele não está
ele estava questionando assim que representando Sócrates como
aparecer que a suposição é trapaceando.
inconsistente com outras coisas nas
quais o interlocutor acredita. É isso Porém, por vezes o que é difícil
correto? É isso trapacear, para pôr a de acreditar é verdadeiro; permitam-
questão como veio a ser posta depois me tomar um par de exemplos do Íon
da publicação de Vlastos, 1991, que, penso, são mais claros. Neste
especialmente cAp. 5, “Sócrates diálogo, o rapsodo Íon se atribui duas
trapaceia?” Se trapacear consiste em competências interligadas, uma
oferecer argumentos que se performativa e uma crítica. Ele alega,
reconhece ter uma base questionável primeiro, que é capaz de recitar os
ou se consiste em encorajar seus poemas de Homero com força,
interlocutores a abandonar as sentimento e efeito (530d4-5; cf.
suposições quando não se pode exigir 535b2-3). E alega, em segundo lugar,
tal coisa, parece-me claro que que é capaz de compreender a
Sócrates de fato trapaceia. Ele substância do pensamento de
provavelmente trapaceou no Homero (530c5) e de oferecer
argumento que acabamos de discutir observações críticas pertinentes a
do Carmides, ao supor que as este pensamento (530dl). Íon
formulações de também aceita a sugestão de

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Sócrates que sua competência crítica da fenomenologia da experiência


está baseada no conhecimento poética (533c9-536b5). O símile e a
daquilo sobre o que fala Homero teoria são aceitáveis como explicação
(530c7) e é esta ideia que vira o alvo da competência performativa de Íon,
de Sócrates no elenchus que se segue. e são apresentados como tais por
No curso do argumento, Íon admite Sócrates (veja “recitar” em 535b4 e
que sua competência crítica se limita 536b6; “melodia” em b7) e aceitos
a Homero (532b6-c4). Embora, como por Íon (535a3-5, a8, alO, c4-dl, el-6).
ele próprio concede, outros poetas Porém, Sócrates continua, iniciando
falem das mesmas coisas sobre as em 536b6, fazendo passar sua
quais fala Homero (531cl-d2), ele, Íon, explicação da competência
nada tem a dizer sobre os outros performativa de Íon por uma
poetas (532b8-c2). Sócrates então explicação de sua competência
conclui que a competência crítica de crítica. A passagem se dá em uma
Íon com respeito a Homero não está única frase: “quando uma melodia
baseada na posse de um daquele poeta [a saber, Homero] é
conhecimento: “se você fosse capaz recitada, você imediatamente
de falar sobre Homero por conta de acorda... e você tem muito a dizer”
um conhecimento, você também (536b7- cl, grifo meu; trad. De
seria capaz de falar sobre todos os Woodruff). Sócrates então conclui:
outros poetas” (532c7-8). “não é porque você domina um
conhecimento sobre Homero que
Íon aceita isso (532cl0), porém você pode dizer o que diz [sobre ele],
insiste que sua competência crítica mas por conta de uma dádiva divina,
com relação a Homero, ainda que porque você está possuído” (536cl-2;
limitada, é, segundo a opinião trad. Woodruff). Isso não é justo da
comum, real e ele, neste sentido, parte de Sócrates e Íon
pede a Sócrates para que explique a compreensivelmente se refreia: “você
base de sua competência, dado que fala bem, Sócrates, mas me admiraria
ela não pode ser explicada pela posse se você for bom o suficiente para me
de conhecimento (532b8-c4). convencer que estou possuído ou
Sócrates responde, como ficou desvairado quando elogio Homero”
famoso, com o símile do ímã e a (536d4-6). Íon aceita a teoria de
doutrina da inspiração divina, Sócrates como uma explicação de sua
acompanhada de fatos provenientes competência performativa, mas a

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rejeita como uma explicação de sua saberá o que é adequado para os


competência crítica, e o diálogo artesãos dizer a respeito de seus
continua. Sócrates tentou trapacear, ofícios, e assim ele procede (540b8,
tentando fazer passar uma explicação c2-3, c6, dl). Porém, Sócrates então
plausível da competência lhe dá uma brecha: “um rap- sodo
performativa de Íon por uma saberá as coisas que um homem deve
explicação também de sua dizer, se for um general, para
competência crítica, e Íon recusou-se encorajar suas tropas?” (540dl-2). Íon
a deixá-lo levar a melhor assim. toma a oportunidade: “sim! Um
rapsodo saberá este tipo de coisas”
A segunda tentativa de Sócrates (540d2-3). Sócrates então diz que Íon
para a mesma conclusão também deve ser um general (540d4) e isto é
depende de uma trapaça – uma que, um gancho do qual ele não se livrará
desta vez, tem sucesso. O ponto mais para o resto do diálogo.
central do argumento começa em
540b3. Sócrates está tentando Isso é novamente trapaça. O que
determinar o que Íon, como um Íon está tentando dizer é que um
rapsodo, conhece. Íon avança que rapsodo conhece o caráter humano,
“ele saberá que coisas são adequadas que um rapsodo pode, digamos,
para um homem ou uma mulher dizer compor o discurso do Dia de São
– ou para um escravo ou um homem Crispin na peça Henrique V. Ele sabe o
livre, ou para um seguidor ou um tipo de discurso que um homem que
líder” (540b3-5). Sócrates supõe que aprendeu em sua juventude que seria
Íon está falando não sobre homens, o futuro rei da Inglaterra vai fazer,
escravos ou mulheres enquanto tais, agora que se tornou rei, diante de
mas sobre homens que são também uma batalha decisiva em uma guerra
navegadores em uma tempestade ou discutível ocorrida por sua iniciativa.
doutores tratando de doentes, ou de Porém, Sócrates não deixará que Íon
escravos que são também vaqueiros faça uma tal reivindicação. O único
que precisam acalmar o rebanho, ou tipo de pessoa que se pode ser,
mulheres que trabalham também o segundo a lógica do argumento de
algodão para tecer o fio – todos eles Sócrates, é um artesão, e, segundo o
artesãos trabalhando em seus ofícios argumento, um rapsodo não é capaz
(540b6-8, cl-2, c4-6, c6-dl). Íon deve, de escrever o discurso do Dia de São
obviamente, negar que um rapsodo Crispino sem ser capaz de vencer a

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Batalha de Agincourt. Não é dada uma tem a importância que usualmente


chance para que Íon diga o que lhe é atribuída e dado que Sócrates
entende por isso. regularmente trapaceia. Vou aqui
tentar explicar por que Platão permite
O Íon termina com mais uma que Sócrates trapaceie em tantas
trapaça e encerra tematizando o ocasiões, embora não pense saber em
trapacear. “Você está me cada caso por que ele assim o faz.
enganando”, Sócrates diz para Íon,
“se o que você diz é verdadeiro, que o Propus questões sobre sete
que permite você elogiar Homero é o passagens nos diálogos socráticos:
conhecimento... você está me
trapaceando” (541el-5). Porém, “se... a) Atese de Sócrates em La. 192b9-
você for possuído por uma dádiva dll que a dialética de sua refutação
divina... então não está me da definição de Laques da
enganando” (542a3-6). Sócrates coragem como persistência apoia
então dá a Íon a opção de ser a conclusão que a coragem é
considerado “como um homem que perseverança sábia.
engana ou como alguém divino” (a6- b) A suposição de Sócrates no
7; trad. Woodruff); sem surpresa, Íon argumento em Chrm. 159b5-
salta sobre a última opção. (bl-2). 160d3 que suas várias
Sócrates é famoso por sua indiferença formulações do princípio (I) (a
a o que os outros pensam sobre saber, que coisas rápidas não são
alguém em outros diálogos (veja, por menos belas ou admiráveis do que
exemplo, Cri. 48c2-6); aqui, ele coisas calmas) são equivalentes
constrange Íon a dizer algo em que entre si.
Íon não acredita por meio de um c) Sua crença, no mesmo
apelo ao que os outros podem pensar argumento, que, de (I) e a tese que
dele. a temperança está entre as coisas
belas e admiráveis, se segue que a
TENTATIVAS DE EXPLICAÇÃO temperança não é calma.
d) Seu tratamento, no mesmo
Fiz várias questões sobre o argumento, de “rápido” como o
elenchus, em particular sobre o que se oposto de “calmo”.
pode dizer que ele estabelece, dado e) Sócrates constrange Íon no Íon a
que a consistência em crenças não aceitar que a explicação plausível

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(de Sócrates) da competência “rápido” como contrários, sugiro que


performativa por meio da teoria Platão tem outros itens em sua
da inspiração divina se aplica agenda no Carmides (especialmente o
também à competência crítica de de distinguir Sócrates de Crítias, que
Íon. tem algumas opiniões que parecem
f) Sua recusa, igualmente no Íon, em similares, pelo menos verbalmente, a
permitir que Íon diga o que algumas das ideias do próprio
manifestamente está tentando Sócrates) e põe na boca de Sócrates o
dizer. argumento por falta de outro melhor.
g) Sua acusação que Íon o está Quanto ao fato de Sócrates assumir
trapaceando no final do Íon. sem argumento, no Íon, que a teoria
da inspiração divina, plausível como
Tenho pouco a dizer sobre (g) que uma explicação para a competência
não seja meramente especulação. performativa de Íon, mas não para sua
Talvez Platão esteja consciente que competência crítica, mas mesmo
está fazendo Sócrates trapacear e assim aplicá-lo a ambas, sugiro que
esteja preocupado com que seus Platão tinha concebido a teoria da
leitores percebam que uma trapaça inspiração divina para a composição e
esteja em andamento, e espera que performance poética, precisava de um
este sentimento seja colado a Íon, não lugar para discuti-la e não imaginou
a Sócrates. Talvez, alternativamente, uma jeito melhor para a introduzir no
seja o contrário: Platão quer que diálogo.
apreciemos que Sócrates está
trapaceando e espera que, se Sou mais esperançoso, penso, em
mencionar a questão de trapacear em relação a (f), a recusa de Sócrates em
conexão com Íon, nós a faremos nós permitir a Íon dizer o que pensa. Creio
mesmos em conexão com Sócrates. que Íon quer sustentar que ele – ou o
Ou talvez ele queira que distingamos poeta que ele representa – é um
claramente entre as duas especialista no caráter humano. Eis as
competências muito diferentes de Íon palavras de Íon novamente: “[um
e que pensemos seriamente acerca do rapsodo] saberá que coisas são
tema da poesia e do caráter humano. adequadas para um homem ou uma
mulher dizer – ou para um escravo ou
Tenho igualmente pouco a dizer um homem livre, ou para um seguidor
sobre (d) e (e). Ao tratar “calmo” e ou um líder” (540b3-5). Compare

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essas palavras com estas, tiradas da Porém, creio que, enquanto parte da
explicação que Aristóteles dá na agenda de Platão nos diálogos
Poética de sua tese que a poesia é socráticos consiste em explorar e
mais filosófica e séria do que a desenvolver várias ideias acerca da
história, já que está relacionada a explicação ou causalidade e abstração
universais, não a particulares: que impulsionam a dialética, ele evita,
com apenas algumas exceções (p. ex.,
“entendo por afirmação universal Euthphr. 5dl-5), dar uma
uma que dirá que coisa provável ou apresentação oficial destas ideias até
necessariamente fará um tipo de o Fédon. Por exemplo, em Chrm.
homem, o que é o alvo da poesia, 159b5- 160d3, como vimos, Sócrates
embora ela afixe nomes próprios aos supõe que:
seus personagens” (Poet. 9, 1451b8-
10; trad. Bywater ligeiramente I. Coisas rápidas não são menos
modificada). É a mesma ideia. Platão belas ou admiráveis do que coisas
retoma aos poetas em outro lugar, na calmas (160d2-3) e
República. Porém, ele reserva suas A. A temperança é uma das coisas
armas pesadas na “antiga batalha belas ou admiráveis (159cl).
entre poesia e filosofia” para o livro X, Implicam a falsidade da definição
depois de ter desenvolvido nos livros original de temperança de
IV e livros VIII-IX uma teoria do caráter Carmides:
humano que a torna província da B. Temperança é calma (159b5-6).
filosofia, não da poesia (ver o capítulo
Platão e as Artes). Ele não tem esta Por quê? (B) trata da temperança
teoria no Íon ou não pode, por alguma entendida como um estado do
razão, desenvolvê-la lá. Assim, a razão caráter: é pensada como algo que está
por que a Íon não é permitido dizer o (ou pode estar) em Carmides (veja,
que quer e reivindicar conhecimento por exemplo, 158e6- 159al). É claro a
do caráter humano é que Platão não partir dos argumentos de apoio a (I),
está em condições, no Íon, de em contraste, que é acerca de ações
responder a ele. rápidas e calmas. O que as conecta?
Se (I) e (B) devem ser de algum modo
Quanto a (a), (b) e (c), posso relevantes para a verdade de (A),
somente fazer sugestões (algumas temos de ler (I) como dizendo algo
das quais baseado em Johnson, 1977). acerca das ações que a temperança

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produz e não acerca do estado de C. Perseverança com sabedoria é


caráter que é a temperança. E bela ou admirável e boa (192c9-
teremos também de ler (B) e a 10).
definição original de Carmides:
Um modo de compreender o que
A. Temperança é calma (159b5-6) está ocorrendo aqui é o seguinte:
como implicando algo como: Laques definiu a coragem como
K. Ações calmas são mais belas ou perseverança. Sócrates argumentou
mais admiráveis do que ações que perseverança com sandice não é
rápidas. coragem. Tudo o que fica, então, para
assim dizer, da perseverança com a
Está muito longe de ser claro de qual Laques identificou a coragem é a
que princípios poderiam depender perseverança sábia. Donde Laques
tais leituras. tem alguma razão para acreditar que
a perseverança sábia é coragem.
Um segundo e mais impactante
exemplo é o argumento em La. Não nego que esta explicação
192b9-dll, que citamos no início. pode bem estar correta. Porém,
Lembre que Sócrates representa sua dispomos de uma explicação mais
refutação da definição de Laques da interessante. As teses relevantes são,
coragem como perseverança como novamente:
dando a Laques, pelo menos, razão
para acreditar que: B. A coragem está entre as coisas que
são admiráveis e muito belas
I. A perseverança sábia é coragem (192c5-6).
(192dl0- 11). C. Perseverança com sabedoria é
bela ou admirável e boa (192c9-
Porém, tudo o que temos no 10).
argumento que poderia ser suposto (B) presumivelmente significa ou pelo
como relevante para (I) são as duas menos implica:
teses: G. A coragem é uma coisa bela ou
admirável (192d8).
B. A coragem está entre as coisas
que são admiráveis e muito belas (G) e (C) podem receber uma
(192c5-6). leitura causai. Isto é, podemos ler (G)

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e (C) como dizendo que é a coragem para isso teremos de dedicar muito
nas ações corajosas que toma estas mais estudo do que até agora fizemos
ações belas ou admiráveis, e a à dialética dos diálogos socráticos.
perseverança em ações (Passos decisivos nesta direção são
perseverantes sábias é o que as toma feitos por Dancy, 2004. Ver também o
belas ou admiráveis, assim como capítulo Definições Platônicas e
lemos que “o amor é cego” (com Formas.)
desculpas a Jessica no Mercador de
Veneza II virtude 36-9) como dizendo CONCLUSÕES
que o amor nas pessoas que amam os
toma cegos aos erros daqueles que Do modo como descrevi o elenchus
eles amam. Se lermos (G) e (C) deste socrático, ele se vale de um exame
modo e se somos ligados à ideia que cruzado para extrair contradições dos
interlocutores no intuito de expor ao
H. Características similares devem conhecimento suas teses falsas.
ser explicadas por referência a
fatores explicativos similares (cf. Sócrates tinha interesse em expor
PhD. 97a2-b3), estaremos estas teses porque acreditava que
inclinados a concluir, com falsas convicções acerca de questões
Sócrates, que: importantes da vida humana
I. Perseverança sábia é coragem bloqueavam o caminho da felicidade
(192dl0- 11). das pessoas que tinham estas
convicções e que suas falsas
E se notássemos que ações convicções deviam ser removidas se
justas, ações temperantes, etc. são devessem ter chance à felicidade.
também belas ou admiráveis, nos Porém, a agenda dos diálogos
encontraríamos, dado socráticos de Platão vai bem além da
agenda crítica de Sócrates. Alguns de
(H), já a bom caminho da unidade das seus itens são: fazer homenagem a
virtudes na ação. Sócrates e compreender tanto o
homem quanto suas posições
Creio, então, que pode bem ser positivas; distinguir Sócrates de
possível encontrar racionalidade nas outros com os quais poderia ser
inferências nas passagens (a), (b) e (c) confundido (sofistas, erísticos, Crítias,
listadas no início desta seção. Porém, etc.); examinar as credenciais de

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diferentes pessoas que alegam saber REFERÊNCIAS E LEITURA


como devemos viver (políticos, COMPLEMENTAR
soldados, oradores, sofistas e poetas).
E, como sugeri, Platão tem uma Benson, H. H. (1987). The problem of the
elenchus reconsidered. Ancient Philosophy 7,
preocupação séria com a
pp. 67-85.
argumentação: como ela funciona,
quando tem sucesso, de que ______(1990). The priority of definition and
the Socratic elenchus. In Oxford Studies in
princípios depende, etc. Eles Ancient Philosophy, vol. 8 (pp. 19-65). Oxford:
constituem um largo leque de Oxford University Press.
preocupações que Platão tinha de pôr
______(1995). The dissolution of the problem
em harmonia ao compor seus of the elenchus. In Oxford Studies in Ancient
diálogos. Por vezes, como na Philosophy, vol. 13 (pp. 45-112). Oxford:
Apologia, Platão teve sucesso ao Oxford University Press.
tecer suas várias preocupações em ______(2000). Socratic Wisdom. New York
um único todo artístico e filosófico. and Oxford: Oxford University Press.
Outras vezes ele não teve tanto Brickhouse, T. C. e Smith, N. D. (1984). Vlastos
sucesso assim. Os que pensam que on the elenchus. In Oxford Studies in Ancient
podemos esperar que um pensador Philosophy, vol. 2 (pp. 185-96). Oxford:
com os dotes literários e filosóficos de Oxford University Press.
Platão que tenha sempre um (1991). Sócrates’ elenctic mission. In Oxford
completo sucesso a cada vez são Studies in Ancient Philosophy, vol. 9 (pp. 131-
pensadores fantasiosos; os 61). Oxford: Oxford University Press.
aconselharia a dar uma olhada em ______(1994). Plato’s Sócrates. New York:
Burke (1941) e pensar de novo. Platão Oxford University Press.
tem frequentemente de distorcer, Burke, K. (ed.) (1941). Antony on behalf of the
empurrar, impingir, martelar, esticar, play. In The Philosophy of Literary Form (pp.
esmaecer e desviar o olhar (para 279-90). New York: Vintage Books.
parafrasear Nozick, 1974: x), como Dancy, R. M. (2004).Plato’s Introduction of
todos nós, se estiver em um nível mais Forms. Cambridge: Cambridge University
Press.
alto.
Irwin, T. (1977). Plato’s Moral Theory: The
NOTA Early and Middle Dialogues. Oxford and New
York: Clarendon Press.
Todas as traduções são do autor, a menos Johnson, T. E. (1977). Forms, reasons, and
que haja indicação em contrário. predications in Plato’s Phaedo. Unpublished

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

PhD dissertation, Claremont Graduate


School, Clare- mont, Calif.
Kraut, R. (1983). Comments on Gregory
Vlastos, “The Socratic elenchus”. In Oxford
Studies in Ancient Philosophy, vol. 1 (pp. 59-
70). Oxford: Oxford University Press.
______(1984). Sócrates and the State.
Princeton, NJ: Princeton University Press.
Lesher, J. H. (2002). Parmenidean elenchos. In
G. A. Scott (ed.) Does Sócrates Have a
Method? Rethinking the Elenchus in Plato’s
Dialogues and Beyond (pp. 19-35). University
Park, Pa.: Pennsylvania State University Press.
Nozick, R. (1974). Anarchy, State, and Utopia.
New York: Basic Books.
Polansky, R. (1985). Professor Vlastos’
analysis of Socratic elenchus. In Oxford
Studies in Ancient Philosophy, vol. 3 (pp. 247-
60). Oxford: Oxford University Press.
Robinson, R. (1953). Plato’s Earlier Dialectic.
Oxford: Oxford University Press.
Scott, G. A. (ed.) (2002). Does Sócrates Have a
Method? Rethinking the Elenchus in Plato’s
Dialogues and Beyond. University Park, Pa.:
Pennsylvania State University Press.
Vlastos, G. (1983). The Socratic elenchus. In
Oxford Studies in Ancient Philosophy, vol. 1
(pp. 27-58). Oxford: Oxford University Press.
______(1991). Sócrates, Ironist and
MoralPhilosopher. Ithaca, NY: Comell
University Press.
______(1994). The Socratic elenchus: method
is ali. In M. F. Bumyeat (ed.) Socratic Studies
(pp. 1-28). Cambridge: Cambridge University
Press.

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6. Definições platônicas e socráticos de Platão.

formas Aristóteles nos diz, também, que


a adoção por parte de Platão da busca
R. M. DANCY por definições de Sócrates tomou um
rumo especial: Platão tornou os
Aristóteles nos diz (Metaph. objetos de definição, as “Formas”,
I.6.987a29- bl4, XIII.4.1078bl2-32 e distintos ou separados das coisas
9.1086a24-b4) que Sócrates se sensíveis. Veremos isso ocorrer não
preocupara com definições no nos diálogos socráticos, mas no Fédon
domínio dos “assuntos éticos” e na República. Eles pertencem ao
(compreendido largamente de modo grupo dos que são comumente
a incluir virtualmente todo assunto de referidos como diálogos “médios”.
avaliação) e que Platão herdou dele
esta preocupação. Muitos dos Os diálogos socráticos que serão
diálogos de Platão classificados como considerados aqui são: Carmides,
“jovens” ou “socráticos” mostram Eutifro, Hípias Maior, Laques, Lísis, o
uma preocupação constante com Protágoras e o livro I da República
assuntos de definição. Não vejo (sobre a controvérsia a respeito do
nenhuma boa razão para duvidar de Hípias Maior, Lísis e República I, ver as
Aristóteles (por outro lado, ver, por referências em Dancy, 2004, p. 7-9).
exemplo, Kahn, 1996) e estou Quem questiona a veracidade
fortemente inclinado a supor que os histórica destes diálogos tomará a
diálogos socráticos nos dão algo do reconstrução a seguir como
sabor de um discurso socrático. Em pertinente unicamente ao próprio
outras palavras, tomo estes diálogos Platão. Portanto, as ocorrências do
como uma ficção histórica, nome “Sócrates” devem ser tomadas
especialmente em conexão com as somente como se referindo à
definições. Até em Xenofonte personagem nos diálogos de Platão.
Sócrates demonstra uma predileção
por perseguir definições (ver, por Isso se aplica a fortiori ao uso do
exemplo, Mem. I.i. 16; IVvi), embora, nome “Sócrates” que ocorre na
quando tem de reconstruir a prática discussão abaixo dos diálogos médios,
de Sócrates, Xenofonte não nos dá Fédon, Banquete e República, bem
nada da ordem dos diálogos como do Mênon, que eu considero

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como um diálogo de transição. Em belas corriqueiras, sob a razão que


minha visão (que não é somente estas últimas são belas somente
minha), estes últimos diálogos relativamente, enquanto o Belo é
envolvem muito mais temas de Platão belo plenamente (ver o capítulo As
e menos de Sócrates do que o fazem Formas e as Ciências em Sócrates e
os diálogos socráticos; nesta Platão). Ele efetua este contraste do
perspectiva, o Sócrates dos diálogos seguinte modo (mais comentários a
socráticos tende a representar o seguir):
Sócrates histórico, ao passo que o
Sócrates dos outros diálogos tende a (ARE) Há algo como o Belo.
representar Platão, e há um (ARC) Uma [coisa: a língua grega não
desenvolvimento no tempo de um requer este termo] bela corriqueira é
grupo para outro (ver os capítulos também feia.
Interpretando Platão e O Problema (ARBelo) O Belo nunca é feio.
Socrático). ••• (ARCo) O Belo não é o mesmo que
uma [coisa] bela corriqueira.
Você não precisa aceitar
nenhuma destas posições para seguir Aqui (ARE) postula a Existência do
este capítulo. O desenvolvimento de Belo, (ARR) é uma premissa (a ser
que falo é, em primeira instância, um argumentada) segundo a qual coisas
desenvolvimento lógico: os belas Rotineiras são belas somente
argumentos de Sócrates nos diálogos relativamente, (ARB) é uma premissa
socráticos não o comprometem, tal sobre a Forma, o Belo, de acordo com
como vejo, com a posição metafísica a qual não é belo unicamente
comumente denominada “Teoria das relativamente, e (ARCo) é a
Formas”, mas seus argumentos nos Conclusão.
diálogos “médios” o comprometem.
Porém, estes últimos argumentos Este argumento não comparece
emergem dos primeiros. Em nos diálogos socráticos, ainda que
particular, um argumento crucial que haja uma clara antecipação dele no
emerge é o que chamarei “argumento Hípias Maior (ver infra). Comparece,
da relatividade” (AR). Nos diálogos contudo, nos diálogos médios. Este é
médios, este argumento contrasta a o principal desenvolvimento de que
Forma, digamos, o Belo, com seus estou falando, e está ali, qualquer que
participantes mundanos, as coisas seja a cronologia ou as pessoas

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envolvidas. alimentar a Teoria das Formas.


Contudo, elas não implicam esta
Vamos construir uma Teoria da teoria; quando Sócrates está às voltas
Definição para Sócrates. Esta teoria com definições, ele não está às voltas
não tem a pretensão de ser a Teoria de modo algum com metafísica
da Definição de Sócrates ou a de (contra isso veja, por exemplo, Allen,
Platão, já que não existe uma Teoria 1970). Veremos a virada à metafísica
da Definição explícita nestes diálogos, quando chegarmos ao Fédon.
em contraste com os diálogos tardios
Fedro, Sofista, Político e Filebo, nos UMA TEORIA SOCRÁTICA DA
quais há algo mais sob a forma de uma DEFINIÇÃO
teoria (por vezes referida como o
“Método do Agrupamento e Talvez a primeira coisa a observar é
Divisão”). A Teoria da Definição que Sócrates não dispõe de um termo
baseia-se antes na refutação por que signifique diretamente
parte de Sócrates de várias tentativas “definição”; um termo que ele usa
específicas para definir termos, que significa, em primeira instância,
em pronunciamentos de Sócrates “fronteira”, mas o peso primário de
sobre o que deve ser uma definição; suas discussões recai sobre a questão
perguntamos, no caso de cada uma “o que é...?”, “o que é o pio?”
das refutações, como (Eutifro), “temperança?” (.Carmides),
especificamente ela malogra e então “o belo?” (Hípias Maior), etc.
como deveria ser uma definição que
teria evitado tal fracasso. Antes de introduzir nossa teoria,
devemos considerar por que Sócrates
Esta Teoria da Definição conterá está à busca de definições, por que
uma condição de adequação para responde em primeiro lugar às suas
uma definição razoavelmente questões “O que é...?”
imediata, adiante denominada
“Requerimento de Substitutividade”, Em República I, ele pergunta o
uma outra mais difícil, o que é a justiça; ele espera com isso
“Requerimento de Explicação”, e uma tornar claro se pessoas justas são mais
terceira bem problemática, o felizes que pessoas injustas e, assim
“Requerimento de Paradigma”. Estas (352dl-7), nos ajudar a ver como
duas últimas vão especialmente devemos viver nossa vida. Este

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interesse prático é bem visível em Sócrates, assim, quer definições


outros diálogos nos quais definições porque pensa que elas são essenciais
são buscadas. Os dois primeiros terços para se conceber como viver
do Laques têm a ver com a questão de corretamente e muito
se aprender ou não a lutar com armas frequentemente nestes diálogos os
pesadas ajuda a constituir o caráter, “preliminares” que levam à questão
especialmente a coragem; a questão de definição ocupam mais espaço que
“o que é a coragem?” é feita em 190d a discussão desta questão.
para dirimir a questão. O Lísis trata da
questão sobre o que é um amigo Mesmo assim, a questão pela
(212a8-b2: para a expressão, ver definição tem claramente grande
223b7-8), após considerações sobre importância e Sócrates nos dá uma
como os amigos devem tratar um ao razão para insistir nela quando
outro (estas considerações ocupam estamos tentando determinar como
metade do diálogo). No Eutifro, a viver. Ele pressupõe (contra isso ver,
questão “o que é a piedade?” é por exemplo, Beverluis, 1987), como
introduzida em 5c-d (citada a seguir), afirma explicitamente, algo a que me
após Eutifro ter dito que estava referirei como a “Suposição
processando seu pai por assassinato Intelectualista” (frequentemente
com base em teses sobre o que é agir referida alhures como “Falácia
de modo pio. Talvez o diálogo que Socrática” ou “Princípio da Prioridade
cause mais impacto neste sentido seja da Definição”; ver especialmente
o Protágoras, que inicia formulando a Benson, 1990; 2000, p. 112- 63;
questão se estudar com um sofista Dancy, 2004, p. 35-64 para mais
como Protágoras conduzirá à virtude comentário e referências), que
ou excelência, examina um número podemos formular como:
impressionante de ramificações de
largo alcance e termina com Sócrates (SI) Para saber que... F –, deve-se ser
dizendo a todo mundo que toda a capaz de dizer o que F ou F-dade é.
dificuldade foi devido a fracasso deles
em responder à questão “o que é a Onde “...F é uma sentença
excelência”. Todo mundo se mostra declara- tiva que contém “F” (ou “F-
por demais ocupado para se ocupar dade” ou “o F); por exemplo, onde “F’
disso e o diálogo tem fim. é “pio”, “...F pode ser “esta ação é pia”
ou “piedade ~e uma boa coisa”. Dizer

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o que é F ou F-dade é o definir. Assim, adotar “forma”. Os termos em


por exemplo: para dizer se processar questão eram bem comuns em grego
o próprio pai por assassinato em como termos para características ou
circunstâncias como as de Eutifro é o qualidades das coisas (inicialmente,
que deve ser feito, deve-se definir o características ou qualidades visuais),
pio ou a piedade (ver Euthph. 4d9-e8, usados por pessoas sem nenhuma
5c8-d5, 6d6-e7,15cll-el); para dizer se ideia profunda acerca do status
algo é bom ou belo (traduções ontológico das características e
alternativas da mesma palavra em qualidades. Assim, falarei de “formas”
grego, kalon: vou manter “belo”), nos diálogos socráticos e de “Formas”
deve-se definir o belo (ver Hp. Ma. nos diálogos médios.
286c5-d2, 298bll-c2, 304d4-e3); para
dizer se pessoas justas são mais felizes Sócrates por vezes dá início à sua
que pessoas injustas, deve-se definir busca de definição verificando se ele
justiça (ver R. I, 354al2-c3). e seu interlocutor concordam em que
haja algo sobre o que falar. No Hípias
Até aqui tenho usado Maior (287c8- d2), ele pergunta se
minúsculas, como em “o belo”, para existe algo como o belo, e Hípias
mencionar o sujeito sobre o qual prontamente concede que sim. Tais
Sócrates pergunta “o que é”. Nos concessões, quando chegamos à
diálogos médios, o belo é reconstruí- Teoria das Formas, são concebidas
do como uma Forma, “o Belo”. Vou como suposições sobre as Formas, ao
adotar esta convenção: maiúsculas fato que há algo como o Belo, a
serão utilizadas quando estivermos Forma. Porém, quando Hípias faz sua
falando de Formas. pronta concessão, ele não pensa que
ela está carregada deste tipo de peso
A convenção aplica-se também metafísico. E Sócrates imediatamente
ao termo “forma”; nos diálogos tira proveito da concessão para o que
socráticos, Sócrates fala mais de uma quer: “diga-me então, meu caro, o
vez sobre o que está procurando que é o belo?” (287ed2-3). Ele não se
como uma “forma” (eidos) ou uma investe em uma elaboração do status
“ideia” (idea). Não há nenhuma força ontológico do belo. O diálogo está às
discernível entre estes dois termos, voltas com a definição, não com a
ambos derivados da raiz “id—” ontologia. Quando falamos de modo
associada a um verbo para ver: vou habitual sobre, digamos, animais e

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perguntamos o que distingue o leão  o Requerimento de Explicação: o


do tigre, usualmente não temos definiens deve explicar a aplicação
nenhum interesse na questão metafí- de seu definiendum.
sica se o leão é algo além dos leões
comuns. E Sócrates não parece O primeiro dos três
demonstrar nenhum interesse na requerimentos pode ser, com
questão paralela se o belo é algo além conveniência, partido em dois, com
das coisas belas – pelo menos, não base no esquema que o formaliza:
neste ponto. Do ponto de vista deste
capítulo, esta é a diferença entre os (RS) w = df abc -> (...w – <-> ... abc -)
diálogos socráticos e os da fase
média. entendendo “...w como antes com
“...F e lendo como “somente se” e
A Teoria da Definição que vamos como “se e somente se”. Então, (RS)
reconstruir parece o seguinte. pode ser entendido como a conjunção
Começamos com um candidato para de
definiens: uma expressão que
pretende definir adequadamente um (Nec) w = dfabc -» (...w—>... abc -),
termo, o definiendum. Os diálogos
socráticos requerem de uma que nos diz que o definiens “abc”
definição adequada que ela satisfaça: fornece uma condição necessária
para que algo satisfaça o definiendum
 o Requerimento de “w”, e
Substitutividade: o definiens deve
poder ser substituído por seu (Suf) w – dfabc (...w —>... abc -),
definiendum sem alterar a
verdade ou falsidade da sentença que nos diz que o definiens nos
que contém o definiens (salva fornece uma condição suficiente para
veritate); que algo satisfaça o definiendum. Por
 o Requerimento de Paradigma: o exemplo, se “égua” é corretamente
definiens deve fornecer um definida como “a fêmea do cavalo”,
paradigma ou padrão em então (Nec) nos diz que se Mimosa é
comparação com o qual casos de uma égua, ela é uma fêmea do cavalo,
seu definiendum podem ser e (Suf) nos diz que, se ela é uma fêmea
determinados; e do cavalo, ela é uma égua.

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Enunciar puramente os está nos dizendo também que, por


requerimentos malogra em espelhar contraposição, (Suf) é satisfeito
em um importante aspecto a prática também.
de Sócrates, pois Sócrates nem
sempre os trata como requerimentos Eutifro aceita isso e Sócrates o
isolados: antes, ele tende a menciona após Eutifro ter tentado
apresentar mais de um deles em definir o pio como “processar quem
conjunto. comete injustiça, seja a respeito de
assassinatos, roubos em templos, ou
Como um exemplo deste quem causa dano de algum outro
fenômeno, considere um par de modo, seja ele o pai, a mãe ou alguém
passagens do Eutifro. Primeiro, em outro, e não o processar é ímpio”
5c8-d5, Sócrates diz: (5d9-e2). Podemos formular isso
como:
Agora, por Zeus, diga-me o que acabou
de afirmar que conhece claramente: (Dipio) x é pio = df x é o caso de
que tipo de coisa você diz que o reve-
rente [isto é, o pio: veja 5d2 a seguir] e
processar quem causa dano de um
o irreverente [isto é, o ímpio] são, no modo ou de outro.
que toca tanto ao assassinato quanto a
outros [assuntos]? Antes de ir adiante, deve-se notar
que (Djpio) é totalmente típico de
Ou não é o pio ele próprio o mesmo todos os diálogos sob consideração
em cada ação, e o ímpio, novamente,
o contrário do pio em sua totalidade,
pelo fato que, apesar de gerações de
mas como ele próprio e tudo o que há comentário, os interlocutores de
de ser ímpio tem, com respeito à sua Sócrates, em suas primeiras tentativas
impiedade, uma ideia? de definição, não citam “particulares”
como opostos a “universais” (ver
(Quando, no início, Sócrates diz Nehamas, 1975/6. No caso de (D^io),
que Eutifro “acabou de” afirmar que processar pessoas más é um
sabia claramente o que o reverente é, “universal” perfeitamente bom,
faz alusão a 4d-e, passagem na qual a instanciado muitas vezes em cortes de
Suposição Intelectualista é justiça mesmo atualmente. Os
desdobrada.) Em meus termos, ele interlocutores de Sócrates sempre
está nos dizendo que (Nec) é satisfeito propõem universais, embora
e, se ler- mos “ímpio” como “não pio”, frequentemente, como neste caso,

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universais que não são alguém faz, direi que é pio, e o que
suficientemente universais, como quer que não seja tal, direi que não [é]
pio.
observa Sócrates. O que ele diz é (6d6-
8):
Aqui temos não somente
... Porém, Eutifro, você diria que Substitutividade, mas também o
muitas outras coisas são também pias. Requerimento de

Eutifro: Pois elas também são [pias]. Explicação (que “forma ela própria
pela qual todas as coisas pias são
Até aqui, tudo o que temos é pias”), bem como o Requerimento de
Substitutividade, em particular (Nec): Paradigma (“servindo-me dela como
há outras coisas pias além de um paradigma, o que quer que seja
processar malfeitores, de sorte que tal como ele é... direi que é pio, e o
não nos dá uma condição necessária que quer que não seja tal, direi que
para a piedade. não [é] pio”). Porém, tudo o que
Sócrates requer no argumento contra
O que Sócrates diz a seguir vai (D^io) é (Nec); ele não faz uso algum
além disso (6d9-e7): desses requerimentos adicionais. Fará
isso mais tarde, e eles terão um
Sócrates: Então, você lembra que eu emprego separado (ver a seguir).
não lhe disse para ensinar-me uma ou
duas das muitas coisas pias, mas
Em outros diálogos, o
aquela forma ela própria pela qual
todas as coisas pias são pias? Você, Requerimento de Substitutividade é
pois, disse, eu penso, que é graças a empregado sem menção aos outros.
uma ideia [= forma: veja No Laques, a primeira tentativa
anteriormente] que as coisas ímpias (190e5-6) de definir a coragem como
são ímpias e as coisas pias, pias; ou
“fincando o pé” fracassa porque há
você não lembra?
ações corajosas que não envolvem
Eutifro: Lembro-me, de fato. “fincar o pé”, mas, de fato, recuar
(191a5-c6); Sócrates quer, diz ele, “o
Sócrates: Então, ensina-me esta ideia, que é o mesmo em todos os casos”
o que é, de sorte que, olhando para ela (191el0-ll). Aqui o definiens não logra
e servindo-me dela como um a Substitutividade ao malograr em dar
paradigma, o que quer que seja tal uma condição necessária. A segunda
como ele é entre as coisas que você ou

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tentativa de Laques (192b9-cl) define somente um termo substituível


a coragem como perseverança; uniformemente pelo termo definido,
Sócrates objeta observando que há mas também deve explicar a aplicação
casos de perseverança que não con- do termo definido. Porém, isto é
tam como coragem (192c5-d9; o inicialmente plausível somente se
argumento de Sócrates é mais “explicar” é entendido de modo fraco.
complicado que isso, mas está é sua Talvez faça sentido dizer que o que
base). Aqui o definiens não logra a explica o fato que isto é uma égua é
Substitutividade porque não dá uma que se trata de uma fêmea do cavalo,
condição suficiente. Todas as outras mas esta explicação não é “causai” em
tentativas neste diálogo fracassam nenhum modo óbvio, ainda que
por uma ou outra destas duas razões, possamos reformular a alegação
sem o auxílio dos outros dizendo que isto é uma égua porque é
requerimentos. O mesmo vale para uma fêmea do cavalo: o que é
muitos outros casos em outros explicado é meramente o que
diálogos. entendemos ao chamá-la de “égua”;
estamos meramente explicando o
Com o Requerimento de conteúdo da alegação que “isto é uma
Explicação é uma outra história. égua”.
Consigo encontrar apenas um caso no
qual é usado em um contexto que não No único contexto em que o
menciona outros requerimentos. Requerimento de Explicação aparece
Porém, ele carrega o peso principal sozinho, o argumento complexo do
em mais de um dos argumentos de Euthphr. 9dl-llbl, ele é, no final, tudo o
Sócrates contra as definições que está em questão. A definição a ser
propostas; por vezes, embora os derrubada é:
outros requerimentos apareçam no
pano de fundo, eles são irrelevantes (Djpio) x é pio = dfxé amado por todos
para o curso real do argumento de os deuses (para (D2PÍ0), veja a seguir).
Sócrates. A tese decisiva que opera contra isto
é a concessão de Eutifro, segundo a
É útil considerar a plausibilidade qual (CE) o que é pio não é pio porque
inicial do Requerimento de é amado por todos os deuses; antes, é
Explicação. A ideia é que uma amado por todos os deuses porque é
definição adequada deve nos dar não pio.

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A contestação de Sócrates é que, “conF’: o que define “belo” não pode


se (D3pio) fosse correta, se seguiria conter nada de feio. Para o Sócrates
que o que é pio é tal porque é amado nos diálogos que estamos
por todos os deuses. Isto equivale a considerando, isto não é verdade para
dizer que, se (D3pio) fosse correto, se uma grande maioria de coisas que são
seguiria que o conteúdo da alegação belas; elas são feias em diferentes
que “isto é pio” poderia ser aspectos, em momentos diferentes,
desdobrado como “isto é amado por aos olhos de pessoas diferentes e
todos os deuses”: não há nada mais assim por diante. Elas são, neste
ocorrendo aqui do que estava no caso sentido, somente relativamente
da “égua” e “fêmea do cavalo”. De belas; elas são belas ou feias
qualquer modo, não há nenhuma relativamente a certos contextos de
sugestão que alguma entidade super- avaliação, e o belo não pode ser isso.
física etiquetada “o Amado por Todos
os Deuses” estaria causando várias Há um caso em que o
ações ou pessoas serem pias. Requerimento de Paradigma é
empregado virtualmente de modo
Uma comprovação completa isolado, mais uma vez no Eutifro (e, de
requereria uma análise detalhada do novo, o argumento é mais complexo
argumento real de Sócrates, que é que o que indicamos a seguir). Em
bem mais complexo do que indica o 6ell- 7al, Eutifro tenta definir o pio
esquema anteriormente exposto, mas como o que é amado pelos deuses,
não há espaço aqui para o fazer. isto é:

Frequentemente, o (D2PÍ0) x é pio = df x é amado pelos


Requerimento de Explicação surge em deuses.
conexão com o Requerimento de
Paradigma. Vejamo-lo, pois, É a revisão de Sócrates disto que
inicialmente. leva a (D3pio), que em acréscimo
requer unanimidade da parte dos
A ideia geral é que o que é citado deuses, e esta revisão é requerida
como definindo um termo “F” deve pelo argumento contra (D2pio). Com
ser um paradigma para “F’ no sentido efeito, este último gira em tomo da
em que não aceita nenhum crença de Eutifro (já registrada em
compromisso com o termo contrário 6b7-c7 e à qual Sócrates faz apelo em

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7b2-4, d9- e4) que os deuses belo ou qualquer outra coisa não
discordam entre si, e alguns aprovam relativamente, ao passo que qualquer
(o “amor) que outros desaprovam. ou todos os casos corriqueiros das
Sócrates generaliza isso, legitima- coisas pias e belas são meramente
mente ou não, na tese que as mesmas relativamente pias, este definiens não
coisas são todas amadas ou odiadas poderá ser substituído por “pio” ou
pelos deuses e conclui que as mesmas “belo” nos casos corriqueiros, pois
coisas são todas pias ou ímpias (7el0- este definiens não nos fornece um
8a9). Precisamos da Substitutividade termo coextensivo ao termo definido,
para isso, mas o que realmente solapa mas sim um termo que designa uma
(D2PÍ0) é isto (8al0-12): única instância do termo definido,
ainda que uma instância perfeita.
Sócrates: Você, então, não respondeu
ao que perguntei, surpreendente Uma das características do
amigo, pois não estava perguntando
por aquilo que é, enquanto é a mesma
discurso de Sócrates que tende a
[coisa], de fato pio e ímpio; porém, ao apoiar o Requerimento de Paradigma
que parece, o que é amado pelos é seu hábito não invariável, mas
deuses é também odiado pelos comum de se referir ao que quer
deuses. definir usando expressões nominais
genericamente abstratas como “o
A crítica não é que há uma pio” ou “o belo” no lugar de nomes
contradição na conclusão que as abstratos como “piedade” ou
mesmas coisas são pias e ímpias; “beleza”. (Por exemplo, o nome
antes, é que (D2pio) fracassa quanto abstrato “beleza” ocorre somente
ao Requerimento de Paradigma: o uma ou duas vezes no Hípias Maior
que é amado pelos deuses não é em 292d3 e provavelmente em uma
consistentemente pio, isto é, pio e citação de Heráclito em 289b5; em
sob nenhuma circunstância ímpio. todos os outros lugares neste diálogo,
ele emprega “o belo”.) Isto toma a
O Requerimento de Paradigma é
tese que o belo é belo parecer uma
problemático: não é em nada óbvio
tautologia; a tese que o belo é feio,
que uma definição possa ao mesmo
uma contradição. Assim, a
tempo satisfazer a ele e à
“Autopredicação” (esta expressão
Substitutividade. Claramente, se um
remonta a Vlastos, 1954) (ver
definiens nos fornece algo que é pio, também o capítulo Problemas para as

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Formas) /. (TT3) O F (ou F-dade) é ele próprio


sempre F.
(AP) OFéF
(TT1) é uma versão reescrita do
soa de modo mais natural que talvez Requerimento de Explicação, (TT3) é
devesse, assim como o faz sua forma (APf) e é tomada aqui como uma
robustecida (APf) O Fé sempreFe consequência de (TT1) em conjunção
nunca conF. com a nova tese (TT2); isto a faz uma
Teoria da Transmissão: o que quer
Sócrates compra ambas, bem que cause x ser F é ele próprio F por
como o fazem seus interlocutores transmitir Fax.
metafisicamente inocentes (p. ex.,
Eutifro em Euthphr. 6e4-9 e 8al0-b9 e Isto foi por séculos uma teoria
Protágoras em Prt. 330b7-e2, onde a popular da causalidade; pode ser
suposição é carregada com termos encontrada, por exemplo, em
abstratos como a forma F-dade). Anaxágoras, Aristóteles, na primeira
prova da existência de Deus em
De qualquer modo, é a (APf) que Tomás de Aquino e na Terceira
conecta o Requerimento de Meditação de Descartes. (Atualmente
Paradigma com o Requerimento de pode parecer difícil explicar sua
Explicação e começa a introduzir uma popularidade: muitas coisas causam
dose de metafísica (embora ainda não dor sem, infelizmente, estar elas
a Teoria das Formas), pois Sócrates próprias com dor.) Que é uma teoria
ocasionalmente opera com o que metafísica é inegável, já que é uma
chamarei “Teoria de Transmissão da teoria sobre a causalidade (ver
Causalidade” (a expressão provém de também o capítulo O Papel da
Lloyd, 1976), que possa ser Cosmologia na Filosofia de Platão).
apresentada como segue: Porém, o fato de ser aceita por todos
estes filósofos mostra que ainda não
(TT1) É o F (ou F-dade) pelo que algo é a Teoria das Formas, visto que
conta como um F. nenhum deles aceitou esta teoria.
Nos diálogos sob discussão aqui
(TT2) O que quer que seja pelo que apresentados, Sócrates não a conecta
algo conta como como F é ele próprio com nenhuma questão que tenha a
sempre F e nunca conF. ver com o status ontológico do F: é

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aceita por interlocutores que nunca observa que uma moça bela, ainda
refletiram sobre estas questões, que bela quando comparada a um
como (novamente) Protágoras no macaco, é feia quando comparada a
Protágoras (332b6-e2) ou, em um deus (289al-b7), e reformula isso
contextos de busca de definição, na seguinte objeção (289c3-d5,
Carmides e Hípias. omitindo algumas complicações):

Carmides tenta definir a quando perguntado pelo belo, você dá


temperança como modéstia (Chrm. como resposta, como você mesmo diz,
o que de fato não é mais belo que
160e3-5). Sócrates invoca contra isso feio?... Porém... se lhe tivesse
(161a8-9) a tese que o que toma bons perguntado já no início o que é belo e
os homens deve ele próprio ser bom feio e se você me tivesse dado como
e nunca mau. Isto é uma instância de resposta o que acabou de dizer, não
(TT2) e Carmides a aceita sem teria você respondido corretamente?
Porém, ainda lhe parece que o belo em
hesitação. Ele também concorda que si mesmo, por meio do qual todas as
a temperança torna bons os homens outras [coisas] são adornadas e se
e que a modéstia, por vezes, é ruim. mostram como belas quando esta
Portanto, temperança não é forma é acrescentada, é uma moça,
modéstia. (Isto sumaria um um cavalo ou uma lira?
argumento muito difícil, mas este é o
fio condutor.) Hípias continua, sem
comentários. Claramente, o que
Em Hp. Ma. 287e2-4, Hípias desqualifica “uma bela moça” como
define “o belo” como segue: um definiens para o belo é que não
pode explicar por que outras coisas
(Dbelo) x é belo = df x é uma moça são belas, e não pode fazer isso
bela, em que o que é significado é porque uma moça bela não é
qualquer moça bela. Sócrates inicia, somente bela, mas também feia (aqui
ignorando a óbvia objeção de em comparação a outras coisas). Isto
circularidade, com uma outra objeção enfim conecta o Requerimento de
óbvia: há muitas outras coisas belas, Explicação com o Requerimento de
como cavalos e jarros (288b8-e5), de Paradigma, em que é compreendido
modo que parece que ele se dirige à como incorporando (APf) e a Teoria
Substitutividade. Porém, ele não vai da Transmissão.
nesta direção. Ao contrário, ele

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Argumentos ulteriores no Hípias interesse de vasto alcance na


Maior (289d6-291c9,291dl-293c8) existência transcendental da Forma
têm essencialmente a mesma do Belo; ele está meramente
estrutura, ainda que mudem sobre os tentando refutar tentativas de definir
diferentes modos em que algo pode o belo.
ser somente relativamente belo: belo
em um contexto, feio em outro; belo O MÊNON: ENTRE DEFINIÇÕES E
aos olhos de alguns, feio aos olhos de FORMAS
outros.
No Mênon, há uma mudança
O argumento a que nos impressionante de marcha.
dirigimos, o “Argumento da
Relatividade”, está muito próximo no No início, não parece. O diálogo
Hípias Maior. O que temos, começa com um diálogo socrático
concentrando-nos na primeira das abreviado de definição sobre a
refutações, vai até isto: questão “o que é a excelência?” (ou “o
que é a virtude?”). A Suposição
(arE) Existe algo como o belo. Intelectualista é pesadamente
enfatizada: a questão inicial de
(arM) Toda moça bela é também Mênon é se a excelência pode ser
feia. (arbelo) O belo não pode ser ensinada e Sócrates se confessa
feio. incapaz mesmo a começar sobre isso,
visto que não saber sequer o que é a
.*. (arC) O belo não é o mesmo que excelência (70a5-71c4). Mênon faz
nenhuma das moças belas. três tentativas, todas postas por terra
por Sócrates, em muito do modo
Este não é exatamente o como passamos a esperar, embora
Argumento da Relatividade, pois com uma nova pitada: Sócrates insiste
requer uma generalização que que o definiens correto para a
Sócrates não nos fornece no Hípias excelência deve evidenciar a unidade
Maior, quanto ao fato que (arM) não que faz com que todas as várias
é somente verdadeiro de moças, excelências (justiça, temperança, etc.)
cavalos ou liras, mas de qualquer sejam uma. Nada mais é dito como
coisa bela mundana. E Sócrates nada elucidação, mas a ênfase é nova.
diz para indicar que possui um

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

Porém, há mais novidade do que um período anterior a esta vida (ver o


isso. Mênon dá uma parada depois capítulo Platão e a Reminiscência). É
que sua terceira tentativa é jogada uma questão difícil se devemos dizer
janela fora e fica recalcitrante. Ele que este conhecimento foi adquirido
pergunta (80d5-9) como Sócrates antes do nascimento, em cujo caso
pensa que poderia dar uma resposta à houve um momento em que o
questão “o que é a excelência?” se ele aprendemos, ou se nossas almas são
realmente nada sabe. Como poderia constituídas de tal modo que sempre
ele reconhecer que uma resposta era tiveram este conhecimento: certas
a boa? Este problema é coisas que Sócrates declara vão em
frequentemente referido como o uma direção (81c5- e2) e outras, em
“paradoxo de Mênon”. outra (86a6-b4).

Muitos de nós quisemos já faz De qualquer modo, é este


bom momento perguntar exatamente conhecimento prévio que torna
isso. Na vida real, obtemos definições, possível lidar com as questões
quando conseguimos, com base em socráticas. Sócrates não deixa
um conhecimento anterior a respeito exatamente claro como precisamente
da aplicação do definien- dum. Se de o Paradoxo de Mênon tem sua
fato nada sabemos sobre resposta na Doutrina da
decacuminação ou esuriência, não há Reminiscência. Ele exemplifica a
nenhuma esperança que venhamos a doutrina em um subdiálogo (81e-86c)
defini-las. com um dos escravos de Mênon, a
quem é perguntado uma questão
Nestes casos, o antigo latim pode razoavelmente complexa: dado um
ajudar. E o que Sócrates oferece a quadrado com os lados de 2 pés, qual
Mênon é algo deste tipo. Ele introduz é o tamanho do lado de um quadrado
(81al0-b6) uma tese, a “Doutrina da que tenha o dobro de sua área?
Reminiscência”, segundo a qual nós Sócrates o dirige à resposta correta,
de fato jamais aprendemos as que é: a diagonal do quadrado
respostas às questões por definição original. Em sua explicação, ele dá
de Sócrates (ver sobre isso Scott, nascimento a esta resposta pelo
1995), pelo menos não nesta vida. O próprio escravo antes de sugeri-la ao
que fazemos é relembrar as respostas, mesmo. Há como duvidar disso, mas é
cujo conhecimento possuíamos em bem claro que Sócrates aponta ao que

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Hugh H. PLATÃO
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hoje se chama conhecimento a priori, responder adequadamente às


e houve muitos defensores além de questões “o que é?” de Sócrates, e se
Platão que há um tal conhecimento temos a expectativa de que a
(para a melhor exposição do Mênon Doutrina da Reminiscência tem
nesta perspectiva, ver Vlastos, 1965). alguma coisa a ver com a questão
sobre o que é a excelência, o que foi
O Paradoxo de Mênon e a objeto de reminiscência é a forma,
Doutrina da Reminiscência são excelência.
novidades no Mênon. A doutrina vai
reaparecer no Fédon (e no Fedro, É claro, isso é muito diferente de
mas, em minha opinião, em nenhum uma Teoria das Formas explícita; para
outro lugar). Ela é lá associada à isso, temos de esperar pelo Fédon.
Teoria das Formas. É ela assim Contudo, anda não terminamos com
associada aqui, no Mênon? Não há as novidades introduzidas no Mênon.
nenhuma menção desta teoria no Duas requerem agora atenção.
Mênon, mas há uma série de coisas
que sugerem que ela pode não estar Quanto à Doutrina da
muito longe. Há, primeiro, a ênfase Reminiscência tal como ilustrada pelo
mencionada anteriormente na ideia subdiálogo com o escravo, Mênon
que a coisa que está sendo definida é professa uma convicção parcial e,
de algum modo um, e talvez isto consequentemente, Sócrates o
sugira que o definiendum está sendo encoraja a voltar à questão sobre o
pensado como um objeto com que é a excelência (86b6-c6). Porém,
unidade própria. E, segundo, há o fato Mênon abruptamente retoma à
que, no diálogo preliminar sobre a questão de abertura, se a excelência
questão “o que é a excelência?”, pode ser ensinada, e Sócrates, com
Sócrates por duas vezes (em 72d8, e5) um ligeiro lamento, simplesmente
se refere ao que persegue como uma abandona a Suposição Intelectualista
“forma”. Isso conta pouco por si e concorda em perseguir esta questão
mesmo, já que o próprio Mênon usa o 86c7-el).
termo, de súbito, em 80a5, e nada
sugere que ele esteja com a Teoria Isso é surpreendente: em
das Formas. Porém, se perguntarmos: diálogos posteriores, a Suposição
o que é que o escravo rememora e o Intelectualista, como expressa
que é que rememoramos ao anteriormente, não tem mais nenhum

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papel. (Não é que não haja mais conhecimento é a única coisa boa que
pedidos de definição, mas é existe (87c5-89a7) (ver também o
abandonada a sugestão que, na capítulo O Método da Dialética de
ausência de uma definição, nada se Platão).
pode dizer a respeito.) E com isso é
abandonada a outra novidade a que Porém, ele então solapa seu
devemos prestar atenção: o próprio argumento ao sugerir que,
abandono da Suposição além do conhecimento, a crença
Intelectualista traz consigo um verdadeira também seria uma boa
método de lidar com questões não coisa (96d7-97cl0). Isso é atenuado
definicio- nais como a de saber se a pela sugestão ulterior que a crença
excelência pode ser ensinada, o verdadeira não é tão boa como o
“Método da Hipótese”, do qual conhecimento (97cll-98b6), mas,
Sócrates fornece agora uma descrição então, isso é, por sua vez, objeto de
sumária e bem obscura (86el-87b2). O retratação parcial (98b7-d3) e o
método certamente tem suas raízes diálogo termina, ao modo socrático,
na matemática, no Método de Análise sem conclusão.
da geometria empregado pelos
matemáticos gregos (para uma A Doutrina da Reminiscência, a
exposição, ver Menn, 2002). O retirada da Suposição Intelectualista e
método geométrico envolve iniciar o Método da Hipótese dificilmente
com uma questão cuja resposta é de são socráticos, caso tomarmos os
início desconhecida e funciona para diálogos discutidos anteriormente
trás, em direção às suposições que (se como a pedra de toque do
tudo funcionar corretamente) por fim socratismo. Assim, parece bem
são derivadas de coisas conhecidas, plausível que temos, no Mênon,
como os axiomas geométricos. Platão jogando sua cartada. Ele está,
Sócrates quer aplicar isso à questão de ao que parece, preparado agora a
Mênon sobre a excelência admitir que podemos usar termos
perguntando que suposições seriam sem uma definição explícita e que,
suficientes para nos dar a conclusão quando as definições são exigidas,
que a excelência pode ser ensinada nosso modo de as obter é devido à
(87b2- c3). Ele volta à suposição que a nossa apreensão pré-natal do que
excelência é um tipo de conhecimento deve ser definido.
e, daí, à suposição que o

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FORMAS argumento favorável à Doutrina da


Reminiscência (como um passo em
Se o Mênon mostra Platão saindo por direção ao estabelecimento da
detrás de sua personagem central imortalidade da alma), mas, inserido
Sócrates, o Fédon o faz surgir ainda nele e destacável dele, encontra-se o
mais longe, pois o Método da Argumento de Relatividade. O que
Hipótese vai aparecer de novo lá, e Sócrates quer mostrar é que nossa
agora ligado à Teoria das Formas. capacidade em responder a questões
“o que é?” do tipo que tinha
No Fédon, nos deparamos perguntado nos diálogos socráticos
primeiro com as Formas (enquanto depende de nossa familiaridade antes
opostas às formas) em 65a9-66al0, do nascimento com um reino especial
sem argumentação e sem mesmo o de objetos que não são encontrados
termo “forma”. Em 65d4, Sócrates pelos sentidos. Esses objetos são as
pergunta a seu interlocutor Símias se Formas e, ao se responder com
há “algo justo em si mesmo”, “algo sucesso às questões socráticas, somos
belo e bom”; ele logo (65dl2-13) levados a relembrar estes objetos por
acrescenta “largura, saúde, força”. coisas que encontramos
Até aqui, nada indica que fomos frequentemente na experiência
propulsados ao reino das Formas. sensível. O exemplo de Sócrates para
Símias, porém, aceita igualmente de uma Forma nesta passagem é o “igual
pronto que não tivemos contato com em si mesmo” (74al2 et passim); ele
essas coisas pelos sentidos, mas diz que este é um exemplo entre
somente mediante o “pensamento outros, entre os quais menciona “o
puro” (66al-2). Essas teses notáveis largo”, “o pequeno”, “o belo”, “o
são novas: não há nada de paralelo bom” e todas estas coisas sobre as
nos diálogos socráticos. São, porém, quais estamos sempre falando,
exatamente o que Aristóteles nos gerando questões sobre elas do tipo
tinha feito esperar; é isso que me “o que é?” (75c7-d5, 76d7-e7). Em
levar a pôr a maiúscula em “Forma”. outras palavras, “igual” está sendo
tratado aqui de algum modo paralelo
O argumento que falta em 65a9- a “belo” e isso, aos nossos ouvidos, é
66al0 aparece ao longo de Phd. 72ell- estranho, porque, com “isto é igual”
78a9. A tarefa geral desta passagem esperamos um complemento
consiste na apresentação de um novo desdobrando “igual a quê”, ao passo

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que não esperamos tal complemento contraste entre ele e “o belo” a este
com “isto é belo”. Talvez, porém, as respeito. E talvez isso tenha a ver com
coisas não tenham soado assim para a familiaridade prévia com o
Platão, pois, como já vimos em pitagórico Filolao (ver 61d6-e4); os
conexão com o Hípias Maior, teria pitagóricos se ocupavam muito da
exigido complementar “isto é belo” noção de igualdade. (Isso é,
com uma cláusula explicando obviamente, uma conjetura, mas não
relativamente a que era belo, em que é uma conjetura, por outro lado, o
contexto, aos olhos de quem e assim contraste entre o conhecimento que
por diante. Dito sumariamente: Símias tem da definição de “igual” e
tomamos “igual” como um termo de sua falta de conhecimento para a
relação; Platão tomou “belo” como definição de “belo”.)
também sendo um termo de relação.
De qualquer modo, em 74b4-c6,
Por que passar a “igual”? Por que tendo gerado em Símias a pretensão
não manter sempre “belo”? Aqui de saber o que é o igual, Sócrates
devemos prestar atenção ao que diz continua argumentando que o igual é
Símias. Em 74b2-3, ele diz que sabe o distinto de quaisquer pedaços de pau
que é igual; isso deve significar que corriqueiros, pedras ou o que quer
está em posição de dar uma definição que seja que nos leva à reminiscência
do termo (definição que, dele. O argumento é, para exprimi-lo
lamentavelmente, ele não formula; esquematicamente (os detalhes são
para uma possibilidade, ver Prm. bem complexos), o que foi dado
161d). Em 76b5-c5, ele dá expressão acima como um exemplo do
ao temor que, uma vez Sócrates Argumento da Relatividade, mas com
morto, não haverá mais ninguém que “igual” substituindo “belo”:
possa dar definições de termos como
“o belo” (mencionado junto com (ARE) Há algo como o Igual.
outros casos em 75cl0-d4). Sócrates,
como todos sabemos, vai morrer ao (ARC) Uma [coisa] igual corriqueira é
final do Fédon, mas Símias não. Assim, também desigual.
deve ser que ele não sabe o que
(digamos) é o belo e não pode defini- (ARIgual) O Igual nunca é desigual.
lo. E, então, deve ser que a razão para
pegar “o igual” é precisamente o .•. (ARC) O Igual não é o mesmo que

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uma [coisa] igual corriqueira. outro, por exemplo em um animal, na


terra, no céu ou em outra coisa, mas
ele mesmo por ele mesmo consigo
Aqui, (ARC) deve mesmo, sempre sendo singular na
presumivelmente apoiar-se no fato forma, ao passo que todas as outras
que o que conta como um pedaço de [coisas] belas partilham deste [belo] de
pau que é igual depende da situação modo que, enquanto os outros vêm e
na qual a comparação é feita. O ar- deixam de ser, este de modo algum
vem a ser maior, menor ou sofre o que
gumento passa mais facilmente com
quer que seja.
“belo”, e quando Diotima, no
Banquete, expressa seu resultado, ela Diotima está descrevendo aqui
o faz em termo de “belo”. Ela está longamente a Forma, o Belo. Pode-se
falando acerca de alguém que se está notar neste ponto que esta descrição
iniciando-se nos mistérios do amor, e concorda com duas das condições
isso envolve a contemplação de sua com que nos defrontamos ao
parte de coisas belas. Em 210e2- construir uma teoria da definição para
211b5, ela diz a Sócrates que, assim Sócrates: cobre todos os casos, no
que o iniciante avança o suficiente: sentido em que tudo o que é belo
participa dele (e, presumivelmente,
Ele subitamente discernirá algo belo,
maravilhoso em sua natureza, isto, nada que não é belo participa) e ele é
Sócrates, [que é] àquilo em vista do uma coisa paradigmaticamente bela.
qual todos os seus esforços giravam Assim, a Substitutividade e o
até então, o qual, primeiro, sempre é: Requerimento de Paradigma têm
nem vem a ser nem perece, nem
seus ecos na Teoria das Formas.
cresce nem diminui; então, também,
não [é] belo de um modo, feio de
outro, nem [belo] em um momento, E também o Requerimento de
mas não em outro, nem belo Explicação. Ele emerge no argumento
relativamente a algo, feio final da imortalidade no Fédon (99d4-
relativamente a outra coisa, nem belo 103c4). Ali, Sócrates constrói uma
em um lugar, feio em outro, como se
fosse belo para alguns e feio para teoria da causalidade por meio de
outros; nem, de novo, aparecerá o uma menção ao Método da Hipótese
belo para ele como uma face, mãos ou delineado no Mênon. Agora a
o que quer que participe do corpo, Hipótese se toma a própria Teoria das
nem como uma certa explicação ou Formas (100bl-9) e Sócrates a estende
certo conhecimento, nem como
estando em algum lugar em algo a uma teoria da causalidade quando

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Hugh H. PLATÃO
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diz (100c4-6, d3-8): Potencialmente tudo neste capítulo é


controverso; há indicações para onde ir em
Parece-me que, se há algo belo além relação às leituras divergentes, mas, para
do belo ele mesmo, não é belo por uma defesa detalhada e referências comple-
causa de qualquer outra [coisa] bela, mentares, ver Dancy, 2004 (em particular,
mas porque participa daquele belo... uma análise completa será encontrada aí para
mas simplesmente, sem rodeios, talvez todos os casos em que disse que o argumento
mesmo ingenuamente, tenho esta era mais complexo do que indica a presente
convicção íntima que nada o toma belo análise).
outro que a presença ou comunhão ou
de que modo e em qualquer modo que REFERÊNCIAS E LEITURA
entre em contato com aquele belo, COMPLEMENTAR
pois eu não faço nenhuma outra tese a
seu respeito, mas [de fato pretendo] Allen, R. E. (1970). Plato’s Eutifro and the
que [é] graças ao belo que todas [as Earlier Theory of Forms. London: Rouüedge
coisas] belas são belas. and Kegan Paul; New York: Humanities Press.
Benson, H. H. (1990). The priority of
Esta teoria “simples” necessita de
defmition and the Socratic elenchus. In
sofisticação para se transformar em Oxford Studies iti Antient Philosophy, vol. 8
um argumento em prol da (pp. 19-65). Oxford: Oxford University Press.
imortalidade, mas a sofisticação não ______(2000). Socratic Wisdom: The Model of
tem nenhum impacto real na Teoria Knowledge in Plato’s Early Dialogues. New
das Formas. York and Oxford: Oxford University Press.
Beversluis, J. (1987). Does Sócrates commit
Essa é a Teoria das Formas e seu the Socratic fallacy? American Philosophical
patrimônio é muito claramente a Quarterly 24, pp. 211-23. Repr. in H. H.
busca de Sócrates pelas definições. De Benson (ed.) Essays on the Philosophy of
Sócrates (pp. 107-22). New York and Oxford:
qualquer modo, “mas simplesmente,
Oxford University Press.
sem rodeios, talvez mesmo
ingenuamente, tenho esta convicção Dancy, R. M. (2004). Plato’s Introduction
ofForms. Cambridge: Cambridge University
íntima”, por mais controversa que Press.
seja.
Kahn, C. H. (1996).Plato and the Socratic
Dialogue: The Philosophical Use ofa Literary
NOTAS Form. Cambridge: Cambridge University
Press.
Todas as traduções são do autor, a menos que
haja indicação em contrário. Lloyd, A. C. (1976). The principie that the
cause is greater than its effect. Phronesis 21,

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

pp. 146-56. Menn, S. (2002). Plato and the


method of anaLísis. Phronesis 47, pp. 193-
223.
Nehamas, A. (1975/6). Confusing universais
and particulars in Plato’s early dialogues.
Review of Metaphysics 29, pp. 287-306. Repr.
in Virtues of Authenticity: Essays on Plato and
Sócrates (pp. 159-75). Princeton, NJ:
Princeton University Press.
Scott, D. (1995). Recollection and Experience:
Plato’s Theory ofUnderstanding and its
Successors. Cambridge: Cambridge University
Press.
Vlastos, G. (1954). The third man argument in
the Parmenides. Philosophical Review 63, pp.
319-49. Repr. in R. E. Allen (ed.) (1965)
Studies in Plato’s Metaphysics (pp. 231-63).
London: Rouüedge and KeganPaul; G. Vlastos
(1995) Studies in Greek Philosophy, vol. II:
Sócrates, Plato, and their Tradition, ed. D. W
Graham (pp. 166-90). Princeton, NJ:
Princeton University Press.
______(1965). Anamnesis in the Meno.
Dialogue 4, pp. 143-67. Repr. (1995) in Studies
in Greek Philosophy, vol. D: Sócrates, Plato,
and their Tradition, ed. D. W Graham (pp. 147-
65). Princeton, NJ: Princeton University Press.

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7. O método da dialética ameniza a distinção entre os dois


grupos de diálogos, mas a discussão
de Platão erudita do método platônico no
segundo grupo de diálogos continua a
HUGH H. BENSON ter mais como foco as propostas
explícitas de Platão do que sua prática
Richard Robinson, em sua obra efetiva nesses diálogos. Sem dúvida,
clássica Plato’s Earlier Dialectic (A parte da explicação desta tendência é
Primeira Dialética de Platão, 1953), a sugestão feita por Robinson,
descreve a seguinte diferença entre segundo a qual Platão, nos diálogos
os diálogos que ele toma como do segundo grupo, parece não
representando o “primeiro período” executar o que apregoa. O método
de Platão e os diálogos que ele toma filosófico que Platão faz com que
como representando o “período Sócrates recomende em diálogos
médio” de Platão: como o Mênon, o Fédon e a República
não é, aparentemente, o método que
Os primeiros dão proeminência ao
Platão faz Sócrates pôr em prática
método, mas não à metodologia, ao
passo que os médios dão nesses diálogos. Neste capítulo, vou
proeminência à metodologia, mas não resistir a uma tal concepção da
ao método. Em outras palavras, teorias dialética platônica. Começarei
do método são menos visíveis nos olhando rapidamente as
médios, mas exemplos dele são mais
recomendações explícitas de Platão
visíveis nos primeiros. Casos de
elenchus se seguem em rápida quanto ao método filosófico em três
sequência nas primeiras obras, mas, diálogos-chave médios: o Mênon, o
quando buscamos discussões sobre o Fédon e a República. Veremos que as
elenchus, encontramos poucas e não diferenças nos métodos
muito abstratas. Os diálogos médios,
recomendados nestes três diálogos
por outro lado, abundam em palavras
e propostas abstratas a respeito do são aparentes, enquanto alguns
método, mas não é de modo algum traços centrais permanecem
óbvio se estas propostas estão de fato invariantes. Esses traços centrais
sendo seguidas ou se algum método podem ser reduzidos a dois
está sendo de fato aplicado. (Robinson
processos: um processo de
1953: 61-2).
identificação e obtenção das
Na continuação, Robinson consequências das proposições,
conhecidas como hipóteses, no

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intuito de responder à questão em médios devemos olhar para as


discussão, e um processo de discussões explícitas de Sócrates
confirmação ou justificação destas acerca do método e para sua prática
hipóteses. Vou sustentar que, em três efetiva, no intuito de compreender a
passagens longas e decisivas nestes dialética. Em suma, devemos olhar
três diálogos, Platão faz Sócrates pôr tanto para sua “metodologia” quanto
em prática um ou outro destes para seu “método”, para usar os
processos do método que tinha feito termos de Robinson. Contudo,
Sócrates recomendar. Tal visão da veremos que o método filosófico que
dialética platônica tem duas surge destas duas fontes permanece,
consequências imediatas. Primeiro, à luz do próprio Platão, de certo modo
há maior continuidade e mais coisas inadequado. Concluirei sugerindo
em comum com a discussão do uma explicação desta aparente
método em Platão – sua inadequação – uma explicação que
“metodologia”, para usar o termo de aponta na direção de estudos mais
Robinson, do que normalmente se aprofundados.
suspeita. Os métodos da hipótese
introduzidos no Mênon e, de novo, no A DIALÉTICA COM UM “D”
Fédon, bem como o método da MINÚSCULO
dialética introduzido explicitamente
na República são versões de um único Comecemos com o termo “dialética”.
núcleo de método. Segundo, a fim de Robinson, mais uma vez, sustentou,
entender o método filosófico como é bem conhecido, que
recomendado por Platão nos assim
ditos diálogos médios, não devemos o termo “dialética” tinha uma forte
tendência em Platão de significar “o
restringir-nos às discussões explícitas método ideal, o que quer que isso
de Platão sobre este método. Assim seja”. Na medida em que era assim um
como, nos chamados diálogos título meramente honorífico, Platão o
primeiros, olhamos tanto para as aplicou em todo estágio de sua vida ao
discussões explícitas de Sócrates que lhe parecia no momento ser o
procedimento mais auspicioso... Este
acerca do método, como para sua uso, combinado com o fato que Platão
prática efetiva, no intuito de mudou uma vez de modo considerável
compreender o elenchus (ver o sua concepção do melhor método,
capítulo O Elenchus Socrático), assim tem como resultado que o significado
também nos chamados diálogos do termo “dialética” sofre uma

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alteração substancial ao longo de seus 448dl-449c8; ver Kahn, 1996, p. 303).


diálogos. (Robinson, 1953, p. 70) Na República, porém, Sócrates
contrasta o poder do to dialegesthai
Pode surpreender, contudo, que com um método aparentemente
o substantivo grego he dialektikê e empregado às vezes pelos
seus cognatos ocorrem somente 22 matemáticos, onde o contraste
vezes no corpus platônico e somente parece ser altamente técnico,
uma vez nos diálogos que Robinson fazendo uso de noções especializadas
considera como jovens (Euthd. como hipóteses, conclusões,
290c5). Além disso, mais de um terço primeiros princípios e outros (510b2-
destas ocorrências estão 511d5). Todavia, por meio desta ins-
concentradas em seis páginas tabilidade, um traço permanece
Stephani na República (531d9, 534b4, invariante: a preferência de Sócrates
533c7, 534b3, 534e3, 536d6, 537c6, pelo método que ele escolhe como to
537c7). O infinitivo substantivado to dialegesthai, dialektikê ou seus
dialegesthai ocorre de modo muito cognatos (Gill, 2002, p. 150).
mais frequente e pode, por vezes,
portar um sentido técnico em Ao discutir o método dialético de
contraste com seu uso corriqueiro, Platão, então, suponho estar
em que significa “conversar” ou discutindo o método filosófico
“discutir”. Porém, é muitas vezes preferido ou recomendado por
difícil determinar quando o sentido Platão, qualquer que ele seja. O
técnico está sendo usado. Mesmo método que ele recomenda e põe em
assim, quando o sentido técnico está prática nos chamados diálogos
plausivelmente em uso, Robinson primeiros já foi discutido em um
chama a atenção corretamente para capítulo anterior – o método do
sua instabilidade. Por exemplo, por elenchus. O método que Platão
duas vezes no Gorgias Sócrates introduz e aparentemente
parece estar fazendo um contraste recomenda no Mênon e no Fédon
quase técnico entre to dialegesthai e veio a ser conhecido como o método
a retórica, onde o contraste parece da hipótese. Nos livros centrais da
não ser mais do que uma preferência República (VI-VII), Platão recomenda
por uma questão e por respostas como ápice do processo de educação
curtas ao invés de longas exposições dos governantes-fílósofos um método
de proeza filosófica (Grg. 447b9-c4 e aparentemente distinto,

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frequentemente entendido como o terços do Mênon. Sócrates acabou de


método dialético dito estrito (ver responder ao paradoxo do Mênon,
República 531d-537c mencionado segundo o qual ou é impossível
anteriormente; “Dialética” com a ensinar ou é desnecessário tentar
maiúscula “D”). O método de metodicamente adquirir
agrupamento e divisão é introduzido conhecimento de algo. Ou bem
e recomendado no Fed.ro alguém fracassa em conhecer o que
aparentemente seguido no Sofista, no está tentando conhecer, caso no qual
Político e no Filebo. Enquanto o a tentativa não pode ser iniciada ou
método dialético de Platão (pelo concluída com sucesso; ou se conhece
menos “dialético” com um “d” o que se está tentando conhecer, caso
minúsculo) inclui todos estes no qual a tentativa é desnecessária. A
métodos, meu foco se centrará no resposta de Sócrates consiste,
método ou nos métodos discutidos e, primeiramente, em fazer apelo à
sustento, postos em prática no teoria de sacerdotes e sacerdotisas,
Mênon, Fédon e República. Conexões que veio a ser conhecida na literatura
com o elenchus de Platão e seu como a teoria da reminiscência (ver o
método de agrupamento e divisão capítulo Platão e a Reminiscência),
são numerosas e importantes, mas para então exemplificar esta teoria
não podem ser examinadas aqui. por meio de uma conversa com um
escravo a respeito de duplicar a área
PLATÃO E A DIALÉTICA NO MÊNON, de um quadrado originalmente com
FÉDON E REPÚBLICA área de quatro pés. Sócrates conclui
que, embora não forneça os detalhes
As questões deste capítulo são, de sua resposta, ele assegura que
então: qual é o método que Platão devemos buscar metodicamente o
recomenda nos diálogos centrais do conhecimento que nos falta ao invés
Mênon, do Fédon e da República, e: de aceitar que uma tal investigação é
põe ele em prática este método impossível. Tendo ficado
nestes diálogos? Considere, primeiro, aparentemente convencido, Mênon
a resposta de Sócrates ao desejo de exprime seu desejo de retomar à
Mênon em retomar à questão da questão com a qual o diálogo
ensinabilidade da virtude antes de começou, a ensinabilidade da virtude.
responder à questão da natureza da De modo surpreendente e a despeito
virtude, aproximadamente a dois de certa hesitação, Sócrates se dobra

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Hugh H. PLATÃO
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a este desejo, sob a condição que concentram em investigar se a


Mênon lhe permita perseguir a hipótese é verdadeira ou não. Aqui,
questão de acordo com o método dos então, temos Sócrates propondo um
geômetras, que ele imediatamente método que consiste em dois
explica com o seguinte exemplo: processos. Primeiro, consiste no
processo de identificar uma hipótese
Se lhes é perguntado se uma área tal que sua verdade é necessária e
específica pode ser inscrita na forma
suficiente para uma determinada
de um triângulo dentro de um dado
círculo, um deles poderia dizer: “ainda resposta à questão em consideração.
não sei se a área tem tal propriedade, No caso do exemplo geométrico, a
mas penso que tenho uma hipótese hipótese parece ser que a área é
que serve para o problema, a saber, “quando se a aplica como um
isto: se a área é tal que, quando se a
retângulo à linha reta no círculo, falta-
aplica como um retângulo à linha reta
no círculo, falta-lhe uma figura similar lhe uma figura similar à própria figura
à própria figura que é aplicada, então que é aplicada”, ao passo que, no caso
penso que resulta uma alternativa, ao da ensinabilidade da virtude, a
passo que a outra alternativa resulta se hipótese é que a virtude é um tipo de
for impossível que isto ocorra. Assim,
conhecimento (veja 87b5-c7). O
servindo-me desta hipótese, estou
pronto a dizer o que resulta quando a segundo processo consiste em
inscrevê-la no círculo – ou seja, se é determinar se a hipótese em questão
possível ou não”. (86e6-87b2) é verdadeira. Busca-se determinar se
a dada área é “tal que, quando se a
Embora os detalhes deste exemplo aplica como um retângulo à linha reta
sejam reconhecidamente obscuros e no círculo, falta-lhe uma figura similar
controversos, a ideia parece ser que o à própria figura que é aplicada” ou se
método dos geômetras deve primeiro a virtude é um tipo de conhecimento.
propor uma hipótese que atribui a O método em duas partes que Platão
uma dada área a propriedade tal que, faz com que Sócrates proponha aqui
se a área tiver tal propriedade, a no Mênon foi chamado de método da
inscrição pode ser feita, e, se não a hipótese. (Para discussões ulteriores
tiver, então a inscrição não pode ser do método proposto aqui no Mênon,
feita. Assim, se a hipótese for ver Robinson, 1953: cAp. 8; Bluck,
verdadeira, a inscrição pode ser feita; 1961; Bedu-Addo, 1984 e Benson,
se a hipótese for falsa, ela não pode 2003).
ser feita. Então, os geômetras se

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Este assim chamado método da método “sucedâneo”:


hipótese surge em um estágio similar
no Fédon. Sócrates sugeriu uma série Pensei que devia me refugiar em
discussões [tous logous] e investigar a
de três argumentos destinados a
verdade das coisas por meio das
estabelecer a imortalidade da alma, palavras... Comecei deste modo:
cada um dos quais tendo encontrado tomando como minha hipótese em
objeções poderosas (ver o capítulo A cada caso a teoria que me parecia a
Alma Platônica). Em resposta à última mais convincente, consideraria
verdadeiro, quanto à causa e tudo o
objeção ao terceiro argumento,
mais, tudo o que concordasse com ela,
Sócrates explica que uma resposta e como não verdadeiro tudo o que não
adequada requereria “uma concordasse. (99e4-100a7)
investigação completa da causa da
geração e da destruição” (95e9-96al) Sócrates explica em seguida que
e se propõe a relatar sua própria a hipótese que tem em mente no caso
investigação. Em sua juventude, nos presente é o que veio a ser chamado
diz ele, começou seguindo o método na literatura a sua Teoria das Formas:
dos cientistas naturais, mas “a existência de um Belo, em si por si
rapidamente se deu conta que, antes mesmo, de um Bem e Grande e todo
de adquirir o conhecimento que lhe o resto” (100b5-7) (ver também o
faltava, ele de fato perdeu parte do capítulo As Formas e as Ciências em
conhecimento que pensava antes ter Sócrates e Platão). Sócrates indica
(96c-97b). Em seguida, voltou-se ao que esta teoria acarreta que a causa
método de Anaxágoras (ver 97b3-7), o de uma coisa ter uma dada
qual consistia em tentar determinar o propriedade é a participação desta
que é melhor (97c-98b). Infelizmente, coisa na Forma em questão. Por
Sócrates tampouco foi capaz de obter exemplo, “é pela Beleza que as coisas
o conhecimento que lhe faltava por belas são tomadas belas” (100e2-3).
meio deste método, pois era incapaz Sócrates conclui sua discussão deste
de descobrir por si mesmo o que era método explicando como se deve
melhor ou de o aprender pelos reagir quando a hipótese é “posta em
escritos de Anaxágoras. questão” (echoito; ver Kahn, 1996:
Consequentemente, ele explica que 318 n. 35):
se pôs a adquirir o conhecimento da
causa da geração e destruição – que Você o ignorará e não responderá até
lhe faltava – por meio do seguinte ter examinado se as consequências

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que se seguem dela estão de acordo da hipótese original e testando a


entre si ou se contradizem. E, quando consistência das consequências desta
você tiver de justificar a sua própria
hipótese, você procederá do mesmo nova hipótese com as crenças e
modo: adotará uma outra hipótese, a informações disponíveis – até que se
que melhor lhe parecer das que estão alcance uma hipótese que é
acima, até você obter algo aceitável, “aceitável” (hikanon). (Para
mas não misturará as duas como discussões ulteriores do método
fazem os contendores, ao discutirem
ao mesmo tempo a hipótese e suas
proposto aqui no Fédon, ver
consequências, se você deseja Robinson, 1953: cAp. 9; Gallop, 1975;
descobrir a verdade. (101d3-e3) Bostock, 1986; Rowe, 1993a; van Eck,
1994 e Kanayama, 2000).
Novamente, em um estágio crucial do
argumento de um diálogo, Platão faz Por fim, nos livros centrais da
com que Sócrates proponha um República, Platão nos brinda com uma
método que empregue hipóteses de longa discussão do método filosófico
modo a continuar a investigação. De apropriado. Duas passagens são
novo, ele distingue dois especialmente importantes. Na
procedimentos do método. Ao primeira passagem, Platão faz com
descrever o primeiro procedimento, que Sócrates distinga dois métodos.
Sócrates enfatiza o processo de obter Um é praticado pelos matemáticos e
as consequências da hipótese no melhor dos casos pode levar
proposta no lugar do processo de alguém a obter somente pensamento
identificar a hipótese (100a3-7) e, ao (dianoia). O outro é o que ele
descrever o segundo processo, recomenda e que leva a pessoa à
Sócrates explica mais aquisição do conhecimento (epistêmê
detalhadamente como se deve levá-lo ou noêsis). No segundo, Platão leva
adiante. Primeiro, deve-se determinar Sócrates a descrever explicitamente a
se as consequências da hipótese são disciplina da dialética como o ponto
consistentes com outras crenças ou culminante da educação na vida
informações disponíveis a respeito do filosófica.
tópico em discussão. Segundo, deve-
se empregar o método da hipótese na Em 509c-511d, Sócrates pede
própria hipótese – identificando uma que interlocutores da República
hipótese ulterior cuja verdade é imaginem uma linha dividida em duas
necessária e suficiente para a verdade partes desiguais. A parte menor, diz

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ele, representa as coisas que próprias formas e fazendo sua


participam nas Formas; por exemplo, investigação através delas” (R. 510b6-
as coisas belas; a parte maior, as 9). Quatro condições da alma
próprias Formas; por exemplo, o Belo correspondem a estas quatro
em si. Cada uma destas duas partes é subseções da linha: imaginação
similarmente dividida em duas (eikasia), crença (pistis), pensamento
subseções desiguais. A porção que (dianoia) e compreensão ou
representa as coisas que participam conhecimento (noêsis).
nas Formas consiste em uma
subseção menor que representa as Observe que a descrição de Platão dos
imagens das coisas que participam dois métodos distinguidos nas duas
nas Formas – sombras, reflexos em subseções superiores faz apelo a três
poças de água, etc. –, ao passo que a características que parecem se
subseção maior representa os corresponder como segue: [Al] / [B3],
originais das coisas postas em imagem [A2] / [B2] e [A3] / [Bl]. Ou seja, tanto
na subseção menor. A porção que o método que leva à dianoia – o
representa as Formas, todavia, não é método dianoético – quanto o
dividida em função dos objetos, como método que leva ao conhecimento – o
com as duas subseções inferiores, mas método dialético – fazem uso de
em função dos métodos empregados hipóteses: [A2] e [B2]. Os dois
em cada subseção. De acordo com métodos se distinguem não pelo fato
Sócrates, na subseção menor da de empregar hipóteses, mas pelo
porção que representa as Formas [Al], modo como empregam as hipóteses.
a alma usa como imagens os originais O método dianoético usa os originais
da subseção precedente, [A2] é da seção precedente ao proceder de
compelida a investigar a partir de suas hipóteses [Al], mas não o método
hipóteses e [A3] vai em direção de dialético [B3], e o método dianoético
conclusões, não a um primeiro procede das hipóteses às conclusões e
princípio (510b4-6), enquanto, na não a primeiros princípios [A3],
subseção maior, a alma traça “[B1] enquanto o método dialético procede
seu caminho a um primeiro princípio das hipóteses aos primeiros princípios
que não é uma hipótese, [B2] [Bl]. O detalhamento subsequente de
procedendo a partir de uma hipótese, Sócrates destas características sugere
[B3] mas sem as imagens usadas na que a primeira diferença se resume a
subseção precedente, usando as uma diferença entre o uso da

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experiência sensível (pelo método de confirmar as hipóteses


dianoético: 510d5-511a2 e 511a6-8) empregadas até que se alcance “o
enquanto oposto a método a priori da primeiro princípio não hipotético de
dialética (511b7-c2), ao passo que a tudo” – são repetidas na última das
última diferença se resume a uma passagens que analisaremos, embora
distinção entre tratar as hipóteses a última característica seja o centro de
como se fossem confirmadas, mas atenção. Em R. 531d7-535a2 (que
não carecendo de uma justificação ou contém cinco das 22 ocorrências de
explicação (pelo método dianoético: hê dialektikê no corpus platônico),
510cl-d4 e 511a3-6) e tratar as Sócrates descreve a dialética como a
hipóteses como passos não completude de uma vida de educação
confirmados que requerem uma filosófica (531 d, 534e-535a). Ele diz
justificação ou explicação até que se que “a dialética (hê dialektikê) é a
alcance “o primeiro princípio não única investigação que trilha este
hipotético de tudo” (511b3-7), que é caminho, desfazendo-se das
identificado de modo plausível com a hipóteses (tos hupotheseis anairousa)
Forma do Bem. O que é importante e dirigindo-se ao próprio primeiro
notar para nossos presentes princípio, de modo a estar segura”
interesses é a continuidade entre os (533c7-dl). Enquanto a tese que a
métodos propostos no Mênon e no dialética se desfaz das hipóteses pode
Fédon e o método da dialética na ser entendida como indicando que
República. Todos os três consistem Platão está aqui fazendo uma
em dois processos fundamentais de, recomendação contrária ao uso das
de um lado, identificar e obter as hipóteses, é mais plausível supor
consequências das hipóteses e, de (sobretudo à luz das passagens que
outro lado, verificar ou confirmar a acabamos de examinar) que Platão
verdade das hipóteses. O fracasso do está recomendando o modo como
método dianoético reside – em devem ser usadas (ver, por exemplo,
grande parte – em seu fracasso de pôr Robinson, 1953, p. 161-2 e Gonzalez,
a atenção no último processo. 1998, p. 238-40). Elas devem ser
confirmadas, explicadas e justificadas
As três características da dialética no final das contas “dirigindo-se ao
especificadas aqui na República – o próprio primeiro princípio, de modo a
uso de hipóteses, a inapelabilidade à estarem seguras”. É este aspecto do
experiência sensível e a necessidade uso das hipóteses que é enfatizado ao

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longo de toda a discussão da dialética também dois procedimentos, mas


nesta passagem. Sócrates explica que põe o foco em obter as consequências
a dialética pode dar uma explicação mais do que em identificar as
(fio íogos) do que ela conhece (531d6- hipóteses, e fornece detalhes
e6, 534b e 534c), não desiste até adicionais sobre como se deve
apreender o primeiro princípio ou a determinar a verdade das hipóteses
Forma do Bem (532a-b, 534b-c) e (testando sua consistência com
consegue sobreviver a todas as outras crenças e informações
refutações (eíencfiôn) (534c). Porém, disponíveis e buscando confirmá-las
Sócrates também se refere à outra empregando o método nas próprias
característica do uso das hipóteses hipóteses). Por fim, a República
mencionada na passagem da linha acrescenta que o processo de
dividida: a inapelabilidade à determinar a verdade das hipóteses
experiência sensível. Ele explica que o deve ser independente da experiência
dialético “tenta descobrir o ser sensível e deve ser levado a termo até
próprio de cada coisa por meio de que se alcance o “primeiro princípio
argumento (tou logou) e à parte de não hipotético de tudo”. Tendo
toda percepção sensível” (532a6-7). descoberto as grandes linhas do
método que Platão faz com que
Nestes três diálogos-chave, Sócrates discuta e proponha no
então, vemos Platão fazendo com que Mênon, no Fédon e na República,
Sócrates descreva uma metodologia podemos agora ver se Platão faz com
que ele parece adotar. Todas as três que Sócrates pratique o que ele
passagens apresentam o uso de apregoa.
hipóteses, mas cada uma fornece
uma perspectiva própria. O Mênon A PRÁTICA DE PLATÃO DA
introduz o método em termos gerais, DIALÉTICA NO MÊNON, FÉDON E
descrevendo-o como um método REPÚBLICA
empregado por geômetras e
identificando seus dois Comecemos com o que é talvez o caso
procedimentos fundamentais mais simples. Logo após a introdução
(identificar as hipóteses necessárias e por Sócrates do método em Mênon
suficientes para solucionar a questão 86e6-87b2, Sócrates propõe
e determinar a verdade das “investigar se a virtude pode ou não
hipóteses). O Fédon reconhece ser ensinada por meio de uma

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hipótese” (87b3-5). Ele identifica Foi largamente reconhecido que


imediatamente uma hipótese tal que esta passagem do Mênon é uma
sua verdade é necessária e suficiente instância do método das hipóteses. A
para a ensinabilidade da virtude, a passagem, porém, é curta – apenas
saber, que a virtude é um tipo de um pouco mais do que duas páginas
conhecimento, e então se põe a Stephani – e se pensa com frequência
determinar a verdade desta hipótese. que o método é abandonado no resto
Ele o faz empregando o segundo dos do diálogo. Assim, Robinson supõe
dois procedimentos mencionados no que o método termina aqui em 89c
Fédon: empregar o método das (Robinson 1953: 117), confirmando
hipóteses na própria hipótese. sua opinião que Platão raramente
Primeiro, ele identifica outras apresenta Sócrates praticando o
hipóteses cuja verdade é necessária e método que discute nos chamados
suficiente para a verdade da hipótese diálogos médios. Porém, o método
que a virtude é um tipo de das hipóteses não é abandonado
conhecimento, a saber, que a virtude neste ponto do Mênon. Ao contrário,
é um bem (87d2-3) e que não há nada Sócrates segue o primeiro dos dois
de bom outro que o conhecimento procedimentos que o Fédon
(87d4-8). Ele justifica a primeira menciona para confirmar uma
alegando somente que ela hipótese: testar sua consistência com
“permanece” ou “fica firme em nós” outras crenças e informações
(meneí hêmin; 87d3). Ele sustenta a disponíveis. (Para uma defesa mais
última com base em um breve detalhada, ver Benson, 2003; ver
argumento (87e5-89al), após o qual também Kahn, 1996, p. 313.)
conclui que, dado que o
conhecimento é benéfico e que a Depois de concluir em 89c2-4 que
virtude é benéfica, “virtude, então, a resposta à questão de Mênon é que
como um todo ou em parte, é a virtude pode ser ensinada, baseado
conhecimento” (89a3-4). (Se não na hipótese que a virtude é
quisermos ter Sócrates aqui conhecimento, Sócrates exprime uma
responsável por uma conclusão sem dúvida, declarando:
relevância, devemos supor que está
usando “sabedoria” (sophia) e Não estou dizendo que é errado dizer
que a virtude pode ser ensinada se for
“conhecimento” (epistêmê)
conhecimento, mas veja se é razoável
intercambiavelmente.)

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de minha parte duvidar se é prática educacional dos sofistas e de


conhecimento. Diga-me isto: se não pessoas de Atenas que acarretam que
somente a virtude, mas uma outra
coisa qualquer pode ser ensinada, não não há professores nem estudantes
deveria necessariamente haver da virtude. Enquanto o segundo
pessoas que ensinam e pessoas que procedimento do Fédon tendia a
aprendem? (Men. 89d3-8) confirmar a verdade da hipótese que
a virtude é um tipo de conhecimento,
Observe que Sócrates aqui exprime o argumento de 89d3 a 96d4 revelou
uma dúvida acerca da hipótese – que que o primeiro procedimento do
virtude é um tipo de conhecimento – Fédon o contradisse.
a partir da qual a resposta positiva à
questão de Mênon foi inferida, Assim, contrariamente à
revelando que ele está operando sugestão segundo a qual Platão tende
ainda dentro dos limites do método a não representar Sócrates pondo em
da hipótese. Sua verdade está apoiada prática o método que propõe nos
pelo segundo dos dois procedimentos diálogos médios, aqui no Mênon
mencionados no Fédon, mas os temos Sócrates representado como
resultados do primeiro procedimento pondo em prática o método que
– testar sua consistência com crenças acabara de expor longamente (por
e informações disponíveis –, que está quase um terço do diálogo como um
para realizar, vai em direção oposta. todo e por mais do que três quartos
Uma consequência da hipótese que a do diálogo que se segue à introdução
virtude é conhecimento é que a do método). O que é único nesta parte
virtude pode ser ensinada (a resposta do Mênon – como logo veremos – não
positiva à questão de Mênon), mas é que somos brindados com uma
uma consequência disso (pelo menos instanciação longa do método que
em que pese a crença disponível Sócrates propõe, mas que somos
anteriormente expressa que, para brindados com a parte do método
tudo que pode ser ensinado, há destinada a determinar a verdade da
pessoas que ensinam e pessoas que hipótese. Na verdade, somos
aprendem) é que há professores e brindados com esta parte do método
estudantes da virtude. Porém, a que tem resultados conflitantes: o
discussão subsequente com Mênon e primeiro procedimento do Fédon
Anito, de 89e6 a 96d4, revela crenças contradiz a hipótese, o segundo
e informações disponíveis relativas à procedimento a confirma. Sócrates

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não fornece nenhuma indicação, nem discutem um método que consiste em


no Fédon nem na República, sobre dois processos distintos: o processo
como se deve proceder quando este de identificar hipóteses e obter suas
processo de duas partes tem consequências e o processo de
resultados conflitantes. Men. 96d5- verificar, confirmar ou determinar de
100b4 sugere que devemos revisar os outro modo a verdade das hipóteses.
argumentos apresentados em cada Vimos que, no Mênon, Platão
parte no intuito de determinar se apresenta Sócrates concentrado no
contêm algum erro. Sócrates propõe último processo: verificar ou
que o erro deve ser encontrado no confirmar as hipóteses, apresentando
argumento que reivindica que somente de modo breve a atenção de
nenhuma outra coisa é boa além do Sócrates ao primeiro processo (87b5-
conhecimento. Crença verdadeira, c7). O contrário é o caso no Fédon.
professa Sócrates, não é menos Apesar de nos dar mais detalhes a
benéfica que o conhecimento (97a9- respeito do processo de verificar as
d3 e 98b7-c3). Tomemos a sério ou hipóteses em 101d3-e3, Platão
não esta declaração, não devemos apresenta Sócrates concentrado no
concluir, porém, que Sócrates não põe processo de identificar as hipóteses e
em prática o método que propõe. obter suas consequências.

Como mencionei anteriormente, Após uma descrição geral do método


porém, o Mênon pode ser o caso mais em 99e4-100a7, Sócrates fornece um
simples a se conceber. Quase todo conteúdo voltando ao caso em
mundo aceitaria que Platão apresenta questão. Ele identifica a hipótese que
Sócrates pondo em prática o método as Formas existem (100b5-9) e infere
que propõe pelo menos disso, juntamente com várias
sumariamente no Mênon. Porém, e premissas subsidiárias a respeito da
no Fédon? Obviamente penso que a natureza da causa (talvez as três leis
resposta a esta questão é afirmativa, ou requerimentos de “causa”: ver
mas o modo pelo qual Sócrates põe Gallop, 1975, p. 186; Bostock, 1986, p.
em prática o método que propõe no 137 e Kanayama, 2000, p. 54), que
Fédon é diferente do modo em que o cada coisa vem a ser o que é ao
põe em prática no Mênon. Lembre--se participar de uma Forma. Por
que todos os três diálogos – o Mênon, exemplo, algo vem a ser belo porque
o Fédon e a República – propõem e participa da Forma da Beleza (100d4-

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8), algo vem a ser dois porque um exame mais aprofundado, ainda
participa da Forma da Díade (101cl-6) que as tomemos por convincentes. E
se você as analisar adequadamente,
e algo vem a ser grande porque seguirá, penso, o argumento tão longe
participa da Forma da Grandeza quanto o pode um homem e, se a con-
(100e5- 101a5). A partir deste clusão for clara, você não mais
princípio causai “seguro” (novamente inquirirá. (107b5-9).
presumivelmente com várias
premissas subsidiárias), Sócrates Esta última passagem torna
infere um princípio causai “mais sutil”, explícito que Sócrates supõe que está
de acordo com o qual uma coisa vem pondo em prática o tempo todo o
a ser o que é, digamos F, por possuir método que propõe. Ele pôs o foco, é
algo que implica F-dade. Por exemplo, verdade, no primeiro dos dois
três vem a ser ímpar por possuir processos que caracterizam o
Unidade que implica Imparidade, ou o método: o processo de identificar e
corpo vem a ser quente por possuir obter as consequências das hipóteses
fogo que implica Calor (105b5-c6). para a questão analisada, neste caso a
Neste ponto, Sócrates inicia seu imortalidade da alma. Porém, ele aqui
argumento final em prol da sustenta que o método não estará
imortalidade da alma, que pode ser completo até que se volte ao segundo
resumido como segue. O princípio processo de verificar e confirmar as
causai “mais sutil” implica que, se a hipóteses empregadas. Assim, aqui no
presença de uma coisa torna x F, Fédon, para o argumento final crucial
então esta coisa não pode ser não F. em prol da imortalidade da alma,
Por exemplo, se a presença de fogo na Platão parece estar apresentando
água torna a água quente, então o Sócrates pondo em prática o método
fogo não pode ser não quente. Dado que propõe, assim como no Mênon.
que a presença da alma torna o corpo
vivo, se segue que a alma não pode Obviamente, dito isso, o
ser não viva. Ela não pode morrer. Ela esquema deste argumento final em
é imortal. Depois de reconhecer que a prol da imortalidade da alma ignora
“hesitação privada” que permanece a um variegado de dificuldades em
Símias é aceitável, Sócrates conclui o torno do argumento e da
argumento do seguinte modo: interpretação do método proposto.
Por exemplo, talvez se objetasse que
Nossas primeiras hipóteses requerem não se pode derivar consequências

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interessantes ou substantivas de uma depois das afirmações explícitas de


única hipótese (como a descrição Sócrates. Para tentar compreender
geral em 99e4-100a7 pode sugerir seu método de elenchus, não se
que se possa) e, na verdade, se deveria – de fato, não se deve –
observará que, ao descrever o restringir-se às afirmações explícitas
argumento que segue como uma de Sócrates a seu respeito, mas se
instância do ato de derivar tais deve olhar para sua prática efetiva em
consequências, frequentemente diálogos como o Eutifro, Laques,
recorri a hipóteses adicionais e/ou a Carmides e Protágoras. De mesmo
premissas auxiliares. Além disso, modo, enquanto o último terço do
simplesmente supus sem argumentar Mênon deve ser visto como uma
que a noção de “concordância” evidência do que Sócrates tem em
(sumphônein) empregada na mente por verificar ou confirmar as
descrição geral é em linhas gerais a hipóteses, também o argumento final
noção de implicação lógica, a despeito em prol da imortalidade da alma no
de todas as dificuldades que Fédon deve ser visto como uma
circundam tal suposição (ver, por evidência do que Sócrates tem em
exemplo, Robinson, 1953, p. 126-8; mente por identificar as hipóteses e
Gentzler, 1991 e Kanayama, 2000, p. obter as suas consequências.
62-4). E, obviamente, enfim, não
ofereci nada que seja uma Um ponto similar aplica-se ao
interpretação definitiva isenta de método posto em prática na
problemas da estrutura do argumento República, embora nossa discussão
final de Platão no Fédon (para uma deva necessariamente ser mais
interpretação mais detalhada dele sumária. A República pode ser lida
ver, por exemplo, Kanayama, 2000). como um longo argumento que visa a
Contudo, na medida em que mostrar que a justiça é um bem
buscamos dar conta das dificuldades desejado por si mesmo, assim como
que circundam o método que por suas consequências (357al-
Sócrates propõe no Fédon, não 358a8). (Ver, por exemplo, White,
precisamos e, na verdade, não 1979; Annas, 1981; ver também o
devemos nos restringir às afirmações capítulo Platão e a justiça.) Para
explícitas de Sócrates a seu respeito. mostrar isso, Sócrates propõe-se,
Devemos olhar ao argumento final em primeiro, a determinar a natureza da
prol da imortalidade da alma que vem justiça e, imediatamente, a observar e

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constatar que a investigação que outros de algum modo quanto à


estão a ponto de iniciar não é fácil, natureza, um sendo afeito a uma
requerendo um “olhar apurado”. tarefa; um outro, a outra” (370a8-b2).
(Ver, por exemplo, White, 1979, p. 84-
Portanto, já que não somos pessoas 5; Annas, 1981, p. 73 e Pappas, 1995,
argutas, devemos adotar o método de
p. 61). Destas duas hipóteses e de nu-
investigação que usaríamos se, não
tendo um olhar apurado, nos fosse merosas premissas e argumentos
pedido ler letras pequenas à distância auxiliares Sócrates infere que a justiça
e então notássemos que as mesmas cívica consiste em cada classe da
letras existiam alhures em tamanho Kallipolis – a classe dos artesãos, a
maior e em uma superfície maior.
classe dos soldados e a classe dos
Consideraríamos, suponho, um dom
divino poder ler primeiro as letras governantes – realizar a tarefa para a
maiores para então examinar as qual é mais afeita (433e-434c, esp.
menores e ver se realmente são as 434c7-10). Em sequência, com base
mesmas. (368dl-7) na hipótese que “a mesma coisa não
quererá fazer ou sofrer os postos na
Como o geômetra no Mênon, mesma parte de si, em relação à
Sócrates propõe aqui reduzir a mesma coisa, ao mesmo tempo”
questão em pauta – a natureza da (436b8-9; ver também 436e8-437a2),
justiça individual – à questão que é juntamente com várias premissas
suposta ser mais fácil de se psicológicas, Sócrates infere que a
responder: a natureza da justiça alma também consiste em três partes
cívica. Ou seja, propõe identificar uma ordenadas como as partes da
hipótese a partir da qual possa inferir Kallipolis, e, assim, com base na
uma resposta à sua questão original. redução pressuposta com a qual o
Tal hipótese, todavia, não está à mão argumento inicia, a justiça individual é
e, assim, ele se volta a duas outras vista como sendo cada parte da alma
hipóteses a partir das quais pode – apetite, ardor e razão – realizando a
inferir tal hipótese. Sócrates propõe tarefa à qual é mais afeita. A partir
reconstruir a cidade ideal, ou desta explicação da natureza da
Kallipolis, com base em duas justiça, Sócrates se põe nos Livros VII
hipóteses: que “nenhum de nós é aX a mostrar que a justiça é um bem
autossuficiente, mas todos desejado por si mesmo e por suas
precisamos de muitas coisas” (369b6- consequências. Dada esta
7) e que “cada um de nós difere dos reconstrução confessadamente

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apressada e imperfeita do argumento que, em minha opinião, jamais


central da República, Platão pode ser teremos uma resposta precisa usando
os métodos atuais de argumentação –
visto como apresentando Sócrates todavia, há um outro caminho mais
pondo em prática o método que longo e mais completo que leva à
estava propondo. Sócrates procede resposta. Porém, talvez possamos
tentando identificar e obter as obter tuna resposta que esteja à altura
consequências das hipóteses no in- de nossas afirmações e investigações
precedentes. (R. 435c9-d5)
tuito de responder à questão em
discussão.
Platão aqui faz com que Sócrates
exprima uma hesitação acerca da
Mesmo que aceitemos esta
força do argumento neste momento.
reconstrução do argumento, deve-se
A resposta a que chegou parece de
admitir que a evidência que Platão
algum modo incerta. Conhecendo o
apresenta Sócrates pondo em prática
que sabemos acerca do método
o método dialético, como proposto no
dialético que Platão propõe no
Mênon, no Fédon e na República, no
Mênon, no Fédon e na República e sua
argumento central da República é no
diferença do método dianoético,
máximo circunstancial. De fato, talvez
poderíamos especular que a
se pense que qualquer argumento
dificuldade com o argumento é que
poderia ser visto como uma
empregou somente um dos processos
instanciação deste aspecto do
que constituem o método dialético.
método dialético – pelo menos na
Somente identificou e obteve as
medida em que o argumento central
consequências das hipóteses
da República o pode. Porém, a
necessárias e suficientes para
evidência se toma mais forte quando
responder à questão em jogo. Não
nos voltamos a duas passagens nas
buscou verificar ou confirmar a
quais Sócrates descreve o argumento
verdade destas hipóteses. O caminho
que apresentou.
mais longo seria empregar também
este processo – a caminho do
A primeira é uma curta passagem
“primeiro princípio não hipotético de
após a explicação da justiça cívica,
tudo”. Um longo caminho, sem
quando Sócrates se volta à questão da
dúvida! O que, porém, Platão parece
justiça individual. Ele diz:
estar indicando aqui é que Sócrates
Contudo, você deveria saber, Gláucon, não está pondo em prática o método

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

dianoético, mas o método dialético, satisfeito, Sócrates explica que os


embora de modo incompleto. futuros governantes, todavia,
Sócrates está ciente que suas
hipóteses necessitam de confirmação. Devem tomar o caminho mais longo e
devem se esforçar muito tanto na
Diferentemente do matemático
erudição quanto na parte física, pois,
dianoético, não toma suas conclusões de outro modo, como acabamos de di-
seguras enquanto estiverem baseadas zer, ele nunca alcançará o tópico mais
em hipóteses não confirmadas. importante e mais apropriado para ele
aprender. (504c9-d3)
Esta especulação é confirmada
quando Platão faz com que Sócrates É-nos dito aqui que o caminho
retorne à sua distinção entre um mais longo é o caminho que leva ao
caminho mais curto e um mais longo, tópico mais importante. Aprendemos
ao discutir a educação dos futuros em seguida que este tópico é o
governantes. Sócrates diz, referindo- conhecimento da Forma do Bem.
se à passagem que acabamos de Dada a identidade da Forma do Bem e
examinar: “o primeiro princípio não hipotético
de tudo”, nossa especulação se vê
Você se lembra quando distinguimos confirmada. O caminho mais curto
três partes na alma de modo a que é perseguido no argumento
descobrir o que é a justiça, a central da República é defeituoso
moderação, a coragem e a sabedoria?
porque deixou de empregar o
(...) Dissemos, penso, que, no processo de verificar as hipóteses
intuito de obter a mais fina visão sobre empregadas em direção ao “primeiro
estes temas, deveríamos tomar um princípio não hipotético de tudo”. O
caminho mais longo que as tornariam método que Sócrates emprega no
evidentes para quem o tomasse, mas
argumento central da República é
que era possível dar demonstrações do
que elas são que estaria à altura de metade do método dialético que ele
nossa argumentação precedente. E descreve no Mênon, no Fédon e na
você disse que isso seria satisfatório. República.
Assim, parece-me que nossa discussão
naquele momento não tinha exatidão, O MÉTODO SUCEDÂNEO
mas é você quem deve dizer se ela foi
satisfatória ou não. (504a4-b7)
Até aqui sustentei que é um erro
Depois que Gláucon se diz pensar que Sócrates malogra em pôr

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

em prática o método que Platão o faz Livros II a IV como tomando o


propor nos diálogos centrais do caminho mais curto, ao invés do mais
Mênon, do Fédon e da República. longo e superior. No Fédon, ele
Nestes diálogos, Sócrates propõe um descreve o método que propõe como,
método que consiste em dois de certo modo, um “sucedâneo”
processos: um processo de identificar (deuteros plous-, ver, por exemplo,
e obter as consequências das Gentzler, 1991, p. 266 n. 4; Rowe,
hipóteses necessárias e suficientes 1993b, p. 238-9 e 68-9; Gonzalez,
para resolver a questão em liça e um 1998, p. 192 e 351 n. 3; pace
processo de verificar ou confirmar tais Kanayama, 2000, p. 87-95). Aqui, no
hipóteses. O método passa por um Mênon, muitos consideram que
desenvolvimento e/ ou elaboração ao Sócrates propõe e emprega o método
longo destes três diálogos, mas estes somente por causa da recusa de
três processos fundamentais não Mênon em perseguir a natureza da
sofrem variação. No Mênon, Sócrates virtude antes que sua ensinabilidade
é apresentado empregando o (Brown, 1967, p. 63-5; Seeskin, 1993,
processo de verificar ou confirmar as p. 45-7 e Kahn, 1996, p. 318- 19).
hipóteses com um resultado Como explicar esta aparente
aparentemente insatisfatório. No relutância em adotar o método que
Fédon e na República, Sócrates é Platão fez Sócrates propor e
apresentado empregando o processo empregar?
de identificar e obter as
consequências das hipóteses Pode-se pensar que esta
necessárias e suficientes para relutância indica que, para Platão, o
determinar, de um lado, a método filosófico genuíno ou a
imortalidade da alma e, de outro, se a dialética genuína não pode ser
justiça é um bem desejado por si representado nos diálogos. Ele é em
mesmo assim como por suas algum modo inefável ou não
consequências. Todavia, ao longo discursivo. Deve ser posto em prática,
destas passagens, permanece algo não ser descrito ou representado. O
insatisfatório acerca do método que que Platão descreve ou apresenta é o
Sócrates é apresentado como método sucedâneo da hipótese. De
propondo e empregando. Acabamos fato, algo deste tipo pode encontrar
de ver que, na República, Sócrates apoio pelo aparente desprezo de PL
critica o método que empregou nos pela escrita como um modo de

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

praticar a filosofia no Fedro (275c5- método dialético quanto o método


277a4). Contudo, este mesmo diálogo dianoético da República empregam
oferece ainda uma outra explicação hipóteses. O que distingue estes dois
da natureza da dialética – desta vez métodos é o modo como empregam
caracterizada como o método de as hipóteses. O método dianoético
agrupamento e divisão (265d3-266cl), usa a experiência sensível ao lidar
que muitos pensam que Platão com as hipóteses e as trata como se
apresenta em certo detalhamento em estivessem confirmadas, ao passo
diálogos como o Sofista, o Político e o que o método dialético não usa a
Filebo. (Ver, por exemplo, Stenzel, experiência sensível e trata suas
1973: xliii e Kahn, 1966, p. 300.) Fica hipóteses como não confirmadas até
então difícil tomar Platão como atingir “o primeiro princípio não
sustentando a impossibilidade de hipotético de tudo” ou a Forma do
apresentar a dialética genuína como Bem. Não nos preocupamos com o
tal nos diálogos. uso da experiência sensível nos
métodos propostos no Mênon e no
Outros sugeriram que a Fédon e postos em prática nos três
relutância de Platão em adotar o diálogos. Porém, vimos que Sócrates
método empregado e proposto em não descreve o método que propõe
nossos três diálogos consiste no Mênon e no Fédon como
precisamente em distinguir este verificando ou confirmando suas
método do método adotado nos hipóteses até que se atinja “o
livros centrais da República (e primeiro princípio não hipotético de
empregado nos chamados diálogos tudo” nem o método que põe em
primeiros; ver Gonzalez, 1998). O mé- prática nestes três diálogos confirma
todo que Platão emprega e propõe suas hipóteses a este ponto. Na
antes dos livros centrais da República verdade, a descrição que Sócrates faz
é o método da hipótese e este de sua prática na República como o
método deve ser identificado com o caminho mais curto revela que não
método dianoético. Porém, a con- toma as suas hipóteses como
dição de sucedâneo do método confirmadas deste modo.
dianoético aos olhos de Platão é
imediata. Obviamente, sustentei que Talvez isto indique como
tal opinião do método da hipótese devemos entender a aparente
precisa ser reexaminada. Tanto o relutância de Platão em adotar o

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método que faz com que Sócrates entender um “primeiro princípio não
proponha e empregue nos livros hipotético de tudo” – algo diante do
centrais da República. O malogro de qual ele parece simplesmente fora de
Platão em apresentar Sócrates pondo propósito. Por agora, todavia,
em prática um método que confirme podemos concluir que um exame
suas hipóteses ao ponto do “primeiro completo do método da dialética em
princípio não hipotético de tudo” Platão não deve confinar-se às
justifica a condição de sucedâneo da afirmações explícitas de Sócrates a
prática de Sócrates nestes diálogos. O respeito do método nos diálogos
método se encontra em algum lugar centrais de Platão. Deve também
entre o método dianoético e o olhar para a prática de Sócrates nestes
dialético. Ele fracassa em confirmar diálogos. Para voltar à citação de
suas hipóteses ao ponto do “primeiro Robinson com a qual começamos este
princípio não hipotético de tudo”. capítulo, no Mênon, no Fédon e na
Porém, reconhece a necessidade de República Platão dá proeminência ao
fazer isso. Por que Platão prefere não método bem como à metodologia.
apresentar Sócrates confirmando
suas hipóteses até tal princípio, dado NOTA
que reconhece que precisa fazer isso,
exige uma resposta. Para dar início a As traduções de Platão foram tomadas de J.
M. Cooper (ed.) Plato: Complete Works
tal resposta é preciso um estudo
(Indianápolis: Hackett, 1997).
detalhado da explicação de Platão da
Forma do Bem, inclusive de por que REFERÊNCIAS E LEITURA
prefere discuti-la por meio de uma COMPLEMENTAR
analogia nos livros centrais da
República (ver o capítulo O Conceito Annas, J. (1981). An Introduction to Plato’s
de Bem em Platão). Também requer Republic. Oxford: Clarendon Press.
distinguir entre praticar filosofia como Bedu-Addo, J. D. (1984). Recollecdon and the
um método de descoberta filosófica e ar- gument from a hypothesis in Plato’s
praticar filosofia como um método de Meno. Journal ofHellenic Studies 104, pp. 1-
instrução filosófica, e considerar 14.
como escrever em filosofia (em forma Benson, H. H. (2003). The method of
de diálogo ou não) está relacionado a hypothesis in the Meno. Proceedings of the
ambos (ver o capítulo A Forma e os Boston Area Collo- quium in Ancient
Philosophy 18, pp. 95-126. Bluck, R. S. (1961).
Diálogos Platônicos). Por fim, requer

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

Plato’s Meno. Phronesis 6, pp. 94—101. Cambridge: Cambridge University Press.


Bostock, D. (1986). Plato: Phaedo. Oxford: Seeskin, K. (1993). Vlastos on elenchus and
Oxford University Press. ma thematics. Ancient Philosophy 13, pp. 37-
54. Stenzel, J. (1973). Plato’s Method of
Brown, M. S. (1967). Plato disapproves of the
Dialectic, trans. D. J. Allen. New York: Amo
slavebo/s answer. Review of Metaphysics 20,
Press. van Eck, J. (1994). Skopein en logois: On
pp. 57-93.
Phaedo 99d-103c. Ancient Philosophy 14, pp.
Gallop, D. (1975). Plato: Phaedo. Oxford: 21-40. White, N. P (1979). A Companion to
Oxford University Press. Plato’s Republic. Indianapolis: Hackett.
Gentzler, J. (1991). Sumphonein in
Plato’sPhaedo. Phronesis 36, pp. 265-77.
Gill, C. (2002). Dialectic and the dialogue
form. In J. Annas and C. Rowe (eds.) New
Perspectives on Plato, Modem and Ancient
(pp. 145-71). Cambridge, Mass.: Harvard
University Press.
Gonzalez, F. J. (1998). Dialectic and Dialogue:
Plato’s Practice ofPhilosophical Inquiry.
Evanston, 111.: Northwestern University
Press.
Kahn, C. H. (1996). Plato and the Socratic
Dialogue. Cambridge: Cambridge University
Press.
Kanayama, Y. (2000). The methodology of the
second voyage and the proof of the soul’s
indes- tructibility in Plato’s Phaedo. In Oxford
Studies in Ancient Philosophy, vol. 18 (pp. 41-
100). Oxford: Oxford University Press.
Pappas, N. (1995). Plato and the Republic.
New York: Routledge.
Robinson, R. (1953). Plato’s Earlier Dialectic,
2nd edn. Oxford: Oxford University Press.
Rowe, C. (1993a). Explanation in Phaedo 99c6
-102a8. Oxford Studies in Ancient Philosophy,
vol. 11 (pp. 49-70). Oxford: Oxford University
Press.
______(ed.) (1993b). Plato: Phaedo.

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

Parte II

A EPISTEMOLOGIA
PLATÔNICA

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8. A ignorância socrática Segundo a Apologia de Platão,


Sócrates passou a considerar a
GARETH B. MATTHEWS sabedoria de reconhecer sua própria
ignorância em resposta a uma
Segundo o quadro que temos de asserção do oráculo no Templo de
Sócrates com base nos primeiros Apoio em Delfos. De acordo com o
diálogos platônicos, ele acreditava oráculo, ninguém era mais sábio do
que reconhecer um tipo de que Sócrates (Ap. 21a). Quando
ignorância1 em si mesmo era uma Sócrates escutou de seu amigo
forma de sabedoria, na verdade uma Querefonte o que o oráculo tinha
forma de sabedoria que pessoas dito, pôs-se, nos diz, a determinar se
inteligentes em outros campos o que disse o oráculo poderia ser
pareciam não ter. Porém, que tipo de verdadeiro. Seu modo de determinar
ignorância? E que tipo de sabedoria? se poderia ser verdadeiro consistia
Como prova tão eloquente o em questionar atenienses
considerável comentário sobre a considerados por seus concidadãos
ignorância socrática, não é fácil ter como sábios. Ele tentaria descobrir se
clareza sobre estas pessoas de fato sabiam coisas
que ele próprio não sabia.
1. o que exatamente Sócrates
pensava que não sabia que, como Sócrates começou sua
ele diz, outras pessoas em seu investigação, nos diz ele, fazendo
entorno pensavam questões a uma figura pública
enganosamente que sabiam. E considerada por outros – e,
igualmente difícil ter clareza acerca acrescenta Sócrates, secretamente
de pela própria pessoa – como sábia.
2. por que Sócrates pensava que Sócrates rapidamente viu, diz ele, que
reconhecer em si mesmo é de fato este homem de fato não era nada
uma forma de sabedoria. sábio. Ele até tentou, sem sucesso,
convencer esta pessoa que ela não
É meu objetivo no que segue era sábia. Como se poderia prever,
ganhar um pouco de clareza acerca estes esforços só fizeram com que o
destes dois pontos. homem perdesse o apreço por
Sócrates. Assim, Sócrates encerrou
este encontro e fiz o seguinte bem

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conhecido julgamento: T2. Assim, continuo até hoje esta in-


vestigação que o deus me impôs – e me
Tl. Eu sou mais sábio do que este ponho a procurar alguém, cidadão de
homem; é provável que nenhum de Atenas ou estrangeiro, que eu pense
nós saiba algo que tenha valor, mas ele ser sábio. Então, se penso que ele não
pensa que sabe algo, quando nada é sábio, peço ajuda ao deus e mostro a
sabe, ao passo que eu não sei nem esta pessoa que ela não é sábia. (Ap.
penso que sei; assim, é provável que 23b4-7).
eu seja mais sábio nesta pequena
medida, que eu não penso que eu sei Deste modo, isto que Sócrates e
o que não sei. (Ap. 21d3-7). os que ele questiona não sabem
quando malogram em saber algo “que
Sócrates, como continua a nos tenha valor” é, como ele supõe, algo
relatar, não terminou sua que o deus pensa ser importante que
investigação com este primeiro eles se deem conta que não sabem. E
homem reputado como sábio, mas foi é algo que o fracasso em se dar conta
pôr em exame outras pessoas que não se tem conhecimento disso
também. Ele pôs em exame políticos, revela que não se é, por esta razão,
poetas, trágicos e, por fim, artesãos. sábio.
Descobriu, diz ele, que “os que tinha a
maior reputação eram os mais Há indicações tentadoras sobre o
deficientes, ao passo que os que eram que vem a ser conhecer algo “que
considerados inferiores tinham [na tenha valor”. Mas elas não são
verdade] muito mais conhecimento” suficientes por elas próprias para nos
(Ap. 22a3-6). dar uma concepção bem clara do que
Sócrates entenderia por um
A MISSÃO DIVINA conhecimento “que tenha valor”.

Convém manter em mente aqui que Neste ponto, conviria chamar a


Sócrates não concebe o processo de atenção para a expressão que o
exame que iniciou como uma tradutor de Tl, M. A. Grube, rendeu
competição entre ele e os outros como “que tenha valor”, kalon
atenienses para ver quem ganharia as k’agathon. Suspeito que, pelo menos
honras da sabedoria. Ao invés disso, neste contexto, “que tenha valor” é
ele o pensa como a realização de uma uma subtradução desta expressão. O
missão divina: primeiro termo da expressão, kalon,

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significa “nobre”, “belo” ou, mais CONHECENDO ALGO BELO E BOM


geralmente, “bom” <fine>. E a
segunda palavra é uma junção da Talvez o modo mais promissor para
palavra para “e” com a palavra para abordar esta questão seja considerar
“bom” <good>. Platão usa quais questões Sócrates perguntava
costumeiramente a expressão inteira, aos outros atenienses quando
especialmente no masculino, para tentava determinar se eles sabiam
uma pessoa que é nobre e boa, mas algo que ele alegava não saber.
idealmente para alguém belo e bom Temos uma boa ideia do que eram
(veja, por exemplo, Ly. 207a2-3), onde estas questões. Pelo menos, se
a mensagem parece ser que a nobreza pudermos aceitar que os primeiros
de caráter é também beleza de diálogos platônicos são um retrato
caráter, bem como beleza da pessoa razoavelmente fiel das pessoas que
(ver o capítulo Eros e Amizade em Sócrates interrogava e uma boa
Platão). Em seus diálogos, Platão representação do tipo de questões
frequentemente conecta o belo com o que ele lhes fazia. O que Sócrates
bom (ver, por exemplo, Smp. 201cl-2). pergunta aos seus interlocutores nos
Assim, sua justificação, na República, primeiros diálogos são questões
para incluir a música e a poesia no como estas: “o que é a piedade?”, “o
currículo dos futuros guardiães é que que é a coragem?, “o que é a
aprender a apreciar a beleza na arte e amizade?”, “o que é a beleza?”, “o
na natureza é uma parte essencial da que é a justiça?” e “o que é a
educação moral.2 Então, talvez temperança?”. E o que Platão
devamos entender a tese em Tl como apresenta Sócrates como não
a seguinte: sabendo nestes diálogos “de
definição” é como responder a estas
(A) Sócrates alega que não sabe nada questões do tipo “o que é F-dade?” de
que é belo e bom. um modo satisfatório, em que uma
resposta satisfatória aparentemente
Contudo, (A) não nos leva muito deve fornecer de modo informativo
adiante no esforço de determinar o condições necessárias e suficientes
que é que Sócrates insiste que não para x ser F (ver o capítulo Definições
sabe. O que Sócrates consideraria Platônicas e Formas).
como um caso de conhecimento de
algo belo e bom? Eutifro, por exemplo, pensa que sabe

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Hugh H. PLATÃO
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o que é a piedade. Sócrates não pensa Em ambos os casos, algo que


saber ele próprio. Uma coisa que o Sócrates aceita como verdadeiro teria
diálogo Eutifro toma claro é que sido dito. Porém, não se teria
Eutifro de fato não sabe o que a identificado a forma da piedade de
piedade é, não mais do que Sócrates. modo que se a pudesse usar para
Isto é, Eutifro não pode oferecer de determinar quais coisas são pias e
modo informativo condições quais coisas não o são, como estipula
satisfatórias para que uma ação ou T3. O “modelo” ou “padrão” que T3
uma pessoa possa contar como sendo requer deve ser algo que tome
pia. Estou acrescentando a cláusula aparente os critérios para que uma
que a resposta deve ser informativa ação ou pessoa conte como pias. E
porque Sócrates diz isto: nem

T3. Diga-me, então, o que é esta forma (1) nem (2) teriam um uso para
em si mesma, de modo que possa olhar determinar quais ações são pias e
para ela e, usando-a como um modelo
[molde ou padrão, paradeigmá], dizer quais não são. Assim, não podem ser
que toda ação sua ou de outra pessoa exemplos do que Sócrates está
que for deste tipo é pia e, se não for, procurando e ainda não encontrou. O
não é pia. (Euthphr. 6e3-6) que ele quer é algo que possa servir
como um “molde interno” para pôr os
Para compreender o que está candidatos a ações e pessoas pias
sendo introduzido pelo requerimento para ver se elas se qualificam como
expresso em T3, considere o que sendo pias.
ocorreria se alguém respondesse a
Sócrates dizendo: No diálogo Carmides, Sócrates
pergunta o que é sôphrosunê
1. Piedade é o que todas e somente (“temperança” ou “prudência”). Mais
as ações pias necessariamente têm adiante no diálogo, Crítias propõe o
em comum “autoconhecimento” como sua
resposta à questão “o que é
Ou dizendo: sôphrosunê?”. Ele desafia Sócrates:
“quero agora dar uma explicação
2. Piedade é o que justamente torna desta definição, a menos, é claro, que
pias as coisas pias. você já esteja de acordo que a
temperança seja conhecer a si

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mesmo” (165b). Sócrates replica: você diz, estaria fazendo isso por algu-
ma razão outra que a que daria para
T4. Mas Crítias... você me feia como se uma investigação completa de minhas
eu declarasse conhecer as respostas às próprias afirmações – o medo de pen-
minhas próprias questões e como se sar inconscientemente que eu sei algo
pudesse concordar com você se quando eu não sei. E é isso que preten-
realmente assim o desejasse. Não é do estar fazendo agora, examinando o
isso – antes, por causa de minha argumento primariamente para mim
ignorância, estou continuamente mesmo, mas talvez também para meus
investigando em sua companhia o que amigos. (166c7-d4)
for proposto. Todavia, se eu refletir
sobre isso, estarei pronto a dizer se Minha sugestão é que saber o que é a
concordo ou não. Espere somente que piedade ou a temperança, no sentido
eu reflita. (165b4-c2) de ser capaz de dar de modo
informativo condições necessárias e
No diálogo, Sócrates deixa claro suficientes para que um ato ou pessoa
que não pensa que saiba como conte como sendo pia ou temperante,
responder satisfatoriamente à seria, de acordo com Sócrates,
questão “o que é a sôphrosunê?”. conhecer algo belo e bom. Se esta
Contudo, e isto é um ponto resposta estiver na direção correta,
interessante que temos de ter em então as diferentes peças da história
mente, ele se apronta a dizer se do oráculo passam a se ajustar bem
concorda ou não com a sugestão de umas com as outras.
Crítias, isto é, se pensa que se trata de
uma explicação satisfatória do que a A história da filosofia
sôphrosunê é, assim que tiver tido a subsequente mostrou como é
oportunidade para penar sobre isso. irritantemente difícil chegar a uma
análise satisfatória de qualquer
Um pouco mais adiante no conceito filosoficamente
mesmo diálogo, Sócrates liga a busca interessante. Entre os conceitos
pelo que é a temperança à sua decisão filosoficamente interessantes
de não pensar que sabe o que ele não incluímos os éticos, como bravura,
sabe. Novamente ele está se dirigindo virtude, piedade e temperança, todos
a seu interlocutor Crítias: nos quais Sócrates estava
interessado. Porém, devemos
T5. Ah sim!... como você pode pensar
que, ainda que eu refute tudo o que também incluir noções metafísicas,

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Hugh H. PLATÃO
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como causa, tempo e número, para os Neste ponto, uma questão muito
quais filósofos posteriores tentaram importante surge. Se Sócrates não
encontrar, com grande engenho e de sabe o que a piedade é, a coragem ou
modo informativo, condições a temperança, pelo menos não no
necessárias e suficientes, bem como sentido forte de ser capaz de dar de
conceitos epistemológicos, como modo informativo um conjunto
verdade e o próprio conhecimento. satisfatório de condições necessárias
Ora, nenhum de seus esforços foi e suficientes para que uma pessoa ou
aceito universalmente. Não devemos, uma ação conte como pia, corajosa ou
portanto, nos surpreender que os temperante, como pode ele saber
cidadãos atenienses que Sócrates que tal pessoa ou tal ação é pia,
questiona não eram capazes de dar, corajosa ou temperante?
de modo informativo, as condições
necessárias e suficientes para que PRIORIDADE DO CONHECIMENTO
uma ação contasse como corajosa, DEFINICIONAL
pia ou justa. Por outro lado, não
devemos nos surpreender tampouco O próprio Sócrates se põe esta
de encontrar Sócrates pensando que questão em vários diálogos, inclusive
ser capaz de fornecer no Hípias Maior, onde a questão em
satisfatoriamente explicações deste discussão é “o que é to kalon.7” (isto
tipo para os conceitos morais em é, “o que é o belo, o bom ou o
particular seja tão importante para a nobre?”). Eis aqui parte da fala final
vida moral que nossa incapacidade de de Sócrates a Hípias:
fornecer tais condições é uma
ignorância fatal. Até mesmo T6. Se eu mostrar a vocês, homens
sábios, o quão sem saída [isto é, quão
reconhecer que não se é capaz de perplexo] estou, fico enlameado por
fornecer tais explicações para a suas falas quando o mostro. Vocês
virtude e para as virtudes individuais, todos disseram o que você acabou de
como coragem e piedade, poderia dizer, que estou perdendo tempo com
contar como uma forma de coisas que são triviais, pequenas e sem
valor. Mas quando sou convencido por
sabedoria. E seria plausível supor que vocês e digo o que vocês dizem, que a
“o deus” tenha dado a Sócrates a coisa mais excelente é ser capaz de
missão de gerar esta sabedoria nos apresentar um discurso bem e
outros. belamente e resolver as coisas em um
tribunal ou em uma reunião, escuto

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

todos os insultos daquele homem algo ou alguém seja kalon, então


(entre outros aqui em volta) que Sócrates não sabe se uma fala
sempre me refutou. Ele é um parente
próximo meu e mora na mesma casa. qualquer (por exemplo) é boa (bela
Assim, quando volto para casa, para ou nobre).
meu lugar, e ele me escuta dizer essas
coisas, ele me pergunta se não estou Benson e outros comentadores
envergonhado de ousar discutir coisas pensam que a Prioridade do
belas quando fui tão claramente refu-
Conhecimento Definicional vai
tado acerca do belo, e é claro que não
tenho a mínima ideia do que é aquilo mesmo além de (P). Eles pensam que
em si mesmo! “Olha”, ele dirá, “como inclui o que Benson formula do
você saberá qual fala ou uma outra seguinte modo:
ação está belamente apresentada,
quando você ignora o que é o belo? E,
(D) Se A não sabe o que é F-dade,
quando você está em tal estado, você
acha que é melhor para você viver do então A não sabe, para um dado G,
que morrer?” (302cl-e3) que F-dade é G. (Benson, 2000, p.
113).
Muitos comentadores pensam
que esta fala e outras similares De acordo com (D), se Sócrates
compromete Sócrates com o que não sabe o que é “o bom”, no sentido,
Hugh Benson chama “a prioridade do de novo, de não ser capaz de prover
conhecimento definicional”. Benson de modo informativo as condições
formula parte do Princípio de necessárias e suficientes para que
Prioridade do Conhecimento algo ou alguém seja bom, então
Definicional do seguinte modo: Sócrates nem mesmo sabe se a bon-
dade é uma virtude ou uma boa coisa
(P) Se A não sabe o que é F-dade, a possuir.
então A não sabe, para um dado x,
que x é F. (Benson, 2000, p. 113). Sobre a questão se Sócrates se
compromete com (D) em particular,
De acordo com (P), se Sócrates vale a penar observar como termina a
não sabe o que é to kalon (isto e, o fala final do Hípias Maior. Eis aqui o
que é o bom, o belo e o nobre), no que vem imediatamente após T6 e
sentido de não ser capaz de dar, de conclui o diálogo (Sócrates está
modo informativo, as condições falando):
necessárias e suficientes para que

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T7. É o que ganho, como disse. Insultos qualquer um em algo, seria nisto, que,
e reprovações da parte de vocês; in- como não tenho conhecimento
sultos da parte dele. Mas suponho que adequado das coisas no mundo
seja necessário suportar tudo isso. Não inferior, então eu não penso que
seria estranho caso seja bom para tenha. Porém, eu bem sei que é errado
mim. Eu penso de fato, Hípias, que me e vergonhoso fazer o mal,
ter associado a vocês dois me fez um desobedecer a seus superiores, seja
bem. O provérbio diz: “o que é belo é ele deus ou homem. (29bl-7)
difícil” – penso que eu sei isso. (304e3-
9) Esta passagem inclui uma
alegação qualificada de ignorância
Em uma leitura natural e, penso, (“não tenho conhecimento adequado
correta de T7, Sócrates diz aqui que das coisas no mundo inferior”), assim
ele pensa que sabe que o que é belo é como uma alegação clara, e mesmo
difícil (mais literalmente: que “coisas insistente, de conhecimento (“porém,
nobres são difíceis” – chalepa ta kalá). eu bem sei que é errado e vergonhoso
Assim, ele pensa que sabe algo sobre fazer o mal, desobedecer a seus
o bom ou o nobre, no caso, que coisas superiores, seja ele deus ou homem”).
boas ou nobres são difíceis. Porém, se Sócrates não explica por que seu
ele de fato sabe isso, ele rejeita (D). Já conhecimento do mundo inferior é
esta passagem deve fazer-nos hesitar “inadequado”. Podemos especular
em atribuir que seria inadequado simplesmente
porque, até aquele momento, ele não
(D)para Sócrates. teve nenhuma experiência do mundo
inferior. Mas o que fazer com sua
Na verdade, há outras passagens
alegação de conhecer “que é errado e
que devem nos fazer duvidar que
vergonhoso fazer o mal [e]
Sócrates esteja comprometido com
desobedecer a seus superiores?” Se
(P) ou (D), e mais ainda com a
isso é algo que Sócrates sabe, por que
conjunção de (P) e (D). Considere a
não deveria contar como algo “belo e
seguinte passagem da Apologia:
bom”? Ademais, por que não deveria
T8. Por certo é a mais censurável igno-
contar como um contra-exemplo claro
rância crer que se sabe o que não se a (P)?
sabe. É talvez neste ponto e a este
respeito, cidadãos, que sou diferente
da maioria dos homens e, se fosse
reivindicar ser mais sábio do que

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Sugiro que o “primeiro nível” que Assim, T8 parece renegar (P), assim
Sócrates alega ter aqui poderia ser como T7 parecia renegar (D).
sujeito ao mesmo tipo de
questionamento que ele põe a seus A LEITURA APORÉTICA
interlocutores nos diálogos
“definicionais” que estamos Haveria então um outro modo de ler
examinando. Ou seja, Sócrates estas passagens nas quais Sócrates
poderia perguntar “o que é errado?” parece comprometer-se com (P) e
ou “o que é vergonhoso?”. Se devesse (D)? Penso que sim. De fato, a leitura
responder estas questões a si próprio que tenho em mente é muito natural.
ou a outros, pode-se estar seguro que Podemos entender que Sócrates não
nem ele nem seus interlocutores está afirmando que o conhecimento
seriam capazes de apresentar, de definicional é anterior ao conheci-
modo informativo, as condições mento das instâncias e ao
necessárias e suficientes para que conhecimento das conexões
uma ação conte como errada ou como essenciais, mas somente perguntando
vergonhosa. Não possuindo esta como é possível saber, por exemplo,
compreensão, ele e seus que x é pio e y é justo, ou que piedade
interlocutores não possuiriam o tipo e justiça são virtudes, a menos que se
de conhecimento que ele admite não saiba já em um modo informativo, isto
possuir, e é sábio por admitir que não é, não trivial, o que são piedade e
possui, ao passo que outros nem justiça. Vou chamar esta leitura de tais
mesmo se dão conta que não o passagens uma “leitura aporética”.
possuem. Contudo, apesar disso tudo, Minha ideia é que Sócrates usa a
Sócrates claramente alega saber que é questão para exprimir uma
errado ou vergonhoso causar dano e perplexidade (aporia) sobre como se
desobedecer a seus superiores. pode ter conhecimento que x é F ou
que F-dade é G sem ter um
Assim, eis aqui um exemplo de conhecimento anterior do que é F-
Sócrates alegando conhecimento que dade.
uma ação é errada ou vergonhosa,
ainda que, como suspeitamos, tenha Vimos que Sócrates sente-se
de admitir que lhe falta o atraído pela ideia que reconhecemos
conhecimento (belo e bom) do que instâncias de F-dade fazendo apelo a
torna uma ação errada e vergonhosa. um paradigma ou modelo que temos

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em nossas mentes. Dado este modelo é, se não for capaz de prover, de modo
de reconhecimento das instâncias, há informativo, as condições necessárias
somente um pequeno passo para a e suficientes para que algo seja bom
conclusão que eu posso saber que x é [ou belo]. Porém, não precisa ser
F se e somente se compreendida deste modo. Pode ser
tomada como uma questão de fato,
1. tenho disponíveis para mim, uma questão que exprime uma
imediatamente, de um modo perplexidade ou aporia acerca de
informativo, condições necessárias como alguém poderia saber que x é
e suficientes para que algo ou uma instância de F-dade sem ter
alguém seja F e determinado que x satisfaz os critérios
2. creio corretamente que x satisfaz para ser F Assim, em minha leitura
estas condições necessárias e aporética, Sócrates não está
suficientes. afirmando que o conhecimento
definicional é anterior; ao invés disso,
É importante notar aqui que, ele está exprimindo perplexidade
caracteristicamente, estas passagens sobre como poderia ser de outro
nas quais Sócrates é suposto modo, ou seja, como alguém poderia
comprometer-se com a Prioridade do reconhecer instâncias sem um
Conhecimento Definicional têm a conhecimento anterior dos critérios
forma de uma questão. Assim, em T6, apropriados.
Sócrates diz que seu parente lhe
perguntará: Se dermos à Prioridade do Conhe-
cimento Definicional a leitura que
T9. Como você saberá qual fala ou uma proponho, então não precisamos nos
outra ação está bem [ou belamente]
surpreender de encontrar Sócrates
apresentada, quando você ignora o
que é o bem [isto é, o belo]? (Hp. Ma. por vezes renegando (P) ou (D), ou
304d8-e2) ambos, como em T8. Considere uma
outra passagem da Apologia. Ela
Comentadores tendem a tomar esta ocorre depois que o tribunal decidiu
questão como uma questão retórica. que Sócrates é culpado das acusações
Ou seja, tomam seu conteúdo como que lhe foram feitas. Para
sendo isto: você não pode saber qual compreender esta passagem,
fala ou outra ação é boa [ou bela] se devemos compreender uma
for ignorante do bem [ou do belo], isto característica do sistema ateniense de

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justiça (ver o capítulo Platão e a Lei). ainda que não possa dar, de modo
De acordo com este sistema, se o informativo, as condições necessárias
acusado é declarado culpado, a parte e suficientes para que algo seja um
que o acusou propõe uma pena e a mal. Assim, em minha leitura
parte declarada culpada propõe uma aporética do Princípio da Prioridade
pena alternativa. O tribunal tem então do Conhecimento Definicional,
de aceitar uma das duas propostas; Sócrates estaria autorizado a
ele não pode escolher uma punição de acompanhar a sua asserção em TIO
sua própria lavra. Meleto, o acusador com esta questão: “como posso saber
de Sócrates, propõe a pena de morte que a prisão seria um mal, se não
e Sócrates tem de propor uma pena posso dizer o que é ser um mal para
alternativa. Deve ele propor algum algo?” Porém, ele não estaria forçado,
período de prisão? O tribunal poderia sob pena de inconsistência, a negar
aceitar tal pena. Eis parte do que que tem tal conhecimento.
Sócrates diz:
DIZENDO UMA MENTIRA
TIO. Visto que estou convencido de não
ter causado dano a ninguém, não vou Meu modo favorito para ilustrar o uso
causar dano a mim mesmo dizendo
que mereço algum mal e fazer tal
aporético do Princípio de Prioridade
proposição contra mim mesmo. O que Definicional consiste em contar uma
devo temer? Que eu deva sofrer a história pessoal acerca de uma
punição que Meleto propôs contra tentativa de fornecer, de modo
mim, da qual digo que não sei se é boa informativo, as condições necessárias
ou má? Devo eu então escolher de
preferência a isso algo que eu bem sei
e suficientes para dizer uma mentira.
(eu oida) que é um mal e propor tal Em minha aula, meus estudantes e eu
punição? Prisão? Por que deveria viver propusemos o que chamo a “Análise
em prisão, sempre sujeito às ordens Padrão da Mentira” (APM), que é a
dos onze magistrados? (37b2-c2) seguinte:

Sócrates dá razões, ao final do (APM) Ao dizer para B que p, A diz uma


julgamento, para explicar sua mentira se e somente se (i) é falso que
incerteza se a morte é um bem ou um p;
mal. Contudo, ele pensa saber muito
bem que a prisão seria um mal. Ele (ii) A crê que é falso que p; e
deve pensar que pode saber isso, (iii) ao dizer para B que p, A pretender

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enganar B. amigo de James, se tinha visto James


fazer a arte ou não. “Não, não vi
Após minha turma e eu James fazer nada disso”.
concordarmos que esta é a melhor
análise que podemos dar do que é Eu e minha turma concordamos
dizer uma mentira, apresento a que, ao dizer isso, eu tinha mentido.
seguinte história. Porém, ao dizer isso, não tinha a
intenção de enganar o escoteiro
Quando estava em um chefe. Sabia que ele tinha evidência
acampamento de escoteiros em um fortíssima que James era o culpado.
verão, todos os oito escoteiros de Porém, também sabia que ele não
minha barraca ficaram amigos, exceto pensava que seriajusto punir James a
um, Delbert. Delbert não ficou amigo menos que uma testemunha ocular
de nenhum de nós. Nenhum de nós declarasse que James era o culpado.
gostava dele. Assim, eu disse que não tinha visto
James colocar a cobra na cama de
Numa noite, meu melhor amigo, Delbert simplesmente para protegê-
James, pôs uma falsa coral sob a lo de toda punição, não para enganar
coberta do colchão de Delbert. Eu o vi o escoteiro chefe se, de fato, James
fazer isso. Mais tarde, quando Delbert era o autor do feito. Assim, o que eu
se deitou e sentiu a cobra gosmenta, fíz não satisfaz a terceira condição de
deu um berro e saiu correndo da (APM). Tampouco minha classe ou eu
barraca. No dia seguinte, para a conseguimos melhorar (APM) de
alegria de seus companheiros de modo a acomodar o caso de Delbert.
barraca, Delbert telefonou para sua Assim, não podemos dizer o que torna
mãe e voltou para casa. este caso um caso de dizer uma
mentira. Contudo, eu tinha mentido.
O escoteiro chefe tinha todas as De fato, diria que sei que menti
razões para suspeitar que James, o Porém, como posso saber que menti
único aficionado por cobras do se não posso dar de modo
acampamento, tinha sido o autor do informativo as condições necessárias
feito. Porém, pensava que não po- e suficientes para dizer uma mentira?
deria punir James a menos que tivesse Não sei. Estou perplexo, estou em
uma testemunha ocular do feito. aporia.
Assim, ele perguntou a mim, o melhor

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Segundo minha interpretação Formas que Sócrates, nos primeiros


das negações socráticas de diálogos, tinha tentado fazer com que
conhecimento nos primeiros diálogos seus interlocutores o ajudem a
de Platão, o belo e bom “definir” (ver o capítulo Platão e a
conhecimento que Sócrates nega Reminiscência). No Phaedo, em lOOd,
possuir é o conhecimento do que Sócrates diz que não compreende
toma x um F – isto é, o que toma x pio, mais seus esforços no Hípias Maior de
temperante ou corajoso, ou o que encontrar de modo informativo as
estiver em discussão no diálogo. Dada condições necessárias e suficientes
a plausibilidade prima facie da para to kalon (beleza ou bondade). Ele
Prioridade do Conhecimento fica lá contente em dizer que é pela
Definicional, parece que não se beleza que as coisas belas são
poderia reconhecer instâncias de F- tomadas belas. Ele chama este estilo
dade ou fatos essenciais acerca de F- de explicação “seguro, mas bobo”.
dade sem ter à disposição o que falta Ademais, Platão faz com que Sócrates
a ele e a seus interlocutores nos avance em um outro estilo de
diálogos, ou seja, um conjunto explicação que, como o primeiro,
informativo das condições tampouco requer o conhecimento
necessárias e suficientes para que definicional.
alguém ou algo conte como um F
Contudo, parece que ele pode e de Muitos comentadores
fato reconhece instâncias, assim concordam que o Sócrates do Fédon é
como eu reconheci que o que tinha uma personagem bem diferente do
dito para o escoteiro chefe era uma Sócrates histórico (ver o capítulo
mentira, sem ser capaz de prover uma Interpretando Platão). A situação a
análise satisfatória do que é dizer uma respeito do diálogo Mênon é um
mentira. pouco mais complicada. Porém,
muitos comentadores, se não a
REMINISCÊNCIA maioria, consideram que é um diálogo
de transição, um diálogo que começa
Platão termina por fazer com que sua a abandonar a figura que aprendemos
figura literária, Sócrates, introduza, a conhecer na Apologia. De qualquer
no Mênon e no Fédon, a Doutrina da modo, a ideia de Reminiscência
Reminiscência, segundo a qual temos apresentada nestes dois diálogos
todos um conhecimento latente das abre a possibilidade para podermos,

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pelo menos de modo latente, co- de atividade analítica foi, penso,


nhecer o que são Igualdade, Beleza, genuinamente socrática. Como
Justiça e Piedade sem sermos capazes podemos realmente conhecer que
de oferecer, de modo informativo, as conhecemos algo a menos que
condições necessárias e suficientes possamos prover de modo
para que duas coisas contem como informativo as condições necessárias
iguais ou para que algo ou alguém e suficientes para uma crença contar
conte como belo, justo ou pio. como conhecimento? Contudo, a
resposta ao problema de Gettier
Os filósofos contemporâneos sugere fortemente que ninguém é
nossos que empreendem, hoje, capaz de fornecer as ansiadas
oferecer análises de conceitos condições necessárias e suficientes.
filosoficamente problemáticos estão
bem avisados a não aceitar a Por outro lado, é surpreendente
Prioridade do Conhecimento que as várias análises alternativas
Definicional. Considere, por exemplo, sugeridas para substituir a análise
as tentativas na parte final do século original CVJ do conhecimento tenham
XX de prover uma análise satisfatória sido todas rejeitadas com base em
do que é conhecer algo. Estas contra-exemplos; na verdade, contra-
tentativas continuam um projeto exemplos que quase todos os filósofos
iniciado por Platão. No Mênon e no parecem ter podido reconhecer como
Teeteto, Platão faz com que Sócrates
sugira que o conhecimento é uma 1. casos genuínos de conhecimento
crença verdadeira com explicação que não se ajustam à análise
(logos). O descendente moderno sugerida ou
desta sugestão platônica é a ideia que 2. casos que se ajustam à análise
o conhecimento é uma crença sugerida, mas que não são casos
verdadeira justificada (a “análise genuínos de conhecimento.
CVJ”). Depois que Edmund Gettier
publicou seu conhecido contra- É difícil entender esta situação
exemplo à análise CVJ do sem atribuir algum tipo de prioridade
conhecimento, muitos filósofos ao conhecimento não definicional do
propuseram correções ou substitutos que é o conhecimento. Do mesmo
para a análise original CVJ. A modo, é difícil entender as alegações
motivação por trás desta enxurrada de Sócrates de conhecer isto e aquilo

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sem supor que ele também atribui conhecimento, deve ser tomado ao pé
algum tipo de prioridade ao da letra: renunciou ao conhecimento e
contenta-se em reivindicar não mais
conhecimento não definicional. do que uma crença verdadeira.
(Vlastos, 1994, p. 34)
Volto-me, por fim, a uma breve
revista do que outros filósofos Após discutir estas duas
disseram recentemente acerca da alternativas
ignorância socrática. Início com a
posição sobre a ignorância socrática 1. Sócrates não está sendo sincero
pelo decano dos estudos socráticos de modo a puxar seu interlocutor à
do século XX, Gregory Vlastos. discussão e
2. Sócrates realmente quer dizer que
VLASTOS nada sabe –, Vlastos propõe uma
terceira alternativa.
Vlastos inicia seu artigo “A negação de
conhecimento por parte de Sócrates” Ele distingue dois sentidos dos verbos
estabelecendo duas posições opostas gregos relevantes para “saber”. No
sobre a questão de como devemos que poderíamos chamar “sentido
entender as alegações de Sócrates de forte” desses verbos, que Vlastos
ignorância. Ele escreve: marca com um “C” subscrito, só
sabemos aquilo de que estamos
Nos primeiros diálogos de Platão,
infalivelmente certos. No sentido
quando Sócrates diz que não tem
conhecimento, fala ou não fala fraco, que ele marca com um “E”
seriamente? A posição padrão é que subscrito, podemos saber tudo o que
não. O que pode ser dito em prol desta tiver sobrevivido ao exame elêntico.
posição está bem formulado em Gulley
(1968): a profissão de ignorância de De acordo com a proposta de
Sócrates é “um expediente para
encorajar seu interlocutor a buscar a
Vlastos, é do seguinte modo que
verdade, fazê-lo pensar que está se devemos entender as alegações de
juntando a Sócrates em uma viagem Sócrates de conhecimento e suas
de descoberta” (p. 69). Mais negações de conhecimento:
recentemente, a interpretação oposta
encontrou um advogado de grande Quando ele diz que conhece algo,
clareza: Terence Irwin. Em seu livro A refere-se ao conhecimentoE; quando
Teoria Moral de Platão, ele sustenta diz que não sabe nada –
que, quando Sócrates nega ter

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absolutamente nada, “grande ou Na primeira interpretação de


pequeno”... refere-se ao “conhecer”, (a) significa:
conhecimentoc; quando diz que não
tem conhecimento de um tópico
particular, pode estar dizendo ou que, a1) Nem Sócrates nem seu
neste caso, como em outros, não tem interlocutor estão infalivelmente
conhecimentoc e não busca nenhum certos de algo que tenha algum
ou que o que lhe falta no tópico é valor.
conhecimentoE, o qual, com boa sorte,
poderá ainda alcançar em uma
investigação ulterior. (Vlastos, 1994, p. Sem dúvida que Sócrates bem
58). que poderia concordar com (al).
Porém, como o próprio Vlastos toma
A sugestão de Vlastos de eliminar claro, o exame socrático dos
a ambiguidade tem apelo imediato. interlocutores não visa a determinar
Porém, contém várias dificuldades. se eles estão infalivelmente certos de
Em primeiro lugar, Sócrates nunca diz algo. Ao invés disso, visa a determinar
nos primeiros diálogos platônicos algo se alguma das crenças do interlocutor
que sugira que pense estar usando um pode sobreviver a um exame elêntico.
verbo para “conhecer” em dois Assim, (al) não apreende realmente
sentidos. Especificamente, nunca diz uma parte importante do resultado
algo como isto: “em um sentido eu sei, relatado em Tl.
mas, em outro, não sei”. Ademais,
nunca diz “eu sei e não sei”, o que A outra opção de desambiguação
seria um modo natural de assinalar que Vlastos sugere para entender
que está usando “conhecer” em dois “conhece” em (a) é apreendida nesta
diferentes sentidos. elucidação:

Mais uma dificuldade: a a2) Nem Sócrates nem seu


eliminação da ambiguidade de um interlocutor têm qualquer crença
sentido forte e de um sentido fraco de sobre algo que tenha sobrevivido
“conhecer” nos permite entender de ao exame elêntico.
dois modos esta implicação de Tl:
Desta vez, o problema é que, de
a) Nem Sócrates nem seu interlocutor acordo com Vlastos, (a2) não é uma
conhecem algo que tenha algum asserção verdadeira. De fato, seu
valor. esforço de resolver, como supõe o

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“paradoxo” das “negações de conhe- Conhecimento Definicional em sua


cimento” socráticas, reside em parte forma mais completa, ou seja, como a
em isolar um sentido fraco dos verbos conjunção não qualificada de CP) e
gregos para “conhecer” nos quais (D). Assim, em sua visão, Sócrates não
Sócrates conhece uma variedade de pode consistentemente alegar que
coisas, de fato todas as coisas que sabe de um dado caso,x, quexéFa
sobreviveram ao exame elêntico. menos que possa prover de modo
Assim, (a2), de acordo com Vlastos, informativo as condições necessárias
seria simplesmente falso. Ele insiste e suficientes para que algo ou alguém
que há muitas coisas que Sócrates conte como F Nem pode ele
pode admitir que conhece no sentido consistentemente alegar que conhece
fraco. alguma F-dade que é G, a menos, de
novo, que possa prover de modo
BENSON informativo as condições necessárias
e suficientes para ser F.
Hugh Benson, em seu estudo
importante da epistemologia A posição de Benson fica particu-
socrática, A Sabedoria Socrática, larmente clara no modo como ele
propõe uma posição clara e plausível trata a passagem na Apologia em que
sobre como entender as alegações Sócrates relata o exame que fez dos
socráticas de ignorância. “Sustento”, artesãos. Eis a passagem:
escreve ele, “que a profissão de
ignorância de Sócrates é de fato Tll. Por fim, fui ver os artesãos, pois
sincera e que, enquanto seu escopo é estava ciente que conhecia
praticamente nada e sabia que
bem largo, talvez mais largo do que descobriria que eles tinham
muitos estudiosos aceitariam, vejo conhecimento de muitas coisas belas.
pouca razão ou evidência para Nisso não estava enganado; co-
entender seu escopo como universal” nheciam coisas que eu não conhecia e,
(Benson, 2000, p. 168). Benson nesta medida, eram mais sábios do
que eu. Mas, senhores jurados, os
acrescenta que deixa indeterminado bons artesãos me pareceram cometer
“a natureza precisa do conhecimento o mesmo erro que os poetas: cada um,
que Sócrates nega”. por conta do sucesso em sua arte,
pensava a si mesmo como muito sábio
Como já vimos, Benson sustenta que em outras coisas de muita importância
e este erro de sua parte se sobrepunha
Sócrates aceita a Prioridade do

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à sabedoria que possuíam... (22c9-el) Thomas C. Brickhouse e Nicholas D.


Smith discutem longamente o que
E eis o núcleo da leitura que eles denominam o “paradoxo da
Benson faz de Tll: ignorância socrática”. Ao identificar
as alegações socráticas de ignorância
Novamente, o que distingue Sócrates
como “paradoxais”, Brickhouse e
dos artesãos... é sua avaliação correta
do que ele não sabe. Ele não é mais Smith dão peso ao que Sócrates alega
sábio do que eles porque conhece mais conhecer de fato e também ao que
do que eles... Antes, é mais sábio do age como se soubesse, assim como ao
que eles porque eles pensam que que nega conhecer. Como assinalam,
conhecem coisas, em particular,
“para alguém que alega ser ignorante,
“outras coisas de muita importância”...
que eles não conhecem, ao passo que Sócrates tem uma capacidade
Sócrates não pensa assim [isto é, não impressionante de discernir ig-
pensa que conhece estas coisas norância e confusão nos outros”
importantes]. (Benson, 2000, p. 170) (Brickhouse e Smith, 1994, p. 31-2).
Eles discutem também um bom
Na leitura de Benson, Sócrates é número de passagens nas quais
um cético, não no sentido de crer que Sócrates alega saber, muitas das quais
nada pode ser conhecido, mas no já discutimos aqui.
sentido que, como crê, ele quase nada
sabe e encontrou apenas alguns No lugar de supor, como fez
poucos que de fato sabem algo, ou Vlastos, que Platão usa os termos
seja, os artesãos. Eles sabem “muitas para “conhecer” em dois sentidos
coisas belas”; contudo, mesmo os diferentes, Brickhouse e Smith
artesãos têm, pensa Sócrates, menos sustentam que Sócrates reconhece
sabedoria do que ele, já que pensam dois tipos diferentes de
que conhecem muitas coisas que não conhecimento, “um que toma sábio
conhecem, ao passo que Sócrates não quem o possui e outro que não”
pensa que sabe o que, de fato, ele não (1994, p. 31). Em função do fato que
sabe. Sócrates de fato alega ter um tipo de
sabedoria, ainda que ela consista
BRICKHOUSE E SMITH somente em dar-se conta que não
sabe o que os outros pensam que
No belo estudo da filosofia de sabem, Brickhouse e Smith precisam
Sócrates, O Sócrates de Platão, também reconhecer dois tipos de

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sabedoria, a meramente humana e a que maneira definir “rapidez” (192a-


divina. Assim, na leitura deles, b) e, no Mênon, alegando saber de
quando Sócrates nega ter que maneira definir “figura” (76a).
conhecimento, o tipo de Porém, não pode fazer o mesmo com
conhecimento que nega ter é o tipo “virtude”.
que lhe daria um tipo superior de
sabedoria. O que ele admite que tem Quanto ao Princípio de
carrega consigo o reconhecimento Prioridade do Conhecimento
que lhe falta o tipo superior de Definicional, Brickhouse e Smith
conhecimento. negam que Sócrates esteja
comprometido com uma versão forte
Retomando a expressão grega de tal princípio. Eles escrevem:
para “como as coisas são”, que
Sócrates usa nos primeiros diálogos, Argumentamos que há um sentido em
que Sócrates não crê que se saiba algo
Brickhouse e Smith caracterizam o
da justiça a menos que se conheça a
conhecimento que Sócrates nega ter definição. Em sentido contrário, ele
como um conhecimento de “como pensa que se pode ter um tipo de
algo é”, isto é, o que toma algo ser o conhecimento – o tipo que não toma
caso (1994, p. 34-45). O que têm em alguém sábio – por meio de
adivinhação, por meio de exame
mente parece estar muito próximo do
elêntico e por meio da experiência
que chamamos “conhecimento cotidiana. (1994, p. 60)
definicional”. Assim, a ideia deles é
que Sócrates pode saber, talvez por CONCLUSÃO
adivinhação, por percepção ou talvez
de algum modo por meio de um Para concluir, gostaria de dizer algo a
exame elêntico, que algo é o caso sem respeito da relevância filosófica da
ter a sabedoria que viria com saber o ignorância socrática em cada uma das
que faz com que seja o caso. interpretações que discuti. Cada uma
delas, deve-se notar, toma as
Brickhouse e Smith põem outra alegações socráticas de ignorância
restrição ao tipo de conhecimento como sinceras. Muitos
que pensam que Sócrates nega ter. comentadores, todavia, dos tempos
De acordo com eles, é o antigos ao presente, supuseram que
conhecimento da virtude. Eles leem estas alegações ou não eram sinceras
Sócrates no Laques alegando saber de ou

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eram meramente irônicas. Assim, sabe. A sabedoria a que postula


Charles Kahn escreve de Sócrates: Sócrates, na leitura de Vlastos, é a
consciência que ele não sabe, no
Se ele examina com sucesso seus sentido forte de “saber”, o que os
concidadãos atenienses a respeito da
outros pensam saber.
virtude e do bem viver, Sócrates deve
saber algo a respeito da excelência
humana e, mais geralmente, algo A principal lição moral a ser
sobre o que é bom e o que é mau. Deve retirada da interpretação de Vlastos
possuir o tipo de conhecimento que é das várias alegações de ignorância
benéfico para os seres humanos e que socrática nasce da relevância
resulta em uma vida feliz. Na Apologia
[contudo], toda alegação de tal
filosófica de procurar mudanças de
conhecimento fica escondida por trás sentido. Se um filósofo usa uma
da máscara irônica de ignorância. expressão chave, como “conhecer”,
(Kahn, 1996, p. 201) em dois sentidos significativamente
diferentes, então é certamente
Embora este modo irônico de importante reconhecer esta
entender as alegações da Ignorância mudança.
Socrática seja digna de exame e
avaliação, não busquei fazer isso aqui. A principal importância filosófica da
ignorância socrática na interpretação
Das quatro interpretações da de Benson parece residir em um
alegação socrática de ignorância que reconhecimento que pode haver
discuti anteriormente, a sabedoria em compreender as
interpretação que Gregory Vlastos implicações céticas de se ater
propõe é, pode-se dizer, a mais firmemente à Prioridade de
deflacionária. É também a mais Definição. O Princípio da Prioridade
simples. De acordo com esta leitura, do Conhecimento Definicional pode
tudo o que Sócrates quer dizer inicialmente ser plausível, dado o
quando faz seus pronunciamentos de pensamento natural que não se con-
ignorância é que há um sentido de seguiria jamais novos casos de
“conhecer” veiculado por vários exemplos de, digamos, coragem ou
verbos gregos, para o qual nem ele piedade, a menos que se tenha em
nem seus interlocutores sabem algo mente, de modo informativo, as
belo ou bom. Neste sentido, é-se condições necessárias e suficientes
infalivelmente certo daquilo que se para que um ato ou uma pessoa conte

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

como corajoso ou pio. Por outro lado, Princípio da Prioridade da Definição é


a menos que se saiba primeiro que caracteristicamente posto como uma
certos atos ou pessoas sejam questão: “como pode você saber que
corajosos, é difícil ver como x é F, se você não sabe o que é F-
poderíamos vir a conhecer o que é a dade?” A perplexidade a que esta
coragem. Benson chama esta última questão pode dar expressão é algo
dificuldade “o problema da que motiva e infecta a análise
aquisição”. Na compreensão de filosófica. Motiva a análise ao
Benson da epistemologia socrática, encorajarmos a procurar uma
Sócrates mantém a Prioridade do validação epistêmica de ter de modo
Conhecimento Definicional e significativo as condições necessárias
encontra consolo no pronunciamento e suficientes para dizer que xéF.
do oráculo interpretando-o como Infecta a análise quando falhamos em
dizendo que pelo menos ele tem a nossas tentativas em apresentar tais
sabedoria de não pensar que conhece condições, sugerindo que, mesmo
algo importante. para o que pensamos ser um caso
padrão de um F, não sabemos
De acordo com Brickhouse e realmente o que o faz um F
Smith, a importância filosófica das
alegações de ignorância socrática Em meu exemplo, depois que
inclui a ênfase que ela põe para nós de minha turma e eu Demos o melhor
se dar conta que deve haver outros para sugerir de modo informativo as
caminhos para o conhecimento além condições necessárias e suficientes
de aplicar de modo informativo a para que algo conte como contar uma
novos casos as condições necessárias mentira, temos de conceder que
e suficientes para ser F. Eles encontramos um contra-exemplo.
mencionam especificamente que Neste caso, prefiro resistir ao
podemos receber o conhecimento ceticismo e dizer que sei que preguei
como uma dádiva dos deuses e que uma mentira, embora o que fiz não
podemos colher algum conhecimento contaria como uma mentira segundo
da experiência cotidiana. a minha melhor tentativa de oferecer
uma análise do que é mentir.
A interpretação aporética da
ignorância socrática que defendi aqui Minha situação com respeito a
inclui chamar atenção ao fato que o dizer uma mentira é, penso, típica do

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que ocorre na análise filosófica. Se NOTAS


investigo o assunto com suficiente
diligência, posso esperar encontrar As traduções de Platão foram retiradas de J.
M. Cooper (ed.) Plato: Complete Works
um ou outro contra-exemplo à minha
(Indianapolis: Hackett, 1997).
melhor tentativa de dizer o que é uma
causa, o que é livre-arbítrio, o que é 1. Neste ensaio, vou seguir a tradição do co-
justiça ou o que é F-dade, para toda F- mentário e usar “ignorância” para designar
dade filosoficamente interessante. simplesmente a falta de conhecimento.
Posso mesmo esperar estar Assim, mesmo de uma pessoa com
somente crenças verdadeiras pode ser dito
inteiramente confiante que sei que o
ignorante neste sentido.
contra-exemplo é um contra- 2. “... Porque quem tiver sido educado
exemplo. Profissões de ignorância corretamente na música e poesia terá um
socrática são importantes para sentimento agudo quando algo tiver sido
apontar para esta perplexidade: se omitido de algo e quando não for feito
belamente ou produzido belamente pela
não posso oferecer de modo
natureza. E, visto que ele tem o correto
informativo as condições necessárias desgosto, apreciará as coisas belas, irá
e suficientes para x ser F, como posso sentir-se agradado por elas, as receberá em
sua alma e, sendo alimentado por elas, se
1. saber que x é F ou tornará belo e bom. Ele objetará
corretamente ao que é vergonhoso,
2. saber que F-dade é G?
odiando-o quando ainda é jovem e incapaz
de apreender a razão, mas, tendo sido
Porém, também gera esta educado deste modo, acolherá a razão
perplexidade anexa: como posso quando ela vier e a reconhecerá facilmente
esperar encontrar de modo por conta de sua afinidade com ele” (R. III
informativo quais são as condições 401el-402a4).
necessárias e suficientes para ser F a
menos que já conheça pelo menos de REFERÊNCIAS E LEITURA
alguns casos, x,yez, que são eles todos COMPLEMENTAR
F e, de casos instrutivamente
Benson, H. (2000). Socratic Wisdom: The
similares u, v e w que eles são todos Model ofKnowledge in Plato’s Early
não F? Deste modo, a sabedoria Dialogues. New York: Oxford University Press.
socrática leva a uma forma do Brickhouse, T. C. e Smith, N. D. (1994). Plato’s
Paradoxo da Investigação (ver o Sócrates. New York: Oxford University Press.
capítulo O Conherímento e as Formas
Geach, PT. (1966). Plato’sEuthyphro: an
em Platão). analysis and commentary. The Monist 50, pp.

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

369-82.
Gulley, N. (1968). The Philosophy of Sócrates.
London: Macmillan.
Irwin, T. (1977). Plato’s Moral Theory: The
Early and Middle Dialogues. Oxford: Oxford
University Press.
Kahn, C. H. (1996). Plato and the Socratic
Dialogue. Cambridge: Cambridge University
Press.
Vlastos, G. (1994). Sócrates’ disavowal of
know- ledge. In M. Bumyeat (ed.) Socratic
Studies (pp. 39-66). Cambridge: Cambridge
University Press.

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Hugh H. PLATÃO
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9. Platão e a CDiscurso da Metafísica: 26). Mais


remotamente, a reminiscência é
reminiscência também um precedente para a
distinção kantiana entre o
CHARLES KAHN conhecimento a priori e a posteriori.
Em consequência destas influências
A doutrina da reminiscência tem um complexas, o legado da doutrina de
papel central em três diálogos Platão pode ser reconhecido hoje em
platônicos, Mênon, Fédon e Fedro; a duas áreas distintas da discussão
doutrina, porém, é formulada contemporânea: na epistemologia, na
diferentemente a cada vez e no questão do conhecimento a priori,
contexto de um problema diferente. que tem por foco o status cognitivo da
O intérprete deve decidir se Platão lógica e da matemática, e na
apresenta três doutrinas psicologia, em questões de inatismo,
essencialmente diferentes da por exemplo na aquisição da
reminiscência ou três apresentações linguagem. Estes dois problemas são
parciais de uma única teoria. Em inteiramente distintos, ainda que
ambas as posições, uma tarefa possa haver uma conexão importante
suplementar será a de conectar a entre eles. (Para uma sugestão
reminiscência, entendida de um interessante que o status a priori da
modo, às explicações dadas do matemática e da lógica pode ser
conhecimento em outros diálogos explicado em termos de um inatismo
platônicos, como a República e o psicológico, ver Horwich, 2000, p.
Teeteto. 168.) Como uma questão em
epistemologia, o a priori é um
Antes de tudo, uma palavra sobre problema da justificação ou de ter
a importância filosófica da doutrina. A direito a um tipo de reivindicação de
reminiscência platônica é o conhecimento: há proposições
antecessor da teoria das ideias inatas verdadeiras cuja verificação não
desenvolvida por Descartes e Leibniz depende de uma evidência empírica?
no século XVII, tendo ambos O inatismo, por outro lado, é um
reivindicado Platão como seu problema na psicologia: como se
predecessor. Assim, Leibniz declarou explica o comportamento complexo
que adotaria a doutrina do Mênon envolvido na aquisição de uma
“retirado o mito da pré-existência” língua? Qual é a capacidade cognitiva

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especificamente humana que explica ambas as questões modernas


o fato que bebês normalmente surgirão.
aprendem a língua falada na casa em
que crescem, ao passo que isso não A REMINISCÊNCIA NO MÊNON
ocorre com os filhotes de gatos e
cachorros? O problema do inatismo O tópico da reminiscência é
na psicologia é obviamente mais introduzido por primeira vez em
amplo do que a questão da aquisição resposta ao paradoxo de Mênon da
da linguagem, mas este exemplo investigação: como alguém procura
toma claro que estamos lidando com aquilo que não conhece? (A
uma questão empírica da psicologia prioridade do Mênon está indicada
cognitiva ou do desenvolvimento e por o que vale como uma referência a
não com a condição epistêmica da ele em Phd. 73a.) O desafio de Mênon
lógica e matemática. Temos de é feito no contexto da busca da
reconhecer não somente que estas definição da virtude, uma busca
duas questões são inteiramente governada pelo princípio da
distintas, mas também que a prioridade da definição – o princípio
distinção não foi feita nem no tempo que sustenta que não se pode
de Platão nem no séc. XVII. Foi Kant conhecer algo sobre X a menos que se
quem primeiro claramente distinguiu saiba o que é X (ver o capítulo A
o problema do conhecimento a priori Ignorância Socrática). Porém, a
das questões de psicologia empírica. discussão da reminiscência de fato
Temos de guardar na mente que segue a proposta de Mênon de deixar
Platão, ao propor estas questões pela para trás a questão de definir a
primeira vez, não pôde dar por virtude e voltar-se à questão mais
suposta esta distinção pós-kantiana ampla de aprender algo.
entre epistemologia e psicologia ou
entre filosofia e ciência natural. A exemplificação de Sócrates de
Portanto não podemos simplesmente uma reminiscência bem-sucedida diz
identificar a teoria de Platão com respeito a um problema em
questões de epistemologia ou com geometria: como duplicar a área de
questão da psicologia do desenvolvi- um quadrado qualquer. O aprendiz
mento. A discussão de Platão está (ou “reminiscente”) é um jovem
localizada em um território neutro, escravo sem formação. Os principais
fornecendo as sementes das quais estágios da reminiscência são os

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seguintes: no breve relato de Sócrates se ele tem


em mente um estágio de
1. o escravo falsamente crê que conhecimento para uma proposição
conhece a solução; particular independentemente da
2. o escravo reconhece que sua geometria como um todo.) Assim, o
crença é falsa e se dá conta de sua conhecimento científico,
ignorância; representado aqui pela geômetra, é
3. o escravo é levado a ver que certa tido como o objetivo final do
linha (a saber, a diagonal do processo. Porém, a única
quadrado original) resolve o reminiscência realmente
problema; ele agora tem a crença exemplificada é a aquisição da crença
verdadeira que o quadrado com verdadeira da solução de um
esta linha tem duas vezes a área do problema particular. Como devemos
primeiro quadrado. interpretar este exemplo? E qual é o
conteúdo “destas doxai verdadeiras
Isto é o que o exemplo faz, mas que estavam nele” (85c4)? Céticos
Sócrates oferece a possibilidade de alegaram que o escravo só está
um quarto estágio: usando os olhos para ver que o novo
quadrado é duas vezes maior. Vlastos
4. “se alguém o questionar fez a sugestão mais plausível que a
reiteradamente e em várias reminiscência significa aqui “todo
direções a respeito dos mesmos aumento de nosso conhecimento que
temas, terminará por ter um resulta da percepção de relações
conhecimento acurado dessas lógicas” (Vlastos, 1995, p. 157). Penso
coisas não inferior ao de que isto está correto em princípio,
ninguém” (Men. 85cl0). mas é muito limitado. Para cobrir o
que está ocorrendo na lição de
Assim, os estágios da reminiscência se geometria, a reminiscência deve
movem da crença falsa ao significar não somente a percepção de
reconhecimento da ignorância, daqui relações formais, mas também a
à crença verdadeira e (se levada capacidade de fazer julgamentos de
inteiramente a termo) da crença verdade e falsidade, de igualdade e
verdadeira ao conhecimento similaridade. São esses julgamentos
completo, no caso o conhecimento da que são “as doxai que estavam nele”
geometria dos planos. (Não fica claro e que foram trazidas à luz pelo

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questionamento de Sócrates. Mais níveis de aprendizagem: entre o


em geral, podemos dizer que a pensamento ordinário, realizado por
reminiscência está aqui pela qualquer um, e o conhecimento
racionalidade ou logos no sentido filosófico das Formas transcendentes.
aris- totélico, como a capacidade Scott quer restringir a reminiscência
distintivamente humana de ao ultimo, mas reconhece que o
compreender o discurso e de fazer um Mênon não é explícito sobre isso, já
uso racional da percepção sensível. O que não faz menção às Formas. Ele
que é requerido do escravo é corretamente reconhece que o texto
precisamente que ele entenda as do Mênon é “indeterminado”; o
questões de Sócrates e que responda diálogo contém somente “um esboço
fazendo julgamentos de igualdade e provisório da teoria” (Scott, 1995, p.
desigualdade com base no que vê. E é 340). O que é claro é que a escolha de
esta mesma capacidade que (como um escravo mostra que a capacidade
Sócrates sustenta) o permitia dominar em questão é bem comum e que a
a geometria se as lições reminiscência representada na lição
continuassem. Assim, se a de geometria obtém somente um
reminiscência é exemplificada na lição mero início de conhecimento
de geometria como interpretada por especializado. Se nosso objetivo
Sócrates, é um processo que inicia consiste em interpretar o Mênon de
com a capacidade de compreender um modo que é compatível com o
questões simples, fazer cálculos Fédon e com o Fedro, podemos tomar
numéricos simples e potencialmente a reminiscência nos três diálogos
terminar com a aquisição de um como uma teoria da racionalidade
conhecimento científico completo. humana, com a racionalidade
Além disso, a capacidade que torna entendida como articulada na clássica
este processo possível pertence em descrição dos três atos do intelecto:
geral a todo ser humano maduro,
como é demonstrado aqui pela 1. apreender conceitos;
escolha de um escravo sem formação. 2. formar juízos;
3. seguir inferências.
Em uma discussão que teve muita
influência, Dominic Scott propôs uma Todas estas três capacidades são
interpretação da reminiscência que implicadas pelo domínio de uma
traça uma forte distinção entre dois língua natural, como o grego, e todas

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Hugh H. PLATÃO
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as três estão exemplificadas nas reminiscência concebida de modo


respostas do escravo às questões de mais largo, como o Fédon mantém.
Sócrates. De um lado, este exemplo
não ilustra a aquisição dos conceitos Também ausente do Mênon é
por uma criança; por outro lado, não qualquer indicação de uma ontologia
apresenta a aquisição completa do para os objetos da reminiscência. O
conhecimento especializado. A lição texto diz somente que a alma, em
de Sócrates no Mênon representa um seus vários nascimentos, “viu todas as
estágio intermediário na realização da coisas, tanto as coisas daqui quanto as
capacidade cognitiva, após o domínio do Hades” (81c6) e que,
de uma linguagem e antes do domínio consequentemente, “possuímos a
da geometria. Porém, não há sugestão verdade das realidades (ta onta) em
no texto que a capacidade seria nossa alma” (86b 1). Que tipo de
diferente para estágios diferentes. realidades está disponível à alma
desencarnada? O Mênon nada nos
Platão não conecta a diz. Mas um pouco de reflexão
compreensão da linguagem com a mostrará que, para dar uma solução
reminiscência no Mênon; ele ao paradoxo de Mênon, esta visão
simplesmente observa que o pré-natal de todas as coisas deve ser
conhecimento do grego por parte do radicalmente diferente da
escravo é um pré-requisito (82b4). No aprendizagem ordinária que a
Fédon, por outro lado, compreender reminiscência deve explicar. (Se a
uma linguagem é dito ser um cognição pré-natal não for
elemento essencial na reminiscência radicalmente diferente, a
(249b7). Assim, encontramos aqui, reminiscência provê somente um
pela primeira vez, a necessidade de regresso, não uma explicação.) Assim,
escolher entre a hipótese de unidade o Mênon pressupõe algo como o
e a hipótese de desenvolvimento ao conhecimento direto por contato,
tratarmos de discrepâncias entre os algo que corresponde à visão das
diálogos (ver o capítulo Interpretando almas desencarnadas descritas no
Platão). O texto do Mênon não Fédon. O que o Mênon não nos diz é
permite decidir sobre este ponto. que esta cognição deve tomar como
Porém, o texto não contém nada que objetos Formas noéticas (ver o
desbanque a posição que a capítulo O Conhecimento e as Formas
compreensão da linguagem é parte da em Platão). Aqui novamente devemos

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escolher entre as suposições de seguir o raciocínio geométrico de


unidade ou de desenvolvimento. O Sócrates, corrigir seus próprios erros e
que Platão tem em mente quando, reconhecer a solução proposta.
mais adiante no Mênon, distingue o Obviamente a aprendizagem da
conhecimento da opinião verdadeira língua é pressuposta neste exemplo. A
por meio do “enlace” que consiste em teoria da reminiscência de Platão é
aitias logismos, o cálculo da causa? estendida à noção mais ampla de
Que tipo de explicação causai ou aitiai inatismo, incluindo a capacidade de
invoca Platão para separar o compreender a linguagem, somente
conhecimento da opinião verdadeira no Fédon. Por outro lado, todo elo
e para caracterizar o objetivo final da entre a reminiscência e a noção
reminiscência? (“Isto, a saber, o epistêmica de conhecimento a priori é
enlace de doxai pelo aitias logismos, é muito mais remota, visto não haver
a reminiscência, como concordamos”, nenhuma preocupação explícita aqui
98a4.) Podem o objetivo da com a justificação de teses sobre o
reminiscência e o critério do conhecimento. Todavia, deve-se
conhecimento ser simplesmente o observar que o exemplo da crença
logos lógico da definição, a explicação verdadeira (e potencialmente
da o-que-é-dade dada em questão e conhecimento) desenvolvido no
resposta, ao invés da Forma Mênon é uma importante proposição
ontológica correspondente? Aqui na matemática, a saber, uma instância
mais uma vez o texto é compatível fundamental do Teorema de
com ambas as suposições (ver o Pitágoras. Assim, o que o escravo
capítulo Definições Platônicas e “rememora” é de fato um item do
Formas). conhecimento a priori, embora tenha-
se dado conta dele somente no
Se perguntarmos agora como a âmbito da opinião verdadeira. Assim,
reminiscência no Mênon se relaciona podemos ver como questões do
com as duas questões modernas do a inatismo e do a priori estão presentes
priori e do inatismo, a conexão com o em germe na explicação da
inatismo é a mais clara das duas. É em reminiscência no Mênon, embora a
virtude de alguma capacidade noção de inatismo esteja mais
humana natural e universal – próxima das preocupações do texto.
independente de um aprendizado Há uma conjunção similar de questões
explícito – que o escravo está apto a de inatismo e de justificação não

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empírica na doutrina correspondente diagramas e de um questionamento


de Descartes: habilidoso que faz apelo à lição de
geometria do Mênon (73a7-b2).
“verdades matemáticas revelam-se a si Contudo, o argumento começa
próprias com tal evidência e
propriamente a partir de uma posição
concordam tão bem com minha
natureza que, quando começo a desconhecida ao Mênon, a saber, a
descobri-las, não me parece que estou existência de Formas e a discrepância
aprendendo algo novo, antes que entre as Formas e seus homônimos
estou lembrando o que já sabia, quero sensíveis. A doutrina das Formas está
dizer, que percebo coisas que já
por todo o diálogo; tinha sido
estavam em minha mente, embora
ainda não tivesse voltado meu implicada anteriormente na descrição
pensamento para elas” (Quinta do objetivo do filósofo como
Meditação). “contemplar as coisas mesmas com a
alma mesma” (Phd. 68e). As Formas
A REMINISCÊNCIA NO FÉDON são introduzidas desde o início em
termos epistêmicos, como realidades
No Mênon, a imortalidade e a pré- (ta ontá) cognoscíveis em
existência da alma foram dadas por pensamento e em reflexão antes que
supostas com base na autoridade dos por percepção sensível (65c-66a).
sábios sacerdotes e sacerdotisas. No (Esta distinção entre dois tipos de
Fédon, a imortalidade é uma questão cognição receberá sua formulação
e será sistematicamente padrão na República como a distinção
argumentada. Um argumento central entre sensação e intelecto, entre
tomará a reminiscência como aisthêsis e nous. A distinção é anterior
premissa: dado que nascemos com a Platão; ver Demócrito Bll DK.) É
certo conhecimento já presente na somente no argumento a partir da
alma, a alma deve ter adquirido este reminiscência que Sócrates começa a
conhecimento em uma existência especificar a distinção ontológica
prévia. (A questão explícita é, pois, o entre as Formas e o que participa
inatismo, mas o argumento pelo delas (74b-c). Esta discrepância no
inatismo está baseado em uma tese nível da realidade é crucial para a
do conhecimento.) concepção de uma psique implicada
no argumento da imortalidade (ver o
A discussão da reminiscência no capítulo A Alma Platônica). O
Fédon começa com a menção de semelhante conhece o semelhante e

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a transcendência da alma é implicada com o reconhecimento da deficiência


por este elo epistêmico, por meio da de pedras e pedaços de pau iguais em
reminiscência, à natureza das Formas. contraste com o Igual em si mesmo
Como insiste Sócrates, (74d-75b) (ver o capítulo As Formas e
“necessariamente, assim como estas as Ciências em Sócrates e Platão). Este
Formas existem, assim também nossa reconhecimento de uma disparidade
alma deve existir antes de termos entre as Formas e os sensíveis que
nascido” (76e2-4, repetido em 76e5, participam delas pertence somente
76e9-77a2 e de novo em 92d7). aos filósofos platônicos, já que a
Literalmente, então, o argumento a maioria das pessoas não tem nenhum
partir da reminiscência demonstra conhecimento explícito das Formas.
somente a pré-existência da alma, Se tal reconhecimento é requerido
que é requerida para o contexto para a reminiscência, a maioria dos
semimítico da reencamação. Porém, seres humanos não rememoraria. (O
o ponto filosófico é mais profundo. A escravo do Mênon certamente não o
função precípua aqui da teoria da poderia.) Por outro lado, o argumento
reminiscência (como o argumento a a partir da reminiscência visa
partir da afinidade em sequência) claramente a apoiar a tese da
consiste em estabelecer a condição imortalidade para as almas humanas
transcendental da alma por meio de em geral e não somente para os
seu elo cognitivo com o ser filósofos. Como devemos interpretar
transcendente das Formas. um argumento que começa com uma
premissa que se aplica somente aos
Até aqui está claro. Os problemas filósofos platônicos e termina com
surgem quando procuramos uma conclusão que diz respeito a
especificar precisamente como a todos os seres humanos? Está
reminiscência conecta a alma com as Sócrates aqui generalizando a partir
Formas. Está a reminiscência das de um grupo pequeno e privilegiado?1
Formas envolvida em atos ordinários Se for isso, o argumento parece
de pensamento e de juízo perceptivo? extraordinariamente fraco.
Ou somente em comparações
explícitas entre a Forma e as coisas Há algo claramente defeituoso
correspondentes que participam neste argumento, mas eu sugiro um
dela? É este último que é enfatizado diagnóstico diferente. Penso que
no texto do argumento, que começa Sócrates está pondo juntos duas teses

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que devem ser propriamente cuidadosamente preparada em 74a6,


distinguidas, uma a respeito da re- onde o juízo de deficiência é descrito
miniscência para filósofos e outra a como um passo adicional (pros-
respeito da cognição para todos os paschein) após o juízo de similaridade.
seres humanos. Somente filósofos No curso do argumento, contudo, a
sabem o que estão fazendo quando distinção esmaece. Sócrates começa
rememoram porque somente filóso- com o juízo de deficiência, já que isto
fos podem distinguir entre Formas e é essencial para estabelecer a
particulares e reconhecer a natureza transcendental das Formas
deficiência dos últimos. Porém, todos como objetos da reminiscência.
os seres humanos implicitamente se Porém, ele termina “referindo todos
referem às Formas em todo juízo os dados sensíveis às Formas” porque
perceptivo. Assim, eles é isto que todos os seres humanos
inconscientemente se referem ao devem fazer ao realizar juízos de
Igual em si mesmo ao julgar que percepção.
pedaços de pau e pedras são iguais. É
por isso que Sócrates pode concluir o Nesta leitura, o argumento está
argumento a partir da reminiscência ainda imperfeito, mas sua
afirmando que “referimos todos os generalidade é justificada pela visão
dados sensitivos (ta ek tôn aisthêtôn quase-kantiana da cognição humana
panta) ao ser das Formas” (76d9). Esta como envolvendo a aplicação de
referência às Formas envolve dois conceitos universais aos dados
reconhecimentos: sensíveis particulares. Este princípio é
muito mais claramente exposto na
1. que coisas sensíveis iguais querem explicação da reminiscência no Fedro,
todas ser como o Igual em si como veremos em breve. Porém,
mesmo; penso que a mesma noção de uma
2. mas elas não conseguem (75b5-8). referência implícita às Formas nos
juízos perceptuais corriqueiros está
O primeiro reconhecimento é também pressuposta no argumento
feito implicitamente por todos os do Fédon, e isto explica sua
homens; por exemplo, pelo escravo generalidade. É exatamente esta
ao fazer juízos de igualdade. O posição que está refletida na menção
segundo juízo é privilégio dos reiterada de referir (anoisein,
filósofos. A distinção é anapheromen) os dados dos sentidos

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às Formas (75b6. 76d9). E esta óbvio a Platão que ele nem sempre
posição também é sugerida pela cuida para que seja explícito (ver o
atenção às Formas de Igual, Maior e capítulo Aprendendo sobre Platão
Menor. No contexto da reminiscência, com Aristóteles).
a menção a estas Formas pode ser
vista como um comentário à lição de A REMINISCÊNCIA NO FEDRO
geometria do Mênon, onde são
precisamente os juízos de igualdade e A afirmação final da reminiscência no
desigualdade que são citados como Fedro é também a mais completa e a
evidência que o escravo está que é formulada de modo mais
rememorando “as opiniões (doxai) preciso. (O Fedro deve ser posterior
que estão nele”. Portanto, a discussão ao Mênon e ao Fédon, já que pertence
da reminiscência no Fédon, que é ao grupo de diálogos basicamente da
claramente introduzida como uma mesma época que a República –
continuação do tópico tratado no Grupo estilístico II, ao passo que o
Mênon, pode ser vista como uma Mênon e o Fédon pertencem ao grupo
expressão mais completa da doutrina pré-República – Grupo estilístico I. Ver
deste diálogo. A inovação crucial é a Kahn, 2002.) A doutrina é introduzida
conexão entre juízo de percepção, aqui não para explicar como ocorre a
como ilustrado no Mênon, e a aprendizagem (como no Mênon) nem
cognição implícita das Formas. Esta para provar a imortalidade da alma
referência implícita às Formas em (como no Fédon), mas antes para dar
todo juízo de percepção é o correlato uma explicação metafísica da
epistêmico da dependência experiência de amar (ver o capítulo
ontológica das qualidades sensíveis às Eros e Amizade em Platão). Esta
Formas correspondentes (Phd. lOOd: versão da teoria é a mais completa
“nada outro a torna bela senão a porque, de um lado, Sócrates oferece
presença ou participação ou outro uma explicação mítica da visão pré-
modo de conexão com o Belo em si natal das Formas que está de algum
mesmo”) (ver o capítulo O modo pressuposta no Mênon e no
Conhecimento e as Formas em Fédon, enquanto, de outro lado, este
Platão). Este paralelismo estrutural diálogo também contém uma
entre cognição e ontologia, entre afirmação explícita da noção de
referir-se às Formas e participar nas racionalidade humana que está,
Formas pareceu provavelmente tão sugiro, implicada pela explicação da

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reminiscência nos outros dois efeito da beleza visível servindo como


diálogos. Nesta perspectiva, o que é um lembrete inconsciente da Beleza
específico à alma humana é a transcendental que nossa alma
capacidade de compreender a contemplou uma vez em sua visão
linguagem conceituai e de fazer juízos pré-natal, “quando viajou com um
unificados com base na percepção deus” em uma magnífica viagem em
sensível. Somente uma alma que teve uma carruagem extracelestial.
a visão pré-natal das Formas pode
renascer em um corpo humano. Um Uma cognição pré-natal é
homem, pois, deve compreender o pressuposta pela própria noção de
que é dito por referência a uma forma reminiscência, mesmo no Mênon e no
Fédon, nos quais tal cognição não é
(kat’ eidos legomenon), partindo de descrita. Porém, uma explicação da
várias percepções sensíveis em experiência pré-natal só pode ser
direção a uma unidade posta junta
pela reflexão (logismos). Isto é a
dada em uma forma mítica, assim
reminiscência destas coisas que nossa como o mito é o único veículo para
alma viu quando estava viajando com descrever o destino das almas após a
um deus. (Phdr. 249b6-c3) morte. O mito da pré-existência no
Fedro responde, portanto, aos mitos
Isto é tão perto quanto Platão do julgamento no Fédon e na
pode chegar para antecipar a noção República. Assim como em outros
moderna de inatismo, especificando, casos, o esplendor imaginativo do
como uma necessidade da natureza quadro mítico é pago com o preço de
humana, a capacidade de aprender e certa inconsistência doutrinai. Por
de compreender a linguagem e de exemplo, se os cavalos no Fedro
levar a termo o pensamento representam os elementos irracionais
conceituai. A doutrina da na alma tripartite de Platão, como fica
reminiscência serve para ligar esta claramente implicado pela luta pela
capacidade epistêmica à metafísica castidade com a qual o relato termina,
de Platão ao representar a então não é claro por que eles
capacidade simbolicamente como a ocorrem na alma dos deuses ou
lembrança de uma visão mítica da mesmo nas almas humanas
realidade não sensível pelas almas desencarnadas. (Fica claro pelo Timeu
desencarnadas. Assim, o abalo de que somente a alma racional é imortal
passar a amar é explicado como o e o argumento a partir da

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

reminiscência no Fédon similarmente que a reminiscência das Formas é uma


se aplica somente à alma que conhece questão de graus. Todos os amantes
as Formas. A República é menos rememoram em algum nível, não
explícita sobre este ponto, mas ela somente os seguidores filosóficos de
aponta à mesma direção no Livro X, Zeus, mas também os seguidores de
quando a alma desfigurada pela Hera, Ares ou Apoio (242c-253b).
comunidade com o corpo é Porém, são os filósofos que usam
contrastada com a alma revelada na estas rememo- rações corretamente
atividade filosófica; é somente esta Çorthôs 249c7) e, por conseguinte, se
última que é “congênere ao divino, ao tomam amantes perfeitos.
imortal e ao ser que é eterno” (61 le).)
Portanto, se somente a alma racional Portanto, a tese do Fedro é, em
é imortal, então os cavalos não devem princípio, a mesma que a do Fédon,
pertencer à alma após a morte. segundo a leitura proposta
Porém, obviamente, os cavalos são anteriormente: há uma noção fraca de
necessários para a maquinaria mítica: reminiscência que se aplica a toda
de que outro modo poderia a alma cognição humana e uma noção mais
viajar com os deuses? forte que é distintiva dos filósofos.
Todos os homens com competência
Podemos detectar uma lingüística devem ser capazes de
inconsistência similar quanto à reconhecer os tipos gerais de coisas
reminiscência, que, de um lado, é significados pelas palavras e é isso o
atribuída a todos os seres humanos que permite que eles unifiquem sua
como uma condição necessária para experiência sensível sob conceitos. É
dar corpo à forma humana, ao passo digno de nota que eidos na passagem
que a frase seguinte poderia ser vista chave citada anteriormente (“um ser
como designando a reminiscência humano deve compreender o que é
como uma prerrogativa dos filósofos: dito de acordo com um eidos”) não é
“donde somente o pensamento de um um termo especial para Forma, mas
filósofo tem as boas asas, pois ele está um termo menos técnico para tipo ou
sempre conectado pela memória tão classe de coisa. (Assim, corretamente,
longe quanto possível com estas Bobonich, 2002, p. 313.) A referência
coisas em conexão com as quais um às Formas está implícita na cognição
deus é divino” (294c4).2 Se ordinária, que simplesmente
continuarmos a ler, todavia, vemos reconhece tipos de coisas, assim como

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uma referência ao Belo em si mesmo Sócrates. (Como Leibniz disse,


está implícito na explicação ordinária corrigindo a fórmula medieval: não há
de amar. Esta é a reminiscência no nada no intelecto que não estava
sentido fraco. A reminiscência no previamente nos sentidos – exceto o
sentido forte, por outro lado, exige próprio intelecto!) Para que os
filosofia. O filósofo é o amante homens façam juízos proposicionais,
perfeito porque somente ele tem ou devem ser capazes de organizar o
pode reaver uma memória múltiplo das percepções sensíveis em
suficientemente vivida da visão pré- unidades conceituais, os
natal para entender corretamente a componentes do logos interno que
dimensão metafísica de sua constituem o pensar. Esta tese é
experiência erótica. Sua situação é sistematicamente desenvolvida no
paralela à do filósofo no Fédon; Teeteto e no Sofista, no qual o
embora no sentido fraco todos os pensamento é interpretado como um
homens devam rememorar, somente logos silencioso e o logos é, por sua
um filósofo pode reconhecer a dis- vez, analisado em sujeito e predicado
crepância entre iguais sensíveis e a (onoma e rhêma, Sph. 262a-e).
Forma em si mesma. Porém, o gérmen desta tese está aqui,
na referência à linguagem e à unidade
Observe que a explicação da conceituai como um requerimento da
reminiscência fraca no Fedro (e alma humana (Phdr. 249b).
também no Fédon, se minha
interpretação estiver correta) implica Portanto, o Mênon, o Fédon e o
que Platão já tem a conclusão que Fedro, a despeito dos diferentes
está tão bem argumentada no problemas filosóficos que examinam,
Teeteto, a saber, que somente a podem ser vistos como estágios
percepção sensível não pode explicar sucessivos na exposição de uma
a crença ou o juízo de percepção doutrina única. O Mênon nos
(doxa), menos ainda o conhecimento. apresenta um caso de juízo de
A mente deve contribuir com algo de percepção ordinário em seu caminho
sua própria lavra. Este era o ponto da para tornar-se um conhecimento
reminiscência, desde o início: além do científico. As fontes pré-natais em
dado sensível, uma outra forma de que devem beber tal cognição não
cognição é necessária para que o são identificas no Mênon, além da
escravo siga a demonstração de alegação que “a verdade das

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realidades está presente na alma”. No A reminiscência domina a discussão


Fédon, as realidades em questão são do conhecimento no Mênon e no
identificadas às Formas, em particular Fédon; ela desaparece inteira na
as Formas do Igual, do Maior e do República, mas reaparece com um
Menor, que de algum modo deveriam papel central no Fedro. Não há
estar disponíveis para o escravo antes nenhuma referência explícita à
de seu nascimento humano. O Fedro reminiscência nem no Teeteto nem no
acrescenta um relato mítico do Timeu, embora possamos reconhecer
contato pré-natal da alma com tais ecos ou análogos da reminiscência em
Formas, juntamente com uma ambos os diálogos. Teria a teoria do
descrição mais precisa das conhecimento de Platão sofrido uma
capacidades cognitivas que tomam mudança fundamental ou encontrou
possível o juízo de percepção, a título ela uma nova expressão que é
de juízos fundados em conceitos de fundamentalmente a mesma
tipos de coisas. No Fédon e no Fedro, concepção? A escolha entre unidade e
a existência de Formas desenvolvimento, que tinha sido
transcendentais é dada por suposta e posta pela variação possível entre as
seus homônimos sensíveis são três versões da reminiscência, nos
concebidos como imagens confronta agora em uma escala maior
(homoiôma no Phdr. 240a6, eidôlon quanto à diversidade entre as várias
250d5) ou participantes (no Fédon). A discussões platônicas do
doutrina da reminiscência está assim conhecimento, com ou sem a
intimamente ligada à teoria das doutrina da reminiscência. Para
Formas em sua versão clássica.3 Pode, localizar o papel que a reminiscência
por conseguinte, parecer paradoxal tem na epistemologia de Platão,
que, na República, onde a teoria das devemos ver brevemente a explicação
Formas é mais integralmente do conhecimento nos outros diálogos,
apresentada, não haja menção à sobretudo na República e no Teeteto.
reminiscência. Voltaremos a este
ponto em breve. No Mênon, a opinião (doxa) e o
conhecimento foram reconhecidos
O LUGAR DA REMINISCÊNCIA NA como estágios distintos na
TEORIA GERAL PLATÔNICA DO reminiscência. Esta distinção é
CONHECIMENTO negligenciada no Fédon e no Fedro,
mas ela volta ao centro do palco no

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Livro V da República, onde (sem opinião, introduzida no Livro V da


referência à reminiscência) a distinção República, é desenvolvida e refinada
entre conhecimento e opinião serve na famosa Linha Dividida do Livro VI.
para introduzir a doutrina das Formas. Os dois tipos de objetos são agora
O conhecimento e a reta opinião distinguidos como o inteligível e o
foram distinguidos no Mênon por sensível, por referência a duas
meio de sua estabilidade relativa (a faculdades paralelas: intelecto (nous)
opinião tende a fugir) e pelo fato que e visão, com a visão funcionando
o conhecimento deve incluir um como uma representante da
relato (logos) de uma causa ou percepção sensível em geral (509d).
explicação (aitia). Esta última As Formas, identificadas no Livro V
condição será agora satisfeita pela como os objetos de conhecimento,
Teoria das Formas. Na República, a estão aqui localizadas na parte
opinião enquanto tal (não somente a superior da subdivisão da seção
reta opinião!) é distinguida inteligível da Linha; o domínio atribu-
primeiramente em termos de sua ído à doxa no Livro V é agora descrito
falibilidade (477e6) e então como coextensivo com a seção visível,
sistematicamente em termos de seu isto é, com o mundo sensível. Esta
objeto. Enquanto o conhecimento nova equação entre doxa e percepção
(gnôsis, epistêmê) tem por objeto o sensível explica por que a República
Ser eterno ou O-que-é (em outras abandonou a restrição do Mênon à
palavras, as Formas), a opinião é reta opinião. Também reflete o fato
cognição O-que-é-e-não é, isto é, o que, nos contextos epistêmicos antes
domínio da aparência sensível e do Teeteto, a discussão de Platão da
mudança (477a-479e), que também é aisthêsis geralmente diz respeito ao
caracterizado como Vir-a-ser (p. ex., juízo de percepção e não à simples
508d7). A dicotomia epistêmica do percepção.
Mênon recebe agora uma base
ontológica na discussão entre Formas Portanto, a Linha Dividida do
e as coisas que participam delas. Livro VI introduz um quadro mais
Nossa cognição das Formas, que, no complexo que a simples distinção
Fédon, envolve reminiscência, é entre conhecimento e opinião no
expressa na República em termos de Mênon e no Livro V A divisão mais
uma visão noética direta. Esta ampla entre intelecto e sentido
distinção entre conhecimento e permite que Platão distinga dois

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Hugh H. PLATÃO
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níveis de cognição noética, dos quais percepção, como “isto é um dedo”.


somente um deles contará por fim Portanto, seria uma correção
como conhecimento (epistêmê). É introduzida no Teeteto o fato de
somente o nível mais alto de reconhecer que uma aisthêsis não
conhecimento, usando o método assistida não pode fazer nenhum juízo
dialético para compreender as (onde um juízo significa algo que pode
Formas e sua fonte incondicional, que ser verdadeiro ou falso) (Sedley, 2004,
representa o conhecimento p. 113, ctando Bumyeat). Não penso
propriamente, ao passo que o nível que o texto da República VII preste
inferior de cognição noética, que está apoio a esta opinião. O contraste em
baseado no método matemático de 523a-525a se dá entre dois tipos de
dedução a partir de premissas atributos perceptuais ou predicados,
assumidas (hypotheses), é etiquetado os que põem e os que não põem
com o termo mais humilde de “arte” problemas conceituais (ao serem
ou “técnica” (technê) (511b2, 533b4). acompanhados de seus atributos
Portanto, enquanto a dicotomia opostos) e, portanto, apelam ou não à
primeira entre o inteligível e o noêsis para fazer questões sobre o
sensível está fundada em uma ser, questões do tipo “o que é A?”
distinção entre as faculdades de Não há nenhuma tese aqui que, nos
cognição, as subdivisões noéticas são casos não problemáticos, a sensação
distinguidas por seu método científico está operando sozinha, sem a
ou modo de investigação: a dialética é colaboração de qualquer outra
o método do segmento mais alto, a faculdade como a doxa. Como é
dedução a partir de hipóteses é o frequente, Platão usa aqui o termo
método do segundo nível inteligível aisthêsis de modo solto para juízo de
(ver o capítulo O Método da Dialética percepção. Adam observa (em seu
de Platão). comentário a 523c2) que é típico de
Platão nesta seção da República não
Por vezes é sustentado que, na fazer uma distinção rígida entre
curiosa passagem sobre a percepção aisthêsis e doxa; assim, “o tipo de
de um dedo que introduz o estudo da juízos contraditórios que são
matemática no Livro VII da República, atribuídos à... aisthêsis já tinha sido
Platão se compromete em assumir atribuído à doxa em [Livro V] 479b-
que os sentidos sozinhos, sem outro 479e”. Como Adam escreve, “a
auxílio, poderiam fazer juízos de consideração importante é que, em

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tais casos [como “isto é um dedo”], o alma percebe por meio de um


intelecto, de regra, não é excitado, e instrumento corpóreo, como o olho
isto é igualmente verdadeiro caso ou o ouvido, e os que ela considera
consideremos o juízo como o ato da por ela mesma, não por meio de um
aisthêsis somente ou como o produto instrumento corpóreo (185d-e). Os
associado de aisthêsis e mnêmê” últimos, designados como koina ou
(Adam 102, II: 109. Adam está comuns, incluem conceitos básicos
fazendo alusão à sugestão feita no como ser, mesmo e outro, números,
Phlb. 38bl2 que a doxa é derivada da assim como bem e mal, honrável e
sensação juntamente com a vergonhoso. O ponto decisivo aqui é
memória). que a percepção sensível por meio do
corpo não pode apreender o ser e,
A este respeito, um dos grandes por conseguinte, não pode apreender
resultados do Teeteto consiste em a verdade, e assim não pode ser
distinguir claramente entre a conhecimento (186c-d). Portanto,
ocorrência de uma afecção sensorial, devemos nos deslocar para a
por meio de uma modificação atividade racional da alma em si
corpórea, e o juízo perceptivo mesma, o que nos leva ao tema da
correspondente (ver o capítulo doxa ou juízo no resto do diálogo.
Platão: uma Teoria da Percepção ou
um Aceno à Sensação?). É aqui que, Esta distinção no Teeteto entre
por primeira vez, Platão distingue atributos sensíveis e não sensíveis
sistematicamente a doxa da aisthêsis. tem sido comparada à distinção entre
Na primeira parte do Teeteto, os o a priori e o empírico, visto que isola
interlocutores tentam definir o “um conjunto de predicados aos quais
conhecimento em termos de doxa, temos acesso independentemente do
juízo ou opinião. (O Teeteto tem, uso de nossos órgãos sensitivos”
assim, a estrutura de uma dupla (Sedley, 2004, p. 106). Se
redução, rejeitando primeiramente a interpretarmos a distinção do Teeteto
aisthêsis e então a doxa como ontologicamente, estes atributos que
candidatos a conhecimento.) A não são sensíveis correspondem às
refutação final da percepção sensível Formas, e os predicados sensíveis se
está baseada em uma distinção referem ao domínio fenomenal.
fundamental entre dois tipos de Assim, temos um tipo de análogo aqui
predicados ou atributos: os que a à reminiscência na capacidade da

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Hugh H. PLATÃO
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alma de considerar um certo campo República pela noção de visão


de conceitos sem a dependência noética. Talvez se pudesse mesmo
direta do corpo. Nos casos nos quais pensar que Platão, depois de se
(de acordo com o Teeteto) a alma se basear na noção de reminiscência
baseia somente em seus próprios para explicar nossa habilidade em
recursos, podemos pensá-lo como adquirir conhecimento que
independente do corpo e, portanto, transcende a experiência ordinária,
potencialmente desencarnado, como decidiu que havia um caminho melhor
no estado pré-natal suposto pela re- para explicar esta capacidade
miniscência. O Teeteto não faz uso da cognitiva. Donde (nesta perspectiva)
noção de reminiscência, mas, visto ele abandonou a noção semimítica do
que o contexto no Teeteto é conhecimento não adquirido em uma
explicitamente epistemológico (que existência prévia e adotou em seu
tipo de atividade cognitiva pode lugar o conceito mais racional de
contar como conhecimento?), esta intuição noética ou Wesenschau, um
passagem pode razoavelmente ser “ver” intelectual das Formas acessível
vista como a maior aproximação de àquelas mentes que foram
Platão ao conceito pós-kantiano preparadas propriamente pela
moderno de cognição a priori, como dialética. Poderíamos então
um tipo de reivindicação de interpretar a epistemologia da
conhecimento que é logicamente República, centrada na imagem da luz
independente da evidência empírica. e da visão em clímax das Formas,
como a sucessora e a substituição de
Se retornarmos agora ao tópico uma teoria inatista do Mênon e do
da reminiscência, sua ausência da Fédon.
República e de diálogos posteriores é
muito surpreendente. Como vimos, a Contudo, esta hipótese que
análise do conhecimento e da Platão, quando escreveu a República,
opinião, que começou no Mênon no tinha desistido da doutrina da
contexto da reminiscência, continua reminiscência em proveito da noção
sem este contexto no resto do corpus. de uma visão noética não pode ser
O que está ocorrendo? defendida em termos cronológicos,
pois não há nenhuma razão para
Uma sugestão seria que a supor que o Fedro venha antes da
reminiscência foi substituída na República e há razão para supor que

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Hugh H. PLATÃO
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seja posterior. (P ex., o relato da reencarnação posterior, mas a


dialética no Fedro está muito mais reminiscência não aparece em um
próximo da dialética do Sofista e do contexto epistemológico.) Não é
Político do que do da República.) porque Platão mudou de opinião a
Ademais, o Fedro mostra que a respeito do conhecimento. Ao
reminiscência e a visão noética contrário, a passagem da conversão
podem aparecer lado a lado; na da alma na Alegoria da Caverna foi
versão do Fedro, a reminiscência é a reiteradamente reconhecida como
consequência de uma visão direta das próxima no espírito à doutrina da
Formas. Tal visão também é sugerida reminiscência. Lá Sócrates nega que
em diálogos anteriores à República; se possa colocar conhecimento em
por exemplo, uma visão da Forma do uma alma que não o tem, “como se
Belo na fala de Sócrates no Banquete. alguém fosse pôr vista em um olho
No Fédon, similarmente, onde a cego”. Ao contrário, “esta capacidade
reminiscência tem um papel tão [de ver a verdade] e este instrumento
importante, Sócrates também sugere pelo qual se aprende estão presentes
a possibilidade de “contemplar as na alma de cada um”. Porém, a alma
coisas em si mesmas com a alma em inteira precisa ser convertida de modo
si mesma” (66d8). Nesta série de que o olho da alma seja dirigido à
diálogos do Mênon ao Fedro, não há realidade, em direção à claridade do
sinal nenhum de um desenvolvimento verdadeiro ser (VI.518c). Platão é aqui
linear, no qual uma epistemologia claramente um inatista: a virada do
substitui uma outra. Ocorre antes que olho da alma em direção à luz é um
concepções diferentes de análogo próximo do processo de
conhecimento são usadas em reminiscência. Por que então os
contextos diferentes com propósitos prisioneiros na Caverna não são ditos
diferentes. estarem rememorando uma
exposição pré-natal à luz do dia?
Por que, então, a reminiscência Minha explicação é que o obstáculo
não aparece na República? (De fato, não é conceituai, mas retórico.
algo similar à reminiscência é Estragaria o curso dramático e a
pressuposto no Mito de Er em 619bss. dificuldade da saída da Caverna, caso
e também na sugestão em 498d que Platão tivesse dado aos prisioneiros
Trasímaco poderá ao final beneficiar- um contato prévio com o mundo lá
se da discussão em curso em uma fora. Não há nenhuma razão filosófica

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para a omissão da reminiscência na aprendemos acerca da capacidade


República, mas há uma excelente chamada de nous é que ela não é a
razão artística. A reminiscência não se percepção sensível, mas envolve
enquadra no paralelo entre nous e linguagem (logos) e raciocínio ou
visão, entre conhecimento e luz, que cálculo (logismos). Além disso, temos
domina a imagem dos livros centrais a alegação, mas nenhum esquema da
desde a introdução das Formas no mente, na passagem citada acima do
Livro V à visão culminante do Bem ao Fedro: que a alma humana deve ser
final do livro VII (540a). capaz de derivar conceitos racionais
de muitas percepções sensíveis. A
É importante reconhecer que o reminiscência serve somente como
tema da visão noética permanece uma narrativa mítica para identificar
metafórico todo o tempo e nunca se uma fonte transcendental desta
fixa em uma doutrina rígida. A capacidade de transcender a
distinção de Platão entre o sentido e o experiência sensível. Se pusermos de
intelecto (na República VI e alhures) lado o mito da reencarnação, a tese
pode ser vista como o antecessor da prosaica da reminiscência se reduz à
teoria da faculdade da mente que vai formula do Mênon: a verdade dos
de Aristóteles a Kant; Platão, porém, seres está na alma. Este pensamento
não tem tal teoria. O termo nous serve é desenvolvido de modo mais
de nome para “a capacidade de toda completo na constituição da alma no
alma [de ver a verdade] e para o Timeu. Assim, em Ti. 35a, os
instrumento pelo qual todos ingredientes da alma do mundo
aprendemos”, mas Platão incluem as Formas básicas do Ser,
reiteradamente emprega outras Mesmo e Outro, junto com os tipos
expressões, mais perifrásticas, para correspondentes da substância
deixar clara a condição não técnica corpórea. A implicação é que o Timeu
deste conceito de nous: “ver o Belo nos dá um equivalente físico (ou
em si mesmo por aquilo ao qual ele é metafísico) da reminiscência: para
visível” (Smp. 212a3); “apreender a que o conhecimento seja possível, os
natureza de cada essência como a objetos de conhecimento devem
parte apropriada da alma” (R. estar já presentes na alma. Era isto
VI.490b3); “levar a coisa mais nobre que estava implicado pela
da alma à visão da melhor coisa entre reminiscência desde o início: “a
os seres” (R. VII.532c5). Tüdo o que verdade das realidades (ta onta) está

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em nossa alma” (Men. 86bl). não somente acessível, mas também


acessível precisamente porque já é
Por fim, então, a epistemologia nossa, porque a natureza intrínseca
de Platão funde-se com sua ontologia. de nossa mente está estruturada para
É porque a realidade tem uma refletir, donde se identificar com a
estrutura fixa que a alma tem de ter estrutura da própria realidade.
uma versão da mesma estrutura. Recebendo seu impulso pelo
Sugiro que esta noção de afinidade ou questionamento socrático (no
identidade formal entre a mente e o Mênon), pela reflexão sobre as
mundo, entre a alma e as Formas, é o deficiências da experiência sensível
sentido profundo da reminiscência (no Fédon) ou pelo amor (no Fedro), o
(ver também o capítulo Platão e a acordar-se da alma à compreensão da
Justiça). Não há nenhuma teoria forma noética é muito excitante
platônica do nous porque, para porque é um retomo ao nosso próprio
Platão, a mente não tem uma eu profundo, à natureza primordial da
estrutura independente: é alma.
simplesmente a capacidade de uma
alma humana ter cognição e assim se Contudo, nem a reminiscência
identificar com a estrutura do Ser nem a visão noética nos dão uma
objetivo. Para Platão, conhecimento e indicação confiável de como estas
compreensão são simplesmente Formas são. Seria um erro tomar a
reflexos psíquicos da natureza da metáfora da visão de modo
realidade. A epistemologia está demasiadamente literal e daqui
fundada em sua ontologia. A concluir que Platão está
reminiscência e a visão noética comprometido com uma ontologia
servem como concepções que pode fundar uma teoria da
alternativas do mesmo fenômeno, intuição intelectual. Filósofos de Ryle
nosso acesso ao espaço dos a Heidegger cometeram este erro e
conceitos, que é, para Platão, o alegaram que Platão deve ter
espaço do verdadeiro Ser e da Forma concebido as Formas como “simples
eterna. Porém, a noção da nomeáveis” (Ryle) ou “objetos”
reminiscência é filosoficamente mais quase-visíveis. Porém, o Fédon está
profunda, mais explicativa que a aqui (com outras passagens, incluindo
metáfora da visão. Ela sustenta que a muitas na República) para nos
estrutura objetiva da realidade nos é advertir contra este erro e nos

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lembrar que as Formas são diferentes”. Donde “a maioria das


primariamente concebidas como o pessoas, embora tenham o conhecimento
latente, não o manifestam”, isto é, não
tipo de realidade (ousia) “de cujo ser rememoram (p. 71). Para uma crítica da
(einai) damos e recebemos uma posição de Scott, ver Kahn, 2003.
fórmula (logos) ao questionar e 2. Para a tese que no Fedro somente os
responder” (Phd. 78dl) e cuja filósofos rememoram, ver Scott, 1995, p.
designação mais própria é “O X ele 74-80; para uma crítica, ver Bobonich,
2002, p. 554 n. 36.
mesmo, o que é” (auto to ho estin, 3. Não encontro evidências para o
74d6). Em outras palavras, a natureza abandono da teoria das Formas” que
das Formas deve ser entendida não Alexander Nehamas atribui à grande fala
da perspectiva da visão ou da reminis- de Sócrates (Nehamas, 1999, p. 352).
cência, mas da perspectiva do logos, Obviamente, o relato das Formas no
Fedro é vago, de acordo com o ambiente
onde logos é concebido como a busca mítico; porém, seria estranho, se (como
dialética da definição, a busca de Nehamas sugere) Platão estivesse
clareza e compreensão por meio de abandonando a assim dita falácia do para-
intercâmbio linguístico, por meio de digmatismo, que ele devesse basear sua
questão e resposta a respeito do que mais brilhante teoria do amor em um
exemplar estelar desta mesma falácia.
as coisas são e como elas são. É por
isto, a despeito de sua configuração
REFERÊNCIAS E LEITURA
alterada nas obras posteriores, que a
COMPLEMENTAR
dialética permanece a melhor
descrição – no Filebo, como também Adam, J. (1902). The Republic of Plato (2
no Fedro e na República – para a vols.). Cambridge: Cambridge University
forma mais alta de conhecimento, a Press. Bobonich, C. (2002). Plato’s Utopia
cognição do que é finalmente real. Recast: Flis Later Ethics and Politics. Oxford:
Oxford University Press.
NOTAS Diels, H. e Kranz, W. (DK) (1985). Die
Fragmente der Vorsokratiker. Zurich:
Todas as traduções são do autor. Weidmann.
Horwich, E (2000). Stipulation, meaning and
1. Esta é a sugestão de Scott (1995, p. 69). apriority. In P Boghossian and C. Peacocke
Platão generaliza a partir de um grupo (eds.) NewEssays in theAPriori (p. 168).
limitado “supondo que é mais plausível Oxford: Oxford University Fress.
que todos os seres humanos são
Kahn, C. H. (2002). On Platonic chronology. In
fundamentalmente do mesmo tipo do
J. Annas and C. Rowe (eds.) New Perspectives
que de dois tipos radicalmente
on Plato, Modem and Ancient (pp. 93-127).

Hugh H. Benson 207 de 711


Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

Cambridge, Mass.: Harvard University Eress.


______(2003). On the philosophical
autonomy of a Platonic dialogue: the case of
recollection. In A. N. Michelini (ed.) Plato
asAuthor (pp. 299-312). Leiden and Boston:
Brill.
Nehamas, A. (1995). Plato: Phaedrus, trans.
A. Nehamas and E Woodruff (pp. xlii-xlv).
Indiana- polis: Hackett.
______(1999). Virtues of Authenticity: Essays
on Plato and Sócrates. Princeton, NJ:
Princeton University Press.
Scott, D. (1995). Recollection and Experience:
Plato’s Theory ofLearning and its Successors.
Cambridge: Cambridge University Press.
Sedley, D. (2004). The Midwife ofPlatonism:
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Oxford: Oxford University Press.
Vlastos, G. (1995). Anamnesis in the Meno. In
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Philosophy, vol. 2 (pp. 147-65). Princeton, NJ:
Princeton University Press.

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

10. Platão: uma teoria Se nos voltarmos aos primeiros


diálogos socráticos para encontrar
da percepção ou um respostas a estas questões,
aceno à sensação? encontraremos muito pouca
discussão da percepção. Estes
DEBORAH K. W. MODRAK diálogos tendem a não se engajarem
em muita reflexão crítica acerca da
O desafio de escrever sobre a natureza da cognição humana.
percepção em Platão consiste em Sócrates tipicamente persegue, de
mostrar que Platão tem algo a dizer modo enérgico, questões sobre a
sobre este tema que seja ao mesmo natureza da virtude; ele defende
tempo interessante e construtivo. reiteradamente (ou parece defender)
Suas observações frequentemente várias teses sobre a sabedoria, que
negativas sobre os objetos ele relaciona à virtude (ver o capítulo
perceptíveis, particularmente nos A Unidade das Virtudes). Ele procura
diálogos do período médio, levaram o conhecimento que seria
muitos comentadores a concluir que constitutivo da virtude e mostra que
ele dá pouco ou nenhum papel muitos que alegam ter este
epistêmico à percepção na cognição e conhecimento não o possuem.
que seu único papel é o de contribuir Questões acerca da confiabilidade (ou
para opiniões ilusórias. Isso não quer de sua falta) da percepção
dizer que Platão rejeita o fenômeno simplesmente não surgem. A
da sensação, mas sim que ele rejeita percepção é somente mencionada de
toda noção de percepção como uma modo ocasional e, quando o é, não é
cognição completa que poderia o foco da discussão. A percepção é
constituir um conhecimento ou ser invocada para ilustrar certos pontos
um estado sobre o qual o em vários argumentos a respeito da
conhecimento pode basear-se. E esta virtude. No Carmides, ao contestar a
sua posição ou suas observações tese que a temperança é uma ciência
críticas escondem uma aceitação da da ciência, Sócrates concorda com a
percepção como uma fonte de tese que, se ouvir ouve a si mesmo,
crenças verdadeiras? ouvirá a si mesmo possuindo som
(168d2-el). Sócrates usa o exemplo do
OS DIÁLOGOS SOCRÁTICOS olho vendo a si mesmo no Alcibíades I
para ganhar clareza sobre como a

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Hugh H. PLATÃO
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alma poderia vir a conhecer a si dialético para descobrir a verdade é


mesma (132d2-133c6). No Laques, ele importante (ver o capítulo Platão e
argumenta que, para acrescentar Reminiscência), pois mostra como a
vista aos olhos para que vejam percepção em concerto com a
melhor, devemos saber o que é a reflexão pode ter um papel no
visão (190al-bl). No Lísis, ele faz reconhecimento da verdade. A
menção à diferença entre o cabelo discussão da reminiscência é seguida
que se mostra branco porque fica de uma discussão dos papéis
branco ao encanecer e seu mostrar-se respectivos da crença verdadeira e do
branco porque foi tingido de branco conhecimento na condução do
(217dl-e3). Em nenhum destes comportamento (97a3-99cl0). Ambos
contextos a percepção como tal é são igualmente válidos, mas o
objeto de escrutínio crítico e sua primeiro, ao contrário do último, não
confiabilidade em geral é dada por é estável. A pessoa que fez de fato a
suposta. viagem à Larissa é dita ter
conhecimento, ao passo que a pessoa
O Mênon, um diálogo de transição, a quem se disse o caminho tem, no
põe a questão: o que é a virtude? melhor caso, uma crença verdadeira
Porém, muito da discussão se dirige a (97a3-b3). Esta ilustração da diferença
uma questão diferente: pode a entre o conhecimento e a crença
virtude ser ensinada? Assim como à verdadeira privilegia implicitamente a
questão conexa: é a virtude percepção direta em relação à
conhecimento? A percepção não é informação adquirida por relatos orais
discutida explicitamente, mas (ver o capítulo O Conhecimento e as
suposições sobre sua veracidade Formas em Platão). A despeito das
aparecem nestes argumentos. diferenças de contexto, um diálogo
Sócrates se vale de um desenho na tardio, o Teeteto, também privilegia a
areia para retirar um escravo de suas experiência direta em relação ao juízo
crenças falsas sobre o quadrado de inferencial. Da testemunha ocular de
uma diagonal e o levar à sua crença um crime é dito ter conhecimento, ao
verdadeira inata (82b9-85dl). passo que os jurados têm, no melhor
Enquanto o escravo não aprende a dos casos, a crença verdadeira
resposta correta do diagrama, mas a baseada no relato da testemunha
rememora, o papel proeminente dado ocular (201a7-c2).
ao auxílio visual em um esforço

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Hugh H. PLATÃO
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Nos primeiros diálogos, então, percepção parece ser uma fonte de


Sócrates dá por suposta a informação sem valor, no melhor dos
confiabilidade da percepção, mas ele casos, a pouco participar da clareza ou
pouca atenção presta à percepção. precisão. Convém observar, todavia,
Questões sobre a natureza da que esta passagem ocorre no
percepção ou de suas limitações não contexto de um argumento para
são encontradas. No Mênon, a mostrar que o filósofo persegue um
percepção até tem um papel chave, objetivo ao longo de toda a sua vida –
mas não reconhecido ao se fundar a a separação da alma do corpo – que só
distinção entre conhecimento e pode ser obtido inteiramente com a
crença verdadeira. morte.

O FÉDON Em um argumento subsequente


em prol da existência de objetos ideais
Mais do qualquer outro diálogo, o como o Igual-em-si-mesmo, Sócrates
Fédon sustenta a separação da alma e parece tomar uma posição
seus poderes do corpo. Neste ligeiramente diferente sobre a
contexto, esperaríamos encontrar percepção. Quando a percepção
uma avaliação muito crítica da apreende que dois objetos são iguais,
percepção, e a encontramos. Sócrates ela o faz empregando um conceito de
defende a importância do intelecto igualdade que não pode ter surgido
separando a si mesmo do corpo para com base em percepções de objetos
apreender a verdade (65a9-66a8; cf. iguais (74d4-75b8). É revelador que,
99el-6). Para deixar claro em que neste contexto, Sócrates aceita a
consiste apreender as realidades que aplicação de conceitos na percepção
são inacessíveis aos sentidos, Sofista que não são adquiridos pela
pergunta retoricamente: “encontram percepção. Ele supõe que as coisas são
os homens alguma verdade na visão vistas e escutadas como iguais. Esta
ou na audição?” Ele e Símias suposição está ou parece estar em
concordam que a alma é enganada conflito com a tese anterior que os
sempre que examina algo a fazer com sentidos são totalmente não
o corpo. A descrição da percepção confiáveis. Assim como delineado na
parece deixar pouco espaço para que discussão da igualdade, quem percebe
um sentido tenha um papel percebe coisas iguais ao aplicar-lhes
construtivo na investigação. A um conceito de igualdade absoluta e,

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ao mesmo tempo, reconhece que da percepção sensível ou das crenças


iguais perceptíveis não elevam a com base empírica.
igualdade absoluta (74d3- e4). Que
alguém que tipicamente percebe Ao argumentar em prol da
reconheceria a diferença entre imortalidade da alma com base na
igualdade absoluta e as coisas iguais diferença entre o corpo e a alma,
que ele percebe é essencial ao Sócrates novamente enfatiza as
argumento segundo o qual o conceito diferenças entre os objetos físicos e os
de igualdade não é adquirido por ideais (78b4-81a2). Os primeiros
percepção. Para ter a força sofrem mudanças constantemente;
argumentativa requerida, a tese deve os últimos são imutáveis. Os primeiros
ser geral, isto é, que todo aquele que são apreendidos pelos sentidos; os
percebe com autorreflexão e de modo últimos, pela mente somente. A
razoavelmente astuto pode e re- natureza mutável dos objetos físicos é
conhecerá a diferença. Embora o tal que o intelecto termina por se
intelecto pudesse enganar-se se confundir quando faz uso do corpo.
confundisse os iguais perceptíveis Dado que os objetos que são
com a igualdade absoluta, não parece perceptíveis não são estáveis, a
haver o perigo que os confunda. A filosofia persuade a alma a abandonar
possibilidade de engano permanece, os sentidos (83al-c3). O fim da
mas não que certamente ocorrerá, filosofia consiste em apreender as
como foi sugerido na passagem verdades inalteráveis.
anterior. Uma aceitação similar das
crenças baseadas na percepção Mesmo quando dá voz a reservas
aparece na defesa de explicação acerca dos objetos perceptíveis e dos
teleológica (96a6-99d2). O fisicalismo poderes de percepção, o Fédon
pré-socrático é rejeitado com base no permite que a percepção tenha um
fato que as causas físicas não podem papel importante na cognição. A
explicar satisfatoriamente muitos percepção provê informação
fenômenos. A ordem cósmica e a ação confiável acerca do mundo físico. Um
deliberada só podem ser explicadas homem que percebe é mesmo capaz
adequadamente, argumenta Sócrates, de aplicar conceitos gerais como a
por um apelo a causas teleológicas. igualdade na percepção. As limitações
Em nenhum momento de sua crítica da percepção são um reflexo das
Sócrates põe em xeque a veracidade limitações dos objetos concretos em

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comparação com os objetos ideais. distinção sutil entre a apreensão de


perceptíveis genuínos e a apreensão
A REPÚBLICA de características mais gerais.

Em um contato inicial a respeito da Vou mostrar, então, se você puder


cognição, a República parece apreender isso, que algumas
percepções sensíveis não clamam para
funcionar em muito como o Fédon. que o entendimento olhe para elas,
Não parece ser um local provável para porque o juízo da experiência sensível
encontrar apoio à tese que a é adequado, ao passo que outras o
percepção apreende a verdade acerca encorajam de todos os modos a olhar
dos perceptíveis. Muitas passagens para elas, porque a percepção sensível
não parece produzir um resultado
bem conhecidas fazem um contraste fiável. (523al0-b4, trans. Grube)
entre as opiniões em que não se deve
confiar e o conhecimento seguro. Os Quando percebemos o mesmo dedo
objetos de opinião são acessíveis como grande em um contexto e
pelos sentidos. Amantes de visões e pequeno em outro, o intelecto é
sons são ditos estarem em atiçado pelo problema de pensar a
desvantagem em relação aos amantes natureza do grande e do pequeno
da verdade (474d3-480al3). Em uma (523bl0-525a2). Este caso é posto em
célebre exemplificação, Sócrates contraste com a percepção simples de
divide uma linha traçada na areia no um dedo. A visão é capaz de prover
intuito de apresentar a posição dos informação inteiramente adequada
poderes cognitivos e de seus objetos sobre a cor e a forma de seus objetos
(509dl-511e3). A principal divisão da e de aplicar certos conceitos não
linha ocorre entre o reino visível e o problemáticos como o de ser um
reino inteligível. A atividade da dedo. Algumas características gerais,
dialética, que não faz uso de perceptí- contudo, ser belo ou ser grande, por
veis, mas funciona por meio dos exemplo, são tais que são
inteligíveis somente, é louvada como apreendidas pela percepção em um
o poder cognitivo mais alto (511b3-cl; modo que é ambíguo. É sempre
533a8-534dl). possível perceber o mesmo objeto
como tendo características gerais que
Contudo, em uma leitura mais são opostas às características
cuidadosa deste e de passagens inicialmente percebidas. Por
correlatas, encontramos uma

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exemplo, um som que é belo em um posterior de identidade sobre o


contexto pode ser dissonante e feio objeto, isto é, que é a Beleza-em-si-
em outro. Um dedo que é grande em mesma. O amante de visões e sons
relação a outro dedo pode ser comete o erro que, por hipótese, o
pequeno em relação a um outro mesmo amante percebe no Fédon e
dedo. Em consequência, toda evita. Dado que o objeto de opinião é
tentativa de fazer teses gerais sobre um amálgama de uma similitude com
estas características com base a realidade, é dito estar a meio
somente nas percepções é caminho entre o que é e o que não é
problemática. (478d3).

Isto explica a diferença de tom O quadro dos poderes cognitivos


entre a passagem em 523al0-b4 e a humanos ilustrados pela linha
descrição dos amantes de visões e dividida é também uma evidência na
sons como vivendo em um estado de discussão da educação dos guardiães
sonho em 474d3-480al3. Aqui em República VII (ver o capítulo
também o papel da percepção é Platão e a Matemática). Sócrates
implicitamente um incitamento para distingue entre a astronomia tal como
mais filosofar; filósofos são é praticada por seus contemporâneos
apresentados como semelhantes aos e a verdadeira astronomia (528d5-
amantes de visões e sons (475e2) pelo 530cl). A primeira quer explicar os
fato de ambos os grupos serem movimentos dos corpos celestes
amantes da beleza. Infelizmente, precisamente como eles aparecem ao
todavia, os amantes de visões e sons observador. Isso significa que o
não se dão conta que as modelo incluirá movimentos
manifestações físicas da beleza que irregulares com órbitas imperfeitas. A
eles amam são somente similitudes última explica os movimentos
da beleza. Eles confundem a observados com base em um modelo
similitude com a própria coisa. Platão geométrico idealizado em termos de
não descreve sua condição cognitiva esferas perfeitas e movimentos
em termos de ter percepções falsas, regula- res. Uma discussão similar é
mas sim como um caso de opinião feita no caso da harmônica; a
falsa. O que toma a opinião verdadeira harmônica fornece um
problemática é a generalização da modelo matemático dos sons
percepção central a uma tese audíveis. Tanto quanto for possível

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compreender os objetos de qualidades como beleza e grandeza.


observação, é necessária uma No Banquete, embora o “discurso de
mudança mental abandonando os Diotima” sobre o amor relatado por
objetos visíveis e audíveis em prol dos Sócrates não mencione a percepção
puramente inteligíveis. O uso da visão como tal, é proposta a mesma
para apreender os movimentos progressão dos sensíveis aos
observáveis ou da audição para inteligíveis. O verdadeiro amante da
apreender as notas musicais audíveis beleza começa com a beleza de um
não é posta aqui em xeque; Platão único corpo masculino, vai para todos
antes enfatiza a importância de se ir os corpos belos e daqui à beleza como
além do que é observado. Uma manifestada nas Leis e costumes, para
compreensão genuína só pode ser finalmente chegar à Beleza-em-si-
adquirida pelo estudo dos problemas, mesma (210a4-211dll).
isto é, pela construção mental de
modelos que são puramente Na República. A percepção é o
matemáticos. ponto de início de um processo
cognitivo que, quando levado a bom
Os poderes da percepção usados em termo, termina na apreensão dos
relação a objetos apropriados são objetos ideais. A linha dividida provê
tratados com respeito na República. O um quadro vivido da diferença entre a
modelo da intelecção é a visão sob percepção e seus objetos e a
boas condições. Platão faz uma intelecção e seus objetos. Todavia, os
analogia entre o sol como a fonte da homens que põe a cognição em
luz e a Forma do Bem (508a4- 509a4). operação começam no mundo dos
A luz torna o que é potencialmente objetos físicos como apresentados e
visível atualmente visível; a Forma do conceptualizados pela percepção e,
Bem torna os objetos potencialmente com base nas questões incitadas
inteligíveis inteiramente inteligíveis. pelas percepções, a mente que
Mesmo as percepções que produzem investiga vai além dos objetos
confusão, como as da grandeza e da observáveis.
beleza, têm um papel importante na
cognição a título de estímulo a mais O TIMEU
reflexão (ver o capítulo O Método da
Dialética de Platão). A investigação No mito da criação que dá o quadro
filosófica começa com percepções de da discussão do Timeu dá lugar a uma

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descrição detalhada dos mecanismos dela um caso de contato. Um corpo é


da percepção, especialmente dos da formado que se estende pelo meio ao
visão (ver o capítulo O Papel da órgão e causa mudanças nele. A
Cosmologia na Filosofia de Platão). terminologia torna claro que
devemos entender o processo de
Quando a luz circunda o raio visual, percepção somente em termos de
então o semelhante toca o semelhante
causalidade física até o momento em
e eles se amalgamam, um corpo sendo
formado por afinidade na linha da que as mudanças no corpo de quem
visão, sempre que a luz que vem de percebe causam mudanças na alma.
dentro confronta firmemente um Um processo que começa nas
objeto externo que encontrou. E o raio mudanças físicas fora do corpo de
visual inteiro, sendo similarmente
quem percebe e termina nas
afetado, em virtude da similaridade
transmite os movimentos daquilo que mudanças na mente de quem
toca ou o que o toca por todo o corpo, percebe constitui a percepção. Todos
até atingir a alma, causando a os componentes do processo são
percepção que chamamos visão. necessários para que ocorra a
(45c2-d2) percepção.
A atenção ao detalhe é bem Segundo Timeu, os olhos foram
visível neste texto. Também torna os primeiros órgãos a serem feitos
claro que, para Platão, a percepção é pelos deuses (45b2-4). A visão traz
uma atividade psicofísica que inicia grande benefício aos seres humanos;
com uma série de mudanças sem ela, “nenhuma das nossas atuais
puramente físicas – no meio entre o afirmações sobre o universo poderia
órgão e o objeto e no órgão da ser feita” (47al-4). A investigação do
percepção. A audição e o paladar, universo levou os pensadores à
como a visão, são causados por filosofia (47a4-b2). Apesar da
mudanças em um meio; somente o importância da visão, Platão continua
órgão da visão interage com o meio a restringir o número de objetos que
para criar as condições necessárias de são acessíveis por meio da percepção.
modo que o ato de ver ocorra. A vista, A distinção familiar entre
o sentido que parece ser o mesmo entendimento e opinião verdadeira é
fácil de receber uma explicação em invocada a fim de estabelecer que as
termos de contato corpóreo, é Formas por si mesmas não são
descrita em termos que parece fazer objetos de percepção (51d2-52dl).

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Fosse a opinião verdadeira idêntica ao “A cor é uma chama que sai de


entendimento, argumenta-se, então corpos de todos os tipos, com suas
os objetos percebidos pelos nossos partes proporcionais à nossa visão de
sentidos seriam as coisas mais modo a produzir a percepção” (67c4-
estáveis que existem. Já que há uma dl). Timeu continua explicando que as
distinção, as Formas são mais estáveis diferenças em cores se devem às
que os objetos perceptíveis. diferenças em tamanho entre a
chama que emana dos corpos
Quando Timeu se volta às externos e a chama que emana do
propriedades dos corpos olho. Se não houver nenhuma
elementares, ele diz que será diferença entre as duas, o resultado é
necessário apelar à percepção o transparente. O branco dilata o raio
sensível em cada estágio da discussão da visão e o preto o contrai.
(61c3-dl). O fogo é quente porque sua Explicações similares são dadas para a
forma é tal que ele corta os corpos em clareza e outras cores, muitas das
pedaços pequenos; umidade é fria quais se devem à mistura de cores
porque comprime nossos corpos mais básicas. O verde, por exemplo, é
(61d5- 62b6). Aquilo a que nossa uma mistura de âmbar e preto.
carne cede é duro; o que cede à nossa
carne é mole (62b6-c2). Outras A descrição das qualidades
características perceptíveis são perceptíveis, como a descrição
explicadas em termos de qualidades anterior do raio visual, sublinha a
mais básicas. A aspereza é devida a importância dos mecanismos físicos
uma combinação de dureza e não envolvidos na percepção. O caráter de
uniformidade; a maciez é devida a uma simples percepção de um objeto
uma combinação de uniformidade e apropriado é inteiramente
densidade (63e8-64al). Visto que determinado pela interação física
estas características são uma entre o corpo de quem percebe e os
consequência das formas dos corpos corpos externos. O conteúdo da
elementares, as propriedades percepção é explicado em termos do
perceptíveis mencionadas têm uma ajuste ou da falta de ajuste entre as
base objetiva nas coisas que as características físicas relevantes de
causam. Uma explicação similar é um corpo externo e o órgão.
dada para os gostos, odores, sons e
para a cor (65cl-68b2). Quando Timeu volta sua atenção

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para situar a alma no corpo, ele coloca diversamente caracterizadas. Três


a alma imortal – a sede da diferentes explicações do que poderia
racionalidade – na cabeça, e a alma significar dizer que o conhecimento é
mortal no peito e no tronco. percepção são exploradas. Ao final,
Percepção sensível, prazer e dor, todas são declaradas insatisfatórias e
emoção e apetite são mencionados a tese que o conhecimento é
inicialmente em conexão com a alma percepção é posta de lado em 186e. O
mortal, mas então a percepção foco então se dirige às várias
sensível fica fora da exposição (69d4- tentativas de definir o conhecimento
6). As descrições já dadas de quatro em termos de opinião. Para nossos
dos cinco sentidos (visão, audição, propósitos, o Teeteto é uma obra
olfato e gosto) parecem localizá-los na muito importante, pois é o diálogo no
cabeça. A percepção, mesmo na qual a percepção é discutida
exposição de Timeu, põe em xeque extensamente por ela mesma a título
uma divisão estrita entre alma mortal de poder cognitivo.
e imortal. Embora um relato possa ser
dado sobre um órgão sensitivo central A tese que o conhecimento é
no peito ao qual estão ligados todos percepção recebe três interpretações
os órgãos sensitivos individuais, este diferentes e, em cada interpretação, a
relato não é feito por Platão. Ele nos tese é refutada. Na primeira
deixa com a omissão intrigante de interpretação, a tese é dita ser
uma faculdade que parece pôr em equivalente à tese protagórica que o
xeque a compartimentagem dos homem é a medida de todas as coisas.
diferentes tipos de alma, a despeito Na segunda interpretação, a tese é
de sua intensa discussão antes da explicada em termos de um mundo
compartimentagem. heraclíteo em que tudo e todos estão
em um constante estado de fluxo.
O TEETETO Nem a versão protagórica da tese nem
a heraclítea se mantém após
O tópico em discussão é o escrutínio. Contudo, Platão revisita a
conhecimento e Teeteto faz várias tese que o conhecimento é
tentativas para definir o percepção. A terceira referência, que
conhecimento identificando-o a ocorre em 184b4-186e7, visa a uma
outras faculdades cognitivas, a saber, versão depurada da tese tal como é
percepção e opinião. Elas são interpretada por Sócrates e Teeteto.

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Sócrates inicia a referência descobrir as razões que explicam por


distinguindo entre objetos que são que Teeteto prontamente concorda
percebidos por uma faculdade e os com esta restrição à percepção. Mais
que são comuns. importante, o diálogo dá alguma
justificação para esta posição?
Sócrates: Você concordará também
que, a respeito dos objetos que você A resposta (e a justificação da
premissa central) se encontra não no
percebe por uma faculdade, é argumento final em 184b4-186e7,
impossível percebê-los por uma outra
mas em um passo anterior do diálogo
– por exemplo, perceber os objetos da
audição por meio da visão ou os (Modrak 1981). Em 156al-157c2,
objetos da visão por meio da audição? Sócrates avança uma teoria da
percepção no contexto da doutrina
Teeteto: Por certo. heraclítea do fluxo. Tem sido objeto
de controvérsia saber se Platão aceita
Sócrates: Assim, se há algo que você esta teoria, chamada “doutrina
pensa a respeito deles, não pode ser
algo que você está percebendo a
secreta”. Todavia, convém notar que
respeito de ambos, seja por meio de o apoio decisivo à tese que cada
um ou de outro instrumento. (184e8- sentido está limitado ao seu próprio
185a6). objeto se encontra aqui. De acordo
com esta teoria, o objeto de
Teeteto e Sócrates concordam percepção depende do ato de
que, já que não existe um órgão que perceber e da estrutura do objeto
percebe as características comuns externo.
(semelhança, diferença e ser), estes
objetos são apreendidos diretamente Quando um olho e algo outro
pela mente. Já que o conhecimento comensurável a ele estão em um
mesmo campo, dão nascimento à
envolve a apreensão de
brancura juntamente com sua
características comuns, não pode ser percepção cognata, que não teria
percepção. Todo este argumento, ocorrido se um deles não tivesse
porém, depende da tese feita acima encontrado o outro (...) O olho, então,
que restringe cada sentido, e daqui a
percepção em geral, aos objetos que se toma preenchido de visão e
não são acessíveis por mais do que um agora vê, tornando-se não visão,
sentido. O desafio para nós é mas um olho que vê; ao passo

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que o outro pai da cor é quadro heraclíteo da segunda parte


preenchido de brancura e se do Teeteto (151d7-183a7), esta
torna não brancura, mas uma descrição da percepção tem por
coisa branca, seja um graveto, consequência que os objetos
uma pedra ou o que mais possa fenomenais são totalmente instáveis,
estar assim colorido. (156d3- pois ambos, o órgão e o objeto
e7). externo, estão constantemente
mudando em um universo heraclíteo.
O objeto de percepção é um Donde resulta que a coisa branca é
objeto fenomenal: ele é criado por totalmente efêmera. A mesma teoria
meio da interação do órgão de da percepção, todavia, em um
sensação e do objeto externo. Uma universo não heraclíteo, em que o
passagem posterior reafirma a identi- órgão e o objeto externo fossem
ficação de um sentido com a razoavelmente estáveis, produziria
capacidade de um órgão corpóreo objetos fenomenais que seriam
específico (185c3-el). Tomando também razoavelmente estáveis.
ambas as passagens em conjunto,
temos a justificação necessária para a A percepção é identificada pela
tese que nenhum sentido pode mente que apreende as
apreender o objeto de um outro características sensíveis por meio das
sentido. A interação que ocorre entre faculdades corpóreas em 184b8-
um órgão específico, por exemplo: 186el0. Incluída na percepção está
um olho, e um objeto externo, por não somente a recepção passiva dos
exemplo: uma pedra, devesse ela sensíveis, mas também a investigação
ocorrer em um órgão diferente por ativa das características sensíveis pela
meio de meios diferentes, seria uma mente. Quando perguntado sobre
interação diferente. De modo através de que a mente iria pensar a
decisivo, o produto da interação seria salinidade da cor e do som, Teeteto
um objeto fenomenal diferente, por responde que, caso fosse possível à
exemplo: uma coisa dura. As mente decidir a questão se uma cor
características de um objeto de ou um som é salgado, ela o faria
sensação refletem seu através da faculdade da língua. Juízos
“apadrinhamento”. simples da forma X é S, quando S é
uma característica sensível, por
Tal como é desenvolvida no exemplo: salinidade, são feitos pela

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percepção. Porém, qual é, então, a envolvido na percepção no Timeu. Ela


diferença entre os juízos desta forma também explica as reservas de Timeu
e o conhecimento? A diferença, quanto às teorias dos objetos físicos.
segundo Sócrates, é que o O objeto-como-percebido é acessível
conhecimento requer a apreensão de pela percepção, mas o objeto-como-
certas características comuns, a percebido é um produto da interação
saber: verdade e ousia (ser). A mente entre o sentido e o objeto ex- temo.
apreende estas características depois Não temos acesso direto aos objetos
de um longo e árduo esforço de físicos. No Timeu, as características
raciocínio sobre elas e ao pensar sensíveis dos objetos são analisadas
sobre elas sobre a relação de uma em termos de suas estruturas
com a outra durante o tempo (186b6- geométricas subjacentes. Porém,
d5). Apreender a ousia de X consiste Timeu é cauteloso ao apresentar suas
em apreender X incrustado no descobertas e lembra à sua audiência
contexto ontológico e causai maior que a exposição é somente provável.
que fornece uma compreensão O Teeteto nos dá uma exposição da
inteiramente adequada de X. O juízo percepção que permite que quem
de percepção simples, “isto é percebe apreenda os objetos
salgado”, não é conhecimento porque fenomenais de um modo que forneça
não tem por tema o caráter do item informação confiável sobre o mundo
salgado. Para o conhecimento, é como percebido, mas, mesmo assim,
exigida uma recognição não fica aquém do conhecimento.
perceptiva que o juízo de percepção é
a respeito de uma característica O SOFISTA
fenomenal. Diferentemente da
percepção de uma característica A percepção como tal apenas é
sensível, o conhecimento não mencionada no Sofista. Na batalha
permitiria que seu possuidor entre os amigos das Formas e os
confundisse o objeto fenomenal com Gigantes, os antagonistas demarcam
um objeto que tem estabilidade posições que incluem atitudes
intrínseca, a Forma. diametralmente opostas em relação
ao visível e ao tangível (246a7-249d4).
A exposição do Teeteto da Os amigos das Formas relegam as
percepção é compatível com a percepções ao domínio do vir-a-ser
descrição do processo causai em contraste com o do ser. Os

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Gigantes insistem que nada é a não como apreendido na percepção uma


ser o que possui tangibilidade. O legitimidade epistêmica. Esta
Estrangeiro argumenta que nenhuma possibilidade não é explorada no
das posições pode ser defendida e diálogo, mas, mesmo assim, é
que, além do ser, o filósofo deve importante. A explicação causai da
abarcar o imutável e o mutável percepção no Timeu faz do caráter da
(251d5-254d5). Já que a natureza percepção uma consequência das
mutável dos objetos físicos e formas elementares que a causam.
perceptíveis foi a razão precípua para Esta explicação poderia ser
rejeitar a evidência dos sentidos em desenvolvida à luz do Sofista de um
outros contextos, tornar a mudança modo que tornasse os conteúdos das
ontologicamente respeitável parece percepções semelhanças, antes que
fazer com que a percepção seja meras aparências. Sob estas
epistemicamente respeitável. condições, as percepções
forneceriam uma informação acurada
Ao longo de toda a discussão da sobre objetos estáveis, cujas
sofistica, as noções de semelhança e características seriam especulares às
de tornar-semelhante têm lugar realidades (Formas).
proeminente. Uma distinção
complementar é feita entre uma O FILEBO
semelhança (eikori) que mantém as
proporções verdadeiras e um outro O prazer, não a percepção, é o tópico
tipo de semelhança, uma aparência em análise no Filebo, mas bastante é
(phantasma), que não as mantém, e dito acerca da percepção ao longo da
entre tomar-semelhante e tornar- discussão (ver o capítulo Platão e o
aparente (235c8-236c7, 266d2-e4). Prazer como o Bem Humano).
Os elementos, os animais e outros Prazeres e dores têm conteúdo
coros naturais foram criados pela arte cognitivo; a percepção é a fonte deste
divina e são semelhanças. A sofistica conteúdo. Sócrates descreve um tipo
produz aparências em palavras. A de prazer que pertence à alma. Este
diferença entre a arte divina e a tipo de prazer depende da memória,
humana e a existência de cópias que que, por sua vez, é definida em
mantêm as proporções verdadeiras termos de percepção. A percepção é
de seus originais forneceriam uma o movimento que ocorre quando a
base para atribuir ao mundo físico alma e o corpo são afetados

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conjuntamente (34a3-5). A memória informação a que tem acesso quem


é a preservação da percepção. Em percebe para uso presente ou futuro.
ocasiões particulares, a memória e a Convém notar que este processo,
percepção inscrevem palavras quando tudo funciona bem, faz com
(logous) em nossa alma (39al-7). que a percepção seja uma fonte de
Ademais, as experiências perceptivas informação completamente
também frequentemente dão origem confiável.
a quadros que correspondem às
inscrições verbais. Sócrates explica No Filebo, a percepção é definida
como isso ocorre: “uma pessoa faz de um modo que cobre a consciência
seus juízos e asserções diretamente dos estados internos, bem como a
da vista ou de um outro sentido e percepção pelos sentidos. Não
então vê nele as imagens desses somente a alma tem consciência de
juízos e asserções” (39b9-c2; trad. seus próprios prazeres e dores, mas
Frede). As inscrições e os quadros ela é também consciente dos prazeres
associados são verdadeiros se dão e dores do corpo. Em consequência,
uma exposição correta; falsas, se não. uma pessoa por vezes experimenta
Esta é uma exposição complexa e um prazer psíquico que se opõe a uma
provocativa da vida cognitiva dor corpórea e uma dor psíquica que
humana. Ela entrevê a transformação se opõe a um prazer corpóreo (41dl-
da informação perceptiva em uma 3). Assim como a distância relativa
forma verbal, assim como a retenção dos objetos quanto aos olhos distorce
de características sensíveis. As nossa percepção de seu tamanho
últimas espelham as características da real, assim também a proximidade
percepção original. Um quadro mais relativa temporal dos prazeres e
simples não entreveria nem um dores distorce nossa percepção deles
escritor interno nem um pintor (41e2-42c2; cf. Prt. 356a3-357b2). Em
interno. A função do escritor e do ambos os casos, é possível, para quem
pintor consiste em transferir a percebe com atenção, distinguir entre
informação perceptiva que entra para aparência e realidade. O que
outros meios com vistas à sua distingue um falso prazer de um
conservação na alma. As percepções verdadeiro é uma percepção acurada
redundam espontaneamente em de seu conteúdo. Sócrates faz apelo a
juízos e imagens internas. Isto este quadro para argumentar contra a
maximiza as quantidades e os tipos de restrição de Protarco da verdade e

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falsidade à crença (doxa). Os prazeres um estado de ser capaz de discernir os


falsos são ditos ser imitações ridículas corpos (411c9); a percepção, como
dos prazeres verdadeiros (40c4-6). um movimento da alma pelo corpo
Aqui, a distinção platônica familiar (414c5-7). Em ambas as obras
entre aparência e realidade, que por encontramos a suposição que as
vezes parece separar a percepção da percepções são frequentemente
intelecção, é aplicada às percepções verídicas.
de prazeres e dores, bem como a
juízos. Algumas percepções são UMA VISÃO GERAL
corretas e nos dão informação acerca
das realidades; algumas não o são e Nosso exame dos diálogos revelou
nos apresentam somente aparências certos temas consistentes no modo
enganadoras. de Platão tratar a percepção, tanto
nas poucas discussões explícitas
A SÉTIMA CARTA E AS DEFINIÇÕES quanto nas suposições, implícitas e
explícitas, feitas sobre a percepção.
A autoria da Sétima Carta é objeto de Uma característica constante é a
disputa e as Definições são sem identificação da percepção com uma
dúvida um manual platônico que não atividade psíco-física na qual
foi escrito por Platão (ver o capítulo A alterações no corpo são comunicadas
Vida de Platão de Atenas). Contudo, já à alma. Esta atividade é o resultado do
que a percepção é discutida em impacto do mundo externo no corpo
ambas as obras, uma rápida olhada de vários modos. Em alguns casos, por
nestas passagens parece exemplo: audição, o corpo é
conveniente. O autor da Sétima Carta basicamente passivo enquanto sofre
defende a importância de uma a ação do mundo; em outros, o corpo
tradição oral, na qual o método contribui com as condições que
filosófico preferido é o da discussão tornam possível a percepção; por
dialética. É “somente quando nomes, exemplo: o raio visual enviado pelo
definições, percepções visuais e olho. Tipicamente, a sequência causai
outras são friccionadas umas às começa no mundo externo quando
outras” e postas a teste em discussão um objeto ou evento atua no órgão de
que a natureza de algo pode ser sentido e o movimento no órgão é
compreendida (344b 1-cl). Nas então comunicado à alma. Uma
Definições, a visão é definida como sequência similar de eventos ocorre

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internamente no caso da consciência que apenas ter recebido uma


das sensações corpóreas; por informação de outros acerca dos
exemplo: a consciência de uma dor de mesmos eventos e objetos. Perceber
dente ou de uma dor nas costas. o mundo diretamente pelos sentidos
é um pré-requisito para estar na
Outra característica comum é a melhor posição epistêmica que se
concepção de Platão de uma pode estar com relação aos objetos
faculdade cognitiva. Todas as físicos.
faculdades cognitivas, perceptivas e
intelectuais, são distinguidas por seus Outras características da
objetos (ver o capítulo A Alma percepção, todavia, parecem mudar
Platônica). A visão é distinta da de um diálogo para outro. Isto é
audição porque a cor é distinta do especialmente verdadeiro do valor
som. Os objetos que percebemos não atribuído às apreensões cognitivas
possuem a estabilidade inerente que dos objetos físicos por meio da
caracteriza os objetos de percepção e a questão conexa de
pensamento. Dado que o objeto- saber se a informação que é
como-percebido é uma consequência apresentada pela percepção pode ser-
de uma interação entre quem vir como base para as crenças
percebe e o objeto externo, o objeto- verdadeiras. A tese do Fédon que a
como-percebido partilha de muitas alma é sempre enganada quando se
características do objeto externo que baseia no corpo contrasta com a
causa a percepção. O objeto-como- aceitação do Filebo da percepção
percebido é tão estável ou instável como uma fonte da opinião
quanto sua causa. verdadeira.

Na República e em outros Há várias estratégias para resolver


diálogos do período médio, a estas tensões (ver o capítulo
apreensão direta de um objeto – Interpretando Platão). Em uma linha
como se dá na visão – é o modelo para plausível, as teses de Platão sobre a
a apreensão intelectual bem- percepção evoluem. Elas evoluem de
sucedida. Ademais, de acordo com uma aceitação bastante acrítica da
Platão, na aquisição da informação percepção sensível nos diálogos
sobre o mundo, é sempre melhor socráticos para um desencantamento
epistemicamente ter percebido do considerável com sua capacidade de

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fornecer algo com algum valor Platão se volta às condições do


epistêmico no início do período conhecimento, ele enfatiza a
médio, e daí a uma aceitação mais importância das apreensões que são
nuançada de sua capacidade crítica integradas em uma rede de crenças
nos últimos diálogos. Há também a verdadeiras consistentes. Desta
alternativa que não supõe nenhuma perspectiva, o conhecimento de
ordem dos diálogos, ao mesmo tempo perceptíveis é possível, embora as
em que atribui uma visão coerente a percepções ainda não sejam
Platão. Platão enfatiza diferentes instâncias de conhecimento. Em
aspectos de uma explicação matizada ambas as leituras, a opinião
da percepção em todos os seus verdadeira e mesmo a opinião
diálogos. Ele sempre quer atribuir um verdadeira justificada em nosso
papel para a percepção como uma sentido, mas não no sentido de Platão,
fonte confiável de informação sobre o pode basear-se na percepção e o é
mundo físico. Uma razão de por que frequentemente.
não se pode confiar nas percepções
para apreender firmemente verdades Uma questão intimamente ligada
inalteráveis é que os objetos a estas é a da diferença entre
apresentados na percepção são sem- percepção e conhecimento.
pre de um modo instáveis. Este pecha Percepções por vezes fornecem
se en- raíza na natureza dos corpos e informação enganadora; o
no mundo físico. O aparente ceticismo conhecimento nunca o faz, mas o que
de Platão acerca dos sentidos é distingue a percepção verdadeira de
comandado por seu ceticismo acerca um caso de conhecimento? Em muitas
dos objetos físicos. Não é que o passagens, o conhecimento é descrito
caráter dos sentidos é tal que não em termos de uma apreensão
podemos conhecer os objetos físicos imediata de um objeto. Assim
pelos sentidos; antes, é que o caráter descrito, o conhecimento é muito
dos objetos físicos é tal que não os parecido com uma instância de
podemos conhecer completamente. percepção de um tipo especial de
Assim, a fim de apreender objetos que objeto. O amante do Belo-em-si
são inteiramente inteligíveis, o parece estar na mesma relação
intelecto deve separar-se a si mesmo cognitiva ao Belo-em-si em que está o
da apresentação dos objetos físicos amante das coisas belas, quando ele
pela percepção. Quando a atenção de vislumbra um belo corpo. A diferença,

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como desenvolvida por Sócrates na estão além da apreensão da


República V (474d3-480al3) se dá percepção.
puramente em termos das
características do Belo-em-si, sua Pusemo-nos a investigar as teses
natureza imutável, seu ser de Platão sobre a natureza da
essencialmente belo em todos os percepção. Perguntamo-nos se Platão
aspectos. Contudo, como Sócrates se aceitava que a percepção tivesse um
apressa em tornar claro na discussão papel na aquisição das crenças
da linha dividida, os objetos do verdadeiras. Está agora claro que
conhecimento e as Formas estão chegou o momento para uma
interligados. Temos conhecimento resposta afirmativa a esta questão.
quando apreendemos uma inteira Platão aceita que percepções
rede conceituai e possuímos uma constituam crenças verdadeiras, mas
quantidade de proposições ele não permite que a percepção por
verdadeiras interconectadas. Esta si mesma redunde diretamente em
concepção do conhecimento e do juízos sobre a verdade destas crenças.
entendimento fica bem evidente nas Isto é uma posição matizada que não
obras posteriores, como o Teeteto e o se ajusta particularmente bem como
Sofista. Se o conhecimento não é o uso moderno padrão de
simplesmente a apreensão imediata, “verdadeiro”. Talvez o melhor modo
do tipo da percepção, de objetos de exprimir a posição de Platão em
independentes do tipo certo, a saber: termos familiares seja dizer que as
as Formas, então a percepção, ainda percepções podem constituir crenças
que seja imediata, fornece no melhor verídicas, que são verdadeiras no
dos casos um vislumbre acurado, mas sentido em que apreendem
sempre ficará aquém do corretamente o objeto percebido,
conhecimento. O conhecimento mas as crenças perceptivas
requer uma compreensão verdadeiras não satisfazem os
contextualizada, baseada na critérios de Platão para a justificação.
apreensão de todos os conceitos Uma crença verdadeira justificada, de
relevantes. A avaliação da verdade de acordo com Platão, requer um
um juízo de percepção requer que a entendimento completo do
mente coloque o juízo de percepção fenômeno em questão. Esta é a força
em uma rede de crenças, algumas das da afirmação no Teeteto que a
quais empregando conceitos que percepção não pode fazer juízos sobre

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a verdade (186b-d). Isto pode and knowledge: Theaetetus 184-186.


também explicar aquelas afirmações Phronesis 15, pp. 123-46.
ocasionais, espalhadas ao longo de Fine, G. (1990). Knowledge and belief in
todo o corpus platônico, que parecem Republic V-VII. In S. Everson (ed.) Companions
to Anríent Thought, vol. I: Epistemology (pp.
exprimir um forte ceticismo acerca da
85-115). Cambridge: Cambridge University
confiabilidade da percepção. Como Press.
vimos, mesmo nos diálogos nos quais
Frede, M. (1987). Observations on perception
se encontram estas afirmações, in Plato’s later dialogues. In Essays in Ancient
outras descrições da percepção traem Philosophy (pp. 3-8). Minneapolis: University
uma condenação forte da percepção e of Minneapolis.
sugerem que a percepção é confiável Holland, A. (1973). An argument in Plato’s
com respeito a um certo tipo de Theaetetus: 184-186. Philosophical Quarterly
objetos. A despeito de nossas 23, pp. 97-116.
inquietudes iniciais, como se mostra Kanayama, Y. (1987). Perceiving, considering,
agora, Platão tem de fato uma and attaining being (Theaetetus 184-186).
explicação interessante e coerente da Oxford Studies in Anríent Philosophy 5, pp. 29-
percepção como um poder cognitivo 82.
completo. Modrak, D. K. (1981). Perception
andjudgment in the Theaetetus. Phronesis 26,
pp. 35-54. Nakhnikian, G. (1955). Plato’s
NOTA
theoiy of sensation. Review of Metaphysics 9,
pp. 129-48, 306-27.
Todas as traduções são da autora, a menos
que haja indicação em contrário. Schipper, E. (1961). Perceptual judgments
and particulars in Plato’s later philosophy.
Phronesis 6, pp. 102-9.
REFERÊNCIAS E LEITURA
COMPLEMENTAR Hirnbull, R. (1978). The role of the “Special
Sensibles” in the perception theories of Plato
Bedu-Addo, J. (1991). Sense-experience and and Aristotle. In R Machamer and R. Tumbull
the argument for recoUection in Plato’s (eds.) Studies in Perception (pp. 3-26).
Phaedo. Phronesis 36, pp. 27-60. Columbus: Ohio State University Press.

Bondeson, W. (1969). Perception, true


opinion and knowledge in Plato’s Theaetetus.
Phronesis 14, pp. 111-22.
Bumyeat, M. (1976). Plato on the grammar of
perceiving. Classical Quarterly 70, pp. 29-51.
Cooper, J. (1970). Plato on sense-perception

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O conhecimento e as formas em entender o que é requerido para que


Platão um contexto se apresente como
propriamente epistemológico em
MICHAEL FEREJOHN caráter (ver Benson, 2000, p. 3-10
para uma excelente defesa de uma
GRAUS DE ENVOLVIMENTO resposta categórica afirmativa).
EPISTEMOLÓGICO Começando pela observação simples
que a epistemologia moderna tem seu
Historiadores da tradição filosófica nome proveniente do verbo grego
ocidental estão em geral de acordo antigo epistamai e do nome dele
que as raízes da epistemologia não derivado epistêmê, para estabelecer
vão para além dos diálogos um ponto de comparação devemos
platônicos. Isto, porém, dá origem à concordar que a competência lin-
questão mais precisa de quando güística básica no uso destas
exatamente e como este campo de expressões e de outras sinônimas não
estudo surgiu no interior deste grande faz por si mesma que alguém seja um
corpo de obras. Mais epistemólogo, assim como
especificamente, segundo a
interpretação “desenvolvimentista” que a habilidade em usar o termo
comum dos diálogos como “pássaro” de modo competente não
representando estágios progressivos torna alguém um omitólogo.
do pensamento de Platão, uma Devemos, portanto, isolar um
questão que naturalmente surge é se conjunto de aplicações que possam
os primeiros diálogos de Platão, ou ser denominadas “primordiais” ou
“socráticos”, contêm contextos que “refletidas” porque se apoiam em
podem ser tidos com plausibi- lidade razões que invocam condições
como epistemológicos à luz moderna supostamente necessárias no seu uso
(ver o capítulo Interpretando Platão). correto. Nesta concepção mínima, o
caráter de Sócrates nos primeiros
Como frequentemente ocorre diálogos de Platão seria classificado
com questões históricas de como o de um epistemólogo, visto
classificação deste tipo, a resposta que é muito comum nestas obras vê-
deve tomar a forma de um conjunto lo concluir que as outras pessoas ao
de condições especificando os dife- seu redor fracassam em certos testes
rentes modos possíveis de se da posse de conhecimento genuíno

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que ele aplica. desenvolver um conjunto de


condições necessárias e suficientes
Porém, obviamente, nem todas as ra- para a posse do conhecimento e,
zões que alguém oferece para aplicar assim, não se pode dizer que
ou recusar um termo não são contenham uma análise do conhe-
igualmente boas e, dado que a cimento (ver o capítulo Definições
epistemologia é essencialmente um Platônicas e Formas). Ademais, visto
empreendimento filosófico, seria que Sócrates não oferece nenhuma
talvez indevidamente generoso análise do conhecimento nos
admitir em seu domínio a invocação primeiros diálogos, ele não está em
de razões más ou irrelevantes, como posição de empreender o aspecto
as baseadas em reações subjetivas ou mais reconhecível da epistemologia
apelos à autoridade infundada. Para moderna, a avaliação comparativa de
os excluir, devemos fortalecer nossa análises diferentes em competição.
concepção de epistemologia exigindo Na seção seguinte, vou dar uma
que as razões dadas sejam as explicação de como, durante o curso
filosóficas que têm alguma conexão da carreira filosófica de Platão, as
objetiva com as condições que se atividades teóricas mais afeitas à
esperaria com razoabilidade que todo epistemologia moderna surgem a
aquele que possui um conhecimento partir de inícios socráticos
genuíno pudesse satisfazer. Como se relativamente modestos. Depois
verá, a concepção mais forte de disso, vou considerar como a
epistemologia gerada por esta epistemologia de Platão se
qualificação também é detectada nos desenvolveu subsequentemente e se
primeiros diálogos platônicos. Esta, alterou nos períodos médio e tardio.
porém, penso, é a concepção mais
forte que se pode encontrar nestas O PROGRAMA SOCRÁTICO
obras e está aquém da epistemologia DE CERTIFICAÇÃO
como é atualmente
Na maior parte dos comentários, as
discussões socráticas representadas
nos primeiros diálogos platônicos
praticada. Para começar, os primeiros dedicam-se quase inteiramente às
diálogos mostram que não há questões práticas éticas de iden-
nenhuma preocupação em tificar, adotar e promover a melhor

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forma possível de vida humana, isto é, assunto, nem grande nem pequeno”
a mais virtuosa. O problema, contudo, (21bl-5). Contudo, reconhecendo que
é que Sócrates reconhece que não os pronunciamentos do oráculo não
falta em Atenas quem, por si mesmo podem ser falsos, ele se põe a
ou por outros, pense que possui investigar este enigma procurando
competência suficiente para falar indivíduos na cidade reputados pela
com autoridade nestes assuntos. Seu sabedoria e os interrogando para
projeto principal, então, consiste em determinar se, per impossibile, eram
encontrar modos de distinguir com realmente sábios e o oráculo estava
eficiência entre a competência moral errado ou se não tinham a sabedoria
genuína – a pessoa autenticamente que pensavam possuir.
sábia, cujo conselho em matéria
prática deve ser seguido – e os vários Dada a infalibilidade
pretendentes a esta posição. inquestionável do oráculo, o
resultado da investigação de Sócrates
Ao se dedicar a esta tarefa, muito é inteiramente previsível: ele nos diz
naturalmente Sócrates se põe a que cada um dele se revelava, após o
formular condições necessárias, ou exame, não ser realmente sábio. Uma
testes, para a posse de competência das coisas mais importantes destas
genuína em qualquer campo. passagens, todavia, é o quão pouco
Todavia, em muitos casos os testes aprendemos por elas acerca das
empregados de fato neste “programa razões de Sócrates para estas
conclusões negativas. Para dar
de certificação” socrático ficam quase somente um exemplo representativo,
inteiramente sem relato. Talvez o no caso de um Político não nomeado
mais antigo texto relevante seja Ap. que ele interroga, Sócrates diz
20e8-21d7, uma passagem bem somente, em 21c5-8, que, após “ter
conhecida em que Sócrates descreve conversado com ele” (dialego- menos
sua reação ao lhe dizerem o pro- auto(i)), concluiu que este homem
nunciamento do oráculo de Delfos parecia sábio, mas não era realmente
que “ninguém é mais sábio que sábio (einai d’ ou). Sócrates, porém,
Sócrates”. De acordo com Sócrates, não nos diz o que aconteceu durante
ele fica inicialmente intrigado por esta “conversa” para lhe dar esta
este dito, visto que pensa que ele impressão. Assim, ainda que estas
próprio “não é sábio em nenhum passagens na Apologia tornem

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suficientemente claro que Sócrates pode autenticar sua pretensão de co-


está aplicando certos testes (e, nhecimento ao produzir o tipo
portanto, pressupondo certas apropriado de explicação (logos)
condições necessárias) para a posse pedida. Todavia, como aparece nos
do conhecimento e da sabedoria, elas primeiros diálogos, o requerimento é
simplesmente não contêm de fato bastante amorfo e é eviden-
informação suficiente sobre o que temente entendido por Sócrates e por
transparece nestas interrogações de seus interlocutores de modo muito
modo a revelar algo substancial diferente em diferentes contextos.
acerca da natureza ou do conteúdo
destes testes. Felizmente, passagens Para começar, o que chamarei
em alguns dos outros primeiros “requerimento de explicação” é por
diálogos fornecem vezes posto em operação em
consideravelmente mais informação passagens nas quais o projeto
sobre este sujeito. socrático de certificação ganha um
tom muito claramente ad hominem.
Nestes lugares, Sócrates parece estar
muito mais preocupado em tentar
O REQUERIMENTO DE determinar se alguém reputadamente
EXPLICAÇÃO GERAL sábia que está à sua frente é um
entendedor genuíno do que em deci-
Talvez o mais comum e mais dir diretamente sobre uma pretensão
conhecido dos testes de Sócrates seja particular de conhecimento que seu
um produto de sua tendência bem interlocutor faz durante o curso da
documentada de considerar as interrogação. (Talvez Sócrates pense
“artes” (technai), como medicina e que os pronunciamentos de um
navegação, como fornecendo os entendedor certificado possam em
exemplos mais claros de competência geral ser aceitos como confiáveis. Tal
genuína. Uma ramificação atitude autoritária em questões éticas
particularmente potente deste parece inteiramente não socrática,
“modelo-das-artes” de conhecimento mas talvez esteja sugerida em Cri.
é uma visão crucial que termina por ir 47al2-d5.) Uma descrição
no coração da epistemologia particularmente vivida disso é dada
platônica (e aristotélica) adentro, a em La. 187e6-188a2, quando Nícias
saber, que um entendedor de fato descreve o que ele pensa ser o efeito

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inevitável de uma exposição seu programa de certificação de um


prolongada ao questionamento modo muito mais “impessoal” e
socrático: parece perguntar que condições
qualquer um teria de satisfazer para
Quem quer que se aproxime de constar como alguém que conhece
Sócrates e converse com ele... um dado assunto. Isso é tipicamente
não será capaz de parar até ser feito por meio do uso de pronomes na
levado a dar uma explicação de primeira pessoa do plural. Por
si próprio, do modo como exemplo, quando Sócrates dá início
atualmente ao seu procedimento de certificação
em La. 186a2-b5, ele se inclui de
passa os dias e do tipo de vida modo aberto entre os que devem ser
que tem vivido. testados pela competência no tema
de identificar e aportar coragem –
Nesta e em outras passagens embora nunca tivesse reivindicado
similares, o procedimento de competência alguma neste campo.
certificação de Sócrates parece Similarmente, bem no final da
basear-se em uma ideia bastante sol- República I (que eu considero um
ta que um entendedor verdadeiro contexto “socrático”; ver Irwin, 1995,
deve ser capaz de responder inteira e p. 376 n. 1), em 354al2-c3, Sócrates
honestamente ao questionamento de apostrofa todos – novamente,
Sócrates sem cair em inconsistências incluindo-se a si mesmo – por
doutrinais ou em outros tipos de tentarem dizer coisas sobre a justiça
incongruências “práticas”. Porém, sem ter antes descoberto o que é a
estas passagens nada nos dizem justiça.
acerca da forma que deve tomar uma
tal “explicação de si mesmo” e, deste Penso que essa “despersonalização”
modo, não constituem muito avanço dos testes socráticos de competência
em relação às passagens da Apologia é um dos dois fatores cruciais que
discutidas antes. contribuem ao desenvolvimento da
epistemologia platônica posterior,
Além destes contextos ad pois, enquanto sugeri anteriormente
hominem, os primeiros diálogos que, em sua forma ad hominem, o
também possuem outras passagens requerimento de explicação no fundo
nas quais Sócrates parece conceber é um teste vago de “sobrevivência

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elêntica” (por um período de tempo plausivelmente ser pensado como


não especificado) nas idas e vindas da provindo do que se poderia razoa-
interrogação socrática, nos contextos velmente esperar de pessoas
“impessoais” ele adquire genuinamente competentes. Uma
destas variantes é que competentes
genuínos saberão – e serão capazes
de exprimir – o que é o tema de sua
formas comparativamente competência. No que descrevi como
específicas e precisas muito mais em contextos ad hominem, o
linha com o que pode razoavelmente requerimento talvez redunde em
ser visto como as condições pouco mais do que o truísmo que,
filosóficas plausíveis da posse de para falar com conhecimento, você
conhecimento genuíno (ver o deve conhecer aquilo sobre o qual
capítulo O Elenchus Socrático). está falando. Esta parece ser a atitude
de Sócrates em Euthphr. 4e3-8,
RELATOS DE DEFINIÇÃO E quando reage com incredulidade ao
RELATOS EXPLICATIVOS anúncio presunçoso de seu inter-
locutor que pretende acusar seu
Há, contudo, uma complicação próprio pai de assassinato com base
adicional que deve agora ser em dados factuais questionáveis:
acrescentada às atas. Nesta seção,
pretendo mostrar que, em diferentes Em nome de Zeus, Eutifro, você
contextos de certificação pensa que seu conhecimento
“impessoais” nos primeiros diálogos, das Leis divinas, da piedade e da
o requerimento de explicação geral impiedade é tão exato que, os
recebe duas especificações distintas. fatos sendo como você
Como veremos, elas passam a ter um descreve, não teme cometer
papel importante, tanto algo ímpio ao acusar seu pai de
individualmente quanto em assassinato?
combinação, na epistemologia
platônica posterior. Em contraste, no que chamo con-
textos “impessoais”, o requerimento
Cada um destes dois modos é
diferentes de compreender o
requerimento de explicação poderia aparentemente apresentado como

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um princípio metodológico que se associa naturalmente a uma


determina a ordem própria das competência genuína. Neste caso, a
investigações socráticas (ver Benson, ideia principal é que pessoas
2000, p. caps. 5-7). Este assim verdadeiramente competentes não
chamado princípio de “prioridade da fazem repousar suas crenças e
definição” está operando, por decisões meramente em sua
exemplo, em La. 190b7-c2, quando autoridade presumida; ao invés disso,
Sócrates insiste que não será possível elas estão prontas a apoiar seus juízos
falar com conhecimento acerca do com explicações de sua correção. Para
melhor modo de adquirir a virtude a dizer em termos aristotélicos
menos que primeiramente saibamos posteriores, pessoas verdadei-
“o que é a virtude” (ti estin pote areie) ramente competentes conhecem (e
(ver o capítulo A Ignorância podem mostrar) não somente que
Socrático). Similarmente, na certas coisas são assim, mas também
República I, em 354b 1-cl, ele declara por que elas são assim (Apo. I.2.71b9-
que foi um erro tentar descobrir fatos 16). Ocorre que a evidência textual
acerca da justiça antes de determinar para esta segunda variante do re-
“o que é a justiça” (to dikaion ho ti querimento de explicação é menos
pot’estiri). Porém, estas diferenças direta, já que Sócrates nunca a
postas de lado, é razoavelmente claro formula explicitamente nestas obras,
que em ambos os tipos de contextos mas creio que é decisiva. As
Sócrates compreende o passagens-chave são aquelas nas
requerimento de explicação como o quais Sócrates detalha seu pedido
pedido razoável de propor e defender para que pessoas reputadamente
uma resposta satisfatória à questão competentes proponham (e
“o que é X?” Nesta especificação, o defendam) relatos definicionais dos
tipo de explicação que Sócrates pede temas sobre os quais são tidos como
de alguém reputado competente é autoridades.
um relato definicional – isto é, uma
definição – do tema da alegada
competência.
Por exemplo, em Euthpht. 6d9-el, logo
A segunda variante do após ter pedido a Eutifro para lhe
requerimento de explicação socrático dizer “o que é a piedade”, Sócrates
provém também das capacidades que expande este pedido da seguinte

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maneira: “pedi-lhe para me dizer... “lógicas”.)


aquela forma essencial graças à qual
(hô(i)) todas as coisas pias são pias”. PERSPECTIVAS CRÔNICAS
E EPISÓDICAS SOBRE O
Ao usar uma linguagem causai CONHECIMENTO
aqui e em passagens paralelas (ver as
ocorrências de dia ao longo de Se, como acabei de argumentar,
Euthphr. 9e-llb e em Men. 72c8), Sócrates se baseia na variante
Sócrates não pode estar explicativa do requerimento de
comprometendo-se com a opinião explicação nos primeiros diálogos,
excêntrica que a “forma essencial” da pode-se perguntar por que ele nunca
piedade literalmente causa uma a formula explicitamente nestas
pessoa ou um ato ser pio. Em função obras, como o faz com a versão da
de seu interesse central na aquisição definição. A explicação, sugiro, é que
da virtude, ele está seguramente só no Mênon o programa socrático de
consciente que fatores como certificação passa por uma segunda
formação e treinamento são o que transformação-chave, que pode ser
têm estes papéis causais. A caridade vista como uma extensão natural da
interpretativa recomenda, portanto, “des- personalização” discutida
que interpretemos estas passagens anteriormente, sem a qual, porém, o
não como dizendo respeito à papel dos relatos
responsabilidade causai, mas à
prioridade explicativa, e que ele “explicativos” permanece
espera que a resposta correta à sua parcialmente obscurecido.
questão “o que é a piedade” explicará
por que certos atos ou pessoas são Em diálogos jovens como o Íon e
propriamente classificados como o Laques, Sócrates tinha explorado a
pios. Fornecerá, em outras palavras, questão de quais características
razões “logicamente suficientes”, mas permanentes uma pessoa
não que “necessitam cau- salmente”, supostamente competente devia
para que algo seja pio. (Observe que a possuir para ser considerada como
expressão “logicamente suficiente” é genuinamente competente. Em
usada aqui e infra no sentido largo de contraste, na última parte do Mênon,
incluir implicações “analíticas”, bem Sócrates começa a pôr o foco mais
como implicações estritamente estritamente na questão de que

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Hugh H. PLATÃO
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condições devem ocorrer para que permanecem (paramenei); ao


uma pessoa – em uma dada ocasião – contrário, tendem a “fugir”
seja dita possuir conhecimento, em (apodidraskei) e, portanto, “não são
oposição a meramente ter uma de muito valor” (ou pollou axiai eisiri).
crença verdadeira. Esta perspectiva Em contraste, declara ele, o
episódica aparece de súbito em 96d5- conhecimento genuíno seria análogo
97c2, quando Sócrates põe em dúvida a tal estátua que teria sido “amar-
sua conclusão anterior que a virtude – rada” e, portanto, não se mexe. Ele
considerada como uma condição então se alonga nesta “amarra”
psicológica crônica – deveria ser metafórica fazendo uma conexão
classificada como “um tipo de explícita entre o conhecimento e a
conhecimento” (88d2-3). Ele agora posse de relatos “explicativos”:
argumenta que, caso se esteja “[meras] crenças verdadeiras não
simplesmente interessado, em uma valem muito, até que se as amarrem
dada ocasião, em ir de um lugar a (dêsê(i)) com ‘explicações causais’
outro, não faria nenhuma diferença, (aitias logismô(i))” (98al-4).
de um ponto de vista puramente prá-
tico, se é consultado alguém que
realmente conhece o caminho ou
alguém que meramente tem uma Sócrates aqui está claramente
opinião mal fundamentada que lidando com as condições sob as quais
ocorre ser verdadeira. alguém (na verdade, qualquer um)
pode ser tido possuir conhecimento
Contudo, assim que conclui que em uma ocasião particular. Donde a
não há diferença prática entre o razão final para a diferença na
conhecimento e a mera crença visibilidade entre as duas
verdadeira, Sócrates imediatamente compreensões do requerimento de
faz de novo uma reviravolta ao sugerir explicação de Sócrates deve agora
uma distinção conceituai entre os estar clara. Diferentemente da
dois. Ele o faz invocando a imagem variante definicional, que se liga
das estátuas de Dédalo que se movem primariamente ao sujeito
a si mesmas, às quais assemelha a cognoscente como uma condição da
crença verdadeira com base em que, competência, a variante explicativa
na medida em que não estão “amar- constitui uma condição necessária
radas” (dedemena), elas não para a atribuição de conhecimento

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em uma ocasião particular. É por isso saliente mencionada em uma forma


que não é articulada até o Mênon, característica de explicação”.)
quando Platão começa a investigar a
natureza do conhecimento a partir da Como argumentei
perspectiva episódica. anteriormente, em Euthphr. 6d9-el,
quando Sócrates descreve a essência
A AITITA FORMAL da piedade como aquilo graças ao
qual as coisas pias são pias, ele não
Na última seção, distingui está sugerindo que a posse da
cuidadosamente entre as duas essência da piedade de algum modo
variantes socráticas do requerimento induz alguém a ser pio, mas somente
de explicação geral, mas não quis que algo que satisfaz a definição
sugerir que são inteiramente
desconecta- das. De fato, bem ao de piedade deveria explicar, de um
contrário, creio que são modo muito especial, por que esta
frequentemente postas juntas nos coisa deve ser classificada como pia. É
primeiros diálogos para formar um bem documentado que Sócrates
tipo muito especial de esquema nunca descobre a correta definição de
explicativo ao qual Aristóteles piedade ou de qualquer outra virtude
posteriormente se refere em Ph. ao longo dos primeiros diálogos e,
assim, estas obras não podem
II.3 (194b24-195a3) como a “aitia apresentar casos do tipo de
formal”. (Tradicionalmente, o termo explicação que tem em mente.
aitia é traduzido por “causa”, o que dá Contudo, se aceitarmos que XYZ
a impressão enganadora que está figuram como a correta definição
limitado à noção moderna de causa (desconhecida) de piedade e que A
“eficiente”. Visto que, para Platão e denota um ato pio, penso que o tipo
Aristóteles, as aitiai são os modos de explicação que Sócrates busca
últimos de explicação, algumas pode ser representado pelo seguinte
traduções recentes fazem um uso esquema silogístico:
selvagem da conjunção “porque”
para traduzir este substantivo. XYZ = d/
Provavelmente a tradução mais fiel, Piedade AéXYZ
mas dificilmente a mais elegante,
seria algo como “a entidade mais Portanto, A é pio.

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O ponto-chave a observar é que, opinião, Sócrates não somente


enquanto este silogismo como um aceitaria esta sugestão, mas muito
todo é um relato explicativo da possivelmente veria estas explicações
piedade de A, sua premissa menor é “formais” como o único tipo
ao mesmo tempo um relato admissível de
definicional (isto é, uma definição) da
própria piedade. Em outras palavras,
a conexão entre os dois diferentes
tipos de relatos anteriormente “explicação causai” capaz de
distinguidos é que relatos transformar a mera crença verdadeira
defínicionais podem funcionar como em conhecimento. Certamente, nem
princípios explicativos no interior de os primeiros diálogos nem o Mênon
um tipo muito especial de relato contêm o menor traço dos três outros
explicativo, a saber, o tipo que modos de explicação (aitiai) distin-
Aristóteles posteriormente descreve guidos posteriormente por Aristóteles
como a “aitia formal”. (Além dos tipos em Ph. II.3. Em contraste, veremos
“eficiente” e “formal” já referidos, que, assim que Platão vai além do
esta passagem também lista dois Mênon e ao longo de seu período
outros, as aitiai assim ditas “final” e médio, seu pensamento passa por
“material”.) dois desenvolvimentos importantes.
Por um lado, o alcance das formas
Segundo meu argumento anterior, legítimas de explicação que ele
Sócrates não está em posição de considera aumenta con-
formular explicitamente a variante sideravelmente. Mas de modo ainda
explicativa do requerimento de mais significativo, ele passa a ver uma
explicação nos primeiros diálogos necessidade de suplementar sua
porque lá ele ainda não começou a teoria do conhecimento com um
pensar sobre o conhecimento da embasamento metafísico (ver o
perspectiva episódica. Dito isso, vale a capítulo Aprendendo sobre Platão
pena considerar se, em sua posição no com Aristóteles).
Mênon (depois de ter feito este
passo), ele veria retrospectivamente METAFÍSICA E EPISTEMOLOGIA
estas explicações “formais” como NA REPÚBLICA
casos do que ele chama “explicações
causais” em Men. 98al-4. Em minha A República pode certamente figurar

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sozinha como um manual clássico em acredita que tal conhecimento é


epistemologia e metafísica. Mesmo possível e aceita a visão heraclítea que
assim, as investigações de Platão falta completamente ao mundo
nestes domínios nunca são sensível este tipo de entidade, ele é
empreendidas por si mesmas, pois, levado na República VI e VII a postular
mesmo que este diálogo notável a existência de tais entidades estáveis
tocasse em tópicos em quase todas as “alhures” – em um lugar “separado”
áreas da filosofia, todas as suas do mundo apresentado pelos
doutrinas são em última instância sentidos. Não é claro se as razões de
subservientes ao seu projeto ético Platão para pensar que os objetos
central. Em particular, a ética e a sensíveis não são objetos apropriados
teoria política de Platão requerem a de conhecimento provêm do fato que
possibilidade real de uma capacidade eles estão continuamente mudando
humana excepcionalmente confiável suas propriedades ao longo do tempo
de fazer juízos éticos corretos, que po- ou se provêm de uma consideração
dem então ser utilizados no tipo muito diferente, que foi denominada
próprio de governo de um Estado “copresença de opostos”, que se pode
Político que funciona bem ou de uma mostrar que todo predicado que se
pessoa ética bem desenvolvida (ver o aplica a eles também, com igual
capítulo As Formas e as Ciências em plausibili- dade, não se aplica. (Sobre
Sócrates e Platão). A ideia inovadora isso, ver Irwin, 1995: capacidade. 10.)
da República é que, se tais juízos Parece assim que a invenção filosófica
éticos não devem ser “fugidios” ao mais conhecida de Platão – a Teoria
modo das estátuas de Dédalo, devem das Formas – foi concebida espe-
ter como objetos entidades com cificamente para esta tarefa
naturezas que sejam suficientemente epistemológica (ver o capítulo
fixas, estáveis e determinadas. Problemas para as Formas).
(Observe que Platão pode estar
jogando com a distinção entre um Uma coisa que surpreende um
estado cognitivo que é ele próprio fixo leitor atento da República já
e estável no Mênon e um estado familiarizado com a obra anterior de
cognitivo que tem um objeto com Platão é a ausência virtual do
uma natureza fixa requerimento de explicação do
conhecimento que é tão proeminente
e estável na República.) Como Platão nos primeiros diálogos e na parte final

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do Mênon. Assim, por exemplo, ao respeito primariamente a como o


apresentar sua teoria por meio da geômetra descobre seus teoremas,
famosa Alegoria da Caverna na não como ele os justifica para outros.
República VII, Sócrates não mostra
nenhum interesse em determinar se A falta virtual de interesse no
seu protagonista (um filósofo que requerimento de explicação na
adquiriu conhecimento genuíno das República pode facilmente dar a
Formas e então retornou à caverna) impressão que Platão abandonou o
poderia passar no teste socrático do projeto do Mênon de fundamentar a
conhecimento fornecendo uma distinção entre conhecimento e
explicação – de qualquer tipo – para crença formulando uma condição
seus co-habitantes não iluminados. epistemológica – a habilidade a dar o
Ele meramente diz que o filósofo, tipo certo de explicação – e decidiu,
quando habituado à caverna, dis- em seu lugar, atingir este objetivo
cernirá “infinitamente melhor” o que propondo uma distinção metafísica
se apresenta lá (520c3-6) e, portanto, entre os objetos respectivos dos dois
será mais capaz de “agir com modos de cog- nição. Isso, penso, é
sabedoria em assuntos privados e uma impressão errada provocada
públicos” (517c4-5) porque viu “a pelos contextos dramáticos dife-
causa de tudo o que é correto e belo” rentes dos diálogos em questão (ver o
(a saber, a Forma do Bem). Na verda- capítulo A Forma e os Diálogos
de, ao descrever a seção superior Platônicos).
“inteligível” da Linha Dividida na
República VI, em 510b2-d3, Sócrates Os primeiros diálogos, bem como
fala de fato de geôme- tras que o Mênon foram escritos do que
raciocinam com base em primeiros podemos chamar perspectiva
“socrática”, isto é, do ponto de vista
de um inquiridor crítico que reco-
nhece que ele próprio não possui
princípios postulados para conhecimento genuíno e então se põe
estabelecer seus teoremas. Contudo, a descobrir se alguém em seu entorno
esta passagem está repleta do idioma está em melhor posição do que ele a
de investigação (p. ex., zêtein em este respeito. Deste ponto de vista,
510b5 e skepsin em 510d2), o que alguém que genuinamente possui
sugere que esta passagem diz conhecimento deve demonstrar este

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fato a Sócrates e o requerimento de Por contraste, o que chamo


explicação é uma proposta sobre que “perspectiva socrática”, e com ela o
forma tal demonstração deve tomar. requerimento de explicação do
Por contraste, na República a figura conhecimento, é muito evidente no
de Sócrates é um teórico engajado em Fédon, a outra obra do período médio
construir um sistema filosófico no qual a Teoria das Formas está
compreensivo que dará apoio a uma explicitamente formulada e
teoria objetiva da justiça. Porém, desenvolvida com intuitos
dado que, à medida que esta teoria é epistemológicos. O objetivo central
articulada, a operação de uma de Sócrates nesta obra consiste em
faculdade cognitiva altamente estabelecer a imortalidade da alma.
confiável (o conhecimento) é tida Para fazer isso, contudo, não seria
como necessária para a possibilidade suficiente para ele determinar (ao
da justiça, requer-se de Sócrates nos modo da República) que as almas vão
diálogos médios que providencie uma se mostrar imortais em sua teoria
teoria epistemológica suplementar na proposta. Antes, ele quer mostrar que
qual as diferenças de confiabilidade elas realmente são imortais.
dos diferentes tipos de cognição Consequentemente, ele deve
estejam em última instância fundadas argumentar com base em premissas
em diferenças ontológicas entre seus verdadeiras que estão ao seu alcance
respectivos objetos. Nesta linha geral e de seus interlocutores em sua
de interpretação, condição de insciência ou do que
chamei perspectiva “socrática”. Para
a República é escrita em uma dizer a verdade, elementos da Teoria
perspectiva teórica desvinculada. Por das Formas por vezes aparecem ao
esta razão, questões “socráticas” longo destes argumentos, mas,
como “de que maneira podem os diferentemente da República, onde a
outros prisioneiros determinar se o teoria é aparentemente oferecida
filósofo que retoma conhece como uma hipótese a ser explorada,
realmente o que alega saber?” ficam Sócrates, no Fédon, tenta dar razões
foram de sua alçada. filosóficas para pensar que a teoria é
de fato verdadeira (ver especialmente
AS AITIAI SIMPLES E 72e2- 76a7; ver também o capítulo O
SUTIS NO FÉDON Método da Dialética de Platão).

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A seção relevante do Fédon é a sendo algo bom. Ele conta, porém,


longa passagem “autobiográfica” que que suas grandes esperanças
começa quando Sócrates lamenta que esvaeceram depois de ler o tratado de
sua tentativa de determinar se a alma Anaxágoras e descobrir que havia
é indestrutível foi impedida por sua somente uma defesa vazia do nous
completa ignorância das aitiai, isto é, (ao conter frequentes ocorrências do
de por que (dia ti) algo é gerado termo), mas sem fazer um uso teórico
(gignetai), é destruído (apollutai) ou de fato deste conceito em nenhuma
existe (esti) (Phd. 96a6-10, com 97b3- forma que Sócrates reconhecia (a
7). Sócrates, pois, imediatamente saber, como o repositório de crenças,
após isso, empreende um exame desejos, etc.) (ver o capítulo A Alma
crítico de vários padrões de Platônica). Era como, lamenta
explicação, o que leva a uma Sócrates, se alguém tentasse explicar
investigação por que ele está atualmente na prisão
esperando ser executado referindo-se
à estrutura e aos movimentos de seus
“ossos e articulações” (97c6-7) e, ao
sistemática dos diferentes modos proceder assim, negligenciasse as
possíveis de interpretar a expressão “causas reais” (tas hôs alêthôs aitias,
“explicação causai” (aitias logismos), 98el) de sua situação: “que pareceu
que ocorre em Men. 98al-4. Como melhor aos atenienses me condenar e
veremos, um aspecto intrigante deste que, como resultado, me pareceu
exame é que ele toca em todas as melhor sentar aqui e submeter-me à
quatro aitiai distinguidas por punição que eles ordenaram” (98e2-
Aristóteles em Ph. H.3. 5).

Sócrates começa este exame em Sócrates está aqui exprimindo


Phd. 97b8-99c6 contando um uma preferência clara e categórica
encontro juvenil com as doutrinas de pelas explicações “teleológicas” (a
Anaxágoras. Ele conta que foi “causa final” aristotélica) em termos
inicialmente encorajado por um de objetivos, intenções e similares,
relato de segunda mão segundo o contra as que fazem referência
qual este filósofo da natureza fazia somente às causas “eficientes” (a
pesado uso do conceito de mente “causa motora” de Aristóteles). Neste
(nous), que Sócrates tomou como ponto, todavia, o relato de Sócrates

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dá uma guinada surpreendente. Em Parece-me que se algo é belo


99c6-dl, ele declara abruptamente além do Belo-em-si, [esta outra
que se deu conta, em um certo coisa] é bela por nenhuma outra
momento, que suas explicações razão do que porque (dioti)
teleológicas preferidas esta- vam participa do Belo-em-si, e isso se
indisponíveis e que, portanto, se aplica a [todas as outras] coisas.
tornou necessário para ele dar início Você concorda com esta causa
ao que chama uma “segunda (tê(i) toiade aitai(i)? (100c3-8)
navegação” (deuteron plouri), uma
busca por um modo de explicação Os termos de explicação nesta
passagem sugerem uma forma de
“sucedâneo” que pelo menos esteja a explicação à qual Sócrates se refere
seu alcance. (Presumivelmente em lOOel como a “aitia segura”.
Sócrates não está aqui revertendo seu Sendo A uma coisa particular bela
juízo anterior sobre as “causas reais” qualquer, a explicação “segura” de
de sua prisão. Talvez Platão pense que sua beleza seria a seguinte.
explicações teleológicas adequadas
de fenômenos físicos seriam cognoscí- TUdo o que participa da Forma da
veis somente para uma mente divina.) Beleza é belo.

No curso de sua descrição desta A participa da Forma do Belo.


“segunda viagem”, Sócrates introduz
as Formas platônicas pela primeira Assim, A é belo.
vez em seu exame dos tipos de
explicação. Em 100bl-9, ele põe Presumivelmente, Sócrates
temporariamente de lado o modo caracteriza esta explicação como
“autobiográfico” e pede a Cébes para “segura” com base no fato que,
que ele reafirme sua primeira defesa assumindo a verdade da teoria de
da existência das Formas. Depois de Sócrates, seu explanans proverá, sem
Cébes ter feito isso, Sócrates então nenhuma exceção, as condições
pede e recebe o acordo a respeito de necessárias e suficientes para a
um aspecto de sua teoria que não verdade de seu explanandum.
tinha vindo à luz anteriormente no Contudo, o reconhecimento da parte
diálogo. de Sócrates que não pode haver
contra-exemplos ao seu esquema

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explicativo não significa que ele o somente quando as condições


julga adequado. Ao contrário, sua responsáveis pelo seu ser belo
caracterização posterior estiverem satisfeitas. Porém,
claramente isso não é nenhuma
explicação.

dele em 105b8-cl como “simplório” Na medida em que a relação de


(ama- thes), juntamente com sua participação é a contraparte platônica
proposta do que descreve em 105c2 da condição aristotélica de uma coisa
como uma alternativa “mais sutil” satisfazer uma certa definição (ou ter
(kompsoteran), fortemente sugere uma certa essência), a aitia segura do
que tem sérias reservas a seu respei- Fédon contaria sem dúvida como uma
to. Infelizmente, Sócrates não diz por aitia “formal” segundo a classificação
que chama este modo de explicação aristotélica dos tipos de explicação
“seguro” “simplório”, mas muito em Ph. D.3. Todavia, não se segue que
provavelmente é porque pensa que é o descontentamento de Sócrates com
tão seguro que é vazio, isto é, a aitia “segura” se estenderia a todas
inteiramente desprovido de força ex- as explicações “formais” sem
plicativa. Aqui se deve ter em mente exceção, pois o problema da
que a existência das Formas, vacuidade observado acima surge não
juntamente com a relação de porque a relação entre explanans e
participação entre as Formas e os explanan- dum na aitia segura é de
sensíveis são condições teóricas suficiência “lógica” (mais do que
postas para explicar os fatos “causai”), mas porque as condições
observados acerca do mundo sensível postas no explanans não são
(p. ex., que um certo particular é uma conceitu- almente independentes dos
instância da beleza). Isto quer dizer fatos que devem explicar. (Na
que, pelo menos do que chamo verdade, a inobservância do fato que
perspectiva “socrática”, não há a suficiência “lógica” é consistente
acesso às formas exceto por meio do com a independência conceituai é o
contato com as coisas que participam que dá origem ao “paradoxo da
delas. Em função disso, a explicação análise” formulado, mas não
“segura” esboçada anteriormente na nomeado em Moore, 1933.) Porém,
verdade não diz nada mais do que isso não é uma característica
uma coisa será bela quando e universal das

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explicações “formais”. Por exemplo, como com sua primazia “segura”, as


no exemplo preferido de Aristóteles, Formas também têm um papel
o fato que os ângulos internos de uma principal neste tipo de explicação,
certa figura sejam iguais a dois retos é mas alguns elementos adicionais
explicado pela satisfação da definição também são introduzidos. Em 103d2-
do triângulo, mas ele seguramente 3, Sócrates pede agora a Cébes para
não pensa que conhecer a definição que reconheça a existência não
do triângulo por si mesmo toma fami- somente das Formas, mas também de
liar esta consequência. Não são itens como neve e fogo. Há certa
somente os exemplos aristotélicos da indeterminação sobre como
aitia “formal” que ficam isentos das exatamente Sócrates concebe estas
reservas de Platão quanto à aitia novas entidades, em particular se
segura, mas também os “socráticos”. postula Formas para estas coisas. Vou
Por exemplo, embora o Eutifro nunca seguir aqui uma linha plausível de
revele a correta definição desta interpretação, segundo a qual ele
virtude, é plausível inferir das pensa a neve e o fogo e assim por
definições propostas que Sócrates diante simplesmente como “estofo”
considera que ela não somente daria físico ou matérias. Em 105cl-2,
condições necessárias e suficientes Sócrates então indica como elas
para que algo seja pio, mas também figuram em seu estilo “mais sutil” de
se constituiria em uma análise da explicação,
piedade. Isso quer dizer que
empregaria conceitos que não são so- Se você me perguntar o que
mente independentes da piedade, causa que algo seja quente, não
mas que seriam também anteriores lhe darei aquela resposta
do ponto de vista explicativo a ela (ver [anterior] segura, mas sim-
o capítulo Definições Platônicas e plória, dizendo que é o calor
Formas). [isto é, o

De qualquer modo, parece que


tais hesitações a respeito da aitia
“segura” levam Sócrates a propor Fogo-em-si], mas posso lhe dar
uma forma de explicação final e agora uma resposta mais sutil e
presumivelmente melhor, que ele dizer que é o fogo.
denomina aitia “mais sutil”. Assim

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Esta parte da observação interpor entre as Formas e os


constitui uma clara rejeição da sensíveis que participam delas um
seguinte explicação “segura e tipo adicional de entidade – “formas-
simplória” de por que um certo corpo nas-coisas” – que possuem uma clara
-A-ê quente. semelhança com os chamados
“tropos” no início do século doze
O que quer que participa da Forma do (sobre isso, ver Moore, 1923 e Stout,
Calor é quente 1923). Com este acréscimo, a aitia
“sutil” adota, então, a seguinte e mais
A participa da Forma do Calor. complicada forma.

Portanto, A é quente. O que quer que contenha fogo


participa da Forma do Calor.
Neste lugar, Sócrates propõe
então sua alternativa “mais sutil” O que quer que participa da Forma do
baseando-se na ideia plausível de que Calor possui um tropo-de-calor.
há conexões conceituais entre a
participação em certas Formas (p. ex., O que quer que possua um tropo-de-
Calor) e a presença de certos calor é quente.
materiais, como fogo.
A contém fogo.
O que quer que contenha [muito] fogo
participa [grandemente] da Forma do Portanto, A é quente.
Calor.
(Isto pode ser uma tentativa de Platão
O que quer que participa de evitar os problemas do “um-de-
[grandemente] da Forma do Calor é muitos”
quente.
com a relação de participação,
A contém [muito] fogo. apontados pelo próprio Platão em
Prm. 132a-135c. Se for isso, o
Portanto, A é quente. estratagema não alcança sucesso,
pois ele desloca antes que evita estas
Para ser mais preciso, Sócrates dificuldades. Para uma discussão do
acrescenta uma dobra a mais ao estatuto ontológico dessas “formas-

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nas-coisas” e sua disfunção teórica no explicações “locais” de eventos e


Fédon, ver Silverman 2002: cAp. 3.) circunstâncias particulares. Assim,
por exemplo, a pseudo-explicação
Em termos aristotélicos, o que aventada em Phd. 98c2- d6 em
Sócrates está propondo aqui é uma termos de “ossos e articulações” não
forma “híbrida” de explicação que pretende somente explicar por que as
incorpora elementos das aitiai pessoas geralmente são postas na
“formal” e “material” dePh. II.3. A pri- prisão nem por que Sócrates foi posto
meira e mais importante coisa a na prisão em tal ou tal lugar ou em tal
observar é que evita o problema da ou tal momento; antes, pretende
vacuidade observado acima com a explicar como uma certa coleção
aitia “segura”, pois, enquanto as particular de ossos e articulações veio
Formas são entidades teóricas, coisas a estar em um certo lugar físico
como a neve e o fogo, na presente particular em um certo momento
interpretação, são materiais físicos particular no tempo. Esta é uma
cuja existência pode ser detectada por virtude da qual não participa a aitia
meio da percepção sensível (pelo “segura”, que é concebida
menos quando estão presentes em inteiramente dentro dos limites
quantidades suficientes). Donde, su- teóricos da Teoria das Formas, pois
giro, diferentemente da explicação não há recursos teóricos no interior
“segura” desenvolvida da metafísica simples das Formas e da
anteriormente, é realmente
explicativo raciocinar da presença
observável do fogo em um corpo à sua
participação teórica na Forma do participação para explicar como um
Calor e daqui ao fato observável que corpo particular vem a participar (ou
está quente. continua a participar) de uma certa
Forma em um lugar particular e em
Há também uma segunda vantagem, um momento particular. Em
intimamente ligada a esta forma contraste, caso, como sugeri, Platão
“híbrida” de explicação que talvez não conceba tais coisas como fogo e
seja tão óbvio. Quaisquer que sejam similares no Fédon como materiais
os defeitos que Sócrates percebeu físicos observáveis, é fácil ver como
nas teorias de Anaxágoras, eles pelo poderia pensar que uma instância
menos tinham a virtude de oferecer totalmente explícita de sua aitia

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“sutil” incluiria uma explicação local consistia em prover uma base


de como o fogo veio a ocorrer em um metafísica para distinguir o
certo lugar ou entrou em um corpo conhecimento da crença verdadeira e
particular, em um tempo particular e que esta estratégia era suposta
não em outro. suplementar, antes que substituir,
suas tentativas anteriores de fundar a
É por vezes um mistério que, a mesma distinção por meio do
despeito dos méritos aparentes que “requerimento de explicação” do
Platão vê em sua forma “híbrida” de conhecimento genuíno. A aitia
explicação, sua força de atração não “segura” do Fédon pode ser
parece ter durado, pois mesmo que interpretada como a tentativa inicial e
sua presença seja o ponto culminante ainda crua de Platão de unir estas
da “segunda navegação” no Fédon, o duas linhas de pensamento especifi-
que sugere que é a forma preferida cando um tipo muito especial de
disponível de explicação ali, não é “relato
nunca mencionada de novo nos
diálogos posteriores. Em seu lugar, explicativo” (logismô aitias) que é
parece que, em suas obras tardias, puramente “formal” porque envolve
Platão redireciona seus esforços com referência somente às Formas,
vistas a reabilitar o modo puramente particulares sensíveis e a relação de
“formal” de explicação que ele tinha participação. Como vimos, porém, o
criticado no Fédon. problema é que o único tipo de tal
relato explicativo “puramente
EXPLICAÇÕES FORMAIS formal” que pode ser construído com
“ANALÍTICAS” NOS os recursos metafísicos limitados da
DIÁLOGOS TARDIOS República e do Fédon é patentemente
vazio.
Um modo instrutivo de entender a
disposição de PL da aitia “segura” no Relembre agora que também
Fédon consiste em tomá-la como uma argumentei anteriormente que a aitia
consequência do fato de sua “segura” do Fédon não respeita nem
epistemologia sobrepor-se à sua mesmo o reconhecimento de Platão
metafísica. Argumentei anteriormen- nos primeiros diálogos que uma
te que uma das motivações principais definição adequada – e, portanto,
de Platão para a Teoria das Formas uma explicação “formal” adequada –

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

fornecerá uma análise de seu que figuram na análise correta da


definien- dum por meio de outros piedade, juntamente com tais
conceitos que são independentes princípios “analíticos”. Já que nunca
dele. Em minha visão, estes dois encontramos análises corretas nos
defeitos não estão desconectados. No diálogos platônicos, volto-me aqui a
fundo, o que toma a aitia “segura” um exemplo familiar neoaristotélico
“simplória” é que ela pretende para ilustrar esta versão analítica mais
explicar a posse de uma dada complexa da aitia “formal”.
propriedade inteiramente por re-
ferência à participação em uma única
Forma associada a esta propriedade.
Contudo, no Eutifro Platão já está O que quer que partícipe nas Formas
consciente que a definição correta de de Racional e Animal
piedade terá de explicar por que as necessariamente participa na Forma
coisas têm esta propriedade por de Humano.
referência a outras propriedades com
as quais está analiticamente O que quer que participe na Forma de
conectada. A solução desta Humano é humano.
dificuldade deve ser óbvia. Se, no
espírito original da aitia “segura”, a Sócrates participa nas Formas de
Teoria das Formas deve ainda Racional e Animal.
fornecer a fundamentação metafísica
para este tipo de explicação “formal” Portanto, Sócrates é humano.
mais sofisticado, deverá ser
aumentada com o acréscimo de Proponho que Platão sugere
princípios “analíticos” que ligam a essencialmente esta mesma solução
participação em certas Formas na época em que escreve o Sofista e o
necessariamente com a participação Político, em seu período tardio.
em certas outras. Neste esquema (Omito toda discussão aqui do
metafísico aumentado, a piedade de Teeteto, o único diálogo platônico
uma coisa não será então explicada consagrado inteiramente a uma
“com segurança” pela participação investigação da natureza do
somente na Forma da Piedade, mas conhecimento. A razão disso é que
antes pela participação em outras não aceito a visão muito influente de
Formas associadas às propriedades Comford (1957) que o diálogo

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Hugh H. PLATÃO
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apresenta uma série de dificuldades encontrar Platão expondo uma


epistemológicas que Platão pensa doutrina com tais tons “empíricos”
poder superar somente ao postular as (para não dizer “nominalistas”). É,
Formas e que o diálogo como um portanto, uma boa coisa que esta
todo, portanto, constitui um interpretação superficial seja obviada
argumento indireto para a existência por passagens no Sofista que
delas. Na interpretação que prefiro, as
Formas estão propriamente ausentes sugerem fortemente uma
do Teeteto porque Platão conduz ali interpretação “realista” mais
uma investigação metafísica não apropriada da divisão platônica.
previamente balizada sobre a
natureza do conhecimento que deixa O objetivo maior deste diálogo é
em aberto a questão de como seus posicionar o método da divisão para
resultados se põem de acordo com desenvolver uma definição da
suas teses ontológicas gerais.) sofistica, a nêmesis intelectual
principal de Platão em toda a sua
A peça central do Sofista e do carreira. Este procedimento é
Político é o método platônico de momentaneamente interrompido,
definir por “agrupamento e divisão”, porém, por uma longa digressão em
que é retomado por Aristóteles a 237-64, que visa a estabelecer a
título de definição por “gênero e possibilidade do juízo falso. Próximo
diferença”. Para ser franco, a do fim desta digressão, em 254d4-5, o
linguagem destas passagens em que Estrangeiro introduz um quinteto de
este método é executado dá a Formas que ele denomina “os
impressão superficial que Platão está gêneros supremos” (megista tôn
descrevendo um procedimento mais genôn) (a saber: Ser, Mesmo,
ou menos “empírico” de fazer divisões Diferença, Movimento e Repouso) e
naturais entre classes de objetos com descreve então um procedimento
base em suas características “dialético” que consiste em
observadas e que suas Formas não determinar qual destes gêneros pode
têm nenhum papel no método. Há “participar em”, “misturar-se com” ou
motivos para se duvidar desta “comunicar com” qual dos outros
interpretação mesmo antes de uma (251d4-5). Todavia, é claro pelo
consideração da evidência, pois seria contexto em tomo que Platão não
estranho, para dizer o mínimo, pretende que esse método “dialético”

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Hugh H. PLATÃO
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fique confinado a este universo princípios é precisamente o que é


platônico “simplificado” dos “gêneros necessário para converter as
supremos”, mas valha para todas as explicações “formais” “seguras” e
Formas. Ademais, na presente vazias em explicações mais
interpretação, esta dialética
generalizada, isto é, o mapeamento
das relações necessárias entre todas
as Formas, é o que em última complexas, do tipo “analítico”, que
instância dirige a “divisão dos constituem genuínas explicações.
gêneros” no Sofista e no Político por
trás de suas fachadas “empíricas”. Portanto, para retornar à questão
Além disso, estas relações necessárias clas- sificatória com a qual comecei, as
envolvem não somente inclusões preocupações centrais do Sofista
necessárias (p. ex., entre humano e dificilmente podem ser classificadas
animal), mas também exclusões como epistemológicas em natureza.
necessárias (p. ex., entre animal e Contudo, na linha geral de inter-
planta), o que dá às divisões pretação que desenvolvi aqui, este
platônicas (como também às diálogo ocupa um lugar central no
aristotélicas) sua estrutura arbórea desenvolvimento do pensamento de
característica. Platão neste domínio, pois, de acordo
com meus argumentos precedentes, o
Em uma perspectiva mais ampla, esta momento crucial deste desen-
seção do Sofista pode ser interpretada volvimento é a decisão de Platão em
como suprindo a peça final da seu período médio de desenvolver
reivindicação de Platão da aitia uma teoria metafísica para
“formal”, pois, ao discernir as relações fundamentar a distinção entre
necessárias que ocorrem entre as conhecimento e crença. Minha
Formas, o dialético do Sofista pode ao sugestão final é que sua concepção da
mesmo tempo ser visto como dialética no Sofista lhe permite refinar
reagrupando um conjunto e aumentar a teoria metafísica de
correspondente de princípios modo que finalmente ela se torna
“analíticos” que exprimem estas adequada para cumprir seu objetivo
relações necessárias. Porém, de epistemológico original.
acordo com meus argumentos
anteriores, o acréscimo de tais NOTA

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

Todas as traduções são do autor. universal or particular? Proceedings


of the Aristotelian Society,
REFERÊNCIAS E LEITURA supplementary volume OI, pp. 114-
COMPLEMENTAR 22.

Benson, H. (2000). Socratic Wisdom. Vlastos, G. (1991). Sócrates: Ironist


Oxford: Oxford University Press. and Moral Philosopher. Cambridge:
Cambridge University Press.
Cornford, F. M. (1957). Plato’s Theory
ofKnowled- ge. New York: Macmillan.

Irwin, T. (1995). Plato’s Ethics. Oxford: PARTE III


Oxford University Press.
A METAFlSICA PLATÔNICA
Moore, G. E. (1923). Are the
characteristics of particular things
universal or particular? Proce- edings
of the Aristotelian Soríety, 12
supplementary volume III, pp. 95-113.
Repr. in G. E. Moore (1962) As formas e as ciências em
Philosophical Papers (pp. 17-32). New Sócrates e Platão
York: Collier Books.
TERRY PENNER
(1933). The justification of analysis.
Analy- A verdade acerca das Formas de
Platão é, penso, bem direta.
sis 1, pp. 28-30. Infelizmente, por falta de contexto
próprio na apresentação e certa
Silverman, A. (2002). The Dialectic of hostilidade a qualquer tintura de
Essence: A Study ofPlato’s metafísica – para não mencionar a
Metaphysics. Princeton, NJ: Prin- rejeição das Formas por Aristóteles –,
ceton University Press. ela tem, nos tempos modernos, uma
crosta de interpretações errôneas.
Stout, G. F. (1923). Are the Este artigo dá início a uma contex-
characteristics of particular things tualização profícua.

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

A QUESTÃO “O QUE É X?”, AS famoso, a questão “o que é X?” – uma


CIÊNCIAS, A VIRTUDE E AS FORMAS questão tida como anterior a
qualquer outra questão sobre X (p.
Como é extraordinário que o ex., se X tem uma certa propriedade
mundo deva conter – objetiva e ou atributo), pois Sócrates sustenta,
independentemente de nosso como é sabido, que não se pode
pensamento, linguagem e realmente conhecer a resposta à
cultura – não somente pessoas, questão do tipo “o que é X?” (“é X
animais, plantas, árvores, uma coisa Fédon?”) a menos que já se
edifícios, cadeiras e similares – saiba a resposta à questão “o que é
mas também objetos (abstratos X?” (ver os capítulos Definições
objetivos) que unificam e Platônicas e Formas e O
estruturam os indivíduos do Conhecimento e as Formas em
primeiro grupo em vários modos Platão.) A segunda pressuposição não
úteis cientificamente e que são, é de modo algum comumente aceita –
o que mais possam ser as ou nem mesmo considerada. É a de
Formas, objetos das ciências. que a importância da questão “o que
éX?” está intimamente conectada
Assim podemos imaginar Platão com a tese de Sócrates que
meditando ao considerar as entidades
que Sócrates pressupunha – VC Virtude é uma ciência
aparentemente sem admiração – (conhecimento ou competência:
como os objetos acerca dos quais também por vezes referida como uma
perguntava suas famosas questões “o arte ou técnica), isto é, a ciência do
que éX?”: o que é a coragem? O que é bem e do mal (a ciência dos bens e dos
a piedade? O que é a experiência dita males: também uma metrêtikê, uma
“ser vencido pelo prazer”? O que é a ciência de medir os bens e os males (e
virtude – e é [o tipo de coisa] que se mesmo dores e prazeres) uns com os
pode ensinar? outros, especialmente quando estão
em diferentes distâncias no tempo em
Estou pressupondo duas coisas relação ao presente).
aqui. A primeira é comumente aceita:
que a Teoria das Formas surge da Observe que a questão “é a
preocupação de Sócrates com o que virtude objeto de ensino?”, que
Richard Robinson chamou, como ficou formulei anteriormente como “é a

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Hugh H. PLATÃO
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virtude o tipo de coisa que técnica”. (Caso se trate somente de


devolver o que você deve a um amigo
sob a condição de que ao fazer isso
você beneficia e não causa dano ao
se pode ensinar?” (Men. 86d3-e4, seu amigo, quem, pergunta Sócrates,
87al-3, b2-c3), é realmente uma está na melhor posição para
variante da questão “o que é X?”, a beneficiar seus amigos em questões
saber, “é a virtude idêntica a (algum de saúde? Com se a questão fosse
tipo de) conhecimento ou ciência?” uma certa habilidade ou competência
(Men. 89a2-3: embora se possa antes que uma questão de, digamos,
também traduzir o grego por “o o que é certo ou correto!) Esta
conhecimento é uma parte da “analogia” que Sócrates tão
virtude”. O ponto é que a virtude é regularmente impõe a seus in-
uma das ciências, a saber, a ciência do terlocutores exprime a tese de
bem e do mal; para confirmação, ver Sócrates que os objetos sobre os
87c5, d6-7, e5, 88d2-3. O ponto não é quais está sempre questionando – o
que a virtude é parcialmente bem (humano), a coragem, a piedade,
conhecimento e parcialmente algo a virtude e similares – estão para a
outro, digamos, disposições de ciência da virtude como
caráter, como certamente o é em
Aristóteles.)  A saúde está para a ciência da
medicina;
Porém, qual é a conexão entre as  A cama, a mesa e a lançadeira (e
coisas mais importantes perguntadas vários tipos particulares de
nas questões “o que éX?” (coragem, lançadeira) estão para a
piedade, temperança, justiça, virtude carpintaria;
e similares) e a tese que a virtude é  A comida, a azeitona, a uva, o trigo
uma ciência? Para ver esta conexão, e similares estão para a
considere somente o modo extraordi- competência do fazendeiro;
nário que Sócrates impõe às  As ovelhas estão para o pastor, e
explicações de seus interlocutores de assim por diante.
coisas como coragem, piedade e
similares, o que costumava ser Isto é, Sócrates trata esta ciência
chamado “analogia das artes” e mais (conhecimento, competência) do
recentemente a “analogia da bem como uma ciência tanto quanto

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essas outras que usou como cavalo de ela própria conhecimento de um tipo
Troia para esta ciência. Meu particular (uma ciência, uma
argumento a seguir sugerirá que o competência). Isso deve ficar
principal objeto desta ciência suficientemente claro pelo modo no
aparecerá, na República, como a qual, na Apologia, Sócrates fala dos
Forma do Bem. artesãos (em contraste com os
Políticos e poetas) como finalmente
Observe aqui que a saúde em posse de algumas formas de
humana, como mesmo Sócrates terá conhecimento (algumas ciências,
pensado a seu respeito, é um objeto algumas competências) – embora
único – a exata mesma coisa que é não a ciência ou competência
estudada em todas as escolas de particular do bem que ele está
medicina, no intuito de lidar com uma buscando.
multiplicidade de pacientes em
qualquer lugar. A ciência da medicina Para resumir o ponto até aqui, as
não é acerca da minha saúde ou da coisas que são perguntadas nas
sua saúde, mas acerca da saúde em questões “o que é X?”, se existirem
geral – um objeto abstrato, um tais coisas a serem questionadas, se
“universal”, como diz Aristóteles revelam ser os objetos das ciências –
(usando um termo cunhado por ele). o bem sendo, no caso central, o
Assim, a virtude é um objeto único, e principal objeto do conhecimento,
também a justiça é um objeto único. É ciência ou competência que é a
porque estes objetos únicos não são virtude. Aristóteles certamente pensa
visíveis em todos os lugares ou não que Sócrates e Platão têm a mesma
são isolados espacialmente que eu os visão dos objetos das ciências, em-
digo objetos abstratos – mais uma bora Aristóteles também pense que
vez, mesmo para Sócrates (e para estes novos objetos das ciências em
Aristóteles). que Platão

Observe também que esta


“analogia da técnica” não é de fato
uma mera analogia. Para Sócrates, a acreditava foram erroneamente
virtude não é somente análoga ao identificados por ele a certas
conhecimento de outros tipos ou a entidades extraordinárias e mesmo
outras ciências ou competências: é absurdas – as Formas – ao passo que,

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continua Aristóteles, se evitarmos tal que deve enfrentar ao concordar com


reação excessiva, o que obtemos são Sócrates e Platão (tanto quanto
simplesmente aqueles objetos concorda) acerca das ciências e de
(abstratos), os universais, que são seus objetos. Graças ao comentador
precisamente o que devem ser os aris- totélico Alexandre de Afrodisia,
objetos das ciências. Aristóteles escrevendo mais de quatro séculos
aceita estes objetos (e pensa que foi depois, mas com uma cópia do
antecipado pelas tentativas de tratado de Aristóteles em sua mesa,
Sócrates de responder às questões “o temos uma longa paráfrase de três
que éX7”) (ver o capítulo Aprendendo versões que Aristóteles deu a este
sobre Platão com Aristóteles). argumento no tratado original. Pode-
se argumentar que todas elas
O “ARGUMENTO DAS CIÊNCIAS” DE procedem por meio da redução ao ab-
PLATÃO PARA A EXISTÊNCIA DAS surdo de uma certa explicação
FORMAS, COMO APARENTEMENTE reducionista natural do que é a saúde
REPRESENTADO POR ARISTÓTELES E (o principal objeto da ciência da
A CRÍTICA DE ARISTÓTELES A ESTE medicina). Eis aqui, por razões de
ARGUMENTO brevidade, minha própria paráfrase
mais curta deste argumento:
Estas similaridades e importantes
diferenças entre Platão e Aristóteles Suponha que a saúde (humana) se
podem talvez ser mais bem reduza a nada mais do que pessoas
apresentadas ao se olhar para um sãs, isto é, tudo o que existe quanto à
argumento em prol das Formas que é saúde são pessoas sãs. Então, ir de
atribuído a Platão no tratado MAnitowoc para Madison no intuito
(infelizmente perdido) Sobre as Ideias de estudar medicina, de modo a re-
(Formas) de Aristóteles, pois este tornar a MAnitowoc para praticar
argumento revela como Aristóteles medicina, é estudar os pacientes
entendia o que chamarei tese (atualmente) sãos (e doentes) em
parmenídica da existência, com a qual Madison de modo a praticar medicina
Platão opera, e também mostra (não em pacientes sãos (e doentes) em
deliberadamente), nos comentários MAnitowoc.
de Aristóteles sobre o que ele
apresenta como o “argumento das  Mas então como estes
ciências” de Platão, as dificuldades estudantes fariam progressos

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Hugh H. PLATÃO
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estudando um grupo de pessoas se o Esta sentença


que querem é tratar um outro grupo
de pessoas? a) é acerca do (ou se refere ao)
 Você não pegou o ponto. Eles objeto a que se refere o termo
estudam algo comum a ambos os “Sócrates”, isto é, Sócrates, e
grupos. b) predica de Sócrates a qualidade ou
 Precisamente: algo outro do atributo a que se refere o
que cada um destes dois grupos! Mas predicado “... é sábio”, isto é, a
então não pode ser que tudo o que sabedoria.
existe quanto à saúde são as pessoas
sãs. Há de existir, se deve haver uma A ideia de enunciar o predicado
coisa tal como a ciência da medicina, como simplesmente o resto da
uma coisa como saúde, que é o objeto sentença simples em questão e de
desta ciência. Na verdade, um objeto usar os pontos para
abstrato.

A respeito deste argumento diz


que ele de fato mostra que existe algo mostrar onde fica o termo sujeito não
além das pessoas sãs, mas não mostra é de Aristóteles, mas de Frege.
que este algo em questão é uma Porém, como observou Wilfrid
Forma. Pode ser um simples universal Sellars, é altamente sugestivo não
(como, segundo Aristóteles, ele e somente da visão de Frege de como
Sócrates pensavam). O problema é estes predicados “lacunares” se
que Aristóteles pensa que universais referem a sujeitos (e do modo
são tais e não istos (novamente, paralelo ao qual, no nível daquilo a
termos cunhados por Aristóteles). Ao que se referem as palavras, o conceito
pôr Sócrates em sua companhia, se refere ao sujeito), mas também da
Aristóteles implica – erroneamente – visão aristotélica de como os
que para Sócrates também os objetos atributos se relacionam com objetos
das ciências são (o que Aristóteles particulares.
denomina) tais.
O objeto Sócrates, referido pelo
O que são estes supostos tais e nome “Sócrates”, é um indivíduo
istos? Considere a sentença “Sócrates particular e assim um “isto” (o tipo de
é sábio” como Aristóteles a trataria. coisa ao qual você se referiria usando

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a palavra “isto”). O atributo de sabedoria). A doutrina das categorias


sabedoria, nos diz Aristóteles, não é de Aristóteles – substâncias,
um indivíduo particular; antes, é o qualidades, quantidades, relações,
tipo de coisa que pode ser predicado lugares, tempos e as outras – vai
de muitos indivíduos particulares ainda mais longe e afirma que estas
diferentes (de modo paralelo ao palavras têm diferentes sentidos em
modo no qual a expressão “... é sábio” cada categoria. Digo que Aristóteles
pode receber diferentes expressões- toma estas palavras como
sujeito na lacuna indicada pelos irremediavelmente ambíguas entre
pontos). Se “tal” é um termo que istos e tais (ou entre as categorias),
designa ou se refere a um tipo visto que Aristóteles também
relevante de indivíduos particulares
(os sábios, os malucos, os fortes, os sustenta que não há, além do sentido
sãos e assim por diante), então será em que qualidades existem e do
correto dizer, pensou Aristóteles, que sentido em que substâncias existem,
a sabedoria é um “tal” e não um um sentido ulterior unifícador no qual
“isto”. (O latim qual-itas – imitando o se possa dizer que “substâncias (p.
termo grego poio-tês, que Platão ex., Sócrates) e qualidades (p. ex.,
cunhou – é, em sua construção, sim- sabedoria) existem ambas” (de modo
plesmente tal-idade.) que cada uma seria uma e, tomadas
juntas, seriam duas e não a mesma
Até aqui, não há muito a criticar coisa que a outra), pois se Aristóteles
nesta distinção entre istos e tais. O admitisse a possibilidade de um
próprio Platão poderia quase propor sentido ulterior unifícador, ele
isso. O problema surge em certas solaparia sua própria crítica de Platão,
coisas ulteriores que Aristóteles diz que não teria visto que istos e tais não
acerca dos tais e istos – em particular, existem no mesmo sentido, isto é, em
que um grupo de palavras como nenhum sento único. Portanto, o
“existe”, “um”, “mesmo” (isto é, a ponto não é que Sócrates e a
mesma coisa), “diferente” (isto é, não sabedoria existem ambos em um
a mesma coisa) é irremediavelmente dado sentido, com, em acréscimo,
ambíguo. Isto é, estas palavras Sócrates sendo um particular e a
significam uma coisa para os istos (p. sabedoria sendo um atributo. O
ex., Sócrates) e uma outra coisa ponto é que não há nenhum sentido
(derivada) para os tais (p. ex., de “existe” no qual seria qualquer

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Hugh H. PLATÃO
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coisa menos um sem-sentido dizer pensa Aristóteles, faria com que


que “Sócrates e a sabedoria existem universais e particulares existissem
ambos”. Como diz Ryle, servindo-se no mesmo sentido – contrariamente
de sua brilhante síntese da metafísica aos resultados do parágrafo
aristotélica com a teoria dos tipos precedente. Aristóteles pensava que
lógicos de Russell e aplicando-a à este suposto erro faria com que o
filosofia moderna da mente: a mente “Argumento do Terceiro
existe e os corpos existem, mas é
(nem verdadeiro nem falso, e sim)
sem-sentido dizer que mentes e
corpos existem. Esta ideia de “tipos Homem” fosse fatal para as Formas,
lógicos” (sob diferentes nomes) foi (ver o capítulo Problemas para as
evidente por toda a história da Formas. Ver também Metaph.
filosofia, distintamente do uso de Ryle VII.13.1038b34-1039a3; SE
dos assim-ditos “erros categoriais”. 22.178b36-9, 179a8-9 e também Cat.
Ela já aparece, por exemplo, na 3bl0-21).
“analogia do ser” de Tomás de
Aquino. Em suma, quando Aristóteles
acusa Platão de “separar” os
Esta jogada a mais do lado de universais ou tais das substâncias
Aristóteles foi feita para opor-se à particulares ou istos e diz que
ideia, que ele acusa Platão de Sócrates não se comprometeu com
promover, de “separar” as Formas esta tese, ele implicitamente – e de
dos particulares. O conteúdo que modo indefensável – atribui a
Aristóteles atribui à “separação” é Sócrates a tese do próprio Aristóteles
assunto de disputa, mas tomo esta da existência. É como se Platão, não
acusação, uma vez posta na compreendendo o que é a existência,
linguagem inventada dos istos e tais, tivesse feito algo que o levou para
como equivalente à acusação de além da apreensão implícita de
tratar os tais como se fossem istos – Sócrates da enorme diferença entre
tratar universais como se fossem istos e tais. Tal acusação está errada,
ainda outros particulares (Metaph. como vou argumentar abertamente.
XIII.9.1086a32-3, Platão tinha uma ideia muito clara do
que é a existência – o que me referi
III. 6.1003a5-9). Isso, anteriormente como a tese

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Hugh H. PLATÃO
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parmenídica da existência. Tal tese terá de fazer, que “nada” é por dez
me parece ser não somente em muito vezes ambíguo – e irremediavelmente
superior à de Aristóteles, mas ambíguo? Se a sabedoria ou o número
também uma tese da qual o próprio 4 nada são, então cada um é um
Aristóteles não pode escapar. objeto. Daqui podemos mesmo
derivar um critério para que se possa
PLATÃO PARMENÍDICO declarar abertamente que algo não
existe (um critério negativo de
Para o Platão parmenídico (assim compromisso ontológico).
como também, sem dúvida, para
Sócrates) “existe” ou “ser” não é COMPONTNEG: Se você alega que um
ambíguo, significando coisas suposto objeto não existe, pare então
diferentes em diferentes categorias. de falar sobre ele, pois você não está
Antes, “existe” sempre se refere à se referindo a algo do qual você diz
mesma coisa. Comecemos com o que que nada é.
significa não existir. Platão sustentou,
seguindo Parmênides, que (Isso vai muito no espírito de
Parmênides e Platão.) Eis o critério
NEXNAD: Não existir é nada ser, de positivo correspondente para o
modo que, passando do negativo ao compromisso ontológico:
positivo, podemos atribuir também a COMPONTPOS: Se você vê que não
Platão a tese que EXOB: Existir é não pode evitar se referir a um suposto
ser nada, portanto ser algo (uma objeto, então seja franco e admita
certa coisa) – um objeto. que você pensa que ele existe.

Em Platão, não é requerido, por Assim, a menos que você esteja


exemplo, que, para que algo seja um preparado para negar que haja algo
objeto, não pode ser uma qualidade, em comum às pessoas sãs de Madison
um universal ou um número. (Se isso e às pessoas sãs de MAnitowoc, você
fosse requerido, se estaria fazendo de deve estar preparado para admitir
“objeto”, “um” e “existir” termos que pensa que existe, além das
irremediavelmente ambíguos. Deve pessoas sãs, uma coisa ulterior,
alguém realmente supor, como saúde. Estes modos parmenídico e
Aristóteles platônico de pensamento foram
brilhantemente reinventados pelo

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Hugh H. PLATÃO
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“Sobre o que há” de Quine, de 1948, sem incoerência, ser mantidos ambos
embora em Quine haja uma “virada por Aristóteles, pois (1) requer que
lingüística” totalmente não platônica saúde e pessoas são existam: a saúde
(reduzindo aquilo com o que você se é mais uma coisa no universo, e assim
compromete àquilo com o qual sua na há ambigüidade em “um”
linguagem compromete você). Os tampouco; porém, (2) nega isso.
modos platônico/parmenídico de
pensamento estão implícitos em Eis aqui uma dificuldade paralela:
Frege e em muitos dos pensadores para Aristóteles, não deve ser nem
dos fundamentos da matemática, verdadeiro nem falso, mas sem
muitos não supondo que iriam tão sentido que a saúde é mais uma coisa
longe quanto Quine ao relativizar a além (algo que não é a mesma coisa)
ontologia à linguagem. do que todas as coisas sãs. Porém,
certamente toda teoria que torna
Dada esta descrição da distinção sem sentido a tese obviamente
que Aristóteles tenta estabelecer verdadeira que Sócrates e a saúde são
entre universais e particulares, duas coisas diferentes não é sem
retornemos ao argumento das sentido! E certamente toda teoria que
ciências e à objeção contra ele por diz isso será, na melhor situação,
parte de Aristóteles. Aristóteles nos duvidosa. Assim, a antecipação de
diz que Aristóteles da teoria dos tipos lógicos
(Beth, 1965) e da distinção
1. Platão está correto em que existe conceito/objeto de Frege (Sellars,
algo – saúde – além de todas as 1963) é
pessoas sãs; há uma coisa a mais no
universo do que supõem os a) inconsistente com os métodos de
reducionistas; por outro lado, argumentação com os quais ele
próprio se compromete e é, de
qualquer modo,
b) metafisicamente na verdade
2. Platão está errado ao pensar que a muito duvidosa.
saúde existe no mesmo sentido em
que as muitas pessoas sãs existem. Se Aristóteles estiver errado
neste ponto, a questão ainda surge: o
De fato, (1) e (2), não podem, que nos diálogos de Platão (ou em

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Hugh H. PLATÃO
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algo que Aristóteles possa ter Platão do fluxo heraclíteo nos particu-
entendido de Platão em conversas lares sensíveis com o suposto erro de
com ele ao longo dos vinte anos da tratar os tais como istos. (Não há erro
permanência de Aristóteles na nesta identificação.)
Academia) leva Aristóteles a supor
que há uma diferença importante Duas coisas mostram que este
entre Sócrates e Platão sobre as uso do fluxo dos perceptíveis de fato
Formas? Uma outra passagem em representa um desenvolvimento das
Aristóteles (Metaph. XIII.9.1086a21- posições de Sócrates:
bl3) mostra que Aristóteles identifica
corretamente entre os diálogos a) pode argumentar que não há
jovens (excetuando o Banquete, o nenhuma menção do fluxo nas
Crátilo e o Fédon) e todos os outros partes socráticas dos primeiros
diálogos. A diferença é que Platão diálogos
argumentou em prol das Formas b) Aristóteles nos diz que Platão
alegando que os particulares per- estudou com Crátilo, discípulo de
ceptíveis estão em um fluxo Heráclito, o grande proponente da
constante, enquanto o conhecimento tese que o mundo perceptível está
requer universais (que não estão em em constante fluxo.
constante fluxo: ver o
Concluo que foi este contraste
capítulo Platão: uma Teoria da entre os perceptíveis em perpétuo
Percepção ou um Aceno à Sensação?). movimento no mundo do “vir-a-ser” e
Este contraste que envolve o fluxo, as Formas eternamente existentes no
sugiro, pode ser o que leva Aristóteles mundo do “ser” que foi a principal
– embora concorde que a ciência fonte para que Aristóteles enganasse
requeira universais – a pensar que a si próprio ao pensar que tinha
Platão está “separando” os universais ferrado Platão sugerindo que Platão
dos particulares (a36-b5) ou, como tinha erroneamente “separado” as
ele descreve em a32-4, a tomar os Formas dos particulares sensíveis.
universais como “separados, isto é
(fcat) como particulares”. Neste caso, Aristóteles pode também se ter
o erro de Aristóteles consiste em enganado pelo fato da ênfase de
identificar erradamente o uso de Sócrates recair sobre a objetividade
das ciências – como se poderia

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Hugh H. PLATÃO
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esperar do esforço para mostrar que lógicos e, assim, é sem sentido dizer
a virtude é uma ciência ou que a saúde e as pessoas sãs existem
competência –, ao passo que a ênfase cada uma e são uma em diferentes
de Platão, talvez porque tivesse sentidos.
sentido uma necessidade crescente
de defender as posições de Sócrates Eis um exemplo claro da aborda-
do contra-ataque sofistico, passou a gem parmenídica de Platão da
ser validar a objetividade das ciências existência: um pequeno argumento
por meio da validação dos objetos das importante em R. 475e-476e. Platão
ciências. Estas diferenças de ênfase, faz com que Sócrates dê a Gláucon um
juntamente com o uso por parte de argumento que pensa que muitos não
Platão do fluxo como um modo de aceitariam, mas Gláucon aceitará. É o
argumentar em prol das Formas seguinte:
levaram
Belo e feio são opostos.

Portanto, são dois.


Aristóteles a encontrar aqui –
erroneamente – diferenças Portanto, cada um é um.
fundamentais na crença metafísica.
O que é tão difícil aqui que muitos
O “argumento das ciências” e não compreenderão? Não cremos
este argumento do fluxo (que é em si todos que belo efeio são opostos e,
mesmo um apelo à existência de portanto, são dois, e então cada um é
objetos de conhecimento ou ciência) um? Resulta imediatamente que,
pressupõem o antirreducio- nismo reconheçam ou não, há certas
parmenídico/pla tônico característico. pessoas que não podem aceitar que o
Isto é, ambos argumentam contra a belo e o feio são opostos – não sem
posição segundo a qual não há nada incoerência em suas posições, pois os
mais de saúde que pessoas sãs, “amantes de visões e sons”, nos diz
argumentando que há uma coisa a Sócrates, são “sonhadores” – onde
mais no universo do que os re- sonhar é identificado a pensar
ducionistas supõem. A coisa “a mais” (acordado ou dormindo) que x – y
não pode ser compreendida em quando a verdade é que x meramente
termos da teoria aristotélica dos tipos se assemelha a y. (R ex., você pode

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sonhar que a sensação de queda que não poderia haver duas entidades a
você está tendo em sonho é uma mais, os opostos belo e feio, cada um
experiência real de queda.) sendo um, além das muitas visões e
sons belos? O que Platão faz Sócrates
Então, o que dizer do suposto observar aqui é que tais reducionistas
“sonho” feito pelos amantes de visões podem pensar que pode referir-se a
e sons? Aqui o texto nos diz que oyeor opostos, mas eles não podem: ver
são o belo em si e as visões e sons COMPONTNEG anteriormente.
belos. Porém, como podem pensar (Incidentalmente, este argumento
que também mostra que a Forma da
Beleza é o outro “belo”.)
O belo em si é idêntico às visões e sons
belos? A visão reducionista que Platão
combate aqui é uma posição cabeça-
Eles nem mesmo creem em dura, direta, próxima do nominalismo
Formas! A posição que Sócrates lhes e do materialismo – uma posição
atribui aqui só é certamente sustentada por intelectuais e por
compreensível se supusermos que pessoas bem não intelectuais, impa-
eles sustentam que o belo em si se cientes com certas posições de
reduz a nada mais do que as visões e intelectuais e religiosos, por exemplo
sons belos! a respeito de forças e deuses
invisíveis. Parece ser uma posição que
Suponho aqui que “crianças” ou vale a pena combater no tempo e
“templos” belos são supostos lugar de Platão, especialmente para
contrastar com “o belo em si” – “belo” quem que, como Sócrates e ele
somente por si mesmo, sem os próprio, esteja comprometido com a
complementos “crianças” ou existência de verdades reais que
“templos”. (Compare a expressão nosso próprio bem requer que
“crianças belas” com a primeira busquemos sistematicamente,
palavra desta expressão por si mesmo que com resultados limitados.
mesma.) Como veremos a seguir,
tomo “o Belo em si” como mera Mencionarei dois outros
abreviação do atributo “ser belo”. exemplos deste tipo de argumento
antirreducionista que surgem em
Como, então, para tais reduções, conexão com a questão “o que é X?”.

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Eles aparecem em duas das mais disciplinas seguidamente tidas por


célebres passagens da República: o ciências não são de fato ciências.
Símile da Linha Dividida e a Alegoria Sócrates enumera entre estas
da Caverna. (Sobre eles, ver Penner, pseudo-ciências (voltarei a elas) a
2006.) retórica à la Górgias, a sofistica, a
culinária, a cosmética e a
interpretação literária à la Íon.

CIÊNCIAS E PSEUDO-CIÊNCIAS Penso apresentar o aroma da


oposição de Sócrates a estas pseudo-
Falei acerca de uma diferença entre ciências mencionando aqui aquela
Sócrates e Platão na ênfase que Sócrates mais discute: a retórica.
correspondente dada às ciências e aos
objetos das ciências. (Isso não O que é a retórica, segundo seus
acarreta uma diferença de doutrina: a proponentes, é
objetividade das ciências é
interdependente com a de seus RET: uma ciência de grande poder na
objetos. É somente que Platão passa a vida pública, capacitando uma pessoa
procurar por argumentos para a a persuadir muita gente sobre
existência de objetos das ciências – qualquer assunto, sem que esta
uma necessidade que Sócrates pessoa tenha de adquirir qualquer
aparentemente não sentiu.) Se conhecimento sobre o assunto.
perguntarmos por que esta diferença
de ênfase ocorre, a resposta pode Parece estar implícito nisso a seguinte
lançar luz suplementar na importância explicação de “poder”:
das ciências e das Formas para ambos
os pensadores. POD: Poder consiste em ser capaz de
realizar o que se quer.
A tese de Sócrates que há
ciências objetivas não tem a intenção Claramente, universidades
simples de cobrir alguma velha modernas, bem como Aristóteles
disciplina ou competência que alguém antes delas, supõem que haja tais
decidiria chamar competência ou ciências (e seus correspondentes
ciência. Ao contrário, Sócrates tópicos), pois temos professores de
frequentemente insiste que certas retórica, fala, propaganda,

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comunicação e assim por diante. Mas que se quer é tido, de modo familiar,
não Sócrates – nem Platão. É verdade como idêntico ao que “se decide que
que Sócrates pensa que poderia se quer” ou “que se determina que se
quer”. Isso, como veremos, tem algo
haver pessoas que são competentes a ver com as razões de Sócrates para
em persuasão em um assunto negar que seja uma ciência.
particular, mas não antes de serem
também competentes (terem real Qual seria o objeto desta suposta
conhecimento) no assunto de que ciência da retórica? Sócrates sugere
estão persuadindo. Não é bem a ideia que seria “o que é persuasivo sobre
costumeira de retórica! Aqui Platão qualquer assunto” tomado como
está com Sócrates e contra estas “utilizável com sucesso mesmo por
ciências neutras como a retórica de aqueles que não têm conhecimento
Aristóteles. do assunto”. Isso sugere, naqueles
que (como os sofistas) veem esta
Na época de Platão e Aristóteles, suposta ciência como dando poder e
o tema da retórica, ensinada por obtendo o que se decide que se quer
professores itinerantes conhecidos na vida, certas linhas reducionistas de
como “sofistas”, era apresentado pensamento quase inteiramente
como um meio para adquirir muito novas para a cultura grega de seu
poder e para avançar na vida – es- tempo. Estas novas linhas de
pecialmente no interior das pensamento introduzem alternativas
democracias diretas, como a de sofísticas inovadoras às posições
Atenas, nas quais o sucesso dependia tradicionais do bem, justiça e
pesadamente de persuadir o Demos – similares, bem como sublinham a
os cidadãos. Aqui a persuasão é uma posição sofistica do que poderiam ser
persuasão que diz respeito a questões os objetos desta suposta ciência.
de justiça, sabedoria, guerra, vida
pública (e privada) e tem por desígnio Sof. 1: Todo o bem humano se resume
dar aos oradores (retóricos) o que no que você (decide que você) quer,
querem na vida – como implicado por de modo que todo o poder se resume
POD. na habilidade de fazer o que você
(decide que você) quer;
Um detalhe a mais deve ser
acrescentado aqui: para os sofistas, o

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Sof. 2: Toda a justiça se resume você quer,


naquilo que os que estão no poder
declaram que é “justo” (o que, é isto é, o que quer que você pense que
claro, eles fazem com vistas ao que é vantajoso para você, isto é, seu bem
supõem ser seu interesse próprio); aparente; de modo que a suposta
ciência que a educação sofistica pode
Sof. 3: Toda a justiça em seu caso se oferecer é a ciência de conseguir o
resume ao que você declara ser que quer que você determine como
“justo” (o que, é claro, você fará na sendo o que você quer.
crença que é seu interesse, que você
satisfaça ou não o interesse dos Aqui, os sofistas e os retóricos
outros); tratam as técnicas de persuasão
como a parte difícil; e tratam a parte
e, ligeiramente diferente, fácil, mesmo trivial, como consistindo
em decidir o que é que você quer.
Sof. 4: Toda a justiça nos assuntos Para Sócrates, bem como para Platão,
humanos, bem como no mundo isso é pôr “o carro antes dos bois”: a
animal, se resume simplesmente às parte difícil consiste em ver qual é o
decisões do mais forte impostas ao bem real que se quer. Ao opor-se a
mais fraco (com ou sem nenhuma tais sugestões “reducionistas” como
consideração pelos interesses do (Sofl)-(Sof4) e (SOF), Sócrates é mais
mais fraco) – a pleonexia que, no uma vez inspiração para Platão,
Górgias e na República, Sócrates constantemente discutindo com as
passa a ver como um sério desafio. pessoas, especialmente os jovens, em
conversas e argumento (“dialético”),
Isso nos leva à seguinte posição que visava aparentemente a fazer
sofistica (como sustentada por com que
Górgias e por Protágoras) tanto da
virtude como da ciência da retórica: seus interlocutores
confrontassem a possibilidade do que
SOF: A virtude ou o bem humano se é sabedoria, justiça ou bem humano
resumem a ser bom em obter o que não é questão do que as pessoas de-
você decide querer, cidem que querem ou declaram que é
bom, mas uma questão do que é tal
isto é, o que quer que você pense que objetivamente. Para Sócrates e

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Platão, quando não estão natureza real da lançadeira, assim


conversando com a plebe, o que se também existe uma natureza real do
quer é: bem.) Ele pressupõe também que a
natureza real em questão é sempre o
o que é bom objetivamente – mesmo que o desejo quer (exceção em
se isto for bem diferente do que as Platão: os desejos irracionais), mesmo
pessoas dizem (ou o que as quando não sabem o que é (ver o ca-
convenções de sua linguagem dizem) pítulo Os Paradoxos Socráticos; Grg.
ou o que um agente decide que é seu 466-8; R. 505e-506b, 504e-505b.)
bem próprio. Assim, quando um sofista ou um
orador se pavoneia de sua suposta
Questões do que é ciência como um meio de obter o que
objetivamente assim são questões de quer que se queira, a resposta
ciência ou competência objetiva, não socrática (e platônica) é que, sem uma
questões de opinião, definição, ciência do que é realmente bom (e é
decisão, do que alguém diz que quer o que a pessoa de fato quer, mesmo
ou do que o mais forte diz que quer. A que seja diferente do que ela pensa
pseudo – -ciência, por contraste, que ele é), uma ciência para o obter
fornece métodos para obter o que se por meio da descoberta dos bons
declara que se quer – sem a meios para buscar o que alguém
necessidade da ciência do bem ou de meramente pensa que
qualquer outra ciência. Com esta
indiferença oficial às ciências, pouca
dúvida pode haver (no mundo real)
que os sofistas, retóricos e os que são é o melhor será necessariamente
persuadidos por eles obterão não o incoerente – e desastrosa. Para quem
bem real, mas algo bem pior. Tal é o não tem conhecimento, não há um
argumento socrático/platônico objeto como
contra a retórica e a sofistica.
o que é o bem real, isto é, o que eu
Este argumento, obviamente, pressu- penso que o é o bem real
põe que existe um bem real, uma
natureza real do bem, como mesmo já que as duas partes da descrição
Aristóteles supõe. (Assim como existe estão em conflito. Portanto, não pode
uma natureza real da saúde e uma haver uma ciência de tal objeto.

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A conclusão de Sócrates aqui, em todas as questões que caem sob tal


sua oposição à retórica e à sofistica, ciência. O ponto acerca do interesse
está, de qualquer modo, mais de Sócrates na possibilidade pode ser
próxima da cultura religiosa expresso de um modo ligeiramente
tradicional do que da sofistica. Porém, como o seguinte. Pode ser razoável
na busca dialética/científica inces- supor que:
sante (e notavelmente não tradicional
e mesmo antitradicional) do 3. há uma ciência como a medicina
conhecimento desta natureza real por mesmo que ninguém atualmente
parte de Sócrates ele terminou por esteja em posse de tal ciência.
ser visto pelos tradicionalistas – de
modo compreensível e fatal, embora Porém, esta suposição implica
errôneo – como sendo ele próprio um que
sofista.
4. há uma natureza real da saúde e,
O quanto deveria Sócrates portanto, uma verdade objetiva
depender da objetividade das ciências acerca de todos os assuntos que
que encontrou em sua época e lugar? caem sob o domínio da ciência da
Certamente Sócrates não deve ter medicina, mesmo que ninguém
deixado de observar que então, assim atualmente esteja em posse do
como hoje, há muitas questões que, conhecimento destas verdades.
digamos, a medicina não pode
responder de modo convincente. A razão para pensar que a
Assim, com que direito diz ele que questão real acerca das ciências está
existem ciências como a medicina, a dado em (3) e (4) é que o ponto das
agricultura e assim por diante? Ou assim ditas “analogias” das ciências
não importa quão adequadas estão as particulares com o conhecimento do
ciências em seu estado no momento? bem consistia precisamente em trazer
O que é importante para Sócrates é o à luz a natureza de uma ciência do
ideal ou (visto de outro ângulo) a bem e do bem que é o objeto desta
possibilidade de uma ciência como a ciência. Pois,
medicina ser dominada pela pessoa
competente em questão, mesmo que 5. Sócrates pensava que há uma tal
ninguém na época tenha uma ciência objetiva a título da ciência
apreensão completa das respostas a do bem (humano), mesmo que

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ninguém atualmente a possua, e é razoável supor que a chance de


esta exatamente a condição alguém chegar perto destas
humana, já que Sócrates é a pessoa verdades objetivas reais é maior do
mais sábia que existe, mas não que se alguém as perseguisse
possui tal ciência. Ele também
pensava que há uma verdade
objetiva acerca de todos os temas
que caem sob o domínio da ciência todos os dias na convicção que uma
do bem, mesmo que ninguém vida sem exame não vale a pena ser
esteja em posse do conhecimento vivida.
de tais verdades.
Em algum lugar aqui, penso, está
Sócrates identifica esta ciência do a motivação do interesse de Sócrates
bem com a virtude (ou bem humano), pela ideia da existência das ciências (e
de modo que assim da possibilidade de um homem
competente ter a ciência em
6. ser um bom ser humano consiste questão). A teoria de Platão está
em possuir a ciência do bem. muito próxima disso, embora envolva
certa modificação, devido à crença de
A resposta à questão de por que Platão segundo a qual agimos por
Sócrates pesou que seria suficiente vezes de acordo com algo como os
para uma pessoa ser uma boa pessoa desejos brutos e irracionais.
que ela simplesmente possuísse o
conhecimento está fora de nossa O BEM E AS CIÊNCIAS
alçada aqui (ver o capítulo A Unidade
das Virtudes). Ela envolve o intelec- O objeto primeiro da ciência da
tualismo socrático (ver, por exemplo, medicina, a saber, a saúde, é também
Penner e Rowe, 2005: cAp. 10). A ideia o bem ou o fim da ciência da
é que medicina, sendo a função ou obra da
ciência gerar este estado nos
7. mesmo que nenhum homem pacientes, de sorte que um bom
jamais tenha tido a ciência do bem, doutor é aquele que cura seus
todavia a mera crença na pacientes. (Aristóteles diz que é a
existência de verdades objetivas mesma a ciência dos opostos, de sorte
(desconhecidas) faz com que seja que, como Sócrates diz, o doutor é

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não somente competente em teleo- lógica reaparece na teoria


produzir a saúde, mas também em socrática do desejo dos meios/fim, a
produzir a doença, caso ele, como qual Platão continua a sustentar
pessoa, queira produzi-la. Porém, somente para os desejos racionais.
presumivelmente, porque a função da Aristóteles não hesita em explorar
medicina é curar, a medicina é a este paralelo entre a hierarquia das
ciência da saúde e não da doença.) ciências, e a hierarquia dos meios e
Deste modo, o alimento (e a nutrição) fins é um no capítulo que abre a Ética
é o bem ou o fim da agricultura; a Nicomaqueia.
viagem marítima segura e eficiente, o
bem ou o fim das viagens marítimas; a De fato, todas as ciências, para
lançadeira, um dos bens da ciência da Sócrates e Platão, têm seu bem e fim
carpintaria. próprios, até mesmo, como mostra a
teleologia do Timeu, temas como
A partir do bem ou fim da biologia, química e física. Mostra isso
agricultura, podemos determinar que que o doutor só faz o bem? Não. Por
o bom agricultor é a pessoa que vezes, nos diz o Laques, não é melhor
encontra os bons meios para o fim de para o paciente viver ao invés de
sua competência; similarmente para morrer. Então, qual é a relação entre
os bons doutores, os bons o bem de uma dada ciência e o bem
carpinteiros e assim por diante. simpliciter (em Sócrates, o bem
Portanto, Sócrates frequentemente humano)? A resposta parece ser que
fala da função da medicina em termos temos ciências particulares porque
de saúde (o fim) e da função do descobrimos que há, objetivamente,
doutor em termos de curar (os meios modos de alcançar certas coisas que
para a saúde). são de um tipo usualmente ou
modelarmente bom para os homens –
Haverá também uma hierarquia por exemplo, saúde, riqueza, força e
tele- ológica das ciências e, portanto, assim por diante. Embora
dos bens: o bem da lançadeira é tecer, modelarmente bons, podem tomar-se
o bem de tecer é a roupa, o bem da muito ruins para os homens em
roupa é a proteção e assim por diante questão se usados de modo não sábio.
elevando-se, ao fim, ao (Não é de se admirar que “a vida sem
exame não vale a pena ser vivida”.)
bem do ser humano. Esta hierarquia Uma única coisa é incondicionalmente

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boa, ganhar o que, no meu caso, é Sócrates pressupõe que se possa ter
ganhar minha máxima felicidade para conhecimento autônomo de cada
o resto de minha vida, começando no uma das ciências, isto é,
ponto em que estou agora; no seu conhecimento de uma ciência sem ter
caso, sua máxima felicidade... e assim conhecimento do bem. Porém, tal
por diante para todos os outros. autonomia claramente não precisa
ser pressuposta se o propósito da
Tudo isso sugere que, para ter uma “analogia” consiste em trazer os
dada ciência e assim conhecer o bem interlocutores de Sócrates à ideia de
e o fim da ciência, deve-se conhecer uma ciência do bem.)
por que tal fim é um bem e isto vai
requerer conhecer o que é o bem A República torna claro que a
simpliciter. Assim é que Platão, no Forma do Bem é a peça central da
símile do Sol em R. 506e-509d, diz que Teoria das Formas. Mais ainda, a
nenhuma outra Forma pode ser Forma do Bem está intimamente
conhecida ou mesmo existir a menos conectada à ética da República (ver o
que se conheça a Forma do Bem capítulo O Conceito de Bem em
(assim como nenhum objeto Platão). Argumentei em outro lugar
perceptível pode existir no mundo do que uma compreensão apropriada da
vir-a-ser ou ser percebido sem o Sol divisão de Platão da alma em três
que o nutre e o revela à percepção). O partes, analogamente à sua divisão da
que é ser para uma lançadeira cidade ideal em governantes inte-
consiste em ser um certo bem padrão, lectuais, soldados (polícia) e
que está em uma relação apropriada trabalhadores, é suposta ser
com o bem simpliciter. Assim, a esclarecida por um “caminho mais
existência longo” (IV435c-d, VI.503e-504b) do
seguinte modo. A divisão da alma
serve para nos permitir dizer o que
são as virtudes: por exemplo, que a
e a cognoscibüidade do bem padrão justiça na alma individual é o fato que
(p. ex., a natureza real da lançadeira) cada uma das três partes cumpre sua
depende da existência e função própria. Porém, para entender
cognoscibüidade do bem sim- pliciter. então adequadamente esta
(Pode parecer que a “analogia das explicação, precisamos saber quais
artes” (“analogia da técnica”) de são as funções das partes,

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especialmente a função da parte ra- Porém, mesmo sem uma resposta


cional. Isso, aprendemos, consiste em completa a esta questão, é razoável
olhar à vantagem (ao bem) de cada supor que a melhor vida consiste em
parte e do todo (isto é, a alma inteira: dar andamento às investigações
o indivíduo). Assim, nossa história dialéticas quanto ao bem na
sobre a justiça está incompleta até o convicção de que há uma coisa como
momento em que descobrimos, por o que o bem realmente é, mesmo que
meio do “caminho mais longo” – e não corresponda a nenhuma de
tanto quanto pudermos – o que é a nossas convicções presentes.
Forma do Bem, isto é o mais
importante a conhecer. Perfazer o UMA PROPOSTA: AS FORMAS SÃO
caminho mais longo ocupa a maior ATRIBUTOS E NÃO HÁ ATRIBUTOS
parte dos livros VI e VII da República, QUE NÃO SEJAM FORMAS
o centro e o clímax, em toda
interpretação, da República. Sabemos pelo Lísis e pelo Banquete
que
Quanto ao que é a Forma do
Bem, isso será obviamente tão difícil 8. o atributo de ser belo é o atributo
de vir a conhecer (R. 506b-507a, Phd. de ser bom,
97b-100c) quanto é difícil, em
Sócrates, saber o que são a virtude ou bem como
o bem. Contudo, uma interpretação
9. o desejo pelo bem é erôs (amor
adequada do “caminho mais longo” erótico) pelo belo.
torna de fato claro que a Forma do
Bem é a Forma do Vantajoso ou Estas duas identidades podem
Benéfico; não é, como o é nas parecer estranhas ao extremo.
interpretações mais influentes desde Porém, Platão explica de modo
cerca de 1920, como as de Morris, razoavelmente claro o que pensa a
Irwin, Cooper e Annas, a Forma de um este respeito no Smp. 205a-d. Aqui
bem impessoal ou quase-moral. ele diz – sem dúvida por razões
históricas, incluindo o fato que tão
Dito isto, a questão obviamente poucas pessoas aceitam (até então)
permanece para Sócrates e Platão: “o estas identidades – que usamos erôs
que é vantagem (ou benefício)?” e “o belo” para situações nas quais o

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desejo sexual está envolvido e atributos que são os objetos das


“desejo” e “o bem” para desejos não ciências.
sexuais. Porém, isso não faz com que
erôs e “desejo do bem” sejam Assim, anteriormente, o
distintos. Trata-se somente de uma argumento em R. 475e-476e requer
questão de respeito decente pelo uso que o belo em si é somente o belo.
convencional das palavras. (Isso não deve surpreender alguém
(Similarmente, neste ponto da que, como eu, pensa que a Teoria das
história, apontamos à “estrela da ma- Formas é a primeira teoria sistemática
nhã” na manhã e à “estrela da noite” de objetos abstratos na história do
à noite, mesmo quando sabemos pensamento ocidental. Universais
perfeitamente que não são Fédon surgem mais
tarde, com Aristóteles.) Dizer isso é
dizer que, a despeito da acusação de
Aristóteles de uma massiva dupli-
que é um e mesmo corpo celeste, o cação, Platão não acredita que há
planeta Vênus, ao qual apontamos Formas e atributos. Vou mesmo mais
nas duas ocasiões. Portanto, assim longe e digo que Platão também
como Frege pede para que os pensa (como teria feito Sócrates) que
filósofos não confundam “referência”
com “significado”, Platão está aqui 11. Não há atributos que não
pedindo para que não confundamos a sejam Formas.
referência com as associações
históricas das palavras que usamos Assim, alguém poderia pensar
para designar estas referências em que há um atributo como “o interesse
contextos particulares.) do mais forte” como concebido por
Trasímaco, isto é, “o interesse do mais
Surge agora a questão sobre qual forte, a ser obtido pelo menos por
é a relação entre a Forma da Beleza e vezes pegando o bem do mais fraco”
a Forma do Bem. Minha análise – mesmo que Platão não aceitasse
anterior de como Platão argumenta que há tal Forma. Porém
em prol das Formas sugere que há (contrariamente a alguns estudiosos
toda razão para supor que que creem que, entre as muitas visões
e sons, se encontra este suposto
10. as Formas são somente os universal trasimáqueo), nego que

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teria aceito que existe uma tal que o próprio Aristóteles inventou.
entidade, um dos supostos objetos (Aristóteles, com efeito, sem dúvida
anotados anteriormente em (Sofl)- deve ter pensado que Platão tentou –
(Sof4) ou o suposto bem aparente em sem sucesso e muito
(SOF). Se for perguntado como ocorre assistematicamente – articular uma
que falamos sobre eles, a resposta é: ciência da lógica.) Aqui, a ideia é que,
no intuito ao predicar anthrôpos (homem, isto
é, o ser humano) ou “grandeza” de
de rejeitar estas criaturas cada coisa de uma multiplicidade, por
malformadas das imaginações exemplo, Alcibíades, Cálias e Aspásia,
sofísticas, “forçadas” com coisas estamos predicando algo em comum
como interesse, força e similares, que a eles três. Porém, este algo não é
de fato existem, mas somente fora idêntico a nenhum dos três. Portanto,
dessas combinações. Falar sobre tais esta coisa predicada em comum é
pseudoatributos é de fato não mais algo a mais: a Forma. Este argumento
do que falar de certas ilusões dos rapidamente geraria todo tipo de
sofistas, com os quais podemos predicado “forçado”, como o suposto
comparar ilusões mais familiares, universal trasimáqueo acima. (E
como o satanismo, o flogisto, a poderia usar este predicado em
bruxaria ou o Papai Noel. silogismos, como Sócrates o faz de
fato na República. Para Aristóteles, é
E AS OUTRAS RAZÕES DE PLATÃO suficiente torná-lo um universal.)
PARA ACREDITAR NAS FORMAS
(LÓGICAS OU MÍSTICO-METAFÍSICO- Porém, propõe Platão um argumento
TEOLÓGICAS)? E TAIS RAZÕES FARÃO deste tipo ou um argumento que o
DAS FORMAS ALGO MAIS DO QUE comprometa com atributos que
SIMPLES ATRIBUTOS? correspondam a tais predicados
“forçados”? Ou é o argumento um
No Das Ideias e em outros lugares, produto da extraordinária criatividade
Aristóteles também atribui a Platão de Aristóteles em oferecer
um Aristóteles “um-de-muitos”, o argumentos
qual, nos tempos modernos, poderia
ser referido como um argumento a
partir da predicação: um argumento
necessário, de fato, à ciência da lógica formais para posições que necessitam

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de explicações que nos digam de onde Formas são “au- topredicáveis”, de


elas vêm? Penso que é isso, mas, por sorte que a Forma do Bem é o melhor
razões de falta de espaço, terei de de todos os objetos; a Forma do Belo
defender esta tese em outro lugar. (frequentemente pesada como distin-
ta da Forma do Bem), o mais belo
Segundo, muitos estudiosos objeto; a Forma do Grande, o maior
pensam que Platão também tinha objeto; a Forma da Cama, a mais
razões místicas, metafísicas ou quase- perfeita e real cama. Nesta
teológicas para acreditar nas Formas. interpretação, as Formas constituem
Tenho de admitir aqui que no Mênon um tipo de museu celestial que
e no Fédon Platão de fato teve um contém todos os melhores exemplos
flerte com a reminiscência da vida de cada universal.
pregressa da alma como um modo de
adquirir conhecimento (ver o capítulo Os textos mais fortes
Platão e a reminiscência). Felizmente, normalmente citados em favor desta
tal fonte de conhecimento é ignorada interpretação são os que falam das
em todos os outros diálogos im- Formas como “paradigmas” (padrões,
portantes que discutem as Formas. (A modelos) que os particulares
reminiscência de uma vida pregressa perceptíveis “imitam”
da alma de fato aparece no mito do imperfeitamente, de modo que, se
Fedro, mas não como uma fonte de uma pessoa imita de modo imperfeito
conhecimento.) a Grandeza em si, então a Grandeza
em si deve ser ela própria um objeto
Ao mesmo tempo, muitas outras grande (muito grande).
coisas que Platão parece dizer dão a
impressão que o propósito das Este tipo de interpretação das
Formas deve ir além dos propósitos da Formas foi inventado – e, na minha
ciência ou da lógica. Agostinho e opinião, só poderia se ter originado –
Tomás de Aquino, por exemplo, em um período
tomaram a Forma do Bem nos Símiles
do Sol e da Linha, bem como na durante o qual os positivistas e
Alegoria da Caverna, como wittgenstei- nianos passavam muito
praticamente idêntica a Deus. Alguns de seu tempo não tanto examinando
intérpretes modernos propuseram teses metafísicas sobre a verdade,
que Platão estava nos dizendo que as existência e similares, quanto

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reduzindo-as a teses sobre do bem. Mas tenho de parar aqui.


observações científicas ou mais
ordinárias. (Para parafrasear OBJEÇÕES À TEORIA DAS FORMAS
Protágoras, “a observação é a medida
de todas as coisas”.) Ou isso, ou bem Vou examinar somente a mais famosa
estavam diagnosticando teses das objeções contra as Formas: o
supostamente incoerentes do ponto argumento que Aristóteles tomou do
de vista da observação como provindo próprio Platão e que chamou
da má compreensão da “lógica de “Argumento do Terceiro Homem” (ver
nossa linguagem”. o capítulo Problemas para as Formas).
Este argumento se desenvolve a partir
Bem mais plausível do que a do Argumento “Um-de-Muitos”, já
AutoPredicação é a tese que esta discutido antes, ao sugerir que, se
“imitação” de “paradigmas” é como a alguém acreditar na Forma da
imitação dos deuses, de modo que, Grandeza deste modo, a Forma ela
por exemplo, se estes quase-deuses – mesma terá de ser um objeto grande
os paradigmas – são justos e estão (autopredicação?). Então, porém, por
sempre em paz (R. 500b-d), os ho- igualdade de raciocínio, se todas as
mens buscam ser justos e estarem em múltiplas não Formas que são grandes
paz. Ademais, o quadro semimístico, necessitam da
semiteológi- co pode parecer estar
fortemente amparado pelo glorioso
mito da jornada da alma ao lugar das
Formas no Fedro – bem como em existência de uma Forma da Grandeza
outros mitos. De outro lado, não vejo para explicar o modo como
por que a Forma da Lançadeira, sendo predicamos atributos a objetos, esta
a verdadeira natureza da lançadeira, última terá de ser ela própria grande
que é ela própria o que ela é em (autopredicação?). E, então,
virtude da natureza real do ato de necessitaremos de uma outra Forma
tecer, a natureza real de vestir e assim para explicar por que as outras coisas
por diante, não poderia ser um grandes e a Forma da Grandeza são
paradigma muito adequado ao qual todas grandes. Isso nos embarca em
“olha” o carpinteiro. Por que deve ser um regresso ao infinito, o que sugere
uma lançadeira perfeita ou um quase- que a Forma não é mais uma só. Como
deus? O mesmo para a natureza real o vejo, ele é um de uma série de cinco

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argumentos, cada um dando uma Terceiro Homem a partir do


explicação diferente sobre qual é a Argumento do Um-de-Muitos, já
relação entre as Formas e os sugeri que Platão não teria aceitado
particulares. Platão fornece toda este último argumento da predicação.
indicação para pensar que todas as Que Platão introduza ele próprio
cinco explicações são inadequadas de dificuldades na suposta relação (de
modos diferentes, sem que ele predicação) entre as Formas e os
forneça uma explicação da relação particulares não me surpreende.
correta. Visto que ele vai adiante e
sugere que não podemos ficar sem as A TEORIA DAS FORMAS
Formas, é evidente que pensa que NOS DIÁLOGOS TARDIOS
deve haver tal explicação – embora
ainda não esteja em sua posse. A Teoria das Formas passa por
Similarmente, em Phd. lOOd, ele deixa desenvolvimentos importantes nos
completamente em aberto que últimos diálogos,
relação é essa. Para aqueles que
pensam que perDemos toda razão em como o Sofista, Político e Filebo. O
acreditar nas Formas se não podemos meio mais frequente pelo qual Platão
dar uma explicação da relação com os faz suas personagens afirmarem a
particulares, considere o que um existência das Formas na República,
filósofo analítico esperto poderia fa- Parmênides, Fédon e outros é em
zer com as relações entre as imagens termos de “cada coisa é um” e o
mentais e os objetos de que são intimamente ligado “cada coisa em
imagens. Estas dificuldades si”. (Incidentalmente, tomar o “cada
dificilmente mostrariam que as coisa é um” como suficiente para
imagens mentais não existem. Não, a trazer à tona em que consiste ser uma
principal questão é: as Formas Forma é seguramente sugerir que o
existem? E, se existem, como que está em questão é a existência de
certamente existem as imagens algo adicional aos particulares
mentais, então as relações em que perceptíveis e espaciais, como um
estão com os particulares serão as atributo genuíno. Certamente não
que têm de ser. sugere que existir uma Forma é existir
uma entidade mística, quase-
Quanto aos problemas com o teológica.)
desenvolvimento do Argumento do

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Porém, há um desenvolvimento flanco aos paradoxos da lógica,


posterior na ideia fundamental que semântica e teoria dos conjuntos do
“cada coisa é um”. Nos diálogos mesmo modo como a posição
tardios (e no Parmênides), temos a moderna sobre propriedades e
tendência de encontrar ao contrário a extensões.
insistência que cada coisa é um “e
muitos”. Um exemplo de ser um “e O que motiva este desenvolvimento
muitos” é o conhecimento (ciência) na Teoria das Formas? Uma
sendo um, mas, porque as ciências da possibilidade é que desde cedo Platão
matemática, da medicina e da enfaticamente distingue a Forma do
astronomia são distintas, o conhe- Belo em si das múltiplas coisas belas –
cimento é também muitos (até aqui especialmente no Fédon e na
três). Assim, a ideia que devemos República
também dizer que o conhecimento
(ciência) compreende, por exemplo,
estas três ciências nos aproxima da
ideia do “método da divisão”: dizer o com formas como “Belo” e “Feio”, que
que as coisas são (como o são também opostos. (Isso pode
conhecimento ou o prazer) buscando mesmo levar à ideia, como na
as divisões naturais em gêneros e passagem da reminiscência em Phd.
espécies. 72a-77a, que temos conhecimento
incorrigível de Formas simples e não
A necessidade por divisões estruturadas como a Igualdade e a
“naturais” conduz Platão à tese que Desigualdade. Essa incorrigibilidade,
não uma Forma “não bela”, por produzida pela ideia de conhecimento
exemplo, “não humana”, “não via reminiscência, recebe, penso,
guindaste” ou “não bárbara”, isto é, resistência em Tht. 189b-190e, 195e-
que não fala grego. A rejeição de 196c, esp. 196c7-8, junto com 187e-
Platão de tais pseudo-atributos 188c, 199c-d, 200a-c, 167a8.). A
também vai contra à posição moderna ênfase no contraste entre as Formas
que, se duas dadas propriedades ou serem uma e os perceptíveis serem
extensões existem, se segue que múltiplos poderia explicar por que
todas as combinações booleanas Platão, antes do Parmênides, presta
destas propriedades ou extensões pouca atenção teórica às relações
existem. A via de Platão não abre o entre as próprias Formas. Porém, ele

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não poderia ter deixado de notar já a existência é. Filósofos e lógicos, em


que teria por fim de detalhar estas um momento – compreensível – de
relações se devesse explicar assuntos zelo pela forma lógica e pela Lei do
centrais como as relações entre os Terceiro Excluído, insistem, em
bens padrão, como a natureza real da contraste, que, se a não existência
saúde e a natureza real da lançadeira, não é um atributo, então tampouco a
e a natureza real do Bem que é a existência pode ser um atributo. Não
Forma do Bem. O Método da Divisão, creio que este
então, ao fazer as Formas um e
múltiplas, dirigirão a atenção ao nicho zelo pela forma lógica e pela Lei do
de cada Forma no interior de estru- Terceiro Excluído seja uma boa
turas muito maiores. A ênfase nas justificação para esta posição
divisões “naturais” explicará também metafísica fundamental, a despeito de
a oposição de Platão a tratar quão necessário possa parecer resistir
“bárbaro” ou “não humano” como ao Argumento Ontológico.
objetos de ciência e a introdução da
Forma do Outro no Sofista para cobrir Como não tenho mais espaço
todos estes predicados negativos de para discutir a Teoria das Formas
uma tacada, sem nenhum dos tardia, permitam-me simplesmente
supostos pseudo-atributos concluir que hoje há ainda muito de
correspondentes. desafio filosófico na Teoria das
Formas.
Parte deste trabalho é ainda
relevante para a lógica e filosofia NOTA
moderna. Assim, em uma discussão
extremamente importante no Sofista, Gostaria de agradecer a Antonio Chu
Platão faz o Estrangeiro (um par- por seus valiosos comentários a uma
menídico!) argumentar que não há versão preliminar.
Forma do “não ser”, ainda que exista
uma Forma do Ser. Platão fica assim REFERÊNCIAS E LEITURA
em contradição com a doutrina COMPLEMENTAR
filosófica e lógica moderna que “a
existência não é um predicado”, isto Beth, E. W (1965). Foundations of
é, não é um atributo. Para Platão, a Mathematics. Amsterdam: North-
não existência não é um atributo, mas HoUand.

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

Irwin, T. (1995). Plato’s Ethics. Oxford: the ethical programme of the


Oxford University Press. Republic. Part I: A question about the
plot of the Republic. In D. Cairns, F. G.
Morris, C. R. (1934-5). Plato’s theory Herrmann, and T. Penner (eds.) The
of the good maris motives. Good and the Form ofthe Good in
Proceedings of the Aristotelian So- Plato’s Republic (Proceedings of the
dety 34, pp. 129-42. fourth biennial Leventis conference).
Editor em vista: Edinburgh University
Penner, T. (1987). The Ascent from Press.
Nominalism. Dordrecht: Reidel.

(1988). Sócrates on the impossibility


of (forthcoming). The Good and the
Form of
belief-relative Sciences. Proceedings
of the Boston Area Colloquium in benefit or advantage in the Republic.
Ancient Philosophy III, pp. 263-325. In D. Cairns,

(1991). Desire and power in Sócrates: F.G. Herrmann, and T. Penner (eds.)
the The Good and the Form of the Good in
Plato’s Republic (Procee- dings of the
argument of Gorgias 466a-468e that fourth biennial Leventis conference).
orators and tyrants have no power in Editor em vista: Edinburgh University
the city. Apeiron 24, pp. 147-202. Press. Penner, T. e Rowe, C. J. (1994).
The desire for good: Is the Meno
(2006). Plato’s Theory of Forms in the consistent with the Górgias?
Phronesis 39, pp. 1-25.
Republic. In G. Santas (ed.) The
Blackwell Guide to Plato’s Republic e (2005). Plato’s Lysis. Cambridge:
(pp. 234-62). Malden, Mass. e Oxford:
Blackwell. Cambridge University Press.

(forthcoming). The Form of the Good: Prichard, H. R. (1968) [1928], Duty


and interest. In Moral Obligation, 2a
what it is, and how it fíinctions within ed. (cAp. 3). Oxford: Oxford University

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Hugh H. PLATÃO
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Press. natureza única que apreenDemos


com nossas mentes, não com nossos
Quine, W V O. (1948). On what there sentidos. Supõe-se que as Formas
is. In From a Logical Point of View (pp. expliquem as propriedades que as
1-19). Cambridge, Mass.: Harvard coisas têm em nosso mundo mutável.
University Press. Por exemplo, supõe-se que a Forma
da Beleza, que é eterna e sem
Robinson, R. (1953). Plato’s Earlier qualificação bela, explique a beleza
Dialectic. Oxford: Clarendon Press. das coisas que experimentamos no
mundo à nossa volta. Porém, obras
Ryle, G. (1949). The Concept of Mind. como o Fédon e a República, que
London: Hutchinson. fazem apelo às Formas, põem mais
questão do que respostas. Nenhuma
Sellars, W (1963). Grammar and delas fornece uma explicação
existence: a preface to ontology. In sistemática das Formas, mas
Science, Perception, and Reality (pp. simplesmente se referem a elas a
247-81). London: Routledge and tratarem de outros tópicos, como a
Kegan Paul. imortalidade da alma (Fédon) ou a
educação do rei-filósofo (República).
White, N. E (1970). A Companion to O Parmênides é o único diálogo que
Plato’s Republic. Cambridge, Mass.: expõe uma Teoria das Formas como o
Hackett. foco explícito de sua atenção.
Contudo, o objetivo deste diálogo é
mostrar os modos por causa dos quais
as Formas são problemáticas.
13
Na primeira parte do Parmênides,
Problemas para as formas Platão põe Sócrates, em sua
juventude, expor uma Teoria das
MARY LOUISE GILL Formas, que é então submetida a um
escrutínio intenso e contínuo pelo
A Teoria das Formas de Platão é sua filósofo-mestre Parmênides. As
mais famosa contribuição para a propostas de Sócrates parecem ir mal
filosofia. As Formas são eternas, quando postas a teste e, ao final do
objetos imutáveis, cada um com uma exame, podemos pensar que as

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Formas devem ser abandonadas. O Filosofia de Platão)? Ou devemos


que fazer deste aparente fracasso? As procurar suas respostas na longa
objeções podem ser respondidas e é segunda parte do próprio Parmênides,
Sócrates simplesmente pouco expe- em que Platão apresenta um exercício
riente para responder a elas? Ou filosófico minucioso? Estas questões
Platão via as objeções como fatais indicam por que o Parmênides é
para as suas posições central para a compreensão mais
geral da filosofia de Platão. O fato de
anteriores? Ou pensava ele que as não haver um acordo geral acerca das
objeções podiam ser respondidas, respostas é uma razão de por que o
mas somente por meio de uma diálogo continua a intrigar e fascinar
revisão substancial de suas posições? seus leitores.
O Parmênides marca uma virada na
filosofia de Platão, sendo a minuta de Neste capítulo, meu foco serão
um estágio crucial da reflexão e os principais problemas para as
autocrítica após sua confiante obra- Formas propostos na primeira parte
prima, a República? Se for isso, onde do Parmênides. Minha posição
devemos encontrar as revisões? pessoal, que não posso defender em
Devemos procurá-las em diálogos detalhes aqui, é que o Parmênides
como o Teeteto, Sofista, Político e como um
Filebo, que muitos estudiosos datam
após o Parmênides? E o que fazer com
o Timeu, que é tradicionalmente visto
como um diálogo tardio, que parece todo, inclusive o exercício filosófico,
ser consistente com o Fédon e a tem um único propósito geral:
República no tratamento dado às mostrar que deve haver Formas, ou
Formas? Ignora ele as objeções no objetos inteligíveis de algum tipo, se
Parmênides e indica assim que estas devemos explicar de alguma maneira
objeções não eram vistas como o mundo.1 Assim, as objeções às
sérias? Ou estão errados os Formas propostas na primeira parte
estudiosos que datam o Timeu depois do diálogo devem ser levadas muito a
do Parmênides? Alternativamente, o sério. A apresentação das Formas e de
Timeu de fato responde ao suas relações com as coisas sensíveis
Parmênides (sobre o Timeu, ver o nos diálogos tardios provavelmente,
capítulo O Papel da Cosmologia na portanto, diferirá em alguns aspectos

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importantes daquela em diálogos em coisas corriqueiras. Ele próprio


como o Fédon e a República. Este pode ser um e muitos (p. ex., uma
capítulo porá o foco não nestes pessoa entre as sete pessoas
desenvolvimentos posteriores, mas presentes, mas muitas partes) porque
em pinçar os principais problemas participa de duas Formas, a Forma do
para as Formas que Platão pensou Um e a Forma do Múltiplo.
que precisava enfrentar. Similarmente, pode ser como Símias
em um aspecto e diferente dele em
TEORIA E CRÍTICA DAS outro aspecto por participar das
FORMAS NO Formas de Semelhança e
PARMÊNIDES Dessemelhança. As Formas de
opostos devem explicar as
A principal discussão no Parmênides características opostas que possui
começa depois que Zenão, o jovem (chamaremos estas características
colega de Parmênides, terminou a
leitura de seu livro. O livro continha, “características imanentes”).
aparentemente, uma série de Segundo Sócrates, não surpreende
argumentos que visavam a defender a que um objeto sensível único tenha
tese de Parmênides, “tudo é um” características opostas. As Formas
(Prm. 128a8-bl), de críticos que explicam isso. Seria surpreendente,
acreditavam em uma pluralidade de porém, se essa copresença ocorresse
coisas. Os argumentos de Zenão nas próprias Formas. Obviamente, se
tinham provavelmente a seguinte as Formas devem explicar a
forma: se as coisas são múltiplas, copresença dos opostos nas coisas
devem ser F e não F (p. ex., igual e corriqueiras, elas não devem elas
desigual, limitado e ilimitado). Isso é próprias estar sujeitas ao mesmo
impossível porque as mesmas coisas problema. De outro modo, teríamos
não podem ter propriedades de apelar a outras entidades para
incompatíveis. explicar a copresença nelas e as
Formas originais deixariam de ser
Sócrates responde a Zenão em explicativas.
uma longa fala, argumentando que o
problema de Zenão pode ser Pode-se bem perguntar por que
resolvido: Sócrates tem uma teoria se deve pensar que necessitamos de
que explica a copresença de opostos uma teoria de Formas imateriais

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eternas para explicar a copresença de sentimento de paradoxo, do qual não


opostos. A mesma coisa pode, participamos.
obviamente, ser F e não F se for F em
um aspecto ou relação e não F em Um dos principais problemas para as
outro ou F em um momento e não F Formas, como Parmênides
em outro. Há um problema somente reiteradamente mostra no
se a mesma coisa for F e não F ao Parmênides, é que a Forma F é tanto F
mesmo tempo, sob o mesmo aspecto quanto não F – por exemplo, o Um é
e em relação à mesma coisa. Platão um e muitos. Este é um problema
regularmente menciona os sério, já
qualificativos; contudo, é um fato
interessante que os interlocutores em
seus diálogos mesmo assim acham
perturbador que a mesma coisa seja F que as Formas devem explicar a
e não F, mesmo que seja F e não F em copresença de opostos nas outras
diferentes aspectos, comparações, coisas. Como podem elas explicar se
etc. A razão para este desassossego estão elas próprias sujeitas ao mesmo
parece ser que, enquanto nós problema?
modernos tomamos os predicados
como “grande” e “pequeno”, “igual” e A crítica de Parmênides das
“desigual” como incompletos, Formas se divide em seis movimentos,
requerendo algo a mais para que etiquetarei por conveniência:
completar o sentido, Platão Escopo das Formas (130bl-e4), Dilema
considerava estes predicados como Todo-Parte (130e4- 131e7),
completos – como especificando Regressão da Grandeza (132al- b2),
propriedades genuínas que um objeto Formas são Pensamentos (132b3-cll),
tem. Por esta razão ele toma uma Regressão da Semelhança (132cl2-
frase como “Símias é grande (em 133a7) e o Argumento da Separação
comparação com Sócrates) e (133all-134- e8).2 Parmênides se
pequeno (em comparação com concentra em duas questões
Fédon)” como perturbadora como a fundamentais: primeiro (Escopo das
frase “o mesmo objeto é redondo e Formas): que Formas existem? Quais
quadrado”: as propriedades são vistas são as razões para postular Formas
como incompatíveis umas com as em algumas situações, mas não em
outras. As Formas devem remover o outras? São boas razões? Segundo

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(Dilema Todo-Parte e Regressão da das Formas, argumentou que os


Semelhança): qual é a natureza da objetos físicos têm as propriedades
relação entre os objetos físicos e as que possuem por participarem das
Formas – a relação conhecida como Formas. Agora parece que, se as
“participação”? Há uma outra questão Formas existem, mas não têm relação
conectada a esta segunda: que tipo de conosco, elas não explicam
entidades são as Formas? São elas
universais? Conteúdos imateriais? nada. Nem fundamentam nosso
Particulares perfeitos (paradigmas)? A conhecimento, já que na temos
incapacidade de Sócrates de explicar a acesso a elas. Então a questão que nos
participação gera também uma outra resta ao final da interrogação de
questão: com que base ele considera Parmênides (Prm. Parte I) é: por que
cada forma uma e é esta base postular as Formas?
aceitável (Regressão da Grandeza e
Formas são Pensamentos)? Vamos discutir aqui quatro
Parmênides revela a inadequação da objeções de Parmênides: Escopo das
posição de Sócrates ao mostrar Formas, Dilema Todo-Parte,
reiteradamente que as Formas não Regressão da Grandeza e Regressão
são um, mas muitos. da Semelhança.

Quando Sócrates finalmente ESCOPO DAS FORMAS


reconhece que lhe falta uma (PRM. I30BI-E4)
explicação adequada da participação,
Parmênides sugere, no movimento O questionamento de Parmênides
final (Argumento da Separação), que neste primeiro movimento se dá em
talvez não haja relação entre os quatro estágios e a questão
objetos físicos e as Formas. As condutora é: que Formas existem? A
entidades em cada grupo estão questão de fundo não expressa é: que
relacionadas somente com entidades base há para postular as Formas em
do mesmo grupo. Mas então, se nós, alguns casos, mas não em outros?
em nosso domínio, não temos relação Sócrates está bem seguro que há
com as Formas e elas, no domínio Formas dos tipos que Parmênides
delas, não têm relação conosco, que lista nos estágios (1) e (2), mas
importância podem elas ter para nós? começa a ter dúvidas acerca das
Sócrates, na sua apresentação inicial Formas mencionadas no estágio (3) e

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parece bem seguro que não há


formas dos tipos mencionados no
estágio (4), embora esteja confuso Aqui Parmênides faz com que
pela possibilidade de as razões para Sócrates confirme dois pontos que
postular as Formas nos outros casos não estavam explícitos em sua
possam também se aplicar aqui. apresentação. Primeiro, a separação
é uma relação simétrica. Sócrates
O estágio (1) questiona acerca disse em sua fala que as Formas se
das Formas de opostos, distinguem como separadas das
aparentemente em referência às que coisas que participam delas (129d6-
Sócrates mencionou em sua longa 8). Ele agora concorda que as coisas
fala: “igualdade e desigualdade, que participam das formas também
multiplicidade e unidade, repouso e são separadas delas. Segundo,
movimento e tudo o mais deste tipo” Sócrates concorda que a semelhança
(129d8-el). Parmênides abre o estágio em si é separada da semelhança que
(1) pedindo um esclarecimento não temos – a característica imanente que
somente sobre esta lista, mas uma Forma explica. Como veremos,
também sobre a relação entre as sua concordância nesse ponto será
Formas e as coisas que participam posteriormente uma fonte de
delas: turbulência para sua teoria.

 Diga-me, você distinguiu como Parmênides não pergunta ainda,


separadas, ao modo como você e assim ainda não sabemos, o que
menciona, certas formas em si e precisamente Sócrates entende por
também como separadas as “separação”. A expressão pode
coisas que participam delas? indicar meramente que as Formas são
Você pensa que a semelhança distintas das coisas que participam
em si é algo, separada da delas e de suas características
semelhança que temos? E o um imanentes e vice-versa (como
e muito, assim como todas as poderíamos dizer que todas duas
coisas sobre as quais Zenão entidades não idênticas são distintas
acabou de ler? uma da outra). Ou quer dizer algo
 Sim, respondeu Sócrates. mais forte, por exemplo, que as
(130bl-6) Formas existem separadamente das
coisas que participam delas e de suas

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características imanentes e vice-versa independentes das coisas que


(como poderíamos dizer de dois participam delas, mas as coisas que
objetos no espaço, como uma mesa e participam delas dependem das
uma cadeira que não está em contato Formas quanto ao que são. A noção
com ela, que elas estão de separação é importante no
espacialmente separadas, ou de dois Parmênides e seu sentido é deixado
eventos no tempo, como a redação vago neste estágio do argumento.
do Parmênides e o ato de esfaquear
Júlio César, que eles são Estão aparentemente incluídas
temporalmente separados). Dois no estágio (1) as Formas para todos os
objetos são separados desse modo se opostos mencionados nos
não tiverem partes em comum. argumentos de Zenão. Platão não nos
Alternativamente, a separação pode dá uma lista completa e somos
ser concebida como uma deixados a imaginar quão extensiva
independência ontológi- ca. Dois itens esta lista deve ser. No estágio (2)
são separados nesse sentido se a (130b7- 10), Parmênides pergunta se
natureza de um não envolve a Sócrates pensa que há Formas do
natureza do outro. Por exemplo, dois Justo, Belo, Bom e tudo o mais deste
elementos químicos – digamos cobre tipo. Conceitos morais e estéticos
e estanho – estão não somente constituíam o foco do interesse de
separados, mas também são onto- Sócrates nos primeiros diálogos e eles
logicamente independentes um do são regularmente citados como
outro. O bronze, por outro lado, é Formas no Fédon e na República. No
ontologicamente dependente de estágio (3) (130cl-4), Parmênides
ambos, já que sua natureza envolve as pergunta se há uma Forma de Ser
naturezas do cobre e do estanho. Esta Humano, separada de nós todos, e
terceira noção é pouco provável de Formas de Fogo e de Água.
ser o que Sócrates entende por
separação em sua fala. Se o for, ele faz Neste momento, Sócrates
um erro grave ao começa a hesitar. Se lembrarmos a
fala de Sócrates, a razão para sua
concordar com Parmênides que a hesitação pode não estar longe. Ele
separação entre as Formas e as coisas introduziu as Formas para explicar a
que participam delas é simétrica. As copresença dos opostos. Ele postulou
Formas podem ser ontologicamente as Formas de Semelhança e

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Dessemelhança para explicar como a dedo? A percepção de um dedo não


mesma coisa pode ser as obriga a fazer apelo ao intelecto. A
simultaneamente semelhante e situação é diferente com a grandeza e
dessemelhante. Conceitos morais e a pequenez, dureza e maciez e outras
estéticos podem dar ocasião para um características perceptivas, porque a
desconforto similar. A Fonte de visão nos diz, por exemplo, que o
Duchamp (um mictório) pode ser bela dedo anular é grande comparado com
para mim, mas feia para você. Um o mínimo, mas pequeno quando
ação considerada como justa em uma comparado com o médio. Aqui o dado
sociedade pode parecer injusta em visual parece inadequado, nos
outra sociedade. O predicado “ser dizendo que a mesma coisa é grande
humano” não dá ocasião para o e pequena. Somos assim provocados
mesmo incômodo como estes últimos a fazer apelo ao intelecto e perguntar:
nos estágios (1) e (2). o que é grandeza? O que é pequenez?

Na República VII (523al0-524d6), Esta passagem não diz que há


Sócrates diz que algumas de nossas uma Forma da Grandeza, mas não
percepções sensíveis provocam, ao uma Forma de Dedo, mas ela
passo que outras não provocam, corrobora a impressão, dada na sua
nosso pensamento à reflexão (ver o longa fala no Parmênides, que
capítulo Platão: Uma Teoria da Sócrates postula as Formas para
Percepção ou um Aceno à Sensação?). explicar a copresença de contrários.
As percepções que dão origem à No caso de objetos físicos como os
reflexão são as que causam uma seres humanos e coisas como o fogo e
percepção oposta ao a água, a percepção não causa um
problema imediato sobre o que são.
Ele, portanto, não sente uma necessi-
dade comparável para postular uma
mesmo tempo. Ele mostra três dedos Forma. Sócrates é representado no
– o mínimo, o anular e o médio – e Parmênides como jovem e
observa que todos eles parecem ser inexperiente. Ao final do primeiro
um dedo. Dado que a visão não gera movimento do exame (130el-4) e de
nenhuma impressão oposta, as novo na parte de transição à Parte II
pessoas comuns não se veem (135c8- d6), Parmênides atribui as
estimuladas a perguntar: o que é um dificuldades de Sócrates à sua

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juventude e falta de treinamento. (4), em que Sócrates titubeia quanto


Como um noviço, ele é provocado à à proposta de que pode haver Formas
reflexão pelos casos obviamente de coisas que parecem indignas ou
difíceis, como grandeza e pequenez, sem valor, como cabelo, lama e
sem compreender completamente sujeira (130c5-d9). Em 130el-4,
que a percepção por ela própria pode Parmênides diz que a relutância de
também ser inadequada nos casos Sócrates é um sinal de sua
que não envolvem um conflito inexperiência. Está ele sugerindo que
percep- tivo óbvio, como nos de ser há uma Forma de todo número de
humano, fogo e água. coisas que denominamos por um
mesmo nome e está ele dizendo que
No estágio (3), nós, como Sócrates por fim haverá de
leitores, somos convidados a reconhecer isso (ver R. 596a6-7; ver
perguntar por que as Formas são também o capítulo As Formas e as
postuladas em alguns casos, mas não Ciências em Sócrates e Platão)? No
em outros. Quais são as razões para Político, o Estrangeiro de Eleia, ao
postular Formas de objetos físicos e discutir o método da divisão, diz que
coisas (Phlb. 15a4-5 menciona uma as divisões devem ser feitas nas juntu-
Forma do Ser Humano e Ti. 51b8 ras apropriadas (Plt. 262a8-263al; cf.
menciona uma Forma do Phd. 265el-266bl). Por exemplo, é um
erro dividir a classe dos seres
Fogo)? O problema de Zenão – a humanos em gregos e bárbaros. O
copresença de opostos – infecta estes último não é um grupo próprio
casos também? É o problema de porque inclui todas as pessoas que
Zenão somente uma razão entre não são gregas. Embora exista um
outras para postular as Formas? nome comum – “bárbaro” – esta
Talvez mesmo seja a razão errada passagem sugere que seria
para as postular? Talvez Sócrates inapropriado postular uma Forma
deva voltar aos estágios (1) e (2) e correspondente. Ou está ele
reconsiderar sua justificação quanto a meramente chamando a atenção de
postular Formas nestes casos. Sócrates de que precisa de uma razão
para negar que haja Formas de
O mandato de considerar quando cabelo, lama e sujeira melhor do que
e por que as Formas são necessárias é o fato de parecerem vulgares e sem
repetido com maior força no estágio valor? Qual ou quais problemas as

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Formas devem resolver? Um partes? Se for isso, talvez deva haver


platônico precisa de uma Forma da Formas correspondentes a cada uma
Lama, por exemplo, se há Formas da das partes, de modo que uma
Terra e da Água (ver Tht. 147c4-6, explicação do todo possa ser dada
onde o termo aqui traduzido por pela enumeração das partes. Ou é o
“lama” é usualmente traduzido por todo diferente de todas as partes? Se
“barro” e definido como “terra for isso, que relevância as partes têm
misturada com um líquido”)? Se as para uma explicação do todo? Neste
Formas têm um papel explicativo, caso, talvez precisemos somente de
talvez misturas de materiais possam uma Forma do Todo. Ou é a relação
ser explicadas por referência às entre todo e partes de algum tipo
Formas das matérias que compõem a especial? Se for isso, isto também
mistura. E o que dizer das partes afetará nossa decisão sobre que
funcionais de uma coisa, por Formas existem (ver Harte, 2002; Tht.
exemplo: um 203c4-205e8; Bumyeat, 1990, p. 191-
209).

O DILEMA TODO-PARTE
dedo humano ou o cabelo humano? O (PRM. 130E4-131 E7)
platônico precisa de uma Forma do
Dedo ou do Cabelo, se houver uma Parmênides agora se volta à questão:
Forma do Ser Humano? Pode-se qual é a relação entre os objetos
explicar talvez o que é um dedo ou físicos e as Formas? As propostas de
cabelo caso se compreenda o que é Sócrates sobre isso e os argumentos
um ser humano (ver Ti. 76cl-d3 para que as acompanham, bem como as
uma explicação funcional do cabelo)? sugestões de Parmênides em bene-
fício de Sócrates também dizem
Este movimento provoca mais respeito a uma outra questão: que
questões: se uma entidade é tipo de entidades são as Formas?
composta de partes (como a lama é
composta de terra e água e um ser Parmênides inicia, como fizera no
humano é composto de várias partes início do primeiro movimento,
funcionais e não funcionais), qual é a aportando esclarecimentos sobre o
relação entre o todo e as partes? É o que pensa ser a posição de Sócrates e
todo o mesmo que o agregado das pedindo que Sócrates confirme:

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- Porém, diga-me isto: é sua tese vantagem ser lido à luz daquela
que, como você diz, há certas discussão. No Fédon, Sócrates fornece
formas, das quais estas outras o que ele denomina explicação
coisas, por meio da participação “segura” de por que as coisas belas
nelas, derivam seus nomes são belas. Ele sustenta que a beleza
delas não é explicada por sua cor
 como, por exemplo, se tomam brilhante, forma ou algo assim. Aquilo
semelhantes participando da sobre o que está seguro é que a Forma
semelhança, grandes do Belo as faz belas; isto é, ele é vago
participando da grandeza e acerca de qual é a relação entre a
justas e belas participando da Forma e as coisas cuja característica
justiça e da beleza? ela explica. Ele diz:
 É bem assim, respondeu
Sócrates. (130e4-131a3) Nada outro a faz bela a não ser a
presença, comunhão ou outro
Sócrates nada dissera modo de ocorrência daquele
expressamente a respeito de nomes belo. Vou me refrear de afirmar
em sua fala, mas a proposta de isso e afirmar somente que é
Parmênides desdobra a tese de pelo belo que todas as coisas são
Sócrates que as coisas que participam belas. (100d4-8)
da Grandeza se tornam grandes. Se
tijolos e pedras vêm a ser semelhantes Para compreender como o Belo
por participarem da Semelhança, torna as coisas belas, precisamos
então, por participarem da compreender a relação entre a Forma
Semelhança, podem ser chamadas e as coisas cuja característica ela
pelo nome “semelhante”, derivado do explica. A relação conversa, entre os
nome da Forma (ver o capítulo Platão objetos físicos e uma Forma, é co-
e a Linguagem). nhecida como “participação”. Em
nosso diálogo, Parmênides força
A frase inicial de Parmênides, com Sócrates a dar uma explicação da
sua referência a nomes, lembra em participação.
muito o lance de abertura no
argumento final da imortalidade da
alma no Fédon, sugerindo que nosso
argumento presente pode com Parmênides propõe duas

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alternativas e Sócrates concorda que coisas.


são exaustivas (Na Regressão da
Grandeza, Sócrates proporá uma Em que consiste exatamente esta
outra alternativa.). Uma coisa que proposta? O que Sócrates entende
participa de uma Forma participa da por “dia”? Entende ele um e mesmo
Forma inteira ou somente de uma período do dia: um período definido
parte dela?3 Reformulemos a questão entre o nascer e o pôr-do-sol, que está
em termos de características simultaneamente presente em Tebas
imanentes: quando algo participa de e Atenas? Ou uma e mesma luz do dia:
uma Forma, adquire ele sua uma matéria invisível, homogênea
característica imanente da Forma que cobre muitos lugares diferentes
inteira ou somente de uma parte ao mesmo tempo? Talvez Platão
dela? Por exemplo, quando Símias esteja nos incitando, como leitores, a
participa da Forma da Grandeza, é a considerar as implicações destas
grandeza nele o inteiro da Grandeza alternativas (ver o capítulo
ou meramente uma parte dela? Interpretando Platão). Uma questão
que podemos fazer é por que Sócrates
Tome a primeira parte do dilema: propõe uma analogia. Se tivesse
pode uma Forma inteira – uma coisa – nascido um século mais tarde e
estar em cada uma de numerosas seguido os cursos de Aristóteles no
coisas? Se sim, não estará a Forma Liceu, poderia ter replicado:
separada de si mesma ao estar, como
um todo, nas coisas que são “Parmênides, se você pensa que
separadas umas das outras (131a8- a forma está separada de si
b2)? mesma pelo fato de estar
simultaneamente em
Sócrates sugere que uma Forma numerosas coisas, você está
pode simultaneamente estar, como enganado quanto à natureza das
um todo, em cada uma das formas. As formas são
numerosas coisas, se for como um e
mesmo dia (131b3-6). Um e mesmo universais e a natureza de um
dia, diz ele, está em muitos lugares ao universal consiste justamente
mesmo tempo sem estar separado de em estar presente em muitos
si mesmo. Se a Forma for como isso, lugares ao mesmo tempo e ser
pode ser uma e a mesma em todas as predicado em comum de

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numerosas coisas. (Ver simultaneamente em muitos lugares,


Aristóteles Int. 7,17a39-40; ou como uma vela que cobre nume-
Metaph. VII.16,1040b25-6.) Os rosas pessoas, uma e mesma Forma
universais não estão por isso está em muitas coisas que participam
separados de si próprios”. dela.

Porém, a distinção de Aristóteles A analogia de Parmênides leva ao


entre universais e particulares ainda segundo lado do dilema. Se uma
não foi formulada e Sócrates pode Forma é como uma vela, não é uma
não dispor da distinção. Em uma parte dela que está sobre cada
interpretação da analogia, Sócrates pessoa? Quando Sócrates concede
parece conceber as Formas como os que diferentes partes da vela estão
abstratos; em uma outra, como sobre diferentes pessoas, Parmênides
materiais invisíveis homogêneos. observa que, neste caso, as Formas
são divisíveis e as coisas que
Leitores por vezes criticam participam delas participam de uma
Parmênides por não levar a sério a parte. Contrariamente ao que
proposta de Sócrates e por intimá-lo a pretendia Sócrates com sua analogia,
aceitar sua própria analogia menos somente parte da Forma está em cada
auspiciosa. Talvez Parmênides coisa. Neste caso, as Formas não são
reconheça que a analogia de Sócrates meramente divisíveis, mas de fato
pode ser interpretada de mais de um estão divididas em partes. Se uma
modo e proponha o seu modo para Forma está dividida em partes, é ela
ver se é o que Sócrates tem em ainda una?
mente. De qualquer modo,
Parmênides muda a analogia do dia
para a da vela (131b7-9) e Sócrates
aceita com hesitação a alteração. Se O Dilema Todo-Parte toma as
cobrirmos várias pessoas com uma Formas como se fossem quantidades
vela, podemos dizer que uma coisa de material das quais as coisas
está sobre muitas. Esta analogia, em- participam. A questão é se uma coisa
bora menos provocativa que a de que participa recebe todo o material
Sócrates, tem a vantagem de remover em sua participação ou se recebe
a ambigüidade anterior. Assim como somente uma parte dele. Se Símias
uma e mesma luz do dia, que está participa da Grandeza, é a grandeza

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que tem – o característica imanente Parmênides ironiza a tese que as


nele – a Grandeza como um todo ou Formas são análogas a quantidades de
uma parte da Grandeza? Pense em material trazendo sua atenção às
um material propriamente dito como Formas de quantidades. Ele formula
o ouro. Se concebermos o ouro como uma série de paradoxos que giram em
o elemento químico com o número tomo de duas concepções de Formas
atômico 79, podemos dizer que o e características imanentes que estão
ouro, como um todo, está em cada em conflito evidente nesses casos.
pepita porque a natureza do ouro está Primeiro, Parmênides e Sócrates
presente por inteiro em cada uma. parecem concordar que as Formas e
Assim, o ouro está separado de si as características imanentes têm a
mesmo ao estar, por inteiro, em mesma propriedade – a propriedade
coisas que estão separadas umas das cuja presença nas coisas a Forma é
outras (primeiro lado do dilema). Se, chamada a explicar – assim como a
por outro lado, concebermos o ouro, matéria ouro e porções de ouro são
como um todo, como a totalidade do ambas dourados. Assim, Grandeza em
ouro, ele é a soma de todas as si e grandeza em Símias são grandes.
instâncias de ouro no mundo, seja em Segundo, com base na
moedas, joias, pó, pepitas ou ainda na
terra. O ouro, como um todo, se concepção das Formas e das
divide em pedaços e está disperso nas características imanentes como todos
várias coisas douradas (segunda parte e partes, o todo é maior que cada uma
do dilema). Podemos aceitar ambas as de suas partes e cada parte é menor
alternativas no caso de coisas do que o todo. Dadas estas duas
materiais porque entendemos coisas concepções, há paradoxos no caso da
diferentes por “todo” nas duas Grandeza, Igualdade e Pequenez.
situações e ambas parecem ter
sentido. Porém, Sócrates acha que Tomemos o Pequeno. O
ambos os lados do dilema são resultado paradoxal no caso do
preocupantes. Como podem as Pequeno gira em torno da suposição
Formas, que ele toma cada uma sendo que a Forma de Pequenez é pequena:
uma, estar separadas de si mesmas ou o Pequeno é pequeno porque esta é
ser agregados de partes dispersas? sua característica própria, mas
também grande, porque é um todo,
Na seção seguinte (131cl2-e5), que é maior do que cada uma de suas

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partes. Parmênides também diz, a Sócrates, que a Forma é, ao final,


discutir a Grandeza, que as coisas são muitos.
grandes “por uma parte da grandeza
que é menor que a grandeza em si” A REGRESSÃO DA GRANDEZA
(131dl-2), o que claramente implica (PRM. I32AI-B2)
que a Grandeza é grande. A Grandeza
é grande por duas razões: no modo Desta vez, Parmênides não inicia seu
como a Pequenez é pequena, porque argumento fazendo um pedido de
esta é sua característica própria, e no esclarecimento. Ao propor uma razão
modo como a Pequenez é grande, de por que Sócrates
porque é um todo, que é maior do
que cada uma de suas partes. A
suposição que a Pequenez é pequena,
a Grandeza é grande e, em geral, que poderia pensar que cada Forma é um,
F-dade é F é conhecida como a ele vai além de tudo o que Sócrates
“Suposição de Autopredicação” (ver disse em sua fala. Eis o argumento:
Malcolm, 1991) e vai aparecer nos
dois argumentos de regresso a seguir. 1. Eu suponho que você pense
que cada forma é um com
Ao final do Dilema Todo-Parte, base no seguinte: sempre que
Parmênides pergunta: “Sócrates, de uma multiplicidade de coisas
que modo, então, as coisas parece a você ser grande, tal-
participam de suas formas, se não o vez pareça haver uma
podem fazer nem pelas partes nem característica, a mesma
pelos todos?” (131e3-5). Sócrates quando você olha para todas
admite que não tem resposta. No elas e daqui você conclui que
argumento seguinte, Parmênides o grande é um.
muda o foco do problema da
participação, com seu resultado É verdade, disse ele.
embaraçoso que cada Forma é
muitos, à razão de Sócrates para 2. E acerca do grande em si e
pensar que uma Forma é um. E, uma das outras coisas grandes? Se
vez estabelecida a razão de Sócrates, você olhar para elas do
ele se servirá desta razão para mesmo modo com o olho da
mostrar, para o desânimo de novo de mente, não parecerá de novo

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uma coisa grande graças à coisas grandes indica que ele supõe
qual todas estas coisas que Sócrates considera a Forma como
parecem grandes? um universal: uma coisa presente em
muitos lugares ao mesmo tempo.
Parece que sim.
Esta interpretação tem uma séria
3. Então uma outra forma de desvantagem. A passagem sugere que
grandeza fará sua aparição, Sócrates faz uma inferência. Ele deve
tendo surgido junto com a concluir que
grandeza em si e as coisas que
participam dela, e mais uma o Grande é um com base no que
vez uma outra junto com observa a respeito das múltiplas
todas estas, graças à qual coisas grandes. O que ele observou foi
todas elas parecem grandes. uma característica. Se uma
Cada uma de suas formas não característica que ele observou é a
será mais uma, mas ilimitada Forma, que inferência ele fez quando
em número. (132al-b2) conclui que a característica é um?

O que é proposto no estágio (1)? A Regressão da Grandeza deve


Diz Parmênides que sempre que ser examinada neste contexto, em
Sócrates olhar para uma quantidade sequência ao Dilema Todo-Parte. No
de coisas – templos e elefantes, Dilema Todo-Parte, Parmênides e
digamos –, todas as quais lhe parecem Sócrates supõem ambos que a Forma
grandes, ele observa que elas par- é um e Parmênides pergunta como
tilham uma característica comum, a uma Forma pode estar em muitas
grandeza, e disso conclui que o coisas (131a8-9). Ele argumentou
Grande é um? Está Parmênides que, se a Forma está em muitas
sugerindo que Sócrates toma como a coisas, então ela não pode ser um,
Forma a característica que ele observa mas está dividida em muitos (131c9-
nas várias coisas grandes? Se for isso, 10). Esta conclusão o leva agora a
então ele supõe que Sócrates identifi- perguntar: por que Sócrates supõe
ca a Forma com a característica que a Forma é um? São adequadas
imanente. Ao mesmo tempo, a tese suas razões para esta suposição?
de Parmênides que Sócrates observa Parmênides mostrará que as razões
uma característica exibida em muitas de Sócrates são inadequadas,

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argumentando mais uma vez que sua por que agora concorda em olhar para
Forma é muitas, desta vez por ela juntamente com suas instâncias?
reduplicação. Uma característica comum é o que
agora chamamos de universal. É a
Parmênides está provavelmente característica comum que
sugerindo o seguinte no estágio (1):
sempre que Sócrates olha para um
número de coisas que parecem todas
ser grandes, ele pensa que uma templos e elefantes partilham ela
característica (chame-a “o grande em própria grande? Exceto para certos
nós”) é a mesma em todos os casos e universais pouco usuais, como a
daqui ele infere que a Forma, que unidade e o ser, a maioria dos
corresponde a esta característica, é universais não são instâncias de si
um. No restante do argumento, próprios.
Parmênides mostra a inadequação
das razões de Sócrates para esta Vimos no Dilema Todo-Parte que
conclusão. Parmênides deriva os paradoxos no
caso do Grande, Igual e Pequeno
No estágio (2), o andamento fica pe- baseando-se em duas concepções das
culiar. Pergunta-se a Sócrates para Formas e das características
repetir o que fez no estágio (1), mas imanentes que entram em conflito no
desta vez com o olho da mente: assim caso das Formas das quantidades.
como olhou para as múltiplas coisas Uma delas era a Suposição de
grandes no início, ele deve olhar do Autopredicação: tanto a F-dade em si
mesmo modo (mas com o olho da quanto a F-dade em nós são F. Por
mente) para o Grande em si, jun- exemplo, a Grandeza em si e a
tamente com as outras coisas grandeza em Símias são grandes. Esta
grandes. Por que Parmênides propõe discussão, todavia, toma as Formas
isso como exequível e por que não como universais, mas como
Sócrates permite que ele derive as análogas a materiais. Não é estranho
consequências que propõe? Se, na pensar que a matéria ouro é ouro,
primeira parte, Sócrates tomou a mas é muito estranho pensar que o
Forma simplesmente como a universal ouro é dourado ou que o
característica comum (como na universal grandeza é grande. (Alega-
primeira interpretação do estágio (1)), se que a Autopredicação ocorre

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ocasionalmente nos diálogos: Prt. efeito e o apelo à Forma deve explicar


330c2-e2, Hp. Ma. 292e6-7, Phd. o efeito. Neste sentido, a Forma
100c4-6.)
pode ser vista como uma causa.
Se as Formas são universais, mas Observe que, no estágio (2),
au- topredicativas, talvez a relação Parmênides menciona uma coisa
entre sujeito e característica seja graças à qual o Grande em si e as
diferente da que ocorre em outras coisas grandes parecem
predicações normais. Por exemplo, grandes e, no estágio (3), ele fala de
talvez “a justiça é justa” não seja uma uma Grandeza graças à qual a
predi- cação, mas um juízo de coleção, Grandeza!, Grandeza2 e as
identidade, no qual o predicado outras coisas grandes são grandes.
reidentifíca o sujeito. Ou talvez seja Esta linguagem causai faz lembrar a
um atalho para “a justiça é tudo o que explicação “segura” de Sócrates no
é ser justo”, em que o que segue o “é” Fédon, antes discutida: “afirmo
(de identidade) pode ser substituído somente que é graças ao belo que
por uma definição, assim que a todas as coisas belas são belas”
tivermos (Nehamas, 1979). Porém, se (100d7-8).
temos de entender o “é” em “a
Grandeza é grande” como o “é” de Platão provavelmente atribui a
identidade, Sócrates não tem razão Sócrates a tese sobre causas que
em agrupar a Forma com as coisas Aristóteles vai mais tarde esposar:
grandes, pois, nesse caso, a Grandeza uma causa tem a característica que
não tem uma característica em um efeito tem em virtude dela. Platão
comum com elas. e Aristóteles provavelmente herda-
ram ambos esta ideia de seus
Sócrates de fato aceita fazer o predecessores. Considere esta
agrupamento, porém. A Forma da passagem no Fédon:
Grandeza é provavelmente vista nesta
passagem como uma causa, embora Parece-me que, se algo é belo
não uma causa no nosso sentido além do belo em si, é belo por
moderno. Uma Forma não é um nenhuma outra razão do que
evento nem a Forma faz algo para pelo fato de participar do belo; o
gerar um efeito. Ainda assim, a Forma mesmo vale para os todos os ca-
é de algum modo responsável pelo sos. Você aceita este tipo de

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explicação? (100c4-7) coisas passam a ser semelhantes e


ficam semelhantes participando dela.
Sócrates aqui parece estar Pensa ele que a Semelhança em si é
reivindicando que o Belo em si é belo semelhante por partilhar a
e que as outras coisas são belas Semelhança? Observe que Sócrates
porque participam dele. A Forma do diz que uma Forma é “em si por si
Belo, que é ela própria bela, explica a mesma”. Esta expressão pode ser
beleza das outras coisas. entendida em mais de uma maneira.
Em um sentido, ela significa
Se Sócrates pensa as Formas “separada”. Em outro, algo é em si por
como causas que têm a característica si mesmo se ele é ele próprio
de que são explicativas em outras responsável pelo seu próprio ser,
coisas, então deve estar preparado independentemente de outras coisas.
para ver (como o olho da mente) o Se Sócrates pensa que as Formas são
Grande em si juntamente com as causas, deve pensar que as Formas
outras coisas, já que ela partilha com são o que são por – em virtude de, por
eles uma característica comum. causa de – si mesmas, não por (ou por
causa) de algo outro que elas mesmas.
Porém, devemos agora nos perguntar Porém, se é isso o que pensa, por que
por que ele deixa Parmênides gerar em nosso argumento ele aceita a
uma regressão. Se Sócrates crê que regressão? Deveria objetar que as
uma Forma explica a característica outras coisas são grandes por causa
que as outras coisas têm, ele deveria da Grandeza, mas a Grandeza em si é
insistir que a Forma não precisa ela grande por causa de si mesma.
própria de mais explicação. De outra
forma, sua teoria ficará sujeita à re- Sócrates não recusa a regressão,
gressão que Parmênides descreve. Em todavia, aparentemente
sua longa fala, Sócrates mencionou concordando que o grande em si é
“uma forma, em si por si mesma, da grande por causa de algo outro do
semelhança” e disse que as outras que ele próprio. Estudiosos supu-
coisas partilham dela (128e6- 129a3). seram que ele está baseando-se em
É ao partilhar a Semelhança que as uma Suposição de Não Identidade
tácita, que formulam de vários modos
e talvez de modo mais profícuo como:
“nada é F em virtude de si mesmo

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(Petersen, 1973; Fine, 1993). (130d3-5). Esta reação sugere que, no


Obviamente ele precisa fundar-se em caso das Formas que ele aceita, ele as
tal suposição, já que aceita a vê como existindo à parte das coisas
regressão. A questão é por que faria de que são explicativas e não como
esta suposição, visto que ela rebate características que percebemos nelas.
tão obviamente a teoria explicativa
que defendera em sua longa fala. Se a existência separada é o que
Sócrates entende por separação,
Encontramos uma razão na parte então, ao assentir à segunda proposta
anterior do diálogo. Retome o pedido de Parmênides em 130b3-4 que a
inicial de esclarecimento de Semelhança em si é separada das
Parmênides feito no começo do coisas semelhantes que temos, ele
Escopo das Formas (130bl-5, citado concorda com uma premissa que
acima). Parmênides explicitou dois Parmênides pode usar na Regressão
pontos que não estavam explicitados da Grandeza. A Teoria das Formas
na longa fala de Sócrates: primeiro, a causai de Sócrates o faz ver a
separação entre Formas e coisas que Grandeza em si como grande (porque
participam delas é simétrica; ela explica esta característica em
segundo, as Formas são separadas outras coisas). Consequentemente, a
não somente das coisas que Grandeza em si pode ser acrescentada
participam delas, mas também da ao grupo de coisas que têm uma
característica imanente de que são característica imanente comum. Uma
explicativas. característica imanente não existe à
parte dos objetos de que é uma
A separação foi reiteradamente característica. Porém agora, já que
discutida no Escopo das Formas. Sócrates pensa que, dado que a
Enquanto Sócrates concordava nos Forma existe à parte da característica
estágios (1), (2) e (3) que as Formas de que é explicativa, a Forma não
mencionadas são pode explicar sua própria
característica imanente. Ele deve,
separadas das coisas, no estágio (4) então, postular mais uma Forma para
ele se refreia diante da ideia que as explicar a característica imanente que
Formas de materiais indignos são a primeira Forma partilha com coisas
separadas, dizendo que cabelo, lama que participam delas. A título de
e sujeira são aquilo só que vemos causa, a segunda Forma terá então a

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mesma característica, e então deve importante, pois é uma posição


haver uma terceira Forma, separada avançada em outros diálogos de
da segunda, que a explica. E assim Platão, inclusive no Timeu. Assim,
opera a regressão. As Formas geradas podemos presumir que é uma
pela regressão são qualitativamente concepção que o próprio Platão levou
idênticas, mas numericamente muito a sério. Sócrates diz que o que
distintas, porque cada uma existe lhe parece mais provável é que as
separadamente de seu predecessor. Formas sejam como paradigmas
(paradeigmatd). Participa das Formas,
Esta consequência indesejada resulta diz ele, é simplesmente ser modelado
do fato de Sócrates aceitar duas teses: com base nelas.
primeiro, a tese as Formas têm a
característica que as outras coisas têm A presente proposta sobre a
em virtude delas; segundo, a tese que participação é muito diferente
as Formas são separadas – existem à daquela considerada no Dilema Todo-
parte – da característica imanente de Parte. Naquela perspectiva, se algo
que são explicativas. Dadas estas duas participa de uma Forma, partilha dela
crenças, cada uma das Formas de como se a Forma fosse uma
Sócrates, que ele considerada como quantidade de material que é
um, se mostram não um, mas distribuída entre as várias coisas que
ilimitadas em participam dela. Na presente tese,
uma Forma é comparável ao modelo
de um artista e as coisas que
participam dela são comparáveis às
número. Desta vez a Forma é muitos, imagens que o artista produz. A
não por divisão, como no argumento participação na Forma F-dade, como
anterior, mas por reduplicação. Sócrates a descreve, é ser símile ou
cópia de F-dade. Observe que ser
A REGRESSÃO DA SEMELHANÇA símile a é uma relação assimétrica. Se
(PR/VI. I32CI2-I33A7) x tem uma semelhança, F-dade não é
um símile de x. Um retrato é um símile
Neste movimento, Sócrates faz uma de Símias; Símias não é um símile do
proposta que enfrenta diretamente o retrato. Parmênides gera dificuldades
problema da participação com uma a Sócrates argumentando que a
nova alternativa. Esta proposta é relação assimétrica está fundada em

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

uma relação simétrica, a relação de primeira Forma e pelas outras coisas


ser semelhante a. Se x é como F-dade, belas. E assim por diante. Há uma
F-dade é como x. Se um retrato de multiplicidade ilimitada de Formas
Símias é como Símias, Símias é como que são qualitativamente as mesmas,
o retrato. mas quantitativamente distintas.

Há dois modos de construir o O segundo modo de ler o


argumento que vem em seguida. Em argumento consiste em tomá-lo como
uma leitura, Parmênides gera uma dizendo respeito à Forma da
regressão em muito do mesmo modo Semelhança (ver Schofield, 1996;
como havia feito no argumento Allen, 1997). Lida deste modo, a
anterior sobre a Grandeza. Tome regressão fica bem diferente da
qualquer Forma, digamos a Forma da anterior. Sócrates cai em dificuldades
Beleza. De acordo com a proposta de por não reconhecer que a semelhança
é uma relação entre entidades, não
Sócrates, as múltiplas coisas belas são um item que está em uma outra
belas porque são semelhanças do relação com as entidades que ela põe
Belo em si. Parmênides então observa em relação. Iniciamos como antes
que, se as múltiplas coisas belas são com uma Forma, digamos a Forma da
semelhanças da Beleza, não somente Beleza. A Beleza e suas semelhanças
elas são como a Beleza, mas a Beleza são umas como as outras, portanto
é como elas. Já que são umas como as elas têm uma característica em
outras, a Beleza e suas Semelhanças comum, a saber (tanto beleza quanto)
têm uma característica em comum semelhança. Sócrates sustentou em
com base na qual são umas como as sua longa fala que as coisas são
outras, a saber, a beleza delas. (Desta semelhantes por partilharem da
vez, ao invés de supor a Semelhança. Portanto, ele acredita
autopredicação, Parmênides a deduz que, se a Forma da Beleza e as
da proposta de Sócrates.) Porém, já múltiplas coisas belas são umas como
que a Forma que explica esta as outras, elas são semelhantes por
característica é separada dela participarem da Semelhança. Se as
(Suposição da Separação), uma múltiplas coisas belas e o Belo em si
regressão se faz como antes. Outra participam todos da Semelhança,
Forma da Beleza fará sua aparição então, segundo a presente proposta,
para explicar a beleza partilhada pela eles são semelhanças da Semelhança.

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

A Forma da Semelhança, como um deriva uma regressão ao enfocar a


modelo, é como as coisas que são relação entre uma Forma de que as
como ela; assim, pode ser agrupada coisas participam, mostrando que, se
junto com elas com base em sua algo participa de uma Forma, ele
característica comum, a semelhança. participa de um número ilimitado. A
O que serve de liga a este novo grupo? Regressão da Semelhança deriva uma
regressão ao enfocar a relação entre
um objeto e a Forma de que participa,
tratando esta relação como estando
Não nenhuma razão lógica por que em uma relação análoga com seus
uma relação não deva pôr em relação relata. A cada passo, a relação que une
a si própria com outras coisas, mas, o grupo precedente deve ser unida
novamente, a adoção por parte de com ele. Deve então haver (dada a
Sócrates da Suposição da Separação o Suposição da Separação) uma relação
impede de reconhecer isso. Ele aceita a mais que as une, e assim
que, já que a Forma da Semelhança é indefinidamente. Deste modo, um
como as outras coisas, deve haver número ilimitado de relações é
uma Forma a mais, Semelhança2 que necessário para conectar um objeto e
põe em relação os membros desta sua característica. A regressão
nova coleção. E, dado que esta nova assemelha-se a uma feita por F. H.
Forma partilha tuna característica Bradley que ficou famosa (1897, p. 18;
com as coisas que participam dela – a cf. Ryle, 1939, p. 107).
semelhança – deve haver uma nova
Forma, Semelhança3, que as põe em CONCLUSÃO
reminiscência, e assim
indefinidamente. O argumento do Parmênides como um
todo mostra que um dos problemas
Há razões textuais para preferir mais sérios para as Formas é a
esta interpretação do argumento e suposição de Sócrates em sua longa
não a anterior (Schofield, 1996). Uma fala que as Formas não podem ser ao
vantagem desta interpretação é que a mesmo tempo F e não F, por exemplo,
Regressão da Semelhança não repete que o Um não é um e muitos. A
simplesmente a Regressão da segunda parte do diálogo sugere que
Grandeza, mas expõe um problema um modo de preservar
diferente. A Regressão da Grandeza

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

o poder explicativo das Formas, ainda Works (Indianápolis: Hackett,


que elas admitam seus opostos, 1997). As traduções de obras
consiste em distinguir o que a Forma é outras que o Parmênides são de
em virtude de si mesma e o que é em minha autoria.
virtude de algo outro que ela própria: 2. Desde Vlastos, 1954, a principal
por exemplo, o um é um em virtude de atração do Parmênides são os dois
si mesmo, mas muitos em virtude de argumentos de regressão, aos
sua participação na multiplicidade (ver quais Aristóteles mais tarde se
Meinwald, 1991). O problema da referirá com o título abrangente
participação não é resolvido tão de “Terceiro Homem” (nenhuma
facilmente, embora se possa versão do argumento de Platão diz
argumentar que, no Timeu, Platão respeito ao homem, mas a versão
introduz o Receptáculo (o meio de Aristóteles o faz).
espacial no qual as coisas sensíveis 3. Para uma interpretação do Fédon
vêm a ser e deixam de ser, mas no qual que encontra al o modelo de
as Formas não podem entrar) para participação criticado aqui, ver
salvar o modelo de participação Denyer, 1983.
paradigma-cópia (Gill, 2004). Porém,
isso não resolverá o problema da REFERÊNCIAS E LEITURA
participação entre as próprias formas. COMPLEMENTAR
Aristóteles reclamou que Platão não
resolveu o problema e ele próprio Allen, R. E. (1997). Plato’s
buscou um tipo diferente de resposta Parmenides, 2nd edn.
(ver o capítulo Aprendendo sobre
Platão com Aristóteles). New Haven, Conn.: Yale University
Press.
NOTAS
Bradley, F. H. (1897). Appearance and
1. Gill, 1996. Este capítulo é uma Reality, 2a.
adaptação de partes da primeira
metade desta obra mais longa. ed. Oxford: Clarendon Press.
Todas as traduções do Parmênides
provêm das traduções de Gill e
Ryan, 1996, reproduzidas em J. M.
Cooper (ed.) Plato: Complete Burnyeat, M. F. (1990). The

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Hugh H. PLATÃO
Benson Benson

Theaetetus of Plato. Indianapolis: (2004). Plato’s first principies. In A.


Hackett. Pierris

Cohen, S. M. (1971). The logic of the (ed.) Arístotle’s Criticisms of Plato:


third man. Philosophical Review 80, The Metaphy- sical Question (pp. 155-
pp. 448-75. Reimpr. Em 76). Patras: Institute for Philosophical
Research.
G.Fine (ed.) (1999) Plato, vol. 1:
Metaphysics and Epistemology (pp. Harte, V (2002). Plato on Parts and
275-97). Oxford: Oxford University Wholes. Oxford: Clarendon Press.
Press.
Malcolm, J. (1991). Plato on the Self-
Denyer, N. (1983). Plato’s theory of Predication ofForms. Oxford:
stuffs. Philosophy 58, pp. 315-27. Clarendon Press.

Devereux, D. (1994). Separation and Meinwald, C. (1991). Plato’s


immanence in Plato’s Theory of Parmenides. Oxford: Clarendon Press.
Fbrms. In Oxford Studies in Ancient
Philosophy, vol. 12 (pp. 63-90). Nehamas, A. (1979). Self-Predication
Oxford: Oxford University Press. and Plato’s Theory ofForms. American
Reimpr. em G. Fine (ed.) (1999) Plato, Ph